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LINGUÍSTICA

PARA O ENSINO SUPERIOR 11

GRAMÁTICA
HISTÓRICA do
PORTUGUÊS EUROPEU
ESPERANÇA CARDEIRA
Conceitos básicos

APPENDIX PROBI — um dos documentos mais importantes para o estudo do


latim vulgar. Cerca do ano 700 d.C. uns monges italianos copiaram um tratado
gramatical atribuído a Valério Probo (que viveu em meados do século I d.C.) e
juntaram-lhe alguns apêndices. Um destes apêndices é uma lista de 227 corre-
ções elaborada, provavelmente, por um professor de gramática. Muitas destas
formas “erradas” estão na origem das formas românicas. Veja-se, p. ex., a corre-
ção auris non oricla: fica claro que as palavras portuguesa (orelha), castelhana
(oreja), francesa (oreille), italiana (orecchio) e romena (ureche) derivam da for-
ma considerada incorreta. Podemos daqui deduzir que na língua coloquial, ou
seja, no latim vulgar, a forma mais frequente era oricla, e não auris.
BILINGUISMO — coexistência, na mesma comunidade ou no mesmo indi-
víduo, de duas línguas diferentes. A diglossia é um tipo de bilinguismo em
que uma das línguas tem um estatuto superior. Podemos considerar diversos
casos: uma situação em que os falantes usam duas línguas diferentes, sendo
o uso de cada uma dessas línguas delimitado segundo o contexto, e em que
nenhuma língua ameaça a sobrevivência da outra. A Suíça, por exemplo, tem
mais do que uma língua oficial e em várias regiões os falantes são bilingues
(ou, mesmo, trilingues); em termos políticos, administrativos e sociais, os
diferentes idiomas estão numa posição de igualdade que é estável. Situação
diversa é a de Cabo Verde, onde o português é língua oficial, convivendo com
o crioulo, língua nacional. O português é a língua do ensino e do exercício do
poder, funcionando, portanto, como língua socialmente mais prestigiada; a
língua crioula é a língua familiar e quotidiana dos cabo-verdianos. Trata-se de
uma situação de diglossia.

Esperança Cardeira 3
Na Galiza, por razões históricas, o castelhano ocupou, durante séculos, o es-
paço da língua autóctone, o galego, dominando-a política e socialmente: o
castelhano era a língua das atividades mais prestigiadas e das classes altas,
enquanto o galego era encarado como língua das classes baixas e da cultura
popular. A desigualdade social entre duas línguas tem consequências, já que
é a língua de prestígio que sofre elaboração (codificação, normativização), e
não a língua popular.
Também se pode considerar diglóssica a situação em que duas variedades de
mesma língua ou de línguas aparentadas coexistem num mesmo território,
sendo usadas pelos falantes em situações diferentes. Nessa perspetiva, pode
dizer-se que nos primórdios da constituição dos romances existiu diglossia,
quando o latim era a língua prestigiada, usada para a escrita e falada em situa-
ções formais, enquanto os romances eram falados no ambiente familiar.
CARTINHAS — as cartinhas,
antepassados das cartilhas
para aprender a ler e escre-
ver, tinham um duplo obje-
tivo: educar e evangelizar. A
par do ensino das primeiras
letras, as cartinhas eram um
instrumento de evangelização
que transmitia a doutrina ca-
tólica aos povos com os quais
os portugueses contactavam
no processo de descobertas e
colonização de novas terras.
A partir de meados do século
XV, o crescimento do império
português teve como corolário
a expansão da língua portu-
guesa e a emergência de ins-
trumentos de ensino da língua,
sempre associados à difusão
Figura 1: Abecedário ilustrado de João de Barros
da fé católica. Naturalmente, (Fonte: BUESCU, Maria Leonor Carvalhão. Gramática da
as cartinhas eram usadas não Língua Portuguesa: cartinha, gramática, diálogo em louvor
da nossa linguagem e diálogo da viciosa vergonha.
apenas nas terras em que os Lisboa: Publicações da Faculdade de Letras da
portugueses se estabeleciam, Universidade de Lisboa, 1971).

4 GRAMÁTICA HISTÓRICA DO PORTUGUÊS EUROPEU


mas também em Portugal. A primeira cartinha conhecida, e considerada como
o primeiro livro didático ilustrado é a Cartinha com os Preceitos e Mandamen-
tos da Santa Madre Igreja, de João de Barros (também autor de uma gramáti-
ca), publicada em Lisboa em 1539.
COPISTA — A elaboração de um livro manuscrito na época medieval era um
processo longo e dispendioso: começava com a criação de animais para a pro-
dução do suporte de escrita, o pergaminho. A preparação da pele implicava
diversos procedimentos, tal como a das tintas. Em seguida, era dada a for-
ma adequada ao pergaminho, para formar os cadernos do livro, nos quais se
marcava o espaço destinado à escrita e às iluminuras. Só então começava o
trabalho do copista, que devia copiar, à mão, os textos que iriam enriquecer a
biblioteca do mosteiro ou que tinham sido encomendados por algum senhor
erudito e poderoso, já que o livro era um artigo de luxo.

Figura 2: O trabalho do copista (Fonte: https://en.wikipedia.org/wiki/Ritual).

