EVANGELHO DE MARCOS
JESUS, O SERVO, O HOMEM DE AÇÃO.
Ozeas C. Moura, Th.D.
Unasp-EC, 2011
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EVANGELHO DE MARCOS – JESUS, O SERVO, O
HOMEM DE AÇÃO.
Lição 1: Apresentando Jesus, o Filho de Deus
Por Ozeas C. Moura, ThD
Ozeas Caldas Moura é Doutor em Teologia Bíblica, na área do Antigo
Testamento, pela PUC do Rio de Janeiro. O tema de sua tese foi a fé no livro
de Habacuque. Também nesta mesma instituição fez seu Mestrado em
Teologia Bíblica, área de Novo Testamento. Sua dissertação foi sobre o
Discipulado e Seguimento de Jesus no Evangelho de Marcos.
É nosso desejo que estes comentários contribuam para um melhor
entendimento e apreço ao Evangelho de Marcos – o "pai" dos demais
Evangelhos, pelo menos em relação a Mateus e Lucas – uma vez que João
não pertence aos Sinóticos.
Parte Introdutória às 13 Lições
Muitos se perguntam por que existem quatro Evangelhos. A resposta é que
Deus pretendia que tivéssemos quatro enfoques ou retratos de Jesus:
– Mateus apresenta Jesus como o Rei Messiânico. Ele escreve para judeus;
– Lucas apresenta Jesus como Salvador Universal – Aquele que salva todo
tipo de pessoa, incluindo os marginalizados pela sociedade: publicanos,
ladrões, prostitutas, etc. Ele escreve para cristãos gentios como Teófilo;
– João apresenta Jesus como Deus, que Se fez carne para redimir a raça
humana;
– Marcos apresenta Jesus como o Servo, ou o Homem de ação. As evidências
literárias e estilísticas de seu Evangelho apontam para os romanos como
seus destinatários e leitores. A ação culmina na cruz, para a salvação dos
que aceitam Seu sacrifício.
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Neste estudo, vamos nos deter no retrato de Jesus como o Servo, onde Ele é
apresentado como Homem de ação, sempre agindo em benefício das
pessoas. O Evangelho de Marcos até parece um filme bem movimentado
sobre Jesus. Temos a impressão de que em Marcos, Jesus nunca pára, não
descansa nem dorme – tal é o dinamismo das narrativas contidas neste
Evangelho. Será que isto não nos lembra o destemido e agitado Pedro?
Segundo a tradição, Pedro seria o verdadeiro autor deste evangelho, uma
vez que João Marcos, apenas redigiu seus relatos baseados no que Pedro se
lembrava do ministério de Jesus.
Apresentando Jesus, o Filho de Deus
Esta lição focaliza a Introdução do Evangelho de Marcos, que inclui os versos
1-20 do primeiro capítulo.
Mateus, por ter a preocupação de destacar a realeza davídica de Jesus,
começa com Sua genealogia (Mt 1:1-17); Lucas, ao apresentar Jesus como
Salvador de todos, inclusive dos gentios, inicia seu Evangelho com palavras
de certeza quanto à fé cristã endereçadas ao destinatário de seu Evangelho –
o gentio Teófilo (Lc 1:1-4). Já Marcos, que tem por objetivo apresentar Jesus
em ação, que culmina na entrega de Sua vida (como estava acontecendo
com os mártires cristãos do tempo de Marcos), não menciona nem a
genealogia nem o nascimento de Jesus, indo direto ao ponto por ele
desejado: "Princípio do Evangelho de Jesus, Filho de Deus" (Mc 1:1), para,
em seguida, estender-se da pregação de João Batista, seu testemunho sobre
Jesus e o batismo deste (Mc 1:2-11), para a tentação de Jesus, Sua viagem
da Judeia para a Galileia e o chamado ao discipulado de duas duplas de
irmãos: Simão e André e Tiago e João (Mc 1:12-20).
Assim, Marcos, ao nos apresentar Jesus já adulto, com cerca de 30 anos,
prepara o leitor para as obras de Jesus em benefício daqueles a quem Ele
viera salvar, sendo a obra maior, a dádiva de Sua vida como expiação pelos
pecados da humanidade.
I. O autor, João Marcos
Como os outros três Evangelhos (Mateus, Lucas e João), Marcos é uma obra
anônima. O nome do autor não aparece no Evangelho. Mas, e o título: "O
Evangelho Segundo Marcos"? Quanto a isso, deve-se esclarecer que os
títulos dos Evangelhos (e dos demais livros da Escritura) não deviam constar
nos manuscritos originais, sendo mais tarde acrescentados pelos copistas,
seguindo-se a tradição que atribuía certos nomes como tendo escrito certos
livros da Bíblia. Com Marcos não é diferente: devemos especialmente a
Papias, bispo de Hierápolis, por volta de 140 d.C. (citado na obra História
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Eclesiástica, seção III.39.15, de Eusébio) a informação de que Marcos
escreveu com exatidão o que podia se lembrar dos atos de Cristo, conforme
ouvia das pregações de Pedro. Irineu, bispo de Lião, também credita a
Marcos o Evangelho que tem o seu nome, ao dizer que este se tornara o
intérprete de Pedro e que, após a morte desse discípulo, Marcos deixou por
escrito o que Pedro proclamara (Contra as Heresias, III. 1.1).
Apesar de dependermos da tradição para a autoria de Marcos quanto ao
segundo Evangelho, isso em nada desmerece a mensagem nele contida.
Além disso, pode estar correto o que a tradição afirma sobre Marcos como
auxiliar de Pedro, uma vez que este, ao escrever sua primeira epístola,
provavelmente de Roma (chamada de "Babilônia", em 1Pe 5:13), envia
lembranças da igreja da localidade onde escreve (Roma), e também de seu
"filho" Marcos (1Pe 5:13). Essa é uma evidência para crermos no
testemunho da tradição (conforme Papias e Irineu) quanto a Marcos como o
autor do segundo Evangelho (colocado como "segundo" ou após o Evangelho
de Mateus, pelo fato de, erroneamente, ter sido visto por Agostinho e outros
comentaristas como um resumo do Evangelho de Mateus).
Marcos (também chamado de João, em Atos 13:5, e de João Marcos, em
Atos 12:12), porém, não teve um bom início de ministério. Após envolver-se
com a pregação do Evangelho na primeira viagem missionária de Paulo e
Barnabé, abandonou os dois e voltou a Jerusalém (Atos 13:5 e 13), para a
"casa da mamãe" (Atos 12:12). Foi por isso que Paulo não o quis levar na
segunda viagem missionária (Atos 15:36-41). Felizmente, Barnabé deu outra
chance a Marcos (Atos 15:39) e desta vez ele não decepcionou. Mais tarde,
Paulo reconheceu que Marcos era "útil para o ministério" (II Tim. 4:11), e
cita-o como um de seus cooperadores (Filem. 24).
Quanto a uma possível data, podemos dizer que deve ter sido escrito antes
da morte de Pedro, entre 50 e 64 d.C.
II. Introdução (Mc 1:1)
"Princípio do Evangelho de Jesus Cristo, Filho de Deus".
Tal introdução nos parece muito abrupta, não é? Marcos nada menciona
sobre o anúncio e o nascimento de Jesus, a visita dos pastores e dos magos,
Sua fuga para o Egito, nem sobre Seus primeiros anos como humilde
carpinteiro de Nazaré. Não que estes fatos não tenham sido importantes,
mas Marcos deseja falar dos poderosos atos salvíficos de Jesus em prol do
ser humano que culminam no maior ato – a dádiva de Sua vida na cruz do
Calvário. Por isso, começa seu Evangelho falando de Jesus adulto, já em
atividade.
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A expressão: "Princípio do Evangelho de Jesus Cristo", pode ser entendida
como: "Começo do ministério de Jesus Cristo", ou "Começo da boa nova
[acerca] de Jesus Cristo". As duas declarações são bem apropriadas para o
início do livro, mas a última parece mais adequada ao propósito de mostrar
que Cristo e Seus poderosos atos constituem-se numa "boa nova" para a
humanidade perdida.
O título contido na última parte de 1:1: "Filho de Deus", não se encontra em
todos os manuscritos conhecidos de Marcos. (Por exemplo, nos manuscritos
álef (1), theta, 28, não é mencionado por diversos pais da Igreja). Teria sido
um acréscimo feito por um copista? Talvez, visto que o texto mais breve
deve ser o original. Se foi uma adição, então ela foi baseada no próprio
Evangelho de Marcos, onde Jesus é chamado de "Filho de Deus" (cf. Mc 3:11
e 5:7). Adição ou não, "Filho de Deus" é uma declaração sobre a divindade
de Jesus, afirmando que Ele partilha da própria natureza de Deus. O título
previne o leitor de que, mesmo encarnado e atuando entre os homens, Jesus
também é Deus.
III. O Mensageiro (Mc 1:2-8)
À semelhança das visitas reais a uma localidade, em que um mensageiro ou
precursor dava o anúncio e conclamava o povo a preparar a estrada para a
carruagem real, Deus usou João Batista para o mesmo fim em relação à
chegada de Deus, na pessoa de Jesus Cristo, o "Filho de Deus" cf. 1:1. O
Batista procurou preparar o "caminho" do Senhor, levando o povo a se
arrepender dos pecados.
O que chama a atenção em João Batista é a consciência que ele tinha de seu
papel como mensageiro e precursor: ao ser-lhe perguntado se não era o
Messias (Lc 3:15 e 16), ele apontou Jesus como o "Cordeiro de Deus, que
tira o pecado do mundo" (João 1:29). O precursor sabe que não é o rei e que
não deve atrair a atenção para si mesmo. "Convém que Ele cresça e eu
diminua" (João 3:30). Essa atitude humilde de João Batista deve ser refletida
na vida de cada seguidor de Cristo, como modernos mensageiros do Rei.
Assim, não há lugar para o orgulho na vida do cristão: seu maior desejo é
exaltar a pessoa do Rei que está chegando.
IV. Batismo e Tentação de Jesus (Mc 1:9-13)
Causa-nos admiração a brevidade de informações sobre João Batista. Nada
nos é dito sobre as circunstâncias de seu nascimento, quase nada sobre o
conteúdo de suas pregações. Ele só é mencionado pelo seu papel de
precursor e como aquele que batizou Jesus. Por que isso? É porque o
Evangelho de Marcos está centrado na pessoa de Jesus. Também nada é
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mencionado sobre o conteúdo das tentações de Jesus no deserto. Diz apenas
que Ele foi tentado por quarenta dias (Mc 1:13). Não que o assunto das
tentações não seja importante, mas Marcos está desejoso de apresentar logo
aos leitores as ações salvíficas de Jesus, começando já no verso 21do
primeiro capítulo com a cura de um endemoninhado em Cafarnaum.
O fato de Marcos dizer que em Seu batismo, Jesus foi chamado de "Meu Filho
amado", por Deus Pai (Mc 1:11) está em harmonia com as palavras de
abertura do Evangelho, em que, por adição ou não, Jesus é chamado de
"Filho de Deus" (cf. 1:1). Parece-nos que Marcos tem a preocupação de que
seus leitores não olvidem o fato de que Jesus não é um mero taumaturgo
(operador de milagres), mas é Deus conosco.
V. Começa o ministério (Mc 1:14-20)
Após Seu batismo na Judeia, Jesus voltou à Galileia e, à semelhança de João
Batista, conclamou o povo ao arrependimento (compare 1:14 e 15 com 1:4).
Mas Jesus acrescentou um dado novo: "O tempo está cumprido" (1:15). Que
"tempo" teria Jesus em mente? É possível que tenha sido uma alusão ao
tempo de cumprimento dos tipos e profecias messiânicas do Antigo
Testamento. Mas, de maneira mais específica, Jesus poderia ter em mente a
profecia das Setenta Semanas de Daniel 9:24-27, a qual predizia o
aparecimento do Ungido, o Messias que, por Sua morte (Dan. 9:26), "daria
fim aos pecados, expiaria a iniqüidades e traria a justiça eterna" (Dan. 9:24).
No tempo certo (na "plenitude do tempo", cf. Gl 4:4) ocorreu a primeira
vinda de Jesus. Isso é garantia de que, também no tempo certo, ocorrerá a
segunda vinda, pois, de nada valeria a primeira sem a segunda, que é a
culminância da obra redentora do Messias, iniciada na primeira vinda.
Após a chegada à Galileia, Jesus elegeu Seus discípulos, começando por duas
duplas de irmãos (e pescadores): Simão e André, Tiago e João. O que nos
causa admiração neste chamado é a prontidão com que eles atenderam a
Jesus. Será que foi um salto no escuro? Não creio. A fé nunca é um "salto no
escuro". Deus dá evidências do Seu poder para aqueles que querem ver.
Esses primeiros discípulos já haviam ouvido sobre Jesus, em especial de
André irmão de Pedro. André era discípulo de João Batista e "tinha ouvido o
testemunho de João e seguido Jesus" (João 1:35-42). De qualquer forma, os
discípulos viram algo em Jesus que os tocou. O que viram foi suficiente para
deixarem "imediatamente as redes e O seguirem" (Mc 1:18). A companhia
de pesca da qual Pedro e André eram sócios (cf. Lc 5:10), ficou, então, a
cargo de Zebedeu, pai de Tiago e João (cf. Mc 1:20).
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A prontidão dos discípulos em deixar tudo e seguir a Cristo deve inspirar
cada cristão hoje. Por que somos tão apegados às coisas deste mundo? Será
porque ainda não vimos Jesus como aquele que realmente é importante,
como aquele que pode dar sentido real à vida e oferecer as coisas eternas,
que permanecem para sempre? Poderíamos dizer como Paulo: "Mas o que,
para mim, era lucro, isto considerei perda por causa de Cristo. Sim, deveras
considero tudo como perda, por causa da sublimidade do conhecimento de
Cristo Jesus, meu Senhor, por amor do qual perdi todas as coisas e as
considero como refugo, para ganhar a Cristo"? (Fp 3:7 e 8).
Lição 2: MARAVILHOSO OPERADOR DE
MILAGRES
Nesta lição, estudaremos Marcos 1:21–2:22, onde são relatadas diversas
curas ou milagres (o endemoninhado, a sogra de Pedro, o leproso, o
paralítico), incluindo o maior milagre que é a conversão (no caso, a
conversão e o chamado do publicano Levi Mateus, em Mc 2:13 e 14).
Com esses milagres, Marcos entra no que mais lhe interessa: falar do poder
de Jesus e apresentá-lo como Homem de Ação – Aquele que deixou o Céu e
Se encarnou "para servir e dar a Sua vida em resgate por muitos" (Mc
10:45).
I. O endemoninhado (Mc 1:21-28)
Quando, em Gálatas 4:4, Paulo diz que Deus enviou Seu Filho "na plenitude
do tempo", ele quer dizer não somente no tempo cronológico certo (no fim
das Setenta Semanas de Dan. 9), mas também na "plenitude" da
degradação e desesperança humanas. As filosofias, Epicurismo, Estoicismo,
Cinismo e Ceticismo, não ajudavam muito quanto a dar sentido à vida; o
judaísmo se degenerara na formalidade dos rituais (Fariseus), quase
chegando ao indiferentismo quanto à vida futura (Saduceus), ou em
movimentos guerrilheiros messiânicos (Zelotes).
Para piorar o quadro da desgraça humana nos dias de Cristo, a possessão de
demônios era freqüente (como visto em Mc 1:23, 32, 34 e 39; 5:2; 7:25;
9:17). Como que antevendo o aparecimento de Cristo, Satanás e suas hostes
haviam se esforçado ao máximo para degradar as pessoas, no físico e na
mente, para não receberem o Enviado do Pai.
Não foi casualidade Marcos começar o relato de milagres de Cristo com a
cura de um endemoninhado em Cafarnaum. O primeiro milagre que ele
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apresenta, revela a ação de Cristo contra Satanás, mostrando que, se
Satanás é poderoso, Jesus o é infinitamente muito mais. A "autoridade"
(exousía = poder para dar ordens) de Cristo se baseia no fato de ser Ele o
"Filho de Deus" (Mc 1:1 e 11), criador e mantenedor de todas as coisas, (Hb
1:1-3) e, como tal, tem "toda autoridade, no céu e na terra" (cf. Mt 28:18).
