Formação Da Relaçoes Etnico Raciais Pedagogia
Formação Da Relaçoes Etnico Raciais Pedagogia
RESUMO
Este artigo apresenta os resultados de pesquisa desenvolvida entre 2013 e 2015, no Centro de Educação da Universidade
Federal de Pernambuco que objetivou analisar, nesta instituição, as repercussões da Lei nº 10.639/2003 no curso de Pedagogia
no período de 2003 a 2013. Assim, através da teoria freireana apropriada numa leitura de recriação crítica que a usou como, um
horizonte de possibilidade de justiça social, e da metodologia da história oral, colhemos fontes orais e escritas que ajudaram a
interpretar como ocorreram estas repercussões. Os resultados apontam que as reverberações dessa Lei no curso e no tempo em
questão aconteceram de forma mínima, começando a produzir efeitos só após o ingresso de docentes e estudantes que se
autoidentificam negros e negras e consideram a educação das relações étnico-raciais importante para a formação docente e, por
isso, escolhem o tema para o seu pensar e o fazer pedagógico.
Palavras-chave: Relações Étnico-Raciais. Lei 10.639/2003. Formação Docente. Paulo Freire.
ABSTRACT
This article presents the research results developed between 2013 and 2015 at the Education Center of the Federal University of
Pernambuco, which aimed to analyze, in this institution, the repercussions of Law 10.639 / 2003 in the Pedagogy course from
2003 to 2013. Thus, Through the appropriate Freirean theory in a critical recreation reading that used it as a horizon of possibility
of social justice and the methodology of oral history, we collected oral and written sources that helped to interpret how these
repercussions occurred. The results point out that the reverberations of this Law in the course and in the time in question
happened in a minimal way, beginning to take effect only after the entry of black and black teachers and students, and consider
the education of ethnic-racial relations important for the Teacher training and, therefore, choose the theme for their pedagogical
thinking and doing.
Keywords: Ethnic-Racial Relations. Law 10.639/2003. Teacher Training. Paulo Freire.
RESUMEN
Este artículo presenta los resultados de las investigaciones llevadas a cabo entre 2013 y 2015, de la Universidad Federal de
Pernambuco Centro de Educación que tuvo como objetivo analizar, en esta institución, el impacto de la Ley 10.639 / 2003 en la
Facultad de Educación de 2003 a 2013. Por lo tanto, a través de la teoría de Freire apropiada una lectura crítica de recreación
que lo utilizó como un horizonte de posibilidad de la justicia social, y la metodología de la historia oral, se recogieron las fuentes
orales y escritas que ayudaron a interpretar como ocurrió estas repercusiones. Los resultados muestran que las reverberaciones
de esta ley en el curso y el momento en cuestión ocurrió en una forma menor de edad, comenzando a surtir efecto sólo después
de la admisión de los profesores y estudiantes que se auto-identifican los hombres y las mujeres de raza negra y que consideran
la educación de las relaciones étnico-raciales importante para formación del profesorado y, por lo tanto, elegir el tema de su
pensamiento y pedagógica.
Palabras clave: Relaciones racial-étnico. Ley 10.639/2003. Formación del professorado. Paulo Freire.
INTRODUÇÃO
A partir de 2003, a educação das relações étnico-raciais teve uma inserção significativa nas
legislações e documentos legais referentes à formação docente. O marco legal foi a aprovação da Lei
Complementar nº 10.639/20034 que alterou a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional -
LDBEN, nº 9.394/96, e sua regulamentação pelo Parecer da Resolução do Conselho Nacional de
Educação - CNE nº 01/2004, dispondo sobre as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação das
Relações Étnico-raciais e para o Ensino de História e Cultura Afro-brasileira e Africana. Em seguida
têm-se as Diretrizes Curriculares Nacionais do Curso de Pedagogia (2006).
A partir desta inserção muitos estudos vêm sendo realizados e divulgados sobre a
implementação desta lei complementar. Merece destaque a pesquisa: “Práticas Pedagógicas de
Trabalho com Relações Étnico-Raciais na Escola na perspectiva da Lei nº 10.639/03” realizada em
âmbito nacional, entre os anos de 2009-2010. A pesquisa teve como objetivo, entre outros, mapear e
analisar as práticas pedagógicas de educação das relações étnico-raciais desenvolvidas pelas escolas
da rede estadual e municipal, de acordo com a Lei nº 10.639/03, a fim de subsidiar a definição de
políticas públicas (GOMES, 2012). Os resultados desse mapeamento e análise apontam para a
necessidade de introduzir a referida Lei e suas diretrizes nas políticas de educação básica através do
currículo e da formação de professores no ensino superior.