Esperança Cardeira 5
O ambiente do scriptorium (local onde os manuscritos eram produzidos,
geralmente em instituições eclesiásticas, universitárias ou da corte) era de
trabalho demorado e penoso, com os copistas executando os mesmos movi-
mentos durante horas, enquanto a luz do dia o permitisse. Não admira, por
isso, que ocorressem muitos erros de cópia. No caso de textos que chegaram
até aos nossos dias em diversas cópias manuscritas, a análise desses erros,
muitas vezes repetidos de cópia para cópia, permite-nos traçar o percurso
dos documentos, não só para compreendermos a história da transmissão dos
textos, mas até para elaborarmos uma edição que dê conta dessa transmissão;
desta forma podemos aproximar-nos do texto original.
Uma vez que na época em que os documentos eram manuscritos não havia or-
tografia (no sentido moderno de conjunto de regras obrigatórias), cada scrip-
torium desenvolvia as suas tendências gráficas e cada copista tinha os seus
próprios hábitos de escrita. A análise da forma como cada copista representa,
nos textos antigos, determinados sons é, para o linguista, uma importante
fonte para a caracterização da língua medieval.
DIACRONIA — evolução linguística no tempo. A diacronia pode ser encarada
como uma sucessão de sincronias (estado de língua num determinado momen-
to). Saussure propõe uma distinção entre o eixo sincrónico (as relações entre
os elementos coexistentes num determinado estado de língua) e o eixo diacró-
nico (as relações entre elementos que se substituem uns aos outros no tempo).
Significa isso que podemos estudar a língua de dois modos: considerando a
evolução que a língua sofre ao longo do tempo ou, sem considerar o tempo
passado, estudando os mecanismos da língua num momento determinado.
Aparentemente simples, esta distinção é complexa, já que a língua nunca se
transforma no todo, mas vai sofrendo alterações que criam novos factos a cada
sincronia, mas não impedem o seu funcionamento. Além disso, a delimitação
de uma sincronia é sempre artificial e subjetiva (depende da perspetiva do ob-
servador), já a língua pode passar um século sem mudanças significativas ou,
então, podem ocorrer muitas mudanças num período de apenas alguns anos.
E, uma vez que as divisões do tempo são sempre artificiais (o tempo é contí-
nuo), também o estabelecimento de uma sincronia na história de uma língua
não pode deixar de ser artificial (a evolução da língua é contínua). Contudo, a
distinção sincronia/diacronia é metodologicamente útil: uma gramática des-
critiva estuda uma sincronia; uma gramática histórica descreve a diacronia.
EMPRÉSTIMO — forma que uma língua adota de outras, através do contacto
entre povos de línguas diferentes. O contacto pode ser por coincidência geo-

6 GRAMÁTICA HISTÓRICA DO PORTUGUÊS EUROPEU


gráfica (caso dos empréstimos que o latim recebeu de substratos e supers-
tratos) ou à distância, por intercâmbio cultural (caso, por exemplo, dos em-
préstimos que o português recebeu do italiano na época do Renascimento).
Em geral, os empréstimos lexicais são os mais frequentes. Os empréstimos
mais recentes no português são do inglês e dizem respeito a inovações tec-
nológicas (site, notebook, scanner, online, spray etc.) ou culturais (shopping,
marketing, piercing etc.); outros, mais antigos, foram adaptados aos moldes
fonológicos e ortográficos do português e, por serem muito frequentes, já não
são sentidos como estrangeirismos (p. ex. bife, pudim, queque, sanduiche etc.)
ESTRATO — língua que sobrevive ao contacto com línguas de substrato ou su-
perstrato. Considera-se que num território em que existiu contacto entre duas
línguas, sobrevivendo apenas uma delas, a língua desaparecida deixa marcas
sobre a língua que permanece. O substrato é a língua pré-existente desapare-
cida, o estrato a sobrevivente. Superstrato é a língua de um povo invasor que,
chegando a uma região depois de constituído o estrato, é por ele assimilada.
Adstrato é a interferência entre duas línguas faladas em territórios próximos.
As influências de substrato, superstrato ou adstrato implicam situações de
bilinguismo ou diglossia.
ÉTIMO — forma antiga que está na origem de uma forma mais recente. É cos-
tume referir os étimos latinos em maiúsculas e indicar a sua evolução através
do sinal > (FILIU > filho = o étimo latino FILIU evoluiu para a palavra portu-
guesa filho). A base etimológica do português é essencialmente latina, mas
também pré-latina, germânica e árabe. Ao longo dos séculos, o português foi
recorrendo a empréstimos do italiano, do francês, do inglês etc., que acres-
centaram o acervo lexical.
EVOLUÇÃO — conjunto de mudanças sofridas pela estrutura da língua ao lon-
go do tempo (diacronia). A mudança pode verificar-se dentro dos subsistemas
de cada sistema linguístico. Assim, pode estudar-se a mudança fonética e fo-
nológica, a mudança morfológica, a mudança sintática, a semântica e a lexical.
EXPANSÃO DO PORTUGUÊS — A empresa dos Descobrimentos, a partir de
meados do século XV, levou a língua portuguesa a todos os continentes. Além
de ter originado crioulos de base lexical portuguesa, o português fixou-se em
África, na América e na Ásia. Atualmente com cerca de 260 milhões de falan-
tes, o português é língua oficial, além de em Portugal e no Brasil, em antigas
colónias portuguesas em África (Moçambique, Angola, Cabo Verde, Guiné-Bis-
sau, São Tomé e Príncipe e Guiné Equatorial). Na Ásia, o português é, ainda,

Esperança Cardeira 7
língua oficial em Macau e cooficial (com o tétum) em Timor Leste. Em alguns
desses países, o português convive com diversas línguas nacionais, o que vai
criando interferências que levarão, certamente, à constituição de novas nor-
mas, tal como sucedeu no Brasil.

Mapa 1: A língua portuguesa no mundo (Fonte: https://bit.ly/3cC27pP).

Segundo o Observatório da Língua Portuguesa, o português é a quarta língua


mais falada no Mundo, a terceira mais falada na Europa, a primeira língua no
hemisfério sul e a terceira língua na Internet. O universo de falantes represen-
ta mais de 7% da superfície continental da Terra.
LATIM VULGAR — modalidade coloquial do latim, caracterizada pela diversi-
dade diacrónica, diatópica, diastrática e diafásica. A expressão “latim vulgar”
(sermo vulgaris, na classificação de autores latinos) designa a língua com to-
das as suas variedades.
LÍNGUA FRANCA — língua de comunicação entre comunidades falantes de
línguas diferentes. Trata-se de uma língua de recurso que permite um mínimo
de comunicação e supre, assim, a necessidade de conhecer muitas línguas. No
século XVI o português tornou-se, nos portos onde os portugueses traficavam,
uma “língua franca”, a língua dos negócios, e assim continuou nos séculos se-
guintes. Até ao século XIX, a comunicação entre o Extremo Oriente e o resto do
mundo efetuou-se principalmente em português e a evangelização holandesa

