Cardeira Encarte Exercicios
Cardeira Encarte Exercicios
GRAMÁTICA
HISTÓRICA do
PORTUGUÊS EUROPEU
ESPERANÇA CARDEIRA
Conceitos básicos
Esperança Cardeira 3
Na Galiza, por razões históricas, o castelhano ocupou, durante séculos, o es-
paço da língua autóctone, o galego, dominando-a política e socialmente: o
castelhano era a língua das atividades mais prestigiadas e das classes altas,
enquanto o galego era encarado como língua das classes baixas e da cultura
popular. A desigualdade social entre duas línguas tem consequências, já que
é a língua de prestígio que sofre elaboração (codificação, normativização), e
não a língua popular.
Também se pode considerar diglóssica a situação em que duas variedades de
mesma língua ou de línguas aparentadas coexistem num mesmo território,
sendo usadas pelos falantes em situações diferentes. Nessa perspetiva, pode
dizer-se que nos primórdios da constituição dos romances existiu diglossia,
quando o latim era a língua prestigiada, usada para a escrita e falada em situa-
ções formais, enquanto os romances eram falados no ambiente familiar.
CARTINHAS — as cartinhas,
antepassados das cartilhas
para aprender a ler e escre-
ver, tinham um duplo obje-
tivo: educar e evangelizar. A
par do ensino das primeiras
letras, as cartinhas eram um
instrumento de evangelização
que transmitia a doutrina ca-
tólica aos povos com os quais
os portugueses contactavam
no processo de descobertas e
colonização de novas terras.
A partir de meados do século
XV, o crescimento do império
português teve como corolário
a expansão da língua portu-
guesa e a emergência de ins-
trumentos de ensino da língua,
sempre associados à difusão
Figura 1: Abecedário ilustrado de João de Barros
da fé católica. Naturalmente, (Fonte: BUESCU, Maria Leonor Carvalhão. Gramática da
as cartinhas eram usadas não Língua Portuguesa: cartinha, gramática, diálogo em louvor
da nossa linguagem e diálogo da viciosa vergonha.
apenas nas terras em que os Lisboa: Publicações da Faculdade de Letras da
portugueses se estabeleciam, Universidade de Lisboa, 1971).
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O ambiente do scriptorium (local onde os manuscritos eram produzidos,
geralmente em instituições eclesiásticas, universitárias ou da corte) era de
trabalho demorado e penoso, com os copistas executando os mesmos movi-
mentos durante horas, enquanto a luz do dia o permitisse. Não admira, por
isso, que ocorressem muitos erros de cópia. No caso de textos que chegaram
até aos nossos dias em diversas cópias manuscritas, a análise desses erros,
muitas vezes repetidos de cópia para cópia, permite-nos traçar o percurso
dos documentos, não só para compreendermos a história da transmissão dos
textos, mas até para elaborarmos uma edição que dê conta dessa transmissão;
desta forma podemos aproximar-nos do texto original.
Uma vez que na época em que os documentos eram manuscritos não havia or-
tografia (no sentido moderno de conjunto de regras obrigatórias), cada scrip-
torium desenvolvia as suas tendências gráficas e cada copista tinha os seus
próprios hábitos de escrita. A análise da forma como cada copista representa,
nos textos antigos, determinados sons é, para o linguista, uma importante
fonte para a caracterização da língua medieval.
DIACRONIA — evolução linguística no tempo. A diacronia pode ser encarada
como uma sucessão de sincronias (estado de língua num determinado momen-
to). Saussure propõe uma distinção entre o eixo sincrónico (as relações entre
os elementos coexistentes num determinado estado de língua) e o eixo diacró-
nico (as relações entre elementos que se substituem uns aos outros no tempo).
Significa isso que podemos estudar a língua de dois modos: considerando a
evolução que a língua sofre ao longo do tempo ou, sem considerar o tempo
passado, estudando os mecanismos da língua num momento determinado.
Aparentemente simples, esta distinção é complexa, já que a língua nunca se
transforma no todo, mas vai sofrendo alterações que criam novos factos a cada
sincronia, mas não impedem o seu funcionamento. Além disso, a delimitação
de uma sincronia é sempre artificial e subjetiva (depende da perspetiva do ob-
servador), já a língua pode passar um século sem mudanças significativas ou,
então, podem ocorrer muitas mudanças num período de apenas alguns anos.
E, uma vez que as divisões do tempo são sempre artificiais (o tempo é contí-
nuo), também o estabelecimento de uma sincronia na história de uma língua
não pode deixar de ser artificial (a evolução da língua é contínua). Contudo, a
distinção sincronia/diacronia é metodologicamente útil: uma gramática des-
critiva estuda uma sincronia; uma gramática histórica descreve a diacronia.
