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Margot Scott Ward Regras Foram Feitas para Serem Quebradas Oficial

Direitos autorais
© © All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
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Ward: Regras Foram Feitas Para Serem Quebradas

Copyright © 2022 Margot Scott


Copyright da Tradução © 2024 Editora Five
Todos os direitos reservados.
Produção Editorial: Grupo Editorial Five
Arte de Capa: Margot Scott
Adaptação de Capa: Joy Designer Editorial
Tradução: Mariel Westphal & Sara Lima
Preparação e Revisão: EN Serviços Editoriais
Diagramação: Carol Dias
Imagens de diagramação: macrovector e
IgorLineHome/Freepik
Nenhuma parte do conteúdo desse livro poderá ser reproduzida
em qualquer meio ou forma — impresso, digital, áudio ou visual —
sem a expressa autorização sob penas criminais e ações civis.
Esta é uma obra de ficção. Nomes, personagens, lugares e
acontecimentos descritos são produtos da imaginação da autora.
Qualquer semelhança com nomes, datas ou acontecimentos reais é
mera coincidência.
Sumário

Início
Aviso de gatilhos
Capítulo 1
Capítulo 2
Capítulo 3
Capítulo 4
Capítulo 5
Capítulo 6
Capítulo 7
Capítulo 8
Capítulo 9
Capítulo 10
Capítulo 11
Capítulo 12
Capítulo 13
Capítulo 14
Capítulo 15
Capítulo 16
Capítulo 17
Capítulo 18
Capítulo 19
Capítulo 20
Capítulo 21
Capítulo 22
Capítulo 23
Capítulo 24
Capítulo 25
Epílogo
Sobre a autora
Sobre a Five
Este romance dark contém aspectos e temas tabus que
alguns leitores podem achar questionáveis, incluindo desequilíbrios
de poder, relacionamentos com diferenças de idade, sexo grupal,
BDSM, discussões sobre abuso sexual do passado, não
consentimento consensual, suicídio e abuso doméstico.

Este NÃO é um romance leve.


É difícil entender como uma casa coberta de neve pode virar
cinzas ou como uma única vela esquecida poderia se transformar em
um inferno capaz de destruir minha casa de infância.
Mas aconteceu, e embora períodos de calor extremo não
sejam inéditos no final de janeiro, a tempestade tropical que assolou
Nova Inglaterra apenas uma semana após o incêndio pareceu de
alguma forma pessoal. Pensamento bobo, eu sei. Nem mesmo a
chuva poderia ter salvado meus pais de serem queimados vivos
naquela noite fatídica.
— Estamos quase chegando — Jen diz, com o elegante
sotaque inglês. Ela agarra meu punho fechado com firmeza no
banco de trás.
Sorrio, grata por sua presença tranquilizadora, e permito que
meus dedos relaxem em sua palma.
O Porsche preto derrapa quando viramos à direita na floresta.
Na noite passada, a temperatura finalmente caiu, transformando
chuva em granizo e estradas molhadas em pistas de patinação.
— Por favor, tenha cuidado, Benjamin. — Jen aumenta o
aperto na minha mão.
— Sou sempre cuidadoso, srta. Yang — nosso motorista diz
com uma risada. — Prometo levar você e a srta. Whittaker para a
casa do tio dela inteiras.
O homem que vou encontrar não é meu tio de verdade. Não
mais. Enquanto crescia, eu tinha uma vaga consciência de que meu
pai teve um irmão postiço em algum momento de sua vida. Lembro-
me do grunhido feroz que dava sempre que falava do outro homem.
Ele o chamou de perdedor, disse que a mãe do irmão postiço era
uma vadia interesseira e que o próprio pai estava desesperado
quando se casou com aquela mulher.
Meu pai contou que os dois se separaram depois que o irmão
postiço se formou no ensino médio. Tenho certeza de que há muito
mais na história do que tive conhecimento, mas não posso dizer que
conheci muitos perdedores que podem se dar ao luxo de empregar
um motorista e uma assistente pessoal em tempo integral.
O céu nublado paira pesado sobre a paisagem, escurecendo
com a chegada da noite. Não tenho dúvidas de que Benjamin está
fazendo o seu melhor para nos levar pelas estradas escorregadias e
sinuosas, mas a viagem é tediosa e lenta. Eu me viro no assento,
respirando fundo para diminuir a pontada de desconforto. Não gosto
de espaços escuros e confinados. Eles me deixam ansiosa, e estou
sempre convencida de que vou ficar sem ar. A única razão pela qual
consigo andar de carro é porque eles têm janelas.
— Pedi ao cozinheiro que servisse o jantar às sete horas —
Jen diz, olhando para o celular. — Fica tarde demais para você,
Grace? Quer que eu peça para ele mudar o horário?
Balanço a cabeça.
— Não, pode ser às sete.
— Vou pedir que ele prepare um prato de frutas para você
quando a gente chegar.
— Obrigada — digo, sentindo um calor no peito com sua
preocupação.
Conheço Jen há apenas alguns dias, mas ela logo se tornou
uma fonte de apoio desde que soube do incêndio que consumiu
meus pais e nossa casa em Massachusetts. Eu estava no internato
em Connecticut, quando aconteceu, havia acabado de voltar das
férias de inverno. Tinha dado um beijo de despedida na minha mãe
apenas uma semana antes.
Agora o que sobrou dela poderia caber entre as minhas
mãos.
Minha melhor amiga, Jasmine, ligou para os pais assim que
recebi a notícia. Amigos de longa data da família, os Hill correram
para me oferecer orientação e um lugar para ficar enquanto eu
lutava com minha dolorosa nova realidade. Alguns dias depois, uma
mulher asiática de aparência elegante com sotaque britânico
apareceu na porta da família Hill.
“Olá, Grace” a mulher chique disse. “Sou Jennifer Yang. Por
favor, me chame de Jen. Trabalho para seu tio, Aidan O’Rourke. Ele
me enviou para ajudá-la a passar por esse momento difícil.”
O que ela não mencionou naquele momento foi que também
foi enviada para me buscar.
Como não tenho outros parentes vivos, o advogado da minha
família havia decidido entrar em contato com o irmão postiço do
meu pai para assumir minha guarda. Por razões desconhecidas, meu
tio distante, um completo estranho, concordou em me acolher.
Eu poderia ter lutado contra a decisão do tribunal. Aos
dezessete anos, tenho direito de argumentar minha própria tutela.
Sei que os pais de Jasmine teriam entrado em cena de bom grado
para cuidar de mim até meu aniversário de dezoito anos em junho,
quando acabaria recebendo a propriedade de meus pais.
Mas Jen não estava mentindo quando disse que estava lá
para ajudar. Ela lidou com tudo com a delicadeza de um maestro,
dos tribunais à polícia e ao inspetor de incêndios. Garantiu que os
bens da minha família fossem mantidos seguros em um fundo
fiduciário. Ela me abraçou enquanto eu chorava e me contou
histórias da sua família no Japão, como sua mãe a trouxe para a
Inglaterra quando ela era bebê e o trabalho que um dia a levou aos
Estados Unidos.
Quando perguntei por que meu tio iria querer se dar ao
trabalho de cuidar de mim, Jen me disse que a mãe dele havia
falecido quando meu tio tinha 16 anos. Ela pintou um retrato vívido
de um garoto que perdeu o pai quando tinha 7 anos, que sabia em
primeira mão o que significava estar sozinho. Ela me convenceu a
encontrá-lo, não com palavras, mas com ações. Eu não conseguia
imaginar uma pessoa tão adorável quanto Jen trabalhando para um
vilão.
Por outro lado, as pessoas provavelmente disseram a mesma
coisa da minha mãe. Uma mulher tão bonita e gentil como Evelyn
Whittaker sem dúvida tem um marido que adora o chão em que
pisa.
Meu pai, Calvin, era bonito e tinha um sorriso fácil, mas seu
sorriso era uma isca. Uma armadilha para te manter parada até que
sua bochecha encontrasse as costas da mão dele. Foi um truque,
entre muitos, que ele reservava para mim e minha mãe. Para o resto
do mundo, ele era um homem de negócios bem-sucedido e
educado.
Esse é o lance dos vilões da vida real: os inteligentes sabem
como se misturar.
— Finalmente — Jen comenta, suspirando.
Paramos em um portão de entrada que se abre no
automático quando a gente se aproxima. Depois de uns
quatrocentos metros passando por árvores, a floresta dá lugar a um
quintal deslumbrante e uma enorme casa de pedra. A casa dos meus
pais estava longe de ser modesta, mas esta propriedade faz com
que o lugar onde passei a infância pareça um galpão chique em
comparação.
Benjamin para o carro em frente à entrada e sai às pressas
para abrir minha porta. Desço e me deparo com o frio do inverno,
puxando as lapelas do casaco de lã com mais força ao redor do
pescoço. Jen desce depois de mim e faz um gesto para que eu a
siga pelos degraus da frente.
As portas duplas se abrem, revelando uma mulher ruiva e
rechonchuda com covinhas muito adoráveis.
— Grace — Jen diz, me conduzindo para dentro —, essa é a
sra. Cline, governanta-chefe.
— É um prazer te conhecer, Grace — a sra. Cline me
cumprimenta, apertando minha mão. — Coloquei você em nosso
quarto mais confortável.
Enquanto agradeço, meu olhar é atraído para o teto
impossivelmente alto do saguão.
— Eu diria que você se acostuma — a sra. Cline diz —, mas
isso nunca acontece.
Benjamin nos contorna com as malas e desaparece em um
corredor. A sra. Cline pega meu casaco e sigo Jen por um amplo
corredor, parando para espiar as salas de estar e os escritórios com
móveis elegantes. Entramos na impressionante cozinha enorme e
supermoderna para pedir a Paolo, o cozinheiro, um prato de frutas,
e depois subimos as escadas.
— Esse é o seu quarto. — Jen abre a porta para uma linda
suíte, com uma lareira e uma área de estar inclusas, decorada em
tons creme e dourado. Vejo minhas malas dispostas no banco
almofadado ao pé da cama. — Seu armário e banheiro privativo são
por ali — acrescenta, apontando para a outra passagem.
Meu corpo fica tenso. Prendo a respiração enquanto espio
dentro do closet que leva ao banheiro luxuoso.
Poderia ser pior, digo a mim mesma. Pelo menos há duas
maneiras de entrar e sair. Além disso, sempre posso apoiar a cadeira
da penteadeira na porta para garantir que ela não se feche e me
prenda.
— Quer um tempo para se acomodar antes que eu te leve
para conhecer seu tio? — Jen pergunta.
Para ser sincera, gostaria muito de me enfiar na cama pelos
próximos seis meses e não ter que interagir com outro ser humano.
Todas essas pessoas, esse lugar… É uma sobrecarga de novidades.
Uma novidade que só serve para me lembrar o quanto minha vida
mudou. Como nada nunca mais será o mesmo.
Lágrimas não derramadas queimam meus olhos enquanto
luto para reprimir a sensação de vazio no peito. Todos que conheci
até agora foram tão doces e compreensivos. Não quero ser rude
com o anfitrião generoso que me convidou para a sua casa, sem
nem sequer me ver.
— Quero conhecê-lo agora — digo a ela.
Jen me guia até um escritório, na extremidade oposta da
casa. Ouço a voz dele antes de vê-lo, profunda e ressonante. O som
faz meus braços se arrepiarem. Ele deve estar em um telefonema.
Assim que Jen bate na moldura da porta, ele diz à pessoa do
outro lado que precisa desligar. A cadeira de couro de encosto alto
se vira e encontro o olhar de Aidan O’Rourke pela primeira vez.
Quase fico sem fôlego.
— Olá, Grace.
Os olhos do homem são tão azuis que envergonham os
meus. Ele se levanta e de repente sou chamada por alguma força
interna para encontrá-lo no meio do cômodo.
Seu passo é longo. Sou alta para uma garota, com um metro
e oitenta, e ainda tenho que reclinar a cabeça para continuar
olhando para o seu rosto — e que rosto. Esculpido, com pequenas
marcas de expressão na testa e ao redor dos olhos. Se ele e meu pai
fossem próximos em idade, isso colocaria Aidan na casa dos trinta e
poucos anos. De alguma forma, as linhas em seu rosto que fariam
outros homens parecerem velhos lhe deram caráter.
Quando ele me oferece a mão, eu lhe dou a minha.
— Sinto muito por não termos nos conhecido em
circunstâncias mais agradáveis — ele comenta.
— Não faz mal — digo, percebendo com é uma resposta
idiota assim que as palavras saem da boca. Mas não consigo evitar,
estou perplexa. — Também sinto muito.
Ele aponta para uma pequena área de estar perto de uma
grande janela.
— Sente-se.
Eu me movo como se meus pés estivessem sob um feitiço.
Sua presença é discretamente dominante, mesmo que ele não tenha
feito nenhuma exigência específica além de pedir para eu me sentar.
Nós nos sentamos um em frente ao outro, e é só então que percebo
que Jen nos deixou.
— Isso deve ser estranho para você — ele começa, seu olhar
direto e avaliador enquanto observa meus olhos azul-claros e pele
clara, meus cachos loiros macios caindo em cascata por cima dos
ombros. — Presumo que seu pai não tenha te contado sobre mim.
Mordisco a língua, considerando minhas palavras com
cuidado.
— Ele pode ter mencionado você uma ou duas vezes.
— Eu teria preferido que ele não tivesse feito isso. — Sua
boca dá um sorriso sem humor. — Seu pai e eu éramos irmãos
postiços, mas isso não nos tornava uma família. Não espero que me
chame de tio.
— Como deve te chamar, então?
— Você pode me chamar de Aidan — ele diz. Observo que a
cabeleira castanha em sua cabeça é um pouco mais escura do que o
pelo salpicando sua mandíbula e a pele ao redor de sua boca. Ele
umedece o lábio inferior e um arrepio percorre meu corpo. —
Preciso terminar um trabalho aqui, mas esperava que pudesse se
juntar a mim para o jantar. Supondo que esteja pronta para isso.
Dez minutos atrás, eu teria matado pela oportunidade de
jantar sozinha no quarto. Agora estou ansiosa de verdade para
conhecer o homem na minha frente. Não entendo essa intensa
curiosidade ou o desejo bizarro de prestar bastante atenção a tudo o
que diz.
Só sei que Aidan O’Rourke quer jantar comigo e, por algum
motivo incompreensível, quero dar o que ele quer.
— Eu adoraria — digo. — Obrigada.
— Ótimo. — Sua expressão suaviza. Uma pequena vibração
percorre meu corpo com a noção de que o agradei. — Até lá, minha
casa é sua. Fique à vontade.
Aidan olha para algo atrás de mim e me viro para encontrar
Jen parada na porta, segurando um pequeno prato de frutas
cortadas.
— Diga a Paolo que vamos comer às seis e meia — ele diz a
ela.
— Claro, sr. O’Rourke. — Jen acena para mim. — Venha,
Grace. Vou te ajudar a desfazer as malas.
Quando me levanto da cadeira, Aidan também se levanta.
Desta vez, ofereço minha mão a ele.
— Obrigada por tudo que fez por mim — agradeço. Seu olhar
se estreita no meu e, de novo, fico sem fôlego.
— Fico feliz em ajudar — ele declara.
A filha de Calvin Whittaker não é a garota que pensei que
seria.
Estava esperando uma pirralha mimada e petulante, a versão
feminina de seu pai na idade dela. Mas a garota que acabou de sair
do escritório não poderia estar mais longe dessa descrição. Grace
não falava muito, mas seus olhos tristes e maneirismos gentis
revelam muito.
Essa garota pode ser metade Calvin, mas também é metade
Evelyn e cem por cento ela mesma.
Recuperar o foco para o trabalho revela-se mais difícil do que
deveria. Eu me pego repetindo a conversa enquanto olho para dados
financeiros, lembrando a sensação da mão macia e delicada de
Grace na minha. Aqueles ossos frágeis e parecidos com os de um
pássaros, que se esmagariam com facilidade. Tendo testado os
limites da dor de muitas mulheres do seu tamanho, não ficaria
chocado se seu corpo escondesse mais poder do que a silhueta
deixa transparecer.
Algum tempo depois, Jen volta ao escritório, bocejando e
cobrindo com as costas da mão.
— Coloquei Grace na sala de TV lá embaixo — ela diz. — A
Netflix deve mantê-la ocupada até a hora do jantar.
— Sala de TV? Esqueci que tinha uma dessas.
— Isso não é uma surpresa, já que também esqueceu como
relaxar.
Minha boca se inclina em um pequeno sorriso. Até onde sei,
Jen tem uma vaga ideia de como gasto meu tempo livre. Ela
conheceu mais do que algumas das submissas com quem me divirto,
embora eu nunca as tenha apresentado explicitamente como tais. É
possível que esteja se referindo ao fato de que esses encontros se
tornaram poucos e distantes entre si no último ano.
— Fico feliz em saber que a babá eletrônica está ganhando
seu sustento.
Jen bufa.
— Grace está longe de ser um bebê. Ela é bastante
inteligente para a idade e é bem independente. E está se saindo
muito bem. Pobre garota. Não consigo imaginar o que deve estar
sentindo agora.
Posso mais do que imaginar o que ela está sentindo. Eu era
um ano mais novo que Grace quando perdi minha mãe para o
câncer. Meu padrasto — o pai de Calvin — era um substituto
medíocre comparado com o meu, que morreu quando eu era
pequeno. Ser órfão não é um assunto que discuto com frequência,
quando sequer falo sobre isso. Jen sabe desse fato e não pressiona.
— Preciso que marque uma reunião com um potencial
investidor no escritório de Manhattan para a próxima semana. —
Abro o navegador e mando um e-mail rápido. — Acabei de enviar as
informações de contato deles.
— Recebi. — Jen toca no celular e boceja de novo. — Se não
tiver problema, vou tomar o chá no quarto. A viagem me exauriu.
— Tudo bem. — Pedi que ela ficasse na casa por algumas
noites, apenas até que Grace se sentisse mais confortável. —
Obrigado por enfrentar aquele clima para trazê-la aqui.
— Claro. Vou checar nossa garota mais uma vez antes de
encerrar a noite. Você acha que pode mantê-la viva na minha
ausência?
— Farei o meu melhor.
Jen se despede. Termino mais algumas tarefas e, em
seguida, visto um suéter casual antes de descer as escadas. Grace já
está na sala de jantar quando chego. Estou acostumado a fazer
refeições sozinho, então é um pequeno choque quando a vejo à
mesa, um respingo de ouro contra o mogno. Ela me dá um sorriso
pequeno e amável, e me ocorre o quanto eu estava ansioso para
conversar com a garota outra vez.
— Você se familiarizou com a casa? — pergunto, tomando
meu lugar na ponta da mesa, à direita de sua cadeira.
— Sim — ela diz. — Só me perdi uma vez, mas achei o
caminho. Sua casa é bonita. Mas, agora que falei em voz alta, nem
sei se bonita dá para descrever bem.
— Jen vai ficar feliz em saber que você aprecia o gosto dela
— comento. — Eu a deixei responsável pela decoração.
Paolo emerge da cozinha com tigelas de bisque de lagosta,
que ele coloca diante de nós com floreio. Grace o agradece com um
sorriso largo, e percebo uma pitada de cor aparecendo nas
bochechas do homem mais velho.
— Há quanto tempo você mora aqui? — Grace pergunta,
antes de levar uma colherada do bisque aos lábios. Seus olhos se
fecham enquanto ela cantarola de prazer.
— Você gostou?
Ela assente.
— Está delicioso.
— Espera até você provar as sobremesas dele — digo. —
Para responder à sua pergunta, comprei essa casa faz uns… dez
anos. Eu queria um lugar perto o bastante do meu escritório na
cidade, mas longe o bastante para que eu ainda pudesse desfrutar
da solidão.
— Ainda não acredito que você mora a uma hora de distância
da minha escola há dez anos, e essa é a primeira vez que te
encontro.
Deixo o bisque cremoso cobrir minha língua e deslizar pela
garganta antes de dizer a ela:
— Tecnicamente, você e eu já nos encontramos uma vez.
— Já? — Ela inclina a cabeça, curiosa.
— No funeral do seu avô.
Ela balança a cabeça devagar.
— Não, acho que não. Ele morreu alguns meses antes de eu
nascer.
— Sim. E sua mãe foi ao funeral dele.
As peças se encaixam atrás de seus olhos.
— Ah — Grace diz. — Entendi.
— Só falei com Evelyn uma vez, mas ela parecia uma mulher
adorável.
— Ela é… ou era. — Uma tristeza profunda nubla seu olhar
como nuvens escuras em um piquenique. Esqueci como a ferida é
recente para ela, não deveria ter trazido o assunto à tona.
Tão rápido quanto sua tristeza apareceu, ela foi afastada por
um sorriso. Esta é uma garota que dominou a arte da repressão. Ela
sorri porque a alternativa é cair aos pedaços.
— Você e meu avô eram próximos? — ela pergunta.
— Não muito. Nós nos demos bem o suficiente, mas estava
claro que ele apenas me via como parte do pacote. Seu avô era o
tipo de homem que não suportava ficar sozinho por muito tempo.
Depois que a primeira esposa morreu, ele logo se apaixonou pela
bela barista que fazia seu cappuccino todas as manhãs.
— Você tá falando da sua mãe?
— Sim, minha mãe. Ela trabalhava em três empregos para
nos sustentar na época. Quando o rico empresário pediu seu
número, ela deu. Eles ficaram noivos depois de seis meses.
Acontece que o homem tinha um filho da minha idade — um
filho que não tinha interesse em ganhar um irmão ou uma madrasta.
A partir do momento em que nossos pais anunciaram o noivado,
Calvin deixou claro que nunca nos aceitaria.
— Seu avô era um bom homem — digo. — Ele viajava a
trabalho com mais frequência do que minha mãe gostaria. Equilibrar
trabalho e família sempre foi um desafio para ele.
— Parece um pouco com o meu pai — ela comenta.
— Não, não como Calvin. Seu avô não era um valentão ou
um covarde. — No momento em que as palavras saem da minha
boca, me arrependo. Não sei o que essa garota faz comigo que
acabo tropeçando nas minhas barreiras internas, dizendo coisas que
sei muito bem que não devem ser mencionadas. — Sinto muito, não
devia ter dito isso.
— Está tudo bem — ela diz, e pelo jeito que falou percebo
que está bem familiarizada com as falhas do pai. — Sinto muito que
ele tenha sido desagradável com você.
Desagradável é uma forma delicada de dizer. Calvin fez de
sua missão de vida me destruir todos os dias. Depois que minha
mãe morreu, me esforcei bastante para me formar no ensino médio
mais cedo para poder sair daquela casa, para ficar longe dele.
Pensar em Calvin colocando um dedo sequer na garota
inocente na minha frente faz meu sangue fervilhar. Não vejo
cicatrizes físicas, e ela trabalha duro para manter as psicológicas
escondidas. Mas agora que reconheci os mecanismos de defesa de
Grace, eles são impossíveis de ignorar.
Infligi uma parcela de dor, mas apenas para aquelas que
anseiam por isso — com uma única exceção devastadora. Calvin tem
sorte de já estar morto. Se estivesse na minha frente agora, eu o
faria sangrar.
— Você não precisa se desculpar pelas ações do seu pai.
Terminamos a sopa. Paolo pega as tigelas vazias e retorna
com pratos fumegantes empilhados com frutos do mar. Camarão
grelhado. Mexilhões cozidos no vapor junto com linguine. Espadarte
selado na frigideira coberto com uma redução de vinho branco.
Espargos enrolados com prosciutto.
— Jen mencionou que você gostava de frutos do mar, então
pedi a Paolo que criasse um cardápio. — Ele pode ter exagerado um
pouco com essa refeição, mas o brilho nos olhos de Grace enquanto
gira o garfo no linguine faz a extravagância valer a pena.
Comemos em um silêncio agradável. Faço o esforço
concentrado de não encarar Grace quando solta sons baixinhos e se
empolga com a comida. Se ela está sorrindo ou dá chupadinhas nas
conchas do mexilhão, não há como negar que é excepcionalmente
bela.
— Jen me disse que você é uma dançarina — digo,
direcionando a conversa para um assunto menos pesado do que
meus pensamentos atuais.
— Sim, faço ballet desde os quatro anos.
— E gosta? — pergunto.
Ela assente.
— Muito. Me inscrevi em cinco universidades de dança
diferentes. Ainda estou esperando a resposta de duas.
— Qual delas está no topo da sua lista?
— A Jost Academy for Visual and Performing Arts em New
York. — Ela cora como se estivesse envergonhada até mesmo de
pronunciar o nome. — Minha melhor amiga, Jasmine, também se
inscreveu. Aceitam apenas três por cento dos candidatos a cada
período letivo. Provavelmente não vou entrar, mas tive que tentar. É
a universidade dos meus sonhos.
— Assisti a algumas apresentações lá. Sempre que vejo
ballet, só consigo pensar que deve doer dançar na ponta dos pés.
— Às vezes dói mesmo. — Grace puxa o rabo de um
camarão. Ela tem um apetite mais substancioso do que eu esperaria
de uma dançarina, mas imagino que queime muitas calorias durante
o treino. — Meu corpo inteiro dói por alguns dias depois de uma
apresentação, mas não penso nisso enquanto estou em cima do
palco. A adrenalina abafa a dor.
A pele do meu pescoço formiga.
— É mesmo?
Grace faz que sim.
— É como entrar em transe. A beleza do momento toma
conta, e eu me sinto… entorpecida. — Ela encara o vazio. — Não
preciso pensar em mais nada. Estou lá, no meu corpo e, ainda
assim, acima dele de alguma forma.
O que ela está descrevendo soa como um primo próximo da
sensação que os submissos experimentam quando entram na euforia
do transe do subspace. Os neurotransmissores do cérebro inundam
o sistema nervoso em resposta à dor ou abundância de prazer. O
BDSM muitas vezes parece uma dança, então faz sentido que Grace
experimente um prazer semelhante.
Como dominador, experimento um tipo próprio de adrenalina.
Um que intensifica meus sentidos ao mesmo tempo em que me
permite manter o controle. Em vez de me desligar, me concentro na
submissa. Como está se sentindo, o que está pensando, a maneira
como minhas palavras e ações a afeta.
Ouvir Grace explicar como é se render à arte do movimento
convoca uma enxurrada de sons e imagens. O desespero em um
“por favor” sussurrado. O brilho rosa da pele pálida depois do sexo
oral.
Se Grace é tão bonita sentada à mesa, aposto que ficaria
deslumbrante de joelhos…
Corto essa linha de pensamento assim que surge. Grace não
é minha sobrinha biológica, mas ao acolhê-la, eu a aceitei como
família. Ela tem apenas 17 anos, pelo amor de Deus. Uma criança de
luto. Jovem demais para consentir qualquer coisa que se aproxime
da submissão.
Faço uma anotação mental para ligar para Fiona, uma das
minhas parceiras ocasionais, para ver se ela pode vir até aqui na
próxima semana para uma sessão. Jen tem razão: faz muito tempo
desde que dei uma descontraída. Minha mente está ficando inquieta.
Toda essa tensão reprimida não é boa para ninguém.
— Enfim — ela diz, colocando um cacho loiro atrás da orelha.
— Tenho certeza de que isso parece muito estranho.
— Nem um pouco.
Tomo um gole generoso da taça de vinho.
— É estranho não treinar seis dias por semana. — Ela olha
para o prato. — Não danço desde que descobri que eles se foram.
— Se sinta à vontade para treinar na academia.
Fico aliviado quando ela relaxa seu cenho franzido.
— Obrigada, farei isso. Só para você saber, espero estar de
volta à escola em uma semana.
— Tão cedo?
Grace encolhe os ombros, mais uma vez reprimindo a dor.
— Posso ficar triste aqui ou posso ficar triste lá e ainda me
formar a tempo.
— É justo — respondo. — Estarei no escritório de Nova York
na próxima semana. Você pode avisar minha equipe se precisar de
alguma coisa. Espero que possamos jantar mais algumas vezes
antes de você voltar.
— Seria ótimo.
Admito, sua resiliência é admirável. Mas todo mundo tem um
ponto de ruptura. Quando a enormidade do que perdeu a atingir e a
dor que reprimiu todos esses anos finalmente se despedaçar, ela não
será capaz de sorrir.
Ela será forçada a se render.
Apesar de toda aquela conversa de Aidan sobre meu avô ser
viciado em trabalho, ele parece não fazer nada além disso durante o
fim de semana inteiro.
Pergunto a Jen o que exatamente Aidan faz da vida, e ela diz
que ele é o co-CEO de uma empresa de serviços financeiros. Que ele
e o parceiro de negócios inventaram um aplicativo que permite que
as pessoas invistam pequenas quantias no mercado de ações de
modo gratuito.
Ele parte para a cidade na segunda-feira de manhã. Sei que
Jen só está trabalhando na casa por minha causa, então faço o
máximo para não atrapalhar. Vagueio pela semana como um barco a
remo amarrado nas docas, enquanto a neve cai ao redor da
propriedade aos trancos e barrancos. Ela cobre o gramado e reveste
o terraço e as paredes de pedra como a cobertura de um bolo.
Sinto tanta, tanta, falta da minha mãe.
Sem nada dela para segurar em minhas mãos, sinto que
perco um pouco mais dela todos os dias. O mais próximo que posso
chegar de algo dela é um frasco de seu perfume favorito. Borrifo um
pouco no meu travesseiro todas as noites antes de chorar até
dormir.
Fico propensa a chorar quando estou sozinha, então tento
não ficar sozinha com muita frequência. A sra. Cline está na minha
cola. Faço a lição de casa no escritório do andar de baixo enquanto
ela limpa as estantes, e mando mensagens para minha melhor
amiga na sala de jantar enquanto ela passa o aspirador.
Quando Jasmine pergunta se sinto falta do meu pai, não sei
o que dizer. Meus sentimentos a respeito dele são confusos e
complexos. Nunca contei a ninguém do abuso, nem mesmo Jasmine.
Não poderia pedir a ela para manter um segredo tão horrível dos
pais.
Preciso de uma distração. Dançar é minha opção óbvia, mas
só trouxe um par de sapatilhas de ponta e já estou treinando três
horas por dia. Nesse ritmo, vou desgastá-las antes que a semana
acabe.
Jen parece fazer a maior parte do trabalho pelo celular, então
me viro para a sra. Cline e Paolo para ver se eles têm algum trabalho
em que eu possa ajudar na casa. A sra. Cline dá batidinhas na
minha cabeça e me diz que é muita gentileza minha perguntar, sem
nenhum interesse que eu a atrapalhe. Fico muito grata quando Paolo
me coloca para trabalhar na mesma hora, descascando e cortando
batatas. O bom de chorar na cozinha é que sempre posso culpar as
cebolas.
— Não, não, assim não — ele diz, tirando a faca de mim. —
Segure a batata assim, com a ponta dos dedos para baixo.
— Assim? — Imito o aperto dele, enrolando os dedos e
dobrando de leve os nós dos dedos.
— Muito melhor. — Ele devolve a faca para mim. —
Queremos batatas fritas, não dedos cortados.
Enquanto as batatas descansam em água fria, Paolo me pede
para ir até a adega e pegar uma garrafa de Merlot. Sigo suas
instruções pelo porão, passando pela sala de TV, até uma porta em
frente a uma máquina de lavar e uma secadora.
Meu coração acelera quando abro a porta pesada e encontro
um espaço sem janelas não muito maior do que meu armário no
andar de cima. Examino as garrafas de vinho empilhadas umas
sobre as outras em prateleiras em forma de diamante. É impossível
ver as etiquetas da porta.
Nada de ruim vai acontecer com você, digo a mim mesma.
Entre e pegue o vinho.
Escancaro a porta para que a maçaneta toque a parede.
Prendendo a respiração, entro na adega fria e com temperatura
controlada, me movendo às pressas até a prateleira que Paolo disse
para olhar. O plano é pegar o vinho e sair antes que meu cérebro
tenha tempo de compreender os movimentos do corpo. Mas leva
mais tempo do que eu pensava para encontrar o Merlot.
Estou envolvendo a mão no gargalo da garrafa quando a
porta se fecha.
Congelo e depois me viro, meu coração batendo no peito de
um jeito tão caótico que não consigo respirar. E aí começo a dar
respirações grandes e arfantes que parecem apenas me privar de
oxigênio, não absorver mais.
As paredes se erguem ao mesmo tempo que meus pulmões,
ameaçando se fechar enquanto corro para a porta. Aperto a
maçaneta. Ela gira, mas não funciona.
Estou presa.
— Socorro! — Bato com força na laje. — Socorro, alguém!
Sugo o ar frio enquanto as lágrimas escorrem pelo meu rosto
e as gotas de suor nas minhas costas. O medo me percorre.
Isso não pode estar acontecendo. Não posso ficar presa.
Preciso sair…
Estou quase soluçando quando a voz abafada da sra. Cline
passa pela porta.
— Grace é você?
— Sim, sou eu! Por favor, não consigo sair.
A maçaneta da porta balança.
— Espere, querida. A maçaneta está presa. Vou precisar de
uma chave de fenda.
— Por favor, se apresse.
Eu me enrolo no chão.
Uma eternidade depois, a maçaneta balança de novo. Há um
tilintar, e então a porta se abre.
— Grace? — Os olhos da sra. Cline se arregalam quando me
vê. Tenho certeza de que pareço frenética, segurando uma garrafa
de vinho, lágrimas escorrendo pelo rosto e coriza saindo do nariz.
Ela corre para o meu lado. — Você está bem, querida?
— Eu… Sim. Estou bem. — Limpo o rosto com as costas da
mão e tento sorrir.
— Tem certeza?
Nem um pouco, mas já fiz uma cena o suficiente. Ergo o
Merlot.
— Preciso levar isso para o Paolo.
— Eu levo. O sr. O’Rourke está voltando para casa mais cedo,
então preciso arrumar a mesa de qualquer maneira. Devo colocar
um lugar para você ou prefere comer no quarto?
A ideia de me sentar com Aidan, de falar com ele, ou apenas
de estar na extremidade receptora de seu olhar é
surpreendentemente reconfortante. Nós só compartilhamos uma
refeição juntos, mas gostei muito da conversa. Peço à sra. Cline que
arrume um lugar à mesa para mim e depois subo as escadas para
me ajeitar.
Olhando para mim mesma no espelho, pareço ter sido
arrastada pelo inferno.
Tomo um banho, mergulhando os músculos doloridos em
bolhas com aroma de lavanda por mais de uma hora e, em seguida,
coloco um vestido amarelo. Enquanto penteio o cabelo, percebo o
quanto estou ansiosa para ver Aidan de novo.
Senti falta dele. Não faz sentido, considerando como mal nos
conhecemos, mas quero parecer bonita para ele. Quero parecer
feliz.
Claro, fico mais do que envergonhada quando ele menciona o
incidente no jantar.
— A sra. Cline me disse que a encontrou presa na adega hoje
à tarde. — Pelo olhar preocupado que me dá, tenho certeza de que
a sra. Cline foi mais descritiva do que isso.
— A maçaneta da porta ficou presa. Isso me assustou.
Ele me estuda por cima da borda da taça de vinho ao tomar
um gole. Será que ele está bebendo o Merlot desta tarde?
— Você sempre foi claustrofóbica?
Mordisco uma batata frita.
— Nem sempre.
— Me conte — ele diz. Não me conte, por favor ou espero
que não se importe que eu pergunte. Apenas… me conte. Um
comando que não tenho obrigação de obedecer.
E, no entanto, mesmo que eu nunca fale sobre essas coisas,
não posso dizer não. Não quero dizer não ao Aidan.
— Meu pai tinha um temperamento muito ruim. Minha mãe
sofria a pior parte, mas de vez em quando ele me batia também.
O peito de Aidan sobe e desce com um suspiro pesado. Ele
não parece surpreso. Mas tenho certeza de que ele tem as próprias
histórias de horror por crescer ao lado de meu pai.
— Quando eu era pequena, minha mãe costumava me
colocar no armário quando o sentia ficar agitado. Ela me dizia para
esperar lá dentro até que viesse me buscar.
— Quanto tempo você teve que esperar?
— Algumas horas. Às vezes mais. Me urinei algumas vezes
esperando ela vir me buscar. Eu não consegui segurar.
Não acredito que acabei de dizer isso a ele. De uma maneira
estranha, é bom falar sobre isso, como se eu estivesse colocando
algo pesado no chão. Sou a única que carrega os segredos dos meus
pais há tanto tempo. Agora Aidan está se oferecendo para carregá-
los comigo.
— Minha mãe tentou deixá-lo uma vez. Ele disse a ela que ia
pedir pela minha custódia total. Ela teve uns problemas com
prescrições no passado, e ele ameaçou usar isso contra ela no
tribunal. Ela não queria arriscar que eu acabasse com ele, então
ficou. E eu fui para o colégio interno.
Aidan fecha os olhos e passa a mão no maxilar. Quando os
abre de novo, quase ofego com a intensidade em seu olhar mais
azul do que azul. Ele está com raiva, mas não de mim.
Provavelmente do meu pai. Mas, ao contrário do meu pai, a raiva de
Aidan não me assusta. Ele é diferente do irmão de criação em todos
os aspectos que importam. Ele é calmo e comedido. Gentil. Era bem
provável que minha melhor amiga dissesse que ele parece rígido,
mas acho seu estoicismo reconfortante. Não consigo imaginá-lo
batendo em uma mulher ou criança.
— Sinto muito que você precisou enfrentar isso, Grace.
Ele hesita por um segundo antes de descansar a mão sobre a
minha na mesa.
Sinto um calorzinho na barriga como se tivesse tomado um
gole de algo apimentado. Sorrio para que ele saiba que estou bem,
de verdade. O incidente de hoje foi inquietante, mas na maioria das
vezes não tenho problemas em manter as emoções sob controle. É
assim que consigo praticar ballet quatro horas por dia, seis dias por
semana: enquanto meus pés estão gritando, sorrio e aguento a dor.
— O que você disse no fim de semana passado? — pergunto.
— Não se desculpe pelas ações do meu pai?
Sua boca se levanta para um lado.
— Touché.
Aidan retira a mão da minha para pegar o garfo. À medida
que o calor da sua palma se dissipa, me pego desejando que ele
tivesse me tocado por mais um tempo.
O desejo de que Aidan tocasse minha mão de novo não
desaparece.
Planta raízes e brota videiras que amarram minha língua e
desviam o sangue para minhas bochechas sempre que ele me olha.
À medida que o fim de semana se aproxima, Aidan parece
estar olhando para mim com mais frequência. Estudando-me, como
se só agora estivesse percebendo certos detalhes pela primeira vez.
Como dou lambidinhas no ganache de chocolate na parte de trás da
minha colher ou como tranço o cabelo por cima do ombro no
espelho do banheiro antes de dormir.
Eu me pergunto se ele vai sentir minha falta quando eu voltar
para a escola. Tenho a sensação de que vou sentir muita falta dele.
Tanto que quase desejei não ter que ir embora.
Mas é melhor eu ir. A maneira como tenho agido perto de
Aidan é ridícula. Nunca namorei ninguém, mas sei como é ter uma
quedinha. Como é minha respiração acelerar sempre que ouço sua
voz e sinto um friozinho na barriga quando ele pega algo do outro
lado da mesa. Desejando e esperando que segure minha mão.
O que sinto é errado em mil maneiras diferentes. Aidan não é
um garoto fofo de uma escola vizinha. Ele é um homem com o
dobro da minha idade e, embora não seja meu tio de verdade, é
meu tutor e a última pessoa em quem deveria pensar desse jeito.
Pelo visto, meu subconsciente discorda, porque comecei a
sonhar com ele. O tipo de sonho que você definitivamente não
deveria ter com o tutor.
Na noite antes de voltar para a escola, me distraio dos
pensamentos problemáticos desgastando as sapatilhas de ponta na
academia. O chão é muito escorregadio para lunges de ballet, mas
posso me alongar e praticar os exercícios de ponta, desde que me
segure em algo. Tenho usado uma barra longa de levantamento de
peso apoiada em uma prateleira de metal alta e resistente como
uma barra improvisada.
Estendendo o braço acima da cabeça, estico a perna para
trás e para cima num derrière — com o joelho dobrado em um
ângulo de noventa graus — então volto o pé para o chão. Repito o
movimento mais quatro vezes e depois faço um demi plié, pernas
abertas e ambos os joelhos dobrados com os calcanhares no chão.
O movimento na minha visão periférica atrai meu olhar para
a porta. Encontro Aidan encostado na moldura, seu rosto bonito
ostentando uma expressão extasiada. Eu me pergunto há quanto
tempo ele está lá, assistindo.
— Espero não estar incomodando — ele diz.
— Nem um pouco.
Ele entra totalmente no cômodo. É impossível não notar
como está em forma com a camiseta cinza-claro e calças largas.
— Você costuma treinar tão tarde da noite?
— Só se eu não tiver aula no dia seguinte. Saio da aula de
ballet por volta das nove, então minhas noites costumam serem
reservadas para lição de casa.
Aidan sobe na esteira, aperta um botão e começa a correr.
Sei que não deveria encarar, mas ele se move com tanto vigor, como
um gato da selva, quase sem suar.
— Vou te deixar fazer seus exercícios em paz — digo, me
forçando a olhar para qualquer outro lugar que não seja para ele.
— Não precisa. Só vim para me aquecer.
Já passa das onze horas. Se ele não está se aquecendo para
malhar, então para que ele está se aquecendo?
— Você dança muito bem — ele comenta do nada.
Então, ele estava me observando por um tempo. Sinto um
friozinho na barriga.
— Obrigada.
O olhar de Aidan permanece no meu collant cor de lavanda
antes que volte a atenção para a frente.
— Benjamin vai te levar para a escola amanhã. Mandei Jen
para casa hoje, mas ela vai voltar para vê-la partir depois do café da
manhã.
— Vou te ver de novo antes de ir embora?
— Duvido. Tenho uma videoconferência logo pela manhã. E
elas costumam se estender até o meio-dia.
Uma pontada de perda atravessa meu diafragma.
— Então, essa é a última vez que a gente vai se ver por um
tempo.
— Suponho que sim. — Aidan aperta um botão para desligar
a esteira e sai. Observo seu peito subir e descer. Ele estuda meu
rosto por um bom minuto, depois acrescenta: — Foi um prazer ter
você aqui, Grace.
Sorrio, desejando poder abraçá-lo.
— Gostei muito do meu tempo aqui.
Aidan dá um passo em minha direção e, por um segundo,
acho que ele vai me dar aquele abraço que tanto quero.
— Boa noite, Grace.
Em vez de abrir os braços, ele passa por mim.
— Boa noite — digo, tarde demais e baixo demais para ele
me ouvir.
Não tenho o direito de me sentir decepcionada. Não é como
se ele tivesse me prometido algo e depois não cumpriu. Ainda assim,
tinha um vazio no meu peito que não estava lá momentos antes.
Deveria ir para a cama. Deveria dormir para que chegue o dia de
amanhã e eu possa sair daqui antes de fazer papel de boba.
Enquanto desço o corredor em direção às escadas, ouço uma
série de batidas suaves vindo da direção do saguão. Vou até o som,
depois paro quando ouço a porta da frente se abrir.
— Aidan — uma mulher diz com um sotaque irlandês
melodioso. — Faz muito tempo que não me liga.
— De fato faz, Fiona.
Aidan se afasta para deixar uma mulher que nunca vi entrar
na casa. O cabelo escuro dela tem fios prateados e está preso em
um rabo de cavalo. Ela está vestida de um jeito elegante, com um
casaco de lã branca e botas pretas por cima da meia-calça preta.
Fico nas sombras enquanto ela tira o casaco e o entrega a
Aidan, revelando um vestido de malha justo com um decote em
forma de V. A essa distância, diria que ela parece estar no final dos
quarenta, possivelmente no início dos cinquenta. Mais velha que
Aidan por alguns anos, no mínimo. Não que não seja bonita, ela é
delicada e voluptuosa de maneiras que meu corpo apenas não pode
ser enquanto estou treinando para ser uma dançarina profissional.
— Estava começando a pensar que você encontrou uma
garota permanente para te servir — Fiona diz.
— A única garota que preciso é aquela que vem quando eu
chamo.
— Agora, isso é uma pena, amor. — Ela estala a língua. —
Você trabalha duro e merece estar satisfeito com frequência.
— Mas então eu não conseguiria desfrutar desses interlúdios
fugazes com uma pessoa tão encantadora como você.
— Assim que Jacob se aposentar, tenho a sensação de que
ele vai me querer só para ele — Fiona diz com um sorriso. — Além
disso, que tipo de amiga eu seria se não estivesse disposta a
sacrificar meu próprio prazer momentâneo pela sua satisfação
definitiva? Não hoje, é claro. Já estou aqui, e com a meia-calça boa,
ainda por cima.
Aidan pendura o casaco de Fiona na prateleira do saguão e
depois faz um gesto para que ela caminhe na frente.
É óbvio que já esteve aqui antes, porque não precisa
perguntar onde estão as escadas.
O ciúme faz cócegas no fundo da minha garganta como uma
tosse iminente ao vê-los subir. O anel de casamento da mulher brilha
enquanto ela desliza a mão pelo corrimão. Quem é Fiona para
Aidan? Ela se chamava de amiga dele, mas também usava palavras
como prazer e satisfação. Palavras com conotações sexuais. Jacob é
o marido dela? Será que sabe que Fiona está aqui agora? E se ela é
amiga de Aidan, por que ele não me disse que ela estava vindo?
Recordo de que nada disso é da minha conta. Estou morando
na casa de Aidan, mas isso não significa que ele tenha que me
informar todos os convites que faz. Ele tinha uma vida antes de
mim, e vai continuar vivendo essa vida depois que eu voltar para a
escola.
Não tenho o direito de sentir ciúmes das amigas de Aidan, ou
namoradas, ou amigas com benefícios, ou seja lá quem essa Fiona
possa ser.
Ele é meu guardião, não meu namorado. Não cabe a mim me
sentir territorial.
Encho a garrafa de água na cozinha e subo as escadas. Estou
prestes a ir para o quarto quando ouço um choro distintamente
feminino vindo da ala leste da casa.
É um som que já ouvi antes, um que revira meu estômago.
Não, não é possível. Aidan nunca machucaria uma mulher… Mas
escuto de novo, com clareza.
Meu pulso dispara. Eu me movo nas sapatilhas de ponta sem
fazer barulho em direção ao som.
Há uma série de tapas, seguidos de um choramingo. Um
arrepio percorre minhas costas como chuva gelada. Uso o som para
navegar até uma porta fechada no final de um longo corredor.
Prendendo a respiração, pressiono o ouvido contra a porta.
Ouço um baque, seguido por um gemido.
Aidan deve estar machucando a mulher. O que mais poderia
explicar esses sons?
Lágrimas se acumulam atrás das minhas pálpebras fechadas.
Não quero acreditar que ele seja capaz de machucar uma mulher,
mas não posso ignorar a violência que é óbvio que está ocorrendo
atrás desta porta. Eu me lembro do que ele disse talvez dez minutos
antes na esteira, que estava se aquecendo para isso, e meu
estômago embrulha.
Como pude estar tão errada sobre ele? Pensei que não era
nada parecido com meu pai, quando a verdade é que os dois são
farinha do mesmo saco.
Escuto um gemido, então o pedido desesperado:
— Por favor, senhor, posso ganhar mais um?
Fico boquiaberta. Isso não soou nada parecido com o que
estou acostumada a ouvir. Parecia que Fiona estava pedindo — não,
implorando — para Aidan bater nela.
Por que a mulher iria querer que ele a machucasse? Volto o
ouvido para a porta e escuto com atenção. Aidan diz algo que não
consigo decifrar. Uma sucessão de bofetadas firmes e gemidos
calorosos ressoa.
A garrafa de água escorrega da minha mão e cai na madeira
com um baque pesado.
Pulo para longe da porta e depois congelo, atordoada.
Quando ouço o tum-tum-tum de passos se aproximando, é tarde
demais…
A porta é aberta e Aidan me encara.
— O que você está fazendo aqui? — ele pergunta.
Minha garganta fica seca de repente. Ele não está mais
vestindo uma camisa, e seu peito nu é ainda mais poderoso do que
eu imaginava. Com uma leve camada de suor, seus músculos
abdominais ondulam a cada respiração dele.
— Você precisa de algo, Grace?
De pé na porta, ele parece maior de alguma forma, como se
sua presença estivesse comandando mais espaço do ar ao seu redor.
Há uma autoridade na sua voz que não estou acostumada a ouvir.
Uma que faz os pelos dos meus braços se arrepiarem como soldados
atentos. Até meus mamilos batem continência.
Engulo em seco para liberar a tensão na garganta.
— Eu estava indo pro quarto quando ouvi…
Seu olhar se estreita.
— O que você ouviu?
Minha respiração fica superficial. Eu sei o que ouvi, mas
tenho medo do que significará se ele confirmar minhas suspeitas.
— Ouvi um choro — murmuro. Não consigo continuar a falar.
Ele passa a mão pela boca e desce para o queixo.
— Não é o que você pensa.
— Então o que é?
O peito de Aidan se expande quando seu olhar penetra no
meu. Estou convencida de que posso senti-lo cavando ali,
desenterrando segredos há muito enterrados e plantando mais
sementes. Meu coração parece que poderia sair martelando do
peito.
Ele aponta para o corredor, por cima do meu ombro.
— Vá dormir, Grace.
Ele fecha a porta, me deixando ali parada ofegante como um
peixinho dourado que foi arremessado do tanque.
Assim que posso assumir o controle dos membros de novo,
pego a garrafa de água e corro de volta pelo corredor. Em vez de ir
para o quarto, desço as escadas para a sala de estar anexa ao
saguão. Quero ver Fiona de novo antes que ela saia. Só para ter
certeza de que está bem.
As palavras de Aidan ecoam em minha mente. Não é o que
você pensa… não sei mais o que pensar.
Uns quarenta minutos depois, ouço passos de botas na
escada. Aidan e Fiona aparecem na entrada, vestidos e um pouco
corados.
— Você é mesmo um mestre no oito invertido — ela diz. Oito
invertido? Isso é uma posição sexual? — Quando Jacob chegar em
casa de Oslo, você precisa vir jantar e ensinar sua técnica a ele.
— Não vejo a hora. — Aidan segura o casaco da mulher para
que ela possa deslizar os braços nas mangas. O olhar de Fiona se
volta para o meu na sala de estar. Ela se vira para Aidan.
— Posso dizer oi? — ela pergunta.
Na mesma hora fico tensa.
Aidan suspira.
— Se for preciso.
Fiona vai até onde estou enrolada no sofá de camurça com
uma cópia de Jane Eyre que não abri uma vez desde que me sentei.
— Olá, amor — ela cumprimenta com delicadeza. — Sou a
Fiona. Sinto muito se te alarmamos.
— Está tudo bem.
Não tenho certeza do que dizer além disso, então não digo
nada. O fato de Fiona parecer bem — feliz, até — me acalma um
pouco, mas ainda estou cautelosa. Observei minha mãe sorrir ao
derramar lágrimas inúmeras vezes.
Aidan pigarreia.
— Grace devia estar na cama.
— Sim, é muito tarde, não é? — Fiona comenta. — Boa noite,
Grace. Foi um prazer te conhecer.
— Boa noite.
Fiona aperta o braço de Aidan enquanto ele a deixa sair pela
porta. Assim que a mulher se foi, ele se vira para mim com um
sorriso pesaroso.
— Sinto muito por ter sido brusco com você — ele diz,
chegando a ficar no arco entre o saguão e a sala de estar. — Não
estou acostumado a ter outras pessoas em casa à noite.
Minhas bochechas esquentam com a lembrança de ver Aidan
sem camisa. Direciono o olhar para o livro no meu colo.
— Eu não deveria estar ouvindo.
— Entendo por que você se sentiu compelida a investigar
certos… ruídos, dado o seu histórico.
Enrijeço. Ele não está errado, mas não gosto de pensar que
minhas reações a cada pequeno gatilho serão reduzidas a um
sintoma de algo horrível que testemunhei enquanto crescia. Isso me
faz sentir que sempre estarei quebrada. Talvez eu sempre serei.
Não há como negar que tenho problemas não resolvidos.
Esse fascínio inapropriado por Aidan é apenas mais um sinal de que
algo não está certo comigo. Não importa que um som vindo do que
presumo ser o quarto dele desencadeou aquela reação. Ele foi bem
acolhedor ao me trazer para sua casa, e retribuí sua bondade
assumindo o pior dele.
— Você não me deve uma explicação — rebato. — Essa é a
sua casa, ela é sua convidada. Sou apenas uma perturbação
imprevista.
— Grace…
— Tem razão, eu devia ir para a cama.
Levanto do sofá e colo um sorriso no rosto, me apoiando na
única muleta em que sempre posso confiar: a cordialidade.
Posso passar por qualquer coisa, desde que continue
sorrindo.
— Obrigada por me receber na sua casa. Te vejo daqui a um
mês.
Não espero Aidan responder antes de sair correndo da sala.
O investidor de risco sentado do outro lado da mesa de
conferência está mexendo os lábios, mas mal entendo uma palavra
do discurso insincero. Não consigo parar de olhar para a ridícula
gravata bolo tie, para o emblema de cabeça de touro prateado
descansando abaixo de sua papada.
— O que vocês, cavalheiros, conseguiram fazer aqui é um
testemunho do resultado de trabalho árduo e determinação com um
pequeno incentivo para crescer — ele declara.
Oito anos atrás, quando meu amigo, Matthew, e eu
apresentamos nossa ideia inicial a esse palhaço, ele riu na nossa
cara. Agora o jogo virou. Ele está na nossa sala de reuniões, se
humilhando por um pedacinho dos bilhões de dólares que temos.
— Com certeza superamos as expectativas de todos —
Matthew diz. Por sorte, meu parceiro de negócios tem a capacidade
de lidar com esse sujeito, já que é algo que não consigo ter nesta
reunião.
Já se passaram cinco dias desde que Grace voltou para a
escola. Não consegui parar de pensar na maneira como ela olhou
para mim quando a peguei ouvindo do lado de fora da porta do meu
quarto.
A acusação em seus olhos, a traição…
Devia ter amordaçado Fiona antes de pegar a chibata. Não
achei que Grace seria capaz de nos ouvir do outro lado da casa. Eu
tinha entrado no modo dominador por completo quando a peguei
ouvindo atrás da porta. Não era exatamente o melhor momento
sentar e explicar por que eu estava batendo mesmo na bunda de
Fiona e que não precisava se preocupar porque a mulher havia me
dado consentimento total para fazer aquilo.
Mas sem uma explicação, o que Grace deveria pensar?
— Agradecemos seu interesse — Matthew diz ao investidor
de risco. Ele se levanta e abotoa o paletó, minha deixa para fazer o
mesmo, e estende a mão. — Entraremos em contato.
Aperto a mão do homem e me sento assim que ele sai.
— Costumo adorar quando se humilham — Matthew comenta
—, mas isso foi patético.
Solto um grunhido, concordando. Meu amigo e parceiro de
negócios olha para mim, esfregando a barba curta da cor de areia
molhada.
— Você mal estava prestando atenção dessa vez — ele diz.
— Desculpa. — Pego o celular para verificar a hora. — Tenho
que estar em algum lugar em alguns minutos.
— Fiona disse que você parecia distraído no fim de semana.
Matthew e eu fomos apresentados em um encontro para
dominadores e submissos há mais de uma década por Fiona e o
marido, Jacob. Fiona queria ser dominada por dois. Deixei claro que
nunca transo com minhas submissas, e ela não se importou porque
Matthew ficou feliz em lhe dar o que eu não podia. Matthew e eu
nunca tínhamos feito uma cena juntos, mas naquela noite, algo
apenas deu certo.
À medida que nossa comunidade crescia, fizemos um nome
para nós mesmos entre as submissas que adoram dor e as
submissas profissionais.
Elas ainda falam sobre nós, embora não façamos cenas
juntos com tanta frequência quanto antes.
Fiona e Jacob não fazem mais swing, mas quando Jacob está
fora da cidade a negócios, ele permite que Fiona venha até mim
para dar uma aliviada naquela veia masoquista. O homem sabe que
não tenho interesse em transar com sua esposa.
Para mim, os conceitos de sexo e fetiche não poderiam ser
mais dissociados. Ter outra pessoa à minha mercê, ocupando todo o
meu foco, me permite limpar a mente de todo o resto. É como
entrar em uma sala vazia e fechar a porta. Sem distrações.
Embora muitas vezes eu faça minhas submissas se despirem,
é com o único propósito de expandir a área de superfície. Gosto de
ver a pele delas reagir à minha atenção, seja espancando, açoitando
ou revestindo-as com cera. Não é sexual por natureza, embora
possa ser. Foi para mim, no início.
No entanto, a última vez que combinei fetiche com sexo há
mais de vinte anos, resultou em consequências terríveis pelas quais
ainda estou pagando — literalmente. Bem provável que na forma de
café na próxima meia hora.
— Estou com muita coisa na cabeça nas últimas semanas —
digo a ele.
— Verdade — Matthew fala com um suspiro. — Porra, sinto
muito, cara. Nem sabia que você tinha um irmão até algumas
semanas atrás. Esqueci do fato de que você o perdeu.
— Irmão postiço — corrijo. — E não éramos próximos.
— Sim, mas ainda assim, isso tem que trazer à tona muita
coisa.
Ele não faz ideia. Eu poderia ter morrido engasgado com a
fúria que engoli ao ouvir Grace falar sobre como a mãe costumava
colocá-la no armário para protegê-la dos punhos de Calvin.
— Fiona mencionou que conheceu sua sobrinha — Matthew
comenta. — Grace, né?
Ouvir o nome de Grace nos lábios de outro homem me
chateia de um jeito que é ao mesmo tempo estranho e familiar. Não
namoro há anos. Quando namoro, sou monogâmico. Isso significa
que não durmo ou faço cenas com mais ninguém enquanto estou
em um relacionamento. A maioria das minhas ex-namoradas nem
sabe que sou um dominador. Compartilhei submissas — o que é
justo, já que me recuso a transar com elas —, mas não
compartilharei namoradas.
Eu me lembro que Grace não é nenhuma das duas. Ela é a
coisa mais próxima que tenho de família, mas isso não a torna
minha. Não tenho motivos para me sentir possessivo com a garota.
Nenhuma razão aceitável.
— É — respondo. — O nome dela é Grace.
— Presumo que você não vai sediar mais encontros até que
ela se mude.
Matthew, Fiona, nosso amigo em comum, Dante, e eu, nos
revezamos organizando encontros para nossa comunidade mais
ampla de BDSM. No meio de tudo, quase me esqueci que deveria
hospedar o próximo no início de março.
— Enquanto ela estiver na escola, posso sediar.
— Tem certeza? Porque se você não estiver pronto para isso
no próximo mês, posso…
— Estarei pronto. — Verifico o celular outra vez. Tenho que ir.
— Volto daqui a uma hora.
Benjamin me pega na frente do prédio. No caminho do
Financial District para Hell’s Kitchen, ligo para Jen e digo para entrar
em contato com meu fornecedor habitual e pedir comida e bebidas
não alcoólicas para o encontro do próximo mês.
Peço para Benjamin me deixar na frente de um
supermercado a um quarteirão do meu destino. A única pessoa na
minha vida que sabe sobre a pessoa que estou indo encontrar é Jen,
e pretendo manter assim o máximo que puder.
Liam está esperando em nossa mesa habitual na parte de
trás da cafeteria quando chego, o que me parece estranho porque
ele costuma chegar atrasado. As olheiras que estão sempre
presentes sob seus olhos cinzentos estão ainda mais pronunciadas
hoje.
Aos 22 anos, meu filho se parece muito com a mãe quando
nos conhecemos. Feições pequenas e pronunciadas. Bochechas
cheias. Cabelo castanho-escuro que parece que precisa ser lavado,
mesmo quando está limpo.
Eu estava no segundo ano da faculdade quando conheci
Carolyn, e tinha acabado com os fetiches. Ela tinha a minha idade,
bonita do tipo garota típica e adoravelmente tímida. Considerei uma
honra que ela se sentisse confortável comigo sendo dominador.
Fizemos algumas cenas de bondage. Então ela me confidenciou que
havia sido estuprada pelo ex e perguntou se eu interpretaria uma
cena com consentimento não consensual para ajudá-la a “recuperar
seu poder” por assim dizer.
Essa era sua intenção, pelo menos.
Consentimento não consensual não era meu estilo habitual,
mas eu tinha 19 anos e era arrogante, convencido de que já sabia
tudo o que havia para saber sobre ser um dominador, e qualquer
coisa que eu não soubesse aconteceria por natureza.
Fizemos a cena. Foi brutal, do jeito que Carolyn queria, ou
assim eu acreditava. Quando tentei fazer o pós-tratamento, ela
chorou e gritou para que me afastasse dela. Eu me lembro de estar
ao pé de sua cama, dividido entre lhe dar o espaço que exigia e ter
certeza de que estava bem.
Dormi no sofá dela naquela noite. Na manhã seguinte, ela
enfim saiu o quarto para me dizer que havia congelado no meio da
cena e se desligado a ponto de não poder falar, o que significava
que não podia dizer a palavra de segurança.
Tomei o silêncio dela como um sinal de submissão e, sem
querer, a traumatizei de novo.
Arrependimento e horror me inundaram, mas não consegui
desfazer o dano. Tudo o que podia fazer era prometer manter a vida
sexual e a vida dominante separadas daquele ponto em diante, e
nos últimos vinte e dois anos, mantive essa promessa.
— Uau — Liam diz. — Você está aqui.
Ele diz a mesma coisa toda vez que me vê, como se
esperasse que eu o abandonasse de novo.
Não posso dizer que o culpo. Tenho certeza de que me odeia,
e com um bom motivo.
Carolyn ligou alguns meses após o incidente com a notícia de
que estava grávida. Perguntei como poderia ajudar. Ela me disse
para manter distância. Ela não queria que eu me envolvesse com a
gravidez ou com a vida da criança de forma alguma. Não lutei contra
sua vontade, porque lutar contra ela teria me feito sentir ainda pior.
Que direito eu tinha de forçar essa mulher e seu filho, depois do que
aconteceu?
Quando soube do suicídio de Carolyn no outono passado,
decidi que era hora de falar com Liam. Durante nosso primeiro
encontro, fiquei chocado ao descobrir que ele sabia direitinho quem
eu era e o que havia acontecido entre mim e sua mãe. Ela dizia que
o filho era o resultado de um estupro desde que ele era pequeno.
Liam internalizou esse conhecimento, deixou-o definir e moldá-lo por
dentro.
Pensei que estava fazendo um favor ao meu filho mantendo
distância. Dez minutos depois do nosso primeiro encontro, percebi
que foi a pior coisa que poderia ter feito.
— Estou aqui. — Eu me sento em frente a Liam e aceno para
o jornal na mesa. — Presumo que esteja aqui há algum tempo.
— Pensei em começar a procurar um emprego. Não se
preocupe, te esperei para pedir. Não gostaria de te ofender
enquanto você está tentando comprar meu afeto.
— Não, não queremos isso. — Faço um pedido para que a
garçonete nos traga dois cafés, já contando os minutos até que
possa levar o meu para viagem. — O que aconteceu com o trabalho
de lavar pratos?
— Fui dispensado.
— Você quis dizer demitido?
Ele encolhe os ombros.
— Semântica.
No pouco tempo que conheço Liam, ele teve quatro
empregos diferentes.
— O que aconteceu?
— Digamos apenas que meu colega de trabalho
excessivamente sensível não apreciava meu senso de humor, e nem
meu chefe. — Ele torce a boca em um sorriso malicioso. — Mas isso
significa que estou livre para trabalhar para você agora.
— Não estamos contratando — digo com firmeza.
A garçonete coloca os cafés na mesa. Entrego-lhe uma nota
de vinte e digo a ela para ficar com o troco.
— É capaz de ser melhor — Liam diz. — Seria um caso
evidente de nepotismo. Além disso, creio que a maioria de seus
funcionários não sabe que você é pai ou um depravado sexual. Ou
um estuprador, por falar nisso.
Meu olhar se estreita por cima da borda da xícara de café.
Não sei se o sadismo é hereditário, mas estou convencido de que ele
tem prazer genuíno em recordar meus crimes sempre que pode. Se
não fosse pelo fato de que essa situação fodida é minha culpa, não
estaria sentado aqui. Estou bem ciente de que é a culpa que me traz
de volta a esta mesa mês após mês.
Culpa pelo que fiz com a mãe de Liam. Culpa por não
proteger meu filho do ódio equivocado da mãe.
— Mudando de assunto — ele diz. — Quais são as novidades,
pai?
— Nada. O mesmo de sempre. — É a única resposta que dou
a ele. Mas esta semana, tenho uma razão muito boa para dar. Não
quero que Liam saiba da prima.
Se Grace é um raio de sol em um pedaço de terra congelada,
Liam é a geada imprevista que sufoca as plantações. Quero evitar
qualquer situação em que ela possa ser submetida à sua malícia.
Sendo bem egoísta, preferiria que ela nunca soubesse a
verdade do que aconteceu todos aqueles anos atrás. Mal consegui
aguentar o olhar em seu rosto quando ela pensou que eu tinha
batido em uma mulher com raiva. Se ela de alguma forma
descobrisse que eu involuntariamente me forcei a alguém, isso me
destruiria.
Redireciono a conversa para um tópico que sei que Liam
apreciará.
— Como está de dinheiro?
Ele adota uma careta lamentável.
— Perder aquele trabalho de lavar pratos foi um sério golpe
na minha renda. Não tenho certeza de como vou passar pelo
próximo mês.
Apesar de todas as críticas sobre eu tentar comprar seu
afeto, ele não tem escrúpulos em aceitar minha caridade.
— Pedirei a minha assistente para transferir fundos para sua
conta.
Ele levanta o café em um gesto de brinde.
— Sempre posso contar com você, pai.
— Talvez seja uma coisa com a língua — Jasmine diz.
— O quê?
Termino de dar o último ponto na extremidade da sapatilha
de ponta.
— O oito invertido que aquela mulher, Fiona, falou. Talvez
seja algo que ele faça com a língua.
— Nojento.
Minha resposta é principalmente reflexiva. Não tenho nojo do
conceito de sexo oral. Só não gosto de pensar em Aidan fazendo
sexo com Fiona — ou com qualquer uma.
Exceto talvez uma pessoa…
Varro o pensamento indecente e inapropriado para debaixo
do tapete metafórico e me concentro em costurar a fita de cetim na
sapatilha de ponta. Nossa escola oferece apenas uma classe de
dança moderna, então Jasmine e eu frequentamos aulas com uma
companhia privada de ballet clássico à noite.
— Não critique até experimentar — Jasmine rebate com um
sorriso atrevido. Sei que ela já experimentou isso e muito mais.
Frequentar um internato só para meninas tornou mais difícil
encontrar meninos até o momento, mas ela aproveita ao máximo as
férias escolares e o fato de que o trabalho de seu pai permite que a
família viaje bastante durante o verão.
Às vezes, acho que o fato de não ter me esforçado para
conhecer alguém significa que há algo errado comigo. Jasmine
tentou me apresentar a caras no passado, mas eu sempre fico muito
tensa, muito nervosa. Não consigo relaxar o suficiente para deixar a
conversa fluir.
O único garoto — ou, neste caso, homem — que me senti
confortável em baixar a guarda nos últimos tempos é Aidan. Ainda
não acredito que contei a ele sobre minha mãe me colocar no
armário.
— Só acho que é bom manter a mente aberta — Jasmine
comenta. Ela coloca todo o peso ao pisar na box, na parte dos
dedos, das sapatilhas de ponta para alargá-las. Todas as sapatilhas
de ponta começam muito rígidas, então temos que prepará-las de
maneiras especiais para torná-las flexíveis o suficiente para dançar.
Escuto o estalo satisfatório enquanto abaixo o calcanhar na
parte dos pés da minha.
— Nós nem sabemos ao certo se é uma coisa sexual — digo
baixinho.
— Uhm, como não é uma coisa sexual?
Alguns dançarinos ao alcance da voz lançaram olhares
estranhos para a gente. Nós nos movemos para o canto da sala e
começamos a bater as pontas das sapatilhas contra a parede para
atenuar o som que fazem contra o chão.
Eu me inclino em direção a Jasmine para que nenhum dos
outros dançarinos possa me ouvir dizer:
— Parecia que ele a estava machucando.
— Talvez ele estivesse. O quê? Não aja como se não se
lembrasse da noite em que ficamos acordadas para assistir àquela
trilogia. Você concordou comigo que o BDSM poderia ser excitante
nas circunstâncias certas.
Eu me lembro daquela noite e daqueles filmes. Lembro-me
de pensar, como alguém poderia querer que seu parceiro lhe
batesse? E como esse homem, que afirma amar essa mulher,
poderia querer causar dor a ela? Como dançarina, tolerar a dor por
uma causa maior não é um conceito estranho. É quase como se eu
fosse minha própria dominadora. Mergulhar os pés e as pernas em
água gelada depois de um longo dia de prática dói pra caramba,
mas eu ainda faço isso. Não apenas porque é bom para os
músculos, mas porque passei a associar corpo dolorido a um
trabalho bem feito.
E, admito, achei a maioria das cenas de sexo nesses filmes
excitantes.
Se um homem que eu amava e respeitava me pedisse para
suportar a dor para agradá-lo, acho que poderia encontrar uma
maneira de suportar. Pelo homem certo, eu poderia suportar
qualquer coisa.
— Coloquem as sapatilhas, pessoal — nossa instrutora, Gina,
anuncia. — Só temos mais sete semanas para nos preparar, então
precisamos começar.
Nesta temporada, vamos apresentar uma versão simplificada
de Giselle, um ballet francês sobre um duque que se apaixona por
uma plebeia bonita e tímida, embora esteja prometido a outra
pessoa. Ele se disfarça para cortejá-la, mas ela morre de coração
partido quando descobre sua traição.
A companhia de ballet é pequena, com pouco menos de vinte
pessoas em nossa faixa etária, mas isso significa que todos têm
chance de brilhar. Quando disse à minha mãe que havia sido
escalada para o papel principal em dezembro passado, ela estava
muito feliz.
Saber que ela nunca mais estará na plateia em uma das
minhas apresentações… é de partir o coração.
Mas em vez de desmoronar e chorar, me jogo na dança. Sou
grata por ter sido capaz de treinar enquanto estava na casa de
Aidan. Se não tivesse, estaria tendo dificuldade para acompanhar.
Durmo inquieta naquela noite, incapaz de tirar a conversa
com Jasmine da cabeça. Penso nas implicações o tempo todo nos
próximos dias. Quando não estou dançando ou fazendo trabalhos
escolares, estou lendo sobre BDSM. Postagens em blogs. Romances.
Até assisto a alguns filmes e vídeos instrutivos — tudo no celular,
fora do wi-fi da escola, no escuro, depois que Jasmine foi dormir.
Era isso que Aidan e Fiona estavam fazendo no quarto? Isso
explicaria os sons que ouvi. A partir das interações que testemunhei
— e da minha própria pesquisa — tenho a impressão de que os dois
são apenas parceiros casuais. Ela é a única ou ele tem outras
submissas? Submissas com quem ele faz cenas regularmente.
Submissas que são dele.
Eu me perco na toca do coelho me perguntando do que ele
gosta. Antes que perceba, já tinha voltado para a escola há duas
semanas.
Tem sido mais difícil do que eu pensava, voltar a um ritmo
regular. Meus professores e colegas de classe têm sido
compreensivos, mas às vezes a pena no rosto deles chega a ser
demais. Sei que não podem evitar. A maioria das pessoas nem
imagina como é perder um dos pais, muito menos os dois ao mesmo
tempo. Eles olham para mim e não conseguem deixar de pensar em
como lidariam se estivessem nessa situação.
Na semana anterior às férias de primavera, quando eu
deveria voltar para a casa de Aidan, recebo o e-mail pelo qual tenho
esperado. A notificação chega no celular vinte minutos antes de eu ir
para a aula.
O resultado da Jost Academy for Visual and Performing Arts
está na minha caixa de entrada.
Corro para o banheiro do dormitório onde Jasmine está
enrolando os cabelos naturalmente encaracolados na pia.
— Jas — chamo. — Você viu seu e-mail hoje?
— Ainda não. — Ela para no meio do movimento. — Por quê?
— O e-mail chegou.
Seus olhos escuros se arregalaram no espelho.
— Você abriu?
— Ainda não.
Ela lava o creme definidor de cachos das mãos e depois pega
o celular. Minhas próprias mãos tremem quando chego ao seu lado.
— Também recebi — ela diz, encontrando meu olhar. —
Abrimos ao mesmo tempo?
Concordo com a cabeça. Contamos até três e depois abrimos
o e-mail.
Parabéns, o meu começa.
A tensão se acumula dentro de mim como bolhas de
champanhe. Antes de estourar, olho para cima para avaliar a
expressão de Jasmine. Ela está me olhando com contenção
semelhante.
— Você entrou? — pergunto. Com cautela, ela faz que sim. —
Eu também.
Irrompemos num frenesi de gritinhos e risadas, fazendo com
que mais de um par de cabeças molhadas saíssem dos chuveiros.
Jasmine me puxa para um abraço, e nós o transformamos em uma
dança comemorativa. Uma valsa de vitória. Um tango triunfante.
De repente, tudo o que quero fazer é contar a Aidan a boa
notícia.
Enquanto tento acessar suas informações de contato,
descubro que não as tenho. Devo ter esquecido de adicioná-lo ao
meu celular no meio de todo o constrangimento. Mando uma
mensagem para Jen, sabendo que ela vai transmitir a notícia. Ela
responde em menos de um minuto em letras maiúsculas.

