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Coleção Barbara Cartland 260 - Uma Noite de Sonho

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Luciana
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Uma Noite de Sonho

A Tangled Web
Barbara Cartland

O luar transformara o jardim num recanto prateado e imaterial. Sua luz se filtrava
para dentro das amplas janelas da mansão, refletindo nos cristais e pratarias o seu fulgor.
Carolina, porém, não podia se entregar à doçura que aquele momento lhe oferecia, na
companhia do marquês Alexander de Brox. Para salvar seu irmão da ruína, aceitara
participar de uma farsa para enganar um rico comerciante americano, amigo do marquês.
Mas... apaixonou-se por Alexander! Como continuar enganando-o?

Digitalização: Dores Cunha


Correcção: Edith Suli
Formatação: Projeto Revisoras
Título: Uma Noite de Sonho.
Autor: Barbara Cartland.
Título original: A tangled web.
Dados da edição: Nova Cultural, São Paulo, 1990.
Género: romance.
Digitalização: Dores Cunha.
Correcção: Edith Suli.
Estado da obra: corrigida.
Numeração de página: rodapé.

Esta obra foi digitalizada sem fins comerciais e destina-se unicamente à leitura de pessoas
portadoras de deficiência visual. Por força da lei de direitos de autor,
este ficheiro não pode ser distribuído para outros fins, no todo ou em parte, ainda que
gratuitamente.

Título original: A tangled web


Copyright: (c) Barbara Cartland 1989
Tradução: Fátima Stigliani
Copyright para língua portuguesa: 1990
EDITORA NOVA CULTURAL LTDA.
Av. Brigadeiro Faria Lima, 2000 — 3º andar
CEP 01452 — São Paulo — SP — Brasil
Caixa Postal 2372
Esta obra foi composta na Editora Nova Cultural Ltda.
Impressa na Artes Gráficas Parâmetro Ltda.

2
NOTA DA AUTORA

Em 1860 um belga construiu o que se poderia chamar de um motor a vapor com


ação dupla adaptado para funcionar como um motor de dois cursos com ignição elétrica.
Cinco anos mais tarde, numa exposição em Paris, havia um motor livre de pistões e,
em 1885, foi montada uma pequena versão de um motor Daimler numa bicicleta munida
de duas rodas e estabilizadores.
Os ingleses continuaram com seus projetos para um novo Daimler, enquanto os
franceses, em 1890, construíram o primeiro Peugeot, que foi laboriosamente conduzido de
Paris até Lyons naquele ano.
Para não perder a reputação, Daimler produziu, um ano mais tarde, um carro
bastante confortável de quatro lugares e, após esse fato, houve uma corrida em busca de
projeto e montagem de automóveis, o que viria a atrair os esportistas de todas as nações.
Os americanos ainda estavam atrasados e Henry Ford só produziria seu primeiro
automóvel experimental em 1896.

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CAPÍTULO I

1896
Carolina, cavalgando de volta para casa, passou por Brox Hall.
Pensou, como sempre acontecia, que aquela era a casa mais bela que já vira.
A edificação pertencia ao período histórico favorito de Carolina, tendo sido
projetada em meados do século XVII.
As estátuas que encimavam o teto da edificação recortavam-se contra o céu.
O que sempre a entristecia, porém, era que quase todas as janelas permaneciam
fechadas.
À imponente casa estava praticamente vazia, só contando com a presença de dois
vigias que lá se encontravam havia anos.
O que tornava tudo ainda mais melancólico, pensou Carolina, era que o marquês de
Broxburne estava em Londres.
Segundo o irmão dela, que o conhecia bem, o marquês passava o tempo se
divertindo naquela cidade.
— Por que ele não volta, não abre a casa e passa seu tempo restaurando a
propriedade? — indagava ela.
Carolina sabia que a resposta era a falta de dinheiro.
E o mesmo acontecia com várias famílias aristocráticas.
Tudo se tornara muito mais caro.
As imponentes edificações, que costumavam empregar um grande número de
criados, já não tinham condições de prosseguir.
Quando Carolina se pôs de pé, pensou que deveria se sentir agradecida pela casa,
ainda que pequena, onde a família de seu pai vivera por várias gerações.
O primeiro baronete foi criado durante o reinado de James II.
Em cada geração subsequente, houvera um filho para herdar o título.
O irmão dela, Peter, era agora o sexto baronete.
Ele sentia-se extremamente orgulhoso, tanto de seu nome quanto de sua
propriedade, que era muito menor que a do marquês.
O irmão de Carolina nunca ia a Brox Hall, e por isso não se sentia desolado diante
dos campos sem cultivo e das sebes sem poda.
Havia naquele local dois ou três arrendatários de fazenda.

4
Mas Carolina pensava que eles se sentiam de certa forma desanimados, por jamais
receberem a visita do proprietário.
Ela continuou cavalgando e, saindo da propriedade de Broxburne, chegou afinal à
sua, que ficava numa parte afastada do condado.
Com exceção de Brox Hall, não existia um grande número de famílias que fossem
abastadas o suficiente para possuírem muitas terras nem, tampouco, para maior
consternação de Carolina, para promoverem festas.
Houvera, no entanto, algumas recepções por ocasião do Natal.
O vice-rei promoveu uma grande festa num jardim, durante o verão.
Foi a única chance, pensou Carolina, para que várias pessoas que viviam naquela
parte do mundo pudessem se conhecer.
Carolina sentia que, toda vez que uma pessoa dizia adeus à outra, havia a promessa
de se encontrarem no ano seguinte.
Cada festa significava o fim de um capítulo em suas vidas.
Um quilômetro adiante, Carolina avistou Greton House.
A edificação fora completamente modificada durante o reinado da rainha Anne.
Era agora difícil recordar que a casa fora mesmo edificada durante o período
anterior.
No entanto, havia ainda alguns aposentos na casa que possuíam paredes grossas e
janelas providas de vidraças minúsculas.
Os quartos principais eram espaçosos e de teto alto, e, como o pai dela sempre dizia
em tom de brincadeira:
— Pelo menos posso manter minha cabeça erguida lá dentro.
Ele fora um homem alto, como Peter era agora.
Carolina pensou que o fato de ter puxado à mãe era muito bom, pois ela fora
pequena e graciosa.
No entanto, que infelicidade! Era tão frágil que no ano anterior fora fazer
companhia ao esposo na sepultura,
— Mamãe simplesmente não queria continuar vivendo dizia Carolina, com
frequência.
Ela esperava um dia encontrar alguém que a amasse, da mesma forma como os pais
se amaram.
Não parecia haver muita probabilidade de isso acontecer, no momento.
Poucos homens jovens, procedentes das famílias vizinhas, tinham desejo de
permanecer no país, a menos que fossem casados.
Como o irmão dela, eles também tinham ido para Londres e se divertiam da mesma
forma, segundo os costumes do príncipe de Gales.

5
Carolina imaginava que os rapazes tinham casos amorosos com as beldades da alta
sociedade, cujas fotografias encontravam-se nas principais revistas elegantes de Londres.
E também levavam as formosas garotas para jantar.
Peter dissera que eram encantadores esses passeios e contara como fora o jantar no
Romano's, localizado próximo à praia.
Para um homem jovem, Peter contou-lhe, passear e jantar no Romano's era a coisa
mais excitante que podia acontecer.
— É muito caro para mim — Peter reclamara.
— Caro? — indagara Carolina. — Você que dizer a comida?
Houve uma pequena pausa, antes que Peter pudesse rapidamente replicar:
— Sim, a comida e, é claro, as flores que enviamos para as mulheres.
Ele mudara de assunto, porém Carolina custou a acreditar no que ouvira.
Quando sua mãe era viva, planejou-se enviar Carolina a Londres para ser
apresentada à corte; se não para a rainha Vitória, pelo menos para o príncipe de Gales e
sua adorável esposa dinamarquesa, Alexandra.
Após o período de luto, porém, nenhum membro da família de Carolina fez a
sugestão de acompanhá-la.
Ela, portanto, resignou-se à vida do campo.
Montava os cavalos e aguardava com paciência as visitas esporádicas de Peter.
O irmão a adorava, mas Carolina sabia que ele só voltava para casa quando estava
de folga.
Havia semanas em que ela não via ninguém, exceto os aldeões e, é claro, o vigário.
Com certeza, Carolina pensava, ela se sentiria muito solitária, não fosse a grande biblioteca
do pai.
Ela a tinha incrementado a cada ano, como fizeram também seus ancestrais.
Sempre havia algum livro que Carolina desejava ler.
Todas as noites, ela levava um livro para o leito e virava as páginas até que se
sentisse demasiado sonolenta para prosseguir na leitura.
"Suponho", ela dizia a si mesma enquanto cavalgava em direção à casa, "que eu
poderia promover algumas festas em casa."
Quem fizera a sugestão, de fato, fora a sra. Newman, a cozinheira que trabalhava
para eles havia vários anos.
— Por que não convida alguns de seus amigos para o almoço, srta. Carolina? —
indagou a criada. — Estou cansa da de cozinhar só um pouquinho para a senhorita e comi
certeza logo vou me esquecer das melhores receitas, se continuar assim!
— É, certamente, uma boa ideia, sra. Newman — redarguiu Carolina —, mas talvez
as pessoas achem enfadonho vir até aqui, a menos que Peter esteja em casa.

6
— Sim, sir Peter está se divertindo em Londres — argumentou a sra. Newman com
voz firme —, e é justo que a senhorita tenha o mesmo direito de se distrair.
Carolina riu.
— Farei uma lista de pessoas que não vejo há muito tempo — respondeu. — Talvez
tenhamos um almoço no domingo.
A mãe de Carolina sempre achara que o domingo era o melhor dia para se divertir.
Os vizinhos não se encontravam ocupados nem com os jardins nem fazendo
compras no mercado próximo à cidade, e não compareciam a comitês de caridade.
Carolina pensou, no entanto, que fazer uma lista não era tão fácil como supusera.
A maioria das moças de sua idade, dezenove anos, havia debutado no ano anterior
e muitas já eram casadas.
Nos finais de semana, algumas se ocupavam em entreter outros amigos que haviam
encontrado em Londres.
Carolina podia entender perfeitamente que uma garota jovem e descompromissada
enfrentava situações embaraçosas.
Ela ainda não estava completamente consciente de seus atrativos e de que era
bonita demais para que suas amigas não sentissem inveja.
Sua mãe fora maravilhosa, como Carolina podia se lembrar.
Seus cabelos, bastante incomuns, eram ruivos com as pontas douradas, porém
entremeadas por fios que pareciam labaredas.
Quando o sol banhava os lindos cabelos, qualquer homem se extasiava diante
daquela visão e tornava a olhar.
Seus olhos tinham um leve tom esverdeado. Não o verde esmeralda tão banal, mas
uma tonalidade mais pálida, como a de uma correnteza de águas cristalinas.
Como era comum entre pessoas de cabelos ruivos, ela possuía uma pele alva e
translúcida.
Primeiramente por causa da doença de sua mãe e depois em virtude do longo ano
em que permanecera enlutada, Carolina recebera poucos elogios.
Ela não fazia ideia de como sua aparência era incomum.
Apesar disso, na última vez em que seu irmão viera visitá-la, ele pensara em fazer
algo em favor da irmã.
"Deve existir alguém que queira acompanhá-la, caso ela venha para Londres",
pensava ele.
Então concluiu que seria um erro alimentar as esperanças da irmã, para depois
frustrá-la, caso não achasse ninguém.
Peter fizera algumas tentativas, indagando a uma ou duas das beldades com quem
ele jantava noite após noite, mas nenhuma delas queria bancar a ama-seca.

7
As mulheres se interessavam por Peter por causa de sua aparência, mas não
sentiam vontade alguma de conhecer a triste história de sua irmã.
Enquanto se aproximava dos portões, Carolina pensava em Peter e em alguns
reparos que precisavam fazer na casa.
Ela não gostava de dar as ordens sem antes consultá-lo.
Carolina imaginava que o irmão levava uma vida de extravagâncias, em Londres, o
que significava que ele poderia não ter o dinheiro para o que fosse necessário.
"Será a primeira coisa que vou pedir-lhe", pensava ela, com determinação.
Ao mesmo tempo, não se perdoava por não conseguir manter a casa como no
tempo de seu pai.
Um ladrilho solto, um estilhaço na vidraça preocupavam-na até o momento em que
fossem feitos os consertos.
— Quando herdei a casa — dizia-lhe o pai —, ela era perfeita. Preciso mantê-la
assim, para Peter.
— É claro que precisa, papai — concordava Carolina —, e eu também tenho muito
orgulho desta casa. É o lar mais atraente que alguém já pôde ter.
Carolina sabia que o pai ficara satisfeito com o que ela dissera. Ele a beijou e
replicou:
— Espero, querida, que, quando você se casar e for morar em outra casa, ela seja tão
atraente como esta.
Carolina desejou dizer que queria um lar cheio de amor, mas pensou que talvez o
pai pensasse que era muita presunção da parte dela falar em amor quando tinha apenas
dezessete anos.
Em vez disso, ambos se encaminharam até a biblioteca de braços dados, a fim de
desembalar alguns livros que tinham acabado de chegar de Londres.
Agora, cavalgando pela longa estrada, limitada por uma alameda de limeiras,
Carolina avistou Greton House.
Então, percebeu que havia uma carruagem puxada por dois cavalos estacionada em
frente à porta de entrada.
Com o coração aos pulos, ela concluiu que Peter voltara para casa.
Carolina não pôde deixar de se perguntar por que o irmão não a avisara ou se era
ele realmente.
Limitou-se a imprimir mais velocidade ao cavalo, chegando até a porta de entrada
em poucos minutos.
O cavalariço, que ela reconheceu como sendo o homem que tomava conta dos
cavalos de Peter em Londres, tocou a fronte com uma das mãos.
— Boa tarde, Jim — saudou ela. — Assim que atravessei o portão, imaginei que sir

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Peter estava chegando.
— Prazer em revê-la, senhorita — respondeu Jim ao cumprimento.
Enquanto falava, o cavalariço começou a conduzir os cavalos na direção dos
estábulos.
Carolina desmontou e então um outro cavalariço veio correndo em sua direção a
passos rápidos.
Ele apanhou o cavalo pelo cabresto e Carolina subiu as escadas sem nada dizer.
Não havia ninguém no hall, mas a porta da sala de visitas estava aberta.
Para sua surpresa, Peter lá estava, de pé no outro extremo do aposento.
Aquele local era raramente usado.
Eles costumavam se sentar no estúdio que fora, no passado, o santuário de seu pai.
O estúdio possuía um grande número de quadros sobre esportes, os quais Carolina
e Peter adoravam desde que eram crianças.
No entanto, por um momento Carolina não pôde pensar em nada, exceto que Peter
estava lá.
Ela correu em sua direção soltando um gritinho de alegria.
— Você veio! Oh, Peter, por que não me disse que estava a caminho?
O irmão a beijou e respondeu:
— Não houve tempo para informá-la. Mas estou aqui porque preciso de sua ajuda.
— Minha ajuda?! — exclamou Carolina. — O que aconteceu? Algo de errado?
— Nada de errado — tranquilizou-a Peter. — Eu só preciso que me ajude. Na
verdade, não há outra pessoa que possa me auxiliar.
Carolina fitou-o com surpresa, antes de comentar:
— Se fez toda essa viagem desde Londres, garanto que deseja comer ou beber
alguma coisa.
— Não tenho fome — declarou Peter. — Parei para almoçar durante a viagem, mas
aceitarei um drinque caso esteja à mão.
— Vou pedir que Newman traga um clarete lá da adega. Ela dirigiu um sorriso
encantador para o irmão e deixou o aposento.
Peter acompanhou-a com o olhar.
Pensou, como já fizera muitas vezes, que a irmã parecia ainda mais adorável do que
quando a vira pela última vez.
"Suponho", ele disse a si mesmo, "que não deveria pedir-lhe isso, mas não há outra
alternativa. Além disso, sei que não causarei nenhum mal a ela."
Carolina levou apenas alguns minutos para localizar Newman, que se encontrava
sentado na cozinha, sem casaco, conversando com a esposa.

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Carolina sabia que o criado estava ali porque não havia muito que fazer.
Como a sra. Newman, ele adoraria polir a prataria, desde que fosse para uma festa.
— Sir Peter está em casa — anunciou ela, quando entrou na cozinha.
— Sir Peter?! — exclamou Newman. — Que boa surpresa!
— Também acho — respondeu Carolina. — Ele chegou de Londres e deseja um
copo de clarete.
Newman ocupou-se em vestir o fraque.
— Tenho uma garrafa, srta. Carolina, para casos de emergência como este.
Carolina deu um sorriso.
— Espero que tenha algo delicioso para o jantar, sra. Newman — argumentou ela.
— Sabe como Peter aprecia sua comida. A sra. Newman levantou as mãos.
— Eu não sei por que sir Peter não avisa com antecipação que está chegando! —
reclamou a mulher. — Não temos nada na despensa.
Carolina já não ouvia. Tinha certeza de que a sra. Newman prepararia uma refeição
deliciosa; por isso, voltou rapidamente para a companhia do irmão.
Desceu pelo corredor a passos rápidos enquanto tirava o chapéu de montaria.
Seus cabelos eram cacheados e cada cacho, quando solto, parecia ganhar vida.
Enquanto ela retornava à sala de visitas, seus cabelos cintilavam à luz do sol.
— Newman estará aqui dentro de alguns minutos com o clarete — informou ela. —
Agora, me diga, por que voltou?
Ela se sentou no sofá.
Apesar de não estar pensando nisso, Carolina parecia bastante natural.
Por causa do calor, ela cavalgara sem jaqueta e usava apenas uma blusa de
musselina branca, acompanhando suas roupas de montaria.
Naquele momento, com os cabelos em desalinho, parecia uma colegial, e não o que
ela realmente era: uma jovem que deveria estar desfrutando sua segunda temporada em
Londres.
Conforme esperava, Carolina percebeu que o irmão a fitava com um olhar crítico e
então indagou:
— Diga-me, por que está aqui?
Antes que Peter pudesse responder, Newman entrou com uma bandeja de prata,
sobre a qual estavam dispostos uma garrafa de clarete e um copo.
— Boa tarde, Newman! — saudou Peter. — Espero que esteja contente por me ver!
— É sempre um prazer encontrá-lo, sir Peter — replicou Newman. — Saiba que a
sra. Newman fará o que puder, mas ela gostaria de ser avisada com antecedência toda vez
que o senhor vier para cá.

