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Relatório de Uma Pandemia Anunciada (Em Vão) - Ernesto Burgio

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Lugar Comum – No 58 | Agosto de 2020

Um último relatório sobre uma pandemia anunciada (em vão)1


Ernesto Burgio2
Tradução de Carolina Salomão

Não é fácil fazer um resumo desses primeiros 6 longos meses de pandemia.


Nosso artigo anterior "The Italian Drama" (Burgio E., 2020) procurou contextualizar a
situação na Itália dentro da situação planetária, que ainda está evoluindo. No entanto,
esse resumo é necessário para que não nos encontremos despreparados caso o vírus
volte com altas cargas virais na Itália e no resto da Europa no final do verão ou no
outono. Nos terríveis dias de março e abril, as províncias mais afetadas do norte da
Itália foram Bérgamo, Brescia, Cremona, Piacenza. Infelizmente, o vírus agora ataca,
em muitas áreas do planeta: Estados Unidos, Brasil, México, Índia. Colocar a pandemia
no contexto, significa examinar historicamente os eventos anteriores e depois focalizar
as recentes pandemias. O primeiro grande erro foi não entender que o aparecimento de
um vírus pandêmico é um evento dramático a ser estudado de acordo com coordenadas
bem definidas, conhecidas há mais de um século. Isto foi esquecido por muitos
cientistas famosos e especialistas.

Tínhamos esquecido que as pandemias são dramas sazonais

Comecemos pela história antiga. Grandes pandemias são eventos sazionais que
geralmente se seguiram a tragédias: guerras, fome, desastres naturais. É importante
destacar que não se tratam de eventos aleatórios, mas consequências dramáticas de
grandes desequilíbrios ecológicos, biológicos e sociais.
Grandes pandemias como a Peste de Justiniano (540-542 d.C.), a peste bubônica
do século XIV, mais conhecida como Peste Negra (1346-1353), as grandes epidemias
de cólera do século XIX (1850-1860) e, acima de tudo, a grande endemia global devida
ao mais terrível assassino biológico da história humana, o vírus da varíola.
Infelizmente, só temos relatos confusos e desprovidos de valor científico. Das crônicas
dos contemporâneos dos eventos é difícil obter valor em termos biológico e sanitário.

1
Este artigo é uma tradução de um capítulo do livro (Pandemia nello scenario del capitalismo del xxi
secolo. (Pandemia no cenário do capitalismo do século XXI) organizado por Alessandra Ciattini e Marco
A. Pirrone, pm edizioni, varazze (sv), 2020, que está sendo publicado na Itália.
2
ECERI (European Cancer and Environment Research Institute – Square de Meeus 38-40, 1000
Bruxelles). E-mail: [email protected]

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No entanto, é claro que todos esses foram eventos imprimiram uma marca permanente
na consciência coletiva.
Na Idade Média, a peste bubônica do século XIV, a epidemia da Peste Negra
que chocou a Europa, deixou, sem dúvida, as cicatrizes mais dramáticas. As estimativas
oscilam entre 70 e 200 milhões de mortes, uma parte significativa de toda a população
humana. No entanto, esses números se desvanecem em comparação com a ameaça que a
varíola representava no século XX. A varíola poderia muito bem ter ceifado 200
milhões de vidas antes de ser erradicada através de uma campanha de vacinação que, de
longe, é o maior sucesso da Organização Mundial da Saúde (OMS).

A grande influenza espanhola, protótipo das pandemias modernas

Com a grande pandemia espanhola de 1918-19 entramos na era das pandemias


modernas, todas caracterizadas por um vírus que se espalhou recentemente – numa
súbita adaptação para o homem a partir de uma espécie/reservatório que hospeda o vírus
há milênios. Durante o século XX, as pandemias sempre foram vírus da gripe. O
primeiro deles foi o H1N1/1918, chamado de gripe espanhola, um patógeno
dramaticamente virulento que surgiu do reservatório natural das aves migratórias.
Durante a Primeira Guerra Mundial, os soldados americanos exportaram o vírus para a
Europa, onde ele se espalhou como um fogo selvagem. Ele ainda é lembrado como a
maior pandemia moderna. Depois de matar várias centenas de milhares de pessoas no
início de 1918, o vírus pareceu diminuir durante o verão, mas voltou de forma muito
mais virulenta no outono e as mortes foram de dezenas de milhões em poucos meses.
Chocantemente, estas mortes pandêmicas foram quatro vezes maiores que as da Grande
Guerra e em muito menos tempo.
Também é importante lembrar que o H1N1 tem permanecido endêmico na
espécie humana desde então. Esse virus foi substituído, em 1957, pelo H2N2 da gripe
asiática e em 1968 pelo H3N2 da gripe de Hong Kong. O virus parece ter ressurgido de
um laboratório russo nos anos 70, numa forma felizmente não muito letal e, desde
então, juntamente com o H3N2, circula o globo causando epidemias sazonais,
geralmente não particularmente violentas, causando, no entanto, dezenas de milhares de
mortes no mundo todo a cada ano.
Na história recente, devemos lembrar que de 1997 a 2005 vários subtipos de
vírus da gripe fizeram o temido alastramento – de aves migrantes e sedentárias ao

