Narrativas musicais como
prática automedial para a
sala de aula
Delmary Vasconcelos de Abreu http://dx.doi.org/10.33054/MEB131604
Universidade de Brasília
orcid.org/0000-0001-5787-5703 Recebido em: 29/02/2024
[email protected] Aprovado em: 27/05/2024
Hugo Leonardo Guimarães Souza
Instituto Federal de Brasília - IFB
orcid.org/0000-0002-5401-1229
[email protected]Gustavo Aguiar Malafaia de Araujo
Instituto Federal de Brasília
orcid.org/0009-0009-8783-1467
[email protected] Musical narratives as self-mediated
practices at the classroom
Resumo Abstract
Esta proposta pedagógico-musical apresenta This musical pedagogical proposal presents
uma releitura de uma prática de estágio na a reinterpretation of a teaching internship
perspectiva da musicobiografização. Os practice from the perspective of music-
estudantes elaboraram narrativas musicais, biographization. Musical narratives were
convergindo histórias de vida com o cantar, elaborated by the students converging life
tocar, apreciar e criar música. Intentamos stories with singing, playing, appreciating
mostrar como as narrativas musicais and creating music. We aim to demonstrate
compreendidas como medium permitem how musical narratives, understood as
construir propostas de ensino que levem medium, allow the construction of teaching
os alunos à abertura para a descoberta de proposals that lead students to openness
si, na relação com o outro e com o mundo, in discovering themselves, in relation to
em seus processos de criação. Esse é um others and to the world, within their creative
convite para abrir a sala de aula às narrativas processes. This is an invitation to open up the
musicais. Nesse sentido, a perspectiva da classroom to musical narratives. In this sense,
musicobiografização orienta a adoção de the perspective of music-biographization
práticas automediais em sala de aula como guides the adoption of automedial practices
modo de sustentar as escolhas do sujeito na in the classroom as a way of supporting the
modelagem da sua experiência no medium subject’s choices in shaping their experience
música. O artigo apresenta manifestações in the medium of music. The article presents
culturais indígenas, africanas e brasileiras indigenous, African and Brazilian cultural
tomando a forma das subjetividades manifestations taking the form of the
implicadas no processo de criação: obras subjectivities involved in the process of
que representam seus criadores. creation: works that represent their creators.
Palavras-chave: Música na escola. Keywords: Music at School. Music-
Musicobiografização. Narrativas musicais. biographization. Musical narratives.
ABREU, Delmary Vasconcelos de; SOUZA, Hugo Leonardo Guimarães; ARAUJO, Gustavo Aguiar Malafaia
de. Narrativas musicais como prática automedial para a sala de aula. Revista Música na Educação Básica,
v. 13, n. 16, e131604, 2024.
Música na Educação Básica
A noção de práticas musicais autome-
Apresentando diais é um modo de pensar a música como
conceitos medium2 pelas quais uma subjetividade
encontra sua forma. Ou seja, mais do que
O texto apresenta uma proposta peda- um meio ou uma mídia, dentro dessa no-
gógico-musical a partir de uma experiên- ção, a música opera como lugar de reali-
cia de estágio supervisionado em música zação da subjetividade. Da mesma forma,
realizada há 10 anos, revisitada e instru- as narrativas musicais se configuram como
mentalizada a partir da perspectiva da mu- medium, dentro dos processos de musico-
sicobiografização e das práticas musicais biografização, tornando-se mais que meros
automediais. instrumentos de suporte para a expressão
O termo musicobiografização faz apro- da subjetividade, pois “o sujeito se exterio-
ximações epistemológicas entre a educa- riza com relação ao medium que faz de si
ção musical e a pesquisa (auto)biográfica1. um objeto suscetível de um trabalho ati-
Como conceito teórico e prático, visa orien- vo de modelagem” (Delory-Momberger e
tar a compreensão sobre o modo como os Bourguignon, 2023, p.5).