EMPRÉSTIMO — forma que uma língua adota de outras, através do contacto
entre povos de línguas diferentes. O contacto pode ser por coincidência geo-
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língua oficial em Macau e cooficial (com o tétum) em Timor Leste. Em alguns
desses países, o português convive com diversas línguas nacionais, o que vai
criando interferências que levarão, certamente, à constituição de novas nor-
mas, tal como sucedeu no Brasil.
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> Rodrigues), com o significado de “Gonçalo, filho de Rodrigo”. E um filho de
Gonçalo Rodrigues chamar-se-ia Gonçalves. Quando estes sobrenomes perde-
ram o valor indicativo de filiação, passaram a transmitir-se de pais para filhos
tornando-se, assim, nomes de família.
PERIODIZAÇÃO DA HISTÓRIA DO PORTUGUÊS — divisão cronológica da his-
tória da língua. Uma vez que a evolução da língua é contínua, o estabeleci-
mento de fronteiras cronológicas é sempre artificial e subjetivo; trata-se, no
entanto, de um instrumento de trabalho importante, na medida em que per-
mite situar mudanças linguísticas no tempo. Ivo Castro (2006) reparte a his-
tória do português em dois ciclos ou movimentos sucessivos de crescimento:
o primeiro é o ciclo da formação da língua (séculos IX a XV), em que a língua
acompanha o movimento da Reconquista; o segundo ciclo, da expansão da
língua, corresponde ao período dos Descobrimentos, quando o português se
consolida em Portugal e se instala fora da Europa. As periodizações tradicio-
nais, em geral, propõem datas mais precisas:
L. Vasconcellos S. Silva Neto P. V. Cuesta L. Cintra E. Bechara
(1911) (1957) (1971) (Castro 1988) (1991)
Até s. IX Pré-histórico Pré-histórico
(882) Pré-literário Pré-literário
Até c.1200 Proto-histórico Proto-histórico
(1175)
Até 1385/1420 Trovadoresco Galego- Antigo Arcaico
Arcaico Português
Até 1536/1550 Comum Pré-clássico Médio Arcaico médio
Até Clássico Clássico Moderno
s. XVIII Moderno Moderno
s. XVIII em Moderno Moderno Hodierno
diante
Quadro 1: Algumas propostas de periodização da história do português (adaptado de Castro, 1988: 12).
Cronologia da Reconquista:
711 Invasão árabe da Península Ibérica.
718 Os cristãos, comandados por Pelágio, um nobre visigodo, vencem
a batalha de Covadonga, nas Astúrias. Assim se inicia a Recon-
quista Cristã.
750 Os cristãos, sob o comando de Afonso, primeiro rei das Astúrias,
ocupam a Galiza.
791-842 Afonso II das Astúrias consolida as conquistas e avança para além
do rio Douro.
802 Fundação do condado de Aragão.
868 Vímara Peres organiza o repovoamento da região entre o Minho
e o Douro e torna-se o primeiro conde de Portucale. O topónimo
Guimarães deriva do seu nome (Vimaranis).
905-926 Fundação do reino de Navarra.
910-914 O Reino das Astúrias passa a ser designado como Reino de Leão.
950-951 Fernão Gonzalez torna-se conde de Castela.
970 Sancho Garcez II unifica o Reino de Navarra e o condado aragonês.
1000-1033 Sancho III de Navarra toma posse dos condados de Aragão e de
Castela.
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1037-1065 Fernando I une os reinos de Castela e Leão e conquista Coimbra.
1065-1109 Afonso VI de Leão e Castela conquista Toledo.
1093 Urraca e Raimundo de Borgonha tornam-se condes de Portucale
e da Galiza.
1096-1112 Teresa, filha de Afonso VI de Leão e Castela, e o esposo, Henrique
de Borgonha, recebem os condados de Portucale e da Galiza.
1112-1128 Teresa assume o governo de Portugal, após a morte do marido.
1143 Afonso Henriques torna-se o primeiro rei de Portugal.
1147 onquista de Lisboa por D. Afonso Henriques aos mouros com a
ajuda dos Cruzados.
1162 Afonso II unifica o Reino de Aragão e o Condado de Barcelona.
1469 Isabel I de Castela casa com Fernando II de Aragão, unificando a
Espanha.
