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SOUZA, Amanda. Mulheres Pretas Também Rimam

Mulheres pretas no RAP.

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Mulheres pretas no RAP.

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UNIVERSIDADE DA INTEGRAÇÃO INTERNACIONAL

DA LUSOFONIA AFRO-BRASILEIRA
INSTITUTO DE HUMANIDADES E LETRAS DOS MALÊS
BACHARELADO EM HUMANIDADES

AMANDA DOS SANTOS SOUSA

MULHERES PRETAS TAMBÉM RIMAM: SOTEROPOLITANAS PERIFÉRICAS


QUE UTILIZAM O RAP COMO INSTRUMENTO DE PROTESTO,
RESISTÊNCIA, ESCREVIVÊNCIA E IDENTIDADE

SÃO FRANCISCO DO CONDE


2022
AMANDA DOS SANTOS SOUSA

MULHERES PRETAS TAMBÉM RIMAM: SOTEROPOLITANAS PERIFÉRICAS


QUE UTILIZAM O RAP COMO INSTRUMENTO DE PROTESTO,
RESISTÊNCIA, ESCREVIVÊNCIA E IDENTIDADE

Trabalho de Conclusão de Curso na modalidade de


monografia apresentado ao Curso de Bacharelado em
Humanidades do Instituto de Humanidades e Letras dos
Malês, da Universidade da Integração Internacional da
Lusofonia Afro-Brasileira, para a obtenção do título de
Bacharel em Humanidades.

Orientadora: Prof. Dra. Maria Andrea dos Santos Soares.

SÃO FRANCISCO DO CONDE


2022
Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira
Sistema de Bibliotecas da Unilab
Catalogação de Publicação na Fonte

S696m

Sousa, Amanda dos Santos.


Mulheres pretas também rimam : soteropolitanas periféricas que utilizam o rap como
instrumento de protesto, resistência, escrevivência e identidade / Amanda dos Santos
Sousa. - 2022.
65 f. : il., color.

Monografia (graduação) - Instituto de Humanidades e Letras dos Malês, Universidade da


Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira, 2022.
Orientadora: Prof.ª Dr.ª Maria Andrea dos Santos Soares.

1. Mulheres - Identidade. 2. Negras na literatura. 3. Rap (Música) - Salvador (BA). I. Título.

BA/UF/BSCM CDD 782.421649

Ficha catalográfica elaborada por Bruno Batista dos Anjos, CRB-5/1693


AMANDA DOS SANTOS SOUSA

MULHERES PRETAS TAMBÉM RIMAM: SOTEROPOLITANAS PERIFÉRICAS


QUE UTILIZAM O RAP COMO INSTRUMENTO DE PROTESTO,
RESISTÊNCIA, ESCREVIVÊNCIA E IDENTIDADE

Trabalho de Conclusão de Curso na modalidade de monografia apresentado ao Curso de


Bacharelado em Humanidades do Instituto de Humanidades e Letras dos Malês, da
Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira, para a obtenção do
título de Bacharel em Humanidades.

Data de aprovação: 11/02/2022.

BANCA EXAMINADORA

Profa. Dra. Maria Andrea dos Santos Soares (Orientadora)


Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira

Profa. Dra. Maria Cláudia Cardoso (Examinadora)


Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira

Profa. Dra. Zelinda Barros (Examinadora)


Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira
AGRADECIMENTOS

Primeiramente quero desejar Axé para todes! e dedico essas sinceras linhas a minha
vó Ursulina, que se encontra no Orum1, mas enquanto viva possibilitou eu ser esta mulher que
venho me tornando a cada dia e também a minha tia/mãe Georgina que no ano de 2021 voltou
para o Orum, porém deixou seu legado no Aiyê2, fazendo parte das mulheres guerreiras que
tenho como referências para continuar minhas batalhas diárias.
Em seguida agradeço meu pai Jorge Bispo, por ser este homem íntegro, humilde e
batalhador, que me ajudou a lapidar meu amor pela leitura e escrita mesmo sem saber. Também
agradeço minhas tias e minhas primas, que são as referências primárias sobre ser do sexo
feminino para mim, em especial minha tia Betinha, Negona e minha prima Beatriz. Também
não posso deixar de agradecer meus irmãos e especial meu mais velho George, que sempre se
preocupou com bem estar e da sua forma apoio minhas escolhas, também agradeço o pequeno
Miguel, meu sobrinho que trouxe luz, vida e esperança para o futuro, pois acredito que o futuro
está nas mãos dessas novas sementes, que sendo regadas com amor e sabedoria irá florir um
mundo melhor.
Agradeço ao professor Lucas por me contar a história que nunca me foram contadas,
agradeço a Drica Silva por abrir meus caminhos, Dandara Cruz por me ajudar a lapidar o meu
eu e também agradeço a Niambi Azinza por fazer parte da minha caminhada, sendo essas
pessoas peças importantes na minha lapidação no RAP e nas minhas escrevivências.
Agradecendo também a Unilab e ao campus dos Malês, que abriu as portas para mim e fez ser
possível este trabalho e a minha lapidação acadêmica, no qual encontrei esperança de um futuro
melhor para o Brasil, a partir das ciências humanas e da ciências sociais, em qual também fiz
lindas amizades com pessoas que só me acrescentaram e estou conhecendo pessoas de
diferentes culturas, como os irmãos e as irmãs continentais e a história da Bahia que também
fazem parte da minha história e só foi possível a partir da Unilab.
Agradeço a professora Zelinda Barros, que me incentivou desde o início a compor esta
monografia, me aconselhando, me escutando e me ajudando. Outra importante professora que
tem meu sincero agradecimento é a professora Cristiane Santos Souza que também me ajudou
a idealizar esta monografia, lá no início, quando ainda era apenas uma ideia para a disciplina
lecionada por ela “Metodologia da pesquisa interdisciplinar de humanidades I” no qual ela

1
Orum é uma palavra da língua em iorubá que significa céu ou o mundo espiritual, paralelo ao mundo físico(aiyê)
2
Aiyê significa casa, terra e também na espiritualidade o mundo físico, que seria o mundo que sentimos ou seja o
mundo da matéria, paralelo ao Orum.
trouxe várias referências, dando palpites e opiniões que só me fortalece; quero citar também a
professora Maria Cláudia Cardoso, que prontamente aceitou participar da banca, sendo uma
pessoa bem didática e um grande exemplo para mim enquanto intelectual, sempre fortalecendo
e encantando com sua forma de ensinar história e também minha querida orientadora a
professora Maria Andrea dos Santos, que sendo paciente e criativa, me ajudou de uma forma
ímpar a compor este ensaio, captando a mensagem que quis passar, dando várias ideias e
sugestões que fez com que este ensaio viesse ter vida.
Quem não pode ficar de fora é a minha companheira, amiga, namorada e amante Ana
Carla Gomes, que vem desde o início desta escrita, acompanhando o progresso, sendo uma
leitora importante, passando horas debatendo sobre várias coisas e me incentivando de todas as
formas e também deixo aqui meu agradecimento a mãe dela, Dona Joana D`arc que no momento
de apoio me ajudou com o notebook assim dando uma oportunidade maior para a realização
deste ensaio. Agradeço também pela participação das rappers, mcs, poetas e flestaleiras que
existem e resistem com os seguintes armamentos: o microfone, a caneta, o papel ou bloco de
notas; que são elas: Bruninha Mc; Felina; Índia Om; Vênus Lenda; Elana(Laela); Má
Reputação; Suja; Niambi Azinza; Íris Thuca; Dandara Cruz; Amanda Rosa; Suja Dfato e entre
outras que só acrescentam os corres.

Vamos fazer nosso Quilombo bb


Vamos fazer nosso Quilombo
dentro desse Quilombo pô (2x)
becos e vielas
pão pra pombos
gatos em cima dos telhados
passeios noturnos com os ratos
cidade do verão e das poetas
peles bronzeadas
cor de barro
na 7 portas
as ruas de portas abertas
corpos em cima dos passeios
sem hora do almoço
senhora da um troco
corpos de cores similares
desovados na cia
(...)
e eu escrevendo poesia
(...)
controlados pelo sistema que
mata as filhas
me lembrando o mito grego
tal pai, tal filho
herança ocidental
povo falido
mas eu sou bantu
eu sou carnaval
Rapper, reggae,
rock roll,
blocos afrocentrados
outro papo
matriarcado
matrística
não é quadrado
é um espiral
que girar feito a girar
no terreiro de Oyá
- Manduê
“Não digam que fui rebotalho, que vivi a margem da vida.
Digam que eu procurava trabalho, mas fui sempre preterida.
Digam ao povo brasileiro que meu sonho era ser escritora,
mas não tinha dinheiro para pagar uma editora.”
(Carolina Maria de Jesus)
RESUMO

Quando o assunto é mulheres negras periféricas é de imaginar diferentes viés a serem discutidos
por conta de toda a história de opressão que as rodeiam e as põem à margem da sociedade. Por
exemplo, são poucas as mulheres negras que são vistas como referência nas escolas, nas
universidades, na literatura, na ciência e etc e assim é questionado nesta monografia: Se o RAP
iniciou enquanto um movimento de emancipação dos povos vistos enquanto minoria, porque
seria diferente para as mulheres negras ?! Então esta monografia procura abordar estes
assuntos e entre outros que envolve as mulheres negras dentro do movimento do RAP baiano,
que nesses espaços são invisibilizadas e desvalorizadas, por causa da estrutura machista,
patriarcal e sexista em que se vivem, além de trazer suas escrevivências para serem apresentadas
e analisadas, assim trazendo algumas produções dessas mcs, rappers e poetas do RAP BA, que
criam (e muito) Ritmo e Poesia e uma das metodologias que é usada para fortalecer o tema é
própria experiência da pesquisadora participante; abordando as suas vivências, estudos, teorias
desta sociedade onde é enraizado um sistema opressor; Também é abordada a importância do
RAP para o fortalecimentos dos movimentos emancipatórios, enquanto formas de Protesto;
Empoderamento e Resistência dos povos oprimidos além de fortalecer a Identidade das jovens
e crianças que se veem enquanto inferiores por serem de periferia e em questão de cor e classe
e muitas vezes o RAP faz os mais velhos e mais velhas repensar seus conceitos enraizados.

Palavras-chave: Mulheres - Identidade. Negras na literatura. Rap (Música) - Salvador (BA).


ABSTRACT

When the subject matter is black peripheral women, we can imagine many different bases being
discussed, because of all the history of oppression that surrounds and puts them at the margin
of society. For example, few are the black women that are seen as reference in schools,
universities, literature, science et cetera; so this is questioned in this monograph: If rap started
as an emancipation movement of people seen as minority, why is it different for black women
in the rap scene? So, this monograph looks to address these topics amongst others that involves
black women inside the Bahian rap movement that many times are marginalized and devalued
in these spaces, because of the male chauvinist, patriarchal and sexist structures that they live
in; besides bringing forth experiences to be presented and analyzed, as such as bringing some
productions from these MCs, rappers and poets from Bahian rap that create rhythm and poetry.
And one of the methodologies utilized to reinforce the theme is the self-expirient from the
researcher itself; addressing their experiences, studies, theories about this society where an
oppressing system is entrenched in; it is also addressed the importance of rap to strengthen the
emancipation movements while in protest form; empowerment and resistance from oppressed
people besides strengthening the identities of teenagers and children that sees them-self as
inferior for coming from the periphery and for matters such as class and color, many times
making older people rethink their old entrenched biases.

Keywords: Black women in literature. Rap (Music) - Salvador (BA). Women - Identity.
SUMÁRIO

1 INTRODUÇÃO 12
2 CAPÍTULO 1: EU TAMBÉM RIMO! 18
2.1 REVOLTA: PRIMEIRA LETRA DE RAP 25
3 CAPÍTULO 2: RAP; ENQUANTO INSTRUMENTO DE PROTESTO, 31
RESISTÊNCIA E ESCREVIVÊNCIA
3.1 RAP EM TERRITÓRIO BAIANO 35
3.2 TERRITÓRIO E PERTENCIMENTOS: DE ONDE VIEMOS? 38
4 CAPÍTULO 3: “AS MINA NO PIQUE, NÃO MEXE” 46
4.1 RAP E O FEMINISMO NEGRO 55
5 CONCLUSÃO: FREESTYLE NA ACADEMIA? 62
Referências 64
12

1 INTRODUÇÃO

“Juro que não entendo como eles estão no pódio


Mulheres fora da mídia produzem muito mais arte”
(Coletivo Vira-lata)

Quando o assunto é mulheres negras periféricas já podemos imaginar diferentes viés a


serem discutidos, por conta de toda a história de opressão colonial que nos rodeia, qual nos põe
à margem da sociedade, nos subalternizando, tirando o nosso lugar de fala e assim nos
silenciando. Por exemplo, são poucas as mulheres negras que vemos como referências nas
escolas, na universidade, na literatura, na ciência e etc; por vivermos em uma sociedade onde
é enraizado o racismo, machismo, sexismo e desigualdade de classe. Então as lutas das
mulheres negras periféricas acaba sendo três vezes maior e mesmo que na atualidade essas
vozes estejam cada vez mais se expressando ainda é um caminho árduo a se seguir.
Citando assim uma frase importante dita por Alex Ratts, ao falar de Beatriz Nascimento,
ao qual se refere também as minhas motivações: “A construção do eu, da identidade como
mulher negra, a experiência pessoal do racismo e do sexismo, a auto estima, podem ser
abordadas como um processo do que contemporaneamente denominamos de empoderamento"
(RATTS,Alex; eu sou atlântica; p. 70). Por isso trago esta monografia onde relato minhas
experiências e de mulheres soteropolitanas periféricas, enquanto produtoras de escrevivências3
que atuam com o RAP4 que para além de ser um estilo musical é uma forma de Protesto,
Resistência, Identidade e Empoderamento.
Para falar das Mulheres Soteropolitanas Periféricas nesses espaços irei analisar suas
composições, seus ritmos, suas poesias, mostrando quão rico é as nossa oralidade para
conscientização da sociedade que nos invisibiliza, sendo de extrema importância trazer este
assunto para pauta nos estudos das áreas de Gênero, Humanidades, História e nas Ciências
Sociais em geral. Desta forma dialogando com a Conceição de Evaristo e o conceito de
escrevivência - a escrita que nasce no nosso cotidiano, das nossas vivências diárias e se
transforma em gritos de protestos, em formas de rimas, que comunica toda uma história de luta
e resistência - e como disse Grada Kilomba sobre o ato de escrever:

Eu sou quem descreve minha própria história, e não quem é descrita. Escrever,
portanto,emerge como um ato político(...) enquanto escrevo, eu me torno a narradora
e a escritora da minha própria realidade e autora e a autoridade da minha própria

3
Uma categoria cunhada pela escritora e intelectual Conceição de Evaristo em sua obra literária e acadêmica.
4
A sigla vem do inglês para "Rhyme and Poetry" e que em portugues significa “ Ritmo e Poesia”
13

história. Nesse sentido, eu me torno a oposição absoluta do que o projeto colonial


predeterminou. (KILOMBA,Grada; Memórias de Plantação; 2019,p.28)

Ou seja, a escrita para nós mulheres pretas não é apenas um passatempo, e sim um ato
de resistência política na qual nos tornamos o sujeito5 da nossa história, onde encontramos um
espaço para expressar as nossas vivências que durante muito tempo foram silenciadas, assim
nos tornando insubmissas e indo de contra este projeto etnocida e genocida que é o colonial.
Lembrando o que a escritora, mulherista e ativista Audre Lorde nos traz, poesia não é um luxo…

[…]Ela é uma necessidade vital de nossa existência. Ela forma a qualidade de luz
dentro da qual predizem nossas esperanças e sonhos em direção a sobrevivência e
mudança, primeiro feita em linguagens, depois em ideia, então em ação mais tocável.
Poesia é a maneira com que ajudamos a dar nome ao inominado,para que possa ser
pensado. O horizonte mais distante de nossas esperanças pétreas de nossas vidas
diárias. (LORDE, Audre; Poesia não é um luxo,p.2)

A poesia nasce dessa necessidade de expressar nossos sentimentos, nossas opiniões e


nossas histórias, a partir de um lugar que não nos valoriza, tirando nosso direito de vida plena,
onde estamos vivendo apenas para sobreviver; e como somos seres humanos oriundos da arte,
nos quais não podemos esquecer os costumes das tribos africanas e indígenas de representar
nas pinturas rupestres, nas esculturas, nas danças e nas cantigas seus valores morais, sociais e
religiosos e como sabemos, a arte de se comunicar com ritmo, a dança, o canto, o corpo faz
parte da nossa ancestralidade, trago este argumento me baseando na minha própria vivência e
nas escritas de Azin Nferi:

Como afro-brasileiros trazemos a partir da memória, oralidade e tradição valores


humanos oriundos das várias etnias e grupos sociais africanos sequestrados para cá
por meio do processo de escravidão. Tais valores se ressignificam na realidade sócio-
histórica brasileira e permanecem como caminhos éticos, morais, comportamentais e
estéticos que nos levam ao eixo Sul-Sul com África. Azoilda Trindade nos apresenta,
portanto, dez valores: circularidade, religiosidade (espiritualidade), ancestralidade,
corporeidade, musicalidade, cooperativismo/ comunitarismo, memória, ludicidade,
energia vital (axé-ntu), oralidade. (NFERI,Azin; Direito, Arte e
Negritude;2020;p.22/23)

Podemos citar também, a Márcia Letícia Gomes que relembra os originários da terra:

5
Uma inquietação que a escritora, teórica, psicóloga e cientista Grada Kilombo, expressou ao traduzir o livro
"Memórias da plantação”, mas que acredito não ser apenas dela, é sobre a gramática portuguesa que se encontra
impregnada de palavras com heranças coloniais e patriarcais, assim sendo o caso da palavra “ sujeito” que é
reduzida ao gênero masculino,sem permitir variações no gênero feminino - a sujeita - ou nos vários gêneros
LGBTQIAT - que não tem a palavra neutra - (KILOMBO,2009,p.15) e assim como Grada, optei por colocar em
itálico.
14

[...] No Brasil, os indígenas, seus primeiros habitantes, têm na literatura um importante


elemento cultural. Dentro deles era/é muito comum “contar histórias”; a literatura
desses povos é riquíssima e, em alguns casos,vem sendo registrada formalmente ao
longo dos anos, haja vista que, aos poucos, fomos deixando de contar histórias
(GOMES,Márcia Letícia; Direito,Arte e Negritude; 2020;p:39)