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— Sei disso — respondeu Peter —, mas o assunto que tenho para conversar com
Carolina não me permitiu delongas, então saí de Londres imediatamente após o café da
manhã. E, se eu tivesse encurtado o tempo que passei almoçando, acredito que teria batido
meu próprio recorde.
— Isso é o que o senhor sempre faz — sorriu Newman —, porém, sir Peter, o senhor
deveria ter cuidado ao descer aquelas alamedas! Tem havido muitos acidentes por lá
ultimamente.
Peter bebericava um pouco do excelente clarete que Newman, enquanto
conversava, despejara em seu copo.
O velho mordomo colocou a garrafa sobre uma mesinha de canto e deixou a sala.
Quando ele fechou a porta atrás de si, Peter disse:
— Agora, Carolina, vou explicar por que estou aqui. Acho que está prestes a ter
uma surpresa.
— Não há coisa de que eu goste mais do que surpresas — respondeu ela. — E
acontecem tão raramente em Greton House...
— Bem, esta valerá por todas — garantiu Peter. Ele tomou mais um gole de clarete e
então indagou:
— Você se lembra de meu amigo, o marquês de Broxburne?
— Estava pensando nele algumas horas atrás, enquanto passeava a cavalo por Brox
Hall — admitiu Carolina. — Imaginava por que motivo ele não voltara mais para casa.
— Mas é o que pretende fazer agora — informou Peter. Carolina fitou-o.
— Quer dizer que ele vai abrir a casa? Oh, Peter, que excitante! Que... maravilhoso!
— Sim, ele pretende abrir a casa — respondeu Peter, devagar. — E depende de você
que ela permaneça aberta.
Os olhos de Carolina se arregalaram.
— Depende de mim? Não entendo o que está querendo me dizer.
— Vou explicar agora mesmo — garantiu Peter, pondo o copo de lado. — Você
sabe, é claro, que eu estava em Oxford com Broxburne, apesar de ele não ter tomado posse
do título até então. Ele era mais velho que eu e não nos tornamos realmente amigos até
que eu fosse para Londres.
Carolina lembrava-se de que Peter ficara muito satisfeito ao ser convidado para os
jantares que o marquês de Broxburne promovia em sua casa localizada em Park Lane.
Ele se referia ao amigo com admiração sempre que vinha para casa.
— Como você sabe — continuou Peter —, Broxburne nunca pôde abrir a mansão,
apesar de ter desejado.
— Você não me disse isso antes — ralhou Carolina. Sempre imaginei que ele não
tivesse interesse na casa ou que achasse enfadonho viver no campo.

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— Essa é a razão por que ele procede assim, já que era orgulhoso demais para
admitir que manter uma casa e uma propriedade no campo demandava muito dinheiro.
Peter fez uma pausa antes de acrescentar:
— A menos que ele desista de sua casa em Londres, bem como dos cavalos que
mantém em Newmarket.
Carolina podia entender a dificuldade. Ao mesmo tempo, porém, sentia que era
triste para alguém que possuía uma propriedade histórica ter de deixá-la vazia.
— Resumindo — continuou Peter —, Alton Westwood quer que seus carros sejam
vendidos em todo o mundo e, para garantir que isso acontecerá na Inglaterra, está
constituindo uma empresa, da qual Broxburne espera ser o presidente.
Peter sorriu para a irmã e então prosseguiu:
— Ele então solicitará que seus amigos, donos de títulos de nobreza mais
importantes, façam parte da diretoria.
— E esse americano acha que eles poderão vender seus automóveis? — observou
Carolina, tentando entender.
— É claro que eles venderão! — exclamou Peter com voz firme. — Naturalmente a
imprensa escreverá sobre qualquer coisa que estiver sendo patrocinada por pessoas como
Broxburne.
— Sim, é claro, eu entendo — replicou Carolina, indagando-se onde ela entrava
naquela história toda.
— Broxburne me pediu que fosse membro da diretoria informou Peter, orgulhoso
—, e, é claro, tive grande satisfação em aceitar.
Havia excitação em sua voz, quando acrescentou:
— Em apenas um dia ele persuadiu um duque e dois nobres, que são amigos
íntimos do príncipe de Gales, a se reunirem a ele. Eles, com certeza, despertarão o
interesse real na companhia.
— Parece muito excitante — concordou Carolina. Sinto-me bastante satisfeita por o
marquês tê-lo convidado para fazer parte da diretoria.
— Eu me ressentiria, caso fosse excluído — admitiu Peter.
— E isso significa — indagou Carolina — que o marquês terá muito dinheiro a
ponto de poder abrir a casa?
— É claro que sim — confirmou Peter. — Alton Westwood já é multimilionário.
Possui uma grande quantia de ações na American Railway. Acredito, também, que ele
achou petróleo em sua fazenda do Texas.
Carolina conteve a respiração.
Já ouvira falar sobre os americanos consideravelmente ricos.
Parecia um pouco injusto que a Inglaterra, um país muito mais antigo, possuísse

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tantas famílias numerosas que não tinham nenhuma fortuna.
— O que Alton Westwood pretende — Peter prosseguiu — é que a imprensa faça
um estardalhaço sobre sua empresa para que, dentro de alguns meses, haja uma exposição
de seus automóveis em Londres.
— Parece excitante! — gritou Carolina.
— E é — concordou Peter. — Só que existe um pequeno obstáculo.
— E qual é? — questionou Carolina.
— Enquanto estava na América providenciando tudo — respondeu Peter —,
Westwood ouviu a respeito de Brox Hall e manifestou o desejo de fazer uma visita ao
local. Também sugeriu que seria uma boa ideia se o marquês convidasse seus amigos para
o encontrarem lá.
Carolina olhava fixamente para o irmão.
— Você quer dizer trazê-los para cá?
— Sim! — respondeu Peter. — Westwood acha que apenas almoçar ou jantar em
Londres é muito diferente do que passar um fim de semana em Brox Hall, quando então
poderá entusiasmar a todos com os automóveis, de forma que poderão conversar a
respeito e, é claro, vender a ideia aos amigos deles.
"Posso entender o raciocínio dele", pensou Carolina.
Ao mesmo tempo, ela conseguira apreciar que o tal americano fosse um vendedor
astuto, o que os ingleses achavam difícil compreender.
Ela lera sobre os métodos americanos nos livros que haviam chegado de Londres.
Carolina então concluiu que os ingleses ainda possuíam métodos um pouco
antiquados.
Ela também estava ciente de que pessoas como seu pai e sua mãe achavam
impossível que um cavalheiro fosse comerciante.
Sua mãe lhe dissera que o príncipe de Gales fora quem pela primeira vez aceitara
banqueiros e financistas na história da sociedade.
— Será certamente muito excitante para você — ela respondeu em voz alta —
quando vir Brox Hall em todo seu esplendor.
Carolina falava com um pouco de ansiedade na voz, imaginando que ela também
gostaria de estar no lugar do irmão.
— Isso é o que você terá oportunidade de ver — arrematou Peter, com voz calma.
Ela o fitou em completa perplexidade:
— Eu? O que está dizendo?
— Estou dizendo que, quando Brox Hall estiver aberta e acontecer a festa de que
estão falando, você será a anfitriã.
Um silêncio se seguiu, após o que Carolina exclamou:

13
— Não acredito em você! Por que o marquês faria isso?
— Isso é o que vou te contar — informou Peter. — Quando o marquês foi para a
América, concluiu que as americanas encaravam-no como um "bom partido" por causa de
seu título.
— Já ouvi dizer que os americanos se impressionam com títulos— murmurou
Carolina. — O que explica por que nossos duques e nobres já se casaram com garotas
americanas possuidoras de imensas fortunas.
Peter assentiu.
— É verdade, e Broxburne me disse que Alton Westwood não é diferente do resto.
Ele deseja um título para sua filha.
— Então ele é casado! — concluiu Carolina.
— Ele é divorciado e possui uma filha um pouco mais jovem que você.
— Mas, se o marquês se casar com ela — raciocinou Carolina —, ele será dono de
uma grande fortuna e não precisará vender seus carros.
— Não seja ridícula! — ralhou Peter. — É claro que Broxburne não deseja desposar
uma americana. Conversamos sobre isso outro dia e ele acha que homens de nossa idade
que vão para a América à procura de uma herdeira não passam de salafrários!
Carolina ficou petrificada por um instante e então exclamou:
— É claro que você está certo! Não é honesto se casar com alguém só por causa de
seu dinheiro ou título.
— Exatamente! — concordou Peter. — E, como isso acontece, Broxburne não tem
intenção de se casar com ninguém, pois está apaixonado por Lady Langley.
Peter notou que aquele nome nada significava para a irmã e explicou:
— com certeza já ouviu falar de Lilac Langley, não? Ela possui a reputação de ser a
mulher mais bela em toda a Inglaterra, suas fotos estão em todas as revistas e praticamente
em todas as vitrines.
— Sim... claro... agora que já pensei a respeito — Carolina se apressou a dizer —,
me lembro de ter ouvido falar dela. Ela é bastante adorável?
— Completamente linda! — replicou Peter. — Você pode imaginar que Broxburne,
apaixonado como está por uma mulher como aquela, não tem nenhuma intenção de se
deixar fisgar por alguma americana impetuosa, com sotaque anasalado.
Carolina deu uma risada.
— É assim que ela é?
— Eu não a vi — admitiu Peter. — Mas Broxburne me disse que não se sentiu
atraído por nenhuma mulher que viu em Nova York e que teve de repeli-las quando
percebeu que todas o perseguiam.
Carolina pensou que o marquês parecia um tanto presunçoso.

14
Como ela nada argumentou, Peter prosseguiu: Então Broxburne encontrou Alton
Westwood e descobriu que ele pensava como todo mundo.
— O que você quer dizer com isso? — Carolina indagou.
— Muito simples: que a filha dele poderia se tornar uma marquesa. Naturalmente
que ele preferiria um duque, mas, como não há nenhum à disposição, ele resolveu aceitar
um marquês.
— O marquês deve ter ficado um tanto surpreso com toda essa história —
argumentou Carolina com um sorriso. Acho que ele teve medo de que, se não obsequiasse
o sr. Westwood com esse favor, o homem talvez o impedisse de se tornar presidente de
sua empresa.
— Sempre soube que você era perspicaz! — elogiou Peter —, e é claro que tem
razão. O marquês começou a perceber que estava entre a cruz e a espada: ou cedia às
insinuações declaradas de Westwood ou retornava à Inglaterra de mãos vazias!
— E o que ele fez então? — indagou Carolina.
— Ele teve uma súbita inspiração — replicou Peter. — Disse que era casado.
Carolina não pôde deixar de rir.
— Foi muito inteligente da parte dele. Mas essa resposta não transtornou os planos?
— Aparentemente, não. Westwood encarou o fato com total naturalidade e depois
disso não houve mais pressão sobre Broxburne para que levasse "sua garotinha", como
Westwood diz, para o altar.
Carolina riu outra vez.
— Espero que o tenha congratulado por ser tão astuto!
— Foi o que fiz — replicou Peter —, até me dar conta de que as palavras do
marquês estão agora surtindo efeito. Ele está com problemas até o pescoço.
— Por quê? O que houve? — indagou ela.
— O que vai acontecer — explicou Peter — é que Alton Westwood chegará dentro
de uma semana e, a menos que Broxburque cumpra seu papel de maneira inteligente,
Westwood descobrira que ele não é casado.
— Não tinha pensado nisso! — argumentou Carolina. Vejo que ele está mesmo em
apuros.
— Bem, pensei numa solução — contou Peter. — E é aí que você entra.
Carolina fitou o irmão.
Ela se deu conta de que, pela primeira vez desde que estavam conversando, Peter
franzia a testa e obviamente considerava as palavras.
Carolina aguardou até que Peter disse:
— Sugeri, e Broxburne concordou, que você finja ser a esposa dele enquanto
Westwood estiver na Inglaterra.

15
Carolina se sentou bem ereta no sofá.
— Devo fingir ser a esposa do marquês?! — repetiu ela. — E como?
— Estive pensando a respeito — informou Peter. — E é bastante simples. Broxburne
vai dizer que sua esposa não tem se sentido bem, o que explica por que ela está no campo,
não tendo sido vista em Londres ultimamente.
Ele fitou Carolina para averiguar se ela escutava e prosseguiu:
— O número de pessoas que serão convidadas para comparecer a Brox Hall será o
mínimo possível; na verdade, apenas amigos íntimos de Broxburne, a quem ele poderá
confiar tal segredo.
Ele fez uma pausa, colocando mais ênfase nas palavras que proferiu em seguida:
— Você fará o papel de anfitriã apenas durante as três noites em que Westwood
permanecer lá. Em seguida, espero, Westwood retornará aos Estados Unidos.
— E se ele não retornar?
— Não há razão para que ele, enquanto estiver em Londres, faça alguma alusão à
esposa do marquês de Broxburne e, de qualquer forma, só lhe interessa falar sobre
automóveis.
— Tudo isso me parece tão perigoso! — comentou Carolina.
— Será muito mais perigoso se Westwood descobrir que Broxburne mentiu para
ele! — interveio Peter.
— Será que não seria mais simples para ele ter explicado que agiu assim para evitar
que as garotas americanas o cortejassem tanto?
— Tudo poderia ser muito simples se Westwood não tivesse uma filha — explicou
Peter. — Ele desejou, mais do que ninguém, que Broxburne fosse seu genro.
— Você realmente acredita que os amigos do marquês não vão bater com a língua
nos dentes quando voltarem a Londres?
— Já que lhes serão oferecidas ações da empresa, juntamente com gratificações
lucrativas por fazerem parte da diretoria — respondeu Peter —, é improvável que façam
alguma coisa que possa transtornar os planos, isso eu posso lhe garantir!
Um silêncio se seguiu até que Carolina indagou:
— Suponhamos que eu faça alguma asneira.
— Não vejo por que você faria — apressou-se Peter a dizer. — E depois, você já teve
oportunidade de ver mamãe recepcionando convidados, portanto saberá como proceder.
Posso garantir que nenhum americano fará críticas a suas atitudes.
— Não... creio que não! — concordou Carolina. — Mas o que acontecerá se o
marquês ficar furioso e pensar que eu o desapontei?
— Como a ideia lhe agrada, ele ficará muito grato se você puder poupá-lo do que,
no momento, é uma ameaça que pode até destruir toda a campanha.

16
Tendo em vista a agitação íntima que aquele pensamento lhe provocou, Peter
caminhou de um lado para o outro antes de dizer:
— Olhe, Carolina, vou ganhar muito dinheiro com esse negócio. Prometo-lhe que
tal fato não fará diferença somente para mim, mas também para você.
Carolina não perguntou de que forma aquilo tudo poderia reverter em seu
proveito. Limitou-se a encarar o irmão, que prosseguiu:
— Sei que já deveria ter feito tudo isso antes, mas é que não tinha condições
financeiras para tanto. Quero dizer, providenciar-lhe uma dama de companhia que
pudesse apresentá-la ao mundo social.
— Providenciar-me uma dama de companhia! — exclamou Carolina.
— Só soube outro dia — replicou Peter — que existem mulheres com títulos, que
não têm dinheiro e desejam conseguir algum. Então elas levam uma debutante "sob sua
responsabilidade" e providenciam para que ela se divirta bastante.
Ele reteve a respiração antes de continuar:
— O que significa, é claro, dar um baile, que pode ser muito caro, com alguns
vestidos bonitos, assim como pagar a taxa da dama de companhia, que também pode ser
elevada. No entanto, agora eu tenho condições para arcar com todas essas despesas.
— Parece maravilhoso! — exclamou Carolina. — Gostaria muito de comparecer a
bailes, ainda que por um tempo curto, só para ver como são.
— Então tudo o que tem a fazer — comentou Peter é fingir por três dias e três noites
que é a esposa do marquês de Broxburne, que é, aliás, um bom sujeito.
Ela a fitou com olhar avaliador, antes de concluir:
— Já lhe disse que ele está apaixonado por outra mulher; sendo assim, é improvável
que ele vá aborrecê-la com propostas...
— Não... claro que não! — replicou Carolina. — Não estava pensando nessa
possibilidade, apenas me perguntava se tenho condições de fazer tudo isso.
— Então você concorda? — indagou Peter.
— Com muita relutância, meu querido — admitiu Carolina. — Mas você sabe que
quero ajudá-lo e que será maravilhoso ter algum dinheiro para consertar a casa. Ia mesmo
lhe dizer que há diversos reparos que precisam ser feitos.
— Se esse negócio der certo — comentou Peter —, teremos capital não apenas para
efetuar os reparos, mas também para comprar cortinas, tapetes e tudo o que desejar.
Carolina deu um grito de satisfação.
— É a melhor notícia que já ouvi em toda minha vida. Mas, Peter, se devo fingir que
sou a esposa do marquês, você precisará me ajudar.
— Todos a ajudarão — garantiu Peter —, especialmente o marquês. Ele tem muito
mais a perder do que todos nós juntos.

