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O S LIMITES DA NEGOCIAÇÃO
COLETIVA PREVISTA NO ARTIGO
611-A DA REFORMA
TRABALHISTA EM MATÉRIAS
ATINENTES À SAÚDE E
SEGURANÇA DO
TRABALHADOR*

T HE LIMITS OF COLLECTIVE
AGREEMENT PROVIDED FOR IN
ARTICLE 611-A OF THE LABOR
REFORM ON THE MATTERS OF
HEALTH AND SAFETY OF THE
WORKER

João Antônio Procópio Leão**

RESUMO

Em 13 de julho de 2017, foi sancionada a Lei n. 13.467. Em


seu artigo 611-A, há a previsão de que a convenção coletiva de
trabalho terá prevalência sobre a lei, acerca de certos direitos
trabalhistas. Este artigo visa a analisar de forma axiológica e
constitucional a possibilidade da negociação coletiva no que tange
às matérias de saúde e segurança do trabalhador. Tal verificação
levará em consideração a doutrina atinente aos temas tratados,
bem como as possíveis consequências advindas da legalidade de
dita negociação.

* Artigo enviado em 31/8/2017 e aceito em 26/12/2017.


**Bacharel em Direito pela FEAD MG em 2013. Advogado. Pós-Graduado em Direito do
Trabalho pela PUC MINAS em 2017. Sócio proprietário do Escritório de Advocacia
Leão & Leite Associados.

Rev. Trib. Reg. Trab. 3ª Reg., Belo Horizonte, v. 64, n. 97, p. 235-249, jan./jun. 2018
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Palavras-chave: Direito do Trabalho. Negociação coletiva.


Saúde e segurança do trabalhador. Limites. Art. 611-A da CLT.

1 INTRODUÇÃO

No momento atual em que se encontra a sociedade brasileira,


devastada pela crise econômica e política, muito se questiona acerca
da legislação trabalhista vigente: se estaria ultrapassada e em
descompasso com o modelo econômico hodierno.
De acordo com os críticos ferrenhos da matéria em questão,
a saída para o avanço econômico e a retomada para o progresso
social seria uma menor interferência do Estado nas relações de
trabalho, bem como o aumento da liberdade de negociação direta
entre empregador e empregado.
A Lei n. 13.467, de 13 de julho de 2017, foi elaborada sob as
justificativas citadas acima; nela, a partir de sua vigência, teriam as
partes, em uma relação de trabalho, a possibilidade de convencionar
entre si melhores condições, sem a intervenção do Poder Judiciário
em tais questões. Em suma, utilizariam empregador e empregado,
dentre outras ferramentas, a negociação coletiva como instrumento
de flexibilização e precarização de normas já consolidadas pela
legislação vigente.
Em uma época em que o Poder Legislativo e até mesmo o
Poder Judiciário tentam flexibilizar os direitos trabalhistas em prol
da economia e do lucro, deve a nova legislação ser analisada de
forma ponderada e em consonância com a lei maior, a Constituição
da República.
Vem o presente artigo abordar, especificamente, a
impossibilidade de negociação coletiva de matérias atinentes à
saúde e segurança do trabalhador, matérias essas de suma
relevância e que merecem uma atenção especial, visto que qualquer
alteração lesiva de tais direitos pode acarretar consequências graves
e imensuráveis na qualidade de vida e segurança dos trabalhadores.
Para se analisar a possibilidade ou não da negociação coletiva em
matérias atinentes à saúde e segurança do trabalhador, serão estudados