Lembrando novamente que a arte da comunicação e oralidade faz parte da nossa


história, tendo uma imensa riqueza cultural; como por exemplo o Griô ou Griote (quando nos
referimos ao termo feminino) que também podem ser chamados de jali ou jeli, que são as
pessoas que transmitem as histórias, conhecimentos em formas de canções ou contos sobre seu
povo, ficando responsáveis pela preservação da história e transmissão de tal, sendo uma prática
muito comum na África Ocidental que perpassa a Atlântica Negra6.
Hoje em dia mesmo que tenhamos aos poucos deixado as contação de histórias de lado,
ainda podemos escutar as nossas mais velhas contando histórias das suas vivências passadas ou
lendas e contos de outrora, também encontrado nas cantigas de samba de roda anedotas sobre
algum acontecimento diário, satisfações e insatisfações trazida nas canções ecoadas por
mulheres, homens e crianças num só coral, como diz o samba de João Gilberto “Quem não
gosta de samba bom sujeito não é”.
Muitas vezes nas canções de ninar e nos contos adaptados socialmente também podemos
encontrar associações, os provérbios e histórias antigas. Também temos o reggae que faz todo
mundo balançar o quadril, os pés e as mãos, e ainda acompanhar os enormes aprendizados,
desabafos e louvores que encontramos neste estilo musical místico, sendo muitas vezes estilos
de vida, como o rastafarianismo, que sabemos ser oriundo de africanos diaspóricos ou como
podemos perceber no próprio RAP muitas histórias de vida, sabedoria, sonhos, protestos, falar
sobre lugares que não são falados e ideias trazidas nas rimas.
O que podemos observar nesses exemplos é como a interseccionalidade 7 está fortemente
presente na nossa história afrodiaspórica, mostrando como estamos interligados com as nossas
ancestrais, a partir de exemplos dessas manifestações artísticas e de luta, em locais diferentes
do mapa. Mas que vem sendo oriundo de etnias africanas, sendo encontrado fortemente nas

6
Atlântica Negra é uma palavra que Beatriz Nascimento utiliza no filme Ôrí, o documentário sobre seus estudos;
para referenciar a vinda dos africanos e africanas para América, e a as suas matérias primas que rodaram o mundo,
após ‘descoberta’ do Oceano Atlântico; assim associando o mar e os encontro culturais, nomeando de Atlântica
Negra, termo feminino pois a ideia de oceano e a terra são energias femininas de criações e nascimentos.
7
“A interseccionalidade investiga como as relações interseccionais de poder influenciam as relações sociais em
sociedades marcadas pela diversidade, bem como as experiências individuais na vida cotidiana.Como ferramenta
analitica, a interseccionalidade considera que as categorias de raça, classe,gênero, orientação sexual,
nacionalidade, capacidade, étnica e faixa etária - entre outras - são inter-relacionadas e moldam-se mutuamente
(...) é uma forma de entender e explicar as complexidades do mundo,das pessoas e das experiências humanas”
(COLLINS, Patricia; BELGE, Sirma; Interseccionalidade; pag 12)
15

periferias e favelas, especificamente na América do Sul, América do Norte, América Central e


na África Central e Subsaariana, onde nós afrodescendentes diariamente traz para as nossas
vivências e escrevivências nossos saberes ancestrais; exatamente o que vivemos e o que
veremos na constituição do RAP.
Quando trago a frase da letra do Coletivo Vira-Lata no início da introdução, é por
questionar a evidência de homens na mídia e na cena do Rap e em contrapartida uma extensa
rede de mulheres que produzem tanto quanto(ou mais) arte, sendo invisibilizadas por uma
sociedade que parte do pressuposto de uma cultura machista e sexista que subjuga o lugar da
mulher. Desta forma conseguimos perceber a realidade em que estamos inserida e a dificuldade
em fazer as nossas narrativas chegarem nos espaços; sendo este RAP, um dos primeiros que
escuto de um grupo de mulheres soteropolitanas, que me trouxe a vontade de expressar minha
arte para a sociedade, fortalecendo desta forma essas vozes que não são valorizadas, por isso é
exatamente esta frase que dá início a esta monografia.
Discutindo logo no primeiro capítulo a minha vivência enquanto mulher, preta e
periférica de Salvador, por ser também uma monografia autoetnográfica, será de grande
importância compartilhar minhas experiências, assim fortalecendo o conteúdo abordado. Desde
sempre usar minha história de vida quando o assunto é sobre mulheres negras periféricas, por
entender que somos corpos políticos, que por muito vêm sendo silenciados e todas as formas
necessárias que possamos trazer nossa fala para pauta é de extrema importância não se negar e
nem se intimidar. Para explicar sobre a autoetnografia trago o artigo de Silvio Matheus Alves
que nos dá uma visão geral sobre este método de estudo :

Autoetnografia vem do grego: auto (self = “em si mesmo”), ethnos (nação = no sentido
de “um povo ou grupo de pertencimento”) e grapho (escrever = “a forma de
construção da escrita”). Assim, já na mera pesquisa da sua origem, a palavra nos
remete a um tipo de fazer específico por sua forma de proceder, ou seja, refere-se à
maneira de construir um relato (“escrever”), sobre um grupo de pertença (“um povo”),
a partir de “si mesmo” (da ótica daquele que escreve).
Grosso modo, podemos dizer que a autoetnografia é um método que se sustenta e se
equilibra em um “modelo triádico” (Chang, 2008) baseado em três orientações: a
primeira seria uma orientação metodológica – cuja base é etnográfica e analítica; a
segunda, por uma orientação cultural – cuja base é a interpretação: a) dos fatores
vividos (a partir da memória), b) do aspecto relacional entre o pesquisador e os
sujeitos (e objetos) da pesquisa e c) dos fenômenos sociais investigados; e por último,
a orientação do conteúdo – cuja base é a autobiografia aliada a um caráter reflexivo.
Isso evidencia que a reflexividade assume um papel muito importante no modelo de
investigação autoetnográfico, haja vista que a reflexividade impõe a constante
conscientização, avaliação e reavaliação feita pelo pesquisador da sua própria
contribuição/influência/forma da pesquisa intersubjetiva e os resultados consequentes
da sua investigação. (SANTOS, Alves, Silvio Matheus; O método da autoetnografia
na pesquisa sociológica: atores, perspectivas e desafios; Artigo; pág 5)
16

Lendo o artigo, pude encaminhar melhor minha linha de pensamento e usando as três
orientações citadas - analisando, interpretando e refletindo - pude comprovar que os métodos
da autoetnografia são excelentes para entendermos e explicamos nossa identidade e saber
aproveitar as vivências empíricas para encontrar respostas de determinadas questões que só
podem ser explicadas se forem sentidas e vividas.
Optei por este método para apresentar esta monografia, já que o assunto abordado faz
parte do meu dia a dia e tenho propriedade para falar, trazendo desta forma a noção de “lugar
de fala”8 que vem sendo bem debatido entre os movimentos de mulheres negras na atualidade,
passando a ser conhecido no Brasil a partir do livro cujo leva o mesmo titulo, da filósofa e
feminista brasileira afrodispórica Djamila Ribeiro. Neste primeiro capítulo eu procuro trazer
minhas experiências empíricas em Salvador, Simões Filho e no Recôncavo, que é onde
aconteceu e acontece toda minha experiência no RAP, sendo uma cidade histórica e com muita
história para ser contada e analisada a partir de um olhar que está dentro do espaço estudado.
Para o segundo capítulo temos um pouco mais sobre a história do RAP e sobre sua
importância para o movimento identitário dos africanos diaspóricos, especificamente da
Jamaica, Estados Unidos e Brasil, assim procurei pesquisar nos sites, nos livros e nas vivências;
em que veremos porque o RAP é considerado um movimento de protesto, resistência e
empoderamento do povo preto e trazermos um pouco da história do RAP em território baiano,
assim fortalecendo o tema abordado aqui e debatendo sobre as mudanças que o RAP traz para
as nossas vidas, dando esperança, sabedoria, união e vozes aos nossos e às nossas.
O terceiro capítulo traz vivências e escrevivências das freestyleiras, Djs, Rappers e MCs
de Salvador e das regiões metropolitanas. Nomes como de Felina, Índia Om, Bruninha Mc,
Amanda Rosa, Laela, Dandara, Niambi Azinza, Venus Lenda e entre outras que nos ajudarão
entender sobre o porquê que o RAP é uma arma de protesto, empoderamento, identidade para
nós mulheres periféricas, a partir das suas escrevivências que mobilizam o movimento do RAP
em território baiano.
Os objetivos desta monografia para além de visibilizar e apresentar as escrevivências
das rappers negras periféricas da Bahia, é também para demonstrar a importância do RAP para
os movimentos de emancipação do nosso povo e para que as pessoas que vivem em periferias
e que são marginalizadas, se enxerguem enquanto produtores e reprodutores de conhecimentos

8
A ideia do lugar de fala é sempre dar visibilidade e escutar quem viveu e quem vive a história e que foram
impedidos de falarem por si, neste caso durante muito tempo sendo pessoas afrodescendentes; as mulheres;
LGBTQI+ e aqueles e aquelas que vivem à margem da sociedade e sem lugar na tela da TV.
17

e de saberes ancestrais que seguem vivos em terra enquanto estivermos em vida (com o nosso
DNA; nossos traços corpóreos; nossa forma de falar; nosso gingado e etc.)
18

2 CAPÍTULO 1: EU TAMBÉM RIMO!

“Os patriarcas brancos nos disseram:


Penso,logo existo;
A mãe negra dentro de nós
- A Poeta -
sussurra em nossos sonhos:
Eu Sinto, portanto
eu posso ser livre.”
(Audre Lorde)

Neste capítulo irei apresentar um pouco da minha experiência enquanto mulher negra,
periférica, rapper9 de Salvador/ Ba e desta forma escurecer10 um pouco de onde nasce a vontade
de escrever esta monografia e trazer importantes fatos para o enriquecimento do assunto
abordado.
O que é muito comum para quem vive o RAP é ter um nome artístico, conhecido como
vulgo11, que geralmente pode ser o apelido que a pessoa já tinha ou um pseudônimo criado
justamente para ser o nome artístico, e eu sou a Manduê12, com 23 anos, nascida em
Salvador/BA no bairro da Mata Escura, criada por minhas tias, minha avó e meu pai. Desde
pequena sempre tive uma ligação muito grande com a leitura, a escrita e a canção, sendo
português uma das minhas matérias preferidas, por conta da diversidade de textos encontrados
no livro didático, além de ser pródiga em interpretação de textos.
Não lembro exatamente com qual idade comecei a escrever, mas entre meus 8 á 10 anos,
dizia querer ser cantora quando crescesse, pois a música sempre foi minha companheira
inseparável e desde sempre procurei entender a letra da música, captar a mensagem que a
canção queria passar. Lembro-me que ouvíamos muito a rádio F.M na casa da minha tia e do
meu pai e sempre dormíamos com o rádio ligado, era muito confortante escutar músicas e
procurar entendê-las e senti-las, então já nesta época, rabiscava algumas palavras ritmadas no
caderno e um pouco depois na faixa dos meus 13 anos vim ter meu primeiro caderninho
direcionado apenas para minhas escritas e citações preferidas.

9
Rapper é como os cantores e as cantoras de RAP são conhecidos.
10
“Ao invés de usarmos termos como esclarecer , esta claro (...) dá a entender que tudo deve estar claro, que tudo
deve estar branco, nós temos usado escurecer, enegrecer, dando a ideia do nosso posicionamento enquanto sujeitos
negros, de negar que algo deva ser necessariamente branco.” (Marcos Antonio Lima Bonfim)
11
O termo é utilizado para referir a uma classe popular, uma pessoa que faz parte do povo,ou seja que pertence a
maioria dos indivíduos
12
Nome este que veio do apelido Mandú, dado por minhas tias, quando criança, porém eu não gostava de ser
chamada assim, pois achava estranho, mas quando cresci e sentir a necessidade de um nome artístico, eu percebi
ser uma palavra carregada de significados ancestrais e que também tinha uma tonalidade forte ao ser expressada,
então só acrescentei o ‘ê’.
19

Nessa mesma época soube na escola de uns encontros semanais que estavam
acontecendo no meu bairro, onde pessoas interessadas pela arte se reuniam para declamar
poesia, cantar, dançar e outras diversas formas de expressão artística. Até então eu não conhecia
o sarau13 e este foi o primeiro em que frequentei; o Sarau da Mata que acontecia próximo ao
bate-folha14. Infelizmente depois de mais alguns poucos encontros não continuou a acontecer
por falta de local fixo e também não foi naquele momento que declamei alguma escrita da minha
autoria, por ser ainda muito tímida, vindo apenas algum tempo mais para frente, mas ainda neste
período, apresentar na escola algo escrito por mim. Foi o primeiro momento que vi jovens e
adultos, que escreviam seus sentimentos, suas inquietações, suas dúvidas, lá no Sarau da Mata
assim abrindo um mundo novo para mim em qual a possibilidade de ser escutada através de
algo que me fazia bem e que poderia ser ouvido por outros e causar encanto, admiração ou até
revolta (que é o ponto principal da minha escrita, pois escrevo para que as pessoas captem as
inquietações da vida e injustiças que são vividas no atual sistema em que vivemos).
Voltando a alguns fatos importantes para minha evolução poética, ainda nesta época
com meus 14 para 15 anos, eu vim me inscrever na Oi Kabum15, no centro de Salvador nomeado
de Pelourinho16; tendo cursos gratuitos nas áreas de computação gráfica, design gráfico,
fotografia e vídeo, porém para fazer esses cursos era preciso passar por umas fases da inscrição,
então passei para primeira fase, assim sendo chamada para fazer oficinas, no período de 1 mês,
nestas quatro áreas oferecidas. Nesse momento um outro universo se abriu para mim, onde
conheci diversificadas pessoas e lugares, visões diferentes de mundo e o mais importante, que
pensavam parecido comigo, se perguntavam o porquê de tanta opressão, jovens de diferentes
bairros de Salvador, talentosos e com ideias inovadoras.
Neste ambiente vim conhecer Drica Silva, vindo a se tornar uma grande amiga e
motivadora da minha poesia e militante social. Na época ela morava no Novo Horizonte, um
bairro periférico, vizinho do meu, então nos tornamos próximas e com isso descobrir que ela
também escrevia poesias de variados temas e foi a partir dela que conheci o Sarau da Onça17

13
O sarau é o termo usado para se referir a reunião noturna, com finalidades de expressões artísticas.
14
Terreiro de bate-folha, o Mansu Banduquenqué é um terreiro de candomblé localizado em Salvador/Ba na Mara
Escura, considerado patrimônio cultural, artístico e histórico nacional em 2003.
15
Escola de Arte e Tecnologia, programa do Oi Futuro, instituto de responsabilidade social da Oi, realizado em
parceria com a CIPÓ-Comunicação Interativa, realiza trabalho educativo com jovens comunidades populares de
Salvador – BA, nas áreas de Computação Gráfica, Design Gráfico, Fotografia, e Vídeo.
16
Bairro localizado no Centro Histórico de Salvador, popularmente conhecido como Pelô; mas o termo pelourinho
é referente a uma coluna de pedra, que ficava no meio da praça principal, onde pessoas negras escravizadas eram
punidas.
17
Acontecia de 15 em 15 em dias de sábado no bairro Novo Horizonte, encontros de jovens e adultos periféricos
de diversos bairros de Salvador, para fins artísticos, tendo mais de 7 anos encontros presenciais, porém atualmente
não acontece tanto, mas ainda persiste, derivando outros movimentos.
20

bem movimentado na época, me encantando e abrindo portas para conhecer as diversidades


artísticas que existem em Salvador, de criança a idoso. Neste mesmo espaço do sarau, que era
realizado de 15 em 15 no sábado à noite, pela manhã tínhamos aulas de Direitos Humanos,
liderado pelo professor de História Lucas Silva, que se tornou um pai para mim, me ajudando
em diversas formas, tanto intelectualmente como espiritualmente. Foram momentos
encantadores, de grande descobertas e encontros e desse espaço trago muitos aprendizados e
irmandades e inclusive meu primeiro contato com a questão racial, foi neste curso e que inspirou
várias escritas minhas com o tema negritude, umas das primeiras foi a poesia “Fim do
Racismo”, que veremos a seguir:

Falam mal dos meus pretos / falam mal de todos os jeitos


Racismo escancarado e que pegam muito pesado
Olho para um lado / olho para outro
que porra é essa / que só consigo sentir desgosto ?!
E lembrando que um tempinho atrás
eu estava tão confortada no meio dessa palhaçada
Sendo porque os meus olhos estavam fechados para essa realidade
de maus tratos
Sendo porque temos mesmo um certo conforto de não se ver
Conforto inventado / conforto desconfortável
que pelos brancos são pregados
Entendo todos esses olhares reprovados para mim
pelos simples fato / de me assumir Preta
Melanina acentuada / Cor da pele
Crespo o cabelo / Preta Sim !
Um RAP / Um reggae
Um Mv Bill / Um Edson Gomes
Eu ouvir : “Coisa de ladrão, vagabundo,
maloqueiro, sem noção”
Escuto desses pobres miseráveis que nesse mundo
sobrevive sem viver a verdadeira identidade
que é o nosso Ser / Falam mal da nossa religião :
“Deus é mais, coisa do diabo
preto, escuro, é a cor do pecado / a cor da desunião”
Escutamos e absorvemos / é a nossa socialização
com a nossa mente revirada
crianças que tiveram a inteligência traficada
e até a gramática é desgraçada
E isso não faz parte do passado
já faz mais de 500 anos mais ou menos
que vivemos nesse estrago / vivendo essa história
aprendendo e achando que os brancos
é foda / foda?!
Foda somos nós / que aqui (e agora)
lutando com armas desiguais / lápis e papel apenas
e esse nosso grande lema
Fim do Racismo !!!
Então batam palmas / Quem está comigo !
(Revolta - Manduê - 2014)
21

Figura 1 - Sarau da Onça (2014)

Depois que conheci o Sarau e as aulas de Direitos Humanos pautado para Negritude,
Africanidade e Diáspora, meu mundo mudou e muitas coisas já não era como eu acreditava,
porém muitas respostas vieram, como por exemplo sobre o porquê de tanta descriminação em
relação à minha cor de pele e meus traços. Assim trago nesta poesia, as palavras de revolta e
desgosto da sociedade em que vivemos, além de expressar a minha alienação de outrora, por
não entender a minha origem e nem a minha história, já que tudo a meu redor menosprezava os
conhecimentos afro-brasileiros, onde não éramos citados nas disciplinas da escola, a não ser
como referência para a escravidão e na televisão só se via pessoas brancas como padrão da
sociedade e propagandas sempre direcionada para os mesmos.
Muitas vezes fui vítima de brincadeiras sobre o meu cabelo ser “ruim”, assim sendo
chamado de “cabelo duro”; a minha referência de profissão, era ser empregada doméstica, por
acreditar que não tinha capacidade e nem condições financeiras para uma faculdade. Enquanto
na religião, somos ensinadas que o catolicismo e o cristianismo tem as respostas para tudo e ao
me deparar com esta outra realidade das minhas raízes, a minha forma de ver o mundo mudou
completamente. Essa fase da minha vida foi de extrema importância para a formação de minha
identidade, de entender o racismo e tudo que estávamos lidando no mundo e naquele momento
pude entender o quanto o papel e a caneta eram de extrema importância na minha vida.
Vamos falar agora dos meus primeiros contatos com o RAP; quando criança era comum
ouvir RAP por causa do meu irmão George e meu primo Johandeson, que escutavam
22

