A Igreja de Deus o Povo Mais Rico Do Mundo
A Igreja de Deus o Povo Mais Rico Do Mundo
EF 1:3-14
Introdução:
Uma tribo da Indonésia, quando recebeu o Novo Testamento traduzido para sua
língua nativa, festejou e cantou por longas horas por aquele momento tão especial.
Quando as bíblias desceram do avião, um dos líderes da tribo pediu para que todos
fechassem os olhos e fez uma longa oração. Um trecho dela dizia: “Oh Deus, Oh
Deus! O plano que tu tinhas desde o princípio, com respeito aos Kimayals, que já
existiam no teu Espírito, o mês que tu preparastes, chegou hoje! Oh meu Deus, meu
Pai! (…) Tu olhastes para várias línguas e escolheste quais delas receberiam a Tua
Palavra e Tu decidistes que nós teríamos a Tua Palavra em nossa língua e hoje, o dia
que Tu escolheste para cumprir esta promessa chegou. E por isso Deus, te dou
glórias, amém”[1].
O texto que nós lemos é, também, uma oração de louvor, escrita por Paulo como
uma doxologia introdutória. Assim como foi dito pelo líder tribal em exaltação a
Deus, Paulo reconhece que Deus tinha um propósito santo para com o povo que Ele
mesmo escolheu para abençoar ricamente. Assim como aquela tribo, Paulo exaltava
a Deus pelo cumprimento daquilo que Deus havia determinado. No caso específico
da doxologia de Paulo, a adoração é dirigida a Deus pela redenção que temos em
Jesus Cristo.
Essa doxologia introdutória é narrada sem pausa, sendo este o maior parágrafo da
Bíblia. É como se Paulo não conseguisse impedir esse fluxo de adoração que ele
expressa logo no início de sua carta. No entanto, este cântico é, na verdade, um
prelúdio para o assunto central que viria adiante. No capítulo primeiro, versículo
15, Paulo usa a conjunção conclusiva “Por isso”, ligando seu cântico inicial com a
oração que faz pelos crentes destinatários já iniciando sua mensagem à Igreja tão
querida.
Paulo escreveu esta carta, provavelmente, na prisão em Roma por volta do ano 60–
62 d. C. e, embora ela tenha recebido o título de epístola “Aos Efésios”, acredita-se
que foi uma carta circular endereçada às igrejas da Ásia Menor, tendo a cidade de
Éfeso como referência. Portanto, é uma carta escrita aos gentios e Paulo, nesta
introdução calorosa, reafirma aos crentes destinatários que eles faziam parte de um
propósito santo.
A carta de Paulo aos Efésios constitui uma eclesiologia profunda. É a carta que mais
trabalha a teologia da Igreja e sua intenção é dar aos crentes gentios uma noção do
que é a Igreja do Senhor à luz da graça de Deus e das riquezas de sua união com
Cristo. Paulo afirma à igreja que eles são parte do corpo do Senhor, numa união
mística e dotada de bençãos espirituais. Paulo mostra, então, que eles, crentes
“santos” e “fiéis” (Ef.1.1), foram chamados por Deus por meio da graça e por
intermédio de Cristo. Tudo que a Igreja é e tem reside na pessoa de Cristo. Cristo é
suficiente e na sua suficiência a Igreja se ancora e permanece unida, desfrutando as
bençãos dessa união. Ora, como Paulo ensina aos Colossenses, em Cristo há uma
suficiência (Cf. Colossenses 1 15–23). Nós, Igreja, estamos ancorados nessa verdade:
tudo é de Cristo e por Cristo!
Agora, unidos a Cristo, a Igreja deve “conhecer o amor de Cristo que excede todo
entendimento”, para que todos sejam “tomados de toda a plenitude de Deus” (Ef. 3.