1492 Conquista de Granada: fim da Reconquista.
ROMANIZAÇÃO — processo de aculturação que implantou nas regiões inte-
gradas no Império Romano a língua (o latim vulgar), a cultura e a organiza-
ção social latinas. Em consequência desse processo, o latim diferenciou-se em
romances que evoluíram para línguas românicas, constituindo a România. As
regiões que integraram o Império Romano, mas em que o latim não chegou
a consolidar-se ou em que se desenvolveu uma língua românica atualmente
extinta, são conhecidas como România Perdida ou Submersa (caso do Dálmata
e, na Península Ibérica, do Moçárabe); os territórios que não fizeram parte do
Império Romano, mas em que se implantaram línguas românicas, constituem
a România Nova (América do Sul, Canadá, África de expressão portuguesa etc.).
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Mapa 5: Línguas românicas na Europa (Fonte: https://bit.ly/3izmt6Z).
Mapa 6: A expansão das línguas românicas: a România Nova (Fonte: https://bit.ly/3wfEXNL).
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pragmáticas, historiográficas e de caráter ficcional. A partir do final do século
XV, algumas obras começam a surgir em versões impressas.
Os documentos mais antigos escritos em português, de que temos conheci-
mento, são a Notícia de Fiadores, um documento original, datado de 1175,
que contém uma lista dos fiadores de Paio Soares Romeu e a Notícia do Torto
(ca. 1214-16); ambos testemunham a existência, no século XIII, de um géne-
ro diplomático, a “notícia”, que registava informalmente determinados factos
com o fim de preservar a sua memória. Outro documento da mesma data é
o Testamento de Afonso II, o primeiro documento real conhecido escrito em
português, localizado (Coimbra) e datado (27 de junho de 1214); dele foram
feitas 13 cópias, das quais apenas duas chegaram até nós: uma que está na
Torre do Tombo, em Lisboa, e outra no Arquivo da Catedral de Toledo. O con-
fronto entre as duas cópias é de grande interesse para a crítica textual e para
a linguística, já que as diferenças entre ambas são consideráveis (diferenças
de suporte, variação na ordem das palavras e na seleção de vocábulos, além de
variação gráfica e linguística).
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Exercícios
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C. Do étimo conceptum resulta a palavra portuguesa conceito. As principais
mudanças que ocorreram nesse percurso foram a apócope do -m do acusati-
vo, a semivocalização da oclusiva no grupo /pt/ (< [jt]) e a evolução da oclu-
siva /k/, seguida de vogal palatal, para uma africada dental surda /ts/, com
posterior simplificação para a fricativa /s/.
Identifique os principais processos evolutivos das seguintes evoluções:
cĬconiam > cegonha
vĪnum > vinho
apĬculam > abelha
judĪcium > juízo
operam > obra
IACTUM > jeito
D. Consegue descobrir que palavras portuguesas têm origem nos seguintes
étimos?
RECĬPERE
INVĬDIŌSUM
PARTĬARĬUM
FACTĪCĬUM
MANĬŌSUM
SCARABĬCULUM
E. Preencha o seguinte quadro, usando transcrição fonética (siga o modelo da
linha preenchida):
(1) “Que tenhamos grande tento nos vocabulos, em que entre c, s, e z. Porque
a mais da gente, e não soo a vulgar, se engana na scriptura, confundindo estas
(2) “E a alguns ouvi, que lhe era tão difficultosa a pronunciação do Ch, que
achando-o escripto, o pronuncião como X; e pelo contrario, aonde achão X, o
pronuncião como Ch.”
(João de Moraes Madureira Feijó).
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Textos antigos
1. Comentário de textos
Notícia do Torto (1214-1216)
Este documento, em suporte pergamináceo irregular e imperfeito, consiste
num conjunto de apontamentos ditados a um notário, uma série de queixas
formuladas por um fidalgo minhoto, Lourenço Fernandes da Cunha, contra os
filhos de outro fidalgo, Gonçalo Ramires. O texto teve várias edições; o trecho
abaixo é adaptado de Castro (2006):
D[e] noticia de torto que fecerũ a laurẽcius fernãdiz por plazo qve fece gõ-
cauo ramiriz antre suos filios e lourẽzo ferrnãdiz quale podedes saber (…)
E feze les agudas quales aqui ouirecdes: Super sua aguda fez testiuigo cũ gõ-
cauo cebolano E super sa aiuda ar fui li a casa e filo li quãto que li agou e deu
a illes (…) E in sa aiuda oue mal cũ ramiro fernãdiz que li custov muito auer
muita perda. E in sa aiuda fui iias fezes a coi[m]bra. E in sa aiuda dixe mul[tas]
uices (…) E super sa iud[a] mãdoc lidar seus omes cũ martin iohanes que
quir[i]a desũrar sa irmana (...) Ĩ alia uice ar furũ a feracĩ e prẽderũ iios omes e
gacarũ nos e leuarũ deles quãto que ouerũ. Ĩ otra fice ar prẽderũ otros iios a
se[u] irmano pelagio fernãdiz e iagarũ nos.