Certamente, grande conforto é proporcionado aos leitores do Evangelho de
Marcos, em todos os tempos, o saber que Jesus tem poder sobre as forças
do mal, nada permitindo que não seja "para o bem dos que amam a Deus"
(Rm 8:28) e que, em Cristo, somos "supervencedores" contra Satanás e
todas as circunstâncias adversas causadas por nosso inimigo e acusador (Rm
8:37).
Assim, o leitor de Marcos, já desde o início, fica sabendo que a autoridade de
Jesus não se limitava apenas ao Seu ensino (Mc 1:22) como se Ele fosse
apenas um grande Mestre, mas abarcava mesmo as forças celestiais do mal
– o que mostrava que Ele também era Deus.
II. A sogra de Pedro (Mc 1:29 a 43)
O estado de saúde da sogra de Pedro era bem grave, como mostra o original
grego: ela fora "deitada abaixo/prostrada" (katékeito) pela febre (Mc 1:30).
Ao Jesus tomar-lhe a mão "a febre a deixou, passando ela a servi-los" (Mc
1:31). Que belo exemplo de serviço este da sogra de Pedro! Mal se
restabeleceu, já estava em atividade, "servindo" os outros. Ao assim
proceder, esta mulher imitou seu médico e benfeitor Jesus, que também
viveu para "servir", e deixou para os cristãos de todos os tempos um notável
exemplo de altruísmo. Ela exemplificou com atos as palavras de Jesus: "De
graça recebestes, de graça daí" (Mt 10:8).
III. O leproso (Mc 1:40-45)
A palavra "lepra", do hebraico (tsara’at), e no grego (lepra), provavelmente
se aplicava tanto à hanseníase quanto a diversas doenças da pele e também
ao bolor em roupas e nas paredes das casas. Para evitar o contágio, pessoas
com tais doenças eram excluídas do meio familiar e social, passando a viver
sozinhas, ou em grupos, longe das pessoas sadias. Imaginemos o trauma
emocional o ser alguém afastado dos entes queridos, dos amigos e do culto!
Para tais pessoas, a vida perdia todo o sentido, pois pouca ou nenhuma
esperança havia para elas, salvo em caso de cura espontânea para alguma
doença de pele que não a hanseníase, sendo a cura desta última um sinal do
poder divino (cf. Êx 4:6 e 7).
Chama nossa atenção neste relato de cura o fato de Jesus tocar o leproso
(Mc 1:41), algo arriscado devido ao contágio (Mc 1:41). Marcos mostra aqui,
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como já havia feito no caso da cura da sogra de Pedro, o toque amoroso e
cheio de simpatia de Jesus. Quão maravilhoso é o toque de Jesus! Tudo o
que Ele tocava mudava para melhor. Tocou a sogra de Pedro e a febre a
deixou; tocou o leproso e a lepra desapareceu. E, sendo a lepra é um
símbolo do pecado, é confortador saber que o toque de Jesus em nossa vida
faz com que o pecado desapareça imediatamente.
Com este terceiro milagre, a cura do leproso, Marcos nos apresenta Jesus
como Aquele para quem nada é impossível: Ele pode expulsar os demônios
(Mc 1:21-28), curar um doente grave (Mc 1:29-31), ou fazer desaparecer
uma doença incurável como a lepra (Mc 1:40-45).
IV. O paralítico (Mc 2:1-12)
O milagre da cura do paralítico baixado pelo teto se deu em Cafarnaum,
cidade-sede da obra de Jesus na Galileia. Em Mateus 9:1, esta cidade é
chamada de "Sua própria cidade. A expressão de Mc 2:1: "E logo correu [a
notícia de] que Ele estava em casa", pode denotar que esta era a casa onde
morava Jesus.
Depois de apresentar Jesus como vencedor dos demônios (Mc 1:21-28), da
febre (Mc 1:29-31) e da lepra (Mc 1:40-45), Marcos mostra o Filho de Deus
como vencedor do desengano e desesperança – ao infundir ânimo e curar
alguém que nada podia fazer por si mesmo e até desistira de curar-se (ver
DTN, 8ª ed., 1996, págs. 244 e 245).
Muitas são as lições desta cura, mas, certamente, a maior delas é a do
altruísmo e interesse dos quatro amigos do paralítico. No desejo de ver o
amigo curado, eles fizeram algo inusitado: cavaram um buraco, bem grande
por sinal, pois nele coube o homem e seu leito (krábatton = esteira ou
colchão fino), sem se importar com os prejuízos para o dono da casa (talvez
o próprio Jesus). Se fosse o caso, depois procurariam consertar o buraco,
mas a saúde do amigo era o que realmente importava no momento. Um
lembrete: as casas daquele tempo não eram de laje como as de hoje, mas
cobertas com barro e galhos de árvores, material não tão difícil de ser
removido e consertado de novo. O incômodo seria apenas a queda de alguns
torrões e pó sobre a cabeça de Cristo e de Seus ouvintes. Que lição
maravilhosa essa do interesse altruísta dos amigos do paralítico! Que lição
para a sociedade moderna, onde prevalecem o egoísmo e o desinteresse
pelos problemas alheios!
Um último detalhe sobre esta cura: ao Jesus perdoar os pecados do
paralítico, estava demonstrando que era Deus, pois, como bem disseram os
fariseus: "só Deus pode perdoar pecados" (cf. Mc 2:7).
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V. O chamado de Levi Mateus (Mc 2:13-21)
Marcos, após apresentar Jesus vencendo demônios e doenças, mostra Jesus
vencendo o preconceito. Ele teve a coragem de chamar para ser Seu
discípulo logo o publicano Levi! Também chamou Mateus (Mt 9:9). Deve-se
recordar aqui que os publicanos eram judeus que trabalhavam cobrando
impostos de seus patrícios para os odiados romanos. Após pagarem aos
romanos, a quantia estipulada para determinada área ou cidade, esses
publicanos ficavam livres para cobrar tanto quanto pudessem, ficando com a
diferença para si. Eram odiados como desonestos, colaboradores do inimigo
e tidos como cerimonialmente impuros, pois entravam também nas casas de
gentios para cobrar os tais impostos.
Causa-nos admiração a prontidão de Levi Mateus em seguir Jesus, idêntica à
dos primeiros quatro discípulos, ao deixarem imediatamente as redes e os
peixes para O seguirem. Provavelmente, Mateus já havia visto e ouvido
Jesus. Talvez, como no caso de seu colega Zaqueu, tivesse vontade de
mudar de vida, de ser honesto e verdadeiro. Assim, o chamado de Jesus caiu
em solo fértil, e o que recolhia impostos passou a recolher pessoas para o
reino de Deus.
O chamado de Mateus nos ensina que "para Deus não há acepção de
pessoas" (Tg 2:1), pois enviou Cristo "não para chamar justos, e sim
pecadores" (Mc 2:17).
Lição 3: CURAS SABÁTICAS
Os eventos desta lição estão em Marcos 2:23–3:35. Esta parte do Evangelho
de Marcos narra duas controvérsias de Jesus: a primeira com os escribas e
fariseus, sobre como guardar o sábado (2:23–3:6) e sobre a fonte do Seu
poder para curar e expulsar demônios (3: 10, 11, 22-30), e a segunda, com
Sua própria família, que não compreendia Sua Pessoa e missão (3:21, 31-
35). Entre essas controvérsias está o relato da escolha dos doze apóstolos, o
núcleo original da igreja cristã, com a missão de pregar ao mundo as boas
notícias do Reino de Deus e da salvação em Jesus.
I. Estabelecido para o homem (Mc 2:23-28)
É plano do inimigo de Deus deturpar as dádivas para a felicidade humana.
Entre essas dádivas está a do sábado, uma das lembranças do Éden. A outra
é o casamento. Antes do cativeiro, Satanás procurou levar os israelitas à
idolatria e à transgressão do sábado (cf. Ne 9:14, 16 e 18; 13: 15-18). Após
a volta do cativeiro, caíram no legalismo, sendo o sábado tornado algo
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formal e enfadonho, considerado mais importante que a vida humana. Uma
ovelha podia ser atendida no sábado, mas não uma pessoa (cf. Mt 12:11 e
12).
Jesus nunca transgrediu o sábado original, dado na criação e redigido em
pedra pelo dedo de Deus. Do contrário, Ele seria pecador, pois teria
quebrado a lei, visto que "pecado é a transgressão da lei", cf. I João 3:4, e
precisaria Ele mesmo de alguém que O salvasse, e não poderia ter dito o que
se encontra em João 8: 46: "Quem dentre vós Me convence de pecado"?
O que foi quebrado por Jesus foi justamente o que as pessoas acrescentaram
ao mandamento original do sábado: não curar no sábado, não cuspir na terra
no sábado (estaria irrigando a terra), não se olhar ao espelho no sábado
(para não ser tentado a enxergar um cabelo branco e arrancá-lo, pois isto
seria considerado trabalho etc., etc.). Assim, Jesus defendeu Seus discípulos
porque, numa circunstância em que eles estavam com fome, colheram
algumas espigas e as comerem. Este incidente mostra, não que se deva
trabalhar no sábado, mas que a vida é superior ao sábado e que salvá-la não
é transgressão do sábado, mas algo desejável de se fazer nesse dia. Ao dizer
que "o Filho do homem é Senhor do sábado" (2: 28), Jesus Se põe como o
dono, proprietário e criador do sábado, estando plenamente habilitado a
dizer o que se pode ou não fazer nas horas sabáticas.
II. O homem com a mão ressequida (Mc 3:1-6)
Essa é a segunda controvérsia sobre o que se poderia ou não fazer no
sábado. A primeira havia sido a questão de colher e comer algumas espigas
nesse dia (Mc 2:23-28).
No relato, é lastimável que, em vez de abrir o coração aos ensinamentos de
Cristo, os inimigos dEle (provavelmente os mesmos fariseus, mencionados
em Mc 2:24) estavam atentos a algum incidente que lhes servisse aos
propósitos de acusar. Por que isso? Certamente, porque Jesus os
desmascarava sempre que necessário. Para eles, Jesus era uma ameaça aos
seus poderes e influência junto ao povo.
O argumento de Jesus em Mc 3:4 era irrefutável: o sábado era um dia para
se fazer o bem (como a cura da mão ressequida do homem) e não para se
planejar o assassinato de alguém (como queriam fazer com Ele). Veja até
onde pode ir o legalismo: em nome da honra do sábado que, segundo eles,
Jesus quebrava, ao curar nesse dia, queriam assassinar o "Senhor do
Sábado" (cf. Mc 2:28), que, mais do que ninguém, sabia o que podia ou não
se fazer nesse dia.
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III. Os doze apóstolos (Mc 3:7-19)
Necessitando de mais gente para ajudá-Lo a divulgar as "boas notícias" do
Reino de Deus (Mc 3:14), entre os muitos que O seguiam, Jesus chamou
doze, "para estarem com Ele e para os enviar a pregar e a expelir demônios"
(Mc 3:14 e 15).
Marcos diz que, antes de chamar os doze apóstolos, Jesus "subiu ao monte"
(3:13), e Lucas diz o motivo: "a fim de orar, e passou a noite orando a
Deus" (Lc 6:12). Note como a oração é importante em todas as situações da
vida, especialmente quando se vai tomar decisão ou se fazer uma escolha!
Se Jesus (que era também Deus) precisou orar antes de escolher os
apóstolos, quanto mais nós, humanos e falíveis, necessitamos fazer o
mesmo quando temos de tomar nossas decisões!
"Designou doze" (Mc 3:14). Por que doze? Talvez, o número tenha que ver
com as tribos de Israel. E como eram esses doze? Não muito promissores,
pelo menos aos olhos humanos: - Simão Pedro: impulsivo e inconstante,
falava primeiro e pensava depois.
- Tiago e João ("filhos do trovão"). Esses filhos de Zebedeu eram egoístas,
vingativos e intolerantes. Eles solicitaram os primeiros lugares no Reino,
quiseram queimar toda uma aldeia de samaritanos, por se haverem recusado
a receber a comitiva de Jesus (cf. Lc 9:51-56), e até proibiram um homem
de expulsar demônios em nome de Jesus (cf. Mc 9:38-41).
- André: "irmão de Pedro" – quase não aparece. É personagem meio
anônimo, exceto pelo dom de fazer amizade com as pessoas e por ter
apresentado Pedro a Jesus.
- Filipe: ("amigo de cavalo" – será que a família dele cuidava desses
animais?). Era tardio em compreender as coisas (cf. João 14:8-11);
- Bartolomeu ("filho de Ptolomeu") – talvez seja o "Natanael", mencionado
com Filipe, em João 1:45-50. Se Bartolomeu é Natanael, então ele era
preconceituoso (cf. João 1:46);
- Mateus: ex-publicano. Seu passado em nada o recomendava.
- Tomé: propenso a duvidar de tudo (cf. Jo 20: 24-29).
- Tiago, filho de Alfeu: dele só sabemos que era "filho de Alfeu" (também
chamado "o menor" em Mc 15:40-41).
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- Tadeu: chamado de "Judas, filho de Tiago" em Lucas 6:16, para diferenciá-
lo de Judas Iscariotes, e nada mais sabemos sobre ele.
- Simão, o Zelote: super suspeito por seu passado como "Zelote" (grupo
guerrilheiro judaico);
- Judas Iscariotes: traidor e ladrão.
Mas "Deus não vê como vê o homem; o homem vê o exterior, porém o
Senhor, o coração" (1 Sam. 16:7). Todos os chamados por Jesus foram
burilados e lapidados como diamante bruto e se tornaram vasos escolhidos
para levar o evangelho ao mundo, com exceção de Judas Iscariotes, que não
se deixou lapidar pelo Mestre Jesus.
IV. Jesus e Belzebu (Mc 3:22-30)
Depois de Seus debates com os fariseus, e outros inimigos, sobre como
guardar o sábado, eis que surge nova questão: de onde vinha o poder de
Cristo para expulsar demônios?
Não podendo negar Seus muitos e poderosos milagres, os líderes judaicos
tentaram vinculá-los a Belzebu – ou seja, a Satanás. Interiormente, sentiam
que esses milagres eram resultado da manifestação divina, mas após terem
acusado e perseguido Jesus, ficava difícil admitir a origem divina da obra
feita por Ele. O orgulho, ou seja, a falta de humildade, levou tais líderes a
essa situação.
O argumento de Cristo permaneceu sem resposta: Como Seus milagres
poderiam provir de Satanás, se destruíam a obra dele? (saúde em vez de
doença, libertação de demônios em vez de escravidão a eles). Há aqui uma
lição para todos: o orgulho pode obliterar a visão espiritual a ponto de
alguém "ao mal chamar bem, e ao bem chamar mal" (Is 5:20). Quando uma
pessoa chega a esse ponto, corre o risco de pecar ou "blasfemar contra o
Espírito Santo" e "não ter perdão para sempre" (Mc 3:29). Por quê? O fato é
que todo pecado pode ser perdoado, desde que seja confessado (I João 1:9).
Mas, se alguém chegar ao ponto de achar que o mal é o bem (de que a falsa
acusação deles quanto aos milagres de Cristo era correta), então nunca
haverão de se arrepender disto, e por conseguinte, não obterão o perdão.
Estarão cometendo o "pecado imperdoável", pois nunca foi confessado para
ser perdoado. Poderíamos dizer, então, que "pecado imperdoável" é pecado
não confessado e deixado, como esses dos líderes judaicos.
V. A família de Jesus (Mc 3:21, 31-35)
14
Após debater com os fariseus e líderes judaicos quanto à guarda do sábado e
a origem de Seu poder para realizar milagres, Jesus entrou em conflito com
a própria família!
A verdade é que, antes de Sua morte e ressurreição, Jesus não teve o
necessário apoio de Sua família. Maria parecia não entender a missão de seu
Filho, "guardando no coração os acontecimentos ocorridos com Jesus" (Lc
2:19 e 51). Segundo João 7:5, "nem mesmo os Seus irmãos criam nele".
Numa véspera de festa dos Tabernáculos, chegaram a zombar de Jesus
quanto a ser Ele o Messias (Jo 7: 2-4). Essa atitude aponta para o fato de
Jesus ser mais novo que Seus "irmãos e irmãs", pois se fosse mais velho,
eles jamais O tratariam assim. Apesar das hipóteses sobre esses "irmãos", o
fato de José não aparecer durante o ministério de Jesus, nem junto à cruz,
indica que ele deve ter morrido antes de Jesus ter dado início à Sua obra.
