0% acharam este documento útil (0 voto)
66 visualizações45 páginas

APOSTILA STRAUB Richard O - Psicologia Da Saude Uma Abordagem Biopsicossocial PARTE 1 PROF. IRENE NAVARRO

Direitos autorais
© © All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
Formatos disponíveis
Baixe no formato PDF, TXT ou leia on-line no Scribd
0% acharam este documento útil (0 voto)
66 visualizações45 páginas

APOSTILA STRAUB Richard O - Psicologia Da Saude Uma Abordagem Biopsicossocial PARTE 1 PROF. IRENE NAVARRO

Direitos autorais
© © All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
Formatos disponíveis
Baixe no formato PDF, TXT ou leia on-line no Scribd
Você está na página 1/ 45

CURSO PREPARATÓRIO

Psicologia da Saúde - Uma Abordagem Biopsicossocial

STRAUB, Richard

Profª Irene Navarro


Capítulo 1

Introdução à
psicologia da saúde

psicologia da saúde, um subcampo da psicologia que aplica princípios e


■ psicologia da saúde
pesquisas psicológicos para a melhoria da saúde e o tratamento e a prevenção de aplicação de princípiose
doenças. Seus interesses incluem condições sociais (como a disponibilidade de pesquisas psicológicos para
cuidados de saúde e apoio da família e de amigos), fatores biológicos (como a a melhoria da saúde e a
longevidade familiar e vulnerabilidades here prevenção e o tratamento
de doenças.
ditárias a certas doenças) e até mesmo traços de personalidade (como o otimismo).
O termo saúde vem de uma antiga palavra da língua alemã que é representada,
em inglês, pelos vocábulos hale e whole, os quais se referem a um estado de«integri
dade do corpo': Os linguistas observam que essas palavras derivam dos campos de
batalha medievais, em que a perda de haleness, ou saúde, em geral resultava de um ■ saúde estado de completo
grave ferimento corporal. Atualmente, somos mais propensos a pensar na saúde como bem-estar físico, mental e
social.
a ausência de doenças, em vez da ausência de um ferimento debilitante contraído
no campo de batalha. Tod.avia, como se concentra apenas na ausência de um estado
negativo, tal definição é incompleta. Embora seja verdade que as pessoas saudáveis
estão livres de doenças, a saúde completa envolve muito mais. Uma pessoa pode estar
A saúde da mulher está
livre de doenças, mas ainda não desfrutar de uma vida vigorosa e satisfatória. Saúde indissociavelmenteligada a
envolve o bem-estar físico, assim como o psicológico e o social. seu status na sociedade. Ela
Temos sorte de viver em uma época em que a maioria dos cidadãos do mundo se beneficia com a igualdade
tem a promessa de uma vida mais longa e melhor do que seus bisavós, com muito e sofre com a discriminação.
menos deficiências e doenças do que em qualquer outra época. Entretanto, esses be - Organização
Mundial da Saúde
nefícios à saúde não são desfrutados universalmente.
Este capítulo apresenta o campo da psicologia da saúde, que desempenha um
papel fundamental no enfrentamento dos desafios para a saúde do mundo.
Considere algumas das questões mais específicas que os psicólogos da saúde
buscam responder:
De que maneira suas atitudes, crenças, autoconfiança e personalidade afetam sua
saúde em geral? Por que tantas pessoas têm se voltado para a acupuntura, a ioga, os
tratamentos com ervas (e outras formas de medicina alternativa), assim como
cuidados preventivos autoadministrados? Será que essas intervenções de fato
funcionam? Por que tantas pessoas ignoram conselhos inquestionavelmente sólidos
para melhorar a saúde, como parar de fumar, moderar o consumo de alimentos e
fazer mais exercícios? Por que certos problemas de saúde têm mais probabilidade
de ocorrer entre pessoas de determinada idade, de um gênero ou grupo étnico
específicos? Por que a pobreza é uma ameaça potencial para a saúde? Em
contrapartida, por que aqueles que são mais afluentes, bem-educados e socialmente
ativos apresentam melhor saúde?
P A RTE 1 1 Fundamentos da psicologia da saúde

Estatísticas revelam alguns dos desafios na busca pelo bem-estar global. Os profissionais da saúde estão
trabalhando para reduzir a discrepância de 30 anos em expectativa de vida entre os países desenvolvidos e aqueles em
desenvolvimento; ajudar os adolescentes a fazerem uma transição segura e saudável para a idade adulta; e alcançar um
entendimento mais profundo das relações entre gênero, etnicid.ade, status sociocultural e saúde.
Nos Estados Unidos, o relatório Healthy People 2010, do Department of Health and Human Services, concentra-
se em aumentar o acesso aos serviços de saúde, eliminar as disparidades de saúde entre homens e mulheres, bem como
entre os grupos etários e socioculturais, e, de um modo geral, em aprimorar substancialmente a saú de, a qualidade de
vida e o bem-estar de todos os norte-americanos. Observa também que quase um milhão das mortes que ocorrem por
ano nos Estados Unidos poderia ser evitado (ver Tab. 1.1). O relatório Health People 2020 amplia essas metas em ações e
metas específicas para reduzir doenças crônicas como o câncer e o diabetes, melho rar a saúde na adolescência,
prevenir ferimentos e a violência e tomar medidas em outras 32 áreas.
Este capítulo apresenta o campo da psicologia da saúde, que desempenha um papel fundamental no
enfrentamento dos desafios para a saúde do mundo. Considere algumas das questões mais específicas que os psicólogos
da saúde buscam responder:
De que maneira suas atitudes, crenças, autoconfiança e personalidade afetam sua saú de em geral?
Por que tantas pessoas têm se voltado para a acupuntura, a ioga, os tratamentos com ervas (e outras formas de
medicina alternativa), assim como cuidados preventivos autoadministrados? Será que essas intervenções de fato
funcionam? Por que tantas pessoas ignoram conselhos inquestionavelmente sólidos para melhorar a saúde, como
parar de fumar, moderar o consumo de alimentos e fazer mais exercí cios? Por que certos problemas de saúde têm
mais probabilidade de ocorrer entre pessoas de determinada idade, de um gênero ou grupo étnico específicos? Por
que a pobreza é uma ameaça potencial para a saúde? Em contrapartida, por que aqueles que são mais afluentes, bem-
educados e socialmente ativos apresentam melhor saúde?
A psicologia da saúde é a ciência que busca responder a essas e a muitas outras questões a respeito da
maneira como nosso bem-estar interage com o que pensamos, sentimos e fazemos. Começaremos dando uma
olhada mais de perto no conceito de saúde e nas mudanças que sofreu no decorrer da história. A seguir,
analisaremos a perspectiva biopsicossocial na psicologia da saúde, incluindo como ela se baseia e sustenta outros
campos relacionados com a saúde. Por fim, trataremos sobre o que é necessário para a formação de um psicólogo
da saúde e o que você pode fazer após obtê-la.
P A RTE 1 1 Fundamentos da psicologia da saúde

Saúde e doença: lições do passado


Embora todas as civilizações tenham sido afetadas por doenças, cada uma delas compreendia e tratava a
doença de formas diferentes. Em certa época, as pessoas pensavam que a doença fosse causada por
demônios. Em outra, diziam que era uma forma de punição pela fraqueza moral. Atualmente, lutamos com
ques tões como: "Será que a doença pode ser causada por uma personalidade doentia?". Vamos considerar
como nossas visões sobre saúde e doença mudaram no decorrer da história. Veremos a seguir a cronologia
da mudança nas visões sobre saúde e doença.)

Visões antigas
Medicina pré-histórica
Nossos esforços para curar doenças podem ser traçados até 20 mil anos atrás. Uma pintura feita em uma
caverna no sul da França, por exemplo, que se acredita ter 17 mil anos de idade, mostra um xamã da era do
gelo vestindo a máscara animal de um antigo curandeiro. Em religiões que se baseiam na crença em espíritos
bons e maus, somente o xamã (sacerdote ou pajé) pode influenciar esses espíritos.
Para homens e mulheres da era pré-industrial, que enfrentavam as forças com frequência hostis de seu
ambiente, a sobrevivência baseava-se na vigilância constante contra essas misteriosas forças do mal. Quando
uma pessoa ficava doente, não havia uma razão física óbvia para tal fato. Pelo contrário, a condição do
indivíduo acometi do era erroneamente atribuída a uma fraqueza frente a uma força mais forte, feitiçaria ou
possessão por um espírito do mal (Amundsen, 1996).
Cerca de quatro mil anos atrás, alguns povos compreenderam que a higiene tam bém desempenhava um
papel na saúde e na doença e fizeram tentativas de melhorar a higiene pública.
e A P r Tu Lo 1 1 Introdução à psicologia da saúde 7

Medicina grega e romana ... prevenirei a doença sempre


que puder, pois a prevenção é
preferível à cura.
Os avanços mais expressivos em saúde pública e saneamento foram feitos na Grécia e
Lembrarei que permaneço
em Roma durante os séculos VI e V a.C. Em Roma, um grande sistema de drenagem,
como um membro da
a Cloaca Maxima, foi construído para drenar um pântano, que mais tarde se torna sociedade, com obrigações
ria o local do Fórum Romano. Com o tempo, a Cloaca assumiu as funções de um especiais com todos os seres
sistema moderno de esgotamento sanitário. Banheiros públicos, para os quais havia humanos, meus semelhantes,
uma pequena taxa de admissão, eram comuns em Roma por volta do século I d.C. aqueles sãosde mente e
corpo e também os enfermos.
(Cartwright, 1972).
O primeiro aqueduto trouxe água pura para Roma já em 312 a.C., e a limpeza Se não violar este
juramento, que possa
das vias públicas era supervisionada por um grupo de oficiais indicados que também desfrutar da vida e da arte,
controlava o suprimento de alimentos. Esse grupo criava normas para garantir que ser respeitado enquanto
a carne e outros alimentos perecíveis estivessem frescos e organizavam o armazena viver e lembrado comafeição
mento de grandes quantidades de grãos, por exemplo, na tentativa de prevenir a fome depois. Que eu sempre aja de
modo a preservar as melhores
(Cartwright, 1972).
tradições da minha vocação
Na Grécia antiga, o filósofo grego Hipócrates (cerca de 460-377 a.C.) estabeleceu e possa experimentar por
as raízes da medicina ocidental quando se rebelou contra o antigo foco no misticismo muito tempo a felicidade de
e na superstição. Hipócrates, frequentemente chamado de "o pai da medicina mo curar aqueles que procurarem
dernà: foi o primeiro a afirmar que a doença era um fenômeno natural e que suas minha ajuda.
causas (e, portanto, seu tratamento e sua prevenção) podem ser conhecidas e mere - Escrito, em 1964, por
Louis Lasagna, pró-reitor
cem estudos sérios. Dessa forma, construiu as primeiras bases para uma abordagem
da Escola de Medicina da
científica da cura. Historicamente, os médicos fazem o juramento de Hipócrates, pelo Tufts University, e usado
qual se comprometem a praticar medicina conforme padrões éticos. Com o passar atualmente em muitas
dos séculos, o juramento foi reescrito para adaptar-se aos valores de diversas culturas faculdades de medicina.
influenciadas pela medicina grega. Uma versão com ampla utilização nas faculda
des de medicina norte-americanas foi escrita em 1964 pelo doutor Louis Lasagna, da
Tufts University.
Hipócrates propôs a primeira explicação racional para o fato de as pessoas adoe
cerem, e os curandeiros desse período da história talvez fossem influenciados por
suas ideias ao abordarem os problemas de Mariana. Segundo a teoria humoral de ■ teoria humoral conceito
Hipócrates, um corpo e uma mente saudáveis resultavam do equilíbrio entre quatro de saúde proposto por
fluidos corporais denominados humores: sangue, bile amarela, bile negra e fleuma. Hipócrates, considerava o
bem-estar um estado de
Para manter o balanço adequado, o indivíduo deveria seguir um estilo de vida sau
perfeito equilíbrio entre
d.ável, incluindo exercícios, descanso suficiente, boa dieta, e evitar excessos. Quando quatro fluidos corporais
os humores estivessem desequilibrados, contudo, o corpo e a mente seriam afetados básicos, chamados de
de maneiras previsíveis, dependendo de qual dos quatro humores apresentasse ex humores. Acreditava-se que
cesso. Mariana, por exemplo, talvez fosse considerada colérica, com um excesso de a doença fosse resultado de
perturbações no equilíbrio
bile amarela e um comportamento impetuoso. Talvez fosse tratada com flebotomia
dos humores.
(a abertura de uma veia para retirar sangue), dietas líquidas, enemas e banhos frios.
Ainda que a teoria humoral tenha sido descartada à medida que houve avanços
na anatomia, fisiologia e microbiologia, a noção sobre os traços da personalidade es
tarem ligados aos fluidos corporais ainda persiste nas medicinas popular e alternativa
de muitas culturas, incluindo as de culturas nativas americanas e orientais tradicio
nais. Além disso, como veremos no próximo capítulo, atualmente sabemos que mui
tas doenças envolvem um desequilíbrio (de certa forma) entre os neurotransmissores
do cérebro, de modo que Hipócrates não estava tão errado.
Hipócrates fez muitas outras contribuições notáveis para uma abordagem cien
tífica à medicina. Por exemplo, para aprender quais eram os hábitos pessoais que
contribuíam para a gota, uma doença causada por perturbações no metabolismo
corporal do ácido úrico, conduziu uma das primeiras pesquisas de saúde pública a
respeito dos hábitos daqueles que sofriam da doença, bem como de sua temperatura
corporal, frequência cardíaca, respiração e outros sintomas físicos. Ele também estava
interessado nas emoções e nos pensamentos dos pacientes com relação a sua saúde e
ao tratamento e, assim, chamou atenção para os aspectos psicológicos da saúde e da
8 P A RTE 1 1 Fundamentos da psicologia da saúde

doença. "É melhor conhecer o paciente que tem a doençà: dizia Hipócrates, "do que
conhecer a doença que o paciente tem» (citado em Wesley, 2003).
A próxima grande figura na história da medicina ocidental foi o médico Clau
dius Galeno (129-200 d.C.). Galeno nasceu na Grécia, mas passou muitos anos em
Roma, conduzindo estudos de dissecação de animais e tratando os ferimentos graves
dos gladiadores romanos. Desse modo, aprendeu grande parte do que anteriormente
não se sabia a respeito da saúde e da doença. Escreveu volumes a respeito de anatomia,
higiene e dieta, que foram construídos sobre as bases hipocráticas da explicação racio
nal e da descrição cuidadosa dos sintomas físicos de cada paciente.
Galeno também expandiu a teoria humoral da doença, desenvolvendo um sis
tema elaborado de farmacologia que os médicos seguiram por quase 1.500 anos. Seu
sistema era fundamentado na noção de que cada um dos quatro humores do corpo
tinha sua própria qualidade elementar que determinava o caráter de doenças especí
ficas. O sangue, por exemplo, era quente e úmido. Ele acreditava que as substâncias
também tinham qualidades elementares; assim, uma doença causada pelo excesso de
humor quente e úmido somente poderia ser curada com substâncias que fossem frias
e secas. Embora essas visões possam parecer arcaicas, a farmacologia de Galeno era
lógica, baseada em observações cuidadosas e semelhante aos antigos sistemas de me
dicina que surgiram na China, na Índia e em outras culturas não ocidentais. Muitas
formas de medicina alternativa ainda hoje usam ideias semelhantes.

Medicina não ocidental


Ao mesmo tempo em que a medicina ocidental estava emergindo, diferentes tradições
de cura eram formadas em outras culturas. Por exemplo, há mais de 2 mil anos, os
chineses desenvolveram um sistema integrado de cura, que conhecemos atualmente
como medicina oriental tradicional. Essa medicina está fundamentada no princípio de
que a harmonia interna é essencial para a boa saúde. Fundamental para essa harmo
nia é o conceito de qi (às vezes escrito como chi), uma energia vital, ou força de vid.a,
que oscila com as mudanças no bem-estar mental, físico e emocional de cada pessoa.
A acupuntura, a terapia com ervas, o tai-chi, a meditação e outras intervenções, su
postamente, restauram a saúde corrigindo bloqueios e desequilíbrios no qi.
A ayurveda é o mais antigo sistema médico conhecido no mundo. Tem sua ori
gem na Índia em torno do século VI a.C., coincidindo aproximadamente com a vida
de Buda. A palavra ayurveda vem das raízes em sânscrito ayuh, que significa "longevi
dade': e veda,"conhecimento': Muito praticada na Índia, a ayurveda se baseia na cren
ça de que o corpo humano representa o universo inteiro em um microcosmo e que a
chave para a saúde é manter um equilíbrio entre o corpo microcósmico e o mundo
macrocósmico. A chave para essa relação está no equilíbrio entre três humores cor
porais, ou doshas: vata, pitta e kapha, ou coletivamente, o tridosha (Fugh-Berman,
1997). Iremos explorar a história, as tradições e a eficácia dessas e de outras formas
não ocidentais de medicina no Capítulo 14.

