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HISTÓRIA E PSICANÁLISE

ENTRE CIÊNCIA E FICÇÃO

Michel de Certeau

COLEGÃO HISTÓRIA E

autêntica
MICHEL DE CERTEAU (1925-1986) é, com toda a uma das figu-
Escola Francesa na área
ras mais singulares - pManto, mais importantes- da
quer que seja nem ter
da histona. Sem ter esperado o salvo-conduto de quem
solicitado a aprovação dos guardiões das diferentes disciplinas, ele atravessou
as fronteirasentre os campos do saber ao se alinhar contra o empobrecimento
da história por confinamento e ao assegurar sua indispensável abertura a outras
áreas do conhecimento- aliás, o que se converteu,atualmente,em prática
corrente.Trouxe um olhar incisivo sobre o intercâmbio dos métodos, objetivos
e modelos que determinam as maneiras de escrever a história.
Dessa indagação incessantemente retomada, desse vaivém entre pas-
sado e presente, os textos reunidos neste volume entrelaçam os fios: tratam
de Foucault,Freud e Lacan, mas também da análise do poder,do corpo, da
bucura e da ficção na história.Em vez de uma tentativade misturar- entre
história,psicanálise, linguística ou antropologia os géneros e os métodos,
ou até mesmo de embaralhar as identidades dos saberes, Michel de Certeau
empreende o deslocamento necessário de um conhecimento para outro, a fim
de acompanhar uma questão que, tendo surgido em determinadodomínio,
não recebeu tratamento satisfatório. Este livro traz a marca de uma exigência
-- rara - de pensamento.

autêntica
ISBN 978-85-7526-4854)

9 788575 264850
0 historiador Michel de Certeau não se
limitou,durante sua vida, apenas à sua disci-
plina. Aprofundou-se em outras áreas, como
filosofia e psicanálise, para intentarresponder
satisfatoriamente a suas dúvidas e descobrir
o melhor caminho para suas investigações,
Com incrível capacidade e competência
para permear os diversos campos do saber,
De Certeau tornou-se referência para a Es-
cola Francesa não somente na história: ele
comumente analisava questões que ultra-
passavam seu campo inicial de atuaçáo, por
acreditarque a contribuiçãode estudiosos
da histórianão deve ser limitadaapenas às
condições previamente determinadas pelos
princípios da disciplina estudada. Para ele, o
caminho correto de qualquer estudioso reside
na análise de uma moldura histórica, que
consiste em verificar o contexto cultural, a
hierarquia de saberes e a gestão social e de
encargos para orientar o pensamento.
Em uma de suas travessias pela psica-
nálise, Michel de Certeau, com sua caracterís-
tica exigência, produziu esta obra, que propõe,
na primeira parte, uma análise da relação entre
a históriae a psicanálisee se aprofundanas
questões abordadas em sua obra A escrita da
história (Forense Universitária, 2008), a fim de
refletir sobre a maneira como o historiador
concebe e pratica seu ofício. A segunda
parte
do livro traz textos acerca das
obras de Michel
Foucault, autor admirado pelo
historiador, e de
Jacques Lacan, que, após seu
falecimento,
ganhou um artigo e uma homenagem —
de Michel de Certeau.
Michel de Certeau nasceu em Chambéry,na França,
em 1925, Formou-se em Filosofia, História, Teologia e
Letras Clássicas nas Universidades de Grenoble, Lyon
e Paris. No entanto, seus estudos nunca se limitaram
apenas aos campos de atuaçáo em que se formou,
Enveredou-se pela psicanálise, pela linguística, pela
antropologia e por outras disciplinas para responder
satisfatoriamentea suas investigações, Com seu
método de estudo, tornou-se um dos mais impor-
tantes historiadoresda França, Faleceu em Paris,
em 1986, deixando importantes contribuições para
a produção do conhecimento histórico e um legado
de obras fundamentais para a história.

Leia também, da coleção


História e Historiografia

Doze lições sobre a história


Antoine Prost

Evidência da história
0 que os historiadoresveem
François Hartog

A leitura e seu público no mundo contemporâneo


Ensaios sobre História Cultural
Jean- Yves Mol/ier

Lugares para a história


Arlete Farge

0 pequeno X
Da biografia à história
Sabina Loriga

são... lá, no outro lado?


Que horas
limiar da Época Moderna
América e Islã no

Serge Gruzinski

livros da coleção em:


Veja mais
grupoautentica.com.br
www
História e psicanálise
entre ciência e ficção
Coteçáo
HISTÓRIA & HISTORIOGRAFIA

Coordenaçóo
Eliana de Freitas Dutra

Michel de Certeau

História e psicanálise
5, entre ciência e ficção

Precedido de "Um caminho não traçado" por Luce Giard

TRADUÇÃO

Guilherme João de Freitas Teixeira

2 0 edição
30 reimpressão

autêntica
pela edlÇ50 e e
1987 e 2002
seooy09htO Gt,wd
traçado*por
camoho nio

psÑvoaIyse entre soence et ticnon


Hl$toiteet
Editora Ltda. Nenhuma parte
reservadospeta Autêntica
direitos seja por meios mecânicos,
poderá ser reproduzida,
desta pubticaç&ocópia xerográfica, sem a autonzaçao prévta da Editora
seja Via
DE TEXTOS
coctçAo HISTORIA
COORDENADORA OA Hugo Maciel
HtstORi00RAflA Vera Chacham
Ehana de Frettas Dutra
CAPA
RESPONSAVEV
Alberto Bittencourt
Repne Dias (Sobre Imagem de David Morgan)
EDITORA ASSISTENTE DIAGRAMAÇÃO
Cxilia Martins Conrado Esteves

REVISAO DA TRADUCAO
ElianeMarta

Dados Internacionaisde Catalogaçào na Publicaçào (CIP)


(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)
De Certou. Michel. 1925-1986
Histonae psicanálise: entre ciência e ficçào / Michel de Certeau , traduçáo
Gulherme Joao de FreitasTeixeira. - 2. ed. : 3. remp. -- Belo Horizonte : Autêntica,
2023. (Coleçao História & Histonografia ; 3)

Tltuo «tganal. Htstotreet psychanalyse: entre science et fiction.


Bóliografia.
ISBN

1. Michel, 1929-1984 2. Freud, Sigmund, 1856-1939 3. História-


pstcológjcos4, Historiografia 5. lacan, Jacques, 1901-1981 6. Psvco-htstória
Ekana g. Giard, luce. Um caminho nao traçado. III. Titulo. IV Séne

11-0,'88t CDD.9019

Indice para catálogo sistemático:


1. Psicanálisee ciência : História 901.9

Ô GRUPOAUttNTiCA
Belo Horizonte
SSo Paulo
Rua Cados Turner,
420 Av. Paultsta, 2.073 . Corvito Nacional
Horsa I r Sala 309 . Bela Vista
H«izonte . MG
31)
(SS 11) 3034 4468
VI..Vu1tentka com
SUMÁRIO

"Umcaminho não traçado" por luce Giard.. 7


A travessiadas disciplinas.....,... 9
lugares de predileção e de aiustamentos............ 14
O encontro com a psicanálise.... ..... .. 19
Psicanálise e história da espiritualidade... 29
Sobre a edição desta coletânea...... 36
Capítulo I —A história, ciência e ficção... ... . 45
"Ficções" 45
O legendárioda instituição....
Cientificidade e história: a informática......... ..... 54
Ciência-ficção ou o lugar do tempo.......... 62
Capítulo II —Psicanálise e história..........
Duas estratégias do tempo.... ..... ..
Freude a história........ 74
Tradições.................. 78
Derivas nacionais... ... 81
Deslocamentos e perspectivas.... ..... ..... ... 86
Capítulo III —O "romance" psicanalítico.
História e literatura.... .. .... 91
Pressupostos 92
Da "cientificidade"ao "romance" 94
Tragédia e retórica da 97
A biografia anti-individualista.......... .100
Uma estilística dos afetos............ ..
. 102
O poema e/ou a instituição...... . 106
Crer na escrita...
.110
Capítulo IV —O riso de Michel Foucault
Uma prática intelectual..
. 118
Práticas do poder.... ..... ....
123
Capítulo V —O sol negro da linguagem: Michel Foucault...
131
O sol negro...
Do comentário à "análise estrutural"
.132
As descontinuidadesda razão
135
141
Os equívocosda continuidade:a "arqueologia" 142
Ids
Cop.%cioVt Microtécnicas e dtscurso panOpt;co:
emgupoqu6.
e dos
Mtcrc•cnecos de gyoex,öc de uma EccOo
Cop;tao Viet HistOria e estrutvra..
uma h.s!önca.o d 'eren;a
do se:'o
A do passodo historyco
A o: presente 166
A e secs cone
ce d &estrvtura")
('a crooolc•3.a
corrp:emetoyesapes os pa!esfras dos ou'rcs
172
se s.a concepsöo de h,s'Sna nao e
oeecsodo
175
Ccpt•Oo —O do historic. ...e... • 179
A cr%o. sego,rocåo. 179
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186
Ccp.'t.io(X -eA da podridäo: luder.-
(eye-derv'} P e mis%ca
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218
221
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A tw;o d"' 227
iqcos
pol;hcodo 229

233
truce onom6st;co
251
"Um caminho não traçado"
por Luce Giard

as fronteiras entre os campos do saber con10 se tal atitude fosse, para


ele, uma evidência: eis o que será demonstrado, de tortila concreta,

salvo-condutono posto fronteiriço,tampouco enl solicitar a auto-


rizaçào dos guardiões de determinado feudo: sem ostentação. netil
proclamaçõesde princípio, avançavacom um passo firme. corno se
não houvesse em sua mente qualquer motivo para a nunilna hesitação.
totalmente ocupado em descobrir o melhor percurso dc investiga-
ção. Nessa atenção concentrada sobre seu objeto de reflexão, havia
uma força, um ela contagioso, mediante os quais ele Inostrava que
o assunto era algo demasiado sério para proceder de outro rnodo,
além do que o tempo era meticulosamente calculado para aceitar
qualquer tipo de tergiversação.Quando adolescente,ele tinha gosto
pela esgrima e pela prática do montanhismo nas encostas dos Alpes
de sua Savoia natal; ora, segundo parece, essas duas atividades marca-
ram sua maneira de proceder nas coisas do espírito. Ou, talvez, todas
as atividadesdo corpo e da mente tivessemacabadopor fundir-se
em uma unidade, fazendo apelo a essasqualidades cuja conjunção
conferia um "estilo" Immitável ao trabalho de sua inteligência, Por
ocasião de seu falecimento, Marc Augé fez dele a descrição mais justa,
ao saldá-lo como ' 'unia inteligência sem Inedo, sem cansaço e sem
orgulho" (1987, p. 84).
Ele chegou a ser criticado, às vezes, por não ficar nem dentro
nem fora, por não habitar inteiramente qualquer um de seus papéis

7
identidade profissional, por
sido exigidospor de textos produzidos. co:no
't que teriam e pela profusão
percurso rápido,
tomadasde posiçãoreferências precisas, nesse
obter
seria possível balizadopor uma ampla produção de escritos?
sucessivarnente,
variado,
irão apresentá-lo a seus leitores,
Com efeito,estes fontes do primeiro século de sua Ordenl
das
comojesuíta,editor como historiador da mística da Renas-
(1540-1640) e, em seguida,
mas também, como um homena
de seu entre
cençaaté a Idade Clássica,
das sociedades contennporâneas
observação constru
' século,apaixonado pela
Latina;l como um cristão "abalado" pelos ou tro,
na Europae na América
por avaliar o a,wior- área na
acontecimentosde Maio de 1968,impaciente
namentoa ser realizado;e, em seguida, ainda como um historiador to sat1St
que perscrutaa especificidadeda epistemologia da história; corno identid.
um espíritogenerosoque se questiona sobre a construção do vín- niétodo
culo soctal e a afirmação das diferenças no espaço público; ou, de ciencia
forma ainda mais surpreendente, como um admirador das "artes de conh
de fazer"que organizama vida cotidiana, obstinado em justificá-
-Ia,de maneiraerudita,no nível da teoria, por uma montagem de não
categoriase de procedimentos pedidos de empréstimo às últimas o quac
proposiçõesdas ciências sociais e hurnanas. 2 Essa mobilidade e social dc
essa exigência de pensamento davam, às vezes, a impressão de onentar
vertigem,suscitandoa suspeitade descobrir nesse procedimento para sua
uma inconstânciaprimordial ou, talvez, uma subhnha
superficialidade dis-
simulada.Estejesuíta historiador, tão referênci
pouco comum, despertou rência
em alguns a lembrança de uma
historiografia, herdada das Luzes e função e
retomadano século XIX, hostil
à Companhia de Jesus, considerada periodic;
então como inteiramente
inscrita na arnbiguidade. A explicação, para regu
um tanto sumária,nada
tinha de surpreendente: historiadorese as relaçbc
sociólogosjá haviam
mostrado, há muito tempo, que nunca é da impor
simples subtrair-seao pacto social
que gerencia a estabilidade das área do s
de legttin
Nt:Sobte v:agens de M}€bel
tais mare;
de Certeau ao Brasil, VIDAL,2008. E também, DE ÇERTLAU
et 1adi,tature
enAmérique latine", au
, @
in Études,1967, métodos
de de de
pancirirnícádeestudo' e 2. Referências sobre
sobre a obra de Michel de Certeau,vef as coietàneasindicadas
199,8, da 49, março.abril,
1991 e
identidades e suas representações. Para explicar seu procedltnento,

dar 4'um passo para o lado".

A travessia das disciplinas


Como e por que motivo um tão grande núlnero de viagens
entre disciplinas, lugares de interrogação, Inanenrasde telnatlzar e
construir questôes transversais?Ele deslocava-sede urn saber para
outro, por necessidade, a fim de seguir uma questão surgida eni outra
área na qual, em seu entender, ela não havia recebido una tratarnen-
to satisfatÓrio.Nem por isso ele tinha a intenção de enlbaralhar as
identidades das diferentes disciplinas;nem pregava a nustura dos
métodos e dos saberes em nome de uma definitiva unidade da cons-
ciencia ou em virtude da condição comum a todos os sujeitos dotados
de conhecimento. Historiador atento ao que chamou de "operação
historiográfica" (ECH, 1984a) para designar as condições reais (e,
não mais, de princípio) em que se exerce tal oficio, ele insistia sobre
o quadro histórico (contexto cultural, hierarquia dos saberes,gestão
social dos lugares e dos encargos);com efeito, tal moldura é que vai
orientar qualquer disciplina,além de contribuir consideravehnente
para sua definição e seu recorte —mesmo que os especialistas prefiraili
sublinhar a validade de tradição de pensamento que lhes serve de
referência assim como para sua economia interna e para a coe-
réncia das distinções estabelecidasem seu âmago. Ele reconhecia a
função e a utilidade dessa série de diferenças e de atos de separação,
periodicamente revista por ocasião da emergência de novos saberes,
para regulamentar, em cada domínio, os usos internos à profissão e
as relações de vizinhança com as outras disciplinas.Ele estavaciente
da importáncta atribuída por todos os especialistasde determinada
área do saber às tnarcas de reconhecimento e aos procedimentos
de legltnnação,a fim de receberem a respectivaidentidade;aliás,
ta:s marcas e procedimentos podem servir-lhes de suporte para
estabelecerementre si um acordo mínimo a respeito de princípios,
métodos, vocabulário técnico, ou seja, um verdadeiro aparato que
permita, em primeiro lugar,o acúmulo das experiências,assimcomo
dos resultados e. em seguida, a circulação desse acervo sob uma forma

9
e.xphcattva.O olhar
formulação de urna teoria
cx»ndcnsada, graçasà
Certeau para a Vida dos saberes —
perspicazlançadopor De da historiografia, na fanuliarldade
clósicos
ído pela meditação século XVII e dos tratado« de Illétodo no
dos grandeseruditosdo cornplernentado por outras leituras tilais
iníciodo séculoXX era
relacionadas com a filosofia e a sociologia das ciênctav
inesperadas,
Popper (1973), Thomas Kuhn (1972) ou 13runo
em particular Karl iconoclasta sob o sol calitor:uano.
desde seu começo
Latour(1979),
dessa influência será percebido tnais abaixo, especiahnente
O eco
Foucault.
nos capítulos dedicados a Michel
Essaconsciênciada historicidade inscrita na definição dos
métodose na maneirade recortar objetos de pesquisa incitava-o a
rejeitarasacralizaçãodo valor cognitivo das práticas peculiares de de-
terminadadisciplina.Ela conferiu-lhe a hberdade de desvencilhar-se
das condicionantes impostas por essas práticas. Conduzido, às vezes,
pela lógica de suas questões, a afastar-se das respostas já conhecidas,
nem por isso ele renunciavaa considerar o questionamento for-
muladoe obrigava-sea continuar o trajeto do pensamento fora
das
fronteirasda história,sua disciplina de referência; esse
não confor-
mismo intelectual dizia respeito tanto ao tratamento
da problemática
adotadaquanto à escolha inicial das questões
a serem abordadas. Ele
nãose deixavademar de certas
questões em razão de julgamentos
estabelecidos,prontos a desqualificaruma "questão
poucoaceitávelnas formulações antiga" porque
atadas a um estado de saber mais
recente,consideradocomo
mais avançado ou científico. Ele julgava
tal dffqualificação,
quase sempre acompanhada
em relaçãoa por certo desdém
"problemasfora de
incapacidade, moda", como o disfarce de uma
como um receio
questãopudesse inconfessável,O fato de que uma
ser dificil de
sentenão lhe articular nos enunciados do saber pre-
pareciaum motivo
de sentido;o suficiente para declará-la destituída
contrário é que
aindaseria lhe parecia mais verossímil. Neste caso,
necessáriocolocar
da questão à prova tal presunção pela abordagem
medianteoutro
sobre caminho, pela mudança de perspectiva
problemas
entradano visados; tais
terrenode procedimentos tornavam possíE1 a
próprios outra disciplina,
instrumentos. assim como 0 recurso a seus
CAS'Nt-•g3 tRACACO" poa GAR FO

Era assim que deveria ser entendida a ironia velada de sua


expressão,situando a história em algum lugar "entre ciência e fic-
çào". Ao utilizar essa fórmula inesperada,ele não estava anilnado
pela vontade de rebaixar o estatuto epistémico da história, luas
entendia simplesmente levar ern consideração a profundidade das
questÕesformuladas, para não dizer resolvidas, em seu âmago. Mais
do que ao brio de um escritor, a fórmula remetia a um elernento
essencialem sua concepção da história, cuja análise é desenvolvida
no primeiro capítulo desta coletânea. Por ser levado a atravessar as
fronteirasdas disciplinas unicamente pela necessidade do trabalho
em curso, ele não sucumbiu, de modo algum, à tentação de erigir-se
em porta-bandeira de um discurso de princípio sobre as virtudes
da interdisciplinaridade;pelo contrário, desconfiavasobremaneira
dessegénero de grandiloquência,do mesmo modo como desafiou
grandesproclamações que, durante algum tempo, haviam acompa-
nhado o recurso à informática. Mas nem por isso era passadistaem
sua metodologia e epistemologia. Ele não negava aos historiadores
a possibilidadede utilizar essesnovos meios de coleta e tratamento
de dados em grande escala,que podiam conduzi-los a conclusões
inatingíveispor outras vias; mas ele julgava indispensável refletir
nos considerandos desse recurso a fim de afastar os equívocos, ao
explicarque "a homenagem prestada ao computador apoia a antiga
ambiçãode levar a aceitar o discurso histórico como um discurso do
real".O perigo designadoera o esquecimentoda historicidade;daí
viria a ignorância dos limites e da fragilidade de uma representação
do passado.Ele retornava frequentemente a essa alusão ao "real",
como ilusãoe chamariz das interpretações,a propósito da história
ou da psicanálise, como se ambas, submetidas às mesmas
tentações,
oferecessemaos respectivos praticantes a ocasião da mesma lucidez.
Ao atravessaro campo de uma disciplina,ele esforçava-se
em
permanecer fiel à sua própria disciplina,fazendo questão de
redizer
sua identidade de origem e os limites
de sua competência para evitar
qualquer ambiguidade e qualquer legitimidade inconsistente.
Na sua
reflexãosobre ahistoriografia,
ele se voltou com predileção para a
psicanálise;nessa disciplina,foi
atraído não pela psico-história dos
homens ilustres'—inaugurada
por Freud e Bullit, ao relatarem o caso
estudiosos nenl
para alguns
daq rnc•ntalldadeq
do presidenteWilson,e sobre os segredos
(unia tentaÇáO Inscrita
por considerações gerais pela psicanálise
seria facilitado historiadores conseguiram
cujo acesso nem todos os
de Jung à qual sobre o Freud Instonador,
na linha ele optou por de exercer o
Por sua vez, psicanalista vienense
a tentativa do alguns
melhor, sobre ter lido,
ou assim, além de alenlão —
oficio de historiador; original em
quase sempre na versão
de seus textos -- detalhado sobre dois exemplos desse trabalho
dedicouum estudo focalizou-se,por um lado, no último livro
histórico.Sua atenção (1939), que comenta a história bíblica
Moses
de Freud,Der Mann judaico, e, por outro, em um caso de
monoteísmo
de Moisése do (ocorrido em 1677-1678, na Austria
neurosee possessão demoníaca
por Freud, em 1923. Os dois textos privilegiados
católica),estudado competências:
diretamente com suas
remetem a áreasque têm a ver
figurade Moisésé familiara qualquer teologia cristã do Antigo
a
Testamento;por sua vez, Haitzmann, o neurótico de 1677, não é
muitodiferentedos possuídosde Loudun, em 1634, cujo processo
1990; voltarei a este assunto mais
foi estudadopor ele (DE CERTEAU,
adiante).Seus dois capítulos sobre Freud, ao abordar Moisés e a
neurosede Haitzmann, formam a última parte de seu livro L'écriture
del'histoire(1975),repositório principal de sua teorização acerca da
disciplina,
o que mostraa importância que ele atribuía a Freud em
sua reflexão sobre a historiografia.
A contrario,
poderemosobservar que ele não se interessou, da
mesmaforma,por outros textos em que
Freud dava sua explicação
sobrea históriado movimento
psicanalítico; com certeza, chegou
a prestar-lhes
certa atenção,ao mencioná-los no capítulo II, mas
sem relacioná-los diretamentecom as implicações de uma "escrita
da história".Aliás,
convém sublinhar que sua relação com a psica-
nálisenão selimitava
ao estudo de uma herança
Freud,masque textual, legada por
ele manteve
o círculo verdadeiros vínculos, na França, com
vivo dos
ter desejado psicanalistas (ROUDINESCO,
1994b), sem nunca
agregar-sea tal
grupo como psicanalista profissional;

0 biogtaphie

i2
POR100 GA"

àquelesque manifestavam espanto por essa atitude, ele respondia que


desejavaestar etn todos os lugares ao mesnno tenipo. Durante
todo o período de sua vigência, ele pertenceu à Ecole Freudienne
de Paris (1964-1980), fundada por Jacques Lacan, a quenn é dedi-
cado o último capítulo desta coletânea. Ele se inspirou nos escrito«
destepsicanalista,que lhe serviram também de apreciávelestímulo;
por sua vez, nessa Ecole encontrou interlocutores que vieralll a ser
importantes para sua reflexão. Ele participou das diferentes ativida-
des promovidas por essa instituição: grupos de trabalho e círculos
de discussão;contribuição em seminários, colóquios e encontros;
publicaçãode conferências em diversasrevistase de volumes asso-
ciadosa essarede. Foi um membro presente e ativo, sem deixar de
conservar sua identidade de historiador, evitando qualquer confusão
relativamente a seu status,empenhando-se em afastar dele qualquer
supostacompetência como analista,conforme é sublinhado,rnais
adiante,no capítulo III: "Historiador de oficio, ou membro dessa
Ecole desde sua fundação, nem por isso sou mais 'apto' para falar de
Freud ou ser considerado como um de seus representantes"
Ele atribuía uma grande importância a essa maneira de atra-
vessarum lugar de saber, sem ter direito de residir nele, sem ser
titular de um discurso "autorizado", legitimado pela filiação a esse
saberinstituído. Sem ter hesitado em viajar entre as disciplinas,ao
mesmo tempo ele rejeitavamanter uma posição de destaque,da
qual teria conseguido proferir um juízo definitivo sobre cada uma
dessasáreas, servindo-se, à sua vontade, de seus métodos e instru-
mentos.Eis o que é demonstrado pelo campo, voluntariamente
limitado,de sua reflexão como epistemólogo: esta se refere somente
à disciplinada qual ele possuía uma experiência de primeira mão,
ou seja,a história dos séculos XVI e XVII que ele havia praticado
diretamente nas fontes, nos arquivos e na literatura da época. Se ele
evitou construir uma epistemologia geral, é porque este género de
discurso lhe parecia tão precário quanto o dos defensores generalistas
em favor da interdisciplinaridade.Essa modéstia voluntária de seu
desígnio,associadaao distanciamento em relação às instituições do
saber,caracterizavasua conduta do percurso intelectual, à maneira
de um fronteiriçoque, não estando completamente de um lado,

13
sua liberdade de iii0VIiiicnto ent rc
netn do outro, conserva que a h'%tórja estava
Considerando
metos e culturas, pesqujsa c dc seus qucsoonajnct)tos,
de sua
arraigada no centro posiçáo-cbavc etn sua rcflcx:jo, No
atribuía-lhe explicitanjente de poder
deter ulna parcela no cerne da
entanto,nunca procurou enj rclaçáo à qual CICconservou urna
úvqtituiçiodos historiadores,
àquela que mantinha diante de outras Instituiçócs
atitude setnelhante político que havia frequentado ou
ou cajnpo
pstcanáltse,teologia essas institutçóes, cle mostrava ujna
relação a todas
atravessado,Em respeito social, de exjgéncja ética
particular, de
miscelânea,bastante
drstanctatnento crítico, que jrnpunha certa rc«erva e suscitava
e de tnistenosa forma de liberdade.
garantindo-lhe urna
a desconfiança,

Lugaresde predileção e de ajustamentos

Essaliberdadede movitncntos c«tava a serviço de um traba-


lho -- preciso,exigente, desdobrado entre a história, a linguística,
a antropologiae a psicanáli«e,para nojnear as disciplinas mals
frequentadas de pesquisa.Ainda será necesqário acrescentar a
filosofiae a teologia,presentespor toda parte no substrato de uma
amplaerudição e na estruturação do pensarnento: ambas haviam
sidoobjeto de uma dupla formação inicial adquirida na univer-
sidade,em Grenoble e em Paris;em seguida, no Institut Catholique
de Lyon —completada e aprofundada na Cornpanhia de Jesus, se-
gundo o currículo habitual dos jovens jesuítas. A especialização em
históriaocorreu durante o doutorado, preparado
na Ecole Pratique
des HautesÉtudes com Jean Orcibal,
dedicado ao diário espiritual de
PierreFavre(1506-1546), um
dos primeiros companheiros de Inácio
de Loyola,Essasólidae
vasta formação explica, também, a origina-
lidadedo historiador,
sua mobilidade e habilidade para atravessaras
fronteirasdos campos de
saber,sua capacidade em associar diversos
recursose em ter sido aceito
sobretudo, em diferentes círculos intelectuais;
explicao olhar lançado
historiográfico sobre a teorização do projeto
e esseconstante
das práticas desejo de elucidar o emaranhamentO
intelectuais,
semconcessões,era religiosas, políticas e sociais. Esse trabalh0'
sutile adaptável, empreendido, inclusive, na escrita de um testo
diferenciadoe complexo,
que exigia do leitor
'UM TRAÇADO"PORLIEt GARD

uma verdadeira atenção, seni deixar de atraí-lo e encantá-lo por sua


inventividadee por seu arrebatarnento poético.
Suas pesquisas cujo objeto foi ora a língua dos textos místicos,
ora as"artes de fazer" do cotidiano, ora a investigação sobre o estudo
dos dialetos pelo abbé Grégoire, figura influente durante a Revolução
Francesa,ora os tumultos políticos das sociedades contemporâneas,
na América Latina ou na própria França, para limitarmos a lista a
algunsexemplos -- despertaram, uma por uma, o interesse dos espe-
cialistasdo domínio em questão;mas, em todos essescomentários,
a coerência e a unidade da obra inteira nem sempre foram bem
percebidas.No entanto, houve unidade de intenção e de aspiração,
em torno dos "lugares de predileção e de ajustamentos" —se me
permito, aqui, pedir de empréstimo essas expressões familiares ao
vocabulário dos Exercíciosespirituaisde Inácio de Loyola, fundador
da Companhia de Jesus.5 De um campo de objetos para outro, de
uma pesquisa para outra, através de uma pluralidade de disciplinas e
de métodos, a viagem do pensamento esteve associada,em Michel
de Certeau, a duas fontes ou, se preferirmos, a dois nós de indaga-
ções conjugadasque haviam sido reconhecidasno tempo de uma
formação multifacetada e permaneceram centrais durante os trinta
anos de uma fecunda carreira.6 Considerado sob esta perspectiva,
o deslocamento entre domínios de saber referiu-se, apesar das
aparências,não tanto à escolha dos temas de reflexão -- bem cedo
definidos mas à busca de um terreno propício para sua elucida-
ção e sua apreensão por procedimentos explicitados e controláveis.
A primeira fonte de predileção foi a literatura mística;assim,
Michel de Certeau nunca deixou de ler, reler e meditar o corpus
da tradição cristã, principalmente nos autores da Renascença e da
Idade Clássica.A impossibilidade de satisfazer-se com instrumentos
habituaisde análise para abordar essestextos enigmáticos e não

'€ Em seu texto, Françotse Choay elogiava em Artes defazer (INQ o artista —sem dúvida,
um maioresde nosso tempo pela graça de um permanente contraponto entre o rigor de gla
escrita e a riqueza das metáforu que o animam, sem nunca imobilizar-se em sistema" (p 86-87, t 991),
DÉ du désir ou le 'fondement' des Exetcices spirituels", 1973.
4 A lyu de suas publicações incluindo as traduções elevava-se a 422 títulos, em junho de 1988:
Luce complete de Michel de Certeau"i in GIARD, 1988.Depois dessa data,
foram pubhcadasnumerosas traduções em vártos idiomas e diversasnovas edições em francês,

15
questionar seu rnistério obrigou-o a Viajar
tendo renunciado em procura de recursos de investigavào
disciplina, à
de disciplinapara desafio era não o ' 'desejo de saber"
teorização, O
e de modos de testernunhavarn esse« récitse essas
qual "realidade"
qualquer preço de analisar/expor sua particulari-
mas a vontade
efusõespoéticas, controláveis e repetíveis, a
procedimentos
dade por tneio de peculiar desses escritos. Não
respeitar a originalidade
de nomear e "testemunha" privilegiada, arauto do
pretendia apresentar-se con10
derradeiro desses textos, mensageiro capaz de decifrar os
sentido
no recôndito dos escritos Dísticos; nada
segredos divmos depositados
teria sido tão estranho.Afastou conl insistência, tanto quanto
lhe
pretensão, via em ação uma forma de
possível,tal suposição;nessa
Seu principal livro sobre a
impostura,um abuso do crer pelo saber.
uma negação insis-
mística,Ld Fable mystique(1982), abre-se com
tente, quase suplicante,para não ser considerado como um membro
de direito do cenáculo místico; pelo contrário, de acordo com seus
próprios termos, ele desejava"evitar que, a esse relato de viagem,
fosseatribuído o 'prestígio' (impudico e obsceno, em seu caso) de
ser consideradocomo um discurso credenciado por uma presença,
autorizado a falar em seu nome, em suma, suposto saber do que se
FAM, 1982, p. 9). Observar-se-á, de passagem, a
trata" (DE CERTEAU,
expressão"suposto saber", que é recorrente em seus textos —e, nesta
coletânea,em particular nos capítulos II e III. Tomada de emprés-
timo da psicanálise,ela descreve a posição do analista no olhar do
analisante,como é observado no capítulo X: "A partida, o analistaé,
pelos clientes,'suposto saber'; ele funciona como objeto da crença
deles" (cf."A mentira e sua verdade", p. 218).
Tampouco existia a intenção de reduzir essa literatura mística
a um código de procedimentos de escrita que deveria ter sido esta-
belecido,graçasaos instrumentos de análise pedidos de empréstim0
à linguísticae à semiótica,nem a intenção de propor uma tipolo-
gia das estruturas psicológicas dos
autores místicos pelo recurs0 à
psicanálise.No âmago de seu empreendimento,
tinha vontade de
apreender,não a causa nem o
modo como haviam surgido as escritas
místicas,mas a escuta interior
de uma música de palavras que havia
manifestado,com tanta intensidade,
na primeira modernidade das

16
sociedades ocidentais, o sofnmento da separação, a dor
da ausência,
a ausênciado único, no momento em que tinha chegado
ao ter-
certo regune de relação com Deus. Essa ausência,
cujos sinais
precursores haviam Sido discernidos por ele, desde o tinal
da Idade
Média, ainda continuava atuante, em seu entender,
no século XX
sob outras formas, em outros textos de poesia
ou de ficção, despro-
vidos de formulação mística explícita —por
exemplo,na experiência
do "nada" em Mallarmé, mencionado no capítulo
III, Parece-me
que, à sua maneira, reservada e pudica, ele havia
encontrado nesses
textos místicos, além de um objeto intelectual de
questionamento,
o espaço de uma profunda afinidade,um ambiente
de inspiração e
uma fonte de vida. A natureza desse vínculo profundo,
confirmado
no decorrer de sua obra, foi explicadaem uma breve meditação
poética, publicada apenas dois anos antes de sua morte, 7No entanto,
são manifestas a constância da análise meticulosa assim como a paixão
Intelectual, desenvolvidas em torno dessestextos, até os últimos dias
de sua vida, não por ter vontade de construir um monumento de
erudição, mas para continuar a narrativa de uma viagem particular:
Sou apenas um viajante. Não só porque, durante muito tempo,
viajei através da literatura mística (género de viagem que leva à
modéstia), mas também porque —tendo feito, na área da história
ou de pesquisas antropológicas, algumas peregrinações pelo
mundo g—aprendi, em meio a tantas vozes,que eu não passava
de um particular entre muitos outros, ao relatar somente alguns
dos itinerários traçados em um grande número de diverqospaíses,
passados e presentes, pela experiência espiritual (DE CERTEAU,
EUD, 1991, p. 1-2).

No que diz respeito ao segundo espaço das interrogações,seu


papel de ajustamento foi desempenhado de forma duradoura, assim
como sua relação com os escritos místicos havia exercido a função
de predileçào. Mais dificil de isolar em seus textos, tal espaço refere-
-se à relação, próxima e distante, crítica e respeitosa,que o ligava às
instituições ou, de preferência, ao entremeio [entre-deuxlem que ele

'e texto publicado em outübrO de 1983 e retomado em Suacoletanea


delas,Já o assinalei etn sua situação relativalnente à
se situava diante
historiadores. O desligatnento rnanit-estado perante as
instituição dos profundo, do que
era tnais retietido, e seu sentido
institutçóes
ponto de Vista social; ao adinitlr a
um desejo de singularizar-se do
ao cotnpreender a irnportáncl,i de seu
necessidade de sua existéncta e
sentoulgar necessário subtneter-se, enl todos os aspec-
papel social
evitar tanto ceder ao confor1A11«n10
tos, a suas exigências ele soube
t(•)quanto desencadear uma cruzada
das instituições (de saber ou de
\ontade de mudança rnanifestada
contra elas.Assim,tendo elogiado a
1968, ele aplica-se a decifrar
pela multidão nas ruas em Maio de
dos acontecirnentos, enl
essacrítica geral das Instituições no ternpo
uma série de artigos publicados entre junho e outubro, retornados
em um li\Tinho, Ld prise de parole,publicado no final de outubro
(1968; 1994).O torn caloroso e aberto assim como a generosidade
intelectual dessas páginas causararn surpresa. O liwinho com um
título brilhante "En pnaidcrnier,on a pris Ia parole connne on a pris
Ia Bastilleen 1789" ["Em maio passado, tomamos a palavra como,
em 1789, havíamos tomado a Bastilha" I (DE CERTEAU, PPP, 1994,
p. 40) —mereceu-lhe sólidasinimizades e uma grande incompre-
ensão,inclusive entre seus amigos íntimos, porque, sem ter aderido
a um partido ou grupo, ele acolhia favoravelmente a hipótese de
um protimdo remanejamento social e rejeitava sentir-se ameaçado,
como ocorria com outros intelectuais, por essa crítica social.Após
a desilusão relativamente às expectativas suscitadas pelos aconteci-
mentos de Maio de 1968, ele vai analisar,de forma crítica, em La
Culture pluriel (1974), o funcionamento da cultura instituída, além
de ter dissecado o discurso oficial com um escalpelo elegante e sutil
e, finalmente,sem piedade.
Após esse episódio, ele voltou a abordar, sob diversas perspec-
üvas,o vínculo que se estabelece entre
"crentes" e uma instituição
(do crer,do saber ou do agir).
Ele partia do pressuposto de que, em
todasas instituições,havia
uma base comum; assim, de acordo com
o conteúdodo capítulo
III, cada uma delas teria, "fundamental-
mente,a função de
levar a crer em uma adequação entre o discurso
e o real,ao
considerar seu discurso como a lei do real", Longe de
nunimizaro papel das
instituições, ele reconhecia-lhes uma função
•IJM tRAÇADO" POR LUCE GARD

central na gestão do crer, tanto nuis que, em sua opinião, esse crer
era Indispensável para a manutenção da coesão social: ' 'Por sua vez,
a vida social exige a crença, bem diferente, que se articula a partir
dos supostos saberes garantidos pelas instituiçõeq" (igualmente no
capítulo III), Ele ficava intrigado pela natureza e pela manutenção
dessespactos de crença e de fidelidade, assimcomo por sua presença
confinnada em qualquer forma de organização social;eis um aspecto
considerado por ele como urna questão essencial,transbordando o
domínio do religioso, atravessandoo campo político e social, do
passadoao presente, impondo-se tanto ao historiador quanto ao
cidadão. Um de seus últimos projetos intelectuais —sern ter tido
tempo para realizá-lo -—haveria de propor uma "antropologia do
crer", conjugada em suas formalidades sociais.8Ao reler o conjunto
de sua obra, pode-se identificar, na questão das instituições e dos
pactos de crença e de filiação que lhes servem de suporte —,um tema
unificador de seu pensamento, que ele acabou submetendo à prova
em períodos e meios diferentes, desde os místicos e os possuídos no
século XVII até os habitantes das novas cidades que, por volta de
1975, queixavam-se do vazio dos lugares à volta de suas moradias.
Como esseslugares eram destituídos de vínculo com qualquer nar-
rativa,lembrança ou crença, os próprios moradores não conseguiam,
9
absolutamente, sentir qualquer afLnidadecom esses espaços.

O encontro com a psicanálise


Os artigos reunidos neste livro têm em comum explorar 0
domínio de interseção entre a história e a psicanálise.Nada de sur-
preendente que Michel de Certeau tenha desejado,frequentemente,
fornecer sua explicação sobre a história e sua historiografia: a questão
estavana origem da maneira de conceber e praticar seu oficio de his-
toriador. Ele habitava esse oficio com exigência filosófica, indagando

0 tema é esboçado na última parte de Artes defazer (TSQI), em relação ao político e ao religioso;
é retomado em seu arvi-
em seguida,atravésdo afastamento social da morte e do moribundo. Ele
publicaçôes deste texto, ver
go/'LhnstituÉion du crolre, Note de travail", 1983;sobre as sucessiva5
1988
números 369 e 385 na "Bibliographie complete de Michel de Certeau'%io GIARD
1994 (em particular, p,
Ver o cap "Les revenanrs de Ia víJle&Y(Os fantasmas da Cidade),in (NIQ2}
201-203),
detalhes, do ponto de vista epistetnológico. Ele não
todos os seus
separação entre o exercício do oficio e a elucidação
belecia qualquer
determinanl, tanto no interior quanto no exterior
das condições que
procedimentos de qualquer "operação hiRtoriográfica".16
a forma e os seguida, nas edições críticas
Pierre Favre e, em
Já em sua tese sobre
recompor, o melhor possível, a obra dispersa e Inutilada
que visavam
Surin, é evidente que ele pretende não só reconstituir
de Jean-Joseph
refletir nas Inaneiras de atingir tal
"a história dessesautores' , mas
e relatar sua própria maneira de proceder: a partir de quais
objetivo
conivências e à sornbra de quais si-
pressupostos,sob a égide de quais
investigação, pela história
lêncios.Aopção,em seu primeiro objeto de
religiosa ou seja,histórias de crentes em ligação com as crençasde
outras eras—obrigava-o a explicar-se sobre crenças que, sem poder
subscrevê-las,strictosensu,ele não podia descartar totalmente, nem
desqualificar,jáque essesconteúdos haviam sido, outrora, formulados,
ensinados e aceitos pela Igreja. P
Essasituação instável entre o passado desses crentes e o seu
própriopresentede crente sublinhavaa distância - impossívelde
abolir - entre qualquer leitura das fontes em sua literalidade e qual-
quer interpretação a posteriorique as transfere para outro registro
de crençase de usos sociaisem que os enunciados de outrora, até
mesmo conservados em sua integralidade, assumem outro sentido. 13
Daí sua insistênciasobre a historicidade de qualquer operação his-
toriográficae sobre a separação que ela introduz entre o historia-
dor e seu objeto de história. Como é afirmado energicamente no
capítuloVIII,o historiador não pode apreender nem descartar"0
ausenteda história", cuja irremediável ausência marca a operação
historiográficae seu resultado,ou seja, a história escrita. Pode-se
supor que sua insistênciasobre a
fragilidade do trabalho do his-
toriador não era alheia à experiência,
na cena contemporânea,

Vercap.I "Fazer
História" e cap. II "A operação
N.T.:Cf. outros esclarecimentos, historiográfica", in ECH, 1984a,
mais adiante, no subtítulo "Psicanálise
e histórta da espiritualidade"'
Sobreeste
aspecto,vamos citar um de
seus últimos artigos, "Historicités mystiques", 1985'
Ver 111"A inversão do pensável.
A história religiosa do século formalidade
bo sistemareligioso XVII" e cap.
ética das Luzes cxvn-xvlll)", in ECH, 1984a.

20
erodo das crenças cnstás.Além de ter estudado o pai)S.ido o
dessascrenças, Michel de Certeau unha escolhido ligar
ao presente das mesmas: o que cle explicou
de artigos vtgorosos, reunidos mais tarde etn Li E,ublcssede IA
fraquezade crer] (1987). No entanto, ainda subsistem qucstÓcs:por
'
que razão ele teceu sínculos estreitos entre a 'escrita da história",
questionada,e a psicanálise?Para seu olhar avisado,que necessidade
estariaincluída aí? Corno foi seu encontro cotn a psicanálisee de
que modo ficou convencido de que o trabalho do hl'tor:ador unha
muito a ganhar com a proximidade de Freud e de seus herdeiros ern
permanente querela a partir de pontos de Vistacontrános?
Em virtude da complexidade deste assunto,vamos deter-nos
em sua análise. Ele remete, em primeiro lugar, à recepção, caÓuca
e preterida, da invenção freudiana na França.Tal recepção deve ser
situadaem um duplo contexto: por um lado, as resistênciasdiante
da psicanálise, na área da medicina psiquiátrica; e, por outro, as rela-
çôes dificeis da Igreja de Roma e dos teólogos, seus representantes
oficiais,com o freudismo.No final do século XIX, a psiquiatria
francesahavia conhecido um brilhante desenvolvimento,em torno
de Charcot, cujas aulas tinham sido acompanhadaspor Freud no
hospitalde La Salpétriêre; em seguida,sua orientação para a neu-
rologia e uma psicologia de tendência racionalistanos primeiros
três decénios do século XX, com Clérambault,Ribot ou Pierre
Janet, além das tradições de formação e de pensamento instaladas
na rigidez das instituições, multiplicaram as resistências diante das
teorias de Freud, percebidas como pouco científicas e atribuindo
grande importância a afirmações Irracionas ou inverificáveis.A
rivalidademantida com o mundo germânico, após a derrota de
1870,não facilitou a comunicação entre as duas escolas de pen-
samento.De acordo com a evocação desenvolvidano capítulo ,11,
os textos de Freud acabaram entrando na França por via literária,
em particular,em torno da NRF,14com André Gide e Jacques

N.TS de Sogtelie Re•vue reviga hterfria ú;ndada em


Revtita E•wncesa)•.
gupo Itteraccs, da personalidade de André CA e sua 'Sra;
sucesso i Criação da Editora Gallimard, em 1911, para puHtcaf os dos NRFA

21
surrealista —aliança
do
Rivuére•,em seguida,
Freud.
pouco apreciadapor um Início de degelo entre
década de 1930,
na
Entretanto, graças à chegada dos analistas da
psiquiatrasem formação, do nazismo, em plena
osjovens Ao fugirem
Central.
Alenunha e da Europa à procura de um refúgio seguro
vmham
expansão,essesexilados imaginação ---por desconhecerem o
em sua
em uma França que, Grande Guerra e dilacerado
real de um país exangue pela
estado
clivagenspolíticas continuava sendo a herdeira do Século
pelas sua prática e sua
Francesa. Sua presença,
0as Luzes e da Revolução
com os textos de Freud, assim como seu conheci-
familiaridade
continuadores do
mento detalhado dos debates entre discípulos e
psicanalistavienense,contribuíram para ampliar as ideias de alguns
círculosde psiquiatria dos quais, após 1945, emergirá uma renovação
intelectual.Em 1932,um jovem psiquiatra que havia chamado a
atençãodos professorese colegas de turma iniciou em Paris sua
análisecom um dessesmédicos exilados que, tendo nascido em Lodz,
na Polónia,e prosseguido sua formação em Zurique e Berlim, era
um "representante exemplar da famosa psicanálise judaica e erran-
te, sempreem busca de uma terra prometida" (ROUDINESCO, 1993,
p, 102).Esse analisando,Jacques Lacan, desempenhará um papel
decisivo,após 1960,no desenvolvimento da psicanálise na França;
seu analista,Rudolph Loewenstein, irá exilar-se —desta
vez, nos
EUA, em 1942 -- para salvar a vida, tendo
continuado a exercer sua
profissão do outro lado do Atlântico
(ROUDINESCO,1994a, p. 223). 15
Entre os médicos e os teólogos católicos,
o freudismo foi man-
tido, durante muito tempo, sob
suspeita mediante a dupla acusaçã0
de preconizarum
"pansexualismo" contrário à moral cristã e à sua
teologia do pecado, além
de destruir a fé, escarnecendo da "ilusão'
que sena a experiência
religiosa: para a consciência individual, ela
limitar-se-n a ser uma ocasião de
neurose; e, para a sociedade, a
religiãoteria sido
sempre um instrumento de
do poder político. subjugação nas mãos
O freudismo devia,
portanto, ser rejeitado como

Algumas
sobre Loewenstein
189-239/ Mais in HUGHES, 1975
amplamente, sobre esse (capítulo sobre 0a
circulo de exilados,
JAY, 1986.
ateísmo,bedontsmo e cientificismo; inclusive,havia quern acreditasse
encontrar nessa corrente um avatar do anticristianismojudaico dos
primeiros séculos .com todas as ressonâncias tumultuadas que essa
hipÓtesepodia despertar na década de 1930, quando os nazistas
baniam a psicanálise e seus profissionaispara que a boa psiquiatria
germánica fosse purificada dessa "ciência judaica"t '). O opróbrio
lançado pelos católicos sobre a psicanálise,sua teona e sua prática,
foi duradouro,na medida em que houve uma conjugação dos efeitos
da desconfiança e da ignorância a seu respeito.
Para evocar esse cenário, que se tornou estranho para nós,
analisareidetalhadamente dois indícios reveladores, relativamente
aos grandes •empreendimentos editoriais, eruditos e respeitáveis,
que haviam culminado, cada um por si, em uma série de volumes
que servem de referência na escala internacional.Como é nortnal,
para Iniciativas dessa envergadura, que reúnem a colaboração de
dezenas de colaboradores, sua preparação, redação e publicação
estenderam-se durante um período bastante prolongado. Minhas
observaçõesnão se referem às intenções,nem à ideologia inicial
dos fundadores e primeiros diretores de cada série, mas levo em
consideração o resultado final, no termo de cada empreendimento.
Meu pnmeiro exemplo será o seriíssimo Dictionnairede théologie
um monumento histórico de erudição,publicado entre
catholique,
1923 e 1972: tendo começado sob a direção de A. Vacant e J.-E.
Mangenot, ele conta com 15 tomos em 30 volumes, além de 3 tomos
de Índices,ou seja, não faltou espaço para seus autores; no entanto,
ele não contém qualquer artigo sobre Freud, nem sobre a psicaná-
lise (o tomo 13/1 , em que esse verbete —psychanalyse—poderia ter
sido inserido após "Michel Psellos", foi publicado em 1936). No
que diz respeito a tais Índices,no último tomo consta um verbete
'psicanálise",metade de uma coluna, fazendo remissãoao verbete
coluna.
"Freud" no 10 tomo que, por sua vez, ocupa um terço da
único viático -- um
Após uma curta definição. ele oferece -- como
citação devidamente
breve resumo descritivo, servindo-se de uma
Cuvillier (tomo II,
referenciada do Précisde philosophiede Armand

textc» e tprcsetgados por EVARD,


cornpêndio alitnentou as dissertaçóes
escolar deste aprendizes de
1953):a prosa vestibular e
inumeráveis candidatosdo
de
Freud. O verbete "psicanálise" é
importância sobre
pritneira tenta caracterizar a doutrina algumas
porque
instrutivo para nóswrbete"religião" do dicionário, alélll de tiornecer
frasese remeteao tnonitum do Santo Oficio: mediante esta
detalhadode um
o resumo
com data de 15 de julho de 1961, o Vaticano
"advertênciaoficial", psicanálisepor parte de bispos, eclesiás-
recurso à
demoviaqualquer de verificar a ortodoxia dos livros
(encarregados
ticosda censura das congregações religiosas ("dos dois
membros
impressos),padres e
com a precisão dos redatores romanos: diante do
sexos",de acordo
pouca).
perigo,toda a prudência é
segundomonumento editorial, proponho a visita ao
Como
ascétique et ynystique, iniciado
admirável Dictionnairede spiritualité
—M. Viller, F. Cavallera e J. de
sob a direção de um trio de jesuítas
Guibert—,continuado sob a responsabilidade de outros membros
da Companhia de Jesus e publicado entre 1932 e 1995, ou seja, 16
tomos em 20 volumes,além de um tomo de Indicesgerais.Ainda
nestecaso,o espaço não faltou; no entanto, a psicanálise não é men-
cionada.Se este verbete tivessesido escolhido, ele teria aparecido no
tomo XII/ 2, publicado em 1986, após o verbete dedicado a "Ernest
Psichari"(uma coluna e meia). Após "Psichari" , encontramos, divina
surpresa,um substancialverbete "psiquismo e vida espiritual", bem
elaborado;em termos eruditos que se estendem por 37 colunas, ele
falade psicologiaexperimental, clínica ou pastoral, da relação entre
experiênciasreligiosase uma estrutura psíquica, além dos problemas
da direçãoespiritual.Seu autor, um
jesuíta, menciona aleatoriamente
o ponto de vista de Freud,Jung
ou Lacan, além de proceder a uma
referênciaelogiosaa Louis
Beirncrt, outro jesuíta que se tornoU
analistae cuja atividade será
abordada mais adiante. Lacan, em par-
ticular,é citadoe
comentado com uma deliciosa fÓrmula:"O desejo
do homemé o
desejodo Outro: tirada
de J. Lacan é de seu contexto, esta expressão
suscetível de várias
vamos interpretações. No caso concret0'
retomá-la para
o objetoou o significar, simultaneamente, que o homem e
termo do desejo de
Deus e que, ao desejar Deus
etc. (coluna 2.588). A bibliografia indicada no final do artigo dcafiea
unta de suas nosv tubrtcas ao tema "fé e psicanálise": o vocálHilo está
presente,na falta do próprio conteúdo, utna Vezque não é ado
qualquer texto de Freud, apesar de ser Inencionada urna
de Jungeo delfnn repudiado. Este verbete constitui realincntc urna
mara\ilhosa substituição:no espaço etn que poderíatnos alijnentar
expectativa de ler um texto sobre a psicanálise,trata-se de utna
nuneira de manter o silêncio etn obediência à vontade ronvanade
outrora, sem ficar confinado totalmente nessa subserviéncla. ta]
procedimento, será possívelreconhecer o que a arte nulitar des:gna
por "manobra para contornar o obstáculo"; na data da publicação
do em 1986, mais de vinte anos após o grande degelo sus-
citado pelo Concílio Vaticano II, a operação tem, sobretudo, valor
de sintoma enquistado. Para colocar em perspectiva a cronologia
dessesepisódios, letnbrarei que Louis Beirna•rt havia falecido em
abril de 1985 e Michel de Certeau em janeiro de 1986.
Certamente, a oposição das instânciasromanas à psicanálise
foi tenaz, à semelhança de sua resistência em outras áreas, desde o
século XIX, quando havia sido considerado pertinente combater
determinados teÓlogos, filósofos, exegetas ou cientistas, acusados
de ceder demasiado terreno diante das "novas ideias", no que diz
respeito a uma série de problemas relacionadoscom as doutrinas
científicas,a arqueologia do Oriente Próximo bíblico, a moral, a
filosofiapolítica ou a teoria do conhecimento. Dependendo da
circunstância, o inimigo designado podia ser a evolução das espécies,
o historicismo, o modernismo, a filosofia da ação preconizada pelo
Infeliz Maurice Blondel (apesarde ter sido tun modelo de crente),
o marxismo, etc. Mesmo assim,deve-se evitar sobrevalorizar a for-
ça dos interditos na realidade:se, enl 1961, a advertência do Santo
Oficio, mencionada nos Índices do Di(Tionnairede théoloviecatitoliqtee,
continua sendo mobilizador eni tertnos sitnpli«tas contra a psicanálise,
em compensação, nos fatos, as situações eranl mais diferenciadas,as
opmióes divergiam até mesmo entre oq fiéis praticantes e as decisóes
do Santo Oficio já não eram obedecidas, religiosamente, setii contes-
tação. Na França, alguns professores universitários católicos, no seio
da Universidadepública portanto, em terreno laico rejeitavam

25
de sua autonoliila intelectual,
renunciar a urna parcela aprenderatn a negociar a obtens.io de
sinceros
nútnero de crentes segundo seu de
algum grau de liberdade, exercidas, s,ua notoriedade pública.
institucional, as responsabilidades
e políticos, a distância Inantlda enj relaçào à
os contextos sociais capacidade pe«oal liberdade de interior.
hierarquia eclesiásticae sua
tolerava-se por tneias palavras o que,
Em determinadolocal,
continuava sendo proibido. Havia, tanibérn, tuaneira«
outro,
discretasde encontrar entendnnento«: nada era cotnpletatnente
ou
habilidade e urna doqe
simples,tudo exigia determinação,
de paciência.
Ao lado de uma maioria que se julgava obrigada consciência
a conformar-se ao abandono de qualquer referência a Freud, hou-
ve também espíritos corajosos que rejeitaralll tal injunção; pessoa«
que conseguiralllproteger a liberdade intelectual de
responsáveis
seusdependentes; médicos que procuravarn novas respostas para os
sofrirnentosdos pacientes; rnenlbros de ordens religiosa« e padres
diocesanosque encetaram sua análise e, enl seguida, se tornaraln
analistas,tendo contribuído conjuntanrnte para abrir aos católicos,
com discrição,uma via de acesso até Freud. Nas casas religiosas ou
nos seminários,os mestres de noviços e os forniadores de futuros
padresinquietavam-secom as incertezas do discernirnento das
vocações;todos lamentavam os distúrbios mentais que se Inanifes-
tavam em alguns, às vezes após anos de vida consagrada, tocada sem
dificuldadesaparentes.Seriam sequelas da guerra, a fragilidade do
mundo moderno, o contágio das
tentações na grande lilistura social
apósa guerra?Qualquer que
tenha sido sua origeni, ilnpunha-se a
buscade remédio para essas
situações; assim, a ideia de fazer apelo'
em último recurso,
às técnicas psicanalíticas, abria lentainente seu
caminho.Iniciada em
pequenos círculos, antes de 1940, a evoluçâ0
dasmentes acelerou-se
entre os católicos, com 0 retorno da paz'
porque as desordens
da guerra, as separações, o cativeiro, a angu«-
tia, os lutos
pareciam duplicar seus
fazendoexplodir efeitos sobre os
os códigos sociais e vacilar crenças. Mudança
as
Um quadro
panorâmico sem
qualquer referência à 1998.
psicanálise, in FOVIILOUX,

26
relanvamente à situação anterior: deixarn de existir tanto a
ax:hdade diante das ordens episcopais quanto as certezas Interiores.
Duas inictatlvas, empreendidas por religiosos, apoiara:n e
acompanharam a aceitação da psicanálise pelos católicos: nume-
rosos médicos, enfermeiras, intelectuais, membros de congrega-
çôes religiosas se tornaram analisandos e, em seguida, analistas.A
primara ao lançamento —pelo dominicano Albert Plé
(1910-1988) em 1947, de um boletim, Le suppléntentde Ia vie
snirituelle,destinado a informar, em termos modernos, os mestres
de noviços e responsáveispor religiosos sobre os problemas de
psicologia e de vida espiritual; essa publicação continha artigos
sobre Freud e a psicanálise,elaborados em termos ponderados e
favoráveis,com suficiente persistência e conhecimento desses as-
suntoSpara torná-los aceitáveis.Seu fundador estava vinculado a
Bruno de Marie-Jésus, um carmelita que havia restaurado, em 1931,
uma revista de sua ordem, Etudes cannélitaines(lançada em 1911
por outro carmelita, Marie-Joseph du Sacré-Ccrur, para publicar os
textos da tradição espiritual da ordem religiosa de Nossa Senhora
do Carmo ou do Monte Carmelo). Bruno de Marie-Jésus havia
transformado esta revista em um espaço de grande envergadura
intelectual em que, sobre os problemas de mística e de psicologia,
encontravam-se lado a lado os melhores especialistasda época ou
seja, teólogos, poetas, historiadores e psiquiatras tinham a possibili-
dade de dialogar de forma inteligente (FOUILLOUX, 1998,p. 84).As
duas publicações, destinadas a públicos leitores diferentes, somaram
seus efeitos positivos e começaram a "naturalizar" a psicanálise na
cultura comum católica.
A segunda iniciativa diz respeito a uma pequena estrutura de
cuidados psicológicos, destinada ao círculo clerical. Criada, em 1959,
por quatro pessoas entre as quais, uma mulher,Andrée Lehmann —
a AMAR (AssociationMédico-Psychologique d'Aide aux Religieux
[AssociaçãoMédico-Psicológica de Ajuda aos Religiosos) tinha o
objetivo prático de oferecer um apoio terapêutico e, eventualmente,
o acessoà psicanálise,para almas em situação crítica. Em razão de
seu estatuto de clérigos e de sua filiação em diversasredes da Igreja
Católica, os outros três fundadores o dominicano, Albert Plé; o
padre Marc orai_
e,por último, de casas religiosas e de
dos pessoas enx grande
a confiança assistência a
prestaram
de modo que sido resolvidas pelos diretores
seminários, haviam
dificuldade, superiores. Por sua vez, Marc orai-
respectivos
espirituais pelos uma tese de teologia moral sobre
havia defendido título Vie chrétienne
son (1914-1979) publicada com o
sexualidade,
os problemasde 1952), com a autorização canÔnica
de Ia sexualité (Paris,
et problàtnes
censura eclesiástica. A semelhança do
locais da
dos encarregados relaçãoa outros defensores moderados
adotadoem
procedimento
intelectual,o Santo Oficio desaprovou as "audácias"
da modernidade demasiado "positiva" atribuída
assim como a significação
do livro,
tendo incluído esse volume no Index, em março de
à sexualidade,
dos encarregados da
1953,em contradiçãocom o parecer favorável
1994b, p. 206-207 , 211-213;
censura,em Paris (ROUDINESCO, 1994a,
p.245).Uma vez mais, foi possível constatar a defasagem crescente
entrea evoluçãodos intelectuais católicos, na França, e as posições
rígidas de algumas instâncias romanas.
O terceiromembro do trio da AMAR, Louis Beirncrt (1906-
1985),exerceuinfluênciadireta sobre Michel de Certeau. Tendo
ingressadona Companhia de Jesus, em 1923, ele seguiu o cursus
habitualde formação (humanidades
clássicas, filosofia e teologia)
queo preparavapara ensinar
nos colégios e escolasticados da Ordem.
Capelãode estudantes,
em 1940, ele defendeu a oposição de alguns,
na França,ao
ocupante nazista e, por
massemanas;em isso, foi preso durante algu-
seguida, à semelhança
Jesuítas, de certo numero de outtOS
participoudo movimento
1946,iniciouuma de resistência aos nazistas.
fez um de curaanalíticacom
seus Daniel Lagache; em particular,
sua fidelidade controles com Lacan, tendo mantido para sempre
a este
psicanalista;18em breve,
travou amizade com
os
a distinção
comuns; entre tipos de análise, a
as de
a"didática" que
é feita pelo
que
candidato que pretende totnat-se psicanalista,e
a receber se referem
um analista analisandos, a um em
ainda com a
ou (LAPLANCHE; obrigação de prestar contas de suas
nassociedades sobre as PONTALIS, 1968, ver
psicanalíticas, implicações e e
vet TARDITS, os incessantes debates
2000,

28
'UM PCOk GiAkD

do círculo pós-freudiano,Wladi1ñir Granoff•


unia tigura marcante
a receber religiosos enl dificuldade, enviados
aléllldisso,conrçou
superiores. Jesuíta e analista tendo chegado a
pelos respecti\os
escreverque,"na desolação,dei-lne conta de que, ao nonnear-lne
Jesuíta e psicanalista, essa partícula e estava
1987 Beirnrrt era também redator em Etudcs, a célebre revista
Iliensalde cultura geral, editada pela Companhia de Jesus; aliás, ele
faziaparte da comunidade jesuíta da residência, "Pierre Canisius"
(rue Monsieur, 15, no 70 bairro de Paris), na qual estava instalada
a redaçãodessarevista.A partir de 1968, Michel de Certeau será
membrodessa comunidade. Em junho de 1964, L. Beirncrt, M.
de Certeau e um terceiro jesuíta encontram-se, ao lado de Jacques
Lacan,entre os 134 membros fundadores de Ecole Freudienne de
Paris (ROUDINESCO,
1994b, p. 440).