Assim, temos a indicação de que José devia ser bem mais velho que Maria,
portanto, poderia ser viúvo ao se casar com ela. Então, esses "irmãos" de
Jesus bem poderiam ser fruto de um primeiro casamento de José. Também,
o fato de Jesus ter deixado Sua mãe aos cuidados do discípulo João (João
19:25- 27), parece indicar que Seus "irmãos" não eram filhos de Maria.
À primeira vista, soa como algo áspero e rude a resposta de Jesus às
pessoas que Lhe informaram a chegada de Sua família: "Quem é Minha mãe
e Meus irmãos?" (Mc 3:33). Mas, a resposta não tem que ver com rudeza
nem descortesia, mas com a firmeza de Jesus para com Seus familiares
incrédulos, que poderiam acabar por prejudicar Sua missão. É digno de nota
que em Marcos 3:21 é dito que Seus familiares não foram até Jesus para
ajudá-Lo, mas "para O prender". Imagine se tivessem conseguido! Teriam
paralisado a obra do Salvador. Pode ser que tivessem alguma preocupação
com a saúde de Jesus, ou ainda com o nome deles, uma vez que Jesus não
era aceito pela liderança judaica. Mas partir "para O prender" e obstaculizar
Seu trabalho não podia resultar senão na resposta firme e clara de Jesus:
Sua família é composta por aqueles que fazem a vontade de Deus (Mc 3:35).
Esse incidente entre Jesus e Sua família mostra que Ele entende os que têm
problemas familiares de qualquer espécie, especialmente os de ordem
espiritual, como Ele os teve, e pode ajudar, confortar e fortalecer tais
pessoas em meio a situações de conflito com os da sua própria casa.
Lição 4: NA GALILEIA
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Nesta lição, vamos estudar os capítulos 4 e 5 do Evangelho de Marcos. Os
relatos contidos nesses capítulos se passam à beira do mar da Galileia – na
verdade um grande lago de água doce, com cerca de 20 km de comprimento
por 13 de largura. Esse lago teve muito que ver com Jesus, que morava na
cidade de Carfanaum, às margens desse lago. Nesse local, Ele chamou Seus
primeiros discípulos, pregou em um barco, fez acontecer duas pescas
milagrosas e, pelo menos em duas ocasiões, acalmou tempestades ali
ocorridas.
I. A Parábola do Semeador (Mc 4:1-20)
Como foi dito no início deste estudo, Marcos apresenta Jesus como o Homem
de ação, e pouco fala de Seus ensinamentos. Apesar disto, apresenta a
Parábola do Semeador, lição instrutiva sobre como as pessoas,
representadas pelos diferentes tipos de solo, atendem (ou não) ao chamado
de Cristo.
Dentre as muitas lições que podemos aprender desta importante parábola,
as principais são:
1. A iniciativa quanto à salvação é sempre um ato de Deus: é o semeador
divino quem "sai a semear" a semente da Palavra de Deus, traduzida
no convite para que todos aceitem a salvação.
2. A semente chega a todos os tipos de solo, ou seja, de alguma forma,
todos recebem o convite e têm a oportunidade de aceitá-lo (ou não).
Então, se alguém não se salvar, não será por culpa de Deus.
3. Apesar de muitos não aceitarem o Evangelho, ou não se firmarem
nele, sempre haverá os representados pela "boa terra" – os que
aceitam, permanecem nele e convidam outros a aceitá-lo e "frutificam
a trinta, a sessenta e a cem por um" (4:20). Isso deve animar a todos
os modernos "semeadores" do Evangelho: sempre haverá alguém
esperando o anúncio de salvação para passá-lo adiante.
4. Satanás (4:15), angústia e perseguição (4:17), riquezas e cuidados
com as coisas deste mundo (4:19) podem atrapalhar o crescimento da
semente, mas não podem impedir que ela germine na vida de quem,
sem reservas, entregou o solo de seu coração ao Semeador Celestial.
No dizer de Paulo: "Em todas essas coisas, somos mais que
vencedores por meio daquele que nos amou" (Rm 8:37).
II. Luz e Sementes (Mc 4:21-32)
Como que desejando demonstrar que nada pode deter a pregação do
Evangelho, Jesus contou três breves parábolas:
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1. A Candeia (4:21-25) – Como não se pode esconder a luz, assim não se
poderia impedir que o Evangelho fosse propagado no mundo. O fato de
hoje sermos cristãos é uma prova disso. Nem perseguição nem morte
foram suficientes para calar os cristãos em todos os tempos. Quanto
mais provações havia, mais conversões e firmeza na fé ocorriam.
2. A Semente (Mc 4:26-29) – Em condições normais, nada pode impedir
uma semente de germinar. Mesmo que tenha que rachar uma pedra,
ela germinará e crescerá. Essa energia que traz dentro de si bem
representa o Evangelho que "é o poder de Deus para a salvação de
todo aquele que nele crê" (Rm 1:16).
3. O Grão de Mostarda (Mc 4:30-32) – Pequenino e aparentando
fragilidade, o grão de mostarda germina e se transforma numa
hortaliça de grande porte (em relação às demais hortaliças). Assim
ocorre também com o Evangelho: muitas vezes sem alarde, propagado
por pessoas simples e em condições difíceis, ele acaba conquistando
impérios, como ocorreu com o império romano, vencido pelo
cristianismo primitivo. Isso deve animar cada cristão dos dias atuais.
Pelo poder de Deus, "será pregado este evangelho do reino por todo o
mundo, para testemunho a todas as nações. Então, virá o fim" (Mt
24:14).
III. Terror sobre a água
No mesmo dia em que proferiu as parábolas do Semeador (4:1 a 20), da
Candeia (4:21-25), da Semente (4:26 –29) e do Grão de Mostarda (4:30-32)
Jesus convidou Seus discípulos a "passar para a outra margem" do mar da
Galileia (4:35). A região a leste deste "mar" era menos habitada que do lado
oeste. Ali, Jesus era menos conhecido. Talvez desejasse descansar em
pouco, juntamente com seus discípulos. O fato de Jesus dormir sobre um
travesseiro, enquanto era feita a travessia, mostra que ele realmente estava
cansado. Isso aponta à Sua humanidade: Ele não parecia, nem fingia ser
homem, mas o era de fato. É importante para o cristão saber que Jesus nos
entende, pois experimentou as lutas e o cansaço, tal como ocorre conosco.
"Mestre, não te importa que pereçamos?" (4:38). Esta é uma pergunta feita
por cristãos de todas as épocas. Onde está Jesus quando sofremos? Ele Se
importa com nossas aflições? Sim, Ele Se importa, mesmo que a nós pareça
que não, que Ele esteja "dormindo". Ele acalmou a tempestade. Havendo
Marcos anteriormente falado do poder de Jesus sobre os demônios e sobre
as doenças, agora fala de Seu poder sobre os elementos da natureza: isso
aponta para Sua divindade. Só o Criador pode controlar dessa maneira as
coisas criadas. Assim, temos em Jesus alguém humano, que pode nos
compreender e também divino, que pode nos salvar.
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IV. Dois mil porcos por uma pessoa (Mc 5:1-20).
Com o relato da cura do endemoninhado geraseno, Marcos mantém-se fiel
ao seu estilo de mostrar Jesus sempre em ação. Mal desembarcou, ei-lo já
expulsando demônios de um pobre homem, cativo de Satanás, que podia até
quebrar cadeias humanas de metal, mas totalmente impotente quanto às
cadeias espirituais do mal – um símbolo de cada um de nós. Em seu caso, e
no nosso, são verdadeiras as palavras de Cristo: "Sem Mim, nada podeis
fazer" (João 15: 5). Mas também verdadeiras são as palavras de Paulo:
"Tudo posso naquele que me fortalece" (Fp 4:13).
Após o comando de Cristo ao demônio: "sai desse homem!" (4:8), o
miserável gadareno foi liberto do poder do mal. Recobrou sua sanidade
mental e física. Houve nele uma transformação completa: ele estava agora
"assentado, vestido, em perfeito juízo" (4:15). Qual foi a reação de seus
compatriotas gerasenos? Marcos diz que eles "temeram" (4:15). Temeram
não a Deus, mas o prejuízo financeiro da perda de cerca de dois mil porcos.
Para eles, Jesus era um intruso, incômodo e fonte de problemas e prejuízos.
Rogaram a Jesus que Se retirasse da terra deles. Que trágico! Quando
poderiam ter usufruído da presença e do poder salvador de Cristo,
mandaram-nO embora, preferindo a companhia dos porcos (restantes).
As lições desse incidente são claras: (1) Quais são as nossas prioridades?
Sentiríamos confortáveis com a presença de Jesus em nossa casa, em nossos
negócios e planos? Se não, por quê?; (2) Estamos contando aos outros o que
Jesus tem feito por nós, como Jesus pediu ao ex-endemoninhado? (4:18
-20).
V. A filha de Jairo e a mulher enferma (Mc 4:21-43).
Neste relato de Marcos houve a intervenção ou atividade de Jesus em favor
de duas mulheres: uma no início da vida (a filha de doze anos de Jairo) e a
outra já adulta, que vinha lutando há doze anos com uma hemorragia.
Além de mostrar o poder de Jesus sobre a doença (no caso da mulher
hemorrágica e em outros casos mencionados antes em seu Evangelho),
Marcos nos apresenta Jesus também com poder sobre a morte (caso da filha
de Jairo), e vencedor de preconceitos: Ele tocou o cadáver de uma menina e
Se deixou tocar por uma mulher com hemorragia: ambos os procedimentos,
segundo as leis mosaicas, deixavam alguém impuro. Essas leis, mesmo
tendo sido dadas por Deus, acabaram sendo mal-interpretadas e serviam
para discriminar e tornar mais difícil a vida das pessoas. As declarações de
Moisés sobre ficar imundo com o toque de cadáveres e em pessoas com
hemorragia eram para se evitar contágio de doenças. Mas acabaram se
18
tornando motivo para que não se ajudassem e até evitassem pessoas
doentes que precisavam de auxílio. A pergunta que se impõe é: O que vale
mais: nossas práticas religiosas ou a vida? Quando, e sob quais
circunstâncias nossas práticas religiosas podem ser "violadas"? (Por
exemplo: o sábado é um dia sagrado e não um dia de compras. Mas seria
correto comprar algo para alguém nesse dia? Por quê?).
Lição 5: CONFRONTO NA GALILEIA
Nesta lição, estudaremos os capítulos 6 e 7 do Evangelho de Marcos. Até
este ponto do Evangelho, a popularidade de Jesus só cresceu. Muitas foram
as curas, os exorcismos; vários ensinamentos por parábolas. A trajetória de
êxito de Jesus culminou com a ressurreição da filha de Jairo (5:35-43).
Porém, nos capítulos 6 e 7, Marcos prepara o leitor para a oposição e
sofrimentos que estariam presentes durante todo o ministério de Jesus, que
culminariam com Sua crucifixão.
I. Confronto em Nazaré (Mc 6:1-5):
Era de se esperar que Jesus fosse bem recebido em Sua terra natal. Mas não
foi isso o que aconteceu. Inicialmente, houve admiração e espanto com a
sabedoria e os ensinamentos dEle (6:1 e 2). A seguir, houve o escândalo e a
incredulidade. Por quê? Talvez por ser Ele "carpinteiro" (trabalho que
envolvia também fazer casas. Isso explica as constantes metáforas de Jesus
sobre construção de casas, torres, etc.). Esperava-se mesmo que um rabino
(e todos os homens judeus) tivesse também uma profissão manual (por
exemplo, Paulo e seu ofício de fazer tendas). O que deve ter ocasionado o
escândalo e rejeição à pessoa de Cristo foi, sem dúvida, Sua falta de
credenciais religiosas e acadêmicas. Este carpinteiro nazareno não estudara
com os escribas e fariseus (cf. João 7:15: "Como sabe Este letras, sem ter
estudado?"), o que Ele aprendera foi com Sua mãe e por Si mesmo, através
do estudo pessoal do Antigo Testamento.
Hoje, podemos cair no mesmo erro dos nazarenos: avaliar alguém, não pelo
caráter e vida, mas pelos títulos e locais onde estudou. Deveríamos, então,
seguir o conselho do próprio Jesus: "pelos seus frutos os conhecereis" (Mt
7:16).
II. A morte de João Batista
Após a menção do envio dos doze (Mc 6:7-13), Marcos, que falara de João
apenas no início de seu Evangelho, por sua obra de anunciar a vinda do
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Messias e batizá-Lo (Mc 1:2-9), agora volta a falar de João e dos detalhes de
sua morte, decapitado por Herodes Antipas, a pedido de Herodias – sua
mulher (e sobrinha) que fora tomada de seu irmão Filipe.
Qual seria a provável razão para Marcos relatar aqui a morte de João
Batista? Talvez ele quisesse preparar seus leitores para o que aconteceria a
Jesus. Note os paralelos:
1. Ambos, Jesus e João, foram mortos a pedido de alguém (os líderes
judaicos, no caso de Jesus, e Herodias, no caso de João);
2. Ambos foram executados pelo poder político, subordinado a Roma
(Pilatos e Herodes);
3. Ambos morreram por falar a verdade aos poderosos e contrariá-los
(Jesus condenou a hipocrisia e falsidade dos líderes judaicos, e João
condenou a vida licenciosa de Herodes e Herodias);
4. Em ambas as mortes, as mulheres dos que os condenaram tiveram
papel destacado: Herodias solicitou a morte de João e a mulher de
Pilatos a soltura de Jesus.
Assim, a morte de João Batista, o precursor de Jesus, era um horrível
presságio do que aconteceria a Jesus às mãos dos líderes judaicos e de
Pilatos.
As principais lições do relato da morte de João são:
1) O mal também atinge as pessoas boas e justas (na eternidade, teremos
as explicações necessárias sobre estes casos dadas pelo próprio Deus – que
é amor (cf. 1Jo 4:8).
2) Podemos escolher nos calar diante do erro, ou seja, ser coniventes com
ele, ou denunciá-lo (com firmeza e amor, é claro) e estar dispostos a correr
o risco da perseguição e perda da vida.
III. O ponto decisivo (Mc 6:33-46).
Estes versos do Evangelho de Marcos relatam a primeira multiplicação de
pães, quando cerca de cinco mil homens (sem contar mulheres e crianças)
foram alimentados. A princípio eram apenas cinco pães e dois peixes.
Se Jesus era, já, popular pelas curas que fazia, pelos exorcismos que
praticava e até pelas ressurreições que operava, imagine a euforia do povo
que foi alimentado com um simples lanche de um rapazinho! Ali estava o
Messias ideal, aquele que supriria cada necessidade do povo! Mas o reino de
Cristo "não é deste mundo" (João 18:36), e quando quiseram coroá-Lo Rei, à
20
força (cf. João 6:14-15) Jesus Se retirou de entre a multidão. Ele sabia que
tinha todo o Seu ministério pela frente, e que "daria Sua vida em resgate por
muitos" (Mt 20:28).
A recusa de Jesus em ser um rei terrestre para Seu povo, foi um ponto
decisivo em Seu ministério. Pôs à prova os que O seguiam meramente
interessados em ganhar alguma coisa terrena, e estes, quando entenderam
que Jesus jamais seria um rei terreno, "O abandonaram e já não andavam
com Ele" (João 6:66). Felizmente, os doze permaneceram firmes. Pedro
proferiu as significativas palavras: "Senhor, para quem iremos? Tu tens as
palavras da vida eterna" (João 6:68).
A grande lição a ser tirada deste relato de Marcos, além daquelas do
despreendimento de um garoto com seu lanche, da ordem em que o povo foi
disposto para receber o alimento e do recolhimento das sobras, para que não
houvesse desperdício de alimento, é a de avaliarmos o real motivo que nos
leva a seguir a Cristo. Que ganharemos em segui-Lo? Compensa fazê-lo?
Quais são os riscos? Se não tivéssemos saúde, emprego, alimento etc., ainda
confiaríamos em Jesus e O seguiríamos?
IV. Jesus caminha sobre as águas (Mc 6:45-56)
O incidente relatado aqui, no qual Jesus caminhou sobre as águas do Mar da
Galileia, está diretamente vinculado à multiplicação dos pães e peixes. Foi
por causa da idéia do povo em coroar Jesus rei, que este, além de não
aceitar nem estimular tal idéia, pediu aos discípulos que tomassem o barco e
voltassem para a margem esquerda do Mar da Galileia. Isso deve tê-los
frustrado e os deixado bastante aborrecidos. Afinal, Jesus perdera excelente
oportunidade de Se declarar rei, e eles, de reinarem com Ele.