17
— Espero que ele deseje consertar a casa — comentou Carolina com voz suave.
— É claro que sim! Que homem não gostaria? Mas não se esqueça de que tudo
precisa ser feito dentro de uma semana!
— Mas é impossível! Peter sacudiu a cabeça.
— Nada é impossível quando se tem condições financeiras. Como eu tinha total
certeza de que você se sensibilizaria com a situação, Broxburne já está contratando uma
firma que encherá a casa de criados.
Peter fez uma pausa para respirar e prosseguiu:
— Já descobri os nomes dos comerciantes locais que limparão os aposentos, farão
polimento nas janelas e colocarão a casa em ordem antes que o pessoal chegue.
— Você me deixa estupefata! — exclamou Carolina.
— Sempre me achei um organizador — brincou Peter, com orgulho na voz. — Isso
tudo é organização em grande escala. Saiba que haverá uma grande "bolada" no final.
Carolina se levantou do sofá.
— Seja lá o que for o que acontecerá — prometeu ela com voz calma —, não
podemos cometer nenhum erro.
— Seria um verdadeiro desastre! — concordou Peter. Além de haver dívidas altas a
saldar com que nem nós nem Broxburne temos condições de arcar.
Carolina fitou o irmão.
— Espero que neste momento Newman já tenha aprontado seu banho — anunciou
ela. — vou me trocar, então. Sinto-me como se estivesse num redemoinho, não
conseguindo encontrar uma saída!
Peter passou o braço pelos ombros da irmã.
— Você é formidável, garota! — elogiou ele. — Posso assegurar que Broxburne,
assim como todos nós, ficará muito agradecido a você.
— Ainda estou muito confusa — reclamou Carolina.
— Tudo o que tem a fazer — foi a resposta do irmão — é tornar-se bem bonita e
falar o menos possível.
— Parece fácil, mas não se esqueça de que preciso de alguns vestidos decentes. Não
comprei mais nada, desde que fiquei de luto, e minhas roupas ou estão muito gastas ou
apertadas.
— Achei mesmo que fosse dizer isso. — Peter deu uma risada. — Portanto, trouxe
cem libras em dinheiro para você gastar com roupas.
— Cem libras? — Carolina estava ofegante. — Mas é dinheiro demais!
— Não se esqueça de que você é uma marquesa e que Westwood espera encontrar
toda a pompa e cerimônia possível a uma fidalga verdadeiramente autêntica.
Carolina não pôde deixar de achar graça.

18
— Ah, me esqueci de dizer-lhe — acrescentou Peter —, Broxburne me falou que
trará todas as jóias que pertenceram a sua mãe, as quais no momento se encontram
guardadas no cofre do banco. Você precisará de uma tiara e, é claro, colares e braceletes
em abundância.
Carolina nada respondeu.
Ela sabia, pelo que lera nas colunas sociais, que uma lady de primeira sempre usava
uma tiara, fosse em jantares ou em ocasiões importantes.
O príncipe de Gales sempre insistiu quanto à manutenção desse costume.
— Agora eu sei — comentou ela em voz alta — que o marquês é minha fada
madrinha, que com um toque de sua varinha de condão me vestirá de maneira adequada
para o baile. Contudo, não se esqueça de que à meia-noite, como a Cinderela, tudo
desaparecerá e eu voltarei a usar meus velhos trapos!
— No que diz respeito a Westwood não existem "meiasnoites".
— Então cruze os dedos — pediu Carolina. — com franqueza e honestidade, Peter,
enquanto procuro assimilar a ideia de que devo cumprir esse papel, saiba que estou
bastante apavorada!

CAPÍTULO II

Carolina, com grande excitação, comprou três vestidos de noite muito elegantes, na
cidade mais próxima.
Decidira que, durante o dia, ela poderia usar os vestidos de sua mãe, que não
estavam tão fora de moda, mas que, no entanto, para serem usados durante a noite, eram
bastante ultrapassados.
Ela encontrou alguns vestidos muito bonitos, por um preço que a teria horrorizado,
não fossem as cem libras que seu irmão lhe dera.
Quando afinal se olhou no espelho, Carolina pensou que pelo menos o marquês
não se envergonharia de sua aparência.
Lembrou-se também de que ele traria jóias de Londres para que ela pudesse usar.
Na semana anterior, Peter saíra de casa de manhã bem cedo, só retornando ao
anoitecer.
O marquês o incumbira de zelar para que todas as tarefas em Brox Hall fossem
realizadas a tempo para a visita.

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Ele próprio ficara em Londres a fim de preparar seus amigos para a chegada de
Westwood e também para recepcionar o americano.
— Segure-o em Londres tanto quanto puder — suplicara Peter.
Mas Peter não se sentia otimista quanto ao marquês conseguir tal proeza.
Era óbvio que o sr. Westwood era um homem determinado e resoluto e faria o que
bem entendesse.
Peter pensou, com certo divertimento, que ele próprio possuía o título menos
importante de todos, apesar de ser o mais antigo.
Poderia, portanto, respirar aliviado quando Westwood chegasse.
Peter não saberia dizer qual de seus amigos o marquês pretendia convidar, mas
com certeza o duque e outros dois nobres estariam incluídos.
— Felizmente — ele confessou a Carolina —, não há tantas tarefas a serem feitas na
mansão como eu temia.
— Sempre desejei conhecer aquele lugar — refletiu Carolina —, é bastante
impressionante, não?
— Com certeza impressionará Westwood — foi a resposta de Peter. —
Considerando-se que esteja fechada há tanto tempo, deve haver poucos estragos.
Então ele acrescentou:
— Um ou dois cômodos tinham os tetos manchados pela umidade. Há alguns
quartos que não usaremos por apresentarem manchas maiores nos assoalhos.
— Estou ansiosa para conhecer os quartos de luxo — confessou Carolina, com
vibração na voz. — Porém, mais do que tudo, a biblioteca.
— Garanto que é maravilhosa — replicou Peter. — Mas me causaria surpresa se
Westwood tivesse algum interesse por livros.
Quando Carolina desceu para o café da manhã, Peter informou:
— Eles chegarão amanhã!
— Amanhã?! — exclamou ela. — Mas eu pensei que o marquês fosse segurar
Westwood em Londres!
— Isso é o que ele esperava fazer — foi a resposta de Peter —, mas o americano está
determinado a realizar suas reuniões no local apropriado e aparentemente não se
impressionou com a casa do marquês em Park Lane.
— Imagino que as casas na Fifth Avenue sejam maiores — devolveu Carolina. —
Talvez possuam mais tesouros em seu interior, se o que li estava correto.
— O que quer dizer com isso? — indagou Peter.
— Bem, compreendo que os Vanderbilt, por exemplo, têm uma coleção enorme de
antiguidades de toda a Europa estocada em seus quartos das casas de Nova York, como
uma lata de patê de foie gras.

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Peter deu uma risada e então exclamou:
— Pelo amor de Deus, não diga uma coisa dessas a Vestwpod!
— É lógico que não direi! — replicou Carolina. — Passei todos os dias desta semana
lendo livros sobre o país dele e as informações que tenho tornarão fácil meu diálogo com
Westwood e sua filha.
— Tenha cuidado com o que diz — advertiu Peter.
— Se você preferir, posso fazer papel de muda — observou Carolina. — Mas penso
que os visitantes acharão isso um tanto enfadonho!
— Você está me irritando! — protestou Peter.
— Ao contrário, estou tentando me preparar de tal forma para que nada dê errado.
— Eu estava pensando — começou Peter, como se não a ouvisse — que a melhor
coisa que temos a fazer é irmos para a mansão esta tarde. Carolina fitou-o com expressão
surpresa e ele continuou:
— Eu conheço cada palmo daquela casa, mas tudo será novo para você. Seria um
grande erro se alguém a visse perguntar onde é o caminho para a biblioteca ou se a sala de
visitas é no andar de cima ou de baixo.
— Agora você está sendo grosseiro — ralhou Carolina.
— Mesmo assim acho que é uma boa ideia que você me mostre cada cômodo da
casa. Podemos então ficar aguardando na porta de entrada quando a comitiva chegar.
— Eles virão de trem — informou Peter. — Talvez eu deva aguardá-los na
plataforma ou em alguma -outra parada que o marquês tenha determinado. Saiba que o
trem não parará em nenhum lugar que o marquês não queira!
— Meu Deus, que luxo! — Carolina deu um gritinho. Nunca imaginei que eles
pudessem vir de trem.
— O marquês deseja impressionar Westwood e fazê-lo acreditar que os Estados
Unidos não possuem o monopólio da Inglaterra no que diz respeito às ferrovias —
explicou Peter. — Ele também me disse por carta que anexará o vagão particular de seu
pai ao trem expresso.
— Um vagão particular! — gritou Carolina. — Sempre desejei ver um, mas tenho
certeza de que o sr. Westwood deve possuir um desses na terra dele.
— Tenho certeza de que sim — concordou Peter. — Westwood possui pelo menos
uma estrada de ferro, imagino que poderia reservar um trem inteiro só para seus
convidados!
Ambos riram diante da ideia, mas Carolina ia concluindo que seu papel em toda
aquela farsa era cada vez mais difícil.
Quando Peter retornou para o almoço, trouxe consigo não apenas uma carruagem
na qual ele a conduziria até Brox Hall, mas também um reboque para levar as bagagens
deles.

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Havia um cocheiro e um auxiliar junto ao reboque que Carolina não conhecia.
Quando se afastaram de Greton House, ela indagou:
— Todos os criados são desconhecidos?
— Todos, com exceção dos velhos vigias, a quem pedi que ficassem em seus
aposentos e deixassem tudo por conta da nova criadagem.
— Então, é improvável que alguém me reconheça?
— Totalmente! — foi a resposta convicta de Peter. — Todos eles chegaram de
Londres há dois dias e eu lhes disse que a marquesa se encontrava na casa de amigos e que
eu a traria de volta hoje para aguardar o retorno de seu esposo.
Carolina sentiu um pequeno estremecimento.
Ela não soube dizer por quê, mas o fato de o marquês ser referido como "seu
marido" a fez sentir-se amedrontada.
Peter sempre se referia a ele ou como Broxburne ou como "o marquês".
Foi somente no dia anterior que Carolina se deu conta de que nem mesmo sabia seu
nome de batismo.
— Suponho que deveria saber, já que o marquês é meu vizinho — confessou ela —,
mas eu não me lembro de ter ouvido alguma vez o prenome dele.
— É Alexander — informou Peter. — O que acho bastante apropriado.
— E por quê? — quis saber Carolina.
— Porque Alexander foi o nome de muitos generais e reis, o que, de certo modo, faz
parte da característica pessoal do marquês!
— Quer dizer com isso que o marquês é autoritário e dominador?
— Exatamente — respondeu Peter, com um sorriso —, mas não há razão para temê-
lo. Não deve se esquecer de que é você quem está lhe fazendo um favor, e não o contrário.
— Não se precipite e mantenha os dedos cruzados — pediu Carolina. — Sei que, se
eu falhar, ele me culpará por tudo!
— Agora é você que me assusta! — argumentou Peter.
Pelo amor de Deus, faça reverência à Lua, ou seja lá o que você acredite que lhe dê
boa sorte, e reze para que a senhora fortuna esteja conosco.
Carolina sentiu vontade de acariciar o irmão.
Ele falava como um garoto que temesse que seus brinquedos lhe fossem
arrebatados.
Enquanto Peter conduzia a carruagem, Carolina pousou a mão sobre o joelho dele e
disse:
— Estou apenas brincando; tenho certeza de que você, com sua organização, e eu,
com minha inteligência, faremos com que o marquês consiga a presidência da companhia

22
e a boa remuneração conveniente ao cargo.
— Isso é o que todos nós esperamos — foi a resposta de Peter.
Enquanto viajavam pela longa estrada, Carolina começou a se sentir excitada diante
da ideia de poder ver o interior de Brox Hall.
Ela tinha uma vaga lembrança de quando seus pais iam lá antes da morte do velho
marquês. Ainda era pequena demais para acompanhá-los.
Apesar de, com frequência, ter passeado pelo parque, alimentando os patos no lago,
e cavalgado pelos bosques internos, ela jamais entrara na casa.
Carolina avistou a propriedade à sua frente.
A aparência da casa era bem diferente de quando a avistara pela última vez, no dia
em que Peter voltara para casa.
As janelas estavam agora abertas, e as vidraças, tão limpas que pareciam diamantes
cintilando ao sol.
Alguns homens trabalhavam nos jardins, conforme Carolina pôde perceber quando
se aproximou mais.
Os gramados tinham sido aparados, e as sebes de teixos, desbastadas.
Peter conduziu a carruagem até a porta de entrada.
Naquele momento, surgiram dois lacaios usando uniformes.
O tapete vermelho foi então estendido sobre os degraus e um elegante mordomo de
cabelos grisalhos apareceu para saudá-los.
— Boa tarde, Stevens! — cumprimentou Peter, e, voltando-se para Carolina,
acrescentou: — Este é Stevens, que está dirigindo a casa. Prestou grande ajuda, colocando
tudo em ordem para a chegada de Sua Alteza.
Carolina estendeu a mão para ele.
— Sir Peter me contou como o senhor foi esplêndido elogiou ela. — Sinto muito por
não ter estado aqui para ajudá-los.
— Espero que tudo esteja ao gosto de Sua Alteza — declarou ele.
— Tenho certeza de que sim — sorriu Carolina.
— O chá está na mesa da sala de visitas, milady — informou Stevens com
deferência.
— Oh, obrigada! — exclamou Carolina. — Estivera ansiosa pelo chá durante toda a
viagem.
Peter lhe advertira durante o trajeto que dissesse que estava vindo de longe.
— E não se esqueça, Carolina — arrematara ele —, de que você esteve doente e que
concedeu a sua dama de companhia umas férias merecidas, e é por isso que uma dama
temporária veio de Londres, juntamente com outros criados, para servi-la.

23
— Vou me sentir muito lisonjeada por ter alguém para tomar conta de mim —
respondera Carolina com um sorriso.
Sua mãe sempre tivera uma dama de companhia.
Mas Carolina tomara conta de si mesma depois de sentir que era adulta o suficiente
para dispensar os cuidados da nanny.
Agora ela teria uma dama de companhia cuja única tarefa seria a de tomar conta
dela, lavar e passar suas roupas.
Quando Carolina e Peter estavam em dificuldades financeiras, mantiveram apenas
os Newman na casa, cuidando da maior parte das tarefas domésticas, inclusive tirar o pó
dos móveis.
"Vou tirar umas férias", pensava ela, "pelo menos dos afazeres domésticos."
Sabia, no entanto, que precisaria se policiar.
Seria um desastre se os criados, sem falar no sr. Westwood, suspeitassem que ela
não era assim tão nobre quanto fingia ser.
Carolina entrou na sala de visitas e descobriu que o aposento era como esperava.
Sobre uma mesa próxima à lareira, havia uma grande bandeja de prata, onde
estavam dispostos um bule de chá, uma chaleira com um pavio aceso embaixo, um
açucareiro e jarras com leite e creme.
Havia bolachas quentes dispostas sobre outra bandeja de prata coberta.
Uma variedade de outros pratos continha sanduíches de pepino, bolinhos e
biscoitos de chocolate dos quais Carolina se lembrava de ter comido quando criança.
Havia bolo gelado e um bolo de frutas decorado com amêndoas.
Quando afinal se viram sozinhos, Carolina disse, enquanto despejava chá na xícara
de Peter:
— Se todas as refeições que tomarmos neste final de semana forem como esta,
garanto que estaremos bem gordos na segunda-feira.
— Eu, pessoalmente, vou apreciar cada bocado — afirmou Peter, servindo-se de
uma bolacha quente. — Trabalhei como um escravo durante toda a semana. Na verdade,
não me lembro de ter feito tantas coisas desde que deixei a escola!
— Este aposento é adorável! — elogiou Carolina. — Foi inteligente de sua parte ter
distribuído flores por todos os cantos.
— Não poderia esquecê-las — declarou Peter. — Reparou nas velas dos
candelabros?
Carolina desviou os olhos para o teto e concluiu que eram magníficos.
Movida pela curiosidade, ela levantou-se de repente da mesa de chá, indo examinar
a porcelana nos armários.
Adorou uma coleção de caixinhas de rapé dispostas sobre uma mesa de tampo alto,

24
próxima à janela.
Peter terminou de beber o chá e chamou-a:
— Vamos! vou lhe mostrar os outros aposentos e, então, a biblioteca!
Carolina deu um sorriso.
— Sabe que desejo ver a biblioteca mais do que qualquer coisa.
— Se houver alguns livros lá que queira ler — informou Peter —, tenho certeza de
que, depois que tudo passar, o marquês os emprestará a você.
— Acha mesmo? — indagou Carolina com ansiedade.
— Não deve perguntar-lhe isso agora — advertiu Peter —, mas acho que os livros
poderiam significar uma parte do pagamento por seu trabalho, não acha?
— Mas, Peter, se eu estiver nervosa demais para pedir os livros emprestados ao
marquês, promete fazer isso por mim?
— É claro — garantiu Peter —, mas é melhor nos apressarmos, senão só
terminaremos de ver a casa à meia-noite!
Havia muito para ser visto.
No momento em que Carolina se encontrava admirando a sala de música e quase
fora arrastada por Peter para fora da biblioteca, o Sol se escondia no horizonte.
Peter abriu então a porta da galeria de pinturas, que era bem espaçosa. Aquele local
era uma surpresa pela qual Carolina não esperava.
— Não tinha ideia de que o marquês possuísse uma coleção tão maravilhosa de
obras de arte! — exclamou ela.
— Que, diga-se de passagem, são muito valiosas — foi a resposta de Peter. — Mas
com certeza são herdadas e ele não pensa em vendê-las.
Carolina se voltou para encarar o irmão.
— Havia me esquecido de que existia uma herança — respondeu ela. — O que
significa que o marquês precisa se casar e ter um filho.
— E isso é algo que ele não deseja fazer, pelo menos no momento — garantiu Peter.
— Ele tem apenas vinte e nove anos; não há razão para que se case dentro dos próximos
dez anos!
Os dois continuaram a perambular pela casa.
Já era quase hora do jantar quando chegaram aos quartos infantis.
Carolina sentiu uma tristeza ao vê-los vazios.
Os aposentos apresentavam a mesma decoração dos demais quartos da casa, porém
eram bem maiores.
Ela ficou encantada com um enorme cavalo de balanço e um castelo.
Até mesmo Peter achou o castelinho de brinquedo bastante interessante, com uma