19). Como? Andando “de modo digno da vocação” a qual foram chamados. Trata-
se, então, de uma teologia prática cujo fundamento é cantado no capitulo primeiro,
nos vers. 3 ao 14. Ora, há um propósito para a vocação da Igreja e ela se fundamenta
na vontade de Deus em Cristo. A vontade de Deus recebe um destaque no início da
carta já na saudação de Paulo que se coloca como “apóstolo de Cristo Jesus pela
vontade de Deus”. Ou seja: tudo que envolve a vida da Igreja é pela vontade de
Deus, incluindo (sobretudo) as bençãos espirituais que ela recebe em Cristo para
cumprir seu propósito na terra.
A Igreja de Deus, então — receptora das bençãos espirituais –, deve viver “com toda
a humildade e mansidão, com longanimidade”, “suportando uns aos outros em
amor”, esforçando diligentemente para preservar a unidade do Espírito, o vínculo
da paz, pois “há somente um corpo e um Espírito”, uma só esperança e uma só fé,
um só Senhor e um só batismo (Cf. Ef 4. 1–6). Ora, para isso a Igreja foi chamada. A
Igreja foi chamada para a glória de Deus! Isso tudo por graça!
O fio condutor da carta aos efésios é, portanto, a própria união da Igreja com Cristo
e as implicações abençoadas dessa união. Em Ef 1. 3–14, Paulo mostra que a glória
de Deus é o propósito do chamado divino. Em Ef 1.15 até Ef 2. 10, Paulo mostra que
a natureza desse chamado é a graça de Deus (ou o amor de Deus). A partir de Ef. 2.
11, Paulo segue sua carta tratando da Igreja como um organismo místico da qual
pertencem todos os santos cuja vida cristã deve ser mostrada pela unidade da fé, do
amor e do serviço. Portanto, sendo o tema central da carta a nossa união com Cristo
— que constitui a Igreja –, o cristão deve viver no mesmo amor que a nós foi
revelado, na mesma fé, como filhos de um só Deus e Pai, a partir do mesmo batismo
e com unidade.
A doxologia de Paulo pode ser dividida em três estâncias (ou estrofes) que apontam
exatamente para a ação da Trindade em favor do povo de Deus. Notem, irmãos, que
para cada estância da doxologia, há uma conclusão que circunscreve o papel de
cada Pessoa da Trindade, indicando que toda a riqueza despejada sobre a Igreja tem
um propósito único: a glória de Deus que se cumpre em Cristo.
2º. Em Ef 1. 12: “para louvor da sua glória” — apontando para a obra de redenção
executada por Cristo na História. Foi para a glória de Deus!
3º. Em Ef 1. 14: “em louvor da sua glória” — indicando a aplicação da obra de Cristo
em nós pelo Espírito Santo que nos selou e, em segurança, nos garante a herança, os
tesouros eternos conquistados por Cristo. E foi para a glória de Deus!
Neste cântico introdutório, Paulo objetiva mostrar àquela igreja as razões dela ser
uma igreja rica de bençãos espirituais e eternas. Todo o fundamento teológico da
carta se encontra nessa longa construção frasal de Efésios 1. 3–14. Então, em vista
das verdades contidas nessa introdução doxológica, o texto nos comunica que Deus
derramou sobre a Igreja todas as bençãos espirituais em Cristo. Paulo sustenta isso
em três períodos na sua doxologia:
2. Deus derramou sobre a Igreja as riquezas de sua graça por meio de Cristo (1.
7–12);
3. Deus assegura à Igreja a herança conquistada por Cristo, selando-a com Seu
Santo Espírito (1. 13–14).
Trata-se de uma unidade essencial do Ser de Deus que, mesmo nas atribuições
específicas de cada Pessoa da Trindade, tem cada obra como ação da Trindade. Ora,
o mesmo Deus que elege seu povo, o salva em Cristo cuja redenção é aplicada na
história. E o Espírito Santo sela o povo remido, aplicando neles a obra de redenção.
É, portanto, uma obra harmônica, soberana e graciosa.
Depois que saúda os “santos e “fiéis” em Éfeso, Paulo introduz a sua carta com uma
incontida exaltação a Deus pelas bênçãos graciosas que Ele despejou sobre a Igreja.