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homem, levando a centenas de mortes. Eles alarmaram os virologistas por causa de sua
alta virulência, mas não foram muito contagiosos, pois não fizeram as mutações
necessárias para envolver o trato respiratório humano. Infelizmente, o novo SARS-
CoV-2 conseguiu estas mutações em poucos meses, provavelmente no outono do ano
passado, na província de Hubei, na China.
Os primeiros avisos durante esses anos, relativos a uma possível nova pandemia
de vírus da gripe, tiveram dois efeitos: por um lado, levaram ao aprofundamento da
pesquisa nesta área relativamente negligenciada durante décadas; por outro lado,
geraram em muitos a crença errônea de que eram "falsos alarmes". Um fato que seria
decisivo para a confusão que surgiu recentemente neste campo.

O "novo reino": coronavírus e morcegos

Simultaneamente aos alarmes da gripe aviária, um novo Coronavírus apareceu


na China em 2002, capaz de causar uma pneumonia letal em centenas de sujeitos,
essencialmente médicos e enfermeiros. Foi chamado SARS (sigla em inglês para
Síndrome Respiratória Aguda Grave). Neste caso, houve um alerta precoce de
pandemia, mas felizmente o vírus mostrou-se instável e incapaz de se transformar em
uma verdadeira pandemia, apesar de ser muito contagioso e virulento.
Desde então, esses Coronavírus, provenientes de uma nova espécie de
reservatório, o morcego, têm sido objeto de muitos estudos, pois o morcego representa,
por muitas razões, uma espécie/reservatório muito mais perigosa do que as populações
aviárias, que têm sido o reservatório dos vírus da gripe por milênios, essencialmente por
duas razões. Primeiro de tudo, porque o morcego é um mamífero, muito mais próximo
de nós em nível filogenético. Isto facilita a adaptação evolutiva de seus vírus aos
receptores de nossas vias aéreas e sua capacidade de se espalhar em nossa espécie e
atacá-la (ou seja, de fazer o fatídico derrame). Em segundo lugar, devido às graves
alterações eco-sistêmicas e urbanas causadas pelo homem nas últimas décadas, os
grandes morcegos típicos do sudeste asiático vivem agora em estreito contato com os
habitantes dos grandes entornos urbanos e isso facilita muito a troca de vírus com outras
espécies animais e os eventos de recombinação genética entre diferentes linhagens
virais, o que facilita sua evolução adaptativa.

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Uma pandemia anunciada há muito tempo e em vão

Neste ponto, devemos enfatizar que a atual é uma pandemia há muito anunciada:
primeiro de tudo porque a primeira SARS, a de 2002-2003, foi imediatamente
reconhecida como um episódio perigoso, devido ao surgimento de um novo
Coronavírus, totalmente desconhecido de nosso sistema imunológico e, portanto,
potencialmente pandêmico. Dez anos depois, em 2012, um segundo Coronavírus causou
uma epidemia de pequeno porte, mas igualmente perigosa, dada a alta letalidade do
novo morcego Coronavírus, o MERS-CoV. Finalmente, nos últimos anos, os "caçadores
de vírus" descobriram nas cavernas de Yunnan, na China, numerosos coronavírus
morcego, muito semelhantes aos da SARS, capazes de infectar humanos (Qyu, 2020).
Como resultado, seguiram-se muitas experiências destinadas a modificar geneticamente
esses vírus para melhor estudar seu potencial infeccioso e patogênico e,
inevitavelmente, críticas e pedidos violentos de moratória contra estas pesquisas
objetivamente perigosas (Butler, 2015). Isto se tornou um problema complexo porque
uma hipotética moratória só poderia ser aplicada às pesquisas realizadas nos
laboratórios principais (com segurança e controles internacionais), mas não a qualquer
manipulação genética realizada em laboratórios muito menos seguros e não controlados.
Por causa disso, toda a comunidade de cientistas neste campo vem pedindo há anos para
se preparar para o pior. Contudo, como veremos, apenas os países asiáticos – que nas
últimas duas décadas enfrentaram os alarmes pré-pandêmicos relacionados à gripe
aviária e à SARS – se prepararam adequadamente para enfrentar a emergência,
enquanto os países ocidentais, em geral, se viram completamente despreparados para a
pandemia anunciada.

Primeira fase: os países asiáticos mostram estar preparados

Agora podemos tentar entender melhor a trajetória tomada pelo novo vírus nos
primeiros meses de sua propagação entre os seres humanos e fazer um balanço da
pandemia em andamento. Um rápido olhar sobre uma trama cronológica relativa aos
eventos mais salientes da primeira fase pandêmica (Fig. 1) oferece dados importantes.