Jen: ISSO É ESPETACULAR!!! PARABÉNS,


QUERIDA!!! TEREMOS QUE COMEMORAR
QUANDO VOCÊ VOLTAR.

Agradeço a ela e digo que mal posso esperar.


As horas passam e Aidan não me manda uma mensagem. Ele
também não liga.
Eu me pego verificando o celular a cada poucos segundos. É
constrangedor o quanto sua indiferença me afeta. Meu professor de
química me percebe olhando para o telefone e me diz para desligar.
Percebo que provavelmente é melhor assim. Não é como se eu
estivesse esperando que mais alguém mande mensagem. A pessoa
que teria ficado mais animada com a notícia — minha mãe — não
está por perto para ouvi-la.
No caminho de volta para os dormitórios após o treino de
ballet, a garota na recepção acena para Jasmine e eu para me dizer
que tenho uma entrega. Ela desaparece no escritório e sai
segurando um vaso que está positivamente repleto de rosas rosa e
brancas.
— Uhmm, uau, que lindas — Jasmine comenta, pegando o
vaso para que ela possa pressionar o nariz no buquê. — De quem
são?
A garota da recepção me entrega um pequeno cartão. Abro
para encontrar uma simples saudação de parabéns, assinada por
Aidan O’Rourke.
Assim como no momento em que a energia de repente volta
depois de uma tempestade, eu me ilumino.
— São do Aidan.
— Caramba. Tudo o que meus pais fizeram foi deixar uma
mensagem de voz sentimental. Seu tio pode me adotar também?
— Ele não é meu tio — digo, um pouco séria demais.
Pigarreio. — Ele é meu guardião.
Jasmine ergue as sobrancelhas de formato perfeito. Estou
sendo estranha em relação a isso. Ela desliza os dedos pelas pétalas
de uma grande rosa rosa.
— Bem, independente de quem ele é, é óbvio que está
orgulhoso de você.
Um sorriso verdadeiro e genuíno puxa meus lábios.
Deixei Aidan orgulhoso.