8 GRAMÁTICA HISTÓRICA DO PORTUGUÊS EUROPEU


e inglesa na Índia também recorreu à língua portuguesa. Pode dizer-se que,
durante séculos, o português teve um papel “globalizante”, semelhante ao que
tem, hoje em dia, o inglês.
LÍNGUAS CRIOULAS — Um crioulo é uma língua formada através da comple-
xificação de um pidgin que se torna língua materna de uma comunidade. Um
pidgin é um sistema de comunicação que emerge em situações de contacto
pontual entre duas (ou mais) comunidades de línguas diferentes. O pidgin não
tem, portanto, falantes nativos, mas pode ser a base para uma língua crioula
quando se torna a primeira língua de uma comunidade. A navegação na costa
africana e o comércio com o Oriente, com a consequente fundação de portos de
mar fortificados, propiciaram a formação de crioulos, já que as necessidades
de comunicação eram esporádicas e reduzidas. Comerciantes e colonos esta-
beleciam-se nas possessões portuguesas, casando com mulheres indígenas e
desenvolvendo variedades linguísticas de intercâmbio, de base portuguesa,
com influências das línguas indígenas e com uma estrutura gramatical muito
simplificada. Em alguns casos, especialmente em contextos de escravatura, a
intensificação dos contactos linguísticos permitiu que essas variedades se ex-
pandissem, tornando-se a primeira língua da comunidade, ou seja, tornando-
-se uma língua crioula. Formaram-se, assim, crioulos de base portuguesa no
Oriente (em Goa, em Macau, em Malaca e no Sri-Lanka), na Oceânia (o crioulo
de Tugu, na ilha de Java) e na América (em Curaçau e na Guiana holandesa).
Estes crioulos estão praticamente extintos, mas em África, na Guiné-Bissau,
em Cabo Verde e em S. Tomé e Príncipe, a par do português, língua oficial, da
administração e do ensino, há crioulos de base portuguesa. Também o Senegal
conserva um crioulo do português em Casamansa.
ONOMÁSTICO — conjunto dos antropónimos e topónimos de uma língua.
A toponímia é o conjunto dos nomes próprios que designam localidades e
constitui um importante testemunho dos povos e línguas que existiram num
determinado território. Por exemplo, topónimos portugueses como Lamego,
Porto, Guimarães e Alcântara atestam, respetivamente, a presença de povos
pré-romanos, romanos, germânicos e árabes.
O antropónimo é o nome próprio individual. Geralmente é constituído por
um ou dois nomes próprios (ou prenomes), sobrenome, apelido ou nome de
família. Na época medieval usou-se o patronímico como sobrenome. O patro-
nímico é um antropónimo que consiste em uma derivação do nome próprio
paterno, recorrendo a um sufixo que indica posse, como -ICI. Por exemplo,
um Gonçalo, filho de um Rodrigo chamar-se-ia Gonçalo Rodrigues (Rodrigo+ici

Esperança Cardeira 9
> Rodrigues), com o significado de “Gonçalo, filho de Rodrigo”. E um filho de
Gonçalo Rodrigues chamar-se-ia Gonçalves. Quando estes sobrenomes perde-
ram o valor indicativo de filiação, passaram a transmitir-se de pais para filhos
tornando-se, assim, nomes de família.
PERIODIZAÇÃO DA HISTÓRIA DO PORTUGUÊS — divisão cronológica da his-
tória da língua. Uma vez que a evolução da língua é contínua, o estabeleci-
mento de fronteiras cronológicas é sempre artificial e subjetivo; trata-se, no
entanto, de um instrumento de trabalho importante, na medida em que per-
mite situar mudanças linguísticas no tempo. Ivo Castro (2006) reparte a his-
tória do português em dois ciclos ou movimentos sucessivos de crescimento:
o primeiro é o ciclo da formação da língua (séculos IX a XV), em que a língua
acompanha o movimento da Reconquista; o segundo ciclo, da expansão da
língua, corresponde ao período dos Descobrimentos, quando o português se
consolida em Portugal e se instala fora da Europa. As periodizações tradicio-
nais, em geral, propõem datas mais precisas:
L. Vasconcellos S. Silva Neto P. V. Cuesta L. Cintra E. Bechara
(1911) (1957) (1971) (Castro 1988) (1991)
Até s. IX Pré-histórico Pré-histórico
(882) Pré-literário Pré-literário
Até c.1200 Proto-histórico Proto-histórico
(1175)
Até 1385/1420 Trovadoresco Galego- Antigo Arcaico
Arcaico Português
Até 1536/1550 Comum Pré-clássico Médio Arcaico médio
Até Clássico Clássico Moderno
s. XVIII Moderno Moderno
s. XVIII em Moderno Moderno Hodierno
diante
Quadro 1: Algumas propostas de periodização da história do português (adaptado de Castro, 1988: 12).

RECONQUISTA CRISTÃ — designação por que é tradicionalmente conhecido o


processo histórico em que os reinos cristãos da Península Ibérica conquista-
ram o território ocupado pelos árabes. A conquista decorreu entre 718 (data
provável da Batalha de Covadonga, liderada por Pelágio das Astúrias) e 1492,
com a conquista do Reino de Granada pelos reis católicos de Aragão e Caste-
la, Fernando e Isabel. A designação deste processo deveria ser “conquista”, e
não “reconquista”, porque, de facto, os novos reinos se constituíram durante o
avanço da conquista e não antes. Na verdade, foi a Reconquista que promoveu
a fundação dos reinos cristãos.

10 GRAMÁTICA HISTÓRICA DO PORTUGUÊS EUROPEU


Mapa 2: O avanço da reconquista cristã (Fonte: https://bit.ly/3hKa8L9).

Cronologia da Reconquista:
711 Invasão árabe da Península Ibérica.
718 Os cristãos, comandados por Pelágio, um nobre visigodo, vencem
a batalha de Covadonga, nas Astúrias. Assim se inicia a Recon-
quista Cristã.
750 Os cristãos, sob o comando de Afonso, primeiro rei das Astúrias,
ocupam a Galiza.
791-842 Afonso II das Astúrias consolida as conquistas e avança para além
do rio Douro.
802 Fundação do condado de Aragão.
868 Vímara Peres organiza o repovoamento da região entre o Minho
e o Douro e torna-se o primeiro conde de Portucale. O topónimo
Guimarães deriva do seu nome (Vimaranis).
905-926 Fundação do reino de Navarra.
910-914 O Reino das Astúrias passa a ser designado como Reino de Leão.
950-951 Fernão Gonzalez torna-se conde de Castela.
970 Sancho Garcez II unifica o Reino de Navarra e o condado aragonês.
1000-1033 Sancho III de Navarra toma posse dos condados de Aragão e de
Castela.