Psicanálise e história da espiritualidade


Pelas vicissitudes da época, Michel de Certeau pertenceu,
portanto,a uma geração e esfera católicas em que o encontro com
Freud nos textos e com os psicanalistasprofissionais era, na rea-
lidade,não só possível, mas efetiva e intelectualmente valorizado
pelaspessoas à sua volta. No entanto, talS condicionantes não cons-
tituíamuma fatalidade,nem uma obrigação para um jovem jesuíta
que ia dedicar-se ao oficio de historiador; como se explica que ele
próprio tenha mostrado um verdadeiro interesse pela psicanálise?
Nenhum de seus textos relata tal propensão; é verdade que, além
de nada ter incluído na autobiografia a esse respeito, ele rejeitou
claramenteo convite de Pierre Nora para colaborar na coletanea
de "ego-histórias" (1987). Em meu entender, existem duas razões
para seu interesse pela psicanálise —a primeira, de fundo, enquanto
a outra é circunstancial—ambas dependentes dos acontecimentos

O apoio de W.Granoff, médico,


era importante porque os analistasnão médicos ainda eram mantidos
sob suspeita;sobre sua personalidade,
ver ROUDINESCO, 1994b, p. 290-291. Sobre um incidente,
em 1961, a propósito
de um analisando de Beirncrt e das dificuldades apresentadas a W. Granoff
pela Ordem dos Médicos
(tendo como pano de fundo, as querelas internas ao círculo psicanalítico),
cf.p. 341.
Estacitação é relatada por
Paul Daman e Andrée Lehmann, "Prefácio", p. 11

29
CifNClA E

em um histonador da mística.A primeira


que o transformaranx interesse pela literatura mística razão
a seu estremo e pelas
refere-se experiência religiosa;2 aliás, esse Interesse
a
neiras de exprimir intelectual, confirmada bem
está
uma exigência cedo,que
xssociadoa
de ao abordar essas matérias, com estudos
satisfazer-se,
o impediu doutrinais. Por esse Interesse, por sua vasta
descritivos e afirmações
de seu discernimento nos assuntos da vida
erudição, pela delicadeza
atenção aos outros, ele estavapreparado
interior e por sua extrema
história da espiritualidade, uma área
naturalmente para dedicar-se à
em que a Companhia de Jesus tinha atingido um brilho resplan-
decentedesdesuafundação,além de ter desenvolvido uma grande
tradiçãode escrita. Entretanto, propriamente falando, sua intenção
inicialera diferente:antes de ingressar nessa ordem religiosa,ele
haviacomeçadoa preparar uma tese de patrística latina sobre santo
Agostinhoe ele contavavoltar a esse tema depois do período de
formaçãojesuíta; a não concretização desse projeto teve a ver com
umaorientaçãodiferenteem decorrencia de outro motivo.
Estasegundarazão nos leva à sua filiação a determinadagera-
çãona provínciajesuíta da França. Na época, os superiores decidi-
ram que,no termo da formação, os jovens mais dotados deveriam
dedicar-se, temporariamente,ao estudo da história da Companhia
deJesus.Assim,na década de
1950, os jesuítas franceses empreen-
diam,na esteirado que havia
sido iniciado desde o final do século
XIX, em Madri —e
depois transferido, em 1930, para o Institutum
Historicum,em Roma a—
um grande trabalho de retorno às fontes
da Companhia,aos
textos fundadores da espiritualidade inaciana
em que os primeiros
jesuítas tinham encontrado 0 material de sua
identidadee a força no mun-
do.22A percepção
motriz de sua atividade por toda parte
das mudanças sociais após as fraturas da guerra, a
evoluçãoda Igreja
e dos católicos, as dificuldades tanto de uns para
definirseucampo
de ação quanto de outros para perseverar e obter
resultados tangíveis de
dessa ação inspiravam o empreendimento que,

seu primeiro
texto publicado, de
Lyon/França), em 1956, em um boletim de estudantes (Sémittaire
intitula-se
está reproduzido este artigo
"L'expérience religieuse, 1'Ég1ise";
in GIARD, 'connaissance vécue' dans
sobre 1988.
primeiros tempos,
ver O'MALLEY,
1999.

30
ado no plano dc 1a c dc excelênc l)itclcc
saída.tol havia
a (lonjpaljlna
tual para as qual',
apctc•ljcla. Esse retorno ao paç,ado cra descoado
seu talento t: sua
a finalidadede esclarecer a; do prcsclltc. A Intenção
conjportava suas audácias, suas Ilusões e suas
cra louvável,a Iniciativa
ambiguidades,conj() observou mais tarde Michel dc (lerteau." Enj
maténade histona, ela suscitou unva série dc sólidos trabalhos de
edição,tradução, anotação e recuperação comentada das fontes, que
foramIncluídosna coleçáo "Chnstus" da editora Desclée de Brouwer.
Grandesfiguras do passado francês da Companhia de Jesus foram es-
tudadasa partir de novas bases, em particular em sua expansão fora da
Europa,seja em relação á Nova França, o atual território de Québec
no Canadá,ou à China, etc. O principal avanço referiu-se á história
da espiritualidade,que acabou por atrair e, durante um longo período,
por constituiro tema de estudo de vários dessesjovens histonadores.
Paraalguns,a aventura culminou na "aprendizagem" da psicanáhse
como novo instrumento de compreensão das "coisas da alma" e, fi-
nalmente,conduziu certo nÚmero deles a exercer o oficio de analista,
sejapermanecendo jesuítas ou após sua "separação de um grupo, cujas
lentidõeshistóricas e sociológicas pareciam-lhes criar obstáculo para
atingnraquele mesmo aspecto que, no entanto, eles haviam descoberto
na Companhia" (BLIRNART, 1987, p. 242).24
Os trabalhos empreendidos por essesjovens historiadores in-
cidiram,em primeiro lugar, sobre os escritos de Inácio de Loyola
e do pequeno círculo dos cofundadores,tal como Pierre Favre,já
mencionado;em seguida, eles ocuparam-se dos grandes jesuítas
franceses,autores,no século XVII, de uma abundante literatura de
espiritualidade,escrita em uma bela língua clássica,que circulou
duranteum longo período tanto em manuscrito quanto em im-
Presso,assimcomo por citações, nos livros de divisas,de coletáneas
de cartas e de máximas, além de outros florilégios. Bastante ativo
nessepequeno grupo, logo notado pela qualidade de seus trabalhos,
Michel de Certeau transformou-se, desde então, em historiador dos

Ver FCR, cap. 3 "Le mythe


des origines", 1987.
Em seu contexto, essa jesuítas; no
observação referia—sea toda a espécie de atwidades exercidas por
caso,concreto, permito-me
aplicá-la, mais diretamente. à psicanálise.

31
modo, ele nunca mais voltou a seu
XVI e XVII? 5Deste Depois de ter traduzido e
seculos patrística. comentado
encanto pela (seu diário espiritual, mantido de junho
de
Mélitorial Pierre Favre decorrer de incessantes viagens
o 1546, no entre
janeiro de
de 1542 até e Itália) , De Certeau deparou-se com a grande
Espanha (1600-1665), que se tornou seu com-
a Alemanha, Surin
sombra de Jean-Joseph Esse jesuíta de Bordeaux, contemporâneo
panheiro e "guardião ---cujas cartas de direção espiritual
místico reputado
de Descartes, nos círculos de devotos —foi também
recopiadas
foram copiadase tendo perdido a razão, e em estado de
infortúnios:
célebrepor seus
ficou confinado no silêncio entre os colegas, durante
desorientação,
depois de ter servido de exorcista para as religiosas
12 ou 13 anos,
Loudun26 e, em particular, para sua famosa abadessa, a
possuídasde
madre Jeanne des Anges (1990).
processoretumbante de Loudun (julho-agosto de 1634), cujo
O
pública de
desfecholevou à condenaçãoà fogueira e à execução
UrbainGrandier,padre de uma paróquia da cidade —"tendo
reco-
ocorrido
nhecidoque o crime de magia, maleficio e possessão, tinha
por sua culpa" (DE CERTEAU, POL, 1990, p. 247) alimentou as
de
gazetase as paixõesdo reino na época de Richelieu e das lutas
religiãocontraos Reformados.A semelhança do suposto sentimento
de culpade Grandier,a perda da razão de Surin parecia dar teste-
munhodo poder do demÔmo, em um período de inquietação em
que os crentesprocuravam sinais oriundos do "verdadeiro Deus ,
suscetíveisde lhes instilar a certeza da verdade e a força protetora de
suafé.Para as pessoasdo Grande Século, a identidade jesuíta de Su-
rin e a qualidade da formação constituíam
intelectual de sua ordem
um aditamentoao valor exemplar esse assunto,
de seu caso. Sobre
Michelde Certeau elaborou baseado enl
um magnífico livrinho,
uma leitura sutil dos
documentos da época, leitura empreendida
comohistoriador,
concluída em termos inspirados na antropologia
e na psicanálise:

Ele foi incumbido


da redação de uma Geral, na
Acquaviva; parte substancial (sobre o quinto Superior
padrejesuítaitaliano,
França)do no período de 1581 a 1615, assim como sobre o século
verbete
N.T.:Cidadede in Dictíonnairede spiritualité, 1974.
pequeno porte a 300 devjenne•
km a sudoeste de Paris, no Departamento

32
P' GIAkl)

\ não connporta Elinaexplicação histÓr1ca•'verdadeira


saber quem está possuídoe por quenn.
porque nunca é possível
precisanlente do fato de que existe algode
O problemasurge
possessão—diríamos, "alienação" —e de que o esforço para se
dessasituação consiste em adiá-la, recalcá-la ou deslocá-la
11NTar
alhures:de uma coletividade para um Indivíduo, do diabo para
a razio de Estado, do demoníaco para a devoção (DE CERTEAU,
POL, 1990, p. 327).27

Michelde Certeau apegou-se à obra de Surin, reconstituída


por ele com todos os recursos de um leque de disciplinas, através
de antigosacervosdas bibliotecas, para estabelecer uma versão mals
fidedignados textos. Com efeito, a doença de Surin, o menosprezo
e as suspeitasde alguns, os usos laxistas ou apologéticos de seus
piedososleitores e editores tinham servido de álibi a toda a espécie
de modificações, omissões, Interpolações, glosas, edições furtivas ou
Contrariamente a tais práticas,De Certeau nunca sejulgou
truncadas.
comautoridade,mediante seu conhecimento íntimo da obra, para
defenderum diagnóstico redutor sobre seu autor:" Certamente, teria
sidopossível,mas ilusório, propor para esta 'história extraordinária'
uma chavedo emgma e algumas teses abstratas sobre a experiência
místicaou sobre a esquizoidia" (SURIN,"Introduction", 1966, p. 28).
A recusaem elaborar um diagnóstico a posterioriera coerente com
o princípio do distanciamento, imposto por sua epistemologia, a ser
mantidoentre o historiador e seu objeto de estudo. Em seguida, tal
princípio será desdobrado, com suas consequências, na análise da
famosacarta de Surin (datada de 1630; cf. IDEM,1966) sobre seu
encontrocom o "jovem da carruagem" que falava tão admiravel-
mente de Deus e das coisas divinas:

Cada uma das interpretações que balizam a circulação da


narrativaé uma forma de compreendê-la e, ao mesmo tempo,
um reveladordo grupo que, durante um instante,'encontra' o
jovem ou o pastor no seu caminho. Não há história, além
de 'revista e corrigida'. Ela procede à mistura,como outrora,

Ver BOUTRY, in Le Débat (revista),n. 49, 1988; este número contém outros artigos que formam
um conjunto intitulado"Michel de Certeau, Historien

33
ela e, leitura de
do c l) do
através dc

321),

Bastariaretirar a iijençà() de Surin para encontrar, nessa(Iltill)a


frase, descriçàoda ttoca aberta entre o analista e o analisando,A
cotuo l)e Certeau-historiador aborda a história extraordi-
nárta de Surin ilustra a relação instaurada, el)) seus textos, entre certo
estilo de história da espiritualidade e deterillinado tipo de recurso
à psicanalise:ele evitou erigir, con10 princípio, seja a unicidade de
seu estilo ou a legitijnidade desse recurso, tendo-se liii)itado a pra-
ticar os dois procedllnentos, esforçando-se etn explicitar a sucessão
das operações efetuadas para stibjnetê-las ao julgajnento crítico dos
leitores. Elli várias oportunidades, ele observou que, a narrativa,por
Surin, de sua doença e de sua saída do silêncio da loucura (SURIN,
1993)constituía,na tradição liiística do século XVII, o equivalente
do texto de nnenióriasde Daniel-l)aul Schreber (1975;original ena
alennão,19()3)para a literatura psiquiátrica e psicanalítica do século
XX; nesta coletânea, o capítulo IX propõe una colnent'ário instigante
sobre essas Alelilórias,Assina, na Inaneira cojno De Certeau escreviaa
história dos Inísticos, ao lado de vínculos visíveis e fecundos Inantidos
com outras disciplinas,verificou-se uma afinidade especial com Freud
e conl a psicanálise subordinada à orientação [d'obédiencellacaniana.
Mas seria falso limitar, enl seu trabalho, a contribuição da psi-
canáliseà compreensão da vida espiritual. Sua relação cona Freud
foi mais profunda e mais ampla; ela irriga, subterraneamente, toda
a obra da maturidade. É possível
observá-la ressurgir, sob diferen-
tes formas,no decorrer desta coletânea de textos, Um primeiro
exemplo, a propósito dos mitos, circulação
mostra perfeitamente a
contínua de sua reflexão entre
história e psicanálise.No capítulo
III, Michelde Certeau
apropria-se de um julgamento de Lacan
que reconhece em Freud
"um dos únicos autores contemporâne0S
que tenham sido capazes do
de criar mitos". Ora, nas últimas linhas
capítuloI, De Certeau designa
o discurso histórico como "o mito

34
soc entre práticas especificadas
1.11 lendas de
da velaç,io Inenclonado. neste trecho. oá nio é o
Freud dos
=rerar•:
o
otillnentosIndividuais,mas o teorico da cultura. Outro que
s
recorrente. tecendo passazens entre a hlstÓr1üe a
aflora,de forma
literatura. De novo. no Início do capitulo
herançafreudiana.é o da
literatura é o discurso tórico dos
III.é defendidaa tese de que
processoshistóncos ' e, enl seguida, são analisadas as relações entre
literaturae história a partir das •'Intervenções freudianas••. Por sua
vez,o capítuloX, sobre Lacan, retoma, a seu propósito. questão
da literatura.cuja importância em si mesma é sublinhada. além de
serafirmadasua estreita proximidade com a psicanálise lacamana.
Ultimo Indício da extrema atenção atribuída a Freud pelo his-
toriador:o pedido de empréstimo de uma expressão —•'a escrita da
história —,sobrecarregada de sentido, escolhida para servir de título
à suaprópria reflexão sobre a epistemologia da história. à maneira
de saudaçãorespeitosae de comvência com o alemão de Freud. De
fato,como De Certeau indica com precisão no capítulo III, este
últimohavia utilizado Geschic/ltsschreibung para tratar da historiogra-
fia hebraica em Der Alann Aloses.Neste empréstimo, além de uma
fehzcoincidência,vejo sobretudo uma marca profunda de afinidade
entre Freud, que se transforma no historiador da herança judaica,
e Michelde Certeau, que se tornou historiador da espiritualidade
e de místicos cristãos por solicitação dos superiores da Companha
deJesus.Das reflexões que ele teceu com os companheiros jesuítas
em torno de Freud, vou sublinhar ainda outro Indício: na coletanea
de LouisBeirncrt, publicada postumamente, pode-se ler um texto
inédito,intitulado "Moise et le monothéisme (en réponse aux per-
sécutionsnazies)" [Moisés e o monoteísmo (resposta às perseguições
nazistas)], sem qualquer referência suscetível de indicar a data de sua
redação.Portanto, é impossível saber se eles chegaram a discutir
sobre esse texto e se este teria inspirado ou exercido influência
sobreDe Certeau. Uma nota de Beirncrt remete ao capítulo
sobre Moisés em L' Ecriturede l'histoire,o que poderia fazer supor
que o texto certeauniano seria anterlor; entretanto, essanota pode
ter sido acrescentada a posterioripor Beirnzrt, por ocasião de uma

35
tRleitura de seu escrito (IOS7, nota 2 32). Portanto, ela
at'erta a questão das trlaçe3esentre dois conlentarios, deixa
orientados
env sentidos bastante ditacntes, o que nada teni de SUrpreendente
considerando a ditQrençade intenção, de espírito e de geração
entre
Osdois O texto de Beirnrrt dá testeillunho, no de
Ilitetcalllbios possíveis entre os dois cornpanheiros jesuítas em
torno
do Afeisésde Freud: neste caso,estannoslonge da atitude
desconfiada
pot parte de Rotua,já assinalada mals acrrua, em relação a
Freud
Sobre a edição desta coletanea
Esta coletanea corresponde a uma segunda edição,
revistae
acrescentados os capítulos VII ("História e estrutura")
e VIII
(s'o ausente da história"). A ordenx dos capítulos foi
modificada em
relação à precedente edição.2SCada um dessestextos já
havia sido
publicado pelo autor. Em sua conlposição para a primeira
edição,
esta coletanea retomava, pela metade, a escolha de
artigos reunidos
pelo autor em um livro destinado a seus leitores
norte-americanos
(DE CERTEAU, HDO, 1986), que foi publicado pouco depois de
sua morte. Alguns erros de tipografia ou de leitura, detectados
nas
edições anteriores dos textos, em separado,ou na primeira
edição
desta coletânea, foram corrigidos.29Nesta segunda edição, tirei
proveito do trabalho atento de Andreas Mayer, tradutor parao
alemão da precedente edição;3 às vezes, acrescentei, no texto ou
em nota de rodapé, um elemento de maior precisão (título,data,
remissão para as edições dos Seminários de Lacan, traduçãofran-
cesa de uma citação, etc.) —todas essasintervenções são inseridas
entre colchetes. Conservei, de acordo com a citação de Michelde
Certeau, as traduções de Freud, embora seja possível encontrar,
atualmente, outras versões mais atraentes e fidedignas, em francês•

Eis ¿ ordem da edição anterior: L Le noir soleil du langage; II. Microtechniques et discourspanop-
tique; III. Le rire de Michel Foucault; IV. L'histoire, science et fiction;V. Psychanalyseet histoire;
Le roman psychanalytique;VII. L'institution de Ia pourriture;VIII. Lacam
não
Meus agradecimentos a Joseph Moingt e Jacques Sédat, que me indicaram alguns erros
observados pelo autor na publicação anterior de seus textos.
OE CERTEAU, neoretighe Fiktionen: Geschíchteund Psychoanalyse,1997,
\ crs,io a leni,i. publicada ena VIena,
tornece o texto
de Freud conl a Wterei)cuaa originald.lS
de
(FRI 1941)_ 1952) e a Indica çcio (01nplct.us
de tred)o« para
lelos: deste
de consultar tal obra.
Alguns dos capítulos cle<tacolet,inea
foral)) el,lboradosdurante

ele claegcl\a a retonhá-los, corrigi-los, introduzindo


retoques de finado,
de fornia ou, enteio,conaplelnentos de inforrnaçâo
ena nota de rodapé;

sob fornia retocada ou por fragnaentos. Portanto, elaborei


o texto final
de cada capítulo baseando-nae na conaparaçâo das verc,óeq
publicadas
suce«slv.unentee dos exennplareqconservadospelo próprio autor.

grafadasdo texto retocado (procedinaento frequente para o período


de 1978-1984, enl razão da partilha de seu ternpo, de .seusdossiês e
de sua biblioteca, entre Paris e a Califórnaa, local enl que dava aulas;
e, tanibéna, ena razão do vaavena entre as versões ena francês e enn

ordem cronológica ou de preferência, hnlltel-nle a unia só versão: ou


porque esta havia sido o ultinao texto enviado por ele a editores para
uma tradução,ou porque ela Ine pareceu Incliscoerente e acabada.
Estasegunda edição da coletánea não inclui qualquer nitidança na
conaposiçâodos diferentes capítulos; mais abaixo, apresento o resumo
da história textual de cada una.
Os três prinaeiros capítulos incidem sobre a relação entre
a história e a psicanálise. Para Michel de Certeau, esses ensaios
constituíamum aprofundamento e una complemento em relação
as questões abordadas —às vezes, sob outro prisnaa —enl sua obra
L'Ecriturede l'/listoire(1975). Por volta de 1982, ele procurou dar
continuidadea esse livro, sob a forma de um segundo tonao: os

de trabalho,ainda
provisória, de unaa parte da obra ena prepara-
çâo.Outros textos
seriam acrescentados,em particular unaa longa
meditaçãosobre o Moisés
de Freud pelo qual sentia fascínio: um

37
ctvca

na sido publicado no último


12as
estudo sobre esse
retotn.i-lo sob outra perspectiva,capitulode
ele pretenata tanto
novo interesqe entre
o de os historias
esses textos ena projeto,
etn tvlaçào não existe
confiável, hotnologada corno
tal pelo
do trabalho etn Citrso tinham sido obJet()
autoc Alguns
ou de apresentações etn serninários, cujos vestígios
de conteréncias
tra=vuentose notvl<Inanuscrltas nos dossiês do autor
ern notas e resu:nos redigldos por alguns ouvintes,às
publicados revistas.

O capituloI, lustória,ciência e ficção", apresentaa mais


extensasérte de alteraçõescom o aditaruento de desenvolvunentos
especiticosque, seguida,fôr,un suprimidos. A série começa com
urn cornpostopor De Certeau, ena companhia de diversos
colaboradores,cuoapágina de Introdução -- além de um artigo,"De
l'mtar:natique à ranthropologie" (1977) —traz sua assinatura. Uma se-
gund.l irrssio, Inais elaborada, foi apresentada em inglês por ocasião de
um colóquio realizado na Califórnia (Berkeley, março de 1980) com a
partichpaçsio,enl particular, de Jürgen Habermas e Albert Hirschman;
este texto tai publicado nas Atas desse encontro (HAAN et alii, 1983).
No Intenalo,uma vets,iofrancesafoi retornada de maneira parcial,
em chR•rentes
contextos e sob diversos títulos: ' 'L'histoire dans une
politiquede Iascience" (1981);"lnfôrrnatique et
rhétorique: l'histoire"
(1982).Uma versão francesa mais
completa, embora desprovida de
algunsdesemol\imentos anteriores,
foi apresentada como conferência
plenáriaem um colóquio realizado
no Canadá (Ottawa, abril de 1980)
e publicada,com o atual
título —"L'histoire, science et fiction" nas
Atas desseencontro
(CARRet alii, 1982); esse foi
retomado em uma o texto que, tendo sido
revista (DE CERTLAU, Le Genre humain, 1983), adotel
para estacoletáneacom correções
de detalhe.
O texto do capítulo
escrito que lhe e história", corresponde ao
havia sido solicitado
vam um \01ume por historiadores que
orgarun-
coletivo, com intenção
mação de sua didática, sobre a transfor-
disciplina (LE GOFF
explica, et alii,
1978).Tal finalidade didática
outrasformas. que esse texto
Esseregistrode não tenha sido retomado
escrita não era sob
muito apreciado por

38
'l de Cet teau; so
Tal associada à sua a genero
do de conceber e
foi explicada por ele pratlcar a
texto que um
retrato pequeno
do estilode sua relação
Ilitelectual conl toda a espécie de
interlocutores.31
O capítulo III —- ' 'O 'ronnnce' psicanalítico.
História e literatu-
ra —foi apresentado, iniciahnente, ena una
encontro internacional
de psicanalistas (Paris, févereiro de 1981)
e publicado nas Atas desse
evento (MAJOR,1981); enl seguida, fUi objeto
de novas versões apre-
sentadase discutidas enl diversasoportumdades nos
EUA,no Canadá,
etc. E-xlstelllvárias apresentações tanto enl inglês quanto
enl francês;

Por sua vez, os capítulos IV a VI constituem una subconjunto


sobrea obra de Foucault, autor por quena De Certeau tinha não só
amizade,mas tambélll adlillração. C) capítulo IV,"O riso de Michel
Foucault teve uma história particular entre dois momentos, dois
idiomase dois óbitos. A prillleira parte foi escrita, pouco depois do
falecimento de Foucault, para a Rei'lle de Ia BibliothêqueNationale, 32
por solicitação de Yves Peyré, que desejava homenagear a memória
desseleitor notável e assíduo; este texto —retomado, modificado e
completado com uma segunda parte —foi apresentado, em inglês, no
colóquiocaliformano (Berkeley,março de 1985) para homenagear
o grande falecido. Enquanto Michel de Certeau esteve vivo, esta
segundaversão permaneceu inédita, tendo sido publicada,por mmha
Iniciativa,em uma homenagem a Michel Foucault (Le Débat,1986).
O texto correspondente ao capítulo V —"O sol negro da
linguagem:Michel Foucault" —foi publicado, sob um título mais
convencional,na revista mensal de cultura geral Etudes,33editada
pelosjesuítas da França. Ele foi retomado, sob seu atual título —"Le
noirsoleildu langage: Michel Foucault " —,com algumas correçôes,
emuma coletânea artigos de Michel de Certeau (ABH, 1973),
de
Incluídaem uma coleção de existência efémera e cuja impressão

DECERTEAU,
"Qu'est-ce qu'un séminaire?" 1978.
DECERTEAU,
"Le rire de Michel Foucault", 1984.
DECERTEAU,"Les
sciences humaines et Ia mort de l'homme"y 1967,

39
H CifNCtA

de erns: alias,esta coleçào foi rapidamente


estava aspleta apreciado por Michel
Tendo sido Foucault, este
por seu editor. artigo
"Microtécnicas e discurso panóptico:
O capítulo VI para um colóquio
enl inglês
quiproquó" foi escrito do
sobreMichel
participação homenageado (Los Angeles,
Foucault, com a Outil_
tendo sido publicado, com outros textos oriundos
bro de 1981), do
revista local.34 Na ausência de qualquer
mesmo encontro, em uma
texto inglês, sabendo que Michelde
versão francesa,traduzi o
de Silrveiller etpunir (1975),livro
Certeau fazia questão dessa leitura
consideradopor ele como o mais iruportante de Michel Foucault.
Os dois capítulos seguintes,VII e VIII, foram acrescentados para
estasegundaedição.Eles retomam a questão da história e de sua
escritaem uma perspectivaque está menos diretamente associada
no entanto,em meu entender, seu conteúdo é uma
à psicanálise;
introduçãopertinente para alguns dos temas abordados nos últimos
capítulosdesta coletânea. O capítulo VII, "História e estrutura", é o
resultadode um debate público, organizado no Centre des intellectuels
catholiques(Paris,1969),com a participação de outros dois historiado-
res,Raoul Girardet e Pierre Nora. Cada uma das três apresentações
era seguidapor questões dos ouvintes e pelas
respostas dos oradores;
todo essematerial foi publicado com o
título —conservado, aqui,
"Histoireet structure" —na revista
dessa instituição, Rechercheset
débats.Nesta coletânea, limitei-me
a retomar as intervenções de Cer-
teau que, aliás,foram as mais
extensas e numerosas; em suas respostas
às questõesdos ouvintes, suprimi
sãoIndicados com dois breves trechos —esses cortes
reticências entre colchetes —
intervenções dos dois outros oradores. que faziam alusão às
concisa,as questões Reformulei, de forma mals
dos ouvintes e retirei,
algumas marcas de nas respostas de CerteaU'
oralidade.
Por sua vez,o
a conclusão capítuloV111,'60 ausente
redigida,com um da história", constitUía
título diferente,
para a coletânea de

DE
and panoptic
discourse:a quid
prod quo", in
TRACAOC)"POR
GARD

enl que tara publicado o cap.V CABEI,1973).


Decepcionado
tar essa coletanea para dispersar seus elementos enl difQrentes
lugares
de publicação. Essa conclusão —apesar de ser citada frequentemente
ainda não tmha sido publicada. Sirvo-lne, aqui, da versão impressa
do livro. depois de ter corrigido os erros de impressão;para adap-
o texto a seu novo contexto de publicação,suprimi a primeira
nota de rodapé (que se ret-eriaao preâmbulo da coletánea original)
e modifiquei três palavras ou expressões,devidamente assinaladas
entre colchetes.
O capítulo IX —"A Instituição da podridão: Lildcr" —foi propos-
to enl um encontro da Ecole Freudienne de Paris (Lille, setembro de
1977).De fato, ele é oriundo de outro trabalho (tendo permanecido
inéditopor estar Inacabado) que o autor estavaredigindo sobre a tor-
33
tura:ulteriormente, cheguei a publicar um fragmento desse ensaio.
Com o título reproduzido aqui, e sob a Illesma forma —"L'mstitution
de Ia pourriture: Luder" esse texto havia sido publicado em uma
reusta, Action Poéticlllc(dezembro de 1977), assim como nas Atas do
encontro de Lille (1978).
Finalmente, o estudo do capítulo X —"Lacan:uma ética da fala/
palavra[parole]" —havia sido solicitado ao autor, após o falecimento
de Lacan,por Pierre Nora para a revista da qual este era diretor.
Redigidona Califórma, em dezembro de 1981, só foi publicado um
poucomais tarde ("Lacan: une éthique de Ia parole", novembro de
1982).Michel de Certeau foi um dos membros da Ecole Freudlenne
de Parisque haviam tentado opor-se, judicialmente, à dissolução da
Instituição,decidida pelo fundador.36Tal gesto nada havia retirado
de suaadmiraçãoe de seu respeito pela obra de Lacan, tampouco
modificadoseujulgamento a respeito da posição do recém-falecido
na história da psicanálise, após 1960.

seu texto (DE


CERTEAU,"Corps torturés, paroles capturées") e o comentário de Vff)AL-
XAQCET.
GLARD, 1987.
A dasperipéciasda
dissolução,ver ROUDINESCO, 1994b, p 652-664 e 1994a, p. 313-317.
História e psicanálise:
em're cÊncia e ficção
A história, ciência e
ficçãol

"Ficções"
A semelhança de ' 'ciência", seu termo correlato —"ficção"
—é
uma palavra perigosa. Por ter procurado, em outro artigo,2definir
seu estatuto, limitar-me-ei a sublinhar, neste texto, a título de nota
preliminar, quatro funcionamentos possíveis da ficção no discurso
do historiador.
1. Ficçãoe história.A historiografia ocidental se bate contra a
ficção;entre a história e as histórias, essa guerra Intestinaremonta a
épocasbem recuadas. Trata-se de uma querela familiar que, de saída,
fixa posições. Entretanto, por sua luta contra a fabulação genealÓgica,
contra os mitos e as lendas da memÓria coletiva ou contra as derivasda
circulaçãooral, a historiografia cria um distanciamento em relação ao
dizer e ao crer comuns, além de se instalar precisamente nessa diferença
que a credencia como erudita ao distingui-la do discurso ordinário.
Não porque ela diga a verdade. O historiador nunca teve se-
melhantepretensão. De preferência, com o aparato da crítica dos
documentos,o erudito retira o erro das"fábulas":ao diagnosticar
0 que é falso,ele ganha terreno em relação a estas.Na linguagem
recebidacomo admissível, ele escava a posição que acaba atribuin-
do à sua disciplina, como se —instalado no meio de narratividades

história
"L'histoire, science Cf., neste livro, a
et fiction" in DE CERTEAU, Le Genre humain, 1983.
textual deste
capítulo, p. 37-38.
DE CERTEAU,
ECH, 1984a (Cf. "La fiction de l'histoire", p. 312-358).

45
ENTRE CIÊNCIA FICÇÃO
HtsróRlA E PSICANÁLISE:

combinadas de uma sociedade (tudo o que ela relata


estratificadase
para si mesma) -- ele se empenhasse em rechaçar o que
ou relatou o que é verdadeiro; ou como se ele
a construir
é falso e não tanto verdade pela identificação do erro. Seu
produzir a
só conseguisse negativo, ou —para tomar emprestado
algo de
trabalho consistiria em
um termo mais apropriado —um trabalho da "falsifica_
a Popper uma
vista,no elemento de cultura, a ficção
ção". Desseponto de
institui como erróneo, obtendo assim uni
é o que a historiografia
territÓrio próprio.
2. Ficçãoe realidade.No plano tanto dos procedimentos de análise
(examee comparação dos documentos), quanto das interpretações
(produtosda operação),o discurso técnico capaz de determinar os
erros característicos da ficção autoriza-se, por isso mesmo, a falar em
nome do real.Ao estabelecer,de acordo com seus próprios crité-
rios, o gesto que separa os dois discursos —científico e de ficção
—,a historiografiaadquire seu crédito de uma relação com o real,
porqueseu contrárioestá colocado sob o signo do falso.
Essa determmação recíproca encontra-se alhures, apesar de se
servirde outros recursos e de outras pretensões; ela implica uma
dupladefasagemque consiste,por um lado, em fazer com que o real
sejaplausívelao demonstrar um erro e, ao mesmo tempo, em fazer
crer no real pela denúncia do falso. Ela pressupõe, portanto, que 0
não falso deve ser real. Assim, outrora, ao contra "falsos"
argumentar
deuses,fazia-secrer na existência de algo verdadeiro. Ao repetir-se'
inclusivena historiografia contemporânea,
o procedimento é sim-
ples:ao comprovaros erros,
o discurso leva a considerar como real
o que lhes é contrário.
Apesar de ser logicamente ilegítimo, o pro-
cedimento funciona
["marche"] e "leva na conversa [ fait marcher"].
Desdeentão,a ficção
é transferidapara o lado do irreal, enquanto
o discurso
tecnicamentearmado para designar erro está afetado
pelo privilégio o
suplementar de representar o
real; os debates entre
"literatura"
e história '
permitiriam facilmente ilustrar essa divisão
3. Ficçãoe ciência.
Por uma reviravolta bastante lógica, a ficção
encontra-setambém fisico
e teológico) no campo da ciência. Ao discurso (meta
que decifra a ordem
dos seres e as vontades de

46
de o
autor, clina lenta
de Iljstau rar coercijclc'l'»a partir
lugar das c•scmtasGipazes quais
orden),
venha a produzir-se
funçõl() clôlfál)lca cle representar as c ()lsas,
IDesligadasde sua
linguagens fornK11S lugar, suas aplicações, a cenárjos c Ulja
pertinencia se retere não Hiais [10q Lie eles exprnncnj, 111asao que,
por seu se torna pos«ível. EIS tlina nova c«pécle de
ficção:artefato clentífico, ela não «ejulga pelo real que, supoqta-
pelo que ela perniltc fazer e transfonnar.
Iliente,lhe faz falta, 101as
E "ficção"não o que bate a fotografia do desenobarque lunar, Inas
o que o prevê e o organiza.
A historiografia utiliza tanobélll as ficçÔe«desse tipo quando
elaconstrÓisiRtemaqde correlaçõe« entre unidades definidas
distintase eqtáveis;quando, no espaço de uno pasqado, ela faz funcionar
hipótesese regras científicas presentes e, assino,produz modelos dife-
rentesde sociedade; ou quando, mais explicitanlente, como no caso
da econometria histórica, ela analisa as consequências de hipóteses
infactíveis(por exemplo: o que teria ocorrido com a escravidão nos
EUAse não tivesse ocorrido a Guerra de Secessão? CE ANDREANO,
1977,p. 258ss).No entanto, o historiador não deixa de alimentar
desconfiançaem relação a essa ficção que se tornou científica,
acusando-ade "destruir" a historiografia: aspecto perfeitamente
demonstradopelos debates sobre a econonaetria.Tal resistência pode
aindafazerapelo ao aparato que, ao apoiar-se em "fatos", revela
erros.Mas,ainda mais, ela baseia-se na relação que o discurso do
historiador,
supostamente,mantém com o real; na ficção, incluindo
esta,o historiadorcombate uma falta de referencial,
uma lesão do
discurso"realista",uma ruptura do acasalamento,pressuposto por
ele,
entre as palavras e
as coisas.
4, A ficçãoe o
serum discurso "limpo".3A ficção é, por Último, acusada de não
de"limpeza" unívoco ou, dito por outras palavras, de carecer
["propreté"l
científica.Com efeito, ela lida com uma
estratificação
de sentido,relata
uma coisa para exprirmr outra,
N.T,:No
original:"
nota31 proprc";vale
cap. III lenabrar
, p, 101). que este terni0 pode significar
"próprio" (cf., mais adiante,
da cltjal extrai,
em urna linguagenl ser clrcunscritos, nena controla _
confi=vura-se podenl
que
efeitosde sentido
espaço Iproprels Ela
ela não
unívoca
em princípio Movimenta-se, ilnperceptível,no cainpo do outro.
saber não encontra lugar seguro e seu
o
Nessascircunstâncias, de
analisá-la maneira a reduzi-la ou traduzi-
esforçoconsisteem e combináveis.
Desse ponto de vista, a
estáveis
Ia em elementos cientificidade: é a feiticeira que o saber se
de
ficçãolesauma regra exorcizá-la eln seus laboratórios.
classificar,ao
empenhaem fixare
sinal do falso, do irreal, nem do artefato,
Elajá não traz,aqui, o
E a sereia da qual o historiador
masdesignaumaderivasemântica.
devedefender-se,a exemplo de Ulisses aniarrado no lilastro.
De fato,apesardo quiproquÓ de seus estatutos sucessivos ou
simultâneos,a ficção sob suas modalidades míticas, literárias,
científicas ou metafÓricas
forme] ao real, sem qualquerpretensão de representá-lo ou ser
credenciado por ele.Deste modo, ela opõe-se, fundamentalmente,
a uma historiografia que se articula sempre a partir da ambição de
dizero real —e, portanto, a partir da impossibilidade de assumir
plenamentesua perda.Essa ambição parece a presença e a força
de algode original;ela vem de longe, à semelhança de uma cena
primitiva,cuja permanência opaca continuasse determinando a
disciplina.De qualquer modo, ela permanece essencial,consti-
tuindo,portanto,o centro
obscuro de algumas consideraçõesque
eu gostariade introduzir
a respeito do intercâmbio entre ciência
e ficçãoao abordar "real"
apenas estas três pistas de reflexão: 1, o da
produzidopela historiografia
constitui, também, o legendári0 '
Instituição dos exemplo
historiadores; 2. o aparato científico -- por
a informática trabalho
—possui igualmente aspectos de ficção no
do historiador; quem
3. ao vislumbrar a relação do discurso conl
o produz—ou pro
seja, alternadamente, com uma instituiçã0
sionale com uma considerar
é possível
historiografiacomo
metodologia científica
ficção,00 como
um lugar em uma mistura de ciência e de
que se reintroduz o tempo,

48
O legendário da
instituição

n.1r ra ti (1 rela tc
Illstlt[ll algo dc real,
Jil«dldd que
[1,1 sua autor Idaclc no tato dc se fazer passar
pela testenlunha
do quc e, ou do que ela seduz e sc injpÔe através
dos aconteci-
rncntos dos (Ilidispretende ser a Intérprete, por excnjplo,
últimas
horasde R. Nixon na Casa Branca, ou a economia capitalistadas
Ilic'.xncanas.De fato, qualquer autoridade alicerça-se
haci('/ldas no
real de que, supostanaente, ela é a declaração; é scrnpre em nome
de algo de real que se consegue "a adesão" dos crentes e que estes
são produzldo«.A historiografia adquire esse poder enquanto ela
apresentae interpreta "fatos". O que o leitor poderia contrapor ao
discursoque lhe diz o que é (ou foi)? Ele teno de consentir á lei que
seenunciaena ternios de acontecnnentos.
No entanto, o "real" representado não corresponde ao real
quedetermma sua produção. Ele esconde, por trás da figuração de
umpassado,o presente que o organiza. Formulado sem rodeios, o
problemaé o seguinte: a encenação de urna efetividade (do pas-
sado),ou seja,o próprio discurso historiográfico, oculta o sistema
sociale técnico que a produz, isto é, a instituição profissional.A
operaçãoem causaparece ser empreendida com bastante astúcia: o
discursotorna-se crível em nome da realidade que, supostamente,
ele representa,mas essa aparência autorizada serve, precisanaente,
paracamuflara prática que a determina realmente. A representação
disfarça
a práxisque a organiza.
I. O discursoe a/da instituição.A historiografia erudita não escapa
ascondicionantes
das estruturas socioeconómicas que determinam
asrepresentaçôe«
de uma sociedade. Certarnente, ao isolar-se, una
círculoespecializado
apolitização tentou subtrair a produção desqahistonografia
e à comercialização
atualidade.Essa das narrativas que nos relatam nossa
segmento —que assunje a forma seja burocrática (um
retirada
do Estado)ou
corporativista (uma profissão) a—permitiu
a Separação
de Objetosmais antigos (um passado), a seleção de um
material
maisraro
(arquivos)e a definição de operações controláveis

49
c±vc.A

tudo se passa como se os procedimen_


Mas comuns ou de nossas
pela profissão nossas "histórias"
de
tos geraisda fabricação não tanto eliminados desses laboratórios
lendas cotidianasfosselll à prova, criticados e verificados pelos
mas de experimentação. Antes de analisar
terrenos
historiadoresem seus científicas, convém reconhecer
às pesquisas
a tecnicidadepeculiar com a produção geral de nos-
têm etn
portanto,o que elas
pela mídia. E é a própria instituição profissional dos
sas histórias tais pesquisas, vai associá-las às práticas
historiadores que, ao apoiar
pretendem distinguir-se.
comuns das quais elas
—salvo marginalmente —uma obra
A erudição deixou de ser
trata-se de um empreendimento coletivo. Para Popper,
a comunidadecientíficacorrigia os efeitos da subjetividade dos
No entanto,essacomunidade é também uma usina,
pesquisadores.
distribuídaem cadeiasde montagem, submetida a exigênciasorça-
mentárias, associada, portanto, a políticas e às condicionantes crescentes
de um aparato sofisticado (infraestruturas arquivísticas, computadores,
modalidades da edição, etc.); ela é determinada por um recrutamento
socialbastanterestrito e homogêneo; orientada por esquemasou
postulados socioculturais que impõem tal recrutamento, a prioridade/
recursos afetados às pesquisas, os interesses do orientador/ patrocina-
dor, as correntes da época, etc. Além disso, sua orgamzação interna
baseia-se na divisão do trabalho: ela tem seus diretores, sua aristocracn,
seus"chefes de trabalhos" (frequentemente proletários das pesquisas
decididaspelos diretores de departamento), suas técnicas, seus reda-
tores mal remunerados e seus encarregados da manutenção. E deixo
de lado os aspectos psicossociológicos desse empreendimento —por
exemplo, a "retórica da respeitabilidade universitária", cuja análisefoi
elaboradapor Jeanine Czubaroff (1973).
Ora, os livros, produtos dessa usina, nada dizem de sua fabfl-
cação,ou tão pouco quanto nada, dissimulando sua relaçãoconl
or
esse sistema hierarquizado P
e socioeconómico. Será que a tese, de
exemplo,torna explícita sua relação com o diretor que superinten
a pesquisaacadémica, que ele
ou com os Imperativos financeiros a
estásubmetido, ou com as profissional
pressões exercidas pelo meio
sobre os temas escolhidos
e os métodos adotados? Inútil
l)lstomca (iii
referencia, p IVtellde111 r

Certainentc essa
seu papel,
procede, cljl.i(
sado e o presente; Vji J.i'u

Ilcaq.Elli sunma,corno IVIlc0)clct, é dc


para"acalnnar os Inortos' e retil)lj- tocl.i a e%pccucdc

zidaspela conapetlçâo, pelo labor, pelo tcnjpo e pela Iljortc,


tarefasocial exige, precisanlc•nce, a octiltaqjl() do par CIC
Ill.trl/}i
a representação,levando a evitar o retorno da na
cenasililbolizante.Portanto, enl vez da de pawa-
do,o texto vai proceder à elucidação da operaçâo
o fabrica.Ele confere Clinaaparência de real (pas%aclo),ao

2. Do prodilto emdito d Illidia: d /lis/orieera/l(l ecra/. Sob essa perspec=


tiva,odiscursocientífico Já não se diqtingue da narratividade prolixa
e filndamentalque é nossa historiografia coticllana. Ele
particapa
do sistemaque organiza, por
"1u«tÓna«", a social e a
habitabilidade
do presente.O livro ou o artigo profissional,por
lado,e,por outro,
o diário innpresso ou televisionado diferenclajn-se
apenasno interior
do mesnoo campo historiográfico, constituído pelo
grandenúmero
de narrativaq que relatanu e Interpretam os aconteci-
mentos. O historiador
essasolidariedade "especializado" obstina-«e, é claro, rejeitar
dessa comprometedora.Vâdenegação.A parcela erudita
historiografiaforma aí apenas urna particular não
"técnica"do que as espécies contíguas
outrastécnicas. diqpondo somente de
asnarrativas Elatem a ver tambérn
que corn um género que prolifera:
exprimem
0-que-qe-pa«sa.

51
até o «Io dc
tréguas,desde o
que não tilnciona (o é, de
lata-se 'Elaprivilegia o

costurar, acinxa de tudo, essas dilacerações


coni uxSncia, voltar a
de narrativas, autorizando sua incansável
intortúnios são indut01?s

que autorizava a interminável narratividade de sua revelação:


vino
indefinidarnetlte a narração,
atualmente, ele continua a permitir
longínquo ou alheio, que serve de
assume a forma de acontecmxento,
postuladonecessárioà produção de nossos discursos de revelações.
Essedeus fragmentadonão cessa de ser objeto de conlentários; ele
tagarela.Por toda parte, notícias, informações, estatlstlcas, sondagens
e documentos que, pela conjunção narrativa, connpensam a disjunção
crescentecriada pela divisão do trabalho, pela atonlização sociale
pela especializaçãoprofissional. A todos os apartados, esses discur-
sosfornecem um referencial comum; eles instituem, em nome do
"real", a linguagemsimbolizadora que leva a crer na comunicação
e entretece a rede de "nossa" história.
Dessahistoriografiageral, limitar-me-ei a sublinhar
três traços
peculiaresao género em sua integralidade,
embora eles sejam mais
visíveisna espécie "mídia" e mais
bem controlados (ou modalizados
diferentemente)na espécie "científica".
a)A representação das
realidades históricas é o meio de camuflar
as condições reais de
sua produção. O "documentário" não mostra
que ele é, antes de
mais nada, o resultado de uma Instituição socioe-
conômica seletiva e de
um aparato técnico codificador, o diário oua
televisão,Tudo se passa
como se, através de Dan Rather, o Afeganistão
se mostrasse.
Na e
verdade, ele nos é contado em narrativa que
o produto de uma
um meio, de um poder,
e seusclientes, de contratos entre a et'11PÑsa
assim como da lógica de
informação dissimula uma técnica. A clareza
as leis do trabalho complexo que a constói;
trata-se de uma falsa aparência
ilusóriade outrora, que, diferentemente da perspecti\l
estatuto de teatro
deixou de fornecer tanto a visibilidadede
quanto o código de sua fabricação.A"elucidaÇiO
profissionaldo
passado possui o mesmo
procediment0•

52
b) A narrativa que fala em nome do real é nnperativa; ela ' 'faz
, à njanetra cotno se dá ulna ordem. Nesse aspecto,a
atuahdade(o real cotidiano) exerce um papel semelhante ao que
a divmdade desempenhava outrora: os padres, as testemunha« ou
os tmmstrosda atualidade fazem com que ela fale para dar ordens
em seu nome. Certamente, "fazer falar" o real já não é revelar as
vontadessecretas de um Autor; daqui em diante, algarismos e dados
fazemas vezes dessessegredos "revelados". No entanto, a estrutura
permanecea mesma: ela consiste em ditar, interminavelmente, em
nomedo "real", o que deve ser dito, o que se deve crer e o que
deveser feito. E o que opor a "fatos"? A lei que se relata em dados
e algarismos(ou seja, em termos fabricados por técnicos, mas apre-
sentadoscomo a manifestação da derradeira autoridade, o Real)
constituinossa ortodoxia, um imenso discurso da ordem. Sabe-se
queo mesmo ocorre com a literaturahistoriográfica.Eis o que é
mostrado,atualmente, por um grande número de análises:ela foi
sempreum discurso pedagógico e normativo, nacionalistaou ml-
litante.No entanto, ao enunciar o que se deve pensar e fazer, esse
discursodogmático não tem necessidade de sejustificar porque fala
em nome do real.
c) Ainda mais: essa narrativa é eficaz.Ao pretender relatar o
real,ela o fabrica. Ela é performática. Ela torna crível o que diz e
faz agir por essa razão. Ao produzir crentes, ela produz praticantes.
A informação declara: "O anarquismo está nas nossas ruas, o crime
está à nossa porta!" O público, imediatamente, arma-se e ergue
barricadas.A informação acrescenta:"Existem indícios de que os
criminosossejam estrangeiros." O público procura os culpados,
denunciapessoas e vai votar em favor de sua condenação à morte
Oude seu exílio.A narração do historiador desvaloriza ou privilegia
práticas,exagera a dimensão dos conflitos, inflama nacionalismos ou
racismos,organiza ou desencadeia comportamentos. Ela faz o que
eladiz.Eis o que foi analisado por Jean-Pierre Faye (1973) em seu
livro,Langagestotalitaires[Linguagens totalitárias], a propó«ito do
nazismo.Conhecemos outros casos em que narrativas são fabricadas
emsérie e fazem a história.As vozes charmosas da narração transfor-
ruam,deslocam e regulam o espaço social; elas exercem um imenso
poderque, por sua vez, escapa ao controle por se apresentar como

53
f ANAHSt

do que se passa ou do que se


representação
a verdadeira ternas selecionados, pelas problemáticas
pelos
história profissional e pelos modelos utilizados
pelos
que ela pnvilegia. análoga. Sob o nome de ciência, ela arma
teni urna operatividade Assim, frequentemente mais lúcidos
clientelas.
tarnbém e mobiliza os poderes político e ou econê)rni_
historiadores,
que os próprios
empenharam-se sempre em cooptá-la, lisonjeá-la, comprá-la
co controle ou subjugando-a.
orientá-la,colocando-a sob

Cientificidadee história: a informática d

Para combinar uma encenação com um poder, o discurso


vincula-seà instituiçãoque lhe garante, ao mesmo tempo, a legiti_
midadediantedo público e a dependência em relação à dinâmica
dasforças sociais.O empreendimento assegura o papel ou a imagem
como discursodo real para os leitores ou espectadores, ao mesmo
tempo que,por seu funcionamento interno, ele articula a produção
sobre o conjunto das práticas sociais. Mas existe interação entre esses
doisaspectos.As representações são autorizadas afalar em nome do
real apenasna medida em que elas fazem esqueceras condições de
suafabricação.Ora, é a instituiçãotambém que opera o liame entre
essescontrários. Dessas lutas, regras e procedimentos soclals comuns,
elaimpõe as condicionantes à atividade produtora, autorizando sua
ocultaçãopelo discurso produzido. Garantidas pelo meio profissional,
essaspráticaspodem, desde então, ser dissimuladas
pela representação.
Mas a situação será, assim, tão paradoxal?
O elemento excluído do
discursoéjustamente a garantia da coesão
prática do grupo (erudito).
Essaprática não pode ser,
evidentemente, reduzida ao que
a leva a ser classificadano
gênero da historiografia geral. Como
'científica",ela dispõe de
traços específicos; vou servir-me, como
exemplo,do funcionamento
da informática no campo do trabalho

N.T: Lembramos
ao leitor que a
a invençãodos primeira edição deste
PCs era recente livro é de 1986 (University of
informática e sequer se vislumbrava d
ao campo das pos«ihilidade de uso dos recursos
Ciências Humanas;
isso,de maneira alguma, invalida

54
espectahzadoou profissional,Conl a
intarniátlca,
a pos<ilillldadedo quantitati\0, estudo sequencial
das rela-
Para o historiador. é a Ilha Atiytunada. Finahnente ele
a possibilidadede livrar a historiografia de suas relações conl-
protneteaorasconl a retonca, com todos os usos Inetonínncos
ou
metatóncos do detalhe supostamente significativo de um
conjunto,
e todos os ardis oratórios da persuasão; ele terá a possibihdade
de desvencilhá-la de sua dependência em relação à cultura circun-
dante.cuoos preconceitos recortam antecipadamente postulados,
unidadese Interpretações. Graças à informática, ele torna-se capaz
de controlar as quantidades, de construir regularidades, além de
determinar periodicidades a partir das curvas de correlações —três
pontos nevrálgicos na estratégia de seu trabalho. Portanto, a histo-
tlu fisgada por uma embriaguez estatística:os li\TOSficam
repletosde algarismos,garantias de objeti\idade.
Inélizmente, foi necessário desenfeitiçar tais expectativas,mes-
mo sem ter chegado a falar o—como ocorreu, ultimamente, com as
observaçõeselaboradas por Jack Douglas (1969) ou Herbert Simons
(1980)—de "retórica dos algarismos". A ambição de matematizar a
historiografiatem a contrapartida de uma historicização dessamate-
mática particular que é a estatística. Nessa análise da sociedade baseada
na matemática, é preciso, com efeito, sublinhar: | 0 sua relação com suas
condiçõesde possibilidade históricas; 20 as reduções técnicas que ela
Impõee, portanto, a relação entre o que ela aborda e o que deixa de
fora;por último, 30 seu funcionamento efetivo no campo historiográ-
fico,ou seja, o modo de sua recuperação, ou de sua assimilação,pela
disciplinaque, supostamente, é transformada por ela.Eis outra forma
de assistirao retorno da ficção a uma prática científica.
1.Aparentemente, nada de mais alheio aos avataresda história
que essa cientificidade matemática. Em sua prática teorizadora, a
matemáticase define pela capacidade que seu discurso possui de
determinar as regras de sua produção, de ser "consistente" (ou seja,
semcontradição entre seus enunciados), "limpo" (isto é, sem equivo-
cidade)e restritiV0(impedindo, por sua forma, qualquer rejeição de
seu conteúdo). Sua escrita dispõe, assim, de uma autonomia que

55
interno de seu
fiz da "elegánc:a"o pnncípto da desenvolvimento.
sociedade
sua aplicação à análise tem a ver com
circuns
de espaço. NIesmo que, no século XVII,
tine-tasde tempo e
as probabilidades do
Cralggá uslumbrasse calcular testemunho em
princ-:pa
chrisfi,znue ynatheynatica,
é no final do
seu TheolêA'iae século
t;unda uma "matemática social" e empreen_
X"VIII que Condorcet
"probabilidades"que regem, no seu entender,
de um cálculodas
as escolhas práticas dos
'*motivaçõespara crer" e, portanto, Indivíduos
reunidos em sociedade (CONDORCET, 1974).5 Somente então
toma
tarma a ideia de uma sociedade matematizável, princípio e postulado
de todas as análises que. na sequência, abordam a realidade social sob
o prisma da matemática.
Essa"ideia" não era embora o projeto de uma socie-
dade orientada pela razão já tivesse sido proposto em A Repúblicade
Platão.Para que a "língua dos cálculos". de acordo com a expressão
de Condillac,viessea definir o discurso de uma ciência social,foi
necessário,em primeiro lugar, considerar a sociedade como uma
totalidadecomposta por unidades individuais que combinam
suasvontades:esse "individualismo", surgido com a modernidade
(ILACPHERSON, 1962; MACFARL±VE, 1978), é o pressuposto de um
tratamentomatemático das relações possíveis entre essasunidades,
assimcomo ele é, na mesma época, o pressuposto da concepção
de uma sociedade democrática. Além disso, três condições Cir-
cunstancialsvinculam essa ideia a uma conjuntura histórica: um
progressotécnico das matemáticas (o cálculo das probabilidades,
etc.),indissociável,aliás, da abordagem quantitativa da natureza e da
dedução das leis umversais, características
da cientificidade no século
XVIII (KLINE,1972,p. 190-286); a
organização sociopolítica de uma
administração
que uniformiza o território, centralizando a infor-
maçãoe fornecendoo modelo
de uma gestão geral dos cidadãos;
por último,a constituição
de uma elite burguesa ideologicamente
convencidade que seu
próprio poder e a riqueza da nação seriam
garantidospor uma
racionalização da sociedade.

A tratadapor Condorcet,
em 1785,já havia sido ada
por ARROW abordada por BORDA (1781):
(1963),seu tratamento
valeu ao autor um Prémio
Nobel.

56
—-a primeira, de natureza
Essatripla deterrninação histórica
ideológica e social —foi,
cécmca;a outra, sociopolítica; e a terceira,
torna possíveisas operações es-
e continua sendo, a condição que
caóticas.Ainda hoje, o progresso científico, o aparelho estatal ou
internacionale o círculo tecnocrata servem de suporte ao empre-
endimentoinñrmático.6 Ou, dito por outras palavras,a matemática
da sociedadenão escapa à história, mas depende de descobertas
científicas.de estruturas Institucionais e de formações sociais,cujas
Implicaçõeshistóricas desenvolvem-se através de todos os campos
de uma metodologia anistÓrica.
2. Além disso,o rigor matemático exige uma estrita restrição
do domímo em que ele pode exercer-se.Já Condorcet procedia a
uma tripla redução. Em sua "matemática social", ele pressupunha:
a) que alguém age em conformidade com sua crença;b) que esta
pode inspirar-se em "motivações para crer"; e c) que tais "mo-
tivações"reduzem-se a probabilidades.Impõe-se absolutamente
recortarno real um objeto matematizável.Ele deixa,portanto, fora
de seus cálculos,um enorme detrito, toda a complexidade social
e psicológica das escolhas. Sua "ciência das estratégias" procede à
combinação de simulacros. Gêmo da matemática, o que é objeto de
cálculo,afinal de contas, na sociedade que ele pretende analisar?A
rigorosanovidade do método tem como preço a transformação de
seu objeto em ficção. Desde o final do século XVIII —aliás,como
foi demonstrado por Peter Hanns Reill (1975, p. 23 ISS),a propósito
dos primórdios do historicismo alemão —,o modelo matemático
é rejeitado em beneficio de um evolucionismo (que acompanha a
JULIA;REVEL,1975) 7
historicizaçào da linguística) (DE CERTEAU',
antesque o estruturalismo macroeconómico do século XX venha
restaurar,também, esse modelo na história.
Atualmente,na história, o uso da estatística—forma, no en-
tanto,elementar da matemática —só é permitido mediante drásticas
restrições,Assim, no próprio começo da operação, deve-se adotar
apenaso material suscetívelde ser constituído em séries (o que
facilitaráuma história urbanística ou uma história eleitoral, em

Ver,por exemplo,'IBM ou I'émergence d'une nouvelle dictature", 1975.


Vercap.4,"Théorie et fictLon(1760-1780):De Brosses et Court de Gébelin"

57
de lado ou abandonadas a
deixadas
de
(objeto calculado cujas
palavras, variações
ou
de conl as coisas
Id(eitltijado
nun:a AArestrições exlgidas
do cálculos
a
c,
exennplo, seria necessana uma
teÓrjcos:por do tipo -
categoria«
capazde tratar características do campo
que sáo
.Iente" "talwz", etc.
recentes que, a partir das
Apesardas entre objetos, Introduzem
ou "distanciamento"
de exemplo, CORGE, 1975)
"Ijnpreosos" na análise (ver, por
conountos
infornúticos reduzenyse a três ou quatro fÓrmuIas.
algoritlnos
temo<a experiência das eliminações que tiveram que
Todos nós
no tnaterialporque ele não era abordável de acordo
serefetuadas
relatar os avatares de pesquisas
conl as regrasimpostas. Eu poderia
históricas por exenlplo, sobre os Estados Gerais de 1614 ou sobre
os Calliosdc [Cadernos de reclamações] de 1789 —objetos
que acabaralllsendo rejeitados do campo fechado da informática.
Desdeo níveleleinentardas unidades a serem recortadas, e por
excelentesrazões,a operação matemática exclui regiões Inteiras da

pelocornputadore amontoados à sua volta.


3. Na medida em que elas são respeitadas na prática efetiva do
historiador,essascondicionantes produzem
um apuramento técm-
co e metodológico.Elas
produzem efeitos de cientificidade. Para
caracterizartais efeitos,seria
alionde o cálculo
possível dizer, de maneira geral, que
se introduz, ele multiplica
te tornar algumas as hipóteses e perml-
delas falsificáveis.Por
entreOKelementos um lado, as combinações
que foram isolados
por outro,o sugerem relações, até então'
Ilnpedeinterpretações cálculo a partir de grandes quantidades
preconcebidas. baseadasem casos
Há, portanto, particulares ou em ideias
minaçãode aumento das possibilidades e deter-
crescero impossibilidades. O cálculo nada ele faz
número das colnprova;
relações formais legítimas entre elementOS

58
abstratamentedefinidos, além de designar as hipóteses a serem re-
Fitadas por serem malformuladas, ou não abordáveis,ou contrárias
aos resultados da análise (TILLY,1973),
Mas,deste modo, em vez de se ocupar, fundamentalmente, do
"real", o cálculo procede à gestão de unidades formais.A história
efetiva é, de fato, rejeitada de seus laboratórios. Assim, a reação dos
historiadoresacaba sendo bastante ambígua: eles aceitam e, simul-
taneamente,rejeitam tal situação. Seduzidos e, ao mesmo tempo,
rebeldeq.Não estou falando, aqui, de uma compatibilidade teórica,
masde uma situação de fato que deve ter um sentido. Ao analisá-la
tal como ela se apresenta, é possível identificar três aspectos, no
mínimo, do funcionamento efetivo da informática na historiografia.
a) Ao estabelecer a distinção, como se impõe, entre a informá-
tica (em que a estatísticadesempenha um papel menos importan-
te), o cálculo das probabilidades, a própria estatística (e a estatística
aplicada),a análise de dados, etc., pode-se dizer que, em geral, os
historiadoresinstalaram-seneste último setor: o tratamento quan-
titativode dados. O computador é utilizado, essencialmente,para
constituirnovos arquivos os quais, públicos ou privados, duplicam
e, progressivamente, substituem os antigos. Existem notáveis bancos
de dados, tais como o Inter University Consortiumfor Political and So-
cialResearch(ICPSR) da Universidade de Michigan (Ann Arbor),
graçasao sistema Fox, ou os bancos arquivísticos criados, na França,
tanto na instituição Archivesnationales,por Remi Mathieu e Ivan
Cloulas,no que diz respeito à administraçãomunicipal do século
XIX, quanto no Minutiercentral[Arquivo Central de Minutas] dos
notários parisienses.
Essedesenvolvimento considerável não deixa de estar circuns-
crito na arquivística,disciplina tradicionalmente considerada como
"auxiliar"e distinta do trabalho interpretativo que o historiador se
atribuía como seu campo próprio.Além da documentação, ele trans-
forma as possibilidadesda interpretação (FURET, 1974);portanto, o
computadoré situado em um setor particular do empreendimento
historiográfico,no interior do quadro pré-estabelecido que protegia
a autonomia da hermenêutica. Atribui-se-lhe apenas uma posição
como "auxiliar", ainda deterrmnada pelo modelo antigo que, além

59
as técnicas,distinguia a reunião de dados e
de hierarquizar a
sentido. Essaconibinação perjnite que, ern princ;plo
CidaçÀodo
o cálculo,sem ter de subtneter-se suas
historiadorutilize regras.
plano das
que haga,no tentativas Intelectuais
ela explica, sern dúvida,
Sido constatado por Charles Tllly ( 1973, p. 333-334),
como havia um
redundo de confrontos episternológqcos entre a operaçà()
nÚmero tão
e a operação interpretatna, por urn lado, e, por outro
inatenÚuca
niantlda, apesar das tensões, porosidades e
que seja
bilinguisrno eptstetnológico.
recíprocos.uma espéciede
corno urn fornecedor de da-
b) Utilizado pelos historiadores
dos segurose tna1Sabrangentes, ern vez de ser praticadona
qualidadede operasóes formais aclonadas por ele, o cornputador
aparecenos trabalhos dos historiadores sob sua figura atual de poder
tecnocrático.Ele Introduz-se na historiografia, sobretudo, a título
de uma realidadesocioecon&nica,e não corno urn conjunto de
regras e de hipóteses peculiares a urn carnpo científico. Essa é, aliás,
umareaçãode historiador,e não de rnaternático:o cornputador
Inscreve-seno discurso do prijnelro como urn dado contemporâneo,
mactçoe determinante,A Instituição na área da história retVre-se
ao poder que, transversalmente, Inoditica todas as regiões da Vida
socioeconÓrnica.
Assim,cada livro de história deveria comportar uma base
estatisticamíni:na para garantir a seriedade do estudo e, ao rnes-
tno tempo,prestar homenagern ao poder reorganizador de nosso
sisternaprodutor.Os dois gestos o pruneiro,
que se conforma a
um método técnico conternporâneo,
enquanto o outro tem a ver
com a dedicatÓna à autoridade
reinante são
inseparáveis. Trata-se
do mesmogesto.Desse
ponto de vista,o tributo que a erudtçà0
contemporâneapaga ao
computador seria equivalente à "Dedica-
tóriaao Príncipe"nos
livros do século XVII: um reconheciment0
de dívidaem
relaçãoao poder que
de uma época, sobredetermina a racionalidade
A institujçào da área ¯
semelhança da informática, atualrnente
da Instituição
apareceno texto nobiliárquica e genealÓgica de outrora '
sob a figura de uma
ao discurso força que tem razão e se itn
da representação,

60
relaç.io a eqs,esdois poderes sucessivos,o
aliás iguahnente, na
historiador
cncontra-se, po«jçáo de ente próxitno,
estrangejro;ele está ' 'junto" do conlputador, corno, outrora,
ele estava' 'junto" do rei. Ele analisa e inuta operaçóes que
eti•tua
apenasà distância; vai utilizá-las, «ejn ser parte integrante delas.
suma,ele faz história, Inas não a história; é seu representante.
c) Pelo contrário, a dedicatória a essa cientificidade
confere
crédito a seu texto, desenipenhando o papel de Citaçãoautorizante.
Entre todas as autoridades referidas pelo discur«o hiqtonográfico, é
esta
quelhe atribui tnaior legitimidade.Com efeito, o crédito é conferido
setnpre,em Últimainstância,pelo poder, porque ele funciona corno
umagarantiade real, à rnaneira corno uni capital-ouro confere vali-
dadeaos papéis e cédulas de banco. Essa razão, que carrega o discurso
da representaçãoaté o poder, é tnai« fundanlentalque motivações
psicológicasou políticas. Ora, o poder assume,atualmente,a fornaa
tecnocratada informática; o fato de citá-lo é, portanto, graçasa esqa
"autoridade",conferir credibilidadeà representação.Pelo tributo que
pagaà informática, a historiografia leva a crer que ela não é ficção. Ruas
tentativascientíficasainda articulam algo que não o é: a homenagem
prestadaao computador consolida a antiga ambição de fazer pasqaro
discursohistórico por um discurso do real.
Essaproblemática do "levar a crer" pela citação do poder é
acompanhada,como seu corolário, por uma problemática do "crer"
que está associada à citação do outro. As duas estão ligadas:o poder
é o outro do discurso. Servir-me-ei, como exemplo, da relação
estabelecidapor uma disciplina particular com outra. Na minha
experiênciadas colaborações entre historiadores e informáticos,
umailusãorecíproca faz supor, de cada lado, que a outra disciplina
garantir-lhe-áo que lhe faz falta —uma referência a algo de real.
A informática,os historiadores solicitam ser credenciadospor um
poder científico suscetível de fornecer "seriedade" a seu discurso;
à historiografia,os informáticos, inquietos em relação à sua própria
habilidadepara manipular unidades formais, solicitam um lastro para
seuscálculospelo "concreto" e pelas particularidades da erudição. Na
divisade cada território, leva-se o campo vizinho a desempenhar o
papelde compensar as duas condições de qualquer pesquisa científica

61
litnitaçào (que é renúncia à totalizaçáoh
moderna: por um lado,sua linguagem artificial (que é renúncia
de
e, por outro, sua natureza de representação.
ou
ser um discurso do real), deve fazer seu luto etn relação
uma ciência
Para se constituir, realidade.Mas o que ela deve excluir ou
à
tanto totalidadequanto outro, a respeito do
sob a figura do qual
retorna
perder para se formar de que seja uma garantia contra a falta
expectatl\a
continua havendo a
origem de nossos saberes. Uni "crer no outro" é
que se encontra na fantasrna de urna ciência totalizante e
se apresenta o
o modo em que
reintrodução,mais ou menos marginal, desse rnodelo de
ontológica.A a
traduz a rejeiçãodo luto que hasaa marcado ruptura entre
ciência
(a escrita)e o "real" (a presença). Não é surpreendente
o discurso
historiografia seja, seni dúvida, a mais
que, de todas as disciplinas,a
dizendo, um canipo
antiga e a mals obcecada pelo passado, melhor
para o retorno do fantasma.Nesse caso, o uso do corn-
putador,em particular,é indissociáveldo fato não só de pernxitir que
os historiadoreslevem a crer, mas tanibém de pressupor sua própria
crença.Estesuperacréscimo(essasuperstição) de passado lilanifesta-se
na maneiracomo eles utilizam as técnicas modernas.Assirn, na própria
relaçãocom a cientificidade,com a matemática e com a informática,
é que a historiografia é "histórica": não mais no sentido eru que ela
produzuma interpretaçãode períodos antigos, mas no sentido em
que o passado(o que as ciências modernas rejeitaram ou perderam
e constituíramcomo passado—uma coisa
finita, separada) produz-se
por seu intermédioe transforma-se
em narrativa.

