Dissertação Mestrado CONSTITUIÇÃO DO IMPÉRIO DO BRAZIL - IDEOLOGIA E CONTRADIÇÕES DA CARTA CONSTITUCIONAL DE 1824
Dissertação Mestrado CONSTITUIÇÃO DO IMPÉRIO DO BRAZIL - IDEOLOGIA E CONTRADIÇÕES DA CARTA CONSTITUCIONAL DE 1824
Belo Horizonte
2014
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Belo Horizonte
2014
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[Folha de avaliação]
AGRADECIMENTOS
À família Cárita, pelas constantes vibrações e por se tornarem tão especiais na minha
vida; à Patrícia Mello, amiga querida, sempre disponível e com um coração e
desprendimento que me ensina, diariamente, como uma conversa regada com um chá
quentinho é capaz de suavizar o dia.
RESUMO
O presente trabalho tem por escopo avaliar as bases em que foram alicerçadas a
Constituição Imperial de 1824, contextualizando-a de forma a problematizá-la em suas
origens liberais, permitindo-nos fazer uma leitura aberta e crítica da historicidade dos
conceitos jurídicos brasileiros. Para tanto faremos uma sucinta comparação entre a ilustração
europeia e a brasileira, principalmente por intermédio das discussões da Assembleia
Constituinte de 1823, refletindo a forma com que esse ideal foi assimilado no Brasil de
maneira a influenciar na mente da elite política brasileira, em especial a família Andrada e a
icônica figura de José Bonifácio de Andrada e Silva.
ABSTRACT
The present work has the purpose to evaluate the foundations on which were based the
Imperial Constitution of 1824, contextualizing it in order to problematize it in its liberal
origins, allowing us to make an open and critical reading of the historicity of the Brazilian
legal concepts. For this we will make a brief comparison between European and Brazilian
illustration, mainly through the discussions of the Constituent Assembly of 1823, reflecting
the way that this ideal was assimilated in Brazil in order to influence the mind of the Brazilian
political elite, especially the family Andrada and iconic figure of Jose Bonifacio de Andrada e
Silva.
SUMÁRIO
PRÓLOGO ........................................................................................................................... 7
2.1 Apontamentos para a Civilização dos Índios Bravos do Império do Brasil ........... 105
2.3. Breve esboço sobre a Imprensa Nacional e a contribuição de José Bonifácio ..... 120
PRÓLOGO
Ideologia, termo cunhado por Destutt de Tracy, em seu sentido primitivo tinha por
objeto o estudo das ideias, das sensações e das suas características. Foi Karl Marx, todavia, o
grande responsável pela transmutação do sentido, conferindo contornos pejorativos e de
cunho alienante, passando a mesma a ser vista “como um conhecimento ilusório que leva ao
mascaramento dos conflitos sociais, sendo usada como instrumento de dominação, assumindo
assim o termo um sentido negativo”. 1
Marx almejava a busca pela verdade, pela causa, sem a utilização da crença religiosa, a
seu ver, alienante e contendo lentes destorcidas acerca da realidade. Assim, com o passar do
tempo, a reflexão marxista tornou a ideologia como base justificadora 2 da atuação estatal, em
um processo de inversão da realidade, em que tornara possível perceber por detrás de uma
ideia presumivelmente pautada na vontade geral, a defesa a interesses particularistas da classe
dominante, no caso, a burguesia
Apesar de essa acepção ser extremamente tentadora quando refletirmos sobre as obras
de José Bonifácio e o liberalismo brasileiro no início do século XIX, uma vez que se tornaram
justificadoras de um absolutismo esclarecido, do voto censitário, da atenção aos interesses
aristocráticos e consequente manutenção da escravidão, ainda assim não a avaliaremos sob a
1
TURA, Marcelo Felix. As fontes e implicações da Questão da Ideologia em Paul Ricoeur. Londrina: Editora
da Universidade de Londrina, 1999.p. 4.
2
GILES, Thomas Ransom. Estado, Poder, Ideologia. São Paulo: EPU, 1985.p. 71.
3
BELL, Daniel. O fim da Ideologia. Brasília: Editora UNB, 1980.p. 321.
8
Nesse sentido, adotaremos o escopo ideológico traçado por Paul Ricouer, que cruza
4
Marx “sem o seguir e nem combatê-lo” , situando a ideologia como um fenômeno da
existência social, ou seja, produto da elaboração das relações sociais de poder existentes na
sociedade, onde o comportamento de um indivíduo é significante para os demais componentes
da sociedade, influenciando-se reciprocamente, sem se ensimesmar no exclusivismo da luta
de classes.
“a ideologia, para poder dar uma visão de conjunto s respeito do mundo e aumentar
a sua eficiência, transforma um sistema de pensamento em um sistema de crença.
Ricoeur lembra-nos o caráter dóxico da ideologia: o seu nível epistemológico é o da
opinião, exprimindo-se por meio de máximas, de slogans, de fórmulas lapidares. A
ideologia transforma-se no reino dos “ismos”: liberalismo, socialismo, materialismo,
espiritualismo, etc.” 5
A última propriedade elencada é o atraso, pois ela se estrutura ante uma realidade
social sedimentada nas situações, justificando-as, como dito acima, favorecendo a dominação
da ideologia, porquanto, avaliando-a sob a perspectiva weberiana, apontada por Ricoeur, é
necessário sua legitimação tanto quanto da autoridade que a exerce e a toma por lema. A
4
TURA.Op.Cit.p. 89.
5
Ibidem.p.67
9
distorção marxista é abraçada pelo francês apenas quando a ideologia exercer função
dissimuladora da realidade, independente da luta de classe.
Giles, por sua vez, considera a ideologia, tanto quando a utopia, fenômenos que
discordam da realidade social, diferindo-se, basicamente, pelas pessoas que professam uma e
outra e o olhar que cada uma tem em relação ao que fazer ante esses fatos analisados.
Segundo o autor, esta última é preferencialmente, professada pela classe não privilegiada,
enquanto aquela é apregoada, normalmente, pela classe dominante. “As ideologias olham para
trás, as utopias olham para a frente. As ideologias se acomodam à realidade que justificam e
dissimulam, as utopias enfrentam a realidade e a fazem implodir”. 6
6
GILES.Op.Cit.p.86.
10
INTRODUÇÃO
Desta forma, buscando essa sinergia entre o construído e o presente com vistas à
melhoria no futuro, nunca é demasiado debruçarmo-nos sobre o berço do pensamento político
brasileiro, em seus mais diversificados aspectos, no afã de buscarmos a intelecção do Brasil
contemporâneo, em especial do ponto de vista político-jurídico, para que o direito seja
instrumento de profícua modificação da sociedade e efetivo elemento concretizador da justiça.
7
NASCIMENTO, Milton; BRANT Fernando; BORGES, Márcio. O que foi feito deverá. In: Clube da
Esquina2, 1978.
8
FONSECA, Ricardo Marcelo. Introdução Teórica à História do Direito. Curitiba: Juruá Editora, 2010. p. 6
11
A correta visão histórica dos fatos nos permite problematizar, por exemplo, a atual
legislação de caráter protecionista com relação aos negros, bem como a justa medida na
aplicação do direito, pelos tribunais, nos rincões desse imenso país que, em virtude da sua
diversificada colonização, desenvolveu costumes e posturas políticas tão diversificadas. “A
história acaba assim por ser um dos discursos propostos para a compreensão, interpretação e
acção do/no mundo” 12, flertando com o futuro.
O objetivo deste escrito será apresentar uma análise crítica acerca das noções
preliminares, dos princípios, dos ideais e das ideias nascentes que constituíram o pensamento
jurídico - político do Brasil no período pré e pós-independência, mormente sob a ótica de José
Bonifácio de Andrada e Silva. Será observada, ainda, a forma com que a filosofia iluminista
foi incorporada à cultura política deste País, culminando com a emblemática Constituição
Brasileira de 1824, outorgada por D. Pedro I, insculpida sob forte influência do esboço
apresentado pelos liberais que compunham a Assembleia Constituinte de 1823, e avaliando
suas prováveis contradições frente à ilustração que lhe serviu de base.
9
SALGADO, Karine. História, Direito e Razão. In:
http://www.conpedi.org.br/manaus/arquivos/anais/manaus/direito_racion_democ_karine_salgado.pdf.
Consultado em 22 de julho de 2013.
10
Nesse mesmo sentido de que somos herdeiros desse passado jurídico, com todos os seus entrecortes, Ricardo
Marcelo Fonseca, em sua obra Introdução Teórica à História do Direito, escreve que o direito moderno
frequentemente é visto como o resultado final de uma evolução histórica onde tudo aquilo que era bom no
passado vai sendo assimilado e decantado, de modo a transformar o nosso direito vigente na mais sofisticada e
elaborada maneira de abordar o fenômeno jurídico. FONSECA, Ricardo Marcelo. Introdução Teórica à
História do Direito. Curitiba: Juruá Editora, 2010. p. 23
11
REPOLÊS, Maria Fernanda Salcedo. A identidade do sujeito constitucional no Brasil: uma visita aos seus
pressupostos histórico-teoréticos na passagem do império para a república, da perspectiva da forma de
atuação do guardião máximo da constituição. Disponível em:
http://www.conpedi.org.br/manaus/arquivos/anais/campos/maria_fernanda_salcedo_repoles-1.pdf. Acesso em 15
de dezembro de 2012.
12
CUNHA, Paulo Ferreira da; SILVA, Joana Aguiar; SOARES, Antônio Lemos. História do Direito: Do
direito romano à Constituição Europeia. Coimbra: Almedina, 2005.p. 19.
12
Articulamos nossas ideias, por assim dizer, a partir do princípio, encontrando nas
fontes Europeias e principalmente portuguesas, os pródromos da ilustração brasileira, ainda
colônia portuguesa, mas com ares já bem autônomos, haja vista a fecunda influência europeia
cujos intelectuais brasileiros buscavam com sofreguidão.
O sonho intenso15 de ver uma pátria nascente, liberta dos grilhões opressores e
colonizadores, mexeu com diversos brasileiros natos e naturalizados de coração, que se
afeiçoaram à Terra de Santa Cruz, mobilizando-se, ao longo dos anos, na sôfrega busca da
Independência.
Forçoso reconhecer que um exímio general não ganha uma guerra sozinho, pois sabe
enxergar a potencialidade do seu exército e extrair o ponto forte de cada soldado, usufruindo o
que cada um tem a oferecer de melhor. Bonifácio recebeu merecidamente, a alcunha
17
Patriarcal, mas “foi poderosamente auxiliado pelo talento e pela energia de Antônio Carlos
e sobretudo de Martim Francisco”18, motivo pelo qual a participação dos três irmãos será
aqui retratada19.
16
Os nomes explorados neste trabalho da tradicional família Andrada, Santistas de nascimento, serão os irmãos
José Bonifácio de Andrada e Silva, Antônio Carlos Ribeiro de Andrada e Martim Francisco Ribeiro de Andrada.
A história dos irmãos Andrada, vale dizer, é repleta de denúncias e contradições, sendo acusados por diversos
historiadores de serem senhores de escravos, no caso de José Bonifácio, e até mesmo traidor da Revolução
Pernambucana, pecha atribuída à Antônio Carlos. Fato é que, falíveis, são vistos por tantos como heróis dignos
de grandes epopeias, cujos feitos lhes renderam relevantes papeis na Independência do Brasil e no pensamento
político brasileiro. Esclarecemos que a maior parte das referências bibliográficas foi extraída da obra de Alberto
Sousa, por consideramos a mais coerente com todos os escritos compulsados sobre a família Andrada.
17
Antônio Carlos Ribeiro de Andrada nasceu na cidade de Santos, São Paulo, em 1773. Cursou os estudos
primários na sua terra natal e bacharelou-se em Direito e Filosofia pela Universidade de Coimbra. Durante o
período em que residiu em Portugal, dedicou-se quase exclusivamente às traduções de obras alheias. Adquiriu
renome enquanto grande orador; exerceu o cargo de Escrivão da Ouvidoria de São Paulo, em 1800; foi Auditor
Geral das Tropas da capitania no mesmo ano. É descrito sendo detentor de índole belicosa, ânimo combativo e
tresloucada veemência na manifestação das suas opiniões. Tais características o fizeram um dos grandes heróis
da Independência e da formação jurídico-constitucional do país, mas não permitiram grande tempo na atividade
de Magistrado. Em 1805 cumulou, ainda, o cargo de Juiz em Juiz de Fora, mudando em 1815 para a Ouvidoria
de Olinda. SOUSA, Alberto. Os Andradas. Vol. 1 São Paulo: Typographia Piratininga, 1992. p.475.
18
SOUSA, Alberto. Op.cit. p.07
19
Martim Francisco Ribeiro de Andrada, nascido em Santos/SP, no ano de 1775, estudou na escola fundamental
na sua cidade natal e, tal qual seus irmãos, recebeu rígida educação religiosa. Bacharelou-se em matemática pela
Universidade de Coimbra, acompanhando José Bonifácio, em 1808, a uma expedição minerográfica. Exerceu a
função de Diretor Geral das Minas e Matas de São Paulo, em 1801; Sargento – Mor de Milícias, na Inspeção da
fábrica de ferro de Ipanema. “A tendência espiritual do grande paulista era antes para o estudo dos problemas
práticos ligados á economia das nações do que para os meros devaneios e passatempos artísticos”. Exerceu
14
Desta feita, analisaremos o papel de destaque exercido por José Bonifácio no cenário
político brasileiro, bem como sua expressiva influência no pensamento de D. Pedro I,
servindo de coluna vertebral à sociedade ilustrada do império brasileiro. Surge, a partir daí, a
importância de avaliarmos suas obras, transmitindo seu entendimento sobre o iluminismo
europeu e como essa ideologia teve que ser aplicada em terras brasileiras, dadas as
peculiaridades que envolviam o nosso país dentro do contexto histórico da Independência 20.
Trazendo influências de Montesquieu, Rousseau e Benjamin Constant, viu-se obrigado a
desenvolver um liberalismo específico para o Brasil, sem perder sua base motivadora
estrangeira.
Foi êlle o general investido por vontade própria no supremo e arriscado comando de
todas as fôrças. Os outros foram officiaes ás suas ordens; e a massa geral compunha
a totalidade dos soldados rasos. Todos se portaram com denodo e cumpriram grave e
briosamente seu dever até ao fim; mas a responsabilidade capital dos planos, com a
respectiva e acertada previsão de quanto poderia succeder de lamentável ou de
auspicioso, cabe a quem dirigiu a campanha; e as glórias principaes do resultado
final inteiramente lhe pertencem.21
também a função de Ministro da Fazenda, reorganizando as finanças públicas do país pós – Independência,
reformando a Administração Pública, criando departamentos e serviços públicos, regularizou as fontes
arrecadatórias, deixando os cofres do Estado abastecidos. SOUSA, Alberto. Op.cit. p. 548.
20
Conforme entendimento de Ricardo Marcelo Fonseca, “se o direito está presente na sociedade e se ele é
histórico, não se pode desprender sua análise no passado da análise da própria sociedade onde ele se insere e
onde ele dialoga com a política, com a cultura, com a economia, com a sociedade, etc.”. FONSECA, Ricardo
Marcelo. Introdução Teórica à História do Direito. Curitiba: Juruá Editora, 2010. p. 22. Nesse esteio de
entendimento, traçaremos um paralelo entre o pensamento de alguns políticos brasileiros do período imperial,
confrontando-os com José Bonifácio. Aliás, muito será explorado sobre a perspectiva que este último tinha da
sociedade brasileira, com o fim de compreendermos a motivação de diversas decisões tomadas no desenrolar da
Independência e consequente elaboração do Projeto de Constituição em 1823 e a Carta de 1824.
21
SOUSA, Alberto. Op.cit.. p. 12
15
Para tanto, precisamos apreciar o cenário em que tudo se desenrolou, ainda que
sumariamente. À época da Independência o Brasil comparava-se a um grande campo de
22
batalhas, formando lutas epopeicas , em que cada facção buscava fazer prevalecer sua
ideologia à pátria nascente. O fantasma da recolonização assombrava o Brasil, uma vez que as
ordens exaradas por D. João VI, quando do seu retorno a Portugal, não deixavam dúvidas da
sua intenção de voltar o regime colonialista. Três grandes grupos lideravam as intenções
políticas em solo brasileiro. Um grupamento defendia a manutenção da relação metrópole –
colônia, com a subjugação desta aos ditames portugueses. Outro almejava um país
republicano, separando-se definitivamente da metrópole,
22
SOUSA, Alberto. Os Andradas. vol 2. São Paulo: Typographia Piratininga, 1992. p. 7
23
No capítulo sobre a Inconfidência Mineira, Afonso Arinos a tipifica como um movimento marcadamente
republicano, embora nem tanto radical, nos moldes apresentados pelos Estados Unidos, cujos princípios
encontravam-se consubstanciados na Constituição de 1787, inclusive no caráter econômico, “que correspondia
também à ideologia burguesa e capitalista” influenciada pela transformação da revolução industrial. In:
FRANCO, Afonso Arinos de Melo. Curso de Direito Constitucional Brasileiro. vol II. Rio de Janeiro:
Forense, 1960.p.14.
24
Apesar de alguns historiadores fazerem menção da existência de três partidos políticos quando da
independência, Aquiles Côrtes Guimarães ressalta a inexistência de partidos políticos devidamente estruturados
ao longo do Império, esclarecendo tratar-se de blocos parlamentares. Destaca a criação do Partido Liberal em
1831, o Partido Conservador, cujo início ocorreu em 1837 e o Partido Republicano, surgido em 1870.
GUIMARÃES, Aquiles Côrtes. Partidos Políticos e sistemas eleitorais no Brasil: estudo de caso. Brasília:
Editora UNB, 1982, p. 41-45.
16
maioria, por negros e mestiços, a maior parte escrava 26, bem como os brancos europeus e
judeus, além dos indígenas. 27 Essa diversidade acabava por dificultar a interação dos diversos
povos dentro de um mesmo sentimento de unidade.
Esse foi o palco encontrado por José Bonifácio, que tinha por objetivo pessoal, nos
dizeres de Miriam Dolhnikoff, formular um projeto civilizatório de concretizar, na América,
um país aos moldes europeus, ressaltando, todavia, que esse ideal não o impediu de respeitar e
incorporar as especificidades locais 28.
25
SILVA, José Bonifácio de Andrada. Projetos para o Brasil. Org. Miriam Dolhnikoff. São Paulo: Companhia
das letras, 1988. p. 21.
26
Ibid., p. 20
27
Sidney Chalhoub, baseando-se em recenseamento feito em 1872, constatou que a população brasileira neste
período somava 9.930.478 habitantes, divididos, quanto à condição social, em 8.419.672 livres (84,78%) e
1.510.806 escravos (15,21%). Quanto às raças, havia 38,13% de brancos, 19,68% de pretos, 38,28% de pardos e
3,89% de indígenas. Pretos e pardos somados, incluídos tanto livres e libertos quanto escravos, chegavam a
5.756.234, ou 57,96% da população total. Excluídos os escravos, chegamos a uma população livre de cor de
4.245.428, ou seja, 42,75% dos habitantes do país eram indivíduos livres de cor, logo egressos da escravidão e
seus descendentes, pretos e pardos. Por mais que não consigamos ter um qualitativo e quantitativo preciso da
população brasileira no período abordado, conseguimos vislumbrar o alto número de escravos negros e índios
existentes no país à época da independência, todos com inexpressivo grau cultural e pouca possibilidade de
formação de expansão econômica. CHALHOUB, Sidney. Precariedade estrutural: o problema da liberdade
no Brasil. In: Revista Eletrônica História Social. São Paulo: 2010. p. 34-35. Disponível em
http://www.ifch.unicamp.br/ojs/index.php/rhs/article/view/315/271. Aceso em 14/07/2012.
28
SILVA, José Bonifácio de Andrada. op. cit., p. 14.
17
tanto na Carta em apreciação quanto no curso dos acontecimentos, cuja consequência foi a
outorga da Constituição Imperial após dissolução da Assembleia.
29
O liberalismo, “filosofia de liberdade” reestruturadora do mundo moderno, exerceu
relevante influência no pensamento político de todo o Ocidente. Longe de encontrarmos uma
ideia hermética sobre sua conceituação ou origem, por não ser fundado sobre o pensamento
exclusivo de uma única pessoa, Olivier Nay o identifica como uma “sensibilidade filosófica
que tem sua fonte na Inglaterra do final do século XVII e se desenvolveu nos séculos XVIII e
XIX sob o impulso de diversos autores”.30 Destaca referido autor que o termo apareceu pela
primeira vez em 1819, nos escritos do filósofo Anon, entretanto, somente ganhou expressão
com o socialismo, quando avocou o cânone da teoria da liberdade individual da Revolução
Francesa em primazia a outros valores.
Mayos, por sua vez, fala sobre a impossibilidade de trazer uma única conceituação de
ilustração e destaca os enfoques de Hegel, Ernst Cassier e Paul Hazard. O primeiro vincula a
ilustração a um processo da modernidade que prioriza a razão do homem; o segundo
apresenta ideia de reformulação do pensamento filosófico, com bases empíricas; o terceiro
aborda o período ilustrado como o movimento responsável pela ruptura do domínio do mundo
cristão, que encontra na razão humana o objeto da sua emancipação 31.
29
BONAVIDES, Paulo; ANDRADE, Paes de. História Constitucional do Brasil. Brasília: OAB Editora,
2008.p. 102
30
NAY, Olivier. História das ideias políticas. Trad. Jaime A. Clasen. Petrópolis: Vozes, 2004. p. 194. Para o
autor existem cinco princípios sobre os quais emerge a teoria liberal: a) recusa ao absolutismo; b) defesa da
liberdade; c) pluralismo político; d) soberania popular sem que se confunda com democracia; e) defesa do
governo representativo.
31
SOLSONA, Gonçal Mayos. La ilustración. Barcelona: Editorial UOC, 2007.p.11-12.
18
Compartilhamos a ideia de que deve ser compreendido como produto do Iluminismo 32,
representando uma atuação política cujos valores se assentavam na base da liberdade e do
33 34
legalismo , “em consequência da decomposição do mundo medieval” , ao almejar a
felicidade terrena por meio do domínio do homem sobre a natureza, instrumentalizada na
razão.
Autonomia individual e liberdade são, pois, corolários do liberalismo que, por sua vez,
encontra refúgio na esfera da vida privada. Desta forma, compete a todas as instituições
públicas, a começar pelo próprio Estado, salvaguardar o individualismo privado, devendo os
poderes ser limitados de forma a evitar possíveis abusos de autoridade.
Neste esteio de entendimento, Afonso Arinos35 destaca que a denominada época das
luzes tornou-se uma luta revolucionária contestadora das forças do absolutismo, pai do
autoritarismo pessoal exercido pelo monarca, cujo caráter transformador forçadamente
racionalista e apriorístico, ocorreu pela natureza revolucionária do movimento que tinha por
escopo transformar a história e as respectivas instituições geradas.
Fator que muito contribuiu para a eclosão da situação foi a expansão das grandes
navegações, que ampliou a economia de mercado, criando para a sociedade novas classes
sociais, com destaque para a burguesia. Essa classe nascente, juntamente aos comerciantes,
por lidarem com altas somas de dinheiro, trazia jungida a si os lucros, as propriedades e,
consequentemente, o poder. Considerados pelo catolicismo dominante como usurários,
32
MACEDO, Ubiratan Borges de. Liberalismo e justiça social. São Paulo: Ibrasa, 1995. p.117. Em caráter
complementar Cloclet contempla o Iluminismo como uma “forma de realização histórica, representada pela
Ilustração”, com o objetivo de expandir, em todos os níveis, o império da razão. SILVA, Ana Rosa Cloclet da.
Inventando a nação: intelectuais ilustrados e estadistas luso-brasileiros na crise do antigo regime
português (17509 – 1822). São Paulo: Hucitec: Fapesp, 2006.p.31.
33
SALDANHA, Nelson Nogueira. História das ideias políticas no Brasil. Brasília: Senado Federal, 2001. p. 85
34
BARRETTO, Vicente. Op.cit.p, 32
35
FRANCO, Afonso Arinos de Melo. Op.cit. p 7-8. Referido autor elenca como características principais do
movimento filosófico europeu do século XVIII a preponderância da razão sobre a história e a força originária do
direito político.
19
A Reforma traz dentro de si, ao lado das exigências de reforma espiritual e moral
eclesiástica, uma visão antropocêntrica do homem. O homem da Reforma será em
toda a sua plenitude o homem do novo mundo individualista. 36
O liberalismo dantes apenas econômico dos burgueses acaba sendo transplantado para
a esfera política, uma vez que os burgos constituíam uma parte bastante atípica das cidades
dos castelãos. Buscava-se, assim, a força, a autonomia e o poder próprio dos detentores do
mando 37.
Desta feita, ocorre a “ruptura” entre a opressão eclesiástica - com suas rígidas
estruturas - e a moral do mundo material, abarcando, inclusive, sua relação com o Estado. A
religiosidade e a crença em Deus permanecem, racionalmente, desenvolvendo o entendimento
de lei natural. Pulula na Europa do século XVI a ideia do Estado no domínio econômico,
buscando o enriquecimento nacional. As colônias serviam também a este propósito,
justificando a atividade excessivamente exploratória, em especial, aqui tratada, a exercida
sobre o Brasil. A monarquia absolutista cedia espaço à teoria constitucionalista, “com a
substituição do arbítrio pela norma” 38.
Vivendo o liberalismo seu apogeu no século XVIII, a graça da sua revelação de maior
monta ocorreu pelas expressivas letras do notável John Locke e será objeto de sucinta análise
neste trabalho, porquanto sua compreensão será de fulcral relevância à reflexão acerca do
liberalismo brasileiro, com suas peculiaridades.
36
BARRETTO, Vicente, Op.cit. p. 32
37
Sobre o envolvimento econômico da burguesia no movimento da Reforma, discorre Vicente Barretto:
“Enquanto a ordem medieval inseria-se dentro de uma vocação divina, a ordem moral burguesa centrava-se no
próprio homem e isto em nome da racionalidade humana. A inteligência humana passará a exercer um poder
soberano junto ao de Deus. A fé na razão, como instrumento de análise e progresso humano, torna-se
comprovada pelos sucessos crescentes na conquista dos mares e nas descobertas científicas. O homem deverá
confiar em Deus, mas antes confiará na sua inteligência. E nas coisas humanas será a inteligência do homem o
poder decisório; irá depender dele, o homem, a construção de uma sociedade justa.” BARRETTO, Vicente.
Op.cit. p, 33
38
Ibidem .p. 35
20
Iniciaremos nossa caminhada com o citado filósofo inglês, considerado por Afonso
Arinos como o precursor do constitucionalismo 39 e ferrenho opositor à monarquia absolutista,
responsável que era pela supressão da liberdade e da individualidade do ser humano 40.
42
Nos dizeres de Vicente Barretto, Locke desenvolveu um “racionalismo ético” em
que se busca a conveniência da ação em uma sociedade pluralista, por meio da verificação,
43
empírica das necessidades da sociedade . “Ideias dogmáticas, ou preconcebidas,
representavam, para ele, uma forma intolerável de opressão intelectual”. 44
39
ARINOS, Afonso. O constitucionalismo de D. Pedro I no Brasil e em Portugal. Brasília: Ministério da
Justiça, 1994. p. 07
40
Locke, em sua emblemática obra Segundo Tratado sobre o Governo pondera que “a monarquia absoluta, que
alguns consideram o único governo no mundo, é, de fato, incompatível com a sociedade civil, não podendo por
isso ser uma forma qualquer de governo civil”, justificando sua posição por considerar o monarca parcial, assim,
incapaz de contornar as distorções do estado de natureza. In: LOCKE, John. Segundo Tratado sobre o governo
– ensaio relativo à verdadeira origem, extensão e objetivo do governo civil. Coleção os Pensadores.
Tradução. E. Jacy Monteiro. São Paulo: Abril Cultural, 1978, p. 68.
41
POLIN, Raymond. Indivíduo e Comunidade. In: O Pensamento político clássico. Organização: Célia Galvão
Quirino, Maria Tereza Sadek. São Paulo: Martins Fontes, 2003.p. 158.
42
BARRETTO, Vicente, Ideologia e Política no pensamento de José Bonifácio de Andrada e Silva. Rio de
Janeiro: Zahar Editores, 1977.p, 35
43
Para maior profundidade sobre o método empírico desenvolvido por Locke recomendamos a obra de François
Châtelet “História da Filosofia: Ideias, Doutrinas. O Iluminismo”. Vol. IV. Trad. Guido de Almeida. Rio de
Janeiro: Zahar Editores, 1973.
44
ARINOS, Afonso. op. cit.,. p. 08
45
Segundo Locke, “o estado de natureza tem uma lei de natureza para governá-lo, que a todos obriga; e a razão,
que é essa lei, ensina a todos os homens que tão só a consultem, sendo todos iguais e independentes, que nenhum
deles deve prejudicar a outrem na vida, na saúde, na liberdade ou nas posses”. In: LOCKE, John. Op.cit. p. 36.
Bobbio esclarece que na referida obra Locke teve por objetivo diferenciar, fundamentando-se na autoridade, a
sociedade política, a sociedade doméstica e a sociedade senhorial, esclarecendo que cada uma delas tem sua
respectiva relação obrigacional, desenvolvendo entre súdito e soberano a relação contratual, pressupondo o
consentimento como base de legitimidade. BOBBIO, Norberto; BOVERO, Michelangelo. Sociedade e Estado
na Filosofia política moderna. Trad. Carlos Nelson Coutinho. São Paulo: Brasiliense, 1986.p.61-62.
46
LOCKE, John. Op.cit. p. 36
21
quem quer que fosse de seus bens, de sua liberdade ou de sua vida, salvo se fosse para “punir
os que infringiram quaisquer direitos de outros homens” 47.
Ao descrever o indivíduo sob a ótica lockeana, Polin o define como um ser dotado de
liberdade natural, diretamente relacionada à razão, cuja consciência lhe permite se reconhecer
enquanto um Ser individual. Como consequência deste corolário, “seu corpo, o trabalho do
48
seu corpo e o produto de suas mãos pertenciam-lhe inteiramente” , sendo integralmente
49
senhor de si de forma inalienável e imprescritível.
47
LOCKE, John. Carta acerca da tolerância. Coleção os Pensadores. Tradução: Anoar Aiex. São Paulo: Abril
Cultural, 1978, p.05.
48
POLIN, Raymond. Indivíduo e Comunidade. Op.cit.p. 161. Depreende-se, portanto, que segundo premissa
de Locke são direitos naturais da pessoa sua liberdade e a propriedade dos bens por ele produzidos.
49
Raymond Polin faz a ressalva que embora a inalienabilidade não esteja expressa nos textos de Locke, tal
condição é incontestável, pois são seus direitos naturais que lhe conferem a natureza humana, não sendo possível
o homem “alienar, mais poderes e direitos que ele próprio não tenha recebido em troca”.
50
Consideramos conveniente trazer apontamentos sobre a evolução do entendimento e posição do indivíduo sob
a perspectiva liberal para que possamos confrontar, posteriormente, a situação do escravo brasileiro no início do
século XIX, o que certamente elucidará as discussões fomentadas pelos deputados na Constituinte de 1823 no
tocante aos direitos civis estendidos aos escravos.
51
LOCKE, John. op. cit., p. 36.
22
Desta forma, aquele que por sua conta e risco conspurcar contra a lei de natureza,
55
“perdido o direito à vida por algum ato que mereça a morte” , pode ser constrangido a
tornar-se escravo ao invés de ser morto. Relevante ressaltar que pela doutrina lockeana a
condição de servilismo advém de um pacto, que pode ser desfeito a qualquer tempo, uma vez
que sendo demasiado penosa a submissão à escravidão, pode o escravo por fim a esta
condição quando seu juízo de valor ponderar que sua vida livre exorbita à escravidão imposta,
cabendo-lhe até mesmo a resistência perante seu senhor 56.
52
Segundo Locke, “o homem, não possuindo o poder da própria vida, não está em condições, por pacto ou por
consentimento próprio, de escravizar-se a qualquer outro, nem pôr-se sob o poder arbitrário absoluto de outrem,
que lhe arrebate a vida a seu bel prazer”. LOCKE, John. Op.cit. p. 43.
53
Locke, conforme prescreve Vicente Barretto, “era contrário à escravidão frente ao absolutismo, mas não se
opunha àquela firmada em consequência da situação social”. Acreditava que as diferenças sociais eram fruto,
mesmo, da lei natural, dada a possibilidade de existir proprietários e não proprietários, sendo lícito aos primeiros
aumentar suas propriedades e riquezas.
54
LOCKE, John. Op.cit.p. 40.
55
Ibid.p. 43.
56
Inadmissível se torna, pelo entendimento de Locke, a escravidão gerada pelo despotismo, eis que “a sociedade
nasce dentro de um certo sistema de obrigações, entre seres capazes de obrigações e, com isso, de toda
significação humana, a ponto de não subsistir entre eles senão relações de força”. POLIN, Raymond. Op.cit.p.
167.
23
Tal a condição perfeita de escravidão, que nada mais é senão o estado de guerra
continuado entre o conquistador legítimo e o cativo. Porquanto se uma vez se ajusta
entre eles um pacto, fazendo-se acordo no sentido de poder limitado de um lado e
obediência de outro, cessa o estado de guerra e de escravidão enquanto durar o
pacto. 58
57
Apesar de defender que a propriedade tivesse sido conferida por Deus, indistintamente, a toda posteridade
comum de Adão, julgava possível a divisão e consequente aquisição de parte dessa propriedade comum da
humanidade aos homens que se utilizavam da razão, mediante o trabalho do seu corpo e pela obra das suas mãos.
Todavia, ressalta a preocupação de garantir a boa qualidade da fruição da propriedade por todos, cabendo o
excedente a terceiros. Este também será um posicionamento adotado por José Bonifácio, conforme veremos em
momento oportuno. Locke escreve que “Deus, ao dar o mundo em comum a todos os homens, ordenou-lhes que
trabalhassem”. Não era de se espantar que o europeu, ao ver no Brasil a indolência e a preguiça no tocante ao
trabalho, se indignasse, “já que o trabalho tinha de servir-lhe ao direito de posse”. Mais adiante falaremos como
essa parte do liberalismo pautado no direito de propriedade foi absorvida no Brasil imperial In: LOCKE, John.
Op.cit.p. 47
58
Ibid. p. 43.
59
Na concepção liberal, o indivíduo passa a figurar como ente central da sociedade moderna. Neste diapasão, é
interessante refletir que uma das consequências dessa ideia seja a construção de uma sociedade política que
permita a escravização de um homem por outro ser humano, admitindo a perpetuação da relação senhor –
escravo, por meio da teoria do exercício do direito absoluto à propriedade.
60
Para maiores referências vide Peter Laslett: A teoria social e política dos “Dois tradados sobre o governo” In:
O Pensamento político clássico. Organização: Célia Galvão Quirino, Maria Tereza Sadek. São Paulo: Martins
Fontes, 2003.p. 255
24
desta forma, a estrutura dos poderes legislativo e executivo, esse último exercendo a função
julgadora, utilizando-se os critérios e limites definidos pelas leis preestabelecidas:
Em uma sociedade política governada por apenas uma pessoa, ali colocada por
vontade da maioria, deve haver mecanismos para limitar os “exageros e impedir os abusos de
poder”62 quando este estiver sendo mal utilizado.
Corroborando esse contexto, faz-se mister considerar que a fala dos deputados da
Constituinte de 1823 demonstra o apego à representação dos anseios dos cidadãos, ao remeter
à postura Lockeana de considerar o legislativo “alma da comunidade”. 64
61
LOCKE, Op.cit.p. 67
62
Ibid.,p. 77
63
HOOKER, Richard. As leis da política eclesiástica. Livro I, sec. 10. Apud: LOCKE, John. Segundo Tratado
sobre o governo – ensaio relativo à verdadeira origem, extensão e objetivo do governo civil. Coleção os
Pensadores. Tradução: E. Jacy Monteiro. São Paulo: Abril Cultural, 1978, p. 86.
64
POLIN, Raymond. Indivíduo e Comunidade. In: O Pensamento político clássico. Organização: Célia Galvão
Quirino, Maria Tereza Sadek. São Paulo: Martins Fontes, 2003.p. 175.
25
Dentro do princípio liberal de que as leis humanas válidas devem se fazer mediante
consentimento, vê-se, desde o início da sua formação, que o governo brasileiro não seguiria a
contento a ideologia que lhe animava.
65
LASLETT, Peter. A teoria Social e política dos “Dois tradados sobre o governo” In: O Pensamento político
clássico. Organização: Célia Galvão Quirino, Maria Tereza Sadek. São Paulo: Martins Fontes, 2003.p. 263.
66
LOCKE, John. Op.cit.p. 87
26
67
LOCKE, John. Op.cit.p. 93
68
Ibid.,p. 92
69
Ibid. p. 95
27
A unidade nacional é ponto de destaque das nossas reflexões, cabendo ressaltar que
Locke já previa, em seu Segundo Tratado, que apenas a unidade e a coesão das partes é capaz
de conferir eficácia política à comunidade, “visto que comandam a unidade de interpretação
da lei natural, portanto, a unidade de direito, a eficácia da arbitragem pelo poder soberano e a
70
preponderância das forças graças às quais este fará executar a lei”.
Por obediência à cronologia das obras, iniciaremos nossas reflexões com o Barão de
La Brède e de Montesquieu, riquíssimo colaborador do liberalismo moderno em virtude da
sua teoria sobre a importância das leis na direção de um Estado e de uma sociedade como
forma de legitimar e regulamentar a atuação estatal.
Ao trazer sua tradicional definição de lei enquanto “relações necessárias que derivam
da natureza das coisas” 72, atribui a ela alguma razão extraída de condições sociais, históricas
ou físicas, que alteram conforme variação do povo, do país, do clima, do solo, da cultura 73, da
70
POLIN, Raymond. Op.cit..p. 175. Nesse sentido era preciso, pois, tornar a heterogênea sociedade brasileira a
mais coesa possível, ressaltando que a criação de tal condição não fazia parte apenas da formação da
nacionalidade, mas, também, da consolidação do Estado Brasileiro, motivo pelo qual Bonifácio apresentava
propostas governamentais de curto e médio prazo, preocupando-se com a criação de faculdades, com o
desenvolvimento do sentimento nacionalista, etc..
71
BARRETTO, Vicente, Op.cit.1977.p, 56
72
DEDIEU, Joseph. As ideias políticas e morais de Montesquieu In: O Pensamento político clássico.
Organização: Célia Galvão Quirino, Maria Tereza Sadek. São Paulo: Martins Fontes, 2003.p. 298.
73
Bernard Groethysen, ao avaliar a ótica montesquiana sobre a participação social na formulação das leis, fruto
da produção cultural, entende serem elas “criações do espírito em virtude das quais os povos decidem o seu
28
economia, das relações hierárquicas, das ideias religiosas, etc., pesquisando minudências
históricas que justificasses as leis dentro das suas peculiaridades locais 74.
Montesquieu teve por objetivo perscrutar a razão das leis e, para isso, acreditara que o
estudo das culturas era uma das melhores formas de compreender a intenção da norma.
Forçoso reconhecer que a expressão cultural de cada povo o individualiza, forma seu espírito,
devendo levar em consideração toda e qualquer circunstância de mote interno ou externo que
75
implique na “constituição psicofísica dos homens e suas inter-relações” , cabendo ao
legislador desvendar essa intrincada colcha de retalhos na criação de uma legislação
condizente, para que seja esta coerente, principalmente, com a forma de governo escolhida.
Neste sentido, analisemos a possibilidade que detinha José Bonifácio de propor, logo
no princípio da libertação brasileira do jugo português, um governo republicano. O barão
francês dizia que, para se manter uma democracia, era preciso virtude, manifestada pelo amor
destino”. GROETHYSEN, Bernard. Montesquieu: A razão construtiva In: O Pensamento político clássico.
Organização: Célia Galvão Quirino, Maria Tereza Sadek. São Paulo: Martins Fontes, 2003.p. 342.
74
No mesmo sentido, escreveu Frederick Copleston em sua obra História da Filosofia: “Considerada según uno
de sus aspectos, la teoría de la sociedad, el gobierno y la ley propuesta por Montesquieu es una serie de
generalizaciones, a menudo muy apresuradas, de datos históricos. Los diferentes sistemas de leyes positivas que
se dan en diferentes sociedades políticas son relativos a una variedad de factores, como el carácter del pueblo,
la naturaleza y los principios de las formas de gobierno, el clima, las condiciones económicas, etc. La totalidad
de esas relaciones constituye ‘el espíritu de las leyes’. Y lo que Montesquieu quiere examinar es ese espíritu”.
COPLESTON, Frederick. Historia de la Filosofía. vol III. De la filosofía Kantiana al idealismo. Trad. Manuel
Sacristán. Barcelona: Ariel, 2011.p. 11-12.
75
GROETHYSEN, Bernard. Op.cit.p. 343.
76
Montesquieu escreve que o homem de bem era aquele possuidor da virtude política, tornando-se amante
incondicional das leis do seu país, permitindo que suas ações fossem movidas por amor a essas leis.
MONTESQUIEU. Do espírito das Leis. Trad. Fernando Henrique Cardoso e Leôncio Martins Rodrigues.
Coleção os Pensadores, vol. XXI. 1ª edição. São Paulo: Editora Abril, 1973. p. 29.
77
MONTESQUIEU. Op. cit., p. 29
78
MONTESQUIEU. Op.cit.p. 49
29
à pátria e pelo sentimento de igualdade, emoções essas que não encontravam guarida nos
corações brasileiros. A bravura, a idoneidade e o amor à pátria, tão particulares aos patriotas,
não alcançavam a maior parte da população, quiçá a aristocracia rural, que se dividia até
mesmo sobre a manutenção da subjugação a Portugal.