Troco a água nas rosas de Aidan todos os dias para ajudá-las


a durar a semana toda.
Na manhã de sexta-feira antes das férias da primavera, Jen
envia uma mensagem para me avisar quando Benjamin virá me
buscar no dia seguinte. Ela diz que está ansiosa pelo meu retorno, e
mal posso conter a empolgação em voltar.
Depois da maneira como deixamos as coisas, não sei o quão
tensa será a atmosfera entre Aidan e eu. Mas prefiro estar no meio
disso com ele do que ficar longe dele com todas as minhas
perguntas sem resposta.
Vou para a aula e tento prestar atenção. Os professores
parecem determinados a superar uns aos outros em termos de
tarefas de leitura e lição de casa. Como somos um internato
particular, os semestres são mais intensos, mas também significa
que as férias de primavera são de duas semanas em vez de uma. A
julgar pelas listas de leitura, parece que vou passar a maior parte
desse tempo com um livro no colo.
Corro de volta para os dormitórios depois da última aula para
me preparar para o treino de ballet. Quando entro pela porta, vejo
Jasmine descansando na cama, ainda vestida com o uniforme
escolar.
— Gina cancelou o treino — Jasmine informa. — Pelo visto, o
filho dela está gripado.
Coloco a mochila no chão.
— Acho que isso nos dá mais tempo para fazer as malas.
— Vou fazer a maior parte das minhas amanhã. Quer jantar
na cidade? Acabei de menstruar e estou desejando pad thai como
uma mulher grávida.
À menção do jantar, penso na comida de Paolo e no quanto
estou ansiosa para jantar com Aidan de novo. Sinto falta dele. Mal
posso esperar para ouvir sua voz e sentir o peso de seu olhar na
minha pele.
Então, por que deveria esperar?
O treino de ballet foi cancelado. Posso pegar um Uber hoje à
noite e poupar a viagem de Benjamin amanhã. Posso me sentar com
Aidan e esclarecer as coisas entre nós. Não com tantas palavras, já
que seria muito vergonhoso. Mas quero que ele saiba que não acho
que ele seja uma pessoa má.
Se ele gosta de BDSM, então minha avaliação inicial dele foi
certeira. Ele não estava machucando Fiona por raiva ou crueldade.
Dominação e submissão são uma dança, uma prática, não muito
diferente da minha.
Ser atingido dói, assim como empurrar os limites físicos do
seu corpo. Alguns dias meus músculos doem tanto que mal consigo
sair da cama. Minha instrutora de ballet uma vez brincou que, se o
público soubesse quanta dor infligimos em nós mesmos em nome da
arte, apenas sádicos viriam para as apresentações.
Se Aidan é um sádico, não deveria valer algo que ele só está
machucando masoquistas que vêm à sua casa por vontade própria?
Eu acho que deveria.
— Na verdade — digo —, acho que vou voltar hoje.
Mando uma mensagem para Jen para avisá-la que estou
voltando para casa mais cedo. Não demoro muito para arrumar
minhas coisas. Não percebo que ainda estou usando o uniforme
escolar até já ter arrumado a maioria das roupas. Tecnicamente, os
motoristas parceiros da Uber não devem levar usuários com menos
de dezoito anos, mas Jasmine e eu contornamos essa regra pedindo
que eles nos peguem e nos deixem no estacionamento de uma
igreja vizinha.
A mulher mais velha que estaciona na frente da igreja olha
para a minha saia xadrez, mas não menciona nada. Jen não me
responde durante a viagem de uma hora até a casa de Aidan. Parece
muito cedo para ela estar na cama, mas ela gosta de aproveitar bem
o dia.
Presumo que terei que sair pelo portão e caminhar até a
casa. Mas quando nos aproximamos da entrada, o portão está
aberto. Fazemos a curva.
— Parece que alguém está dando uma festa — a motorista
comenta.
Observo os carros estacionados ao longo da estrada curva e
as luzes saindo de quase todas as janelas deste lado da casa.
A motorista me deixa na porta da frente e eu entro.
A música instrumental toca de algum lugar dentro da casa.
Não sabia que Aidan tinha um sistema de som, mas não é como se
ele tivesse um motivo para usá-lo. Dois homens que parecem ter
vinte e poucos anos me cumprimentam com uma reverência sutil.
Nunca vi nenhum deles antes, e ambos parecem estar evitando
contato visual de propósito.
— Posso pegar seu casaco, senhorita? — o homem com um
piercing na sobrancelha pergunta.
— Uhm, claro.
Coloco as malas no chão, tiro o casaco de inverno e deixo
que ele o pegue.
O outro homem, um pouco mais baixo e mais cheio, gesticula
para minhas malas.
— Você gostaria que a gente guarde seu equipamento?
Meu equipamento? Balanço a cabeça.
— Não, obrigada. Vou levar para o meu quarto.
Os dois homens compartilham um olhar curioso. O do
piercing encolhe os ombros.
Pego as malas e vou pelo corredor principal até a sala de
estar, onde casais e pequenos grupos de pessoas se reúnem em
sofás e espreguiçadeiras. As lareiras em cada extremidade que
costumam ficar vazias estão acesas, emitindo calor e luz. Está quase
quente demais aqui.
É quando percebo que alguns dos hóspedes não estão
usando muita roupa.
Vários homens estão sem camisa, ou ficam com elas
desabotoadas, e algumas das mulheres estão de lingerie. Quanto
mais examino o ambiente, mais detalhes chocantes descubro:
mulheres com coleiras presas a guias que balançam na mão dos
homens. Homens de quatro servindo como apoios para os pés de
mulheres que não lhes dão atenção.
Que tipo de festa com vestuário opcional é essa?
Não vejo Aidan em lugar nenhum, embora a julgar pelos
convidados indo e vindo do cômodo, acho que a festa deve se
estender a outras áreas da casa.
Antes que alguém possa me perguntar quem eu sou ou o
que estou fazendo aqui, saio da sala e vou para as escadas. O
murmúrio da conversa diminui quando chego ao segundo andar. No
entanto, enquanto tento entender o que vi, um som familiar ecoa
pelas portas fechadas do quarto de hóspedes.
Gemidos, choramingos, tapas e batidas suaves.
Um arrepio quente percorre meu corpo enquanto ando pelo
corredor. Por fim, cedo à vontade de pressionar o ouvido em uma
das portas. Ouço a risada de uma mulher e o gemido suave de um
homem.
Este é uma festa de BDSM. Li sobre eles na minha pesquisa.
Encontros privados onde as pessoas fazem coisas bizarras umas com
as outras. Às vezes com estranhos, às vezes com pessoas que
conhecem.
Uma porta está aberta. Sei que deveria continuar andando,
mas quero espiar.
Um homem loiro e barbudo descansa nu em uma cadeira nos
fundos. Pelo menos, acho que ele está nu. Suas pernas e peito estão
nus, mas há uma mulher ajoelhada no chão, bloqueando minha
visão do resto — a parte mais importante, como diria Jasmine. Os
pulsos da mulher estão amarrados atrás dela com corda, logo acima
do cós de sua calcinha cor de vinho.
A cabeça dela balança acima do colo do homem. Ela deve
estar fazendo um boquete nele. Eu ofego. O homem barbudo olha
para mim, provocando pânico na minha barriga.
— Fantasia fofa — ele me diz. Ele acha que estou usando
uma fantasia? — Aluna travessa é um pouco clichê, mas ficou bem
em você.
Não tenho certeza de como responder, então apenas digo:
— Obrigada.
Talvez seja a satisfação evidente em seu olhar, mas algo a
respeito de um homem me observando enquanto está sendo
chupado faz minha metade inferior formigar. Ele pega uma chibata e
desliza a ponta de couro pelas costas da mulher.
Ele não parece se importar com o fato de eu estar assistindo
os dois transarem. Acho que é por isso que as pessoas vêm a essas
festas, para exibir os fetiches com pessoas que são como elas.
Pessoas como… Aidan. Quaisquer suspeitas que eu tinha
sobre seus apetites sexuais antes estão cimentadas por completo
agora.
Excitação serpenteia entre minhas coxas enquanto imagino
Aidan sentado no lugar do homem loiro, comigo de joelhos diante
dele, pulsos amarrados.
O pau de Aidan na minha boca. A chibata em sua mão. A
antecipação ao esperar que ele me bata…
O estalo da chibata nas costas da mulher me sacode e me
impele a correr pelo corredor, rezando para que eu não encontre um
estranho amarrado e amordaçado na minha cama.
Fecho a porta do quarto ao entrar e de repente consigo
respirar outra vez.
Havia uma fita vermelha amarrada ao redor da maçaneta
quando cheguei aqui. Achei que significava que havia pessoas lá
dentro fazendo sabe-se lá o que nos meus lençóis, mas quando ouvi
da porta, havia apenas silêncio. Talvez Jen ou Aidan tenham
amarrado a fita para indicar que meu quarto está fora dos limites.
Jogo as malas na cama e depois caio ao lado delas. Meus
músculos se contraem com tensão residual. Não sei como devo me
sentir sobre tudo isso. Estou atordoada e envergonhada pelas coisas
que vi, mas também estou mais excitada do que nunca.
Rolando de lado, me acaricio por cima das roupas.
Compartilhar um quarto não permite muito tempo sozinha, então
não tive muitas chances de liberar a tensão reprimida que acumulei
ao me empanturrar com histórias de BDSM e pornografia.
Agora as coisas que vi e li on-line estão acontecendo do lado
de fora da minha porta.
Uma coisa que posso dizer com certeza é que Aidan agendou
a festa esta noite por um motivo. Eu não deveria estar aqui. Tenho
certeza de que ele acha que sou muito jovem para saber sobre essas
coisas, e a maioria dos blogs que tenho lido tem avisos de
verificação de idade que evitei com facilidade.
Mas meu corpo não se importa que eu seja muito jovem para
praticar esse tipo de atividade sexual não convencional. Ele só sabe
o que quer sentir, como quer ser tocado. Anseia por ser entregue a
um dominador confiável que exigirá submissão total, enquanto
oferece um novo espectro de sensações em troca.
A excitação puxa meu interior como um mestre de
marionetes puxa cordas, me deixando molhada e ansiando por
coisas que não tenho o direito de ansiar. Imagino Aidan, em algum
lugar desta casa, distribuindo prazer e dor em igual medida.
Ele não sabe que estou aqui, e não há razão para ele
descobrir que voltei mais cedo. Eu poderia facilmente ficar no quarto
até todos irem para casa, depois sair e tocar a campainha. Seria
bem simples fingir ignorância de tudo o que vi e ouvi esta noite.
Parte de mim está convencida de que, se eu fosse conversar
com Aidan amanhã, ele sentiria meu desejo, assim como sentia
todos os meus outros segredos. Por qualquer motivo, meus truques
habituais apenas não funcionam com ele. Ele vê através dos sorrisos
forçados, como se as defesas que passei a vida toda fortificando não
fossem nada além de gaze.
Tenho sorte que ele não me viu quando entrei. Se ele me
pegasse observando o homem ganhando um boquete, ele ficaria
com raiva e horrorizado. Ele me castigaria lá, na frente do casal? Ou
me arrastaria de volta para o meu quarto, me dobraria sobre o
joelho e me puniria por assistir a algo que eu não deveria?
A fantasia se entrelaça entre meus pensamentos dispersos
até que eu esteja louca de desejo.
Eu deveria ser grata por esse vislumbre secreto de um
mundo sobre o qual só li, mas não é o suficiente para me saciar.
Anseio por me alongar e caminhar entre os habitantes locais, correr
e dançar nas ruas, explorar esta nova paisagem onde há mestres e
mestras, e submissos felizes ansiosos por servir e ser espancado.
Talvez se eu tiver cuidado… Se ficar de olho em rostos
familiares e não chamar a atenção, posso passar um pouco mais de
tempo lá embaixo na festa.
Só alguns minutos. Uma hora no máximo.
Pego o zíper da mala. O homem com a chibata presumiu que
eu estava usando uma fantasia, mas a última coisa que quero é
chamar a atenção para a minha idade. Remexo as coisas até
encontrar o que procuro: meias-calças cor creme. Meu collant preto
mais sexy com malha entre o busto e a gola, e renda nos ombros. A
parte da gola fica presa na nuca, deixando a maior parte da parte
superior das costas exposta.
Passando os dedos no cabelo, separo os cachos dourados,
desejando ter um batom vermelho-escuro para parecer sofisticada.
Jasmine adora maquiagem, então costumo pegar emprestado da
maleta dela. Como ela não está aqui, tenho que me contentar com
brilho labial cereja e algumas gotas de hidratante com cor nas
bochechas.
Verifico para ter certeza de que Aidan não está em nenhum
lugar à vista e depois saio do quarto na ponta dos pés.
O barulho dos talheres fica mais alto enquanto desço a
escada dos fundos, a mais próxima da cozinha. Não reconheço
nenhuma das pessoas que cercam a área de Paolo. Eu me pergunto
se algum dos funcionários de Aidan sabe o que está acontecendo
aqui esta noite. Jen deve saber. Não consigo imaginá-lo planejando
uma festa tão elaborada sem a ajuda dela.
Ao sair do ambiente comprido em que fica a louça fina para a
sala de jantar, encontro uma cena em andamento. Um homem nu
deita de bruços na toalha de mesa enquanto quatro mulheres se
revezam batendo nele com vários utensílios de cozinha.
Arquejo quando uma das mulheres coloca uma luva de látex,
fazendo com que as quatro olhem na minha direção.
— S-sinto muito — gaguejo, enquanto o calor preenche
minhas bochechas. — Só estou passando.
Uma ruiva segurando uma espátula de silicone sorri para
mim.
— Não faz mal, querida.
Saio correndo da sala de jantar e entro na sala de estar do
outro lado do corredor. O bar no canto que costuma ficar sem
funcionários agora tem pessoas servindo bebidas. Peço ao barman
algo não alcoólico e ele me diz que não estão servindo álcool hoje à
noite, o que faz sentido. Você não gostaria que um bando de
dominadores bêbados se atrapalhasse com chicotes e correntes.
O barman me serve uma soda limonada numa taça de
champanhe. Bebo devagar, de olho em Aidan ou em qualquer outra
pessoa que pareça familiar. A maior parte da atividade real de BDSM
parece estar ocorrendo em quartos de hóspedes ou outros espaços
designados, como a academia.
Se os quartos são destinados para aqueles que querem
brincar em particular, a academia é aonde vão para deixar suas
bandeiras da excentricidade ondularem ao vento.
Um perfume almiscarado preenche o ar pegajoso e úmido —
sem dúvida o efeito de tantos corpos cobertos de suor em vários
estágios de nudez. Grande parte do equipamento regular de
exercícios foi trocada por outros equipamentos, alguns dos quais vi
em vídeos pornôs, como o banco de palmadas e a plataforma de
suspensão para a amarração de cordas shibari, e outros que não
faço ideia do que são.
Não sei para onde olhar enquanto absorvo toda a atividade
do ambiente. Estou cercada por seios e traseiros nus. Nunca vi um
pênis em carne e osso, e agora mal posso virar a cabeça sem
encontrar pelo menos um apontando para mim.
Um homem me olha com curiosidade enquanto se acaricia
acima da boca aberta de outro homem. Meu corpo se enche de
calor. Choramingos, gemidos e as batidas firmes de palmatórias
passam um por cima do outro até que não consigo nem ouvir meus
próprios pensamentos. Apenas os sons de corpos molhados e
suados durante o sexo e os gritos desesperados de dor.
Essas pessoas querem ser amarradas e chicoteadas, eu me
lembro. É por isso que vieram aqui.
Gotas de suor se formam sob meus braços e entre meus
seios enquanto progrido lentamente pelo cômodo. Uma pequena
multidão se reuniu em direção ao canto de trás, onde batidas
rítmicas que soam como tambores me chamam como um ritmo que
eu poderia dançar. Eu me pego balançando enquanto circundo a
multidão, procurando uma maneira de entrar para que possa ver o
motivo de terem se aglomerado.
Por fim, vejo uma abertura e entro. Meus pulmões esquecem
como funcionar.
Vejo Aidan vestido com calças pretas de corrida e nada mais,
nem mesmo meias.
E Fiona, ou alguém que tem um corpo parecido de costas,
algemada a uma grande cruz de madeira em forma de X. Seu cabelo
escuro foi trançado e enrolado em um coque, expondo as costas
avermelhadas — tornadas mais vermelhas a cada novo toque do
açoite de couro do punho de Aidan.
Eu os observo, extasiada, a respiração superficial. Deveria
sair antes que Aidan me veja.
Mas não posso me obrigar a virar as costas.
Não consegui parar de pensar no que ouvi da última vez que
estive nesta casa. Agora por fim estou vendo com os próprios olhos.
Por sorte, Aidan parece focado na tarefa em questão.
Aproveito esta rara oportunidade para olhar livremente para seus
braços poderosos e costas tonificadas. Fiona geme enquanto ele
muda o ritmo de açoitamento, arqueando o pulso na forma de um
oito.
Essa deve ter sido a técnica que Fiona se referia na noite em
que veio visitar. Ou, sendo mais específica, a versão invertida dessa
técnica, para a qual ele muda quando os gemidos se transformam
em choramingos. A mira dele muda para baixo, golpeando a bunda
da mulher e concedendo as costas um alívio. A calcinha rosa que ela
está usando facilita ver a reação da pele a cada um dos golpes de
Aidan.
Depois de cerca de um minuto, ele para e coloca o açoite em
uma mesa ao lado da cruz, depois pega uma vara fina de madeira.
Li sobre as varas. Como são dolorosas. Como podem ser
punitivas.
Estremeço quando Aidan abaixa a vara, deixando uma linha
vermelha no traseiro de Fiona. Ela grita. Presto atenção esperando
escutar uma palavra de segurança e observo sinais sutis de que a
mulher quer que ele pare, mas Fiona não faz nenhum. Ele bate nela
de novo. Eu o vejo bater nela cinco vezes no total, absorto por
completo. Ela está chorando — quase aos prantos —, mas não está
implorando para ele parar.
Penso em todas as vezes que fui atingida quando não pedi,
além da agonia que fiz meu corpo passar em nome da arte. Eu
tenho sorrido através da minha própria dor desde que me lembro.
Que alívio seria poder chorar e choramingar sem remorso,
como Fiona está fazendo agora.
Aidan descansa a mão entre as omoplatas da mulher e ela
logo se acalma. Ele tira as algemas dos tornozelos de Fiona e depois
dos pulsos. Ela se ajoelha no chão na frente dele, o rosto cheio de
lágrimas.
Eu me pergunto se ela vai chupá-lo. Meu estômago
embrulha. Por mais que eu queira ver mais de Aidan, acho que não
consigo assistir a isso.
Caindo sobre os cotovelos, Fiona toca a testa no topo dos pés
dele, depois se levanta. Enquanto Aidan pega uma toalha para
limpar o suor do rosto, um homem mais velho que eu não tinha
notado na borda da multidão se aproxima de Fiona com uma guia.
Ele prende no aro da coleira da mulher, acariciando suas bochechas
coradas.
— Essa é a minha boa garota — o homem diz. Ele beija a
testa dela. Fiona sorri, quase brilhando de satisfação. Percebo que o
homem deve ser o marido dela. Qual era o nome dele mesmo? Não
tenho muito tempo para refletir, enquanto o olhar de Fiona se
desloca em minha direção.
O sorriso da mulher vacila. Ela se lembra de mim.
Eu me viro e volto para a multidão, mas o número de
espectadores deve ter aumentado enquanto eu observava. Há
muitas pessoas para contornar. Tento passar por um homem com
uma máscara de cachorro e acabo sendo empurrada.
Limonada cai da taça de champanhe em uma camisa de
aparência cara pertencente a um homem com cara de rico.
Cabelos escuros. Olhos escuros. Pele morena e lábios
carnudos. Seu olhar perfura minha compostura como uma flecha.
Este homem irradia dominância e algo mais. Algo primitivo…
— Sin-sinto muito — gaguejo. — Eu pago…
— Você vai pagar. — O sotaque dele é forte, mas não consigo
saber de que lugar. Ele passa a mão grande em volta do meu
pescoço. — Na verdade, vou levar sua pequena…
— Dante — a palavra ressoa por toda a academia,
interrompendo todos os outros sons. A multidão em nosso canto se
dissipa em um instante, abrindo espaço para Aidan se aproximar.
Meu lábio inferior treme. Nunca o vi tão lívido, mas ele não
está dirigindo sua ira para mim. Ele está apontando para o homem
que tem a mão em volta da minha garganta.
— A menos que você queira perder essa mão — Aidan rosna
—, recomendo que a solte.
Os convidados de Aidan se mexem inquietos, sussurrando
entre si. Dante semicerra os olhos para Aidan, depois me olha com
perspicácia, como se estivesse avaliando meu valor antes de decidir
me deixar ir.
— Ela me deve uma camisa — Dante diz, depois se afasta.
Sinto a presença de Aidan ao meu lado como a rajada de
calor de um forno. Meu pulso dispara. Ele vai me perguntar o que
diabos estou fazendo aqui, e não importa o que eu diga a ele, será
vergonhoso.
Porque eu quero as mesmas coisas que você… E quero que
você faça comigo. Não consigo encontrar o olhar dele.
— Eu só queria…
— Aqui não — Aidan diz. — Lá em cima. Agora.
Quando Fiona me puxou de lado para me dizer que tinha
visto Grace na multidão, não quis acreditar nela. Depois de tudo o
que a garota passou, o abuso que sofreu nas mãos do pai, a última
coisa que precisa ver é o tutor açoitando uma mulher para sua
diversão e a dos presentes.
No instante em que meu olhar se fixou na mão de Dante ao
redor da garganta de Grace, meu corpo entrou em ação. Eu me
orgulho de ser paciente e controlado em todas as áreas da minha
vida.
Mas, naquele momento, um interruptor foi acionado.
Dante é meu amigo há quase uma década. Até emprestei
minhas submissas para ele de vez em quando.
E estava pronto para quebrar todos os cinco dedos dele para
removê-los do pescoço de Grace.
Eu a faço subir as escadas à minha frente, sem tirar os olhos
dela por um instante. Meus colegas dominadores e eu temos regras
rígidas sobre não permitir hóspedes menores de idade nas festas.
Não há como olhar para Grace e não ver o quão inocente e intocada
ela é, mas também posso ver por que meus convidados podem
presumir que ela está aqui para brincar. Os collants justos que ela
insiste em usar não deixam nada para a imaginação. A primeira vez
que a vi dançar, não tive dificuldade em discernir o tamanho e a
forma exatos de seus mamilos. Sem mencionar a abertura pouco
profunda entre as pernas.
Se ela fosse minha filha, a faria usar um maldito traje de
esqui sempre que praticasse em público. Mas Grace não é minha
filha, e com certeza não é minha. Sou responsável pelo seu bem-
estar até que atinja a maioridade, mas ela não me pertence.
Essa situação me deixa cambaleante. Meu corpo ainda está
zumbindo da cena da qual acabei de sair e meu cérebro não teve
tempo de fazer a transição para longe do modo Dom.
Grace faz uma pausa no topo da escada, aguardando minha
nova direção com olhos arregalados e ansiosos. Ela está nervosa, e
não a culpo por se sentir assim. A última vez que uma submissa veio
à casa, Grace ficou abalada com os sons que ouviu. Agora ela me
testemunhou açoitando as costas de uma submissa, não acho
estranho que esteja alerta.
Aponto na direção do quarto de Grace e a sigo para dentro,
fechando a porta ao entrar.
Ela se vira para me encarar, segurando as mãos.
— Você não deveria estar aqui esta noite — digo.
— Minha aula de ballet foi cancelada. Decidi voltar mais cedo.
— Você deveria ter ligado primeiro.
— Não tenho seu número. E mandei uma mensagem para
Jen quando saí da escola, mas ela não respondeu.
— Isso foi um descuido.
Esta tarde, instruí explicitamente para Jen tirar a noite de
folga, o que incluía uma ordem direta para desligar o telefone do
trabalho.
Respiro fundo e me estabilizo, desejando ter pensado em
vestir uma camisa. No momento, acho o olhar sem piscar de Grace
enervante. Não consigo me livrar da sensação de que fui virado do
avesso. Coisas que deveriam ser mantidas em segredo agora estão
em plena exibição.
— Sinto muito que você tenha que testemunhar isso.
— Eu não — ela diz, tão baixinho que quase não escuto. — O
que você fez na academia. Foi isso o que você e Fiona estavam
fazendo na noite em que te ouvi, não foi?
— Foi. — Depois de tudo o que ela viu esta noite, não faz
sentido não ser sincero. — Tenho certeza de que você tem
perguntas e farei o meu melhor para respondê-las.
Algo na maneira como ela está me olhando faz meu coração
bater mais rápido. Conheço aquele olhar, aquele desejo bruto e cru.
Ela quer algo que não acha que pode ter. Algo que ela tem medo de
pedir.
— E se eu quisesse que você fizesse isso comigo?
Pisco duas vezes antes que suas palavras se registrem por
completo.
— Quer que eu te açoite?
— Tenho lido sobre BDSM e assistido a filmes e vídeos de
instruções. Sei que gosto de agradar as pessoas, mas estou
começando a pensar que é mais profundo do que isso. Acho que
gostaria de… servir alguém.
A imagem mental de Grace ligada a uma Cruz de Santo
André cintila na minha mente. Se eu ainda não estivesse zumbindo
como um motor deixado em marcha lenta, teria mais facilidade em
deixar a imaginação de lado.
— Observando você com o açoite — ela continua. — Mexeu
comigo. Eu acho… não, eu sei que quero te servir.
De todas as reações que esperava que ela tivesse, isso nem
está na mesma direção. Grace me viu açoitar e bater em uma
mulher e, em vez de apreensão, aquilo… mexeu com ela.
Passo a mão pelo rosto, lutando para aceitar o que esse raio
de sol está me dizendo.
Ela quer ficar de joelhos, quer ser amarrada, açoitada e
chicoteada.
E quer que eu, seu tutor, faça isso com ela.
Cada parte racional do meu corpo está me criticando para
não encorajá-la. Se um dominador viesse até mim e dissesse que
estava pensando em tomar uma garota tão jovem, eu o incentivaria
a encontrar alguém mais velho. Se ele recusasse, eu o expulsaria da
minha festa —, mas não antes de tornar quase impossível para ele
colocar as mãos quebradas e maltratadas em qualquer um, muito
menos em uma garota menor de idade.
— Você é muito jovem para praticar BDSM — digo.
— Tenho quase dezoito anos.
— Quase é diferente de ter — rebato. — Mesmo se você
tivesse idade suficiente, eu seria a pessoa errada para te treinar.
— Você é a pessoa perfeita. — Ela se move em minha
direção. — Você é paciente e compreensivo, e não perde a paciência
com pequenas coisas. Parece que você faz isso há muito tempo.
— Há mais tempo do que você está viva.
— Viu? É exatamente isso que quero dizer. — Grace sorri,
indiferente à minha referência não tão sutil à nossa diferença de
idade. — Eu confio em você, Aidan. Não consigo me imaginar
confiando em alguém tanto quanto confio em você, sobretudo agora
que sei que é isso que você gosta.
— Como saber que gosto de machucar as pessoas me torna
mais confiável na sua opinião?
— Porque você só machuca pessoas que querem se
machucar.
— E você está me dizendo que quer que eu te machuque? —
Eu a estudo de perto. Sua excitação cobre todo o rosto. As pupilas
dilatadas e a maneira como seus lábios se separam enquanto ela
considera sua resposta.
Ela pressiona uma mão trêmula no centro do meu peito.
— Quero que faça o que quiser comigo.
Minha temperatura interna aumenta.
Grace não quer apenas que eu a açoite e bata nela, embora
esses atos sejam criminosos. Ela quer que eu faça todas essas
coisas e depois a foda.
O pensamento desperta uma fome dentro de mim que pensei
ter acabado.
Sexo e fetiche não poderiam viver mais separados um do
outro em minha mente. Eu nem fico mais duro durante as cenas.
Mas observando enquanto Grace afunda os joelhos no tapete,
sentindo seus cabelos dourados roçarem o topo dos meus pés, meu
pau não pode deixar de enrijecer.
— Por favor — ela diz, sua respiração aquecendo os dedos
dos meus pés.
A única resposta aceitável é não. De jeito nenhum. Então,
por que não posso dizê-la?
— Levanta, Grace.
Deslizo as mãos nos bolsos da calça de moletom, prendendo
a ereção de uma maneira que espero que ela não perceba enquanto
se senta nos calcanhares.
Ela me encara com olhos que brilham à luz da lâmpada, os
dedos flexionando as coxas. O desespero fica melhor nela do que
deveria poder. Eu sabia que ela ficaria ainda mais bonita de joelhos,
mas não percebi o quanto eu ansiava por vê-la assim.
E eu me odeio por isso. Grace tem 17 anos. Ela precisa de
cuidado e apoio, não de bondage e espancamentos. Mas o desejo de
ver como ela seria amarrada à minha cama na masmorra está
escorregando pelas rachaduras na minha compostura.
Preciso sair deste quarto, ir para longe da tentação. Não
consigo pensar direito enquanto o sangue está endurecendo meu
pau tão perto do rosto de Grace.
— Venha ao meu escritório depois do café da manhã amanhã
— digo a ela. — Vamos retomar essa discussão.
— Você está dizendo que vai pensar sobre isso?
Seus olhos se arregalam. Ela não esperava que eu pensasse
no assunto, mas o abordou de qualquer maneira. Admiraria sua
coragem se isso não me assustasse pra caramba.
— Estou dizendo que falaremos sobre isso amanhã.
— Tudo bem. — Ela está tentando esconder a animação, mas
é como uma presença na sala. O sádico em mim não consegue
resistir a cutucá-la.
— A resposta correta é sim, senhor.
Ela arqueja, e o olhar em seu rosto me faz querer deslizar
meu polegar entre seus dentes.
— Certo — ela diz. — Quero dizer, certo, senhor.
Começo a sair, parando quando estou a meio caminho da
porta.
— Não quero vê-la fora deste quarto de novo esta noite —
digo.
Ela abaixa a cabeça.
— Sim, senhor.
Deus me ajude.

