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Livro Geografia e Areas Protegidas

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Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)

(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

Áreas protegidas [livro eletrônico] : experiências


de pesquisa e extensão no Sul do Brasil /
Orlando Ferretti, organizador. -- 1. ed. --
Florianópolis, SC : Edições do Bosque/CFH/UFSC,
2020. -- (Sociedade e meio ambiente ; 1)
PDF

Vários autores.
ISBN 978-65-991949-0-0

1. Áreas protegidas - Brasil, Sul


2. Biodiversidade - Brasil, Sul 3. Meio ambiente -
Conservação - Brasil, Sul 4. Sustentabilidade
ambiental I. Ferretti, Orlando. II. Série.

20-41907 CDD-333.7209816
Índices para catálogo sistemático:

1. Brasil, Sul : Áreas protegidas : Pesquisa :


Meio ambiente : Preservação e conservação
333.7209816

Cibele Maria Dias - Bibliotecária - CRB-8/9427


Apresentação

Já o pesquisador Washington Luiz dos Santos Ferreira busca apre-


sentar as Estratégias Alternativas para a Gestão de Unidades de
Conservação: Estudo de Caso do Parque Nacional da Lagoa do
Peixe, RS. Tema que Júlio Cesar da Silva Stelmach e Márcia dos San-
tos Ramos Berreta também dialogam com o artigo A Trajetória dos
Gestores Ambientais em Unidades de Conservação Estaduais.
Washington Luiz dos Santos Ferreira volta a temática, mas dialogan-
do sobre sustentabilidade e conservação da biodiversidade no texto
Conflitos Socioambientais entre Áreas Protegidas e Atividade
Pesqueira no “Albardão”, Extremo Sul do Brasil.
E por fim, o texto de Samir Alexandre Rocha Parque Munici-
pal Morro do Finder, a Paisagem e suas Imbricações: um Estu-
do Pautado na Geografia Humanista, dialoga com a percepção da
paisagem em um fragmento de habitat inserido na paisagem urbana.
Que a leitura deste livro possa ajudar a pensar novas possibili-
dades de áreas protegidas e na sustentabilidade de fato do ambiente,
mesmo que, os tempos sejam difíceis é preciso perseverar, fazer pes-
quisa, atuar, ir de encontro a realidade.
Boa leitura.

Orlando Ferretti, escrevendo em meio a área urbana da


Ilha de Santa Catarina, mas olhando ao longe o verde
do fragmento de habitat ainda presente.

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Caminhos trilhados na concepção, criação e implementação de uma unidade de...

como prioritárias à conservação em função das pressões a que estes


ecossistemas estão continuamente sujeitos.
Segundo dados da Fundação Zoobotânica, o Rio Grande
do Sul possuía originalmente 20% de seu território formado
por zonas úmidas. Atualmente, o Estado mantém 11,3%, quase
a metade de sua formação original (cerca de 600 mil hectares),
ainda conservados. Sabemos que a importância dessas áreas refere-
se à regulação dos ciclos das águas (inundações e períodos mais
secos); abastecimentos de mananciais; manutenção da qualidade
das águas (filtro natural); controle do excesso de nutrientes,
retenção de sedimentos; regulação do clima, fixação de carbono
atmosférico, regulação dos ciclos químicos; manutenção da
diversidade biológica: habitat de plantas e animais, presença de
espécies raras, ameaçadas e endêmicas. Sabemos ainda que os
principais impactos relacionados a esses ambientes encontram-se
na drenagem com finalidade de ocupação sem controle; deposição
de resíduos sólidos e líquidos, lixo e efluentes; aterramento para
fins de urbanização; assoreamento proveniente de processos
de erosão de áreas contíguas; remoção de flora e fauna nativas;
introdução de espécies exóticas, entre outras.
No município do Rio Grande, essa realidade não é diferente.
A Lagoa Verde e os arroios do Bolaxa e Senandes e o canal São
Simão representam uma das últimas áreas de banhados e marismas
preservados dentro da zona urbana. Fazendo parte do estuário
da Lagoa dos Patos, a Lagoa Verde é circundada por antigas
dunas, banhados e matas de restinga. Abriga em seu conjunto
ecossistêmico uma comunidade silvestre bastante variada,
incluindo espécies ameaçadas de extinção, como a preá (Cavia
magna), a noivinha-do-rabo-preto (Xolmis dominicanus) e o butiá
(butia capitata). Por receber influência de água salgada, o sistema
Lagoa Verde-Arroios se constitui em um criadouro natural de
várias espécies de aves, peixes e crustáceos (Figura 1 e Figura 2 -
Flora da APA da Lagoa Verde).

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Áreas Protegidas: Experiências de pesquisa e extensão no Sul do Brasil.

Figura 1 - Fauna da APA da Lagoa Verde

Fonte: Arquivo NEMA

A Área de Proteção Ambiental [APA] da Lagoa Verde, aqui


apresentada, está localizada no município costeiro do Rio Grande,
no Estado do Rio Grande do Sul, é formada pela Lagoa Verde,
Arroio Bolaxa, Arroio Senandes e Canal São Simão. A unidade
é constituída de propriedades privadas e públicas e está situada
na zona urbana do município, representando, portanto, uma pe-
quena mancha de conservação, cercada de usos e pressões diver-
sas. Faz parte do complexo sistema estuarino da Lagoa dos Patos,

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Caminhos trilhados na concepção, criação e implementação de uma unidade de...

Figura 2 - Flora da APA da Lagoa Verde

Fonte: Arquivo NEMA

compondo-se de diferentes ecossistemas, como: marismas, campos


litorâneos, banhados, dunas interiores e matas de restinga. Esses
ambientes são de grande importância para o ambiente costeiro em
que se encontram, além de proporcionarem inúmeros benefícios
para a sociedade.
Na unidade, são encontradas condições ecológicas variadas, fa-
vorecendo a ocorrência de inúmeras espécies que usam os ecossis-
temas para reprodução, alimentação, crescimento, repouso, nidifi-

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Áreas Protegidas: Experiências de pesquisa e extensão no Sul do Brasil.

cação e hibernação. A dinâmica de águas doce e salgada favorece


também a presença de espécies marinhas, que adentram o estuário
em certas fases da vida. A água salgada resulta da ligação da Lagoa
Verde ao Saco da Mangueira, através do Canal São Simão. Por
outro lado, os Arroios Bolaxa e Senandes, originados pela união
de diversos banhados presentes nos cordões litorâneos, são respon-
sáveis pela drenagem de água doce carregada de nutrientes para a
Lagoa Verde, tornando-a assim um ambiente rico em processos e
funções. Dessa maneira, um dos principais desafios da unidade é
conciliar a conservação de seus relevantes recursos naturais com o
desenvolvimento da região.

Área de Proteção Ambiental - APA

As APAs são Unidades de Conservação [UC] que visam a, ao


mesmo tempo, conservar uma área do ponto de vista ecológico,
garantir a qualidade de vida para sua população e promover o de-
senvolvimento através do uso sustentável dos recursos naturais e do
ordenamento do solo (GUARYASSU, 2003; CÔRTE, 1997).
A APA da Lagoa Verde é integrante do Sistema Nacional
de Unidades de Conservação [SNUC] (SNUC, 2000) e consta
no Cadastro Nacional de Unidades de Conservação [CNUC],
onde são encontradas diversas informações sobre tais áreas juridi-
camente tuteladas. Em março de 2018, após vistorias realizadas
in loco pelo corpo técnico da Secretaria Estadual do Meio Am-
biente (SEMA), finalmente foi cadastrada no Sistema Estadual
de Unidades de Conservação (SEUC). Isso trará benefícios em
termos de implementação das ações uma vez que permitirá que
parte dos recursos de compensações ambientais sejam alocados
na APA da Lagoa Verde. É fundamental deixar claro que os ob-
jetivos de uma APA não são somente restritivos e, sim, que a
criação dessa categoria intenta o desenvolvimento de um proces-
so de planejamento territorial, já que falamos de uma categoria

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Caminhos trilhados na concepção, criação e implementação de uma unidade de...

(única) que pretende, ao mesmo tempo, conservar a diversidade


ecológica e promover o uso direto e sustentável dos seus recursos,
assegurando a importância ecológica e social da área, bem como
seu desenvolvimento econômico sustentável.
O processo de gestão de uma APA não é apenas um ajuste do
método tradicional de gestão de Unidades de Conservação, sendo
necessário um novo paradigma de planejamento e gestão, com alto
grau de participação e integração entre os diferentes atores da so-
ciedade civil e do poder público, sincronizando as necessidades de
conservação com as necessidades das comunidades locais, ou seja,
promovendo a sua sustentabilidade.
O físico Fritjof Capra (2002) mostra que sustentabilidade
é a consequência de um complexo padrão de organização que
apresenta cinco características básicas: interdependência, recicla-
gem, parceria, flexibilidade e diversidade. Ele sugere que, se estas
características, encontradas em ecossistemas, forem “aplicadas” às
sociedades humanas, essas sociedades também poderão alcançar
a sustentabilidade. Portanto, segundo a visão de Capra, a sus-
tentabilidade não se refere apenas ao tipo de interação humana
com o mundo que preserva ou conserva o meio ambiente para
não comprometer os recursos naturais das gerações futuras, nem
visa unicamente à manutenção prolongada de entes ou processos
econômicos, sociais, culturais, políticos, institucionais ou físico-
-territoriais. Ela é, sim, uma função complexa, que combina de
uma maneira particular cinco variáveis de estado relacionadas às
características acima.
A APA é um laboratório vivo de melhoria, modernização,
inovação no jeito de morar, produzir e trabalhar. Cada grupo da
sociedade tem a capacidade de fazer uma análise da forma como o
seu viver altera o ambiente, gerando resíduos, lançando poluição
nos corpos d´água, desmatando etc.
As APAS são, portanto, a experiência primeira, mais próxima,
desses ambientes legalmente protegidos com a sociedade; são áreas

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Áreas Protegidas: Experiências de pesquisa e extensão no Sul do Brasil.

especiais tuteladas e onde é permitida a manutenção de fatores


antrópicos como, por exemplo, uso e ocupação do solo, desde que
os mesmos sejam compatíveis com a conservação e preservação de
seus atributos naturais, buscando-se um modo de vida e produção
voltado à sustentabilidade ecossistêmica.

O NEMA e a Concepção Criação e Implementação da APA


da Lagoa Verde

Para a constituição da APA da Lagoa Verde pela Lei


Municipal nº 6084 de 22 de abril de 2005, foi necessário um
extenso processo, iniciado a partir de 1991, quando o Núcleo
de Educação e Monitoramento Ambiental [NEMA] chamou
a atenção para os impactos ambientais visualizados na área de
abrangência da área. Nos anos seguintes, a mesma instituição
executou diversos estudos na região que apontavam para a
necessidade de preservação do ecossistema, em função de sua
diversidade biológica (NEMA). Anos mais tarde, após longo
esforço do NEMA e de diferentes instituições, entre elas as que
representam o colegiado do Conselho Municipal de Defesa do
Meio Ambiente [COMDEMA], em 2011 foi encaminhado
o Anteprojeto de Lei de criação da APA, submetido à Câmara
Municipal de Vereadores, abrangendo inicialmente uma área de
cerca de 3.500 hectares - ha. No entanto, devido à delonga do
processo, a proposta de área da APA foi reduzida de 3.500 ha
para 510 ha, facilitando sua aprovação junto ao legislativo em
2005 (Figura 3 - Mapa da APA da Lagoa Verde).
Ao longo dos seus 35 anos de atuação, principalmente na região
costeira do Rio Grande do Sul, o NEMA vem trabalhando através
de projetos continuados apoiados em ações de educação ambiental,
monitoramento, pesquisa e conservação do meio ambiente, buscando
subsídios para uma gestão ambiental qualificada e eficiente. O Proje-
to Lagoa Verde é um dos eixos trabalhados no NEMA, envolvendo

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Caminhos trilhados na concepção, criação e implementação de uma unidade de...

Figura 3 - Mapa da APA da Lagoa Verde

Fonte: Arquivo NEMA

ações para a criação, implementação e gestão da APA da Lagoa Verde.


O primeiro projeto executado na área pela instituição foi denomina-
do “Áreas de Interesse Ambiental” (Projeto AIAs), realizado com o
apoio da Fundação O Boticário de Proteção À Natureza e que teve
continuidade em 1996, através do Projeto “Caracterização Ambien-
tal do Sistema Arroio-Lagoa do Bolaxa: uma futura área de preser-
vação ambiental”, o qual contou com apoio do Fundo Nacional de

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Áreas Protegidas: Experiências de pesquisa e extensão no Sul do Brasil.

Meio Ambiente [FNMA]. No escopo desses Projetos, foi realizado um


programa de monitoramento da qualidade ambiental desse sistema e
elaborado um programa de Educação Ambiental para a comunidade
local, consistindo principalmente na participação da população em
debates e conversas informais, realizando-se entrevistas para a identifi-
cação e compatibilização das atividades produtivas, através de sua or-
ganização e da conservação dos banhados, arroios e mata de restinga,
visando à criação de uma área de preservação ambiental.
Em 2002, a Secretaria Especial do Cassino firmou um convênio
com o NEMA para a gestão de uma área pública localizada às mar-
gens do Arroio Bolaxa. Através de monitoramento do meio natural e
das atividades antrópicas, avaliou-se o potencial do local e os possíveis
usos sustentáveis, elegendo-se a realização de práticas socioambientais,
culturais e educativas, bem como o ecoturismo de cunho contempla-
tivo como as mais adequadas ao local. Foi produzido um Programa
de Necessidades para suprir a área com a estrutura necessária para o
desenvolvimento de tais atividades, que depende, até os dias atuais, de
captação de recursos para ser implementado. A população continua a
utilizar a área, mas, com a pequena capacidade de gestão atual, torna-
-se difícil garantir a compatibilização dos usos com a conservação das
áreas de preservação permanente e outros ecossistemas de relevância
ambiental dentro da área. Em 2008, o NEMA aprovou o “Projeto
APA da Lagoa Verde: educação ambiental e recuperação da mata ciliar
dos arroios Bolaxa, Senandes e Vieira”. Esse projeto contou com o
apoio do Conselho Federal dos Direitos Difusos e Ministério da Justi-
ça [CFDD/MJ] e realizou o plantio de 2.000 mudas nativas na recu-
peração do sistema de mata ciliar. Resultou, também, na elaboração da
Agenda Ambiental da APA da Lagoa Verde, desenvolvida juntamente
com a comunidade e escolas.
O NEMA também acompanhou o processo de criação do
Plano de Manejo da APA, executado através do Edital Convite n°
013/2009, publicado em 2011 e instituído em 2012 pelo Decreto
n°11.899. Em 2011 foi criado o Parque Urbano do Bolaxa [PUB],

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Caminhos trilhados na concepção, criação e implementação de uma unidade de...

pelo Decreto n° 11.110, para fins de conservação, educação ambien-


tal e lazer. O PUB é integrado à APA da Lagoa Verde e sua imple-
mentação efetiva ocorreu a partir de 2015, com a reinauguração do
local através de um evento organizado pela SMMA em parceria com
o NEMA e diferentes artistas locais, com a execução de atividades
culturais e de Educação Ambiental.
Em 2015, o NEMA volta a realizar, com o apoio do Fundo
Municipal do Meio Ambiente [FMMA], o “Projeto APA da Lagoa
Verde: Educação Ambiental no processo de Gestão Ambiental”. O
Projeto objetivou desenvolver ações voltadas à informação, comuni-
cação e Educação Ambiental na área da APA, de forma a contribuir
para que a mesma cumpra sua função de conservar a diversidade de
ambientes, de espécies e de seus processos naturais pela adequação
das atividades humanas às características ambientais da área, poten-
ciais e limites. Foi realizada a sinalização de toda a área da APA e
dos corpos hídricos que o integram, indicando seus acessos públicos
e seus limites, bem como as condutas que devem ser seguidas em
sua área de abrangência. Outra ação fundamental desse Projeto foi a
criação do Conselho Gestor da APA, constituído por representantes
do poder público e sociedade civil identificados em um processo de
formação consistente na participação ativa de todos os setores sociais
envolvidos na gestão da APA, buscando dar sustento ao desenvolvi-
mento de uma gestão compartilhada e participativa nesse território
especial. Também com recursos do FMMA, em 2016 foi executado
o “Projeto APA da Lagoa Verde: Valorizando o local onde vivemos”.
Foram realizadas ações de EA com as 5 escolas presentes na área da
APA e seu entorno próximo, provendo a capacitação em EA para
os professores e funcionários das escolas e a realização de oficinas e
saídas de campo com os estudantes (Figura 4).
Todas essas ações, cumpre destacar, representam uma efetiva ges-
tão compartilhada e participativa da nossa APA e implementam al-
gumas das exigências da SEMA para o seu reconhecimento enquanto
Unidade de Conservação e seu consequente cadastramento no SEUC.

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Áreas Protegidas: Experiências de pesquisa e extensão no Sul do Brasil.

Figura 4 - Atividades do Projeto “Valorizando o local onde vivemos”

Fonte: Arquivo NEMA

O Conselho Gestor

Uma ação fundamental do Projeto APA da Lagoa Verde: Edu-


cação Ambiental no processo de Gestão Ambiental em 2015 foi
a criação do Conselho Gestor [CG] da APA. Para sua formação,
foram realizadas cinco oficinas, com duração de 4 horas cada. Bus-
cou-se nas oficinas sensibilizar as pessoas, motivá-las a estarem

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Caminhos trilhados na concepção, criação e implementação de uma unidade de...

abertas para compreender novos conceitos, participar do processo


de gestão e formas de atuação do CG na busca da sustentabilidade
da Unidade de Conservação. Nesse contexto, a EA aparece como
potente desencadeadora da transformação, do desenvolvimento
do pensar crítico, do estabelecimento de novas relações entre a
sociedade e a natureza, da ressignificação do território, ambien-
tes e comunidades que buscam uma vida de qualidade com pro-
postas de bem viver como comunidades aprendentes, conforme
Brandão (2005). As oficinas seguiram a metodologia das Árvores,
descrita em Crivellaro et al., 2001 (Figura 5 - Árvore conflito de-

Figura 5 - Árvore conflito desenvolvida durante atividades de formação do Con-


selho Gestor

Fonte: Arquivo NEMA

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Áreas Protegidas: Experiências de pesquisa e extensão no Sul do Brasil.

senvolvida durante atividades de formação do Conselho Gestor


Fonte: Arquivo NEMA e Figura 6). Essa consiste em um exercício
que ajuda a organizar as ideias e definir prioridades por meio das
árvores-conflito e solução.
Os resultados foram discutidos em uma oficina de integração, na
qual foram identificados os potenciais conselheiros. Foi evidenciada
a necessidade de promover estratégias de diálogo; da busca por ino-
vações tecnológicas e pedagógicas; a criação de espaços de vivência e
convivência; a integração dos potenciais poluidores; a realização de
palestras e reuniões locais; o desenvolvimento de múltiplas linguagens;
a divulgação nas mídias com informações sobre a área; a identificação

Figura 6 - Árvore solução desenvolvida durante atividades de formação do Con-


selho Gestor.

Fonte: Arquivo NEMA

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Caminhos trilhados na concepção, criação e implementação de uma unidade de...

de habilidades; a mobilização das escolas e da comunidade e a realiza-


ção de um diagnóstico com o perfil dos moradores e seus interesses.
A eleição dos membros do CG foi realizada por meio de Audiência
Pública, onde restaram eleitos, de forma paritária, representantes da
sociedade civil/comunidade e do Poder Público para ocuparem as ca-
deiras do CG, ao qual foi dado caráter consultivo e deliberativo (Figu-
ra 7 - Oficina de formação do Conselho Gestor). Desde então e com
o órgão gestor da APA – Secretaria de Município de Meio Ambiente
[SMMA] – ocupando sua presidência, o CG estabeleceu seu regimen-
to interno, sistematizou as suas reuniões periódicas e tem aprovado o
seu plano anual de trabalho, no qual estão estabelecidas e organizadas
as ações prioritárias. Com a formação e atuação do CG, foi criado
também o espaço para um trabalho coletivo, de criar uma experiência
de valorização do que é nosso, do nosso patrimônio cultural e natural,
cuidando e zelando por este berçário de vida, uma parte importante
da nossa identidade, das histórias de vida.

As ações de Educação Ambiental - EA

A Educação Ambiental tem por principal riqueza ser um campo


aberto, em permanente construção. Assim, orientada por princípios
ecológicos e valores éticos calcados numa mudança de paradigmas,
a Educação Ambiental é fortalecida por práticas e reflexões nos mais
diversos meios sociais e campos do saber. A perspectiva é a da mudan-
ça de atitudes, estilos de vida, procurando o reconhecimento de que
somos sujeitos críticos e transformadores da complexa teia que é a re-
alidade, e que, ao transformar essa teia, transformamos a nós mesmos.
Apoiados na abordagem de uma Educação Ambiental crítica
e emancipatória, tomamos por referência o Tratado de Educação
Ambiental para Sociedades Sustentáveis e Responsabilidade Global,
documento orientador para educadores ambientais de todo o mun-
do. Tanto que é a base teórica da Política Nacional de Educação
Ambiental (Lei 9.795/99), reconhecendo-a como “os processos por

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Áreas Protegidas: Experiências de pesquisa e extensão no Sul do Brasil.

Figura 7 - Oficina de formação do Conselho Gestor

Fonte: Arquivo NEMA

meio dos quais o indivíduo e a coletividade constroem valores so-


ciais, conhecimentos, habilidade, atitudes e competências voltadas
para a conservação do meio ambiente, bem de uso comum do povo,
essencial à sadia qualidade de vida e sua sustentabilidade”.
Construído a centenas de mãos e concluído no Fórum Global
da Sociedade Civil, evento paralelo à Conferência sobre Meio Am-
biente e Desenvolvimento das Nações Unidas (RIO-92, 1992), o
Tratado concebe os pressupostos básicos para um novo paradigma
no planeta, apresentando as dimensões para a construção da susten-
tabilidade: ecológica, econômica, social, cultural, ética e pedagógica.
Ele estimula uma reflexão sobre a responsabilidade de todos os atores
com a capacidade de suporte do planeta, o que afeta diretamente a

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Caminhos trilhados na concepção, criação e implementação de uma unidade de...

totalidade da espécie humana, não importando raça, credo, condi-


ção financeira e posição social. Com essa perspectiva, a Educação
Ambiental é uma ferramenta potente no envolvimento das comu-
nidades na gestão de seus territórios, no reconhecimento de suas
necessidades e na afirmação de seus saberes (LOUREIRO, 2003).
As palestras são formas sensibilizadoras de envolver as pessoas
nas questões ambientais. Os recursos de imagens e vídeos, aliados a

Figura 8 - Atividades de Educação Ambiental

Fonte: Arquivo NEMA

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Áreas Protegidas: Experiências de pesquisa e extensão no Sul do Brasil.

um trabalho de percepção de si, provocam e motivam a participação,


uma vez que permitem a reflexão sobre o ambiente em que vivem,
sua biodiversidade, seus conflitos e possíveis soluções (Figura 8 - Ati-
vidades de Educação Ambiental).
Como resultado positivo, verificou-se o envolvimento total das
crianças e dos professores, na medida em que realizaram a conexão
entre a sua realidade e as informações obtidas. Essa conexão deu-se por
meio das interações realizadas durante a atividade com perguntas, na
produção de desenhos, narrativas de histórias e saídas de campo. Per-
cebeu-se a possibilidade de continuidade desse tema por meio de uma
abordagem em todas as áreas do conhecimento. Atendemos à imple-
mentação da Política Pública Nacional de Educação Ambiental através
de ações que promovem os princípios básicos da educação ambiental
(Lei 9.975, Art. 4º), os quais formam a concepção do meio ambien-
te em sua totalidade, considerando-se em especial a interdependência
entre o meio natural, o socioeconômico e o cultural, sob o enfoque
da sustentabilidade; a abordagem articulada das questões ambientais
locais, regionais, nacionais e globais e o reconhecimento e o respeito
à pluralidade e à diversidade individual e cultural (art. 4º. II, VII e
VIII). Além desses, trabalhamos os princípios dos Parâmetros Cur-
riculares Nacionais, as Diretrizes curriculares da Educação, os quais
definem as finalidades e objetivos da Educação Ambiental na escola,
que atente à Constituição Federal, que, em seu Artigo 225, menciona
que “Todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibra-
do, bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida,
impondo-se ao Poder Público e à coletividade o dever de defendê-lo e
preservá-lo para as presentes e futuras gerações”.

PAN Lagoas do Sul

Atualmente, existe um esforço interinstitucional na implementação


do Plano de Ação Nacional das Lagoas Costeiras do Sul (PAN Lagoas
do Sul). O PAN Lagoas do Sul abrange o espaço territorial do complexo

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Caminhos trilhados na concepção, criação e implementação de uma unidade de...

estuarino-lagunar do Rio Maciambú, em Santa Catarina, até o Arroio


Chuí, na fronteira do Brasil com o Uruguai, e é coordenado pelo Insti-
tuto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio).
Os Planos de Ação Nacionais definem políticas públicas de ges-
tão, construídos de forma participativa, com objetivo de ordenar
ações para a conservação de seres vivos e ambientes naturais. A APA
da Lagoa Verde, Unidade de Conservação que está inserida no PAN
Lagoas do Sul) tem potencial na busca de recursos para implementar
ações definidas por este importante instrumento de gestão, entre elas
a Educação Ambiental.

O Futuro da APA

A APA da Lagoa Verde é integrante do Sistema Nacional de


Unidades de Conservação – SNUC – e consta no Cadastro Nacional
de Unidades de Conservação – CNUC –, o qual apresenta diversas
informações sobre tais áreas juridicamente tuteladas. Com o cadas-
tro no sistema estadual a APA da Lagoa Verde poderá ser contempla-
da nas ações originadas das compensações ambientais, que não são
poucas, administradas pelo Estado do Rio Grande do Sul. É funda-
mental deixar claro que os objetivos de uma APA não são somente
restritivos e, sim, que a criação dessa categoria intenta o desenvolvi-
mento de um processo de planejamento territorial, já que falamos de
uma categoria (única) que pretende, ao mesmo tempo, conservar a
diversidade ecológica e promover o uso direto e sustentável dos seus
recursos, assegurando a importância.

26
Áreas Protegidas: Experiências de pesquisa e extensão no Sul do Brasil.

REFERÊNCIAS
BRANDÃO, C. R. Comunidades aprendentes. Brasília, DF: Ministério do
Meio Ambiente, 2005.

BRASIL. Lei n. 9.795, 27 de abril de 1999. Política Nacional de Educação


Ambiental. Diário Oficial da República Federativa do Brasil, Brasília, DF:
Presidência da República, 1999. Disponível em: http://portal.mec.gov.br/secad/
arquivos/pdf/educacaoambiental/lei9795.pdf. Acesso em: 01/08/2016.

BRASIL. Lei nº 9.985, de 18 de julho de 2000. Regulamenta o art. 225, § 1o,


incisos I, II, III e VII da Constituição Federal, institui o Sistema Nacional de
Unidades de Conservação da Natureza e dá outras providências. Disponível em:
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Leis/L9985.htm. Acesso em: 15/02/2018.

CAPRA, F. As conexões ocultas: ciência para uma vida sustentável. São Paulo:
Pensamento; Cultrix, 2002.

CÔRTE, D. Planejamento e gestão de APAs: enfoque institucional. Brasília,


DF: Edições Ibama, 1997.

CRIVELLARO, C. V. L.; MARTINEZ NETO, R.; RACHE, R. P. Ondas que


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marítima - relato de uma experiência. Porto Alegre: Gestal, 2001.

GUARYASSU, S. M. S. Plano de Manejo. Curitiba: Fundação O Boticário,


2003.

LOUREIRO, C. F. B. Premissas teóricas para uma educação ambiental


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utilização sustentável e repartição dos benefícios da biodiversidade nos biomas
brasileiros. Brasília, DF: MMA, 2002.

NEMA. Descubra a Lagoa Verde: um passeio pelos Arroios Bolaxa, Senandes,


Canal São Simão e arredores. Rio Grande, RS: NEMA, 2009. Disponível em:
http://www.nemars.org.br/files/publicacoes/lagoa.pdf. Acesso em: 02 dez 2016.

RIO GRANDE. Lei n. 6.084, de 22 de abril de 2005. Cria a área de proteção


ambiental da Lagoa Verde. Rio Grande, RS, Disponível em: https://leismunicipais.

27
Caminhos trilhados na concepção, criação e implementação de uma unidade de...

com.br/a/rs/r/rio-grande/lei-ordinaria/2005/609/6084/lei-ordinaria-n-6084-
2005-cria-a-area-de-protecao-ambiental-da-lagoa-verde

RIO-92. Tratado de Educação Ambiental para Sociedades Sustentáveis e


Responsabilidade Global. Rio de Janeiro: Fórum Global; MMA, 1992.

28
Desafios da gestão participativa e da negociação de conflitos socioambientais na área de...

biente (MMA, 2010), é exatamente por conta dessas características


que a efetividade da conservação proporcionada por uma APA depen-
de da qualidade da gestão realizada e da implementação de um plano
de manejo (PM) eficaz, que incorpore um zoneamento adequado aos
usos existentes. O PM é um documento técnico, mediante o qual se
estabelece o zoneamento e as normas que devem presidir o uso da área
para que os objetivos da UC possam ser alcançados (BRASIL, 2000a).
Entende-se também que a grande extensão das APAs exige conse-
lhos gestores representativos de todos os municípios abrangidos, bem
como dos diferentes tipos de uso presentes em seu interior, para es-
tabelecer, de forma negociada, os compromissos com a conservação
(MMA, 2010). Os conselhos gestores são formados por representantes
de várias instâncias da sociedade e são obrigatórios a todas as catego-
rias de UCs. Dentre outras competências, cabe ao conselho acompa-
nhar a elaboração, implementação e revisão do PM e compatibilizar os
interesses dos diversos segmentos sociais presentes na UC.
Desse modo, a participação popular no processo de elaboração
do PM e na atuação do conselho gestor são os principais meios que
aproximam o cidadão do processo de tomada de decisão nas UCs
(SANDRONI; CARNEIRO, 2010), como forma de estabelecer
normas de aproveitamento dos recursos de uso comum, adequadas à
realidade em escala local. A gestão participativa é um dos elementos
fundamentais para o desenvolvimento territorial sustentável, o qual
propõe a gestão ambiental em escala local, isto é, com a participação
do público-alvo nas políticas de gestão do território. Seu estabeleci-
mento é considerado um desafio na gestão das UCs, pois, para sua
concretização, todos os setores da sociedade devem estar envolvidos
no processo de negociação, para que as decisões tomadas sejam efe-
tivas e legítimas (VIEIRA, 2009; VIVACQUA; SANTOS; VIEIRA,
2009; VIVACQUA; VIEIRA, 2005). No caso das APAs, segundo
Santos (2008, p. 24), existe um “descaso e resistência em relação
aos conselhos gestores” pelo poder público. Isso acontece porque o
Estado tem que dividir com a comunidade local o poder de decisão

30
Áreas Protegidas: Experiências de pesquisa e extensão no Sul do Brasil.

sobre o uso dos recursos e empreendimentos, já que as deliberações


do conselho podem inviabilizar tais decisões. Nesse entendimento,
para além das decisões tomadas entre os conselheiros, necessita-se
da vontade política dos gestores para o desenvolvimento de uma
democracia participativa, pois “quem cumpre com as determinações
pactuadas são os órgãos executivos” (MACEDO, 2008, p. 153).
Inserida nesse contexto, a APA da Baleia Franca (APABF), loca-
lizada na zona costeira do Estado de Santa Catarina, foi criada com
o objetivo de proteger a baleia franca austral (Eubalaena australis),
ordenar e garantir o uso racional dos recursos naturais da região e
ordenar a ocupação e utilização do solo e das águas (Brasil, 2000b).
A APABF tem, dessa maneira, o desafio de promover a conservação
e a sustentabilidade com o fim de ordenar diversos usos dos recur-
sos naturais permitidos nessa modalidade de UC. Instituída desde
2000, com seu Conselho Gestor (CONAPA) criado em 2006, a
APABF ainda está em fase de elaboração do seu PM. O presente
estudo propõe-se a analisar a elaboração do PM e a negociação de
conflitos de usos existentes no território da APABF por meio do
processo participativo presente no conselho gestor da UC. Para fins
de ajustamento teórico, inicialmente apresentam-se as definições de
desenvolvimento territorial sustentável, recursos de uso comum e
conflitos socioambientais. Na sequência, descrevem-se a metodolo-
gia empregada no estudo e a área de estudo. Os resultados são apre-
sentados a partir dos dados obtidos sobre a elaboração do seu PM e,
após, como se processa a negociação dos conflitos de usos existentes.
Por fim, discutem-se os resultados observando a consistência da ges-
tão participativa no CONAPA.

Embasamento Teórico
Desenvolvimento territorial sustentável

Conforme Vivacqua, Santos e Vieira (2009, p. 166), para que o


desenvolvimento territorial sustentável possa “transcender as práticas

31
Desafios da gestão participativa e da negociação de conflitos socioambientais na área de...

usuais de planejamento e gestão”, é preciso que: (a) seja orientado pela


construção compartilhada de um futuro desejável através dos atores lo-
cais; (b) articulação entre esses atores locais e o poder público. Nesse
sentido, a grande inovação da trajetória de discussão dos novos para-
digmas de desenvolvimento e sustentabilidade tem relação direta com
a consolidação, cada vez mais efetiva, dos princípios de participação ci-
dadã e empoderamento. Vieira (2009) definiu desenvolvimento territo-
rial sustentável como uma modalidade de política ambiental de caráter
preventivo e proativo, centrado na relação sociedade–natureza sob uma
perspectiva sistêmica, e sua aplicação necessita de enfoques analíticos,
transdisciplinares e de sistemas descentralizados de planejamento e ges-
tão para valorização do diálogo com as comunidades locais e negocia-
ção de cenários alternativos para o futuro. Assim, o desenvolvimento
territorial sustentável busca a integração entre as dimensões ecológicas,
econômicas, sociais e político-institucionais (HOLLING, 2003).
Segundo Rover (2011, p. 144), a integração de políticas públicas
e atores locais na busca do desenvolvimento é inerente a uma demo-
cracia efetiva, e é mais facilmente alcançada “se damos representação
apropriada aos interesses e identidades afetados pelas decisões”. Essa
representação, quando se trata das UCs, é dada, principalmente, por
meio do conselho gestor participativo, fruto do modelo do desenvol-
vimento territorial sustentável (VIEIRA, 2009). Apesar da importân-
cia nomeada dos conselhos gestores de UCs, existe uma dificuldade
em torná-los realmente participativos (SANDRONI; CARNEIRO,
2010). Macedo (2008) adverte que os conselhos gestores podem ser
bons instrumentos de gestão participativa, mas enfrentam o risco
de se tornarem simples estruturas burocráticas formais, utilizados
apenas para comunicar sobre políticas públicas elaboradas de forma
autoritária ou apenas um meio de criar falsos consensos de decisões
já efetivadas. Nessa perspectiva, a existência de um conselho não
garante o pleno funcionamento dele, e é importante que o processo
político no qual ele esteja inserido legitime a representatividade do
mesmo. Somado a isso, os conselhos são espaços percolados por con-

32
Áreas Protegidas: Experiências de pesquisa e extensão no Sul do Brasil.

flitos entre os diferentes setores da sociedade, existindo assim uma


constante disputa de interesses.

Recursos de uso comum

Os recursos de uso comum são recursos naturais que são de di-


fícil controle e proibição de acesso, no qual o usuário se aproveita
e subtrai de um estoque disponível e compartilhado por todos os
membros da comunidade (ROVER, 2011; VIEIRA, 2009, VIVAC-
QUA; SANTOS; VIEIRA, 2009). Ou seja, “o uso feito por um in-
divíduo ou grupo implica necessariamente a subtração daquilo que
pertence a todos os demais” (VIVACQUA; VIEIRA, 2005, p. 141).
Nesse entendimento, a má gestão dos recursos pode interferir na sua
disponibilidade e compartilhamento por todos os usuários, moti-
vando conflitos que devem ser geridos. Segundo Rover (2011), os
recursos de uso comum possuem duas características: (a) a exclusão
ou o controle do acesso de usuários atuais e potenciais e (b) os usos
feitos por usuários individuais influenciam o potencial de uso dos
demais, isto é, existe um problema de uso compartilhado.
No que tange às UCs, as normas e regras de uso definidas para
esses territórios, quando deliberadas de forma autoritária pelo Esta-
do, provocam conflitos entre setores da sociedade e a conservação
dos recursos de uso comum fica comprometida. “Pois acabam se
convertendo em territórios marcados pela condição de livre acesso
aos recursos de uso comum, sob o fogo cruzado de grupos econômi-
cos detentores de maior poder de barganha nas esferas de planeja-
mento e gestão” (VIVACQUA; SANTOS; VIEIRA, 2009, p. 165).

Conflitos socioambientais

Vargas (2007) sugere que existem duas proposições sobre a ori-


gem dos conflitos: a objetivista e a subjetivista. A primeira implica
que os conflitos se originam a partir da estrutura social e do proces-

33
Desafios da gestão participativa e da negociação de conflitos socioambientais na área de...

so político instalado; nesse caso, os conflitos existem independentes


da percepção dos envolvidos. Seu exemplo mais característico são
os conflitos provenientes das diferenças entre as classes sociais, as
quais competem com objetivos conflitantes e “os ganhos de uma das
classes, são as perdas de outra” (VARGAS, 2007, p. 193). Diferen-
temente, a concepção subjetivista entende que os conflitos podem
ser explicados a partir da percepção e incompatibilidade de objetivos
das partes envolvidas; nesse caso, os conflitos configuram-se quando
os atores sociais defendem distintas lógicas para a gestão dos bens
coletivos de uso comum (BRITO, 2008).
Por sua vez, Vivacqua e Vieira (2005) analisam que os conflitos
podem ser gerados a partir de diversas situações: (a) escala dos im-
pactos gerados, isto é, uma ação desenvolvida em um determinado
lugar pode afetar um lugar longe desse local; (b) a partir das relações
complexas e desiguais entre os setores sociais, os quais possuem dife-
rentes objetivos de usos sobre o território e poderes desiguais sobre
sua gestão; c) conflitos provenientes da escassez dos recursos naturais.
Compreende-se que, apesar de existirem diferentes pontos de vista
em relação à origem dos conflitos socioambientais, para uma gestão
ambiental efetiva é indispensável considerar essa amplitude de fontes,
pois elas estão conectadas através do território onde esses conflitos es-
tão manifestados. Com isso, é possível entender os conflitos socioam-
bientais como provenientes da disputa por parte dos atores sociais pelo
controle territorial e, por consequência, dos diferentes objetivos de uso
sobre os recursos de uso comum ali encontrados.

Metodologia

A metodologia utilizada no estudo pode ser dividida em: (1)


entrevista com o analista ambiental da APA Simão Marrul, respon-
sável pelo plano de manejo da UC até 2016; (2) acompanhamento
presencial de quatro reuniões do CONAPA em 2015; e (3) análise
das atas do CONAPA.

34
Desafios da gestão participativa e da negociação de conflitos socioambientais na área de...

Área de estudo

A APABF é uma Unidade de Conservação Federal de ambiente


marinho costeiro, possui uma área de 154.866,27 ha (Figura 1) e
integra os municípios de Palhoça, Paulo Lopes, Garopaba, Imbitu-
ba, Tubarão, Florianópolis, Laguna, Jaguaruna e Balneário Rincão
(Figura 1). Foi criada através do decreto de 14 de setembro de 2000.
Tem aproximadamente 130 km de costa, sendo que 80% da área é
marinha e o restante terrestre, compreendendo os últimos seis muni-
cípios citados acima. A região da APABF é formada por uma grande
diversidade de ambientes, como ilhas, lagoas, enseadas, praias, pro-
montórios, campos de dunas, além de restingas, floresta ombrófila

Figura 1 - Localização da APA da Baleia Franca

Fonte: Laura Dias Prestes

36
Áreas Protegidas: Experiências de pesquisa e extensão no Sul do Brasil.

densa e banhados. Em seu território são desenvolvidas diversas ati-


vidades econômicas como agricultura, aquicultura, silvicultura, pe-
cuária, extração mineral, portuária, turismo, comercial e industrial
(PRESTES, 2016).

Resultados
Plano de manejo da APABF

Até final de 2017, o PM da APABF estava em fase de elaboração.


O modelo do plano foi resultado de discussões entre o CONAPA e a
gestão da APABF e consiste em: (a) caracterização da atual situação do
território e quais os desafios de gestão; (b) etapa declaratória, definin-
do-se a missão, visão de futuro, objetivos estratégicos e o mapa situacio-
nal que consiste num instrumento de como a sociedade vê a situação
do território e seus recursos; (c) etapa da elaboração do plano, dividida
em Oficinas de Planejamento Participativo (OPPs) com os setores, ne-
gociação entre as câmaras técnicas do conselho e os setores e formula-
ção da proposta de zoneamento (informação verbal)2 e; (d) cooperação
interinstitucional e intersetorial para a consolidação do zoneamento.
De acordo com Marrul (2015), o primeiro passo para começar o
processo de elaboração desse documento foi a criação do CONAPA,
já que o SNUC prevê que os PMs sejam elaborados de forma com-
partilhada com a sociedade. Desse modo, o conselho, legalmente
instituído em 2006, passou a discutir o assunto junto com a equi-
pe da APABF logo na segunda reunião do conselho. Analisando as
atas até dezembro de 2015, foi possível identificar três momentos do
processo de elaboração do PM, descritos a seguir.
O primeiro momento observado começa na 2ª reunião do con-
selho, realizada em março de 2006 quando foi exposta uma deci-
são judicial contra o IBAMA, movida por uma Ação Civil Pública
(ACP) do International Wildlife Coalition (IWC) e PBF, que impôs
um prazo de 30 dias para o IBAMA fornecer informações sobre os

2 MARRUL, 2015.

37
Desafios da gestão participativa e da negociação de conflitos socioambientais na área de...

recursos financeiros e o plano de trabalho, além da disponibilização


de quatro analistas ambientais fiscais para a APABF. O motivo da
ACP foi o descumprimento do Art. 27, parágrafo 3o, que institui
que o PM deve ser elaborado no prazo de cinco anos a partir da
data de sua criação da unidade. Assim, da 3ª (2006) até a 17ª reu-
nião (2009) ocorreram: (a) encaminhamentos dados pelo IBAMA
referentes à ACP; (b) garantia que os recursos financeiros seriam
disponibilizados pelo Programa Nacional de Desenvolvimento do
Turismo (Prodetur); (c) elaboração e análise do Termo de Referência
(TR) para o edital de contratação de consultoria que realizaria os
diagnósticos; e (d) criação do Grupo de Trabalho Plano de Manejo
do CONAPA para acompanhar o processo junto com a chefia da
APABF. Umas das principais discussões sobre o PM nesse período
foi a demora na liberação da verba – que estaria travando o processo
– e que o CONAPA deveria se mobilizar para que esse recurso fosse
liberado mais rapidamente. A 17ª reunião, em julho de 2009, mar-
cou o fim do primeiro momento do processo de elaboração do PM.
Nessa reunião, foi informado aos conselheiros que, com a divisão
do IBAMA, o recurso para o PM – garantido através do convênio
com Ministério do Turismo via Prodetur – havia sido repassado ao
IBAMA3, antes da divisão dessa instituição, e a mesma não poderia
mais destinar recursos em UCs, pois o prazo de aplicação do recurso
expirou antes de se conseguir adequar o convênio à nova instituição
gestora de UCs, o Instituto Chico Mendes de Conservação da Bio-
diversidade (ICMBio).
O tema plano de manejo só voltou a ser abordado no CONA-
PA na 24ª reunião, em junho de 2011, marcando, assim, o início
do segundo momento na demanda pelo PM da APABF. O assunto
surgiu com a notícia de que uma decisão judicial obrigou o ICMBio
a elaborar imediatamente o documento, sob pena de multa diária

3 Em 2007 o IBAMA foi dividido entre o IBAMA e ICMBio. A primeira instituição


ficou responsável pelos processos de licenciamento ambiental e a segunda pela gestão das
UCs federais.

