APOSTILA STRAUB Richard O - Psicologia Da Saude Uma Abordagem Biopsicossocial PARTE 1 PROF. IRENE NAVARRO
APOSTILA STRAUB Richard O - Psicologia Da Saude Uma Abordagem Biopsicossocial PARTE 1 PROF. IRENE NAVARRO
STRAUB, Richard
Introdução à
psicologia da saúde
Estatísticas revelam alguns dos desafios na busca pelo bem-estar global. Os profissionais da saúde estão
trabalhando para reduzir a discrepância de 30 anos em expectativa de vida entre os países desenvolvidos e aqueles em
desenvolvimento; ajudar os adolescentes a fazerem uma transição segura e saudável para a idade adulta; e alcançar um
entendimento mais profundo das relações entre gênero, etnicid.ade, status sociocultural e saúde.
Nos Estados Unidos, o relatório Healthy People 2010, do Department of Health and Human Services, concentra-
se em aumentar o acesso aos serviços de saúde, eliminar as disparidades de saúde entre homens e mulheres, bem como
entre os grupos etários e socioculturais, e, de um modo geral, em aprimorar substancialmente a saú de, a qualidade de
vida e o bem-estar de todos os norte-americanos. Observa também que quase um milhão das mortes que ocorrem por
ano nos Estados Unidos poderia ser evitado (ver Tab. 1.1). O relatório Health People 2020 amplia essas metas em ações e
metas específicas para reduzir doenças crônicas como o câncer e o diabetes, melho rar a saúde na adolescência,
prevenir ferimentos e a violência e tomar medidas em outras 32 áreas.
Este capítulo apresenta o campo da psicologia da saúde, que desempenha um papel fundamental no
enfrentamento dos desafios para a saúde do mundo. Considere algumas das questões mais específicas que os psicólogos
da saúde buscam responder:
De que maneira suas atitudes, crenças, autoconfiança e personalidade afetam sua saú de em geral?
Por que tantas pessoas têm se voltado para a acupuntura, a ioga, os tratamentos com ervas (e outras formas de
medicina alternativa), assim como cuidados preventivos autoadministrados? Será que essas intervenções de fato
funcionam? Por que tantas pessoas ignoram conselhos inquestionavelmente sólidos para melhorar a saúde, como
parar de fumar, moderar o consumo de alimentos e fazer mais exercí cios? Por que certos problemas de saúde têm
mais probabilidade de ocorrer entre pessoas de determinada idade, de um gênero ou grupo étnico específicos? Por
que a pobreza é uma ameaça potencial para a saúde? Em contrapartida, por que aqueles que são mais afluentes, bem-
educados e socialmente ativos apresentam melhor saúde?
A psicologia da saúde é a ciência que busca responder a essas e a muitas outras questões a respeito da
maneira como nosso bem-estar interage com o que pensamos, sentimos e fazemos. Começaremos dando uma
olhada mais de perto no conceito de saúde e nas mudanças que sofreu no decorrer da história. A seguir,
analisaremos a perspectiva biopsicossocial na psicologia da saúde, incluindo como ela se baseia e sustenta outros
campos relacionados com a saúde. Por fim, trataremos sobre o que é necessário para a formação de um psicólogo
da saúde e o que você pode fazer após obtê-la.
P A RTE 1 1 Fundamentos da psicologia da saúde
Visões antigas
Medicina pré-histórica
Nossos esforços para curar doenças podem ser traçados até 20 mil anos atrás. Uma pintura feita em uma
caverna no sul da França, por exemplo, que se acredita ter 17 mil anos de idade, mostra um xamã da era do
gelo vestindo a máscara animal de um antigo curandeiro. Em religiões que se baseiam na crença em espíritos
bons e maus, somente o xamã (sacerdote ou pajé) pode influenciar esses espíritos.
Para homens e mulheres da era pré-industrial, que enfrentavam as forças com frequência hostis de seu
ambiente, a sobrevivência baseava-se na vigilância constante contra essas misteriosas forças do mal. Quando
uma pessoa ficava doente, não havia uma razão física óbvia para tal fato. Pelo contrário, a condição do
indivíduo acometi do era erroneamente atribuída a uma fraqueza frente a uma força mais forte, feitiçaria ou
possessão por um espírito do mal (Amundsen, 1996).
Cerca de quatro mil anos atrás, alguns povos compreenderam que a higiene tam bém desempenhava um
papel na saúde e na doença e fizeram tentativas de melhorar a higiene pública.
e A P r Tu Lo 1 1 Introdução à psicologia da saúde 7
doença. "É melhor conhecer o paciente que tem a doençà: dizia Hipócrates, "do que
conhecer a doença que o paciente tem» (citado em Wesley, 2003).
A próxima grande figura na história da medicina ocidental foi o médico Clau
dius Galeno (129-200 d.C.). Galeno nasceu na Grécia, mas passou muitos anos em
Roma, conduzindo estudos de dissecação de animais e tratando os ferimentos graves
dos gladiadores romanos. Desse modo, aprendeu grande parte do que anteriormente
não se sabia a respeito da saúde e da doença. Escreveu volumes a respeito de anatomia,
higiene e dieta, que foram construídos sobre as bases hipocráticas da explicação racio
nal e da descrição cuidadosa dos sintomas físicos de cada paciente.
Galeno também expandiu a teoria humoral da doença, desenvolvendo um sis
tema elaborado de farmacologia que os médicos seguiram por quase 1.500 anos. Seu
sistema era fundamentado na noção de que cada um dos quatro humores do corpo
tinha sua própria qualidade elementar que determinava o caráter de doenças especí
ficas. O sangue, por exemplo, era quente e úmido. Ele acreditava que as substâncias
também tinham qualidades elementares; assim, uma doença causada pelo excesso de
humor quente e úmido somente poderia ser curada com substâncias que fossem frias
e secas. Embora essas visões possam parecer arcaicas, a farmacologia de Galeno era
lógica, baseada em observações cuidadosas e semelhante aos antigos sistemas de me
dicina que surgiram na China, na Índia e em outras culturas não ocidentais. Muitas
formas de medicina alternativa ainda hoje usam ideias semelhantes.
nio científico, e sua dissecação era estrita A:-. 'OREAS \•tSALfl B i t V X ( L L E ilS Primeiros desenhos anatômicos
SECVNDA
mente proibida. A doença era vista como Jt,JV,$CPLO. Por volta do século XVI, o tabu
K V > l TA,,
que envolvia a dissecação
punição de Deus por algum mal realizado, humana já havia sido contornado
e acreditava-se que as doenças epidêmicas, há tanto tempo que o anatomista
como os dois grandes surtos de peste ( uma e artista flandrense Andreas
doença bacteriana conduzida por ratos e Vesalius (1514-1564) conseguiu
publicar um estudo completo dos
outros roedores), que ocorreram durante a
órgãos internos, da musculatura e
Idade Média, eram um sinal da ira de Deus. do sistema esquelético do corpo
O "tratamento" de Mariana nessa época humano.
certamente teria envolvido tentativas de
expulsar os espíritos do mal de seu corpo.
Houve poucos avanços científicos na medi
cina europeia durante esse milênio.
No final do século XV, nascia uma
nova era, a Renascença. Começando com ■ epidêmico literalmente,
entre as pessoas; uma
o ressurgimento da investigação científica, doença epidêmica se
esse período presenciou a revitalização do espalha com rapidez entre
estudo da anatomia e da prática médica. O muitos indivíduos de uma
tabu envolvendo a dissecação humana foi comunidade ao mesmo
suficientemente removido, a ponto de o tempo. Uma doença
pandêmica afeta pessoas ao
anatomista e artista flandrense Andreas Ve longo de uma grande área
salius (1514-1564) conseguir publicar um geográfica.
estudo composto por sete volumes sobre
os órgãos internos, a musculatura e o siste-
ma esquelético do corpo humano. Filho de
um farmacêutico, Vesalius era fascinado pela natureza, em especial pela anatomia dos
seres humanos e dos animais. Em sua busca pelo conhecimento, nenhum cachorro
vadio, gato ou rato estava livre de seu bisturi.
Na escola de medicina, Vesalius passou a dissecar cadáveres humanos. Suas des
cobertas provaram que algumas das teorias de Galeno e dos médicos antigos esta
vam claramente incorretas. Como pôde, pensou ele, uma autoridade inquestionável
como Galeno ter cometido tantos erros ao descrever o corpo? Então compreendeu o
porquê: Galeno nunca havia dissecado um corpo humano! Os volumes de Vesalius
tornaram-se os alicerces de uma nova medicina científica, fundamentada na anato
mia (Sigerist, 1958, 1971).
Um dos mais influentes pensadores da Renascença foi o filósofo e matemático
francês René Descartes (1596-1650), cuja primeira inovação foi o conceito do cor
po humano como uma máquina. Ele descreveu todos os reflexos básicos do corpo,
construindo, nesse processo, modelos mecânicos elaborados para demonstrar seus
princípios. Acreditava que a doença ocorria quando a máquina estragava, e a tarefa
do médico era consertá-la.