A Idade Média começou com


um surto de peste que teve A Idade Média e a Renascença
origem no Egito em 540 d.e.
e espalhou-se rapidamente A queda do Império Romano no século V d.C. abriu as portas para a Idade Média
por todo o Império Romano, (476-cerca de 1450), uma época situada entre tempos antigos e modernos, caracte
chegando a matar 1Omil
pessoas em um único dia.
rizada pelo retorno às explicações sobrenaturais para a saúde e a doença na Europa.
Havia tantos cadáveres q ue A Igreja exercia uma influência poderosa sobre todas as áreas da vida. Interpretações
. - .
os coveiros nao conseguiam religiosas coloriam as ideias dos cientistas medievais a respeito da saúde e da doen
dar conta, e a solução foi ça. Aos olhos da igreja cristã medieval, os seres humanos eram criaturas com livre
carregar navioscom os
arbítrio, que não estavam sujeitas às leis da natureza. Visto que possuíam alma, os
mortos, conduzi-los para o
mar e abandoná-los. humanos e os animais não eram considerados objetos apropriados para o escrutí-
e A P r Tu Lo 1 1 Introdução à psicologia da saúde 9

nio científico, e sua dissecação era estrita A:-. 'OREAS \•tSALfl B i t V X ( L L E ilS Primeiros desenhos anatômicos
SECVNDA
mente proibida. A doença era vista como Jt,JV,$CPLO. Por volta do século XVI, o tabu
K V > l TA,,
que envolvia a dissecação
punição de Deus por algum mal realizado, humana já havia sido contornado
e acreditava-se que as doenças epidêmicas, há tanto tempo que o anatomista
como os dois grandes surtos de peste ( uma e artista flandrense Andreas
doença bacteriana conduzida por ratos e Vesalius (1514-1564) conseguiu
publicar um estudo completo dos
outros roedores), que ocorreram durante a
órgãos internos, da musculatura e
Idade Média, eram um sinal da ira de Deus. do sistema esquelético do corpo
O "tratamento" de Mariana nessa época humano.
certamente teria envolvido tentativas de
expulsar os espíritos do mal de seu corpo.
Houve poucos avanços científicos na medi
cina europeia durante esse milênio.
No final do século XV, nascia uma
nova era, a Renascença. Começando com ■ epidêmico literalmente,
entre as pessoas; uma
o ressurgimento da investigação científica, doença epidêmica se
esse período presenciou a revitalização do espalha com rapidez entre
estudo da anatomia e da prática médica. O muitos indivíduos de uma
tabu envolvendo a dissecação humana foi comunidade ao mesmo
suficientemente removido, a ponto de o tempo. Uma doença
pandêmica afeta pessoas ao
anatomista e artista flandrense Andreas Ve longo de uma grande área
salius (1514-1564) conseguir publicar um geográfica.
estudo composto por sete volumes sobre
os órgãos internos, a musculatura e o siste-
ma esquelético do corpo humano. Filho de
um farmacêutico, Vesalius era fascinado pela natureza, em especial pela anatomia dos
seres humanos e dos animais. Em sua busca pelo conhecimento, nenhum cachorro
vadio, gato ou rato estava livre de seu bisturi.
Na escola de medicina, Vesalius passou a dissecar cadáveres humanos. Suas des
cobertas provaram que algumas das teorias de Galeno e dos médicos antigos esta
vam claramente incorretas. Como pôde, pensou ele, uma autoridade inquestionável
como Galeno ter cometido tantos erros ao descrever o corpo? Então compreendeu o
porquê: Galeno nunca havia dissecado um corpo humano! Os volumes de Vesalius
tornaram-se os alicerces de uma nova medicina científica, fundamentada na anato
mia (Sigerist, 1958, 1971).
Um dos mais influentes pensadores da Renascença foi o filósofo e matemático
francês René Descartes (1596-1650), cuja primeira inovação foi o conceito do cor
po humano como uma máquina. Ele descreveu todos os reflexos básicos do corpo,
construindo, nesse processo, modelos mecânicos elaborados para demonstrar seus
princípios. Acreditava que a doença ocorria quando a máquina estragava, e a tarefa
do médico era consertá-la.
Descartes é conhecido por acreditar que a mente e o corpo são processos se
parados e autônomos, que interagem de forma mínima, e que cada um deles está
sujeito a diferentes leis de causalidade. Esse ponto de vista, chamado de dualismo ■ dualismo mente-corpo
ponto de vista filosófico
mente-corpo (ou dualismo cartesiano), baseia-se na doutrina de que os seres huma
segundo o qual a mente
nos possuem duas naturezas, a mental e a física. Descartes e outros grandes pensado e o corpo são entidades
res da Renascença, em um esforço para romper com o misticismo e as superstições separadas que não
do passado, rejeitavam vigorosamente a noção de que a mente influencia o corpo. A interagem.
condição de Mariana e a conexão com seu bem-estar emocional teriam ainda menos
probabilidade de serem compreendidas de maneira adequada. Embora tenha aberto
caminho para uma nova era de pesquisas médicas baseadas na confiança na ciência e
no pensamento racional, esse ponto de vista criou um preconceito duradouro na me
dicina ocidental em relação à importância dos processos psicológicos na saúde. Como
veremos, esse preconceito tem sido desfeito desde a década de 1970.
10 P A RTE 1 1 Fundamentos da psicologia da saúde

O racionalismo pós-Renascença
Após a Renascença, esperava-se que os médicos se concentrassem apenas nas causas
biológicas da doença. A antiga teoria humoral de Hipócrates foi finalmente descar
■ teoria anatômica teoria tada, em favor da nova teoria anatômica da doença. Os médicos da época teriam
segundo a qual as origens considerado causas internas para os sintomas de Mariana, como disfunções cardíacas
de certas doenças são ou cerebrais.
encontradas nos órgãos
internos, na musculatura e
A ciência e a medicina mudaram rapidamente durante os séculos XVII e XVIII,
no sistema esquelético do motivadas por numerosos avanços na tecnologia. Talvez a mais importante invenção
corpo humano. na medicina nesse período tenha sido o microscópio. Embora o uso de uma lente para
aumento já fosse conhecido em épocas antigas, foi um mercador de tecidos dinamar
quês, chamado Anton van Leeuwenhoek (1632-1723), quem construiu o primeiro
microscópio prático. Usando esse microscópio, ele foi o primeiro a observar células
sanguíneas e a estrutura dos músculos esqueléticos.

Descobertas do século XIX


■ teoria celular teoria Uma vez que as células individuais se tornaram visíveis, o cenário estava pronto para
formulada no século XIX, diz a teoria celular da doença - a ideia de que a doença resulta do funcionamento incor
que a doença é o resultado reto ou da morte das células corporais. Todavia, foi o cientista francês Louis Pasteur
de anormalidades nas
(1822-1895) que realmente abalou o mundo da medicina com uma série de expe
células do corpo.
rimentos meticulosos, que demonstravam que só é possível existir vida a partir da
vida já existente. Até o século XIX, os estudiosos acreditavam na geração espontânea
- a ideia de que os organismos vivos podem ser formados a partir de matéria não
viva. Por exemplo, pensava-se que as larvas e as moscas surgiam automaticamente de
carne podre. Para testar essa hipótese, Pasteur encheu dois frascos com um líquido
semelhante a mingau, aquecendo-os até o ponto de ebulição para matar qualquer
organismo presente. Um dos frascos tinha a boca larga, por onde o ar poderia fluir
■ teoria dosgermes diz que com facilidade. O outro também ficava aberto, mas tinha um pescoço curvo, impe
a doença é causada por
vírus, bactérias e outros
dindo que as bactérias presentes no ar caíssem no líquido. Para surpresa dos céti
microrganismos que cos, nenhum crescimento ocorreu no frasco curvo. Entretanto, naquele com o bico
invadem as células do corpo. comum, microrganismos contaminaram o líquido e multiplicaram-se com rapidez.
Mostrando que uma solução genuinamente esterilizada
permaneceria sem vida, Pasteur abriu caminho para o
desenvolvimento posterior de procedimentos cirúrgicos
assépticos (livre de germes). Ainda mais relevante, o de
safio de Pasteur contra uma crença com 2 mil anos de
idade é uma poderosa demonstração da importância de
manter a mente aberta na investigação científica.
As descobertas de Pasteur também ajudaram a
moldar a teoria dos germes da doença - a ideia de que
bactérias, vírus e outros microrganismos que invadem
-
as células do corpo fazem com que elas funcionem de
• V,
(X)

ê maneira inadequada. A teoria dos germes, que é um


. e
"' aperfeiçoamento da teoria celular, forma a base teórica
' • IE
/
"
"' da medicina moderna.
/' X
( )
J • o
Após Pasteur, o conhecimento e os procedimentos
Louis Pasteur em seu
médicos apresentaram desenvolvimento rápido. Em 1846, William Morton (1819-
laboratório O meticuloso 1868), um dentista norte-americano, introduziu o gás éter como anestésico. Esse
trabalho de Pasteur,de isolar grande avanço possibilitou a operação em pacientes, os quais não sentiam dor e as
bactérias no laboratório e mostrar sim permaneciam completamente relaxados. Cinquenta anos mais tarde, o médico
que a vida apenas ocorre a partir alemão Wilhelm Roentgen (1845-1943) descobriu o raio X, e, pela primeira vez, os
da vida existente, abriu caminho
para procedimentoscirúrgicos
médicos puderam observar de forma direta os órgãos internos em uma pessoa viva.
livres de germes. Antes do final do século, os pesquisadores haviam identificado os microrganismos
e A P r Tu Lo 1 1 Introdução à psicologia da saúde 11

que causavam malária, pneumonia, difteria, hanseníase, sífilis, peste bubônica e febre
tifoide, bem como outras doenças que a geração de minha bisavó temia. De posse
dessas informações, a medicina começou a controlar doenças que haviam acossado o
mundo desde a antiguidade.

O século XX e a aurora de uma nova era


À medida que o campo da medicina continuava a avançar, durante a primeira parte
do século XX, apoiava-se cada vez mais na fisiologia e na anatomia, em vez de no es
tudo de pensamentos e emoções, na busca por uma compreensão mais profunda da
saúde e da doença. Assim, nascia o modelo biomédico de saúde, o qual sustenta que ■ modelo biomédico visão
a doença sempre tem causas biológicas. Motivado pelo ímpeto das teorias celular e dominante no século XX,
segundo a qual a doença
dos germes, esse modelo tornou-se aceito de forma ampla durante o século XIX e hoje sempre tem uma causa
continua a representar a visão dominante na medicina. física.
O modelo biomédico apresenta três características distintas. Em primeiro lugar,
pressupõe que a doença seja o resultado de um patógeno - um vírus, uma bactéria ou ■ patógeno vírus, bactéria ou
outro microrganismo que invade o corpo. O modelo não faz menção às variáveis psi algum outro microrganismo
cológicas, sociais ou comportamentais na doença. Nesse sentido, o modelo biomédico que causam determinada
é reducionista, considerando que fenômenos complexos (como a saúde e a doença) doença.

são essencialmente derivados de um único fator primário. Em segundo, esse modelo


tem como base a doutrina cartesiana do dualismo mente-corpo, que, como vimos,
considera-os entidades separadas e autônomas que interagem de forma mínima. Por
fim, de acordo com ele, a saúde nada mais é que a ausência de doenças. Dessa forma,
aqueles que trabalham apoiados nessa perspectiva se concentram em investigar as
causas das doenças físicas, em vez daqueles fatores que promovem a vitalidade físi
ca, psicológica e social. Médicos que trabalhassem unicamente segundo a perspectiva
biomédica enfocariam as causas fisiológicas das dores de cabeça, do coração acelerado
e da falta de ar de Mariana, em vez de considerarem se algum problema psicológico
poderia estar contribuindo para esses sintomas.

Medicina psicossomática
O modelo biomédico, por intermédio de seu foco nos patógenos, avançou o trata
mento de saúde de maneira significativa. Entretanto, foi incapaz de explicar trans
tornos que não apresentavam uma causa física observável, como aqueles descobertos
por Sigmund Freud (1856-1939), que inicialmente obteve formação como médico.
As pacientes de Freud exibiam sintomas como perda da fala, surdez e até paralisia.
Ele acreditava que esses males eram causados por conflitos emocionais inconscientes
"convertidos" em forma física. Rotulou essas condições de transtorno conversivo, e a
comunidade médica viu-se forçada a aceitar uma nova categoria de doença.
Na década de 1940, FranzAlexander desenvolveu a ideia de que os conflitos psi
cológicos do indivíduo poderiam causar determinadas doenças. Quando os médicos
não conseguiam encontrar agentes infecciosos ou outras causas diretas para a artrite
reumática, Alexander ficava intrigado pela possibilidade de que fatores psicológicos
pudessem estar envolvidos. Segundo seu modelo do conflito nuclear, cada doença físi
ca é resultado de um conflito psicológico fundamental ou nuclear (Alexander, 1950).
Por exemplo, indivíduos com "personalidade reumática'', que tendem a reprimir a
raiva e são incapazes de expressar as emoções, seriam propensos a desenvolver ar
trite. Alexander ajudou a estabelecer a medicina psicossomática, um movimento ■ medicina psicossomática
reformista na medicina, denominado em decorrência das raízes psico, que significa ramo da medicina que se
"mente': e soma, que significa "corpo': Essa medicina diz respeito ao diagnóstico e ao concentra no diagnóstico
tratamento de doenças físicas supostamente causadas por processos mentais deficien e tratamento de doenças
físicas causadas por
tes. Esse novo campo floresceu e, logo, o periódico Psychosomatic Medicine publica processos mentais
va explicações psicanalíticas para uma variedade de problemas de saúde, incluindo deficientes.
12 P A RTE 1 1 Fundamentos da psicologia da saúde

hipertensão, enxaquecas, úlceras, hipertireoidismo e asma brônquica. Nessa época,


talvez Mariana tivesse sido tratada com a psicanálise de Freud - a terapia por meio da
fala que mergulha na infância do indivíduo e tenta revelar conflitos não resolvidos.
A medicina psicossomática era intrigante e parecia explicar o inexplicável. En
tretanto, apresentava diversas inconsistências que a levaram a ser desfavorecida. A
mais significativa delas é o fato de que se fundamentava na teoria freudiana. À medi
da que a ênfase de Freud em motivações inconscientes e irracionais na formação da
personalidade perdeu popularidade, o campo da medicina psicossomática começou
a declinar. Essa medicina, como o modelo biomédico, apoiava-se no reducionismo
- nesse caso, a ideia obsoleta de que um único problema psicológico ou falha de per
sonalidade seria suficiente para desencadear a doença. Atualmente, sabemos que a
doença, assim como a boa saúde, baseiam-se na interação combinada de diversos fa
tores, incluindo a hereditariedade, o ambiente e a formação psicológica do indivíduo.
Embora estivessem comprometidas,as teorias de Freud e a medicina psicossomática
formaram as bases para a nova apreciação das conexões entre a medicina e a psicologia.
Elas deram início à tendência contemporânea de ver doença e saúde como multifatorial.
Isso significa que muitas doenças são causadas pela interação entre diversos fatores, em
vez de uma única bactéria ou um só agente viral invasor. Entre estes, estão fatores do hos
pedeiro (como vulnerabilidade ou resiliência genéticas),fatores ambientais (como exposi
ção a poluentes ou químicos perigosos), fatores comportamentais ( como dieta, exercícios,
hábito de fumar) e fatores psicológicos ( como otimismo e hardiness* geral).

Medicina comportamental
Durante a primeira metade do século XX, o movimento behaviorista dominou a
psicologia norte-americana. Os behavioristas definiam a psicologia como o estudo
científico do comportamento observável e enfatizavam o papel da aprendizagem na
aquisição da maioria dos comportamentos humanos.
No início da década de 1970, a medicina comportamental começou a explorar
o papel de comportamentos aprendidos na saúde e na doença. Um de seus primeiros
■ medicina comportamental sucessos foi a pesquisa de Neal Miller (1909-2002), que utilizou técnicas de condicio
um campo interdisciplinar namento operante para ensinar cobaias (e depois seres humanos) a adquirir controle
que integra as ciências sobre certas funções corporais. Miller demonstrou, por exemplo, que as pessoas podem
comportamentaise adquirir algum nível de controle sobre sua pressão arterial e relaxar a frequência car
biomédicas para promover a
saúde e tratar doenças.
díaca quando se tornam cientes desses estados. A técnica de Miller, denominada biofeed
back,é discutida de forma mais detalhada no Capítulo 4. Neste ponto da história, nossa
paciente ansiosa, Mariana, provavelmente teria sido diagnosticada de maneira correta
e tratada de um modo que obtivesse um certo grau de alívio de seus sintomas - talvez
com uma combinação de biofeedback e outras técnicas de relaxamento.
Embora a fonte da medicina comportamental tenha sido o movimento behavio
rista na psicologia, uma característica distinta desse campo é sua natureza interdisci
plinar. A medicina comportamental atrai membros de campos tão diversos quanto a
antropologia, a sociologia, a biologia molecular, a genética, a bioquímica e a psicologia,
além de profissões ligadas à área da saúde, como enfermagem, medicina e odontologia.

O surgimento da psicologia da saúde


Em 1973, a American Psychological Association (APA) indicou uma força-tarefa para
explorar o papel da psicologia no campo da medicina comportamental e, em 1978,

* N. de RT.: Termo de difícil tradução, quer dizer vigor, robustez, persistência, audácia, força. Hardy significa re
sistente, forte, robusto, ousado, audaz, audacioso. Os estudos brasileiros que usam o termo tendem a mantê-lo no
original. Quando traduzido, aparece como "personalidade': ver, por exemplo, De Oliveira, F.F. (2007). Hardiness
(personalidade resistente): repercussões na qualidade de vida profissional em colaboradores de uma cooperativa de
crédito do estado de Mato Grosso do Sul. Retirado da World Wide Web em 10/03/2013 de ucdb.br.
e A P r Tu Lo 1 1 Introdução à psicologia da saúde 13

criou a divisão de psicologia da saúde (Divisão 38). Quatro anos depois, foi publicado o
primeiro volume de seu periódico oficial, Health Psychology. Nessa edição, Joseph Mata
razzo, o primeiro presidente da divisão, estabeleceu os quatro objetivos do novo campo:

1. Estudar de forma científica as causas e origens de determinadas doenças, ou seja, sua ■ etiologia estudo científico
etiologia. Os psicólogos da saúde estão principalmente interessados nas origens das causas ou origens de
doenças específicas.
psicológicas, comportamentais e sociais da doença. Eles investigam por que as
pessoas se envolvem em comportamentos que comprometem a saúde, como o hábi
to de fumar e o sexo inseguro.
2. Promover a saúde. Os psicólogos da saúde consideram maneiras de fazer as pes
soas adotarem comportamentos que promovam a saúde, como praticar exercícios
regularmente e comer alimentos nutritivos.
3. Prevenir e tratar doenças. Os psicólogos da saúde projetam programas para aju
dar as pessoas a parar de fumar, perder peso, administrar o estresse e minimizar
outros fatores de risco para uma saúde fraca. Eles também auxiliam aquelas que
já estão doentes em seus esforços para se adaptarem a suas doenças ou aderirem a
regimes de tratamento difíceis.
4. Promover políticas de saúde pública e oaprimoramento do sistema de saúde pública.
Os psicólogos da saúde são bastante ativos em todos os aspectos da educação para
a saúde e mantêm reuniões frequentes com líderes governamentaisque formulam
políticas públicas na tentativa de melhorar os serviços de saúde para todos os
indivíduos.

Conforme observado na Tabela 1.2, várias tendências do século XX ajudaram as


pessoas a moldar o novo campo da psicologia da saúde, direcionando-o para a pers
pectiva biopsicossocial mais ampla, que é o foco deste texto.

Perspectiva biopsicossocial (mente-corpo) --- ■ perspectiva biopsicossocial


(mente-corpo) ponto de
vista segundo o qual a saúde
e outros comportamentos
egundo nos conta a história, procurar apenas um fator causal produz
são determinados pela
uma imagem incompleta da saúde e da doença de uma pessoa. Portanto, os interação entre mecanismos
psicólogos da saúde trabalham a partir da perspectiva biopsicossocial biológicos, processos
(mente-corpo). Conforme mostrado na Figura 1.2, essa perspectiva psicológicos e influências
reconhece que forças biológicas, psicológicas e socioculturais agem em conjunto sociais.

para determinar a saúde e a vulnerabilidade do indivíduo à doença; ou seja,


a saúde e a doença devem ser explicadas em relação a contextos múltiplos.