79
“A virtude política é uma renúncia a si próprio” e, consequentemente, aos interesses
pessoais. Somente no plano do ideal encontraremos o despojamento exigido por Montesquieu
de amar o Estado acima das particularidades individualistas, e tal condição não é exclusiva
dos brasileiros. Soma-se à situação que a formação do Estado brasílico, as bases da sua
colonização e povoamento não foram propícias ao desenvolvimento do sentimento de
nacionalidade necessário à instauração e manutenção de uma república, conforme se analisará
em momento oportuno.
“Apesar da profunda simpatia que nutre pelo regime republicano (...) não podia deixar
82
de declarar a excelência do governo monárquico” , que tinha por princípio a honra e
governava sob a égide de leis, sem desprezar o privilégio que deveria ser conferido à nobreza
79
Ibid., p. 62.
80
Ibid., p. 128.
81
MONTESQUIEU. Op.cit. p. 128.
82
DEDIEU, Joseph. Op.cit..p. 307.
30
e ao clero. Justifica sua preferência por considerar o governo monárquico o que melhor
confere liberdade ao cidadão, tomando a Inglaterra por modelo 83.
Ponto alto da obra “Espírito das Leis” 85 é o discurso sobre a liberdade, conceituando-a
como o “direito de fazer tudo o que as leis permitem”, ou seja, o limite aplicado ao homem
comum do vulgo e ao soberano é imposto pela lei. Sendo o indivíduo vicioso e tendencioso a
abusar do poder, deve ser capaz de frear a ele próprio, por meio de uma Constituição
elaborada “de tal modo que ninguém será constrangido a fazer coisas que a lei não obriga e a
não fazer as que a lei permite”. 86
83
Nesse tocante Dedieu afirma que o modelo inglês foi visto por Montesquieu “como em um espelho sobre que
fundamentos estabelece-se a liberdade, sobre que princípios ela se edifica e através de que harmoniosa
combinação de leis e poderes se mantém”. DEDIEU, Joseph. Op.cit.p. 310.
84
MONTESQUIEU. op. cit., p. 144
85
Chevalier identifica no “Do Espírito das Leis” três características: o preconceito feudal, o culto do clima frio e
o amor à liberdade, à igualdade e à felicidade”. CHEVALIER, Jean Jacques. As grandes obras políticas de
Maquiavel a nossos dias. Trad. Lydia Christina. Rio de Janeiro: Agir Editora. 1957.p. 132.
86
MONTESQUIEU. op. cit., p. 156
87
J.W. Gough afirma que a separação de poderes defendida por Montesquieu pretendia inviabilizar o despotismo
por intermédio “de uma separação de poderes completa e absoluta, cada uma das três funções de governo
confiada a pessoas ou grupos que devem ser mantidos separados e independentes entre si” O autor apresenta,
ainda, interessante opinião sobre a herança de Locke na tripartição de Montesquieu. GOUGH, J.W. A separação
de poderes e a soberania In: O Pensamento político clássico. Organização: Célia Galvão Quirino, Maria Tereza
Sadek. São Paulo: Martins Fontes, 2003.p. 220. Em posição análoga Frederick Copleston, in: Historia de la
Filosofía. vol III. De la filosofía Kantiana al idealismo. Trad. Manuel Sacristán. Barcelona: Ariel, 2011.p.14.
31
90
Outro ponto importante na obra de Montesquieu sobre a escravidão é o
entendimento de que a relação escravagista é um atraso para a sociedade, haja vista que “os
escravos são contra o espírito da constituição, só servem para dar aos cidadãos um poder e um
luxo que não devem ter”. 91
88
Apesar de essa afirmativa parecer contraditória, alerta Dedieu que “os agrupamentos do clero e da nobreza são
necessários, não que certas qualidades particulares os predestinem a compartilhar do peso das responsabilidades
governamentais, mas porque formam, no Estado, descendo do poder soberano ao povo, hierarquias através das
quais a vontade do príncipe é transmitida, peneirada e, por assim dizer, aliviada antes de tocar as regiões mais
humildes”. DEDIEU, Joseph. As ideias políticas e morais de Montesquieu In: O Pensamento político clássico.
Organização: Célia Galvão Quirino, Maria Tereza Sadek. São Paulo: Martins Fontes, 2003.p. 310.
89
Também encontramos no pensamento de Bonifácio grande influência da doutrina de Montesquieu com relação
à escravidão que, segundo entendimento desse último, fazia com que o ser abandonasse “todas as virtudes
morais, porque se torna orgulhoso, irritável, duro, colérico, voluptuoso, cruel”. O que os afastou foi o caráter
humanista do brasileiro, preocupado com a moralização do escravo por meio da educação e da catequização. O
Patriarca sabia que a escravidão era um câncer para o Estado, sob vários aspectos. O medo da revolta escrava
pululava o sono aristocrata, transformando-o em pesadelo, porquanto o escravo, segundo Montesquieu, tornava-
se “inimigo natural da sociedade” podendo, a qualquer momento, levantarem suas vozes num brado revoltoso.
MONTESQUIEU. Op.cit. p. 221 e 227
90
Apesar de contrário à escravidão, Montesquieu consegue encontrar justificativa na submissão do negro por
considerá-lo extremamente útil, senão imprescindível ao cultivo do açúcar.
91
MONTESQUIEU. Op.cit.p. 221
92
Ibid.,p. 160.
32
Nota-se que Montesquieu desenvolveu minucioso sistema que tentou coibir, a todo
custo, o abuso por qualquer dos poderes. Ainda não se falava de responsabilização do
monarca, mas sim dos seus conselheiros que, por sua vez, seriam julgados não pelo tribunal
ordinário da nação, mas pelo corpo de nobres.
Vale a pena discorrer sobre a visão francesa acerca da influência do clima sobre as
pessoas e, consequentemente, sobre seu comportamento perante o papel desenvolvido na
sociedade, bem como a resposta correlata por parte do Estado, inovando na criação de uma
93
ideia de “climatologia política” , ressaltando que este assunto também foi apreciado por
Rousseau e José Bonifácio. 94
Assim resume o autor do “Espírito das Leis” sobre a relação lei, comportamento e
Estado: “Se é verdade que o caráter do espírito e as paixões do coração são extremamente
diferentes nos diversos climas, as leis devem ser relativas à diferença dessas paixões e à
diferença desses caracteres”. 95
Segundo o filósofo francês, a pessoa que vive em um local de clima frio é mais
ousada, vigorosa, equilibrada, desenvolve substancioso sentimento de autoestima, tornando-
se, desta forma, um ser político, menos vingativo, malicioso e, com isso, mais franco.
Invertendo-se tais características, obteremos a descrição da personalidade dos cidadãos
próximos aos trópicos:
Colocai um homem num lugar quente e fechado e ele sofrerá, pelos motivos que
acabo de expor, um grande enfraquecimento do coração. Se, nessa circunstância lhe
propusermos uma ação ousada, creio que ele estará muito pouco disposto, sua
93
VERNIÈRE, Paul. Dois planos e duas leituras. In: O Pensamento político clássico. Organização: Célia
Galvão Quirino, Maria Tereza Sadek. São Paulo: Martins Fontes, 2003.p. 398.
94
Jean Jacques Chevalier atribui a Jean Bodin a primogenitura na relação entre clima e ciência política,
competindo a Montesquieu, inspirado no inglês Arbuthnot, aprimorar a ideia. Op.cit.p. 128-129.
95
MONTESQUIEU. op. cit., p. 209.
33
fraqueza atual desencorajará sua alma, temerá tudo porque sentirá que nada pode
(...) Ter-se-á, nas regiões frias, pouca sensibilidade para os prazeres; ela será maior
nas regiões temperadas; nas regiões quentes, será exagerada. 96
Prosseguindo com suas reflexões sobre o clima e suas derivações, adota uma postura
97
de “determinismo geográfico” , ao entender que a América é habitada por povos selvagens
por conter uma terra muito produtiva, portanto produtora de alimentos fartos, dispensando,
desta forma, o trabalho árduo 98.
A convivência do brasileiro com seus pares acabou por distanciar um pouco sua visão
daquela esposada pelo francês. Segundo este, a preguiça e a indolência gerada pelo calor
coibia o interesse e a disposição para um novo aprendizado. Bonifácio, contrariando tal
afirmativa, chegou a escrever sobre o interesse do povo brasileiro por novidades, ressalvando,
entretanto, a preguiça e a falta de iniciativa 100.
Nos dizeres de Alberto Sousa 101, a escola de Rousseau, “declamatória e sofística”, não
pregava apenas o fim do absolutismo, mas também a extinção da monarquia, “substituindo a
autoridade real emanada de Deus pela soberania popular emanada pelo sufrágio”, ao definir a
igualdade por pedra angular do seu sistema. Desenha o contorno do contrato social enquanto
96
MONTESQUIEU. Op.cit.p. 209-210.
97
VERNIÈRE, Paul. Op.cit..p. 399.
98
Nesse sentido escreve Montesquieu: “A esterilidade das terras torna os homens laboriosos, sóbrios, habituados
ao trabalho, corajosos, aptos para a guerra, pois é muito necessário que eles se esforcem para obter o que a terra
lhes recusa. A fertilidade de uma região oferece, juntamente com a abastança, a indolência e certo amor pela
conservação da vida”. MONTESQUIEU. Op.cit.p. 256
99
MONTESQUIEU. op. cit., p. 211.
100
Em vários momentos dos seus escritos Bonifácio critica o orgulho, a indolência e a frigidez do povo
brasileiro, considerando-os “entusiastas do belo ideal, amigos da sua liberdade”, ao mesmo tempo em que
criticava a ignorância advinda da falta de instrução e o temperamento contaminado pelos vícios do clima,
enumerando-os na luxúria, na prostituição e na preguiça. Em diversos apontamentos que elogiou os brasileiros,
por imaginativos, talentosos e amantes da novidade, não perdia a oportunidade de apresentar áspera crítica à
ausência de intelectualidade e pouco hábito ao trabalho. SILVA, José Bonifácio de. Op.cit. p.183-185.
101
SOUSA, Alberto. Op.cit..p, 23.
34
Durkhein avalia que o filósofo era contrário à formação de uma sociedade baseada em
um direito de guerra ou de força, tampouco permitindo a escravização dos povos, pois
nenhuma delas “não dá ao vencedor o direito de massacrar os povos vencidos; ela (a força)
não poderia, pois, fundar o direito de escravizá-los. (...) É somente quando não se pode
subjugar o inimigo que se tem o direito de matá-lo” 103, não podendo cofundir o direito sobre
a vida física com o de escravizar.
O célebre autor do Contrato Social defende que, uma vez nascido livre, não pode o
homem perder a sua liberdade para nenhum semelhante, haja vista a inexistência de
104
“autoridade natural”. Todavia, contrariamente à Locke, entende ser possível aliená-la
mediante convenção, apesar de considerar este posicionamento um tanto insensato105.
102
Para maior compreensão sobre o tema ver Émile Durkheim: O Contrato social e a constituição do corpo
político” em O Pensamento político clássico. Organização: Célia Galvão Quirino, Maria Tereza Sadek. São
Paulo: Martins Fontes, 2003.p. 411-414.
103
DURKHEIM, Émile: O Contrato social e a constituição do corpo político. In: O Pensamento político
clássico. Organização: Célia Galvão Quirino, Maria Tereza Sadek. São Paulo: Martins Fontes, 2003.p. 415.
104
ROUSSEAU, Jean Jacques. Do Contrato Social ou princípios do direito político. Tradução: Lourdes
Santos Machado. São Paulo: Editora Globo, 1962. p. 22
105
Para Rousseau “renunciar à própria liberdade é o mesmo que renunciar à qualidade de homem, aos direitos da
Humanidade, inclusive aos seus deveres. Não há nenhuma compensação possível para quem que renuncie a tudo.
Tal renúncia é incompatível com a natureza humana, e é arrebatar toda moralidade a suas ações, bem como
subtrair toda liberdade à sua vontade”. ROUSSEAU, Jean Jacques. Op.cit.p. 23
106
Ibid., p. 37
35
Assim como antes de erguer um grande edifício, o arquiteto observa e sonda o solo
para verificar se sustentará o pêso da construção, o instituidor sábio não começa por
redigir leis boas em si mesmas, mas antes examina se o povo a que se destinam
mostra-se apto a recebê-las. 109
Bonifácio empreenderia a maior construção da sua carreira, qual seja, dar corpo
político ao país recém-independente, por meio de uma Constituição, buscando sua unidade.
Era preciso firmar-se em sólida base de entendimento, motivo pelo qual estudou,
exaustivamente, os habitantes deste vasto território, observando, entre outros aspectos, a
cultura, os costumes, a religião, etc. Ponderou os vícios, as tradições e características de um
povo eclético, ao avaliar se o Brasil teria a maturidade para adotar um regime puramente
107
Ibid., p. 40
108
Rousseau manifesta ser legítimo apenas o governo que expressa a vontade geral mediante as leis. Bobbio,
complementando essa assertiva diz que “o homem é livre somente quando obedece à lei que ele mesmo se deu
(...) O único modo para tornar o homem livre é que ele atue segundo as leis e que essas leis sejam postas por ele
mesmo. A transferência total dos direitos naturais para o corpo político constituído pela totalidade dos
contratantes deve servir a essa finalidade, ou seja, a de dar a todos os membros desse corpo leis nas quais o
homem natural que se tornou cidadão reconheça a lei que ele mesmo se teria imposto no estado de natureza”.
BOBBIO, Norberto; BOVERO, Michelangelo. Sociedade e Estado na Filosofia política moderna. Trad.
Carlos Nelson Coutinho. São Paulo: Brasiliense, 1986.p.71
109
ROUSSEAU, Jean Jacques. Op.cit.p. 48
36
Há para as nações, como para os homens, uma época de juventude ou, se quiserem,
de maturidade, pela qual é preciso aguardar antes de submetê-los – as nações e
homens – a leis; a maturidade de um povo nem sempre, porém, é facilmente
reconhecível e, caso seja antecipada, põe-se a obra a perde 110.
110
Ibid., p. 49
111
DURKHEIM, Émile: Op.cit..p. 415.
112
Vale ressaltar a nota de Lourival Gomes Machado sobre esta obra de Rousseau, de que em qualquer
nomenclatura utilizada pelo filósofo, seja magistrado, príncipe ou governante, sua intenção era sempre inserir um
número plural para o exercício do poder executivo, preocupando-se sistematicamente em dissociar essa figura do
Soberano. A ideia era mitigar a força e o poder exercido por aquele. ROUSSEAU, Jean Jacques. Op.cit. p. 141.
113
ROUSSEAU, Jean Jacques. Do Contrato Social ou princípios do direito político. Tradução: Lourdes
Santos Machado. São Paulo: Editora Globo, 1962, p. 58
37
¿Qué hemos de entender por voluntad general? Hay una tendencia natural a
interpretar la idea de Rousseau como una identificación de la infalible voluntad
general con la voz del pueblo expresada por el voto en la asamblea. Pero Rousseau
mismo no ha practicado esa identificación. (…) Desde luego que cuando se habla de
una voluntad general cuasimística del estado, necesita de expresión articulada, se
tenderá inevitablemente a identificarla con la decisión expresada por el cuerpo
legislativo o por algún otro supuesto portavoz del pueblo. Y sin duda se presenta en
Rousseau esta tendencia. (…) Pero no pasa de ser una tendencia. (…) Así, por
ejemplo, admite explícitamente que una decisión efectiva del cuerpo legislativo
soberano puede no ser expresión verdadera de la voluntad general. Puede ser
también expresión de intereses privados que hayan prevalecido injustamente por
alguna causa. . 116
Para atingir esse ponto, Rousseau parte da premissa de um indivíduo imparcial, cuja
participação social expressará tão somente seu particular interesse e necessidade, sem
consorciarem-se, extirpando-se, gradativamente, as discrepâncias individuais. Define
matematicamente quais as formas de governo devem ser implementadas em cada Estado,
considerando-se a proporcionalidade entre o número de cidadãos e o de magistrados, bem
como a opulência legada à fonte arrecadatória dos tributos. Desta feita, caberia à monarquia
114
Ibid.,p. 63.
115
DURKHEIM, Émile: op. cit., p. 421.
116
COPLESTON, Frederick. Historia de la Filosofía. Vol III. De la filosofía Kantiana al idealismo. Trad.
Manuel Sacristán. Barcelona: Ariel, 2011.p.59.
38
assumir o governo de países mais ricos e maiores, à aristocracia “aos estados medíocres tanto
em riqueza quanto em tamanho; e a democracia aos Estados pequenos e pobres”. 117
É de se deduzir, pelos escritos de Bonifácio, que essa fórmula Rousseauniana fora por
ele apreciada, entretanto, impende ponderar que o critério quantitativo, relacionado à
densidade populacional conjugado com o tamanho territorial, deveria ser observado com
reservas. O Brasil é um país de grandes dimensões geográficas, mas contava, à época do
império, com reduzida população se considerada sua extensão. Fazia-se mister observar os
demais contornos da situação para chegar a uma decisão mais apropriada.
Aí estão pois, em cada região, causas naturais pelas quais se pode indicar a forma de
governo a que leva a fôrça do ambiente, e até dizer qual o tipo de habitantes que
deve ter. (...) Considerai, além disso, que um mesmo número de homens consome
muito menos nas regiões quentes. O clima aí exige ser sóbrio para que se possa
passar bem: os europeus que nessas terras desejam viver como na sua, morrerão
todos de disenteria e de indigestão. (...) Quanto mais nos aproximamos do equador,
tanto mais os povos vivem de pouco. 119
os sítios ingratos e estéreis, nos quais o produto não vale o trabalho, devem
continuar incultos e desertos, ou povoados unicamente por selvagens; as regiões em
que o trabalho dos homens rende exatamente o necessário, devem ser habitadas por
117
ROUSSEAU, Jean Jacques. Op.cit.p. 74. Cabe avaliar que, segundo dicotomia de Rousseau, apesar do
cientificismo permitido e desejado à melhor forma de governo, este critério permite flexibilização em virtude dos
caracteres dos cidadãos que compõem a sociedade.
118
Ibid., p. 73
119
Ibid., p. 74-75
39
povos bárbaros, pois qualquer politia nêles seria impossível; os lugares em que é
medíocre o excesso do produto sôbre o trabalho, convêm aos povos livres; aqueles
cuja terra abundante e fértil produz muito com pouco trabalho, podem ser
governados monarquicamente, para que o excessivo supérfluo dos súditos seja
consumido pelo luxo do príncipe. 120
Quando D. João VI chegou ao Brasil juntamente com sua corte em 1808, encontrou
uma colônia precária com uma civilização inculta e praticamente bárbara, se considerarmos os
silvícolas e os negros. Ao retornar a Portugal, em 1821, deixou um reino com predisposição à
alta produtividade e ao consumo, com grande potencial arrecadatório capaz de sustentar os
excessos da nobreza.
Bonifácio tinha em suas mãos um quebra - cabeça a montar, pois, possuía bons
argumentos para adotar tanto a monarquia constitucional quanto a república, porquanto a
situação de desenvolvimento intelectual, cultural e econômico não atingira todas as províncias
brasileiras, mas tão somente aquelas mais próximas aos interesses da corte. Desta forma,
ainda caracterizava grande parte dos rincões brasileiros a baixa produtividade e o desinteresse
pelo consumo - fonte arrecadatória para o Estado - dada a imensa presença de escravos ou ex -
121
cativos com exígua capacidade de compra. Miriam Dolhnikoff relata que José Bonifácio
defendia a monarquia constitucional por considerá-la o único regime capaz de elevar o Brasil
ao status de civilização. Considerava que o cenário político, com a permanência de D. Pedro,
era pouco instigador a movimentos revolucionários bruscos, tal qual a instalação do regime
122
republicano, uma vez que o regente tinha os direitos da hereditariedade pairando sobre si.
Sua aceitação atingiu a elite brasileira, ante a possibilidade de “continuidade da dinastia
portuguesa no Brasil, seria a garantia de manutenção do status quo baseado no sistema que
persistia desde a Colônia: latifúndio, monocultor, exportador, escravocrata”. 123
120
Ibid., p. 74
121
SILVA, José Bonifácio de. Op.cit.. p.19.
122
Do seu exílio continuou defendendo o império constitucional como a melhor solução para o Brasil, “por ser o
mais análogo aos seus costumes; e com a liberdade que este firmava e garantia todos ficavam contentes, sem que
fosse preciso recorrer com amargos sacrifícios ao ideal republicano. Que a experiência de seus vizinhos lhes
apresentava anárquico e violento”. SILVA, José Bonifácio de. Op.cit. p.203.
123
CASTRO, Flávia Lages de. História do Direito Geral e Brasil. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2007.p. 347.
40
Este, por sua vez, concebe três espécies de aristocracia: natural, eletiva e hereditária,
considerando a segunda o melhor governo. Disserta sobre as limitações da monarquia,
especialmente no que tange à aptidão do monarca, considerando a República aquela menos
passível de equívoco pelo voto popular.
124
Credita notável importância ao Poder Legislativo – coração do Estado - que deve
elaborar as normas longe dos interesses particulares, visto não haver “nada mais perigoso que
a influência dos interesses privados nos negócios públicos; o abuso da lei pelo govêrno é mal
menor de que a corrupção do legislador, consequência infalível dos desígnios particulares”
125
.
(...) em igualdade de condições, as mulheres mais castas, aquelas cujos sentidos são
menos inflamados pelo uso dos prazeres, geram mais filhos do que as outras. Não
menos certo, também, é que os homens excitados pela devassidão, fruto seguro da
ociosidade, são menos apropriados à geração do que os tornados mais sóbrios por
uma atividade laboriosa. 127
124
ROUSSEAU, Jean Jacques. Op.cit.p. 81
125
Ibid.,p. 64.
126
ROUSSEAU, Jean Jacques. Projeto de Constituição para a Córsega. Tradução: Lourdes Santos Machado.
São Paulo: Editora Globo, 1962, p. 194.
127
Ibid., p. 195
41
Ponderava, entretanto, que as terras deveriam ser cultivadas com sabedoria, sendo
dever do agricultor tratar bem a terra em que produz, retornando à natureza os gracejos e
abundâncias distribuídos por ela. Com o intuito de concatenar o desenvolvimento agrário com
o fim da escravidão, defendia o pagamento de prêmios a quem utilizasse a mão de obra
“alugada”. 129
Outro texto de Rousseau também deve ser mencionado no intuito de mapearmos mais
detidamente suas aspirações liberais: “Considerações sobre o Governo da Polônia”, escrito em
1772. Justificamos nossa escolha tendo em vista que, ao elaborar as considerações acerca da
carta política dos referidos países, o filósofo inseria suas mais relevantes ideias sobre o que
pensava ser o melhor para cada um, considerando-se suas peculiaridades e características.
Na obra em comento, Rousseau deixa clara sua ideia nacionalista, ligando-a, inclusive,
à condição de liberdade do homem, ressaltando, ainda, que a educação seria a responsável
pelo desenvolvimento deste sentimento, cuja centelha carrega desde o seu nascimento:
128
Segundo Rousseau “a cultura da terra forma os homens pacientes e robustos, tais como devem ser para tornar-
se bons soldados (...) As milícias exercitadas são as mais seguras e as melhores; a verdadeira educação do
soldado está em ser lavrador”. ROUSSEAU, op. cit., p. 195
129
SILVA, José Bonifácio de. Op.cit. p.178.
130
ROUSSEAU, Jean Jacques. Considerações sobre o governo da Polônia. Tradução: Lourdes Santos
Machado. São Paulo: Editora Globo, 1962, p. 269.
42
Eis o ponto importante. É a educação que deve dar às almas a conformação nacional
e de tal modo orientar suas opiniões e gostos, que se tornem patriotas por inclinação,
paixão e necessidade. Uma criança, ao abrir os olhos, deve ver a pátria e até a morte
não deverá senão vê-la. Todo o verdadeiro republicano sugou com o leite materno o
amor à pátria, isto é, às leis e à liberdade. Esse amor constitui toda a sua existência
(...) A educação nacional pertence aos homens livres. Só eles têm uma existência
comum e são verdadeiramente ligados pela lei. 131
131
Ibid.,p. 277.
132
A obediência aos preceitos cristãos reconhecidamente delimitadores da moral humana também pode ser
fartamente encontrada nos ensinos de Bonifácio. Apenas à guisa de exemplo, uma vez que frequentemente
Rousseau faz alusão a Deus enquanto governador do mundo, em sua obra Considerações sobre o governo da
Polônia, faz referência a Paulo de tarso quando escreve sobre a levedura do bem “no coração de todos os
homens”. ROUSSEAU, Jean Jacques. Considerações sobre o governo da Polônia. Tradução: Lourdes Santos
Machado. São Paulo: Editora Globo, 1962. p. 280
133
ROUSSEAU, Jean Jacques. op. cit., p. 282.
134
Vide artigos 1º e 2º da Constituição de 1824. Cabe esclarecer que a Carta Imperial não elegeu a forma
federativa, embora trouxesse a previsão do sistema de Províncias. A autonomia somente foi obtida com a edição
do Ato Adicional em 1834.
43
Neste diapasão, podemos dizer que D. Pedro sulcou indelével marca na memória do
povo brasileiro, precipuamente pelo feito da proclamação da Independência,
escandalosamente pelos inúmeros feitos amorosos e parcamente pela desenvoltura política. 139
135
Veremos argumento idêntico na obra de Bonifácio ao falar sobre a desescravização gradativa do índio e do
negro.
136
ROUSSEAU, Jean Jacques. op. cit.,p. 284.
137
A monarquia hereditária representava para Rousseau “dizer para sempre adeus à liberdade”, pois os limites
estabelecidos pela lei acabariam sendo usurpados com o tempo. Ressaltamos, todavia, que o filósofo não era
contrário à vitaliciedade do monarca, mas tão somente ao caráter hereditário que poderia emergir com a
monarquia, gerando distorções sobre o poder exercido por meio dos abusos. Assim, o “rei que preside a tudo,
continuará vitalício e seu poder, sempre muito grande no terreno da fiscalização, será limitado quanto à
legislação, pela câmara dos núncios e quanto à administração, pelo senado”. ROUSSEAU, Jean Jacques.
Considerações sobre o governo da Polônia. Tradução: Lourdes Santos Machado. São Paulo: Editora Globo,
1962. p. 297 e 299.
138
ROUSSEAU, Jean Jacques. op. cit., p. 298.
139
D. Pedro nasceu em Lisboa no dia 12/10/1798. Educado pelo Frei Antônio da Arrabida, recebeu sólida
formação católica, moral e estadística patriótica, além de ser iniciado, desde cedo, na arte e na música.
Encontram-se várias curiosidades sobre a têmpera do Imperador, algumas delas contraditórias, principalmente no
tocante a sua instrução. O comportamento dissoluto e voluptuoso que tanto denegria sua imagem é referenciado
em diversas obras bibliográficas a seu respeito, assim como sua fraqueza pelas mulheres, a personalidade alegre
e prazenteira, pouco se dizendo sobre sua destreza em assuntos de Estado. Afonso Arinos, inspirado em Octávio
Tarquínio de Souza - biógrafo do Imperador – apresenta lúcida definição, apresentando-o como liberal “na
medida em que a sua sensibilidade e sua juventude o levaram a se enquadrar no sistema de valores ideológicos
predominantes no seu tempo. (...) Mas, por outro lado, D. Pedro era um antiliberal na proporção em que influíam
sobre o seu comportamento o temperamento arrebatado e voluntarioso, os preconceitos de uma formação
dinástica absolutista e, também, convém não esquecer, o fato mesmo de ele ir-se tornando o chefe de uma
espécie de campanha popular e militar revolucionária, que foi o movimento da Independência”. 139 FRANCO,
Afonso Arinos de Melo. Op.cit. p.59.
44
Foi exatamente sobre esta figura do mediador, que pondera e tergiversa entre os
poderes do Estado, que Benjamin Constant desenvolveu o poder real, sobre cujas reflexões
debruçaremos a seguir.
Constant não defendia nenhuma forma de governo em especial, mas era avesso à
ditadura e à anarquia, segundo veemente ponderação sobre o assunto em sua obra Princípios
de Política aplicáveis a todos o governos. Cuidava tão somente de trazer apontamento aos
governos de forma a garantir as liberdades individuais que, muitas vezes, seriam prejudicadas
pela tão festejada soberania do povo.
140
Afonso Arinos cita a título de exemplo o artigo 178 da Constituição Imperial, versando sobre a possibilidade
de emendas constitucionais, que tem grande ponto de contato com escrito de Constant denominado “Esboço de
Constituição”, publicado em 1814. Menciona, também, os artigos 267 e 268 do Projeto de 1823 como exemplos
da influência de Constant no liberalismo brasileiro, por ter sido ele o responsável pela construção da “ideia de
que havia nas Constituições uma parte intangível e outra reformável, sendo aquela a única propriamente
constitucional”. In: FRANCO, Afonso Arinos de Melo. Curso de Direito Constitucional Brasileiro. vol II. Rio
de Janeiro: Forense, 1960.p 11 e 58.
141
A revolução francesa trouxe outra roupagem ao liberalismo, por meio da massa francesa sobressaltada,
perpetuando abusos, o que afastou do pensamento brasileiro da maioria o radicalismo liberal.
142
CONSTANT. Benjamin. Princípios de política aplicáveis a todos os governos. Tradução: Joubert de
Oliveira Brízida. Rio de Janeiro: Topbooks, 2007, p. 29.
45
O Estado – nação do liberalismo pretendia lidar com a intrincada relação entre Estado
e indivíduo. Desta forma, no século XIX inicia a busca pela proteção ao indivíduo “ao mesmo
144
tempo, contra o Estado e contra as massas” , cabendo a Constant a teoria de conjugação do
enfraquecimento da autoridade estatal, evitando o despotismo e, concomitantemente, criando
mecanismos impeditivos à democracia de massa. Na visão do francês, para se obter o
equilíbrio entre sociedade, governo e individualidade, era necessário que o poder político
sofresse limitação, vez que existem coisas pesadas demais para as mãos humanas”. 145
143
Ibid., p. 63.
144
PISIER, Evelyne. História das Ideias Políticas. Trad. Maria Alice Farah Calil Antonio. Barueri: Manole,
2004.p. 125.
145
CONSTANT. Benjamin. Op.cit.p.65.
146
Ibid., p. 68.
46
Em sua obra dedica extensa parte na defesa da limitação da autoridade política como
forma de se obter um governo justo. Inicia sua explanação com Rousseau, acatando que a
autoridade, para ser legítima, advém da aprovação da vontade geral, todavia recusa o
pensamento de que essa mesma autoridade se legitima exclusivamente por esse argumento,
“qualquer que seja sua extensão” 147, porquanto pode se traduzir em despotismo.
Talvez essa tenha sido a escolha mais desafiadora de Bonifácio ao delimitar os direitos
provenientes do exercício da cidadania, excluindo do contexto os escravos e os indígenas. Era
necessário despir-se do preciosismo individualista de Constant para que se pudesse criar um
sentimento de nação centrado na figura de D. Pedro I, ainda que de forma a excluir as
mencionadas classes. Aparente contrassenso de um reconhecido adepto da doutrina
constantina que acabou dando certo.
Voltando ao pensamento político de Constant, entendia ele ser lícita a aceitação dos
posicionamentos da maioria, contudo, não descuidava de que humanos também podem
cometer equívocos, motivo pelo qual defendia que a segurança tanto quanto a confiança da
sociedade depositada nas mãos dessa maioria devia ser uma atuação impelida pelo mais
“rigoroso escrúpulo”. 149
147
Ibid., p. 81.
148
CONSTANT. Benjamin. Princípios de política aplicáveis a todos os governos. Tradução: Joubert de
Oliveira Brízida. Rio de Janeiro: Topbooks, 2007, p.82.
149
Ibid., p.85.
150
Constant diferencia o interesse comum do interesse de todos, dizendo que o primeiro “tem a ver apenas com a
sociedade como um todo. O interesse de todos, por sua vez, é simplesmente a soma dos interesses individuais”.
Entendia que a esfera do individual somente podia ser objeto de apreciação do coletivo quando os interesses
47
“minorias”, aqui representados na figura dos nativos e dos negros africanos, foi sobrepujado
pelos interesses da sociedade. Conforme será explorado mais adiante, o santista tinha planos
humanistas às classes excluídas que não chegaram a ser apreciados pela Assembleia
Constituinte de 1823 em virtude da sua precoce e inesperada dissolução. Buscava, no seu imo,
legitimar a posição do futuro imperador, mas encontrava severas ressalvas no imaturo e
mesquinho pensamento político da época. O Brasil ainda não estava pronto para atender as
minorias e manter-se íntegro: resquícios do imperialismo brasileiro que se fazem sentir nos
dia de hoje.
individuais fossem colidentes e viessem a causas ofensas recíprocas, limitando-se, a partir dai, o poder soberano.
CONSTANT. Benjamin. op. cit., p.86
151
CONSTANT, Benjamin. Curso de Política Constitucional. Tradução: Marcial Antonio Lopes. 2ª edição:
Imprenta de Lawalle Jóven, 1823. p.60.
48
152
atuar em um sistema de cooperação, “cada uno por su parte al movimento general”.
Contudo, ocorrendo conflito entre os poderes, deve haver uma força capaz de restabelecer o
equilíbrio perdido, fora da zona de litígio:
Esta fuerza no puede existir en ninguno de lostres resortes, porque serviria para
destruir a los demas; y así debe estar fuera, y ser neutra em certa manera, afin de que
su accion se aplique em todas las partes donde sea necessária, y para que preserve y
repare sin ser hostil. 153
Constant não refuta que “el poder ejecutivo emana del rey”, todavia rejeita a ideia de
identidade entre ambos, da mesma forma que “o poder representativo emana del pueblo, no
es el Pueblo mismo”. 156
Interessante observar que o poder real foi desenvolvido em um país cujo monarca
detém a legitimidade do poder que exerce, haja vista estar pautado em uma monarquia
constitucional criada para um para um país livre. Desta forma, a figura do rei é respaldada por
152
Ibid., p.61.
153
CONSTANT, Benjamin. Op.cit. 1823. p.61.
154
Segundo Constant “el vicio de casi todas las constitucions puesto la suma de la autoridad, de que el debia
estar investido, em uno de los poderes activos”. Daí a justificativa do poder real estar separado do executivo,
acrescentando, ainda, ser lícito ao monarca, atuando nos limites do poder real, considerar os ministros em sua
atuação apartada, para fins de responsabilização, destituindo-os quando agirem equivocadamente, sem macular,
com isso, mencionado poder, este isento de responsabilização. Esta talvez tenha sido a maior discrepância entre
o poder real e o moderador, uma vez que este estava jungido ao Executivo, ou seja, ambos centralizados no
autoritarismo de D. Pedro. CONSTANT, Benjamin. op. cit., p.64 e 67.
155
Ibid., p.68.
156
Ibid.,. p.67
49
essa aceitação popular que o colocou em lugar de destaque que, “superior á la diversidade de
157
opiniones, sin outro interes que el de que se mantenga el órden y la libertad , assegurando
a característica de imparcialidade.
A figura icônica e imaculada do rei - quase sacra - acarreta por consequência, como
dito acima, a irresponsabilidade pelos atos praticados, presumindo-os dignos. Como forma de
demonstrar a força e a importância do monarca no exercício do poder real, conduzindo o
Estado com mãos de ferro, sem ser despótico, Constant delineia como a primeira faculdade do
rei a capacidade de nomeação e exoneração dos ministros. Outra prerrogativa será a
obrigatoriedade de sanção real às proposituras legislativas para que detenham força de lei
garantindo, dessa forma, que as normas estejam em consonância com os interesses do governo
e dos cidadãos.
Observa-se, mais uma vez, como a figura do monarca é pautada sobre a imagem de
uma pessoa dotada de extrema capacidade técnica e, sobretudo, destacada moralidade,
revestindo sua atuação de caráter quase divino, capaz de minorar as falhas apresentadas pelos
ministros ou pelo corpo legislativo que o rodeia.
Ao poder representativo fica incumbida a prática legislativa, que deve ser executada
por diversas pessoas, cuja multiplicidade de ideias contribui para atender o interesse público.
Esta representação nacional, instituída por votação popular, confere-lhe caráter de
legitimidade:
Em sua obra “Que é o terceiro Estado” (1789) Sieyés, bispo de Chartres, demonstra
164
com nitidez as esperanças e contradições da primeira fase da Revolução Francesa ,
apresentando ostensiva oposição ao absolutismo e destacando o inconformismo da burguesia
165
com sua “posição oficialmente subalterna” . Rebela - se contra os privilégios concedidos,
160
CONSTANT, Benjamin. Curso de Política Constitucional. Tradução: Marcial Antonio Lopes. 2ª edição:
Imprenta de Lawalle Jóven, 1823. p.115
161
Constant enumera três situações passíveis de sujeição de improbidade pelos ministros: abuso ou mau emprego
do poder; prática de atos ilegais capazes de prejudicar o interesse público e atentar contra a liberdade, segurança
e propriedade individual, ressaltando o foro privilegiado para julgamento. CONSTANT, Benjamin. op. cit.,
p.127.
162
Ibid., p.119.
163
Ibid., p.217.
164
Nesse sentido vide nota introdutória de Aurélio Wander Bastos à tradução da obra de Sieyés. SIEYÉS,
Emmanuel Joseph. A Constituinte Burguesa. Org. Aurélio Wander Bastos. Rio de Janeiro: Lumen Juris. 2001,
p. xxvii.
165
CHEVALLIER, Jean Jacques. Op.cit..p. 168.
51
despropositadamente, ao clero e à nobreza e anseia pelo igualitário Estado burguês. Este, por
sua vez, não pode ser confundido com a burguesia, embora também a absorva, mas se refere a
todo aquele que não seja detentor de privilégios, tal qual “os camponeses (em sua maioria), os
artesãos, os operários e os pobres das cidades; de outro, também desprovidos dos privilégios,
166
os comerciantes, os banqueiros, o arrendatários e os proprietários de manufaturas”. O
clérigo foi eleito membro da Assembleia Provençal de Orleans em 1787, enquanto
representante do clero e, segundo anotações de Chevallier, foi nesta cidade que ele se tornou
mais evidente nas lutas contra os privilégios, desenvolvendo seus escritos na trindade: tudo,
nada e algo. O Abade trazia no coração a marca burguesa e tomava a razão por guia.
Envolvido pelos pensamentos das lojas maçônicas, por onde transitou enquanto representante
167
na Câmara do clero, fazia fervilhar em suas obras o ideal revolucionário . Na sua concepção
o Terceiro Estado, também denominado de Estado pleno, é uma nação completa em que não
168
se permite privilégios e abrange tudo o que se refere a ela. Nesse sentido é que rechaça a
tradição no cenário político, por considerá-la uma forma de propagação dos privilégios
concedidos, o que acaba criando uma sociedade opressora.169 Pleiteia, em sua ideologia, um
governo representativo, de caráter censitário, tal qual esposado na Constituição de 1791 e na
Carta Imperial brasileira, exercido por pessoas conscientes da missão a eles destinada, eleitos
por cabeça e não por ordem, em paridade numérica com os deputados do clero e da nobreza.
Sieyés, em oposição a Rousseau e mais próximo de Locke (pelo qual está moldado),
admite a delegação, ao menos parcial, da soberania a seus representantes. Isso o leva ao
170
candente problema da Constituição” . Às voltas da elaboração da Carta Constitucional de
1791, desenvolveu as linhas mestras do poder constituinte originário por parte da nação, tese
esta sustentada por alguns deputados da Constituinte de 1823, em contraposição a D. Pedro e
aos Andradas, defensores que eram da primazia do poder real à representatividade da
Assembleia.
166
SIEYÉS, Emmanuel Joseph. Op.cit. p. xxxii.
167
CHEVALLIER, Jean Jacques. Op.cit..p. 170.
168
Vale lembrar que Sieyés não insere o clero na ordem privilegiada que deveria sucumbir, por considerá-lo uma
profissão no exercício de um serviço público.
169
BOBBIO, Norberto; BOVERO, Michelangelo. Sociedade e Estado na Filosofia política moderna. Trad.
Carlos Nelson Coutinho. São Paulo: Brasiliense, 1986.p.283.
170
. CHEVALLIER, Jean Jacques. op. cit., p. 174.
52
171
Defendia a criação de uma Assembleia Nacional, formada por representantes , em
caráter extraordinário, com delegação específica de criação de uma Constituição, mediante
convocação do Príncipe. Faz, assim, clara distinção entre o poder constituinte e o poder
constituído, atribuindo àquele o resgate da legitimidade do poder por atender à sociedade e
consolidar a identidade nacional. O texto apresentado expressaria, de maneira legítima, a
vontade geral, efetivando a festejada unidade almejada por Rousseau, acrescendo à simples
união dos indivíduos o sentimento de nação.
171
A representatividade postulada por Sieýes era restrita, dado seu receio de conferir igualdade eleitoral à massa
popular, fazendo a distinção entre cidadania ativa e passiva; teoria esta que também foi explorada na Constituinte
brasileira com relação aos escravos e índios selvagens.
172
Hélio Jaguaribe chega a reporta-se à Península Ibérica como situações de democracias de desenvolvimento
tardio. JAGUARIBE, Hélio. O experimento Democrático na História Ocidental. In: Brasil, sociedade
democrática. Org. Afonso Arinos de Melo Franco. Rio de Janeiro: José Olympio, 1985.p. 82
173
BARRETTO, Vicente, Ideologia e Política no pensamento de José Bonifácio de Andrada e Silva. Rio de
Janeiro: Zahar Editores, 1977.p, 83.
