Dokumen - Pub Historia e Psicanalise Entre Ciencia e Ficao 2nbsped 8575264850 9788575264850
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Michel de Certeau
COLEGÃO HISTÓRIA E
autêntica
MICHEL DE CERTEAU (1925-1986) é, com toda a uma das figu-
Escola Francesa na área
ras mais singulares - pManto, mais importantes- da
quer que seja nem ter
da histona. Sem ter esperado o salvo-conduto de quem
solicitado a aprovação dos guardiões das diferentes disciplinas, ele atravessou
as fronteirasentre os campos do saber ao se alinhar contra o empobrecimento
da história por confinamento e ao assegurar sua indispensável abertura a outras
áreas do conhecimento- aliás, o que se converteu,atualmente,em prática
corrente.Trouxe um olhar incisivo sobre o intercâmbio dos métodos, objetivos
e modelos que determinam as maneiras de escrever a história.
Dessa indagação incessantemente retomada, desse vaivém entre pas-
sado e presente, os textos reunidos neste volume entrelaçam os fios: tratam
de Foucault,Freud e Lacan, mas também da análise do poder,do corpo, da
bucura e da ficção na história.Em vez de uma tentativade misturar- entre
história,psicanálise, linguística ou antropologia os géneros e os métodos,
ou até mesmo de embaralhar as identidades dos saberes, Michel de Certeau
empreende o deslocamento necessário de um conhecimento para outro, a fim
de acompanhar uma questão que, tendo surgido em determinadodomínio,
não recebeu tratamento satisfatório. Este livro traz a marca de uma exigência
-- rara - de pensamento.
autêntica
ISBN 978-85-7526-4854)
9 788575 264850
0 historiador Michel de Certeau não se
limitou,durante sua vida, apenas à sua disci-
plina. Aprofundou-se em outras áreas, como
filosofia e psicanálise, para intentarresponder
satisfatoriamente a suas dúvidas e descobrir
o melhor caminho para suas investigações,
Com incrível capacidade e competência
para permear os diversos campos do saber,
De Certeau tornou-se referência para a Es-
cola Francesa não somente na história: ele
comumente analisava questões que ultra-
passavam seu campo inicial de atuaçáo, por
acreditarque a contribuiçãode estudiosos
da histórianão deve ser limitadaapenas às
condições previamente determinadas pelos
princípios da disciplina estudada. Para ele, o
caminho correto de qualquer estudioso reside
na análise de uma moldura histórica, que
consiste em verificar o contexto cultural, a
hierarquia de saberes e a gestão social e de
encargos para orientar o pensamento.
Em uma de suas travessias pela psica-
nálise, Michel de Certeau, com sua caracterís-
tica exigência, produziu esta obra, que propõe,
na primeira parte, uma análise da relação entre
a históriae a psicanálisee se aprofundanas
questões abordadas em sua obra A escrita da
história (Forense Universitária, 2008), a fim de
refletir sobre a maneira como o historiador
concebe e pratica seu ofício. A segunda
parte
do livro traz textos acerca das
obras de Michel
Foucault, autor admirado pelo
historiador, e de
Jacques Lacan, que, após seu
falecimento,
ganhou um artigo e uma homenagem —
de Michel de Certeau.
Michel de Certeau nasceu em Chambéry,na França,
em 1925, Formou-se em Filosofia, História, Teologia e
Letras Clássicas nas Universidades de Grenoble, Lyon
e Paris. No entanto, seus estudos nunca se limitaram
apenas aos campos de atuaçáo em que se formou,
Enveredou-se pela psicanálise, pela linguística, pela
antropologia e por outras disciplinas para responder
satisfatoriamentea suas investigações, Com seu
método de estudo, tornou-se um dos mais impor-
tantes historiadoresda França, Faleceu em Paris,
em 1986, deixando importantes contribuições para
a produção do conhecimento histórico e um legado
de obras fundamentais para a história.
Evidência da história
0 que os historiadoresveem
François Hartog
0 pequeno X
Da biografia à história
Sabina Loriga
Serge Gruzinski
Coordenaçóo
Eliana de Freitas Dutra
Michel de Certeau
História e psicanálise
5, entre ciência e ficção
TRADUÇÃO
2 0 edição
30 reimpressão
autêntica
pela edlÇ50 e e
1987 e 2002
seooy09htO Gt,wd
traçado*por
camoho nio
REVISAO DA TRADUCAO
ElianeMarta
11-0,'88t CDD.9019
Ô GRUPOAUttNTiCA
Belo Horizonte
SSo Paulo
Rua Cados Turner,
420 Av. Paultsta, 2.073 . Corvito Nacional
Horsa I r Sala 309 . Bela Vista
H«izonte . MG
31)
(SS 11) 3034 4468
VI..Vu1tentka com
SUMÁRIO
233
truce onom6st;co
251
"Um caminho não traçado"
por Luce Giard
7
identidade profissional, por
sido exigidospor de textos produzidos. co:no
't que teriam e pela profusão
percurso rápido,
tomadasde posiçãoreferências precisas, nesse
obter
seria possível balizadopor uma ampla produção de escritos?
sucessivarnente,
variado,
irão apresentá-lo a seus leitores,
Com efeito,estes fontes do primeiro século de sua Ordenl
das
comojesuíta,editor como historiador da mística da Renas-
(1540-1640) e, em seguida,
mas também, como um homena
de seu entre
cençaaté a Idade Clássica,
das sociedades contennporâneas
observação constru
' século,apaixonado pela
Latina;l como um cristão "abalado" pelos ou tro,
na Europae na América
por avaliar o a,wior- área na
acontecimentosde Maio de 1968,impaciente
namentoa ser realizado;e, em seguida, ainda como um historiador to sat1St
que perscrutaa especificidadeda epistemologia da história; corno identid.
um espíritogenerosoque se questiona sobre a construção do vín- niétodo
culo soctal e a afirmação das diferenças no espaço público; ou, de ciencia
forma ainda mais surpreendente, como um admirador das "artes de conh
de fazer"que organizama vida cotidiana, obstinado em justificá-
-Ia,de maneiraerudita,no nível da teoria, por uma montagem de não
categoriase de procedimentos pedidos de empréstimo às últimas o quac
proposiçõesdas ciências sociais e hurnanas. 2 Essa mobilidade e social dc
essa exigência de pensamento davam, às vezes, a impressão de onentar
vertigem,suscitandoa suspeitade descobrir nesse procedimento para sua
uma inconstânciaprimordial ou, talvez, uma subhnha
superficialidade dis-
simulada.Estejesuíta historiador, tão referênci
pouco comum, despertou rência
em alguns a lembrança de uma
historiografia, herdada das Luzes e função e
retomadano século XIX, hostil
à Companhia de Jesus, considerada periodic;
então como inteiramente
inscrita na arnbiguidade. A explicação, para regu
um tanto sumária,nada
tinha de surpreendente: historiadorese as relaçbc
sociólogosjá haviam
mostrado, há muito tempo, que nunca é da impor
simples subtrair-seao pacto social
que gerencia a estabilidade das área do s
de legttin
Nt:Sobte v:agens de M}€bel
tais mare;
de Certeau ao Brasil, VIDAL,2008. E também, DE ÇERTLAU
et 1adi,tature
enAmérique latine", au
, @
in Études,1967, métodos
de de de
pancirirnícádeestudo' e 2. Referências sobre
sobre a obra de Michel de Certeau,vef as coietàneasindicadas
199,8, da 49, março.abril,
1991 e
identidades e suas representações. Para explicar seu procedltnento,
9
e.xphcattva.O olhar
formulação de urna teoria
cx»ndcnsada, graçasà
Certeau para a Vida dos saberes —
perspicazlançadopor De da historiografia, na fanuliarldade
clósicos
ído pela meditação século XVII e dos tratado« de Illétodo no
dos grandeseruditosdo cornplernentado por outras leituras tilais
iníciodo séculoXX era
relacionadas com a filosofia e a sociologia das ciênctav
inesperadas,
Popper (1973), Thomas Kuhn (1972) ou 13runo
em particular Karl iconoclasta sob o sol calitor:uano.
desde seu começo
Latour(1979),
dessa influência será percebido tnais abaixo, especiahnente
O eco
Foucault.
nos capítulos dedicados a Michel
Essaconsciênciada historicidade inscrita na definição dos
métodose na maneirade recortar objetos de pesquisa incitava-o a
rejeitarasacralizaçãodo valor cognitivo das práticas peculiares de de-
terminadadisciplina.Ela conferiu-lhe a hberdade de desvencilhar-se
das condicionantes impostas por essas práticas. Conduzido, às vezes,
pela lógica de suas questões, a afastar-se das respostas já conhecidas,
nem por isso ele renunciavaa considerar o questionamento for-
muladoe obrigava-sea continuar o trajeto do pensamento fora
das
fronteirasda história,sua disciplina de referência; esse
não confor-
mismo intelectual dizia respeito tanto ao tratamento
da problemática
adotadaquanto à escolha inicial das questões
a serem abordadas. Ele
nãose deixavademar de certas
questões em razão de julgamentos
estabelecidos,prontos a desqualificaruma "questão
poucoaceitávelnas formulações antiga" porque
atadas a um estado de saber mais
recente,consideradocomo
mais avançado ou científico. Ele julgava
tal dffqualificação,
quase sempre acompanhada
em relaçãoa por certo desdém
"problemasfora de
incapacidade, moda", como o disfarce de uma
como um receio
questãopudesse inconfessável,O fato de que uma
ser dificil de
sentenão lhe articular nos enunciados do saber pre-
pareciaum motivo
de sentido;o suficiente para declará-la destituída
contrário é que
aindaseria lhe parecia mais verossímil. Neste caso,
necessáriocolocar
da questão à prova tal presunção pela abordagem
medianteoutro
sobre caminho, pela mudança de perspectiva
problemas
entradano visados; tais
terrenode procedimentos tornavam possíE1 a
próprios outra disciplina,
instrumentos. assim como 0 recurso a seus
CAS'Nt-•g3 tRACACO" poa GAR FO
0 biogtaphie
i2
POR100 GA"
13
sua liberdade de iii0VIiiicnto ent rc
netn do outro, conserva que a h'%tórja estava
Considerando
metos e culturas, pesqujsa c dc seus qucsoonajnct)tos,
de sua
arraigada no centro posiçáo-cbavc etn sua rcflcx:jo, No
atribuía-lhe explicitanjente de poder
deter ulna parcela no cerne da
entanto,nunca procurou enj rclaçáo à qual CICconservou urna
úvqtituiçiodos historiadores,
àquela que mantinha diante de outras Instituiçócs
atitude setnelhante político que havia frequentado ou
ou cajnpo
pstcanáltse,teologia essas institutçóes, cle mostrava ujna
relação a todas
atravessado,Em respeito social, de exjgéncja ética
particular, de
miscelânea,bastante
drstanctatnento crítico, que jrnpunha certa rc«erva e suscitava
e de tnistenosa forma de liberdade.
garantindo-lhe urna
a desconfiança,
'€ Em seu texto, Françotse Choay elogiava em Artes defazer (INQ o artista —sem dúvida,
um maioresde nosso tempo pela graça de um permanente contraponto entre o rigor de gla
escrita e a riqueza das metáforu que o animam, sem nunca imobilizar-se em sistema" (p 86-87, t 991),
DÉ du désir ou le 'fondement' des Exetcices spirituels", 1973.
4 A lyu de suas publicações incluindo as traduções elevava-se a 422 títulos, em junho de 1988:
Luce complete de Michel de Certeau"i in GIARD, 1988.Depois dessa data,
foram pubhcadasnumerosas traduções em vártos idiomas e diversasnovas edições em francês,
15
questionar seu rnistério obrigou-o a Viajar
tendo renunciado em procura de recursos de investigavào
disciplina, à
de disciplinapara desafio era não o ' 'desejo de saber"
teorização, O
e de modos de testernunhavarn esse« récitse essas
qual "realidade"
qualquer preço de analisar/expor sua particulari-
mas a vontade
efusõespoéticas, controláveis e repetíveis, a
procedimentos
dade por tneio de peculiar desses escritos. Não
respeitar a originalidade
de nomear e "testemunha" privilegiada, arauto do
pretendia apresentar-se con10
derradeiro desses textos, mensageiro capaz de decifrar os
sentido
no recôndito dos escritos Dísticos; nada
segredos divmos depositados
teria sido tão estranho.Afastou conl insistência, tanto quanto
lhe
pretensão, via em ação uma forma de
possível,tal suposição;nessa
Seu principal livro sobre a
impostura,um abuso do crer pelo saber.
uma negação insis-
mística,Ld Fable mystique(1982), abre-se com
tente, quase suplicante,para não ser considerado como um membro
de direito do cenáculo místico; pelo contrário, de acordo com seus
próprios termos, ele desejava"evitar que, a esse relato de viagem,
fosseatribuído o 'prestígio' (impudico e obsceno, em seu caso) de
ser consideradocomo um discurso credenciado por uma presença,
autorizado a falar em seu nome, em suma, suposto saber do que se
FAM, 1982, p. 9). Observar-se-á, de passagem, a
trata" (DE CERTEAU,
expressão"suposto saber", que é recorrente em seus textos —e, nesta
coletânea,em particular nos capítulos II e III. Tomada de emprés-
timo da psicanálise,ela descreve a posição do analista no olhar do
analisante,como é observado no capítulo X: "A partida, o analistaé,
pelos clientes,'suposto saber'; ele funciona como objeto da crença
deles" (cf."A mentira e sua verdade", p. 218).
Tampouco existia a intenção de reduzir essa literatura mística
a um código de procedimentos de escrita que deveria ter sido esta-
belecido,graçasaos instrumentos de análise pedidos de empréstim0
à linguísticae à semiótica,nem a intenção de propor uma tipolo-
gia das estruturas psicológicas dos
autores místicos pelo recurs0 à
psicanálise.No âmago de seu empreendimento,
tinha vontade de
apreender,não a causa nem o
modo como haviam surgido as escritas
místicas,mas a escuta interior
de uma música de palavras que havia
manifestado,com tanta intensidade,
na primeira modernidade das
16
sociedades ocidentais, o sofnmento da separação, a dor
da ausência,
a ausênciado único, no momento em que tinha chegado
ao ter-
certo regune de relação com Deus. Essa ausência,
cujos sinais
precursores haviam Sido discernidos por ele, desde o tinal
da Idade
Média, ainda continuava atuante, em seu entender,
no século XX
sob outras formas, em outros textos de poesia
ou de ficção, despro-
vidos de formulação mística explícita —por
exemplo,na experiência
do "nada" em Mallarmé, mencionado no capítulo
III, Parece-me
que, à sua maneira, reservada e pudica, ele havia
encontrado nesses
textos místicos, além de um objeto intelectual de
questionamento,
o espaço de uma profunda afinidade,um ambiente
de inspiração e
uma fonte de vida. A natureza desse vínculo profundo,
confirmado
no decorrer de sua obra, foi explicadaem uma breve meditação
poética, publicada apenas dois anos antes de sua morte, 7No entanto,
são manifestas a constância da análise meticulosa assim como a paixão
Intelectual, desenvolvidas em torno dessestextos, até os últimos dias
de sua vida, não por ter vontade de construir um monumento de
erudição, mas para continuar a narrativa de uma viagem particular:
Sou apenas um viajante. Não só porque, durante muito tempo,
viajei através da literatura mística (género de viagem que leva à
modéstia), mas também porque —tendo feito, na área da história
ou de pesquisas antropológicas, algumas peregrinações pelo
mundo g—aprendi, em meio a tantas vozes,que eu não passava
de um particular entre muitos outros, ao relatar somente alguns
dos itinerários traçados em um grande número de diverqospaíses,
passados e presentes, pela experiência espiritual (DE CERTEAU,
EUD, 1991, p. 1-2).
central na gestão do crer, tanto nuis que, em sua opinião, esse crer
era Indispensável para a manutenção da coesão social: ' 'Por sua vez,
a vida social exige a crença, bem diferente, que se articula a partir
dos supostos saberes garantidos pelas instituiçõeq" (igualmente no
capítulo III), Ele ficava intrigado pela natureza e pela manutenção
dessespactos de crença e de fidelidade, assimcomo por sua presença
confinnada em qualquer forma de organização social;eis um aspecto
considerado por ele como urna questão essencial,transbordando o
domínio do religioso, atravessandoo campo político e social, do
passadoao presente, impondo-se tanto ao historiador quanto ao
cidadão. Um de seus últimos projetos intelectuais —sern ter tido
tempo para realizá-lo -—haveria de propor uma "antropologia do
crer", conjugada em suas formalidades sociais.8Ao reler o conjunto
de sua obra, pode-se identificar, na questão das instituições e dos
pactos de crença e de filiação que lhes servem de suporte —,um tema
unificador de seu pensamento, que ele acabou submetendo à prova
em períodos e meios diferentes, desde os místicos e os possuídos no
século XVII até os habitantes das novas cidades que, por volta de
1975, queixavam-se do vazio dos lugares à volta de suas moradias.
Como esseslugares eram destituídos de vínculo com qualquer nar-
rativa,lembrança ou crença, os próprios moradores não conseguiam,
9
absolutamente, sentir qualquer afLnidadecom esses espaços.
0 tema é esboçado na última parte de Artes defazer (TSQI), em relação ao político e ao religioso;
é retomado em seu arvi-
em seguida,atravésdo afastamento social da morte e do moribundo. Ele
publicaçôes deste texto, ver
go/'LhnstituÉion du crolre, Note de travail", 1983;sobre as sucessiva5
1988
números 369 e 385 na "Bibliographie complete de Michel de Certeau'%io GIARD
1994 (em particular, p,
Ver o cap "Les revenanrs de Ia víJle&Y(Os fantasmas da Cidade),in (NIQ2}
201-203),
detalhes, do ponto de vista epistetnológico. Ele não
todos os seus
separação entre o exercício do oficio e a elucidação
belecia qualquer
determinanl, tanto no interior quanto no exterior
das condições que
procedimentos de qualquer "operação hiRtoriográfica".16
a forma e os seguida, nas edições críticas
Pierre Favre e, em
Já em sua tese sobre
recompor, o melhor possível, a obra dispersa e Inutilada
que visavam
Surin, é evidente que ele pretende não só reconstituir
de Jean-Joseph
refletir nas Inaneiras de atingir tal
"a história dessesautores' , mas
e relatar sua própria maneira de proceder: a partir de quais
objetivo
conivências e à sornbra de quais si-
pressupostos,sob a égide de quais
investigação, pela história
lêncios.Aopção,em seu primeiro objeto de
religiosa ou seja,histórias de crentes em ligação com as crençasde
outras eras—obrigava-o a explicar-se sobre crenças que, sem poder
subscrevê-las,strictosensu,ele não podia descartar totalmente, nem
desqualificar,jáque essesconteúdos haviam sido, outrora, formulados,
ensinados e aceitos pela Igreja. P
Essasituação instável entre o passado desses crentes e o seu
própriopresentede crente sublinhavaa distância - impossívelde
abolir - entre qualquer leitura das fontes em sua literalidade e qual-
quer interpretação a posteriorique as transfere para outro registro
de crençase de usos sociaisem que os enunciados de outrora, até
mesmo conservados em sua integralidade, assumem outro sentido. 13
Daí sua insistênciasobre a historicidade de qualquer operação his-
toriográficae sobre a separação que ela introduz entre o historia-
dor e seu objeto de história. Como é afirmado energicamente no
capítuloVIII,o historiador não pode apreender nem descartar"0
ausenteda história", cuja irremediável ausência marca a operação
historiográficae seu resultado,ou seja, a história escrita. Pode-se
supor que sua insistênciasobre a
fragilidade do trabalho do his-
toriador não era alheia à experiência,
na cena contemporânea,
Vercap.I "Fazer
História" e cap. II "A operação
N.T.:Cf. outros esclarecimentos, historiográfica", in ECH, 1984a,
mais adiante, no subtítulo "Psicanálise
e histórta da espiritualidade"'
Sobreeste
aspecto,vamos citar um de
seus últimos artigos, "Historicités mystiques", 1985'
Ver 111"A inversão do pensável.
A história religiosa do século formalidade
bo sistemareligioso XVII" e cap.
ética das Luzes cxvn-xvlll)", in ECH, 1984a.
20
erodo das crenças cnstás.Além de ter estudado o pai)S.ido o
dessascrenças, Michel de Certeau unha escolhido ligar
ao presente das mesmas: o que cle explicou
de artigos vtgorosos, reunidos mais tarde etn Li E,ublcssede IA
fraquezade crer] (1987). No entanto, ainda subsistem qucstÓcs:por
'
que razão ele teceu sínculos estreitos entre a 'escrita da história",
questionada,e a psicanálise?Para seu olhar avisado,que necessidade
estariaincluída aí? Corno foi seu encontro cotn a psicanálisee de
que modo ficou convencido de que o trabalho do hl'tor:ador unha
muito a ganhar com a proximidade de Freud e de seus herdeiros ern
permanente querela a partir de pontos de Vistacontrános?
Em virtude da complexidade deste assunto,vamos deter-nos
em sua análise. Ele remete, em primeiro lugar, à recepção, caÓuca
e preterida, da invenção freudiana na França.Tal recepção deve ser
situadaem um duplo contexto: por um lado, as resistênciasdiante
da psicanálise, na área da medicina psiquiátrica; e, por outro, as rela-
çôes dificeis da Igreja de Roma e dos teólogos, seus representantes
oficiais,com o freudismo.No final do século XIX, a psiquiatria
francesahavia conhecido um brilhante desenvolvimento,em torno
de Charcot, cujas aulas tinham sido acompanhadaspor Freud no
hospitalde La Salpétriêre; em seguida,sua orientação para a neu-
rologia e uma psicologia de tendência racionalistanos primeiros
três decénios do século XX, com Clérambault,Ribot ou Pierre
Janet, além das tradições de formação e de pensamento instaladas
na rigidez das instituições, multiplicaram as resistências diante das
teorias de Freud, percebidas como pouco científicas e atribuindo
grande importância a afirmações Irracionas ou inverificáveis.A
rivalidademantida com o mundo germânico, após a derrota de
1870,não facilitou a comunicação entre as duas escolas de pen-
samento.De acordo com a evocação desenvolvidano capítulo ,11,
os textos de Freud acabaram entrando na França por via literária,
em particular,em torno da NRF,14com André Gide e Jacques
21
surrealista —aliança
do
Rivuére•,em seguida,
Freud.
pouco apreciadapor um Início de degelo entre
década de 1930,
na
Entretanto, graças à chegada dos analistas da
psiquiatrasem formação, do nazismo, em plena
osjovens Ao fugirem
Central.
Alenunha e da Europa à procura de um refúgio seguro
vmham
expansão,essesexilados imaginação ---por desconhecerem o
em sua
em uma França que, Grande Guerra e dilacerado
real de um país exangue pela
estado
clivagenspolíticas continuava sendo a herdeira do Século
pelas sua prática e sua
Francesa. Sua presença,
0as Luzes e da Revolução
com os textos de Freud, assim como seu conheci-
familiaridade
continuadores do
mento detalhado dos debates entre discípulos e
psicanalistavienense,contribuíram para ampliar as ideias de alguns
círculosde psiquiatria dos quais, após 1945, emergirá uma renovação
intelectual.Em 1932,um jovem psiquiatra que havia chamado a
atençãodos professorese colegas de turma iniciou em Paris sua
análisecom um dessesmédicos exilados que, tendo nascido em Lodz,
na Polónia,e prosseguido sua formação em Zurique e Berlim, era
um "representante exemplar da famosa psicanálise judaica e erran-
te, sempreem busca de uma terra prometida" (ROUDINESCO, 1993,
p, 102).Esse analisando,Jacques Lacan, desempenhará um papel
decisivo,após 1960,no desenvolvimento da psicanálise na França;
seu analista,Rudolph Loewenstein, irá exilar-se —desta
vez, nos
EUA, em 1942 -- para salvar a vida, tendo
continuado a exercer sua
profissão do outro lado do Atlântico
(ROUDINESCO,1994a, p. 223). 15
Entre os médicos e os teólogos católicos,
o freudismo foi man-
tido, durante muito tempo, sob
suspeita mediante a dupla acusaçã0
de preconizarum
"pansexualismo" contrário à moral cristã e à sua
teologia do pecado, além
de destruir a fé, escarnecendo da "ilusão'
que sena a experiência
religiosa: para a consciência individual, ela
limitar-se-n a ser uma ocasião de
neurose; e, para a sociedade, a
religiãoteria sido
sempre um instrumento de
do poder político. subjugação nas mãos
O freudismo devia,
portanto, ser rejeitado como
Algumas
sobre Loewenstein
189-239/ Mais in HUGHES, 1975
amplamente, sobre esse (capítulo sobre 0a
circulo de exilados,
JAY, 1986.
ateísmo,bedontsmo e cientificismo; inclusive,havia quern acreditasse
encontrar nessa corrente um avatar do anticristianismojudaico dos
primeiros séculos .com todas as ressonâncias tumultuadas que essa
hipÓtesepodia despertar na década de 1930, quando os nazistas
baniam a psicanálise e seus profissionaispara que a boa psiquiatria
germánica fosse purificada dessa "ciência judaica"t '). O opróbrio
lançado pelos católicos sobre a psicanálise,sua teona e sua prática,
foi duradouro,na medida em que houve uma conjugação dos efeitos
da desconfiança e da ignorância a seu respeito.
Para evocar esse cenário, que se tornou estranho para nós,
analisareidetalhadamente dois indícios reveladores, relativamente
aos grandes •empreendimentos editoriais, eruditos e respeitáveis,
que haviam culminado, cada um por si, em uma série de volumes
que servem de referência na escala internacional.Como é nortnal,
para Iniciativas dessa envergadura, que reúnem a colaboração de
dezenas de colaboradores, sua preparação, redação e publicação
estenderam-se durante um período bastante prolongado. Minhas
observaçõesnão se referem às intenções,nem à ideologia inicial
dos fundadores e primeiros diretores de cada série, mas levo em
consideração o resultado final, no termo de cada empreendimento.
Meu pnmeiro exemplo será o seriíssimo Dictionnairede théologie
um monumento histórico de erudição,publicado entre
catholique,
1923 e 1972: tendo começado sob a direção de A. Vacant e J.-E.
Mangenot, ele conta com 15 tomos em 30 volumes, além de 3 tomos
de Índices,ou seja, não faltou espaço para seus autores; no entanto,
ele não contém qualquer artigo sobre Freud, nem sobre a psicaná-
lise (o tomo 13/1 , em que esse verbete —psychanalyse—poderia ter
sido inserido após "Michel Psellos", foi publicado em 1936). No
que diz respeito a tais Índices,no último tomo consta um verbete
'psicanálise",metade de uma coluna, fazendo remissãoao verbete
coluna.
"Freud" no 10 tomo que, por sua vez, ocupa um terço da
único viático -- um
Após uma curta definição. ele oferece -- como
citação devidamente
breve resumo descritivo, servindo-se de uma
Cuvillier (tomo II,
referenciada do Précisde philosophiede Armand
25
de sua autonoliila intelectual,
renunciar a urna parcela aprenderatn a negociar a obtens.io de
sinceros
nútnero de crentes segundo seu de
algum grau de liberdade, exercidas, s,ua notoriedade pública.
institucional, as responsabilidades
e políticos, a distância Inantlda enj relaçào à
os contextos sociais capacidade pe«oal liberdade de interior.
hierarquia eclesiásticae sua
tolerava-se por tneias palavras o que,
Em determinadolocal,
continuava sendo proibido. Havia, tanibérn, tuaneira«
outro,
discretasde encontrar entendnnento«: nada era cotnpletatnente
ou
habilidade e urna doqe
simples,tudo exigia determinação,
de paciência.
Ao lado de uma maioria que se julgava obrigada consciência
a conformar-se ao abandono de qualquer referência a Freud, hou-
ve também espíritos corajosos que rejeitaralll tal injunção; pessoa«
que conseguiralllproteger a liberdade intelectual de
responsáveis
seusdependentes; médicos que procuravarn novas respostas para os
sofrirnentosdos pacientes; rnenlbros de ordens religiosa« e padres
diocesanosque encetaram sua análise e, enl seguida, se tornaraln
analistas,tendo contribuído conjuntanrnte para abrir aos católicos,
com discrição,uma via de acesso até Freud. Nas casas religiosas ou
nos seminários,os mestres de noviços e os forniadores de futuros
padresinquietavam-secom as incertezas do discernirnento das
vocações;todos lamentavam os distúrbios mentais que se Inanifes-
tavam em alguns, às vezes após anos de vida consagrada, tocada sem
dificuldadesaparentes.Seriam sequelas da guerra, a fragilidade do
mundo moderno, o contágio das
tentações na grande lilistura social
apósa guerra?Qualquer que
tenha sido sua origeni, ilnpunha-se a
buscade remédio para essas
situações; assim, a ideia de fazer apelo'
em último recurso,
às técnicas psicanalíticas, abria lentainente seu
caminho.Iniciada em
pequenos círculos, antes de 1940, a evoluçâ0
dasmentes acelerou-se
entre os católicos, com 0 retorno da paz'
porque as desordens
da guerra, as separações, o cativeiro, a angu«-
tia, os lutos
pareciam duplicar seus
fazendoexplodir efeitos sobre os
os códigos sociais e vacilar crenças. Mudança
as
Um quadro
panorâmico sem
qualquer referência à 1998.
psicanálise, in FOVIILOUX,
26
relanvamente à situação anterior: deixarn de existir tanto a
ax:hdade diante das ordens episcopais quanto as certezas Interiores.
Duas inictatlvas, empreendidas por religiosos, apoiara:n e
acompanharam a aceitação da psicanálise pelos católicos: nume-
rosos médicos, enfermeiras, intelectuais, membros de congrega-
çôes religiosas se tornaram analisandos e, em seguida, analistas.A
primara ao lançamento —pelo dominicano Albert Plé
(1910-1988) em 1947, de um boletim, Le suppléntentde Ia vie
snirituelle,destinado a informar, em termos modernos, os mestres
de noviços e responsáveispor religiosos sobre os problemas de
psicologia e de vida espiritual; essa publicação continha artigos
sobre Freud e a psicanálise,elaborados em termos ponderados e
favoráveis,com suficiente persistência e conhecimento desses as-
suntoSpara torná-los aceitáveis.Seu fundador estava vinculado a
Bruno de Marie-Jésus, um carmelita que havia restaurado, em 1931,
uma revista de sua ordem, Etudes cannélitaines(lançada em 1911
por outro carmelita, Marie-Joseph du Sacré-Ccrur, para publicar os
textos da tradição espiritual da ordem religiosa de Nossa Senhora
do Carmo ou do Monte Carmelo). Bruno de Marie-Jésus havia
transformado esta revista em um espaço de grande envergadura
intelectual em que, sobre os problemas de mística e de psicologia,
encontravam-se lado a lado os melhores especialistasda época ou
seja, teólogos, poetas, historiadores e psiquiatras tinham a possibili-
dade de dialogar de forma inteligente (FOUILLOUX, 1998,p. 84).As
duas publicações, destinadas a públicos leitores diferentes, somaram
seus efeitos positivos e começaram a "naturalizar" a psicanálise na
cultura comum católica.
A segunda iniciativa diz respeito a uma pequena estrutura de
cuidados psicológicos, destinada ao círculo clerical. Criada, em 1959,
por quatro pessoas entre as quais, uma mulher,Andrée Lehmann —
a AMAR (AssociationMédico-Psychologique d'Aide aux Religieux
[AssociaçãoMédico-Psicológica de Ajuda aos Religiosos) tinha o
objetivo prático de oferecer um apoio terapêutico e, eventualmente,
o acessoà psicanálise,para almas em situação crítica. Em razão de
seu estatuto de clérigos e de sua filiação em diversasredes da Igreja
Católica, os outros três fundadores o dominicano, Albert Plé; o
padre Marc orai_
e,por último, de casas religiosas e de
dos pessoas enx grande
a confiança assistência a
prestaram
de modo que sido resolvidas pelos diretores
seminários, haviam
dificuldade, superiores. Por sua vez, Marc orai-
respectivos
espirituais pelos uma tese de teologia moral sobre
havia defendido título Vie chrétienne
son (1914-1979) publicada com o
sexualidade,
os problemasde 1952), com a autorização canÔnica
de Ia sexualité (Paris,
et problàtnes
censura eclesiástica. A semelhança do
locais da
dos encarregados relaçãoa outros defensores moderados
adotadoem
procedimento
intelectual,o Santo Oficio desaprovou as "audácias"
da modernidade demasiado "positiva" atribuída
assim como a significação
do livro,
tendo incluído esse volume no Index, em março de
à sexualidade,
dos encarregados da
1953,em contradiçãocom o parecer favorável
1994b, p. 206-207 , 211-213;
censura,em Paris (ROUDINESCO, 1994a,
p.245).Uma vez mais, foi possível constatar a defasagem crescente
entrea evoluçãodos intelectuais católicos, na França, e as posições
rígidas de algumas instâncias romanas.
O terceiromembro do trio da AMAR, Louis Beirncrt (1906-
1985),exerceuinfluênciadireta sobre Michel de Certeau. Tendo
ingressadona Companhia de Jesus, em 1923, ele seguiu o cursus
habitualde formação (humanidades
clássicas, filosofia e teologia)
queo preparavapara ensinar
nos colégios e escolasticados da Ordem.
Capelãode estudantes,
em 1940, ele defendeu a oposição de alguns,
na França,ao
ocupante nazista e, por
massemanas;em isso, foi preso durante algu-
seguida, à semelhança
Jesuítas, de certo numero de outtOS
participoudo movimento
1946,iniciouuma de resistência aos nazistas.
fez um de curaanalíticacom
seus Daniel Lagache; em particular,
sua fidelidade controles com Lacan, tendo mantido para sempre
a este
psicanalista;18em breve,
travou amizade com
os
a distinção
comuns; entre tipos de análise, a
as de
a"didática" que
é feita pelo
que
candidato que pretende totnat-se psicanalista,e
a receber se referem
um analista analisandos, a um em
ainda com a
ou (LAPLANCHE; obrigação de prestar contas de suas
nassociedades sobre as PONTALIS, 1968, ver
psicanalíticas, implicações e e
vet TARDITS, os incessantes debates
2000,
28
'UM PCOk GiAkD
29
CifNClA E
seu primeiro
texto publicado, de
Lyon/França), em 1956, em um boletim de estudantes (Sémittaire
intitula-se
está reproduzido este artigo
"L'expérience religieuse, 1'Ég1ise";
in GIARD, 'connaissance vécue' dans
sobre 1988.
primeiros tempos,
ver O'MALLEY,
1999.
30
ado no plano dc 1a c dc excelênc l)itclcc
saída.tol havia
a (lonjpaljlna
tual para as qual',
apctc•ljcla. Esse retorno ao paç,ado cra descoado
seu talento t: sua
a finalidadede esclarecer a; do prcsclltc. A Intenção
conjportava suas audácias, suas Ilusões e suas
cra louvável,a Iniciativa
ambiguidades,conj() observou mais tarde Michel dc (lerteau." Enj
maténade histona, ela suscitou unva série dc sólidos trabalhos de
edição,tradução, anotação e recuperação comentada das fontes, que
foramIncluídosna coleçáo "Chnstus" da editora Desclée de Brouwer.
Grandesfiguras do passado francês da Companhia de Jesus foram es-
tudadasa partir de novas bases, em particular em sua expansão fora da
Europa,seja em relação á Nova França, o atual território de Québec
no Canadá,ou à China, etc. O principal avanço referiu-se á história
da espiritualidade,que acabou por atrair e, durante um longo período,
por constituiro tema de estudo de vários dessesjovens histonadores.