Esperança Cardeira 11
1037-1065 Fernando I une os reinos de Castela e Leão e conquista Coimbra.
1065-1109 Afonso VI de Leão e Castela conquista Toledo.
1093 Urraca e Raimundo de Borgonha tornam-se condes de Portucale
e da Galiza.
1096-1112 Teresa, filha de Afonso VI de Leão e Castela, e o esposo, Henrique
de Borgonha, recebem os condados de Portucale e da Galiza.
1112-1128 Teresa assume o governo de Portugal, após a morte do marido.
1143 Afonso Henriques torna-se o primeiro rei de Portugal.
1147 onquista de Lisboa por D. Afonso Henriques aos mouros com a
ajuda dos Cruzados.
1162 Afonso II unifica o Reino de Aragão e o Condado de Barcelona.
1469 Isabel I de Castela casa com Fernando II de Aragão, unificando a
Espanha.
1492 Conquista de Granada: fim da Reconquista.
ROMANIZAÇÃO — processo de aculturação que implantou nas regiões inte-
gradas no Império Romano a língua (o latim vulgar), a cultura e a organiza-
ção social latinas. Em consequência desse processo, o latim diferenciou-se em
romances que evoluíram para línguas românicas, constituindo a România. As
regiões que integraram o Império Romano, mas em que o latim não chegou
a consolidar-se ou em que se desenvolveu uma língua românica atualmente
extinta, são conhecidas como România Perdida ou Submersa (caso do Dálmata
e, na Península Ibérica, do Moçárabe); os territórios que não fizeram parte do
Império Romano, mas em que se implantaram línguas românicas, constituem
a România Nova (América do Sul, Canadá, África de expressão portuguesa etc.).

Mapa 3: O Império Romano entre 27 a.C. e 305 d.C. (Fonte: https://bit.ly/2Ss6ZXN).

12 GRAMÁTICA HISTÓRICA DO PORTUGUÊS EUROPEU


Cronologia da Romanização:
Séc. VIII a.C. Fundação da cidade de Roma.
Séc. III a.C. Roma conquista toda a Península Itálica, a Sicília, a Sardenha e a
Córsega.
Séc. II a.C. O Império Romano integra a Península Ibérica, a Dalmácia, a
Grécia, uma parte do norte de África a da Ásia Menor e o sul da
Gália.
Séc. I a.C. conquista do resto da Gália e do Egipto.
Séc. I d.C. conquista da Panónia (atual Hungria), da Britânia (Inglaterra) e
da Dácia (Roménia).
Séc. II O Império Romano atinge a sua máxima extensão territorial.
Séc. III O imperador Caracala concede cidadania romana a todos os ha-
bitantes livres do Império.
Séc. IV Divisão do Império em Império Romano do Ocidente e Império
Romano do Oriente.
Séc. V Invasões germânicas derrotam o último imperador do Império
Romano do Ocidente; o Império Romano do Oriente perdurará
até ao século XV.

Mapa 4: Línguas românicas da Península Ibérica. O Basco é a única língua pré-romana.


(Fonte: https://bit.ly/3wfjLHW).

Esperança Cardeira 13
Mapa 5: Línguas românicas na Europa (Fonte: https://bit.ly/3izmt6Z).

  
Mapa 6: A expansão das línguas românicas: a România Nova (Fonte: https://bit.ly/3wfEXNL).

TEXTOS ANTIGOS — As nossas fontes estão limitadas ao que foi conservado


pelo tempo: textos produzidos, em geral, pela parcela mais culta da sociedade
(pelo menos, pela parcela que dominava a escrita), faltando-nos, portanto, a
vertente da tradição oral. Se entendermos a oralidade como o locus da dimen-
são dinâmica da língua e da mudança (enquanto fenómeno do processo de
aquisição da língua), o facto de os textos sobreviventes serem escritos não
pode deixar de ser encarado como um entrave ao estudo da mudança. Ainda

14 GRAMÁTICA HISTÓRICA DO PORTUGUÊS EUROPEU


assim, eles são o único objeto histórico disponível para observarmos a tra-
jetória das mudanças no tempo, pelo que são uma fonte fundamental para o
conhecimento de estados passados da língua.
Possuímos documentação escrita em português desde o final do século XII: tex-
tos poéticos (lírica trovadoresca), documentos não literários e prosa literária.
A poesia trovadoresca conserva-se em três cancioneiros que apresentam uma
escrita cuja regularidade aponta para um modelo conservador, usado em am-
biente culto e restrito: o Cancioneiro da Ajuda (a coleção mais antiga, datável
do final do século XIII, princípio do XIV), o Cancioneiro da Vaticana e o Cancio-
neiro da Biblioteca Nacional, ambos copiados em meados do século XVI.

Figura 3: Cancioneiro da Ajuda. A produção do manuscrito não foi terminada;


note-se o espaço deixado para a notação musical (Fonte: https://bit.ly/3iwiubr).

A antiga produção documental não literária consiste em diplomas reais (redi-


gidos na corte, como o testamento de Afonso II, de 1214) ou particulares (de
que é exemplo a Notícia de Torto, sensivelmente da mesma data), leis locais,
leis gerais e inquirições.
Quanto à documentação literária, os textos portugueses dos séculos XIII a XV
conservados (em geral, cópias e não autógrafos) são textos religiosos, obras

Esperança Cardeira 15
pragmáticas, historiográficas e de caráter ficcional. A partir do final do século
XV, algumas obras começam a surgir em versões impressas.
Os documentos mais antigos escritos em português, de que temos conheci-
mento, são a Notícia de Fiadores, um documento original, datado de 1175,
que contém uma lista dos fiadores de Paio Soares Romeu e a Notícia do Torto
(ca. 1214-16); ambos testemunham a existência, no século XIII, de um géne-
ro diplomático, a “notícia”, que registava informalmente determinados factos
com o fim de preservar a sua memória. Outro documento da mesma data é
o Testamento de Afonso II, o primeiro documento real conhecido escrito em
português, localizado (Coimbra) e datado (27 de junho de 1214); dele foram
feitas 13 cópias, das quais apenas duas chegaram até nós: uma que está na
Torre do Tombo, em Lisboa, e outra no Arquivo da Catedral de Toledo. O con-
fronto entre as duas cópias é de grande interesse para a crítica textual e para
a linguística, já que as diferenças entre ambas são consideráveis (diferenças
de suporte, variação na ordem das palavras e na seleção de vocábulos, além de
variação gráfica e linguística).