A concentração é inútil na manhã seguinte. Não consigo


parar de pensar em Grace desde que a deixei em seu quarto.
Por sorte, Jen está lá para direcionar minha atenção como
uma professora guiando um aluno inquieto de volta ao caderno de
exercícios. Ela apareceu bem cedo, à frente da equipe de limpeza,
transbordando desculpas por ter perdido a mensagem de Grace.
— Ainda não acredito que desliguei o celular.
Olho para ela, sentada em frente à mesa, e a lembro:
— Eu te disse para tirar a noite de folga.
— Devia pelo menos ter verificado as mensagens antes de ir
para a cama. Espero que a chegada inesperada de Grace não
tenha… atrapalhado a noite.
Atrapalhar não podia nem descrever a situação. Sua presença
enviou uma onda de choque por todo o meu mundo
meticulosamente compartimentado. O que ela viu ontem à noite, os
desejos que ela confessou… mudou tudo.
Não toquei em mais ninguém pelo resto da noite depois que
saí do quarto de Grace. Não quis, o que é estranho, considerando
que fiquei tanto tempo sem esse tipo de liberação.
Depois que o último dos funcionários do buffet saiu e a casa
ficou em silêncio, tomei um banho, fui para a cama e tentei em vão
deixar o sono me distrair da única outra alma da casa. Minha mente
se recusou a ser acorrentada à cama. E vagou pelos corredores,
para o quarto de Grace, onde a lembrança dela de joelhos ainda
estava fresca.
A fantasia deveria ter parado por aí. Nem deveria ter
começado, mas com certeza não deveria ter progredido para
imaginá-la usando minhas algemas, ou recebendo meu açoite,
minha chibata, minha mão descendo com força em sua bunda nua.
Seu corpo flexível e moldado pelo ballet se contorcendo e se
mexendo, pedindo por mais…
Antes que eu percebesse, estava me esfregando no colchão
como um menino na infância. Era como se tivesse me convencido de
que, ao não tocar no meu pau, não estava me masturbando com a
memória de Grace quase implorando para que eu a reivindicasse.
Não transo com minhas submissas, mas ela não sabe disso.
Nas últimas semanas, ela tem pesquisado o estilo de vida,
assumindo que sou como os dominadores que viu em filmes e livros.
Dominadores que seguem uma surra forte com uma foda ainda mais
forte.
O interesse de Grace em BDSM não é o problema. É sua
idade e inexperiência, a ingenuidade inata.
O que aconteceu com a mãe do meu filho foi resultado da
minha própria ignorância. Você pode tomar todas as precauções
possíveis e ainda acabar prejudicando irreparavelmente alguém de
maneiras que não pretendia. E negligência à parte, não há escassez
de demônios por aí. Predadores se passando por dominadores,
procurando explorar carne inocente.
O pensamento de Grace se envolver com um descuidado ou
um dominador abusivo apodrece como carne podre no fundo do
meu estômago. Ele se agita, provocando raiva e pavor até que eu
passe mal.
Não vou deixar nada assim acontecer com ela. Uma batida
soa na porta do meu escritório.
Meus músculos ficam tensos. É claro que ela está acordada
mais cedo do que o normal hoje.
— Deixe-a entrar — digo a Jen.
Jen me olha com curiosidade, depois se levanta para atender
a porta.
— Grace, querida — ela diz com gentileza. — Entre.
Minha pupila entra no cômodo, seu olhar imediatamente
atraído para o meu. Ela sorri, nervosa. Seu vestido cor creme é solto
e termina logo acima dos joelhos. Meu olhar mapeia o terreno
exposto de sua pele, as panturrilhas e os ombros tonificados. O vale
pouco profundo entre seus seios, deixado nu pelo decote em forma
de V, implora para ser acariciado por cera quente.
— Devo preparar uma xícara de chá para vocês dois? — Jen
pergunta.
Fecho o notebook e me levanto atrás da mesa.
— Isso não será necessário — digo a Jen. — Nos dê alguns
minutos.
— Claro.
Minha assistente dá um tapinha no ombro de Grace ao sair
do escritório. Grace me dá com outro sorriso tímido.
— Bom dia.
— Feche a porta — digo, e ela mal pisca os olhos antes de
fazer o que mandei. Faço um gesto para a área de estar onde nos
sentamos juntos pela primeira vez no dia em que ela chegou à
minha casa. — Sente-se.
Ela reivindica um lugar no sofá desta vez para que possa
cruzar as pernas debaixo dela. Eu não me sento na mesma hora.
Quero aproveitar a visão panorâmica que minha posição superior
oferece por mais um momento.
— Como você dormiu?
— Não muito bem — ela responde. — Você?
— Também não.
Ela muda de posição no sofá, liberando uma das pernas. Não
parece intencional da sua parte, mas meu olhar é automaticamente
atraído para o membro nu.
— Aidan — ela começa. — Quero me desculpar por invadir
sua festa.
— Você não sabia que eu estava dando uma.
— Eu sei, mas eu poderia ter ficado no quarto e esperado até
que acabasse para te encontrar. Sei que minha presença deve ter
arruinado sua noite.
— Sem dúvida alterou o curso da noite.
Sento-me na cadeira em frente a ela. Embora não dissesse
que a presença de Grace arruinou minha noite, ter uma menor no
evento colocou a mim e aos meus convidados em risco. Mais
importante, isso a colocava em risco de estar lá sem conhecer as
regras da masmorra.
Em nossa comunidade, todas as submissas sem coleira são
consideradas disponíveis por qualquer dominador. É uma regra
deixada clara para todos os hóspedes antes de consentirem em
participar de uma festa. Dante acreditava que estava no seu direito
de punir Grace por derramar uma bebida nele. Se ela fosse outra
pessoa, ninguém teria pestanejado, embora alguns tivessem ficado
para assistir.
— Você gostaria de ter ficado no quarto?
Ela morde o lábio, considerando. Se ela quiser se retratar de
qualquer coisa que fez ou disse ontem à noite, agora é sua chance.
— Não.
Ela não está recuando, o que significa que ainda quer isso,
embora o que estou disposto a oferecer talvez não seja o tipo de
acordo que ela imaginou para nós.
Não posso garantir a segurança de Grace se ela fizer isso
com estranhos. Qualquer idiota arrogante pode colocar calças de
couro e se chamar de dominante sem se preocupar em se educar
dos riscos envolvidos. Como guardião de Grace, é minha
responsabilidade garantir seu bem-estar. Se ela é minha, posso ficar
de olho nela mais do que se fosse apenas minha protegida.
— Se eu concordo em aceitar você — digo —, é com a
aceitação e compreensão de que sei o que é melhor para você,
como uma nova submissa. Presumindo que ainda é algo que você
quer.
Seus lábios se afastam quando seu peito se eleva.
— É sim.
— Isso é apenas para fins de treinamento. Uma chance de
aprender com alguém experiente. Haverá regras e instruções para
você seguir, tanto aqui quanto enquanto estiver na escola. Você vai
me chamar de senhor a partir de agora quando estivermos sozinhos,
a menos que eu diga o contrário, e me referirei a você como
pequenina.
— Certo. — Ela suspira a palavra, seu olhar centrado na
minha boca. — Eu, hum, sinto que provavelmente deveria dizer que
sou… virgem.
— Não preciso saber nada sobre isso.
— Ah. — Ela franze o cenho, confusa.
Não posso acreditar que esse raio de sol me ofereceria algo
tão precioso quanto seu corpo intocado. Não vou negar. Pensar em
tirar a virgindade de Grace me deixa duro, da mesma forma que
pensar em amarrá-la e açoitá-la me deixa duro. Devo ter uma veia
masoquista secreta se estou disposto a convidar esse tipo de
tentação para minha vida. No entanto, suspeito que esse arranjo
não durará além de seu décimo oitavo aniversário, uma vez que
perceba que não posso lhe dar tudo o que ela quer em um
dominador.
Eu me mantive sob controle por mais de vinte anos, três
meses é apenas um piscar de olhos em comparação.
— Não preciso saber disso porque não vou transar com você
— explico. — Na verdade, nem vou te tocar.
Grace abre a boca e depois fecha. Como previ, ela não tem
certeza do que fazer com minha oferta.
— Vou te treinar como uma submissa de servidão — digo. —
Você sabe o que isso significa?
— Mais ou menos.
Vejo-a fazendo a anotação mental para pesquisar o termo
assim que eu permitir que ela saia.
— Isso significa que eu lhe darei tarefas para concluir e
instruções para seguir, e você completará essas tarefas com o
melhor que puder. — Desde que seus pais faleceram, Grace ficou à
deriva. Posso lhe dar um alicerce. Manter a garota no caminho certo
até ela entrar na faculdade. — Quando fizer uma tarefa direito, será
recompensada. Se falhar, tentará outra vez.
Inclino-me para a frente, apoiando os cotovelos logo acima
dos joelhos.
— Se você me desobedecer — acrescento —, será punida.
Ela arqueja tão baixinho que mal consigo perceber.
— Como serei punida?
— Não do jeito que está imaginando.
Suas bochechas assumem um adorável brilho rosa.
— Você vai me açoitar como fez com a Fiona?
— Eu não estava punindo Fiona quando a açoitei. E te açoitar
exigiria te tocar, e já disse que não vou fazer isso.
Grace mordisca a unha do polegar. Minha bailarina inteligente
está fazendo o possível para analisar meu raciocínio, para entender
por que estou propondo essa versão mais leve de algo com o qual já
me viu comprometido por completo.
— Você acha que sou muito jovem.
— Porque você é muito jovem. Sei que não foi isso que
imaginou, mas é o que estou oferecendo agora. Você ainda quer me
servir, Grace?
Sei que deveria esperar que ela recuperasse o juízo e
voltasse aos seus filmes e livros. Seria mais simples para nós dois.
Mas, nisso, o sádico e o protetor em mim estão de acordo: Grace
está mais segura comigo do que estaria com qualquer outra pessoa.
— Sim, senhor — ela diz, sorrindo.
O alívio toma conta de mim, deixando um rastro de
antecipação. A criatura radiante sentada no meu sofá é minha.
— Eu só tenho uma pergunta.
— Qual?
Coloco o tornozelo direito sobre o joelho esquerdo, na
esperança de tornar mais difícil para ela ver como minhas calças
ficaram apertadas.
— Se você não vai me tocar, então o que vamos fazer?
Agora é a minha vez de sorrir.
— Você, pequenina, vai fazer sua lição de casa.
Estou começando a me perguntar se todo esse lance de
submissa de servidão é apenas uma manobra para me fazer estudar
mais.
Já se passaram cinco dias desde que concordei em servir
Aidan, e tudo o que ele me fez fazer foi sentar no tapete do
escritório e fazer a lição de casa.
Ainda jantamos juntos, e ele se juntou a mim para o café da
manhã duas manhãs seguidas. Ele parece gostar de me ver fazendo
coisas do dia a dia. Mas enquanto antes, eu o pegava olhando e
Aidan desviava o olhar, agora não faz mais isso. Ele me estuda sem
reservas por cima da borda do copo ou unindo as pontas dos dedos.
Demorou um pouco para me acostumar. Agora me sinto inquieta se
ele está no ambiente e não está me observando.
Jen suspeita que algo está acontecendo. Ela não disse isso
abertamente, mas tenho certeza de que está se perguntando por
que comecei a passar tanto tempo no escritório de Aidan.
Ainda tenho que falar sobre isso com Jasmine.
Aidan não me instruiu a não contar a ninguém sobre nós,
mas gosto da ideia de ser seu segredinho. Eu me sinto como um
tesouro no bolso dele que ninguém mais sabe. Algo que ele pode
alcançar ao longo do dia e com os dedos — figurativamente falando.
Quando ele disse que não ia me tocar, ele não estava exagerando.
Ele não me tocou desde que me ajoelhei e implorei para que
ele fosse meu Dom.
Ainda não sei como fiz isso. Era como se meu corpo de
repente esquecesse de como sentir vergonha. Fiquei chocada com o
quanto fui descarada, como me permiti ser honesta e exposta.
Desde aquela noite, sinto como se minhas entranhas tivessem sido
renovadas como o interior de uma casa. Não sou a mesma pessoa
que era quando cheguei aqui pela primeira vez.
Por exemplo, eu não costumava me masturbar com
frequência. Compartilhar um quarto durante grande parte do ano
torna difícil encontrar tempo para ficar sozinha. Agora que tenho um
quarto só para mim, faço isso todas as noites. Em algumas, duas
vezes. Existo em um estado constante de excitação sempre que
Aidan está no cômodo, ou sempre que estou pensando nele, o que é
a maior parte do tempo.
Não consigo imaginar que fique satisfeito em me ver escrever
redações e ler Hamlet. Comecei a suspeitar que minha atração podia
ser unilateral, até a manhã em que senti seu olhar aquecido em
minhas pernas nuas.
Esparramada no tapete com o caderno de exercícios de
cálculo, finjo não notar seu interesse ao cruzar e descruzar as
pernas. Ele esfrega o lábio inferior, sem tirar os olhos de mim.
No dia seguinte, faço questão de usar um vestido ainda mais
curto.
Quero provocar uma reação. Qualquer reação que não seja
esse comportamento sério. Quase me entreguei a ele em uma
bandeja, e até agora, ele parece contente em me deixar definhar,
sem me provar. Não é que eu queira que quebre a promessa, só
quero algum tipo de sinal de que ele quer isso também. Que não
está apenas me enganando, esperando que eu fique entediada e
decida acabar com tudo isso antes mesmo de ter a chance de
começar.
Estou no meio de conceder a ele uma visão bem generosa da
parte interna das minhas coxas quando ele fecha o notebook e diz:
— Saia.
Franzo o cenho.
— Por quê?
Sua mandíbula se contrai.
— Porque eu mandei.
— Mas ainda não terminei meu dever de casa.
— Você pode terminar em outro lugar.
Meu coração fica apertado. Pensei que estava procurando
qualquer reação, mas no fundo, não era isso que eu esperava. Aidan
não parece zangado, mas sem dúvida oscila na beirada de alguma
coisa.
Repreendida por completo, pego os livros e saio de fininho do
escritório.
Na manhã seguinte, volto e me encontro trancada do lado de
fora. Bato de leve na porta. Depois do que parece uma eternidade,
Aidan responde, sua expressão calma como um lago.
— Você precisa de alguma coisa? — ele pergunta.
— Só estou aqui para fazer minha lição de casa.
Dou a ele meu sorriso mais educado. Ele cruza os braços
sobre o peito.
— Não me lembro de dizer para você voltar.
Tecnicamente, ele não me disse para voltar. Eu esperava que
meu banimento terminasse com o início de um novo dia. É óbvio
que eu estava enganada.
— Quando posso voltar?
— Quando estiver pronta para desistir do controle.
Abraço o notebook, confusa.
— Eu não entendo.
— Aproveite o dia para pensar sobre isso — ele diz, depois
fecha a porta.
A decepção repousa como um tijolo no meu peito. Faz meus
passos ficarem mais pesados enquanto caminho para a sala de estar
do andar principal. Distraída demais para estudar, descanso os
braços na mesa e a cabeça nos braços, enquanto olho pela janela.
Pensei ter desistido do controle na noite em que me ofereci a
Aidan. Fiz tudo o que me pediu para fazer. Tomo um café da manhã
equilibrado e apareço no horário com as tarefas e me mantenho
ocupada até o almoço. Então treino na academia até o jantar. Eu me
certifico de estar na cama às dez horas, mesmo que não esteja
cansada.
Cumpri sua agenda, completei a lista de tarefas simples. Ele
tem que querer mais de mim do que pontualidade e boas notas.
Há tantas coisas que eu poderia fazer por ele que não
envolvem tocar. Eu poderia me ajoelhar a seus pés o dia todo ou
algemar meus próprios tornozelos à cadeira no jantar. Poderia
dançar pela casa com nada além das minhas sapatilhas de ponta
depois que todos os outros fossem para casa.
Quando peguei Aidan olhando para minhas pernas, pensei,
finalmente, sei o que ele quer que eu faça. Tentei dar mais de algo
que ele não pediu explicitamente, mostrando-lhe partes do meu
corpo que pensei que gostaria de ver. Em vez de acreditar na
palavra dele, tentei pressioná-lo, e Aidan respondeu me expulsando.
Vergonha me corrói por dentro. Aidan tem razão, eu não
desisti do controle. Implorei para que ele me colocasse em uma
posição onde eu pudesse servir e, assim que me senti um pouco
entediada, tentei mudar o cardápio.
Envolvo os braços na cintura e descanso a testa na mesa de
madeira fria. Ontem, só conseguia pensar em como estava cansada
da nossa rotina. Eu daria qualquer coisa para estar de volta ao chão
de seu escritório com meu notebook e livros escolares agora.
Naquela noite, no jantar, abaixo o garfo no meio da refeição.
— Sinto muito, senhor.
Aidan demora a girar a massa artesanal que Paolo fez no
garfo.
— Pelo quê, pequenina?
— Sinto muito por… — Calor sobe pelo meu pescoço. —
Vestir saias curtas em seu escritório e tentar…
— Tentar, o quê?
Ele levanta o copo de uísque, mas não bebe.
Claro que ele vai me fazer dizer isso. Afinal, ele é um sádico.
— Tentar provocá-lo com minha saia curta. — Minhas
bochechas parecem que podem explodir em chamas. — Foi imaturo
e manipulador. Esse não é o tipo de submissa que eu quero ser.
Passei a tarde toda pensando em como poderia ter me
deixado desrespeitá-lo. Preciso que Aidan entenda que meu
raciocínio não decorre apenas da impaciência.
— Meu pai era imprevisível — acrescento. — Tentei me
treinar para antecipar as coisas que ele queria, para reconhecer as
mudanças em seu humor. Estou tentando fazer o mesmo com você,
mas você é ainda mais difícil de ler.
— Não seria mais simples apenas me perguntar?
— Seria, mas quero ser capaz de antecipar suas
necessidades.
— A compreensão intuitiva vem com o tempo. Além disso,
pensei ter deixado claro que essas necessidades específicas não
fazem parte do nosso acordo.
Olho para o meu prato de macarrão semiacabado.
— Eu sei.
— Mas?
Meus ombros sobem e descem com um suspiro.
— Preciso saber se você também quer isso. Que não está
apenas me fazendo um favor.
— Se eu não quisesse isso, não teria concordado.
— Então por que parece que você está me enganando? Como
se não estivesse me dominando. Está apenas me enrolando, me
fazendo estudar e chamando de fetiche.
Ele aperta o queixo entre o polegar e o indicador.
— Como você quer que eu te domine, pequenina?
Meu peito aperta. Amo tanto o apelido que deu para mim.
— Não sei — respondo, o que não é verdade. Passei
incontáveis horas imaginando todas as maneiras que eu gostaria que
ele assumisse o controle de mim. Tenho certeza de que Aidan sabe
que estou mentindo, mas ele não fala nada. — Me dando ordens, eu
acho. Me mandando fazer coisas.
— Eu tenho te mandado fazer coisas. Você só não gosta das
coisas que te mandei fazer.
— Não é que eu não goste. Se você me dissesse para limpar
seu escritório de cima a baixo, eu não gostaria, mas pelo menos
sentiria que estava fazendo algo importante.
— Manter boas notas não é importante?
— É. Mas eu estaria fazendo isso mesmo se não estivesse te
servindo. — Pego o garfo e o coloco de volta. — Quero ser
desafiada.
— Desafiada. — Ele estuda meu rosto. — Como?
Se ele não vai me tocar, então pelo menos quero sentir
alguma coisa.
— Quero que me obrigue a fazer coisas difíceis.
— Você continua usando essa palavra, coisas. — Ele toma um
gole do copo e volta a comer, sua expressão pensativa. Não faço
ideia do que está passando pela cabeça de Aidan agora, e está me
matando não poder apenas entrar em sua mente e descobrir. Depois
de um tempo, ele diz: — Assim que terminarmos aqui, gostaria que
você se juntasse a mim no nível inferior.
Olho para ele, minha curiosidade despertada.
— Sim, senhor.
Depois de uma leve sobremesa de frutas com chantilly, sigo
Aidan até o porão, passando pela sala de recreação e de TV. Quando
chegamos à lavanderia, me pergunto se ele vai me pedir para lavar
as meias.
Mas em vez de me levar às máquinas, ele para em frente à
adega.
Minha garganta se fecha. Ele abre a porta, acionando o
recurso de luz automática, e faz um gesto para eu entrar.
— Não é o tipo de desafio que você tinha em mente,
pequenina?
— Como está se sentindo agora? — Aidan pergunta.
Meus pensamentos aceleram como carros de corrida numa
pista. Estamos na adega. A porta está fechada. Não quero estar
aqui, mas é aqui que Aidan quer que eu esteja, então estou fazendo
o máximo para ficar quieta, mesmo que não consiga ficar calma.
— Aflita.
— Quão aflita?
Encontro seu olhar investigador.
— Muito ansiosa.
— Acha que vai ter um ataque de pânico?
Meus ombros se erguem em direção aos ouvidos.
— Ainda não. Você estar aqui comigo ajuda.
A única vantagem dos quartos apertados da adega é que isso
nos obriga a ficar juntos. Mantenho o foco em Aidan. Enquanto ele
estiver aqui, posso resistir à tempestade. Embora fosse mais fácil se
ele estivesse me segurando.
— Seu pulso está acelerado?
— Está.
— Seu coração. — Ele baixa o olhar para o meu peito. — Está
batendo rápido?
Agora que ele mencionou…
— Está — sussurro, embora não pelas razões que ele possa
pensar.
— Quero que você conte de cem para baixo em sua cabeça
— ele diz —, respirando fundo pelo nariz. Quero que prenda a
respiração por dois segundos, depois expire pela boca por quatro.
Talvez sejam apenas as paredes se fechando, mas posso
jurar que ele está ainda mais perto agora do que um minuto atrás.
— Eu não sabia que você ensinava ioga no seu horário de
folga — brinco.
Sua boca se inclina para um lado.
— O humor pode ser um mecanismo de defesa eficaz. Mas
gostaria de ver você ter uma abordagem mais consciente.
Relutante, começo a contar — noventa e nove, noventa e
oito, noventa e sete — prendendo a respiração e expirando devagar,
do jeito que ele me disse. Depois de cinco respirações, posso sentir
o corpo relaxar uma quantidade infinitesimal. Então Aidan começa a
respirar fundo comigo, combinando meu ritmo.
Meu peito incha. Olhando para os olhos focados de Aidan,
esqueço onde estou e há quanto tempo estou aqui. Tudo o que sei é
que o homem por quem eu faria qualquer coisa quer que eu inspire,
segure e expire.
— Como você se sente agora, pequenina?
Faço um inventário da minha mente e do meu corpo,
observando como meus pensamentos parecem ter parado de dar
voltas. Meu batimento cardíaco não está tão frenético e, embora
meu estômago esteja cheio de pequenas criaturas aladas, nem tudo
é por causa do medo.
De alguma forma, no espaço de alguns minutos, Aidan fez
algo que eu nunca consegui fazer quando estou prestes a entrar em
pânico: fazer meu corpo se submeter à minha vontade. Ou, no caso,
a vontade dele.
— Um pouco melhor — respondo.
— Bom. — Sua boca se curva, e ostento sua aprovação como
um adesivo brilhante em forma de estrela no topo do meu relatório.
— Vou te deixar sozinha agora e fechar a porta.
Meu pulso dispara.
— O quê?
— Quero que você pratique a contagem e a respiração por
conta própria.
— Não.
Balanço a cabeça, já nem sequer um pouco melhor.
— Estarei lá fora.
Ele se dirige para a porta e, sem pensar, agarro sua mão.
— Aidan, por favor — imploro.
Ele olha para nossas mãos juntas e depois para mim. Há uma
potência em seu olhar que bate como um vento forte e me faz
afastar a mão. Eu não deveria ter tocado nele sem permissão.
— Sinto muito, senhor. Estou me sentindo aflita.
O olhar de Aidan se suaviza.
— Sei que você está com medo, pequenina, mas você disse
que queria ser desafiada.
Pedi que me desafiasse. Só não pensei que ele começaria
esta noite, ou com algo tão… aterrorizante.
— Quanto tempo preciso ficar aqui?
— O quanto aguentar.
— Então é melhor eu ir embora com você, porque não vou
durar dez segundos aqui sozinha.
Aidan esfrega a mão no maxilar, sua expressão pensativa.
— E se eu te desse um incentivo?
— Como o quê?
— Se conseguir ficar aqui, sozinha, por dois minutos, vou lhe
conceder uma recompensa e você pode escolher.
Olho de soslaio.
— Posso escolher?
— Algo dentro do possível.
Minha mente mergulha em possibilidades. Quero fazer isso
por ele, mas também quero fazer isso por mim. Se eu puder
aprender a moderar as reações do meu corpo a espaços apertados e
escuros, não terei que verificar compulsivamente se cada cômodo
em que entro tem pelo menos uma janela ou duas saídas.
E já sei como quero ser recompensada.
— Tudo bem — digo a ele. — Vou tentar.
Não demoro mais de trinta segundos para estar quase me
arremessando na porta.
Por sorte, a trava não está emperrada desta vez.
Aidan está esperando lá fora, assim como prometeu.
— Não consigo — murmuro, lágrimas escorrendo pelo rosto.
Ele tira um lenço do bolso e entrega para mim.
— Talvez não hoje — ele diz. — Mas você vai tentar de novo
amanhã.
Na manhã seguinte, depois do café da manhã, Aidan me diz
para me juntar a ele lá embaixo.
Sei para onde está me levando. Não quero segui-lo, mas
também não quero decepcioná-lo. Ao entrarmos na lavanderia,
parando diante da entrada da adega, sinto meu estômago começar
a embrulhar.
— Por favor, não me faça entrar lá de novo.
Ele me olha, pensativo.
— Por que isso te assusta?
— Você sabe o motivo.
Sinto minha pulsação palpitar nas têmporas, já estou com
falta de ar.
— E você sabe que minha adega não é o armário que sua
mãe costumava te colocar. Então por que isso te assusta tanto?
Fecho os olhos quando as memórias inundam meus sentidos.
Escuridão ao meu redor. O cheiro de amaciante e da própria urina. O
som da minha mãe chorando e do meu pai gritando. Ela implorando
para ele parar, para mostrar misericórdia.
Todo o meu corpo ficando tenso…
— Ouvi meu pai bater nela — respondo. — Ouvi tudo e não
fiz… nada.
A mão de Aidan descansa no meu ombro.
— Você era uma criança, Grace — ele diz. — Não há nada
que pudesse ter feito.
Balanço a cabeça. No fundo, sei que não poderia tê-la
salvado, mas isso não torna a dor menos real.
— Apenas fiquei sentada, ouvindo, esperando que tudo
terminasse.
— Como você se sentiu?
Ele tira o lenço para mim e limpa minhas bochechas.
— Triste. Assustada… indefesa.
Aidan oferece um pequeno sorriso.
— Mas você não está mais indefesa.
Encontro o seu olhar. Ele parece acreditar no que está
dizendo, que sou mais forte do que sinto. Quero acreditar também.
Que não sou a mesma garotinha sem poder ou livre arbítrio. Se não
quero que a raiva do meu pai sangre neste e em todos os outros
aspectos da minha vida, então preciso me mostrar que estou pelo
menos no caminho de me curar.
Fazendo um gesto para que Aidan abra a porta da adega, me
preparo para a onda de emoções que me espera. Com um último
olhar tranquilizador, ele fecha a porta, me deixando sozinha no
cômodo mais assustador da casa.
Antes que as memórias possam me inundar, me forço a me
concentrar na minha respiração. Inspire, segure por dois segundos,
expire por quatro segundos. De novo e de novo.
Mais de uma vez, sinto o pânico subir pela garganta como
bile. Mas empurro para baixo. Eu me contenho. Não sou uma
garotinha escondida em um armário. Estou na casa de Aidan,
cercada por suas coisas, e ele está bem atrás desta porta,
esperando por mim. Quero deixá-lo orgulhoso.
Quero deixar nós dois orgulhosos. Por fim, a porta se abre.
Aidan se afasta para que eu possa sair para a lavanderia.
— Você se saiu muito bem, pequenina.
— Obrigada, senhor.
Estou chorando, mas as lágrimas são silenciosas.
Ele me devolve o lenço para que eu possa enxugar os olhos.
Suspiro quando suas mãos chegam aos meus ombros.
— Sei como foi difícil para você. Pode dizer o que quer de
recompensa.
Estou tão emocionalmente cansada que nem coro quando
digo a ele:
— Um beijo.
Ele suspira e balança a cabeça, embora não em resposta a
mim. Mais como se soubesse onde isso ia acabar, e ele deixou ir lá
de qualquer maneira.
— Tudo bem, pequenina. Você vai ganhar seu beijo.
Meu pulso bate como asas de beija-flor. Inclino o rosto para
trás e fecho os olhos. É isso. Ele por fim vai me beijar.
Suas mãos desaparecem. Ao som de passos recuando, meus
olhos se abrem.
— Aonde você vai? — pergunto para as costas de Aidan.
— Você não especificou que queria hoje.
Bufo quando ele vira o corredor.
— Maldito sádico — murmuro.
Jen folheia o programa no colo.
— Diz aqui que Grace se apresentou como a Fada Açucarada
em O Quebra-Nozes no Natal passado. Eu adoraria ter visto isso.
Seu namorado, Ethan, dá um tapinha no joelho dela.
— Tenho certeza de que não vai ser a única vez que você
poderá vê-la dançar, amor.
Folheio distraído meu próprio programa, de olho no palco. A
companhia de ballet do teatro local que Grace escolheu para sua
performance de Giselle é pequena e antiquada, mas não é sem
personalidade. Verifico a hora no celular, dois minutos para a
apresentação começar.
Já faz quase um mês desde que Grace voltou para a escola, e
não há como negar que senti falta dela por perto. Mas, desta vez,
estar separados abriu novos caminhos para conversarmos.
Parte do nosso acordo inclui mensagens diárias de bom dia e
boa noite. Sou rigoroso com a hora de dormir dela, mas nos últimos
tempos achei difícil desligar o telefone.
O que começou como um método de manter o controle sobre
Grace enquanto ela estava na escola se tornou um quebra-gelo. É
mais fácil ser sincero com a ajuda de uma tela e alguma distância
entre duas pessoas. Compartilhei coisas com ela que quase nunca
discuto. Histórias sobre minha mãe e crescer com Calvin. As selfies e
fotos que pedi para Grace enviar são um vislumbre inestimável de
partes de sua vida que não posso presenciar. Sou encorajado com
frequência por sua ânsia de se dividir comigo.
Também estou mais confuso do que nunca.
Não é assim que me comporto com minhas submissas,
enviando mensagens na cama e trocando histórias. Eu me tornei o
cão de Pavlov, toda vez que o celular vibra, verifico o remetente,
mesmo que eu saiba que a mensagem não será de Grace. Nos meus
relacionamentos baunilha anteriores, passei longos períodos sem ver
ou falar com minhas parceiras.
Se Grace ficar mais de cinco minutos sem responder a uma
mensagem, começo a andar de um lado para o outro.
Parei de namorar depois do erro que cometi com a mãe de
Liam. Quando me abri de novo para a possibilidade de um
relacionamento, eu estava com vinte e poucos anos e não tinha mais
um olhar sonhador e inexperiente. Fiquei endurecido pela solidão e
pelo arrependimento. Não poderia ter intimidade com uma mulher
sem a sombra do meu erro pairando sobre mim. É um sentimento
que ainda não perdi. Mas, de alguma forma, nessas trocas íntimas
fugazes com Grace, sou capaz de esquecer a escuridão do passado.
Seu sorriso quente é brilhante o suficiente para fazer as
sombras correrem.
Um silêncio cai sobre o público quando as luzes piscam e
escurecem. As notas de um violino atravessam o silêncio. As cortinas
se abrem e revelam um cenário de aldeia pintado, enquanto dois
jovens da idade de Grace sobem ao palco em trajes de época
modificados.
Depois de alguns minutos, Grace emerge das coxias, girando
e saltitando.
Eu a vi praticar essa dança inúmeras vezes em shorts e
collants. Vê-la com o figurino completo é como ver uma borboleta
emergir do casulo. Nunca foi tão claro para mim que seu corpo foi
feito para fazer isso.
O jovem que interpreta o príncipe tenta beijar sua mão.
Grace se afasta e ele dança atrás dela. Observo o vaivém da troca
com tanta atenção que tenho certeza de que ela pode sentir meu
olhar aquecendo-a à distância. Ela sabe que Jen e eu estamos na
plateia. O que não sabe é que planejei um presente especial para ela
e a amiga esta noite. Algo que acho que os pés delas vão apreciar
depois de um dia longo.
A música muda e mais dançarinos se juntam a Grace e ao
príncipe no palco. Reconheço a amiga de Grace, Jasmine, das
postagens das redes sociais de Grace. A companhia de ballet é
pequena, e alguns dos dançarinos mais jovens perdem as entradas,
mas no geral, fazem uma apresentação impressionante.
Após um intervalo de quinze minutos, seguido pelo final
dramático, a performance termina e os dançarinos recebem aplausos
de pé.
Vou até o saguão com Jen e Ethan, onde os dançarinos
saíram para conversar com o querido público. O sorriso de Grace
consome todo o seu rosto assim que nos vê.
— Você foi maravilhosa, querida — Jen comenta, puxando-a
para um abraço.
— Obrigada — Grace diz. — Estou tão feliz que vieram.
Seu olhar ansioso pousa em mim, aguardando minha reação.
— Jen tem razão — digo. — Você foi incrível.
Ela sorri.
Os pais de Jasmine vêm para parabenizar Grace por um
trabalho bem feito. Grace nos apresenta. Pelo visto, os Hills eram
amigos de Calvin e Evelyn. Posso dizer que a mãe de Jasmine está
curiosa para saber por que Calvin nunca me mencionou. Por sorte,
eles não podem conversar por muito tempo.
— Quais são os planos das duas para o resto da noite? —
pergunto às meninas depois que os pais de Jasmine vão embora.
— Não tenho certeza — Grace diz. — Minha mãe costumava
levar Jas e eu para jantar e comemorar, então acho que vamos
comer?
Seu sorriso vacila. O desejo de envolvê-la em meus braços
quase toma conta de mim.
Esfrego a mão no cabelo.
— Bem, imaginei que os pés de vocês estariam destruídos
depois da apresentação de hoje, então pedi a Jen que reservasse
para as duas um tratamento de pedicure particular após o
expediente no spa mais próximo.
— Sério? — O sorriso de Jasmine se alarga.
— Com certeza — digo. — Vamos pegar comida no caminho.
Grace se despede de Jen e Ethan, e encontro um banco para
me sentar enquanto as meninas correm para os camarins para se
trocar. Depois de tirar o tutu e colocar vestidos casuais, Grace e
Jasmine me seguem até o carro. É uma noite quente, que abracei
completamente tirando o conversível do depósito.
Jasmine acaricia o lado do Benz antes de pular no banco
traseiro.
— O tio Aidan tem um carro bem chique — ela diz.
Grace lança um olhar para a amiga.
— Ele não é meu tio.
Pegamos comida tailandesa a caminho do spa, onde as
manicures nos cumprimentam de forma calorosa. Assim que nos
sentamos, começam a trabalhar nos pés das meninas, mergulhando
e esfregando as panturrilhas e solas com produtos de cheiro doce.
Grace e Jasmine devoram o jantar enquanto me deliciam com
histórias de performances passadas e erros. Nunca vi Grace parecer
tão relaxada. Eu me obrigo a não estudá-la tão abertamente quanto
faria se estivéssemos em casa. Jasmine não tem certeza do que
pensar de mim, e não sei o quanto Grace contou do nosso acordo.
Se está se referindo a mim como tio Aidan, só posso presumir que
não muito.
As meninas voltam para o conversível com os calcanhares
amolecidos e as unhas dos pés pintadas. Parando em frente ao
dormitório, saio para abrir a porta e dobrar o banco do passageiro
para que possam sair.
Jasmine sai primeiro. Antes que minha pequenina possa
deslizar do assento, eu digo:
— Há mais uma coisa que preciso te dar, Grace.
O canto da boca dela se contorce. Ela se vira para Jasmine.
— Subo daqui a pouco.
Jasmine olha entre nós dois, me agradece pelo jantar e pela
pedicure, depois entra no prédio. Deslizo para o assento que ela
acabou de desocupar e fecho a porta.
— Você se divertiu esta noite, pequenina?
Ela me domina com um de seus sorrisões.
— Muito. Tudo estava perfeito. Muito obrigada.
— De nada.
Ficar sentando tão perto dela em um lugar público parece
absolutamente perigoso.
Os pontos altos de seu rosto brilham sob a luz dos edifícios
próximos. Sua beleza é de outro mundo. Ela cruza as pernas na
minha direção, atraindo meu olhar para a extensão de sua coxa.
— O que você precisava me dar?
Passo o dedo pelos lábios.
— Prometi um beijo, lembra?
Os olhos dela se arregalam. Grace faz que sim.
Estou ciente de que beijá-la agora quebraria todas as regras
que estabeleci para mim. Mas fiz uma promessa e sou um homem
de palavra.
Agarrando seu tornozelo, puxo seu pé para o meu colo. Ela
arqueja quando deslizo a sandália, desnudando a sola macia. Estou
convencido de que posso ouvir o coração dela batendo do outro lado
do banco de trás, supondo que não seja o som do meu próprio
coração se agitando no peito.
Meu pau fica duro. Não deveria tocá-la, mas aqui está Grace,
sentada, com o pé esguio na palma da minha mão, uma
representação perfeita da própria garota. Delicadeza tenra e força de
ferro forjadas por pura vontade.
Fechando os olhos, embalo a sola dela e dou um beijo suave
no topo do pé. Um gemido flutua de sua boca como uma pena.
Eu deveria me afastar, mas o que eu quero é puxá-la para
mais perto e beijá-la com mais força. Quero trilhar um caminho com
a língua, do interior do tornozelo até a parte interna da coxa. É
preciso cada resquício do meu controle para forçar as mãos a se
moverem, enfiando o pé de volta na sandália e abaixando-o no
chão.
Beijá-la provavelmente foi um erro. Parece que estou fazendo
muitos desses nos últimos tempos, o que deve me colocar em
alerta. Quanto mais tempo passo no mundo dela, e quanto mais ela
desliza para o meu, mais eu a quero, não apenas como alguém para
brincar. Quero a garota, a dançarina, o raio de sol no concreto
rachado onde as margaridas conseguiram crescer.
Mas não é assim que funciona. Se eu a quero como minha
submissa, não posso aceitá-la como amante. É assim que faço há
vinte anos, e como tem que ser.
— Mande uma mensagem antes de ir para a cama.
Pego a maçaneta. O clique da trava parece sacudi-la de
qualquer transe em que esteja.
— Posso ir para casa hoje? É sexta.
— É sexta — respondo. — Mas a formatura é no próximo
mês. Você deve valorizar o tempo que resta com seus amigos.
Saio do carro e mantenho a porta aberta para ela.
— Mas a formatura está tão longe.
Ela sai do carro com um suspiro. Algumas semanas é tudo o
que resta entre Grace e o fim deste capítulo de sua vida. Daqui a
menos de um mês, ela vai se mudar para minha casa em tempo
integral. E logo depois disso, vem uma data ainda mais importante.
Três de junho, seu décimo oitavo aniversário.
— Vai chegar antes que você perceba — digo.
— Chega — a mulher de cabelo azul chora. — Não aguento.
— O que é isso, você diz? — Matthew coloca a mão atrás da
orelha. — Não consegui ouvir você por causa do som do seu
orgasmo.
Dante fuma seu charuto.
— Acredito que ela disse, me foda mais rápido.
— Bem, se ela insistir. — Matthew aumenta a velocidade da
máquina de sexo que atualmente entra e sai da boceta da submissa
de cabelo azul. Ele a colocou de quatro em sua sala de estar, com os
pulsos e tornozelos algemados a barras espaçadoras.
Já vi Matthew fazer isso com essa submissa em particular
muitas vezes antes. Ela começa a resistir, e não, “pare” e “não faça”,
não são suas palavras de segurança.
Ela geme como uma sirene e implora que ele pare.
Dante se levanta do sofá curvo de couro onde ainda estou
sentado e retorna um momento depois com uma garrafa de
conhaque. Ele enche o copo e se oferece para completar o meu. Eu
balanço minha cabeça. Vou encontrar meu filho em menos de uma
hora e quero me sentir firme.
Volto minha atenção para a parede de janelas e para o
horizonte da cidade de Nova York. Testemunhei e participei de
inúmeras cenas neste apartamento de cobertura. Em circunstâncias
diferentes, eu poderia achar as atividades divertidas, se não
totalmente excitantes.
Mas hoje estou aéreo.
Em três dias, Grace terminará o ensino médio. A menos que
ela decida se mudar para viver sozinha quando completar dezoito
anos, poderá morar na minha casa durante todo o verão.
Não vou conseguir tirar as mãos dela.
— Quero comprar uma coleira — digo.
Matthew me lança um olhar curioso.
— O que você tem em mente?
— Algo sutil e atraente que não sairá a menos que eu queira.
— Meus relacionamentos anteriores de dominador e submissas
foram todos em vários graus de casualidade. Há décadas não
preciso comprar nada mais elaborado do que uma coleira de
cachorro. Espero que meus amigos dominadores possam me indicar
um joalheiro discreto e de alta qualidade.
— Você já conversou com Jacob sobre isso? — Matthew
pergunta. Ele presume que pretendo entregá-lo a Fiona.
— Não é para ela — eu digo.
— Desde quando você tem um animal de estimação? —
Dante pergunta.
— Eu não tenho.
— Então para quem é? — Matthew pergunta e eu respiro
fundo.
— É para Grace.
Por um tempo, os gemidos do submarino e o zumbido
mecânico da máquina de sexo são os únicos sons na sala. Meus
amigos me encaram do jeito que eu estaria olhando para outro
dominador que acabou de admitir ter assumido uma submissa
menor de idade.
Matthew desliga a máquina e ordena que sua submissa fique
quieta.
— Quanto tempo? — ele pergunta.
— Alguns meses — digo a ele. — Eu não toquei nela.
— Mas você com certeza quer. — Dante cruza os braços.
— Se você não tocou nela — Matthew comenta —, o que
você tem feito?
— Ajudando-a a entrar em cena.
Os dois homens trocam um olhar tenso. Como amigo de
longa data e membro fundador da comunidade da qual todos
fazemos parte, devo-lhes uma explicação.
— Na noite da festa, Grace me pediu para ser seu dominador
— digo. — Disse a ela que ela era muito jovem. Conversamos e
finalmente decidi que era melhor ficar de olho nela do que arriscar
que ela tentasse fazer isso sozinha.
O olhar de Matthew se estreita.
— O que exatamente significa “ficar de olho nela”?
— Estipulando uma hora de dormir. Me certificando de que
ela faça a lição de casa. Tenho treinado ela como submissa ao
serviço. Mas o aniversário dela está se aproximando rapidamente...
— E você não consegue parar de pensar em toda aquela
carne sem marcas — Dante comenta.
Lanço um olhar firme em sua direção.
— Achei que nosso acordo iria seguir seu curso, mas ela está
prosperando. Quero treiná-la adequadamente, quando ela tiver
idade suficiente.
Matthew se serve de conhaque e bebe.
— Tem certeza de que é uma boa ideia, Aidan? Você não tem
uma submissa fixa há... Porra, quanto tempo faz?
— Vinte anos, mais ou menos.
— A coitada sabe no que está se metendo? — Dante zomba.
— Pretendo discutir os detalhes com ela quando entregar a
coleira.
— Quero dizer, ela sabe que você não vai transar com ela?
Supondo que ainda seja sua intenção permitir que frutas maduras
murchem na videira...
Eu levanto meu copo fingindo aplausos.
— Na verdade, sim.
Dante balança a cabeça.
— Nesse caso, você deveria comprar um vibrador para ela
combinar com a coleira. Vou te enviar um link por mensagem.
Espero na cafeteria por mais de meia hora sem nenhuma
mensagem ou ligação do meu filho. Como é um dia bom e o
apartamento dele não é muito longe, decido caminhar para ver se
ele dormiu até tarde. Aguento muita coisa no que diz respeito a
Liam, porque sei que seu ressentimento é justificado. Mas minha
tolerância às travessuras infantis tem suas limitações.
Seu colega de quarto atende a porta. A julgar pelo cabelo
despenteado do homem, tenho a impressão de que minha batida o
arrancou da cama.
— Estou procurando por Liam — digo.
— Ele não mora mais aqui.
Seguro a porta antes que ele possa fechá-la.
— Desde quando? — pergunto.
O outro homem faz uma careta.
— Desde que ele enlouqueceu e começou a balançar uma
arma como se fosse um psicopata. O maluco do caralho brigou com
um dos meus amigos e apontou uma arma para ele. Mandei ele
arrumar suas coisas e dar o fora.
— Onde ele está agora? — Esta é a primeira vez que ouço
falar de Liam possuir uma arma, e não posso dizer que achei a
notícia reconfortante.
— Não sei. — Ele dá de ombros. — Não me importo.
Meu telefone vibra no bolso. Verifico o identificador de
chamadas: Liam. Agradeço ao seu agora ex-colega de quarto pelo
seu tempo e atendo a ligação.
— Ei — Liam fala. — Estou na cafeteria. Onde você está?
— Seu apartamento. Ou o que costumava ser seu
apartamento.
— Merda... — Ele suspira. — Sim, desculpe, perdi a noção do
tempo.
— Quer me contar o que diabos aconteceu? Ele disse que
você tinha uma arma.
Liam dá uma risadinha.
— Esse cara é um mentiroso. O amigo dele começou a briga
e levei a melhor. Agora ele está me chamando de psicopata para não
ter que devolver meu cheque calção.
Já posso sentir uma dor de cabeça surgindo entre meus
olhos. É difícil dizer pelo telefone se ele está me enganando. Como
regra geral, no que diz respeito à honestidade de Liam, acho que a
verdade geralmente fica em algum lugar à esquerda de onde quer
que ele a diga.
— Onde você está morando agora? — pergunto.
— Estou hospedado em um hotel. Mas isso não será uma
opção por muito mais tempo.
— O que aconteceu com o dinheiro que te dei no mês
passado?
— Tenho vivido disso. Não tive muita sorte no trabalho. — Ele
faz uma pausa. — Ei, você mora em Connecticut, certo? Não é muito
longe da cidade. Que tal eu ir ficar com você?
Eu me recuso a pensar em Liam e Grace coexistindo sob o
mesmo teto.
— Isso não é uma opção.
— Por que não? — ele pergunta. — Quanto vale o suas ações
hoje em dia? Duzentos, trezentos por ação? Aposto que você tem
uma bela mansão banhada a ouro com muito espaço de sobra.
Evitei compartilhar meu endereço exato com Liam por
questão de privacidade. Nunca gostei da ideia de ele aparecer na
minha porta sem avisar. Estou especialmente grato pela minha
discrição agora que Grace está em cena.
— Você não vai morar comigo, Liam.
— Não, claro que não. Por que você iria querer acordar todas
as manhãs e tomar café da manhã com o filho que abandonou?
Melhor deixá-lo ficar sem teto enquanto você dorme profundamente
em lençóis de mil dólares.
Eu massageio minha testa latejante.
— O que diabos você faria em Connecticut? Todos os seus
amigos estão aqui, não estão? Por que você não pode ficar com um
deles?
Há uma longa pausa no final de Liam.
— Porque não tenho amigos. — Esta resposta sombria é a
primeira prova real que observei de que ele é capaz de sentir outra
coisa senão despeito. Dito isto, não estou nem um pouco surpreso
com esta revelação.
Meu filho é um idiota.
Se ele fosse um pouco mais gentil e muito mais responsável,
eu ficaria feliz em colocá-lo no estilo de vida de sua escolha. Em vez
disso, jogo dinheiro nele sempre que me sinto culpado. É um
precedente insustentável de se estabelecer. Mas pelo menos se eu
souber onde ele mora, posso fazer o possível para evitar topar com
ele.
— Vou pedir para minha assistente encontrar um
apartamento para você.
— Um lugar com vista para o parque seria bom — ele diz.
Minha mão aperta o celular com o desejo de alcançá-lo
através do éter e sacudi-lo.
— Continue a procurar um emprego.
Como consegui trazer todas as minhas coisas para o campus
dentro de uma mochila e duas malas dobráveis? Pressionando
minhas roupas dobradas para tirar o máximo de ar possível delas,
percebo que estou prestes a empacotar a soma total de tudo o que
possuo.
Todas as minhas roupas de verão, meus bichos de pelúcia,
fotos de família emolduradas que não estavam armazenadas em
aplicativos ou no meu celular. Todas as fotos de bebê que minha
mãe tirou de mim desapareceram. Queimadas no incêndio que
varreu a casa de minha infância. Ruínas enegrecidas que cairão
oficialmente em minhas mãos no meu aniversário de dezoito anos.
Mas primeiro tenho que me formar.
Dentro de quatro horas receberei meu diploma do ensino
médio e darei um passo em direção à idade adulta, em direção à
liberdade. Ou, no meu caso, a liberdade de consentir em todas as
formas de submissão.
— Você pode me ajudar a fechar isso? — Jasmine pergunta,
também lutando com sua mala.
Abandono minhas próprias dificuldades de empacotamento
para sentar em cima de sua mala para que ela possa arrastar o zíper
por toda parte. Nenhuma de nós conseguiu relaxar o suficiente para
dormir por mais de algumas horas na noite passada, então
decidimos terminar de arrumar nossas coisas ao amanhecer.
— Obrigada — ela diz. — Quer ajuda com a sua?
— Por favor.
Depois que nossos sapatos e roupas estão fora dos armários
e guardados em segurança, passamos para as quinquilharias e
depois para nossos livros. Tecnicamente, temos até meados da
próxima semana para fazer as malas e tirar nossas coisas dos
dormitórios. Mas Jasmine quer voltar para casa para começar a se
preparar para sua próxima viagem à Alemanha, e estou ansiosa para
voltar para a casa de Aidan.
— Quando vocês viajam? — pergunto a ela.
— Em uma semana. — A mãe de Jasmine é professora de
antropologia na Brookstone University em Providence. Desde que
Jas era pequena, sua mãe insistia em levar sua única filha em
excursões de pesquisa como forma de incentivar Jas nos estudos.
Ela coloca uma pilha de livros de bolso na caixa que
marcamos como doação.
— Você sabe que pode vir conosco — ela fala. — Minha mãe
disse que o apartamento em Berlim tem três quartos.
Desde a noite da nossa apresentação de Giselle, Jasmine tem
sido cautelosa com Aidan. Eu poderia dizer que ela sentiu a tensão
entre nós no spa, e mais tarde, quando ele nos deixou no
dormitório.
Quando ele beijou meu pé...
Arrepios percorrem minha pele com a lembrança de sua mão.
Meus pés podem fazer coisas impressionantes, mas levam uma surra
no processo. Tenho bolhas e calosidades que pedi à pedicure para
não lixar completamente, sabendo que teria que reconstruí-los.
Meus pés não são o que eu consideraria bonitos, mas Aidan
queria beijar um. Eu nunca me senti mais valorizada ou excitada.
No segundo em que voltei para meu dormitório naquela
noite, Jasmine me perguntou:
“Você está transando com seu tio?” e meu coração quase
parou.
“Ele não é meu tio” lembrei a ela.
“Sério?”. Ela cruzou os braços. “É assim que você quer
jogar?”
Sentei na minha cama.
“Não é o que você pensa...”
“Se não é o que eu penso, então você não deveria manter
isso em segredo.”
“Não, quero dizer, é o que você pensa, mas é... outra coisa.”
Olhei para as unhas dos pés recém-pintadas. “Ele não me toca.”
“Eu literalmente acabei de vê-lo beijar seu pé.”
Eu me encolhi, meu rosto esquentando.
“Você estava nos observando?”
“Claro que sim, eu estava te observando, Grace. Estou
preocupada com você e não posso acreditar que você esconderia
algo assim de mim.”
Pensei nas coisas que escondi dela ao longo dos anos sobre a
raiva do meu pai. Coisas com as quais eu não queria sobrecarregá-
la.
“Sinto muito” eu disse calmamente. “Só não queria falar
sobre isso.”
“Falar sobre o quê? O que aquele canalha está fazendo com
você?”
“Aidan não é um canalha” eu disse. “Ele é um dominador.”
Ela piscou.
“O quê?”
“Você estava certa sobre os sons que ouvi. Ele gosta de
BDSM. Mas não vamos fazer sexo...” suspirei. “É difícil de explicar...”
“Você pode tentar, por favor?” Ela sentou ao meu lado na
cama. “Se ele está te machucando, podemos contar aos meus pais.
Eles vão chamar a polícia...”
“De verdade” eu disse. “Ele não está me machucando.”
Contei tudo a ela. Sobre a festa que invadi e como me
ajoelhei e implorei para que ele me treinasse. Como ele está me
obrigando a fazer minha lição de casa e me ajudando a superar
minha ansiedade.
Depois que o choque inicial passou, ela pareceu
tranquilizada. Mas posso dizer que ainda está desconfiada.
Colocando minha pequena pilha de livros na caixa de
Doações, digo a ela:
— Agradeço a oferta, Jas. Mas estou ansiosa para voltar para
a casa de Aidan. — Ofereço-lhe um sorriso. — Mas vou sentir muito
a sua falta. Prometa que enviaremos mensagens todos os dias e
videochamada pelo menos uma vez por semana.
— Claro. — Ela me abraça e aperta. — Mal posso esperar
para ser sua colega de quarto novamente em Jost.
Jas e eu tomamos café da manhã na área comum. A maioria
dos alunos já se mudou, dando ao grande espaço uma sensação de
vazio. Aqueles de nós que permanecem estão praticamente vibrando
com antecipação.