174
Afonso Arinos esposa o mesmo entendimento de Vicente Barreto, considerando que “o estreito absolutismo
monárquico e a forte influência da Igreja sobre a sociedade e sobre o Estado” devem ter sido os maiores
responsáveis pelo cerceamento de divulgação do pensamento político iluminista. ARINOS, Afonso. O
constitucionalismo de D. Pedro I no Brasil e em Portugal. Brasília: Ministério da Justiça, 1994. p. 10.
53
Vale dizer, desta forma, que o pensamento ilustrado português foi desenvolvido pela
monarquia, o que justifica a sua manutenção por tanto tempo, contrariando o resto da Europa
176
que objetivava o fim do ancien régime. “O conhecimento seria um instrumento de
177
afirmação nacional” e a monarquia conseguiu desenvolver esse pensamento na
mentalidade da elite portuguesa consolidada sob seus alicerces.
175
SILVA, Ana Rosa Cloclet da. Inventando a nação: intelectuais ilustrados e estadistas luso-brasileiros na
crise do antigo regime português (17509 – 1822). São Paulo: Hucitec: Fapesp, 2006.p.33.
176
No mesmo sentido, destacamos apontamento de Paulo Ferreira da Cunha relatando que a Revolução de 1820
era liberal, portanto antagônica ao absolutismo, conforme preconizado pelos franceses, mas não levantaram a
bandeira contra a monarquia tradicional portuguesa de D. João VI, eis que esta cuidava de proteger as liberdades
individuais do povo lusitano. O movimento liberal não pretendia a restauração das cortes tradicionais, formada
pelo clero, nobreza e povo, mas sim uma monarquia constitucional estabelecendo uma assembleia representativa
cuja convocação obedecia ao modelo prescrito pela Constituição de Cádiz. CUNHA, Paulo Ferreira; SILVA,
Joana Aguiar; SOARES, Antônio Lemos. História do Direito Romano à Constituição Europeia. Coimbra:
Almedina, 2005.p 586-587.
177
BARRETTO, Vicente Op.cit..p, 86.
178
SOLSONA, Gonçal Mayos. La ilustración. Barcelona: Editorial UOC, 2007.p.40-41.
54
179
de Gusmão, Diego de Mendonça Corte Real, Padre Carbone e Cardeal da Mota - seu
destaque se deve porque o efetivo rompimento com a estagnação deu início com sua forma de
estruturação do Estado.
Consta que foi no seu governo que o despotismo centralizador atingiu seu apogeu,
dando os contornos revolucionários do século XIX. Foi ele o responsável pela modernização
estatal portuguesa. “Todas as reformas do Marquês tinham como objetivo último o
fortalecimento do Estado, visando reforçar o absolutismo, e assim ele agiu, mesmo em
182
detrimento da burguesia, de uma parte da nobreza e do clero”. Desenvolveu políticas
públicas que fortalecessem a centralização administrativa e o poder real e recuperassem a
prejudicada economia portuguesa, ainda dependente da Inglaterra. Investiu, também, na
formação educacional, abrindo várias cadeiras de Direito, com o objetivo de facilitar a
interpretação e, consequentemente, a execução das leis.
179
SILVA, Ana Rosa Cloclet da. Op.cit.p. 42.
180
Ibid. p. 44
181
CHACON, Vamireh. A grande Ibéria: convergências e divergências de uma tendência. São Paulo:
Unesp,2005.p.131.
182
CASTRO, Flávia Lages de. Op.cit..p. 291.
55
abrindo espaço, assim, para a profícua Revolução de 1820. O caráter dicotômico por ele
desenvolvido tentou conciliar a ideia iluminista concomitantemente ao recrudescimento das
rédeas centralizadoras do absolutismo. “Não via que dava luzes aos Povos para conhecer por
ellas que o Poder soberano era unicamente estabelecido para bem comum da Nação e não do
Príncipe”. 183
Veremos, mais à frente, que as reformas supra descritas também estiveram presentes
nas considerações de Bonifácio, haja vista que a ex - colônia portuguesa, no início do século
XIX, estava em condição análoga a encontrada por Pombal um século antes, ambos em busca
da “hegemonia política estatal”. 184 É possível identificar o pensamento pombalino na reforma
bonifaciana, eis que o brasileiro também delineou uma máquina administrativa composta por
pessoas doutas, planejava a expansão da economia nacional – o que significava absolutamente
o fim do monopólio português – e voltou toda sua força contra o poder isolado dos jesuítas.
185
Conta Alberto Sousa que desde a segunda metade do século XIV Portugal se
resumia a sua Capital, haja vista suas demais províncias terem se tornado improdutivas,
sobrevivendo Lisboa à custa dos tesouros brasileiros e das Índias, situação essa que agravou
no fim do século XVIII. O Estado estava falido e depende das duas colônias, o que
desencadeou revoltas internas e despertou o interesse renovador nos brasileiros que ali se
encontravam.
183
DIAS, Luis Fernando Carvalho. Algumas cartas do Doutor Antônio Ribeiro dos Santos” In: Separata da
Revista Portuguesa de História. Tomo XIV. Coimbra. 1974.p. 447.
184
SILVA, Ana Rosa Cloclet da. Op.cit..p.85.
185
SOUSA, Alberto. vol 2. Op.cit.. p. 41
56
A briga na Europa travada pela expansão do império Napoleônico acabou por auxiliar
no processo de Independência do Brasil. Dividido entre apoiar a Inglaterra ou a França, D.
João VI decidiu-se pela primeira, transferindo, em 1808, a sede da monarquia para a sua
colônia americana, com a ajuda da frota naval inglesa.
186
JÚNIOR, Caio Prado. Evolução política do Brasil e outros estudos. São Paulo: Editora Brasiliense,
1980.p.143.
187
Segundo informação de Anselmo Macieira, D. João trouxe consigo cerca de 15.000 portugueses, retornando à
pátria natal em 1821 apenas 3.000. MACIEIRA, Anselmo. Constituição de 1824 – um fato na História do
Brasil. In: Revista de Informação Legislativa: abril-junho, 1976. p.145-167.
188
Antônio Lemos Soares considera injusta a forma com que D. João VI foi muitas vezes retratado pela história
quando do seu governo no Brasil. Entende que o monarca “legou à posteridade um vasto complexo de medidas
garantísticas que integramos no domínio das liberdades ibéricas tradicionais.”, embora respeitando a precária
sociedade brasileira da época que o impedia de proporcionar igualdade jurídica a toda a sociedade. Destacou o
tratamento protetivo conferido aos indígenas, preocupado com a educação e bem estar dos mesmos, evitando
tratamento discriminatório. Preocupou-se também com os escravos negros, atenuando, mediante Alvará de 20 de
setembro de 1808, “as penas a aplicar aos escravos encontrados com objectos destinados à mineração. Ou, no
mesmo sentido da proteção da população escrava, o diploma de 26 de janeiro de 1818 – Alvará com força de lei
– em que se preveem penas de vulto para o tráfico ilegal de escravos, e, do mesmo ano, com data de 18 de
agosto, o Decreto que cria uma comissão sobre o comércio ilícito de escravos com sede no Rio de Janeiro”.
Ainda no tocante a ações voltadas à dignidade humana, apresenta por condutas liberais preconizadas por D. João
VI o perdão concedido a presos e desertores e promulgação de medidas conferindo melhores condições aos
reclusos. CUNHA, Paulo Ferreira; SILVA, Joana Aguiar; SOARES, Antônio Lemos. História do Direito
Romano à Constituição Europeia. Coimbra: Almedina, 2005.p 589-591.
189
Comentando sobre o inconformismo dos portugueses com o distanciamento da Coroa, ver CUNHA, Paulo
Ferreira; SILVA, Joana Aguiar; SOARES, Antônio Lemos. Op.cit..p 571-572.
57
190
independência brasileira enquanto “simples episódio de uma guerra civil de portugueses”,
referindo-se à Revolução Liberal de 1820.
Veremos, mais tarde, que antevendo essa conduta dos portugueses, Bonifácio elaborou
um documento a ser entregue pelos parlamentares brasileiros, demonstrando a necessidade de
observar e aceitar as diferenças entre as nações, na medida do possível, colocando-as em
igualdade de condições e tratamento.
A vida política no Brasil iniciou com a efetiva colonização por meio da divisão de
193 194
terras em capitanias hereditárias inalienáveis , cabendo “à iniciativa privada” o intricado
problema de povoamento e defesa do grande território 195.
Enfatizamos essa situação porque veremos mais a frente como essa divisão territorial
combinada com a falta de fiscalização da Coroa, determinou o individualismo e
particularismo que caracterizou o país e dificultou o florescimento do sentimento de unidade
nacional.
193
As capitanias hereditárias eram formadas por intermédio de cartas de doação e forais, doadas pelo rei a
fidalgos portugueses, cujos poderes concedidos nestes últimos “davam-lhes o caráter de mini - Constituições e
Códigos Civis e Processuais”. VALLADÃO, Haroldo. História do Diretor: Especialmente do Direito
Brasileiro. Rio de Janeiro: Freitas, 1977.p.77.
194
JÚNIOR, Caio Prado. Op.cit.p.15.
195
Flávia Lages de Castro denomina referido processo de privatização da colonização. CASTRO, Flávia Lages
de. Op.cit..p. 303.
196
Valladão critica duramente o regime feudal brasileiro por ter sido implementado após meio século de extinta
a idade média, inserindo no país, desta forma, um modelo social já falido. Definiu-se um sistema jurídico em que
os direitos eram codificados “na vontade e nos atos dos donatários, chefe militar, senhor das terras e da justiça,
distribuidor de sesmarias e de penas”. VALLADÃO, Haroldo. op. cit., p.76
197
JÚNIOR, Caio Prado. op. cit., p.31
198
Nos dizeres de Caio Prado Júnior “a sociedade colonial brasileira é o reflexo fiel de sua base material: a
economia agrária que descrevemos. Assim como a grande exploração absorve a terra, o senhor rural monopoliza
a riqueza, e com ela seus atributos naturais: o prestígio, o domínio”. JÚNIOR, Caio Prado. Evolução política do
Brasil e outros estudos. São Paulo: Editora Brasiliense, 1980.p.23.
59
poder não os intelectuais ou comerciantes burgueses, como seria de esperar, mas sim os
senhores rurais que mantinham sua riqueza com base na relação escravagista. Essa
característica permaneceria ainda com as reviravoltas do país, formando fator decisivo na
Independência e na Constituição de 1824.
199
TORRES, Alberto. A Organização Nacional: primeira parte- A Constituição. São Paulo: Companhia
Editora Nacional, 1938.p.117.
200
Haroldo Valladão, em seu livro ‘História do Direito: Especialmente do Direito Brasileiro’, divide os silvícolas
em dois grupos étnicos: os tupis e os tapuias, cada qual contendo inúmeras subdivisões em virtude do
desenvolvimento cultural e organização social. As tribos com maior coesão social, embora rudimentares, eram as
que mais faziam frente aos colonizadores, unindo-se diante do iminente perigo, destacando-se os Tamoios. Nesse
sentido, é possível fazer relação entre a tribo indígena, de temperamento bravio e contrário aos portugueses, com
o jornal ‘O Tamoyo’, periódico reconhecido pelos escritos contrários a D. Pedro I. VALLADÃO, Haroldo.
História do Direito: Especialmente do Direito Brasileiro. Rio de Janeiro: Freitas, 1977.p. 66.
201
O povo indígena era estruturalmente precário, com hábitos singelos e respeito à vontade individual dentro das
tribos, o que levava a uma educação pautada pelo exemplo, sem castigos corporais. Isso explica a revolta dos
índios frente aos castigos físicos que lhes eram infligidos.
202
FAORO, Raymundo. Os donos do poder: formação do patronato político Brasileiro. vol 1. Porto Alegre:
Editora Globo, 1975.p.243.
60
203
guerreira” , que perdeu força com a permanência da Coroa em terras brasílicas e acirrou a
disputa entre lusitanos e nativos.
Essa situação permaneceu até após a Independência, exercendo grande impacto nas
relações e interesses político – econômico interno. Percebe-se que a dicotomia Brasil x
Portugal teve nascedouro desde os primórdios da colonização, fomentando a discórdia entre
as duas nacionalidades. É fácil imaginar o ideal democrático, catalisador da Independência,
frustrado com a monarquia de D. Pedro, que na prática não foi idealizada por nacionais que
aqui viviam e tiveram seus interesses e riquezas usurpadas, mas sim por intelectuais que
nutriam amores pelas duas pátrias.
203
VIANNA, Oliveira. Instituições Políticas brasileiras: Fundamentos sociais do Estado vol.1. Rio de
Janeiro: Record, 1974.p. 138.O valor conferido aos bandeirantes, destacadamente os paulistas, não estava
necessariamente no volume das moedas aquinhoadas, mas sim nos atos de bravura. Inscreviam seus feitos nos
Livros da Coroa, adquirindo notoriedade, privilégios e força política para ocuparem os cargos municipais.
204
JÚNIOR, Caio Prado. Op.cit.1980.p.39
205
Ibid., p.48.
61
De todas as ações praticadas por D. João VI nesse sentido, destacamos aquelas mais
relevantes ao à formação do Estado Nacional Brasileiro independente: a abertura dos portos às
nações amigas, acabando com o monopólio português e, consequentemente, fomentando a
indústria nacional; a fundação da imprensa nacional responsável pela divulgação de novas
ideias políticas, inclusive contrárias ao governo; a elevação brasileira a Reino Unido, em
206
1815, criando o Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves , colocando o Brasil, desta
forma, em condição de “solidariedade e igualdade” 207 com Portugal.
208
Esta avalanche progressista criou uma “superestrutura política do Brasil colônia” ,
que não tinha mais como recuar, acendendo na mente dos brasileiros o sincero propósito da
independência.
O mundo vive um perfeito ecossistema, onde uma ação aparentemente isolada cria
efeito em cadeia de proporções inimagináveis. Foi isso o que aconteceu entre a Revolução de
Cadiz, na Espanha210; a Revolução do Porto, em Portugal e a Independência do Brasil.
206
Antônio Lemos Soares considera que a ascensão de Colônia à categoria de Reino unido deveu-se ao
“reconhecimento político, por parte de D. João VI, do exponencial crescimento econômico, social e cultural, a
que a colônia havia assistido desde, pelo menos, 1808”. CUNHA, Paulo Ferreira; SILVA, Joana Aguiar;
SOARES, Antônio Lemos. Op.cit.p.603.
207
VALLADÃO, Haroldo. Op.cit.p. 83.
208
JÚNIOR, Caio Prado. Op.cit.1980.p.47
209
Discorremos mais adiante sobre a unidade nacional, seu desenvolvimento e importância no pensamento de
José Bonifácio. O assunto será tratado em tópico especial dada sua relevância para o presente trabalho.
210
A Revolução de Cadiz ocorrida em 1820 serviu de sustentáculo para diversos movimentos liberais, haja vista
ter levado estes últimos ao poder, reimplantando o regime constitucional de 1812, cuja Constituição serviu de
modelo para a brasileira de 1824.
211
O sentimento de revolta que tomava conta dos portugueses foi descrito por Alberto Sousa: “Além disso, a
miséria generalizada enchia de pavor todas as classes. Os favores concedidos ao commércio inglês com o Brasil,
aos quaes já nos referimos, em detrimento dos interesses commerciaes dos portugueses, postos, por um Tratado
iníquo, em condições de inferioridade relativamente aos productores e negociantes britânnicos – aniquillava a
actividade nacional em suas mais rendosas manifestações, encarecendo assustadoramente a vida, diminuindo as
rendas officiaes, paralysando todos os impulsos da economia privada e portanto da riqueza pública. Para
62
do General inglês que ali se encontrava – General Beresford e não contra a autoridade de
Dom João VI.
As classes superiores da colônia, formada pela aristocracia rural e seus aliados, ganhou
expressão após 1821, influenciando decisivamente na Independência do Brasil e seus
desdobramentos. “Quanto às camadas populares, elas não se encontravam politicamente
maduras para fazerem suas reivindicações; nem as condições objetivas do Brasil eram ainda
213
favoráveis para sua libertação econômica e social” , restando infrutíferas suas pretensões.
Talvez seja este o contexto em que paire uma das pretendidas contradições liberais no
processo de libertação brasileira. É assente na historiografia a precária condição, sobretudo
econômica e social que precipitava sobre o país, ainda muito dependente da mão- de- obra
escrava para o efetivo desenvolvimento nacional.
214
Após uma longa negociação , volta a Corte Portuguesa para o seu lugar de origem,
deixando D. Pedro I em território brasileiro, a pedido dele próprio, justificando-se na
necessidade de permanência de pelo menos um membro da Dinastia de Bragança no Brasil,
Portugal a permanência do Rei na ex – Colônia era considerada coisa definitiva, qujiça irrevogável, tanto que,
quando alludiam a D. João, já lhe chamava, por escárneo – o brasileiro” SOUSA, Alberto. Op.cit.vl. 2. p. 73-74
212
Sobre o episódio das revoluções paraense e baiana Afonso Arinos destaca a adesão participativa das classes
produtoras, “(agricultura e comércio), o que dá a feição econômica e burguesa do movimento, que correspondia,
assim, aos traços gerais da democracia política nascente em todo o mundo, com a ascensão das classes
produtoras”. Essa peculiaridade mostrou-se decisiva na política brasileira, especialmente no tocante à
manutenção da escravidão, haja vista que os latifundiários, responsáveis pelo desenvolvimento agrícola do país,
se utilizavam da mão – de - obra escrava. In: FRANCO, Afonso Arinos de Melo. Op.cit.1960.p 26.
213
JÚNIOR, Caio Prado. Op.cit.1980.p.46 e 47
214
Afonso Arinos aponta como responsável pela negociação, principalmente no que tange à implementação da
monarquia constitucional enquanto solução para a manutenção dos dois reinos, o Conde de Palmela, “antigo
embaixador de Portugal em Londres, ex – plenipotenciário ao Congresso de Viena, conhecido interlocutor de
Benjamin Constant”. Como visto, não faltaram oportunidades aos brasileiros de conhecerem a influente doutrina
do francês que tanto inspirou o imperador. FRANCO, Afonso Arinos de Melo. Op.cit.1960.p 26.
63
215 216
ainda que em caráter temporário , “governando em nome e por delegação” do rei, de
forma a impedir o completo desmembramento entre os dois reinos.
215
O termo final dessa situação, segundo D. Pedro, seria a criação e promulgação da nova Constituição
Portuguesa, modificando o regime absolutista.
216
SOUSA, Alberto. Op.cit.Vol 2. p. 115
217
COSTA, Emília Viotti da. Da monarquia à República: momentos decisivos. São Paulo: Unesp,2007.p.68.
218
É unânime entre os historiadores o caráter vulnerável de D. Pedro, ora agindo com brutalidade excessiva ora
permissivo aos anseios da população, somada à falha de caráter e de instrução. Esta instabilidade do seu humor
somente aumentava a insegurança sobre sua pessoa, questionando-se sobre sua maturidade e competência para
governar o Brasil. Nos dizeres de Alberto Sousa, “si lhe faltava a base insubstituível de um lar paterno bem
organizado, não menos infeliz fôra êlle quanto ás luzes da inteligência, indispensáveis principalmente nos
homens públicos que se destinam a exercer cargos da mais alta culminância no seio das Nações a que pertencem.
Descuidada correra-lhe a instrução do espírito como relaxada sua educação”. SOUSA, Alberto. Op.cit.vol 2. p.
152
219
SOUSA, Alberto. Op.cit.. Vol 2 p. 201
220
HOLANDA. Sérgio Buarque, de. Op.cit.. p. 154.
64
221
Os primeiros brados republicanos foram identificados na voz de Gonçalves Lêdo ,
desenvolvido dentro das lojas maçônicas, berço das aspirações iluministas. O papel das
sociedades secretas e em especial da maçonaria enquanto disseminadora de ideias políticas
também será objeto de apreciação em tópico específico dado sua proeminência para o
deslinde da Independência.
Vale dizer que o sentido da ruptura com a metrópole tinha significado diferente para
cada segmento da sociedade. Para os mestiços e negros era, sobretudo, uma luta racial contra
os privilégios concedidos somente aos brancos. Para aqueles que possuíam pouca fonte de
renda, simbolizava a oportunidade de inversão da ordem econômica e social. Para a elite
social, implicava a manutenção dos seus privilégios. Classes distintas com interesses às vezes
contrários lutavam lado a lado. Cada um olhando para si, poucos preocupados com o futuro da
nação. As desconfianças de Bonifácio sobre possível ruptura tinha forte fundamento. Cada
qual absorvia da ilustração o que mais lhe convinha sem, contudo, estruturar o país ou pensar
no todo. Era um movimento sem direção certa, com grande chance de fracassar no final.
Pode-se dizer que os anseios sociais foram alijados do processo da Independência, mas
se atendia a uma realidade social da época. A maior parte da população brasileira era
221
Alguns historiadores, sendo Assis Cintra o de maior expressão, concedem a Gonçalves Lêdo o título de
Patriarca da Independência pelos prestimosos discursos publicados em conjunto com o Padre Januário Cunha
Barbosa no Revérbero Constitucional, fundado em 1821. A maior parte dos historiadores, contudo, cuja corrente
nos filiamos, credita este título a José Bonifácio. Sem desprezarmos seu destacado papel no curso dos
acontecimentos da independência, somos de opinião que foi o ministro santista o maior responsável pelo
desenvolvimento do ideal separatista na mente da aristocracia brasileira.
222
JÚNIOR, Caio Prado. Op.cit.1980.p.48.
65
analfabeta, pobre, carente, formada basicamente por escravos: todos vivendo à margem da
sociedade e, esta, temerosa de uma revolta dos escravos 223.
224
Do ponto de vista classista, Caio Prado Júnior traça a diferença da monarquia
constitucional europeia da brasileira, pois, enquanto naquela tencionava a ascensão da
burguesia comercial e industrial em detrimento à nobreza feudal, esta última pleiteava a força
dos proprietários rurais em contradição à burguesia mercantil portuguesa.
Por diversas vezes o opositor Gonçalves Lêdo elogiou a prudente ação de Bonifácio
no processo de Independência. Cioso de que a república significaria, possivelmente, a fim do
Brasil, admitiu-a em etapas, cujo início submetia o Estado ao pulso de um “govêrno central de
225
um único monarcha”. Esse argumento também foi aceito por B.J.G. que defendia a união
das províncias brasileiras como fundamento da persistência e duração do Estado, exaltando a
monarquia constitucional a forma de governo mais adequada à manutenção da liberdade.
Pondera que apesar das grandes dimensões territoriais – cujo governo mais adequado seria o
despótico – impossível perder o benefício que apenas uma boa Constituição poderia oferecer.
Disserta que para chegar a esse objetivo, a união das províncias deveria estar adstrita a um
governo central, evitando-se, dessa forma, as ambições personalistas e individualistas de cada
uma. Ressalta que a junção resguardada pela Constituição evitaria os excessos de uma
possível tirania226.
223
Sobre a composição da sociedade brasileira no período pré - independência, constituindo-se em uma herança
colonial ensejadora de grande empecilho à construção civilizacional brasileira, relata Miriam Dolhnikoff: “Tinha
diante de si um grande desafio de transforma o Brasil em um “país civilizado”, segundo os padrões europeus.
(...) Entretanto, tinha diante de si a herança colonial “cuja população era composta na sua maioria por negros e
mestiços, a maior parte escrava”. SILVA, José Bonifácio de. Op.cit.. p.20
224
JÚNIOR, Caio Prado. Op.cit.1980.p.49.
225
SOUSA, Alberto. Op.cit.p. 205
226
B.J.G. Memória sobre as principaes cauzas por que deve o Brasil reassumir os seus direitos e reunir as
suas províncias. Rio de Janeiro: Typographia Nacional, 1822.p.38-41. Analisando a atuação de D. Pedro
perante o Brasil, convence-se da sua legitimidade no cargo, mas ressalva não poder misturar o antigo método
absolutista com o novo modelo constitucional, eis que os interesses brasileiros colidem frontalmente com uma
política do antigo regime. Cabe salientar que o livro foi escrito em 1822, quando ainda se falava sobre a
possibilidade de união do Brasil com Portugal.
66
1.2.1 A Independência
227
GOMES, Laurentino. 1822: Como um homem sábio, uma princesa triste e um escocês louco por dinheiro
ajudaram D. Pedro a criar o Brasil – um país que tinha tudo para dar errado. Rio de Janeiro: Nova
Fronteira, 2010. p.24.
228
BARROS, Roque Spencer Maciel de. A ilustração Brasileira e a Ideia de Universidade. São Paulo:
Universidade de São Paulo, 1959.
229
COSTA, Emília Viotti da. Op.cit.2007.p.32.
67
230
“(...) Como Imperador Constitucional, e muito especialmente como Defensor Perpétuo deste Império, Disse
ao Povo no Dia 1.º de Dezembro do ano próximo passado, em que, Fui Coroado, e Sagrado , «Que com a Minha
Espada Defenderia a Pátria, a Nação, e a Constituição, se fosse digna do Brasil , e de Mim» Ratifico hoje muito
solenemente perante vós esta promessa, e Espero, que Me ajudeis a desempenhá-la, fazendo uma Constituição
sábia , justa , adequada, e executável, ditada pela Razão, e não pelo capricho que tenha em vista somente a
felicidade geral, que nunca pode ser grande, sem que esta Constituição tenha bases sólidas , bases, que a
sabedoria dos séculos tenha mostrado, que são as verdadeiras, para darem uma justa liberdade aos Povos, e toda
a força necessária ao Poder executivo.(...)” In: Colecção das Leis do Império do Brasil desde a
Independência, volume I: 1822 a 1825. Ouro Preto:Typographia de Silva, 1836.págs. 288 a 300.
231
SILVA, Ana Rosa Cloclet da. Inventando a nação: intelectuais ilustrados e estadistas luso-brasileiros na
crise do antigo regime português (17509 – 1822). São Paulo: Hucitec: Fapesp, 2006.p.34.
68
Ocorre que a história tem seu fluxo próprio e, a despeito do planejamento humano,
cabe à Providência os acontecimentos finais que acabaram por confirmar a força e a
aprovação popular sobre Bonifácio no terreno político.
“(...) tengamos por cierto y averiguado que la intención de Dios respecto del gênero
humano em la tierra será reconocible inequivocamente hasta em las partes más
embrolladas de su historia. Todas las obras de Dios tienen esta propriedad de que
formando parte de um todo que no se deja abarcar por nuestra vista, sea, no
obstante, cada um todo completo em si mesmo”234
234
HERDER, Johan Gottfried Von. Ideas para uma filosofia de la historia de la humanidad. Trad. J. Rovira
Armengoi. Buenos Aires: Losada, 1959.p. 263. Joaquim Rodrigues de Sousa também considera que os fatos
marcadamente relevantes no desenvolvimento da história da humanidade são obras da Providência divina que,
por sua vez, influenciou o curso da política brasileira. SOUSA, Joaquim Rodrigues de. Analyse e Comentario
da Constituição Política do Império do Brazil ou Theoria e Pratica do Governo Constitucional Brazileiro.
São Luiz do Maranhão: 1867. p. XV-XVIII.
235
Nesse discurso Bonifácio já manifestava seu firme propósito estadista com relação à manutenção da pátria, ao
dizer: “Senhores! Êste deve ser o dia da reconciliação geral entre todos, desappareçam ódio, inimizades e
paixões. A pátria seja nossa única mira” Logo se via, desde os primórdios, que personalismos contrários aos
interesses do Estado não seriam tolerados pelo político santista, equivalendo sua conduta, guardadas as devidas
proporções, a de Maquiavel, que dedicou quase toda a sua existência a defender a causa pública. SOUSA,
Alberto. Op.cit.Vol 2. p. 209
236
Ibid. p. 222
70
237
D. Pedro e o santista, idealizador e executor da instauração do Governo Provisório, em
expressa simpatia à causa de D. Pedro.
Não seria de se espantar, em virtude da têmpera de Bonifácio, que toda sua brilhante
atuação não passou de ardiloso planejamento objetivando se aproximar do Regente, fazendo-
se habilmente indispensável, para que seus objetivos relacionados ao Brasil fossem
executados.
O documento levado pelos Deputados brasileiros, cuja lavra coube às penas de José
Bonifácio, foi as “Instruções do Governo Provisório de São Paulo aos Deputados da Província
às Cortes Portugueses, para se conduzirem em relação aos negócios do Brasil”. Traremos
aqui alguns dos principais dispositivos para melhor identificarmos o politicismo de Bonifácio
cujos intentos foram absorvidos tanto no projeto de 1823 quanto na Constituição de 1824.
237
Alberto Sousa traz curiosa observação, creditando a Bonifácio o título de mentor intelectual da instauração do
Governo Provisório discorrendo, detalhadamente, sobre o plano ardilmente elaborado para que a temperança da
monarquia constitucional prevalecesse, atendendo, assim, aos extremistas liberais e monárquicos.
238
Para Afonso Arinos a formatação conjunta de uma constituição única para o Brasil e Portugal era
contraditória aos interesses portugueses, culminando essa incoerência com a presença de deputados brasileiros
eleitos para as Cortes de Lisboa”, mediante processo de voto censitário ao invés do sufrágio universal. ARINOS,
Afonso. Op.cit.1994. p. 22
239
Antônio Carlos Ribeiro de Andrada e Silva, o mais republicado de todos os Andradas, nasceu também na
cidade de Santos, em 1773. Cursou os estudos primários na sua terra natal, bacharelou-se em Direito e Filosofia
pela Universidade de Coimbra. “Durante os annos de sua residência na Metrópole, as produções de sua
laboriosidade mental cingiram-se exclusivamente a meros trabalhos de tradução de obras alheias”. Adquiriu
renome enquanto grande orador. Exerceu o cargo de Escrivão da Ouvidoria de São Paulo em 1800 e, no mesmo
ano, Auditor Geral das Tropas da Capitania. Alberto Sousa o descreve com índole belicosa, de ânimo combativo
e “tresloucada veemência de seus impulsos”. Tais características o fizeram um dos grandes heróis da
independência, mas não permitiram grande tempo no exercício da magistratura. Em 1805 cumulou ainda o cargo
de Juiz na cidade de Juiz de Fora, mudando em 1815 para a Ouvidoria de Olinda. Fato importante para o
presente trabalho foi a fundação de uma Loja Maçônica, juntamente com José Mariano Cavalcante de
Albuquerque, “cujo fim era a propaganda revolucionária das ideias republicanas”. SOUSA, Alberto. Op.cit.vol.2
446 – 475
71
240
manutenção da união entre Brasil e Portugal, em igualdade de condições políticas e civis
241
, tanto quanto possível fosse, em virtude da diversidade de costumes e território.242
Saldanha entende que por meio dessas Instruções, explícita se tornara a identificação da ideia
Andradina de nacionalidade, expressa por “unidade territorial e histórica” 243.
Apesar da tentativa de paridade entre Brasil e Portugal, o intento não foi bem recebido
pelas cortes portuguesas, pois, tentando “atender à classe comerciante que aderira à
Revolução, procuraram sujeitar-nos economicamente a Portugal”. 244 Buscando a legitimidade
da nova Constituição, propôs a criação de uma assembleia apenas para esse fim, separando a
função de criar – fruto do poder constituinte originário – da legislatura convencional –
oriunda do poder constituinte derivado.245
240
Art. 1º Integridade e indivisibilidade do Reino Unido; declarando-se que as nossas atuais possessões em
ambos os hemisférios serão mantidas e defendidas contra qualquer força externa, que as pretender atacar ou
separar. CALDEIRA, Jorge. Op.cit..p 125
241
Miriam Dolhnikoff falava de partes simétricas de um mesmo império, apenas separada pelo oceano,
demonstrando a clara intenção dos brasileiros na união dos países em igualdade de condições e não mantendo a
relação metrópole – colônia. SILVA, José Bonifácio de. Op.cit. p.17.
242
Art. 2º Igualdade dos direitos políticos, e dos civis, quanto o permitir a diversidade dos costumes e território,
e das circunstâncias estatísticas. CALDEIRA, Jorge. Op.cit.p 125
243
SALDANHA, Nelson Nogueira. Op.cit.p.98.
244
CASTRO, Therezinha. José Bonifácio e a Unidade Nacional. Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército, 1984.
p. 29.
245
Artigos 4º e 5º, respectivamente.
246
SOUSA, Alberto. Os Andradas. Vol. 3. São Paulo: Typographia Piratininga, 1992. p. 437
247
Artigo 6º Essas disposições pessoais de Bonifácio na Instrução levam-nos a crer que sua real intenção para o
Brasil independente seria a monarquia parlamentarista.
248
Nos dizeres de Sérgio Buarque de Holanda a forma descentralizada da colonização brasileira fomentou, desde
o início, as “forças centrífugas” nas bases de governo, desenvolvendo o consequente modelo federalista. Por isto
não é absurdo o modelo do Andrada propor a unidade nacional em uma monarquia constitucional que
72
eleito democraticamente pelo povo e pelo supremo executivo, subordinando a ele todas as
Províncias 249.
Nesse contexto faz-se interessante traçarmos breves linhas sobre o federalismo norte-
americano, trazendo as diferenças relevantes entre o modelo estadunidense, o previsto por
Bonifácio e o desenhado na Constituição de 1824.
respeitasse, ao mesmo tempo, o pacto federativo. Todavia nunca é demais apontar o entendimento de Bonifácio
da impossibilidade, ainda que temporária, de se adotar o federalismo norte-americano, desenvolvido sobre base
republicana. A República viria em um segundo momento, quando a nação estivesse pronta para descentralizar-se
efetivamente sem, contudo, dissolver-se. HOLANDA. Sérgio Buarque, de. Op.cit. p. 14. Nesse diapasão, José
Honório Rodrigues afirma que caso o federalismo, tivesse sido aprovado naquele momento, teria sido “fatal à
unidade nacional”. RODRIGUES, José Honório. A Assembleia Constituinte de 1823. Petrópolis: Vozes,
1974.p.111.
249
Capítulo II – Negócios do Reino do Brasil. Artigo 3º.
250
FABRIZ, Daury Cesar. Federalismo, Municipalismo e Direitos Humanos. In: Revista do Tribunal de
Contas do Estado de Minas Gerais. Outubro/Dezembro 2010. V. 77. p. 76-95.
73
Não se pode falar que adotamos na Carta imperial o federalismo, dada que a
251
autonomia conferida às províncias era bem precária, segundo dicotomia do artigo 81 .
Vivenciávamos um quadro voltado mais à descentralização administrativa do que a autonomia
propriamente dita. O regime representativo brasileiro, por sua vez, estava longe de permitir
que os segmentos comunitários se expressassem nos meios políticos, o que fez com que nosso
federalismo se desenvolvesse na heterogeneidade e personalismo das elites agrárias.
251
Há que se trazer a ponderação do ilustre professor Raul Machado Horta que “a autonomia do Estado
pressupõe, necessariamente, a capacidade de auto-organização, mediante a elaboração de uma Constituição e das
leis que vão preencher o ordenamento jurídico autônomo do Estado”, sem a qual nos aproximamos da Província
do Estado Unitário de 1824, ressaltando que a Constituição de D. Pedro não trouxe em seu corpo nenhuma
prerrogativa de autogerenciamento. HORTA, Raul Machado. Reconstrução do Federalismo Brasileiro. In:
Revista de Informação Legislativa. nº 72. Outubro/Dezembro 1981. p.13-28.
252
SOUSA, Alberto. Os Andradas. Vol. 2 São Paulo: Typographia Piratininga, 1992. p. 438.
253
Veremos adiante o entendimento esposado por Bonifácio de que as leis deveriam conferir proteção civil e
penal aos escravos. A liberdade, ainda que gradual, deveria ser conquistada, merecida, comprovando-se o
74
Esta aparente contradição com o liberalismo Europeu, avessa a toda “autoridade cujos
256
privilégios não emanem de um claro mandato do povo” , encontra resposta em Vicente
Barretto, demonstrando a força da cultura de uma população ao definir sua forma de governo,
descrevendo que “em Portugal o próprio absolutismo abriu as portas da cultura portuguesa
para o pensamento moderno. Mas a abertura realizada viria a ser necessariamente parcial, pois
deveria atender às exigências políticas de um poder absolutista” 257.
desembrutecimento e a civilidade que dar-se-ia por meio da conversão ao cristianismo. SILVA, José Bonifácio
de. Projetos para o Brasil. Organização: Miriam Dolhnikoff, São Paulo: Companhia das Letras, 1998. p.64.
254
Artigos 5º a 7º do Projeto de 1823
255
Artigo 11, item 5 do Projeto de 1823.
256
HOLANDA. Sérgio Buarque, de. Op. Cit. p.14.
257
BARRETTO, Vicente, Op. Cit. p. 83
75
Depois de rejeitados alguns Projetos que lhe foram apresentados, Antônio Carlos
elaborou ele mesmo, em menos de um mês, o Projeto que foi levado à votação em 15 de
258
Para Afonso Arinos a disputa entre Brasil e Portugal tornou a independência brasileira um movimento
predominantemente político, ficando secundária a matéria constitucional. ARINOS, Afonso. Op. Cit. 1994. p. 22
259
CASTRO, Flávia Lages de. Op. Cit..p. 347.
260
SILVA, Ana Rosa Cloclet da. Op. Cit.2006.p.389.
76
261
setembro de 1823. Este Projeto, conforme se verá mais adiante, possui característica
precipuamente limitativa ao poder imperial, reconhecendo a existência dos três poderes
262
defendidos por Montesquieu. Vale registrar que o “imperador não tinha a faculdade de
dissolver a Câmara dos Deputados, somente podendo adiá-la 263 ou prorrogá-la, nem conceder
perdão total a seus ministros, aos quaes só podia commutar a pena de morte”. 264
269
O eminente jurista Afonso Arinos toma o partido de Bonifácio, não considerando a
Constituinte a única depositária da soberania,
“visto que sua existência dependera da convocação da Coroa preexistente, que ela
reconhecera pelo simples fato de haver atendido à convocação. Sobretudo, depois de
ocorrida a independência e aclamado o imperador, a Coroa, não como pessoa, mas
como órgão, era parte da soberania do Estado”. 270
À primeira vista do citado Projeto D. Pedro não mostrou repúdio, pelo contrário,
“declarou á Assembléia que maior seria sua satisfação si o trabalho que lhe enviara ‘fosse já a
Constituição do Império, por estar intimamente convencido de que della dependem a sua
estabilidade e prosperidade geral’”. 271
Entretanto, mais uma vez D. Pedro cedia, aos poucos, à tradição monárquica, sendo
convidado a instaurar o absolutismo no Brasil recém- independente.
268
CUNHA, Pedro Octávio Carneiro da. Op. Cit.. p. 240.
269
Na obra Curso de Direito Constitucional Brasileiro, cuja 1ª edição data de 1960, Afonso Arinos entende que
no tocante à discussão sobre a soberania entre a Coroa ou a Constituinte, razão assiste a esta última,
considerando a tese sustentada pela ala conservadora, que adota o argumento histórico e não jurídico, porquanto
“juridicamente era indiscutível que, uma vez constituída a soberania em um corpo eleito, para o efeito da
estruturação do Estado, ou tal corpo prevaleceria sobre os demais poderes, ou estaria subvertido o regime
democrático”. A mudança de opinião do autor demonstra que a questão é, de fato, bastante controversa. Somos
de entendimento que, analisando o contexto histórico e ideológico da Independência e formulação da
Constituição, razão assiste a soberania da Constituinte, cuja atuação deveria ser parcialmente mitigada pela
necessidade da figura de D. Pedro na consolidação do Estado Nacional que se formava.
270
ARINOS, Afonso. Op. Cit. 1994. p.24.
271
SOUSA, Alberto. Op. Cit.. p. 781
272
ARINOS, Afonso. Op. Cit.1994. p. 24.
78
Fato é que passada a exaltação separatista o futuro imperador se viu às voltas com os
brasileiros reacionários, vindo a encontrar nos portugueses absolutistas as respostas as suas
inquietações e ambições, pendores do resquício despótico. “E assim apoiados no Imperador,
são os adversários da Independência que empolgam o poder, enquanto os ‘nativistas’ se
debatem na oposição”. 273
Desta forma, o Bragança tomou por pessoal todo e qualquer artigo escrito contra seu
governo ou sua pessoa, atribuindo tais ofensas ou aos irmãos Andrada ou a alguém por eles
influenciado, eis que dificilmente nesta época um nacional não ter sido inspirado pela família
Andradida, sendo D. Pedro conhecedor disso. A melhor forma de enfraquecer o movimento
era conspurcar contra os mentores do ideal nacionalista. Desta feita, dissolveu a Assembleia
em 12 de novembro de 1823 e cuidou ao Conselho de Estado elaborar outra Constituição,
273
JÚNIOR, Caio Prado. Op. Cit..p.53.
274
SOUSA, Alberto. Op. Cit.Vol. 2. p. 808
275
BARATA, Alexandre Mansur. Sociabilidade Maçônica e Independência do Brasil (1820-1822).
Independência no papel: a imprensa periódica. In: História e Historiografia. Org: István Jancsó. São Paulo:
Hucitec,:Fapesp,2005.p. 677.
79
“A Nobre Ordem dos Cavaleiros da Santa Cruz foi fundada por José Bonifácio de
Andrada e Silva, em 2 de junho de 1822. O cargo maior de arconte-rei foi ocupado por D.
276
Pedro e José Bonifácio, como seu lugar-tenente”. A Loja Grande Oriente do Brasil foi
fundada em 17 de junho de 1822, aclamando o nome de José Bonifácio para grão-mestre;
suspeita-se, muito mais pela sua aproximação com o regente do que necessariamente pelas
suas convicções maçônicas. Segundo relatos, foi Gonçalves Lêdo quem realmente assumiu a
grão-maestria da Loja em virtude das ausências de Bonifácio para cuidar de assuntos de
interesse do império, dado que era Ministro de D. Pedro.