Em Ef 1. 3 lemos: “Bendito o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, que nos tem
abençoado com toda sorte de bênção espiritual nas regiões celestiais em Cristo…”.
A causa motriz das bençãos sobre a Igreja é a eleição divina em Cristo. Tudo que nós
somos e que nós temos se deve ao fato de que Deus nos escolheu — desde a
Eternidade (nas regiões celestiais) “antes da fundação do mundo”. O amor de Deus
é a razão da nossa eleição. Contudo, Deus a escolha de Deus tem um propósito, um
fim último. No vers. 4, Paulo diz que Deus nos escolheu em Cristo “para sermos
santos e irrepreensíveis perante ele”. Trata-se de uma finalidade.
Vemos neste texto que a vontade de Deus vai seguindo um fluxo necessário na
história humana, pois a vontade de Deus se cumpre. Ora, como está escrito: “aos
que predestinou, a esses também chamou; e aos que chamou, a esses também
justificou; e aos que justificou, a esses também glorificou” (Rm 8. 30). A palavra
vontade aparece neste texto três vezes e em todas as ocasiões em que aparece, está
relacionada ao decreto de Deus que aconteceu “nas regiões celestiais”, na eternidade
e em Cristo. No original a palavra para “vontade” é thelêma, que indica não um
simples querer, mas um decidir, uma decisão, um decreto que parte da livre
vontade — soberana — de Deus, como é indicado em todo o cântico. A ideia de
“vontade” aqui está estreitamente relacionada com a ideia de “propósito”.
O texto é claro ao mostrar que nossa participação nas bençãos espirituais se dá pelo
beneplácito da vontade de Deus (1. 5), isto é, com total anuência de Deus à sua
própria vontade. Deus quis escolher um povo e Deus decretou abençoar esse povo e
fez isso em Jesus Cristo. Jesus mesmo declarou tal verdade dizendo: “Todo aquele
que o Pai me dá, esse virá a mim; e o que vem a mim, de modo nenhum o lançarei
fora” (Jo 6. 37). Ele ainda afirmou: “Não fostes vós que me escolhestes a mim; pelo
contrário, eu vos escolhi a vós outros” (Jo 15. 16). Isso porque Deus nos deu vida
quando nós estávamos mortos nos nossos delitos e nos nossos pecados, nos quais
nós andávamos outrora segundo o curso deste mundo, como diz em Ef 2. 1–2.
Estávamos espiritualmente mortos, irmãos! Por isso Paulo exalta a nossa eleição
porque foi pela graça do bendito Deus.
Irmãos, viver para a glória de Deus é viver como Cristo viveu. Como comenta
Francis Foulkes, “o objetivo e o alvo da vida cristã é, portanto, a perfeita santidade”,
santidade que “é expressa em seu aspecto positivo como dedicação da vida e,
negativamente, como a possibilidade de livrar-se de todo o erro”. É, portanto, uma
postura assumida após a manifestação da graça em nós, pois é a graça de Deus que
nos auxilia para viver o alvo da nossa eleição.
Considerando que Deus nos elege em Cristo, temos no texto a 2ª razão pela qual a
Igreja é rica de bênçãos espirituais.
2. A Igreja é rica de bençãos espirituais porque foi redimida por Cristo (1. 7–12).
Enquanto Deus Pai é a fonte de todas as bênçãos espirituais da Igreja, Jesus Cristo é
o Mediador dessas bençãos. As expressões: “nele”, “em Cristo”, “por meio de”
indicam que Deus nos enriqueceu de bênçãos na pessoa do Filho — do Amado.
O amor de Deus para com seus eleitos é uma extensão do amor pactual entre o Pai e
o Filho desde a Eternidade. Esse amor se manifestou na história como graça
“salvadora a todos os homens”, como Paulo escreve a Tito 2. 11. Aquele que já era o
Cordeiro de Deus antes da fundação do mundo (Cf. Ap 13. 8) se revelou no mundo
como Salvador do povo de Deus.