indivíduos aprendem sobre a sua própria Como propõe Souza (2018, p. 175), “uma
vida experienciada com a música. Trata-se perspectiva musicobiográfica pode levar o
de uma aposta no sujeito que, ao manipu- sujeito a compreender a si-mesmo e o ou-
lar material sonoro-musical, se expressa, dá tro, sua temporalidade e seus lugares de
forma e forma, atribuindo valor e sentido à experiência, seus saberes musicais e sua
sua autoformação, mediante práticas musi- memória musical de formas renovadas, re-
cais automediais (Abreu, 2022). configuradas”. Cabe a nós propor uma for-
A musicobiografização deriva do concei- mação que incorpore novos conhecimentos
to de “biografização”, cunhado por Alheit para dentro da construção de experiências,
(2011), um código pessoal de experiência, transformando modos de biografizar-se no
uma lógica interna de processamento que mundo. Nisso reside uma intencionalidade,
só vale para nós, uma vez que “inventamos um propósito didático e pedagógico-mu-
o nosso próprio e teimoso processamento, sical “ao propormos que, comentem sobre
que tem a ver com nossas experiências” suas escolhas e momentos significativos de
(Alheit, 2011, p. 37). Com isso, “somos nós suas vidas amalgamados às escolhas musi-
que percorremos um processo de apren- cais, um trabalho de juntar pedacinhos, de
dizagem, não existem substitutos” (Alheit, ouvir o outro” (Torres, 2020, p. 1.597).
2011, p. 34). Para o autor, “a biografização Desse modo, as práticas automediais
é, então, a capacidade de combinar esses de cada estudante, assim como “cada uma
processamentos internos com as condi- das músicas que representam uma esté-
ções externas de sociabilidade” (Alheit, tica é avaliada por eles conforme o siste-
2011, p. 31), que podem nos levar à reflexivi- ma de valores, padrões estéticos, crenças,
dade biográfica. procedimentos interpretativos ou visões de
1. A pesquisa (auto)biográfica analisa as modalidades segundo as quais os indivíduos e, por extensão, os grupos sociais
trabalham e incorporam biograficamente os acontecimentos e as experiências de aprendizagens ao longo da vida” (Delory-
-Momberger, 2024, p. 07).
2. O termo “médium”, com acento, no texto original, será aqui substituído por “medium”, sem acento, ambos se referem à
noção de (inter)mediação. A intenção é diferenciá-los. Enquanto o termo “médium”, usual no Brasil, refere-se à “mediunida-
de”, “medium” se refere aqui à “medialidade”. (Delory-Momberger e Bourguignon, 2023, p.1, nota de Maria da Conceição
Passeggi, tradutora do texto)
2 | Delmary Vasconcelos de Abreu, Hugo Leonardo Guimarães Souza e Gustavo Aguiar Malafaia de Araujo
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mundo construído na própria narrativa e na
partilha delas” (Araújo, 2017, p. 76). Logo, Revisitando a
“a formação musical é como um laborató- experiência de
rio, um lugar de experimentar a música e
a vida” (ibidem, p. 83). Nessa partilha au-
estágio e construindo
tomedial, “a música toma forma ou mate- a proposta
rialização do que se sente, parece ser um
As práticas aqui apresentadas foram
significado atribuído para a música pelo
desenvolvidas no curso de licenciatura em
coletivo” (Araújo, 2017, p. 84-89).
música, na disciplina de estágio supervisio-
O ato de criar narrativas musicais permi- nado em música, em uma Escola Parque3,
te acessar diferentes medium, abrangendo no ano de 2014. A prática foi revisitada e
outras formas de expressão e linguagens: instrumentalizada na perspectiva da musi-
faladas, escritas, sonoras, plásticas, digitais, cobiografização. Na ocasião, a escola lida-
corporais, gestuais, cênicas, audiovisual e va com o desafio do processo de inclusão
literárias. Mediante o conceito de musico- social de dois alunos indígenas, o que se
biografização, entendemos a música como mostrou uma oportunidade para proposi-
medium para construção de nossas his- ção de práticas musicais em diálogo com
tórias e experiências formativas que com diferentes culturas. Os dois alunos indíge-
ela são registradas. No termo “musico-bio- nas – Kannaway e Twrwry – viviam com
grafização” (Abreu, 2017), a música vem seus parentes no Santuário dos Pajés, única
em primeiro lugar como elemento consti- terra indígena demarcada em Brasília, loca-
tutivo, tanto de uma área quanto do sujeito lizada no bairro Noroeste.
que, ao agir, busca com a música sentidos
para a escrita (grafia) da vida (bio). Figura 1: Vista aérea do Santuário dos Pajés
Fonte: Fellipe Neiva para a Mongabay.
3. As Escolas Parque são vinculadas à Secretaria de Estado de Educação do Distrito Federal. São unidades de Natureza
Especial que oferecem o ensino de Arte em suas diferentes modalidades com professores específicos para turmas do ensino
fundamental.