Descartes é conhecido por acreditar que a mente e o corpo são processos se
parados e autônomos, que interagem de forma mínima, e que cada um deles está
sujeito a diferentes leis de causalidade. Esse ponto de vista, chamado de dualismo ■ dualismo mente-corpo
ponto de vista filosófico
mente-corpo (ou dualismo cartesiano), baseia-se na doutrina de que os seres huma
segundo o qual a mente
nos possuem duas naturezas, a mental e a física. Descartes e outros grandes pensado e o corpo são entidades
res da Renascença, em um esforço para romper com o misticismo e as superstições separadas que não
do passado, rejeitavam vigorosamente a noção de que a mente influencia o corpo. A interagem.
condição de Mariana e a conexão com seu bem-estar emocional teriam ainda menos
probabilidade de serem compreendidas de maneira adequada. Embora tenha aberto
caminho para uma nova era de pesquisas médicas baseadas na confiança na ciência e
no pensamento racional, esse ponto de vista criou um preconceito duradouro na me
dicina ocidental em relação à importância dos processos psicológicos na saúde. Como
veremos, esse preconceito tem sido desfeito desde a década de 1970.
10 P A RTE 1 1 Fundamentos da psicologia da saúde
O racionalismo pós-Renascença
Após a Renascença, esperava-se que os médicos se concentrassem apenas nas causas
biológicas da doença. A antiga teoria humoral de Hipócrates foi finalmente descar
■ teoria anatômica teoria tada, em favor da nova teoria anatômica da doença. Os médicos da época teriam
segundo a qual as origens considerado causas internas para os sintomas de Mariana, como disfunções cardíacas
de certas doenças são ou cerebrais.
encontradas nos órgãos
internos, na musculatura e
A ciência e a medicina mudaram rapidamente durante os séculos XVII e XVIII,
no sistema esquelético do motivadas por numerosos avanços na tecnologia. Talvez a mais importante invenção
corpo humano. na medicina nesse período tenha sido o microscópio. Embora o uso de uma lente para
aumento já fosse conhecido em épocas antigas, foi um mercador de tecidos dinamar
quês, chamado Anton van Leeuwenhoek (1632-1723), quem construiu o primeiro
microscópio prático. Usando esse microscópio, ele foi o primeiro a observar células
sanguíneas e a estrutura dos músculos esqueléticos.
que causavam malária, pneumonia, difteria, hanseníase, sífilis, peste bubônica e febre
tifoide, bem como outras doenças que a geração de minha bisavó temia. De posse
dessas informações, a medicina começou a controlar doenças que haviam acossado o
mundo desde a antiguidade.
Medicina psicossomática
O modelo biomédico, por intermédio de seu foco nos patógenos, avançou o trata
mento de saúde de maneira significativa. Entretanto, foi incapaz de explicar trans
tornos que não apresentavam uma causa física observável, como aqueles descobertos
por Sigmund Freud (1856-1939), que inicialmente obteve formação como médico.
As pacientes de Freud exibiam sintomas como perda da fala, surdez e até paralisia.
Ele acreditava que esses males eram causados por conflitos emocionais inconscientes
"convertidos" em forma física. Rotulou essas condições de transtorno conversivo, e a
comunidade médica viu-se forçada a aceitar uma nova categoria de doença.
Na década de 1940, FranzAlexander desenvolveu a ideia de que os conflitos psi
cológicos do indivíduo poderiam causar determinadas doenças. Quando os médicos
não conseguiam encontrar agentes infecciosos ou outras causas diretas para a artrite
reumática, Alexander ficava intrigado pela possibilidade de que fatores psicológicos
pudessem estar envolvidos. Segundo seu modelo do conflito nuclear, cada doença físi
ca é resultado de um conflito psicológico fundamental ou nuclear (Alexander, 1950).
Por exemplo, indivíduos com "personalidade reumática'', que tendem a reprimir a
raiva e são incapazes de expressar as emoções, seriam propensos a desenvolver ar
trite. Alexander ajudou a estabelecer a medicina psicossomática, um movimento ■ medicina psicossomática
reformista na medicina, denominado em decorrência das raízes psico, que significa ramo da medicina que se
"mente': e soma, que significa "corpo': Essa medicina diz respeito ao diagnóstico e ao concentra no diagnóstico
tratamento de doenças físicas supostamente causadas por processos mentais deficien e tratamento de doenças
físicas causadas por
tes. Esse novo campo floresceu e, logo, o periódico Psychosomatic Medicine publica processos mentais
va explicações psicanalíticas para uma variedade de problemas de saúde, incluindo deficientes.
12 P A RTE 1 1 Fundamentos da psicologia da saúde
Medicina comportamental
Durante a primeira metade do século XX, o movimento behaviorista dominou a
psicologia norte-americana. Os behavioristas definiam a psicologia como o estudo
científico do comportamento observável e enfatizavam o papel da aprendizagem na
aquisição da maioria dos comportamentos humanos.
No início da década de 1970, a medicina comportamental começou a explorar
o papel de comportamentos aprendidos na saúde e na doença. Um de seus primeiros
■ medicina comportamental sucessos foi a pesquisa de Neal Miller (1909-2002), que utilizou técnicas de condicio
um campo interdisciplinar namento operante para ensinar cobaias (e depois seres humanos) a adquirir controle
que integra as ciências sobre certas funções corporais. Miller demonstrou, por exemplo, que as pessoas podem
comportamentaise adquirir algum nível de controle sobre sua pressão arterial e relaxar a frequência car
biomédicas para promover a
saúde e tratar doenças.
díaca quando se tornam cientes desses estados. A técnica de Miller, denominada biofeed
back,é discutida de forma mais detalhada no Capítulo 4. Neste ponto da história, nossa
paciente ansiosa, Mariana, provavelmente teria sido diagnosticada de maneira correta
e tratada de um modo que obtivesse um certo grau de alívio de seus sintomas - talvez
com uma combinação de biofeedback e outras técnicas de relaxamento.
Embora a fonte da medicina comportamental tenha sido o movimento behavio
rista na psicologia, uma característica distinta desse campo é sua natureza interdisci
plinar. A medicina comportamental atrai membros de campos tão diversos quanto a
antropologia, a sociologia, a biologia molecular, a genética, a bioquímica e a psicologia,
além de profissões ligadas à área da saúde, como enfermagem, medicina e odontologia.
* N. de RT.: Termo de difícil tradução, quer dizer vigor, robustez, persistência, audácia, força. Hardy significa re
sistente, forte, robusto, ousado, audaz, audacioso. Os estudos brasileiros que usam o termo tendem a mantê-lo no
original. Quando traduzido, aparece como "personalidade': ver, por exemplo, De Oliveira, F.F. (2007). Hardiness
(personalidade resistente): repercussões na qualidade de vida profissional em colaboradores de uma cooperativa de
crédito do estado de Mato Grosso do Sul. Retirado da World Wide Web em 10/03/2013 de ucdb.br.
e A P r Tu Lo 1 1 Introdução à psicologia da saúde 13
criou a divisão de psicologia da saúde (Divisão 38). Quatro anos depois, foi publicado o
primeiro volume de seu periódico oficial, Health Psychology. Nessa edição, Joseph Mata
razzo, o primeiro presidente da divisão, estabeleceu os quatro objetivos do novo campo:
1. Estudar de forma científica as causas e origens de determinadas doenças, ou seja, sua ■ etiologia estudo científico
etiologia. Os psicólogos da saúde estão principalmente interessados nas origens das causas ou origens de
doenças específicas.
psicológicas, comportamentais e sociais da doença. Eles investigam por que as
pessoas se envolvem em comportamentos que comprometem a saúde, como o hábi
to de fumar e o sexo inseguro.
2. Promover a saúde. Os psicólogos da saúde consideram maneiras de fazer as pes
soas adotarem comportamentos que promovam a saúde, como praticar exercícios
regularmente e comer alimentos nutritivos.
3. Prevenir e tratar doenças. Os psicólogos da saúde projetam programas para aju
dar as pessoas a parar de fumar, perder peso, administrar o estresse e minimizar
outros fatores de risco para uma saúde fraca. Eles também auxiliam aquelas que
já estão doentes em seus esforços para se adaptarem a suas doenças ou aderirem a
regimes de tratamento difíceis.
4. Promover políticas de saúde pública e oaprimoramento do sistema de saúde pública.
Os psicólogos da saúde são bastante ativos em todos os aspectos da educação para
a saúde e mantêm reuniões frequentes com líderes governamentaisque formulam
políticas públicas na tentativa de melhorar os serviços de saúde para todos os
indivíduos.
Tabela 1.2
Tendências do século XX que moldaram a psicologia da saúde
Tendência Resultado
1. Aumento na Reconhecer a necessidade de cuidar melhor de nós mesmos
expectativa de vida para promover a vitalidade no decorrer de uma vida mais
longa.
2. O surgimento de transtornos Educar as pessoas para evitar comportamentos que
relacionados com o estilo de vida contribuam para essas doenças (p. ex., fumar eter uma dieta
(p. ex.,câncer, AVE, doenças cardíacas) com teores elevados de gordura).