Ciência-ficçãoou o lugar do tempo


Essacombinaçãoseria
o próprio histórico: um retorno do pas-
sadono discurso
presente. Mais amplamente,
e ficção)tumultua essa mistura (ciência
o corte que instaurou
comorelação a historiografia moderna
entre um "presente"
um é "sujeito" e um "passado" distintos, em que
e o outro "objeto"
de um saber, um é produt0T do
postamente,
exterior ao
laboratório determina
a partir de dentro

62
A ctsca

é considerada, frequenteinente, con10 0


Essacornblnaçio
que, aos poucos, convina elinunar da
de urna arqueologta
ciência;ou como urn "tnal necessário" a ser tolerado corno
boa pode, tarnbérn, creio eu, constituir
doença Incurável. Mas ela
índicede um estatuto epistemolÓg1copróprio e, portanto, de
o utna cientificidade a serem reconhecidaspor SI
urnafunção e de
caso, é necessánoelucidar os aspectos "vergonhoso«'
mesmas.Neste
julga ter a obrigação de dissilnular.Aformação
quea historiografia
então, é um entren:eiolentre-deu.vl:ela possui
discursÁaque aparece,
correspondern ao modelo, sernpre transgre-
suasnormas que nio
obedece.
dido.ao qual se pretende crer ou levar a crer que ela
sernelhança de
Ciênctae ficção, essa ficção-científica funciona, à
outrasheterologias,no ponto de junção entre discurso científi
que o passado
co e linguagemordinária, exatamente no ponto em
tratarnento
seconjugacom o presente e em que as indagações sem
técnicoretornam como metáforas narrativas. Para concluir, eu
gostariaapenasde sublinhar algumas questões cujo objetivo con-
sistiriaem elucidar essa mistura.
1. Uma not'ctpolitização. Nossas ciências surgiram corn o gesto
histórico"moderno" que despolitizou a pesquisa ao instaurar campos
"desinteressados"e "neutros", apoiados por instituições científicas.
Essegesto continua organizando, frequentemente, a ideologia exibida
por algunscírculos científicos. Mas o desenvolvimento do que se
tornou possívelpor esse gesto acabou por inverter seu alcance. Há
multotempo, as instituições científicas, transformadas em potências
ogísticas,encaixam-se no sistema que elas racionalizarn,mas que
asconectaentre si, fixa-lhes orientações e garante sua integração
socioeconómica.Esse efeito de assimilação é, naturalmente, mais
pesadonas disciplinas cuja elaboração técnica é ruais frágil. Esse é
o caso da historiografia.
Atualmente, convérn, portanto, "politizar de novo" as ciências.
Eiso que entendo por essa expressão: rearticular seu aparato técnico
a partirdos campos de forças no interior e ern função dos quais
eleproduz operações e discursos. Essa tarefa é, por excelência, a
do historiador.A fronteira do
historiografia instalou-se sernpre na
discursoe da força, como se tratasse de urna guerra entre o sentido e

63
t tN'Rt t

ou quatro séculos durante os quais surgiu


Mas,após três
a vtolénoa. dominar essa relação, situá-la no exterior do
possível
a crença de ser em seu "objeto", além de analisá-la sob
saber paratransformá-la
torna-se necessário atualrnente reconhecer
"passado",
formade um e força mantém-se acima da historio _
o conflito entre discurso
que encontra-se em seu bojo. A elucidação
tempo,
grafia e, ao mestno do objeto de sua abordagem. Ela
desenvolve-se sob a dominação
uma relação interna e atual com o poder (corno era
deveexplicitar com o príncipe); ela será a única a
para a relação
o caso,outrora,
que a historiografiavenha a criar simulacros que, ao supor
evitar
precisamente o efeito de elinlinar
umaautonomiacientífica,têm
que a linguagenl (de sentido
qualquertratamentosério da relação
os jogos de forças.
ou de comunicação) estabelece com
Do ponto de vista técnico, essa "nova politização" consiste em
"historicuar"a própria historiografia. Por reflexo profissional, o
historiadorrefere qualquer discurso às condições socioeconomcas
ou mentaisde sua produção. Ele tem de efetuar, também, essa análise
sobreo própno discurso, de maneira a conferir pertinência às forças
presentesque organizamrepresentações do passado. Seu próprio
trabalhoseráo laboratórioem que se faz a experiência do modo
como uma simbólica articula-se a partir de uma política.
2. Pensaro tetnpo.Assim, encontra-se modificada a epistemolo-
ga que diferenciavaum sujeito em relação a um objeto e que, por
consequência,reduziao tempo à função de classificar os objetos.
Na historiografia,as duas
causas —a do objeto e a do tempo —es-
tão,com efeito, associadas
e, sem dúvida, a objetivação do passado,
nos últimostrês séculos,
acabou transformando o tempo no im-
pensadode uma
disciplina que não cessa de
Inqtrumento utilizá-lo como um
taxinÓmico. Na epistemologiasurgida com o Século
dasLuzes,a
diferençaentre o sujeito
fundamento do saber e seu objeto serve de
àquelaque separa
de uma 0 passado do presente. No interior
atualidadesocial
"pasqado" estratificada, a
(comoum conjunto historiografia definia corno
compreender de alteridades e a
ou a rejeitar) de "resistências"
social,científico) o que não
de produzir pertencia ao poder (político'
palavras,é "passado" um presente. Ou,
o objeto do dito por outras
qual um sistema produção se
de

64
para transtorniá-lo. IDesdeo ge«to que constituiu arqujvos
as zonas rurais no tuuseu de tradições
aqueleque transtortnou
supersticiosas,o corte que, no interior de unna
memor.í«is e/ou
circunscreveuni '"passado"depende da relaçãoque urna
estabelece corn o que não é ela, conj o círculo do
anibiçio produtora
ela se separa, coni o meio circundante que ela deve conquistar,
as resistênciascom que ela se depara, etc. Corno 1110delo,ela
adotaa relação de urn etnpreendunento corn sua exterioridade, no
mesmocampo econônuco. Os docutnentos "do passado"são,por-
tanto,relati\os a urn sisterna fabricador e tratados segundo suas regras.
Nessaconcepção típica da econotnia "burguesa" e conquista-
dora,causaunpressàoo fato de que o tempo é a exterioridade,o
outro.Ass1m,à tnaneira de urn sistema monetário, ele Viria a aparecer
apenascomo urn princípio de classificaçãopara os dados situados
nesseespaçoobjetivo externo. Transfonnada em medida taxinÔmica
dascoisas,a cronologia torna-se o álibi do tempo, um meio de se
semr do tempo sern pensar nele e de exilar para fora do saber esse
princípiode morte e de passagem (ou de metáfora).Ainda resta
o tempo interno da produção, mas, transforrnadano interior em
umaserialidaderacional de operações, e objetivada por fora em um
sistemamétrico de unidades cronológicas, essa experiência dispõe
apenasde uma linguagem ética: o imperati%)de produzir, princípio
da ascese capitalista.
Talvez,ao restaurar a arnbiguidade que fisga a relação objeto-
suJeitoou passado-presente, a historiografia viesse a retornar à sua
antigafunção,tanto filosófica quanto técnica, de dizer o tempo
comoa própria ambivalência que afeta o lugar enl que ela está; e,
portanto,de pensar a equivocidade do lugar conno o trabalho do
tempono próprio interior do lugar do saber.Por exennplo,a ar-
queologiaque metaforiza o ernprego —apesar de tudo, técnico da
informática faz aparecer, na efetividade da produção historiográfica,
a experiência,essencial para o tennpo, que é a innpossibilidadede
éo
com o lugar. Que "o outro" já estejaaí, no lugar,
identificar-se
modopelo qual o tempo se insinua aí.8 0 tempo pode retornar,

retorno do ragsack'no presente, ver adiante o cap. II,

65
t ',ccAo

historiográficopor uma modificação (_le_


também,no pensamento diz respeito à prática e à concepção
dessa premissaque
corrente sim do objeto. Assim, "a história Já
do lugar - e que, de fato, a
não mais de seu "objeto" domina,
distanciar-se
não autorizaa na rede de todas as outras "histórias". 0
envol\? e volta a situá-la esta não se contenta em
a
"a história oral" quando
mesmo ocorre com vozes cujo desaparecimento, outrora, era a
as
transcrewr e exorcizar o profissional se empenha em entender,
se
condiçãoda historiografia: ou ler, ele descobre à sua frente Inter-
pode ver
semdeter-seno que sereni especialistas, são também sujeitos
apesarde não
locutoresque, parceiros do discurso. Da relação
além de
produtoresde histórias,
passa-se para uma pluralidade de autores e de contra-
objeto-sujeito
dos saberes por uma diferenciação
tantes;ela substituia hierarquia
relação que o espaço particular,
mútuados sujeitos.Desde então, a
com outros introduz uma
em que se encontra o técmco, mantém
dialéticadessesespaços,ou seja,uma experiência do tempo.
3. O sujeitodosaber.Que o lugar em que se produz o discurso
sejapertinente, eis o que aparece com maior naturalidade, precisa-
mente,nas circunstânciasem que o discurso historiográfico trata de
questõesque envolvem o sujeito historiador: história das mulheres,
dosnegros,dosjudeus, das mmorias culturais, etc. Certamente, nes-
sessetorespode-se defender, alternadamente, que o status pessoal
do autor é indiferente (em relação à objetividade de seu trabalho)
ou que,somentepor seu intermédio, o discurso é credenciado ou
invalidado(dependendode ser, ou não, "parte integrante" dele),
Entretanto,essedebateexige,precisamente,
a explicação do que foi
dissimuladopor uma epistemologia,
a saber, o impacto das relações
desujeitoscom sujeitos
(mulheres e homens, negros e brancos, etc.)
no uso das técnicas,
aparentemente, "neutras" e na organizaçã0 de
discursos,
talvez,igualmente
ciada diferenciação científicos. Por exemplo, em decorrên-
entre sexos,será que se
de que a deve tirar a conclusãO
historiografiaproduzida
que é elaborada por uma mulher é diferente
por
der, constato um homem? não vou respon-
que essaindagação
obrigaa
abordá-lo, envolve 0 lugar do sujeito e
contrariamente à
"verdade"da
obra a partir epistemologia que construiU a
da não pertinência
do locutor. Interrogar
A COCA

igualmente, ter de pensar o tempo, se é verdade


do saber é,
o
e, por outro, «eja Inulher, negro ou basco, ele é
tetnpo
s heterogéneos
estruturadopor sua relação corn o outro.') O tempo é precisamente
ssibilidadeda identidade ao lugar; deste modo conleça urna
a Impo
sobreo tempo. O problema da história inscreve-«eno lugar
é, em si tnesmo, dinâmica da diferença, historicidade
dessesujeito que
identidade a si.
da não
pelo duplo movimento que tumultua, pela introdução do
tempo,a segurançado lugar e do objeto da historiografia, retorna
tambémo discurso do afeto ou das paixões. Depois de ter Sido
centralna análise de uma sociedade até o final do século XVIII (até
Sptnoza,Hume, Locke ou Rousseau), a teoria das paixões e dos in-
cressesfoi eliminada, lentamente, pela economia objetivista que, no
séculoXIX, acabou por substituí-la por uma interpretação racional
dasrelaçõesde produção; assim, da antiga elaboração limitou-se
a conservarum resquício, permitindo que, ao novo sistema, fosse
conferidauma ancoragem em "necessidades".Após um século de
a economia dos afetos retornou sob o modo freudiano
rejeição,
de uma economia do inconsciente: com Totente tabu, Alal-cstar
ou Moisése o monoteísnjo,apresenta-se a análise ne-
nacivilização
cessariamenterelativa a um recalcado —que articula, de novo, os
Investimentos do sujeito a partir de estruturações coletiva«.Tais
afetossão espectros na ordem de uma razão socioeconómica; eles
permitemformular,na teoria ou na prática historiográfica,ques-
tõespara as quais já existem numerosas expressões, desde os ensaios
de PaulVeyne (1971) sobre o desejo do historiador, IOo de Albert
Hirschman(1977 e 1982) sobre o disappointntentna economia, o
deMartinDuberman (1973) sobre a inscrição do sujeito sexuado
emseuobjeto histórico ou o de Régine Robin (1979) sobre a es-
truturaçãodo estudo pelas cenas míticas da infincia. Desse modo,

Noplanocoletivo a relação dificil


\erlfica-se 0 mesmo problema, como demonstra, por exernplo,
estabelecidaentre
a nova historiografia negra africana, do tipo nacionalista, e a pluralidade étnica
objetosujeito.VerJEWSIEWlCKI, 1979.
DE
CERTEAU."Une épistémologie de Paul Veyne", 1972.
diferente daquela que definia
urna "própno" e a autoridade do
lugar
por eh:nlnaçio de qualquer questão relati\a ao
do pela
do a histonografia encontra-se, d
esse um lugar ordináno, aos
particularidade de
representações e aos passados que, do
que estruturanldas técnicas.
uso
deternunanl o de tempo, lugar, sujeito
intcnor, Que as Identidades
4, hlstonograt;a clássica, não tenham "conslstén_
supostaspela "mexida" que as tumultua, eis o que
atingidas por uma
CE"e segam há muito tempo, pela
proliferação da ficção.
Sidoassinalado,
de urna parcela considerada vergonhosa e ilegítima
Mastrata-se pela disciplina. Aliás, é curioso que
obscura metade negada
uma
tenha
historiografia Sidocolocada, no século XVII, no extremo
a generalista fazia questão de
historiador praticar
oposto:na época,o
excelência (FUMAROLI, 1971 ; FCSSNER, 1962, p.
o género retónco por
299-321). Emtrêsséculos,a disciplina havia passado de um polo para
o outro;essaoscilaçãoé já o sintoma de um status. Seria necessário
Indicarconl precisão sua curva e analisar, em particular, a progressiva
diferenciaçãoque,no século XVIII, separou as "ciências" das "letras".
encontrou-se esticada entre os dois continentes aos
a historiografia
quaisela estavaIT)culada por seu papel tradicional, enquanto ciên-
cia"global"e conjunção simbólica social; ela manteve tal posição,
apesarde ter adotado modalidades variáveis. No entanto, a melhoria
de suastécnicase a evoluçãogeral do saber acabam por levá-laa
camuflar,cada vez mais, seus vínculos —do ponto de vista científico,
inconfessáveis—com o que, durante esse tempo, assumiu a forma de
"literatura".Talcamuflagem introduz
nesse processo, precisamente,
o simulacroque ela
rejeita ser.
Paradevolvera legitimidade
da historiografia, à ficção que assombra o campo
convém "reconhecer", em primeiro lugar,no
formade
"literatura", As astúcias do discurso a finl de
utilizá-losem com 0 podeÇ
ficar a seu serviço,
fantástico as aparições do objeto como ator
no próprio
retornosdo
lugar do "sujeito do
saber", as repetições e
tempo supostamente so
passado, os disfarces da paixão

68
a máscara de uma razão, etc., tudo Isso depende da ficção, no sentido
"literário" do termo. A ficção nem por isso é estranha ao real;
pelo
contrário,de acordo com a ob«ervaçào de Jeretny BentharnJá no
século XVIII, o discurso fictitious está mais próxnno do real que o
discurso "objetivo" (OGDEN,1932). Mas, neste caso, a lógica adotada
é diferente daquela utilizada pelas ciências positivas.Ela corneçou a
fazero retorno com Freud. Sua elucidação seria uma das tarefasda
historiografia.Sob este primeiro aspecto, a ficção é recognoscível
no aspectoem que não há um lugar próprio e unívoco,ou seja,no
ponto em que o outro se insinua no lugar. O papel tão importante
da retórica no campo historiográfico é, precisamente,um sintoma
maciço dessa lógica diferente.
Considerada, em seguida, como "disciplina", a historiografia é
uma ciência desprovida dos recursos para realizar tal pretensão. Seu
discurso assume o que manifesta maior resistência à cientificidade (a
relaçãosocial com o acontecimento, com a violência, com o passado e
com a morte), ou seja, o que cada disciplina científica teve de eliminar
para se constituir. Entretanto, nessa dificil posição, ele procura apoiar,
pela globalização textual de uma síntese narrativa, a possibilidade de
uma explicação científica; o "verossímil" que caracteriza esse discurso
defendeo princípio de uma explicaçãoe o direito a um sentido.O
"como se" do raciocínio (o estilo entimemático das demonstrações
historiográficas)tem o valor de um projeto científico;ele mantém
uma crença na inteligibilidade das coisas que lhe oferecem maior
resistência.Assim, a historiografia estabeleceria a justaposição de
elementos não coerentes ou, até mesmo, contraditórios, sem deixar
de fingir, frequentemente, "explicá-los": ela é a relação dos modelos
científicoscom seus déficits. Essa relação dos sistemascom o que
contribui para seu deslocamento ou sua metaforização corresponde
também à manifestação e à nossa experiência do tempo. Nesta pers-
pectiva, o discurso historiográfico é, em si Inesmo, como discurso, a
luta de uma razão com o tempo, mas uma razão que não renuncia
ao que ela ainda é incapaz de realizar, uma razão em seu movimento
ético; ele estaria, portanto, na vanguarda das ciências como a ficção
do que elas conseguem alcançar de forma parcial.Uma afirmação
de cientificidadeorienta o discurso que, em si mesmo, conjuga o

69
o que se relata
permanece
com 0 que ciência.
própria tradicional de
ticção da sua função
aí é uma continuamente,
Ao manter, assim,a cultura - o legen-
historiografia controlável, corrigível ou
"conjunção",a conl 0 que já é
-- de um ternpo técnica; apesar de ser
práticas de natureza produzida pelo que
proibido por ela é
com essaspráticas, linguagenl recebida como
Identlflcá-la confirmam na
retiram ou
esboçam, meio. O modelo tradicional de um
adnussível por determinado legitimante, encontra-se aí, por_
global, simbolizadore
discurso instrumentos e controles pertencentes
por
tanto,mastrabalhado
produtor de nossa sociedade. Assim, a narratividade
ao sistema culturais ou as operações técnicas e
totalizantede nossas lendas
estar, sen) arbitrariedade, supostamente au-
críticas não podem
cuhnina em urna represen-
sentesou seremelimináveisdo que viés,
Sob esse cada uma
tação,no texto ou no artigo de história.
conjuntamente, por
dessasrepresentações ou a massa forrnada,
elas poderia ser comparadacona o nuto, se este for definido
como uma narrativa permeada pelas práticas sociais, ou seja, um
discursoglobalarticulandopráticas que ele não relata, mas deve
respeitar;e, ao mesmo tempo, lhe fazern falta e o mantém sob vi-
gil,incia.Nossaspráticasde natureza técnica são, frequentemente,
tão silenciosas, circunscritase essenciaisquanto o eram, outrora,
aspráticasda iniciação;no entanto, daqui em diante, elas são do
tipo científico.E relativamentea tais práticas que se elabora o
discursohistórico,garantindo-lhes uma legitimidade simbólica
semdeixarde "respeitá-las".Ele é necessário à
articulação social
dessaspráticase, no entanto, controlado
por elas; assim, ele sena
o mito possívela uma sociedade
científica que rejeita os nutos, a
ficçãoda relaçãosocial entre
práticas especificadas e lendas gerais
entretécnicasprodutorasde lugares
efeitodo tempo.Vou e lendas que simbolizam o
concluir com uma fórmula. O lugar instaU-
radopor procedimentos
de controle é, por sua
pelo tempo,passado vez, historicizado
ou futuro, que se
do "outro" (uma relaçãocom inscreve aí como retornO
ambições)e que, o poder, com precedentes ou com
acabapor "metaforizando" assim o
transformá-la,igualmente, discurso de uma ciência'
em uma ficção.

70
CAPITULO II

Psicanálise e histórial

A psicanálisearticula-se a partir de urn processo que é o


núcleoda descoberta freudiana: o retorno do recalcado. Esse
"mecanistno"utiliza uma concepção do tempo e da memória;
nessecaso,a consciência é, sinnultaneamente, a pnáscarailu«ória e o
efetivode acontecimentos que organizam o presente.Se o
(ao ter lugar e forma em um momento decisivo no decor-
passado
rer de urna crise) é recalcado,ele retorna, mas sub-repticiamente, ao
presentedo qual havia sido excluído. Um exemplo apreciadopor
Freudmostra esse desvio-retorno [détour-retourl que é a astúcia da
história:depois de ter sido assassinado,o pai de Hanxletretorna,
mascomo fantasma, em outra cena, e é, então, que ele se torna a
leià qual o filho obedece.

Duas estratégias do tempo


Há uma "inquietante familiaridade" desse passado que um ocu-
panteatualrechaçou (ou acreditou ter rechaçado) para apropriar-se
de seu lugar. O morto assombra o vivo; ele re-morde12 (mordida
secretae repetida).Assim, a história seria "canibal", e a memória
tornar-se-iao recinto fechado em que se opõem duas operações

' história textual deste


'Psychanalyseet histoire", LE GOFF,J. et alit, 1978. CE, neste livro, a
capítulo, p. 37-39.
N.T.:No original, também "futre souffrtr
"re-mord", forma verbal de "remordre"que significa,
Fmords",ou seja, fazer essesvocábulos derream do
sofrer pelo reinorso.Vale lembrar que todos
tadicallatino ' e "refleur"); cf. Diaon,irio
'remordere", tornar a morder (ver sinonínua de "difamar"
Houatssde Lingua
Portuguesa.

71
lado,o esquecttnento, que não é urna passividade
contránas:por um passado; e, por outro. o
perda, mas uma acio contra o
nem uma do esquecido, ou sega,urna açào
retorno
cigtomnésico,que é o forçado ao disfarce. De tnancnra tna1Sgeral
passado,daqui em diante constitui-se graças ao que ela
qualquer ordem autónoma condenado ao esquecunento; no entanto, o
produzindo um "resto" ' 'litnpo'
de nos,o, neste lugar , Instala-se
excluído insinua-se,
inquietação, torna Ilusória a con«ciência segundo a
aí, suscita a ' 'sua casa", fixa aí seu esconderijo;
Julga estar etn e
qual o presente
"ob-sceno", esse '•lvxo", es«a"resistência" da
esse "selvagem", esse
aí à do proprietárto (o ('A'o)
ou
"supersoção"vai
contra ele a lei do outro.
A historiografia desenvolve-se, pelo contrário, em função de
um corte entre o passado e o presente. Ela é o resultado das relações
de saber e de poder entre dois lugares supostarnente distintos: por
um lado, o lugar presente (científico, profissional, social) do traba-
lho, o aparato técnico e conceitual da pesquisa e da interpretação,
a operação de descrever e/ou de explicar; e, por outro, os lugares
(museus,arquivos,bibliotecas) em que são guardados, inertes, os
materiais que são objeto da pesquisa e —enl um segundo momento,
deslocadosno tempo —os sistemasou acontecintentos do passado,
cuja análise é permitida por intermédio desses materiais. Uma
fronteira separa a instituição atual (que fabrica representações)
das regiões antigas ou longínquas (encenadas pelas representações
historiográficas).
Mesmo que a análise historiográfica postule uma continui-
dade (genealogia),uma solidariedade (filiação) ou uma conivência
(simpatia)entre seus operadores e seus objetos, ela estabeleceuma
diferença
entre uns e outros, marcada, aliás, desde o princípio,por
uma vontade de objetividade. O espaço organizado por ela é, ao
mesmo tempo, dividido e hierarquizado, comportando um "pro-

estudado).Tal fronteira atravessa,por um lado, a prática enl que0

N.T.:No
"cena" enquanto "0h" reveste a noção de
para a frent&; 00 seja,"fora
da cena"

72
diqongue-se do tuaterial
aparatoda pesquisa tratado e, por
escriturariaenl que o discurso do saber outro, a
passado representado, citado e
interpretati\0
o
dofflina conhecido.
A p«icanálisee a historiografia têm, portanto, duas
maneiras dife-
rentesde distribuir o espaçoda ntentória;elas pensam, de Inodo
passado conl o presente. diferente,
a relaçãodo A primeira reconhece
urn no
outro;enquanto a segunda coloca um ao ladodo outro. A
psicanálise
trataessarelação segundo o modelo da imbricação (urn no
lugar do
outro),da repetição (um reproduz o outro sob uma forma
diferente),
doequívocoe do quiproquó (o que está "no lugar" de quê? Há,
por
toda parte,jogos de máscaras, de reviravolta e de ambiguidade). Por
sua'vez,a historiografia considera essa relação segundo o modelo
da
sucessi\hdade (um depois do outro), da correlação (maior
ou menor
graude proximidade),do efeito (um segue o outro) e da disjunção
(umou o outro, mas não os dois ao mesmo tempo).
Assim,verifica-se o confronto entre duas estratégiasdo tempo
que,no entanto, não deixam de se desenvolver no terreno de ques-
tôesanálogas:procurar princípios e critérios em nome dos quais
sejapossívelcompreender as diferenças ou garantir continuidades
entrea organização do atual e as antigas configurações;conferir
valorexplicativoao passado e/ou tornar o presente capaz de expli-
caro passado;reconduzir as representações de outrora ou atuais a
suascondições de produção; elaborar (de onde? de que modo?) as
maneirasde pensar e, portanto, de superar a violência (os conflitos
e os acasosda história), incluindo a violência que se articula no
própriopensamento; definir e construir a narrativa que é, nas duas
disciplinas,
a forma privilegiada conferida ao discurso da elucidação.
Os cruzamentos e os debates dessas duas estratégias,desde Freud
(1856-1939),sublinham as possibilidades e os limites da renovação
queo encontro entre elas oferece à historiografia.

Sobreos diferentes nas


temas tratados, será possível encontrar indicações bibliográficas detalhadas
seguintespublicações: CERTEAU, L'éc„turede
BARBU, 1969; BESANÇON, 1971 e 1974; DE
1984a;DUPRONT, HORKHEIMER, 1932;MAZLISH,
1968e 1971; 1969; FRIEDLANDER, 1975;
PLATT,
MEYERHOFE 1962; STROUT, 1968;WTHLER, 1971;WEINSTEIN;
1972;WOLMAN, 1971.

73
história
Freude a
de Freud apoia-se d01Spilares
A construiu e considerava como fundanlen_
ele
que. sucessivamente, plano: A ciência dos sonhos (1900)
fundadores no (1912-1913). Neste livro, de acordo
tais e
outro lado, Toteme ele "tenta aplicar o Inétodo analítico
por em 1914,
com sua psicologia dos pou)s,
que, associando-seà
a problemas mais importantes instituições de nossa cniliza_
das
recuaràsorigens moral, religião, mas tambérn proibição do
organizaçãopolítica,
à l'histoire du mouvement
incestoe remorso" 113).Tal método leva em consideração
psychanalytique", 1966,p.
uma, individual, e, a outra, coletiva. Aliás, ele assume,
duascenas:
a forma (biográfica) de "histórias de pacientes"
alternadamente,
(1905-1918), traduzidas com o título de
comasKrankengeschichtet115
—,ou a forma (global) do "romance histórico" com
Cincopsicanálises
título original sublinha que se trata
,11.'t'ése o monoteístno(1939), cujo
da relaçãode um homem, "der Mann Moses com a configuração
histórica do monoteísmo judaico (FREUD,1973; 1967a).
Asintervençõesde Freud na historiografia são quase cirúrgicas.
Suasoperaçõesapresentamcerto número de características:
A.Ele invalidao corte entre psicologia individual e psicologia
coletiva.
B. Ele considera o "patológico" como uma região em que se
exacerbame se desvelam os funcionamentos estruturais
da experiênciahumana. Desse ponto de vista, a distinção
entrenormalidadee anormalidade é
apenas fenomenal;
fundamentalmente, ela deixou de ter pertinência científica,
C Na historicidade,ele
apreende sua relação com crisesque
a organizamou a
deslocam. Em acontecimentos decisivos
(relacionais
e conflitantes,
sexuais),ele desvenda originalmente genealógicos e
os
pontos de constituição de estrutu-
raspsíquicas.As
confirmações que lhe são fornecidas pela

Nt.
clínica"
terapêutica per nutetn-lhe concentrar sua análise
dires•ôes:a) a no adulto, das detettnjnas
(Siesque recuai) i
a "cenas prilliitisas" vivenciadas pela criança e pressupóenj
que esta (epígono Kituado,até enteio,nos bastidores) tenha
desetnpenhado papel central na história; b) a
neccKSld,ldc
de postular, na origeni dos povos, unia violêtwta genealÓglca
(luta entre pat e filho), cujo recalcatiiento é o trabalho da
tradição (ela dtssunula o cadáver), tuas cujos efeitos repeti-
ovos sio Identificáveis através de suas sucessiva<catnuflagen»
(existem wstígios); c) a garantia de encontrar, etn qualquer
linguagetn,"fragtnentos de verdade" (Stin Ilâhrhcit)
(FREUD,Der Mann Meses, 1940-1952, t. XVI, p. 239),
tilhaços e reqquícios relativos a esses jnotnentos deciKivos,
cujo esquecitnento organiza-se etn sistejnaspsicológicose
cuja remim«cência Introduz possibilidadesde njudança enl
urn estado presente.
I). Ele modifica o "género" historiográfico ao introduzir nele
a necessidade, para o analista, de tnarcarseu lugar (afetivo,
imaginário, sirnbólico). Ao transformar essa explicação na
condição de possibilidade de uma lucidez, ele substitui,
assim,o discurso "objetivo" (aquele que visa dizer o real)
por urn discurso que assurne a figura de "ficção" (se,por
"ficção", entende-se o texto que declara sua relação com
o lugar singular de sua produção).
Curiosamente, algumas dessas posições foram reviradas como
umaluva pelos avatares da tradição psicanalítica ou de suas aplica-
çóes.Eis o que é demonstrado por alguns exemplos edificantes.O
freudismofoi reduzido à psicologia individual e à biografia,tendo
sidoisoladono "patológico" (por exemplo, a história econÔmica
urn "resto"
Ousocialdeixará, a respeito da feitiçaria ou do nazis1110,
então,
Inexplicado e anormal que ela abandona à psicanálise).Ou,
nosaspectosem que, para Freud, os deslocatnentosdas represen-
a
tacõesarticulam-se a partir de conflitos originários, pressupôs-se
"arqué-
imemorialubiquidade e estabilidade de "sínlbolos" ou de
1110do,a
tipos",dissimuladospor trás dos fenômenos. Do luesmo
divisãodo sujeito entre o princípio de prazer (Eros)e a leido outro

75
'SALANAcSt;
HISTô#A

que, Freud, depois de


divisão

foi "esquecida"pelas terapêuticas


de desejos Tal\ez, essa posteridade
sociedade.
ego na
"integrar"0 nos dois sentidos do de
que Freud
"atraiçoando" 0 denunciaria. Ela está,
erroneamente, ela
Interpretá-lo enl Aloisés e o monoteíyno, a respeito da
elaborada,
conforrneà teoria inverte ou dissinaula exatarnente aquilo
qual esta
tradição,segundoa reproduzir. De qualquer Inodo, convém
pretende
que,ernseunorne,
rnínirno,duas teses freudianas que estão associadas Inais
lembrar,no
à história;dois textos essenciais serão suficientes para
diretamente
mdicá-las.
l. No texto"Psicologiacoletiva e análise do ego" (1921) ---es-
crito a propósito de Psicologiadas Hitlltidôes [18951, livro de [Gustave]
LeBon—,Freuddefendevigorosamente que "a atitude do indivíduo
emrelaçãoaospais,irmãos e irmãs, à pessoa amada, ao médico, em
suma,todasasrelaçõesque, até o presente, foram objeto das
pesqui-
saspsicanalíticas,
podenaser consideradas,conl toda a razão,
fenÓmenos como
sociais"(FREUD, "Psychologie collective et analyse
moi",1967b,p. 83). Elas se distinguem du
dos fenómenos abordados
pelapsicologia
coletivaapenaspor um "fator
tinentedo ponto de vista numérico", não per-
das estruturas psíquicas.
postula,
desdeo início,a A vida social que
como outro(ospais, constituição do sujeito por unia relação
etc.) e com a
unidadessociais, linguagem apresenta
cada vez mais somente
Portanto,comseu aparato amplas, submetidas
às mesmas leis.
disciplinas analítico, Freud autoriza-se
que dividiram a atravessar as
um corte entre si os
(entre fenómenos psíquicos,
rejeitae "individuais" e segundo
pretende "coletivos' ') que, precisamente,
2.Umavez transformar. ele
cificados constituídos,esses
portécnicas campos não
competência peculiares.A deixam de ser espe-
desigualque, seu
definidopela pelo menos respeito, Freud possui uma
qualquer própria psicanálise,teoricamenle, não envolve o
ciência;ele
é oriundo à semelhança do que olorre
de uma
enguia (1877) dessas disciplinas. seus
ou do carnarão (1882)!

76
tnédlC0psiquiatra, tendo corneçado por etetuar a
partir do inaterial, e enl tunçáo "conversão"
O analíticaa dos
Na sequéncta, a partir de 1907 (corn de sua
&pecialidade. cinquenta e uni
a estende ao estudo dos textos
atios),ele literários UI),1971a);
depois, a partir de 1910 (a propósito das '
e 'palavras prililltjvas"
e de
LeonardoDaVmci) (FREUD,"Des «ens oppo«és datis les
1933;1971b), à etnologia e à história. Mas,
tifk", de acordo cotn a
que figura no ' 'Prefácio" de elótetne tal)tt
(1913),hvro que
o segundo rnornento da conquistai/)
pqcanalíttca, ele deixou
de ter, desdeentão, "um dotnínio suficiente desses Inaterlcus
[etno-
lóglcoslque estão enl expectativa (harrenden)de urna
elaboração
Construída e verificável enl una
[psicanalítical".17 carnpo particular,
suateoria não estaria ancorada aí, ruas destinada a renovar
outros
camposern que Freud já não dispõe do« "elernentos" necessários

O material (Alaterial)proveniente dessas regiões estrangeiras e co-


letadopor seus exploradores é, para ele, o que "falta" ao analista
e,
simultaneamente, aquilo que teni "falta" de um tratarnento teórico
(freudiano)suscetível de "unificar" a "diversidade" dos fatos e de
"Iluminar" sua "obscuridade"(FREuD, 1965, "Prefácio"); trata-se de
"jazidas",afirma Freud, de "tesouros" a explorar. Ele se empenha
emaprofundartal aspecto, ao devorar os estudos de Siliith,Wun-
dt,Crawley,Frazer, etc., ou os documentos do século XVII, aléni
daspesquisaseruditas sobre a Bíblia, etc. —mas sern a "segurança"
profissional
que lhe conferia seu primeiro terreno de investigação.
Ao estender pontos de vista teóricos para fora do campo etn
queeleshaviam sido elaborados e permanecem submetidos a uma
verificação,
não será que se passa,de acordo com a observaçãode
Canguilhem(1977), das "teorias" científicas para as "ideologias"
científicas?
Esse caso é frequente. O próprio Freud hesitava,às ve-
zes,em relação ao estatuto
de suas pesquisas sócio-históricas e, no
finalde sua vida,
ele declarava, com Ironia, escrevê-las enquanto
fumavacachimbo, à maneira de passatempo. Ele traçava, assirn,a

N.T.:No
original.
A' mens•6es
entre colchetes, na atação de Freud, foram introduzidas por Michel de Certeau.

77
quadros analíticos;
sobre tórico. Na
ambiguidade desafio
fraturade o respectivo apesar de sua paixão
steridade enfrentar profissional,
pioneiro, mas não a adolescência, da
ele foi desde
"antiguidades"ou, Além de una corpus coerente de
Iolecionar
leituras neste domínio. insinua na historiografia 0
de suas ele
verificáveis,
hipótesesteóricas policial("Quem Inatou
Harry?") e o aspecto
pensedo fantástico (existe um fantasma dentro de
romance
inquietantedo
0 saber, incluindo 0 aprazível escritório dos
novo,
ele enfeitiça, de passado arruinado em peças e em
pressupõerno
historiadoresque aspecto sério da história acompa-
Aparece o
ordemnos arquivos. século depois de ter sido afirmado
Meio
nhadopor seu perigo. que, de fato, os rnortos "voltam a
observa
por Michelet,Freud p. 92). Não mais, corno pensava
por BARTHES,1965,
falar" (citado que seria o historiador:
Michelet,pela evocaçãodo "adivinho"
fala", mas à sua revelia, em seu trabalho e seus silêncios. Tais
"isso
de qualquer histona-
vozes,cujo desaparecimentoé o postulado
o espaço do qual
dor que as substituipor sua escrita, re-mordem
estãoexcluídase continuam falando no texto-hornenagem que a
erudiçãoergue em seu lugar.

Tradições

Em 1919,ao prefaciar Le Rituel de [Theodorl Reik (autor que


consideravaToteme tabucomo "a obra mais importante produzida
pelapsicanáliseno domínio das ciências humanas"), Freud fazia o
balançodaspesquisas,desde o livro De l'ñnportance de Ia psychanalyse
pourlessciences
huntainesde O. Rank e H. Sachs (1913): "A mito-
logia,a históriada literatura e a das religiões davam a impressã0
de ser os domínios mais facilmente
acessíveis". Ele parabenizava
Reik, cujo livro constituía o
primeiro volume de uma "psicologia
dasreligiões",por ter
"conservado, incessantemente, presentes no
espíritoas relaçõesentre
os tempos pré-históricos e os primitiv0S
da atualidade, assimcomo entre os produtos da criação culturale
asconcepçõessubstitutivas
dos neuróticos" (REIK, 1974, p, 23, 25)'
Proclamação de vitória,portanto,
em relação à tarefa de "submeter

78
etnológico e pré-histót à tcflcxáo
suce«os para '6as tentativas dc invasào pela
1960. 112).
("a nutologla, a história da literat
Essestrês ura c a
Já as reutilócs da quarta-fejra, à noite,
«l,glóes") ocupai)l asa dc
partir de | e, eni seguida, da ' 'Sociedade Psicanalític a
Freud(a
cf UI), 1977). No
deViena" (fundada 10,
Adler, Federn, Sacbs, Schllder, Stejner e
(secrctánodo grupo),
outros assinlcotuo, mais tarde, Ikeik,Tausk c Lou
_ abordavalllo Incesto, o Rítnbolo, os tnitos,Wagner, Nietzsc lie, etc
breve,essas"aplicações" da psicanálise fazetn ol)jeto de discussões
atnplasou de correspondências conl Abrahajn (Berlijn), Feren-
UI (Budapeste),Groddeck (Baden-Baden), Jung (Zurique), Jones
l)utnalli (Boston), etc. Enquanto narrativas,
(Londres), análises
levamo estudo de "caqo" para a biografia até o "retrato psicológico'
dopresidenteWilson, trabalho tardio e bicéfalo de Freud e W C.
Bulllt (FREUD,1968).
A criação da "Associação Psicanalítica Internacional" (191()),

nadaa "facilitar a ajuda mútua entre seus Inembros" (FREUD,1973,


p.120-121),não impediu que esqaspesquisas,(ennparticular, como
afirmaFreud,"as aplicações da psicanálise à ciência da linguagetn e
à história") se diferenciassem e, até, se confrontassem, cada vez mais.
Segundoparece, nessas divergências, um papel mais importante foi
desempenhadopor três elementos (precisamente, históricos): 1. a
relaçãodos autores com a pessoa de Freud (a teoria analítica tem
comofundamento a irracionalidade e a particularidade de uma
transferência
sobre o outro e, portanto, a singularidade da psicologia
deFreud);2. a relação de dependência entre urna teoria da história
e a elucidação,pela análise, de sua relação conl a instituição psica-
nalítica(essaassociaçãosubmete seus membros à lel de qualquer
sociedade—aspecto, frequentemente, dissinnulado pela teoria); 3. a
lógicadassituações sociopolíticas e nacionais enl que a posição do
analista("sujeito
suposto saber") pôs-se a funcionar (a pressão social
e maisforte do
que a "família" freudiana ou do que urna sociedade
Internacional).

79
cotnplexo dentais para se prestar a
elentento,
lio pritnciro
etn todos os debates conceituais
soltar a tnttoduztr
teona ao a particularidade das relações
sobre Adieroung, contQnr a acontecinnentos singulares e
Freud e, portanto, ao
ais com de explicar (ou, sitnpleslnente, de de€lgnar)
contingentes o papel rectprocanlente, ele itnplicou urna pniti.ticac,io
,
lacunas da "cléncta narrativa do passado torna-se a transposição
que a
da histortogratiaJ.i entre os deuses da atualidade psicanalítica
ro:nanescade combates Tetetne tabu; Freud diante de Adler e
etn
(Freude seus"tilhos", 't'tnent etc.).
Contril'l'tionà l'histoire du
Junta,etn fato biográfico que a despedaça e a
assun, entre o
A teor:a oscila, as condições de «ua produção.
representaçãonúnca que chssirnula
urn lado, ela confessa estar dilacerada por conflitos (ruas por
Por
mesmo, ela é irredutível a um slSterna);por outro, a Interpre-
tsso
querelas intestinas (111as
tação das origens longínquas rnetafOriza
essedeslocamentode uma cena presente para urna cena do passado
ou pnrnitlva sugere, tarnbém, analogias de funcionarnento entre as
representaçõescoletivas e as histórias do sujeito).
O segundo elemento é o mais problernático. De fato, a instituição
mediatizaa relaçãodo anahsta corn a história geral. Ainda naais,ela
remete a própria análise à organização de poderes que a torna possível
e a sustém (por exemplo, é necessário pertencer a urna Sociedade para
"exercer";a "fala livre" do cliente pressupõe uma posição social do
analistae um contrato financeiro, etc.). Em suma, no canipo analíti-
cmela é o retorno (disfarçado) da 'violência que se transforma aí em
falae,assim,encontra-se recalcada como violência fisica e o corpo a
corpo. Pela instituição, "inconsciente social da psicanálise" (CASTEL,
1973),a históna (política,social, econÔnuca, até
mesmo étnica) retorna
no espaçoInsulardo discurso ou
da cura. Assim, a criação, brigas e
Cisõesde sociedades psicanalíticas,
nos últimos sessenta anos, relatam
os processosda teoria
com sua exterioridade que, frequentemente, ela
denega;entretanto,nesses
debates é que se deve procurar os verdadeiros
esboçosde um história
psicanalítica.

Daí.
das
em ao discurso
que0 é um médico que tem borro: do

80
PSICANÁ:SE E

teste, se necessário, confirma a importância estratégica


entre história e psicanálise.A recusa
Jesselugarna divisa de atribuir
aos problemas institucionais, a vontade de
valorteórico mantê-los
corno urna "desgraça" ou urna necessidade social
forada análise sem
levam, sempre, a construir uma representação
pertinência ideológica,
doutrinalou "mística" do inconsciente. Desde então, pode-se pressu-
r, todos os indivíduos, a presença (sem seu conhecirnento) das
constelaçõessimbólicas,arquetípicas ou imaginárias que o analista
inventacomo o céu para ele, consciente de uma realidade Ime-
moriale universal.No aspecto em que a psicanálise"esquece" sua
própriahistoricidade,ou seja, sua relação interna com conflitos de
podere de posição,ela torna-se um mecanismo de pulsões, ou um
dogmatismo do discurso, ou uma gnose de símbolos.

Derivas nacionais
Por último, verifica-se a intervenção das situações nacionais que
setornamcorreias de transnussão dos discursos e métodos oriundos
deViena.Vou chamar a atenção para três casos típicos deixando de
ladoa Alemanha nazista, de onde os analistasjudeus tiveram de fugir
e ondeo Reichsfúhrer M. Goering (primo do outro), encarregado
daterapêuticanacional,20logo assumiu o controle da Sociedade
Alemãde Psicanálise"(presidida, durante um período demasiado
longo,por Carl G. Jung) para levá-la, por exemplo, a elaborar uma
tipologiados sonhos, de acordo com as raças.
Na URSS, desde 1920, um Comité da "Associação Psicanalítica
Internacional"mantém-se em ligação com Viena. De Moscou, M.
Wulff(que, ulteriormente, irá instalar-se em Jerusalém) defende
a compatibilidadeentre Marx e Freud. Em 1923, tal postura é

SociedadeAlemãde 1933,e o neurop-


Medicina Psicoterapêutica foi constituída em setembro de
MathiasGóring, primo do Marechal Góring (ou Goenng), foi o escolhido para presidi-la,
este
que "um estudo
aprofundado de Mein Kantpfé esperado de seus membros", devendo
textocongituir"a base situação da psicanáltse
no mundCh seus trabalhos" (cf. DOUVILLE,Olivier Cronologia.A
intervençio
durante a vida
de Freud. Pulsional. Revista de Psicanálise,dezembro de
dtretados
prmcipios e leis
nazistas na Sociedade Psicanalítica alemã (DPG), iniciou-se em 1935, quando
ou
admitiriam a existência da psicanáhse
tu Alemanha, que as autoridades nazistas governamentais só
se "todos Helena Besserman, O reol
da os seus representantes fossem
Disponível em:
IÚtp;/
de 0
-e
no
1902). ponto de

re\nravolta da
de 10 i.
da
psicanaliseno sentido de "ter
de uni axnploalcan« cultural e
da delilocracl,i burguesa". Rol) o

st -- o Partido deade fixar a pstcologta a partir da


a —,o e ultraliidlvldu-
e
erroneo por sua incapacidade paras 'apreender
e as de natureza psiquwa conw» produtos do
c o" : - Essa ' 'pseudociencna' , conside-
tau "norte-a:nencana"e "reaoonana" (1948) é excluída, portanto, da
pela de 1110doque soniente a desesta-
atenuou sua excotnunháo.
VUA -- pais que, a convite dos representantes da psicanálise,
iteud (eni de Jung e ferenczl) visitou, eni 1909 —,ele
tes.eo sentillientode que a havia recebido, finalmente,
a utli\rrsltána que lhe unha Sido recusada na Austrla.
Com efe'to, a"causa" progrediu rapd,llliente nesse terntóno•. desde
a de 1911,registra-sea fundação de duas assoclaçôes•
Alémdisso,norte-alnencanos ---tais como Kardiner (1977) e, até
mesmo, alguns mestres, por e.xemplo,
Frink atravessalll o Atlân-
tit-opara se formarem em V
lena; por outro lado, beneficiando-se
da autoridade de J. J.
Putnanl (Harvard), o freudisrno nnplanta-se
e redefine-seem uma
configuração ntade in USA, eni que o
experimentalde uma neurologia
psiquiátrica se exerce

f
1933.
acabou
Ver SCi
F,
contra o
do encantatncnto, I W III) I ,
Ia e 197
a lios
e Idade ledadc para a
do
dos iduos, ao Ilitegrá•los; eis o que,
el constatar, na obra de N. ( 1966), para a r'.
o estilo de uni
dcquAlquerrepress.ioteni 'tral.
C) atribuido pessoal Visa,deste
urna redus.io da psicanalise a 111
na terapia

(193S e 1969) apresentatn o Inodelo tal — parte, politn o, e,


parte,relis'10S0 do pioneiro que, libertado da lei do pai, supera
entre a rebeliio e a subnnssÀo. Nesses espelhos dc ui!) EUA
mitieo,a diterença etn relaçáo a Freud reside, pn:nelro lucar,
io de urna
reestruturas psicanaliticapor urna experter„
nauonal.A relaçáo estabelecida por esses textos corn a história
seavaliasotuente pelo conhecitnento (Insuficiente) dos arqui\0s, mas

que eles não pensados con10 tais). Portanto, verifica-se


proliferaçãoda biografia; ela ocasiona unia séne de ex-arne•steóricos
1957; i, 1959; SIR()UI, 1968), cursos e colóquios.
Aos poucos, no entanto, o estudo estende-se às geneal«Ntast-xnu-
e estruturas cornutntánas (ver 1974:I na
de cruz.nnentos entre tuna histona dos Sistetnasde parentescos
u:naantropologia de t:.djpo e utna generalizaç.io do 'Stx»mansc
freudiano.Tal alnplwasào é, aliás, na histót 1a, cttlto da psicanaase
antropológica que se enraíza nas
trankturttana ou húngara) e que o exilio UA.
A grande obra de IGezal por exctnplo, surgida na I
Pertode Verencn. desensolveu-se a partir de 19AS,nos t -UA.
que, ela se dessnou, durante uto iodo, das
tradicionatspara enfrentar a quesúo nazista.
De fato, a psicanálisenorte-axncncana foi, beni cedo, sobre
determinadapela expenéncia dos emigrados judeus e aleuúes

83
nazi srno. ,
peio de pesquisa pra Q,
pelos
e o caso etc., são encarregados de elabore
de da história'
(Bruno} afirmar:"A essénaa
chega a desde 1931
W Adorno 1970, p.
Reich,
diferentespara

etc., todos refugados -,


por a relação da razão com
a pensar
do marxismo,é pensar o
na portanto, da própria
da Europa e,
do fascismo.Uma reflexão crítica apoja-se
peranteo de que, no fascismo,
da estrutura Irracional característica do
reconheceuma "expressio formas religiosas e/ ou políticas da
e, sobretudo, as
hojnemmédio"
de autoridade" (RE.J(.H,1972); simbólica de Fromm
"necessidade
social, recorre a uma antropol%'l-a
(1972)que,paraopor-se à alienação
combatede Marcuse contra a "super-repressão" tecno-
críticadalibidocm uma sociedade em que, aliás, o "anonimato" retira
suapertinénaaao"conflitomodelo" que, para Freud, é a luta entre
pai c filho 1963 e 1970; ver, também, GROSS.MAN,1965;
1969),etc.O luto de uma revolução —um Infortúnio
da hlstóna —obceca esses diagnósticos que permanecern privado s
deterapêutica;somenteReich (que, tendo-se inspirado em Marx e
Freud,alémde ter percorrido a
URSS e os EUA, foi, por toda parte,
rer.:tado)pretendeu,até a
loucura, tentar uma impossível mutaçã0
blol(vca da humanidade.
Na França,uma
tripla
barreira Impediu o acesso de Freud e,
sobretudo,da parte
da ícole sócio-históricade sua
obra: o grande patro-
Psychologiqueet
Psychiatrique de Paris (Charcot'
exteriore,para Ribot) não admitia
cúmulo, qualquer contribuição do
Alémdisco, circunscreviam a
urnatradição seriedade ao Individual'
freudiano,e urna moralista
resistência condenava o "pansexualismo
uvinl%ta,
durantee linguística e
após a cultural e
Segunda Guerra
Mundial —rejeitao
considerado c01110exagerado, obscuro
e
Aliás,salvo Mane Bonaparte, não houve, durante
octiano rnuito
discípulo de Freud na França (ele
próprio, cni
passaráapenax alguinas horas, na capital francesa);alél)l
disso,
Soctété de Psychanalyse de Paris ocorreu soniente
a tiltldaçàoda
1926,Entre Viena e Paris, nenhuni vínculo estreito de natureza
histánca.A abertura à psicanálise, na França, deve-se, enl pri111Q'lro
aos literato« (o prilneiro artigo favorável é escrito por Albert
'lhibaudet 1192112):o interesse de André Breton (que não foi
Icodo a sério por Freud), de Jules R01nains,André Gide, Jacques
Rtvtc\re,Pierre-Jean Jouve, etc., precede o dos psiquiatras (como
ocorre,atualtnente, nos EUA relação a Lacan). Aos poucos,
assunudopela cientificidade francesa, o corpusfreudiano acaba por
ser adotado (através de traduções dispersas e fraguentárias), mas
desligadode «eu contexto de origeni (que, durante muito telnpo,
permaneceudesconhecido): trata-se de um texto que se torna objeto
de interpretações e polérnica até (e, inclusive, com) a revolução do
"retornoa Freud" ernpreendida por Jacques Lacan, ruptura da qual
surgem,em primeiro lugar (1953), a Société Françaisede Psycha-
nal»e (Lacan,Lagache) contra a Société Psychanalytique de Paris e
o Institut de Psychanalyse de Paris (Nacht); em seguida (em 1964),
a Ecole Freudienne de Paris (Lacan).24 Nessas tradições, porém,
nada,ou quase nada, é utilizado para elucidar o estranho silêncio
que encobre os anos da Ocupação [da França pelos nazistasl: tempo
rejeitado,período cuja proximidade é perigosa demais para deixar
de ser"esquecida" pela própria psicanálise.
A historiografia, consideravelmente profissionalizada, era
mantidade forma consistente sob o patrocínio de metodologias
culturalistas,até mesmo de inspiração marxista.Apesar
econÔmicas,
de importantes pesquisas precedentes (DEVEREUX,1967; BESANÇON,
1967)que haviam permanecido marginais à disciplina, foi necessário
0 choque dos acontecimentos de Maio de 68 para que, em compa-
nhiade Marcuse, Reich, etc., os trabalhos etno-históricos de Freud

observa a "configuraçio curiosarnente nacionalista" (p. 467) da c lêncla psicológica francesa.


Vet.mas
frente, o cap. X.

85
teór n.1
c
vuosctn direito, (1,1
d.o sociedades psicanaliti«as. lendo
da Instótta c das
deixado pelas tilo«otias da (Sartre
upado o e•paço vago
avançando no tcrtvno etn que o estrut
etc.) dc»deI OOS,
a pstcan.íhse tianccs.l dissctnina-se, atualrnente, por todo
fragntenta,
cténcjas hutnanas e, Inclusjve, na vulgata dessas
o c.unpo das
do sujeito. I Desse
intnxiunndo nelas a questão
supor as variantes distribuídas entre
todos o» sentido»«eria possívcl

prnnctra,cug.iconfiguraçãoé antropológica, serta, do ponto dc Vista


lustórtco,o retorno de urna quase ontologia, visando urn saber que
torne o ego presentenos sírnbolosque «crlarn o subentendido de
qualquerexperiênciahurnana.E a outra que, ao definir o sujeito a
parar do ponto etn que a Instituwâo da linguagenl articula-se com
basena organizaçãobiológica, asqutniria, tinahnente, a forma que lhe
fot tornecldapor Lacanno tnais notável (e rnais historiográfico)
de
seus«enunários(1959-1960):urna "ética da psicanáli«e".

Deslocamentose perspectivas
Em 1971, realizava-se, ena
Viena, o "1 0 Congresso
cionalde Psicanálise". Interna-
Retorno às origens. Mais de
dirigiratn-seao apartarnento-rnuseu 3.000 analistas
biliáriocarrnesirndo defunto da Bercwasse para visitar o rno-
Inestre, seu canapé e
universoreunidonesse seus bibelôs. O
mornento era o do
peregrinação rnarxistahavia agrupado Ocidente, enquanto uma
terragernaánica, o do Leste, mas na
centro bifacial desses mesma
silênciodo lugar, dois impérios. Em
análogo ao silêncio Viena, o
1940-1952), suscitavaa fala de do corpus freudiano (FREUD,
çàodestinadaa uma
Anna Freud, filha multidão; mas, somente a ova-
rumoresdissonantes do fundador,
que confirmavam, conseguiu abafar os
internacionale, ao mesmo tempo,
de acordo o sucesso
pela"horda" com Toteme
dos herdeiros. tabu, a fragmentação
tória da qual, A psicanálise da obra
daí havia entrado para a his-
suasrelações em diante, fazia parte.
com a Por isso, foram
modificadas
autorizama historiografia.Os
sublinhar três deslocamentos produzidos
orientações atuais:

86
do psicanálise
Umahistória
psicanálisedos transtorniacl()
Ia
ela tneslna, de sua ongetn coni suas
s,canállsecoto evolusi»es,
teorias cotil suas instituições, da relação transferencial
de conl
etc. continua sendo pertinente insere'.«r os des-
pessoais utna genealogia anil)la•,por exernplo, vincular
a tradiçáo judaica Inoravia, lilarcada pelo sabateíslli(),' ou
reconheceros vínculos de Lacan com o surreallslll()ou ujna
linhageni cristã que substitui o corpo perdido pelo logos.
verdadetra

a partirde uni modelo interno conl o trabalho necessáriode elu-


Cidaçio dos déficits da teoria no que diz respeito:
a) às relações de transferência e de conflito a partir das quais
se constroelli Ok analíticos;
b) ao funcionatnento das associações ou escolas freudianas e, por
exernplo,às fornxasde agregação e de poder que habilitan)
a "segurar" a posição de psicanalista;
c) às poqslbilidades de proceditnentox analíticos nas instituiçóes
psiquiátricasenl que, ao saíretli de laboratórios destinados
a urna clientela de predileçáo, elas enfrentarn alianças
adtninlstratlvasda política conl a terapêuticae, ao
ternpo,coni o rurnor popular da loucura.
Nesse aspecto, a experiência de La Borde abre urna outra
histónapsicanalítica;etn vez de "aplicar" a psicanálise,trata-se de
revelar"urna subjettvidade revolucionária" e de "apreender o ponto
deruptura que, precisatnente, a econonua política e a econornia
libidinal se confundetn" (DI. LEU/.L, 1974).2')

2. Uma biografia autocrítica


O interesse pela biografia surge desde as origens: nas "ses-
de quarta-feira", fazia-se o estudo de N. Lenau, E Wedckmd,

provérbio'abanano transgresOo"
afitnuva• lei cunipre•se peia
também,
hes. 1976,
I
Kleist, Leonardo
Jean-Paul, K, E da
é
A
sendo
I
e histórica da
gura política detnocr,ítjoa, torna-se, por
c da
econotnia capitalista as evidências de seus
que «e desfazenl
o cenário enl heróis da historiografia). (
das curas ou
beneticiários (clientela Freud Inverte o gesto Instaurador
a obra de
da da e na Aldklc:n01Ñ, Kant, que decoarava os direitos e os
esclarecida:a
da consciêncta -- ' 'a plena liberdade" e responsabilidade,
deveres dessa consciêncta
possibilidade de "avanço" que pernuta
a
a autononua do saber, (KANT,1947) —,a resposta da
de sua minoridade"
ao hotnetn "sair
freudiana reemia o adulto à sua ' 'Illinoridade" infantil, o saber
análise
o deterrninarn, a liberdade à lei do
aosmecanismospulsionaisque
originários.
inconscientee o progresso a acontecnnentos
No lugarrecortado por urna ambição, a biografia psicanalítica
operauma máravoltaou constata uma erosão de seus postulados.
À semelhançada místicados séculos XVI e XVII, no campo de
umatradiçãoreligiosarecebida,ela desfaz, a partir do interior, a fi-
gurahistóricae socialque é a unidade-padrão do sistema em que
o freudismose desenvolve.Mesmo que as condicionantes sociais
reduzama biografiaà apologia do indivíduo, em princípio ela tem a
formade autocrítica,enquanto sua narratividade assume o \alor de
antimito,como ocorre com o Don Quichottena Espanha dos hidalgos.
Aindaficapor saber que diferença (que já não teria necessidade de
ser'biográfica")é anunciadaou preparada
por esse maquiniqno.
3. IJmahistória da natureza
Ao reduziro indivíduo ao
que, por outro (ou pelo inconscien-
te),o determinaà sua
revelia, a psicanálise voltou às configurações
simbólicasque articulavamas
cionais,O práticas sociais nas civilizações tradi-
sonho,a fábula e o
razãoesclarecida mito: esses discursos excluídos
tornam-seo próprio espaço
críticada sociedade cni que se elabora
iúvida,os teólogos burguesa e tributária da tecnologia, Seni
do freudistno
linguagensem ter-se-iatli apressado a Inoditicar
positividades. Mas, não
é isso o itupottailte: ao

88
e os rituais recalcados pela razão
os pode, atualmente, ter
uma crítica freudiana aspectode
abre algo que poderia ser
antropologia.De fato, ela designado
históriada "natureza" e que introduz na historicidade:
por
e as remanênctas do irracional,violência ern
a) a persistência
açãono próprio interior da cientificidade ou da teoria;
(as pulsões, os afetos, o libidinal)
b) uma dinâmica da natureza
articuladaa partir da linguagem —o que contradiz as ideo-
logiasda história que privilegiam as relações do hornern
com o homem e reduzem a natureza a um terreno passivo,
indefinidamente oferecido às conquistas científicas e sociais;
c) a pertinência da fruição (orgástica, festiva, etc.) reprimida
por uma ética do progresso que é incrivelmente ascética e,
portanto,a subversão insinuada pelo princípio de prazer no
sistemade uma cultura.
Taisquestões, disseminadas na historiografia, já produzem aí
efeitosque, por não serem necessariamente marcados por uma fi-
liaçãopsicanalítica,nem por isso deixam de ser sinais de dívidas e
tarefasfreudianas.
O "romance" psicanalítico.
História e literatura26

Qual é o impacto do freudismo sobre a configuração que, nos


últimostrêsséculos,tem orientado as relações entre história e lite-
atura?Essas"disciplinas" distribuem-se, atualmente, por diferentes
instituiçôes(associações profissionais, departamentos universitários)
queasadlilinistrame garantem sua manutenção contra os aciden-
tes.Certamente,o divórcio entre história e literatura resulta de um
antiquíssimo processo, além de exigir demasiado tempo para ser
tal ruptura —patente desde o século XV11,27legalizada
relatado;
noséculoXVIII corno um efeito da divisão entre as "letras" e as
"ciências"—foi institucionalizada no século XIX pela organização
universitária.Ela finca seu fundamento na fronteira que as ciências
positivashaviamestabelecido entre o "objetivo" e o imaginário, ou
seja,entreo que elas controlavam e o "resto".
Essadistinção é objeto de uma revisão. Neste caso, à seme-
lhançado que ocorre em um grande número de outras situações,
aliteraturadesempenhou um papel de vanguarda por exemplo,
como romance fantástico.28Aliás, ao apresentar aspectos de romance

roman'psychanalyüque uma das versões


fran - Histoire et littérature". Luce Giard serviu-se de
cesas parcialmente, em um en-
contro inédita do texto que havia Sidoapresentado,inicialmente,
39.
internacionalde psicanalistas,
em Paris (fevereiro de 1981).Cf., neste livro, p.
Arupturatem
como indício, por e "rnem6rias" que divide,
noéculo exemplo, a separação entre "histórias"
XVII,o campo
da literatura histórica.
século XIX, o que a ciência
romance fantástico utiliza/confunde Ipue /déjouej a fronteira
estabelece
entre o real e o TODOROV, 1970.
criando a
dessa revisão,
diferentenwnte os do
o
relaçóes ao definir a partir de Freud,
para novas de
eu a redistribuição do
que questiona respeito à escritae a
de contas, ele diz
afinal dc imediatarnente, rninha tese:
epistetnológico; expor,
a instittliç,i0.Vou históricos. Ela 0
dos
é 0 discursoteórico de sociedade têm
não que operações considerar a literatura corno
Bern longe de
a uma fortnalização. reconhecê-la con10 algo de
referencial, conviria
"expressão" de um durante rnuito tennpo, para
tnatelnáticos foranl,
análogoao que os da história, a "ficção' que
discurso "lógico"
as ciências exatas: um
29
a torna pensável.
Pressupostoshistóricos
exame das intervenções
Duas condições prévias afetarn qualquer
um
freudianasnas dificeisrelaçõesentre literatura e história: por
lado,Freud pressupõeque seu rnétodo, por uma prática diferente
da linguagem,é capaz de transformar completamente o campo das
ciênciashumanas,mas o controle da operatividade de suas teses
verificou-seapenas em urna disciplina particular, a psiquiatria, sem
ter conseguidoestar à altura de proceder às mesmas verificações
técnicasnos aspectosem que, de acordo corn sua declaração, ele
era O futuro do freudismo vai depender deste
distanciamentoentre a generalidade de sua teoria e a localização de
suasexperimentações.Os "ensaios" freudianos sobre a literatura e a
histórialimitam-sea apresentar um quadro de hipóteses, conceitos
e regrasque visampesquisasa empreender fora do campo em que
a psicanálise foi "cientificamente"
elaborada.
Por outro lado,seria ilusório referir-se ao
freudismo como a
um singular.No momento em que
se realizou, após a morte de
Freud, em 1971, o "10 Congresso
Internacional de Psicanálise

* Este texto é a
de DE CERTEAU, ECH, 4a
anteriormente, cap. IL freudiennes",
» escreveele, em Der Mann
Moses,m FREUD,1940-1952,
t. XVI, p, 123.