Racionais18, MV Bill19, Facção Central20 e entre outros, sendo o segundo a minha grande
inspiração de RAP. Sempre fui fascinada pelas histórias e vivências que o Tio Bill traz nas
letras, nos mostrando a realidade ‘nua e crua’21 que vivenciamos na periferia, onde
encontramos nas suas composições as narrativas daqueles que não são escutados na sociedade,
como podemos citar a música “O bagulho é doido”22 a qual nos revela a visão de um traficante,
sua história de vida e suas motivações, passando a ser o sujeito da sua história e não mostrado
como a sociedade costuma ver - enquanto delinquentes, perversos, vagabundos e marginais -
posso trazer um trecho da letra que demonstra o que digo :

(...)Se os homi23 chegasse


E nós dois rodasse
Somente o dinheiro iria fazer com que eu não assinasse
Pra você?
Ta tranqüilo
Nem preocupa
Sabe que vai recair
Sobre mim a culpa
Me levam pra cadeia
Me transformam em detento
Você vai para uma clínica tomar medicamento
imagina vocês se eu fizesse as leis
O jogo era investido
Você que era o bandido(...)
(O bagulho é doido, 2006)

Mv Bill me faz estremecer com a realidade exposta nas suas escrevivências e nesta
época não foi diferente, sempre me fazendo refletir a realidade das periferias brasileiras e
também não seguir o que a sociedade impõe para nós, sendo como um professor de história
para mim, só que ao invés da sala de aula é com o RAP; posso dizer que com o Bill e Racionais,
captei o que é o RAP, que é levar mensagens de vozes, que por muito tempo vêm sendo
oprimidas e rejeitadas.
Com o Bill também vim ter conhecimento de Kmila CDD24, a primeira mulher que
escutei cantando RAP atuando em algumas participações especiais nas músicas do Bill, como
o single “O bonde não para” e na faixa considerada uma das mais escutadas deles que é “Estilo

18
Racionais Mc é um grupo de Rap, formado em 1988,por Mano Brown, Ice Blue, Edy Rock e KL Jay, sendo um
dos grupos mais influentes no Brasil.
19
Alex Pereira Barbosa, o Mv Bill, é rapper, ator, escritor e ativista brasileiro.
20
Grupo de Rap, formado na cidade de São Paulo em 1989.
21
‘Nua e Crua’ é sinônimo de verdade; franqueza, sem disfarces.
22
“O bagulho é doido'' é o nome da letra da música de Mv Bill, lançada em 2006.
23
“Os Homi” é uma gíria da periferia que se refere a policia.
24
Kamila Barbosa, cantora de RAP brasileira e irmã de MV Bill
23

Vagabundo”25 . Na época lembro que fiquei muito feliz, quando escutei o primeiro solo dela, o
single “Dá licença” até escutei cantando na rádio da minha rua, sendo uma letra potente e para
além disso um som dançante acompanha suas ideias, onde ela se apresenta em quanto rapper:

Dá licença que eu tô chegando na cena


Vim pegar o que é meu, a preta não é pequena
Eu me chamo Kmilla, então, respeita meu nome
Continuo na trilha, saio da mira dos homi
Quem quer pode vir no meu bonde
Viaja na ideia que a cabeça vai mais longe
É a trilha sonora de quem procura vitória
Aperta o cinto e vam'bora, o carro parte agora
Eu tô no clima
E se você também tá jogue a mão pra cima
Fe-mi-ni-na
Se envolve no bagulho, você vai gostar
No meu estilo, eu não conheço ninguém
Não disse que não tem, só não reconheço ninguém
(Veja) meu som na pista
É a preta invadindo sem nome na lista
(Kmilla) também da CDD, irmão do MV
Aprende a viver pra chegar a luz
Se tem um nome a citar (Jesus)
A quem expus meu sentimento verdadeiro
Natural do Rio de Janeiro / As damas primeiro
Mulherada invadindo no país inteiro
No rap de saia, venho botando a cara
A onda passa, os manos vão, e Kmila não para
[Refrão]
Se vc não tá ligada, eu digo pra vc
também só chapa preta kmila cdd
Atitude de mulher, pra ganhar minha condição
Fortalece a minha alma e faz vencer o vacilão, vai ficar sem atenção(...)
(kamila CDD, dá licença, 2011)

Ou seja, ela traz suas vivências enquanto mulher no RAP, conta a sua história e o que
pretende fazer, que é “botar as cara no RAP” mostrando que também tem atitude e ideia para
dar, sendo que na época não era tão comum escutar mulheres no RAP brasileiro. 26 Nesta época
não era positivo ver uma menina escutando RAP, ouvia muito que eram músicas de marginais,
vagabundos e drogados27, só escutava quando meu irmão ou meu primo estavam escutando e
também ainda não era o estilo musical que eu me imaginava compondo. Entendo que existe
uma pressão psicológica em relação às funções masculinas e femininas nesta sociedade, sendo
que para as meninas as coisas são muito mais complicadas, o sistema patriarcal faz com que

25
Estilo Vagabundo é o single do MV Bill e Kmila CDD, com continuações parte 2,3, 4 e 5
26
Cito o RAP brasileiro porque as mulheres da cena do RAP dos Estados Unidos, eram mais aceitas nesta época
no Brasil, como Beyoncé e Rihanna, a primeira norte-americana e a segunda caribenha mas que fez grandes
sucessos internacionalmente.
27
Hoje em dia ainda é comum discriminação com as pessoas que vivem de RAP e julgamentos por ser
considerando movimento de marginais.
24

nos sintamos inferiores e limitadas a diversas coisas que envolva o “está fora” já que a função
de sair e trazer o sustento é do homem; Então cabe a mulher cuidar do lar, enquanto o homem
tem sua recompensa por ter um salário, saindo para se divertir, ou seja, automaticamente se é
negado a nós mulheres o direito de estar na rua ou conhecê-la, já que nosso dever é cuidar das
coisas do lar, temos que aprender as coisas do lar.
Com meus 16 anos, foi morar com minha mãe em Simões Filho28 e foi lá que vim ter
um contato maior com rima, na época eu fazia o segundo ano do ensino médio, fiz amizades no
colégio e em uma noite saí para encontrar esses colegas na praça principal de Simões e então
conheci Dandara Cruz. Assim que me viu ela disse que eu tinha um jeito de artista, logo tivemos
uma grande interação uma com a outra, abrindo para mim novamente um novo mundo. Ela
também poeta e nessa época estava começando a rima, e me falou sobre seu desejo de
movimentar a arte em Simões filho e sobre um projeto idealizado por ela, de batalhas de rimas29
mas que ainda não tinha iniciado o “Rima no Gatilho”30, que já tinha caixa de som e microfone
e só faltava marcar o dia e a hora.
Entramos em diversos temas em relação à negritude e mulheres negras, e o qual queria
ressaltar aqui é sobre o assunto mulheres na cena do RAP, onde ela demonstra sua indignação
pela falta de visibilidade nessas mulheres e os talentos que muitas vezes são bloqueadas por
conta do racismo e machismo, que pressupõe onde seria os lugares ideais para as mulheres
negras, e que não era no RAP; Então ela me falou sobre a sua procura por mulheres de Simões
filho que rimavam ou que fazia poesia, para se expressarem e demonstrar seus talentos, assim
me incentivando também a rima, me dando dicas de recitar em cima do beat31, e também expor
mais a minha arte, as palavras de incentivo dela, revelou a rapper que existia dentro de mim.
Este foi um encontro que me empoderou de diversas maneiras, naquele dia, fui para casa
com um amontoados de ideias. Dandara tinha toda razão sobre bloqueios em relação às
mulheres negras na arte, pois justamente eu, enquanto jovem negra de periferia passava pelo
mesmo, acreditava que a poesia seria apenas um hobby para mim e meu sonho de ser cantora a
muito tempo tinha esfriado por acreditar que não me levaria a lugar nenhum ir por este caminho,

28
Simões Filho é um município da Bahia. Segundo o IBGE sua população tem uma estimativa em 2021 de 137.117
pessoas, sendo localizada na Região Metropolitana de Salvador e tendo uma área de 192.163km
29
A batalha de rima, também conhecido como batalha de RAP; são rimas improvisadas por Mcs, que duelam entre
si, para ver quem improvisa melhor, podendo incluir nas rimas, insultos, vanglória e ostentação ou podendo ser
batalha com um tema específico, onde os competidores precisam improvisar sobre o tema.
30
O Rima no Gatilho acontece até hoje em Simões Filho,geralmente na pista de skate , como evento de RAP, onde
se tem batalha de RAP e reúne várias atrações artísticas de Simões Filho e de Salvador geralmente.
31
Beat significa a batida que traz ritmo e velocidade às palavras.
25

justamente por conta do silenciamento e intolerância que recai sobre corpos pretos, e neste caso
em especial, de mulheres periféricas.
Para nós, pessoas periféricas, a sobrevivência financeira e econômica é uma questão
muito recorrente e centrada no nosso cotidiano. Como Carolina Maria de Jesus32, falou :
“Digam ao povo brasileiro que meu sonho era ser escritora, mas eu não tinha dinheiro para
pagar uma editora” (TPM, 2020). Por ser uma realidade financeira distante de nós mulheres
negras, na época acreditava que o que eu queria ser, que seria uma escritora, poeta e cantora,
não estava ao meu alcance, pois antes de ser o que eu queria eu precisava me alimentar e desta
forma precisava me distanciar dos meus sonhos; Porém naquele dia, a ideia de transformar
minhas escritas em RAP e me imaginar levando minhas mensagens de uma forma artística para
a sociedade me fez novamente acreditar e ressurgir sonhos de criança.
A partir daquele encontro com Dandara Cruz, passei a tentar colocar minhas poesias em
cima de um beat. Depois de um tempo não tão distante, eu já estava rimando e lançando
freestyles33. A poesia e o RAP me fizeram conhecer a auto-estima e a satisfação de poder me
expressar sem ser silenciada, de montar uma identidade para mim como uma pessoa política na
sociedade e foi justamente no Rima no Gatilho, meu primeiro freestyle em público, embora eu
não goste de batalhar, sendo melhor no freestyle livre sem a pressão de ter que ser melhor que
alguém, foi no Rima no Gatilho que me vi na rima, que encontrei uma maneira minha de me
expressar e me sentia energizada com todas aquelas pessoas me escutando rimar, a cada grito
dando quando se é lançada uma rima de destaque, é muito maravilhoso e percebo ser momentos
prósperos para as rappers e os rappers trabalhar o intelecto e as habilidades de rimas e além da
interação com os outros.

2.1 REVOLTA : PRIMEIRA LETRA DE RAP

O RAP passou a ser a minha identidade, a forma que encontrei para me expressar para
o mundo - dizendo o que sinto e o que vivo - fazia freestyle sempre que me encontrava em uma
roda de rima, com alguém que também rimava ou pelos cantos dos lugares, rimando pelos
cotovelos. Desta forma passei a me entreter com outras pessoas, também periféricas, que viviam

32
Maria Carolina de Jesus, nascida em 14 de março de 1914, em Sacramento, Minas Gerais, escritora, poeta,
compositora, favelada, mãe e catadora de papel. Sendo uma das primeiras escritoras negras publicadas no Brasil,
narrando suas vivências sofridas e suas lutas diárias, sendo conhecida pelo seu livro Quarto de Despejos:diário de
uma favelada, lançado em 1960 e foi traduzido para 14 línguas e publicado em mais de 40 países.
33
Freestyle é uma palavra em inglês, que traduzida fica ‘Estilo Livre’ se tornado um subgênero no RAP
significando letras improvisadas na hora, podendo acompanhar o beat ou ser apenas na capela; onde na batalha
de MCs é o principal local onde veremos o freestyle.
26

o RAP, umas dessas pessoas é o Nadson, meu amigo de Simões Filho, que na época começou
a estudar como fazer beat, então logo estávamos conversando sobre fazer um RAP juntos, eu
com a letra e ele com o beat, logo que a ideia foi dada, fiz a seguinte narrativa, intitulada como
“Revolta”:

E nunca brinque com peixes em ascendente em escorpião


Já dizia aquele som monstrão(..)
Revolução !
‘Vamo’ irmã fazer Direito !
Te olham da cabeça aos pés e só querem ver defeito
Um bando de relés, mal amados, que preferem se cegarem e não olham para o rabo
Fazendo a positividade do mundo e pro ralo / Atrasalados34 !
E prega que é impossível / Não permito e que se foda !
Eu sou o Amor / mas também sei ser guerra nessa porra
é preciso ser / Aprenda a valorizar o ser
Meu bonde ?! / Meu bonde que viver
Sem da Ibope pra egoísmo / procurando a energia interior
no meio do precipício / os excluídos sentem dor
Que só por querer paz e atrair o amor / é taxado como louco
paranóia / preguiçosos / marginais
Chega !
Não somos mais / Protegida pelos Orixás
Cabeça erguida e com poesia peço paz
Sabedoria para saber da colé daquela trilha
Querer viver / Disorganize o ABC
não deixa essa porra de sistema te dita o que fazer
Pense, fazer o certo pelo certo e atrair sorrisos
se interligar com o universo e vibrar com seus amigos
Senhor, Senhora !
Proteja os q estamos comigo (..)
E é pesado pra caralho
na sala de aula ser vista como a estranha
e o pior é o grito instalado entalado na garganta
os looks encabulados que encurralados não podem viver
Acorrentados vendo o mundo em apodrecer
Cansei de esperar Jesus nascer / E a arma é o saber
que tal trazer o paraíso para cá ?
mas tá difícil mona o individualismo tá tomando conta
E os covardes só apronta / indiretamente te jogam na lama
diretamente te faltam com respeito e gritam se foda preto
se foda preta / e julgam o réu / amam quem quer
o senhor de gravata, valorizado
a garota bem falada na praça ?
ela é submissa / cabeça baixa pra vida e
não anda a noite na pista / resolve se soltar
maior fuzuê é o que dá
e eles querem me calar
me enjaular / me internar
mas se ‘’lenha-ram ‘’
eu sou rebelde / Fudeu !
Vai procurar na Google / O que é Ancestralidade / Entendeu ?!
(Manduê, Revolta, 2016)

34
Atrasalados é uma gíria que significa pessoas que estão do lado da outra só para atrasar a vida da pessoa. Dando
opiniões, palpites que não são para o bem e até agindo de má fé.
27

Esta letra foi para mim uma forma de apresentação, por isso logo no início eu cito meu
signo e meu ascendente, lembrando de uma parte da letra da canção da banda Legião Urbana
faroeste caboclo, que cita “e nunca brincar com o signo de peixes em ascendente em
escorpião(...)”. Na época eu acreditava (ainda acredito) em esta frase me descrever por se ter
uma personalidade indecifrável, ora tranquila e ora revoltada, mas sempre aparentando ser
passiva, mas levando uma força imensa de resiliência, em qual demonstro nas minhas vivências
e escritas. Continuo na letra dizendo: “ Vamo irmã, fazer Direito” por acreditar na união dos
nossos povos, que não deixam de ser nossos irmãos e irmãs de comunidade, e para além disso,
falo sobre tomamos esses espaços que são excluídos de nós, periféricas e periféricos, como na
academia que poucas são as pessoas periféricas que frequentam. Precisamos fazer direito,
medicina, engenharia, arquitetura, está no governo e entre outros espaços, e o que seria ideal é
está a prol dos nossos direitos, fazer uma sociedade a partir das nossas necessidades e não uma
sociedade eurocêntrica, com ideais da branquitude35, que é exatamente como vivemos.
Sigo dizendo sobre a falta de autoconhecimento do nosso povo, por questões de
ignorância social, onde crescemos e aprendemos com uma educação racista, machista e
defasada. Trago também as pessoas periféricas que se conscientizam desta realidade mas que
são vistas como marginais36 e sem valores e quando digo “meu bonde quer viver” me refiro às
comunidades que criamos para falar sobre os nossos, como a comunidade LGBTQI+, o próprio
RAP e batalhas de rima na comunidade que por muitos é mal vista, e a união de mulheres
periféricas negras contra o sistema branco, sexista e machista, em meio a qual buscamos viver
com dignidade, representatividade e respeito. Também relato sobre a nossa tentativa de
demonstrar o amor que por muito tempo nos foi negado na arte, e nas nossas relações com os
nossos, e entendendo que somos nós por nós;
Referencio a nossa cultura religiosa, quando cito “a proteção dos Orixás”, citando o
candomblé que é também oriunda de África, escureço nesta narrativa que a poesia é minha
forma de me expressar e levar e ganhar sabedoria. Também crítico este sistema político que não
nos trata como prioridade pela questão de toda injustiça que acontece com nosso povo por conta
do processo colonial, ou seja, desde 1500 por aí; trazendo na letra também um pouco da minha
vivência na escola: “E é pesado pra caralho, na sala de aula ser vista como a estranha (...)”.
Lembrando que na época tinha assistido o filme “Carrie, a estranha”, onde me identifico com

35
A branquitude é um conceito científico utilizado no âmbito do estudo das relações étnico-raciais, mais
detidamente nos estudos críticos sobre branquitude. Busca categorizar a racialidade das pessoas brancas, aplicá-la
nos estudos relacionados ao desenvolvimento das sociedades e está intimamente ligado ao racismo.( Wikipedia,
on line)
36
Marginal, significa o que está fora da margem, neste caso, são os indivíduos que são excluídos socialmente.
28

a sua solidão, por conta da exclusão no colégio, no meu caso por conta da discriminação sofrida
pelos meus traços raciais(cabelo, boca, narriz) e a cor da minha pele, por isso sempre foi alvo
de bullying na escola, onde colegas de classe me diminuiam por conta do aprendizado e os
conhecimentos racistas que tínhamos apredindo a reproduzir pela sociedade;
Na letra eu também me expresso em relação à religião que nos é ensinada, neste caso é
o catolicismo e o cristianismo. Religiões que predominam no Brasil, onde se tem uma ideia de
que a nossa passagem na vida e no mundo é passageira e quando Jesus voltar, trará o paraíso e
só os que são dignos irão viver nele. Estes relatos tirados da bíblia, livro antigo, considerado
sagrado, no catolicismo e cristianismo, então eu relato a minha descrença sobre a chegada de
Jesus Cristo; “cansei de espera Jesus nascer”, pois estamos cansadas de ter a nossa cultura
negada para nós, cansadas de ser diminuídas e ter acessos negados em uma sociedade que
formos obrigadas a aprender sobreviver.
O paraíso para mim será quando todas as etnias e indivíduos forem respeitadas e quando
a sociedade estiver realmente em prol de todes. Por isso acredito que “a arma é o saber” antes
de priorizar o conhecimento é preciso priorizar a sabedoria; enquanto um é a junção de
informações, analisadas e compreendidas a outra compreende e avalia esses conhecimentos de
forma empírica passando por valores humanos. Desta forma sigo expressando minha revolta
em relação a discriminação social que existe nas minhas vivências, por nascer menina,
periférica e preta, nesta sociedade, e finalizo pedindo para pesquisar na google o que é
ancestralidade, já que hoje em dia a internet passou a ser um vicio para as pessoas e enquanto
isso a nossa historia é ocultada e plagiada.
Voltando para este encontro com Nadson, na época até tentamos montar um grupo de
RAP, com um outro Mc37 do colégio, mas só ficou no papel, infelizmente, por causa de
problemas pessoais ou questão de tempo e distância. Também participei do Coletivo “Fé na
gente” onde recitávamos poesia em Simões Filho, com a Mc Azinza, Dandara Cruz, Jessica
Rihana, Leone e Leidiane; poetas e moradoras de Simões filhos que como eu, se expressavam
com a arte, mas que também acabou se desfazendo. Em 2018 me inscrevi no edital para
participar da terceira edição da coletânea “O diferencial da favela: dos contos as poesias de
quebrada” projeto este idealizado pelo “O sarau da onça” e realizado pela editora “Galinha
pulando”.
Neste edital 50 escritores seriam chamados para participar, e assim para minha alegria
acabei passando no edital e em 2019 veio ser lançando a primeira coletânea de poesia que faço

37
MC é a sigla para Mestre de Cerimônia e como são chamados as maiorias dos rappers.
29

parte com duas poesias minhas; a “Carta para Frida” e a outra “Revolução com arte”, também
tendo uma participação na música “fogo nos racistas” lançada no youtube com o MC, rapper
e beatmaker Luís André mais conhecido como L.A, que mora no bairro da Mata Escura, onde
cresci.