Em missiva de Frei Caneca registrada por Célia de Barros Barreto, escreve o religioso
que apesar de as sociedades secretas trazerem objetivos outros, desenvolve um apostolado
282
“puramente político; porque seu fim é constituir o Império do Brasil”.
Disserta Barros Barreto que, dentre as sociedades secretas, a maçonaria era detentora
de maior prestígio, dado seu caráter cosmopolita, por ter sido importada de Portugal e
alastrado por toda a colônia. Assentava suas bases filosóficas em ideais liberais e
283
democráticos, de concepção “individualista tomada à ilustração do século XVIII” ,
manifestando-se politicamente enquanto instituição acerbamente contrária ao absolutismo e
consentâneos à defesa dos interesses da burguesia. Reputa-se à maçonaria o emblemático
lema da Revolução Francesa: Liberdade, Igualdade e Fraternidade.
“Assim, não apenas irá transformar seus membros revolucionários, mas tentará atrair
pessoas capacitadas a exercer poderes políticos. Desse modo, em nosso país, D.
Pedro I torna-se maçom, não tanto porque faça seus os ideais maçônicos, mas
porque a maçonaria interessa fazê-lo maçom”. 284
279
SALDANHA, Nelson Nogueira. Op. Cit.p.89.
280
FRANCO, Afonso Arinos de Melo. Op. Cit.1960. p. 22
281
CASTRO, Therezinha. Op. Cit.p. 67.
282
BARRETO, Célia de Barros. História Geral da Civilização Brasileira. Tomo II. Org. Sérgio Buarque de
Holanda. São Paulo: Editora Difusão Europeia do Livro, 1962. p. 193.
283
Ibid., p. 193.
284
Ibid., p. 193.
81
A historiadora entende que a maçonaria foi uma das grandes responsáveis pela
emancipação brasileira por ter servido de local onde os brasileiros discutiam a filosofia
285
iluminista, reconhecendo-se na precária condição de colônia. A dura tomada consciencial
desencadeou várias revoluções emancipadoras, tal qual a Inconfidência Mineira e a
Revolução Pernambucana de 1817 286.
José Bonifácio, por exemplo, não era defensor da linha republicana, mas sim adepto à
união dos dois reinos, conforme dito acima, reunidos sob a bandeira da monarquia moderada.
285
BARRETO, Célia de Barros. Op. Cit.. p. 198.
286
Segundo entendimento de Afonso Arinos, a Revolução de 1817 foi considerada a “primeira e violenta
manifestação externa do liberalismo e do constitucionalismo no Brasil do século XIX”, com inegável influência
maçônica e liderada por importantes nomes como José Mariano Carneiro da Cunha e Antônio Carlos Ribeiro de
Andrada e Silva. A junta revolucionária criou um governo provisório que atribuiu a este último a redação de
projeto de Constituição da província pernambucana, com bases republicanas. In: FRANCO, Afonso Arinos de
Melo. Op. Cit.1960.p 23.
287
Referido Decreto foi objeto de discussão na Constituinte de 1823, sendo revogado na sessão do dia 20 de
maio. O deputado Moniz Tavares chega a fazer comentários que a determinação do fechamento das sociedades
secretas, violento ato tirânico, seria o mesmo que permitir a abominável escravidão do povo. In: Annaes do
Parlamento Brazileiro – Assembleia Constituinte de 1823 – Tomo Primeiro. Rio de Janeiro:Typographia de
Hyppolito José Pinto & Cia, 1876. p. 62.
288
BARRETO, Célia de Barros. op. cit., p. 204.
82
289
A atuação de Gonçalves Lêdo foi bem sucedida, fazendo com que D. Pedro fosse aclamado, por aceitação
popular, elevando-o ao título de Defensor do Brasil. Apesar de republicano convicto, foi uma das figuras mais
ativas no governo de D. Pedro, substituindo José Bonifácio na função de consultor do Monarca.
290
Tal situação corrobora o pensamento de Rousseau de que “o corpo político do homem começa a morrer desde
o nascimento e traz em si mesmo as causas de sua destruição”. No presente caso a disparidade de visões sobre o
rumo que deveria tomar o Brasil acabou por enfraquecer os nacionais constituintes, que pensaram em atender aos
interesses pessoais de cobiça e descuidaram das pretensões da nação. ROUSSEAU, Jean Jacques. Op. Cit.p. 81.
291
BARRETO, Célia de Barros Op. Cit.. p. 205.
83
A Inconfidência Mineira foi escrita pela população do Estado de Minas Gerais que
estudou em Coimbra e tinha contato com mentes ilustradas norte-americanas, inglesas e
francesas. O apogeu da exploração aurífera teve início no final do século XVIII, causando
grande imigração para a região. Esse desequilíbrio demográfico teve suas repercussões tanto
em Portugal quanto no Brasil, pois o êxodo da população metropolitana para as minas
auríferas brasileiras causou recrudescimento à economia portuguesa e desenvolvimento da
economia interna, ainda que incipiente. Surgiu, assim, a necessidade de regulamentação da
atividade, culminando com o Código Mineiro. Referido diploma legal permitia a livre
292
Para maiores esclarecimentos sobre o sentido da palavra Revolução e sua evolução ao longo dos séculos, vide
COMPARATO, Fábio Konder. A afirmação histórica dos direitos humanos. São Paulo: Saraiva, 2004.p. 124-
128.
293
COSTA, Emília Viotti da. Da monarquia à República: momentos decisivos. São Paulo:Unesp,2007.p.32
294
FAUSTO, Boris. História do Brasil. São Paulo: Editora da USP, 2006.p.114. Boris Fausto não considera os
movimentos revolucionários como levantes nacionais dado o cunho iminentemente regionalista, mas demonstra
os principais focos de insurreição contra a Coroa e a repercussão do liberalismo internamente.
84
extração do ouro, desde que pagassem à Coroa a quinta parte de todo produto retirado. Cabe
lembrar que a circulação do metal precioso somente era permitida em barra, mediante
chancela real dada pelas casas de fundição.
A principal preocupação portuguesa nessa região era a tributação, motivo pelo qual
criou-se o cargo do Provedor, específico para a fiscalização das jazidas e consequente
cobrança do quinto. O declínio na produção aurífera fez com que a Metrópole desenvolvesse
formas cada vez mais acirradas na cobrança dos impostos. À exceção de Tiradentes, o
movimento foi coordenado pela elite local, “formado por mineradores, fazendeiros, padres
295
envolvidos em negócios, funcionários, advogados de prestígio e uma alta patente militar” ,
todos preteridos pelo novo governo local português e os maiores devedores do Quinto.
O movimento tinha por objetivo proclamar uma República nos moldes dos Estados
Unidos, determinar o fim da escravidão – embora não fosse unânime entre os rebeldes – e
incentivar a indústria local. A intensidade com que foi desmantelado e reprimido demonstrou
toda a força bélica portuguesa, coibindo futuras pretensões no mesmo sentido. Entretanto,
nem mesmo o fim trágico foi capaz de sufocar a ideia. Tiradentes virou um mito e um herói
nacional, propagando a causa pelo qual morrera. A Revolta explica o motivo da pouca
simpatia que os mineiros tinham, em um primeiro momento, com a família Bragança e a
monarquia, uma vez que a responsável pela condenação dos inconfidentes foi a rainha Dona
Maria.
cenário da iminente Insurreição, banhada pela tradicional rixa entre colonos brasileiros e
portugueses e inspirada no movimento constitucionalista estadunidense. Nomes como o de
Domingos José Martins e Antônio Carlos Ribeiro de Andrada fulguraram como mentores da
ideologia duramente reprimida. 298
certo que a população temia uma revolta dos escravos e dos pretos livres, já em número bem
superior aos brancos. Assim, sempre foram alijados dos processos democráticos, embora
claramente tenham participado de alguns contextos revolucionários, entretanto
301
COSTA, Emília Viotti da. Op. Cit..p.33.
302
Oliveira Vianna assevera que o sentimento do Estado Nacional é a “consciência, em cada cidadão do povo-
massa, de um destino ou de uma finalidade nacional ao mecanismo do governo e da administração centrais”,
inibindo os particularismos e desenvolvendo o interesse na coletividade e na compreensão do bem comum.
Tomaremos essa definição do autor como premissa maior do presente capítulo, pois a maior parte das discussões
e pensamentos aqui aventados retratarão essa condição de compreensão, ou seja, de consciência formada de
cidadão integrante de uma sociedade, sujeito de deveres e de direitos civis, construindo um Estado livre.
VIANNA, Oliveira. Instituições Políticas brasileiras: Fundamentos sociais do Estado vol.1.Rio de Janeiro:
Record, 1974.p. 161.
303
LIMA, Oliveira. Formação Histórica da Nacionalidade Brasileira. 2ª edição. Rio de Janeiro: Topbooks,
1997. p. 151.
304
LIMA, Oliveira. Op. Cit. p. 38-39
87
De natureza física frágil, não se acostumou o índio ao trabalho mais pesado nos
engenhos de açúcar, levando, desta feita, à utilização da mão - de - obra negra, intensificando
o tráfico de africano.
A tal condição arremata Bonifácio: “Brasileiro é para mim todo o homem que segue a
nossa causa, todo o que jurou a nossa independência”. 307
Na prática, o desenvolvimento dessas ideias não era tão simplista quanto parecia no
discurso. Ver-se-á que a “noção de igualdade político-social entre os homens não se colocava
305 Menção à frase do poeta João Guimarães Rosa: “Minas Gerais é muitas”. Extraído do texto “Aí está
Minas: a mineiridade”, publicado na Revista O Cruzeiro em 25 de agosto de 1957. Fonte:
http://www.jornalopcao.com.br/posts/opcao-cultural/ai-esta-minas-a-mineiridade. Consultado em 18 de
abril de 2013.
306
MATTOS, Ilmar Rohloff. Construtores e Herdeiros: A trama dos interesses na construção da unidade
política. In: História e Historiografia. Org: István Jancsó. São Paulo: Hucitec: Fapesp,2005.p. 282. O autor ainda
faz expressa menção ao periódico de Hipólito José da Costa - Correio Braziliense – destinado àqueles naturais do
Brasil.
307
NOGUEIRA, Octaciano. Obra Política de José Bonifácio. Brasília: Senado Federal, 1973.p. 86.
88
308
como ponto de partida ideológico para a formação” da sociedade brasileira. Nesse sentido
a Constituição de 1824 não chega a ser contraditória, mas sim “paradigmática" 309 se a
percebermos que foi projetada considerando uma realidade escravista da época, cujo
liberalismo necessitava se assentar.
A Constituição não foi pródiga na garantia dos direitos políticos à maior parte da
população. O critério diferencial pairava entre nacionalidade e cidadania, pois todos os
nacionais eram detentores de direitos civis, mas apenas alguns faziam jus ao exercício dos
direitos políticos, lembrando-nos a cidadania ativa e passiva de Sieyès. Em suma, o termo
“cidadão” serviu para apresentar a igualdade jurídica, permitindo a desigualdade política,
conforme evidenciado mais adiante quando das discussões sobre o assunto, na Constituinte.
308
SLEMIAN, Andréa. Seriam todos cidadãos? Os impasses na construção da cidadania nos primórdios do
constitucionalismo no Brasil (1823-1824). In: História e Historiografia. Org: István Jancsó. São Paulo:
Hucitec,:Fapesp,2005.p. 830.
309
SLEMIAN, Andrea. Op. Cit..p. 831.
310
Ibid., p. 840.
311
CASTRO, Therezinha. Op. Cit.1984. p. 12.
89
Esse entendimento propagado ao longo dos anos explica a força individual das
Províncias e a dificuldade de criar um sentimento de nação. Cada qual desejava reger-se sob
o guante das suas próprias leis, haja vista o distanciamento fiscalizador da metrópole. Esse
quadro era estimulado pelo descaso da Coroa com a situação interna da sua colônia
americana, desde que esta atendesse aos anseios econômicos.
312
SOUSA, Alberto. Op. Cit.Vol. 1. p. 45.
313
IGLÉSIAS, Francisco. Momentos Democráticos na Trajetória Brasileira. In: Brasil, sociedade
democrática. Org. Afonso Arinos de Melo Franco. Rio de Janeiro: José Olympio, 1985.p.134.
314
Ibid., p. 23.
90
315
VIANNA, Oliveira. Op. Cit.p. 154.
316
SILVA, José Bonifácio de. Op. Cit.. p.21
317
Ibid., p.184.
318
CASTRO, Therezinha. Op. Cit.1984. p. 23
91
Vimos que a organização nacional se deu mais por receio do absolutismo e medo do
desmembramento do que, necessariamente, por ideal. As Províncias, vencendo o momento
322
de “fragilidade regional” , se uniram abrindo mão da sua personalidade em prol da
liberdade.323 Entretanto, como bem apontado por Oliveira Lima 324, não basta a liberdade
civil, devendo se buscar a liberdade política. O ministro santista almejava a liberdade
política para o Brasil, ao mesmo tempo em que pugnava pela liberdade civil dos negros e
319
BARRETTO, Vicente. Op. Cit.p. 105.
320
SILVA, José Bonifácio de. Op. Cit.. p.22
321
Ibid., p.22
322
GOMES, Laurentino. 1822: Como um homem sábio, uma princesa triste e um escocês louco por dinheiro
ajudaram D. Pedro a criar o Brasil – um país que tinha tudo para dar errado. Rio de Janeiro: Nova
Fronteira, 2010. p.63
323
O relacionamento entre as Províncias era situação bastante delicada no processo da independência. Algumas
consideravam dever obediência à D. Pedro, outras à Corte Portuguesa. Existia grande divergência interna,
inclusive sobre a importância do papel que cada uma exercia no Império, haja vista que Minas Gerais, Rio de
Janeiro e São Paulo, em virtude da proximidade com a sede da Administração, exerciam função de destaque e
gozavam de privilégios que as mais afastadas não possuíam. . Já as Províncias da Bahia, Maranhão, Piauí, Pará e
Amazonas eram as principais dissidentes. Soma-se a essa situação as Rebeliões em Minas Gerais e São Paulo no
período pré – independência demonstrando a vulnerabilidade da unidade do país. A solução para a
independência estava umbilicalmente ligada ao bom relacionamento entre elas e com D. Pedro.
324
LIMA, Oliveira. Op. Cit.p. 136.
92
indígenas escravizados, como um primeiro passo à autonomia política que eles ainda não
possuíam.
Dissemos anteriormente que a unificação nacional proposta pelo velho Andrada tinha
por alicerce uma monarquia com traços federalistas como forma de minorar as diferenças e
325
criar uma identidade nacional . A Coroa se posicionaria acima de partidos políticos e
particularidades, representando o símbolo da unidade e contemporizando todas as forças
326
políticas, capazes de abrigar as opiniões . Neste contexto, iniciou a estruturação da nova
327
nação soberana, criando o Conselho de Estado que reunia procuradores das Províncias,
cujos pareceres seriam emitidos apenas quando provocados, sobre “os mais importantes
negócios gerais do Estado. Podiam, no entanto, propor, discutir e deliberar sobre os assuntos
mais interessantes de suas províncias, formando projetos peculiares e acomodados às suas
localidades e urgências”. 328
325
A definição de como o Brasil seria governado recheou as atas das sessões da Constituinte, cindindo-a entre
unitaristas e federalistas, fazendo parte de mais um capítulo da difícil convivência entre monarquistas e
republicanos. Apesar de a monarquia ser maioria nos assentos da assembleia, os republicanos tentavam garantir
maior autonomia às províncias por intermédio de uma monarquia federalista, argumentando não ser contrário ao
pacto social, tampouco à unidade almejada. Acreditava-se que mencionado regime contradizia-se ao sentido de
unidade que a Assembleia gostaria de passar com a redação do projeto, além de estar afeto à forma de governo
republicana. Interessantes apontamentos foram apresentados na sessão legislativa do dia 17 de setembro de 1823
e, apesar de no fim não considerarem a forma federativa de Estado, vários poderes e forças foram concedidos às
províncias. Ilustramos a contenda com trechos dos depoimentos dos deputados Carvalho e Mello e Carneiro da
Cunha, este federalista, utilizando a tônica do que seria o melhor para o país, aquele monarquista, defendendo o
manto da legitimidade da ação em vista dos poderes dos mandatos que lhes foram confiados. “(...) Como
havemos fazer uma nova forma de governo, se já está decretada pela unanime voz da nação a monarchico
constitucional? Isto seria atacar os direitos políticos da mesma nação. Nenhum de nós pode querer outro systema
de governo, e se o ousássemos fazer, faltaríamos á fé dos nossos juramentos, que excluem uniões federativas:
faltaríamos aos nossos deveres sagrados: e faltaríamos ao direito que temos pelas procurações dos nossos
constituintes”. Carneiro da Cunha rebateu ao argumento dizendo que “a palavra federativamente não vai de
encontro ao artigo vencido sobre a indivisibilidade; e antes de se lhe dar tanto peso, e ser tomada em um sentido
oposto, conviria primeiro ouvir as razões e os princípios em que se fundava o seu nobre autor. (...) Não se pode
argumentar com o exemplo de outros estados a respeito do Brazil; a sua vastidão, e mesmo a grandeza de cada
uma de suas províncias, que augmentando progressivamente, brevemente cada uma se tornará uma potencia, não
pode fugir das vistas daqueles que fazendo a constituição de tão rico Império, não attendem somente ao que
convém de presente, porém desejão prevenir males para o futuro; e por isto talvez, que o honrado membro se
lembrasse de uma federação, que, em nada se opondo ao systema adoptado, fosse o vinculo mais forte da união
eterna das províncias com o todo do Império”. Annaes do Parlamento Brazileiro – Assembleia Constituinte
de 1823 – Tomo Quarto. Rio de Janeiro:Typographia de Hyppolito José Pinto & Cia, 1876. p. 56.
326
MONTEIRO, Tobias. História do Império- a elaboração da Independência. Rio de Janeiro: F. Briguiet e
Cia. 1927.p. 725.
327
Quando da elaboração da Constituição de 1824 o Conselho de Estado passou a exercer a função de guardião
da Constituição.
328
CASTRO, Therezinha. Op. Cit.p. 86
93
329
princípio unionista” . E quem há de dizer que sua prudência não o levou a agir com
maestria, aproveitando o que cada sistema possuía de melhor.
“o Brasil não estava preparado para ser uma democracia de base nacional, nem
mesmo para uma democracia de base provincial. Quando muito podia ser uma
coleção de pequenas democracias municipais ou Estados – comunas e assim mesmo
tendo para governá-los uma aristocracia que possuía, ainda assim, apenas uma
mentalidade de feudo - e não de comunidade” 330
Pode ser que o autor tenha exagerado em sua análise, entretanto, forçoso reconhecer
que o país não estava pronto para a democracia popular, porquanto inexistente a consciência
de interesse público municipal ou nacional hábil a formar a mentalidade daqueles que
poderiam votar.
329
CASTRO, Therezinha. op. cit., p. 86.
330
VIANNA, Oliveira. Op. Cit..p.300.
94
Brasileira, esta assim compreendida como ente que abriga cidadãos dotados de consciência e
políticas nacionais representativas das necessidades e aspirações da coletividade. Cabe
ponderar se o Brasil conseguiu definir qual o seu papel na história, sua finalidade, definindo
seu destino por intermédio de uma política nacional clara. A essas reflexões Oliveira
Vianna331 responde que esse sentimento, ou consciência nacional, ou sentimento
institucional ou mística nacional jamais existiu no brasileiro. Retrata que os povos do Japão,
Alemanha, Inglaterra e Estados Unidos possuem a íntima satisfação e o orgulho de
pertencerem às respectivas nações, cujos interesses elevam-se, até mesmo, aos pessoais.
331
VIANNA, Oliveira. Instituições Políticas brasileiras: Fundamentos sociais do Estado vol.1.Rio de
Janeiro: Record, 1974.p.314-317.
95
José Bonifácio de Andrada e Silva nasceu na cidade de Santos, São Paulo, em 1763.
Em 1783 foi estudar em Coimbra, nas faculdades de Direito e de Filosofia. Dado o seu
brilhantismo, foi admitido à Academia de Ciências de Lisboa em 1789, tornando-se Secretário
Perpétuo desta instituição em 1812. Em 1789 foi para a França estudar mineralogia, o que
rendeu o conhecimento da ilustração francesa e o exercício, posteriormente, de diversos
cargos públicos em Portugal
332
COELHO, Latino. Elogio histórico de José Bonifácio de Andrada e Silva, lido na Sessão pública da
Academia Real das Ciências de Lisboa, em 15 de maio de 1877. Apud CASTRO, Therezinha. José Bonifácio e
a Unidade Nacional. Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército, 1984. p. 43-44.
333
BARRETTO, Vicente. Op. Cit.p.12.
334
SOUSA, Alberto. Op. Cit.Vol. 1. p. 340.
96
335
concretizar no Brasil o sonho de um país europeu na América” apesar das diferenças e
especificidades locais que soube respeitar.
Apesar de inconteste sua relevância no contexto Brasileiro, diverge-se muito sobre seu
caráter, encontrando historiadores que o consideram herói, outros, vilão da Independência.
Sérgio Buarque de Holanda, por exemplo, descreve-o como uma personalidade atávica apesar
de possuir pensamentos à frente de sua época, exercendo sobre D. Pedro influência “quase
337
sempre negativa ou de retardamento”. Chega mesmo a aponta-lo como um dos maiores
responsáveis pelo imenso poder do Imperador que, distorcendo-o, utilizou-o arbitrariamente.
Nelson Saldanha, aproveitando os dois lados da moeda de Bonifácio, o aponta, ante a história,
como homem de dois aspectos: “por um lado, oportuno criador de resultados políticos, por
outro contraditório e egocêntrico”. 338
Baptista Pereira, por sua vez, não deixa de ressaltar, nesta passagem, o brilhantismo e
o caráter oportunista do ministro de D. Pedro:
Esse descompasso de opiniões que pesa sobre o ministro santista não macula sua obra
nem a decisiva e positiva influência exercida sobre os acontecimentos políticos brasileiros
ligados à Independência e ao período imperial. Podemos ponderar, talvez, que a ânsia de um
país livre e soberano em toda a sua amplitude e dentro do contexto que o circundava, muitas
335
SILVA, José Bonifácio de. Op. Cit. p.13.
336
BARRETTO, Vicente. Op. Cit.p. 13
337
HOLANDA. Sérgio Buarque, de. Op. Cit. p. 167.
338
SALDANHA, Nelson Nogueira. História das ideias políticas do Brasil. Brasília: Senado Federal, 1933.
p.98.
339
PEREIRA, Baptista. Figuras do Império e outros ensaios. Brasília: Editora Nacional, 1975. p.25
97
vezes pode ter obnubilado a razão do estadista, mormente sobre o caráter dúbio de D. Pedro,
considerando-o mais tacanho e frívolo do que realmente era.
Peculiar característica lhe animava a alma, que era o desprezo por padres, inquisidores
e desembargadores, afirmando que os males existentes em Portugal eram decorrentes das leis
por eles formuladas. Aproximava-se, aqui, do pensamento pombalino. Seu amor e devoção à
pátria lusitana chegaram a ponto de alistar-se ao batalhão português na luta contra as tropas
napoleônicas.
Por obviedade e justeza de caráter, tal qual Saulo de Tarso quando da sua conversão na
340
estrada de Damasco, utilizou-se de toda a sua férrea identificação nacional e destreza
política para defender o Brasil e seus interesses autonômicos.
341
Seu “gênio poético” traduziu, por diversas vezes, “o culto da liberdade e o amor à
Pátria” 342.
340
“Disse-lhe, porém, o Senhor: Vai, porque este é para mim um vaso escolhido para levar o meu nome diante
dos gentios, e dos reis, e dos filhos de Israel. E eu lhe mostrarei quanto deve padecer pelo meu nome". Bíblia
Sagrada. (At. 9, vv 15 e 16)
341
SOUSA, Alberto. Op. Cit.vol. 1. p. 371.
342
Ibid., p. 374.
343
BARRETTO, Vicente. Op. Cit.p. 45
344
FAORO, Raymundo. Os donos do poder: formação do patronato político Brasileiro. vol 1. Porto Alegre:
Editora Globo, 1975.p.272.
98
345
COSTA, Pedro Pereira da Silva. A vida dos grandes brasileiros. D. Pedro. vl. 9. São Paulo: Editora Três,
1974.p. 109
346
Não concordamos com a opinião do autor, eis que a maior parte dos escritos históricos revela a clara intenção
de Bonifácio em participar ativamente da política, ainda sob o manto de D. João VI. Mais consentâneo ao nosso
entendimento estão as argumentações de Luiz Vianna Filho, descrevendo o patriarca como um homem cujas
virtudes e personalidade colocaram-no, oportunamente, no contexto da Independência. FILHO, Luiz Vianna e
outros. A inteligência multiforme de José Bonifácio. Brasília: Instituto Nacional do Livro, 1974.20
347
SILVA, Ana Rosa Cloclet da. Op. Cit.2006.p.345.
348
Ibid., p.338-344
349
Apesar dessa postura inicial Bonifácio, por ser contrário tanto ao republicanismo quanto ao absolutismo,
realizou inúmeras prisões, acirrando o policiamento e a violenta repressão e angariando, desta forma, inúmeros
inimigos. Luiz Vianna Filho defende que talvez sua baixa e frágil estatura tenha-no feito agressivo, combativo,
capaz de enfrentar a todos que interceptavam seu caminho ou pudessem de alguma forma embaraçar o
desenvolvimento de suas ideias. FILHO, Luiz Vianna e outros. op. cit., p.20 A desconfiança quanto aos
movimentos democráticos veio das impressões das sangrentas batalhas da Revolução Francesa e dos quadros das
Revoluções da América Latina. “Sonhava com um governo apoiado nas camadas conservadoras, nem
democrático nem absolutista, controlado por um dispositivo constitucional e parlamentar: uma monarquia
constitucional representativa com exclusão do voto popular”. COSTA, Emília Viotti da. Op. Cit. 2007.p79.
99
ao apoio à Inquisição, mas exaltou a nova estruturação dos estudos, de forma a fazer do
Estado a força propulsora do progresso nacional.
Afonso Arinos, por sua vez, avalia Bonifácio como um excelente estadista, capaz de
suprir suas deficiências em assuntos de Direito Constitucional, ponderando ter ele apresentado
“escassas e secas” 353 contribuições à formulação do Projeto de 23.
Cloclet aponta como ideias de Bonifácio para Brasil, desde 1808, a criação de
executivos locais, com legislação específica das particularidades de cada província, a escolha
de Ministros probos e hábeis no aconselhamento, a adoção de medidas aptas a compatibilizar
350
SILVA, Ana Rosa Cloclet da. Op. Cit. 2006.p.362.
351
FILHO, Luiz Vianna e outros. Op. Cit.p.21.
352
OLIVEIRA, José Feliciano. José Bonifácio e a Intendência: o homem do fico e o verdadeiro patriarca.
São Paulo: Martins, 1964.p. 283-288) O autor considera a participação de Bonifácio tão relevante que atribuiu
dois dos capítulos da sua obra o subtítulo “O Fico é Paulista, e é de José Bonifácio; e foi a Independência”
353
FRANCO, Afonso Arinos de Melo. Op. Cit.1960, p.50.
100
Com o passar do tempo, Bonifácio foi perdendo força entre seus antigos defensores.
Pugnava a liberdade de culto e o voto feminino, abominava os títulos da nobreza, a república
e a escravidão. Desagradava, assim, o clero, os conservadores, os latifundiários e os
comerciantes de escravos. Tinha interesse em implantar no Brasil o modelo de economia
europeia assentada na mão-de-obra livre, na colonização das terras pelos imigrantes, na
distribuição de terras e na mecanização da lavoura. Evidente que os interesses de Bonifácio
estavam expressamente contrários àqueles esposados por quem assumiu a liderança da
Independência, vez que estavam focados no desenvolvimento do país.
354
SILVA, Ana Rosa Cloclet da. Op. Cit.2006.p.367.
355
CARNEIRO, David. A vida gloriosa de José Bonifácio de Andrada e Silva e sua atuação na
Independência. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1977.p. 291.
101
A base liberal do Andrada não se confundia com o anti- absolutismo francês, mas
tomou o desenho de criação do poder nacional do qual já dissertamos anteriormente,
inflamado por Constant, efetivado por uma elite distante da populaça anárquica e desenfreada.
Em caráter complementar fomos mais além, asseverando que o decurso dos fatos
transformou-o em um monarquista parlamentarista, como governo de transição ao
republicanismo quando em fase mais madura.
356
BARRETO, Vicente. Op. Cit. p. 124.
102
Bonifácio era um legalista nato, defendendo as bases de uma sociedade dentro dos
ditames estabelecidos na legislação, aos moldes de Montesquieu, acreditando que a atuação
estatal podia imiscuir-se com a realidade social, adaptando-se a ela ao mesmo tempo em que a
transformava. A influência empírica do Andrada, dado o cientificismo que norteou sua
carreira intelectual inicial, acompanhou-o por toda a seara política.
357
SILVA, José Bonifácio de. Op. Cit.. p.170.
358
ASSIS, Machado. O alienista. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994. p. 40.
103
Nesse contexto exposto, resumiu seu plano de atuação na edificação do Estado sob a
forma de monarquia constitucional, cujos moldes encontram-se positivados nas Instruções de
1822 e estruturados no Projeto elaborado pela Constituinte de 1823. O comando seria
exercido por uma elite ilustrada organizada em torno de um parlamento. Pugnava pela
359
libertação gradual dos escravos, “com mecanismo de suporte social para os negros” ¸
conforme se verá adiante, bem como políticas de inclusão dos índios, principalmente por meio
360
da miscigenação, buscando a consagração da “homogeneidade cultural” , utilizando a raça
branca como meio de se atingir a civilização.
“Isso porque, além de ser condição para a imposição do Estado a todo o território, o
era também para superar os entraves ao desenvolvimento da indústria e da
agricultura, e, principalmente, para a integração à sociedade de índios e negros
libertos o que só seria possível se conferidos a eles meios de sobrevivência,
tornando-os pequenos proprietários” 361.
359
SILVA, José Bonifácio de. Op. Cit.. p.23
360
Ibid. p.23
361
Ibid. p.27.
362
Ibid., p.154
104
Acreditava que as reformas, apesar de necessárias, deveriam ser feitas com cautela,
sem aspirações, observando os passos da natureza. Dizia que “nas reformas deve haver muita
prudência: conhecer o verdadeiro estado dos tempos, o que estes sofrem que se reforme e o
363
Ibid., p.179.
364
Ibid., p.175.
365
SILVA, José Bonifácio de. Op. Cit. p.175
105
que deve ficar do antigo. Nada se deve fazer aos saltos, mas tudo por graus, como obra da
natureza”. 366
Seu pioneirismo pode ser constatado nos assuntos que trazia à consideração do Estado
no início do século XIX e que tem repercussão e relevância até os dias de hoje. Exemplifica-
se com a obrigatoriedade de o Estado promover educação de base para todo cidadão, reforma
agrária, inclusão social e cidadania.
366
Ibid., p.175
367
Ibid., p.188.
368
RICOUER, Paul. As culturas e o tempo. Tradução Gentil Titton.Petrópolis: Vozes, 1975.p.15
106
369
unidade e o desenvolvimento nacional . Tanto índios como escravos exerciam papel
dificultador na estruturação e crescimento do país por se encontrarem na barbárie
civilizacional e em estado de selvageria.
370
Do ponto de vista do estadista, a raça indígena era vagabunda, preguiçosa ,
belicosa371, promíscua, irracional 372, melancólica, apática 373
, dada a roubos e destituída de
freios religiosos ou civis capazes de coibirem as vis paixões que possuíam ou de conseguirem
subjuga-los à lei 374. Lado outro, apontava a parcela de responsabilidade da sociedade por não
dar o suporte necessário aos índios, tratando-os mal, explorando-os e transmitindo os vícios e
moléstias ao invés de propagar as virtudes que o contato com a civilização poderia
apresentar375.
369
Nos dizeres de Bonifácio “O governo do Brasil tem a sagrada obrigação de instruir, emancipar, e fazer dos
índios e brasileiros uma só nação homogênea, e igualmente feliz”. SILVA, José Bonifácio de. Op. Cit.. p.147.
370
Justificava a preguiça do índio em virtude das inexpressivas necessidades que possuíam, já que eram raça
simples e sem ambição ou frivolidades da sociedade, sobrevivendo da agricultura de subsistência, em uma terra
abundante de recursos naturais. “Demais uma razão sem exercício, e pela maior parte já corrompida por
costumes, e usos brutais, além de apático, o devem também fazer estúpido. Tudo o que não interessa
imediatamente à sua conservação física, e seus poucos prazeres grosseiros, escapa à sua atenção, ou lhe é
indiferente”. SILVA, José Bonifácio de. op. cit., p.92.
371
Explica o sentimento constante de guerrilha na inevitável necessidade de sobrevivência, na disputa pela força
bruta, despertando ódios e sentimentos de vingança.
372
A ausência de civilidade ou sequer de uma sociedade política organizada, colocava o índio em situação quase
animalesca, cuja razão embrionária muito se aproxima do “instinto dos brutos”. SILVA, José Bonifácio de. Op.
Cit.. p.93.
373
Ibid., p.126
374
Ibid., p.90.
375
Sobre o tratamento vil concedido aos índios escreveu: “Segundo nossas leis os índios devem gozar dos
privilégios da raça branca: mas este benefício é ilusório; a pobreza em que se acham, a ignorância por falta de
educação e as vexações dos diretores e capitães – mores os tornam abjetos e mais desprezíveis que os mulatos
forros”. SILVA, José Bonifácio de. Op. Cit.p.126.
376
Ibid., p.109.
377
O temor indígena contra os portugueses era plenamente justificável. Conta Bonifácio que, segundo
informações do Padre Vieira, em aproximadamente trinta anos foram mortos mais de dois milhões de índios. A
catequização dos Jesuítas também foi um implicador no isolamento dos silvícolas, uma vez que promoviam
aldeamentos preservando as matrizes culturais. Ibid., p.98
378
Ibid., p.96.
107
Ponderava que a catequização dos índios bravos era assunto de sumo interesse do
Estado, porquanto permitia o desenvolvimento nacional por meio da agricultura e da pecuária
ao mesmo tempo em que moralizava a raça por meio de uma educação cristã.
379
A aversão de Bonifácio aos eclesiásticos e sua atuação em questões de estado era manifesta. Acusava-os de
atávicos por não desejarem mudanças, falando dos horrores que as revoluções poderiam causar. Rebatendo esse
argumento, escreveu o ministro o antagonismo da questão dizendo que “os horrores das revoluções talvez sejam
menores que os da matança de São Bartolomeu; e todavia esta matança não acabou com o catolicismo; e por que
quererão acabar hoje com as verdades que patenteou e inculcou a Revolução francesa?”. SILVA, José Bonifácio
de. Apontamentos para a civilização dos índios bravos do Império do Brasil. In: Projetos para o Brasil.
Organização: Miriam Dolhnikoff, São Paulo: Companhia das Letras, 1998. p.197.
380
Ponderava a facilidade do indígena em aceitar os assuntos pertinentes à fé por serem destituídos de lei ou
culto, não necessitando modificar nenhum entendimento nesse sentido, aceitando de boa vontade as questões de
ordem religiosa. Ibid., p.141.
381
Vale observar que o tratamento conferido ao índio era bem mais brando e cuidadoso àquele dado ao negro.
Compreendia-se com mais facilidade sua fragilidade e dificuldade de adaptação com os trabalhos pesados da
lavoura e da agricultura, rogando “paciência e contemplação” para com eles. Ibid., p.111.
382
Não estimulava o matrimônio entre índios e negros, por considerar que o mestiço entre aqueles e os mulatos
produziam raças melhores, mais laboriosas e fortes.
108
Unidade nacional e civilização dos índios são assuntos que se entrecortam, pois
esbarram na política inclusiva de Bonifácio. Esta, por sua vez, com relação aos índios foi, por
várias vezes, demasiado invasiva, desrespeitando a autonomia e costume da raça. Pregava o
banimento da “língua da terra” 384 sob o argumento de a portuguesa “acabar com a separação
385
e isolamento” ; tomava por preguiça e indolência o cultivo para simples subsistência, não
os compreendendo como uma civilização nascente, destituída ambições.
389
Ibid., p.112.
384
Ibid., p.128.
385
Ibid., p.128.
386
SILVA, José Bonifácio de. Representação à Assembleia sobre a escravatura. In: Projetos para o Brasil.
Organização: Miriam Dolhnikoff, São Paulo: Companhia das Letras, 1998. p.47.
109
387
MARQUESE, Rafael de Bivar. Escravismo e Independência: A ideologia da escravidão no Brasil, em
Cuba e nos Estados Unidos nas décadas de 1810 e 1820. In: História e Historiografia. Org: István Jancsó. São
Paulo: Hucitec. Fapesp, 2005.p. 812.
388
CASTRO, Flávia Lages de. Op. Cit..p.387.
110
bárbaro e hostil que viviam. Acreditava-se, dessa forma, estar prestando grande serviço
389
humanitário. Vale ressaltar que essa justificativa também está inserida na fala de
Bonifácio.
Entretanto, o que antes se revestia de certo caráter sensível, logo se tornou motivo de
cobiça mercantilista por intermédio do comércio, fazendo do negro objeto de mercancia. A
crueldade na captura dos africanos despertou o repúdio da Igreja que, por intermédio do Papa
Pio II, censurou o tráfico e a escravização, em Bula datada de 07 de outubro de 1462. 390
Sua condição social era precária, considerando-os como uma mera máquina laboral,
sem direito a instrução. “Todos os direitos lhes erão negados. Todos os sentimentos, ainda os
de familia. Erão reduzidos á condição de cousa, como os irracionaes, aos quaes erão
392
equiparados, salvas certas excepções ” . Eram economicamente mais viáveis, eis que lhes
eram concedidos alimentos apenas o estritamente necessário à subsistência, vestuários
grosseiros e senzalas como moradias rústicas.
389
Condorcet refuta tais argumentações esclarecendo que essa assertiva jamais foi comprovada por quem não
tivesse interesse na comercialização dos negros. Aduz que ainda se considerando estar-se, de fato, retirando-os
da morte ou do cativeiro, jamais teriam o direito de comprar ou vender, uma vez que essa prática sempre será
criminosa. Acrescenta que a prática mercantilista insufla as guerras internas no continente africano.
CONDORCET. A escravidão dos negros. Tradução Aarão Reis. Rio de Janeiro: Typographia de Serafim José
Alves. 1881.p. 25-29.
390
Perdigão Malheiro apresenta diversas Bulas Papais contrárias à escravidão, tal qual a exarada por Urbano
VIII, em 22 de abril de 1639; por Benedito XIV, em 1741; Pio VII, em 1814 e Gregório XVI em 1839.
MALHEIRO, Agostinho Marques Perdigão. A escravidão no Brasil: ensaio histórico- jurídico – social. Parte
3. Africanos. Rio de Janeiro: Typographia Nacional, 1867.p. 3.
391
PARRON, Tamires. Cartas a favor da Escravidão. São Paulo: Hedra, 2008. p. 22
392
MALHEIRO, Agostinho Marques Perdigão. Op. Cit..p.7.
111
Somos condicionados a pensar que o negro era totalmente permissivo à condição que
lhe era imposta. Chalhub, por sua vez, desmistifica esse raciocínio, apresentando uma raça
que lutava pelas suas liberdades, dentro dos limites de que dispunham, o que pode ser também
comprovado pela participação que tiveram nos movimentos emancipatórios, conforme acima
narrado.
“Nesse viés”, ao tratar da história de vários escravos, fruto da sua extensa pesquisa
em processos judiciais na Comarca do Rio de Janeiro, encontra fortes indícios de
revolta quanto à aceitação mansa e pacífica dos escravos negros sobre a condição
social e política que lhes era imposta. Apresenta como ponto de partida a indignação
quanto à violência física sofrida e seu processo de compra e venda que não
respeitava sequer os laços sanguíneos e os de afeto; eram tratados como mero objeto
de mercadoria, tal qual um animal. Todavia, possuíam a concepção própria de um
“cativeiro justo, ou pelo menos, tolerável: suas relações afetivas mereciam algum
tipo de consideração; os castigos físicos precisavam ser moderados e aplicados por
motivo justo”. 395
393
MACIEIRA, Anselmo. Constituição de 1824 – um fato na História do Brasil. In: Revista de Informação
Legislativa: abril-junho, 1976. p.145-167.
394
WOLKMER, Antônio Carlos. Direito e humanismo na América Latina. In: As interfaces do humanismo
latino. Org: Luiz Carlos Bombassaro; Arno Dal Ri; Jayme Pavini. Porto Alegre: EdiPuc, Rio Grande do Sul,
2004.p.114.
395
CHALHOUB, Sidney. Visões da liberdade: uma história das últimas décadas da escravidão na Corte. São
Paulo: Companhia das Letras, 2011. p. 12. É interessante notar que a historiografia tradicional muitas vezes toma
o sistema econômico e as relações de trabalho brasileiros do período colonial como um modelo paralelo ao
feudalismo europeu. Contrariando este movimento, uma corrente mais realista, representada por Nelson Sodré,
refuta a comparação, reconhecendo o inegável caráter da sociedade escravagista colonial que se manteria durante
o Império. A despeito disso, admite que a legislação tivesse conteúdo feudal e que as práticas políticas e
econômicas também remetiam a este sistema.
112
396
Ibid., p.41
397
O trecho destacado faz parte do artigo “Entre bandeiras e grilhões – o antagonismo entre escravidão e o
ideal liberal na Constituição de 1824”, publicado no XXI Congresso Nacional do Conpedi, de Karine Salgado
e Renata Anatólio Loureiro. Consultado em 20 de outubro de 2013.
http://www.publicadireito.com.br/artigos/?cod=1cdf14d1e3699d61
398
CHALHOUB, Sidney. Visões da liberdade: uma história das últimas décadas da escravidão na Corte. São
Paulo: Companhia das Letras, 2011. p.67
399
BARRETO, Vicente. Dicionário de filosofia política. Rio Grande do Sul:Unisinos.2010.p.178.