Com toda certeza, quando remavam com dificuldade contra o vento que
soprava forte, estavam decepcionados com Jesus e a chance por Ele perdida
de ser rei. Além disso, eles "não haviam compreendido o milagre dos pães"
(Mc 6:52). Por quê? Certamente por não terem visto que a dádiva dos pães à
multidão representava a dádiva de Jesus em sacrifício, como o verdadeiro
pão do Céu (cf. João 6:32-35). Assim, Jesus não iria Se assentar num trono
terreno, mas viera como Rei da graça, para, no futuro, na consumação da
História, ser o Rei da Glória.
Entre as importantes lições do incidente de Jesus caminhar sobre as águas,
estão a de que Jesus vê quando os ventos das dificuldades nos são
contrários, e vem ter conosco" (Mc 6:48). Ele nem sempre nos poupa das
aflições, mas "vê" e "vem ter conosco" para nos ajudar a suportá-las ou
mesmo superá-las. Outra lição é a de que, se o nosso coração se apega às
21
coisas terrenas, até mesmo coisas boas, corremos o risco de ter nosso
"coração endurecido" quanto ao desejo e apreço pelas coisas espirituais e
eternas.
V. Confronto com os fariseus (Mc 7:1-23)
Os versos 1 a 23 de Marcos 7 tratam de duas práticas da tradição judaica: O
lavar as mãos cerimonialmente e a prática da Corbã.
Os leitores de Marcos não podem usar o incidente de os discípulos comerem
pão sem lavar as mãos para afirmar que Jesus havia abolido a lei quanto ao
que devia ou não ser comido (Lv 11). O assunto em discussão não era sobre
o que poderia ser alimento limpo ou imundo, mas comer pão (alimento
limpo) sem lavar as mãos. E também não se tratava de um incentivo à falta
de higiene, por parte de Jesus. O assunto aqui é a pureza cerimonial, ou
seja, lavar "cuidadosamente", e certamente muitas vezes, as mãos, por
medo de contaminação pelo toque de algum gentio, "quando voltavam da
praça" (Mc 6:3 e 4). Os judeus exageravam os conselhos do Antigo
Testamento de não se misturarem com povos de outras raças.
Os discípulos certamente deviam lavar as mãos ao comerem, mas Jesus não
estimulou a purificação cerimonial (cuidadosa e muitas vezes) das mãos. Tal
prática não os faria mais aceitáveis a Deus, pois baseava-se, não na higiene,
mas em preconceito para com os gentios. (Uma palavra sobre o verso 19 de
Marcos 7: a expressão: "Assim considerou Ele puros todos os alimentos",
deve ser entendida como "alimentos limpos, mesmo comidos com as mãos
sem a purificação cerimonial, são puros").
A prática da Corbã (palavra aramaica que significa "oferta", "oferenda") era
particularmente perversa. Levava ao fingimento da piedade (das ofertas a
Deus) e ao desamor e descuido para com os pais. Se o pai ou mãe
precisassem de algo (dinheiro, alimentos etc.), bastava o filho ou filha
dizerem: "Corbã!", então, aquilo era considerado do Senhor, e isto os
isentava de suprir e cuidar dos pais. (Só que, bem provavelmente, a coisa
declarada "Corbã" ou "oferta" ao Senhor nunca chegava ao Templo, pois
quem não tem cuidado dos pais, vai se importar com a igreja?).
Jesus foi contrário às duas práticas: contra a purificação cerimonial das mãos
(por não aceitar que tal prática tornasse alguém limpo diante de Deus; e
contra a "Corbã", por levar as pessoas a serem insensíveis quanto às
necessidades dos pais, quebrando assim o quinto mandamento da Lei de
Deus.
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A pergunta que se impõe é: nossas práticas, mesmo as religiosas, nos levam
ao orgulho pessoal e à insensibilidade para com os outros? Se a resposta for
"sim", então elas devem ser repensadas e até mesmo abandonadas.
Lição 6: PREDITA A PAIXÃO
O fato de que Jesus nasceu para morrer é evidenciado desde o Seu
nascimento numa manjedoura de Belém. Os anjos falaram aos pastores: "E
isto vos servirá de sinal [seméion]: encontrareis uma criança envolta em
faixas e deitada em manjedoura" (Lc 2:12). A palavra "sinal" é – no grego,
"seméion", cuja raiz verbal é "semáino", que significa "pressagiar",
"anunciar". O "sinal" não serviria apenas para os pastores encontrarem a
criança, mas serviria de "presságio", de "anúncio" do que ocorreria no futuro
com ela: as faixas que envolviam Jesus menino (possivelmente as faixas
mortuárias que José transportava para serem usadas em si ou em Maria caso
morressem em viagem) apontavam para a morte de Jesus (Lc 24:12), pois
os mortos eram enfaixados (como no caso de Lázaro, em João 11:44). A
manjedoura, cocho de pedra, também apontava para a pedra em cima da
qual o corpo de Jesus seria colocado (Lc 23:53).
I. Os cachorros comem as migalhas (Mc 7:24-30).
Talvez o ponto mais distante alcançado por Jesus em Seu ministério tenha
sido a região de Tiro e Sidom, na Fenícia. Uma mulher dessa localidade
descobriu que Jesus ali estava e O procurou para receber ajuda quanto à sua
filha, que estava endemoninhada.
A princípio, e para mostrar quão duro era o tratamento dos judeus para com
povos de outras raças (eles os consideravam como cães, ou seja, imundos),
Jesus agiu como um típico judeu, tratando a mulher siro-fenícia como um
"cachorrinho". Apesar de o termo grego Kunárion significar "cachorrinho",
"filhote de cão", é, certamente uma palavra pejorativa. Mas parece que a
mulher conseguiu perceber que, apesar de ser considerada um
"cachorrinho", havia bondade e interesse em ajudar da parte de Jesus – do
contrário ela se retiraria ofendida. E sua persistência foi recompensada, pois
Jesus, mesmo à distância, expulsou o demônio da filha daquela não judia,
mas que exerceu fé no poder de Jesus.
Fica aqui a pergunta: pelo fato de sermos o "Remanescente", o povo
escolhido por Deus para proclamar verdades importantes para o mundo,
tratamos as pessoas que não são de nossa igreja com desprezo? Sentimo-
23
nos superiores? Ou deveríamos nos considerar mais devedores ao mundo
pelo fato de nos terem sido reveladas as verdades de Deus para o tempo
presente, em vez de nutrir qualquer sentimento de superioridade?
II. Jesus alimenta os 4 mil - a segunda multiplicação de pães e
peixes (Mc 8:1-22)
A primeira multiplicação de pães e peixes (relatada em Mc 6:30-44) deu-se,
segundo Lucas (9:10), em Betsaida, situada na parte noroeste do Mar da
Galileia. Segundo Ellen G. White (O Desejado de Todas as Nações, p. 405), a
primeira multiplicação foi em favor de judeus. Na segunda, o milagre deu-se
na região de Decápolis, território gentílico, a leste do Jordão (região da
moderna Jordânia); portanto, foi realizada em prol de gentios. Isso mostra o
cuidado e a ausência de preconceito de Jesus para com todas as raças.
Chama a nossa atenção o fato de que, em ambas as ocasiões, é dito que a
falta de alimento para os ouvintes levou Jesus a "compadecer-Se deles"
(confira Mc 6:34 e 8:1-3). Que lição para nós, Seus seguidores, no trato para
com todos! A outra importante lição é que, novamente o excedente foi
recolhido (na primeira multiplicação, 12 cestos de pães e peixes; na
segunda, sete cestos). Isso indica que desperdício é pecado (pois priva
alguém do necessário para viver).
III. A pergunta mais importante do mundo (Mc 8:27-30)
Esta seção de Marcos trata da questão da identificação de Jesus, de quem
realmente Ele era. Primeiro, Ele indagou dos discípulos o que as multidões
diziam sobre Ele. E as respostas vieram: uns dizem: "João Batista" (que
havia sido decapitado por ordem de Herodes Antipas, cf. Mc 6:14-28), outros
dizem: "Elias" (que havia subido ao Céu num carro de fogo cf. II Reis 2: 11),
pois havia a promessa de Malaquias de que "Elias" viria antes que viesse o
grande e terrível Dia do Senhor (Mal. 4:5 e 6) – uma referência não à
mesma pessoa do profeta Elias, mas a João Batista, que faria uma obra de
reavivamento como Elias; e outros ainda responderam: "alguns dos profetas"
(ressuscitados).
Pelas respostas, se vê que o máximo que as multidões captaram sobre a
pessoa de Jesus foi que Ele era um grande profeta, (como tinham sido João
Batista e Elias), ou um grande Mestre – não mais que um homem sábio e
dedicado a Deus.
Então, Jesus indagou dos Seus discípulos: "Mas vós, quem dizeis que sou?"
(Mc 8:29). Pedro (como sempre o primeiro a falar) respondeu: "Tu és o
Cristo", isto é, o Messias, enviado por Deus.
24
Se a pergunta de Jesus ("Mas, vós, quem dizeis que Eu sou?") é a mais
importante do mundo (porque leva o indivíduo a se posicionar quanto à
pessoa de Jesus), a resposta de Pedro é a mais importante do mundo ("Tu és
o Cristo"), pois se alguém assim declara, Jesus para ele não é apenas mero
homem sábio ou Mestre famoso enviado pelo Pai, mas o Salvador do mundo
e nosso também.
IV. A cruz de Jesus e a nossa (Mc 8:31-38)
Esta parte de Marcos está intrinsecamente ligada à anterior (8:27-30), que
trata da confissão de Pedro: "Tu és o Cristo" (8:29). Mas, será que Pedro
entendia claramente que esse "Cristo" ou "Messias" enviado por Deus para
salvar Seu povo, traria salvação espiritual e não material? Parece que,
mesmo magnífica, a resposta de Pedro oscilava entre o plano celestial e o
terreno. Provavelmente, com os versos 31-38 de Marcos 8, Jesus quisesse
corrigir Pedro e os demais discípulos, de que seria um Cristo (Ungido) ou
Messias terrestre. Ao contrário, Ele sofreria, seria rejeitado pela liderança
judaica e morto (Mc 8:31). Isso não agradou Pedro nem os demais
discípulos. Não, o Messias não devia sofrer, pois, se assim fosse, eles (os
discípulos) também sofreriam e poderiam ser mortos! E não era isso que
esperavam para si, mas glórias mundanas, o primeiro lugar no reino
terrestre, de acordo com o pedido de Tiago e João, em Marcos 10:35-45.
Jesus deixou claro que segui-Lo envolve "tomar a cruz" (Mc 8:34), e isso
pode envolver ostracismo, perseguições, sofrimentos e até mesmo a morte,
como aconteceu com os discípulos e os mártires do passado e os de hoje. A
glória será vista e o galardão recebido somente no final, "quando o Filho do
Homem vier na glória de Seu Pai com os santos anjos" (Mc 8:38). E até que
este dia chegue, estaremos, como diz Paulo: "crucificados com Cristo" (Gl
2:19).
V. A Transfiguração (Mc 9:2-13)
É de se perguntar por que, seis dias depois (Mc 9:2) da confissão de Pedro,
do anúncio dos sofrimentos e morte do Messias (8:27- 33), da repreensão de
Jesus a Pedro e de sua advertência de que é mister tomar a cruz e segui-Lo
(8:32-34), Jesus foi transfigurado (9:2-7)? A resposta parece ser que este
fato ajudou a fortalecer a fé dos discípulos, depois de tanto anúncio ruim
(sofrimentos, rejeição, cruz e morte). Assim, pela transfiguração, os
discípulos (Pedro, Tiago e João) tiveram um vislumbre da divindade de
Jesus. Ele sofreria, seria rejeitado e morto, é verdade, mas ressuscitaria
como vencedor sobre a morte (Mc 8:31). Esse ato da transfiguração ficou tão
vívido na mente daqueles discípulos que a presenciaram que, anos depois,
25
Pedro diria: "Nós mesmos fomos testemunhas oculares de Sua majestade...
quando estávamos com Ele no monte santo (2Pe 1:16-18).
O anúncio de morte e cruz seguido da cena gloriosa da transfiguração mostra
algo interessante da pedagogia de Jesus: Ele sempre tinha algo bom e
positivo a oferecer aos seus seguidores, após coisas ruins e desalentadoras
terem sido previstas e anunciadas. Do contrário, a fé poderia dar lugar ao
desânimo e abandono da carreira cristã.
Lição 7: ENSINANDO OS DISCÍPULOS
Introdução:
O trecho de 9:14 a 10:31 do Evangelho de Marcos mostra Jesus como
professor para Seus discípulos. O tempo do ministério terrestre de Jesus
estava se encaminhando para o término, que culminaria com Sua morte
numa cruz romana, em Jerusalém. Daí a preocupação em ministrar aos
discípulos as lições imprescindíveis à vida e ao ministério deles, como
continuadores de Sua obra. Essas lições, dadas há dois mil anos, são válidas
e atuais para nós hoje, cabendo a nós estudá-las e pô-las em prática.
I. Insucesso público (Mc 9:14-32)
Após a transfiguração, Jesus e os três discípulos que com Ele tinham estado
desceram do monte e se encontraram com os demais discípulos que haviam
tentado, sem sucesso, expulsar o demônio de um menino. Qual fora o
problema? Jesus não lhes dera autoridade para expulsar demônios? (confira
Mc 3:14 e 15), e eles já não tinham feito isso antes? (confira Mc 6:12 e 13).
Sim, eles haviam expulsado demônios, mas parece que isto se tornou coisa
rotineira e eles acabaram por achar que era algo normal, quem sabe até
mágico, as expulsões.
Jesus detectou o problema que resultou no fracasso dos Seus discípulos
quanto a expulsar o demônio: era a falta de oração e jejum (sendo que este
último seja, talvez, um acréscimo ao texto, uma vez que não aparece em
todos os manuscritos de Marcos que foram encontrados).
Então, que ninguém se engane com o pensamento de que meras palavras,
mesmo em nome de Jesus, possam pôr o demônio para correr. É necessário
o preparo espiritual para enfrentar o inimigo de Deus. Oração, jejum e muita
26
dependência e confiança em Deus, eis os ingredientes para se ter sucesso na
luta contra os "poderes espirituais do mal" (Ef 6:12).
II. A verdadeira grandeza (Mc 9:33-50).
Após o ensino de como enfrentar Satanás, Jesus apresentou aos discípulos o
ensinamento sobre a verdadeira grandeza: grande aos olhos de Deus é quem
mais serve (9:35). Jesus mesmo exemplificou este conceito em Sua vida,
vindo "para servir e dar a Sua vida em resgate por muitos" (Mc 10:45).
Assim, o conceito humano de grandeza e importância foi subvertido por
Cristo. Grandes não são os que ocupam os mais altos postos neste mundo,
nem os mais ricos e de status mais elevado, mas os que vivem para servir.
Grande é aquele que serve com o espírito despretensioso de uma criança,
geralmente símbolo de falta de malícia, de segundas intenções ao fazer algo
por alguém (9:36-37 e 42).
Se quisermos ser grandes, lembrados até mesmo após nossa morte, vivamos
para servir, para ajudar, para fazer o máximo de bem que pudermos, tal
como Jesus, Madre Tereza de Calcutá, e muitos outros cujas vidas foram
uma bênção ao mundo.
No dia do Juízo Final não se perguntará a respeito do que cremos, mas como
nossa crença nos levou a agir em prol dos famintos, sedentos, sem lar,
desnudos, enfermos e presos (Mt 25:31-46).
III. Reforma no divórcio (Mc 9:1-12).
O capítulo 10 em diante marca uma nova divisão do Evangelho de Marcos:
Jesus Se dirigiu à Judeia, e esta viagem O levaria à morte em Jerusalém.
Mesmo em viagem, Jesus continuou a ensinar preciosas lições aos discípulos,
que deveriam continuar Seu trabalho quando Ele morresse, ressuscitasse e
voltasse para o Céu. E dessa vez, Jesus lhes ensinou sobre um assunto
muito discutido naqueles dias (e nos nossos também): o divórcio.
A questão do divórcio foi motivada por uma pergunta maliciosa dos fariseus:
"É lícito ao marido repudiar sua mulher?" (10:2). Talvez para intrigar Jesus
com Herodes Antipas, que havia se separado de sua esposa e desposado a
cunhada e sobrinha Herodias, após tomá-la de seu legítimo esposo Filipe (ver
Mc 6:17-19). O fato é que Jesus aproveitou a pergunta, capciosa ou não,
para corrigir distorções quanto ao divórcio.