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Indiscutivelmente, os chineses entenderam, pelo menos desde o início de


dezembro de 2019, o que estava acontecendo. Entretanto, os primeiros relatórios oficiais
sobre casos de pneumonia provavelmente associados a um novo Coronavírus e as
primeiras medidas restritivas não chegaram ao Ocidente até o final de 2019.
Em 31 de dezembro, o CDC e a OMS lançaram um alerta precoce, sobre alguns
casos suspeitos, oriundos de um mercado de alimentos perto da cidade de Wuhan, na
região de Hubei. Em 9 de janeiro, a OMS declarou que (como temido) um novo
Coronavírus estava se espalhando e os cientistas chineses publicaram toda a sequência
genética do mesmo em 12 de janeiro (XinuanNet, 2020), logo seguidos pelo Institut
Pasteur (Instituto Pasteur, 2020) e outros prestigiosos laboratórios em todo o mundo
(Instituto Doherty, 2020).
Em poucos dias, alguns casos de pneumonia devido ao novo Coronavirus,
inicialmente chamado 2019-nCoV, foram relatados na Tailândia e depois no Japão,
Coréia do Sul, Taiwan. A mídia ao redor do mundo começou a espalhar histórias
dramáticas e imagens alarmantes. Os chineses criaram em tempo recorde corredores de
saúde alternativos e novos hospitais exclusivamente para o diagnóstico, monitoramento
e isolamento de casos. Enquanto isso, outros países asiáticos também estavam se
preparando para o pior. Em poucos dias, o vírus apareceu não apenas em Hong Kong,
Camboja e Sri Lanka, mas também no Nepal e depois na França, Alemanha, Canadá e
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Austrália. Isto era completamente previsível, dado que em 2020 um vírus


pandêmico viaja em vôos transcontinentais e pode facilmente se espalhar pelo
mundo em 48 horas.
Ainda é difícil entender porque os países ocidentais subestimaram esses eventos.

Países ocidentais subestimam o problema


Na Itália, em 31 de janeiro, o anúncio do perigoso surto apareceu na "Gazzetta
della Repubblica". Todas as regiões da Itália foram convocadas a se preparar para uma
possível pandemia. De fato, passariam três semanas antes que as primeiras medidas de
contenção fossem implementadas, tanto da OMS (que só em março teria declarado o
alarme pandêmico), quanto de especialistas em doenças infecciosas, pneumologistas e
outros especialistas, que tendiam a assegurar que os sistemas de saúde dos países
ocidentais poderiam enfrentar uma emergência sanitária como a esperada (o que se
comprovou infundado).
Os líderes políticos de alguns países, em particular anglo-americanos, até
declararam que não faria sentido implementar estratégias de contenção como as
implementadas pelos países asiáticos, que desacelerariam e prejudicariam suas
economias. Esta crença errônea de que seria uma epidemia como muitas outras causou
um certo número de mortes entre os mais frágeis e idosos, e permitiu que ela se
espalhasse pelos países desenvolvidos.
Essas foram previsões incorretas. O vírus se espalharia essencialmente nos
países ocidentais e nas áreas mais desenvolvidas economicamente, atingindo os
estratos dessas sociedades que viajam mais e têm relações mais diretas em lugares
fechados e lotados, onde a infecção se espalha mais facilmente.
A Itália foi o primeiro dos países ocidentais a ser atingido, especialmente nas
regiões ricas do Norte e precisamente nas áreas industriais e comerciais mais avançadas,
conectadas com o resto do mundo e mais poluídas. Em 21 e 22 de fevereiro foram
descobertos os dois primeiros surtos no Vêneto e na Lombardia: a reação
completamente diferente das instituições de saúde política das duas regiões teve
consequências significativas e potencialmente esclarecedoras. A região do Veneto
rapidamente colocou em prática, a partir da chamada "zona vermelha", uma série de
estratégias de contenção e monitoramento de casos sintomáticos e seus contatos,
fechando escolas e universidades, bloqueando o Carnaval de Veneza. Estas ações
reduziram a propagação do vírus e o número de mortes. Na Lombardia, ao contrário,