Tabela 1.2
Tendências do século XX que moldaram a psicologia da saúde

Tendência Resultado
1. Aumento na Reconhecer a necessidade de cuidar melhor de nós mesmos
expectativa de vida para promover a vitalidade no decorrer de uma vida mais
longa.
2. O surgimento de transtornos Educar as pessoas para evitar comportamentos que
relacionados com o estilo de vida contribuam para essas doenças (p. ex., fumar eter uma dieta
(p. ex.,câncer, AVE, doenças cardíacas) com teores elevados de gordura).
3. Aumento nos custos da Concentrar esforços em maneiras de prevenir a doença e
assistência à saúde manter uma boa saúde para evitar esses custos.
4. Reformulação do modelo biomédico Desenvolver um modelo maisabrangente da saúde e da
doença - a abordagem biopsicossocial.
14 P A RTE 1 1 Fundamentos da psicologia da saúde

O contexto biológico
Perspectiva biopsicossocial
(mente-corpo) Todos os comportamentos, incluindo estados de saúde e doença, ocorrem no con
O contexto biológico texto biológico. Cada pensamento, estado de espírito e ânsia é um evento biológico
O contexto psicológico possibilitado pela estrutura anatômica e pela função biológica característica do corpo
O contexto social da pessoa. A psicologia da saúde chama atenção para aqueles aspectos de nosso corpo
"Sistemas" biopsicossociais
que influenciam a saúde e a doença: nossa conformação genética e nossos sistemas
Aplicando o modelo
nervoso, imune e endócrino (ver Cap. 3).
biopsicossocial
Os genes proporcionam o projeto de nossa biologia e predispõem nossos com
portamentos - saudável e doentio, normal e anormal. Por exemplo, sabe-se há muito
tempo que a tendência a abusar do consumo de álcool é hereditária (ver Cap. 8). Uma
razão para isso é que a dependência do álcool é, pelo menos em parte, genética, em
bora não pareça estar ligada a um único gene específico. Em vez disso, certas pessoas
podem herdar uma sensibilidade maior aos efeitos físicos do álcool, experimentando
a intoxicação como algo prazeroso e uma ressaca como algo de pouca importância.
Essas pessoas têm mais probabilidade de beber, especialmente em certos contextos
psicológicos e sociais.
Um elemento fundamental do contexto biológico é a história evolutiva da nossa
espécie, e a perspectiva evolutiva orienta o trabalho de muitos psicólogos da saúde.
Nossos traços e comportamentos humanos característicos existem na forma como
são porque ajudaram nossos ancestrais distantes a sobreviver tempo suficiente para se
reproduzirem e enviar seus genes para o futuro. Por exemplo, a seleção natural favo
receu a tendência das pessoas a sentir fome na presença de um aroma agradável (ver
Cap. 7). Essa sensibilidade para pistas relacionadas com comida faz sentido evolu
cionário, pois comer é necessário para a sobrevivência - particularmente no passado
distante, quando os suprimentos de comida eram imprevisíveis e era vantajoso ter um
apetite saudável quando havia alimento disponível.
Ao mesmo tempo, a biologia e o comportamento interagem de forma constan
te. Por exemplo, alguns indivíduos são mais vulneráveis a doenças relacionadas com
o estresse porque reagem com raiva a perturbações cotidianas e a outros "gatilhos,,
ambientais (ver Cap. 4). Entre os homens, esses gatilhos apresentam correlação com a
reação agressiva relacionada com quantidades maiores do hormônio testosterona. Po
rém, essa relação é recíproca: ataques de raiva também podem levar a níveis elevados

■ Vulnerabilidade
genética à ansiedade ■ Níveis elevados de estresse
■ Poucas habilidades de
enfrentamento
■ Forte sentimento de respon
sabilidade pessoal
;:; Í ! Z ; • ; ■Sistema nervoso
t'-: : : _ : 0 reativo

Figura 1.2 MECANISMOSBIOLÓGICOS PROCESSOS PSICOLÓGICOS

O modelo psicossocial da ansiedade de


Mariana Segundo a perspectiva biopsicossocial,
todos os comportamentos relacionados com
a saúde podem ser explicados de acordo com ■ Níveis elevados de responsabilida
Ansiedade
'
■ Dores de cabeça
três contextos: processos biológicos, processos de real no trabalho, em casae na ■ Coração acelerado
psicológicos e influências sociais. Esse diagrama comunidade ■ Faltade ar
ilustra como os três processos poderiam ■ Falta de apoio social ■ "Bolo"na garganta
■ Insônia
influenciar a ansiedade de Mariana, no estudo de
caso usado como exemplo (p. 5). INFLU NCIAS SOCIAIS COMPORTAMENTO
e A P r Tu Lo 1 1 Introdução à psicologia da saúde 15

de testosterona. Uma das tarefas da psicologia da saúde é explicar como (e por que)
essa influência mútua entre biologia e comportamento ocorre.
■ perspectiva do curso de
vida perspectiva teórica
A perspectiva do curso de vida concentrada em aspectos
da saúde e da doença
No contexto biológico, a perspectiva do cursodevida na psicologia da saúde concen relacionados com a idade.
tra-se em importantes aspectos da saúde e da doença relacionados com a idade (Jack
son, 1996). Essa perspectiva considera, por exemplo, a maneira como a má nutrição,
o tabagismo e o uso de substâncias psicoativas por uma mulher grávida afetaria o
desenvolvimento de seu bebê ao longo da vida. Talvez seu filho nasça prematuramen
te e sofra de baixo peso neonatal (menos de 2.500 gramas), um dos problemas mais
comuns e evitáveis no desenvolvimento pré-natal. Entre as consequências disso, estão
o desenvolvimento motor, social e de linguagem lento; maior risco de paralisia cere
bral; dificuldades de aprendizagem a longo prazo; e mesmo a morte (Jalil et al., 2008).
A perspectiva do curso de vida também considera as principais causas de morte
que acometem certos grupos etários. As doenças crônicas que são as principais causas
de morte na população em geral afetam, mais provavelmente, adultos de meia-idade e
idosos. Os jovens têm uma probabilidade muito maior de morrer devido a acidentes.

O contexto psicológico
A mensagem central da psicologia da saúde, obviamente, é que a saúde e a doença
estão sujeitas a influências psicológicas. Por exemplo, um fator fundamental para
determinar o quanto uma pessoa consegue lidar com uma experiência de vida es
tressante é a forma como o evento é avaliado e interpretado (ver Cap. 5). Eventos
avaliados como avassaladores, invasivos e fora do controle custam mais do ponto de
vista físico e psicológico do que os que são encarados como desafios menores, tem-
porários e superáveis. De fato, algumas evidências sugerem que, independentemen
te de um evento ser de fato vivenciado ou apenas imaginado, a resposta do corpo ao
estresse é, de modo aproximado, a mesma. Os psicólogos da saúde pensam que cer
tas pessoas podem ser cronicamente depressivas e mais suscetíveis a determinados
problemas de saúde porque revivem eventos difíceis muitas vezes em suas mentes, o
que pode ser de modo funcional equivalente a experienciar repetidas vezes o evento
real. No decorrer deste livro, iremos examinar as implicações de pensamento, per
cepção, motivação, emoção, aprendizagem, atenção, memória e outros aspectos de
alta relevância para a saúde.
Os fatores psicológicos também desempenham um papel importante no tra
tamento de condições crônicas. A efetividade de todas as intervenções - incluindo
medicação e cirurgia, bem como acupuntura e outros tratamentos alternativos - é
poderosamente influenciada pela postura do paciente. Um indivíduo que acredite que
um medicamento ou outro tratamento irá lhe causar apenas efeitos colaterais des
confortáveis é capaz de experimentar uma tensão considerável, que pode, na verdade,
piorar sua reação física à intervenção, desencadeando um círculo vicioso, no qual a
crescente ansiedade antes do tratamento é seguida por reações físicas progressiva
mente piores, à medida que o regime terapêutico continua. No entanto, um pacien
te com confiança na efetividade de certo tratamento pode, na verd.ade, apresentar
uma resposta terapêutica melhor. As intervenções psicológicas ajudam os pacientes
a administrar a tensão, diminuindo, assim, as reações negativas ao tratamento. Os
pacientes mais tranquilos em geral são mais capazes e mais motivados para seguir as
instruções de seus médicos.
As intervenções psicológicas também auxiliam os pacientes a administrar o es
tresse da vida cotidiana, que parece exercer um efeito cumulativo sobre o sistema
imune. Acontecimentos negativos na vida, como perda de um ente querido, divór
cio, desemprego ou mudança, podem estar ligados a diminuição do funcionamento
16 P A RTE 1 1 Fundamentos da psicologia da saúde

imunológico e maior suscetibilidade a doenças. Ensinando aos pacientes formas mais


efetivas de administrar tensões inevitáveis, os psicólogos da saúde podem ajudar o
sistema imune do paciente a combater as doenças.

O contexto social
Os imigrantes irlandeses da virada do século, como minha bisavó, venceram a po
breza e o preconceito nos Estados Unidos, estabelecendo associações de irlandeses
americanos que refletiam uma ética de apoio familiar e comunitário. "Cada um por
si, mas todos pelos outros': escreveu Patric O'Callaghan a sua irmã em sua terra natal
para descrever esse sistema de proteção. Ao colocarem o comportamento saudável em
seu contexto social, os psicólogos da saúde estão preocupados com a maneira como
pensamos, influenciamos e nos relacionamos uns com os outros e com nosso ambien
te. Seu gênero, por exemplo, implica determinado papel socialmente prescrito, que
representa seu senso de ser mulher ou homem. Além disso, você é membro de deter
minada família, comunidade e nação; você também tem uma certa identidade racial,
cultural e étnica, e vive em uma classe socioeconômica específica. Você é influenciado
■ coorte de nascimento pelos mesmos fatores históricos e sociais que outras pessoas em sua coorte de nasci
grupo de pessoas que, mento- um grupo de indivíduos que nasceram com alguns anos de diferença uns dos
por terem nascido outros. Por exemplo, aqueles que viveram 100 anos atrás tinham mais probabilidade
aproximadamente
de morrer de doenças que nós, nos países desenvolvidos, hoje consideramos evitáveis,
na mesma época,
experimentam condições como a tuberculose e a difteria (Tab. 1.3), e a mortalidade infantil nos Estados Unidos
históricas e sociais caiu significativamente (Fig. 1.3). Cada um desses elementos de seu contexto social
semelhantes. único afeta suas experiências e influencia suas crenças e seus comportamentos - in
cluindo aqueles relacionados com a saúde.
Considere o contexto social em que uma doença crônica, como o câncer, ocorre.
Um cônjuge, outra pessoa afetivamente significativa ou um amigo íntimo proporcio
nam uma fonte importante de apoio social para muitos pacientes de câncer. Mulheres
e homens que se sentem socialmente conectados a uma rede de amigos afetuosos têm
menor probabilidade de morrer de qualquer forma de câncer do que seus correlatos
socialmente isolados (ver Cap. 10).O fato de sentir-se apoiado por outras pessoas ser
ve como proteção que mitiga o resultado de hormônios que causam estresse e man
têm as defesas do corpo fortes durante situações traumáticas. Pode também promover

Tabela 1.3
Asprincipais causas de mortes nos Estados Unidos em 1900 e 2005

1900 Porcentagem 2005* Porcentagem

Pneumonia 11,8% Doenças cardíacas 26,6%


Tuberculose 11,3% Câncer 22,8%
Diarreia e enterite 8,3% AVE 5,9%
Doenças cardíacas 5,2% Doenças crônicasdo aparelho respiratório inferior 5,3%
Doenças renais 5,2% Acidentes 4,8%
Acidentes 4,2% Diabetesmelito 3,1%
Câncer 3,7% Influenza e pneumonia 2,9%
Senilidade 2,9% Doença de Alzheimer 2,6%
Difteria 2,3% Doençashepáticas 1,8%
Septicemia 1,4%
Fontes:Healthy People2070, U.S. Department of Health and Human Services, Washington, DC: U.S. Government Printing Office.
Deaths: Final Data for 2005, H. C.Kung, D. L. Hoyert, J. J. Xu e S. L. Murphy (2008). National Vital StatisticsReport, 56(1O),Table B.
* Observe que as principaiscausas de
morte em 2005 não eram doenças novas; elas já estavam presentes em outrasépocas, mas,
ou tinham outro nome, ou menos pessoas morriam delas.
e A P r Tu Lo 1 1 Introdução à psicologia da saúde 17

melhores hábitos de saúde, check-ups regulares e exames para sintomas preocupantes


- t u d o isso tende a melhorar as chances de sobrevivência de uma vítima do câncer.

Perspectiva sociocultural

No contexto social, a perspectiva sociocultural considera como fatores sociais e cul ■ perspectiva sociocultural
turais contribuem para a saúde e a doença. Quando os psicólogos usam o termo cul perspectiva teórica que
tura, estão se referindo a comportamentos, valores e costumes persistentes que um aborda a maneira como os
fatores sociais e culturais
grupo de pessoas desenvolveu ao longo dos anos e transmitiu para a próxima geração. contribuem para a saúde e a
Em uma cultura, pode haver um, dois ou mais grupos étnicos, isto é, grandes grupos doença.
de pessoas que tendem a ter valores e experiências semelhantes porque compartilham
, .
certas caracter1st1cas.
Em culturas multiétnicas, como a dos Estados Unidos e da maioria das grandes
nações, ainda existem amplas disparidades em expectativa de vida e nível de saúde,
tanto entre os grupos de minorias étnicas quanto na maior parte da população. Algu
mas dessas diferenças, sem dúvida, refletem uma variação em status socioeconómico,
uma medida de diversas variáveis, incluindo renda, educação e ocupação. Por exem
plo, as taxas mais elevadas de doenças crônicas ocorrem entre pessoas que possuem
os níveis mais baixos de status socioeconômico (Mackenbach et al., 2008). Evidências
também sugerem que os vieses, preconceitos e estereótipos por parte de profissionais
da saúde também podem constituir fatores nesse sentido. As minorias tendem a rece
ber cuidados de menor qualidade do que os brancos, mesmo com níveis comparáveis
de seguro, rend.a, idade e gravidade de condições (Devi, 2008; Smedley, Stith e Nelson,
2003).
Os aspectos socioculturais também desempenham um papel importante na
variação em crenças e comportamentos relacionados com a saúde. Por exemplo, as
práticas tradicionais de cuidado à saúde dos nativos norte-americanos são holísticas e
não distinguem modelos separados para doenças físicas e mentais. Em outro exemplo,
os adeptos da ciência cristã tradicionalmente rejeitam o uso da medicina, pois acre
ditam que os doentes podem ser curados apenas por meio da oração, e a lei judaica
prescreve que Deus dá a saúde, sendo responsabilidade de cada indivíduo protegê-la.
De modo geral, os psicólogos da saúde que trabalham nessa perspectiva socio
cultural encontram grandes discrepâncias, não apenas entre os grupos étnicos, mas
também dentro deles. Os latinos, por exemplo, não são homogêneos. Os três maio
res grupos de nacionalidade - mexicanos, porto-riquenhos e cubanos - diferem em
18 P A RTE 1 1 Fundamentos da psicologia da saúde

educação, renda, saúde geral e risco de doenças e de morte (Angel, Angel e Hill, 2008;
Bagley et al., 1995). Os padrões socioeconômicos, religiosos e outros culturais tam
bém podem explicar por que existem variações na saúde não apenas entre os grupos
étnicos, mas também de região para região, estado para estado e até mesmo de um
bairro para outro. Por exemplo, em cada mil nascimentos vivos, o número de bebês
que morrem antes de chegar ao primeiro aniversário é muito maior no Distrito de
Columbia (7,04%), Mississippi (6,60%) e Louisiana (6,12%) do que em Montana
(2,64%), Washington (2,99°/o) e Iowa (3,25%) (Heron et al., 2009). Conforme colo
cou um pesquisador, em termos de sua saúde geral, "a maneira como você envelhece
depende de onde você morà' (Cruikshank, 2003).

A perspectiva de gênero
■ perspectiva de gênero Também no contexto social, a perspectiva de gênero em psicologia da saúde se con
perspectiva teórica que centra no estudo de problemas de saúde específicos dos gêneros e em barreiras que
aborda problemas de saúde
tal condição encontra nos serviços de saúde. Com exceção de problemas no sistema
específicos dos gêneros e
suas barreiras aos serviços reprodutivo e subnutrição, os homens são mais vulneráveis do que as mulheres a
de saúde. quase todas as outras condições de saúde. Além disso, muitos homens consideram
o cuidado preventivo em saúde algo que não é masculino, mas as mulheres tendem
a responder de forma mais ativa do que eles a sintomas de doenças e a procurarem
tratamento mais cedo (Williams, 2003). O efeito é cumulativo e, aos 80 anos de idade,
as mulheres são mais numerosas que os homens, em uma proporção de 2 para 1 (U.S.
Census Bureau, 201O).
A profissão médica tem longa história de tratar homens e mulheres de maneira
diversa. Por exemplo, pesquisas já mostraram que as mulheres tratadas para doenças
cardíacas têm maior probabilidade de receber diagnósticos incorretos (Chiaramonte
e Friend, 2006); em comparação aos homens, é menos provável que elas recebam
aconselhamento sobre os benefícios para o coração da prática de exercícios, nutrição
e redução de peso (Stewart et al., 2004) ou que recebam e tomem medicamentos pres
critos para o tratamento de sua condição cardíaca (Vittinghoff et al., 2003). Em um

--
• ..
Viés sociocultural no diagnóstico Foi dito aos médicos que estes supostos"pacientes cardíacos"eram
idênticos em ocupação,sintomase em qualquer outro aspecto, exceto idade, raça e gênero. Embora o
cateterismo fosse o tratamento adequado para os sintomas descritos, os médicos recomendaram-no mais
para os pacientes mais jovens, brancos e do sexo masculino do que para pacientes do sexo feminino, mais
velhos e negros.
Fonte:Schulman, K.A. e colaboradores.(1999).The effect of race and sexon physician'srecommendations for cardiac
catherization''.New England Journal ofMedicine, 340,p.618-625.
e A P r Tu Lo 1 1 Introdução à psicologia da saúde 19

estudo clássico, 700 médicos deviam prescrever tratamento para oito pacientes cardí
acos com sintomas idênticos (Schulman et al., 1999). Os "pacientes,, eram atores que
diferiam apenas em gênero, raça e idade informada (55 ou 70). Embora o diagnóstico
seja questão de julgamento, a maioria dos especialistas em coração concordaria que
um cateterismo diagnóstico fosse o tratamento apropriado para os sintomas descritos
por cada paciente hipotético. Tod.avia, as recomendações revelaram um pequeno, mas
ainda significativo, viés em relação às mulheres e aos negros. Para os pacientes mais
jovens, brancos e do sexo masculino, o cateterismo foi recomendado em 90, 91 e 91%
das vezes, respectivamente; para pacientes mais idosos, negros e do sexo feminino, 86,
85 e 85% das vezes, respectivamente.
Problemas como esses, aliados à sub-representação das mulheres como partici
pantes de testes de pesquisas médicas, levaram à crítica do viés de gênero na pesquisa
e no cuidado de saúde. Em resposta, os National Institutes of Health (NIH) publi
caram diretrizes detalhadas sobre a inclusão de mulheres e grupos minoritários em
pesquisas médicas (USDHHS, 2001
Apesar da importância das influências socioculturais e ligadas aos gêneros,
lembre que seria um erro focalizar exclusivamente esse, ou qualquer contexto, de
forma isolada. O comportamento relacionado com a saúde não é uma consequência
automática de determinado contexto social, cultural ou de gênero. Por exemplo:
embora, como um grupo, pacientes de câncer casados tendam a sobreviver mais
tempo que os não casados, os casamentos infelizes e destrutivos não trazem benefí
cios nesse sentido, podendo estarem ligados, inclusive, a resultados negativos para
a saúde.