A interpretação destas leis diz respeito ao fato de que a sociedade brasileira é constituída por
uma diversidade étnica. Mas, no entanto, a formação docente, as políticas e as práticas educacionais
têm incidido por escolhas hegemônicas e negadoras da evidente heterogeneidade presente no país.
Há um avanço legislativo, mas as práticas denunciam que a educação brasileira é excludente e omissa
tendo em vista o contexto de diversidade brasileira. Os vários estudos, além de revelar a situação em
que se encontra a educação das relações étnico-raciais, também apontam as críticas.
Santos (2005), por exemplo, não desconsidera a relevância das legislações, mas destaca a
ausência da reorganização das licenciaturas no que se refere aos seus programas de formação
docente para atender a Lei nº 10.639/2003 e suas diretrizes.
4 Torna obrigatório o ensino sobre História e Cultura Afro-brasileira e africana nos estabelecimentos de ensino fundamental e
médio, oficiais e particulares de todo o território nacional.
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aprovação das diretrizes do curso de Pedagogia, em 2006, tem avançado com a implementação de
disciplinas sobre diversidade ou sobre a Educação das Relações étnico-raciais.
Para Souza, Reis e Menezes (2013, p.16) estas ausências estão relacionadas aos limites das
políticas públicas de educação, entre outros motivos, que não investiram na universalização dos
conteúdos étnico-raciais, seja através da formação dos educadores ou de uma reestruturação do
currículo escolar.
A base teórica desse estudo foi pautada nas ideias de Paulo Freire, contribuindo na busca de
conhecimentos sobre uma possível reestruturação curricular que colabore para a superação da relação
opressor-oprimido. Para Freire (2011) existem possibilidades de superar as contradições a partir das
opções que são feitas pelos educadores. É assim que a concepção freireana apresenta a educação,
como um ato político, percebendo que não há educação que seja neutra diante das relações
estabelecidas na sociedade.
Nesta direção, percorrendo um caminho metodológico que dialogou com fontes orais e escritas,
a questão que norteou este estudo buscou responder como o curso de Pedagogia da UFPE, no
período de 2003 a 2013, tem inserido a discussão das relações étnico-raciais na formação do
pedagogo após a aprovação da Lei nº 10.639/2003.
Ao iniciar esta pesquisa a pressuposição foi que o curso ainda está se familiarizando com a
temática e, de alguma forma, sustentando a perspectiva de democracia racial, o que faz com que a
inserção da educação das relações étnico-raciais, imposta pela Lei nº 10.639/2003, fique limitada a um
número restrito de docentes do Centro de Educação (CE) que assumem a identidade negra.
Destarte, é importante repensar a formação docente em virtude de uma prática libertadora que
reflita e proporcione transformações na sociedade que, em pleno ano de 2016, enfrenta o discurso
conservador que defende uma educação neutra, sem interferência política. Tais discursos exigem uma
postura e atitude incisiva dos profissionais da educação que acreditam no potencial da educação
política e progressista.
É com esta prática libertadora, democrática, política e crítica que o docente tem condições de
construir uma ação educativa que possa “direcionar positivamente as relações entre pessoas de
diferentes pertencimentos étnico-raciais, no sentido do respeito e da correção de posturas, atitudes e
palavras preconceituosas” (BRASIL, 2004).
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É este tipo de ação que favorece uma educação das relações étnico-raciais, direcionada para
todas as pessoas, independentemente de sua raça ou etnia, possibilitando o fortalecimento e
pertencimento da identidade negra e o reconhecimento do outro.
[...] a divulgação e produção de conhecimentos, bem como de atitudes, posturas e valores que
eduquem cidadãos quanto à pluralidade étnico-racial, tornando-os capazes de interagir e de
negociar objetivos comuns que garantam, a todos, respeito aos direitos legais e valorização de
identidade, na busca da consolidação da democracia brasileira (BRASIL, 2004).
Nesse sentido, o currículo para formação inicial do pedagogo deve favorecer este profissional
em sua inserção nas instituições de ensino para atender suas demandas e, neste processo, é
imprescindível que esta formação proporcione a percepção das relações estabelecidas ao seu redor.