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durante mais de uma semana foi decidido não se aplicarem medidas restritivas, o que
permitiu a propagação do vírus durante grandes eventos esportivos e que invadisse
hospitais e asilos para idosos. As consequências foram catastróficas. Desde 15 de julho,
a Lombardia tem cerca da metade das mortes de todo o país (16.790 declaradas, mas
mais de 18.000 estimadas, somando 35.000 no total) e é a região que tem mais
dificuldade de conter a cadeia de infecções. Uma clara demonstração de que os
primeiros dias são os mais importantes para conter uma pandemia, pois se as
medidas de contenção não forem implementadas imediatamente, a curva exponencial
inevitável das infecções e mortes logo atinge números consideráveis e os mantém.
O mês de março foi o mais dramático da Itália (Burgio, 2020). Enquanto a
contenção drástica e as contramedidas de monitoramento nos países asiáticos
bloquearam a propagação do vírus em poucos meses, a Europa tornou-se o novo
epicentro da pandemia e a subestimação do alarme (finalmente formalizada pela OMS)
ficou imediatamente evidente. Nem ferramentas de diagnóstico, nem planos de
monitoramento, nem dispositivos de proteção para os trabalhadores da saúde, nem
mesmo corredores de saúde alternativos haviam sido colocados em prática.
Na China, Coréia, Japão e especialmente no Vietnã e Camboja, o número de
casos e mortes em poucas semanas começou a cair drasticamente e rapidamente cessou.
Afinal, somente na China a situação tinha sido inicialmente dramática, com 90.000
casos confirmados e 3.500 mortes somente na região de Hubei. No Japão e na Coréia
foram anunciadas algumas dezenas de mortes, enquanto que no Camboja e no Vietnã,
diante de algumas dezenas de casos, não haviam ocorrido mortes. Esses dados
permanecem quase inalterados após meses, confirmando a regra relativa à importância
das medidas de contenção.

Erros iniciais: o quadro epidemiológico-clínico


Enquanto isso, chegaram os primeiros dados clínicos confiáveis sobre o surto
inicial e o comportamento real do vírus. Entre 16 e 24 de fevereiro, a OMS enviou uma
comissão de especialistas a cinco regiões chinesas (Pequim, Wuhan/Hubei, Shenzhen,
Guangzhou e Chengdu). Um relatório detalhado foi publicado rapidamente e durante
muito tempo, para o melhor e para o pior, foi o documento básico para enfrentar a
pandemia.

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Para melhor, pois demonstrou os efeitos imediatos do bloqueio e outras medidas


de monitoramento e segurança das áreas de saúde, confirmando qual é o padrão de ouro
no caso de uma pandemia:
1. Isolar e rastrear não apenas os casos sintomáticos, mas também seus contatos, para
detê-los imediatamente no território, sem deixar o vírus se espalhar para as instalações
de saúde;
2. Informar e envolver os cidadãos comuns, que, antes das experiências anteriores
(alarmes aviários e SARS), mostraram imediatamente estar cientes dos riscos e muito
responsáveis.
Para pior, pois a subestimação do número e o papel dos assintomáticos
favoreceram a propagação do vírus. Esse foi um erro fundamental. Em mais da metade
dos casos, o vírus é potencialmente contagioso com casos assintomáticos ou
paucisintomáticos3.
É difícil avaliar os efeitos negativos a médio ou longo prazo desses erros
iniciais. Podemos certamente imaginar que se os países ocidentais tivessem reconhecido
a necessidade e a eficácia das contramedidas rápidas, a primeira fase pandêmica não
teria tido a tendência dramática que estamos experimentando agora. É verdade que, se
nos limitarmos a testar os casos de febre prolongada, astenia grave, sintomas
cardiovasculares, neurológicos e respiratórios, ignoraremos a disseminação do vírus que
ocorre essencialmente através de sujeitos assintomáticos e paucisintomáticos. Mas
mesmo que fosse verdade (como alguns argumentam) que o fato de os chineses
sublinharem o grande número de casos assintomáticos teria levado os especialistas da
OMS a subestimar a contagiosidade e o perigo do novo vírus, deve-se reconhecer que
nenhum dos países asiáticos cometeu o erro de restringir os testes diagnósticos para os
casos de febre total.
É provável, portanto, que este enorme erro dos países ocidentais tenha sido
uma conseqüência do despreparo.
1) A escassez das ferramentas de diagnóstico e dos dispositivos de proteção para os
trabalhadores da saúde;
2) A ineficiência ou mesmo a ausência de sistemas de rastreamento e monitoramento;
3) A não ativação de faixas de acesso alternativas e áreas de saúde dedicadas aos
pacientes e suspeitos;

3
Paucisintomático é um termo técnico da medicina que significa uma pessoa com sintomas irrelevantes
(Nota da tradução).

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4) Hospitais e casas de saúde para idosos transformados em "santuários" do vírus.


Todos estes problemas fundamentais ainda estão por resolver em muitos países
ocidentais.

A divisão chinesa e a divisão global

Para compreender a importância de implementar estratégias de contenção


rápidas e eficazes e, sobretudo, para demonstrar o quanto os erros iniciais podem afetar
a tendência pandêmica, é suficiente considerar rapidamente a evolução totalmente
diferente da pandemia nas diferentes áreas do mundo. Antes de mais nada, é útil lembrar
que os dados epidemiológicos chineses confirmaram imediatamente a grande eficácia
das estratégias corretas de contenção e rastreamento: a maioria dos casos e mortes
ocorreram somente na região de Hubei, imediatamente isolada do bloqueio. Da mesma
forma, as taxas de mortalidade foram de 4,5% em Hubei e <1% no resto do país.
(Fig.2)4.