''Sistemas'' biopsicossociais
Conforme indicam esses exemplos, a perspectiva biopsicossocial enfatiza as influên
cias mútuas entre os contextos biológicos, psicológicos e sociais da saúde. Ela tam
bém está fundamentada na teoria sistêmica do comportamento. De acordo com essa
teoria, a saúde - de fato, toda a natureza - é mais bem compreendida como uma
hierarquia de sistemas, na qual cada um deles é composto de modo simultâneo por
subsistemas e por uma parte de sistemas maiores e mais abrangentes (Fig. 1.4).
Uma maneira de entender a relação entre sistemas é imaginar um alvo, com a
"moscà' no centro e anéis concêntricos crescendo a partir dela. Assim, considere cada
um de nós um sistema formado por sistemas em interação, como o sistema endó ■ teoria sistêmica ponto
crino, o cardiovascular, o nervoso e o imune. (Tenha em mente que, em cada um de de vista segundo o qual
nossos sistemas biológicos, existem subsistemas menores, que consistem em tecidos, a natureza é mais bem
compreendida como uma
fibras nervosas, fluidos, células e material genético). Se você partir da mosca no cen
hierarquia de sistemas,
tro e em direção aos anéis externos, verá sistemas maiores que interagem conosco - e na qual cada sistema é
esses anéis incluem nossa família, nosso bairro, nossa sociedade e nossas culturas. composto simultaneamente
Aplicada à saúde, a abordagem sistêmica enfatiza uma questão fundamental: o por subsistemas menores e
sistema, em determinado nível, é afetado por sistemas em outros níveis e também os sistemas maiores inter
-relacionados.
afeta. Por exemplo, o sistema imune enfraquecido afeta órgãos específicos no corpo de
uma pessoa, o que, por sua vez, afeta sua saúde biológica geral, atingindo os relacio
namentos dessa pessoa com sua família e seus amigos. Conceituar a saúde e a doença
conforme a abordagem sistêmica permite que compreendamos o indivíduo de forma
integral.
20 P A RTE 1 1 Fundamentos da psicologia da saúde

Aplicando o modelo biopsicossocial


Para ter uma ideia melhor da utilidade de explicações biopsicossociais sobre com
portamentos saud.áveis, considere o exemplo do abuso de álcool, que é um padrão
mal-adaptativo de beber, no qual pelo menos um dos seguintes fatores ocorre: beber
de forma repetida apesar da interferência com obrigações dos papéis sociais; conti
nuar a beber apesar de problemas legais, sociais ou interpessoais relacionados com o
uso de álcool; e beber repetidamente em situações em que a intoxicação é perigosa.
Como a maioria dos transtornos psicológicos, o abuso de álcool é mais bem explicado
por diversos mecanismos, podendo incluir componentes genéticos e ambientais (Ball,
2008) (Fig. 1.5). Pesquisas realizadas com famílias, gêmeos idênticos ou fraternos e
crianças adotadas demonstram claramente que pessoas (sobretudo homens) com um
parente biológico dependente de álcool têm mais probabilidade de abusar de álcool
(NIMA, 2010). Além disso, pessoas que herdam uma variação gênica que resulte em
deficiência de uma enzima fundamental para metabolizar o álcool são mais sensí
veis a seus efeitos, sendo muito menos provável que tenham problemas com a bebida
(Zakhari, 2006).
Do ponto de vista psicológico, ainda que não tentem mais identificar uma úni
ca "personalidade alcoolistà', os pesquisadores se concentram em traços específicos
da personalidade e comportamentos que estão ligados à dependência e ao abuso de
álcool. Um desses traços é a baixa autorregulação,caracterizada por uma incapacidade
de exercer controle sobre a bebida (Hustad, Carey, Carey e Maisto, 2009). Outro é a
emotividade negativa, marcada por irritabilidade e agitação. Com vários outros, esses
traços compreendem a síndrome de dependência de álcool,que é a base para o diagnós
tico de abuso de álcool (Li, Hewitt e Grant, 2007).

CUitura

Sistema endócrino

Células Genes
';D.
'A
n>
o 3Q)
.g
..
Q) "a.
.Q,)
e
ro -o·
E
2
,./,., ,..,
V,

if\ e:
Fibras ...
Õj"

Figura 1.4 Músculos


nervosas
Teoria sistêmica e saúde Os
sistemasque potencialmente
influenciam a dor de cabeça, a
falta de ar,a insônia e o coração
acelerado de Mariana (revise o
estudo de caso,p.5) são os sistemas
biológicos internos de seu corpo
(imune, endócrino, cardiovascular e
nervoso), assim como sua família, seu
bairro, sua cultura eoutros sistemas
externos do qual ela fazparte.
e A P r Tu Lo 1 1 Introdução à psicologia da saúde 21

No aspecto social, o abuso de álcool às vezes decorre de uma história de beber


para enfrentar fatos da vida ou demandas sociais avassaladoras. A pressão dos outros, Perspectiva biopsicossocial
ambientes difíceis em casa e no trabalho e a tentativa de reduzir a tensão também po (mente-corpo)
dem contribuir para problemas com a bebida. E, de maneira mais geral, como muitos O contexto biológico
universitários sabem, certos contextos sociais promovem a bebida. Pesquisas mostram O contexto psicológico
O contexto social
que universitários que dão preferência a grandes contextos sociais envolvendo homens
"Sistemas" biopsicossociais
e mulheres tendem a beber mais do que aqueles que preferem contextos menores com
Aplicando o modelo
ambos os sexos. Além disso, homens que costumam beber em grupos do mesmo sexo biopsicossocial
(sejam grandes ou pequenos) dizem que se embebedam com mais frequência do que
Perguntas frequentes sobre
aqueles que bebem em geral em grupos pequenos de ambos os sexos. Isso sugere que os
a carreira em psicologia
estudantes do sexo masculino que bebem muito podem procurar contextos sociais nos da saúde
quais esse comportamento seja tolerado (LaBrie, Hummer e Pedersen, 2007; Senchak, O que fazem os psicólogos
Leonard e Greene, 1998). Felizmente, os pesquisadores também observaram que o há da saúde?
bito de beber muito na faculdade não prevê que comportamento semelhante obrigato Onde trabalham os
riamente se mantenha após a faculdade. Os estudantes tendem a parar de beber muito psicólogos da saúde?
mais cedo do que indivíduos que não estudam - amadurecendo e abandonando o abuso Como se tornar um
perigoso de álcool antes que se torne u m problema a longo prazo (NIAAA, 2006; White, psicólogo da saúde?
Labouvie e Papadaratsakis, 2005).

■ Predisposição
■ Pensamento negativo
genética
■ Crenças autoderrotistas

■ Sensibilidade
ao álcool

MECANISMOS BIOLÓGICOS PROCESSOS PSICOLÓGICOS

■ Situaçõesestressantes
■ Cultura/ambiente que promove
a bebida excessiva Abuso de álcool Figura 1.5
■ Cultura individualista que incen
tiva a culpa pelo fracasso pessoal Modelo biopsicossocial do abuso de álcool O
COMPORTAMENTO abuso de álcool deve ser compreendido em três
INFLUÊNCIASSOCIAIS contextos: biológico, psicológico e social.

Perguntas frequentes...

Já abor damos como as visões sobre a natureza da doença e da saúde


mudaram no decorrer da história, examinamos tendências que ajudaram a
moldar o novo campo da psicologia da saúde e discutimos as várias perspectivas
teóricas a partir as quais os psicólogos da saúde trabalham. Porém, talvez você
ainda tenha questões a respeito da profissão da psicologia da saúde. A seguir,
algumas respostas para as perguntas mais frequentes.

O que fazem os psicólogos da saúde?


Como todos os psicólogos, os psicólogos da saúde podem trabalhar como professores,
cientistas pesquisadores e/ou clínicos. Como professores, treinam estudantes em campos
22 P A RTE 1 1 Fundamentos da psicologia da saúde

relacionados com a saúde, como a psicologia, a fisioterapia e a medicina. Como pesqui


sadores, identificam os processos psicológicos que contribuem para a saúde e a doença,
investigam questões relacionadas com o porquê de as pessoas adotarem práticas que
não são saudáveis e avaliam a efetividade de determinadas intervenções terapêuticas.
Os psicólogos da saúde estão na vanguarda da pesquisa, testando o modelo
biopsicossocial em inúmeras áreas, incluindo doença de Alzheimer, HIV/aids, adesão
a regimes de tratamento médico e funcionamento imunológico e processos patológi
cos diversos. Visto que o modelo biopsicossocial foi desenvolvido primeiro para expli
car problemas de saúde, até pouco tempo a maioria das pesquisas se concentrava nas
doenças e em comportamentos que comprometessem a saúde. Entretanto, um mo
vimento surgido na psicologia no final do século XX, chamado de psicologia positiva,
está incentivando os psicólogos a dedicarem mais atenção ao funcionamento humano
saudável e adequado (APA, 2010). O âmbito dessas pesquisas - cobrindo tópicos tão
diversos quanto a felicidade, a rigidez psicológica e as características das pessoas que
vivem até uma idade avançada - mostra claramente que o modelo biopsicossocial
orienta a maior parte delas (ver Cap. 6).
Os psicólogosda saúde clínicos,*que em geral focalizam intervenções visando à pro
moção da saúde, são licenciados para a prática independente em áreas como psicologia
clínica e orientação. Como clínicos, utilizam a ampla variedade de técnicas terapêuticas,
educacionais e de avaliação diagnóstica existentes na psicologia para promover a saúde
e auxiliar os doentes físicos. As abordagens de avaliação com frequência envolvem me
didas do funcionamento cognitivo, avaliação psicofisiológica, pesquisas demográficas e
análises do estilo de vida ou da personalidade.As intervenções podem envolver manejo
do estresse, terapias de relaxamento, biofeedback, educação sobre o papel dos processos
psicológicos na doença e intervenções cognitivo-comportamentais.As intervenções não
se limitam àqueles que já estão sofrendo de um problema de saúde. Indivíduos saudá
veis ou em risco podem aprender comportamentos saudáveis preventivos.

Onde trabalham os psicólogos da saúde?


Tradicionalmente, nos Estados Unidos, a maioria dos psicólogos aceitava posições
de ensino ou pesquisa em universidades e faculdades. As oportunidades de emprego
para psicólogos da saúde com habilidades de pesquisa ou aplicadas também incluem
trabalhar em agências governamentais que fazem pesquisa, como os NIH e os Centers
for Disease Control and Prevention.**
Em cenários médicos, os psicólogos da saúde ensinam os profissionais da saúde,
fazem pesquisa, envolvem-se no desenvolvimento de políticas públicas sobre o cuida
do de saúde e prestam uma variedade de outros serviços. Eles ajudam os pacientes a
lidar com doenças e a ansiedade associada a cirurgias e outras intervenções médicas,
além de intervirem para promover a adesão dos pacientes a regimes médicos compli
cados. Nesse sentido, os psicólogos da saúde clínicos trabalham em equipes hospita
lares interdisciplinares. Como parte de um novo modelo de cuidado integrado, essas
equipes ajudam a melhorar os resultados do tratamento médico e a reduzir os custos e
representam um modelo de sucesso para sistemas de saúde futuros (Novotney, 2010).
Além disso, os programas de residência médica nos Estados Unidos têm, hoje,
um mandato claro para melhorar a formação médica em áreas como a sensibilidade e
a resposta à cultura, à id.ade, ao gênero e às deficiências dos pacientes. Cada vez mais,
os psicólogos da saúde estão ajudando os médicos a se tornarem melhores ouvintes
e comunicadores (Novotney, 2010). Como veremos, esse mandato advém das evi-

* N. de R.T.: Psicologia da saúde é uma especialidade não existente no Brasil. Os psicólogos que trabalham com as
questões relacionadas àsaúde e à doença são os psicólogos clínicos ou os hospitalares, embora não necessariamente
dentro do arcabouço teórico apresentado neste livro.
** N. de R.T.: No Brasil, a associação é com as Secretarias da Saúde eo Ministério daSaúde.
e A P r Tu Lo 1 1 Introdução à psicologia da saúde 23

dências crescentes de que esse tipo de cuidado resulta em melhores resultados para a
saúde e ajuda a controlar os custos do tratamento (Novotney, 2010).
Os psicólogos da saúde também podem ser encontrados trabalhando em orga
nizações de saúde, faculdades de medicina, clínicas de reabilitação e consultórios par
ticulares (ver Fig. 1.6). Um número crescente de psicólogos da saúde também pode
ser encontrado no mundo corporativo, no qual orientam empregadores e trabalha
dores em diversas questões relacionadas com a saúde. Também ajudam a estabelecer
intervenções no local de trabalho para auxiliar os empregados a perder peso, parar de
fumar e aprender formas mais adaptativas de administrar o estresse.

Como se tornar um psicólogo da saúde?*


A preparação para uma carreira em psicologia da saúde normalmente requer um di
ploma superior em algum dos inúmeros programas educacionais disponíveis. Certos
estudantes matriculam-se em escolas de enfermagem ou medicina e se tornam enfer
meiros ou médicos. Outros recebem treinamento para as demais profissões da área
da saúde, como nutrição, fisioterapia, serviço social, terapia ocupacional ou saúde
pública. Um número crescente de graduados interessados continua na pós-graduação
Figura 1.6
em psicologia e adquire as habilidades em pesquisa, ensino e intervenção que já men
cionamos. Aqueles que esperam prestar serviços diretos aos pacientes em geral obtêm Onde trabalham os psicólogos
da saúde? Além de trabalharem
sua formação em programas de psicologia clínica ou de aconselhamento.
em faculdades, universidades
Muitos estudantes que desejam uma carreira em psicologia da saúde começam e hospitais, os psicólogos
com a formação geral em psicologia no nível de graduação e recebem treinamento es da saúde atuam em muitos
pecializado nos níveis de doutorado. Devido à orientação biopsicossocial da psicolo outros locais, incluindo
gia da saúde, os estudantes também são incentivados a cursar disciplinas em anatomia organizações de saúde,
escolas de medicina, clínicas
e fisiologia, psicopatologia e psicologia social, processos de aprendizagem e terapias
de reabilitação e consultórios
comportamentais, psicologia comunitária e saúde pública. independentes. Um número
A maioria dos psicólogos da saúde acaba obtendo o grau de doutor (ph.D.) em crescente desses psicólogos
psicologia. Para chegar ao doutorado em psicologia, os estudantes completam um pode ser encontrado em locais
programa de 4 a 6 anos, ao final do qual realizam um projeto de pesquisa original. Os de trabalho, onde orientam
empregadores e trabalhadores
programas de doutorado em psicologia geralmente proporcionam um pouco mais em uma variedade de questões
de experiência clínica e disciplinas clínicas, mas menos treinamento e experiência em relacionadascom o trabalho.
pesquisa do que os outros programas de doutorado. Fonte:2009 Doctoral Psycho/ogy
A pós-graduação em psicologia da saúde costuma ter por base um currículo que Workforce Fast Facts.Washington, DC:
American Psychological Association.
cobre os três domínios básicos do modelo biopsicossocial.O treinamento no domínio
biológico inclui disciplinas em neuropsicologia, anatomia, fisiologia e
Outros 3%
psicofarmacologia. O treinamento no domínio psicológico inclui dis- Empresas/
ciplinas em cada um dos principais subcampos (biológico, evolutivo, governo 7%
personalidade, etc.) e perspectivas teóricas (sociocultural, cognitiva,
comportamental, neurociência, etc.). E o treinamento no domínio so-
cial concentra-se em processos de grupo e maneiras pelas quais grupos
diversos (família, étnico, etc.) influenciam a saúde de seus membros.
Após a formação no nível de pós-graduação, muitos psicólogos da
saúde cursam dois ou mais anos de formação especializada, na forma
de um estágio em um hospital, uma clínica ou outro ambiente médico.
Alguns defendem que esse treinamento deveria culminar em uma certi Educação 22%
ficação de psicólogos da saúde como profissionais da atenção primária
em saúde (Tovian, 2004, 2010).

* N. de R.T.: No Brasil, a formação do psicólogo, no nível da graduação, é generalista e tem cinco anos de duração.
Seu término permite o ingresso doprofissional no mercado de trabalho. Muitas faculdades oferecem disciplinas nas
áreas de saúde, embora a mais comum seja a psicologia hospitalar. Há cursos de pós-graduação lato e stricto senso
em psicologia hospitalar, saúde pública, saúde coletiva, psicologia da saúde, entre outros. O conselho Federal de
Psicologia confereo títulode Especialista em Psicologia Hospitalar, segundo critérios definidos pelo CFP, acessáveis
pelo website http://www.pol.org.br.
24 P A RTE 1 1 Fundamentos da psicologia da saúde

Responda a cada pergunta a seguir com base no que 2. Como a saúde geral da população em sua escola
aprendeu no capítulo. (DICA: Use os itens da Sínte se beneficia quando diferentes contextos, siste
se para considerar questões biológicas, psicológicas mas, modelos e teorias sobre a saúde são consi
e sociais). derados?
1. Considerando como asvisões da saúde mudaram 3. Seu amigo Tran está pensando em seguir carreira
ao longo do tempo, qual seria uma boa descrição em psicologia da saúde. Que conselhos gerais
da saúde para um indivíduo hoje? Como o gêne você daria e como sugeriria que escolhesse uma
ro, a cultura e a prática da saúde influenciam sua carreira específica no campo?
descrição?

Síntese
1. A saúde é um estado de completo bem-estar físico, resultado de um vírus, bactéria ou outro patógeno
mental e social. Os objetivos específicos da psicolo que invade o corpo. Uma vez que não faz qualquer
gia da saúde são promover a saúde; prevenir e tratar menção a fatores psicológicos, sociais ou comporta
doenças; investigar o papel de fatores comporta mentais na doença, o modelo adota o reducionismo
mentais e sociais na doença; e avaliar e aperfeiçoar e o dualismo mente-corpo.
a formulação de políticas e serviços de saúde para 6. Sigmund Freud e Franz Alexander promoveram a
todas as pessoas. ideia de que determinadas doenças poderiam ser
causadas por conflitos inconscientes. Essa visão foi
expandida para o campo da medicina psicosso
Saúde e doença: lições do passado
mática, que diz respeito ao tratamento e diagnós
2. Nas mais antigas culturas conhecidas, acreditava-se tico de transtornos causados por processos mentais
que a doença era resultado de forças místicas e es deficientes. A medicina psicossomática deixou de
píritos malignos que invadiam o corpo. Hipócrates, ser favorecida porque se baseava na teoria psica
Galeno e outros estudiosos gregos desenvolveram nalítica e postulava a ideia obsoleta de que um
a primeira abordagem racional ao estudo da saúde único problema é suficiente para desencadear uma
e da doença. As formas não ocidentais de cura, in doença.
cluindo a medicina oriental tradicional e a ayurveda, 7. A medicina comportamental foi um subproduto
desenvolveram-se de forma simultânea. do movimento behaviorista na psicologia norte
3. Na Europa, durante a Idade Média, os estudos -americana. Essa medicina explora o papel do com
científicos do corpo (sobretudo a dissecação) eram portamento aprendido na saúde e na doença.
proibidos, e as ideias a respeito da saúde e da doença
tinham implicações religiosas. A doença era consi Perspectiva biopsicossocial (mente-corpo)
derada uma punição por algum mal cometido, e o
tratamento frequentemente envolvia algo que acar 8. Os psicólogos da saúde abordam o estudo da saúde
retava tortura física. e da doença partindo de quatro perspectivas prin
4. O filósofo francês René Descartes desenvolveu sua cipais, as quais se sobrepõem. A perspectiva do
teoria do dualismo mente-corpo - a crença de que curso de vida concentra sua atenção na maneira
a mente e o corpo são processos autônomos, cada como alguns aspectos da saúde e da doença va
qual sujeito a diferentes leis de causalidade. Du riam com a idade, assim como as experiências de
rante a Renascença, a influência de Descartes abriu uma mesma coorte de nascimento (como mudan
caminho para uma nova era na pesquisa médica, ças em políticas públicas de saúde) influenciam a
fundamentada no estudo científico do corpo. Essas saúde.
pesquisas levaram às teorias anatômica, celular e dos 9. A perspectiva sociocultural chama atenção para
germes da doença. a maneira como fatores sociais e culturais, como
5. A visão dominante na medicina moderna é o mo variações étnicas em práticas alimentares e crenças
delo biomédico, o qual supõe que a doença seja o sobre as causas da doença, afetam a saúde.
e A P r Tu Lo 1 1 Introdução à psicologia da saúde 25

1O. A perspectiva de gênero chama atenção para dife Perguntas frequentes sobre a
renças entre homens e mulheres no risco de deter carreira em psicologia da saúde
minadas doenças e condições, assim como em vários
comportamentosque possam comprometer ou con 13. Os psicólogos da saúde estão envolvidos sobretudo
tribuir para a saúde. em três atividades: ensino, pesquisa e intervenção
11. A perspectiva biopsicossocial combina essas moda clínica. Eles trabalham em diversos cenários, in
lidades, reconhecendo que forças biológicas, psico cluindo hospitais, universidades e escolas médicas,
lógicas e sociais agem em conjunto para determi organizações que visam a manutenção da saúde,
nar a saúde e a vulnerabilidade de um indivíduo à clínicas de reabilitação, consultórios particulares e,
doença. cada vez mais, no local de trabalho.
12. Segundo a teoria sistêmica, a saúde deve ser com 14. A preparação para uma carreira em psicologia da
preendida como uma hierarquia de sistemas, na saúde normalmente requer o grau de doutor. Al
qual cada sistema é composto simultaneamente de guns estudantes entram para a psicologia da saúde
subsistemas menores e parte de sistemas maiores e a partir da medicina, da enfermagem ou de alguma
mais abrangentes. profissão da área da saúde. Um número cada vez
maior de alunos matricula-se em programas de pós
-graduação em psicologia da saúde.