Paraalguns,a aventura culminou na "aprendizagem" da psicanáhse
como novo instrumento de compreensão das "coisas da alma" e, fi-
nalmente,conduziu certo nÚmero deles a exercer o oficio de analista,
sejapermanecendo jesuítas ou após sua "separação de um grupo, cujas
lentidõeshistóricas e sociológicas pareciam-lhes criar obstáculo para
atingnraquele mesmo aspecto que, no entanto, eles haviam descoberto
na Companhia" (BLIRNART, 1987, p. 242).24
Os trabalhos empreendidos por essesjovens historiadores in-
cidiram,em primeiro lugar, sobre os escritos de Inácio de Loyola
e do pequeno círculo dos cofundadores,tal como Pierre Favre,já
mencionado;em seguida, eles ocuparam-se dos grandes jesuítas
franceses,autores,no século XVII, de uma abundante literatura de
espiritualidade,escrita em uma bela língua clássica,que circulou
duranteum longo período tanto em manuscrito quanto em im-
Presso,assimcomo por citações, nos livros de divisas,de coletáneas
de cartas e de máximas, além de outros florilégios. Bastante ativo
nessepequeno grupo, logo notado pela qualidade de seus trabalhos,
Michel de Certeau transformou-se, desde então, em historiador dos
31
modo, ele nunca mais voltou a seu
XVI e XVII? 5Deste Depois de ter traduzido e
seculos patrística. comentado
encanto pela (seu diário espiritual, mantido de junho
de
Mélitorial Pierre Favre decorrer de incessantes viagens
o 1546, no entre
janeiro de
de 1542 até e Itália) , De Certeau deparou-se com a grande
Espanha (1600-1665), que se tornou seu com-
a Alemanha, Surin
sombra de Jean-Joseph Esse jesuíta de Bordeaux, contemporâneo
panheiro e "guardião ---cujas cartas de direção espiritual
místico reputado
de Descartes, nos círculos de devotos —foi também
recopiadas
foram copiadase tendo perdido a razão, e em estado de
infortúnios:
célebrepor seus
ficou confinado no silêncio entre os colegas, durante
desorientação,
depois de ter servido de exorcista para as religiosas
12 ou 13 anos,
Loudun26 e, em particular, para sua famosa abadessa, a
possuídasde
madre Jeanne des Anges (1990).
processoretumbante de Loudun (julho-agosto de 1634), cujo
O
pública de
desfecholevou à condenaçãoà fogueira e à execução
UrbainGrandier,padre de uma paróquia da cidade —"tendo
reco-
ocorrido
nhecidoque o crime de magia, maleficio e possessão, tinha
por sua culpa" (DE CERTEAU, POL, 1990, p. 247) alimentou as
de
gazetase as paixõesdo reino na época de Richelieu e das lutas
religiãocontraos Reformados.A semelhança do suposto sentimento
de culpade Grandier,a perda da razão de Surin parecia dar teste-
munhodo poder do demÔmo, em um período de inquietação em
que os crentesprocuravam sinais oriundos do "verdadeiro Deus ,
suscetíveisde lhes instilar a certeza da verdade e a força protetora de
suafé.Para as pessoasdo Grande Século, a identidade jesuíta de Su-
rin e a qualidade da formação constituíam
intelectual de sua ordem
um aditamentoao valor exemplar esse assunto,
de seu caso. Sobre
Michelde Certeau elaborou baseado enl
um magnífico livrinho,
uma leitura sutil dos
documentos da época, leitura empreendida
comohistoriador,
concluída em termos inspirados na antropologia
e na psicanálise:
32
P' GIAkl)
Ver BOUTRY, in Le Débat (revista),n. 49, 1988; este número contém outros artigos que formam
um conjunto intitulado"Michel de Certeau, Historien
33
ela e, leitura de
do c l) do
através dc
321),
34
soc entre práticas especificadas
1.11 lendas de
da velaç,io Inenclonado. neste trecho. oá nio é o
Freud dos
=rerar•:
o
otillnentosIndividuais,mas o teorico da cultura. Outro que
s
recorrente. tecendo passazens entre a hlstÓr1üe a
aflora,de forma
literatura. De novo. no Início do capitulo
herançafreudiana.é o da
literatura é o discurso tórico dos
III.é defendidaa tese de que
processoshistóncos ' e, enl seguida, são analisadas as relações entre
literaturae história a partir das •'Intervenções freudianas••. Por sua
vez,o capítuloX, sobre Lacan, retoma, a seu propósito. questão
da literatura.cuja importância em si mesma é sublinhada. além de
serafirmadasua estreita proximidade com a psicanálise lacamana.
Ultimo Indício da extrema atenção atribuída a Freud pelo his-
toriador:o pedido de empréstimo de uma expressão —•'a escrita da
história —,sobrecarregada de sentido, escolhida para servir de título
à suaprópria reflexão sobre a epistemologia da história. à maneira
de saudaçãorespeitosae de comvência com o alemão de Freud. De
fato,como De Certeau indica com precisão no capítulo III, este
últimohavia utilizado Geschic/ltsschreibung para tratar da historiogra-
fia hebraica em Der Alann Aloses.Neste empréstimo, além de uma
fehzcoincidência,vejo sobretudo uma marca profunda de afinidade
entre Freud, que se transforma no historiador da herança judaica,
e Michelde Certeau, que se tornou historiador da espiritualidade
e de místicos cristãos por solicitação dos superiores da Companha
deJesus.Das reflexões que ele teceu com os companheiros jesuítas
em torno de Freud, vou sublinhar ainda outro Indício: na coletanea
de LouisBeirncrt, publicada postumamente, pode-se ler um texto
inédito,intitulado "Moise et le monothéisme (en réponse aux per-
sécutionsnazies)" [Moisés e o monoteísmo (resposta às perseguições
nazistas)], sem qualquer referência suscetível de indicar a data de sua
redação.Portanto, é impossível saber se eles chegaram a discutir
sobre esse texto e se este teria inspirado ou exercido influência
sobreDe Certeau. Uma nota de Beirncrt remete ao capítulo
sobre Moisés em L' Ecriturede l'histoire,o que poderia fazer supor
que o texto certeauniano seria anterlor; entretanto, essanota pode
ter sido acrescentada a posterioripor Beirnzrt, por ocasião de uma
35
tRleitura de seu escrito (IOS7, nota 2 32). Portanto, ela
at'erta a questão das trlaçe3esentre dois conlentarios, deixa
orientados
env sentidos bastante ditacntes, o que nada teni de SUrpreendente
considerando a ditQrençade intenção, de espírito e de geração
entre
Osdois O texto de Beirnrrt dá testeillunho, no de
Ilitetcalllbios possíveis entre os dois cornpanheiros jesuítas em
torno
do Afeisésde Freud: neste caso,estannoslonge da atitude
desconfiada
pot parte de Rotua,já assinalada mals acrrua, em relação a
Freud
Sobre a edição desta coletanea
Esta coletanea corresponde a uma segunda edição,
revistae
acrescentados os capítulos VII ("História e estrutura")
e VIII
(s'o ausente da história"). A ordenx dos capítulos foi
modificada em
relação à precedente edição.2SCada um dessestextos já
havia sido
publicado pelo autor. Em sua conlposição para a primeira
edição,
esta coletanea retomava, pela metade, a escolha de
artigos reunidos
pelo autor em um livro destinado a seus leitores
norte-americanos
(DE CERTEAU, HDO, 1986), que foi publicado pouco depois de
sua morte. Alguns erros de tipografia ou de leitura, detectados
nas
edições anteriores dos textos, em separado,ou na primeira
edição
desta coletânea, foram corrigidos.29Nesta segunda edição, tirei
proveito do trabalho atento de Andreas Mayer, tradutor parao
alemão da precedente edição;3 às vezes, acrescentei, no texto ou
em nota de rodapé, um elemento de maior precisão (título,data,
remissão para as edições dos Seminários de Lacan, traduçãofran-
cesa de uma citação, etc.) —todas essasintervenções são inseridas
entre colchetes. Conservei, de acordo com a citação de Michelde
Certeau, as traduções de Freud, embora seja possível encontrar,
atualmente, outras versões mais atraentes e fidedignas, em francês•
Eis ¿ ordem da edição anterior: L Le noir soleil du langage; II. Microtechniques et discourspanop-
tique; III. Le rire de Michel Foucault; IV. L'histoire, science et fiction;V. Psychanalyseet histoire;
Le roman psychanalytique;VII. L'institution de Ia pourriture;VIII. Lacam
não
Meus agradecimentos a Joseph Moingt e Jacques Sédat, que me indicaram alguns erros
observados pelo autor na publicação anterior de seus textos.
OE CERTEAU, neoretighe Fiktionen: Geschíchteund Psychoanalyse,1997,
\ crs,io a leni,i. publicada ena VIena,
tornece o texto
de Freud conl a Wterei)cuaa originald.lS
de
(FRI 1941)_ 1952) e a Indica çcio (01nplct.us
de tred)o« para
lelos: deste
de consultar tal obra.
Alguns dos capítulos cle<tacolet,inea
foral)) el,lboradosdurante
de trabalho,ainda
provisória, de unaa parte da obra ena prepara-
çâo.Outros textos
seriam acrescentados,em particular unaa longa
meditaçãosobre o Moisés
de Freud pelo qual sentia fascínio: um
37
ctvca
38
'l de Cet teau; so
Tal associada à sua a genero
do de conceber e
foi explicada por ele pratlcar a
texto que um
retrato pequeno
do estilode sua relação
Ilitelectual conl toda a espécie de
interlocutores.31
O capítulo III —- ' 'O 'ronnnce' psicanalítico.
História e literatu-
ra —foi apresentado, iniciahnente, ena una
encontro internacional
de psicanalistas (Paris, févereiro de 1981)
e publicado nas Atas desse
evento (MAJOR,1981); enl seguida, fUi objeto
de novas versões apre-
sentadase discutidas enl diversasoportumdades nos
EUA,no Canadá,
etc. E-xlstelllvárias apresentações tanto enl inglês quanto
enl francês;
DECERTEAU,
"Qu'est-ce qu'un séminaire?" 1978.
DECERTEAU,
"Le rire de Michel Foucault", 1984.
DECERTEAU,"Les
sciences humaines et Ia mort de l'homme"y 1967,
39
H CifNCtA
DE
and panoptic
discourse:a quid
prod quo", in
TRACAOC)"POR
GARD
"Ficções"
A semelhança de ' 'ciência", seu termo correlato —"ficção"
—é
uma palavra perigosa. Por ter procurado, em outro artigo,2definir
seu estatuto, limitar-me-ei a sublinhar, neste texto, a título de nota
preliminar, quatro funcionamentos possíveis da ficção no discurso
do historiador.
1. Ficçãoe história.A historiografia ocidental se bate contra a
ficção;entre a história e as histórias, essa guerra Intestinaremonta a
épocasbem recuadas. Trata-se de uma querela familiar que, de saída,
fixa posições. Entretanto, por sua luta contra a fabulação genealÓgica,
contra os mitos e as lendas da memÓria coletiva ou contra as derivasda
circulaçãooral, a historiografia cria um distanciamento em relação ao
dizer e ao crer comuns, além de se instalar precisamente nessa diferença
que a credencia como erudita ao distingui-la do discurso ordinário.
Não porque ela diga a verdade. O historiador nunca teve se-
melhantepretensão. De preferência, com o aparato da crítica dos
documentos,o erudito retira o erro das"fábulas":ao diagnosticar
0 que é falso,ele ganha terreno em relação a estas.Na linguagem
recebidacomo admissível, ele escava a posição que acaba atribuin-
do à sua disciplina, como se —instalado no meio de narratividades
história
"L'histoire, science Cf., neste livro, a
et fiction" in DE CERTEAU, Le Genre humain, 1983.
textual deste
capítulo, p. 37-38.
DE CERTEAU,
ECH, 1984a (Cf. "La fiction de l'histoire", p. 312-358).
45
ENTRE CIÊNCIA FICÇÃO
HtsróRlA E PSICANÁLISE:
46
de o
autor, clina lenta
de Iljstau rar coercijclc'l'»a partir
lugar das c•scmtasGipazes quais
orden),
venha a produzir-se
funçõl() clôlfál)lca cle representar as c ()lsas,
IDesligadasde sua
linguagens fornK11S lugar, suas aplicações, a cenárjos c Ulja
pertinencia se retere não Hiais [10q Lie eles exprnncnj, 111asao que,
por seu se torna pos«ível. EIS tlina nova c«pécle de
ficção:artefato clentífico, ela não «ejulga pelo real que, supoqta-
pelo que ela perniltc fazer e transfonnar.
Iliente,lhe faz falta, 101as
E "ficção"não o que bate a fotografia do desenobarque lunar, Inas
o que o prevê e o organiza.
A historiografia utiliza tanobélll as ficçÔe«desse tipo quando
elaconstrÓisiRtemaqde correlaçõe« entre unidades definidas
distintase eqtáveis;quando, no espaço de uno pasqado, ela faz funcionar
hipótesese regras científicas presentes e, assino,produz modelos dife-
rentesde sociedade; ou quando, mais explicitanlente, como no caso
da econometria histórica, ela analisa as consequências de hipóteses
infactíveis(por exemplo: o que teria ocorrido com a escravidão nos
EUAse não tivesse ocorrido a Guerra de Secessão? CE ANDREANO,
1977,p. 258ss).No entanto, o historiador não deixa de alimentar
desconfiançaem relação a essa ficção que se tornou científica,
acusando-ade "destruir" a historiografia: aspecto perfeitamente
demonstradopelos debates sobre a econonaetria.Tal resistência pode
aindafazerapelo ao aparato que, ao apoiar-se em "fatos", revela
erros.Mas,ainda mais, ela baseia-se na relação que o discurso do
historiador,
supostamente,mantém com o real; na ficção, incluindo
esta,o historiadorcombate uma falta de referencial,
uma lesão do
discurso"realista",uma ruptura do acasalamento,pressuposto por
ele,
entre as palavras e
as coisas.
4, A ficçãoe o
serum discurso "limpo".3A ficção é, por Último, acusada de não
de"limpeza" unívoco ou, dito por outras palavras, de carecer
["propreté"l
científica.Com efeito, ela lida com uma
estratificação
de sentido,relata
uma coisa para exprirmr outra,
N.T,:No
original:"
nota31 proprc";vale
cap. III lenabrar
, p, 101). que este terni0 pode significar
"próprio" (cf., mais adiante,
da cltjal extrai,
em urna linguagenl ser clrcunscritos, nena controla _
confi=vura-se podenl
que
efeitosde sentido
espaço Iproprels Ela
ela não
unívoca
em princípio Movimenta-se, ilnperceptível,no cainpo do outro.
saber não encontra lugar seguro e seu
o
Nessascircunstâncias, de
analisá-la maneira a reduzi-la ou traduzi-
esforçoconsisteem e combináveis.
Desse ponto de vista, a
estáveis
Ia em elementos cientificidade: é a feiticeira que o saber se
de
ficçãolesauma regra exorcizá-la eln seus laboratórios.
classificar,ao
empenhaem fixare
sinal do falso, do irreal, nem do artefato,
Elajá não traz,aqui, o
E a sereia da qual o historiador
masdesignaumaderivasemântica.
devedefender-se,a exemplo de Ulisses aniarrado no lilastro.
De fato,apesardo quiproquÓ de seus estatutos sucessivos ou
simultâneos,a ficção sob suas modalidades míticas, literárias,
científicas ou metafÓricas
forme] ao real, sem qualquerpretensão de representá-lo ou ser
credenciado por ele.Deste modo, ela opõe-se, fundamentalmente,
a uma historiografia que se articula sempre a partir da ambição de
dizero real —e, portanto, a partir da impossibilidade de assumir
plenamentesua perda.Essa ambição parece a presença e a força
de algode original;ela vem de longe, à semelhança de uma cena
primitiva,cuja permanência opaca continuasse determinando a
disciplina.De qualquer modo, ela permanece essencial,consti-
tuindo,portanto,o centro
obscuro de algumas consideraçõesque
eu gostariade introduzir
a respeito do intercâmbio entre ciência
e ficçãoao abordar "real"
apenas estas três pistas de reflexão: 1, o da
produzidopela historiografia
constitui, também, o legendári0 '
Instituição dos exemplo
historiadores; 2. o aparato científico -- por
a informática trabalho
—possui igualmente aspectos de ficção no
do historiador; quem
3. ao vislumbrar a relação do discurso conl
o produz—ou pro
seja, alternadamente, com uma instituiçã0
sionale com uma considerar
é possível
historiografiacomo
metodologia científica
ficção,00 como
um lugar em uma mistura de ciência e de
que se reintroduz o tempo,
48
O legendário da
instituição
n.1r ra ti (1 rela tc
Illstlt[ll algo dc real,
Jil«dldd que
[1,1 sua autor Idaclc no tato dc se fazer passar
pela testenlunha
do quc e, ou do que ela seduz e sc injpÔe através
dos aconteci-
rncntos dos (Ilidispretende ser a Intérprete, por excnjplo,
últimas
horasde R. Nixon na Casa Branca, ou a economia capitalistadas
Ilic'.xncanas.De fato, qualquer autoridade alicerça-se
haci('/ldas no
real de que, supostanaente, ela é a declaração; é scrnpre em nome
de algo de real que se consegue "a adesão" dos crentes e que estes
são produzldo«.A historiografia adquire esse poder enquanto ela
apresentae interpreta "fatos". O que o leitor poderia contrapor ao
discursoque lhe diz o que é (ou foi)? Ele teno de consentir á lei que
seenunciaena ternios de acontecnnentos.
No entanto, o "real" representado não corresponde ao real
quedetermma sua produção. Ele esconde, por trás da figuração de
umpassado,o presente que o organiza. Formulado sem rodeios, o
problemaé o seguinte: a encenação de urna efetividade (do pas-
sado),ou seja,o próprio discurso historiográfico, oculta o sistema
sociale técnico que a produz, isto é, a instituição profissional.A
operaçãoem causaparece ser empreendida com bastante astúcia: o
discursotorna-se crível em nome da realidade que, supostamente,
ele representa,mas essa aparência autorizada serve, precisanaente,
paracamuflara prática que a determina realmente. A representação
disfarça
a práxisque a organiza.
I. O discursoe a/da instituição.A historiografia erudita não escapa
ascondicionantes
das estruturas socioeconómicas que determinam
asrepresentaçôe«
de uma sociedade. Certarnente, ao isolar-se, una
círculoespecializado
apolitização tentou subtrair a produção desqahistonografia
e à comercialização
atualidade.Essa das narrativas que nos relatam nossa
segmento —que assunje a forma seja burocrática (um
retirada
do Estado)ou
corporativista (uma profissão) a—permitiu
a Separação
de Objetosmais antigos (um passado), a seleção de um
material
maisraro
(arquivos)e a definição de operações controláveis
49
c±vc.A
Certainentc essa
seu papel,
procede, cljl.i(
sado e o presente; Vji J.i'u
51
até o «Io dc
tréguas,desde o
que não tilnciona (o é, de
lata-se 'Elaprivilegia o
52
b) A narrativa que fala em nome do real é nnperativa; ela ' 'faz
, à njanetra cotno se dá ulna ordem. Nesse aspecto,a
atuahdade(o real cotidiano) exerce um papel semelhante ao que
a divmdade desempenhava outrora: os padres, as testemunha« ou
os tmmstrosda atualidade fazem com que ela fale para dar ordens
em seu nome. Certamente, "fazer falar" o real já não é revelar as
vontadessecretas de um Autor; daqui em diante, algarismos e dados
fazemas vezes dessessegredos "revelados". No entanto, a estrutura
permanecea mesma: ela consiste em ditar, interminavelmente, em
nomedo "real", o que deve ser dito, o que se deve crer e o que
deveser feito. E o que opor a "fatos"? A lei que se relata em dados
e algarismos(ou seja, em termos fabricados por técnicos, mas apre-
sentadoscomo a manifestação da derradeira autoridade, o Real)
constituinossa ortodoxia, um imenso discurso da ordem. Sabe-se
queo mesmo ocorre com a literaturahistoriográfica.Eis o que é
mostrado,atualmente, por um grande número de análises:ela foi
sempreum discurso pedagógico e normativo, nacionalistaou ml-
litante.No entanto, ao enunciar o que se deve pensar e fazer, esse
discursodogmático não tem necessidade de sejustificar porque fala
em nome do real.
c) Ainda mais: essa narrativa é eficaz.Ao pretender relatar o
real,ela o fabrica. Ela é performática. Ela torna crível o que diz e
faz agir por essa razão. Ao produzir crentes, ela produz praticantes.
A informação declara: "O anarquismo está nas nossas ruas, o crime
está à nossa porta!" O público, imediatamente, arma-se e ergue
barricadas.A informação acrescenta:"Existem indícios de que os
criminosossejam estrangeiros." O público procura os culpados,
denunciapessoas e vai votar em favor de sua condenação à morte
Oude seu exílio.A narração do historiador desvaloriza ou privilegia
práticas,exagera a dimensão dos conflitos, inflama nacionalismos ou
racismos,organiza ou desencadeia comportamentos. Ela faz o que
eladiz.Eis o que foi analisado por Jean-Pierre Faye (1973) em seu
livro,Langagestotalitaires[Linguagens totalitárias], a propó«ito do
nazismo.Conhecemos outros casos em que narrativas são fabricadas
emsérie e fazem a história.As vozes charmosas da narração transfor-
ruam,deslocam e regulam o espaço social; elas exercem um imenso
poderque, por sua vez, escapa ao controle por se apresentar como
53
f ANAHSt
N.T: Lembramos
ao leitor que a
a invençãodos primeira edição deste
PCs era recente livro é de 1986 (University of
informática e sequer se vislumbrava d
ao campo das pos«ihilidade de uso dos recursos
Ciências Humanas;
isso,de maneira alguma, invalida
54
espectahzadoou profissional,Conl a
intarniátlca,
a pos<ilillldadedo quantitati\0, estudo sequencial
das rela-
Para o historiador. é a Ilha Atiytunada. Finahnente ele
a possibilidadede livrar a historiografia de suas relações conl-
protneteaorasconl a retonca, com todos os usos Inetonínncos
ou
metatóncos do detalhe supostamente significativo de um
conjunto,
e todos os ardis oratórios da persuasão; ele terá a possibihdade
de desvencilhá-la de sua dependência em relação à cultura circun-
dante.cuoos preconceitos recortam antecipadamente postulados,
unidadese Interpretações. Graças à informática, ele torna-se capaz
de controlar as quantidades, de construir regularidades, além de
determinar periodicidades a partir das curvas de correlações —três
pontos nevrálgicos na estratégia de seu trabalho. Portanto, a histo-
tlu fisgada por uma embriaguez estatística:os li\TOSficam
repletosde algarismos,garantias de objeti\idade.
Inélizmente, foi necessário desenfeitiçar tais expectativas,mes-
mo sem ter chegado a falar o—como ocorreu, ultimamente, com as
observaçõeselaboradas por Jack Douglas (1969) ou Herbert Simons
(1980)—de "retórica dos algarismos". A ambição de matematizar a
historiografiatem a contrapartida de uma historicização dessamate-
mática particular que é a estatística. Nessa análise da sociedade baseada
na matemática, é preciso, com efeito, sublinhar: | 0 sua relação com suas
condiçõesde possibilidade históricas; 20 as reduções técnicas que ela
Impõee, portanto, a relação entre o que ela aborda e o que deixa de
fora;por último, 30 seu funcionamento efetivo no campo historiográ-
fico,ou seja, o modo de sua recuperação, ou de sua assimilação,pela
disciplinaque, supostamente, é transformada por ela.Eis outra forma
de assistirao retorno da ficção a uma prática científica.
1.Aparentemente, nada de mais alheio aos avataresda história
que essa cientificidade matemática. Em sua prática teorizadora, a
matemáticase define pela capacidade que seu discurso possui de
determinar as regras de sua produção, de ser "consistente" (ou seja,
semcontradição entre seus enunciados), "limpo" (isto é, sem equivo-
cidade)e restritiV0(impedindo, por sua forma, qualquer rejeição de
seu conteúdo). Sua escrita dispõe, assim, de uma autonomia que
55
interno de seu
fiz da "elegánc:a"o pnncípto da desenvolvimento.
sociedade
sua aplicação à análise tem a ver com
circuns
de espaço. NIesmo que, no século XVII,
tine-tasde tempo e
as probabilidades do
Cralggá uslumbrasse calcular testemunho em
princ-:pa
chrisfi,znue ynatheynatica,
é no final do
seu TheolêA'iae século
t;unda uma "matemática social" e empreen_
X"VIII que Condorcet
"probabilidades"que regem, no seu entender,
de um cálculodas
as escolhas práticas dos
'*motivaçõespara crer" e, portanto, Indivíduos
reunidos em sociedade (CONDORCET, 1974).5 Somente então
toma
tarma a ideia de uma sociedade matematizável, princípio e postulado
de todas as análises que. na sequência, abordam a realidade social sob
o prisma da matemática.
Essa"ideia" não era embora o projeto de uma socie-
dade orientada pela razão já tivesse sido proposto em A Repúblicade
Platão.Para que a "língua dos cálculos". de acordo com a expressão
de Condillac,viessea definir o discurso de uma ciência social,foi
necessário,em primeiro lugar, considerar a sociedade como uma
totalidadecomposta por unidades individuais que combinam
suasvontades:esse "individualismo", surgido com a modernidade
(ILACPHERSON, 1962; MACFARL±VE, 1978), é o pressuposto de um
tratamentomatemático das relações possíveis entre essasunidades,
assimcomo ele é, na mesma época, o pressuposto da concepção
de uma sociedade democrática. Além disso, três condições Cir-
cunstancialsvinculam essa ideia a uma conjuntura histórica: um
progressotécnico das matemáticas (o cálculo das probabilidades,
etc.),indissociável,aliás, da abordagem quantitativa da natureza e da
dedução das leis umversais, características
da cientificidade no século
XVIII (KLINE,1972,p. 190-286); a
organização sociopolítica de uma
administração
que uniformiza o território, centralizando a infor-
maçãoe fornecendoo modelo
de uma gestão geral dos cidadãos;
por último,a constituição
de uma elite burguesa ideologicamente
convencidade que seu
próprio poder e a riqueza da nação seriam
garantidospor uma
racionalização da sociedade.
A tratadapor Condorcet,
em 1785,já havia sido ada
por ARROW abordada por BORDA (1781):
(1963),seu tratamento
valeu ao autor um Prémio
Nobel.
56
—-a primeira, de natureza
Essatripla deterrninação histórica
ideológica e social —foi,
cécmca;a outra, sociopolítica; e a terceira,
torna possíveisas operações es-
e continua sendo, a condição que
caóticas.Ainda hoje, o progresso científico, o aparelho estatal ou
internacionale o círculo tecnocrata servem de suporte ao empre-
endimentoinñrmático.6 Ou, dito por outras palavras,a matemática
da sociedadenão escapa à história, mas depende de descobertas
científicas.de estruturas Institucionais e de formações sociais,cujas
Implicaçõeshistóricas desenvolvem-se através de todos os campos
de uma metodologia anistÓrica.
2. Além disso,o rigor matemático exige uma estrita restrição
do domímo em que ele pode exercer-se.Já Condorcet procedia a
uma tripla redução. Em sua "matemática social", ele pressupunha:
a) que alguém age em conformidade com sua crença;b) que esta
pode inspirar-se em "motivações para crer"; e c) que tais "mo-
tivações"reduzem-se a probabilidades.Impõe-se absolutamente
recortarno real um objeto matematizável.Ele deixa,portanto, fora
de seus cálculos,um enorme detrito, toda a complexidade social
e psicológica das escolhas. Sua "ciência das estratégias" procede à
combinação de simulacros. Gêmo da matemática, o que é objeto de
cálculo,afinal de contas, na sociedade que ele pretende analisar?A
rigorosanovidade do método tem como preço a transformação de
seu objeto em ficção. Desde o final do século XVIII —aliás,como
foi demonstrado por Peter Hanns Reill (1975, p. 23 ISS),a propósito
dos primórdios do historicismo alemão —,o modelo matemático
é rejeitado em beneficio de um evolucionismo (que acompanha a
JULIA;REVEL,1975) 7
historicizaçào da linguística) (DE CERTEAU',
antesque o estruturalismo macroeconómico do século XX venha
restaurar,também, esse modelo na história.
Atualmente,na história, o uso da estatística—forma, no en-
tanto,elementar da matemática —só é permitido mediante drásticas
restrições,Assim, no próprio começo da operação, deve-se adotar
apenaso material suscetívelde ser constituído em séries (o que
facilitaráuma história urbanística ou uma história eleitoral, em
57
de lado ou abandonadas a
deixadas
de
(objeto calculado cujas
palavras, variações
ou
de conl as coisas
Id(eitltijado
nun:a AArestrições exlgidas
do cálculos
a
c,
exennplo, seria necessana uma
teÓrjcos:por do tipo -
categoria«
capazde tratar características do campo
que sáo
.Iente" "talwz", etc.
recentes que, a partir das
Apesardas entre objetos, Introduzem
ou "distanciamento"
de exemplo, CORGE, 1975)
"Ijnpreosos" na análise (ver, por
conountos
infornúticos reduzenyse a três ou quatro fÓrmuIas.
algoritlnos
temo<a experiência das eliminações que tiveram que
Todos nós
no tnaterialporque ele não era abordável de acordo
serefetuadas
relatar os avatares de pesquisas
conl as regrasimpostas. Eu poderia
históricas por exenlplo, sobre os Estados Gerais de 1614 ou sobre
os Calliosdc [Cadernos de reclamações] de 1789 —objetos
que acabaralllsendo rejeitados do campo fechado da informática.
Desdeo níveleleinentardas unidades a serem recortadas, e por
excelentesrazões,a operação matemática exclui regiões Inteiras da
58
abstratamentedefinidos, além de designar as hipóteses a serem re-
Fitadas por serem malformuladas, ou não abordáveis,ou contrárias
aos resultados da análise (TILLY,1973),
Mas,deste modo, em vez de se ocupar, fundamentalmente, do
"real", o cálculo procede à gestão de unidades formais.A história
efetiva é, de fato, rejeitada de seus laboratórios. Assim, a reação dos
historiadoresacaba sendo bastante ambígua: eles aceitam e, simul-
taneamente,rejeitam tal situação. Seduzidos e, ao mesmo tempo,
rebeldeq.Não estou falando, aqui, de uma compatibilidade teórica,
masde uma situação de fato que deve ter um sentido. Ao analisá-la
tal como ela se apresenta, é possível identificar três aspectos, no
mínimo, do funcionamento efetivo da informática na historiografia.
a) Ao estabelecer a distinção, como se impõe, entre a informá-
tica (em que a estatísticadesempenha um papel menos importan-
te), o cálculo das probabilidades, a própria estatística (e a estatística
aplicada),a análise de dados, etc., pode-se dizer que, em geral, os
historiadoresinstalaram-seneste último setor: o tratamento quan-
titativode dados. O computador é utilizado, essencialmente,para
constituirnovos arquivos os quais, públicos ou privados, duplicam
e, progressivamente, substituem os antigos. Existem notáveis bancos
de dados, tais como o Inter University Consortiumfor Political and So-
cialResearch(ICPSR) da Universidade de Michigan (Ann Arbor),
graçasao sistema Fox, ou os bancos arquivísticos criados, na França,
tanto na instituição Archivesnationales,por Remi Mathieu e Ivan
Cloulas,no que diz respeito à administraçãomunicipal do século
XIX, quanto no Minutiercentral[Arquivo Central de Minutas] dos
notários parisienses.
Essedesenvolvimento considerável não deixa de estar circuns-
crito na arquivística,disciplina tradicionalmente considerada como
"auxiliar"e distinta do trabalho interpretativo que o historiador se
atribuía como seu campo próprio.Além da documentação, ele trans-
forma as possibilidadesda interpretação (FURET, 1974);portanto, o
computadoré situado em um setor particular do empreendimento
historiográfico,no interior do quadro pré-estabelecido que protegia
a autonomia da hermenêutica. Atribui-se-lhe apenas uma posição
como "auxiliar", ainda deterrmnada pelo modelo antigo que, além
59
as técnicas,distinguia a reunião de dados e
de hierarquizar a
sentido. Essaconibinação perjnite que, ern princ;plo
CidaçÀodo
o cálculo,sem ter de subtneter-se suas
historiadorutilize regras.
plano das
que haga,no tentativas Intelectuais
ela explica, sern dúvida,
Sido constatado por Charles Tllly ( 1973, p. 333-334),
como havia um
redundo de confrontos episternológqcos entre a operaçà()
nÚmero tão
e a operação interpretatna, por urn lado, e, por outro
inatenÚuca
niantlda, apesar das tensões, porosidades e
que seja
bilinguisrno eptstetnológico.
recíprocos.uma espéciede
corno urn fornecedor de da-
b) Utilizado pelos historiadores
dos segurose tna1Sabrangentes, ern vez de ser praticadona
qualidadede operasóes formais aclonadas por ele, o cornputador
aparecenos trabalhos dos historiadores sob sua figura atual de poder
tecnocrático.Ele Introduz-se na historiografia, sobretudo, a título
de uma realidadesocioecon&nica,e não corno urn conjunto de
regras e de hipóteses peculiares a urn carnpo científico. Essa é, aliás,
umareaçãode historiador,e não de rnaternático:o cornputador
Inscreve-seno discurso do prijnelro como urn dado contemporâneo,
mactçoe determinante,A Instituição na área da história retVre-se
ao poder que, transversalmente, Inoditica todas as regiões da Vida
socioeconÓrnica.
Assim,cada livro de história deveria comportar uma base
estatisticamíni:na para garantir a seriedade do estudo e, ao rnes-
tno tempo,prestar homenagern ao poder reorganizador de nosso
sisternaprodutor.Os dois gestos o pruneiro,
que se conforma a
um método técnico conternporâneo,
enquanto o outro tem a ver
com a dedicatÓna à autoridade
reinante são
inseparáveis. Trata-se
do mesmogesto.Desse
ponto de vista,o tributo que a erudtçà0
contemporâneapaga ao
computador seria equivalente à "Dedica-
tóriaao Príncipe"nos
livros do século XVII: um reconheciment0
de dívidaem
relaçãoao poder que
de uma época, sobredetermina a racionalidade
A institujçào da área ¯
semelhança da informática, atualrnente
da Instituição
apareceno texto nobiliárquica e genealÓgica de outrora '
sob a figura de uma
ao discurso força que tem razão e se itn
da representação,
60
relaç.io a eqs,esdois poderes sucessivos,o
aliás iguahnente, na
historiador
cncontra-se, po«jçáo de ente próxitno,
estrangejro;ele está ' 'junto" do conlputador, corno, outrora,
ele estava' 'junto" do rei. Ele analisa e inuta operaçóes que
eti•tua
apenasà distância; vai utilizá-las, «ejn ser parte integrante delas.
suma,ele faz história, Inas não a história; é seu representante.
c) Pelo contrário, a dedicatória a essa cientificidade
confere
crédito a seu texto, desenipenhando o papel de Citaçãoautorizante.
Entre todas as autoridades referidas pelo discur«o hiqtonográfico, é
esta
quelhe atribui tnaior legitimidade.Com efeito, o crédito é conferido
setnpre,em Últimainstância,pelo poder, porque ele funciona corno
umagarantiade real, à rnaneira corno uni capital-ouro confere vali-
dadeaos papéis e cédulas de banco. Essa razão, que carrega o discurso
da representaçãoaté o poder, é tnai« fundanlentalque motivações
psicológicasou políticas. Ora, o poder assume,atualmente,a fornaa
tecnocratada informática; o fato de citá-lo é, portanto, graçasa esqa
"autoridade",conferir credibilidadeà representação.Pelo tributo que
pagaà informática, a historiografia leva a crer que ela não é ficção. Ruas
tentativascientíficasainda articulam algo que não o é: a homenagem
prestadaao computador consolida a antiga ambição de fazer pasqaro
discursohistórico por um discurso do real.
Essaproblemática do "levar a crer" pela citação do poder é
acompanhada,como seu corolário, por uma problemática do "crer"
que está associada à citação do outro. As duas estão ligadas:o poder
é o outro do discurso. Servir-me-ei, como exemplo, da relação
estabelecidapor uma disciplina particular com outra. Na minha
experiênciadas colaborações entre historiadores e informáticos,
umailusãorecíproca faz supor, de cada lado, que a outra disciplina
garantir-lhe-áo que lhe faz falta —uma referência a algo de real.
A informática,os historiadores solicitam ser credenciadospor um
poder científico suscetível de fornecer "seriedade" a seu discurso;
à historiografia,os informáticos, inquietos em relação à sua própria
habilidadepara manipular unidades formais, solicitam um lastro para
seuscálculospelo "concreto" e pelas particularidades da erudição. Na
divisade cada território, leva-se o campo vizinho a desempenhar o
papelde compensar as duas condições de qualquer pesquisa científica
61
litnitaçào (que é renúncia à totalizaçáoh
moderna: por um lado,sua linguagem artificial (que é renúncia
de
e, por outro, sua natureza de representação.
ou
ser um discurso do real), deve fazer seu luto etn relação
uma ciência
Para se constituir, realidade.Mas o que ela deve excluir ou
à
tanto totalidadequanto outro, a respeito do
sob a figura do qual
retorna
perder para se formar de que seja uma garantia contra a falta
expectatl\a
continua havendo a
origem de nossos saberes. Uni "crer no outro" é
que se encontra na fantasrna de urna ciência totalizante e
se apresenta o
o modo em que
reintrodução,mais ou menos marginal, desse rnodelo de
ontológica.A a
traduz a rejeiçãodo luto que hasaa marcado ruptura entre
ciência
(a escrita)e o "real" (a presença). Não é surpreendente
o discurso
historiografia seja, seni dúvida, a mais
que, de todas as disciplinas,a
dizendo, um canipo
antiga e a mals obcecada pelo passado, melhor
para o retorno do fantasma.Nesse caso, o uso do corn-
putador,em particular,é indissociáveldo fato não só de pernxitir que
os historiadoreslevem a crer, mas tanibém de pressupor sua própria
crença.Estesuperacréscimo(essasuperstição) de passado lilanifesta-se
na maneiracomo eles utilizam as técnicas modernas.Assirn, na própria
relaçãocom a cientificidade,com a matemática e com a informática,
é que a historiografia é "histórica": não mais no sentido eru que ela
produzuma interpretaçãode períodos antigos, mas no sentido em
que o passado(o que as ciências modernas rejeitaram ou perderam
e constituíramcomo passado—uma coisa
finita, separada) produz-se
por seu intermédioe transforma-se
em narrativa.