Fig. 2 A "divisão" chinesa: características clínicas e resultados de pacientes hospitalizados com


COVID-19 em Hubei (epicentro) e no resto do país. China European Respiratory Journal, 2020; DOI:
10.1183 / 13993003.00562 -202020

4
China European Respiratory Journal, 2020; DOI: 10.1183 / 13993003.00562 -2020.

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Como demonstração de que apenas os países e regiões que conseguiram


implementar rapidamente medidas de contenção eficazes conseguiram interromper as
cadeias de contágio, reduzindo em pouco tempo a circulação do vírus e o número de
indivíduos com elevada carga viral, é suficiente dar uma rápida olhada em dois gráficos
relacionados com as diferentes tendências da primeira fase pandêmica nos países
asiáticos em comparação com os ocidentais (Fig. 3) 5 e nas regiões do Norte da Itália em
relação ao Centro Sul do país (Fig. 4) 6 .

Fig 3. A "divisão global": Países asiáticos versus países ocidentais. Os diferentes padrões de
aumento do número de mortes para a COVID-19 estão delineados. O número cumulativo de mortos é
considerado desde o primeiro dia com 100 casos reconhecidos. A Coréia do Sul é tomada como exemplo
de um país asiático, acostumado a gerenciar este tipo de emergência e "vacinado" por alarmes
pandêmicos relacionados a surtos de gripe aviária e SARS.

Quanto à Itália, uma divisão epidêmica semelhante foi imediatamente evidente


entre as regiões norte e sul. Nas regiões do sul que puderam se beneficiar de um tempo
de latência muito maior (gradiente Norte-Sul), a menor circulação do vírus e a baixa
carga viral nos indivíduos infectados fez a diferença (Fig. 4).

5
Burgio, 2020.
6
Ibid.

21
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Fig. 4. A "divisão" italiana. O crescimento cumulativo dos casos COVID é mostrado em três
regiões do Norte da Itália (Vêneto [ou se traduzem todos os nomes próprios ou nenhum], Piemonte,
Emília) e três regiões do Sul (Campânia, Apúlia, Sicília) a partir do primeiro caso registrado. As seis
regiões têm uma população semelhante. A zona vermelha foi estabelecida 17-18 dias após o décimo caso
no norte da Itália e 6-11 dias após o décimo caso no sul. Decidimos não incluir no gráfico a Lombardia,
que, precisamente, devido aos atrasos e erros iniciais, experimentou uma situação muito mais dramática
(resultando em cerca da metade das mortes em todo o país).

Estas simples correlações foram amplamente confirmadas pela propagação do


vírus no resto da Europa e, sobretudo, nos países da América do Norte e do Sul. Em
todos os países, onde as estratégias de contenção haviam sido implementadas
tardiamente, o aumento exponencial inicial dos casos foi particularmente
dramático e prolongado.
Na Europa, imediatamente após a Itália, Espanha, França e Bélgica afundaram
no drama. Em muitos países nórdicos, nos quais o SARS-CoV-2 começou a circular
mais tarde e as contramedidas puderam ser adotadas mais facilmente devido às
características sociais e comportamentais específicas dessas sociedades, os efeitos da
pandemia foram e ainda são muito menos dramáticos.

Números e tendências: infecções e mortes


A maneira mais fácil de interpretar corretamente a evolução da pandemia e de
destacar a importância de medidas de contenção eficazes é partir dos números. Para
simplificar ao máximo, sublinharemos apenas o número de mortes registradas, mês a
mês, nas principais áreas afetadas pela pandemia.

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Em 25 de março, a OMS relatou um total de 4.000 mortes na Ásia. A maioria na


região de Hubei, na China, enquanto todos os outros países registraram algumas dezenas
de mortes. É possível dizer que os países do sudeste asiático conseguiram
imediatamente bloquear a cadeia de contágios e conter a primeira onda pandêmica. O
epicentro da pandemia logo se deslocou para o oeste do Irã, onde as mortes no final de
março foram quase 2.000, com mais de 100 mortes diárias (1.934/122). Na Europa, a
Itália foi o primeiro país a ser atingido severemente: em um mês, foram registrados
aproximadamente 70.000 casos e 6.820 mortes, 743 das quais em um único dia
(6.820/743). Além disso, os dados sobre o número de mortes na Espanha (2.696/514) e
na França (1.100/240) começaram a crescer drasticamente. Em muitos países nórdicos,
os números foram menos dramáticos desde o início. Em 25 de março, as mortes foram
149/23 na Alemanha, 36/11 na Suécia, 32/8 na Dinamarca. Aparentemente
tranquilizadores, foram somente os dados no Reino Unido (422/87), Holanda (276/639 e
Bélgica (122/34). Na verdade, a Grã-Bretanha ainda tinha poucos casos, mas estava
começando a mostrar um aumento preocupante de mortes diárias. Na Holanda e na
Bélgica, o número de mortes foi elevado, se comparado ao pequeno tamanho da
população.
A partir desses dados críticos, deveria ter sido possível prever a tendência da
epidemia nos diferentes países, simplesmente com base, por um lado, nas modalidades
de aumento dos casos e, especialmente, das mortes (índice indireto de alta carga viral
em muitos sujeitos envolvidos), e, por outro lado, nas estratégias de contenção adotadas,
sem a necessidade de questionar outros fatores hipotéticos (ambientais, climáticos,
genéticos etc).
Neste sentido, os dados mais instrutivos são aqueles referentes aos países
americanos. Também aqui, à primeira vista, a situação não parecia preocupante no dia
25 de março: Estados Unidos (673/202), Brasil (46/21), México (4/0), Peru (5/3),
Equador (27/12). Mas, em retrospectiva, a relação entre casos e mortes estava mudando
rapidamente e nos dias imediatamente seguintes, tanto nos Estados Unidos como no
pequeno Equador, houve um aumento muito rápido das mortes.
No entanto, tanto nos EUA (e na Grã-Bretanha) quanto no Brasil, os líderes
políticos declararam que queriam deixar a epidemia seguir seu curso "natural":
esta decisão foi baseada, pelo menos nos países anglo-americanos, em razões
"ideológicas" inaceitáveis em nível moral. Surpreendentemente, eles aceitaram,
darwinisticamente, o sacrifício de um certo número de idosos e sujeitos frágeis. De fato,