Narrativas musicais como prática automedial para a sala de aula | 3
Música na Educação Básica
A professora contou sobre o processo cultura. A contextualização possível para o
de inclusão social destes alunos, argumen- papel do Sansa Kroma no ambiente esco-
tando a necessidade de propormos práti- lar é que sempre haverá uma professora ou
cas musicais em diálogo com a intercultu- professor para ensinar as crianças.
ralidade.
Inspirados na ideia de Célio, um dos es-
Você sabia?
tagiários, que relatou sua experiência com
o projeto “Seu Estrelo e o Fuá do Terreiro”, O Sansa Kroma é um pássaro fantástico do
o qual foi um grande motivador para o seu imaginário de aldeias africanas, uma espécie
de falcão. Contam que um dia ele estava vo-
processo de criação musical na sua rela-
ando alto no céu e avistou alguns pintinhos ór-
ção com a música como uma brincadeira, fãos. Sansa Kroma desceu e cuidou deles até
o grupo de estagiários abraçou a sua visão que estivessem adultos. A moral da história é
de que esse espaço de criação e manuten- que nas comunidades sempre haverá alguém
ção da cultura é uma forma de perpetuar para cuidar das crianças. A canção folclórica
os ritos, as músicas e o sagrado. sobre o sansa kroma era cantada pelas mães
sul-africanas durante o exílio, que pediam para
que esse pássaro protegesse e abenço-
asse seus filhos nos tempos do apartheid. O
Para ver e ouvir
Apartheid foi um regime de segregação racial
Busque na plataforma do YouTube: His- mantido na África do Sul de 1948 a 1994, im-
pondo a dominação da maioria branca sobre
tória #19 – Seu Estrelo e o Fuá do Terreiro.
grupos pertencentes a outras etnias, em sua
Para ver e ouvir “A Sambada”, busque na
maioria, negros. Esse sistema foi condenado
plataforma do YouTube: “Seu Estrelo e o internacionalmente. Para maiores informações
Fuá do Terreiro – A Sambada”. busque no Google o significado de Sansa Kro-
ma.
A estagiária Clarisse apresentou uma
proposta a partir de suas vivências cultu- Para ver e ouvir
rais, sugerindo uma ideia que dialogava Para ouvir a música folclórica Sansa Kroma,
com a visão abraçada pelo grupo: criar um sugerimos a audição elaborada por Alexander
conto em torno da figura de um pássaro sa- L’Estrange, disponível na plataforma YouTube.
grado, Sansa Kroma. Esse pássaro faz parte Para complementar possibilidades de arranjos
instrumentais sugerimos buscar, no YouTube,
do imaginário de alguns povos da África do
Sansa Kroma - arranjo para xilofone e percus-
Sul, sendo conhecido por meio das lendas são.
e músicas transmitidas oralmente naquela
Partitura Sansa Kroma
Sansa Kroma Edição do autor.
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Para somar na construção da narrativa
musical, Clarisse sugeriu a apreciação de
outra música africana, Siyahamba. A músi-
ca faz parte de sua experiência formativa
musical e apresenta um caráter expressivo
animado, semelhante à música Sansa Kro-
ma, proposta anteriormente.
Editoração e versão em português:
Siyahamba (Canção Zulu) Rodrigo Rossi Peña
O estagiário Célio, familiarizado com o
Você sabia? samba pisado, praticado no projeto “Seu
A Siyahamba é originária da África do Sul. Ela Estrelo e Fuá do Terreiro”, propôs fazer um
pode nos transportar para qualquer lugar que trocadilho do nome da canção Siyahamba
quisermos, porém quanto melhor nós sou- com a palavra samba. Assim, foi criada a
bermos juntos que lugar é esse, mais natural
música “Siasamba”. Na sequência, o esta-
será cantarmos com a mesma intenção e ex-
pressão, e seremos capazes de levar o público
giário Thiago sugeriu a escrita de um con-
com a gente nessa viagem. to, propondo um diálogo intercultural que
promovesse a inclusão de alunos indígenas.