38
Áreas Protegidas: Experiências de pesquisa e extensão no Sul do Brasil.

de cinquenta mil reais. Os seguintes pontos foram abordados até a


29ª reunião, em junho de 2012: (a) questionamento do conselho
sobre a decisão judicial; (b) elaboração de uma moção, pelo CO-
NAPA, à presidência do ICMBio para que se cumpra essa ACP; (c)
mesa-redonda em que se discutiu o tema; (d) informe da equipe da
APABF confirmando que o MMA foi realmente citado pela justiça,
tomando a decisão de fazer o PM da APABF e destinando ao ICM-
Bio o valor de 200 mil para a realização do mesmo; (e) elaboração
do TR para contratação dos serviços de consultoria em parceria com
APABF e ICMBio; (f ) conclusão do TR e espera para publicação do
edital e; (g) discussão da estratégia da participação do CONAPA na
elaboração do documento e votação da comissão para acompanhar
os trabalhos de consultoria junto com a equipe da APABF e ICM-
Bio. A 29ª reunião completou a segunda tentativa de elaboração do
PM. Duas situações assinalam esse final: mudança na origem da ver-
ba, pois agora essa verba viria da compensação ambiental das obras
da SC 100 e dragagem do Porto de Imbituba, o que ocasionaria
mudança nos valores e nova tramitação, pois a dragagem do Porto
foi licenciada pela FATMA, e esta deveria repassar o recurso para o
nível Federal; a equipe da APABF informou ao conselho que rece-
beu um parecer (171/2012) da Procuradoria Federal Especializada
comunicando a impossibilidade de contratação de consultoria para
elaboração de diagnósticos físicos e bióticos para o plano de mane-
jo. Diante dessa impossibilidade, a equipe da APABF elaborou uma
nova proposta para a fase de diagnóstico.
O terceiro momento do processo de elaboração do PM pode ser
observado já na 29ª reunião, com a apresentação da nova proposta de
preparação do diagnóstico. A partir disso: (a) foi formado, no âmbi-
to do CONAPA, um grupo técnico para acompanhar a elaboração
da metodologia e um grupo jurídico para acompanhar a ACP e sua
execução; (b) foi apresentado pela equipe da APABF o fluxograma da
proposta de execução do PM; (c) suspensão do TR pelo ICMBio para
adequação às novas diretrizes de elaboração dos planos de manejo; (d)

39
Desafios da gestão participativa e da negociação de conflitos socioambientais na área de...

os documentos para a abertura do processo foram encaminhados para


Brasília; (e) o plano de trabalho e cronograma das atividades cons-
truídos foram aprovados pelo CONAPA; (f) o ICMBio suspendeu a
reunião da equipe técnica para construir a metodologia das OPPS e
convocou a chefia da APABF para uma reunião em Brasília; nessa oca-
sião, foi informado à equipe da APABF que não haveria recurso para o
PM devido à crise orçamentária do ICMBio; (g) nova adequação dos
recursos; (h) as OPPs foram suspensas, pois não se tinha garantia de
que o ICMBio iria arcar com as despesas dos conselheiros; (i) deter-
minação da justiça dando um prazo de seis meses para que o PM seja
executado e; (j) a FATMA não aprovou o orçamento inicial para os
recursos da dragagem do Porto de Imbituba.
No final de 2013 foram acordados, extrajudicialmente, pontos
entre APABF e ICMBio, sobre a aplicação da sentença. Entre eles, es-
tavam (a) a ratificação formal quanto à metodologia a ser usada, acor-
dada com a gestão anterior do ICMBio; (b) prazo de 20 a 24 meses, a
partir da data de assinatura do TR, para elaboração do plano; (c) agili-
dade na assinatura do termo de compromisso com a FATMA e Porto
de Imbituba para aplicação dos recursos. A partir disso, foi elaborado:
(a) o novo cronograma; (b) o termo de Compensação Ambiental en-
tre FATMA, ICMBIO e o Porto de Imbituba; (c) nova parceria entre
Projeto GEF-MAR e APABF com destinação de recursos para o PM e;
(d) o termo de compromisso para as contratações necessárias às OPPs.

Conflitos socioambientais da APABF

Para o melhor entendimento dos processos decisórios, é im-


portante entender como funciona a estrutura do conselho. O CO-
NAPA está dividido em três setores de representação: usuários dos
recursos (como moradores, pescadores, industriais, comerciantes,
universidades privadas), ONGs ambientalistas e poder público.
Possui 42 membros e seus respectivos suplentes, divididos equi-
tativamente por setor. O conselho é formado por: Plenária, Pre-

40
Áreas Protegidas: Experiências de pesquisa e extensão no Sul do Brasil.

sidência, Comitê Executivo, Câmaras Técnicas (CTs) e Grupos


de Trabalho (GTs). As Câmaras Técnicas são encarregadas de de-
senvolver, examinar e relatar à Plenária as matérias de sua com-
petência. Em 2010, o CONAPA foi reestruturado, e as seguintes
CTs foram criadas: Conservação da Baleia Franca, Gestão da Bio-
diversidade, Gestão Territorial, Proteção e Monitoramento, Ati-
vidades Econômicas Sustentáveis. Assim, as CTs têm um caráter
mais abrangente e permanente dentro do conselho, e os GTs são
formados a partir das demandas das CTs. A seguir, descrevem-se
os conflitos observados a partir da leitura das atas.

Construção de Recifes Artificiais Marinhos (RAMs)

Os RAMs foram debatidos entre a 3ª e 12ª reunião. O problema


começou a ser discutido com a publicação do edital para a constru-
ção dos RAMs, situação que preocupou a equipe da APABF, pois essa
atividade não estava licenciada e não existiria uma legislação própria
para regular a obra. O conflito estaria entre a pesca artesanal, pesca
industrial e o Porto de Imbituba pelo risco de naufrágios, exclusão
da pesca de arrasto e dos barcos industriais da área. Dessa forma,
devido à falta de fiscalização, licenciamento e normas para impedir
a circulação de barcos industriais, tornou-se necessário barrar o trá-
fego de barcos pelo meio dos RAMs. O CONAPA tomou posição
favorável à construção dos RAMs desde que fossem feitos estudos
prévios para a construção dos mesmos. A equipe da APABF enviou
uma documentação ao IBAMA sobre o licenciamento da obra, situ-
ação que levou o IBAMA a publicar a IN 1254, que regulamentou
a atividade e definiu os estudos necessários para a construção das
estruturas. Mediante tal circunstância, o processo de licenciamento
foi aberto. Como encaminhamento, criou-se o GT para discutir e
acompanhar o licenciamento e elaborou-se uma moção pedindo a
realização de estudos para o licenciamento dos RAMs.

4 A IN 125/2006 foi revogada pela IN 22/2009.

41
Desafios da gestão participativa e da negociação de conflitos socioambientais na área de...

Ampliação do Porto de Imbituba

A ampliação do Porto de Imbituba foi discutida na 6ª, 12ª e


44ª reunião. O conflito foi gerado a partir da pesca artesanal - que
considerou que a dragagem do porto trouxe lodo para as praias e
prejudicou a pesca da tainha -, Porto de Imbituba - que necessita-
va da obra -, APABF - pelo perigo de impacto das obras sobre as
baleias - e setor acadêmico/ambientalista - que considerou que os
resíduos, como o coque do carvão, e outras atividades decorrentes da
expansão do Porto, estavam causando sérios impactos à população
humana e animais. APABF solicitou o embargo da obra, justifican-
do impacto sobre as baleias. Com isso, depois do embargo, o Porto
montou um programa de monitoramento. O CONAPA criou o GT
Porto de Imbituba com o objetivo de sugerir ações para minimizar
os impactos do empreendimento, decidiu levar as discussões para as
setoriais do plano de manejo e elaborou uma moção de apoio para
que o licenciamento passe para a competência do IBAMA, além de
solicitar o monitoramento acústico para o empreendimento.

Mineração nas Dunas de Ibiraquera

O conflito foi discutido no CONAPA porque, apesar das ativi-


dades terem sido embargadas pelo Ministério Público, uma liminar
permitiu a continuidade das atividades até a análise do licenciamento.
Assim, a preocupação estava na falta de um licenciamento adequado
e de fiscalização da atividade. Alguns conselheiros consideraram que
a presença ou não de dunas é indiferente para as baleias. Outros
argumentaram que as dunas interferem no equilíbrio ecológico da
região e, indiretamente, nas baleias e que existe uma legislação que
proíbe mineração em APA. Outros argumentos foram que o em-
preendimento propicia baixa compensação social frente ao impacto
ambiental, a mineração é feita em área de preservação permanente e
a mineração nessa área seria uma ação deliberada para descaracterizar

42
Áreas Protegidas: Experiências de pesquisa e extensão no Sul do Brasil.

a área e propiciar o avanço da especulação imobiliária. Assim, obser-


va-se que o conflito estava entre o setor ambientalista, comunidade
local e o setor de mineração. O CONAPA decidiu criar de GT Du-
nas de Ibiraquera, que se posicionou pelo fim da atividade e elabo-
ração de um documento de denúncia para a prefeitura de Imbituba,
Ministério Público Federal (MPF), IBAMA e FATMA.

Abertura da Barra do Camacho

O caso da abertura da Barra do Camacho inclui a questão da


mineração, pois a empresa que foi contratada para realizar a abertura
da barra solicitou autorização para instalar um módulo experimen-
tal para extrair conchas calcárias em 5 ha da Lagoa do Camacho.
O problema maior residia no fato de que a abertura da Barra do
Camacho era realizada pela população há mais de 20 anos, com a
finalidade de desassorear a lagoa e renovar as águas, isto é, consistia
em uma necessidade para a população local. Quando a obra passou
para a responsabilidade do poder público, a questão da mineração
veio anexa a ela. A obra foi embargada em 2006 por não possuir Es-
tudo de Impacto Ambiental. Mesmo assim, uma decisão judicial do
Ministério Público liberou a atividade até que estudos fossem elabo-
rados. Em 2008, os estudos ficaram prontos e a APABF foi chamada
para se posicionar, ação que só ocorreu em 2010. No entanto, até
essa data, o CONAPA foi palco de diversas discussões em momentos
diferentes sobre o caso. Até culminar no parecer final da CT Ativi-
dades Econômicas Sustentáveis. A preocupação do CONAPA estava
em separar a atividade de mineração da abertura da barra em decor-
rência das questões ambientais. Por outro lado, parte do CONAPA
tinha o entendimento que as comunidades estão sendo prejudicadas
com o assoreamento e a poluição da Lagoa. Nesse caso, a abertura da
Barra do Camacho pela empresa de mineração seria importante para
a população, sendo a melhor solução apresentada para a comunida-
de local, já que o governo demoraria a abrir a barra. Os encaminha-

43
Desafios da gestão participativa e da negociação de conflitos socioambientais na área de...

mentos foram: criar o GT Barra do Camacho, que mais tarde foi in-
corporado à CT Atividades Econômicas Sustentáveis, elaboração de
uma proposta alternativa e não concessão da abertura da barra para a
mineradora. Nesse sentido, os conselheiros foram favoráveis à aber-
tura da Barra do Camacho, mas contrários à mineração. Dessa for-
ma, a CT Atividades Econômicas Sustentáveis se posicionou contra
a mineração, afirmando que as atividades propostas pela mineração
não davam garantias de que as condições ambientais e os recursos
naturais retornariam a uma condição de equilíbrio e que a proposta
de mineração não atenderia à vocação maior do ambiente da Lagoa
do Camacho, que é o uso sustentável dos recursos pesqueiros, ligado
às atividades de lazer, turismo e recreação.

Pesca

A questão da pesca, como era de se esperar em uma unidade de


conservação marinho-costeira, foi um dos temas mais debatidos pelos
conselheiros durante os 10 anos de atas analisadas. Uma das principais
iniciativas para se começar a debater e levantar propostas sobre o tema
foi a criação da CT da Pesca, criada 2008. Uma das discussões que
permeou essa questão foi se a CT da Pesca iria tratar da pesca de modo
geral, incluindo a industrial, ou o objetivo seria apenas a pesca artesa-
nal. Como resolução, os conselheiros decidiram que essa CT iria tratar
apenas da pesca artesanal. Durante os debates, foram levantados al-
guns temas chaves para a questão da pesca artesanal: sementes de ma-
risco, áreas de exclusão de pesca, acordos de pesca, pesca subaquática,
captura de isca viva, RAM, proposta de Reserva Extrativista (RESEX),
resgate da pesca artesanal. Nesse período, a principal ação dessa CT
foi o esforço em se montar o acordo de pesca, formando-se, a partir
disso, um grupo de trabalho para construir um plano de capacita-
ção continuada com os pescadores artesanais. O plano incluiria visitas
às comunidades, realização de reuniões, oficinas de reflexão. Como
meta, a capacitação também reativaria a discussão sobre os acordos de

44
Áreas Protegidas: Experiências de pesquisa e extensão no Sul do Brasil.

pesca. Os envolvidos viam que um dos principais problemas da pesca


artesanal era a sustentabilidade produtiva dessa atividade. Os conflitos
relacionados à pesca foram divididos em Pesca Subaquática, Pesca da
Tainha, Criação da RESEX de Ibiraquera, Criação RESEX Farol de
Santa Marta e Abertura da Barra da Lagoa de Ibiraquera.

Pesca subaquática

O tema surgiu quando uma Instrução Normativa (IN) sobre


pesca subaquática, regulamentada pelo MMA, diminuiu - de 500m
para 50m - a distância de proibição de pesca das ilhas e costões. A
questão foi colocada a partir da solicitação da Câmara dos Vereado-
res de Imbituba para que o Conselho apoiasse a volta dos 500m. O
conselho montou um GT para discutir o assunto e foi sugerido que
a pesca subaquática seja excluída da área da APABF. O texto contra
a IN sugeriu que, até a elaboração do plano de manejo, sejam proi-
bidos barcos atuneiros no interior da APABF, a retirada de sementes
de mexilhão, a pesca subaquática e os barcos de arrasto. O principal
argumento foi que os pescadores de linha estariam desistindo da ati-
vidade, pois a pesca subaquática estava acabando com os estoques. A
recomendação da APABF foi encaminhada para análise do Centro
Nacional de Pesquisa e Conservação da Biodiversidade Marinha do
Sudeste e Sul, vinculado ao ICMBio (CEPSUL).

Pesca da tainha

A pesca da tainha foi discutida em três momentos: em 2010,


com a discussão sobre a IN 171 que regulamentava a pesca da tai-
nha; em 2012, com a solicitação do movimento dos pescadores arte-
sanais do litoral centro-sul catarinense sobre a regulamentação dessa
atividade e; por último, em 2015, com o informe sobre a nova regu-
lamentação da pesca da tainha. O problema da sobre-exploração sur-
giu quando os pescadores industriais descobriram que, na época de

45
Desafios da gestão participativa e da negociação de conflitos socioambientais na área de...

defeso da sardinha, era possível pescar tainha, principalmente pela


rentabilidade da ova da tainha. Essa situação gerou um impacto so-
bre a espécie, e essa pesca necessitou ser regulamentada, limitando-se
em 60 embarcações e aumentando-se a área de exclusão de pesca na
época de defeso. No entanto, em 2009 os industriais conseguiram
aprovar a exceção no número de barcos para o ano em questão. A
APABF foi solicitada para discutir a IN 171 com a CEPSUL. Como
consequência dessa parceria, ficou decidido que se aguardariam três
safras (até 2011) de vigência dessa norma para ter dados suficientes
para analisar a eficiência da IN 171. Enquanto isso, nenhuma alte-
ração seria realizada antes da safra de 2011, e se cumpriria a permis-
são de apenas 60 embarcações. Em 2012, o problema da pesca da
tainha voltou a ser discutido no CONPAPA a partir da solicitação
do movimento dos pescadores artesanais da região centro-sul do es-
tado, que solicitaram um regramento específico para essa atividade
no território da APABF e que, no plano de manejo da unidade, fosse
previsto a exclusão da pesca industrial, assim como a frota que atua
na captura de isca viva para a prática da pesca oceânica de tuníde-
os, em todo o território da APABF. Nos debates ficou definido que
o conselho acolheria essa sugestão, a qual seria discutida e amplia-
da. Concomitante a isso, em Brasília, o MMA, em conjunto com o
MPF, montou um grupo técnico de trabalho para discutir a questão
da pesca da tainha. O objetivo do grupo foi fazer um diagnóstico da
espécie e sua vulnerabilidade. A proposta negociada com o setor pro-
dutivo foi a retirada gradativa da frota de cerco, visando à exclusão
dessa modalidade em cinco anos, além do estabelecimento de áreas
de exclusão e épocas de defeso.

Criação da RESEX de Ibiraquera

A RESEX começou a ser proposta no ano de 2005. Foi introduzi-


da no CONAPA para pedir apoio do mesmo. Essa proposta de UC di-
vidiu opinião entre os conselheiros. O primeiro ponto a ser levantado

46
Áreas Protegidas: Experiências de pesquisa e extensão no Sul do Brasil.

foi a questão dos limites dessa nova UC. Na proposta inicial, todas as
lagoas foram incluídas nos limites da unidade, inclusive os 33 metros
de terreno de marinha. Alguns conselheiros queriam que a RESEX
ficasse delimitada somente na lâmina de água, pois, como UC destina-
da aos pescadores tradicionais, o foco deveria ser concentrado no cor-
po hídrico. Outra questão foi sobre a necessidade de criar uma nova
UC dentro da APABF e se o plano de manejo não poderia vir a suprir
essa necessidade. Também se discutiu que não seria apropriado ter,
em uma área específica de concentração de baleias, uma RESEX des-
tinada à pesca artesanal, assinalando aí um conflito de interesses entre
as duas categorias. Outro ponto levantado foi a preocupação com as
desapropriações e a incapacidade do poder público em fazer cumprir
a lei, além das limitações às atividades dos atuneiros e pescadores de
isca viva que a RESEX iria ocasionar. No entanto, os defensores da
proposta asseguravam que os 33 metros de marinha são fundamentais
para a preservação do meio ambiente e o pescador realizaria a gestão
de forma compartilhada com a APABF, além de a RESEX poder aju-
dar a resgatar a cultura tradicional dos pescadores artesanais. Por fim,
os conselheiros apoiaram a criação da RESEX Ibiraquera.

Criação RESEX Farol de Santa Marta

O debate sobre a RESEX Farol de Santa Marta, a partir de


2006, foi muito parecido com o debate da RESEX de Ibiraquera.
O grupo que pensou a proposta também objetivava destinar uma
área para a pesca artesanal e demarcar o território de populações
tradicionais através de uma UC mais restritiva. A questão sobre a
incapacidade de o poder público realizar a gestão de mais uma UC
foi levantada, bem como o perigo de descaracterizar o território da
APABF devido à inclusão da porção marinha e lagoas costeiras per-
tencentes à mesma. O debate ficou entre os que não queriam que
as lagoas fossem englobadas na RESEX e os que acreditavam que a
criação de mosaicos era uma ótima forma de ordenamento do terri-

47
Desafios da gestão participativa e da negociação de conflitos socioambientais na área de...

tório. O encaminhamento tomado foi de apoio à RESEX, incluindo


a porção marinha e as lagoas da região.

Abertura da Barra da Lagoa de Ibiraquera

A abertura desse canal era feita pela comunidade de pescadores


artesanais, através de conhecimento local. No entanto, a expansão ur-
bana acarretou uma mudança no ciclo do sistema lagunar. Nos últimos
anos, a prefeitura de Imbituba estava realizando a abertura do canal por
solicitação dos pescadores, veranistas, moradores, entre outros, que di-
vergiam sobre a melhor época de realizar a abertura. Assim, a prefeitura
começou a consultar a equipe da APABF para realizar essa atividade. A
equipe da UC montou um grupo de trabalho integrando instituições e
setores da sociedade para construir o procedimento de abertura de canal
de forma participativa e formulou-se uma recomendação levando em
conta os seguintes critérios: volume de água, presença de cardumes e/ou
larvas de quadra mar. A recomendação foi aprovada pelos conselheiros.
A abertura da barra da lagoa de Ibiraquera não foi uma pauta debatida
dentro do conselho, mas uma ação que a equipe da APABF planejou
em função de uma solicitação da Prefeitura Municipal de Imbituba. No
entanto, depois de elaborar o procedimento, a equipe da APABF solici-
tou aprovação dos conselheiros.

Carcinicultura

A carcinicultura foi tratada através do GT Carcinicultura de


2006 a 2010. O GT partiu de um estudo de caso de uma fazenda
em Ibiraquera para propor soluções ao CONAPA. Nesse caso em
específico, o IBAMA havia liberado as atividades, e a comunidade
mostrava-se contra. Em uma vistoria realizada pelo GT, foi consta-
tado que os tanques da fazenda estavam contaminando a água da
lagoa, descumprindo uma exigência do Ministério Público. Os de-
bates ficaram em torno do pouco benefício social frente ao impacto

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Áreas Protegidas: Experiências de pesquisa e extensão no Sul do Brasil.

ambiental que essa atividade gera e que os pescadores e a sociedade


civil do local estariam sendo prejudicados. Foram solicitadas mais
informações da FATMA e do empreendedor. Após isto, o GT apre-
sentou uma proposta e encaminhou ao MPF denunciando os pontos
do EIA não cumpridos pelo empreendedor. A proposta foi aprovada
pelo conselho. Mais tarde, a proposta do GT subsidiou o parecer do
IBAMA em relação à mesma fazenda.

Ocupação urbana

O conselho, considerando a ocupação urbana como um pro-


blema crônico no território da APABF, montou um GT Especu-
lação Imobiliária na 3ª plenária do CONAPA em 2006. O GT foi
transformado em GT Ocupação Urbana em 2007 e, em 2008, foi
transformado em uma CT. Em 2010 o conselho foi reestruturado e
todos os GTs e CTs foram reavaliados e se propôs a criação de cinco
câmaras técnicas, incluindo a de Gestão Territorial, que passou a tra-
tar dos conflitos da ocupação urbana. Os conflitos mais relevantes,
do ponto de vista das discussões realizadas no CONAPA, foram: o
caso da poluição do Aquífero Cabo de Santa Marta; Pavimentação
da SC 100; Criação do Monumento Natural Praia dos Naufragados;
Reserva Biológica do Pântano do Sul e; os Loteamentos Ecovitta,
Banhado da Palhocinha e Rosa Norte.

O caso do Aquífero do Cabo de Santa Marta

O caso do Aquífero do Cabo de Santa Marta: em 2014, o Mo-


vimento Natural e Cultural de Laguna apresentou uma proposta
de delimitação de zona intangível de Proteção de Manancial da
região do Cabo de Santa Marta e da Zona de Proteção da Vida
Silvestre da Praia do Gravatá, conforme estudo realizado por uma
empresa de consultoria. Nessa proposta, recomendou-se a suspen-
são da emissão de autorizações e licenças ambientais no território

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Desafios da gestão participativa e da negociação de conflitos socioambientais na área de...

da APABF, pertencente ao município de Laguna, enquanto esteja


sendo elaborado o plano de manejo. O objetivo era proteger o ma-
nancial de água do aquífero de Santa Marta. O conselho aceitou a
proposta, mas alterou a zona intangível para zona de proteção de
manancial. Mais tarde, foi informado aos conselheiros que os estu-
dos do aquífero seriam solicitados através da obra de pavimentação
da SC 100 como forma de compensação ambiental, pois a rodovia
atravessava o território da APABF. Até junho de 2015, a verba para
esses estudos ainda não havia chegado.

Pavimentação da SC 100

A partir de 2006, a pavimentação da SC 100 passou a ser discu-


tida no CONAPA, pois a APABF deveria realizar um parecer sobre o
EIA da obra. O GT Ocupação Urbana analisou o documento. O pa-
recer ficou pronto em 2009 e levantou alguns questionamentos sobre
a obra: dúvidas quanto ao material a ser utilizado na pavimentação;
possibilidade de criação de novas UCs com o objetivo de minimizar
a ocupação de ecossistemas locais; possíveis desapropriações; soluções
para minimizar os impactos ambientais relacionados à questão da co-
nectividade entre ambientes naturais. Ficou decido trocar o termo UC
por áreas prioritárias para a conservação; incluir concreto armado e
asfalto ecológico entre as opções de pavimentação; inserção do item
que solicita providências quanto à necessidade de licença do IPHAN
para o trecho em questão. Decidiu-se também realizar seminários nos
municípios para a capacitação dos conselheiros.

Criação do Monumento Natural Praia dos Naufragados:

A Associação de Moradores da Praia de Naufragados (AMO-


PRAN) levou ao CONAPA uma proposta de criação da UC Mo-
numento Natural Praia dos Naufragados. No contexto da pro-
posta estava a vontade dos moradores em deixar de fazer parte

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Áreas Protegidas: Experiências de pesquisa e extensão no Sul do Brasil.

do Parque Estadual da Serra do Tabuleiro, o qual, antes da sua


desafetação, em 2009, abrangia essa praia. A associação expli-
cou que a área estava sendo alvo de uso e ocupações, mas que a
população deve permanecer no local, pois o Parque não permite
sua presença. Os debates, nesse momento, ficaram conflitantes,
porque alguns conselheiros não concordavam com o processo de
desafetação do Parque e sugeriam uma moção de denúncia ao
MP sobre esse caso. A AMOPRAN foi contra a moção, pois o
que eles estavam propondo era justamente o contrário. O assun-
to, assim, passou a ser discutido na CT de Ordenamento Terri-
torial. Mais tarde, em 2009, os conselheiros decidiram apoiar a
proposta da AMOPRAM, desde que o documento não tratasse
do processo de desafetação, pois seria contraditório um conselho
de APA aprovar uma desafetação.

Loteamento Ecovitta

Em 2015 a equipe da APABF submeteu seu parecer ao CO-


NAPA sobre o EIA do Condomínio Ecovitta Resort em Balneário
Rincão. O parecer concluiu que existe viabilidade legal e ambiental
para o empreendimento, pois o mesmo se adequou a normas urba-
nísticas e ambientais por solicitação da APABF. Os argumentos a fa-
vor preocupavam-se com a possibilidade de estabelecimento de um
exemplo de ocupação sustentável dentro da APABF, pois a mesma
é uma UC de uso sustentável e não teria como o conselho ir contra
empreendimentos que são exemplo de sustentabilidade, sendo que
a APABF não possui instrumentos que proíbam esse tipo de ocupa-
ção. Contrariamente, foi argumentado que o estudo não levou em
consideração a intervenção feita antes do embargo, contradições em
relação à área de preservação permanente, deficiências nos estudos,
perigo de fragmentação do território e aumento populacional. O
conselho aprovou o parecer, recomendando-se os estudos solicitados
pelos conselheiros.

51
Desafios da gestão participativa e da negociação de conflitos socioambientais na área de...

Loteamento no Banhado da Palhocinha

Em 2009 a obra teve sua licença ambiental suspensa e foram


exigidos estudos complementares. O caso foi levado ao CONAPA
para que este elaborasse uma moção de proteção ao Banhado da Pa-
lhocinha, pois se argumentou que a região tem papel importante no
abastecimento de água no município de Garopaba e outras obras no
mesmo local já foram anteriormente embargadas. Dois argumentos
permearam a discussão: por um lado, o de que o CONAPA estava
atuando como amador e a moção não caberia mais, uma vez que o
caso estava em juízo, e, por outro lado, argumentou-se que o con-
selho não poderia ficar assistindo o desfecho e a moção seria uma
forma de intervir no processo. A moção foi aprovada. Em 2010 o
licenciamento da obra foi suspenso e ocorreu um acordo entre em-
presários e a Prefeitura para diminuir a área do loteamento.

Loteamento Rosa Norte

Em 2013 foi submetida ao conselho a apreciação do EIA do


Loteamento Rosa Norte. O parecer ficou a cargo da CT Gestão Ter-
ritorial e concluiu que o licenciamento original é irregular e que,
para o licenciamento poder ter continuidade, a empresa deverá: ade-
quar o EIA quanto às normas legais vigentes; o projeto precisaria
ser reavaliado, observando-se as restrições em área de preservação
permanente e; deveria ser apresentado um novo inventário florestal.
O parecer foi aprovado.

Complexo Eólico de Laguna

A APABF recebeu da FATMA o EIA do Complexo Eólico de La-


guna no ano de 2014 para que fosse realizada a análise e manifestação
da UC. No parecer, a equipe encontrou 36 lacunas, entre as quais: o
empreendimento não apresentou cuidado necessário por estar numa

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Áreas Protegidas: Experiências de pesquisa e extensão no Sul do Brasil.

área de preservação da baleia franca; falta de estudos e incertezas em


relação a possíveis impactos às baleias, aos botos, pássaros e outros
animais. O conselho debateu sobre a necessidade de mais estudos para
que o parecer tivesse uma posição final mais embasada e decidiu apro-
vá-lo com Nota Técnica de sugestões de aprimoramento.

Turismo de observação de baleias (TOBE)

O TOBE foi a questão que mais levantou polêmica no con-


selho. O assunto foi discutido em praticamente todas as reuniões
entre 2006 e 2015. As discussões acerca do TOBE começaram com
a publicação de uma Instrução Normativa (IN) de fechamento de
enseada para o turismo embarcado, culminando em uma reunião
extraordinária em 2014. Associada à falta de resolução sobre essa IN,
em 2012 uma entidade conselheira moveu uma Ação Civil Pública
contra a APABF relacionada ao TOBE.

TOBE e a Instrução Normativa de Fechamento de Enseada

A IN nº 102/06, do IBAMA, estabeleceu restrições às atividades


náuticas na APABF durante os meses de junho a novembro. Com
isso, montou-se o GT IN Fechamento de Enseada para discutir o
assunto e oficializar uma posição do conselho. O GT se posicionou
pela suspensão da IN, e na ocasião sugeriu estudos e elaboração de
uma nova minuta pelo conselho, capaz de contemplar os aspectos
deixados fora do texto. Esse posicionamento gerou muitos debates,
pois aqueles que defendiam a IN argumentaram que: o TOBE é
uma atividade importante, mas que deve ter ordenamento; que exis-
te a necessidade de existência de áreas de refúgio para as baleias e a
IN é adequada ao desenho da área e foi feita em conjunto com a
Comissão Internacional Baleeira; é uma medida precatória e fun-
damentada em recomendações internacionais; a IN não fere os ob-
jetivos da APABF; possibilidade de diminuição de conflitos futuros

53
Desafios da gestão participativa e da negociação de conflitos socioambientais na área de...

entre TOBE, comunidades locais e ambientalistas. Contudo, parte


dos conselheiros acreditava que a IN prejudicava os campeonatos
de surf, foi elaborada de forma antidemocrática, não houve envol-
vimento social e não distribuiu bem as áreas marinhas. A decisão da
plenária foi a favor da IN 1002/2006. Dessa forma, mediante tantas
posições diferentes, foi proposto que o GT continuasse o trabalho,
agora como GT TOBE para monitorar a IN e o TOBE.

TOBE e Ação Civil Pública da Sea Shepherd

A equipe da APABF conduzia o monitoramento do TOBE ca-


dastrando as empresas de turismo embarcado, firmando termo de
compromisso, solicitando planilha de registro de avistagens em co-
operação com Projeto Baleia Franca, a qual realizava a capacitação
das operadoras. Em 2009 um conselheiro informou ao conselho
que foram feitas denúncias sobre a aproximação irregular das em-
barcações de TOBE a grupos de baleias. Naquela oportunidade, a
chefia da APABF explicou que essa atividade é considerada não le-
tal e que as operadoras fazem o curso de capacitação e devem cum-
prir as normas acordadas. Em 2012, uma entidade conselheira mo-
veu uma ACP, com base em relatos de molestamento intencional
de cetáceos, solicitando ao ICMBio o cumprimento das medidas
de proteção de cetáceos previstas na legislação, a suspensão das ati-
vidades e que intimasse a APABF a comprovar o cumprimento da
Portaria nº 117/96 do IBAMA. Dessa forma, a conselheira enten-
dia que a APABF não estava cumprindo com a legislação, já que
não havia formulado regras claras sobre essa atividade, pois, no
caso de TOBE em UCs, é a unidade que deve determinar as regras
sobre cadastramento de embarcações, número de embarcações etc.
A equipe da APABF se defendeu afirmando que a IN 102/2006
estabelece restrições às atividades náuticas dentro da APABF e vem
controlando a atividade desde 2005. Mesmo assim, a Procuradoria
Federal Especializada resolveu suspender a atividade. O conselho

54
Áreas Protegidas: Experiências de pesquisa e extensão no Sul do Brasil.

manifestou interesse em debater mais a fundo o assunto durante as


reuniões. No entanto, a equipe da APABF informou aos conselhei-
ros que ela não poderia mais comentar sobre a ACP nas reuniões,
pois, enquanto ré no processo, havia sido orientada pela Advocacia
Geral da União a manifestar-se apenas nos autos do processo. Des-
se modo, a atividade ficou suspensa até a elaboração de um EIA ou
formulação de normativa para essa atividade. Em 2009, devido à
falta de resolução do conflito, foi realizada uma plenária extraor-
dinária para nivelar as informações sobre o TOBE entre novos e
antigos conselheiros. Da mesa de discussões participaram o Insti-
tuto Baleia Franca (IBF), a ONG AMA, representante da equipe
da APABF, CT Conservação de Baleias, Instituto Sea Shepherd e
Procuradoria Federal Especializada. O IBF defendeu a atividade,
relatando que o TOBE é realizado em 119 países. A ONG AMA
defendeu que o TOBE na APABF ainda não era sustentável e que
as embarcações estavam descumprindo as regras. Além disso, em
estudo realizado em 2012, concluiu que os pescadores têm pouca
ou nenhuma participação na atividade e não se beneficiam econo-
micamente da presença dos turistas. O CT Conservação da Baleia
realizou um levantamento de como o TOBE é regulamentado em
outros países, pois no Brasil nenhuma norma regulamenta essa ati-
vidade. O Instituto Sea Shepherd mostrou fotos de irregularidades
e relatou fatos que motivaram a ACP. Por fim, a Procuradoria Fede-
ral Especializada do ICMBio afirmou que a atividade é sustentável,
mas que existe a necessidade de mais estudos. O conselho opinou
que poucas pessoas eram economicamente beneficiadas pela ativi-
dade; existe descumprimento da legislação por parte da APABF;
o trânsito de embarcações prejudica as baleias; é uma atividade
econômica importante; o TOBE estava sendo feito de acordo
com a legislação vigente. Colocou-se a questão de possibilidade
de acordo entre as partes. A Sea Shepherd afirmou que não existe
possibilidade de conciliação, pois os estudos mostram que não há
viabilidade para essa atividade. Ficou resolvido que a CT Conser-

55
Desafios da gestão participativa e da negociação de conflitos socioambientais na área de...

vação da Baleia iria fazer mais pesquisas para embasar um posicio-


namento ao conselho sobre o TOBE.

O CONAPA e a gestão participativa

Como é possível observar, o terceiro momento do processo de


elaboração do PM da APABF ainda não acabou. Até dezembro de
2015, data da última ata pesquisada, as OPPs setoriais, consideradas
fundamentais pela equipe da APABF para realizar o zoneamento,
não haviam sido realizadas. A divisão em três momentos, realizada
arbitrariamente, permitiu avaliar que o processo regrediu diversas
vezes, em função de mudanças no âmbito político e administrativo
da instituição gestora e problemas relacionados ao financiamento do
projeto. Ou seja, depois de 47 reuniões em 10 anos de Conselho,
o PM se encontra inacabado por uma série de questões políticas e
administrativas que escapam da competência da equipe da APABF e
do CONAPA. O processo se mostra tão moroso que nem uma ACP
– com causa favorável à elaboração do plano e colocando-o no início
da fila de elaboração de PMs federais – pôde garantir a sua execução.
No que tange ao Conselho, percebe-se um momento inicial de eu-
foria logo que iniciaram as reuniões, principalmente em função da ACP,
quando os conselheiros acreditaram que o PM seria elaborado. No en-
tanto, sua elaboração não aconteceu, e outras discussões relacionadas à
participação do Conselho no processo de elaboração vieram à baila. A
partir do momento que a equipe da APABF anunciou que o TR estava
sendo confeccionado, foi possível observar um amadurecimento gradu-
al das discussões relacionadas ao PM, no qual os conselheiros questio-
navam a equipe da APABF sobre os aspectos participativos, não só dos
conselheiros, mas da comunidade em geral, além de manifestarem a sua
preocupação com o caráter consultivo do CONAPA.
Nesse sentido, os diversos obstáculos enfrentados para a concep-
ção do PM refletem processos altamente centralizadores e burocrá-
ticos, bem como a descontinuidade de políticas de gestão. Segundo

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Áreas Protegidas: Experiências de pesquisa e extensão no Sul do Brasil.

Vieira (2009, p. 53), os progressos obtidos nas políticas ambientais


estão em desarmonia com as “limitações do processo de reestrutura-
ção administrativa e acabou gerando um sério vácuo institucional”,
e ainda predomina, na área ambiental, uma política centralizadora
e autoritária. Somado a isso, o que é tomado como decisão a partir
do conselho pela equipe da APABF nem sempre é efetivado, pois o
processo de gestão não depende só do meio entre a UC e o conselho.
Mesmo que as deliberações do conselho sejam legitimadas pela equi-
pe da UC, pode existir uma “baixa taxa de vinculação entre o que
foi decidido nas reuniões e as ações voltadas para a efetivação dessas
decisões” (MACEDO, 2008, p. 15), pois o processo de gestão terri-
torial, principalmente quando se fala de um território da abrangên-
cia da APABF, necessariamente envolve todas as esferas de governo.
O caso do PM é um exemplo disso: mesmo com todo o esforço do
conselho e da equipe da APABF, ele ainda não virou realidade. Ou-
tro caso que chama a atenção é mineração na Lagoa do Camacho;
ainda que tenha tido um parecer negativo do conselho, a instalação
do módulo experimental foi liberada pelo Ministério Público.
Avalia-se também que a inexistência de um PM, que estabelece
normas e regras de uso, deixa o território de uma unidade de con-
servação do caráter da APA ainda mais suscetível aos conflitos. Nesse
entendimento, a diversidade de conflitos observados no território da
APA está intimamente relacionada à falta do documento norteador
dessas atividades, que possa integrar as diversas visões de futuro dos
setores da sociedade. Ao mesmo tempo, a resolução dos conflitos só
pode ser feita caso a caso, sobrecarregando não só a equipe da UC,
mas também seu conselho gestor.
Além da sobrecarga de demandas, o CONAPA enfrenta outras
dificuldades. Uma pesquisa realizada por Macedo (2008) levantou
que um dos principais problemas dos conselhos de APAs Federais
é a pouca atuação e efetividade das Câmaras Técnicas e Grupos de
Trabalho e que, de acordo com os gestores, a baixa efetividade desses
espaços é o principal ponto negativo dos conselhos existentes. O

57
Desafios da gestão participativa e da negociação de conflitos socioambientais na área de...

caso da APABF não é diferente; percebe-se que os grupos de traba-


lho nem sempre se mostraram efetivos e, com poucos resultados,
foram substituídos ou extintos. Desse modo, existe a falta de com-
prometimento do conselho com alguns grupos de trabalho e mui-
tos assuntos deixaram de ser debatidos a fundo pelo pouco caráter
propositivo deles. No entanto, também se nota que a APABF, em
parceria com próprio CONAPA, foi reestruturando esses espaços de
discussão extraplenária e amadurecendo sua estrutura. Desde 2012,
as novas CT, com propósitos mais definidos que as anteriores, têm
funcionado de forma mais eficiente. Sua função é discutir a fundo as
questões levantadas durante as plenárias e trazer sugestões para que
sejam debatidas entre todos os conselheiros, incluindo os pareceres
sobre os quais a APABF precisa se posicionar. O GT carcinicultura
foi dos que mostrou resultados e subsidiou o parecer do IBAMA em
relação à fazenda usada como estudo de caso. Dessa forma, apesar do
processo lento de maturação desses espaços, os GTs e CTs, associa-
dos à capacitação continuada, contribuem para o empoderamento
do conselho na medida em que, além de se caracterizarem como
um espaço informativo, descobrem, pouco a pouco, que as sugestões
formuladas ali podem contribuir para a negociação dos conflitos.
Outro ponto a ser levantado é que os conselheiros são efetiva-
mente incluídos no processo de gestão, isto é, praticamente toda e
qualquer decisão passa pelo conselho da unidade. Essa é uma carac-
terística bastante interessante da gestão da APABF, pois, por vezes,
até se confunde o processo de gestão realizado individualmente pela
equipe da APABF e as atribuições dos conselheiros. Contudo, o pro-
cedimento deixa o processo de gestão, embora participativo, extrema-
mente lento. No caso dos pareceres, por exemplo, eles são elaborados
por dentro das CTs e, depois de prontos, aguardam a próxima ple-
nária para votação. Em casos mais urgentes, são realizadas reuniões
extraordinárias específicas para consultar o conselho sobre algum
parecer. Esse sistema torna lento o processo de tomada de decisão
e sobrecarrega o conselheiro.

58
Áreas Protegidas: Experiências de pesquisa e extensão no Sul do Brasil.

De acordo com os processos decisórios descritos acima, infe-


re-se que o CONAPA, na hora de tomada de decisão, considera,
sobretudo, a parte ambiental. Embora nem todas as decisões sejam
tomadas a favor disso, pela falta de restrição que a categoria de UC
apresenta, cabe mais ao conselho deliberar sobre se a atividade está
sendo realizada com parâmetros ambientais adequados ou não. Há
alguns casos emblemáticos, como o Complexo Eólico de Laguna,
a pavimentação da SC 100 e o Loteamento Ecovitta, os quais fo-
ram aprovados pela impossibilidade de justificar uma negativa, isto
é, ainda que não infringissem norma ambiental alguma, o conselho
não se sentiu confortável em apoiar os projetos. Aqui se encontra
outra questão interessante referente ao conselho: confusões sobre as
possibilidades de uma APA como instrumento de ordenação do ter-
ritório. Muitos dos conselheiros, principalmente no que se refere à
ocupação urbana, acreditam ou gostariam que a APABF inibisse esse
tipo de atividade. O caso da pesca artesanal também exemplifica essa
questão. Esse grupo, da maneira como é representado no conselho,
espera que a UC possa, de alguma forma, inibir a pesca industrial no
território da APABF
Analisa-se que o caráter lento do processo de gestão participa-
tiva seja intrínseco a ele. Em contrapartida, o processo participativo
acaba por não andar na mesma velocidade que as dinâmicas das ati-
vidades desenvolvidas no território. Isso pode prejudicar de forma
determinante o processo de gestão. Pois, ao mesmo tempo em que
as questões estão tramitando via conselho, as pressões de uso estão
se desenvolvendo ininterruptamente sobre o território. Outra carac-
terística é a quantidade excessiva de judicialização de processo. Pelo
menos, mais da metade dos casos analisados sofreram algum tipo de
judicialização, ou em forma de embargo ou em forma de ACP, como
é a questão do TOBE, mineração nas dunas de Ibiraquera, abertura
da Barra do Camacho etc.
Embora o conselho enfrente problemas, ele pode ser caracteri-
zado como um catalisador de um processo participativo. Segundo

59
Desafios da gestão participativa e da negociação de conflitos socioambientais na área de...

Vivacqua, Santos e Vieira (2009), a APABF assumiu um papel deter-


minante nesse processo de empoderamento das comunidades locais
na gestão dos recursos de uso comum. A chefia da APABF mostrou-
-se indiscutivelmente aberta ao processo participativo de gestão do
território, visto que, como dito anteriormente, todos os processos
são debatidos no conselho e passam pela aprovação do mesmo, isto
é, apesar de legalmente o conselho ser consultivo, a equipe gestora
tem conseguido legitimar a maior parte das deliberações do conselho
(VIVACQUA; SANTOS; VIEIRA, 2009)

Conclusão

Conclui-se que quase todas as questões de uso do território da


APABF passam pela análise do CONAPA, além da diversidade de
conflitos existentes. Os principais conflitos envolvem temáticas rela-
cionadas à pesca, ocupação urbana, turismo de observação de baleias
e Porto de Imbituba. Percebe-se que o território da APABF é extre-
mamente dinâmico do ponto de vista do uso do solo e existe uma
imbricação entre esses usos, a qual gera essa diversidade de conflitos.
Como se pôde observar, a resolução está sendo feita de forma pontu-
al, devido à falta, fundamentalmente, do plano de manejo da unida-
de, o qual sofreu diversas interrupções no seu processo de elaboração
por demandas externas à APABF.
É possível inferir que a APABF se faz presente no território,
principalmente através do seu conselho. Nesse sentido, não há dú-
vidas da capacidade pedagógica do CONAPA e que, apesar de to-
dos os problemas a serem enfrentados, ele proporciona “ensaios” da
democracia participativa, exercício da cidadania e empoderamento
das comunidades locais. Porém, a gestão participativa se mostra um
processo gradual e esse processo sobrecarrega os conselheiros que de-
vem dedicar um maior tempo à prática participativa no CONAPA.
Outro ponto relativo à sua efetividade é o pouco cumprimento do
que foi decidido no âmbito do conselho pelas instituições compe-

60
Áreas Protegidas: Experiências de pesquisa e extensão no Sul do Brasil.

tentes, observado, sobretudo, no processo de elaboração do plano de


manejo. Nessa perspectiva se faz necessário um amadurecimento não
só do seu funcionamento, mas da consciência dos envolvidos.