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os institutos da negociação coletiva, as normas vigentes acerca da


saúde e segurança do trabalho, bem como os limites e vedações
da transação entre empregadores e empregados em tais matérias.
Cabe à doutrina analisar a capacidade e possibilidade de
negociação coletiva de trabalho acerca de tais matérias, uma vez
que o Poder Legislativo, fundamentado em interesses escusos, não
o fez de forma demasiada e exaustiva, o que seria necessário no
presente caso, ressaltando-se que o trabalho não é apenas um dos
contornos do capitalismo, tendo ele seu caráter humano e social,
que deve ser respeitado.
A negociação coletiva em matérias atinentes à saúde e
segurança do trabalhador, inclusive àquelas que buscam relativizar
e precarizar os direitos já existentes, constitui claro e ultrajante
desrespeito ao princípio da dignidade da pessoa humana e ao
princípio da vedação ao retrocesso social. Deve o empregado não
apenas ter garantidos seus direitos básicos, mas também que estes
estejam sempre em evolução e, em hipótese nenhuma, sejam
mitigados, sob quaisquer justificativas!

2 PRESSUPOSTOS DA NEGOCIAÇÃO COLETIVA E OS


FUNDAMENTOS CONSTITUCIONAIS DAS NORMAS DE SAÚDE E
SEGURANÇA DO TRABALHO

2.1 A importância e necessidade da negociação coletiva frente


ao poder diretivo do empregador

O marco inicial legal para a existência do instituto da


negociação coletiva, bem como do instrumento da convenção
coletiva de trabalho no Brasil, foi o Decreto n. 21.761, de 23 de
agosto de 1932. Nesse diploma legal, o conceito de convenção
coletiva foi dado como

[...] o ajuste relativo às condições do trabalho, concluído entre um ou


vários empregadores e seus empregados, ou entre sindicatos ou qualquer
outro agrupamento de empregadores e sindicatos, ou qualquer outro
agrupamento de empregados.

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A negociação coletiva é o meio de ajuste entre a classe


operária e empregadora para incluir novos direitos e condições ao
contrato de trabalho de certa classe laboral. Essa negociação é
pautada por princípios jurídicos complementares entre si, que visam
ao bem-estar e à paz social com o consenso entre as partes.
Tendo a negociação coletiva um rol exemplificativo e extenso
de princípios basilares, o presente trabalho chama a atenção para o
Princípio da Lealdade e Transparência, no qual a norma expressa
que uma negociação coletiva deve, obrigatoriamente, conter o
interesse real e determinado das partes que ali consentiram, não
podendo, de forma alguma, ser utilizada como instrumento de
subterfúgio e interesses escusos, principalmente pela parte patronal.
Sobre esse tema, expõe Mauricio Godinho Delgado:

É evidente que a responsabilidade social de se produzirem normas (e não


meras cláusulas) conduz à necessidade de clareza quanto às condições
subjetivas e objetivas envolvidas na negociação. Não se trata aqui de
singela pactuação de negócio jurídico entre indivíduos, onde a privacidade
prepondera; trata-se de negócio jurídico coletivo, no exercício da chamada
autonomia privada coletiva, dirigida a produzir universos normativos
regentes de importantes comunidades humanas. A transparência aqui
reclamada é, sem dúvida, maior do que a que cerca negócios jurídicos
estritamente individuais. Por isso aqui é mais largo o acesso a informações
adequadas à formulação de normas compatíveis ao segmento social
envolvido. (DELGADO, 2014, p.1.043).

O referido autor ressaltou sabiamente, em sua obra, que a


negociação coletiva não objetiva somente a criação de meras
cláusulas para a simples pactuação de um negócio jurídico. É certo
que tais normas devem ter consonância com o segmento social
envolvido e, sobre o tema da saúde e segurança do trabalho,
merecem guarida especial visto as consequências advindas de uma
negociação coletiva pautada em interesses escusos e meramente
patrimoniais.
Ressalta-se, ainda, que, de acordo com o princípio da
adequação setorial negociada, há a possibilidade de trabalhadores
negociarem direitos de acordo com seus interesses por meio das