Depois do café da manhã, vestimos nossas roupas e capelos
e seguimos para o ginásio, nossa área de espera temporária, antes
de todos seguirmos, em fila única e em ordem alfabética, para a
grande tenda ao ar livre.
A cerimônia começa. Alguns discursos inspiram enquanto
outros arrastam. O Diretor Connors diz meu nome, Grace Evelyn
Whittaker, e é hora de eu atravessar o palco.
Meu pulso dança. Olho para o público e vejo Aidan e Jen na
primeira fila, atrás dos formandos. Jen acena para mim, enquanto
Aidan simplesmente observa, com um sorriso orgulhoso e de lábios
fechados adornando seu belo rosto. Eu sorrio para eles enquanto
aceito meu diploma e depois volto para o meu lugar. O sobrenome
de Jasmim — Hill — é antes da minha, então ela já está de volta em
sua cadeira, uma fileira à minha frente, quando chego lá.
Ela gira para falar comigo.
— Acho que se ele fizer você sorrir daquele jeito, eu poderia
ser persuadida a não odiá-lo.
Eu aperto seu ombro.
Assim que a cerimônia termina, encontro Jen e Aidan no
meio da multidão. Jen me abraça com força, do jeito que minha mãe
costumava fazer, e tenho que fechar os olhos com força para conter
as lágrimas.
Aidan me parabeniza, pegando minha mão e segurando-a.
— Precisa de ajuda para fazer as malas? — ele pergunta.
Balanço minha cabeça.
— Jasmine e eu terminamos cedo esta manhã. — Molho os
lábios. — Estou pronta para ir para casa.
Nós três vamos para o dormitório pegar minhas coisas. Na
saída do prédio, paro para me despedir de amigos e colegas de
classe.
Jen fala sobre a cerimônia durante todo o trajeto para casa.
Percebo que esta é a segunda vez hoje que me refiro à casa de
Aidan como lar, mas é assim que me sinto. Como se durante todo
esse tempo eu estivesse batendo minhas asas acima das árvores e
finalmente estivesse descendo para o poleiro.
Em casa, Benjamin leva minhas malas para o quarto.
Desembalo minhas roupas imediatamente, pendurando minhas
camisas e vestidos no armário para que não fiquem amassadas.
Estou arrumando meus sapatos nas prateleiras quando noto Aidan
parado na porta. Ele é tão alto e largo que quase preenche o
quadro.
— Não conversamos muito detalhadamente sobre seus
planos para o verão — ele comenta. — Há algo que você esperava
realizar?
— Na verdade, não — digo, embora esteja convencida de que
ele consegue ver através da minha indiferença os desejos imundos e
depravados que venho alimentando há meses. — Pretendo ficar em
forma, dançar o máximo que puder e, acho, cuidar do patrimônio da
minha família. Posso precisar de ajuda com a última parte.
Principalmente a casa, ou o que sobrou dela.
— Vou ajudá-la no que puder. — Ele dá alguns passos em
minha direção, com os braços cruzados e a coluna rígida, como se
estivesse se preparando para algo potencialmente difícil ou
desagradável. — Depois que os bens de sua família lhe forem
entregues, você será uma jovem muito rica.
Desde a morte dos meus pais, tenho vivido do dinheiro que
me deram no início do ano letivo, além das minhas próprias
economias e de transferências surpresa ocasionais de Aidan.
Atualmente tenho mais dinheiro na ponta dos dedos do que sei o
que fazer com ele.
— Com esse tipo de riqueza, você estará livre para viajar e
morar onde quiser — ele diz. Não me ocorreu pensar em morar em
outro lugar. Aidan quer que eu vá embora?
— E se eu não quiser morar em outro lugar? — Entrelaço os
dedos. — E se eu não quiser ser livre?
O olhar de Aidan procura o meu enquanto seus pés o levam
para mais perto de mim.
— Você quer ficar aqui, Grace?
Sinto como se estivesse na beira de alguma coisa, pegando
sua mão e torcendo para que ele pule comigo.
— Quero que você queira que eu fique — digo a ele.
Ele exala, sua postura relaxando. Fecho os olhos enquanto
ele traça meu queixo com as costas dos dedos, doendo, ardendo
para que ele responda.
— Quero que você fique, pequenina.
Meus lábios se curvam. Eu gosto muito de ser sua pequenina.
— Mas — ele começa —, se você vai morar aqui, vai precisar
de um estúdio adequado para dançar. Há um aqui perto que espero
que você ache adequado.
— Onde fica? — Uma das primeiras coisas que fiz quando
descobri que estava me mudando para Greenwich foi procurar
estúdios de dança próximos ao Google. Para minha decepção, o
mais próximo ficava a uma hora de carro da casa de Aidan.
Ele faz sinal para que eu o siga para fora da sala. Sigo atrás
dele, curiosa. Paramos diante de uma porta fechada no final do
corredor.
— Abra — ele diz, e eu abro.
A primeira coisa que noto são os pisos de bambu. Depois os
espelhos que cobrem as paredes e, por fim, a barra no centro da
sala.
Minha respiração fica presa no meu peito.
— Você fez isso por mim?
— Uma bailarina precisa de um lugar para praticar — ele
comenta.
Atordoada e sem palavras, entro em meu novo estúdio. Toda
a parede posterior é revestida por janelas, permitindo que a luz
natural penetre no piso de madeira.
A gratidão me preenche como hélio enchendo um balão.
Aidan renovou um cômodo inteiro de sua casa porque quer que eu
me sinta em casa. Sinto que poderia flutuar enquanto passo a mão
pela barra.
— Pedi a Jen que compilasse uma lista de possíveis
instrutores particulares para vocês dois entrevistarem — Aidan fala,
juntando-se a mim dentro da sala. — Se houver algo que você
gostaria de mudar ou personalizar, é só avisar.
Meu coração não é grande o suficiente para conter minha
apreciação. Jogo meus braços em volta de Aidan enquanto as
lágrimas começam a fluir.
— Obrigado, senhor — eu sussurro.
Espero que ele me dê um tapinha gentil e se afaste, mas ele
não o faz. Ele inspira, respirando-me em seus pulmões, enquanto
minhas lágrimas afundam no tecido de sua camisa. Avalio seu corpo
e quão sólido ele se sente contra mim. Como o topo da minha
cabeça repousa perfeitamente sob seu queixo.
Este é o mais próximo que já estivemos um do outro. Posso
ter iniciado o contato, mas é Aidan quem permite que ele persista.
— Por que sinto que tudo está prestes a mudar de novo? —
sussurro.
Seus lábios roçam minha têmpora.
— Já mudou, pequenina.
Do outro lado da cortina branca, Grace está tirando a roupa.
— Tenho mais algumas saias e uma linda camisola aqui para
você — Jen diz, com os braços cheios de roupas rendadas em tons
pastéis.
Estou sentado em um sofá de couro do lado de fora do
camarim de Grace, em uma boutique de roupas sofisticadas que
fechei para um passeio de compras particular. Uma vendedora se
oferece para encher minha taça de champanhe pela terceira vez,
claramente irritada porque Jen não a deixa chegar perto de Grace.
— Tem certeza de que não precisa de ajuda? — a vendedora
pergunta.
— Obrigada, estamos bem. — Jen mal olha para ela. —
Como estamos aí, querida? — A cortina se move e meu raio de sol
surge.
— Acho que gosto deste. — Grace gira em frente ao grande
espelho, rodando o vestido rosa com peônias brancas bordadas,
espalhando-se pelas pernas. É o quarto vestido que ela experimenta
nesta boutique, e um entre dezenas que experimentou esta tarde.
Posso dizer que Grace está cansada de fazer compras, mas ela é
educada e gentil demais para dizer isso em voz alta.
Pena que não me cansei de mimá-la.
Esta manhã, mandei ela e Jen para um spa de luxo na cidade
enquanto cuidava de algumas coisas no escritório. Parei no novo
apartamento de Liam a caminho de encontrar as mulheres para
almoçar; ele ainda não conseguiu um emprego, mas afirma estar
trabalhando nisso.
Em qualquer outro dia eu o teria pressionado, mas hoje não
é um dia normal. É aniversário de Grace e me recuso a me
preocupar com qualquer outra coisa.
Até agora, ela foi arrumada, mimada e regada com todos os
presentes que poderia desejar. Trufas gourmet e guloseimas das
melhores chocolaterias e padarias da cidade, saboreadas no convés
de um iate particular. Joias com diamantes, ingressos para o ballet e
sapatos, bolsas e roupas de grife suficientes para encher seu
armário.
Sei que esses presentes nunca poderão substituir os itens
pessoais que ela perdeu, mas espero que possam ajudá-la a se
sentir mais em casa sob meu teto.
Mas essa não é a única razão que tenho para ceder a ela.
— O que você acha, Aidan? — Grace pergunta.
Deixo meu olhar escorrer por seu corpo.
— Acho que você está incrível — digo a ela.
Suas bochechas brilham enquanto ela luta para suprimir um
bocejo.
A generosidade excessiva é uma forma sinistra de sadismo.
Tenho prazer na luta de Grace para equilibrar sua gratidão com sua
impaciência.
Durante as panquecas esta manhã, mencionei que tenho algo
especial para dar a ela esta noite. Grace passou a tarde toda
tentando arrancar detalhes de mim, mas minha boca é um cofre
trancado. Tudo o que ela sabe é que só pode ganhar depois do
jantar, o que estou adiando com outro passeio de compras.
Testemunhar a frustração passar como uma tempestade em
suas feições é mais atraente do que um strip tease — embora haja
uma parte de mim que adoraria desafiar essa noção. É uma parte de
mim que precisarei manter sob controle constante caso ela decida
usar minha coleira.
Não estou acostumado a ter que lutar contra meu corpo
porque não fico excitado durante as cenas e não me envolvo
romanticamente com mulheres que sabem que sou dominador.
Mas Grace tem talento para subverter minhas expectativas a
cada passo.
Minha atração por ela é uma complicação que estou disposto
a aceitar. Se eu tiver que escolher entre algemá-la na minha cama e
deixar minha marca por todo o corpo dela, ou fazer amor com ela no
estilo missionário e no escuro, escolherei a primeira opção.
Namorá-la me traria prazer, mas possuí-la... ter cada
centímetro de seu corpo glorioso sob meu controle, seria uma
recompensa muito mais doce.
Nas semanas desde que Grace voltou da escola, me permiti
tocá-la com mais frequência. Passo meu braço em volta dela no sofá
enquanto ela lê em voz alta um livro de sua escolha, ou acaricio sua
bochecha enquanto lhe desejo boa noite.
— Devo pedir às vendedoras que comecem a empacotar os
itens de Grace? — Jen pergunta. — Posso avisar Paolo que estamos
nos preparando para voltar.
Grace se anima com a menção do jantar, seu olhar sério.
— Tudo bem — eu digo.
Terminamos na boutique e voltamos para casa. Em algum
lugar ao longo do caminho, a mão de Grace encontra a minha no
banco.
— Obrigada, senhor — ela diz baixinho, para que só eu possa
ouvir.
Dou um aperto na mão dela.
— De nada, pequenina.
Em casa, Benjamin leva os despojos da nossa maratona de
compras para o quarto de Grace, e Jen lhe dá um presente: uma
caixa de música antiga com uma bailarina dançante que gira quando
a tampa se abre.
— Ela é tão delicada — Grace diz, claramente emocionada
por Jen comprar algo para ela. — Obrigada, Jen. Não precisava.
— Você merece, querida. — Ela abraça Grace com força. —
De nada. Estou de folga agora, mas volto amanhã de manhã.
Aproveite o seu jantar de aniversário.
Grace e eu nos sentamos à mesa de jantar onde Paolo
preparou uma refeição impressionante. Bife de lombo grelhado com
molho bearnaise, purê de batata favoritas de Grace e legumes
assados e salada de couve.
Assim que Paolo volta para a cozinha, tenho que esticar o
braço e passar os dedos pelo cabelo de Grace. Ela deve ter feito um
corte no salão do spa esta manhã, porque seu cabelo está ainda
mais rebelde do que o normal. Você pensaria que eu a estava
tocando em algum lugar íntimo, dada a maneira como ela se inclina
ao meu toque.
— Posso ter minha surpresa agora, senhor? — ela pergunta.
Passo meu polegar ao longo de sua mandíbula.
— Ainda não, pequenina. Coma o seu jantar.
Comemos e conversamos sobre aniversários anteriores.
Como sua mãe prometeu levá-la em uma viagem de meninas para o
seu grande aniversário. Faço uma nota mental para surpreendê-la
com uma viagem antes do final do verão.
Depois do jantar tem bolo de morango. Grace pega um
pedacinho e o devora, batendo o pé na perna da cadeira a cada
mordida. Como minha fatia sem pressa, como até a última migalha.
Enquanto lambo o resto da cobertura do garfo, sinto uma pontada
no peito. Destilo a emoção até seu elemento central: o medo.
Medo de que Grace recuse minha coleira, agravado pelo
medo do que acontecerá se ela aceitar.
Há coisas que ela vai querer de mim que eu não posso — não
vou — dar a ela, e Grace vai querer saber por quê. Não poderei
responder honestamente sem confessar os danos que seu paciente,
bom e metódico dominador é capaz.
Eu preferiria arrancar meu próprio coração do que contar a
ela a verdade devastadora. Claro, a ironia é que acabarei perdendo-a
de qualquer maneira. Não seria a primeira vez que uma submissa
terminava o nosso acordo porque queria uma relação sexual com o
seu dominador.
Mas a promessa de dor futura não é suficiente para me
dissuadir do caminho que escolhi, aquele que leva Grace de joelhos,
caso ela decida segui-lo.
Descanso meu garfo no prato.
— Vá se preparar para dormir — eu digo. — Irei ao seu
quarto em alguns minutos.
Ela desliza da cadeira e caminha afetadamente pelo corredor,
onde seus passos apressados traem sua excitação. Aproveito o
tempo para buscar a caixa plana e quadrada, embrulhada em papel
rosa, da gaveta da minha cômoda, junto com um pequeno alicate.
Bato duas vezes na porta do quarto de Grace antes de entrar.
Meu olhar a encontra, sentada na beirada da cama, vestindo
um pijama curto de renda branca que eu nunca a vi usar antes. Ela
deve ter comprado hoje.
Aponto para um lugar no tapete entre nós.
— Ajoelhe-se aí. Mãos em seu colo.
Ela se abaixa diante de mim, seu grande olhar azul preso na
caixa em minha mão. Ando lentamente em círculo ao seu redor,
estendendo a mão para capturar uma mecha de cabelo dourado em
meu dedo.
— Você me impressionou nos últimos meses — digo a ela.
Seu peito sobe, levantando seus seios. Não está frio aqui, mas seus
mamilos estão eretos. Imagino beliscá-los enquanto açoito seus
seios até que fiquem tão rosados quanto suas bochechas estão
agora. — Sua dedicação ao serviço excedeu em muito minhas
expectativas.
Ela sorri.
— Obrigada, senhor.
Depois de uma série de respirações para me acalmar, estendo
o presente dela.
— Feliz aniversário, pequenina.
Grace pega seu presente e rasga o papel. Levantando a
tampa, ela arfa quando seu olhar pousa no O-ring de platina,
suspenso em ambos os lados por delicadas correntes que terminam
em um mecanismo de travamento que está atualmente aberto.
— Depois que a coleira estiver em volta do seu pescoço, ela
não poderá ser removida sem danificar a corrente — digo a ela. —
Pense bem se deseja usá-la e não aceite a menos que esteja
disposta a se dedicar a mim, mente e corpo.
— Eu estive pronta para você esse tempo todo.
O desejo em sua voz me chama. Fecho os olhos, tenso pelo
momento que tenho temido.
— Há algo que você precisa saber primeiro — eu digo. —
Quando começamos isso, eu disse que não ia te foder. Isso não
mudou.
— Por que não? — ela pergunta, intrigada.
Engulo em seco. Não gosto da ideia de mentir para ela, então
busco a verdade misturada com um pouco de ambiguidade.
— Porque eu não transo com minhas submissas.
— Nunca?
Eu balanço minha cabeça.
— Nunca.
Grace franze a testa.
— Eu não entendo.
— É o jeito que eu faço as coisas. Porém, se quiser continuar
me servindo, você precisará aceitá-lo.
Ela estuda o colar, traçando o anel com a ponta do dedo.
— Você... fez isso com alguém?
— Já tive relações sexuais com pessoas com quem não
pratiquei perversão no passado. Reconheço que a perversão pode
ser excitante para muitas pessoas, mas não tocarei em você com o
objetivo de fazê-la gozar. — O medo de estar começando a perdê-la
acelera meu pulso. — Então, a menos que eu diga para não fazer
isso, você terá minha permissão para se tocar quando estiver
sozinha. E não tenho interesse em ver mais ninguém enquanto
estivermos envolvidos.
Grace morde o lábio enquanto considera as escolhas que
coloquei diante dela. Eu gostaria de saber o que ela está pensando,
ou poder adivinhar as coisas certas a dizer para convencê-la a ser
minha. Nunca senti isso investido em uma parceria BDSM,
especialmente em um estágio tão inicial.
Mas Grace não é qualquer uma. Ela é minha pupila, minha
família. Minha...
— Você fará todas as outras coisas? — ela pergunta. — A
servidão e o açoitamento?
— Tudo isso e muito mais.
Ela parece gostar dessa resposta. Meu peito aperta quando
ela tira o colar da embalagem forrada de veludo, estendendo-o para
eu pegar. Agarro a coleira, esperando que Grace não perceba o leve
tremor que percorre minhas mãos.
Ela levanta o cabelo, expondo o pescoço para mim. Coloco a
coleira em volta de seu pescoço e a seguro ali para que ela possa
sentir seu posicionamento e peso.
— Você jura se entregar completamente a mim? — pergunto
uma última vez. Preciso que ela tenha certeza antes de acionar o
mecanismo de travamento.
— Já sou sua, senhor.
Suas palavras desencadearam uma reação em cadeia. Mudar
para o modo dominador não é apenas uma transição mental. É uma
resposta de corpo inteiro. Eu fico mais reto, planto meus pés com
mais firmeza no chão. Minha atenção se concentra na minha
pequenina, até que ela se torna meu único foco. A pessoa mais
importante do meu mundo.
Tirando o alicate do bolso, vou atrás dela para poder prender
o colar no lugar. Fechando o mecanismo, sinto uma onda de
satisfação passar por mim.
Grace pertence a mim. Eu sou responsável por ela.
— Levante-se e vire-se para que eu possa olhar para você.
Ela faz o que mando. Tudo e todos fora deste momento ficam
em segundo plano enquanto ela sorri para mim. Descansando minha
mão em seus ombros, eu a levo até o espelho mais próximo para
que possa ver como fica a coleira em seu pescoço.
— Combina perfeitamente com você — eu digo. — Como
você está se sentindo?
Ela encontra meu olhar no espelho. Mais uma vez, fico
impressionado com o quão exposta ela fica em suas roupas de
dormir.
— Eu me sinto maravilhosa — ela diz. — Como se eu pudesse
finalmente relaxar, sabendo que você quer ficar comigo.
Ao contrário do que meu comportamento calmo sugere,
relaxamento é a coisa mais distante da minha mente — algo que ela
poderia facilmente perceber se se pressionasse contra mim. Esfrego
o tecido fino do short do pijama dela entre os dedos.
— É novo? — pergunto. — Não me lembro de você ter
experimentado hoje.
— Eu experimentei, mas não mostrei para você — ela
responde, com o olhar fixo no reflexo da minha mão tão perto de
sua coxa. — Eu queria que fossem uma surpresa.
— Uma surpresa ou uma tentação? — Passo as costas dos
dedos pelo braço dela. Grace respira fundo, suas bochechas ficando
vermelhas.
— Talvez um pouco dos dois. — Ela estremece, sem dúvida
se lembrando do que aconteceu na última vez que me tentar. — Me
desculpe senhor.
— Está tudo bem, pequenina. Que bom que você gosta de
surpresas.
— Por quê? — Grace arfa quando minha mão faz contato
firme com sua bunda.
— Porque vou gostar de manter a bailarina na ponta dos pés.
A mão de Aidan desce com força na minha bunda. Sou
sacudida pela força, como um raio atingindo o chão do lado de fora
da minha janela. Ele me bate novamente no mesmo lado, depois
duas vezes na outra bochecha.
Dor e calor se espalharam pela minha pele como fogo.
Acontece tão rapidamente que não tenho certeza se gosto
até aguentar mais alguns tapas. Mas quando começo a gostar, não
consigo parar de apertar as coxas.
Ele tem que perceber o efeito que seus golpes estão
causando em mim. Mesmo quando dói — especialmente quando dói
— ser tocada por ele parece uma recompensa.
Sua mão permanece na minha bunda antes que ele
finalmente se afaste. Mal tenho tempo de registrar a dureza
pressionando meu quadril antes que ele me guie até a cama. A pele
da minha bunda arrepia quando me sento, arrepios quentes que
ricocheteiam por toda a minha pélvis. Parece que há um punho
entre minhas pernas, apertando cada vez mais forte, chamando
minha atenção para o local que ele disse que não tocaria.
Mas pela intensidade do seu olhar, posso dizer que ele quer
fazer alguma coisa.
Aidan agarra a frente do meu pescoço, pressionando o colar
contra a minha pele. Seu olhar intenso me mantém refém.
— Você gostou muito disso — ele diz.
É uma declaração de fato, não uma pergunta, então não
respondo.
De repente, seus lábios estão nos meus. Eu arfo com o
contato inesperado, que ele interpreta como um convite para provar
minha língua.
Gemo baixinho em sua boca. Aidan percebe que este é meu
primeiro beijo? Ou é o meu segundo? Não tenho certeza se beijos
nos pés contam ou não.
Ele se afasta, respirando fundo, muito antes de eu estar
pronta para deixá-lo ir.
— A surra foi um teste — ele diz. — Eu sei que você está
acostumada a suportar a dor, mas nem toda dor é igual.
Se a surra foi um teste, então o beijo deve ter sido um
crédito extra.
— Como fui? — pergunto.
— Você passou com louvor — ele responde. — Assim como
eu sabia que seria.
Uma satisfação calorosa toma conta de mim.
— Quando você disse nada de sexo, tive medo de que você
também quisesse dizer nada de beijo. Estou feliz que não seja o
caso.
Contanto que eu possa beijá-lo, ficarei mais do que satisfeita
com tudo o que ele estiver disposto a me dar. O meio sorriso de
Aidan diminui como se tivesse acabado de se lembrar de algo
preocupante. Seja o que for, ele se livra rapidamente.
— É hora de você ir para a cama — ele fala. — Vou deixar
você escolher o que ler esta noite.
Pego um romance histórico no meu leitor digital e deslizo
para baixo das cobertas. Aidan se estica acima dos cobertores ao
meu lado, colocando o braço atrás do meu pescoço. Leio o livro em
voz alta, como tenho feito todas as noites durante semanas. Eu
normalmente não escolheria uma história com cenas de amor tão
atrevidas, mas sinto-me encorajada pela proximidade de Aidan e
pelo seu beijo.
Quando chegamos à parte em que o casal faz amor pela
primeira vez, ele não me manda pular. Mesmo quando meu rosto
está ardendo, ele me instrui a continuar lendo.
Cochilo no meio de uma frase algum tempo depois. Sinto
meu leitor digital deslizar entre meus dedos e vejo Aidan olhando
para mim. Ele coloca o aparelho na mesa de cabeceira e inclina meu
rosto para poder beijar meus lábios.
— Boa noite, pequenina.
— Boa noite, senhor — suspiro as palavras.
Quando ele levanta da cama, meu olhar é atraído como um
ímã para a protuberância em suas calças. Eu vejo, e ele sabe que eu
vi. Há quanto tempo ele está assim?
— Não se preocupe com isso — Aidan diz. Embora agora que
ele tocou no assunto, tudo que eu quero fazer é me preocupar com
isso.
Assim que ele sai do quarto, enfio a mão por baixo do cós da
do short do meu pijama e calcinha. Meu clitóris está tão sensível que
estou a meio caminho do paraíso em segundos.
Com a mão livre, traço as linhas delicadas do meu colar. As
correntes de cada lado do anel central, depois o próprio anel,
descansando confortavelmente na base do meu pescoço. É uma
peça leve, mas o significado por trás dela é substancial.
Eu pertenço a Aidan agora. Embora às vezes pareça que ele é
dono do meu coração desde o início. Eu me pergunto se é assim que
é o amor. Querer se entregar a outra pessoa, oferecer seu coração
ainda batendo em um prato para a pessoa.
O prazer cresce dentro de mim enquanto meus dedos
dançam sobre meu clitóris. Aidan não quer esta parte do meu corpo.
Estou tentando não levar isso para o lado pessoal. Ele deve ter seus
motivos e espero que um dia os compartilhe comigo.
Por enquanto, meu próprio toque será suficiente. Meu toque,
e a memória da surra de Aidan, e o gosto do seu beijo na minha
língua.
Bato a ponta da minha sapatilha de ponta no terraço de
pedra. Minha instrutora de ballet estará aqui em breve e quero estar
aquecida e pronta para dançar quando ela chegar. De alguma forma,
Jen conseguiu atrair uma estudante do terceiro ano da Jost
Academy, com algum tempo disponível neste verão, para vir até aqui
cinco dias por semana para treinar comigo.
Aidan e Jen estão trabalhando hoje no escritório de
Manhattan. Ele deu a entender que poderia trazer cupcakes da
Magnolia Bakery, já que ultimamente tenho sido especialmente boa
em seguir suas instruções. Na semana passada, Aidan me
apresentou diferentes objetos e sensações. Amarras de corda,
palmatórias e chicotes, além do que suas mãos habilidosas são
capazes de fazer.
Passar de quase não ser tocada para ser tocada quase o
tempo todo foi uma transição inebriante, que eu acolhi com
satisfação. Se ele pudesse manter os dedos no meu cabelo de
manhã até meia-noite, acho que o faria.
Claro, há lugares onde ele ainda não me toca. Ainda vai bater
na minha bunda, mas não vai explorar a fenda entre ela, e vai
açoitar minha boceta com o chicote, mas só se eu estiver de
calcinha. Na verdade, ele raramente me diz para tirar a calcinha —
longe da vista, longe da mente, suponho.
Às vezes acho que suas regras o frustram ainda mais do que
me enlouquecem. Ele parece estar constantemente evitando cruzar
as linhas que desenhou para si mesmo.
Ontem à noite, ele me levou ao seu quarto pela primeira vez.
Ao contrário do meu, que é todo em tons pastéis e cortinas
transparentes, o quarto dele é decorado com madeiras ricas e
escuras. Sua cama não é uma cama normal. Ele mandou construir a
estrutura personalizada com barras na parte superior para
suspensão e ganchos ao longo da cabeceira e dos postes.
Quando vi, pensei que parecia um trepa-trepa adulto e disse
isso a ele. Aidan me disse para tirar a roupa e me preparar para
brincar.
Ainda não estou acostumada a ficar nua na frente dele. É o
jeito que Aidan olha para mim, como um leão enjaulado olhando
para uma criança no zoológico, só que a gaiola é feita por ele
mesmo, e ele tem a chave. As calças pretas que ele usa durante as
cenas tornam impossível de esconder sua excitação. Ele
praticamente desistiu de tentar minimizar suas ereções. Por mais
que me excite vê-lo assim, é angustiante saber que não vai me
deixar vê-lo ou tocá-lo.
“Fique ao pé da cama com as mãos cruzadas atrás das
costas” ele me disse. Fazer isso levantou meus seios; Aidan
pressionou a palma da mão no centro do meu peito, bem acima do
meu coração, que começou a bater mais forte como se quisesse
pular e cumprimentá-lo.
Arfei quando ele passou a mão pelo meu seio para capturar
um mamilo. Ele apertou, primeiro suavemente, depois com mais
força. Senti o eco do toque dele entre minhas pernas, no meu
clitóris, e pressionei minhas coxas uma contra a outra. Aidan foi para
o outro seio, provocando e beliscando meu mamilo com força
suficiente para me fazer choramingar, antes de soltá-lo.
“Vire-se” ordenou. Eu queria desesperadamente que Aidan
continuasse brincando com meus seios, mas ele me deu uma ordem.
Me virei para a cama com seu edredom cinza e travesseiros
cor de vinho. Me imaginei ali deitada, com Aidan em cima de mim, a
boca em volta do meu mamilo e o corpo entre as minhas pernas.
Ele separou minhas mãos e afivelou meus pulsos em algemas
de couro macio, que prendeu em tiras de couro presas à cabeceira
da cama. Então ele algemou meus tornozelos e prendeu-os a uma
haste ajustável chamada barra espaçadora, que ele estendeu para
manter meus pés afastados. Amarrada à cama de Aidan, me senti
completamente à sua mercê enquanto ele prendia meu cabelo em
um coque frouxo.
“O que significa esta coleira, pequenina?” ele perguntou,
enganchando um dedo em volta do meu colar.
“Significa que sou sua, senhor.”
“O que mais?”
“Significa que pertenço a você. Que eu sirvo você.” Engoli em
seco quando ele puxou delicadamente a corrente, pressionando o
anel central com mais força contra meu pescoço. “Significa que você
pode fazer o que quiser comigo.”
Como que para provar que minhas palavras eram
verdadeiras, ele começou a deslizar as mãos sobre mim, descendo
pelas minhas costas até minha barriga. Ele raspou os dentes ao
longo do meu ombro e passou as palmas das mãos sobre os meus
seios. Então se afastou, me deixando querendo mais.
Algo fez cócegas em minha bunda. Olhei por cima do ombro,
avistando couro vermelho e preto.
“Vou bater em você com este chicote.” Aidan colocou as tiras
de couro em meu ombro, deixando-me sentir a camurça macia
contra minha pele. “É isso que você está implorando desde a
primeira noite em que se ofereceu para me servir. Vamos ver se
corresponde às suas expectativas.”
O primeiro golpe acertou bem entre minhas omoplatas. Gritei
mais de surpresa do que de dor. O segundo golpe atingiu um pouco
mais baixo e para o lado. Foi como um soco, profundo e forte. Doeu,
mas não de uma forma que eu não pudesse tolerar.
A dor me lembrou de fisioterapia ou de uma massagem
profunda. Dor que deveria curar e fortalecer.
“É tudo o que você pensou que seria, pequenina?”
Respirei fundo.
“Não... É melhor.”
Ele me bateu de novo e de novo. Fechei os olhos e usei as
técnicas que Aidan estava me ensinando. Permitindo que as algemas
me apoiassem, relaxando cada vez mais dentro de mim mesma.
Quando comecei a me acostumar com o ritmo que ele estava
usando, Aidan mudava, passando as pontas do chicote para cima,
contra a curva inferior da minha bunda. A ardência me acordou, me
trazendo de volta para o momento.
Lágrimas escaparam dos meus olhos e desceram pelo meu
rosto. Eu não conseguia acreditar que passei toda a minha vida sem
esse sentimento. Esse desapego total. Essa rendição. Eu só sentia
uma liberação semelhante quando estava dançando.
Mas isso era diferente. Eu não estava no controle; Aidan
estava. Ele decidia o quão forte seria o próximo golpe, se iria com
calma ou com força.
E quando acabou, ele colocou o chicote na cama e passou as
palmas das mãos para cima e para baixo em minha bunda em
chamas. Ele me puxou contra si, e seu peito estava frio em
comparação com a minha própria pele corada.
“Você aguentou lindamente aquela surra, pequenina.”
Aidan beijou meu pescoço suavemente e eu me derreti em
seus braços.
Ele soltou meus pulsos e guiou meu peito para a cama, com
meus pés ainda plantados no chão. Curvada com a bunda para cima,
senti algo duro entre nós e percebi que tinha que ser a ereção de
Aidan, ainda presa em sua calça de moletom. Meu pulso acelerado
aumentou ainda mais. Seu aperto em meus quadris aumentou
enquanto ele inclinava sua protuberância levemente em direção ao
ponto crucial das minhas pernas.
Ele me queria. Eu não me importei quantas vezes ele insistiu
que nunca transasse com suas submissas. Naquele momento, Aidan
queria me foder. E eu...
— Com licença — a voz de um homem desconhecido me
arranca da memória e me traz de volta ao terraço em frente à casa
de Aidan.
Sinto o peso do olhar de alguém nas minhas costas. Virando-
me, fico de pé no instante em que avisto o estranho: um garoto
mais ou menos da minha idade, ou um pouco mais velho, com olhos
profundos e de aparência cansada. Ele acena para mim do último
degrau que leva ao pátio.
— Com licença — ele diz novamente. — Eu não queria te
assustar. Esta é a propriedade de Fletcher?
— Não, não é. — Olho em direção às portas francesas, na
esperança de encontrar a sra. Cline na sala. Mas ela não está lá.
Estou sozinha com o estranho. — Esta é a casa de Aidan O’Rourke.
— Merda — o garoto murmura para si mesmo. — Você sabe
onde posso encontrar a propriedade Fletcher? Eu deveria fazer
alguns trabalhos de jardinagem para eles.
Eu balanço minha cabeça.
— Desculpe. Me mudei recentemente, então não conheço
bem a vizinhança.
— Tudo bem. — Ele sorri, embora o gesto não pareça tão
amigável quanto deveria. — Sinto muito por ter assustado você. Meu
nome é Sam.
Ele sobe os dois degraus restantes até o terraço e estende a
mão. Eu fico olhando para ele por um momento antes de meus
modos entrarem em ação.
— Grace — digo, apertando sua mão.
— Prazer em conhecê-la, Grace O’Rourke.
— É Whittaker, na verdade.
— Que pena. — Ele acena para minhas sapatilhas de ponta
no chão. — Você é dançarina?
— Eu sou sim.
— Você dança profissionalmente?
— Ainda não. — Não consigo deixar de sorrir com a ideia. —
Um dia, espero. Se eu me sair bem o suficiente na faculdade para
me tornar uma companhia de dança profissional.
— Você vai para a faculdade para dançar? — pergunta,
parecendo chocado.
— No outono.
— Isso é legal — ele diz. Sinceramente, não tenho certeza do
que pensar desse cara. Ele parece bastante legal; talvez um pouco
estranho, mas algumas pessoas não conseguem evitar isso. Eu
gostaria de saber mais sobre a área para poder apontar a direção
certa.
— Posso perguntar a alguém lá dentro se sabe onde fica a
propriedade Fletcher — digo.
— Não. — Ele acena com a mão. — Vou continuar vagando
pelos quintais até encontrar um cara que está chateado comigo por
estar atrasado.
Eu rio. Ele enfia as mãos nos bolsos e dá uma olhada nos
fundos da casa.
— Aidan O’Rourke — ele pronuncia, como se tentasse
examinar o nome. — Por que isso parece tão familiar?
— Ele é conhecido em alguns círculos.
— Ele é seu pai?
— Não, ele é... — Não sei como chamá-lo neste momento.
“Namorado” não parece certo e “dominador” é muito pessoal. — Ele
é meu guardião.
O telefone de Sam toca em seu bolso. Ele o pega para olhar
a tela.
— Eu deveria atender — ele fala, levando o telefone ao
ouvido. — Oi, pai... É, errei as datas de novo. Escute, na verdade
estou a caminho de uma entrevista de emprego.
A sra. Cline caminha até o terraço, seguida pela minha
instrutora, Shayna, uma mulher magra e de pele negra com uma
bolsa de ginástica pendurada no ombro.
— Posso ajudá-lo? — a sra. Cline diz para Sam.
— Tenho que ir — ele diz, e encerra a ligação. — Estou só de
passagem, senhora. — Ele pisca para mim. — Espero que nos
encontremos novamente, Grace Whittaker.
A sra. Cline fica de olho em Sam enquanto ele corre em
direção às árvores.
— Quem é, Grace?
— Não tenho certeza. — Pego minhas sapatilhas de ponta e
volto toda a minha atenção para minha instrutora de dança. — Olá,
Shayna. Vamos para o estúdio.
— Qual era mesmo o nome dele? — pergunto a Grace pela
terceira vez desde que nos sentamos para jantar.
— Sam — ela responde depois de engolir a comida.
— Sem sobrenome? — pergunto. Ela assente com a cabeça.
— Você tem certeza?
Ela assente novamente.
— Sinceramente, ele me pareceu bem. Apenas perdido.
— E ele disse que estava procurando a propriedade de
Fletcher?
— Acho que foi isso, sim.
Não conheço ninguém que more na região chamado Fletcher,
embora não tenha tomado a iniciativa de conhecer meus vizinhos.
Ainda assim, não gosto da ideia de um cara qualquer vagando pela
minha propriedade e conversando Grace quando não estou por
perto.
— Começaremos a usar as câmeras de segurança externas
durante o dia — digo a ela. Ultimamente não tenho me preocupado
em ativar o sistema antes do anoitecer, porque sempre tem alguém
aqui. Mas isso está prestes a mudar.
— Sério, Aidan, estava tudo bem.
— Desta vez nada aconteceu. Da próxima vez, talvez
aconteça. — Recuso-me a correr riscos desnecessários com a
segurança dela.
Eu já estava nervoso quando voltei do escritório. A notícia de
que um cara conseguiu se aproximar furtivamente de Grace no meio
do dia sem ninguém perceber me faz querer construir uma porra de
uma cerca de arame farpado em volta da minha propriedade.
— Como foi sua aula de dança? — pergunto, direcionando a
conversa para um assunto que sei que ela vai gostar. Seu rosto se
ilumina.
— Foi ótima. Shayna realmente sabe o que está fazendo.
— Estou feliz que ela esteja treinando com você.
Terminamos a refeição e depois vamos para a sala de estar
para ler. Enquanto Grace continua de onde paramos no thriller da
noite passada, mentalmente deixo de lado a ameaça externa de
invasores para me concentrar no perigo interno que ferve entre nós.
Colocar Grace de joelhos não é mais suficiente. Francamente,
nunca seria suficiente.
Achei que poderia amarrá-la, açoitá-la e depois dar-lhe um
beijo de boa noite, apenas com um leve arrependimento. Mas
quando se trata de Grace, não há limite para o meu desejo.
Nenhuma linha de chegada que eu possa cruzar e ficar satisfeito.
Um beijo inevitavelmente se transforma em três, depois em
quatro, e antes que eu perceba há quanto tempo minha língua está
em sua boca, estou deitado em cima dela com os dedos em seu
cabelo. Não consigo nem colocá-la de joelhos sem querer que a
cabeça do meu pau encontre o fundo de sua garganta enquanto ela
está lá embaixo.
Mas me recuso a deixar isso acontecer, então tenho que
encontrar outra maneira de saciar nós dois. E para fazer isso, vou
precisar de ajuda.
Mando uma mensagem rápida para meus convidados
surpresa e recebo uma resposta imediata. Eles estarão aqui em
breve.
— Quer que eu leia mais alguma coisa? — Grace pergunta. É
claro que ela pode sentir minha inquietação.
— Não, pequenina. — Me aproximo dela no sofá. Não contei
a Grace meus planos para esta noite porque, francamente, não
preciso.
Tenho sido muito brando com ela desde que aceitou minha
coleira e, como resultado, muito tolerante comigo mesmo. Nós dois
precisamos de um lembrete claro de que ela é minha posse. Não
minha namorada. E certamente não é algo intermediário.
Ela é um brinquedo. E se há uma coisa em que sou bom é
em compartilhar os meus brinquedos. A campainha toca.
Grace levanta os olhos do livro em sua mão.
— Você está esperando alguém?
— Estou. — Levanto do sofá. — Suba e vista sua roupa de
dança. Você tem um show para fazer.
Suas feições se contraem.
— Que show?
Acaricio a parte inferior de seu queixo. Parte de mim está
tentada a cancelar tudo ou, pelo menos, dizer algo que a prepare
emocionalmente para as coisas que planejei. Mas jurei para mim
mesmo que não queria mais mimá-la.
Ela aceitou minha coleira, o que significa que concordou em
me servir.
— Você tem suas instruções, pequenina.
Saio da sala para atender a porta com a mão trêmula.
Matthew e Dante entram no saguão parecendo muito mais calmos
do que eu.
— Obrigado por ter vindo — digo, fazendo um esforço para
parecer casual.
— O prazer é nosso — Matthew responde com um sorriso
carregado.
— É melhor que seja — Dante comenta —, considerando a
quilometragem que acabei de acumular na minha nova Ferrari.
Nunca vou entender o que você vê no interior. Não há nada aqui
além de vacas.
— Pelo que sei, ninguém nesta vizinhança fode suas vacas. —
Faço sinal para que me sigam até a sala. Enquanto eles se
acomodam no sofá, eu me ocupo em servir bebidas para todos nós.
— Tenho que ser honesto — Matthew fala. — Quando você
nos convidou para compartilhar sua submissa, eu estava convencido
de que você tinha enlouquecido. Você tem certeza de que deseja
continuar com isso?
— Por que não estaria? — Entrego copos de uísque para os
dois homens. — Ela dificilmente seria a primeira que compartilho
com qualquer um de vocês.
— Bem, claro. Mas Grace não é qualquer submissa, não é?
Ela é sua pupila.
— Isso não é nem a metade — Dante acrescenta. — Ela é a
porra da sua sobrinha.
— Ela é uma submissa — digo com firmeza. — Não é
diferente das outras. Ela é jovem e insaciável e estou concedendo a
ela uma oportunidade para se liberar.
— Ela ou você? — O sorriso astuto de Matthew irrita meus
nervos.
— Por que não os dois? — digo com uma honestidade
inesperada.
Meu maior erro foi permitir que Grace se tornasse a exceção
a todas as regras. Preciso parar de ouvir a voz interior que insiste
que ela está de alguma forma acima de tudo e começar a tratá-la
como trataria qualquer outra submissa.
No passado, achei gratificante ver as minhas submissas
serem fodidas por outras pessoas. É a única maneira pela qual esses
acordos tiveram sucesso. Meus amigos gozam e minhas submissas
recebem uma dose de prazer misturada com a dor que desejam. Até
as memórias servem ao seu propósito. Da próxima vez que sentir
vontade de ver os lábios de Grace esticados em volta do meu pau,
posso me lembrar da memória de um desses homens fodendo sua
boca.
Não faz mal que tal acordo também me permita cumprir a
promessa que fiz a mim mesmo há vinte e dois anos.
— Por que você mesmo não transa com ela? — Dante
pergunta.
— Meu amigo, não me entenda mal, ficarei mais do que feliz
em fazer isso por você. Acabei de me lembrar vividamente de como
foi ter minha foda empatada na última vez que coloquei minhas
mãos em sua garota.
— Aquilo foi diferente. Ela era menor de idade.
— Engraçado como isso não impediu você de fazer isso —
Matthew comenta.
Encontro o olhar do meu amigo por cima da borda do copo.
Matthew e eu nos conhecemos há mais de metade de nossas vidas.
Mas por mais familiares que sejamos, há páginas de nossas
memórias pessoais que mantemos trancadas a sete chaves. Ele não
gosta de falar sobre como entrou no BDSM, além de insinuar que
era jovem — possivelmente mais jovem que Grace. Suspeito que
esta situação o tenha lembrado de coisas que ele preferiria esquecer.
— Como já disse antes — digo a ele —, só bati nela quando
ela tinha dezoito anos. Mas que bom que você tocou no assunto,
porque é algo que devo mencionar antes de começarmos. Grace é
virgem. Então, qualquer um de vocês que transar com ela primeiro,
seja gentil.
Já posso ver o canto da boca de Dante se transformando em
um sorriso malicioso.
— Só me faça um favor — Dante diz. — Quando você
perceber o erro que cometeu, não corte minhas bolas até que eu
entre na boca da sua submissa. — Ele acena para a porta. —
Falando no diabo...
Olho a tempo de ver Grace espiando a sala antes de voltar
para trás do batente da porta.
— Entre, pequenina — digo a ela.
Grace passa pelo arco, vestida com um collant violeta simples
e meia-calça branca. Meu raio de sol até colocou suas sapatilhas de
ponta. Seu olhar dispara entre nós três, cheio de curiosidade e um
toque de medo.
Ela é inteligente por ter medo.
Sinto-me um vilão, sabendo o que estou prestes a pedir a
ela, mas tenho que acreditar que é o melhor. Matthew e Dante
darão a Grace o que ela precisa, para que possamos continuar como
dominador e submissa, sem que o elefante faminto por sexo ocupe
metade da sala.
— Tenho alguns amigos que gostaria de apresentar a você —
digo. — Este é Matthew Bolton.
— Na verdade — Matthew diz —, já nos conhecemos.
Eu olho em sua direção. Isso é novidade para mim.
— Quando foi isso?
— Na festa da masmorra. Sua pupila não resistiu em passar
por aqui para ver meu pau sendo chupado. Achei que ela fosse uma
nova submissa.
As bochechas de Grace brilham de vergonha enquanto ele
gesticula para ela se aproximar. Ela olha para mim em busca de
permissão. Eu concordo.
— Está tudo bem, querida. — Matthew leva os nós dos dedos
dela aos lábios. — Deixo a porta aberta por um motivo.
Dante se levanta do sofá para rodeá-la como um tubarão.
— Você lembra de mim, garota? — ele pergunta, seu olhar
avaliativo. — Você ainda me deve uma camisa. — Pelo jeito que ele
está olhando para os mamilos de Grace, aposto que vai se contentar
com o collant dela.
— S-sim, senhor — ela gagueja, girando em suas sapatilhas,
em um esforço para manter Dante em seu campo de visão. — Eu
lembro.
Grace olha para meus amigos com receio. Eu não contei a ela
por que eles estão aqui, mas ela é perspicaz o suficiente para sentir
o desejo deles por ela. Mesmo eu não consigo resistir a deixar meu
olhar percorrer seu corpo.
— Convidei Matthew e Dante para brincar com você — digo a
ela.
Suas sobrancelhas se erguem.
— O que você quer dizer com... brincar comigo?
— Você anseia por experiências que não posso lhe
proporcionar. Esses dominadores estão aqui para satisfazer esses
desejos.
— Que desejos? — Sua ingenuidade é um ardil. Ela sabe
exatamente do que estou falando.
Nos últimos dias, Grace tem praticado seus velhos truques,
desfilando pela casa com as saias e vestidos mais curtos que possui.
Ontem à noite, ela começou a esquecer de colocar roupa íntima.
— Ele quer dizer sexo, querida — Matthew ri.
Ele se levanta do sofá para se aproximar dela, e ela recua,
direto no peito de Dante. Ela grita como um ratinho enquanto Dante
apoia as mãos grandes em seus ombros.
A vontade de acabar com a festinha deles atinge meu peito
como um martelo. Grace está tendo mais dificuldades com isso do
que eu pensava. Estou acostumado a brincar com submissas
poliamorosas ou em relacionamentos abertos. Grace nunca teve
namorado, e aqui estou eu, pedindo para ela foder dois estranhos ao
mesmo tempo.
Claro que ela está nervosa. Claro que ela está
sobrecarregada.
— Venha aqui, pequenina — aceno para Grace.
Dante a solta com um suspiro relutante. Ela corre para o meu
lado.
— Está tudo bem. — Afago a nuca dela. Não vou negar que
parte de mim quer levá-la para o meu quarto, onde ninguém possa
tocá-la. Mas convidei estes homens aqui por uma razão.
Grace precisa disso. Nós dois precisamos. Ela pode estar
assustada agora, mas suspeito que quando eles começarem a tocá-
la de todas as maneiras que me recusei a tocá-la, ela mudará de
opinião.
— Quando você colocou essa coleira, você fez uma promessa
de me servir. — Eu a viro para poder encará-la. — Você pode usar
sua palavra de segurança se quiser, mas estou te dizendo... é isso
que preciso de você, pequena.
— Mas — ela diz. — Eles não são você...
— Ela tem razão — Matthew comenta.
— Considere-os uma extensão da minha vontade — digo. —
Eles vão tocar você com minha bênção, e eu estarei bem aqui,
vendo eles foderem você.
Grace estremece com a palavra “foderem”. Inclino meus
lábios sobre os dela e reivindico sua boca, penetrando-a com minha
língua para lembrá-la de todas as maneiras pelas quais ela poderia
ser penetrada. Sinto o gosto de seu desejo reprimido, de seu poder
sexual inexplorado. Tudo misturado com sua necessidade
desesperada de libertação.
Grace choraminga baixinho enquanto interrompo o beijo para
dizer a ela:
— Eu sei que você está lutando com as limitações que
coloquei em você. Estou oferecendo uma alternativa ao seu
sofrimento.
Ela olha para meus amigos.
— Você realmente quer que eu faça isso? — ela sussurra.
A palavra “não” ruge profundamente dentro de mim, mas eu
a ignoro. Na verdade, minha relutância é um sinal de que esta é a
coisa certa a fazer.
Posso possuí-la ou posso transar com ela, mas não posso
fazer as duas coisas. Por mais que eu queira reivindicar as partes
proibidas de seu corpo, adoro demais o resto dela para desistir
delas.
Passo meu polegar sobre sua bochecha.
— Sim.
Ela respira fundo, prende o ar e depois expira, exatamente
como eu a ensinei. Seus lábios se curvam na forma de um sorriso.
— Então eu farei isso, senhor. Por você.
Minha garganta se aperta.
— Boa garota.
Eu a viro para encarar Dante e Matthew. Meus amigos
dominadores não tiraram os olhos de Grace desde que ela entrou na
sala. Conforme ela se aproxima deles, tenho a sensação de que
acabei de enviar meu coelhinho fofo para correr com os lobos.
— Vamos dar algo para a bailarina dançar — Matthew fala.
Ele toca no telefone e, em segundos, a sala se enche com a melodia
suave da música clássica.
O passo cuidadoso de Grace evolui para passos de dança
enquanto se aproxima de Matthew na ponta dos pés. Imagino que
ela ache mais fácil transformar a sedução em performance. Ele
alcança o braço dela, mas Grace gira fora de alcance no último
segundo. Ele ri, divertido com suas travessuras. Ela se aproxima e se
afasta mais algumas vezes antes que Dante a pegue pelo pescoço.
Ela grita quando ele puxa o collant de seus ombros, expondo
seus seios para a sala.
— Eu disse que cobraria por aquela camisa — Dante rosna.
Ele a beija com força na boca e aperta seus mamilos. A irritação se
transforma em raiva enquanto a observo lutar para se libertar. Ele a
apoia contra a parede, colocando a coxa entre as pernas dela.
Eu me movo em direção a eles por instinto, com a intenção
de arrastá-lo para longe dela, até que Matthew entra com uma mão
no meu peito. Ele me acalma com um olhar tranquilizador e depois
volta sua atenção para Dante.
— Calma, D — Matthew diz, fazendo Dante recuar um passo.
— Virgem, lembra?
Dante rosna, sua voz cheia de frustração. Ele permite que
Grace se afaste da parede, mas não tanto que ele não consiga
alcançar seus mamilos. Ela lança a Matthew um olhar de gratidão,
depois arfa quando ele captura sua mão, pressionando a palma em
sua protuberância.
— Você já tocou em um pau antes? — Matthew pergunta.
— Na verdade, não. — Ela choraminga enquanto Dante
coloca a outra mão em sua ereção.
— Que tal dois de uma vez? — ele pergunta.
Ela balança a cabeça. Minha pequenina não consegue evitar
esfregar as coxas enquanto explora os pênis duros sob as palmas
das mãos. Meu próprio pau lateja enquanto imagino sua pequena
mão deslizando sobre mim, apertando suavemente, tentando
envolver minha circunferência.
Matthew e Dante trabalham juntos para tirar o collant dela.
Em vez de lutar com sua meia-calça, Dante a rasga, expondo-a.
As bochechas de Grace brilham vermelhas como brasas
enquanto nós três olhamos avidamente para sua boceta nua. De
todas as noites que ela poderia ter escolhido não usar calcinha...
Matthew solta um longo assobio.
— Dobre-a — diz ele. — Quero ver tudo.
Grace grita enquanto eles a inclinam sobre o braço largo de
uma poltrona de couro. Dante agarra as bordas rasgadas de sua
meia-calça e as puxa, ampliando o rasgo.
— Os buracos da sua pequenina são tão lindos quanto o
resto dela — Matthew diz, abrindo as bochechas para expor sua
boceta e sua entrada traseira. — Mas tenho certeza de que não
preciso te contar isso.
Ele não deveria ter que me contar. Mas a verdade é que não
me permiti explorar essas partes do corpo de Grace. Nunca a vi tão
vulnerável e exposta.
O desejo me invade. Eu quero desesperadamente ser aquele
que desliza os dedos pelas dobras de Grace. Ela geme baixinho e se
agarra à poltrona, não acostumada a ser tocada por ninguém além
dela mesma. Tudo isso é novo para ela. Ser beijada por estranhos,
ser agredida, apalpada, tocada...
Dante cospe entre as bochechas de Grace e adiciona seus
próprios dedos à mistura, fazendo a área ao redor de seu ânus
brilhar. Ela se contorce enquanto ele acaricia sua entrada traseira —
outra sensação nova para ela que estou permitindo que outra pessoa
apresente.
Procuro seu olhar e descubro que ela já está me observando.
Eu não toquei nela desde que toda essa maldita cena começou, e
não sou eu quem lhe dá prazer agora. No entanto, ela está olhando
para mim como se eu fosse o único homem na sala.
Minhas mãos tremem com o esforço para permanecer na
poltrona. Em vez de reivindicar a primeira vez de Grace, estou
observando-os à distância, como um voyeur frio e indiferente. Se ela
fosse qualquer outra submissa, eu sentaria e apreciaria o show. Mas
Matthew, com seu discernimento irritante, estava certo desde o
início. Grace não é qualquer outra submissa. Não porque ela é como
minha família, ou minha pupila, e não porque ela seja jovem e
inocente.
Grace é diferente por causa do que ela significa para mim. Eu
respeitava as outras, mas não as amava.
E eu amo Grace, porra.
Meu coração se revolta, encenando um motim em meu peito.