62
A ctsca
63
t tN'Rt t
64
para transtorniá-lo. IDesdeo ge«to que constituiu arqujvos
as zonas rurais no tuuseu de tradições
aqueleque transtortnou
supersticiosas,o corte que, no interior de unna
memor.í«is e/ou
circunscreveuni '"passado"depende da relaçãoque urna
estabelece corn o que não é ela, conj o círculo do
anibiçio produtora
ela se separa, coni o meio circundante que ela deve conquistar,
as resistênciascom que ela se depara, etc. Corno 1110delo,ela
adotaa relação de urn etnpreendunento corn sua exterioridade, no
mesmocampo econônuco. Os docutnentos "do passado"são,por-
tanto,relati\os a urn sisterna fabricador e tratados segundo suas regras.
Nessaconcepção típica da econotnia "burguesa" e conquista-
dora,causaunpressàoo fato de que o tempo é a exterioridade,o
outro.Ass1m,à tnaneira de urn sistema monetário, ele Viria a aparecer
apenascomo urn princípio de classificaçãopara os dados situados
nesseespaçoobjetivo externo. Transfonnada em medida taxinÔmica
dascoisas,a cronologia torna-se o álibi do tempo, um meio de se
semr do tempo sern pensar nele e de exilar para fora do saber esse
princípiode morte e de passagem (ou de metáfora).Ainda resta
o tempo interno da produção, mas, transforrnadano interior em
umaserialidaderacional de operações, e objetivada por fora em um
sistemamétrico de unidades cronológicas, essa experiência dispõe
apenasde uma linguagem ética: o imperati%)de produzir, princípio
da ascese capitalista.
Talvez,ao restaurar a arnbiguidade que fisga a relação objeto-
suJeitoou passado-presente, a historiografia viesse a retornar à sua
antigafunção,tanto filosófica quanto técnica, de dizer o tempo
comoa própria ambivalência que afeta o lugar enl que ela está; e,
portanto,de pensar a equivocidade do lugar conno o trabalho do
tempono próprio interior do lugar do saber.Por exennplo,a ar-
queologiaque metaforiza o ernprego —apesar de tudo, técnico da
informática faz aparecer, na efetividade da produção historiográfica,
a experiência,essencial para o tennpo, que é a innpossibilidadede
éo
com o lugar. Que "o outro" já estejaaí, no lugar,
identificar-se
modopelo qual o tempo se insinua aí.8 0 tempo pode retornar,
65
t ',ccAo
68
a máscara de uma razão, etc., tudo Isso depende da ficção, no sentido
"literário" do termo. A ficção nem por isso é estranha ao real;
pelo
contrário,de acordo com a ob«ervaçào de Jeretny BentharnJá no
século XVIII, o discurso fictitious está mais próxnno do real que o
discurso "objetivo" (OGDEN,1932). Mas, neste caso, a lógica adotada
é diferente daquela utilizada pelas ciências positivas.Ela corneçou a
fazero retorno com Freud. Sua elucidação seria uma das tarefasda
historiografia.Sob este primeiro aspecto, a ficção é recognoscível
no aspectoem que não há um lugar próprio e unívoco,ou seja,no
ponto em que o outro se insinua no lugar. O papel tão importante
da retórica no campo historiográfico é, precisamente,um sintoma
maciço dessa lógica diferente.
Considerada, em seguida, como "disciplina", a historiografia é
uma ciência desprovida dos recursos para realizar tal pretensão. Seu
discurso assume o que manifesta maior resistência à cientificidade (a
relaçãosocial com o acontecimento, com a violência, com o passado e
com a morte), ou seja, o que cada disciplina científica teve de eliminar
para se constituir. Entretanto, nessa dificil posição, ele procura apoiar,
pela globalização textual de uma síntese narrativa, a possibilidade de
uma explicação científica; o "verossímil" que caracteriza esse discurso
defendeo princípio de uma explicaçãoe o direito a um sentido.O
"como se" do raciocínio (o estilo entimemático das demonstrações
historiográficas)tem o valor de um projeto científico;ele mantém
uma crença na inteligibilidade das coisas que lhe oferecem maior
resistência.Assim, a historiografia estabeleceria a justaposição de
elementos não coerentes ou, até mesmo, contraditórios, sem deixar
de fingir, frequentemente, "explicá-los": ela é a relação dos modelos
científicoscom seus déficits. Essa relação dos sistemascom o que
contribui para seu deslocamento ou sua metaforização corresponde
também à manifestação e à nossa experiência do tempo. Nesta pers-
pectiva, o discurso historiográfico é, em si Inesmo, como discurso, a
luta de uma razão com o tempo, mas uma razão que não renuncia
ao que ela ainda é incapaz de realizar, uma razão em seu movimento
ético; ele estaria, portanto, na vanguarda das ciências como a ficção
do que elas conseguem alcançar de forma parcial.Uma afirmação
de cientificidadeorienta o discurso que, em si mesmo, conjuga o
69
o que se relata
permanece
com 0 que ciência.
própria tradicional de
ticção da sua função
aí é uma continuamente,
Ao manter, assim,a cultura - o legen-
historiografia controlável, corrigível ou
"conjunção",a conl 0 que já é
-- de um ternpo técnica; apesar de ser
práticas de natureza produzida pelo que
proibido por ela é
com essaspráticas, linguagenl recebida como
Identlflcá-la confirmam na
retiram ou
esboçam, meio. O modelo tradicional de um
adnussível por determinado legitimante, encontra-se aí, por_
global, simbolizadore
discurso instrumentos e controles pertencentes
por
tanto,mastrabalhado
produtor de nossa sociedade. Assim, a narratividade
ao sistema culturais ou as operações técnicas e
totalizantede nossas lendas
estar, sen) arbitrariedade, supostamente au-
críticas não podem
cuhnina em urna represen-
sentesou seremelimináveisdo que viés,
Sob esse cada uma
tação,no texto ou no artigo de história.
conjuntamente, por
dessasrepresentações ou a massa forrnada,
elas poderia ser comparadacona o nuto, se este for definido
como uma narrativa permeada pelas práticas sociais, ou seja, um
discursoglobalarticulandopráticas que ele não relata, mas deve
respeitar;e, ao mesmo tempo, lhe fazern falta e o mantém sob vi-
gil,incia.Nossaspráticasde natureza técnica são, frequentemente,
tão silenciosas, circunscritase essenciaisquanto o eram, outrora,
aspráticasda iniciação;no entanto, daqui em diante, elas são do
tipo científico.E relativamentea tais práticas que se elabora o
discursohistórico,garantindo-lhes uma legitimidade simbólica
semdeixarde "respeitá-las".Ele é necessário à
articulação social
dessaspráticase, no entanto, controlado
por elas; assim, ele sena
o mito possívela uma sociedade
científica que rejeita os nutos, a
ficçãoda relaçãosocial entre
práticas especificadas e lendas gerais
entretécnicasprodutorasde lugares
efeitodo tempo.Vou e lendas que simbolizam o
concluir com uma fórmula. O lugar instaU-
radopor procedimentos
de controle é, por sua
pelo tempo,passado vez, historicizado
ou futuro, que se
do "outro" (uma relaçãocom inscreve aí como retornO
ambições)e que, o poder, com precedentes ou com
acabapor "metaforizando" assim o
transformá-la,igualmente, discurso de uma ciência'
em uma ficção.
70
CAPITULO II
Psicanálise e histórial
71
lado,o esquecttnento, que não é urna passividade
contránas:por um passado; e, por outro. o
perda, mas uma acio contra o
nem uma do esquecido, ou sega,urna açào
retorno
cigtomnésico,que é o forçado ao disfarce. De tnancnra tna1Sgeral
passado,daqui em diante constitui-se graças ao que ela
qualquer ordem autónoma condenado ao esquecunento; no entanto, o
produzindo um "resto" ' 'litnpo'
de nos,o, neste lugar , Instala-se
excluído insinua-se,
inquietação, torna Ilusória a con«ciência segundo a
aí, suscita a ' 'sua casa", fixa aí seu esconderijo;
Julga estar etn e
qual o presente
"ob-sceno", esse '•lvxo", es«a"resistência" da
esse "selvagem", esse
aí à do proprietárto (o ('A'o)
ou
"supersoção"vai
contra ele a lei do outro.
A historiografia desenvolve-se, pelo contrário, em função de
um corte entre o passado e o presente. Ela é o resultado das relações
de saber e de poder entre dois lugares supostarnente distintos: por
um lado, o lugar presente (científico, profissional, social) do traba-
lho, o aparato técnico e conceitual da pesquisa e da interpretação,
a operação de descrever e/ou de explicar; e, por outro, os lugares
(museus,arquivos,bibliotecas) em que são guardados, inertes, os
materiais que são objeto da pesquisa e —enl um segundo momento,
deslocadosno tempo —os sistemasou acontecintentos do passado,
cuja análise é permitida por intermédio desses materiais. Uma
fronteira separa a instituição atual (que fabrica representações)
das regiões antigas ou longínquas (encenadas pelas representações
historiográficas).
Mesmo que a análise historiográfica postule uma continui-
dade (genealogia),uma solidariedade (filiação) ou uma conivência
(simpatia)entre seus operadores e seus objetos, ela estabeleceuma
diferença
entre uns e outros, marcada, aliás, desde o princípio,por
uma vontade de objetividade. O espaço organizado por ela é, ao
mesmo tempo, dividido e hierarquizado, comportando um "pro-
N.T.:No
"cena" enquanto "0h" reveste a noção de
para a frent&; 00 seja,"fora
da cena"
72
diqongue-se do tuaterial
aparatoda pesquisa tratado e, por
escriturariaenl que o discurso do saber outro, a
passado representado, citado e
interpretati\0
o
dofflina conhecido.
A p«icanálisee a historiografia têm, portanto, duas
maneiras dife-
rentesde distribuir o espaçoda ntentória;elas pensam, de Inodo
passado conl o presente. diferente,
a relaçãodo A primeira reconhece
urn no
outro;enquanto a segunda coloca um ao ladodo outro. A
psicanálise
trataessarelação segundo o modelo da imbricação (urn no
lugar do
outro),da repetição (um reproduz o outro sob uma forma
diferente),
doequívocoe do quiproquó (o que está "no lugar" de quê? Há,
por
toda parte,jogos de máscaras, de reviravolta e de ambiguidade). Por
sua'vez,a historiografia considera essa relação segundo o modelo
da
sucessi\hdade (um depois do outro), da correlação (maior
ou menor
graude proximidade),do efeito (um segue o outro) e da disjunção
(umou o outro, mas não os dois ao mesmo tempo).
Assim,verifica-se o confronto entre duas estratégiasdo tempo
que,no entanto, não deixam de se desenvolver no terreno de ques-
tôesanálogas:procurar princípios e critérios em nome dos quais
sejapossívelcompreender as diferenças ou garantir continuidades
entrea organização do atual e as antigas configurações;conferir
valorexplicativoao passado e/ou tornar o presente capaz de expli-
caro passado;reconduzir as representações de outrora ou atuais a
suascondições de produção; elaborar (de onde? de que modo?) as
maneirasde pensar e, portanto, de superar a violência (os conflitos
e os acasosda história), incluindo a violência que se articula no
própriopensamento; definir e construir a narrativa que é, nas duas
disciplinas,
a forma privilegiada conferida ao discurso da elucidação.
Os cruzamentos e os debates dessas duas estratégias,desde Freud
(1856-1939),sublinham as possibilidades e os limites da renovação
queo encontro entre elas oferece à historiografia.
73
história
Freude a
de Freud apoia-se d01Spilares
A construiu e considerava como fundanlen_
ele
que. sucessivamente, plano: A ciência dos sonhos (1900)
fundadores no (1912-1913). Neste livro, de acordo
tais e
outro lado, Toteme ele "tenta aplicar o Inétodo analítico
por em 1914,
com sua psicologia dos pou)s,
que, associando-seà
a problemas mais importantes instituições de nossa cniliza_
das
recuaràsorigens moral, religião, mas tambérn proibição do
organizaçãopolítica,
à l'histoire du mouvement
incestoe remorso" 113).Tal método leva em consideração
psychanalytique", 1966,p.
uma, individual, e, a outra, coletiva. Aliás, ele assume,
duascenas:
a forma (biográfica) de "histórias de pacientes"
alternadamente,
(1905-1918), traduzidas com o título de
comasKrankengeschichtet115
—,ou a forma (global) do "romance histórico" com
Cincopsicanálises
título original sublinha que se trata
,11.'t'ése o monoteístno(1939), cujo
da relaçãode um homem, "der Mann Moses com a configuração
histórica do monoteísmo judaico (FREUD,1973; 1967a).
Asintervençõesde Freud na historiografia são quase cirúrgicas.
Suasoperaçõesapresentamcerto número de características:
A.Ele invalidao corte entre psicologia individual e psicologia
coletiva.
B. Ele considera o "patológico" como uma região em que se
exacerbame se desvelam os funcionamentos estruturais
da experiênciahumana. Desse ponto de vista, a distinção
entrenormalidadee anormalidade é
apenas fenomenal;
fundamentalmente, ela deixou de ter pertinência científica,
C Na historicidade,ele
apreende sua relação com crisesque
a organizamou a
deslocam. Em acontecimentos decisivos
(relacionais
e conflitantes,
sexuais),ele desvenda originalmente genealógicos e
os
pontos de constituição de estrutu-
raspsíquicas.As
confirmações que lhe são fornecidas pela
Nt.
clínica"
terapêutica per nutetn-lhe concentrar sua análise
dires•ôes:a) a no adulto, das detettnjnas
(Siesque recuai) i
a "cenas prilliitisas" vivenciadas pela criança e pressupóenj
que esta (epígono Kituado,até enteio,nos bastidores) tenha
desetnpenhado papel central na história; b) a
neccKSld,ldc
de postular, na origeni dos povos, unia violêtwta genealÓglca
(luta entre pat e filho), cujo recalcatiiento é o trabalho da
tradição (ela dtssunula o cadáver), tuas cujos efeitos repeti-
ovos sio Identificáveis através de suas sucessiva<catnuflagen»
(existem wstígios); c) a garantia de encontrar, etn qualquer
linguagetn,"fragtnentos de verdade" (Stin Ilâhrhcit)
(FREUD,Der Mann Meses, 1940-1952, t. XVI, p. 239),
tilhaços e reqquícios relativos a esses jnotnentos deciKivos,
cujo esquecitnento organiza-se etn sistejnaspsicológicose
cuja remim«cência Introduz possibilidadesde njudança enl
urn estado presente.
I). Ele modifica o "género" historiográfico ao introduzir nele
a necessidade, para o analista, de tnarcarseu lugar (afetivo,
imaginário, sirnbólico). Ao transformar essa explicação na
condição de possibilidade de uma lucidez, ele substitui,
assim,o discurso "objetivo" (aquele que visa dizer o real)
por urn discurso que assurne a figura de "ficção" (se,por
"ficção", entende-se o texto que declara sua relação com
o lugar singular de sua produção).
Curiosamente, algumas dessas posições foram reviradas como
umaluva pelos avatares da tradição psicanalítica ou de suas aplica-
çóes.Eis o que é demonstrado por alguns exemplos edificantes.O
freudismofoi reduzido à psicologia individual e à biografia,tendo
sidoisoladono "patológico" (por exemplo, a história econÔmica
urn "resto"
Ousocialdeixará, a respeito da feitiçaria ou do nazis1110,
então,
Inexplicado e anormal que ela abandona à psicanálise).Ou,
nosaspectosem que, para Freud, os deslocatnentosdas represen-
a
tacõesarticulam-se a partir de conflitos originários, pressupôs-se
"arqué-
imemorialubiquidade e estabilidade de "sínlbolos" ou de
1110do,a
tipos",dissimuladospor trás dos fenômenos. Do luesmo
divisãodo sujeito entre o princípio de prazer (Eros)e a leido outro
75
'SALANAcSt;
HISTô#A
76
tnédlC0psiquiatra, tendo corneçado por etetuar a
partir do inaterial, e enl tunçáo "conversão"
O analíticaa dos
Na sequéncta, a partir de 1907 (corn de sua
&pecialidade. cinquenta e uni
a estende ao estudo dos textos
atios),ele literários UI),1971a);
depois, a partir de 1910 (a propósito das '
e 'palavras prililltjvas"
e de
LeonardoDaVmci) (FREUD,"Des «ens oppo«és datis les
1933;1971b), à etnologia e à história. Mas,
tifk", de acordo cotn a
que figura no ' 'Prefácio" de elótetne tal)tt
(1913),hvro que
o segundo rnornento da conquistai/)
pqcanalíttca, ele deixou
de ter, desdeentão, "um dotnínio suficiente desses Inaterlcus
[etno-
lóglcoslque estão enl expectativa (harrenden)de urna
elaboração
Construída e verificável enl una
[psicanalítical".17 carnpo particular,
suateoria não estaria ancorada aí, ruas destinada a renovar
outros
camposern que Freud já não dispõe do« "elernentos" necessários
N.T.:No
original.
A' mens•6es
entre colchetes, na atação de Freud, foram introduzidas por Michel de Certeau.
77
quadros analíticos;
sobre tórico. Na
ambiguidade desafio
fraturade o respectivo apesar de sua paixão
steridade enfrentar profissional,
pioneiro, mas não a adolescência, da
ele foi desde
"antiguidades"ou, Além de una corpus coerente de
Iolecionar
leituras neste domínio. insinua na historiografia 0
de suas ele
verificáveis,
hipótesesteóricas policial("Quem Inatou
Harry?") e o aspecto
pensedo fantástico (existe um fantasma dentro de
romance
inquietantedo
0 saber, incluindo 0 aprazível escritório dos
novo,
ele enfeitiça, de passado arruinado em peças e em
pressupõerno
historiadoresque aspecto sério da história acompa-
Aparece o
ordemnos arquivos. século depois de ter sido afirmado
Meio
nhadopor seu perigo. que, de fato, os rnortos "voltam a
observa
por Michelet,Freud p. 92). Não mais, corno pensava
por BARTHES,1965,
falar" (citado que seria o historiador:
Michelet,pela evocaçãodo "adivinho"
fala", mas à sua revelia, em seu trabalho e seus silêncios. Tais
"isso
de qualquer histona-
vozes,cujo desaparecimentoé o postulado
o espaço do qual
dor que as substituipor sua escrita, re-mordem
estãoexcluídase continuam falando no texto-hornenagem que a
erudiçãoergue em seu lugar.
Tradições
78
etnológico e pré-histót à tcflcxáo
suce«os para '6as tentativas dc invasào pela
1960. 112).
("a nutologla, a história da literat
Essestrês ura c a
Já as reutilócs da quarta-fejra, à noite,
«l,glóes") ocupai)l asa dc
partir de | e, eni seguida, da ' 'Sociedade Psicanalític a
Freud(a
cf UI), 1977). No
deViena" (fundada 10,
Adler, Federn, Sacbs, Schllder, Stejner e
(secrctánodo grupo),
outros assinlcotuo, mais tarde, Ikeik,Tausk c Lou
_ abordavalllo Incesto, o Rítnbolo, os tnitos,Wagner, Nietzsc lie, etc
breve,essas"aplicações" da psicanálise fazetn ol)jeto de discussões
atnplasou de correspondências conl Abrahajn (Berlijn), Feren-
UI (Budapeste),Groddeck (Baden-Baden), Jung (Zurique), Jones
l)utnalli (Boston), etc. Enquanto narrativas,
(Londres), análises
levamo estudo de "caqo" para a biografia até o "retrato psicológico'
dopresidenteWilson, trabalho tardio e bicéfalo de Freud e W C.
Bulllt (FREUD,1968).
A criação da "Associação Psicanalítica Internacional" (191()),
79
cotnplexo dentais para se prestar a
elentento,
lio pritnciro
etn todos os debates conceituais
soltar a tnttoduztr
teona ao a particularidade das relações
sobre Adieroung, contQnr a acontecinnentos singulares e
Freud e, portanto, ao
ais com de explicar (ou, sitnpleslnente, de de€lgnar)
contingentes o papel rectprocanlente, ele itnplicou urna pniti.ticac,io
,
lacunas da "cléncta narrativa do passado torna-se a transposição
que a
da histortogratiaJ.i entre os deuses da atualidade psicanalítica
ro:nanescade combates Tetetne tabu; Freud diante de Adler e
etn
(Freude seus"tilhos", 't'tnent etc.).
Contril'l'tionà l'histoire du
Junta,etn fato biográfico que a despedaça e a
assun, entre o
A teor:a oscila, as condições de «ua produção.
representaçãonúnca que chssirnula
urn lado, ela confessa estar dilacerada por conflitos (ruas por
Por
mesmo, ela é irredutível a um slSterna);por outro, a Interpre-
tsso
querelas intestinas (111as
tação das origens longínquas rnetafOriza
essedeslocamentode uma cena presente para urna cena do passado
ou pnrnitlva sugere, tarnbém, analogias de funcionarnento entre as
representaçõescoletivas e as histórias do sujeito).
O segundo elemento é o mais problernático. De fato, a instituição
mediatizaa relaçãodo anahsta corn a história geral. Ainda naais,ela
remete a própria análise à organização de poderes que a torna possível
e a sustém (por exemplo, é necessário pertencer a urna Sociedade para
"exercer";a "fala livre" do cliente pressupõe uma posição social do
analistae um contrato financeiro, etc.). Em suma, no canipo analíti-
cmela é o retorno (disfarçado) da 'violência que se transforma aí em
falae,assim,encontra-se recalcada como violência fisica e o corpo a
corpo. Pela instituição, "inconsciente social da psicanálise" (CASTEL,
1973),a históna (política,social, econÔnuca, até
mesmo étnica) retorna
no espaçoInsulardo discurso ou
da cura. Assim, a criação, brigas e
Cisõesde sociedades psicanalíticas,
nos últimos sessenta anos, relatam
os processosda teoria
com sua exterioridade que, frequentemente, ela
denega;entretanto,nesses
debates é que se deve procurar os verdadeiros
esboçosde um história
psicanalítica.
Daí.
das
em ao discurso
que0 é um médico que tem borro: do
80
PSICANÁ:SE E
Derivas nacionais
Por último, verifica-se a intervenção das situações nacionais que
setornamcorreias de transnussão dos discursos e métodos oriundos
deViena.Vou chamar a atenção para três casos típicos deixando de
ladoa Alemanha nazista, de onde os analistasjudeus tiveram de fugir
e ondeo Reichsfúhrer M. Goering (primo do outro), encarregado
daterapêuticanacional,20logo assumiu o controle da Sociedade
Alemãde Psicanálise"(presidida, durante um período demasiado
longo,por Carl G. Jung) para levá-la, por exemplo, a elaborar uma
tipologiados sonhos, de acordo com as raças.
Na URSS, desde 1920, um Comité da "Associação Psicanalítica
Internacional"mantém-se em ligação com Viena. De Moscou, M.
Wulff(que, ulteriormente, irá instalar-se em Jerusalém) defende
a compatibilidadeentre Marx e Freud. Em 1923, tal postura é
re\nravolta da
de 10 i.
da
psicanaliseno sentido de "ter
de uni axnploalcan« cultural e
da delilocracl,i burguesa". Rol) o
f
1933.
acabou
Ver SCi
F,
contra o
do encantatncnto, I W III) I ,
Ia e 197
a lios
e Idade ledadc para a
do
dos iduos, ao Ilitegrá•los; eis o que,
el constatar, na obra de N. ( 1966), para a r'.
o estilo de uni
dcquAlquerrepress.ioteni 'tral.
C) atribuido pessoal Visa,deste
urna redus.io da psicanalise a 111
na terapia
83
nazi srno. ,
peio de pesquisa pra Q,
pelos
e o caso etc., são encarregados de elabore
de da história'
(Bruno} afirmar:"A essénaa
chega a desde 1931
W Adorno 1970, p.
Reich,
diferentespara
85
teór n.1
c
vuosctn direito, (1,1
d.o sociedades psicanaliti«as. lendo
da Instótta c das
deixado pelas tilo«otias da (Sartre
upado o e•paço vago
avançando no tcrtvno etn que o estrut
etc.) dc»deI OOS,
a pstcan.íhse tianccs.l dissctnina-se, atualrnente, por todo
fragntenta,
cténcjas hutnanas e, Inclusjve, na vulgata dessas
o c.unpo das
do sujeito. I Desse
intnxiunndo nelas a questão
supor as variantes distribuídas entre
todos o» sentido»«eria possívcl
Deslocamentose perspectivas
Em 1971, realizava-se, ena
Viena, o "1 0 Congresso
cionalde Psicanálise". Interna-
Retorno às origens. Mais de
dirigiratn-seao apartarnento-rnuseu 3.000 analistas
biliáriocarrnesirndo defunto da Bercwasse para visitar o rno-
Inestre, seu canapé e
universoreunidonesse seus bibelôs. O
mornento era o do
peregrinação rnarxistahavia agrupado Ocidente, enquanto uma
terragernaánica, o do Leste, mas na
centro bifacial desses mesma
silênciodo lugar, dois impérios. Em
análogo ao silêncio Viena, o
1940-1952), suscitavaa fala de do corpus freudiano (FREUD,
çàodestinadaa uma
Anna Freud, filha multidão; mas, somente a ova-
rumoresdissonantes do fundador,
que confirmavam, conseguiu abafar os
internacionale, ao mesmo tempo,
de acordo o sucesso
pela"horda" com Toteme
dos herdeiros. tabu, a fragmentação
tória da qual, A psicanálise da obra
daí havia entrado para a his-
suasrelações em diante, fazia parte.
com a Por isso, foram
modificadas
autorizama historiografia.Os
sublinhar três deslocamentos produzidos
orientações atuais:
86
do psicanálise
Umahistória
psicanálisedos transtorniacl()
Ia
ela tneslna, de sua ongetn coni suas
s,canállsecoto evolusi»es,
teorias cotil suas instituições, da relação transferencial
de conl
etc. continua sendo pertinente insere'.«r os des-
pessoais utna genealogia anil)la•,por exernplo, vincular
a tradiçáo judaica Inoravia, lilarcada pelo sabateíslli(),' ou
reconheceros vínculos de Lacan com o surreallslll()ou ujna
linhageni cristã que substitui o corpo perdido pelo logos.
verdadetra
provérbio'abanano transgresOo"
afitnuva• lei cunipre•se peia
também,
hes. 1976,
I
Kleist, Leonardo
Jean-Paul, K, E da
é
A
sendo
I
e histórica da
gura política detnocr,ítjoa, torna-se, por
c da
econotnia capitalista as evidências de seus
que «e desfazenl
o cenário enl heróis da historiografia). (
das curas ou
beneticiários (clientela Freud Inverte o gesto Instaurador
a obra de
da da e na Aldklc:n01Ñ, Kant, que decoarava os direitos e os
esclarecida:a
da consciêncta -- ' 'a plena liberdade" e responsabilidade,
deveres dessa consciêncta
possibilidade de "avanço" que pernuta
a
a autononua do saber, (KANT,1947) —,a resposta da
de sua minoridade"
ao hotnetn "sair
freudiana reemia o adulto à sua ' 'Illinoridade" infantil, o saber
análise
o deterrninarn, a liberdade à lei do
aosmecanismospulsionaisque
originários.
inconscientee o progresso a acontecnnentos
No lugarrecortado por urna ambição, a biografia psicanalítica
operauma máravoltaou constata uma erosão de seus postulados.
À semelhançada místicados séculos XVI e XVII, no campo de
umatradiçãoreligiosarecebida,ela desfaz, a partir do interior, a fi-
gurahistóricae socialque é a unidade-padrão do sistema em que
o freudismose desenvolve.Mesmo que as condicionantes sociais
reduzama biografiaà apologia do indivíduo, em princípio ela tem a
formade autocrítica,enquanto sua narratividade assume o \alor de
antimito,como ocorre com o Don Quichottena Espanha dos hidalgos.
Aindaficapor saber que diferença (que já não teria necessidade de
ser'biográfica")é anunciadaou preparada
por esse maquiniqno.
3. IJmahistória da natureza
Ao reduziro indivíduo ao
que, por outro (ou pelo inconscien-
te),o determinaà sua
revelia, a psicanálise voltou às configurações
simbólicasque articulavamas
cionais,O práticas sociais nas civilizações tradi-
sonho,a fábula e o
razãoesclarecida mito: esses discursos excluídos
tornam-seo próprio espaço
críticada sociedade cni que se elabora
iúvida,os teólogos burguesa e tributária da tecnologia, Seni
do freudistno
linguagensem ter-se-iatli apressado a Inoditicar
positividades. Mas, não
é isso o itupottailte: ao
88
e os rituais recalcados pela razão
os pode, atualmente, ter
uma crítica freudiana aspectode
abre algo que poderia ser
antropologia.De fato, ela designado
históriada "natureza" e que introduz na historicidade:
por
e as remanênctas do irracional,violência ern
a) a persistência
açãono próprio interior da cientificidade ou da teoria;
(as pulsões, os afetos, o libidinal)
b) uma dinâmica da natureza
articuladaa partir da linguagem —o que contradiz as ideo-
logiasda história que privilegiam as relações do hornern
com o homem e reduzem a natureza a um terreno passivo,
indefinidamente oferecido às conquistas científicas e sociais;
c) a pertinência da fruição (orgástica, festiva, etc.) reprimida
por uma ética do progresso que é incrivelmente ascética e,
portanto,a subversão insinuada pelo princípio de prazer no
sistemade uma cultura.
Taisquestões, disseminadas na historiografia, já produzem aí
efeitosque, por não serem necessariamente marcados por uma fi-
liaçãopsicanalítica,nem por isso deixam de ser sinais de dívidas e
tarefasfreudianas.
O "romance" psicanalítico.
História e literatura26
* Este texto é a
de DE CERTEAU, ECH, 4a
anteriormente, cap. IL freudiennes",
» escreveele, em Der Mann
Moses,m FREUD,1940-1952,
t. XVI, p, 123.
92
ontdade entre escolas e as tendências
Viena, representadas
do silêncio do
tinhapara expritnir alélii apartanjento vazio
(urn tónililo entéitado de bibelôs) e do estrépito da
do defunto, Anna Freud (util nonie da ovação
destinadaà filha
A esses dois sinais de apojado pelo
quiproquó genealógico). ausêncii
nojne ocupado pelo outro lugar
e acrescenta-se terceiro:
das Gcsannnt'lte II ('Ike ( 194()-1952).Ao
o toonutnento reivindicareiii
dezoito volujnes, oq discípulos evocani, de fato, a tese ou
e tal)ltlsobre a fragjnentaçào do de
undTàblt corpo pela
"horda"dos herdeiros, após a tnorte do pai, ou de Der AlannMoscs
sobre a "tradição" que inverte o
e 0 monoteíslllol pensamento
dofundadorde queni ela carrega o notne.
Da índia à Califórnia, da Geórgia à Argentina, o freudlslli()é
tio "fragnlentado",quanto o jnarxisni(). Fortnadas para defendê-lo
contraos avataresdo telnpo, aq grandes instituições profissionais vão
entregá-lo, de preferência, ao trabalho dissetninador da história, ou
seja,às divisões entre culturas, nações, classes, profissões e gerações;
elasacelerarna decotnposiçào do corpusde que se beneficiarn.
Negaressefato seria ideologizar a teoria e/ ou fetichizá-la. Desse
modo,não haveria urn "lugar adequado" que possa garantir uma
interpretaçãoexata de Freud. As reflexões seguintes situam-se
somenteem alguma parte nessa dissejninação do freudisnno,na
linhae (desde que se itnpós o luto pela École Freudienne de
Paric) nas margens da instituição teórica lacaniana. Historiador
de oficio,ou tnembro dessa Ecole desde sua fundação,não me
sintomais"apto" para falar de Freud ou ser considerado como um
de seusrepresentantes. A instituição atribui uma localização, mas
nãouma autoridade.
Portanto,dupla condição prévia: por um lado, teses gerais
defendidas
somente por experiências particulares;por outro, uma
leituraparticular dessas teses gerais. Esqa localização significa histo-
Antes de ser um objeto de discurso,a história engloba e
ricidade.
Situaa análise. Ela da
é seu insuperável pressuposto. Qualquer teoria
história
estáconfinada em um labirinto de conjunturas e de relações
-queelanão domina; do
trata-se de uma "literatura" sob o domínio
assuntoabordado
por ela.
93
ao "romance"
"cientificidade"
Da
Hystcrie (1895) [Estudos sobre a histeria]
Em seus Studien iibcr
diz ele, "nos diagnósticos locais e no eletro_
Freud "formado", de forma bastante irónica
si mesmo,
diagnóstico"—surpreende-se a
fato de que suas"histórias de pacientes" (Krankcngcschichten)se
pelo
como se fossem romances (Norcllcn) e sejam, por assilll dizer
leiam
( IV'issenschaftlicllkeit);
eis
desprovidasdo caráter sério da cientificidade
lhe acontece,como se tratasse de uma doença. Sua maneira
o que
de escrever. Metamor_
de abordar a histeria transforma sua maneira
fose do discurso:"O diagnÓsticolocal e as reaçóes elétricas não têm
qualquervalor para o estudo da histeria, enquanto uma apresentação
(Darstellung)aprofundada dos processos psíquicos, à maneira como
ela nos é apresentadapelos poetas (Dichter),permite-me, pelo uso
de algumasraras fórnmlas psicológicas,obter certa compreensão
no desenrolarde uma histeria" (FREUD,1940-1952, t. I, p. 227).31
Deslocamentoem direçào ao género poético ou romanesco: a con-
versão psicanalítica é uma conversão ao "literário". Esse movimento
duplica-sede um apelo aos "poetas e romancistas" que "conhecem,
neste mundo terrestre,um grande número de coisas que nossa sa-
bedoria escolar ainda é incapaz de sonhar": "o romancista precedeu
sempre o cientista" (FREUD, 1971, p. 126 e 175). A orientação é estável
e não cessade acentuar-se até a última obra, Der Mann Moses
(1939),
designadacomo um "romance" (FREUD; ZWEIG,1973, p. 162 —21 de
fevereirode 1936).Excetuando os tratados pedagógicos,
o discurso
analíticoassumea forma do que se pode
chamar, de acordo com uma
expressão freudiana, a "ficção teórica 32
Curiosamente, enquanto Freud havia
sido alimentado pela
Au]kldrungcientíficado século XIX e se
paixão, em fazer reconhecer a tinha empenhado, com
"seriedade" do modelo académico
vienense, ele dá a impressão de
ter sido apanhado
sua própria descoberta.Por desprevenido por
esta, também, ele é
"terra materna", a Muttererde: conduzido para a
de acordo com o
que escreve a Arnold
• sut uma nova
destetrecho para
0 francês,publicada in Esprit,
é de Freud para seu
psychixhen
in Tragmdeutung,
cap. 7.
ót-erentenlente de todas as outras civilizações
ciências, a antiga (egípcia,grega,
criadoras de Palestina "limitara-se a
extravagâncias sagradas", em suma, formar
religiões, ficções (FREUD;
75 8 de rnaio de 1932). De fato, o discurso ZWEIG,
1973,P retorna à seriedade científica, não freudiano
éa tficçioque só como objeto
tambélll como sua forrna. A "lilaneira"
deanálise,ruas do ronlance
teórica. A forma bíblica, gesto literário
torna-sea escrita pelo qual
conflito da Aliança, ou seja, o processo histórico
searticulao entre
Jeováe seu povo, parece remodelar de longe o saber psiquiátrico
para
Tansformá-lono discurso do progresso transferencial entre analistae
exumar as relações que assombramo
intercâmbio
dosaberconl seu objeto, Freud atraiçoa a norma científica; ele volta
aencontraro género literário que, outrora, na Bíblia,era o discurso
'teórico" dessa relação. Deste modo, de acordo com a observação de
Lacan, ele seria um dos únicos autores contemporâneos que haviam
Sidocapazesde criar mitos (Le Sóninaire VII, 1986), o que significa,
nomínimo,romances com função teórica.
Independentemente do que se possa pensar a propósito da
aparição possíveldesse enorme espectro bíblico na obra freudiana,
ocorreque a importância atribuída a uma historicidade é precisa-
menteo que leva a uma forma romanesca, até mesmo a uma arte
poética.Dessa conexão, três aspectos têm importância para uma
teoriada narrativa freudiana.
a) Para Freud, a própria definição do "romance" consiste em
combinarno mesmo texto, por um lado, "os sintomasda doença"
ou seja, uma semiologia baseadana identifica-
(Krankheitssymptonte),
çãode estruturas patológicas e, por outro, "a história do sofrimento"
ou seja, uma série de acontecimentosrelacionais
(Leidensgeschic/lte),
quesurpreendem e alteram o modelo estrutural.33Adotar o estilo do
romanceé, portanto, abandonar a "apresentação de casos"tal como
erapraticadapor Charcot em seus cursos da "terça-feira" e que con-
em "observações", ou seja, em "quadros" coerentes, compostos
SIStia
apartirda coleta
ao modelo sincrÔnico de uma
de dados relativos
nça.Em Freud, a quadro em que
estrutura patolÓgica torna-se o
et nota
31 na página
anterior.