92
ontdade entre escolas e as tendências
Viena, representadas
do silêncio do
tinhapara expritnir alélii apartanjento vazio
(urn tónililo entéitado de bibelôs) e do estrépito da
do defunto, Anna Freud (util nonie da ovação
destinadaà filha
A esses dois sinais de apojado pelo
quiproquó genealógico). ausêncii
nojne ocupado pelo outro lugar
e acrescenta-se terceiro:
das Gcsannnt'lte II ('Ike ( 194()-1952).Ao
o toonutnento reivindicareiii
dezoito volujnes, oq discípulos evocani, de fato, a tese ou
e tal)ltlsobre a fragjnentaçào do de
undTàblt corpo pela
"horda"dos herdeiros, após a tnorte do pai, ou de Der AlannMoscs
sobre a "tradição" que inverte o
e 0 monoteíslllol pensamento
dofundadorde queni ela carrega o notne.
Da índia à Califórnia, da Geórgia à Argentina, o freudlslli()é
tio "fragnlentado",quanto o jnarxisni(). Fortnadas para defendê-lo
contraos avataresdo telnpo, aq grandes instituições profissionais vão
entregá-lo, de preferência, ao trabalho dissetninador da história, ou
seja,às divisões entre culturas, nações, classes, profissões e gerações;
elasacelerarna decotnposiçào do corpusde que se beneficiarn.
Negaressefato seria ideologizar a teoria e/ ou fetichizá-la. Desse
modo,não haveria urn "lugar adequado" que possa garantir uma
interpretaçãoexata de Freud. As reflexões seguintes situam-se
somenteem alguma parte nessa dissejninação do freudisnno,na
linhae (desde que se itnpós o luto pela École Freudienne de
Paric) nas margens da instituição teórica lacaniana. Historiador
de oficio,ou tnembro dessa Ecole desde sua fundação,não me
sintomais"apto" para falar de Freud ou ser considerado como um
de seusrepresentantes. A instituição atribui uma localização, mas
nãouma autoridade.
Portanto,dupla condição prévia: por um lado, teses gerais
defendidas
somente por experiências particulares;por outro, uma
leituraparticular dessas teses gerais. Esqa localização significa histo-
Antes de ser um objeto de discurso,a história engloba e
ricidade.
Situaa análise. Ela da
é seu insuperável pressuposto. Qualquer teoria
história
estáconfinada em um labirinto de conjunturas e de relações
-queelanão domina; do
trata-se de uma "literatura" sob o domínio
assuntoabordado
por ela.

93
ao "romance"
"cientificidade"
Da
Hystcrie (1895) [Estudos sobre a histeria]
Em seus Studien iibcr
diz ele, "nos diagnósticos locais e no eletro_
Freud "formado", de forma bastante irónica
si mesmo,
diagnóstico"—surpreende-se a
fato de que suas"histórias de pacientes" (Krankcngcschichten)se
pelo
como se fossem romances (Norcllcn) e sejam, por assilll dizer
leiam
( IV'issenschaftlicllkeit);
eis
desprovidasdo caráter sério da cientificidade
lhe acontece,como se tratasse de uma doença. Sua maneira
o que
de escrever. Metamor_
de abordar a histeria transforma sua maneira
fose do discurso:"O diagnÓsticolocal e as reaçóes elétricas não têm
qualquervalor para o estudo da histeria, enquanto uma apresentação
(Darstellung)aprofundada dos processos psíquicos, à maneira como
ela nos é apresentadapelos poetas (Dichter),permite-me, pelo uso
de algumasraras fórnmlas psicológicas,obter certa compreensão
no desenrolarde uma histeria" (FREUD,1940-1952, t. I, p. 227).31
Deslocamentoem direçào ao género poético ou romanesco: a con-
versão psicanalítica é uma conversão ao "literário". Esse movimento
duplica-sede um apelo aos "poetas e romancistas" que "conhecem,
neste mundo terrestre,um grande número de coisas que nossa sa-
bedoria escolar ainda é incapaz de sonhar": "o romancista precedeu
sempre o cientista" (FREUD, 1971, p. 126 e 175). A orientação é estável
e não cessade acentuar-se até a última obra, Der Mann Moses
(1939),
designadacomo um "romance" (FREUD; ZWEIG,1973, p. 162 —21 de
fevereirode 1936).Excetuando os tratados pedagógicos,
o discurso
analíticoassumea forma do que se pode
chamar, de acordo com uma
expressão freudiana, a "ficção teórica 32
Curiosamente, enquanto Freud havia
sido alimentado pela
Au]kldrungcientíficado século XIX e se
paixão, em fazer reconhecer a tinha empenhado, com
"seriedade" do modelo académico
vienense, ele dá a impressão de
ter sido apanhado
sua própria descoberta.Por desprevenido por
esta, também, ele é
"terra materna", a Muttererde: conduzido para a
de acordo com o
que escreve a Arnold
• sut uma nova
destetrecho para
0 francês,publicada in Esprit,
é de Freud para seu
psychixhen
in Tragmdeutung,
cap. 7.
ót-erentenlente de todas as outras civilizações
ciências, a antiga (egípcia,grega,
criadoras de Palestina "limitara-se a
extravagâncias sagradas", em suma, formar
religiões, ficções (FREUD;
75 8 de rnaio de 1932). De fato, o discurso ZWEIG,
1973,P retorna à seriedade científica, não freudiano
éa tficçioque só como objeto
tambélll como sua forrna. A "lilaneira"
deanálise,ruas do ronlance
teórica. A forma bíblica, gesto literário
torna-sea escrita pelo qual
conflito da Aliança, ou seja, o processo histórico
searticulao entre
Jeováe seu povo, parece remodelar de longe o saber psiquiátrico
para
Tansformá-lono discurso do progresso transferencial entre analistae
exumar as relações que assombramo
intercâmbio
dosaberconl seu objeto, Freud atraiçoa a norma científica; ele volta
aencontraro género literário que, outrora, na Bíblia,era o discurso
'teórico" dessa relação. Deste modo, de acordo com a observação de
Lacan, ele seria um dos únicos autores contemporâneos que haviam
Sidocapazesde criar mitos (Le Sóninaire VII, 1986), o que significa,
nomínimo,romances com função teórica.
Independentemente do que se possa pensar a propósito da
aparição possíveldesse enorme espectro bíblico na obra freudiana,
ocorreque a importância atribuída a uma historicidade é precisa-
menteo que leva a uma forma romanesca, até mesmo a uma arte
poética.Dessa conexão, três aspectos têm importância para uma
teoriada narrativa freudiana.
a) Para Freud, a própria definição do "romance" consiste em
combinarno mesmo texto, por um lado, "os sintomasda doença"
ou seja, uma semiologia baseadana identifica-
(Krankheitssymptonte),
çãode estruturas patológicas e, por outro, "a história do sofrimento"
ou seja, uma série de acontecimentosrelacionais
(Leidensgeschic/lte),
quesurpreendem e alteram o modelo estrutural.33Adotar o estilo do
romanceé, portanto, abandonar a "apresentação de casos"tal como
erapraticadapor Charcot em seus cursos da "terça-feira" e que con-
em "observações", ou seja, em "quadros" coerentes, compostos
SIStia
apartirda coleta
ao modelo sincrÔnico de uma
de dados relativos
nça.Em Freud, a quadro em que
estrutura patolÓgica torna-se o

et nota
31 na página
anterior.

95
Integra,
que da doença. por
do
se
do ponto detranstarrna-« "rornance". O texto
ser Chatvot de
essefato, da "seriedlde"da
carece funcionatnento dialogal
que, a 0
ao fato de há historicidade.
sem
à cura. suma. itnplicado na seu
está
b) O próprio Freud rigorosa de sua obra, suas análises de
parte tna1S
locutor Enquanto "sofiirnento" dos pacientes traça enl
surpresas que o
casos relatarn as aproxirnação, varnos adil)ltir que a
prirneira
suaposwào.Atítulo de ern seu texto pelo rnodelo que
Freud é representada
"poqção"de
quadro teórico para seleclonar e interpretar os dados
lhe «ervede
resulta da alteração que o
o sistemade urna doença. O rornance
texto, teus diferenças
sofrimento do outro introduz nesse quadro; no
marcam,ao mes:no tempo, déficits e acontecirnentos da narração.
Essesdoisvalores o prirneim, relacionado conl o rnodelo, enquanto
o outro se refereà narrativa têlll, aliás a rnesrna significação: o
déficitda teoria define o acontecirnento da narração. Desse ponto de
\1Sta,o romance é a relação que a teoria estabelece conl a aparição
factual [événementiellel
de seus limites.
De fato,o distúrbioque o "sofrimento" do outro insinua no
sistemade sua"doença"atinge tanabémalgo que não é somente o
saberdo analista.Afetos e reminiscências de toda
a espécie respon-
dem aos clientes. Freud considera tais
reaçôes corno "rnernoráveis
[dctlkwurd«l.Em seu discurso, elas
marcam um distanciarnento entre

saber).O diálogofaz surgir


no próprio analista
uma "inquietante
familiaridade".A "confissão"
dessa alteração interna define, de forrna
bastanteexata,o que
separa o "romance"
psiquiátrico.Ao retirar,assim,o psicanalítico do "quadro
científico,a narrativa cunho de seriedade ao rnodelo
do analistae uma freudiana grava aí
uma historicidade oculta
mudança recíproca
umaescultura dos interlocutores; trata-se de
de acontecimentos
quadro estrutural até então não conhecidos no
de um saber.

96
c) Reciprocamente, a concepção de Freud
respeitode õ-
a ler outros documentos. Ela permite
-acomo urna relação entre urna estrutura e
entre um sistema (explícito ou não) e o vestig10
nesse de
algodiferente.Nesse caso, a obra literária é
de um modelo estrutural imposto por urna cientikia&de• , sena Iam-
também, pulverizá-la nos acontecimentos
de leztura
ou renuniscéncias),multiplicados Indefinidamente pela
Únt.zs:aou
pelaerudição.Ela irá aparecer, de preferéncu, como o
engaste de
alteraçÕes históricas em um quadro tUrmal.Aliás,em
Freud, existe
urnacontinuidadeentre sua maneira de escutar um(a) paciente,
sua
maneirade interpretar um documento (literário ou não) e
sua ma-
neirade escrever.Entre as três operações,não há corte essencul.
O
"romance",no sentido que acaba de ser definido com prectsüo.
pode
caracterizar,ao mesmo tempo, as afirmações de um(a) paciente,
uma
obraliterária e o próprio discurso psicanalítico.

Tragédia e retórica da história


Apesarde seu retorno ao género do romance,a interpretação
freudiananão deixa de ser histÓrica.Vamosatribuir ao qualificati\0
"histórico"uma definição que sirva de ponto de partida:assim,a
anáhseé "histórica" ao considerar seus materiais como os efeitos
de sistemas (econônucos, sociais, políticos, ideológicos, etc.), além
de ter o objetivo de elucidar as operações temporais (causalidade,
cruzamento,inversão, coalescência, etc.) que poderiam ter dado lugar
a essesefeitos. Um postulado de produção e uma identificaçãode
seusprocessoscronológicos especificam uma problemática da histó-
ria.Ela caracteriza o reemprego freudiano de modelos tomados de
empréstimo,sobretudo, a duas regiões da literatura Já bem definidas,
desdeAristóteles34: a tragédia e a retórica. Intercâmbio sintomático
equívoco psicanalítico: os modelos provém do campo literário
e sãotransformadospor sua introdução em um campo histórico,
deixandode pertencer a qualquer um dessescampos.

Atstóteies, Pi*tiqge, Rérh'"F, u, t 450a- t 453 (sobre retónca


e paixoes); n, B, 1449b-1458a (sobre a
a Interpretação de
Freud faz referencia esses dois

97
de explicação,a
corno por instâncias: o
t, A estruturação do
Esse aparelho
freudiana adota a 'l,er-ldl).
(15) e 0 Superego à da tragédia
Ego (l, h), 0 Id constituindo-se
teatral, que tanto a prnne.lra
um ,nodelo ora, sabe-se
e do drama shakespeariano;
fornecer a Freud estruturas de
grega de
não
quantoo segundo de autorizadoras."Actantes',
e
urna configuração
e lá,deuses)
por sua desde 0
que se vai
de
de sincrónica as etapas pelas quais
da peça, eles desenham ern Freud, o rei Lear ou Harnlet
(o "eu"
passaro heróiepÓnirno finalmente, eru urna posição
encontrar,
etn Shakespeare)para se corneço, uma disposição
1970). No
que inverte a do início (SI.ACK,
apresenta, de acordo com urn modelo topográfico, os
dasInstâncias
um modelo diacrónico
"rnomentos"que vão desdobrar-se a partir de
peça ou história é a
em deslocamentossucessivosdo "herói". Cada
transformaçãoprogressivade uma ordem espacial enl série ternporal.
O aparelhoe o desenrolarpsíquico são construídos a partir desse
modelo "literário" do teatro.
O aparelho freudiano distingue-se, no entanto, duplamente do
modelo da tragédia que lhe serve de referência: em primeiro lugar,
alémdas figurasde um espetáculo,ele entende identificar forças
que articulemo desenrolarpsíquico efetivo.Trata-se sini de uma
representação,mas explicativa do que se passa: se o modelo é trágico,
seu funcionamento é histórico.
Além disso,se for aceito o esquema de
Georges Dumézil
(1970) para quem existe,do mito ao
romance, uma reproduçã0
das mesmasestruturase das
mesmas funções, apesar da desconti-
nuidademarcadapela transformação
do cenário cosmológico em
cenáriopsicológico—,Freud
adota um procedimento inverso: ele
encetaum retorno ao
mito a partir do romance,
geral,no estágio mantendo-se, em
intermediário,no entremeio
tragédia(aliás,sabe-se [entre-dcuxlque é a
que, entre os gregos,
uma historicização ela funcionou como
do mito). A
mára o romance despsicologização freudiana, que
em direção ao mito,
que a mitificação interrompe-se no ponto
retiraria à narrativa
sua historicidade. Situado

98
pelo tato de que o relata
enquanto o segundo tnostra estiA1tuvas
otetvce. portanto. o tnodelo da tragédia à Interpretaçào
dos docttnwntos,
4 litstoncvaçâo de tnodelos literários apa-
a;nda clarAtnente no setov dos processos de ptoduçào.Todos
tern a caracteristica de "deslocar ' , "deqtigurar'
, etn sutna, de sereni "detorrnaçóes (Entstellungen).Na
praticadapor Ftrud, desde a Trautndcutung(19( Irl ciência
as operações que organizarn a representação, articulando-a
a partirdo ststetua psíquico, sio, de fato, do tipo retórico: Inetáforaq,
sinédoques, paronotná<ias,etc. Ainda aqui, o rnodelo
é extraídoda literatura. No entanto, Freud retira essas"figuras de
retórica"do gueto "literário" no qual havialll sido confinadas por
concepçãoda cientificidade; ele confere-lhes urna pertinencla
ao reconhecer nesse carnpo urn conjunto de operações
produtorasde Inanit-estaçôesrelativas ao outro (desde Edipo, ou a
até a transferência).Desde então, a retórica constitui o
castração,
campo(inde\hdalnenterestrito ao que se tornou a "literatura") ern
queforam elaboradas as figuras forrnais de urna lógica diferente
daquelaque prevalece na "cientificidade" de praxe. Tais processos
nãodependem da racionalidade da Ali]k'lárungque, por sua vez,
pri\hleglaa analogia, a coerência, a identidade e a reprodução; eles
correspondema todas as alterações, inversões, equívocos ou defor-
maçõesque utilizam os jogos com o tempo (as ocasiões) e corn o
lugaridentificatório (as máscaras) na relação de outro com o outro.
Seránecessário,também, reconhecer, nesse renascimento da retó-
ncaem Freud,um retorno da lógica familiar à tradição semítica e
Judaicadas"histórias" formais, dos trocadilhos e dos deslocamentos
parabólicos"?
Paraempregar uma expressão de Freud, a obra literária torna-se,
assim,"uma mina"
em que é possível compilar as táticas históricas
relativasa
circunstâncias e caracterizadas pelas "deformações" que
elasoperam
em um sistema social elou linguístico. Como o jogo
com sua
disposição,regras e "golpes " —é um espaço, de algum
modo, teórico em
que as formalidades das estratégias sociais podem

99
contra as urgências da e
terreno ptotegido 0 texto literário
lutas cotidianas,
opacas das
contra as complexidades espaço iguallnente
jogo, constitui que se se
que é laboratório
de as práticas astuciosas
e protegidoà e se experirnentarn
disunguetn,se combinanl c,unpo enl que se exerce urna lógica do
Eo
da relaçãocom outrern. rejeitada pelas ciências na medida
havia sido
OUtto,aliás,aquelaque do rneslno (IMBERT,
urna lógica
em que elaspraticavanl para rearticular esses
lugar, o sonho
Freud utilizou, etn prirneiro
"literários"a partir da realidade psíquica e social;
procedimentos para historicizar
serviu-se dele como de uni cavalo de Troia
talvez,
retórica e reintroduzi-la na cidadela da ciência. Deste Inodo, ele
a
operações for-
transformao texto literário no desdobrmnento das
maisque organizamuma histórica; ele confere-lhe, ou
melhor,devolve-lhe,o estatuto de ser uma ficção teórica em que é
possívelreconhecer e produzir os modelos lógicos indispensáveis a
qualquer "explicação" histórica.

A biografia anti-individualista
Após a forma literária da análise (o romance) e seu aparelho
conceitual (um sistema trágico e os procedimentos retóricos), pode-se
considerarseu mais importante conteúdo, a saber: a história de caso.
Herdado da psiquiatria,esse objeto privilegiado acaba,
inclusive, por
definir a disciplina: a psicanálise, diz-se, é a
biografia. O interesse pelo
estudo biográfico remonta, de fato, aos
primórdios do freudismo. Nas
'sessõesda quarta-feira" (teriam sido
inspiradas nas "terças-feiras" de
Charcot?), antes mesmo da fundação da
eram examinados"casos": "Associação Internacion al"'
Jean-Paul, H. Kleist, N.
do Da Vinci, K. F.Meyer, Lenau, Leonar-
F.Wedekind, etc.
não cessoude crescer Esse primeiro interesse
entre os freudianos
estejapraticamente (embora, por exemplo'
ausente da obra de
dos casos,trata-se Lacan); aliás, na maior parte
de autores literários.
clássico,a biografia sob este aspecto, bastante
introduz uma
novidadedo freudismo historicidade na literatura; mas a
consiste no uso da
biografia para destruir 0
essastáttcas e sua
relação com a narrativa
romanesca, ver
DE CERTEAU,
I.VQf, lm

100
individuahsrnopostulado pela psicologia moderna e
essaferramenta, ele desmonta o postulado da contemporânea.
sociedade
e burguesa,desfazendo-o; vai substituí-lo por outra história, liberal
ao voltar,
cornovimos,ao sistema da tragédia.
Elaboradono decorrer dos séculos XVI e
XVII, o Individuahs-
serviu de base social e de fundamento epistemológico
para uma
economiacapitalistae para uma política democrática
(MACPHERSON,
1962;MACFARLANE, 1978; etc.). Ele fornece seu
postulado técnico e
míticopara a gestão racional de uma sociedade supostamente
consti-
tuídapor átomos produtivos e autónomos; essa é a figura
histórica da
modernidadeocidental.A psicologia do autor é apenas
uma variante;
se RobinsonCntsoé é o romance mítico desse postulado, o
freudismo
é o anti-Robinson Crusoé. Certamente, surgido na e da
sociedade
liberal,ele recebe, de seu local de nascimento, tal herança
que se tornou
um dado sociocultural. Mas deixa de aceitá-lo como
postulado; pelo
contrário,vai desmantelá-lo, destruindo sua verossimilhança.
Uma comparação exprime o essencial deste tópico. Em
1784,
Kantenumera os direitos e os deveres da consciência esclarecida:
"plenaliberdade" e responsabilidade, autonomia do saber,um "avan-
ço"que permita ao homem "sair de sua minoridade" (1947).Essa
éticado progressoapoia-se no postulado indi\idual. Um século mais
tarde,Freud revira, uma por uma, todas as afirmações kantianas:em
suaanálise,o "adulto" aparece determinado por sua "minoridade";
0 saber,por mecanismos pulsionais; a liberdade, pela lei do incons-
ciente;e o progresso, por acontecimentos originários.
Paraa ética individualista e empreendedora da burguesia mo-
derna,essesromances biográficos seriam, portanto, o que o Dom
Quixotede Cervantes havia sido, no início do século XVII, para a
hídalguía[nobreza] espanhola. A figura organizadora das práticas
de uma sociedade
torna-se o cenário enl que se produz sua revi-
tavoltacrítica,definindo ainda local em que ela desaparece.Ela
o
limita-sea ser o
lugar de seu outro ---uma máscara.Esseprocedi-
mentocrítico
é tipicamente freudiano. Enquanto a "cientificidade"
constróipara si
um lugar própri036 ao elinlinar desse próprio tudo o

, neste
lavro,nota 3, p. 47,

101
freudiana identifica a alteridade
análise
determina à sua revelia: ela mostra os
ea
obceca a apropriação desenrolam no mesrno lugar, entre o
contraditóriosque se aí; ela diagnostica o equívoco e
se manifesta e o que se oculta também, ela é do tipo
que ponto de
lugar.Desse
a pluralidadedo Dem Quixote não é uma coincidência,
romaneso O paralelocom
nem um caso único.
de crítica visa outra unidade "fundamental"
O mesmotipo associada à do indivi_
historicamente
cuja formação está, aliás, assim como para Marx,
nacional. Para Freud,
dualismo:a unidade
apenas um embuste: a fusão (Verschntelzung)tardia de
a nação é
sob outras formas
consatuintes,cuyaantinomia reaparece, em breve,
(FREUD,
(Biederherstellgngen) Der Mann Moses, 1940-1952, t. XVI,
p. 137-138).Aqui, também, a análise freudiana retoma a unidade
histórica herdada (por exemplo, a nação judaica) para detectar aí
uma aderência superficial (uma I 'erlotung)entre forças opostas e os
vestígiosde sua ressurgência.A semelhança da crítica "biográfica"
do individualismo,essacrítica "sociopolítica" da ideia nacional
assumea forma literáriade um "romance histórico", Der Afann
Moses.Diferentemente de uma disciplina científica, ela não institui
unidades próprias. Ela faz sobressairo caráter fictício de seu objeto
ao mostrar as contradições que o determinam. Esse funcionamento
evoca claramentea tentativa teórica e a forma literária praticadas
por Karl Marx em Der AchtzehnteBrumaire[0 18
Brumáriol para
desmitificara representaçãopolítica, ao rejeitar
a concepção hege-
liana relativaà integração do social,em
seu conjunto, pelo político.
Em Freud, a nação e o indivíduo
são, igualmente, as camuflagens
de uma luta, até mesmo de
um deslocamento (Zerfalt), que volta
sempre ao palco de onde
ela havia sido suprimida;
iiBtrumento teórico dessa e o romance é 0
análise.

Uma estilística
dos afetos
O afeto (Affekt)
forma
retorna, igualmente,
elementar das ao discurso freudiano: é a
energias pul«ionais,
0895), ele fornece Desde os Studien úber Hysterie
urna base à análise
"económica" do psiquismo

102
das vezes, autonotno etn relação
tnaiorparte ao funcionamento
ele está subtnetldo a tnecanlsmos
dasrepresentações, suas
patológicas: "conversões" produzem geradoresde
figuras a histeria;
deslocamentos' , a obsessão; suas "transforrnaçõcs", seus
v' a neurose,
Seupapel torna-se cada vez mais decisivo na prática analítica
etc.
entanto, tais afinamentos da teoria
deFreud.No seriam Incapa-
ao esquecimento de urn
zesde levar fenomeno maciço: os
afetos
constituem a forma assumida, em Freud, pelo retorno das paixões.
Estranho,de fato, é o destino das paixões: depois de terem
Sido
pelas
consideradas, antigas teorias na área da medicina ou da filosofia
(atéSpinoza,Locke ou Hume; ver HIRSCH.MALN, 1977), corno mo-
\hment0Sdeterminantes, cuja composição organizava a vida social,
elashaviamsido "esquecidas" pela economia produtivlsta do século
XIX,ou repelidas para o domínio do "literário"; aliás,nesse século,
o estudodas paixões é uma especialidade literária, tendo deixado
dedependerda filosofia política ou da economia. Com Freud, esse
da ciência volta a aparecer em um discursode cunho
eliminado
económico.Fato notável, em sua perspectiva própria, o freudismo
devolvea pertinência, simultaneamente, às paixões, à retÓricae à
elas têm, efetivamente, um projeto comum, mas haviam
literatura:
sidoexcluídas,conjuntamente, da cientificidade positivista.
Esseretorno [retourl efetua-se, em Freud, pelo viés [détourl
doinconsciente.Na realidade, esse détour é, em primeiro lugar, a
constatação ou, se preferirmos, a observação clínica daquilo que a
epistemologiado século XIX havia feito das paixões ao retirá-las dos
legítimos da "razão" social, ao transferi-las para a região do
discursos
nãosério" que é "literário", ao reduzi-las a desvios psicológicos em
à ordem e, por último, de qualquer modo, ao marginalizá-las.
relação
ética
Essarejeição epistemológica está associada, aliás, à excomunhão
por uma burguesia produtivista. Os afetos—
Pronunciada recortados
deacordocom a concepção freudiana do aparelho psíquico —sio
recuperados, exatamente onde as paixõesha-
portanto, por Freud
Viamsido lançadas recente, entre os detritos da
por uma história
tacionalidadee os apesar disso,e tanto mais
refugos da moralidade; "cegos" e sem
queelessão movimentos
ainda mais recalcados, tais sociais.
guagemtécnica das relações
determinam a economia

103
breud devolve-lhes a legititnidade no discurso científico, o que
lado do rornance.
transfere evidenternente esse discurso para o
duas modalidades
Sua análise dos afetos diz respeito, sob
particulares, à literatura e à história.
afeto é a condição
a) A manifestaçãoou a revivescênciado
para que, no(a) analisando(a),a evocação da letnbrança tenha valor
terapêutico, e para que, no(a) analista,a interpretação tenha valor
teórico. Assim,a técnica da cura consistiria enl despertar, no(a)
analisando(a),o afeto que se camufla por trás das representações: ela
fracassase não alcança esse objetivo, a menos que esse fracassoseja
a Indicaçãode uma psicose.Do mesmo modo, na cura conduzida
por ele ou no texto que ele redige, Freud, enquanto psicanalista,
tem sempre a precaução de "confessar",como ele diz, qual é sua
reação afetiva em relação à pessoa ou ao documento em análise:ele
fica perturbado diante de Dora, assustadopelo Aloisésde Michelan-
gelo, irritado pelo Jeová bíblico, etc. Essa regra de ouro aplicávela
qualquer tratamento psicanalítico contradiz, frontalmente, a norma
primeira e constituinte do discurso científico segundo a qual a
verdade do enunciado deve ser independente do sujeito locutor. O
que é pressupostopor Freud, diferentemente dessa norma, é que
o lugar do locutor, além de ser decisivoem urna rede conflitante
de ab-reaçôes, é especificado pelo afeto. Deste modo, reintroduz-se
o que é dissimuladopelo enunciado objetivo: sua historicidade
aquela que estruturou relações e aquela que as modifica. Fazer com
que essa historicidade volte a aparecer é a condição da elucidação
analítica e de sua operatividade.
Essemétodo exerce e elucida a linguagem como práticain-
tersubjetiva;desse modo, ele transforma o discurso da análise em
uma ficção ou, dito por outras palavras,em um discurso em que
fica marcada a particularidade de seu locutor, essencialmente,sua
afetividade. Então, diz-se, deixou de ser científico, "trata-se de lite-
ratura". Do ponto de vista freudiano, essa doxa comum diz a ver-
dade,mas tem valor positivo.A réplica de um campo é recuperada
pelo outro, mas invertendo-a: se o positivismo rejeita, enquant0
não científico, o discurso que é confissão da subjetividade, por
sua vez a psicanálise considera como cego, até mesmo patogêniC0'

104
que a catnufla. O que é condenado pelo prlrnelro
pela segunda, que nem por isso acaba
sendo promovido recusa a definição
foi dada à ficção: um saber "atingido" por seu outro (o afeto,
privado de sua seriedade pela
etc.),um enunciado enunciaçãodo
No campo analítico, esse discurso torna-se
sujeitolocutor. opera-
ele é "tocado", ferido pelo afeto.A seriedade que
t'onoporque lhe
constitui a força 1110triz de sua operatividade.Esse é
é retirada o
do romance.
estatutoteÓrico
b) Confessaro afeto é, também, reaprender uma língua "esque-
cida"pela racionalidade científica e reprimida pela norrnatividade
social.Enraizadana diferença sexual e nos cenários infantis, essa
línguacontinua circulando, disfarçada, nos sonhos, nas lendas e nos
mitos.Ao mostrar a significação fundamental dos romancistase
poetas,ao mesmo tempo que a proximidade deles com seu próprio
Freud sabe que, em sua companhia, ele "teve a ousadia
discurso,
detomarpartido em favor da antiguidade e da superstiçãopopular
contrao ostracismo da ciência positiva" (1971a, p. 126-127). Mas,
finalmente,foi André Breton —admirador pouco sério quem
reconheceumelhor a unidade de todas essasanálisese apropriou-se
da possibilidadeque elas ofereciam para fundar uma linguagem
originale transgressiva ao recorrer à afetividade (ver ALQUIí,1956).
Elejá tinhavistoo que restaria, talvez, de Freud: uma teoria que faz
aparecera própria literatura como uma lógica diferente."O roman-
cistaprecedeu sempre o cientista". Certamente, Freud não chegou a
manifestar-lheabertamente seu agradecimento por "descoberta" tão
Ele era também professor. E, de qualquer modo, tinha
elucidativa.
empenhoem ser sério. No entanto, a literatura é feita, igualmente,
porobras que, ao perderem a atualidade científica, desvelam em sua
queda,se é que se pode falar assim, e graças ao que o tempo retira
a suaseriedadedo ponto de vista técnico, a lógica diferente desta
Vez,"literária"—que lhes servia de suporte. Nos textos freudianos,
Bretontinha visto, de antemão, em que aspectos eles seriam modi-
ficadospor sua "morte" científica.
ÉmileBenveniste sublinhou que, linguisticamente,os funciona-
mentosidentificados por Freud, relativos ao que se passano sonho,
nomito ou "procedimentos
na poesia surrealista, correspondem aos

105
Ia t-onctton du langage
do discurso" (BI
fieudienne", 1966, p. 75-87, grifo do autor). Indicas
Ia découverte enunciação ---ou a elocutioda
diz respeito à
çio deci<iva.O estilo
no texto, ele é o traçado do lugar de sua produção
antiga retórica:
a urna teoria dos afetos e de suas representações.
retnetendo
Freud, urna ela
estilística; não leva à classificação no entanto
em havia construído a partir de
Charles Bally (1951)
pioneira que
nomenclatura psicológica dos afetos. Ao acornpanhar a diná_
urna confissões, ela analisa,de
e suas
mica dos afetos entre seus disfarces
pelas situações de fala [parole];
fato, as modalizaçõesdo enunciado
[parole] a partir de um equivalen-
ela cria urna "linguística da fala
antiga teoria das paixões.
te —atualmente pensável do que era a

O poemae/ou a instituição
A linguagem do(a) analista e a do(a) analisado(a) fazem parte
da mesma problemática;finalmente, ambas dependeriam do estudo —
central, em Freud da "construção e transforrnação das lendas" (die
Bildungund Ulngestaltungvon Sagen),salvo que este autor atribui o
qualificativo de "ficção" ou ' 'rornance" à sua própria narrativa e, pelo
termo "lendas" (assimcomo "ficções"), designa as linguagens que
denegam seu estatuto de ficções por pressuporem (ou levarem a crer)
que elas falam do real.A comuni determinação dessaslinguagens
pelos mesmos processos de "construção" é uma peça essencialde
seu sistema de interpretação. O discurso freudiano não se exime dos
mecanismosque ele desvela em seus "objetos": além de não dispensá-
-10s,como se ocupasse a posição privilegiada de uma "observação'
ele elucida um funcionamento ao qual, por sua vez, está submetido.
Eis o que seria verdadeiro,pelo menos em princípio. De fato,
a obra de Freud comporta dois tipos de textos bem diferentes:os
primeirospraticama teoria, enquanto os outros a expõem, como
um saber do mestre. A segunda categoria,
pertencem as "Lições '
"Contribuições","Resumo", etc. Nos primeiros, discurso psica-
o
nalítico está submetido à lei das
transformações e deformações'

BARTHES, 1970, em
particular, p. 217-222, sobre a elocuti0.
por ele: nos segundos, por vez, ele galante pata

de suporte. E.xtsteaí duplo Jogo corjstatável


quelhe serve
que, no treud1s11i0,«e desensolveu ao potito de ter
desdeasorigens

nadospor'Sanalitlcos"e por "didát1cos".A histona (Ia psicanálise é


a partir dessa alternância entre as elucidaçóes transferenciais
e asinjunçõesde cunho pedagÓguco.A winelhança do que ocorre
Freud,as experiências analítica« «ao entrecortadas por ' 'Itnpo-
swôes"do=nnátrcas.
No centro dessa oscilação, ponto estratégico: a posição do
conxo"sujeito suposto saber" .A teoria Insiste «obre o "supos-
analista
to"queremete ao "nada" do saber e à reciprocidade desruistlficadora
deumarelaçãode outro conl outro. No entanto, a prática apoia-se,
muitas vezes,em uni "saber" credenciado por unna agregação e pelo
nomepróprio de urna instituição. O inverso é, tarubém, verdadeiro:
a explanação pode reivindicar unia autoridade que a prática reduz
a nada.Aliás,a posição de Freud tem a ver, igualmente, conl essa
ambivalência: em relação a seus discípulos, como é que ele se atri-
bili(ou recebe) o estatuto de "sujeito suposto saber"? A referência
a Freudfuncionacomo relação ora com um analista,ora conl urn
mestre; ela questiona a definição do discurso que é ora "escrita
ora"instituição".
E possívelesclarecer a questão ao voltar àquilo que Freud desig-
nacomo"a escrita da história" ponto nodal
dasrelaçõesentre literatura e história. Para escrita da histórta'
Produz-sea partir de acontecitnentos dos quai<"nada" subsiste:ela
tomao lugar" deles. tetnpo, excluída
Portanto, ela é, ao
doque aborda e, (ocupa o
no entanto, "canibal". Ela '
lugar)da eqcrlturano parece,
história que lhe faz falta. Esqe 1
Freud,combinar
a "ficção" bíblica ---que coloca no C.otneço
escritauma ---coni a "ticçáo" greco-
romanaque Separação ou Exílio
faz retnontar a ordenl pensável, o I„og0<, violência

t
t. XVI,P, abordar seu
175, etc.) e alhures para afias,
'sardo outras
(UVEUI), 1940-1952, t,V111, p.
CronovSaturno, Tudo se passa,
ortgtnale de
a dupla característica do FVetnpo:
como «e a escrita adotasse a vida (trata-se de
utli exílio) e devorar
o lugar (trata-«e de o avanço (internunável)
se estivesse etn questio
nibahsmo).
de urn corpo da Letra. De qualquer Iliodo, no
e a fótne (insaciável)
essa dualidade que a faz fun_
processoda própna escrita, existe já
ao analista) ora corno refugo e.xcluído do real
cionar (e, tambétn,
corno autoridade Voraze
Ilusãode saber e dejeçio da ciência,ora
tern a ver conl a essência
instituiçãodorninadora. Essaarnbivalêncla
Inaneira corno a escrita
da escrita:aliás,não é somente tributária da

urn funcionarnento secundário, urn "pecado" da história da qual a


escrita estivesse,por sua vez, Indene. Não existe inocencia prilnor-
dial,tampouco escriturária.A duplicidade orienta a produção, e não
apenas sua exploração, embora a pedagogia privilegie e fortaleça o
canibalismo do discurso.
A autoridade reivindicada pelo discurso tende a cornpensar o
real do qual ele é banido. Se ele pretende falar em norue do que
ele é privado,deve-se ao fato de se encontrar separado disso.Tal
como ela aparece,em primeiro lugar a autoridade abrange a perda
e permite servir-se dessa situação para exercer o poder. Ela é o
substituto prestigioso que colabora com o que ele não tem e extrai
sua eficácia em prometer o que não dará. Mas, de fato, é a institui-
ção que, mediante essaautoridade, preenche o "nada" do saber.Ela
é a articulação entre eles;a máquina institucional efetua e garante
a operação, quase mágica, mediante a qual esse nada é substituído
por algo de autoridade.
A essasgeneralidades,convém enfrentar a maneira como Freud
escreve: comparar o que ele diz com o que faz;sua teoria da escrita
com sua prática escriturária.Em sua tentativa, vou selecionar0
momento decisivo em que, no livro Dcr Mann Moscs(FREUD, 1940-
1952, t. XVI, p. 175ss),ele designa o nada sobre o qual constrói-se
"a escrita da história". Será um exemplo de sua maneira.Por uni
jeito que lhe é familiar nas reviravoltasimportantes de sua análise'
ele autoriza sua concepção, finalmente,não por meios de provas' ou
citação que dá forma a seu pensamento. E um poema'
mas pela

108
escrita "verdade" carece de qualquer
a si beleza. Arata-se de uni t
de «eluller (l)te Gotter icehetilands, I SOO)
O aspecto unortal no poema
deve aniquilar-se nesta Vida"

O texto treudiano aplica, na prática, teor 1a


ele constitut sua "dernonstraçio" no sentido que
de uni carro ou de t-ogáopata fazê-los
Ele"exerce , portanto, o pensainento schlllertano que
que,parao surgunento do poetna, é necessána a Inorte do
CitarSchilleré apoiar-se eni urna ticçào posada de referencialidade
experimental. Bern longe de respaldar o discurso cotu utna auto-

renta-lhea seriedade: trata-se de uma perda de saber. E Ainda


doque Issoporque, eni Freud, perder é indissociá\el da 'vontade de
perder;nesse caso, o gesto escriturário consiste, de fato, etn lançar-se
no"nada"do poetna. O poerna «chilleriano di: o que e o poema
(nestesentido,ele é rnetadlscursi\o: a relação da tuorte dos deuses
como surgimento do iruernorial diz a relação que o desaparectxnetlto
doreferencialestabelece conl a produção de qualquer poetna). Sua
citaçãopelo discurso freudiano consiste, para este, em fizer, ou etn
tornar-se,o que ele diz da escrita (ne«e sentido,ele é pert-ornútl-
co).A escrita freudianagáz o que diz. A perda de saber pertutte a
Freuda produção de teoria, do Inestno tnodo que, para Schrllerso
desaparecimento do ser pernnite a criação do poenu,
No entanto, o poema de Schiller funciona, tatnbétn, cotuo
em Freud, ele vem preencher urna lacuna do saber,ao
Instituição;
o que, de acordo conl a confissàodo próprio
substiturr
lista,faz falta à inforrnação histórica. Ele intervétn nesqesicuo da
argumentaçãoenquanto parte integrante da cultura ' 'clássica"e
Porter uma situação estável (Freud não é lio original,
temerário,em suas preferências literárias, já que se liliiita aos autoto
freudiano.
O poema confere autoridade ao texto
Convencionais).

do segundo poema." on

109
conti.ível, leva crvr,
stnna, ele o torna titncoonatnento própr ao te.
portanto, do
atano da Citaçàoditar. confiável por apoiar-se apenas na
de Schlller,O poenta torna-se
ele é difi•rente, na evidência dc
de sua forrna e porque confiável por apojar-se
torna-se
Por sua wz, o testo tivudtano
o recurso ao outro (à "testetlltjnha '9)engendra setnprc efeitos
outm
ele tetii urna posição analítica
de crença.Betil longe de ser poético,
torna confiável do outro. Aqui, o
de "suposto saber": ele
Inconsciente.
outro é o poetna; durante a cura, ele «era o o
analistapoderia falaro 'outro' que confere autor Idade
meu discurso,ele está enl vocês, clientes; presurne-«e que nunha fala
intenençào se faça norue desse 'Ilida,o Inconsciente de vocês,'
ParaFreud,aliás,e.xistecontinuidade do poenla ao inconsciente, salvo
que o poerna é Já o interlocutor do inconsciente e, neste aspecto,
psicanalistasseriarnos inantenedores do poenla, repetindo-o na;
tuaçóes enl que ele já havia falado e substituindo-o nas circunstánc:as
enl que ele tinha guardado silêncio.
Desseponto de vista,o discurso freudiano continua fazendo o
gesto poético, 111as
institucionalizando-o: respalda sua autoridade nele
quando,afinal,o poema é o texto ao qual nada confere
autoridade.
EssaditQrençadetém o romance psicanalítico
no linuar do poerna: ela
o mantém em uma econonua do crer/
levar a crer que, ao reproduzir
o gestopoético,serve-se dele de
urna forma que já não é poética.

Crer na escrita
A partir do único
mecamsmo do crer, teríatnos, portanto,
funcionamentosdiferentes:o
enquanto o outro seria prirneiro, mais "exílico" (poético),
mais "devorador"
melhor que o Gricchenlands (analítico). Talvez, ainda
Mallarmé poema de Schiller, urn
texto inacabado de
«obre0
especificaro primeiro a noção" poder:a
funcionarnento:
E que nada exista
e uredite nela aí
a
totabncnte
Nada nad+'

por RICHARD,
1964

110
situa-se etn um registro setnelhante
sublinha cotil ao de Schiller.
entanto,ele precisão o que
enlaça a escrita
da": um crer. 1870, ele fala de ao
"Crença" (RIÇIIARI),
1964, 644,nota l). O poetua é o traçado dessecrer: convém
existapara crer nrsso; é necessário que que
"nada «ubslsta"da
coisa
"ser levado na conversa" ou para escrever. Reciprocatnente,
o
maleva a crer por nio ter nada. Ao evocar a "Beleza", nas
cartas
en\lidasa Cazalis, Mallarllié designa algo semelhante ao que ele
mencionaao falar de "Crença". Ele remete àquilo que nenhuma
realidadedá respaldo; àquilo que Já não depende do ser. A crença é,
entio,omovirnento oriundo e criador de uni vazio.E urn corneço.
Umapartida. Se o poenla não é "autorizado", ele confere autoridade
um espaçodiferente, ele é o nada desse espaço.Daí, ele deduz a
possibilidadeno excesso do que se irnpõe. Gesto, igualmente, estético
e ético(a diferençaentre os dois não é assimtio notória porque o
no fundo, é apenas o aparecer ou a forrna da ética no canipo
estético,
dalinguagem).Ele rejeita a autoridade do fato, evitando se fundir
nele.Ele transgride a convenção social segundo a qual o "real" é a
lei,opondo-lhe somente seu próprio nada -— atópico, revolucionário,
"poético".
A historiografia exercita o inverso: ela consiste enl fazer corn
queo discurso seja dotado de referencialidade, em levá-lo a funcionar
como"expressivo" , em autorizá-lo pelo viés do "real" e, enfim, ern
instituí-locomo suposto saber. Sua lei é ocultar o nada,preencher
osvazios.O discurso não deve aparecer separado das coisas,nem
deveser revelada a ausência ou a perda a partir da qual ele se cons-
trói.Trabalho da história literária, por exenlplo: ela empenha-se
emque o texto literário volte a ser costurado,nneticulosamente, a
estruturas"realistas" (econÔnucas, sociais, psicológicas, ideológicas,
etc.)dasquais ele seria o efeito; ela se atribui a função de restaurar,
o texto a
Incansavelmente, a referencialidade; ela a produz e leva
do real:
confessá-la.Assim,ela leva a crer que o texto articula algo
dessemodo, ela o transforrna enl urna instituição,se a função da
Instituiçãoconsiste, fundamentahnente, enl levar a crer etn urna
a
adequaçãoentre discurso e real, apresentando seu discurso como
leido real. por si só, não consegui-
Certamente, a história literária, apoia-se em
tia produzir particular
esse resultado; cada instlttuçáo
"a teia de aranha do crer" (ver
Outras,cm uma tede que constitui
QUINE; ULIJAN, 1970).
a relação do discurso corn a pedago-
Por esseviés,encontra-se mesrna estrutura: qualquer
duas fortnas da
gia e com a instituição, discurso pedagógico é sernpre
enquanto o
instituição é pedagógica,
historiografia é, de fato, pedagógica: vou ensmar_
institucional. A
ISSOé urna lei, escrita pelas
lhes, leitores,o que vocês Ignoram e
coisas.O historiador ensina leis com uni pressuposto real.
próprias
textos estudados por
Mas essa capacidade de institucionalizar os
considerados de maneira
ele (selecionadoscorno não literários ou
com os fatos dos
a evitar sua autonomização "literária" ern relação
quais, supostamente, eles são a significação) resulta da agregação a
uma profissão,da filiação a urna sociedade. O apoio que sua posição
de professor ou de membro de uma sociedade erudita confere a seu
discursoduplica-se,de qualquer modo, e representa-se no interior
dessediscursopelo suposto vínculo dos enunciados com os fatos
mencionados por eles. O "realisrno", ou seja, a legitirnação do dis-
curso por suas "referências", inaugura-se no autor, autorizado por
uma agregação social, e passa do autor para seu texto, autorizado
pelos acontecimentos que, segundo se presume, ele exprime ou
significa.Contrariamente a qualquer tradição científica que havia
postulado uma autonomia do discurso enl relação ao lugar de seu
produtor, a posição exerce um efeito epistemológico sobre o tex-
to: a filiação social intervém, de Inaneira decisiva, na definição do
estatuto do discurso.
Aliás,esse aspecto é perfeitamente conhecido. O valor dos
enunciados científicos é, atualmente, relativo à situação hierárquica
dos laboratórios que os produzem. Sua seriedade é apreciada a par-
tir da posição de seus autores. Em outro terreno, Philippe Lejeune
(1975) mostrou que o género autobiográfico baseia-se, em última
instância,não no próprio texto, ruas na coincidência entre o autor
nomeado pelo texto e sua posição social efetiva.Tese
suscetível de
generalização:o credenciamento do autor por seu
lugar histórico
engendra a autorização do texto por seu
referente. Reciprocame nte'
a docilidade às normas de uma sociedade
(erudita ou não) garan-
te a possibilidade,para o texto, de
ser "confonne" aos fatos. Aqui'

112
acredita-se na instituição
de crer na escrita, que detennina
A relação do texto corn urn lugar
t-gncionamento. confere sua
garantia ao suposto saber do texto. A
e sua aparência
realidade da po-
crer na da referencialidade.
pertnltefazer Retirem
rotnancista.
ser

sabe que, ao deixar o campo da profissão que lhe


lúcido: confere
autoridade, ele cai no romance. Mas tal descoberta o afastaprecl-
da "seriedade". Astucioso, ele tergiversa entre o "nada" da
satnente
que a instituição fornece ao texto: às vezes,
escritae a "autoridade"
eleconfessaser romancista, maneira de marcar tambéln o que ele
sabedaaparênciaque a instituição acrescenta ao texto; outras vezes,
elereivindicasua posição académica de professor e empenha-se
empermanecero "Mestre" de "sua" Associação.Seu esforço,nesse
sentido,é tanto mais intenso pelo fato de que, à semelhança do Gato
ele avança fora do chão validado pela profissão psiquiátri-
Félix,4i
ca;eletem necessidade de garantir uni suplemento de instituição
exatamente onde ela está ausente de seus discursos para que estes,
supostamente, detenham o saber. Em vez de renunciar (eis o que
seriaum"luto" mallarmeano) a uma posição que dê crédito à apa-
rênciada referencialidade, ele deseja essa posição por saberque, sem
ela,seriaapenas um romancista. Quanto mais evidente se torna
suadescobertade uma vizinhança perigosa e de uma inquietante
semelhança entre seu discurso e as antigas lendas, tanto mais pre-
mentese torna a instauração, e a restauração de dia em dia, de uma
posição institucionalque confira autoridade a esse discurso diante
dosdiscípulose da posteridade.
Daí,aambiguidade dos grandes mitos que ele cria, desde Totenl
undTabuaté Der Afann Aloses,entre seu caráter de ficção (nada é,
nessascriações,verdadeiramente histórico) e a afirrnaçãode que
elesdizemrespeito real (eles conferenl a fornia do
n10Vimento à relação corn o
histórico). De fato, o segundo aspecto é apoiado pela

I&rsonagemde dos atraentes


desenho animado. criado na dos
o mundo pelo
surrealismo das

113
prática Institucional ("Isso funciona", logo é real), á semelha
que ocorre nos laboratónos das ciências exatas corn o fo
Itstno dos enunciados (estes são, tatnbérn, ficções): o poder
das Instituições é seu contraponto c sua condição de
No entanto. a essa articulação,Freud é Incapaz de dar d
nitidez
que havia perniltldo, à» InstituiçÓes Mentíticas, o crescimento
d
seu poder institucional. Ele exercita-se, ao rnesrno ternpo, nos
terrenos, nusturando-os, Assun, etn seus nutos, ele procederia
como
se a ticçào descreu•sseo que produzir-se.
Em surna, o "autoritarlsrno"de Freud é o efeito de urna
lucidez
que se Identifica com a de Slallarrné. No entanto, em conformidade
corn o que ele própno havia analisadono ' 'fetichisrno" (relatnoa
um referente faltante), ele não pode deter-se nesse "nada", ou seja,
no que ele já "sabe". Seni Ilusõesa respeito do realistno da '
'clénclà
positi%i",ele encontra urna solução na Instituição que faz funcionar
urn "suposto saber", relativo à irredutibilidade da questão do OUtro.
Desse ponto de vista, é possível se questionar sobre o que
so-
brana do ' 'reahsrno" do próprio Inconsciente sem a instituição
que
respalda sua verossirnilhança;oustarnente, de acordo com a
afirtnação
de R. Castel (1973), a Instituição era o inconsciente da psicanálise.
Ele designavao que a psicanáliserecalca ao denegar suas própnas
instituições; rnas é possível entendê-lo, tarnbém, no sentido em que a
Instituição psicanalítica leva a crer na realidade do Inconsciente e em

quadro que urna teona adota para se escrever,à semelhançada ilha


utópica de Thomas More. Sern a instituição (que representa o outro),
desapareceo efeito de real, perrnanecendo apenas a rede formal or-

seu discurso. Privado de sua institucionalização, o inconsciente é


somente o novo paradigma que forneceu o espaço teórico para 0
romance, para a tragédia, para a retórica e para a
estilística de Freud'
Asirn, os psicanalistasteriam mostrado uma obstinação
da maior que seu fundador para defender
a instituição (ou para
institucionalizara obra fundadora) que garante uma credibilidade
ao "suposto saber". Para se beneficiar
desse resultado, eles pagam
urna taxa bastante pesada à sua associação
ou escola. No entant0, os

1 18
quando, por utna consequência ' 'fatal"
Çtnelhante de
ideologia e que, deste Inodo, eles
tempoou urna entendenl "explicar"
seu referencial. Alénl de
textopor historicizá-lo, eles o
E, na maior parte das vezes, eles institu-
cionJlizan1. carecem da lucidez de
relação ao caráter ternível da literatura: vão Inanipulá-la
Freudem
conheceremseu perigo. De qualquer Iliodo, a distinçio
históna e literatura, Inas entre duas não
ocorreentre maneiras de en-
tendero documento: como "autorizado" por uma instituiçãoou
a um "nada"
comorelativo
E impossível optar entre essas duas perspectivas, como se houves-
sea possibilidadede escolher urna em detrimento da outra. Existe, «enl
dú\hda,em alguns "místicos" inclusive em Mallarmé experiências
do"nada"que levam a um escrita exílica, forma literária (estética)
dogesto"puramente" ético de crer. No entanto, essa"crença" sem
objetonão depende de uma decisào;"acredita-se" deste modo quan-
doé impossível proceder de outra maneira, quando faz falta o chão
doreal.Por sua vez, a vida social exige a crença, bem diferente, que
searticulaa partir dos supostos saberes garantidos pelas instituições;
elabaseia-senessas companhias de seguros que protegem contra a
questãodo outro, contra a loucura do "nada". No mínimo, deve-se
procederà distinção entre a delinquência da "não seriedade" literária
e a normatividade baseada em credibilidades institucionais. Sem
reduziruma à outra. E permitido pensar que isso seja possível. Sem
rejeitarideologicamente a historicidade institucional que domina o
funcionamento social da escrita e, aliás, se enraíza no "canibalismo"
daprópriaescrita, é permitido, à semelhança do que ocorre com
Mallarmé,"crer" na escrita precisamente porque ela própria sem
terrecebidoqualquer autorização -- apoia sua autoridade no outro
e recomeça
incessantemente.

115
CAPITULO iv

O riso de Michel Foucault42

Háalgunsanos, Belo Horizonte, no decorrer de uma estada


noBrasil,Michel Foucault foi questionado, uma vez mais, a respeito
deseulugar:"Mas, finalrnente, qual é sua qualificação para falar?
Qualé suaespecialidade?Em que lugar o Senhor se encontra?" Ele
tio atingido por essa petição de identidade,que procurava
sentia-se
apreender seu segredo enquanto passador.Aliás,em seu livro A
dosaber—,ela havia provocado uma réplica irritada, de um
arqueologia
tomquaseúnico no seu género, em que brilha, de súbito,o ímpeto
quetinha produzido a obra:
Não estou, absolutamente, lá onde você está à nunha espreita,
mas aqui de onde o observo, sorrindo. Ou o quê?Você Imagina
que, ao escrever, eu sentiria tanta dificuldade e tanto prazer, você
acreditaque eu me tena obstinado em tal operação,inconsidera-
damente, se eu não preparasse -- com a mão um tanto febril -- o
labirinto em que me aventurar, deslocar meu desígmo,abrir-lhe
subterrâneos soterrá-lo bem longe dele me«tno,encontrar-lhe
saliênciasque resumam e deformenl seu percursono qual eu
senha a perder-me e, finalmente, aparecer diante de quem nun-
ca mals tives«e de reencontrar? Várias pessoas ---e, sem dúvida,
eu pessoalmente escreveni por Já nio tereill rosto.Não me
pergunte queni eu sou, nenl me diga para pennanecer o mesrno:

rtre de textual deste


Foucault•• ( 1(N4h), Li' C-f., neste l:xro. história
capitulo, p.
39.
Oscaps IV a VI, ret-ercrn-se a textos de
ern outra as ret-créñ(1as

117
de estado que «erse dc
essa é unia nioral
docutnentos de Identidade. Que ela nos
elaborar nossos
livres no Iljornento que se trata de escrever (1969

escapando ao jazigo do texto


Essa voz plena de Vidacontinua
e de urna con)Peténcia
Ser catalogado,prisioneiro de uni lugar
a agrégation43dos fiéis
desfrutando da autoridade que proporciona
dos saberese das
a uma disciplina,circunscrito enl urna hierarquia
posições,portanto, finalrnente,usufruir de unia situação "estável"
era para Foucault a própria figura da morte. "Isso não, absolutamente
não". A identidade irnobiliza o gesto de pensar, prestando home-
nagem a uma ordern. Pensar,pelo contrário, é passar;é qtlestionar
essa ordern, surpreender-se pelo fato de sua presença aí, indagar-se
sobre o que tornou possívelessa situação,procurar —ao percorrer
I suaspaisagens os vestígios dos ruovimentos que a formaram, além
de descobrir nessas histórias, supostamente jacentes, "o modo como
e até onde seria possívelpensar diferentemente" (1984c, p. 15). Eis a
resposta de Foucault aos interlocutores de Belo Horizonte, servindo-se
de uma expressão mais ajustada às sutilezas do cenário brasileiro e que
designavaseu estilo filosófico:"Quem sou eu? Um leitor."

Uma prática intelectual


Desde Poitiers, cidade em que nasceu (1926), até o Hospital
de Ia Salpêtriêre onde, finalmente, veio a falecer (25 de junho de
1984), seus percursos percorreram sinuosanrnte vários saberes e
países.Ele visitavaos livros do mesmo modo que circulava, de bici-
cleta, nas ruas de Paris, San Francisco ou Tóquio, conl uma atenção
irretocávele vigilante, suscetívelde apreender, no virar de uma
página ou de uma esquina,o brilho de um estranhamento que se
escondia aí, desapercebido.Todas essasmarcas de alteridade,"contra-
tempos minúsculos" (FOUCAULT, 1971 , p. 14) ou enormes confissõ es
erarn para ele as citações de um impensado; de acordo com suas

N. T:Aiém de este termo refere-se ao concurso que confere


o título de "agregê', mediante o qual a pessoa é declarada
apta para assumir um posto de professor
no ensino médio ou de algumas faculdades.