Figura 4: Notícia de Fiadores (Fonte: https://bit.ly/2U0qhEb).

Figura 5: Manuscrito de Lisboa do Testamento de Afonso II (Fonte: https://bit.ly/3wfFSOd).

16 GRAMÁTICA HISTÓRICA DO PORTUGUÊS EUROPEU


Figura 6: Notícia de Torto (Fonte: https://bit.ly/35eDjjA).

VARIEDADE – divisão que se pode aplicar a uma determinada língua e que é


definida por um conjunto de marcas linguísticas próprio de uma comunidade
restrita. A língua varia no tempo (variação diacrónica), no espaço geográfico
(variação diatópica), na sociedade (variação diastrática) e segundo as moda-
lidades expressivas (variação diafásica). Assim, tomando como critério uma
divisão temporal, espacial, social ou estilística, uma língua tem variedades
diacrónicas (épocas da história da língua), variedades diatópicas (dialetos
regionais), variedades diastráticas (sociolinguísticas) e variedades diafásicas
(modalidades de expressão).

Esperança Cardeira 17
Exercícios

A. As correções que encontramos no Appendix Probi são indícios de mudanças


linguísticas no latim vulgar. Por exemplo, a correção anus non anucla mostra
a tendência para o uso do diminutivo (e consequente marca de género) e a
síncope da vogal postónica (anucula > anucla).
Que mudanças lhe sugerem as seguintes correções?
masculus non masclus
tolerabilis non toleravilis
columna non colomna
ansa non asa
persica non pessica
vinea non vinia
B. Nomeie as mudanças fonéticas que se verificam nas seguintes evoluções
[siga o modelo apresentado em (1)]:
(1) solitarium > soltario > soltairo > solteiro
(a) apócope de -m
(b) síncope da vogal átona [i]: sol(i)tariu > soltario
(c) semivocalização ([i] > [j]) e metátese: soltario > soltairo
(d) assimilação ([aj] > [ej]): soltairo > solteiro
(2) maculam > macla > malha
(3) dolorem > dolor > door > dor
(4) rabiam > ravia > raiva
(5) MOLINUM > moĩo > moinho

Esperança Cardeira 19
C. Do étimo conceptum resulta a palavra portuguesa conceito. As principais
mudanças que ocorreram nesse percurso foram a apócope do -m do acusati-
vo, a semivocalização da oclusiva no grupo /pt/ (< [jt]) e a evolução da oclu-
siva /k/, seguida de vogal palatal, para uma africada dental surda /ts/, com
posterior simplificação para a fricativa /s/.
Identifique os principais processos evolutivos das seguintes evoluções:
cĬconiam > cegonha
vĪnum > vinho
apĬculam > abelha
judĪcium > juízo
operam > obra
IACTUM > jeito
D. Consegue descobrir que palavras portuguesas têm origem nos seguintes
étimos?
RECĬPERE
INVĬDIŌSUM
PARTĬARĬUM
FACTĪCĬUM
MANĬŌSUM
SCARABĬCULUM
E. Preencha o seguinte quadro, usando transcrição fonética (siga o modelo da
linha preenchida):

Latim Português antigo Português médio Português moderno


(norma)
PALATIOS [paatsoṣ] [pasoṣ] [pasuʃ]
AVENA-
FACTIONE-
PINARIU-
SPONGIA-

F. Considere as seguintes afirmações e identifique os fenómenos de mudança


linguística a que se referem:

(1) “Que tenhamos grande tento nos vocabulos, em que entre c, s, e z. Porque
a mais da gente, e não soo a vulgar, se engana na scriptura, confundindo estas

20 GRAMÁTICA HISTÓRICA DO PORTUGUÊS EUROPEU


letras, e poendo hũas por outras, sem distinção, sendo ellas differentes, e dis-
tantes na pronunciação, e natureza, assi como o são na figura.”
(Duarte Nunes de Leão).

(2) “E a alguns ouvi, que lhe era tão difficultosa a pronunciação do Ch, que
achando-o escripto, o pronuncião como X; e pelo contrario, aonde achão X, o
pronuncião como Ch.”
(João de Moraes Madureira Feijó).

(3) “(...) he pela difficuldade, que todos experimentão na pronunciação e es-


crevem lampreya, peya, atheya, meya, feya, teya, etc. (...) Porêm a mais recta
pronunciação e Orthographia he com accento circumflexo no E, deste modo:
lamprêa, pêa, alhêa (...).”
(João de Moraes Madureira Feijó).

Esperança Cardeira 21
Textos antigos

1. Comentário de textos
Notícia do Torto (1214-1216)
Este documento, em suporte pergamináceo irregular e imperfeito, consiste
num conjunto de apontamentos ditados a um notário, uma série de queixas
formuladas por um fidalgo minhoto, Lourenço Fernandes da Cunha, contra os
filhos de outro fidalgo, Gonçalo Ramires. O texto teve várias edições; o trecho
abaixo é adaptado de Castro (2006):
D[e] noticia de torto que fecerũ a laurẽcius fernãdiz por plazo qve fece gõ-
cauo ramiriz antre suos filios e lourẽzo ferrnãdiz quale podedes saber (…)
E feze les agudas quales aqui ouirecdes: Super sua aguda fez testiuigo cũ gõ-
cauo cebolano E super sa aiuda ar fui li a casa e filo li quãto que li agou e deu
a illes (…) E in sa aiuda oue mal cũ ramiro fernãdiz que li custov muito auer
muita perda. E in sa aiuda fui iias fezes a coi[m]bra. E in sa aiuda dixe mul[tas]
uices (…) E super sa iud[a] mãdoc lidar seus omes cũ martin iohanes que
quir[i]a desũrar sa irmana (...) Ĩ alia uice ar furũ a feracĩ e prẽderũ iios omes e
gacarũ nos e leuarũ deles quãto que ouerũ. Ĩ otra fice ar prẽderũ otros iios a
se[u] irmano pelagio fernãdiz e iagarũ nos.
[Da notícia do prejuízo que fizeram a Lourenço Fernandes por [causa do] pacto que
fez Gonçalo Ramires entre os seus filhos e Lourenço Fernandes, o qual podeis saber...
E fez-lhes ajudas, as quais aqui ouvireis: em sua ajuda testemunhou com [contra] Gon-
çalo Cebolão. E em sua ajuda foi-lhe a casa e roubou-lhe quanto achou e deu a eles…
E em sua ajuda houve mal com Ramiro Fernandes, que lhe custou muito haver, muita
perda. E em sua ajuda foi duas vezes a Coimbra. E em sua ajuda disse [falou] muitas