Jermos e conceitos fundamentais


psicologia da saúde, p. 3 teoria celular, p. 1O perspectiva biopsicossocial (mente-
saúde, p. 3 teoria dos germes, p. 1O -corpo), p. 13
trepanação, p. 5 modelo biomédico, p. 11 perspectiva do curso de vida, p. 15
teoria humoral, p. 7 patógeno, p. 11 coorte de nascimento, p. 16
epidêmico, p. 9 medicina psicossomática, p. 11 perspectiva sociocultural, p. 17
dualismo mente-corpo, p. 9 medicina comportamental, p. 12 perspectiva de gênero, p. 18
teoria anatômica, p. 1O etiologia, p. 13 teoria sistêmica, p. 19
Capítulo2 Pesquisa em
Pensamento crítico:a base
psicologia da saúde
da pesquisa
Os perigos do pensamento
"não científico"
Métodos em psicologia da
saúde
Estudos descritivos
Estudos experimentais arryl Andrew Kile, o principal lançador do St. Louis Cardinais, morreu de
Estudos semiexperimentais
Estudos do
doença coronariana no dia 22 de junho de 2002. Quando a notícia de sua morte súbita
desenvolvimento se espalhou, a reação coletiva foi de descrença. Como pode um atleta de elite morrer de
Pesquisa epidemiológica: repente com tão pouca idade? A morte de Kile, infelizmente, foi vista por muitos como
rastreando a doença prova de que fazer exercícios não traz qualquer proteção contra doenças cardiovasculares.
Objetivos na pesquisa
epidemiológica Depois de várias semanas de especulação pública em relação a uso de drogas ou outras
Métodos de pesquisa em causas, o legista atribuiu sua morte a um infarto fulminante, causado por uma grave his
epidemiologia
tória familiar de doenças cardíacas (seu pai morreu deinfarto aos44 anos) e um bloqueio
Diversidade e vida
saudável: Hipertensão de 90% em duas artérias coronárias.
em afro-americanos: Uma década antes, o mundo viu-se igualmente chocado com a morte súbita de outro
um"de quem é a
culpa"epidemiológico guru do esporte, fim Fixx, que ajudou a dar início à explosão do atletismo nos Estados
Inferindo causalidade Unidos. Assim como no caso de Kile, a morte súbita de Fixx, enquanto corria, foi infeliz
mente considerada por muitos como uma prova de que fazer exercícios não oferecia pro
teção alguma contra doenças cardiovasculares. Todavia, essa explicação rápida também
estava errada. Na maior parte de sua vida, Fixx apresentou sobrepeso e consumia uma
dieta com altos teores de gordura e colesterol. Além disso, era um fumante compulsivo,
chegando a fumar 3 a 4 carteiras de cigarros por dia, e um workaholic, que trabalhava
16 horas ou mais todos os dias e dormia apenas algumas horas por noite. Fixx também
tinha um risco elevado de doenças cardíacas, e seu pai havia morrido de ataque cardíaco
com apenas 43 anos.
Fixx ignorou os sinais precoces de aviso. Sua namorada disse que ele reclamava de
dor no peito quando fazia exercícios e planejava viajar para Vermont esperando que o ar
puro aliviasse seus sintomas, os quais acreditava deverem-sea alergias. A mudança de ar
não ajudou, e Fixx morreu enquanto corria no primeiro dia em Vermont.
A necropsia de Fixx mostrou uma doença coronariana grave, com bloqueio quase
total em uma artéria coronária e 80% em outra. Também havia evidências de um ata
que cardíaco recente. No dia em que ele morreu, mais de mil outros homens e mulheres
norte-americanos sucumbiram a ataques do coração. Existem evidências avassaladoras
de que os ataques cardíacos ocorrem principalmente em homens que têm pressão arterial
elevada, fumam muito, apresentam níveis altos de colesterol e levam um estilo de vida
sedentário. Talvez a mudança de Fixx para um estilo de vida saudável na meia-idadeseja
o que lhe permitiu viver nove anos a mais que seu pai.
Cientes da armadilha de acreditar em explicações fáceise não testadas para as causas
de doenças ou fatos fisiológicos aparentemente inesperados, pesquisadores médicos e psi
cólogos da saúde investigam essas causas, comparando situações e considerando todos os
fatores relevantes. Os pesquisadores devem adotar uma abordagem formal e sistemática,
e A P r Tu Lo 2 1 Pesquisa em psicologia da saúde 27

que tenha a capacidade comprovada de encontrar explicações confiáveis. Essa abordagem


é chamada de método científico. Neste capítulo, consideramos como o método científico é
aplicado para responder a perguntas sobre a psicologia da saúde.

pensamento crítico: a base da pesquisa ----


psicologia da saúde lida com algumas das questões mais intrigantes, pessoais
e práticas da vida. Será que minha história familiar me coloca em risco de
desenvolver câncer de mama? Quais das escolhas em meu estilo de vida são
saudáveis e quais não são? Por que não consigo parar de fumar? As respostas a essas
e a outras incontáveis questões não são óbvias. Todos os dias, somos bombardeados
com novas respostas "definitivas" para essas e outras questões vitais relacionadas com
a saúde. Por exemplo, na década de 1980, os pesquisadores relataram que a cafeína
aumentava o risco de doença cardíaca e câncer de pâncreas. No começo da década de
1990, novas pesquisas afirmaram que quantidades limitadas de cafeína eram seguras,
mesmo durante a gravidez. Em 1996, alarmaram todas asfuturas mães com relatos de
que mulheres grávidas que tomassem três ou mais xícaras de café por dia corriam ris
co maior de sofrerem abortos espontâneos, enquanto aquelas que consumiam cafeína
e tentavam engravidar tinham duas vezes mais probabilidades que as que não consu
miam de retardarem a concepção por um ano ou mais. Menos de dois anos depois,
outras pesquisas concluíram que as mulheres que bebem mais de meia xícara de chá
com cafeína todos os dias podem, na verdade, aumentar a fertilidade. Os pesquisado
res também anunciaram que a cafeína oferece proteção contra a doença de Parkinson,
reduzindo a destruição das células nervosas do cérebro (Hughes et al., 2000). Mais
recentemente, um estudo mostrou um aumento nos sintomas de depressão entre
adolescentes que consumiam grandes quantidades de cafeína (Luebbe e Bell, 2009).
Além disso, os resultados do estudo de longa duração Health Professionals Follow-Up
demonstram que o café reduz o risco de morte precoce por ataque cardíaco ou AVE e
oferece proteção contra diabetes tipo II, cálculo biliar e doença de Parkinson (Zhang
et al., 2009). Então, será que o café é uma bebida segura? Em qual conclusão devemos
acreditar?
No centro de toda a investigação científica, há uma atitude de descrença que
nos encoraja a avaliar evidências e analisar conclusões. Essa atitude é chamada de
pensamento crítico e envolve uma abordagem de questionamento a todas as infor
mações e todos os argumentos. Seja assistindo às notícias da noite, lendo um artigo
no jornal ou tentando convencer uma amiga a mudar de opinião sobre determina
da questão, os pensadores críticos questionam. Como ela chegou a essa conclusão?
Que evidências formam a base para as conclusões dessa pessoa? Existe algum moti
vo ulterior? Podem os resultados de certo estudo serem explicados de outra forma?
Até saber as respostas a essas e a outras questões, você deve ter cautela - de fato, ser
completamente cético - com todos os argumentos persuasivos, incluindo relatórios
de saúde que aparecem em jornais e revistas e na televisão. Saber quais perguntas
fazer o tornará um consumidor muito mais informado em relação aos dados dis
poníveis sobre saúde.

Os perigos do pensamento ''não científico''


Em nossa busca por maior entendimento do comportamento saudável, temos como
base as informações disponíveis para formular relações de causa e efeito sobre nosso
comportamento e o de outras pessoas. Se essas informações derivarem unicamente
de nossas experiências, crenças e atitudes pessoais, podemos ser como aqueles que
reagiram de forma rápida na tentativa de compreender as mortes de Darryl Kile e
28 P A RTE 1 1 Fundamentos da psicologia da saúde

James Fix:x, fazendo um julgamento precipitado com pouca atenção para sua precisão.
É perigoso fundamentar nossas explicações em boatos, conjecturas, evidências super
ficiais ou fontes de informação não verificadas. Por exemplo, ao vermos uma ginasta
ou dançarina magra e bela, admiramos os hábitos obviamente saudáveis de comer e
se exercitar daquela pessoa, desejando que também possuíssemos tal força de vontade
e bem-estar. Porém, quando descobrimos mais tarde que ela, na verd.ade, é anoréxica
e sofre de uma fratura relacionada com sua dieta pobre e de diversos traumas ósseos
causados por seus exercícios ficamos chocados.
Exemplos de raciocínio errôneo infelizmente abundam em todos os campos da
ciência. No começo do século XX, por exemplo, milhares de norte-americanos mor
reram de pelagra, uma doença marcada por dermatite (feridas na pele), distúrbios
gastrintestinais e perda de memória. Uma vez que as casas daqueles que morriam
dessa doença possuíam formas não sanitárias de remoção do esgoto, muitos especia
listas em saúde acreditavam que ela fosse conduzida por um microrganismo e trans
mitida por meio do contato direto com excrementos humanos infectados. Embora o
saneamento higiênico certamente fosse um objetivo louvável, na hora de identificar
as causas da pelagra, os "especialistas,, caíam em uma das armadilhas do raciocínio
■ crença tendenciosa forma errôneo - o fato de não considerarem explicações alternativas para suas observações.
de raciocínio errôneo
em que as expectativas
Esse tipo de conclusão precipitada ou não garantida (não testad.a) é um exemplo de
nos impedem de buscar crença tendenciosa, que explica por que duas pessoas podem olhar para a mesma
explicações alternativas para situação (ou dados) e tirar conclusões radicalmente diferentes.
nossas observações. Graças às suas observações mais precisas, o ministro da saúde, Joseph Gold
berger, pôde ver que muitas vítimas de pelagra também estavam subnutridas. Para
Todas as culturas identificar a causa da doença, Goldberger conduziu um teste empírico simples e
desenvolvem crenças até repugnante: misturou pequenas quantidades de fezes e urina de duas vítimas
incorretas sobre o de pelagra com um pouco de farinha, fez pequenas bolas de massa com a mistura,
comportamento humano. que ele, sua esposa e vários auxiliares comeram! Após nenhum deles haver contraí
Algumas pessoas acreditam
falsamente que casais que
do a doença, Goldberger alimentou um grupo de prisioneiros do Mississippi com
adotam um bebê têm maior uma dieta pobre em niacina e proteína (uma deficiência que ele suspeitava causar
probabilidade de ter um bebê a doença), enquanto outro grupo recebeu a dieta normal e equilibrada da prisão.
próprio mais tarde e que mais Confirmando sua hipótese, em poucos meses, o primeiro grupo desenvolveu os sin
bebês nascem quando é lua
tomas de pelagra, enquanto o segundo permaneceu livre da doença (Stanovich e
cheia. Fique em alerta contra
exemplos de psicologia não West, 1998). Conforme ilustra esse exemplo, procurar informações que confirmem
científica em seupróprio crenças preexistentes leva os pesquisadores a não considerarem explicações alterna
pensamento. tivas para o fenômeno observado.

·Métodos de pesquisa ------

s psicólogos da saúde utilizam vários métodos de pesquisa para aprender


como os fatores psicológicos afetam a saúde. Os métodos dependem am plamente
de quais questões o pesquisador está tentando responder. Para dar respostas a
questões sobre como as pessoas lidam com procedimentos médicos ou com o
câncer, por exemplo, um psicólogo pode observar ou fazer perguntas para uma
grande amostra de pacientes de câncer. Entretanto, pesquisadores que investigam se
fatores relacionados com o estilo de vida contribuem para o início do câncer podem
fazer estudos em laboratório, sob condições controladas.
■ epidemiologia estudo
científico da frequência,
Existem duas categorias principais de métodos de pesquisa em psicologia - des
da distribuição e das critivos e experimentais (Tab. 2.1). Os psicólogos da saúde também utilizam métodos
causas de determinada emprestados do campo da epidemiologia, que buscam determinar a frequência, a
forma de doença ou outra distribuição e as causas de determinada doença ou outro problema de saúde em uma
consequência para a saúde população. Esta seção descreve os métodos de pesquisa empregados por psicólogos e
em uma população.
as ferramentas que utilizam para reunir, sintetizar e explicar seus dados. A próxima
seção explora os métodos de pesquisa dos epidemiologistas.
c A P r Tu Lo 2 1 Pesquisa em psicologia da saúde 29

Estudos descritivos
Pense sobre como um psicólogo da saúde pode responder às seguintes questões:
Quais são as consequências para a saúde psicológica e fisiológica das vítimas de uma
grave crise nacional, como o catastrófico terremoto de 12 de janeiro de 2010, que
atingiu a capital do Haiti, Porto Príncipe? De que maneira a equipe do hospital pode
reduzir a ansiedade de familiares que esperam um ente querido sair de uma cirurgia?
As bebedeiras são mais comuns entre certos tipos de universitários? De maneira clara,
as respostas para cada uma dessas questões interessantes não serão encontradas nos
laboratórios de pesquisa das universidades. Em vez disso, os pesquisadores procuram ■ estudo descritivo
respostas a respeito do comportamento de indivíduos ou grupo de pessoas na forma método de pesquisa em
que os pesquisadores
como ele ocorre em casa, no trabalho ou onde as pessoas passam o tempo livre. Em
observam e registram
estudo como esse, chamado de estudo descritivo, o pesquisador observa e registra os comportamentos
o comportamento do participante em um cenário natural, muitas vezes formando dos participantes,
hipóteses que mais adiante são submetidas a pesquisas mais sistemáticas. frequentemente formando
Diversos tipos de estudos descritivos são utilizados: estudos de caso, entrevistas, hipóteses que são testadas
mais tarde de forma
inquéritos e estudos observacionais. sistemática; inclui estudos
de caso, entrevistas e
inquéritos, além de estudos
Estudos de caso de observação.
Conforme mencionamos no Capítulo 1, entre os métodos descritivos mais antigos e
conhecidos está o estudo de caso, no qual os psicólogos estudam um ou mais indiví ■ estudo de caso estudo
duos de forma extensiva durante um período de tempo considerável para descobrir descritivo em que uma
princípios que sejam verdadeiros para as pessoas em geral. A principal vantagem des pessoa é estudada
profundamente,na
se estudo é que ele permite ao pesquisador fazer uma análise muito mais complexa expectativa de revelar
do indivíduo do que aquela que seria normalmente obtida em pesquisas envolvendo princípios gerais.
grupos mai•ores.
Embora sejam úteis para sugerir hipóteses a outras pesquisas, os estudos de caso
apresentam uma desvantagem considerável: qualquer pessoa pode ser atípica, limi
tando a capacidade de «generalização" dos resultados. De fato, esses estudos podem
ser bastante enganosos. Temos que ter cuidado para não saltar de estudos de caso es-

Tabela 2.1 1

Comparando métodos de pesquisa

Método de Cenário de Método de


pesqui•sa pesqui•sa coleta de dados Vantagens Desvantagens
Estudos Campo ou Estudos de caso,inquéritos Informações aprofundadas sobre Não há controle direto sobre as
descritivos laboratório e entrevistas, observações uma pessoa; frequentemente variáveis; sujeito a tendências do
naturaIísticas leva a novas hipóteses; detecta observador; casos únicos podem
relações de ocorrência natural ser enganosos; não determina
entre variáveis causalidade; correlação pode
mascarar variáveis estranhas
Estudos Normalmente Comparação estatística de Alto grau de controle sobre A artificialidade do laboratório limita
experimentais laboratório grupos experimentais e variáveisdependentes e a generalização dos resultados;
controles independentes;atribuição certas variáveisnão podem ser
aleatória elimina diferenças investigadas por razões práticas e
preexistentes entre grupos éticas
Estudos epide- Normalmente Comparações estatísticas úteis para determinar a etiologia Certas variáveisdevem ser
miológicos conduzidos no entre grupos expostos a da doença; fácil replicação, boa controladas por seleção em vez de
campo diferentesfatores de risco generalização manipulação direta; demorado, caro
Metanálise Não são Combinação estatística Ajuda a compreender relatos Tendênciaspotenciaisdecorrentes
coletados dos resultados de vários conflitantes, replicável da seleção dos estudos incluídos
dados novos estudos
30 P A RTE 1 1 Fundamentos da psicologia da saúde

pecialmente memoráveis (embora nada representativos) para conclusões amplas. Por


exemplo, mesmo que uma vasta quantidade de pesquisas sustente a longevidade dos
corredores, muitas pessoas descartaram logo essa visão quando souberam da morte
de Darryl Kile, o grande atleta do beisebol. ("Darryl Kile era um atleta profissional,
não era? Ele não viveu tanto quanto meu avô, que nunca fez exercícios e fumou cha
rutos a vida todà:) A experiência pessoal e casos vívidos de modo especial podem
muitas vezes obscurecer evidências científicas muito mais substanciais.
A questão que deve ser lembrada: os estudos de caso podem proporcionar pistas
fecundas e direcionar os pesquisadores para outros modelos de pesquisa a fim de
desencobrir verdades gerais, mas também podem ser bastante enganosos.