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se for permitido que um vírus pandêmico se propague na população, o crescimento


exponencial dos casos (e das mortes) corre o risco de se tornar rapidamente catastrófico.
Especialmente, diante de um vírus, como o SARS-CoV-2, que tem as seguintes
características que o tornam particularmente insidioso:
- um longo período de incubação e latência pré-paucisintomática (7-10 dias),
- a freqüente sintomatologia dos sujeitos infectados,
- a longa duração do período infeccioso.
Todos esses fatores não só facilitam a propagação do vírus, mas também
dificultam a avaliação do status quo, pois os dados epidemiológicos oficiais são um
efeito das infecções contraídas nas 2-3 semanas anteriores. É por isso que os dados
foram inicialmente enganosos. E é por isso que a situação inicial foi há muito
subestimada, especialmente nos Estados Unidos, Grã-Bretanha e Brasil.
No final de abril, o número de mortes na Itália havia ultrapassado 27.000; a
Espanha e a França haviam atingido 24.000 (os 3 países tinham cerca de 300 mortes por
dia). Mas os dados eram ainda piores, em relação ao tamanho da população, na Bélgica
(7.400/100), Holanda (4.750/50), Suécia (2.400/80) e especialmente na Grã-Bretanha,
onde em um mês tinha passado de algumas centenas de mortes para 22.000/350.
Mas, onde o drama começou a tomar forma em toda a sua gravidade, foi através
do Atlântico: os Estados Unidos passaram de algumas centenas de mortes para mais de
50.000/1.200 em menos de um mês, o Brasil para 4.300/200 enquanto os dados
começaram a se tornar dramáticos mesmo no México, Peru, Chile. Preocupante foi a
rapidez com que os dados pioraram: em 3 de maio os EUA haviam ultrapassado
62.000/5.000 mortes, Brasil 6.300/428, México 1.972/110. Enquanto na Europa o
número de infecções e mortes começou a diminuir, com exceção da Grã-Bretanha
(28.130/620), que iria superar a Itália (28.700/470), França (24.700/160) e Espanha
(25.100/270).
A Tabela 1 resume a situação perfeitamente:
Tab 17
Países 3 de junho 3 de julho 30 de julho
A: Total B: Total/ A: Total B: A: Total B:

7
Tab.1: A: Total de casos, B: Total / mortes diárias. Os países atualmente caracterizados por um rápido
aumento de casos e mortes são destacados (em negrito). Mais do que o número total de casos (afetados
pela alta porcentagem de casos assintomáticos e não reconhecidos, e pelo número de testes
disponíveis/performados), os dados mais significativos são aqueles referentes às mortes totais/dia. É com
base neles que selecionamos os países nos quais a pandemia ainda é mais ativa.