É sabido que nos dias de Cristo havia duas escolas teológicas: a de Hilel,
que, baseada em Deuteronômio 24:1 e 2, permitia ao homem que achasse
algo "indecente" numa mulher o direito de, por qualquer razão, se divorciar
27
da esposa. A outra escola, de Shammai, era mais conservadora e
interpretava a "coisa indecente", de Deuteronômio 24:1 e 2 como atos
sexuais ilícitos, e só assim permitia o divórcio.
Se ficarmos só com o que aparece no Evangelho de Marcos, Jesus parece ter
sido ainda mais conservador do que o ensinamento de Shammai, indicando
que nem o adultério poderia dar direito a alguém a novas núpcias. Daí
necessitarmos ir ao Evangelho de Mateus para termos o completo
ensinamento de Jesus sobre o assunto. Em Mt 19:9, Jesus disse que divórcio
e novo casamento era permitido somente em caso de "relações sexuais
ilícitas" (no grego, pornéia = que envolve qualquer ato sexual ilícito:
bestialidade, homossexualismo, fornicação, adultério, etc.). Assim, Jesus Se
aproximou do que era ensinado pela escola teológica mais conservadora, a
escola de Shammai.
IV. As crianças (Mc 10:13-16)
Jesus já havia falado das crianças e da atitude delas em, geralmente, fazer
as coisas sem malícia e segundas intenções (como, por exemplo, extrair
lucro ou ganho com o ato praticado) e de serem exemplos de humildade (Mc
9:34-36 e 42). Agora, retomou o assunto, tendo em vista o preconceito dos
discípulos para com elas, quando foram trazidas para serem abençoadas por
Jesus (10:13).
Ante a repreensão dos discípulos para com as crianças (10:13), Jesus Se
"indignou" com o tratamento dado a elas. Sua indignação foi uma justa
reação a uma situação de injustiça.
As crianças sempre foram vistas como seres problemáticos, sem muita
importância e até um estorvo aos adultos. Têm sofrido muitos abusos, sendo
vítimas da violência e até abusos sexuais. Jesus, no entanto, valorizou estes
pequenos seres e os citou como exemplos dos que hão de herdar o reino de
Deus (Mc 10:14-16). Talvez porque elas possuem as virtudes da inocência,
confiança inabalável, sem o dolo dos adultos, são humildes e dependentes
dos pais. (Champlin, R. N. O Novo Testamento Interpretado, v. 1. São Paulo:
Candeia, 1995, p. 746) – São estas as virtudes que todos deveriam buscar.
V. Atitudes com relação à riqueza (Mc 10:17-31)
Outro importante ensinamento de Jesus é com relação à riqueza.
Sabe-se que os judeus criam que riquezas e saúde eram vistas como
bênçãos divinas, enquanto pobreza e doença eram vistas como castigos de
Deus devido a algum pecado cometido (veja caso do cego de nascença, em
28
João 9). Na parábola do Rico e Lázaro, Jesus subverteu tal crença: colocou o
rico no "inferno" e o pobre e doente Lázaro no "seio de Abraão" (confira Lc
16:19-31).
Se riquezas e saúde sempre fossem sinal da bênção e do favor divino, o
jovem rico não precisaria de Jesus, pois ele era rico, jovem e sadio. No
entanto, correu ao encontro de Jesus. Aparentemente, era até religioso, pois
se prostrou aos pés de Jesus e indagou sobre como herdar a vida eterna.
Embora o moço rico desejasse a vida eterna, ele queria um atalho para
consegui-la. Não estava disposto a pagar o preço do discipulado, que é a
renúncia ou o desapego às coisas deste mundo. Mas não se pode "servir a
Deus e às riquezas" (Mt 6:24).
Não que haja algo errado em ser rico. Abraão, Isaque, Davi, Salomão e
muitos personagens da Bíblia foram ricos ou extremamente ricos. O
problema está em tomar a riqueza como sinal da bênção e aprovação divinas
e não buscar a confissão e o perdão para os pecados, ou fazer dela um meio
de salvação, fazendo caridade, dando esmolas, com o fim de, através de
boas obras, comprar a salvação. Outro problema com as riquezas terrenas é
que elas podem fazer com que nos esqueçamos da verdadeira riqueza,
indestrutível e à prova de ladrões (cf. Mt 6:19). Bem empregadas, contudo,
podem ser uma bênção, pois muito bem se pode fazer com elas,
especialmente para com os menos afortunados e carentes de toda sorte.
Lição 8 – A Jornada Final
A parte estudada nesta lição (Mc 10:32-12: 34) se refere à última viagem de
Jesus à Jerusalém, onde haveria de morrer crucificado. São 3 capítulos dos 6
que tratam dos últimos dias do ministério terrestre de Jesus.
O interessante nesta viagem à Jerusalém é o fato de Jesus seguir à frente
dos discípulos, e resolutamente caminhar para a morte. Isso demonstra que
Jesus sabia o que Lhe aconteceria em Jerusalém e entendia que fora para
isto mesmo que Ele viera a este mundo: "para dar Sua vida em resgate por
muitos" (Mc 10:45).
I. Pedido egoísta (Mc 10:32-45)
Diferentemente dos livros de biografias, a Bíblia relata também as fraquezas
de seus personagens. Dois deles: Tiago e seu irmão João pediram os
29
primeiros lugares no reino, que pensavam tratar-se de um reino terrestre.
Evidenciam, assim, seu egoísmo, em prejuízo dos demais. Eles querem
grandezas humanas. Querem ser grandes.
Jesus vai deixou claro que a grandeza no reino de Deus é medida por
padrões diametralmente opostos aos do mundo: grande no reino de Deus é
quem mais serve (10:43), o primeiro é o que se põe na posição de servo
para com os demais (10:44). O exemplo maior disso foi dado pelo próprio
Senhor: Ele "não veio para ser servido, mas para servir..." (10:45).
Chamou também a atenção no relato do pedido de Tiago e João, a
indignação dos demais discípulos para com o pedido destes dois (Mc 10:41).
Mas não era indignação justa, contra a falta de entendimento quanto à
natureza do reino que Cristo viera instaurar. A indignação era motivada, com
toda a certeza, pelo fato de tal pedido ser lesivo a eles, que ambicionavam a
mesma coisa: e se Jesus resolvesse conceder o pedido? O que restaria aos
outros dez discípulos senão os lugares considerados sem muita importância
aos olhos humanos?
A lição do pedido de Tiago e João é bastante atual: a grandeza divina se
mede pelo espírito de servir ao próximo, tal como Jesus o fez. É essa
grandeza no serviço que deve ser buscada por todo seguidor de dEle. Essa é
a grandeza que perdura. A grandeza mundana se dissipa com a morte
daquele que, aos olhos dos homens, era considerado grande.
II. O cego Bartimeu (Mc 10:46-52)
O incidente da cura de Bartimeu (e de seu colega, conforme o relato de
Mateus 20:29-34) serve para mostrar o que é um discípulo-modelo sob a
ótica de Marcos. Não é Pedro, nem Mateus, nem outro qualquer dos
discípulos: é Bartimeu (filho de Timeu), e as razões são as seguintes:
1. Este cego reconheceu em Jesus o "Filho de Davi", o Messias enviado por
Deus (10:47), coisa que muitos em Israel, especialmente os líderes,
deixaram de fazer;
2. Ele teve fé em Jesus e em Seu poder para curá-lo (10:47);
3. Ele tem a persistência que se espera de um verdadeiro discípulo. Ao ser
repreendido e pedido para que se calasse, ele gritou ainda mais; (10:48);
4. Ele lançou de si a capa – algo que o impedia de ir até Jesus, ou seja,
lançou de si tudo o que possuía para ir a Jesus (Mc 10: 50);
30
5. Ao ser curado, seguiu Jesus "pelo caminho" (Mc 10:52), sem se importar
com os riscos dessa caminhada ou seguimento. (E Jesus caminhava para a
cruz, em Jerusalém).
É interessante perceber que a última imagem que Pedro guardou de
Bartimeu, e que passou a Marcos na escrita deste Evangelho, é a de que
Bartimeu seguia Jesus "pelo caminho" (10:52). Estaríamos dispostos a fazer
o mesmo? Seguir Jesus quando o que se pode receber em conseqüência
disto é a morte ou sofrimento? Para Bartimeu, estar com Jesus valia a pena,
mesmo que isto pudesse acarretar-lhe problemas. Não é isto que se espera
de um verdadeiro discípulo de Jesus?
III. A entrada triunfal (Mc 11:1-11)
A exemplo dos reis de Israel no passado (ver I Reis 1:33-35), Jesus entrou
em Jerusalém, no último domingo de Seu ministério terrestre antes de sua
morte, montado num jumento. Ao fazer isto, apresentou-se claramente
como o Rei-Messias, enviado de Deus para Israel. Esta entrada fora
profetizada uns 500 anos antes pelo profeta Zacarias (9:9 e 10).
Por que Jesus, imitando os reis de Israel, entrou em Jerusalém montado num
jumento? Não poderia ser num belo e vigoroso cavalo? O fato é que os
cavalos eram vistos como símbolo de imponência e agressividade, uma vez
que eram utilizados na guerra, puxando carroças de guerra ou montados por
lanceiros. O jumento, ao contrário, é símbolo de serviço, animal dócil (um
pouco lerdo, é verdade – daí não ser empregado na guerra). O fato de ser
manso e serviçal, representa bem a Jesus que exemplificou estas mesmas
características de mansidão e serviço. Diferentemente de outras vezes em
que entrara sem muito barulho em Jerusalém, agora Jesus queria chamar a
atenção para a Sua pessoa, queria que vissem a obra de salvação que estava
prestes a realizar na cruz, que ocorreria cinco dias depois, na sexta-feira da
última semana de Seu ministério terrestre.
IV. Covil de Salteadores (Mc 11:12-19)
A expulsão dos cambistas (pessoas que trocavam moedas de outras
localidades "pelas moedas de meio siclo, que era a quantia exata do imposto
anual do templo", cf. Champlin, R. N. O Novo Testamento Interpretado, v. 1.
São Paulo: Candeia, 1995, p. 513), e dos que vendiam pombas (pessoas
pobres podiam oferecer estas aves em sacrifício, conforme Lv 12:8),
justamente no Pátio dos Gentios, único lugar onde um gentio podia adentrar
o templo e orar a Deus, foi realizada por Jesus para mostrar Sua autoridade
de Messias enviado por Deus. É claro que este gesto despertou a ira dos
principais sacerdotes e escribas (Mc 11:18), pois se viram desafiados em sua
31
autoridade quanto ao governo do templo e aos lucros extorsivos que
auferiam com a venda dos animais para o sacrifício. Ao mexer na autoridade
e no bolso dos sacerdotes, Jesus selou Sua condenação. Sua morte,
portanto, era questão de somente mais alguns dias.
O ato de Jesus em expulsar os cambistas e vendilhões do templo, mostra
que há tempo de calar e falar, de aguardar e de agir. Jesus, agora, agia, pois
não podia morrer sem demonstrar Sua justa ira para com a profanação do
lugar de oração e da desonestidade dos que deveriam ser modelos de
honestidade e dedicação ao serviço de Deus: os líderes religiosos que, até
hoje, são tentados a servir a Deus e às riquezas (muitas vezes mal
adquiridas).
V. Jesus amaldiçoa a figueira (Mc 11:12-14 e 20-26)
Hoje, não nos parece ser ecologicamente correto Jesus amaldiçoar uma
figueira a ponto de matá-la. Por que Marcos relatou isto? Que lição Jesus
queria passar aos discípulos de então e dos séculos vindouros?
Mesmo sem ser tempo de figos, a figueira estava com folhas (Mc 11:13), o
que indicava que poderia ter frutos. Na verdade, ocorreu, na linguagem de
hoje, uma "propaganda enganosa". Parecia ter figos, mas só tinha folhas. Ou
seja, a aparência da figueira era enganosa.
Um dia após ser amaldiçoada a figueira secou. A lição a ser aprendida do
episódio é que no reino de Deus não há lugar para o fingimento, para falsas
aparências. O cristão tem que ser autêntico e verdadeiro. Deve parecer e
ser.
Também se pode pensar que Jesus usou o episódio da figueira sem frutos
para mostrar o fim do povo judeu como a nação escolhida, especialmente do
que ocorreria com sua capital, Jerusalém: como a falta de frutos ocasionou a
maldição e morte da figueira, assim, a falta dos frutos da fé em Jesus como
o Messias, Sua rejeição e morte na cruz, fariam com que Jerusalém fosse
invadida e destruída pelos exércitos romanos (ano 70 d.C.) e o povo judeu
disperso pelo mundo (135 d.C.).
Como é com nossa vida? Aparentamos ser cristãos e não apresentamos os
frutos que deveríamos ter? Nossa religião é só fingimento, ou somos cristãos
genuínos – de palavras e atos também, como ensinou Tiago, irmão de Jesus,
ao dizer que "a fé sem as obras é morta" (Tg 2:26)?
Lição 9: OS ÚLTIMOS DIAS NO TEMPLO
32
Os eventos relatados neste trecho do Evangelho de Marcos (11:27 a 12:44)
provavelmente ocorreram todos na terça-feira da Semana da Paixão. Foi um
dia bastante carregado de controvérsias com a liderança judaica, que
buscava alguma palavra ou ato de Jesus para incriminá-Lo e levá-Lo à
morte.
Faríamos bem se considerássemos a maneira sábia e prudente com que
Jesus lidou com a oposição e acusação, a fim de tirarmos lições para nossos
dias, para quando passarmos por situações semelhantes.
I. "Não sabemos" (Mc 11:27-33)
O relato de Mc 11:27-33 tem que ver com a "autoridade" (no grego =
exousía) de Jesus para fazer o que fazia (e a última coisa que tinha feito em
Jerusalém fora expulsar os cambistas e vendilhões do Templo, cf. Mc 11:15-
18).
Não tendo estudado com os rabis escribas e fariseus, Jesus era visto como
alguém sem credenciais para interferir no andamento das coisas que
ocorriam no Templo, alguém não autorizado para reformar a religião. Por
isso, perguntaram-Lhe de onde vinha Sua autoridade (11:28).
Sabiamente, Jesus perguntou sobre o batismo de João: "era do céu ou dos
homens?" (11:29-30). Por que Jesus mencionou João Batista? A resposta é
que Jesus estava dizendo que Sua autoridade era da mesma procedência da
de João: Deus. João também não estudara com os rabis, mas o povo
reconhecia nele a autoridade divina. Assim também ocorria com Jesus. Sua
autoridade provinha de Deus, à semelhança da que fora dada a João Batista.
Quando os principais sacerdotes, escribas e anciãos, responderam que não
sabiam de onde era o batismo de João (11:33), foi para não terem que
admitir que Deus pode capacitar alguém que não obteve uma educação
formal, mas que mesmo assim pode ser usado por Deus, como João Batista
e o próprio Jesus (e também a maioria dos profetas do passado, como o
boiadeiro Amós, o pastor de ovelhas Davi, o habitante da rústica Gileade,
Elias, entre outros). Além disso, se admitissem a origem divina da autoridade
de João, ficariam em situação difícil, pois João disse que Jesus era o
"Cordeiro de Deus", e eles O haviam rejeitado.
Não corremos hoje, o mesmo risco de acharmos que só os escolarizados
estão "autorizados" a falar da fé em Cristo?
33
II. A parábola dos lavradores maus (Mc 12:1-12)
A parábola contada por Jesus, dos arrendatários de uma vinha está
diretamente relacionada à questão da autoridade de Jesus rejeitada pela
liderança judaica (11:27- 33). Assim como rejeitaram a autoridade divina de
Jesus sobre a vida e conduta deles, também rejeitaram a soberania do Filho
do dono da vinha (Jesus) e O mataram (12:7).
A metáfora de Israel como a vinha do Senhor era bem conhecida, através do
texto de Isaías 5:1-7. Em Isaías, a vinha do Senhor deu frutos bravos, em
vez de frutos doces e bons (uma aplicação à apostasia e rebelião de Israel
para com o seu Deus). Na parábola de Cristo, o problema não está com a
vinha (pois ela produz frutos que podem ser colhidos – indicação de que
eram bons), mas com os arrendatários que não quiseram reconhecer a
autoridade do legítimo dono da vinha, matando-lhe primeiramente os
empregados (uma aplicação aos profetas enviados por Deus) e finalmente
seu próprio Filho (uma clara alusão a Jesus – o "Filho amado" do Pai, cf. Mc
1:11).