61
Desafios da gestão participativa e da negociação de conflitos socioambientais na área de...

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63
Aspectos biogeográficos do parque estadual da serra do tabuleiro: Da distribuição das...

“Global Forest Watch” e “NatureServe”, os quais serão detalhados


no item metodologia.

Mas o que são e para que servem as Áreas Importantes


para a Conservação da Biodiversidade e das Aves (IBAs)?

“É uma iniciativa mundial que visa identificar, documentar e


proteger uma rede de áreas críticas para a conservação das popula-
ções de aves e seu espaço geográfico, para a qual uma abordagem
baseada no local é apropriada” (FISHPOOL & EVANS, 2001, p. 1).
O conceito de áreas importantes para a conservação das aves teve iní-
cio na Europa na década de 1980 (BENCKE et al., 2006, p. 22). O
reconhecimento dessa iniciativa e as oportunidades de conservação
das espécies e dos ecossistemas na Europa propagaram-se no âmbito
mundial (GRIMMETT et al., 1989; HEATH et al., 2000; EVANS,
1994; FISHPOOL et al., 2001; BIRDLIFE INTERNATIONAL,
2004a; BIRDLIFE INTERNATIONAL et al., 2005; DEVELEY et
al., 2009; BIRDLIFE INTERNATIONAL, 2008; DUTSON et al.,
2009; BIRDLIFE INTERNATIONAL, 2012; BIRDLIFE INTER-
NATIONAL, 2013).
Até o momento, 9.544 IBAs de importância global foram iden-
tificados em 218 países e territórios (BIRDLIFE, 2013). Na América,
o programa iniciou no ano de 1995 (WEGE et al., 1995, apud BEN-
CKE et al., 2006, p. 23). “No Brasil são identificadas 234 IBAs, co-
brindo 93.713.597 hectares, o que equivale a 11% de todo o território
nacional” (DEVELEY & GOERCK, 2009, p. 100). Segundo os mes-
mos autores, p. 103, noventa e três IBAs (40%) não estão oficialmente
sobrepostas em UCs; noventa e duas (39%) estão em parte protegidas
e cinquenta e uma (21%) possuem sobreposição naquelas de proteção
integral. “Das 234 IBAs existentes no Brasil, 69% (163) estão locali-
zadas no Bioma Mata Atlântica e 31% (74) localizam-se nos biomas
Amazônia, Cerrado e Pantanal” (SAVE BRASIL, 2013). No Estado
de Santa Catarina, totalmente inserido no bioma Mata Atlântica, fo-

66
Áreas Protegidas: Experiências de pesquisa e extensão no Sul do Brasil.

ram identificadas 10 IBAs, sendo o PAEST mapeado de acordo com


a ocorrência de espécies enquadradas em critérios relacionados ao nú-
mero significativo de espécies de interesse para a conservação mundial
e pelo elevado número de espécies com distribuição restrita ao bioma
Mata Atlântica (BENCKE et al., 2006, p. 406).
A presente pesquisa focou na construção de um instrumento
metodológico baseado nas características apresentadas pela Estrutu-
ra Global de Monitoramento em Áreas Importantes para a Conser-
vação da Biodiversidade e das Aves, idealizada pela BirdLife (2006),
com base nas informações contidas em Fishpool et al. (2001). Esse
instrumento foi adotado por ser amplamente aplicado no mundo e
nessa ocasião sofreu adaptações à realidade brasileira, com ênfase na
IBA-PAEST. A pesquisa foi realizada entre os anos de 2013 e 2015
utilizando-se de dados secundários e primários a fim de compor as
matrizes de avaliação na área de abrangência do parque.

Caracterização da área de estudo

O PAEST foi criado por meio do Decreto n° 1.260/75 e abran-


ge áreas de oito municípios: Florianópolis, Palhoça, Santo Amaro
da Imperatriz, Águas Mornas, São Bonifácio, São Martinho, Imaruí
e Paulo Lopes. Engloba também as ilhas do Andrade, Irmã Peque-
na, Irmã do Meio, Siriú, Coral, do Lago, dos Cardos e a ponta sul
da Ilha de Santa Catarina (SANTA CATARINA, 2013), conforme
mostra a Figura 1. Possui uma área de 84.130 hectares com objeti-
vo de proteger uma ampla biodiversidade da região centro sul do
Estado de Santa Catarina de potenciais ameaças impostas por ações
antrópicas mal planejadas, além da manutenção dos mananciais hí-
dricos que abastecem as cidades da grande Florianópolis e do sul do
Estado (SANTA CATARINA, 2013).
Segundo Bencke et al. (2006, p. 411), o PAEST “abriga uma
enorme diversidade de ecossistemas e abrange uma variação altitudi-
nal ampla (0 a 1200 metros), sendo dotado de uma dinâmica ecoló-

67
Aspectos biogeográficos do parque estadual da serra do tabuleiro: Da distribuição das...

gica bastante suscetível às intervenções humanas”. Ao mesmo tempo,


caracteriza-se como um refúgio de grande valor biológico ao abarcar
uma ampla biodiversidade, exclusiva do bioma Mata Atlântica.
Com relação aos aspectos geomorfológicos, o parque é carac-
terizado por apresentar dois domínios morfoestruturais: os emba-
samentos cristalinos e as acumulações recentes (SANTA CATARI-
NA, 2008, p. 64). A cobertura vegetal existente no parque, segundo
Klein (1981, pg. 21), varia entre as seguintes fitofisionomias: “vege-
tação litorânea (restinga e manguezal), mata de planície quaternária
, mata pluvial atlântica, mata dos pinhais, matinhas de altitude e
campos do alto da Serra do Tabuleiro”. Em termos quantitativos,
aproximadamente 90% da área geográfica do parque é coberta por
floresta ombrófila densa. Importante ressaltar que a combinação en-

Figura 1 - Localização e limites do Parque Estadual da Serra do Tabuleiro

Fonte: Autor

68
Áreas Protegidas: Experiências de pesquisa e extensão no Sul do Brasil.

tre essas litologias e a sua cobertura vegetal são essenciais no âmbito


da compreensão da dinâmica de populações de aves ameaçadas de
extinção presentes na IBA-PAEST.

Procedimentos para a elaboração dos mapas de distri-


buição das espécies de aves ameaçadas de extinção

Para a identificação das espécies de aves ameaçadas de extinção


existentes na IBA-PAEST, foram utilizadas as listas oficiais da União
Internacional para Conservação da Natureza (IUCN, 2013) e a lista
das espécies de fauna ameaçadas de extinção do Estado de Santa
Catarina (CONSEMA, 2011).
As dezessete espécies presentes nessas listas (16 com hábitos flo-
restais e 1 marinho) foram analisadas a partir do acesso ao banco
de dados mundial das aves, que é gerenciado pela BirdLife (BIR-
DLIFE INTERNATIONAL; NATURESERVE, 2014), conforme
mostra a Tabela 1. Os dados brutos (polígonos) em formato “sha-
pefile” da distribuição geográfica das aves foram sobrepostos sobre
a área do parque, tomando o cuidado com as informações contidas
nos metadados desse banco para posterior georreferenciamento das
imagens e elaboração dos mapas temáticos finais. Os mapas foram
elaborados com a utilização do software ArcGis 10.1 a partir da fer-
ramenta “basemap”, que contém uma série de imagens de satélite
“online” com diferentes atributos, que na ocasião eram datadas do
ano de 2014.

Procedimentos para identificação das ameaças

Esse item iniciou com a coleta e análise de dados secundários


a fim de melhorar a caracterização do espaço a ser estudado e para
orientar a avaliação deste último. As principais fontes consultadas
foram documentos oficiais do órgão gestor, instrumentos de plane-
jamento da área, relatórios e trabalhos científicos.

69
Aspectos biogeográficos do parque estadual da serra do tabuleiro: Da distribuição das...

são de caça, por exemplo. As mudanças baseadas na área e a quali-


dade dos ecossistemas estudados foram valoradas temporalmente,
em uma escala anual de doze anos (entre 2001 e 2012). As análises
foram realizadas por três razões: (a) para demonstrar a utilidade de
ferramentas de análise por satélite em coberturas florestais; (b) para
dar início ao monitoramento dos ecossistemas florestais presentes
na IBA-PAEST; (c) para contribuir nas discussões estratégicas sobre
onde concentrar energias e recursos de conservação para as florestas
presentes no território da UC.

Resultados e discussão

A Mata Atlântica compõe um mosaico de ecossistemas tropicais


e subtropicais que incluem desde ambientes litorâneos como o man-
guezal e a restinga, florestas de encostas e de baixadas até ecossiste-
mas de altitude como a mata de araucárias e nebular. Este mosaico
de ecossistemas é responsável pela manutenção de uma das maiores
biodiversidades do planeta, alcançando o status de hotspot (MIT-
TERMEIER et al., 1998, p. 519). A alta diversidade de espécies na
Mata Atlântica está diretamente relacionada com a heterogeneidade
de habitats, tipos de solo, relevo, clima e a intrincada relação entre a
fauna e a flora (HADDAD; PRADO, 2005, p. 215).
No que diz respeito à avifauna nos limites do PAEST, inserido
100% no bioma Mata Atlântica, estima-se a ocorrência de aproxima-
damente 360 espécies de aves, o que equivale a uma diversidade de
55% do total para o estado. Esse número inclui também as espécies
marinhas e costeiras, já que o parque possui uma gleba significativa
de ambiente marinho, formado por faixas praiais e ilhas costeiras.
Segundo Birdlife (2019), 76 espécies de aves são consideradas
importantes (espécies gatilho) para o parque.
Durante as atividades de campo, que aconteceram no ano de
2014, no total foram avistadas 87 espécies, incluindo dez das dezes-
sete espécies ameaçadas de extinção propostas para pesquisa (Tabela

74
Áreas Protegidas: Experiências de pesquisa e extensão no Sul do Brasil.

1 e Figura 2). A espécie maria-da-restinga (Phylloscartes kronei) teve o


maior número de avistamentos, sendo observada em todos os pontos
de pesquisa, exceto nas ilhas Moleques do Sul.
Com relação aos mapas de distribuição das dezessete espécies
ameaçadas de extinção propostas para este estudo, através dos dados
contidos no banco mundial das aves (BIRDLIFE INTERNATIO-
NAL; NATURESERVE, 2014), quatro delas: gavião-pombo-pe-
queno (Amadonastur lacernulatus), maria-catarinense (Hemitriccus

Figura 2 - Exemplares das espécies observadas em campo no Parque Estadual da


Serra do Tabuleiro. No sentido horário temos: maria-da-restinga (Phylloscartes
kronei), gavião-de-penacho (Spizaetus ornatus), sabiá-cica (Triclaria malachitacea)
e cigarra-bambu (Haplospiza unicolor)

Fonte: Autor, exceto gavião-de-penacho (Spizaetus ornatus), registrado por Ro-


drigo Pacheco.

75
Aspectos biogeográficos do parque estadual da serra do tabuleiro: Da distribuição das...

kaempferi), sabiá-cica (Triclaria malachitacea) e surucuá-grande-de-


-barriga-amarela (Trogon viridis) não constam com distribuição nos
limites da IBA-PAEST; no entanto, foram avistadas em campo. No
caso da espécie maria-da-restinga (Phylloscartes kronei), sua distri-
buição contempla apenas a faixa litorânea do parque, entretanto, a
mesma foi avistada em ambientes com floresta ombrófila densa em
altitudes que alcançaram 400 metros.
No caso das seguintes espécies: jacupemba (Penelope supercilia-
ris), estalinho (Phylloscartes difficilis), patinho-gigante (Platyrinchus
leucoryphus) e pimentão (Saltator fuliginosus), os dados apresentam a
distribuição das mesmas no parque, mas não foram avistadas duran-
te as campanhas de campo.
Diante desses resultados, espera-se que esforços amostrais mais
intensos devam ser focados, principalmente, nas sete espécies amea-
çadas de extinção que não foram registradas nas campanhas de cam-
po tendo como objetivo principal a compreensão de seus status e
possíveis medidas de conservação.

Ameaças incidentes sobre os ecossistemas essenciais para a


manutenção das espécies de aves ameaçadas de extinção

Proposto a avaliar aspectos que permitam identificar as ameaças


que incidem sobre os ecossistemas presentes na IBA-PAEST, este ob-
jetivo se tornou importante na compreensão do nível de pressão que
as espécies de aves e os ecossistemas estão sofrendo e que os colocam
em algum grau de ameaça de extinção.
Em uma análise geral das ameaças dentre os pontos estuda-
dos, identificou-se que a agricultura, através da criação de re-
banhos e cultivos anuais, caça e armadilhas, residências e áreas
urbanas, estradas e resíduos sólidos são as pressões mais impor-
tantes sobre a área, pois obtiveram um valor de impacto muito
alto, igual a 8 pontos na soma do período, escopo e gravidade da
ameaça (Figura 3).

76
Áreas Protegidas: Experiências de pesquisa e extensão no Sul do Brasil.

Não menos importante e com valor de impacto alto foram iden-


tificadas as seguintes ameaças: desmatamento, espécies exóticas in-
vasoras, poluentes domésticos e efluentes urbanos, fogo, áreas turís-
ticas e recreacionais, seca hidrológica, mortalidade indireta (recursos
aquáticos), efluentes de práticas agrícolas e florestais, coleta de plan-
tas, linhas de energia, pesca, poluição luminosa e poluição sonora, as
quais variaram com pontuações entre 6 e 7 (Figura 3).

Figura 3 - Gráfico geral das ameaças identificadas no Parque Estadual da Serra do


Tabuleiro

Fonte: Autor

Atividades agrícolas

Os resultados até aqui alcançados corroboram as tendências mun-


diais, as quais alegam que “a expansão das atividades agrícolas causou
a destruição de grandes áreas de habitat natural, incluindo as florestas,

77
Aspectos biogeográficos do parque estadual da serra do tabuleiro: Da distribuição das...

campos naturais e zonas úmidas em quase todas as regiões do globo”


(BIRDLIFE, 2004b, p. 3). Diante disso, por exemplo, entre as 1.045
aves globalmente ameaçadas pela destruição do habitat no ano de 2004,
quase a metade dos casos estavam relacionados com essas atividades.
“Na África, a destruição do habitat através da agricultura ame-
aça mais de 50% das IBAs” (BUCHANAN et al., 2009, p. 52).
“Na Europa, a expansão e a intensificação da agricultura estão entre
as principais ameaças sobre as IBAs, com um impacto que chega a
35%” (HEATH & EVANS, 2000 apud BIRDLIFE, 2004b, p. 31).
Na Argentina, onde os campos naturais (pampas) são as paisagens
predominantes, “as atividades agrícolas e a pecuária são as principais
causas da destruição desses ambientes, sendo que apenas 3% desses
ecossistemas encontravam-se em estado original no ano de 2000”
(DI GIACOMO; KRAPOVICKAS, 2005, p. 1246). Em território
australiano, “cerca de 53 % do total das terras do país são utilizadas
para a agricultura, principalmente para pastagem e pecuária, sendo
que o maior impacto sobre as aves no país tem sido a conversão de
habitat natural para o desenvolvimento desta atividade”, causando
muita pressão sobre as espécies ameaçadas de extinção que depen-
dem de habitats específicos (AUSTRALIAN BUREAU, 2013).
Ainda ligadas às atividades agrícolas foi possível identificar ame-
aças relacionadas à utilização de substâncias tóxicas (agrotóxicos) na
manipulação de culturas anuais nos limites da IBA - PAEST. Esses
poluentes persistem no ambiente e podem percolar para a água e/
ou manter-se no ar, longe da sua fonte. “Estas substâncias se acumu-
lam nos tecidos adiposos dos organismos, e suas concentrações au-
mentam drasticamente na cadeia alimentar”, conforme identificou
Orris et al. (2000, p. 3). Nos Estados Unidos, por exemplo, estudos
realizados na região dos Grandes Lagos, fortemente poluída com re-
síduos químicos, revelaram que “predadores, incluindo as águias e
os biguás, possuem grandes problemas de saúde relacionados com
estes produtos, gerando declínios importantes das suas populações”
(ORRIS et al., 2000, p. 7).

78
Áreas Protegidas: Experiências de pesquisa e extensão no Sul do Brasil.

Caça e armadilhas

Os maiores riscos associados a essas ameaças na IBA-PAEST são


a drástica redução das populações e sua possível extinção, principal-
mente das espécies como a jacutinga (Aburria jacutinga), jacupemba
(Penelope superciliaris) e o macuco (Tinamus solitarius), que são caça-
das para servirem de alimento aos coletores ilegais de palmito-juçara
e caçadores esportivos que adentram os limites do parque. As espé-
cies como o papagaio-de-peito-roxo (Amazona vinacea), sabiá-cica
(Triclaria malachitacea), araponga (Procnias nudicollis), saíra-sapu-
caia (Tangara peruviana) e pimentão (Saltator fuliginosus) são muito
procuradas pelo mercado de “aves de gaiola”, devido ao seu canto
e coloração característicos. A captura ilegal dessas espécies em vida
livre e a crescente destruição de seu habitat são os principais motivos
da redução de suas populações e consequentemente de seus status de
ameaça. Em termos mundiais, a caça para alimentação e para o co-
mércio de aves de gaiola afeta mais de 30% das espécies de aves glo-
balmente ameaçadas. “A exploração atinge principalmente inúmeras
famílias de aves, incluindo os papagaios, tinamídeos e os cracídeos”,
conforme relata BirdLife (2008, p. 14).

Impactos da infraestrutura

“A abertura de estradas para construção de novas habitações é


uma das grandes responsáveis por destruir e degradar habitats natu-
rais” (BIRDLIFE, 2013, p. 14). A expansão do ambiente construído
no entorno e até mesmo dentro da IBA-PAEST tem um impacto
significativo sobre as populações de aves, principalmente porque
destrói, degrada e fragmenta habitats naturais. Não só nos limites do
parque, mas em todo o mundo, essa é uma das principais ameaças
para muitas espécies de aves, principalmente aquelas que dependem
de ambientes restritos como as restingas e os manguezais. Para esses
ambientes, no tocante a IBA-PAEST, podem ser citadas as seguintes

79
Aspectos biogeográficos do parque estadual da serra do tabuleiro: Da distribuição das...

espécies em risco de extinção: maria-da-restinga (Phylloscartes kro-


nei), curriqueiro (Geositta cunicularia) e a saracura-matraca (Rallus
longirostris), que sofrem com o crescimento urbano desordenado e
consequentemente com a perda de seus habitats naturais.

Resíduos sólidos

Esta ameaça obteve valor de impacto muito alto na IBA-PAEST, onde


se destacou a extensão da Praia do Maciambú, com grandes acumulações
de lixo. Esse tipo de ameaça provoca sérios problemas para as populações
de aves marinhas e costeiras, pois as mesmas, ao ingerirem essas partículas
acidentalmente, acabam morrendo pelo bloqueio de seu trato digestivo.
As espécies de aves que mais sofrem com este tipo de ameaça no parque
são: o pinguim-de-magalhães (Spheniscus magellanicus), o trinta-réis-real
(Thalasseus maximus), as batuíras e os maçaricos, o curriqueiro (Geositta
cunicularia), a saracura-matraca (Rallus longirostris), o martim-pescador-
-grande (Megaceryle torquata) e o Martim-pescador-verde (Chloroceryle
amazona), o biguá (Phalacrocorax brasilianus) e o piru-piru (Haematopus
palliatus), pois suas áreas de alimentação estão ligadas aos locais onde fo-
ram identificados grandes volumes desses resíduos.

Perda de cobertura florestal

Esta ameaça nos limites da IBA-PAEST causa impactos diretos:


o corte da floresta proporciona abertura de caminhos e incentiva
outras atividades ilegais como invasões e colonizações humanas nos
limites da UC, gerando inúmeras consequências para as aves amea-
çadas de extinção. Na Ásia, por exemplo, “este tipo de ameaça já na
década de 90 contava com uma perda de 0,7% da área de floresta
a cada ano, principalmente com cortes rasos” (FAO, 1997, p. 186).
Em regiões da Malásia e Indonésia, muitas florestas sofreram com
o desmatamento e as florestas primárias se tornaram cada vez mais
escassas (SCHELHAS et al., 1996, p. 103).

80
Áreas Protegidas: Experiências de pesquisa e extensão no Sul do Brasil.

Introdução de espécies exóticas invasoras

Esta ameaça foi identificada em todos os pontos de pesquisa,


com elevada abundância de pinheiros (pinus elliotis). Essa espécie é
bastante problemática dentro dos limites do parque por ser conside-
rada não autóctone, invasora e com alto poder de disseminação. Esta
ameaça se caracteriza pela introdução de plantas e animais que cau-
sam impactos adversos sobre os ecossistemas e sobre as aves. Global-
mente, as espécies exóticas invasoras são consideradas uma primeira
ameaça para muitas espécies nativas, pois concorrem por alimento e
espaço, sendo que muitas vezes acabam por extinguir as espécies do
local (BIRDLIFE, 2004b, p. 44). A presença dessas espécies ocasio-
na também grandes modificações nas relações ecológicas naturais e
consequentemente pode gerar deslocamentos de nichos, hibridação
e predação.

O fogo e a supressão do fogo

É uma ameaça importante que obteve um valor de impac-


to alto e refere-se ao padrão de incêndios ao longo do tempo
e em toda a paisagem analisada durante o estudo. Regimes de
fogo com grandes intensidades foram identificados nos limites
do parque, principalmente no ponto próximo da sede, e causa-
ram grandes danos ao ecossistema natural e consequentemente às
aves. Esses incêndios aconteceram nos anos de 2012 e 2013 com
uma perda de área natural de aproximadamente 900 hectares. É
importante ressaltar que o fogo natural em florestas tropicais é
extremamente raro, e, portanto, supõe-se, os incêndios em sua
maioria são provocados por humanos, causando enormes preju-
ízos para a biodiversidade local. Dentro desse contexto, visando
um cenário de mudança climática, o qual se estima aumentar a
frequência e a intensidade de incêndios na Mata Atlântica, cada
vez mais essa ameaça representará perigo para as aves que habi-

81
Aspectos biogeográficos do parque estadual da serra do tabuleiro: Da distribuição das...

tam a borda de floresta no parque. Assim, as espécies que tiverem


condições de deslocamentos maiores poderão recolonizar outros
habitats e demorar décadas para voltarem a seus locais de origem.
Em uma perspectiva mais pessimista, as populações de espécies
que não conseguem fazer grandes deslocamentos poderão sofrer
drásticas reduções após os incêndios de grandes escalas, pois as
manchas remanescentes de habitats queimados podem se tornar
demasiadamente pequenas ou isoladas, levando estas espécies
com ambientes restritos à extinção.

Mortalidade indireta de aves ligada às atividades pesqueiras

A mortalidade indireta de aves ligada às atividades pesqueiras


foi principalmente identificada nas Ilhas Moleques do Sul, as quais
representam uma importante pressão sobre as aves marinhas no
parque, como por exemplo: trinta-réis-real (Thalasseus maximus), o
biguá (Phalacrocorax brasilianus), a gaivota (Larus dominicanus), o
tesourão (Fregata magnificens), o atobá-marrom (Sula leucogaster) e
outras aves marinhas, como os albatrozes e petréis. O desenvolvi-
mento da pesca com espinhel é uma ameaça crescente para muitas
aves marinhas. Existem duas razões para que isso ocorra: (a) áreas
onde há grande concentração de pesca sobrepõem-se àquelas onde as
aves se alimentam; (b) as técnicas para prevenir a captura incidental
de aves não são obedecidas. “Em termos mundiais, as frotas que
utilizam o espinhel matam a cada ano cerca de 300.000 aves ma-
rinhas” (BIRDLIFE, 2004b, p. 43). Ainda, “muitos navios pescam
ilegalmente nos oceanos, os quais são responsáveis pela morte de um
terço deste total. O restante, dois terços, são vítimas de navios que
possuem licença” (BIRDLIFE, 2004b, p. 43). “Este tipo de captura
é a principal ameaça para as aves marinhas, sendo que vinte e uma
espécies de albatrozes estão classificadas como globalmente ameaça-
da ou quase ameaçada, devido a este tipo de técnica de pesca” (BIR-
DLIFE, 2004b, p. 43).

82
Áreas Protegidas: Experiências de pesquisa e extensão no Sul do Brasil.

Análise do estado de conservação

Como as populações de aves saudáveis dependem da qualidade de


seus habitats, este objetivo foi proposto para analisar o estado de conser-
vação do ecossistema florestal da IBA – PAEST, a fim de relacionar com
a saúde das 16 espécies de aves ameaçadas de extinção dependentes desses
ecossistemas. Como resultado dessa análise entre os anos de 2001 e 2012,
obteve-se um valor de perda de cobertura florestal de 283 hectares. As

Figura 4 - Mapa de localização das áreas que perderam cobertura florestal entre
2001 e 2012 no Parque Estadual da Serra do Tabuleiro

Fonte: Autor

83
Aspectos biogeográficos do parque estadual da serra do tabuleiro: Da distribuição das...

maiores perdas de cobertura florestal estão relacionadas às áreas de borda


de floresta e foram detectadas em grande parte nas regiões noroeste, nor-
deste e sudeste do parque, que compreendem os municípios de Águas
Mornas, Imaruí e Palhoça, respectivamente (Figura 4). Mesmo diante
desse valor, os ecossistemas que compõem o parque ainda se encontram
em boa qualidade, principalmente porque grande parte da área da UC
é de difícil acesso, devido ao relevo muito acidentado e pelo fato de ser
uma UC. A classificação foi considerada boa, porque os valores perdidos
equivalem a 7% em relação ao seu potencial ótimo, o que significa que o
parque ainda resguarda 93% de sua cobertura original, que era de 81.900
hectares em 1975 e, em 2012, passou a ser de 76.375 ha.

Considerações finais

O PAEST, apesar de apresentar uma cobertura florestal em bom es-


tado de conservação, merece atenção especial porque foram constatadas
perdas significativas de habitats dos quais aves ameaçadas de extinção
e outros organismos dependem. Embora o parque já tenha sido cria-
do há 43 anos, a integração entre aspectos biogeográficos, as ameaças
e o estado de conservação dos ecossistemas dessas espécies ainda não
tinham sido tema de investigação. Este artigo ainda procurou identifi-
car e quantificar, através de indicadores preestabelecidos, as principais
ameaças incidentes sobre os ecossistemas que o constituem, mostran-
do um amplo e complexo espectro dessas pressões com potencial para
modificar as relações e a estrutura dos habitats e ecossistemas. Quanto
ao método adotado, através de seus indicadores-chave, pode-se concluir
que o mesmo permite uma apresentação clara dos resultados, podendo
ser replicado para outras análises em IBAs do Estado de Santa Catarina.
O mesmo se mostrou apropriado por ser um sistema baseado em dados
qualiquantitativos e que visa a capturar uma impressão geral válida da
IBA. Entretanto, investigações mais aprofundadas e de longa duração
com dados quantitativos das espécies são necessárias para projetar as
tendências futuras das espécies e dos ecossistemas dentro e fora da UC.

84
Áreas Protegidas: Experiências de pesquisa e extensão no Sul do Brasil.

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88
Estratégias alternativas para a gestão de unidades de conservação: Estudo de caso do ...

modo a reduzir os conflitos e impactos subjacentes e tentar agregar


as necessidades e expectativas das comunidades humanas residentes
e/ou atuantes nos seus limites e entornos.
Visando uma aproximação regionalizada ao tema, debruçamo-nos
sobre o caso (sensu YIN, 2005) do Parque Nacional da Lagoa do Peixe
(Tavares e Mostardas, RS)2, com um complexo histórico de contradi-
ções, conflitos e impactos socioambientais, decorrentes ou amplificados
pela implantação e gestão dessa UC. Objetivando sistematizar as in-
formações sobre algumas das práticas da gestão ambiental nessa unida-
de, promoveu-se a revisão e análise documental sobre as consequências
ecológicas das referidas estratégias de manejo implementadas ou reco-
mendadas. Com base nos serviços ecossistêmicos [provisão, regulação,
suporte e culturais (KOSMUS; RENNER; ULRICH, 2012)], reco-
nhecidos por meio de uma matriz que discrimina os atributos, serviços
e beneficiários de cada ambiente (SCHERER; ASMUS, 2016; ASMUS
et al. 2015) adaptada ao contexto regional, e também da literatura da
área, discutem-se estratégias alternativas de gestão socioambiental que
promovam a conservação da estrutura e dos processos ecossistêmicos.
Muito antes da criação dessa UC, o referido território já era
ocupado por uma comunidade de pesca artesanal, instalada há di-
versas gerações, operando segundo regras de autogestão dos recursos
compartilhados (ALMUDI, 2008); os campos litorâneos adjacentes
à área lagunar foram progressivamente ocupados ao longo da colo-
nização pela pecuária extensiva e, mais recentemente, pelo cultivo

2 O Parque Nacional da Lagoa do Peixe foi criado em 1986, por sugestão do Instituto
Brasileiro de Desenvolvimento Florestal - IBDF (hoje IBAMA) visando à proteção de
espécies animais, particularmente das aves migratórias, que encontram na região condições
propícias para sua alimentação e repouso, durante seus voos anuais, entre pontos que
distam até 10.000 km desde as áreas de reprodução, na região ártica da América do Norte,
até os locais onde passam o inverno boreal, na Patagônia e adjacência. Estudos realizados
pelo CEMAVE (Centro de Estudos de Migração de Aves), órgão ligado ao IBAMA, na
área da Lagoa do Peixe por mais de 10 anos, foram de indiscutível relevância para a criação
deste Parque Nacional. Este fato possibilitou que o mesmo fosse incluído em 1991 na Rede
Hemisférica de Reserva de Aves Limícolas pela International Association of Fish Wildlife
Agency, na categoria de Reserva Internacional (KNAK, 1999: f. 04).

90
Áreas Protegidas: Experiências de pesquisa e extensão no Sul do Brasil.

do arroz irrigado (MORAES, 2009) e também, a partir do início da


década de 1970, por densos florestamentos industriais de Pinnus spp
(BURGUEÑO et al., 2013).
A perspectiva de análise aqui adotada entende que a gestão am-
biental é parte integrante e constitutiva dos processos ecossistêmicos
nos espaços e recursos aos quais se aplica; buscando atender ao prin-
cipal objetivo da criação dessa UC (a conservação dos habitats ali-
mentares – planos intermareais arenolamosos e áreas de águas rasas
- utilizados pela grande diversidade e abundância de aves costeiras
migratórias)3, uma série de medidas foi proposta ou adotada pelos
seus gestores. Sobre as consequências derivadas da aplicação do mo-
delo habitual de gestão socioambiental e de algumas das referidas
práticas de manejo, constata-se:

A remoção da comunidade de pesca artesanal

Esta proposta foi articulada sob a pretensa justificativa de impacto


ambiental causado pela atividade extrativa, e da impossibilidade
legal de exercício da mesma, nos limites de uma unidade de proteção
integral no SNUC – Sistema Nacional de Unidades de Conservação
(BRASIL, 2000); tal decisão em nada contribui para ampliar o
nível de conservação do ambiente e das aves costeiras migratórias,
mas incrementa a insegurança e desconfiança da população frente à
administração (ALMUDI, 2008).
A análise da atividade, com redes passivas (permitidas) e redes
de arrasto manual (proibidas), não demonstrou impacto ambiental
sobre as comunidades de macroinvertebrados bentônicos e aves
costeiras (FERREIRA, 2009, p. 28-29); tal fato não justificaria a
remoção da pesca artesanal. Por outro lado, essa análise explicita a
expressiva captura de juvenis de peixes e crustáceos pelas redes passivas

3 O objetivo superior do Parque Nacional da Lagoa do Peixe é a proteção de amostras dos


ecossistemas litorâneos da região da Lagoa do Peixe e, particularmente, das aves migratórias que
dela dependem para seu ciclo vital (Decreto no 93.546 de 06/11/1986), (KNAK, 1999: F. 01).

91
Estratégias alternativas para a gestão de unidades de conservação: Estudo de caso do ...

(por efeito do seu atrator luminoso), contrariando a expectativa de


maior impacto das redes de arrasto; essa situação demanda a revisão
dos critérios para liberação e proibição de artefatos pesqueiros, com
base em estudos locais, e não apenas em generalizações de resultados
de estudos em outros contextos socioambientais.

A abertura artificial da barra lagunar

Realizada originalmente pelos pescadores (em microescala, ma-


nualmente), para manutenção do fluxo hídrico e dos recursos bio-
lógicos associados entre a área lagunar e o oceano adjacente, atual-
mente é realizada pela prefeitura municipal (em grande escala, com
retroescavadeiras), decorrente da pressão política de grandes pro-
prietários rurais (através de vereadores e deputados), para facilitar a
drenagem dos campos litorâneos, beneficiando a pecuária extensiva
(para maior disponibilidade de áreas de pastagem), a rizicultura irri-
gada e os florestamentos industriais (para o controle do acesso e do
nível de água nessas culturas)4.
Em consequência do atual processo de abertura da barra, um
volume muito grande de água é bruscamente deslocado, cujo flu-
xo turbulento transporta grande contingente de adultos e juvenis
de peixes e crustáceos da lagoa para o mar; as áreas próximas ao
canal, cobertas de marismas e planos intermareais, ficam assim
expostas, eliminando os macroinvertebrados bentônicos. Ambos
os efeitos impactam momentaneamente tanto as aves costeiras
como a pesca artesanal; posteriormente, a conexão lagoa-mar se
estabiliza e permite o progressivo recrutamento de macroinverte-
brados e da ictiofauna.

4 Este processo artificial de abertura da barra é efetuado atualmente por pressão dos
agricultores-pecuaristas da região sobre o IBAMA e a Prefeitura de Tavares, uma vez que
suas terras ficam com as áreas de pasto e de plantio completamente inundadas. Muitos
queixam-se de que quando a abertura da barra é retardada sofrem grandes prejuízos com a
morte de gado (KNAK, 1999: E 17).

92
Áreas Protegidas: Experiências de pesquisa e extensão no Sul do Brasil.

A remoção dos rebanhos

Esta proposta foi motivada pelo objetivo de conservação


da “paisagem original” dos ecossistemas de campos litorâneos
adjacentes à área lagunar, em relação à estrutura e composição
botânica anteriores à introdução destas espécies pastadoras (bovinos
e ovinos). Tal prática de manejo, se adotada em toda a extensão da
área, pode desencadear diversos impactos ambientais5 que contrariam
os objetivos da conservação da biodiversidade regional.
A remoção absoluta dos rebanhos implicaria um impacto
ambiental para o maçarico-acanelado Calidris (Tryngites) subruficollis,
porque essa ave costeira migratória ameaçada de extinção, com
distribuição espacial bastante restrita e habitat muito seletivo
(CHANDLER, 2009, p. 281-282), vem sendo beneficiada pelo
nicho criado pelos mamíferos introduzidos (FARIA, 2016; SILVA,
2014), em consequência da ampliação da disponibilidade alimentar
para a mesma, pela atuação seletiva dos rebanhos granívoros sobre a
vegetação.

A remoção das concentrações de Pinnus spp.

Similarmente, tal proposta busca a supressão dessas árvores


exóticas, para a reconstituição da estrutura e comunidade vegetal
original nas áreas de campos litorâneos e dunas costeiras. Essa es-
pécie invasora (oriunda da tundra ártica) tem grande potencial de

5 A qualidade ambiental de marismas dominadas por gramas altas é fortemente degradada


pela ação de pastadores (COSTA et al., 1997), como é observado nas proximidades da
barra da lagoa (...); sendo proibida a pastagem nas áreas próximas à barra, dominadas
por Spartina densiflora, o risco de incêndios acidentais na área irá aumentar. Isto porque
esta espécie domina pisos esporadicamente alagados (...), que tendem a ficar expostos por
longos períodos durante os verões secos, além de acumular grande quantidade de detrito
foliar sobre a superfície das marismas (PEIXOTO, 1997). Este material entra facilmente
em combustão, e grandes áreas podem ser queimadas devido ao descarte de restos de
cigarros ou fósforos ainda acesos de carros ou por pedestres passando próximos às marismas
(KNAK, 1999, E. 42).

93
Estratégias alternativas para a gestão de unidades de conservação: Estudo de caso do ...

dispersão (a partir dos florestamentos industriais adjacentes à UC)6,


alterando rapidamente a fisionomia da cobertura vegetal (ROLON
et al. 2011). Contudo, sua remoção abrupta e irrestrita dentro da
área da UC pode desencadear uma série de impactos ecossistêmicos
e também contrapor-se aos objetivos básicos da mesma. Esses flo-
restamentos têm exercido relevante papel na estrutura do mosaico
de ambientes regionais, servindo como obstáculo ao vento e contri-
buído para a manutenção de pequenas áreas úmidas e lagoas; a sua
remoção completa e irrestrita iria acelerar o processo geológico em
curso, de progressiva colmatação das lagoas costeiras, decorrente do
transporte eólico de sedimentos, contrariando a expectativa de ma-
nutenção das mesmas, para a continuidade de sua função de habitat
alimentar para as aves costeiras.

Síntese das Constatações

O conjunto de estratégias adotadas-defendidas pelos gestores


da UC fundamenta-se no “mito na natureza intocada”, que advoga
a necessidade do isolamento de segmentos dos territórios, os quais
estariam assim livres da atuação humana, visando à manutenção das
“características originais” dos ecossistemas (DIEGUES, 1996); esse
pressuposto visa a segregar os espaços “naturais” e “humanos”, igno-
rando a convergência e coevolução entre os múltiplos ecossistemas e

6 Situados em sua maior parte fora dos limites do Parque Nacional, os florestamentos
proporcionam um impacto significativo tanto no aspecto visual como no desenvolvimento
da vegetação nativa da Unidade de Conservação. Os grandes talhões de Pinus elliottii e
Pinus taeda localizam-se principalmente no limite oeste do Parque Nacional, principal-
mente no município de Mostardas, tendo sido plantados por empresas de florestamento
aproximadamente há 20 anos. Existem alguns talhões também entre a Lagoa do Peixe e o
oceano, dentro dos limites do Parque Nacional (...). A dispersão das sementes de Pinus spp.
é feita pelo vento e, como a produção anual é grande, existe uma intensa regeneração na-
tural da espécie. Esta regeneração abundante promove um grande povoamento natural por
quase todos os tipos de ambiente, desde os campos de dunas até os banhados, prejudicando
muitas vezes a vegetação nativa devido ao crescimento rápido e à deposição de acículas que
literalmente “mata” a vegetação rasteira (KNAK, 1999, E 55).

94
Áreas Protegidas: Experiências de pesquisa e extensão no Sul do Brasil.

as atividades socioeconômicas interatuantes (DIEGUES, 2001) na


constituição do atual mosaico de paisagens, as quais exibem distintos
graus e formas de ajustes (com seus conflitos e impactos) recíprocos.
Tal paradoxo tem um consistente potencial pedagógico coleti-
vo, no sentido de se procurar evitar a adesão irrestrita e acrítica ao
“Princípio da Precaução” (AMOY, 2006), o qual vem sendo utilizado
como justificativa para muitas das medidas habituais de gestão socio-
ambiental nas UCs. Inadvertidamente, apesar da retórica e de algu-
mas iniciativas oficiais, grande parte das medidas de gestão tendem a
desconsiderar a complexidade dos socioecossistemas e a consequente
necessidade de adoção de um sistema de manejo e gestão adaptativo,
que possa reconhecer e adequar-se às inflexões nas formas e intensida-
des das respostas ecológicas das interações entre os processos e sistemas
naturais e a presença e as atividades socioeconômicas dela decorrentes.
Complementarmente, esta concepção alternativa de gestão socio-
ambiental só será eficazmente atendida quando os diversos atores so-
ciais envolvidos forem reconhecidos como parceiros de um processo, em
contínua construção, que incorpore na sua práxis a indissociabilidade da
educação e da gestão ambiental (QUINTAS et al., 2002), se e quando
for assegurada a integração entre as instituições gestoras, de modo equâ-
nime com a participação cidadã (LOUREIRO; CUNHA, 2008).
Embora teoricamente possa ter sido superado por uma visão mais
integradora sobre as interações natureza-sociedade, o mesmo continua
a determinar muitas das práticas na gestão ambiental: diversas restri-
ções legais e medidas de gestão socioambiental, empregadas ou pro-
postas nessa UC. Ao visarem à supressão das atividades humanas na
área, estas práticas, além de improdutivas em relação aos seus objetivos
conservacionistas, desconsideram a coevolução dos sistemas naturais e
antrópicos na configuração das atuais paisagens regionais (FERREI-
RA, 2015). Este conjunto de medidas de gestão poderia, no máxi-
mo, efetivar a conservação da “aparência” da paisagem pretérita, mas
não aquelas “características originais” das mesmas (como pretendido),
porque uma parcela mínima dos ecossistemas remanescentes retrataria

95
Estratégias alternativas para a gestão de unidades de conservação: Estudo de caso do ...

condições originais, livres da atuação humana (MEDEIROS; FIE-


DLER, 2011); pelo contrário, a maior parte de todos os ecossistemas
remanescentes mostra evidente interação da configuração geoambien-
tal com as atividades dos seres humanos.
Essas interações devem ser analisadas caso a caso, para averigua-
ção da ocorrência e profundidade dos respectivos conflitos e impac-
tos e, então, planejarem-se as medidas de manejo mais adequadas
para a reversão ou minimização dos mesmos. Embora tratem de pro-
blemas específicos, as situações constatadas não são exclusivas dessa
UC, mas são recorrentes na maioria das práticas de gestão ambiental
em outras áreas protegidas.

Estratégias Alternativas para a Gestão da UC

Diversos problemas da gestão ambiental assumem tal dimensão


porque o modelo de manejo, via de regra, ainda desconsidera a in-
serção dos princípios ecológicos como base do planejamento socio-
econômico. A visão sistêmica contribui para a melhor compreensão
dos fatores históricos e políticos atuantes sobre os processos naturais,
determinando similaridades e especificidades locais, as quais deman-
dam o aprimoramento contínuo do processo de gestão ambiental,
como prevenção aos riscos sobre o bem-estar humano.

Para ser viável e efetiva qualquer proposta de modelo alternativo


para a gestão das UCs regionais deveria considerar o contexto atu-
al, as dependências e singularidades socioeconômicas em relação
aos espaços e recursos naturais, interpretando os usos públicos
(devidamente regulados) das mesmas, não como obstáculos, mas
como elementos potencializadores de outras formas de relações
socioambientais. (FERREIRA, 2015, p. 99).