24
Lugar Comum – No 58 | Agosto de 2020

de casos mortes diárias de casos Total/mortes de casos Total/mortes


diárias diárias
India 207.600 5.815/ 625.000 18.210/380 1.583.792 34.968/775
215
Indonesia 27.550 1.663/ 59.400 2.990/53 104.432 4.975/74
22
Bangladesh 52.450 710/37 153.280 1.926/38 232.194 3.035/35
China 84.600 4.650/ 85.280 4.650/0 87.680 4.665/1
1
Philippines 19.000 966/6 38.800 1274/74 85.486 1.962/15
Russia 432.270 5.215/ 667.880 9.860/175 834.439 13.802/129
178
UK 278.000 39.370 283.760 43.995/90 301.459 45.961/83
/324
Italy 230.500 33.530 240.960 34.820/30 246.776 35.129/6
/55
Spain 240.300 29.860 250.000 28.370/5 282.641 28.441/5
/10
France 148.000 28.880 158.300 29.790/14 173.455 30.120/15
/107
Belgium 58.615 9.515/ 61.730 9.765/4 67.242 9.836/0
19
Netherlands 46.650 5.967/ 50.360 6.110/0 53.621 6.147/2
5
Sweden 38.590 4.470/ 70.640 5.411/41 79.782 5.730/28
65
Iran 157.560 7.940/ 232.860 11.000/148 298.909 16.343/196
64
Iraq 7.390 235/20 53.708 2.160/110 118.300 4.603/68
Egypt 27.530 1.050/ 72.000 3.120/86 93.356 4.728/37
50
South Africa 35.800 755/50 168.060 2.845/95 471.123 7497/240
USA 1.800.000 107.00 2.671.200 127.860/ 725 4.323.160 148.640/1191
0/760
Brazil 526.500 30.000 1.448,750 60.632/1038 2.483.191 88.539/921
/623
Mexico 93.430 10.170/237 231.770 28.510/741 402.697 44.876/854
Peru 170.040 4.630/ 288.477 9.860/183 395.005 18.612/194
130

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Lugar Comum – No 58 | Agosto de 2020

Colombia 30.500 970/30 102.000 3.470/136 267.385 9.074/297


Chile 109.000 1.190/ 284.540 5.920/167 351.575 9.278/38
75
Ecuador 40.400 3.440/ 59.460 4.640/112 83.193 5.623/39
480
Canada 92.150 7.340/ 104.200 8.590/0 114.994 8.912/11
40

TOTAL 6.287.771 379.94 10.710.10 517.877/5.032 16 812 662 095/5


1/3621 5 763 999

Interpretações e disputas. Entre o negacionismo e o complotismo

Estes números deveriam ser suficientes para entender a dinâmica do contágio e


da expansão pandêmica, e para entender o que acontece quando o potencial dramático
de um vírus pandêmico é subestimado e permite-se que circule e se adapte à nova
espécie.
No entanto, este não tem sido o caso. Durante meses, as interpretações mais
contraditórias e enganosas da pandemia em curso têm se sucedido.
Como já mencionado, sabíamos desde 2015 (Menachery, V., Yount, B.,
Debbink, K. et al., 2015) e especialmente desde 2017 (Hu B, Zeng L-P, Yang X-L, Ge
X-Y, Zhang W, Li B, et al., 2017) que o surgimento de uma pandemia de morcegos-
SARS-CoV era extremamente provável e iminente. Virologistas e "caçadores de vírus"
tinham dado o alarme de muitas maneiras e "planos pandêmicos" tinham sido
preparados em todos os lugares. Infelizmente, no Ocidente, eles permaneceram letra
morta. Devido às frequentes e profundas divergências interpretativas manifestadas pelos
"especialistas".
Seria difícil tentar resumir aqui o emaranhado de interpretações diferentes e
contraditórias. Os teóricos da conspiração e os negacionistas dominaram as ondas de
rádio por muito tempo: mesmo o doloroso drama americano não os convenceu a se
calarem. A impressão subjacente é que na origem desta perigosa confusão está um
profundo mal-entendido, mesmo entre os "especialistas", a respeito do que é um vírus
pandêmico. Muitos clínicos, epidemiologistas e até mesmo especialistas em doenças
infecciosas, no Ocidente, tentaram interpretar a evolução da pandemia usando os dados
clínicos e epidemiológicos. No entanto, eles não se deram conta de que um vírus que

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Lugar Comum – No 58 | Agosto de 2020

recentemente se alastrou – e está se adaptando rapidamente ao novo hospedeiro – é um


tipo de bomba relógio.
Na primeira fase, apenas uma pequena porcentagem da população é severamente
afetada, essencialmente em relação à carga viral (ou seja, a quantidade de vírus presente
de forma ativa/proliferativa nas vias aéreas superiores dos indivíduos infectados) e às
condições de seu sistema imunológico. Isto causa formas graves e potencialmente letais
somente em indivíduos que, devido a condições predispostas, sofrem uma reação
imuno-inflamatória paradoxal: Tempestade de Citocinas, Ativação de Macrófagos e
Coagulação Sistêmica Intravascular (Merad, M., Martin, J.C., 2020). Mas, em poucos
meses, devido a variações genômicas mínimas adaptativas do vírus, a um controle
insuficiente das cadeias de transmissão das infecções e a uma reatividade imune alterada
em muitas pessoas, a situação pode mudar radicalmente. Neste caso, como na segunda
fase da gripe espanhola, mesmo os indivíduos apenas levemente afetados até hoje, como
crianças e jovens (Dong Y., Mo X., et al. 2020), poderiam desenvolver as reações
inflamatórias sistêmicas, que são de fato a causa real dos casos críticos.
Este seria o chamado "pior cenário possível", que deve ser levado em
consideração, devido à possibilidade de o vírus retornar (como em 1918/1919) para
circular por toda parte com cargas virais similares às inicialmente registradas nas áreas
mais afetadas.
É justamente sob esta luz que surge o grande perigo ligado às muitas "negações"
e interpretações enganosas. De fato, é também por causa dessas controvérsias que os
tomadores de decisões políticas podem não agir nos próximos meses no sentido de:
1) Garantir sistemas de saúde, organizar faixas de acesso alternativo e
departamentos de saúde dedicados (Miani A., Burgio E. et al, 2020);
2) Preparar dispositivos de proteção adequados para todos os operadores de
saúde e ferramentas de diagnóstico e protocolos terapêuticos devidamente validados e
padronizados (Sanders, Monogue, Jodlowski, Cutrell, 2019),
Se isto não ocorrer, a comunidade científica continuará a se mostrar
despreparada para enfrentar este drama epocal de uma maneira correta.
O problema é que as abordagens ideológicas e políticas prevalecem mesmo
nestes casos, como vimos em 3 meses de debates e controvérsias estéreis. Estes devem
ser colocados de lado para o "bem comum". Há razões biológicas, genéticas e
epigenéticas precisas que determinam o potencial desses agentes biológicos. Alguém
dirá que isto é reducionismo, determinismo: exatamente aquilo contra o que temos