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tropa de soldados de chumbo que parecia conter todos os regimentos do Exército
britânico.
Um urso de pelúcia grande e macio olhava-os de uma cadeira de balanço.
Havia uma infinidade de outros brinquedos idênticos ao que ela e Peter possuíam
quando crianças.
Carolina apanhou nos braços uma boneca de pano e comentou:
— Estava aqui pensando, já que o marquês é casado, o que pensará o sr. Westwood
quanto ao fato de ele não ter filhos...
— Não havia pensado nisso — admitiu Peter. — Suponho que precisemos dar a
desculpa de que a esposa dele tem andado doente.
— É claro, a mulher sempre assume a culpa! — objetou Carolina. — Devo me
apresentar então bem pálida diante do americano e me recolher mais cedo.
— Acho uma boa ideia — investiu Peter. — Westwood pode não achar gentil
discutir negócios na sua frente.
— Muito bem — concordou Carolina —, mas espero que haja alguns livros
interessantes no andar superior.
Quando Carolina se dirigiu ao quarto que lhe fora destinado, surpreendeu-se com a
beleza do aposento e a grande cama de quatro colunas.
Sobre o dossel do móvel, havia um belíssimo entalhe de cupidos carregando
guirlandas de flores.
— Que romântico! — exclamou Carolina.
— É assim que deve ser! — afirmou Peter. — Afinal, este é o quarto da marquesa,
onde existe uma porta de comunicação com o quarto do marquês.
— Quer dizer que ficarei... bem perto dele?
— É claro que sim! — respondeu Peter. — Não se esqueça de que você está casada
com ele, portanto tenha cuidado com o que disser quando sua dama de companhia estiver
por perto.
A seguir acrescentou:
— Esqueci de lhe dizer que o único criado que sabe de tudo é o valete de
Broxburne. Ele foi com o marquês para os Estados Unidos e sabe exatamente por que seu
amo precisou mentir que é casado.
Carolina achou tudo aquilo bastante embaraçoso, mas nada comentou.
Peter se encaminhou até o extremo oposto do quarto e abriu a porta de
comunicação.
— Venha ver a suíte nobre — convidou ele. — Acho que este é o aposento mais
esplêndido que já vi. Como gostaria de ter um!
Carolina seguiu o irmão e, tão logo se viu no quarto do marquês, compreendeu a

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excitação de Peter.
Qualquer homem que ali dormisse se sentiria um verdadeiro rei.
Havia também uma cama de quatro colunas entalhada em carvalho, que estava
coberta por uma colcha de veludo vermelho e tinha o brasão de Broxburne esculpido na
cabeceira.
As cortinas eram do mesmo veludo da cama, e as paredes, forradas com painéis de
carvalho.
Havia uma magnífica lareira de mármore que, conforme Peter afirmara, fora trazida
da Itália.
Os móveis foram escolhidos por época da construção da casa.
— Não me surpreende o fato de o marquês se julgar o monarca de todas suas
propriedades!
— Mas não diga isso a ele — implorou Peter. — Ele se sente ainda bastante
constrangido por não ter tido condições de vir aqui há mais tempo.
Carolina, na privacidade de seus pensamentos, imaginou que, se o marquês tivesse
economizado em seus divertimentos e compras de cavalos no Newmarket de Londres,
poderia, sem dúvida, ter aberto Brox Hall bem antes.
Ela sabia que, se dissesse o que pensava, Peter se irritaria. Então se limitou a voltar
para o outro quarto.
Quando Peter afinal se reuniu a ela, Carolina indagou:
— Suponho que eu possa fechar esta porta durante a noite, não?
— É claro que não! — replicou Peter. — Os criados achariam essa atitude muito
estranha. E lembre-se de que ninguém pode ter a mínima suspeita de que você não é o que
aparenta ser.
Peter refletiu por um momento e então acrescentou:
— Outra coisa que me esqueci de mencionar é que Westwood trará consigo seu
próprio criado.
Carolina pareceu surpresa.
— Achei que os americanos fossem auto-suficientes demais para necessitarem de
valetes!
— No entanto, esse homem não é propriamente um valete, mas sim, um secretário
— corrigiu Peter. — O marquês disse que não se surpreenderia se o tal homem fosse
espião.
— Um espião?! — exclamou Carolina.
— Bem, você sabe como são os criados de confiança lembrou Peter. — Estão sempre
alerta para que o amo não seja ultrajado ou enganado por seus supostos amigos.
— Sei exatamente o que quer dizer — declarou Carolina.

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— É assustador saber que existe alguém me vigiando, espiando tudo o que você e
seus amigos possam fazer.
Peter nada respondeu, pois, naquele momento, a porta do quarto se abriu e uma
criada entrou no aposento.
Os dois se deram conta tarde demais de que, se Carolina era a marquesa, ela não
deveria estar com um homem estranho em seu quarto.
Peter apressou-se a contornar a situação, indagando:
— Com certeza, você é Jones, que estará a serviço de Sua Alteza.
— Sim, senhor! — respondeu a criada com um movimento de cabeça.
— Estava mostrando a Sua Alteza as melhorias que foram feitas no quarto do
marquês, enquanto ela esteve ausente.
Ele fez uma pausa antes de continuar:
— Agora já é hora de trocar de roupa para o jantar. Tenho certeza de que tomará
conta de Sua Alteza com eficiência.
— Farei o que puder — garantiu a criada.
Peter se encaminhou até a porta.
— Vejo você depois — comunicou ele a Carolina.
— Tentarei não me atrasar — replicou ela. — Obrigada por cuidar de tudo.
Quando Peter fechou a porta, ela se voltou para a criada.
— Reparei que você já desfez minhas malas. Agora, se me der licença, gostaria de
descansar um pouco antes de jantar.
— Sim, claro milady — disse a criada, e se encaminhou até a cama para estender a
colcha de cetim e renda.
— Acho que já lhe disseram — começou Carolina — que eu infelizmente estive
doente e minha dama de companhia foi tão maravilhosa para comigo que lhe concedi
umas férias.
— Foi muito gentil da parte de Sua Alteza — avaliou Jones.
— Agora me sinto bem melhor — continuou Carolina. Tenho certeza de que tomar
conta de mim não será tarefa assim tão árdua.
— É claro que não, milady — garantiu Jones.
Ela era uma mulher de rosto agradável, com cerca de quarenta anos e, Carolina
tinha certeza, bastante eficiente.
Enquanto desabotoava o vestido de Carolina pelas costas, a criada argumentou:
— Esta casa é muito bonita, milady. A senhora deve se sentir muito feliz por viver
aqui.
— Adoro viver no campo — replicou Carolina. — Mas pode ser bastante frio no

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inverno.
— Acho que é por isso que milady caiu doente — observou Jones.
Ela se parecia tanto com a velha nanny de Carolina que esta quase não pôde conter
um sorriso. Então, quando se deitou, Carolina pediu:
— Me dê bastante tempo para que eu me vista. Não quero me atrasar para a
recepção.
— Trarei seu banho às sete e meia, milady — assegurou Jones.
A criada deixou o quarto e Carolina riu um pouco consigo mesma.
Era engraçado ter a seu dispor uma criada que lhe providenciaria o banho e
homens jovens e robustos que levariam a água até o andar superior.
Na casa dela, tal trabalho era penosamente realizado pelos Newman.
Fora ideia de Peter construir um aposento para banhos no andar térreo, no local que
fora no passado um espaçoso vestiário.
A banheira fora então colocada no centro do aposento, o que significava ter de
caminhar apenas alguns metros para trazer a água da cozinha próxima.
Ali, em Brox Hall, sem nenhuma dificuldade, trariam a água até seu quarto.
Carolina tinha quase certeza de que duas criadas estariam ali no momento para
despejar a água na banheira, enquanto Jones supervisionava as tarefas.
"Viverei três dias em completo luxo", Carolina disse a si mesma, "por isso vou
aproveitar cada minuto desta curta estada aqui."
O jantar estava simplesmente divino.
Carolina e Peter conversaram com discrição, enquanto os criados se encontravam
na sala de jantar.
Foram servidos pelo mordomo e dois lacaios.
Havia dois deles no hall e mais dois a serviço, para casos de necessidade.
Quando se viram afinal sozinhos, Carolina exclamou:
— A refeição estava deliciosa! Espero que você faça uma grande fortuna, pois
durante o tempo em que permanecermos aqui desenvolveremos um certo gosto pelo luxo!
— Pensei na mesma coisa — brincou Peter. — Suponho que você já tenha percebido
que cometemos um erro que precisará ser severamente repreendido!
— Um erro?! — indagou Carolina, horrorizada.
— A marquesa de Broxburne encontrava-se aqui sozinha na companhia de um
homem belo e elegante chamado sir Peter Greton!
Carolina fitou o irmão por um momento e então exclamou:
— Não havia pensado nisso! É claro que é um erro grave!
— Por sorte já providenciei para que o erro fosse reparado — garantiu Peter com

29
um sorriso.
— Como assim?
— Disse ao mordomo, enquanto ele me perguntava se tudo estava a contento, que
você era minha prima e que fomos criados juntos.
Carolina apertou as mãos.
— Oh, Peter, como você foi esperto! Não havia entrado em minha cabeça que os
criados pudessem se admirar pelo fato de estarmos aqui sozinhos. — Já devia ter pensado
nisso, esta manhã — tornou Peter. — Foi tudo culpa minha.
— Bem, nem os Greton nem o marquês sairão prejudicados — comentou Carolina.
— Assim espero — observou Peter. — Mas Stevens tem um olhar desconfiado de
que eu não gosto nem um pouco.
— Quer dizer... que ele imaginou... — começou Carolina.
— É claro que sim! Foi muita estupidez de minha parte não ter pensado nisso antes.
Carolina nada respondeu e, após um momento, ele advertiu:
— Agora, escute, Carolina. Você é muito bonita, portanto tenha cuidado para não se
envolver com ninguém neste final de semana.
— O que quer dizer com isso? — indagou Carolina, um tanto alterada.
Ela imaginou que o irmão se debatia à busca de palavras, até que respondeu:
— Acho que já ouviu dizer que o príncipe de Gales anda enfastiado com as
mulheres que o têm rodeado nos últimos anos, apesar de estar casado com a princesa
Alexandra.
— Me lembro de mamãe ter se chocado quando soube que o príncipe tinha um
affair com a sra. Lily Langtry, o que ela julgou desleal demais para um príncipe.
Peter franziu a testa e após alguns segundos ela indagou:
— É verdade?
— Não tenho ideia — Peter apressou-se a dizer. — Seja lá o que for, saiba que Lily
Langtry, que se tornou atriz, não foi a única.
— Papai disse algo sobre o príncipe de Gales estar apaixonado por lady Warwick.
Já vi fotos dela nas revistas e a achei muito bonita.
— Não me preocupo com o príncipe de Gales — comentou Peter —, mas, quando
uma mulher bonita é casada, aceita-se que os homens que a conhecem lhe façam elogios e
até flertem com ela.
— Está insinuando que isso acontecerá comigo? Peter imaginou que, como sua irmã
era bonita, seria uma surpresa se os homens não tentassem assediá-la. Então, para não
assustá-la, disse:
— Os homens que vierem para cá saberão que você na realidade não é esposa do
marquês e a tratarão como uma jovem inocente e ingênua. Ao mesmo tempo, se você fosse

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casada, acharia esses cortejos insultantes!
Carolina ergueu ambas as mãos.
— Tudo está se tornando cada vez mais complicado reclamou ela.
— O que tem a fazer — explicou Peter, como se tivesse acabado de pensar no
assunto — é receber os elogios com calma e estar consciente de que tudo faz parte da farsa,
não tendo nenhum outro significado.
— Tem razão — concordou ela. — Compreendo que, como uma mulher casada, eu
me sentiria horrivelmente enfadonha se ninguém me fizesse qualquer elogio.
— Tenho certeza de que você não ficará desapontada garantiu Peter. — Porém, se
não se sentir à vontade, vá para o quarto.
— Mas não posso ir para o quarto na hora do almoço!
Peter ficou calado.
Era impossível explicar seus receios à irmã.
De fato, era-lhe difícil expor em palavras o que sentia até mesmo para si próprio.
O marquês e seus amigos eram todos cavalheiros.
No entanto, o fato de Carolina ser tão bela e adorável e estar desempenhando um
papel que era do conhecimento de todos o assustava tremendamente. Não por causa dos
homens, mas sim, porque Carolina, em seu nervosismo, poderia trair a todos e estragar os
planos. Peter tinha certeza de que estava fazendo tempestade em copo d'água, contudo o
perigo existia.
Sabia que, antes que o fim de semana chegasse ao fim, teria de enfrentar
dificuldades e perigos com os quais não contava.
Ao fitar a irmã, reparou que em seus olhos havia uma expressão amedrontada.
— Está tudo bem — tranquilizou-a ele. — Como dizem no teatro, "não há o que
temer ao anoitecer". Se alguma coisa a perturbar, me procure.
— É claro que sim — finalizou Carolina. — Agora que estou na casa que sempre
desejei conhecer, saiba que essa experiência será muito excitante para mim. Uma
oportunidade que saberei aproveitar.
E era exatamente isso o que preocupava Peter.

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CAPÍTULO III

Carolina sentia uma agitação íntima no momento em que acordou na manhã


seguinte.
Aquele era o dia, tão temerosamente esperado, em que ela se encontraria com o
marquês pela primeira vez.
Carolina sentia apreensão, não só por ele, mas também por seus amigos.
Nada a tranquilizava, nem mesmo o fato de Peter ter garantido que eles manteriam
segredo sobre a farsa.
O que mais a humilharia era descobrirem que ela não era a esposa do marquês.
Carolina tinha certeza de que o americano não apenas se enfureceria por ter sido
enganado, mas também acharia que fora motivo de troça dos ingleses.
— Por favor, meu Deus — rezava ela —, não me deixe errar... por favor... por favor!
Peter, durante a manhã, ocupara-se com os últimos retoques em tudo o que havia
organizado.
Carolina achou melhor tomar o café da manhã em seu próprio quarto.
Quando afinal desceu ao andar térreo, teve uma grande surpresa.
Flores de todos os matizes espalhavam-se alegremente em cada aposento. Elas
ajudavam a esconder certos estragos, tais como tapetes puídos e cortinas desbotadas.
Carolina usava um dos vestidos mais bonitos de sua mãe, o que, ela supunha, dar-
lhe-ia confiança.
Foi então que se lembrou da aliança; deveria estar usando uma, afinal.
Por sorte, ela trazia em seu porta-jóias a aliança que fora da mãe.
Com certa emoção, ela colocou a linda jóia no dedo anelar da mão esquerda.
A partir de então, Carolina teve a certeza de que sua mãe a ajudaria a não cometer
tolices.
Mesmo que Alton Westwood não a notasse, Carolina sabia que o marquês e seus
amigos a notariam.
Se eles não se impressionassem com a aparência dela, Peter se sentiria ferido de
alguma forma.
Carolina ficava satisfeita pelo fato de o irmão ter amigos tão importantes.
Sua mãe se preocupara bastante quando ele fora para Londres.
Ela temia que Peter se envolvesse com os desordeiros que costumavam frequentar o

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Gaiety Theatre.
Carolina suspeitava que tais rapazes não fossem aceitos pelas anfitriãs mais
distintas.
No entanto, pelo que ouvira de Peter, ele fora convidado para as casas mais finas de
Londres.
Certa vez, até fora incluído na lista de convidados para uma festa em Marlborough
House.
"É maravilhoso para Peter", pensava ela, "sei que mamãe adoraria me ver nesses
círculos tão nobres."
No andar térreo, Carolina deu uma olhada em todos os aposentos e
inevitavelmente acabou na biblioteca.
O simples fato de olhar para os livros proporcionava-lhe tal alegria que ela não
sabia expressá-la.
Se ao menos pudesse ler um daqueles volumes, seria uma aventura num mundo
desconhecido.
Seu pai costumava elogiar sua inteligência.
Carolina sabia que ele sentia orgulho por ela ser capaz de conversar sobre os mais
diversos assuntos, e ter um bom conhecimento sobre os costumes variados de outros
países.
Certa vez, ele comentara:
— Você devia ter nascido homem, minha querida.
"O que tenho a fazer", pensou ela decididamente, "é usar a cabeça e parecer mais
velha do que sou quando estiver conversando."
Carolina tivera o cuidado de pentear os cabelos da mesma forma como a mãe o
fazia.
Seu vestido elegante, adornado pela gola alta, era diferente de tudo o que uma
garota poderia usar. Fitou sua imagem refletida num dos espelhos de moldura, dourada.
Esperava que o marquês gostasse de sua aparência, imaginando que ela era o tipo
de mulher com quem ele gostaria de ter se casado.
Mas Carolina não julgava tal hipótese muito provável, já que seus cabelos eram
ruivos e os olhos incrivelmente verdes.
A primeira marquesa de Broxburne devia ter sido do tipo mais comum, de uma
beleza mais fria.
Então, como que em atitude de defesa, Carolina saiu da frente do espelho, dizendo
em voz alta:
— Estou fazendo o que posso, e, se eles desejam alguém com aparência diferente,
não deviam ter me pedido para fazer papel de marquesa!