118
estão aí bem legíveis, 111asnão lidas, por
alaos, elas surpreenderern
e o codificado. Por sua vez, ao descobri-las,ele desatava
riso Incontrolável, à semelhança do a
àsvezesum que ele evoca
pÑPósitode um texto de Jorge Luis Borges e que "sacode,
a todas as por
de sua leitura, fanxiliaridades do pensamento
—do
idade e nossa
nossa geografia --, desestabilizando
nosso,por ter todas
ordenadas e todos os planos que tornanl sensata,
assuperficies para
dos seres" (1966a, p. 7). E, afirma ele, o "lugar
nós,a exuberância
livro As palavras e as coisas.Suas outras
denascimento"do obras
parecemter a mesma origem: acessos de surpresa (como existem
acessos de febre), formas jubilatórias repentinas, quase extáticas,
"espanto"ou "encantamento" que é, de AristÓteles a Wittgenstein,
o momentoinstaurador da atividade filosófica. Pelas frestas do dis-
curso,engraçadas,incongruentes ou paradoxais, algo faz irrupção
quetransbordao pensável e abre uma possibilidade de "pensar dife-
rentemente".Invadido pelo riso, tomado por uma ironia das coisas
queé o equivalente de uma iluminação, o filósofo não é o autor,
masa testemunha desses lampejos que atravessam e transgridem
o controlesistemático dos discursos por razões estabelecidas.Seus
achados são os acontecimentos de um pensamento que ainda deve
serpensado.Essa inventividade surpreendente das palavras e das
coisas,experiência intelectual de uma desapropriação instauradora
depossibilidades, é marcada por Foucault com um riso: essaé sua
assinatura
de filósofo para a ironia da história.
No entanto, sua prática do espanto fornece constantemente
novaspartidas para a obstinação, alternadamente imperiosa e frágil,
minuciosa, irritável, sempre tenaz, com a qual ele procura elucidar
essa"outra dimensão do discurso" que lhe é reveladapor acasos.Ela
confereum tom de western,inclusive a seu trabalho arquivísticoe
para desdobrar os jogos de verdade assinalados, inicialmente,
analítico,
Pormensagens classificar,
paradoxais. Sua preocupação em controlar,
distinguir
e comparar seus achados de leitor não poderia extinguir
avibraçãodo sua
estado de vigília que, em seus textos, denuncia
era de descobrir. combinam, portanto, o dizer da
Suas obras
çàocom a mesmo que as proporções
varieme preocupação da exatidão, a
mesmo que, no decorrer dos anos, a exatidão venha

119
riso, porque
relação ao que, nos seus
aos poucos, unia lucidez
cirurgião por despojada até mesmo de
sua de clareza ascética,
se torna uma importa seu trabalho, antes
dois livros, O que
sua entusiasta
virtuosidade.
exercício do espanto, modificado
excepcional pensamento e da história
de mais nada,é 0 do
prática assídua dos "nascimentos""Naissance de 1a
em subtítulo,
1963a; 1975 --
(FOUCAULT,
ele afirmava, relatam a maneira como
Suas"narrativas",como problemáticas; multas vezes, elas
novas
apareceme se instituem semelhança dos romances policiais.
surpresas, à
têm a forrna de e diversificação do direito penal,
Assim,a progressiva liberalização
XVIII, é interrompida, invertida e "caniba-
no decorrer do século
pedagógicos e militares
lizada"pela proliferaçãode procedimentos
o sistema panóptico
de vigilânciaque, por toda parte, impõem
(1975; cf BENTHAM
da prisão —urn desenvolvimento inesperado
2008).Vocêssupõem que o poder é identificável à apropriação de
aparelhosisoláveis,hierárquicos e legais? Nada disso: é a expansão
de mecanismosanónimos que "normalizanf' o espaço social ao
atravessaras instituições e a legalidade (1975). Vocês supõem que
a moral burguesa transformou o sexo em segredo a ocultar? Puro
engano:as técnicasda confissãoé que transformaram o sexo em
incansávelprodutor de discursos e verdades (1976)... Assim, de
livro em livro,a análise indica essasreviravoltas que, ao frustrarem
os saberesconstituídos inclusive os mais autorizados (até mesmo
Marx e Freud) —,engendram novas maneiras de pensar; em vez de
se basearem ideiaspessoaisde um autor, ela se apoia naquilo
que
a própriahistóriadá a ver. Não é o Senhor
Foucault que zomba
dos saberese das previsões,é a história
que ri deles. Ela é que es-
carnecedos teleólogosque se julgam
os mantenedores do sentida
O aspectoinsensatoda
história, deus noturno e risonho, debocha
dos
magistérios e retira, do próprio
ou moralista—de ser Foucault, o papel —pedagógiC0
o "intelectual" que sabe
A lucidezprovém do que isso se trata'
de uma atenção, sempre
nos é mostrado, móvel e atónita, ao que
à nossa revelia, pelos
acontecimentos.

44Ah", duas obrasconstituem,


creio eu, as
"intervenções" mais
decisivas de M.

120
A essaatenção deve-se assoctar uni aspecto curioso c, no
caráter visual, Esses livros seiobalE
tanto,per;nanente da obra: seu
zadospor quadros e gravuras. O texto é, Iguahnente, ritrnado por
cenánose figuras:na abertura de Históriada loucura,encontra-se a
dos loucos" ("Stultlfera navis , 1961, p. 3-53); no livro
palavrase as coisas,aparece a reprodução do quadro As pncninasde
Velásquez("Les suivantes", 1966a, p. 19-31); o livro I 'ix'i,tre punir
começa,por sua vez, com a narrativa do suplíc10de I)alniens ("Le
corps des condamnés", 1975, p. 9-1 etc. Será urn puro acaso?

partirdas quais se desenvolve o trabalho rneticuloso de distinguir


suascondições de possibilidade e suas unplicaçóes fônnais. Na realidade,
essasimagens instituem o texto, fórnecendo-lhe ritmo, à sernelhança
dascaptaçõessucessivasdo próprio Foucault. Ele reconhece aí os
cenáriosde uma diferença, os sóis negros46de "teorias" que ennergeln.
Razõesesquecidaspõem-«e em nnovunento nessesespelhos. No nível
do parágrafoou da frase,as citações funcionarn da mesrna forma;
cadauma dessascitações está incrustada aí corno um fragnnento de
espelho,cujo valor não é o de uma prova,mas de um deslurnbra-
mento um brilho de outro. O discurso inteiro vai, assim, de visão
em visão.O passo que escande sua tentativa, no qual ela se apoia e
do qual recebe seu ela, é um momento visual.A imagem-surpre«a
desempenhaum papel, alternadamente, heurístico e recapitulativo,
análogoao da figura geométrica para um especialistaem matemática:

relance,as propriedades possíveis,ou já demonstradas, desenvolvidas


pot uma sequência de teoremas.
Esse estilo óptico pode parecer estranho. Na máquina "pa-
nóptica",M. Foucault não teria detectado o próprio sistema da
vigilânciaque se estendeu da prisão a todas as disciplinassociais
por uma multiplicação das técnicas, permitindo "ver sem ser visto"

pot tentatwa de assassinatodo rei, Darniens é condenado, a 2 de março de 1757, a


putúxznente úaote da porta pnnc.ipalda Igreja de Paris.
* N
expresaounoús"íPfoi atribuída por André Breton a Raymond
em queqóes sobre á relação entre linguagem,morte e loucura suscitadas
autor; gap.v

121
"Le panoptisme", 1975, p. 197-229)? Ele exulliou
(FOVCAULT,
perseguiu, Inclusive nas regiões mals aprazíveis do saber,
procedirnentos baseados na confissão e produtores da verdade
fazer enlergir aí a tecnologia por da qual a visibilidade
forma o espaço em operador de poder. IDefato, para ele, o
e do saber, ( _)
tornou-se o carnpo dos novos desafios do poder
de nossas
constitui, para Foucault, o teatro conte:nporáneo
o uso poli( do
fundarnentais;verifica-se,aí, o confronto entre
aí de diferente.
espaço e a vignlánoa em relação ao que ocorre
volwdo nesse terreno de nossas guerras o
filosóficoestabelecea oposição entre os que SUbJUg,dljj
espaço à vigiláncnae os paradoxos que abren) aí acasos ao
nrnto panÓpuco, as descontinuidades re svcladas por Vicissitudes
pensa:nento. I)uas práticas do espa%0se choca:n no cajnpo da
bilidade:a prnnejra, direclonada para a djscjphna, enquanto a
é feita de espanto.Mediante esse conjbate que evoca o dos dcuso
gregos enj seu céu, desenrola-se a ' 'reviravolta" das tecnol( do
'ver sen) ser Visto"etn estéticas da exjstencl,j éuca.
Ao exumar as nnpljcaçóes de acontecnnentos aleatórios, I ou.
cault Inventou os lugares de novas ( -'0111cada
de seu»livros,ele oferece uni Inapa ainda Inédito à possibilidade
de ''pensar diferente:nente"; ele Identifica-se o novo ( arto-
grafo" esboçado,conj tão anugávcl acuidade, por Gilles I
(1975). Esse) jnapas apresentan) ferranjentas proporcionadas
a
questõesdiferentes;el)) vez de forjnarejn
entre uni sjstenja, eles
forrnanj urna sequência de sSlinsajos",
relativos, enj a
essa"curiosidade" -- a esse espanto
que pernnte desligai -se de
si rne»mo" (1984c, p. 14).
Portanto, ele» cojnpê)eli)
dade de posiçôe»e de
funçê)espossíveis" (1971,
práticasdescontínuas" p. trata •e de
(p, 54), oriundas das
de acasos.Etn cada Invençôe» decorrentes
Inapa,
acontecimentoprovocado construído, novo
outra possibilidade; pela "exuberância
dos seres" acrescenta
nenhujn desses
verdadeou uma gnapas deline destili')'
identidade do
pensajnento, lugJiCS
que,aos poucos,
haveria de
fornjular-se aí,
Inas pela gnestna

122
4. ele»respondetli aos da história. Ao
discursos,Foucault não tenta ocultar liotnogelle17ar
os suasresplandecentes
rararnente o espanto
.onnntlldades; filosófico chegou
a ser tratado
forma tão cuidadosa enl relação às suas possíveis
de evoluções
respeitosa etn relação às suas surpresa<.
e tio
atividade política teni o rnesruo estilo: ela não se
apropria de
sentidoda história, netu constitui uma eqtratégia, tarnpouco
u:na

«spondeaos acontecimentos políticos, vinculando-se a estes conl a

phcaçóes do impensado que perfilra o controle sistemáticoda ordetn


estabelecidae das disciplinas convencionais. Os acasos da atualidade
sociale política, a situação dos condenados nas prisões francesas,a
rewluçàoiramana, a repressão na Polônia e tantos outros encontros
Singularesprovocarn, enl Foucault, o espanto que engendra urna ação.
Domesmo tnodo que seus rnapa«, suas Intervenções não téni nern se
manifestamIdeologicarnente, enx algunl lugar, enl recuo a garantia
dosucesso.Elas não se protegern do aleatÓrio do qual são oriundas,
truspartem,de preferência, de urn movirnento, cujo caráter ético, de
acordocom a afirmação de Kant, não depende do que parece possí-
nem da lei dos fatos. Por sua vez, o gesto político é, tambélll, um
"Ensaio"conduzido corn o máxirno de lucidez possível e relativo às
perrnitidas pela "curiosidade" Jornalística, atenta aos ava-
taresdo tempo e dos homens. Assim, no carnpo social, com a rnestna
mcansávelexpectativa de uma história outra, continua esboçando-se
a imcntividade filosófica de Foucault.

Práticas do poder
Assim,com Foucault, abandonamos a história ocupada pela
do"intelectual"; estamos em outro país ou, como ele afirnm%l,
de
Outraconfiguração. Há cerca de cem anos, etn 13 de janeiro
1898,o simultaneamente,
artigo "J'accuse" de Emile Zola
umaviradado caso de uma espécieinédita
Dreyfus e o surgimento entre
Intervenientes Nascida do encontro
no campo político. no
coincidência,
questãoJudaica urna
e uma politização (não é

123
*'ideologia nacional"), essa figura social
contexto político franca da Serta fascinante acompanhar
"intelectuur'.
recebeu o qualificativo de desde Zola e, também (por_
dessa espécte,
a no passado, sempre uma históna
sociais suscitam
que as novas figuras [philosophesl
esclarecidos
desde os "filósofos"
em busca de origens),
"assuntos" [afuiresl sociais mas relevantes do século
envolvidos nos
Sartre.
XVI II, até Nferleau-Ponty ou
engajada
inteligentsia associam-se, na Europa contem _
A essa
grupos populistas russos Zepnlja i volia ("Terra e liber_
poránea, os
e Sarodnojlôli ("Vontade do povo"), no final do século
dade")
revolucionária elaborada por
XIX (VESTtn1,1952), ou a variante
povo pelo
Antonio Gramscl,o "intelectual orgânico", vinculado ao
"Príncipe moderno" que é o Partido (MAcc10CH1,1974).Ao inte-
lectualde partido,opunha-se o intelectual de Estado (por exemplo,
o professor francês) e, entre eles, todas as tensões testemunhadas
pelo eminente e secreto trabalho de Lucien Herr, bibliotecário da
Ecole Normale Supérieure, que desejava enquanto funcionário
e socialista—permanecer fiel a essas duas leis de filiação política
(LISDLNBLRG; MEYER,1977). Em contraste, erguia-se a "autonomia
do trabalhador intelectual" (Selbstandigkeit der geistigen Arbeiter), tal
como a definia Freud, hostil a qualquer "chefe" e, em primeiro
lugar,ao pior de todos: a multidão,o grande número (dieAlengel;
cf. FREUD,1991).Na trajetÓrrabrilhante, embora eEmera, do "inte-
Jectual", um papel decisivo, e provavelmente terminal, cabe a Sartre,
cuja ética,protestativae luterana em seu estilo, articula-se a parar
da consciência, lúcida e culpada, da impotência das "palavras" em
relação às "coisas": as palavras limitam-se a desafiar a história da qual
elas estão separadas. Baseada no fracasso da ambição que modelo u
o "intelectual", a ética sartriana evoca, finalmente,
aquela que, na
Escolade Frankfurt,por caminhos muito
diferentes, opunha ao
progressofatal do nacionalismo nazista
uma coragem de pensar cuja
necessidadenão se mede por uma eficácia
histórica.
Sem dúvida, a história dos
"intelectuais" comportaria, também'
um contraponto crítico: desde
Zola, nunca se deixou de objetar
ao compromissosociopolítico
deles sua incompetência técnicae
Até mesmoValérylançou
sua ironia, ao evocar a
figura de palhaço'

124
o Intelectual destituído da seriedade seja do
"0 oficio dos Intelectuais cientistaou do
'lítico: consiste ern agitartodas as coisas
sob seus signos, denolninaçóes ou símbolos, seni o
l)aí, resulta que contrapeso dos
atos reais. suas afinnaçóes são surpreendentes,
políticaperigosa e «eus prazeres superficiais;trata-se de qua
as vantagens estirnulan-
tes sociais coni e perigos dos estirnulantes,enl
1933, p. 125). No geral'
(VALíRY, escalão mais baixo desse
degradado, existe

intelectual.
Deqsaepopeia com uma centena de anos,que haviaatribuído
ao intelectual o papel de herói diante do poder, Michel Foucault
vai desprender-se ao marcar o corneço de outra hipótese.Mais
em conforrnidade com nosso intuito comum, atualmente há urna
história sem heróis, tatnpouco nomes próprios, uma história difusa,
anÓmmae fundamental. Ela diz respeito às práticasintelectuais en-
quanto estas se Inscrevem na rede das inúmeras ntaneirasde exercer
o poder.Portanto, verifica-se a mudança do objeto: ele já não visa
diretamente atores, mas ações; também não visa personagens,cuja
silhueta recorta-se no fundo de uma sociedade,mas"operações"
que, etn um movimento browniano,tecem e compõemo fundo
do quadro. Por uma mudança na "afinação", fixamosesse segundo
plano ao deixarmos a distorção das imagens-vedetesdo primeiro
plano. Então, aparece um labirinto de maneirasde fazerou de usos
(uses):práticas da linguagem e do espaço,usos do tempo, etc.Tais
práticas são especificadas por protocolos; dotadas de "circuitos"
próprios, elas caracterizam-se por formalidadesou "estilos", assim
já empreen-
como há "maneiras" em pintura. Na linha de pesquisas
INQ l, 1990, p.
CERTEAU,
didas a partir das "práticas cotidianas" (DE
um modo
XXXVI-XLIV), eu gostariade evocar—pelo menos de
"maneiras" de
necessariamente esquemático e programático as
no campo das ativi-
praticar o poder, tais como estas se apresentam
dades chamadas"intelectuais".
Na perspectiva delineada por Michel Foucault,entendo
que não age, direta
por práticas de poder "um modo de ação própria de-
e imediatamente, sobre os outros, mas sobre a ação
les"; tais práticascompõem "um conjunto de açóes sobre ações

125
portanto. de
cedintentos) e não de concepsócs (idctas),
Situar-se nos dors registto« que. proporsóes vat sáveys.

crer); e. por outro, utna *torça(relativa a tuna pressão ou


tisica).Se é verdade que, etn geral, o tnajor grau de
utli poder inil)hca enl tnenos nec dc a força,
ditntnutçào da autoridade exage uso tnator
tatnbétil prática»dltcrentes de acordo corn o registro
preferéncta,por elas:o da autoridade ou o da força.
é fundarnentalquando «e trata de práticas que desenvolvem
catnpo constituído pela produção e pela cjrculaçào do saber e
portanto, parecern utilizar, no poder, «eu aspecto de autoridade,
Linuto as observações seguintes ao teatro trancês dessas
rações de poder itnbncadas nas práticas intelectuais ruas com urr-
experiência californiana de «eis anos que tne credencia, talvez,(0m
urna pequena distância "etnolÓg1ca" eni relação à minha aldelà
disso,para concluir, eu gostaria apenas de esboçar alguns apanhados
que dizem respeito,alternadarnente,à organização da em
que essas práticas se efetuanl, à prirnelra classificação de suas diversa
"maneiras" ou de seus "estilos"e, finalrnente, ao exarne de
funcionamentos que caracterizanl a racionalidadedesses"$'tvmos (no

poderiam constituir os preâmbulos de uma geopolítica. de una


estilísticae de uma economia das práticas intelectuais, enquanto
práticas de poder.
A perspectiva "geográfica" refere-se à disposição
das torças
se enfrentarn,a uma geopolítica. Ern
urna prooeç,io (como
fictícia)do espaçoem que se efetuam
as práticas Intelectuais,
possíveldistinguir a interação de três J
elernentos: a posição
ma«a popular e a verdade.Esse
mapa fantástico é apenas unu
rneira aproxjmaçào.A posição
tplacel é, prnneit•o lugar, o
situação institucional, a
agregação, a identidade soctal, além da
fornecida por uma disciplinacientífica
e
por utn reconhecimenÑ
hierárquico. Ela constitui
um lugar Ilicul: sua ocupação exige o
crutamento por seleção, seus
protocolos organizatn utn

126
e c é li10V1d0dc u lita legitl/nidade.
sociopolítico de position"l varia «cgundo
O
a, o,io cessando de ser oboeto de lutas entre (por
esetnplo,cn(te tnédtcos e pastotx•s,no catnpo psiquiátrico) 011entre
círculos soctais. No entanto, cada 1110111cnto,a Ipld('cl
circun«ctrsxsutli terreno de apropriação, garantindo urna Identidade
contra a dupla atneaça:a da popular e a da verdade.A
é a tnultldào urbana,ou rural, oceano silenciosoou teni-
pestuoso que rebenta, de acordo conl o relato de I Diderot,contra as

inquietar, às vezes Invadir e destrtllr o editicio do «aber. Por sua vez,


a tvrdadeé unt eletnento de interrogação que questiona as configu-

tranqgridea verossitnilhança,ou seja,a lei de deterrninado círculo.


Ela tem a estranhezade urna irrupção e de urn nascitnento" na

que deve ser esquecido por provocar rachaduras nas generalidades


da ideologia ou da teoria.

estastrês características: insustentáveis(ao instaurarern um exage-


to, um transbordarnento),inapropriáveis(elas apreendem o pen-
samento,sobrepujando-o) e inonlinávcis(não estão classificadas
nas taxinomias estabelecidas).Talvez haja um ponto (mítico?) de
Convergência entre a massapopular e a verdade.Fico sonhando
com a cena descrita por Nicolau de Cusa, no início de seu grande
tratado,De "tente:o "filósofo", emudecido de espanto ao atravessar
uma ponte de Roma, observa a massa inumerável dos passantes
(1983,p. 245). Uma verdade imperceptível, singular e múltipla, está
aí em ação,perdida na multidão. Ela toma a posição do filósofo e
acabapor "capturá-lo"; daí em diante, o Idiotus,o não especialista,
o homem sem posição e sem qualidades, é que irá introduzir uma
questão de verdade no discurso itinerante —e deslocado e surpreso
do filósofo.Inversamente,as práticas definidas por uma posi-
Cãolutam, sem tréguas,não só para educar, disciplinar, ordenar
a massapopular, ao pretenderem representá-la,mas também
para

127
a verdade, ao pretenderetn
cativar,articular e sistelnatizar
operador que transtorjna a
cotno doutrina A posição é
popular e a verdade objetos tratados ejn uni lugar suportável
apropriável e nonnnável.
as práticas intelectuars enquanto
A «egttnda perspectiva visa
definetn corno "tnaneiras de fazer"; alénl disso,é poçsível
se
"estilos". Ela pode referir-se ao livro, pouco reconhecido
nhecer aí
eqcrita Inatenútica, detectava
de G. Granger (1968) que, na própria
ou "vetorial". O estiloé
"estilos" diferentes: euclidiano, cartesiano
atividade científica enquanto esta
"a e«truturaçâo latente da própria
indicar com precisãoas
urna "estilística da prática científica". Para
irnplicaçôesde urna pesquisa sobre a forrnalidade de tais práticas
da
com a condição de que essa pesquisa se desligue ' 'Individuação"
problerna ainda central em Granger —,seria possível evocar, também,
os trabalhos recentes sobre as naaneiras de utilizar a linguagem, em
"ethnograp/l}' speak'ing"ou ena uma "sociologyof connnunication",
desde HY1nes,etc. De qualquer Inodo, limitar-rne-ei a apresentar
três observações relativasaos procedirnentos intelectuais.
a) As "maneiras de fazer" não obedecem a uma determinação
individual, mas formann repertÓrios coletivos,identificáveis nas for-
ruas de utilizar a linguagem, de gerenciar o espaço, de cozinhar,etc.
Algunsprocedimentos de origens heterogéneas podem suceder-se
e cruzar-se no campo das atividades individuais, à maneira de atores
anÔnimosao atravessaremo palco que tem o nome de um suposto
autor.
b) Tais práticas, especificadas por estilos, são mais estáveisque seus
campos de aplicação.Assim,as maneiras de falar ou de praticar um
idioma podem estender-se a vocabulários importados ou a línguas
estrangeiras;elas sobrevivem, até mesmo ao idioma que havia sido'
inicialmente, falado. Portanto, elas não são identificáveis ao lugar
que se exerceram:existe a maneira basca de falar francês quando'
afinal,já não se fala o basco.Assim, Pierre Legendre (1974) proce-
deu à analise do modo como as práticas jurídicas da Idade Média
persistiram,atravésdos séculos,muito depois do desaparecimentO
das grandes instituições que haviam dado forma essa tecnologia'
a

128
O MW

c) Por últltno, essas práticas não são totalizantes, fazendo


parte
de conjuntos coerentes. Uni "estilo" operatório or ienta a
inteiradas attvldades,netn é o elejnento de tini KIStenja, J)lfcrentes
,.maneiras'podeni coabitar no carnpo ou no ator,
conjo, enl urn Inestno apartanjento, por parte do
habitante,pode-se ter, Minultanealncnte, Inaneiras Inodernjstas, tra-
dicionalistasou fetichistas de "tratar" o espaço.
Sena pos«ível detectar estiloq de operaçV»esIntelectuais
ciáveisde tnodos de exercício do poder: o estilo tátl(o do procedi-
mento jurídico que transfonna o ep1Kódicoena ccna da ICI;o estilo
estratégico da enunciação profe«soralou clerical que transforma
o particular ern aplicação de urna ideologia geral; o estilo oral do
"conselho do príncipe" que se serve, conl virtuosidade, de uma opaca
proximidadeconl o norne anabíguo daVontade ou ' 'complacência'
de um poder; o estilo escrito da ruanipulaçãotextual que converte
a distânciaem um princípio de autoridade;o estilo "engenheiro'
que pretende, pela reconciliação da teoria com a prática, instaurar
uma neutralidade objetivamente imposta a qualquer decisão como
sua condição de possibilidade;o estilo tecnológico e "clinico" da
pesquisa"nos laboratórios associadosa um mercado internacional
da competição, etc.
Nós próprios constituímos o campo de experimentação e
de elucidação dessas práticas intelectuais que funcionanl corno
práticasde poder. Parece-me que, ao explicitá-lase ao ficartnos
espantados perante elas, podemos convertê-las surpresas que
se tornam maneiras de "se desprender de si mesmo", alétn de
instaurarem o gesto, risonho e filosófico,de Inventar rnanelras de
"pensar diferentemente"

129
O sol negro da linguagem:
Michel Foucault d7

tnês depois de sua publicação labrjl de 19661,o livro de


N{ichelFoucault, Les Mots et les Choscs,e«tava ou, na da
publicidade,deveria estar e«gotado.A obra, bern extensa e difiC11,
exibe ao lado dos livros de arte os sinais externos de cultura
que um olhar advertido deve ser capaz de fisgar na vitrine de ujna
biblioteca privada. Você já leu esse texto? Da reqposta depende una
statussocial e intelectual. No entanto, o «ucessoe, até tnesmo, a njoda,
não seriarn apenas, neste caso de acordo coni a pretensão de alguns
comentaristas o indício de uma obra superficialou ultrapassada?
Em prirneiro lugar, bern longe de ser "enfadonho", Foucault é
brilhante (um pouco detuais): ele resplandece cona fórnmlas incisivas,
suscitaa diversão, serve de incentivo. Ele ofusca: sua erudição con-
funde;sua elegância provoca a adesão que, por sua vez, é seduzida
por sua arte. No entanto, algo em nós oferece-lhe resistência.Ou,
de preferência,a esse charme inicial, segue-se um assentirnento no
segundo plano, uma espécie de cumplicidade que assume certa dis-
táncia em relação ao enfeitiçamento do começo sem que, no entanto,
seja ficil encontrar as verdadeiras razões dessa atitude. Uma vez que
tenha sido discutida a informação (que, aliás,é bastante tributária
do livro de Jacques Roger, 1963) e a virtuosidade de uma dialética à
qual, segundo parece, nada resistiria—além de ter sido reconhecido, no

" du Michel Foucault", in DE


CERTEAU, L'absentde
IABHJ, 1973.
Sobtc a expressio soleit', cf. neste hvto. nota
46, p. 121.

131
h'stona,lor, lado
Utna questão é e desvela
atuattuente esscnctala qualquer Ujgna
a
ptvssenttda que explicitada.O b!alho c, vezes, preciosidade
estilo, a nnnuctosa destreza da análise,abrejo para
etn que se petdctn. conjuntajnente, o autor e o leitor: a 01)'ai c
apresentaro contraste,sublinhado oportunidades
ele, entre "etettos de superticte' e o latente que eles
ce«atn de significar,ao ocultá-lo. relação entre o conteúdo e
tonna do livro é o que suscita,no leitor, «unpatta Itixegurade
si levando-o a tortnular-«e a «egtnnte questão paradoxal:o
que se diz, ai, de e«enctal?

O sol negro
NIas,afinal, qual é seu conteúdo? Não é o prunelro livro de
Foucault que, nesse texto, arnpha o liiétodo Já explorado e ilustrado
em duas obras, etn tneu entender, Intiito ruais relevantes: Histoirede
Ia folie à l',iA'Cclassi,lue (1961) e XIIissatlú' de Ia clinique (1963a). Ele
retorna, tarnbém, os ternas abordados enl nulnerosos estudos alénl
do ensaio sobre Rousscl,artigos sobre Blanchot, Jules Verne,
etc. (1963b; 1966b; 1969).A linensa cultura do historiador, filósofoe
crítico literário está a ser\hço de urna curiosidade insaciável,perscru-
tadora e imperiosa. Corn urn passo apressado,às vezes rápido demais,
o viajante percorre as áreas culturais e os períodos do espírito em
busca de uma razão que justifique a nmltiplicidade inorgânica do
constatável.Ele descarta, com um gesto irÔnico,as ingénuas certezas
do e.olucionislno que acredita apreender, finalmente, uma realidade,
desde sempre preparada sob as ilusões de outrora. Em relação ao pos-
tulado de um progresso contínuo, emocionante autojustificaçãode
uma lucidez atual que toda história deveria profetizar, ele só manifesta
menosprezo. E não sem razões.
Sob os pensamentos, ele discerne um "soc1048epistemológico
que os tornapossíveis;entre as múltiplas instituições, experiências e

N. T: No original, " Ale". Apesar de pouco corrente, o termo a


"soclo" (base que serve de suporte
uma estátua, etc.) foi adotado para uma melhor adequação à
terminologia do autor (cf. penólnm0
parágrafo deste capítulo).

132
de não ser explícita, constitui Inesrno assilll a condiçáo e o princ
organizadorde urna cultura. Há, portanto, ordeni. No entanto, essa
"razão" é um subsolo que escapa até jnesjno àquelexque a utilizani
como alicerce de suas ideias e de seus intercán)bio«.O que confere,
a cada um, o poder de falar,ninguélll o exprilne. Há ordenl, 111as
sob a única forma do que não se sabe,a partir do Inodelo do que é
"diferente" em relação à consciência. O Mesi110(a hornogeneida-
de da ordem) assume a figura da alteridade (a heterogeneidade do
inconsciente ou, de preferência, do implícito).
A essa primeira falha, convéni acrescentar outra: a análise pode
desvendar um começo e um fim nessa linguagenl que, finalrnente,
fala à revelia das vozes que a enunciam. Depois de ter garantido a
"positividade" de um período, seu "soclo" oscila bruscarnente para
deixar aparecer outro subsolo, um novo "sistema de possibilidade"
que reorganiza o universo flutuante das palavrase dos conceitos,
além de implicar, através de reminiscências ou invenções, urn "campo
epistemológico" (uma epistente)completamente diferente. Através da
duração e na espessurade seu próprio tempo, cada epistcnteé feita
do heterogéneo: o que ela não sabe a respeito de si mesma (seu
próprio subsolo); o que ela já não pode saber dos outros (após o
desaparecimento do "soclo" que eles implicam); o que há de perecer
para sempre de seus objetos de conhecimento (constituídos por
uma "estrutura de percepção"). Definidas por uma rede de palavras,
as coisas desabam com ela.A ordem só emerge da desordem sob a
forma do equívoco.A razão,reencontrada com essascoerências sub-
jacentes, não cessa de ser perdidaporque ela é sempre inseparável de
um embuste. Nos livros de Foucault, ela morre ao mesmo tempo
em que renasce.
Com um método, expõe-se nesse livro, portanto, uma filoso-
fia: mesmo que seja útil distingui-los para apresentá-los, esses dois
aspectos são inseparáveis.Certamente, ao empreender "um estudo
estrutural que tenta decifrar,na espessurado histórico, as condições
da própria história" (1963a,p. XV), Foucault inaugura uma nova crí- 'ft

tica ("discurso estranho,concordo plenamente"; p. XI) que tende


discernirr a isolar as alianças sucessivamente estabelecidas entre as

133
"estruturas" que recortam no tempo, alterna _
palavxa«e as cotsas; as
urna percepção e, portanto, subentendida
dainente, os espaços de
pensamento e da prática; as combinações tácitas
pelos processosdo
determinantes) do dizer e do ver, da linguagem e do real.
(etnbora
campo e com o aparato
Semelhantecrítica desdobra-seno
ela relativiza. No entanto, por
técmco dessasciências hutuanas que
discutível que seja, ela não tem
mais nova, fundarnental e, tambéxn,
em SImesrna pelo menos, imediatamente —
sua própria Justificação.
O método permanece o significantede um significado impossível
de enunciar.No momento em que desmistificao "positivismo"da
ciência ou a "objetividade' das coisas pela demonstração do deslize
cultural que as havia "criado", ela revela a face noturna da realidade,
como se o tecido das palavras e das coisas detivesse, em sua rede, o
segredo de sua imperceptível negação. A combinatória do dizer e
do ver tem, como avesso ou determinação fundamental — um
vazio essencial" (1966a, p. 31), inassimilável verdade dessas coerên-
Clasestruturais.Por estar em movimento e, também, por escapar,
o chão das seguranças científicas ou filosóficas expressa uma falha
Interna —nunca localizável,somente perceptível nesse embuste In-
definidamente oculto e confessado pela organização temporária de
linguagensanteriores a qualquer pensamento consciente.
O livro —Histoirede lafolie (1961) —lembra que o sonho e a
loucura tinham sido considerados, para o romantismo alemão, como
o horizonte de um "essencial".A desrazão profetizava, então, esse
"essencial"pelo pathoslírico ou em uma literatura do absurdo.Em
Foucault, a desrazão,em vez de um limite para a razão, é sua ver-
dade. Essesol negro confinado na linguagem e que, à sua revelia,a
queima:eis o que lhe é revelado,à semelhança do que ocorre com
Roussel,"pelo incansávelpercurso do domínio comum à linguagem
e ao ser, pelo Inventário do jogo mediante
o qual as coisas e as pa-
lavrasse designam e se desencontram, se
atraiçoam e se disfarçam
(1966b,p, 190). Mas falar de desrazão
é ainda uma forma de atribuir
um nome estranho à negatividade;
é localizá-la em um "alhures
Desseponto de vista,ainda acabamos
por nos extraviar, Na
dade (etapa representada por O
nascimentoda clínicae As pdlavrgse
us coisas),esse outro é verdade
interna:a morte. Assim, a obra inteira
tonto que, nuneita de um indicatiso, e
O livto, vatnos abordar o
e a tnorte" (1963a, p.V) A linguagetii e os
da perversão rrmetetn constantetnente à
aborria-se a tnorte." Utna ausêncta que é,
é acuada, descoberta. exatatnente situação
na ptóprta racionalidade.
A seriedade desse pensa:netlto deve-se à trnposS1b111dade de
&sociar nele a análise espectral da lustÓrtacultural e a reselaç.io
raio que se ditiata ai. O discurso tilosótico anuncta, no
nt.us tisico e tiltldatnental, ' Sinqtlietaçio da linguagena'
uxerteza que retnonta das tnobllldades «ubterraneas e Keinsinua
tu coesão de nossas evidências. A atirtnaçào próprta a urna cultura
é-lhe trmeuda COtnourna indagação aberta; qualquer discurso teni
let na tnorte, • bela terra Inocente sob a gratna palavras
199).
Para situá-la, conviria Indicar, etn prirnetro lugar, a intenção
-trai de u:na obra que se apresenta corno a história ---e a renova-
—dasidetas, nos últunos quatro séculos.na Europa Ocidental.
O pensamento é no'.o, etnbora estela ainda à procura de SI11R<1no;
imperul:sta, se:n ter conseguido detinir exatamente sua arnbição e
suasconquistas; e, na tnaior parte das vezes, irnpreclso exatamente
co a.Fcto em que é o mals Incisivo.44Ahás, é necessário constatar o
Eguinte:as criticas de for:na prudente, neste terreno
indecx«o,quando, afinal, pretendem cobri-lo conl elogios.Tal
FÑura de,r-se, sern dúvida, igualmente à gravidadedas questões
que nos são formuladas e à maneira corno elas nos são explicadas.
Em vez de proceder a análises históricas de Foucault, vou deter-tne
em algumasdessasquestões de método e de fundo.

comentário à "análise estrutural"


urna irritação ou
A Obra de Foucault parece ter surgido de
das ideiasdá
tédio:a monotonia do comentário. O historiador

problemas de método suscitado,


dobado
buma$b '13,nou i).

135
algo diferente. O
incapaz de fazer ele dlZ e teve a pretensa!)
de ser que
a a respeitodo há
"quooona o discurso Ele supõe setnpre que linguagetn
fazer"( 1963a,p xli). pensamento que a deixou
de do traz
formulado o formulado
sariamente inversamente, que
na sombra"; e,
tanlbém,
conteúdo que ainda nio foi pensado (p.
um
bojo,como adormecido, desse excesso do pensarnento sobre
constantemente pensamento, o comentás
XII). Passando sobre o
da linguagem
sua linguagemao formulações o "resto" do significado ou o
rio "traduz"em novas Tareú indefinida porque, em cada
significante.
"resíduo"latente no encontrar nessa reserva ilimitada
se pretende
situação,ocorre já o que e nesse inesgotável capital
sob as pala\Tas
de "intenções" soterradas que as reuniam. Nio
que os pensamentos
de palavrasmais fecundas
de uma história das ciências, de urna filosofia da
será o postulado
Elas conhecem, de antemão,
história ou de uma exegese teolÓgica?
urna linguagem mitoló-
a realidadeque "descobrem", oculta em
ideias de outrora,
gica ou ingénua do passado.As expressões oti às
presta-seuma riqueza que destrói sua articulação mútua e desata o
nó entre significantee significado.A relação corn o comentador é,
aqui,o essencial:o tesouro oculto no passado avalia-se, finalmente,
pelospensamentosdo intérprete; o implícito de um é definido pelo
explícito do outro.
Em vez disso,Foucaultpropõe um trabalho de outro tipo:"uma
análiseestruturaldo significadoque viesse a escapar à fatalidade do
comentário,deixando significado e significante enl sua adequação
de origem" (1963a,p. XIII). A inteligência de uma proposição não
remeteráa uma exegeseque reduza a relação entre o texto e 0
comentaristaa uma tautologia.Em função de
uma "adequaçã0
históricaentre a linguageme o pensamento
(adequação que defl-
ne o texto),a explicaçãovalorizará
as relações que articulam essa
proposição"a partir dos outros
enunciados reais e possíveis que lhe
sãocontemporâneos"e
estabelecem sua oposição a outros "na Séne
linear dotempo" (p. -XIII).
Em vez de identificar
o pensamento com
outros —anteriores
continuum
mental sobre o qual
viessem a desdobrar-se scmelhatié$

136
a explicitar 0 não formulado ou 0
transforma as diferençasno elemento de
seu rigor e
3 rincípiode suas distinções. De seu rigor: em termos de
oculto-revelado) é relaçêes
maiscomo que um sentido deve ser
pro-
proposições, textos ou instituições, assim cotilo
do.entre entre
cora linguagem, as relações estabeleceram --
alavras de uma e são as
que podem explicar o valor atribuído a cada um de seus
únicas
Uma organizaçãodo sentidodeve ser encontrada, tendo
termos. de-
e servindo de referência para cada
terminadosignificações elemento,
outros. Sob este viés, oferece-se uma "razão" que, na
aoremeteraos
é um modo de ser significadopelo sistemadas palavras.
realidade,
aparece: a das "estruturas"
Urnaordem
O que abre à crítica a possibilidadede um rigor é, também,
o princípiode distinções radicais. De fato, à medida que a análise
dasrelaçôese das interferências permite constatar (por exemplo,
noséculoXVIII, a propósito das instituições e das ideias sobre a
loucura)que "esse sistema de contradições refere-se a uma coerén-
ciaoculta"(1961, p. 624), à medida que converge, assim,para uma
"estruturahistórica" (a "estrutura da experiência que uma cultura
podefazer da loucura"; p. 478, nota 1), ela constata também que
essacoerênciaconstitui, na história, um bloco homogéneo, embo-
ralimitado.Existem regiões de coerência e, de uma para a outra,
passagensbruscas.
Clássicana área da história, a noção de periodicidade é, aqui,
aprofundada na noção de uma descontinuidade entre blocos mentais.
Taldeslocamentorefere-se, aliás,a uma situação global da consciên-
cia;em cinquenta anos, ela inverteu-se. Outrora, a periodicidade
elaborava-sena perspectiva de um progresso, cujas etapas sucessivas
tendiama confirmar a garantia de uma posição terminal; partia-se
deuma certeza presente, a partir da qual se descortinavaa vinda a
side uma verdade, daí em diante conhecida mas lentamente des-
das ilusões e dos erros que a encobriam.Atualmente,
Vencilhada
Foucaultestabelece seu pensamento no clima de uma coexistência
entreculturasheterogéneas ou entre experiênciasirredutivelmente
papel da etno-
pelas simbolizações primitivas do sujeito (o
isoladas
385-398),
logiae da psicanálise é, aqui, fundamental; 1966a,p.

137
levado a desvendar,sob a continuidade da
Portanto,ele é
ainda nuis radical que a heterononlia
uma descontinuidade
fictíctahomogeneidade de nosso tempo. Sua lucide
tatàzl sob a
monocultura universal ou de
sobrea ambiguidadede uma
comunicaçãocompletamente att•tiva
chama sua atenção sobre
modo, a novidade
equñoco da continuidade histórica. Desse
mas também impor
do presente encontra-se não só reconhecida, s
tunada:atrás de si, ela tem o vamo da diferença. As falhas do tempo
Já nio autorizam o pensamento atual a alimentar a crença de que
é a ',zrdade do que precedeu; ele deixou de dispor desse repouso
desserecurso.Portanto,ele conhece um novo risco sem garantias.
O heterogéneo é, para cada cultura, o sinal de sua fragilidade e,ao
mesmo tempo, de sua coerência própria. Qualquer sistema cultural
implica uma aposta que se impõe a todos os seus membros, embora
nenhum deles seja responsávelpor isso. Com "um modo de ser da
ordem", ele define uma forma de enfrentar a morte. 50
"Um modo de ser da ordem": eis uma fórmula forjadapor
Foucault (1966a,p. 12-13).Que se deve entender por essafrase?
Qual é o estatuto dessas"estruturas históricas"? Aqui, Foucault não
chega a defini-las, mas empenha-se somente a fazer seu "relato" (p.
13),como teria sido tentado pelo etnÓlogo em relação a sociedades
longínquas.No entanto, sua descrição já deve fornecer indicações
sobre o objeto de sua análise.Ele oferece ao
leitor, de fato,"um estudo
que se esforça por saber a partir de que
aspectofoi possível elaborar
conhecimentose teorias":"o que se
pretende revelar é o campo
epistemológico,a epistemeem que os
conhecimentos, considerados
fora de qualquer critério que se
refira a seu valor racional ou a suas
formas objetivas, enraízam sua
positividade e, assim, manifestam uma
históriaque não é a de sua crescente
a de suascondições de perfeição, mas, de preferéncn,
possibilidade".
Para compreender o
problema e seu objeto, deve-se voltara
sua percepção inicial.
Trata-se de uma surpresa.
NO preâmbulo de
Neste a
d, poderia ser sem disunçóes (ver L'ARC 1966,P
como se faz a iggbria é entendermos por essa
e corno surgem os a recusa de
st*ernas; e é negativa,
porque cada sistema

138
texto dc Borges exprtme o que foi para Foucault,e o
para esse daumbramento.Tal texto Cita•'certa
v%paa cbioesa" em que está escrtto que
em- a} pertencentes
d) e) sereias,f) fabulosos,
g} em liberdade,h) sncluid"' na presente
que 'e Zêtam como loucos,J) Inumeráveis,k) com
um Pincel bastantefino de pêlos de camelo,l) et 111)
que acabam de quebrar mortnga, n) que, de longe. parc«rn
moscas ( p. 7)

'"No encantamento dessa taxinomia", acrescenta Foucault, ' 'o que


g identificade repente, o que, graças ao apólogo, nos é Indicado
o charme exÓnco de outro pensamento,é o limite do nosso:
a pura impossibilidade de pensar isso' .
Um indíc10,nada mais. No entanto, por seu Intermédio, é a
'
ref:réncua outra ordem, a outro 'mundo da ordem", que se oterece
a pensamento como aquilo que o desconcerta e lhe causa des-
lumbramento.O aberrante é o primeiro Sinalde outro mundo; e se
ek aguça a curiosidade ávida de escapar à sua própna problernática é
atru com a preocupação de apreender "os códigos fundamentats de
urnacultura" diferentee de reencontrar, além da surpresa, um princí-
po de ordemA heteronomia é, ao mesmo tempo, o estimulante e o
é a fenda de um racionalismo.Há, portanto, um duplo
inadmissível;
eqágiono procedimento:por um lado, a apreensãode um sistema
que é diferente,e, por outro, a exigência de uma implantação recíproca
de sistemasconsiderados como "modos de ser diferentes da ordem".
O marginalremete a uma estrutura essencialou a um "quadro"
o qual se Inscrevem e se coordenam analogias ou oposições, para
ú, Impensáveis.Como a parte emergente de um iceberg, a exceção
rara,uma Instituição,uma teoria implicam uma coerência não situa-
da no das ideias e das palavras, mas "abaixo". Ela nos convida a
questionar"em que tabela", "em que espaço de identidades,de
e de analogias"se distribui, fora de nós, um tão grande
Similitudes
tiúmetode coisas diferentes e semelhantes.Assim,eis o que ocorre
o confinamento dos loucos ou, ainda, com uma concepção da
gramáticano século
XVII,

139
discernir que, outrora,
a
Ao aprendertnos
objeto de retiexáo e
cxperlénoas foragn
tituídas, "J priori Instónco" diferente d,)
funçáo de uni
formatam-se ' ia ordetn a paror da qual
que
ao constatartnos ordeni dos clássicos ,
da
Inodo de ser diferente A relaçáo corn outreni,
descoberta,
tnodificadospor essa cultural, trajhfórtna
desse desni\Clanwnto
pela percepção
O hão de nossas seguransas
laçáoconosco jnestnos. de:xar de ser possfiel
desvela o fato de
niedldaque se
pensatnentode outrora.
que questiona nosso a priori exprime-se, na
A surpresa
esforço no sentido de localizar as falhas a partir dos
ratwa",pelo
Inaugurarn nessas fronteiras.
qstetna»que se precipitanl aí ou se
algurn, original:
A dataçáode Foucault não é, de modo
século XVIII, meados
do século XVI para o século XVII, final do
do século XX. No entanto, ela tem urn caráter própno dex,ndo
exigênciaque a surpresa desconcerta. A um pensamento preocu-
pudo em Identificaruma coeréncia, a falha apresenta-se como um
enlbora seja um ' 'acontecimento de baixo" (1966a.
acontecitnento,
p. 251): mais fundarnental que a continuidade no
'movimentode superficie",ocorre uma "brusca" modificação
(Foucault insiste sobre essa subitaneidade) que pode ser uma
"defasagern ínfima, mas absolutamente essencial" e '*faz oscilar o
pensamentoocidentalpor inteiro". Assim, "às vezes, em alguns
anos,uma cultura cessade pensar como ela havia feito até entio,
começandoa pensar outra coisa e de Inaneira diferente" (p. 64),
Algo de fundamentalproduz-se de que existem, identificáveis
sinaisprecursoresou consequências, Inas
"
que perrnanece,
mente,inexplicável,51 uma erosão
oriunda de fora". Urna alteraçà0
marcao fim de um "sistema de de
outro.As mesmaspalavras simultaneidade" e o começo
e ideias são, às vezes, reutilizadas,
deixam de ter o mesmo
sentido, de Qeretn pen«adas e organizadas
da mesmamaneira.
Esse é um "fato" em que esbarra o pmoetO
umainterpretação
englobante e unitária.

Mo,
daquiloque0
é de

j 40
As descontinuidadesda
razão
fendas que e, finalnlente,
que a análise recortam as
no "nível" reconheceu culturas
que organiza a múltipla um "sistema
d,simultaneidade" variedadedos
paí surge 0 problema: qual é a validade, Slgnos
a
caracterizadocomo o do "subsolo" ou do naturezadesse
'Ultora1S.

único elemento de "socloepistemo-


"7 Como resposta, temos a maneira
lógico
na narrativa de Foucault; como
5truturasaparecem deste modo,
atenuado o fato de que esse "nível" é porém,
encontra-se definido por um
método ou de que a narrativa descreve, também, um
processode
pesquisa. Há reciprocidade entre a técnica de análisee, por
dos fatos outro
uma ordem
lado, necessariamente proporcionada
aos
adotados
instrumentos por determinado sistemade interpretação.
as cesuras da história estariam colocadas precisamente onde
Assim,
sedetéma explicação estruturalista do historiador.
Quea interferência entre seu ruétodo e seus resultadosnão
elucidadapor Foucault —ou, de preferência, que esseproblema
seja
sejatransferidopara o alhures de um "próximo livro" —,eis o que
exTlicao incómodo do leitor. No entanto, sem deixarde lamentar

rialevadoFoucault a situar-se na história pelo fato de ler aí,à sua


maneira,os avatares da razão, convém reconhecer que a questão
éformuladapor toda parte —aliás, como já havíamos constatado.
Elaressurgeaqui. Um problema de datação,durante muito tempo
um
entre os dados da investigação histórica,torna-se
classificado
equiva-
Problema epistemológico que se apresenta sob duas formas
uma
quala razão dessas alterações da ordem constitutfta de
lentes:
desenvolvimento da
cultura?
Qual a razão dessas interrupções no
cronologia assumea
explicação?
Certamente, no momento em que a
questionar se Foucault
de um discurso filosófico, pode-se
teriaadotado transformá-lono corpo da
simplesmente, mas para diferentes dos seus,
Orla,o figurino
Pelos já talhado, segundo critérioscriticado,com toda a
Próprioshistoriadores, cujo método é elaboradas em
análises
h' 0' Por eles Mas, deste ponto de vista, as aptas a
responder
riada loucura clínicasão precisão,
e O nascimento da notável
de seu corn urna
desígnio por mostrarem,
da datação engaja toda a espessura
revestitnento
o Inodo cojno o
da realidade. por sua história. Urna heteros
é, portanto, questionada
A razão ela Inesrna e é nmanifestadapela
Identidade conn
geneidade destrói sua
de ser" da ordern, figuras não progressivas,
sucessãodos "rnodos
Foucault tivesse definido o que são os "subsolos"
descontínuas,Se superar a heterononua das
a urn continente e
ele poderia referir-se
históricas, fazendo apelo a urna razão que as inclui a todasÃ2
"razões"
que, precisanaente, segundo sua afirmação, é iliipossível.
ora, eis o
recorrer a urn "relato" enl que se apresentam, de
Assim,resta-lhe
ordenn e o do método. Nos
rnaneiraidêntica,dois problemas:o da
a despeito de Foucault,
ternios de urn rigor técnico(vamos designá-lo,
corno a história das ideias), ele fornaulaflloso/icantenteuma questão,
hoje em dia,"fundamental" (ternao apreciado por ele): a possibilidade
da verdade. Qualquer filosofia —e, afortiori, qualquer fé depara-se
com tal problemática e, talvez (esse é o aspecto a debater), consegue
contorná-la.

Os equívocosda continuidade:a "arqueologia"


A análisede Foucault é demasiadoperspicaz para deixar de
apreender uma continuidade atravésdas metamorfoses e reestrutura-
ções que caracterizam cada período epistemológico. As palavras e as
coisastraz como subtítulo "uma arqueologia das ciencias humanas ,
anunciandojá o movimento que, de acordo com o livro, conduziu
o pensamento ocidental da época clássica à formação das ciências
humanas,por intermédio dos três modelos (próprios ao século XIX)
da biologia,da economia e da filologia —raízes da psicologia, da
sociologia e da linguística —,e que conduz
atualmente, a contestaçã0
dessasciênciaspela história, pela etnologia
e pela psicanálise.NO
sentidoanalíticodo termo, cenas primitivas
habitam e detertninam 0
desenvolvimento; sob os deslocamentos
culturais, sobrevivem feridas
originais e disposições organizadoras
discerníveis nos pensament0S
que as haviam esquecido.

Essareferência unitária
aparece, no entanto, com a noção,
precariamente definida, de "positividade

142
A o»nstituj, Portanto, cçrtanjct)te
tnanetrade pascal, Itoticault faz Vet a continuidade
Mideera atirtnada a ruptura, do tne«nto Inodo
há pouco,urna descontinuidade que deqtruía a de
devtr da ciência. No entanto, tal contintlld.l(lc é Indissociável
do equívoco;ela é o que persiste à revelia da consciênci.&c sob a
de irnpostura.As reniltuscencjas de tipos diversos, detec fados
pelaanálise,traduzenvse por uni etnbuste.
Em um pritnetro nível, verifica-<e tuna pertnancncta de super-
aquelaque, apesar dos deslizes do subsolo, Inantél)) urna tclaçào
de identidade entre aq palavras, os conceitos oti os tenjaq
Um exemplo sitnples: nos séculos XVII, XVIII e XIX, fala-se de
"louco", mas, na realidade, nessas diferentes épocas, "não se trata da
doença" (1961 , p. 259). Na exegese e na teologia ocorre algo
semelhanteao que se passa na Inedicina: as meqrnas palavras não de-
sgnam as mesmas coisas. Ideias, tenúticas e classificações subqstern,
passandode um universo tnental para outro; no entanto, eru cada
situação,elas são afetadas pelas estruturas que as orgamzam e lhes
atribuemuma significaçãodiferente. Os mestuos objetos mentais
"funcionam"de :naneira diferente.
Há uma persistência, cuja forma é inversa.Na história das ideias,
aparecemnovas noções que parecem assinalarurna estrutura de outro
tipmNa realidade,trata-se aí de categorias pouco consistentes que,
em ',rz de determinarem o conteúdo de tais noções, litnitam-se a
encobri-lo: noções aptas a englobar as contradições, significantes
flutuantesnos quais sobrevivem medos ou óptica«precedentes.Assitn,
0 medo que, no século XVI, mantinha isolado o louco por rexeio
de um contágio diabólico, adota, no século XVIII, tuna hnguagem
utilizadana área da medicina e ressurge nas precauçóe» tomadas
contrao ar contaminado dos hospitais (1961 p. 431),
De maneira mais global, cada região histórica da epistemeé o
lugarde urna reestruturação
dirigida (etnbora nào gnaisorganizada)
Pelasestruturas elaboradas na época anterior, Foucault procede a
u demonstração,
pot exemplo, a propósito da psicanálise:a família
prestígio,no final do século assume ascendência
relaçãoaos indivíduos
de minoridade e fornece urna antítese niitica
-- prepara a execução d
ao social (corruptor da natureza)
o pai em que Freud reconhece o destino da cultura
atentado contra
a civilização) quando, afinal,
ocidental inteira (e, talvez, de toda
sedimentação depositada
limita-se a extrair da linguagem uma na
assim como detecta
consciência, no decorrer do século precedente,
desenterra nas palavras o que acaba de ser incluído nelas "pelo mito de
uma desalienaçàona pureza patriarcal e por uma situação realmentt
alienante em asilo constituído de acordo com o modelo familiaff
(1961, p. 588-589). O sentimento de culpa ressurge, igualmente, na
linguagem freudiana,mas pelo fato de ele ter sido introduzido nela
com a substituiçãoda coação por uma técnica de confissãonos asilos
filantrópicosdo final do século XVIII (p. 596-597). Do mesmo modo,
a valorização(datável,também, no século XVIII) do par médico-
-paciente e a concentração da terapêutica na personagem do médico
inauguram, à revelia dos inventores, a desmistificação por Freud de
todas as outras estruturas asilares e o fortalecimento (esquecido de
suas origens) da posição atribuída ao analistaque, tendo-se esquivado
por trás do paciente, vai julgá-lo, gratificá-lo, frustrá-lo, e torna-se,
simultaneamente,segundo Foucault, a "chave" e a "figura alienante"
da relação terapêutica (p. 608-612).
Contrariamente às intenções que haviam orientado a elabo-
ração de uma fórmula, esquecida por aqueles que a retomam de
forma diferente, a continuidade é dirigida pelo equívoco; apesarde
real, ela é vivenciada segundo o modelo dos contrassensos,entrea
época da hermenêutica (século XVI), a da "representação" (séculos
XVII-XVIII), a do positivismo ou de uma objetivação do "interior"
(século XIX) e o tempo presente.Aqui, em vez de uma relaçãoda
ilusão com a verdade (como pretendia fazer acreditar a mitologia do
progresso), porque a impostura é recíproca, trata-se de uma relação
de outro com outro. A incerteza própria ao intercâmbio entre cul-
turas, ou à sua sucessão,não anula a realidade de uma relação,mas
ela designa sua natureza. A ambiguidade da comunicação remete
a uma "inquietação" que estabelece a continuidade da históriae a
descontinuidade de seus sistemas:a diferença.
De fato, a diferençaé que talha na homogeneidade da lingua-
cada
gem as cesuras do isolamento e que, inversamente, abre em

144
as viasde urn outro. A instabilidadeinterna dos ciclos e a
são dois problemas. Rob essas duas
ambiguidadede suas relações não
como relaçãoao outro e como relaçào a si, um Incessante
formas,
confrontotrabalha a história, legível nas rupturas que fazem oscilar
ossistemas, asstmcomo nas coerências que tendem a recalcar urna
alteraçãointerna. Há continuidade e descontinuidade, arnbas ilusó-
rias:de fato,a partir do "modo de ser da ordem" que lhe é próprio,
cadatempo epistemolÓgico traz ent seu bojo uma alteridade que
todarepresentaçãoprocura reabsorver, objetivando-a, rnas sempre
incapazde sufocar seu obscuro trabalho e de se prevenir contra seu
venenomortal.

O pensamentodo exterior
Quem se limita à continuidade julga escapar à morte, apoiando-se
naficçãode uma permanência real. Quem fica confinado na solidez
desistemasdescontínuos acredita ser possívelsituar a morte como
um problemaexterno, localizável no absurdo acontecirnento que
põetermo a uma ordem; ele evita a questão formulada já por essa
mesmaordem e que, em primeiro lugar, surge sob a figura de um
"limite"interno no século XVI, o de um modo diferente, divino
ou demoníaco;no século XVII, o do "não ser" bestial ou imaginá-
rio;e, no século XIX, o de uma dimensão "interior" (o passado,a
forçaou o sonho).
Uma finitude interna contesta as estruturações que tentam
superá-lae em que se desenvolve a defesa do Mesmo, ou seja, da
identidadeconsigo mesmo. A alteridade reaparece sempre e, fun-
umentalmente,na própria natureza da linguagem. Uma verdade é
ditapela organização de uma cultura que escapa àqueles que são seus
Colaboradores. Certas relações predeterminam os sujeitos, levando-os
a significaralgo diferente do que eles julgam exprimir ou conter.
Setfaladoà sua revelia é estar morto sem saber disso; é anunciar a
morteao acreditarque se triunfa sobre ela, é confessaro contrário
que Seafirma.Tal é a lei descoberta pelo historiador desde o
fmomentoem que deve estabelecer a distinção entre a linguagem
e asintenções
Conscientes."A presença da lei", diz ele a propósito
de
sua dissimulação" (1966b, p. 534). Ern vez de ser

145.
ao tertno de urna cultura a alienação é
um fato ternunal, qualquer consciência Individual
relativuaçio de
nortna Interna e a colocada enl perigo por sua
sou" é, portanto,
A evidênciado "eu que desaparece
própra ou seoa,por "esse exterior
525). Qualquer pensainento tem sua Verdade
o sujeito que fala" (p.
em um "pensamento do exterior
do exterior","pode-se perfei-
Em relação a esse"pensarnento
supor que ele seja oriundo do pensamento místico que,
tumente
perambulou nos confins do
desde os textos do Pseudo-Dionísio,
durante uni niilénio ou
cristianismo:talvez ele se tenha mantido,
negativa" (1966b, p. 526).
quase,sob as formas de uma teologia
do qual Fou-
Ocasional,a referênciasugere o tipo de problerna
momento em que
cault se faz o intérprete. Ele o vê atualizado no
do
"Sade deixa falar,como lei sem lei do mundo, apenas a nudez
desejo" (p. 526): o sadismo,"fato cultural maciço que apareceu,
precisamente,no final do século XVIII", está associado à época
' 'em que a desrazão,confinada há mais de um século e reduzida ao
silêncio,reaparece,não mais como figura do mundo, nem como
imagem, mas como discurso e desejo" (1961, p. 437).
A morte só aparecemediante a rede coerente da razão, a po-
qção do homem na linguagem ou a mutação das linguagens. Ela
não é um fenÓmeno da história nem um fato particular e, portanto,
localizável.Nem tampouco, aqui, a afirmação intempestiva de um
autor que, subitamente, tivesse feito irrupção na filosofia reflexiva
para destruir o sossegadoaparato da consciência e plantar aí seu
estandartenegro. Foucault anuncia o fim não do hornem, mas de
uma concepção do homem que, pelo positivismo das "ciências
humanas" (a "recusa de um pensamento negativo"; p. 233), pensava
ter resolvido o problema sempre remanescente da morte. Pelo fato
de que cada sistemaencontra sua ruína na ilusão de ter superado
a diferença,a questão formula-se, atualmente, a partir dessa alie-
nação na linguagem,assim como (mas é a mesma coisa) a partir
dos desmoronamentos sucessivos."O fato
de que somos, antes
de pronunciar a mais insignificante de
nossas falas,já dominad0S
e assombradospela linguagem" (1966a,
p. 311), eis o que orienta
a busca do sentido para "essa região
em que perambula a morte

146
etn que se verifica a coincidência entre a
395),para a literatura
"a absoluta dispersão do homem" (p. 397).
do discursoe
Assim,a propósito de obras literárias é que Foucault desvela
radical que "se escava no signo que
maisclaramentea ausência
elafazpara que se avance em sua direçào como se fosse possível
alcançá-la"(1966b, p. 531). Ela fala no "eu". Não só, con10 pensava
Mallarmée como volta a ser dito pela nova literatura, "a palavra
é a inexistênciamanifesta do que ela designa", mas o ser da lin-
guagemé o visível apagamento de quem fala. Urna expectativa
nuncaobjetivávelé dirigida para o nada que a habita; além disso,
"0 objeto que viesse a preenchê-la seria capaz tão somente de
apagá-la"(p. 544). Bem antes de seus locutores, a linguagenl está à
esperade Godot.

Questões abertas
Outrora,sob a comicidade de suas memoráveis aventuras, O
GatoFélixera mostrado em uma situação análoga àquela que nos é
descritaaqui. Ele avança com rapidez. De repente, apercebe-se —e
o espectadortambém —que lhe falta o chão: durante um instante,
eledeixou a borda da falésia que seguia. Sotnente,então,ele cai no
vácuo,Talvezhaja aí motivo para evocar o problema e a percepção
deque o livro de Foucault é a testemunha.
A queda é apenas o aspecto secundário de uma constatação:
o sumiçodo chão em que, de acordo com nossa crença, servia de
suporteà nossa caminhada e ao nosso pensamento. Tal situação
conduza reflexão à necessidade de "deixar falar" o que se exprime
comohomem, sem poder confiar-se, daí em diante, no crédito que
seatribuíaà consciência, nem aos objetos que haviam sido criados
por uma organização do conhecimento. Apresenta-se um novo
universodo pensamento; ele pode ter o caráter de uma catástrofe,
massó para quem se limita a andar sobre o antigo "soclo episte-
mológico".Enquanto o "eu" ["je"l ocupava,outrora, "a posição
rei" na rede das representações, é a linguagem que diz agora,
tenundo-lhe a dianteira, sua verdade; enquanto o ego tmotl estava po-
Comoo centro invisíveldo mundo conhecido, a linguagem
SiCionad0
da percepção e
reintroduzida nas relações cotnblnatóna subjacente
fol definidos por
corno um dos tertno« continuidade era a garantia,
enquanto a
e fundamental; um é a partir da descontinuidade que
como 0 prioride
rnutação, Foucault tern a acuidade Prernente
Para indicar essa a nova era análises que
ele anuncia
do Doutor discurso deixa pendentes as questões abertas
seu
de perdurar,mas será seu filósotU? Com efeito, queni
dessa epistcnte
por ele. O profeta sabe, o que inúmeras reflexões
que ninguém
é ele para saber o ou, atuahnente, ignoranl a respeito
hauam, outrora,"esquecido"
Ele se apresenta corno o onipresente (já que todas
de si mesmas?
heteronomias da história formarn o único relato de seu pensa_
as
mas é também o ausente (já que ele não se situa em parte
mento),
verdade das linguagens, 111as
esta
alguma).Sua obra pretende dizer a
qualquer limite e, portanto,
verdadenão se estabelece em relação a
linguagens, as rupturas
a qualquer compromisso do autor. Dessas
são finalmente superadaspela lucidez de seu olhar universal.Ou,
dito por outras palavras,falar da morte que serve de fundamento a
qualquer linguagem ainda não é enfrentar, mas talvez evitar, a morte
que atinge esse mesmo discurso.
A seu respeito,pode-se, portanto, formular uma dupla ques-
tão.Em primeiro lugar,que tipo de história é objeto da análisede
Foucault?Deste ponto de vista, os historiadores tomam a palawae
podem contestar uma leitura que procede à escolha do real, fixaela
própria o significativoe retira-se nas espessuras da história quando
a superficie lhe oferece resistência.54Por outro lado, a determinaçã0
filosóficado estatuto do discurso, a elucidação da relação entre sua
particularidadee seu projeto (na obra de Foucault, quem fala e de
que lugar?),a elaboração das noções que ele utiliza (soclo, subsolo'

NT: Personagemdo filme de Stanley


andLovethe Bomb(1964) I Irarned to Stop
Kubrick Dr. Strangclotr or: 11011'
considerado como uma obra-prima do humor negro; ern Portugal'
lançadocom o titulo de
Doutor Estranhoamor.
"4Nessa htstóna das
mentalidades, convém observar,
que, apesardisso.não igualmente, a quase ausênc ia das Ciências
deixaram de desempenhar um papel elaboraç;o
da episfrmeprópria considerável, em particular, na
à época "clássica".