[Da notícia do prejuízo que fizeram a Lourenço Fernandes por [causa do] pacto que
fez Gonçalo Ramires entre os seus filhos e Lourenço Fernandes, o qual podeis saber...
E fez-lhes ajudas, as quais aqui ouvireis: em sua ajuda testemunhou com [contra] Gon-
çalo Cebolão. E em sua ajuda foi-lhe a casa e roubou-lhe quanto achou e deu a eles…
E em sua ajuda houve mal com Ramiro Fernandes, que lhe custou muito haver, muita
perda. E em sua ajuda foi duas vezes a Coimbra. E em sua ajuda disse [falou] muitas
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vezes…E em sua ajuda mandou lidar [lutar] seus homens com Martim Joanes, que
queria desonrar a sua irmã… Em outra vez foram a Varzim e prenderam dois homens
e chagaram-nos e levaram deles quanto houveram. Em outra vez prenderam outros
dois a seu irmão Pelágio Fernandes e chagaram-nos]
(a) consoantes surdas/sonoras: não há uma distinção clara entre /f/ e /v/ (fe-
zes ~ uices), nem entre /k/ e /g/ (gacarũ ~ iagarũ) ou /ts/ e /dz/ (laurẽcius ~
1ourẽzo). Esta indistinção permitiu ao copista utilizar para a africada palatal
surda /tʃ/, que ocorre em agou, gacarũ e iagarũ, as mesmas grafias, <g> e <i>,
que usou para representar a africada palatal sonora /dʒ/ em agudas e aiuda; é
esta indistinção, também, que prova o caráter ainda africado da palatal sonora
(que virá a simplificar: /dʒ/ > /ʒ/);
(b) semivogal velar: entre as particularidades gráficas deste texto merece desta-
que a representação da semivogal do ditongo decrescente /ow/. Além das grafias
<ou> ou <ov> (agou, custov), ocorrem <o> e <oc> (otra, mãdoc). Desta oscilação
pode deduzir-se a presença do ditongo, em formas em que a semivogal resultou
da evolução de uma consoante latina, como outro (< ALTERU-). O grafema <c>
foi, aqui, usado para representar a semivogal, possivelmente por influência de
étimos em que esta consoante se tornou semivogal. Ou seja: apesar de, nestas
formas não ter havido semivocalização da consoante latina /k/, o escriba, tendo
conhecimento de outros étimos em que tal semivocalização se deu, entende este
grafema como uma possibilidade gráfica para a representação da nova semivogal.
(a) variantes gráficas: agia ~ aia; segia ~ seia; Sancho ~ Sãcio; dezima, undezi-
ma, Alcobaza ~ decima, ũdecima, Alcobacia. Estes exemplos mostram diferentes
escolhas gráficas: <gi> ou <i>, para a representação da palatal sonora /ʒ/ (já
fricativa ou ainda africada /dʒ/); <ch> e <ci> para a africada palatal surda /tʃ/;
<z>, <c> e <ci> para a africada pré-dorsodental surda /ts/. Note-se que apesar
da natural oscilação na representação dos novos fonemas, cada um dos copis-
tas aparenta ter as suas próprias escolhas. Uma variação gráfica interessante é
a que encontramos em entegramente ~ enteiramente: se a grafia do manuscrito
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de Lisboa pode ser interpretada como influência da grafia latina, já a forma do
manuscrito de Toledo não deixa dúvidas quanto à presença do ditongo;
(b) variantes linguisticamente relevantes: raina ~ reina, depos ~ depois, sa ma-
dre ~ sua madre, Portu ~ Porto, Coĩbria ~ Coĩbra são variantes que revelam
estados evolutivos diferentes. Em raina encontramos já dissimilação (regina- >
[reĩa] > [raĩa]; depois apresenta um ditongo; sua madre mostra, já, uma prefe-
rência pela forma tónica do possessivo, mesmo em contexto enclítico; a grafia
de Portu aponta para uma possível elevação da vogal átona final; em Coĩbra
assistimos à eliminação da semivogal resultante da regular evolução do étimo
(coninbriga > coĩbria > coĩbr[j]a > coimbra).