Na base dessa reflexão estão os próprios atributos da estrutura e


dos processos ecossistêmicos regionais predominantes, cuja identifi-
cação é essencial para a definição do que, para que, e como se objetiva

96
Áreas Protegidas: Experiências de pesquisa e extensão no Sul do Brasil.

conservar. A gestão socioambientalmente referida dessa UC, a partir


dos mesmos, pode ser beneficiada pelo entendimento de como as
atividades socioeconômicas podem contribuir na (re)configuração
da paisagem, da estrutura e dos processos ecológicos, de modo a ser
um instrumento favorável na consecução dos objetivos da conserva-
ção da geossociobiodiversidade regional.
As estratégias a serem implementadas devem procurar incorpo-
rar as atividades socioeconômicas na complexidade socioecossistê-
mica que constitui a UC e seus entornos, mobilizando o potencial
transformador das mesmas, em benefício da conservação das funções
ecológicas, e não mais apenas da aparência da paisagem “original”.
Por outro lado, deveríamos analisar a possibilidade de adapta-
ção das propostas e iniciativas desenvolvidas com outras perspecti-
vas (em outros contextos regionais): diversos serviços ecossistêmicos
proporcionados pelo mosaico de unidades ambientais nos seus limi-
tes e entornos poderiam vir a ser contemplados no respectivo plano
de manejo, autorizando e regulando as atividades socioeconômicas
que deles se beneficiam, assim reduzindo a pressão antrópica sobre a
base de sustentação dos ecossistemas regionais (VIVACQUA, 2005,
p. 121), muitos expostos a grandes impactos e transformações, pelo
incremento das demandas derivadas do crescimento socioeconômi-
co das áreas adjacentes (BAPTISTA, 2008, p. 11).
Um cenário promissor para a adoção de novas formas de gestão
das UCs advém das recentes assertivas do ICMBio. Segundo o seu
Mapa Estratégico 2015-2018, sua missão institucional é:

proteger o patrimônio natural e promover o desenvolvimento so-


cioambiental. Nesse sentido, entende como necessário contribuir
para a integração e para o fortalecimento do Sistema Nacional de
Unidades de Conservação; ampliar o aproveitamento do potencial
econômico dos ativos ambientais das Unidades de Conservação;
envolver a sociedade na gestão das Unidades de Conservação e na
conservação da biodiversidade. Para tal, assume como benefícios
a serem atingidos: ampliar o uso público nas Unidades de Con-
servação; fortalecer a economia das populações tradicionais asso-

97
Estratégias alternativas para a gestão de unidades de conservação: Estudo de caso do ...

ciadas às Unidades de Conservação; promover a compreensão do


valor dos serviços ambientais prestados. (ICMBio, 2015, p. 101)

A partir disso, pragmaticamente, sugere-se a retomada dos prin-


cipais atributos da região que motivaram a criação da UC e, a partir
deles, a redefinição das prioridades de manejo. No caso específico
em análise (PARNA da Lagoa do Peixe), foram as aves costeiras mi-
gratórias e as áreas úmidas que lhes servem de área de descanso e
alimentação sazonal.
Assim, ao invés de persistir na tentativa de manutenção estática da
paisagem (submetida à crescente pressão antrópica de transformação),
pode-se atuar proativamente, promovendo ou adaptando forçantes in-
cidentes e decorrentes das atividades socioeconômicas regionais, que
possam contribuir efetivamente na (re)configuração de habitats e de
sua respectiva capacidade de suporte para a avifauna migratória (e os
demais taxa), sazonalmente compatível com as suas necessidades:

A perda de hábitats e extinção de espécies não são as únicas ame-


aças à biodiversidade. Os serviços ambientais – vitais para a ma-
nutenção da natureza – também estão ameaçados. Pressões an-
trópicas7 sobre os ecossistemas alteram o balanço das interações
biológicas do mundo natural, muitas vezes levando à perda de
processos como polinização, estabilização do clima, proteção do
solo ou purificação da água. Assim, igualmente importante à re-
dução da perda de biodiversidade, preservar os processos naturais
é vital para o bem-estar humano. Claramente, a gestão de espécies
e de ecossistemas em conjunto é a forma mais eficaz e racional de
abordar o problema. (PEREIRA et al., 2013, p. 10)

7 O que são pressões antrópicas? São atividades humanas potencialmente impactantes


a ecossistemas naturais, que podem levar à perda de biodiversidade. Alguns dos exemplos
mais claros de pressões antrópicas para os ecossistemas brasileiros são o desmatamento,
queimadas e poluição de corpos d’água. Outras pressões são menos marcantes, mas podem
ser igualmente alarmantes à biodiversidade, como a caça, a exploração excessiva de recursos
naturais e a introdução de espécies exóticas (http://www.conservation.org/learn/health/
pages/threats.aspx apud, PEREIRA et al., 2013, p. 10).

98
Áreas Protegidas: Experiências de pesquisa e extensão no Sul do Brasil.

Um modelo alternativo de gestão dessas UCs, integrando e


complementando as equipes das instituições gestoras (superando a
sobreposição de nichos e competências legais das mesmas), e inse-
rindo as demandas, necessidades e expectativas das comunidades do
entorno e da sociedade envolvente no seu planejamento cotidiano,
poderia consolidar um processo de pertencimento social (MATOS;
GUIMARÃES, 2008, p. 199) e contribuição para a sua efetivida-
de. Para as diversas atividades socioeconômicas interatuantes com
os ecossistemas regionais, objeto de ações de gestão conservativas já
referidas, podem-se propor outras formas de manejo, que utilizem
de modo mais eficaz de sua potência transformadora:

Florestamentos de Pinnus spp.

A remoção total e abrupta das concentrações dessas árvores


exóticas tenderia a desencadear o rápido assoreamento de pequenas
lagoas e banhados, protegidos do aporte contínuo de sedimentos
transportados pelo vento por tais formações vegetais. Sua atuação
como “quebra-ventos” tem sido favorável à manutenção das áreas
úmidas, podendo ser parcimoniosamente incorporada no plano de
manejo da unidade. O monitoramento da distribuição e dispersão
de tais espécies deverá contribuir para o zoneamento das diferentes
ações de manejo (BURGUEÑO et al., 2013), indicando as áreas
onde devem ser efetivamente erradicadas e onde podem ser manti-
das sob controle.
Nestas últimas áreas, o grande volume de areias depositadas na
sua base e porção frontal deveria ser estabilizado, de modo a evitar
que o mesmo pudesse romper a barreira e desabar bruscamente so-
bre as áreas úmidas adjacentes. Tal estabilização poderia utilizar-se,
em grande medida, dos resíduos da própria biomassa desses flores-
tamentos, melhorando a estrutura do solo; os troncos e grandes ra-
mos poderiam ser enterrados e entrelaçados por esteiras de juncos,
dispostos como suporte das barreiras eólicas, enquanto os ramos jo-

99
Estratégias alternativas para a gestão de unidades de conservação: Estudo de caso do ...

vens poderiam ser triturados e incorporados ao solo, após a compos-


tagem, para evitar sua propagação, agregando-lhe matéria orgânica
(HOLMGREN, 2013); esses procedimentos poderiam simular e es-
timular a sucessão ecológica da vegetação pioneira nas áreas de tran-
sição entre os mantos eólicos, campos litorâneos e as áreas úmidas.

Pecuária

A pastagem pelo gado (especialmente bovino e ovino) tem, efeti-


vamente, severas implicações sobre a ecologia da paisagem, pelo con-
sumo intensivo dos brotos e plantas jovens de gramíneas e frutíferas
nativas, dificultando a recuperação espontânea da comunidade vege-
tal. Um exemplo típico, na região sul do Brasil e Uruguai, se refere aos
butiás Butia odorata e B. capitata, palmeiras típicas da região - fonte de
alimento para diversos animais da fauna nativa, como graxaim, mão-
-pelada, gambá, veado, ouriço, caturritas, tucanuçu e ema, alguns dos
quais atuam como dispersores (RIVAS; BARILANI, 2004, p. 13).
Contudo, a remoção total da pastagem pelo gado reverteria parte
das transformações na estrutura das comunidades vegetais dos cam-
pos litorâneos, que foram benéficas para o maçarico-acanelado. Uma
alternativa prudente seria a adoção de experimentos de exclusão eco-
lógica, delimitando porções de áreas similares e vizinhas, mantidas
com e sem a pastagem pelo gado, para a avaliação da intensidade das
implicações sobre a comunidade vegetal (RIVAS; BARBIERI, 2014,
p. 14) e sobre as populações dessa ave migratória.
Os resultados desses experimentos poderiam ser utilizados para
a adoção de um sistema de rotação de áreas de pastagem e no di-
mensionamento do grau recomendável (flexível e adaptativo) de
ocupação pelos rebanhos, considerando sua ocupação sazonal pelos
maçaricos migratórios, para propiciar a recolonização do solo. Essas
ações de manejo possibilitariam a conciliação da viabilidade da ativi-
dade socioeconômica da pecuária, a recuperação de parte das comu-
nidades vegetais nativas (assim contribuindo com toda sua estrutura

100
Áreas Protegidas: Experiências de pesquisa e extensão no Sul do Brasil.

trófica) e a maior oferta de espaço e alimento para as aves migratórias


ameaçadas, no período mais necessário.

Barra lagunar

A interferência humana sobre o fluxo do canal lagunar regional é


muito antiga; considerada enquanto parte de um ambiente estuarino, a
barra lagunar constitui-se um laboratório vivo para o aprendizado da ges-
tão de conflitos socioambientais: ela incorpora aspectos positivos e nega-
tivos, os quais necessitam ser ajustados para adequarem-se à dinâmica do
ecossistema, à diversidade e à assimetria de atores sociais envolvidos.
Ecologicamente, é salutar e necessário garantir a continuidade do
fluxo hídrico, porém a dinâmica geomorfológica não é linear e homo-
gênea, mas dependente de ciclos sazonais, que integram períodos de
seca (com o isolamento das águas lagunares) com outros momentos
de intensas chuvas, ventos e ressacas marinhas (que restabelecem a
conexão). Além disso, as sucessivas transformações da economia alte-
raram não apenas a distribuição das diferentes manchas de ambientes
na paisagem, mas – especialmente - os processos ecológicos que regu-
lam os fluxos energéticos (e hídricos), incrementando a complexida-
de da gestão socioambiental. Assim, a drenagem de áreas úmidas nos
campos litorâneos (para o incremento da área disponível à pecuária),
a retificação de pequenos cursos d’água, convertendo-os em canais, as-
sociada ao bombeamento intensivo de pequenas lagoas interiores e da
Lagoa dos Patos (para a irrigação das lavouras de arroz), e a contínua
ampliação da área ocupada pelos florestamentos industriais em toda a
planície costeira (os quais também demandam grande volume de água
do lençol freático), vêm promovendo a alteração dos pulsos naturais
de maior ou menor disponibilidade de água na bacia de drenagem,
que se reflete na alteração da vazão do fluxo na barra lagunar, e na
oscilação do volume e período de assoreamento sedimentar da mesma.
O manejo adequado da barra, concebido para a manutenção do
fluxo hídrico entre o corpo lagunar e o oceano - vital para as redes

101
Estratégias alternativas para a gestão de unidades de conservação: Estudo de caso do ...

tróficas das quais dependem a pesca artesanal e as aves costeiras -,


poderia ser garantido por um sistema de comportas de pequeno por-
te, acionadas por energia elétrica, obtida a partir de aerogeradores lo-
cais. Contudo, o fluxo hídrico lagunar que chega à barra, e o próprio
microclima local (que o condiciona), estão sendo, cada vez mais,
influenciados pelo conjunto de atividades socioeconômicas dos en-
tornos, as quais precisam ser partícipes do processo de gestão. Es-
sas diversas atividades (pecuária, rizicultura e silvicultura) deveriam
ajustar-se a um sistema de planejamento e gestão ambiental, capaz
de viabilizar a integração das diferentes demandas de áreas e recursos
hídricos, de modo a evitar o habitual licenciamento individualizado,
que não considera os seus efeitos sinérgicos e cumulativos. Se tais
setores forem inseridos, de forma criteriosa e responsável em um
sistema de gestão participativa, cada qual poderá melhor planejar e
desenvolver suas atividades, conhecendo-se previamente as limita-
ções e potencialidades disponíveis, reguláveis e ajustáveis mediante
um programa contínuo e independente de monitoramento:

Envolver pessoas nas atividades de monitoramento é um meca-


nismo que pode fortalecer a gestão das UCs e promover a conser-
vação da biodiversidade tanto por sensibilizá-las sobre a impor-
tância da conservação, quanto por aperfeiçoar a amostragem de
dados do monitoramento. Ao selecionar indicadores biológicos
de fácil identificação taxonômica e que façam parte do cotidiano
daqueles que vivem ou usam as UCs, o envolvimento da comu-
nidade no monitoramento da biodiversidade é facilitado. Inicia-
tivas de monitoramento participativo em diversos países obtive-
ram resultados expressivos para a conservação da biodiversidade.
(PEREIRA et al., 2013, p. 26-27)

Pesca artesanal

Esta atividade extrativa, concentrada no camarão-rosa Farfan-


tepenaeus paulensis na área lagunar, e sobre a tainha Mugil lisa e

102
Áreas Protegidas: Experiências de pesquisa e extensão no Sul do Brasil.

peixe-rei Odonthestes bonariensis na praia oceânica adjacente, não


provoca quaisquer impactos ambientais negativos sobre os ecos-
sistemas, os estoques de recursos pesqueiros (FERREIRA, 2009;
LOEBMANN; VIEIRA, 2006) e as populações de aves costeiras
(FEDRIZZI, 2008); esta pesca de pequena escala atende, parcial-
mente, às necessidades de subsistência da comunidade tradicio-
nal, contudo, as crescentes restrições ao exercício da atividade têm
provocado grande êxito deste contingente e perda de qualidade de
vida comunitária.
Entende-se que seria oportuno, para a gestão da UC e para
essas comunidades de pescadores artesanais, a implantação de ati-
vidades socioeducativas de capacitação técnica e subsídios, que lhes
possibilitassem o desenvolvimento de habilidades e meios para a
diversificação das espécies-alvo, o processamento e a gastronomia
de frutos do mar, assim como o artesanato, o turismo receptivo e
outras atividades correlatas e associadas à identidade cultural pes-
queira e ambiental da região. Além disso, em face do seu reco-
nhecido Conhecimento Ecológico Tradicional, tais comunidades de
pescadores podem se constituir em eficazes parceiras das operações
de planejamento e manejo da UC (GERHARDINGER et. al.,
2009), com potencial contribuição na seleção conjunta de indi-
cadores biológicos e fatores meteoro-oceanográficos para fins de
monitoramento e fiscalização:

Grupos considerados bons indicadores em um sistema de mo-


nitoramento da biodiversidade devem apresentar as seguintes
características: i) alta racionalidade – o grupo deve ser sensível
a alterações ecológicas do ambiente, além de ser bom represen-
tante de outros grupos também sensíveis a essas alterações; ii)
alto desempenho – ter potencial de aplicação como indicador em
diferentes situações, p. ex. em diferentes biomas, ou seja, estar
bem representado em ampla escala, além de fornecer indicação
confiável e segura; e iii) alta possibilidade de implantação – ser
de fácil mensuração e acompanhamento, ou seja, ser viável eco-
nômica e logisticamente. Assim, os conceitos de racionalidade,

103
Estratégias alternativas para a gestão de unidades de conservação: Estudo de caso do ...

desempenho e implantação são os três pilares que sustentam um


bom indicador biológico. (PEREIRA et al., 2013, p. 30)

Outros atores sociais que se utilizam dos ambientes e recursos


naturais, como pescadores esportivos e veranistas, provocam efeitos
negativos pontuais e momentâneos sobre as aves costeiras, pelo trân-
sito de veículos rodoviários sobre praias e marismas, com a perturba-
ção de áreas de alimentação, compactando e destruindo agregações
populacionais de macroinvertebrados bentônicos (ADÉLIO, 2014),
e nas áreas de reprodução, afugentando adultos e destruindo ovos e
filhotes. Tal situação poderia ser melhor gerenciada, pela instalação
de postos de controle nos acessos à região lagunar e às praias, para
disciplinar o trânsito de veículos; este trânsito também não deveria
ser totalmente restrito, por constituir um instrumento necessário ao
desenvolvimento socioeconômico para a população local, através de
pequenas empresas e cooperativas de ecoturismo e turismo cultural,
como demonstrado durante eventos, como o Festival Nacional de
Aves Migratórias8.
Como a própria instituição gestora das UCs reconhece, a
participação da sociedade, através dos representantes dos diver-
sos setores e atores sociais envolvidos no uso direto e indireto dos
espaços e recursos naturais, é parte decisiva de qualquer progra-
ma de monitoramento com vistas à manutenção da qualidade
ambiental:

O diálogo com algumas instituições, no processo de elaboração da


estrutura pedagógica do Ciclo de Capacitação em Monitoramen-
to da Biodiversidade, permitiu iniciar a identificação de possíveis
contribuições e parceiros na implantação do ciclo de capacitação.
Vale ressaltar que instituições locais (...) constituem pontos de
conexão fundamentais, por conhecerem as peculiaridades locais e
favorecem a articulação entre o ICMBio e as comunidades locais
das UCs. (SANTOS et al., 2014, p. 80)

8 http://festiavesmigratorias.blogspot.com.br/

104
Áreas Protegidas: Experiências de pesquisa e extensão no Sul do Brasil.

Na definição das propostas de gestão para as UCs, relativas aos


conflitos de interesses e prioridades entre diferentes serviços ecossis-
têmicos, setores de atividades ou usuários, poderiam ser adaptadas
algumas linhas estratégicas, já testadas e aprovadas em outros con-
textos, como no Planejamento Espacial Marinho:

Escolha (distintos) usos, os quais você acredita que sejam incom-


patíveis, ou que sejam problemas para outros usos. Discuta como
um uso pode impactar outros usos, para avaliar a compatibilida-
de. Defina a compatibilidade, começando com a avaliação do im-
pacto do primeiro uso sobre o segundo uso, depois sobre o tercei-
ro (e assim sucessivamente). Classifique a compatibilidade entre
os usos, numa ampla escala (desde “incompatível” até “compatí-
vel”, com diversos pontos intermediários). Considere também a
“direção” de um conflito; o uso (a) impacta somente o uso (b),
ou ambos impactam um ao outro? A compreensão da direção do
conflito pode ajudar a identificar soluções. A incompatibilidade
espacial descreve uma situação na qual diferentes tipos de uso não
podem coexistir na mesma área. Mesmo que alguma mitigação
possa ser possível devido à gestão adequada, algum nível de com-
patibilidade espacial pode provavelmente ser estabelecida para a
maioria dos tipos de usos (p.ex.: um viveiro para a criação de
peixes é pouco compatível com a extração de areia e cascalho).
(BUNING et al., 2017, p. 73-74)

Dentre o amplo leque de possíveis estratégias alternativas de


gestão para as UCs, especialmente naquelas – como neste caso de
estudo – nas quais existe um grande conjunto de atores sociais e
atividades socioeconômicas interagindo com os processos ecológi-
cos, recomenda-se a utilização dos princípios da abordagem DPSIR
(pressão-estado-resposta):

ela reconhece as relações entre pressões antropogênicas e respostas


sociais e identifica que ambas precisam ser consideradas em apli-
cações bem-sucedidas de desenvolvimento sustentável. Tal como
acontece com todas as considerações de sustentabilidade, a escala

105
Estratégias alternativas para a gestão de unidades de conservação: Estudo de caso do ...

é de importância central. Embora se precise definir a escala do


sistema, enfatiza que algumas medidas de gestão (por exemplo,
esquemas de compensação de habitat) podem ser introduzidas em
locais distantes da fonte de uma pressão endógena. (BARNARD;
ELLIOT, 2015, p. 184)

Porém, ainda mais significativa do que quaisquer técnicas e pro-


cessos a serem adotados na gestão das UCs, entende-se como essencial
o reconhecimento da inevitabilidade das mudanças, seja na fisionomia
das paisagens, seja na interdependência dos processos naturais e antró-
picos que as condicionam e remodelam, continuamente:

Os ecossistemas são dinâmicos: eles sofrem mudanças constantes.


Eles não existem para sempre em um equilíbrio estático, ou um
estado prístino. As mudanças resultam das mudanças normais nos
estágios da vida e abundância de componentes que compõem o
sistema e suas interações uns com os outros, de distúrbios de fora
do sistema, e ações humanas. Tais mudanças são inevitáveis. Os ges-
tores devem reconhecer a inevitabilidade da mudança e planejar de
acordo. A sucessão também muitas vezes leva a mudanças na paisa-
gem - por exemplo, lagos e zonas úmidas preenchem com sedimen-
tos (...). Ao longo da história, as pessoas mudaram drasticamente os
ecossistemas, geralmente transformando os padrões de vegetação e
fauna em paisagens. (PIROT; MEYNELL; ELDER, 2000, p. 31)

Conclusões

O planejamento, implementação e manejo das diferentes cate-


gorias de Unidades de Conservação (UCs) constituem parte essen-
cial das estratégias de conservação da geossociobiodiversidade, ao
estabelecerem frações do território que comportem amostras repre-
sentativas e funcionais de distintos ecossistemas, seus componentes
e processos. Além do seu valor intrínseco, as UCs também desem-
penham relevantes serviços socioeconômicos e culturais, pelo fato

106
Áreas Protegidas: Experiências de pesquisa e extensão no Sul do Brasil.

de protegerem o patrimônio socioambiental compartilhado, ao qual


se encontram associadas a identidade cultural e muitas das ativida-
des econômicas de comunidades nos seus limites e entorno, e de
influenciarem positivamente o fluxo de bens, energia e serviços das
sociedades envolventes e mesmo de outras, por vezes, muito distan-
tes dessas áreas.
Esta visão de conjunto e da interconexão entre os fatos elencados
pode constituir-se então em ferramenta de outro processo de gestão,
concebido de modo integrado para o conjunto dos seus ambientes.
Entende-se que tais estratégias poderiam melhor compatibilizar a
conservação da geobiodiversidade com as atividades socioeconômi-
cas nos limites e entornos dessa UC, e que poderiam ser adequada-
mente replicadas em diversos outros contextos socioambientais.
Diversos dos problemas relativos à gestão das UCs e seus en-
tornos assumem tal dimensão porque o modelo de manejo, via de
regra, ainda é compartimentalizado, mais focalizado nos aspectos
jurídicos que as regulam, desconsiderando alguns dos processos e
peculiaridades dos seus ecossistemas e das comunidades do entor-
no, especialmente quando consideramos a dinâmica dos processos
socioambientais, extremamente diversos e catalisados por forçantes
externas, em rápida e contínua transformação.
A implantação efetiva de um sistema de gestão integrado e par-
ticipativo poderia contribuir eficazmente para o objetivo de garantir
a existência e a funcionalidade de uma amostra representativa do
conjunto de ecossistemas da região, com toda a geossociobiodiversi-
dade associada, bem como poderia também viabilizar a reprodução
cultural e inserção das comunidades tradicionais vinculadas a estes
territórios e a alguns dos seus recursos naturais, assim como pode-
ria assegurar a sustentabilidade das demais atividades econômicas
da sociedade envolvente, regulamentando os usos dos seus espaços
e recursos.

107
Estratégias alternativas para a gestão de unidades de conservação: Estudo de caso do ...

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113
Estratégias alternativas para a gestão de unidades de conservação: Estudo de caso do ...

114
A trajetória dos gestores ambientais em unidades de conservação estaduais

A gestão ambiental traz recursos administrativos que possibi-


litam definir as diretrizes, as atividades administrativas e opera-
cionais que fazem parte do conjunto do planejamento, direção,
controle, alocação de recursos com o objetivo de obter resultados
positivos sobre os recursos naturais (BARBIERI, 2007). Portanto,
é de fundamental importância para entendimento desta atribuição
na gestão de uma UC.
Nas UCs, a gestão ambiental deve compreender o conjunto de
ações gerenciadas por diferentes atores da sociedade civil. Essas ações
devem incluir o poder público, iniciativa privada, sociedade civil or-
ganizada, ambiente ecologicamente equilibrado, relação harmônica
entre homem e recursos naturais, como também a proteção e a con-
servação da biodiversidade (BRITO, 2000).
A preocupação com a gestão de áreas protegidas surgiu após
a crise ambiental da década de 1970, expressa no livro Primavera
Silenciosa de Rachel Carson, publicação que marcou o movimento
ambiental nas décadas seguintes. Também teve destaque a publica-
ção do relatório pelo Clube de Roma sobre as relações entre o desen-
volvimento e a exploração dos recursos naturais intitulado “Limites
do Crescimento”, onde foram discutidos os caminhos e alternativas
para um desenvolvimento sustentável. A partir desse momento, sur-
giram inúmeras discussões referentes às alternativas de uso, ocupa-
ção e exploração dos recursos naturais.
No Brasil, novos espaços para conservação iniciaram na década
de 19801, estimulados por algumas proposições que culminaram na
criação da Política Nacional de Meio Ambiente. Em 1988, a Cons-
tituição Federal deu o amparo legal ao sistema de proteção de deter-
minadas áreas necessárias à conservação da natureza, no seu art. 225,
inciso 1º, ao determinar a necessidade de:

1 Como UCs pioneiras no país, temos o Parque Nacional de Itatiaia (RJ/MG) criado
em 1937, seguido pelo Parque Nacional do Iguaçu (PR) e pelo Parque Nacional Serra dos
Órgãos (RJ) em 1939.

116
Áreas Protegidas: Experiências de pesquisa e extensão no Sul do Brasil.

... definir, em todas as unidades da Federação, espaços territoriais


e seus componentes a serem especialmente protegidos, sendo a
alteração e a supressão permitidas somente através de lei, vedada
qualquer utilização que comprometa a integridade dos atributos
que justifiquem sua proteção (BRASIL, 1988).

Nesse contexto jurídico e ambiental é aprovada no país a Lei nº


9.985/2000, também conhecida como Sistema Nacional de Unida-
des de Conservação (SNUC).
O SNUC traz como uma das diretrizes para a gestão das UC o
Plano de Manejo, que é o documento técnico oficial de planejamen-
to de um gestor, para compor o conselho da unidade de conserva-
ção. Elaborado a partir de estudos amplos, incluindo diagnósticos
do meio físico, biológico e social, estabelece os principais objetivos
de conservação e preservação da UC. Estipulam ainda as normas,
restrições de uso, ações a serem desenvolvidas e manejo dos recur-
sos naturais, atividade do entorno, os corredores ecológicos quando asso-
ciados, podendo incluir a implantação de estruturas físicas dentro da
UC, visando a minimizar os impactos negativos na UC, garantir a
manutenção dos processos ecológicos e a simplificação dos sistemas
naturais de forma preventiva.
Kinouchi (2012) entende que a elaboração do plano de manejo
da UC é um processo desafiador, pois de um lado existem muitas re-
clamações sobre a pouca qualidade dos documentos, custo elevado,
tempo demasiado para sua constituição, questionário extenso dos
conteúdos, complexidade dos roteiros metodológicos com pouca
aderência no planejamento. Por outro lado a sua efetividade está em
xeque porque se produz um plano de manejo com tantos aspectos
metodológicos e com tantos conteúdos que não atendem ao geren-
ciamento da unidade. Os planos de manejo não incluem as ações em
seu planejamento, o que dificulta uma gestão mais eficiente.
Para uma gestão mais eficaz, dentro do plano de manejo, o
SNUC, em seu Art. 15 §5º, estabelece a criação de um conselho

117
A trajetória dos gestores ambientais em unidades de conservação estaduais

gestor, cujo presidente é o responsável ou chefe da unidade de con-


servação. Ao presidente é atribuída a função de compor o conselho
com representantes de órgãos públicos, da sociedade civil organizada
e da população residente, além de organizações não governamen-
tais (ONGs) que atuem no território da UC. Compete ao Conselho
Gestor elaborar, aprovar, acompanhar a execução e a revisão do pla-
no de manejo, conforme Art. 18 do SNUC.
No Art. 20, é atribuído ao conselho papel importante no as-
sessoramento do gestor da unidade de conservação, auxiliando nos
interesses distintos dos setores sociais ligados à UC, além de propor
procedimentos que visem a compatibilizar, harmonizar, agregar e
aperfeiçoar as relações com as populações do entorno ou dentro da
unidade (MMA, 2016).
O Conselho Gestor em geral é consultivo, com exceção das Re-
servas Extrativistas e as de Desenvolvimento Sustentável que são de-
liberativos. Por abrigarem populações tradicionais, o Conselho tem
competência para atuar ou aprovar medidas de interesse da unidade
de conservação (BRASIL, 2002).
No Rio Grande do Sul, o Sistema Estadual de Unidades de
Conservação (SEUC) foi criado oito anos antes do SNUC, a partir
do Decreto nº 34.256, de 02 de abril de 19922. Até aquele momento
já havia 18 UCs estaduais criadas por decretos no estado (ATLAS
SOCIOECONÔMICO, 2016)3.
O projeto realizou o fortalecimento das Unidades de Conser-
vação que possuíam somente os decretos de criação, sendo que duas
federais tinham os planos de manejo e somente duas das estaduais
tinham estudos fundiários concluídos, mas não implementados.

2 A última atualização do SEUC no RS, de acordo com o Sistema Nacional de Unidades


de Conservação (SNUC), Lei nº 9985/2000, e do Código Estadual do Meio Ambiental,
Lei 11.520/2000, ocorreu pelo Decreto n° 53.037 de 20 de maio de 2016.
3 O RS conta atualmente com um total de 113 unidades de conservação, nos três níveis,
que abrange 3,4% do território do Estado (ATLAS SOCIOECONÔMICO DO RIO
GRANDE DO SUL, 2016).

118
A trajetória dos gestores ambientais em unidades de conservação estaduais

fissional como administrador público de uma UC. É importante


avaliar, segundo Pellizzetti (2011), a forma como é realizada a gestão
da UC. Para o poder público, os governos, na maioria dos estados,
não possuem instrumentos ou programas para medir a efetividade
da gestão, limitando-se somente à conservação e preservação das áre-
as naturais. Incluir ferramentas de gestão e indicadores de resultado,
bem como a presença de profissionais de graduação em gestão am-
biental, se faz necessário.
Assim, para entendermos a gestão dessas UCs e os avanços tra-
zidos pelo PCMARS, deve-se destacar a importância da trajetória
do gestor, nomeado como chefe de unidade por portaria, que atua
como responsável pela administração pública dessas áreas protegidas.
Para cada gestor nomeado, encontramos uma narrativa diferente
para a função pela qual foram designados como administradores públi-
cos, dentro do projeto financiado pelo banco de desenvolvimento ale-
mão KfW. Por isso a importância deste estudo, pois é relevante conhe-
cer os caminhos do entendimento de um profissional ao analisarmos a
exigência do cargo de gestor de uma UC.
A problemática básica desta pesquisa, portanto, tem como pon-
to de partida a discussão de como ocorreu o processo de qualificação
de um servidor público para assumir a gestão ambiental em unida-
des de conservação do estado. Em que medida o profissional que
hoje atua na gestão dessas UCs de fato foi preparado para assumir tal
atividade? Ou ainda, que tipo de formação é necessária, ou vivências
cotidianas, para assumir tal função com os conhecimentos técnico-
-científicos que lhes são passados durante a sua formação?
Frente a essa problemática, o objetivo principal desta pesquisa foi
conhecer a trajetória profissional e de formação dos atuais gestores das
Unidades de Conservação do estado do Rio Grande do Sul. Para isso,
foram estabelecidos os seguintes objetivos específicos: (a) estabelecer
um perfil do gestor ambiental público das UCs estaduais; (b) conhecer
como ocorre um processo de gestão ambiental pública numa UC; (c)
entender a construção profissional de um gestor ambiental.

120
Áreas Protegidas: Experiências de pesquisa e extensão no Sul do Brasil.

O estudo é resultado de um projeto de pesquisa desenvolvido no


Laboratório de Gestão Ambiental e Negociação de Conflitos (GA-
NECO), em parceria com a Universidade Estadual do Rio Grande
do Sul (UERGS) e Secretaria do Meio Ambiente e Infraestrutura
(SEMA).
A metodologia utilizada foi a pesquisa descritiva, numa abor-
dagem qualitativa. Conforme Gil (2008), esse tipo de investigação
serve para descrever as características de determinadas populações
ou fenômenos. Uma de suas peculiaridades está na utilização de téc-
nicas padronizadas de coleta de dados, tais como a entrevista e a
observação sistemática. Os procedimentos utilizados foram organi-
zados por meio da pesquisa bibliográfica e entrevistas, baseados em
publicação academica que tratam do Sistema Nacional de Unidades
de Conservação (SNUC) e legislação correlata.
A entrevista é uma técnica de coleta de dados na qual as per-
guntas são formuladas e respondidas oralmente. Trata-se, portanto,
de uma conversação metódica, que proporciona ao entrevistador
as informações solicitadas. O registro da entrevista foi realizado no
momento em que ela aconteceu, mediante anotações por parte do
entrevistador ou com auxílio da gravação.
Foram selecionados seis gestores que atuam nas Unidades de
Conservação do Rio Grande do Sul e que participaram do Projeto de
Conservação da Mata Atlântica. As entrevistas ocorreram entre os dias
26 de outubro e 25 de novembro 2016. Todas foram realizadas com
agendamento prévio e com o Termo de Consentimento. Na análise
final, cada entrevistado foi identificado por uma letra, do A ao F.
Nas Figuras 2 e 3 encontram-se imagens das UCs estudadas.
Ilustram aspectos paisagísticos que são protegidos nos Campos de
Cima da Serra.
As entrevistas foram gravadas e posteriormente transcritas. A
partir desse material foi realizada uma análise de conteúdo partindo
das categorias previamente identificadas, que são: perfil do gestor,
gestão pública e gestor da UC.

121
A trajetória dos gestores ambientais em unidades de conservação estaduais

Figura 2 – Campos nativos, capão de araucária e curso d’água de uma UC do


PCMARS

Fonte: STELMACH, 2013.

Figura 3 – Bioma Mata Atlântica da UC localizada na encosta dos Campos de


Cima da Serra

Fonte: STELMACH, 2016.

Em cada categoria foram realizadas perguntas que serviram de


ponto de partida para o desenvolvimento dos diálogos com os ges-
tores. Assim, a partir delas foram realizadas outras que auxiliaram o
entendimento proposto pelos objetivos. No Quadro 1 estão descri-
tas, pelas categorias, as perguntas iniciais.

122
A trajetória dos gestores ambientais em unidades de conservação estaduais

Um dos entrevistados é servidor público estadual há cerca de


trinta anos. Ingressou na época que ainda não existia a Secretaria
Estadual de Meio Ambiente. Os demais entrevistados foram empos-
sados por decreto a partir do concurso para servidor público no ano
de 2007 como técnico ambiental.

Na época, quando entrei, as estruturas da Secretaria eram de muitas


dificuldades. Sempre atuei na fiscalização, mas até chegar à gestora de
uma UC passei por todos os departamentos da SEMA. Naquela época
não existia a SEMA, era a Secretaria da Agricultura - Divisão de Terras
Públicas do estado do Rio Grande do Sul, que tinha o Departamento
de Recursos Naturais Renováveis (DRNR) e o Departamento de Recur-
sos Florestais (DRF), que originou a Secretaria Estadual do Meio Am-
biente (SEMA). Os funcionários desse departamento, na época, é que
incorporaram a parte florestal e de UC da SEMA. Da SEMA fui chefe
agroflorestal em Erechim, chefe de cadastros florestais do Rio Grande
do Sul, prestei auxílio para organizar a Junta Superior de Infrações
Florestais que hoje é a DUC4. Por dois anos fui gestora (2004-2006)
do Parque Estadual do Tainhas. Nessa época fiz parte do trabalho do
KfW, do início até o final. Toda a experiência adquirida foi através da
passagem pelos diferentes departamentos e alguns cursos de capacitação
externos, incluindo uma pós em Gestão de Pessoas. (Entrevistado F)

Dos entrevistados, cinco fizeram parte do PCMARS, sendo que


um deles já era gestor de uma UC desde 2003, quando ocorreu a
contratação emergencial para tal cargo.
Em 2007, quando foi realizado o concurso para técnico ambiental,
cinco foram nomeados. Eles assumiram nos anos seguintes, de 2009 a
2011, e tinham experiência em outras áreas, algumas públicas e outras pri-
vadas, como prefeituras, escolas e fundações, mas não em gestão de UC.

Não tinha experiência ainda. É a minha primeira experiência como


gestor. (Entrevistado D)

4 DUC refere-se à Divisão de Unidades de Conservação, Departamento na SEMA


responsável pelas UCs no Estado do Rio Grande do Sul.

124
Áreas Protegidas: Experiências de pesquisa e extensão no Sul do Brasil.

Muito dos problemas que enfrentei no início foram sem preparação, de-
pois eu tive alguma orientação nos treinamentos, só que eu tinha passado
aquelas questões de dificuldade. Tive um aprendizado antes de tentativa
e erro e para depois ter uma orientação adequada. (Entrevistado B)

Alguns entrevistados relataram que no momento que assumi-


ram o cargo de técnico ambiental passaram automaticamente a exer-
cer tal função, sem nenhum preparo. Pelos relatos, observa-se a difi-
culdade ao iniciarem suas atividades na gestão das UCs.

Entrei direto na UC e já são sete anos na mesma função. Foi direto.


Aí depois, em alguns anos tiveram algumas capacitações, mas em te-
mas específicos, mas nada sistemático da Secretaria. Eu participei de
uma capacitação no ICMBio, daí um cursinho de fiscalização, mas
nada sistemático. (Entrevistado E)

Os técnicos ambientais foram nomeados para exercerem a fun-


ção de responsáveis pela UC por Portarias do governo do estado.
Somente um dos gestores foi indicado para exercer essa função, sem
necessariamente fazer concurso público específico para isso.
Portanto, o perfil dos gestores entrevistados caracteriza-se
por ser a maioria da área das Ciências Biológicas, que não ti-
veram formação sobre gestão ambiental durante a graduação e
assumiram o cargo de gestor sem terem experiência profissio-
nal. Foram preparados posteriormente, ou em cursos da própria
SEMA, ou em especializações, mas inicialmente exerceram o
cargo de forma empírica.

Gestão pública

No referente à gestão pública, os entrevistados foram unânimes


quanto ao desconforto com a forma de governança, com a falta de
objetivos, controle, planejamento e resultados.

125
A trajetória dos gestores ambientais em unidades de conservação estaduais

A partir de 2009, 2010, a gente começou o Planejamento Operativo


Anual – POA. Surgiu um pouco inspirado na metodologia do próprio
KfW que fazia parte como fiscal dentro do projeto da Mata Atlân-
tica os POC5, e eu tive a sorte do “fulano” que é administrador de
empresas, que ele me introduziu a visão administrativa, eficiência de
gestão, de planejamento. Entra o bloco de outra área que é o biólogo,
que não entende a administração em si. Daí fui para Porto Alegre e
a gente começou exercitar isso e hoje a gente consegue todo ano cada
UC fazer o seu planejamento. Para mim a principal falha dessa fer-
ramenta é que é um pseudoplanejamento, porque está desvinculado
da execução de recurso. (Entrevistado A)

Fica evidente, pelos relatos dos entrevistados, que o gestor é que cons-
trói toda a estrutura de planejamento da UC. Dessa forma, a gestão da UC
depende muito da competência e preparação profissional de cada gestor.
A maior parte do tempo dos gestores é usada para realizar roti-
nas, e não são cobrados por resultados.

Planejamento não tem, mas tem rotinas. (Entrevistado D)

Existe uma iniciativa da DUC que é mais centrada na figura do


responsável pelo planejamento das Unidades que são os POA (Pla-
nejamento Operativo Anual), que estabelecem as metas para aquele
ano, mas se a gente não cumprir não tem nenhuma cobrança. (En-
trevistado E)

O que se observa também, quanto à gestão pública, é a ineficiên-


cia de ferramentas de gestão para alcançar resultados, bem como in-
dicadores que demonstrem a eficiência da gestão ou dos seus gestores.

A gente pode dividir em dois tempos: tem o plano de gestão da admi-


nistração da UC, que se reúne uma vez por ano, que é o POA. A gen-

5 POC refere-se ao Plano Operacional de Controle do PCMARS, responsável pela fis-


calização das UCs.

126
Áreas Protegidas: Experiências de pesquisa e extensão no Sul do Brasil.

te senta com o chefe da DUC e traça algumas estratégias para o ano.


O que quer fazer, qual expectativa, quais os atores que vão participar
e o que a gente quer encontrar. Isto é feito só com funcionários da UC,
esse é nosso plano macro. Depois entram as atividades de rotina que
não entram neste plano, que são fiscalizações e licenciamentos, que é
a parte administrativa da UC. (Entrevistado F)

Referente às respostas dos entrevistados, no que diz respeito ao


POA, é importante para o gestor identificar quais os parâmetros que
estão contidos nessa ferramenta para determinar as condições da ges-
tão de uma UC. Eles são efetivos de fato? Fica evidente que as questões
ligadas às fiscalizações e licenciamento ocupam boa parte da gestão.
Para além do POA, conforme os gestores entrevistados, a gestão
na sua UC está apoiada de fato é no plano de manejo e no Conselho
consultivo. Porém, dos seis entrevistados, quatro têm plano de ma-
nejo e Conselho, um não tem plano de manejo, mas tem Conselho e
o outro tem plano de manejo e não tem conselho até este momento.

Não tenho Conselho, não foi criado principalmente pela questão de


que não é uma diretriz de estado no momento para implantação
do Conselho, não há uma ação da chefia que viabilize a criação do
Conselho. (Entrevistado B)

O Conselho é criado, na verdade, não pelo estado, e sim pelo


chefe da unidade, que no caso é o gestor. É importante apontar quais
as ações que de fato viabilizam a criação do Conselho.
A atuação do gestor na UC, conforme relato do entrevistado,
só é possível porque o Conselho apoia a sua gestão. Para que ele
enfrente diferentes conflitos com a comunidade, ministério público
e administração municipal, é preciso que o Conselho o ajude no
planejamento e nas tomadas de decisão.

Eu não conseguiria ter trazido o Parque para a situação atual sem o


Conselho. Sem o Conselho eu não teria evoluído. (Entrevistado C)

127
A trajetória dos gestores ambientais em unidades de conservação estaduais

Um fato, relatado durante a entrevista, é a situação do Parque


Ilha dos Lobos (Parque Federal), que não tinha Conselho, mas que,
por intermédio de uma ação pública por parte da sociedade civil
organizada, teve sua situação modificada imediatamente.

A sociedade pode e deve cobrar a criação do Conselho de uma UC.


Por exemplo, Ilha dos Lobos, enquanto esteve o antigo chefe, nunca
teve conselho até que o Instituto CURICACA denunciou no Ministé-
rio Público Federal, em uma ação civil pública que obrigou o Insti-
tuto Chico Mendes a criar o Conselho. A nova gestora que veio para
cá, já veio com esta missão. (Entrevistado C)

Observa-se que o Conselho tem papel importante no apoio à


gestão e ao gestor da UC, possibilitando que o manejo, os conflitos,
os problemas de cada UC possam ser compartilhados com a socie-
dade civil organizada que participa do Conselho.

O Conselho é representativo. Tem como fazer sozinho? Não! Tem


como fazer com a equipe sem população? Não! Não vai ser efetiva,
pra mim, eu acho que se a UC não estiver inserida e reconhecida
como uma parte do território não vai andar, vai sempre dar murro
em ponta de faca. (Entrevistado A)

A gente está trabalhando no plano de manejo que na verdade não


existe um planejamento, nem um zoneamento da Unidade. A gente
está fazendo plano de manejo sem recurso, sem aporte externo, a gente
está fazendo só com os técnicos da SEMA e com o conselho consultivo
da UC que é bastante ativo. Com auxílio dos Técnicos da FZB6 que
têm contribuído bastante, são especialistas como a gente gosta de cha-
mar. (Entrevisto D)

Inclusive se eu puder dar um destaque para uma parte que vai


ficar muito legal e que já tá tendo elogios, é do plano de manejo. É

6 FZB refere-se à Fundação Zoobotânica do Rio Grande do Sul.

128
Áreas Protegidas: Experiências de pesquisa e extensão no Sul do Brasil.

um programa que a gente viu que era necessário através de oficinas


participativas. Que é o programa de incentivo à agricultura de base
ecológica aqui no entorno da UC. Então como uma estratégia de
conservação mesmo, de tentar criar corredores ecológicos, enfim es-
timulando esta prática. Inclusive a Secretaria de Desenvolvimento
Rural esteve presente na oficina onde foi criado este programa e
depois dali elas já publicaram no site uma notícia falando que é
muito inovador e que a gente tá de parabéns e tal, então acho que
vai ficar com essa cara o plano de manejo, não vai isolar a UC
como uma ilha e sim tentar englobar os atores que estão no entorno
mesmo. (Entrevistado D)

Em relação aos aportes financeiros para manter a estrutura de


uma UC, os entrevistados relataram que os recursos do estado não
são representativos e se limitam a cobrir pequenos gastos do dia a
dia, e que, para as questões mais complexas, como a regularização
fundiária das UCs, esses recursos precisam ser captados de outras
fontes, como compensação ambiental ou medida compensatória.