3. Aumento nos custos da Concentrar esforços em maneiras de prevenir a doença e
assistência à saúde manter uma boa saúde para evitar esses custos.
4. Reformulação do modelo biomédico Desenvolver um modelo maisabrangente da saúde e da
doença - a abordagem biopsicossocial.
14 P A RTE 1 1 Fundamentos da psicologia da saúde
O contexto biológico
Perspectiva biopsicossocial
(mente-corpo) Todos os comportamentos, incluindo estados de saúde e doença, ocorrem no con
O contexto biológico texto biológico. Cada pensamento, estado de espírito e ânsia é um evento biológico
O contexto psicológico possibilitado pela estrutura anatômica e pela função biológica característica do corpo
O contexto social da pessoa. A psicologia da saúde chama atenção para aqueles aspectos de nosso corpo
"Sistemas" biopsicossociais
que influenciam a saúde e a doença: nossa conformação genética e nossos sistemas
Aplicando o modelo
nervoso, imune e endócrino (ver Cap. 3).
biopsicossocial
Os genes proporcionam o projeto de nossa biologia e predispõem nossos com
portamentos - saudável e doentio, normal e anormal. Por exemplo, sabe-se há muito
tempo que a tendência a abusar do consumo de álcool é hereditária (ver Cap. 8). Uma
razão para isso é que a dependência do álcool é, pelo menos em parte, genética, em
bora não pareça estar ligada a um único gene específico. Em vez disso, certas pessoas
podem herdar uma sensibilidade maior aos efeitos físicos do álcool, experimentando
a intoxicação como algo prazeroso e uma ressaca como algo de pouca importância.
Essas pessoas têm mais probabilidade de beber, especialmente em certos contextos
psicológicos e sociais.
Um elemento fundamental do contexto biológico é a história evolutiva da nossa
espécie, e a perspectiva evolutiva orienta o trabalho de muitos psicólogos da saúde.
Nossos traços e comportamentos humanos característicos existem na forma como
são porque ajudaram nossos ancestrais distantes a sobreviver tempo suficiente para se
reproduzirem e enviar seus genes para o futuro. Por exemplo, a seleção natural favo
receu a tendência das pessoas a sentir fome na presença de um aroma agradável (ver
Cap. 7). Essa sensibilidade para pistas relacionadas com comida faz sentido evolu
cionário, pois comer é necessário para a sobrevivência - particularmente no passado
distante, quando os suprimentos de comida eram imprevisíveis e era vantajoso ter um
apetite saudável quando havia alimento disponível.
Ao mesmo tempo, a biologia e o comportamento interagem de forma constan
te. Por exemplo, alguns indivíduos são mais vulneráveis a doenças relacionadas com
o estresse porque reagem com raiva a perturbações cotidianas e a outros "gatilhos,,
ambientais (ver Cap. 4). Entre os homens, esses gatilhos apresentam correlação com a
reação agressiva relacionada com quantidades maiores do hormônio testosterona. Po
rém, essa relação é recíproca: ataques de raiva também podem levar a níveis elevados
■ Vulnerabilidade
genética à ansiedade ■ Níveis elevados de estresse
■ Poucas habilidades de
enfrentamento
■ Forte sentimento de respon
sabilidade pessoal
;:; Í ! Z ; • ; ■Sistema nervoso
t'-: : : _ : 0 reativo
de testosterona. Uma das tarefas da psicologia da saúde é explicar como (e por que)
essa influência mútua entre biologia e comportamento ocorre.
■ perspectiva do curso de
vida perspectiva teórica
A perspectiva do curso de vida concentrada em aspectos
da saúde e da doença
No contexto biológico, a perspectiva do cursodevida na psicologia da saúde concen relacionados com a idade.
tra-se em importantes aspectos da saúde e da doença relacionados com a idade (Jack
son, 1996). Essa perspectiva considera, por exemplo, a maneira como a má nutrição,
o tabagismo e o uso de substâncias psicoativas por uma mulher grávida afetaria o
desenvolvimento de seu bebê ao longo da vida. Talvez seu filho nasça prematuramen
te e sofra de baixo peso neonatal (menos de 2.500 gramas), um dos problemas mais
comuns e evitáveis no desenvolvimento pré-natal. Entre as consequências disso, estão
o desenvolvimento motor, social e de linguagem lento; maior risco de paralisia cere
bral; dificuldades de aprendizagem a longo prazo; e mesmo a morte (Jalil et al., 2008).
A perspectiva do curso de vida também considera as principais causas de morte
que acometem certos grupos etários. As doenças crônicas que são as principais causas
de morte na população em geral afetam, mais provavelmente, adultos de meia-idade e
idosos. Os jovens têm uma probabilidade muito maior de morrer devido a acidentes.
O contexto psicológico
A mensagem central da psicologia da saúde, obviamente, é que a saúde e a doença
estão sujeitas a influências psicológicas. Por exemplo, um fator fundamental para
determinar o quanto uma pessoa consegue lidar com uma experiência de vida es
tressante é a forma como o evento é avaliado e interpretado (ver Cap. 5). Eventos
avaliados como avassaladores, invasivos e fora do controle custam mais do ponto de
vista físico e psicológico do que os que são encarados como desafios menores, tem-
porários e superáveis. De fato, algumas evidências sugerem que, independentemen
te de um evento ser de fato vivenciado ou apenas imaginado, a resposta do corpo ao
estresse é, de modo aproximado, a mesma. Os psicólogos da saúde pensam que cer
tas pessoas podem ser cronicamente depressivas e mais suscetíveis a determinados
problemas de saúde porque revivem eventos difíceis muitas vezes em suas mentes, o
que pode ser de modo funcional equivalente a experienciar repetidas vezes o evento
real. No decorrer deste livro, iremos examinar as implicações de pensamento, per
cepção, motivação, emoção, aprendizagem, atenção, memória e outros aspectos de
alta relevância para a saúde.
Os fatores psicológicos também desempenham um papel importante no tra
tamento de condições crônicas. A efetividade de todas as intervenções - incluindo
medicação e cirurgia, bem como acupuntura e outros tratamentos alternativos - é
poderosamente influenciada pela postura do paciente. Um indivíduo que acredite que
um medicamento ou outro tratamento irá lhe causar apenas efeitos colaterais des
confortáveis é capaz de experimentar uma tensão considerável, que pode, na verdade,
piorar sua reação física à intervenção, desencadeando um círculo vicioso, no qual a
crescente ansiedade antes do tratamento é seguida por reações físicas progressiva
mente piores, à medida que o regime terapêutico continua. No entanto, um pacien
te com confiança na efetividade de certo tratamento pode, na verd.ade, apresentar
uma resposta terapêutica melhor. As intervenções psicológicas ajudam os pacientes
a administrar a tensão, diminuindo, assim, as reações negativas ao tratamento. Os
pacientes mais tranquilos em geral são mais capazes e mais motivados para seguir as
instruções de seus médicos.
As intervenções psicológicas também auxiliam os pacientes a administrar o es
tresse da vida cotidiana, que parece exercer um efeito cumulativo sobre o sistema
imune. Acontecimentos negativos na vida, como perda de um ente querido, divór
cio, desemprego ou mudança, podem estar ligados a diminuição do funcionamento
16 P A RTE 1 1 Fundamentos da psicologia da saúde
O contexto social
Os imigrantes irlandeses da virada do século, como minha bisavó, venceram a po
breza e o preconceito nos Estados Unidos, estabelecendo associações de irlandeses
americanos que refletiam uma ética de apoio familiar e comunitário. "Cada um por
si, mas todos pelos outros': escreveu Patric O'Callaghan a sua irmã em sua terra natal
para descrever esse sistema de proteção. Ao colocarem o comportamento saudável em
seu contexto social, os psicólogos da saúde estão preocupados com a maneira como
pensamos, influenciamos e nos relacionamos uns com os outros e com nosso ambien
te. Seu gênero, por exemplo, implica determinado papel socialmente prescrito, que
representa seu senso de ser mulher ou homem. Além disso, você é membro de deter
minada família, comunidade e nação; você também tem uma certa identidade racial,
cultural e étnica, e vive em uma classe socioeconômica específica. Você é influenciado
■ coorte de nascimento pelos mesmos fatores históricos e sociais que outras pessoas em sua coorte de nasci
grupo de pessoas que, mento- um grupo de indivíduos que nasceram com alguns anos de diferença uns dos
por terem nascido outros. Por exemplo, aqueles que viveram 100 anos atrás tinham mais probabilidade
aproximadamente
de morrer de doenças que nós, nos países desenvolvidos, hoje consideramos evitáveis,
na mesma época,
experimentam condições como a tuberculose e a difteria (Tab. 1.3), e a mortalidade infantil nos Estados Unidos
históricas e sociais caiu significativamente (Fig. 1.3). Cada um desses elementos de seu contexto social
semelhantes. único afeta suas experiências e influencia suas crenças e seus comportamentos - in
cluindo aqueles relacionados com a saúde.
Considere o contexto social em que uma doença crônica, como o câncer, ocorre.