Para aprofundamento da aula Ao apresentar esses exemplos de parti-
lha de experiências, orientamos que as ex-
Busque no Google uma aula completa de- periências de vida-formação dos estudan-
positada no site Portal do Professor: “Música
tes sejam entrelaçadas na construção de
- Canções do mundo (Siyahamba): canto e
percussão corporal - aula 1”. um espaço de formação musical, criando
um ambiente favorável à musicobiografiza-
ção. Os estudantes, que no caso revisitado
Esta descrição pode ser encontrada no Goo-
inclui os estagiários do curso de licenciatu-
gle: digite Siyahamba no blog “canto quixote”
e lá você encontrará uma oficina de Invenção ra em música como sujeitos em formação,
Vocal do Espaço Quixote com versões do são convidados para contextualizar suas
canto Siyahamba interpretado por crianças e experiências nas práticas automediais.
adolescentes.
Narrativas musicais como prática automedial para a sala de aula | 5
Música na Educação Básica
Figura 4: Capa do projeto Siasamba
Fonte: Washington, aluno da turma do 5º ano A da Escola Parque.
Dicas para práticas:
Criando o conto Apresentar o conto para a turma de forma mu-
sical, incentivando os alunos a realizarem prá-
Siasamba ticas de criação musical, como por exemplo:
vocalizar, batucar, criar paisagens sonoras4 e
A escrita do conto consistiu de uma nar- efeitos sonoros com a voz e corpo ou com co-
rativa aberta, em que os alunos participa- lagens musicais (samples) por meio de apps
ram da construção com ideias de eventos, de edição de música (bandlab), construindo,
assim, narrativas musicais com as sonorida-
cenários, diálogos, ilustrações, representa-
des que emergem das cenas que Kannaway e
ções sonoras e musicais. Um dos alunos da Twrwry protagonizam.
turma manifestou o desejo de fazer um de-
senho representativo (ver figura 4), que se
tornou a capa do projeto Siasamba. Abai- Você sabia?
xo, segue o conto produzido pelo grupo. Povos Indígenas: Fuinô, Tuxá, Kariri Xocó e
Krahôs
Estes foram os nomes dos povos indígenas ci-
tados pelo aluno Kannaway e a aluna Twrwry.
Há vários sites de povos indígenas no Brasil
que contam suas histórias. Busque no Google
o site governamental povos indígenas do Bra-
4. A paisagem sonora é composta pelos diferentes sons presentes em
determinado ambiente (Schafer, 2001). sil - pib.socioambiental.org
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O sol desponta no horizonte de uma
pequena aldeia da região centro oeste.
As crianças se mostram animadas com
suas brincadeiras de peteca e cabo de
guerra. As mulheres reunidas preparam
a tapioca para servir de alimento ao
grupo. E os homens confeccionam seus
instrumentos de caça e pesca. O dia
seguia a sua rotina, exceto para Kan-
naway, protagonista da história, que se
preparava para a sua primeira pescaria
com o grupo.
Seguindo em direção ao rio, Kannaway
e os demais cantavam cantos de caça.
Nos momentos de silêncio, o som de suas
pegadas sobre as folhas secas se des-
Imagem: Freepik.com
tacava. O gorjear do bem-te-vi, guar-
dião da floresta, parecia fazer um con-
tracanto com o som do sabiá, que sabe
como nenhum outro admirar a floresta.
E o coki, pássaro de penas escuras, com
Figura 5: O Sol seu canto bonito mostrava que coisas
Figura gerado
Fonte: 6: A garça
por eIA.o Plataforma
jacaré Adobe Firefly.
Fonte:
Em 09 gerado
de maiopor
deIA.2024Plataforma Adobe boas iriam acontecer.
Firefly. Em 09 de maio de 2024
Narrativas musicais como prática automedial para a sala de aula | 7
Música na Educação Básica
Figura 6: A garça e o jacaré
Fonte: gerado por IA. Plataforma Adobe Firefly.
Em 09 de maio de 2024
Neste dia, algo extraordinário acon- famintos. Durante a caminhada Kana-
teceu. Kannaway viu a floresta se abrin- way lembrou de um canto dos indígenas
do para o voo da garça-branca sob o Kraôs, parentes próximos, que habitam a
céu azul. Além deles, um faminto jacaré região de Tocantins. Esse canto, de cer-
observava, da cabeceira do rio, o movi- ta forma, traduz esta cena vivida pelos
mento da garça-branca que descia em indígenas da aldeia de Kannaway. En-
direção às águas. Com o bote armado, quanto a garça ia sumindo na imensidão
o jacaré preparou um ataque rápido e do céu, Kannaway e os demais indígenas
preciso. Girou rapidamente o seu corpo continuavam a caminhada cantando,
para abocanhar a garça, com seu brami-
Ao chegarem no destino, o grupo en-
do vocalizou um roooor. Kannaway ouviu
toava a palavra “aham” da garça em
outro som simultaneamente. Era o gaze-
decrescendo, enquanto preparavam os
ar da garça que arremeteu voo produ-
seus instrumentos para a pesca. Kan-
zindo um som alto e rouco de kraaaah,
naway contemplava a garça-branca que
aham!