O estado tem uma verba de custeio. Água, luz, telefone, veículo, com-
bustível. Agora as UCs que estão de proteção integral ou os parques,
eles necessitam de indenização de propriedades e de outras nuances
que neste caso o estado não tem reserva de valores para este tipo de
verba indenizatória para UC. Então aí se busca através dos licen-
ciamentos, que tem EIA/RIMA, planos de recuperação, se busca esta
verba em outras rubricas do estado. Mas o estado não tem a não ser
para custeio. A gente se vira como dá. (Entrevistado F)

Nossas UCs a única coisa que funciona relativamente bem é execução


de compensação ambiental. A gente não tem orçamento definido para
cada UC, a gente tem recurso de custeio do estado em termos de di-
ária, combustível, alguma coisa de manutenção. Mas o que sustenta
as UCs financeiramente é a compensação ambiental. Isto é bem re-
grado pelo próprio SNUC. É decreto, cada empreendimento que gera
impacto ele tem que reverter um percentual do valor da obra para
criação ou implementação da UC. (Entrevistado A)

129
A trajetória dos gestores ambientais em unidades de conservação estaduais

Recursos assim a gente recebe de medidas compensatórias. O grosso,


vamos dizer, a gente tem definido já nas prioridades de utilização
destes recursos, eles são previamente aprovados numa câmara, a Câ-
mara Estadual de Compensação Ambiental - SECA. Então como a
nossa reserva ainda tem muita pendência de regularização fundiária
o que tá entrando tá sendo tudo destinado por enquanto para esta
regularização fundiária. (Entrevistado D)

Regularização fundiária é geralmente via medida compensatória,


mas já teve uma área que foi comprada por compensação ambiental
que não é medida compensatória. É então, estas são as duas formas
de regularização que existem atualmente. Tudo parte jurídica. Quem
decide medida compensatória é a SECA, de compensação ambiental
é livre, é uma determinação jurídica o juiz determina que a empresa
precisa arcar com custo ambiental que ela degradou em alguma área
aí a empresa escolhe. (Entrevistado B)

Inicialmente as infraestruturas das UCs foram bancadas pelo


PCMARS, que fez altíssimos investimentos na contratação e ca-
pacitação dos servidores públicos para profissionalizá-los e, assim,
atingir resultados desejados nas UCs. Além disso, investiram na
aquisição de material digital (software para geoprocessamento,
computadores, GPS) e carros com tração 4X4 em função do tipo
de terreno. Do total de investimentos trazidos pelo banco alemão,
11 UCs (seis estaduais, três municipais e duas federais) no estado
ganharam novas estruturas físicas e novos equipamentos para rece-
ber os novos gestores concursados.
Atualmente, a gestão das UCs depende exclusivamente do orça-
mento do estado e principalmente das medidas compensatórias. Ou-
tra dificuldade apontada pelos gestores é a troca de governo a cada
quatro anos. Assim, o gestor precisa se reinventar a cada mudança
de governo, enfrentando as mesmas deficiências e necessidades, visto
que, muitas vezes, esses governantes não têm interesse nas questões
ambientais e sequer possuem um planejamento para as UCs.

130
Áreas Protegidas: Experiências de pesquisa e extensão no Sul do Brasil.

Gestão da Unidade de Conservação

Quanto à gestão das UCs, observa-se um crescimento na capaci-


tação dos gestores estaduais. No entanto, para esses há uma diferença
entre os técnicos da SEMA em relação aos técnicos ambientais do
ICMBio, que possuem a Academia Nacional da Biodiversidade, vol-
tada para a preparação de seus gestores.

Antes do gestor assumir o cargo, eles vão para ACADEBio, ficam por lá
um, dois ou três meses tendo treinamentos, tendo orientações sobre a le-
gislação, sobre organograma da instituição, processos internos, processos
externos, fiscalização, objetivos, missão, rotinas, toda esta parte aí que
é um pouco independe da formação do profissional. (Entrevistado B).

Outra questão refere-se à formação do gestor para assumir uma


UC no estado ou no território nacional. Por que geralmente os
gestores são das áreas das Ciências Ambientais ou das Engenharias
Agronômica e Florestal?

Do que eu lembro na época, na verdade a escolha pelos biólogos foi pela


própria construção da atribuição de cargos, que mistura a gestão da
UC com a parte que pode fazer análise técnica de processos de supressão
da vegetação. Para mim englobou duas coisas que não necessariamente
são iguais: o Gestor da UC e o técnico/licenciador. (Entrevistado A)

Por outro lado, um dos gestores entrevistados manifesta-se sobre


a necessidade de um profissional graduado em Gestão Ambiental,
por exemplo, como elemento importante para a UC, visto que os
atuais gestores só possuem formação na área de Ciências Biológicas.
Esses são a maioria dos gestores e não possuem tempo para ativida-
des técnicas porque estão envolvidos com questões administrativas
que não fazem parte da sua graduação e nem da preparação que
receberam para fazer a gestão da UC.

131
A trajetória dos gestores ambientais em unidades de conservação estaduais

Eu acho importante, abrir... aliás, acho que poderia abrir não só para
o gestor ambiental, como para várias outras, como administrador... e
acho que a vantagem do gestor ter a visão da gestão e do ambiental...
e te confesso, o que menos faço é atribuição de biólogo. As questões téc-
nicas se tu tem um corpo técnico para te embasar, tu toma as decisões,
agora a questão de gestão da unidade, biólogo, agrônomo e florestal
eles têm que se puxar para dar conta, porque envolve gestão de pessoas,
gestão de recursos, gestão de patrimônio, e isso aí a gente nada vê. Não
faz parte do meu currículo. E eu não faço pesquisa, não tem tempo para
fazer pesquisa. Acho bem positivo, até o ICMBio, os concursos são para
qualquer formação. E eu acho interessante por que aí tu tem um leque
de competências, de profissionais para contar. Eu acho que a formação
do gestor dá condição de assumir responsabilidade pela unidade, tem
condições de organizar projetos, processos, eu vejo. Se eu tivesse um ges-
tor trabalhando comigo eu faria isso, eu daria coordenação de algum
projeto. Porque tem uma visão mais ampla. (Entrevistado D)

Eu sou de formação bióloga, quando senti necessidade que eu tinha que


entender, fui buscar curso em pós-graduação. Vi que não era gestora, fa-
zer gestão é bem diferente de qualquer coisa que eu sabia, você conseguir
enxergar o todo e chegar do todo na especificidade. O gestor consegue ver
isto. O gestor consegue ver nas entrelinhas. Fazer gestão de um conflito,
gestão de processos tudo bem, mas gestão de pessoas, gestão de um todo,
de uma comunidade, tu tem que fazer um projeto que possa abranger a
todos. Biólogo não tinha essa capacidade. Fui entender quando fui fazer
curso de especialização. Acho bem-vindo o gestor. Acho que quem tinha
que ser responsável pela UC tinha que ser administrador ou gestor que
tem esta visão. O biólogo, engenheiro agrônomo, florestal tem que tra-
balhar com processos dentro da UC. Gestor administra estes processos.
Gestor é fundamental. É outra visão. (Entrevistado F)

Na visão de um dos entrevistados, o gestor precisa olhar a UC


de “dentro para fora”, olhar a fauna, a flora e a sociedade, perceben-
do o todo, com muitos olhares para o entorno, com uma visão para
o futuro. Também pode se avaliar que a competência científica nem
sempre se equipara à competência administrativa.

132
Áreas Protegidas: Experiências de pesquisa e extensão no Sul do Brasil.

Às vezes se consegue uma pessoa que desempenha os papéis, mas


às vezes a pessoa tem um perfil mais X e outra mais Y, aí que é bom
formar uma equipe. Saber trabalhar em equipe é pré-requisito im-
portante para quem vai trabalhar com gestão, o ideal é sempre ter
uma equipe multidisciplinar. (Entrevistado A)

Uma UC está sempre no meio de um emaranhado de confli-


tos socioambientais e precisa atender aos quesitos da conservação
e preservação ambiental de seu território. É necessário atender aos
trâmites da lei e a sua função como espaço territorial de preservação
da vida, da fauna, da flora e da sociedade, muitas vezes no meio de
conflitos públicos e sociais, com insumos, quase sempre escassos,
ordem burocrática, organizações formais, fogo, caça, invasões, entre
outras dificuldades, e precisa buscar oportunidades de efetuar suas
tarefas da melhor maneira que lhe parecer possível.

Considerações Finais

No decorrer deste estudo, foram relatados depoimentos das expe-


riências de gestão nas UCs, repletas de ações pessoais por caminhos de
descoberta, no contexto de uma gestão pública com poucos recursos,
pautada pela falta de planejamento e indicadores de resultados.
A situação das UCs e o trabalho do gestor são historicamente
insuficientes. Não por falta de metodologia, mas notadamente por
formas pouco claras e até confusas como as metodologias implemen-
tadas. O planejamento apresentado pelos entrevistados se restringe
à elaboração de planos que servem somente para criar conforto po-
lítico. O planejamento que é elaborado de forma pontual (POA)
muitas vezes é utilizado como base para instrumentos de marketing
promocional, devido às fragilidades das políticas públicas do estado
do Rio Grande do Sul e a falta de diretrizes do órgão superior. Os
gestores das UCs acabam operacionalizando a gestão, muitas vezes,
com improviso para atender às demandas.

133
A trajetória dos gestores ambientais em unidades de conservação estaduais

Assim, a tomada de decisões é dissociada do processo de planeja-


mento, e o gestor se apoia no plano de manejo e no seu conselho, suas
ferramentas mais importantes, para suprir deficiências na gestão pública.
Há necessidade de investir na capacitação dos recursos humanos
existentes; promover a contratação de profissionais de gestão; inte-
grá-los às equipes multidisciplinares tendo sua função bem delimita-
da dentro de uma UC; investir em estrutura física e ferramentas para
aperfeiçoar a gestão como um todo.

134
Áreas Protegidas: Experiências de pesquisa e extensão no Sul do Brasil.

REFERÊNCIAS

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1º, incisos I, II, III, VII da Constituição Federal, institui o Sistema Nacional de
Unidades de Conservação - SNUC. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 19 jul.
2000.

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atribuições dos conselhos, de acordo com o SNUC. Diário Oficial
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135
A trajetória dos gestores ambientais em unidades de conservação estaduais

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136
Corredores ecológicos na ilha de Santa Catarina

A criação de Unidades de Conservação são medidas que vêm


sendo tomadas na tentativa de conservar e preservar fragmentos de
florestas. As Unidades de Conservação, de acordo com o SNUC
(BRASIL, 2002), preveem zonas de amortecimento e corredores
ecológicos, mas na Ilha de Santa Catarina isso não vinha ocorrendo.
A Ilha de Santa Catarina, por se tratar de território insular, apre-
senta riscos maiores de fragmentação, se a relacionarmos com a Te-
oria de Biogeografia de Ilhas. Ainda que a Ilha de Santa Catarina
seja uma ilha costeira, estando não muito afastada do continente,
não existem ligações terrestres entre a ilha e o continente, o que di-
ficulta algumas trocas genéticas tanto da fauna como da flora, e para
alguns animais, como os mamíferos terrestres, ou seja, impossibilita
o trânsito, sendo que as espécies da Ilha encontram-se isoladas num
território insular, e ainda em ilhas de habitat em meio aos fragmen-
tos de vegetação.
Pensando nessa problemática, no ano de 2013, tiveram início
por esta pesquisadora os estudos de ecologia da paisagem e corredo-
res ecológicos para a Ilha de Santa Catarina, tendo como referência
inicial os estudos de Ferretti (2013) sobre os espaços de natureza
protegidos na Ilha de Santa Catarina. O recorte mais específico desta
pesquisadora foi para a Planície Entre Mares, pois, de todas as áreas
da Ilha, essa se constitui numa das áreas mais voltadas para a espe-
culação imobiliária, que, no entanto, ainda tem o predomínio de
matriz natural que corresponde a 64%, enquanto as áreas urbanas e
alteradas 36%, além de contar com um grande espaço “vazio” sem
conexão com o setor Sul e Centro-Norte da Ilha.

Os Corredores

A Planície Entre Mares (Figura 1), com seus 65 km², é a maior


área plana da Ilha de Santa Catarina, e tem sido uma região atrati-
va para a urbanização devido aos espaços planos ainda “vazios”. No
entanto, esses espaços possuem fragmentos de vegetação de ecossis-

138
Corredores ecológicos na ilha de Santa Catarina

Figura 2 - Floresta Ombrófila Densa nas encostas aos fundos e Floresta de Planí-
cie Quaternária, seguida por pastagens e banhados

Fonte: Góes, 2015

(APP) e Áreas de Preservação com Uso Limitado (APL) onde percor-


rem os cursos d’água. Essa UC tem seu limite encostando-se a outras
duas UC, o Parque Estadual da Serra do Tabuleiro (PEST) e a Área de
Proteção Ambiental do Entorno Costeiro (APA do Entorno Costeiro).
1
A Ampliação dos limites, como foi pensada a nova poligonal da UC,
vai permitir, pela sua forma, um menor efeito de borda, além de conec-
tividade assegurada entre todos estes maciços da cordilheira Sul da Ilha.

1 Esta pesquisadora tem uma cadeira como conselheira no Parque Municipal da Lagoa
do Peri, onde participou das discussões sobre a melhor categoria e formato da UC com base
nos seus conhecimentos e estudos sobre ecologia da paisagem.

140
Áreas Protegidas: Experiências de pesquisa e extensão no Sul do Brasil.

O Maciço Central compreende também uma Unidade de Conser-


vação, o Parque Natural Municipal do Maciço da Costeira (PNMMC).
A conexão através de um corredor ecológico na Planície Entre Mares,
além de conectar os Maciços Sul e central, possibilita a conexão com o
Manguezal, que também faz parte de outra Unidade de Conservação, a
Reserva Extrativista Marinha do Pirajubaé (RESEX Pirajuabé).
Todavia, apesar de predominar uma matriz natural nessa paisa-
gem, ao observar o zoneamento da Planície feito pelo Plano Diretor
do Município de Florianópolis, esta provavelmente terá um grande
aumento na ocupação urbana nos próximos anos.
Com o mapeamento realizado nesta pesquisa, pode-se obser-
var que grande parte dessa Planície é constituída de áreas sujeitas a
inundações, devido ao lençol freático alto e pela forte influência das
marés. Os terrenos também são baixos, com cotas entre um e três
metros, além da proximidade com dois manguezais (Rio Tavares e
Tapera). Essa área deveria ser prioritária para a conservação por se
tratar de áreas alagadas.
Segundo o WWF (2015), são zonas úmidas, manguezais, es-
tuários, lagoas, lagos, pântanos e etc. Ao todo, são classificados 42
diferentes tipos de zonas úmidas.
Segundo dados do MMA (2015), 64% das áreas úmidas do mun-
do desapareceram desde 1900. Esse declínio dificulta o acesso à água
doce para 192 bilhões de pessoas no mundo e deterioriza outros ser-
viços ecossistêmicos como o controle de inundações. Ainda de acordo
com o MMA, a perda dessas áreas ainda se dá porque são vistas como
áreas abandonadas que deveriam ser aterradas ou drenadas para outros
fins. Isso é exatamente o que observamos nas áreas úmidas da Ilha. Na
Planície, outro exemplo de área úmida que foi drenada é na localidade
da Lagoa Pequena quando foi construído nas proximidades o Lotea-
mento Novo Campeche. Muitos eucaliptos também foram plantados
para secar o terreno em volta da Lagoa Pequena na década de 80.
De acordo com o MMA (2015), as áreas úmidas são zonas im-
portantes, pois unem ecossistemas costeiros, previnem erosões, re-

141
Corredores ecológicos na ilha de Santa Catarina

tardam elevações bruscas do nível da água, aumentam a resiliência


dos ambientes às mudanças climáticas, asseguram a disponibilidade
de água e ajudam a recarregar água de aquíferos.
As áreas úmidas na Planície correspondem a um total de 26%,
ou seja, parte expressiva da Planície (GÓES, 2015).
No mapeamento realizado de uso e cobertura da terra da Pla-
nície, mapearam-se 17 classes temáticas diferentes, de forma que
cada uma dessas classes constitui uma mancha na paisagem em
maior ou menor área. No entanto, a mancha da paisagem que
mais chamou a atenção devido a sua grande fragmentação foi
a de Floresta Ombrófila Densa de Terras Baixas ou Floresta de
Planície Quaternária. Essa mata está quase extinta na Ilha, já que
ocupa as áreas planas que são aquelas suscetíveis à urbanização.
Foram identificados 90 fragmentos na Planície Entre Mares. Es-
ses fragmentos, embora alguns fiquem bem próximos uns aos ou-
tros, ainda assim encontram-se fragmentados por outras classes
da paisagem, normalmente pela urbanização, de forma que não
conseguem manter conectividade entre si. No geral, são todos
fragmentos muito pequenos.
Todavia, entorno do Ribeirão da Fazenda, um fragmento de
proporções maiores que os demais se destaca. Com 1,2 km², esse
fragmento forma um corredor remanescente de restinga arbórea
acompanhando o rio até ser fragmentado pela Rodovia Aparício
Ramos Cordeiro. Esse fragmento, apesar de seu tamanho mais ex-
pressivo, apresenta um efeito de borda grande devido ao seu perí-
metro (18 km) e sua forma bastante alongada (Figura 03).
É nesta área que se propôs um corredor ecológico, recuperan-
do a mata ciliar dos rios principais da bacia hidrográfica do Rio
Tavares (Ribeirão da Fazenda e Rio Tavares), e englobando a área
de 1,2 km² de fragmento de vegetação remanescente de Floresta
Ombrófila Densa de Terras Baixas, cumprindo assim tripla fun-
ção: corredor ecológico para a fauna, flora e conectividade de três
Unidades de Conservação. Nessa área, a maioria dos terrenos está

142
Áreas Protegidas: Experiências de pesquisa e extensão no Sul do Brasil.

Figura 3 - Recorte do mapa de uso e ocupação da terra com foco no fragmento


de restinga arbórea (em verde), mais expressiva na paisagem

Fonte: Góes, 2015

abaixo de 1 metro, localiza-se no entorno de uma Unidade de


Conservação, a RESEX Pirajubaé – Reserva Extrativista Marinha
de Pirajubaé –, o que confere naturalmente uma zona de amor-
tecimento. Também se encontra aí um mosaico de ambientes e
vegetação composto por restingas, banhados, áreas de transição
entre manguezal e restinga e APPs - Áreas de Preservação Perma-
nente - de curso d’água que drenam suas águas para a UC próxi-
ma. Lembrando que é a forma que se tem de manter a conexão
também entre os maciços Centro-Norte e Sul da Ilha, separados
pelo “vazio” da Planície Entre Mares.

143
Corredores ecológicos na ilha de Santa Catarina

Outro corredor proposto (Figura 4) para a Planície foi conec-


tando o Parque Natural Municipal do Maciço da Costeira ao Parque
Natural Municipal das Dunas da Lagoa da Conceição. Essa faixa
de corredor aproveitaria os pastos remanescentes da ruralidade entre
os bairros Rio Tavares e Campeche e restinga arbórea, partindo da
encosta do maciço até a Lagoa Pequena. No entanto, no ano atual,
esse corredor já se encontra comprometido, pois num dos lados saiu
a construção de um shopping e do outro lado um loteamento. Esse
corredor tem importância sobretudo para a fauna que atravessa a
mata de encosta em direção às restingas e áreas alagadas em busca
de alimento. Um dos animais, no que diz respeito aos mamíferos
observados que rotineiramente utilizam esse corredor de pastagem,
é o Graxaim (Cerdocyon thous). Nos estudos de Góes (2015) é pos-
sível verificar uma listagem de mastofauna e aves encontradas e com
registros na Planície Entre Mares. O número de mastofauna para a

Figura 4 - Mapa de Corredores Ecológicos da Planície Entre Mares

Fonte: Góes, 2015

144
Áreas Protegidas: Experiências de pesquisa e extensão no Sul do Brasil.

Planície é de 17 num total de 26 espécies para a Ilha de Santa Cata-


rina, e o número de aves levantado foi de 160 aves num total de 352
espécies já levantadas para a Ilha.
Com a apresentação deste trabalho em 2015, alguns resultados
começaram a aparecer. Com base nos estudos de ecologia da paisa-
gem para a Planície Entre Mares (GÓES, 2015), onde foram mape-
ados os dois corredores ecológicos, é que os técnicos da FLORAM
(Fundação Municipal de Meio Ambiente) de Florianópolis, junto ao
IPUF (Instituto de Planejamento Urbano de Florianópolis), come-
çaram a levar essas discussões com relação aos corredores ecológicos
para o Plano Diretor de Florianópolis.
Tivemos como resultado a criação de um sobrezoneamento no
Plano chamado de ACE (Área de Corredor Ecológico), em que,
num primeiro momento, havia sido inserido o corredor ecológico
da Planície Entre Mares e um corredor ao Norte mapeado pelos téc-
nicos da ESEC Carijós (Estação Ecológica de Carijós).
O que diz a minuta do projeto de lei do Plano Diretor Muni-
cipal de Florianópolis:

Art. 215. As áreas de corredor ecológico (ACE) são porções de


ecossistemas ligando unidades de conservação ou áreas legalmente
protegidas possibilitando:

I Fluxo gênico e movimento da biota que facilitem a dispersão de


espécies e a recolonização de áreas degradadas; e
II Manutenção de populações de fauna e flora nativas que
demandam para a sua preservação áreas com extensão maior
do que aquela das unidades individuais. (FLORIANÓPOLIS,
2017).

Outro ganho através das discussões no Plano Diretor também


foi o sobrezoneamento de AUC (Área de Unidade de Conserva-
ção). Até então todas as Unidades de Conservação do município

145
Corredores ecológicos na ilha de Santa Catarina

perante o Plano Diretor apareciam como APP. Este mapeamento


dentro do Plano Diretor evidencia que mais do que áreas de pre-
servação permanente as Unidades de Conservação têm o seu pró-
prio plano, ou seja, o plano de manejo de cada UC. Apesar de no
âmbito das UC municipais apenas o Parque Natura Municipal do
Maciço do Morro da Cruz – PANAMMC – contar com um plano
de manejo, as outras oito unidades Municipais tão logo estejam
com suas categorias e limites adequados na Câmara Municipal de
Florianópolis, terão como próximo passo em breve o início dos
estudos para os respectivos planos de manejo. Ainda assim temos
também as UC Estaduais e Federais.
Em reuniões com os técnicos do Departamento de Unidades de
Conservação da Fundação Municipal de Meio Ambiente de Florianó-
polis - FLORAM - e com o Gerente de Geoprocessamento do Insti-
tuto de Planejamento Urbano de Florianópolis – IPUF - mapeamos
conjuntamente mais oito Corredores ecológicos para a Ilha (Figura 5).
A prioridade foi encontrar áreas que possibilitassem a conectividade
entre os maciços da Ilha, de forma que chegamos a um mapeamento
que contemplou a conexão entre todos eles de norte a sul.
Além da conexão entre um maciço e outro, também estabelece-
mos conexões entre Unidades de Conservação e garantimos um corre-
dor numa área que poderá no futuro vir a se tornar mais uma UC na
Ilha. Trata-se da planície inundável do Pântano do Sul. Dessa forma,
foi mapeado um corredor ecológico entre a Planície do Pântano do
Sul e o Parque Natural Municipal da Lagoinha do Leste – PNMLL.
Assim, temos as seguintes conectividades mapeadas como ACE:

1. Parque Natural Municipal da Lagoinha do Leste – Parque Municipal


da Lagoa do Peri;
2. Parque Natural Municipal da Lagoinha do Leste – Planície do
Pântano do Sul;
3. Parque Municipal da Lagoa do Peri – Reserva Extrativista Marinha
do Pirajubaé – Parque Natural Municipal do Maciço da Costeira;

146
Áreas Protegidas: Experiências de pesquisa e extensão no Sul do Brasil.

Figura 5 - Mapa dos Corredores Ecológicos

Fonte: IPUF, 2017

147
Corredores ecológicos na ilha de Santa Catarina

4. Parque Natural Municipal do Maciço da Costeira – Parque Natural


Municipal das Dunas da Lagoa da Conceição;
5. Parque Natural Municipal do Maciço da Costeira - Morro do
Lampião (possível futura UC);
6. Parque Natural Municipal do Maciço da Costeira - Morro da Lagoa
da Conceição;
7. Morro do Saco Grande - Estação Ecológica de Carijós;
8. Morro da Vargem Pequena – Morro da Vargem Grande;
9. Morro da Cachoeira – Morro do Muquém;
10. Morro da Cachoeira – Morro do Rapa.

Cabe destacar que os Morros da Lagoa da Conceição, Saco


Grande, Vargem Pequena, Vargem Grande, Cachoeira, Muquém
e Rapa, assim como outras morrarias do Norte da Ilha, não fa-
zem parte de nenhuma UC; a conservação dessas áreas está ligada
às Áreas de Preservação Permanente (topos de morros e cursos
d’água). Nesse sentido, pensa-se na criação de uma UC, a maior
para a Ilha, conservando todo o maciço Norte da Ilha onde não
há nenhuma UC, com a exceção da UCAD – Unidade de Con-
servação Desterro, que apesar de ter esse nome não é uma Unida-
de de Conservação de acordo com o Sistema Nacional de Unida-
des de Conservação.
Embora tenham sido criados estes sobrezoneamentos nas revi-
sões do Plano Diretor, esta versão não é a que foi a frente, tendo os
processos sido interrompidos. O Plano em vigência que é o de 2014,
não contempla os corredores ecológicos e Unidades de Conservação
como sobrezoneamentos.
A Ilha de Santa Catarina vem sendo palco de diversas trans-
formações geográficas, e a biodiversidade figura como protagonista.
A Teoria de Biogeografia de Ilhas – TEBI de Macarthur e Wilson
(1963, 1967), enfatiza que a diversidade de espécies está relaciona-
da ao tamanho do fragmento e à distância da fonte de propagação.
Populações nos grandes fragmentos tendem a ser maiores e menos

148
Áreas Protegidas: Experiências de pesquisa e extensão no Sul do Brasil.

vulneráveis as extinções, e quanto menor o fragmento e maior o


isolamento, menor a taxa de imigração e maior a taxa de extinção.
Com a urbanização das últimas décadas, o continente próximo
à Ilha se tornou um labirinto de concreto, não sendo diferente na
costa oeste da Ilha. O bloqueio urbano, somado ao fator insular,
impossibilita em grande medida a passagem, sobretudo da fauna ter-
restre. Com isso, a Ilha fragmentada e sem conectividade entre estes
fragmentos vai tomando feições de uma Ilha pequena (425km²) e
afastada do continente.
Dessa forma, os corredores ecológicos entre Unidades de Con-
servação e outros fragmentos de vegetação são uma das medidas mais
urgentes para a proteção do equilíbrio dinâmico da biodiversidade.
Corredores ecológicos não têm como função principal abrigar popu-
lações no seu interior, mas elevam as possibilidades de sobrevivência
das espécies, sobretudo aquelas generalistas que se utilizam das bor-
das dos fragmentos para passagem.
Neste caso, a disponibilidade de habitats favoráveis à reprodu-
ção é mais importante do que a área da reserva em si. Por isso são
tão importantes esses corredores, fazendo a conectividades entre
unidades de paisagem diferentes. Isso aumenta as possibilidades de
deslocamento, reprodução e alimentação da fauna, como também a
dispersão de espécies vegetais.
Com relação ao efeito de borda, diferente das Unidades de Con-
servação onde o efeito deve ser o mínimo, nos corredores as bordas
podem aumentar as possibilidades de deslocamento da fauna, prin-
cipalmente de espécies generalistas que utilizam as bordas.
No momento atual em que temos várias Unidades de Conservação
Municipais sendo adequadas e ampliando seus limites, as discussões
com relação aos corredores ecológicos são de grande importância.
É chegado o momento em que tais Unidades devem dentro do seu
Plano de manejo priorizar essas conectividades. Do contrário, se não
houver conexões entre essas Unidades de Conservação, principal-
mente entre os maciços e planícies, cada Unidade de Conservação

149
Corredores ecológicos na ilha de Santa Catarina

ainda assim será de grandes fragmentos; outros nem tão grandes


assim. Para garantir a conservação das áreas ainda preservadas no
Norte Ilha de Santa Catarina, deve-se o quanto antes priorizar a
criação de mais uma UC, talvez a mais importante no momento
atual, a Unidade de Conservação do Maciço Norte da Ilha. Nesse
maciço, por exemplo, temos uma população de macacos prego (Ce-
bus apela), que não mantêm conexão com os outros setores da Ilha,
de forma que nos maciços central e Sul da ilha não temos a presença
de tal espécie.
Ainda sobre as UC, como vimos, o efeito de borda é pouco
desejável nessas áreas, então também é chegada a hora de começar a
pensar nas suas zonas de amortecimento para não corrermos o risco
de termos empreendimentos de grande impacto nas bordas das Uni-
dades de Conservação.
Dessa forma, fazendo essas principais conexões através dos cor-
redores ecológicos adequando e criando novas Unidades de Conser-
vação e garantindo suas zonas de amortecimento, teremos a garan-
tia de mais efetividade na conservação da biodiversidade da Ilha de
Santa Catarina.
Outra medida mais recente é a criação do Plano Municipal
da Mata Atlântica para o município de Florianópolis. Esta autora
participou das oficinas do plano que prevê áreas prioritárias para a
conservação e outras para a recuperação. Entre as áreas para conser-
vação, já estão sendo inseridos esses corredores ecológicos propostos
pela pesquisa de Góes, 2015, além de outros corredores pensados
com outros técnicos e pesquisadores da Ilha. Mais informações sobre
o plano e consulta aos mapas podem ser adquiridos acessando o site
http://www.pmf.sc.gov.br/sistemas/pmma/.

150
Áreas Protegidas: Experiências de pesquisa e extensão no Sul do Brasil.

Referências
BRASIL. Decreto n. 4.340, de 22 de agosto de 2002. Regulamenta artigos da Lei no 9.985,
de 18 de julho de 2000, que dispõe sobre o Sistema Nacional de Unidades de Conservação
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151
Taim, banhado de vida: ações sustentáveis no entorno da Estação Ecológica do Taim...

Taim Banhado de vida!

O Banhado do Taim desempenha funções muito importantes para


a manutenção do equilíbrio ecológico da região. Essas incluem a pro-
dução de alimentos, a conservação da biodiversidade, a contenção de
enchentes e o controle da poluição (Figura 1). Os processos mais im-
portantes nesse ecossistema são a geração de solo, a produção vegetal
(produção primária) e a estocagem de nutrientes, água e biodiversidade.
A Estação Ecológica do Taim - ESEC Taim - é uma Unidade
de Conservação Federal, de proteção integral (BRASIL, 2000),
administrada pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Bio-
diversidade – ICMBio – Ministério do Meio Ambiente. Foi criada
pelo Decreto Federal n° 92.963, em 21 de julho de 1986, e atu-
almente possui uma área total aproximada de 32.797 hectares, de
acordo com o Decreto de ampliação de 5 de junho de 2017.
Está localizada na planície costeira do Rio Grande do Sul, no extre-
mo sul do Brasil (32°32´S/ 32°50`S – 52° 26´W/ 52°38´W), e está in-
serida entre os municípios do Rio Grande e de Santa Vitória do Palmar.
A ESEC TAIM possui diferentes ecossistemas, além dos banha-
dos; as lagoas; as dunas; os campos; as dunas obliteradas e as ma-
tas (Azevedo, 1995). Esses ecossistemas abrigam inúmeras espécies
de vegetais e animais, como a capivara (Hidrochaeris hidrochaeris),
a lontra (Lutra longicaudis), o jacaré-de-papo-amarelo (Caiman la-
tirotris) e aves migratórias como o cisne-do-pescoço-preto (Cygnus
melancoryphus) e o colhereiro (Ajaja ajaja), entre outras. Destaca-se
como uma das zonas mais ricas em aves aquáticas da América do Sul,
contando com espécies residentes nidificantes, invernantes de zonas
mais meridionais e limnícolas do neártico (SCOTT et al., 1986). A
ESEC e seu entorno são apontados como áreas prioritárias à con-
servação da diversidade biológica brasileira (Ministério do Meio
Ambiente – MMA), sendo também Núcleo da Reserva da Biosfe-
ra da Mata Atlântica – UNESCO, o que salienta seu grande valor
como patrimônio genético e paisagístico. Atualmente o Taim é um

154
Áreas Protegidas: Experiências de pesquisa e extensão no Sul do Brasil.

dos 16 sítios RAMSAR brasileiros, certificação concedida pela


Convenção sobre Zonas Úmidas de Importância Internacional3,
sediada na Suíça.
Por ser uma Unidade de Proteção Integral não é permitido nenhum
tipo de atividade socioeconômica dentro da ESEC/TAIM, sendo 90%
de sua área destinada à preservação total e 10% reservada à pesquisa
visando ao manejo de fauna e flora, para melhor conhecer o ambiente.
A ESEC/TAIM sofre impactos principalmente relacionados às
atividades realizadas na região de entorno devido a problemas refe-
rentes a conflitos de uso. Dentre esses, destacam-se a retirada e conta-
minação das águas para o cultivo do arroz, a pecuária, o florestamen-
to com espécies exóticas, as queimadas e a mortalidade de animais,
principalmente por atropelamentos na BR 471 (MULLER, 19934).
O arroz irrigado é a principal cultura da região. A água para a irriga-
ção é obtida através de bombas de sucção nas duas grandes lagoas da
região (Mangueira e Mirim) e é distribuída para as lavouras através
de canais próprios. Essa prática, além de perturbar o balanço hídrico,
principalmente em épocas de secas, também acaba levando em direção
à ESEC agroquímicos e fertilizantes. A pecuária provoca o pisoteio e a
compactação do solo, alterando as condições abióticas para a comuni-
dade vegetal, e também o gado acaba competindo na alimentação com
os herbívoros nativos. Outro problema grave são as zoonoses, com a
transmissão de doenças do gado para os mamíferos nativos, além dos

3 A Convenção sobre Zonas Úmidas de Importância Internacional, mais conhecida


como Convenção Ramsar, estabelece marcos para ações nacionais e para a cooperação en-
tre países com o objetivo de promover a conservação e o uso racional de áreas úmidas no
mundo. Essas ações estão fundamentadas no reconhecimento, pelos países, da importância
ecológica e do valor social, econômico, cultural, científico e recreativo de tais áreas.
Desde sua adesão à Convenção, em 1996, o Brasil promoveu a inclusão de 16 UCs à Lista
de Ramsar, o que permite a obtenção de apoio internacional para o desenvolvimento de
pesquisas, o acesso a fundos internacionais para o financiamento de projetos e a criação de
um cenário favorável à cooperação internacional.
4 MULLER, R. Plano de Ação Emergencial: Estação Ecológica do Taim. Instituto
Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis – IBAMA, documento
interno. 1993.

155
Taim, banhado de vida: ações sustentáveis no entorno da Estação Ecológica do Taim...

riscos dos praguicidas utilizados para o controle dessas doenças. O


florestamento com espécies exóticas, como o Pinus sp. e o Eucalipto
sp., de crescimento rápido e alto consumo de água, provocam o re-
baixamento do lençol freático, além de inibir o desenvolvimento de
populações da fauna e flora nativas. As principais causas de incêndios
ocorridos na área são provocadas pelas pontas de cigarros arremessadas
de dentro de veículos. Os sistemas nativos da região não estão adapta-
dos naturalmente à ocorrência de queimadas; dessa forma, a incidên-
cia deste tipo de impacto altera drasticamente o equilíbrio ecológico
da estação. Segundo Bager et al. (2000), a mortalidade de animais por
atropelamento na BR 471, outro grande problema da ESEC, foi re-
duzida em 70% depois da implementação de um Sistema de Proteção
à Fauna (SPF). O SPF é constituído pelo telamento das margens da
BR 471 nos 12 km onde a estrada tangencia a estação, a abertura de
19 túneis sob a rodovia, implementação e instalação de controladores
eletrônicos de velocidade.

Figura 1 - Banhado do Taim

Fonte: Arquivo NEMA

156
Áreas Protegidas: Experiências de pesquisa e extensão no Sul do Brasil.

As comunidades do Taim

A população do Taim concentra-se ao longo de 120 km da BR


471 que atravessa a ESEC, em povoados como a Vila do Taim, Coxi-
lha, Palma, Siola, Sarandi, Izabel, Cerrito, Capilha, Albardão e Cur-
ral Alto e nas propriedades conhecidas como granjas. No interior da
região a densidade demográfica é pequena, com pequenas e médias
propriedades e acampamentos de pescadores.
A atividade econômica básica das grandes propriedades é a agri-
cultura, associada à criação de bovinos, equinos e ovinos, destacando-
-se a rizicultura, que atrai mão de obra local e dos municípios vizinhos
para atividades permanentes ou temporárias em época de safra. As
médias propriedades dedicam-se à pecuária de corte, além da ocasio-
nal produção de arroz direta ou indireta, através de arrendamento de
terras. A pequena propriedade sobrevive da pecuária extensiva de corte
e servindo de mão de obra para a rizicultura. O florestamento com
espécies exóticas e as serrarias são atividades econômicas que cresceram
por um período na região; esse tipo de atividade também atrai mão de
obra de fora. Além da agricultura, pecuária e do florestamento, a pesca
e a caça de subsistência são outras atividades da região.
As comunidades de pequenos agricultores e pescadores, que re-
sidem na região, na sua maioria possuem conhecimento dos ambien-
tes, da importância e função da Unidade de Conservação. Porém os
trabalhadores das grandes granjas de rizicultura e das serrarias, que
estão em fluxo permanente de entrada e saída da região, não pos-
suem essa percepção.
A escolaridade da população que vive no entorno da Unidade
de Conservação é basicamente até a quarta série. A região possui
seis escolas, sendo cinco de 1ª à 4ª série e apenas uma com o Ensino
Fundamental completo.
A ESEC Taim e as comunidades de entorno tiveram desde a
criação da UC uma relação distanciada e conflituosa, baseada nas
ações de fiscalização. De certa maneira, isso trouxe a sensação de que

157
Taim, banhado de vida: ações sustentáveis no entorno da Estação Ecológica do Taim...

a conservação simplesmente proibia as atividades econômicas e que


“os bichos” eram mais importantes que “o ser humano”. A partir de
2001, algumas ações melhoraram essa relação. A ESEC abriu sua
estrutura física à comunidade e socializou sua conduta; o projeto
Ações Prioritárias e a criação do Conselho Consultivo da ESEC con-
tribuíram para essa transformação.
A proposta despertou nas comunidades que vivem no entorno
da ESEC Taim a emoção e a responsabilidade de tornarem-se guar-
diãs de todos os elementos ali presentes e que dão sentido às suas vi-
das. As ações buscam relações socioeconômicas mais amigáveis com
a vida silvestre, a valorização dos signos locais e a conservação da
identidade cultural e da biodiversidade. A consolidação e fortaleci-
mento dos grupos trouxe benefícios à medida que pessoas atuantes
são uma necessidade, seja para a conservação da natureza, seja para a
busca de pequenos e importantes passos que alcancem as condições
de sustentabilidade. Socioambientalmente, trouxe melhorias com a
incorporação da sociedade na conservação do ambiente e na apro-
ximação entre os objetivos de criação da ESEC e a necessidade de
sustento dos moradores do entorno.
Com base nos resultados da interação com as comunidades, bem
como a descrição das potencialidades econômicas de uso sustentável
dos recursos da biodiversidade no entorno da UC, foi elaborado um
Plano de Sustentabilidade em que foram definidas as Ações Prioritá-
rias à Sustentabilidade nas Comunidades do Entorno da ESEC Taim,
presentes nos Projetos demonstrativos de uso sustentável, implemen-
tados junto às comunidades envolvidas. Nesses projetos, foram con-
siderados: os recursos naturais explorados na região; os impactos das
atividades econômicas; os resultados do diagnóstico detalhado, ela-
borado; a experiência da equipe técnica do IBAMA responsável pela
ESEC Taim; os anseios comunitários e as potencialidades de geração
de renda, com menor impacto na biodiversidade, tendo em vista as
atividades socioeconômicas que estão em processo de crescimento na
região; e conceitos e fundamentos para a sustentabilidade.

158
Áreas Protegidas: Experiências de pesquisa e extensão no Sul do Brasil.

O Plano de Sustentabilidade

O conceito de sustentabilidade é bastante complexo, uma vez


que, para ser implantado, exige profundas mudanças na forma de
pensar, viver, produzir e consumir. A sustentabilidade apresenta,
além da questão ambiental, tecnológica e econômica, uma dimensão
cultural e política. Ele exige a participação democrática de todos na
tomada de decisão para as mudanças que se farão necessárias para a
sua implementação. A abordagem da sustentabilidade requer uma
visão interdisciplinar, holística e sistêmica que permite o encontro
de diferentes disciplinas, conservando suas identidades. Trata-se de
um conceito possível de ser compreendido como uma visão nascen-
te, uma nova visão.
Conforme Rodrigues (1999), uma sociedade sustentável pode
ser definida como a que vive e se desenvolve integrada à natureza,
considerando-a um bem comum. Respeita a diversidade biológica e so-
ciocultural da vida. Está centrada no pleno exercício responsável e con-
sequente da cidadania, com a distribuição equitativa da riqueza que
gera. Não utiliza mais do que pode ser renovado e favorece condições
dignas de vida para as gerações atuais e futuras.
Comunidades, cultura produzida, diversidade cultural e diver-
sidade biológica. De acordo com Pauli (1998), o desafio de nos-
sa época é pensar sistemicamente em criar e manter comunidades
duradouras, ou seja, ambientes sociais, culturais e físicos, nos quais
nossas necessidades e empenhos possam ser satisfeitos sem restringir
as oportunidades das gerações futuras.
As mudanças que a sustentabilidade exige comprometem cada co-
munidade, cada lar, cada indivíduo. As soluções dos problemas nesse
nível da sociedade deverão estar arraigadas na especificidade cultural
e ambiental da cidade ou da região para que as pessoas participem e
apoiem essa mudança. Sustentabilidade é, numa análise final, um im-
perativo moral e ético em que a diversidade cultural e o conhecimento
tradicional precisam ser respeitados (UNESCO, 1999).