Um cônjuge, outra pessoa afetivamente significativa ou um amigo íntimo proporcio
nam uma fonte importante de apoio social para muitos pacientes de câncer. Mulheres
e homens que se sentem socialmente conectados a uma rede de amigos afetuosos têm
menor probabilidade de morrer de qualquer forma de câncer do que seus correlatos
socialmente isolados (ver Cap. 10).O fato de sentir-se apoiado por outras pessoas ser
ve como proteção que mitiga o resultado de hormônios que causam estresse e man
têm as defesas do corpo fortes durante situações traumáticas. Pode também promover
Tabela 1.3
Asprincipais causas de mortes nos Estados Unidos em 1900 e 2005
Perspectiva sociocultural
No contexto social, a perspectiva sociocultural considera como fatores sociais e cul ■ perspectiva sociocultural
turais contribuem para a saúde e a doença. Quando os psicólogos usam o termo cul perspectiva teórica que
tura, estão se referindo a comportamentos, valores e costumes persistentes que um aborda a maneira como os
fatores sociais e culturais
grupo de pessoas desenvolveu ao longo dos anos e transmitiu para a próxima geração. contribuem para a saúde e a
Em uma cultura, pode haver um, dois ou mais grupos étnicos, isto é, grandes grupos doença.
de pessoas que tendem a ter valores e experiências semelhantes porque compartilham
, .
certas caracter1st1cas.
Em culturas multiétnicas, como a dos Estados Unidos e da maioria das grandes
nações, ainda existem amplas disparidades em expectativa de vida e nível de saúde,
tanto entre os grupos de minorias étnicas quanto na maior parte da população. Algu
mas dessas diferenças, sem dúvida, refletem uma variação em status socioeconómico,
uma medida de diversas variáveis, incluindo renda, educação e ocupação. Por exem
plo, as taxas mais elevadas de doenças crônicas ocorrem entre pessoas que possuem
os níveis mais baixos de status socioeconômico (Mackenbach et al., 2008). Evidências
também sugerem que os vieses, preconceitos e estereótipos por parte de profissionais
da saúde também podem constituir fatores nesse sentido. As minorias tendem a rece
ber cuidados de menor qualidade do que os brancos, mesmo com níveis comparáveis
de seguro, rend.a, idade e gravidade de condições (Devi, 2008; Smedley, Stith e Nelson,
2003).
Os aspectos socioculturais também desempenham um papel importante na
variação em crenças e comportamentos relacionados com a saúde. Por exemplo, as
práticas tradicionais de cuidado à saúde dos nativos norte-americanos são holísticas e
não distinguem modelos separados para doenças físicas e mentais. Em outro exemplo,
os adeptos da ciência cristã tradicionalmente rejeitam o uso da medicina, pois acre
ditam que os doentes podem ser curados apenas por meio da oração, e a lei judaica
prescreve que Deus dá a saúde, sendo responsabilidade de cada indivíduo protegê-la.
De modo geral, os psicólogos da saúde que trabalham nessa perspectiva socio
cultural encontram grandes discrepâncias, não apenas entre os grupos étnicos, mas
também dentro deles. Os latinos, por exemplo, não são homogêneos. Os três maio
res grupos de nacionalidade - mexicanos, porto-riquenhos e cubanos - diferem em
18 P A RTE 1 1 Fundamentos da psicologia da saúde
educação, renda, saúde geral e risco de doenças e de morte (Angel, Angel e Hill, 2008;
Bagley et al., 1995). Os padrões socioeconômicos, religiosos e outros culturais tam
bém podem explicar por que existem variações na saúde não apenas entre os grupos
étnicos, mas também de região para região, estado para estado e até mesmo de um
bairro para outro. Por exemplo, em cada mil nascimentos vivos, o número de bebês
que morrem antes de chegar ao primeiro aniversário é muito maior no Distrito de
Columbia (7,04%), Mississippi (6,60%) e Louisiana (6,12%) do que em Montana
(2,64%), Washington (2,99°/o) e Iowa (3,25%) (Heron et al., 2009). Conforme colo
cou um pesquisador, em termos de sua saúde geral, "a maneira como você envelhece
depende de onde você morà' (Cruikshank, 2003).
A perspectiva de gênero
■ perspectiva de gênero Também no contexto social, a perspectiva de gênero em psicologia da saúde se con
perspectiva teórica que centra no estudo de problemas de saúde específicos dos gêneros e em barreiras que
aborda problemas de saúde
tal condição encontra nos serviços de saúde. Com exceção de problemas no sistema
específicos dos gêneros e
suas barreiras aos serviços reprodutivo e subnutrição, os homens são mais vulneráveis do que as mulheres a
de saúde. quase todas as outras condições de saúde. Além disso, muitos homens consideram
o cuidado preventivo em saúde algo que não é masculino, mas as mulheres tendem
a responder de forma mais ativa do que eles a sintomas de doenças e a procurarem
tratamento mais cedo (Williams, 2003). O efeito é cumulativo e, aos 80 anos de idade,
as mulheres são mais numerosas que os homens, em uma proporção de 2 para 1 (U.S.
Census Bureau, 201O).
A profissão médica tem longa história de tratar homens e mulheres de maneira
diversa. Por exemplo, pesquisas já mostraram que as mulheres tratadas para doenças
cardíacas têm maior probabilidade de receber diagnósticos incorretos (Chiaramonte
e Friend, 2006); em comparação aos homens, é menos provável que elas recebam
aconselhamento sobre os benefícios para o coração da prática de exercícios, nutrição
e redução de peso (Stewart et al., 2004) ou que recebam e tomem medicamentos pres
critos para o tratamento de sua condição cardíaca (Vittinghoff et al., 2003). Em um
--
• ..
Viés sociocultural no diagnóstico Foi dito aos médicos que estes supostos"pacientes cardíacos"eram
idênticos em ocupação,sintomase em qualquer outro aspecto, exceto idade, raça e gênero. Embora o
cateterismo fosse o tratamento adequado para os sintomas descritos, os médicos recomendaram-no mais
para os pacientes mais jovens, brancos e do sexo masculino do que para pacientes do sexo feminino, mais
velhos e negros.
Fonte:Schulman, K.A. e colaboradores.(1999).The effect of race and sexon physician'srecommendations for cardiac
catherization''.New England Journal ofMedicine, 340,p.618-625.
e A P r Tu Lo 1 1 Introdução à psicologia da saúde 19
estudo clássico, 700 médicos deviam prescrever tratamento para oito pacientes cardí
acos com sintomas idênticos (Schulman et al., 1999). Os "pacientes,, eram atores que
diferiam apenas em gênero, raça e idade informada (55 ou 70). Embora o diagnóstico
seja questão de julgamento, a maioria dos especialistas em coração concordaria que
um cateterismo diagnóstico fosse o tratamento apropriado para os sintomas descritos
por cada paciente hipotético. Tod.avia, as recomendações revelaram um pequeno, mas
ainda significativo, viés em relação às mulheres e aos negros. Para os pacientes mais
jovens, brancos e do sexo masculino, o cateterismo foi recomendado em 90, 91 e 91%
das vezes, respectivamente; para pacientes mais idosos, negros e do sexo feminino, 86,
85 e 85% das vezes, respectivamente.
Problemas como esses, aliados à sub-representação das mulheres como partici
pantes de testes de pesquisas médicas, levaram à crítica do viés de gênero na pesquisa
e no cuidado de saúde. Em resposta, os National Institutes of Health (NIH) publi
caram diretrizes detalhadas sobre a inclusão de mulheres e grupos minoritários em
pesquisas médicas (USDHHS, 2001
Apesar da importância das influências socioculturais e ligadas aos gêneros,
lembre que seria um erro focalizar exclusivamente esse, ou qualquer contexto, de
forma isolada. O comportamento relacionado com a saúde não é uma consequência
automática de determinado contexto social, cultural ou de gênero. Por exemplo:
embora, como um grupo, pacientes de câncer casados tendam a sobreviver mais
tempo que os não casados, os casamentos infelizes e destrutivos não trazem benefí
cios nesse sentido, podendo estarem ligados, inclusive, a resultados negativos para
a saúde.
''Sistemas'' biopsicossociais
Conforme indicam esses exemplos, a perspectiva biopsicossocial enfatiza as influên
cias mútuas entre os contextos biológicos, psicológicos e sociais da saúde. Ela tam
bém está fundamentada na teoria sistêmica do comportamento. De acordo com essa
teoria, a saúde - de fato, toda a natureza - é mais bem compreendida como uma
hierarquia de sistemas, na qual cada um deles é composto de modo simultâneo por
subsistemas e por uma parte de sistemas maiores e mais abrangentes (Fig. 1.4).