113
tratamento desumano que alguns senhores brasileiros infligiam a seus escravos, todavia os
considerava em número menor àqueles que davam tratamento digno e honroso, chegando a
fornecer vestuário apropriado, tratamento de enfermidades e folga, por se tratarem de
propriedade que não poderia ser dilapidada. Aduz, por fim, o recebimento de instruções
religiosas, formando vários cristãos 400.
A ideia sobre manumissão dos escravos somente teve início no pensamento ilustrado
do século XVIII. Associando-se ao pensamento religioso contrário à escravidão
encontraremos a burguesia capitalista que necessitava de um mercado de consumo para sua
subsistência. Esse expediente foi encontrando cada vez mais adeptos, criando um grande
paradoxo, pois esse mesmo sistema que propicia o surgimento do capitalismo “oferecendo
lucros exorbitantes às metrópoles, deveria deixar de existir porque a indústria trabalhava com
uma mão -de- obra mais eficaz e mais barata, a assalariada; a massa cativa pareceria um
403
entrave a modernização dos métodos de produção”. Outro aspecto negativo da escravidão
para o desenvolvimento da nação é o empecilho à introdução de novas técnicas agrárias,
400
COSTA, João Severiano Maciel da. Memória sobre a necessidade de abolir a introdução dos escravos
africanos no Brasil; sobre o modo e condições com que essa abolição se deve fazer; e sobre os meios de
remediar os braços que com ela pode ocasionar. Coimbra: Imprensa da Universidade, 1821.p.11-13.
401
ALENCAR, José de. Cartas a favor da Escravidão. Org. Tamires Parron,. São Paulo: Hedra, 2008
402
CASTRO, Flávia Lages de. Op. Cit..p. 392.
403
Ibid., p. 395.
114
Ponderação foi a palavra de ordem na vida política de Bonifácio e assim não foi
diferente quanto tratou da abolição dos escravos, apesar de se mostrar ostensivamente
contrário à causa. Os acessórios à escravidão tal qual “clientelismo, favor, exclusão, fraude e
405
violência marcaram a época” , degenerando cada vez mais os cidadãos em todas as suas
castas, bem como o país. O Andrada aponta a escravidão uma das responsáveis pela imensa
corrupção brasileira, pois permitia aos homens que dela se servisse, vivessem na indolência,
406
geradora do vício. Paradoxalmente considerava o escravo “boçal, preguiçoso , soberbo e
407
revoltoso” e a escravidão uma empreitada pouco lucrativa, uma vez que os gastos
efetuados com a aquisição do terreno, instrumentos, manutenção do escravo com vestuário,
alimentação, moléstias e as incontáveis fugas para os quilombos, acabavam por onerar o custo
da lavoura, diminuindo seu valor.
404
COSTA, João Severiano Maciel da. Op. Cit..p.7.
405
SILVA, José Bonifácio de. Representação à Assembleia sobre a escravatura. In: Projetos para o Brasil.
Organização: Miriam Dolhnikoff, São Paulo: Companhia das Letras, 1998. p.30.
406
Ibid. p.58.
407
Ibid. p.155.
115
poder público a competência para o julgamento e punição dos escravos infratores, limitando,
desta forma, o poder privado exercido pelos senhores feudais.
A interlocução entre política e religião na fala de Bonifácio fez com ele obrigasse os
senhores a tomarem todas as providências possíveis para instruir seus escravos na religião e
na moral, transformando-os de brutos a homens. No tocante ao tráfico de escravos, chegou a
comparar seus escritos com a ideologia de Moisés,
“que foi o único, entre os antigos, que se condoeu da sorte miserável dos escravos,
não só por humanidade, que tanto reluz nas suas instituições, mas também pela sábia
política de não ter inimigos caseiros, mas antes amigos, que pudessem defender o
novo Estado dos hebreus, tomando as armas quando preciso fosse, a favor de seus
senhores, como já tinham feito os servos do patriarca Abraão antes dele”. 412
408
Na Representação à Assembleia sobre a escravatura, Bonifácio escreve a injustiça na retirada do negro
africano para mantê-lo escravo no Brasil, perpetuando a escravidão que muitos deles viviam quando nas suas
tribos de origem. A retirada da terra natal justificaria tão somente se aqui fossem tratados enquanto colonos,
figurando a escravidão “atentado manifesto contra as leis eternas da justiça e da religião”. SILVA, José
Bonifácio de. Representação à Assembleia sobre a escravatura. In: Projetos para o Brasil. Organização:
Miriam Dolhnikoff, São Paulo: Companhia das Letras, 1998. p.51.
409
Ibid. p.61.
410
Ibid., p.86.
411
Artigo 12 da Representação sobre a Escravatura.
412
Ibid., p.65.
116
Por diversas vezes o santista deixou muito claro que o clamor patriótico devia brotar
no coração de todos os brasileiros, indistintamente, para que isso, posteriormente, não se
tornasse contrário aos interesses do país. Desta feita, alertou que o sentimento de
heterogeneidade entre os cidadãos era favorável apenas à Portugal, pois facilitava a
subjugação do povo. Assim, antevia que os escravos poderiam se tornar uma ameaça, criando
instabilidade política e social capazes de fazer desmoronar o império de D. Pedro caso não
tivessem o sentimento de pertencimento à Nação que se encontravam 413.
413
SILVA, José Bonifácio de. Op. Cit.. p.48. No mesmo sentido Maciel da Costa assevera que a escravidão
prolongada dificultaria o desenvolvimento da noção de povo e, invariavelmente, influenciaria na escolha da
melhor forma de governo para o Brasil: “A verdadeira população, a que faz a solida grandeza e força d'um
Império, não consiste em manadas de escravos negros, bárbaros por nascimento, educação e gênero de vida, sem
pessoa civil, sem propriedade, sem interesses nem relações sociais, conduzidos unicamente pelo medo do
castigo, e por sua mesma condição inimigos dos brancos; mas sim era grande massa de Cidadãos interessados na
conservação do Estado e prosperidade nacional, e nascidos da propagação pátria, favorecida por Leis sabias e
justas, e por um Governo paternal.” COSTA, João Severiano Maciel da. Op. Cit..p.20.
414
IGLÉSIAS, Francisco. Momentos Democráticos na Trajetória Brasileira. In: Brasil, sociedade
democrática. Org. Afonso Arinos de Melo Franco. Rio de Janeiro:José Olympio, 1985.p.138.
117
“É tempo pois, e mais que tempo, que acabemos com um tráfico tão bárbaro e
carniceiro; é tempo também que vamos acabando gradualmente até os últimos
vestígios da escravidão entre nós, para que venhamos a formar em poucas gerações
uma nação homogênea, sem o que nunca seremos verdadeiramente livres,
respeitáveis e felizes. É da maior necessidade ir acabando com tanta
heterogeneidade física e cível ; cuidemos pois desde já em combinar sabiamente
tantos elementos discordes e contrários, e em amalgamar tantos metais diversos,
para que saia um todo homogêneo e compacto, que se não esfarele ao pequeno toque
de qualquer nova convulsão social”. 418
Essa estratégia era simultaneamente política, humanista e benéfica à elite, eis que com
o fim da escravidão os grandes latifúndios estariam comprometidos juntamente com os
entornos dessa situação. Lado outro, proveria o povoamento do Estado, o aumento da
segurança das fronteiras, fomentaria o mercado consumidor aquecendo a economia. Assim,
possibilitaria ao Brasil maior competitividade no cenário econômico externo e transformaria
419
os negros em cidadãos “úteis, ativos e morigerador”. Nesse contexto, inseriu na
Representação artigo obrigando ao Estado concessão de sesmaria aos negros forros,
propiciando a subsistência 420.
415
O liberal santista não concordava com a coisificação do escravo, destituído de todos os seus direitos naturais,
defendendo que o direito de propriedade foi sancionado “para o bem de todos”, não sendo lícito a qualquer
indivíduo subtrair a condição humana e a liberdade de outrem, condenando-os a uma “vileza e miséria sem fim”.
SILVA, José Bonifácio de. Op. Cit..p.61.
416
A política de inclusão de Bonifácio também atingiu a ordem econômica; para o ex - escravo ingressar na
economia de mercado necessitava aprender a lidar com as finanças e, a título de incentivo, idealizou criação de
bancos nas Províncias, possibilitando guardar os rendimentos recebidos.
417
Bonifácio não acreditava ser possível “haver uma Constituição liberal e duradoura em um país continuamente
habitado por uma multidão imensa de escravos”. Conforme dito acima, estes acabariam por se tornar inimigos do
Estado, podendo iniciar uma revolta, instaurando, assim, o caos. SILVA, José Bonifácio de. op. cit., p.48.
418
Ibid., p.48 e 49
419
Ibid., p.62.
420
Artigo X da Representação sobre a Escravatura. 420 Ibid., p.69.
118
A alforria poderia ser concedida pelo seu senhor ou então comprada, variando o preço,
caso este não conste no registro de compra, de acordo com a idade, estado de saúde e tempo
de cativeiro. 424 O pagamento pela alforria poderia ser parcelado, mas a liberdade viria apenas
após quitação integral do valor. Contudo, quando chegasse à sexta parte, seria o senhor
obrigado a conceder um dia livre na semana. 425 Note-se que a Representação prima pela
inserção gradual do negro na sociedade, corroborando o ponto de vista do Andrada em
aclimatar esse ex – escravo na civilização.426
421
SILVA, José Bonifácio de. Representação à Assembleia sobre a escravatura. In: Projetos para o Brasil.
Organização: Miriam Dolhnikoff, São Paulo: Companhia das Letras, 1998.p.59.
422
Artigo I da Representação sobre a Escravatura. Ibid., p.65.
423
Ibid., p.156
424
Artigo III e IV da Representação sobre a Escravatura. Ibid., p.65.
425
Artigo VI da Representação sobre a Escravatura. Ibid., p.67
426
Trazemos à reflexão a fama de libertino e amoral conferida aos negros, tão explorada à época. O casamento
entre os escravos não era estimulado, pois isto poderia atrapalhar o comércio. Lado outro, em um país católico,
onde o cristianismo era utilizado como instrumento de subjugação, não era possível a separação de um casal sem
que houvesse sérias consequências. Desta feita, inevitável se torna a fugacidade dos relacionamentos a que
muitas das vezes se viam obrigados, principalmente as mulheres. Cabe lembrar que as escravas serviam de
objeto de satisfação sexual dos seus senhores, sem que tivessem qualquer proteção legal, inclusive no tocante ao
estupro, ex vi o Livro V, Título 18, das Ordenações Filipinas. Entretanto, mesmo sem fazer a leitura acima,
Bonifácio, considerando a promiscuidade dos senhores com as escravas - situação preocupante por trazer um
dificultador social, apresentou previsão que “a todo senhor que andar com escrava, ou tiver tido dela um ou mais
filhos, será forçado pela lei a dar liberdade à mãe e aos filhos, e cuidar na educação destes até a idade de quinze
anos”.
119
Outra preocupação do Andrada era o castigo corporal, vedando que os mesmos fossem
infligidos pelos senhores, salvo no pelourinho público e sob a supervisão policial. Isso
diminuiria a possibilidade de excessos tanto quanto também reduziria o poder e a influência
dos gestores internos, ligando-os aos poderes de supervisão da Coroa. O acesso ao judiciário
também lhe foi franqueado, podendo prestar testemunho em juízo, desde que não fosse contra
o próprio senhor.
427
Ibid., p.29.
428
SILVA, José Bonifácio de. Representação à Assembleia sobre a escravatura. In: Projetos para o Brasil.
Organização: Miriam Dolhnikoff, São Paulo: Companhia das Letras, 1998.p.201.
120
“só com a viagem da família real para o Brasil é que chega aqui a primeira prensa
legal – que não é outra senão o artefato de impressão dos papéis governamentais.
Tudo que se imprime nela é oficial: o primeiro periódico, os primeiros livros, as
primeiras comunicações. Isso não significa a liberdade de imprensa: o poder central
requer para seu funcionamento algum mecanismo de comunicação, assim como
exigira a abertura dos portos e a criação de fábricas” 430.
429
NEVES, Lúcia Maria Bastos Pereira das. Os panfletos políticos e a cultura política da Independência do
Brasil. In: História e Historiografia. Org: István Jancsó. São Paulo: Hucitec:Fapesp,2005.p. 637.
430
Informação extraída do site: http://www.obrabonifacio.com.br/az/verbete/68/, consultado em 06 de maio de
2013.
431
.De acordo com Marco Morel, durante o ano de 1822 “a linha política do Revérbero e do Gazeta (e também do
Correio Braziliense) era afinada neste momento: defesa da união entre o Brasil e Portugal; conceituar
independência como instância de autonomia e de liberdade constitucional e comercial, não de separação; e temor
de que a perda total ou parcial dessas prerrogativas levasse à quebra dos laços”. MOREL, Marco.
Independência no papel: a imprensa periódica. In: História e Historiografia. Org: István Jancsó. São Paulo:
Hucitec,:Fapesp,2005.p. 617- 625
121
Acreditamos ser justo abrir um espaço neste trabalho para o jornalista Hipólito da
Costa435, escritor do Correio Brasiliense 436
e defensor dos ideais Andradinos, considerado
expressivo liberal nacional.
Therezinha Costa relata que a circulação do Correio Brasiliense teve início na mesma
época em que a família real se instalou no Brasil, tornando-se árduo defensor, ao lado de
Bonifácio, da união entre os dois países por meio da monarquia. “Temia que a volta de D.
João VI para Lisboa apressasse o processo de separação dos dois Reinos, e, naquela época,
437
uma independência prematura poderia vir a esfacelar o Brasil” .
432
“O nome do periódico tem como referência a tribo indígena que mais lutou contra a dominação portuguesa.”
Informação extraída do site: http://www.obrabonifacio.com.br/az/verbete/56/, consultado em 06 de maio de
2013.
433
Informação extraída do site: http://www.obrabonifacio.com.br/az/verbete/56/, consultado em 06 de maio de
2013.
434
Informação extraída do site: http://www.obrabonifacio.com.br/colecao/obra/65/digitalizacao/, consultado em
06 de maio de 2013.
435
O português Hipólito da Costa, cujo pai era brasileiro, passou sua infância no Rio Grande do Sul. Possuía no
seu sangue as laços progenitores luso-brasileiros, defendendo essa aliança também sob a ótica política. Filiado à
maçonaria azul inglesa, chegou a ser perseguido e preso pela Inquisição Portuguesa pelos ideais esposados.
Segundo Therezinha de Castro “O processo e prisão que sofrera Hipólito da Costa em Portugal azedaram - lhe o
caráter. Assim, o seu Correio Brasiliense lhe serviria como válvula de escape, como veículo para seu desabafo
público como divulgador de suas ideais em torno de um ideal”. CASTRO, Therezinha. Hipólito da Costa –
Ideias e Ideais. Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército, 1985. p. 27.
436
O Correio Brasiliense tinha sede na Inglaterra em virtude das leis de imprensa que ali existiam. Sendo
perseguido em Portugal, não poderia ali se alojar sem, tampouco, exorcizar suas mágoas com a mãe pátria
portuguesa. A censura à imprensa em território brasileiro também não facilitaria sua atuação, escolhendo, desta
forma, fazer seus escritos de um país que lhe oferecia proteção às impressões pessoais.
437
CASTRO, Therezinha. Op. cit. p. 49.
122
438
Ibid. p. 54.
123
439
Nota de Lourival Gomes Machado in ROUSSEAU, Jean Jacques. Do Contrato Social ou princípios do
direito político. Tradução: Lourdes Santos Machado. São Paulo: Editora Globo, 1962, p. 181.
440
RODRIGUES, José Honório. A Assembleia Constituinte de 1823. Petrópolis: Vozes, 1974.p.21.
441
MONTEIRO, Tobias. História do Império- a elaboração da Independência. Rio de Janeiro: F. Briguiet e
Cia. 1927.p. 728.
442
CUNHA, Pedro Octávio Carneiro da. Op. Cit.. p. 242
124
entretanto, deixaram de apresentar ricas e profícuas discussões acerca de políticas estatais que
serão exploradas no presente capítulo, deixando seus rastros na história do país.
A Constituinte tinha por objetivo promover a união das províncias, situação esta difícil
de obter apenas com o Conselho de Procuradores. De cunho revolucionário em virtude da
inspiração francesa de Sieyés, não era vista com bons olhos pelo séquito de D. Pedro,
inclusive Bonifácio, porquanto pairava sobre si a fleuma de soberania nacional, antepondo-se
ao poder do príncipe regente. Atesta Tarquínio de Sousa que o Andrada certamente sabia da
necessidade da convocação da constituinte, mas pairava dúvida sobre o momento apropriado
443
de fazê-lo, temeroso dos “excessos jacobinos” que poderiam surgir pelos partidários mais
exaltados 444.
Apesar de todas as críticas e considerações que possam ser feitas sobre a escolha dos
deputados, as posturas e decisões por eles tomadas, somadas à nossa estrutura social na época
da Independência, não autorizava representação política mais democrática. A população
eleitoral era exígua e o sistema de eleições centralizador e censitário. Isso não quer dizer,
todavia, impeço ao progresso, porquanto o liberalismo foi filosofia presente na redação da
Constituição.
Sobre sua formação e composição, Afonso Arinos relata ter sido criada mediante
Decreto exarado no dia 03 de junho de 1822, contando com cem deputados “distribuídos
conforme a população das províncias”, em eleição indireta realizada à moda de Cadiz e
primeira sessão legislativa em 03 de maio de 1823. Segundo o jurista:
443
FRANCO, Afonso Arinos de Melo. Op. Cit..p71.
444
SOUSA, Octávio Tarquínio de. História dos Fundadores do Império do Brasil: José Bonifácio. Rio de
Janeiro: José Olympio, 1972.p. X.
125
Essa situação do poder concentrado na mão da elite perdura até o final do século XIX,
conforme informação de José de Alencar, sob o pseudônimo de Erasto, onde demonstra nas
cartas escritas a D. Pedro II o processo de alijamento das demais classes do cenário político:
“A liberdade no Brasil está, como dizia Nodier, na mão dos fortes e na bolsa dos
ricos. Dos sobejos, que elles repartem, ou das migalhas que ficão pelo chão, vivem
os fracos e os pobres; por outra, a maior parte da nação.
Paiz civilisado em relação aos costumes, vivemos ainda nos tempos selvagens da
política; o cidadão não vale na medida de seus direitos; mas sim na proporção dos
benefícios que pôde dispensar ou segundo o quilate das próprias forças.”447
Durante as discussões das sessões legislativas fica evidenciado que José Bonifácio
estava muito mais envolvido na atenção aos interesses do Imperador do que seu irmão,
Antônio Carlos, mais liberal que o primogênito. “Foi Antônio Carlos que apresentou o projeto
de extinção do Conselho de Procuradores de Província. Na primeira discussão, justificando-o,
Antônio Carlos explicou que a nação tinha agora nos seus representantes os seus legítimos e
450
únicos procuradores”. Esse posicionamento, inclusive, foi o ponto nevrálgico da
Assembleia, pois era o marco divisor entre os republicanos e os moderados. Antônio Carlos,
apesar de se encontrar entre estes últimos, era reconhecidamente republicano. Acreditamos
que a influência de seu irmão tenha-o tornado mais flexível quanto a forma de governo,
entretanto sem conseguir demovê-lo sobre a legitimidade popular.
449
A comissão responsável pela elaboração do Projeto de Constituição, eleita na sessão de 06 de maio de 1823,
foi a seguinte: Antônio Carlos Ribeiro de Andrada (republicano defensor da monarquia constitucional); Antônio
Luiz Pereira da Cunha (recebendo a alcunha de Visconde de Inhambupe, magistrado); Pedro de Araújo Lima
(também denominado Marquês de Olinda, representante da aristocracia rural); José Ricardo da Costa Aguiar de
Andrada (Desembargador da Casa de Supliciação), Manoel Ferreira da Câmara Bittencourt e Sá (defensor da
monarquia constitucional), Francisco Moniz Tavares (republicano defensor da monarquia constitucional) e José
Bonifácio de Andrada e Silva (republicano defensor da monarquia constitucional).
450
RODRIGUES, José Honório. Op.cit.p.55.
451
FRANCO, Afonso Arinos de Melo. Op. Cit.. p52.
127
eram mais do irmão do que propriamente seu, ex vi a controvérsia sobre a aceitação do Padre
Venâncio como deputado de Pernambuco, conforme se verá pouco mais à frente.
452
RODRIGUES, José Honório. Op. Cit..p.46.
453
Apud In: HOLANDA. Sérgio Buarque, de. Op. Cit. p. 184. O discurso anti-autoritarismo foi traído pela
dissolução da Constituinte, para muitos de forma arbitrária, culminando com a prisão e exílio de diversos
deputados envolvidos, sendo possível identificar claramente a influência de Constant no pensamento de D.
Pedro, mormente sobre a diluição do poder, evitando-se o autoritarismo e a anarquia proveniente de um governo
republicano. Já era verossímil a falácia discursiva contrária à autoridade, denotando a intenção de controle que
posteriormente seria imposto por meio do poder moderador. O engodo democrático da repartição de poderes,
evitando o absolutismo, foi habilmente desmantelado pelo originário poder real.
128
454
sistema de poderes de Constant” , tampouco a tônica excessiva dos radicais franceses. É
possível se distinguir duas fases na política de D. Pedro: a primeira filiada aos Andradas, com
rompantes liberais e nacionalistas; a segunda vinculada aos portugueses absolutistas.
A mensagem deixada pelo imperador mereceu severas críticas por parte dos deputados
que se dividiram entre o cunho liberal ou despótico do pronunciamento e se teria ele a
prerrogativa de vetar o projeto de texto constitucional apresentado pela Assembleia,
representantes que eram da vontade nacional.
“A Constituinte não era depositária única da soberania, visto que sua existência
dependera da convocação da Coroa preexistente, que ela reconhecera pelo simples
fato de haver atendido à convocação. Sobretudo, depois de ocorrida a independência
454
BONAVIDES, Paulo; ANDRADE, Paes de. Op.cit..p. 48
455
Ibid., p. 47.
456
DIAS, José Custódio. In: Annaes do Parlamento Brazileiro – Assembleia Constituinte de 1823 – Tomo
Primeiro. Rio de Janeiro: Typographia de Hyppolito José Pinto & Cia, 1876. p. 52.
129
e aclamado o imperador, a Coroa, não como pessoa mas como órgão, era parte da
soberania do Estado”. 457
Lado outro, Vicente Barreto reage com veemência à atitude de D. Pedro, dizendo que
a atuação do imperador conspurcava contra a maior tese liberal de que “a vontade, não a
458
força, é a base do governo”, deslegitimando sua atuação. Em sua opinião, o cisma dos
deputados ocorreu pela divisão de opiniões entre radicais e liberais sobre a amplitude do
Poder Executivo. Os primeiros almejavam uma Constituição cujos poderes do imperador
estariam nela delimitados e expressos, ao passo que os segundos, aos quais se filiava José
Bonifácio, respeitavam os poderes do monarca preexistentes ao poder constituinte, não sendo
459
lícito à Assembleia usurpar poderes que não eram de sua titularidade . “Nascia nas
460
discussões da Constituinte a ideia de que a representação nacional era o poder maior” ,
considerando um absurdo o veto imperial à Constituição.
461
“autoridade constituinte e legislativa” que, infelizmente, não conseguia se firmar,
tampouco se entender.
Assim, a condição de formação e condução dos trabalhos da Constituinte fez com que
ela fosse denominada “consentida”, porquanto sua existência estava condicionada à anuência
do imperador. É imperioso observar que a ambiência que envolvia o Brasil neste momento,
463
onde despontava “o sentimento republicano nas suas conexões” , conjugada à crescente
vontade de libertar-se do jugo português, permeado com a ideia monarquista, refletiu
diretamente no texto final apresentado por Antônio Carlos. 464
Denotando clara irritação com a família Andrada e seus asseclas, Baptista Pereira
descreve como tumultuado o momento dos encontros da Constituinte, afrontando os
portugueses que ali se encontravam e a autoridade de D. Pedro, o que acabou por dissolver a
Assembleia:
461
Discurso proferido na sessão do dia 03 de maio de 1823. Annaes Tomo Primeiro. p. 42.
462
Discurso proferido na sessão do dia 03 de maio de 1823. Annaes Tomo Primeiro. p. 52.
463
CASTRO, Therezinha. Op. Cit.p. 05.
464
Fato curioso é que apesar do discurso de Antônio Carlos sobre a autoria e a fonte de inspiração do Projeto
elaborado, seu irmão primogênito assume a condição de autor em escritos pessoais: “Para eles me aproveitei da
legislação dos dinamarqueses e espanhóis, e mui principalmente da legislação de Moisés que foi o único, entre
os antigos, que se condoeu da sorte miserável dos escravos, (...)” In: 464 SILVA, José Bonifácio de. Op. Cit. p.65
131
465
PEREIRA, Baptista. Figuras do Império e outros ensaios. Brasília: Editora Nacional, 1975. p.163.
466
Pedro Octávio Carneio da Cunha cita a conduta dúbia de Antônio Carlos na Constituinte de 23, ora apoiando
os irmãos, então ministros, ora distanciando-se deles. Evidenciou essa conduta quando considerou desnecessária
a sanção do poder executivo às leis elaboradas pela Assembleia. CUNHA, Pedro Octávio Carneiro da. Op. Cit..
p. 244.
467
PEREIRA, Baptista. Op. Cit.p.164
132
Vicente Barretto, por sua vez, o define como uma Carta conservadora, antepondo-se
aos vizinhos americanos, mantendo as estruturas econômicas e sociais previamente existentes
e equilibrando os diversos interesses. Demonstra o liberalismo centrado na propriedade,
inclusive econômica, em que “os proprietários são as grandes elites e os grandes eleitores” 469,
fator este comprovado quando da leitura dos anais da Constituinte em que é possível observar
a relevância da participação na sociedade proporcional ao valor pecuniário de que o cidadão
era detentor e como ele poderia contribuir para o desenvolvimento do país.
Entendemos que desse contexto apresentado por Barreto extraiu-se uma grande
controvérsia tanto do Projeto quanto da Constituição de 1824, porquanto na tentativa em
atender às várias camadas da elite social, acabou por criarem uma Constituição
antidemocrática, em que o cidadão comum brasileiro, desprovido de posse, era excluído da
sociedade civil e destituído de direitos políticos 470.
471
Caio Prado Júnior ressalta como característica do referido Projeto o “xenofobismo
extremado dos constituintes”, o que se justifica uma vez que a maior parte dos estrangeiros
era portuguesa, assombrando os brasileiros com o fantasma da recolonização, não bastasse o
próprio imperador ser herdeiro da Coroa. Encontramos, assim, um documento repleto de
restrições aos estrangeiros. Outro ponto marcante foi o “caráter classista do projeto”,
defendendo a classe dominante e elitizada que financiou a Independência, criando complexa
hierarquia de direitos políticos. No tocante a proteção às minorias, ressaltou a atuação de
Bonifácio - para quem o Estado funcionava como “instrumento do progresso social” - pois,
segundo visto, escreveu Tratados sobre os direitos dos negros e dos índios, viabilizando
educação de qualidade e entrelaçando política com questões sociais, cujos documentos apenas
468
CASTRO, Flávia Lages de. Op. Cit..p. 352.
469
BARRETTO, Vicente. Op. Cit. 1977. p. 132.
470
Art. 129. Podem ser nomeados Deputados Nacionais, todos os que podem Eleitores, contanto que tenham
vinte e cinco anos de idade, e sejam proprietários ou foreiros de bens de raiz rurais ou urbanos, ou rendeiros por
longo termo de bens de raiz rurais, ou dono de embarcações, ou de Fábricas, e qualquer estabelecimento de
indústria, ou de ações no Banco Nacional, donde tirem um rendimento liquido anual, equivalente ao valor de
quinhentos alqueires de farinha de mandioca, regulado pelo preço médio do País em que habite, e na
conformidade dos Artigos 123, e 126, quanto ao Padrão.
471
JÚNIOR, Caio Prado. Op. Cit..p.50-52
133
não foram apreciados pela Assembleia em virtude da sua precoce dissolução. Conclui
afirmando:
472
Ibid., p.52.
473
PINTO, Antônio Pereira. Annaes Tomo Primeiro. p. 6
474
Foram apresentados dois textos, objeto de grande divergência entre os deputados.
134
Veremos que o democrático pacto social de Rousseau, embora atraente, era visto pela
maioria como algo impossível de ser praticado no Brasil, pelo menos naquele momento.
478
Acreditavam os deputados que esses “princípios metafísicos” de plena democracia eram a
base da desgraça da América e dos horrores cometidos na França e na Espanha. Os brasileiros
se empenhavam, desta feita, em elaborar uma Constituição que fosse possível garantir a
liberdade de que a nação seria capaz de sustentar, o que somente seria viável - pela ótica da
maioria e com a qual concordamos - com a instauração da monarquia centralizada na figura
de D. Pedro.
O Projeto da Carta Constitucional, tomada pelos constituintes como “paládio da
479
liberdade civil” tinha por diretiva a delimitação dos direitos e garantias do cidadão
brasileiro, a construção da soberania e interação com os países estrangeiros, a liberdade de
475
A discussão sobre o catolicismo enquanto religião oficial, tal qual ocorreu em Cadiz, ganhou destaque em
várias sessões legislativas, corroborando a fala anterior da influência da igreja nos assuntos de Estado, trazendo à
tona o confuso resquício absolutista que faz dos assuntos políticos temas de fé. Uma das situações em que isso se
encontra bem representado é no preâmbulo, cujo texto atribui à assembleia constituinte “ter religiosamente
implorado os auxílios da Sabedoria Divina, conformando-se aos princípios de justiça e da utilidade geral”. In:
Annaes do Parlamento Brazileiro – Assembleia Constituinte de 1823 – Tomo Quinto. Rio de
Janeiro:Typographia de Hyppolito José Pinto & Cia, 1876. p. 86. Mais adiante falaremos sobre a tolerância com
as demais religiões objetivando atender aos interesses brasileiros, uma vez que os detentores das grandes
riquezas eram, geralmente, judeus, conforme observamos na fala de Antônio Carlos quando da sessão de 01 de
outubro: “A commissão deu commigo todos os direitos civis aos individuos de todas as communhões, pela
minha parte confesso que nisto tive também em vista o aliciar deste modo os judeos, mormente os de Surinam
que são muito ricos, e de origem lusitana. Como elles têm por muitas vezes desejado reunir-se ao antigo tronco
de que descendem, quiz tenta-los, dando-lhes os direitos civis, a virem estabelecer-se no Brazil, o que seria para
nós um grande ganho (...)” In: Annaes do Parlamento Brazileiro – Assembleia Constituinte de 1823 – Tomo
Sexto. Rio de Janeiro:Typographia de Hyppolito José Pinto & Cia, 1876. p. 05
476
Annaes do Parlamento Brazileiro – Assembleia Constituinte de 1823 – Tomo Quarto. Rio de
Janeiro:Typographia de Hyppolito José Pinto & Cia, 1876. p. 59.
477
Nesse sentido, a comissão de Constituição, por intermédio do deputado Pereira da Cunha, apresentou à
Assembleia, na sessão do dia 11 de agosto de 1823, o projeto de proclamação da independência, a ser lido aos
cidadãos brasileiros, contendo a ideologia, pilares e pressupostos traçados no movimento que desencadeou a
formação do Estado nacional brasileiro. Não se via oposição aberta à D. Pedro nem ao novo regime;
contrariamente, foram palavras de exaltamento à figura do imperador, corroborando o que dissemos
anteriormente de que os antagonismos estavam camuflados em outras discussões. Annaes – Tomo Quarto. p. 59-
61.
478
Annaes – Tomo Primeiro.p. 53.
479
Annaes – Tomo Quarto. p. 60.
135
Foi duramente contestado pelo mineiro José Custódio Dias, que apresentou
482
modificações de cunho liberal mais enfático , sem limitação de funções a serem exercidas
pela Assembleia e igualdade de distinção entre o imperador e o Presidente da Constituinte.
480
Annaes – Tomo Quarto. p. 60.
481
Annaes – Tomo Primeiro. p. 26
482
Destacamos trecho da fala do Deputado Dias para ilustrar o assunto: “Nenhum perigo ainda de vida e morte
nos deve impedir o exercício de nossos deveres, e isto igualmente se deve exprimir em nossos juramentos, e por
maior que seja o enthusiasmo que de presente todos manifestão, eu não cantarei triumpho antes da victoria.
Alguns. deputados mostrarão com fortes argumentos que seria absurdo suppor que os representantes da nação
tinhão poderes ilimitados, e que por isso era indispensável declarar no juramento do melhor modo que pudesse
ser o que os mesmo representantes estavão obrigados a desenpenhar.”. in: Annaes – Tomo Primeiro. p. 26
483
Exemplificamos nossa colocação com os apontamentos dos Deputados Carneiro de Campos e Andrada
Machado, apresentados na sessão do dia 30 de abril de 1823, sobre o texto do artigo 27 do Regimento Interno da
Assembleia, versando sobre a entrada, vestimenta e assento do imperador quando este comparecer às sessões
136
É dentro deste contexto que percebemos o ideal do poder moderador, que tão
vivamente influenciou D. Pedro quando da redação da carta de 1824, perfilando a fala de
Martim Francisco, ao se opor à nomeação do padre republicano:
“Em um paragrapho da sua carta elle diz que é democrata, mas que a democracia
deve forma-se com o poder legislativo nas cortes, o executivo no rei, e o judiciário
legislativas: Segundo Carneiro Campos: “sou de parecer que o imperador deve entrar com a corôa, e conserva-la
emquanto durar a sessão. Fundo-me em que o imperador vem instalar a assemblea como chef da nação; ora, a
corôa é a sua insígnia assim como o manto e o sceptro, e por isso não acho razão para que o imperador não
conserve uma das principais insígnias na augusta função que ele vem exercer como imperante, ou chefe da
nação”. Lado outro, o deputado Andrada Machado, apresentando antagonismo do seu discurso pro imperial
inova seu posicionamento, contradizendo o antecessor, colocando assembleia e imperador em paridade de
condições. Senão vejamos: “Sr. Presidente, a comissão julgou que sendo Sua Magestade Imperial um poder
constitucional e á assembléa outro, deveria ser igual a situação de ambos, quando presentes; e como a assembléa
se não cobre pareceu também Sua Magestade Imperial devia entrar descoberto”.
484
A comissão dos poderes, responsável para apreciação desta matéria, considerou-o “não affecto á causa do
Brazil” por ser republicano. O deputado Andrada Machado, preso na Revolução Pernambucana de 1817, marco
republicano no país, entrou em defesa do Padre Venâncio argumentando ausência de provas cabais de
participação do eclesiástico em movimentos republicanos, além de não ser possível à Assembleia ir contra
votação popular que o nomeou representante. In: Annaes – Tomo Primeiro. p. 51
485
Conforme Valladão, Os debates durante as sessões eram recheados de discursos democráticos e federalistas,
principalmente por parte dos pernambucanos. VALLADÃO, Haroldo. História do Direito: Especialmente do
Direito Brasileiro. Rio de Janeiro: Freitas, 1977.p.108.
486
Annaes – Tomo Primeiro. p. 56.
487
Annaes – Tomo Primeiro. p. 57-58.
137
nos tribunaes; e talvez porque elle quer no governo essa divisão de poderes, se julga
que segue a causa que o Brazil abraça, mas eu não entendo assim.
Para haver monarchia constitucional não basta esta divisão de poderes que é comum
a todos os governos livres, não basta dar ao chefe do poder executivo o nome de
monarca, porque pode ser um fantasma qual se sucede em Portugal; é preciso e
indispensável que esse poder executivo tenha tal ou qual ingerência no poder
legislativo; sem ella seja qual for a denominação desse chefe do executivo, e ainda
mesmo com a qualidade de hereditário, não há, para mim, monarchia constitucional;
ora, o que se colige das expressões do padre Venâncio é que prefere a democracia
representativa, e como não é esta a forma de governo escolhida pela nação, que já
declarou altamente a sua vontade pela voz de todas as camaras, segue-se que foi
justamente excluído do cargo de deputado na fórma das instrucções; e portanto voto
que não deve ser admittido nesta augusta assemblea”.488
488
Annaes – Tomo Primeiro. p. 56.
489
Annaes – Tomo Segundo. p. 54.
138
legitima sentença que os condemnasse; e que outros desses mesmos serão fugitivos
para evadir-se á violencia.
E convirá neste estado de convulsão arrancar aos povos o governo da sua escolha,
em quem elles confião,e dar-lhes um da escolha e confianca só do ministerio, e que,
em verdade, muito se aproxima aos do antigo despotismo, porque as dIfferenças são
só apparentes? Não o creio 490”.
490
CARVALHO, Xavier de. In: Annaes – Tomo Segundo. p. 53. A fala do referido deputado é seguida de
inúmeras manifestações de apoio, destacando o discurso do deputado Alencar, na mesma sessão.
491
A pujante necessidade de povoamento do território brasileiro foi uma das tônicas levantadas por Bonifácio,
conforme anteriormente explorado, por considerar motivo de segurança nacional, expansão econômica e fator
determinante da unidade nacional, tão crucial para o momento. A urgência no povoamento do país levou os
brasileiros a considerarem possível a utilização da mão- de- obra do estrangeiro, já utilizada em outras
localidades, para a expansão e aumento da população brasileira, questionando-se, contudo, o título de cidadão
àquele que aqui decidisse permanecer. Exemplificamos esse posicionamento com a fala do Deputado Carvalho e
Mello sobre a população brasílica: “Ella é minguada, e no seu augmento consiste a nossa prosperidade. Por isso
mesmo que temos largos terrenos, muitas artes que instituir e fazer prosperar, necessitamos de braços robustos,
livres e valentes para romper e arrotear terrenos virgens; homens dotados de saber em todas as artes e sciencias
para doutrinarem os nossos concidadãos e fazerem prosperar todo o gênero de industrias: havemos de ir acha-los
entre os estrangeiros”. Annaes – Tomo Sexto. p. 04.
492
Exemplificamos a situação na fala do deputado Henriques de Rezende, proferida na sessão do dia 02 de
agosto de 1823, quando avaliavam Projeto versando sobre a possibilidade de naturalização dos portugueses
residentes no Brasil: “(...) Mas, Sr. Presidente, de que nos serve tanta vegetação, tantas riquezas em minas, se tão
vasto continente é pobremente matizado por uma população apenas de quatro ou cinco milhões de habitantes; e
essa toda heterogênea e pela maior parte escrava?
É por preciso franquear o nosso território, a nossa riqueza e abrir os nossos braços a todo o estrangeiro, que se
quiser estabelecer entre nós, e prestar-lhe toda a segurança e garantia e todas as nossas vantagens, afim de fazer
crescer a nossa população”. Contrariando a possibilidade de acolhimento aos portugueses por meio da
naturalização, Antônio Carlos opinou no sentido de considerá-los “estrangeiros inimigos”. Annaes – Tomo
Quarto. p. 07 e 08.
139
Ponderava-se que a cidadania brasílica deveria ser concedida aos portugueses que
permaneceram no Brasil após a proclamação da independência, por terem aceitado a
493
formulação da nova sociedade brasileira, aderindo ao pacto social. Nesse sentido é possível
observar como os conceitos de Rousseau eram utilizados de forma maleável pelo constituinte
de 23, adaptado à conveniência dos deputados. Isso porque a ampla adesão de toda a
sociedade na titularidade de direitos políticos açambarcaria, inclusive, os escravos e as classes
menos favorecidas. Lado outro, quando mitigada em seu entendimento, se estenderia apenas
aos estrangeiros que concordaram com a nova formulação do Estado brasileiro, auxiliando no
seu desenvolvimento.494
497
Em posição contrária, mas de efeitos análogos, temos o liberal Souza Mello que
adotando uma linha mais pura do liberalismo rousseauniano, defende ser cidadão brasileiro
todo aquele nascido em território do império, “ou que se tornarão taes por força e
493
Annaes – Tomo Quinto. p. 190.
494
Servimo-nos aqui, como em outros pontos destas reflexões, da metodologia da ‘história dos conceitos’,
trazida por Marcelo Andrade Cattoni de Oliveira e Adamo Dias Alves, que permite a crítica reflexiva dos
institutos jurídicos, adaptáveis às “conjunturas políticas, jurídicas e culturais”. OLIVEIRA, Marcelo Andrade
Cattoni; ALVES, Adamo Dias. As origens do poder moderador na Constituição Imperial de 1824 – um
exemplo de disputa teórica e conceitual segundo a história dos conceitos. In: Constitucionalismo e História
do Direito. Belo Horizonte, Pergamum. 2011. p.163-190.
495
Annaes – Tomo Quinto.. p. 180.
496
Segundo entendimento do Deputado França, “nós não podemos deixar de fazer esta differença ou divisão de
brasileiros e cidadãos brasileiros. Segundo a qualidade da nossa população, os filhos dos negros, crioulos
captivos, são nascidos no território do Brasil, mas todavia não são cidadãos brasileiros. Devemos fazer esta
differença: brasileiro é o que nasce no Brasil, e cidadão brasileiro é aquelle que tem direitos cívicos. Os índios
que vivem nos bosques são brasileiros, e contudo não são cidadãos brasileiros, emquanto não abração a nossa
civilização”. Já o Deputado Montesuma, apesar de abolicionista, expressava toda sua aversão à concessão de
direitos de cidadania aos índios e aos negros, devendo receber o tratamento que a lei os confere, qual seja,
propriedade de alguém. Annaes – Tomo Quinto. p. 166
497
Annaes – Tomo Quinto. p. 182/183
140
determinação da lei”, fazendo menção aos naturalizados. Entretanto, apesar dessa condição de
igualdade, faz a ressalva de não ser possível a todo cidadão o exercício de direitos políticos,
“porque assim o pede e exige o bem da ordem social”. Mais uma vez nos vimos às voltas da
adaptabilidade do liberalismo europeu às perspectivas locais.