Inquéritos
■ inquérito questionário Os inquéritos examinam atitudes e crenças individuais, mas em números maiores e
utilizado para de forma muito menos aprofundada do que o estudo de caso. Nessas medidas de auto
averiguar as atitudes
e os comportamentos
avaliação, os participantes da pesquisa avaliam ou descrevem determinados aspectos
autorrelatados por um de seu próprio comportamento, de suas atitudes ou crenças, como o que pensam
grupo de pessoas. sobre um novo produto para a saúde ou a frequência com que fazem exercícios. Os
inquéritos estão entre os instrumentos de pesquisa mais utilizados na psicologia da
saúde, pois são fáceis de administrar, exigem pequeno investimento de tempo dos
participantes e rapidamente produzem uma grande quantidade de dados.
Os psicólogos que trabalham com saúde clínica também usam a entrevista para
desenvolver uma relação eficaz de apoio com o paciente. Essa prática também é bas
tante utilizada por psicólogos em saúde clínica para fazer avaliação diagnóstica como
um primeiro passo no desenvolvimento de programas de intervenção. Por exemplo,
pode-se solicitar que indivíduos com dores crônicas preencham um questionário re
lacionado com o problema que esclareça tratamentos anteriores e o impacto de sua
condição sobre seu funcionamento cotidiano.

Estudos observacionais
■ estudo observacional Nos estudos observacionais, o pesquisador registra os dados relevantes em relação
método de pesquisa não ao comportamento dos participantes. Por exemplo, o pesquisador interessado nos
experimental em que o
efeitos psicológicos das tensões cotidianas pode providenciar para que os participan
pesquisador observa e
registra o comportamento tes usem um monitor de frequência cardíaca enquanto vão para a escola ou para o
do participante da pesquisa. trabalho e na volta para casa durante a hora do rush.
Os estudos observacionais podem ser estruturados ou não. Os estruturados cos
tumam ocorrer no laboratório e envolvem tarefas como role-playing ou responder a
um estímulo muito frio. Nas observações não estruturadas, chamadas de observações
naturalísticas,o pesquisador tenta ser o menos intrusivo possível ao observar e regis
trar os comportamentos dos sujeitos. Por exemplo, um psicólogo da saúde observa
familiares visitando um parente em uma clínica para idosos na tentativa de obter
conhecimento sobre a maneira como as pessoas lidam com o declínio de um parente.
Essas observações podem ser filmadas ou gravadas e depois quantificadas por méto
dos de avaliação ou escores de frequência.

Correlação
■ coeficiente de correlação Os estudos descritivos revelam informações sobre duas variáveis que podem estar
medida estatística da relacionadas, como o consumo de cafeína e a pressão arterial elevada, ou hipertensão.
intensidade e direção da Para determinar o nível de uma possível relação entre duas variáveis, os pesquisadores
relação entre duas variáveis
calculam o coeficiente de correlação, usando uma fórmula que gera um número, ou
e, dessa forma, do quanto
uma prevê a outra.
valor r, que varia de -1,00 a + 1,00. O sinal (+ o u - ) docoeficiente indica a direção da
e A P r Tu Lo 2 1 Pesquisa em psicologia da saúde 31

correlação (positiva ou negativa). A correlação positiva é aquela em que a variável au


menta em proporção direta a aumentos na outra variável. Ao contrário disso, quando
duas variáveis estão correlacionadas de forma negativa, à medida que uma aumenta, a
outra tende a diminuir. Veja que o fato de uma correlação ser negativa não está rela
cionado com força ou fraqueza da relação entre as duas variáveis; a correlação nega
tiva apenas significa que as variáveis se relacionam de forma inversa. A capacidade do
pesquisador de prever não é menor com a correlação negativa do que com a positiva.
O valor absoluto do coeficiente de correlação (de O a 1,00, independentemente
de o número ser positivo ou negativo) indica a intensidade da correlação - quanto
mais próximo de 1,00, mais forte a relação e mais precisa será a previsão de uma va
riável a partir de um valor conhecido de outra.
Suponhamos, por exemplo, que você esteja interessado na relação entre o peso
corporal e a pressão arterial. Talvez você esteja testando sua teoria de que o corpo ma
gro diminui o risco de alguém ter doenças cardiovasculares, reduzindo a hipertensão,
que é um fator de risco documentado. Testar sua teoria com um experimento exigiria
manipular a variável do peso corporal e registrar a pressão arterial. Embora seja pos ■ diagrama de dispersão
sível medir a pressão arterial, manipular o peso corporal seria antiético. Assim, em vez gráfico que agrupa pontos
disso, é calculado um coeficiente de correlação. Richard Cooper, Charles Rotimi e Ryk representando os dados,
Ward (1999) fizeram exatamente isso, medindo índices de massa corporal (medida da cada um exprimindo os
razão entre o peso e a altura de uma pessoa) e a prevalência de hipertensão em grande valores de duas variáveis em
estudos descritivos.
amostra de participantes de descendência africana em diversos países. A Figura 2.1
apresenta um diagrama de dispersão dos resultados de cada estudo. Cada ponto do
gráfico representa dois números para a amostra de sujeitos de determinado país: o
índice de massa corporal médio e a prevalência de hipertensão.
32 P A RTE 1 1 Fundamentos da psicologia da saúde

Estudos experimentais
Embora sejam úteis, os estudos descritivos não nos falam das causas dos compor
tamentos observados. Para identificar relações causais, os pesquisadores conduzem
experimentos. Considerados o pináculo dos métodos de pesquisa, são comumente
utilizados na psicologia da saúde para investigar os efeitos de comportamentos rela
cionados com a saúde (p. ex., exercícios, dietas, entre outros) sobre uma doença (p.
ex., cardiopatias).
■ variável independente Ao contrário dos estudos descritivos, os experimentos testam hipóteses, mani
fator em um experimento pulando (variando) de forma sistemática uma ou mais variáveis independentes (as
que o pesquisador «causas"), enquanto são buscadas mudanças em uma ou mais variáveis dependentes
manipula; variável cujos (os« efeitos") e controladas (mantid.as constantes) todas as outras variáveis. Contro
efeitos estão sendo lando todas as variáveis, exceto a variável independente, os pesquisadores garantem
estudados.
que qualquer mudança na variável dependente seja causada pela variável indepen
■ variável dependente dente, em vez de outra variável externa.
comportamento ou Os experimentos envolvem com frequência testar os efeitos de diversos níveis da
processo mental que pode
variável independente em grupos diferentes. Por exemplo, em um experimento para
mudar em resposta a
manipulações da variável testar o nível em que o ruído (uma variável independente) começa a causar estresse
independente; a variável (a variável dependente), pode-se solicitar que participantes de três grupos diferentes
que está sendo medida. façam uma lista de sintomas comportamentais e psicológicos do estresse (definição
operacional da variável dependente) enquanto escutam ruídos com 10, 25 ou 50 deci
béis em fones de ouvido (diferentes níveis da variável independente ruído).
■ seleção randômica trata-se Normalmente, o pesquisador atribui de forma aleatória uma amostra de parti
de distribuir os participantes cipantes a dois ou mais grupos de estudo e administra a condição ou o tratamento de
da pesquisa a grupos ao
interesse (a variável independente) a um grupo, o grupo experimental, e um tratamen
acaso, minimizando assim
diferenças preexistentes to diferente ou nenhum ao outro grupo, o grupo de controle. A seleção randôrnica é
entre os grupos. essencial, pois o fato de distribuir os participantes a grupos ao acaso garante que os
membros de todos os grupos de pesquisa sejam semelhantes em todos os aspectos
importantes, com exceção de sua exposição à variável independente. Por exemplo, a
■ efeitos de expectativas seleção randômica ajuda a prevenir que um grande número de participantes muito
forma de viés em que sensíveis ao ruído seja alocado no mesmo grupo, dessa maneira potencialmente mas
o resultado de um carando os efeitos verdadeiros da variável independente.
estudo é influenciado A psicologia da saúde é bastante singular entre os subcampos da psicologia, no
pelas expectativas do
pesquisador ou pelo estudo
sentido de que estuda uma variedade de fatores como causa e efeito. Como possíveis
das expectativas dos «causas': os psicólogos da saúde examinam estados internos (otimismo, sentimentos
participantes. de autoeficácia), comportamentos explícitos (praticar exercícios, fumar) e estímulos
externos (emprego estressante, programa terapêutico para promover relaxamento).
Como possíveis«efeitos': eles investigam comportamentos apresentados (reações de
enfrentamento ao emprego estressante), traços biológicos (pressão arterial, níveis de
colesterol) e estados psicológicos (níveis de ansied.ade).
O propósito da pesquisa é obter uma resposta para uma questão, e não procurar
apoio para um resultado previsto. Para reduzir a possibilidade de efeitos de expec
tativas em experimentos, a pessoa que coleta dados dos sujeitos muitas vezes está
«cegà: ou seja, não sabe o propósito da pesquisa ou quais participantes estão em cada
e A P r Tu Lo 2 1 Pesquisa em psicologia da saúde 33

condição. Esse é um estudo único cego. Para garantir que os efeitos de expectativas não ■ estudo duplo-cego
contaminem o estudo, pode-se usar um estudo duplo-cego. Nesse caso, a pessoa que técnicaprojetada para
prevenir efeitos de
coleta os dados e os participantes não sabem o propósito real do estudo ou qual par
expectativas do observador
ticipante está em qual condição. Desse modo, os pesquisadores e os participantes não e do participante, na qual
enviesarão os resultados com base no que esperam que aconteça. Ver a Figura 2.2 para o pesquisador e os sujeitos
um exemplo de como podemos usar métodos psicológicos para avaliar uma questão não conhecem o verdadeiro
de interesse dos psicólogos da saúde. propósito do estudo ou em
que condição cada sujeito se
encontra.
Estudos semiexperimentais
Quando não podem manipular a variável de interesse ou distribuir os participantes
aleatoriamente a grupos experimentais e de controle, os psicólogos da saúde têm ou
tras opções: semiexperimentos, pesquisa animal ou pesquisa qualitativa. Um semiex
perimento (semi significa "parecido") é semelhante a um experimento, no sentido
de que envolve dois ou mais grupos de comparação. Contudo, um serniexperimento ■ semiexperimento estudo
não é um experimento verdadeiro, pois usa grupos que diferem desde o começo em que compara dois grupos
que diferem naturalmente
relação à variável em estudo (a variável do sujeito). Portanto, não é possível tirar con em determinada variável de
clusões de causa e efeito. (Observe que nos referimos a um grupo de comparação, em interesse.
vez de grupo de controle, pois o grupo difere naturalmente do grupo experimental e
nenhuma variável está sendo controlada).
Por exemplo, suponhamos que os pesquisadores queiram investigar o efeito da Em um estudo clássico sobre
prática de exercícios sobre o desempenho acadêmico. Em um semiexperimento, ava efeitos de expectativas
(Roethlisberger e Dickson,
riável do sujeito seria um estilo de vida sedentário, e o grupo consistiria em estudantes
1939), pesquisadores
que admitissem fazer pouco ou nenhum exercício. O grupo de comparação seria for tentaram aumentar
mado por estudantes que se exercitassem com regularidade. Os psicólogos da saúde a produtividade de
coletariam dados sobre os níveis basais de atividade física diária dos participantes du empregados em uma usina
rante um período definido de tempo e identificariam grupos "ativos" e "sedentários" elétrica reduzindo ou
aumentando osintervalos
separados. Os pesquisadores acompanhariam esses grupos de comparação por alguns para café, alterando
anos, reavaliando regularmente os níveis de atividade e o desempenho acadêmico dos condições deiluminação e
grupos. proporcionando ou retirando
As variáveis do sujeito que costumam ser usadas em semiexperimentos incluem bônus. De maneira notável,
independentemente
a idade, o gênero, a etnicidade e o status socioeconómico- variáveis cuja manipulação
decomo ascondições
é impossível ou antiética. Os pesquisadores também não podem manipular variáveis variavam, a produtividade
para produzir estresse ambiental extremo, abuso físico ou desastres naturais. Nesses aumentava, indicando que
casos, o pesquisador encontra eventos que já ocorreram e estuda as variáveis de inte os trabalhadores estavam
resse. apenas respondendo ao
conhecimento de que
estavam sendo estudados.

Estudos do desenvolvimento
Os psicólogos da saúde que trabalham com a perspectiva do curso de vida estão preo
cupados com a maneira como as pessoas mudam ou permanecem as mesmas ao lon
go do tempo. Para responder a questões sobre o processo de mudança, os pesquisa
dores utilizam duas técnicas básicas de pesquisa: estudos transversais e longitudinais.
No estudo transversal, o pesquisador compara grupos de pessoas de várias ida ■ estudo transversal
des para verificar os possíveis efeitos da idade sobre determinada variável dependente. compara grupos
representativos de pessoas
Suponha-se que estejamos interessados em estabelecer se diferentes grupos etários de várias idades em relação
diferem nas estratégias que usam para lidar com o estresse. Na pesquisa transversal, a uma variável dependente.
os vários grupos etários devem ser semelhantes em outras formas que possam afetar
a característica sendo investigada. Enquanto os grupos forem semelhantes, quaisquer
diferenças em padrões entre eles podem ser atribuídas a processos relacionados com
a idade.
Combinar grupos etários em todas as outras variáveis que não a idade é difícil.
Apesar de seus maiores esforços, os pesquisadores que utilizam o modelo transversal
e A P r Tu Lo 2 1 Pesquisa em psicologia da saúde 35

pessoas em determinada idade sejam comparadas com as mesmas informações sobre


indivíduos em outra id.ade, revelando como elas mudaram com o passar do tempo.
Imagine que você esteja interessado em estudar mudanças na maneira como as
pessoas lidam com o estresse. Se você escolher a abordagem transversal, pode entre
vistar uma amostra de, digamos, 25 adultos de cinco idades diferentes - por exemplo,
20, 30, 40, 50 e 60 anos - e reunir informações sobre a maneira como lidam com
tensões no emprego, brigas familiares, problemas financeiros, e assim por diante. Em
contrapartida, se escolher o estudo longitudinal para explorar o mesmo número de
anos, você (ou os pesquisadores que irão continuar seu estudo daqui a 40 anos) en-
trevistaria um grupo de indivíduos na faixa dos 20 anos hoje e novamente quando
estivessem com 30, 40, 50 e 60 anos de idade. O estudo longitudinal, portanto, elimina
fatores de confusão, como diferenças nos tipos de estresse encontrados.
Os estudos longitudinais são o "modelo de escolhà' da perspectiva do curso de
vida, ainda que possuam diversas limitações. Esses estudos são, por definição, muito
demorados e caros. Mais importante aind.a, durante os anos dos estudos longitudi
nais, é comum que alguns participantes os abandonem porque se mudam para cida
des distantes, morrem ou simplesmente não aparecem na entrevista seguinte ou na
observação agendada. Quando o número de desistências é grande, os resultados do
estudo podem ficar distorcidos. Outro problema potencial é que as pessoas que per
manecem podem mudar as características de interesse, mas por razões que tenham
pouco a ver com a idade. Por exemplo, nosso estudo de respostas de enfrentamento
ao estresse relacionadas com a idade pode mostrar que as pessoas mais velhas enfren
tam o estresse de maneira mais adaptativa, sem permitir que as tensões cotidianas as
afetem. Porém, supondo que grande número dos participantes desista na metade do
estudo (ou talvez morra de doenças relacionadas com o estresse!) e aqueles que per
maneçam sejam os que trabalhavam em ocupações com níveis reduzidos de estresse,
será que o pesquisador poderá concluir que a idade produziu os resultados observa
dos? Apesar dessas limitações, os estudos longitudinais são bastante comuns na psi
cologia da saúde, pois proporcionam uma oportunidade única para os pesquisadores
observarem mudanças na saúde que ocorrem gradualmente no decorrer de períodos
prolongados de tempo.

Técnicas de pesquisa em genética do comportamento


Uma questão fundamental na pesquisa do curso de vida é: Até que ponto nossa saú
de - incluindo nossos comportamentos e atitudes relacionados a ela - são moldados
pela hereditariedade (nossa natureza) e pela história de vida (nosso ambiente)? Em
um esforço para responder a questões sobre interações entre hereditariedade e am
biente, pesquisadores estimam a hereditariedade de um traço, ou seja, a quantidade ■ hereditariedade
de variação em um traço entre um grupo de indivíduos que pode ser atribuída aos quantidade de variação em
genes. Dessa forma, empregam dois métodos principais: estudos de gêmeos e estudos um traço entre os indivíduos
que pode ser atribuída aos
de adoção. genes.
Os estudos de gêmeos comparam gêmeos idênticos com gêmeos fraternos. As
diferenças observadas entre gêmeos geneticamente idênticos em geral são atribuídas
a fatores ambientais. Em contrapartida, qualquer diferença observada entre gêmeos
fraternos pode ser atribuída a uma combinação de fatores ambientais e genéticos. Por
exemplo, o comprometimento cognitivo parece apresentar alta influência hereditária.
Uma pessoa cujo gêmeo idêntico apresenta doença de Alzheimer tem de 60 a 75% de
chance de também desenvolvê-la. Quando um gêmeo fraterno apresenta a doença,
o risco cai para 30 a 45% (Plomin et al., 2000; Whitfield et al., 2009). Essa diferença
indica que os genes desempenham um papel relevante em predispor indivíduos à
doença de Alzheimer.
Entretanto, devemos ser muito cuidadosos ao interpretar os estudos de gêmeos.
Pode-se argumentar que os gêmeos idênticos também compartilham um ambien-
36 P A RTE 1 1 Fundamentos da psicologia da saúde

te que é mais semelhante do que o dos gêmeos fraternos.