Não importa o quanto eu tente, não consigo me lembrar de uma
época em que senti isso intensamente por uma namorada ou por
uma submissa. Tal como acontece com tudo o mais, Grace provou
ser a exceção de todas as minhas regras.
Dante começa a enfiar o dedo no ânus dela. Não estou
acostumado com o ciúme aparecendo quando se trata de perversão,
mas se esses homens não tirarem as mãos da minha pequenina
agora, eles vão se arrepender de ter tocado nela.
— Saiam — eu rosno.
— O quê? — Matthew pergunta, com um sorriso de “eu
avisei” no rosto que fico tentado a apagar com o punho.
— Eu disse para darem o fora.
As narinas de Dante se dilatam.
— Você está falando sério, cara? Eu poderia quebrar um vidro
com meu pau agora mesmo...
— Eu não dou a mínima.
Matthew afasta Dante de Grace.
— Vamos, D. Você pode acabar em outro lugar. — Ele dá um
tapinha em meu ombro enquanto conduz Dante para fora da sala.
Não consigo nem olhar para ele, muito focado em ver Grace cair no
chão.
— Fiz algo errado, senhor? — ela pergunta, sem fôlego.
O ar foge dos meus pulmões em um único suspiro.
— Não, Grace, você não fez nada de errado.
Em vez de acenar para ela, eu me abaixo no chão. Ela rasteja
em minha direção por vontade própria, apoiada nas mãos e nos
joelhos, o cabelo formando uma cortina dourada em volta dos
ombros.
A sensação de que escapamos por pouco de um desastre
causado por mim mesmo ainda está pairando no ar. De alguma
forma, eu me convenci de que poderia abrigar um lobo faminto e um
coelho na mesma gaiola e esperar que o lobo rejeitasse sua
natureza.
Seguro o rosto de Grace em minhas mãos.
— Se alguém vai tomar sua inocência, deve ser alguém que
você ama.
Seu lindo e triste rosto fica nublado.
— Mas... e se o homem que amo não me quiser?
— Então ele é um idiota.
Eu a beijo, deslizando minha língua entre seus lábios para
saboreá-la. Reivindique-a. Lembre-a de quem é seu mestre.
Colocando-a de costas, subo em cima dela, me encaixando entre
suas pernas.
— Eu deveria ter feito isso há muito tempo — digo,
pressionando minha mão em sua boceta. Suas pálpebras tremem
enquanto ela se empurra contra minha palma.
— Senhor...
— Não — digo a ela. — Não me chame de senhor. Não posso
ser seu dominador agora.
— Então, o que você é?
Provoco a abertura de Grace, molhando meus dedos com sua
excitação. Ela choraminga enquanto espalho aquela suavidade sobre
seu clitóris.
— Eu sou o homem que está se apaixonando por você desde
o primeiro dia.
Aidan me ama. Vejo a verdade de suas palavras na maneira
como ele olha para mim, na vulnerabilidade que não estou
acostumada a ver nele durante nossas cenas regulares. Estou toda
aquecida, como um rubor da cabeça aos pés, mas não estou
envergonhada.
Estou mais feliz do que nunca e tudo por causa de Aidan.
Não entendo o que ele quer dizer quando afirma que não
pode ser meu dominador agora. Para mim, não há como separar o
homem em cima de mim daquele que me algema em sua cama. Eles
compartilham uma mente perspicaz, um coração pulsante e um
corpo duro e musculoso.
— Eu também te amo — digo a ele. Não consigo identificar o
momento exato em que isso aconteceu. A noite em que ele beijou
meu pé me vem à mente, mas suspeito que as sementes do amor
foram plantadas muito antes de seus lábios tocarem minha pele. Eu
sei disso tão bem quanto conheço os passos do meu ballet favorito.
Amo Aidan, meu dominador e meu guardião em todos os
sentidos da palavra.
Ele me beija e eu encontro sua língua, golpe por golpe. Meus
músculos internos flexionam como se meus quadris estivessem
brincando de casinha para alguma criatura insaciável que se
alimenta exclusivamente de prazer. Durante meses, ansiava que ele
me tocasse. Agora que seus dedos estão no meu clitóris,
encantadores gemidos suaves saem dos meus lábios.
— Ver eles colocarem as mãos em você... — Seu olhar
escurece. — Eu não aguentei. Eu não poderia ficar parado e deixá-
los tomar o que é meu, mesmo sendo eu quem os convidou.
— Que bom que você disse para eles pararem.
Verdade seja dita, eu gostei da maioria das coisas que os
amigos de Aidan fizeram comigo. Matthew é muito bom com as
mãos, e a aspereza de Dante enviou um arrepio de excitação pelo
meu corpo. Tive prazer com a ideia de estar seguindo as ordens de
Aidan e com a emoção de ele ver tudo acontecer. Mas eu queria que
fosse Aidan quem me tocasse, me despisse, me inclinasse sobre a
poltrona.
— Não quero que minha primeira vez seja com estranhos —
digo. — Eu quero que seja com você.
A correção de tudo isso se condensa no centro do meu peito.
Ele passa os lábios e os dentes pelo meu maxilar e pescoço. Meus
mamilos doem, desesperados por qualquer tipo de contato. Suas
mãos ou sua boca ou seu corpo pressionado contra o meu.
Puxo delicadamente os botões de sua camisa, sem saber se
devo esperar permissão para despi-lo. O prazer crescente entre
minhas pernas me encoraja e começo a trabalhar em seus botões.
Ele não me diz para parar. Na verdade, ele me ajuda, tirando
completamente a camisa, expondo seu peito e braços poderosos.
Meu Deus, eu poderia ficar olhando para o corpo desse
homem para sempre e nunca ficar entediada. Só tenho alguns
segundos para admirar seu físico antes que ele esteja novamente
em cima de mim, lambendo e beijando meus seios. Sua boca puxa
avidamente meu mamilo e sinto o puxão até meu clitóris. Eu flutuo
em uma corrente de prazer enquanto ele passa para o meu outro
mamilo, mordendo e chupando, provocando e lambendo.
O prazer gira como um redemoinho em meus quadris. Já
posso sentir meus músculos se contraírem, meu corpo sucumbindo à
vontade implacável de Aidan. Meu clitóris pulsa contra seus dedos
enquanto ele me acaricia mais rápido.
— Há meses venho fantasiando em fazer você gozar — ele
rosna. — Esta noite, quero ser o motivo de você gemer e tremer.
Quero sentir sua boceta escorrendo como um pêssego maduro pelo
meu queixo quando eu provar você.
Suas palavras me tocam de dentro para fora. Meus músculos
ficam tensos e prendo a respiração enquanto o orgasmo surge
através de mim. Eu gemo, vagamente consciente dos lábios de
Aidan trilhando beijos pela minha barriga, muito envolvida no meu
orgasmo para perceber para onde ele está indo até que seus lábios
estejam lá.
Arrepios quentes percorrem minha pele enquanto sua
respiração sopra em minhas dobras. Ele enfia a cabeça entre minhas
coxas, depois passa a língua pela minha umidade, centralizando-se
no meu clitóris.
— Ai, meu Deus... — Fecho os dedos em volta de um
punhado do cabelo de Aidan.
Ele olha para cima com um meio sorriso que parece dizer:
“eu sou o seu Deus, pequenina, e não se atreva a esquecer isso.”
Estou tão sensível depois do meu orgasmo que a carícia da sua
língua é quase demais para suportar. Aidan parece perceber isso, se
a maneira como ele está prendendo meus quadris servir de
indicação.
Ainda assim, isso não o impede de me dar atenção. Aidan
pode não querer ser meu dominador agora, mas ainda é um sádico.
Depois de um longo momento de tortura doce e agonizante,
ele concede um alívio ao meu clitóris, subindo sobre meu corpo para
me beijar ferozmente. O tilintar da fivela de seu cinto faz cócegas
em meus ouvidos.
Ele vai fazer isso... O pau dele...
— Espere — digo, colocando minha mão sobre a dele.
O olhar sombrio de Aidan procura o meu.
— O que foi, Grace?
Eu não quero apenas que ele coloque o pau dentro de mim.
Quero saborear o momento. Nunca vi Aidan totalmente nu, embora
ele tenha tido semanas para memorizar o comprimento das minhas
pernas e as curvas modestas dos meus quadris e seios. Quero uma
chance de olhar para ele sem nada, nem mesmo a cueca,
bloqueando minha visão.
— Quero ver você primeiro — digo a ele. — Você por inteiro.
Com um sorriso malicioso, ele se levanta e fica na minha
frente, enquanto eu me ajoelho a seus pés. Ele desabotoa o cinto
lentamente e depois abre o zíper da calça.
— Você quer ver meu pau? — ele pergunta.
Meu pulso acelera e eu concordo com a cabeça.
— Quero ver tudo.
Ele tira a calça e a joga em uma poltrona. Um arrepio quente
ricocheteia em mim quando ele enfia os polegares no cós da cueca
boxer. Ele desliza a cueca para baixo e tira, liberando seu pênis para
ficar em posição de sentido como um soldado.
Observo todo o seu corpo, começando pelos dedos dos pés e
vou subindo. Não há como negar que Aidan é um homem. Não é um
garoto, nem uma ficada, nem um cara com quem estou saindo. Ele
é meu guardião. Meu Deus. Maior, mais forte e muito mais velho e
experiente do que eu. Olho abertamente para sua ereção, repleta de
veias e com uma ligeira curva ascendente.
A visão me faz arder por coisas que nunca senti antes, como
se meu corpo soubesse instintivamente para onde seu pau deveria ir.
Eu me pergunto se dói estar tão duro quanto ele. Tão rígido
que a cabeça do seu pau quase toca sua barriga. Ele acaricia minha
bochecha, passando o polegar pelos meus lábios. Eu o pego entre os
dentes, colocando seu polegar em minha boca. Aidan geme.
— Você não tem ideia do que faz comigo, Grace. — Ele
parece estar em agonia. — Tentei manter distância. Eu tentei te
afastar, te entregar. Mas não posso mais fazer isso. Eu não farei isso.
Que bom, penso comigo mesma. Agora que sei como é ser
tocada e amada por ele, não consigo imaginar voltar a ser como as
coisas eram antes. Envolvo minha mão em seu pau, e a primeira
coisa que noto é o quão grosso ele é. Não tenho certeza de como
vou encaixá-lo na boca, mas quero tentar.
Aidan inala profundamente enquanto eu lambo e beijo a
cabeça de seu pau. Envolvo meus lábios em torno dele, me
dedicando ao máximo para lambê-lo e chupá-lo o melhor que posso,
sem saber realmente o que estou fazendo. Acabo tomando demais e
engasgando com ele. Aidan faz um som que é algo entre um suspiro
e um grunhido.
Eu me afasto, com medo de tê-lo machucado
acidentalmente.
— Desculpe — digo.
Ele pisca para mim.
— Do que você teria que se desculpar?
— Não sei — digo. — Engasgar com você?
Ele segura o lado do meu rosto.
— É melhor que não seja a última vez que você engasga com
meu pau, Grace. — A expressão dele endurece. — Mas agora, eu
preciso entrar em você, e foder sua boca não vai resolver isso.
Ele se abaixa no chão e depois me deita, colocando as mãos
sob meus joelhos. Ainda estou vestindo minha meia-calça rasgada
como se fosse uma polaina, assim como minhas sapatilhas de ponta.
Ele se ajoelha entre minhas pernas abertas, descansando seu pau
diretamente sobre meu centro.
— Isso vai doer — ele diz. — Serei o mais cuidadoso possível,
mas não há como evitar.
— Eu aguento — digo a ele. Aidan desliza através da minha
umidade, e cada passagem sobre o meu clitóris acende uma
pequena chama de prazer dentro de mim.
— Eu sei que você aguenta.
Sinto a cabeça de seu pênis romper minha entrada e suspiro
com a dor que surge.
— Continue respirando, Grace — ele diz. — Assim como eu te
ensinei.
Inspiro pelo nariz e expiro pela boca enquanto ele relaxa seu
comprimento dentro de mim. Dói quase tanto quanto alongar um
músculo tenso, mas respiro através da dor, assim como respiraria
durante um recital difícil. Focando no panorama geral, na beleza da
performance como um todo.
Aidan me penetra um pouco mais fundo a cada vez até que
está enterrado dentro de mim. Depois de mais algumas estocadas, a
dor que senti quando ele entrou em mim pela primeira vez se
transformou em um sussurro.
— Meu Deus, sua boceta é incrível. — Ele se afasta e depois
avança, e isso é bom pra caramba. — Me diga agora se você quer
que eu pare, porque assim que eu começar a te foder, vai me matar
parar.
— Não pare — digo a ele. — Me foda com mais força. —
Mordo a língua para me impedir de chamá-lo de “senhor”. Parte de
mim gostaria que ele me segurasse ou colocasse a mão em volta da
minha garganta. Algo para me lembrar que ele ainda está feliz por
ser meu dominador. Só posso imaginar como seria bom estar
amarrada à cama enquanto ele está dentro de mim. Aidan diz que
não é meu dominador agora, mas tem que perceber que me dizer
para não chamá-lo de “senhor” é apenas mais um comando.
Cravo minhas unhas em seus ombros enquanto ele estoca
mais rápido. Meus quadris se ajustam ao seu ritmo, resistindo a
tempo de atender suas estocadas. É estranho e maravilhoso o modo
como o alongamento pode ser satisfatório e doloroso ao mesmo
tempo.
Ele estende a mão entre nós para acariciar meu clitóris, e
meus músculos internos se contraem instantaneamente.
A combinação de pressão interna e externa é esmagadora.
Ainda bem que estou deitada porque não tenho como me segurar.
Ele se inclina para me beijar, sua boca exigindo minha submissão, ao
contrário de suas palavras.
Sinto seu amor por mim nesse beijo, assim como seu desejo.
Seus lábios trilham beijos do meu queixo até o pescoço, até o colar.
Quando sua língua mergulha no anel central para provar minha pele,
eu me desfaço.
Grito quando meus músculos o agarram e o liberam,
enviando ondas de choque de prazer através do meu sistema
nervoso. Eu ilumino como o nascer do sol, como o amanhecer
irrompendo no horizonte.
Aidan enfia seu pau em mim, todo o seu corpo estremece
quando ele goza.
Apoiando os cotovelos no tapete, ele relaxa em cima de mim,
e eu o seguro, sentindo-me como uma pequena bailarina que vive
dentro de uma caixa de lembranças há anos. Então Aidan me abriu,
enchendo meu mundo com luz e música.
O que fizemos aqui esta noite vai mudar tudo.
— Eu machuquei você? — ele pergunta baixinho.
— Só um pouco — eu digo. — Mas eu gostei. Da próxima
vez, você pode me amarrar. Quero saber como é ter você dentro de
mim quando não consigo me mover.
Seu meio sorriso vacila enquanto seu olhar se volta para
algum lugar além de mim.
— Senhor? — eu sussurro.
Ele visivelmente estremece com meu deslize acidental.
— Não, Gracie. Eu não vou fazer isso.
— Por que não?
Ele sai de mim para poder deitar de lado.
— Porque vamos manter nossa vida sexual e nossas
perversões separadas.
— Mas já quebramos sua regra de proibição de sexo.
— Fizemos isso — ele fala com um suspiro. — Tecnicamente,
o que acabamos de fazer foi sexo baunilha.
— Ah... — As coisas que fizemos um ao outro não pareciam
baunilha para mim, mas eu era virgem há menos de uma hora,
então o que eu sei?
— Ei. — Ele pousa a mão no meu quadril. — Eu ainda sou
seu dominador, e você ainda é minha pequenina. Isso não mudou.
Mas haverá novas regras básicas sobre quando, onde e como
podemos ser sexuais.
Mais regras a seguir; mais regras para ignorar. Meu interior é
um emaranhado de alegria e confusão. Estou exultante por ele ter
mudado de ideia sobre não fazermos sexo, mas gostaria de entender
por que Aidan é tão inflexível em não misturar sexo com perversão.
Ele claramente me quer, então por que não quando estou usando
suas algemas?
— Você pode pelo menos me dizer por quê? — pergunto.
Ele começa a balançar a cabeça, depois para. A dor em seu
olhar me atinge bem no peito. Ele quer me contar; estou certa disso.
— Quando comecei a entrar nesse estilo de vida — diz ele —
cometi um erro com uma submissa. Um que me arrependo
profundamente.
— Que tipo de erro?
— Do tipo que destrói pessoas. Prefiro morrer a deixar algo
assim acontecer com você — a seriedade em seu tom é uma gota de
chuva escorrendo pelas minhas costas. Eu tremo.
— Alguém se machucou? — pergunto.
Depois de um longo período de silêncio, ele assente. Seu
rosto se fecha.
Meu guardião tem segredos que pesam terrivelmente sobre
ele. Eu gostaria que me deixasse dividir o fardo.
Aidan parece diferente quando está dormindo. É a única vez
que ele não está no controle. Observo seu peito subir e descer,
aproveitando essa rara oportunidade de estudá-lo quando não está
ciente do meu olhar.
Normalmente não acordo antes dele, mas fui arrancada do
sono há uma hora por um pesadelo em que Aidan estava me
colocando à venda em um leilão de escravas. Implorei para que ele
não me vendesse, implorei para que me levasse para casa, mas ele
não quis ouvir. Acordei com lágrimas no rosto e estou deitada aqui,
deixando-as secar no rosto desde então.
Esta noite será minha primeira noite longe de Aidan desde
que me formei no internato. Todos os alunos do primeiro ano da Jost
Academy são obrigados a passar a noite no campus para orientação
do primeiro ano. Parte de mim deseja poder voltar para casa no final
do dia, mas estou ansiosa para morar com Jasmine. Nós duas
mantivemos contato, mas falar com ela através de uma tela não é a
mesma coisa que falar pessoalmente.
Aidan suspira, movendo os pés e arrastando o cobertor para
a beirada da cama. Tudo o que existe entre seu corpo e meu olhar é
o lençol.
Dormimos na mesma cama agora, embora a cama em que
dormiremos dependa das intenções dele durante a noite. Não
podemos fazer sexo aqui, na cama dele, aquela projetada
especificamente para BDSM. Da mesma forma, quando estamos na
minha cama, não somos o senhor e a pequenina. Somos Aidan e
Grace.
Mas às vezes esquecemos quem deveríamos ser.
Começaríamos uma cena de surra e, no meio, ele tiraria
minhas algemas e me levaria para o meu quarto para poder lamber
minha boceta. Ontem mesmo, ele prendeu meus pulsos nas minhas
costas enquanto me fodia por trás. A emoção disso me fez gozar
com mais força do que nunca, o que Aidan, é claro, percebeu,
levando-o a me soltar imediatamente.
Não gosto de não saber onde estamos a cada momento.
Tornou-se um jogo de adivinhação: com qual homem vou dividir a
cama esta noite? Aidan, ou meu dominador?
O movimento abaixo do umbigo prende minha atenção; o
que quer que ele esteja sonhando faz seu pau se contorcer. Posso
distinguir sua posição exata sob o lençol, desde a base grossa até a
extremidade da cabeça. Ele se contrai novamente à medida que
incha, dobrando de tamanho.
Espero que Aidan esteja sonhando comigo.
Minha boca se enche de água. Vejo seu pau crescer até
levantar o lençol. Aqui, na cama de Aidan, não tenho permissão para
tocá-lo sem permissão, e definitivamente não devo tocar em seu
pau. No entanto, não me lembro de nenhuma regra sobre tocar nos
lençóis em volta do seu pau. Considerando todas as violações e
quebras de regras que ele já sancionou, não consigo resistir a dar
uma espiada.
Apertando o lençol entre meus dedos, eu o levanto
lentamente, trazendo seu eixo à vista. Faço uma pausa, esperando
para ver se ele se mexe, antes de continuar. Um gemido suave
flutua em meus lábios enquanto o vejo em toda a sua glória. Quero
afastar as cobertas e acordá-lo com um boquete de bom dia, sentir
sua mão na parte de trás da minha cabeça enquanto ele força seu
pau na minha garganta. Quero que Aidan amarre meus pulsos com
uma longa corda de seda, passe-as pelas barras acima de nós e
segure as pontas como rédeas, controlando o quão forte e rápido eu
monto em seu pau.
Como não posso tocar em Aidan, me contento em me tocar,
tocando meu clitóris enquanto imagino todas as coisas que gostaria
que ele me pedisse. As maneiras ilimitadas pelas quais eu o serviria.
— Existem maneiras mais simples de pedir uma surra,
pequenina — ele diz.
Meu pulso acelera. Suas mãos estão em mim em menos de
um segundo, me puxando para seu colo. Ele bate na minha bunda
seis vezes, três de cada lado. Sua ereção empurra minha barriga.
Sua mão permanece na minha bunda, passando pela minha carne
quente e mergulhando entre as minhas pernas.
Eu suspiro quando ele desliza um dedo pela minha fenda.
Aidan não deveria me tocar enquanto estamos na sua cama. Mas
não vou impedi-lo. Ele geme baixinho ao encontrar minha umidade,
a evidência inegável de que eu o quero dentro de mim neste exato
momento.
Seu dedo roça meu clitóris. Eu choramingo.
— Por favor, senhor.
Para minha total decepção, ele afasta a mão.
— Grace... — ele diz. Encontro seu olhar torturado por cima
do meu ombro. Eu não deveria ser Grace na cama dele. Eu deveria
ser a pequenina dele, e ele, meu senhor.
Aparentemente, estou enganada.
Eu saio de seu colo e sento na cabeceira da cama, abraçando
as pernas contra o peito.
— Não gosto dessas novas regras, Aidan. Nunca sei como
devo agir ou como posso chamá-lo, e não consigo abrir a boca sem
estragar o momento.
Ele esfrega o ponto entre os olhos.
— Você não está estragando nada, Grace. Sou eu que
continuo pressionando os limites. — Seu olhar endurece. — Serei
mais consistente daqui para frente.
Como sempre, ele não me culpa por essas transgressões,
mas reserva a culpa para si mesmo. Imagino sua culpa crescendo
dentro dele, como a água atrás de uma represa que um dia vai
estourar e nos afogar.
Ele beija meus joelhos e passa a mão pelo meu antebraço.
— Você está com as malas prontas para a orientação na
faculdade?
— Quase. Só me restam algumas coisas para guardar.
— Vá cuidar disso. Encontro você lá embaixo para o café da
manhã. — Ele me oferece um sorriso triste que não posso deixar de
retribuir.
— Sim, senhor.
Tomamos café da manhã juntos e depois nos amontoamos
na traseira do Porsche para a viagem de uma hora até a cidade.
Aidan tem trabalho a fazer no escritório de Manhattan, e é por isso
que se ofereceu para ir comigo. Há um pouco de trânsito matinal,
mas chegamos ao campus da Jost Academy com bastante tempo de
sobra antes dos eventos da manhã.
Benjamin estaciona a caminhonete e sai para tirar minhas
coisas do porta-malas. Aidan desafivela meu cinto de segurança e
segura meu rosto com a mão. Ainda estou me recuperando desta
manhã, e ele sabe disso.
— Eu te amo, pequenina — ele diz.
Meu coração dói quando encontro seu olhar perturbado.
— Eu também te amo, senhor.
Ele me beija suavemente nos lábios.
— Venho buscá-la amanhã.
Salto da caminhonete e aceito minha mala de Benjamin,
depois sigo as placas até a área de registro no centro do campus.
Vejo Jasmine acenando para mim em uma escada de mármore. Ela
está com o cabelo preso em longas tranças e óculos de sol com
armação azul. Corro no meio da multidão em direção a ela, e ela me
abraça assim que estou ao seu alcance.
— Senti tanto a sua falta — ela fala. — Sei que temos
conversado todas as semanas, mas ainda parece que temos muito o
que conversar.
Depois de assistir a algumas sessões formais e informais
sobre políticas escolares e clubes, nos separamos para nos
encontrarmos com nossos conselheiros para nos inscrevermos nas
aulas. A reunião de Jasmine ainda não começou quando a minha
termina, então resolvi verificar as opções de restaurantes enquanto
espero ela terminar.
Estou a caminho de um dos centros estudantis quando ouço
alguém dizer meu nome. Giro em círculos até encontrar o olhar
profundo pertencente a um rosto que nunca pensei que veria
novamente.
— Sam? — eu digo.
— Puta merda. — Ele dá uma tragada no cigarro. Seu cabelo
está um pouco mais comprido do que quando ele entrou no quintal
de Aidan, e ele está vestido com o que parece ser um uniforme de
serviço de alimentação. — Você estuda aqui?
— Sim... ou, estudarei, no outono. O que você está fazendo
aqui?
— Eu trabalho no refeitório. Mundo pequeno, hein?
— Microscópico limítrofe — digo.
Parece uma estranha coincidência que o estranho que entrou
no quintal de Aidan há um mês esteja agora trabalhando na Jost,
mas coisas estranhas aconteceram.
— Você já encontrou a propriedade Fletcher? — pergunto.
— Na verdade, não. Provavelmente é por isso que não estou
trabalhando atualmente com paisagismo. — Ele apaga o cigarro na
lateral do prédio. — Você vai almoçar?
— Sim, pensei em dar uma olhada nas opções.
— Lamento dizer, provavelmente não é o que você esperaria,
considerando quanto eles cobram pelo plano alimentar. Mas ei, eu
conheço uma ótima cafeteria a um quarteirão daqui que serve
sanduíches. Muito melhor do que a porcaria que servem aqui. Eu
poderia te mostrar, se você quiser. Fica a apenas alguns minutos de
distância.
Olho para o meu telefone no momento em que uma
mensagem de Jasmine ilumina a tela. Sua reunião ainda está
atrasada.
— Você não está trabalhando? — pergunto.
— Estou de folga por pelo menos mais meia hora.
Meu estômago se aperta. Seria bom me familiarizar com a
localidade antes de me mudar neste outono, mas não é como se eu
realmente conhecesse Sam. E certamente não quero que ele tenha
uma ideia errada sobre minha disponibilidade.
— Prometo não presumir que seja um encontro, se é isso que
te preocupa — ele diz com um sorriso.
Forço uma pequena risada.
— Meu namorado definitivamente preferiria isso.
Ele não parece perturbado pelo comentário do namorado, o
que considero um sinal de que ele está falando sério. De qualquer
forma, é plena luz do dia. Se ele tentasse algo, haveria gente por
perto para ver.
— Ok — eu digo. — Mas se minha amiga me mandar uma
mensagem, terei que voltar.
Sam me leva para longe do campus. Está um dia lindo, um
pouco abafado, mas não demais. Apenas quente o suficiente para
que eu fique grata por ter optado por vestir shorts. Atravessamos
um cruzamento e viramos no próximo quarteirão.
— Você é originalmente de Connecticut? — ele pergunta.
— Não, eu só fui para o internato lá. Cresci em
Massachusetts. — Verifico a hora no meu telefone. Estamos
caminhando há quase cinco minutos. — Quanto falta?
— Não muito. Se você não se importa que eu pergunte, como
você foi parar em Connecticut?
Engulo em seco para limpar o aperto na garganta.
— Meus pais morreram em um incêndio em uma casa no
início deste ano.
As sobrancelhas de Sam se unem.
— Sinto muito em ouvir isso.
— Obrigada — eu digo. — Aidan, o cara em cujo quintal você
entrou, é tecnicamente meu único parente vivo. Os tribunais o
designaram como meu guardião, embora nunca tivéssemos nos
conhecido antes.
— Deve ter sido estranho.
— Foi um pouco, no começo. Mas agora não consigo me
imaginar morando em outro lugar.
— Isso é fofo — ele diz.
Sam me leva até uma rua movimentada e atravessa outro
cruzamento. Tenho quase certeza de que o escritório de Aidan está
localizado em algum lugar por aqui, mas não tive motivo para visitá-
lo lá.
Sam para em frente a um prédio muito alto, com expressão
arrependida.
— Então... tenho uma confissão a fazer — ele anuncia. — Eu
não convidei você apenas para tomar um café.
— Por que você me convidou? — Fico imediatamente em
guarda.
— Meu pai trabalha neste prédio e as coisas estão meio
tensas entre nós. Tive que sair do meu apartamento porque meu
último colega de quarto ficou completamente maluco comigo.
— Como assim?
— Ele apontou uma arma para mim durante uma discussão
— Sam diz, ainda claramente abalado pela experiência. — Estou
hospedado em um hotel enquanto procuro um novo lugar, e não tem
sido barato. Tive que pedir muito dinheiro ao meu pai.
— O que tudo isso tem a ver comigo?
— Bem, veja... Encontrei um apartamento, mas não tenho
condições de alugá-lo sem um colega de quarto, e se eu tiver que
parar e procurar um, vou perder o lugar. Preciso que meu pai assine
o contrato. Eu deveria tomar café com ele hoje e esperava que você
estivesse disposta a deixá-lo pensar que você é minha nova colega
de quarto.
— Você quer que eu minta para o seu pai? — Me sinto
desconfortável.
— Não explicitamente — Sam diz. — Eu vou falar a maior
parte. Tudo que você precisa fazer é sentar lá e parecer apenas uma
estudante. O escritório dele sempre oferece almoço grátis, para que
possamos tomar café e sanduíches aqui. Por favor?
Verifico a hora novamente.
— Não sei se consigo, Sam.
— Só levará dez minutos, no máximo.
— O que quero dizer é que não sei se deveria. — Todo esse
plano parece bastante complicado. Além do fato de que não gosto
da ideia de enganar deliberadamente um estranho, e se o pai dele
começar a me fazer perguntas? — Parece que isso é algo que vocês
dois precisam resolver juntos.
— Certo, claro. — Ele massageia a nuca. — Foi ridículo até
pedir isso. É que sinto que falhei muito com ele nos últimos meses.
Seria bom deixá-lo orgulhoso, deixá-lo pensar que eu estou andando
na linha, sabe?
Por mais irritada que esteja com Sam por me trazer até aqui
sob falsos pretextos, meu coração está com ele. Parece que o cara
realmente quer a aprovação do pai, e certamente posso me
identificar com o desejo dele de deixar os pais orgulhosos.
— Desculpe por ter tentado arrastar você para a minha
merda — ele diz. Tendo aperfeiçoado a arte do sorriso falso, posso
reconhecer um como a palma da minha mão. — Vou acompanhá-la
de volta ao campus.
Ele se vira na direção de onde viemos, com os ombros
caídos. Verifico os alertas no meu telefone e vejo que Jasmine ainda
não enviou nenhuma mensagem.
— Espere, Sam — digo com um suspiro. Ele vira. — É melhor
que haja uma xícara gigante de café me esperando no final deste
arco-íris.
Ele sorri e então corre para abrir a porta para mim.
— Depois de você, Grace Whittaker.
Entramos no grande lobby com ar-condicionado. O design
moderno encontra o industrialismo nos pisos de pedra polida e nos
ângulos agudos. Sam faz um gesto para que eu me sente na
pequena área de espera e depois caminha até a mesa de segurança.
Ele aponta para mim enquanto fala com a recepcionista, que faz
uma ligação rápida em seu telefone. Um momento depois, Sam faz
um gesto para que eu o siga até os elevadores.
— Não consigo expressar o quanto aprecio isso, Grace — ele
diz enquanto entramos no elevador.
— Receberei meus agradecimentos em forma de sanduíches
— digo. Ele ri. — Você provavelmente deveria me contar um pouco
sobre o apartamento, caso seu pai faça perguntas.
— Não se preocupe com isso. — Seu sorriso se alarga. — Ele
ficará surpreso demais em ver você para se importar.
“Surpreso” parece ser a palavra errada para usar nesta
situação. Só posso presumir que ele pretendia ficar satisfeito ou
impressionado.
As portas do elevador se abrem. Sigo Sam até um segundo
saguão com grandes janelas que abraçam totalmente o horizonte.
Ele se aproxima da recepção.
— Oi, amigo, como vai? — Sam diz para o recepcionista. —
Esta é minha amiga, Grace Whittaker. Presumo que a segurança lhe
disse que estávamos vindo.
O homem atrás da mesa mal olha para Sam.
— Você pode seguir, sra. Whittaker. Última porta à esquerda.
Ele está esperando por você.
— Uhm... obrigada. — Olho para o recepcionista, sem saber
por que ele escolheu se dirigir a mim especificamente, quando
estamos aqui para ver o pai de Sam.
Sam não perde tempo percorrendo o longo corredor repleto
de salas de conferência e escritórios com paredes de vidro.
— Estamos com pressa? — pergunto, trotando para
acompanhá-lo.
— Só quero ter certeza de que conseguiremos bons
sanduíches.
Finalmente, chegamos ao final e viramos à esquerda para
outra pequena área de estar. A mulher na mesa levanta os olhos do
laptop.
Meus sapatos escorregam no chão de pedra quando paro.
— Jen? — Pisco repetidamente, confusa sobre por que a
assistente pessoal de tempo integral de Aidan estaria trabalhando
para o pai de Sam.
— Grace. — Ela fica boquiaberta, atordoada. — O que diabos
você está fazendo aqui com... ele?
— Oi, Jen — Sam responde à expressão de choque de Jen
com um sorriso calmo. — Ele está?
O olhar dela salta entre nós.
— Sim. Mas não acho que seja uma boa ideia...
— Diga a ele que estamos aqui — Sam diz.
— Espere, Jen — eu digo, incapaz de entender essa bizarra
reviravolta nos acontecimentos. — Desde quando você trabalha para
o pai do Sam?
— Quem é Sam? — ela pergunta, voltando o olhar para meu
companheiro. — Você disse a ela que seu nome era Sam?
Minha garganta fecha. Observo o sorriso agradável no rosto
do falso-Sam se transformar em um sorriso de escárnio. Antes que
eu possa perguntar a esse estranho quem ele realmente é e como
ele conhece Jen, uma porta se abre e Aidan entra na sala.
O alívio toma conta de mim, diluindo minha confusão. Corro
para o lado dele.
— Esse é o cara que apareceu na casa — digo a ele. — Ele
disse que seu nome era Sam e que queria me mostrar uma cafeteria
por aqui...
Demoro um segundo para registrar que Aidan nem está
ouvindo. Ele está muito ocupado olhando para o estranho
anteriormente conhecido como Sam. Meus pensamentos se
emaranham enquanto estudo o rosto pálido e a expressão atordoada
de Aidan.
Ele conhece esse cara. Mas como?
— Liam — Aidan rosna. — O que diabos você está fazendo?
— Seu nome é Liam? — pergunto ao estranho.
Sua boca se curva em um sorriso malicioso.
— Grace Whittaker — ele diz —, gostaria que você
conhecesse meu pai, Aidan O’Rourke.
Liam se senta na cadeira em frente da minha mesa enquanto
Grace permanece de pé. Cada músculo do meu corpo está gritando
para eu tirá-la daqui antes que as paredes seguras e sólidas que
construí ao nosso redor desmoronem.
Jen pigarreia, lançando um olhar preocupado para Grace.
— Você gostaria que eu ligasse para Benjamin e pedisse que
ele trouxesse o carro?
— Sim — digo a ela. — E segure todas as minhas ligações.
— Ei, podemos pegar dois cafés? — Liam diz. — Prometi a
Grace um café em troca de vir até aqui.
Jen olha para Grace, que balança a cabeça.
— Desculpe — Jen responde, carrancuda. — Acabou. — Ela
sai, fechando a porta do meu escritório.
— Não acho que Jen gosta de mim — Liam comenta.
Eu olho fixamente para meu filho, meu olhar jogando
punhais. Não, não apenas punhais. Espadas. Malditas lanças com
pontas venenosas. Quando o recepcionista ligou e disse que Grace e
uma amiga estavam lá embaixo, presumi que ela se referia a
Jasmine.
Como diabos Liam sabe quem é Grace, e qual é o seu jogo
em trazê-la aqui? Ele quer me perturbar, isso é óbvio. E posso dizer
que ele está sentindo um prazer doentio com a perplexidade dela.
Maldito seja se vou deixá-lo ter prazer com o sofrimento dela.
Pego Grace pelo braço.
— Você e eu conversaremos sobre isso mais tarde. Agora
mesmo, Benjamin vai levar você de volta para...
— Você tem um filho? — ela diz, recusando-se a mover os
pés.
O olhar de traição em seu rosto me estripa como uma faca.
Tenho lutado para decidir se devo confessar o que aconteceu com a
mãe de Liam. Quase contei toda a história a Grace na noite em que
a tomei e a reivindiquei, mas decidi não fazer isso no último
segundo. Eu queria contar a ela, mas não conseguia suportar a ideia
de Grace me olhar daquele jeito, com a testa franzida em confusão e
o rosto contorcido de dor.
Se eu tivesse contado a ela naquele momento, quando
éramos só nós dois, essa conversa já teria terminado. Mas me
contive porque estava com medo de perdê-la.
Agora isso é praticamente uma realidade.
— É complicado — respondo. — Mas eu lhe devo uma
explicação completa, Grace.
— Parece bastante simples para mim — Liam se intromete. —
Homem conhece mulher. O esperma encontra o óvulo. Olá, bebê.
Eu combino sua expressão presunçosa com um olhar furioso.
Ele está observando nossa conversa com um nível de diversão que
estou prestes a estragar com o punho. Tento novamente atrair Grace
para a porta, mas ela escapa do meu alcance.
— Preciso me sentar — ela diz. Grace ocupa a outra cadeira
em frente à minha mesa e me encara com um olhar de desafio. Ela
está faminta por uma explicação e merece uma.
— Eu preferiria discutir isso em particular — digo a ela.
— Eu gostaria de discutir isso agora. — Grace não vai sair do
meu escritório a menos que eu literalmente a jogue por cima do
ombro e a arraste para fora. É uma noção atraente, mas suspeito
que não levará a um resultado melhor. — Você mentiu para mim,
Aidan. Você escondeu coisas de mim. Coisas grandes e importantes.
Por quê?
— Eu estava tentando proteger você.
— Me proteger do quê?
— Dele mesmo — Liam retruca. — Ele não queria que você
soubesse sobre mim, porque então ele teria que lhe contar o que ele
fez...
— Você não deveria tê-la arrastado para isso — falo no tom
mais comedido que consigo. — Isso é entre você e eu.
— Não era minha intenção arrastá-la para isso. Não no início,
de qualquer maneira. Eu nem sabia que você tinha alguém até que
fui verificar sua casa. — Ele aponta para o pescoço de Grace. —
Então eu notei o colar dela, como parecia muito com uma coleira, e
pensei comigo mesmo, ele poderia realmente ser tão sádico?
A mão de Grace vai para o colar, enquanto meu aperto
aumenta na borda da minha mesa.
— Não fale sobre coisas que você não consegue entender,
Liam — digo.
— Eu entendo melhor do que você imagina. — Ele se vira
para Grace. — Você sabia que existem apenas oitenta e sete Grace
Whittakers no Instagram? Você realmente deveria atualizar suas
configurações de privacidade. Quero dizer, todas aquelas fotos suas
segurando sua carta de aceitação da Jost Academy estão aí para o
mundo ver.
Faço uma nota mental para que ela defina todos os seus
perfis de redes sociais como privados assim que retornar ao campus.
— Meu endereço não está disponível para o mundo ver — eu
digo. — Como você descobriu onde eu moro?
— Para isso tive que contratar um detetive — ele responde.
— Me custou uma cacetada, mas felizmente você tem sido bastante
generoso monetariamente nos últimos meses.
Esse pequeno idiota é ainda mais distorcido do que eu
imaginava.
— Você ao menos trabalha na Jost? — Grace pergunta a ele.
— Hoje é meu primeiro dia oficial. Eu deveria estar fazendo
sanduíches agora, então duvido que eles me peçam para voltar. —
Liam adota um olhar de sobriedade transparente como vidro. — Me
desculpe por ter que enganá-la, Grace, mas eu sabia que você seria
mais receptiva à verdade se ela estivesse bem na sua cara. É um
prazer finalmente conhecê-la, prima.
Liam sabe que não há nada remotamente legal nessa
palavra. Ele está intencionalmente ateando fogo à única fonte de
felicidade no meu mundo e dançando sobre as brasas. Posso tolerar
seus caprichos sádicos quando direcionados exclusivamente a mim,
mas Grace não merece nada disso.
Preciso afastá-la de Liam e levá-la para algum lugar tranquilo
onde eu possa explicar tudo.
— Já nos entregamos ao seu joguinho doentio por tempo
suficiente — digo. — Grace e eu estamos indo embora.
— Não vou embora até que você me diga o que mais está
escondendo — Grace anuncia.
— Não há mais nada.
— Como vou confiar nisso? Pelo que sei, você poderia ter
outros filhos ou uma esposa secreta trancada no sótão.
— Quem quer que ela seja, ela não é minha mãe — Liam
retruca. — Minha mãe se matou.
A dor passa como uma sombra no rosto de Grace.
— Sinto muito.
Esse idiota mentiu para fazê-la segui-lo até aqui e, ainda
assim, ela lhe oferece simpatia. Grace é a melhor pessoa que já
conheci e eu a traí.
— Não há necessidade disso — Liam fala. — Não é como se a
culpa fosse sua.
A raiva explode dentro de mim quando ele estende a mão
para dar um tapinha na dela. Não quero que ele toque nem um fio
de cabelo de sua cabeça dourada.
— É meu pai quem deveria se desculpar — ele diz, virando-se
para mim. — Foi ele quem a estuprou.
Grace respira fundo com dificuldade. Esfrego a mão no rosto
enquanto as ondas de culpa que estou sentindo se aproximam da
minha cabeça.
— Não é verdade — ela diz a Liam. — Você está tentando me
enganar de novo.
Meu filho se recosta na cadeira, zombando.
— Diga a ela que não é verdade, pai.
Seu olhar implora ao meu por misericórdia. Não quero fazer
isso na frente de Liam, mas não posso deixar Grace sair daqui sem
saber a verdade. É o mínimo que devo a ela pelo que meu silêncio a
fez passar. Rezo para que, depois que me ouvir, ela me deixe passar
o resto da minha vida compensando-a por isso.
— É verdade — digo a ela. — Mas há muito mais nesta
história do que isso. Carolyn era minha ex-parceira de cena. Ela não
era minha submissa. Eu a conheci pouco tempo antes de me
confessar que havia sido estuprada por seu parceiro anterior. Ela me
pediu para interpretar uma cena consensual de não consentimento.
Algo que eu nunca tinha feito antes, mas concordei em fazer.
— Bem, isso foi estúpido — Liam murmura.
Ajoelho-me ao lado da cadeira de Grace, desviando sua
atenção de Liam. Isso é entre nós. Ela não diz nada, mas posso
dizer que está ouvindo com atenção.
— Eu tinha dezenove anos — continuo —, tolo e arrogante.
Eu não queria que ela soubesse que eu não tinha experiência. Nós
conversamos sobre isso antes. Ela escolheu uma palavra de
segurança. Eu interpretei o papel de seu ex e a surpreendi em seu
quarto.
As lembranças daquela noite voltam como bile subindo pela
minha garganta. Eu poderia perder meu café da manhã lembrando
das coisas que fiz com Carolyn, coisas que ela pediu explicitamente
e que a levaram a ficar traumatizada novamente.
— Tentei abraçá-la depois — digo. — Ela me empurrou e
gritou comigo para dar o fora do apartamento dela. Eu nunca tive
ninguém reagindo daquela maneira depois de uma cena. Eu estava
com medo de deixá-la, então fiquei na sala do apartamento dela a
noite toda e, na manhã seguinte, ela saiu para me dizer que ficou
tão paralisada de medo e ansiedade que não conseguiu falar, muito
menos dizer sua palavra de segurança.
Lágrimas silenciosas escorrem pelos lados do rosto de Grace.
Parece que ela passou pelo Inferno. Eu faria qualquer coisa para
recuperar tudo. Moveria o Céu e a Terra para colocar um sorriso de
volta em seu lindo rosto. A pena em seu olhar é quase pior que a
traição. Eu gostaria que ela gritasse comigo, me chamasse de
monstro, qualquer coisa.
É preciso tudo o que tenho em mim para não puxá-la para os
meus braços, mas quero dar-lhe espaço para processar o que
acabou de ouvir.
— Você deveria ter me contado — ela diz.
Descanso minha mão sobre a dela em sua perna.
— Eu não sabia como.
— Porque você não confia em mim. Você espera que eu
confie em você para tudo, mas não poderia me contar sobre esse
evento horrível e traumático do seu passado.
— Eu tentei.
Ela desliza a mão debaixo da minha.
— Não o suficiente. — Grace se levanta da cadeira.
Meu coração galopa atrás dela enquanto ela sai do meu
escritório. Não posso deixá-la ir embora assim, sem saber o quanto
estou arrependido e o quanto estou determinado a compensá-la.
Eu a sigo para fora do escritório, passando pela mesa de Jen,
alcançando-a antes que ela entre no elevador.
— Grace, espere. — Estendo a mão para ela, mas ela se
afasta. — Pequenina, eu...
— Não me chame assim — ela diz entre dentes. A devastação
em seu olhar é como uma bala no peito. Meus próprios olhos ardem
de angústia por saber que fiz isso com ela.
Ela entra no elevador vazio e eu me junto a ela, apertando o
botão do andar térreo, e começamos a descer.
— Grace, sinto muito que você tenha descoberto assim. Eu
deveria ter te contado antes. Eu não queria que Liam soubesse
sobre você porque ele tem prazer em ferrar com as pessoas,
conduzindo-as através de seus jogos mentais.
— Eu não me importo com Liam — ela diz, se abraçando. —
Você deveria ter confiado em mim. Se você tivesse me contado
sobre ele e o que aconteceu com a mãe dele no início, eu teria
entendido.
— Eu sei. — Seguro o lado do rosto dela. — Eu confio em
você. É em mim mesmo em quem não confio. Eu estava com medo
de cometer o mesmo erro com você.
Eu a puxo com força contra mim, entrelaçando meus dedos
em seu cabelo.
— Me desculpe por ter mentido sobre meu filho e escondido
a verdade sobre a mãe dele, mas eu quis dizer cada palavra que
disse sobre amar você. Você é o meu sol. Eu murcharia e morreria
sem você. Sou seu dominador, mas também sirvo a você e prometo
que farei o que for preciso para reconquistar sua confiança.
As portas do elevador abrem para o lobby principal. Ela
respira fundo, estremecendo.
— Me solte, Aidan — ela diz com a voz rouca de tanto chorar.
— Eu preciso voltar para o campus. Jasmine provavelmente está
pirando, imaginando aonde eu fui.
Não quero deixá-la ir, mas ela está certa. Grace tem coisas
em sua vida que precisa fazer e merece um momento para respirar
depois de tudo o que passou.
Relutantemente, eu a solto e a sigo até o saguão.
— Benjamin está esperando por você lá na frente — eu digo.
— Eu vou te acompanhar.
— Eu posso andar-
— Não brigue comigo sobre isso, pequenina.
Ela franze os lábios, mas não recusa e nem me lembra de
não usar seu apelido. Mesmo que ela fizesse isso, eu continuaria a
usá-lo. Ela é minha enquanto estiver usando minha coleira, embora
eu tema que decida que não a quer mais.
Coloco-a no banco de trás do Porsche e digo a Benjamin para
levá-la ao campus. Quando volto ao meu escritório, Liam ainda está
lá, reclinado na minha cadeira de couro com os sapatos imundos
sobra a mesa.
— Acho que ela aceitou bem, considerando todas as coisas —
ele comenta.
Em um instante, o controle que tenho lutado para manter
todo esse tempo escapa do meu alcance e bato as mãos na mesa.
— Me escute bem, seu merdinha. Você e eu, terminamos.
Chega de esmolas, chega de sentimento de culpa. Já chega. Quero
você fora daquele apartamento até o final da semana.
— Isso não deveria ser um problema. Estou trabalhando para
conseguir um lugar melhor — ele zomba.
— Eu não poderia me importar menos onde você se meteu,
contanto que você nunca mais chegue perto da minha casa, do meu
escritório ou da minha Grace
— Mas ela é? — Liam apoia os cotovelos na mesa. — Sua
Grace?
Minha fúria sacode as barras de sua jaula.
— Saia do meu escritório, Liam. E enquanto você está
fazendo isso, dê o fora da minha vida.
Jasmine raspa a última gota de sorvete de pistache de sua
tigela.
— Tem certeza de que está bem, Grace?
Concordo com a cabeça, colocando um bocado de sorvete de
brownie na boca para não ter que falar.
Ela me olha em dúvida. Quando nos reencontramos após a
revelação devastadora no escritório de Aidan, ela já havia me
mandado seis mensagens perguntando onde eu estava e se estava
bem. Pedi desculpas por ter saído do campus e disse a ela que tinha
ido visitar uma cafeteria com um cara que conheci e que se revelou
um canalha.
“Você confia demais nas pessoas, Grace” ela me disse, e não
pela primeira vez. “Eu sei que você provavelmente estava tentando
ser educada, mas precisa ter mais cuidado em quem você confia.”
Ela não tem ideia, e honestamente estou bem em manter as
coisas assim por enquanto. Não acho que conseguiria expor todos os
detalhes dolorosos.
Nosso primeiro dia de orientação está oficialmente encerrado.
Amanhã de manhã teremos uma sessão com o corpo docente do
programa de dança e depois uma apresentação de um grupo de
alunos do último ano.
O evento social do sorvete desta noite é realizado em um dos
maiores refeitórios do campus. Sempre extrovertida, Jasmine já
atraiu um pequeno grupo de potenciais amigos e admiradores. Eles
parecem legais, o tipo de pessoas com quem eu ficaria feliz em
conviver em circunstâncias diferentes.
Eu deveria estar me misturando e conhecendo meus colegas,
mas realmente não quero estar perto de pessoas agora. O problema
é que sei que se eu voltar para o dormitório, mandarei uma
mensagem para Aidan.
Quase implorei para ele me levar para casa esta tarde.
A tentação de deixá-lo me buscar e me levar de volta para o
abrigo de sua casa, onde tudo o que tenho a fazer é seguir suas
ordens e ser sua pequenina, foi tão forte que precisei sair
fisicamente do prédio para não cair em tentação.
Ir para casa com ele seria como colocar um curativo em uma
ferida aberta.
Aidan mentiu para mim. Ele escondeu segredos de mim —
segredos perturbadores. Coisas que ele não queria que eu soubesse.
Quando Liam disse que Aidan havia estuprado sua mãe, meu
corpo se revoltou instantaneamente. Imediatamente pensei em meu
pai. Não tenho certeza se ele alguma vez estuprou minha mãe,
embora tenha havido momentos em que ela voltou depois de uma
surra com hematomas nos pulsos.
Enfio a colher na tigela de sorvete pela metade, enjoada
demais para dar outra colherada. Ainda não consigo imaginar Aidan
fazendo algo tão monstruoso, mesmo que por engano.
Mas quando ele finalmente expôs toda a história, todo o
resto se encaixou. Por que ele se recusava a fazer sexo com suas
submissas e por que ele só fazia sexo baunilha com suas parceiras
românticas. Ele instituiu essas regras para si mesmo para garantir
que nunca mais cometesse o mesmo erro.
Sei que é tolice confiar em um homem que mentiu para mim,
mas acredito em Aidan quando ele diz que não teve a intenção de
machucar a mãe de Liam. Houve momentos em que a raiva do meu
pai me abalou tanto que eu não conseguia me mover e nem falar. Eu
sei o que é ficar paralisada de medo, sentir as paredes se fechando
e minha garganta fechando junto com elas.
Tento imaginar como seria ficar sem palavras no meio de
uma cena intensa de BDSM que eu queria desesperadamente
encerrar. Mesmo quando Matthew e Dante estavam me tocando, eu
sabia que poderia usar minha palavra de segurança para acabar com
tudo.
A experiência deve ter sido horrível para a mãe de Liam — e
para Aidan, quando ele percebeu o dano que causou. Liam não via
dessa forma. Ele responsabiliza seu pai pelo suicídio de sua mãe,
embora, pelo que parece, ela já tivesse passado por muita coisa
antes de conhecer Aidan.
Meu coração dói por todos os três.
O grupo ao redor da nossa mesa explode em risadas e
gargalhadas. Alguém deve ter dito algo engraçado que eu estava
distraída demais para entender. Esboço um sorriso, mas isso não
convence minha melhor amiga.
Jasmine aperta meu ombro e sussurra:
— Você não está bem.
Quero ignorar a preocupação dela, mas não consigo fazer
isso. Fingir que está tudo bem não funciona mais. Quero estar
enrolada na cama, onde posso pensar, chorar e ouvir mensagens de
voz antigas só para ouvir a voz reconfortante de Aidan.
Se eu acabar ligando para ele, que assim seja. Não é como
se não tivéssemos mil coisas para conversar.
— Na verdade, não estou me sentindo muito bem — digo a
ela. — Vou voltar para o dormitório.
— Quer que eu vá com você?
Eu balanço minha cabeça.
— Não, fique e se divirta.
— Tudo bem. Me mande uma mensagem quando chegar. —
Ela examina a mesa e depois afasta a cadeira para olhar o chão. —
Merda, acho que deixei minha bolsa no banheiro.
Nós duas nos levantamos da mesa. Ela me abraça, fala que
vai me avisar se chegar depois das onze, e depois vai procurar a
bolsa no banheiro. Vou até a lixeira para jogar fora minha tigela e
colher. Enquanto me dirijo para a saída, meu olhar se depara com
um familiar par de olhos fundos.
Meus sapatos escorregam no piso quando paro. Por que Liam
voltaria aqui?
Um grupo de pessoas passa, bloqueando minha visão de seu
sorriso. Ele se foi num instante, como se nunca tivesse estado ali.
Talvez ele nem estivesse. Já nem sei mais o que pensar.
Respirando fundo para desacelerar meu pulso, atravesso a
porta giratória para a noite quente. O ar gruda na minha pele
enquanto atravesso a pequena ponte que atravessa a rua até a
entrada do conjunto residencial. Uso minha carteira de estudante
novinha em folha para entrar no prédio e, em seguida, pressiono o
botão para chamar o elevador. Uma vez lá dentro, tudo em que
consigo pensar é na conversa com Aidan no elevador esta tarde.
A suíte onde Jasmine e eu ficaremos esta noite não é aquela
em que moraremos no outono, mas são todas muito parecidas.
Estou prestes a colocar meu pijama quando meu telefone toca com
uma mensagem recebida.