148
o terreno a prestigioxa"llarratlva"
ude,etc.) filosofia.
está aí, tundanxenta\ e problernática,desmis-
aberta acabará por tornar-«e Fausto?
ca. Mefistófeles
ainda uns, inquieta outros, suscitando Interpre-
e
ele fascina
1ianto, por ter evocado,
ditórias
ootra representaçáo, unia iliiensa exten<àode sombra
da
or debaixo
Fora, retomar enl confornxidade coni nosxas
tentamos, as
que em nos«o discurso, ein nosxaliberdade e em nossa
possibilidades, é de tal modo tacanha, nossa
No entanto, nossa reflexão
reflexio. monótono que
tio subnlis sa e nosso discurso tão
liberdade que, no fundo, sombra de
levar em
temos de de todo 0 tamanho (FOUCAULT, 1966a,p.324).
um óbice

a
(que é o
metodológico
stU1aJo história?
natureza do PO tórica da
a anis
não conviria questionar-se sobre sistema e condiçio
deFoucault)segundo o qual aepisteme é

| 49
Microtécnicas e discurso
panóptico: um quiproquó 6

et punir
seulivro Sunviller Michel Foucault exa-
se organiza a "vigilância" penal, escolar e tnédlca no
séculoXIX. Ele multiplica sinÓntruos e evocações seu
nomear os agentes silenciosos de sua história (c01110se
a qualquer identidade verbal):"aparelhos" Instru-
¿Ae•sapassem
, 'mecanisrnos", "máquinas", etcnal incerteza,
da terminologia é, por SIsó, sugestiva. No entanto, a
Se:radebaseque constitui o tema do livro -- enorme quiproquó,
sócio-histórlco postula urna dicotomia fundamentalentre
e procedimentos técnicos, além de preparar o Inapa de
soluçõese Interseções respectivas. De fato, Foucault procede
de um quiasma: de que Inodo o lugar ocupado, no final do
XVIII,pelos projetos humanitários e refortnistas é, etn segui-
por esses procedimentos disciplinares
empreenderam a organização, cada vez mais
do próprio espaço social. Esse romance policial relata
htgóriade substituição de cadáveres, um tipo de Intercá:nbio
b teriasido
apreciadopor Freud.
o ocorre sempre com Foucault, o drama representa-se
vio
orças,cujas relações, por uma astúcia da históna,

dm o OPV
precedentesde Foucault,

151
do Olo I
tnverter„se, Por lado, a Ideologi,i
elos pré C)
seu trataniento revoliica0/iátuo
XVIII
projetos refortillst.isdo séO/lo
I(cgjljje,
acabar conj a ordália do Antigo
corpo a corpo Vjs.iV.i o
sangrentade
c (1]0 cra
do ret etn relaçào
conl urn valor particular,
sjsterna igualitário de penas, gradeióo pré ao
conietldo, e valor educativo tanto para o cojno
própria sociedade,
Mas, na realidade,os procedijncj)tos cjij
forças artnadas e na escola acabai)), rapidajncntc, por
anjplo e conjplexo, cldljor;jdo
etn relação ao aparelho judie 1,11,
Ilurnimsmo;as novas técnicas sio refinadas e aplicadas scnj tirso
urna ideologia manitesta.O desenvolvijnento do quadrjculanjent()
cellulaircl(para o aluno, soldado, operáno,
células 1,111ddrillage
ou paciente) transforjnao próprio espaço enj Instrujnt:nto utiliúcl
para irnpor a diqciphna,progralnar e Inanter «ol) vjgllánoa qualquer
grupo social. Ern tais o refinanic•nto da tecnologia a
atenção prestada a detalhes Illinúsculos prevalecern enl relação á teona

a própria prisão, que solapa do interior as Instituiçóes revolucionánas


do Século das Luzes e, por toda parte, introduz a penitenciáriaem
lugar da justiça penal.
Foucault estabelece a distinção, assim, entre dors sistemashe-
terogéneos.Ao descrevero triunfo de urna tecnologia políticados
corpos sobre um sistema elaborado de doutrinas, ele não «e limitaa
esse aspecto: em sua descrição da instituição e da proliferaçãodessa
particular"instrumentalidade menor" ou seja, o quadriculamento
penal [quadrillagepena[l—,ele tenta também elucidar funcionamen-
os
tos desse tipo de poder opaco que não é a
propriedade de algum sujeito
individual,não ocupa um lugar privilegiado, não possui superiores
nem inferiores,nem tampouco é repressivo
ou dogmático em sua
ação,e que possui uma eficácia quase
autónoma, além de funcionar
graças à sua capacidade de distribuir,
classificar,analisar e individuab-
zar, no espaço,qualquer objeto
dado. Uma máquina perfeita,Atras3

152
série de quadms clíniéos,
", Foucault empenha-se em designar
nópticos e classificaras '
"condições de funcionamento", as ' 'regras
de 'técnicas" e o»
•edirnentos' os diferentes "mecanismos",
"operações",

exposição cuja função é dupla: 1. estabelecer


de
o esquenlade
estratoparticular práticas não verbais; 2,
assentar os alicerces
de discursorelacionado com semelhantes práticas.

Natureza e análise das microtécnicas


Como descrever tais práticas? Por uma estratégia bem
caracte-
ótica, Foucault isola o gesto que organiza o espaçodiscursivo:não, como
ocorreem sua História da loucura,o gesto epistemológico e social
deconfinarum louco a fim de criar o espaçoda razão,mas um
minúsculo,reproduzido por toda parte, que recorta o espaço
gesto
a fim de que os habitantes sejaill submetidos à vigilância.Os
visível
que repetem, amplificam e aperfeiçoam tal gesto, organizam,
processos
porsuavez,o discurso batizado, em seguida, com o nome de "ciências
(Geisteswissensc/l@ten).Assim,
humanas" na ideia de Foucault, os pro-
do século XVIII —que constituem um gesto não verbal—foram
cessos
(por razões históricas e sociais) e, em seguida, articulados
pelodiscursodas ciências sociais contemporâneas.
Asnovasperspectivas (ver, em particular, DELEUZE,
1975; Mo-
LALES,
1975;WHITE,1979), abertas por essa análise, poderiam ser,
prolongadaspor uma verdadeira estilística,um método de
do gestonão verbal que organiza o texto do pensamento;
us,aqui,essenão é o meu intuito. De preferência,eu gostariade
6mulardiferentes
questÕes relativas a tais práticas.
Em sua"arqueologia das ciências humanas" (seu projeto ex-
desdea Ptiblicação do livro As palavras e as coisas)e em sua
ada"
matriz"comum (a "tecnologia do poder') que organi-
(como punir os homens) e
o código penal
fazer
nclashumanas(como conhecê-los), Foucault é levado a
escolha e
entre o séculos XVIII
conjunto dos processos que, nos

153
Ele cotneça liot
(essencjaltiiente,
iça) e, seguida,
que COt1SISte elll isolar
social e etn explicarsua
diliàlllica
nos dors seculos precedentes
ae (enx
e da tneatctna), esse Ilietodo faz sobres
e etil crescente proliferação
ele acabaria por identltlcar os Sinaisocultos
torna-se gradualtnente malsprecisa
e aetilllda na espessura do tecido ou do
socal
Essa historiográfica suscita, ao lilesmo tem-

aparelhospara organizar uma sociedade; e a outra


o excepcionalou o estatuto privilegiadode
(o panóptico) entre tais aparelhos.Assim,
formular as segumtes questões:
a) Como explicaro privilegiadoda série particular
constituída pelos aparelhos panópticos de Foucault? Talvez não seja
tão se nos lembrarmos que, desde o séculoXVI,
o visãodesempenhou um papel fundamental na elabo-
moderna das ciências, artes e filosofia. Nesse caso, a máquina
panóptic¿ seria apenas um efeito histórico
dessa onipresença da
tradiçãoópticz Ela representaria
a vitória não de uma novidade,
urna unpia nova,liberal
e revolucionária. Um modelo passado
de organização
retorna e "coloniza" os
de uma nova época; projetos revolucionários
esse retorno do passado
história freudiana. faz sonhar com uma
b) Que teria
ocorridocom todas as outras séries de procedl-
mentos que, em
seus itinerários
não deram mantidos fora de nossa abordagem'
origem a uma
configuração discursiva específica, nenla
grandenúmero
de outros
procedimentos; seria
possível considera-

154
C

pe qualquer é
reduzir 0
sociedade inteira a un) tipo doniinante funcionamentode
Trabalhos recentes
e único de
Serge Moscovici procedimen-
(1968)
sobre a
Pierre Legendre (1974) sobre 0 organização
aparelhojurídico medieval
revelarama existência de outras espéciesde
aparelhos
queinteragem, de maneira análoga, com a ideologia tecnológicos
e, duranteum
eríodo,acabam por ser predominantes, antes de mergulhar no
armazémdos procedimentos sociais; por sua vez, grande
outros
aparelhos
acabampor substituí-los na função de dar forma
l"infonnc/'la um
verdadeirosistema.
Desseponto de vista, ao lado de inumeráveismodos
de agir,
uma sociedade seria, portanto, composta por certo número de
práticasque, desenvolvidas de maneira seletivae exteriorizadas,
orgamzamsuas instituições normativas. Tendo pertnanecido"me-
nores",as outras práticas não organizann o próprio discurso,mas
limitam-sea perdurar, conservando as prilllícias ou os restos de
hipótesesinstitucionais ou científicas que são diferentes em cada
sociedade.Alé11Adisso, para todos esses procedilnentos, elasdispõem
dadupla característica, sublinhada por Foucatllt: serern capazes de
o espaço e a linguagenl a partir de Inodelosdominantes
organizar
ousubordinados.
2.A forniaçáo final ou fornia "plena" (neste exemplo,trata-sede
todaa tecnologia conteinporânea de vigilância e disciplina) serve de
pontode partida para a arqueologia de Foucault:assim,explica-se
ele. Mas
a coerência innpresslonante das práticas escolhidas por
procedimentos
podenlosverdadeirannente supor que todos os
O desenvol-
tiveram si Inesnnos essa coerência? A priori,não.
canceroso, dos procedimentos
vimentoexcepcional e, até nnesnno,
papel como arma
histórico
pareceria inseparável de seu
Panóptico«
controlá-las.Assitn,
contrapráticasheterogéneas e cotno meio de
práticas tecnológicas.
lar' ser Vilna característica de todas as
dos procedimentos
e
Ilielllantennente,por trás clo "rnonoteíslno" existência e da
da
Panópticos(Ioniinantes, poderíannos suspeitar
tilas.naosuprilllidas pelo triunfo histórico
aparelho particular,
Qual é o estatuto de um umavez
orcanizador de uma
se tornou o princí?10 tecnologia d que
exerce sobre ele o procedimento pelo qualho poder)
Que eáito aviasid
pri\hlegiado e transformado em
do resto, aparelhodo
nova espécie de relação é estabelecida por ele
disperso dos outros procedimentos depois que, finalm
ente
institucionalizadoem sistema penitenciário e científico?Tals
ele

decorrência,segundo Foucault, de seus próprios avançostécnicos


silenciosose minúsculos. Emergindo desse estrato obscuro em que
autor situa os mecanismos determmantes da sociedade,tal
aparelhopoderia perfeitamente encontrar-se na posição de uma
Esa:v.içiospor sua vez, colomzada, de maneira imperceptível,por
procedimentos ainda mais silenciosos. Na realidade,esse
disciplinae vigilância, constituído no século XIX com
em processosanteriores, está, atualmente, em via de se fazer
vamplnzar"por outros procedimentos que nos Incumbe desvelar.
4. Será que se pode avançar mais longe? No decorrer de sua
evolução.os próprios aparelhos de vigilância tornaram-se um objeto
de elucidação e uma parte da linguagem mesma de nossa racionalida-
Não será o sinal de que eles deixaram de determmar instituições
discursivas?No presente, eles estão sob a alçada de nossa ideologia. Os
aparelhosorganizadores, cuja explicação pode ser dada pelo discurso,
já não preencheriamo papel silenciosode acordo com a definição
preconizadapor Foucault.Tendo chegado a este ponto (a menos que
haja o pressuposto de que, ao analisar as práticas
que lhe deram origem'
Ttgiare punir supera sua própria distinção de
base entre "ideolog ias
"procedimentos"),devemos procurar o aparelho
que, por sua vez'
determinao discursode Foucault, ou seja,
um aparelho subterrâneO
que, por definição, escapa à elucidação
ideológica.
Ao mostrar,a partir de um caso singular,
rogênease as relações hete-
equívocas entre os aparelhos e as ideologias,
constituiuum novo objeto de estudo FoucaUlt
histórico: essa região em
procedimentostecnológicos têm efeitos que
específicos de poder'

156
obedecem a
dinamismos
mudanças fundamentais lógicos que lhes
entanto, ainda não nas instituições são próprios e
sabemos corno jurídicas e
utilizar os outros científicas.No
disso, continuam a procedimentos,
institucionais. Esse é nos interstícios
exatamente o caso das tecnologias
de acordo Foucault, carecem dos procedñnentos
da condição prévia que-,
ou seja,a posse de urn lugar essencial,
ou de um espaço
que a naáquina panóptica específicopróprio
possa
apesarde estarem privadas de lugar, funcionar. Tais técnicas que,
não deixam de ser
são"táticas" retóricas. Creio que, operatórias
em segredo, elas reorganizam
discursode Foucault, colonizam seu o
texto "panóptico" e o trans—
formam enl "trcunpe-l'a•il" [pintura que,
por artificio de perspectiva,
criar ilusão de objetos reais em relevo]

Microtécnicasde produção de uma ficção panóptica


Alguns problemas acabam por surgir quando a teoria, em vez
deser um discurso sobre outros discursos que a haviam precedido,
em dormmos não verbais ou pré-verbais em que se encon-
arrisca-se
tramapenaspráticas sem discurso de acompanhamento. Verifica-se
umabruscamudança; assim, o alicerce —habitualmente tão seguro
pela linguagem faz, então, falta.A operação teórica
- disponibilizado
de repente, na extremidade de seu terreno normal, à
encontra-se,
semelhança
de um veículo que tivesse chegado à beira de uma fa-
lésiae,à sua frente, existisse apenas o mar. Foucault trabalha à beira
dafalésia,tentando inventar um discurso para abordar práticas não
discursivas.

Maspodemos considerar as mlcrotécmcas como o que edifica a


teoria
emvez de serem seu objeto.A questão diz respeito não mais
aosprocedimentos
que organizam vigilância e punição sociais, mas
aqueles
queproduzem o próprio texto de Foucault. De fato,as ml-
crotécnicas
fornecemnão só o conteúdo do discurso,mas também
Oprocesso
de sua construção.

te
a culinária,
encontramos, aqui, sutis "receitas" para extralr

157
ENTRE CIÊNCI
E PSICANÁLISE:

das práticas. No entanto


teoriasa partir do aspecto mais profundo por imperativos de
pontoada
do mesmo modo que uma receita é no forno, etc.), assim
açâo (misture,acrescenteo molho, coloque
resunnr-se em duas etapas: uma
tanabénaa operação teÓricapode primeiro lugar, o gesto
extraçâoe, em seguida, reviravolta. Em
para obter um "objeto"
"etnológico" de isolar algumas práticas
científico;em seguida, a transformaÇã0lógica desse objeto obscuro
enl centro luminoso da teoria.
A primeiraetapa é um corte: em um tecido sem costura,ele
isolaum motivo composto por algumas práticas, para constituí-las
em um corpusseparadoe distinto, um todo coerente,todavia alheioao
lugarem que é produzida a teoria. Esse é o caso dos procedimen-
tospanópticosde Foucault,isolados de uma infinidade de outras
práticas;eles recebem aí uma forma etnológica. No intervalo,
o
gêneroparticular assim isolado é considerado como a
metonímia
da espécieinteira: uma parte, observável por estar
circunscrita, é
utilizadapara representar a indefinida totalidade
das práticas em
geral.Evidentemente, essa separação
serve para conferir sentido
dinâmica específicade à
determinada tecnologia.
No entanto, trata-se
de um "corte" etnológico e
metonímico.
Na segunda etapa, a unidade
—isolada, deste modo
tida:o que era obscuro, —é inver-
não dito e culturalmente
o próprioelemento alheio torna-se
que
ilumina a teoria e serve
o discurso.Em de suporte pata
Foucault, os procedimentos
sistemasde vigilância considerados nos
na escola, nas forças
tais,os micro-aparelhos armadas, nos hospi-
sem técnica
completamentealheios discursiva de legitimação»
à AuJklãrung,
princípiode ordem tudo isso se torna o ptóprio
de e, ao que confere
mesmo tempo, sentido à nossa própria socieda-
humanas". fornece a razão
Mediante esses de ser às nossas "ciências
semelhançade
um espelho procedimentos que funcionam a
torna-se capaz
de elucidá-las; Foucault observa todas as coisase
torne,por eles permitem
sua vez,
que seu discutsose
consisteem teoricamente
panópticoe Essa estranha operação
enaeixo transformar
central de determinadas
um práticas afásicas e
discurso teórico
e, desse corpus
espelho em que
brilha,
todo 0
Em Foucault, essa tática -a
marca a
espeC1es
filiação de
práticas que sua história
Foucaultjá havia estudado a ele analisa, a uma
determinação Evidentemente,
clencias do discursopelos
denuncia a presença de humanas"; no entanto, pro-
um aparelho suaprópria
jáhavia sido revelado análogoàqueles,
por ela.Em cujo
microtécmcas, porém, seria relaçãoà teoria
interessante
rençasentre os processos panópticos, considerar as dife-
gesto semelhante realizado por suamencionadospor Foucault,
própria narrativa,
urncorpo estranho de procedimentos e isolando
invertendo seu conteúdo
obscuroem fonte luminosa.
B. Ulna arte de elaborarficçõespanóptícas.
Nesse sentido, a teoria
deFoucault faz parte, também, da arte de "fazer
pontos": ela não
escapaa seu objeto, os microprocedimentos; ela é seu
efeito e sua
mstalaçãoem processos panópticos. Não existeruptura
epistemoló-
gica,nem hierárquica, entre o texto teórico e as mcrotécnicas.Tal
continuidade constitui a novidade filosófica do trabalho de Foucault.
E fácil reconhecer, em ação, essa espécie de "arte". Trata-se
deuma arte de se exprimir: suspense, citações extraordinárias,
elipsesde séries quantitativas, amostras metonímicas, etc. Um
vtrdadeiroaparelho retÓrico é utilizado para seduzir e convencer
o público.E também uma arte de aproveitar as oportunidadese
deproduzirefeito ao cruzar textos de outrora com conjunturas
daatualidade.O próprio Foucault qualificou-se como "leitor"
Sualeituraé uma caça não autorizada: caçando pelas florestasda
e nas planícies de nossos dias, Foucault arma ciladasàs
história
estranhasque ele descobre em uma literatura do passadoe
coisas
daqualse serve presentes.
para tumultuar nossas frágeis seguranças
Eletemuma capacidade quase mágica de desvendarconfissões
textos
quanto em
tanto em documentos históricos
atuais;
de sistematizar de outrora e da atualidade;
tais curiosidades —que
de transformar não verbais
essas revelaçÕes de práticas em
errninarnnossas epistemológicas
instituições políticas e

159
'
' CIENCIA C FICÇÃO

provasconvincentes, Sua arte retórica, criadora


de
que derruba nossas convicções evidentes, é 0
gesto
literáriod
de sua eflcacla, 111as,
de preferência, sua arte de se principal
exprimir,
que é

Sua Inaneira de utilizar um discurso panóptico


como
Inascara para intervenções tatlcas no interior de nossos uma
epistclllologlcos é, particularmente, notável. Ele põe campos
em prática
a arte de tornar a dianteira ["/llarquer despoints"] com ficções
his-
toricas. Seu livro, Vigiar e punir, apoia-se em sutis procedimentos
para "manipular" apresentações eruditas. Trata-se de um
recurso
alternado e calculado com três variantes de figuras ópticas:quadros
descritivos (narrativas exemplares) ,58analíticos (listas de "regras"
ou
de "princípios" ideológicos relativos a um único fenÔmeno)59e,por
últi1110,
figurativos (gravuras e fotografias que datam dos séculos
XVII-XIX). 60Esse sistema combina três espécies de vitrines: nar-
rativasde estudos de caso, distinções teóricas e imagens do passado.
Sua unica pretensão consiste em mostrar, em vez de explicar,como
funciona a máquina: encenado por ele em três cenários panópticos
diferentes,esseprocedimento opaco torna-se visível e transparente.
Organizando uma retórica, uma escrita da clarividência, ele produz
um efeito de autoevidência sobre o público; no entanto, esse tea-
tro da clarividênciaé uma astúcia,na medida em que se verificao
deslocamento sistemático dos campos em que Foucault intervém
sucessivamente.Trata-se de uma operação subversiva,dissimulada

58FOUCAULT, 1975: p.
9-13, a condenação de Damiens; p. 197-201, a
261-267, a "ferração" dos condenados; cidade assolada pela peste; P'
p. 267-269, a "prisão rolante"; p. 288,Vidocq (representante
da acoplagem direta e institucional
entre polícia e delinquência, na primeira
p. 296-298,Béasse (criança de 13 metade do século XIX);
anos, sem domicílio nem família, acusada
sido condenada a dois anos de vadiagem; tendo
de correção, em 1840, acabou por
da delinquência); etc. conhecer, sem dúvida, os circuitOS
59FOUCAULT, 1975:
p. 28, as quatro regras gerais; p. 96-102,
punitiva;p. 106-116,as as seis regras principais de semiotécnica
seis condições de funcionamento da
técnicasde disciplina;p. arte de punir; p. 143-151, as quatro
159-161, os quatro procedimentos para
p. 189-194, os três capitalizar o tempo dos indivídU0%
mecanismos de exame; p. 211-217, os
238-251, os três princípios três procedimentos do panoptismo; P'
do sistema penitenciário; p.
condição penitenciária"; 274-275, as sete máximas universais da boa
p. 276, os quatro tempos do
60FOUCAULT, "sistema carcerário"; etc.
1975:no início da obra, existe
um caderno trinta ilustrações (gravuras
e fotografia*

160
dc VIInaficção
Introduzir alterida-
c01110algo de óbvio,
o espaço
conveliil)oranea é, cons-

e voluntarianlcnte colonizado
que obedecelii a regras opostas.
de pensar pode ter discurso próprio porque

Ideologiasdo Século das 1-uzes por urna liláquina panóptica, sua


subvertenossas concepções contennporâneas com as técnicas

Em prililexro nível, o texto teÓrico de Foucault está or-


ainda, por procedinxentos panópticos que ele elucida;

epistemologia
panÓptica triunfante. Assim,no livro de Foucault,
haveria tensào Interna entre sua tese histórica (o triunfo de um
sistema panÓptico) e sua própria maneira de escrever (a subversão
deum discurso panóptico). Em sua pretensão de desaparecer por
trásda erudição e de um conjunto de taxinomias que ela manipula
ativamente, a análise faz sonhar com um dançarino disfarçado em
bibliotecário.Assim, através do texto do historiador, perpassa um
risonietzschiano.
A guisa de conclusão, vou defender duas breves proposições
paraintroduzir a discussão:
objetos para uma teo-
I. Os procedimentos não se limitam a ser
de serem exteriores
11a'mas organizam sua própria construção. Longe
procedimentos
ateoria ou permanecerem no limlar, em Foucault os
para produzir a própria teoria; com
fornecem um campo de operações
construir uma teoria que
esteautor, encontra-se outra maneira de
e 0 gesto literário desses mesmos procedimentos.
PSCANÁilSE: ENTRECIÊNCIA E

2. Para clarear a relação da teoria, por um lado, com essespros


cessosque a produzejn e, por outro, conn aqueles que lhe servem
de objeto de estudo, 0 mais adaptado sena una discurso
que
relataunid história,1-oucault escreve que nada faz além de narrativas.
aos poucos, estas aparecern con10 una trabalho de deslocamento
relacionadoconl urna lógica noetonnnica.Já não sena o momento
de reconhecer a legitilnidade teÓrica da narrativa, considerando-a

tunda,a realizar),mas, de preferêncja, conno tilna forma necessária

indissociavelde qualquer teoria das práticas por ser, sllnultaneamente


sua condição prévia e sua produção.

162
História e estruturam

a é pertinente
torna-se o lugar de uni quando a prática
questionamento;caso
contrário,

Uma surpresa histórica:


a diferença do séculoXVII religioso
Votiapresentar o objeto da minha prática:a história
religiosa
doséculo XVII, deixando de lado algumas questões abordadasem
outrotexto (DE CERTEAU,ECH,"L'inversion du pensable.L'histoire
rellgieusedu XVII e si&cle", 1984a).
No decorrer desse trabalho, os cristãosdo séculoXVII des-
con10 se se tratasse de uma ilha que emerge do mar:
para mim , aparecia um território diferente.Uma
Inesperadannente,
Verdadeirasurpresa porque o destino do trabalho está,necessariamen-
te,associadoaos lugares de sua partida, assimcomo à personalidade
dopesquisador.Tal partida é determinada —vamos dizê-lo com toda
século
franqueza—por uma busca de identidade. Eu procuravano
que eu
XVIIalgo que, segundo minha presunção, seria idêntico ao
era,ou seja,
cristão do século XX.

textual deste capítulo,


neste livro,
40. structure", in Recherches et débats, 1970. cf.,

163
A questão
00 decorrer
grande de restos, fragmentos
Durante a primeira etapa, a pesquisaou
catador cientifica
quando, ao exumar da
mantimentos ou roupas, ele transforma lata de lixo
essascoisas, os de
ponta de seu gancho no sonho da dependura
a
chegará a entrar; ou no sonho de casaem que
refeiçõese de ele
ele nunca chegará a conhecer. Etnólogo intimidades
em
de rua [clochardlinventa mundos que nunca potência,0
chegaráa
ele se limita a fazer ressuscitar seu sonho. Originalmente,
riador serve-se do mesmo prxxedimento ao o histo_
abordaros resquícios
coletados nos arquivos ou documentos: ele reconstrói
um mundo
que nunca chegará a conhecer. Ele permanece o
mesmo:só
segue encontrar o outro (um passado) através de sua
imaginação; é
um erudito e ainda não um historiador. Eu passava,assim,
entreos
mortos, surrupiando-lhes palavras perdidas que eu era incapaz
de
pronunciar; finalmente, eu me repetia nos fragmentosda linguagem
desses mortos que, sem meu conhecimento, me diziamsuaausência.
A força de exanunar essasfolhas de papel enegrecidas por
uma poeira multicentenária; à força de fichar um vocabuláriode-
sarticulado;à força de ser um erudito-improvisador[bricoleurl
nas
regiões silenciosas de Arquivos Municipais ou Departamentais;à
força de habitar nas salas de consulta das Bibliotecas,grotasemque
se "conserva" e veicula os cadáveres de outrora; à força de ler,sem
nunca ser capaz de entendê-las, palavras que se referem a experiên-
cias, doutrinas ou situações estranhas —eu assistiaao afastamento
progressivo do mundo, cujos vestígios eram inventariadospor mim.
de
Ele me escapava ou, de preferência, eu começava a aperceber-me
que ele me escapava. Desse momento, escalonado incessantemente
é
no tempo, é que data o nascimento do historiador; essaausência
fora
que constitui o discurso histórico. A mortedo outro coloca-o
OU
historiografia,
de alcance e, por isso mesmo, define o estatuto da
seja,do textohistórico.
tenha
Não pelo fato de que esse mundo antigo e passado
mover;
esboçado qualquer movimento! Tal mundo deixou de se

164
Ele altera-se, con10 é evidente, porque
modifico

olhar a seu respeito. COIII Ilieu desejo, modifica-se o que


respeito. Então, sou atingido por um mal-estar:
sabiaa seu eu
que os cristãos de outrora —os "espirituais" do
haviaacreditado
XVII. os teÓlogos da época clássica, os membros da Compag-
113
s•eCl
os lillsslonarios que circulavam nas
Saint-S1üleynent,6- zonas
rurais
da França —todos eles eranx idênticossimplesmente porque
desvendar, e obter pela força, uma identidade sob a
euprocurava
aversidadedos tempos e lugares. Existia aí uma apologética in-
consciente e pessoal;eu visava reencontrar-me ou reencontrar-nos,
talcomo somos atualmente, nesse passado. Eis o que se designa, de
formaedificante, reconstruir a história. A "ressurreição" do passado
consisteem elaborá-lo de acordo com nosso desejo. Ora, tal ope-
raçãorevelava-seimpossível. De fato, esses cristãos do século XVII
para mim, estrangeiros: não graças ao que eu conhecia
tornarayn-se,
a seurespeito,mas ao que eu me apercebia de minha própria ig-
noránciae da sua reslstencla.
Sumidos nas prateleiras dos sebos, classificados nas florestas
metálicasdas Bibliotecas e dos Arquivos, esses espirituais torna-
vam-se,para num, "selvagens" no sentido em que Lévi-Strauss (1955,
p.225-277)fala de seus Bororos 63ou de outras populações. Os "entes
queridosjá falecidos maquilados, inicialmente, de acordo com
meusdesejosou que domesticamos em nossasvitrinas e por nossas
I

leituras,acabavampor me escapar.Tal operação me ensinava, e nos


ensma a nós, historiadores —que existe, oculto em tal passado, certa
struturaçàoque nos oferece resistência; e, por outro lado, oculto
em 'Ileuspreconceitos ou nas nossas Intenções presentes, um tipo

N.T.:Tendosido fundada, todo o mal


em 1627, com a missão de "fazer todo o betllpossívele afastar
possível" de um
a "Companhia do
Santo Sacramento" — cujo brasão é uma "hóstia sagrada dentro
sol" Inscreve-se
no movimento da Reforma Católica que emergiu da vontade reformadora do
Concíliode Trento a considerá-la como
(1545-1563); sua prática do "segredo"levou o poder régio
Instigadorada XIV,
subversão da ordem política, tendo como consequência sua dissolução por Luís
em 1666

Propósitode uma
das aldeias que foram Objeto de seu estudo em Mato Grosso.
No original,
disparus";cf. mais adiante, nota 72, p. 183.

165
estruturaçãoque determinaxao primerro olhar da
de formas do "oculto", emerge a
focalizadaneles. Nessas duas
em um discurso, em um tecido
deira história; ela vai articulá-los d
jatnais encerrado. Tal investigaçãode
Penélope,em um texto
surpresa de uma diferença recíproca
tipo particular desenvolve a
supremacia de um dos termos porque
que está tOrade questão a o
presente que se apresenta como
passadodepende do distintoe ele
resistência (dos documentos) que obriga
o relativizaenquanto 'urna
outro discurso. Esse passado que aparece,
o discurso a ser apenas ton
pro$ssivamente, organizado em Funçãode uma coerênciaoculta
(de uma morta, irredutivelmente ausente e diferente), desvelaà
historiografiaa situação panorânuca atual e particular que é, simul_
taneamente,pressupostae dissimulada por cada trabalho.

A estruturado passado histórico


Na experiência histórica ocorre algo de fascinante e, também,
de inquietador:homens do passado saem de sua noite, sem que
seja verdadeiramente possível designá-los. Com eles, esboça-se um
mundo. No entanto, trata-se de homens perigosos já que, entre eles
e nós, historiadores,produz-se uma falha que torna problemáticaa
evidência (postulada à partida) de uma homogeneidade necessáriaà
compreensão e, se me situo de um ponto de vista religioso, a de uma
catolicidadepossível.Esses homens opacos escondem-se à medida
que vou à sua procura; eles desestabilizam a convicção interna e
primeira que criava uma espécie de reflexo imediato, consistindoem
acreditarque o passadoé descontinuidade de superficie,respaldada
em uma continuidade de fundo.
Ou, dito por outras palavras, em vez de corresponder ao objetiw
fixadono começo de minha pesquisa, o passado é bem mais diferen-
te do que eu haviajulgado, ao empreender
a busca de estrangeiros
semelhantesa mim. Fico refém de palavras e documentos que um
procedimento "histórico" constituía como "passados" e que —ao
referir-se,aos poucos, a umas
e aos outros —conduzem-me a en-
frentaro quenão é mais.
"Faço história" no sentido em que nio so
produzo textos historiográficos, mas
à consciênciade tenho acesso, por meu trabalho'
que algo se passou,atualmente morto, inacessível

166
estrutura defende e exprlme esta
VIVO.
ela diz que algo diferente.aquisiçãoda expe-
enquanto No começo,
. cia à triagenl, "documentos" uma
(nas
olha de alguns dos elementos que estão Bibliotecas
envolvidosna
parte de sua atualidade; e seu
(C e
que há trabalhoconstitui
CIII
..pa.ado" na nnedida em passado exatamente no
sob diferentes formas, a resistência lugar
se encontra, do que já
A "estrutura" é um conceito-ferramenta que
esl<te.
resistêncla, a diferença
exprime,à
de urna que o trabalho histórico
aparecer entre um presente e "seu' passado.
0 trabalhohistórico, se é que ele tem uma significação,corres-
a "fazer aparecer "sortir"I a alteridade —como uma
ponde fábrica
'sort"l veículos a—e a produzir (no duplo
'faz aparecer sentido:
fabricar e mostrar) essa diferença constitutiva da história e constitu-
pelahistoriografia; por conseguinte, corresponde a relativizar o
em relação a um passado, por sua vez pensável na medida
presente
emqueele organiza uma ausencia. No entanto, o essencial é, aqui,
entre estes dois pontos: a ausência é, para o discurso
aarticulação
a condição de possibilidade que ele desvela ao desdobrar-se;
histórico,
é a ferramenta conceitual que permite "compreender"
ea"estrutura"
emamfestaressa ausencla.

A estruturado presente historiográfico


Qualquerhistoriador é, no começo, delegado por uma socie-
dade
parareabsorver essa diferença do passado. A semelhança do
etnólogo,
ele recebe a incumbência de uma sociedade para diminuir
Ouobliterara ameaça representada por algo diferente, seja próximo
OUpassado.Entretanto, como vlmos, precisamente por uma revira-
volta
quese deve
ao rigor científico e, também, ao desejo investido
emsuapesquisa,
ele mantém e, inclusive, agrava o questionamento
Impostopor esse passado ao presente; nesse aspecto, ele suscita a
fixa limites e contesta as certezas de uma sociedade.
o entanto,
ele uma função social,um papel
Próprio não deixa de exercer
naedificação de uma linguagem social.
(a retomar sem tréguas)
H RIA

uma descontinuidade, ele tem, ao


Paradoxalmente, ao desvelar
objetivo de dizê-la, relatá-la, analisá-la, explicá-la
mo tempo, 0 no texto homogéneo de uma cultura presente e
portanto,introduzi-laliteratura, com os instrumentos intelectuaisda
de urna
no interior a narrativa historiográfica. Trabalho curioso.
se situa
época em que
negar, pela obra realizada, a ruptura que ele faz aparecer
ele parece
mesmo ocorre com o etnólogo porque ele recupera, na rede
O
de uma sociedade,o que ela via surgir como o estranho
científica "pensamento" organizado segundouma
outro: ao tornar-se
ou o
aos sistemas próprios ao grupo no seio do
ordem que se coordena
havia formado, o "selvagem" é compreendidoe
qualo etnólogo se
qualidade de outro modelo cultural,na
retomado,nem que seja na
inicialmente, havia escapado.
rede da cultura à qual,
Voltemosao problema: o que é compreender o passado?Vimos
de um método, além de estar associado
que o passadoera o produto
diferença; ocorre que ele tem de
à descobertaprogressivade uma
ser pensado e que existem, também nesse aspecto, condições de
possibilidade.Somos capazes de nos representar a alteridade apenas
com referênciaao que constitui nosso presente. Ora, o fascínioou
a resistênciaprovocada por um alhures ou um passado suscitaa
consciênciasocialde existir como um lugar próprio, enquanto uma
coerência.A partir do século XVI, a circulação e as comunicações
acelerarambastante,cre10 eu, o procedimento que define, como
um "todo", a unidade (nacional, política, cultural), ameaçadaou
comprometidapor outros; e essa definição do presente ou do grupo
por fronteiras,ou seja, como uma totalidade interior e diferente das
outras,tornou-se, precisamente, o meio de pensar os outros. O que
começavaa caracterizaro grupo confrontado com outros fornece,
daí em diante,o modelo a partir do qual se compreende os outros.
Neste aspecto,a ideia de estruturações
particulares em cada cultura
ou em cada tempo é,
simultaneamente, o efeito do encontro e 0
instrumento graçasao qual cada grupo situa os outros em relaçãoa
Por outraspalavras,a
ideia de totalidade e as combinatórias
estruturalistas
que a exprimem, do ponto
de vista científico,são
oriundas—
contrariamente ao que poderíamos encontros
que impediam julgar —de
a qualquer sociedade
de se considerar como o todo

168
corn o fim do isolacioms1110
que defendia,
a certeza, para cada enquanto
tácita, civilização, de ser o
centro. todo ou, 0
de ser o Ela está
é equivalente, associadaà experlêncla
certamente, relevante que sua
liniltes;e e, elaboração inicial te-
da análise das línguas, com
ocorridono terreno Saussure,ou da
com Lévi-Strauss.Aqui, portanto, uma nova
etnologia,
determina a compreensão do passado. estruturação
dopresente
A história e SI.Jascondições de possibilidade
(Da cronologia à "estrutura")

Desseproblema que se traduz, atualmente, em termos de estru-


slncrômcas, é possível desvendar outras formas, anteriores,
turaçôes
comoocorre no final do século XVI e no início do século XVII.
Desse modo,a irrupção do Novo Mundo suscitouum problema
fundamental para o Ocidente porque ela quebrava uma segurança
e a homogeneidade com um passado. Sob a forma de civilizações
quenão se referiam absolutamente ao cristianismo,de costumes
semqualquer equivalente na tradição europeia, de topografias de
Intelras e de mares sem qualquer correspondêncianas geo-
regiões
recebidas da Antiguidade, ou sob a forma de seres estranhos
grafias
encontrados na América do Norte ou do Sul e tão pouco confor-
mesaos critérios herdados da Antiguidade que havia a hesitação
dequalificá-loscomo homens ou macacos, o problema enfrentado
podiatraduzir-se desta maneira: como compreender essarealidade
surpreendenteque fazia irrupção já não (como na nossaexperiência
dehistoriadores) sob a modalidade de um passado outro, mas sob
0modode um presente outro? De fato, a alteraçãoproduzidano
pela emergência de um novo mundo tumultuava,também,
Presente
atradição,além de rejeitar uma parcela dessatradição que se tornara
uma
umpassado.A aparição do estrangeiro americano produzia
do "conhecido"
na tradição e transformava regiões inteiras
clivagem
estrangeiras.
naquilo "que deixou de ser", em regiões
o homogêneo, graças
Um trabalho que tendia a restaurar (estruturou-se)
ao discurso de uma compreensão, organizou-se se operou
aliás,ele
função dessa ameaça de dissuasãointerna;

169
LHISTÓRIAE PSICANÁLISE:ENTRE CIÊNCIA E FICÇÃO

segundo diversas modalidades. Por exemplo, para


unidade de sentido e a continuidade cristãs, houve salvaguarda
o
de mostrar que a verdade revelada estavaoculta nessas empenho
civili
alheiasao cristiamsmo: a ideia de um implícitocristão,suba
explícito pagão, fornece uma ferramenta bem apropriadaJacenteao
ter a continuidade ameaçada pelas diferenças.Mas a para
desempenhou, também, um papel decisivo nesta
"reconquista"65
intelectual.Vou mencionar apenas um caso que se situa,
tamb-
no setor religioso: a cronologia.
Para superar a distância que
se criava
entre o universo americano ou chinês e o mundo ocidental
fo
ram recuadas,a períodos mals antigos, as datas dos livros
ou fatos
do Antigo Testamento suscetíveisde oferecerem pontos
iniciais
comuns a filiações diferentes; deste modo, as religiões pagãsou
a
sabedoria chinesa podiam ser "compreendidas", no século XVII
como associadasa Moisés ou ao Livro de Jó. Além de reconstruir
uma apologética religiosa, pretendia-se, sobretudo, também nesse
aspecto,fornecer referências umtárias a uma compreensãoparticular
(a de pensadores franceses cristãos do século XVII). Tratava-sede
garantir as condições de possibilidade a um discurso, de estabelecer
uma escalacomum em função da qual situar, uns em relaçãoaos
outros,os fatos do Novo Mundo e os da antiguidade medieval.No
entanto, quaisquer que tenham sido os procedimentos sutis e as má-
gicasequilibristasadotadas por essaremissão a uma origem comum,
a cronologia constituía um dos recursos disponíveis nessa época
para asseguraro que Foucault designa por uma "mesa comum"
(1966a,p. 10-15) um lugar homogêneo que permite, simulta-
neamente (afinal de contas, é a mesma coisa), uma compreensão dos
"selvagens"ou um discurso a seu respeito. Não será surpreendente
que ela tenha ocupado um espaço tão grande
na organizaçãoda
históriaou da filosofia do século XVII;
de acordo com o modelo
de um ancoradouro Inicial,
estava em questão, para esses franceses
do séculomencionado, a
possibilidade de pensar o heterogêneo, ou
seja,a possibilidade de
pensar.

N.T.: No original.
NT: No original,
"table"que significa,
também, "tábua", "tabela",

170
ESVRUIURA

del.xatnos de dispor desse recurso


outra torrna cronológico, as-
de qualquer de referênciaa partir do
a lustorla faz-nos chegar ao passado;
contrario. estranho. O
origens. "selvagem"
nossas
verdadeirahistoriografia não é, aliás,a unica a
indicar essa
.uneaçadora; esse e tanlbélll o modo de fazer da
psicanálise,
adote outros procedilnentos (DE CERTEAU, ECH, "Ce que
Une névrose démoniaque au
Freudt-aitde Vhistoire. XV Ile siêcle",
Assilll.teríeunos urna "111esacomunf' de um tipo completa-
diferente.Creio que, por razões ilnpossíveisde desenvolver
Ilic'llte
operatorio de "estrutura" desempenha,
aqui.o conceito atualnnente,
papelindispensável,abrindo e autorizando uma explicação,
"modelo" científico: aquilo enl função do qual, hoje em dia,
torna-sepossíveluma ciencia das diferenças históricas ou etnológicas.
Ou.ditopor outras palavras, a descontinuidade —bem longe de ser
o mpensável—converte-se no meio de instaurar unidades (épocas,
etc.) em que se encontrauma ou outra forma de estruturação:
uiveis,
o que será dito da linguagem tanto do inconsciente quanto da
época clássica.
Desseponto de whsta,os métodos "estruturalistas" prestam-nos
o serviçode conferir um estatuto científico e um rigor ao que veio
ser,paranós, uma condição de possibilidade para o pensamento ou
parao discurso;eles não resolvem o problema aberto por essa"con-
diçãode possibilidade", por essa necessidade de estabelecer o marco
zeroparainaugurar uma série e por essa articulação de qualquer
discursocom um desfecho que o torne possível.As investigações
explicitam esse problema ao exumarem das práticas
estruturalistas"
o que lhes permite funcionar e, portanto, ao "isolarem
científicas
aquilograçasao qual, entre outros aspectos, a historiografiapode
serumdiscursosobre um passado heterogêneo.
Talvez,no futuro, essa forma presente, estrutural, oferecida à
havia
Possibilidadede pensar, venha a aparecer tão frágil quanto
Sidoo recurso a um ponto de partida
da historiografia "clássica"
e a uma cronologia que tinham permitido constituir,em
Original
urnasérie,as civilizações.
relações do Ocidente cristão com outras

171
De qualquer maneira, subsiste 0 problema suscitado,
aqui e lá,
mental
também, um álibi) considerar —como uma coisaa mais, (sem dúvida
uma realidad
da história o que é, na perspectiva "estruturalista", a tablatura
das
Conviria, também, ser dito que a relação —história
e
interveio ainda em outros níveis e que a historiografia, emestrutura
foi o modo a partir do qual uma identidade particular
culturalse
tanto ao reutilizar o material de documentário, acumuladoconstituiu
por
tros, sobre seu próprio passado, quanto ao estruturar diferentemente
os fragmentos extraídos de narrativas produzidas pelo estrangeiro
(como se constata, atualmente, na historiografia negra, cubanaou
argelina). Para terminar, voltarei, de preferência, aos "espirituais"da
época clássica,selvagens do século XVII, limitando-me a dizerque
sua ausência,talvez, me ensinou a tornar-me um historiador,que o es-
tudo desse tema obriga a avaliar, no desenvolvimento de uma prática
científica,a aventura e os riscos implicados pela ingênua ambição
de "compreender" e que, por último, a modalidade "estruturalista"
dessa compreensão abre, sob uma forma particular (presente),o
problema constante da relação entre uma inteligibilidade e o quea
torna possível."História e estrutura": este título questiona a relação
de qualquer discurso historiográfico com seus condiçõesde pos-
sibilidadeou, de forma mais ampla, a relação de qualquerciência
com seus postulados epistemológicos.

[Esclarecimentos complementares após


as palestras dos outros dois historiadores]
Atualmente, qualquer história é social. Compreender as con-
dições de vida no século XVII (por exemplo, uma associação de
homens da Compagniedu Saint-Sacrement) é estabelecer sua relação
com a organização global da sociedade. Finalmente, é pensável
apenaso que se refere a essa"razão" que é a organizaçãode uma
sociedade.Somos incapazes de fazer história sem explicarum fe-
nÔmenoqualquer de um período em função do todo (aliás,devo
reconhecer, enigmático) que é a sociedade de determinada época'
Os fenómenos religiosos têm uma inteligibilidade na medida em que

172
| global, A Inanclra
os homens
XVII pcljsavalJ1as cl)trc a religião
Jijvcrsa, O recurso e a socieda-
CA atajncntc, á providência, a Deus,
(ItJal)dosc tratava dc crentes, pernutla-lhes pelo
compreender o
passavaTal cxphcaçào da socjcdade por referências
rehgosas
tornou-se,para nós, nnpcnsávcl; independentemente das
opções
cla dclxotl dc scr s'científica" O que explica e
o que deve
ocupanj poswoes Inverqas.
screxplicado
Aindarcqtasaber o que, atualrnente, nos permite
compreender.
o exemplo da feitiçaria: Lucien Febvre diz-nos
que, final-
mente,as fcltlcelra« e os feiticeiros manifestam-nos,
também, algo
dohomemdo século XVII, mas acrescenta ele no homem,
apenaqno que é humano". Esta fórmula, inspirada
acredito em
Cyranode Bergerac, supõe que Lucien Febvre sabe, por sua
vez,
o quedo homem é crível ou o que é humano; ou, dito por outras
ele dispõe de uma grade filosófica, de uma concepção
palavras, do
homemque lhe permite escolher, nas narrativas do século XVII,
o
queé "humano" ou não, o que é crível ou não. Pessoalmente,creio
queessetipo de divisão é problemático: nos é proibido, sem deixar
deserinevitável.Trata-se de um postulado que adotamos, uma po-
Slção
que assumimos em relação a todo esse passado,para sermos
capazesde pensá-lo.

Não se pode fazer referêncla a uma "simpatia"como àquilo


quefossea garantia de apreendermos um objeto do passado. Subsiste
a questãode saber o que significa "compreender o passado".E ela
formula-se,
atualmente, sob outro tipo de racionalidade, ou de discur-
Sividade,
que consiste em transformar espaços que separam e consti-
tilemdiscursos
diferentes em um modo presente de inteligibilidade.
Minhasegunda observação diz respeito ao uso da psicanálise
oudo"intemporal"
que, segundo se presume, seria sob a história
uminconsciente
restaurador de continuidade. Em primeiro lugar,
0 Inconsciente
teria existido desde sempre? Estará alhures, em vez
denolugar
onde foi depositado em uma Invenção do final do sé-
culoXIX?
Um problema fundamental, atualmente, até mesmo no
amagoda
psicanálise,consiste em saber se é possível transferir, para

173
HISTORIA E p I

ao freudismo, certo nÚmero de conceitos que


períodos anteriores
havia exumado da linguagem dos clientes, assim como da
Freud o meio burguês de Viena, em suma
Freud) conl
relação destes (e de
sociedade enn que ele vivia e em que ainda vivemos
cona o tipo de
"inconsciente" será generalizável? Pode-se, por conseguinte
Esse
que o inconsciente existiu desde sempre? Tal afirmação
postular
a aventar uma hipótese que deve ser verificada e que não
equivale
considerar como uma explicação, como urna
se pode absolutamente
todos os tempos.
espéciede verdade aplicável a
Aliás,certo nÚmero de trabalhos, na área tanto da etnologia
dos conceitos psicanalíticos
quanto da história, mostra que o uso
torna-se Vilnaespécie de retÓr1ca:é "uma maneira de falar". O re-
curso à morte do pai ou ao Inconsclente acomoda-se bem a todasas
situações. Esses conceitos freudianos eram, supostamente, utilizá-
veis para todos os fins; e não é dificil, nesse caso, injetá-los nas regiões
obscurasda história. Infelizmente, trata-se de conceitos vaziospelo
fato de que, precisamente, seu úmco objeto consiste em designarou
cobrir pudicamente as regiões da história ainda incompreensíveis;eles
circunscrevem o inexplicado, sem conseguirem explicá-lo; confessam
sua ignorância.Eles têm sido evocados no momento em que uma
explicaçãode cunho econômlco ou sociológico deixa uma lacuna;
no entanto, é impossível considerar tal uso como uma explicaçãoou
acreditarque tal procedimento tenha algo a ver com a psicanálise.
A concepção de Freud a respeito da história não consiste,de
modo algum, em dizer: "Existe algo de permanente." Ele afirma
que um tipo irredutível de tensão organiza a formação de qualquer
discurso.O permanente, para Freud, é a relaçãoentre uma genética
das tensões e os discursos que as "atraiçoam', ao ocultá-las. Não se
trata, absolutamente, de "coisas" que estariam aí, por baixo, como se
fossemdados constantes e subterrâneos. O que está oculto (o que
se escondee o que é recalcado) é a tensão em função da qualse
organizaqualquer discurso ou qualquer sociedade.
E evidente que a psicanálise é utilizada para reconstitulruma
continuidade "intemporal" sob a variabilidade dos sistemas temporais;
no entanto, tal utilização
é ilegítima. Ela perverte a psicanálise,Pos-
so apresentarcomo um aliás,
bom exemplo dessa postura o que

174
o de W. E. Muhhnann
sobre os
dli (1968): enl uma ' 'região Messianislllcs
, superior", ele
as carnadassoclals superiores, a atitude racional
e a história

CERTEAU, 1969c].Excelente caso de "colagem"


[PE
e entre categorias
sociológicas,psicológicas históricas! Eis o que permite
do lado, a uni só tempo, dos párias, classificaro
n1 essiamsmo do afetivo profundo
doarca1CO.No entanto, consequência dessa estranha
aliança,o "mes-
torna-se
sialllsmo" um rótulo geral, atribuível a qualquer
tudo, esse instrumento fenÔmeno;
para
,'alido intelectual perde sua utilidade.
Temoque, atualmente, essa utilização retÓrica da
psicanálise venha a
dissemmar-se.
A psicanáliseé, em primeiro lugar, heurística: trata-se
de uma
Interpretaçãoque faz emergir novos problemas em
todoo campo
dalinguagem,segundo um modo que lhe é próprio e, aliás,
começa
ornegar tanto a distinção entre normal e anormal quanto a
divi-
sãoentreindividual e coletivo. Não se pode, portanto,
destinar-lhe
omotarefae como lugar o que, por incapacidade,não é
explicado
oroutrostipos de Interpretação —a saber: o econÔnuco e
o sociológico
-, como se esse resto das outras explicações fixasse à
psicanálise sua
posiçãona historiografia. Ao ser utilizada dessa maneira, a
psicanálise
transformada simplesmente em um tapa-buraco; ora, ela tem algo a
ner a respeito da história. No entanto, ela procede como
os outros
tiposde discurso,na medida em que ela tem sua particularidade,
onstltuiobjetospróprios por um tipo de recorte que a especifica
deixa,também, um resto. Impossível, portanto, recorrermos à
sua
Interpretação
simplesmente quando nos deparamos com a demo-
Àologia
do século XVII ou a loucura do nazismo!

[Umouvinte pergunta se sua concepção


de histórianão é demasiado eurocêntrica]
De fato,estarei
de acordo com você para reconhecer como
roblemática
nossa definição da história e, também, para afirmar que
aseencontra
os na origem do que tem sido designado pela expressão
povossem
história", como se, sem nossotipo de história, um

175
povo destituído de história. Limitar-me-ei a
apresentar
observaçÔesrelativas ao lugar dessa definição e ao papel da h. duas
Antes de Inals nada, a história tem sido associada Istória
, por
civilizaçãoocidental como uma de suas formas essenciais nós
é norlnal. No entanto, de acordo com esse modelo, julgou-seque
outros povos eram, ou não, dotados de história; temos que
portanto
a obrigação de retomar tal proposição. Por exemplo,a etnologia
Inostra-nos que, entre os índios, o tipo de relação com o passado
nosso; o mesmo pode é
completamente diferente do ser dito a respeito
da relação que a China estabelece com seu passado.Devemos,por_
tanto, localizar, relativizar, finalmente, "historicizar" nossa concepção
da histórla,pelo fato de que se constituem ou aparecem,atualmente
outrasconcepções culturais sobre a relação com o tempo.
Mas qual será a relação da história com uma sociedade? Parece-me
que a história desempenha o papel de ser uma das maneirasde de-
finir um novo presente. Por um lado, ela permite que um Presente
se manifeste como diferentedo que, até então, lhe era Imanentesob
na própria lingua-
a forma da tradição; ela executa tal procedimento
termo)
gem da tradição, mas "tratando-a" (no sentido industrial do
"continuum"cultural entre
como passado.Digamos que distribuir um
simultaneamente,
um presente e um passado é um ato que constitui,
dissuasão;ele opera
um presente e sua história. Trata-se de um ato de
elementossão
uma escolhano presente em que certo número de
lado,esse
considerados,daí em diante, como "passados". Por outro
e, portanto,
ato consisteem situar-se em relação a origens "históricas"
organizada em
em adotar um passado proprio e uma identidade cultural
efetuaum
função de uma decisão atual, seja política ou social. Ele
singularidade: nacional (a história de Cuba,
novo recorte. Ele cria uma
(a história do movimento operário, etc.).
dos Camarões, etc.) ou social
Ela dá sua
A historiografia enuncia e desenvolve uma decisão.
um ato
linguagema um "nós" que a torna possível; ela se refere a
analisar
criador de história (no duplo sentido do termo). E possível
esseprocesso sob duas formas: na história de nossa historiografia
ocidental;nas historiografias que vão surgindo, tais como a magre-
no
bina, a cubana, etc. No segundo caso, o fenômeno é mais visível;

176
. KIA

por Pierre Goubert,


no Início de
attcien recinte" seu livro
apareceu com (1969
considerar o século XVIII a Revolução
como um
Régime"
do e 0 corte
efetuado
entre"a história
conternporanea' e a ' 'a história IA10derna"
estão
eles o supõelll e explicitam. associadosa um ato
revoluci011ar10:
No entanto,para
enunciável.esse novo presente deveria ser
identificar-se
em relação ao
queo precedia;tal é o objeto do discurso
histórico.
Atualtnente, a Inesma coisa produz-se
com a aparição do
discursohistórico cubano, na medida em que
certo número de
elementos a—por exemplo, a escravidão dos
negros, durante a época
de donunaçio espanhola — torna-se,simultaneamente,
o passado e o
por um lado, o que deixa de ser adillissível,
mesmo que ainda
testemunhas dessa época; e, por outro, o conteÚdo
do que deveser
faladona qualidade de um passado por fazer parte, mesmo assim,daquilo
que é testemunhado pelo presente.A história situa-se nessa articulação:
por um lado, ela ocupa-se de um presente que pretende ser diferente;ela
corfrma uma Inovação fundadora, um novo começo. Por outro, em um
&curso, ela exprime a necessidade de situar-se em relação ao que, no
presente, ainda dá testemunho de algo mals antigo, rebelde e resistente
ao presente. De qualquer maneira, nunca é possível desvencilhar-se de
uma arqueologia, mas reservar-lhe um lugar nesse discurso histórico
é permitir ao presente compreender-se a si mesmo como diferente
e,no entanto, como situado em uma continuidade.
Esse procedimento explica, penso eu, os deslocamentosda
historiografia segundo o ritmo das revoluções ou mudançasda so-
ciedade.Eis o que nos leva, também, a considerar atualmente que
0 discurso histórico é, talvez, mais importante na medida em que
modo
suasorganizações sucessivas nos fornecem a efetividade(sob o
da linguagem) das "coisas" que se passam.
de que
1968, suscitouuma
[Ao mencionar o exemplo de Maio
pergunta como
releitura da história da Revolução Francesa, um ouvinte
faz a história.]
a expenência presente afeta a maneira como o historiador
maneira de compreendera
Revolução Francesa modificou a de modo algum,o
história, ou seja, penso que a historiografia não é,

177
que vem do passado até nós, mas o que parte de nós e tende a
fornecer
certo tipo de inteligibilidade do que recebemos ou estabelecemos
corno
passado.Nesta perspectiva, o acontecimento éjustamente o que
dizer, também, Inversamente, que modif
a história. Pode-se um fato
tornasse
um acontecimento, e só pode ser qualificado como tal, por
causa
modificaçõesque ele introduz na historiografia. Não sabemos das
o
é um acontecimento. No entanto, para formar um Julgamentoa seu
respeito,um dos critérios tem a ver com as mudanças
que ele provoca; ou, dito por outras palavras,somente o uso quese
faz
do acontecimento é que permite qualificá-lo como acontecimento.
Deste ponto de vista, Maio de 1968 torna-seum acontecimentona
medida em que essaprimavera desloca nossa Inteligência do que a tinha
precedido e, por exemplo, das revoluções francesas.67
Eis, igualmente, uma forma de dizer que, se deixamosde ser
capazesde "pensar" verdadeiramente em termos de causalidade
não conseguimos também evitar o problema suscitado,OUtrora,
no sistema intelectual ontologista, cuja referência era a noçãode
causalidade". A relação das historiografias entre si, sua relaçãocom
o que as desloca, a relação dos discursos ou das narrativas com seu
conteúdo, culminam igualmente no enigma do real.
Outrora, o conceito de causalidade podia fornecer um respal-
do ontológico ao discurso historiográfico; atualmente, atravésdo
que afirmamos até aqui a respeito da história, talvez sejapossível
aprofundar a via aberta por Dilthey: ele situava o real do ladode
uma resistência encontrada pela investigação.A questão aparecia,para
alguns, sob a forma da facticidade: a razão, os discursos,as coerên-
cias socials, etc. continuam sendo um fato. Talvez, também, deveria
proceder-se a uma pesquisa, ainda mais aprofundada, das"condições
de possibilidade"de qualquer história, considerando que o realé 0
irracionalizável que permite cada racionalização, em suma, o ausente
que torna possível a história e lhe escapa. Como a história não cessa
de falar da morte, ao combatê-la em nome de novas ressurgências
sociais,ela não deixaria de falar do real que, por definição,lhe faz
falta.Mas, não será esse o estatuto de qualquer linguagem?

67[Sobre
sua análise de Maio de 1968,
ver DE CERTEAU,
PPP, 1994, p. 29-129.]

178
O ausente da história68

reunidossob o celofane de um livro-objeto, é mais fácil,para


r
sido o instruinento no campo de uma atividade particular,
Em sua qualidade de ferramenta é que uma [reflexão]
histÓria.
pode ser retomada.

A resenha crítica,69prática da separação


[Algunsdos] estudos precedentes situam-se em um entremeio
Essa região do yneta.vu,ou do intervalo, é preenchida por
entre-deu.vl.
agensque lhe são próprias: à semelhança da fronteira em que se
assavaa representação de Carlitos em The Pilgrinl,70ela pode ser
somenteo meio de evitar os guardiães de cada "disciplina",assim
omoqualquer confronto mais grave. Neste caso,no máximo, poderia
orreruma subversão fugitiva e atópica; entretanto, na realidade,
ata-sede algo diferente. O entremeio é o espaço criado por uma

artigos,em que
de ISh1st01re".Conclusão redigida, com título diferente, para a coletánea de
Sidopublicado o cap.V (ABH, 1973). capítulo, p. 40-41.
Cf., neste IMO, história textual deste
Xo original, compte tradução, o termo "resenha
rendu, literalmente: prestação de contas. Nesta
corresponde sempre a essa expressão francesa.
•Lançado no este filme mudo
Brasil com o título Pastor de almas —e, em Portugal, O peregrino—,
I '923,do género por Charles Chaplin:
umforagido comédia, foi escrito, produzido, dirigido e protagonizado cidade,
livra-se do uniforme de preso e se disfarça de padre; refugiado em uma pequena
chegoua convencer
os habitantes, durante algum tempo, de sua função.

179
prática da separação; ele corresponde a um trânsito, passagem
de
O cojnentário deixou de ter a função de exumar o
texto,
coisa de que ele fala, ujna verdade que seria seu "fundo", Ele ou a
de envolver conl véus respeitosos, ou com anotações deixou
de unia "obra" nobre ou dogmáticas
o naármore de uma realidade

-se mutuanaente.Por uma relação do escrito ao que ele


permiteler
e dessaleitura ao que ela permite escrever,uma prática
desenvolve
possibilidadesde produção, Ela visa fazer algo diferente com
o texto
que a torna possível.Uma atividade tecnicista introduz o livroem
uma rede de operações controláveis das quais ele é, simultaneamente
a origem e o objeto. Ela modifica, igualmente, a posição do leitor:
em vez dos conhecimentos ou das ideias se empilharem em um
lugar de onde o saber,supostamente, viesse a exprimir-se sempre,a
própria enunciação deixa-se alterar de maneira a modificar o saber
e o lugar em que ele se manifesta.
Tendo a história como objeto, tais operações participam,assim,
da história. Na historiografia, elas inscrevem um trabalho da história.
Certamente, elas continuam sendo literárias; mas já tumultuama
imutabilidadede um lugar em que o conhecimento tivessea pre-
tensão de se acumular sem trocar de locutor, nem de gestor.Ainda
discretamente, elas questionam o critério da competêncla —a do
"bom" autor, ou a do leitor, seu juiz para substituí-lo pelo fato
de uma alteraçãomútua efetuada, objetivamente, por uma operação.
No único nível do que se designa por "resenha crítica" (uma
palavra sob a qual está subentendida a ideologia de uma atividade
justiceira e justificadora, baseada no preconceito de uma realidade
atribuída à competência), essa alteração
recíproca será, sem dúvida,
a marca mais discutida, além de
ser a mais pertinente de um deslo-
camentooperatório,Ela indica um
trabalho indefinido dos textos,uns
sobre os outros, trabalho
mediatizado pelos sucessivos deslocamentos
dessaoperação. Ela deixou
de visar o desvelamento de "ideias"ou
"fatos" de que os livros
e os documentos seriam os sinais.Por essas
operações infindáveis e
sem teleologia (nunca suscetíveis de serem

180
de particular),
na 111<t01-togvatra. trabalho da
tg:
precedentes Rio [as vezes]
resenhas críticas".
e Inscrita, portanto, enl cada
da
um deles,nem
pelo tvspaldo citação e das referências.No
sentido (conxo dltvçào) pernlltir um entanto, ela
"trabalho sobre os
dl<tanclarnento efetua-se enl relação
a essasobras,
.,steflnando-as enl pte-textos.A escrita que se engendra sobre
ladosacaba pov desloca-los, e Ilie leva em direçào
de algo que,

pelo próprio fato dessa escrita secundária (a resenha crítica),


à pvunerva,Sinalda relação que o texto inicial estabelece

articula-sea partir do que ele não diz: suas condições de possibi-


as exclusões postuladas pelo rigor, a própria realidade da
qualele tonia o lugar ao levá-la a representar como seu referente,
eurrodo texto.