502
Silva Lisboa já conseguia compreender o risco que acometia o país em virtude do
tratamento desumano concedido aos negros, pois acabava gerando entre eles grande revolta,
aumentando o clima de insegurança pública. Ressaltou a força crescente dos quilombolas
498
Annaes – Tomo Quinto. p.206.
499
Annaes – Tomo Quinto. p. 209.
500
Annaes – Tomo Quinto. Rio de Janeiro:. p. 205.
501
O deputado Silva Lisboa, ao expor sua opinião contrária à participação de ex - escravos na formação do corpo
de jurados, traz a informação de que o a maior parte dos crimes era praticada pelos serviçais e libertos, tomando-
os por homens de má índole, embora justificada pelos maus tratos e tratamentos desumanos e degradantes que
recebiam dos seus senhores. Remetemos às considerações feitas anteriormente sobre a participação dos negros
norte-americanos na constituição do corpo de jurados. Annaes – Tomo Sexto. p.121.
502
Annaes – Tomo Quinto. p. 210.
141
Foram eles a principal mão- de- obra utilizada na construção do país, desde a
colonização, uma vez que os índios não se adaptaram aos trabalhos pesados e escravos,
segundo descrito anteriormente. A continuidade do instituto garantia, também, o apoio a D.
Pedro I, figura central para a unidade que o país necessitava naquele momento. Dentro da
máxima maquiavélica de que “um príncipe, não deve, portanto, importar-se por ser
504
considerado cruel se isso for necessário para manter os seus súditos unidos e com fé”,
constituintes e imperador estavam com a razão na temporária mantença da escravidão, mas,
ressalta-se, com vias à gradativa abolição.
503
ALENCAR, José de. Ao Imperador: novas cartas políticas de Erasmo. Rio de Janeiro: Typographia. de
Pinheiro, 1867-1868.p. 12-17.
504
MAQUIAVEL, Nicolau. O Príncipe. Tradução: Roberto Grassi. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1972.
p.208.
142
assim como inviolabilidade da propriedade, igualdade perante a lei e amplo acesso aos
empregos públicos.
O maior objeto de celeuma deste artigo ficou a cargo da definição sobre a extensão da
liberdade religiosa, tal qual pugnado na Carta de Cadiz. Impende observar que a visão política
do Brasil Império creditava à unidade religiosa sob o manto da Igreja Católica um dos
fundamentos fulcrais à união nacional, juntamente com a monarquia. Agregada à bandeira
nacionalista estava o estandarte do catolicismo, ambos formando o amálgama do Estado
nacional brasileiro. Isso não impediu, todavia, dos deputados votarem favoravelmente à
tolerância religiosa, ainda que adotando o catolicismo por culto oficial.
“Onde se acha estabelecida uma religião dominante, não se mostra a razão, porque
se altere por uma fraqueza excêntrica e não exigida por imperiosos motivos. A
tolerância das seitas pois só é de racionável política a respeito de estrangeiros,
quanto a gozarem dos direitos cívicos; visto que tanto convém attrair os
industriosos e capitalistas de todas as nações ao Brazil. Seria iniquo, sobre
impossível força-los a mudar suas crenças”. 506
505
Annaes– Tomo Sexto. p.48
506
Annaes Tomo Sexto. Rio de Janeiro: Typographia de Hyppolito José Pinto & Cia, 1876. p.48.
143
507
Annaes– Tomo Sexto. p.41. Posicionamento análogo também foi esposado pelo deputado França, que
defendia a liberdade religiosa extensiva aos cultos cristãos, tolerando-se as demais, desde que não fossem
publicamente professadas, sob pena de perda de direitos políticos. A justificativa era, como a dos demais
colegas, atender aos anseios brasileiros de desenvolvimento e povoamento. In: Annaes – Tomo Sexto. p.171.
508
O deputado Ornellas, em sessão de 29 de outubro, comentando o artigo 14 que tratava expressamente da
liberdade religiosa, manifestou-se que o culto público somente poderia ser exercido pelos católicos apostólicos
romanos, uma vez que o catolicismo era a religião adotada pelo Estado, sendo “mais conforme á boa razão e
justiça que todas as outras religiões sem distincção sejão apenas toleradas”. Annaes – Tomo Sexto. p.169. O
deputado Rocha Franco sugeriu que se estendesse o benefício aos judeus, por terem sido estes os precursores do
catolicismo. Annaes – Tomo Sexto. p.170.
509
Art. 16. A Religião Católica Apostólica Romana é a Religião do estado por Excelência, e única mantida por
ele.
510
Art. 14. A liberdade religiosa no Brasil só se estende às comunhões Cristãs; todos os que as professarem
podem gozar dos Direitos Políticos no Império.
511
Art. 15. As outras religiões, além da Cristã, são apenas toleradas, e a sua profissão inibe o exercício dos
direitos Políticos.
512
Annaes – Tomo Sexto. p. 171.
144
constituintes a intolerância religiosa e a xenofobia aos estrangeiros, mas a defesa a tais ideais
atrasaria o crescimento do Brasil.
Ponto relevante na discutida lei de imprensa foi a coibição aos abusos, haja vista ser
possível a livre manifestação desde que não ferisse o interesse e a ordem do Estado, nem os
preceitos da igreja católica. A pena proposta na redação do artigo 6º da mencionada norma
previa dez anos de degredo se o excitamento popular à rebelião fosse realizado diretamente ou
513
pagamento de oitocentos mil reis quando a prática fosse por meios indiretos. Curioso o
resquício do processo inquisitorial na mentalidade dos deputados, que permitia inferências
pessoais para a capitulação do crime, uma vez que a legislação previa penalidade para quem
utilizasse de alegorias ou disseminasse desconfianças entre o povo. Chegou-se ao absurdo de
ser apresentada emenda ao mencionado artigo, atribuindo a pena de morte a quem abusasse da
liberdade de imprensa. 514
Uma vez que a situação da Assembleia perante o governo ficou crítica em virtude dos
periódicos, várias sugestões foram apresentadas com o fim de minorar a questão, propondo-
se, inclusive, a suspensão da votação do Projeto até finalização da votação à lei de imprensa, e
a restrição, em caráter excepcional, para manutenção da segurança pública.
513
O artigo 23 do Projeto previa a vedação à censura antes ou depois de publicados os escritos, ressalvando a
responsabilidade aos casos previstos em lei.
514
Propositura feita pelo deputado Carvalho e Mello na sessão de 10 de novembro. Annaes – Tomo Sexto.
p.226.
515
Consta-se que D. Pedro era reconhecido como inculto, de caráter dúbio com relação a suas convicções
constitucionais e seu temperamento impulsivo. RODRIGUES, José Honório. Op.cit.p.11.
145
Vale refletir que o projeto da Independência fora abraçado com fervor pelos
brasileiros, “mas poucos concordavam a respeito do que fazer com o novo país depois de
518
conquistada a autonomia” e foi essa dúvida que envenenou e degenerou o coração da
Constituinte, levando à derrocada.
Afonso Arinos, por sua vez, discorda desse posicionamento especificamente sobre a
atuação de Antônio Carlos, chegando a elogiar o caráter sociológico da Carta, sobrepujando
ao jurídico, pois primeiramente “assentou as bases fundamentais brasileiras e, só depois, foi
ver o que havia de aplicável nas constituições de outros países”, realizando movimento
contrário aos demais membros da Comissão que compilaram os textos de outras
constituições520.
516
Ainda no sentido de previsibilidade da extinção da Assembleia: RODRIGUES, José Honório. Op.cit..p.12.
517
SOUSA, Octávio Tarquínio de. História dos Fundadores do Império do Brasil: José Bonifácio. Rio de
Janeiro: José Olympio, 1972.p. 1X) Paes de Andrade e Paulo Bonavides falam, nesse sentido, que apesar da
erudição dos constituintes, ainda faltava maturidade no desenvolvimento das ideias políticas e na “precariedade
da consciência cívica”, haja vista que os princípios esposados acabavam por serem deturpados nos
particularismos. BONAVIDES, Paulo; ANDRADE, Paes de. Op.cit..p.46.
518
GOMES, Laurentino. Op.cit.. p.64.
519
RODRIGUES, José Honório. Op.cit..p.154.
520
FRANCO, Afonso Arinos de Melo. Op.cit. 1960. p68.
146
521
Carneiro da Cunha vaticina que a “tara absolutista” levou o imperador a dissolvê-
la. Quanto à queda dos Andradas, reputa-a ao somatório de vários conchavos políticos
agregados à manobra daqueles que se interessavam pelo tráfico, somada à ansiedade do jovem
monarca de se ver livre de qualquer controle.
521
CUNHA, Pedro Octávio Carneiro da. Op.cit. p. 242
522
No caso o autor se referia a Antônio Carlos Ribeiro de Andrada.
147
523
imprensa, bem como a expulsão dos Andradas da Assembleia . Sentindo-se ultrajados com
os escritos nos periódicos “Sentinella da Praia Grande, e o Tamoio, attribuindo-se na mesma
representação aos Exms. deputados Andrada Machado, Ribeiro d’ Andrada, e Andrada e Silva
524
a influência naquele, e a redacção neste (...)” , acusaram os autores de revolucionários,
instalando-se as tropas do imperador nas ruas, espalhando temor. Não sem motivos, referido
ato gerou estrondoso desconforto e insegurança entre os deputados, desencadeando
exacerbadas reações nacionalistas, que perceberam o excesso na conduta tanto da tropa
imperial quanto do próprio imperador.
523
A movimentação das tropas imperiais nas ruas, atuando abusivamente contra cidadãos brasileiros, gerou
irresignação entre os deputados, que solicitaram esclarecimentos ao imperador. Em resposta D. Pedro remeteu
ofício à Assembleia, que foi lido na sessão do dia 11 de novembro, esclarecendo que os militares fizeram uma
representação contra o órgão do legislativo em virtude de escritos revolucionários publicados nos Jornais
Sentinella da Praia Grande e O Tamoio.
524
Annaes – Tomo Sexto. p. 235.
525
Em discurso proferido em sessão do dia 11 de novembro, o Deputado Carneiro da Cunha expressa sua
consternação com a reação militar e ofício imperial, levantando sérias suspeitas sobre a motivação dos atos
atentatórios à ordem democrática: “Muito doloroso me é que o governo de Sua Magestade respondesse de
semelhante forma, tomando pretexto dos movimentos das tropas as publicações de dois periódicos! Como é
possível que esta seja a causa de se achar acampada a tropa? Por ventura não tem havido em todos os tempos
periódicos incendiários? Não se tem lido no Diário do Governo tantas doutrinas perturbadoras? E o governo
pedio então algumas providencias? Não atacavão essas doutrinas a todo o momento o corpo legislativo? Não
appareceu até uma carta totalmente subversiva do systema que a nação jurou, e cujos princípios se encaminhavão
a produzir a anarchia? E porque não tomou então o governo a mesma energia que ora toma? (...) Annaes – Tomo
Sexto. p. 236.
526
Na mesma esteira de raciocínio o Presidente da Assembleia: “Fallemos por uma vez claro; este não é o
motivo dos acontecimentos de que somos testemunhas; outros existem seguramente, e eles apparecerão”.
Annaes – Tomo Sexto. p. 236.
527
Annaes – Tomo Sexto. p. 238.
148
528
A negativa na participação nos referidos periódicos pode ser encontrada na fala de Antônio Carlos durante a
sessão do dia 11 de novembro de 1823: “Eu nunca tive influencia em semelhantes papeis, referidos no officio do
ministro; por consequencia o ministerio mentio, quando tomou semelhante pretexto para fazer accusação tão
falsa e tão indigna. Se acaso há abuso de liberdade de imprensa nesses papeis, faça o governo a sua obrigação,
chame a jurados os autores delles!” Annaes – Tomo Sexto. p. 237
529
SILVA, Antônio Carlos Ribeiro de Andrada Machado e. Sessão da assembleia constituinte de 10 de
novembro de 1823, in: Annaes – Tomo Sexto. p. 228.
530
Veremos mais à frente que a ferrenha disputa entre portugueses absolutistas e brasileiros temperados ou
republicanos, foi o pano de fundo das diversas discussões que perpassaram pela assembleia na discussão do
Projeto de Constituição, merecendo destaque os artigos que trataram sobre o direito de nacionalidade, liberdades
individuais e de imprensa, que serão tratadas oportunamente. Apesar de ser extenso o discurso de Martim
Francisco, achamos prudente transcrever parte dele, por bem representar o que acabamos de dizer sobre a
dissenção entre as nacionalidades, tumultuando o andamento da votação da Carta Constitucional. Aqui já
conseguimos perceber a ojeriza, antes mascarada, agora ostensiva, pelos portugueses, corroborando o que acima
expusemos sobre o operoso trabalho da sociedade secreta, mormente na facção portuguesa, sobre o ânimo de D.
Pedro. Essas discussões, que antes aconteciam apenas em reuniões fechadas, foram trazidas a público, em forma
de frontais ataques: “(...) Disse-se que semelhante atentado estava no caso dos crimes ordinários, e era filho dos
abusos da imprensa: examinemo-lo. Na noite do dia tal, erão 7 para 8 horas, foi atacado em sua botica no largo e
ao pé da guarda da carioca, o boticário David Pamplona, pelo sargento-mor Lapa, e capitão Moreira, e
149
A dissolução foi um golpe aos brasileiros traídos que foram pelo filho da nação
portuguesa, recebido e aclamado pela maioria da população. A discussão que dantes
permeava apenas os corredores da Assembleia foi para as ruas, tornando-se “dissídio das
532
nacionalidades, ou melhor, das naturalidades (brasileiros natos e adotivos)” .
horrivelmente espancado. E porque? Por ser brazileiro resoluto. Por quem? Por perjuros, que menoscabando a
religião do juramento, e cobertos com o manto postiço, e emprestado de brasileirismo, pagão o benefício de os
havermos incorporados à nossa nação, com repetidas traições, e persuadidos talvez de impunidade, ceivão seu
ódio contra nós, derramando o nosso sangue, e sollapando indirectamente as bases da nossa independência.
Infames! (...) Vivem entre nós estes monstros, e vivem para nos devorarem! Note-se que a guarda não acudiu
estando proxima,e devemos crer que teve ordem para isso: que não houve abuso de imprensa, houve sim culpa
de ser brazileiro e resoluto. Grande Deus! É crime amar o Brazil, ser n’elle nascido e pugnar pela sua
independencia, e pelassuas leis! Ainda vivem, ainda supportamos em nosso seio semelhantes feras!”In: Annaes
– Tomo Sexto. p. 228.
531
O referido episódio, denominado pelos historiadores de Noite da agonia, está registrado nos Annaes – Tomo
Sexto. p. 229.
532
CUNHA, Pedro Octávio Carneiro da. Op. Cit. p. 252.
533
SILVA, José Bonifácio de. Op. Cit. p.212.
150
534
Annaes – Tomo Sexto. p.247.
151
535
RODRIGUES, José Honório. Op. Cit.p.102.
536
Ibid., p.104-105
152
537
Anselmo Macieira apresenta dois caminhos para a elaboração das leis: ou ela é
construída a partir de fatos e coisas reais, em que o fator humano e endógeno sobrepõe-se aos
demais; ou faz parte de uma ideia representativa de valores, formatando uma sociedade ideal,
apartada da realidade. Nesse sentido, é de se notar a inautenticidade da Carta de 1824, forjada
sobre o Projeto de 23 que, por sua vez, acoplou dispositivos de outras constituições, segundo
538
demonstrado anteriormente. Obedeceu aos característicos das constituições latinas, que
formulam Cartas teóricas em que prevalece a inserção de princípios gerais e abstratos. Apesar
dos tropeços e confusões que emolduraram sua criação e outorga, foi uma das Cartas mais
liberais de seu tempo; seu conteúdo a eleva como sendo “dos estatutos mais progressistas,
ressalvado, porém o prestígio imperial”. 539
D. Pedro tinha pressa em apresentar a nova Constituição, sua imagem liberal não
podia sofrer mais abalos, sob pena de perda da sua legitimidade diante dos brasileiros. A
540
prisão e o exílio para a Europa da “trindade Andradina” foi recurso necessário ao
imperador para garantir a manutenção da ordem interna, mediando o mal estar criado com a
expulsão. Com o objetivo de contornar a situação, criou um Conselho de Estado com
atribuição de redigir a nova Constituição – salientando a destacada participação de Carneiro
de Campos - cuja composição continha 70% dos deputados da Constituinte de 23. Isso explica
o continuísmo e certo aprimoramento às proposições da Assembleia.
Ressalta-se que a base apresentada por D. Pedro ao Conselho “não era senão o antigo
541
projeto de Constituição, elaborado basicamente por Antônio Carlos” , embora bastante
aprimorado em sua linguagem e técnica legislativa. Aurelino Leal, por sua vez, transcreve
enxertos de discursos do deputado Drummond informando que o Projeto apresentado por D.
Pedro foi fruto de trabalho intelectual de Martim Francisco, à exceção dos Conselhos
537
MACIEIRA, Anselmo. Constituição de 1824 – um fato na História do Brasil. In: Revista de Informação
Legislativa: abril-junho, 1976. p.145-167.
538
Analisando a evolução do encadeamento das ideais, especialmente no que tange à liberdade, Aurelino Leal
entende justo que a Constituição Brasileira se baseie em escritos que lhe antecederam, tal como a Carta Francesa,
Norueguesa, Espanhola e Norte Americana, uma vez que “o fundamento da liberdade é um só e os meios para
realiza-la, em essência, pouco diferem”. Somos de opinião que, de fato, não há demérito na inspiração em outros
documentos, aproveitando o que for conveniente ao país; questionamos, contudo, se os dispositivos aplicáveis
em outras localidades, muitas vezes de forma exitosa, mas com realidade diversa, também poderia ser aplicada
ao Brasil, a exemplo do Poder Moderador e o próprio silêncio quanto à gradativa emancipação dos escravos.
LEAL, Aurelino. História Constitucional do Brazil. Brasília: Ministério da Justiça, 1994.p.116.
539
SOUSA, Octávio Tarquínio de. Op. Cit. p. 1X)
540
FRANCO, Afonso Arinos de Melo. Op. Cit. p.70.
541
BONAVIDES, Paulo; ANDRADE, Paes de. Op. Cit. p.86.
153
545
Nos dizeres de Aurelino Leal a Constituição Outorgada diferia do Projeto de
Antônio Carlos no aspecto tributário, prevendo a anualidade do tributo mediante aprovação do
546
Legislativo, respeitando, todavia, as obrigações anteriores à publicação da Constituição .
547
Administrativamente, dividia o território em Províncias ao invés de Comarcas, Distritos e
Termos, denotando avanço na estrutura federativa que simplificava a intermediação com a
542
LEAL, Aurelino. Op. Cit..p.108-114.
543
Afonso Arinos destaca a participação do Padre Feijó na apresentação de reformulação do texto constitucional,
apontando suas proposições de medidas “como temporalidade parcial do Senado e a restrição das faculdades
políticas conferidas ao Poder Moderador”, ambas se cunho precursor. FRANCO, Afonso Arinos de Melo. Op.
Cit. 1960.p86.
544
BONAVIDES, Paulo; ANDRADE, Paes de. Op. Cit. p.88
545
LEAL, Aurelino. op. cit., p.116-121.
546
Art. 171. Todas as contribuições directas, á excepção daquellas, que estiverem applicadas aos juros, e
amortisação da Divida Publica, serão annualmente estabelecidas pela Assembléa Geral, mas continuarão, até que
se publique a sua derogação, ou sejam substituidas por outras. Constituição Política do Império do Brazil
547
Art. 2. O seu territorio é dividido em Provincias na fórma em que actualmente se acha, as quaes poderão ser
subdivididas, como pedir o bem do Estado. Constituição Política do Império do Brazil
154
Este, por sua vez, aparece como um poder consentido pelo imperador (artigo 13) e os
ministros de Estado, que seriam nomeados por aquele, acabavam com a possibilidade de um
efetivo parlamentarismo (artigo 102). Além do Moderador, os poderes conferidos ao
548
Art. 179 (...) XXXV. Nos casos de rebellião, ou invasão de inimigos, pedindo a segurança do Estado, que se
dispensem por tempo determinado algumas das formalidades, que garantem a liberdede individual, poder-se-ha
fazer por acto especial do Poder Legislativo. Não se achando porém a esse tempo reunida a Assembléa, e
correndo a Patria perigo imminente, poderá o Governo exercer esta mesma providencia, como medida provisoria,
e indispensavel, suspendendo-a immediatamente que cesse a necessidade urgente, que a motivou; devendo num,
e outro caso remetter á Assembléa, logo que reunida fôr, uma relação motivada das prisões, e d'outras medidas
de prevenção tomadas; e quaesquer Autoridades, que tiverem mandado proceder a ellas, serão responsaveis pelos
abusos, que tiverem praticado a esse respeito.
549
CASTRO, Flávia Lages de. Op. Cit..p.355.
550
FRANCO, Afonso Arinos de Melo. Algumas Instituições Políticas no Brasil e nos Estados Unidos. São
Paulo: Forense, 1975. p.41-43.
155
551
Imperador eram de grande alcance, interferindo na esfera legislativa e judiciária. Há que
se apontar, ainda, a previsão de um Supremo Tribunal de Justiça, segundo dicotomia dos
artigos 163 e 164, cujas funções foram regulamentadas apenas em 1828, cabendo ao
Legislativo a interpretação da lei, função esta que em 1841 passou a ser exercida pelo
Conselho de Estado.
O artigo 179 trata sobre os direitos civis e políticos dos cidadãos brasileiros,
ostensivamente fomentados pela ilustração europeia. De Locke herdou o caráter anti –
absolutista, o que gerou a positivação de incisos delimitadores da atuação pública, mormente
no tocante ao julgamento, prisão, formação de culpa e à liberdade de locomoção. A inspiração
de Montesquieu recaiu sobre a primazia da lei na organização da sociedade e no
direcionamento dos atos públicos e particulares, conferindo às normas jurídicas, caráter
utilitarista. A igualdade perante a lei traz o pacto social de Rousseau, e as liberdades
individuais, de imprensa, de trabalho e de locomoção, serviram-se de Sieyès. Apesar de
pioneiramente liberal, foi o menos efetivo de toda a Constituição, uma vez que fala em
direitos humanos e cidadania para uma sociedade cuja maioria não se enquadra no dispositivo
legal.
O Poder Judiciário era único para todo o império, sem magistraturas nas províncias. O
Juiz de paz, eleito, exercia uma jurisdição voluntária, facultativa e preliminar à fase judicial
propriamente dita, na tentativa de se obter uma conciliação.
A influência francesa pode ser sentida na delimitação dos direitos públicos subjetivos,
garantidores contra a intervenção do Estado, visando, “precipuamente à proteção do
551
Por força dos artigos 66, 67 e 102 da Constituição, uma lei “só teria valor no Brasil após a sanção objetiva do
Imperador e se este simplesmente não se pronunciasse acerca da sanção ou do veto de uma determinada lei seria
o mesmo que vetá-la”. No tocante a ingerência sobre o Judiciário, encontramos o fundamento na atribuição
conferida ao Imperador, por força do artigo 102, parágrafo 3º, de nomear magistrados. Ibid., p. 361.
156
552
indivíduo, à segurança da sua liberdade individual”. A inserção do habeas corpus fora da
Carta Constitucional, fazendo parte de leis ordinárias, tais como o Código Criminal de 1830,
assim como os motivos de suspensão das garantias individuais também obedeceram a tradição
francesa.
555
“A Constituição desvinculava-se da sua cor reivindicatória” , preconizando a tão
aclamada liberdade, entretanto apartada da democracia e assentando o liberalismo distante da
soberania popular.
A nosso ver, Raymundo Faoro foi quem mais objetivamente resumiu as aparentes
contradições da Carta de 1824, informando que a soberania nacional respeitara as tradições e
as comunidades em um continuísmo histórico, sem, contudo, desenvolver o caráter popular
responsável pelo fim da monarquia. A liberdade se perfilhara na consolidação dos direitos
552
FRANCO, Afonso Arinos de Melo. Op. Cit. 1960. p100.
553
BONAVIDES, Paulo; ANDRADE, Paes de. Op. Cit. p. 13-14.
554
IGLÉSIAS, Francisco. Momentos Democráticos na Trajetória Brasileira. In: Brasil, sociedade
democrática. Org. Afonso Arinos de Melo Franco. Rio de Janeiro: José Olympio, 1985.p.138.
555
FAORO, Raymundo. Op. Cit. p.280.
157
O poder moderador merece destaque neste capítulo, pois foi, possivelmente, “o pomo
da maior controvérsia política do século em matéria de definição da esfera e alcance dos
poderes constitucionais”. 558 Figurou no afamado artigo 98 da Constituição Imperial Brasileira
enquanto fruto de inspiração do poder real de Benjamin Constant, tutelado por Clermont
556
Ibid., p.291.
557
Ibid., p.289.
558
BONAVIDES, Paulo; ANDRADE, Paes de. Op. Cit.p.86.
158
Tonnerre 559. Narra Paulino Jacques que foi inserido na Carta de 24 por influência de Martim
Francisco que, concomitantemente ao irmão Antônio Carlos, esboçou um Projeto de
Constituição em 1823, nele contendo a presença do poder moderador. Entretanto, como é
sabido, o documento que recebeu apoio de José Bonifácio foi o elaborado pelo segundo. D.
Pedro, todavia, tendo ciência dos dois Projetos, teve curiosidade de conhecer o escrito do
Andrada mais novo, tendo dele extraído o instituto 560.
Salientamos que apesar de não inserir o Poder Moderador no Projeto, Antônio Carlos
era favorável a ele enquanto mediador dos excessos entre os demais poderes e fonte de
unidade governamental, formando uma monarquia absoluta e não despótica, segundo se
561
depreende do discurso proferido em sessão do dia 16 de maio de 1823 . Somos de opinião
que os Andradas não eram contrários à figura do Poder Moderador, concebendo-o, todavia,
em uma monarquia parlamentarista, e não unitária, atribuindo ao imperador as funções de
manutenção da segurança e consolidação da identidade nacional “capaz de elevar o
sentimento de pertencimento dos súditos/cidadãos e de unificar a condução dos destinos da
nação” 562 apartando-o, contudo, do processo deliberativo e legislativo.
559
Consta-se que por influência de Clermont, a primeira Constituição a tratar sobre o poder real foi a Carta
Francesa de 1791, sob a égide do cetro de Luiz XVIII.
560
JACQUES, Paulino. Do relacionamento dos poderes políticos na Constituição do Império. In: Revista de
Informação Legislativa. Janeiro-Março 1974. p.5-16.
561
Annaes – Tomo Primeiro. p. 91.
562
REPOLÊS, Maria Fernanda Salcedo. Quem deve ser o guardião da Constituição? Do poder moderador
ao Supremo Tribunal Federal. Belo Horizonte: Mandamentos, 2008.p. 41.
563
Art. 99. A Pessoa do Imperador é inviolavel, e Sagrada: Elle não está sujeito a responsabilidade alguma.
159
importante que um quarto integrante, impessoal, capaz e leal às finalidades estatais exerça o
papel mediador. 564
566
O poder moderador de Constant foi “aclimatado” à estrutura do Estado brasileiro
567
de forma a criar um ente moderador “sem responsabilidade, dos outros Poderes” , com a
peculiaridade de ser delegado - em consonância com a doutrina da soberania popular -
exclusivamente ao Imperador, também responsável pela chefia do Executivo. Dentro dessa
estrutura de adaptabilidade, encontraremos a modificação de nomenclatura de real para
moderador “porque elle realmente é a representação da nação moderando o seu próprio poder;
colocando-o acima dos outros poderes políticos para velar sobre elles e dirigi-los”.568
564
SOUZA, Braz Florentino Henriques de. Do Poder moderador – ensaio de direito constitucional. Recife:
Typographia Universal, 1864.p.4
565
FRANCO, Afonso Arinos de Melo. Op. Cit, 1960.p.95. Entendimento idêntico foi o de Paulo Bonavides para
quem a parcimoniosa figura de Pedro II conferiu maior autonomia e imparcialidade na atuação moderadora, se
aproximando mais do ideal de Constant: “atuando fora dos autoritarismos que os quadros constitucionais lhe
consentiam, é que o Poder Moderador exercido com parcimônia e sabedoria política, segundo fizeram ver alguns
analistas das instituições do império, pode na prática avizinhar-se mais do modelo de Constant, do que talvez na
Constituição autoritária do príncipe outorgante, onde se originara”. BONAVIDES, Paulo. O Poder Moderador
na Constituição do Império (Exemplo de um desencontro do Direito com os fatos). In: Revista de
Informação Legislativa. jan a março – 1974.p. 27-32.
566
CHACON, Vamirech. Estado e Povo no Brasil: as experiências do Estado Novo e a Democracia
populista: 1937-1964. Rio de Janeiro: Câmara dos Deputados,1977.p. 15
567
VALLADÃO, Haroldo. História do Direito: especialmente do Direito Brasileiro. Rio de Janeiro: Livraria
Freitas Bastos, 1977.p. 109.
568
SOUZA, Braz Florentino Henriques de. Op. Cit.p.20.
160
segundo intelecção do artigo 102 da Constituição, agem como medianeiros de D. Pedro, tudo
realizando em seu nome e por sua ordem. O autor também utiliza como fundamentação à
preeminência do imperador a identificação/confusão deste, em diversos dispositivos
constitucionais, com o próprio Executivo, ex vi artigos 53, 56 e 141 ressaltando que, se assim
não fosse, o Imperador apenas reinaria em vez de governar o país. 569 Apesar de não ser esse o
seu intento, sua exposição evidencia o caráter personalíssimo dos poderes Executivo e
Moderador na figura do herdeiro da casa de Bragança o que, por si só, contraria o próprio
instituto do movimento constitucionalista.
Entretanto, na tentativa de mitigar o mal estar causado com a situação, considera que
as atribuições de ambos os poderes exigem qualidades concedíveis apenas à pessoa do
monarca, fazendo que estas prerrogativas fossem divididas em duas categorias: a primeira
teria o condão de exercer a função de inspecionar a organização política, definir as
necessidades mais urgentes do Estado e corrigir os excessos; a segunda – atribuível aos
ministros – diz respeito à marcha ordinária das atuações estatais, sempre advertindo a relação
de subordinação entre Imperador e ministros. Considera, ainda, que o Poder Moderador pode
ser objeto de responsabilização caso atue em dissonância com a lei ou interesses públicos,
esclarecendo que a irresponsabilidade é do imperador, cuja figura é sagrada e inviolável, não
se estendendo essa prerrogativa ao Poder real. Daí a relevância de responsabilização dos
ministros e dos membros do Conselho de Estado, pois o imperador no exercício da moderação
atua após ouvir a opinião dos seus ministros ou do Conselho de Estados e, caso venha a agir
erroneamente, fê-lo por má orientação, sendo cabível, desta feita, a punição àqueles que mal
conduziram a vontade imperial. Ademais, o poder moderador não fica isento de fiscalização, a
ser exercida pela opinião nacional manifestada por intermédio das Câmaras e da imprensa
nacional. 570
569
Complementando esse sentido Marcelo Cattoni e Adamo Dias entendem que o poder moderador foi inserido
na Constituição Imperial exatamente para se evitar que a monarquia brasileira se aproximasse da inglesa, em que
o rei apenas governa. Isso porque a Carta de 1824, inspirada no Projeto de 1823, tendia à formação de uma
monarquia parlamentarista. Assim, coube ao poder moderador o controle dos excessos liberais. OLIVEIRA,
Marcelo Andrade Cattoni de; Alves, Adamo Dias. Op. Cit. p. 176.
570
VASCONCELLOS, Zacarias de Góes. Da natureza e Limites do Poder Moderador. Rio de Janeiro:
Typographia Universal de Laemmert, 1862.
161
“quem manda a todos com imperio: ao legislativo pelo veto, pelo adiamento da
Assemlléa Geral; pela dissolução da câmara dos deputados; - ao executivo pela
demissão dos ministros; - ao judiciário pela suspensão do magistrado, pelo perdão
das penas e pela amnystia. E' elle quem a todos dá por esses meios uma direcção
uniforme, quem a todos communica os princípios de vida e de ordem necessários à
manutenção da sociedade” 572.
571
Braz Florentino, ao defender a titularidade do Poder Moderador ao Imperador coloca-o em posição
superioridade em relação aos demais poderes: “É o imperador, com efeito, quem no exercício regular das suas
atribuições próprias do Poder Moderador, corrige os desvios, modera os excessos, e contém em suas respectivas
órbitas os outros poderes, sobre os quaes vela incessantemente; desde então é Elle que de certo modo dirige e
governa somo chefe supremo da nação, sendo incontestável a supremacia ou a superioridade do vigilante sobre
os vigiados, do moderador sobre os que devem ser moderados”. SOUZA, Braz Florentino Henriques de. Op. Cit
p. 29.
572
SOUZA, Braz Florentino Henriques de. Op. Cit. p. 25.
162
relembrar, nos moldes adrede assentados, que os temores advindos dos conflitos sociais
internos e externos, disputas políticas e divergências ideológicas que rondavam a recém
liberta nação, de fato, requeriam atuação mais precavida da cúpula governativa.
Adepto desta corrente Braz Florentino chega a descrevê-lo como a mais alta forma de
soberania nacional; “a expressão de uma grande necessidade governativa, como um elemento
indispensável de ordem e de verdadeira liberdade e como a mola principal nos governos
577
monarchicos, constitucionais e representativos, tal qual o nosso” , apontando-o como base
de legitimidade à própria monarquia constitucional e ovacionando a possibilidade de referida
prerrogativa estar nas mãos do imperador. Isso porque, em seu entendimento, cabe ao
moderador harmonizar o país dentro de um conceito de unidade política, lembrando que todo
aquele que detém o poder carrega junto a si a possibilidade de abusá-lo.
Por tudo exposto, há que se destacar o posicionamento de Afonso Arinos que, apesar
da excrecência do instituto, a maturidade política do Brasil tornava plausível a condução do
578
FRANCO, Afonso Arinos de Melo. Op. Cit 1960.p.93.
579
Ibid., p.56-57.
580
REPOLÊS, Maria Fernanda Salcedo. Op. Cit.p. 37.
581
CHACON, Vamirech. Estado e Povo no Brasil: as experiências do Estado Novo e a Democracia
populista:1937-1964, Rio de Janeiro:Câmara dos Deputados,1977.p. 15
582
Para maiores informações sobre a atuação de Bernardo Vasconcellos, vide VALLADÃO, Haroldo. História
do Direito: especialmente do Direito Brasileiro. Rio de Janeiro: Livraria Freitas Bastos, 1977.p. 109-110,
inclusive no Ato Adicional à Constituição de 1824, campeando o regime federalista por intermédio das
assembleias provinciais.
165
governo nos moldes traçados por D. Pedro I. Em verdade, a maior justificativa para a inserção
do Poder Moderador na Constituição Imperial foi conferir unidade ao país, evitando seu
desmantelamento e coibindo possíveis e quase inevitáveis confrontos internos e externos.
Mais uma vez apontamos a identidade de pensamento entre o constitucionalista mineiro e
Paulo Bonavides:
583
BONAVIDES, Paulo. O Poder Moderador na Constituição do Império (Exemplo de um desencontro do
Direito com os fatos). In: Revista de Informação Legislativa. jan a março – 1974.p. 27-32.
584
LEAL, Aurelino. Op. Cit.p.146.
166
586
Ainda nesse viés comparativo das Constituições norte-americana , francesa e
brasileira, faz-se importante refletirmos sobre o posicionamento de Canotilho de que a
liberdade preconizada pelo primeiro não era contrato entre governantes e governados tal qual
entendia Rousseau, mas sim um acordo celebrado pelo povo e entre ele para se criar um
governo vinculado à Carta Maior – figurando no cume enquanto higher law - contendo
587
valores, princípios e direitos dimensionados racionalmente pela realidade vivenciada .
Assim, pondera-se que a forma de assimilação da ordem democrática foi diversa entre
França e Estados Unidos, considerando, neste último caso, a superioridade do documento
constitucional com relação a outras bases normativas com o condão de organizar e limitar o
governo, dando ênfase à autonomia federalista, esta já abordada em capítulo pregresso. A
585
COMPARATO, Fábio Konder. A afirmação histórica dos direitos humanos. São Paulo: Saraiva, 2004.p.
129.
586
José Alfredo de Oliveira Baracho, analisando o movimento constitucionalista, destaca a expressão norte
americana nesse contexto, pondo em relevo a Constituição de 1787enquanto documento responsável pela nova
utilização do uso da palavra ‘Constituição’ enquanto lei escrita responsável pela limitação da ação
governamental. Lado outro, apresenta a disposição francesa em respaldar a constituição focada na atuação
geralmente renovadora do órgão constituinte que a elaborou. BARACHO, José Alfredo de Oliveira. Teoria
Geral do Constitucionalismo. In: Revista de Informação Legislativa. Julho-Setembro /1986.
587
CANOTILHO, J.J. Gomes. Direito Constitucional e Teoria da Constituição. Coimbra: Almedina.p. 59.
167
tradição francesa, por sua vez, ainda que democrática, sempre possibilitou espaço à tirania,
seja da minoria burguesa, conforme ensaiado por Sieyés, ou pela massa popular, situação esta
rechaçada com veemência por Constant. Uma vez que nossos jurisconsultos, assim como os
Portugueses, pelos motivos já trazidos, bebiam nas fontes francesas, nossa Constituição se
inebriou da formatação ideológica europeia.
588
COMPARATO, Fábio Konder. Op. Cit.p. 132.
589
Vide artigos 11 e 12 da Constituição Brasileira em comparação com os artigos 1º e 2º do Título III, da
Constituição Francesa.
590
Vide artigo 179, XXII da Constituição de 1824 em comparação com o artigo 3º do Título primeiro da Carta
Francesa.
591
Vide artigo 179, IV da Constituição de 1824 em comparação com o artigo 3º do Título primeiro da
Constituição Francesa.
592
Vide artigo 99 da Constituição Imperial em comparação com o artigo 2º do Título III, Capítulo II da Carta
Francesa.
593
Vide artigo 133 da Constituição Brasileira em comparação com o artigo 5º do Título III, Capítulo II da Carta
Francesa.
594
Vide artigo 179, XXXII da Constituição Brasileira em comparação com o artigo 3º do Título primeiro da
Constituição Francesa.
168
596
A icônica Constituição de Cadiz , por sua vez, insere a Espanha no marco do
constitucionalismo liberal. O momento histórico Espanhol de maior relevância para nossas
pesquisas é o século XVIII e o movimento revolucionário cuja expressão ideológica mais
inspiradora foi a mencionada Carta Constitucional, compreende os anos de 1810 a 1812.
Agesta nos alerta que “em pocas ocasiones se há precipitado la historía española com un
movimento tan vertiginoso”.597
595
Vide artigos 91 a 96 da Constituição Imperial em comparação com os artigos 1º e 2º do Título primeiro, da
Constituição Francesa.
596
A Constituição de Cadíz serviu de modelo e inspiração a várias Cartas europeias e americanas, merecendo
lugar de destaque, em virtude do cunho liberal e democrático dos seus dispositivos, ao tom da Constituição
Francesa de 1791. Exatamente por essa similitude recebeu duras críticas de ser uma compilação, criando uma
Constituição ideologicamente democrática, mas afastada da realidade espanhola, tornando-a inexequível.
597
AGESTA, Luis Sanchez. Historia del Constitucionalismo Español. Barcelona:Talleres, 1957.p. 45.
598
Ibid., p. 46.
169
599
AGESTA, Luis Sanchez. Op. Cit.p. 81. Não é demasiado relembrar que esse entendimento foi objeto de
franca discórdia entre os constituintes de 23, porquanto neste tocante paira a divergência sobre legitimidade dos
poderes conferidos à Assembleia e a D. Pedro I.
170
600
Para maiores apontamentos sobre o tema, vide AGESTA, Luis Sanchez. Historia del Constitucionalismo
Español. Barcelona: Talleres, 1957.p. 105-113.
171
5. CONCLUSÃO
ameaçava vetar o Projeto por eles elaborado. Outra característica da sua obra que aportou na
Constituição de 1824 foi o caráter censitário das eleições, abrindo discussão à cidadania ativa
e passiva.
Não foi sem motivo que o curso da história assim se deu; a forma de colonização
brasileira estimulou a criação de pequenos feudos que, apartados do centro lisbonense,
concediam grande poder aos donatários e fomentava particularismo e individualismo
impeditivos ao florescimento do sentimento de unidade nacional. Ao contrário da Europa, os
detentores de riqueza e poder no Brasil faziam parte da aristocracia rural, sendo eles, também,
os responsáveis por trazer o liberalismo, principalmente aquele vislumbrado pela Faculdade
de Coimbra reformulada por Pombal.
A burguesia se fez presente a partir de meados do século XII, ressaltando sua origem
nos grandes mercadores portugueses. A rixa entre brasileiros e portugueses na política teve
início com o regime das governadorias-gerais, cujos cargos e honrarias eram concedidos aos
174
Nesse contexto em que diversas frentes se uniram para decidirem o futuro do país e
definirem as bases constitucionais que o caracterizariam, ficou assente os particularismos e os
individualismos. Não isento deste processo, mas extravasando toda sua potencialidade de um
bom constitucionalista, Antônio Carlos Ribeiro de Andrada, chefiando a comissão
responsável pela elaboração da Constituição, apresentou promissor Projeto a ser discutido e
votado por seus colegas, escudando-se, principalmente, nos modelos liberais europeus de
maior preeminência: a Constituição de Cadiz de 1812 e a Constituição Francesa de 1871.