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Ela e Peter saborearam um delicioso almoço na sala de jantar, que era espaçosa o
suficiente para conter quarenta convidados sem ficar lotada.
Peter decidira que, como eles deviam parecer primos próximos que haviam se
criado juntos, poderiam chamar um ao outro pelos nomes de batismo.
— Você bem sabe — dissera Peter — que é costume na alta sociedade inglesa que
todos sejam tratados pelo título. Sendo assim, você deve se referir a Alexander como
"marquês", o mesmo se aplicando ao duque e aos dois nobres.
— Como eles se chamam? — indagou ela. — Já devia ter lhe perguntado antes,
porque obviamente supõe-se que "meu marido" já tenha me comunicado quem virá nos
visitar.
Peter engoliu em seco.
— Não, outro erro não! — murmurou ele, aflito. Porém, ele informou a Carolina os
nomes do duque de Cumbria, lorde Durrel e o conde de Heverham.
Carolina esperava não esquecê-los quando chegasse a hora.
Às três horas, quando a comitiva já devia estar a caminho, Peter parecia mais aflito
que a irmã.
— Só espero não ter me esquecido de nada — dissera ele várias vezes.
— É claro que não se esqueceu — Carolina tentou tranquilizá-lo. — Você foi
fantástico. Não acredito que alguém tivesse a capacidade de colocar essa casa em ordem
em tão pouco tempo!
— O que custou uma fortuna! — foi a observação de Peter. — Se nada der errado,
Broxburne ficará horrorizado com a conta!
— Nada vai dar errado — protestou Carolina, cruzando os dedos enquanto falava,
esperando que Peter não percebesse seu gesto.
Ambos se dirigiram para a sala de estar e Carolina sentou-se elegantemente num
sofá macio.
O cetim cor de damasco com o qual o móvel era revestido servia como um
magnífico pano de fundo para os olhos e os cabelos de Carolina.
— Há ainda algo que preciso dizer-lhe — começou Peter. Antes que ele pudesse
terminar a frase, a porta se abriu e Stevens anunciou:
— As carruagens acabaram de surgir na estrada, sir Peter! Sem responder, Peter
atravessou correndo a sala, desaparecendo no hall.
Carolina sabia que o irmão receberia o marquês na escada.
Se possível, ele garantiria ao amigo que tudo estava correndo bem, antes mesmo
que este entrasse na casa.
Ela esperou, proferindo uma breve prece para que tudo saísse a contento.
Ouviu-se o ruído de passos no hall. Alguém riu, como se tivesse acabado de ouvir

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uma piada.
Então um homem entrou rapidamente na sala de estar.
Carolina pôs-se de pé.
Foi então que se conscientizou, antes mesmo que alguém lhe dissesse, de que
aquele era o marquês, com quem se supunha que ela fosse casada.
Ele não era o que Carolina esperava.
Pelo que ouvira da descrição de Peter, ela esperava que o marquês fosse um homem
mais velho, frio, cruel e amedrontador.
Em vez disso, viu-se diante de um rapaz jovem, de ótima aparência, com uma
expressão jovial no rosto.
Ele atravessou o aposento, tomou a mão dela entre as suas e murmurou em voz
quase inaudível:
— Obrigado milhões de vezes por ajudar-me. Você é maravilhosa, absolutamente
maravilhosa!
Carolina respirou fundo.
Não esperava receber agradecimentos daquela forma tão simpática.
Então, como mais homens entraram na sala, seguidos por Peter, o marquês se
voltou, anunciando:
— Deixem-me apresentar minha esposa, que, tenho o prazer de dizer, se sente
agora muito bem para ser sua anfitriã.
— Que ótima notícia! — um dos homens exclamou, encaminhando-se até Carolina e
estendendo-lhe a mão.
O marquês então disse:
— Este, minha querida, é o duque de Cumbria, que, como bem sabe, é nosso velho
amigo.
— Sim, claro! — Carolina fingiu concordar. — Prazer em revê-lo, duque! Alexander
fala muito em Sua Alteza.
— Estava ansioso por tornar a vê-la — informou o duque com voz galante.
O marquês se voltou, dirigindo-se para o próximo homem que acabara de entrar no
aposento.
Antes que ele se manifestasse, Carolina concluiu que aquele cavalheiro era Alton
Westwood.
Ele, da mesma forma que o marquês, não era o que Carolina esperava.
Era alto, de ótima aparência, o queixo quadrado dando-lhe um ar de desafio.
Carolina tinha certeza de que ele era texano.
— Agora, este — anunciou o marquês — é o cavalheiro que mencionei na carta,

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querida, Alton Westwood, um dos homens mais inteligentes da América. Todos nós temos
tido grande prazer em sua companhia.
Carolina estendeu a mão, que o americano tomou com tal vigor que a surpreendeu.
Ao fitá-lo, Carolina foi envolvida pelo charme de dois belos olhos azuis.
— Seja bem-vindo a Brox Hall, sr. Westwood — saudou ela. — Meu marido me
contou sobre a hospitalidade com que o senhor o recebeu em seu país.
— E agora é seu marido quem está sendo gentil comigo — replicou Alton
Westwood —, trazendo-me para esta mansão maravilhosa, onde pude também conhecê-la.
Carolina sorriu.
O sotaque americano do sr. Westwood era quase imperceptível, o que lhe conferia
ainda mais elegância e charme.
— Estou ansioso por apresentar-lhe minha garotinha comunicou Alton Westwood.
Ele olhou ao redor e então indagou com certa apreensão:
— Onde está ela?
Um dos homens então respondeu:
— Precisa perguntar? Está cuidando dos cavalos, o que adora fazer.
Alton Westwood deixou escapar uma risada.
— Já devia ter adivinhado! Há apenas uma coisa pela qual Mary Lee se interessa:
cavalos, e não carros!
Todos riram.
O marquês apresentou a Carolina o conde de Heverham e lorde Durrel.
Peter desaparecera e Carolina suspeitou que o irmão saíra em busca da srta.
Westwood.
Foi nesse momento que Stevens e dois lacaios entraram rapidamente na sala.
Um deles levava uma bandeja com duas garrafas de champanhe num balde de gelo
e várias taças.
— Uma boa bebida é do que todos nós precisamos, depois de uma cansativa
viagem de trem — informou o marquês. — E é claro, celebraremos sua primeira visita a
Brox Hall, sr. Westwood.
— Que eu espero não seja a última! — declarou o americano.
Carolina aceitou uma taça de champanhe, desejando que o tremor de suas mãos
não fosse evidente.
Os outros convidados compraziam-se em admirar todos os objetos do aposento.
Obviamente, esperavam que o sr. Westwood também se impressionasse com tanto luxo.
Foi o duque quem se aproximou de Carolina e, em voz baixa, para que ninguém
pudesse ouvir, murmurou:

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— Não fazia ideia do quanto você era adorável. Faço um brinde a seus belíssimos
olhos verdes.
Carolina esperou que o rubor de suas faces não fosse tão intenso. Tentou replicar
com certa calma, como se estivesse acostumada a ouvir elogios desse tipo todo dia:
— É gentileza sua, duque, mas tenho me preocupado mais com os preparativos
para a visita do que comigo mesma.
Ela sorriu como se soubesse que o duque realmente apreciava seus esforços por
parecer à vontade.
"Ele é bastante gentil", pensou Carolina.
Parecia bem mais velho que o marquês e os outros cavalheiros.
Carolina suspeitava que o duque devia estar chegando à casa dos quarenta anos.
Peter entrou no aposento, fazendo companhia a uma garota que, Carolina percebeu
de relance, era bastante graciosa.
Ela esperava uma garota de gestos esportivos e até grosseiros. No entanto a
pequena americana era delicada, possuidora de um par de olhos grandes e brilhantes.
A menina, como o pai, também tinha o queixo quadrado.
Os pés eram incrivelmente pequenos, o que, conforme Carolina soubera, era uma
característica das mulheres americanas.
O sorriso era encantador, iluminando-lhe todo o rosto.
— Como vai, madame? — cumprimentou ela. — Desculpe se me demorei para vir
saudá-la, mas é que estava tão impressionada com os cavalos que nos conduziram desde a
estação que me esqueci de tudo o mais!
— Me alegra saber que você os apreciou — comunicou Carolina. — Se desejar
cavalgar enquanto estiver aqui, saiba que há ótimos cavalos no estábulo.
— Que bom! — exclamou Mary Lee, batendo palmas. Ela então se voltou para o
pai.
— Ouviu isso, papai? Posso cavalgar enquanto estiver aqui. Saiba que me sinto
enferrujada por não ter tido o que fazer a bordo do navio, a não ser jogar boliche!
Todos riram e então o duque argumentou:
— Não posso acreditar que não havia no navio garotos gentis e elegantes que
quisessem ter dançado com a senhorita à noite!
— Claro que havia! — exclamou Mary Lee. — E é certo que dançamos muito, mas
não há nada como cavalgar!
— vou lhe mostrar onde poderá praticar os melhores saltos — ofereceu-se Peter. —
E, acredite, vai se sentir como se tivesse asas.
Mary Lee sorriu diante da brincadeira.
— Então todos os cavalheiros começaram a caçoar dela por causa de sua paixão por

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cavalos.
— Prefiro cavalgar a fazer qualquer outra coisa na vida — protestou ela com
firmeza. — E sinto-me preparada para desafiar qualquer garota inglesa.
Peter voltou o olhar para Carolina.
— Minha prima, a marquesa — informou ele —, é uma amazona formidável;
considere que há um desafio para as duas e, é claro, ficará a cargo da casa a entrega do
prêmio!
Por um momento, Carolina imaginou que seus trajes de montaria não estavam
assim em tão bom estado.
No entanto, seria bastante agradável fazer uma cavalgada.
Durante esses passeios, pelo menos ela ficaria mais descontraída, não tendo de se
preocupar se estava agindo certo ou errado.
Ela afirmou então para Mary Lee:
— Poderemos mostrar a esses cavalheiros o que somos capazes de fazer. Pelo
menos durante nossas disputas, eles poderão manter as mentes longe dos negócios por
algumas horas.
Mary Lee deu risada.
— Tem razão, madame, mas precisará acordar bem cedo para evitar que papai
decida falar de outro assunto. Costumo sempre dizer-lhe: qualquer pessoa que prefira
automóveis a cavalos deve estar maluca da cabeça.
Todos riram da piada infantil e Alton Westwood respondeu com voz contraída:
— Ouçam isso da boca de uma criança ingênua e inexperiente... mas que se há de
fazer?
— Se ela quiser, poderá cavalgar agora — observou o duque. — Porém, quando os
carros chegarem, ela precisará estar livre para ser fotografada. É uma estratégia de
mercado: qualquer um que bater os olhos em sua garota adorável comprará, com certeza,
seu carro, sr. Westwood.
— Boa ideia, papai — aprovou Mary Lee. — Não me importo de ser fotografada ao
lado de um carro, contando que não seja preciso dirigi-lo.
A garota não era nem um pouco tímida. Antes, possuía uma beleza angelical
enfatizada pelo brilho do sorriso e pela forma inocente com que falava.
O marquês devia ser míope, por não pensar em se casar com ela, pensava Carolina,
apesar de Mary Lee ser ainda tão jovem.
Contudo, o marquês não podia se casar com a bela Lilac Langley.
Parecia uma pena que o americano não pudesse ter o marquês, com toda sua
fortuna, como genro.
Então Carolina disse a si mesma que, apesar de improvável, o marquês devia ser

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um idealista.
Com certeza ele desejaria se casar por amor.
De tudo o que ouvira de Peter, porém, casamentos por amor raramente aconteciam
no mundo social.
Sua mãe costumava lhe dizer que entre os aristocratas os casamentos eram
arranjados assim que uma garota nobre debutava.
A coisa mais importante era obter o título mais alto possível.
Carolina sempre imaginava que aquela era uma atitude muito fria e que as
mulheres sofriam mais do que os homens.
Ela sabia que homens como o marquês precisariam casar-se, mais cedo ou mais
tarde, para ter herdeiros.
Era uma vantagem para eles contrair núpcias com alguém da mesma classe social.
Carolina tornou a fitar o marquês, que conversava animadamente com Alton
Westwood. Apesar de Peter achá-lo autoritário e aristocrático, ele também possuía
charme.
Carolina observou os olhos azuis do americano e concluiu que ele devia ser
determinado e, quando a situação exigia, enérgico.
"Ele parece estar determinado a ir em frente com seu plano", pensava ela, "e, se algo
der errado, vai se enfurecer."
Carolina sentiu um calafrio percorrê-la.
Como se percebesse a tensão que ela irradiava, Peter se aproximou.
— Pensei que gostaria de mostrar a casa à srta. Westwood e seu pai enquanto os
criados estão desfazendo as malas comentou ele.
— Sim, claro — concordou Carolina. — Ótima ideia! Ela pôs de lado o copo de
bebida do qual só conseguira tomar um único gole e se encaminhou até o sr. Westwood.
— Será que vocês não gostariam de ver um pouco a casa? — quis saber ela. —
Dentro em pouco tomaremos o chá, mas gostaria de mostrar-lhes a galeria de pintura, se
estiverem interessados.
— Tudo o que for genuinamente inglês me interessa replicou Westwood. — Se você
mesma nos mostrasse essa magnífica casa, ficaríamos muito honrados.
— Então, vamos — ofereceu-se Carolina. O sr. Westwood chamou a filha.
Enquanto deixavam a sala de visitas, Carolina percebeu, aliviada, que Peter os
acompanharia.
Ela achou que não ficaria bem chamá-lo para acompanhá-los, na frente dos outros,
mas sentia que era essencial que ele descrevesse a casa e os objetos que ela vira pela
primeira vez no dia anterior.
Foram todos para a biblioteca em primeiro lugar.

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Conforme Carolina supusera, o sr. Westwood não parecia se interessar por livros.
Ela sabia que, se os livros fossem depreciados pelo americano, não suportaria, e por isso
encaminhou-se a passos rápidos até a sala de música, seguida pelos outros.
Para sua surpresa, tão logo entraram no aposento, Mary Lee correu excitada até o
piano Steinway e arrancou dele alguns acordes.
— Mas você não disse que tocava piano! — exclamou Peter.
— É claro que toco — foi a resposta decidida da garota. Ela tocou os primeiros
compassos da sinfonia de Strauss e, olhando para Peter, comentou:
— Espero que eu possa dançar, esta noite. Sei que terei muitos parceiros!
Como Peter nada respondesse ao último comentário, Carolina apressou-se a dizer:
— Foi descuido de minha parte, srta. Westwood, ainda não tinha pensado sobre
esse assunto, mas eu toco piano bem e a senhorita poderá dançar depois do jantar.
Carolina lançou um olhar na direção de Peter e percebeu que ele afinal
compreendera.
Seria um alívio não ter de continuar a conversa com o sr. Westwood, que, conforme
Peter tinha previsto, causaria problemas.
— Minha prima tem razão — argumentou Peter em voz alta. — Poderemos dançar
aqui e, se os outros quiserem conversar com meu pai, então teremos a sala só para nós.
— Preferiria que todos nós ficássemos reunidos — replicou o sr. Westwood. — Por
outro lado, desejo ser parceiro da marquesa na dança para que Mary Lee também possa
tocar piano.
— É lógico que vou tocar piano — concordou Mary Lee.
— A marquesa e eu daremos um espetáculo.
Saíram da sala de música, entrando em seguida na galeria de pinturas. Naquele
local Carolina também percebeu o fastio da parte do sr. Wetswood.
Mary Lee, ao contrário, entusiasmou-se com um grande número de quadros,
demonstrando em seguida desejo de ver os quartos de luxo.
Sentindo um ligeiro embaraço, Carolina conduziu-os até seu quarto.
— Todas as marquesas já dormiram aqui — comentou ela —, desde que a casa foi
construída.
Enquanto falava, ela lançou um olhar para Peter, que então explicou como os
irmãos Adam eram importantes em 1750 e o fato de os projetos dos quartos jamais terem
sido alterados.
Ele então conduziu a todos pela porta de comunicação que levava até o quarto do
marquês, e o sr. Westwood pareceu muito impressionado.
— Este é um quarto que eu chamaria de majestoso — comentou ele.
— Oh, papai, o senhor precisa ter um como este! — exclamou Mary Lee.

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— E ter todos os meus amigos de olho em mim? — indagou o sr. Westwood,
pensativo. — Não, obrigado, querida, sem luxo para mim!
Mary Lee fez um muxoxo.
— Bem, eu acho esses quartos lindos demais e, quando me casar, quero um desses
para mim.
— Pois precisará se casar com um homem bastante rico e nobre — comentou o pai.
Mary Lee estudou a fisionomia preocupada do pai.
— Já sei o que anda procurando, papai! — exclamou ela.
— Acho uma boa ideia.
Carolina percebeu um brilho nos olhos de Peter e se esforçou para não rir.
Em vez disso, ela conduziu os Westwood para o andar térreo e em seguida para a
sala de visitas, onde o chá os aguardava.
Ela sabia que os americanos apreciavam bastante o farto e delicioso chá tipicamente
inglês.
Quando todos afinal terminaram, após consumirem vários bolos e uma quantidade
considerável de sanduíches, Mary Lee indagou:
— Agora eu posso ver os cavalos? Carolina ficou um pouco surpresa.
Ela imaginou que os cavalos, a principal atração, poderiam esperar até o dia
seguinte. Antes que pudesse argumentar, o marquês disse:
— É claro que poderá ver os cavalos. Sugiro que Peter a leve, já que conhece os
animais melhor do que eu. Espero que me perdoe por não acompanhá-la, mas preciso
redigir algumas cartas depois do jantar. — Gostaria de ter uma palavra com o marquês —
disse o sr. Westwood.
— Pois não! — replicou ele. — Podemos ir até o estúdio. Juntos, os dois se
afastaram e Carolina sentiu que seria cansativo irem até os estábulos naquele momento.
Estivera de pé todo o tempo, desde que amanhecera o dia.
Calçava os sapatos da mãe, que eram um tanto apertados para ela.
Mary Lee, no entanto, parecia determinada a ir até os estábulos, para onde Peter a
acompanhou.
Lorde Durrel disse que gostaria de se retirar para ler os jornais, conduzindo-se até a
biblioteca.
Carolina então se viu sozinha com o duque.
Já ia dizer que gostaria de se retirar para seu quarto, quando ele se sentou a seu
lado no sofá.
— Gostaria de dizer-lhe — começou ele — o quanto a acho maravilhosa e
esplêndida conduzindo nosso plano.