Uma maneira de entender a relação entre sistemas é imaginar um alvo, com a
"moscà' no centro e anéis concêntricos crescendo a partir dela. Assim, considere cada
um de nós um sistema formado por sistemas em interação, como o sistema endó ■ teoria sistêmica ponto
crino, o cardiovascular, o nervoso e o imune. (Tenha em mente que, em cada um de de vista segundo o qual
nossos sistemas biológicos, existem subsistemas menores, que consistem em tecidos, a natureza é mais bem
compreendida como uma
fibras nervosas, fluidos, células e material genético). Se você partir da mosca no cen
hierarquia de sistemas,
tro e em direção aos anéis externos, verá sistemas maiores que interagem conosco - e na qual cada sistema é
esses anéis incluem nossa família, nosso bairro, nossa sociedade e nossas culturas. composto simultaneamente
Aplicada à saúde, a abordagem sistêmica enfatiza uma questão fundamental: o por subsistemas menores e
sistema, em determinado nível, é afetado por sistemas em outros níveis e também os sistemas maiores inter
-relacionados.
afeta. Por exemplo, o sistema imune enfraquecido afeta órgãos específicos no corpo de
uma pessoa, o que, por sua vez, afeta sua saúde biológica geral, atingindo os relacio
namentos dessa pessoa com sua família e seus amigos. Conceituar a saúde e a doença
conforme a abordagem sistêmica permite que compreendamos o indivíduo de forma
integral.
20 P A RTE 1 1 Fundamentos da psicologia da saúde
CUitura
Sistema endócrino
Células Genes
';D.
'A
n>
o 3Q)
.g
..
Q) "a.
.Q,)
e
ro -o·
E
2
,./,., ,..,
V,
if\ e:
Fibras ...
Õj"
■ Predisposição
■ Pensamento negativo
genética
■ Crenças autoderrotistas
■ Sensibilidade
ao álcool
■ Situaçõesestressantes
■ Cultura/ambiente que promove
a bebida excessiva Abuso de álcool Figura 1.5
■ Cultura individualista que incen
tiva a culpa pelo fracasso pessoal Modelo biopsicossocial do abuso de álcool O
COMPORTAMENTO abuso de álcool deve ser compreendido em três
INFLUÊNCIASSOCIAIS contextos: biológico, psicológico e social.
Perguntas frequentes...
* N. de R.T.: Psicologia da saúde é uma especialidade não existente no Brasil. Os psicólogos que trabalham com as
questões relacionadas àsaúde e à doença são os psicólogos clínicos ou os hospitalares, embora não necessariamente
dentro do arcabouço teórico apresentado neste livro.
** N. de R.T.: No Brasil, a associação é com as Secretarias da Saúde eo Ministério daSaúde.
e A P r Tu Lo 1 1 Introdução à psicologia da saúde 23
dências crescentes de que esse tipo de cuidado resulta em melhores resultados para a
saúde e ajuda a controlar os custos do tratamento (Novotney, 2010).
Os psicólogos da saúde também podem ser encontrados trabalhando em orga
nizações de saúde, faculdades de medicina, clínicas de reabilitação e consultórios par
ticulares (ver Fig. 1.6). Um número crescente de psicólogos da saúde também pode
ser encontrado no mundo corporativo, no qual orientam empregadores e trabalha
dores em diversas questões relacionadas com a saúde. Também ajudam a estabelecer
intervenções no local de trabalho para auxiliar os empregados a perder peso, parar de
fumar e aprender formas mais adaptativas de administrar o estresse.
* N. de R.T.: No Brasil, a formação do psicólogo, no nível da graduação, é generalista e tem cinco anos de duração.
Seu término permite o ingresso doprofissional no mercado de trabalho. Muitas faculdades oferecem disciplinas nas
áreas de saúde, embora a mais comum seja a psicologia hospitalar. Há cursos de pós-graduação lato e stricto senso
em psicologia hospitalar, saúde pública, saúde coletiva, psicologia da saúde, entre outros. O conselho Federal de
Psicologia confereo títulode Especialista em Psicologia Hospitalar, segundo critérios definidos pelo CFP, acessáveis
pelo website http://www.pol.org.br.
24 P A RTE 1 1 Fundamentos da psicologia da saúde
Responda a cada pergunta a seguir com base no que 2. Como a saúde geral da população em sua escola
aprendeu no capítulo. (DICA: Use os itens da Sínte se beneficia quando diferentes contextos, siste
se para considerar questões biológicas, psicológicas mas, modelos e teorias sobre a saúde são consi
e sociais). derados?
1. Considerando como asvisões da saúde mudaram 3. Seu amigo Tran está pensando em seguir carreira
ao longo do tempo, qual seria uma boa descrição em psicologia da saúde. Que conselhos gerais
da saúde para um indivíduo hoje? Como o gêne você daria e como sugeriria que escolhesse uma
ro, a cultura e a prática da saúde influenciam sua carreira específica no campo?
descrição?
Síntese
1. A saúde é um estado de completo bem-estar físico, resultado de um vírus, bactéria ou outro patógeno
mental e social. Os objetivos específicos da psicolo que invade o corpo. Uma vez que não faz qualquer
gia da saúde são promover a saúde; prevenir e tratar menção a fatores psicológicos, sociais ou comporta
doenças; investigar o papel de fatores comporta mentais na doença, o modelo adota o reducionismo
mentais e sociais na doença; e avaliar e aperfeiçoar e o dualismo mente-corpo.
a formulação de políticas e serviços de saúde para 6. Sigmund Freud e Franz Alexander promoveram a
todas as pessoas. ideia de que determinadas doenças poderiam ser
causadas por conflitos inconscientes. Essa visão foi
expandida para o campo da medicina psicosso
Saúde e doença: lições do passado
mática, que diz respeito ao tratamento e diagnós
2. Nas mais antigas culturas conhecidas, acreditava-se tico de transtornos causados por processos mentais
que a doença era resultado de forças místicas e es deficientes. A medicina psicossomática deixou de
píritos malignos que invadiam o corpo. Hipócrates, ser favorecida porque se baseava na teoria psica
Galeno e outros estudiosos gregos desenvolveram nalítica e postulava a ideia obsoleta de que um
a primeira abordagem racional ao estudo da saúde único problema é suficiente para desencadear uma
e da doença. As formas não ocidentais de cura, in doença.
cluindo a medicina oriental tradicional e a ayurveda, 7. A medicina comportamental foi um subproduto
desenvolveram-se de forma simultânea. do movimento behaviorista na psicologia norte
3. Na Europa, durante a Idade Média, os estudos -americana. Essa medicina explora o papel do com
científicos do corpo (sobretudo a dissecação) eram portamento aprendido na saúde e na doença.
proibidos, e as ideias a respeito da saúde e da doença
tinham implicações religiosas. A doença era consi Perspectiva biopsicossocial (mente-corpo)
derada uma punição por algum mal cometido, e o
tratamento frequentemente envolvia algo que acar 8. Os psicólogos da saúde abordam o estudo da saúde
retava tortura física. e da doença partindo de quatro perspectivas prin
4. O filósofo francês René Descartes desenvolveu sua cipais, as quais se sobrepõem. A perspectiva do
teoria do dualismo mente-corpo - a crença de que curso de vida concentra sua atenção na maneira
a mente e o corpo são processos autônomos, cada como alguns aspectos da saúde e da doença va
qual sujeito a diferentes leis de causalidade. Du riam com a idade, assim como as experiências de
rante a Renascença, a influência de Descartes abriu uma mesma coorte de nascimento (como mudan
caminho para uma nova era na pesquisa médica, ças em políticas públicas de saúde) influenciam a
fundamentada no estudo científico do corpo. Essas saúde.
pesquisas levaram às teorias anatômica, celular e dos 9. A perspectiva sociocultural chama atenção para
germes da doença. a maneira como fatores sociais e culturais, como
5. A visão dominante na medicina moderna é o mo variações étnicas em práticas alimentares e crenças
delo biomédico, o qual supõe que a doença seja o sobre as causas da doença, afetam a saúde.
e A P r Tu Lo 1 1 Introdução à psicologia da saúde 25
1O. A perspectiva de gênero chama atenção para dife Perguntas frequentes sobre a
renças entre homens e mulheres no risco de deter carreira em psicologia da saúde
minadas doenças e condições, assim como em vários
comportamentosque possam comprometer ou con 13. Os psicólogos da saúde estão envolvidos sobretudo
tribuir para a saúde. em três atividades: ensino, pesquisa e intervenção
11. A perspectiva biopsicossocial combina essas moda clínica. Eles trabalham em diversos cenários, in
lidades, reconhecendo que forças biológicas, psico cluindo hospitais, universidades e escolas médicas,
lógicas e sociais agem em conjunto para determi organizações que visam a manutenção da saúde,
nar a saúde e a vulnerabilidade de um indivíduo à clínicas de reabilitação, consultórios particulares e,
doença. cada vez mais, no local de trabalho.
12. Segundo a teoria sistêmica, a saúde deve ser com 14. A preparação para uma carreira em psicologia da
preendida como uma hierarquia de sistemas, na saúde normalmente requer o grau de doutor. Al
qual cada sistema é composto simultaneamente de guns estudantes entram para a psicologia da saúde
subsistemas menores e parte de sistemas maiores e a partir da medicina, da enfermagem ou de alguma
mais abrangentes. profissão da área da saúde. Um número cada vez
maior de alunos matricula-se em programas de pós
-graduação em psicologia da saúde.