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regras da negociação coletiva. O que se vislumbra é que as normas


provenientes da negociação coletiva podem prevalecer sobre as
normas trabalhistas heterônomas, desde que positivem um status
superior de direitos ao trabalhador, sendo mais benéficas que as
normas decorrentes da legislação estatal, com exceção de normas
de indisponibilidade absoluta (normas de proteção e saúde do
trabalho, normas concernentes ao direito à assinatura da CTPS e o
respeito constitucional ao salário mínimo).
A negociação coletiva também possui o seu viés conciliatório,
partindo do pressuposto de que a classe operária e as entidades
patronais podem dispor, em acordo ou convenção coletiva de
trabalho, sobre os direitos pleiteados pelos trabalhadores e seus
sindicatos de classe. Tem tal negociação o condão de positivar os
anseios coletivos dos trabalhadores em melhores condições de
trabalho.
Ressalta-se, ainda, que a negociação coletiva só é alcançada
com o questionamento e cobrança insistente da classe
trabalhadora, que busca inovar o status quo da legislação vigente e
as normas de trabalho já preexistentes. A finalidade é que sejam
alteradas as condições retrógradas e ultrapassadas de labor, para
a criação de novas normas que traduzam melhorias e benefícios
aos empregados. A negociação coletiva pode ocorrer de forma
pacífica, ou mesmo ser requerida por meio de rivalidade,
provocações e manifestações incisivas e até hostis por parte dos
trabalhadores. A respeito desse tema, expõe VIANA:

É importante notar que há duas formas de resistência - pelo direito já


posto, e para se pôr o direito. A primeira pode ser exercida pelo indivíduo
ou pelo grupo. Já a outra, no campo trabalhista, só pelo grupo.
É aí que entra a greve. Embora também sirva de arma contra violações da
lei, ela se presta, especialmente, para fabricar a lei, em um contexto em
que a lei não se ajusta ao direito ou à justiça. (VIANA, 2008, p. 120).

Nessa toada, tem-se que a negociação coletiva de trabalho é


um dos escopos que o empregado busca alcançar ao demonstrar,
na prática, a sua irresignação e descontentamento com as condições

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de trabalho existentes. Esse trabalhador, quando frustrado e de


forma coletiva, exerce, em conjunto, o seu direito de resistência,
explanando a indignação de sua classe e a luta pela conquista de
novos direitos.
O ius resistentiae (direito de resistência) é a prerrogativa do
trabalhador que, inserido num contexto de precariedade e
insatisfação, vem questionar e insurgir contra sua realidade e contra
o poder diretivo do empregador. É a luta ao direito já posto e a
certas condições e circunstâncias prejudiciais a esse trabalhador. É
o afastamento do caráter nocivo e danoso de algo, em busca de
melhorias e aperfeiçoamento das condições de trabalho.
O direito de resistência pode ser manifestado pelo
trabalhador sob a forma de greve, boicotagem, sabotagem, ratting,
ou ainda sob outras fórmulas, visto que este é um rol
exemplificativo. Acerca do direito de resistência, preleciona VIANA:

Tal como acontece com o ius variandi - do qual é contraface - o ius


resistentiae se exerce com certo grau de discricionariedade. É o empregado
quem identifica a violação do seu próprio direito e elege a solução ótima,
dentre as várias opções possíveis. Na escolha dessa solução, como vimos,
deve avaliar a sua idoneidade para alcançar o fim pretendido e,
basicamente, agir com moderação, relacionando o dano sofrido com o
dano a ser causado. Considerando-se que a resistência, como foi dito,
tanto pode se referir a um direito que se quer proteger, como a um direito
que se quer conquistar, suas formas de manifestação variam enormemente.
(VIANA, 1996, p. 92).

Uma vez que são amplos os abusos cometidos pelo poder


diretivo do empregador e extensas as condições nocivas ao
trabalhador em seu contrato de trabalho, deve a negociação coletiva
de trabalho ser utilizada para produzir normas conciliatórias entre
seus pares, com o propósito de avanço e paz social.
Deve a negociação coletiva de trabalho sempre ser pautada
pelos valores da boa-fé, lisura, probidade e retidão, ressaltado ainda
o seu caráter “limitador”, visto que se pode minimizar os efeitos do
excesso do poder diretivo do empregador sobre seus subordinados,
seja por meio de convenção coletiva ou acordo coletivo de trabalho.