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Lugar Comum – No 58 | Agosto de 2020

lutado durante décadas. Bem, mais uma vez fica evidente que uma abordagem
reducionista/molecular é tão essencial quanto uma abordagem sistêmica.

Os quatro cenários e conclusões

Como já dissemos, é difícil fazer hoje um resumo desses primeiros 6 meses da


pandemia. É ainda mais difícil tentar imaginar o que acontecerá nos próximos meses ou
anos. Isto é complicado porque ainda não sabemos o suficiente sobre as origens,
natureza, tendências evolutivas/adaptativas deste vírus. Certamente aprendemos muito
sobre os mecanismos patogênicos, mas não o suficiente sobre os fatores que
determinam a temida reação imuno-inflamatória, especialmente em jovens e crianças,
sendo a chamada COVID-doença Kawasaki o exemplo mais emblemático disto
(Verdoni, Mazza, et al., 2020). Ainda menos previsível é o status imunológico em nível
populacional, dado que até o momento parece que, mesmo nas regiões mais afetadas, os
níveis de proteção imunológica limitam-se a menos de 30% da população afetada e
somente à parcela que teve formas sintomáticas.
Finalmente, se quisermos tentar enquadrar a pandemia do SARS-CoV-2 de uma
forma cientificamente aceitável, teríamos que colocar a hipótese de pelo menos 4
cenários possíveis.
O primeiro cenário é, inicialmente, apoiado também por pneumologistas,
especialistas em doenças infecciosas, imunologistas e até mesmo alguns virologistas, de
um vírus respiratório emergente semelhante a muitos outros, potencialmente não pior do
que um vírus influenza comum. No entanto, teve efeitos mais graves devido a alguns
erros de avaliação inicial, à implementação tardia da contenção e à insuficiência das
unidades de terapia intensiva. Em nossa opinião, uma análise um pouco mais cuidadosa
dos dados epidemiológicos, aliada a todas as razões biológicas (inerentes tanto ao vírus
quanto às reações do novo hospedeiro), torna esta hipótese absolutamente improvável.
O segundo cenário é o mais provável ou o mais acreditado até o momento: o
SARS-CoV-2 é um novo morcego-coronavírus que fez o alastramento (como esperado
durante anos), adaptando-se em poucos meses ao novo hospedeiro (Andersen, Rambaut
et al., 2020). É importante salientar que o novo vírus tem todas as características
esperadas e temidas, e é capaz de produzir muitos danos. Basta pensar na última vez que
um vírus fez o alastramento e se espalhou com rapidez (contagiosidade) e virulência
semelhantes na história recente: foi em 1918 e todos nós conhecemos as conseqüências.

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Lugar Comum – No 58 | Agosto de 2020

O terceiro cenário, agora posto de lado por razões politicamente corretas, é o de


um acidente de laboratório. Aqueles que lidam com estas questões sabem que durante
anos foi reivindicada uma moratória (provavelmente inútil e até perigosa) sobre os
experimentos que geram vírus muito semelhantes ao SARS-CoV-2. No entanto,
acidentes semelhantes ocorrem todos os anos (muitos dos quais são devidos a erros
humanos e técnicos). Em nível científico, a presença das 8 mutações-chave na seqüência
que codifica a proteína Spike, proveniente do vírus de outro animal, talvez o pangolim
(Tao Zhang, Qunfu Wu, Zhigang Zhang, 2020), torna este terceiro cenário plausível.
Pelas mesmas razões, é impossível descartar um quarto cenário: o de uma liberação
intencional. Naturalmente, isto nos levaria a conclusões completamente imprevisíveis e
poderia afetar nosso futuro de forma ainda mais dramática (Furmanski, 2014).

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Lugar Comum – No 58 | Agosto de 2020

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