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— Não seja precipitado! — advertiu Carolina. — Morro de medo de cometer algum
engano.
— O que acho improvável — afirmou o duque. Carolina se deu conta de que
aquelas palavras encerravam um elogio. O olhar que o duque lhe lançava fazia com que
ela se sentisse tímida.
— Estava pensando — comentou ela — em ir para meu quarto e descansar um
pouco antes do jantar.
— E deixar um de seus convidados completamente abandonado? — reclamou o
duque. — Não seria um gesto muito simpático.
Carolina sorriu.
— Acho que Sua Alteza já é bem grandinho para cuidar de si próprio —
admoestou-o ela. — O que me preocupa é sobre o que o sr. Westwood estará conversando
com o marquês.
— Bem, de uma coisa eu tenho certeza: não está forçando o marquês a se casar com
a filha dele — asseverou o duque.
— Ela é uma garota bastante delicada — observou Carolina.
— É muito mais bonita do que eu esperava — comentou o duque. — Como você
deve saber, Alexander não parece disposto a se casar até que esteja bem velho.
— Eu entendo — assentiu Carolina. — Acho que é difícil para um homem que
queira se casar por amor cair numa armadilha dessas quando menos espera.
— E é isso que sinto neste momento — tornou o duque. Carolina fitou-o com
surpresa.
Ela não imaginava que o duque, sendo viúvo, poderia sentir-se tão vulnerável
quanto o marquês, e no entanto ele não deixava de ser um bom partido.
Como se o duque lesse seus pensamentos, exclamou:
— Exatamente! E deixei bem claro para nosso americano que ainda me sinto
desolado pela morte de minha esposa e não gostaria de colocar alguém no lugar dela.
Carolina pousou a mão na testa.
— Oh, meu caro duque — devolveu ela —, acho que está enfrentando os mesmos
problemas do marquês, o que eu não esperava que fosse acontecer.
— Sou viúvo há muitos anos — comentou o duque —, mas, se, por qualquer
motivo, o sr. Westwood lhe perguntar sobre isso, diga-lhe que... Bem, saberá o que dizer...
— Por favor, não fique me lembrando das palavras que preciso dizer — pediu ela.
— Estou rezando para não cometer gafes, mas é muito difícil.
— Como eu já disse, sua representação é perfeita! — exclamou o duque. — Mas
devo admitir que você me surpreendeu!
Carolina lançou-lhe um olhar inquiridor.

42
— Não consigo entender por que não a conheci antes explicou o duque. — Você é
tão linda, tão maravilhosa que é capaz de pôr todas as beldades no chinelo!
Carolina riu.
— Agora deve estar caçoando de mim e eu sei por quê. Sou uma garota do campo
que nada conhece de Londres e que foi forçada a tomar parte nessa charada apenas para
ajudar Peter.
— Mas você está ajudando a todos nós! — comentou o duque. — E eu,
particularmente, fico-lhe muito grato!
Havia uma sinceridade genuína na voz dele.
Carolina sentiu-se corar diante do olhar que o duque lhe lançava.
Foi então que se lembrou de que Peter a advertira sobre aquele tipo de conversa.
— Acho que vou para meu quarto — Carolina apressou-se a dizer.
Mas, quando fez menção de se levantar, o duque estendeu uma das mãos para ela a
fim de impedi-la.
— Quero conversar com você — insistiu o duque. — Acharei muito cruel se você
simplesmente sair e me deixar sozinho.
— Sobre o que deseja conversar? — Carolina quis saber.
— É claro que já sabe a resposta: você!
— De agora em diante quero que saiba que esse é um assunto proibido — Carolina
apressou-se a objetar. — Seria imprudente conversarmos de maneira tão suspeita e
indiscreta.
Ela fez uma pausa e então continuou:
— De qualquer forma, se quiser ter sucesso nessa farsa, saiba que precisará fingir da
manhã até a noite.
— Se está insinuando — começou o duque — que quer que eu a veja como a esposa
de Alexander, saiba que não pretendo agir assim! Conheço Alexander muito bem e sei
quais são seus interesses no momento.
Ele fez uma pausa para sorrir e então continuou:
— Acho que não estou penetrando na propriedade dele, dizendo que você me
intriga. Quero saber tudo a seu respeito.
Carolina riu.
— Por que ri? — quis saber o duque.
— Porque esse é exatamente o tipo de conversa sobre o qual meu irmão me
advertiu. Ele me disse que qualquer coisa que me dissessem seria por causa de minha
condição de mulher casada.
Carolina percebeu a expressão no rosto do duque e tornou a rir.

43
— Parece um tanto complicado — admitiu ele. — Não pensei um só momento que
você fosse a garota inocente e tranquila do campo que tentou me fazer acreditar. Isso é
pretexto seu, pois vejo que se sente muito à vontade fingindo ser a marquesa de
Broxburne.
Carolina pousou os dedos sobre os lábios.
— Tenha cuidado! — advertiu ela. — O senhor nunca saberá se alguém pode estar
escutando nossa conversa. Peter me disse que o homem que acompanha o sr. Westwood
pode ser um espião!
O duque, como que por instinto, olhou por cima do ombro.
— Ele pensa isso? — questionou. Carolina assentiu.
— Esse homem é secretário particular do sr. Westwood há vários anos. Supõe-se
então que ele poderá repetir tudo o que ouvir para seu patrão.
— Sim, posso entender tudo isso! — admitiu o duque em voz baixa. — Você tem
razão! Precisamos ser prudentes.
Ele olhou na direção da porta antes de indagar:
— Mas, cá entre nós, o que acha de seu "marido", agora que tem um?
Carolina percebeu que a pergunta do duque não passava de simples curiosidade e
então comentou:
— Agora é Sua Alteza que está sendo indiscreto — ralhou ela. Antes que o duque
pudesse objetar, ela se pôs de pé.
— Sou uma esposa fiel, adorável e bem-comportada informou ela. — Posso lhe
assegurar com total convicção que jamais tive olhos para outro homem desde que me casei
com o marquês.
— Magnífico! — exclamou o duque. — Mas, seja lá o que disser ou fizer, minha
adorável marquesa, farei o impossível para que repare em mim!
Antes mesmo que Carolina pudesse impedi-lo, ele tomou as mãos dela entre as
suas, depositando um beijo apaixonado sobre elas.
Devido ao embaraço e à insegurança, Carolina afastou-se dali apressadamente, sem
olhar para trás.

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CAPÍTULO IV

Carolina achou o jantar um verdadeiro sucesso. Todos riram e se divertiram.


Ela estava consciente de sua beleza, reforçada pela tiara de diamantes que o
marquês lhe enviara por intermédio de seu valete.
A jóia chegara exatamente no momento em que ela dava os últimos retoques em
seu vestido. Para completar a toalete, usou também um colar de diamantes e um par de
brincos.
O vestuário e as jóias faziam-na parecer mais velha.
Sentiu-se a verdadeira "marquesa", assim que desceu as escadas.
Carolina percebeu a admiração que fluía dos olhos do marquês. Decidiu-se então a
não concentrar sua atenção nele, mas em Alton Westwood.
Ele vestia um elegante traje de noite cortado em estilo americano.
Mary Lee estava adorável. Trazia um vestido fofo e bufante, no estilo perfeito de
uma adolescente. Parecia animada, e os homens que se sentavam a seu lado durante o
jantar achavam graça em tudo o que ela dizia.
Com as faces coradas e os olhos cintilantes, nenhuma garota inglesa da idade dela
se sentiria desembaraçada o suficiente para agir daquela forma.
No entanto, Mary Lee não parecia consciente de sua aparência.
Após o jantar, todos se dirigiram para a sala de música.
Para surpresa de Carolina, um homem já estava tocando piano.
Ela fitou o marquês com olhar inquiridor e este explicou:
— Entendo que tanto você quanto a srta. Westwood queiram dançar e, como há
poucas mulheres aqui, não desejei que fossem as pianistas da noite.
— Você tem uma varinha de condão! — exclamou Carolina.
Ela se lembrou da conversa que tivera com o irmão enquanto estava a caminho.
Reparou quando o marquês deu uma piscada diante da ideia de ser um mágico.
— Esse é um papel — disse ele — que estou preparado para assumir, mas a maior
parte das mulheres acha que sou um príncipe encantado!
— Acredito nisso! — observou Carolina. — Brox Hall é um lugar encantado com
uma fada em cada canto.
O marquês riu.
Foi então que o duque se colocou ao lado de Carolina e disse:

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— Marquesa, acho que deveríamos abrir o baile juntos. Carolina não pôde fazer
outra coisa senão concordar. O marquês, como era de esperar, convidou Mary Lee para
dançar.
Os dois casais saíram rodopiando pelo salão, enquanto os outros homens sentavam-
se para observá-los.
Carolina tinha certeza de que os homens eram críticos.
Ela notou, no entanto, que em um dos cantos da sala havia uma mesa de cartas.
Não ficou surpresa quando o marquês convidou Alton Westwood para um jogo de
bridge.
— Lembro-me — comentou ele — de que você tinha muita sorte no jogo de cartas
quando estávamos nos Estados Unidos.
— Se está procurando desforra, marquês, saiba que estou preparado para enfrentá-
lo — replicou o americano.
— Como sou cauteloso — comentou o marquês de bom humor —, prefiro fazer
apostas baixas.
Alton Westwood sorriu. O conde e lorde Durrel pareciam ansiosos por participar
da jogada, o que permitia que o duque dançasse com Carolina e que Peter fosse parceiro
de dança de Mary Lee.
O duque, diga-se de passagem, dançava muito bem.
Peter e Mary Lee tentavam novos passos e se divertiam bastante.
— Será que preciso dizer o quanto está adorável em seus trajes? — quis saber o
duque.
— Sabe que os elogios me embaraçam — replicou Carolina.
— Bobagem! — exclamou o duque. — Qualquer mulher adora saber que é
adorável, especialmente aquelas que não são!
— E, é claro, elogios são muito mais excitantes quando são feitos por alguém tão
nobre quanto um duque — comentou Carolina de forma provocativa.
— Agora é você quem está caçoando de mim — reclamou ele —, mas, realmente,
minha adorável embusteira, estou sendo sincero!
— Mas tenha cuidado — tornou a advertir ela —, sabe que todos nós temos um
papel difícil a cumprir.
— O que me agrada mais do que eu esperava — respondeu o duque.
— Se o senhor for indiscreto e com isso atrapalhar tudo — ralhou ela —, nem eu
nem o marquês o perdoaremos jamais!
O duque alçou as sobrancelhas.
— Esse plano significa tanto assim para você?
— É tudo para meu irmão.

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— Então, se você me pedir com delicadeza — propôs o duque —, eu obedecerei a
suas ordens.
A dança terminou.
Carolina foi sentar-se numa das cadeiras ao lado da pista de danças.
— Então, vamos falar de nós agora — insistiu o duque. Ela não respondeu, mas o
duque prosseguiu:
— Estive admirando sua linda tiara de diamantes. É uma das mais valiosas que
jamais se viram, nem mesmo no palácio de Buckingham.
— Para ser franca — respondeu ela —, gostaria de estar usando uma coroa de
flores. Tenho certeza de que, se usar esta tiara por muito tempo, ficarei com dor de cabeça.
— E eu me pergunto que tipo de flores lhe cairiam melhor! — brincou o duque, —
Precisariam ser raras, e não simples como rosas ou orquídeas.
— Tenho certeza de que o senhor possui belas estufas de flores em seu jardim —
comentou ela casualmente.
No entanto, sabia que precisava evitar que o duque se tornasse muito íntimo.
Também não era conveniente que ele a olhasse daquela forma, fazendo com que,
ela temia, fossem notados pelos outros participantes da festa.
— Vejo que está tentando mudar de assunto — comentou o duque, em tom
reprovador. — Acho que deveria adverti-la, minha adorável marquesinha, de que sou um
homem muito persistente.
— Não vejo por que tanta persistência — foi a observação de Carolina.
Ela desviou os olhos do rosto dele, e viu Mary Lee outra vez na pista de danças.
— Então vou lhe dizer — insistiu ele. — Desde o momento em que a vi tive vontade
de beijá-la, e saiba que a minha determinação de satisfazer esse desejo cresce a cada
momento. Prometo beijá-la antes que a festa termine!
A forma como ele falava fez com que Carolina decidisse fazer algo a respeito para
evitar mais problemas.
Antes que o duque pudesse impedi-la, Carolina se levantou, encaminhando-se até o
piano.
— Estou adorando sua música — comentou ela com o pianista. — Poderia tocar
duas melodias de minha preferência?
— É claro, milady — concordou o pianista. — Diga-me quais são.
Carolina disse o nome de duas músicas que estava acostumada a tocar.
Ambas eram de autoria de Johann Strauss.
O pianista sorriu.
— Pois saiba que essas são também as minhas músicas preferidas.

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Quando o pianista se pôs a tocar, Carolina percebeu a aproximação do duque.
Deliberadamente, ela desceu os dois pequenos degraus da plataforma onde estava o
piano, dirigindo-se para a mesa de cartas, onde os homens jogavam.
Tão logo chegou junto deles, Carolina se colocou atrás da cadeira do marquês. Ele
então levantou os olhos para ela e perguntou:
— Veio ver se estou gastando seu dinheiro, querida?
— Sinceramente, espero que não — replicou Carolina, em tom de voz suave, quase
brincalhão. — Só gostaria de lembrar que meu aniversário é no mês que vem.
— Ouviu isso, Westwood? — indagou o marquês. — Se continuar tirando tudo o
que tenho no bolso, minha adorável esposa ficará desapontada no dia de seu aniversário.
— É uma data que eu não posso esquecer — comentou Alton Westwood. — Talvez
o primeiro carro da linha de produção seja batizado com o nome de "Carolina".
Um silêncio se seguiu e foi quebrado pela exclamação do conde:
— É uma ótima ideia! Carolina é um bom nome para carro.
— Era algo que gostaria de discutir com você — falou Alton Westwood. — Talvez
possamos nos reunir amanhã.
— É uma boa ideia — replicou o marquês. — Mas só gostaria de dizer que agora é
"dois sem trunfo".
— Três de copas! — anunciou o conde. Carolina se afastou.
A fim de evitar os flertes do duque, ela concluiu que seria melhor permanecer ao
lado dos jogadores.
Nada do que ele dissesse ali seria ouvido.
Então o duque convidou Mary Lee para dançar com ele o que permitiu que Peter
viesse até Carolina.
Já que Carolina desejava tanto conversar com o irmão, ambos foram para a pista de
danças.
— Está tudo bem? — quis saber ele, em voz baixa.
— O duque se comporta daquela mesma maneira que você comentou — Carolina
explicou.
— Achei que isso fosse mesmo acontecer — comentou Peter. — Tudo o que importa
é que o sr. Westwood esteja se divertindo.
Dançaram por alguns minutos até que Carolina decidiu:
— Como todos pensam que estive doente, acho que vou para meu quarto a fim de
descansar. Por favor, dê minhas desculpas a todos os hóspedes, sim?
— É claro — concordou Peter. — Você foi maravilhosa, esta noite. Estou muito
orgulhoso de você.

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Carolina sorriu para ele.
— Obrigada, Peter, mas seja prudente e não deixe que ninguém beba demais.
Peter assentiu com a cabeça.
— Já pensei nisso e sei que a última coisa que todos desejam é que a verdade venha
à tona.
Carolina deu uma risadinha.
Quando a música terminou, Peter abriu a porta para a irmã e ela se retirou de
mansinho.
Ela subiu até o andar superior e bateu o sininho para que Jones viesse ajudá-la a
despir-se.
— Todos os convidados comentaram sobre sua beleza, milady! — elogiou a criada.
— Obrigada — agradeceu Carolina —, mas me sinto um tanto cansada agora e os
médicos me aconselharam repouso constante.
— Ótimo conselho, milady — assentiu a criada.
Carolina deitou-se.
Quando a criada deixou o quarto, Carolina apanhou o livro que tinha decidido ler,
logo se vendo completamente absorta na leitura.
Já tinha lido dois capítulos quando decidiu que seria mais prudente tentar dormir.
Foi então que ela ouviu alguém bater na porta. Talvez fosse Peter, pensou ela, e
então gritou:
— Entre!
Para seu assombro, a porta de comunicação se abriu e o marquês entrou.
Ele obviamente já havia se despido e naquele momento usava um longo chambre.
Carolina reparou que o traje era o mesmo que seu pai costumava usar,
transpassado na frente e em estilo militar.
Ela não conseguiu tirar os olhos do marquês quando este fechou a porta e veio em
sua direção.
Com um horrível pressentimento, ela concluiu que algo de muito ruim havia
acontecido no andar térreo e que o marquês viera ali para comunicar-lhe a desgraça.
— O que... foi que houve? O que aconteceu depois... que deixei a sala?
Ele se aproximou ainda mais da cama, sentando-se no estremo oposto, sem nem
mesmo perguntar-lhe se deveria.
— Precisava vê-la — confessou ele —, e esta era minha única chance.
Carolina fitou-o com os olhos repletos de preocupação.
— O que houve?