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2.2. O embasamento legal das normas de saúde e segurança


do trabalho no ordenamento brasileiro

No Brasil, as normas de saúde e segurança do trabalho têm


previsão constitucional no inciso XXII do art. 7º da Constituição
da República de 1988. Trabalhadores urbanos e rurais têm
garantido o labor com a menor exposição possível aos riscos
inerentes ao trabalho, incumbindo ao Poder Público o dever da
implementação de normas de saúde, higiene e segurança do
trabalho, que devem ter observância obrigatória por parte das
entidades patronais.
Há ainda a tentativa de órgãos internacionais de se unificar a
matéria legal concernente ao trabalho, para obter um tratamento
equânime e seguro a todos os seres humanos de forma global,
objetivando alcançar o conceito de “trabalho decente”. Temos a
OIT (ORGANIZAÇÃO INTERNACIONAL DO TRABALHO, 1919) como
ramificação do Tratado de Versalhes, que pôs fim à Primeira Guerra
Mundial. Tal instituição é responsável pela “promoção permanente
das Normas Internacionais do Trabalho, do emprego, da melhoria
das condições de trabalho e da ampliação da proteção social no
mundo”.
O direito ao trabalho é dado como um direito social básico
ao cidadão brasileiro, conforme art. 6° da Constituição da República
de 1988. Já os artigos 196 a 200 da Constituição da República de
1988 dispõem acerca do direito à saúde; especificamente no art.
200, II, temos como competência do Sistema Único de Saúde
executar as ações de vigilância sanitária e epidemiológica, bem
como as de saúde do trabalhador.
Os direitos sociais, nos quais o trabalho, a saúde e a segurança
do trabalhador estão inseridos, são a salvaguarda para que os
indivíduos possam gozar dos direitos fundamentais assegurados.
A proteção aos direitos sociais é dada pelo Estado, e suas garantias
devem ser asseguradas pelo Poder Público, conforme todos os
fundamentos constitucionais acima citados.
Conforme preleciona José Afonso da Silva:

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Os direitos econômicos constituirão pressupostos da existência dos


direitos sociais, pois, sem uma política econômica orientada para a
intervenção e participação estatal na economia, não se comporão as
premissas necessárias ao surgimento de um regime democrático de
conteúdo tutelar dos fracos e dos mais numerosos. (SILVA, 2013, p. 183).

Ressaltada pelo autor a necessidade de políticas econômicas


e intervenção estatal para a garantia desses direitos, a saúde e
segurança do trabalhador como direito social necessitam de
regulamentação para sua efetividade.
Na Consolidação das Leis do Trabalho, em seu Capítulo V, o
qual aborda a saúde e medicina do trabalho, o legislador delegou
ao Ministério do Trabalho a expedição de normas concernentes à
saúde e segurança do trabalhador. Especificamente no artigo 162
da CLT, temos que essas normas regulamentadoras são de
observância e cumprimento obrigatório por parte das entidades
empregadoras.
As normas de saúde e segurança do trabalho, assim como
todas as outras do ordenamento jurídico brasileiro, devem estar
em consonância com as evoluções sociais, adaptando-se à realidade
de uma sociedade regida por elas. Ressalta-se que não podem tais
normas ser relativizadas com o intuito unicamente de precarizar
ou flexibilizar as condições de saúde e segurança do trabalhador.
Nesse tema, tem-se, segundo Sebastião de Oliveira, que:

Neste momento de concorrência acirrada proveniente da globalização e


da revolução tecnológica, os empresários, de imediato, querem reduzir
despesas com salários e com as normas de proteção à saúde. Alegam que
a legislação trabalhista está ultrapassada e precisa modernizar-se,
permitindo a flexibilização ou até mesmo a desregulamentação. Essa
postura surge como tendência ameaçadora para o direito à saúde dos
trabalhadores, porquanto a prevenção e a manutenção das condições de
trabalho saudáveis têm um custo que afeta o preço final do produto ou
serviço. (OLIVEIRA, 2011, p. 165).