ia desaparecendo no horizonte, como um
Os indígenas continuaram a caminhada, coda daquela narrativa musical.
escolhendo outro local longe dos jacarés
8 | Delmary Vasconcelos de Abreu, Hugo Leonardo Guimarães Souza e Gustavo Aguiar Malafaia de Araujo
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Para executar: Sugestão de execução:
Três Cantos Nativos do Grupo Krahó – • Fazer uma roda e, antes de cantar a can-
Primeiro Canto. ção, explorar sons percussivos no corpo,
Arranjo: Marcos Leite gritos e sons de ventos e de animais pro-
vocando, como um efeito sonoro musical.
Letra:
• Inserir chocalho e tambor com som seme-
De ke ke ke korirare He De ke ke ke kori-
lhante ao do atabaque.
rare He Djarambutum korirare Djarambu-
tum korirare he • Executar a canção conforme a indicação
do arranjo de Marcos Leite. Para encontrar
Haamm... Haamm... Haamm... Haamm
este arranjo completo, digite no Google
Aham! Aham! Aham! Aham! “festival internacional de corais, arranjo
três cantos nativos SATB”
• Finalizar com o som onomatopaico Aham
e prosseguir com a história de Kannaway
e Twrwry
Três Cantos Nativos Arranjado por Marcos Leite.
Sopranos e Contraltos ficam à vontade nos primeiros compassos para “sujar”
o efeito musical masculino com gritos, sons percusivos et cetera.
A percussão ataca junto com o coro. Sugere-se 1 tumbadora e 2 Chocalhos.
Fonte: Síntese com base em Gordon (2000), elaborada por Sousa
(2003, p. 117).
Narrativas musicais como prática automedial para a sala de aula | 9
Música na Educação Básica
Figura 7: Sansa Kroma
Fonte: gerado por IA. Plataforma Adobe Firefly.
Nesse tempo, mas em outro lugar, en-
Em 09 de maio de 2024
tra outra personagem na intriga narra-
tiva – Twrwry – que também gostava de
contemplar as garças-preta, de plumagem
negra brilhante, no céu da África. Foi num
dia nublado que essa história aconteceu.
Enquanto alimentava alguns pintinhos ór-
fãos, cuja mãe havia sido devorada por
falcões, Twrwry cantava a música Sansa
Kroma, aprendida na infância. Ela notou
que os pintinhos estavam mais agitados
e achou que fosse por causa dos sons de
trovões e da chuva que começava a cair.
Twrwry procurou abrigo na cabana, es-
piando os pintinhos, pronta para defendê-
-los se algo acontecesse. E aconteceu!
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Um falcão se aproximou do local com sicobiografização direcionam ações para
seu voo impecável. Em um de seus rasan- descobertas de si, materializando a subje-
tes se aproximou dos pintinhos. O coração tividade no medium música. Por meio de
de Twrwry batia acelerado. O falcão de- gestos, ações e obras musicais, cria-se o
sacelerou e pousou com as asas abertas enredo do “caminhar na luz”, como propõe
sobre os pintinhos. A menina acreditava a canção Siyahamba. Esse caminho é feito
que os filhotes órfãos seriam devorados cantando, dançando, tocando, compondo,
pelo falcão. criando e inventando histórias que poderão
ser contadas em uma aventura musicobio-
O céu se abriu. A chuva se foi e com
gráfica.
ela o falcão. Twrwry correu em direção ao
local e, para a sua surpresa, todos os pin- A história poderia terminar com
tinhos estavam lá, sequinhos, piando tran- Siyahamba, mas o desejo de reinventar a si
quilamente. Como já conhecia a história, mesmo é o que nos move. Juntos, alunos
Twrwry concluiu que o falcão era o Sansa e estagiários inventaram o Siasamba, como
Kroma que havia descido para cuidar dos parte do seu processo de musicobiogra-
filhotes órfãos. fização: o medium música toma a forma
das subjetividades implicadas no processo
de criação, tornando-se obra. Assim, fo-
Construindo a narrativa ram feitas narrativas musicais, convergindo
música e histórias de vida que, na alterida-
musical de, biografizaram-se, compondo, tocando,
A música cantada por Twrwry, associa- cantando e marcando um caminho com a
da à história contada pelo seu povo, mos- pisada do Siasamba.