Sou fruto da cor que ainda é oprimida


Chega de genocidio
preto também é vida
eles matam nossos irmãos
por conta da sua cobiça
Vida eterna para as bruxas
quero fogo nos racistas (...)
(L.A e Manduê, 2019, Fogo nos racistas )

Figura 2 - Batalha de Mulheres; Fazenda Grande, Salvador/BA (2019)

Participei também de algumas (poucas) batalhas de rima, a maioria em batalhas de


mulheres, como da “Batalha das Bruxas” (qual falarei mais no capítulo três). Como já relatei,
não costumo participar de batalhas, pois muitas vezes me sinto ofendida com certas rimas de
ataque e não me sinto confortável para tal, porém quando se tem batalha com tema38me sinto
bem para rimar e realmente me vejo sendo desafiada, pois tem um tema para demarcar a ideia
a ser seguida, assim fazendo com que trabalhemos o nosso intelecto e demonstramos nosso
conhecimento sobre o tema sugerido. No entanto quando tem uma batalha só de minas, me
sinto em um ambiente confortável para conseguir brincar na rima e me expressar e também para

38
No terceiro capítulo falarei mais sobre essas categorias da batalha de rima, que são : Batalha de Sangue e a
Batalha com Tema.
30

incentivar as mina rimar, por muitas vezes não fecha o total de meninas para a batalha acontecer,
por isso “ junto o útil ao agradável” e participo das rimas.
Em 2020 participei do edital, lançado por uma editora independente, a Editora Triluna,
que teve início em 2019, sendo idealizada e coordenada por Aline Cardoso da Paraíba, mulher
preta e mãe solteira, que trouxe uma proposta de lançar 24 títulos de poesia e conto durante o
ano de 2021, sendo este edital direcionado para pessoas negras, mulheres e LGBTQIA+. Para
a minha felicidade, no final de 2019 passei no edital para lançar meu primeiro livro em forma
física de poesia; “Sinto, Logo Existo !” onde trago minhas rimas, minhas escrevivências,
revoltas diárias, descobertas, informações e os meus emaranhados de sentimentos; sendo o livro
lançado no dia 13 de setembro de 2021, virtualmente pelo instagram e no site da editora. Porém,
a realidade é que se não fosse a iniciativa de uma mulher preta, que enxerga que não há espaço
para nós na cânone da literatura brasileira e assim vindo com uma Editora independente abrindo
portas para que pessoas como eu tenham suas escritas lançadas, eu não saberia dizer quando
teria meu primeiro livro, pois a dificuldade de planejamento financeiro para tal é muita grande,
mas planejo lançar outros livros, de contos, romances, reflexões e poesia e também aproveitar
o acesso a internet para mostrar meu RAP para o mundo.
Sempre agradeço muito por existir pessoas como a Aline Cardoso, Drica Silva, Dandara
Cruz, Prof Lucas Silva, meu pai Jorge Bispo, Cleison Cavalcante (Azinza), MV Bill, Kmila
CDD e entre outros e outras que me inspiram a ser esta pessoa que me torno a cada dia que
passa e que fortalecem a esperança de dias melhores. Como sempre cito nas escritas “Só
precisamos de nós mesmos” e sabemos que a união faz parte da nossa ancestralidade, desta
forma acreditamos fielmente no poder da nossa oralidade.
31

3 CAPÍTULO 2: RAP; ENQUANTO INSTRUMENTO DE PROTESTO, RESISTÊNCIA


E ESCREVIVÊNCIA

“O Rap é compromisso!
não é viagem...”
(Sabotage)

RAP é a sigla em inglês para "Rhythm and Poetry" e a tradução para português é “Ritmo
e Poesia” faz parte da cultura Hip-Hop39,juntamente com mais três elementos, que são:
grafite40, o break41 e o DJ42( disc-jóquei). Tendo uma forte raiz nos Estados Unidos, na cidade
de Nova York no bairro do Bronx.
Primeiramente o RAP surgiu na Jamaica na década de 6043 infelizmente nas minhas
pesquisas não encontrei tantas informações, mas o que posso afirmar que os afro-diaspóricos
caribenhos foram os primeiros a iniciar a cultura dos MC´s, chegando nos Estados Unidos nos
anos 70 por imigrantes jamaicanos que fugiam da crise econômica e social; especificamente
pelo Dj Kool Herc, no Bronx em Nova York, nascido e criado até os 10 de idade na Jamaica e
na adolescência passou a imitar o RAP jamaicano no Bronx, que naquela época era considerado
um bairro de extrema violência, e com o tempo DJ Kool passou a usar os discos para fazer o
típico acústico do Hip Hop, sendo batizado por ele de Merry Go-Round, que hoje chamamos
de break beat.
As principais características do RAP é quase sempre ter o DJ para operar o som, ou seja,
fica responsável pela sonoridade e mixagem, assim fazendo surgir as mais variadas batidas e
swingers e o/a rapper é o responsável pela poesia cantada. O RAP costuma ter uma batida rápida
e poucas variações melódica e em cima do ritmo temos um discurso em que a/o rapper traz
variados assuntos para ser debatido, geralmente é sobre suas vivências e revoltas sociais e a
dialética usada para criar o RAP, são as gírias diárias deste sujeito que está passando a
mensagem, sujeito esse que é pobre, marginalizado e periférico; geralmente o local que é
apresentando o RAP, são em praças públicas ou locais de eventos sociais, no qual muitas vezes
vemos nas paredes os pixos e os grafite e danças afros e break.

39
Gênero musical, que tem subcultura própria iniciado durante a década de 1970.
40
Um tipo de manifestação artística surgida em Nova York, nos Estados Unidos, na década de 1970. Consiste em
um movimento organizado nas artes plásticas, em que o artista cria uma linguagem intencional para interferir na
cidade, aproveitando os espaços públicos da mesma para a crítica social.
41
Dança de rua, criada por afros-americano e latinos na década de 70 em Nova York,nos Estados Unidos.
42
DJ em português significa disco jóquei, é o artista responsável por transmitir a música na rádio, na televisão,
boate, discoteca ou qualquer lugar que cante música.
43
Assunto mas detalhando no site https://revistatrip.uol.com.br/trip/o-elo-perdido
32

Então a partir das revoltas identitárias que acontecia nos Estados Unidos no séc XX,
nasce na década de 70 o Hip-Hop, sendo um movimento político e cultural, como traz para nós
a socióloga soteropolitana Rebeca Sobral, no qual relata em sua introdução no livro “HIp Hop
feminino ?” um pouco mais sobre os acontecimentos da época:

Originado nos Estados Unidos na década de 1970, o Hip Hop caracteriza-se como um
movimento político e cultural constituído sob a influência de dois importantes
movimentos ocorridos no mesmo país. O primeiro, o movimento por direitos civis,
ocorrido nas décadas anteriores, liderados por Rose Parks e Martin Luther King Jr. e,
o segundo, inspirado pelo movimento black power referendado por Angela Davis e o
grupo “Panteras Negras”. Ambos os movimentos precursores do Hip Hop
compartilhavam respectivamente pautas de combate às desigualdades sociais, mais
especificamente direcionadas para as questões de cunho racial. (SOBRAL, Rebeca ,
Hip Hop Feminino ?, 2018;p.13)

O Hip-Hop faz parte do movimento negro na arte, como foi no blues, no jazz, no raggue,
no Rock e entre outros estilos musicas que tem a precensa da negritude, desta forma motivado
jovens e crianças, além de aflorar seu talentos, também poderam conhecer suas histórias e
entenderem a grande massa de manobra que existe na sociedade em que vivemos. O RAP traz
múltiplas mensagens nas poesias em forma de discurso, que faz as pessoas refletirem sobre a
vida, a sociedade, o governo, o racismo e também trouxe a autoestima para muitas pessoas que
não conheciam o valor das suas raízes, além do indivíduo reconstruir a sua identidade, nesta
sociedade que oprime, menospreza e tira nossa identidade enquanto descendentes de África, ou
seja o RAP também é uma forma de fazer política, sendo na verdade, uma importante
característica do RAP, o ato da politização.

Para mim, o hip-hop diz “venha como você é”. Somos uma família(...)
O hip-hop é a voz desta geração; Tornou-se uma força poderosa.
O hip hop une todas as pessoas, todas essas nacionalidades, em todo mundo.
O hip hop é uma família, então todo mundo tem como contribuir; leste, oeste,
norte ou sul, viemos de uma mesma costa e essa costa era a África (Dj Kool)

Sendo esta fala do DJ Kool retirada da apresentação do livro “Barulho de preto: Rap e
cultura Negra nos Estados Unidos contemporâneos” de Rose Tricia44, que trago para fortalecer
sobre as motivações primárias da juventude negra no RAP e sua africanidade;

44
Rose Tricia é Socióloga e autora norte americana, sendo a pioneira no estudo do Hip Hop na academia, lançando
a obra Barulho de preto:Rap e cultura negra nos Estados Unidos contemporâneos em 1994 ,que nasce do seu
trabalho de conclusão da universidade, voltado à análise do RAP. Ela explica sobre as suas intenções com o RAP
na introdução; “Não tenho a pretensão de apresentar uma história completa do RAP, nem tentei explicar todas
as facetas dos impactos do rap na cultura(...) Em vez disso,descrevo, teórico e crítico elementos do RAP, incluindo
letras, músicas, cultura, estilo, bem como o contexto social em que o RAP ocorre(...) (ROSE,Tricia;pag4)
33

As palavras de Kool Herc(...) centram-se no sentimento que mobiliza jovens de


distintos contextos marginalizados ao desempenharem as expressões culturais do
movimentos: “faz parte”. As experiências negras, marcadas pela escravidão moderna
e por ações de reexistência, levam pessoas afrodescendentes a contruírem referencias
de interpretação das saus realidades e redesenharem seus destinos(...) Isso torna o hip-
hop um movimento sociocultural que se destaca por ser constitutivo e também por
constituir sujeitos transgressores e narradores de si próprio(...) (VIEIRA, Daniela;
SANTOS, Lima Jaqueline;Barulho de preto:Rap e cultura negra nos Estados Unidos
contemporâneos; 2021; Apresentação)

Podemos encontrar mais referências importantes nesta apresentação sobre a produção


do Hip Hop, neste caso especificamente do RAP que “envolve observação e leitura sócio-
histórica, tecnológica de produção musical com samplings45 e colagens musicais, além de uma
escrita que conecta cenário, análise crítica e perspectivas sobre o problema
abordado.”(VIEIRA; SANTOS)
Podemos ver a enorme influência da africanidade no Hip-Hop - indo do ritmo, a letra, a
dança, o escutar e sentir o swag natural que emana - “quem canta seus males espanta” já diz
um ditado popular e os nossos ancestrais cantavam, dançavam e criavam para poder afastar o
banzo46e se curar. O Hip-Hop reacendeu e deu caminhou a juventude que vivia e vive na
periferia, nos morros e nas favelas, fazendo com que vivessem dias bonitos, formas alternativas
de lazer e entendessem que são pessoas criativas e belas, que também fazem parte da sociedade
e precisam ser compreendidas; o RAP nos trouxe autoestima.
Porém esta época não foi só flores para o RAP, pelo contrário, na verdade houve muita
discriminação, os boicotes e a exclusão da sociedade e dos seus padrões eurocêntricos; pois o
RAP para além de um estilo musical, contém uma forte identidade afro-diaspórica, no qual
trazem dilemas e críticas sociais que sabemos, não ser algo de valor para o crescimento
midiatico, ainda mais no contexto capitalista e conservador da época, por isso continuamos com
a Tricia Rose, que cita as fortes críticas que se traziam no RAP:

Por um lado, os críticos musicais e culturais enaltecem o papel do RAP como um


instrumento educacional(...) Por outro lado, a atenção das notícias midiáticas sobre o
RAP parece fixada em casas de violência nas shows, no uso ilegais de samples por
produtores de RAP, nas fantasias sensacionalistas de gangsta rappers, em assassinatos
de policiais e esquartejamento feminino e em insinuações de rappers nacionalistas
negras de que pessoas brancos são discípulos do diabo. (ROSE, Tricia; Barulho de
preto:Rap e cultura negra nos Estados Unidos contemporâneos; 1994; pág,11)

45
É a utilização de uma parte de uma gravação de som em outra gravação.
46
Palavra Banto, originária da língua quicongo e quimbundo; significando para a primeira mbanzu: pensamento,
lembrança; e na segunda, mbonzo: saudade, paixão, mágoa.
34

No entanto, a partir dos anos 90 o RAP passou a ser bem popular na indústria musical,
por conta da sua enorme presença nos bailes e nas festas universitárias, assim chamando a
atenção do público, também se misturando com outros estilos e trazendo novas vertentes; porém
Rebeca Sobral, nos abrem os olhos, com algumas fatores da época, como por exemplo o
domínio da mídia e o racismo velado:

De acordo com Patrícia Hill Collins (2006), a ascensão do Hip Hop representa o
período pós-movimentos por direitos civis e é marcada pelo fim do movimento Black
Power, surgindo como uma alternativa à cegueira sobre o mito do fim do racismo no
país e da promoção do “sonho americano” de iguais oportunidades para todas as
pessoas, ainda, a "guetização " (ghettoization) dos pobres e da classe trabalhadora
negra e jovem estadunidense. (SOBRAL; Hip Hop Feminino ?, 2018; p.13)

E continua…

A mídia americana criou e transmitiu comercialmente o Hip Hop como uma espécie
de “cultura negra americana” (black american culture) vinculado à pobreza, às drogas,
à violência e à hiperssexualização dos corpos negros, especialmente das mulheres
negras. Collins (2006) explica que esta propaganda publicizou o estilo fashion da
negritude a partir dos elementos do Hip Hop, transformando-o em uma indústria de
milhões de dólares. (SOBRAL; Hip Hop Feminino ?;2018; p.14)

Desta forma pode se dizer que o RAP nos Estados Unidos se tornou uma forma de
emancipação social para alguns que se enquadra a mídia; infelizmente também trazemos muitas
críticas pelos comportamentos sexistas que muitos rappers trouxeram e traz na cena, como
rebaixar a mulher enquanto interesseira, ou fala sobre o corpo da mesma de uma forma
pejorativa; nos clipes e nas letras e a Tracie relata sobre esse fator, que atualmente não é muito
diferente:

O RAP e seus vídeos têm sido erroneamente caracterizados como substâncias sexistas,
mas legitimamente criticadas por sexismo. Estou totalmente frustrada, mas não
surpresa, com a aparente necessidade de alguns rappers de elaborarem histórias
artesanais e criativas sobre o abuso e a dominação de jovens mulheres negras. Talvez
essas histórias servem para proteger os rapazes da real rejeição feminina;(...) contos
de dominação sexual aliviam de modo ilusório a falta de autoestima deles e o acesso
limitado a marcadores econômicos e sociais para o poder heterossexual masculina.
Certamente essas histórias são o reflexo do enraizado sexismo que permeia a estrutura
cultural dos EUA (...) Também fico impaciente com o silêncio covarde dos rappers
que sei consideram problemático esse aspecto no RAP ( ROSE;1994; pág.32)

No terceiro capítulo desta monografia irei destacar mais fatos sobre esse fator sexista,
misógino e machista que é algo enraizado socialmente fazendo com que nós mulheres não
35

sejamos respeitadas e tratadas de formas igualitárias por homens, que muitas vezes agem como
se fôssemos inferiores e incapaz.

3.1 RAP EM TERRITÓRIO BAIANO

Em território brasileiro o RAP chega primeiro na cidade de São Paulo e no Rio de


Janeiro na década de 80 no qual pude encontrar informações valiosas com a cientista politica
Rebeca Sobral em seu livro “Hip-Hop feminista?”:

Sua cultura e estética de afirmação da identidade negra agitaram os Bailes Black,


iniciados pelo funk, festas dançantes que priorizam estilos musicais a partir de bandas
e artistas negros nacionais e internacionais, a exemplo de James Brown e Jorge
BenJor. Evento comum nas periferias, estes bailes estimularam um cenário de danças,
vestimentas e variados penteados para os cabelos crespos, onde se destacava o
chamado estilo black power, desafiando a imposição de um modelo de beleza
vinculado à “branquitude”. (SOBRAL,SOBRAL; Hip Hop Feminino ?;2018; p.15)

São Paulo é considerada o “berço do hip-hop nacional, por se constituir em uma


metrópole com maior acesso a bens e à difusão de informação através dos meios de
comunicação.”(BARBOSA) Porém na cidade de Salvador, mesmo não tendo muitos estudos
relacionados, também nesse período havia bailes e movimentos artísticos sociais, no qual
Rebeca Sobral relata para nós :

(...)na cidade de Salvador, acontecia o baile BlackBahia no bairro periférico Periperi,


do qual participavam grupos de dança de funk, a exemplo dos grupos cobra funk
(apenas meninos) e cobra funk girls (meninas a partir de 10 anos), que apresentavam
as primeiras expressões do Hip Hop com dança e música(...) (SOBRAL;p.16.)