Por isso, são louváveis as iniciativas, lutas e demandas reivindicadas pelos Movimentos
Sociais Negros em busca de uma educação que atenda a diversidade da população brasileira. O curso
de Pedagogia, portanto, deve intervir nesta realidade, através de uma formação pedagógica que
atenda as demandas e supere as contradições sociais e raciais desse país.
A metodologia da história oral faz sua opção política e tem identificação com várias histórias,
dando voz aos sujeitos e temáticas que são, muitas vezes, consideradas marginais, sem relevância no
mundo acadêmico e silenciada nos espaços educacionais. Alberti (2005) e Meihy (2007) ressaltam que
a metodologia da história oral se identifica com “outra história”. Tal metodologia de pesquisa se vale
das suas narrativas/fontes orais, visando destacar as experiências vividas por um coletivo que se
propõe a transformar suas experiências em documentos históricos.
É esta também a opção política que o estudo em tela faz, privilegiando “a recuperação do
vivido conforme concebido por quem viveu” (ALBERTI, 2005, p. 23). A técnica da história oral, através
das narrativas colhidas pelas entrevistas realizadas, veio recuperar a memória do que foi vivido pelas
pessoas sobre a educação das relações étnico-raciais, estimulando-as a reviverem suas memórias e
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As fontes orais coletadas para este estudo e os critérios de escolha para realização das
entrevistas foram os docentes que assumiram a gestão do curso de Pedagogia entre os anos de 2003
a 2013 e os estudantes egressos que elaboram seus Trabalhos de Conclusão de Curso com a temática
em tela e que, de alguma forma, têm inserção nas questões étnico-raciais. Sete entrevistas foram
realizadas com estudantes e cinco com as coordenações, contemplando todos os docentes que
coordenaram o curso no período estudado.
Meihy (2007) ressalta que na história oral as entrevistas dialogam com outras fontes para
aprofundamento das investigações. Assim, considerando que a construção de fontes é uma das
características da história oral, as narrativas produzidas neste estudo passaram de fonte oral para fonte
escrita após o processamento da transformação do testemunho oral para o documento.
Para a obtenção das informações também foi necessário, além das narrativas, o
aprofundamento das seguintes fontes escritas:
a) Lei nº 10.639/2003;
A leitura das primeiras duas fontes citadas serviram para uma revisão bibliográfica que deu
base para o aprofundamento teórico-metodológico da pesquisa, além de também contribuir com a
coleta e análise dos dados.
Com os artigos dos TCC encontrados no site do Centro de Educação da UFPE foram
selecionadas as outras fontes escritas que interessaram a esta pesquisa, identificando a inserção da
Lei nº 10.639/2003 nos TCC através da temática: educação das relações étnico-racial.
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As discussões no Colegiado
A partir dessas diretrizes, recorreu-se a uma das fontes escritas dessa pesquisa, ou seja, as
atas das reuniões do colegiado do curso de Pedagogia, objetivando evidenciar como o curso tem
abordado esta questão e, neste aspecto, ficou constatado que o referido colegiado, durante o período
de 2003 a 2013, não realizou nenhuma discussão sobre a Lei nº 10.639/2003 ou sobre a temática da
Educação das Relações Étnico-Raciais.
Dessa forma, o tema aqui abordado não ficou contemplado, conforme dispõe a Lei nº
10.639/2003, a Resolução CNE nº 1/2004 e também o Parecer CNE/CP n. 05/2005, que compreende a
docência “como ação educativa e processo pedagógico metódico e intencional, construído em relações
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Outro docente, que foi coordenador, lembrou que na sua gestão (2007-2009) aproximou-se da
temática mediante uma solicitação do Ministério Público que, pressionado pelos movimentos sociais,
pedia esclarecimentos à Instituição acerca da forma como o debate sobre a obrigatoriedade do
cumprimento da Lei nº 10639/03 estava se processando. De conformidade com essa coordenação, no
período de sua gestão, a discussão não era ponto de tensão nas reuniões do Colegiado.
Pelo que se pode depreender, o colegiado discutiu a questão muito mais visando dar
satisfação ao Ministério Público que exigia explicações da Instituição sobre seu posicionamento em
relação à Lei. Nesse tempo, já vigorava a Resolução CP/CNE nº 1/2004, que é específica quando diz
que especialmente “Instituições que desenvolvem programas de formação inicial e continuada de
professores deveriam observar a obrigatoriedade da inclusão em seus currículos da temática Educação
das Relações Étnico-Raciais e para o Ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e Africana” (BRASIL,
2004). Ainda mais explícito é o § 1° ao dispor que “as Instituições de Ensino Superior incluirão nos
conteúdos de disciplinas e atividades curriculares dos cursos que ministram” (BRASIL, 2004).