Para nós, a questão de aceitar ou não a autoridade divina em nossa vida é
algo de vida ou morte – como o foi para os líderes religiosos dos dias de
Cristo. Se nos submetermos à autoridade divina, nossa oração será: "não se
faça o que eu quero, e sim, o que Tu queres" (Mc 14: 36), e isso nos leva ao
caminho da salvação. Se não nos submetermos, faremos nossa vontade, que
é perversa, egoísta e má, e nos colocamos no caminho da perdição eterna. A
verdade é que, se Jesus não for o primeiro em nossa vida, Ele não será nada
para nós, pois, no que diz respeito à salvação, não há meio termo: ou somos
de Cristo, por inteiro, ou nossa experiência religiosa é uma hipocrisia
completa.
III. Palavras lisonjeiras (Mc 12:13-17)
Havendo falhado em denegrir a pessoa e autoridade de Jesus, os líderes
religiosos armaram-Lhe a "cilada perfeita": a questão do tributo a César (no
caso, Tibério – um ímpio e vil governante). Se Jesus apoiasse o tributo
imperial, Se exporia ao ódio dos extorquidos judeus; se não apoiasse, seria
denunciado aos romanos como revolucionário e agitador do povo judeu.
Magistralmente, Jesus calou os líderes judaicos com as célebres palavras:
"Dai a César [Tibério] o que é de César, e a Deus o que é de Deus" (12:17).
Com isto, Jesus estabeleceu a importante questão de que o cristão é cidadão
de dois mundos: o terrestre, com todas as obrigações a ele inerentes, e ao
mundo celeste com todas as implicações que isto acarreta. O cristão não vive
alienado do mundo, pois é "sal e luz" (Mt 5:13-16), vivendo para fazer uma
34
diferença saudável na comunidade; mas sem se esquecer de sua cidadania
celestial, atuando como "embaixador" de Deus para com os que estão à sua
volta (2Co 5:20). Mas, no caso de conflito entre as reivindicações destes dois
mundos, o "reino de Deus e sua justiça" têm prioridade. Como disse Pedro:
"Antes, importa obedecer a Deus do que aos homens" (At 5:29). Mas, se os
reclamos do mundo não se chocarem com os do reino de Deus, então o
cristão deve atender às palavras de Paulo: "a quem tributo, tributo; a quem
imposto, imposto; a quem respeito, respeito; a quem honra, honra. A
ninguém fiqueis devendo coisa alguma, exceto o amor ..." (Rm 13:7 e 8).
IV. Uma pergunta capciosa (Mc 12:18-27)
Causa admiração o fato de inimigos tradicionais como os fariseus, saduceus
e outros grupos judaicos se unirem para matar Jesus. Em Marcos 12: 13-17,
a questão do pagamento do tributo a César fora levantada pelos fariseus
(grupo religioso que pregava a salvação pelas obras) e herodianos
(partidários da realeza dos Herodes). Agora, os saduceus (grupo de judeus
que não acreditavam nem em anjos, nem na ressurreição, cf. At 23:8) se
uniu aos demais grupos ou partidos judaicos na oposição a Cristo, e
tentaram confundi-Lo teologicamente, no tocante à existência ou não da
ressurreição.
O fato de os saduceus não crerem na ressurreição se deve à crença grega de
que a carne é má. Se é má, por que ressuscitá-la? Então, apresentaram a
Jesus um exemplo provavelmente fictício de uma mulher que fora casada
sete vezes. Se houvesse ressurreição, de qual dos sete maridos seria ela
esposa? Jesus respondeu com duas colocações: 1) Os saduceus erravam por
"não conhecerem as Escrituras" (eles só aceitavam os cinco primeiros livros
da Bíblia – o Pentateuco), pois nelas há diversos exemplos de ressurreição: a
do filho da viúva de Sarepta (1Rs 17:20-23), a do filho da sunamita (2Rs
4:18-37), e a do cadáver que fora jogado sobre o túmulo de Eliseu (2Rs
13:20-21). Erravam, ainda, os saduceus, por "não conhecerem o poder de
Deus" (12:24) de ajeitar todas as coisas e ter solução para os casos mais
difíceis. Deviam "deixar Deus ser Deus" no tocante ao caso da mulher e seus
sete maridos. Isso não era um problema para ela resolver, nem o era para
os que tinham sido maridos dela, nem para os saduceus: era um problema
para Deus resolver, pois as coisas que "nem olhos viram, nem ouvidos
ouviram, nem jamais penetrou em coração humano, são as que Deus tem
preparado para aqueles que o amam" (1Co 2:9). O poder de Deus tanto
pode ressuscitar um morto, quanto cuidar da situação dos que ressuscitarão
para a vida eterna.
A citação de que Deus é o "Deus de Abraão, de Isaque e de Jacó" (Mc 12:26)
e de que Ele "não é Deus de mortos, e sim de vivos" (12:27), indica que Ele
35
um dia irá ressuscitar Abraão, Isaque e Jacó e a quantos crerem em Seu
Filho, que é "o caminho, e a verdade, e a vida e a ressurreição" (cf. Jo 14:6;
11:25).
V. O maior mandamento (Mc 12:28-34)
Entre tantas ciladas e controvérsias com fariseus, saduceus e herodianos, há
pelo menos uma pergunta sincera: "Qual é o principal de todos os
mandamentos?" (12:28), feita por um dos escribas, que pela pergunta "viera
para aprender e não para tentar" Jesus (Champlin, R. N. O Novo Testamento
Interpretado, v. 1. São Paulo: Candeia, 1995, p. 766).
A resposta de Jesus a esse escriba sincero é o que poderíamos chamar de
ABC espiritual: "Amar a Deus de todo o coração – emoções; de toda a alma
– os mais profundos afetos; e de todo o entendimento" – faculdades
intelectuais (cf. Champlin, R. N. op. cit, p. 537). Este é o primeiro grande
mandamento, que abre caminho para o segundo: "Amarás o teu próximo
como a ti mesmo" (Mc 12:30-31). Quão simples e quão profundo é o resumo
que Jesus faz dos santos reclamos da lei divina! Tudo começa e tudo se
resume no amor, que é a mola propulsora de toda boa obra. Será que é por
isso que uma das mais simples e profundas definições sobre Deus é
justamente a que de que Ele "é amor" (1Jo 4:8)?
Lição 10: PREDIÇÕES DO FIM
Chegamos, nesta lição, ao capítulo 13 do Evangelho de Marcos, denominado
"Pequeno Apocalipse". Neste capítulo, Jesus fez predições que abrangem
desde os Seus dias até o fim da atual história humana, quando Ele voltará
em glória, para "reunir Seus escolhidos" e levá-los para o Céu (13:26 e 27).
O capítulo 13 de Marcos pode ser dividido em 3 seções: a iminente
destruição do Templo (13:1-4), futuras perseguições (13:5-25) e a vinda do
Filho do Homem (13: 26-37). Passemos, então, ao estudo deste tão
importante capítulo e de suas profecias sobre os últimos eventos.
I - As perguntas dos discípulos (Mc 13:1-4)
Pelo relato de Marcos, os discípulos fizeram uma única pergunta relacionada
à destruição do Templo: "Quando sucederão estas coisas, e que sinal haverá
quando todas elas estiverem para cumprir-se?" (13:4). Já em Mateus, são
duas as perguntas: "Quando sucederão estas coisas [destruição do Templo]
e que sinal haverá da Tua vinda e da consumação do século?" (24:3). Parece
que, pela luz do relato de Mateus, os discípulos associavam a destruição do
36
Templo ao fim do mundo. Mas, como sabemos, entre os dois eventos
haveria, pelo menos, dois mil anos. Jesus, em Sua misericórdia para com
Seus discípulos, não entrou em detalhes quanto a esse longo tempo entre os
dois eventos, mas mesclou os sinais relativos a eles. Isto foi feito para o bem
dos discípulos, pois, provavelmente, ficariam desanimados em saber que a
vinda de Cristo demoraria ainda aproximada-mente dois mil anos.
II - Sinais do Fim (Mc 13:5-13)
Nos versos 5–13 do capítulo 13, Jesus mencionou sinais relativos à
destruição de Jerusalém, no ano 70 d.C. e ao fim do mundo. De alguma
forma, os sinais para a destruição de Jerusalém se repetiriam, em maior
escala, quando o fim do mundo se aproximasse.
Jesus falou do surgimento de falsos Messias (na primeira revolta dos judeus,
de 66 – 70 d.C., apareceram três falsos messias: João de Giscala, Simão Bar
Giora e Eleazar. Na segunda revolta de 131 – 135 d.C., apareceu o falso
messias, Simão Bar Cokhba), de terremotos e fomes (uma severa fome
ocorreu na Judeia, no ano 44 d.C., sendo mencionada em Atos 11:28, e
vários terremotos ocorreram entre o ano 31 a 70 d.C. – em Creta, no ano 46
ou 47; em Roma, em 51; na Prígia, em 60, e na Campânia, em 63), e de
perseguições religiosas (a igreja cristã primitiva sofreu primeiro às mãos dos
judeus e depois da parte de Roma pagã. Mais tarde, a igreja cristã sofreu às
mãos da própria igreja – a igreja denominada "católica", no que conhecemos
como "Santa Inquisição"). Todos esses sinais aparecerão em escala ainda
maior nos dias finais da História. A boa nova está em Mc 13:13: "Aquele,
porém, que perseverar até o fim, esse será salvo", e que, na hora de
testemunhar da fé, o Espírito falará por intermédio das testemunhas
(13:11).
III - A queda de Jerusalém (Mc 13:11-19)
Daniel (11:31) havia predito o aparecimento de um poder (Roma nas fases
pagã e papal) que profanaria o Santuário, tiraria o sacrifício diário e
estabeleceria a "abominação desoladora". Em sua fase pagã, Roma destruiu
o Santuário judaico, fez cessar os sacrifícios e profanou o lugar sagrado.
(Roma papal tentaria substituir a contínua ministração de Cristo no santuário
Celestial pela intercessão dos sacerdotes e dos "santos").
Chama a atenção o fato de que, para Jesus, a "abominação desoladora"
predita por Daniel, ou, nas palavras de Marcos, "o abominável da desolação"
(Mc 13:14), ainda estava no futuro em relação ao tempo em que aqui viveu,
ainda não havia se cumprido, como querem afirmar os teólogos liberais e da
alta crítica, dizendo que Antíoco Epifânio IV (175-164 a.C.) é quem cumpre a
37
predição de Daniel quanto à "abominação desoladora". Se Jesus a coloca
ainda no futuro, como teria se cumprido a predição com Antíoco Epifânio IV,
um rei selêucida, que reinou no II século a.C.?
Os cristãos levaram a sério a predição de Jesus acerca do "abominável da
desolação". Quando os exércitos romanos invadiram a Judeia e cercaram
Jerusalém os cristãos aguardaram o momento certo para fugir. Este veio
quando o general Céstio, aparentemente sem motivo algum, levantou o
cerco, e deixou Jerusalém. Os cristãos aproveitaram a oportunidade e
fugiram para Pela, a leste do Jordão, cerca de 78 km ao norte de Jerusalém.
A desgraça que se abateu sobre Jerusalém foi imensa. A cidade e o Templo
foram destruídos e a morte abateu cerca de um milhão de judeus por meio
da fome, peste e espada. A tragédia poderia ter sido evitada se tão somente
os judeus houvessem aceitado Jesus de Nazaré como o Messias enviado por
Deus. Ele quis ajuntar os judeus "como a galinha ajunta os seus pintinhos",
mas eles não o quiseram (Mt 23:37 e 38). A lição a ser aprendida acerca do
que ocorreu a Jerusalém é a de que, uma vez que a misericórdia divina é
rejeitada entra em ação a Sua justiça, mas Ele a executa com pesar no
coração, pois "é amor" (1Jo 4:8).
IV - A Segunda Vinda (Mc 13:19-27)
Após mencionar os sinais da destruição de Jerusalém (que se repetirão no
fim da história humana), Jesus mencionou sinais específicos sobre sua
Segunda Vinda: falsos cristos. De vez em quando, aparecia alguém com esta
pretensão, por exemplo, o reverendo Moon, David Koresh, etc.). Uma severa
tribulação desencadeou-se contra os cristãos (primeiro às mãos de Roma
Pagã e depois de Roma Papal, tendo esta última terminado um pouco antes
de 1798), o Sol se escureceu e a Lua não deu sua claridade (19 de maio de
1780) e as estrelas caíram do céu (a chuva de meteoritos ocorrida em 13 de
novembro de 1833). Logo a seguir, "os poderes do céu serão abalados"
(13:25) – uma alusão à comoção dos elementos naturais (terremotos,
estrondo de tempestade prestes a vir, correntes de água deixando de fluir,
nuvens negras se chocando, sol aparecendo à meia-noite, ilhas habitadas
desaparecendo, chuvas de grandes pedras etc. Ver esta descrição em White,
E. G. O Grande Conflito, 18ª edição, 1975, p. 634–635). Isso tudo prepara o
cenário para o maior e mais espetacular evento desta terra: a vinda gloriosa
de Cristo (Mc 13:26 e 27).
V - Aguardando o Advento (Mc 13:28-37)
Apesar de Jesus não ter mencionado o dia da Sua vinda (e ninguém deveria
tentar marcar data para esse evento), Ele empregou a figueira como
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ilustração da atitude que cada seguidor Seu deveria ter: atenção para os
sinais. Como se presta atenção à figueira, quando seus ramos se renovam –
e isso indica a proximidade da chegada do inverno, assim os cristãos
deveriam atentar à situação religiosa, social e até para a degradação
ecológica do mundo, e perceber a proximidade do retorno de Cristo. Mas a
espera por esse dia não deve ser passada em ociosidade. A vigilância
(13:33) deve ser acompanhada do "negociar até que Eu venha" (Lc 19:13),
ou seja, fazer o que deve ser feito no dia-a-dia, "como se Jesus viesse daqui
a cem anos e estar pronto como se Ele viesse hoje."
Ainda sobre a parábola da figueira, há um dito de Cristo que têm intrigado os
estudiosos da Bíblia: o que Jesus queria dizer com "Em verdade vos digo que
não passará esta geração sem que tudo isto aconteça" (Mc 13:30)? Várias
tentativas de esclarecer o versículo têm sido propostas, mas cremos que as
seguintes são mais prováveis:
1) Como, primeiramente, Jesus fez alusão aos sinais da destruição de
Jerusalém, no ano 70 d. C., aquela geração presenciou os sinais
mencionados por Jesus (guerras, fomes, terremotos, perseguição religiosa e
a invasão dos romanos que traria a "abominação desoladora", destruindo o
Templo e massacrando os habitantes de Jerusalém). Assim, (1) o "tudo" de
Mc 13:30 se refere aos sinais que indicavam a destruição de Jerusalém; (2)
Outra possibilidade é que depois que o Evangelho fosse pregado "a todas as
nações" (cf. 13:10), não viria outra geração, mas Jesus viria na geração que
presenciasse os últimos sinais, dentre os quais está a pregação do evangelho
ao mundo todo.
Então, devemos deixar a questão do tempo da Segunda Vinda com o Senhor,
e ficar alertas, trabalhando ativamente para Ele, cuidando das atividades
diárias de tal forma que glorifiquemos Seu nome e sendo uma bênção aos
que nos rodeiam.
Lição 11: Traído e preso
Os assuntos desta lição abrangem acontecimentos da vida de Jesus desde
Sua unção em Betânia, na casa do ex-leproso Simão, até Sua agonia e
prisão no Getsêmani. Provavelmente, estes eventos tenham ocorrido na
quarta e na quinta-feira da Semana da Paixão, ou seja, nos últimos dias do
ministério terrestre de Jesus, pois na sexta-feira, Ele seria crucificado, no
sábado descansaria na tumba, e no domingo ressurgiria.
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I - O complô da traição (Mc 14:1-11)
Este complô ocorreu dois dias antes da Páscoa (14:1), portanto, muito
provavelmente, na quarta-feira da Semana da Paixão.