Devido à correlação intrínseca entre a fundamentação legal


das normas de saúde e segurança do trabalho e a real intenção do
legislador de manter e aprimorar o trabalho seguro e saudável,

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faz-se imprescindível a análise da impossibilidade da negociação


coletiva de tais matérias, bem como dos danos que a flexibilização
de tais normas possa acarretar.

2.3. Das vedações às negociações coletivas nas matérias


atinentes à saúde e segurança do trabalhador

A negociação coletiva de trabalho, assim como os demais


institutos do Direito do Trabalho, encontra limitações formais e
materiais. Tais limitações têm o objetivo de harmonizar a negociação
coletiva ao ordenamento jurídico já existente, bem como aos
ditames da Constituição da República de 1988.

2.3.1. Dos limites à negociação coletiva: o Princípio da Vedação


ao Retrocesso Social e o Princípio da Progressividade

Temos o direito à negociação coletiva como direito


constitucionalmente assegurado no inciso XXVI do art.7º da
Constituição da República de 1988. Ocorre que essa garantia não
goza de um caráter absoluto, visto que há limites legais e formais a
serem seguidos.
O rol de direitos sociais no qual está inserido o direito ao
trabalho saudável e seguro possui a característica da
progressividade, de evolução sistematicamente benéfica, para
acrescentar melhorias ao cidadão trabalhador. Seria, portanto, o
princípio da progressividade um dos limites à negociação coletiva,
uma vez que as normas ali positivadas não poderiam flexibilizar
direitos dos trabalhadores, nem precarizar as relações de trabalho,
especialmente no que tange à saúde e segurança dos trabalhadores.
Destarte, a norma insculpida no caput do art. 7º da
Constituição da República de 1988 tem natureza progressiva, a qual
seu texto claramente remete ao aperfeiçoamento e proveito da
condição social dos trabalhadores.
A negociação coletiva de trabalho que passa a abranger
normas de saúde e segurança do trabalho, com caráter revogatório

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em detrimento de normas mais vantajosas já existentes ao


trabalhador, será considerada inconstitucional, enquadrando-se na
vedação legal contida no texto do caput do art. 9º da CLT.
O Princípio da Vedação ao Retrocesso Social pressupõe que,
na esfera dos direitos sociais fundamentais do trabalho, não pode
haver retrocesso de normas já existentes. Deve, portanto, ser
declarada nula a criação de normas posteriores que possam transigir
e flexibilizar direitos já garantidos e em pleno gozo pelos
trabalhadores, salvo nas hipóteses da implementação de políticas
compensatórias. Em síntese, não pode o legislador impor restrições
que esvaziem o conteúdo de direitos já assegurados.
Há de ser ressaltado ainda que, conforme o princípio da
irretroatividade legal, a norma não pode retroagir ao tempo, legislar
em atos anteriores à sua vigência. Portanto, a Lei n. 13.467, de 13
de julho de 2017, só pode modificar direitos dos trabalhadores da
data da sua vigência em diante, no ordenamento jurídico brasileiro.
A proibição ao retrocesso social é demasiadamente tratada
pelos doutrinadores constitucionalistas, tendo sido denominada,
no âmbito dos direitos humanos, como “efeito cliquet”. Segundo
CANOTILHO (2002), “efeito cliquet” é uma expressão francesa
utilizada pelos praticantes do esporte de alpinismo, exprimindo a
ideia de que só há a possibilidade de subir, de movimentar-se para
cima, simbolicamente retratando a impossibilidade legal do
retrocesso das normas de caráter social.
Teriam, portanto, o Princípio do Não Retrocesso Social e o
Princípio da Progressividade o condão de impor limites à autonomia
das partes na celebração da negociação coletiva, uma vez que esta
não pode colocar em risco a saúde e segurança do trabalhador,
trabalhador este que deve ser beneficiado pela criação de novas
disposições legais ora convencionadas, e não prejudicado por elas.