Esperança Cardeira 23
vezes…E em sua ajuda mandou lidar [lutar] seus homens com Martim Joanes, que
queria desonrar a sua irmã… Em outra vez foram a Varzim e prenderam dois homens
e chagaram-nos e levaram deles quanto houveram. Em outra vez prenderam outros
dois a seu irmão Pelágio Fernandes e chagaram-nos]

Um dos aspetos mais interessantes deste documento é a variação gráfica, que


aponta para algumas características fonológicas do português antigo:

(a) consoantes surdas/sonoras: não há uma distinção clara entre /f/ e /v/ (fe-
zes ~ uices), nem entre /k/ e /g/ (gacarũ ~ iagarũ) ou /ts/ e /dz/ (laurẽcius ~
1ourẽzo). Esta indistinção permitiu ao copista utilizar para a africada palatal
surda /tʃ/, que ocorre em agou, gacarũ e iagarũ, as mesmas grafias, <g> e <i>,
que usou para representar a africada palatal sonora /dʒ/ em agudas e aiuda; é
esta indistinção, também, que prova o caráter ainda africado da palatal sonora
(que virá a simplificar: /dʒ/ > /ʒ/);
(b) semivogal velar: entre as particularidades gráficas deste texto merece desta-
que a representação da semivogal do ditongo decrescente /ow/. Além das grafias
<ou> ou <ov> (agou, custov), ocorrem <o> e <oc> (otra, mãdoc). Desta oscilação
pode deduzir-se a presença do ditongo, em formas em que a semivogal resultou
da evolução de uma consoante latina, como outro (< ALTERU-). O grafema <c>
foi, aqui, usado para representar a semivogal, possivelmente por influência de
étimos em que esta consoante se tornou semivogal. Ou seja: apesar de, nestas
formas não ter havido semivocalização da consoante latina /k/, o escriba, tendo
conhecimento de outros étimos em que tal semivocalização se deu, entende este
grafema como uma possibilidade gráfica para a representação da nova semivogal.

Testamento de Afonso II, 1214


Trata-se de um documento importante para a história do português e de Por-
tugal, já que é o primeiro documento conhecido escrito em português, pro-
duzido na Chancelaria Régia. Das 13 cópias mandadas fazer, sobreviveram
duas: o manuscrito de Lisboa e o manuscrito de Toledo. Podemos, portanto,
analisar, lado a lado, as duas cópias [vd. o excerto abaixo, adaptado de Castro
(2006)], o que o torna um documento precioso para a análise linguística.
Em primeiro lugar, note-se a variação na ordem das palavras (meu reino e
meus uassalos ~ meus uassalos e meu reino) e na escolha vocabular (facer
guarda[r] ~ faco eu aguardar). Este tipo de variação é bastante frequente em
cópias, principalmente de textos literários, e aponta para um conceito de “có-
pia” muito diverso do atual, com um acentuado grau de liberdade. O confronto
entre as duas versões revela, ainda, outros tipos de variação que, por um lado,
permitem perceber que, perante os novos fonemas da língua, cada copista po-

24 GRAMÁTICA HISTÓRICA DO PORTUGUÊS EUROPEU


dia criar soluções gráficas próprias e, por outro, que a língua medieval apre-
sentava, como em todas as épocas, variação e mudança.

Ms. de Lisboa Ms. de Toledo


En’o nome de Deus. Eu rei don Afonso En’o nome de Deus. Eu rei don Afonso
pela gracia de Deus rei de Portugal, pela gracia de Deus rei de Portugal,
seendo sano e saluo, temẽte o dia de seendo sano e saluo, temente o dia de
mia morte, a saude de mia alma e a mia morte, a saude de mia alma e a
proe de mia molier raina dona Orra- proe de mia molier reina dona Vrraca
ca e de meus filios e de meus uassa- e de meus filios e de meus uassalos e
los e de todo meu reino fiz mia mãda de todo meu reino fiz mia mãda per
per que depos mia morte mia molier depois mia morte mia molier e meus
e meus filios e meu reino e meus filios e meus uassalos e meu reino
uassalos e todas aquelas cousas que e todas aquelas cousas que Deus mi
Deus mi deu en poder sten en paz e deu en poder sten en paz e en folgã-
en folgãcia. Primeiramente mãdo que cia. Primeiramente mãdo que meu
meu filio infante don Sancho que ei filio Ifante don Sãcio que ei da reina
da raina dona Orraca agia meu reino dona Vrraca aia meu reino enteira-
entegramente e en paz (…) E ssi no mente e en paz. (…) E sse no tẽpo
tẽpo de mia morte meu filio ou mia fi- de mia morte meu filio ou mia filia
lia que deuier a reinar nõ ouuer reuo- que deuier a reinar nũ ouuer reuora,
ra, segia en poder da raina sa madre seia en poder da reina sua madre e
e meu reino segia en poder da raina e meu reino seia en poder da reina e de
de meus uassalos (…) meus uassalos (…)
E mandei fazer treze cartas cũ aques- E mãdei fazer treze cartas cũ aques-
ta tal una come outra, que per elas ta tal una como a outra que per elas
toda mia mãda segia conprida, das toda mia mãda seia conprida, das
quaes ten una o arcebispo de Bragaa, quaes ten una o arcebispo de Bragaa,
a outra o arcebispo de Santiago, a ter- a outra o arcebispo de Santiago, a ter-
ceira o arcebispo de Toledo, a quarta ceira o arcebispo de Toledo, a quarta
o bispo do Portu, a quinta o de Lixbo- o bispo do Porto, a quinta o de Lisbo-
na, a sexta o de Coĩbria, a septima o na, a sexta o de Coĩbra, a septima o
d’Euora, a octaua o de Uiseu, a nou- d’Euora, a octaua o de Uiseu, a nona
ea o maestre do Tẽplo, a dezima o o maestre do Tẽplo, a decima o prior
prior do Espital, a undezima o prior do Espital, a ũdecima o prior de San-
de Santa Cruz, a duodecima o abade ta †, a duodecima o abade d’Alcoba-
d’Alcobaza, a tercia dezima facer cia, a tercia decima faco eu aguardar
guarda[r] en mia reposte. en mia reposte.