Contudo, o Colegiado demonstra que ainda não conhecia esta legislação, acreditando que
essa questão não dizia respeito às instituições de ensino superior. Desconhecendo, também, as
“Diretrizes Curriculares para o curso de Pedagogia”, conforme Parecer CNE/CP 05/2005, que propunha
que “Na organização do curso de Pedagogia, dever-se-á observar, com especial atenção: os princípios
constitucionais e legais; a diversidade sociocultural e regional do país” (BRASIL, 2005, p. 6).
Em suas memórias, a coordenação citada refere-se a três reuniões específicas para tratar do
assunto, o que culminou num documento escrito para o Ministério Público relatando as decisões do
colegiado. As discussões giraram em torno de duas posições: introduzir uma disciplina sobre as
relações étnico-raciais e a legislação ou ser uma disciplina departamental ou interdepartamental com
um professor ou grupo de professores encarregados. Esta última ideia adquiriu consenso, instituindo
que cada departamento indicasse nas ementas como a questão étnico-racial seria inserida nas
disciplinas.
A narrativa dessa coordenação revela, em comparação com as outras, que foi essa gestão que
debateu a questão, ainda que sob a pressão do Ministério Público, mas nada ficou registrado dessas
discussões, nem mesmo o documento final destinado ao Ministério Público como resposta do
posicionamento do colegiado. Ou seja, a temática étnico-racial não esteve registrada nas reuniões do
colegiado de Pedagogia durante os 10 anos da Lei nº 10.639/2003.
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ao curso como um todo. Devido a isso, não se fizeram discussões aprofundadas e restritas sobre a Lei,
já que a questão era vista no contexto da interdisciplinaridade e transversalidade.
A coordenação do período 2009-2011 lembra que durante sua gestão foram contratados
professores negros com trajetória no movimento social ligado às questões étnico-raciais, o que
mobilizou as discussões e resultou na criação do Núcleo de Estudos Afrobrasileiros -NEAB/UFPE. Da
mesma forma, a coordenação que dirigiu o colegiado entre 2005-2007 cita professores dessa gestão
envolvidos com a questão, e também recorda os temas que esses docentes propuseram para estudo, o
que estimulou a inserção de estudantes brancos e negros na discussão.
O contato mais direto com o assunto, a partir dos docentes que assumiram a coordenação, no
período estudado, deu-se a partir dos estudantes por intermédio das orientações de produções
acadêmicas sobre a questão do negro. A narrativa revela que o ingresso de estudantes ativistas das
questões étnico-raciais mobilizaram as discussões no curso.
Contudo, embora tenha tido pouca repercussão durante seus dez anos, a Lei nº 10.639/2003 já
vinha anunciando suas marcas no curso de Pedagogia do Centro de Educação da UFPE.
Os TCC se constituíram outra fonte escrita que subsidiou a análise dos dados para esta
pesquisa. Foram encontrados no site do CE apenas oito trabalhos direcionados a discutir a temática.
Posteriormente, outros nove TCC foram encontrados com a ajuda de professores orientadores.
Analisando os efeitos da Lei nº 10.639/2003 nesses trabalhos, um dado chama atenção: após a
aprovação da referida Lei Federal, apenas quatro anos depois, ou seja, em 2007, foi apresentado o
primeiro trabalho de pesquisa na graduação voltado para a temática étnico-racial, e que os anos de
2012 e 2013 se configuram como um avanço no número de trabalhos acadêmicos com esta temática.
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A leitura, análise e interpretação das fontes também levam a inferir que, ao optar por discutir a
temática étnico-racial nos TCC, os/as estudantes e autores/as desses trabalhos, através da realização
da pesquisa de campo, são provocados/as a perceber a situação em que se encontram essa discussão
no âmbito da Educação Básica, revelando os problemas que ainda estão presentes e refletindo sobre
como trabalhar o tema durante sua vida e prática profissional. Ao realizar leituras para a
fundamentação teórica da pesquisa, os/as estudantes se apoderaram de uma linguagem mais
acadêmica que ampliou seus conhecimentos sobre o que os pesquisadores pensam sobre a temática.