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— Nada de grave aconteceu — assegurou ele. — Mas achei que deveria avisá-la de
que poderei parecer bastante carinhoso com você até que essa recepção toda termine.
— Muito... carinhoso? — replicou Carolina aos tropeções.
— Por quê?
— Estive conversando com Westwood, esta noite — explicou o marquês —, e ele
me disse algo que eu ainda não sabia: o pai dele era um pregador leigo.
Carolina soltou um pequeno murmúrio de surpresa e ele prosseguiu:
— Há um grande número deles perambulando pela América e lá eles têm maior
importância do que aqui. Westwood foi, portanto, educado dentro de um regime muito
rígido.
— Quer dizer que ele é religioso? — quis saber ela.
— De seu modo, sim, bastante, e, com certeza, qualquer espécie de imoralidade
poderá consterná-lo.
Os olhos de Carolina se arregalaram.
— Parece que, quando ele estava no navio — prosseguiu o marquês —, alguém
insinuou que o príncipe de Gales tinha muitos casos amorosos, o que acontecia também
com todas as pessoas que faziam parte da alta sociedade de Londres.
— E isso realmente chocou o americano? — indagou Carolina.
— Ele disse que não gostaria de ver "sua garotinha" corrompida por mulheres
infiéis a seus maridos nem, acrescentou ele com firmeza, desejará que Mary Lee se case
com homens que estiverem envolvidos com tais mulheres!
Carolina susteve a respiração.
Ela entendia que o marquês não se sentia preparado para suportar uma situação
assim. Ele deu uma risada e prosseguiu:
— Westwood é bastante sensível para perceber que onde tem fumaça tem fogo!
— Mas com certeza — começou Carolina com voz trêmula — ele não vai desistir de
todos os planos logo agora que a história foi tão longe.
— Ele é bem capaz de fazer isso — replicou o marquês —, e você deve saber como
se comportam os moralistas, especialmente se forem americanos, que podem tornar-se
verdadeiros fanáticos em assuntos que despertem suas emoções.
— Então o que foi que você disse? — quis saber Carolina.
— Eu lhe disse que, como era tão bem-sucedido no turfe, sempre havia pessoas que
tinham inveja de mim e por isso faziam mexericos.
— E ele entendeu?
— Parece que sim, mas para garantir eu lhe disse: "Por exemplo, eu sei que algumas
pessoas comentaram que estou sempre rodeado de belas mulheres, ou mais precisamente,
com a mulher mais linda de toda a Inglaterra: Lilac Langley".

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O marquês fitou o rosto de Carolina com atenção enquanto falava.
Ela tentou não corar, mas sentiu as faces em fogo. Apesar da determinação de
manter a compostura, seus olhos brilhavam quando ela os desviou do rosto dele.
— Mexericos espalham-se depressa — apressou-se a dizer o marquês. — Mesmo
num lugar afastado como este!
Havia uma nota fria e sarcástica na voz dele e ela então tentou contornar:
— Não deve se surpreender. E depois você tem grande importância social. Mamãe
sempre dizia que os pais que desejavam casar suas filhas com homens de títulos sentiam-
se frustrados quando algo atrapalhava seus planos.
O marquês riu.
— Você tem razão — argumentou ele —, mas isso não me preocupa no momento. O
que anda me tirando o sono não são mães interesseiras, mas sim, um americano puritano!
— O que foi que disse a ele? — indagou Carolina.
— Tentei adverti-lo de que com certeza ouvira histórias sobre Lilac Langley e mim;
mas que na verdade eu estava preocupado com a desolação da lady.
Carolina fitou-o com expressão de surpresa e ele então explicou:
— Eu lhe disse que a razão para eu dedicar meu tempo a Lilac é que o marido dela
anda interessado por outra mulher. E se há algo que mais me aborrece, tentei explicar a
Westwood, é ver uma linda dama mergulhada em lágrimas!
— Ele acreditou? — quis saber Carolina.
— É lógico que sim! — foi a resposta do marquês. — E saiba que minha
representação foi melhor que a sua.
— Foi mesmo uma explicação inteligente — comentou Carolina.
— Foi o que também pensei — ponderou o marquês —, mas você entende por que
devo parecer um esposo atencioso e dedicado para que ele não acredite nas histórias que
ouvir?
Ele franziu a testa e então prosseguiu:
— Eu só gostaria de pôr as mãos naqueles mexeriqueiros que não conseguem
manter a boca fechada!
— Acho que seria como lutar inutilmente contra a maré — comentou Carolina. —
Mas tenho certeza de que Westwood acreditou em você.
Ela apertou as mãos nervosamente e prosseguiu:
— Seria desolador e cruel se ele voltasse para os Estados Unidos ou escolhesse
outro presidente depois de todo o trabalho que tivemos, abrindo esta casa esplêndida.
— É exatamente isso o que me preocupa — interveio o marquês. — Talvez você
pudesse ajudar, dizendo-lhe que marido maravilhoso sou e como somos felizes juntos.
— Sim, é claro que o farei — garantiu Carolina. — Na verdade, eu acho o sr.

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Westwood um homem bastante gentil.
— Eu também — concordou o marquês —, mas eu não esperava que ele tivesse um
pai declamador de salmos. Isso lhe parece ainda mais importante do que ter um genro
nobre e dono de títulos.
— Acho Mary Lee uma garota adorável — observou Carolina. — Receio, porém,
que ela tenha herdado de seu pai a obstinação e a inteligência e que não seja capaz de se
casar apenas por causa de um título.
— Realmente acredita nisso? — indagou o marquês. Pensei que fosse ambição de
toda mulher ser possuidora de um título ao se casar, para alegria de suas mães.
Carolina riu.
— Agora você fala das mães interesseiras que despreza. Tenho certeza de que todas
as garotas, se tiverem oportunidade, gostariam de se casar por amor. Eu, pessoalmente,
acho os casamentos arranjados apavorantes e que deveriam ser proibidos por lei!
O marquês então riu e comentou:
— Você é, com certeza, uma mulher bastante original. Devo dizer-lhe que fiquei
surpreso pela maneira como representou um papel tão difícil, o que seria um desafio até
para uma atriz profissional.
— É esse o tipo de elogio que gosto de ouvir! — sorriu Carolina. — Fique certo de
que ando muito assustada!
— Senti o medo em seus olhos assim que cheguei — admitiu o marquês. —
Prometo que farei tudo o que puder para evitar que você se perturbe. E saiba que minha
gratidão é tão grande que é difícil expressar em palavras.
— Tudo o que fiz é por causa de Peter — esclareceu ela.
— Foi muita gentileza de sua parte chamá-lo para se reunir a seu grupo de amigos
importantes.
— Percebi que você e seu irmão não andam bem de vida — comentou o marquês.
— As coisas andam difíceis desde que papai morreu explicou Carolina. — Por isso,
acho que seria importante para Peter não apenas ter algum dinheiro, mas também um
bom trabalho.
— Foi isso que também pensei — replicou o marquês. Tal fato acontece com todos
nós; Satã costuma agir por meio de mentes ociosas.
— Então vou rezar muito — prometeu Carolina —, para que o sr. Westwood
acredite que você é a pessoa certa para ocupar o cargo de presidente da empresa dele e
para que seus amigos sejam homens decentes e tementes a Deus.
Ela declarou as palavras com tal fervor que o marquês comentou:
— Tenho certeza, Carolina, de que suas preces serão ouvidas. Mas precisamos ser
muito prudentes durante os próximos dias.
Sim, claro — concordou ela. — E pense em atividades que possam manter seus

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hóspedes ocupados.
O marquês pareceu confuso e ela explicou:
— Se houver muita conversa, será fácil que alguém cometa um erro. Antes de vir
para meu quarto, pedi a Peter que não deixasse ninguém beber demais.
— Foi muito sensato de sua parte — aprovou o marquês.
— É algo em que eu já devia ter pensado antes.
— Pensei em atividades que todos possam fazer amanhã — sugeriu Carolina. — É
claro que poderá haver cavalgadas e talvez algum lugar para ir.
— Pensarei em sua sugestão — comunicou o marquês.
— E no domingo... — Ela parou.
— O quê? — quis saber o marquês.
— Tenho o pressentimento de que o sr. Westwood espera que todos compareçam à
igreja. De qualquer forma, minha intenção era essa, mas não achei provável que você fosse
à missa.
O marquês refletiu por um momento.
— No passado papai costumava ler as escrituras — comentou ele. — E é isso o que
farei no domingo. Espero que todos meus hóspedes estejam reunidos na igreja, nos bancos
reservados à família.
Carolina deu um breve suspiro.
— É isso mesmo o que o sr. Westwood espera de todos nós.
— Mais uma vez, Carolina, obrigado por sua sensatez e inteligência.
Enquanto falava, ele estendeu-lhe a mão. Carolina, após um momento de hesitação,
estendeu também a sua para ele. Apertando suavemente os dedos dela, ele disse:
— Quando pedi que Peter me ajudasse, jamais imaginei que ele fosse arranjar uma
criatura tão maravilhosa como você.
— Não precisa me agradecer tanto, também lhe devo favores — comunicou
Carolina. — Sinto-me tão sozinha, depois que mamãe morreu e Peter partiu para Londres,
não tendo com quem conversar a não ser os velhos criados... O marquês fitou-a com
atenção.
— Quer dizer que vive completamente só, sem nem mesmo uma dama de
companhia para tomar conta de você?
— Não poderíamos pagar uma — apressou-se Carolina a explicar. — Para falar a
verdade, sinto-me feliz por ter um cavalo para montar e um livro para ler.
— Tudo o que posso dizer — comentou o marquês — é que esse é o maior
desperdício de beleza e inteligência que já encontrei!
Carolina riu e então disse:

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— Mas veja como esse desperdício reverteu em seu benefício agora — lembrou
Carolina. — Se eu estivesse em Londres dançando em todos os bailes, você não poderia
me convidar para vir até Brox Hall e fazer o papel de sua esposa.
— Certamente que não! — admitiu o marquês. — Entendo seu raciocínio. No
entanto, acho que esse assunto precisará ser considerado no futuro.
— O futuro — replicou Carolina —, tanto para mim como para você, depende
inteiramente do sr. Westwood.
— Então, nós dois precisamos fazer algo acerca disso tornou o marquês com voz
determinada. Levantou-se da cama e, ainda segurando a mão dela, disse: — Obrigado
mais uma vez!
Ele então comprimiu os dedos delicados.
Por um momento, Carolina imaginou que ele fosse beijar-lhe a mão.
No entanto, antes que ela pudesse se dar conta, o marquês se inclinou, depositando-
lhe nos lábios um beijo suave.
O beijo era inocente e doce, contudo Carolina levou um choque momentâneo, pois
jamais havia sido beijada.
Ela experimentava uma estranha excitação, ao ser tocada pelo marquês.
Nunca imaginara que os lábios de um homem pudessem ser tão firmes e
possessivos.
Parecia-lhe impossível respirar.
Então o marquês ergueu a cabeça e soltou a mão dela.
— Boa noite, Carolina — despediu-se ele —, durma bem.
Ele atravessou o quarto e desapareceu pela porta de comunicação sem olhar para
trás.
Somente quando se viu completamente sozinha é que Carolina deu um suspiro.
Fora beijada pela primeira vez na vida por um homem que acabara de conhecer.
Era-lhe difícil descrever o que sentia e impossível acreditar que tinha mesmo
acontecido.
Ela apagou a luz e aconchegou-se entre as cobertas, na completa escuridão do
quarto.
Então se lembrou de que esperara viver uma aventura, e era o que estava
acontecendo.
Uma aventura dramática, surpreendente e inesperada, que ela nem sequer
imaginara viver em seus sonhos mais ousados.
Como era possível que ela estivesse em Brox Hall onde jamais pensara entrar? E
que, ali estando, pudesse fingir ser a esposa do marquês, vivendo a seu lado?
E mais: ele a beijara!

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Ela ainda podia sentir a pressão dos lábios dele sobre os seus.
A lembrança acendia-lhe no peito um estranho sentimento.
Carolina fechou os olhos e tentou dormir.
O que quer que acontecesse no dia seguinte ou mesmo no domingo, quando ela
voltasse para casa, teria muito do que se lembrar.
Especialmente do marquês, cujos lábios tinham tocado delicadamente os seus.

CAPÍTULO V

Carolina sentia-se um tanto constrangida, quando desceu para o café da manhã no


dia seguinte, perguntando-se como o marquês expressaria a afeição de que falara na noite
anterior.
Será que ele se lembrava de que a havia beijado?
Carolina tentou se convencer de que tal atitude fora apenas um gesto de
agradecimento por ela estar sendo útil.
No entanto, era algo que encerrava tanta intimidade!
Só o fato de pensar no assunto fazia com que ela corasse.
Carolina vestiu as roupas de montaria, pronta para enfrentar o desafio a que ela e
Mary Lee se propuseram.
Tudo o que precisava fazer após o café era colocar o chapéu que sua mãe
costumava usar nas caçadas.
Ela tinha consciência de que seu uniforme de montaria, apesar de surrado, tinha um
corte elegante.
Tivera o cuidado de cobrir os cabelos com um fino lenço engomado.
Apesar de todo o esforço que ela despendia durante as cavalgadas, seus cabelos
jamais se desalinhavam.
Seu pai costumava dizer que, se havia algo que ele deplorava, era ver uma mulher
com os cabelos em desalinho enquanto cavalgava.
Sempre que cavalgava com ele, Carolina tomava o máximo cuidado com os cabelos.
Seus cabelos ruivos, naquele momento, estavam presos num coque, para que
nenhum cacho escapasse.

55
Ela abriu a porta da sala de visitas.
Para seu alívio, lá não se encontravam nem o marquês nem o duque.
O conde e lorde Durrel liam os jornais enquanto tomavam o café da manhã.
Alton Westwood também não estava presente. Os dois homens se levantaram assim
que ela entrou e sorriram-lhe.
— Bom dia! — ambos exclamaram ao mesmo tempo, e o conde acrescentou:
— Vejo que está preparada para o combate!
— Porém — replicou Carolina —, como a srta. Westwood costuma cavalgar na
fazenda de seu pai no Texas, temo ser derrotada!
Os dois homens se sentaram.
Carolina foi até um aparador para se servir. Imaginou que até mesmo um
americano ficaria surpreso com a imensa variedade de alimentos fornecidos ali para o café
da manhã.
Carolina optou por ovos mexidos e se sentou à mesa.
Sua mãe sempre a orientava sobre como comportar-se em grandes casas.
Apesar de haver vários criados para servir as outras refeições, o café da manhã
ficava à disposição dos hóspedes, para que se servissem à vontade.
Seu pai também acrescentara que a última coisa que uma pessoa desejaria era
tagarelar de manhã bem cedo.
E por isso Carolina mantinha-se em silêncio.
Comeu os ovos e espalhou um bocado de manteiga Jersey, procedente da fazenda
do marquês, sobre uma torrada.
A seguir acrescentou sobre a manteiga uma colher cheia de mel que, conforme ela
supunha, viera do vilarejo.
Vários habitantes do vilarejo próximo costumavam dedicar-se à criação de abelhas.
Sua mãe costumava dizer que era no mel que residia a saúde dos aldeões.
Carolina estava acabando de comer sua segunda torrada, quando o marquês entrou
na sala, acompanhado de Alton Westwood.
— bom dia, para todos! — saudou ele. — Estamos atrasados porque acabamos de
enfrentar a cavalgada mais excitante de todos os tempos. Meu amigo americano,
acreditem se quiser, aprovou meus cavalos. Alton Westwood riu.
— Que mais eu poderia fazer? — indagou ele. O marquês se encaminhou até a
mesa.
Pousando uma das mãos sobre o ombro de Carolina, ele se inclinou e deu-lhe um
beijo no rosto.
— Espero que tenha dormido bem, querida — ele a cumprimentou. — Tentei tomar

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o máximo de precaução para não acordá-la quando saí hoje cedo.
— E teve sucesso — Carolina conseguiu dizer.
Os lábios dele contra seu rosto acenderam uma estranha sensação em todo seu
corpo, como na noite anterior, quando ele a beijara nos lábios.
Era-lhe difícil mostrar-se à vontade naquele momento.
Após beijá-la, o marquês se dirigiu ao aparador.
— Espero que tenham deixado um pouco de alimento para mim — brincou ele. —
Estou faminto!
— E eu também — confessou Westwood. Enquanto eles discutiam sobre as
iguarias, Carolina aproveitou o tempo para se recompor.
Contudo, estava consciente do brilho estranho que havia nos olhos dos dois
homens à mesa.
O sorriso débil que ela viu nos lábios do conde lhe repugnou.
A porta tornou a se abrir para deixar passar o duque.
— Bom dia! — saudou ele. — Antes que me reprovem, quero dizer que estou
bastante atrasado. É que dormi demais.
— Resultado do bom vinho do Porto e do brandy que nossos anfitriões nos
ofereceram — brincou o conde.
Carolina terminou de tomar seu café e, como não viu sinal de Mary Lee, perguntou
a Westwood assim que ele se sentou:
— Sua filha não se esqueceu de nosso desafio para hoje, não?
— Pode ter certeza de que não! — foi a resposta convicta de Westwood. — Ela deve
estar tomando o café da manhã em seu próprio quarto.
Carolina estava prestes a dizer que esperava que a garota não se sentisse tão
cansada quando Alton Westwood explicou:
— Mary Lee costuma se servir de alimentos que ela própria traz da América.
— Acha que ela se sentiu embaraçada de vir comer aqui e ter de dizer que prefere
os alimentos americanos aos nossos? — Quis saber Carolina.
— É uma espécie de coqueluche americana que as pessoas adquiriram. Não comem
alimentos normais a fim de se manterem elegantes e cheias de energia. Eu, pessoalmente,
acho tudo isso uma grande bobagem, mas as mulheres de lá levam a coisa bem a sério.
Carolina achou a história bem interessante e resolveu conversar com Mary Lee a
respeito.
Ela já ouvira falar sobre as lautas refeições que o príncipe de Gales consumia.
Lera reportagens nos jornais sobre o que era oferecido aos hóspedes nas elegantes
casas de campo.