As bases acerca da liberdade estavam todas ali assentadas, tentando atender a maior
parte daqueles que foram os responsáveis pelo destino do Brasil. José Bonifácio era mais um
estadista do que constitucionalista e, depois de aprovado o Projeto apresentado pelo irmão,
176
tratou de humaniza-lo no tocante à situação dos escravos, dos negros e dos índios. No intuito
de homogeneizar os particularismos e as necessidades da nação em médio prazo, defendeu a
gradativa emancipação dos escravos, apresentando políticas sociais propiciadoras da sua
progressiva civilização e integração à sociedade.
Para melhor ponderarmos esse contexto, mais uma vez precisamos refletir a momentânea
fragilidade brasileira, cuja estrutura governativa ainda não estava sedimentada em todas as
províncias. O republicanismo ainda assombrava as intelectualidades do norte e já se
aproximavam das províncias próximas à Coroa em virtude da eficaz atuação dos periódicos e
atividades da maçonaria.
A preocupação de todos era com a unidade do país, motivo pelo qual que se considera
o esdrúxulo poder moderador, fonte de rígido controle e autoritarismo imperial, importante
instrumento para a estabilidade política, formação da identidade nacional brasileira e
consolidação das bases do Estado Nacional.
A história do Brasil foi assim... Muitas das vezes avessa às previsões, em virtude da
própria imprevisibilidade das ações humanas. Colonizado para fins expropriatório e mantido
no breu na ignorância por longos séculos após seu descobrimento, foi vítima da crueldade
humana no tocante ao tratamento dos nativos e dos negros que, apesar de vindos de outro
continente, foram recebidos como filhos desta pátria.
Aprendeu desde muito cedo a formar uma administração pública corrupta, herança
também portuguesa. Acostumou-se a escravizar e a explorar de tantas formas seus irmãos em
humanidade. Conheceu, com os mártires, o valor da luta pela liberdade; a desejar um país
melhor.
178
6. ANEXOS
ANEXO I
Art. 1. O Império do Brasil é um, e indivisível, e estende-se desde a foz do Oyapok até os
trinta e quatro graus e meio ao Sul.
Art. 2. Compreende as Províncias do Pará, Rio-Negro, Maranhão, Piauí, Ceará, Rio Grande
do Norte, Paraíba, Pernambuco, Alagoas, Sergipe d’El-Rei, Bahia, Espírito Santo, Rio de
Janeiro, São Paulo, Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Minas Gerais, Goiás, Mato Grosso, as
Ilhas de Fernando de Noronha, e Trindade, e outras adjacentes; e por federação o Estado
Cisplatino.
Art. 3. A nação Brasileira não renuncia ao direito, que possa ter a algumas outras possessões
não compreendidas no Artigo 2º
Art. 4. Far-se-á do Território do Império conveniente divisão em Comarcas, destas em
Distritos, e dos Distritos em termos, e nas divisões se atenderá aos limites naturais, e
igualdade de população, quanto for possível.
II. Os Filhos de Pais Brasileiros, que perderam a qualidade de Cidadãos Brasileiros, uma
vez que tenham maioridade, e domicílio no império.
Art. 8. Nenhum Brasileiro pois será obrigado a prestar gratuitamente, contra sua vontade,
serviços pessoais.
Art. 9. Nenhum Brasileiro será preso sem culpa formada, exceto nos casos marcados na lei.
Art. 10. Nenhum Brasileiro, ainda com culpa formada, será conduzido à prisão, ou nela
conservado estando já preso, uma vez que preste fiança idônea nos casos em que a lei admite
fiança; e por crimes a que as Leis não imponham pena maior do que seis meses de prisão, ou
desterro para fora da Comarca, livrar-se-á solto.
Art. 11. Nenhum Brasileiro será preso, à exceção de flagrante delito, se não em virtude de
Ordem do Juiz, ou resolução da Sala dos Deputados, no caso em que lhe compete decretar a
acusação, que lhe devem ser mostradas no momento da prisão: excetua-se o que determinam as
Ordenações Militares respeito à disciplina, e recrutamento do Exército.
Art. 12. Todo o Brasileiro pode ficar ou sair do Império quando lhe convenha, levando consigo
seus bens, contanto que satisfaça aos regulamentos Policiais, os quais nunca se estenderão a
denegar-se-lhe a saída.
Art. 13. Por enquanto haverá somente Jurados em matérias crimes; as cíveis continuaram a ser
decididas por Juízes, e Tribunais. Esta restrição dos Jurados não forma artigo Constitucional
Art. 14. A liberdade religiosa no Brasil só se estende às comunhões Cristãs; todos os que as
professarem podem gozar dos Direitos Políticos no Império.
Art. 15. As outras religiões, além da Cristã, são apenas toleradas, e a sua profissão inibe o
exercício dos direitos Políticos.
Art. 16. A Religião Católica Apostólica Romana é a Religião do estado por Excelência, e única
mantida por ele.
Art. 17. Ficam abolidas as Corporações de Ofício, Juízes, Escrivães, e Mestres.
Art. 18. A Lei vigiara sobre as profissões, que interessam os costumes, a segurança, e a saúde
do Povo.
Art. 19. Não se estabeleceram novos monopólios, antes as Leis cuidaram em acabar com
prudência os que ainda existem.
Art. 20. Ninguém será privado de sua propriedade sem consentimento seu, salvo se o exigir a
conveniência pública, legalmente verificada.
Art. 21. Neste caso só será o esbulhado indenizado com exatidão, atento não só o valor
intrínseco, como o de afeição, quando ela tenha lugar.
Art. 22. A Lei conserva aos Inventores a propriedade das suas descobertas, ou das suas
produções, segurando-lhes privilégio exclusivo temporário, ou remunerando-os em
ressarcimento da perda que haja de sofrer pela vulgarização.
181
Art. 23. Os escritos não são sujeitos à censura, nem antes, nem depois de impressos; e ninguém
é responsável pelo que tiver escrito, ou publicado, salvo nos casos, e pelo modo, que a Lei
apontar.
Art. 24. Aos Bispos, porém fica salva a censura dos escritos publicados sobre dogma, e moral;
e quando os autores, e na sua falta os publicadores, forem da Religião Católica, o Governo
auxiliará os mesmos bispos, para serem punidos os culpados.
Art. 25. A Constituição proíbe todos os atentados aos direitos já especificados; proíbe, pois
prisões, encarceramento, desterros, e quaisquer inquietações policiais arbitrárias.
Art. 26. Os Poderes Constitucionais não podem suspender a Constituição no que diz respeito
aos direitos individuais, salvo nos casos e circunstâncias especificadas no Artigo seguinte.
Art. 27. Nos casos de rebelião declarada, ou invasão de inimigos, pedindo a segurança do
estado que se dispendem por tempo determinado algumas das formalidades que garantem a
liberdade individual, poder-se-á fazer por ato especial do poder legislativo, para cuja
existência é mister dois terços de votos concordes.
Art. 28. Findo o tempo da suspensão, o Governo remeterá relação motivada das prisões; e
quaisquer Autoridades que tiverem mandado proceder a elas serão responsáveis pelos abusos
que tiverem praticado a este respeito.
Art. 29. Os direitos políticos consistem em ser-se Membro das diversas Autoridades
Nacionais, e das Autoridades locais, tanto municipais, como administrativas, e em concorrer-
se para a eleição dessas Autoridades.
Art. 30. A Constituição reconhece três graus diversos de habilidade política
Art. 31. Os direitos políticos pedem:
I. O que naturalizar em pais estrangeiro.
II. O que sem licença do Imperador aceitar emprego, pensão, ou condecoração de
qualquer Governo Estrangeiro.
Art. 32. Suspende-se o exercício dos Direitos políticos:
I. Por incapacidade física, ou moral.
II. Por sentença condenatória a prisão, ou degredo, em quanto durarem os seus efeitos.
Art. 39. Os poderes políticos reconhecidos pela Constituição do Império são três: o poder
Legislativo, o poder Executivo, e o Poder Judiciário.
Art. 40. Todos estes Poderes no Império do Brasil são delegações da Nação; e sem esta
delegação qualquer exercício de poderes é usurpação.
Art. 43. A Assembleia Geral consta de duas salas: Sala dos Deputados, e sala de Senadores,
ou Senado.
Art. 44. É da atribuição privativa da Assembleia Geral, sem participação do outro ramo da
Legislatura:
I. Tomar juramento ao Imperador, ao Príncipe Imperial, ao Regente, ou Regência.
II. Eleger regências nos casos determinados, e marcar os limites da Autoridade do
Regente, ou Regência.
III. Resolver as dúvidas que ocorrerem sobre a sucessão da Coroa.
IV. Nomear Tutor ao Imperador menor, caso seu pai o tenha nomeado em testamento.
V. Expedir cartas de convocação de futura Assembleia, se o Imperador o não tiver feito
dois meses depois do tempo que a Constituição lhe determinar.
VI. Na morte do Imperador, ou vacância do Trono, instituir exame da administração que
acabou, e reformar os abusos nela introduzidos.
VII. Escolher nova Dinastia, no caso da extinção da Reinante.
VIII. Mudar-se para outra parte, quando, por causa de peste, e invasão de inimigos, ou
falta de liberdade, o queira fazer.
Art. 45. A Proposição, Oposição, e Aprovação compete a cada uma das Salas.
Art. 46. As propostas nas Salas serão discutidas publicamente, salvo nos casos especificados
no Regimento interno.
Art. 47. Nunca, porém haverá discussão de Lei em segredo.
Art. 48. Nenhuma resolução se tomará nas salas, quando não estejam reunidos mais da metade
dos seus Membros.
Art. 49. Para se tomar qualquer resolução basta a maioria de votos, exceto nos casos, em que
se especifica a necessidade de maior número.
183
Art. 50. A respeito das discussões, e tudo o mais que pertencer ao Governo interno das Salas
da Assembleia Geral, observar-se-á o Regimento interno das ditas Salas, enquanto não for
revogado.
Art. 51. Cada Sala verificará os poderes de seus Membros, julgará as contestações, que se
suscitarem a esse respeito.
Art. 52. Cada Sala tem a Polícia do local, e recinto de suas Sessões, e o direito de disciplina
sobre os seus Membros.
Art. 53. Cada Sala terá o tratamento de – Altos e Poderosos Senhores.
Art. 54. Nenhuma Autoridade pode impedir a reunião da Assembleia.
Art. 55. O Imperador porém pode adiar a Assembleia.
Art. 56. Cada Legislatura durará quatro anos.
Art. 57. A Sessão porém pode ser prorrogada pelo Imperador por mais um mês; e antes
defeitos os códigos poderá ser a prorrogação por mais três meses, e durante eles se não tratará
senão dos Códigos.
Art. 59. Nos intervalos das Sessões pode o Imperador convocar a Assembleia, uma vez que o
exija o interesse do Império.
Art. 60. A sessão Imperial, ou de abertura, será todos os anos no dia 3 de Maio.
Art. 61. Para esse efeito, logo que as Salas tiverem verificado os seus poderes, cada uma em
seu respectivo local, e prestado o juramento no caso e na Sala, em que isto tem lugar, o farão
saber ao Imperador por uma Deputação, composta de igual número de Senadores, e
Deputados.
Art. 62. Igual Deputação será mandada ao Imperador oito dias antes de findar cada Sessão por
ambas as salas de acordo, para anunciar o dia, em que se propõe terminar as suas Sessões.
Art. 63. Tanto na abertura, como no encerramento, e quando vier o Imperador, o Príncipe
Imperial, o Regente, ou a Regência prestar juramento, e nos casos marcados nos art, 90, e
232, reunidas as duas Salas tomarão assento sem distinção, mas o Presidente do Senado
dirigirá o trabalho.
Art. 64. Quer venha o Imperador por si, ou por seus Comissários assim à abertura, como ao
encerramento da Assembleia, quer não venha sempre ela começará ou encerrará os seus
trabalhos nos dias marcados.
Art. 65. Na presença do Imperador, Príncipe Imperial, Regente, ou Regência, não poderá a
Assembleia deliberar.
Art. 66. O exercício de qualquer emprego, à exceção de Ministro de Estado, e Conselheiro
Privado do Imperador, é incompatível com as funções de Deputado ou Senador.
Art. 67. Não se pode ser ao mesmo tempo Membro de ambas as Salas.
Art. 68. Os Ministros de Estado podem ser Membros da Assembleia, contanto que o número
dos Ministros que tiverem assento, esteja para com os Membros da Sala para que entrarem, na
proporção de um para vinte e cinco.
Art. 69. Sendo nomeados mais Ministros do que aqueles que podem ter assento na Sala, em
razão da proporção já mencionada, serão preferidos os que tiverem mais votos, contados todos
os que obtiveram nos diversos Distritos do Império.
Art. 70. Os Membros das Salas podem ser Ministros de Estado; e na Sala do Senado
continuaram a ter assento, uma vez que não exceda a proporção marcada.
Art. 71. Na sala dos deputados, nomeados alguns para Ministros, vagam os seus lugares, e se
manda proceder a novas eleições por ordem do Presidente, nas quais podem porém ser
contemplados, e reeleitos, e acumular as duas funções, quando se não viole a proporção
marcada.
Art. 72. Os Deputados e Senadores são invioláveis pelas suas opiniões proferidas na
Assembleia.
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Art. 73. Durante o tempo das Sessões, e um tempo marcado pela Lei, segundo as distâncias
das Províncias, não serão demandadas, ou executadas por causas civis, nem progrediram as
que tiverem pendentes, salvo com seu consentimento.
Art. 74. Em causas criminais não serão presos durante as Sessões, exceto em flagrante, sem
que a respectiva Sala decida que o devem ser, para o que lhe serão remetidos os Processos.
Art. 75. No recesso da Assembleia seguiram a sorte dos mais Cidadãos.
Art. 76. Nos crimes serão os Senadores, e Deputados, só durante a reunião da Assembleia,
julgados pelo Senado, da mesma forma que os Ministros de Estado, e os Conselheiros
Privados.
Art. 77. Tanto os Deputados, como os Senadores, durante as Sessões, um subsídio pecuniário,
taxado no fim da última Sessão da Legislatura antecedente. Além disto, se lhes arbitrará uma
indenização das despesas de ida e volta.
Art. 88. Se, porém a Sala dos Deputados não adotar inteiramente a proposição do Senado, mas
se tiver alterado, ou adicionado; tornará a enviá-la ao senado com a fórmula seguinte – A Sala
dos deputados envia ao senado a sua proposição ...... relativa a ......... com as emendas, ou
adições juntas, e pensa que com elas tem lugar pedir ao Imperador a sanção Imperial.
Art. 89. Nas Propostas, que, tendo-se originado na sala dos Deputados, voltam a ela com
emendas ou adições do Senado, se as aprovar com elas, seguirá o que se determina no art. 87.
Art. 90. Se a Sala dos Deputados não aprovar as emendas do Senado, ou as adições, e, todavia
julgar que o Projeto é vantajoso, poderá requerer por uma Deputação de três Membros a
reunião das duas Salas, a ver se se acorda em algum resultado comum, e neste caso se fará a
dita reunião no local do Senado e conforme for o resultado da disputa favorável, ou
desfavorável, assim decairá ou seguirá ele o determinado no Art. 87
Art. 91. É da privativa atribuição da Sala dos Deputados:
I. Decretar que tem acumulação dos Ministros de Estado, e Conselheiros Privados.
II. Requerer ao Imperador demissão dos Ministros de Estado, que parecerem nocivos ao bem
público; mas semelhantes requisições devem ser motivadas, e ainda pode a elas não deferir o
Imperador
III. Fiscalizar a arrecadação e emprego das Rendas Públicas, e tomar conta aos Empregados
respectivos.
I. Conhecer dos delitos individuais cometidos pelos Membros da Família Imperial, Ministros
de Estado, Conselheiros Privados, e Senadores; e dos delitos dos Deputados durante tão
somente a reunião da Assembleia.
II. Conhecer dos delitos de responsabilidade dos Ministros de Estado, e Conselheiros
Privados.
III. Convocar a Assembleia na morte do Imperador para eleição de Regente, nos casos em que
ela tem lugar, quando a Regência Provisional o não faça.
Art. 108. No Juízo dos Crimes, cuja acusação não pertence à sala dos Deputados, acusará o
Procurador da Coroa, e Soberania Nacional.
Art. 109. Em todos os casos em que o Senado se converte em grande Jurado, poderá chamar
para lhe assistir os Membros do Tribunal Supremo de Cassação, que lhes aprouver, os quais,
porém responderão às questões que se lhes fizerem, e não terão voto.
Art. 110. O Imperador exerce a proposição que lhe compete na confecção das leis, ou por
Mensagem, ou por Ministros Comissários.
Art. 111. Os Ministros Comissários podem assistir, e discutir a proposta, uma vez que as
Comissões na maneira já dita tenham dado os seus relatórios; mas não poderão votar.
Art. 112. Para execução da oposição ou Sanção, serão os Projetos remetidos ao Imperador por
uma Deputação de sete Membros da Sala que por último os tiver aprovado, e irão dois
Autógrafos assinados pelo Presidente e dois Secretários da Sala que os enviar.
Art. 113. No caso que o Imperador recuse dar o seu consentimento, este denegação tem só o
efeito suspensivo. Todas as vezes que as duas Legislaturas, que se seguirem àquela que tivera
provado o Projeto, tornem sucessivamente a apresentá-lo nos mesmos termos, entendendo-se
há que o Imperador tem dado a Sanção.
Art. 114. O Imperador é obrigado a dar, ou negar, a Sanção em cada Decreto expressamente
dentro em um mês, depois que lhe foi apresentado.
Art. 115. Se o não fizer dentro do mencionado prazo, nem por isso deixarão os Decretos da
Assembleia Geral de ser obrigatórios, apesar de lhes faltar a Sanção que exige a Constituição.
Art. 116. Se o Imperador adotar o Projeto da Assembleia Geral, se exprimirá pela maneira
seguinte – O Imperador consente – Se o não aprovar, se exprimirá deste modo – O Imperador
examinará
.Art. 117. Os Projetos de Lei adotados pelas duas Salas, e pelo Imperador, no caso em que é
precisa a Sanção Imperial, depois de promulgados ficam sendo Leis do Império.
Art. 118. A fórmula da promulgação será concebida nos seguintes termos- Dom F. por Graça
de Deus, e Aclamação Unânime dos Povos, Imperador e Defensor Perpétuo do Brasil:
Fazemos saber a todos os nossos Súditos, que a Assembleia Geral Decretou, e Nós Queremos
a Lei seguinte (a Letra da Lei). Mandamos portanto a todas as Autoridades, a quem o
conhecimento e a execução da referida Lei pertencer, que a cumpram, e façam cumprir e
guardar, tão inteiramente como nela se contêm. O Secretário de Estado dos Negócios de .......
(o da Repartição) a faça imprimir, publicar, e correr.
Art. 119. Referendada a Lei pelo Secretário competente, e selada com o selo do Estado,
guardar-se-á um dos originais no Arquivo Público, e outro igual assinado pelo Imperador, e
referendado pelo Secretário competente, será remetido ao Senado, em cujo Arquivo se
guardará.
Art. 120. As Leis independentes da Sanção serão publicadas com a mesma fórmula daquelas
que dependem de Sanção suprimidas, porém as palavras – e Nós Queremos.
187
Art. 121. Não precisam de Sanção para obrigarem os atos seguintes da Assembleia Geral, e
suas Salas:
I. A presente Constituição, e todas as alterações Constitucionais que para o futuro nela se
possam fazer.
II. Todos os Decretos desta Assembleia, ainda em matérias regulamentares.
III. Os atos concernentes:
1. À Polícia interior de cada uma das Salas.
2. À verificação dos poderes dos seus Membros presentes.
3. As intimações dos ausentes.
4. À legitimidade das eleições, ou Eleitos.
5. Ao resultado do Exame sobre o Emprego da força armada pelo poder Executivo, nos
termos dos Artigos 231, 232, 235, 242,
IV. Os atos especificados nos artigos 44, 91, 107, 113, 115, e 271.
Art. 122. As eleições São indiretas, elegendo a massa dos Cidadãos ativos aos Eleitores, e os
Eleitores as deputados, igualmente aos senadores nesta primeira organização do Senado.
Art. 123. São Cidadãos ativos para votar nas Assembleias primárias, ou de Paróquias:
I. Todos os Brasileiros ingênuos, e os libertos nascidos no Brasil.
II. Os Estrangeiros naturalizados. Mas tanto uns como outros devem estar no gozo dos
direitos políticos, na conformidade dos Artigos 31, e 32, e ter de rendimento líquido anual o
valor de cento e cinquenta alqueires de farinha de mandioca, regulado pelo preço médio da
sua respectiva Freguesia, e provenientes de bens de raiz, comércio, indústria, ou artes, ou seja,
os bens de raiz próprios, ou foreiros, ou arrendados por longo termo, como de nove anos, e
mais. Os alqueires serão regulados pelo padrão da Capital do Império.
Art. 124. Excetuam-se:
I. Os menores de vinte e cinco anos, nos quais se não compreendem os casados e Oficiais
Militares que tiverem vinte e um anos, os Bacharéis formados, e os Clérigos de Ordens
Sacras.
II. Os filhos famílias que estiverem no poder e companhia de seus Pais, salvo se servirem
Ofícios Públicos.
III. Os criados de servir, não entrando nesta classe os Feitores.
IV. Os libertos que não forem nascidos no Brasil, exceto se tiverem Patentes Militares ou
Ordens Sacras
V. Os Religiosos ou quaisquer que vivam em Comunidade Claustral, não compreendendo
porém nesta exceção os Religiosos das Ordens Militares, nem os Secularizados.
VI. Os caixeiros, nos quais se não compreendem os Guarda-Livros.
VII. Os Jornaleiros.
Art. 125. Os que não podem votar nas Assembleias de Paróquia, não podem ser Membros de
Autoridade alguma eletiva Nacional, ou local, nem votar na sua escolha.
Art. 126. Podem ser Eleitores, e votar na eleição dos Deputados, todos os que podem votar
nas Assembleias de Paróquia, contanto que tenham de rendimento líquido anual o valor anual
de duzentos e cinquenta alqueires de farinha de mandioca, regulado pelo preço médio do lugar
do seu domicílio, e proveniente de bens rurais, e urbano de raiz, ou próprios, ou foreiros, ou
arrendados por longo termo, ou de comércio, indústria, ou artes. Sendo os alqueires regulados
na forma já dita no Artigo 123 § II.
Art. 127. Não podem ser Eleitores os Libertos em qualquer parte nascidos, embora tenham
Patentes Militares, ou Ordens Sacras.
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Art. 128. Todos os que podem ser Eleitores, podem igualmente ser Membros das Autoridades
locais eletivas, ou administrativas, ou municipais, e votar na sua eleição.
Art. 129. Podem ser nomeados Deputados Nacionais, todos os que podem Eleitores, contanto
que tenham vinte e cinco anos de idade, e sejam proprietários ou foreiros de bens de raiz
rurais ou urbanos, ou rendeiros por longo termo de bens de raiz rurais, ou dono de
embarcações, ou de Fábricas, e qualquer estabelecimento de indústria, ou de ações no Banco
Nacional, donde tirem um rendimento liquido anual, equivalente ao valor de quinhentos
alqueires de farinha de mandioca, regulado pelo preço médio do País em que habite, e na
conformidade dos Artigos 123, e 126, quanto ao Padrão.
Art. 130. Apesar de terem as qualidades do Artigo 129, São excluídos de ser eleitos:
I. Os estrangeiros naturalizados.
II. Os Criados da Casa Imperial.
III. Os apresentados por falidos, enquanto se não justificar que o são de boa fé.
IV. Os pronunciados por qualquer crime a que as Leis imponham pena maior que seis meses
se prisão, ou degredo para fora da Comarca.
V. Os Cidadãos Brasileiros nascidos em Portugal, se não tiverem doze anos de domicílio no
Brasil, e forem casados, ou viúvos de mulher Brasileira.
Art. 131. Podem ser eleito Senadores todos os que podem ser Deputados, uma vez que tenham
quarenta anos de idade, e tenham de rendimento o dobro dos Deputados, provenientes das
mesmas origens, e tenham de mais prestado à Nação serviços relevantes em qualquer dos
ramos de interesse público.
Art. 132. Os que podem ser eleitos Deputados e Senadores podem também ser Membros das
Autoridades locais eletivas, e votar nas eleições de todas as Autoridades locais e Nacionais.
Art. 133. As eleições serão de quatro em quatro anos.
Art. 134. Fica ao arbítrio dos eleitos aceitar, ou recusar.
Art. 135. Os Cidadãos de todo o Brasil são elegíveis em cada distrito eleitoral, ainda quando
ali não sejam nascidos, ou domiciliados.
Art. 136. O número dos Deputados regula-se há pela população.
Art. 137. Uma Lei regulamentar marcará o modo prático das eleições, e a proporção dos
Deputados à população.
Art. 146. A Assembleia geral no princípio de cada reinado assinará ao Imperador, e à Sua
Augusta Esposa, uma dotação anual correspondente ao decoro de Sua Alta Dignidade. Esta
dotação anual não poderá alterar-se durante aquele reinado, nem mesmo o da Imperatriz no
tempo de Sua Viúves, existindo o Brasil.
Art147. A Dotação assinada ao presente Imperador poderá ser alterada, visto que as
circunstancias atuais não permitem que se fixe desde já uma soma adequada ao decoro de Sua
Augusta Pessoa, e Dignidade da Nação.
Art. 148. A Assembleia assinará também alimentos ao Príncipe Imperial, e aos e seus demais
Príncipes desde que tiverem sete anos de idade. Estes alimentos cessarão somente quando
saírem para foro do Império.
Art. 149. Quando as Princesas houverem de se casar, a Assembleia lhes assinará o se Dote, e
com a entrega dele cessarão os alimentos.
Art. 150. Aos Príncipes, se casarem e forem residir fora do Império, se entregará por uma vez
uma quantia determinada pela Assembleia, com o que cessarão os alimentos que percebiam.
190
Art. 151. A Dotação, alimentos, e dotes, de que falam os cinco Artigos antecedentes, serão
pagos pelo Tesouro Público, entregues a um Mordomo nomeado pelo Imperador, com quem
se poderão tratar as ações ativas e passivas concernentes aos integrantes da Casa Imperial.
Art. 152. Os palácios e os terrenos Nacionais, possuídos atualmente pelo Senhor D.Pedro,
ficarão sempre pertencendo a Seus Sucessores; e a Nação cuidará nas aquisições e
construções que julgar convenientes para decência e recreio do Imperador e Sua Família.
Art. 153. O Senhor D. Pedro, por unânime Aclamação da Nação, atual Imperador e Defensor
Perpétuo, reinará para sempre, em quanto estiver no Brasil.
Art. 154. Da mesma maneira sucederá no Trono a sua Descendência legítima, segundo a
ordem regular da primogenitura, e representação, preferindo em todo tempo a linha anterior às
posteriores: na mesma linha o grau mais próximo ao mais remoto: no mesmo grau o sexo
masculino ao feminino: e no mesmo sexo a pessoa mais velha a mais moça.
Art. 155. No caso de extinção da Dinastia do Senhor D. Pedro, ainda em vida do último
Descendente, e durante o Seu Reinado, nomeará a Assembleia Geral por um ato sua nova
Dinastia; subindo esta ao Trono, regalar-se-á na forma do Artigo 154.
Art. 156. Se a Coroa recair em pessoa do sexo feminino, Seu Marido não terá parte no
Governo, nem instituirá Imperador, e Defensor Perpétuo do Brasil.
Art. 157. Se o Herdeiro do Império suceder em Coroa Estrangeira, ou Herdeiro de Coroa
Estrangeira suceder no Império do Brasil, não poderá acumular as Coroas, mas terá opção e
optando a Estrangeira se entenderá que renuncia a do Império.
Art. 158. O mesmo se estende com o Imperador que suceder em Coroa Estrangeira.
Art. 167. Tanto o Regente como a Regência prestarão o juramento exarado no Artigo 145,
acrescentando-lhe a cláusula – de entregar o Governo logo que o Imperador chegue à
maioridade, e cesse o seu impedimento.
Art. 168. Ao juramento da Regência Provisória acrescentar-se-á a clausula – de entregar o
Governo à Regência permanente.
Art. 169. Os atos das Regências e do Regente serão em nome do Imperador.
Art. 170. A Assembleia Geral dará Regimento, como lhe aprouver, ao regente, e Regências, e
estes se conterão nos limites prescritos no dito Regimento.
Art. 171. Nunca o regente será Tutor do Imperador menor, a guarda de cuja pessoa será
confiada o Tutor que seu Pai tiver nomeado em testamento, contanto que seja Cidadão
Brasileiro qualificado para Senador; na falta deste a Imperatriz mãe, enquanto não se tornar a
casar; e faltando esta, a Assembleia geral nomeará Tutor, que seja Cidadão Brasileiro
qualificado para Senador.
Art. 173. Haverá diferentes secretarias de Estado; a Lei designará os negócios pertencentes a
cada uma, e o seu número; as reunirá; ou separará.
Art. 174. Os Ministros referendarão os atos do Poder Executivo, sem o que não são aqueles
obrigatórios.
Art. 175. Os Ministros são responsáveis:
I. Por traição.
II. Por concussão.
III. Por abuso do Poder Legislativo.
IV. Por exercício ilegal de poder ilegítimo.
V. Por falta de execução das Leis.
Art. 176. Uma Lei particular especificará a natureza destes delitos, e a maneira de proceder
contra eles.
Art. 177. Não salva os Ministros da responsabilidade a Ordem do Imperador verbal, ou por
escrito.
Art. 178. A responsabilidade dos Ministros não destrói a de seus Agentes; ela deve começar
no autor imediato daquele ato que é objeto do procedimento.
Art. 179. Não podem ser Ministros de Estado:
I. Os estrangeiros posto que naturalizados.
II. Os Cidadãos Brasileiros nascidos em Portugal, que não tiverem doze anos de domicílio no
Brasil, e não forem casados com mulher Brasileira por nascimento, ou dela viúvos.
Art. 180. Haverá um Conselho Privado do Imperador composto de Conselheiros por ele
nomeados, e despedidos ad nutum.
Art. 181. O Imperador não pode nomear Conselheiros se não aos Cidadãos que a Constituição
não exclui.
Art. 182. São excluídos:
I. Os que não tem quarenta anos de idade.
II. Os Estrangeiros, posto que naturalizados.
III. Os Cidadãos Brasileiros nascidos em Portugal, que não tiverem doze anos de domicílio no
Brasil, e não forem casados com mulher Brasileira por nascimento, ou dela viúvos.
Art. 183. Antes de tomarem posse prestarão os Conselheiros Privados nas mãos do Imperador
juramento de manter a Religião Católica Apostólica Romana, observar a Constituição e as
192
Art. 187. O Poder Judiciário compõem-se de Juízes, e Jurados. Estes por enquanto têm só
lugar em matérias crimes na forma do Artigo 13.
Art. 188. Uma Lei regulará a composição do Conselho dos Jurados, e a forma do seu
procedimento.
Art. 189. Os Jurados pronunciarão sobre o fato, e os Juízes aplicarão a Lei
.Art. 190. Uma Lei nomeará as diferentes espécies de Juízes de Direito, suas gradações,
atribuições, obrigações, e competência.
Art. 191. Os Juízes de Direito Letrados são inamovíveis, e não podem ser privados do seu
cargo sem sentença proferida em razão de delito, ou aposentadoria com causa provada, e
conforme alei.
Art. 192. A inamovibilidade não se opõe à mudança dos Juízes Letrados de primeira instancia
de uns para outros lugares, como e no tempo que a Lei determinar.
Art. 193. Todos os Juízes de Direito e Oficiais de Justiça são responsáveis pelos abusos de
poder, e erros que cometerem no exercício dos seus Empregos.
Art. 194. Por suborno, peita, e conluio, haverá contra eles ação popular.
Art. 195. Por qualquer outra prevaricação punível pela Lei, não sendo mera infração da
Ordem do Processo, só pode acusar a parte interessada.
Art. 196. Toda a criação de Tribunais extraordinários, toda a suspensão ou abreviação das
formas, à exceção do caso mencionado no Artigo 27, são atos inconstitucionais, e criminosos.
Art. 197. O concurso dos poderes Constitucionais não legitima tais atos.
Art. 198. No Processo Civil a Inquirição de testemunhas, e tudo o mais será público;
igualmente no Processo Crime, porém só depois da pronúncia.
Art. 199. O Código será uniforme, e o mesmo para todo o Império.
Art. 200. As penas não passarão da pessoa dos delinquentes, e serão só as precisas para
estorvar os crimes.
Art. 201. A Constituição proíbe a tortura, a marca de ferro quente, o baraço e pregão, a
infâmia, a confiscação de bens, e enfim todas as penas cruéis ou infamantes.
Art. 202. Toda a espécie de rigor, além do necessário para a boa ordem e sossego das prisões,
fica proibida, e Lei punirá a sua contravenção.
Art. 203. As casas de prisão serão seguras, mas cômodas, que não sirvam de tormento.
Art. 204. Serão visitadas todos os anos por uma Comissão de três pessoas, as quais inquirirão
sobre a legalidade ou ilegalidade da prisão, e sobre o rigor supérfluo praticado com os presos.
Art. 205. Para este efeito se nomearão em cada Comarca seis pessoas de probidade, que
formem alternadamente a Comissão dos Visitadores.
Art. 206. Serão eleitos pelas mesmas pessoas e maneira porque se elegem os Deputados; e
durará em atividade o mesmo tempo que as Legislaturas.
Art. 207. A Comissão de Visita dará conta às Salas da Assembleia, em um relatório impresso,
do resultado das suas visitas periódicas, e solenes.
193
Art. 208. A apresentação do preso nunca será negada aos Parentes e Amigos, salvo estando
incomunicável por Ordem do Juiz na forma da Lei.
TÍTULO X- Da Administração.
Art. 209. Em cada Comarca haverá um Presidente nomeado pelo Imperador, e por ele
amovível ad nutum, e um Conselho Presidial eletivo, que o auxilie.
Art. 210. Em cada Distrito haverá um Sub - Presidente, e um Conselho de Distrito Eletivo.
Art. 211. Em cada Termo haverá um Administrador e Executor, denominado Decurião, o qual
será Presidente da Municipalidade, ou Câmara do termo, na qual residirá todo o governo
econômico e municipal.
Art. 212. O Decurião não terá parte no Poder Judiciário, que fica reservado aos Juízes
Eletivos do Termo.
Art. 213. A Lei designará as atribuições, competência, e gradativa subordinação das
Autoridades não eletivas, e os tempos da reunião, maneira de eleição, gradação, funções, e
competências das eletivas.
Art. 214. Estas disposições não excluem a criação de direções gerais para tratarem de objetos
privativos de administração.
Art. 215. Todas as Contribuições devem ser cada ano estabelecidas pelo poder Legislativo,
Art. 42, e sem este estabelecimento, ou confirmação, cessa a obrigação de pagá-las.
Art. 216. Ninguém é isento de contribuir.
Art. 217. As contribuições serão proporcionadas às despesas públicas.
Art. 218. O Poder Legislativo repartirá a contribuição direta pelas Comarcas; o Presidente e
Conselho Presidial pelos Distritos; o Sub - Presidente e Conselho de Distritos e
Municipalidade pelos indivíduos, em razão dos rendimentos que no Termo tiverem; quer
residam nele, quer fora.
Art. 219. O Ministro de Fazenda havendo recebido dos outros Ministros os orçamentos
relativos às despesas das suas Repartições apresentará todos os anos, assim que a assembleia
estiver reunida, um orçamento geral de todas as despesas públicas do ano futuro, outro da
importância das rendas, e a conta da receita e despesa do Tesouro Público do ano antecedente.
Art. 220. As despesas de cada Comarca devem ser objeto de um Capítulo separado no
orçamento geral, e determinadas a cada ano, proporcionalmente aos rendimentos da dita
Comarca.
Art. 221. Todos os rendimentos Nacionais entraram no tesouro Público; exceto os que por
Lei, ou autoridade competente, se mandarem pagar em outras Tesourarias.
Art. 222. A conta geral da receita e Despesa de cada ano, depois de aprovada, se publicará
pela Imprensa: o mesmo se fará com as contas dadas pelos Ministros de Estado das despesas
feitas nas suas Repartições.
Art. 223. A fiscalização e arrecadação de todas as Rendas públicas far-se-á por Contadores,
que abrangerão as Comarcas que a Lei designar, e serão diretamente responsáveis ao Tesouro
Público.
Art. 224. Dar-se-á aos Contadores Regimento próprio.
Era. 225. O Juízo e execução em matéria de Fazenda seguirá a mesma regra que o Juízo e
execução dos particulares, sem privilégio de Foro.
Art. 226. A Constituição reconhece a dívida Pública, e designará fundos para o seu
pagamento.
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Art. 227. Haverá uma força armada, terrestre, que estará à disposição do Poder Executivo, o
qual, porém, é obrigado a conformar-se às regras seguintes.
Art. 228. A Força armada terrestre é dividida em três Classes, Exército de Linha, Milícias, e
Guardas Policiais.
Art. 229. O Exército de Linha é destinado a manter a segurança externa, e será por isso
estacionado nas Fronteiras.
Art. 230. Não pode ser empregado no interior se não no caso de revolta declarada.
Art. 231. Neste caso ficam obrigados o Poder Executivo e seus Agentes a sujeitar a exame da
Assembleia todas as circunstâncias que motivarão a sua resolução.
Art. 232. Este exame é de direito, e as duas alas da Assembleia, logo que tiverem recebido
notícia nomearam do seu seio, para proceder a exame, uma Comissão de vinte e um
Membros, dos quais a metade e mais um será tirada à sorte.
Art. 233. As Milícias são destinadas a manter segurança Pública no interior das Comarcas.
Art. 234. Elas não devem sair dos limites de suas Comarcas, exceto em caso de revolta ou
invasão.
Art. 235. No emprego extraordinário das Milícias ficam o poder Executivo e seus Agentes
sujeitos às mesmas regras, a que são sujeitos no emprego do Exercício de Linha.
Art. 236. As Milícias serão novamente organizadas por uma Lei particular, que regule a sua
formação, e serviço.
Art. 237. Desde já são declarados os seus Oficiais eletivos, e temporários, à exceção dos
Majores e Ajudantes, sem prejuízo dos Oficiais atuais, com quem se não entende a presente
disposição.
Art. 238. Terão as Milícias do Império uma só disciplina.
Art. 239. As distinções de Postos e a subordinação nas Milícias subsistem só relativamente ao
serviço, e em quanto ele durar.
Art. 240. As Guardas Policiais são destinadas a manter a segurança dos Particulares;
perseguem, e prendem os criminosos.
Art. 241. As Guardas Policiais, não devem ser empregadas em mais causa alguma, salvo os
casos de revolta, ou invasão.
Art. 242. As regras dadas para o emprego extraordinário do Exército de Linha e Milícias
aplicam-se no emprego extraordinário das Guardas Policiais.
Art. 243. Se as Salas da Assembleia não estiverem juntas, o Imperador é obrigado a convocá-
las para o exame exigido.
Art. 244. Todo o Comandante, Oficial, ou simples Guarda Policial, que excitar alguém para
um crime, para depois o denunciar, sofrerá as penas que a Lei impõe ao crime que se
provocou.
Art. 245. A Lei determinará cada um ano o número da força armada, e o modo do seu
recrutamento.
Art. 246. Haverá igualmente uma força marítima também à disposição do Poder Executivo, e
sujeita a Ordenança próprias.
Art. 247. Os Oficiais do Exército e Armada não podem ser privados das suas Patentes, senão
por Sentença proferida em Juízo Competente.
Art. 248. Não haverá Generalíssimo em tempo de paz.
Art. 249. A força armada é essencialmente obediente, e não pode ser Corpo deliberante.
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Art. 256. A Constituição facilita a todo o Estrangeiro o livre acesso ao Império; segura-lhe a
hospitalidade, a liberdade civil, e a aquisição dos direitos políticos.
Art. 257. As Leis do Império só vedarão os atos que prejudicarem à sociedade, ou imediata,
ou mediatamente.
Art. 258. O exercício dos direitos individual não terá outros limites que não sejam os
necessários para manter os outros indivíduos na posse e gozo dos mesmos direitos; tudo,
porém, subordinado ao maior bem da Sociedade.
Art. 259. Só à Lei compete determinar estes limites; nenhuma Autoridade subordinada o
poderá fazer.
Art. 260. A Lei será igual para todos, quer proteja, quer castigue.
Art. 261. Esta igualdade nas Leis protetoras será regulada pela mesmidade de utilidade, de
forma que variando ela, varia proporcionalmente a proteção.
Art. 262. Nas penas a igualdade será subordinada à necessidade para conseguimento do fim
desejado, em maneira que onde existir a mesma necessidade dê-se a mesma Lei.
Art. 263. A admissão aos lugares, dignidade, e empregos públicos, será igual para todos,
segundo a sua capacidade talentos e virtudes tão somente.
Art. 264. A livre admissão é modificada pelas qualificações exigidas para eleger, e ser eleito.
Art. 265. A Constituição reconhece os contratos entre os Senhores e os Escravos; e o Governo
vigiará sobre a sua manutenção.
Art. 266. Todas as Leis existentes contrárias à letra e ao espírito da presente Constituição, são
de nenhum vigor.
Art. 267. É só Constitucional o que diz respeito aos limites, e atribuições respectivas dos
Poderes Políticos, e aos Direitos Políticos e Individuais.