Rebeca Sobral também fala sobre o primeiro grupo em Salvador, que juntou as primeiras
expressões do Hip-Hop o “Posse Ori”47 em 1996; sendo o Hip-Hop em Salvador de extrema
importância para a mobilização das políticas públicas e da interação com a comunidade, como
novamente Rebeca Sobral reforça:

47
“De acordo com Aldenora Lima, as posses podem ser entendidas como “(...) um núcleo de atuação e reflexão
do movimento Hip Hop, local onde ocorrem reuniões semanais e são discutidos os projetos futuros e divulgados
eventos e festas” (LIMA, 2006, p. 13). Priscila Matsunaga (2008) atualiza um novo termo para estes grupos,
também chamados de crew, tendo uma conotação específica para grupos de dança e/ou de grafite. Ambas autoras
concordam que, a partir de suas manifestações artísticas, mulheres e homens jovens do Hip Hop passam a
interpretar politicamente a sua própria cidadania.(SOBRAL, Rebeca) Infelizmente atualmente núcleos e reuniões
como essas são raras de acontecer, porém estamos nos organizando para fazer acontecer novamente o que os
anteriores já vinham fazendo.
36

A partir da inserção nas posses e grupos de Hip Hop (a exemplo das bandas de rap)
muitos jovens puderam sair de seus bairros de origem localizados na periferia, em sua
maioria distantes do centro da cidade, para circularem por outros bairros, incluindo o
centro13. Esta oportunidade lhes permitiu não apenas a criação de novas rotas, de
deslocamentos, como adentrar em espaços políticos e históricos da cidade, conhecer
pessoas e participar de outras atividades culturais e políticas, que abordavam temas
diversos. (SOBRAL,Rebeca; p.17)

Sobre as posses a professora Letícia Maria faz uma observação interessante sobre os
nomes dados, como por exemplo esta primeira posse “o nome escolhido para batizar (...)foi
Orí, que significa cabeça, na língua Yorubá, revela uma forte característica do hip-hop
soteropolitano…”(BARBOSA) onde traz referências africanas e a ressignificação da nossa
história, sendo uma forma de afirmar a identidade afro-diaspórica, como podemos ver nos
nomes das posses que se seguem: “Quilombo Vivo, Fúria Negra, Negranada ou mesmo nos
nomes de grupos de rap: Erê Gitolu, Opanijé.”(BARBOSA) no qual também enriquece mais
sobre o hip-hop em Salvador:

Rappers e b.boys do movimento Hip-hop baiano reconhecem a manifestação de


elementos da cultura hip-hop na Bahia desde a década de 80, a exemplo do break e do
DJ, presentes nos bailes blacks como descrito no início deste capítulo, contudo
consideram como marco do hip-hop enquanto movimento organizado o dia 26 de abril
de 1996 em que ocorreu a primeira reunião para articulação do movimento no Passeio
Público, em Salvador, envolvendo grupos de diferentes bairros como Itapoan,
Marechal Rondon, Valéria, Nordeste de Amaralina, Pernambués, Lobato, Paripe,
Itinga etc..( BARBOSA;p.69)

Hoje em dia o Hip-Hop é popular e conhecido, especificamente o RAP que é bem


popularizado atualmente48; porém rappers da Bahia, não são valorizados midiaticamente, ainda
mais as rappers; que acaba tendo menos visibilidade do que os homens; existem alguns estilos
musicas que tem uma visibilidade mais forte, especialmente em Salvador, como o pagode
baiano49 e o arrocha; O que é muito comum vermos é rappers indo para São Paulo, para poder
ganhar a vida de forma artística, por conta da dificuldade que é ter visibilidade com o público,
sendo que em São Paulo é considerado o berço do Rap no Brasil. Uma vertente do RAP que
vem ganhando o público jovem é o Trap50 , no entanto as letras mais populares no Trap são

48
Em 2017 para cá houve alguns nomes que levaram o Rap BA a ser mais visualizado como Baco Exu do Blues,
porém ele só passa a ter visibilidade após lançar uma faixa no youtube com o pernambucano Diomedes Chinaski,
exaltando os rappers do Nordeste, porém de forma pejorativa, atacando os raps de outros Estados do Brasil, sendo
que atualmente tiraram a faixa do ar.
49
O pagode baiano é mais conhecido como pagodão.
50
O Trap é um subgênero do RAP que surgiu na década de 2000 com DJ Paul no sul dos Estados Unidos. Ganhou
popularidade em meados de 2007 com o surgimento de vários grupos de rap e rappers. Aqui no Brasil vem sendo
popularizado desde 2016, primeiramente em São Paulo.
37

sobre - a vida na noite, dinheiro, jóias, tráfico e drogas, além do sexismo ser desenfreado -
porém são os aprendizados e as vivências dos artistas.
Um fator importante para se trazido é sobre o festival Afropunk, sendo considerado o
maior festival de cultura negra do mundo, qual nasceu em 2005 nos EUA, na cidade de Nova
York no Brooklyn tendo duração de 3 dias; que traz a música negra enquanto mobilizadora
deste movimento, que unir diversas expressões artísticas afro-diaspóricas, além de uma estética
de grandes referências africanas; esteve pela primeira vez no Brasil, justamente na capital
baiana, em Salvador, dando destaque a nomes importantes da música afro-diaspórica, como o
rapper Mano Brown, Margareth Menezes, Luedy Luna, Larissa Luz, Urias e a mais jovem
atração de Salvador o rapper Vírus.
O que também vem ganhando a ruas e praças de Salvador hoje em dia, são as batalhas
de rima, que faz com que a juventude se mobilizem em prol de momentos de interações,
aprendizados e lazer; além de fazer com que os competidores procuram ampliar seus
conhecimentos e a audição, por ser importantes na hora da competição, ter uma boa dicção e
raciocínios rápido; muitos jovens mudaram maneiras de pensar, passaram a ler mais para se
comunicar melhor na rima e passar uma mensagem coerente; temos uma pequena presença das
meninas nas batalhas, porém sei que muitas delas querem e tem potencial para batalhar nas
rodas de rima, no entanto muitas vezes se sentem sem espaço (por ser majoritariamente
masculino) e não se veem a vontade para ser escutada, ou também por questão de timidez ou
falta de incentivo.
O RAP como diz Sabotage “é compromisso não é viagem”, é gritos de protestos dos
insubmissos, fazendo diversos jovens se acentuar e querer se mobilizar socialmente, além do
Ritmo e a Poesia salvar muitos jovens periféricos que tinham suas referências no crime51 e que
hoje em dia escuta o RAP e entendi que é muitas vezes condicionado a estar em uma vida
marginalizada e a partir daí nasce a vontade de se reconstituir e de modificar a caminhada, tem
um ditado popular que diz “a palavra tem poder” e esta é a realidade do RAP, o poder da
palavra.

51
O RAP contra a marginalização e o crime é um tema muito importante para ser debatido e estudado, pois sabemos
que muitos sujeitos tiveram as vidas reformuladas a partir da arte, além de conhecer suas descendências e a partir
daí se reconstituir. Temos que nos perguntar de onde vem a marginalização; como se formula o tráfico de drogas
e de onde vem as substâncias consideradas ilícitas; assuntos esses que podemos ouvir em diversxs raps, como por
exemplo Racionais, Mv Bill , Kmila Cdd, Baco Exu do Blues entre outras e pretendo trabalhar futuramente estes
temas.
38

3.2 TERRITÓRIO E PERTENCIMENTOS: DE ONDE VIEMOS?

“A África vive em nós porque somos a África viva”


(Jam San)

A partir da Poesia e do RAP vim conhecer lugares e muntus52 de Salvador e das Regiões
Metropolitana e do Recôncavo baiano que não imaginava conhecer se não fosse o Ritmo e a
Poesia. Infelizmente é muito comum assistirmos programas de TV que são sensacionalistas
(como ‘se liga bocão’, ‘na mira’ e ‘balanço geral’) que todos os dias nos conta sobre morte;
tráfico de drogas; ruas esburacadas e infraestruturas precárias na cidade de Salvador e Regiões
Metropolitanas, não digo que esses fatos são totais mentiras, no entanto digo que são
sensacionalistas, sem profissionalismo e sem ética, pois o que descaradamente vemos nesta
forma de reportagem é o racismo e discriminação escancarada.
Esses programas midiáticos, fazem com que tenhamos medo dos bairros de regiões
periféricas de Salvador. Além de apresentar nós moradores como leigos inferiores, nos faz
acreditar que não exista nada de bom e produtivo para se encontrar nos bairros periféricos, não
nos reconhecendo enquanto reprodutores de cultura e oprimem as nossas mentes para que não
vejamos toda nossa beleza; como os grupos de capoeira, os saraus, os grupos de danças, grupos
de teatro e eventos comunitários, sendo eu mesma oportunidade de frequentar e participar de
movimentos artísticos e depois que a arte passou a existir na minha vida tudo mudou de
paradigma, eu passei a me reconhecer, antes disso vivia me menosprezando, intelectualmente
e fisicamente.
Nascida menina, no bairro da Mata Escura, a filha caçula da minha mãe e penúltima do
meu pai, depois de três irmãos homens e apenas uma irmã por parte de pai (a primeira filha do
meu pai), mas venho antes do último filho do meu pai. Ou seja, cresci com as diferenças de
tratamentos sociais, desta dualidade opressora, existente na sociedade - feminino e masculino -
por ter irmãos majoritariamente homens, “senti na pele''. Cresci sendo aquela que não podia
sair sozinha, não podia ficar à noite na rua, ouvindo reclamações de como me arrumar direito e
me portar na frente de terceiros e sobre ser uma boa dona de casa; enquanto meus irmãos podiam
sair sozinhos, ficar sem camisa e ficavam até tarde da noite na rua, sendo que as nossas
diferenças de idade não eram tão grande assim.

52
Significa ‘pessoa’, 'ser humano’ sendo um traço em comum nas línguas do tronco linguístico Banto, tendo sua
principal localização na África subsariana.
39

Aprendemos a ver a rua como um lugar negativo e sem valor, que daria abertura para as
drogas se não soubesse frequentá-la, que a noite roubos eram comuns e que tínhamos que ter
cuidado ao estar nas ruas. Por conta dessas e de outras questões, sempre fui caseira e com
poucos amigos, tinha somente minhas primas e irmãos, e tinha minha prima/tia (como ela já
era adulta, considerava como tia) Josenilda Souza, que é mais conhecida como Negona, que
fazia capoeira (sendo contra-mestre53 de capoeira hoje em dia) e me levava para os eventos de
capoeira que costumavam acontecer em diversos bairros de Salvador, como - Calabetão, São
Caetano, Baixa Fria, o Centro de Salvador - e entre outros. Assim tendo os meus primeiros
contatos com a rua, sendo ela a proporcionar a minha proximidade com a arte na comunidade.
Na verdade comecei a fazer teatro na escola, no ensino fundamental, e fiz algumas
apresentações em outros locais fora do bairro, ou seja meus primeiros momentos com a arte,
mas não tinha contato direto com a comunidade. Negona também era minha professora de
capoeira e passou a trabalhar na época como professora de capoeira na Associação das
Comunidades Paróquias da Mata Escura e Calabetão (ACOPAMEC) sendo este o principal
centro na Mata Escura, o qual oferecia cursos gratuitos de formações técnicas e tinha dois
núcleos que se estendiam para áreas artísticas; um que ficava no mesmo bairro, tendo curso de
teatro, violão, artesanato e dança afro e outro no bairro Calabetão que tinha capoeira e Negona
dava aula. Comecei fazendo curso de artesanato e depois de teatro, foram curtos períodos que
frequentei esses cursos mas consegui viver muitas coisas boas, conhecer muitas histórias e
adquiri muitos aprendizados.
Tive oportunidade de apresentar uma peça no palco do teatro da ACOPAMEC para a
minha comunidade, sendo um dos momentos mais importantes para mim, vendo rostos
conhecidos que sentiam e viviam comigo naquele momento. Lembro que meu papel era de uma
moça que vivia na época colonial e tinha sido escravizada e fugia do capitão do mato e nisso
recitava uma poesia que foi escrita pelo professor e roteirista da peça Claudio Nyack, que é uma
importante figura na minha história e acredito que em tantas outras. Ele me incentivou a
entender os meus caminhos e meus talentos, sendo uma das primeiras pessoas que mostrei
minhas primeiras escritas, neste período pode reconhecer que em nossos bairros existem muitos
talentos que muitas vezes vivem em formas brutas, só precisando ser lapidadas.

53
Na capoeira o aluno passa por formaturas e de acordo com o tempo de aprendizado que se tem é recebido cordas
que amarram na cintura, e cada grau de aprendizado as cores das cordas são diferentes, variando de acordo com
os grupos e o local da capoeira; porém contra-mestre costuma ser universal, o penúltimo grau na hierarquia da
capoeira, o último é o Mestre.
40

A primeira oportunidade que pude sair sozinha de ônibus, foi para participar das oficinas
da OI kabum (como já relatei, neste mesmo capítulo) em qual passei na primeira seleção e iria
frequentar no período de três semanas (que se tornou 1 mês por causa de uma greve de ônibus).
Exatamente neste momento, abria-se mais uma porta para o mundo das artes; e desta forma eu
também me encontrava a quilômetros longe de casa, no centro de Salvador, o famoso
Pelourinho, que sempre está com as portas abertas para o turismo, mas com as mãos atadas para
seu próprio povo, hoje em dia para mim é nítido ver no âmago daquele labirinto, de becos e
vielas, a moda antiga, com seus casarões abandonados e as pessoas que carregam melanina
sendo rejeitadas e servindo, ainda que possamos encontrar os nossos com sorrisos e turbantes
deslumbrantes, não apaga quem é a maioria jogada na margem do pelô; porém eu não pensava
assim naquele momento.
Tudo era uma novidade para mim; não era minha primeira vez no centro de Salvador,
mas era a minha primeira vez sozinha no centro de Salvador; eu me sentia livre e quando
cheguei na Oi Kabum estava com diversos jovens diferentes para mim, pois era tudo muito
novo; tinha pessoas de diversos lugares de Salvador - de Paripe, Periperi, Novo horizonte,
Cabula, Nova Brasília entre outros bairros - eu não tinha experiência com a rua, mas parecia
que todas aquelas pessoas eram íntimas dela. Podia ver pessoas com alargadores na orelha,
piercings no rosto; tatuagens diversificadas; alguém fazendo grafite, outro pixando; recitando
poesias ou lendo suas escritas; pessoas de dreads e black powers, mulheres de roupas largas e
afins. Para mim era um mundo colorido, que estava coberto e naquele momento estavam tirando
o pano dele para que eu pudesse ver.
Tantos jovens talentosos, que tinham sonhos, metas e objetivos e eu fazia parte daquilo
também e mais uma vez me sentia estando no lugar certo, mesmo não sabendo se eu queria
mesmo fazer o curso de algumas daquelas oficinas, pois a minha área artística naquela época
era a poesia e a música, mas entendia que aquele lugar era uma oportunidade para mim conhecer
pessoas, conhecer outros mundos, outros universos e uma juventude que desejava mudanças,
sendo que aprendi muitas coisas de audiovisual, design e marketing que trago até hoje nas
oficinas. Pude conhecer novas amizades, encontrar subjetividades artísticas, resenhas na cruz-
caída54 e coisas que para mim eram novidades e/ou proibitivas, mas que fui entendendo e
aprendendo, que muitas vezes a sociedade impõe certos padrões, que não tem cabimentos e no
fim é só alienação para não sermos livre ou para não reconhecer a nossa real história e nossos
potenciais.

54
Fica ao lado do Pelourinho e do Elevador Lacerda no Bairro da Sé em Salvador, fazendo parte de passeios
turísticos e pontos de encontro.
41

Foram mais ou menos um mês, indo e voltando de ônibus, com destino para a Oi Kabum.
Na época passava na Mata Escura o ônibus com o destino para a Estação Lapa, que fica situada
na praça Carneiro Ribeiro no bairro de Nazaré e como o Pelourinho ficava muito próximo podia
ir andando. Era interessante esses momentos, onde junto com um amontoado de pessoas, indo
e vindo, de vários destinos e cps, comércios abertos e movimentados, carros e mais carros, e
também tinha as paredes com seus pixos, suas frases e seus grafites, que foram registrado por
um alguém que necessitava passar a mensagem, e que se torna uma reflexão sobre o que
vivermos, o que sentimos e o que queremos gritar para o mundo que nos silencia e nos “abafa”,
e desta forma procuramos maneiras de expressão, para passarmos a mensagem; como veremos
na poesia, na música, nos contos, nos raps, na dança e por aí vai.
Havia algo que me deixava (ainda deixa) pensativa: a questão dos outdoors, que por
toda cidade sempre está anunciando alguma coisa, mas que na sua maioria das vezes é sobre
vendas, são imagens de pessoas alegres e dependendo do que estiver anunciando, temos um
determinado modelo expresso. Por exemplo, se for sobre concessionária, lugares de grife,
geralmente são pessoas brancas e bem sucedidas; mas se é algo sobre órgãos públicos, temos
lá imagens similares a pessoas periféricas e afrodescendentes, assuntos esses que precisam ser
debatidos na sociedade, pois é muito comum associar as pessoas de negras à pobreza e miséria.
Além de perceber como as coisas materiais e estruturais são concentradas no centro, como por
exemplo os serviços, como educação, saúde e lazer(...) especialmente nos bairros nobres nos
quais estão teatros, institutos culturais, museus, grandes universidades públicas e parques
metropolitanos.((BARBOSA) porém os indivíduos periféricos são muito mais receptivos e
carismáticos do que os moradores do centro.
Relembrando o início deste capítulo conheci uma grande amiga na Oi kabum, que me
encaminhou para o sarau e outros espaços que fortaleceu meus aprendizados em relação a minha
história ancestral e a arte na minha vida, a Drica Silva; que também me deu a oportunidade de
conhecer o bairro Novo Horizonte, me fazendo conhecer pessoas de outras comunidade e de
apresentar as pessoas do meu bairro para uma outra comunidade que havia cultura, arte, poesia
e não só marginalidade. Na época ela estava iniciando um grupo de poesia com artistas do
bairro e também de outros lugares de Salvador; eram o Lucas Silva, Fabiana Lima, Jhonatas
azevedo, Rilton Júnior, Lane Silva(com o tempo vieram outros e outras integrantes) o
Resistência Poética, onde recitavam nos ônibus e vários eventos de arte; lembro que quis
participar, no entanto na época meus familiares não deixava eu sair sozinha.
Com ela conheci vários espaços e eventos, em escolas, universidades e saraus; lugares
que me fizeram aprofundar em mim, além de admirar os outros. A a maioria dessas pessoas que
42

conheci e reconheci, tinham e têm consciência da situação social das nossas periferias e dos
nossos problemas e procuram combater educando com arte, literatura, música, políticas
públicas e variadas formas de burlar este sistema de qual nos oprimem e nos distancia um do
outros, sendo esse fato captado por mim, nos meus primeiros contatos, me fazendo parte de
algo gratificante e que reconstruiu a minha identidade social.
Com Drica eu também conheci o Solar do Unhão e a praia da Gamboa, no qual gostaria
de relatar minhas experiências, por ter sido descobertas sociais importantes para o
fortalecimento do assunto, a Gamboa, nos presenteia com uma belíssima vista para o mar de
Salvador, sendo um maravilhoso local para se ver o pôr do sol e tendo um traço peculiar as
outras praias, são cheias de pedrinhas em cima da areia e na época havia um espaço no Solar
do Unhão, que parecia uma arena pequena e às havia encontros poéticos ali, com diversas
apresentações, sendo mais comum poesia. A praia da Gamboa era um ponto de passeio das
pessoas que viviam na comunidade do Solar do Unhão e de muitas pessoas que trabalhavam
nas ruas; como os baleiros, os poetas e artistas. Na época que conheci, muitas vezes
desvalorizado por terceiros, por ser “mal frequentada”e muitos diziam ser pontos de usuários
de droga, preferindo as pessoas externas estarem na praia do MAM que é uma praia fechada,
que fica integrada ao Museu de Arte Modernas; porém com o tempo e as presenças de famosos
( clipes e aparições) a praia da Gamboa de baixo como é conhecida, passou a ser valorizada e
atualmente é ponto turístico de Salvador, de grande movimentos e estando sempre cheia de
pessoas de variados lugares.
O fato é que por um certo tempo a Gamboa era um local de encontro para os poetas, as
poetas, os artistas e baleiros da city que diariamente no fim da tarde e no final do ‘corre’ de
poesia, estavam lá, baleiros e poetas celebrando o pôr do sol e o momento de descanso e
agradecimento do dia com uma bela paisagem do mar da Bahia de Todos os Santos, onde já
tive minhas oportunidades de fazer uns freestyle com pessoas criativas, que se inspiram na vida
e nas suas labutas diárias; a gamboa muitas vezes me inspirou a escrever poesias também.
Um outro importante lugar para mim foram meus tempos em Simões Filho em que não
muito tempo depois das minhas caminhadas e descobertas em Salvador, tive que morar e ainda
na época não tinha finalizado meu curso de direitos humanos, lá no Novo horizonte e acabei
sem finalizar, pois mesmo próximo de Salvador, não tinha como frequentá-la sempre, sendo
uma mudança difícil para mim, onde eu iria morar com minha mãe e meu padrasto e justo no
momento em que eu estava me enturmando e me entendendo no mundo, tinha que decidir entre
ir morar com minha mãe e ter um espaço para mim ou ficar e continuar minhas caminhas nas
ruas de Salvador; como sabemos fui morar em Simões Filho.
43