Jasmine: Encontrei minha bolsa e meu telefone,


mas minha identidade sumiu. Eu deixei aí em
cima?

Faço uma busca rápida no lado de Jasmine no quarto,


verificando embaixo dos travesseiros e cobertores e nos bolsos de
sua bolsa carteiro.

Eu: não encontrei em lugar nenhum.

Ela responde alguns segundos depois:

Jasmine: Você pode descer e me deixar entrar?

Visto uma camiseta, calço os chinelos e desço até a entrada.


Um monte de gente já está entrando pela porta quando chego lá.
Não vejo Jasmine entre eles. Talvez ela tenha entrado quando eu
estava descendo o elevador?
Eu: Onde você está? Estou na porta de entrada.

Jasmine: No térreo. Entrada da garagem.

Eu: O que você está fazendo aí?

Acho que é possível que Jasmine tenha saído do campus,


mas se for esse o caso, eu esperava que ela demorasse um pouco
para voltar.

Jasmine: Não sei... Sendo burra? Eu vou te contar


sobre isso quando você chegar aqui.

Eu: Espere, estou indo.

Volto para o elevador e vou até o térreo. Há um


estacionamento público aqui, além de estacionamento para
funcionários da faculdade e do centro de artes cênicas. Me aproximo
da porta de vidro que dá para o estacionamento mal iluminado. Há
alguém parado à direita, digitando no telefone.
À medida que me aproximo, a pessoa desaparece de vista.
Os pelos dos meus braços se arrepiam. Eu não gosto daqui. É
grande, mas está escuro, e embora eu saiba que há duas saídas
para a rua em cada extremidade, é difícil lembrar disso quando você
está cercada de concreto.
Abro a porta com cautela.
— Jas?
Nenhuma resposta. Grito seu nome, mas ela não responde.
Ninguém responde. Não há ninguém aqui.
Mantendo a porta aberta com o pé, puxo seu contato e ligo
para ela. O som distinto do toque do seu telefone soa em algum
lugar à direita da porta. Entro na garagem e a porta se fecha atrás
de mim com um clique metálico.
É quando vejo o telefone dela, piscando com a chamada
recebida, vibrando pelo chão.
— Jasmine?
Minha garganta se fecha enquanto o erro da situação
percorre meu corpo. Me viro para voltar, esbarrando em um corpo.
Ele me gira e passa um braço em volta do meu pescoço.
— Oi, prima — Liam sussurra em meu ouvido.
Agarro seu braço e chuto atrás de mim, acertando um golpe
em sua canela que o faz grunhir. Seu braço aperta meu pescoço,
comprimindo minha garganta.
— Shh — ele murmura. — Hora de dormir, Grace.
Meu pulso diminui. Dou um tapa no braço dele, mas não
adianta. Não sou rápida o suficiente.
Um som baixo e repetitivo enche minha cabeça latejante,
junto com o fedor de cigarro e gasolina. Está tão quente que posso
sentir o suor na minha pele e minha camiseta molhada grudada no
peito e nas costas. Tento esfregar minha testa dolorida e descubro
que meus pulsos foram algemados atrás de mim. Sugo o ar pelo
nariz porque ofegar pela boca é impossível. Há fita adesiva nos
meus lábios.
Minha cabeça gira quando começo a entrar em pânico. Está
escuro como breu aqui, onde quer que eu esteja, encolhida de lado
em posição fetal.
Em algum lugar pequeno e escuro e... em movimento?
Não, por favor, não... eu choramingo enquanto o medo se
insinua em meus músculos. Isso não pode estar acontecendo. É
apenas um pesadelo. Uma metáfora subconsciente vívida. Então me
lembro do estacionamento e do telefone de Jasmine.
Um braço apertando meu pescoço. A voz de Liam me dizendo
para dormir. Meu peito aperta quando percebo que devo estar
trancada no porta-malas do carro dele.
Para onde diabos ele está me levando? E, mais importante,
quais são os planos dele para mim quando chegarmos lá?
Meus pensamentos disparam e correm. Preciso ficar calma.
Se eu entrar em pânico, tudo acaba; nunca escaparei.
Começo uma contagem regressiva a partir de cem.
Prendendo a respiração contando até dois e depois expirando por
quatro tempos.
Oitenta e seis, oitenta e cinco, oitenta e quatro, oitenta e
três. Pausa... Expire. Oitenta...
Lentamente, meu peito relaxa o suficiente para que eu possa
respirar mais fundo. Meus pensamentos param de perseguir o
próprio rabo.
Examino o porta-malas, apertado e com cheiro de mofo.
Lembro de um dos meus professores de educação física do
internato nos dizer que deveríamos tentar apagar as luzes traseiras
se ficarmos presos no porta-malas de um carro. Não tenho ideia de
onde estão as luzes traseiras em relação aos meus pés e não há
espaço suficiente para colocar força real nos meus golpes. Está tão
quente e abafado que fico exausta rapidamente. Tenho que reiniciar
minha contagem decrescente para tranquilizar meus pulmões
frenéticos de que não estou realmente sufocando.
Liam faz uma curva fechada. Esta nova estrada em que
estamos é acidentada. Não conheço nenhuma estrada não
pavimentada na cidade e não sei há quanto tempo estou
inconsciente. Poderíamos estar a quilômetros de distância de Jost
agora. Tento relembrar detalhes do início do dia. Coisas que Aidan
disse sobre Liam, coisas que Liam disse sobre si mesmo.
Ele queria nos separar. Ele gosta de fazer jogos mentais.
Minha linha de pensamento é interrompida quando paramos. O
motor desliga.
Um coro de insetos e sapos cantando substitui o zumbido
baixo do motor. Uma porta se abre e se fecha, então outra porta se
abre e se fecha, desta vez mais perto. Meu coração bate contra
minhas costelas quando reconheço o próximo som. Líquido
balançando em torno de um recipiente.
O porta-malas se abre e meu corpo fica tenso.
— Que bom, você está acordada — Liam diz. — Eu realmente
não queria ter que carregar você.
As luzes traseiras vermelhas lançavam sombras aterrorizantes
em seu rosto sorridente no escuro. Gemo quando ele me empurra
para fora do porta-malas, minhas pernas latejando por terem ficado
dobradas por sabe-se lá quanto tempo. Desabo sob meu peso
quando ele me coloca de pé.
— Caramba, eu pensei que bailarinas deveriam ser graciosas
— ele diz, me puxando para cima. Estamos na floresta. Galhos e
arbustos secos estalam sob meus chinelos.
A náusea sobe pela minha garganta, biliosa e ácida. Ele me
trouxe para a floresta onde ninguém pode ver ou ouvir o que vai
fazer. Quando Liam se abaixa para pegar o que agora confirmo ser
uma lata de gasolina, aproveito a oportunidade para fugir.
Corro em direção a uma abertura nas árvores.
Meus chinelos ficam presos na vegetação rasteira. Eu
tropeço. Galhos arranham meu rosto. Perco meu chinelo direito e
imediatamente piso em algo pontiagudo.
Uma luz brilha atrás de mim. Passos estalam no mato. Forço
minhas pernas doloridas a correrem mais rápido, apertando os olhos
na escuridão para evitar bater nas árvores. Meu pé prende em um
arbusto e caio, batendo com força no chão com o ombro.
— Isso foi estúpido pra caralho — Liam fala, apontando uma
luz brilhante para meu rosto.
Eu chuto com toda a minha força enquanto ele me derruba
de bruços. Ele agarra um punhado do meu cabelo e puxa minha
cabeça para trás, pressionando algo frio e duro na minha bochecha.
Meus pensamentos param ao ecoar o tilintar de uma pistola
sendo engatilhada.
— Você realmente acha que pode fugir de uma bala?
Meu pulso lateja em minhas têmporas. Ele me levanta e enfia
o que percebo ser meu celular no bolso da camisa com a lanterna
ainda acesa. Ele pega a lata de gasolina e aponta a arma para mim.
— Comece a andar — exige.
Eu não me mexo. Não sei o que ele está planejando, mas se
quisesse me matar, já teria feito isso.
— Eu disse para andar! — ele sibila, pressionando a arma nas
minhas costas.
Eu tropeço para frente. Se Liam não vai atirar em mim,
provavelmente vale a pena arriscar para prolongar isso. Talvez eu
encontre uma oportunidade de fugir em algum lugar entre aqui e
onde quer que estejamos indo. Ou talvez não.
Por mais difícil que seja, forço meus pés a se moverem.
Ando por entre as árvores à luz do meu celular. Consigo
evitar os arbustos altos e os troncos das árvores, mas perco meu
outro chinelo na vegetação rasteira. Depois de caminhar pelo que
pareceram uns vinte minutos, chegamos a uma clareira. Gemo de
alívio quando minhas solas macias tocam a grama macia.
Uma casa enorme e ampla, brilha como um farol à distância.
Eu conheço aquela casa...
— Bem-vinda ao lar, prima.
Olho para Liam, confusa. Ele desativa o aplicativo de lanterna
do meu telefone e me empurra para frente.
— Você acredita que meu pai nunca me convidou para vir
aqui nenhuma vez? — Liam diz, me perseguindo como uma sombra.
— Ele só me encontrou naquela cafeteriazinha de merda.
Não tenho ideia sobre a que cafeteria ele está se referindo.
— Para ser sincero, eu realmente não dei a mínima. Eu sabia
que tudo o que ele tinha seria meu algum dia. Contanto que ele não
tivesse esposa e filhos, eu ficaria com tudo. Aí você apareceu. Sua
sobrinha. Sua pupila. Seu novo e brilhante brinquedinho de foda. Eu
vi o que ele deixou aqueles caras fazerem com você.
Meu estômago embrulha. A ideia de Liam se escondendo do
lado de fora da casa de Aidan, nos espionando, me faz arrepiar.
— Observei pela janela enquanto eles te despiam e te
dobravam sobre a poltrona — ele continua. — Então eu vi meu pai
foder você.
Eu estremeço, enojada e furiosa com ele por manchar uma
das minhas memórias mais preciosas.
— Não se preocupe — ele diz. — Eu não me masturbei nem
nada. Não sou um pervertido, como algumas pessoas. Eu estava
apenas fazendo pesquisas, vendo o quanto você representava uma
ameaça. Veja, não posso arriscar que Aidan te engravide e deixe
todos os seus bens para você e seu pirralho. Você é uma
complicação, Grace Whittaker. Um problema que pretendo resolver
esta noite.
Liam agarra meu ombro, me parando quando chegamos a
poucos passos da casa. Um arrepio gelado desliza pelas minhas
costas. Examino as janelas em busca de qualquer sinal de
movimento e vejo Aidan passando pela sala de estar.
Eu saio em direção a casa. Se eu conseguir chegar até a
janela da sala, posso me atirar contra o vidro com força suficiente
para fazer um som que Aidan ouvirá.
— Não tão rápido. — Liam pega minha camisa e me joga no
chão.
Ele me dá um soco forte no estômago. A dor explode abaixo
do meu diafragma. Eu gemo.
— Jesus, você é tão malcomportada assim com meu pai? —
Ele monta em minha cintura, empilhando seu peso e o meu em cima
dos meus braços.
As algemas apertam ainda mais meus pulsos. Tento afastá-lo,
mas congelo quando ele aponta a arma diretamente para meu rosto.
Ele pega meu telefone e bate nele com uma mão.
— Isso deve tirá-lo de casa — ele diz.
Um momento depois, meu telefone acende na mão de Liam.
— Lá vamos nós. — Ele sai de cima de mim. — Levante.
Temos que nos mover.
Deito no chão como um peixe morto. Liam suspira, depois
agarra um punhado do meu cabelo e puxa com força suficiente para
me fazer ver estrelas.
— Levante-se, Grace — ele sibila. — Não pense que não vou
te arrastar pelos cabelos até o outro lado da casa.
Eu me esforço para ficar de pé. Liam segura a arma no meu
ombro enquanto contornamos o perímetro da casa. Ele me empurra
para trás de um arbusto alto enquanto a porta da garagem se abre.
Aidan acelera pela entrada em sua Mercedes, levando consigo toda a
minha esperança de ser resgatada.
Liam me força a entrar na garagem no momento em que a
porta automática começa a fechar.
— Tudo bem, prima — Liam diz. — Hora de fazer o grande
tour.
Grace quer voltar para casa. Sua mensagem não especificava
por que ela queria deixar o campus, apenas que queria que eu fosse
buscá-la.
Estou desesperado para tê-la ao meu alcance. Talvez ela
esteja pronta para falar sobre o que aconteceu hoje. Ou talvez só
queira dormir em sua própria cama. É possível que ela esteja prestes
a me pedir para tirar a coleira e libertá-la do meu controle.
É o resultado mais provável e que pode realmente me matar.
Minhas mãos apertam o volante. Estou repassando tudo isso
na minha cabeça desde que a coloquei no carro esta tarde. Coisas
que eu deveria ter dito ou feito de forma diferente. Como posso
começar a tentar compensá-la, presumindo que ela ainda me queira.
Dirijo à toda pelas sinuosas estradas rurais. Se um policial
tentar me parar, é melhor que ele esteja pronto para uma
perseguição, porque não pretendo parar por ninguém além de
Grace. Estou prestes a pular na rodovia quando meu telefone vibra
com outra mensagem do meu filho. Verificando se não há ninguém
atrás de mim, desacelero o carro e abro a mensagem.
Aparece uma foto de Grace, algemada e pendurada no que
parece ser a cabeceira da minha cama, com fita adesiva cobrindo a
boca e lágrimas nos olhos.
Piso no freio, meu olhar se concentra no que parece ser uma
lata de gasolina e um isqueiro na cama atrás dela.
O pânico queima através de mim como um incêndio. Toco na
tela para ligar para o telefone de Grace enquanto piso no acelerador
e corro de volta para casa.
Um. Dois. Três...
— Oi, pai — Liam diz, seu tom é leve. — Não é do seu feitio
ligar tão tarde.
— Onde está Grace? — eu lato. — E quando diabos você
tirou essa foto?
— Não faz muito tempo — ele diz casualmente, como se
estivéssemos apenas de conversa fiada. — Mostrei para Grace antes
de enviar. Acho que ela não gostou. Não é o seu melhor ângulo.
— Coloque-a na porra do telefone.
— Uhmm... — ele suspira. — Ela realmente não pode falar
agora. Acho que posso colocar no viva-voz.
— Faça isso.
Há uma breve pausa antes de Liam dizer:
— Ok, vá em frente.
— Grace, você está aí? — Escuto um gemido suave e
abafado, que mal consigo ouvir. — Espere, pequenina. Estou a
caminho.
— Ah, você a chama de pequenina? — Liam ri. — Que fofo.
A raiva ferve em meu estômago. Eu não dou a mínima se ele
é meu filho. Se Liam pulasse na minha frente agora, eu passaria
com o carro por cima dele sem nem pensar duas vezes.
— Juro por Deus, Liam, se você tocar nela...
— Você está com medo de que eu a estupre?
O pavor aperta seus dedos irregulares em volta da minha
traqueia. Não tenho ideia se Liam é capaz de algo tão monstruoso.
Ele nunca sequestrou ninguém antes, até onde eu saiba. Quem sabe
até onde ele está disposto a ir para defender seu ponto de vista?
— Mantenha suas malditas mãos longe dela — eu rosno.
— Você machucou minha mãe, Aidan. Parece justo que eu
faça o mesmo com a sua pupila.
Meu coração bate forte como se estivesse tentando sair do
meu peito. Dou uma volta em noventa graus e sinto a lateral do
carro levantar do chão.
— Eu não queria machucar sua mãe. Foi um acidente. Não
puna Grace pelos meus erros.
Liam não responde. Um segundo depois, sou recebido por
um coro de gritos agudos e angustiantes. Cada músculo do meu
corpo fica tenso com a necessidade de agir. Aperto o volante com
força, mantendo o olhar na estrada. Preciso ficar alerta se quiser
ajudar Grace.
Prendo a respiração durante um período de silêncio.
— Honestamente, estupro não é meu estilo — Liam fala. —
Ainda bem que não faltam outras maneiras mais criativas de quebrar
alguém. Você sabe disso melhor do que a maioria.
Ele encerra a ligação.
— Que merda! — Ligo para o serviço de emergência e digo
para irem até minha casa, depois jogo meu telefone no chão do
banco do passageiro. Graças a Deus não há quase mais ninguém na
estrada esta noite porque estou dirigindo como um maníaco.
Não me preocupo em esperar que a porta da garagem se
abra totalmente quando chego lá. Salto do carro, passo por baixo da
porta e corro para dentro de casa.
Meus sapatos batem na madeira. Subo as escadas de dois
em dois degraus e corro pelo corredor até meu quarto.
O cheiro forte de gasolina atinge como uma onda quando
entro correndo no quarto.
— Calma — Liam fala. — Nenhum movimento brusco, ou ela
leva um tiro.
Verifico Grace antes de me preocupar com a arma na mão de
Liam. Ela está parada ao pé da minha cama, os pulsos ainda
algemados a um dos ganchos da estrutura, vestida com shorts de
pijama minúsculos, uma camiseta azul e pés descalços e sujos. Suas
roupas e cabelo estão molhados com o que peço a Deus que seja
suor e não gasolina.
— Você está bem? — pergunto e ela assente
— Grace é fantástica — Liam diz, brandindo uma arma em
uma mão e um isqueiro na outra. — Estamos nos divertindo muito,
contando histórias, colocando o papo em dia. Contei a ela tudo
sobre como estragou meus planos de herdar todas as suas merdas.
— Grace é minha pupila, não minha filha — digo a ele
calmamente, dando um passo mais perto. Não sei se ele já passou
da razão, mas quanto mais tempo ele conversa comigo, mais tempo
a polícia terá para chegar até aqui. — Ela não herdaria nada a
menos que eu deixasse para ela, o que não fiz.
— Não como sua pupila, não... mas como sua esposa? A mãe
dos seus filhos? Quero dizer, do jeito que vocês dois estão indo, é
apenas uma questão de tempo até formarem uma família novinha
em folha.
— Você pode fazer parte dessa família — as palavras têm um
gosto tão ruim quanto parecem. Olho nos olhos de Grace, esperando
que ela perceba que estou apenas tentando ganhar tempo para nós.
Ela olha para a arma na mão de Liam e depois para mim.
O que você está tentando me dizer, pequenina?
— Largue a arma e o isqueiro — digo. — Podemos acabar
com isso agora, antes que alguém se machuque.
— Você acha que sou idiota? Depois de tudo que fiz com o
seu brinquedinho, você não vai me deixar sair daqui de jeito
nenhum.
Ele tem razão. Se eu colocar minhas mãos em Liam antes
que a polícia apareça, ele não será capaz de andar nunca mais.
— Você é meu filho, Liam — digo. — Eu quero ajudar você.
— É mesmo? — Ele inclina a cabeça. — Porque não me
lembro de você ter tentado me ajudar enquanto eu era criança. Você
poderia ter me acolhido como fez com Grace. Me trazer aqui para
morar em sua grande e chique mansão.
— Carolyn me disse para ficar longe.
— Ah, sim? Quer saber o que ela me contou na manhã antes
de se matar? Ela me disse que você não é meu pai verdadeiro.
Eu olho para ele.
— O quê?
— O homem que minha mãe estava namorando antes de
conhecer você. Ele é meu verdadeiro pai. Mas ela também sabia que
você se sentia mal pelo que aconteceu. Foi tão ruim que você
provavelmente nem exigiria um teste de paternidade.
Carolyn presumiu que estava certa. Eu não queria
acrescentar insulto à injúria, forçando-a a provar que o bebê era
meu.
— Não importa — digo, dando um passo em direção a ele. —
Você ainda é meu filho.
Ele aponta a arma para meu peito. Grace sacode as algemas
contra a estrutura de metal da cama, chamando minha atenção. Ela
olha atentamente para a arma, depois para mim, e percebo o que
ela quer que eu faça.
Em vez de caminhar em direção a Liam, dou um passo para o
lado. Ele me segue com sua mira.
— Sinto muito — digo a ele. — Eu não sabia que sua mãe
estava passando por dificuldades ou que ela estava descontando em
você. — Eu esperava que Carolyn usasse parte do dinheiro que
enviei para ela consultar um terapeuta.
— Claro que você não sabia. Você não estava lá. Ela me
contou tudo. O que você e meu pai fizeram com ela. De novo e de
novo. Ela começou a colocar essa merda na minha cabeça quando
eu tinha seis anos. E vou me livrar disso agora.
Ele levanta o isqueiro, o polegar no botão. O quarto está
abafado e carregado de gasolina, uma faísca e todos explodiremos.
Eu me movo para o lado e ele gira, trazendo a arma para
mais perto de Grace. Em um movimento rápido e fluido, ela pula,
chutando a arma da mão de Liam e fazendo-a voar. Ela cai no chão
a alguns metros de distância com um baque pesado.
— Sua putinha — ele grita.
Eu avanço, derrubando-o no chão. O isqueiro escorrega de
sua mão quando ele a estende para agarrar meu colarinho.
— Vai se foder, seu desgraçado! — Ele dá um soco na lateral
da minha cabeça. A dor explode na minha visão como fogos de
artifício, e então a raiva a torna vermelha.
Meu punho atinge sua bochecha e depois sua mandíbula. Um
golpe final em seu nariz faz com que o sangue jorre sobre nós dois,
desorientando-o o suficiente para que eu possa derrubá-lo de
bruços.
— Pare — rosno em seu ouvido. — Acabou. Já chega.
Ele geme. Puxo seu braço esquerdo para trás das costas.
Quando estendo a mão para a direita dele, meu aperto escorrega e
ele me dá uma cotovelada nas costelas. A dor sobe pelas minhas
costas e ricocheteia no peito. Eu perco o controle sobre Liam
enquanto ele sai de debaixo de mim.
Vejo a arma na minha visão periférica e a pego, no momento
em que Liam agarra o isqueiro. Um sorriso maníaco consome seu
rosto enquanto ele aperta o botão.
Todo o tapete e o ar acima dele explodem em chamas.
Liam deve ter derramado gasolina nele antes de eu aparecer.
Recuo diante do inferno e Liam faz o mesmo, mas na direção
oposta, em direção à porta. Ele desaparece no corredor. Não há
tempo para persegui-lo com o fogo queimando, comendo no tapete
cada vez mais perto de Grace.
A fumaça engrossa o ar. Levanto, superando a dor nas
costelas, e vou até Grace. Ela pulou na cama, mas isso é o máximo
que consegue ir enquanto está presa nas algemas. Enfio a arma na
cintura e solto o gancho de metal.
— Vai ficar tudo bem. — Eu a guio para fora da cama e até a
janela.
Enquanto ela tira a fita da boca, abro a janela e chuto a tela.
Estamos dois andares acima, mas espero poder deixá-la perto o
suficiente do chão para que não se machuque gravemente.
— Vou abaixar você — digo a ela.
Grace tosse em seu braço.
— E você?
— Vou pular depois.
Ela olha para o chão, seu olhar incerto, mas assente. Eu
gostaria de poder tirar as algemas dela primeiro, mas meu alicate
está em uma gaveta de uma cômoda do outro lado do fogo. Eu a
ajudo a subir no parapeito da janela.
— Estou com você, Grace.
Eu a beijo com força e rapidez e então agarro seus
antebraços com força, fazendo-a descer pela lateral da casa. O fogo
arde nas minhas costas. Ela olha para o chão, seus dedos lutando
para segurar meus pulsos.
— Grace, olhe para mim — digo a ela. — Continue olhando
para mim.
Minhas costelas doem quando me encosto no parapeito da
janela. Luto para manter os pés no chão enquanto estico os braços e
a parte superior do corpo para fora da janela.
Os olhos de Grace se arregalam.
— Aidan, cuidado!
A dor explode na parte de trás da minha cabeça como uma
bomba. Desorientado, sinto Grace escorregar dos meus dedos. Ela
grita. Sua voz soa distante, como se estivesse no fim de um túnel.
Eu tropeço para trás no quarto.
— Aonde você pensa que vai, pai? — Liam grita.
O ar está denso de fumaça, mas posso ver que ele está
segurando um dos meus chicotes de bambu — assim como a arma
que deve ter tirado da minha cintura.
Ele aponta para o meu peito. A raiva que eu estava
segurando detona, me dando força. Agarro sua cintura, jogando-o
na cama, assim que a arma dispara.
A dor explode na minha coxa. Aperto a mandíbula e me forço
a lutar contra ela.
— Me dê a porra da arma — grito —, ou nenhum de nós
conseguirá sair daqui.
As chamas lambem a borda inferior do colchão. Eu me
esforço para tirar a arma da mão de Liam enquanto a mantenho
apontada para longe de mim. Ele me dá uma joelhada no estômago,
atingindo minhas costelas com força suficiente para me deixar
enjoado. Deixei que ele nos levasse até a cabeceira da cama, longe
das chamas, mantendo meu foco na arma.
Liam mostra seus dentes ensanguentados para mim,
parecendo uma espécie de demônio.
— Não me importo se eu morrer queimado — ele diz —,
contanto que você queime comigo.
O ódio puro e não diluído em seu olhar é afiado o suficiente
para atravessar a fumaça cada vez mais densa. Ele pode ter vindo
aqui com a impressão de que se tratava de sua herança, mas por
trás da amargura mesquinha, há um impulso mais forte e mais
sinistro que a ganância.
Liam está em busca de vingança. Um de nós tem que morrer
esta noite se o outro quiser viver. E não estou disposto a morrer por
ele. Não enquanto houver uma garota por aí que precise de mim.
Enquanto Liam estiver respirando, Grace estará sempre em
perigo, porque ele não ficará satisfeito até que destrua tudo que eu
amo. Ainda sou o guardião de Grace, seu protetor, seu amante e seu
dominador. Preciso dela tanto quanto ela precisa de mim, e não
estou disposto a sacrificar sua segurança ou sua felicidade para
justificar o filho da puta maluco que pensei ser meu filho.
Reunindo todas as minhas forças restantes, eu levanto Liam
para fora da cama... A arma dispara.
Eu me levanto, pronto para enfrentá-lo em uma luta até a
morte. Mas ele não se levanta.
— Liam! — eu grito. Me agachando, pego a arma caso ele
esteja blefando e o viro de costas.
Sangue escorre do ferimento em sua testa. Seus olhos
mortos olham para o nada. Pressiono minha mão no ferimento,
sabendo que isso não vai ajudá-lo. Nada pode ajudá-lo agora.
Meu filho está morto. Perdido para sempre.
Se ao menos o mesmo pudesse ser dito sobre o incêndio que
ele iniciou...
As chamas subiram pelas cortinas que cercam a janela por
onde ajudei Grace a sair. Meus olhos ardem quando puxo a camisa
para cobrir o nariz e a boca. Agarro os pulsos de Liam e arrasto seu
corpo ao redor do fogo até o corredor. O ar aqui é mais limpo do
que o do meu quarto, mas não posso apostar que permanecerá
assim por muito tempo.
Minha perna lateja enquanto trabalho para puxar Liam
escada abaixo. Logo, minhas costelas ardem e tenho que parar duas
vezes para recuperar o fôlego. Assim que o coloco no térreo,
arrastá-lo pela porta da frente é bastante fácil. Deixo-o no caminho
de pedras e depois corro o mais rápido que minha perna ferida
permite até a lateral da casa onde deixei Grace.
Ela não está na grama.
— Grace! — eu chamo. Minha mente dispara. Para onde
diabos ela foi?
O som das sirenes ecoa ao longe. Examino o quintal em
busca da minha pequenina, rezando para que ela não tenha voltado
para dentro para tentar me ajudar.
Finalmente, eu a vejo, enrolada na grama ao lado de um
arbusto de hortênsias. Corro até ela.
— Grace. — Caio de joelhos e a seguro em meus braços. Ela
está tremendo como uma folha. — Você está machucada?
— Meu tornozelo — ela diz. Não parece quebrado para mim;
espero que esteja apenas torcido. — Tentei tirar as algemas, mas só
apertei mais.
Acaricio suavemente a pele inchada ao redor de seus pulsos.
— A polícia vai tirá-las. — Deito na grama, apertando-a
contra mim.
— Onde está Liam? — ela pergunta.
Luzes azuis e vermelhas piscam enquanto veículos de
emergência e viaturas policiais chegam à garagem.
— Ele se foi. — Meus pensamentos crescem enquanto
observo as chamas saindo pela janela do meu quarto.
— Sinto muito — Grace sussurra. — Eu sei que você tentou
ajudá-lo.
Eu tentei. Mas no final, não foi suficiente.
Somos levados de ambulância ao pronto-socorro do hospital
mais próximo. Aidan insiste para que nos coloquem um ao lado do
outro, a ponto de ameaçar mandar um helicóptero nos levar para
outro lugar caso tentem nos separar.
— Você tem muita sorte — o médico me diz. Ele é um
homem mais velho, com olhos gentis e penugem cinza crescendo
nas orelhas. — A queda poderia facilmente ter quebrado seu
tornozelo, mas você saiu com uma torção. Bem, vai sair daqui
mancando — ele ri e dá um tapinha no meu pé por cima do
cobertor, tentando aliviar meu humor, mas uma sensação de vazio
toma conta do meu estômago.
— Quando poderei dançar de novo?
— Eu esperaria alguns meses até que você esteja cem por
cento — ele responde. — A fisioterapia irá agilizar o processo.
— Obrigada — digo a ele, um tanto tranquilizada. O médico
pisca para mim e sai, fechando a cortina para que eu possa
descansar um pouco.
Ouço o médico conversando com Aidan sobre o ferimento à
bala do outro lado da cortina que compartilhamos. Só percebi que a
perna dele estava sangrando quando já estávamos na ambulância e
o paramédico estava cortando sua calça com uma tesoura.
Aidan apertou minha mão e me disse que era apenas um
arranhão, nada com que se preocupar. Ainda assim, minha garganta
apertou quando a realidade do que acabamos de passar tomou
conta de mim.
Chorei lágrimas silenciosas durante todo o caminho até o
hospital de Greenwich.
O médico me dá alta algumas horas depois com uma receita
de analgésicos e instruções explícitas para marcar uma consulta com
um cirurgião ortopédico o mais rápido possível. A situação de Aidan
é um pouco mais complicada, com a inalação prolongada de fumaça,
a costela quebrada e o ferimento a bala.
Jen está na sala de espera quando eles me levam para fora.
— Ah, graças a Deus — ela diz, pegando minhas duas mãos.
— Eu estava tão preocupada com você, querida. Reservei uma suíte
em um hotel próximo, onde você poderá descansar um pouco.
— Quão ruim está a casa? — pergunto.
Ela segura minha bochecha.
— Podemos conversar sobre tudo isso mais tarde. Agora você
precisa dormir.
Eu desmaio assim que minha cabeça bate no travesseiro de
penas. Quando abro os olhos novamente, já passa do meio-dia.
Aidan chega à suíte em algum momento da noite, junto com a
enfermeira particular que Jen contratou para cuidar de nós dois.
Estou descansando na cama quando ouço a porta do quarto
do hotel se abrir, seguido por um suspiro e Jen dizendo:
— Meu Deus, você está horrível.
— Obrigado — Aidan ri. — Era exatamente isso que eu
precisava ouvir. Onde está a Grace? Ela está bem?
— Ela está dormindo.
— Que bom — ele diz. — Deixe-a descansar.
Volto a dormir. Quando acordo mais tarde naquela noite,
Aidan está dormindo ao meu lado com um tubo flexível fornecendo
oxigênio debaixo do nariz. Observo seu peito subir e descer. As
partes de seu corpo não cobertas pelo cobertor estão salpicadas de
hematomas azuis e roxos.
Nós dois já passamos por tanta coisa. Não tenho ideia de
como saímos vivos daquela noite terrível. Ver a casa pegar fogo com
Aidan dentro era pior que um ataque de pânico. Eu queria
desesperadamente voltar correndo e ajudá-lo a afastar Liam, mas
toda vez que tentava me levantar, a dor no tornozelo me arrastava
de volta ao chão.
Nossa enfermeira enfia a cabeça no quarto para nos ver e,
vendo que estou acordada, entra silenciosamente para trocar minha
água e me ajudar a ir ao banheiro. Como um pouco de queijo e
biscoitos antes de tomar outra dose de analgésico que me deixa
inconsciente pelo resto da noite e grande parte do dia seguinte.
Aidan e eu não falamos sobre o que aconteceu. Não até que
estejamos vestidos à mesa de jantar, com a barriga cheia da comida
do serviço de quarto.
— Como o Liam morreu? — pergunto a ele.
Aidan limpa a boca com um guardanapo e respira longa e
profundamente antes de responder.
— Liam estava com a arma. Eu lutei com ele. O fogo estava
subindo em direção à cama, e eu sabia que ele não me deixaria sair
de lá a menos que eu o obrigasse. Eu o empurrei de cima de mim e
o dedo dele devia estar no gatilho porque a arma disparou. Foi um
acidente.
Estendo a mão por cima da mesa para tocar a sua. Ele
acaricia a lateral do meu polegar.
— Não me arrependo de como tudo terminou — ele fala,
encontrando meu olhar. — Eu sabia que se ele vivesse, você nunca
estaria segura. Ele queria vingança e estava pronto para destruir a
todos, inclusive a si mesmo e a você, para consegui-la.
Ele leva minha mão ao lado de seu rosto e depois se vira
para beijar minha palma.
— Foi preciso lutar pela minha vida para perceber que tenho
me punido por coisas que não posso refazer e me responsabilizado
por coisas que estão fora do meu controle. Passei vinte anos
sentindo pena de algo pelo qual pedi desculpas, mais vezes do que
consigo contar. Sou um homem melhor agora do que era antes e um
dominador muito melhor. Eu não cometeria o mesmo erro
novamente.
— Eu sei que você não faria isso.
Não preciso conhecê-lo naquela época para saber que ele é
uma pessoa melhor agora. Não sou a mesma pessoa que era
quando coloquei os pés na casa de Aidan seis meses atrás. Vi, ouvi e
experimentei coisas que me mudaram para sempre.
O dia em que conheci Aidan; meu mundo preto e branco
explodiu em cores.
— Você me apresentou ao homem que me tornei, pequenina
— ele diz. — E esse novo homem quer te dar tudo que você merece.
Meu estômago revira.
— Isso significa que você está disposto a quebrar suas regras
sobre não fazer sexo com perversão?
O olhar de Aidan arde com uma intensidade que faz meu
peito corar.
— Não apenas quebrá-las — ele responde. — Pretendo me
comprometer a compensar todos esses dolorosos meses de
privação. — Aidan estende a mão para acariciar meu lábio, depois
estremece. — Assim que conseguir levantar o braço sem sentir que
fui pisoteado por um cavalo.
Desligo meu notebook e massageio meus olhos cansados. Foi
mais uma maratona de trabalho, com o lançamento do novo
aplicativo e a insistência de Matthew para que a equipe de
desenvolvimento testasse o software novamente em todas as
plataformas antes do lançamento na próxima semana. Minhas costas
doem por estar sentado em minha mesa desde o meio-dia. Uma
bebida forte ou algo macio e rosa para bater me cairiam bem.
Jen bate na porta aberta do meu escritório.
— A menos que você tenha mais alguma coisa para mim, irei
para casa. — Pouco depois do incêndio, finalmente sentamos com
ela para uma discussão franca sobre a natureza do meu
relacionamento com Grace.
Ela ficou surpresa e insistiu em falar em particular com Grace.
O que quer que tenham discutido parece ter aliviado suas
preocupações, porque ela não está mais me olhando feio.
— Nada mais, Jen. Vá para casa com Ethan. O resto pode
esperar até amanhã.
Levantando da mesa, me preparo para a pontada no peito.
Minha costela quebrada e o ferimento da bala em minha coxa
pararam de doer meses atrás, mas os ecos daquela noite ainda
podem ser sentidos em pontadas fantasmas, como memórias
gravadas em meu sistema nervoso.
Mandei enterrar Liam ao lado de sua mãe no terreno da
família dela. Grace e eu éramos os únicos convidados do funeral. Eu
disse a Grace que ela não precisava comparecer, mas ela disse que
queria — por mim, senão por Liam — e fiquei grato por sua
presença. Meu filho era muitas coisas. Egoísta, cruel, vingativo. Ele
pode não ter sido meu filho biológico, mas pensei nele todos os dias
durante vinte e dois anos.
Desde o funeral, fiz as pazes com o que aconteceu na noite
do incêndio e com os acontecimentos anteriores.
Agora, olho para o futuro.
A primeira coisa que fiz foi comprar uma cobertura na cidade
para que Grace pudesse morar perto do campus enquanto ainda se
recuperava. Construí para ela um novo estúdio de dança na sala que
tinha as janelas mais altas. Quando ambos nos recuperamos o
suficiente, Grace já havia retornado aos estudos em tempo integral,
mergulhando em Literatura Inglesa e História, mas ainda cumprindo
tarefas limitadas nas aulas de dança. Conseguimos algumas noites
roubadas de fim de semana aqui e ali, e quando seu tornozelo
sarou, comecei a treiná-la para valer.
Ela estava certa, não há razão para mantermos nossa vida
sexual e nosso jogo BDSM separados. Eles fazem parte de nós,
individualmente e juntos.
Acompanho Jen até o elevador, onde Grace está se
despedindo de Jasmine. Espero até que ambas tenham ido embora
antes de puxá-la contra mim e inclinar minha boca sobre a dela,
apreciando o quão prontamente ela se abre para aceitar minha
língua.
Como a faculdade de Grace aproveita as férias de inverno
para recitais, shows e eventos de arrecadação de fundos, eles
permitem uma semana inteira de folga para o Dia de Ação de
Graças. Tenho Grace à minha mercê desde que a peguei na primeira
sexta-feira, testando e ampliando as tolerâncias que ela vem
construindo, vendo-a mergulhar totalmente nas cenas como a
campeã que é. Sei que ela está ansiosa para encenar esta noite e
prometi a ela que tentaríamos algo mais intenso.
— Você está pronta, pequenina?
Ela abre aquele sorriso maravilhoso do qual não me canso.
— Sim, por favor — ela diz.
Agarro sua cintura com as duas mãos e beijo sua testa.
— Vá para o quarto e tire a roupa. Estarei lá em alguns
minutos.
Enquanto ela se despe, vou até o escritório para me servir de
um pouco de uísque. Saber que Grace está esperando por mim envia
uma onda de calor direto para o meu pau. Aguardo minha hora,
bebendo tranquilamente a bebida.
Quanto mais eu a fizer esperar, mais sensível ela ficará ao
meu toque.
Grace já está ajoelhada na ponta da cama quando entro no
quarto, que é exatamente onde eu a quero.
Desafivelo meu cinto e ela molha os lábios. Tirar a roupa
para Grace é como desembrulhar um presente, cada nova faixa de
pele exposta é um presente para o seu olhar ansioso. Afago seu
rosto e pescoço, suas bochechas rosadas, depois deslizo meu
polegar entre seus lábios.
A sua língua é macia e molhada, e mal posso esperar mais
um segundo para sentir os seus lábios ao meu redor.
Tiro minha camisa e depois a calça, liberando meu pau e
minhas bolas da cueca. Grace abre a boca obedientemente. Ela está
ansiosa para me agradar, e sua seriedade envia uma injeção de
adrenalina direto para o meu pau. Esfrego a cabeça sobre seus
lábios, cobrindo-os com minha excitação.
Sua língua macia como um anjo desliza para fora para me
provar. Eu gemo enquanto minhas bolas apertam.
— Me tome o máximo que puder, pequenina.
Enfio a cabeça em sua boca. Ela é uma coisinha faminta,
balançando para frente e para trás ao longo do meu eixo, aceitando
mais a cada movimento. Minha mão se fecha em torno de um
punhado de cabelos dourados, enquanto observo meu eixo deslizar
entre seus lábios.
— Acho que você adora chupar meu pau, pequenina.
Ela envolve meu eixo com a mão e se afasta de mim para
dizer:
— Sim, senhor.
— O que você mais gosta nisso? — Afago a lateral do rosto
dela. Grace dá um beijo suave na ponta, da mesma forma que
beijaria algo delicado. Meu coração incha enquanto meu pau dói, e
meu sádico interior jura fazê-la pagar por provocá-lo.
— Adoro agradar você — responde, com a voz cheia de
fôlego. Ela acaricia meu eixo. — Adoro fazer você se sentir tão bem
que você perde o controle e fode minha boca.
Deslizo meu polegar sobre seu lábio inferior.
— Você quer que eu foda sua boca, pequenina?
Ela assente com a cabeça.
— Por favor.
Gemo baixinho quando ela envolve seus lábios em volta de
mim novamente. Com a mão na parte de trás de sua cabeça,
empurro em sua boca com tanto controle quanto posso,
encorajando-a a me chupar com mais força e mais rápido. A cabeça
do meu pau encontra o fundo da garganta dela mais vezes do que
posso contar. Grace engasga, baba e vejo minha excitação
escorrendo pelo seu queixo.
Eu poderia reivindicar sua boca todos os dias pelo resto da
minha vida e nunca me cansar. Mas por mais que eu esteja
morrendo de vontade de gozar no fundo da garganta dela, apenas
comecei a brincar com minha pequenina.
Grace choraminga enquanto eu a afasto, olhando para mim
com olhos lacrimejantes que imploram por mais. Eu me sinto da
mesma forma; não há como eu conseguir me fartar dela. Não
importa quantas vezes ou de que maneira eu a tenha fodido, sempre
desejarei mais de Grace.
Pego seus mamilos entre os dedos, depois dedilho as pontas
endurecidas com os polegares. Ela choraminga, pressionando as
coxas juntas.
— Você quer que eu faça doer, pequenina?
— Sim, senhor. Por favor.
Belisco seus mamilos com força. Ela arfa, empurrando o peito
em minha direção, mesmo quando suas feições se contraem de dor.
Eu alterno entre dedilhar e beliscar, depois dou uma bofetada boa e
forte em seus peitinhos doces. Eu a empurro para baixo na cama,
pairando sobre ela para que eu possa colocar um mamilo duro e
inchado em minha boca.
Minha mão desliza por sua coxa para descansar contra seu
centro. Ela já está esperando. Eu mergulho entre os lábios de sua
boceta e toco a ponta do meu dedo médio em seu clitóris. Ela abre
mais as pernas e se balança contra mim. Eu aperto firmemente seu
mamilo, com força suficiente para descolorir a pele, enquanto traço
pequenos círculos sobre seu clitóris.
É assim que deveria ser: dor e prazer entrelaçados,
distribuídos à minha mercê. Achei que a estava protegendo ao tentar
manter os dois separados, mas tudo o que fiz foi colocar um limite
para ambos. Agora, mais do que nunca, vejo como eles se
amplificam e se combinam. O prazer que dou permite que ela lide
com mais dor, enquanto a dor intensifica o seu prazer. E o meu.
Torturo seu outro mamilo por um tempo, depois recuo para
apreciar meu trabalho. Ela está corando do umbigo ao nariz, e tão
excitada que está pingando excitação.
— Seu desespero é lindo. — Passo as mãos por suas coxas,
passando por sua barriga e peito, evitando os típicos pontos de
prazer em favor de áreas que tantas vezes passam despercebidas.
Seus flancos sensíveis, a pele sensível logo abaixo do umbigo, o
plano raso entre os seios.
Da próxima vez que estivermos em público e eu passar os
dedos pelo seu antebraço, quero que ela se lembre desse momento.
Como a fiz delirar com nada além de uma massagem suave.
— Vou algemar você na cama antes de açoitá-la — digo a
ela.
Já se passaram meses desde que ela foi sequestrada, mas
ainda faço questão de avaliar sua reação ao conceito de ser contida.
Minhas algemas são muito mais bonitas do que as que Liam colocou
nela, feitas de couro italiano e forradas com pele sintética. Esta não
será a primeira vez que a amarro desde o incêndio, mas a ansiedade
tem o hábito de ficar à espreita. Você pensa que está fora de perigo
e, de repente, ele volta com tudo.
Grace me oferece os pulsos, com as palmas para cima, o
olhar resoluto.
— Estou pronta, senhor.
Prendo as algemas e digo a ela para se deitar de bruços na
cama. Grace é perfeitamente capaz de se posicionar sozinha, mas
nunca consigo resistir a uma oportunidade de tocá-la. Ela arfa
enquanto eu deslizo as pontas dos dedos entre suas coxas,
acariciando seu centro e continuando minha subida ao longo da
fenda de sua bunda. Prendo as algemas que ela está usando em um
conjunto de correntes que já estão presas na cabeceira da cama.
Dando um passo para trás, vou para o lado da cama e tomo
um momento para admirar a perfeição apresentada diante de mim.
Meu pau dói por estar dentro dela. Eu me acaricio, sabendo
que ela pode me ver e que isso a deixará ainda mais desesperada.
Eu tinha planejado alimentar meus impulsos sádicos com alguma
negação ao orgasmo, mas agora que a tenho à minha mercê, quero
vê-la gozar.
Abro a cômoda que abriga nossa coleção de brinquedos e
escolho o chicote que pretendo usar, bem como seu vibrador
favorito. De volta à cabeceira, aperto o botão de ligar, enchendo o
quarto com um zumbido baixo e ressonante.
Grace mexe a bunda ansiosamente.
— Abra as pernas para mim, pequenina.
Ela faz o que mando. Posiciono o vibrador entre suas coxas,
garantindo que a cabeça arredondada toque seu clitóris. Ela rebola e
geme.
— Você tem minha permissão para gozar quando estiver
pronta — anuncio.
— Obrigada, senhor — diz ela com um suspiro.
Eu sorrio para mim mesmo. Grace acha que está se safando
facilmente, mas a vantagem de saber do que ela gosta é que
também sei como sobrecarregá-la com muitas coisas boas. Prendo
seu cabelo para o lado, expondo suas costas. Ela treme enquanto
passo as pontas de couro do chicote ao longo de sua coluna.
Aqueço suas costas com alguns tapas antes de começar a
açoitá-la. Me concentrando em um lado de cada vez, desço golpes
rítmicos de seus ombros até sua bunda. Em poucos minutos, ela
está gemendo e se contorcendo com a força do seu primeiro
orgasmo.
— Foi bom, pequenina? — pergunto a ela.
— Sim, senhor. Muito bom. — Ela tenta se afastar do
vibrador.
Pressiono sua bunda, colocando-a novamente em contato
com o brinquedo pulsante.
— Eu não te dei permissão para parar.
Ela choraminga enquanto eu açoito a parte de trás de suas
coxas e sua bunda já avermelhada. Toda a sua metade inferior está
tremendo com a tensão de manter seu clitóris no vibrador.
Passo meus dedos delicadamente por sua bunda, rindo
sozinho. Os arrepios que meu toque suave provoca, desencadeiam
uma reação em cadeia dentro dela, levando a outro clímax. Posso
dizer que este orgasmo é mais intenso que o primeiro. Ela
choraminga, e o som é tão puro que não consigo resistir a apertar
meu pau.
Eu poderia gozar assim, me masturbando em suas costas
recém-açoitadas. Se eu não quisesse tanto estar dentro dela, eu
faria isso, só para ver as lágrimas em seus olhos quando ela
percebesse que eu a privei do privilégio de me fazer gozar ela
mesma.
Depois de alguns minutos, começo a suspeitar que seu
clitóris perdeu um pouco da sensibilidade. Eu aumento a velocidade
das pulsações.
— É demais... não aguento... — Grace grita.
Seguro o vibrador firmemente no seu clitóris e desço a minha
mão com força contra a sua bunda. Ela grita.
— Quem é o dono dessa boceta? — rosno.
— Você, s-senhor — ela gagueja.
— Isso mesmo, pequenina. É minha, não sua. Isso significa
que você não decide quando é demais. — Mantenho a cabeça do
vibrador pressionada contra seu clitóris, mesmo quando seus quadris
balançam. Eu bato nela uma segunda vez e depois uma terceira.
A terceira vez acaba sendo a mágica, pois o orgasmo número
três rasga seu corpo. Desligo o vibrador e passo os dedos sobre sua
boceta. Grace está pingando. Não é preciso nenhum esforço para
deslizar dois e depois três dedos dentro dela. Grace geme enquanto
eu a fodo com meus dedos.
— Sua boceta está encharcada, pequenina. Quer meu pau
dentro de você?
— Sim, senhor — ela responde.
— Então implore por isso.
— Por favor, me foda, senhor. Eu quero você dentro de mim.
Eu amo seu pau. Me encha e foda minha boceta... — palavras sujas
saem de sua boca como chuva. Inclino a cabeça dela para trás para
poder beijar o canto daquela boca suja.
— Boa garota. — Beijo seu pescoço e ombros. Depois de
tudo que esse raio de sol passou, ela ainda é a estrela mais brilhante
do meu céu. — Eu te amo, demais.
Ela solta um suspiro suave enquanto eu me afasto.
— Eu também te amo, senhor.
Meu coração incha. Nunca vou me cansar do jeito que ela
olha para mim, como se eu fosse algum tipo de herói. Na verdade,
foi ela quem me salvou. Grace me deu um motivo para continuar
lutando quando a culpa que eu arrastava atrás de mim estava
sempre ameaçando me derrubar.
Tiro minha cueca. Meu olhar percorre o corpo de Grace,
marcado pelo meu açoite e pelas minhas próprias mãos firmes. Não
posso deixar de dar alguns golpes longos em meu pau enquanto
examino meu território. Ela morde o lábio, observando meu punho
se mover para frente e para trás.
— De quem é este pau, pequenina?
Ela sorri.
— É meu, senhor, porque você é meu.
— Isso mesmo — digo a ela. — E eu vou dar para você.
Subo na cama e me posiciono entre suas pernas. Ela geme
enquanto eu não perco tempo deslizando para dentro dela, até as
bolas. Descanso meu corpo em cima do seu. Quero que Grace sinta
meu peso pressionando-a, mantendo-a no lugar.
— Ah, meu Deus... — ela arfa. — É tão bom, senhor.
Sua pele ainda está quente por causa da surra e, sem dúvida,
muito sensível.
— Você é tão gostosa, pequenina.
Eu me apoio nos cotovelos e começo a estocar, movendo
meu pau para dentro e para fora de sua boceta apertada e molhada.
Grace é boa demais para ser verdade, perfeita demais para este
mundo, pura e brilhante demais para a escuridão que suportamos.
Mesmo assim, ela prontamente aceita o coquetel de prazer e dor
que ofereço, seu corpo rebolando de encontro ao meu. Ela é meu
par em todos os sentidos. Minha redentora, minha pupila. No dia em
que nos conhecemos, tornei-me seu guardião, seu protetor e
guardião, no verdadeiro sentido do termo.
Colocando minhas mãos entre seu corpo e a cama, aperto e
seguro seus seios enquanto a fodo. A julgar pela forma como seus
músculos internos se flexionam ao meu redor, devo estar
pressionando seu clitóris no colchão com cada impulso. O som das
correntes batendo na cabeceira da cama faz minhas bolas
apertarem. Grace está inteiramente à minha mercê, indefesa, mas
não sem ajuda, porque estou determinado a ajudá-la a arrancar
outro orgasmo de sua boceta insaciável.
Mudo meu ritmo de lento e profundo para forte e rápido,
beijando e mordendo sua nuca e ombro. Seu suor tem um gosto
doce e salgado e eu o absorvo, engolindo-o como se fosse uma
bebida. Estou bêbado com o som dos seus gemidos e com a
sensação do seu corpo à minha volta.
Grace choraminga enquanto eu me afasto de sua boceta. Eu
a guio sobre os cotovelos e joelhos, em seguida, alcanço entre suas
coxas para provocar seu clitóris. Ela rebola contra meus dedos. Abro
suas dobras e levo minha boca até sua boceta, balançando minha
língua em seu clitóris.
— Senhor... — Ela arqueia as costas para me conceder
melhor acesso ao seu clitóris. — Quero voltar. Posso? Por favor?
— É melhor que você goze, pequenina — eu rosno. — Não
vou te foder de novo até que você faça isso.
Como sua boceta por trás, lambendo e chupando até que ela
fique uma bagunça trêmula. Grace quer gozar, mas sua boceta
precisa de algo mais para ajudá-la a ultrapassar o limite. Procuro o
vibrador ao redor da cama, ligo-o e toco em seu clitóris.
— Ah, meu Deus... senhor... — Ela fica em silêncio total por
um momento, depois geme como uma sereia, apertando o vibrador
e soltando um suspiro longo e rouco.
Não lhe dou tempo para recuperar do seu orgasmo antes de
entrar nela novamente. Seus músculos continuam a flexionar ao
meu redor enquanto eu estoco nela. Duro, rápido e profundo. Grace
atende aos meus impulsos. Estou tão perto que consigo sentir meu
orgasmo a crescer, surgindo das bolas para a minha virilha, subindo
e saindo do meu pau, para a minha pequenina. Minha Grace. Meu
amor.
Eu caio sobre ela, pulsando e gozando, enchendo-a até que
ela transborde. Reivindicando e marcando ela como minha.
Esta não é a primeira vez que gozo dentro de Grace, e
certamente não será a última, mas algo nela parece diferente. De
repente, me ocorre: integrei o sexo em uma cena com Grace sem
parar para adivinhar meus instintos.
Meu gozo desce entre suas coxas enquanto me retiro de seu
corpo. Solto as correntes das algemas em seus pulsos e a puxo para
meu colo.
Dou um beijo em sua testa.
— Obrigado, pequenina — digo com voz rouca.
— Pelo quê, senhor? — ela sussurra.
— Por confiar em mim seu precioso ser esta noite.
Ela sorri e se aconchega em meu peito.
— Obrigada, senhor, por confiar em mim.
Dois anos depois...
Meu telefone ilumina a escuridão na traseira da Mercedes.
Desbloqueio a tela e leio a mensagem de Jasmine, perguntando se
tenho certeza de que não poderei ir à festa desta noite. Mando uma
mensagem de volta para ela e digo que tenho certeza de que não
poderei ir, mas que espero que ela se divirta e tome uma dose para
mim. Ela responde com um emoji de berinjela e três salpicos de
água.
Falta apenas uma semana para o início do nosso ano letivo,
mas parece que estou longe de Aidan há muito mais tempo. Estou
ansiosa para voltar para casa desde que ele me deu um beijo de
despedida no domingo passado.
Guardo o telefone na minha bolsa no momento em que
Benjamin para em frente ao nosso prédio. A propriedade dos meus
pais, bem como a antiga propriedade de Aidan, foram vendidas por
um valor bem acima do preço pedido no ano passado. Em vez de
procurar uma nova casa imediatamente, decidimos esperar até eu
terminar a faculdade para procurar uma casa. Vou me inscrever para
dançar em companhias de ballet em todo o país, além de algumas
no exterior. Onde criaremos raízes dependerá de onde eu for aceita,
embora meu sonho seja dançar no New York City Ballet.
Benjamin salta para abrir a porta para mim. Agradeço pela
carona e entro no prédio, pegando o elevador privativo que sobe
setenta e seis andares até a cobertura.
Gosto de morar na cidade. Sempre há um ballet ou uma peça
sendo exibida em algum lugar, e você pode comer o que quiser a
qualquer hora do dia ou da noite. Ao entrar no grande hall de
entrada, ouço Aidan falando ao telefone em seu escritório. Desde
que Jen e Ethan se casaram no ano passado, ela vai para casa mais
cedo nas noites de sexta-feira. Não poderei vê-la até amanhã, mas
conhecendo Jen, ela chegará bem cedo.
Vou para o quarto para deixar minha bolsa e me despir,
depois caminho pelo amplo apartamento completamente nua até
meu estúdio. É aqui que espero por Aidan nas noites em que volto
da faculdade.
De joelhos no centro da minha linda pista de dança, de frente
para o espelho, observando a porta. Não preciso esperar muito para
que Aidan se mostre.
Ele me observa da porta por um momento antes de entrar na
sala. Meu coração bate mais rápido quando ele vem atrás de mim.
— Levante-se, pequenina — ele diz, e eu levanto.
Aidan passa os dedos pelo meu cabelo, depois passa os nós
dos dedos pelo meu braço e peito, descendo pela lateral até o
umbigo.
Eu suspiro quando ele passa a ponta dos dedos sobre meu
centro.
— Você foi muito gentil em não me mandar mensagens esta
semana — ele diz. Depois de passarmos o verão juntos, Aidan
estava preocupado com a possibilidade de eu voltar ao ritmo das
coisas na faculdade. Ele introduziu a regra de que eu não tinha
permissão para enviar mensagens para ele mais de duas vezes por
dia, com seis horas de intervalo.
Se eu conseguisse cumprir essa nova regra, ele me
recompensaria com uma selfie. Se eu passasse doze horas inteiras
sem mandar mensagens para ele, ele mandaria um nude.
Aidan captura meu mamilo entre os dedos, beliscando
suavemente. Suspiro quando o prazer percorre meu corpo como
eletricidade. Ele tira um alicate do bolso e fica atrás de mim.
Observo seu reflexo com curiosidade.
— Para que serve isso, senhor?
— Para tirar a coleira — ele responde.
Meu coração salta para a garganta. A única razão pela qual
removo a coleira é para uma atuação. Engulo minha apreensão para
poder perguntar a ele:
— Eu... fiz algo errado?
— De jeito nenhum.
Eu o sinto mexer no mecanismo de trava na parte de trás do
meu colar.
— Então por que você está tirando isso?
Meu estômago se contrai quando a corrente se afrouxa e
depois cai. Eu a pego enquanto desce, embalando-a como um
tesouro entre as palmas das mãos.
— Seria estranho usar duas ao mesmo tempo, não acha? —
ele pergunta.
— Sim — eu digo. — Espera, o quê?
Aidan enfia a mão no outro bolso. Um brilho desconhecido
em seu olhar me faz olhar para seu reflexo. Ele passa meu cabelo
por cima do ombro e depois esfrega o queixo. Percebo de repente
que meu dominador está... nervoso.
Ele coloca as duas mãos sobre meus ombros para colocar
algo em meu pescoço. É outro colar com um anel — só que este
anel é forrado de diamantes.
Meus olhos se arregalam.
— Senhor...
Aidan encontra meu olhar no espelho.
— Pequenina, esses últimos dois anos com você foram os
anos mais felizes da minha vida. Amar você me tornou um homem e
um dominador melhor. Mas isso não é suficiente. Quero lhe dar uma
vida tão abundante e extraordinária quanto você. Eu quero ser seu
marido. Você não precisa responder esta noite...
— Sim — digo a ele. — Sim, me caso com você, senhor. Mil
vezes sim.
Meu corpo inteiro fica vermelho enquanto a felicidade
explode em meu peito. Aidan quer que eu seja sua esposa. Sinto
como se estivesse girando na grama recém-cortada com os braços
bem abertos e o sol ao rosto.
Seu olhar se estreita. Ele bate na minha bunda, sua boca se
inclinando em um meio sorriso.
— Eu não terminei — diz com firmeza. — Não preciso de uma
resposta esta noite porque não vamos nos casar até que você
termine a faculdade. — Ele prende o mecanismo de trava na minha
nuca, guarda o alicate no bolso e apoia as mãos nos meus ombros.
— Embora eu agradeça seu entusiasmo.
Aidan vira meu rosto para me beijar nos lábios. Fecho os
olhos e me derreto contra seu corpo, consciente de sua mão
descendo entre minhas pernas. Ele massageia meu clitóris em
círculos pequenos e tentadores. Eu choramingo em sua boca, me
rendendo ao toque do homem que conhece meu corpo tão bem
quanto eu.
— Não se atreva a gozar até que eu mande, pequenina.
Vou esperar para gozar. Eu esperaria para sempre, se Aidan
me pedisse, assim como esperarei para usar seu anel. Porque sei
que, no final, a recompensa valerá a pena esperar, pelo prazer de
ser submissa de Aidan.
Sua pequenina. Seu amor. Sua.