Enquanto Jesus estava em Betânia (14:3), os líderes religiosos tramaram a
morte de dEle. Para isso, contaram também com a ajuda de Judas Iscariotes
– discípulo de Cristo. Judas, que já não esperava nada mais de Jesus em
termos de honras e riquezas num reino terrestre, resolveu participar do
complô contra Jesus, indo oferecer sua ajuda aos líderes judaicos, e deles
recebeu promessa de dinheiro (14:10). Se Judas já estava decepcionado
com Jesus por ver que o Mestre não seria um rei terrestre, ficou mais
decepcionado ainda, e até magoado, diante da repreensão pública de Jesus a
ele, quando aprovou o gesto amoroso da mulher que ungiu os pés dEle com
valioso perfume (esta é Maria, irmã de Marta e Lázaro, conforme Jo 12:3), e
condenou a hipocrisia de Judas (e de alguns outros discípulos), em seu
fingido interesse pelos pobres (14:4-9. Confira também Jo 12: 4-8).
Ficamos horrorizados ao pensar na vileza do ato de Judas. Mas qualquer
pessoa que não busca em Deus forças para vencer seus pontos fracos
acabará sendo vítima do diabo da mesma forma que Judas. O ponto fraco
desse discípulo era o amor ao dinheiro, chegando mesmo ao roubo e à
desonestidade (ver Jo 12:6). Chama-nos a atenção a questão de como o
amor ao dinheiro acabou por precipitar Judas no caminho da traição: ele,
que ficara indignado com a oferta de Maria a Jesus, na forma de um perfume
caríssimo, acabou por vender seu Mestre por "trinta moedas de prata" (Mt
26:14-15). Ou seja, tudo na vida do discípulo traidor girava em torno do
dinheiro. Este era seu ponto fraco. Qual é o nosso? Tenhamos a certeza de
que Satanás nos conhece muito bem e nos atacará em nossos pontos fracos,
com muita chance de vitória. Quanto a isso, deveríamos nos lembrar das
palavras de Cristo: "Sem Mim, nada podeis fazer" (Jo 15:5), e nos valer das
palavras de vitória proferidas por Paulo: "Tudo posso naquele que me
fortalece" (Fp 4:13).
II - A Santa Ceia (Mc 14:12-26)
Havendo passado a quarta-feira em Betânia, Jesus e os discípulos se
dirigiram para Jerusalém na quinta-feira. Nesse dia, os preparativos para a
Ceia Pascoal foram feitos, e à noite a Ceia foi servida. Seria a última Páscoa
na companhia de Jesus, e a primeira cerimônia de Santa Ceia que
substituiria a celebração da Páscoa para os cristãos.
A Santa Ceia é uma ocasião em que se misturam os sentimentos de tristeza
e alegria. Tristeza porque nos lembramos do sofrimento e morte do inocente
40
e imaculado Filho de Deus; alegria porque em cada celebração podemos nos
lembrar da promessa de Jesus: "Jamais beberei do fruto da videira, até
aquele dia em que hei de beber, novo, no reino de Deus" (Mc 14:25). Estes
dois sentimentos (tristeza e alegria) foram resumidos por Paulo, quando se
referiu à Santa Ceia: "Por que todas as vezes que comerdes este pão e
beberdes o cálice, anunciais a morte do Senhor, até que Ele venha" (1 Cor.
11:26).
III - A Negação de Pedro (Mc 14:27-31, 66-72)
Se é verdadeira a declaração de Papias de que Marcos escreveu o que Pedro
lhe contou sobre o ministério de Jesus, então é de admirar a franqueza e
humildade de Pedro ao contar a Marcos e permitir que fosse escrito seu
vergonhoso ato de negar três vezes a Jesus! Teríamos feito o mesmo?
Teríamos a coragem de revelar ao mundo um ato de fraqueza e covardia?
Mas Pedro o fez, e isso nos conforta ainda hoje. Conforta-nos e nos anima,
primeiro porque mostra que mesmo os heróis da Bíblia foram pessoas que
cometeram seus erros – como acontece também conosco, e também porque
houve perdão para Pedro e aceitação dele por parte de Jesus (veja que para
cada negação de Pedro houve um "eu te amo": três negações, três
reafirmações do seu amor por Cristo e três convites de Jesus para Pedro:
"Apascenta as Minhas ovelhas", conforme relatado por João em seu
Evangelho, capítulo 21:15-17). Esse perdão está à nossa disposição quando
pecamos e nos arrependemos.
Ao contar e permitir que Marcos escrevesse o relato de sua traição, parece
que Pedro pretendia dizer a todos que, sem vigilância, oração e poder de
Jesus, mesmo as melhores e mais ousadas declarações de amor e fidelidade
a Deus são inúteis, frente ao poder de Satanás, nosso inimigo. É como se
Pedro dissesse: "Não façam como eu fiz. Confiem, não em vocês mesmos,
nem em sua própria sabedoria e coragem, mas dependam inteiramente de
Cristo e de Seu poder, ao enfrentar as forças espirituais do mal."
IV - Abba (Mc 14:32-42)
Jesus estava no Getsêmani. João disse que esse lugar era um jardim (Jo
18:1 e 2). É interessante saber que o lugar em que Jesus decidiu morrer pela
humanidade foi um jardim. Isso nos lembra o jardim do Éden, onde o
primeiro Adão fracassou. Poderíamos chamá-lo de o "jardim da perdição". O
Getsêmani seria o "jardim da salvação", em que Jesus, o segundo Adão,
mesmo tentado a desistir, decidiu ir até o fim e morrer pelo ser humano.
Após a Santa Ceia, naquela quinta-feira à noite, Jesus esteve diante da
decisão de voltar incólume para o Céu ou ser pendurado numa vergonhosa
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cruz romana e levar sobre Si os pecados do mundo todo. Que hora probante!
Nosso destino eterno estava sendo decidido! Mas Jesus decidiu morrer. Iria
até o fim para concretizar o plano da Salvação.
Em agonia, Jesus, como ser humano normal, dirigiu-Se ao Pai em busca de
conforto. Chamou-o de "Abba" – palavra aramaica (língua falada por Jesus).
"Abba" poderia ser traduzida por "papaizinho" e denota grande intimidade
entre pai e filho. Isso aponta para a confiança que Jesus tinha no Pai, mesmo
nessa hora tenebrosa de dor e agonia. Este mesmo relacionamento de
serena confiança pode também ser desenvolvido por todo filho e filha de
Deus. Entretanto, isso não ocorre num instante: é fruto de uma vida de
entrega e confiança – nos pequenos e grandes problemas.
V - Jesus preso (Mar 14:43-52)
Certamente, Judas imaginou que Jesus não Se deixaria prender, embora
liderasse uma turba com esse propósito. Ele já não havia "desaparecido" em
uma ocasião em que quiseram prendê-Lo? (Lc 4:28-30). Deve ter ainda
pensado que estaria fazendo um favor a Jesus em colocá-Lo numa posição
em que, finalmente, mostraria Seu poder e Se proclamaria Rei. Mas não foi
isso o que ocorreu. Após o beijo da traição (e Jesus ainda o chamou de
"amigo", conforme Mc 26:50, talvez para fazê-lo refletir no que estava
fazendo e se arrepender), Jesus Se deixou prender. Isso nos causa espanto e
assombro: o Deus todo-poderoso, na pessoa de Cristo, Se deixa prender e
amarrar! Que momento de tentação para Jesus! Ele poderia simplesmente
fulminar Judas e toda aquela turba! Mas, como "cordeiro mudo" deixou-Se
levar ao matadouro (Is 53:7).
Pedro (só podia ser ele!) ainda tentou defender Cristo com um golpe de
espada, desferido contra o servo do sumo sacerdote. Mas a luta não era
carnal e sim espiritual. Talvez numa luta carnal, Pedro houvesse se saído
bem, sendo soldado corajoso. Mas a luta era "contra as forças espirituais do
mal" (Ef 6:12). E nessa, Pedro e os demais discípulos foram derrotados.
"Todos fugiram" (Mc 14:50). Aparentemente, a causa de Cristo acabara em
completo fracasso. Mas, como sabemos, a aparente derrota foi completa
vitória. A prisão e morte do Salvador resultaram em nossa salvação, e os
apavorados discípulos, que fugiram de medo, abalaram o mundo com as
boas-novas da salvação, quando compreenderam a natureza da batalha e as
armas que Deus lhes colocara à disposição (confira Ef 6:10-18).
Lição 12: Julgado e Crucificado
42
Nesta lição, estudaremos Marcos 14:53-15:41, a parte do Evangelho de
Marcos que trata dos eventos de quinta-feira à noite até a tarde de sexta-
feira, ou seja, do julgamento de Jesus, na casa do sumo sacerdote (Mc
14:53 e 66), até Sua morte por crucifixão no Gólgota (14:22).
Não haveria nada de muito extraordinário no fato de um homem ser preso,
sofrer falsas acusações, ser julgado ilegalmente e condenado à morte. Com o
filósofo Sócrates aconteceu o mesmo. Mas Sócrates era apenas um homem
sábio. Jesus, porém era Deus-homem, e a sepultura não pôde retê-Lo.
Diferente de Buda, Confúcio, Maomé e outros fundadores de grandes
religiões, a sepultura de Jesus está hoje vazia, indicando Seu poder sobre a
morte. E isto faz toda a diferença, pois temos um Salvador que morreu, mas
foi vitorioso sobre a morte.
I - Diante do Sinédrio (Mc 14:53-65)
Após Sua prisão no jardim do Getsêmani, Jesus foi levado perante o sumo
sacerdote Caifás, em cuja casa foi julgado pelo Sinédrio, órgão jurídico
máximo judaico, composto de setenta e um membros. Não sabemos quantos
membros do Sinédrio estavam reunidos na casa de Caifás, pois esse
"julgamento" (talvez melhor chamado de "condenação") ocorreu à noite e às
pressas – algo ilegal, pois não houve tempo de se apresentarem as
testemunhas de defesa esperadas num caso como este. A verdade é que a
sentença de morte já estava decidida, mesmo antes do julgamento (ver Mc
14:1 e 2). Por esta e outras razões, se pode ver quão injusto foi o
julgamento de Jesus. Os próprios membros do Sinédrio podiam perceber a
falsidade das acusações contra Jesus, uma vez que os depoimentos contra
Ele "não eram coerentes" (14:56 e 59).
Segundo o Evangelho de Marcos, Jesus foi condenado à morte pela acusação
de ser um agitador, que ameaçava a sociedade e as instituições (imagine se
fosse verdade que Ele pudesse "destruir o Templo", conforme o depoimento
de alguns, em Mc 14:57 e 58), e de ser blasfemo, ao dizer que era o "Filho
do Deus Bendito"! (14:61- 64). Para esses líderes religiosos, Jesus era, além
de blasfemo, um impostor, pois o Messias deveria vir não da Galileia – terra
onde Jesus cresceu, mas da cidade de Belém, cf. Jo 7:41 e 42) e um
transgressor da lei, especialmente do quarto mandamento, devido às
freqüentes curas realizadas no dia de sábado (cf. Mt 12:2).
Se houve alguém que já experimentou um julgamento injusto, esse foi
Jesus. Tudo em Seu julgamento foi ilegal. O horário: à noite, quando se é
difícil localizar e ouvir as testemunhas de defesa. O local, justo na casa do
sumo sacerdote – líder dos que queriam matá-Lo. Os juízes, que foram
"julgar" Jesus com a sentença de morte já decidida. Mas Jesus enfrentou
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tudo isso de modo calmo e de fronte erguida. Ele sabia ser inocente, mas
deveria passar por tudo o que passou se quisesse salvar a humanidade. Foi
por amor que Ele consentiu em ser tratado injustamente e finalmente
morrer.
II - Pilatos e os líderes religiosos (Mc 15:1-19)
Pilatos, magistrado romano, governou o território da Judeia de 26 a 36 d.C.
Os Evangelhos o mostraram como governante moralmente fraco, que
preferia sacrificar os princípios e até a consciência, quando estava em jogo
sua carreira e interesses próprios. Então, se o julgamento religioso de Jesus
era, já, uma farsa, nada melhor se podia esperar do julgamento civil, com
um juiz como Pilatos.
Como acontece, mais cedo ou mais tarde com cada pessoa, Pilatos
encontrou-se numa situação em que teria que responder à pergunta: "Que
farei, então, deste a quem chamais o rei dos judeus?" (15:12). Deveríamos
nos lembrar que, em nosso dia-a-dia, pela maneira como nos portamos e
pelas decisões que tomamos, estamos respondendo a pergunta: "Que farei,
então, de Jesus?"
Pilatos viu a inocência estampada no rosto imaculado de Jesus (15:14) e
percebeu "que por inveja os principais sacerdotes lho haviam entregado"
(15:10). Até recebeu um aviso divino, dado por sua esposa, mediante um
sonho que ela tivera (Mt 27:19). Mas todos os princípios de justiça e
legalidade foram sacrificados por causa de seu apego ao cargo de
governador.
A proposta de Pilatos de soltar Jesus em vez de Barrabás (um conhecido
agitador) foi irônica. Segundo alguns manuscritos, o primeiro nome de
Barrabás também era Jesus – nome comum naqueles dias. Então, o povo
devia escolher entre os dois "Jesus": um que procurava salvar Israel pela
força e violência, e outro que, verdadeiramente, podia salvar Israel, mas
pelas armas do amor e da mansidão.
Pilatos escolheu ficar com seu cargo. Os líderes judaicos e a multidão
optaram por Barrabás. E nós, quando defrontados com a decisão de escolher
entre Jesus e as coisas deste mundo, com quem ficaremos?
III - Gólgota (Mc 15:16-37)
Após mandar açoitar Jesus, talvez para despertar piedade na multidão e
demovê-la da idéia de matá-Lo, Pilatos O entregou aos soldados para que O
crucificassem. Estes, então, O expuseram ao deboche: vestiram-nO com um
44
manto de púrpura (cor da realeza), puseram em Sua santa cabeça uma
coroa como a de um rei, porém de espinhos, e deram-Lhe um caniço, ou
pedaço de madeira, à guisa de cetro real. Você pode imaginar a dor que
Jesus sentiu quando este pedaço de madeira foi tirado de suas mãos e usado
para bater-lhe na cabeça, aprofundando nela os espinhos! Também cuspiram
em Seu santo rosto (15:19). Os sacerdotes já haviam feito isso antes (ver
14:65). Deveríamos nos lembrar de que cuspir em alguém, em qualquer
tempo e cultura é considerado a máxima humilhação que alguém pode sofrer
(ver Núm. 12:14). Mas o que devemos lembrar é que nós estávamos
representados na pessoa dos que cuspiram no rosto imaculado de Jesus.
Neste sentido, você e eu cuspimos no rosto do Salvador, pois o que Ele
suportou e sofreu foi por causa de nossos pecados, e não somente pelos
pecados do povo de Seu tempo. Fica, então, respondida a pergunta: "Quem
matou Jesus?" (referindo-se aos romanos ou aos judeus). Na verdade, nós O
matamos. Os pecados da humanidade como um todo O mataram. E você e
eu estávamos incluídos.
IV - O significado do Calvário (Is 53)
Diversas explicações teológicas têm sido apresentadas para se esclarecer o
que ocorreu no Calvário naquela sexta-feira à tarde na Semana da Paixão.
Eis algumas: Deus estava castigando o Filho por causa de nossos pecados;
Jesus estava morrendo por causa da lei divina que fora quebrada e que
exigia a morte do transgressor. (Uma vez que Jesus Se pôs no lugar do
transgressor, então Ele sofreu a penalidade pela quebra da lei); Jesus estava
pagando ao diabo o preço de nosso resgate etc. Parece haver algo de
verdade nas duas primeiras explicações, mas não na terceira. Quem é o
diabo para que Deus tenha que pagar algo a ele?! Na verdade, o plano da
salvação é insondável (cf. Rm 11:33). O máximo que poderíamos dizer é que
foi o amor que levou Deus a enviar Seu Filho, para que morresse como nosso
substituto. "Deus é amor" (cf. 1Jo 4:8). "Ele tomou sobre Si as nossas
enfermidades e as nossas dores levou sobre Si... Ele foi traspassado pelas
nossas transgressões e moído pelas nossas iniqüidades; o castigo que nos
traz a paz estava sobre Ele, e pelas Suas pisaduras fomos sarados" (Is 53:4
e 5).
V - A Morte de Jesus (Mc 15:33-41)
Conforme Isaías 59:2, o pecado faz separação entre Deus e o pecador. Ao Se
apresentar como portador de nossos pecados, Jesus Se sentiu desamparado
pelo Pai: "Deus Meu, Deus Meu, por que Me desamparaste?" (Mc 15:34).
Isso mostra que Jesus experimentou a separação do Pai que os pecadores
hão de experimentar um dia. Nesse sentido Ele já passou pelo horror da
segunda morte, que aguarda todo o que não aceitar o Seu sacrifício.