As fontes orais advindas dos/das estudantes egressos do curso de Pedagogia que elaboraram
seus TCC com destaque na Lei nº 10.639/2003 revelam que a educação das relações étnico-raciais
começa a se expandir através de atividades complementares, como seminários, palestras, debates e
também a partir da chegada de professores/as e pesquisadores/as da área que, na sua prática
docente, estimulam a reflexão e produção acadêmica envolvendo a Lei 10.639/2003.
A prática dos/das docentes nos remete à reflexão freireana do ponto de vista de nossa
condição de educadores que considera a natureza política da educação em seu processo de
conscientização crítica da realidade dos estudantes que, a partir deste processo, buscam se libertar da
opressão e transformar o percurso de sua história.
Pautando, com a temática da educação das relações étnico-raciais em suas aulas, os/as
docentes provocam seus/suas estudantes a repensarem as relações sociais e raciais na educação e
na sociedade. Nas palavras de Freire (2003) eles representam o verdadeiro papel de educadores
através de sua prática:
O papel do educador não é propriamente falar ao povo sobre sua visão de mundo ou lhe impor
esta visão, mas dialogar com ele sobre a sua visão e a dele. Sua tarefa não é falar, dissertar,
mas, problematizar a realidade concreta do educando, problematizando-se ao mesmo tempo
(FREIRE, 2003, p. 09).
Cada vez mais sentíamos, de um lado, a necessidade de uma educação que não descuidasse da
vocação ontológica do homem, a de ser sujeito, e, por outro, de não descuidar das condições
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Com estas discussões, os dados coletados e analisados levam a inferir que a inserção da
temática étnico-racial, através da aprovação da Lei nº 10.639/2003, nos TCC de Pedagogia da UFPE,
no período de 2003 a 2013, não foi em grande escala, mas a oportunidade de pesquisar sobre o
assunto e a escrita dos trabalhos foi de extrema importância para seus/suas estudantes
pesquisadores/as e professores/as orientadores/as, bem como, para o curso e para a educação das
relações étnico-raciais e, hoje, servem como referência acadêmica para novos estudos sobre o
assunto.
Considerando esta base legal, interessa apresentar como os/as estudantes e coordenadores
perceberam a educação das relações étnico-raciais inserida na formação do pedagogo egresso do
Centro de Educação da UFPE.
A intenção da pesquisa em usar como critério para seleção das fontes orais os estudantes
egressos que tem envolvimento com a temática se deu por acreditar que estas experiências facilitariam
as memórias que os egressos pudessem ter de momentos em que o curso problematizou a Lei nº
10.639/2003 e/ou a educação das relações étnico-raciais. Por isso, uma das questões do roteiro de
entrevista buscou saber da identificação do entrevistado com a temática étnico-racial.
De acordo com as narrativas dos estudantes egressos e ativistas do movimento negro diversos
fatores influíram na relação/identificação com a temática étnico-racial, seja antes do curso, a partir de
experiências com movimentos sociais, e também durante o curso, nas práticas em sala de aula, bem
como, através de formação continuada e trabalhos monográficos sobre o assunto. Na fala dos três
pesquisados, pode-se perceber que a experiência na academia de alguma forma contribuiu para esse
contato com a questão, através, por exemplo, de trabalhos acadêmicos apresentados em sala de aula
durante a graduação em projeto de iniciação científica e, posteriormente, em projetos de mestrado.
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discussão ou leitura de livro, mas com pouca ou nenhuma intencionalidade em relação à discussão do
tema. Nessas memórias, debates do NEAB foram citados, assim como a participação num encontro de
pesquisadores negros.
Nas narrativas, percebe-se que a atuação da academia foi limitada. O contato dos/das
estudantes com o tema deu-se muito mais pelo interesse que nutriam pela discussão, o que os levava
à produção de trabalhos científicos e, em algumas situações, apresentação de seminários. No âmbito
da sala de aula, o debate dificilmente surgia como fruto do planejamento de alguns professores
desejosos de discutir o assunto de forma sistematizada.
As respostas referentes aos efeitos da Lei nº 10.639/2003, após sua aprovação, demonstram a
quase total ausência da discussão no curso, no período analisado. Um dos participantes diz ter ouvido
falar sobre a Lei, mas esta não teve grandes repercussões. Ao que parece, o impacto teve presença
marcante na vida dos entrevistados na medida em que mergulhavam na temática, especialmente nos
seus projetos de pesquisa.