Art. 268. Tudo o que não é Constitucional pode ser alterado pelas Legislaturas ordinárias,
concordando dois terços de cada uma das Salas.
.Art. 269. Todas as vezes que três Legislaturas consecutivas tiverem proferido um voto pelos
dois terços de cada Sala para que se altere um artigo da Constituição, terá lugar a revista.
Art. 270. Resolvida Revista, expedir-se-á Decreto de Convocação da Assembleia de Revista,
o qual o Imperador promulgará.
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.Art. 271. A Assembleia de Revista será de uma sala só, igual em número aos dois terços dos
Membros de ambas as Salas, e eleita como é a Sala dos Deputados.
Art. 272. Não se ocupará se não daquilo para que foi convocada, e findo o trabalho dissolver-
se-á.
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ANEXO II
TITULO 1º
TITULO 2º
TITULO 3º
Art. 9. A Divisão, e harmonia dos Poderes Politicos é o principio conservador dos Direitos
dos Cidadãos, e o mais seguro meio de fazer effectivas as garantias, que a Constituição
offerece.
Art. 10. Os Poderes Politicos reconhecidos pela Constituição do Imperio do Brazil são quatro:
o Poder Legislativo, o Poder Moderador, o Poder Executivo, e o Poder Judicial.
Art. 11. Os Representantes da Nação Brazileira são o Imperador, e a Assembléa Geral.
Art. 12. Todos estes Poderes no Imperio do Brazil são delegações da Nação.
TITULO 4º
Do Poder Legistativo.
CAPITULO I.
Art. 13. O Poder Legislativo é delegado á Assembléa Geral com a Sancção do Imperador.
Art. 14. A Assembléa Geral compõe-se de duas Camaras: Camara de Deputados, e Camara de
Senadores, ou Senado.
Art. 15. E' da attribuição da Assembléa Geral
I. Tomar Juramento ao Imperador, ao Principe Imperial, ao Regente, ou Regencia.
II. Eleger a Regencia, ou o Regente, e marcar os limites da sua autoridade.
III. Reconhecer o Principe Imperial, como Successor do Throno, na primeira reunião logo
depois do sem nascimento.
IV. Nomear Tutor ao Imperador menor, caso seu Pai o não tenha nomoado em Testamento.
V. Resolver as duvidas, que occorrerem sobre a successão da Corôa.
VI. Na morte do Imperador, ou vacancia do Throno, instituir exame da administração, que
acabou, e reformar os abusos nella introduzidos.
VII. Escolher nova Dynastia, no caso da extincção da Imperante.
VIII. Fazer Leis, interpretal-as, suspendel-as, e rovogal-as.
IX.Velar na guarda da Constituição, e promover o bem geral do Nação.
X. Fixar annualmente as despezas publicas, e repartir a contribuição directa.
XI. Fixar annualmente, sobre a informação do Governo, as forças de mar, e terra ordinarias, e
extraordinarias.
XII. Conceder, ou negar a entrada de forças estrangeiras de terra e mar dentro do Imperio, ou
dos portos delle.
XIII. Autorisar ao Governo, para contrahir emprestimos.
XIV. Estabelecer meios convenientes para pagamento da divida publica.
XV. Regular a administração dos bens Nacionaes, e decretar a sua alienação.
XVI. Crear, ou supprimir Empregos publicos, e estabelecer-lhes ordenados.
XVI. Determinar o peso, valor, inscripção, typo, e denominação das moedas, assim como o
padrão dos pesos e medidas.
Art. 16. Cada uma das Camaras terá o Tratamento - de Augustos, e Dignissimos Senhores
Representantes da Nação.
Art. 17. Cada Legislatura durará quatro annos, e cada Sessão annual quatro mezes.
Art. 18. A Sessão Imperial de abertura será todos os annos no dia tres de Maio.
Art. 19. Tambem será Imperial a Sessão do encerramento; e tanto esta como a da abertura se
fará em Assembléa Geral, reunidas ambas as Camaras.
Art. 20. Seu ceremonial, e o da participação ao Imperador será feito na fórma do Regimento
interno.
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Art. 21. A nomeação dos respectivos Presidentes, Vice Presidentes, e Secretarios das
Camaras, verificação dos poderes dos seus Membros, Juramento, e sua policia interior, se
executará na fórma dos seus Regimentos.
Art. 22. Na reunião das duas Camaras, o Presidente do Senado dirigirá o trabalho; os
Deputados, e Senadores tomarão logar indistinctamente.
Art. 23. Não se poderá celebrar Sessão em cada uma das Camaras, sem que esteja reunida a
metade, e mais um dos seus respectivos Membros.
Art. 24. As Sessões de cada uma das Camaras serão publicas á excepção dos casos, em que o
bem do Estado exigir, que sejam secretas.
Art. 25. Os negocios se resolverão pela maioria absoluta de votos dos Membros presentes.
Art. 26. Os Membros de cada uma das Camaras são inviolaveis polas opiniões, que proferirem
no exercicio das suas funcções.
Art. 27. Nenhum Senador, ou Deputado, durante a sua deputação, póde ser preso por
Autoridade alguma, salvo por ordem da sua respectiva Camara, menos em flagrante delicto de
pena capital.
Art. 28. Se algum Senador, ou Deputado fòr pronunciado, o Juiz, suspendendo todo o ulterior
procedimento, dará conta á sua respectiva Camara, a qual decidirá, se o processo deva
continuar, e o Membro ser, ou não suspenso no exercicio das suas funcções.
Art. 29. Os Senadores, e Deputados poderão ser nomeados para o Cargo de Ministro de
Estado, ou Conselheiro do Estado, com a differença de que os Senadores continuam a ter
assento no Senado, e o Deputado deixa vago o seu logar da Camara, e se procede a nova
eleição, na qual póde ser reeleito e accumular as duas funcções.
Art. 30. Tambem accumulam as duas funcções, se já exerciam qualquer dos mencionados
Cargos, quando foram eleitos.
Art. 31. Não se pode ser ao mesmo tempo Membro de ambas as Camaras.
Art. 32. O exercicio de qualquer Emprego, á excepção dos de Conselheiro de Estado, o
Ministro de Estado, cessa interinamente, emquanto durarem as funcções de Deputado, ou de
Senador.
Art. 33. No intervallo das Sessões não poderá o Imperador empregar um Senador, ou
Deputado fóra do Imperio; nem mesmo irão exercer seus Empregos, quando isso os
impossibilite para se reunirem no tempo da convocação da Assembléa Geral ordinaria, ou
extraordinaria.
Art. 34. Se por algum caso imprevisto, de que dependa a segurança publica, ou o bem do
Estado, fôr indispensavel, que algum Senador, ou Deputado sáia para outra Commissão, a
respectiva Camara o poderá determinar.
CAPITULO II
Art. 39. Os Deputados vencerão, durante as Sessões, um Subsidio, pecuniario, taxado no fim
da ultima Sessão da Legislatura antecedente. Além disto se lhes arbitrará uma indemnisação
para as despezas da vinda, e volta.
CAPITULO III.
Do Senado.
Art. 40. 0 Senado é composto de Membros vitalicios, e será organizado por eleição
Provincial.
Art. 41. Cada Provincia dará tantos Senadores, quantos forem metade de seus respectivos
Deputados, com a differença, que, quando o numero dos Deputados da Provincia fôr impar, o
numero dos seus Senadores será metade do numero immediatamente menor, de maneira que a
Provincia, que houver de dar onze Deputados, dará cinco Senadores.
Art. 42. A Provincia, que tiver um só Deputado, elegerá todavia o seu Senador, não obstante a
regra acima estabelecida.
Art. 43. As eleições serão feitas pela mesma maneira, que as dos Deputados, mas em listas
triplices, sobre as quaes o Imperador escolherá o terço na totalidade da lista.
Art. 44. Os Logares de Senadores, que vagarem, serão preenchidos pela mesma fórma da
primeira Eleição pela sua respectiva Provincia.
Art. 45. Para ser Senador requer-se
I. Que seja Cidadão Brazileiro, e que esteja no gozo dos seus Direitos Politicos.
II. Que tenha de idade quarenta annos para cima.
III. Que seja pessoa de saber, capacidade, e virtudes, com preferencia os que tivirem feito
serviços á Patria.
IV. Que tenha de rendimento annual por bens, industria, commercio, ou Empregos, a somma
de oitocentos mil réis.
Art. 46. Os Principes da Casa Imperial são Senadores por Direito, e terão assento no Senado,
logo que chegarem á idade de vinte e cinco annos.
Art. 47. E' da attribuição exclusiva do Senado
I. Conhecer dos delictos individuaes, commettidos pelos Membros da Familia Imperial,
Ministros de Estado, Conselheiros de Estado, e Senadores; e dos delictos dos Deputados,
durante o periodo da Legislatura.
II. Conhecer da responsabilidade dos Secretarios, e Conselheiros de Estado.
III. Expedir Cartas de Convocação da Assembléa, caso o Imperador o não tenha feito dous
mezes depois do tempo, que a Constituição determina; para o que se reunirá o Senado
extraordinariamente.
IV. Convocar a Assembléa na morte do Imperodor para a Eleição da Regencia, nos casos, em
que ella tem logar, quando a Regencia Provisional o não faça.
Art. 48. No Juizo dos crimes, cuja accusação não pertence á Camara dos Deputados, accusará
o Procurador da Corôa, e Soberania Nacional.
Art. 49. As Sessões do Senado começam, e acabam ao mesmo tempo, que as da Camara dos
Deputados.
Art. 50. A' excepção dos casos ordenados pela Constituição, toda a reunião do Senado fóra do
tempo das Sessões da Camara dos Deputados é illicita, e nulla.
Art. 51.O Subsidio dos Senadores será de tanto, e mais metade, do que tiverem os Deputados.
CAPITULO IV.
Art. 52. A Proposição, opposição, e approvação dos Projectos de Lei compete a cada uma das
Camaras.
Art. 53.O Poder Executivo exerce por qualquer dos Ministros de Estado a proposição, que lhe
compete na formação das Leis; e só depois de examinada por uma Commissão da Camara dos
Deputados, aonde deve ter principio, poderá ser convertida em Projecto de Lei.
Art. 54. Os Ministros podem assistir, e discutir a Proposta, depois do relatorio da Commissão;
mas não poderão votar, nem estarão presentes á votação, salvo se forem Senadores, ou
Deputados.
Art. 55. Se a Camara dos Deputados adaptar o Projecto, o remetterá á dos Senadores com a
seguinte formula - A Camara dos Deputados envia á Camara dos Senadores a Proposição
junta do Poder Executivo (com emendas, ou sem ellas) e pensa, que ella tem logar.
Art. 56. Se não puder adoptar a proposição, participará ao Imperador por uma Deputação de
sete Membros da maneira seguinte - A Camara dos Deputados testemunha ao Imperador o seu
reconhecimento polo zelo, que mostra, em vigiar os interesses do Imperio: e Lhe supplica
respeitosomente, Digne-Se tomar em ulterior consideração a Proposta do Governo.
Art. 57. Em geral as proposições, que a Camara dos Deputodos admittir, e approvar, serão
remettidas á Camara dos Senadores com a formula seguinte - A Camara dos Deputados envia
ao Senado a Proposição junta, e pensa, que tem logar, pedir-se ao Imperador a sua Sancção.
Art. 58. Se porém a Camara dos Senadores não adoptar inteiramente o Projecto da Camara
dos Deputados, mas se o tiver alterado, ou addicionado, o reenviará pela maneira seguinte - O
Senado envia á Camara dos Deputodos a sua Proposição (tal) com as emendas, ou addições
juntas, e pensa, que com ellas tem logar pedir-se ao Imperador a Sancção Imperial.
Art. 59. Se o Senado, depois de ter deliberado, julga, que não póde admittir a Proposição, ou
Projecto, dirá nos termos seguintes - O Senado torna a remetter á Camara dos Deputodos a
Proposição (tal), á qual não tem podido dar o seu Consentimento.
Art. 60. O mesmo praticará a Camara dos Deputados para com a do Senado, quando neste
tiver o Projecto a sua origem.
Art. 61. Se a Camara dos Deputados não approvar as emendas, ou addições do Senado, ou
vice-versa, e todavia a Camara recusante julgar, que o projecto é vantojoso, poderá requerer
por uma Deputação de tres Membros a reunião das duas Camaras, que se fará na Camara do
Senado, e conforme o resultado da discussão se seguirá, o que fôr deliberado.
Art. 62. Se qualquer das duas Camaras, concluida a discussão, adoptar inteiramente o
Projecto, que a outra Camara lhe enviou, o reduzirá a Decreto, e depois de lido em Sessão, o
dirigirá ao Imperador em dous autographos, assignados pelo Presidente, e os dous primeiros
Secretarios, Pedindo-lhe a sua Sancção pela formula seguinte - A Assembléa Geral dirige ao
Imperador o Decreto incluso, que julga vantajoso, e util ao Imperio, e pede a Sua Magestade
Imperial, Se Digne dar a Sua Sancção.
Art. 63. Esta remessa será feita por uma Deputação de sete Membros, enviada pela Camara
ultimamente deliberante, a qual ao mesmo tempo informará á outra Camara, aonde o Projecto
teve origem, que tem adoptado a sua Proposição, relativa a tal objecto, e que a dirigiu ao
Imperador, pedindo-lhe a Sua Sancção.
Art. 64. Recusando o Imperador prestar seu consentimento, responderá nos termos seguintes.
- O Imperador quer meditar sobre o Projecto de Lei, para a seu tempo se resolver - Ao que a
Camara responderá, que - Louva a Sua Magestade Imperial o interesse, que toma pela Nação.
Art. 65. Esta denegação tem effeito suspensivo sómente: pelo que todas as vezes, que as duas
Legislaturas, que se seguirem áquella, que tiver approvado o Projecto, tornem
successivamente a apresental-o nos mesmos termos, entender-se-ha, que o Imperador tem
dado a Sancção.
Art. 66. O Imperador dará, ou negará a Sancção em cada Decreto dentro do um mez, depois
que lhe for apresentado.
202
Art. 67. Se o não fizer dentro do mencionado prazo, terá o mesmo effeito, como se
expressamente negasse a Sancção, para serem contadas as Legislaturas, em que poderá ainda
recusar o seu consentimento, ou reputar-se o Decreto obrigatorio, por haver já negado a
Sancção nas duas antecedentes Legislaturas.
Art. 68. Se o Imperador adoptar o Projecto da Assembléa Geral, se exprimirá assim - O
Imperador consente - Com o que fica sanccionado, e nos termos de ser promulgado como Lei
do Imperio; e um dos dous autographos, depois de assignados pelo Imperador, será remettido
para o Archivo da Camara, que o enviou, e o outro servirá para por elle se fazer a
Promulgação da Lei, pela respectiva Secretaria de Estado, aonde será guardado.
Art. 69. A formula da Promulgação da Lei será concebida nos seguintes termos - Dom (N.)
por Graça de Deos, e Unanime Acclamação dos Povos, Imperador Constitucional, e Defensor
Perpetuo do Brazil: Fazemos saber a todos os Nossos Subditos, que a Assembléa Geral
decretou, e Nós Queremos a Lei seguinte (a integra da Lei nas suas disposições sómente):
Mandamos por tanto a todas as Autoridades, a quem o conhecimento, e execução do referida
Lei pertencer, que a cumpram, e façam cumprir, e guardar tão inteiramente, como nella se
contém. O Secretario de Estado dos Nogocios d.... (o da Repartição competente) a faça
imprimir, publicar, e correr.
Art. 70. Assignada a Lei pelo Imperador, referendada pelo Secretario de Estado competente, e
sellada com o Sello do Imperio, se guardará o original no Archivo Publico, e se remetterão os
Exemplares della impressos a todas as Camaras do Imperio, Tribunaes, e mais Logares, aonde
convenha fazer-se publica.
CAPITULO V.
Art. 71. A Constituição reconhece, e garante o direito de intervir todo o Cidadão nos negocios
da sua Provincia, e que são immediatamente relativos a seus interesses peculiares.
Art. 72. Este direito será exercitado pelas Camara dos Districtos, e pelos Conselhos, que com
o titulo de - Conselho Geral da Provincia-se devem estabelecer em cada Provincia, aonde não,
estiver collocada a Capital do Imperio.
Art. 73. Cada um dos Conselhos Geraes constará de vinte e um Membros nas Provincias mais
populosas, como sejam Pará, Maranhão, Ceará, Pernambuco, Bahia, Minas Geraes, S. Paulo,
e Rio Grande do Sul; e nas outras de treze Membros.
Art. 74. A sua Eleição se fará na mesma occasião, e da mesma maneira, que se fizer a dos
Representantes da Nação, e pelo tempo de cada Legislatura.
Art. 75. A idade de vinte e cinco annos, probidade, e decente subsistencia são as qualidades
necessarias para ser Membro destes Conselhos.
Art. 76. A sua reunião se fará na Capital da Provincia; e na primeira Sessão preparatoria
nomearão Presidente, Vice-Presidente, Secretario, e Supplente; que servirão por todo o tempo
da Sessão: examinarão, e verificarão a legitimidade da eleição dos seus Membros.
Art. 77. Todos os annos haverá Sessão, e durará dous mezes, podendo prorogar-se por mais
um mez, se nisso convier a maioria do Conselho.
Art. 78. Para haver Sessão deverá achar-se reunida mais da metade do numero dos seus
Membros.
Art. 79. Não podem ser eleitos para Membros do Conselho Geral, o Presidente da Provincia, o
Secretario, e o Commandante das Armas.
Art. 80. O Presidente da Provincia assistirá á installação do Conselho Geral, que se fará no
primeiro dia de Dezembro, e terá assento igual ao do Presidente do Conselho, e á sua direita; e
ahi dirigirá o Presidente da Provincia sua fala ao Conselho; instruindo-o do estado dos
203
negocios publicos, e das providencias, que a mesma Provincia mais precisa para seu
melhoramento.
Art.. 81. Estes Conselhos terão por principal objecto propôr, discutir, e deliberar sobre os
negocios mais interessantes das suas Provincias; formando projectos peculiares, e
accommodados ás suas localidades, e urgencias.
Art. 82. Os negocios, que começarem nas Camaras serão remettidos officialmente ao
Secretario do Conselho, aonde serão discutidos a portas abertas, bem como os que tiverem
origem nos mesmos Conselhos. As suas resoluções serão tomadas á pluralidade absoluta de
votos dos Membros presentes.
Art. 83. Não se podem propôr, nem deliberar nestes Conselhos Projectos.
I. Sobre interesses geraes da Nação.
II. Sobre quaesquer ajustes de umas com outras Provincias.
III. Sobre imposições, cuja iniciativa é da competencia particular da Camara dos Deputados.
Art. 36.
IV. Sobre execução de Leis, devendo porém dirigir a esse respeito representações motivadas á
Assembléa Geral, e ao Poder Executivo conjunctamente.
Art. 84. As Resoluções dos Conselhos Geraes de Provincia serão remettidas directamente ao
Poder Executivo, pelo intermedio do Presidente da Provincia.
Art. 85. Se a Assembléa Geral se achar a esse tempo reunida, lhe serão immediatamente
enviadas pela respectiva Secretaria de Estado, para serem propostas como Projectos de Lei, e
obter a approvação da Assembléa por uma unica discussão em cada Camara.
Art. 86. Não se achando a esse tempo reunida a Assembléa, o Imperador as mandará
provisoriamente executar, se julgar que ellas são dignas de prompta providencia, pela
utilidade, que de sua observancia resultará ao bem geral da Provincia.
Art. 87. Se porém não occorrerem essas circumstancias, o Imperador declarará, que -
Suspende o seu juizo a respeito daquelle negocio - Ao que o Conselho responderá, que -
recebeu mui respeitosamente a resposta de Sua Magestade Imperial.
Art. 88. Logo que a Assembléa Geral se reunir, Ihe serão enviadas assim essas Resoluções
suspensas, como as que estiverem em execução, para serem discutidas, e deliberadas, na
fórma do Art. 85.
Art. 89. O methodo de proseguirem os Conselhos Geraes de Provincia em seus trabalhos, e
sua policia interna, e externa, tudo se regulará por um Regimento, que lhes será dado pela
Assembléa Geral.
CAPITULO VI.
Das Eleições.
Art. 90. As nomeações dos Deputados, e Senadores para a Assembléa Geral, e dos Membros
dos Conselhos Geraes das Provincias, serão feitas por Eleições indirectas, elegendo a massa
dos Cidadãos activos em Assembléas Parochiaes os Eleitores de Provincia, e estes os
Representantes da Nação, e Provincia.
Art. 91. Têm voto nestas Eleições primarias
I. Os Cidadãos Brazileiros, que estão no gozo de seus direitos politicos.
II. Os Estrangeiros naturalisados.
Art. 92. São excluidos de votar nas Assembléas Parochiaes.
I. Os menores de vinte e cinco annos, nos quaes se não comprehendem os casados, e Officiaes
Militares, que forem maiores de vinte e um annos, os Bachares Formados, e Clerigos de
Ordens Sacras.
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II. Os filhos familias, que estiverem na companhia de seus pais, salvo se servirem Officios
publicos.
III. Os criados de servir, em cuja classe não entram os Guardalivros, e primeiros caixeiros das
casas de commercio, os Criados da Casa Imperial, que não forem de galão branco, e os
administradores das fazendas ruraes, e fabricas.
IV. Os Religiosos, e quaesquer, que vivam em Communidade claustral.
V. Os que não tiverem de renda liquida annual cem mil réis por bens de raiz, industria,
commercio, ou Empregos.
Art. 93. Os que não podem votar nas Assembléas Primarias de Parochia, não podem ser
Membros, nem votar na nomeação de alguma Autoridade electiva Nacional, ou local.
Art. 94. Podem ser Eleitores, e votar na eleição dos Deputados, Senadores, e Membros dos
Conselhos de Provincia todos, os que podem votar na Assembléa Parochial. Exceptuam-se
I. Os que não tiverem de renda liquida annual duzentos mil réis por bens de raiz, industria,
commercio, ou emprego.
II. Os Libertos.
III. Os criminosos pronunciados em queréla, ou devassa.
Art. 95. Todos os que podem ser Eleitores, abeis para serem nomeados Deputados.
Exceptuam-se
I. Os que não tiverem quatrocentos mil réis de renda liquida, na fórma dos Arts. 92 e 94.
II. Os Estrangeiros naturalisados.
III. Os que não professarem a Religião do Estado.
Art. 96. Os Cidadãos Brazileiros em qualquer parte, que existam, são elegiveis em cada
Districto Eleitoral para Deputados, ou Senadores, ainda quando ahi não sejam nascidos,
residentes ou domiciliados.
Art. 97. Uma Lei regulamentar marcará o modo pratico das Eleições, e o numero dos
Deputados relativamente á população do Imperio.
TITIULO 5º
Do Imperador.
CAPITULO I.
Do Poder Moderador.
CAPITULO II.
Do Poder Executivo.
Art. 102. O Imperador é o Chefe do Poder Executivo, e o exercita pelos seus Ministros de
Estado.
São suas principaes attribuições
I. Convocar a nova Assembléa Geral ordinaria no dia tres de Junho do terceiro anno da
Legislatura existente.
II. Nomear Bispos, e prover os Beneficios Ecclesiasticos.
III. Nomear Magistrados.
IV. Prover os mais Empregos Civis, e Politicos.
V. Nomear os Commandantes da Força de Terra, e Mar, e removel-os, quando assim o pedir o
Serviço da Nação.
VI. Nomear Embaixadores, e mais Agentes Diplomaticos, e Commerciaes.
VII. Dirigir as Negociações Politicas com as Nações estrangeiras.
VIII. Fazer Tratados de Alliança offensiva, e defensiva, de Subsidio, e Commercio, levando-
os depois de concluidos ao conhecimento da Assembléa Geral, quando o interesse, e
segurança do Estado permittirem. Se os Tratados concluidos em tempo de paz envolverem
cessão, ou troca de Torritorio do Imperio, ou de Possessões, a que o Imperio tenha direito, não
serão ratificados, sem terem sido approvados pela Assembléa Geral.
IX. Declarar a guerra, e fazer a paz, participando á Assembléa as communicações, que forem
compativeis com os interesses, e segurança do Estado.
X. Conceder Cartas de Naturalisação na fórma da Lei.
XI. Conceder Titulos, Honras, Ordens Militares, e Distincções em recompensa de serviços
feitos ao Estado; dependendo as Mercês pecuniarias da approvação da Assembléa, quando
não estiverem já designadas, e taxadas por Lei.
XII. Expedir os Decretos, Instrucções, e Regulamentos adequados á boa execução das Leis.
XIII. Decretar a applicação dos rendimentos destinados pela Assembléa aos varios ramos da
publica Administração.
XIV. Conceder, ou negar o Beneplacito aos Decretos dos Concilios, e Letras Apostolicas, e
quaesquer outras Constituições Ecclesiasticas que se não oppozerem á Constituição; e
precedendo approvação da Assembléa, se contiverem disposição geral.
XV. Prover a tudo, que fôr concernente á segurança interna, e externa do Estado, na fórma da
Constituição.
Art. 103. 0 Imperador antes do ser acclamado prestará nas mãos do Presidente do Senado,
reunidas as duas Camaras, o seguinte Juramento - Juro manter a Religião Catholica
Apostolica Romana, a integridade, e indivisibilidade do Imperio; observar, e fazer observar a
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Constituição Politica da Nação Brazileira, e mais Leis do Imperio, e prover ao bem geral do
Brazil, quanto em mim couber.
Art. 104. O Imperador não poderá sahir do Imperio do Brazil, sem o consentimento da
Assembléa Geral; e se o fizer, se entenderá, que abdicou a Corôa.
CAPITULO III.
Art. 105. O Herdeiro presumptivo do Imperio terá o Titulo de "Principe Imperial" e o seu
Primogenito o de "Principe do Grão Pará" todos os mais terão o de "Principes". O tratamento
do Herdeiro presumptivo será o de "Alteza Imperial" e o mesmo será o do Principe do Grão
Pará: os outros Principes terão o Tratamento de Alteza.
Art. 106.0 Herdeiro presumptivo, em completando quatorze annos de idade, prestará nas mãos
do Presidente do Senado, reunidas as duas Camaras, o seguinte Juramento - Juro manter a
Religião Catholica Apostolica Romana, observar a Constituição Politica da Nação Brazileira,
e ser obediente ás Leis, e ao Imperador.
Art. 107. A Assembléa Geral, logo que o Imperador succeder no Imperio, lhe assignará, e á
Imperatriz Sua Augusta Esposa uma Dotação correspondente ao decoro de Sua Alta
Dignidade.
Art. 108. A Dotação assignada ao presente Imperador, e á Sua Augusta Esposa deverá ser
augmentada, visto que as circumstancias actuaes não permittem, que se fixe desde já uma
somma adequada ao decoro de Suas Augustas Pessoas, e Dignidade da Nação.
Art. 109. A Assembléa assignará tambem alimentos ao Principe Imperial, e aos demais
Principes, desde que nascerem. Os alimentos dados aos Principes cessarão sómente, quando
elles sahirem para fóra do Imperio.
Art. 110. Os Mestres dos Principes serão da escolha, e nomeação do Imperador, e a
Assembléa lhes designará os Ordenados, que deverão ser pagos pelo Thesouro Nacional.
Art. 111. Na primeira Sessão de cada Legislatura, a Camara dos Deputados exigirá dos
Mestres uma conta do estado do adiantamento dos seus Augustos Discipulos.
Art. 112. Quando as Princezas houverem de casar, a Assembléa lhes assignará o seu Dote, e
com a entrega delle cessarão os alimentos.
Art. 113. Aos Principes, que se casarem, e forem residir fóra do Imperio, se entregará por uma
vez sómente uma quantia determinada pela Assembléa, com o que cessarão os alimentos, que
percebiam.
Art. 114. A Dotação, Alimentos, e Dotes, de que fallam os Artigos antecedentes, serão pagos
pelo Thesouro Publico, entregues a um Mordomo, nomeado pelo Imperador, com quem se
poderão tratar as Acções activas e passivas, concernentes aos interesses da Casa Imperial.
Art. 115. Os Palacios, e Terrenos Nacionaes, possuidos actualmente pelo Senhor D. Pedro I,
ficarão sempre pertencendo a Seus Successores; e a Nação cuidará nas acquisições, e
construcções, que julgar convenientes para a decencia, e recreio do Imperador, e sua Familia.
CAPITULO IV.
Da Successão do Imperio.
Art. 116. O Senhor D. Pedro I, por Unanime Acclamação dos Povos, actual Imperador
Constittucional, e Defensor Perpetuo, Imperará sempre no Brazil.
Art. 117. Sua Descendencia legitima succederá no Throno, Segundo a ordem regular do
primogenitura, e representação, preferindo sempre a linha anterior ás posteriores; na mesma
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linha, o gráo mais proximo ao mais remoto; no mesmo gráo, o sexo masculino ao feminino;
no mesmo sexo, a pessoa mais velha á mais moça.
Art. 118. Extinctas as linhas dos descendentes legitimos do Senhor D. Pedro I, ainda em vida
do ultimo descendente, e durante o seu Imperio, escolherá a Assembléa Geral a nova
Dynastia.
Art. 119. Nenhum Estrangeiro poderá succeder na Corôa do Imperio do Brazil.
Art. 120. O Casamento da Princeza Herdeira presumptiva da Corôa será feito a aprazimento
do Imperador; não existindo Imperador ao tempo, em que se tratar deste Consorcio, não
poderá elle effectuar-se, sem approvacão da Assembléa Geral. Seu Marido não terá parte no
Governo, e sómente se chamará Imperador, depois que tiver da Imperatriz filho, ou filha.
CAPITULO V.
CAPITULO VI.
Do Ministerio.
Art. 131. Haverá differentes Secretarias de Estado. A Lei designará os negocios pertencentes
a cada uma, e seu numero; as reunirá, ou separará, como mais convier.
208
CAPITULO VII.
Do Conselho de Estado.
CAPITULO VIII.
Da Força Militar.
Art. 145. Todos os Brazileiros são obrigados a pegar em armas, para sustentar a
Independencia, e integridade do Imperio, e defendel-o dos seus inimigos externos, ou
internos.
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Art. 146. Emquanto a Assembléa Geral não designar a Força Militar permanente de mar, e
terra, substituirá, a que então houver, até que pela mesma Assembléa seja alterada para mais,
ou para menos.
Art. 147. A Força Militar é essencialmente obediente; jamais se poderá reunir, sem que lhe
seja ordenado pela Autoridade legitima.
Art. 148. Ao Poder Executivo compete privativamente empregar a Força Armada de Mar, e
Terra, como bem lhe parecer conveniente á Segurança, e defesa do Imperio.
Art. 149. Os Officiaes do Exercito, e Armada não podem ser privados das suas Patentes,
senão por Sentença proferida em Juizo competente.
Art. 150. Uma Ordenança especial regulará a Organização do Exercito do Brazil, suas
Promoções, Soldos e Disciplina, assim como da Força Naval.
TITULO 6º
Do Poder Judicial.
CAPITULO UNICO.
Art. 151. O Poder Judicial independente, e será composto de Juizes, e Jurados, os quaes terão
logar assim no Civel, como no Crime nos casos, e pelo modo, que os Codigos determinarem.
Art. 152. Os Jurados pronunciam sobre o facto, e os Juizes applicam a Lei.
Art. 153. Os Juizes de Direito serão perpetuos, o que todavia se não entende, que não possam
ser mudados de uns para outros Logares pelo tempo, e maneira, que a Lei determinar.
Art. 154. O Imperador poderá suspendel-os por queixas contra elles feitas, precedendo
audiencia dos mesmos Juizes, informação necessaria, e ouvido o Conselho de Estado. Os
papeis, que lhes são concernentes, serão remettidos á Relação do respectivo Districto, para
proceder na fórma da Lei.
Art. 155. Só por Sentença poderão estes Juizes perder o Logar.
Art. 156. Todos os Juizes de Direito, e os Officiaes de Justiça são responsaveis pelos abusos
de poder, e prevaricações, que commetterem no exercicio de seus Empregos; esta
responsabilidade se fará effectiva por Lei regulamentar.
Art. 157. Por suborno, peita, peculato, e concussão haverá contra elles acção popular, que
poderá ser intentada dentro de anno, e dia pelo proprio queixoso, ou por qualquer do Povo,
guardada a ordem do Processo estabelecida na Lei.
Art. 158. Para julgar as Causas em segunda, e ultima instancia haverá nas Provincias do
Imperio as Relações, que forem necessarias para commodidade dos Povos.
Art. 159. Nas Causas crimes a Inquirição das Testemunhas, e todos os mais actos do Processo,
depois da pronuncia, serão publicos desde já.
Art. 160. Nas civeis, e nas penaes civilmente intentadas, poderão as Partes nomear Juizes
Arbitros. Suas Sentenças serão executadas sem recurso, se assim o convencionarem as
mesmas Partes.
Art. 161. Sem se fazer constar, que se tem intentado o meio da reconciliação, não se começará
Processo algum.
Art. 162. Para este fim haverá juizes de Paz, os quaes serão electivos pelo mesmo tempo, e
maneira, por que se elegem os Vereadores das Camaras. Suas attribuições, e Districtos serão
regulados por Lei.
Art. 163. Na Capital do Imperio, além da Relação, que deve existir, assim como nas demais
Provincias, haverá tambem um Tribunal com a denominação de - Supremo Tribunal de
210
Justiça - composto de Juizes Letrados, tirados das Relações por suas antiguidades; e serão
condecorados com o Titulo do Conselho. Na primeira organisação poderão ser empregados
neste Tribunal os Ministros daquelles, que se houverem de abolir.
Art. 164. A este Tribunal Compete:
I. Conceder, ou denegar Revistas nas Causas, e pela maneira, que a Lei determinar.
II. Conhecer dos delictos, e erros do Officio, que commetterem os seus Ministros, os das
Relações, os Empregados no Corpo Diplomatico, e os Presidentes das Provincias.
III. Conhecer, e decidir sobre os conflictos de jurisdição, e competencia das Relações
Provinciaes.
TITULO 7º
CAPITULO I.
Da Administração.
Art. 165. Haverá em cada Provincia um Presidente, nomeado pelo Imperador, que o poderá
remover, quando entender, que assim convem ao bom serviço do Estado.
Art. 466. A Lei designará as suas attribuições, competencia, e autoridade, e quanto convier no
melhor desempenho desta Administração.
CAPITULO II.
Das Camaras.
Art. 167. Em todas as Cidades, e Villas ora existentes, e nas mais, que para o futuro se
crearem haverá Camaras, ás quaes compete o Governo economico, e municipal das mesmas
Cidades, e Villas.
Art. 168. As Camaras serão electivas, e compostas do numero de Vereadores, que a Lei
designar, e o que obtiver maior numero de votos, será Presidente.
Art. 169. O exercicio de suas funcções municipaes, formação das suas Posturas policiaes,
applicação das suas rendas, e todas as suas particulares, e uteis attribuições, serão decretadas
por uma Lei regulamentar.
CAPITULO III.
Da Fazenda Nacional.
Art. 170. A Receita, e despeza da Fazenda Nacional será encarregada a um Tribunal, debaixo
de nome de 'Thesouro Nacional" aonde em diversas Estações, devidamente estabelecidas por
Lei, se regulará a sua administração, arrecadação e contabilidade, em reciproca
correspondencia com as Thesourarias, e Autoridades das Provincias do Imperio.
Art. 171. Todas as contribuições directas, á excepção daquellas, que estiverem applicadas aos
juros, e amortisação da Divida Publica, serão annualmente estabelecidas pela Assembléa
Geral, mas continuarão, até que se publique a sua derogação, ou sejam substituidas por outras.
Art. 172. O Ministro de Estado da Fazenda, havendo recebido dos outros Ministros os
orçamentos relativos ás despezas das suas Repartições, apresentará na Camara dos Deputados
annualmente, logo que esta estiver reunida, um Balanço geral da receita e despeza do
211
TITULO 8º
IX. Ainda com culpa formada, ninguem será conduzido á prisão, ou nella conservado estando
já preso, se prestar fiança idonea, nos casos, que a Lei a admitte: e em geral nos crimes, que
não tiverem maior pena, do que a de seis mezes de prisão, ou desterro para fóra da Comarca,
poderá o Réo livrar-se solto.
X. A' excepção de flagrante delicto, a prisão não póde ser executada, senão por ordem escripta
da Autoridade legitima. Se esta fôr arbitraria, o Juiz, que a deu, e quem a tiver requerido serão
punidos com as penas, que a Lei determinar.
O que fica disposto acerca da prisão antes de culpa formada, não comprehende as Ordenanças
Militares, estabelecidas como necessarias á disciplina, e recrutamento do Exercito; nem os
casos, que não são puramente criminaes, e em que a Lei determina todavia a prisão de alguma
pessoa, por desobedecer aos mandados da justiça, ou não cumprir alguma obrigação dentro do
determinado prazo.
XI. Ninguem será sentenciado, senão pela Autoridade competente, por virtude de Lei anterior,
e na fórma por ella prescripta.
XII. Será mantida a independencia do Poder Judicial. Nenhuma Autoridade poderá avocar as
Causas pendentes, sustal-as, ou fazer reviver os Processos findos.
XIII. A Lei será igual para todos, quer proteja, quer castigue, o recompensará em proporção
dos merecimentos de cada um.
XIV. Todo o cidadão pode ser admittido aos Cargos Publicos Civis, Politicos, ou Militares,
sem outra differença, que não seja dos seus talentos, e virtudes.
XV. Ninguem será exempto de contribuir pera as despezas do Estado em proporção dos seus
haveres.
XVI. Ficam abolidos todos os Privilegios, que não forem essencial, e inteiramente ligados aos
Cargos, por utilidade publica.
XVII. A' excepção das Causas, que por sua natureza pertencem a Juizos particulares, na
conformidade das Leis, não haverá Foro privilegiado, nem Commissões especiaes nas Causas
civeis, ou crimes.
XVIII. Organizar–se-ha quanto antes um Codigo Civil, e Criminal, fundado nas solidas bases
da Justiça, e Equidade.
XIX. Desde já ficam abolidos os açoites, a tortura, a marca de ferro quente, e todas as mais
penas crueis.
XX. Nenhuma pena passará da pessoa do delinquente. Por tanto não haverá em caso algum
confiscação de bens, nem a infamia do Réo se transmittirá aos parentes em qualquer gráo, que
seja.
XXI. As Cadêas serão seguras, limpas, o bem arejadas, havendo diversas casas para separação
dos Réos, conforme suas circumstancias, e natureza dos seus crimes.
XXII. E'garantido o Direito de Propriedade em toda a sua plenitude. Se o bem publico
legalmente verificado exigir o uso, e emprego da Propriedade do Cidadão, será elle
préviamente indemnisado do valor della. A Lei marcará os casos, em que terá logar esta unica
excepção, e dará as regras para se determinar a indemnisação.
XXIII. Tambem fica garantida a Divida Publica.
XXIV. Nenhum genero de trabalho, de cultura, industria, ou commercio póde ser prohibido,
uma vez que não se opponha aos costumes publicos, á segurança, e saude dos Cidadãos.
XXV. Ficam abolidas as Corporações de Officios, seus Juizes, Escrivães, e Mestres.
XXVI. Os inventores terão a propriedade das suas descobertas, ou das suas producções. A Lei
lhes assegurará um privilegio exclusivo temporario, ou lhes remunerará em resarcimento da
perda, que hajam de soffrer pela vulgarisação.
XXVII. O Segredo das Cartas é inviolavel. A Administração do Correio fica rigorosamente
responsavel por qualquer infracção deste Artigo.
213
XXVIII. Ficam garantidas as recompensas conferidas pelos serviços feitos ao Estado, quer
Civis, quer Militares; assim como o direito adquirido a ellas na fórma das Leis.
XXIX. Os Empregados Publicos são strictamente responsaveis pelos abusos, e omissões
praticadas no exercicio das suas funcções, e por não fazerem effectivamente responsaveis aos
seus subalternos.
XXX.. Todo o Cidadão poderá apresentar por escripto ao Poder Legislativo, e ao Executivo
reclamações, queixas, ou petições, e até expôr qualquer infracção da Constituição, requerendo
perante a competente Auctoridade a effectiva responsabilidade dos infractores.
XXXI. A Constituição tambem garante os soccorros publicos.
XXXII. A Instrucção primaria, e gratuita a todos os Cidadãos.
XXXIII. Collegios, e Universidades, aonde serão ensinados os elementos das Sciencias,
Bellas Letras, e Artes.
XXXIV. Os Poderes Constitucionaes não podem suspender a Constituição, no que diz
respeito aos direitos individuaes, salvo nos casos, e circumstancias especificadas no
paragrapho seguinte.
XXXV. Nos casos de rebellião, ou invasão de inimigos, pedindo a segurança do Estado, que
se dispensem por tempo determinado algumas das formalidades, que garantem a liberdede
individual, poder-se-ha fazer por acto especial do Poder Legislativo. Não se achando porém a
esse tempo reunida a Assembléa, e correndo a Patria perigo imminente, poderá o Governo
exercer esta mesma providencia, como medida provisoria, e indispensavel, suspendendo-a
immediatamente que cesse a necessidade urgente, que a motivou; devendo num, e outro caso
remetter á Assembléa, logo que reunida fôr, uma relação motivada das prisões, e d'outras
medidas de prevenção tomadas; e quaesquer Autoridades, que tiverem mandado proceder a
ellas, serão responsaveis pelos abusos, que tiverem praticado a esse respeito.
Rio de Janeiro, 11 de Dezembro de 1823.- João Severiano Maciel da Costa.- Luiz José de
Carvalho e Mello.- Clemente Ferreira França.- Marianno José Pereira da Fonseca.- João
Gomes da Silveira Mendonça.- Francisco Villela Barboza.- Barão de Santo Amaro.- Antonio
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