95
Integra,
que da doença. por
do
se
do ponto detranstarrna-« "rornance". O texto
ser Chatvot de
essefato, da "seriedlde"da
carece funcionatnento dialogal
que, a 0
ao fato de há historicidade.
sem
à cura. suma. itnplicado na seu
está
b) O próprio Freud rigorosa de sua obra, suas análises de
parte tna1S
locutor Enquanto "sofiirnento" dos pacientes traça enl
surpresas que o
casos relatarn as aproxirnação, varnos adil)ltir que a
prirneira
suaposwào.Atítulo de ern seu texto pelo rnodelo que
Freud é representada
"poqção"de
quadro teórico para seleclonar e interpretar os dados
lhe «ervede
resulta da alteração que o
o sistemade urna doença. O rornance
texto, teus diferenças
sofrimento do outro introduz nesse quadro; no
marcam,ao mes:no tempo, déficits e acontecirnentos da narração.
Essesdoisvalores o prirneim, relacionado conl o rnodelo, enquanto
o outro se refereà narrativa têlll, aliás a rnesrna significação: o
déficitda teoria define o acontecirnento da narração. Desse ponto de
\1Sta,o romance é a relação que a teoria estabelece conl a aparição
factual [événementiellel
de seus limites.
De fato,o distúrbioque o "sofrimento" do outro insinua no
sistemade sua"doença"atinge tanabémalgo que não é somente o
saberdo analista.Afetos e reminiscências de toda
a espécie respon-
dem aos clientes. Freud considera tais
reaçôes corno "rnernoráveis
[dctlkwurd«l.Em seu discurso, elas
marcam um distanciarnento entre
96
c) Reciprocamente, a concepção de Freud
respeitode õ-
a ler outros documentos. Ela permite
-acomo urna relação entre urna estrutura e
entre um sistema (explícito ou não) e o vestig10
nesse de
algodiferente.Nesse caso, a obra literária é
de um modelo estrutural imposto por urna cientikia&de• , sena Iam-
também, pulverizá-la nos acontecimentos
de leztura
ou renuniscéncias),multiplicados Indefinidamente pela
Únt.zs:aou
pelaerudição.Ela irá aparecer, de preferéncu, como o
engaste de
alteraçÕes históricas em um quadro tUrmal.Aliás,em
Freud, existe
urnacontinuidadeentre sua maneira de escutar um(a) paciente,
sua
maneirade interpretar um documento (literário ou não) e
sua ma-
neirade escrever.Entre as três operações,não há corte essencul.
O
"romance",no sentido que acaba de ser definido com prectsüo.
pode
caracterizar,ao mesmo tempo, as afirmações de um(a) paciente,
uma
obraliterária e o próprio discurso psicanalítico.
97
de explicação,a
corno por instâncias: o
t, A estruturação do
Esse aparelho
freudiana adota a 'l,er-ldl).
(15) e 0 Superego à da tragédia
Ego (l, h), 0 Id constituindo-se
teatral, que tanto a prnne.lra
um ,nodelo ora, sabe-se
e do drama shakespeariano;
fornecer a Freud estruturas de
grega de
não
quantoo segundo de autorizadoras."Actantes',
e
urna configuração
e lá,deuses)
por sua desde 0
que se vai
de
de sincrónica as etapas pelas quais
da peça, eles desenham ern Freud, o rei Lear ou Harnlet
(o "eu"
passaro heróiepÓnirno finalmente, eru urna posição
encontrar,
etn Shakespeare)para se corneço, uma disposição
1970). No
que inverte a do início (SI.ACK,
apresenta, de acordo com urn modelo topográfico, os
dasInstâncias
um modelo diacrónico
"rnomentos"que vão desdobrar-se a partir de
peça ou história é a
em deslocamentossucessivosdo "herói". Cada
transformaçãoprogressivade uma ordem espacial enl série ternporal.
O aparelhoe o desenrolarpsíquico são construídos a partir desse
modelo "literário" do teatro.
O aparelho freudiano distingue-se, no entanto, duplamente do
modelo da tragédia que lhe serve de referência: em primeiro lugar,
alémdas figurasde um espetáculo,ele entende identificar forças
que articulemo desenrolarpsíquico efetivo.Trata-se sini de uma
representação,mas explicativa do que se passa: se o modelo é trágico,
seu funcionamento é histórico.
Além disso,se for aceito o esquema de
Georges Dumézil
(1970) para quem existe,do mito ao
romance, uma reproduçã0
das mesmasestruturase das
mesmas funções, apesar da desconti-
nuidademarcadapela transformação
do cenário cosmológico em
cenáriopsicológico—,Freud
adota um procedimento inverso: ele
encetaum retorno ao
mito a partir do romance,
geral,no estágio mantendo-se, em
intermediário,no entremeio
tragédia(aliás,sabe-se [entre-dcuxlque é a
que, entre os gregos,
uma historicização ela funcionou como
do mito). A
mára o romance despsicologização freudiana, que
em direção ao mito,
que a mitificação interrompe-se no ponto
retiraria à narrativa
sua historicidade. Situado
98
pelo tato de que o relata
enquanto o segundo tnostra estiA1tuvas
otetvce. portanto. o tnodelo da tragédia à Interpretaçào
dos docttnwntos,
4 litstoncvaçâo de tnodelos literários apa-
a;nda clarAtnente no setov dos processos de ptoduçào.Todos
tern a caracteristica de "deslocar ' , "deqtigurar'
, etn sutna, de sereni "detorrnaçóes (Entstellungen).Na
praticadapor Ftrud, desde a Trautndcutung(19( Irl ciência
as operações que organizarn a representação, articulando-a
a partirdo ststetua psíquico, sio, de fato, do tipo retórico: Inetáforaq,
sinédoques, paronotná<ias,etc. Ainda aqui, o rnodelo
é extraídoda literatura. No entanto, Freud retira essas"figuras de
retórica"do gueto "literário" no qual havialll sido confinadas por
concepçãoda cientificidade; ele confere-lhes urna pertinencla
ao reconhecer nesse carnpo urn conjunto de operações
produtorasde Inanit-estaçôesrelativas ao outro (desde Edipo, ou a
até a transferência).Desde então, a retórica constitui o
castração,
campo(inde\hdalnenterestrito ao que se tornou a "literatura") ern
queforam elaboradas as figuras forrnais de urna lógica diferente
daquelaque prevalece na "cientificidade" de praxe. Tais processos
nãodependem da racionalidade da Ali]k'lárungque, por sua vez,
pri\hleglaa analogia, a coerência, a identidade e a reprodução; eles
correspondema todas as alterações, inversões, equívocos ou defor-
maçõesque utilizam os jogos com o tempo (as ocasiões) e corn o
lugaridentificatório (as máscaras) na relação de outro com o outro.
Seránecessário,também, reconhecer, nesse renascimento da retó-
ncaem Freud,um retorno da lógica familiar à tradição semítica e
Judaicadas"histórias" formais, dos trocadilhos e dos deslocamentos
parabólicos"?
Paraempregar uma expressão de Freud, a obra literária torna-se,
assim,"uma mina"
em que é possível compilar as táticas históricas
relativasa
circunstâncias e caracterizadas pelas "deformações" que
elasoperam
em um sistema social elou linguístico. Como o jogo
com sua
disposição,regras e "golpes " —é um espaço, de algum
modo, teórico em
que as formalidades das estratégias sociais podem
99
contra as urgências da e
terreno ptotegido 0 texto literário
lutas cotidianas,
opacas das
contra as complexidades espaço iguallnente
jogo, constitui que se se
que é laboratório
de as práticas astuciosas
e protegidoà e se experirnentarn
disunguetn,se combinanl c,unpo enl que se exerce urna lógica do
Eo
da relaçãocom outrern. rejeitada pelas ciências na medida
havia sido
OUtto,aliás,aquelaque do rneslno (IMBERT,
urna lógica
em que elaspraticavanl para rearticular esses
lugar, o sonho
Freud utilizou, etn prirneiro
"literários"a partir da realidade psíquica e social;
procedimentos para historicizar
serviu-se dele como de uni cavalo de Troia
talvez,
retórica e reintroduzi-la na cidadela da ciência. Deste Inodo, ele
a
operações for-
transformao texto literário no desdobrmnento das
maisque organizamuma histórica; ele confere-lhe, ou
melhor,devolve-lhe,o estatuto de ser uma ficção teórica em que é
possívelreconhecer e produzir os modelos lógicos indispensáveis a
qualquer "explicação" histórica.
A biografia anti-individualista
Após a forma literária da análise (o romance) e seu aparelho
conceitual (um sistema trágico e os procedimentos retóricos), pode-se
considerarseu mais importante conteúdo, a saber: a história de caso.
Herdado da psiquiatria,esse objeto privilegiado acaba,
inclusive, por
definir a disciplina: a psicanálise, diz-se, é a
biografia. O interesse pelo
estudo biográfico remonta, de fato, aos
primórdios do freudismo. Nas
'sessõesda quarta-feira" (teriam sido
inspiradas nas "terças-feiras" de
Charcot?), antes mesmo da fundação da
eram examinados"casos": "Associação Internacion al"'
Jean-Paul, H. Kleist, N.
do Da Vinci, K. F.Meyer, Lenau, Leonar-
F.Wedekind, etc.
não cessoude crescer Esse primeiro interesse
entre os freudianos
estejapraticamente (embora, por exemplo'
ausente da obra de
dos casos,trata-se Lacan); aliás, na maior parte
de autores literários.
clássico,a biografia sob este aspecto, bastante
introduz uma
novidadedo freudismo historicidade na literatura; mas a
consiste no uso da
biografia para destruir 0
essastáttcas e sua
relação com a narrativa
romanesca, ver
DE CERTEAU,
I.VQf, lm
100
individuahsrnopostulado pela psicologia moderna e
essaferramenta, ele desmonta o postulado da contemporânea.
sociedade
e burguesa,desfazendo-o; vai substituí-lo por outra história, liberal
ao voltar,
cornovimos,ao sistema da tragédia.
Elaboradono decorrer dos séculos XVI e
XVII, o Individuahs-
serviu de base social e de fundamento epistemológico
para uma
economiacapitalistae para uma política democrática
(MACPHERSON,
1962;MACFARLANE, 1978; etc.). Ele fornece seu
postulado técnico e
míticopara a gestão racional de uma sociedade supostamente
consti-
tuídapor átomos produtivos e autónomos; essa é a figura
histórica da
modernidadeocidental.A psicologia do autor é apenas
uma variante;
se RobinsonCntsoé é o romance mítico desse postulado, o
freudismo
é o anti-Robinson Crusoé. Certamente, surgido na e da
sociedade
liberal,ele recebe, de seu local de nascimento, tal herança
que se tornou
um dado sociocultural. Mas deixa de aceitá-lo como
postulado; pelo
contrário,vai desmantelá-lo, destruindo sua verossimilhança.
Uma comparação exprime o essencial deste tópico. Em
1784,
Kantenumera os direitos e os deveres da consciência esclarecida:
"plenaliberdade" e responsabilidade, autonomia do saber,um "avan-
ço"que permita ao homem "sair de sua minoridade" (1947).Essa
éticado progressoapoia-se no postulado indi\idual. Um século mais
tarde,Freud revira, uma por uma, todas as afirmações kantianas:em
suaanálise,o "adulto" aparece determinado por sua "minoridade";
0 saber,por mecanismos pulsionais; a liberdade, pela lei do incons-
ciente;e o progresso, por acontecimentos originários.
Paraa ética individualista e empreendedora da burguesia mo-
derna,essesromances biográficos seriam, portanto, o que o Dom
Quixotede Cervantes havia sido, no início do século XVII, para a
hídalguía[nobreza] espanhola. A figura organizadora das práticas
de uma sociedade
torna-se o cenário enl que se produz sua revi-
tavoltacrítica,definindo ainda local em que ela desaparece.Ela
o
limita-sea ser o
lugar de seu outro ---uma máscara.Esseprocedi-
mentocrítico
é tipicamente freudiano. Enquanto a "cientificidade"
constróipara si
um lugar própri036 ao elinlinar desse próprio tudo o
, neste
lavro,nota 3, p. 47,
101
freudiana identifica a alteridade
análise
determina à sua revelia: ela mostra os
ea
obceca a apropriação desenrolam no mesrno lugar, entre o
contraditóriosque se aí; ela diagnostica o equívoco e
se manifesta e o que se oculta também, ela é do tipo
que ponto de
lugar.Desse
a pluralidadedo Dem Quixote não é uma coincidência,
romaneso O paralelocom
nem um caso único.
de crítica visa outra unidade "fundamental"
O mesmotipo associada à do indivi_
historicamente
cuja formação está, aliás, assim como para Marx,
nacional. Para Freud,
dualismo:a unidade
apenas um embuste: a fusão (Verschntelzung)tardia de
a nação é
sob outras formas
consatuintes,cuyaantinomia reaparece, em breve,
(FREUD,
(Biederherstellgngen) Der Mann Moses, 1940-1952, t. XVI,
p. 137-138).Aqui, também, a análise freudiana retoma a unidade
histórica herdada (por exemplo, a nação judaica) para detectar aí
uma aderência superficial (uma I 'erlotung)entre forças opostas e os
vestígiosde sua ressurgência.A semelhança da crítica "biográfica"
do individualismo,essacrítica "sociopolítica" da ideia nacional
assumea forma literáriade um "romance histórico", Der Afann
Moses.Diferentemente de uma disciplina científica, ela não institui
unidades próprias. Ela faz sobressairo caráter fictício de seu objeto
ao mostrar as contradições que o determinam. Esse funcionamento
evoca claramentea tentativa teórica e a forma literária praticadas
por Karl Marx em Der AchtzehnteBrumaire[0 18
Brumáriol para
desmitificara representaçãopolítica, ao rejeitar
a concepção hege-
liana relativaà integração do social,em
seu conjunto, pelo político.
Em Freud, a nação e o indivíduo
são, igualmente, as camuflagens
de uma luta, até mesmo de
um deslocamento (Zerfalt), que volta
sempre ao palco de onde
ela havia sido suprimida;
iiBtrumento teórico dessa e o romance é 0
análise.
Uma estilística
dos afetos
O afeto (Affekt)
forma
retorna, igualmente,
elementar das ao discurso freudiano: é a
energias pul«ionais,
0895), ele fornece Desde os Studien úber Hysterie
urna base à análise
"económica" do psiquismo
102
das vezes, autonotno etn relação
tnaiorparte ao funcionamento
ele está subtnetldo a tnecanlsmos
dasrepresentações, suas
patológicas: "conversões" produzem geradoresde
figuras a histeria;
deslocamentos' , a obsessão; suas "transforrnaçõcs", seus
v' a neurose,
Seupapel torna-se cada vez mais decisivo na prática analítica
etc.
entanto, tais afinamentos da teoria
deFreud.No seriam Incapa-
ao esquecimento de urn
zesde levar fenomeno maciço: os
afetos
constituem a forma assumida, em Freud, pelo retorno das paixões.
Estranho,de fato, é o destino das paixões: depois de terem
Sido
pelas
consideradas, antigas teorias na área da medicina ou da filosofia
(atéSpinoza,Locke ou Hume; ver HIRSCH.MALN, 1977), corno mo-
\hment0Sdeterminantes, cuja composição organizava a vida social,
elashaviamsido "esquecidas" pela economia produtivlsta do século
XIX,ou repelidas para o domínio do "literário"; aliás,nesse século,
o estudodas paixões é uma especialidade literária, tendo deixado
dedependerda filosofia política ou da economia. Com Freud, esse
da ciência volta a aparecer em um discursode cunho
eliminado
económico.Fato notável, em sua perspectiva própria, o freudismo
devolvea pertinência, simultaneamente, às paixões, à retÓricae à
elas têm, efetivamente, um projeto comum, mas haviam
literatura:
sidoexcluídas,conjuntamente, da cientificidade positivista.
Esseretorno [retourl efetua-se, em Freud, pelo viés [détourl
doinconsciente.Na realidade, esse détour é, em primeiro lugar, a
constatação ou, se preferirmos, a observação clínica daquilo que a
epistemologiado século XIX havia feito das paixões ao retirá-las dos
legítimos da "razão" social, ao transferi-las para a região do
discursos
nãosério" que é "literário", ao reduzi-las a desvios psicológicos em
à ordem e, por último, de qualquer modo, ao marginalizá-las.
relação
ética
Essarejeição epistemológica está associada, aliás, à excomunhão
por uma burguesia produtivista. Os afetos—
Pronunciada recortados
deacordocom a concepção freudiana do aparelho psíquico —sio
recuperados, exatamente onde as paixõesha-
portanto, por Freud
Viamsido lançadas recente, entre os detritos da
por uma história
tacionalidadee os apesar disso,e tanto mais
refugos da moralidade; "cegos" e sem
queelessão movimentos
ainda mais recalcados, tais sociais.
guagemtécnica das relações
determinam a economia
103
breud devolve-lhes a legititnidade no discurso científico, o que
lado do rornance.
transfere evidenternente esse discurso para o
duas modalidades
Sua análise dos afetos diz respeito, sob
particulares, à literatura e à história.
afeto é a condição
a) A manifestaçãoou a revivescênciado
para que, no(a) analisando(a),a evocação da letnbrança tenha valor
terapêutico, e para que, no(a) analista,a interpretação tenha valor
teórico. Assim,a técnica da cura consistiria enl despertar, no(a)
analisando(a),o afeto que se camufla por trás das representações: ela
fracassase não alcança esse objetivo, a menos que esse fracassoseja
a Indicaçãode uma psicose.Do mesmo modo, na cura conduzida
por ele ou no texto que ele redige, Freud, enquanto psicanalista,
tem sempre a precaução de "confessar",como ele diz, qual é sua
reação afetiva em relação à pessoa ou ao documento em análise:ele
fica perturbado diante de Dora, assustadopelo Aloisésde Michelan-
gelo, irritado pelo Jeová bíblico, etc. Essa regra de ouro aplicávela
qualquer tratamento psicanalítico contradiz, frontalmente, a norma
primeira e constituinte do discurso científico segundo a qual a
verdade do enunciado deve ser independente do sujeito locutor. O
que é pressupostopor Freud, diferentemente dessa norma, é que
o lugar do locutor, além de ser decisivoem urna rede conflitante
de ab-reaçôes, é especificado pelo afeto. Deste modo, reintroduz-se
o que é dissimuladopelo enunciado objetivo: sua historicidade
aquela que estruturou relações e aquela que as modifica. Fazer com
que essa historicidade volte a aparecer é a condição da elucidação
analítica e de sua operatividade.
Essemétodo exerce e elucida a linguagem como práticain-
tersubjetiva;desse modo, ele transforma o discurso da análise em
uma ficção ou, dito por outras palavras,em um discurso em que
fica marcada a particularidade de seu locutor, essencialmente,sua
afetividade. Então, diz-se, deixou de ser científico, "trata-se de lite-
ratura". Do ponto de vista freudiano, essa doxa comum diz a ver-
dade,mas tem valor positivo.A réplica de um campo é recuperada
pelo outro, mas invertendo-a: se o positivismo rejeita, enquant0
não científico, o discurso que é confissão da subjetividade, por
sua vez a psicanálise considera como cego, até mesmo patogêniC0'
104
que a catnufla. O que é condenado pelo prlrnelro
pela segunda, que nem por isso acaba
sendo promovido recusa a definição
foi dada à ficção: um saber "atingido" por seu outro (o afeto,
privado de sua seriedade pela
etc.),um enunciado enunciaçãodo
No campo analítico, esse discurso torna-se
sujeitolocutor. opera-
ele é "tocado", ferido pelo afeto.A seriedade que
t'onoporque lhe
constitui a força 1110triz de sua operatividade.Esse é
é retirada o
do romance.
estatutoteÓrico
b) Confessaro afeto é, também, reaprender uma língua "esque-
cida"pela racionalidade científica e reprimida pela norrnatividade
social.Enraizadana diferença sexual e nos cenários infantis, essa
línguacontinua circulando, disfarçada, nos sonhos, nas lendas e nos
mitos.Ao mostrar a significação fundamental dos romancistase
poetas,ao mesmo tempo que a proximidade deles com seu próprio
Freud sabe que, em sua companhia, ele "teve a ousadia
discurso,
detomarpartido em favor da antiguidade e da superstiçãopopular
contrao ostracismo da ciência positiva" (1971a, p. 126-127). Mas,
finalmente,foi André Breton —admirador pouco sério quem
reconheceumelhor a unidade de todas essasanálisese apropriou-se
da possibilidadeque elas ofereciam para fundar uma linguagem
originale transgressiva ao recorrer à afetividade (ver ALQUIí,1956).
Elejá tinhavistoo que restaria, talvez, de Freud: uma teoria que faz
aparecera própria literatura como uma lógica diferente."O roman-
cistaprecedeu sempre o cientista". Certamente, Freud não chegou a
manifestar-lheabertamente seu agradecimento por "descoberta" tão
Ele era também professor. E, de qualquer modo, tinha
elucidativa.
empenhoem ser sério. No entanto, a literatura é feita, igualmente,
porobras que, ao perderem a atualidade científica, desvelam em sua
queda,se é que se pode falar assim, e graças ao que o tempo retira
a suaseriedadedo ponto de vista técnico, a lógica diferente desta
Vez,"literária"—que lhes servia de suporte. Nos textos freudianos,
Bretontinha visto, de antemão, em que aspectos eles seriam modi-
ficadospor sua "morte" científica.
ÉmileBenveniste sublinhou que, linguisticamente,os funciona-
mentosidentificados por Freud, relativos ao que se passano sonho,
nomito ou "procedimentos
na poesia surrealista, correspondem aos
105
Ia t-onctton du langage
do discurso" (BI
fieudienne", 1966, p. 75-87, grifo do autor). Indicas
Ia découverte enunciação ---ou a elocutioda
diz respeito à
çio deci<iva.O estilo
no texto, ele é o traçado do lugar de sua produção
antiga retórica:
a urna teoria dos afetos e de suas representações.
retnetendo
Freud, urna ela
estilística; não leva à classificação no entanto
em havia construído a partir de
Charles Bally (1951)
pioneira que
nomenclatura psicológica dos afetos. Ao acornpanhar a diná_
urna confissões, ela analisa,de
e suas
mica dos afetos entre seus disfarces
pelas situações de fala [parole];
fato, as modalizaçõesdo enunciado
[parole] a partir de um equivalen-
ela cria urna "linguística da fala
antiga teoria das paixões.
te —atualmente pensável do que era a
O poemae/ou a instituição
A linguagem do(a) analista e a do(a) analisado(a) fazem parte
da mesma problemática;finalmente, ambas dependeriam do estudo —
central, em Freud da "construção e transforrnação das lendas" (die
Bildungund Ulngestaltungvon Sagen),salvo que este autor atribui o
qualificativo de "ficção" ou ' 'rornance" à sua própria narrativa e, pelo
termo "lendas" (assimcomo "ficções"), designa as linguagens que
denegam seu estatuto de ficções por pressuporem (ou levarem a crer)
que elas falam do real.A comuni determinação dessaslinguagens
pelos mesmos processos de "construção" é uma peça essencialde
seu sistema de interpretação. O discurso freudiano não se exime dos
mecanismosque ele desvela em seus "objetos": além de não dispensá-
-10s,como se ocupasse a posição privilegiada de uma "observação'
ele elucida um funcionamento ao qual, por sua vez, está submetido.
Eis o que seria verdadeiro,pelo menos em princípio. De fato,
a obra de Freud comporta dois tipos de textos bem diferentes:os
primeirospraticama teoria, enquanto os outros a expõem, como
um saber do mestre. A segunda categoria,
pertencem as "Lições '
"Contribuições","Resumo", etc. Nos primeiros, discurso psica-
o
nalítico está submetido à lei das
transformações e deformações'
BARTHES, 1970, em
particular, p. 217-222, sobre a elocuti0.
por ele: nos segundos, por vez, ele galante pata
t
t. XVI,P, abordar seu
175, etc.) e alhures para afias,
'sardo outras
(UVEUI), 1940-1952, t,V111, p.
CronovSaturno, Tudo se passa,
ortgtnale de
a dupla característica do FVetnpo:
como «e a escrita adotasse a vida (trata-se de
utli exílio) e devorar
o lugar (trata-«e de o avanço (internunável)
se estivesse etn questio
nibahsmo).
de urn corpo da Letra. De qualquer Iliodo, no
e a fótne (insaciável)
essa dualidade que a faz fun_
processoda própna escrita, existe já
ao analista) ora corno refugo e.xcluído do real
cionar (e, tambétn,
corno autoridade Voraze
Ilusãode saber e dejeçio da ciência,ora
tern a ver conl a essência
instituiçãodorninadora. Essaarnbivalêncla
Inaneira corno a escrita
da escrita:aliás,não é somente tributária da
108
escrita "verdade" carece de qualquer
a si beleza. Arata-se de uni t
de «eluller (l)te Gotter icehetilands, I SOO)
O aspecto unortal no poema
deve aniquilar-se nesta Vida"
do segundo poema." on
109
conti.ível, leva crvr,
stnna, ele o torna titncoonatnento própr ao te.
portanto, do
atano da Citaçàoditar. confiável por apoiar-se apenas na
de Schlller,O poenta torna-se
ele é difi•rente, na evidência dc
de sua forrna e porque confiável por apojar-se
torna-se
Por sua wz, o testo tivudtano
o recurso ao outro (à "testetlltjnha '9)engendra setnprc efeitos
outm
ele tetii urna posição analítica
de crença.Betil longe de ser poético,
torna confiável do outro. Aqui, o
de "suposto saber": ele
Inconsciente.
outro é o poetna; durante a cura, ele «era o o
analistapoderia falaro 'outro' que confere autor Idade
meu discurso,ele está enl vocês, clientes; presurne-«e que nunha fala
intenençào se faça norue desse 'Ilida,o Inconsciente de vocês,'
ParaFreud,aliás,e.xistecontinuidade do poenla ao inconsciente, salvo
que o poerna é Já o interlocutor do inconsciente e, neste aspecto,
psicanalistasseriarnos inantenedores do poenla, repetindo-o na;
tuaçóes enl que ele já havia falado e substituindo-o nas circunstánc:as
enl que ele tinha guardado silêncio.
Desseponto de vista,o discurso freudiano continua fazendo o
gesto poético, 111as
institucionalizando-o: respalda sua autoridade nele
quando,afinal,o poema é o texto ao qual nada confere
autoridade.
EssaditQrençadetém o romance psicanalítico
no linuar do poerna: ela
o mantém em uma econonua do crer/
levar a crer que, ao reproduzir
o gestopoético,serve-se dele de
urna forma que já não é poética.
Crer na escrita
A partir do único
mecamsmo do crer, teríatnos, portanto,
funcionamentosdiferentes:o
enquanto o outro seria prirneiro, mais "exílico" (poético),
mais "devorador"
melhor que o Gricchenlands (analítico). Talvez, ainda
Mallarmé poema de Schiller, urn
texto inacabado de
«obre0
especificaro primeiro a noção" poder:a
funcionarnento:
E que nada exista
e uredite nela aí
a
totabncnte
Nada nad+'
por RICHARD,
1964
110
situa-se etn um registro setnelhante
sublinha cotil ao de Schiller.
entanto,ele precisão o que
enlaça a escrita
da": um crer. 1870, ele fala de ao
"Crença" (RIÇIIARI),
1964, 644,nota l). O poetua é o traçado dessecrer: convém
existapara crer nrsso; é necessário que que
"nada «ubslsta"da
coisa
"ser levado na conversa" ou para escrever. Reciprocatnente,
o
maleva a crer por nio ter nada. Ao evocar a "Beleza", nas
cartas
en\lidasa Cazalis, Mallarllié designa algo semelhante ao que ele
mencionaao falar de "Crença". Ele remete àquilo que nenhuma
realidadedá respaldo; àquilo que Já não depende do ser. A crença é,
entio,omovirnento oriundo e criador de uni vazio.E urn corneço.
Umapartida. Se o poenla não é "autorizado", ele confere autoridade
um espaçodiferente, ele é o nada desse espaço.Daí, ele deduz a
possibilidadeno excesso do que se irnpõe. Gesto, igualmente, estético
e ético(a diferençaentre os dois não é assimtio notória porque o
no fundo, é apenas o aparecer ou a forrna da ética no canipo
estético,
dalinguagem).Ele rejeita a autoridade do fato, evitando se fundir
nele.Ele transgride a convenção social segundo a qual o "real" é a
lei,opondo-lhe somente seu próprio nada -— atópico, revolucionário,
"poético".
A historiografia exercita o inverso: ela consiste enl fazer corn
queo discurso seja dotado de referencialidade, em levá-lo a funcionar
como"expressivo" , em autorizá-lo pelo viés do "real" e, enfim, ern
instituí-locomo suposto saber. Sua lei é ocultar o nada,preencher
osvazios.O discurso não deve aparecer separado das coisas,nem
deveser revelada a ausência ou a perda a partir da qual ele se cons-
trói.Trabalho da história literária, por exenlplo: ela empenha-se
emque o texto literário volte a ser costurado,nneticulosamente, a
estruturas"realistas" (econÔnucas, sociais, psicológicas, ideológicas,
etc.)dasquais ele seria o efeito; ela se atribui a função de restaurar,
o texto a
Incansavelmente, a referencialidade; ela a produz e leva
do real:
confessá-la.Assim,ela leva a crer que o texto articula algo
dessemodo, ela o transforrna enl urna instituição,se a função da
Instituiçãoconsiste, fundamentahnente, enl levar a crer etn urna
a
adequaçãoentre discurso e real, apresentando seu discurso como
leido real. por si só, não consegui-
Certamente, a história literária, apoia-se em
tia produzir particular
esse resultado; cada instlttuçáo
"a teia de aranha do crer" (ver
Outras,cm uma tede que constitui
QUINE; ULIJAN, 1970).
a relação do discurso corn a pedago-
Por esseviés,encontra-se mesrna estrutura: qualquer
duas fortnas da
gia e com a instituição, discurso pedagógico é sernpre
enquanto o
instituição é pedagógica,
historiografia é, de fato, pedagógica: vou ensmar_
institucional. A
ISSOé urna lei, escrita pelas
lhes, leitores,o que vocês Ignoram e
coisas.O historiador ensina leis com uni pressuposto real.
próprias
textos estudados por
Mas essa capacidade de institucionalizar os
considerados de maneira
ele (selecionadoscorno não literários ou
com os fatos dos
a evitar sua autonomização "literária" ern relação
quais, supostamente, eles são a significação) resulta da agregação a
uma profissão,da filiação a urna sociedade. O apoio que sua posição
de professor ou de membro de uma sociedade erudita confere a seu
discursoduplica-se,de qualquer modo, e representa-se no interior
dessediscursopelo suposto vínculo dos enunciados com os fatos
mencionados por eles. O "realisrno", ou seja, a legitirnação do dis-
curso por suas "referências", inaugura-se no autor, autorizado por
uma agregação social, e passa do autor para seu texto, autorizado
pelos acontecimentos que, segundo se presume, ele exprime ou
significa.Contrariamente a qualquer tradição científica que havia
postulado uma autonomia do discurso enl relação ao lugar de seu
produtor, a posição exerce um efeito epistemológico sobre o tex-
to: a filiação social intervém, de Inaneira decisiva, na definição do
estatuto do discurso.
Aliás,esse aspecto é perfeitamente conhecido. O valor dos
enunciados científicos é, atualmente, relativo à situação hierárquica
dos laboratórios que os produzem. Sua seriedade é apreciada a par-
tir da posição de seus autores. Em outro terreno, Philippe Lejeune
(1975) mostrou que o género autobiográfico baseia-se, em última
instância,não no próprio texto, ruas na coincidência entre o autor
nomeado pelo texto e sua posição social efetiva.Tese
suscetível de
generalização:o credenciamento do autor por seu
lugar histórico
engendra a autorização do texto por seu
referente. Reciprocame nte'
a docilidade às normas de uma sociedade
(erudita ou não) garan-
te a possibilidade,para o texto, de
ser "confonne" aos fatos. Aqui'
112
acredita-se na instituição
de crer na escrita, que detennina
A relação do texto corn urn lugar
t-gncionamento. confere sua
garantia ao suposto saber do texto. A
e sua aparência
realidade da po-
crer na da referencialidade.
pertnltefazer Retirem
rotnancista.
ser
113
prática Institucional ("Isso funciona", logo é real), á semelha
que ocorre nos laboratónos das ciências exatas corn o fo
Itstno dos enunciados (estes são, tatnbérn, ficções): o poder
das Instituições é seu contraponto c sua condição de
No entanto. a essa articulação,Freud é Incapaz de dar d
nitidez
que havia perniltldo, à» InstituiçÓes Mentíticas, o crescimento
d
seu poder institucional. Ele exercita-se, ao rnesrno ternpo, nos
terrenos, nusturando-os, Assun, etn seus nutos, ele procederia
como
se a ticçào descreu•sseo que produzir-se.
Em surna, o "autoritarlsrno"de Freud é o efeito de urna
lucidez
que se Identifica com a de Slallarrné. No entanto, em conformidade
corn o que ele própno havia analisadono ' 'fetichisrno" (relatnoa
um referente faltante), ele não pode deter-se nesse "nada", ou seja,
no que ele já "sabe". Seni Ilusõesa respeito do realistno da '
'clénclà
positi%i",ele encontra urna solução na Instituição que faz funcionar
urn "suposto saber", relativo à irredutibilidade da questão do OUtro.
Desse ponto de vista, é possível se questionar sobre o que
so-
brana do ' 'reahsrno" do próprio Inconsciente sem a instituição
que
respalda sua verossirnilhança;oustarnente, de acordo com a
afirtnação
de R. Castel (1973), a Instituição era o inconsciente da psicanálise.
Ele designavao que a psicanáliserecalca ao denegar suas própnas
instituições; rnas é possível entendê-lo, tarnbém, no sentido em que a
Instituição psicanalítica leva a crer na realidade do Inconsciente e em
1 18
quando, por utna consequência ' 'fatal"
Çtnelhante de
ideologia e que, deste Inodo, eles
tempoou urna entendenl "explicar"
seu referencial. Alénl de
textopor historicizá-lo, eles o
E, na maior parte das vezes, eles institu-
cionJlizan1. carecem da lucidez de
relação ao caráter ternível da literatura: vão Inanipulá-la
Freudem
conheceremseu perigo. De qualquer Iliodo, a distinçio
históna e literatura, Inas entre duas não
ocorreentre maneiras de en-
tendero documento: como "autorizado" por uma instituiçãoou
a um "nada"
comorelativo
E impossível optar entre essas duas perspectivas, como se houves-
sea possibilidadede escolher urna em detrimento da outra. Existe, «enl
dú\hda,em alguns "místicos" inclusive em Mallarmé experiências
do"nada"que levam a um escrita exílica, forma literária (estética)
dogesto"puramente" ético de crer. No entanto, essa"crença" sem
objetonão depende de uma decisào;"acredita-se" deste modo quan-
doé impossível proceder de outra maneira, quando faz falta o chão
doreal.Por sua vez, a vida social exige a crença, bem diferente, que
searticulaa partir dos supostos saberes garantidos pelas instituições;
elabaseia-senessas companhias de seguros que protegem contra a
questãodo outro, contra a loucura do "nada". No mínimo, deve-se
procederà distinção entre a delinquência da "não seriedade" literária
e a normatividade baseada em credibilidades institucionais. Sem
reduziruma à outra. E permitido pensar que isso seja possível. Sem
rejeitarideologicamente a historicidade institucional que domina o
funcionamento social da escrita e, aliás, se enraíza no "canibalismo"
daprópriaescrita, é permitido, à semelhança do que ocorre com
Mallarmé,"crer" na escrita precisamente porque ela própria sem
terrecebidoqualquer autorização -- apoia sua autoridade no outro
e recomeça
incessantemente.
115
CAPITULO iv
117
de estado que «erse dc
essa é unia nioral
docutnentos de Identidade. Que ela nos
elaborar nossos
livres no Iljornento que se trata de escrever (1969
118
estão aí bem legíveis, 111asnão lidas, por
alaos, elas surpreenderern
e o codificado. Por sua vez, ao descobri-las,ele desatava
riso Incontrolável, à semelhança do a
àsvezesum que ele evoca
pÑPósitode um texto de Jorge Luis Borges e que "sacode,
a todas as por
de sua leitura, fanxiliaridades do pensamento
—do
idade e nossa
nossa geografia --, desestabilizando
nosso,por ter todas
ordenadas e todos os planos que tornanl sensata,
assuperficies para
dos seres" (1966a, p. 7). E, afirma ele, o "lugar
nós,a exuberância
livro As palavras e as coisas.Suas outras
denascimento"do obras
parecemter a mesma origem: acessos de surpresa (como existem
acessos de febre), formas jubilatórias repentinas, quase extáticas,
"espanto"ou "encantamento" que é, de AristÓteles a Wittgenstein,
o momentoinstaurador da atividade filosófica. Pelas frestas do dis-
curso,engraçadas,incongruentes ou paradoxais, algo faz irrupção
quetransbordao pensável e abre uma possibilidade de "pensar dife-
rentemente".Invadido pelo riso, tomado por uma ironia das coisas
queé o equivalente de uma iluminação, o filósofo não é o autor,
masa testemunha desses lampejos que atravessam e transgridem
o controlesistemático dos discursos por razões estabelecidas.Seus
achados são os acontecimentos de um pensamento que ainda deve
serpensado.Essa inventividade surpreendente das palavras e das
coisas,experiência intelectual de uma desapropriação instauradora
depossibilidades, é marcada por Foucault com um riso: essaé sua
assinatura
de filósofo para a ironia da história.