James Fix:x, fazendo um julgamento precipitado com pouca atenção para sua precisão.
É perigoso fundamentar nossas explicações em boatos, conjecturas, evidências super
ficiais ou fontes de informação não verificadas. Por exemplo, ao vermos uma ginasta
ou dançarina magra e bela, admiramos os hábitos obviamente saudáveis de comer e
se exercitar daquela pessoa, desejando que também possuíssemos tal força de vontade
e bem-estar. Porém, quando descobrimos mais tarde que ela, na verd.ade, é anoréxica
e sofre de uma fratura relacionada com sua dieta pobre e de diversos traumas ósseos
causados por seus exercícios ficamos chocados.
Exemplos de raciocínio errôneo infelizmente abundam em todos os campos da
ciência. No começo do século XX, por exemplo, milhares de norte-americanos mor
reram de pelagra, uma doença marcada por dermatite (feridas na pele), distúrbios
gastrintestinais e perda de memória. Uma vez que as casas daqueles que morriam
dessa doença possuíam formas não sanitárias de remoção do esgoto, muitos especia
listas em saúde acreditavam que ela fosse conduzida por um microrganismo e trans
mitida por meio do contato direto com excrementos humanos infectados. Embora o
saneamento higiênico certamente fosse um objetivo louvável, na hora de identificar
as causas da pelagra, os "especialistas,, caíam em uma das armadilhas do raciocínio
■ crença tendenciosa forma errôneo - o fato de não considerarem explicações alternativas para suas observações.
de raciocínio errôneo
em que as expectativas
Esse tipo de conclusão precipitada ou não garantida (não testad.a) é um exemplo de
nos impedem de buscar crença tendenciosa, que explica por que duas pessoas podem olhar para a mesma
explicações alternativas para situação (ou dados) e tirar conclusões radicalmente diferentes.
nossas observações. Graças às suas observações mais precisas, o ministro da saúde, Joseph Gold
berger, pôde ver que muitas vítimas de pelagra também estavam subnutridas. Para
Todas as culturas identificar a causa da doença, Goldberger conduziu um teste empírico simples e
desenvolvem crenças até repugnante: misturou pequenas quantidades de fezes e urina de duas vítimas
incorretas sobre o de pelagra com um pouco de farinha, fez pequenas bolas de massa com a mistura,
comportamento humano. que ele, sua esposa e vários auxiliares comeram! Após nenhum deles haver contraí
Algumas pessoas acreditam
falsamente que casais que
do a doença, Goldberger alimentou um grupo de prisioneiros do Mississippi com
adotam um bebê têm maior uma dieta pobre em niacina e proteína (uma deficiência que ele suspeitava causar
probabilidade de ter um bebê a doença), enquanto outro grupo recebeu a dieta normal e equilibrada da prisão.
próprio mais tarde e que mais Confirmando sua hipótese, em poucos meses, o primeiro grupo desenvolveu os sin
bebês nascem quando é lua
tomas de pelagra, enquanto o segundo permaneceu livre da doença (Stanovich e
cheia. Fique em alerta contra
exemplos de psicologia não West, 1998). Conforme ilustra esse exemplo, procurar informações que confirmem
científica em seupróprio crenças preexistentes leva os pesquisadores a não considerarem explicações alterna
pensamento. tivas para o fenômeno observado.
Estudos descritivos
Pense sobre como um psicólogo da saúde pode responder às seguintes questões:
Quais são as consequências para a saúde psicológica e fisiológica das vítimas de uma
grave crise nacional, como o catastrófico terremoto de 12 de janeiro de 2010, que
atingiu a capital do Haiti, Porto Príncipe? De que maneira a equipe do hospital pode
reduzir a ansiedade de familiares que esperam um ente querido sair de uma cirurgia?
As bebedeiras são mais comuns entre certos tipos de universitários? De maneira clara,
as respostas para cada uma dessas questões interessantes não serão encontradas nos
laboratórios de pesquisa das universidades. Em vez disso, os pesquisadores procuram ■ estudo descritivo
respostas a respeito do comportamento de indivíduos ou grupo de pessoas na forma método de pesquisa em
que os pesquisadores
como ele ocorre em casa, no trabalho ou onde as pessoas passam o tempo livre. Em
observam e registram
estudo como esse, chamado de estudo descritivo, o pesquisador observa e registra os comportamentos
o comportamento do participante em um cenário natural, muitas vezes formando dos participantes,
hipóteses que mais adiante são submetidas a pesquisas mais sistemáticas. frequentemente formando
Diversos tipos de estudos descritivos são utilizados: estudos de caso, entrevistas, hipóteses que são testadas
mais tarde de forma
inquéritos e estudos observacionais. sistemática; inclui estudos
de caso, entrevistas e
inquéritos, além de estudos
Estudos de caso de observação.
Conforme mencionamos no Capítulo 1, entre os métodos descritivos mais antigos e
conhecidos está o estudo de caso, no qual os psicólogos estudam um ou mais indiví ■ estudo de caso estudo
duos de forma extensiva durante um período de tempo considerável para descobrir descritivo em que uma
princípios que sejam verdadeiros para as pessoas em geral. A principal vantagem des pessoa é estudada
profundamente,na
se estudo é que ele permite ao pesquisador fazer uma análise muito mais complexa expectativa de revelar
do indivíduo do que aquela que seria normalmente obtida em pesquisas envolvendo princípios gerais.
grupos mai•ores.
Embora sejam úteis para sugerir hipóteses a outras pesquisas, os estudos de caso
apresentam uma desvantagem considerável: qualquer pessoa pode ser atípica, limi
tando a capacidade de «generalização" dos resultados. De fato, esses estudos podem
ser bastante enganosos. Temos que ter cuidado para não saltar de estudos de caso es-
Tabela 2.1 1
Inquéritos
■ inquérito questionário Os inquéritos examinam atitudes e crenças individuais, mas em números maiores e
utilizado para de forma muito menos aprofundada do que o estudo de caso. Nessas medidas de auto
averiguar as atitudes
e os comportamentos
avaliação, os participantes da pesquisa avaliam ou descrevem determinados aspectos
autorrelatados por um de seu próprio comportamento, de suas atitudes ou crenças, como o que pensam
grupo de pessoas. sobre um novo produto para a saúde ou a frequência com que fazem exercícios. Os
inquéritos estão entre os instrumentos de pesquisa mais utilizados na psicologia da
saúde, pois são fáceis de administrar, exigem pequeno investimento de tempo dos
participantes e rapidamente produzem uma grande quantidade de dados.
Os psicólogos que trabalham com saúde clínica também usam a entrevista para
desenvolver uma relação eficaz de apoio com o paciente. Essa prática também é bas
tante utilizada por psicólogos em saúde clínica para fazer avaliação diagnóstica como
um primeiro passo no desenvolvimento de programas de intervenção. Por exemplo,
pode-se solicitar que indivíduos com dores crônicas preencham um questionário re
lacionado com o problema que esclareça tratamentos anteriores e o impacto de sua
condição sobre seu funcionamento cotidiano.
Estudos observacionais
■ estudo observacional Nos estudos observacionais, o pesquisador registra os dados relevantes em relação
método de pesquisa não ao comportamento dos participantes. Por exemplo, o pesquisador interessado nos
experimental em que o
efeitos psicológicos das tensões cotidianas pode providenciar para que os participan
pesquisador observa e
registra o comportamento tes usem um monitor de frequência cardíaca enquanto vão para a escola ou para o
do participante da pesquisa. trabalho e na volta para casa durante a hora do rush.
Os estudos observacionais podem ser estruturados ou não. Os estruturados cos
tumam ocorrer no laboratório e envolvem tarefas como role-playing ou responder a
um estímulo muito frio. Nas observações não estruturadas, chamadas de observações
naturalísticas,o pesquisador tenta ser o menos intrusivo possível ao observar e regis
trar os comportamentos dos sujeitos. Por exemplo, um psicólogo da saúde observa
familiares visitando um parente em uma clínica para idosos na tentativa de obter
conhecimento sobre a maneira como as pessoas lidam com o declínio de um parente.
Essas observações podem ser filmadas ou gravadas e depois quantificadas por méto
dos de avaliação ou escores de frequência.
Correlação
■ coeficiente de correlação Os estudos descritivos revelam informações sobre duas variáveis que podem estar
medida estatística da relacionadas, como o consumo de cafeína e a pressão arterial elevada, ou hipertensão.
intensidade e direção da Para determinar o nível de uma possível relação entre duas variáveis, os pesquisadores
relação entre duas variáveis
calculam o coeficiente de correlação, usando uma fórmula que gera um número, ou
e, dessa forma, do quanto
uma prevê a outra.
valor r, que varia de -1,00 a + 1,00. O sinal (+ o u - ) docoeficiente indica a direção da
e A P r Tu Lo 2 1 Pesquisa em psicologia da saúde 31
Estudos experimentais
Embora sejam úteis, os estudos descritivos não nos falam das causas dos compor
tamentos observados. Para identificar relações causais, os pesquisadores conduzem
experimentos. Considerados o pináculo dos métodos de pesquisa, são comumente
utilizados na psicologia da saúde para investigar os efeitos de comportamentos rela
cionados com a saúde (p. ex., exercícios, dietas, entre outros) sobre uma doença (p.
ex., cardiopatias).