Os/as estudantes egressos do curso de Pedagogia da UFPE, através das narrativas, criticam
as poucas vezes em que os docentes provocaram discussões direcionadas ao tema e reclamam do
currículo que não discute a inserção do tema de forma privilegiada. As discussões sobre o tema em
sala de aula eram, em muitos casos, motivadas por estudantes que assumiam a identidade negra e já
realizavam atividades direcionadas a essa temática em seus locais de trabalho, mais especificamente,
na docência da Educação Básica.
A ausência do tema nas proposições do corpo docente do curso era suprida por esses/essas
estudantes que influenciavam outros colegas a pensarem sobre as questões étnico-raciais. Postura
essa, de acordo com o que rege as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação das Relações
Étnico-Raciais e para o Ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e Africana. Os/as estudantes, ao se
comportarem desta forma, divulgam conhecimentos, desenvolvem “atitudes, posturas e valores que
educam cidadãos quanto à pluralidade étnico-racial, tornando-os capazes de interagir e de negociar
objetivos comuns que garantam a todos, respeito aos direitos legais e valorização de identidade”
(BRASIL, 2004).
No entanto, é inegável que existem contribuições do curso de Pedagogia para educação das
relações étnico-raciais dos (as) estudantes, através de grupos de estudos, palestras, aulas e,
simplesmente, pela presença de pessoas negras, com elevada autoestima, que ‘desfilam’ com trajes e
cabelos afros pelo Centro de Educação da UFPE.
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progressista, que liberta o oprimido, problematiza, contextualiza e utiliza o dialoga nas relações que
envolvem o pensar e o fazer pedagógico.
Para que estas análises aconteçam na formação do pedagogo, é preciso entender que a
docência é a base desta formação e deve está fundamentada em processos educativos articulados
com a realidade histórica e “constitui-se na confluência de conhecimentos oriundos de diferentes
tradições culturais e das ciências, bem como de valores, posturas e atitudes éticas, de manifestações
estéticas, lúdicas, laborais”. (BRASIL, 2005, p. 7).
Assim documentado, a educação das relações étnico-raciais deve estar inserida na formação
do pedagogo. O curso, para uma educação das relações étnico-raciais, deve conduzir o educando à
percepção de que a temática tem amparo legal e precisa evidenciar-se no currículo e não apenas em
práticas pontuais. Além disso, caberá aos pedagogos e pedagogas, na condução de seu pensar e fazer
pedagógico, reconhecer que a educação não é neutra e fazer a opção por uma educação das relações
étnico-raciais é uma decisão política.
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CONSIDERAÇÕES FINAIS
A pesquisa ora apresentada, ao trazer como objeto de estudo a educação das relações étnico-
raciais no curso de Pedagogia da UFPE, a partir da Lei nº 10.639/2003, contemplou o interesse do
estudo em aprofundar a temática pretendendo trazer mais abordagens, explicações e contribuições
para a inserção do tema na agenda de preocupações acadêmicas do curso de Pedagogia da UFPE.
As fontes orais e escritas evidenciaram que as coordenações e estudantes têm uma visão
positiva sobre as mudanças surgidas no curso de Pedagogia, fruto das discussões sobre a Lei nº
10.639/2003 e a temática étnico-racial. Todavia, poucos foram os esforços de suas práticas e gestões
para uma efetiva materialização dessa legislação. Por outro lado, também é notável a contribuição de
alguns estudantes e docentes interessados na temática no sentido de fomentar, alavancar e oxigenar o
debate sobre História da África e africanidades.
A busca e leitura dos TCC que abordaram a temática étnico-racial em suas pesquisas
revelaram que, considerando os dez anos do período estudado, a aprovação de uma lei que envolve a
formação inicial dos docentes e, igualmente, a quantidade de trabalhos que são defendidos
anualmente no curso de Pedagogia (estimativa de 80), é possível inferir que são poucos os estudantes
que despertaram o interesse em realizar seus trabalhos de conclusão de curso nessa área. Mas, os
mesmos, ao desenvolverem a pesquisa de seus TCC sobre a temática, perceberam mais de perto a
realidade na qual vive a população negra nas escolas e a forma incipiente como ainda é tratada a
temática nas práticas pedagógicas escolares e acadêmicas, em suas atuações e formações.
Com isto, é possível afirmar que a prática pedagógica dos docentes influencia e desperta o
interesse do estudante na escolha e decisão dos seus estudos, como a escolha do tema de seu TCC.
A inserção de estudantes ativistas no curso, que durante as aulas provocam ou redimensionam a
discussão para as questões étnico-raciais na educação e também na sociedade, contribuem para a
inserção da temática étnico-racial nos TCC de Pedagogia da UFPE.
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