Uma heterologia?
Alélll dessa prática textual, emerge outra questão relativa,es-
ecialmente, ao discurso historiográfico.
A partir de modos —cuja enumeração não tem lugar,nem in-
aqui —,a hlstórla implica uma relação com o outroenquanto
estáausente,embora um ausente particular, aquele que "já era" ["a
como diz a linguagem popular. Qual é, portanto, o estatuto
essediscursoque se constitui ao falar de seu outro? Como funciona
heterologia
que é a história, logosdo outro?
Em vez de tratar, aqui, de uma questão que será desenvolvida
consiste
Outrolivro (CEDE CERTEAU, EH, 1984), meu intuito

de
EH 1984 (cap.1:"Faire
do trabalho historiográfico, ver DE CERTEAU,

181
em delxá-la aparecer e mostrar como ela emerge na
narrativa,

Consideradocomo termo de comparação,o


discursofilosó
fico postulou, durante muito tempo, uma exclusão:
ele
rigor ao adotar algo de insuperável.Um pensamento baseava
discursividadeao estabelecer sua própria contradição à
aparência: uma extraterritorialidade é sua condição de
Segundo os casos, é o gênio malvado, Deus, a loucura,
a violência.
O discursohenológico (do grego henos,"um") organiza-se
a partir
de um limite que constitui —como paratexto [hors-textel
irredutível alteridade. uma
O discurso histórico moderno, assim como o discurso
etnoló-
gico, parece partir de um postulado inverso: ele transforma a
própria
diferença em seu objeto.A partida, existe recebido como um
dado
—o corte pelo qual uma sociedade define-se ao distinguir-sede
seu
outro, o passado. E a historiografia é incumbida da tarefade inves-
tigar regiões exteriores à circunscrição de um presente;ao tomaro
encargo desses "hóspedes estrangeiros (fremden Gáste), ela pretende
colocá-los em ordem e homenageá-los" (NIETZSCHE, 1964,p.252-
254).Entretanto, nesse avanço em direção ao "outro país"—ou na
fabricação da escrita que ela consagra, à semelhança de um cemitério,
aos defuntos —como será o procedimento efetivo da historiografia?
De fato, a missão social que lhe é confiada pelo além (peloaquém)
do presente tem, precisamente, o objetivo de levar o outro parao
campo de uma compreensão presente e, por conseguinte, de elimi-
nar a alteridade que parecia ser o postulado do empreendimento.
O outro não seria a condição de possibilidade, mantida externa,do
discursofilosófico, mas seria, modificado em objeto, o elementoque
o discurso histórico transforma em significantes e reduz a algode
inteligívelpara suprimir seu perigo.
História hipócrita? O passado ser-lhe-ia fornecido paraque,
no lugar de seu ressurgimento, ela o absorva indefinidamentepor
novas"compreensões"? As
coisas não são assim tão simplesporque
a alteridade fica A
marcada, inclusive no trabalho que a reabsorve,
tal paradoxo pode ser apreendido em doisnívelS•
título de exemplo,

182
clenWlltos depositados (le
Ieli(llilaç'
) ; ele

alteraçóes, e por CIC.Ia ii


vez de
trabalho consiste eni criar a

regrasadequadas a operaçóe« e a códigos de


leitura;ou, dito
outraspala\Tas, conn elenlentos que lhe seiofornc€ldcn
'passados Inas de fornia desconexa —,ele efetua t'pre-paraçáo
sentidoquínuco do ternoo). Os significantes
na cul-
e qualificadospor ela conno "antigos" são recortados
segundo
dispostos de acordo conl Vilnaordenj,
pertlllénclas, transformados
objetosabordáveis. Nesse aspecto, a alteridade recebida como

a tornaassinulável, "compreensível".
Fato curioso: esse passado que se tornou convemente tas
comoOK"entes queridos" 72 do britânico Evelyn Waugh —é, no
entanto,restituído à sua definição primeira pelas narrativashisto-
riográficas.
Não é necessário que a ciência histórica abandoneo
campoem que ela havia sido posicionada imcialmente:ela deve
permanecer na região cultural do passado.Não é necessánoque
elatorne inteligível deynaiso que lhe foi confiado corno estranho.
Assim,a escrita historiográfica estaria elaborando, continuamente.

umlado,ela mantém certa distância pela encenação de titriantes


em relação à econolllia de produção que organiza
(históricaq)
nossosbens e diferenças;
nossas representações. Variantes, e não
mantidas E. por
nnarginais,conl a condição de sereni assilllilavei<.
outrolado,o da alteridade
discurso hiqtórico Ilitlltiplica aq
do
o original, csa Ia
'lhe , referencia ao título ela de
one (1948)de ()
Globo, E. (1 )3-1966).No
pelo uso sistemático da datação,
nomes próprios,
secundarios, "reproduções", gráficos, citações,
etc. Observa-se
toda parte, um
verossímildo outro; ele tende
a satisfazer
firmado com 0 leitor. Ao pedido de um
um públicoque
exótico, mas confirmado e garantido desejaai
por competências,
essa retÓrica que mantém literariamente respond
uma diferença
conseguido,de um ponto de vista prático e depoisde ter
racional,
neutralizá-la
2. Não seria possível tirar daí a conclusão
de que a
esteja ocupada a criar Clubs Mediterranée para essa historiografia
parcela do público
que compra livros. No plano de seu estatutosocial,
o historiador
manece ambivalente: por um lado, ele exerce a função
de "explicar"
a estranheza, sem suprimi-la completamente. Nesse
espaço,eledeve
restaurar a similitude exatamente no lugar em que foi
posicionada
a dessemelhança: ele instala-se aí como pedagogo. Desselugar,
aos
que não sabem (salvo o perigo de uma diferença),ele falacomo
homem que sabe. Não que ele pretenda fornecer, sob a formade
"lições", a conduta presente dos negócios;73 de preferência, ele exerce
as práticas da inteligibilidade contemporânea —neste aspecto,eleé
mestre" na ordem do saber presente—,mas vai exercê-lasna zona
indecisa que constitui o ponto de fuga de uma sociedade,ou seja,o
passado.Ele serve-se das máquinas de sua competência exatamente
no lugar em que se erige a relação dos contemporâneoscomos
limites,com o irreal, com a morte e com o outro. Dessemodo,ele
é também estabelecido no romanesco, se é verdade que o romance
é a extenuação do mito (LÉVY-STRAUSS, 1968, p. 106).
Em suma, ele tem a tarefa de tornar pensável uma sociedade
em sua dimensão de heterogeneidade, de restituí-la a si mesmanas
beiradas em que ela se origina e se perde em sua própria ausência,
além de participar tecnicamente do trabalho comum de metamor-
fosear essa alteridade em lendas. O texto historiográfico combina,
portanto, a racionalidade da explicação com a narrativa literáriaque

73
Apesar da permanência desse passado'
slogan, será impossível levar alguém a crer que, a partir do
o historiador venha em
a extrair lições úteis para o presente; pelo contrário, sua função consiste
conformar o "passado" à
inteligibilidade que organiza determinado presente•

184
ao denega-lo; ele serve-se do
silogismocom
, no qual
(1967 , p. 7 esseuso
1-72) reconhe-
Incessantelnente a narrativa ao
desdobramentode
a
alidade: historla deve aparentar ser o uma
Y desenvolvimento de uma
nossa
oe e s'a
de intercamb10 entre o Inesmo e o outro,
lugar de trânsito,
discursoapresenta alternanclas, além de obedecer a
polarizações
contráriasexatanxente, e sobretudo, onde ele é "sério": às
vezes,
o
transt-ornxa passado no modo a partir do qual se expõe uma
dog-
senxter a obrigação de apresentar provas.Há muito tempo a
serviçodos principes, a historiografia torna-se, então, a narrativa de
umpoder;nxelhor ainda, trata-se de uma narração dotada de poder
quando,de acordo com uma ordem estabelecida,ela empreendea
articulaçãodas zonas marginais que escapam às normas explícitasde
umasociedade (FAYE,1972). Com todas as garantias do verossímil,
elaserve-sede uma "doutrina" para guarnecer o espaçodeixado
vacantepelos mortos, assim como o desejo dos vivos em sabertal
vaziopreenchido.
No entanto, ela insinua, também, a falha de uma crítica no
mundorepleto de uma sociedade; a partir do modo do pensável,
elareintroduz a hipótese de uma diferença, a heresia de outras
coerências. Nas orgamzações atuais, ela marca a rachadurade um
irrealdiferente (no exato momento em que —e, talvez,porque —
elaapresenta essa possibilidade como o real de outrora). A escrita
no
historiográficacria "a-topias"; ela abre "não-lugares" (ausências)
Presente;às vezes, ela organiza sistematicamente pontos de fuga na
coloca-
Ordemdos pensamentos e das práticas contemporâneas. Ela
J.
-se,então,do lado do sonho. Eis o que já havia sido afirmadopor
maneira mais aprofundada,
Bentham74 e que a análise freudiana, de irreal
nosensinou: a alteridade do real ressurge na ficção,retorna no

último termo não significava


Benthamestabeleceu
a oposição entre real e Para ele, este uma estrutura de
ficção.
Ilusório,nem verdade tem
enganador, mas "fictício" no sentido em que toda Lacan (1986)
sublinhava
comentar esse 1959-1960,Jacques simbólico'
texto de Bentham no Seminário de falando, o
que "em vez propriamente
de ser, por essência,
ilusório, o fictício é,

185
- IA t PSICANÁUSC: ENTRE CIÊNCIA E

do fantástico. Ela sob a figura literária dofictitiotls,


ter sido eliminada pelas práticas produtoras depoisde
de "fatos
causa do que ela viesse a conservar de objetivos»
onírico, a narrativa
continuaria a encenar "a inquietante familiaridade"do histórica
que há de "literário" na história haveria de outro.75
0
manter a ambivalência

Os vestígios do outro
Atrever-me-ei, portanto, a retomar o problema
da históriaa
partir de um dos últimos mitos ocidentais, antes
de Toteme tabu:
Robinson Clusoé. Que Daniel Defoe enquadre seu
romanceno
estuário do Orenoco quando, afinal, o historiador usa
a cronologia
para ordenar sua narrativa, não passa de uma transformação
de código.
Pode-se traduzir em termos de dataçãoo que o romanceprojeta
sobre o espaço geográfico,a saber: o longínquo é o lugar em que
uma razão estabelece e encontra seu outro.
Em Defoe, Robinson torna-se chefe quando impõeuma
razão classificatória e tecnicista à desordem da ilha: ele arruma
i os objetos e cultiva os elementos. Sua atividade,dotadade traços
cartesianos (DEFOE,1959, p. 69), assimila a alteridade selvagem
como produtos fabricados a partir de um "método" e de regras.
Ela transforma, também, o produtor em sujeito da história:"meu
trabalho, minha aplicação, mmha indústria". No entanto, essaco-
Ionização voluntarista e moralizadora é destruída, subitamente,
embora temporariamente, pela série dos medos, pesadelos,agressões
violentas ou mobilizações defensivasque entram no romancecom
a descoberta do "vestígio humano de um pé descalçoperfeitamente
decalcado na areia" (p. 153). Seguem-se, então, cinquenta páginas
que relatam as desordens do "método", as irrupções do sonho,a
ambivalência de uma antropofagia que, alternadamente,exerce
fascínio e provoca horror (p. 153-196). A ética tecnicista altera-se

a
163-211)'
75No texto que Freud dedicou a esse tema (1940-1952,t. XII, p. 229-268;1933,p.
De qualquer
Unheimlichetraduziria "inquietante familiaridade", em vez de "inquietante estranheza".
privilegia-se
modo, nesse famoso texto sobre o intercâmbio interminável entre fantástico e real,
Unheimlichkeit"
a ficção literária; segundo parece, esta "compreende recursos suplementaresde
(DERRIDA, 1972, p. 300, nota 56).

186
evotlco e alucinatório do
outro. Esse
encerra-se a chegada do
estrangeiro
"escravo" : Sexta-Feira, "meu salvoda
Sexta-Feira". O morte
pode ser retomado, duplicado
ascoisas pelo poder domlínio
servidor. exercido
bre o
estranhadivisão da técnica e do pesadelo
no século XIX, serão parecedesenhar
oslugares que, ocupados,
económica e pela interpretação respectivamente,
ciência dos sonhos. Ela
corno se extrovertem dois modos da relação mostra,
sobretudo, com o outro:
(económica) e a ficção (do sonho). Nos
aracionalidade últimos dois
a históriaparece ter a tarefa de reconciliá-los,mantendo
séculos,

dizero sonho alucinatório. A partir de métodos de fabricação,


elaarticulao desejo ambivalente do outro; inclusive,ela adotou
Micheletcomo seu poeta. Este havia pretendido falar a linguagem
dopovo,língua "inacessível" do outro (citado por BARTHES,
1973, p.
e ele"tinha afeição pela morte" (citado por FAVRET;
26); PETER,
1973,
p.68,nota 1), essa estrangeira indissociável do desejo. E verdade que,
aoadotarMichelet como referência, a historiografia contemporânea
procuraenterrar, o mais rapidamente possível,aquele a quem ela
homenagem; no entanto, deste modo, ela denega o que resta
presta
dehistóriaem sua escrita científica.
De fato,a história é erótica, sem que por isso tenha de deixar
deseruma produção técnica; eis o que, relido, Michelet volta a nos
quando ele transforma tal postura na narrativa do corpoque
ensinar
falae na alucinação (no retorno, na "ressurreição" literária)do
O corpo é corpo social, evidentemente, mas funciona na
1110rt0.
espírito,
como o corpo procurado pela carícia, alheio ao
história
representação
do pensamento", "constituindo" o que a
diferente
do privi-
estabelececomo "constituído", "permanente contestação (LEVINAS,
légioque é
atribuído de produzir o sentido
à consciência" se fala,mas
1971
p. 102-103). outrode que
Em suma, o corpo é o corpo
quese é incapaz remontar a este
de fazer falar. E necessário vestígios com
nação
, povo, deixou os
os ambiente —,cuja caminhada O mes-
quaiso do ausente.
historiador
é dizer fabrica uma metáfora começa a exprimir
que há história quando o discurso

187
o desdém do "sentido"
que ele organiza e a perda
é sua causa. Uma morte é o fantasmaque irremediável
o historiadornão
pode
O lugar em que Robinson
Crusoéfazia o fantástico
pertinente: na praia, na do império insular é
atividade metódica. O historiador criadopor
encontra-se, também,
diante do mar de onde vem o homem nestelugar,
que deixou vestígios.
entanto, diferentemente de Robinson, No
ele sabe que o outro
voltará. A narrativa da história deveria, não
portanto, interromper-se
o estrangeiro não voltará a surgir do mar; aí:
ele já sefoi [apassél.
De fato, por ter visitado as bordas de sua
terra e por ter ficado,
à semelhança de Robinson,"perturbado" pelos
vestígios da ausência
marcados nessas margens de uma sociedade,o historiador
retorna
alterado,mas não silencioso.A narrativa começa a falar
entre contem-
porâneos. Parece-me que ela pode falar do sentido que se
tornou
possível pela ausência quando não existe outro lugar além do dis-
curso. Ela diz, então, algo relacionado com qualquer comunicação,
mas elabora tal relato sob a forma de lenda a bom entendedor,
meia palavra basta —,em um discurso que organiza uma presença
faltante (DE CERTEAU, 1972) e conserva, do sonho ou do lapso,a
possibilidade de ser a marca de uma alteridade alterante.
Deste modo, a escrita encena o "vestígio" de um pé descalçona
areia; ou, de preferência, ela refere-se a isso como a seu outro. Em sua
1973,p.
escultura Personnage (esculpida em 1968; ver RABANT-LACÔTE,
3-5), Miró combinava a representação gráfica de um rosto com duas
marcas de pé: por um lado, uma escrita significante (a silhuetadesenha-
da pelo escultor); e, por outro, a impressão silenciosa (a marca deixada
pelos pés). Elas se remetem uma à outra, evocam-se e alteram-seem
uma relação que associa a produção de um discurso sobre o ausente
(o ícone) à silenciosa garantia abandonada pelo ausente (a marca).Essa
maneira de memória" articula, sem confiná-los, os vestígiosdo outro.

188
CAPÍTULO IX

A instituição da podridão: LIJder 76

Durante a noite uma noite única, o deus inferior(Arimã)apare-


ceu. Diante das janelas de meu quarto de dormir,suafala repercutia

não era absolutamente amigável. Tudo parecia calculadopara me ins-


pirar temor e estremecimento; além disso,a palavra podlidâo (Luder)
fez-se ouvir varias vezes — aliás, vocábulo bastantefrequente na língua
fundamental (Grundsprache) quando se trata defazer sentir o poder
e a cólera de Deus em relação ao homem que ele desejaaniquilar.Mas
o conteÚdo de todas as afinnações era autêntico (echt), nenhumafrase
em
apreendida de cor... Assim, a impressão verdadeiramentedominante
e do sublime.
Illim não era o temor, mas a admiração diante do grandioso
o efeitoproduzido
Deste modo, apesar dos insultos contidos nas palavras,
benfazejo..
em meus nervosfoi
136-137; 1975, p. 121)
Daniel Paul Schreber (1903, p.
latrinas
Não escrevalllnas
Caguem na escritura.
Paris,1977
cinema,
salade
Pichação no banheiro de uma

história textual deste


neste livro,
de 1a pourriture. 1977. Cf.,
capítulo
p.41 Ludep", in Action poétique, contextos,
dos diferentes
decorrência
vocábulo pourriture; em
termofoi "podridão'! traduz o original , "perversão
traduzido, também, "lixo" , "imundo"
por
0
/ chiez sur I'écriturc.
pas dans les chiottes,

189
Cotronjoio tet)lro-cloüxl, Psicanálise e mística

falando c0/110anal/stayjjcÍn como rníst1Co;


nio
dessas duas expctléncias que,
alterna-
'toaccssívcl autorização do discurso,
a e,crevocada para começar ---o Sexta-Feira
de
-Joli/) poctna l//lctgcsci Crttsoé: o selvagem,
introduzido
ctljos salócs são frequentados pejo
patrão,
aí dc j1iau-cozinheir078 ou de bate-coxas(1972
1), A cjjj particular, só pode ser abordada à distância,
algo dc sclvagcnj e dc burlesco, Seu discurso produz-seem
otitt@)palco; é iljjpossívcl tanto pensá-lo quanto dispensá-lo,Como a
fijndailjcntal de Schtcber, ele tem "algo de arcaico", embora
scjli "vigor" 1903, p, 13; 1975, p. 28); assemelha-se
ao fá/)tasijia retorna à cena.
I)cssc é'futjclanjcntal" que retorna sob a forma de mística,como
alucinação dc ausência, a distância marca a idade ou uma primeira
(a scparaçáo entre seu tempo e o nosso), além de um pudor
a conservar (o afastamento do lugar em que essacoisa foi escrita).A
distância é, para mina, igualmente interior: estou dividido por uma
incerteza falar disso,dessa relação de significantes com um não
conhecido, desse discurso alheio e próximo que, talvez, obcecaum
indetcrjninado njaterno. Eis o que me liga sem que eu possacrer que
eti cstcja aí ou, o que é pior, servir-me disso como credenciamento,
Mas, afinal de contas, é bastante semelhante ao que a psicanálise
relata sobre suas bordas e seus limiares a quem faz questão de não
fazer parte (clesua instituição) e de não falar desselugar,exatamente
por causa do que vejn daí, À partida, portanto, há clivagementre0
fato de estar investido aí (feito cativo?) e o fato de não estarnesse
lugar, nena scr desse lugar.
Para esboçar uma articulação entre essas duas experiênciase
a relação estabelecida por elas com a instituição, parece-me que
encontrei um acesso pela revelação schreberiana, semelhanteà
Ijlísticaenl tão grande núnjero de aspectos, Durante essa"noite

: No original, literaljnente: estraga molho e, daí, mau-cozinheitO'


de 1894, "de modo
algum,
"benfazeja" e "apaziguante", uma e, no
clitallto, "pujante
presidente: Ltlder, ou seja, grave",dl-
zelidoao
porque existe algo de ou,
depreferência familiar na Injúria
proponhoque esta pala\Ta seja Ilieditada,o que —"lixo!"
significa—de acordo
coma contemplativa francesa, Madame Guyon
(1720; 1997) —
golida.Ela impôs-se, Introduzindo-se no entremeio en-
[entre-det¿xl
da
místicae da psicanálise,sem qualquer justificativaalém
aqui e lá: uma do que ela
pode produzir "fÓrmula" escutada,um "pedacinho
de
verdade" um estilllaçode quê?
Que analogias globais seriam fornecidas por
uma moldura
é verdade,frágil — à encenação schreberiana dessa
palcll'raque é o
arquivodo sujeito (seu documento corrompido) e o dizer
de sua
nio-identidade? Vou limitar-me a sublinhar três encontros
entre
e mística. Por um lado, a distinção entre enunciado
psicanálise e
enunciação,entre um corpuse um ato do sujeito: por ser central em
Lacan,essecorte não deixou de ser instaurado,precisamente,pelo
discursomístico dos séculos XVI e XVII (DE CERTEAU, FAI. 1982.
em particular, os caps. V e VI).
Por outro lado, a teoria lacamana mantém com os místicos
MestreEckhart, Hadewljch de Antuérpia, Teresa de Avila,Ange-
us Silesius,etc. —relações de "separação" e de "dívida" ou, o que
em a dar no mesmo, ela rejeita seus bens, verdades cadavéricas,e
{econhece-sena carência da qual eles receberam o próprio nome:
do retorno desses fantasmas cristãos em pontos estratégicosdo dis-
urso analítico, movimento homólogo à relação de "contestação"
absprechen) e de "filiação" (angeliôren) que articula o texto freudiano a
artir da tradição judaica (DE CERTEAU,EH," La fiction de l'hist01re.
écriturede Moise et le monothéisme", 1984,p. 312-358),algo
expectativa
escrever-se,zebrura e trabalho de ausências,na
e ser capaz de dessesestrangeiros
se exprlnur como representações
lie,por sua vez, teoria.
haviam tornado possível essa
XVI e XVII
Finalmente, 0 último traço: na mística dos séculos
xisteum desejo Philippe Lévy (1996)havia
análogo àquele que fim, uma pulsão
esveladoem chegar ao
Freud, ou seja, a vontade de linguagem religiosa
e morte.
Nos místicos, o anseio de perder visa a

191
se traça soa e, siii\ültaneailiente, o
próprio
ssadode seu A os as viagens
os catninhos\ ou, ao deseja-sepetdet
paisageni e A mística apresenta-se processo
evanesce o sentido dos objctos, a cotneçat pelo próprio l)eus,
tunçào tanto de encerrar como
se ela tivessea epist('ine
religiosa,
suoextoao Olarcar o fini de dia da cultura, Parece-me
que,
relação o nosso tenjpo, as tentativas analíticas exercem
função histórica senrelhante; elas ennpenham-se em liianifcstata
defecção de cultura enr seus representantes ("burgueses')
e,
por esse deperecirnento de urna economia significante,elasesca-
vatu o lugar de Otltraque seria o além do que aindaservede
suporte à critica analítica. Nesse aspecto, a mística e a psicanálise
pressupôelll outrora, relativa a Igrejas "corrompidas" ; atualmente,
através do "mal-estar na civilização" a experiência, tão "clara"e
intoleúvel para Schreber, "que há retomando a fala de Hamlet
algo de podre (fatil)no reino da Dinamarca" (SCHREBER, 1903,p.
203; 1975, p. 170).
Esse horizonte de questões encontra-se fora de meu intuito,
que se limita a circunscrever o termo Luder:este nomeia o sujeito
como relação com a decomposição do corpo simbólico,instituição
no
identificadora,além de conotar, portanto, uma transformação
estatuto da instituição e enl seu modo de transmissão.

Nominação. O nobre e o podre


Da palavra escutada por Schreber, algumas característicasestão
em consonância com as antigas narrativas místicas e merecemser
sublinhadas.Em primeiro lugar, a passagem do ver para o escutar:
a visão funde-se em um efeito de voz no ato de "percebera fala"
(ich vernahm seine Sprache), "pujante voz de registro mais grave
0
localizável"diante da janela". Uma semicegueira do sujeitocria
vazio em que ressoa a palavra do Outro; o mesmo ocorre conl
tão grande número de alucinações auditivas que balizam as expe-
rlências místicas. De fato, entre a voz e a visão, existe uma inversão
que e
dos conteÚdos,em Schreber: a voz confere-lhe um espaço

192
do ee I Deus.
é
ele
os
A palavra condena ser
e escutada no do espetáculo
oferecidopela
(Ali,nacllt)de Deus". A fala considera
nula a
Mals exatalnente, essa vocaçãopara ser
dona. devassaprofere
que serve de suporte epifania divina,
da
o
Schreber: ela é marca
por gravada ou escrlta
adnliraçàodiante do "grandioso" e do "sublime".
seu corpo
Ditada por

da'Sompotêncla enl toda a sua pureza" .A língua


teatral fundamental
portanto,
declara, em que lugar dito origina-se o ouro puro de
uma
Iliostrada•,
verdade neste aspecto, ela coincide com o
conhecimento
quesedesdobrou enx narratividades místicas.
Essaconstatação dlZ respeito apenas ao conteúdo. Mais im-
portanteé a forma da experiência de Schreber: trata-se de uma
nomeação.Na carreira de Schreber, ela ocorre após outras,em
acréscmoe, senx dúvida, também em demasia. No ano precedente
(1893),ele havia sido nomeado presidente de camera no Supremo
Tribunalde Dresden, Senatsprásident.Tal nomeação, promoção para
umatarefae designação do sujeito (ao se dirigirem a ele, as pessoas
utilizamo qualificativo de "Senhor Presidente"), é substituídapor
aquelaapelaçãoimposta pela voz do deus Arimà:"Teu nome é lixo,
Luder."Jogosde identidades com base no vácuo do nome primeiro,
forcluso, caduco.

Seráesse o núcleo vazio das rupturas iniciáticas?As mudanças


denomee recomeços pelo nome encontram-se, constantemente,
natradiçãodos místicos: assim, João da Cruz (Juan de Ia Cruz) é
0 ersatzde Juan de Yepes, nome de família. Nessas substituições
Onomásticas, como programade vida,
a nova apelação é conferida

o do não
dever-ser
qualquernome "próprio" impõe ao sujeito uma
introduz
conhecido que é uma vontade do outro; tal apelação por uma
filiação nascimento,
de sentido,
em vez de uma filiação de a ver com
trocade pai. nome tem
Sob esse aspecto, a atribuição do

193
o totnance faniiliar: ela é adoção na e pela família nobre
que
o lugar da família obscura. No caso de Schreber,por mais tonia
tante" que seja o nome recebido, ele não deixa de ser o Insuk
uma adoção pelo deus Arimã que, por suas"falas autênticas" sinalde
seus "sentimentos verdadeiros", se torna prÓximo e e
"benfazejo"
Ser chamado "lixo" ou "safado" é ser adotado pela família
nobre.
Existe aí uma estrutura que tem funcionado em qualquer
"família"
religiosa,antes de ser encontrado nas instituições ideológicas,
polí-
ticas ou psicanalíticas.
Esse nome imposto pelo outro tem, igualmente e, sobretudo
a característicade não depender de nenhuma autorização."Emsi
mesmo, ele significa algo que remete, antes de mais nada, à significa
_
ção enquanto tal." O nome não é autorizado por qualquersentido;
pelo contrário, ele autoriza uma significação,à maneira do Poema
que não tem nenhum precedente e cria possibilidadesindefinidas
de sentido. No entanto, isso ocorre assim porque o termo Luder
desempenha o papel do que é incapaz de iludir; em vez de ser crível,
ele leva, sobretudo, a crer. Seu estatuto, diz Schreber, consisteem
ser veraz e autêntico (echt).A língua fundamental responde,aqui,
a uma necessidade geral: "é necessário que, em algum lugar,exista
algo que não seja ilusório"; a própria ciência supõe que "a matéria
não é trapaceira" de modo que, se "nos equivocamos", pelo menos,
"ela não nos engana" (LACAN, 1981). Para Schreber, o que garantea
verdade de todo o resto e torna possível a proliferação interpretativa
de seus discursos, assim como sua lenta metamorfose em corpo de
prostituta, é esse nome no qual ele acredita sob palavra,essesigmfi-
cante que vem do outro à maneira de um toque, essavoz de registro
sobremaneira grave que impressiona seus nervos e deixa uma marca
no corpo —efeito benfazejo produzido nos nervos pela "enunciação
direta de uma afetividade real". A crença é baseadana tonalidade
de uma voz e ela leva a crer que se é reconhecido, conhecido,ate
ela
mesmo amado.Aqui, com sua autorização, Schreber acreditaque
o institui, finalmente, em alguma parte, fixando-lhe um lugarque
põe termo à sua deriva, além de conferir-lhe lugar definidopelo
nome com o qual é chamado por ela.

194
úto, a
teu nonxe é Lilder. Ela é
110que ela dita:
ele diz. os nervos de Schreber pertorruático:faz
a-se apenas de uni conAeço. Ao acreditar nisso, ele obedecer-lhe;
nome e tera vontade, diz ele, de "entregar o "encarnará"
do corpo de
corpo Ilielhor
semelhança uma puta" (SCIIREBIER,
desde o IAAonxento 1975,p.61).
o entrega, enl que acredita.Seni
descendência e, até mesmo, contra o
qualquer
in próprio interesse,ele
Ele transforma-se decide
sumir a situação. no corpo do significante;
ora, a
alavraescutada designa precisamente essa transformação. E mais
do
um estilhaço de sentido, cravado na carne. Ele adquire valor de
:onceitoJá que, ao circunscrever o objeto da crença, articula também
de crer, que consiste em passar do corpo desfeitosem o
operação
nome —"lixo" que deixou de ter nome em qualquer língua —para o
corpo"refeito" para e pelo nome:"puta" conformada ao significante
dooutro.O significado da palavra, ao oscilar entre"decomposição"
e"safada",designa, em suma, o funcionamento do significanteou
arelaçãoefetiva de Schreber com a lei do significante.Ele exprime
a condiçãoe o efeito da crença na palavra quando ela se manifesta
comoidentificação ou salvação.
Em vez de particular, trata-se de uma loucura geral.Ela serve
de
de suporte a qualquer instituição que garanta uma linguagem
apre-
sentido,de direito ou de verdade. Schreber, enquantojurista,
dificilde
sentasomente a particularidade de conhecer seu segredo, que
daqueles
escutare "insultante"; ele não faz parte do número
Do
respeito. mesmomodo,
podempermitir-se ignorar tudo a esse
a outros—
umtão grande nÚmero de místicos que não atribuem da palavra
"insulto"
Consideradoscomo "fariseus" ou "anormais" —o aparência',
pela "bela
evangélicaque visa a "podridão" pressuposta sabem que
justiça;79 eles
Institucional e sepulcral, da verdade ou da também,
ensinaram-lhes,
sàoseus destinatários; suas noites místicas de Deus,
verossimilhança
tipo de enterramento condiciona a corpo servede
(analítica) do
tipo de falta (imemorial) e defecção de desvelamento
tipo
suporte ao reconhecimento do Nome, e que
latim.No
em grego,e caráter"insultante
de de Mateus 23 , para o
sãoLucas a atenção
11,45, um doutor da Lei chama

195
de podridão é, simultaneamente,0 efeito e a
da crença
Vilnajustificação (DE CERTEAU,
FM, cap. I, 1982).

Da torturaà confissão
O alinhamento do sujeito sob o signo da dejeção
é o pontopelo
qual se implanta a instituição do discurso "verdadeiro".
E essedis_
curso Instituído transmlte-se ao produzir sem tréguas,nos
"suJeitos"
sua condição de possibilidade, a saber, a confissão "benfazeja"
e
para cúmulo, verídica —de que eles não passam de podridão.
A essa
lei astuta da tradição-transmissão de uma doutrina nobre, pode-se
acrescentar um procedimento extremo que proliferousemprenas
beiradas das instituições de verdade e que, bem longe de decrescer,
à semelhança de um fenómeno arqueológico da história, não cessa
de se desenvolver para tornar-se, cada vez mais, uma "prática admi-
nistrativa regular", uma "rotina" política: a tortura. 80
Conviria indagar-se sobre as alianças ocultas entre a místicae
a tortura: elas têm aspectos aparentemente acidentaisou factuais.
Assim, a coincidência entre antigas técnicas ascéticas e práticas
atuais de tortura: por exemplo, as formas de privação de sono em
Henrique de Suso (1295-1366), místico renano, assemelhando-se
bastante àquelas que são utilizadas nas prisões brasileirasou gregas.
Não é também, de modo algum, um acaso se os trabalhos sobrea
mística se desenvolvem durante os períodos de totalitarismo, como
ocorreu na França durante a ocupação nazista, sob o regimede
Vichy. Esse fato deveria ser equiparado às diferenças entre as fi-
guras históricas de uma radicalidade evangélica, no século XVII:
sobretudo, "místicas" nas monarquias católicas, por exemplo,na
Espanha e na França; e, de preferência, "proféticas" nas estruturas
mais democráticas e reformadas das monarquias inglesa ou nórdi-
cas.81Tais experiências místicas postulam a aceitação de um poder
"absoluto" que não se deve, ou já é impossível,transformar,alem

LAURET;
80Em uma literatura abundante, ver AMNESTY INTERNATIONAL, 1973 e 1977;
LASIERRA, 1975; LONDON, 1968; PASQUALINI, 1975;VIDAL-NAQUET, 1972; aí
81Para - e se
0 século >WI, ver, por exemplo, OZMENT, 1973; ou, para 0 século XVII
1915'
tipos de experiência assimiladosdemais pelo autor - KOLAKOWSKI, 1969; e DE CERTEAU,

196
ao suoelto os questionamentos de
nem o objeto. que ele
representação, não poderia
pese modo, deparamo-nos com um aspecto
a tortura procura produzir a aceitação maisfundamental
de de um
pela confissão uma perversão: afinal, ao discursode
torturar sua
pretende reduzi-la a ser apenas isso,
um lixo, a
carrasco, além de ser, sabe que saber, 0 que
o próprio é, mas sem
confessá-lo.A
deve ser a voz dessa safadeza, denegada por toda
suporte, por toda parte, à parte, e que
servede representação "
da ompotência"
do
regime,ou seja, de fato, à "imagem gloriosa" de si mesmos
a seus adeptos que tal
regimefornece pelo fato de reconhecê-los;portanto,
eletem de assunur a posição do sujeito a partir da qual funciona
o
teatroda potência identificadora.
No entanto, essa voz será, também, sufocadana sombradas
masmorras,jogada nas noites do suplício, no momento em que ela
confessado sujeito o que torna possível a epifania do poder; trata-se
deuma confissão desmentida. A voz só pode ser o outro, o lmnugo.
Eladeve ser, simultaneamente, escutada e recalcada: escutada por-
que,ao exprimir a podridão do sujeito, ela garante ou restabelece
uma"filiação" —mas em segredo, para não comprometer a Imagem
emque a Instituição respalda seu poder de assegurar a seus adeptos
o privilégio de serem reconhecidos. Ela será exigida, mas para ser
cochichada nos corredores íntimos da instituição.Grito murmu-
rado,obtido por um suplício que deve meter medo sem provocar
escândalo,além de legitimar o sistema sem desestabilizá-lo.
A vítima está apta para essa operação, precisamente porque ela
vemde fora, trazendo a confissão que é indispensável ao funciona-
ser
mentointerno da instituição, mas que, ao mesmo tempo,pode
tam-
exorcizadacomo se fosse a ação de um adversário;é verdade,
instituição
em,que ela é o inimigo. O estrangeiro ou o rebeldeà
tolerável (a não ser
dátestemunho de uma ambição que, aí, não é —
a um discurso
hipocritamente):de fato, seja de que maneira for,
(um objetivorefor-
Político(um projeto revolucionário), religioso poder
mista),até mesmo, ele supõe o

analítico (uma fala "livre")
reconstruir a ordem da
derefazer a de
instituição. A essa pretensão tortura opõe a lei
Istóriaa partir "contestadora", a
de uma fala

197
da instituição que, à fala, afeta o papel inverso de ser apenas

Uma vez mais, a tortura é a iniciação,por excelência , à


realidade
Ia torture dans les sociétés
das práticas sociais
tives", 1974, p. 152-160); seu efeito continua sendo uma desmistifi-
cação dos discursos. Ela é a passagemdo que se diz no exterior
para
o que se praticano interior: esse trânsito, momento durante o qual
o carrasco tem de produzir o assentimento a partir de uma exterio-
ridade, atraiçoa,portanto —mas na obscuridade, durante a noite
jogo da instituição.Enquanto os projetos utópicos (revolucionários)
pressupõem, em um dizer, a força de determinar um poder ou,na
instituição, a capacidade de tornar-se a articulação visívelde uma
"verdade" dita ou a dizer —enquanto essesprojetos conservam,por-
tanto, uma estrutura " evangélica" —,a tortura restaura a lei do que
se passa efetivamente. A voz deixou de ser "profética", carregando
à sua frente a transgressão de um desejo. Um nome, Luder,ditaao
sujeito o que ele deve ser para garantir a existência da instituição,
para que ele possa acreditar o que ela mostra de si mesma e para
que ele seja adotado e reconhecido por ela.
O torturado fica surpreendido por deparar-se com uma
lei inesperada para ele; de fato, finalmente, não lhe é solicitado
para declarar como verdadeiro o que ele considera como falso.
A instituição não se apoia no reconhecimento da verdadeque
ela mostra na aparência e na teoria (portanto, quem, no interior,
a pensa como verdadeira?), mas no reconhecimento da safadeza
delespor seus adeptos. Assim, o sujeito capturado pelo aparelho
da tortura seria colocado não perante o valor ou o horror deum
sistema —terreno em que ele se sente mais forte —mas diantede
uma falha e de uma podridão íntimas, ou seja, terreno em que
ele está fragilizado. A revelação da própria safadeza, cuja produção
é tentada pelo suplício ao aviltá-lo, deve retirar-lhe, tanto a ele
quanto aos carrascos e aos outros, qualquer direito à rebelião.P0r
essa reviravolta de situação e por esse uso inverso da fala(que'
em vez da instituição, passa a questionar o suj eito), o maquinism0
ê
da humilhação espera fazer aceitar a vítima o nome que lhe
atribuído pelos carrascos: Luder.

98
O aspectoperverso no procedimento da confissãoé
que, de
qualquernxanelra,ele tenx a certeza de acertar o alvo.A semelhan-
de Schreberisolado no hospital psiquiátrico de Sonnenstein,
ça o
torturadoestá privado das garantias coletivas que garantem a "nor-
malidade",entregue à parafernália de técnicas que desfazemseu
corpo e se obstinam em comprovar-lhe sua traição, sua covardia e
sua
insignificância.Ele perde o álibi de filiações políticas,ideológicas
ou
sociaisque o protegiam contra o que o nome insultantelhe ensina
a respeitode si mesmo. Essa atribuição do nome não seria, de fato,
a expressãodo que ele é? "Sou perfeitamente isso.Luder."O nome
articulana linguagem o aspecto que faz esquecer as solidariedades
de outroras-:esse "real" oculto por trás de uma frágil apropriação
e propriedadede si. Essa boca abre para o que há de podre sob o
reino das relações soclals ou militantes. Essa coisa pronunciada e
recebidaestabelece relação com a revelação, dificil de entender; seu
desnudamentomístico e sua elucidação analítica constituem —a
partirde modos inversos, embora na mesma solidão —o começo
ou o princípio de outra viagem. Convém se questionar sobre os
efeitosdessa confissão, sobre o que ela permite ao iniciado e sobre
o proveitoque uma Instituição tira de semelhante enucleação.

Há do outro
Por saber isso,o torturado pode ficar completamente subjuga-
do,instrumento passivo do poder, ou arrogar-se todos os direitos,
enquantoutilizador cínico de seu segredo: essasduas figuras existem
entreos servidores do sistema —aqueles que verificam a revelação,
conformando-seao nome, e aqueles que tiram proveito dela ao
outra
revesti-lacom um nome atraente. No entanto, apresenta-se
saídaque deixou de ser uma resistência respaldadana "pureza" de
não
umamilitância ou na "majestade" de uma causa e que também
e 0 jogo dos "corrompidos" na instituição do poder. Ela indica-se
emum movimento que, em vez de uma denegaçãoou perversão,

o resistente
Não se deve "esquecer" entre torturados; por exemplo,
a solidariedade desenvolvida vitória da tortura
que,durante o mesmo os nomes dos colegas.A
período do suplício, repetia para si
Consisteem apagar a lembrança salvo Luder.
de qualquer outro nome,

199
isso,um lixo; mas,qual é o
seria algo como: "Sou apenas
que o sujeito
Ser um lixo não implica necessariamente tenha d
identificar-secom "isso" ou com uma instituição que lhe garanta
"cobertura". Algo do real sobrevive a essa defecção: uma história
haja real além
lutas, outros sujeitos.Talvez, até mesmo, não daquilo
que deixou de aparecer suscetível de fixar uma identidadeou de
merecer o reconhecimento a caminhantes.
Em suas narrativas, alguns torturados indicam em que ponto
de desfalecimentoocorre sua resistência.Eles haviam "resistido"
de acordo com seus depoimentos, por terem suportado (talvez,
até mesmo, convenha dizer: tolerado) a lembrança de colegasque,
por sua vez, não eram "lixo"; por terem conservado presente a luta
em que estavam envolvidos, ao passo que ela sobrevivia, intacta,ao
"aviltamento"deles, sem desonerá-los nem estar dependente dessa
situação;por terem escutado ainda, no ruído dos suplícios, o silêncio
da cólera humana e uma genealogia de dores dos quais eles eram
oriundos, sem que, no entanto, pudessem tomar a defesa ou esperar
algo disso;ou por terem rezado, ou seja, suposto uma alteridade,
Deus, de quem não recebiam nenhuma ajuda ou justificação e para
quem não tinham nenhuma utilidade, nem prestavam nenhum ser-
viço —exatamente o que um antigo rabino visa ao dizer que rezar
é "falar para o muro". Essa resistência escapa aos carrascos por ser
absolutamenteimperceptível; ela organiza-se precisamente no que
escapaao próprio torturado, no que existe sem ele e permite-lhe
escaparà instituiçãoque só o assume como filho adotivo ao reduzi-lo
a isso,um lixo. Semelhante resistência não se respalda em nadaque
lhe pertença;é um "não" preservado nele por aquilo que ele não
tem. Oriunda de uma defecção reconhecida, ela é memória de um
realque deixa de ser garantido por um Pai.
Para os místicos,também, o começo é uma destruição da dig-
nidadehumana —mesmo que essa
corrupção assumida pelo sujeito
e que, muitas vezes,
acompanha sua teatralização corporal (feridas,
infecções,purulências, etc.)
seja intolerável para os pesquisadores
conformistase denegada sempre
O "ego pelos intérpretes "humanistas
estigmatizado" —para retomar uma
Benn (1956)—é expressão de Gottfried
o lugar do desfalecimento e
da decomposição em

200
relação entre o
lxx.) e te (há do outro)
obtem-se unia
pelo -puro
no durante ou
XVII: apesar
você. de
prestando-se a
nio de para 0 Onente 0
separado; há uma aparência qual
-- um Fera IElorsl
é. essa figura historica e patetica de do
uma te pensada
condenação nio passa de uma
variante da estrutura
Eckhartdefiniu pelo conceito de Gelassen/ltir que
(k'el,izenht'ir):

o Outro (por exemplo. 1974e 1975;igual-


BRETOS, 1976).
A respeito, teríamos anda um exemplo de
Inspiraçãomais
(pelo menos, eis o que estaria à nossa disposição na
tradição
escrituráriado que ainda resta desses textos) com a maneira como
FO da Cruz caracteriza o prmcípio (e quase o a priori)que orga-
nua.de um extremo ao outro, a viagem nustica.O princípiodo
mornmtnto é "o que excede" (aclilellocliieexcede).Ele não se mani-
ta como uma presença e Inumação de tudo o que faz falta;pelo
contráno,o excesso e o não conhecido de um e-xlstlracompanham
cadaexperiência e cada conhecimento. Qualquer etapa tem a ver
oma não identidade do sujeito no estado em que ele se encontra.
percepção,a VISÃO, o êxtase, o despojamento, a própria podridão
no.alternadamente,entrecortados por um "não é isso", de modo
o discurso de João da Cruz é uma série Indefinida de issonão,
não,issonão.A história que ele relata, tão Intermmávelquanto
acontecimentos classificados por ele, narrativiza de algum modo
funcionamento do significante Deus, mola propulsora que intro-
uz cadavez não conhecido
menos de satisfação e cada V'ezmais de
posiçãodo sujeito. Em suma, ela desenvolveo trabalhodo que
arece,no início de A subida do Afonte Cannelo,como o postulado,
a convenção (conviene)de qualquer itinerário
e conveniência entre o verbo
Piritual,a saber: distinção
creersu ser. Considerando a
r (étre,ex-istir) a um estado),traduzirei:
e 0 verbo estap (relativo

%rigmal,"ser" e "estar".

201
crer que há do outro (La Subida dei Monte Carmeio,11,4).
nústicos, de fato, há sempre o outro de quem, em
princípio,nada
lhes cabe de direito. E o outro, sem retribuição. Ele
ex-iste,
norne e sem nomear. Sern
Sem dúvida, a expressão —há do outro —apresentar-se-ia,
então
sob dois registros; ora, aqui, suponho que já não somos
capazesde
considerá-los, diferentemente desses místicos, como
idênticos.0
primeiro remete ao papel do significante, a uma função da
lingua_
gem, ou seja, "Deus": então, trata-se do fragmento Insensato
que
impede qualquer apropriação, é o pedaço de diamante que restaura
o "cada vez mais" ou o "cada vez menos" em relaçãoa cadasaber
e a cada fruição. Mas o há tem a ver, também, com o sentidodo
Es gibt heideggeriano: "dá-se" algo. Então, Deus é o fora que está
dentro, uma intimidade da Exterioridade; parece-me que os místicos
já se questionavam sobre a juntura entre essesdois funcionamentos
do "há do outro", ou de "Deus": a certeza do primeiroinsinua,
muitas vezes, a verossimilhança do segundo ou conseguemantê-la
em suspense e tornar tolerável sua incerteza. De qualquermodo,o
que é pensável a esse respeito, para mim, atualmente (por razõesque
não associo a uma anomma e fictícia epistemecontemporânea,mas
a fixações muito mais particulares e que, aliás, questionamminha
abordagem "masculina" desses místicos) é o viés pelo quala mística
1975,p.
é a "ciência da única probabilidadedo outro" (SCHEFER,
141). Essa ciência afeta, ao reconhecimento de uma podridãono-
meada (apelativa, à semelhança de uma vocação), uma aberturapara
a indefinida probabilidade do outro.

A tradição pelo corrompido


revela-
Com essa localização triangular da "podridão", cuja e
como por místicos
ção havia sido entendida por Schreber, assim
crista
psicanalítica,
torturados, limito-me a desdobrar as regiões — de
geografia
e política —nas quais encontrei a mesma questão.Essa
subjetiva;
itinerários assombrados tem apenas, talvez, uma coerência e os
questões
na verdade, somos precedidos, igualmente, por nossas seja
diz respeito
de
vontade
à utopiaque, desde a Reforma e a Aujklárung,encena a

202
refazer pureza' as-
1110dclosl ao tigt1Va Vllt,l(1()
sumida

ou
adotl\a nobre adeptos previaIlicnte
de sere
de« sc
oua pureza 018lunnavla:no «egtllldo, a podricláo
é o origi-
nário,
rexrlaçio e rentabilizada pela Instittllçào,ao encobri-la,
As {alidadesde Illiclaç.io e de translillssào poster lores diferem
e
posicicnalllo stilelto relações Inversascom o poder e o saber.
A partir de três experiências esboçadas por nunn, pergunto-me
sea única saída é unia retorrna baseada enl urna ficção de pureza
(ateoriaaparece al con10 denegação) e em um conservadorismo
apoiadoenl uma exploração da podridão (a teoria desempenha.
desdeentão, a fiançào de ocultar seu papel efetivo). Por falta de
geral (inexistente),lililito-me a algumas hipóteses relativas
aosreferencms adotados por mim.
O presidenteSchreber,a quem é atribuído o qualificativode
lixo,constrÓi um sistema a partir de seu aviltamento; ele encarna seu
nomepor ser megera, embora megera e prostituta de um Deus que
"nãotem comércio com cadáveres" (SCHREBER, 1903, p. 65; 1975,
p.60)e que, por sua vez, não passa de uma prostituta (Hilre•,p. 384
e p.278).O fim do mundo que obceca esse"profeta" da ausência
dooutro, a catástrofe do Juízo Final que o engole eru sua enorme
abertura, tudo isso se Interrompe com uma palavra"que tonxa o
lugardo que é destituído de nome" (LACAN, 1966, p. 535). E ••ele
voltaa construir o universo" (FREUD,1954, p. 315) nese preciso
lugar.Génesede um mundo a partir de unia palavra.Produção de

verdadeira(echt).Schreber, a partir da ficção que ele constrÓ1,de-


veráelinnn_arqualquer o de<astre
falha por onde po«sa
Universal.
Nenhum nada, nenhunl nicllts-denken(pensar nada,
pensaro nada),
deve eqburacar o corpus de qua Identidade, Ele esta na
derradeira fronteira
-- 0 corroinpido antes da eleccunpostç,iototal
e nao Pode permitir-se
qualquer repou«o, netu qualquer ausencna,
Porqu nada Ao segurar
existe além deqsa proliferação

203
essa
aposta extenuante, ele engendra 0 1101110A'êneo,
nada ao tecer a ele é a
dos raios divinos, ele que
que está habilitado a borrar o Inundo poderá,
inteiro"
Esse discurso que escapa à instituição,
ao tomar seu
poderia ser equiparado a grande número de discursoslugar,
se atribui o qualificativo de espirituais, a que
proféticos ou místicos
corn a seguinte diferença: nxuitas vezes, eles
não se edificam
partir de uma palavratão verídica.No entanto, a
tal constatação
não se refere aos místicos que Inencionei, na
medida em que
a própria itistituiçãoé 0 011troem relação ao delírio
delese que,
neste aspecto, ela tem pertinência. Desse ponto de
vista,nãohá
desaparecimento do outro, mas antinomia entre a
nomeação,
poema sem qualquer autorização, e a instituição que
tendea
controlar, retomar, alterar o poema, impedindo sua circulação
a não ser em versões comentadas ou corrompidas.No entanto,
o debate é mais acirrado: trata-se de saber se, ao recusar-seem
substituir a Instituição por um delírio, o místico não estána posição
de se alinhar com ela e, por essa conformação, de eliminar o outro,
voltando ao mesmo.
Tal é, de fato, o jogo da instituição: ela albergaa podridão e, ao
mesmo tempo, a designa. Atribui-lhe uma posição, embora circuns-
crita, constituída em segredo interno: entre nós, você não passade
uma megera, de um sujeito supostosaber.Ao albergar essa"podridão",
ela toma seu encargo e vai limitá-la a uma verdade conhecidae
pronunciadano Interior que permite ao exterior outro discurso—
desta vez, nobre —da manifestação teÓrica. Uma pichação, em uma
sala de cinema de Paris, levava a ler a transgressãoque ela rejeita:
"Não escrevamnas latrinas, caguem na escritura." Schreber passou de uma
para a outra dessas duas transgressões.No entanto, para o sistema
Institucional, o fato de cagar nas latrinas, no interior, é a condição
para que haja teoria no exterior. No interior, "velho safado"é uma
expressão amigável que estabelece a verdade de um companheirismo:
aplica-se apenas a quem é isso mesmo. Tal
"intimidade" institucional
é a única que torna possível a
habilitação a proferir publicamente
o discurso do, e sobre o, Outro.

204
A DA PODRIDÃO:LUDER

dito por outras palavras, a Instituição não é somente


a epi-

cvente<.
de pelo fato de retirar o que eles prornetelll.
resdecredibilidade Não

do qual Freud interpreta a instituição sacerdotal: ela constitui-se


porsilenciaro assassmatoconhecido. No entanto, seria tanlbém a
aüibuiçio-localizaçàoda podridão no Interior, nnedlantea qual o
discursoe "grandioso"; ser 1a a combinação entre a voz noturna que
serefereaos corronnpidos e a lilanifestaçàoou "teoria" do sublime.
Eiso que ocorre na relação com o patrão: me chame de Ludcrpara
que eu aceite seu discurso. A transmissão do saber passaria pelo
corrompido;e a tradição pela corrupção que, reconhecida, autoriza
a instituiçãoa permanecer a mesma.
No privado,portanto, passa-se algo diferente do que ocorre em
público.Talvez seja necessár10 seguir, de preferência, a orientação
que,outrora e temporariamente, havia sido esboçada por Teresa de
Avilae por outros, segundo a qual eles pretendiam entrar em unna
ordemcorrcunpida sem esperar que esta viesse a atribuir-lhes uma
identidadeou um reconhecimento, mas unicamente a alteração de
seuindispensáveldelírio. Eis o que seria encontrar na instituição,
simultaneamente, a seriedade de um real e a derrisão da verdade
exibida por ela.

Seráque entretenn,l
um homólogo dessa
estrutura deve ser reconhecido na articulação aristotélica
e matéria?Esta
última decompõe, se dissol\€ (apodrece?), e. sunul-
tanearnente, (li)'lc) é, para Aristóles, o que se à "matéria" (algo
o que honw•tll.Dar
de indeterminado se opõe forma, como uma mulher ao
em defecção): será esse o papel da instituição?

205
CAPITULO X

Lacan: uma ética


da fala/ palavra [parole185

Ele fala aos clientes, aos membros de sua Ecole, ao público

de analista,transforlllando essa postura na maneira de se esquivar. E


o ato de sua teoria, o gesto que a constrór, é, também, o paradoxo
de uma vida. Ele atrai porque se retrai. As partidas escandem sua
carreira:sucessivamente, ele deixa, em 1953, a Société de Paris e,
em 1963,a Association Psychanalytique Internationale. Em 1980,
é a vez da Ecole Freudienne de Paris, fundada havia dezesseis anos
pelo"ato' que a instituía em nome de uma solidão:"Fundo —tão
sozinhoquanto sempre estive em minha relação com a causa
psicanalítica... .86Suas estratégias, também, inspiram-se em um des-
prendimento que, muitas vezes, visa os companheiros mais próximos
essejá havia sido um traço característico de Freud que preferia o
distanciamento,como se uma separação criasse o espaço analítico).
aliás,
Segundoreza a lenda (que tem suas razões),"Lacan" designa,
umaretórica da subtração. Esse nome próprio recorta a silhueta de
ele
umPersonagem escandaloso: no círculo restrito dos intelectuais,
cada
desdenhao código social que os leva à procura de uma presença
a
vezmaisfrequente na mídia; no campo da pesquisa, ele transgride
relação
regraque serve de fundamento à capitalização do saber em
de
à legibilidadede seus enunciados. Faz escutar o que ele impede

história textual deste capítulo,


•une éthique de 1a
in lx Débat, 1982. cf., neste livro,
parole",
235.
Iníci de 2001; 2003, p.
Acte defondation de I'EFP, 21 juin 1964; ver LACAN,

207
vxunptvender; dispõe de audiêncna aliássnão
ele que irrita as leis aparentes da publicidade, Issodesejada
lhe acontece
idade etn que não se reconrça a vida, De qualquer modo,
é isso,
'Apercebi-tne de que nunha caniinhada era da do ttào
saber de nada a esse respeite" (LACAS,1975a, p, 9), Nenhum
tuissosseja relação à televisão, aos cursos nxinistradosno
melhor
período da universidade de ParisVIII —Vincennesou às conferências
no exterior. Pedantisn10,sem dúvida (não será,também,
um jogo?), essa retirada é o gesto violento que faz seu pensamento
e do qual emergem todas as suas proezas. Ele cria a fala tal como
teoriza a seu respeito e a torna suporte do ato.
Lacan não pertence a ninouém. Ele não está aí, nent caiu na ar-
madilha do próprio discurso em que os fiéis acreditam confiná-lo,
tantpoucose vinculoua uma instituição e a uma genealogia, nem sequer
i às que lhe dizem respeito pessoalmente. Fala e está sozinho: o mesmo
combate. Ele é Outro, tal como assina este testamento de 1980:"Se
ocorrer minha partida, estejam certos de que o objetivo é o de ser,
finalmente, Outro. E possível contentar-se em ser Outro como todo
o mundo, após uma vida passada a pretender isso, apesar da Lei."87
E isso ocorreu. O passante partiu; não cessou de partir, colocando,
no lugar de seu corpo (corpo fisico, corpusdoutrinal, corpo social),
OSSIgnificantes indutores de um "discurso" ["parole"] que se chama
"Lacan". Essa política da substituição termina no momento em
que ele se torna "Outro como todo o mundo". Subsisteseu nome
perto da tumultuada Ecole em que ele está enterrado, à semelhança
das sandáliasde Empédocles,88 na encosta do Etna; os "escritos" não
passam de sandálias desse passante, o efeito da retirada que serviade
suporte para seu dizer.Portanto, neste texto, não estou ligando para
o elogio fúnebre89(" teórico" ou não) que um grupo pode lavrar

II de
87Em 15 de janeiro de 1980. Epígrafe do número especial do cotidiano parisiense,Libération,
setembro de 1981 —aliás, a melhor das homenagens prestadas a Lacan após seu falecimento•
Um personagem que obceca os textos lacanianos em seus exemplo'
momentos decisivos.Ver,por
LACAN, 1966, p. 320, etc.
89N.T.: No original, tombeau.Esse de
termo significa também, túmulo; em outros trabalhos,Michel
Certeau usa o "conceito" tÚmulo
escriturário,

208
proveito ao utilizar esses "escritos" o "bern da
de que Lacan se esquiva (LAC\N, sociedade"
o iliipevatlvo 1986 cf. últilna
do Seniinário de Não tenho
vontade de repetir
de identificar o ato que transforllla
tallição,111as seu discurso na

A tragicomédia
O será lueti corneço: os ultilnos anos do Senxinário.
Diz-se,
então:o velho perde seu vigor. Onde estão os Seminários de outrora,
iniciadosno Hospital Sainte-Anne (1953), reservados a uma plateia de
analistas-estudantes?Nessa ocasião, os participantes encontravam-se
"entresi"; nos textos freudianos, o Mestre talhava as peças de um
organonpsicanalítico (o ego, as psicoses, o objeto, o inconsciente, a
transferência,etc.; 1953-1963), antes de se concentrar sobre a ques-
taodo Outro e sobre os conceitos corolários de "objeto pequeno
a" e de "sujeito barrado" (1964-1974) Durante esse segundo
período,a situação começa a deteriorar-se. Na sala de Ecole Nor-
maleSupérieure que serve de teatro a essas operações, desde 1964,
o públicocresce, acumula-se, transborda de forma cada vez mais
incontrolável; o lugar "decente" (pensem bem: a Ecole Normale91)
{calotado por toda a espécie de indivíduos e coisas.Em 1968,a
retorianão agiienta mals a "sujeira" predominante e, para rechaçar
a desordemintelectual, alega a desordem fisica. Uma vez mais, Lacan
desloca-se:ele deve transportar, alhures, a horda que é a doença de
suafala.Com sua flauta, ele a conduz ao Panthéon(ao território dos
mortos).No entanto, ao mesmo tempo, ele entende instaurar lugares
decentes"["propres"l, por um ataque de surpresa dirigido ao depar-
mentode psicanálise (na universidade de ParisVIII —Vincennes);
ela fundação de (69, rue
uma "sede" para a Ecole Freudienne
laude-Bernard,Paris); e pelo fortalecimento dos procedimentos

Sobreesse
percurso, ver o esquema apresentadopor
MILLER, há um grande número de interpretações;
1981, p.7-8.
NT vale rue d'Ulm. ao lado
lembrar que a Supérieure, fundada em 1794,
ENS - Ecole Normale a formação
doPanthéon,
em Paris —é ensino superior para garantir
e professores. um estabelecimento público de

209
imciáticos da filiação (o "passe"92).
Na estratégia que
massificação, o aparato lacaniano, que, responde
outrora, articulava a tal
pública a partir do trabalho silencioso fala
de uma disciplina,
exposto em um dispositivo geográfico encontra-se
que posiciona em
diferentes, por um lado, a fala, entregue à lugares
"imoralidade"científica
de um free speech,e, por outro, a seleção didática
e profissional
uma Ecole com sede própria —ou seja,dois de
elementosqueexibem
a mesma marca, "Lacan". O isolamento e, portanto,a
das condições institucionais da análise criam, então, visibilidade
no Interiorda
Ecole, uma série de surpresas, de revisões dilacerantes
e de tensões
que se foram ampliando incessantemente. Desnudado, o
poderque
serve de suporte à "fala livre" deve ser, daí em diante,assumido,
por
sua vez, pela teoria que o pressupunha. No entanto, antesde mais
nada, o que ocorre com essa palavra desorbitada dos circuitospro-
fissionais,desvinculada, ab-soluta na multidão?
Tempo dos "nós borromeanos": com pedaçosde barbante, o
Mestre é, supostamente, capaz de produzir uma metateoriaemter-
mos de topologia. E possível.A demonstração não é convincente,
mesmo que ela se sirva da coincidência dos dois pólos extremosda
linguagem —o mais formal enunciado escriturário e o mal-entendido
oral do diálogo —e mesmo que ela ofereça uma teoria geraldo
espaço para pensar a metonímia (procedimento psicanalítico e
literário mais fundamental que a metáfora).Dois pontostão fas-
cinantes em que, com muitos outros, tenho vontade de acreditar.
Mas esse não é o aspecto essencial. Lacan procede a um ritoteórico.
A lenta erosão dos conteúdos conceituais libera o ato teatralque
das
os havia construído. O gesto que tinha reorganizado o campo
práticas e categorias analíticas repete-se por si mesmo,aospoucos,
a
limitando-se
desvencilhado dos elementos em que ele se traçava e
das
carregar aforismos e fragmentos, relíquias e conchas, os detritos 0
sucessivasetapas que haviam balizado seu caminho. Foi necessáno

um processo
92N.T.; Trata-se de "um dispositivo criado, em 1967, por Jacques Lacan para designar
que
de travessiaque consiste em 0 analisando (passante)expor a analistas(passadores),históriaque
sua
conta disso a um júri dito de credenciamento, aqueles dentre os elementos de
de se tornaranalista
sua análise o levou a considerar como suscetíveis de dar conta de seu desejo
(ROUDINESCO; PLON, 1998, p. 575).

210
I despendido a tese «obre
'1 1)siA
iscparti
de R 0111a (1953), o
Senililárlo (desde
(1000), etc. pava que esse ensino, lá tardio 19.53)
e 11aKequéncla

d •puvadaque é destituída praticaillente de algo


consistente
exevac10 13<10
analitico a exxenclade Ker
Identiçajnente

Solicita-se que pexK0AK eviteill qualquer reaçào.


Nos
da augil<tafaculdade de direito (1968-1 rextaura-seVilna
s
aliança (
desenlbavaçadade «eu «aber e Vilnajuventude que ainda
está desvantagenl relativalllente aos poderes. Aqui, nada se
produzde útil e. para o público, não é exigida qualquer habilitação,
preço a pagar, tannpouco controle pennanente. Mas o ator
Nesta connnediadell'arte enl que a arte da análiseestá em
trabalha.
cena,o corpo locutor representa o papel principal.Sobretudo,a
tossir discretanrnte, resnmngar, limpar e fazer ruídos com
a —tatuagens da fonação —escandem a cadeia das palav'ras,
t

nurcandoaí o segredo relativo a todas elas de ser "para o outro" e


cdeproduzirefeitos de significado nos ouvintes. Significantesque
siotanto lilals bem escutados quanto lilalor é o mal-entendidoa
do que eles desejam exprinur. Outro brazão do corpo fa-
irespeito
ante:o suspiro introduz no discurso algo que o faz sofrer (o preço
e um gozo),que o corta (o tempo de relatar outra história) e que
e retira("voces ainda estão aí?"). Essas marcações corporais fazem
alaro que elas ignoram; aliás, são encontradas em um grande nÚmero
e lacanianos.Com toda a razão. Tais critérios de filiação são lilals
egurosque o proteclomsmo teÓrico ou clânico. Na confusão atual,
Onviriageneralizar seu uso, tanto mais que os barbantes didáticos
ermanecemo apanágio do Mestre.
enn
De fato, essa mímica não passa de um repertório parcial
maarte teatral seu corpo para falar e que
que consiste em perder analista
Inscrevena vizinhança de Artaud. Como seu "doente", o
eixadizer a história que lhe "escapa"
seu discurso essa parte de sua
que"levanta" lebre) o Outro representado
Ortodos (COIAAO se "levanta" urna No entanto, ele
essesouvintes anô1A11nos e disseminados.