Se Deus nos predestinou para ele, para a adoção de filhos (e para o louvor da sua
glória, v. 6), Ele o fez em Cristo, no Amado. Conforme comentou J. Calvino, Cristo
também é a causa material do amor de Deus[2] que foi manifestado em favor dos
eleitos.
Por isso Paulo segue no vers. 7 dizendo: “no qual temos a redenção, pelo seu
sangue, a remissão dos pecados, segundo a riqueza da sua graça”.
Para J. Calvino a expressão “no qual temos redenção” se refere, ainda, à causa
material que é Cristo, pois, como ele diz, “o apóstolo explica como fomos
reconciliados com Deus através de Cristo”, isto é, como Cristo, por meio da sua
morte “apaziguou o Pai por nós”[3].
A palavra “redenção” no original é apolytrosis, que traz uma ideia de libertação (de
deixar livre mediante um pagamento). Ora, é o que Cristo faz em favor daqueles a
quem o Pai, antes, elegeu. Ele resgata este povo! Ele liberta este povo pagando a
dívida deste povo. Nossa redenção consiste em Deus não mais nos imputar o
pecado, mas — em Cristo — a justiça. Ora, irmãos, é pela justiça de Cristo que
podemos ser filhos adotivos de Deus.
O sangue de Cristo foi o elemento de execução da justiça de Deus. Paulo diz: “temos
a redenção, pelo seu sangue”. E ainda acrescenta a “remissão” como saldo positivo
resultante desse pagamento. “Remissão” no original é aphesis que pode ser
traduzida também por perdão. Em Romanos 3. 24, Paulo explica que nós fomos
“justificados gratuitamente pelo sua graça, pela redenção que há em Cristo”. Em
Colossenses 1. 14 Paulo diz que nós temos “a redenção pelo seu sangue, a saber, a
remissão dos pecados”.
O Vers 8 ao 10 diz:
A ideia de quantidade aqui serve para mostrar que as bençãos de Deus sobre a
Igreja foram derramadas (entornadas) com abundância, pois a graça de Deus é
como uma fonte profunda e constante. Porém, essa quantidade é derramada para
que posamos atingir a qualidade. “Sabedoria” e “Prudência” são duas virtudes
muito exploradas no mundo grego cuja obtenção se daria (como Aristóteles
menciona na Ética a Nicômaco) através do hábito e do exercício da razão. Mas aqui
Deus derrama sabedoria e prudência, pois enriquece seu povo com dons espirituais
e com virtudes que são conforme à imagem do Filho.
A preposição “em” aqui no vers. 8 está relacionada à graça mencionada no vers. 7.
Não é Deus quem nos dá abundantemente com toda sabedoria e prudência (até
porque “prudência” é uma virtude especificamente humana). A graça de Deus é que
implica essas duas virtudes, pois estão estreitamente ligadas à “vontade” de Deus
que foi desvendada a nós, a saber, de sermos santos e irrepreensíveis diante dele.
Ora, a Sabedoria é o conhecimento que vem do alto e a Prudência é a forma prática
da sabedoria que — pela razão e pela vontade renovadas — nos impulsiona para
buscar a santidade e evitar o mal, a fim de sermos santos e irrepreensíveis diante de
Deus.
Isso porque Deus fez convergir nEle todas as coisas mediante a Cristo. E foi na
Plenitude dos Tempos, onde o Filho de Deus, nascido de mulher, nascido sob a Lei,
veio resgatar os que estavam sob a maldição da Lei “a fim de que recebêssemos a
adoção de filhos” (Cf. Gl 4.4, 5).
Paulo ainda diz, nos vers. 11 e 12, que nós “fomos também feitos herança,
predestinados segundo o propósito daquele que faz todas as coisas conforme o
conselho da sua vontade, a fim de sermos para louvor da sua glória”.
