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a nossa
“família de espírito” 1
Texto publicado por JOSÉ SARAMAGO
no dia 10 de julho de 2009
no blog que manteve durante dois anos
C
O M O S P RI M EI RO S C AL O R ES , J Á S E S A B E , É F A TA L
como o destino, jornais e revistas, e uma vez
por outra alguma televisão de gostos
excêntricos, vêm perguntar ao autor destas linhas
que livros recomendaria ele para ler no Verão.
Tenho-me furtado sempre a responder, porquanto
considero a leitura actividade suficientemente
importante para dever ocupar-nos durante todo o
ano, este em que estamos e todos os que vierem.
Um dia, perante a insistência de um jornalista
teimoso que não me largava a porta, resolvi ladear a
questão de uma vez por todas, definindo o que
então chamei a minha «família de espírito», na
qual, escusado será dizer, faria figura de último dos
primos. Não foi uma simples lista de nomes, cada
um deles levava a sua pequena justificação para que
melhor se entendesse a escolha dos parentes. Incluí
nos Cadernos de Lanzarote a imagem final da
«árvore genealógica» que me tinha atrevido a
esboçar e repito-a aqui para ilustração dos curiosos.
Em primeiro lugar vinha C A M Õ E S porque, como
escrevi em O Ano da Morte de Ricardo Reis, todos
os caminhos portugueses a ele vão dar.
Seguiam-se depois o P A D R E A N T Ó N I O V I E I R A ,
porque a língua portuguesa nunca foi mais bela que
quando a escreveu esse jesuíta, C E R V A N T E S ,
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porque sem o autor do Quixote a Península Ibérica
seria uma casa sem telhado, M O N T A I G N E , porque
não precisou de Freud para saber quem era,
V O L T A I R E , porque perdeu as ilusões sobre a
humanidade e sobreviveu ao desgosto, R A U L
B R A N D Ã O , porque não é necessário ser um génio
para escrever um livro genial, o Húmus,
F E R N A N D O P E S S O A , porque a porta por onde se
chega a ele é a porta por onde se chega a Portugal
(já tínhamos Camões, mas ainda nos faltava um
Pessoa), K A F K A , porque demonstrou que o homem
é um coleóptero, E Ç A D E Q U E I R O Z , porque
ensinou a ironia aos portugueses, J O R G E L U I S
B O R G E S , porque inventou a literatura virtual, e,
finalmente, G O G O L , porque contemplou a vida
humana e achou-a triste. Que tal?
Permitam-me agora os leitores uma sugestão.
Organizem também a sua lista, definam a «família
de espírito» literária a que mais se sentem ligados.
Será uma boa ocupação para uma tarde na praia ou
no campo. Ou em casa, se o dinheiro não deu para
férias este ano.
J O S É S A R A M A G O ao pé do túmulo
de Fernando Pessoa no Mosteiro
dos Jerónimos © Chema Conesa/FJS
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as férias
H O J E , V E N H O F A L A R D A S F É R I A S : É O T E M P O D E L A S , como se diz que é o
tempo das cerejas. Outra árvore dá estes frutos, e a mesma árvore os arranca: os dias
as trazem até nós, os dias as levam. Neste escoar se vai o tempo, mas enquanto as
férias se aproximam tudo é desejá-las, fazer projectos, embalar ilusões. Chegado o dia,
temos diante de nós um espaço vazio à espera, como uma grande sala que é preciso
habitar. Que vamos pôr lá dentro? Há quem passe uns dias na terra, quem se atreva ao
estrangeiro, quem conte os escudos para o toldo da praia. Há também quem não saia
de casa e fique a ver, todas as horas do dia, a rua onde mora. Seja como for, os dias de
férias ganham de repente um valor que os outros não tiveram. São dias totalmente
disponíveis, à mercê da imaginação e das posses de cada qual. O tempo desligou-se da
mecânica do relógio, é uma dimensão não delimitada, informe, um pedaço de barro
diante das mãos que o vão modelar.
As férias são também uma obra de criação. Não espanta, portanto, que no limiar delas
um súbito temor nos intimide. Aquele intervalo entre duas representações, aquela
clareira rodeada de floresta negra por todos os lados — que iremos nós fazer do barro
do tempo? Se vamos à terra, dois dias bastam para rever as pessoas conhecidas, os
sítios e a família; se passamos ao estrangeiro, que resultado tiraremos de quatro mil
quilómetros em oito dias? E se vamos à praia? E se ficamos em casa? Depois, tudo são
complicações: horários, refeições indigestas, noites mal dormidas, histórias velhas de
família, cansaço de viagens de ida-e-volta, raiva de estar fechado. Ah, as férias. Quan-
do elas acabam, ficam-nos umas lembranças desmaiadas, como de um sonho antigo.
Nada aconteceu como tínhamos imaginado: choveu, veio uma dor de dentes, os mu-
seus eram muitos, as paisagens não eram tão belas como as fotografias delas, gastou-
se muito dinheiro — ou não houve sequer dinheiro para gastar. E recomeça-se o traba-
lho em rigoroso estado de cólera, porque pior do que ter tido e não ter já, é ficar
aquém do que se sonhou.
No fundo, esse sonho, vezes e vezes renovado e outras tantas frustrado, é apenas o
desejo inconsciente de repetir as únicas férias maravilhosas que já tivemos: as da
infância — esses infinitos meses para os quais não havia projectos, porque então não
os fazíamos e porque, mesmo antes de vividos, já eram realização. O mundo estava
todo por descobrir — e o mundo cabia no círculo que os olhos traçavam. Duas árvores
e um charco: a Europa. Um caminho entre rochedos: a América. Ou a Ásia. Ou a África.
Nadar ou navegar no rio era o mesmo que atravessar o oceano. E descobrir um ninho
abandonado valia bem a caverna de Ali Babá. Por isso, hoje, as férias não podem ser
repouso. Queremos, à viva força, descobrir o mundo, como se fôssemos nós os primei-
ros: outra coisa não significa a nossa satisfação quando obrigamos um amigo a confes-
sar que não viu, no Louvre, aquela estátua grega que, no nosso entender, vale a via-
gem.
Tudo isto são ilusões. O mundo está visto e decorado. Ninguém descobrirá a Europa, e
a estátua grega, afinal, é uma pobre cópia romana. Mas que importa? Aqui solenemen-
te declaro que, este ano, as minhas férias serão, em valor de revelação e descoberta,
iguais àquelas em que, com os olhos novos da infância, me aconteceu encontrar uma
fonte que ninguém conhecia. E se este ano não for, será para o ano. Porque a fonte lá
está. * Esta crónica integra o volume Deste Mundo e do Outro, cuja 1ª edição é de 1971.
As férias, por José Saramago – Blimunda (josesaramago.org) (02.08.1923 )
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