No fim, foi uma boa escolha; no entanto, acabei ficando muito distante dos eventos
artísticos e da própria poesia nos primeiros momentos mas aos poucos fui conhecendo o ritmo
daquela cidade pequena; sendo o colégio meu principal espaço de aprendizado, o Colégio
Estadual Reitor Miguel Calmon, onde no espaço educativo, pude conhecer algumas coisas sobre
Simões filho, mas que não dizia tudo; ali percebi que a maioria dos indivíduos que moravam
naquela parte de Simões Filho, eram pessoas que vieram ou tiveram os familiares mais velhos
vindo de outros lugares, geralmente interiores da Bahia ou de outros Estados, e lá eu conheci
pessoas que me apresentaram alguns lugares importantes em Simões Filho, inclusive a cena do
RAP em Simões.
A partir de contatos com jovens de Simões filho pude conhecer algumas pessoas que
luta politicamente e artisticamente para os movimentos sociais acontecer, movimentos a prol
das questões raciais e das mulheres negras cotra a herança do patriarcado e o genocidio dos
jovens periféricos, sendo em sua maioria, homens negros que são alvejados pelos policiais que
os vêem como a imagem da criminalidade. Lembro que meu pai na época que eu estava me
mudando, dizia que era para ter cuidado com as minhas companhias e minhas caminhadas, pois
Simões Filho era um lugar muito violento, que tinha muitas mortes e muitos casos de tráficos
de drogas. Quando passei a morar lá eu não via nada que meu pai tinha dito, mas sim que a
polícia costuma ser abusiva, racista e violenta com as pessoas de periferias e na sua maioria de
peles negras e que as drogas eram uma forma de refúgio da juventude que se sentia rejeitada e
sem esperança e também havia a arte que desvalorizada ainda resistia, além de ter muitas
paisagens bonitas e locais de lazer desvalorizados .
Em Simões Filho conheci vários movimentos artísticos em prol da afro-descendência.
Posso citar aqui o grupo de dança afro, organizado e liderado pela dançarina e MC Mel Girassol,
a Instituição Entidade Abayomi e a batalha de rima, que também é um espaço para artistas se
expressar, o Rima no Gatilho que acontecia na praça da bandeira em Simões filho e também na
pista de skate, no bairro Cia. Sendo em Simões Filho minhas primeiras inspirações para fazer
RAP e a partir daí, passei a rimar nos becos, vielas, praças e picos, desta cidade das águas
compridas55; com seus rios, bicas e cachoeiras, que não são valorizadas; mas que fortaleceu
mais a minha identidade, servindo como inspiração de diversas poesias e rimas feitas por mim
e por outras pessoas.
Lembro de um momento em que Dandara Cruz tinha conseguido junto com Kadu
Maverick, também militante, trazer uma emissora de TV da SBT (desses programas

55
O primeiro nome de Simões Filho foi Água Comprida, a qual a cidade está onde antes era maré.
44

sensacionalista que citei) que iria mostrar alguns pontos de Simões Filho que não era conhecido
mais fazia parte do lazer e da beleza oculta que Simões filho carrega. Dandara me convidou
junto com mais outras duas amigas, para apresentarmos o mar de Mapele para o povo. Neste
dia nos maquiamos e nos arrumamos e ainda fizemos um roteiro para ser apresentado, sendo
tudo alegre, divertido e muito informativo, também era a minha primeira vez em Mapele.
Estávamos felizes de vermos jornalista e cinegrafista em Simões Filho para mostrar a beleza e
um pouco da história dos/das simõesfilhenses, sem ser sobre marginalidade e violência. Porém
ficarmos esperando durante semanas o dia que esta reportagem iria para o ar e este dia nunca
chegou, simplesmente não passou nada sobre este assunto na TV, demonstrando mais uma vez
a ignorância e a incompreensão do espaço em que vivemos, onde não procuram nos visibilizar,
apenas excluir.
Simões Filho foi de extrema importância para meus aprendizados sobre a minha
ancestralidade. Houve vários momentos de inspiração para entender meus caminhos e os dos
meus próximos; e partir de Azinza também poeta e rapper, de Simões Filho, vim conhecer em
2018 a UNILAB (Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira) onde
na época ela estudava Humanidades, no campus que fica em São Francisco do Conde, que se
localiza na área metropolitana de Salvador, e assim me apresentando as propostas
revolucionárias da Unilab (falarei sobre o assunto no capítulo 3). No final de 2018 passo a
cursar Humanidades na Unilab e assim começo a frequentar o município São Francisco do
Conde, e mais um novo lugar na Bahia abre alas para mim.
Em São Francisco do Conde conheci mais sobre o mangue; sobre ancestralidade; sobre
independência e sobre a natureza, nessa região na época em que estudava Humanidades, vim
conhecer a história cultural daquele lugar, que precisa ser expressada e valorizada. Infelizmente
ainda não tive oportunidade de conhecer rapper de São Francisco do Conde, mas conheci
capoeiristas, sambistas e cantores; como por exemplo Dona Biu, importante sambista e yalorixá
do Recôncavo; porém ainda sinto falta de produções de mulheres, que não chegaram até mim
ainda e a partir de São Francisco do Conde, conheci Santo Amaro, município do recôncavo. Em
Santo Amaro, deu pra sentir a coisa ficando mais preta; pois lá encontrei grupos de capoeira,
teatro, dança afro, além de ser conhecida como cidade da macumba exatamente pela a forte
presença da religiosidade da nossa ancestralidade ali, como podemos ver no bembé56, que é

56
Conhecido como o Bembé do Mercado; “(...) acontece desde o final do século XIX quando um grupo de negros,
reuniram-se em praça pública para comemorar a Abolição da Escravatura em 13 de maio de 1888, no município
de Santo Amaro da Purificação. Também conhecido como Festa de Preto ou Candomblé da Liberdade. Desde
1889, o Bembé vem sendo realizado, com a participação de vários terreiros de candomblé da região, que durante
45

uma manifestação cultural religiosa da afro-descendência que acontece todo ano, iniciando na
data 13 de maio e seguindo mais dois dias, para comemorar a abolição da escravatura, todo ano
na Praça Pública. Tive imenso prazer e satisfação de conhecer e participar deste grande evento,
que foi muito marcante para mim.
Algo que ficou bem escurecido nas minhas caminhadas e reflexões e o que é nítido na
Bahia de todos os Santos: é a nossa afrodescendência, sendo este um dos Estados com maiores
proporções de populações negras e sendo Salvador considerada a cidade mais negra fora de
África; e sabemos muito bem o porquê - são espaços onde podemos encontrar danças, comidas,
roupas, penteados de cabelos, religiosidades. - São únicas e oriundas das misturas culturais de
África, que vieram sequestrados, enganadas e escravizados e hoje em dia somos esses corpos,
afrodescendentes, que vem sendo marginalizados, excluídos, ignorados, alienados e
assassinados diariamente por conta das questões raciais e de poder. Mas continuamos a resistir
da nossa maneira, com a nossa arte, com a capoeira, com o candomblé, com o samba, o funk, o
hip-hop, a poesia e com o nosso gingado; e essas são as nossas formas de se aquilombar.

três dias realizam uma grande cerimônia de candomblé em praça pública e tem seu ápice com a entrega de presente
à Mãe d’Água.”(Site do Governo)
46

4 CAPÍTULO 3: “AS MINA NO PIQUE, NÃO MEXE”

“Tome minha boca pra que que eu só fale


Aquilo que eu deveria dizer
A caneta, a folha, o lápis
Agora que eu comecei a escrever
Que eu nunca me cale
O jogo só vale quando todas as partes puderem jogar
Sou Frida, sou preta, essa é minha treta
Me deram um palco e eu vou cantar(...)”
(Não precisa ser Amélia - Bia Ferreira)

Este terceiro e último capítulo é o ponto principal desta monografia, no qual trago
importantes escrevivências apresentadas no RAP BA as quais me fez pensar esse tema e estas
questões que trago para serem vociferadas e discutidas; quando se fala em questões sociais,
psicológicas, humanas e artísticas sobre as mulheres negras periféricas, devem procurar
entender suas subjetividades, experiências sociais e compreender a importância das vozes
dessas mulheres nas relações sociais e psíquicas, mas que não são escutadas e nem recebem
seus méritos, sendo pelo contrário invisibilizadas, rejeitadas e silenciadas.
Escrevivências como as de Felina; India Om; Niambi Azinza; Laela; Suja Dfato;
Bruninha Mc; Dandara Cruz; Udi; Vênus Lenda e entre outras são de extrema importância para
serem debatidas e pensada na sociedade em que vivemos, pois é a forma pura de expressão,
sentimentos, sabedoria, pensamentos e sugestões que nos faz abrir os olhos para a realidade e a
partir daí nasce a vontade de montar uma agenda para se desatar este nó social em que nos
puseram. Sendo esses nomes de algumas das artistas que atuam no RAP em Salvador e na
regiões metropolitanas; são essas minas que me inspira e que faz o movimento do RAP baiano
contemporâneo acontecer; infelizmente não consegui trazer todas as rappers que desejava, no
entanto as que trago conseguem dá um panorama geral da mensagem que pretendemos passar.
Elaborei algumas perguntas sobre o RAP para elas para que eu pudesse me familiarizar e para
compartilhar suas experiências e escrevivências com entendimento da caminhada de cada uma57
sendo um total de 10 rappers, mcs e freestyleras, todas de regiões periféricas de Salvador e dos
Municípios: Simões Filho e Lauro de Freitas.
Antes de apresentar as escrevivências das manas, gostaria de explicar o porquê da frase
que dá nome a este terceiro capítulo; “As mina no pique não mexe” é uma frase que compõem

57
Por conta desta época pandêmica, não pode ter sido como eu planejava, que seria está de corpo presente com
elas, porém a maioria das rappers citadas tem algum trabalho lançado, que fortaleceu as escrevivências que será
encontrado nas linhas seguintes, em qual consigo captar a mensagem e trazer para a nossa compreensão da maneira
mais escurecida possível.
47

o refrão de uma letra de RAP que escrevi na época em que a ideia deste TCC era fortalecida.
Sendo que para mim, esta frase em especial destaca o que quero trazer nesta monografia,
mostrar que a partir da união e da nossa mobilização possamos finalmente ter vozes nessa
sociedade, que é estruturada de uma forma racista, preconceituosa, machista e patriarcal;
deixando aqui um trechinho da letra:

As mina no pique / não mexe


tô falando de Salcity moleques
Mexeu em uma todas sente não teste / Não teste (Refrão)
Nós não para / Tô falando de pretas brabas
Descendentes de Aqualtune,
Mahin / Dandara / (...)
Somos talento / Peles brilhados
Exposta ao sol / É sobre carbono
Sobre a verdade maior
Ancestralidade nunca deixa só (...)
(As mina no pique - Manduê; 2019)

Dando continuidade sobre ancestralidade, vamos iniciar com uma potente escrita da
simõesfhilhesse, poeta afrocentrada, ativista do movimento negro, pscicologa e Mc Dandara
Cruz que traz fortemente a raiz ancestrais nas suas escrevivências e falas, buscando resgatar a
autoestima do povo preto agregando a luta pela igualdade racial e de gênero e desta forma trago
o trecho da cypher58 “Vai segurando” a qual ela participa com outros rappers da cena de Simões
filho:

Aquilombando o nosso povo / Contra o perigo eminente


Uma candace do gueto / Guerreira Daomense59
Preta e periférica na linha de frente
Através das poesias quebrando as correntes
Quem cede a vez não que vitória / Meu tempo é agora
Já dizia Marcus Garvey60: “ De pé, raça poderosa!”
Vai segurando sente o peso desses versos afrocentrado
Vitória não é ter droga, vagabunda ou um carro
Resistir é lema seja um revolucionário
Tipo o Thomas Sankara61 em Burkina Faso62

58
A cypher no RAP tem como objetivo reunir MCs e rappers, sendo eles de grupos ou artistas solos, para rimas
inéditas e com uma conexão de palavras mais complexas.
59
O Reino de Daomé, na costa oeste da África, onde hoje é Benim, foi um império de importante potência regional,
uma economia articulada, com um exército forte e sábio, formado pelo povo fanon, além da ciência já está sendo
vivida nesse reino, tinha um forte exército composto por mulheres, porém não é contada para nós.
60
Marcus Mosiah Garvey foi um ativista político, editor, jornalista, empresário e comunicador jamaicano. Foi
fundador e primeiro presidente da Associação Universal para o Progresso Negro e Liga das Comunidades
Africanas, organização através da qual se autoproclamou "presidente provisório da África".
61
Thomas Isidore Noël Sankara foi um militar, revolucionário marxista, pan-africanista e líder político de Burkina
Faso.
62
Burquina Fasso, Burkina Faso ou simplesmente Burquina,é um país africano limitado a oeste e a norte pelo
Mali, a leste pelo Níger, e a sul pelo Benim, pelo Togo, por Gana e pela Costa do Marfim; foi composto
principalmente pelos Reinos Mossis. Anteriormente conhecido como República do Alto Volta, o país abandona a
48

O inimigo declarado está a serviço do estado


Efetuou 80 disparos no corpo de um favelado63
Racista reversa, na rima nós tomba Ideologia é preta e feminismo de sinhá não
conta
Porque o combate dos reaças é com bala, fogo e bomba
Tática verbal é o esquema de ataque,
pra os racistas covardes é HGE, IML, ou jardim da saudade.
(Vai Segurando - Dandara Cruz)

Como a própria letra já diz “aquilombando nosso povo contra o perigo eminente”
Dandara Cruz, nos traz perspectiva de Sankofa 64 ou seja nos faz lembrar de onde viemos e quem
somos nos politizando e provocando mudanças nos nossos pensamentos e atitudes, como por
exemplo as críticas ao que a sociedade capitalista induz a ser visto como sucesso nas periferias
da cidade: “Vitória não é ter droga, vagabunda ou um carro”; cita dois revolucionários
importantes no movimento de emancipação do povo preto: o Marcus Garvey e Thomas Sankara.
Trazendo versos afrocentrados, faz uma crítica poderosíssima ao policiamento da segurança da
cidade: “O inimigo declarado está a serviço do estado efetuou 80 disparos no corpo de um
favelado”, ou seja policiamento social dá “cara ao crime” - cor, identidade e CEP - nos
marginalizando e inferiorizado e ainda dizem que existe racismo reverso65, sendo algo
impossível, pois quando nos valorizamos, conhecemos a nossa história e o que se predomina
nas nossas vivências, o que dizemos e fazemos não é um ataque, é uma defesa, passamos a
valorizar a nossa essência, desta forma conseguindo enxergar onde está base racial (ou seja
estando em tudo).
Trago agora a rapper soteropolitana, moradora da Cidade baixa/ SA, Poeta e rapper
Índia Om, de 23 anos; sendo uma pessoa apaixonada por música e desde muito nova demonstra

denominação herdada do período colonial — Alto Volta — passando a se chamar Burquina Fasso, em 4 de agosto
de 1984, pelo então chefe de Estado, Thomas Sankara, que criou o novo nome a partir das palavras Burkina
('homens íntegros', em more) e Faso ('terra natal' em diula), o que resulta em "terra das pessoas íntegras".
(Wikipedia.com).
63
“ O inimigo declarado está a serviço do estado efetuou 80 disparos no corpo de um favelado” Essa frase se refere
o ataque da polícia militar enquanto fazia patrulha, onde dispara 80 tiros no carro de uma família negra ‘por
engano’ na estrada de Camboatá, no bairro de Guadalupe no Rio de Janeiro, dia 7 de abril, enquanto a família ia
para um chá de bebê com cinco pessoas no veículo, tendo duas pessoas assassinadas e uma ferida, a primeira o
músico, segurança e pai de família Evaldo dos Santos, e o catador de materiais recicláveis Luciano Macedo que
estava passando e tentou ajudar acabou sendo baleado e depois de 11 dias internado por conta dos ferimentos veio
a órbita e quem ficou ferido fisicamente foi o sogro de Evaldo, Sérgio Gonçalves.
64
Sankofa origina-se de um provérbio tradicional entre os povos de língua Akan da África Ocidental, em Gana,
Togo e Costa do Marfim e geralmente é simbolizada por um pássaro com a cabeça voltada para trás, o que
representa o retorno ao passado para ressignificar o presente e construir o futuro.
65
Racismo reverso é um conceito usado para descrever quando atos de discriminação e preconceito de grupos
raciais e étnico que são historicamente excluidos e maginalizados contra grupos que são dominantes ou maioria;
porém este conceito não tem coerencia já que o racismo é uma construção social, que se baseia nas estruturais
socias que previlegiam um grupo social de acordo com suas diferenças biologicas, em quanto os que não se
encaixam são jogados na margem, logo se tornando submisso e inferiores, assim não tendo poder de ação contra
um grupo visto enquanro superior na sociedade.
49

seu engajamento em relação a cantar; tendo a contracultura a sua inspiração como vemos nos
seus estilos musicais preferidos o Rock e Indie; junto com amigos da escola, vem criar sua
primeira banda de garagem, chamada “turistas em passagem por Plutão”; com 15 anos veio
compor sua primeira letra oficialmente. Quando India encontra o RAP, ela percebe que pode
trazer a poesia junto com o Ritmo e assim expressar sua realidade na rima e a partir disso passa
a fazer RAP; onde conhece um grupo de mulheres de Salvador, o BrotaXota, assim fortalecendo
suas experiências de palco e hoje em dia seguir em carreira solo de forma independente, mesmo
com muitas dificuldades, tirando do seus salário para gravar seus sons (que é não é barato);
assim irei apresentar aqui sua primeira letra solo de RAP “Ensaio sobre a Vitória” lançado no
youtube no dia 24 de janeiro de 2021 :