Esse povo, chamado agora de Igreja do Senhor, foi selado pelo Espírito de Deus
para que todo o propósito de seu chamado pudesse ser cumprido. Aqui temos a
terceira razão pela qual a Igreja é rica de bênçãos espirituais. Ela é rica porque:
3. Deus assegura à Igreja a herança conquistada por Cristo, selando-a com Seu
Santo Espírito (1. 13–14).
Nos vers. 13 e 14, Paulo fecha a sua doxologia dizendo que a Igreja é propriedade de
Deus e que todas as bençãos citadas aqui desde o vers. 3 serão garantidas por meio
da obra do Espírito Santo que sela todo o propósito e todas as promessas de Deus. E
nesta terceira estrofe do cântico de Paulo, é a obra do Espírito Santo que é louvada,
pois é o próprio Espírito de Deus que, selando seu povo e habitando no seu povo,
assegura o recebimento de toda a herança conquistada por Cristo.
Aqui nós vemos que o Povo de Deus — propriedade exclusiva — não é mais
delimitado etnicamente, religiosamente, culturalmente, etc. O povo de Deus é a
união entre judeus e gentios que, juntos pelo mesmo vínculo de Fé (um só batismo,
uma só fé, um só Senhor, num só corpo…), formam, agora, a Igreja do Senhor, um
só povo chamado de “Povo de Deus”.
Israel No vers. 12, Paulo usa o “nós” em referência a que antes esperava em Cristo
(no sentido de terem a revelação do Evangelho antes dos demais povos). No Antigo
Testamento, Deus formou um povo para sua glória e a base para essa escolha é a
mesma: Deus os elegeu no Amado. Porém, foi na Plenitude dos Tempos que o Cristo
(o Messias) veio executar toda a justiça de Deus na terra reunindo em si um só povo
que inclui tanto judeus como gentios. Por isso, no vers. 13 Paulo usa a palavra
“vós”, indicando que todos aqueles que, fora dos limites de Israel, ouviram o
evangelho da graça e creram em Jesus foram salvos e agora estão unidos a Cristo. Os
que antes viviam sem esperança, agora participam do propósito de Deus.
Irmãos, nós éramos estes que, antes, viviam sem esperança. Ter ciência dessa
verdade não só nos move para a adoração ao Deus bendito pela sua maravilhosa
graça, mas também nos impulsiona para a missão. Sim, pois a graça se estendeu a
todos os povos e todos os povos serão alcançados, pois Deus tem espalhado sobre
toda a terra os seus eleitos. Ora, saber que Deus predestinou um povo para a
salvação não nos impede de levar a mensagem da graça. Pelo contrário, nos move.
Sim, pois a nossa missão de evangelizar tem — pela vontade de Deus — um
propósito vitorioso (seja para a salvação do eleito, seja para a condenação do ímpio).
Em tudo Deus será glorificado, pois Sua vontade é perfeita e boa.
No vers. 13, Paulo continua: “em quem também vós, depois que ouvistes a palavra
da verdade, o evangelho da vossa salvação, tendo nele também crido, fostes selados
com o Santo Espírito da promessa”.
“Em que” está relacionado a Cristo (v. 12). Se nós cremos em Cristo, agora somos
parte da família de Deus porque o Espírito Santo de Deus nos sela. Ora, a Palavra é
um elemento muito caro aqui. Os que foram unidos a Cristo pela fé, foram porque
creram na Palavra da Verdade que é o Evangelho da salvação. Paulo está dizendo
aqui que a esperança foi revelada aos que antes viviam distantes de Deus.
Por isso a ação — agora específica — do Espírito Santo é fundamental neste texto,
pois ela arremata toda a ação graciosa da Trindade na redenção da Igreja: a quem
ouviu a Palavra da Verdade e creu, o Espírito Santo sela.
O texto diz no vers. 13: “fostes selados com o Santo Espírito da promessa”.
Este selo aponta para uma realidade espiritual que diz respeito ao pertencimento.