159
Taim, banhado de vida: ações sustentáveis no entorno da Estação Ecológica do Taim...

Tratando-se de uma área com uma biodiversidade fenomenal,


como é o Banhado do Taim, e com uma diversidade cultural que
vive na sua volta, é importante resgatar o sentimento que essas co-
munidades têm como guardiãs de todos os elementos presentes ali e
que dão sentido às suas vidas. Os integrantes são interdependentes,
diversidade biológica e diversidade cultural podem ser consideradas
aspectos do mesmo fenômeno.
A visão de sustentabilidade aplicada no Plano é a possibilidade
de um sucesso significativo que permita às comunidades delinearem
seu próprio caminho.
Apoiado em conceitos e paradigmas emergentes que visam à
melhoria da qualidade de vida com respeito à conservação da biodi-
versidade, o Plano para Sustentabilidade foi elaborado em 2001 com
os recursos do PROBIO5 - MMA: Proposta de Projeto de Utilização
Sustentável de Recursos da Biodiversidade no Entorno de Unidades
de Conservação de Proteção Integral localizadas em Ecossistemas
Abertos. Para a construção do Plano, realizamos inicialmente a esco-
lha das comunidades. Os critérios para a escolha das mesmas e das
ações prioritárias à sustentabilidade tiveram suas bases pela proximi-
dade/limite com a Unidade de Conservação e pelo grau de impactos
antrópicos e naturais sobre a biodiversidade contida na Unidade.
O Plano foi elaborado juntamente com três comunidades loca-
lizadas no entorno da Estação Ecológica do Taim, duas delas perten-
centes ao distrito do Taim, município do Rio Grande – Capilha e
Serraria, e a terceira pertencente ao distrito de Curral Alto, municí-
pio de Santa Vitória do Palmar – Vila Anselmi, através de metodo-
logia participativa, em que foram consultadas as comunidades locais
e diferentes instituições públicas e privadas. O Plano teve como fi-
nalidade orientar ações e projetos viáveis socioambientalmente, nos
quais o desenvolvimento socioeconômico das populações vizinhas
às Unidades de Conservação se dê sobre bases sustentáveis, contri-

5 Projeto de Conservação e Utilização Sustentável da Diversidade Biológica Brasileira –


PROBIO/MMA

160
Áreas Protegidas: Experiências de pesquisa e extensão no Sul do Brasil.

buindo para a redução dos impactos negativos existentes e potenciais


sobre o entorno e na própria UC, com isso promovendo uma mu-
dança em relação à percepção do meio ambiente pela comunidade.
O documento integra um diagnóstico da área do entorno: situ-
ação ambiental – meios físico, biológico e socioeconômico, carac-
terização das comunidades que utilizam os recursos do entorno –
atividades econômicas desenvolvidas; principais impactos positivos
e negativos dessas sobre a UC; estimativa média de renda anual das
famílias, percepção da Unidade de Conservação e do entorno pela
comunidade; expectativa de vida; escolaridade, projetos e ações já
desenvolvidos e em andamento no entorno da UC, principais pro-
blemas e atividades econômicas alternativas potenciais já existentes.

Imersão nas comunidades

Para a imersão na comunidade, foi realizado um contato inicial,


no qual cerca de 120 pessoas foram entrevistadas a fim de verificar
sua percepção com relação à Unidade de Conservação, bem como
suas perspectivas de melhoria da qualidade de vida através da possi-
bilidade de realizarem outras atividades econômicas.
A seguir, foram realizadas reuniões comunitárias, com o objeti-
vo de apresentar o projeto e efetivar as parcerias entre as comunida-
des locais, a instituição proponente e as instituições partícipes.
Foram propostas oficinas com a comunidade para consulta e
identificação de diretrizes para o Plano. Nessas oficinas, os trabalhos
seguiram três premissas básicas: conservação da biodiversidade, me-
lhoria da qualidade de vida das populações e a gestão participativa.
Em cada localidade foram realizados três tipos de oficinas co-
munitárias: (a) apresentação dos objetivos do projeto; (b) estabe-
lecimento de diretrizes ao Plano de Desenvolvimento Sustentável
- ações sustentáveis; e (c) avaliação das ações escolhidas como priori-
tárias. Nas oficinas de diretrizes foram identificadas potencialidades
e conflitos locais, bem como suas relações com a realidade social de

161
Taim, banhado de vida: ações sustentáveis no entorno da Estação Ecológica do Taim...

cada comunidade e com as oportunidades de desenvolvimento. Fo-


ram eleitas as prioridades de ação por meio da metodologia das Ár-
vores descrita em Crivellaro et al. (2001), na qual foram construídas
as árvores-conflito e árvores-solução. O exercício do conhecimento
e compreensão da própria realidade vivenciada e debatida foi fun-
damental para a orientação dos novos caminhos e para o estabeleci-
mento de metas para as possíveis intervenções necessárias.
O próximo passo foi a sistematização das propostas para que
recebessem contribuições das comunidades, com o intuito de avaliar
a viabilidade política e socioambiental de execução prática do Plano.
Paralelamente a esse processo, foi constituído um grupo de trabalho
que deu o suporte técnico para a elaboração do Plano, formado por ge-
ógrafos, oceanólogos, biólogos, arquitetos, técnicos em turismo, agrôno-
mos e administradores de empresa, que realizaram uma ampla discussão.
A pesquisa bibliográfica indicou uma grande quantidade de informação
existente sobre a região nas várias áreas do conhecimento. O material pes-
quisado foi o subsídio teórico para a elaboração do diagnóstico.
Permeando todas as etapas, foram sendo identificados e conta-
tados os possíveis partícipes para a implementação das ações indica-
das pelas comunidades no Plano. Institucionalmente, foram feitos
contatos e acordos de trabalho com as duas Prefeituras Municipais,
com a Universidade Federal do Rio Grande - FURG, com órgãos
ligados à Secretaria Estadual de Agricultura, Empresa Brasileira de
Extensão Rural do RS - EMATER e Instituto Rio Grandense do
Arroz - IRGA, e com o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos
Recursos Naturais Renováveis - IBAMA.
Para a realização de uma avaliação criteriosa e isenta, foram
chamados dois consultores externos com experiência em projetos
sustentáveis no entorno de Unidades de Conservação, sendo um
avaliador de outra região costeira do Brasil e um com reconheci-
do conhecimento sobre a área de estudo. Eles realizaram saídas de
campo e reuniões com o grupo de trabalho, trocando experiências e
sugerindo rumos e possibilidades.

162
Áreas Protegidas: Experiências de pesquisa e extensão no Sul do Brasil.

Por fim, as instituições e lideranças contatadas nas comunidades


formaram e consolidaram o Conselho Gestor, responsável pela ava-
liação e acompanhamento do Plano em sua segunda fase: a imple-
mentação das ações prioritárias.
Foram definidas 5 ações prioritárias à sustentabilidade: implan-
tar um sistema de visitação orientada no entorno; estabelecer dire-
trizes para o ordenamento territorial da Capilha e Serraria; viabilizar
a participação dos pescadores da Vila Anselmi na gestão da pesca
artesanal; desenvolver técnicas ecológicas de produção agropecuária;
e criar meios e ações para a gestão participativa.

Sistema de visitação orientada no entorno da ESEC Taim

O sistema de visitação orientada no entorno da ESEC Taim


foi construído através do estabelecimento de quatro trilhas inter-
pretativas no entorno da ESEC, da formação de monitores locais e
da capacitação comunitária. A atividade é regulada pela capacidade
de suporte das trilhas com um protocolo de monitoramento para
a avaliação periódica e pelas bases socioambientais, que consistem
nos princípios culturais, ambientais, técnicos e éticos necessários
para que se proceda a visitação sustentável. A capacitação comu-
nitária originou a criação do grupo Mulheres do Taim que, atra-
vés da produção de miniaturas da fauna, flora e cultura local, tem
permitido aos visitantes adquirir “lembranças” da visita, gerando
renda e envolvimento entre a comunidade e a vida silvestre. Para a
formação de monitores locais foi ministrado um curso teórico-prá-
tico com 100 (cem) horas de duração. Foram formados 40 moni-
tores locais (Figura 2). Recentemente, houve a formação de novos
monitores locais, através de um projeto executado pela CAOSA
(ONG local) com financiamento do Fundo Municipal de Meio
Ambiente – FMMA, Rio Grande, dando continuidade à formação
e à atividade. A foto a seguir mostra os monitores durante as ativi-
dades de formação.

163
Taim, banhado de vida: ações sustentáveis no entorno da Estação Ecológica do Taim...

Figura 2 - Monitores locais em atividades de visitação

Fonte: Arquivo NEMA

Diretrizes de ordenamento territorial

Os Planos de Ordenamento Territorial para a Capilha e Serra-


ria dão as diretrizes e possibilidades de ocupação do espaço, numa
perspectiva de prevenção dos problemas futuros e correção dos
atuais para que a comunidade possa desenvolver-se e a biodiversi-
dade conservar-se. Esses resultados estão demonstrados na forma
de documentos técnicos e mapas. A elaboração de um plano de
diretrizes de ordenamento territorial para a Capilha e Serraria teve
como base Orea, 1994, que divide o ordenamento em análise, pla-
nificação e gestão. Foram realizados diagnósticos do meio físico e
da população, do tipo de assentamentos, dos condicionantes eco-
lógicos, culturais, institucionais e legais, construindo-se, então, os
cenários socioambientais. As unidades ambientais foram identifi-
cadas e delimitadas através da interpretação de fotos aéreas e poste-
rior mapeamento. O estabelecimento das diretrizes deu-se através

164
Áreas Protegidas: Experiências de pesquisa e extensão no Sul do Brasil.

da revisão bibliográfica e da construção dos cenários socioambien-


tais. Estes últimos são a projeção da situação atual e futura na vi-
são da comunidade, elaborados através de oficinas comunitárias.
O prognóstico de ocupação foi elaborado usando-se o zoneamento
ecológico econômico.
Esses documentos foram entregues para a gestão da UC, que os
utiliza como orientador para pareceres e anuências sobre atividades
nesses locais. A Prefeitura Municipal do Rio Grande incorporou o
Plano de Ordenamento da Capilha como um anexo – documento
diagnóstico e técnico, ao Plano Diretor do Município.

Gestão participativa da pesca artesanal

A participação dos pescadores da Lagoa Mirim, na localidade


da Vila Anselmi, na gestão da pesca artesanal, consistiu em es-
tabelecer medidas de manejo participativo na pesca. A principal
medida requerida foi a organização dos pescadores para que cole-
tivamente pudessem se fazer representar nos fóruns e instituições
ligadas à pesca. A organização foi estabelecida através de reuniões
e em cursos de associativismo e de educação ambiental. Ao final
foi criada e legalizada a APEVA - Associação de Pescadores da
Vila Anselmi. Fato importante foi seu reconhecimento pelos ór-
gãos oficiais de gestão pesqueira. O projeto apoiou a participação
dos pescadores em eventos como forma de integrá-los ao processo
de gestão.
Outra atividade foi a elaboração de um modelo ecotrófico de
biomassa através da síntese de informações bibliográficas e do levan-
tamento do conhecimento tradicional (Figura 3). O modelo buscou
estabelecer suporte técnico - avaliação pesqueira, necessário à susten-
tabilidade na pesca.
A APEVA conseguiu, através de sua atuação e representação, a
implantação de fábrica de gelo e processamento de pescado na co-
munidade, acessando outros recursos de programas federais.

165
Taim, banhado de vida: ações sustentáveis no entorno da Estação Ecológica do Taim...

Figura 3 - Pescadores da Vila Anselmi – Lagoa Mirim

Fonte: Arquivo NEMA

Desenvolvimento de técnicas ecológicas de produção


agropecuária

Para a produção de arroz diferenciado do sistema convencional,


cultivado na região há mais de 70 anos, identificou-se um grupo
de agricultores organizados em uma associação, a ATLA, Associa-
ção dos Trabalhadores da Lavoura do Arroz, assentados em terras
desapropriadas às margens da Lagoa Mangueira. Para a participação
no processo foram realizados encontros, saídas de campo, cursos de
educação ambiental e reuniões de planejamento, tendo como objeti-
vo construir uma nova visão de realidade frente ao imposto modelo
capitalista avassalador das pequenas economias e dos ecossistemas.
O experimento de cultivo orgânico (Figura 4) foi implantado em
duas áreas-piloto e executado através da elaboração de um plano de
lavoura onde se estabeleceram as técnicas e cultivares, o cultivo pro-
priamente dito, a colheita, o beneficiamento e a comercialização.
Usou-se o experimento para incentivar a discussão e a troca de ex-
periências entre proprietários rurais da região. O cultivo agroecoló-

166
Áreas Protegidas: Experiências de pesquisa e extensão no Sul do Brasil.

gico do arroz foi realizado inicialmente em 7 hectares e produziu 34


toneladas de grãos (seco em casca). A secagem, armazenamento e
comercialização foram feitas de forma a valorizar o produto, diferen-
ciando-o do sistema convencional. Nesse sentido, foi criada a marca
“Arroz Amigo do Taim”. A produção de arroz orgânico angariou par-
ceiros para aumento de área cultivada, para a produção de semen-
tes, para o beneficiamento, industrialização e comercialização. Esta
cadeia produtiva – produtor/indústria/comércio –, cheia de esforços
no sentido de “fazer dar certo”, continua a operar, é sustentável e
tem condição de produção certificada para os mercados nacional,
europeu e norte-americano desde 2006 até o presente.
Também se realizou um inventário da vegetação que descreveu a
flora local e indicou as espécies pioneiras com melhor potencial para
regeneração de áreas degradadas e para recomposição da paisagem. Fo-
ram realizadas saídas de campo e revisão bibliográfica. Como diretriz,
buscou-se ênfase na vegetação das matas locais e nas espécies de maior
potencial para regeneração e reconstituição da paisagem. Espécies na-
tivas de pitanga, araçá, figueira, corticeira, jerivá e butiá, entre outras,
foram cultivadas nos viveiros do NEMA e posteriormente disponibili-
zadas para as áreas identificadas a serem recompostas.

Figura 4 – Produtor rural no cultivo orgânico

Fonte: Arquivo NEMA

167
Taim, banhado de vida: ações sustentáveis no entorno da Estação Ecológica do Taim...

Meios e ações para a gestão participativa

A criação de meios e ações para a gestão participativa consistiu


no intercâmbio entre as comunidades e as ações e na elaboração
um programa de informação e educação ambiental. O intercâmbio
foi realizado através de reuniões comunitárias e técnicas, saídas de
campo e encontros. O Conselho Gestor e o Conselho Consulti-
vo da ESEC foram os espaços nos quais as comunidades podem
experimentar a gestão participativa. Como produto foi elaborado
um programa de educação ambiental que consiste na produção
de material informativo/educativo, cursos, palestras e participação
em eventos populares, tendo a educação ambiental uma aborda-
gem interdisciplinar entre as ciências do ambiente, arte e educa-
ção psicofísica. Posteriormente o Conselho Gestor do Projeto foi
fundido/incorporado ao Conselho Consultivo da UC, e a gestão
participativa pôde ser exercida através da atuação do Conselho
Consultivo e seus Grupos Trabalho.
Produziram-se camisetas, cadernos escolares, livretos, programa
de rádio Minuto do Taim e painéis itinerantes que valorizam as pes-
soas e o meio natural. As ações do projeto são difundidas na mídia.
No âmbito do projeto, o componente educação ambiental con-
tribuiu para a ampliação de uma nova visão da realidade e para a
adoção de novas posturas dos indivíduos em relação a si e ao “todo”.
Como produto desse trabalho, a ESEC Taim foi dotada de um Pro-
grama de Educação e Informação Ambiental, que ressalta a impor-
tância da sua preservação e o envolvimento das comunidades nas
ações de manejo sustentado da região.
Os caminhos já estão abertos, nosso desafio é mantê-los. A ges-
tão comunitária é a principal dimensão a ser trabalhada. A base de-
sencadeadora desse processo está na participação, na organização, na
educação e no fortalecimento das pessoas.
O Plano, elaborado “a muitas mãos”, acordou as comunidades
e aproximou as pessoas, componentes essenciais para sua realização.

168
Áreas Protegidas: Experiências de pesquisa e extensão no Sul do Brasil.

O poder da organização comunitária

As ações prioritárias se propagaram pelos campos do sul como


rizomas, e foram se organizando e se moldando ao tecido social na
pesca, na agricultura, na conservação e gestão de um ambiente com
importantes atributos naturais e muitos conflitos de uso. Transformar
e compreender outras formas de conexão com a vida, com um novo
modo de participação na decisão, é um desafio gigantesco. Visaram
a estabelecer novas tecnologias de produção, dar alternativas susten-
táveis de geração de renda, aproximar as comunidades à ESEC Taim
e criar bases conceituais, filosóficas e metodológicas em busca da sus-
tentabilidade. As ações prioritárias também foram programadas para
inter-relacionar as comunidades, ampliar os benefícios do projeto e
estabelecer uma unidade local centrada na ESEC Taim. Isso traz a
possibilidade de que as ações, no futuro, possam ser implementadas
em outras localidades, funcionando como projetos demonstrativos.
As ações prioritárias atuaram na atividade agrícola, considerada
de maior impacto à conservação da biodiversidade – o cultivo de
arroz irrigado, também atividade mais importante sob a ótica econô-
mica; na atividade extrativista, que utiliza diretamente os benefícios
da conservação promovidos pela ESEC – a pesca; na pouca capaci-
dade de organização das comunidades – organização e capacitação
comunitária; no ordenamento e normatização do ecoturismo; e na
difusão de conhecimentos e técnicas inovadoras localmente. A ges-
tão participativa traz benefícios à medida que pessoas atuantes são
uma necessidade, seja para a conservação da natureza, seja para a
busca de pequenos e importantes passos que alcancem as condições
de sustentabilidade.

A Educação Ambiental no fortalecimento das ações

Com a finalização do Convênio NEMA/PROBio em 2004, o


Programa de Educação Ambiental elaborado nesta fase foi desen-

169
Taim, banhado de vida: ações sustentáveis no entorno da Estação Ecológica do Taim...

volvido por meio do Projeto Taim, Banhado de Vida: Comunidades


Sustentáveis no Entorno da Estação Ecológica do Taim – RS/Brasil,
com o apoio do Fundo Nacional do Meio Ambiente FNMA/MMA,
como forma de dar continuidade e fortalecer as ações prioritárias
em sua forma educativa, participativa e de atividades/exemplos de
práticas reais e concretas.
O Tratado de Educação Ambiental para Sociedades Sustentáveis
e Responsabilidade Global, documento elaborado em 1992, nos diz
que a educação ambiental deve estimular e potencializar o poder das
diversas populações, promovendo oportunidades para as mudanças de-
mocráticas de base que estimulem os setores populares da sociedade. Isso
implica que as comunidades devem retomar a condução de seus próprios
destinos.
A implementação do programa de educação ambiental para as
comunidades do Taim objetivou provocar o resgate da identidade
local, de ler o mundo, como nos diz Paulo Freire, o mundo que é
o próprio universo, porque é ele nosso primeiro educador, a per-
manente mudança de valores, de comportamentos e estilos de vida
necessários à sustentabilidade com vistas à conservação da biodi-
versidade. Também teve como objetivos difundir o conhecimento
e princípios que irão subsidiar ações que gerem produtos e serviços
através da capacitação comunitária no entorno da Estação Ecológica
do Taim, as técnicas e as habilidades necessárias para criar perfis de
produção e de práticas sustentáveis, melhorar a gestão dos recursos
naturais e a manutenção do patrimônio cultural, com isso garantin-
do uma comunidade informada e preparada para apoiar as mudan-
ças para a sustentabilidade.
Para isso se aposta em uma EA crítica e transformadora e de
exemplos práticos e exequíveis. De acordo com Guimarães (2004),
a Educação Ambiental Crítica contribui na transformação da so-
ciedade atual, visando à construção de projetos que promovam a
cidadania e a mobilização para uma nova sociedade ambiental sus-
tentável. E uma EA transformadora, como afirma Loureiro (2003),

170
Áreas Protegidas: Experiências de pesquisa e extensão no Sul do Brasil.

promove mudanças radicais, individuais e coletivas, locais e globais,


estruturais e conjunturais, entre outras, dentro do âmbito social por
meio da adoção de novas práticas, através do diálogo e da reflexão da
atividade humana, mudando o ser de forma individual e coletiva na
sociedade, nas questões econômicas, políticas e sociais, concretizan-
do, assim, a transformação integral do ser em sociedade.
Ambas teorias promovem questionamentos e abordagens com-
portamentais, visam uma redução no uso de recursos e uma melhora
na relação entre a cultura e natureza. A Educação Ambiental Crítica
e Transformadora busca uma reflexão em todos os aspectos político,
histórico, cultural, econômico, social.
É nessa perspectiva que a formação ambiental é fundamental
para a construção de novos saberes para compreender e resolver os
problemas socioambientais; é um processo que orienta e capacita
os diversos setores e atores da sociedade para a gestão ambiental
participativa do desenvolvimento sustentável. Assim, a formação
ambiental implica a elaboração de novas teorias, métodos e técnicas;
de métodos para sua incorporação nos programas de educação for-
mal e não-formal; de estratégias para sua difusão no campo acadêmi-
co, na gestão pública, na empresa privada e nas ações comunitárias
(ABELLA; FOGEL, 2000).
Um programa de educação ambiental, para ser efetivo, deve
promover simultaneamente o desenvolvimento de conhecimento,
de atitudes e de habilidades necessárias à preservação e melhoria da
qualidade ambiental. Foi um grande laboratório em que a educação
ambiental conectou o metabolismo e a identidade local, seus recur-
sos naturais e culturais na qualificação das ações prioritárias.

Cenários futuros

Chegamos em 2018 com muitas conquistas no entorno da


ESEC. A continuidade das ações iniciadas em 2001 demonstra o
quanto elas foram capazes de superar cenários políticos e econômi-

171
Taim, banhado de vida: ações sustentáveis no entorno da Estação Ecológica do Taim...

cos nada estimulantes para o trabalho coletivo e para a conservação


da natureza. Isso mostra que necessitamos de tempo, apoio institu-
cional e financeiro para que essas se potencializem e sejam apropria-
das pela comunidade. O senso de pertença que buscamos disseminar
significa que precisamos nos sentir como pertencentes a tal lugar
ao mesmo tempo em que tal lugar nos pertence, e acreditamos que
podemos interferir na rotina e nos rumos desse lugar.
A consolidação e fortalecimento dos grupos trouxeram benefí-
cios à medida que pessoas atuantes são uma necessidade, seja para a
conservação da natureza, seja para a busca de pequenos e importan-
tes passos que alcancem as condições de sustentabilidade. Socioam-
bientalmente, teremos melhorias com a incorporação da sociedade
na conservação do ambiente e na aproximação entre os objetivos de
criação da ESEC com a necessidade de sustento dos moradores do
entorno. Os benefícios econômicos estão vinculados às possibilida-
des que as ações trazem de geração de renda direta e diferenciada,
pois o ganho econômico estará diretamente vinculado à conservação
da biodiversidade.
Quanto à biodiversidade, os ganhos se mostrarão efetivos ao
longo do tempo. Uma vez continuadas as práticas propostas, o re-
lacionamento das comunidades e instituições tornar-se-á mais har-
mônico com seu ambiente e levará a uma gradual e contínua preser-
vação dos ecossistemas, da fauna, da flora, da Estação Ecológica do
Taim e do seu entorno.
Diretamente, as ações vinculadas à pesca tendem a estender a
necessidade de uso sustentável de outros banhados e lagoas da re-
gião, fazendo com que sejam compartilhados os interesses de conser-
vação da biodiversidade e de manutenção da atividade econômica.
A gestão da pesca na Vila Anselmi deu um salto de qualidade,
uma vez que as pessoas organizadas e as políticas públicas municipais
e estaduais possibilitaram acessar recursos e inserir-se em outros Pro-
gramas como o Mesa Brasil e o Fome Zero. A construção de uma sala
de filetagem, de uma fábrica de gelo e a aquisição de um caminhão

172
Áreas Protegidas: Experiências de pesquisa e extensão no Sul do Brasil.

frigorífico deu autonomia e capacidade de controle da cadeia produ-


tiva da pesca local, sendo os pescadores partícipes de todas as etapas.
Atualmente, a Associação está tentando retomar sua função, em con-
junto com outras comunidades pesqueiras na recente tentativa de criar
e fortalecer o grupo de trabalho sobre o tema no Conselho da ESEC.
A produção agropecuária baseada em princípios orgânicos/eco-
lógicos traz as vantagens do não uso de agroquímicos (fertilizantes e
defensivos), resguardando o solo e a água, ao mesmo tempo em que
fomenta a reconstrução da paisagem na propriedade e traz de volta
ambientes “naturais” essenciais à manutenção da fauna e flora local.
Essa reconstrução da paisagem, mais precisamente de banhados e
áreas alagadas, também vem diretamente ao encontro dos benefícios
esperados para a pesca – a necessidade de preservar a biodiversidade
e a manutenção da atividade econômica. O cultivo de arroz orgâni-
co, até hoje é coordenado pelo NEMA, que acompanha a produção
e certificação e possui o registro da marca Arroz Amigo do Taim.
Hoje três produtores locais produzem em cerca de 160 hectares o
Arroz Amigo do Taim. E duas empresas locais são importantes par-
ceiras – uma na produção de sementes e outra no beneficiamento,
industrialização e comercialização do produto orgânico. Um estímu-
lo para outros produtores adotarem boas práticas agrícolas. A certi-
ficação obtida permite abastecer o mercado interno e exportar para
Estados Unidos, Europa e Japão.
O programa de visitação orientada trará benefícios oriundos da
organização e normatização de uma atividade já existente e com po-
tencial de risco, e também como forma sensibilizadora da sociedade
para a conservação do local. A visitação orientada já atendeu milha-
res de pessoas pelos monitores locais, formados em 2001, e novos
monitores, formados recentemente. A ESEC tem se empenhado
para qualificar a atividade buscando recursos para a construção de
um centro de visitantes. O NEMA também desenvolveu o Projeto
Passarela da Capilha, a qual permitiu o acesso facilitado e ecológico
dos moradores e visitantes à praia da Capilha, na Lagoa Mirim.

173
Taim, banhado de vida: ações sustentáveis no entorno da Estação Ecológica do Taim...

Nesse sentido, o plano de ordenamento territorial elaborado


servirá de subsídio para a antecipação de problemas ainda peque-
nos, mas que começarão a surgir com o crescimento dos aglomera-
dos humanos e da utilização da Capilha como local de balneário.
O Plano de Ordenamento Territorial da Capilha integra atual-
mente o Plano Diretor de Rio Grande, servindo como referência
para o processo de ocupação da região. O Plano de Requalifica-
ção das Serrarias tem sido utilizado pela gestão da ESEC Taim e
pelo Ministério Público como referência para a requalificação do
espaço territorial das serrarias. Atualmente, as pequenas serrarias
estão quase extintas, tendo a principal empresa florestadora busca-
do melhorar o seu processo de gestão ambiental da área produtiva
(florestamento) e da indústria.
Outra vantagem esperada é a possibilidade que as ações priori-
tárias e seus desdobramentos, como um todo, reúnam, no futuro,
políticas governamentais de desenvolvimento, compatibilizando in-
teresses municipais, estaduais e federais.
A gestão participativa tem se consolidado nos espaços de diálogo
e representatividade dos interesses coletivos nos fóruns de pesca, co-
lônias, conselhos e grupos de trabalho. A EA como prática educativa
tem a capacidade de despertar o sentimento de pertencimento ao
lugar numa perspectiva de responsabilidade e de transcender a visão
presente no senso comum, de pertencimento associado à posse e/ou
propriedade. Busca-se o senso de pertença e a necessidade de acredi-
tar na possibilidade da construção de um novo modelo de sociedade.
Ressaltamos o trabalho do Conselho Consultivo da ESEC, for-
mada por cerca de 21 instituições governamentais e da sociedade
civil, que se dedicou a discutir, propor e articular a tão sonhada
ampliação da ESEC, materializada por meio do decreto de 2017,
passando de 11 para 32 mil hectares. Uma conquista de área que se
almejava desde a criação da ESEC em 1982. Processo esse que envol-
veu 6 anos de diálogo continuado, estudos técnicos, convencimento
político não partidário, confiança e consenso.

174
Áreas Protegidas: Experiências de pesquisa e extensão no Sul do Brasil.

Certamente a certificação da UC como sítio RAMSAR reper-


cutirá no acesso a recursos para implementação e consolidação de
pesquisas e projetos de conservação e educação ambiental.
A valorização das pessoas e do meio natural; a informação, edu-
cação e sensibilização da população são a base para que o caminho
para a sustentabilidade seja desenhado pelas comunidades na medi-
da em que elas passem a se perceber ambiente natural-cultural. Fina-
lizamos com essa bela imagem da Tachãs na Lagoa Mirim. (Figura 5)

Figura 5 - Pôr-do-sol na Lagoa Mirim

Fonte: Felipe Dumont

175
Taim, banhado de vida: ações sustentáveis no entorno da Estação Ecológica do Taim...

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177
Parque municipal Morro do Finder, a paisagem e suas imbricações: Um estudo pautado...

diferentes valores atribuídos à paisagem natural protegida apresenta-


da, elencando distintos significados fenomenológicos que podem ser
atribuídos a uma Unidade de Conservação.
É importante citar que este trabalho é resultado da revisão de
dissertação de mestrado do autor, apresentada em 2006, orientada
à época pelas professoras Sandra Maria de Arruda Furtado e Maria
Dolores Buss (ROCHA, 2006).

A geografia humanista como linha de pensamento e em-


basamento teórico

Como princípio fundamental desta pesquisa, uma primeira des-


crição a ser realizada acerca dos procedimentos metodológicos aqui
desenvolvidos refere-se à construção teórica do trabalho, baseada em
textos de livros e artigos com a finalidade de apresentar os conceitos
que regem e dão subsídios à pesquisa, como: geografia humanista,
percepção, paisagem e fenomenologia.
Nesse sentido, um princípio básico que pauta esta pesquisa é o fato
de que ao longo dos tempos a geografia se mostrou como um campo
do conhecimento que busca constantemente a compreensão do mun-
do e suas contradições no âmago das relações sociais, na apropriação e
uso do meio ambiente. Ao longo do seu processo de desenvolvimento
e construção, evidenciam-se diferentes formas de perceber, pensar e re-
fletir os fenômenos socioespaciais, sendo cada uma geradora de linhas
metodológicas, as quais são fundamentais no processo de construção
do conhecimento geográfico. Surgem assim linhas denominadas, por
exemplo: Geografia Pragmática ou Teorética2, Geografia Radical ou
Crítica3, Geografia Humanista, dentre outras.
Por esse ângulo, traçando uma linha de corte sobre o desenvolvi-
mento das linhas de pensamento de estudos geográficos, com o segui-

2 Que se baseia na utilização de matrizes matemáticas, estatística ... (SEABRA, 1999).


3 Linha de pensamento geográfico inspirada pelo materialismo histórico-dialético.
(SEABRA, 1999).

180
Áreas Protegidas: Experiências de pesquisa e extensão no Sul do Brasil.

mento dos estudos de base funcionalista surgem, principalmente na


década de 70, movimentos de discussão que ressaltam e alertam para o
fato de que, enquanto área do conhecimento enquadrada nas ciências
sociais, a Geografia pouco falava sobre os homens. Tal afirmação rei-
vindica de forma premente a necessidade de um modo de pensar em
relação a essa área do conhecimento sob um enfoque no qual a natu-
reza, a sociedade e a cultura são refletidas como fenômenos complexos
sobre os quais só se obtêm respostas a partir de experiências que se
apresentam e conforme o sentido que as pessoas dão à sua existência.
Essa nova perspectiva apresentada, tendo como um de seus
destaques o geógrafo Yi fu Tuan, despontou nesse momento como
um ressurgimento da perspectiva cultural na Geografia, denomina-
da como uma nova Geografia Cultural, ou Geografia Fenomeno-
lógica (título indicado por Edward Relph em 1971), Geografia da
Percepção, Geografia Humanística ou, enfim, Geografia Humanista
(HOLZER, 1992; OLIVEIRA, 2001; SEABRA, 1999).
Buscando um maior entendimento sobre os ideais dessa linha
de pensamento, a Geografia Humanista é definida por bases teóricas
nas quais são ressaltadas e valorizadas as experiências, os sentimen-
tos, a intuição, a intersubjetividade e a compreensão das pessoas so-
bre o meio ambiente que habitam, buscando compreender e valori-
zar estes aspectos.

A Geografia Humanista procura um entendimento do mundo


humano através do estudo das relações das pessoas com a natu-
reza, do seu comportamento geográfico bem como dos seus sen-
timentos e idéias a respeito do espaço e do lugar. (TUAN, 1982,
p. 143)

Sob esse prisma de estudo da geografia, tem-se como premissa


que cada indivíduo possui uma percepção do mundo que se expressa
diretamente por meio de valores e atitudes para com o meio ambien-
te, ou, em outras palavras, a Geografia Humanista busca a compre-

181
Parque municipal Morro do Finder, a paisagem e suas imbricações: Um estudo pautado...

ensão do contexto pelo qual a pessoa valoriza e organiza o seu espaço


e o seu mundo, e nele se relaciona.
Outro aspecto a ser destacado neste processo de consolidação
da Geografia Humanista é o fato de que essa, ao se estruturar, bus-
cou e estabeleceu para seus estudos um aporte filosófico e conceitual
baseado na fenomenologia, procurando assim entender como as ati-
vidades e os fenômenos geográficos revelam a qualidade da conscien-
tização humana (HOLZER, 1999).

a fenomenologia busca aquilo que se apresenta como o princípio


básico do pensamento filosófico, que é ampliar incessantemente
a compreensão da realidade, no sentido de apreendê-la na sua
totalidade, destacando a importância das percepções, dos fatos
sócio-ambientais, e por fim da intersubjetividade do pensamento,
que, como um todo, constitui nosso mundo-vivido, o qual envol-
ve as histórias, os sentimentos, os valores. (ROCHA, 2006, p. 14)

Assim, conforme Holzer (1997), a Geografia Humanista en-


tende o espaço como o resultado obtido a partir de paisagens mar-
cadas, construídas e constituídas de vontades, valores e memórias,
as quais são baseadas em experiências do mundo, referências so-
ciais e redes de interação, resultando assim esse conhecimento no
entendimento geográfico do mundo e no conhecimento humano
em relação aos seus sentimentos sobre o seu meio ambiente, sendo
ressaltado que o espaço, e sobretudo o mundo vivido, não se apre-
senta necessariamente como um todo homogêneo ou como uma
confusão constituída a partir de várias atividades individuais, mas
sim que ele possui maior ou menor grau de ordem e compreensibi-
lidade a partir do seu observador.
Portanto, fica reconhecido o fato de que cada visão do mundo
resulta única, pois cada pessoa habita, escolhe e reage ao meio de
diferentes maneiras, influenciadas pelos seus sentimentos e conheci-
mento, contemplando as paisagens com suas imagens particulares, o
que Tuan (1980) cita como um estender-se para o mundo.

182
Áreas Protegidas: Experiências de pesquisa e extensão no Sul do Brasil.

Assim, considera-se a percepção como uma atividade mental de


interação do indivíduo com o meio ambiente que ocorre através de me-
canismos perceptivos (visão, audição, tato, olfato e paladar) e cognitivos
(que envolvem a inteligência, incluindo como motivações humores, co-
nhecimentos prévios, valores, expectativas), sendo essencial nas análises
de estudos considerarem-se as inter-relações entre o homem e o meio
ambiente a partir das suas expectativas, julgamentos e condutas em rela-
ção tanto às paisagens naturais como também às construídas.

a paisagem se define como espaço ao alcance do olhar, mas tam-


bém à disposição do corpo; ela se reveste de significados ligados a
todos os comportamentos possíveis do sujeito. [...] O corpo tor-
na-se o eixo de uma verdadeira organização semântica do espaço
que tem por base oposições como: alto-baixo, direita-esquerda,
frente-atrás, próximo-distante. (COLLOT, 1990, p. 27-28)

Logo, conforme cita Cabral (1999), ao se realizar um estudo


reflexivo sobre a valorização da paisagem a partir de uma perspectiva
humanista tem-se, indubitavelmente, que pensar além das formas
que a compõem, dirigindo-se a atenção da pesquisa do visível para
os fenômenos vividos na busca da compreensão das maneiras pelas
quais as pessoas partilham e se relacionam com essa paisagem.

O Parque Municipal Morro do Finder, Joinville (SC)

Tendo como limites geográficos os paralelos 26º02’29” e


26º13’14” sul da Linha do Equador e meridianos 48º44’49” e
49º11’29” oeste de Greenwich e uma população superior a 500 mil
habitantes, Joinville caracteriza-se como a cidade mais populosa do
estado, tendo o seu desenvolvimento socioeconômico proveniente,
principalmente, de atividades industriais e de serviços que se conso-
lidaram com base em uma série de fatores históricos e ambientais.
Com uma ocupação delineada de forma distinta entre a área urba-
na e área rural, a cidade tem em si consolidados aspectos que ressaltam

183
Parque municipal Morro do Finder, a paisagem e suas imbricações: Um estudo pautado...

a importância da morfologia de sua paisagem como fator limitante e,


ao mesmo tempo, impulsionador para a realização de atividades resul-
tantes do desenvolvimento industrial, comercial, rural e de moradia.
Nesse sentido, em meio à área mais densamente urbanizada,
cuja ocupação foi intensificada principalmente a partir da década
de 70 com a implantação de indústrias e do aumento populacional
da cidade, têm evidência dois morros isolados com bom estado de
conservação ambiental.
Como destaque na paisagem da cidade, o Morro da Boa Vista,
localizado mais ao sul, é uma área que teve grande importância ao
longo da história relativa à questão do abastecimento de água e que
hoje se distingue pela presença de antenas de transmissão de televi-
são, de um mirante e de um Parque Zoobotânico que, dado o regis-
tro do número de visitantes que o frequentam, pode ser apontado
como um dos principais espaços de lazer da cidade.
O outro morro isolado, ao norte, o Morro do Iririú, constitui
área fundamental para esta pesquisa, e é nele que se encontra a Uni-
dade de Conservação a que se refere o tema central deste estudo.
Focando especificamente o Parque Municipal Morro do Finder,
este se localiza na parte centro-sul do Morro do Iririú, tem como via
de acesso a Rua Antônio Haritisch, lateral da Rua Piratuba, e é re-
conhecido como relevante área de importância natural de Joinville.
Com uma altitude que varia entre 35 e 195 metros, a área tem
ressaltada a sua preservação através do plano diretor e de legislação
municipal. A Lei Orgânica do Município, por exemplo, institui na
cidade que as áreas acima da cota 40 são de preservação ambiental,
além do Zoneamento de Uso e Ocupação do Solo de Joinville, que
as definem como um Setor Especial de Área Verde.
Com relação a sua história, a área de 442.600 m² (44,26 ha.)
que compõe o Parque pertenceu anteriormente a Amandos Finder e
foi adquirida pela Prefeitura Municipal de Joinville no ano de 1986,
com o objetivo específico de criação da “Reserva de Palmiteiros”. No
entanto, esse projeto não foi implantado e a ideia não se estabeleceu.

184
Áreas Protegidas: Experiências de pesquisa e extensão no Sul do Brasil.

Entre os fatores que motivaram a compra da área pela Prefeitura


Municipal de Joinville, transformando-a em espaço público, merece
destaque o fato de que, em meados de 1985, técnicos profissionais
de turismo de São Paulo foram contratados pelo poder público para
que fossem levantados dados referentes aos pontos e atrativos turís-
ticos da cidade. Eles visitaram vários locais como o Morro da Boa
Vista e o Morro do Iririú, citando este último como uma excelente
área para se investir em turismo, aguçando assim o interesse para a
sua aquisição (ROCHA, 2006).
A partir do ato da compra, em 1986, e com a mudança de pre-
feito, vereadores e técnicos meses depois, a área passou por um pe-
ríodo de “abandono”, sendo realizado apenas um estudo de análise
de viabilidade para a instalação de um empreendimento turístico
privado, no qual seria instalado um teleférico que ligaria o Morro do
Iririú ao Morro da Boa Vista, o qual se mostrou inexequível.
Na década de 90 se intensificam importantes debates relativos
à questão ambiental no município. Dentre ações importantes desse
período, é destaque a criação da Fundação Municipal do Meio Am-
biente (FUNDEMA), por meio da Lei Municipal nº 2.419 de 27 de
julho e regulamentada pelo Decreto nº 6.419 de 16 de outubro de
1990, tendo como uma de suas finalidades identificar, implantar e
administrar Unidades de Conservação e outras áreas protegidas, vi-
sando à proteção de mananciais, ecossistemas naturais, flora e fauna,
recursos genéticos e outros bens de interesse ecológicos, e estabele-
cendo normas a serem observadas nessas áreas.
Em 1991 a Fundação Municipal do Meio Ambiente iniciou a re-
alização de estudos na antiga área de Amandos Finder, especialmente
no tocante a aspectos relacionados à topografia, fauna e flora, visando
ao planejamento de criação e implantação de um parque de lazer.
Segundo um dos técnicos que foi responsável na época pelo pro-
jeto de criação do parque, a principal razão para realização de estudos
para a criação do parque baseava-se na carência de áreas de lazer, e a
proposta dos governantes da época era se estabelecer um parque ur-

185
Parque municipal Morro do Finder, a paisagem e suas imbricações: Um estudo pautado...

bano que poderia ser comparado a áreas que na época já estavam bem
estruturadas como, por exemplo, o Parque Barigui, em Curitiba.
Porém, o que ocorreu foi que os técnicos responsáveis pela pes-
quisa, ao considerarem a área como preservada, propuseram que,
além de proporcionar atividades de lazer, a mesma deveria também
assumir um papel fundamental para a preservação da natureza, ou
seja, uma área de lazer voltada também à preservação e educação.
Assim, a preocupação central do projeto foi utilizar a área de
maneira a preservar a Floresta Atlântica e ao mesmo tempo propor-
cionar educação ambiental, mostrando para as pessoas o que é a Flo-
resta Atlântica, os diversos estratos de vegetação, as espécies vegetais
e os animais presentes.
Em 1992, uma equipe técnica da FUNDEMA, em parceria
com profissionais do Instituto de Planejamento Urbano de Joinville,
entregou o projeto, que foi apreciado e gerou a criação, por meio do
Decreto nº 7.056/93, do primeiro parque destinado à preservação,
conservação e educação ambiental da Cidade de Joinville, o Parque
Municipal Morro do Finder.
Dentre as principais dificuldades da Prefeitura e da FUNDEMA
em relação à administração do Parque no período inicial após a criação
da Unidade de Conservação, ressalta-se a presença de conflitos entre
esses órgãos e entre a Fundação e a comunidade. Diversos habitantes
da área de entorno da Unidade de Conservação destacaram o fato de
que a comunidade imaginava o Parque como uma grande área de lazer
com churrasqueiras, quadras e campos de esportes, o que não ocorreu.
Vale ressaltar que tais conflitos foram minimizados ao longo do
tempo, entre outros fatores, devido à diminuição de áreas preserva-
das no contexto urbano.

Uma leitura da paisagem e suas imbricações

A escolha de intitular esta parte do artigo como uma leitura da


paisagem, e não leituras, pauta-se no fato de que, embora a paisagem

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Áreas Protegidas: Experiências de pesquisa e extensão no Sul do Brasil.

seja aqui dividida a partir de diferentes conjuntos, ela ainda assim


continua sendo única, permeada de imbricações e resulta em uma
construção/leitura que demonstra o quão complexo e plural é o en-
tendimento dessa categoria de estudo geográfica.
Diante disso, adotar-se-á o termo valorização enquanto forma
de caracterizar as diferentes considerações relativas ao Parque Mu-
nicipal Morro do Finder na condição de paisagem, tomando essa
palavra a partir da definição da mesma como qualidade, pela qual é
estimável em maior ou menor grau, relacionando, para isso, aspectos
de como as pessoas conhecem, constroem e definem sua realidade
(TUAN, 1980).
Ao se pensar a valorização da paisagem, desenvolvem-se, portan-
to, questões relacionadas à aceitação de sua existência e ao mesmo
tempo da subjetividade por ela representada como fonte de conheci-
mento, na qual as diferentes percepções não estabelecem uma paisa-
gem distinta, e sim se imbricam compondo paisagens representativas
de qualidades idiossincráticas.
Nesse sentido, o texto que segue surge como resultado de pes-
quisa qualitativa de campo, na qual pessoas, com distintos perfis de
idade e relacionamento com a Unidade de Conservação estudada,
foram abordadas, tendo como foco principal questionamentos que
buscavam respostas sobre a percepção dessas pessoas em relação ao
Parque Municipal Morro do Finder.
Logo, uma primeira percepção e relação de valor definida se dá
a partir do entendimento da paisagem enquanto espaço institucio-
nalizado, pautado no reconhecimento da área como propriedade do
município de Joinville, sobre a qual diferentes instrumentos legais
são estabelecidos, sendo destaque o seu reconhecimento como Uni-
dade de Conservação instituída.
A valorização estética foi um segundo ponto identificado.
Tuan (1980) cita que uma das primeiras noções que temos
acerca da paisagem remete-se ao ato em que os indivíduos fixam
seus olhos em um dado cenário; esse processo revela, entre ou-

187
Parque municipal Morro do Finder, a paisagem e suas imbricações: Um estudo pautado...

tros, aspectos estéticos, sentidos no contato repentino como um


fragmento da realidade que destoa sobre um dado ambiente, ou,
ainda, por meio de elementos histórico-culturais e geográficos que
se apresentam, ou por meio deles são lembrados, sendo destacáveis
nesse processo justaposições como escuridão e claridade, aconche-
go e grandiosidade.
Nos discursos dos entrevistados acerca do Parque Municipal
Morro do Finder, é constatada a influência que o mesmo tem na ci-
dade e alguns efeitos que geram em consequência em que o observa.