No entanto, sua prática do espanto fornece constantemente
novaspartidas para a obstinação, alternadamente imperiosa e frágil,
minuciosa, irritável, sempre tenaz, com a qual ele procura elucidar
essa"outra dimensão do discurso" que lhe é reveladapor acasos.Ela
confereum tom de western,inclusive a seu trabalho arquivísticoe
para desdobrar os jogos de verdade assinalados, inicialmente,
analítico,
Pormensagens classificar,
paradoxais. Sua preocupação em controlar,
distinguir
e comparar seus achados de leitor não poderia extinguir
avibraçãodo sua
estado de vigília que, em seus textos, denuncia
era de descobrir. combinam, portanto, o dizer da
Suas obras
çàocom a mesmo que as proporções
varieme preocupação da exatidão, a
mesmo que, no decorrer dos anos, a exatidão venha
119
riso, porque
relação ao que, nos seus
aos poucos, unia lucidez
cirurgião por despojada até mesmo de
sua de clareza ascética,
se torna uma importa seu trabalho, antes
dois livros, O que
sua entusiasta
virtuosidade.
exercício do espanto, modificado
excepcional pensamento e da história
de mais nada,é 0 do
prática assídua dos "nascimentos""Naissance de 1a
em subtítulo,
1963a; 1975 --
(FOUCAULT,
ele afirmava, relatam a maneira como
Suas"narrativas",como problemáticas; multas vezes, elas
novas
apareceme se instituem semelhança dos romances policiais.
surpresas, à
têm a forrna de e diversificação do direito penal,
Assim,a progressiva liberalização
XVIII, é interrompida, invertida e "caniba-
no decorrer do século
pedagógicos e militares
lizada"pela proliferaçãode procedimentos
o sistema panóptico
de vigilânciaque, por toda parte, impõem
(1975; cf BENTHAM
da prisão —urn desenvolvimento inesperado
2008).Vocêssupõem que o poder é identificável à apropriação de
aparelhosisoláveis,hierárquicos e legais? Nada disso: é a expansão
de mecanismosanónimos que "normalizanf' o espaço social ao
atravessaras instituições e a legalidade (1975). Vocês supõem que
a moral burguesa transformou o sexo em segredo a ocultar? Puro
engano:as técnicasda confissãoé que transformaram o sexo em
incansávelprodutor de discursos e verdades (1976)... Assim, de
livro em livro,a análise indica essasreviravoltas que, ao frustrarem
os saberesconstituídos inclusive os mais autorizados (até mesmo
Marx e Freud) —,engendram novas maneiras de pensar; em vez de
se basearem ideiaspessoaisde um autor, ela se apoia naquilo
que
a própriahistóriadá a ver. Não é o Senhor
Foucault que zomba
dos saberese das previsões,é a história
que ri deles. Ela é que es-
carnecedos teleólogosque se julgam
os mantenedores do sentida
O aspectoinsensatoda
história, deus noturno e risonho, debocha
dos
magistérios e retira, do próprio
ou moralista—de ser Foucault, o papel —pedagógiC0
o "intelectual" que sabe
A lucidezprovém do que isso se trata'
de uma atenção, sempre
nos é mostrado, móvel e atónita, ao que
à nossa revelia, pelos
acontecimentos.
120
A essaatenção deve-se assoctar uni aspecto curioso c, no
caráter visual, Esses livros seiobalE
tanto,per;nanente da obra: seu
zadospor quadros e gravuras. O texto é, Iguahnente, ritrnado por
cenánose figuras:na abertura de Históriada loucura,encontra-se a
dos loucos" ("Stultlfera navis , 1961, p. 3-53); no livro
palavrase as coisas,aparece a reprodução do quadro As pncninasde
Velásquez("Les suivantes", 1966a, p. 19-31); o livro I 'ix'i,tre punir
começa,por sua vez, com a narrativa do suplíc10de I)alniens ("Le
corps des condamnés", 1975, p. 9-1 etc. Será urn puro acaso?
121
"Le panoptisme", 1975, p. 197-229)? Ele exulliou
(FOVCAULT,
perseguiu, Inclusive nas regiões mals aprazíveis do saber,
procedirnentos baseados na confissão e produtores da verdade
fazer enlergir aí a tecnologia por da qual a visibilidade
forma o espaço em operador de poder. IDefato, para ele, o
e do saber, ( _)
tornou-se o carnpo dos novos desafios do poder
de nossas
constitui, para Foucault, o teatro conte:nporáneo
o uso poli( do
fundarnentais;verifica-se,aí, o confronto entre
aí de diferente.
espaço e a vignlánoa em relação ao que ocorre
volwdo nesse terreno de nossas guerras o
filosóficoestabelecea oposição entre os que SUbJUg,dljj
espaço à vigiláncnae os paradoxos que abren) aí acasos ao
nrnto panÓpuco, as descontinuidades re svcladas por Vicissitudes
pensa:nento. I)uas práticas do espa%0se choca:n no cajnpo da
bilidade:a prnnejra, direclonada para a djscjphna, enquanto a
é feita de espanto.Mediante esse conjbate que evoca o dos dcuso
gregos enj seu céu, desenrola-se a ' 'reviravolta" das tecnol( do
'ver sen) ser Visto"etn estéticas da exjstencl,j éuca.
Ao exumar as nnpljcaçóes de acontecnnentos aleatórios, I ou.
cault Inventou os lugares de novas ( -'0111cada
de seu»livros,ele oferece uni Inapa ainda Inédito à possibilidade
de ''pensar diferente:nente"; ele Identifica-se o novo ( arto-
grafo" esboçado,conj tão anugávcl acuidade, por Gilles I
(1975). Esse) jnapas apresentan) ferranjentas proporcionadas
a
questõesdiferentes;el)) vez de forjnarejn
entre uni sjstenja, eles
forrnanj urna sequência de sSlinsajos",
relativos, enj a
essa"curiosidade" -- a esse espanto
que pernnte desligai -se de
si rne»mo" (1984c, p. 14).
Portanto, ele» cojnpê)eli)
dade de posiçôe»e de
funçê)espossíveis" (1971,
práticasdescontínuas" p. trata •e de
(p, 54), oriundas das
de acasos.Etn cada Invençôe» decorrentes
Inapa,
acontecimentoprovocado construído, novo
outra possibilidade; pela "exuberância
dos seres" acrescenta
nenhujn desses
verdadeou uma gnapas deline destili')'
identidade do
pensajnento, lugJiCS
que,aos poucos,
haveria de
fornjular-se aí,
Inas pela gnestna
122
4. ele»respondetli aos da história. Ao
discursos,Foucault não tenta ocultar liotnogelle17ar
os suasresplandecentes
rararnente o espanto
.onnntlldades; filosófico chegou
a ser tratado
forma tão cuidadosa enl relação às suas possíveis
de evoluções
respeitosa etn relação às suas surpresa<.
e tio
atividade política teni o rnesruo estilo: ela não se
apropria de
sentidoda história, netu constitui uma eqtratégia, tarnpouco
u:na
Práticas do poder
Assim,com Foucault, abandonamos a história ocupada pela
do"intelectual"; estamos em outro país ou, como ele afirnm%l,
de
Outraconfiguração. Há cerca de cem anos, etn 13 de janeiro
1898,o simultaneamente,
artigo "J'accuse" de Emile Zola
umaviradado caso de uma espécieinédita
Dreyfus e o surgimento entre
Intervenientes Nascida do encontro
no campo político. no
coincidência,
questãoJudaica urna
e uma politização (não é
123
*'ideologia nacional"), essa figura social
contexto político franca da Serta fascinante acompanhar
"intelectuur'.
recebeu o qualificativo de desde Zola e, também (por_
dessa espécte,
a no passado, sempre uma históna
sociais suscitam
que as novas figuras [philosophesl
esclarecidos
desde os "filósofos"
em busca de origens),
"assuntos" [afuiresl sociais mas relevantes do século
envolvidos nos
Sartre.
XVI II, até Nferleau-Ponty ou
engajada
inteligentsia associam-se, na Europa contem _
A essa
grupos populistas russos Zepnlja i volia ("Terra e liber_
poránea, os
e Sarodnojlôli ("Vontade do povo"), no final do século
dade")
revolucionária elaborada por
XIX (VESTtn1,1952), ou a variante
povo pelo
Antonio Gramscl,o "intelectual orgânico", vinculado ao
"Príncipe moderno" que é o Partido (MAcc10CH1,1974).Ao inte-
lectualde partido,opunha-se o intelectual de Estado (por exemplo,
o professor francês) e, entre eles, todas as tensões testemunhadas
pelo eminente e secreto trabalho de Lucien Herr, bibliotecário da
Ecole Normale Supérieure, que desejava enquanto funcionário
e socialista—permanecer fiel a essas duas leis de filiação política
(LISDLNBLRG; MEYER,1977). Em contraste, erguia-se a "autonomia
do trabalhador intelectual" (Selbstandigkeit der geistigen Arbeiter), tal
como a definia Freud, hostil a qualquer "chefe" e, em primeiro
lugar,ao pior de todos: a multidão,o grande número (dieAlengel;
cf. FREUD,1991).Na trajetÓrrabrilhante, embora eEmera, do "inte-
Jectual", um papel decisivo, e provavelmente terminal, cabe a Sartre,
cuja ética,protestativae luterana em seu estilo, articula-se a parar
da consciência, lúcida e culpada, da impotência das "palavras" em
relação às "coisas": as palavras limitam-se a desafiar a história da qual
elas estão separadas. Baseada no fracasso da ambição que modelo u
o "intelectual", a ética sartriana evoca, finalmente,
aquela que, na
Escolade Frankfurt,por caminhos muito
diferentes, opunha ao
progressofatal do nacionalismo nazista
uma coragem de pensar cuja
necessidadenão se mede por uma eficácia
histórica.
Sem dúvida, a história dos
"intelectuais" comportaria, também'
um contraponto crítico: desde
Zola, nunca se deixou de objetar
ao compromissosociopolítico
deles sua incompetência técnicae
Até mesmoValérylançou
sua ironia, ao evocar a
figura de palhaço'
124
o Intelectual destituído da seriedade seja do
"0 oficio dos Intelectuais cientistaou do
'lítico: consiste ern agitartodas as coisas
sob seus signos, denolninaçóes ou símbolos, seni o
l)aí, resulta que contrapeso dos
atos reais. suas afinnaçóes são surpreendentes,
políticaperigosa e «eus prazeres superficiais;trata-se de qua
as vantagens estirnulan-
tes sociais coni e perigos dos estirnulantes,enl
1933, p. 125). No geral'
(VALíRY, escalão mais baixo desse
degradado, existe
intelectual.
Deqsaepopeia com uma centena de anos,que haviaatribuído
ao intelectual o papel de herói diante do poder, Michel Foucault
vai desprender-se ao marcar o corneço de outra hipótese.Mais
em conforrnidade com nosso intuito comum, atualmente há urna
história sem heróis, tatnpouco nomes próprios, uma história difusa,
anÓmmae fundamental. Ela diz respeito às práticasintelectuais en-
quanto estas se Inscrevem na rede das inúmeras ntaneirasde exercer
o poder.Portanto, verifica-se a mudança do objeto: ele já não visa
diretamente atores, mas ações; também não visa personagens,cuja
silhueta recorta-se no fundo de uma sociedade,mas"operações"
que, etn um movimento browniano,tecem e compõemo fundo
do quadro. Por uma mudança na "afinação", fixamosesse segundo
plano ao deixarmos a distorção das imagens-vedetesdo primeiro
plano. Então, aparece um labirinto de maneirasde fazerou de usos
(uses):práticas da linguagem e do espaço,usos do tempo, etc.Tais
práticas são especificadas por protocolos; dotadas de "circuitos"
próprios, elas caracterizam-se por formalidadesou "estilos", assim
já empreen-
como há "maneiras" em pintura. Na linha de pesquisas
INQ l, 1990, p.
CERTEAU,
didas a partir das "práticas cotidianas" (DE
um modo
XXXVI-XLIV), eu gostariade evocar—pelo menos de
"maneiras" de
necessariamente esquemático e programático as
no campo das ativi-
praticar o poder, tais como estas se apresentam
dades chamadas"intelectuais".
Na perspectiva delineada por Michel Foucault,entendo
que não age, direta
por práticas de poder "um modo de ação própria de-
e imediatamente, sobre os outros, mas sobre a ação
les"; tais práticascompõem "um conjunto de açóes sobre ações
125
portanto. de
cedintentos) e não de concepsócs (idctas),
Situar-se nos dors registto« que. proporsóes vat sáveys.
126
e c é li10V1d0dc u lita legitl/nidade.
sociopolítico de position"l varia «cgundo
O
a, o,io cessando de ser oboeto de lutas entre (por
esetnplo,cn(te tnédtcos e pastotx•s,no catnpo psiquiátrico) 011entre
círculos soctais. No entanto, cada 1110111cnto,a Ipld('cl
circun«ctrsxsutli terreno de apropriação, garantindo urna Identidade
contra a dupla atneaça:a da popular e a da verdade.A
é a tnultldào urbana,ou rural, oceano silenciosoou teni-
pestuoso que rebenta, de acordo conl o relato de I Diderot,contra as
127
a verdade, ao pretenderetn
cativar,articular e sistelnatizar
operador que transtorjna a
cotno doutrina A posição é
popular e a verdade objetos tratados ejn uni lugar suportável
apropriável e nonnnável.
as práticas intelectuars enquanto
A «egttnda perspectiva visa
definetn corno "tnaneiras de fazer"; alénl disso,é poçsível
se
"estilos". Ela pode referir-se ao livro, pouco reconhecido
nhecer aí
eqcrita Inatenútica, detectava
de G. Granger (1968) que, na própria
ou "vetorial". O estiloé
"estilos" diferentes: euclidiano, cartesiano
atividade científica enquanto esta
"a e«truturaçâo latente da própria
indicar com precisãoas
urna "estilística da prática científica". Para
irnplicaçôesde urna pesquisa sobre a forrnalidade de tais práticas
da
com a condição de que essa pesquisa se desligue ' 'Individuação"
problerna ainda central em Granger —,seria possível evocar, também,
os trabalhos recentes sobre as naaneiras de utilizar a linguagem, em
"ethnograp/l}' speak'ing"ou ena uma "sociologyof connnunication",
desde HY1nes,etc. De qualquer Inodo, limitar-rne-ei a apresentar
três observações relativasaos procedirnentos intelectuais.
a) As "maneiras de fazer" não obedecem a uma determinação
individual, mas formann repertÓrios coletivos,identificáveis nas for-
ruas de utilizar a linguagem, de gerenciar o espaço, de cozinhar,etc.
Algunsprocedimentos de origens heterogéneas podem suceder-se
e cruzar-se no campo das atividades individuais, à maneira de atores
anÔnimosao atravessaremo palco que tem o nome de um suposto
autor.
b) Tais práticas, especificadas por estilos, são mais estáveisque seus
campos de aplicação.Assim,as maneiras de falar ou de praticar um
idioma podem estender-se a vocabulários importados ou a línguas
estrangeiras;elas sobrevivem, até mesmo ao idioma que havia sido'
inicialmente, falado. Portanto, elas não são identificáveis ao lugar
que se exerceram:existe a maneira basca de falar francês quando'
afinal,já não se fala o basco.Assim, Pierre Legendre (1974) proce-
deu à analise do modo como as práticas jurídicas da Idade Média
persistiram,atravésdos séculos,muito depois do desaparecimentO
das grandes instituições que haviam dado forma essa tecnologia'
a
128
O MW
129
O sol negro da linguagem:
Michel Foucault d7
131
h'stona,lor, lado
Utna questão é e desvela
atuattuente esscnctala qualquer Ujgna
a
ptvssenttda que explicitada.O b!alho c, vezes, preciosidade
estilo, a nnnuctosa destreza da análise,abrejo para
etn que se petdctn. conjuntajnente, o autor e o leitor: a 01)'ai c
apresentaro contraste,sublinhado oportunidades
ele, entre "etettos de superticte' e o latente que eles
ce«atn de significar,ao ocultá-lo. relação entre o conteúdo e
tonna do livro é o que suscita,no leitor, «unpatta Itixegurade
si levando-o a tortnular-«e a «egtnnte questão paradoxal:o
que se diz, ai, de e«enctal?
O sol negro
NIas,afinal, qual é seu conteúdo? Não é o prunelro livro de
Foucault que, nesse texto, arnpha o liiétodo Já explorado e ilustrado
em duas obras, etn tneu entender, Intiito ruais relevantes: Histoirede
Ia folie à l',iA'Cclassi,lue (1961) e XIIissatlú' de Ia clinique (1963a). Ele
retorna, tarnbém, os ternas abordados enl nulnerosos estudos alénl
do ensaio sobre Rousscl,artigos sobre Blanchot, Jules Verne,
etc. (1963b; 1966b; 1969).A linensa cultura do historiador, filósofoe
crítico literário está a ser\hço de urna curiosidade insaciável,perscru-
tadora e imperiosa. Corn urn passo apressado,às vezes rápido demais,
o viajante percorre as áreas culturais e os períodos do espírito em
busca de uma razão que justifique a nmltiplicidade inorgânica do
constatável.Ele descarta, com um gesto irÔnico,as ingénuas certezas
do e.olucionislno que acredita apreender, finalmente, uma realidade,
desde sempre preparada sob as ilusões de outrora. Em relação ao pos-
tulado de um progresso contínuo, emocionante autojustificaçãode
uma lucidez atual que toda história deveria profetizar, ele só manifesta
menosprezo. E não sem razões.
Sob os pensamentos, ele discerne um "soc1048epistemológico
que os tornapossíveis;entre as múltiplas instituições, experiências e
132
de não ser explícita, constitui Inesrno assilll a condiçáo e o princ
organizadorde urna cultura. Há, portanto, ordeni. No entanto, essa
"razão" é um subsolo que escapa até jnesjno àquelexque a utilizani
como alicerce de suas ideias e de seus intercán)bio«.O que confere,
a cada um, o poder de falar,ninguélll o exprilne. Há ordenl, 111as
sob a única forma do que não se sabe,a partir do Inodelo do que é
"diferente" em relação à consciência. O Mesi110(a hornogeneida-
de da ordem) assume a figura da alteridade (a heterogeneidade do
inconsciente ou, de preferência, do implícito).
A essa primeira falha, convéni acrescentar outra: a análise pode
desvendar um começo e um fim nessa linguagenl que, finalrnente,
fala à revelia das vozes que a enunciam. Depois de ter garantido a
"positividade" de um período, seu "soclo" oscila bruscarnente para
deixar aparecer outro subsolo, um novo "sistema de possibilidade"
que reorganiza o universo flutuante das palavrase dos conceitos,
além de implicar, através de reminiscências ou invenções, urn "campo
epistemológico" (uma epistente)completamente diferente. Através da
duração e na espessurade seu próprio tempo, cada epistcnteé feita
do heterogéneo: o que ela não sabe a respeito de si mesma (seu
próprio subsolo); o que ela já não pode saber dos outros (após o
desaparecimento do "soclo" que eles implicam); o que há de perecer
para sempre de seus objetos de conhecimento (constituídos por
uma "estrutura de percepção"). Definidas por uma rede de palavras,
as coisas desabam com ela.A ordem só emerge da desordem sob a
forma do equívoco.A razão,reencontrada com essascoerências sub-
jacentes, não cessa de ser perdidaporque ela é sempre inseparável de
um embuste. Nos livros de Foucault, ela morre ao mesmo tempo
em que renasce.
Com um método, expõe-se nesse livro, portanto, uma filoso-
fia: mesmo que seja útil distingui-los para apresentá-los, esses dois
aspectos são inseparáveis.Certamente, ao empreender "um estudo
estrutural que tenta decifrar,na espessurado histórico, as condições
da própria história" (1963a,p. XV), Foucault inaugura uma nova crí- 'ft
133
"estruturas" que recortam no tempo, alterna _
palavxa«e as cotsas; as
urna percepção e, portanto, subentendida
dainente, os espaços de
pensamento e da prática; as combinações tácitas
pelos processosdo
determinantes) do dizer e do ver, da linguagem e do real.
(etnbora
campo e com o aparato
Semelhantecrítica desdobra-seno
ela relativiza. No entanto, por
técmco dessasciências hutuanas que
discutível que seja, ela não tem
mais nova, fundarnental e, tambéxn,
em SImesrna pelo menos, imediatamente —
sua própria Justificação.
O método permanece o significantede um significado impossível
de enunciar.No momento em que desmistificao "positivismo"da
ciência ou a "objetividade' das coisas pela demonstração do deslize
cultural que as havia "criado", ela revela a face noturna da realidade,
como se o tecido das palavras e das coisas detivesse, em sua rede, o
segredo de sua imperceptível negação. A combinatória do dizer e
do ver tem, como avesso ou determinação fundamental — um
vazio essencial" (1966a, p. 31), inassimilável verdade dessas coerên-
Clasestruturais.Por estar em movimento e, também, por escapar,
o chão das seguranças científicas ou filosóficas expressa uma falha
Interna —nunca localizável,somente perceptível nesse embuste In-
definidamente oculto e confessado pela organização temporária de
linguagensanteriores a qualquer pensamento consciente.
O livro —Histoirede lafolie (1961) —lembra que o sonho e a
loucura tinham sido considerados, para o romantismo alemão, como
o horizonte de um "essencial".A desrazão profetizava, então, esse
"essencial"pelo pathoslírico ou em uma literatura do absurdo.Em
Foucault, a desrazão,em vez de um limite para a razão, é sua ver-
dade. Essesol negro confinado na linguagem e que, à sua revelia,a
queima:eis o que lhe é revelado,à semelhança do que ocorre com
Roussel,"pelo incansávelpercurso do domínio comum à linguagem
e ao ser, pelo Inventário do jogo mediante
o qual as coisas e as pa-
lavrasse designam e se desencontram, se
atraiçoam e se disfarçam
(1966b,p, 190). Mas falar de desrazão
é ainda uma forma de atribuir
um nome estranho à negatividade;
é localizá-la em um "alhures
Desseponto de vista,ainda acabamos
por nos extraviar, Na
dade (etapa representada por O
nascimentoda clínicae As pdlavrgse
us coisas),esse outro é verdade
interna:a morte. Assim, a obra inteira
tonto que, nuneita de um indicatiso, e
O livto, vatnos abordar o
e a tnorte" (1963a, p.V) A linguagetii e os
da perversão rrmetetn constantetnente à
aborria-se a tnorte." Utna ausêncta que é,
é acuada, descoberta. exatatnente situação
na ptóprta racionalidade.
A seriedade desse pensa:netlto deve-se à trnposS1b111dade de
&sociar nele a análise espectral da lustÓrtacultural e a reselaç.io
raio que se ditiata ai. O discurso tilosótico anuncta, no
nt.us tisico e tiltldatnental, ' Sinqtlietaçio da linguagena'
uxerteza que retnonta das tnobllldades «ubterraneas e Keinsinua
tu coesão de nossas evidências. A atirtnaçào próprta a urna cultura
é-lhe trmeuda COtnourna indagação aberta; qualquer discurso teni
let na tnorte, • bela terra Inocente sob a gratna palavras
199).
Para situá-la, conviria Indicar, etn prirnetro lugar, a intenção
-trai de u:na obra que se apresenta corno a história ---e a renova-
—dasidetas, nos últunos quatro séculos.na Europa Ocidental.
O pensamento é no'.o, etnbora estela ainda à procura de SI11R<1no;
imperul:sta, se:n ter conseguido detinir exatamente sua arnbição e
suasconquistas; e, na tnaior parte das vezes, irnpreclso exatamente
co a.Fcto em que é o mals Incisivo.44Ahás, é necessário constatar o
Eguinte:as criticas de for:na prudente, neste terreno
indecx«o,quando, afinal, pretendem cobri-lo conl elogios.Tal
FÑura de,r-se, sern dúvida, igualmente à gravidadedas questões
que nos são formuladas e à maneira corno elas nos são explicadas.
Em vez de proceder a análises históricas de Foucault, vou deter-tne
em algumasdessasquestões de método e de fundo.
135
algo diferente. O
incapaz de fazer ele dlZ e teve a pretensa!)
de ser que
a a respeitodo há
"quooona o discurso Ele supõe setnpre que linguagetn
fazer"( 1963a,p xli). pensamento que a deixou
de do traz
formulado o formulado
sariamente inversamente, que
na sombra"; e,
tanlbém,
conteúdo que ainda nio foi pensado (p.
um
bojo,como adormecido, desse excesso do pensarnento sobre
constantemente pensamento, o comentás
XII). Passando sobre o
da linguagem
sua linguagemao formulações o "resto" do significado ou o
rio "traduz"em novas Tareú indefinida porque, em cada
significante.
"resíduo"latente no encontrar nessa reserva ilimitada
se pretende
situação,ocorre já o que e nesse inesgotável capital
sob as pala\Tas
de "intenções" soterradas que as reuniam. Nio
que os pensamentos
de palavrasmais fecundas
de uma história das ciências, de urna filosofia da
será o postulado
Elas conhecem, de antemão,
história ou de uma exegese teolÓgica?
urna linguagem mitoló-
a realidadeque "descobrem", oculta em
ideias de outrora,
gica ou ingénua do passado.As expressões oti às
presta-seuma riqueza que destrói sua articulação mútua e desata o
nó entre significantee significado.A relação corn o comentador é,
aqui,o essencial:o tesouro oculto no passado avalia-se, finalmente,
pelospensamentosdo intérprete; o implícito de um é definido pelo
explícito do outro.
Em vez disso,Foucaultpropõe um trabalho de outro tipo:"uma
análiseestruturaldo significadoque viesse a escapar à fatalidade do
comentário,deixando significado e significante enl sua adequação
de origem" (1963a,p. XIII). A inteligência de uma proposição não
remeteráa uma exegeseque reduza a relação entre o texto e 0
comentaristaa uma tautologia.Em função de
uma "adequaçã0
históricaentre a linguageme o pensamento
(adequação que defl-
ne o texto),a explicaçãovalorizará
as relações que articulam essa
proposição"a partir dos outros
enunciados reais e possíveis que lhe
sãocontemporâneos"e
estabelecem sua oposição a outros "na Séne
linear dotempo" (p. -XIII).
Em vez de identificar
o pensamento com
outros —anteriores
continuum
mental sobre o qual
viessem a desdobrar-se scmelhatié$
136
a explicitar 0 não formulado ou 0
transforma as diferençasno elemento de
seu rigor e
3 rincípiode suas distinções. De seu rigor: em termos de
oculto-revelado) é relaçêes
maiscomo que um sentido deve ser
pro-
proposições, textos ou instituições, assim cotilo
do.entre entre
cora linguagem, as relações estabeleceram --
alavras de uma e são as
que podem explicar o valor atribuído a cada um de seus
únicas
Uma organizaçãodo sentidodeve ser encontrada, tendo
termos. de-
e servindo de referência para cada
terminadosignificações elemento,
outros. Sob este viés, oferece-se uma "razão" que, na
aoremeteraos
é um modo de ser significadopelo sistemadas palavras.
realidade,
aparece: a das "estruturas"
Urnaordem
O que abre à crítica a possibilidadede um rigor é, também,
o princípiode distinções radicais. De fato, à medida que a análise
dasrelaçôese das interferências permite constatar (por exemplo,
noséculoXVIII, a propósito das instituições e das ideias sobre a
loucura)que "esse sistema de contradições refere-se a uma coerén-
ciaoculta"(1961, p. 624), à medida que converge, assim,para uma
"estruturahistórica" (a "estrutura da experiência que uma cultura
podefazer da loucura"; p. 478, nota 1), ela constata também que
essacoerênciaconstitui, na história, um bloco homogéneo, embo-
ralimitado.Existem regiões de coerência e, de uma para a outra,
passagensbruscas.
Clássicana área da história, a noção de periodicidade é, aqui,
aprofundada na noção de uma descontinuidade entre blocos mentais.
Taldeslocamentorefere-se, aliás,a uma situação global da consciên-
cia;em cinquenta anos, ela inverteu-se. Outrora, a periodicidade
elaborava-sena perspectiva de um progresso, cujas etapas sucessivas
tendiama confirmar a garantia de uma posição terminal; partia-se
deuma certeza presente, a partir da qual se descortinavaa vinda a
side uma verdade, daí em diante conhecida mas lentamente des-
das ilusões e dos erros que a encobriam.Atualmente,
Vencilhada
Foucaultestabelece seu pensamento no clima de uma coexistência
entreculturasheterogéneas ou entre experiênciasirredutivelmente
papel da etno-
pelas simbolizações primitivas do sujeito (o
isoladas
385-398),
logiae da psicanálise é, aqui, fundamental; 1966a,p.
137
levado a desvendar,sob a continuidade da
Portanto,ele é
ainda nuis radical que a heterononlia
uma descontinuidade
fictíctahomogeneidade de nosso tempo. Sua lucide
tatàzl sob a
monocultura universal ou de
sobrea ambiguidadede uma
comunicaçãocompletamente att•tiva
chama sua atenção sobre
modo, a novidade
equñoco da continuidade histórica. Desse
mas também impor
do presente encontra-se não só reconhecida, s
tunada:atrás de si, ela tem o vamo da diferença. As falhas do tempo
Já nio autorizam o pensamento atual a alimentar a crença de que
é a ',zrdade do que precedeu; ele deixou de dispor desse repouso
desserecurso.Portanto,ele conhece um novo risco sem garantias.
O heterogéneo é, para cada cultura, o sinal de sua fragilidade e,ao
mesmo tempo, de sua coerência própria. Qualquer sistema cultural
implica uma aposta que se impõe a todos os seus membros, embora
nenhum deles seja responsávelpor isso. Com "um modo de ser da
ordem", ele define uma forma de enfrentar a morte. 50
"Um modo de ser da ordem": eis uma fórmula forjadapor
Foucault (1966a,p. 12-13).Que se deve entender por essafrase?
Qual é o estatuto dessas"estruturas históricas"? Aqui, Foucault não
chega a defini-las, mas empenha-se somente a fazer seu "relato" (p.
13),como teria sido tentado pelo etnÓlogo em relação a sociedades
longínquas.No entanto, sua descrição já deve fornecer indicações
sobre o objeto de sua análise.Ele oferece ao
leitor, de fato,"um estudo
que se esforça por saber a partir de que
aspectofoi possível elaborar
conhecimentose teorias":"o que se
pretende revelar é o campo
epistemológico,a epistemeem que os
conhecimentos, considerados
fora de qualquer critério que se
refira a seu valor racional ou a suas
formas objetivas, enraízam sua
positividade e, assim, manifestam uma
históriaque não é a de sua crescente
a de suascondições de perfeição, mas, de preferéncn,
possibilidade".
Para compreender o
problema e seu objeto, deve-se voltara
sua percepção inicial.
Trata-se de uma surpresa.
NO preâmbulo de
Neste a
d, poderia ser sem disunçóes (ver L'ARC 1966,P
como se faz a iggbria é entendermos por essa
e corno surgem os a recusa de
st*ernas; e é negativa,
porque cada sistema
138
texto dc Borges exprtme o que foi para Foucault,e o
para esse daumbramento.Tal texto Cita•'certa
v%paa cbioesa" em que está escrtto que
em- a} pertencentes
d) e) sereias,f) fabulosos,
g} em liberdade,h) sncluid"' na presente
que 'e Zêtam como loucos,J) Inumeráveis,k) com
um Pincel bastantefino de pêlos de camelo,l) et 111)
que acabam de quebrar mortnga, n) que, de longe. parc«rn
moscas ( p. 7)
139
discernir que, outrora,
a
Ao aprendertnos
objeto de retiexáo e
cxperlénoas foragn
tituídas, "J priori Instónco" diferente d,)
funçáo de uni
formatam-se ' ia ordetn a paror da qual
que
ao constatartnos ordeni dos clássicos ,
da
Inodo de ser diferente A relaçáo corn outreni,
descoberta,
tnodificadospor essa cultural, trajhfórtna
desse desni\Clanwnto
pela percepção
O hão de nossas seguransas
laçáoconosco jnestnos. de:xar de ser possfiel
desvela o fato de
niedldaque se
pensatnentode outrora.
que questiona nosso a priori exprime-se, na
A surpresa
esforço no sentido de localizar as falhas a partir dos
ratwa",pelo
Inaugurarn nessas fronteiras.
qstetna»que se precipitanl aí ou se
algurn, original:
A dataçáode Foucault não é, de modo
século XVIII, meados
do século XVI para o século XVII, final do
do século XX. No entanto, ela tem urn caráter própno dex,ndo
exigênciaque a surpresa desconcerta. A um pensamento preocu-
pudo em Identificaruma coeréncia, a falha apresenta-se como um
enlbora seja um ' 'acontecimento de baixo" (1966a.
acontecitnento,
p. 251): mais fundarnental que a continuidade no
'movimentode superficie",ocorre uma "brusca" modificação
(Foucault insiste sobre essa subitaneidade) que pode ser uma
"defasagern ínfima, mas absolutamente essencial" e '*faz oscilar o
pensamentoocidentalpor inteiro". Assim, "às vezes, em alguns
anos,uma cultura cessade pensar como ela havia feito até entio,
começandoa pensar outra coisa e de Inaneira diferente" (p. 64),
Algo de fundamentalproduz-se de que existem, identificáveis
sinaisprecursoresou consequências, Inas
"
que perrnanece,
mente,inexplicável,51 uma erosão
oriunda de fora". Urna alteraçà0
marcao fim de um "sistema de de
outro.As mesmaspalavras simultaneidade" e o começo
e ideias são, às vezes, reutilizadas,
deixam de ter o mesmo
sentido, de Qeretn pen«adas e organizadas
da mesmamaneira.
Esse é um "fato" em que esbarra o pmoetO
umainterpretação
englobante e unitária.
Mo,
daquiloque0
é de
j 40
As descontinuidadesda
razão
fendas que e, finalnlente,
que a análise recortam as
no "nível" reconheceu culturas
que organiza a múltipla um "sistema
d,simultaneidade" variedadedos
paí surge 0 problema: qual é a validade, Slgnos
a
caracterizadocomo o do "subsolo" ou do naturezadesse
'Ultora1S.
Essareferência unitária
aparece, no entanto, com a noção,
precariamente definida, de "positividade
142
A o»nstituj, Portanto, cçrtanjct)te
tnanetrade pascal, Itoticault faz Vet a continuidade
Mideera atirtnada a ruptura, do tne«nto Inodo
há pouco,urna descontinuidade que deqtruía a de
devtr da ciência. No entanto, tal contintlld.l(lc é Indissociável
do equívoco;ela é o que persiste à revelia da consciênci.&c sob a
de irnpostura.As reniltuscencjas de tipos diversos, detec fados
pelaanálise,traduzenvse por uni etnbuste.
Em um pritnetro nível, verifica-<e tuna pertnancncta de super-
aquelaque, apesar dos deslizes do subsolo, Inantél)) urna tclaçào
de identidade entre aq palavras, os conceitos oti os tenjaq
Um exemplo sitnples: nos séculos XVII, XVIII e XIX, fala-se de
"louco", mas, na realidade, nessas diferentes épocas, "não se trata da
doença" (1961 , p. 259). Na exegese e na teologia ocorre algo
semelhanteao que se passa na Inedicina: as meqrnas palavras não de-
sgnam as mesmas coisas. Ideias, tenúticas e classificações subqstern,
passandode um universo tnental para outro; no entanto, eru cada
situação,elas são afetadas pelas estruturas que as orgamzam e lhes
atribuemuma significaçãodiferente. Os mestuos objetos mentais
"funcionam"de :naneira diferente.