tra uma narrativa mítica construída cultu- A seguir, apresentamos a letra da música
ralmente e que vai se materializando diante com a cifra, a partitura e o acompanhamen-
dos seus olhos. A simbologia mostra que to rítmico da música Siasamba. A elabora-
todos nós podemos vir a ser um Sansa Kro- ção do arranjo foi pensada pelo grupo para
ma, quando o propósito é o cuidado de si permitir o acompanhamento com violão,
e do outro. teclado, instrumentos de sopro, percussão,
As narrativas musicais se constituem corpo e voz. Para a prática em conjunto, os
como medium, dentro do processo de mu- instrumentos podem ser substituídos pelo
sicobiografização, porque nos permitem corpo, pela voz ou outros instrumentos dis-
construir sentido para as várias histórias na poníveis, considerando os padrões como
invenção de si. Os desdobramentos da mu- claves rítmicas do gênero samba.
SIASAMBA - Letra com Cifras
D Bm D
Se há samba não sei. Vou tocar pra saber. Batucar e cantar. Com falcão vou dançar. (repetir)
D F#m G D G Em D
Eu vou. Eu Aprender a flutuar. Com meu pássaro protetor. Eu vou. (refrão)
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Música na Educação Básica
Melodia Siasamba Autores (turma estágio, 2014)
Percussão corporal -Samba Autores (turma estágio, 2014)
12 | Delmary Vasconcelos de Abreu, Hugo Leonardo Guimarães Souza e Gustavo Aguiar Malafaia de Araujo
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Considerações finais Autoras/es
Esta proposta pedagógico-musical
apresentou uma releitura de uma prática de
estágio revisitada na perspectiva da musi-
Delmary
cobiografização. Intentamos mostrar como
Vasconcelos
as narrativas musicais configuradas como
de Abreu
medium permitem construir propostas de
ensino que levem os alunos à abertura para
Possui pós-doutorado em Educação na li-
a descoberta de si, na relação com o outro
nha de pesquisa cultura escrita, linguagens
e com o mundo, em seus processos de cria-
e aprendizagens pela Universidade Federal
ção musical.
de Pelotas/RS (2019), doutorado em Música
Os procedimentos apresentados nessa pela Universidade Federal do Rio Grande do
proposta consistem em abrir a sala de aula Sul (2011) - linha Educação Musical, e mes-
para que emerjam histórias de vida, reco- trado em Estudos de Linguagem pela Uni-
nhecendo as diversidades musicais e cul- versidade Federal de Mato Grosso - UFMT
turais. Esses elementos podem contribuir (2006). É licenciada em Música pelo IPA/RS
e em Letras pela Universidade do Estado de
para a criação de uma narrativa musical
Mato Grosso (1998). Atua como docente nos
com processos de criação musical. Nesse
cursos de licenciatura em Música presencial
sentido, a perspectiva da musicobiografi-
e a distância, nos programas de Pós-gradua-
zação orienta a adoção de práticas auto- ção em Música – PPGMUS e Mestrado Profis-
mediais em sala de aula como modo de sional – Profartes na Universidade de Brasília.
sustentar as escolhas do sujeito na mode- Coordena o Grupo de Pesquisa Educação
lagem da sua experiência no medium mú- Musical e Autobiografia, registrado no CNPq
sica. desde 2013. É bolsista do CNPq - PQ2.
http://lattes.cnpq.br/0880820345740922
Hugo Leonardo
Guimarães Souza
Professor de música, violonista, cantor e
compositor. É mestre em Educação Musical
pela Universidade de Brasília e especialista
em Educação Musical pela Faculdade Cristo
Rei, Paraná. Graduado em Educação Artísti-
ca – Habilitação em Música pela UnB (2011),
atua como professor de música no Instituto
Federal de Brasília campus Ceilândia desde
o ano de 2016. Foi professor na rede privada
entre 2011 e 2013 e na Secretaria de Educa-
ção do DF de 2014 a 2016. Atualmente tem
como foco o desenvolvimento de propostas
Narrativas musicais como prática automedial para a sala de aula | 13
Música na Educação Básica
de formação musical alinhadas à pesquisa
autobiográfica. É pesquisador do grupo Gru- Referências
po de Pesquisa: Educação Musical Escolar e ABREU, Delmary Vasconcelos. Um ensaio sobre a musi-
Autobiografia – GEMAB, que integra a Linha cobiografização como uma vertente para a pesquisa (auto)
de Pesquisa Educação Musical e Pesquisa biográfica em educação musical. Revista da ABEM, v. 30,
Autobiográfica, do Programa de Pós-Gradu- n. 2, e30202. Disponível em: https://revistaabem.abem.