(a) variantes gráficas: agia ~ aia; segia ~ seia; Sancho ~ Sãcio; dezima, undezi-
ma, Alcobaza ~ decima, ũdecima, Alcobacia. Estes exemplos mostram diferentes
escolhas gráficas: <gi> ou <i>, para a representação da palatal sonora /ʒ/ (já
fricativa ou ainda africada /dʒ/); <ch> e <ci> para a africada palatal surda /tʃ/;
<z>, <c> e <ci> para a africada pré-dorsodental surda /ts/. Note-se que apesar
da natural oscilação na representação dos novos fonemas, cada um dos copis-
tas aparenta ter as suas próprias escolhas. Uma variação gráfica interessante é
a que encontramos em entegramente ~ enteiramente: se a grafia do manuscrito

Esperança Cardeira 25
de Lisboa pode ser interpretada como influência da grafia latina, já a forma do
manuscrito de Toledo não deixa dúvidas quanto à presença do ditongo;
(b) variantes linguisticamente relevantes: raina ~ reina, depos ~ depois, sa ma-
dre ~ sua madre, Portu ~ Porto, Coĩbria ~ Coĩbra são variantes que revelam
estados evolutivos diferentes. Em raina encontramos já dissimilação (regina- >
[reĩa] > [raĩa]; depois apresenta um ditongo; sua madre mostra, já, uma prefe-
rência pela forma tónica do possessivo, mesmo em contexto enclítico; a grafia
de Portu aponta para uma possível elevação da vogal átona final; em Coĩbra
assistimos à eliminação da semivogal resultante da regular evolução do étimo
(coninbriga > coĩbria > coĩbr[j]a > coimbra).

Poesia trovadoresca
O projeto Cantigas Medievais Galego-Portuguesas, do Instituto de Estudos Me-
dievais da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de
Lisboa (https://bit.ly/3iAhuCY) disponibiliza uma base de dados com a tota-
lidade das cantigas medievais presentes nos cancioneiros galego-portugueses
(com as respetivas imagens dos manuscritos); inclui, ainda, versões musicais
e informação sobre autores, personagens e lugares referidos nas cantigas. O
trecho abaixo (reproduzido de https://bit.ly/3gcaj2e) é do trovador Paio Soa-
res de Taveirós, e é datável da primeira metade do século XIII:
No mundo nom me sei parelh’
mentre me for como me vai,
ca já moiro por vós e ai,
mia senhor branc’e vermelha!
queredes que vos retraia
quando vos eu vi em saia?
Mao dia me levantei
que vos entom nom vi fea!
Destacam-se os seguintes traços característicos do português antigo:
(a) a terminação -om (nom, entom), ainda correspondente às terminações
latinas (NON > nõ, INTUNC > entõ), que virá a ditongar no português
médio (não, então);
(b) em mia senhor, veja-se a forma do possessivo, que pode ser interpreta-
da como átona ([mja], com assimilação [ma]), ou tónica ([mĩa], que de-
senvolverá, posteriormente, uma consoante palatal [miɲa]). Além disso,
note-se que senhor ainda não tinha adquirido a forma feminina senhora;
(c) a presença de um -d- intervocálico na forma verbal de 2ª pessoa do
plural (queredes), que irá sincopar, dando origem a um processo de
ditongação, na primeira metade do século XV;

26 GRAMÁTICA HISTÓRICA DO PORTUGUÊS EUROPEU


(d) o hiato em fea, que será eliminado através da inserção de uma semivo-
gal (FOEDA > fea > feia);

2. Os textos como testemunho de mudança linguística


A análise grafemática das fontes escritas permite atestar (e datar, com maior
ou menor precisão) algumas mudanças linguísticas. Seguem alguns exemplos:

(a) Sobre o sistema de sibilantes


Texto 1
Nenhuu ome nõ seya ousado de casar cõ sa parenta nem cõ sa conhada
ata o grao que manda a Sancta Eygreya nem de iazer com ella. E quem con-
tra isto o fezer que o sabia nom ualha o casamento. Qvalquer omem que
per força ou per prazer cõ molher d’ordem casar, ella seya tornada a sseu
moesterio cõ gran peendença, e el seya deytado da terra por senpre.
(in Foro Real, finais do século XIII, adaptado de Azevedo Ferreira, 1987).

Neste texto encontramos as seguintes grafias para as sibilantes:


(i) apical surda representada por <s> inicial, como em seya (< SEDEAT)
ou antes de consoante, como em moesterio (< MONASTERIU-);
(ii) apical sonora representada por <s> simples em contexto intervocáli-
co, como em ousado (de ousar < *AUSARE) e casar (de casa > CASA-);
(iii) africada dental surda representada por <ç>, como em força (< FOR-
TIA-) ou peendença (< PENITENTIA-);
(iv) africada dental sonora representada por <z> como em iazer (< IACE-
RE) ou prazer (< PLACERE).
Ou seja, o grafema <s> é reservado para as sibilantes apicais, enquanto os gra-
femas <ç> e <z> são utilizados para as dentais. Desta distinção gráfica pode-
mos deduzir que o sistema de sibilantes ainda comportava quatro elementos
diferentes, com oposição entre africadas dentais e fricativas apicais.
Comparemos estes dados com os do seguinte texto, de 1350:
Texto 2
Sabhã todos como na era de Mill e tresentos e oitẽenta e oyto anos des e
sete días de Setẽbro presente mj ̃ Gonçalo Lourenço tabalion dEl rej na dita
vila e as testemunhas adeante scritas Apariço Dominguiz vesinho e mora-
dor em Monçõ por si e por toda sa uos pera senpre deu en doaçõ (…) E logo
ffes joramẽto (…) e outorgou de nũca hir contra esto per si nẽ per outren

Esperança Cardeira 27
en joyso nen ffora del e se contra esto fosse que de pena lhj peytase ao dito
Stevam Gonçallvez dosentos maravedis (…)
(adaptado de Ana Maria Martins, Documentos portugueses do
Noroeste e da região de Lisboa, 2001, Lisboa: INCM).