■ variável independente Ao contrário dos estudos descritivos, os experimentos testam hipóteses, mani
fator em um experimento pulando (variando) de forma sistemática uma ou mais variáveis independentes (as
que o pesquisador «causas"), enquanto são buscadas mudanças em uma ou mais variáveis dependentes
manipula; variável cujos (os« efeitos") e controladas (mantid.as constantes) todas as outras variáveis. Contro
efeitos estão sendo lando todas as variáveis, exceto a variável independente, os pesquisadores garantem
estudados.
que qualquer mudança na variável dependente seja causada pela variável indepen
■ variável dependente dente, em vez de outra variável externa.
comportamento ou Os experimentos envolvem com frequência testar os efeitos de diversos níveis da
processo mental que pode
variável independente em grupos diferentes. Por exemplo, em um experimento para
mudar em resposta a
manipulações da variável testar o nível em que o ruído (uma variável independente) começa a causar estresse
independente; a variável (a variável dependente), pode-se solicitar que participantes de três grupos diferentes
que está sendo medida. façam uma lista de sintomas comportamentais e psicológicos do estresse (definição
operacional da variável dependente) enquanto escutam ruídos com 10, 25 ou 50 deci
béis em fones de ouvido (diferentes níveis da variável independente ruído).
■ seleção randômica trata-se Normalmente, o pesquisador atribui de forma aleatória uma amostra de parti
de distribuir os participantes cipantes a dois ou mais grupos de estudo e administra a condição ou o tratamento de
da pesquisa a grupos ao
interesse (a variável independente) a um grupo, o grupo experimental, e um tratamen
acaso, minimizando assim
diferenças preexistentes to diferente ou nenhum ao outro grupo, o grupo de controle. A seleção randôrnica é
entre os grupos. essencial, pois o fato de distribuir os participantes a grupos ao acaso garante que os
membros de todos os grupos de pesquisa sejam semelhantes em todos os aspectos
importantes, com exceção de sua exposição à variável independente. Por exemplo, a
■ efeitos de expectativas seleção randômica ajuda a prevenir que um grande número de participantes muito
forma de viés em que sensíveis ao ruído seja alocado no mesmo grupo, dessa maneira potencialmente mas
o resultado de um carando os efeitos verdadeiros da variável independente.
estudo é influenciado A psicologia da saúde é bastante singular entre os subcampos da psicologia, no
pelas expectativas do
pesquisador ou pelo estudo
sentido de que estuda uma variedade de fatores como causa e efeito. Como possíveis
das expectativas dos «causas': os psicólogos da saúde examinam estados internos (otimismo, sentimentos
participantes. de autoeficácia), comportamentos explícitos (praticar exercícios, fumar) e estímulos
externos (emprego estressante, programa terapêutico para promover relaxamento).
Como possíveis«efeitos': eles investigam comportamentos apresentados (reações de
enfrentamento ao emprego estressante), traços biológicos (pressão arterial, níveis de
colesterol) e estados psicológicos (níveis de ansied.ade).
O propósito da pesquisa é obter uma resposta para uma questão, e não procurar
apoio para um resultado previsto. Para reduzir a possibilidade de efeitos de expec
tativas em experimentos, a pessoa que coleta dados dos sujeitos muitas vezes está
«cegà: ou seja, não sabe o propósito da pesquisa ou quais participantes estão em cada
e A P r Tu Lo 2 1 Pesquisa em psicologia da saúde 33
condição. Esse é um estudo único cego. Para garantir que os efeitos de expectativas não ■ estudo duplo-cego
contaminem o estudo, pode-se usar um estudo duplo-cego. Nesse caso, a pessoa que técnicaprojetada para
prevenir efeitos de
coleta os dados e os participantes não sabem o propósito real do estudo ou qual par
expectativas do observador
ticipante está em qual condição. Desse modo, os pesquisadores e os participantes não e do participante, na qual
enviesarão os resultados com base no que esperam que aconteça. Ver a Figura 2.2 para o pesquisador e os sujeitos
um exemplo de como podemos usar métodos psicológicos para avaliar uma questão não conhecem o verdadeiro
de interesse dos psicólogos da saúde. propósito do estudo ou em
que condição cada sujeito se
encontra.
Estudos semiexperimentais
Quando não podem manipular a variável de interesse ou distribuir os participantes
aleatoriamente a grupos experimentais e de controle, os psicólogos da saúde têm ou
tras opções: semiexperimentos, pesquisa animal ou pesquisa qualitativa. Um semiex
perimento (semi significa "parecido") é semelhante a um experimento, no sentido
de que envolve dois ou mais grupos de comparação. Contudo, um serniexperimento ■ semiexperimento estudo
não é um experimento verdadeiro, pois usa grupos que diferem desde o começo em que compara dois grupos
que diferem naturalmente
relação à variável em estudo (a variável do sujeito). Portanto, não é possível tirar con em determinada variável de
clusões de causa e efeito. (Observe que nos referimos a um grupo de comparação, em interesse.
vez de grupo de controle, pois o grupo difere naturalmente do grupo experimental e
nenhuma variável está sendo controlada).
Por exemplo, suponhamos que os pesquisadores queiram investigar o efeito da Em um estudo clássico sobre
prática de exercícios sobre o desempenho acadêmico. Em um semiexperimento, ava efeitos de expectativas
(Roethlisberger e Dickson,
riável do sujeito seria um estilo de vida sedentário, e o grupo consistiria em estudantes
1939), pesquisadores
que admitissem fazer pouco ou nenhum exercício. O grupo de comparação seria for tentaram aumentar
mado por estudantes que se exercitassem com regularidade. Os psicólogos da saúde a produtividade de
coletariam dados sobre os níveis basais de atividade física diária dos participantes du empregados em uma usina
rante um período definido de tempo e identificariam grupos "ativos" e "sedentários" elétrica reduzindo ou
aumentando osintervalos
separados. Os pesquisadores acompanhariam esses grupos de comparação por alguns para café, alterando
anos, reavaliando regularmente os níveis de atividade e o desempenho acadêmico dos condições deiluminação e
grupos. proporcionando ou retirando
As variáveis do sujeito que costumam ser usadas em semiexperimentos incluem bônus. De maneira notável,
independentemente
a idade, o gênero, a etnicidade e o status socioeconómico- variáveis cuja manipulação
decomo ascondições
é impossível ou antiética. Os pesquisadores também não podem manipular variáveis variavam, a produtividade
para produzir estresse ambiental extremo, abuso físico ou desastres naturais. Nesses aumentava, indicando que
casos, o pesquisador encontra eventos que já ocorreram e estuda as variáveis de inte os trabalhadores estavam
resse. apenas respondendo ao
conhecimento de que
estavam sendo estudados.
Estudos do desenvolvimento
Os psicólogos da saúde que trabalham com a perspectiva do curso de vida estão preo
cupados com a maneira como as pessoas mudam ou permanecem as mesmas ao lon
go do tempo. Para responder a questões sobre o processo de mudança, os pesquisa
dores utilizam duas técnicas básicas de pesquisa: estudos transversais e longitudinais.
No estudo transversal, o pesquisador compara grupos de pessoas de várias ida ■ estudo transversal
des para verificar os possíveis efeitos da idade sobre determinada variável dependente. compara grupos
representativos de pessoas
Suponha-se que estejamos interessados em estabelecer se diferentes grupos etários de várias idades em relação
diferem nas estratégias que usam para lidar com o estresse. Na pesquisa transversal, a uma variável dependente.
os vários grupos etários devem ser semelhantes em outras formas que possam afetar
a característica sendo investigada. Enquanto os grupos forem semelhantes, quaisquer
diferenças em padrões entre eles podem ser atribuídas a processos relacionados com
a idade.
Combinar grupos etários em todas as outras variáveis que não a idade é difícil.
Apesar de seus maiores esforços, os pesquisadores que utilizam o modelo transversal
e A P r Tu Lo 2 1 Pesquisa em psicologia da saúde 35
ainda não identificado que se encontrava na água poluída e, assim, começava a era
moderna da epidemiologia.
Um incidente, durante essa epidemia, tornou-se legendário. Em torno da inter
seção das ruas Cambridge e Broad, a incidência de casos de cólera era tão grande que
o número de mortes chegou a 500 em 10 dias. Após investigar o local, Snow concluiu
que a causa estava centrada na bomba d'água da rua Broad. Após os oficiais da cidade,
que estavam desconfiados, mas em pânico, ordenarem que a manivela da bomba fosse
removida, o número de novos casos de cólera caiu de forma impressionante. Ainda
que a bactéria responsável pela transmissão da doença não tenha sido descoberta nos
30 anos seguintes, Snow fez uma intervenção óbvia que interrompeu a epidemia que
já tomava conta da cidade. Ele simplesmente forçou a cidade a fechar a fonte de água
poluída.