Agora somos de Deus. Agora estamos em Cristo e o Espírito de Deus agora está em
nós. É uma marca interior deixada por aquele que, agora, habita em nós e faz
cumprir em nós toda a vontade eterna do Pai. Não porque ele se apodera das nossas
capacidades racionais e volitivas, mas porque nos: regenera; nos dá a fé; opera em
nós a conversão; renova a nossa vontade, nos move à santificação. Tudo isso como
obra daquele que habita em nós e nos dá a vida de Cristo.
Além do mais, o selo do Espírito comunica a nós, crentes, a evidência da adoção.
Testifica em nós que somos filhos de Deus por causa de uma vontade irrevogável,
verdadeira e absoluta. Como explica J. Calvino, “os selos imprimem autenticidade
tanto aos alvarás quanto aos testamentos (…) um selo distingue o que é genuíno e
indubitável do que é inautêntico e fraudulento”[4]. O Apóstolo Pedro afirma que
nós, Igreja do Senhor, somos propriedade de Deus quando diz: “vós sois a geração
eleita, sacerdócio real, nação santa, povo de propriedade exclusiva de Deus, cujo
propósito é proclamar as grandezas daquele que vos convocou das trevas para a
maravilhosa luz” (1Pe 2.9).
Paulo quando se refere ao selo, diz algo muito importante sobre a obra do Espírito
Santo na vida do crente. O Espírito Santo garante que nós somos de Deus e é por
causa deste selo que o próprio Espírito de Deus testifica que somos de Deus. Como
Paulo explica em Rm 8. 15 ao 17, nós não recebemos o “espírito de escravidão”, para
vivermos, “outra vez, atemorizados”, mas recebemos “o espírito de adoção,
baseados no qual clamamos: Aba, Pai. O próprio Espírito testifica com o nosso
espírito que somos filhos de Deus. Ora, se somos filhos, somos também herdeiros,
herdeiros de Deus e coerdeiros com Cristo”.
E essa ação do Espirito Santo em nós não nos torna somente passivos em relação às
bençãos de Deus. Não somos apenas receptáculos dos dons celestes, mas, pelo
Espírito que agora habita em nós, avançamos para o alvo da nossa vocação. Como?
Como Paulo mesmo se propôs a fazer quando disse em Fp 3.13, 14: “esquecendo-me
das coisas que para trás ficam e avançando para as que diante de mim estão,
prossigo para o alvo, para o prêmio da soberana vocação de Deus em Cristo Jesus”.
Isso envolve renúncia, decisão, firmeza de propósito, busca pela santificação cujo
fim é agradar a Deus. Toda a vontade de Deus — de sermos santos e irrepreensíveis
— pode ser cumprida por meio do Espírito Santo que aplica em nós todos os
benefícios conquistados por Cristo na cruz. Ele é quem nos regenera, quem nos
convence do pecado e do juízo de Deus, quem nos impulsiona para uma vida santa
e íntegra diante de Deus e diante do próximo. Ele quem faz nossas vidas
frutificarem não em espiritualidade fingida, mas em frutificação espiritual real,
evidenciada por uma vida que ama a Deus, ama o próximo e também a si mesmo, se
portando com dignidade, vivendo com gratidão, em obediência a Deus e com amor
que visa o bem do próximo. O pertencimento a Deus é evidenciado por uma vida
que agora é impulsionada pelo Espirito Santo que aplica em nós a Palavra da
Verdade.
O Espírito Santo, irmãos, é a promessa do Pai, como Paulo indica no ver. 13. Espírito
que, nos últimos dias, seria derramado sobre toda a carne (Joel 2. 28). No vers. 14
Paulo conclui: “o qual é o penhor da nossa herança, até ao resgate da sua
propriedade, em louvor da sua glória”.
O Espírito Santo não é apenas o cumprimento de uma promessa. Mas sua vinda
indicava a completude da obra do Pai. O Deus que elegeu, elegeu em Cristo cuja
obra de redenção é aplicada pelo Espírito Santo. Aqui Paulo conclui a majestosa
obra da Trindade na nossa redenção dizendo que o Espírito santo não só nos sela —
para nos marcar como pertencentes a Deus –, mas se coloca como Penhor da
herança.