Eles têm o mesmo sexo, com frequência se vestem da mes
ma forma e são confundidos um com o outro. Portanto,
os pesquisadores preferem comparar as características de
gêmeos idênticos que cresceram juntos com as de gêmeos
idênticos que cresceram separados. Infelizmente, devido ao
tempo, aos custos e à ocorrência bastante rara desse tipo de
arranjo, apenas um pequeno número de estudos desse tipo
foi relatado.
Os estudos de adoção proporcionam uma maneira de
os pesquisadores eliminarem o problema gerado por am
bientes semelhantes. Quando uma criança é entregue para
adoção, dois grupos de parentesco são criados: parentes
genéticos (pais e irmãos biológicos) e parentes ambientais
(pais e irmãos adotivos). A determinação de se a criança
Gêmeos idênticos Os gêmeos adotada lembra mais seus pais biológicos ou adotivos em relação a determinada ca
idênticosdesenvolvem-se a partir racterística ou certo comportamento ajuda a estabelecer os efeitos relativos dos genes
de um único óvulo fertilizado
e, portanto, são geneticamente
e do ambiente sobre essas características.
iguais. Logo,qualquer diferença As evidências mais fortes de influência genética vêm da convergência de estudos
observada entre eles deve ser de família, de gêmeos e de adoção. Por exemplo, se os geneticistas comportamentais
atribuída a fatores ambientais. descobrirem que a hipertensão ocorre em famílias com frequência maior do que seria
Gerald Levey e Mark Newman, esperado ao acaso, que os gêmeos idênticos são significativamente mais semelhantes
que aparecem na foto enquanto
eram questionados a respeito de
do que os gêmeos fraternos em sua suscetibilidade à doença e que as crianças adota
similaridades físicase fisiológicas, das lembram seus pais biológicos mais do que os pais adotivos em seus níveis de hi
foram separados ao nascer e não pertensão, existe um argumento forte em favor da influência genética na hipertensão.
se reencontraram até a idade
de 31 anos. Embora tenham
crescido em lares diferentes,
apresentam muitas características
Pesquisa epidemiológica: rastreando a doença
semelhantes- por exemplo, --
ambos haviam escolhido a uando os pesquisadores consideram o papel de fatores psicológicos e com
mesma profissão: bombeiro. portamentais na saúde, entre as principais questões a serem perguntadas es
tão: Quem contrai que tipo de doenças, e que fatores determinam se uma
pessoa ontrai determinada doença? Essas questões são abordadas pelo campo da
epidemiologia.
Embora o ato de manter registros sobre a saúde tenha iniciado na antiguidade
(ver Cap. 1), a epidemiologia só foi formalizada como uma ciência moderna no século
XIX, quando surtos epidêmicos de cólera, varíola e outras doenças infecciosas cria
ram grandes ameaças à saúde pública. Do mesmo modo que nos esforços para iden
tificar a causa de condições mais recentes, como o aumento de infecções bacterianas
resistentes, essas doenças foram dominadas sobretudo como resultado do trabalho de
epidemiologistas cuja pesquisa gradualmente identificou suas causas.
A era moderna da epidemiologia começou com o trabalho de John Snow, du
rante o surto de cólera de 1848, em Londres (Frerichs, 2000). Snow registrou diligen
temente cada morte ocorrida, notando que as taxas de mortalidade eram quase 1O
vezes maiores em determinado distrito da cidade do que em qualquer outro lugar. Em
certos casos, os residentes de um lado de uma rua eram acometidos pela doença mais
do que seus vizinhos do outro lado da rua. Como um bom detetive que soluciona um
mistério, ele continuou procurando por pistas até que encontrou algo diferente nas
histórias dos grupos de alto risco: água de beber poluída. Embora duas companhias
fornecessem água para a maioria dos residentes do sul de Londres, seus limites eram
dispostos de forma que alguns residentes da mesma rua recebiam água de fontes di
ferentes. Comparando as taxas de mortalidade com a distribuição dos clientes que
recebiam água poluída e não poluída, Snow inferiu que a cólera vinha de um "veneno"
e A P r Tu Lo 2 1 Pesquisa em psicologia da saúde 37

ainda não identificado que se encontrava na água poluída e, assim, começava a era
moderna da epidemiologia.
Um incidente, durante essa epidemia, tornou-se legendário. Em torno da inter
seção das ruas Cambridge e Broad, a incidência de casos de cólera era tão grande que
o número de mortes chegou a 500 em 10 dias. Após investigar o local, Snow concluiu
que a causa estava centrada na bomba d'água da rua Broad. Após os oficiais da cidade,
que estavam desconfiados, mas em pânico, ordenarem que a manivela da bomba fosse
removida, o número de novos casos de cólera caiu de forma impressionante. Ainda
que a bactéria responsável pela transmissão da doença não tenha sido descoberta nos
30 anos seguintes, Snow fez uma intervenção óbvia que interrompeu a epidemia que
já tomava conta da cidade. Ele simplesmente forçou a cidade a fechar a fonte de água
poluída.
Desde a época de Snow, os epidemiologistas têm descrito em detalhes a distri
buição de muitas doenças infecciosas diferentes. Além disso, identificaram muitos dos
fatores de risco ligados a efeitos favoráveis e desfavoráveis para a saúde. Em um estudo
típico, os epidemiologistas medem a ocorrência de certo efeito para a saúde de uma
população e buscam descobrir por que ele se distribui daquela forma, relacionando-o
com determinadas características dos indivíduos e dos ambientes em que vivem. Por
exemplo, algumas formas de câncer ocorrem mais em certas partes do país do que ■ morbidade como medida
em outras. Investigando essas áreas geográficas, epidemiologistas conseguiram ligar de saúde, número de casos
de determinada doença,
certos tipos de câncer a substâncias químicas tóxicas encontradas nesses ambientes. ferimento ou incapacidade
Os epidemiologistas registram a rnorbidade, que é o número de casos de pro em um grupo específico de
blemas de saúde em determinado grupo em certa época. Também acompanham a pessoas em certa época.
mortalidade, que se refere ao número de mortes em decorrência de determinada cau ■ mortalidade como medida
sa, como doenças cardíacas, em certo grupo em determinada época. A morbidade e a de saúde, número de mortes
mortalidade são medidas de efeitos que normalmente são relatados em termos de sua decorrentes de uma causa
incidência ou prevalência.A incidência refere-se ao número de novos casos de doença, específica em determinado
grupo em certo momento.
infecção ou deficiência, como uma tosse forte, que ocorre em uma população espe
cífica em intervalo de tempo definido. A prevalência é definida como o número total ■ incidência número de
de casos diagnosticados de uma doença ou condição que ocorre em dado momento, novos casos de uma doença
ou condição que ocorre em
incluindo os casos relatados anteriormente e novos casos em determinado momento. determinada população
Assim, se um epidemiologista quisesse saber quantas pessoas têm hipertensão, anali em um intervalo de tempo
saria as taxas de prevalência. Se, contudo, quisesse determinar a frequência do diag definido.
nóstico de hipertensão, olharia as taxas de incidência. ■ prevalência número total
Para esclarecer a distinção entre incidência e prevalência, considere a Figura 2.3, de casos diagnosticados de
que compara a incidência e a prevalência das principais causas de morte nos Estados uma doença ou condição
Unidos entre 1980 e 2007. No decorrer desse período, as mortes decorrentes de aci que existe em certo
momento.
dentes e câncer tiveram uma prevalência elevada e uma incidência estável, enquanto
aquelas resultantes de doenças do coração e AVE diminuíram.

A manivela da bomba d'água - o símbolo da


epidemiologia eficaz Desde os esforços pioneirosde John
Snow para erradicar a cólera na Londres do século XIX, a
manivela da bomba d'água permaneceu como um símbolo
da epidemiologia eficaz. Atualmente, o PubJohn Snow,
localizado próximo ao local onde ficava a bomba, orgulha-se
de ter a manivelaoriginal.Esta charge foi publicada em 1866
no periódico Fun, de Londres, com a legenda "Dispensário
da morte, aberto aos pobres, grátis, com permissão da
DllATIL":i DISl't:,S.\RY.
paróquia'
38 P A RTE 1 1 Fundamentos da psicologia da saúde

Objetivos na pesquisa epidemiológica


Epidemiologistas utilizam diversos métodos de pesquisa para obter dados sobre a in
cidência, a prevalência e a etiologia (origem) de uma doença. Assim como os méto
dos de pesquisa em psicologia, a pesquisa epidemiológica segue a progressão lógica,
da descrição para a explicação e para o prognóstico e controle. Os epidemiologistas
têm três objetivos fundamentais:
■ etiologia estudo científico
das causas ou origens de 1. Identificar a etiologia de determinada doença para gerar hipóteses.
doenças específicas. 2. Avaliar as hipóteses.
3. Testar a efetividade de certas intervenções preventivas.

Os epidemiologistas começam por contar casos atuais de uma doença (preva


lência) ou medir a frequência em que novos casos aparecem (incidência) para des
crever o status geral de uma população. Então, analisam as informações para gerar
hipóteses sobre as diferenças entre os subgrupos da população que são responsáveis
pela doença, assim como John Snow encontrou distinções na fonte de água que afe
tavam a prevalência de cólera em grupos diferentes. Um exemplo mais recente é o
esforço dos epidemiologistas para discernir a etiologia da hipertensão em indivíduos
afro-americanos (ver Diversidade e vida saudável, nas páginas seguintes).
Uma vez que identificam as origens de uma doença ou problema de saúde e ge
ram hipóteses sobre suas causas, os epidemiologistas avaliam as hipóteses. Por exem
plo, alguns médicos verificaram que mulheres fumantes são mais propensas do que
homens fumantes a desenvolver câncer no pulmão. Será que diferenças hormonais ou
algum outro fator ligado ao gênero permitem que o dano celular causado pelo fumo
ocorra com mais rapidez em mulheres do que em homens? Estudos epidemiológicos
relataram exatamente esse achado (Iarmarcovai et al., 2008; Prescott et al., 1998).
Os epidemiologistas testam novas hipóteses buscando prever a incidência e a
prevalência de doenças. Se as previsões são produzidas com base em dados epidemio
lógicos, os pesquisadores ficam confiantes de que seu entendimento da etiologia da
doença está aumentando.
O último objetivo da pesquisa epidemiológica é determinar a efetividade dos
programas de intervenção criados como resultado dessas pesquisas. Por exemplo,
programas de intervenção contra a aids, como a não reutilização de seringas e ini
ciativas de sexo seguro, testados em um grupo grande de sujeitos de alto risco, foram
considerados efetivos para reduzir a incidência de novos casos da doença nos grupos
visados.

Métodos de pesquisa em epidemiologia


Para alcançar seus propósitos, os epidemiologistas utilizam uma variedade de méto
dos de pesquisa, incluindo estudos retrospectivos,estudos prospectivos e estudos experi
mentais. Assim como os métodos de pesquisa em psicologia, cada método epidemio
lógico possui suas vantagens e desvantagens.
e A P r Tu Lo 2 1 Pesquisa em psicologia da saúde 39

Estudos retrospectivos e prospectivos


Do mesmo modo que os estudos transversais já descritos, os estudos retrospectivos ■ estudo retrospectivo
(também chamados de estudos de caso-controle) comparam um grupo de pessoas que estudo que"olha para o
apresentam uma doença ou condição com outro grupo de pessoas que não apresen passado': no qual um grupo
de pessoas que apresentam
tam; aqueles que têm a condição de interesse são considerados "casos» e aqueles não
determinada doença ou
têm são os "controles». Os estudos transversais comparam características que estão condição é comparado com
presentes nos casos e nos controles no momento do estudo, enquanto os retrospecti outro grupo de pessoas
vos tentam determinar se as características estiveram presentes nos casos no passado, que não apresentam, com
normalmente por meio de uma revisão dos registros das pessoas. o propósito de identificar a
história de fatores de risco
Os estudos retrospectivos, olhando para o passado, tentam reconstruir as carac
que possam ter contribuído
terísticas ou situações que levaram ao atual estado de saúde das pessoas que possuem para a doença ou condição.
determinada doença ou condição. Por exemplo, a pesquisa retrospectiva desempe
nha o importante papel de identificar fatores de risco que levam à aids. Inicialmente,
os pesquisadores observaram um aumento rápido na incidência de uma forma fatal
de câncer, chamada de sarcoma de Kaposi, entre homossexuais do sexo masculino e
usuários de drogas intravenosas. Verificando as histórias médicas dos homens que
desenvolveram esse tipo de câncer, os epidemiologistasconseguiram identificar o sexo
anal desprotegido como fator básico comum entre os primeiros homens a morrer
dessa forma maligna de câncer. Isso ocorreu anos antes que o vírus da aids, o vírus da
imunodeficiência humana (HIV), fosse isolado (ver Cap. 11).
Em comparação, os estudos prospectivos olham à frente no tempo para deter ■ estudo prospectivo estudo
minar como um grupo de indivíduos muda ou como a relação entre duas ou mais longitudinal que começa
com um grupo saudável
variáveis modifica-se ao longo do tempo. Isso soa como a pesquisa longitudinal em
de sujeitose acompanha
estudos do desenvolvimento? Os métodos são idênticos. Um estudo epidemiológico o desenvolvimento de
prospectivo identifica um grupo de participantes saudáveis e os testa e retesta durante determinada doença nessa
um período de tempo para estabelecer se determinada condição, como vida seden amostra.
tária ou dieta com teor elevado de gordura, está relacionada com uma consequência
posterior para a saúde, como o câncer ou doenças cardiovasculares.Os psicólogos da
saúde com frequência conduzem estudos prospectivos para identificar os fatores de
risco que se relacionam com vários problemas de saúde. Os estudos prospectivos
podem produzir informações mais específicas do que os estudos retrospectivos
sobre as relações causais potenciais entre comportamentos relacionados com a
saúde (ou fatores de risco) e os resultados para a saúde
42 P A RTE 1 1 Fundamentos da psicologia da saúde

Testes clínicos

O chamado padrão-ouro da pesquisa biomédica é o teste clínico aleatório. Esse tipo


de estudo é um experimento verd.adeiro, de modo que os pesquisadores podem tirar
conclusões com segurança a respeito de relações de causa e efeito. Os testes clínicos
examinam os efeitos de uma ou mais variáveis independentes sobre indivíduos ou
grupos de indivíduos.
■ teste clínico aleatório Embora muitas variações sejam possíveis, o teste clínico mais comum para in
experimento verdadeiro divíduos envolve a mensuração de uma linha de base (ponto de partida) da condição,
que testa os efeitos de uma seguida por uma medida da eficácia do tratamento. Por exemplo, ao testar a eficácia
variável independente
de uma substância analgésica sobre enxaquecas, o pesquisador registra uma medida
sobre indivíduos (modelo
de sujeito único) ou sobre inicial do nível de enxaqueca que o sujeito apresenta antes do teste, talvez usando uma
grupos de indivíduos escala de dor de autoavaliação. Quando a medida inicial estabelece o valor de refe
(experimentos de campo em rência pré-tratamento para a variável dependente (a dor do sujeito), o tratamento (a
comunidades). substância), que é a variável independente, é administrado, e a medida dependente é
reavaliada. Se os dados do tratamento mostrarem melhoria a partir dos dados iniciais,
o pesquisador conclui que existe probabilidade de o tratamento ser eficaz no futuro.
Para certificar-se de que o tratamento em si, e não algum fator externo (como a sim
ples passagem do tempo), produziu a melhora, o pesquisador remove o medicamento
e observa o retorno da condição inicial e dos sintomas. Caso voltem, o pesquisador
pode ter ainda mais confiança para aceitar a hipótese de que a substância produz me
lhora (clínica) significativa.
No tipo mais comum de teste clínico envolvendo grupos, são registradas medi
das de linha de base, e os sujeitos são, então, distribuídos de forma aleatória ao grupo
experimental que recebe o tratamento de interesse, como uma nova medicação para
dores de cabeça, ou a um grupo de controle que recebe placebo (ver Cap. 1). Se as va
riáveis externas foram controladas adequadamente, as diferenças nos grupos podem
ser atribuídas a diferenças no tratamento.
No procedimento final, um experimento de campo em comunidade, os pesquisa
dores comparam pessoas de uma comunidade com as de outra. Por exemplo, crian
ças de uma escola recebem informações educativas detalhadas sobre os benefícios
de sempre usar capacete quando andarem de bicicleta, skate ou patins. Um grupo
de controle de crianças, de outra escola, não participa da campanha educacional. Os
pesquisadores podem comparar os níveis de alguma medida, como lesões na cabeça,
obtidos antes e depois do teste para os dois grupos.

Metanálise
Tradicionalmente, quando um pesquisador começava a investigar um fenômeno,
como a relação entre o consumo de álcool e o câncer de mama, o primeiro passo
era uma revisão detalhada da literatura de pesquisa relevante. Embora a revisão bi
bliográfica tenha uma longa e nobre história nos anais da ciência, essas revisões são
qualitativas em natureza e, portanto, estão sujeitas a tendências na maneira como são
interpretadas. Sem levar em consideração o quão habilidosa em revisar a literatura a
pessoa possa ser, o modo como os diversos resultados são interpretados em essência
permanece um processo subjetivo, no qual as tendências, as crenças e o excesso de
confiança do revisor, entre outros, influenciam o resultado.
46 P A RTE 1 1 Fundamentos da psicologia da saúde

Este capítulo apresentou as ferramentas básicas da psicologia da saúde - o pen


samento crítico que protege contra o raciocínio errôneo cotidiano e os métodos cien
tíficos que orientam os pesquisadores em sua busca por respostas válidas e confiáveis
para questões relacionadas com a saúde. Fundamentado nessas informações, agora
você está pronto para começar a fazer tais perguntas.

Síntese
Pensamento crítico: a base da pesquisa 4. Em um experimento, o pesquisador manipula uma
ou mais variáveis independentes enquanto procura
1. Nossa forma cotidiana de pensar está propensa à mudanças em uma ou mais variáveis dependentes.
tendência, incluindo tirar conclusões imediatas e Os experimentos normalmente comparam um gru
inferir causa e efeito de forma inadequada. O uso po experimental, que recebe um tratamento de in
de métodos de pesquisa científica para procurar teresse, com um grupo de controle, que não recebe.
evidências ajudará você a se tornar um consumidor Para reduzir a possibilidade de efeitos de expectati
mais cuidadoso de artigos sobre psicologia da saúde. vas, os pesquisadores usam controles duplos-cegos.
5. Quando estudam variáveis que não podem ser ma
Métodos em psicologia da saúde nipuladas, os psicólogos da saúde podem usar um
semiexperimento. Nesse modelo, os sujeitos são
2. Os estudos descritivos, que observam e registram o selecionados para grupos de comparação com base
comportamento dos participantes, envolvem estu em idade, gênero, etnia ou alguma outra variável do
dos de caso, entrevistas e inquéritos, e observação. sujeito.
3. A intensidade e a direção da relação entre dois 6. Os estudos do desenvolvimento concentram-se nas
conjuntos de escores são reveladas visualmente por maneiras como as pessoas mudam ou permanecem
diagramas de dispersão e estatisticamente pelo coe iguais ao longo do tempo. Em um estudo transver
ficiente de correlação. Uma correlação não implica sal, pesquisadores comparam grupos representati
causalidade. vos de pessoas de várias idades para determinar os
e A P r Tu Lo 2 1 Pesquisa em psicologia da saúde 47

possíveis efeitos da idade sobre determinada variável estatísticas epidemiológicas utilizad.as, estão a morbi
dependente. dade, a mortalid.ade, a incidência e a prevalência.
7. No estudo longitudinal, um grupo único de indi 1O. Os epidemiologistas utilizam diversos modelos de
víduos é acompanhado durante longo período de pesquisa básicos. No estudo retrospectivo, são feitas
tempo. Para corrigir o problema dos sujeitos que comparações entre um grupo de pessoas que apre
abandonam o estudo no decorrer dos anos, os pes senta certa doença ou condição e um grupo que não
quisadores desenvolveram um estudo transversal, apresenta. Em comparação, os estudos prospectivos
em que diferentes grupos de idade são testados ini olham à frente no tempo para determinar como um
cialmente e depois retestados em idades variadas. grupo de pessoas muda ou como a relação entre
8. A genética do comportamento utiliza métodos como duas ou mais variáveis modifica-se ao longo do tem
estudos de gêmeos e de adoção para identificar a po. Também existem diversos tipos de experimen
hereditariedade de determinadas características e tos em epidemiologia, incluindo experimentos de
transtornos. Os gêmeos idênticos desenvolvem-se laboratório, experimentos naturais e testes clínicos
a partir de um único óvulo, que se divide em dois; aleatórios.
os gêmeos fraternos, a partir de óvulos diferentes. 11. A metanálise examina os dados de estudos já publi
As diferenças verificadas entre gêmeos idênticos e cados, combinando estatisticamente o tamanho da
fraternos que crescem no mesmo ambiente sugerem diferença entre os grupos experimental e de controle
uma influência genética. para permitir que os pesquisadores avaliem a con
sistência de seus resultados.
Pesquisa epidemiológica: 12. Para inferir causalidade na pesquisa epidemiológica,
rastreando a doença as evidências de pesquisas devem ser consistentes e
logicamente sensatas, exibindo a relação entre dose
9. Os estudos de pesquisas epidemiológicas medem a e resposta. Além disso, a causa sugerida deve estar
distribuição de problemas de saúde, buscam desco ocorrendo antes do problema de saúde em questão
brir a etiologia (causas) desses problemas e testam a ter sido observado e resultar em uma redução na
eficácia de intervenções de saúde preventiva. Entre as prevalência da condição quando for removida.