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Mas, apesar desse senso de abandono, Jesus morreu confiando Sua vida aos
cuidados do Pai: "Nas Tuas mãos entrego o Meu espírito" (Lc 23:46). E ao
bradar: "Está consumado!" (João 19:30), sabia que morria como vencedor
sobre o diabo e a morte.
Nem nesta vida, nem na eternidade poderemos avaliar em toda a sua
profundidade o sacrifício de Jesus. Em um só ato, Ele salvou aqueles que
aceitaram e aceitarão o Seu sacrifício. "Salvou" os habitantes dos mundos
não caídos, no sentido de mostrar quem era Deus e quem era o diabo. Isso
fez com que fosse desarraigada qualquer simpatia que esses seres de
mundos não caídos ainda pudessem nutrir por Lúcifer (conforme O Desejado
de Todas as Nações, p. 731, 8ª ed., 1976), e "salvou" o próprio Deus, no
sentido de vindicar o Seu caráter contra as falsas acusações de Satanás de
que Deus era tirano e cruel.
No Calvário, nossa salvação foi assegurada, havendo possibilidade de todos
se salvarem. Mas é necessário desejar isso, pois Deus respeitará a decisão
de cada ser humano de querer a salvação ou a perdição. Você já disse "sim"
ao oferecimento de salvação de Jesus?
Lição 13: Sepultado – mas ressuscitou!
Concluindo o estudo do Evangelho de Marcos, consideremos os últimos
momentos da presença de Jesus neste planeta, ou seja, Seu sepultamento,
ressurreição e ascensão. Como o Evangelho de Marcos apresenta Jesus em
ação, somente na sepultura Ele está inativo e silente, mas por pouco tempo.
Ele haveria de ressurgir dos mortos para continuar seu trabalho, que
consiste na aplicação dos benefícios de Seu sacrifício aos que O recebem
como "o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo" (João 1:29). Hoje
temos, junto ao Pai, Jesus – o Deus-Homem, que nos representa e advoga
nossa causa. Ele morreu, é verdade, mas não ficou na tumba, como alguns
fundadores de religiões mundiais, tais como Maomé, Buda e Confúcio. A
tumba de Cristo está vazia, e "porque Ele vive, posso crer no amanhã;
porque Ele vive, temor não há. Eu sei que minha vida não será mais vã, pois
meu futuro em Suas mãos agora está”
(Hino 70, do Hinário Adventista do Sétimo Dia).
I. Ele foi sepultado (Mc 15: 42-47)
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O verso 42 do capítulo 15 de Marcos não deixa dúvidas quanto ao dia da
morte de Cristo: Ele morreu "no dia da preparação, véspera do sábado"
(15:42). "Dia da preparação", é, no grego paraskeuê – termo usado no Novo
Testamento para a sexta-feira, e para mais nenhum outro dia da semana.
Também o simbolismo de morrer numa sexta-feira é interessante: assim
como se trabalha seis dias na semana e se descansa no sábado, também
Jesus trabalhou por cerca de três anos e meio, e num sábado descansou.
Ainda no "dia da preparação" (sexta-feira) Ele realizou Sua maior obra:
morreu em lugar do pecador, e no sábado descansou na tumba, e no
domingo ressurgiu para continuar Seu trabalho de salvação.
É bem significativo que Marcos (15:46) e os outros evangelistas dêem ênfase
ao fato de que Jesus foi depositado num túmulo aberto numa rocha, um
túmulo emprestado (como quase tudo em Sua vida). O fato de que Jesus foi
sepultado atesta a veracidade de Sua morte. Ele não estava desmaiado
quando foi posto na tumba (que o diga o soldado romano, que, ao ir quebrar
as pernas de Jesus para abreviar-lhe a morte, não precisou fazer isso, pois,
viu que Ele "já estava morto", sendo que outro soldado, querendo certificar-
se disto, e para não pairar nenhuma dúvida sobre a morte de Cristo,
perfurou-Lhe o lado e o coração com uma lança (cf. João 19: 31-34). O fato
de Jesus ter realmente morrido implica na veracidade de Sua ressurreição,
pois se Ele tivesse apenas desmaiado na cruz, certamente teria acordado ao
ser perfurado com uma lança e, é claro, teria morrido com o golpe. Tão certa
como foi a morte do Salvador, também o foi a Sua ressurreição. Não se pode
crer em uma e negar a outra. Ou se crê nas duas ou se nega as duas. Além
disso, sem a morte de Cristo não haveria "remissão" dos nossos pecados (cf.
Rm 5:6-10 e Hb 9:22 e 28).
II. Ele ressuscitou (Mc 16:1-11)
"Passado o sábado" (16:1), ou seja, no sábado à noite, Maria Madalena,
Maria, mãe de Tiago, o Menor, e Salomé (mãe de Tiago e João), compraram
aromas para irem embalsamar Jesus (Mc 16:1). A Sra. White, no livro O
Desejado de Todas as Nações, no capítulo 52, "O Banquete em casa de
Simão", diz que Maria Madalena é a própria Maria, irmã de Marta e Lázaro. O
fato de terem comprado aromas após o término do sábado aponta, pelo
menos, para duas importantes verdades:
1. O sábado é um dia diferente dos demais, não sendo um dia de compra e
venda, mas de adoração;
2) Jesus não poderia ter morrido numa quarta-feira, como dizem alguns, pois
não se esperaria passar tanto tempo (da quarta ao sábado à noite) para se
embalsamar um morto. Assim, "os três dias e três noites" que Jesus passaria
47
na tumba (cf. Mt 12:40) devem ser entendidos pelo método da "contagem
inclusiva", empregado pelos judeus e outros povos, ou seja, contando-se
frações das partes claras ("dias") e escuras ("noites") dos dias de sexta a
domingo pela manhã, da seguinte maneira: três "dias": a parte clara de
sexta, do sábado e domingo cedo; três noites: quinta à noite (contada como
parte da sexta-feira), sexta à noite e sábado à noite.
O fato de Marcos e outros evangelistas mencionarem que foram mulheres as
primeiras testemunhas da ressurreição de Jesus, e ainda assim, mulheres
humildes e sem elevado status social, mostra que a ressurreição de Jesus
não foi uma história inventada pelos primeiros cristãos, pois naquele tempo
(como ainda acontece em muitos lugares) não se dava crédito à palavra de
uma mulher. Ao contrário, se fosse para se inventar uma história tão
fantástica como a ressurreição de Jesus, teriam posto como testemunhas
alguém como o importante Nicodemos, o rico José de Arimateia, ou mesmo
algum dos discípulos de Jesus. Mas, o fato de mulheres serem mencionadas
como as primeiras testemunhas da ressurreição e ainda terem recebido de
um anjo a incumbência de divulgar o ocorrido (Mc 16:5-7), demonstra a
credibilidade do relato, de que ocorreu exatamente como mencionado por
Marcos e os demais evangelistas. Mais espantosa ainda é a declaração de
Marcos, no capítulo 16, versos 9-11. Jesus, "havendo ressuscitado de manhã
cedo no primeiro dia da semana [note como o domingo era, então,
chamado], apareceu primeiro a Maria Madalena [provavelmente a mesma
Maria de Betânia, irmã de Marta e Lázaro], da qual expelira sete demônios"
(Mc 16:9). Novamente, podemos ver aqui os sinais de autenticidade do
relato da ressurreição de Jesus. Se fosse uma história inventada, jamais
haveriam de apresentar uma mulher, ex-prostituta e ex-endemoninhada
como primeira testemunha e anunciadora aos discípulos de que Jesus havia
ressurgido. Mas foi justamente a uma mulher, e com esse passado, que
Jesus primeiramente apareceu. Ele não discriminava ninguém. Homens e
mulheres, idosos e crianças mereciam Sua atenção e carinho.
Por que será que Ele apareceu primeiro a Maria Madalena? Se Maria
Madalena e Maria, irmã de Marta e Lázaro, são a mesma pessoa (como diz a
Sra. White, no já mencionado livro O Desejado de Todas as Nações, capítulo
52), então fica clara a resposta: ela foi a discípula que mais amou a Jesus,
em virtude de ter sido perdoada (havia sido prostituta), liberta de sete
demônios (Mc 16:9) e também por causa da ressurreição de seu irmão
Lázaro, quando Jesus o chamou à vida após já estar "cheirando mal" com
quatro dias de sepultado (cf. Jo 11:38-44). No entanto, esta Maria não
demonstrou gratidão e amor por Jesus só no momento de Sua morte, ao ir
com outras mulheres comprar aromas para embalsamar Seu corpo morto
(Mc 16:1 e 2), mas também enquanto Jesus vivia: ela ungiu-os Seus pés
com caríssimo perfume e os enxugou com os cabelos (cf. Mc 14:3-9 e João
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11:1 e 2). Jesus fizera muito por ela e por sua família, por isso ela "muito O
amava" (cf. Lc 7: 3-47).
III. Aparição do Senhor ressuscitado (Mc 16:12-18)
Além de Sua aparição a Maria Madalena (16: 9), Jesus apareceu a dois
seguidores Seus (16:12 e 13). Estes devem ser os mesmos mencionados por
Lucas (24:13-35), que iam de Jerusalém para Emaús, uma vila
aproximadamente a uns 11 km de Jerusalém. O nome de um deles é Cléopas
(Lc 24:18), talvez o mesmo Clopas, mencionado por João, em seu
Evangelho, cuja mulher, Maria, estivera junto à cruz (João 19:25).
Possivelmente, esses dois discípulos fossem o casal Cléopas e a esposa Maria
que, após presenciarem a crucifixão de Jesus, voltavam desconsolados para
casa em Emaús. Segundo Lucas (24:13-35), Jesus apareceu-lhes no
caminho e, ao entrar na casa deles e orar pelo pão, foi por eles reconhecido.
Tendo Jesus desaparecido da vista deles, voltaram na mesma noite a
Jerusalém e anunciaram aos onze apóstolos a ressurreição de Jesus.
Chama-nos a atenção o porquê das aparições de Jesus a Maria Madalena, e a
esses dois anônimos de Emaús. Estes eram pessoas humildes, mas que
estavam dispostos a crer na evidência da ressurreição, diferentemente dos
onze apóstolos que não creram. A lição é clara: Deus está disposto a revelar-
Se a quem tem o coração aberto para crer, e passa por alto os dados à
incredulidade.
Finalmente, Jesus apareceu aos onze apóstolos e censurou-lhes a
incredulidade quanto à Sua ressurreição (Mc 16:14). Cabe aqui lembrar que
o argumento de que os apóstolos estavam reunidos para celebrarem a
ressurreição de Cristo carece de fundamento bíblico. Ao contrário, mesmo
tendo ouvido o testemunho de várias pessoas quanto à ressurreição de
Jesus, eles não deram crédito. Então, como poderiam estar celebrando algo
em que eles mesmos não criam?
Marcos menciona as aparições de Jesus a Maria Madalena (16:9), aos dois
"que estavam de caminho para o campo" (16:12) e duas vezes aos onze
apóstolos (16:14 e 19). Os outros evangelistas, no entanto, acrescentam
mais testemunhas da ressurreição: Maria Madalena e a outra Maria (Mt 28:1,
9, e 10), Pedro, antes da caminhada dos dois seguidores de Jesus para
Emaús (Lc 24:34), os apóstolos no Cenáculo (sem a presença de Tomé, cf.
Jo 20:19-25), sete apóstolos que pescavam no Mar da Galileia (Jo 21:1-3). E
Paulo acrescenta o aparecimento de Jesus ressuscitado a Tiago (1Co 15:7) e
a mais de 500 pessoas (1Co 15:6). À vista de tantas testemunhas, fica difícil
negar a ressurreição de Jesus, a não ser que se diga que todas essas
pessoas se enganaram sobre o que viram, ou que concordaram entre si para
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contarem a mesma história. Assim, tantos aparecimentos de Jesus
ressurreto não foram sem razão, mas ocorreram para fortalecer a fé nele
como Aquele que tem poder sobre a morte e cuja ressurreição se torna o
penhor da nossa, se acaso viermos a dormir em Cristo antes da Sua segunda
vinda.
IV. O maior milagre
Jesus operou dezenas de milagres. Isso mostrava que o poder de Deus
atuava nele. Mas quase todos os milagres que Ele realizou, os discípulos ou
alguns dos profetas do passado realizaram (ressurreição de mortos, curas de
leprosos, cegos, aleijados etc.), mas nenhum profeta ou discípulo de Cristo
jamais saiu da tumba, e isso pelo seu próprio poder. Por isso, Jesus podia
dizer: "Eu dou a Minha vida para a reassumir. Ninguém a tira de Mim; pelo
contrário, Eu espontaneamente a dou. Tenho autoridade para a entregar e
também para reavê-la" (Jo 10:17-18).
No entanto, mal Jesus havia ressuscitado, começaram as tentativas de negar
Sua ressurreição. Os líderes religiosos judaicos foram os primeiros, pois
subornaram os guardas do sepulcro para dizerem que, enquanto dormiam,
Seu corpo fora roubado por Seus discípulos (Mt 28:11-15). Mas esse alegado
roubo era algo quase tão milagroso quanto a ressurreição: como poderiam
poucos e simples pescadores atacar e vencer uma guarda de valentes e
treinados soldados romanos e levar o corpo de Jesus? E por que os líderes
judaicos não fizeram tentativas de encontrar o corpo de Jesus para
demonstrar que Ele não havia ressuscitado? E se Jesus não ressuscitara, que
poder foi esse que fez de pessoas acovardadas e medrosas como os
discípulos, testemunhas tão poderosas, que ousavam enfrentar o Sinédrio ou
qualquer outra autoridade terrestre para testemunhar de Jesus e Sua
ressurreição? (cf. Atos 4:1-20). E o que dizer da "teoria do desmaio", ou
seja, que Jesus foi posto na tumba não morto, mas desmaiado? Seria outro
espetacular milagre crer que uma pessoa que teve o lado e o coração
traspassados por uma lança romana estivesse apenas desmaiado após tão
graves ferimentos recebidos e assim posto na tumba. Isso seria realmente
incrível! Na verdade, os que tentam negar a ressurreição de Jesus devem ter
ainda mais fé para crerem em suas "explicações" do que os que crêem que
Jesus ressuscitou dos mortos.
V. A incumbência (Mc 16: 15-20)
Jesus não apenas apareceu a muitas pessoas, mas falou e comeu com elas
(cf. Jo 20:15-17, 19-23, 26-29; 21:1-22; Lc 24:13-31, 36-52). E isso por
um período de 40 dias. Nesse período, Jesus deu as últimas instruções a
Seus discípulos e fortaleceu-lhes a fé (At 1:3). Como última incumbência,
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ordenou-lhes que fossem a todo o mundo e pregassem o Evangelho (boas-
novas) a toda criatura (Mc 16:15). As boas novas eram de que, em Jesus, a
vida eterna está disponível a quem a desejar. Boas novas de vitória sobre a
morte, pois Sua ressurreição é o penhor da nossa. Boas novas de que em
Jesus há significado real para a existência humana, pois Ele há de retornar
em glória para completar o plano da salvação e buscar Seus filhos para
estarem para sempre com Ele.
Gostaria de perguntar-lhe: Você tem crido nestas boas notícias? Se sim, tem
falado delas aos que entram em contato com você? Para essa tarefa, Deus
poderia enviar os anjos, que fariam a obra de maneira bem mais rápida, mas
Ele preferiu contar com você para isso. Sabe por quê? Por que sua palavra
tem mais credibilidade que a de um anjo, pois os anjos de Deus não
entendem tão perfeitamente as lutas e tentações de um ser humano quanto
você. Gostaria de viver num mundo melhor, sem morte, pranto, dor,
separações, envelhecimento, violência, egoísmo, poluição? Então atenda ao
convite de Cristo: "Ide por todo o mundo e pregai o evangelho" (Mc 16:15),
e quando este evangelho for pregado em todo o mundo, "então virá o fim"
(Mt 24:14). E o "mundo" começa pelas pessoas que lhe estão próximas.
Deus nos ajude no cumprimento do "Ide", para que logo estejamos no Reino
de Deus, e ali (além de vermos e agradecermos a Marcos pelo seu tão
dinâmico evangelho), possamos abraçar Aquele que por nós morreu, mas
que vive para interceder por nós. "Amém. Vem, Senhor Jesus! A graça do
Senhor Jesus seja com todos" (Ap 22:20 e 21).