Desde a época de Snow, os epidemiologistas têm descrito em detalhes a distri
buição de muitas doenças infecciosas diferentes. Além disso, identificaram muitos dos
fatores de risco ligados a efeitos favoráveis e desfavoráveis para a saúde. Em um estudo
típico, os epidemiologistas medem a ocorrência de certo efeito para a saúde de uma
população e buscam descobrir por que ele se distribui daquela forma, relacionando-o
com determinadas características dos indivíduos e dos ambientes em que vivem. Por
exemplo, algumas formas de câncer ocorrem mais em certas partes do país do que ■ morbidade como medida
em outras. Investigando essas áreas geográficas, epidemiologistas conseguiram ligar de saúde, número de casos
de determinada doença,
certos tipos de câncer a substâncias químicas tóxicas encontradas nesses ambientes. ferimento ou incapacidade
Os epidemiologistas registram a rnorbidade, que é o número de casos de pro em um grupo específico de
blemas de saúde em determinado grupo em certa época. Também acompanham a pessoas em certa época.
mortalidade, que se refere ao número de mortes em decorrência de determinada cau ■ mortalidade como medida
sa, como doenças cardíacas, em certo grupo em determinada época. A morbidade e a de saúde, número de mortes
mortalidade são medidas de efeitos que normalmente são relatados em termos de sua decorrentes de uma causa
incidência ou prevalência.A incidência refere-se ao número de novos casos de doença, específica em determinado
grupo em certo momento.
infecção ou deficiência, como uma tosse forte, que ocorre em uma população espe
cífica em intervalo de tempo definido. A prevalência é definida como o número total ■ incidência número de
de casos diagnosticados de uma doença ou condição que ocorre em dado momento, novos casos de uma doença
ou condição que ocorre em
incluindo os casos relatados anteriormente e novos casos em determinado momento. determinada população
Assim, se um epidemiologista quisesse saber quantas pessoas têm hipertensão, anali em um intervalo de tempo
saria as taxas de prevalência. Se, contudo, quisesse determinar a frequência do diag definido.
nóstico de hipertensão, olharia as taxas de incidência. ■ prevalência número total
Para esclarecer a distinção entre incidência e prevalência, considere a Figura 2.3, de casos diagnosticados de
que compara a incidência e a prevalência das principais causas de morte nos Estados uma doença ou condição
Unidos entre 1980 e 2007. No decorrer desse período, as mortes decorrentes de aci que existe em certo
momento.
dentes e câncer tiveram uma prevalência elevada e uma incidência estável, enquanto
aquelas resultantes de doenças do coração e AVE diminuíram.
Testes clínicos
Metanálise
Tradicionalmente, quando um pesquisador começava a investigar um fenômeno,
como a relação entre o consumo de álcool e o câncer de mama, o primeiro passo
era uma revisão detalhada da literatura de pesquisa relevante. Embora a revisão bi
bliográfica tenha uma longa e nobre história nos anais da ciência, essas revisões são
qualitativas em natureza e, portanto, estão sujeitas a tendências na maneira como são
interpretadas. Sem levar em consideração o quão habilidosa em revisar a literatura a
pessoa possa ser, o modo como os diversos resultados são interpretados em essência
permanece um processo subjetivo, no qual as tendências, as crenças e o excesso de
confiança do revisor, entre outros, influenciam o resultado.
46 P A RTE 1 1 Fundamentos da psicologia da saúde
Síntese
Pensamento crítico: a base da pesquisa 4. Em um experimento, o pesquisador manipula uma
ou mais variáveis independentes enquanto procura
1. Nossa forma cotidiana de pensar está propensa à mudanças em uma ou mais variáveis dependentes.
tendência, incluindo tirar conclusões imediatas e Os experimentos normalmente comparam um gru
inferir causa e efeito de forma inadequada. O uso po experimental, que recebe um tratamento de in
de métodos de pesquisa científica para procurar teresse, com um grupo de controle, que não recebe.
evidências ajudará você a se tornar um consumidor Para reduzir a possibilidade de efeitos de expectati
mais cuidadoso de artigos sobre psicologia da saúde. vas, os pesquisadores usam controles duplos-cegos.
5. Quando estudam variáveis que não podem ser ma
Métodos em psicologia da saúde nipuladas, os psicólogos da saúde podem usar um
semiexperimento. Nesse modelo, os sujeitos são
2. Os estudos descritivos, que observam e registram o selecionados para grupos de comparação com base
comportamento dos participantes, envolvem estu em idade, gênero, etnia ou alguma outra variável do
dos de caso, entrevistas e inquéritos, e observação. sujeito.
3. A intensidade e a direção da relação entre dois 6. Os estudos do desenvolvimento concentram-se nas
conjuntos de escores são reveladas visualmente por maneiras como as pessoas mudam ou permanecem
diagramas de dispersão e estatisticamente pelo coe iguais ao longo do tempo. Em um estudo transver
ficiente de correlação. Uma correlação não implica sal, pesquisadores comparam grupos representati
causalidade. vos de pessoas de várias idades para determinar os
e A P r Tu Lo 2 1 Pesquisa em psicologia da saúde 47
possíveis efeitos da idade sobre determinada variável estatísticas epidemiológicas utilizad.as, estão a morbi
dependente. dade, a mortalid.ade, a incidência e a prevalência.
7. No estudo longitudinal, um grupo único de indi 1O. Os epidemiologistas utilizam diversos modelos de
víduos é acompanhado durante longo período de pesquisa básicos. No estudo retrospectivo, são feitas
tempo. Para corrigir o problema dos sujeitos que comparações entre um grupo de pessoas que apre
abandonam o estudo no decorrer dos anos, os pes senta certa doença ou condição e um grupo que não
quisadores desenvolveram um estudo transversal, apresenta. Em comparação, os estudos prospectivos
em que diferentes grupos de idade são testados ini olham à frente no tempo para determinar como um
cialmente e depois retestados em idades variadas. grupo de pessoas muda ou como a relação entre
8. A genética do comportamento utiliza métodos como duas ou mais variáveis modifica-se ao longo do tem
estudos de gêmeos e de adoção para identificar a po. Também existem diversos tipos de experimen
hereditariedade de determinadas características e tos em epidemiologia, incluindo experimentos de
transtornos. Os gêmeos idênticos desenvolvem-se laboratório, experimentos naturais e testes clínicos
a partir de um único óvulo, que se divide em dois; aleatórios.
os gêmeos fraternos, a partir de óvulos diferentes. 11. A metanálise examina os dados de estudos já publi
As diferenças verificadas entre gêmeos idênticos e cados, combinando estatisticamente o tamanho da
fraternos que crescem no mesmo ambiente sugerem diferença entre os grupos experimental e de controle
uma influência genética. para permitir que os pesquisadores avaliem a con
sistência de seus resultados.
Pesquisa epidemiológica: 12. Para inferir causalidade na pesquisa epidemiológica,
rastreando a doença as evidências de pesquisas devem ser consistentes e
logicamente sensatas, exibindo a relação entre dose
9. Os estudos de pesquisas epidemiológicas medem a e resposta. Além disso, a causa sugerida deve estar
distribuição de problemas de saúde, buscam desco ocorrendo antes do problema de saúde em questão
brir a etiologia (causas) desses problemas e testam a ter sido observado e resultar em uma redução na
eficácia de intervenções de saúde preventiva. Entre as prevalência da condição quando for removida.
Síntese
O sistema nervoso em outras emoções; o hipocampo, que está envolvi
do na aprendizagem e na memória; e o hipotálamo,
1. O sistema nervoso central consiste no cérebro e na que regula a fome, a sede, a temperatura corporal e
medula espinal. Os neurônios restantes compõem o o comportamento sexual.
sistema n erv oso perif érico, que apresenta d uas di-
.- . . . . . 3. O córtex cerebral é a camada fina de células que
visoes principais: o sistema nervoso som, atico, que recobre o cérebro. O córtex é o local da consciên
controla os movimentos voluntários, e o sistema cia e inclui áreas especializadas para desencadear o
nervoso autônomo, que controla os músculos in movimento (córtex motor), a sensação do tato (cór
v.oluntário.s e as.glândulas e.ndócr.inas por meio dos tex sensorial), a fala e a tomada de decisões (lobo
, ,
sistemas simpatico e parassimpatico. frontal), para a visão (lobo occipital), para a audição
2. Como a região mais antiga e mais central do cére (lobo temporal) e para o tato (lobo parietal). O cór
bro, o tronco encefálico, incluindo a formação reti tex de associação inclui áreas que não estão envol
cular, o tálamo e o cerebelo, controla funções vitais vidas diretamente em funções sensoriais e motoras.
básicas por meio do sistema nervoso autônomo. Essas áreas integram informações e estão envolvidas
O sistema límbico inclui a medula, que controla a em funções mentais superiores, como o pensamento
frequência cardíaca e a respiração; a amígdala, que e a fala.
desempenha papel importante na agressividade e
72 P A RTE 1 1 Fundamentos da psicologia da saúde