Termos e conceitos fundamentais ---------------


crença tendenciosa, p. 28 variável dependente, p. 32 mortalidade, p. 37
epidemiologia, p. 28 seleção randômica, p. 32 incidência, p. 37
estudo descritivo, p. 29 efeitos de expectativas, p. 32 prevalência, p. 37
estudo de caso, p. 29 estudo duplo-cego, p. 33 etiologia, p. 38
inquérito, p. 30 semiexperimento, p. 33 estudo retrospectivo, p. 39
estudo observacional, p. 30 estudo transversal, p. 33 estudo prospectivo, p. 39
coeficiente de correlação, p. 30 estudo longitudinal, p. 34 teste clínico aleatório, p. 42
diagrama de dispersão, p. 31 hereditaried.ade, p. 35 metanálise, p. 43
variável independente, p. 32 morbid.ade, p. 37 risco relativo, p. 44
Capítulo 3 As bases biológicas da
O sistema nervoso
saúde e da doença
Divisões do sistema
nervoso
O cérebro
O sistema endócrino
As glândulas hipófise e
adrenal
A glândula tireoide e o história de vida de Lakeesha começa com um parto lento e difícit que exigiu
pancreas
o uso excessivo de anestésicos e fórceps para trazê-la de forma violenta ao mundo. Juntos,
O sistema cardiovascular
Sangue e circulação
esses procedimentos médicos interromperam o suprimento de oxigênio para seu cérebro.
O coração Embora tenha sobrevivido, o parto complicado de Lakeesha, além de seu baixo peso neo
O sistema respiratório natal e ointenso consumo de álcool da mãe durante a gravidez, significava que seus pro
Os pulmões
Diversidade e vida
blemas estavam apenas começando. Ela nasceu com paralisia cerebral espástica mode
saudável: asma rada, um transtorno do movimento que resulta de lesões nos centros motores do cérebro.
O sistema digestório Essa condição biológica marcaria a saúde de Lakeesha para o resto de sua vida,
Como os alimentos são
afetando não apenas seu desenvolvimento físico, mas também o psicológico e o social.
digeridos
O sistema imune Entre os primeiros problemas que seus pais e o pediatra notaram, estavam o leve re
Estrutura do sistema tardo mental, as limitações visuais e auditivas, as deformações sutis em seus dedos e
imune
articulações e a escoliose (curvatura da coluna). Mais tarde, quando outras crianças
A resposta imunológica
O sistema reprodutivo
estavam aprendendo a falar, Lakeesha apresentava dificuldades causadas por seus pro
e a genética blemas musculares.
comportamental Assim como muitas crianças com problemas físicos, tudo era mais difícil para
O sistema reprodutivo
feminino Lakeesha. Desde o início, ela parecia necessitar de autoconfiança e persistência extras
O sistema reprodutivo para aprender tarefas comuns para outras crianças. Durante a primeira infância, quan
masculino
do queria desesperadamente ser como os outros, Lakeesha percebia que não podia fazer
Fertilização e mecanismos
de hereditariedade as mesmas coisas, ter a mesma aparência ou acompanhar as demais crianças. A compre
ensão de que sua deficiência era permanente a deixava deprimida e zangada.
A condição de Lakeesha também desafiava os membros de sua família. Seus pais sen
tiam tristeza, culpa e decepção. Eles viram que precisariam de mais tempo e esforço para
criar a filha mais nova do que haviam dispendido com a mais velha e que algumas pes
soas eram ofensivas em seus comentários e comportamentos em relação a Lakeesha.
Felizmente, havia disponibilidade deintervenções para Lakeesha e sua família. Trata
mentos dentários e cirurgias ortopédicas corrigiram a maioria dos problemas faciais e de
postura. As terapias fonoaudiológica e comportamental ajudaram a melhorar o controle
muscular, o equilíbrio ea fala.
Aos 8 anos, o desenvolvimento de Lakeesha havia progredido tanto que ela conseguiu
frequentar uma escola "regular" pela primeira vez. Em algumas áreas, suas habilidades
ainda estavam fracas. Escrever com um lápis era extremamente difícil, e os problemas
de visão continuavam a atrapalhar seus esforços para aprender a ler. Em outras áreas,
contudo, suas habilidades estavam na média, ou até acima. Ela foi a primeira da turma,
por exemplo, a entender multiplicação e divisão.
Durante a infância, suas necessidades emocionais e psicológicas permaneceram gran
des, mas foram supridas. A raiva, a autoestima baixa e a percepção de si mesma como
e A P r T u Lo 3 1 As bases biológicas da saúde e da doença 49

deficiente, ou diferente, foram corrigidas com terapia. De maneira semelhante, a partici


pação em um grupo de apoio eo trabalho com um terapeuta cognitivo-comportamental
ajudou seus pais a reconhecer e aceitar seus sentimentos.
Atualmente, Lakeesha vive de maneira independente, trabalhando em uma loja de
produtos eletrônicos e frequentando aulas em uma facuidade local. Ela mantém relação
próxima e afetuosa com seus pais, que moram perto de sua casa, e possui um pequeno,
mas íntimo, drculo de amigos. Mais importante de tudo, ela se sente bem consigo mesma
e tem confiança em sua capacidade de superar os obstáculos da vida. Em comparação
com o que já conseguiu conquistar, o caminho a sua frente parece fácil.

história de Lakeesha ilustra a perspectiva biopsicossocial. Fatores biológi


cos (parto difícil, exposição ao álcool), psicológicos (lid.ar com o fato de ser
diferente) e sociais (dificuldade para se conectar com outras pessoas) contri
buíram para seus problemas de saúde, e todos eles foram abordados com cirurgia e
terapia, como parte de sua sobrevivência triunfante. A perspectiva biopsicossocial é
efetiva porque defende a ideia de que o corpo humano é um sistema formado por
muitos subsistemas interconectados (incluindo, para Lakeesha, as capacidades de ca
minhar e falar) e externamente relacionados com diversos sistemas maiores, como a
sociedade e a cultura.
Sua história também esclarece um dos temas fundamentais da psicologia da saú
de: o fato de que a mente e o corpo estão ligados de modo indissociável. Enfocando a
promoção da saúde ou tratando doenças, os psicólogos da saúde preocupam-se com
as várias maneiras como nossos comportamentos, pensamentos e sentimentos afetam
e são afetados pelo funcionamento do corpo.
Embora nem toda a psicologia da saúde tenha relação direta com a atividade bio
lógica, a saúde e a doença são eventos essencialmente biológicos. Então, a compreen
são dos sistemas físicos do corpo se faz necessária para entendermos o quanto os
bons hábitos ajudam a prevenir doenças e promover o bem-estar, enquanto os maus
hábitos fazem exatamente o contrário.
Este capítulo estabelece as bases para nossa investigação da psicologia da saúde,
revisando os processos biológicos básicos que afetam a saúde. Esses processos são
regulados pelos sistemas nervoso, endócrino, cardiovascular, respiratório, digestório,
imune e reprodutivo. Para cada sistema, descrevemos sua estrutura básica e seu fun
cionamento saudável. Em capítulos posteriores, descreveremos as principais doenças
e os distúrbios e/ou transtornos aos quais cada sistema é vulnerável.
O capítulo é concluído com a discussão dos mecanismos da hereditariedade e
técnicas utilizadas pelos geneticistas comportamentais para avaliar as contribuições
genéticas e ambientais para saúde, doenças e traços diversos.
Uma vez que cada pensamento, sentimento e ação também é um evento biológi
co, o material contido neste capítulo é fundamental para a compreensão dos aspectos
específicos da saúde e da doença discutidos em capítulos posteriores. E também é um
princípio fundamental do modelo biopsicossocial..
70 P A RTE 1 1 Fundamentos da psicologia da saúde

■ cromossomo X O vigésimo terceiro par de cromossomos determina o sexo do zigoto. A mãe


cromossomo sexual sempre contribui com um cromossomo X; o pai pode contribuir com um cromosso
encontrado em homens e
mulheres. As mulheres têm
mo X ou um cromossomo Y. Se o espermatozoide do pai também contiver um cro
dois desses cromossomos; mossomo X, a criança será uma menina; um cromossomo Y produzirá um menino.
os homens, apenas um. Os cromossomos Y contêm um único gene que estimula os testículos a começarem a
■ cromossomo Y produção de testosterona, que, por sua vez, inicia a diferenciação sexual na aparência
cromossomo sexual que e a diferenciação neural durante o quarto e o quinto meses do desenvolvimento pré
somente é encontrado nos -natal.
homens; contém o gene Cada cromossomo é composto de uma série de genes - as unidades básicas
que estimula os testículos a da hereditariedade, responsáveis por nosso crescimento e nossas características. Os
começarem a produção de
testosterona. genes são partículas discretas de ácido desoxirribonucleico, o DNA. Cada célula
do corpo contém aproximadamente 50 a 80 mil genes, que determinam desde o
comprimento das unhas até a tendência à esquizofrenia, um transtorno psicológico
grave.
Antes da última décad.a, os cientistas sabiam relativamente pouco a respeito dos
efeitos específicos de cada gene. Hoje, com o Projeto Genoma Humano, conseguiram
localizar e determinar o papel de muitos de nossos genes. Mesmo assim, o campo
da genética é muito dinâmico, e o conhecimento existente está sujeito a mudanças à
medida que os cientistas continuam seu trabalho.

■ genótipo soma de todos Genes e ambiente


os genes presentes no
indivíduo. A maioria das características humanas não é determinada apenas pelos genes, pois é
■ fenótipo características multifatorial - ou seja, muitas são influenciadas por fatores diferentes, incluindo os
observáveis de uma pessoa, ambientais. Os traços humanos também tendem a ser poligênicos - influenciados por
determinadas pela interação muitos genes diferentes.
do genótipo do indivíduo
A soma total dos genes herdados é o genótipo do indivíduo. Os traços físicos e
com o ambiente.
não físicos observáveis que acabam por ser expressos constituem o fenótipo da pessoa.
Essa distinção é importante, pois cada um de nós
herda muitos genes em nosso genótipo que não
são expressos em nosso fenótipo. Na termino
logia genética, somos portadores desses pedaços
não expressos de DNA; embora possamos não
manifestá-los em nosso fenótipo, eles podem ser
transmitidos para nossos filhos, que os terão em
seu genótipo e podem ou não expressá-los em
seu fenótipo. A hereditariedade da cor dos olhos
é um dos exemplos mais claros e, portanto, cos
tuma ser usada para nos ajudar a entender essa
distinção. Para a maioria dos traços, o fenótipo
da pessoa é determinado por dois padrões de in
teração genética: gene-gene e gene-ambiente.
Interações gene-gene Um padrão comum de
interação gene-gene é chamado de aditivo, pois
o fenótipo resultante simplesmente reflete a soma das contribuições de genes indi
Cromossomos humanos No
momento da concepção, os 23
viduais. Os genes que determinam a altura e a cor da pele, por exemplo, em geral
cromossomos de cada um dos interagem de forma aditiva. Para formar outros traços, os genes interagem de ma
genitores, que contêm genes, neira não aditiva. Com esses traços, o fenótipo resultante depende da influência de
unem-se para formar um zigoto, um gene mais do que da de outro. Um exemplo familiar de interação não aditiva é
com um conjunto completo
o padrão dominante-recessivo. Alguns traços ocorrem na presença de um único gene
de 46 cromossomos e todas as
informaçõesnecessáriaspara dominante, com pouca ou nenhuma contribuição do gene recessivo com o qual é
criar um novo ser complexo nove pareado. Muitas características físicas, incluindo a cor dos olhos, seguem o padrão
meses depois. dominante-recessivo.
e A P r T u Lo 3 1 As bases biológicas da saúde e da doença 71

Interações gene-ambiente Ao redor do mundo, os genes interagem com o ambien


te em que a pessoa vive para determinar o fenótipo. Quando os geneticistas compor
tamentais referem-se a ambiente, estão falando de tudo aquilo que pode influenciar a
formação genética de um indivíduo, do desenvolvimento pré-natal até o momento da
morte. As influências ambientais incluem efeitos diretos produzidos por nutrição, cli
ma e cuidados médicos, assim como efeitos indiretos, gerados pelo contexto histórico,
econômico e cultural específico em que o indivíduo se desenvolve.
Os psicólogos da saúde agora reconhecem que a maioria dos comportamentos
relacionados com a saúde é influenciada por predisposições genéticas e estados fi
siológicos. Conforme a perspectiva mente-corpo, contudo, os comportamentos para
com a saúde também são influenciados por personalidade e estilos de pensamento,
além de circunstâncias sociais e culturais. Em capítulos subsequentes, você verá como
os sistemas físicos se combinam e interagem com fatores psicológicos e socioculturais
para determinar os comportamentos relacionados com a saúde, além de estados ge
rais de bem-estar ou de doença.

Síntese
O sistema nervoso em outras emoções; o hipocampo, que está envolvi
do na aprendizagem e na memória; e o hipotálamo,
1. O sistema nervoso central consiste no cérebro e na que regula a fome, a sede, a temperatura corporal e
medula espinal. Os neurônios restantes compõem o o comportamento sexual.
sistema n erv oso perif érico, que apresenta d uas di-
.- . . . . . 3. O córtex cerebral é a camada fina de células que
visoes principais: o sistema nervoso som, atico, que recobre o cérebro. O córtex é o local da consciên
controla os movimentos voluntários, e o sistema cia e inclui áreas especializadas para desencadear o
nervoso autônomo, que controla os músculos in movimento (córtex motor), a sensação do tato (cór
v.oluntário.s e as.glândulas e.ndócr.inas por meio dos tex sensorial), a fala e a tomada de decisões (lobo
, ,
sistemas simpatico e parassimpatico. frontal), para a visão (lobo occipital), para a audição
2. Como a região mais antiga e mais central do cére (lobo temporal) e para o tato (lobo parietal). O cór
bro, o tronco encefálico, incluindo a formação reti tex de associação inclui áreas que não estão envol
cular, o tálamo e o cerebelo, controla funções vitais vidas diretamente em funções sensoriais e motoras.
básicas por meio do sistema nervoso autônomo. Essas áreas integram informações e estão envolvidas
O sistema límbico inclui a medula, que controla a em funções mentais superiores, como o pensamento
frequência cardíaca e a respiração; a amígdala, que e a fala.
desempenha papel importante na agressividade e
72 P A RTE 1 1 Fundamentos da psicologia da saúde

O sistema endócrino resíduos metabólicos com a passagem de fluidos


pelo sistema linfático. Outras defesas imunológi
4. Operando sob o controle do hipotálamo, a glândula cas não específicas incluem a ação dos fagócitos e
hipófise secreta hormônios que influenciam o cres macrófagos, que engolfam antígenos, e das células
cimento, o desenvolvimento sexual, a reprodução, NK. Essas células também secretam proteínas an
o funcionamento renal e o envelhecimento. Outras timicrobianas, chamadas de interferons, e desem
glândulas auxiliam o sistema nervoso na regula penham papel importante na resposta inflamatória
ção do funcionamento da frequência cardíaca e da do corpo.
pressão arterial (medula adrenal), na redução de 9. O cérebro e o sistema imune formam uma rede
inflamações (córtex adrenal), na regulação do cres de comunicação bidirecional completa, pela qual
cimento e do metabolismo (tireoide) e no controle mensageiros químicos produzidos por células imu
dos níveis de glicose no sangue (pâncreas). nológicas (citocinas) comunicam-se com o cérebro
e mensageiros químicos produzidos no sistema ner
O sistema cardiovascular voso comunicam-se com as células imunológicas.
1O. As reações imunológicas específicas ocorrem quan
5. O coração é dividido em quatro câmaras. O sangue do células B e T atacam antígenos específicos. As
pobre em oxigênio que retorna do corpo é bombea células B fazem isso quando as células de memória
do da aurícula direita para o ventrículo direito e, daí, produzem anticorpos específicos que matam os an
para os capilares dos pulmões, onde capta oxigênio e tígenos já encontrados. Na imunidade mediada por
libera C0 2 . O sangue recém-oxigenado é bombeado células, as células T atacam diretamente e matam
pela veia pulmonar para a aurícula esquerda do co os antígenos, injetando toxinas letais. O funciona
ração e, daí, para o ventrículo esquerdo, de onde flui mento imunológico melhora durante a infância e a
para o sistema arterial. adolescência e começa a decair quando as pessoas se
aproximam da velhice.
O sistema respiratório
O sistema reprodutivo e
6. Após entrar no corpo pela boca ou pelo nariz, o ar
a genética comportamental
vai para os pulmões pelos tubos bronquiais, que se
ramificam em bronquíolos e sacos aéreos (os al 11. O sistema reprodutivo, sob controle do hipotálamo e
véolos). As paredes finas dos alvéolos permitem as do sistema endócrino, dirige o desenvolvimento das
trocas de oxigênio e C0 2 . característicassexuais primárias e secundárias. Inicia
do e controlado pelo hipotálamo, o ciclo menstrual
apresenta as fases proliferativa, ovulatória, secretora
O sistema digestório
(lútea) e menstrual. Essas fases envolvem três catego
7. A digestão inicia na boca, onde a mastigação e as rias de mudanças biológicas: nos níveis sanguíneos
enzimas salivares começam a decompor a comida. de hormônios, alterações foliculares e no desenvol
Quando o alimento é engolido, os movimentos rit vimento do revestimento uterino. Ao contrário das
mados dos músculos do esôfago o propulsionam para mulheres, os homens mantêm níveis razoavelmente
o estômago, onde é misturado com uma variedade de constantes de hormônios. Como ocorre nas mulhe
enzimas gástricas sob controle do sistema nervoso res, o hipotálamo monitora esses níveis.
autônomo. Líquidos digestivos do pâncreas, do fíga 12. Asoma total dos genes que um indivíduo herda é seu
do e da vesícula biliar são secretados nos intestinos genótipo. A maneira como os genes são expressos em
grosso e delgado, onde - algumas horas após comer seus traços é o fenótipo. O desenvolvimento huma
- a decomposição do alimento é concluída. no começa quando um espermatozoide fertiliza um
óvulo, resultando em um zigoto que contém a in
O sistema imune formação dos 23 cromossomos herdados do pai e os
23 da mãe. O vigésimo terceiro par de cromossomos
8. A primeira linha de defesa do corpo contra pató determina o sexo do zigoto. Os genes são segmentos
genos que ameaçam a saúde inclui a barreira de de DNA que proporcionam o modelo genético para
proteção proporcionada pela pele, pelas mucosas o desenvolvimento físico e comportamental. Para
do nariz e do trato respiratório e pelas enzimas qualquer traço, os padrões de interações gene-gene
gástricas do sistema digestório. Um patógeno e gene-ambiente determinam o fenótipo observável.
que penetra essas defesas encontra um exército Os dois padrões comuns de interações gene-gene
de linfócitos que filtram substâncias infecciosas e são: o aditivo e o dominante-recessivo.

Você também pode gostar