Há uma persistência, cuja forma é inversa.Na história das ideias,
aparecemnovas noções que parecem assinalarurna estrutura de outro
tipmNa realidade,trata-se aí de categorias pouco consistentes que,
em ',rz de determinarem o conteúdo de tais noções, litnitam-se a
encobri-lo: noções aptas a englobar as contradições, significantes
flutuantesnos quais sobrevivem medos ou óptica«precedentes.Assitn,
0 medo que, no século XVI, mantinha isolado o louco por rexeio
de um contágio diabólico, adota, no século XVIII, tuna hnguagem
utilizadana área da medicina e ressurge nas precauçóe» tomadas
contrao ar contaminado dos hospitais (1961 p. 431),
De maneira mais global, cada região histórica da epistemeé o
lugarde urna reestruturação
dirigida (etnbora nào gnaisorganizada)
Pelasestruturas elaboradas na época anterior, Foucault procede a
u demonstração,
pot exemplo, a propósito da psicanálise:a família
prestígio,no final do século assume ascendência
relaçãoaos indivíduos
de minoridade e fornece urna antítese niitica
-- prepara a execução d
ao social (corruptor da natureza)
o pai em que Freud reconhece o destino da cultura
atentado contra
a civilização) quando, afinal,
ocidental inteira (e, talvez, de toda
sedimentação depositada
limita-se a extrair da linguagem uma na
assim como detecta
consciência, no decorrer do século precedente,
desenterra nas palavras o que acaba de ser incluído nelas "pelo mito de
uma desalienaçàona pureza patriarcal e por uma situação realmentt
alienante em asilo constituído de acordo com o modelo familiaff
(1961, p. 588-589). O sentimento de culpa ressurge, igualmente, na
linguagem freudiana,mas pelo fato de ele ter sido introduzido nela
com a substituiçãoda coação por uma técnica de confissãonos asilos
filantrópicosdo final do século XVIII (p. 596-597). Do mesmo modo,
a valorização(datável,também, no século XVIII) do par médico-
-paciente e a concentração da terapêutica na personagem do médico
inauguram, à revelia dos inventores, a desmistificação por Freud de
todas as outras estruturas asilares e o fortalecimento (esquecido de
suas origens) da posição atribuída ao analistaque, tendo-se esquivado
por trás do paciente, vai julgá-lo, gratificá-lo, frustrá-lo, e torna-se,
simultaneamente,segundo Foucault, a "chave" e a "figura alienante"
da relação terapêutica (p. 608-612).
Contrariamente às intenções que haviam orientado a elabo-
ração de uma fórmula, esquecida por aqueles que a retomam de
forma diferente, a continuidade é dirigida pelo equívoco; apesarde
real, ela é vivenciada segundo o modelo dos contrassensos,entrea
época da hermenêutica (século XVI), a da "representação" (séculos
XVII-XVIII), a do positivismo ou de uma objetivação do "interior"
(século XIX) e o tempo presente.Aqui, em vez de uma relaçãoda
ilusão com a verdade (como pretendia fazer acreditar a mitologia do
progresso), porque a impostura é recíproca, trata-se de uma relação
de outro com outro. A incerteza própria ao intercâmbio entre cul-
turas, ou à sua sucessão,não anula a realidade de uma relação,mas
ela designa sua natureza. A ambiguidade da comunicação remete
a uma "inquietação" que estabelece a continuidade da históriae a
descontinuidade de seus sistemas:a diferença.
De fato, a diferençaé que talha na homogeneidade da lingua-
cada
gem as cesuras do isolamento e que, inversamente, abre em
144
as viasde urn outro. A instabilidadeinterna dos ciclos e a
são dois problemas. Rob essas duas
ambiguidadede suas relações não
como relaçãoao outro e como relaçào a si, um Incessante
formas,
confrontotrabalha a história, legível nas rupturas que fazem oscilar
ossistemas, asstmcomo nas coerências que tendem a recalcar urna
alteraçãointerna. Há continuidade e descontinuidade, arnbas ilusó-
rias:de fato,a partir do "modo de ser da ordem" que lhe é próprio,
cadatempo epistemolÓgico traz ent seu bojo uma alteridade que
todarepresentaçãoprocura reabsorver, objetivando-a, rnas sempre
incapazde sufocar seu obscuro trabalho e de se prevenir contra seu
venenomortal.
O pensamentodo exterior
Quem se limita à continuidade julga escapar à morte, apoiando-se
naficçãode uma permanência real. Quem fica confinado na solidez
desistemasdescontínuos acredita ser possívelsituar a morte como
um problemaexterno, localizável no absurdo acontecirnento que
põetermo a uma ordem; ele evita a questão formulada já por essa
mesmaordem e que, em primeiro lugar, surge sob a figura de um
"limite"interno no século XVI, o de um modo diferente, divino
ou demoníaco;no século XVII, o do "não ser" bestial ou imaginá-
rio;e, no século XIX, o de uma dimensão "interior" (o passado,a
forçaou o sonho).
Uma finitude interna contesta as estruturações que tentam
superá-lae em que se desenvolve a defesa do Mesmo, ou seja, da
identidadeconsigo mesmo. A alteridade reaparece sempre e, fun-
umentalmente,na própria natureza da linguagem. Uma verdade é
ditapela organização de uma cultura que escapa àqueles que são seus
Colaboradores. Certas relações predeterminam os sujeitos, levando-os
a significaralgo diferente do que eles julgam exprimir ou conter.
Setfaladoà sua revelia é estar morto sem saber disso; é anunciar a
morteao acreditarque se triunfa sobre ela, é confessaro contrário
que Seafirma.Tal é a lei descoberta pelo historiador desde o
fmomentoem que deve estabelecer a distinção entre a linguagem
e asintenções
Conscientes."A presença da lei", diz ele a propósito
de
sua dissimulação" (1966b, p. 534). Ern vez de ser
145.
ao tertno de urna cultura a alienação é
um fato ternunal, qualquer consciência Individual
relativuaçio de
nortna Interna e a colocada enl perigo por sua
sou" é, portanto,
A evidênciado "eu que desaparece
própra ou seoa,por "esse exterior
525). Qualquer pensainento tem sua Verdade
o sujeito que fala" (p.
em um "pensamento do exterior
do exterior","pode-se perfei-
Em relação a esse"pensarnento
supor que ele seja oriundo do pensamento místico que,
tumente
perambulou nos confins do
desde os textos do Pseudo-Dionísio,
durante uni niilénio ou
cristianismo:talvez ele se tenha mantido,
negativa" (1966b, p. 526).
quase,sob as formas de uma teologia
do qual Fou-
Ocasional,a referênciasugere o tipo de problerna
momento em que
cault se faz o intérprete. Ele o vê atualizado no
do
"Sade deixa falar,como lei sem lei do mundo, apenas a nudez
desejo" (p. 526): o sadismo,"fato cultural maciço que apareceu,
precisamente,no final do século XVIII", está associado à época
' 'em que a desrazão,confinada há mais de um século e reduzida ao
silêncio,reaparece,não mais como figura do mundo, nem como
imagem, mas como discurso e desejo" (1961, p. 437).
A morte só aparecemediante a rede coerente da razão, a po-
qção do homem na linguagem ou a mutação das linguagens. Ela
não é um fenÓmeno da história nem um fato particular e, portanto,
localizável.Nem tampouco, aqui, a afirmação intempestiva de um
autor que, subitamente, tivesse feito irrupção na filosofia reflexiva
para destruir o sossegadoaparato da consciência e plantar aí seu
estandartenegro. Foucault anuncia o fim não do hornem, mas de
uma concepção do homem que, pelo positivismo das "ciências
humanas" (a "recusa de um pensamento negativo"; p. 233), pensava
ter resolvido o problema sempre remanescente da morte. Pelo fato
de que cada sistemaencontra sua ruína na ilusão de ter superado
a diferença,a questão formula-se, atualmente, a partir dessa alie-
nação na linguagem,assim como (mas é a mesma coisa) a partir
dos desmoronamentos sucessivos."O fato
de que somos, antes
de pronunciar a mais insignificante de
nossas falas,já dominad0S
e assombradospela linguagem" (1966a,
p. 311), eis o que orienta
a busca do sentido para "essa região
em que perambula a morte
146
etn que se verifica a coincidência entre a
395),para a literatura
"a absoluta dispersão do homem" (p. 397).
do discursoe
Assim,a propósito de obras literárias é que Foucault desvela
radical que "se escava no signo que
maisclaramentea ausência
elafazpara que se avance em sua direçào como se fosse possível
alcançá-la"(1966b, p. 531). Ela fala no "eu". Não só, con10 pensava
Mallarmée como volta a ser dito pela nova literatura, "a palavra
é a inexistênciamanifesta do que ela designa", mas o ser da lin-
guagemé o visível apagamento de quem fala. Urna expectativa
nuncaobjetivávelé dirigida para o nada que a habita; além disso,
"0 objeto que viesse a preenchê-la seria capaz tão somente de
apagá-la"(p. 544). Bem antes de seus locutores, a linguagenl está à
esperade Godot.
Questões abertas
Outrora,sob a comicidade de suas memoráveis aventuras, O
GatoFélixera mostrado em uma situação análoga àquela que nos é
descritaaqui. Ele avança com rapidez. De repente, apercebe-se —e
o espectadortambém —que lhe falta o chão: durante um instante,
eledeixou a borda da falésia que seguia. Sotnente,então,ele cai no
vácuo,Talvezhaja aí motivo para evocar o problema e a percepção
deque o livro de Foucault é a testemunha.
A queda é apenas o aspecto secundário de uma constatação:
o sumiçodo chão em que, de acordo com nossa crença, servia de
suporteà nossa caminhada e ao nosso pensamento. Tal situação
conduza reflexão à necessidade de "deixar falar" o que se exprime
comohomem, sem poder confiar-se, daí em diante, no crédito que
seatribuíaà consciência, nem aos objetos que haviam sido criados
por uma organização do conhecimento. Apresenta-se um novo
universodo pensamento; ele pode ter o caráter de uma catástrofe,
massó para quem se limita a andar sobre o antigo "soclo episte-
mológico".Enquanto o "eu" ["je"l ocupava,outrora, "a posição
rei" na rede das representações, é a linguagem que diz agora,
tenundo-lhe a dianteira, sua verdade; enquanto o ego tmotl estava po-
Comoo centro invisíveldo mundo conhecido, a linguagem
SiCionad0
da percepção e
reintroduzida nas relações cotnblnatóna subjacente
fol definidos por
corno um dos tertno« continuidade era a garantia,
enquanto a
e fundamental; um é a partir da descontinuidade que
como 0 prioride
rnutação, Foucault tern a acuidade Prernente
Para indicar essa a nova era análises que
ele anuncia
do Doutor discurso deixa pendentes as questões abertas
seu
de perdurar,mas será seu filósotU? Com efeito, queni
dessa epistcnte
por ele. O profeta sabe, o que inúmeras reflexões
que ninguém
é ele para saber o ou, atuahnente, ignoranl a respeito
hauam, outrora,"esquecido"
Ele se apresenta corno o onipresente (já que todas
de si mesmas?
heteronomias da história formarn o único relato de seu pensa_
as
mas é também o ausente (já que ele não se situa em parte
mento),
verdade das linguagens, 111as
esta
alguma).Sua obra pretende dizer a
qualquer limite e, portanto,
verdadenão se estabelece em relação a
linguagens, as rupturas
a qualquer compromisso do autor. Dessas
são finalmente superadaspela lucidez de seu olhar universal.Ou,
dito por outras palavras,falar da morte que serve de fundamento a
qualquer linguagem ainda não é enfrentar, mas talvez evitar, a morte
que atinge esse mesmo discurso.
A seu respeito,pode-se, portanto, formular uma dupla ques-
tão.Em primeiro lugar,que tipo de história é objeto da análisede
Foucault?Deste ponto de vista, os historiadores tomam a palawae
podem contestar uma leitura que procede à escolha do real, fixaela
própria o significativoe retira-se nas espessuras da história quando
a superficie lhe oferece resistência.54Por outro lado, a determinaçã0
filosóficado estatuto do discurso, a elucidação da relação entre sua
particularidadee seu projeto (na obra de Foucault, quem fala e de
que lugar?),a elaboração das noções que ele utiliza (soclo, subsolo'
148
o terreno a prestigioxa"llarratlva"
ude,etc.) filosofia.
está aí, tundanxenta\ e problernática,desmis-
aberta acabará por tornar-«e Fausto?
ca. Mefistófeles
ainda uns, inquieta outros, suscitando Interpre-
e
ele fascina
1ianto, por ter evocado,
ditórias
ootra representaçáo, unia iliiensa exten<àode sombra
da
or debaixo
Fora, retomar enl confornxidade coni nosxas
tentamos, as
que em nos«o discurso, ein nosxaliberdade e em nossa
possibilidades, é de tal modo tacanha, nossa
No entanto, nossa reflexão
reflexio. monótono que
tio subnlis sa e nosso discurso tão
liberdade que, no fundo, sombra de
levar em
temos de de todo 0 tamanho (FOUCAULT, 1966a,p.324).
um óbice
a
(que é o
metodológico
stU1aJo história?
natureza do PO tórica da
a anis
não conviria questionar-se sobre sistema e condiçio
deFoucault)segundo o qual aepisteme é
| 49
Microtécnicas e discurso
panóptico: um quiproquó 6
et punir
seulivro Sunviller Michel Foucault exa-
se organiza a "vigilância" penal, escolar e tnédlca no
séculoXIX. Ele multiplica sinÓntruos e evocações seu
nomear os agentes silenciosos de sua história (c01110se
a qualquer identidade verbal):"aparelhos" Instru-
¿Ae•sapassem
, 'mecanisrnos", "máquinas", etcnal incerteza,
da terminologia é, por SIsó, sugestiva. No entanto, a
Se:radebaseque constitui o tema do livro -- enorme quiproquó,
sócio-histórlco postula urna dicotomia fundamentalentre
e procedimentos técnicos, além de preparar o Inapa de
soluçõese Interseções respectivas. De fato, Foucault procede
de um quiasma: de que Inodo o lugar ocupado, no final do
XVIII,pelos projetos humanitários e refortnistas é, etn segui-
por esses procedimentos disciplinares
empreenderam a organização, cada vez mais
do próprio espaço social. Esse romance policial relata
htgóriade substituição de cadáveres, um tipo de Intercá:nbio
b teriasido
apreciadopor Freud.
o ocorre sempre com Foucault, o drama representa-se
vio
orças,cujas relações, por uma astúcia da históna,
dm o OPV
precedentesde Foucault,
151
do Olo I
tnverter„se, Por lado, a Ideologi,i
elos pré C)
seu trataniento revoliica0/iátuo
XVIII
projetos refortillst.isdo séO/lo
I(cgjljje,
acabar conj a ordália do Antigo
corpo a corpo Vjs.iV.i o
sangrentade
c (1]0 cra
do ret etn relaçào
conl urn valor particular,
sjsterna igualitário de penas, gradeióo pré ao
conietldo, e valor educativo tanto para o cojno
própria sociedade,
Mas, na realidade,os procedijncj)tos cjij
forças artnadas e na escola acabai)), rapidajncntc, por
anjplo e conjplexo, cldljor;jdo
etn relação ao aparelho judie 1,11,
Ilurnimsmo;as novas técnicas sio refinadas e aplicadas scnj tirso
urna ideologia manitesta.O desenvolvijnento do quadrjculanjent()
cellulaircl(para o aluno, soldado, operáno,
células 1,111ddrillage
ou paciente) transforjnao próprio espaço enj Instrujnt:nto utiliúcl
para irnpor a diqciphna,progralnar e Inanter «ol) vjgllánoa qualquer
grupo social. Ern tais o refinanic•nto da tecnologia a
atenção prestada a detalhes Illinúsculos prevalecern enl relação á teona
152
série de quadms clíniéos,
", Foucault empenha-se em designar
nópticos e classificaras '
"condições de funcionamento", as ' 'regras
de 'técnicas" e o»
•edirnentos' os diferentes "mecanismos",
"operações",
153
Ele cotneça liot
(essencjaltiiente,
iça) e, seguida,
que COt1SISte elll isolar
social e etn explicarsua
diliàlllica
nos dors seculos precedentes
ae (enx
e da tneatctna), esse Ilietodo faz sobres
e etil crescente proliferação
ele acabaria por identltlcar os Sinaisocultos
torna-se gradualtnente malsprecisa
e aetilllda na espessura do tecido ou do
socal
Essa historiográfica suscita, ao lilesmo tem-
154
C
pe qualquer é
reduzir 0
sociedade inteira a un) tipo doniinante funcionamentode
Trabalhos recentes
e único de
Serge Moscovici procedimen-
(1968)
sobre a
Pierre Legendre (1974) sobre 0 organização
aparelhojurídico medieval
revelarama existência de outras espéciesde
aparelhos
queinteragem, de maneira análoga, com a ideologia tecnológicos
e, duranteum
eríodo,acabam por ser predominantes, antes de mergulhar no
armazémdos procedimentos sociais; por sua vez, grande
outros
aparelhos
acabampor substituí-los na função de dar forma
l"infonnc/'la um
verdadeirosistema.
Desseponto de vista, ao lado de inumeráveismodos
de agir,
uma sociedade seria, portanto, composta por certo número de
práticasque, desenvolvidas de maneira seletivae exteriorizadas,
orgamzamsuas instituições normativas. Tendo pertnanecido"me-
nores",as outras práticas não organizann o próprio discurso,mas
limitam-sea perdurar, conservando as prilllícias ou os restos de
hipótesesinstitucionais ou científicas que são diferentes em cada
sociedade.Alé11Adisso, para todos esses procedilnentos, elasdispõem
dadupla característica, sublinhada por Foucatllt: serern capazes de
o espaço e a linguagenl a partir de Inodelosdominantes
organizar
ousubordinados.
2.A forniaçáo final ou fornia "plena" (neste exemplo,trata-sede
todaa tecnologia conteinporânea de vigilância e disciplina) serve de
pontode partida para a arqueologia de Foucault:assim,explica-se
ele. Mas
a coerência innpresslonante das práticas escolhidas por
procedimentos
podenlosverdadeirannente supor que todos os
O desenvol-
tiveram si Inesnnos essa coerência? A priori,não.
canceroso, dos procedimentos
vimentoexcepcional e, até nnesnno,
papel como arma
histórico
pareceria inseparável de seu
Panóptico«
controlá-las.Assitn,
contrapráticasheterogéneas e cotno meio de
práticas tecnológicas.
lar' ser Vilna característica de todas as
dos procedimentos
e
Ilielllantennente,por trás clo "rnonoteíslno" existência e da
da
Panópticos(Ioniinantes, poderíannos suspeitar
tilas.naosuprilllidas pelo triunfo histórico
aparelho particular,
Qual é o estatuto de um umavez
orcanizador de uma
se tornou o princí?10 tecnologia d que
exerce sobre ele o procedimento pelo qualho poder)
Que eáito aviasid
pri\hlegiado e transformado em
do resto, aparelhodo
nova espécie de relação é estabelecida por ele
disperso dos outros procedimentos depois que, finalm
ente
institucionalizadoem sistema penitenciário e científico?Tals
ele
156
obedecem a
dinamismos
mudanças fundamentais lógicos que lhes
entanto, ainda não nas instituições são próprios e
sabemos corno jurídicas e
utilizar os outros científicas.No
disso, continuam a procedimentos,
institucionais. Esse é nos interstícios
exatamente o caso das tecnologias
de acordo Foucault, carecem dos procedñnentos
da condição prévia que-,
ou seja,a posse de urn lugar essencial,
ou de um espaço
que a naáquina panóptica específicopróprio
possa
apesarde estarem privadas de lugar, funcionar. Tais técnicas que,
não deixam de ser
são"táticas" retóricas. Creio que, operatórias
em segredo, elas reorganizam
discursode Foucault, colonizam seu o
texto "panóptico" e o trans—
formam enl "trcunpe-l'a•il" [pintura que,
por artificio de perspectiva,
criar ilusão de objetos reais em relevo]
te
a culinária,
encontramos, aqui, sutis "receitas" para extralr
157
ENTRE CIÊNCI
E PSICANÁLISE:
159
'
' CIENCIA C FICÇÃO
58FOUCAULT, 1975: p.
9-13, a condenação de Damiens; p. 197-201, a
261-267, a "ferração" dos condenados; cidade assolada pela peste; P'
p. 267-269, a "prisão rolante"; p. 288,Vidocq (representante
da acoplagem direta e institucional
entre polícia e delinquência, na primeira
p. 296-298,Béasse (criança de 13 metade do século XIX);
anos, sem domicílio nem família, acusada
sido condenada a dois anos de vadiagem; tendo
de correção, em 1840, acabou por
da delinquência); etc. conhecer, sem dúvida, os circuitOS
59FOUCAULT, 1975:
p. 28, as quatro regras gerais; p. 96-102,
punitiva;p. 106-116,as as seis regras principais de semiotécnica
seis condições de funcionamento da
técnicasde disciplina;p. arte de punir; p. 143-151, as quatro
159-161, os quatro procedimentos para
p. 189-194, os três capitalizar o tempo dos indivídU0%
mecanismos de exame; p. 211-217, os
238-251, os três princípios três procedimentos do panoptismo; P'
do sistema penitenciário; p.
condição penitenciária"; 274-275, as sete máximas universais da boa
p. 276, os quatro tempos do
60FOUCAULT, "sistema carcerário"; etc.
1975:no início da obra, existe
um caderno trinta ilustrações (gravuras
e fotografia*
160
dc VIInaficção
Introduzir alterida-
c01110algo de óbvio,
o espaço
conveliil)oranea é, cons-
e voluntarianlcnte colonizado
que obedecelii a regras opostas.
de pensar pode ter discurso próprio porque
epistemologia
panÓptica triunfante. Assim,no livro de Foucault,
haveria tensào Interna entre sua tese histórica (o triunfo de um
sistema panÓptico) e sua própria maneira de escrever (a subversão
deum discurso panóptico). Em sua pretensão de desaparecer por
trásda erudição e de um conjunto de taxinomias que ela manipula
ativamente, a análise faz sonhar com um dançarino disfarçado em
bibliotecário.Assim, através do texto do historiador, perpassa um
risonietzschiano.
A guisa de conclusão, vou defender duas breves proposições
paraintroduzir a discussão:
objetos para uma teo-
I. Os procedimentos não se limitam a ser
de serem exteriores
11a'mas organizam sua própria construção. Longe
procedimentos
ateoria ou permanecerem no limlar, em Foucault os
para produzir a própria teoria; com
fornecem um campo de operações
construir uma teoria que
esteautor, encontra-se outra maneira de
e 0 gesto literário desses mesmos procedimentos.
PSCANÁilSE: ENTRECIÊNCIA E
162
História e estruturam
a é pertinente
torna-se o lugar de uni quando a prática
questionamento;caso
contrário,
163
A questão
00 decorrer
grande de restos, fragmentos
Durante a primeira etapa, a pesquisaou
catador cientifica
quando, ao exumar da
mantimentos ou roupas, ele transforma lata de lixo
essascoisas, os de
ponta de seu gancho no sonho da dependura
a
chegará a entrar; ou no sonho de casaem que
refeiçõese de ele
ele nunca chegará a conhecer. Etnólogo intimidades
em
de rua [clochardlinventa mundos que nunca potência,0
chegaráa
ele se limita a fazer ressuscitar seu sonho. Originalmente,
riador serve-se do mesmo prxxedimento ao o histo_
abordaros resquícios
coletados nos arquivos ou documentos: ele reconstrói
um mundo
que nunca chegará a conhecer. Ele permanece o
mesmo:só
segue encontrar o outro (um passado) através de sua
imaginação; é
um erudito e ainda não um historiador. Eu passava,assim,
entreos
mortos, surrupiando-lhes palavras perdidas que eu era incapaz
de
pronunciar; finalmente, eu me repetia nos fragmentosda linguagem
desses mortos que, sem meu conhecimento, me diziamsuaausência.
A força de exanunar essasfolhas de papel enegrecidas por
uma poeira multicentenária; à força de fichar um vocabuláriode-
sarticulado;à força de ser um erudito-improvisador[bricoleurl
nas
regiões silenciosas de Arquivos Municipais ou Departamentais;à
força de habitar nas salas de consulta das Bibliotecas,grotasemque
se "conserva" e veicula os cadáveres de outrora; à força de ler,sem
nunca ser capaz de entendê-las, palavras que se referem a experiên-
cias, doutrinas ou situações estranhas —eu assistiaao afastamento
progressivo do mundo, cujos vestígios eram inventariadospor mim.
de
Ele me escapava ou, de preferência, eu começava a aperceber-me
que ele me escapava. Desse momento, escalonado incessantemente
é
no tempo, é que data o nascimento do historiador; essaausência
fora
que constitui o discurso histórico. A mortedo outro coloca-o
OU
historiografia,
de alcance e, por isso mesmo, define o estatuto da
seja,do textohistórico.
tenha
Não pelo fato de que esse mundo antigo e passado
mover;
esboçado qualquer movimento! Tal mundo deixou de se
164
Ele altera-se, con10 é evidente, porque
modifico
Propósitode uma
das aldeias que foram Objeto de seu estudo em Mato Grosso.
No original,
disparus";cf. mais adiante, nota 72, p. 183.
165
estruturaçãoque determinaxao primerro olhar da
de formas do "oculto", emerge a
focalizadaneles. Nessas duas
em um discurso, em um tecido
deira história; ela vai articulá-los d
jatnais encerrado. Tal investigaçãode
Penélope,em um texto
surpresa de uma diferença recíproca
tipo particular desenvolve a
supremacia de um dos termos porque
que está tOrade questão a o
presente que se apresenta como
passadodepende do distintoe ele
resistência (dos documentos) que obriga
o relativizaenquanto 'urna
outro discurso. Esse passado que aparece,
o discurso a ser apenas ton
pro$ssivamente, organizado em Funçãode uma coerênciaoculta
(de uma morta, irredutivelmente ausente e diferente), desvelaà
historiografiaa situação panorânuca atual e particular que é, simul_
taneamente,pressupostae dissimulada por cada trabalho.
166
estrutura defende e exprlme esta
VIVO.
ela diz que algo diferente.aquisiçãoda expe-
enquanto No começo,
. cia à triagenl, "documentos" uma
(nas
olha de alguns dos elementos que estão Bibliotecas
envolvidosna
parte de sua atualidade; e seu
(C e
que há trabalhoconstitui
CIII
..pa.ado" na nnedida em passado exatamente no
sob diferentes formas, a resistência lugar
se encontra, do que já
A "estrutura" é um conceito-ferramenta que
esl<te.
resistêncla, a diferença
exprime,à
de urna que o trabalho histórico
aparecer entre um presente e "seu' passado.
0 trabalhohistórico, se é que ele tem uma significação,corres-
a "fazer aparecer "sortir"I a alteridade —como uma
ponde fábrica
'sort"l veículos a—e a produzir (no duplo
'faz aparecer sentido:
fabricar e mostrar) essa diferença constitutiva da história e constitu-
pelahistoriografia; por conseguinte, corresponde a relativizar o
em relação a um passado, por sua vez pensável na medida
presente
emqueele organiza uma ausencia. No entanto, o essencial é, aqui,
entre estes dois pontos: a ausência é, para o discurso
aarticulação
a condição de possibilidade que ele desvela ao desdobrar-se;
histórico,
é a ferramenta conceitual que permite "compreender"
ea"estrutura"
emamfestaressa ausencla.
168
corn o fim do isolacioms1110
que defendia,
a certeza, para cada enquanto
tácita, civilização, de ser o
centro. todo ou, 0
de ser o Ela está
é equivalente, associadaà experlêncla
certamente, relevante que sua
liniltes;e e, elaboração inicial te-
da análise das línguas, com
ocorridono terreno Saussure,ou da
com Lévi-Strauss.Aqui, portanto, uma nova
etnologia,
determina a compreensão do passado. estruturação
dopresente
A história e SI.Jascondições de possibilidade
(Da cronologia à "estrutura")
169
LHISTÓRIAE PSICANÁLISE:ENTRE CIÊNCIA E FICÇÃO
N.T.: No original.
NT: No original,
"table"que significa,
também, "tábua", "tabela",
170
ESVRUIURA
171
De qualquer maneira, subsiste 0 problema suscitado,
aqui e lá,
mental
também, um álibi) considerar —como uma coisaa mais, (sem dúvida
uma realidad
da história o que é, na perspectiva "estruturalista", a tablatura
das
Conviria, também, ser dito que a relação —história
e
interveio ainda em outros níveis e que a historiografia, emestrutura
foi o modo a partir do qual uma identidade particular
culturalse
tanto ao reutilizar o material de documentário, acumuladoconstituiu
por
tros, sobre seu próprio passado, quanto ao estruturar diferentemente
os fragmentos extraídos de narrativas produzidas pelo estrangeiro
(como se constata, atualmente, na historiografia negra, cubanaou
argelina). Para terminar, voltarei, de preferência, aos "espirituais"da
época clássica,selvagens do século XVII, limitando-me a dizerque
sua ausência,talvez, me ensinou a tornar-me um historiador,que o es-
tudo desse tema obriga a avaliar, no desenvolvimento de uma prática
científica,a aventura e os riscos implicados pela ingênua ambição
de "compreender" e que, por último, a modalidade "estruturalista"
dessa compreensão abre, sob uma forma particular (presente),o
problema constante da relação entre uma inteligibilidade e o quea
torna possível."História e estrutura": este título questiona a relação
de qualquer discurso historiográfico com seus condiçõesde pos-
sibilidadeou, de forma mais ampla, a relação de qualquerciência
com seus postulados epistemológicos.
172
| global, A Inanclra
os homens
XVII pcljsavalJ1as cl)trc a religião
Jijvcrsa, O recurso e a socieda-
CA atajncntc, á providência, a Deus,
(ItJal)dosc tratava dc crentes, pernutla-lhes pelo
compreender o
passavaTal cxphcaçào da socjcdade por referências
rehgosas
tornou-se,para nós, nnpcnsávcl; independentemente das
opções
cla dclxotl dc scr s'científica" O que explica e
o que deve
ocupanj poswoes Inverqas.
screxplicado
Aindarcqtasaber o que, atualrnente, nos permite
compreender.
o exemplo da feitiçaria: Lucien Febvre diz-nos
que, final-
mente,as fcltlcelra« e os feiticeiros manifestam-nos,
também, algo
dohomemdo século XVII, mas acrescenta ele no homem,
apenaqno que é humano". Esta fórmula, inspirada
acredito em
Cyranode Bergerac, supõe que Lucien Febvre sabe, por sua
vez,
o quedo homem é crível ou o que é humano; ou, dito por outras
ele dispõe de uma grade filosófica, de uma concepção
palavras, do
homemque lhe permite escolher, nas narrativas do século XVII,
o
queé "humano" ou não, o que é crível ou não. Pessoalmente,creio
queessetipo de divisão é problemático: nos é proibido, sem deixar
deserinevitável.Trata-se de um postulado que adotamos, uma po-
Slção
que assumimos em relação a todo esse passado,para sermos
capazesde pensá-lo.
173
HISTORIA E p I
174
o de W. E. Muhhnann
sobre os
dli (1968): enl uma ' 'região Messianislllcs
, superior", ele
as carnadassoclals superiores, a atitude racional
e a história
175
povo destituído de história. Limitar-me-ei a
apresentar
observaçÔesrelativas ao lugar dessa definição e ao papel da h. duas
Antes de Inals nada, a história tem sido associada Istória
, por
civilizaçãoocidental como uma de suas formas essenciais nós
é norlnal. No entanto, de acordo com esse modelo, julgou-seque
outros povos eram, ou não, dotados de história; temos que
portanto
a obrigação de retomar tal proposição. Por exemplo,a etnologia
Inostra-nos que, entre os índios, o tipo de relação com o passado
nosso; o mesmo pode é
completamente diferente do ser dito a respeito
da relação que a China estabelece com seu passado.Devemos,por_
tanto, localizar, relativizar, finalmente, "historicizar" nossa concepção
da histórla,pelo fato de que se constituem ou aparecem,atualmente
outrasconcepções culturais sobre a relação com o tempo.
Mas qual será a relação da história com uma sociedade? Parece-me
que a história desempenha o papel de ser uma das maneirasde de-
finir um novo presente. Por um lado, ela permite que um Presente
se manifeste como diferentedo que, até então, lhe era Imanentesob
na própria lingua-
a forma da tradição; ela executa tal procedimento
termo)
gem da tradição, mas "tratando-a" (no sentido industrial do
"continuum"cultural entre
como passado.Digamos que distribuir um
simultaneamente,
um presente e um passado é um ato que constitui,
dissuasão;ele opera
um presente e sua história. Trata-se de um ato de
elementossão
uma escolhano presente em que certo número de
lado,esse
considerados,daí em diante, como "passados". Por outro
e, portanto,
ato consisteem situar-se em relação a origens "históricas"
organizada em
em adotar um passado proprio e uma identidade cultural
efetuaum
função de uma decisão atual, seja política ou social. Ele
singularidade: nacional (a história de Cuba,
novo recorte. Ele cria uma
(a história do movimento operário, etc.).
dos Camarões, etc.) ou social
Ela dá sua
A historiografia enuncia e desenvolve uma decisão.
um ato
linguagema um "nós" que a torna possível; ela se refere a
analisar
criador de história (no duplo sentido do termo). E possível
esseprocesso sob duas formas: na história de nossa historiografia
ocidental;nas historiografias que vão surgindo, tais como a magre-
no
bina, a cubana, etc. No segundo caso, o fenômeno é mais visível;
176
. KIA
177
que vem do passado até nós, mas o que parte de nós e tende a
fornecer
certo tipo de inteligibilidade do que recebemos ou estabelecemos
corno
passado.Nesta perspectiva, o acontecimento éjustamente o que
dizer, também, Inversamente, que modif
a história. Pode-se um fato
tornasse
um acontecimento, e só pode ser qualificado como tal, por
causa
modificaçõesque ele introduz na historiografia. Não sabemos das
o
é um acontecimento. No entanto, para formar um Julgamentoa seu
respeito,um dos critérios tem a ver com as mudanças
que ele provoca; ou, dito por outras palavras,somente o uso quese
faz
do acontecimento é que permite qualificá-lo como acontecimento.
Deste ponto de vista, Maio de 1968 torna-seum acontecimentona
medida em que essaprimavera desloca nossa Inteligência do que a tinha
precedido e, por exemplo, das revoluções francesas.67
Eis, igualmente, uma forma de dizer que, se deixamosde ser
capazesde "pensar" verdadeiramente em termos de causalidade
não conseguimos também evitar o problema suscitado,OUtrora,
no sistema intelectual ontologista, cuja referência era a noçãode
causalidade". A relação das historiografias entre si, sua relaçãocom
o que as desloca, a relação dos discursos ou das narrativas com seu
conteúdo, culminam igualmente no enigma do real.
Outrora, o conceito de causalidade podia fornecer um respal-
do ontológico ao discurso historiográfico; atualmente, atravésdo
que afirmamos até aqui a respeito da história, talvez sejapossível
aprofundar a via aberta por Dilthey: ele situava o real do ladode
uma resistência encontrada pela investigação.A questão aparecia,para
alguns, sob a forma da facticidade: a razão, os discursos,as coerên-
cias socials, etc. continuam sendo um fato. Talvez, também, deveria
proceder-se a uma pesquisa, ainda mais aprofundada, das"condições
de possibilidade"de qualquer história, considerando que o realé 0
irracionalizável que permite cada racionalização, em suma, o ausente
que torna possível a história e lhe escapa. Como a história não cessa
de falar da morte, ao combatê-la em nome de novas ressurgências
sociais,ela não deixaria de falar do real que, por definição,lhe faz
falta.Mas, não será esse o estatuto de qualquer linguagem?
67[Sobre
sua análise de Maio de 1968,
ver DE CERTEAU,
PPP, 1994, p. 29-129.]
178
O ausente da história68
artigos,em que
de ISh1st01re".Conclusão redigida, com título diferente, para a coletánea de
Sidopublicado o cap.V (ABH, 1973). capítulo, p. 40-41.
Cf., neste IMO, história textual deste
Xo original, compte tradução, o termo "resenha
rendu, literalmente: prestação de contas. Nesta
corresponde sempre a essa expressão francesa.
•Lançado no este filme mudo
Brasil com o título Pastor de almas —e, em Portugal, O peregrino—,
I '923,do género por Charles Chaplin:
umforagido comédia, foi escrito, produzido, dirigido e protagonizado cidade,
livra-se do uniforme de preso e se disfarça de padre; refugiado em uma pequena
chegoua convencer
os habitantes, durante algum tempo, de sua função.
179
prática da separação; ele corresponde a um trânsito, passagem
de
O cojnentário deixou de ter a função de exumar o
texto,
coisa de que ele fala, ujna verdade que seria seu "fundo", Ele ou a
de envolver conl véus respeitosos, ou com anotações deixou
de unia "obra" nobre ou dogmáticas
o naármore de uma realidade
180
de particular),
na 111<t01-togvatra. trabalho da
tg:
precedentes Rio [as vezes]
resenhas críticas".
e Inscrita, portanto, enl cada
da
um deles,nem
pelo tvspaldo citação e das referências.No
sentido (conxo dltvçào) pernlltir um entanto, ela
"trabalho sobre os
dl<tanclarnento efetua-se enl relação
a essasobras,
.,steflnando-as enl pte-textos.A escrita que se engendra sobre
ladosacaba pov desloca-los, e Ilie leva em direçào
de algo que,
Uma heterologia?
Alélll dessa prática textual, emerge outra questão relativa,es-
ecialmente, ao discurso historiográfico.