Diferentemente de Curitiba o que se vê quando se chega no centro da


cidade e, em especial nesta nossa região, é um morro verde em meio às
casas, o que dá um tom diferente e bem mais bonito à cidade, deixando
o dia a dia da gente bem mais agradável. (Morador do bairro Iririú)

O parque nos proporciona uma sensação muito boa, onde eu vou


lá para ver que a natureza ali ainda está preservada. (Morador do
bairro Bom Retiro)

É um lugar maravilhoso, sem preparação e fôlego pode ser cansativo su-


bir, mas, ao chegar no topo a vista paga qualquer cansaço. (Visitante)

Outra característica destacada foi a valorização utilitária da paisagem.


Bley (1999) cita que o valor utilitário da paisagem implica o
reconhecimento da representação dos diversos tipos de satisfação das
necessidades humanas que a mesma, através de si ou de fenômenos
a ela relacionados, possibilita.
Nesse sentido, foram identificadas como categorias utilitárias da
Unidade de Conservação estudada percepções da paisagem relaciona-
das às práticas de pesquisas científicas, de educação ambiental e de lazer.

Poderia ser usado como centro de pesquisas, acho que isso bene-
ficiaria as pessoas que moram aqui ao redor com informação e

188
Áreas Protegidas: Experiências de pesquisa e extensão no Sul do Brasil.

ia educá-los melhor para ajudarem a preservar o parque. O pro-


blema é que, do jeito que está, abandonado e sem nenhum tipo
de estrutura, é muito difícil alguém se interessar. (Moradora do
bairro Bom Retiro)

o Parque é mais utilizado para lazer, mas acho que poderia ser mais
utilizado na área de pesquisas. (Morador do bairro Bom Retiro)

O Parque é importante pelo que acontece aí; diariamente as esco-


las trazendo as crianças para passear no parque e conhecer; e está
tendo migração de aves e as crianças querem aprender. (Morador
do bairro Bom Retiro)

Acho importante no Parque todos os trabalhos de conscientização


sobre a preservação ambiental, em especial a preservação da Mata
Atlântica que tanto já foi agredida. (Morador do bairro Bom Re-
tiro)

Acho que a grande maioria dos visitantes hoje são alunos por en-
contros promovidos por escolas, que é muito bom. (Morador do
bairro Bom Retiro)

O Parque Municipal Morro do Finder é muito legal! Além de


ter muitas trilhas para caminhadas, você pode estar em contado
com a natureza, uma área da Mata Atlântica, ver muitos animais
e flores que quase não vê, além de ter um visual da parte leste da
cidade como a Baía da Babitonga. (Morador do bairro Iririú)

É um lugar de preservação, com alguns atrativos como trilhas e


um ótimo ponto de observação dos mangues e uma boa parte de
Joinville. (Morador do bairro Bom Retiro)

189
Parque municipal Morro do Finder, a paisagem e suas imbricações: Um estudo pautado...

O Parque é muito bonito porque lá em cima as trilhas em si são


muito bonitas e muito bem cuidadas e ainda tem lá em cima a
vista da Baía da Babitonga que quem olha vê até o porto lá em
São Francisco. (Gestor)

O parque é utilizado hoje mais como forma de lazer, a não ser nas
trilhas de bike onde pode ocorrer um pouco mais de aventura.
(Visitante de Brusque)

É um local com grande arborização, com trilhas para trekking


e bicicletas onde você além de esporte relaxa vendo a natureza.
(Visitante do Parque, ex-morador do bairro Iririú, atualmente re-
sidindo em Rio Negrinho)

Outro atributo do local é evidenciado no valor de afetividade


baseado em questões identitárias, o que corrobora com a informação
apresentada por Kohlsdorf (2001, p. 190) ao citar que “no campo
afetivo, memória e identidade são indissociáveis porque a primeira
indica a coerência da história interior e a identidade, como perma-
nência no tempo, constrói a história do sujeito”.

Minha relação com ele é assim de amizade, de familiaridade com


o meu passado. (Morador do bairro Bom Retiro)

Eu gosto muito de caminhar naquele parque, pelo clima, pela sensa-


ção que eu tenho, pela forma com que eu me relaciono com a mata,
com as árvores, com o chão, com aquela água corrente, aquilo tudo
me reporta a minha vida passada, a minha infância, a minha adoles-
cência, e aquilo me conforta muito. Sair daqui do barulho do urbano
me conforta muito. (Morador do bairro Bom Retiro)

A paisagem como local de trabalho foi mais um valor mencionado.

190
Áreas Protegidas: Experiências de pesquisa e extensão no Sul do Brasil.

O Morro do Finder representa para mim um local de trabalho aonde


você cria um vínculo de amizade lá dentro, tanto do próprio amigo que
trabalha como o pessoal que vai lá visitar o morro, e consequentemente
com isso aí você passa os teus dias lá assim bem interessante. Você tem
conhecimento das outras pessoas, conversa com as outras pessoas que vão
lá visitar o morro, e também a gente fica usufruindo aquela beleza da
natureza, respirando ar puro, vendo os passarinhos. (Gestor)

Outro aspecto valorizado foi o de paisagem como reserva, o qual in-


cita diferentes ideias que podem ser apresentadas referindo-se, principal-
mente, à questão do parque como fornecedor e mantenedor de atributos
naturais; ou seja, aqui é realizada a representação do Parque Municipal
enquanto resguardador de um patrimônio, assegurador da presença e exis-
tência dos recursos naturais nele contidos para as gerações futuras.

É um lugar de rara beleza que está encontrado na maior cidade cata-


rinense e que possui vários exemplares da fauna e flora ameaçados de
extinção. (Visitante que estava no parque a estudo)

Representa um pedaço de Mata Atlântica, ou melhor, o que deste


bioma que precisa ser salvo. (Morador do bairro Bom Retiro)

Um lugar de preservação. (Morador do bairro Iririú)

O parque serve para preservar a natureza, preservar a água, porque se


derrubar as árvores acaba com a água, até porque tem mais ou menos
uns seis córregos que nascem lá no morro e que a turma que tão lá
usando. (Morador do bairro Iririú)

Para garantir a sustentabilidade em relação à disponibilidade de


água potável (nascentes), estabilidade climática, biodiversidade,
manutenção da paisagem. (Morador do bairro Bom Retiro)

191
Parque municipal Morro do Finder, a paisagem e suas imbricações: Um estudo pautado...

Acho que só o fato de ter aquela área verde, aquele pulmão como mui-
tos chamam, não sei se é pulmão, mas aquela área verde, acho que
tem um significado, uma importância muito grande; ... na minha
casa às vezes não está chovendo, mas naquele morro está chovendo.
Muitas vezes chove naquele morro e chega na minha casa, mas em
outras partes da cidade não chega. Então acho que ele dá um certo
equilíbrio no meio ambiente, no ar, na poluição. Ele tem que existir.
(Morador do bairro Bom Retiro)

O Parque Morro do Finder também foi identificado a partir da valo-


rização da paisagem como espaço gerador de incômodo, medo e restrição.
Dentre os habitantes da área de entorno do parque um discurso cha-
mou a atenção para a paisagem incômodo, medo e restrição, e para ou-
tros de forma isolada ou ambivalente, ou seja, o que para alguns remete à
noção de medo, foi apresentado por outros como um sinal de incômodo.

... é um incomodo. Eu lembro que muitas pessoas no início quando ele


foi criado que não acreditavam que eu ia lá sozinha. Porque aquele
morro era associado ao “maconheiro”. Então as pessoas sempre me per-
guntavam se eu não tinha medo de andar por lá sozinha. Eles viam
aquele morro como coisa perigosa. (Morador do bairro Bom Retiro)

... pessoas que moram lá perto que eu conversei me falavam que era
um espaço onde elas não tinham o direito de usar e que de repente
não podiam mais tirar madeira, tirar palmito, então o parque in-
comodava porque restringiu algumas pessoas de fazerem coisas que
anteriormente elas faziam. (Morador do bairro Bom Retiro)

Como contraponto existe também a valorização econômica, o


que pode ser observado a partir do fato de que, a partir da criação
da Unidade de Conservação e a restrição à construção e consequen-
te preservação ambiental, aliada a outros fatores, houve valorização
financeira de parte dos imóveis na área do entorno do Parque, espe-
cialmente no eixo de acesso a ele e áreas adjacentes.

192
Áreas Protegidas: Experiências de pesquisa e extensão no Sul do Brasil.

Com relação à valorização da paisagem como espaço de atuação


política e de gestão, deve-se ressaltar que são diversos os interesses
políticos que envolvem esse espaço e que, por ser o Parque Munici-
pal Morro do Finder administrado pelo poder público, podem ser
vários os níveis de impactos resultantes.

A criação do parque foi utilizada mais politicamente assim, para


aparecer, do que propriamente a função que ele deveria ter tido de
proporcionar a preservação da área e a educação ambiental. Fiquei
bastante decepcionado. A partir da inauguração ele está bastante lar-
gado e eu fico desgostoso com isso. O Parque era para ter dado um
impulso na Educação Ambiental aqui em Joinville, mas infelizmente
foi desviado do objetivo inicial dele. (Gestor)

Política é assim né, muda de política, muda de comando. E vem uma


pessoa que não tem capacidade nenhuma de comandar uma área de pre-
servação ambiental. Os cargos públicos são nomeados e quem tem que vir
trabalhar aqui é quem tem conhecimento e tem amor pelo que faz. Quem
está fazendo, faz só para ganhar um dinheirinho no final do mês. (Gestor)

Esta questão do parque como espaço de atuação política e de


gestão mostra-se como o grande desafio e o maior problema a ser
superado em relação ao Parque Municipal Morro do Finder, sendo
um dos aspectos mais citados em relação à Unidade de Conservação.

Considerações

Uma premissa deste trabalho refere-se ao fato de que, mesmo


que olhemos para uma mesma direção, mesmo tendo vivenciado
uma experiência comum em um mesmo local em uma mesma hora,
mesmo estando à frente de diversos elementos comuns, as paisagens
nunca têm a mesma representação para todos.
Analisando essa questão, Collot (1990, p. 22) cita que “a pai-
sagem não é um objeto autônomo em si em face do qual o sujeito

193
Parque municipal Morro do Finder, a paisagem e suas imbricações: Um estudo pautado...

poderia se situar em uma relação de exterioridade; ela se revela numa


experiência em que sujeito e objeto são inseparáveis, não somente
porque o objeto espacial é constituído pelo sujeito, mas também
porque o sujeito, por sua vez, aí se acha envolvido pelo espaço”.
Logo, analisando o Parque Municipal Morro do Finder, vários
são os elementos e simbolismos que constituem o significado des-
sa paisagem para as pessoas, sendo aqui destacados a partir de três
grupos sociais (gestores, visitantes e habitantes locais) que, embora
sejam considerados distintos, cada qual com suas idiossincrasias, na
prática apresentam ideias complementares e fazem dessa Unidade de
Conservação uma paisagem valorizada.
A partir das percepções, constituídas de diferentes valores e sen-
timentos, o presente trabalho classificou diferentes discursos, bus-
cando analisá-los de forma a refletir sobre o Parque Municipal Mor-
ro do Finder e os diferentes valores atribuídos à paisagem natural
protegida apresentada, elencando distintos significados fenomeno-
lógicos que podem ser atribuídos a uma Unidade de Conservação.
Sobre essa questão, vale aqui citar Bley (1999, p. 135), para
quem “a natureza dos valores é muito complexa e sua classificação
extremamente controvertida. Sobre o valor da paisagem [...] os valo-
res não são, os valores valem e, portanto todas as paisagens, em todos
os seus pontos de vista têm valor”.
Nesse sentido, assim como nos estudos realizados por Meinig (2002)
e Cabral (1999), chega-se às considerações com diversas versões sobre uma
mesma paisagem, que neste caso resultou em distintas categorias de aná-
lise. No entanto, vale frisar que essas são meramente didáticas/metodoló-
gicas, uma vez que o único meio para se buscar compreender uma paisa-
gem é a partir de um recorte espaço-temporal, pesquisando-se o máximo
possível de percepções, opiniões e divergências acerca do objeto analisado.
Reconhecer as Unidades de Conservação enquanto paisagens vivas, ex-
plicadas a partir do fato de que toda paisagem é constituída não apenas de
elementos físicos, mas também com base em percepções construídas diaria-
mente, foi um dos desafios principais que o presente artigo buscou abordar.

194
Áreas Protegidas: Experiências de pesquisa e extensão no Sul do Brasil.

Referências

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195
Parque municipal Morro do Finder, a paisagem e suas imbricações: Um estudo pautado...

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196
Conflitos socioambientais entre áreas protegidas e atividade pesqueira no “Albardão”,...

Essa visão institucional passa pelo ideário de “conservação da


natureza intocada”1, o que resulta na proposição e criação de um
conjunto de Unidades de Conservação, como pretensas amostras
dos “ambientes originais”, protegidos da “destruição”. Para a con-
secução desses objetivos, não se medem esforços na “remoção dos
invasores”, ou seja, aquelas atividades atuantes nas áreas em questão;
assim, tanto as comunidades de pesca artesanal como as frotas de
pesca industrial tendem a serem desconsideradas em suas necessida-
des e direitos históricos quanto à ocupação e atuação sobre os terri-
tórios e recursos naturais pesqueiros.
A progressiva degradação das condições socioambientais dos sis-
temas naturais e socioculturais provoca, também, reações dos seus
usuários, que visam contrapor-se à derrocada das bases de sustenta-
ção vital e dignidade humana. Essas reações, muitas vezes percebidas
pelos sistemas gestores do “capital natural” (da biodiversidade e dos
recursos pesqueiros) como problemas socioambientais, são apenas
um dos muitos sintomas da crise estrutural do sistema socioeconô-
mico e do aparato administrativo vigente.
Nesse caso, são exatamente as reações e contradições de pesca-
dores artesanais e da frota industrial por Justiça Ambiental2, buscan-
do resguardar seus territórios, modos de vida e trabalho, aquelas que

1 A noção de mito naturalista, da natureza intocada, do mundo selvagem, diz respeito a


uma representação simbólica pela qual existiriam áreas naturais intocadas e intocáveis pelo
homem, apresentando componentes num estado “puro” até anterior ao aparecimento do
homem. Esse mito supõe a incompatibilidade entre as ações de quaisquer grupos humanos
e a conservação da natureza. O homem seria, desse modo, um destruidor do mundo natural
e, portanto, deveria ser mantido separado das áreas naturais que necessitariam de uma
“proteção total” (DIEGUES, 2001, p. 53).
2 Se ação política diz especificamente respeito à divisão do mundo social, podemos
considerar que na política dos mapeamentos estabelece-se uma disputa entre distintas
representações do espaço, ou seja, uma disputa cartográfica que se articula às próprias disputas
territoriais. Essas disputas, por sua vez, tendem a acirrar-se, mais ou menos explicitamente,
quando as formas socioterritoriais estabilizadas sofrem alterações significativas – como é o
caso das transformações sócio-espaciais associadas à liberalização das economias no final do
século XX (ACSELRAD; COLI, 2008, p. 14).

198
Áreas Protegidas: Experiências de pesquisa e extensão no Sul do Brasil.

podem contribuir na revitalização desse modelo arcaico de gestão


excludente e autoritário, e tensionar politicamente, para a adoção de
modelos alternativos, que busquem equalizar os custos e benefícios
coletivos da apropriação sobre os territórios e “recursos” naturais.
Neste ensaio, desenvolvemos a análise crítica dos principais conflitos
socioambientais entre as propostas de criação de Áreas Protegidas e
a atividade pesqueira no Albardão, litoral do extremo sul do Brasil.
A partir da revisão e indexação de um conjunto de publicações
técnicas, científicas e legais disponíveis sobre o tema e a região, estru-
turou-se um banco de dados e um sistema de informações geográ-
ficas, seguido da análise documental das mesmas, com foco na rele-
vância para a conservação da biodiversidade e a atividade pesqueira,
e os conflitos entre a gestão ambiental e a gestão pesqueira. Com
base nos critérios da (In)Justiça Ambiental3, procedeu-se à elabora-
ção e discussão de uma matriz dos cenários preditivos4, em termos de
impactos socioambientais decorrentes das referidas opções de gestão
socioambiental regional:

1. sem a criação de uma Área Protegida;


2. com a criação de uma Área Protegida (como Parque Nacional
Marinho);
3. com a criação de um Mosaico (expandido e compacto) de UCs.

Por fim, discorre-se sobre os principais desafios a serem supera-


dos para a efetiva implantação da Área Protegida proposta.

3 Injustiça Ambiental: o mecanismo pelo qual sociedades desiguais, do ponto de vista


econômico e social, destinam a maior carga dos danos ambientais do desenvolvimento às
populações de baixa renda, aos grupos sociais discriminados, aos povos étnicos tradicionais,
aos bairros operários, às populações marginalizadas e vulneráveis (RBJA, 2002).
4 A construção de cenários prospectivos é uma tarefa importante para o conhecimento
das dimensões da questão ambiental e para contribuir na busca de soluções para superá-la.
A metodologia SPIR (State, Pression, Impact and Response) é adequada para descrever as
ações que os diferentes agentes sociais exercem sobre as condições ambientais, bem como
para orientar os gestores na tomada de decisão (SANTOS; CÂMARA, 2002, p. 295).

199
Conflitos socioambientais entre áreas protegidas e atividade pesqueira no “Albardão”,...

Relevância para a Conservação da Biodiversidade e da


Atividade Pesqueira

O litoral do Rio Grande do Sul (RS) configura-se em um sítio ge-


ográfico de elevada biodiversidade e produtividade biológica, devido ao
aporte de nutrientes das bacias hidrográficas do Sistema Lagunar Patos-
-Mirim (Brasil) e do Rio da Prata (Uruguai e Argentina), e a alternância
sazonal das correntes do Brasil e das Malvinas (ASEFF, 2006); esta pro-
dutividade biológica repercute diretamente na sua acentuada produção
pesqueira (HAIMOVICI et al., 1996; MIRANDA et al., 1973).
Além da representatividade da Lagoa Mirim, como área de re-
produção e alimentação de diversas espécies de peixes limnícolas
(GARCIA et al., 2006), essenciais às comunidades de pesca artesanal
instaladas na região (PIEVE et al., 2009), a sua margem nordeste abri-
ga uma grande extensão de banhados, reconhecidos como sítios de
refúgio, alimentação e/ou reprodução de aves aquáticas residentes e
migratórias (GUADAGNIN et al., 2005). O corpo hídrico da Lagoa
Mangueira representa um manancial de água doce alcalina e nutritiva;
essas águas percolam através do substrato, atingindo a linha de costa
(ATTISANO et al., 2008), contribuindo para a elevada produtividade
natural na área dos “Concheiros” e “Parcéis” do Albardão.
Os campos de dunas frontais e a linha de costa também são
importantes como áreas de alimentação, descanso e reprodução de
numerosas espécies de aves costeiras, residentes e migratórias (VO-
OREN; CHIARADIA, 1990). A área envolvendo os “Concheiros”
e os “Parcéis” do Albardão constitui expressiva concentração de re-
cursos pesqueiros sobre-explotados e/ou de espécies ameaçadas, pela
incidência da pesca artesanal e industrial sobre os seus estoques re-
produtivos e neonatos (elasmobrânquios), e a captura incidental da
toninha Pontoporia blainvillei e tartarugas marinhas (RAMOS; VAS-
CONCELOS, 2011, SECCHI et al., 1997).
Os expressivos estoques pesqueiros regionais, que sustenta-
ram, durante décadas, as comunidades de pesca artesanal e uma

200
Áreas Protegidas: Experiências de pesquisa e extensão no Sul do Brasil.

vigorosa frota industrial, com seu parque fabril associado, vêm


apresentando inequívocos sinais de sobre-explotação, e/ou claros
indícios de redução de suas populações, como os elasmobrân-
quios Squatina oculta, S. guggenheim, Mustelus fasciatus, Sphyrna
lewini e S. zygaena (VOOREN; KLIPPEL, 2005).
Nesse contexto, vem sendo construída a proposta de criação de
uma Unidade de Conservação, visando a garantir as condições para
a sobrevivência e reprodução de uma parcela representativa das es-
pécies mais ameaçadas e dos recursos pesqueiros (BRAUER et al.,
2016; ICMBIO, 2010; PNUD, 2010). Porém, como a região é hoje
a principal área remanescente da pesca intensiva no litoral sul brasi-
leiro, existe um potencial conflito de interesses, entre os objetivos de
longo prazo da conservação ambiental e os objetivos e necessidades
imediatas da atividade pesqueira, amplificando a situação de (In)
justiça Ambiental na repartição social dos custos e benefícios da apro-
priação dos espaços e recursos comuns.

Conflitos da Gestão Pesqueira e Ambiental na Região


O Incentivo ao Incremento do Esforço de Pesca

Apesar das indicações, nas políticas públicas vigentes, de um siste-


ma de Gestão Compartilhada dos recursos pesqueiros entre o IBAMA
(Ministério do Meio Ambiente) e o Ministério da Pesca e Aquicul-
tura, na prática cotidiana, constata-se que cada uma dessas agências
tem orientações e determinações muitas vezes contraditórias e/ou
conflitantes sobre o tema. Nesse caso, a utilização da expressão Gestão
Compartilhada contraria as premissas que regem este campo aplicado
à gestão ambiental, por explicitar a sua aplicação semântica descola-
da da práxis institucional (KALIKOSKY et al., 2006); por maiores e
mais contundentes que sejam os dados disponíveis sobre o colapso
biológico de muitos dos estoques das populações-alvo das atividades
pesqueiras, e por mais intensos que sejam os esforços e medidas dire-
cionadas (pela agência reguladora ambiental), na perspectiva de redu-

201
Conflitos socioambientais entre áreas protegidas e atividade pesqueira no “Albardão”,...

ção do esforço de pesca das mesmas, prevalece a tendência de apoio


e financiamento ao incremento contínuo do esforço de pesca, como
se os gestores responsáveis (pela agência promotora da pesca) ainda se
mantivessem vinculados ao mito dos “recursos ilimitados do mar”5.

A Necessidade de Ordenamento do Esforço de Pesca

Apesar da expressiva produtividade biológica dos ecossistemas la-


gunares, costeiros e oceânicos na região, existem documentadas cons-
tatações quanto ao super dimensionamento da frota atuante e do seu
respectivo esforço de pesca, que vêm comprometendo a manutenção
da capacidade de suporte desses ecossistemas (RAMOS; VASCON-
CELOS, 2011), aproximando-se da descrição da “Tragédia dos Co-
muns” (HARDIN, 1968), provocando a progressiva redução nos
estoques disponíveis, a redução no tamanho das presas capturadas e
a inviabilidade ecológica e econômica da continuidade da pesca de
diversas espécies sobre-explotadas e/ou ameaçadas de extinção (HAI-
MOVICI; VELASCO, 2001). Essa situação deve ser encarada de
modo objetivo, procurando-se estratégias que permitam conciliar a
conservação dos ambientes e espécies, com a manutenção da atividade
pesqueira e seu significado cultural e econômico regional.
Dentre as alternativas disponíveis para tal, não se pode prescindir
de um programa de ordenamento do esforço de pesca, que busque
adequar as áreas, períodos, categorias e atividades de pesca compatíveis
com a capacidade de recuperação e renovação dos seus estoques de es-
pécies-alvo; isso implica medidas de gestão ambiental integrada, com
efetiva participação de representantes de todos atores e setores sociais
envolvidos, e não apenas de alguns técnicos das agências reguladoras.

5 salvo poucas exceções, a pesca na Zona Econômica Exclusiva (ZEE) do Brasil, faixa de
350 km a partir da costa, está sendo feita de forma insustentável. “O REVIZEE mostra
com clareza a inexistência de estoques de pescado capazes de gerar ou sustentar um
aumento significativo da produção” (Carmen Lúcia Del Bianco Rossi-Wongtschowski. In:
GERAQUE, 2005).

202
Áreas Protegidas: Experiências de pesquisa e extensão no Sul do Brasil.

O primeiro passo para a elaboração de um plano de manejo


seria definir quais são os objetivos que se quer atingir; entre eles,
podem ser citados: eficiência econômica, alocação de recursos, pre-
servação ambiental e manutenção do pescador na atividade de ma-
neira sustentável (DUMONT, 2003). Entre os objetivos biológicos,
pode-se destacar a preservação do estoque desovante, evitando que
este diminua a tal ponto que o número de recrutas gerados não seja
suficiente para a manutenção da pesca. Muitos dos estoques pes-
queiros colapsaram devido à falha no recrutamento (HILBORN;
WATERS, 1992); entretanto, sabe-se que em muitos casos a relação
entre estoque desovante e recrutamento é pouco conhecida.

As Propostas de Gestão Pesqueira e Ambiental para o Litoral RS

1. Gestão Ambiental x Exclusão Pesqueira: situada no


paradigma preservacionista stricto sensu, a primeira proposta regional
(VOOREN; KLIPPEL, 2005) visava à criação de 05 Áreas de
Exclusão de Pesca (AEPs); desse conjunto, duas incidiriam sobre a
área do presente estudo: a AEP Costa Sul, entre o molhe oeste de
Rio Grande e o Arroio Chuí (com 200 km de costa, até 20 metros de
profundidade e área de 3.954 km² de superfície) e a AEP Plataforma
Sul (entre as isóbatas de 50 e 200 metros de profundidade), desde o
Albardão até o Chuí, na fronteira com o Uruguai.
As discussões sobre a viabilidade de tais Áreas de Exclusão de
Pesca6 foram centradas nas recomendações da Reunião Técnica sobre
a Pesca de Emalhe no Litoral Brasileiro (CEPSUL/IBAMA, 28/08 a

6 Áreas ou Zonas de Exclusão de Pesca correspondem ao fechamento temporário


ou permanente de áreas marinhas, de forma a viabilizar a recuperação e/ou o manejo de
estoques pesqueiros de espécies sobreexplotadas, visando atingir a sustentabilidade pesqueira
(...). Essas áreas são delimitadas por meio de portaria do órgão gestor do meio ambiente
integrante do SISNAMA, quando dentro de unidades de conservação de uso sustentável,
ou devem ser estabelecidas conjuntamente pelo MMA e pelo Ministério da Pesca e
Aquicultura (MMA, sd). Disponível em: http://www.mma.gov.br/quem-%C3%A9-quem/
item/388-%C3%A1reas-de-exclus%C3%A3o-de-pesca.html (Acesso em: 12 Julho 2019).

203
Conflitos socioambientais entre áreas protegidas e atividade pesqueira no “Albardão”,...

01/09/2006) e na proposta de criação de uma Área Marinha Protegi-


da frente à Estação Ecológica do Taim. Na avaliação do setor, a proibi-
ção da pesca de emalhe dentro das 05 milhas da costa inviabilizaria a
pesca da corvina, principalmente em áreas costeiras; para as demais
espécies poderia funcionar, já que são capturadas também em áreas
mais distantes da costa. Por mais criteriosa que tenha sido a defini-
ção dessas Áreas de Exclusão de Pesca quanto aos aspectos da biologia
da conservação, no processo de tomada de decisão da gestão pes-
queira e ambiental, faz-se necessário buscar um ajuste razoável entre
o conjunto de argumentos técnicos e científicos da área ambiental,
com os argumentos socioeconômicos e políticos envolvidos7.
Nesse sentido, os limites propostos para a AEP Costa Sul con-
tribuiriam eficazmente para a proteção e recuperação dos estoques
reprodutivos de elasmobrânquios e demais taxas associados a estes
ambientes, porém cerceariam a atividade de pesca artesanal em toda
a linha de costa, inviabilizando definitivamente o exercício profissio-
nal e o estilo de vida das comunidades remanescentes; similarmente,
é notório o mérito ecológico da proposição da AEP Plataforma Sul,
porém, seus limites inviabilizariam o exercício da atividade da frota
pesqueira industrial, naquela que é hoje a principal área de pesca no
sul do Brasil (FERREIRA, 2011).
2. Gestão Pesqueira x Inclusão Social: uma contribuição signifi-
cativa para as iniciativas de gestão socioambiental da pesca regional
remete à primeira proposta, concebida em termos consensuais e in-
tegradores, de criação de Áreas de Exclusão de Pesca (AEPs) marinhas
no Rio Grande do Sul (PERES et al., 2007), através de processo de
gestão participativa junto a pescadores artesanais de 11 comunida-
des no Litoral Norte RS. Além de diminuir drasticamente o esforço

7 Além de moroso, o processo de implementação de AEP’s nas áreas profundas da ZEE


brasileira tem sido afetado pela: a) a evidente fragilidade do Estado brasileiro em acordar,
implementar e fiscalizar ações de ordenamento pesqueiro, e b) o fato do setor pesqueiro
industrial, apesar de participar democraticamente da aprovação dessas ações em nível de Estado,
encontrar, a posteriori, mecanismos de obter a tolerância das autoridades ao descumprimento das
mesmas, entre outras medidas restritivas da pesca (PEREZ; MAIDA, 2007, p. 222).

204
Áreas Protegidas: Experiências de pesquisa e extensão no Sul do Brasil.

de pesca, a implantação dessas AEPs seria um mecanismo importan-


te de proteção de áreas críticas para a conservação da biodiversidade.
Essa iniciativa valoriza o Conhecimento Ecológico Tradicional
(BERKES, 1999) dos pescadores, por entender que os mesmos
detêm grande conhecimento, aplicável e necessário nos estudos ic-
tiológicos, na biologia pesqueira, no manejo científico da pesca, na
biologia da conservação marinha e no desenho e manejo de Áreas
Marinhas Protegidas (GERHARDINGER et al., 2009); tais autores
destacam a necessidade de envolver de modo consistente as comuni-
dades locais, as quais devem ser encaradas como parceiras em todos
os estágios da pesquisa e da gestão ambiental, sugerindo uma série de
contextos favoráveis para a incorporação do Conhecimento Ecológico
Tradicional na gestão ambiental (GERHARDINGER et al., 2009).
3. Gestão Ambiental x Exclusão Pesqueira e Social: reforçando a
perspectiva preservacionista, mas excludente da atividade e das comuni-
dades pesqueiras, o Instituto Chico Mendes para Conservação da Bio-
diversidade propôs a criação do Parque Nacional Marinho do Albardão
(ICMBIO, 2010), entre os faróis do Sarita e Albardão, a Lagoa Man-
gueira (desde sua margem leste até o campo de dunas costeiras), além de
03 áreas disjuntas de banhados, e a margem nordeste da Lagoa Mirim.
Face à complexidade sistêmica regional, com tão ampla biodi-
versidade, produtividade biológica e a presença de espécies amea-
çadas, bem como a relevância socioeconômica e cultural da mesma
para a atividade pesqueira, compreende-se que a proposta de criação
deste Parque Nacional Marinho do Albardão, com todo o conjunto
resultante de conflitos de interesses dentre seus diferentes usuários,
pode não ser a estratégia mais recomendada, em termos de Desenvol-
vimento Territorial Sustentável8, para a sociedade e para os objetivos

8 ...este conceito (...) refere-se, antes, a um tecido cultural gerador de estratégias


endógenas ou autodeterminadas de desenvolvimento, baseadas no ideal de empoderamento. Sem
autonomia não poderíamos falar de governo local, mas apenas de administração local; e
sem a instauração efetiva dos princípios de subsidiariedade e de interdependência negociada
a instauração de sistemas de planejamento e gestão compartilhada torna-se impensável
(VIEIRA, 2009, p. 52, grifos nossos).

205
Conflitos socioambientais entre áreas protegidas e atividade pesqueira no “Albardão”,...

defendidos pela instituição. Essa inadequação pode ser condensada


em duas categorias de argumentos (FERREIRA, 2014):

a) a criação de um Parque Nacional Marinho (enquanto uma das


categorias de UCs de Proteção Integral) determinaria a exclusão total das
atividades socioeconômicas dentro dos seus limites, gerando uma série de
impactos sociais diretos sobre as comunidades e representantes políticos
das categorias sociais atingidas (pescadores artesanais, pescadores da frota
industrial, armadores e industriais da pesca), incrementando os conflitos
nas interações transescalares9, o que promoveria sua radical rejeição
e inviabilizaria sua aceitação em quaisquer processos minimamente
participativos, sepultando assim a perspectiva de legitimidade e a
potencial eficácia dos esforços em prol da conservação ambiental na
região em foco;

b) a perspectiva da efetiva conservação dos espaços e recursos naturais da


região necessita ter aderência social e comunitária, a qual só pode ser obtida
quando os sujeitos e atores sociais forem verdadeiramente envolvidos no
processo decisório, e tiverem, pelo menos parcialmente, atendidas suas
expectativas e necessidades, tornando-se beneficiários e não excluídos do
mesmo, passando a ser parceiros e colaboradores da iniciativa proposta.

Desdobramentos Sociais da implantação de Áreas Mari-


nhas Protegidas

Uma política de gestão ambiental deve incorporar o papel ativo


dos ecossistemas como agentes da mudança política, e uma compre-
ensão de sua diversidade e dinâmica (PETERSON, 2000; ROBBINS,
2004). As aproximações ecológicas à gestão ambiental devem ser re-

9 Nas Conexões Institucionais Transescalares, a integração horizontal perpassa diferentes


setores, através do espaço, e simultânea e sinergicamente, a integração vertical permeia
diferentes escalas, através dos diversos níveis de organização política (BERKES, 2005).

206
Áreas Protegidas: Experiências de pesquisa e extensão no Sul do Brasil.

forçadas por uma compreensão da dinâmica política de como essas


se relacionam às ações humanas (CUMMING; PETERSON, 2005).
Muitos pesquisadores dos recursos naturais frequentemente negli-
genciam a política das sociedades humanas; essa atitude pode condu-
zir a recomendações científicas que ignoram as causas determinantes
do comportamento humano, tais como as forças políticas que influen-
ciam e como os povos aprendem, as dimensões políticas que determi-
nam quais eventos são considerados crises e que tipos de coisas são
considerados como propriedades (MARTÍNEZ-ALIER, 2002). Tais
pontos cegos podem fazer com que os pesquisadores dos recursos na-
turais forneçam conselhos ou fórmulas inadequadas, ou podem con-
duzir ao seu emprego desastroso (GUNDERSON et al. 1995; LU-
DWIG et al., 1993), com severas consequências sociais. Dependendo
do contexto, os altos níveis de incerteza podem ter efeitos diferentes na
gestão ambiental; podem conduzir à inércia, porque pode ser muito
difícil determinar o melhor plano de ação quando esta é elevada; mas
também podem fornecer as oportunidades que inspiram a ação, pro-
movendo a opinião que o futuro é maleável e que os futuros desejados
são atingíveis (NEY; THOMPSON, 2000).
Nunca é demais relembrar que as Áreas Marinhas Protegidas tendem
a restringir diversos tipos de direitos tradicionais dos pescadores, como
o acesso (quem poderia entrar), a captura (o equipamento que poderia
ser utilizado, o que os participantes poderiam capturar e o que fazer com
esses recursos), o manejo (alteração nas regras de gestão dos territórios
e recursos: onde, quando e como poderiam operar), a exclusão (deslo-
camento e impedimento de operação) e a alienação (impedimento de
operação e participação na gestão); tais restrições determinam impactos
diretos e indiretos sobre a cultura, o capital social, a educação, a saúde, o
bem-estar social e a governança das comunidades regionais (MASCIA;
CLAUS, 2008, p. 19-20). Essas restrições necessitam ser consideradas,
em conjunto com os respectivos potenciais ecológicos e socioeconômi-
cos de cada uma das opções disponíveis, quando da elaboração e imple-
mentação das propostas de Áreas Marinhas Protegidas.

207
Conflitos socioambientais entre áreas protegidas e atividade pesqueira no “Albardão”,...

Proposta Alternativa de Área Protegida

Neste marco conceitual, entendemos a necessidade de que a


Área Protegida proposta seja efetivamente implantada na região,
mas discordamos do seu enquadramento na categoria de Parque
Nacional, devido à série de restrições legais que tal categoria de
UC implicaria para o exercício da atividade pesqueira. As carac-
terísticas socioambientais da região recomendam a implantação
de um Mosaico de Unidades de Conservação, resguardando a es-
trutura e função ecológica dos ecossistemas, promovendo a pro-
gressiva recuperação das espécies e estoques ameaçados, de modo
concomitante à conservação da integridade dos modos de vida
das comunidades tradicionais de pesca artesanal e a viabilidade
econômica da pesca industrial atuante na região, com manejo
sustentável dos recursos naturais, devidamente regrados.
No caso em estudo, foi elaborada uma matriz conceitual, elen-
cando os aspectos potenciais e as restrições mais significativas das
referidas opções de gestão ambiental e pesqueira: (a) sem a criação
de uma Área Protegida; (b) com a criação de uma Área Protegida
(como Parque Nacional Marinho); (c) com a criação de uma Área
Protegida, como Mosaico de Unidades de Conservação (com mode-
los expandido e compacto):

As análises desenvolvidas revelaram que a proposta do Mosaico


Expandido de UCs exibe melhor ajuste dos custos e benefícios
socioambientais, incrementa os potenciais para conservação da
biodiversidade (pela abrangência e conectividade ecossistêmi-
ca entre a bacia hidrográfica e a zona costeiro-marinha) e mini-
miza as restrições espaço-temporais para a atividade pesqueira,
equalizando-as entre as diversas categorias de atores sociais,
em função de suas distintas escalas de operações, resiliência,
capitais tecnológico e econômico. (MATTOS; FERREIRA,
2018, p. 193)

208
Áreas Protegidas: Experiências de pesquisa e extensão no Sul do Brasil.

Face o reconhecido significado ecológico dessa região, o Mosaico de


Unidades de Conservação10 proposto também poderia contribuir para a
estruturação de um Corredor Ecológico11, conectando estas Áreas Mari-
nhas Protegidas12 do extremo sul do Brasil com a porção setentrional do
Sistema de Áreas Protegidas do Uruguai, através de sua AMP Cerro Verde
(LOPEZ et al., 2011), viabilizando as possibilidades de manejo binacio-
nal dos espaços e recursos naturais compartilhados, assim protegendo
muitas das espécies-bandeiras notadamente migratórias ou com gran-
des deslocamentos sazonais, que se utilizam habitualmente dessa região
transfronteiriça (MATTOS; FERREIRA, 2018, p. 193).

10 Mosaico de Unidades de Conservação é um modelo de gestão que busca a participação,


integração e envolvimento dos gestores de UCs e da população local na gestão das mesmas,
de forma a compatibilizar a presença da biodiversidade, a valorização da sociodiversidade e
o desenvolvimento sustentável no contexto regional. O reconhecimento de um mosaico se
dá quando existir um conjunto de UCs próximas, justapostas ou sobrepostas, pertencentes a
diferentes esferas de governo ou não. O estabelecimento de um mosaico contribui também
para a transposição de um dos principais desafios na gestão de unidades de conservação, que
é a interação entre a população local, o governo local e os órgãos gestores de diferentes esferas
de atuação para promover ações de proteção das áreas naturais (MMA, Mosaicos, s/d).
11 Como instrumento de gestão territorial, os Corredores Ecológicos atuam com o objetivo
específico de promover a conectividade entre fragmentos de áreas naturais. Eles são definidos
no SNUC como porções de ecossistemas naturais ou seminaturais, ligando unidades de
conservação, que possibilitam entre elas o fluxo de genes e o movimento da biota, facilitando
a dispersão de espécies e a recolonização de áreas degradadas, bem como a manutenção de
populações que demandam para sua sobrevivência áreas com extensão maior do que aquelas
das unidades individuais. Os Corredores Ecológicos visam mitigar os efeitos da fragmentação dos
ecossistemas promovendo a ligação entre diferentes áreas, com o objetivo de proporcionar o
deslocamento de animais, a dispersão de sementes, aumento da cobertura vegetal (MMA, s/d).
12 Muitas das discussões teóricas sobre o papel das AMP para a gestão pesqueira têm se
concentrado nas suas vantagens e utilidades para a conservação e recuperação biológica
dos recursos pesqueiros, com muito pouca atenção aos potenciais impactos de tal arranjo
institucional sobre as comunidades de pescadores tradicionais, bem como para os seus
meios de vida. Ao enfocar não somente no recurso pesqueiro em si, mas também no usuário
dos recursos, a Teoria dos Comuns pode contribuir para o debate em torno das AMP, e para
o estabelecimento de princípios que norteiem a sua criação, embasados principalmente na
busca de uma reconciliação das atividades humanas, não somente com conservação dos
recursos naturais, mas também com a preocupação com a justiça social (KALIKOSKI,
2007, p. 66-67).

209
Conflitos socioambientais entre áreas protegidas e atividade pesqueira no “Albardão”,...

Cenários Preditivos da Gestão Ambiental e Pesqueira

Para se determinar a validade das AMPs como ferramentas de ges-


tão da pesca, é essencial avaliar o seu desempenho, com indicadores que
possam medir os progressos em direção às metas. Enquanto a comuni-
dade científica tende a trabalhar aspectos muito detalhados e mais estri-
tos, os gestores precisam de uma abordagem holística e ecossistêmica,
sem um nível muito alto de detalhes. Uma das técnicas disponíveis na
definição de indicadores é o quadro conceitual driver-pressão-estado-im-
pacto-resposta (DPSIR), como um modelo flexível que pode ser adap-
tado às necessidades de programas específicos para enfatizar diferentes
tipos de indicadores (OJEDA-MARTÍNEZ et al., 2009, p. 89-90).
Devem-se conceber Áreas Marinhas Protegidas de modo que in-
corporem as metas ecológicas e as restrições socioeconômicas descri-
tas pelos diferentes grupos de atores interessados, buscando múltiplas
soluções para atingir os objetivos e a capacidade de lidar com grandes
conjuntos de dados. Para tal, busca-se atingir uma correlação entre os
limites e os custos socioeconômicos envolvidos e a potencial eficácia
de conservação da biodiversidade nas diferentes propostas. Como re-
sultado, boas soluções com diferentes configurações espaciais podem
ser geradas, fornecendo opções que satisfaçam todas as metas biofísicas
e socioeconômicas. Para comparar a eficiência de cada solução para
minimizar a potencial perda de esforço de pesca, utilizamos a melhor
solução em cada cenário, aquela que pode atingir as metas com os
menores custos (KLEIN et al., 2008, p. 695-696).

Desafios para a Gestão Socioambiental Integrada

Na perspectiva de contribuir com o processo de gestão socioam-


biental, e de subsidiar as melhores opções para a efetiva conservação
dos espaços e recursos naturais, de modo integrado à manutenção e
continuidade sustentável da atividade pesqueira, sumarizam-se al-
guns dos principais desafios/necessidades latentes a serem superados:

210
Áreas Protegidas: Experiências de pesquisa e extensão no Sul do Brasil.

a) Conflitos Internos da Atividade Pesqueira: resolução dos conflitos


de interesses entre múltiplos usuários dos espaços e recursos pesqueiros
(pesca artesanal x diversas categorias de pesca industrial);

b) Conflitos da Gestão Pesqueira x Gestão Ambiental

b1) Resolução de conflitos entre os objetivos e estratégias das


políticas públicas de conservação ambiental e gestão pesqueira:
ordenamento da atividade pesqueira (definição de áreas, períodos
e intensidade de esforço, compatíveis com cada categoria e escala
de pesca); elaboração de um mosaico e calendário ecológico da
pesca, que compatibilize os objetivos de conservação ambiental
e gestão pesqueira, envolvendo áreas de exclusão total, áreas de
exclusão parcial e áreas de livre acesso à pesca.

b2) Resolução de conflitos interinstitucionais entre as agências


responsáveis pela conservação ambiental (ICMBio - Instituto
Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade), a gestão
ambiental (IBAMA - Instituto do Meio Ambiente e dos
Recursos Naturais Renováveis) e a gestão pesqueira (SPA –
Secretaria de Pesca e Aquicultura): internalização de critérios
ecológicos e da dinâmica de populações pela agência de gestão
pesqueira (SPA), assim como de critérios socioeconômicos e
político-culturais pelas agências de conservação (ICMBio) e
gestão ambiental (IBAMA).

b3) Resolução de conflitos intrainstitucionais da agência de


conservação ambiental (ICMBio), na definição/recategorização
da categoria de Unidade de Conservação (de Proteção Integral,
ou de Desenvolvimento Sustentável) proposta, considerando
os potenciais conflitos e impactos socioambientais a serem
desencadeados.