Poesia trovadoresca
O projeto Cantigas Medievais Galego-Portuguesas, do Instituto de Estudos Me-
dievais da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de
Lisboa (https://bit.ly/3iAhuCY) disponibiliza uma base de dados com a tota-
lidade das cantigas medievais presentes nos cancioneiros galego-portugueses
(com as respetivas imagens dos manuscritos); inclui, ainda, versões musicais
e informação sobre autores, personagens e lugares referidos nas cantigas. O
trecho abaixo (reproduzido de https://bit.ly/3gcaj2e) é do trovador Paio Soa-
res de Taveirós, e é datável da primeira metade do século XIII:
No mundo nom me sei parelh’
mentre me for como me vai,
ca já moiro por vós e ai,
mia senhor branc’e vermelha!
queredes que vos retraia
quando vos eu vi em saia?
Mao dia me levantei
que vos entom nom vi fea!
Destacam-se os seguintes traços característicos do português antigo:
(a) a terminação -om (nom, entom), ainda correspondente às terminações
latinas (NON > nõ, INTUNC > entõ), que virá a ditongar no português
médio (não, então);
(b) em mia senhor, veja-se a forma do possessivo, que pode ser interpreta-
da como átona ([mja], com assimilação [ma]), ou tónica ([mĩa], que de-
senvolverá, posteriormente, uma consoante palatal [miɲa]). Além disso,
note-se que senhor ainda não tinha adquirido a forma feminina senhora;
(c) a presença de um -d- intervocálico na forma verbal de 2ª pessoa do
plural (queredes), que irá sincopar, dando origem a um processo de
ditongação, na primeira metade do século XV;
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en joyso nen ffora del e se contra esto fosse que de pena lhj peytase ao dito
Stevam Gonçallvez dosentos maravedis (…)
(adaptado de Ana Maria Martins, Documentos portugueses do
Noroeste e da região de Lisboa, 2001, Lisboa: INCM).
Neste texto encontramos várias formas em que o grafema <s> não correspon-
de a uma sibilante apical, mas a uma sibilante dental: em tresentos (< TRE-
CENTOS), des (< DECE-), vesinho (< VICINU-), uos (< VOCE-), ffes (< FECIT),
joyso (< IUDICIU-) e dosentos (< DUCENTOS) esperaríamos encontrar <z>, o
grafema típico da sibilante dental sonora. É provável, portanto, que esta in-
distinção gráfica corresponda a uma indistinção fonética e que o sistema de
sibilantes estivesse, já, a sofrer simplificação.
Exercício
Procure, nos textos 1, 2, 3 e 4, características do português antigo. Sugestões:
(i) grafias para a palatal /dʒ/ (ou /ʒ/);
(ii) hiatos (e sua posterior resolução);
(iii) formas da 2ª pessoa do plural com -d- intervocálico;
(iv) particípios passados terminados em -udo;
(v) formas átonas no sistema de possessivos;
(vi) sistema de demonstrativos;
(vii) léxico que caiu em desuso.
Esperança Cardeira 29
Esta obra fará muito em poucas páginas: iluminar um debate no qual sobra
paixão e, por vezes, faltam fundamentação e disposição para o diálogo. A
Gramática histórica do português europeu abrirá a possibilidade de muitas
novas e mais fecundas pesquisas tanto no Brasil quanto em Portugal.
Entre os séculos III a.C. e I d.C., constituiu-se o Império Romano do Ociden-
te, em que se integrou a Península Ibérica. Em virtude dessa romanização,
os habitantes do império adquiriram o latim vulgar. É dele que derivam as
línguas românicas, não do latim literário. A palavra ‘latim’ evoca, nos nos-
sos dias, uma imagem extremamente homogénea, elaborada, sujeita a re-
gras muito fixas, uma língua morta. O latim vulgar era uma língua viva, fala-
da ao longo de séculos, em espaços geográficos diversificados e por povos
variados, por diferentes camadas socioculturais e em diferentes situações.
Em sua Gramática histórica do português europeu, Esperança Cardeira
descortina o sistema linguístico que ocupa toda a faixa ocidental da Penín-
sula Ibérica, traduzido em duas línguas nacionais, a galega e a portuguesa,
com concentração no português. Galego e português apresentam carac-
terísticas diversas, resultado de diferentes evoluções do mesmo romance
de base, o antigo romance do noroeste. É na diversidade da qual advém
o português europeu descrito historicamente nesta Gramática (fonética e
fonologia; morfossintaxe; léxico, ortografia) que encontraremos o neces-
sário ponto histórico de partida para poder pensar – em nossos cursos de
Letras/Linguística e de formação de professores – os pontos de contato e
de diferença entre o português europeu e o português brasileiro.
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