211
HiSTéRIA E PSCANAUSE:ENTRECitNCtA ftccAo

sabe tambénl que, por esses trocadilhos ou


borborigmos
advêm desseoutro desconhecido,nunca a que1h
das
que eles provocam na multidão chegará a fornecer
uma imagem apropriável; aliás, essa não é sua um sentido
solicitação.Ele
para o Outro, à maneira como alguélil falariacom fala
seusbotões,
nenhum proveito; no entanto, ele fala"graças a" essamultidão
clasta que destrói e dispersa a imagem de si nxesmo que icono-
ele poderia
ter esperado como retorno do que, por sua vez, ele faz
produzir.
Como analista, ele "não espera" dessa audiência,de acordo
com
suas além de ser esse objeto graças ao qual o
que eu
ensino não é uma autoanálise" (LACAN, 1974, p. 10). Caso contrário,
esse teatro ficaria reduzido a urna histerizaçàodo ator (fazer-se
um corpo para o outro) à qual corresponderiauma interpretação
paranoica dos ouvintes (uma proliferação de significadosoriundos
da questão:"Afinal, o que ele pretende de nós?"). Portanto,elesó
"opera" na medida em que o ator não tem fruiçãode seupúblico
(p. 29). O analista depende de ouvintes dos quais, em princípio,ele
não espera seu prazer, nem sua identidade. Por uma retirada("não
quero saber de nada a esse respeito"), ele detéllla diferençaque separa
a fala (simbólica) de uma identificação (imaginária).
Esse exercício assemelha-se a uma prece sem interlocutor:nada
de réplica, tampouco resposta a nada. Outrora, um midraxedizia:
"Rezar é falar com o muro". 93A respeito da fala, Lacantem uma
sem
concepção próxima dessa austeridade rabínica. Há o Outro,
de ser
que nada haja a esperar dele além do desejo que se instaura
sido
privado deste. Quem sabe se o verdadeiro sentido da falatenha
lacaniana,
fornecido em uma dessas"fórmulas" que, na linguagem
inte-
têm o aspecto de ser as citações e fragmentos de um discurso
o que lhe ofereço porque não é isso
rior: "Peço-lhe para rejeitar
1975a, p. 101)?
(LACAN,
parajuntar-
Comédia, a palavra: "fracasso fundamental" da ação objet0'
do
-se ao desejo que a habita, desvanecimento incessante entre
derrisão do saber,equívoco do sentido em chistes,quipnquó ardis
os
as personagens no palco. O ator Lacan representa todos

mundo,há
93No seu lim, Lacan (1966) cita, 0 homem e 0

212
quais se desentola urna teoria
do desejo.( )
dessasastucias clas<lcase o segredo desdo
da teoria torniaJi1
gestos e as 11RS111as
rneS1110S gozações. Representa-se os
aí algo (01110
urnsorriso,o do Inalogro Indefinido da açáo e das
próprias coisas.
O nso aparecia,outrora, no rosto dos deuses que Ilio
erai))otárjos;
noentanto.ao tornar-«e hulnano, ele se Identifica COI))a
do "ser-para-a-morte". Elli Lacai),a arte "dlii)ensáo
trágica" de sorrir é ujna arte
de perder; ela renasce constantelnente do innpossível que a
Instaura,
Elaé assonIbrada, Inclusive, por unia furia contra as
presenças, cuja
ranquilaestabilidadedissilnula seu destino de
desaparecerpara ali-
mentaro desejo. Conviria 1110rrerde falar, con10
se jnorre de prazer:
"finalmente, Outro". O ator ora expira, ora se
regozija,A "mlssa à
maneirade
faz:ela fala.

O artista precede"94
A fala,assim como o sonho, seria uma "homenagem
à realidade
frustrada"(LACAN1973, p. 57). Ao remontar o percurso
lacamano,
desdeseu fim teatral até seus começos psiquiátricos,ela
desenha
históriade um "estilo"; de fato, essa teoria do ato psicanalítico
elaborauma estética, se entendermos por isso o que os significantes
operam"ao transmitirem coisas que eles têm o aspectode signi-
ficar.Portanto, primeiro desafio: Lacan é, antes de mais
nada, um
exercícioda literatura (mas uma literatura que saberia o que ela é).
Escândalo na disciplina (pretende-se saber a razão: a literatura será
Indefinidamente rotulada como "não séria"?).Ao aconipanhá-lo até
Ondeele vai, em direção a um "dizer", cuja experiencia analítica
desvelaa natureza, ele indica a "verdade" da prática literária.
Essaperspectiva havia sido inaugurada por Freud de«de seu
livro,Estudossobrea
histeria (1895), conn o ge«to que, à de«coberta
psicanáli
se,associavaa necessidade de denunciar o diqcur«oclen-
tíficoe de passar
para o campo dos "rornancl<tas"e dos "poetas
(FREUD, Studien uber Hystcrie, t. l, 1940-1952, p. 237) Durante

ap III

213
El!StORlA PSíCANAuse:
CIÊNCIA E FICÇÃO

toda a sua vida, ele serviu-se da


literatura para
figuras conceituais e exemplos extrair
decisivos;a disciplina
ele permanece permeada pela criada
"autoridade do Por
Das Unbehagen in der Kultur poeta"
[Mal-estar na
1940-1952, p. 432). Assim, a "poética civilização],t.
da obra freudiana"
primeira via de acesso para penetrar seriaa
seu sentido"
p. 317). Bem longe de esquecê-la, (LACAN, 1966
Lacan privilegia
pesquisas que, desde suas primeiras essalição
publicações, dizem
'estilo". Assim, antes mesmo de sua tese respeitoao
(1932),
uma "esquizografia" empenha-se em indicar 0 estudosobre
com precisão,em
uma escrita patológica, os processos "afins
aos procedimentos
bastante constantes da criação poética" (LACAN,
"Ecrits'inspirés':
schizographie", 1975b, p. 365-382). Em 1933,
ele confereà sua
tese a significação de levar ao "problema do estilo",
ou seja,a um
conjunto de questões "sempre insolúveispara qualquer
antropo-
logia que não venha a libertar-se do realismo ingênuo
do objeto"
(LACAN,
"Le problême du style", 1975b, p. 383-388): início de
sua
polêmica "literária" contra o objeto.
Se excetuarmos os escritos de Freud (dos quais ele escolhe,so-
bretudo, os mais "literários": A ciência dos sonhos, O chiste,Psicopatologia
da vida cotidiana, etc.) , seus comentários incidem, em particular, sobre
monumentos literários: Sófocles,a poesia trovadoresca,Margarida
de Navarra, Shakespeare, Sade,Joyce, etc. Ele permeia seudiscurso
com fragmentos de poemas (Eluard,Aragon, etc.), encarregados de
plantar na linguagem o que, por incapacidade de ser um dito,abre
aí um dizer.As simpatias que o vincularam ao surrealismodope-
ríodo entre as duas guerras (Breton, etc.) não remetem somenteà
conjuntura do acolhimento "literário" reservado a Freud,na França
(ver STEEL,1979), mas a uma aliança teórica. Aliás, à listafreudiana
das"ciências anexas" que permitem pensar a psicanálise(existejáa
história e a crítica literárias"), Lacan acrescenta a retórica, a dialética
(no sentido aristotélico), a poética (LAON'
gramátlca e, sobretudo, a
1966,p. 288). Suplemento entre a literatun
característico. Ele marca,
e a psicanálise,um atribuído
intercâmbio ao qual, daí em diante,será
o nome de Lacan.

214
surpreende: por exernplo,
a relaçào conl
cltnunavá da análise a transteréncla que o
articula qual-

textoc01110se este estive<se deitado no nosso divã? Na verdade,


Vveudnão se Incornodou enn passar,conl
frequência.
desde a análise de Schreber, feita
exclusivanlentea

tosliterários, histoncos ou antropológicos. De fato, esses trânsitos


cura para a leitura questionani a "recepção" analítica da obra
lituana e. reciprocarnente, a passagenl da experiência oral para a
produçsioescriturar 1ano própr10 psicanalista.O escrito é o efeito
ea ticçio da relação. Ele suscita, finalmente, o interesse da própria
psicanal:'rica,
questão central enl Lacan que, por sua vez, se
ponclonaentre os textos de Freud (aos quais ele pretende retor-
nar)e os discípulos psicanalistas (que ele deseja formar). Trata-se
de sabercon10 ler Freud. Uma Interaçào entre leituras freudianas
e leiturasliterárias fará entender, de umas para as outras, a relação

nexio equivoca entre duas espécies de textos mediatiza a relação


oralentre o Mestre e os discípulos.
Ao formular a questão sobre o que a prática lacamanadeduz
do texto literário, sobressaem três elementos. Em primeiro lugar,
0 retorno da voz no texto é "literário"; em termos jakobsoma-
nos,a prioridade é atribuída à "função poética" que "enfatiza o
ladopalpáveldos signos" e procura neles o que "ressoa melhor"
1963, p. 218-219). Essa valorização do som —
OAXOBSON, chave de
paronomáslas,aliterações, rimas e outros jogos fônicos —semeia na
or mzaçào discurso uma transgressãooral que des-
semântica do
locaou corta os o significante
sentidos articulados e autonomiza através da
em relação ao sonora espalha-se
significado. Essa água
Paisagemsintáxica em que ela insinua os deslizes, delícias e delírios
para
de um nào-sabido. O ouvido do analista exerce-se precisamente
Ele
entfnder os murmúrios e as vicissitudes dessas outras linguagens.
setorna
qualquer discurso:essasvozes
atento à poética presente em
ocuhtas, pragmáticos e ideológicos,
esquecidas em nome de interesses

215
HISTÓRIA E PSICANÁLISE'. ENTRE CIÊNCIA E FICÇÃO

Introduzem, em cada enunciado de sentido, a "diferença"


o profere. Os significantes dançam no interior do do ato
texto.Separados
do significado, eles fazem proliferar, nas frestas do
sentido,
de endereços ou respostas —a qual Outro? Desse ponto os ritos
de vista,'e
"literária" a linguagem que faz escutar algo diferente
do que eladiz.
reciprocamente, a psicanálise é uma prática literária da
linguagem.
Se o texto literário mostra a movimentação do ato
enunciativo
em um sistema de enunciados, ele desdobra também os procedimen-
tos que articulam esses dois termos, ou seja,as diversasexpressões
que alteram os enunciados, gravando aí o que o sujeitolocutorpre-
tende do outro. Trata-se, aqui, de retórica e não mais de poética.No
entanto, essa retÓrica não poderia reduzir-se ao catálogodescritivo
das "maneiras" (ou tropos) de ornamentar o discurso;ela é, de pre-
ferência (como é já o caso em A ciênciadossonhosou em O chiste),
a lógica dos "deslocamentos" ( Verschiebungen) e das "deformações"
(Entstellungen)que a relação com o outro efetua na linguagem.Entre
essas operações alterantes, das quais cada texto literário apresenta
uma combinação particular —e cuja retórica deve elucidara lógica
Lacan privilegiou a metáfora e a metonímia (LACAN, 1966,p.
493-526, etc.). No entanto, pergunto-me se o deslocamento(ou,
de acordo com sua tradução, a "virada") metonímico não se impôs
a ele como se fosse mais fundamental a ponto de que a topologiaà
qual recorre seu ensino dos últimos anos seria um desenvolvimen-
to da problemática espacial própria à metonímia: com a topologia
no
lacaniana, haveria um esforço para elaborar uma nova retórica
discurso contemporâneo e, particularmente, uma lógica"meto-
questão
nlmlca". De qualquer maneira, ainda neste aspecto,uma
psicanalítica
"literária" define o modo a partir do qual uma teoria
especifica a formalidade de suas práticas.
pela"letra"
De forma mais ampla, pelos quiproquós induzidos no
explora o territÓri0
(identificada com o significante) , a literatura
viagem humana — o reinoda
interior do qual se desenrola qualquer al
traçando
impostura.Ela é um trabalho no elemento da impostura,
própria
uma "verdade" que não é o contrário do erro, mas,na e
impossível.
tira, a simbolização do que se representa aí como
encenações de Freu
impressionante que, em uma de suas mais belas

216
IACAN: DA FAIA/PAIAVRA

tenha Visto —ou, de preferência, escutado ---o


a conduzir aí Moisés da
sICanálisededicar-se seu povo:"De qualquer Iliodo,
Ir. Mas, onde? —Ao país da irnpostura. I
temos de ...l Ai é o pais
parao qual conduzo meu povo" e assurno tal atitude
"por estar
preocupado corn a verdade" (LACAN,1973, p. 34-35). E psicanalista
entra nessa região, como outrora era solitário (monge) quem
partiapara o deserto. No entanto, mesmo ai "o artista sernpre o
precede"e "abre-lhe o caminho" (LACAN,1965, p. 9-10) Assinl,
Duras, abrindo, em companhia de Jacques Hold, o
Mar=Tuerite
"campoimenso, embora cercado por aço, da mentira", o "arreba-
tamento"de LOIV.Stein. Onde está, portanto, LOIV.Stein? 'Ei-la
Quem está aí na cama? Quem, segundo o que ela cret
desnuda.
1976, p. 106, 187). 7 0 romance introduz "nessa inxagem
(DUIAS,
de com a qual o Outro reveste você e que a veste, e que, quando
destaé desvestida,a deixa, o que ser embaixo dela?" (LACAN,1965,
10;2003, p. 201) Desse embuste, Lacan presta homenagenl a
MargueriteDuras que "demonstra saber sem mim o que eu ensmo
e,casoúmco, evocando "aquilo de que [ela] me dá testemunho"
- ele Citaessa voz —para autorizar o "apoio" encontrado em seu
romance(p. 9, 14, etc.).
Com um aparato teórico diferente, o psicanalistaavança,por
suavez,para o lugar precisamente em que os "artistas"o haviam
Por que seria surpreendente que ele venha a recorrer,
precedido.
assimcomo seu "doente", aos "procedimentos bastante constantes
criaçãopoética"? Sobre os procedimentos lacamanos,os estudos
Jásãonumerosos e apresentam a gama completa dos géneros, desde
acrimónia da seriedade linguística até as mistificações da simpatia
reco-
Inútil voltar ao assunto. O essencialconsisteem
estilística.98
nheceraí o conjunto das operações efetuadasna linguagem pelo
serfalante". Esses traços literários são os gestos de uma teoria, suas

etomadada frase romancista precedeu


de Freud (1971a) em sua análise de A Gradivade
sempreo
cientista".
Iver DE CERTEAU, in BAJOMÉE;HEYNDELS.
"Marguerite Duras: on dit", p. 257-265,
George
Georges Mounin até François
efetivamente' desde as primeiras análises de assim
(1979)Ver,sobretudo, "jogos de retórica" in VAGES,1971:
comouma uma apresentação semiÓtica desses 1972.
crítica filosófica in LACOUE-LABARTHE; NANCY.

217
tnanelras de andar; eles desenham,
talvez, essa
considerada por Roland Barthes "linguísticada
como algo ainda falas,
r
impossível
e
(BARTHES,
1970, p. 219
Impossível, de qualquer modo, e 223)
reduzi-la (e equipará-la)
linguísticos dos quais ela não cessou aos
de se distinguir
não é o ser falante"), sem deixar, ("a lin
no entanto, de
préstimo conceitos que ela metaforizava pedir-lhesde
uma Inversão de Imagem —quiproquó, por imediatamente?
Somente
sua vez,revelador
explicar que Lacan apareça como "psicolinguista" pode
nos cartazesnorte
-amencanos. Seu procedimento obriga, de _
preferência,a formular
a questão sobre a necessidade interna que leva
a fala analíticaa uma
escrita poética e transforma essa experiência em
elucidaçãodo que
é a prática da literatura.

A mentira e sua verdade


Para entrar na dança representada, conjuntamente, pela
mentira
e pela verdade (à semelhança do que ocorria, outrora, com o vivo
e o morto), convém retornar à cura psicanalítica e passardaíparao
discurso analítico que é "o vínculo social determinado pelaprática
de uma análise" (LACAN,1974, p. 27). Essa prática inaugura-seem
uma impostura mútua, postulado geral de uma cura"psicanalítica",
ou seja, baseada exclusivamente no tratamento da linguagem.A
partida, o analista é, pelos clientes, "suposto saber"; ele funciona
como objeto da crença deles. Os clientes, por sua vez, solicitam-lhe
o que, no fundo, não querem saber (o segredo do próprio"mal")
e desejam, de preferência, um ouvido a quem relatar seussintomas.
Esse lugar inicial conduz a relação "médica" à condição de qualquer
conversação ordinária; no entanto, enquanto o código socialacata
e impõe que seja respeitado esse jogo da impostura, a cura começa
com a maneira como o analista se distancia desse respeito.
O que é, portanto, um analista?Resposta de Lacan:"todoaque-
le" que, situado na posição de "supostamente saber", apercebeu-se
e não esquece o que é o conteúdo desse saber;por conseguinte,

filosofia
Assim, o rigoroso estudo de Gilbert Hottois (1981) estabelece o paralelo entre Lacane a
linguística.Como diziaWittgenstein, ele "perde o ponto".

218
essa conountuva
«e e
ele nio se Identifica esse lugar, nelll qualquer
tranqornxa o
ou woa, a Ilientlt sa,
111asesta frustra
(i' n est pas
\ e:.o analisando conserva Incessantelllente
a
o saber que ele «upóe no outro; receia preocupa-
não tanto ser
anav seu analista. Ele coloca enl ordenl
suasconfissões
de a tratar deterencla o que ele cre acerca do
outro:
'Se lhe tlxasse falado 111<80 lixais cedo, o senhor seria levado a

ne pernute Interpretar; de fato, é o cliente que interpreta.Se,


hum..." diz
"acredita 2.' &—sentão. o analisando questiona-se
indefinidanrnte
sob o Alie tais Indicios si=Y111fica111
para ele: a que provação ele me
O que ele pretende de num? Que verdademe indicade
modoenlsxlllátlco? Ele se encontra na situação do ciumento sub-

acreditaacerca do outro. Ele compõe seus romances. Dessa forma,


o que lhe "cabe" do que supõe no outro é algo de diferentenele;
é umaparte de sua história "esquecida" sobre a qual, aos poucos,
elefica sabendo que, constituída por uma relação com outros (pais,
etc.),ela não depende do saber do analista. Finalmente, aqui, nada
hápara acreditar, além do fato de que a historicidade de cada um
seinstituisempre a partir do que um outro leva a crer. O lugar do
SUPostosaber não passa da cena em que aparece o não conhecido
do cliente.No entanto, uma vez mais, a aparição do fantasmasó
seproduz se o analista não ocupa essa cena em seu proveito; se ele
nãose consideracomo a imagem de si que lhe é enviada;se ele
aceitaa "abjeçào" de ser somente o representante do que ele não
sabe;finalmente,se ele mantém a "futilidade" de um discursoque
e
extraisua operatividade de uma ficção (LACAN,1973, p. 125-133;
1974,p. 28-29;
etc.).
A seme-
Essa"abjeção" nem por isso deixa de ser uma arte. como
lhan a do equilibrista na corda bamba, considerado por Kant
o modelo da der Urteilskraft,S 43, in
arte de fazer (KANT,Kritik

219
p. 401-402), o analista visa, por imperceptíveis interven_
t.v, 1957, entre uma presença de corpo
çôes,Inanter-se enl equilíbrio (uma
às asserções do analisando e o recuo
simpatia)que serve de suporte
Inestno a dizer ' 'desdénf') que evoca
indispen«ável(Lacan chega ou 1
de sua atitude. "Questão de tato",
marca a atnbiguidade declarava
tocar, no outro, o que se ignora;é uma
Freud.Esse"tato" consiste enl
palavras o acaso de sua significação,
arte de insinuar na cadeia das de
rnaneiraque o analisando identifique aí, tal conno um osso deposi-
tado nesse lugar pelo passado, urn "significante" (um "pedacinho de
verdade", diz Freud) do qual ele faça atualmente sua fala,ou seja,o
ato (ético) de segurar sozinho seu desejo na própria linguagemda
innposturaque lhe irnpôe sua história.
Desde 1936, Lacan havia estabelecido o princípio dessaver-
dade,ao analisaro que ele designa como "a fase do espelho".Essa
cena infantil não é somente, para ele, uma fase do desenvolvimento
(entre seis e dezoito meses), mas "uma função exemplar"
1975c,p. 88). Ao dispor apenas de experiências corporais dispersas,
sucessivase móveis, a criança recebe, pelo espelho, a imagemque

jubilatória", ela descobre ser ulll (forma primordial do eu),maspela


alienação que a identifica com essa coisa diferentedela (uma ima-
gem especular). A experiência poderia resumir-se nesta fórmula:eu
sou isso.O eu forma-se apenas ao alienar-se. Sua captura começa
com o nascimento. Nesse episódio exemplar manifesta-se a matnz
de uma "identidade alienante" que irá repetir-se em identificações
secundárias.Desde a origem, ela instaura o eu como "discordâncn
do sujeito com sua própria realidade" e faz apelo ao trabalhodo
negativo ("isso não existe") pelo qual o sujeito manifesta-seno
interior da mentira de sua identidade ("eu sou isso")
stadedu miroir", 1966, p. 93-100).
A passagemdo "eu especular" para o "eu social",pelo acesso
à linguagem, complexifica os efeitos dessa matriz, sem modificar'
porém, sua estrutura. Neste artigo, está fora de questão relatarasres-
pectivas estratificações e seus entrelaçamentos, aos quais foi dedicado
um grande número articulÚ
de anos de ensino. Basta dizer que, ao
a experiênciaanalítica essa
a partir de uma teoria do sujeito,
A I AIA/PAIAVRA

oe 0 literário.
novo canilôos
Ela torna
tt.1t.111R11to abertos por ele: possível
jubilatória" da criança as inxagens
que
fascinadapela
Identidade; literatura que aparição
produz, com um
texto,
deternunado grupo em ' 'uni"
(símbolo),fornecendo-
<uposta e des-1Hentida por suas
_1110ticçio práticas sociais; etc. Em
esses a Ilientlra é o elemento no
qual pode aparecer
\Qrdade,a saber: o Outro institui sempre o sujeito ao
aliená-lo.
Retorno de Freud

A lilaneira corno Lacan se refere a Freud —partindo dessa


relaçãoconl o outro —fornece ou deve fornecer um modelo.
Retorno a Freud", tal é seu programa. Por esse retorno, ele visa
texto,cuoo autor nunca chegou a conhecer. Um morto presente
apenaspor seu discurso, à semelhança de Sófoclesou Shakespeare,
masé o umco ruorto que é verdadeiramente importante: o pai. O
papelcentral que Lacan afeta ao "nome do pai" e à constituição
dalei pela Inorte do pai indica já o peso dessa referência —ou
fazseu peso.
É possível entender isso em melhores condições em outra cena,
ouseja,no comentário em que Lacan analisa a "tragédia do desejo"
que é, para ele, o Hamlet de Shakespeare (uma obra assombrada
pelaImportância que Freud já lhe atribuía e pela interpretação que
ele lhe deu) (LACAN,Le Séminaire, Livre VI— 1958-1959).100Nesse
lugardo pai, o espectro de Freud ergue-se e, ao mesmo tempo, o
rei assassinadopelos familiares. A lei ditada por ele exige a mor-
a
te de quem reina em seu lugar, em seu palácio.De acordo com
não um
kbservaçàode Lacan, Hamlet encontra, com esse fantasma,

Orto,mas a morte; além disso, a ação de que está incumbido
— mortal,
Oderealizar-se com a condição de ser —também, para ele

Hamlet,
páginas são dedicadasa
texto datilografado duzentas Hamlet
P 376-377 que me serve de referência, das interpretações de Freud,
sequência
(de 4 de a 29 de abril de 1959). Na (1910), Rank (1919),etc.
sendo um lugar da "família" com os comentários de Jones

221
eSCANÁifSE¿
FtccÀo
a plena realização
luto que esteja
do ser-para-a-morte.
(sem a mínima No entanto,
assassinato que ele hesitação relativamente
deve executar, à
lei), ele segue por transformando-a em justiçado
vias transversas, todasa sua
perdura uma vida "zanza". Essa
inteira, tergiversação
ela cna um entremeio é um período dedicado à mãe;
[entre-deuxlpara as
ordem do espectro,
Hamlet deve executar,"intervenções"que',por
nuadas entre sua mãe e atravésde palavras
o amor que a gruda
ao traidor Claudius.
O
O, Step between her and
herfighting soul,
Conceit in weakest bodies
strongestworks,
Speak to her,Hamlet.

' 'Vá intrometer-se entre ela


e sua alma em via de
O conceit[o concettí,a agudeza do combater.
espírito] opera da forma mais
vigorosa possível nos corpos fatigados.
Fale com ela, Hamlet" (ato
III, cena IV).' 01A espera da morte ao me
vingar,fale;introduza
palavras "preciosas" entre ela e o objeto com o
qual ela se iden-
tiflca.A voz do comentarista acrescenta: "Between
her and her:esse
é o nosso trabalho. Conceit in weakest bodiesstrongest
works,eis o
apelo que é dirigido ao analista". Por quem, senão por Freud,e a
quem, senão a Lacan?
Será necessário decodificar o que se diz de Lacan no discur-
so do outro? E inútil porque o essencialé relatado,à letra,pela
interpretação desse "sonho" shakespeariano. Pelo contrário,dois
corolários permitem indicar com precisão como funcionam,por
um lado, o nome e, por outro, a obra de Freud. O primeirodiz
respeito à intransigente unicidade da referência freudianano dis-
curso de Lacan. Por quê esse singular?De onde vem esseúnico
entre os inumeráveis nomes que povoam esse discurso?Não basta
evocar a disciplina que carrega o nome de seu fundador.Sabe-se,
desde Moisés e o monoteísmo, que a preservação do nome (Namen) é
acompanhada pela traição da "realidade" ( Wesen)designada por ele;

Cito a tradução de Lacan (In SéminaítejLivre VI- sessão de 11 de o


rnarço de 1959). [Na citação'
inciso entre colchetes é de Michel de Certeau.l

222
por cliiiproquó habitual 11as
Ilidade
136ss).lt A do
apvotundado sobre a pevtlllellcaa
da tese freudiana;
lacan pretende preclsatnente pensar
ora
história. Para ele, é
do que e<ta perdido, conio ocorre lio
Ilionotcís-
é alelil do Separado. Ulilco tailll)élli
éa
0 do que OK 13<1cana11Ktas
odei,llli e desejani esquecer.

conx var10<•'concettl , enl «eparar o sujeito cotnbatente


consiste.
de sua< Identificações alienantes e, por conseguinte,
801115)
emrestauraro desejo do ausente, ha enl Lacan
H -- Vilnafuna, alternadanrnte Ironica e violenta; ela percorre
o espaçointeiro da p«icanálise que, graças a esqaperda, «e dissenilna
eprospera.Alotiv•.existe algo de podre no reino da Dinarnarca.Para

nosignificanteestrangeiro por onde o unico retorna, para sernpre


Inseparável
da Inorte.
Mas,relatlvalnente ao Irreparável dessa separação,que tornva
positivaassun11ráa Interpretação da obra freudiana? seria
perrnanecer-lhe "fiel"? Esse ponto é estratégico para Lacan,
possivel
cupapreocupação prunelra consistiu senipre enn formar analistas e em
assim,a transnussào da experiência analítica."Meu ensino ,
garantir,
0 que ele repete por toda parte, ao auscultar seus progresso«,suas
a Ulsiçôes,assim con10 seu "resto' que ele reserva para si corno um

dadea Freud não será interdita a quem só dispõe, como apoio,de uni
faitante?Os debates desencadeados por essa suspeita implicaram, na
Ole,controles cada vez mais rigorosos: a instituiçãodeve respon-
Ilizar-sesempre pelos déficits da teoria. No entanto, a indagação
Vporta também uma resposta teórica: a relação conl o faltante
rganizajá o que a própria po«içâode
discurso freudiano de Inodo elucidado
ud,transformad0 repete o que havia «ido
espectro,

CERTEAU, Eli,
1984, p. 337-352.

223
seus escritos e, portanto,
pode tornar-se o
Nesse aspecto, o princípiodc
pode ser leitura
t?torno de Ft&sude não apenas
conjo retorno a Freud
que, no psrqulsnxo, etil
diferentes cenas, não cessa de
Outro que constitui o suoeitocomo ser o retorno do
relaçãoa objetoijnpossívcl,
Nesta hipótese, os "doentes", à
setuelhança de espectros,
entender ao analistao que falano aindafazem
dlscursofreudiano,
Uma arqueologia cristã
Mas, finaltnente, qual é esse Outro, cujo
irredutível
permeia slnuosanxente a obra inteira?"O outro estáaí... brilho
enquanto
justamente ele é reconhecido, embora desconhecido"(LACAN,
1981
p. 48). "Esse Outro que designo con10 0 Deus obscuro" (LACAN,
1973,
p. 247). Senxelhantes fórmulas e um grande número de outrasaná-
Iogas, assim corno o próprio aparato da análise,impõem, aospoucos,
a Impressão estranha de que um monoteísmo assombraa casa.Ele
se detecta nos conceitos que pontuam o discursoe cujapromoção
teÓrica (e/ ou mítica) é marcada, quase sempre, pela maiúscula:a
Fala articula-se a partir do Outro pelo Nome do pai,peloDesejo,
pela Verdade, etc. Por toda parte, reproduz-se a forma monoteístado
singular maiúsculo, índice de algo que, sob o significantedo Outro,
retorna sempre ao mesmo.
por
Não se trata de um segredo, cujo mistério fosseconservado
é sempreo
Lacan que, de preferência, repete: "há algo de Um" que
(1975a, p. 25, 63, etc.). Com a condição de "nunca recorrera
Outro
"o fato de
nenhuma substância", tampouco a "nenhum ser" (p. 16),
a hipóteseDeus
dizê-lo faz Deus" e, "enquanto vier a ser dito algo,
hipótese, a "canção" (assim se exprimlam
estará aí" (p. 44). Dessa lacaniano, ela
de nenhum lado. No discurso
os místicos) não vem cristã.Ao
é
narrativas e seus lugares teóricos:
tem sua história, suas
impressionado com o corpusque
acompanhar suas aparições, fica-se evangélicos;tex-
textos bíblicos e
se encontra aí citado e comentado:
são Paulo, santo Agostinho e pascal,
tos teológicos (evidentemente,
da profissão, tais como A. Nygrenj
assim como autores representantes teólogo jesuíta
Rousseiot,
professor sueco de teologia sistemática; P.
CIMA

pesquisas ao Intelectualismo
dedicou suas tomista e à
textos místicos (Hadewijch filosofia do
etc.);e, sobretudo, de Antuérpia,
Eckhart, a Illiitaçâo de Cristo ou Internclleconsolation,
Mestre
Silesius, etc.). Eles Lutero,
Teresade pontuam o espaço
exórdios (onde é que lacania-
no e marcanxal isso começa?) ou saídas
(onde
essecontrole sistemático de considerandos,acrescenta-se
analista falante, "Mestre da verdade"
afiguracentral do (LACAN,
1966,
"diretor de consciência" (LACAN,
313), até mesmo 1986,sessão
etc.), um "santo" que "banca o dejeto" (LACAN,
)CXVII•, 1974,p. 28-29;
1993,p.32) e cujo modo de se exprimir, preocupado com o preço
queo corpo deve pagar para conseguir acesso ao simbólico,é uma
falaestruturadacomo a do rezador.
Algunsindícios orientam para uma identificação ainda mais
precisa.Assim,a estranha dedicatória da tese de 1932:"Ao Rev. Pe.
Marc-FrançoisLacan, beneditino da Congrégation de France, meu
irmãode religlao . Ora, Lacan conhece bem sua língua:a "reli-
giào"designa,aqui, a "congregação religiosa", enquanto "irmão de
aponta para uma aliança que não depende do sangue,mas
religião"
deuma comum participação na Ordem. Por este texto, colocado —
à semelhançada "carta roubada" —no local mais visível e, por essa
mesmarazão,dissimulado à vista, evidenciam-se determinados traços
"beneditinos"que eu ainda não tinha observado sob estaperspectiva:
a concepçãoadotada por Lacan a respeito do "mestre" (segundo
asregrasque caracterizam a "direçào espiritual"); a definição de
um"trabalho" que é essencialmente "fala" (à maneira do opusDei
a prática da literatura como exercíciodo desejo(em
beneditino);
conformidadecom a tradição monástica da lectiodivina—ver, por
daVer-
exemplo,
LECLERCQ, 1957); a própria ideia de uma Escola
dadeem que a filiação é avaliada por uma experiênciaque exige
umcompromissopor parte dos sujeitos e em que o abbas(eleito)
detém,simultaneamente, ges-
e o poder de
a autoridade do discurso
0;etc. Em torno (monos) e asceta da fala que
de Lacan —"monge"

Esseé o
epónimo permanente de Lacan. Pe.
meu irmão, 0 Rev.
tese
dedicatória de 1932
foi corrigida na segunda edição da "Congrégation de France" designa
arc-François
Lacan, beneditino da Congrégation de France" A
a associação
das abadias em Solesmes.
beneditinas, cuja sede se encontra

225
ele sustenta (corn humor e, até mesmo, uma feroz
ironia
que ele designa como "mundano" reúnem-se os praticantes
desejo, cuja verdade é capaz de libertar os alienados de
da
Até mesmo, a militância dos lutadores espirituaisde identidade
guerra contra quais demónios?) e sua autonomia outrora(ena
rebeldeperanteo
poder público constituem uma marca da Ecole Freudienne
deparis,
A semelhança de Freud, Lacan não considerava
desprezível
crença religiosa, embora não a tivesse assumido.O que fazer, a
atual_
mente, com essa pesada história, se não se cede à ilusão de
recalcá-la?
Eis a questão que, nos últimos três séculos, tem ocupado o Ocidente:
o que fazer do Outro? Para o próprio Lacan,GeorgesBataille
é
uma testemunha disso, cuja análise diz respeito, igualmente,àssuas
relaçõescom Freud e com o cristianismo.
Sabe-se o apreço atribuído por Freud às adesõessuscetíveis de
ampliar a psicanálise a não judeus. Nesse aspecto,sob a figurado
"espiritual" que seria representada por Lacan, será que a história
cristã introduz no freudismo uma distância menor que sobsua
figura "teóloga", tão característica de Jung? Quais são os efeitosdo
"espiritualismo" de Lacan sobre a tradição judaica que se articula
em Freud? E, sem dúvida, prematuro (antes da publicação de todos
os textos lacanianos) e temerário acompanhar essascompetições
divinas nos bastidores das teorias. Ao limitar a consideraçãoao que
concerne à palavra, uma divergência "arqueológica" parece,no en-
tanto, determinante: a tradição judaica está ancorada na realidade
biológica,familiar e social de um "corpo" presente e localizável
que se distingue dos outros pela "eleição", que tem sido perseguido
pela história em êxodos intermináveis e transcendido pelasSagradas
Escrituras que gravam nele o incognoscível. Enquanto isso,o cristia-
msmo recebeu sua forma pelo fato de estar separado de suaorigem
a
étnica e de romper com a hereditariedade: o "desprendimento'
partir do qual se instaura seu Logostem como índice a própriaperda
do corpo que deveria substituir todos os outros, o de Jesus,de modo
que a palavra "evangélica", oriunda desse desaparecimento,deve
responsabilizar-se,por sua vez, pela produção de corpos eclesialS'
doutrinais ou "gloriosos", cujo destino consiste em substituiro corpo

226
LACAN.• UMA ÉTICA DA FALA/
PALAVRA[PAROLE]

própria palavra torna-se 0 que faz


na sua relação com "sacramento"
corpo;talvez, esse faltante, no lugar
sua de rebelar-se 0 cristianismo
a apolar contra a história
em nome
ffachçio]tIdaica.Asrernanencias desse "desprendimento"
desafioda palavra e os procedimentos que ele através de
poderiam efetlvamente
intenta contra o
..blológlco" indicar —nas
tomadas de posição
profissionais
teóricas, e sociais de Lacan —a diferença
por uma hlstórla cristã. introduzida
freudismo

A teoria das figuras éticas

Essaarqueologia só aparece, em Lacan, transformada


pelo modo
comoele a utiliza: uma transformação que consiste em
pensar —de
acordocom termos que deixaram de ser os seus —a
história reli-
giosaque retorna. Tarefa de uma teoria. Em Freud, ela
culmina em
Aloisés
e 0 1110110teís1110,
um livro preparado "a fogo lento", durante
váriosanos ("a partir de Totenl e tabu, ele limitou-se a
pensar nisso,
ouseja,nessahistória de Moisés e na religião de seus
pais"; LACAN,
1986,sessãoXIV). Correspondente a esse
importante livro, Lacan
elaboroua Etica da psicanálise (1959-1960), considerado
sempre por
elecomoo lugar estratégico de seu
ensmo, o unico Seminário que,
naverdade,ele havia desejado
"escrever".105 Desses dois confron-
tos,emergiram obras
importantes, mas —clivagem reveladora —
enquantoa primeira suscita uma teoria da escrita (núcleo da obra
freudiana),
a segunda produz uma ética da fala (mola propulsora do
pensamento lacaniano).
Um discurso não
freudiano —predominante durante os anos
POS-guerra serviu
de terceiro elemento na gênese da Etica:a
enontenologia
do espíritode Hegel. A partir dos comentários de A.
OJeve
(quemarcou estilo
profundamente o conteúdo e o próprio

atuaimente,0 que
que pretenda publicar, este é, p, 9,
voltarei a (Encore, 1975a.p.50;
escrever, do qual farei um texto"
Na obra relativas à da psicanálise,
Introdução, numerosas de sua
meu seminário,
foi 0 com base na frágil prancha
de águas

227
HISTÓRIA E PSICANÁ(ISC,'ENTRECIÊNCIA t FICÇÃO

do "Seminário"), de A. Koyré ou de J. Hyppolite, Lacan


na obra desses autores o modelo teórico de um encontrou
desenvolvimento
histórlco, cuoas "figuras" sucessivas manifestam o devir
do saber
absoluto que se libera, finalmente, de sua última positividade,
a
ligiào. Em sua Etica,por conta própria, ele refaz,simultaneamente,
o Moisése a Fenontenologia,empreendendo uma via originalentre
essas duas obras que privilegia figuras éticas (Aristóteles,sãoPaulo,
o amor cortês, Sade, Kant, etc.) pelas quais um pensamentodo
desejo é conduzido até as relações ambíguas entre realidadee pra-
zer, tais como Freud as havia elucidado. Ao limitar-nos ao que diz
respeito ao cristianismo, temos acesso à ética quando, em vez de se
identificar com seu objeto, a crença rejeita tal ilusão e, destemodo,
exprime sua verdade. A ética é a forma de uma crença desvinculada
do imaginário alienante em que ela supunha a garantiade um real
instituído por essa
e, portanto, transformada na fala que diz o desejo
não é, portanto,
falta. A semelhança do Godot de Beckett, o outro
da históriaem que,
somente o fantasma de um Deus rechaçado
passagemde seus crentes,mas
no entanto, permanece gravada a
estrutura geral cuja teoria é tornada possívelpela eliminaçãoda
a
de seu luto.
positividade religiosa e pela aceitação
é o instrumento mediante o qualLacan
A análise freudiana
em uma erótica ou em uma estética,a "asce-
consegue identificar, por nenhumato.Para
que não é apoiado
se" de amparar o desejo não se preocupacom
categórico
Kant, por sua vez, o imperativo 1986, sessãoXXIV; 1966,
(ver LACAN,
o possível: é incondicional constitui-se na própria relaçãocom
a ética
p. 321 ; etc.). Para Lacan, com "a demandaderradeira
ela coincide queo
o impossível; no homem, essência falante"
privado de algo de real" ou com "essa coisa da qual
de ser .106"A única
1986, sessão XI) cedidoem
acasala à morte (LACAN, fato de ter
ser culpado", finalmente, "é o para
alguém possa que pode
há outro bem senão o impossível sem
relação a seu que é
preço a fim de ter acesso ao desejo" - o de compal-
pagar o mas também
só de temor,
"transpor toda a espécie não
xão" (1986, sessãoXXVII).

por "vacúolo"
106Lacan designa essa demanda

228
tendo Sido levada
a seno a
(per tio histona do questio
SátQ»clesopõe toda euca
cnstl.uuslllo)—e
basea&lno
moral sua essência,
permanece • coincide
'moral do li',estre••.
o sacr1ñc10do em proveito da
sociedade.Qual-
poder, por revolucnonino que possa
ser, declara sua
"Continuem trabalhar... Que fique bem claro
que essa
de modo uma oportunidade para manifestaro
menor
Essa-'moral do poder", é dos bens". repete de
de o a fala:-Em relaçãoaos
degos. terio de voltar"

Uma política da fala?


Como compreender, a parar daí, a evolução da Ecole em que
acanaparece,alternadamente, como -Mestreda verdade, como
mafiosoque prepara seus golpes nos arcanos da "família" e como
Sardanapalo que liquida o harém antes de morrer? Uma vez mais,
nãose trata de manipular desonestamente os episódios recentes
198())que repetiram na Ecole Freudienne, de um modo
tragicomédiado Panthéon,nem de esboçar - lmclativa Indiscreta
e grotesca—a psicologia do personagem, em cujas fortes amizades,
Inclusive as manifestações de ternura, ha'áam seus corolários de as-
úciase ódios.Convém, de preferência, analisar a política introduzida
or essafala quando, sob a forma de uma Instituição, ela inscreve-se
ojogo das relações de força.
O ato de fundação (1964) definia a Ecole como
no
(...l o organismo em que se deve realizar o trabalho que,
campo aberto por Freud, restaura a perspicáciade sua verdade;
de
que conduz a práxis original, instituída por ele sob o nome
mundo; e que,
psicanálise,ao dever que lhe incumbe em nosso
os compro-
por urna crítica asqídua, denuncia aí as transgressões e
degradar seu uso.
metimentos que amortizam seu progresso ao
Aliás
paraindicar
as modalidades de funcionamento,
urna"nota com precisão
fundação considera nulos
anexa" afirma que "este ato de

229
HISTÓRIA E PSICANÁLISE: ENTRE CIÊNCIA E FICÇÃO

hábitos simples", ou seja,o aparato jurídico de um


direito
independente da tarefa que especificauma associação comum
Nesse Imponente exórdio, reconhece-se um modelo particular.107
"espiritual"
com sua arqueologia "monástica". Ele é lavrado por um
desde o corneço, ele não obedece à fé do possível.Ao
desafio:
"mundo" ele
opõe um "dever". A fala deve criar para si um corpo --
um corpo
que faz falta a esse"mundo" em que a verdade é desconhecida
A instituição é, portanto, uma "Ecole" com a forma mesma
do
ensino: convém que, da fala, venha a emergir um corpo definido
inteiramente por ela. Ao retornar ao passadoque lhe servede es-
trutura, essa"génese" aparece respaldada em uma provocaçãode
estilo "cristão": de fato, no "gênesis" da Bíblia judaica, a fala não
cria, mas separa,produzindo a distinção no caos inicial e efetuan-
do, assim, uma distribuição "analítica" do espaço; por sua vez, no
gênesis" cristão do Novo Testamento, a fala dá origema um corpo,
ela é o verbo que se faz carne, umfiat. Nessa diferença,detecta-se
já o desígniolacanlano.
A Ecole é caracterizadapela ambição,fascinantee altiva,de
ajustar todas as instâncias institucionais a partir da ética do sujeito
falante. Ela é a escola do desejo instaurado por um objeto que nunca
é "Isso". Daí seus diversos funcionamentos: a relação com o Mestre
único que se esquiva sempre à captação; os grupos, ou "cartéis" , pelos
quais é garantida a continuidade, entre quatro ou cinco analistas,dos
procedimentos da transferência, liberados da relação dual; o "passe"
ou iniciação à posição de analista que consiste, para retomar os termos
já utilizadospelo ato da fundação,em "experimentar" e em "con-
trolar" o estilo analítico dos candidatos; as assembleiase a fundação
da "sede" que visam contrariar, a partir de cenas e por confrontos
públicos, a lei tribal dos sectarismos formados entre colegasda mes-
ma geração ou entre "descendentes" do mesmo analista;finalmente,
os Seminários e os congressos que exorbitam a escolarizaçãodos
membros da Ecole (como se esses teatros do saber servissemde álibi
erudito e social ao "suposto" saber da prática analítica),mas que,de

IVer
da fundação encontram-se nos sucessivos Annuaires da École Freudienne de paris•
107Os textos
LACAN, 2001.] Cf. LACAN, 2003, p. 239.

230
slillbohzar em fala tragicÔm1ca,
fato.permitelll teórica e quase
coral,a ascesesolltárla do exercíc10 cotidiano. No interior,
a Ecole é,
portanto,a cura enquanto ela nunca "tem fim" e nunca alguém
chega
terminá-la até que faltelll as forças.
a
Em relação ao exterior, a Instituição exerce uma dupla
função:
" resentar', publicamente, o sujeito suposto saber (ela é seu en-
dereço),ou seja, assunur socialmente a crença,cuja desmistificação
constituiprecisanrnte o objetivo da cura; e, por outro lado, credenciar
juridicamente(em nonr de uma profissão e de um estabelecimento
sério)o preçoa pagar para esse acesso ao simbólico, cujo operador é,
emprincípio, a análise. Essas duas funções apoiam-se mutuamente:
umacrençabaseia-se no que ela subtrai, fortalece-se com o que retira
e,por último, faz avançar por ser remunerada com esse propósito.
Tudo isso era, vigorosamente, articulado e refletido. Por que,
então,as violências, as tensões e, enfim, o fracasso?Simplesmente
porquea história não obedece à fala que a desafia.Com certeza, o
autoritarismoradical da verdade lacamana tocava o ponto mais sen-
sívelde uma doença da sociedade, o núcleo patogêmco e impensado
quehavia criado a substituição do sujeito pelo indivíduo; ele irritava
comum grau de intensidade semelhante ao que elucidavao mal. No
entanto,as dificuldades não vieram do exterior. O sucesso revelou,
sobretudo,um irrealismo fundamental (fundador) do empreendi-
mento.Uma vez passado o patamar do intimismo "primitivo" entre
primeirosparticipantes da mesma experiência, uma vez perdida
tambéma legitimidade que a Ecole recebia pelo fato de se opor
àsAssociaçõesPsicanalíticas reinantes (tal oposição prodigalizava à
instituiçãoa própria função da fala, ocultando-lhe seus problemas
próprios),então, a Ecole da verdade revelou-se tal como era, ou seja,
umaInstituição como as outras, entregue aos debates concernentes
ao"lugar" dos analistas,às relações de força entre eles e, também —
Problemapolítico, igualmente —ao "fantasma de onipotência" que
Oshabita,A implantação na umversidade de ParisVIII —Vincennes
(1968),ao exigir 0 confronto com estruturas jurídicas independentes
experiênciaanalítica,marcou o início de uma revisãodilacerante
queacabaria ou
por levar a Ecole a sair de seu enquistamento na fala,
seja,de si mesma; arrancassem
era necessário que a prática e a teoria se

231
à dupla cena insular da Ecole e do divã. Mas conno tratar
essasquestóes
em nome de uma experiência que, para sua regulamentação,
considerado "inúteis" os expedientes jurídicos? havia
Ainda sobrava a tática. Usar subterfúgios conl a
hi«tória.Tentat
atraiçoá-la para não "ceder em relação a seu desejo".Trata-se
das
bilidades de Lacan, baseadas em um radicalismo da fala.Desse ha-
ponto
de vista, Lacan é o anti-Maquiavel, se soubermos reconhecer o
queé
realmente a obra de Maquiavel, uma ética do "bem da sociedade"
ea
teoria de uma ética política. O que não era atraiçoadopelopróprio
Lacan, só podia levar a um fracasso.Sua aventura institucional,essatrip
de seu desejo, deveria chegar a seu termo neste "malogro":nãoé isso
[cen'est pas ça].No fundo, a retirada de 1980, por mais surpreendente
que tenha sido em sua ocorrência, estavainscrita em sua ética.Ele
continuava "falando" ao separar-se desse objeto de amor que,por sua
vez, se tornara uma identidade alienante. Desse modo, 40 anos depolS
ele reiterava o gesto evocado em 1946:"Mantive-me afastado,durante
vários anos, de qualquer intenção de me exprimir" (1966,p.151).
Em seu livro, Les petites annonces,Catherine Rihoit [19811
lembra esta frase de Lacan sobre Freud: "Creio que ele fracassou
em sua tentativa. Eis o que vai ocorrer comigo: em pouco tempo,
ninguém dará a mínima importância à psicanálise". Seja qualforo
porvir da instituição psicanalítica, Lacan, por seu "fracasso",mantém
sua palavra. A semelhança dos textos que ele não cessoude fazer
por
ressurgir, seus escritos —torturados e transformados em concetti
essa fala —vão conservá-la com grande intensidade para se fazerem
a
entender. No entanto, se é verdade, de acordo com Freud,que
com
tradição não cessa de frustrar seu fundador,o que se passará
suahe-
Lacan: será ouvido nos lugares em que se pretende possuir
rança e seu nome, ou retornará com outros nomes?
de 1981,
7 de dezemb1X)

232
Listade siglas de algumas Obras (por Ordemalfabética e
coma respectiva data de lançamento) de MICHELDECERTEAU

ABH de l'histoire, 1973

CHE Le c-hristianiyne eclaté, 1974


CPL LI cultiljeau pluriel, 1993
ECH - L'élTiturede l'histoire, 1984
EUD- L'étranxerou l'union dans la différence,1991
FAM LI Fable JT, 1982
FCR - La Faiblesse de croire, 1987
HDO - Heterologies:Discourse on the Other, 1986
INQI - L'invention du quotidien•.1. Arts defaire, 1990
INQ2 - L'invention du quotidien: 2. Habiter, cuisiner, 1994
ORC - L'ordinaire de la connnunication,1983
PLA Une politique de la langue. LI Révolution française et les patois: l'enquête de
Grégoire,
1975
PO La possessionde Loudun, 1990
PPP La prise
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nouvelle
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abril de 1974.
con-
ERTEAU,M. Christianisme et "modernité" dans l'historiographie
tem
Oraine. Recherches de t. 63, n. 2, abr.-jun. 1975.
science religieuse,

233
CERTEAU, M. corps torturés, paroles capturées. ln:
GIARD,
L Michel
Certeau. Paris: Centre Georges Pompidou, Cahierspour un de
temps,1987
DE CERTEAU, M. De l'informatique à l'anthropologie. P,61.70
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Andreas-Salerné,Lou: 34.35,
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Aragon, Lours:
Arist6teles:97, 119.228 240.249
Arrow,Kenneth : 56 Cervantes y Saavedra.Mi.-uel de: I ill
Artaud*Antonin 211 Chaplin, Charlie: 251
Augé, Marc: 7 Consulte também: Charles Spencer
Charcot._lean Nlartxn: 21, S4.95.96.
Charles Spencer: 251
Bajomée, Danielle: 2 17 Choay. Frans-oise: 15
Bally,Charles: 106 Clastres. Pierre: 198
Barbu,Zevedi.73 Clérambault, Gaetan Gatian de: 21, 84
Barthes,Roland: 78, 106, 185, 187, 218 Cloulas, Ivan: 59
Bataille,Georges: 226 Condlllac, Etienne Bonnot de: 56
Béasse:160 Condorcet,Jean-Antome-Nicolas de Caritat.
Beckett,Samuel: 228 marques de: 56.57
Beirnært,Louis: 24, 25, 28, 29, 31, Corge, Charles: 58
35, 36
Benn,Got&ied: 200 Craig, John: 56
Bentham,Jeremy: 69, 120, 185, Craxvlev, Ernest: 77
248
BenvenisteÉm11e: 105, 106 Cuvillier,Armand: 23
173 Czubaroff,Jeanine: 50
BerBon, Henri: 83
Besanqon,Alain:73, 85 D
Bettelhefrn:84 Daman, Paul: 29
Blanchot,Maurice: Damiens, Robert-Franqois: 121, 160
132, 145, 243
Blondel,Maurice:
25, Defoe. Daniel: 186
onaparte, Marie: 85, 243 Deleuze, Gilles: 87, 122, 153
Borda,Jean-Charles de: 56, Demause, Lloyd: 83
Borel Pétrus:
241 Demos, John: 83
Borges,Jorge Luis:
119, 139 Derrida, Jacques: 186
outry, Philippe: 33
Descartes, René: 32
reton,André: 85, 105, 121 , Devereux: 85
201,214
Brown, Norman:
83 Diderot, Denis: 127
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Dilthey, Wilhelm: 178

251
NAUSE: Oatke CitNClAe ficcAo

55
fus, Alfredt 123
I )ubernran, Martin: 67 Geffré, Claude: 8, 238
Dumézil, Georges: 252 George, François: 217
Dupront, Alphonse: 252 Giard, 3,4, 8, 15,
Duras, Marguerite: 252 235, 236, 237, 239
Gide, André: 21,85
Girardet, Raoul: 40
Goering, Hermann (marechal):
Eckhart, Mestre Oohannes): 252 81
Goubert, Pierre: 177
Eluard, Paul: 252
Gramsci, Antonio: 124, 247
Empédocles: 208,
Granger, Gilles-Gaston: 32
Erikson, Erik H. : 252 Granoff, Wladimir: 29
Grégoire, Henri: 15, 233, 237
Groddeck, Georg: 79
Fages, Jean-Baptiste: 252 Grossman, Carl e Sylvia: 84
Favre, Pierret 252 Guibert, Joseph de: 24
Favret,Jeanne: 252 Guyon, Jeanne-Marie: 191, 244
Faye,Jean-Pierre: 252
Febvre, Lucien: 252
Federn, Paul: 252 Haan, Norma: 38
Ferenczi, Sandor: 252 Habermas, Jürgen: 38
Foucault, Michel: 4, 5, 10, 36, 39, 40, 117, 118, Hadewijch de Antuérpia: 191, 225
119, 120, 121, 122, 123, 125, 126, 131, Haitzmann, Christoph: 12
132, 133, 134, 135, 136, 137, 138, 139, Hale Jr.,Nathan G.: 83
140, 141, 142, 143, 144, 146, 147, 148, Hegel, Georg Wilhelm Friedrich: 227
149, 151, 152, 153, 154, 155, 156, 157, Heidegger, Martin: 249
158, 159, 160, 161, 162, 170, 236, 240, Herr, Lucien: 124, 247
242, 243 Heyndels, Ralph: 217
Fouilloux, Etienne: 26, 27 Hirschman,Albert 0.: 38, 67, 103
Frazer,James George: 77 Hitler, Adolf: 84
Freud, Sigmund: 4, 5, 6, 11, 12, 13, 21, 22, 23, Hold, Jacques: 217
24, 25, 26, 27, 29, 34, 35, 36, 37, 38, Horkheimer, Max: 73, 84
69, 71, 73, 74, 75, 76, 77, 78, 79, 80, Hottois, Gilbert: 218
81, 82, 83, 84, 85, 86, 87, 88, 92, 93, Hughes, H. Stuart: 22
94, 95, 96, 97, 98, 99, 100, 101, 102, Hume, Dasâd•. 67, 103
103, 104, 105, 106, 107, 108, 109 Hymes, Dell H.: 128
110, 113, 114, 115, 120, 124, 144 Hyppolite, Jean: 228
151, 171, 174, 186, 191, 203, 205
1
207, 213, 214, 215, 217, 220, 221
222, 223, 224, 226, 227, 228, 229 Imbert, Claude.' 100
232, 240, 242, 244, 245, 246 Inacio de Loyola: 14, 15, 31
247, 248
Freud, Anna: 86, 93
Friedlander, Saul: 12, 73 Jahoda, Marie: 84
Frink,HoraceW.: 82 Jakobson, Romant 215
Fromm, Erich: 84 James, William: 83, 244
Fumaroli, Marc: 68 Janet, Pierre: 21, 84
Furet, François: 59 Jay, Martin: 22
Fussner, F. Smith: 68 Jeanne des Anges: 32, 234
Consulte tarnbém: jeanne de beloer
Jean-Paul: 88, 100, 245
245
Garnier, Pierre: 240 Johann Paul Friedrich Richter. 100,
Garraty,JohnA: 83 Consulte também:

252
Macpherson, C. B..
de la Cruz,' Juan de Yepes): 56, 1101
( ruz Juan Major, René'. 39
Mallarmé, Stéphane
(Etienne): 17,
1 14, 1 15, 147, 248 110, 111
- 9.20
Mangenot.Joseph-Eugène:
P:erre-Jean: 85 Maquiavel, Nicola: 23
232
Marcuse, Herbert:
234, 239 84, 85
Marie-Joseph du
12, 24, 25, 79, 80, 81, 82, 226 Sacré-Cœur: 27
Marx, Karl: 81, 84,
102, 120
Mayer, Andreas: 36,
236
Mazlish, Bruce: 73
88, 101, 123, 219, 228, 23K) Merleau-Ponty, Maurice:
Abrarn:82
124,235
Meyer, Konrad Ferdrnand:
von•. 88, 1 (JC)
88, 1 124
Herjr:ch Meyer, Pierre André: 88,
100, 124
Meyerhoff, H.: 73
227
Michelangelo Buonarroti: 104
KT'-akov.'k1, Leszek: 1 94) Michelet, Jules: 51, 78, 187, 240
Lw ré..qexandre: 228 Miller, Jacques-Alain: 209
Kuhn.Thomas S.: 10 Miré, Joan: 188, 248
Moingt, Joseph: 36
Morales, Cesareo: 153
Lacan,Jacques: 13, 22, 29, 83, 185, 210, 247, More, Thomas: 114, 238
Moscovici, Serge: 155
Lacan,-Marc-François: 225 Mounin, Georges: 217
Lacoue-Labarthe:217 Mühlmann,Wilhelm Emil: 175
Lagache,Daniel: 28, 85
Laplanche,Jean: 28
Là%ierra,
Rw,rnond•. 196 Nacht, Sacha: 85
Latour,Bruno: Nancy, Jean-Luc: 217
Luret,Jean-Claude: 19K) Nicolau de Cusa (Nikolaus von Kues): 127
Le Bon, Gustave: 76 Nietzsche, Friedrich: 79, 182
Leclercq,dom Jean: 225 Nixon, Richard: 49
Legendre, Plerre: 128, 155 Nora, Pierre: 29, 40, 41
Le Goff,Jacques: 38, 71 Nygren, Anders: 224
Lehmann, Andrée: 27, 29
Lejeune, Philippe: 112 o
Lenau,Nikolaus (Franz Niembsch von Ogden, Charles Kay: 69
Strehlenau): 87, ICj0 O'Ma11ey,J0hnW: 30
Leonardo Da Vinci: 77, 88, Oraison, Marc: 28
100, 107
Levinas, Emmanuel: 187 Orcibal,Jean: 14
Lévi-Strauss, Claude: 165, Ozment, StevenE.: 196
169
Lévy, Philippe: 184,
191, 247
Lindenberg, D.: 124
Locke,J0hn: 67, 103 143, 224
Pascal,
oewenstein, Rudolph:
22 Pasqualini, Jean: 196
London, Arthur:
196 Paulo, 224, 228
Lucas, sio: 193
Lutero, Martinho: Pavlov, Ivan Petrovitch: 82
187
225 Peter, Jean-Pierre: 57,
Peyré, Ives: 39
Macciochi, Marla Platào: 56
Antometta: 124
Macfarlane, A]an: 56, Platt, Gerald M.: 73
101 Plé,Albert: 27
Mack, Maynard: 98
Pontalis.Jean-Bertrand: 28

253
E hCCÅO

to. 46, 50
Michel: 23 S6foc1es:
Pseudo-Dionisro, o Areopagita: Spinoza, Baruch:
146 67, 103
Psichatl, Ernest: 24 steel, David: 214
Putnam, James Jackson: 79, Steiner, Rudolf: 79
82, 244 Strout, Cushing:
73, 83
surin: 20, 32, 33,
34, 234,
237
Quine,Willard van Orman: 112 Suso (Heinrich Seuse):
Suzuki: 249 196

Rabant—LacÖte, Christine:
188 Tardits, Annie: 28
Rank, Otto: 78, 79, 221
Tausk,Viktor: 79
Rather, Dan: 52
Teresa de Avila (Teresa
Reich,W11he1m: 84, 85, 242 de Cepeda
y Ahumada): 191, 205, 225
Reiff, Philipp: 83
Thibaudet,Albert: 85
Reik,Theodor: 78, 79 Tilly, Charles: 59, 60
Reill, Peter Hanns: 57
Todorov,Tzvetan: 91
Revel, Jacques: 57 Trotsky, Léon: 82
Ribot,Théodu1e: 21, 84 Tudal,Antoine: 212
Richard, Jean-Pierre: 110, 111
Richelieu , Armand Jean
du Plessis, cardeal de: 32 Ullian,Joseph 112
Rihoit, Catherine: 232
Riviére,Jacques: 22, 85
Robin, Régine: 67 Vacant, Alfred: 23
Robinson, Paul: 84, 101, 186, 188, 190, 241 Valéry, Paul: 124, 125, 236
Roger, Jacques: 131, 240 Velåsquez,Diego da Silvay: 121
Rohrmoser, Günther: 84 Venturi, Franco: 124
Romains,Jules: 85 Verne, Jules: 132
Roudinesco, Élisabeth: veyne, Paul: 67, 236
12, 22, 28, 29, 41, 210 Vidal-Naquet, Pierre: 41, 196
Rousseau, Jean-Jacques: 67 Vidocq, Frangois Eugéne: 160
Roussel, Raymond: 121, 132, 134, 243 Viller, Marcel: 24
Rousselot, Pierre: 224 Vnukov,V.: 82
Ruwet, Nicolas: 245

s Wagner, Richard: 79
Sachs, Hans: 78, 79 Waugh, Evelyn: 183
Sade, Donatien Alphonse Francois, Wedekind, Frank: 87, 100
marqués de: 146, 214, 228 Wehler, Hans-Ulrich; 73
Saint-John Perse (Alexis Léger): 190 Weinstein, Fred: 73
Sartre, Jean-Paul: 86, 124, 245 Weischedel,Wilhelm: 245
Saussure, Ferdinand: 169 White, Eugene E.: 153
79, 244
Schefer,Jean-Louis: 202 Wilson, Thomas Woodrow; 12,
Schilder, Paul: 79 Wittgenstein, Ludwig: 119,218
Schiller, Friedrich von: 109, 110, 111 Wolman, Benjamin: 73
Schmidt, Vera: 82 Wortis,Joseph: 82
Schreber, Daniel Paul: 34, 189, 190, 192, 193, wulff, MosheW,: 81, 82
194, 195, 199, 202, 203, 204, 215
Sédat,Jacques: 36, 94
z
Shakespeare, William: 98, 214, 2219 247 Zola, 123, 124
Simons, Herbert W: 55 Zweig,Arnold: 94, 95
Smith, William Robertson: 77

254

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