Como o Espírito Santo se coloca como penhor da nossa herança? Paulo responde
isso em Romanos 8. 18–23:
“Porque para mim tenho por certo que os sofrimentos do tempo presente não
podem ser comparados com a glória a ser revelada em nós. A ardente expectativa da
criação aguarda a revelação dos filhos de Deus. Pois a criação está sujeita à vaidade,
não voluntariamente, mas por causa daquele que a sujeitou, na esperança de que a
própria criação será redimida do cativeiro da corrupção, para a liberdade da glória
dos filhos de Deus. Porque sabemos que toda a criação, a um só tempo, geme e
suporta angústias até agora. E não somente ela, mas também nós, que temos as
primícias do Espírito, igualmente gememos em nosso íntimo, aguardando a adoção
de filhos, a redenção do nosso corpo”
O Espírito Santo nos garante a glória futura e, ao mesmo tempo, passa a ser o
antegozo da Redenção que será completada na glória. Ele, como Penhor, é quem
opera em nós o querer e o realizar; Ele é quem nos move para a santificação; quem
nos corrige; quem nos ajuda e nos assiste nas fraquezas; quem nos convence do
pecado; quem gera em nós o arrependimento; quem ilumina nossas mentes em
relação à Palavra; quem nos dá dons; quem desperta em nós vocações. Tudo para
atingirmos o fim último da nossa existência.
Conclusão:
Assim como aquele tribo da Indonésia, que festejou e cantou por longas horas pelo
cumprimento daquilo que eles entendiam ser o proposito eterno de Deus para com
sua etnia, expressada na oração do líder tribal, Paulo louvou a Deus aqui em Efésio
1. 3–14 pela graça de Deus revelada à Igreja através das bençãos da redenção e dos
dons celestes que a Igreja recebe em Cristo. É uma alegria expressada num louvor
ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo que de modo gratuito nos abençoa e nos une a
Deus por meio de Cristo.
Irmãos, experimentar essa unidade na vida cristã prática se torna possível não
porque podemos conquista-la por nós mesmos, mas porque Deus nos escolheu em
Cristo, porque Cristo nos redimiu e nos religou a Deus, porque estamos unidos a
Cristo e porque o Espírito Santo sela essa união, sendo Ele próprio o penhor da
nossa herança. Como Paulo lembra aquela igreja (em Efésios 2. 1): “Ele vos deu vida,
estando vós mortos nos vossos delitos e pecados”. Foi a graça de Deus quem nos
atraiu a Cristo e em Cristo, agora, vivemos para a glória de Deus
Tudo que a Igreja precisava saber a respeito da sua união com Cristo, sua função na
terra e sobre o propósito último do seu chamamento estava firmado numa verdade:
Deus nos elegeu em Cristo e Cristo nos reconciliou com Deus e o Espírito Santo nos
selou como propriedades exclusivas de Deus para que possamos não apenas
empilhar bençãos espirituais nas nossas despensas, mas para que possamos nos
encontrar, agora, ativos na nossa missão que começa pela santificação do povo de
Deus e se estende à obra e aos deveres que cada crente tem diante de Deus.
Toda a capacitação e toda a missão da Igreja se deve ao fato de que ela foi escolhida
e foi enriquecida de bençãos espirituais, pois não há Redenção sem propósito. Não
há chamado de Deus sem capacitação do alto.
Nossa vida, agora responsivas à graça que nos alcançou, deve ser caracterizada pelo
novo viver, frutificado em Deus. Como?
A graça nos transforma. O que Deus nos pede é o que Ele nos dá em Cristo. Em
Cristo, Deus não nos mede para baixo. Apesar da nossa natureza caída, o Homem
Renovado deve buscar a perfeição, pois agora está unido a Cristo.
Bibliografia:
FOULKES, Francis. Efésios, Introdução e Comentário. São Paulo, Vida Nova, 1983.