A partir de modos —cuja enumeração não tem lugar,nem in-
aqui —,a hlstórla implica uma relação com o outroenquanto
estáausente,embora um ausente particular, aquele que "já era" ["a
como diz a linguagem popular. Qual é, portanto, o estatuto
essediscursoque se constitui ao falar de seu outro? Como funciona
heterologia
que é a história, logosdo outro?
Em vez de tratar, aqui, de uma questão que será desenvolvida
consiste
Outrolivro (CEDE CERTEAU, EH, 1984), meu intuito
de
EH 1984 (cap.1:"Faire
do trabalho historiográfico, ver DE CERTEAU,
181
em delxá-la aparecer e mostrar como ela emerge na
narrativa,
182
clenWlltos depositados (le
Ieli(llilaç'
) ; ele
a tornaassinulável, "compreensível".
Fato curioso: esse passado que se tornou convemente tas
comoOK"entes queridos" 72 do britânico Evelyn Waugh —é, no
entanto,restituído à sua definição primeira pelas narrativashisto-
riográficas.
Não é necessário que a ciência histórica abandoneo
campoem que ela havia sido posicionada imcialmente:ela deve
permanecer na região cultural do passado.Não é necessánoque
elatorne inteligível deynaiso que lhe foi confiado corno estranho.
Assim,a escrita historiográfica estaria elaborando, continuamente.
73
Apesar da permanência desse passado'
slogan, será impossível levar alguém a crer que, a partir do
o historiador venha em
a extrair lições úteis para o presente; pelo contrário, sua função consiste
conformar o "passado" à
inteligibilidade que organiza determinado presente•
184
ao denega-lo; ele serve-se do
silogismocom
, no qual
(1967 , p. 7 esseuso
1-72) reconhe-
Incessantelnente a narrativa ao
desdobramentode
a
alidade: historla deve aparentar ser o uma
Y desenvolvimento de uma
nossa
oe e s'a
de intercamb10 entre o Inesmo e o outro,
lugar de trânsito,
discursoapresenta alternanclas, além de obedecer a
polarizações
contráriasexatanxente, e sobretudo, onde ele é "sério": às
vezes,
o
transt-ornxa passado no modo a partir do qual se expõe uma
dog-
senxter a obrigação de apresentar provas.Há muito tempo a
serviçodos principes, a historiografia torna-se, então, a narrativa de
umpoder;nxelhor ainda, trata-se de uma narração dotada de poder
quando,de acordo com uma ordem estabelecida,ela empreendea
articulaçãodas zonas marginais que escapam às normas explícitasde
umasociedade (FAYE,1972). Com todas as garantias do verossímil,
elaserve-sede uma "doutrina" para guarnecer o espaçodeixado
vacantepelos mortos, assim como o desejo dos vivos em sabertal
vaziopreenchido.
No entanto, ela insinua, também, a falha de uma crítica no
mundorepleto de uma sociedade; a partir do modo do pensável,
elareintroduz a hipótese de uma diferença, a heresia de outras
coerências. Nas orgamzações atuais, ela marca a rachadurade um
irrealdiferente (no exato momento em que —e, talvez,porque —
elaapresenta essa possibilidade como o real de outrora). A escrita
no
historiográficacria "a-topias"; ela abre "não-lugares" (ausências)
Presente;às vezes, ela organiza sistematicamente pontos de fuga na
coloca-
Ordemdos pensamentos e das práticas contemporâneas. Ela
J.
-se,então,do lado do sonho. Eis o que já havia sido afirmadopor
maneira mais aprofundada,
Bentham74 e que a análise freudiana, de irreal
nosensinou: a alteridade do real ressurge na ficção,retorna no
185
- IA t PSICANÁUSC: ENTRE CIÊNCIA E
Os vestígios do outro
Atrever-me-ei, portanto, a retomar o problema
da históriaa
partir de um dos últimos mitos ocidentais, antes
de Toteme tabu:
Robinson Clusoé. Que Daniel Defoe enquadre seu
romanceno
estuário do Orenoco quando, afinal, o historiador usa
a cronologia
para ordenar sua narrativa, não passa de uma transformação
de código.
Pode-se traduzir em termos de dataçãoo que o romanceprojeta
sobre o espaço geográfico,a saber: o longínquo é o lugar em que
uma razão estabelece e encontra seu outro.
Em Defoe, Robinson torna-se chefe quando impõeuma
razão classificatória e tecnicista à desordem da ilha: ele arruma
i os objetos e cultiva os elementos. Sua atividade,dotadade traços
cartesianos (DEFOE,1959, p. 69), assimila a alteridade selvagem
como produtos fabricados a partir de um "método" e de regras.
Ela transforma, também, o produtor em sujeito da história:"meu
trabalho, minha aplicação, mmha indústria". No entanto, essaco-
Ionização voluntarista e moralizadora é destruída, subitamente,
embora temporariamente, pela série dos medos, pesadelos,agressões
violentas ou mobilizações defensivasque entram no romancecom
a descoberta do "vestígio humano de um pé descalçoperfeitamente
decalcado na areia" (p. 153). Seguem-se, então, cinquenta páginas
que relatam as desordens do "método", as irrupções do sonho,a
ambivalência de uma antropofagia que, alternadamente,exerce
fascínio e provoca horror (p. 153-196). A ética tecnicista altera-se
a
163-211)'
75No texto que Freud dedicou a esse tema (1940-1952,t. XII, p. 229-268;1933,p.
De qualquer
Unheimlichetraduziria "inquietante familiaridade", em vez de "inquietante estranheza".
privilegia-se
modo, nesse famoso texto sobre o intercâmbio interminável entre fantástico e real,
Unheimlichkeit"
a ficção literária; segundo parece, esta "compreende recursos suplementaresde
(DERRIDA, 1972, p. 300, nota 56).
186
evotlco e alucinatório do
outro. Esse
encerra-se a chegada do
estrangeiro
"escravo" : Sexta-Feira, "meu salvoda
Sexta-Feira". O morte
pode ser retomado, duplicado
ascoisas pelo poder domlínio
servidor. exercido
bre o
estranhadivisão da técnica e do pesadelo
no século XIX, serão parecedesenhar
oslugares que, ocupados,
económica e pela interpretação respectivamente,
ciência dos sonhos. Ela
corno se extrovertem dois modos da relação mostra,
sobretudo, com o outro:
(económica) e a ficção (do sonho). Nos
aracionalidade últimos dois
a históriaparece ter a tarefa de reconciliá-los,mantendo
séculos,
187
o desdém do "sentido"
que ele organiza e a perda
é sua causa. Uma morte é o fantasmaque irremediável
o historiadornão
pode
O lugar em que Robinson
Crusoéfazia o fantástico
pertinente: na praia, na do império insular é
atividade metódica. O historiador criadopor
encontra-se, também,
diante do mar de onde vem o homem nestelugar,
que deixou vestígios.
entanto, diferentemente de Robinson, No
ele sabe que o outro
voltará. A narrativa da história deveria, não
portanto, interromper-se
o estrangeiro não voltará a surgir do mar; aí:
ele já sefoi [apassél.
De fato, por ter visitado as bordas de sua
terra e por ter ficado,
à semelhança de Robinson,"perturbado" pelos
vestígios da ausência
marcados nessas margens de uma sociedade,o historiador
retorna
alterado,mas não silencioso.A narrativa começa a falar
entre contem-
porâneos. Parece-me que ela pode falar do sentido que se
tornou
possível pela ausência quando não existe outro lugar além do dis-
curso. Ela diz, então, algo relacionado com qualquer comunicação,
mas elabora tal relato sob a forma de lenda a bom entendedor,
meia palavra basta —,em um discurso que organiza uma presença
faltante (DE CERTEAU, 1972) e conserva, do sonho ou do lapso,a
possibilidade de ser a marca de uma alteridade alterante.
Deste modo, a escrita encena o "vestígio" de um pé descalçona
areia; ou, de preferência, ela refere-se a isso como a seu outro. Em sua
1973,p.
escultura Personnage (esculpida em 1968; ver RABANT-LACÔTE,
3-5), Miró combinava a representação gráfica de um rosto com duas
marcas de pé: por um lado, uma escrita significante (a silhuetadesenha-
da pelo escultor); e, por outro, a impressão silenciosa (a marca deixada
pelos pés). Elas se remetem uma à outra, evocam-se e alteram-seem
uma relação que associa a produção de um discurso sobre o ausente
(o ícone) à silenciosa garantia abandonada pelo ausente (a marca).Essa
maneira de memória" articula, sem confiná-los, os vestígiosdo outro.
188
CAPÍTULO IX
189
Cotronjoio tet)lro-cloüxl, Psicanálise e mística
191
se traça soa e, siii\ültaneailiente, o
próprio
ssadode seu A os as viagens
os catninhos\ ou, ao deseja-sepetdet
paisageni e A mística apresenta-se processo
evanesce o sentido dos objctos, a cotneçat pelo próprio l)eus,
tunçào tanto de encerrar como
se ela tivessea epist('ine
religiosa,
suoextoao Olarcar o fini de dia da cultura, Parece-me
que,
relação o nosso tenjpo, as tentativas analíticas exercem
função histórica senrelhante; elas ennpenham-se em liianifcstata
defecção de cultura enr seus representantes ("burgueses')
e,
por esse deperecirnento de urna economia significante,elasesca-
vatu o lugar de Otltraque seria o além do que aindaservede
suporte à critica analítica. Nesse aspecto, a mística e a psicanálise
pressupôelll outrora, relativa a Igrejas "corrompidas" ; atualmente,
através do "mal-estar na civilização" a experiência, tão "clara"e
intoleúvel para Schreber, "que há retomando a fala de Hamlet
algo de podre (fatil)no reino da Dinamarca" (SCHREBER, 1903,p.
203; 1975, p. 170).
Esse horizonte de questões encontra-se fora de meu intuito,
que se limita a circunscrever o termo Luder:este nomeia o sujeito
como relação com a decomposição do corpo simbólico,instituição
no
identificadora,além de conotar, portanto, uma transformação
estatuto da instituição e enl seu modo de transmissão.
192
do ee I Deus.
é
ele
os
A palavra condena ser
e escutada no do espetáculo
oferecidopela
(Ali,nacllt)de Deus". A fala considera
nula a
Mals exatalnente, essa vocaçãopara ser
dona. devassaprofere
que serve de suporte epifania divina,
da
o
Schreber: ela é marca
por gravada ou escrlta
adnliraçàodiante do "grandioso" e do "sublime".
seu corpo
Ditada por
o do não
dever-ser
qualquernome "próprio" impõe ao sujeito uma
introduz
conhecido que é uma vontade do outro; tal apelação por uma
filiação nascimento,
de sentido,
em vez de uma filiação de a ver com
trocade pai. nome tem
Sob esse aspecto, a atribuição do
193
o totnance faniiliar: ela é adoção na e pela família nobre
que
o lugar da família obscura. No caso de Schreber,por mais tonia
tante" que seja o nome recebido, ele não deixa de ser o Insuk
uma adoção pelo deus Arimã que, por suas"falas autênticas" sinalde
seus "sentimentos verdadeiros", se torna prÓximo e e
"benfazejo"
Ser chamado "lixo" ou "safado" é ser adotado pela família
nobre.
Existe aí uma estrutura que tem funcionado em qualquer
"família"
religiosa,antes de ser encontrado nas instituições ideológicas,
polí-
ticas ou psicanalíticas.
Esse nome imposto pelo outro tem, igualmente e, sobretudo
a característicade não depender de nenhuma autorização."Emsi
mesmo, ele significa algo que remete, antes de mais nada, à significa
_
ção enquanto tal." O nome não é autorizado por qualquersentido;
pelo contrário, ele autoriza uma significação,à maneira do Poema
que não tem nenhum precedente e cria possibilidadesindefinidas
de sentido. No entanto, isso ocorre assim porque o termo Luder
desempenha o papel do que é incapaz de iludir; em vez de ser crível,
ele leva, sobretudo, a crer. Seu estatuto, diz Schreber, consisteem
ser veraz e autêntico (echt).A língua fundamental responde,aqui,
a uma necessidade geral: "é necessário que, em algum lugar,exista
algo que não seja ilusório"; a própria ciência supõe que "a matéria
não é trapaceira" de modo que, se "nos equivocamos", pelo menos,
"ela não nos engana" (LACAN, 1981). Para Schreber, o que garantea
verdade de todo o resto e torna possível a proliferação interpretativa
de seus discursos, assim como sua lenta metamorfose em corpo de
prostituta, é esse nome no qual ele acredita sob palavra,essesigmfi-
cante que vem do outro à maneira de um toque, essavoz de registro
sobremaneira grave que impressiona seus nervos e deixa uma marca
no corpo —efeito benfazejo produzido nos nervos pela "enunciação
direta de uma afetividade real". A crença é baseadana tonalidade
de uma voz e ela leva a crer que se é reconhecido, conhecido,ate
ela
mesmo amado.Aqui, com sua autorização, Schreber acreditaque
o institui, finalmente, em alguma parte, fixando-lhe um lugarque
põe termo à sua deriva, além de conferir-lhe lugar definidopelo
nome com o qual é chamado por ela.
194
úto, a
teu nonxe é Lilder. Ela é
110que ela dita:
ele diz. os nervos de Schreber pertorruático:faz
a-se apenas de uni conAeço. Ao acreditar nisso, ele obedecer-lhe;
nome e tera vontade, diz ele, de "entregar o "encarnará"
do corpo de
corpo Ilielhor
semelhança uma puta" (SCIIREBIER,
desde o IAAonxento 1975,p.61).
o entrega, enl que acredita.Seni
descendência e, até mesmo, contra o
qualquer
in próprio interesse,ele
Ele transforma-se decide
sumir a situação. no corpo do significante;
ora, a
alavraescutada designa precisamente essa transformação. E mais
do
um estilhaço de sentido, cravado na carne. Ele adquire valor de
:onceitoJá que, ao circunscrever o objeto da crença, articula também
de crer, que consiste em passar do corpo desfeitosem o
operação
nome —"lixo" que deixou de ter nome em qualquer língua —para o
corpo"refeito" para e pelo nome:"puta" conformada ao significante
dooutro.O significado da palavra, ao oscilar entre"decomposição"
e"safada",designa, em suma, o funcionamento do significanteou
arelaçãoefetiva de Schreber com a lei do significante.Ele exprime
a condiçãoe o efeito da crença na palavra quando ela se manifesta
comoidentificação ou salvação.
Em vez de particular, trata-se de uma loucura geral.Ela serve
de
de suporte a qualquer instituição que garanta uma linguagem
apre-
sentido,de direito ou de verdade. Schreber, enquantojurista,
dificilde
sentasomente a particularidade de conhecer seu segredo, que
daqueles
escutare "insultante"; ele não faz parte do número
Do
respeito. mesmomodo,
podempermitir-se ignorar tudo a esse
a outros—
umtão grande nÚmero de místicos que não atribuem da palavra
"insulto"
Consideradoscomo "fariseus" ou "anormais" —o aparência',
pela "bela
evangélicaque visa a "podridão" pressuposta sabem que
justiça;79 eles
Institucional e sepulcral, da verdade ou da também,
ensinaram-lhes,
sàoseus destinatários; suas noites místicas de Deus,
verossimilhança
tipo de enterramento condiciona a corpo servede
(analítica) do
tipo de falta (imemorial) e defecção de desvelamento
tipo
suporte ao reconhecimento do Nome, e que
latim.No
em grego,e caráter"insultante
de de Mateus 23 , para o
sãoLucas a atenção
11,45, um doutor da Lei chama
195
de podridão é, simultaneamente,0 efeito e a
da crença
Vilnajustificação (DE CERTEAU,
FM, cap. I, 1982).
Da torturaà confissão
O alinhamento do sujeito sob o signo da dejeção
é o pontopelo
qual se implanta a instituição do discurso "verdadeiro".
E essedis_
curso Instituído transmlte-se ao produzir sem tréguas,nos
"suJeitos"
sua condição de possibilidade, a saber, a confissão "benfazeja"
e
para cúmulo, verídica —de que eles não passam de podridão.
A essa
lei astuta da tradição-transmissão de uma doutrina nobre, pode-se
acrescentar um procedimento extremo que proliferousemprenas
beiradas das instituições de verdade e que, bem longe de decrescer,
à semelhança de um fenómeno arqueológico da história, não cessa
de se desenvolver para tornar-se, cada vez mais, uma "prática admi-
nistrativa regular", uma "rotina" política: a tortura. 80
Conviria indagar-se sobre as alianças ocultas entre a místicae
a tortura: elas têm aspectos aparentemente acidentaisou factuais.
Assim, a coincidência entre antigas técnicas ascéticas e práticas
atuais de tortura: por exemplo, as formas de privação de sono em
Henrique de Suso (1295-1366), místico renano, assemelhando-se
bastante àquelas que são utilizadas nas prisões brasileirasou gregas.
Não é também, de modo algum, um acaso se os trabalhos sobrea
mística se desenvolvem durante os períodos de totalitarismo, como
ocorreu na França durante a ocupação nazista, sob o regimede
Vichy. Esse fato deveria ser equiparado às diferenças entre as fi-
guras históricas de uma radicalidade evangélica, no século XVII:
sobretudo, "místicas" nas monarquias católicas, por exemplo,na
Espanha e na França; e, de preferência, "proféticas" nas estruturas
mais democráticas e reformadas das monarquias inglesa ou nórdi-
cas.81Tais experiências místicas postulam a aceitação de um poder
"absoluto" que não se deve, ou já é impossível,transformar,alem
LAURET;
80Em uma literatura abundante, ver AMNESTY INTERNATIONAL, 1973 e 1977;
LASIERRA, 1975; LONDON, 1968; PASQUALINI, 1975;VIDAL-NAQUET, 1972; aí
81Para - e se
0 século >WI, ver, por exemplo, OZMENT, 1973; ou, para 0 século XVII
1915'
tipos de experiência assimiladosdemais pelo autor - KOLAKOWSKI, 1969; e DE CERTEAU,
196
ao suoelto os questionamentos de
nem o objeto. que ele
representação, não poderia
pese modo, deparamo-nos com um aspecto
a tortura procura produzir a aceitação maisfundamental
de de um
pela confissão uma perversão: afinal, ao discursode
torturar sua
pretende reduzi-la a ser apenas isso,
um lixo, a
carrasco, além de ser, sabe que saber, 0 que
o próprio é, mas sem
confessá-lo.A
deve ser a voz dessa safadeza, denegada por toda
suporte, por toda parte, à parte, e que
servede representação "
da ompotência"
do
regime,ou seja, de fato, à "imagem gloriosa" de si mesmos
a seus adeptos que tal
regimefornece pelo fato de reconhecê-los;portanto,
eletem de assunur a posição do sujeito a partir da qual funciona
o
teatroda potência identificadora.
No entanto, essa voz será, também, sufocadana sombradas
masmorras,jogada nas noites do suplício, no momento em que ela
confessado sujeito o que torna possível a epifania do poder; trata-se
deuma confissão desmentida. A voz só pode ser o outro, o lmnugo.
Eladeve ser, simultaneamente, escutada e recalcada: escutada por-
que,ao exprimir a podridão do sujeito, ela garante ou restabelece
uma"filiação" —mas em segredo, para não comprometer a Imagem
emque a Instituição respalda seu poder de assegurar a seus adeptos
o privilégio de serem reconhecidos. Ela será exigida, mas para ser
cochichada nos corredores íntimos da instituição.Grito murmu-
rado,obtido por um suplício que deve meter medo sem provocar
escândalo,além de legitimar o sistema sem desestabilizá-lo.
A vítima está apta para essa operação, precisamente porque ela
vemde fora, trazendo a confissão que é indispensável ao funciona-
ser
mentointerno da instituição, mas que, ao mesmo tempo,pode
tam-
exorcizadacomo se fosse a ação de um adversário;é verdade,
instituição
em,que ela é o inimigo. O estrangeiro ou o rebeldeà
tolerável (a não ser
dátestemunho de uma ambição que, aí, não é —
a um discurso
hipocritamente):de fato, seja de que maneira for,
(um objetivorefor-
Político(um projeto revolucionário), religioso poder
mista),até mesmo, ele supõe o
—
analítico (uma fala "livre")
reconstruir a ordem da
derefazer a de
instituição. A essa pretensão tortura opõe a lei
Istóriaa partir "contestadora", a
de uma fala
197
da instituição que, à fala, afeta o papel inverso de ser apenas
98
O aspectoperverso no procedimento da confissãoé
que, de
qualquernxanelra,ele tenx a certeza de acertar o alvo.A semelhan-
de Schreberisolado no hospital psiquiátrico de Sonnenstein,
ça o
torturadoestá privado das garantias coletivas que garantem a "nor-
malidade",entregue à parafernália de técnicas que desfazemseu
corpo e se obstinam em comprovar-lhe sua traição, sua covardia e
sua
insignificância.Ele perde o álibi de filiações políticas,ideológicas
ou
sociaisque o protegiam contra o que o nome insultantelhe ensina
a respeitode si mesmo. Essa atribuição do nome não seria, de fato,
a expressãodo que ele é? "Sou perfeitamente isso.Luder."O nome
articulana linguagem o aspecto que faz esquecer as solidariedades
de outroras-:esse "real" oculto por trás de uma frágil apropriação
e propriedadede si. Essa boca abre para o que há de podre sob o
reino das relações soclals ou militantes. Essa coisa pronunciada e
recebidaestabelece relação com a revelação, dificil de entender; seu
desnudamentomístico e sua elucidação analítica constituem —a
partirde modos inversos, embora na mesma solidão —o começo
ou o princípio de outra viagem. Convém se questionar sobre os
efeitosdessa confissão, sobre o que ela permite ao iniciado e sobre
o proveitoque uma Instituição tira de semelhante enucleação.
Há do outro
Por saber isso,o torturado pode ficar completamente subjuga-
do,instrumento passivo do poder, ou arrogar-se todos os direitos,
enquantoutilizador cínico de seu segredo: essasduas figuras existem
entreos servidores do sistema —aqueles que verificam a revelação,
conformando-seao nome, e aqueles que tiram proveito dela ao
outra
revesti-lacom um nome atraente. No entanto, apresenta-se
saídaque deixou de ser uma resistência respaldadana "pureza" de
não
umamilitância ou na "majestade" de uma causa e que também
e 0 jogo dos "corrompidos" na instituição do poder. Ela indica-se
emum movimento que, em vez de uma denegaçãoou perversão,
o resistente
Não se deve "esquecer" entre torturados; por exemplo,
a solidariedade desenvolvida vitória da tortura
que,durante o mesmo os nomes dos colegas.A
período do suplício, repetia para si
Consisteem apagar a lembrança salvo Luder.
de qualquer outro nome,
199
isso,um lixo; mas,qual é o
seria algo como: "Sou apenas
que o sujeito
Ser um lixo não implica necessariamente tenha d
identificar-secom "isso" ou com uma instituição que lhe garanta
"cobertura". Algo do real sobrevive a essa defecção: uma história
haja real além
lutas, outros sujeitos.Talvez, até mesmo, não daquilo
que deixou de aparecer suscetível de fixar uma identidadeou de
merecer o reconhecimento a caminhantes.
Em suas narrativas, alguns torturados indicam em que ponto
de desfalecimentoocorre sua resistência.Eles haviam "resistido"
de acordo com seus depoimentos, por terem suportado (talvez,
até mesmo, convenha dizer: tolerado) a lembrança de colegasque,
por sua vez, não eram "lixo"; por terem conservado presente a luta
em que estavam envolvidos, ao passo que ela sobrevivia, intacta,ao
"aviltamento"deles, sem desonerá-los nem estar dependente dessa
situação;por terem escutado ainda, no ruído dos suplícios, o silêncio
da cólera humana e uma genealogia de dores dos quais eles eram
oriundos, sem que, no entanto, pudessem tomar a defesa ou esperar
algo disso;ou por terem rezado, ou seja, suposto uma alteridade,
Deus, de quem não recebiam nenhuma ajuda ou justificação e para
quem não tinham nenhuma utilidade, nem prestavam nenhum ser-
viço —exatamente o que um antigo rabino visa ao dizer que rezar
é "falar para o muro". Essa resistência escapa aos carrascos por ser
absolutamenteimperceptível; ela organiza-se precisamente no que
escapaao próprio torturado, no que existe sem ele e permite-lhe
escaparà instituiçãoque só o assume como filho adotivo ao reduzi-lo
a isso,um lixo. Semelhante resistência não se respalda em nadaque
lhe pertença;é um "não" preservado nele por aquilo que ele não
tem. Oriunda de uma defecção reconhecida, ela é memória de um
realque deixa de ser garantido por um Pai.
Para os místicos,também, o começo é uma destruição da dig-
nidadehumana —mesmo que essa
corrupção assumida pelo sujeito
e que, muitas vezes,
acompanha sua teatralização corporal (feridas,
infecções,purulências, etc.)
seja intolerável para os pesquisadores
conformistase denegada sempre
O "ego pelos intérpretes "humanistas
estigmatizado" —para retomar uma
Benn (1956)—é expressão de Gottfried
o lugar do desfalecimento e
da decomposição em
200
relação entre o
lxx.) e te (há do outro)
obtem-se unia
pelo -puro
no durante ou
XVII: apesar
você. de
prestando-se a
nio de para 0 Onente 0
separado; há uma aparência qual
-- um Fera IElorsl
é. essa figura historica e patetica de do
uma te pensada
condenação nio passa de uma
variante da estrutura
Eckhartdefiniu pelo conceito de Gelassen/ltir que
(k'el,izenht'ir):
%rigmal,"ser" e "estar".
201
crer que há do outro (La Subida dei Monte Carmeio,11,4).
nústicos, de fato, há sempre o outro de quem, em
princípio,nada
lhes cabe de direito. E o outro, sem retribuição. Ele
ex-iste,
norne e sem nomear. Sern
Sem dúvida, a expressão —há do outro —apresentar-se-ia,
então
sob dois registros; ora, aqui, suponho que já não somos
capazesde
considerá-los, diferentemente desses místicos, como
idênticos.0
primeiro remete ao papel do significante, a uma função da
lingua_
gem, ou seja, "Deus": então, trata-se do fragmento Insensato
que
impede qualquer apropriação, é o pedaço de diamante que restaura
o "cada vez mais" ou o "cada vez menos" em relaçãoa cadasaber
e a cada fruição. Mas o há tem a ver, também, com o sentidodo
Es gibt heideggeriano: "dá-se" algo. Então, Deus é o fora que está
dentro, uma intimidade da Exterioridade; parece-me que os místicos
já se questionavam sobre a juntura entre essesdois funcionamentos
do "há do outro", ou de "Deus": a certeza do primeiroinsinua,
muitas vezes, a verossimilhança do segundo ou conseguemantê-la
em suspense e tornar tolerável sua incerteza. De qualquermodo,o
que é pensável a esse respeito, para mim, atualmente (por razõesque
não associo a uma anomma e fictícia epistemecontemporânea,mas
a fixações muito mais particulares e que, aliás, questionamminha
abordagem "masculina" desses místicos) é o viés pelo quala mística
1975,p.
é a "ciência da única probabilidadedo outro" (SCHEFER,
141). Essa ciência afeta, ao reconhecimento de uma podridãono-
meada (apelativa, à semelhança de uma vocação), uma aberturapara
a indefinida probabilidade do outro.
202
refazer pureza' as-
1110dclosl ao tigt1Va Vllt,l(1()
sumida
ou
adotl\a nobre adeptos previaIlicnte
de sere
de« sc
oua pureza 018lunnavla:no «egtllldo, a podricláo
é o origi-
nário,
rexrlaçio e rentabilizada pela Instittllçào,ao encobri-la,
As {alidadesde Illiclaç.io e de translillssào poster lores diferem
e
posicicnalllo stilelto relações Inversascom o poder e o saber.
A partir de três experiências esboçadas por nunn, pergunto-me
sea única saída é unia retorrna baseada enl urna ficção de pureza
(ateoriaaparece al con10 denegação) e em um conservadorismo
apoiadoenl uma exploração da podridão (a teoria desempenha.
desdeentão, a fiançào de ocultar seu papel efetivo). Por falta de
geral (inexistente),lililito-me a algumas hipóteses relativas
aosreferencms adotados por mim.
O presidenteSchreber,a quem é atribuído o qualificativode
lixo,constrÓi um sistema a partir de seu aviltamento; ele encarna seu
nomepor ser megera, embora megera e prostituta de um Deus que
"nãotem comércio com cadáveres" (SCHREBER, 1903, p. 65; 1975,
p.60)e que, por sua vez, não passa de uma prostituta (Hilre•,p. 384
e p.278).O fim do mundo que obceca esse"profeta" da ausência
dooutro, a catástrofe do Juízo Final que o engole eru sua enorme
abertura, tudo isso se Interrompe com uma palavra"que tonxa o
lugardo que é destituído de nome" (LACAN, 1966, p. 535). E ••ele
voltaa construir o universo" (FREUD,1954, p. 315) nese preciso
lugar.Génesede um mundo a partir de unia palavra.Produção de
203
essa
aposta extenuante, ele engendra 0 1101110A'êneo,
nada ao tecer a ele é a
dos raios divinos, ele que
que está habilitado a borrar o Inundo poderá,
inteiro"
Esse discurso que escapa à instituição,
ao tomar seu
poderia ser equiparado a grande número de discursoslugar,
se atribui o qualificativo de espirituais, a que
proféticos ou místicos
corn a seguinte diferença: nxuitas vezes, eles
não se edificam
partir de uma palavratão verídica.No entanto, a
tal constatação
não se refere aos místicos que Inencionei, na
medida em que
a própria itistituiçãoé 0 011troem relação ao delírio
delese que,
neste aspecto, ela tem pertinência. Desse ponto de
vista,nãohá
desaparecimento do outro, mas antinomia entre a
nomeação,
poema sem qualquer autorização, e a instituição que
tendea
controlar, retomar, alterar o poema, impedindo sua circulação
a não ser em versões comentadas ou corrompidas.No entanto,
o debate é mais acirrado: trata-se de saber se, ao recusar-seem
substituir a Instituição por um delírio, o místico não estána posição
de se alinhar com ela e, por essa conformação, de eliminar o outro,
voltando ao mesmo.
Tal é, de fato, o jogo da instituição: ela albergaa podridão e, ao
mesmo tempo, a designa. Atribui-lhe uma posição, embora circuns-
crita, constituída em segredo interno: entre nós, você não passade
uma megera, de um sujeito supostosaber.Ao albergar essa"podridão",
ela toma seu encargo e vai limitá-la a uma verdade conhecidae
pronunciadano Interior que permite ao exterior outro discurso—
desta vez, nobre —da manifestação teÓrica. Uma pichação, em uma
sala de cinema de Paris, levava a ler a transgressãoque ela rejeita:
"Não escrevamnas latrinas, caguem na escritura." Schreber passou de uma
para a outra dessas duas transgressões.No entanto, para o sistema
Institucional, o fato de cagar nas latrinas, no interior, é a condição
para que haja teoria no exterior. No interior, "velho safado"é uma
expressão amigável que estabelece a verdade de um companheirismo:
aplica-se apenas a quem é isso mesmo. Tal
"intimidade" institucional
é a única que torna possível a
habilitação a proferir publicamente
o discurso do, e sobre o, Outro.
204
A DA PODRIDÃO:LUDER
cvente<.
de pelo fato de retirar o que eles prornetelll.
resdecredibilidade Não
Seráque entretenn,l
um homólogo dessa
estrutura deve ser reconhecido na articulação aristotélica
e matéria?Esta
última decompõe, se dissol\€ (apodrece?), e. sunul-
tanearnente, (li)'lc) é, para Aristóles, o que se à "matéria" (algo
o que honw•tll.Dar
de indeterminado se opõe forma, como uma mulher ao
em defecção): será esse o papel da instituição?
205
CAPITULO X
207
vxunptvender; dispõe de audiêncna aliássnão
ele que irrita as leis aparentes da publicidade, Issodesejada
lhe acontece
idade etn que não se reconrça a vida, De qualquer modo,
é isso,
'Apercebi-tne de que nunha caniinhada era da do ttào
saber de nada a esse respeite" (LACAS,1975a, p, 9), Nenhum
tuissosseja relação à televisão, aos cursos nxinistradosno
melhor
período da universidade de ParisVIII —Vincennesou às conferências
no exterior. Pedantisn10,sem dúvida (não será,também,
um jogo?), essa retirada é o gesto violento que faz seu pensamento
e do qual emergem todas as suas proezas. Ele cria a fala tal como
teoriza a seu respeito e a torna suporte do ato.
Lacan não pertence a ninouém. Ele não está aí, nent caiu na ar-
madilha do próprio discurso em que os fiéis acreditam confiná-lo,
tantpoucose vinculoua uma instituição e a uma genealogia, nem sequer
i às que lhe dizem respeito pessoalmente. Fala e está sozinho: o mesmo
combate. Ele é Outro, tal como assina este testamento de 1980:"Se
ocorrer minha partida, estejam certos de que o objetivo é o de ser,
finalmente, Outro. E possível contentar-se em ser Outro como todo
o mundo, após uma vida passada a pretender isso, apesar da Lei."87
E isso ocorreu. O passante partiu; não cessou de partir, colocando,
no lugar de seu corpo (corpo fisico, corpusdoutrinal, corpo social),
OSSIgnificantes indutores de um "discurso" ["parole"] que se chama
"Lacan". Essa política da substituição termina no momento em
que ele se torna "Outro como todo o mundo". Subsisteseu nome
perto da tumultuada Ecole em que ele está enterrado, à semelhança
das sandáliasde Empédocles,88 na encosta do Etna; os "escritos" não
passam de sandálias desse passante, o efeito da retirada que serviade
suporte para seu dizer.Portanto, neste texto, não estou ligando para
o elogio fúnebre89(" teórico" ou não) que um grupo pode lavrar
II de
87Em 15 de janeiro de 1980. Epígrafe do número especial do cotidiano parisiense,Libération,
setembro de 1981 —aliás, a melhor das homenagens prestadas a Lacan após seu falecimento•
Um personagem que obceca os textos lacanianos em seus exemplo'
momentos decisivos.Ver,por
LACAN, 1966, p. 320, etc.
89N.T.: No original, tombeau.Esse de
termo significa também, túmulo; em outros trabalhos,Michel
Certeau usa o "conceito" tÚmulo
escriturário,
208
proveito ao utilizar esses "escritos" o "bern da
de que Lacan se esquiva (LAC\N, sociedade"
o iliipevatlvo 1986 cf. últilna
do Seniinário de Não tenho
vontade de repetir
de identificar o ato que transforllla
tallição,111as seu discurso na
A tragicomédia
O será lueti corneço: os ultilnos anos do Senxinário.
Diz-se,
então:o velho perde seu vigor. Onde estão os Seminários de outrora,
iniciadosno Hospital Sainte-Anne (1953), reservados a uma plateia de
analistas-estudantes?Nessa ocasião, os participantes encontravam-se
"entresi"; nos textos freudianos, o Mestre talhava as peças de um
organonpsicanalítico (o ego, as psicoses, o objeto, o inconsciente, a
transferência,etc.; 1953-1963), antes de se concentrar sobre a ques-
taodo Outro e sobre os conceitos corolários de "objeto pequeno
a" e de "sujeito barrado" (1964-1974) Durante esse segundo
período,a situação começa a deteriorar-se. Na sala de Ecole Nor-
maleSupérieure que serve de teatro a essas operações, desde 1964,
o públicocresce, acumula-se, transborda de forma cada vez mais
incontrolável; o lugar "decente" (pensem bem: a Ecole Normale91)
{calotado por toda a espécie de indivíduos e coisas.Em 1968,a
retorianão agiienta mals a "sujeira" predominante e, para rechaçar
a desordemintelectual, alega a desordem fisica. Uma vez mais, Lacan
desloca-se:ele deve transportar, alhures, a horda que é a doença de
suafala.Com sua flauta, ele a conduz ao Panthéon(ao território dos
mortos).No entanto, ao mesmo tempo, ele entende instaurar lugares
decentes"["propres"l, por um ataque de surpresa dirigido ao depar-
mentode psicanálise (na universidade de ParisVIII —Vincennes);
ela fundação de (69, rue
uma "sede" para a Ecole Freudienne
laude-Bernard,Paris); e pelo fortalecimento dos procedimentos
Sobreesse
percurso, ver o esquema apresentadopor
MILLER, há um grande número de interpretações;
1981, p.7-8.
NT vale rue d'Ulm. ao lado
lembrar que a Supérieure, fundada em 1794,
ENS - Ecole Normale a formação
doPanthéon,
em Paris —é ensino superior para garantir
e professores. um estabelecimento público de
209
imciáticos da filiação (o "passe"92).