Mano, eu tô por um fio / Eu não tenho sangue frio


Põe meu coração num quente frio / Tento me esconder de quem me viu
Antes que eu queime vil / Igual vinil
Vivo do empreendedorismo / Trabalhar pra alguém é prejuízo
Eu já enfrentei juiz / Eles me disseram que eu perdi o juízo
Tô pensando em fazer um disco / Não pra fazer hiit
Mas pra fazer um rito / No afã de me tornar poesia em ritmo
Que se dane o algoritmo / Tenho tara em correr risco
Sugador da lista eu risco/ Não é só sobre ficar rica
Faço porque gosto disso / E também porque eu preciso (...)
Quase sempre eu perco a hora / Ora, ora eu entendi a história
Por isso eu odiava a escola / Sempre fui parte da escória
No meu infinito particular / Tentando entender minhas partículas /
Me protegendo numa película/ Um tanto quanto peculiar
Muito eu tenho pra falar / Pouco eu tenho pra gastar
Por enquanto / No entanto / Tenho planos
Passe livre / Pra ser livre / Sem limites
Todo dia crio / Em meio ao vazio a realidade que eu vejo
Facilmente vejo tudo o que anseio
Os meus olhos são o meu espelho (...)
(Ensaios sobre a Vitória - India Om; 2021)

A Índia Om nesta letra de rapper com uma forma poética, metafórica e um flow
diferenciado, nos apresenta a sua história de labuta e de corre, na qual ela nos conta seus planos,
suas crenças e sentimentos, além de seu amor pela música, a qual nos revela querer fazer um
rito nesta frase: “Tô pensando em fazer um disco / Não pra fazer hiit / Mas pra fazer um rito”;
faz críticas importantes ao capitalismo, que ao invés de se ter um salário de acordo com a mão
de obra da proletária, na verdade só dá prejuízo e uma divisão injusta para a trabalhadora, “Vivo
do empreendedorismo/ Trabalhar pra alguém é prejuízo” dessa forma ela traz uma outra
maneira de inserção que é o empreendedorismo, a qual é a realidade de muitos dos nossos,
como a moça da feira e o tiozinho da barraca ou o baleiro no busão, no seu caso a ideia da arte
50

enquanto fonte de renda; ela diz está trabalhando para se tornar poesia em ritmo, pois eu digo,
que ela já é poesia e ritmo, se ela é o RAP.
Uma importante preciosidade de Lauro de Freitas66, município de Salvador é a pequena
sabiá Bruna Eduarda mais conhecida como Bruninha Mc, com 12 anos, compositora, rapper,
poeta e mc de batalha sendo iniciada as carreira aos 7 anos com incentivo da sua mãe Jessica
Arcanjo que também ajuda a compor; ela nos traz sua experiência de ser criança nesta
sociedade, mostrando o quanto é criativo aprender com o RAP; tão nova, mas tão esperta, sábia
e inteligente nos orienta com a seguinte escrevivência, chamada RAP BA:

Eu não devo ouvir rap / Não é música pra minha idade


É preciso ser adulto pra escutar a realidade?
Nada de música infantil quando chega a minha vez
Prefiro ouvir um rap pesado, tipo ctc33
Então aumenta o som e coloca um protesto severo
Felzem MC cantando "Não está certo" (...)
Salvador tá escaldada / É um, é dois, é todo dia
Mas ouvindo "Nova Era" recarrego minha energia
Bruna MC cheia de referência, chefe
8 anos já escuta "Harperize" e "City Black"
E o RAP invade da criança ao idoso(...)
RAP BA da CBX / Não é música de festa
Você precisa ouvir "Nós por Nós", "A Peça"(...)
Quadra Sul guerreando na front de batalha
Em meio a tanta coisa quero ser maior que o mundo
Aprendi com Tio Rafael "Fazer do seu limite cada segundo"
Igual "Dark MC" quero ir pro RAP Box
Fazer o Brasil ver que na Bahia tem HIP HOP
Nunca vou desistir / Nem na hora do recreio
Se hoje estiver ruim, amanhã é outro dia, cêro
De Lauro City, família "DV REC", muito Amor a "Zidane e Nailton Trap"
Na Bahia tem RAP / Pode conferir
Até curto RAP de fora / Mas amo o RAP daqui(..)
Vocês vão ver uma criança rimar / Bruna MC veio representar
(RAP BA - Bruna Mc; Salvador, Lauro de freitas)

Dando uma aula de referências do RAP BA, com o beat de L.A, Bruninha Mc demonstra
que o RAP também é uma forma de conscientizar as crianças, além de fazer um apelo sobre o
RAP da Bahia que não é escutando como outros tipos de estilos músicas, sendo que os RAPs
que nos representa é sempre cheios de relatos da realidade de um periférico e uma periférica,
quebrando preconceitos e trazendo fatos históricos, mas que não é visto na mídia, porém
infelizmente na letra de Bruninha também podemos perceber a falta de referências de mulheres,
por sabemos que a invisibilidade midiática acontece, as mulheres muitas vezes não se sente
familiarizada no espaço de divulgação ou não teve oportunidade de exclamar sua rima, porém

66
Lauro de Freitas é um município da Região Metropolitana de Salvador, no Litoral Norte do estado da Bahia.
51

não quer dizer que não tenha mulheres no RAP e atualmente está tendo mais avanço nas
aparições e incentivos, como podemos ver nesta monografia.
Elana Christini , mais conhecida nas ruas como Laela, é Mc de batalha, rapper, poeta e
Multiartista; sendo uma letrista de um flow diferenciado (uma das primeiras coisas que me
chamou atenção quando conheci seu som). Foi integrante do Coletivo Vira-Lata, a qual
compõe uma frase que trago dando início a introdução, frase esta que me baseio para dá vida a
esta monografia, em que me faz entender que é preciso botar as caras e fazer dá certo, sendo
escutada e sentida enquanto Ritmo e Poesia; porém sabendo que só vai dá certo também se uma
for pela outra, pós unidas somos mais fortes. Trago agora a primeira letra solo dela lançada, em
qual consigamos captar suas vivências e realidades :

Amor ficar comigo / Nós somos um só


enquanto ouvimos o som dos tiros (...)
Quando a maldade te abraçar deixa Deus conversar contigo
Amor larga esse cano / vem aqui me abraçar
me faz esquecer o mundano / me faz esquecer de chorar
amor larga essa vida / tenho vontade de gritar
só em pensar que sua mãe também irá chorar
tento deixar esses pensamentos para lá
só quero te amar / a bica não é seu lugar
ao meu lado é seu lugar / vem aqui me abraçar
amor deixa eu te amar / por favor vem cá
me dá essa massa / deixa eu maloca
as pfem67 não tão na caça / e de boa a gente tá (...)
a rondesp68 está nas áreas / você não pode rodar (...)
(Laela, 2019)

Quando se escuta essa letra, se adentra em vivências particulares, porém muito comum,
nas vivências de mulheres periféricas de Salvador; quem nunca na periferia soube de alguém
próximo, no bairro ou na vida que já entrou para a criminalidade ?! nossos irmãos, primos, tios,
filhos, amigos e companheiros periféricos, muitas vezes (ou sempre) estão propício à se
envolver com a criminalidade, afinal a um certo tempo não tão distante era um exemplo de
mudanças financeiras e prosperidades ostentativa para muitos jovens (muitas vezes criança
ainda) por ver que muitos que estão na criminalidade tem um certo respeito e ganhos
financeiros; porém adentrando mais a fundo percebe-se que é uma vida de ilusão e laranjada69
E quem faz esses sujeitos se conscientizar e entender que isso é massa de manobra são muitas
vezes: as mães, os filhos e as filhas, as perdas e as suas companheiras; como vemos nesta

67
Pfem é a abreviação de Policial feminina.
68
A Rondesp é uma operação do serviço dos PMs ( Polícia Militar), conhecido como rondas especiais, onde
fiscaliza e supervisiona todos os serviços operacionais da sociedade, em períodos noturnos e diurnos.
69
Laranjada é uma gíria baiana que quer dizer enroscada, algo errado ou um vacilo.
52

narrativa que mostra a vivência de uma mulher periférica que vive na periferia com seu
companheiro.
No entanto é uma narrativa que nos apresenta várias perspectivas de olhares, como por
exemplo o fator social de que faz esse sujeito está onde está, na frase “Nós somos um só
enquanto ouvimos o som dos tiros” em que espaço é esse que te faz viver com medo, em alerta
?! ou o medo dela pela polícia, que deveria ser aquela que protege, é na verdade aqui oprime e
discrimina; lembrando que segundo os dados das Atlas de violência no Brasil em 2021 a chance
de uma pessoa negra ser assassinada é 2,6 vezes superior àquela de uma pessoa não negra. A
taxa de homicídios por 100 mil habitantes negros no Brasil em 2019 foi de 29,2, enquanto a da
soma dos amarelos, brancos e indígenas foi de 11,2.70Uma letra de narrativa densa e rica para
a nossa compreensão de muitas realidades periféricas.
Iremos falar agora de Udi Santos, um nome conhecido no RAP BA contemporâneo,
moradora do Subúrbio Ferroviário, no bairro de Tubarão; empreendedora; Mc; rapper; poeta,
veterinária, compositora e produtora, costuma dizer que “pode ser tudo que um dia sonhar ser”;
também conhecida por fazer parte do coletivo Visioonárias, em qual dividia o palco com Brenda
Élem71 também Mc e rapper da Cidade Baixa; coletivo esse que se inicia em 2017 e no início
de 2020 comunica pelas redes sociais o fim do coletivo, porém continuam na arte e na música
cada uma da sua maneira e agora trago as escrevivivencias de Udi que traz na caminhada
diversos projetos de grandes importâncias para o psicológico e auto-estima do Ser; como por
exemplo a música “ficar bem” que faz parte de um projeto idealizado na quarentena:

Hoje não tô bem / Mesmo assim eu abro os olhos e digo amém (sim)
A você eu peço amiga pra enxergar além (que) / No fim tudo se ajeita eu te garanto
vou tá bem. / As pessoas não percebem quando cê tá precisando
Mas logo perguntam o por que de estar chorando / Até parece que vai resolver falar
Se realmente importasse não as deixaria rolar
Não me pergunte, tudo bem?(..) / Eu sei eu vou incomodar
As pessoas que perguntam / Já esperam o que virá
Um simples eu tô bem / E você, como está?
Mas se digo a verdade cê não ia suportar / Cê não ia suportar não
Não tô nada bem acordei desesperada mesmo sem saber quem sou
A cabeça tá a mil / Coração desesperou / A garganta dá um nó
Não consigo nem falar / Não sei pra que a pergunta / Se não tem como ajudar
Me desculpe ser sincera / Mas hoje quero falar / Só pergunte como estou / Se souber
como lidar
Hoje não eu não tô bem / Mesmo assim eu abro os olhos e digo amém (sim)
A você eu peço amiga pra enxergar além (que) / No fim tudo se ajeita eu te garanto
vou tá bem (...)
(Vou ficar bem - Udi)

70
Matéria sobre esses dados no site g1.globo.com.
71
Infelizmente não consegui entrar em contato com Brenda Élem, que também é uma multi-artista.
53

Esta é escrevivência nasce no momento em que o pai de Udi falece, e ela passa por
momentos de crise, passando assim a escrever mais sobre sentimentos que não consegue pôr
pra fora, e assim usar a escrita para se expressar e também entende que sua letra pode salvar e
acalenta corações e segundo a mesma, esta música ajudou muito ela e entre outras pessoas que
também passaram ou passa por coisas similares; assim nasce o projeto “Vou ficar bem” no qual
ela lança três podcast sobre a sua história e sua perda, o primeiro relato é sobre o momento que
desencadeou traumas: o falecimento do pai; já no segundo iremos escutar relatos de pessoas
que têm histórias fortes, comoventes e que traz possibilidades de continuar e no terceiro e último
podcast ela fala sobre o setembro amarelo, que é o mês se tem a campanha de prevenção ao
suicidio, porém acontece essa prevenção o ano inteiro72traz também relatos das pessoas que
escutaram essa música e para finalizar ela traz o clipe; e assim ela encontra no rapper e na
música um acalanto e forma de se expressar e ainda levar a mensagem para outras pessoas.
Temos na cena do RAP Ba também Mc Felina, Multi-artista, do interior da Bahia da
Cidade Araci; também com a família a procura de melhores condições de vida já residiu na
Cidade de São Paulo, sendo nesse espaço que veio conhecer o RAP e ainda na adolescência
vem pra Salvador de forma fixa e passa a batalhar nas rodas de rima; Sendo uma importante
referência de freestaleira na city, diz que o RAP na vida dela “tem sido uma ferramenta para
abordar as problemáticas de nossa sociedade doente” onde ela utilizo “muito do ritmo e poesia
para trazer esse protesto de uma maneira lúdica e divertida”. Infelizmente não tive tempo para
trazer alguma escrevivência dela, porém sei que existem muitas, no qual tive o prazer de estar
presente participando, como por exemplo nos freestyles que sempre tem quando estamos juntas.
A mesma coisa falo de Niambi Azinza, mulher trans moradora de Simões Filho, com
25 anos, Mc de batalha, rapper, freestaleira e poeta que encontrou nas rimas uma forma para
expressar suas frustrações perante a sociedade e seus sentimentos - derramando seus anseios;
seus desejos; suas conquistas e alegrias nas suas escrevivências - sendo uma caminha segundo
ela cansativa e difícil porém a faz olhar a vida em uma outra perspectiva, e consegue entender
que a comunicação abri caminhas, como por exemplo conhecer outras mulheres potentes e de
vivências similares que se unem na caminhada, como por exemplo ela vem fazer RAP após
conhecer o Coletivo Vira-Lata, que inspirou e inspira muitas minas na cena do RAP BA.
Teremos também na cena do Trap BA a Mc de batalha, rapper, freestaleira e modelo,
Emile Argolo, mais conhecida artisticamente como Vênus Lenda, moradora da Liberdade/SA,
começando como Mc de batalha na sua primeira competição que acontece por acaso, faz ela

72
O número de emergência para o Centro de Valorização da Vida é 188.
54

chega na semifinal, no ano de 2016 em qual ela nunca tinha rimado e depois daí não parou mais,
mesmo havendo uma não aceitação pela mãe, Dona Iraci Cosma, que por conta das opiniões de
terceiros não achava um ambiente saudável para a filha, pela a associação do RAP a
criminalidade e uso de drogas, porém com o tempo e a insistência da filha em frequentar e
rimar, ganhando muitas batalhas e viajando para competir em outros lugares da Bahia, e sendo
ela a acompanhar as filhas nessas viagens, viu que era um movimento artístico que não era
como as pessoas pensavam, além de ver talento e sucesso na filha; sendo hoje em dia é a maior
incentivadora do sonho da Mc Vênus Lenda. Deixarei aqui um relato da Mc sobre o movimento
do Hip-Hop e das batalhas de rima, em relação às discriminações que acontece baseadas em
conceitos precipitados e que ignoram nossa realidade, onde ela fala na sua entrevista ao Podcast
Bahia Cast no Youtube:

O Hip-Hop é literalmente uma família e na família tem tudo ! Quando o Hip-Hop


chegou no auge no Brasil, começaram falando e denunciando sobre a criminalidade,
porém a sociedade dá a entender que o Hip-Hop era criminalidade (...) escutavam
Sabotage falando das guerras que aconteciam no brooklin bairro no de São Paulo;
sobre mães perdendo seus filhos; sobre homens que se envolviam (..) O Hip-Hop é a
forma de falar para o mundo “Nós estamos aqui, parem de nos matar !” E nas batalhas
de Mcs não é diferente(...) é o meio onde temos liberdade, uma liberdade que muitas
vezes não temos em casa(...) (Mc Vênus Lenda - no Podcast Bahia Cast)

Tem vários outros nomes de mulheres que representa a cena do RAP BA, como por
exemplo Cronista do Morro de Salvador, trazendo escrevivências fortes e marcantes,
demonstrando a realidade nas periferias e favelas de Salvador, lutando pela liberdade e
sobrevivência, sendo este lema exposto nas suas letras; infelizmente não consegui entrevistá-la
para poder acrescentar mais sobre suas sobrevivências, porém no seu canal do Youtube
podemos encontrar algumas das suas letras como : “Terra daLeste", “Salbithc” e duas letras
com Nêssa cantora e compositora também de Salvador: “No Repeat” e “Na maldade”.
Temos várias minas na cena do RAP BA atualmente que gostaria de apresentar; como
a Mc, poeta e rapper, Íris Thuca de Simões Filho, que traz nas suas escrevências suas revoltas
em relação a falta de respeito às mulheres. Temos a cantora, rapper e compositora Mary que
fortalece a cena com suas melodias e escrevivências, de forma dançante e criativa. Também a
poeta do Subúrbio ferroviário Marina Lima que se descobre rapper nas suas escrevivências, em
que recita de forma melódica e dinâmica suas críticas sociais. Teremos a Má Reputação, uma
das organizadoras do Islam das Minas; Mc, poeta e produtora; temos também Maktub cearense,
poeta e se descobre Mc de batalha em Salvador/ Ba a partir das Batalhas das Bruxas e outra
mc, rapper e tatuadora que nos fortalece nas escrevivências é Môa que tem um EP lançado em
55

2021 “Ave de Rapina” com 4 músicas (“Sorte e Azar”; “Liberdade”; “Salmo 27” e “Ave de
Rapina”) projeto com o beatmaker Borlota e uma das letras tem a participação da poeta, rapper
e Mc Amanda Rosa.
O que também não podemos esquecer de citar são as Djs que ao tempo atrás era bem
difícil encontrar nas periferias de Salvador; porém hoje em dia já temos alguns nomes que vem
ocupando esses espaços; como a Dj Belle que é a Dj oficial do Slam das Minas; Temos também
a Dj Tia Carol oficial da Batekoo73 e faz parte do coletivo de Afrobapho de Salvador e a Dj
Deméter Gramacho das Batalhas das Bruxas e entre outras; porém ainda encontramos uma falta
de DJs mulheres periféricas e negras na cena.
Muitas outras mulheres utilizam o RAP para acalentar e salvar vidas, como diz Treci e
Tasha74 nas suas escrevivências “Oh nós escrevia um RAP ou nós virava mulher bomba” e o
que pretendo com está monografia é fazer com que as nossas escrevivências chega até as nossas
periferias e bairro, para que todas as jovens, crianças, mulheres, senhoras e senhores,
individuais e sujeitos captem a mensagem que queremos levar para o mundo e a partir disso se
conscientizem perante a sociedade de uma forma ritmada e poética.