Aidan
Seis anos depois...
Amelia, minha filha de dois anos, suspira durante o sono.
Acaricio seu cabelo sedoso, do mesmo tom de loiro da juba
dourada de sua mãe.
— Boa noite, docinho — eu sussurro. — Mamãe e eu
veremos você pela manhã.
Beijo sua testa e acaricio sua bochecha rechonchuda. Me
afastando do berço de Amelia, vejo minha assistente na porta,
olhando para mim com a expressão muito familiar de “ahhh”.
— Pare com isso — eu digo.
Jen ri, afastando-se para que eu possa entrar no corredor.
— Não posso evitar — ela fala. — Ver você adorar aquela
garotinha sempre me deixa emocionada.
Olho de volta para o quarto de Amelia. Por muito tempo
depois da morte de Liam, eu não tinha certeza se conseguiria ser pai
pela segunda vez. Não que eu tivesse tido a chance de ser pai de
Liam até que fosse tarde demais. Eu sabia que Grace queria um
filho. Eu nunca teria pedido a ela em casamento se não achasse que
poderia dar a vida que ela merecia. Mas o medo de que eu
estragasse tudo de novo era uma presença constante em minha
mente.
Descobrir que Grace estava grávida me forçou a fazer um
exame de consciência. Tenho o prazer de dizer que assim que
Amelia veio ao mundo, todas as minhas dúvidas se dissolveram,
sendo substituídas por um fluxo inabalável de amor incondicional.
Não há dúvida de que desta vez vou acertar. Eu preciso.
Simples assim.
— Grace ainda está no banho? — pergunto.
— Acredito que sim — Jen responde.
Minha esposa e eu temos planos de ir à festa de Matthew
hoje à noite. Entre Amelia e os nossos exigentes horários de
trabalho, há semanas que não temos a oportunidade de assumir os
nossos papéis de “senhor” e “pequenina”.
Agradeço a Jen por se oferecer para cuidar de Amelia esta
noite e vou para o quarto principal para ver minha esposa. O
chuveiro em nosso banheiro é essencialmente uma câmara separada
de pedra e azulejo anexada ao banheiro. Posso ficar na entrada sem
ser borrifado por água e observar minha mulher enxaguar a espuma
do corpo — e que corpo. Absorvo seu corpo longo e magro, suas
pernas tonificadas de bailarina. Não pensei que fosse possível, mas
ela está em melhor forma agora do que quando nos conhecemos.
Depois de se formar na Jost Academy, Grace conseguiu uma
posição principal no New York City Ballet, seu emprego dos sonhos
desde criança. Mas a vida aparentemente achou por bem realizar
todos os seus sonhos de uma vez, porque menos de um ano depois
soubemos que ela estava grávida.
No início, Grace ficou preocupada que a gravidez significasse
o fim de sua carreira no ballet. Porém, com tempo, paciência e ajuda
de uma fisioterapeuta, ela voltou para a companhia como uma
dançarina ainda mais forte e mais sintonizada com as habilidades de
seu corpo.
Recentemente, ela assumiu a imensa tarefa de curadoria e
protagonista de um programa que apresentará mais de uma dezena
de peças performáticas, que vão do ballet clássico a rotinas
modernas combinando ballet com hip-hop e sapateado. É uma
quantidade impressionante de trabalho, mas ela adora, e eu adoro a
sensação de confiança que toda essa responsabilidade infunde nela.
Grace olha para cima e me pega olhando, então sorri.
— Amelia está dormindo?
Concordo com a cabeça.
— Capotada.
Ela esguicha um punhado de creme de barbear na palma da
mão e espalha entre as pernas. Eu a instruí a se depilar em
preparação para a cena desta noite. O calor percorre meu corpo
enquanto vejo minha esposa passar a navalha em suas partes
íntimas, preparando-as para mim.
Enquanto Grace está ocupada se vestindo, arrumo uma bolsa
com minha calça de moletom e alguns de nossos chicotes favoritos.
O caminho até o apartamento de Matthew é curto e tenso de
ansiedade. Posso sentir a excitação de Grace na maneira como ela
aperta minha mão quando nos aproximamos do prédio.
— Pronta, pequenina? — pergunto.
— Sim, senhor — ela sorri. Minha pequenina esteve ansiosa
por esta festa durante toda a semana, ansiosa pela chance de
entregar o controle, mesmo que apenas por algumas horas.
Engancho dois dedos em sua coleira e dou um beijo
possessivo em seus lábios. Olhando para trás, é uma loucura pensar
que houve um tempo em que eu não beijava minhas submissas. Mas
ver minha coleira no pescoço de Grace pela primeira vez, tantos
anos atrás, acendeu um fogo dentro de mim. Uma necessidade
implacável de reivindicar uma pequena parte dela — e sua boca
carnuda e rosada estava implorando para ser provada.
Paramos na entrada do prédio de Matthew. Entrego minhas
chaves ao manobrista e coloco a mão na parte inferior das costas de
Grace enquanto entramos no saguão e pegamos o elevador até a
cobertura.
Uma jovem submissa chamada Ari nos dá as boas-vindas à
festa assim que saímos do elevador. O vestido curto e sem costas de
Grace, combinado com sua longa trança loira, atrai olhares tanto de
dominadores quanto de submissas. Fazemos nossas rondas,
cumprimentando velhos amigos e vendo o que todos estão fazendo.
Matthew finalmente nos encontra na sala de estar.
— Que bom que vocês conseguiram vir — ele diz. — É
sempre um prazer ver sua pequenina.
Grace inclina a cabeça respeitosamente.
— Você a verá muito mais em breve — digo a ele. —
Supondo que nossa cena esteja pronta.
Embora Grace e eu gostemos de encenar em nosso próprio
quarto, nós dois passamos a apreciar a emoção de fazer isso diante
de um público. Eu nunca compartilharia minha pequenina com outro
dominador — aprendi essa lição da maneira mais difícil. Mas a ideia
de outro dominador querer o que é meu e não poder tê-la é
combustível para o meu sádico interior.
Matthew estala os dedos, convocando uma das ajudantes da
masmorra ao seu lado.
— Leve Mestre Aidan à sala de jantar.
— Sim, senhor — a jovem diz.
Meu amigo me lança um sorriso significativo.
— Divirtam-se. Isso é uma ordem.
Grace e eu seguimos a ajudante da masmorra até a sala de
jantar, que foi isolada especificamente para nosso uso. Tenho o
prazer de encontrar a mesa arrumada de acordo com minhas
especificações, coberta com uma toalha preta e com uma variedade
de velas de parafina e frascos de óleo de massagem.
— Tire o vestido e os sapatos, pequenina.
Enquanto coloco uma calça de moletom preta, Grace tira o
vestido, deixando a calcinha rendada bege no lugar. Ela está diante
de mim com as mãos cruzadas atrás de si e a cabeça baixa, do jeito
que eu a treinei para esperar. Grace é linda, uma tela perfeita para a
cera com a qual pretendo pintá-la.
Deslizo minhas mãos ao longo de seus lados antes de
levantá-la sobre a mesa de jantar.
— Deite-se — digo a ela.
Grace se abaixa até a mesa, deixando as panturrilhas
penduradas na borda.
Acendo um fósforo e encosto a chama no pavio de uma vela
longa e cônica. É o tipo errado de vela para brincar de cera, mas
pretendo usá-la apenas como fonte de chama contínua. Abro uma
garrafa de óleo de amêndoa doce, enquanto vários convidados
entram silenciosamente na sala para assistir.
A respiração da minha pequenina fica arfante. É hora da
apresentação começar.
Derramo óleo no centro de seu peito, parando alguns
centímetros acima de sua calcinha. Ela cantarola baixinho enquanto
passo o óleo em sua barriga e em seu peito. Seus seios parecem
deliciosos, brilhando com óleo, e a sinto suave como seda sob
minhas mãos. A última vez que encenamos para uma multidão, eu a
açoitei até que brilhasse em um rosa ao pôr do sol.
Esta noite, pretendo pintá-la de todas as cores do arco-íris.
Grace choraminga enquanto passo óleo de massagem em
seus mamilos, suas pálpebras pesadas de excitação. Minha virilha
aperta. Aliso minhas palmas por seu torso, até suas coxas,
espalhando óleo entre suas pernas.
Minha pequenina cantarola de prazer. Já posso ver uma
pequena mancha molhada se formando em sua calcinha.
Escolho uma vela de parafina vermelha, encostando o pavio
na chama cônica da vela. Giro a vela para que a cera derreta
uniformemente, criando uma tigela de cera derretida ao redor do
pavio. Descansando a mão no joelho de Grace, espero até que haja
uma boa quantidade de cera acumulada no centro.
— Me diga se estiver muito quente — aviso. Quanto mais alto
eu seguro a vela, mais fria a cera ficará quando atingir sua pele.
Esta não é a primeira vez que brincamos com cera, mas já faz um
tempo desde a nossa última vez.
Virando a vela, deixo algumas gotas caírem em sua barriga.
Grace inspira profundamente.
— Muito quente? — pergunto.
— Não, senhor — ela responde. — Apenas... surpreendente.
Deixo gotas entre seus seios, na parte superior do peito e,
finalmente, sobre os mamilos. Ela morde o lábio inferior e geme.
Meu pau lateja; tenho certeza de que não é o único na sala a reagir
ao som. Abaixo a vela alguns centímetros, deixando uma gota de
cera mais quente atingir seu peito.
Ela choraminga.
— Isso foi intenso.
— Dor ou prazer?
Sua boca se inclina em um sorriso.
— Ambos, senhor.
Deslizo minha mão pela parte interna de sua coxa, deslizando
meus dedos sobre sua calcinha. Ela está quase encharcada através
do tecido. Acho impossível desviar os olhos da faixa de pano que
separa meu olhar daquilo que me pertence.
Grace treme enquanto coloco cera em seu abdômen. Eu
valorizo as reações de seu corpo, desde seus gritos ofegantes até a
forma como sua pele fica vermelha ao longo das bordas da cera.
Troco a vela vermelha por uma roxa que queima um pouco mais
quente, e deixo cair em suas coxas. Ela choraminga quando uma
gota de parafina quente desliza pela dobra de sua coxa. Minha
atenção segue a trilha roxa. Estamos encenando há pouco tempo,
mas estou mais do que pronto para reivindicá-la.
Segurando a vela a uma curta distância, deixo cair uma
pequena poça de cera em sua calcinha.
— Ah, meu Deus... senhor... — Ela rebola no ar, flexionando
os dedos ao lado do corpo. Aposto que Grace está morrendo de
vontade de tocar seu clitóris.
Uma onda de desejo percorre meu corpo. Eu poderia gozar
apenas observando seu corpo implorar por alívio. Pego uma vela
azul e acendo o pavio com a vela roxa ainda acesa na mão.
Suas pernas tremem enquanto eu pingo mais cera quente em
sua calcinha, aquecendo sua boceta através do pano.
Gotas de suor surgem em sua testa. O tamanho da multidão
ao longo do perímetro da sala quase dobrou. Homens e mulheres,
dominadores e submissas, observando atentamente enquanto
atormento minha pequenina.
Apago as velas e as coloco de lado.
— Levante a bunda, pequenina.
Ela examina a sala, observando os olhares da multidão
extasiada.
— Não me faça ordenar de novo — rosno.
Ela levanta os quadris da mesa para que eu possa deslizar
sua calcinha para baixo e tirá-la. Molho os lábios ao ver suas dobras
suaves, brilhando como um fruto maduro e proibido.
Minha boca se enche de água. Derramo muito óleo na palma
da mão.
Grace geme enquanto passo o óleo de amêndoa em todo seu
centro, deslizando meus dedos por suas dobras. Apenas essa leve
pressão é suficiente para fazer seus quadris balançarem,
perseguindo meu toque mesmo quando ele a deixa. Ela observa
atentamente enquanto eu reacendo as velas azuis e vermelhas e
começo a pingar cera nas áreas que acabei de massagear.
— Abra mais as pernas, pequenina — digo com voz rouca.
Grace se abre para mim. Solto um gemido que lembra algo que
passa a maior parte do tempo em uma caverna.
Uma gota de cera cai em seu clitóris.
Sua cabeça inclina para trás.
— Ah... Por favor, senhor. Eu preciso...
Eu sei exatamente o que ela precisa. É a mesma coisa que
estou morrendo de vontade de vê-la fazer.
— Toque-se — comando.
Sua mão quase se teletransporta para sua boceta.
Pingo cera em seus seios, segurando a vela perto de sua
pele. Ela arfa. É mais quente nesta curta distância, mas Grace
aguenta o calor como a masoquista nata que é. Tento pintar estrelas
e corações em seus seios e barriga, mas acabo desistindo de
desenhar qualquer coisa coerente.
O resto da sala e todos nela desaparecem, enquanto observo
os dedos delicados de Grace dançarem sobre seu clitóris. Sua boceta
brilha com todo o óleo, assim como com sua própria umidade. O
fluxo da sua respiração pesada enche minha cabeça.
Meu pau dói como se tivesse sido machucado, e minhas
bolas não poderiam estar mais apertadas. Não aguento mais a porra
da pressão.
Apago as velas, coloco-as de lado e liberto meu pau. Os
olhos de corça da minha pequenina se fixam no meu pau duro. Seus
próprios movimentos ficam lentos enquanto ela me observa segurar
meu pau a centímetros de seu clitóris.
— Não se atreva a parar, pequenina. Você vai tocar essa
preciosidade até gozar para mim. Entendeu?
— Sim, senhor.
Enganchando minha mão atrás de seu joelho, mantenho suas
coxas abertas e continuo acariciando meu pau diretamente sobre
sua boceta. O óleo de massagem me permite ser rude comigo
mesmo. Fodo meu próprio punho como se fosse o corpo de Grace,
que é onde eu quero estar. Enterrado dentro dela, com meu polegar
em seu clitóris, profundamente em êxtase.
Grace geme, longo e alto, enquanto estremece, rosto e
pescoço ficando vermelhos. Peitos balançando. Quadris balançando
para encontrar seus próprios dedos.
Ela está gozando e é mais linda do que qualquer coisa que
minha imaginação possa fantasiar.
No fundo, lembro que ainda temos público. Vou açoitar minha
pequenina por horas na frente de curiosos, mas só fodo minha
esposa em particular. No entanto, passei do ponto sem volta em
algum lugar entre arrancar sua calcinha e agarrar meu pau.
Deslizo dois dedos dentro dela no momento em que os ecos
finais de seu orgasmo fazem seus músculos se contraírem. Eu sugo
o ar através dos meus dentes enquanto meu eixo lateja e fica tenso.
Grace arqueja quando o primeiro jato branco translúcido
pousa em sua barriga. O resto logo segue em riachos e jatos que se
misturam com as gotas refrescantes de cera. Acaricio até minhas
bolas ficarem vazias, até não ter mais nada para dar.
Apoiando-me acima da minha pequenina, seguro a parte de
trás de sua cabeça e reivindico sua boca em um beijo que exige a
submissão de sua língua. Sua abertura e vontade de me oferecer
sua boca são todas as evidências de que preciso para saber que ela
está satisfeita.
A coleira no pescoço de Grace. Estas noites imersas em dor e
prazer. A liberdade de entrar no espaço de submissão sem ter que se
preocupar em ser chamado repentinamente. É assim que ela se
lembra de quem ela é, além de dançarina e mãe.
Observo os riachos secos de cera em seu corpo, os salpicos
de cor cobertos com a marca de minha propriedade.
— Você nunca esteve mais linda do que agora, pequenina.
Ela suspira contentemente.
— Obrigada, senhor.
Eu acaricio a lateral do rosto dela. Nossa vida juntos mudou
irrevogavelmente quando nos tornamos pais, mas isso não significa
que temos que mudar quem e o que somos um para o outro.
Podemos nos comprometer a reservar momentos para deixar de lado
os títulos que recebemos — papai, mamãe, chefe, bailarina — em
favor dos títulos que escolhemos para nós mesmos há muito tempo.

Mais tarde, no escuro, em nossa cama, coloco as mãos de


Grace acima de sua cabeça e enterro meu pau profundamente
dentro dela. Não fico surpreso quando ela goza novamente, logo
após o último orgasmo que minha língua exigiu de seu clitóris.
— Você é minha, pequenina — digo roucamente, pontuando
cada afirmação com um impulso. — E você sempre será minha.
Diga.
Ela arfa enquanto eu estoco mais fundo, seus músculos
flexionando ao meu redor e sua astúcia me estimulando a fodê-la
mais rápido.
— Sempre serei sua pequenina, Aidan — ela responde. —
Para sempre.
Beijo seus doces lábios, ainda inchados de tanto chupar meu
pau como uma boa garota. Depois de quatro anos de casamento e
quase nove anos juntos ao todo, ainda quero minha Grace tanto
quanto a desejei na noite em que ela se ajoelhou aos meus pés em
uma festa para a qual não foi convidada.
Para mim, ela ainda é aquela garota tenaz de olhos
arregalados, com um sorriso radiante e uma proposta que eu não
pude recusar. Nunca desejarei ou amarei alguém mais do que desejo
e amo essa garota. Minha esposa. Minha pupila. Minha pequenina.
A autora best-seller do USA Today, Margot Scott, gosta de
leituras curtas e sensuais, sorvete de baunilha com granulados
coloridos e dias chuvosos passados na cama com seus filhotes
peludos. Quando não está escrevendo histórias de amor proibidas
sobre homens mais velhos barbudos, você pode encontrá-la
navegando no Pinterest em busca de fotos de coisas cor de rosa.

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