Neste texto encontramos várias formas em que o grafema <s> não correspon-
de a uma sibilante apical, mas a uma sibilante dental: em tresentos (< TRE-
CENTOS), des (< DECE-), vesinho (< VICINU-), uos (< VOCE-), ffes (< FECIT),
joyso (< IUDICIU-) e dosentos (< DUCENTOS) esperaríamos encontrar <z>, o
grafema típico da sibilante dental sonora. É provável, portanto, que esta in-
distinção gráfica corresponda a uma indistinção fonética e que o sistema de
sibilantes estivesse, já, a sofrer simplificação.

(b) Sobre a convergência das terminações nasais no ditongo -ão


Texto 3
Padres, fillos, netos, jrmaaos, sobrinhos, primos, fillos de yrmão ou primos
de padre ou de madre nõ seyam estes testimonhas contra nenhũus estra-
nhos, ergo se for alguu preito que seya antre parentes e parentes de igual-
deza. Outro ssy nõ testimoyar possã contra outro que aya parte na demãda
nen nẽhũu que nõ aja XVI anos conpridos nen omẽ que matou outro a torto
nẽ trahedor nẽ falso nẽ aleyuoso nẽ escomungado nen seruo nen ladrõ.
(in Foro Real, finais do século XIII, adaptado de Azevedo Ferreira, 1987).

Nas formas acima assinaladas, a terminação gráfica corresponde, sistemati-


camente, à terminação etimológica: <ão> a -ANU (yrmão), <õ> a -ONE (ladrõ)
ou, em nõ, ao étimo NON, e <ã, am> a -ANT (seyam, possã). Este texto não apre-
senta, portanto, nenhuma evidência de convergência das terminações no di-
tongo final -ão, nem quaisquer indícios de confusão entre essas terminações.
Vejamos um documento mais tardio, de 1417:
Texto 4
Dom Joham pela graça de Deus Rej de Portugal a uos juizes de montemoor
o nouo saude sabede que dante os nossos sobrejuizes veeo hũu fejto por
agrauo o qual a elles fora per apellaçam damte os juizes da cidade de Li-
xboa o qual era amtre Joham Afonso e Pero Anes. Mostrando o dito Joham
Afonso hũa nosa carta em a qual era contheudo que a Vniversidade e scol-
lares do studo stam em posse da igreja de Samtiago per vertude de proui-
som e confirmaçom (…) e que seguiriõ sua appelaçõ perante Lopo Domin-
guez tabeliam da cidade (… ) e que se temjam de procederem contra eles a
sentenças de excomunham ou de privaçõ ou sospensam (…)
(adaptado de António Gomes da Rocha Madahil, Livro Verde da Universidade de Coimbra,
1940, Coimbra: Publicações do Arquivo e Museu de Arte da Universidade de Coimbra).

28 GRAMÁTICA HISTÓRICA DO PORTUGUÊS EUROPEU


Neste texto continuamos a encontrar a terminação <õ, om> em correspon-
dência com a terminação etimológica -ONE (prouisom, confirmaçom, appela-
çõ, privaçõ), bem como <am> a corresponder à terminação latina da flexão
verbal, -ANT (temjam). Ocorrem, por outro lado, formas em que a terminação
não tem correspondência etimológica: esperar-se-ia encontrar a forma tabe-
liom (< TABELLIONE-), e não tabeliam; também excomunham e sospensam
surpreendem, já que a sua terminação etimológica é -ONE. Na mesma linha
devemos analisar a forma do condicional seguiriõ, cuja terminação etimológi-
ca é -ANT. Tudo aponta, portanto, para uma convergência destas terminações
no ditongo -ão ou, pelo menos, para uma indistinção entre terminações, que
estariam a ser realizadas do mesmo modo, independentemente da sua etimo-
logia. Se dúvidas restassem, bastaria observar a variação gráfica em apella-
çam ~ appelaçõ.

Exercício
Procure, nos textos 1, 2, 3 e 4, características do português antigo. Sugestões:
(i) grafias para a palatal /dʒ/ (ou /ʒ/);
(ii) hiatos (e sua posterior resolução);
(iii) formas da 2ª pessoa do plural com -d- intervocálico;
(iv) particípios passados terminados em -udo;
(v) formas átonas no sistema de possessivos;
(vi) sistema de demonstrativos;
(vii) léxico que caiu em desuso.

Esperança Cardeira 29
Esta obra fará muito em poucas páginas: iluminar um debate no qual sobra
paixão e, por vezes, faltam fundamentação e disposição para o diálogo. A
Gramática histórica do português europeu abrirá a possibilidade de muitas
novas e mais fecundas pesquisas tanto no Brasil quanto em Portugal.
Entre os séculos III a.C. e I d.C., constituiu-se o Império Romano do Ociden-
te, em que se integrou a Península Ibérica. Em virtude dessa romanização,
os habitantes do império adquiriram o latim vulgar. É dele que derivam as
línguas românicas, não do latim literário. A palavra ‘latim’ evoca, nos nos-
sos dias, uma imagem extremamente homogénea, elaborada, sujeita a re-
gras muito fixas, uma língua morta. O latim vulgar era uma língua viva, fala-
da ao longo de séculos, em espaços geográficos diversificados e por povos
variados, por diferentes camadas socioculturais e em diferentes situações.
Em sua Gramática histórica do português europeu, Esperança Cardeira
descortina o sistema linguístico que ocupa toda a faixa ocidental da Penín-
sula Ibérica, traduzido em duas línguas nacionais, a galega e a portuguesa,
com concentração no português. Galego e português apresentam carac-
terísticas diversas, resultado de diferentes evoluções do mesmo romance
de base, o antigo romance do noroeste. É na diversidade da qual advém
o português europeu descrito historicamente nesta Gramática (fonética e
fonologia; morfossintaxe; léxico, ortografia) que encontraremos o neces-
sário ponto histórico de partida para poder pensar – em nossos cursos de
Letras/Linguística e de formação de professores – os pontos de contato e
de diferença entre o português europeu e o português brasileiro.

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