4.1 RAP E O FEMINISMO NEGRO

Primeiramente o que precisa ser dito é que o RAP não tem gênero e aqui e em qualquer
lugar será Ritmo (gingado, movimento simétrico) e Poesia (discurso poético) no qual faz o seu
legado a partir das inquietações, revoltas e sentimentos empíricos vivido por
periféricos/periféricas; incompreendidos/incompreendidas e marginalizados/marginalizadas;
ou seja não existe RAP feminino, como muitos se referem a uma rapper ou eventos de RAP
organizados por mulheres; sendo este lema que a Mc Vênus Lenda traz consigo com suas
experiências de batalha. Existem sim pautas sobre a desigualdade, o sexismo, o machismo,
feminicídio, o patriarcalismo e todo esses “ismos” que matam e desvaloriza a energia feminina
na terra; assim desvalorizando a mãe, a avó, a tia, a irmã, a sobrinha, a filha, a neta, em resumo

73
Batekoo não é apenas uma balada, é um movimento periférico, afrofuturista e LGBTQIA, no qual o respeito
pelo ser humano em suas mais variadas distinções é pregado; sendo um lugar para se divertir, dançar, mexer a
raba e ser feliz,onde a existência de ninguém é ameaçada ou atacada, e sim celebrada. Existe este evento em
Salvador/Ba, São Paulo e no Rio de Janeiro.
74
As gêmeas Tasha e Treci Okereke, com 23 anos, da Zona Norte em São Paulo, são rappers, poetas e mcs e juntas
começaram a criar looks estilosos com peças de brechó e passaram a ser conhecidas a partir daí começa a fazer
RAP para expressar suas revoltas sociais, em questão do machismo e racismo. A frase citada é do projeto
"Cachorras Kamikaze” que ela faz com Ashira, também Mc e rapper.
56

o Ser feminino; sendo o pior de tudo a própria mente oprimida, a qual crescemos sendo
condicionadas a acreditar que somos inferiores.
Agora imagine onde põem a mulher negra socialmente? Pois quando se fala de
movimento feminista, iremos pensar nas pautas de emancipação das mulheres brancas, com os
seus dilemas e limitações, pois na teoria diz ser um movimento que procura a equidade de
direitos entre todes, porém quem fala sobre as dores e opressões das mulheres pretas ? se elas
não estão nesses espaços e nem tem tempo para estar ? Como por exemplo os dados da IBGE
informa que “embora as mulheres avancem nos estudos mais que os homens, o recorte racial
mostra que ainda há uma profunda desigualdade entre brancas e negras”, como podemos ver
nesses dados coletados em 2018: “o percentual de mulheres brancas com ensino superior
completo (23,5%) é 2,3 vezes maior do que o de mulheres pretas ou pardas (10,4%) e é mais
do que o triplo daquele encontrado para os homens pretos ou pardos (7%).” (IBGE,2018)
O feminismo luta contra a opressão, porém contra a opressão das mulheres brancas;
quando elas estavam pedindo emancipação política e trabalhistas, as mulheres pretas não
tinham ninguém por elas, estando nas cozinhas dessas mesmas mulheres; na lavouras; nos
canaviais; no mangue sendo maltratadas e castigadas desde a construção dessa história colonial
em que vivemos; como podemos ver nas escrevivências da rapper mineira Bia Ferreira, “Dentro
do apê” as suas inquietações e revoltas sobre esta pauta é de extrema importância para este
tema:

De dentro do apê
Ar condicionado, macbook, você vai dizer
Que é de esquerda, feminista, defende as mulher
Posta lá que é vadia, que pode chamar de puta
Sua fala nem condiz com a sua conduta
Vai pro rolê com o carro que ganhou do pai
Pra você vê, não sabe o que é trabalho
E quer ir lá dizer
Que entende sobre a luta de classe
Eu só sugiro que cê se abaixe
Porque meu é tiro certo e vai chegar direto na sua hipocrisia
O papo é reto, eu vou te perguntar
Cê me responde se cê aguentar, guria
Quantas vezes você correu atrás de um busão
Pra não perder a entrevista?
Chegar lá e ouviu um
"Não insista,
A vaga já foi preenchida, viu
É que você não se encaixa no nosso perfil(...)
( Bia Ferreira; Dentro desse apê, 2019)

Por isso trago a perspectiva do Feminismo Negro, conceito utilizado para se referi as
mulheres negras que ao mesmo tempo que lutam contra o sistema partrical e sexista, também
57

luta contra o problemas raciais e de classe; sendo a percusora deste conceito, a abolucionista,
escritora e ativista dos direitos humanos e das mulheres Sojourner Truth e em 1851, participou
da Convenção dos Direitos da Mulher, na cidade de Akron, em Ohio, nos EUA, e lá apresentou
um discurso de improvisso que se tornou o mais conhecido e denominado “E eu não sou uma
mulher?” e teremos várias intelectuais negras que se denominavam feministas negras; que são
elas : bell hooks; Audre Lorde; Chimamanda Ngozi; e também o astro do Pop a Beyoncé;
também no Brasil teremos Djamila Ribeiro; Lélia Gonzalez; Beatriz Nascimento; Sueli
Carneiro; Luiza Barros e entre outras que só tem a acrescentar na nossa história e na nossa luta.
Nós mcs, frestaleiras, rappers e poetas, lutamos exatamente por essas causas. Como
podemos ver nas escrevivências do Coletivo Vira-Lata que foi iniciado em 2016 exatamente
por conta dessas pautas, no qual um grupo de mulheres através das redes sociais se unem para
alavancar a presença das mulheres periféricas, pretas e trans, que precisam ser visibilizadas e
aplaudidas por esta arte que manipulamos enquanto forma de expressão; várias MCs, rappers,
grafiteiras, DJs, poetas, beatmakers que se juntaram para inspirar as meninas na cena do RAP
BA e criar um espaço para se expressarem, no qual idealizaram e realizaram a primeira roda de
batalha de mulheres a Batalha da Bruxas.
Porém com o tempo prevaleceram apenas 5 integrantes que eram: Victória Campos
Poeta e Mc, mais conhecida como DelaRua75e que faz parte da primeira formação; Pollyanna
Menezes também da primeira formação, artisticamente é Suja Dfato Mc, Poeta e rapper;
teremos também a assessora e poeta Beatriz Almeida e a Dj Deméter Gramacho (que sempre
foi a Dj) e Laela que já conhecemos e foi a idealizadora do Coletivo; assim sendo elas a levarem
o nome do Coletivo Vira-Lata em várias apresentações em diversos lugares de Salvador, entre
2016 até 2018 - participando de eventos comunitários; nas praças; universidades e em cidades
fora de Salvador.
DelaRua explica as motivações do movimento para o Slam da Minas: “Viemos para
tomar um espaço que é nosso por direito na cena, porque não é só homem, mulher tem muita
ideia pra dar…” e Laela continua explicando sobre a Batalha da Bruxas: “Trabalhamos para
que a cada edição o evento atinja mais o nosso objetivo, corpos sexualizados, marginalizados
e excluídos produzindo ritmo e poesia,” Trago então uma das músicas desse bonde, que se
tornou o hino do Coletivo Vira-Lata; que nasce das escrevivências das minas, a faixa bruxas
lendárias :

75
Delarua infelizmente não se encontra mais no Ayẽ( terra) foi assassinada em 2020 por motivos desconhecidos,
porém deixou muitas boas lembranças, muitas escrevivências e com certeza incentivou diretamente e
indiretamente as minas no RAP BA.
58

Aos MC's misóginos / Desejo a morte


Envenenados pelo próprio ódio / Enforcados pelo próprio hype
Juro que não entendo como eles estão no pódio?!
Mulheres fora da mídia produzem muito mais Arte !(Refrão)
(...) Fui apresentada cedo à maldade / Ela se disse inofensiva / Mas se demonstrou
na realidade corrosiva e desmascarada / A face dela era um homem atrás de mim de
madrugada / Eu seguro com força a minha faca / Aperto o passo até em casa
Consideram a vagina
inapropriada /A ponto de só por possuirmos uma / Termos a liberdade renegada / A
voz silenciada e a vida ceifada / Eu peguei a maçã e fugi! / Fiz Adão de otário! / Por
isso fui caçada / E na inquisição fui queimada / Mas pega nada / Renasci como uma
fênix no Coletivo Vira Lata / E a cena foi tomada / Cada mina empoderada
É uma horcrux das Bruxas Lendárias - (Laela)
Irmã, eu não quero disputa / Brigamos entre nós e ele? Ainda diz: puta! / E a fúria
não é porque a palavra insulta / E sim porque vocês devem respeito a nossa luta! /
"Tá bom, mas não se irrite! / todo Mc assim / Vai ficar sem ouvir?! sim, vou! /
Não compartilho som escroto e nem escuto MC ruim, pô! / Preciso me impor e por
isso não me calo (...) Eu tô cansada dessas falcatrua / Não engula a chacina do
Cabula76! / Foram 12 de uma vez / E mais de 12 morrem todo mês!!/ Minha roupa
curta não te dá espaço para intimidade / Não quer dizer não! / E sim quer dizer
sim.../E se for não / Tire suas mãos de mim / Que eu sou dona do meu nariz / Traço
meu caminho/E se esquecer disso Lembre que cobrança / É no feminino (...) (
SujaDfato)
Eu não preciso de sua ajuda! / Mulher já vem de uma labuta / Não aceito sua
desculpa fajuta / Pode até me chamar de bruta / Mas eu sei minha luta!/ E quando o
trabalho é pesado a mão faz calo! / Mas nem que caleje a vontade de me derrubar /
não irei me calar! / (...) Ocupando e Resistindo! / Enquanto vocês desacreditam e
continuam dormindo!? / Nós estamos escoltando os opressores / Até que eles se
tornem disciplinados
E respeitar nosso espaço / E não falar mais merda na roda de free! / Porque enquanto
tiver homem machista lá? / Vai ter mulher cheia de ódio aki/cheia de ódio/nós tá
cheia de ódio / Nós tá cheia de ódio /Não entende / como eles estão no pódio ?! /
Nós tá cheia de ódio..../ Aos Mcs misóginos, desejo a morte ( Delarua)
(Coletivo Vira-Lata; Bruxas lendárias 2018)

76
O atentado policial a 12 jovens periféricos, onde nenhum sobreviveu, ficou conhecido como “A chacina do
Cabula”
59

Figura 3 - Na direita em pé Vênus Lenda; Suja Dfato ao lado em pé; Dandara Cruz de
amarelo; Nutt Mc de vermelho; Felina ao lado de Manduê( Amanda Santos); Laela está
agachada na esquerda; ao lado Bruninha Mc; logo veremos Maktub e em seguida Deméter
Gramacho a Dj. Batalha das Bruxas Especial do Carnaval; 2020)

Nesse mesmo período, um pouco depois do Coletivo Vira-Lata, nasce também o


Coletivo Brota Xota, formado por mulheres pretas e periféricas, apenas o beatmaker que era
exceção o André L.A, era o organizador da Batalha Metacity que sempre fortaleceu o Hip Hop
de Salvador e sempre incentivou a presença das mulheres na cena. O Coletivo Brota Xota vem
com o mesmo intuito de alavancar as mulheres na cena e idealizado por Cronos feminista, que
se unir a outras mulheres de Salvador que vivem o RAP; como Felina, India Om, Narja, Rosa
Preta e entre outras que passou pelo Brota, para levar as mensagens de concientização, nos
eventos, nas praças e nos ônibues da city com diversos temas para serem refretidos; infelizmente
o coletivo não existe mais e nem todas as meninas continuaram na cena do RAP BA, mas
seguem na luta com a poesia de escudo.
Questionei para as rappers sobre como é ser mulher negra no RAP, já que percebemos
ser majoritariamente masculino, quais seriam as dificuldades e se já sofreram algum ato
machista e preconceituoso no RAP, obtive algumas respostas que trago agora, como por
exemplo a fala de India Om e suas dificuldades de ser aceita enquanto rapper:
60

(...)Mas no meio disso tudo, passei por diversas situações desagradáveis, como por
exemplo, ter que ouvir de um homem que mulheres eram fracas no RAP, que elas só
sabiam rimar "mimimi", vi amigas sendo assediadas, ouvi artistas dizendo que eu não
iria conseguir, minha família ignorar meu sonho e me tratar como uma qualquer,
devido ao estereótipo. ( India Om)

Os assédios por parte do lado masculino é a nossa grande perseguição; mesmo que
exista muitos rappers conscientes, ainda assim muitos outros não pensam o mesmo. Temos até
a experiência de Bruninha, que com apenas 12 anos já tem o que dizer sobre esta pauta:

É muito difícil. A maioria das vezes as pessoas apoiam mas ainda tem alguns que
falam coisas como "lugar de mulher é na cozinha", "você é muito boa pra uma mulher"
e isso acaba sendo muito chato, porque meu gênero deveria interferir nisso? (
Bruninha Mc)

Dandara também trouxe seu relato sobre esta questão, no qual também veremos nas suas
escrevivências:

O espaço da RAP como boa parte da cultura hip hop além de ser marginalizado, por
ser composto por pessoas cuja maioria é de etnia preta, neste movimento visivelmente
predomina a participação hetero e masculina. Estar e compor esse espaço além de
fazer enfrentamentos pra se poder evidenciar o quanto sou boa no que faço, é também
uma demonstração de empoderamento da fala e narrativa feminina, que no seu bojo
preto e periférico trás as nuances de uma vivência cerceada pela discriminação,
preconceito e o machismo. ( Mc Dandara Cruz)

Laela também traz suas críticas e experiências, como também é gritante nas suas
escrevivências, a revolta contra o sistema patriarcal:

A discriminação não é do modo mais crua; acontece quando por exemplo o cara te
chama pra fazer um feat, mas que na verdade ele quer te pega, ou então o cara quer se
aproveitar de vc de alguma forma; ou também quando a tecnico de som coloca o seu
make mais baixo, e as pessoas desacreditar do corre e não levar a serio, tendo varios
aspectos assim, porém ultimanmente a cena tem abraçado mais as mulheres e mesmo
que aos poucos estamos evoluindo. (Laela; Multiartista)

Porém teremos também uma outra vertente nessa luta; o Mulherismo Africana, o termo
cunhado por Cleonora Hudson afro-america, autora e acadêmica; que no fim de 1980 se baseia
nas experiências das lutas das afro-descendentes e diferente do feminismo negro e do
mulherismo; dá mais atenção as injustiças em relação a raça; depois as lutas de classe e por fim
ao gênero; centrando desta forma em Africa e a reconstrução de nossos valores, entendendo que
este homem preto que reproduz o machismo também é uma vitima deste sistema patriarcal e
precisa se desconstruir desses conceitos racistas que são enraizados, estantado os homens pretos
61

mais proximos da luta da mulher por causa das relações raciais e de classes. Sendo também
muito comum perceber essas pautas nas letras das minas no RAP; como por exemplo na letra
de Dandara Cruz que é em prol da luta afrocêntrica.
62

5 CONCLUSÃO: FREESTYLE NA ACADEMIA?

Sempre tive uma visão negativa da academia, por conta da minha realidade financeira e
social, acreditando ser um ambiente hostil e distante de mim, sendo que na minha família
ninguém ainda tinha ingressado na universidade, apenas cursos técnicos, no entanto eu sempre
me identifiquei com as ciências sociais e humanas, mas sempre ouvia sobre ser uma área que
não me daria muitas opções de emprego, por isso assim que me formei no ensino médio,
procurei um emprego na época de jovem aprendiz e não pensava em hipótese alguma fazer
faculdade naquele momento, porém ao conhecer mais aprofundo o projeto da Unilab
(Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira) em 201877, através de
Dandara Cruz e a Mc Niambi Azinza, minha perspectiva em relação a ingressar em uma
instituição mudaram totalmente, primeiramente pela ideia da Unilab; que é exatamente trazer a
lei 10.639/03 que obriga as escolas de ensino fundamental e médio ensinarem a cultura e a
história afro-brasileira; e em 2008 outra lei vem fortalecer mais, a lei 11.645/08, que torna
obrigatório o estudo da cultura indigena; a Unilab vem difundir esses ensinos e preparar novos
educadores e educadoras, cidadã e cidadãos para um ensino que englobe nossas especificidades
culturais, na base do respeito e da sabedoria; sendo a proposta da Unilab trazer novas
epistemologias para acrescentar as subjetividades dos sujeitos oriundos dessas culturas que por
muito tempo são excluídas e mesmo depois das Leis, ainda temos muitas escassez das nossas
epistemologias nas escolas.
Por isso aproveitando este espaço em que me encontro trago o RAP enquanto proposta
epistemológica, que vem enquanto diaspórico contemporâneo, porém une a ancestralidade;
como por exemplo Mc e Griot, que tem as mesmas dinâmicas de preservar a história, sendo
contada ou cantada oralmente em espaços abertos para um grupo de pessoas, desta forma
destacando a importância do freestyle para a nossa exclamação do mundo e nossas cosmologias,
como podemos dizer o mesmo dá Poesia. Então para explicar um pouco sobre o este subgênero
do RAP e concluir este monografia, irei apresentá-lo de uma forma muito especial, usando o
próprio free em forma de escrita, com os temas freestyle na academia; freestyle como
epistemologia e freestyle como escrevivência; se liguem nas ideias :
“O tema é freestyle na academia / Manduê no corre todo dia / Aprendendo escutando
meu E.P / O free chegou na academia sim / se Manduê tá lá pra tu ver ?! / se Azinza acordou

77
Eu já tinha escutado falar sobre a Unilab, a partir de Drica Silva e Carol dos Santos, alguns anos antes,onde me
encantei pela ideia, porém ainda assim não estava em meus planos estudar, ainda mais que na época estava
empregada.
63

você ! / Não precisa ligar a câmera / Eu to ligada / Não é pra ser vista é pra ser lembrada /
Preciso acordar essas Lebaras78! / Pedras brutas que precisam ser lapidadas ! / A academia
estruturada com pensamento tão desleal / que só nos mata ! / está dizendo que minha vó e meu
avô não tem história pra contar / Só tem história de opressor / história de opressão/escravidão /
Mas como assim / Não é só isso não / A gente também se aquilombou e construiu uma historia
contra o opressor / Beatriz Nascimento já falou / só que você não escutou / se a escola apagou
/ e se você começar a captar o que é capoeira / Tipo o corpo que dança em o contato com a
mente insana / estrategicamente se lança / Um dialogo do corpo com a mente / que não mente /
acordando a gente / a Capoeira me salvou ! / estilo Samba uma roda realizada / para espantar o
banzo queimando na chama / tipo o free que sai da boca de Amanda / o freestyle me moldou !
/ Agora vou contar sobre os griôs / agora se ligue na griot / Te conta a história que minha vó
me contou / cultura dos ancestrais / se tu ir para um Terreiro vai entender o louvo / freestyle é
vida / armada contra a opressão / ideias vinda diretamente do coração / Por isso preciso levar a
informação pro irmão / Para a mina se sentir querida / se o Sol que brilha dentro dela sustenta
a vida ?! / Freestyle é Sabedoria / epistemologia do meu povo / escrevivência fresquinha do
forno / o que acalenta nosso coração / a nossa maneira de passar a mensagem / pegue visão na
ideia marginalizada / vivências empíricas / entro e saiu nos becos e vielas das quebradas / Sem
ver bicho com nada / A academia eurocêntrica mata ! / o freestyle salva / pedras brutas que
precisam ser lapidadas !” (Freestyle de Manduê)

78
Entidade de candomblé e da Umbanda, que representa a energia feminina e também tem Elegbara é um título
para Exu; porém, por causa das discriminações e do racismo, este nome para os leigos sempre é associado às
coisas ruins como desgraças.
64

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