211
Conflitos socioambientais entre áreas protegidas e atividade pesqueira no “Albardão”,...

Para garantir a sustentabilidade socioecológica e político-econô-


mica da meritória e necessária iniciativa de criação de uma AMP na
região do Albardão, deve-se enfatizar a oportunidade e premência de
construção de um processo realisticamente participativo, envolven-
do ativamente os principais atores sociais radicados e/ou atuantes
na atividade pesqueira na região, evitando-se a eclosão/acirramento
de conflitos de interesses e impactos sociais, potencialmente decor-
rentes da criação da UC (proposta oficialmente enquanto UC de
Proteção Integral). Essa participação e envolvimento serão decisivos
não apenas para a legitimação social da criação da referida UC, mas
especialmente para desencadear a integração comunitária, incorpo-
rando as demandas, necessidades e expectativas de seus principais
usuários ao seu Plano de Manejo e instrumentos de gestão cotidiana.
Nesse sentido, as comunidades remanescentes de pesca arte-
sanal (no sistema lagunar Mirim-Mangueira e ao longo da região
costeira marinha), e as diversas categorias da frota industrial ope-
rantes na região, deveriam ser parceiras especiais na proposta de
criação dessa UC, garantindo as condições de acesso aos seus espa-
ços e recursos tradicionais (regulados, segundo critérios técnicos e
científicos).
A inserção dos pescadores e sua representação política no pro-
cesso decisório de criação da UC proposta deverão ser definidoras do
sucesso efetivo de seus objetivos conservacionistas, especialmente em
relação às espécies ameaçadas e/ou sobre-explotadas. A colaboração
do setor pesqueiro nesse processo deverá ter como perspectiva a pro-
gressiva recuperação da capacidade de suporte dos ecossistemas cos-
teiros regionais, garantindo a renovação dos estoques reprodutivos
das principais espécies-alvo (a partir das áreas e medidas de exclusão
da atividade pesqueira), assim viabilizando a continuidade das ativi-
dades da pesca sustentável na escala de longo prazo, revitalizando a
matriz socioeconômica regional.
Apesar do reconhecimento oficial quanto ao mérito e pertinência
da criação de Mosaicos de Unidades de Conservação em áreas costeiras e

212
Áreas Protegidas: Experiências de pesquisa e extensão no Sul do Brasil.

marinhas, o processo administrativo para tal ainda exibe muita moro-


sidade; na ausência de uma regulação acordada e comprometida entre
todos os atores, sem o efetivo desencadeamento de um processo con-
sultivo e participativo para tal propósito, incrementam-se os conflitos
e impactos sobre a biodiversidade, os recursos pesqueiros e a possibi-
lidade de manutenção do estilo de vida dos pescadores artesanais e a
viabilidade econômica de longo prazo da frota pesqueira industrial.
Sua institucionalização poderia ser viabilizada por meio da inte-
gração dos instrumentos legais relativos às diferentes UCs, já regula-
das no SNUC, com a adoção dos instrumentos técnicos disponibi-
lizados pelos estudos e experimentos relativos às Áreas de Exclusão de
Pesca; sua gestão poderia adotar os critérios do manejo adaptativo,
por meio do qual, com o monitoramento científico e participativo
com os atores-chave dos resultados obtidos com a exclusão da ativi-
dade pesqueira, os limites espaço-temporais da mesma poderiam ser
progressivamente ajustados às respostas ambientais dos procedimen-
tos em curso (expandindo, contraindo e/ou deslocando os limites
físicos e/ou períodos de exclusão de pesca).

213
Conflitos socioambientais entre áreas protegidas e atividade pesqueira no “Albardão”,...

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219
Gestão e vulnerabilidade das áreas protegidas na ilha de Santa Catarina, Florianópolis,...

Unidades de Conservação (Quadro 1), somando uma área total de


101,42 km² ou 79% da área total das APs. As Áreas de Preserva-
ção Permanente Municipal somam 17% (Quadro 2). Há ainda uma
área protegida diferenciada, a Unidade de Conservação Ambiental
Desterro (UCAD), administrada pela Universidade Federal de Santa
Catarina, com 4,9 km² ou 4% da área total das APs na Ilha de Santa
Catarina.

Figura 1 - Mapa das Áreas


Protegidas na Ilha de Santa
Catarina, município de Flo-
rianópolis, na caracterização
de Unidades de Conservação,
Áreas de Preservação Perma-
nente Municipal e a Unidade
de Conservação Ambiental
Desterro.

Fonte: Autor, 2018

222
Áreas Protegidas: Experiências de pesquisa e extensão no Sul do Brasil.

Quadro 1 - Unidades de Conservação na Ilha de Santa Catarina.

Fonte: Autor, 2018.

223
Gestão e vulnerabilidade das áreas protegidas na ilha de Santa Catarina, Florianópolis,...

Figura 2 - O gráfico da esquerda (figura A) traz o percentual de UCss em super-


fície total por diferentes tipos de Gestores. O gráfico da direita (figura B) destaca
o percentual pelo número de UCs por gestores.

Fonte: Autor, 2018.

Quadro 2 - Áreas tombadas pelo município de Florianópolis, na Ilha de Santa


Catarina, caracterizadas como Áreas de Preservação Permanente Municipal.

Fonte: Autor, 2018.

224
Áreas Protegidas: Experiências de pesquisa e extensão no Sul do Brasil.

Quanto à gestão de UCs, há uma diversidade de organismos pú-


blicos, e mesmo de entes privados, que tratam de sua administração
(Figura 2).
As Áreas de Preservação Permanente Municipal (APPs) criadas
pelo município de Florianópolis ocupam uma área total de 22 km²
(a partir dos polígonos geoprocessados) (Quadro 2). A APP de En-
costas não abrange uma única área, mas múltiplas, espalhadas por
toda a Ilha, e também não há uma delimitação legal exata de seus
limites. As chamadas APPs Municipal são áreas tombadas pelo mu-
nicípio sobre espaços que já são, na maioria das vezes, áreas de APPs
Federais.

Caracterização da Forma das Áreas Protegidas na Ilha de


Santa Catarina

A caracterização quanto à forma (polígono) da área para a ges-


tão de uma AP é fundamental, em um contexto de áreas protegidas
em uma ilha com limitação de espaço e pressionado por processos
urbanos. Além disso, Morsello (2008), Margules e Pressey (2000),
Margules et al. (2002), Stem et al. (2005) e Saunier e Meganck
(1995) pontuam a necessidade de planejar um espaço protegido,
diminuindo o efeito de borda sobre a unidade.
Para construir essa análise, foi utilizada a Fórmula do Índice de
Borda, estabelecida na relação entre o perímetro e a área:

InB= L/2. √π. A

Onde: InB = índice de borda; L = perímetro; √ = raiz qua-


drada; π = valor do PI 3,14159265; A = área da AP. A fórmula é
uma relação entre a área e o perímetro da AP, em que há a indi-
cação da circunferência dessa forma. O índice de borda indica o
quanto a forma da AP se aproxima de uma circunferência. Quan-
to mais baixos os índices, próximos a 1 (um), mais arredondada a

225
Gestão e vulnerabilidade das áreas protegidas na ilha de Santa Catarina, Florianópolis,...

forma, e quanto maior o índice, mais alongada (ARAÚJO et al.,


2008; PIRES, 1995).
O índice de borda indica os processos de alteração nas bordas
da AP, já que as circunferências possuem borda mínima de contato;
portanto, as áreas que mais se assemelharem a essas formas terão
menor influência do meio externo. Áreas com grandes perímetros,
em forma de península, possuem proximidade maior entre o centro
da AP e a borda, facilitando as alterações do habitat. A forma de
uma mancha estabelece um gradiente ambiental do interior para a
borda, com influência maior ou menor de fora sobre essa margem
(borda), de acordo com o tamanho. Normalmente o interior apre-
senta um número mais estável de biodiversidade. O chamado “efeito
de borda” diminui a diversidade de espécies estáveis presentes em
uma determinada área (habitat natural dessas espécies), ao mesmo
tempo em que favorece a interação com novas espécies, que podem
tanto trazer uma diversificação biológica quanto vir a modificar a
estabilidade, reduzindo e/ou transformando os fluxos de matéria e
energia, as interações e, por consequência, as espécies nativas do ha-
bitat (ODUM; BARRETT, 2008).
Quanto mais circular for a forma, menor é a relação perímetro/
área, quanto mais alongada a unidade, com pontas, penínsulas, mais
diretamente é afetada a área, pois o perímetro é impactado direta-
mente para o centro. Portanto, mesmo com tamanho igual, geo-
metrias diferentes condicionam maior ou menor efeito de borda. A
figura abaixo relaciona, a título de exemplo, o efeito de borda de 20
metros sobre três figuras geométricas (Figura 3).
Morsello (2008) pontua que áreas mais alongadas são mais visí-
veis a novos “colonizadores” e algumas espécies migrantes. Margules
et al. (2002) destacam que áreas mais alongadas e mais sujeitas a efei-
tos de borda possuem sempre espécies mais adaptadas, ou alteradas,
podendo melhorar a troca genética. Mas, para ambas as referências
citadas, o tipo de ambiente, se florestal ou mais aberto, pode indicar
importante decisão sobre a forma, já que, para as florestas, as man-

226
Áreas Protegidas: Experiências de pesquisa e extensão no Sul do Brasil.

chas alongadas propiciam efeito de borda que altera as espécies na-


tivas, dada a baixa dispersão desse ambiente. Também o número e a
disposição e distribuição espacial das APs (se próximas e/ou distantes
umas das outras) condicionam as espécies, sobretudo direcionando a
capacidade de dispersão e migração.

Figura 3 - Perda de área em diferentes formas geométricas.

Fonte: Autor, 2018.

A Tabela 1 retrata o resultado da aplicação da fórmula para as


APs que são Unidades de Conservação da Ilha de Santa Catarina:
quanto mais próximo de um (1) o índice, melhor a forma da AP.
Importante salientar que sete (7) UCs possuem mais de 5
km² (500 ha), e oito (8) estão bem abaixo desse tamanho, o que
é considerado insuficiente para a recomposição de habitats se não
houver corredores ligando-os a outros fragmentos. Além disso,
parte significativa desses espaços encontra-se modificada por um
histórico de perturbações e modificações urbanas, em especial no
efeito de borda.

227
Gestão e vulnerabilidade das áreas protegidas na ilha de Santa Catarina, Florianópolis,...

Tabela 1 - Índice de borda das Unidades de Conservação na Ilha de Santa Catarina.

Fonte: Autor, 2018.

Pode-se apontar que, das 15 UCs existentes (a APA do Entor-


no Costeiro entrou na base de cálculo do PAEST), apenas duas
áreas, o Parque Estadual da Serra do Tabuleiro e o Parque Mu-
nicipal da Lagoa do Peri, possuem fator de forma apontado pela
bibliografia como ideal para a conservação, ou seja, com índice de
borda abaixo de 1,5. As outras APs são por demais alongadas em
sua forma, sendo mais suscetíveis ao efeito de borda. Evidente-
mente que também é importante determinar os tipos de pressão
e ameaças que cada uma das AP vem sofrendo em função do au-
mento da urbanização. Nesse sentido, foram utilizados dados do
método de Avaliação Rápida e Priorização do Manejo de Unidades
de Conservação (RAPPAM) realizado pela pesquisa de doutora-
mento. (FERRETI, 2013)

Dinâmica das Paisagens da Ilha de Santa Catarina

A análise da dinâmica das paisagens da Ilha de Santa Catarina


foi realizada a partir da confecção dos mapas de cobertura e uso
da terra. Esses indicaram dados para a decomposição dos elemen-

228
Áreas Protegidas: Experiências de pesquisa e extensão no Sul do Brasil.

tos da paisagem, com o intuito de compreender o atual estado das


AP. Através dos mapas foi possível a análise vertical da paisagem, o
que possibilitou delimitar os tipos de usos, diversidade de categorias
(cobertura) da paisagem, fragmentação e a possibilidade de conexão
(PINO et al., 2006). A escolha pela análise de imagens de satéli-
te, em três décadas, se baseou na necessidade de distinguir se há o
crescimento da área urbana sobre os espaços naturais ao longo do
período de 1986, 1995 e 2010, ameaçando, assim, a borda e/ou o
interior das AP. As classes adotadas para esse estudo e suas definições
estão no quadro abaixo (Quadro 3).

Quadro 3 - Definição das classes criadas para a análise da cobertura e uso da terra.

Fonte: Spring (2008), adaptado pelo autor, 2018.

Dois aspectos foram fundamentais na análise da paisagem: a


composição e a configuração. A composição faz referência ao tipo de
cobertura que integra a paisagem: áreas urbanas, vegetação, corpos
d’água, pastagens etc. A configuração faz referência à distribuição
espacial das coberturas: se uniformes, dispersas, agrupadas etc. No
caso da vegetação de encostas, pela literatura e pelas observações re-
alizadas em trabalho de campo junto às APs, há um predomínio de
espécies secundárias com a presença constante, mas dispersa, de exó-
ticas. As espécies exóticas, em especial o pinus, aparecem em pratica-
mente todas as APs. Destaque para a grande quantidade de exóticas
no Parque Estadual do Rio Vermelho.

229
Gestão e vulnerabilidade das áreas protegidas na ilha de Santa Catarina, Florianópolis,...

Os dados da cobertura e uso da terra dos valores por área das


classes de análise nas três décadas (1986, 1995, 2010) (Tabela 2) in-
dicam que o crescimento de áreas urbanizadas acontece, em especial,
sobre as áreas de pastagem, áreas inundáveis, dunas e solo exposto.

Tabela 2 - Evolução da cobertura e uso da terra para os anos de 1986, 1995 e


2010 .

Fonte: Autor, 2018. Nota: Valores negativos indicam redução.

A primeira análise importante diz respeito à comparação dos


índices (em km²) das classes de cobertura e uso da terra. Há um
aumento visível da vegetação de encostas, com um aumento menor
da vegetação de áreas planas, em parte em função do abandono das
áreas de pastagens e agricultura, mas, sobretudo, pela criação efetiva
de AP a partir da década de 1980. De 1986 em diante foram criadas
12 Unidades de Conservação e 13 APPs Municipal; dessas, 10 UC e
11 APPs estão, em parte ou totalmente, em área de planície.
Observa-se que de 1986 para 2010 há um aumento em 20,05%
da densidade de vegetação nos morros em detrimento das áreas de
pastagens, que reduziram 45,42%. Esse destaque é dado, pois ainda
havia, em 2010, 59km² de áreas de pastagens, muitas em áreas de
encostas. Essas áreas em parte vão sendo tomadas pela vegetação se-
cundária. Quanto às áreas de pastagens na planície, destaca-se o fato
de que parte da planície do Pântano do Sul emitiu resposta à análise
como área de pastagem. E, de fato, grande parte da área é utilizada

230
Áreas Protegidas: Experiências de pesquisa e extensão no Sul do Brasil.

até hoje como área de pastagem, mas são áreas em que a vegetação
nativa deve ser recomposta, sobretudo por se tratar de áreas de bai-
xios protegidas pela legislação federal.
Outra correlação a ser feita é com o aumento constante da ve-
getação das encostas e das áreas urbanas. A urbanização teve maior
crescimento em área entre 1986 e 2010, de 70,46% (Tabela 2). Me-
nos visível, mas também importante, é o aumento de aterros (dos
novos ou dos antigos aterros) apontados por Lisbôa (2004) e confir-
mado no mapa de cobertura e uso de 2010. Esse aumento deu-se em
parte pelo aumento das áreas urbanizadas.
A fim de dar destaque para a comparação das áreas de vegetação
(encosta e terras baixas) com as áreas urbanizadas, se produziu o
gráfico abaixo (Figura 4), que retrata valores em tamanho de área
do aumento ou diminuição de três classes ao longo de três décadas.

Figura 4 - Gráfico com dados da cobertura e uso da terra com destaque para
áreas de vegetação e áreas urbanizadas, dados de áreas em km².

Fonte: Autor, 2018.

A Tabela 2 destaca os dados em quilômetros quadrados de cada classe


mapeada e o percentual do mapa de cobertura e uso da terra de 2010.
As áreas de pastagem representam 14% da área total da Ilha, e
muitas dessas áreas estão sobre a planície marinha. O abandono das

231
Gestão e vulnerabilidade das áreas protegidas na ilha de Santa Catarina, Florianópolis,...

Tabela 2 - Cobertura e uso da terra na Ilha de Santa Catarina no ano de 2010.

Fonte: Autor, 2018.

atividades agropastoris já data de quase quatro décadas e, no entan-


to, é comum se continuar “limpando” essas áreas a fim de evitar o
retorno da vegetação de planície, para que se possa utilizar a mesma.
Também é fundamental destacar que parte das áreas tidas como de
pastagens são de fato áreas com ocupação espalhada, com poucos
moradores, com poucas casas, com ruas de terra. Muitas áreas com
pastagens de fato são áreas que são utilizadas para novos loteamen-
tos, como nos casos do sul da Ilha, em especial da planície Entre
Mares (entre o Distrito do Campeche e do Rio Tavares), e do norte
da Ilha, entre a rodovia estadual SC 401 e o Distrito dos Ingleses.
As áreas urbanizadas representam um total de apenas 18% na
Ilha de Santa Catarina, mas seu número é aparente, pois há um cres-
cimento constante de 70,45% do ano de 1986 para o ano de 2010.
O crescimento da urbanização para o sul e norte da Ilha durante
o século XX obedece a um formato conhecido como “espinha de
peixe”, onde a ocupação foi crescendo nas laterais a partir de uma ro-
dovia, causando o isolamento de ecossistemas. Esse isolamento dos
fragmentos de vegetação na paisagem, provocado por uma destrui-
ção das superfícies naturais contínuas, aumenta a distância entre os
diversos habitats. O que preocupa é a fragmentação dos poucos cor-
redores que estão nas áreas de planície, áreas de inundação e dunas,
que fazem a ligação com os ecossistemas da encosta e dos maciços.
À medida que aumenta a perda de superfície desses habitats, dimi-

232
Áreas Protegidas: Experiências de pesquisa e extensão no Sul do Brasil.

nui a conectividade e aumenta o efeito de borda sobre os ambientes


naturais. É importante destacar, ainda, que nem em todas as áreas
classificadas como vegetação de encosta ou mesmo como vegetação
de terras baixas existe a proteção legal dos habitats.
A vegetação de encostas, a vegetação de terras baixas, dunas, áreas
inundáveis e corpos d’água representam 68% da Ilha, mas apenas
30,07% são APs. Ainda há espaços de preservação permanente não
somados às APs, como córregos, nascentes, áreas de corpos lagunares
etc.1
Com a análise dos dados obtidos pelas imagens de 1986, 1995 e
2010 e através dos mapas de cobertura e uso da terra, comprovou-se
que a paisagem analisada não é homogênea quanto aos seus atributos
espaciais. As manchas e a conectividade entre os fragmentos florestais,
nos morros e encostas, aumentaram no ano de 2010, como também as
manchas de paisagens mais intensamente urbanizadas. Novamente se
destaca o fato da diminuição de áreas de pastagens, áreas de inundação
e solo exposto. De fato, as áreas da planície, na Ilha de Santa Catarina,
passam por processo de ocupação urbana intenso.
A Teoria do Equilíbrio da Biogeografia de Ilhas - TEBI (Ma-
cARTUR; WILSON, 1983 apud VIANA; PINHEIRO, 1998)
aponta a análise de que imigração e extinção dependem do tamanho
das ilhas e da distância entre elas e o continente (no caso das APs, das
manchas de habitat). A taxa de imigração é determinada pelo grau
de isolamento da ilha (ou AP): quanto mais isolada, menor é a imi-
gração. Já as extinções dizem respeito ao tamanho das ilhas: quanto
maiores as ilhas, menores as taxas de extinção (MORSELLO, 2008;
ODUM; BARRETT, 2008).
A TEBI, quando aplicada aos espaços naturais protegidos (MOR-
SELLO, 2008), recomenda o estabelecimento de corredores entre as
ilhas ou habitats. Essa conectividade ecológica faz referência à conexão
existente entre as manchas de sistemas naturais, facilitando a disper-

1 Aproximadamente 43% do território da Ilha de Santa Catarina são Áreas de Preserva-


ção Permanente.

233
Gestão e vulnerabilidade das áreas protegidas na ilha de Santa Catarina, Florianópolis,...

são e migração de espécies, bem como a fluxos de entrada e saída do


sistema. Uma paisagem com alta conectividade é aquela em que os
indivíduos de uma espécie podem movimentar-se com liberdade entre
as manchas de habitats por corredores (BENNETT, 2004).
A partir dos resultados de pesquisa aos dados das APs presentes
na Ilha de Santa Catarina, foi possível observar que a maioria das
APs estão isoladas, em manchas, fragmentadas por bairros residen-
ciais e balneários, ou mesmo corredores de urbanização (como ruas,
estradas etc.). Há casos da criação de APs já em fragmentos isolados
dentro de áreas urbanizadas, que amenizam os efeitos climáticos lo-
cais ou como espaços de lazer (caso do PANAMMC).
Com as informações e dados das APs pesquisadas, foi constru-
ído um modelo sobre uma base proposta por MacArthur e Wilson
para a TEBI, com quatro pontos de equilíbrio (distante, próxima,
pequena, grande) (Figura 5). Baseado no número de espécies em
equilíbrio, a fórmula apresenta: EGN > EGD ~ EPN > EPD, onde
E é o número de espécies; G grande e P pequena; N próxima e D
distante (BROWN; LOMOLINO, 2006).

Figura 5 - Esquema gráfico da Teoria Biogeográfica de Ilhas aplicada às APs na


Ilha de Santa Catarina.

Fonte: Modelo proposto por Brown e Lomolino, 2006, adaptado pelo autor, 2018.

234
Áreas Protegidas: Experiências de pesquisa e extensão no Sul do Brasil.

As áreas protegidas Parque Municipal da Lagoa do Peri (PMLP),


Parque Estadual do Rio Vermelho (PAERVE), o Parque Natural
Municipal da Lagoinha do Leste (PANAMLL) e o Parque Natural
Municipal das Dunas da Lagoa da Conceição (PANAMDLC) pos-
suem mais de 5 km², tendo, portanto, áreas grandes e próximas, com
no máximo 50 metros de outras APs. Na teoria, essas UC têm maior
possibilidade de equilíbrio do número de espécies e menor perda por
extinção em razão da possibilidade de troca com outros fragmentos
de habitats.
O Parque Municipal do Maciço da Costeira (PMMC), a Esta-
ção Ecológica de Carijós (ESEC em Ratones) e a Reserva Extrativista
do Pirajubaé (RESEX) também possuem acima de 5 km² de área
cada, e distam mais de 200 metros de outras APs; é o que a TEBI
designaria como intermediária em termos de riqueza de espécies.
A Reserva Particular do Patrimônio Natural do Morro das Ara-
nhas (RPPNMA), o Monumento Natural Municipal da Galheta
(MONAMG), o Parque Natural Municipal da Lagoa do Jacaré e
Dunas do Santinho (PANAMLJ), o Parque Estadual da Serra do
Tabuleiro (PAEST) juntamente com a Área de Proteção Ambiental
do Entorno Costeiro (APAEC) são áreas contíguas ou próximas a
outras APs, mas têm áreas pequenas, com menos de 3,5 km².
As APs que apresentam áreas muito pequenas e distantes, sem
conexão por corredores com outras APs, possuem geralmente poucas
espécies e pequena taxa de imigração. Nesse caso, a própria migra-
ção da maioria das espécies (mas não todas) não consegue chegar às
áreas devido ao efeito de borda, ocasionado pela transformação dos
habitats, incluindo a urbanização. Na Ilha de Santa Catarina, identi-
ficaram-se como mais vulneráveis (e que se enquadram nessa teoria)
o Parque Natural Municipal do Morro da Cruz (PANAMMC), o
Parque Municipal do Itacorubi (PMI), a Reserva Particular do Pa-
trimônio Natural Menino Deus (RPPNMD) e a Estação Ecológica
de Carijós (ESEC) do Manguezal do Saco Grande. Nesse sentido,
fragmentos menores, isolados, têm menores taxas de migração. É

235
Gestão e vulnerabilidade das áreas protegidas na ilha de Santa Catarina, Florianópolis,...

importante ressaltar que tanto o PANAMMC quanto a RPPNMD


são áreas contíguas, mas por seu tamanho e pelas alterações das ba-
cias hidrográficas que ocupam, se definiu como uma única “ilha” de
conservação e preservação no modelo da TEBI.
No entanto, não é só o tamanho e a proximidade que são impor-
tantes. É fundamental destacar que é necessário haver pesquisas das es-
pécies presentes nessas APs; essa análise é, portanto, apenas uma indi-
cação espacial e territorial. A TEBI pode ser utilizada como uma base
teórica importante para o planejamento das APs, a fim de cruzar in-
formações com as pesquisas de espécies. Há um entendimento de que
áreas maiores, mesmo sendo difíceis de serem fiscalizadas e manejadas,
tendem a preservar mais e em maior número as espécies, possibilitando
ao mesmo tempo perdas menores por extinção. No entanto, estratégias
de criar várias áreas menores em uma região, a fim de formar mosaicos
de proteção, contribuem para manter processos de imigração das espé-
cies e melhoram a troca genética (MORSELLO, 2008; MARGULES
et al., 2002), desde que exista a ligação por corredores entre essas áreas.
A fim de ter um diagnóstico mais completo e comparativo entre
as APs, foram construídas Matrizes de Integração de Informações
e Dados, tanto espacial como da gestão e vulnerabilidade das APs,
separadas em tabelas com as UCs e com as APPs Municipal.
As tabelas apresentam os seguintes dados espaciais das APs: a
área, índice de borda, proximidade entre AP e dados da bacia hidro-
gráfica onde se situa a AP. A matriz com as APs que são UCs apre-
sentam informações e dados quanto à gestão e vulnerabilidade. De
gestão: plano de ação ou manejo, zona de amortecimento, conselho
consultivo ou deliberativo e aspectos legais. Quanto à vulnerabilida-
de, a informação foi obtida com destaque para Pressão e Ameaça so-
bre a AP. Foram levantados dados do RAPPAM e levantamentos bi-
bliográficos e documentos sobre as APs, além de trabalho de campo.
As matrizes foram construídas com os seguintes índices: Exce-
lente (0), Bom (1), Razoável (2), Ruim (3). É importante lembrar
que se trata de valores utilizados com pontuação estabelecida pelo

236
Áreas Protegidas: Experiências de pesquisa e extensão no Sul do Brasil.

pesquisador para a visualização comparativa das APs, objeto desta


pesquisa, sobretudo para facilitar a compreensão dos dados e a co-
municação de resultados, fornecendo boa orientação para prossegui-
mento dos estudos sobre as áreas protegidas.
Quanto aos dados espaciais (Tabela 3), todos tratam de le-
vantamentos realizados e estimados nesta pesquisa. Informações
primárias das APs foram transformadas para gerar dados, como as
áreas e os perímetros, que foram recalculados a partir dos mapas
geoprocessados, facilitando a realização da análise sobre a forma do
polígono (índice de borda), bem como das distâncias entre as AP.
Em relação à pontuação para as informações e dados espaciais
que constam na Tabela 3:

1) Quanto à área, se levou em consideração que quanto maior a área,


maior a possibilidade de preservação e conservação. Assim, Excelente (0)
áreas maiores que 5 km²; Bom (1) de 3 a 5km²; Razoável (2) de 0,5 a 2,9
km²; e Ruim (3) menor que 0,5 km².

2) Quanto ao índice de borda, utilizou-se da fórmula do Índice de Borda:

InB= L/2. √π. A


Aí se estipulou a seguinte pontuação: Excelente (0) índice abaixo de 1,5;
Bom (1) para índices entre 1,5 e 1,7; Razoável (2) para índices de 1,8 a
2,0; Ruim (3) para índices acima de 2,0.

3) A proximidade entre APs foi calculada com pontuação para: Excelente


(0) distância menor que 50 metros entre as APs; Bom (1) para distância
entre 50 a 100 metros; Razoável (2) para distâncias de 200 a 300 metros;
Ruim (3) acima de 300 metros de distância entre as APs.

4) Os dados das bacias hidrográficas diferem dos outros, pois representam


um resultado de soma dos dados analisados e representados a partir das
seguintes informações:

237
Gestão e vulnerabilidade das áreas protegidas na ilha de Santa Catarina, Florianópolis,...

a) Em relação ao tamanho da bacia, quanto maior a área, melhor


possibilidade de mais espaços para a preservação (especificamente
para a Ilha de Santa Catarina). Assim, a pontuação refere-se a:
Excelente com mais de 40 km² (0); Bom de 40km² a 20km² (1);
Razoável de 19km² a 5km² (2); Ruim abaixo de 5 km² (3).

b) Sobre o número de habitantes, quanto mais alto esse número,


maiores alterações na bacia hidrográfica e, portanto, maior a
transformação do sistema natural. Assim, a pontuação refere-se
a: Excelente, abaixo de 400 hab. (0); Bom de 400 a 3.000 hab.
(1); Razoável de 3.001 a 20.000 hab. (2); Ruim acima de 20.000
hab. (3).

c) Quanto à densidade populacional da bacia, também se


compreende que áreas com alta densidade tendem a ser mais
alteradas, dificultando a preservação de sistemas naturais. Para esse
dado, pontuou-se: Excelente, abaixo de 100 hab./km² (0); Bom de
100 a 400 hab./km² (1); Razoável de 401 a 1000 hab./km² (2);
Ruim acima de 1000 hab./km² (3).

d) Quanto às áreas de Sistemas Naturais na AP, pontuou-se:


Excelente, acima de 50% da área (0); Bom de 31% a 50% (1);
Razoável de 10% a 30% (2); Ruim abaixo de 10% (3).

e) A propósito das áreas consideradas Sistemas Naturais


Urbanizados, pontuou-se Excelente, abaixo de 10% da área (0);
Bom de 10% a 30% (1); Razoável de 31% a 50% (2); Ruim
acima de 50% (3).

Com relação à pontuação para o Índice Total com a soma das


informações e dados espaciais da matriz (Tabela 3), considera-se
que: com o índice total igual ou abaixo de quatro (4), a UC apresen-

238
Áreas Protegidas: Experiências de pesquisa e extensão no Sul do Brasil.

Tabela 3 - Matriz de integração de informações e dados espaciais das Unidades


de Conservação.

Fonte: Autor, 2018.

ta relativa tranquilidade na sua condição espacial para atender aos


seus objetivos; de cinco (5) a seis (6), apresenta problemas espaciais
que não prejudicam o cumprimento dos objetivos da AP; de sete
(7) a dez (10), apresenta problemas espaciais complexos, exigindo
a atenção quanto ao aumento gradativo de urbanização no entor-
no e fragmentação da área; acima de 10 (dez), apresenta problemas
espaciais gravíssimos, o que pode levar a dificuldades em exercer os
objetivos para o qual a AP foi criada.
Essa Matriz das APs como UC indica que há pelo menos um
dos problemas encontrados nesta pesquisa em cada área: pressão
urbana; ocupação irregular; presença de espécies exóticas; falta de
levantamentos expeditos sobre fauna e flora, além da falta de espaços
contíguos – corredores - para o desenvolvimento e trânsito das espé-

239
Gestão e vulnerabilidade das áreas protegidas na ilha de Santa Catarina, Florianópolis,...

cies, o que vem acarretando a perda da biodiversidade; inexistência


de planos de manejo; problemas com relação a programas de visita-
ção e educação ambiental; falta de sinalização, trilhas ou qualquer
outra condição para atividades turísticas etc.
Quanto à pontuação para as informações e dados de gestão pre-
sentes na Matriz da Tabela 4:

1) Quanto à Gestão administrativa da AP, tem-se a pontuação: Excelente


(0) quando há gestão com sede na unidade; Bom (1) existe gestão, mas não
há sede na unidade; Razoável (2) existência de órgão gestor geral, mas sem
a existência de um gestor específico para a AP; Ruim (3) gestão inexistente;

2) Quanto ao plano de manejo ou um plano de ação ou trabalho na UC:


Excelente (0) existe plano de manejo; Bom (1) existe plano de ação ou
trabalho e o plano de manejo está em estudo; Razoável (2) somente existe
plano de ação ou trabalho; Ruim (3) não há plano de ação ou trabalho;

3) Quanto à existência legal de zona de amortecimento: Excelente (0)


quando existe legalmente e há efetiva fiscalização; Bom (1) existência
legal; Razoável (2) em estudo efetivo, mas ainda não é legal; Ruim (3)
não existe. Nesta pontuação também há Não Se Aplica (0);

4) Quanto à existência de conselho (consultivo ou deliberativo): Excelente


(0) existe e está atuando; Bom (1) existe, mas não atua; Razoável (2) em
fase de implantação; Ruim (3) não existe. Nesta pontuação também há
Não Se Aplica (0);

5) Quanto aos aspectos normativos, se estão evidenciados e claros nos


documentos legais de criação e categorização e se atende ao SNUC.
Pontuação: Excelente (0) quando está tudo certo com a legislação
e atende ao SNUC; Bom (1) tudo certo com legislação faltando a
adequação ao SNUC; Razoável (2) Possui algum tipo de legislação que
define a unidade; Ruim (3) sem legislação;

240
Áreas Protegidas: Experiências de pesquisa e extensão no Sul do Brasil.

6) Quanto à pressão e ameaça à AP, propõe-se a pontuação: Excelente (0)


pressão e ameaça inexistentes; Bom (1) sem pressão imediata, mas com
ameaça; Razoável (2) pressão e ameaças existem, mas são controláveis;
Ruim (3) sob pressão e ameaça constantes à AP.

Tabela 4 - Matriz de integração de informações e dados de gestão e vulnerabili-


dade das Unidades de Conservação.

Fonte: Autor, 2018.

Com relação à pontuação para o Índice Total com a soma das


informações e dados de gestão e vulnerabilidade das APs que são
UCs da Matriz (Tabela 4), considera-se que: com o índice total igual
ou abaixo de seis (6), a AP apresenta processos de gestão que pos-
sibilitam atender aos objetivos da unidade; de sete (7) a nove (9),
apresenta alguma dificuldade de processos de gestão, que não preju-
dicam a cumprir com os objetivos da AP; acima de 10, não há ges-
tão ou ainda apresenta problemas gravíssimos (em especial legais ou
normativos), o que pode levar a dificuldades em exercer os objetivos
para os quais a AP foi criada.

241
Gestão e vulnerabilidade das áreas protegidas na ilha de Santa Catarina, Florianópolis,...

Quanto à Matriz de Integração das informações e dados espa-


ciais das APs que são APPs Municipal (Tabela 5), há uma conside-
ração inicial: a APP de Encostas, por ser distribuída por toda a Ilha
de Santa Catarina, não será analisada pontualmente; no entanto, é
possível verificar na Figura 1 que tem importante papel como corre-
dor entre as APs. Sobre o atual estado de conservação das áreas, além
dos dados pesquisados e apontados na Matriz, há as observações re-
alizadas nos trabalhos de campo.

Tabela 5 - Matriz de integração de informações e dados espaciais das APPs Mu-


nicipal e UCAD.

Fonte: Autor, 2018.

A única área de APP Municipal com índice abaixo de quatro


é a Região da Costa da Lagoa (com índice total 2). Na pontua-
ção pelas dimensões, com 9,751 km², e para a proximidade com
outras APs, exatamente por causa de seu perímetro, há algumas
dificuldades quanto aos efeitos de borda. Essa APP é fundamental
para a ligação entre várias APs, em especial por ser área de muitas
nascentes na Ilha de Santa Catarina, além de se tratar de uma área
possível de corredor para a APP de Encostas situada nos Maciços
Centrais da Ilha.
As APPs Municipal em dunas e restingas estão em áreas de ocupa-
ção na faixa de praia dos balneários, que têm crescido com o turismo

242
Áreas Protegidas: Experiências de pesquisa e extensão no Sul do Brasil.

nos últimos 20 anos, com a instalação de bares, restaurantes e outros


serviços, ampliando a ameaça de efeitos de borda sobre as APPs.
As APPs das Dunas da Armação e das Dunas do Pântano do
Sul estão em uma bacia hidrográfica em que os índices estão em me-
lhores condições. A primeira tem contato com o Parque Municipal
da Lagoa do Peri, formando uma continuidade de área. A segunda
está isolada na planície marinha da localidade do Pântano do Sul.
Esta apresenta possibilidade da criação de outras APs e pode vir a ser
corredor importante entre a restinga e áreas da planície (na verdade
o corredor ecológico já existe; o que é necessário é a efetivação de AP
sobre a planície inundável do Pântano do Sul, a fim de proteger essa
área da especulação imobiliária).
Os resultados da pesquisa das Áreas Protegidas apontam difi-
culdades de uma gestão integrada, faltando não só uma organização
do mosaico, como principalmente espaços específicos para o diálogo
entre as diversas entidades gestoras. Falta um sistema integrado de
UCs e APPs Municipal que possa articular trabalhos conjuntos, pos-
sibilitando a definição dos corredores biológicos e ecológicos entre
os espaços protegidos.
O estabelecimento de APs de diversos tipos deve permitir a com-
patibilização da conservação com outros usos e estabelecer redes so-
bre o território, conforme a Lei do SNUC. Desde a década de 1990,
ecólogos já apontam que uma das soluções para a fragmentação dos
habitats era a de ligar as APs por corredores e/ou sombreamento de
categorias de proteção, sobretudo através de corredores (biológicos e
ecológicos), ligando os polígonos.
Pensar uma rede de espaços protegidos para uma determinada
porção do território, neste caso para a Ilha de Santa Catarina, é cons-
truir um planejamento efetivo sobre o território compatível com o
crescimento urbano e com uma estruturação da própria paisagem.
É possível pensar para a Ilha de Santa Catarina uma proposta de
mosaico de APs que atue como rede, com as machas formando nós
e os corredores conectado-as. Os corredores biológicos e ecológicos

243
Gestão e vulnerabilidade das áreas protegidas na ilha de Santa Catarina, Florianópolis,...

conectam as manchas isoladas ou separadas, de preferência manchas


formadas por APs. Mas podem e devem ser criados linhas-corre-
dores, faixas-corredores e corredores nos cursos d’água (sobretudo
na planície em áreas já urbanizadas). Quanto à readequação legal e
fundiária das categorias das unidades de conservação municipais, é
necessário ligar essas a APPs Municipal, que muitas vezes estão iso-
ladas. Essa ação foi realizada recentemente em duas áreas: em 2016
com a criação do Parque Natural Municipal da Lagoa do Jacaré e
Dunas do Santinho; e em 2018 com a recategorização e ampliação
do Parque Natural Municipal das Dunas da Lagoa da Conceição.
Há também a necessidade de criação de novos espaços de prote-
ção, como no sul da Ilha de Santa Catarina, em especial no Distrito
do Pântano do Sul, e mais ao norte, na bacia de Ratones e nos Ingle-
ses, a fim de se estabelecer ligação entre os fragmentos. Essa ligação,
por corredores biológicos e ecológicos, poderá vir a garantir a troca
genética entre os diversos polígonos hoje isolados.
Os mosaicos capazes de favorecer a conectividade na paisa-
gem seriam aqueles que não têm perda da cobertura natural. Evi-
dentemente que, mesmo entre as paisagens alteradas, há aquelas
mais permeáveis que podem ajudar a conectividade, desde que
os gradientes de alteração dos componentes naturais não sejam
elevados. O melhor mosaico é aquele que permite a conservação
da biodiversidade e os processos de forma compatível com o uso
social dos recursos (BENNETT, 1998 apud MÚGICA DE LA
GUERRA et al., 2002). Nesse sentido, o Plano Diretor da cidade
de Florianópolis poderia contribuir. Mas, para isso, há a neces-
sidade urgente de estabelecer relações entre os diferentes atores
presentes nesse território, a fim de salvaguardar os sistemas natu-
rais. Um pacto entre a sociedade, os organismos federais, estadual
e municipal seria fundamental para construir uma ação pública
destinada a buscar uma gestão integrada interessada na criação de
mecanismos de diálogo, visando a constituir, de fato, um mosaico
de Áreas Protegidas.

244
Áreas Protegidas: Experiências de pesquisa e extensão no Sul do Brasil.

Margules e Pressey (2000) e Margules et al. (2002) destacam


que o planejamento da conservação é uma atividade em que os im-
perativos sociais, econômicos e políticos podem modificar, às vezes
drasticamente, as prescrições científicas. Apontam que é necessário
os pesquisadores terem um corpo teórico disponível para aplicação
e construção de políticas públicas; que a ciência pode oferecer solu-
ções quando chamada para ajudar na implementação de políticas,
planejamento e criação de normas, bem como auxiliar no esclareci-
mento das implicações sociais e econômicas de métodos, alternativas
e cenários; e, por fim, a ciência pode ser usada para avaliar a eficácia
dos processos e de políticas para atingir as metas de biodiversidade.

245
Gestão e vulnerabilidade das áreas protegidas na ilha de Santa Catarina, Florianópolis,...

REFERÊNCIAS

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Disponível em: <http://www.avesmarinhas.com.br>. Acesso em: 11 mar. 2011.

247
Sobre os autores

Pesquisadora do Grupo de Pesquisa Gestão Ambiental e Negociação


de Conflitos – GANECO.

Maria Carolina Contato Weigert

Bióloga com ênfase em Biologia Marinha, Mestre em Geografia. Co-


ordenadora do Projeto Ondas no Núcleo de Educação e Monitoramento
Ambiental – NEMA e como técnica executora em outros projetos.

Nelson Luiz Sambaqui Gruber

Geógrafo, Mestre e Doutor em Geociências. Professor Titular do


Departamento de Geografia, Instituto de Geociências (IGEO), da Uni-
versidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Pesquisador do Cen-
tro de Estudos de Geologia Costeira e Oceânica – CECO/IG/UFRGS.

Orlando Ferretti
[email protected]

Geógrafo, Mestre e Doutor em Geografia. Professor do Departamen-


to de Geociências da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).
Pesquisador do Grupo de Pesquisa Observatório de Áreas Protegidas.

Renato Visintainer Carvalho

Oceanólogo. Técnico de nível superior atuando junto ao Nú-


cleo de Educação e Monitoramento Ambiental – NEMA.

Samir Rocha
[email protected]

Turismólogo, Especialista em Arqueologia e Mestre em Geo-


grafia. Servidor Público - Gerencia de Fomentos, Projetos e Cap-

250
Áreas Protegidas: Experiências de pesquisa e extensão no Sul do Brasil

tação de Recursos, Secretaria de Cultura e Turismo, Prefeitura de


Joinville, SC.

Talita Laura Góes


[email protected]

Geógrafa e Mestre em Geografia, Doutoranda do Programa de


Pós-Graduação em Geografia da Universidade Federal de Santa Ca-
tarina. Pesquisadora do Grupo de Pesquisa do Observatório de Áreas
Protegidas (UFSC).

Washington Luiz dos Santos Ferreira


[email protected]

Oceanólogo e Doutor em Educação Ambiental. Possui Pós-


-doutorados em Geografia, em Educação Científica e Tecnológica,
e em Gerenciamento Costeiro. Pesquisador junto ao Laboratório de
Gerenciamento Costeiro (FURG).

Werner Hartmann Spotorno

Advogado e Ambientalista. Associado ao Núcleo de Educação e


Monitoramento Ambiental – NEMA.

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