mus.br/revistaabem/article/view/1099. Acesso em: 31 mai.
ação em Música, da Universidade de Brasília. 2024.
http://lattes.cnpq.br/3272244486350785 ABREU, Delmary Vasconcelos. História de vida e sua re-
presentatividade no campo da educação musical: um
estudo com dois educadores musicais do Distrito Fede-
ral. Revista Intermeio, Campo Grande, v. 23, n. 45, 2017.
Disponível em: https://periodicos.ufms.br/index.php/intm/
article/view/5080. Acesso em: 31 mai. 2024.
ALHEIT, Peter. Biografização como competência-chave
Gustavo Aguiar na modernidade. Revista da FAEEBA: Educação e Con-
Malafaia de Araujo temporaneidade, Salvador, v. 20, n. 36, p. 31-41, jul./dez.
2011. Disponível em: https://www.revistas.uneb.br/
index.php/faeeba/article/view/297. Acesso em: 31 mai.
Possui mestrado em Música pela Universi- 2024.
dade de Brasília (2017), Pós-graduação em ARAÚJO, Gustavo Aguiar Malafaia de. Construindo senti-
Educação e Sociedade pelo Centro Universi- dos na formação musical: pesquisa-formação-ação com
tário Barão de Mauá (2014), Licenciatura em estudantes da primeira turma de ensino médio integrado
música pela Universidade de Brasília (2012) e do IFB-CSAM. Dissertação (Mestrado em Música) - Univer-
sidade de Brasília, Brasília, 2017.
Técnico em Música pela Escola de Música de
Brasília (2015). Atua como docente nos cur- DELORY-MOMBERGER, Christine. História de vida e pes-
sos de licenciatura em educação profissional, quisa biográfica em educação. Natal: EDUFRN, 2024.
no ensino médio integrado e no Programa DELORY-MOMBERGER, Christine; BOURGUIGNON, Je-
Nacional de Integração da Educação Profis- an-Claude. Medialidades biográficas, práticas de si e do
sional com a Educação Básica, na Modalida- mundo. Revista Brasileira de Pesquisa (Auto)Biográfica, v.
de de Jovens e Adultos do Instituto Federal 8. n. 23, 2023. Disponível em: https://www.revistas.uneb.
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de Brasília. Atua como membro e músico da mai. 2024.
Igreja Betesda Brasília e possui composições
e arranjos musicais de sua autoria. Tem ex- SOUZA, Hugo, L. G. Experiências musicais formativas do
sujeito com o lugar: construindo caminhos para o ensino
periência na área de Educação Musical, atu- de música no IFB-CCEI. Dissertação (Mestrado Acadêmi-
ando principalmente nos seguintes temas: co). Programa de Pós-Graduação Música em Contexto,
paradigma antropoformador da Pesquisa- Universidade de Brasília, 2018.
-Formação-Ação transdisciplinar, Documen-
SHAFER, R. Murray. A afinação do mundo: uma explora-
tação Narrativa, Construção de sentidos na ção pioneira pela história passada e pelo atual estado do
formação musical, Prática em conjunto, For- mais negligenciado aspecto do nosso ambiente: a paisa-
mação de bandas, Canto Coral, Violão po- gem sonora. São Paulo: Editora UNESP, 2001.
pular e Guitarra elétrica. É pesquisador do TORRES, Maria Cecília Araújo Rodrigues. Playlists em tem-
grupo Grupo de Pesquisa: Educação Musical pos de pandemia da covid19: narrativas de educadores e
Escolar e Autobiografia – GEMAB, que inte- educadoras musicais integrantes de um grupo de estudos.
gra a Linha de Pesquisa Educação Musical Revista Brasileira de Pesquisa (Auto)Biográfica, Salvador,
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de Brasília.
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14 | Delmary Vasconcelos de Abreu, Hugo Leonardo Guimarães Souza e Gustavo Aguiar Malafaia de Araujo