2.3.2. Princípio da Prevalência dos Direitos Humanos

O Princípio da Prevalência dos Direitos Humanos é um


princípio de Direito Internacional, previsto no inciso II do art. 4º da

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Constituição da República. Esse princípio positivado em nossa Carta


Magna visa a contemplar o Brasil como ente internacional,
promovendo a abertura do nosso ordenamento para o âmbito
jurídico internacional.
Acerca desse tema, segundo Carvalho:

[...] o princípio da prevalência dos direitos humanos situa o homem como


destinatário do direito internacional. Desta forma, a posição do Brasil é a
de opor-se aos Estados que desrespeitarem os direitos humanos.
(CARVALHO, 2008, p. 661).

Conforme já citado no tópico sobre a legislação acerca da


saúde e segurança do trabalho no presente texto, temos a OIT
como órgão internacional cuja função precípua é unificar a legislação
trabalhista e obter um tratamento equânime e seguro a todos os
seres humanos de forma global, objetivando alcançar o conceito
de trabalho decente.
Seguindo esse entendimento, o Brasil ratificou as disposições
da Convenção Internacional n. 155, disposições essas que assumiram
a característica de supralegalidade.
No que tange às normas de saúde e segurança do trabalho,
temos o art. 4º da Convenção n. 155 da OIT, que reconhece a
progressividade e busca a redução sucessiva dos riscos inerentes
ao meio ambiente de trabalho:

Artigo 4º 1. Todo Membro deverá, em consulta às organizações mais


representativas de empregadores e de trabalhadores, e levando em conta
as condições e a prática nacionais, formular, pôr em prática e reexaminar
periodicamente uma política nacional coerente em matéria de segurança
e saúde dos trabalhadores e o meio ambiente de trabalho.
2. Essa política terá como objetivo prevenir os acidentes e os danos à
saúde que forem consequência do trabalho, tenham relação com a
atividade de trabalho, ou se apresentarem durante o trabalho, reduzindo
ao mínimo, na medida que for razoável e possível, as causas dos riscos
inerentes ao meio ambiente de trabalho. (OIT, 1992).

Há de se ressaltar, ainda, que não cabe a possibilidade de


flexibilização dos direitos que buscam preservar a saúde e segurança

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do trabalhador por via de ajuste coletivo, tendo em vista a existência


do Princípio da Indisponibilidade dos Direitos Trabalhistas (princípio
este fortemente mitigado com a criação e promulgação da Lei n.
13.467/20171).
Em sede judicial, temos o posicionamento do item II da
Súmula n. 437 do TST, que dispõe:

Súmula 437 do TST


I [...]
II É inválida cláusula de acordo ou convenção coletiva de trabalho
contemplando a supressão ou redução do intervalo intrajornada porque
este constitui medida de higiene, saúde e segurança do trabalho, garantido
por norma de ordem pública (art. 71 da CLT e art. 7º, XXII, da CF/1988),
infenso à negociação coletiva.

A súmula transcrita acima vem para ilustrar o entendimento


da impossibilidade de se precarizar as normas de saúde do trabalho,
por serem estas de ordem pública, ou seja, versarem sobre direitos
intransponíveis.

3 CONSIDERAÇÕES FINAIS

O presente trabalho teve como tema de estudo a


impossibilidade da negociação coletiva de matérias atinentes à
saúde e segurança do trabalhador, tema notadamente atual e
relevante, ressaltada a tentativa da mitigação de tais normas pela
criação e promulgação da Lei n. 13.467 de 2017, especialmente em
seu art. 611-A.
Analisou-se, primeiramente, o instituto da negociação coletiva
de trabalho, seu panorama histórico na legislação brasileira, seu
conceito doutrinário e a sua utilização com objetivo conciliatório e
pacificador nas demandas entre empregadores e empregados, em
prol da paz social.

1
O princípio da Indisponibilidade de Direitos Trabalhistas foi totalmente desconsiderado
pelo legislador, ao criar a Lei n. 13.467/2017, uma vez que houve clara e expressa
flexibilização e precarização de direitos trabalhistas já constantes na CLT.