Na estratégia que
massificação, o aparato lacaniano, que, responde
outrora, articulava a tal
pública a partir do trabalho silencioso fala
de uma disciplina,
exposto em um dispositivo geográfico encontra-se
que posiciona em
diferentes, por um lado, a fala, entregue à lugares
"imoralidade"científica
de um free speech,e, por outro, a seleção didática
e profissional
uma Ecole com sede própria —ou seja,dois de
elementosqueexibem
a mesma marca, "Lacan". O isolamento e, portanto,a
das condições institucionais da análise criam, então, visibilidade
no Interiorda
Ecole, uma série de surpresas, de revisões dilacerantes
e de tensões
que se foram ampliando incessantemente. Desnudado, o
poderque
serve de suporte à "fala livre" deve ser, daí em diante,assumido,
por
sua vez, pela teoria que o pressupunha. No entanto, antesde mais
nada, o que ocorre com essa palavra desorbitada dos circuitospro-
fissionais,desvinculada, ab-soluta na multidão?
Tempo dos "nós borromeanos": com pedaçosde barbante, o
Mestre é, supostamente, capaz de produzir uma metateoriaemter-
mos de topologia. E possível.A demonstração não é convincente,
mesmo que ela se sirva da coincidência dos dois pólos extremosda
linguagem —o mais formal enunciado escriturário e o mal-entendido
oral do diálogo —e mesmo que ela ofereça uma teoria geraldo
espaço para pensar a metonímia (procedimento psicanalítico e
literário mais fundamental que a metáfora).Dois pontostão fas-
cinantes em que, com muitos outros, tenho vontade de acreditar.
Mas esse não é o aspecto essencial. Lacan procede a um ritoteórico.
A lenta erosão dos conteúdos conceituais libera o ato teatralque
das
os havia construído. O gesto que tinha reorganizado o campo
práticas e categorias analíticas repete-se por si mesmo,aospoucos,
a
limitando-se
desvencilhado dos elementos em que ele se traçava e
das
carregar aforismos e fragmentos, relíquias e conchas, os detritos 0
sucessivasetapas que haviam balizado seu caminho. Foi necessáno
um processo
92N.T.; Trata-se de "um dispositivo criado, em 1967, por Jacques Lacan para designar
que
de travessiaque consiste em 0 analisando (passante)expor a analistas(passadores),históriaque
sua
conta disso a um júri dito de credenciamento, aqueles dentre os elementos de
de se tornaranalista
sua análise o levou a considerar como suscetíveis de dar conta de seu desejo
(ROUDINESCO; PLON, 1998, p. 575).
210
I despendido a tese «obre
'1 1)siA
iscparti
de R 0111a (1953), o
Senililárlo (desde
(1000), etc. pava que esse ensino, lá tardio 19.53)
e 11aKequéncla
211
HiSTéRIA E PSCANAUSE:ENTRECitNCtA ftccAo
mundo,há
93No seu lim, Lacan (1966) cita, 0 homem e 0
212
quais se desentola urna teoria
do desejo.( )
dessasastucias clas<lcase o segredo desdo
da teoria torniaJi1
gestos e as 11RS111as
rneS1110S gozações. Representa-se os
aí algo (01110
urnsorriso,o do Inalogro Indefinido da açáo e das
próprias coisas.
O nso aparecia,outrora, no rosto dos deuses que Ilio
erai))otárjos;
noentanto.ao tornar-«e hulnano, ele se Identifica COI))a
do "ser-para-a-morte". Elli Lacai),a arte "dlii)ensáo
trágica" de sorrir é ujna arte
de perder; ela renasce constantelnente do innpossível que a
Instaura,
Elaé assonIbrada, Inclusive, por unia furia contra as
presenças, cuja
ranquilaestabilidadedissilnula seu destino de
desaparecerpara ali-
mentaro desejo. Conviria 1110rrerde falar, con10
se jnorre de prazer:
"finalmente, Outro". O ator ora expira, ora se
regozija,A "mlssa à
maneirade
faz:ela fala.
O artista precede"94
A fala,assim como o sonho, seria uma "homenagem
à realidade
frustrada"(LACAN1973, p. 57). Ao remontar o percurso
lacamano,
desdeseu fim teatral até seus começos psiquiátricos,ela
desenha
históriade um "estilo"; de fato, essa teoria do ato psicanalítico
elaborauma estética, se entendermos por isso o que os significantes
operam"ao transmitirem coisas que eles têm o aspectode signi-
ficar.Portanto, primeiro desafio: Lacan é, antes de mais
nada, um
exercícioda literatura (mas uma literatura que saberia o que ela é).
Escândalo na disciplina (pretende-se saber a razão: a literatura será
Indefinidamente rotulada como "não séria"?).Ao aconipanhá-lo até
Ondeele vai, em direção a um "dizer", cuja experiencia analítica
desvelaa natureza, ele indica a "verdade" da prática literária.
Essaperspectiva havia sido inaugurada por Freud de«de seu
livro,Estudossobrea
histeria (1895), conn o ge«to que, à de«coberta
psicanáli
se,associavaa necessidade de denunciar o diqcur«oclen-
tíficoe de passar
para o campo dos "rornancl<tas"e dos "poetas
(FREUD, Studien uber Hystcrie, t. l, 1940-1952, p. 237) Durante
ap III
213
El!StORlA PSíCANAuse:
CIÊNCIA E FICÇÃO
214
surpreende: por exernplo,
a relaçào conl
cltnunavá da análise a transteréncla que o
articula qual-
215
HISTÓRIA E PSICANÁLISE'. ENTRE CIÊNCIA E FICÇÃO
216
IACAN: DA FAIA/PAIAVRA
217
tnanelras de andar; eles desenham,
talvez, essa
considerada por Roland Barthes "linguísticada
como algo ainda falas,
r
impossível
e
(BARTHES,
1970, p. 219
Impossível, de qualquer modo, e 223)
reduzi-la (e equipará-la)
linguísticos dos quais ela não cessou aos
de se distinguir
não é o ser falante"), sem deixar, ("a lin
no entanto, de
préstimo conceitos que ela metaforizava pedir-lhesde
uma Inversão de Imagem —quiproquó, por imediatamente?
Somente
sua vez,revelador
explicar que Lacan apareça como "psicolinguista" pode
nos cartazesnorte
-amencanos. Seu procedimento obriga, de _
preferência,a formular
a questão sobre a necessidade interna que leva
a fala analíticaa uma
escrita poética e transforma essa experiência em
elucidaçãodo que
é a prática da literatura.
filosofia
Assim, o rigoroso estudo de Gilbert Hottois (1981) estabelece o paralelo entre Lacane a
linguística.Como diziaWittgenstein, ele "perde o ponto".
218
essa conountuva
«e e
ele nio se Identifica esse lugar, nelll qualquer
tranqornxa o
ou woa, a Ilientlt sa,
111asesta frustra
(i' n est pas
\ e:.o analisando conserva Incessantelllente
a
o saber que ele «upóe no outro; receia preocupa-
não tanto ser
anav seu analista. Ele coloca enl ordenl
suasconfissões
de a tratar deterencla o que ele cre acerca do
outro:
'Se lhe tlxasse falado 111<80 lixais cedo, o senhor seria levado a
219
p. 401-402), o analista visa, por imperceptíveis interven_
t.v, 1957, entre uma presença de corpo
çôes,Inanter-se enl equilíbrio (uma
às asserções do analisando e o recuo
simpatia)que serve de suporte
Inestno a dizer ' 'desdénf') que evoca
indispen«ável(Lacan chega ou 1
de sua atitude. "Questão de tato",
marca a atnbiguidade declarava
tocar, no outro, o que se ignora;é uma
Freud.Esse"tato" consiste enl
palavras o acaso de sua significação,
arte de insinuar na cadeia das de
rnaneiraque o analisando identifique aí, tal conno um osso deposi-
tado nesse lugar pelo passado, urn "significante" (um "pedacinho de
verdade", diz Freud) do qual ele faça atualmente sua fala,ou seja,o
ato (ético) de segurar sozinho seu desejo na própria linguagemda
innposturaque lhe irnpôe sua história.
Desde 1936, Lacan havia estabelecido o princípio dessaver-
dade,ao analisaro que ele designa como "a fase do espelho".Essa
cena infantil não é somente, para ele, uma fase do desenvolvimento
(entre seis e dezoito meses), mas "uma função exemplar"
1975c,p. 88). Ao dispor apenas de experiências corporais dispersas,
sucessivase móveis, a criança recebe, pelo espelho, a imagemque
oe 0 literário.
novo canilôos
Ela torna
tt.1t.111R11to abertos por ele: possível
jubilatória" da criança as inxagens
que
fascinadapela
Identidade; literatura que aparição
produz, com um
texto,
deternunado grupo em ' 'uni"
(símbolo),fornecendo-
<uposta e des-1Hentida por suas
_1110ticçio práticas sociais; etc. Em
esses a Ilientlra é o elemento no
qual pode aparecer
\Qrdade,a saber: o Outro institui sempre o sujeito ao
aliená-lo.
Retorno de Freud
Hamlet,
páginas são dedicadasa
texto datilografado duzentas Hamlet
P 376-377 que me serve de referência, das interpretações de Freud,
sequência
(de 4 de a 29 de abril de 1959). Na (1910), Rank (1919),etc.
sendo um lugar da "família" com os comentários de Jones
221
eSCANÁifSE¿
FtccÀo
a plena realização
luto que esteja
do ser-para-a-morte.
(sem a mínima No entanto,
assassinato que ele hesitação relativamente
deve executar, à
lei), ele segue por transformando-a em justiçado
vias transversas, todasa sua
perdura uma vida "zanza". Essa
inteira, tergiversação
ela cna um entremeio é um período dedicado à mãe;
[entre-deuxlpara as
ordem do espectro,
Hamlet deve executar,"intervenções"que',por
nuadas entre sua mãe e atravésde palavras
o amor que a gruda
ao traidor Claudius.
O
O, Step between her and
herfighting soul,
Conceit in weakest bodies
strongestworks,
Speak to her,Hamlet.
222
por cliiiproquó habitual 11as
Ilidade
136ss).lt A do
apvotundado sobre a pevtlllellcaa
da tese freudiana;
lacan pretende preclsatnente pensar
ora
história. Para ele, é
do que e<ta perdido, conio ocorre lio
Ilionotcís-
é alelil do Separado. Ulilco tailll)élli
éa
0 do que OK 13<1cana11Ktas
odei,llli e desejani esquecer.
dadea Freud não será interdita a quem só dispõe, como apoio,de uni
faitante?Os debates desencadeados por essa suspeita implicaram, na
Ole,controles cada vez mais rigorosos: a instituiçãodeve respon-
Ilizar-sesempre pelos déficits da teoria. No entanto, a indagação
Vporta também uma resposta teórica: a relação conl o faltante
rganizajá o que a própria po«içâode
discurso freudiano de Inodo elucidado
ud,transformad0 repete o que havia «ido
espectro,
CERTEAU, Eli,
1984, p. 337-352.
223
seus escritos e, portanto,
pode tornar-se o
Nesse aspecto, o princípiodc
pode ser leitura
t?torno de Ft&sude não apenas
conjo retorno a Freud
que, no psrqulsnxo, etil
diferentes cenas, não cessa de
Outro que constitui o suoeitocomo ser o retorno do
relaçãoa objetoijnpossívcl,
Nesta hipótese, os "doentes", à
setuelhança de espectros,
entender ao analistao que falano aindafazem
dlscursofreudiano,
Uma arqueologia cristã
Mas, finaltnente, qual é esse Outro, cujo
irredutível
permeia slnuosanxente a obra inteira?"O outro estáaí... brilho
enquanto
justamente ele é reconhecido, embora desconhecido"(LACAN,
1981
p. 48). "Esse Outro que designo con10 0 Deus obscuro" (LACAN,
1973,
p. 247). Senxelhantes fórmulas e um grande número de outrasaná-
Iogas, assim corno o próprio aparato da análise,impõem, aospoucos,
a Impressão estranha de que um monoteísmo assombraa casa.Ele
se detecta nos conceitos que pontuam o discursoe cujapromoção
teÓrica (e/ ou mítica) é marcada, quase sempre, pela maiúscula:a
Fala articula-se a partir do Outro pelo Nome do pai,peloDesejo,
pela Verdade, etc. Por toda parte, reproduz-se a forma monoteístado
singular maiúsculo, índice de algo que, sob o significantedo Outro,
retorna sempre ao mesmo.
por
Não se trata de um segredo, cujo mistério fosseconservado
é sempreo
Lacan que, de preferência, repete: "há algo de Um" que
(1975a, p. 25, 63, etc.). Com a condição de "nunca recorrera
Outro
"o fato de
nenhuma substância", tampouco a "nenhum ser" (p. 16),
a hipóteseDeus
dizê-lo faz Deus" e, "enquanto vier a ser dito algo,
hipótese, a "canção" (assim se exprimlam
estará aí" (p. 44). Dessa lacaniano, ela
de nenhum lado. No discurso
os místicos) não vem cristã.Ao
é
narrativas e seus lugares teóricos:
tem sua história, suas
impressionado com o corpusque
acompanhar suas aparições, fica-se evangélicos;tex-
textos bíblicos e
se encontra aí citado e comentado:
são Paulo, santo Agostinho e pascal,
tos teológicos (evidentemente,
da profissão, tais como A. Nygrenj
assim como autores representantes teólogo jesuíta
Rousseiot,
professor sueco de teologia sistemática; P.
CIMA
pesquisas ao Intelectualismo
dedicou suas tomista e à
textos místicos (Hadewijch filosofia do
etc.);e, sobretudo, de Antuérpia,
Eckhart, a Illiitaçâo de Cristo ou Internclleconsolation,
Mestre
Silesius, etc.). Eles Lutero,
Teresade pontuam o espaço
exórdios (onde é que lacania-
no e marcanxal isso começa?) ou saídas
(onde
essecontrole sistemático de considerandos,acrescenta-se
analista falante, "Mestre da verdade"
afiguracentral do (LACAN,
1966,
"diretor de consciência" (LACAN,
313), até mesmo 1986,sessão
etc.), um "santo" que "banca o dejeto" (LACAN,
)CXVII•, 1974,p. 28-29;
1993,p.32) e cujo modo de se exprimir, preocupado com o preço
queo corpo deve pagar para conseguir acesso ao simbólico,é uma
falaestruturadacomo a do rezador.
Algunsindícios orientam para uma identificação ainda mais
precisa.Assim,a estranha dedicatória da tese de 1932:"Ao Rev. Pe.
Marc-FrançoisLacan, beneditino da Congrégation de France, meu
irmãode religlao . Ora, Lacan conhece bem sua língua:a "reli-
giào"designa,aqui, a "congregação religiosa", enquanto "irmão de
aponta para uma aliança que não depende do sangue,mas
religião"
deuma comum participação na Ordem. Por este texto, colocado —
à semelhançada "carta roubada" —no local mais visível e, por essa
mesmarazão,dissimulado à vista, evidenciam-se determinados traços
"beneditinos"que eu ainda não tinha observado sob estaperspectiva:
a concepçãoadotada por Lacan a respeito do "mestre" (segundo
asregrasque caracterizam a "direçào espiritual"); a definição de
um"trabalho" que é essencialmente "fala" (à maneira do opusDei
a prática da literatura como exercíciodo desejo(em
beneditino);
conformidadecom a tradição monástica da lectiodivina—ver, por
daVer-
exemplo,
LECLERCQ, 1957); a própria ideia de uma Escola
dadeem que a filiação é avaliada por uma experiênciaque exige
umcompromissopor parte dos sujeitos e em que o abbas(eleito)
detém,simultaneamente, ges-
e o poder de
a autoridade do discurso
0;etc. Em torno (monos) e asceta da fala que
de Lacan —"monge"
Esseé o
epónimo permanente de Lacan. Pe.
meu irmão, 0 Rev.
tese
dedicatória de 1932
foi corrigida na segunda edição da "Congrégation de France" designa
arc-François
Lacan, beneditino da Congrégation de France" A
a associação
das abadias em Solesmes.
beneditinas, cuja sede se encontra
225
ele sustenta (corn humor e, até mesmo, uma feroz
ironia
que ele designa como "mundano" reúnem-se os praticantes
desejo, cuja verdade é capaz de libertar os alienados de
da
Até mesmo, a militância dos lutadores espirituaisde identidade
guerra contra quais demónios?) e sua autonomia outrora(ena
rebeldeperanteo
poder público constituem uma marca da Ecole Freudienne
deparis,
A semelhança de Freud, Lacan não considerava
desprezível
crença religiosa, embora não a tivesse assumido.O que fazer, a
atual_
mente, com essa pesada história, se não se cede à ilusão de
recalcá-la?
Eis a questão que, nos últimos três séculos, tem ocupado o Ocidente:
o que fazer do Outro? Para o próprio Lacan,GeorgesBataille
é
uma testemunha disso, cuja análise diz respeito, igualmente,àssuas
relaçõescom Freud e com o cristianismo.
Sabe-se o apreço atribuído por Freud às adesõessuscetíveis de
ampliar a psicanálise a não judeus. Nesse aspecto,sob a figurado
"espiritual" que seria representada por Lacan, será que a história
cristã introduz no freudismo uma distância menor que sobsua
figura "teóloga", tão característica de Jung? Quais são os efeitosdo
"espiritualismo" de Lacan sobre a tradição judaica que se articula
em Freud? E, sem dúvida, prematuro (antes da publicação de todos
os textos lacanianos) e temerário acompanhar essascompetições
divinas nos bastidores das teorias. Ao limitar a consideraçãoao que
concerne à palavra, uma divergência "arqueológica" parece,no en-
tanto, determinante: a tradição judaica está ancorada na realidade
biológica,familiar e social de um "corpo" presente e localizável
que se distingue dos outros pela "eleição", que tem sido perseguido
pela história em êxodos intermináveis e transcendido pelasSagradas
Escrituras que gravam nele o incognoscível. Enquanto isso,o cristia-
msmo recebeu sua forma pelo fato de estar separado de suaorigem
a
étnica e de romper com a hereditariedade: o "desprendimento'
partir do qual se instaura seu Logostem como índice a própriaperda
do corpo que deveria substituir todos os outros, o de Jesus,de modo
que a palavra "evangélica", oriunda desse desaparecimento,deve
responsabilizar-se,por sua vez, pela produção de corpos eclesialS'
doutrinais ou "gloriosos", cujo destino consiste em substituiro corpo
226
LACAN.• UMA ÉTICA DA FALA/
PALAVRA[PAROLE]
atuaimente,0 que
que pretenda publicar, este é, p, 9,
voltarei a (Encore, 1975a.p.50;
escrever, do qual farei um texto"
Na obra relativas à da psicanálise,
Introdução, numerosas de sua
meu seminário,
foi 0 com base na frágil prancha
de águas
227
HISTÓRIA E PSICANÁ(ISC,'ENTRECIÊNCIA t FICÇÃO
por "vacúolo"
106Lacan designa essa demanda
228
tendo Sido levada
a seno a
(per tio histona do questio
SátQ»clesopõe toda euca
cnstl.uuslllo)—e
basea&lno
moral sua essência,
permanece • coincide
'moral do li',estre••.
o sacr1ñc10do em proveito da
sociedade.Qual-
poder, por revolucnonino que possa
ser, declara sua
"Continuem trabalhar... Que fique bem claro
que essa
de modo uma oportunidade para manifestaro
menor
Essa-'moral do poder", é dos bens". repete de
de o a fala:-Em relaçãoaos
degos. terio de voltar"
229
HISTÓRIA E PSICANÁLISE: ENTRE CIÊNCIA E FICÇÃO
IVer
da fundação encontram-se nos sucessivos Annuaires da École Freudienne de paris•
107Os textos
LACAN, 2001.] Cf. LACAN, 2003, p. 239.
230
slillbohzar em fala tragicÔm1ca,
fato.permitelll teórica e quase
coral,a ascesesolltárla do exercíc10 cotidiano. No interior,
a Ecole é,
portanto,a cura enquanto ela nunca "tem fim" e nunca alguém
chega
terminá-la até que faltelll as forças.
a
Em relação ao exterior, a Instituição exerce uma dupla
função:
" resentar', publicamente, o sujeito suposto saber (ela é seu en-
dereço),ou seja, assunur socialmente a crença,cuja desmistificação
constituiprecisanrnte o objetivo da cura; e, por outro lado, credenciar
juridicamente(em nonr de uma profissão e de um estabelecimento
sério)o preçoa pagar para esse acesso ao simbólico, cujo operador é,
emprincípio, a análise. Essas duas funções apoiam-se mutuamente:
umacrençabaseia-se no que ela subtrai, fortalece-se com o que retira
e,por último, faz avançar por ser remunerada com esse propósito.
Tudo isso era, vigorosamente, articulado e refletido. Por que,
então,as violências, as tensões e, enfim, o fracasso?Simplesmente
porquea história não obedece à fala que a desafia.Com certeza, o
autoritarismoradical da verdade lacamana tocava o ponto mais sen-
sívelde uma doença da sociedade, o núcleo patogêmco e impensado
quehavia criado a substituição do sujeito pelo indivíduo; ele irritava
comum grau de intensidade semelhante ao que elucidavao mal. No
entanto,as dificuldades não vieram do exterior. O sucesso revelou,
sobretudo,um irrealismo fundamental (fundador) do empreendi-
mento.Uma vez passado o patamar do intimismo "primitivo" entre
primeirosparticipantes da mesma experiência, uma vez perdida
tambéma legitimidade que a Ecole recebia pelo fato de se opor
àsAssociaçõesPsicanalíticas reinantes (tal oposição prodigalizava à
instituiçãoa própria função da fala, ocultando-lhe seus problemas
próprios),então, a Ecole da verdade revelou-se tal como era, ou seja,
umaInstituição como as outras, entregue aos debates concernentes
ao"lugar" dos analistas,às relações de força entre eles e, também —
Problemapolítico, igualmente —ao "fantasma de onipotência" que
Oshabita,A implantação na umversidade de ParisVIII —Vincennes
(1968),ao exigir 0 confronto com estruturas jurídicas independentes
experiênciaanalítica,marcou o início de uma revisãodilacerante
queacabaria ou
por levar a Ecole a sair de seu enquistamento na fala,
seja,de si mesma; arrancassem
era necessário que a prática e a teoria se
231
à dupla cena insular da Ecole e do divã. Mas conno tratar
essasquestóes
em nome de uma experiência que, para sua regulamentação,
considerado "inúteis" os expedientes jurídicos? havia
Ainda sobrava a tática. Usar subterfúgios conl a
hi«tória.Tentat
atraiçoá-la para não "ceder em relação a seu desejo".Trata-se
das
bilidades de Lacan, baseadas em um radicalismo da fala.Desse ha-
ponto
de vista, Lacan é o anti-Maquiavel, se soubermos reconhecer o
queé
realmente a obra de Maquiavel, uma ética do "bem da sociedade"
ea
teoria de uma ética política. O que não era atraiçoadopelopróprio
Lacan, só podia levar a um fracasso.Sua aventura institucional,essatrip
de seu desejo, deveria chegar a seu termo neste "malogro":nãoé isso
[cen'est pas ça].No fundo, a retirada de 1980, por mais surpreendente
que tenha sido em sua ocorrência, estavainscrita em sua ética.Ele
continuava "falando" ao separar-se desse objeto de amor que,por sua
vez, se tornara uma identidade alienante. Desse modo, 40 anos depolS
ele reiterava o gesto evocado em 1946:"Mantive-me afastado,durante
vários anos, de qualquer intenção de me exprimir" (1966,p.151).
Em seu livro, Les petites annonces,Catherine Rihoit [19811
lembra esta frase de Lacan sobre Freud: "Creio que ele fracassou
em sua tentativa. Eis o que vai ocorrer comigo: em pouco tempo,
ninguém dará a mínima importância à psicanálise". Seja qualforo
porvir da instituição psicanalítica, Lacan, por seu "fracasso",mantém
sua palavra. A semelhança dos textos que ele não cessoude fazer
por
ressurgir, seus escritos —torturados e transformados em concetti
essa fala —vão conservá-la com grande intensidade para se fazerem
a
entender. No entanto, se é verdade, de acordo com Freud,que
com
tradição não cessa de frustrar seu fundador,o que se passará
suahe-
Lacan: será ouvido nos lugares em que se pretende possuir
rança e seu nome, ou retornará com outros nomes?
de 1981,
7 de dezemb1X)
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Ackerman. Nathan Ward: 25 1
c
Acquavi\x Cangullhem, Georees•
Adler,Allied: Carr. David
Adorne. Casslrer.Ernst' 24-
Agostinho, santo: Castel, Robert. s o,
Ahearne..leretnv S Cavallera. Ferdinand- 24
Alquié. Ferdinand. I €15 Cazalis.Henry ] I
AmnestxInternational: 196, 240 de Certeau. Nile-he]'
Andreano.Ralph:
Andreas-Salerné,Lou: 34.35,
45.5 —
Angelus Silesius: 191 . 2 0 5
162. 1 - l.
Consultetatnl*ém:Johannes Scheffer 175. 1-S. 181. Iss. 191.
Aragon, Lours:
Arist6teles:97, 119.228 240.249
Arrow,Kenneth : 56 Cervantes y Saavedra.Mi.-uel de: I ill
Artaud*Antonin 211 Chaplin, Charlie: 251
Augé, Marc: 7 Consulte também: Charles Spencer
Charcot._lean Nlartxn: 21, S4.95.96.
Charles Spencer: 251
Bajomée, Danielle: 2 17 Choay. Frans-oise: 15
Bally,Charles: 106 Clastres. Pierre: 198
Barbu,Zevedi.73 Clérambault, Gaetan Gatian de: 21, 84
Barthes,Roland: 78, 106, 185, 187, 218 Cloulas, Ivan: 59
Bataille,Georges: 226 Condlllac, Etienne Bonnot de: 56
Béasse:160 Condorcet,Jean-Antome-Nicolas de Caritat.
Beckett,Samuel: 228 marques de: 56.57
Beirnært,Louis: 24, 25, 28, 29, 31, Corge, Charles: 58
35, 36
Benn,Got&ied: 200 Craig, John: 56
Bentham,Jeremy: 69, 120, 185, Craxvlev, Ernest: 77
248
BenvenisteÉm11e: 105, 106 Cuvillier,Armand: 23
173 Czubaroff,Jeanine: 50
BerBon, Henri: 83
Besanqon,Alain:73, 85 D
Bettelhefrn:84 Daman, Paul: 29
Blanchot,Maurice: Damiens, Robert-Franqois: 121, 160
132, 145, 243
Blondel,Maurice:
25, Defoe. Daniel: 186
onaparte, Marie: 85, 243 Deleuze, Gilles: 87, 122, 153
Borda,Jean-Charles de: 56, Demause, Lloyd: 83
Borel Pétrus:
241 Demos, John: 83
Borges,Jorge Luis:
119, 139 Derrida, Jacques: 186
outry, Philippe: 33
Descartes, René: 32
reton,André: 85, 105, 121 , Devereux: 85
201,214
Brown, Norman:
83 Diderot, Denis: 127
runo de Marie-Jésus: 27
Dilthey, Wilhelm: 178
251
NAUSE: Oatke CitNClAe ficcAo
55
fus, Alfredt 123
I )ubernran, Martin: 67 Geffré, Claude: 8, 238
Dumézil, Georges: 252 George, François: 217
Dupront, Alphonse: 252 Giard, 3,4, 8, 15,
Duras, Marguerite: 252 235, 236, 237, 239
Gide, André: 21,85
Girardet, Raoul: 40
Goering, Hermann (marechal):
Eckhart, Mestre Oohannes): 252 81
Goubert, Pierre: 177
Eluard, Paul: 252
Gramsci, Antonio: 124, 247
Empédocles: 208,
Granger, Gilles-Gaston: 32
Erikson, Erik H. : 252 Granoff, Wladimir: 29
Grégoire, Henri: 15, 233, 237
Groddeck, Georg: 79
Fages, Jean-Baptiste: 252 Grossman, Carl e Sylvia: 84
Favre, Pierret 252 Guibert, Joseph de: 24
Favret,Jeanne: 252 Guyon, Jeanne-Marie: 191, 244
Faye,Jean-Pierre: 252
Febvre, Lucien: 252
Federn, Paul: 252 Haan, Norma: 38
Ferenczi, Sandor: 252 Habermas, Jürgen: 38
Foucault, Michel: 4, 5, 10, 36, 39, 40, 117, 118, Hadewijch de Antuérpia: 191, 225
119, 120, 121, 122, 123, 125, 126, 131, Haitzmann, Christoph: 12
132, 133, 134, 135, 136, 137, 138, 139, Hale Jr.,Nathan G.: 83
140, 141, 142, 143, 144, 146, 147, 148, Hegel, Georg Wilhelm Friedrich: 227
149, 151, 152, 153, 154, 155, 156, 157, Heidegger, Martin: 249
158, 159, 160, 161, 162, 170, 236, 240, Herr, Lucien: 124, 247
242, 243 Heyndels, Ralph: 217
Fouilloux, Etienne: 26, 27 Hirschman,Albert 0.: 38, 67, 103
Frazer,James George: 77 Hitler, Adolf: 84
Freud, Sigmund: 4, 5, 6, 11, 12, 13, 21, 22, 23, Hold, Jacques: 217
24, 25, 26, 27, 29, 34, 35, 36, 37, 38, Horkheimer, Max: 73, 84
69, 71, 73, 74, 75, 76, 77, 78, 79, 80, Hottois, Gilbert: 218
81, 82, 83, 84, 85, 86, 87, 88, 92, 93, Hughes, H. Stuart: 22
94, 95, 96, 97, 98, 99, 100, 101, 102, Hume, Dasâd•. 67, 103
103, 104, 105, 106, 107, 108, 109 Hymes, Dell H.: 128
110, 113, 114, 115, 120, 124, 144 Hyppolite, Jean: 228
151, 171, 174, 186, 191, 203, 205
1
207, 213, 214, 215, 217, 220, 221
222, 223, 224, 226, 227, 228, 229 Imbert, Claude.' 100
232, 240, 242, 244, 245, 246 Inacio de Loyola: 14, 15, 31
247, 248
Freud, Anna: 86, 93
Friedlander, Saul: 12, 73 Jahoda, Marie: 84
Frink,HoraceW.: 82 Jakobson, Romant 215
Fromm, Erich: 84 James, William: 83, 244
Fumaroli, Marc: 68 Janet, Pierre: 21, 84
Furet, François: 59 Jay, Martin: 22
Fussner, F. Smith: 68 Jeanne des Anges: 32, 234
Consulte tarnbém: jeanne de beloer
Jean-Paul: 88, 100, 245
245
Garnier, Pierre: 240 Johann Paul Friedrich Richter. 100,
Garraty,JohnA: 83 Consulte também:
252
Macpherson, C. B..
de la Cruz,' Juan de Yepes): 56, 1101
( ruz Juan Major, René'. 39
Mallarmé, Stéphane
(Etienne): 17,
1 14, 1 15, 147, 248 110, 111
- 9.20
Mangenot.Joseph-Eugène:
P:erre-Jean: 85 Maquiavel, Nicola: 23
232
Marcuse, Herbert:
234, 239 84, 85
Marie-Joseph du
12, 24, 25, 79, 80, 81, 82, 226 Sacré-Cœur: 27
Marx, Karl: 81, 84,
102, 120
Mayer, Andreas: 36,
236
Mazlish, Bruce: 73
88, 101, 123, 219, 228, 23K) Merleau-Ponty, Maurice:
Abrarn:82
124,235
Meyer, Konrad Ferdrnand:
von•. 88, 1 (JC)
88, 1 124
Herjr:ch Meyer, Pierre André: 88,
100, 124
Meyerhoff, H.: 73
227
Michelangelo Buonarroti: 104
KT'-akov.'k1, Leszek: 1 94) Michelet, Jules: 51, 78, 187, 240
Lw ré..qexandre: 228 Miller, Jacques-Alain: 209
Kuhn.Thomas S.: 10 Miré, Joan: 188, 248
Moingt, Joseph: 36
Morales, Cesareo: 153
Lacan,Jacques: 13, 22, 29, 83, 185, 210, 247, More, Thomas: 114, 238
Moscovici, Serge: 155
Lacan,-Marc-François: 225 Mounin, Georges: 217
Lacoue-Labarthe:217 Mühlmann,Wilhelm Emil: 175
Lagache,Daniel: 28, 85
Laplanche,Jean: 28
Là%ierra,
Rw,rnond•. 196 Nacht, Sacha: 85
Latour,Bruno: Nancy, Jean-Luc: 217
Luret,Jean-Claude: 19K) Nicolau de Cusa (Nikolaus von Kues): 127
Le Bon, Gustave: 76 Nietzsche, Friedrich: 79, 182
Leclercq,dom Jean: 225 Nixon, Richard: 49
Legendre, Plerre: 128, 155 Nora, Pierre: 29, 40, 41
Le Goff,Jacques: 38, 71 Nygren, Anders: 224
Lehmann, Andrée: 27, 29
Lejeune, Philippe: 112 o
Lenau,Nikolaus (Franz Niembsch von Ogden, Charles Kay: 69
Strehlenau): 87, ICj0 O'Ma11ey,J0hnW: 30
Leonardo Da Vinci: 77, 88, Oraison, Marc: 28
100, 107
Levinas, Emmanuel: 187 Orcibal,Jean: 14
Lévi-Strauss, Claude: 165, Ozment, StevenE.: 196
169
Lévy, Philippe: 184,
191, 247
Lindenberg, D.: 124
Locke,J0hn: 67, 103 143, 224
Pascal,
oewenstein, Rudolph:
22 Pasqualini, Jean: 196
London, Arthur:
196 Paulo, 224, 228
Lucas, sio: 193
Lutero, Martinho: Pavlov, Ivan Petrovitch: 82
187
225 Peter, Jean-Pierre: 57,
Peyré, Ives: 39
Macciochi, Marla Platào: 56
Antometta: 124
Macfarlane, A]an: 56, Platt, Gerald M.: 73
101 Plé,Albert: 27
Mack, Maynard: 98
Pontalis.Jean-Bertrand: 28
253
E hCCÅO
to. 46, 50
Michel: 23 S6foc1es:
Pseudo-Dionisro, o Areopagita: Spinoza, Baruch:
146 67, 103
Psichatl, Ernest: 24 steel, David: 214
Putnam, James Jackson: 79, Steiner, Rudolf: 79
82, 244 Strout, Cushing:
73, 83
surin: 20, 32, 33,
34, 234,
237
Quine,Willard van Orman: 112 Suso (Heinrich Seuse):
Suzuki: 249 196
Rabant—LacÖte, Christine:
188 Tardits, Annie: 28
Rank, Otto: 78, 79, 221
Tausk,Viktor: 79
Rather, Dan: 52
Teresa de Avila (Teresa
Reich,W11he1m: 84, 85, 242 de Cepeda
y Ahumada): 191, 205, 225
Reiff, Philipp: 83
Thibaudet,Albert: 85
Reik,Theodor: 78, 79 Tilly, Charles: 59, 60
Reill, Peter Hanns: 57
Todorov,Tzvetan: 91
Revel, Jacques: 57 Trotsky, Léon: 82
Ribot,Théodu1e: 21, 84 Tudal,Antoine: 212
Richard, Jean-Pierre: 110, 111
Richelieu , Armand Jean
du Plessis, cardeal de: 32 Ullian,Joseph 112
Rihoit, Catherine: 232
Riviére,Jacques: 22, 85
Robin, Régine: 67 Vacant, Alfred: 23
Robinson, Paul: 84, 101, 186, 188, 190, 241 Valéry, Paul: 124, 125, 236
Roger, Jacques: 131, 240 Velåsquez,Diego da Silvay: 121
Rohrmoser, Günther: 84 Venturi, Franco: 124
Romains,Jules: 85 Verne, Jules: 132
Roudinesco, Élisabeth: veyne, Paul: 67, 236
12, 22, 28, 29, 41, 210 Vidal-Naquet, Pierre: 41, 196
Rousseau, Jean-Jacques: 67 Vidocq, Frangois Eugéne: 160
Roussel, Raymond: 121, 132, 134, 243 Viller, Marcel: 24
Rousselot, Pierre: 224 Vnukov,V.: 82
Ruwet, Nicolas: 245
s Wagner, Richard: 79
Sachs, Hans: 78, 79 Waugh, Evelyn: 183
Sade, Donatien Alphonse Francois, Wedekind, Frank: 87, 100
marqués de: 146, 214, 228 Wehler, Hans-Ulrich; 73
Saint-John Perse (Alexis Léger): 190 Weinstein, Fred: 73
Sartre, Jean-Paul: 86, 124, 245 Weischedel,Wilhelm: 245
Saussure, Ferdinand: 169 White, Eugene E.: 153
79, 244
Schefer,Jean-Louis: 202 Wilson, Thomas Woodrow; 12,
Schilder, Paul: 79 Wittgenstein, Ludwig: 119,218
Schiller, Friedrich von: 109, 110, 111 Wolman, Benjamin: 73
Schmidt, Vera: 82 Wortis,Joseph: 82
Schreber, Daniel Paul: 34, 189, 190, 192, 193, wulff, MosheW,: 81, 82
194, 195, 199, 202, 203, 204, 215
Sédat,Jacques: 36, 94
z
Shakespeare, William: 98, 214, 2219 247 Zola, 123, 124
Simons, Herbert W: 55 Zweig,Arnold: 94, 95
Smith, William Robertson: 77
254