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Examinou-se, ainda, a legislação acerca da saúde e segurança


do trabalhador no ordenamento jurídico vigente. Também foi traçado
o seu panorama histórico no ordenamento, bem como ressaltada
sua característica de direito social, que é a salvaguarda para que os
indivíduos possam gozar dos direitos fundamentais
constitucionalmente assegurados. Ficou claro que as normas de saúde
e segurança do trabalhador têm alicerce constitucional, com destaque
na Convenção n. 155 da OIT, ratificada pelo ordenamento brasileiro.
Foi analisada a utilização do instituto da negociação coletiva
de trabalho para a flexibilização das normas concernentes à saúde e
segurança do trabalhador. Ficou demonstrado que esse instituto
encontra limites no Princípio da Vedação ao Retrocesso Social, no
Princípio da Progressividade e no Princípio da Dignidade da Pessoa
Humana, uma vez que as normas de saúde e segurança do trabalho,
dado o seu caráter de direito social, devem ser unicamente
evolucionistas, sistematicamente benéficas, sempre para acrescentar
melhorias ao cidadão trabalhador, jamais precarizá-las, sob pena de
serem declarados nulos os atos praticados com o intuito de desvirtuar
os preceitos legais contidos na Consolidação das Leis do Trabalho.
Ainda, foram analisadas as normas de saúde e segurança do
trabalho sob o prisma do Princípio da Prevalência dos Direitos
Humanos, no qual, de forma axiológica e sob a ordem internacional,
não há a possibilidade da flexibilização ou precarização das normas
de segurança e salutares por meio de negociação coletiva, pois tais
mitigações infringiriam a Convenção Internacional n. 155 da
Organização Internacional do Trabalho, convenção essa ratificada
pelo ordenamento brasileiro com status de supralegalidade.
Por fim, conclui-se que, mesmo respeitada a autonomia de
vontades das partes integrantes de uma negociação coletiva, não
pode esta ser utilizada como ferramenta para a renúncia de direitos,
como buscou o legislador ao criar a Lei n. 13.467 de 2017. Ademais,
não se pode aceitar, em hipótese nenhuma, a possibilidade de se
utilizar a via negocial para transacionar e trazer prejuízos e renúncias
de direitos ao trabalhador, desconsiderando até mesmo o mínimo
previsto em lei.

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No que tange às normas de saúde e segurança do trabalho, o


art. 611-A da CLT, com as alterações trazidas pela Lei n. 13.467/2017,
significa um retrocesso contra as disposições constitucionais e tende
a agravar as condições negativas no meio ambiente de trabalho,
favorecendo adoecimentos, acidentes de trabalho, aposentadorias
precoces e mortes.
Do ponto de vista legal, o art. 611-A da CLT, com as alterações
trazidas pela Lei n. 13.467/2017, é notadamente inconstitucional
em relação aos seus incisos que tratam sobre normas de saúde e
segurança do trabalhador, pois, conforme demonstrado no presente
trabalho, a utilização da negociação coletiva para a mitigação de
tais normas, além de não possuir respaldo jurídico, encontra
entraves constitucionais, por se tratar de matéria de ordem pública,
ou seja, versarem sobre direitos intransponíveis.

ABSTRACT

On July 13, 2017, was enacted Law n. 13.467. In his 611-A article,
there is a provision of the collective agreement will have precedence
over the law, about certain parts of the work. This article aims to
analyze the axiological and constitutional way the possibility of
collective bargaining specifically on the matters of health and safety
of the worker. Such verification shall be made on the basis of the
doctrine on the subjects, as well as on the possible consequences
arising from the legality of said negotiation.

Keywords: Labor law. Collective bargaining. Occupational health


and safety. Limits. Article 611-A, CLT.

REFERÊNCIAS

- BRASIL. Constituição (1988). Constituição da República Federativa


do Brasil, de 5 de outubro de 1988. Diário Oficial da União, 5 out.
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