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Ficara sabendo, por intermédio de um jornal, que o almoço era composto de seis ou
sete pratos, sendo que no jantar esse número se elevava para dez.
O príncipe de Gales costumava também servir-se de lagosta ao chá.
Quando Sua Alteza real estava praticando tiro ao alvo, ao meio-dia, servia-se um
lanche rápido que consistia de sopa de tartaruga e patê.
"Não e de admirar que ele e seus amigos sejam obesos", pensava Carolina. "É muito
sensato da parte dos americanos manter a linha por meio de uma alimentação correta."
No entanto, o chef que o marquês trouxera de Londres fora, com certeza, instruído
para apresentar fartura à mesa, o que mais tarde seria motivo de comentários por parte
dos "ricos e abastados".
Agora que Carolina pensava a respeito, lembrou-se de que no jantar do dia anterior
foram servidos sete pratos diferentes, sem contar a sobremesa, que incluía grandes
pêssegos de estufa, uva moscatel bem viçosa e uma grande variedade de outras frutas.
Serviram-se nozes quebradas para que os homens comessem como aperitivo
enquanto bebericavam o vinho do Porto.
Nozes eram excelente alimento para quem cavalgava o dia todo. Ou para quem se
submetia a qualquer outra espécie de atividade que consumisse energia. Mas para pessoas
de idade ou de vida sedentária tal alimento era prejudicial à saúde.
Carolina se levantou da mesa, dizendo a Westwood:
— Vou ver se Mar Lee já está pronta.
O marquês, que acabara de se sentar, aconselhou:
— Faça isso, querida, mas, por favor, não se esforce tanto. Se se sentir cansada,
apenas me avise para que possamos cancelar todos os planos para hoje.
Carolina se retirou do aposento com um sorriso. Subindo as escadas, encaminhou-
se até o quarto de Mary Lee. Após uma leve batida na porta, uma criada atendeu.
— Oh, entre, marquesa! — a menina gritou assim que a viu.
Mary Lee já estava vestida. Carolina ficou admirando, em completo assombro, a
roupa que a garota usava.
Era uma saia-calça confeccionada em estilo americano. Ao lado de cada perna e ao
redor da bainha corria uma franja que combinava com o lenço que adornava a jaqueta.
Acompanhando a saia, Mary Lee vestia uma blusa branca enfeitada com motivos de
folhas verdes.
Carolina já vira modelos de trajes de montaria como aquele, mas jamais encontrara
um para comprar.
— Como você está elegante e linda! — exclamou a menina, olhando-a de frente.
— E você então? — riu Carolina.
— Esta roupa — informou Mary Lee —, costumo usá-la na fazenda e é mais

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confortável do que qualquer outro traje para montaria.
— Acredito! — concordou Carolina. — Você com certeza causaria sensação num
campo de caça inglês.
Mary Lee riu.
— Se eu voltar aqui no inverno, poderei usar esta mesma roupa só para ver a cara
deles!
Ela usava um lindo chapéu que lhe protegia bem o rosto, segurando seus cabelos
com conforto e eficiência.
— Você faz com que eu me sinta usando roupas demais! — reclamou Carolina. —
Para me sentir mais à vontade, não usarei chapéu.
Mary Lee riu.
— Então eu também não vou usar! Se os homens não gostarem, que me importa?
Ela tirou o chapéu da cabeça, atirando-o displicentemente sobre a cama.
A criada ajudou-a a calçar as botas de montaria.
Carolina notou que as botas eram iguais às suas e bastante práticas para a
finalidade a que se destinavam.
Mary Lee apanhou seu chicote.
— Você quer um par de luvas? — perguntou-lhe Carolina, sabendo que a menina
devia possuir um daqueles pares de luvas brancas que toda mulher usava durante
cavalgadas.
— Não, gosto de sentir as rédeas entre meus dedos — argumentou Mary Lee.
— Eu também, principalmente quando cavalgo sozinha — admitiu Carolina. —
Porém, penso que nosso público achará tudo isso muito estranho.
— Deixe que achem! — retorquiu Mary Lee. — De uma coisa eu tenho certeza:
todas as normas e regulamentos para montaria neste país foram criados por homens!
— Tenho certeza de que sim! — concordou Carolina. E agora, se já está pronta,
vamos descer e surpreender a todos!
— Chocá-los é o que quer dizer! — tornou Mary Lee, rindo. — Mas isso lhes fará
bem.
Ambas deixaram o quarto e seguiram em frente.
Assim que alcançaram o topo das escadas, Carolina reparou que os homens haviam
deixado a sala de visitas e as aguardavam no hall.
Todos estavam convencionalmente trajados, com calças brancas bem cortadas,
casacos cinzentos de tecido estriado e botas de montaria tão polidas que mais pareciam
espelhos.
Achando o desafio de Mary Lee bastante divertido, Carolina se limitou a segui-la
devagar.

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Olhando através da balaustrada, Carolina percebeu o crescente assombro no rosto
de todos eles.
Somente Alton Westwood encarou a aparição da filha com naturalidade.
Mary Lee alcançou o hall.
— Bom dia! — saudou ela. — A marquesa já me disse que vocês todos ficariam
surpresos com minha aparência, mas prometo-lhes que tal fato não prejudicará meu
desempenho.
Todos os homens caíram na risada e o marquês elogiou:
— Está bastante atraente, srta. Westwood! Todos se encaminharam para os
estábulos.
Os homens admiravam os cabelos ruivos de Carolina cintilando ao sol. O duque se
colocou ao lado dela.
— Posso lhe dizer o que acho de seu traje? — indagou ele.
— Já sei a resposta — respondeu Carolina, com voz glacial. — Espero que tenha
notado como estou anticonvencional não usando chapéu nem luvas.
— Nada poderia ser mais adorável do que ver seus cabelos brilhando sob o sol —
conclamou ele.
O duque falava em voz baixa.
Mas Carolina temeu que o sr. Westwood pudesse ouvi-lo e então franziu a testa.
— Agora é você quem me assusta! — protestou ele. — Sinto-me muito mais feliz
quando a vejo sorrindo.
Ela percebeu que o duque gostava de irritá-la e de vê-la alterada. Então, caminhou
rapidamente na direção do marquês.
— Alexander, acaso já decidiu que cavalos eu e Mary Lee montaremos?
— Você é quem escolhe — replicou o marquês. — Já conversei com Peter e ele
sugeriu Rufus Vermelho ou Heron.
Carolina olhou a seu redor.
— Onde está meu primo? — indagou ela. — Não o vi ainda, esta manhã.
— Foi inspecionar os obstáculos para saltos — explicou o marquês. — Ele me disse
que alguns deles necessitavam de reforço, mas que não havia tido tempo para consertá-los
na semana passada.
Carolina sabia que aquilo era verdade.
Quando chegaram aos estábulos, Peter se encontrava lá e os cavalos reservados
para a disputa já estavam selados.
— Escolha qual você quer — Carolina disse dirigindo-se a Mary Lee.
— Quero um animal áspero e selvagem! — instigou Mary Lee. — Se eu soubesse

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que esse desafio iria acontecer, teria trazido um ou dois cavalos da fazenda de papai.
— Faremos isso da próxima vez — prometeu Alton Westwood.
— Bem, então você, papai, escolherá qual desses é o melhor.
— É uma escolha difícil, diga-se de passagem — replicou o americano. — Como eu
já disse, nosso anfitrião possui animais tão bons que eu próprio não ouso pensar em ter.
Carolina, na intimidade de seus pensamentos, imaginou que todos os animais
estariam à venda, caso o sr. Westwood desejasse pagar o que valiam.
Então o marquês comentou:
— Tomarei isso como um elogio, já que tenho muito orgulho de meus cavalos.
Havia no estábulo uma provisão de animais suficiente para todos.
Carolina supôs que o marquês adquirira os animais ou em Londres ou no
Newmarket e que reunira quase todos os cavalos que possuía.
Só houve tempo de darem uma olhada rápida nos outros animais do estábulo, pois
Mary Lee estava ansiosa para ir até os paddocks.
Ainda havia homens trabalhando nos obstáculos.
Carolina imaginou que o irmão levantara bem cedo a fim de ter tudo pronto em
tempo hábil.
Sentiu-se feliz quando Mary Lee escolheu Rufus Vermelho, deixando Heron para
ela.
Heron era um cavalo magnífico e estava irrequieto, ansioso para correr.
Carolina então percebeu que o cavalo agia assim porque não fora suficientemente
exercitado desde que viera de Londres.
O marquês montou um garboso garanhão, negro como azeviche; Carolina tinha
certeza de que era o animal de sua preferência.
Os outros homens escolheram os cavalos que mais lhes aprouveram e logo estavam
montados.
Saíram correndo todos, estrepitando sobre o pátio de pedra.
Atravessaram um portão que os conduziu à planície.
O paddock era espaçoso e os obstáculos bem distanciados um dos outros, bastante
altos, porém não oferecendo nenhum perigo para um cavalo bem treinado. O marquês fez
as determinações:
— A disputa consistirá em completar três voltas ao redor do paddock. O ponto de
chegada e, logicamente, o de vitória, é aqui onde estou. Após ouvir a contagem até três,
podem dar a largada.
Carolina se colocou ao lado de Mary Lee, imaginando que sairia vitoriosa aquela
que tivesse o melhor cavalo.

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— Um, dois, três! — anunciou o marquês.
Ele erguera seu lenço branco e, quando o baixou, ambas deram início à corrida.
Carolina não tinha pressa.
Seu pai lhe ensinara que, de início, ela deveria agir com a máxima calma.
— Segure seu cavalo — ele a aconselhava — mesmo que ele esteja ansioso para
competir com um rival.
Mary Lee saltou o primeiro obstáculo a sua frente.
Ela tinha uma desenvoltura que Carolina julgou excepcional. Não havia dúvida de
que a americana era uma amazona brilhante.
Carolina concluiu afinal que deveria manter a calma e ao mesmo tempo ser esperta,
se quisesse vencer.
Na primeira etapa, Mary Lee estava um obstáculo à frente com relação a Carolina.
A seguir, Carolina conseguiu alcançá-la e as duas saltaram os mesmos obstáculos
quase lado a lado.
Foi só quando passaram pela segunda vez pelo marquês que Carolina viu Mary Lee
usando seu chicote de montaria.
Visto que seu pai desprezava o uso de chicotes e esporas em cavalos de alta
linhagem, Carolina resolveu não usar nenhum dos dois acessórios.
Naquele momento ela se determinou a cavalgar da forma como o pai teria
apreciado se estivesse ali.
Foi como se o cavalo que ela montava tivesse entendido sua intenção.
No oitavo obstáculo ela já se encontrava ligeiramente à frente de Mary Lee.
Então, quando só restavam dois obstáculos a serem transpostos, Carolina percebeu
que Alton Westwood ficaria satisfeito se sua filha ganhasse a corrida.
Tal ideia não lhe havia ocorrido antes.
Deliberadamente então, ela freou um pouco Heron antes de alcançarem o nono
obstáculo.
Foi difícil segurá-lo.
O animal parecia determinado a vencer Rufus Vermelho a todo custo.
Carolina precisou envidar todos seus esforços para que Mary Lee chegasse ao
último obstáculo antes dela.
Enquanto galopavam ria direção do marquês, sentiu a exaustão de Heron.
Gritos de aplausos se faziam ouvir enquanto Mary Lee passava pelo marquês.
— Bravo! Viva! — todos exclamavam.
Com as faces em fogo e bastante excitada, Mary Lee puxou as rédeas de Rufus
Vermelho e saiu trotando.

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— Ganhei, papai! Ganhei! — gritava ela para Westwood.
— Você ganhou! — ele exclamava. — Estou orgulhoso de minha garotinha.
Precisamos comemorar essa vitória.
— É claro que sim! — concordou o marquês. — Vamos fazer uma celebração esta
noite. Meus parabéns, srta. Westwood. Esteve magnífica!
Ele deu um tapinha carinhoso em Rufus Vermelho e então se voltou para Carolina.
Heron acabara de se aproximar dele.
Afagando o animal, o marquês perguntou a Carolina em tom preocupado:
— Você está bem, querida? Não se cansou demais?
— Não, é lógico que estou bem! — tranquilizou-o. — Eu adorei!
Ele a fitou demoradamente e, quando percebeu que ninguém os podia ouvir, disse:
— Obrigado! Foi muita diplomacia de sua parte! Carolina também o olhou no
fundo dos olhos.
O marquês sentiu que ela estava feliz e sabia que, se Carolina quisesse, teria
ganhado o desafio.
Era a vez de os homens transporem obstáculos.
Após terem vencido aquele desafio, para satisfação de todos, saíram galopando
pelas planícies da propriedade.
Em seguida retornaram à casa através da floresta.
— Sua propriedade está precisando de algumas máquinas que uso em minha
fazenda no Texas — comentou Alton Westwood. — Elas realizam o mesmo trabalho na
metade do tempo e tenho certeza de que esses campos, se bem tratados, poderão produzir
ótimas colheitas.
— Tenho certeza disso — foi a resposta do marquês. — Acredito que essa
maquinaria de que falou deve custar uma fortuna. Essa é a razão de meus campos estarem
tão mal— tratados.
— Então, marquês, essa é uma condição que precisaremos modificar no futuro —
observou Alton Westwood.
Ele falava com tal convicção que Carolina, ao ouvir, concluiu que o marquês já fora
eleito o presidente da companhia. A menos que algum imprevisto ocorresse e alterasse
tudo. "Estou tão feliz por ele!", pensava ela.
Quando o grupo retornou, já era hora do almoço. Carolina e Mary Lee trocaram
suas roupas de montaria por vestidos elegantes e bonitos.
— O que vamos fazer esta tarde? — quis saber Mary Lee.
— Tenho certeza de que meu esposo deve ter preparado para nós algo bastante
excitante — respondeu Carolina. Ele está muito satisfeito por ter seu pai como hóspede.
— Eu também estou me divertindo — garantiu Mary Lee.

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— Adorei ter vencido os obstáculos.
— Da próxima vez vou ter o cuidado de usar roupas práticas como as suas —
comentou Carolina. — Daí talvez eu tenha mais chance.
Mary Lee riu.
— O que iria surpreender os homens mais ainda. Eu vi quando eles me
examinaram da cabeça aos pés, imaginando estarem diante de uma americana ignorante
que não sabe se comportar.
— Tenho certeza de que não pensaram nada disso — garantiu Carolina.
— É lógico que pensaram — insistiu Mary Lee. — Se quer saber a verdade, eu tenho
um traje de montaria igualzinho ao seu em Nova York. Só que eu quis mostrar para os
ingleses que o ponto de vista dos americanos pode ser bem diferente do deles.
Carolina riu, concluindo que Mary Lee era muito mais inteligente do que se
supunha.
O fato de ela se vestir de maneira tão pouco convencional demonstrava coragem e
desafio.
Enquanto retornava para seu quarto, Carolina imaginou que o marquês devia ser
um tolo por nem mesmo considerar o fato de Mary Lee poder se tornar sua esposa.
Ele precisava de tanto dinheiro para conservar aquela casa tão magnífica e a
propriedade!
Mary Lee não era apenas adorável como também bastante astuta e inteligente para
se adaptar a uma posição nobre.
Durante o almoço, ela manteve os homens de ouvidos atentos a tudo o que dizia,
fazendo-os rir o tempo todo.
Quando a refeição terminou, o marquês providenciou para que todos fossem visitar
uma mansão antiga.
Um de seus ancestrais construíra a enorme casa a cerca de três quilômetros de Brox
Hall.
— De lá temos uma maravilhosa vista panorâmica para quatro condados —
informou ele. — Quero que o sr. Westwood veja e fique impressionado.
— O que me aborrece — informou o sr. Westwood — é que você não para de me
chamar de "senhor". Meu nome é Alton, e é assim que me tratam os amigos. Se não somos
amigos a esta altura da situação, digo que deveríamos ser!
— Tem razão — concordou o marquês. — É melhor para mim — chamá-lo de
Alton. E, como sabe, meu nome é Alexander
Os homens fizeram o mesmo comentário e informaram os nomes de batismo.
Ao ouvir a conversa, Carolina concluiu, com satisfação, que aquilo tudo era
contrário aos costumes ingleses.

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Sabia que os cavalheiros se dirigiam uns aos outros ou pelo sobrenome ou pelos
títulos, como no caso do duque, do marquês e do conde.
"Antes que tudo termine, todos nós nos tornaremos americanos", pensou ela.
Ela sabia que os ancestrais do marquês deviam estar olhando tudo com ar de
desaprovação.
Mary Lee e ela subiram até seus quartos para apanhar o chapéu.
Carolina também trouxe consigo um guarda-sol, caso tivessem de se expor ao sol
forte.
Sua mãe sempre a aconselhara a não estragar com queimaduras de sol a pele alva
que possuía.
No entanto, ela sabia que Mary Lee, pelo fato de ter sido criada numa fazenda sob o
sol luminoso da América, possuía um bronzeado saudável. A cor assentava-lhe muito bem
porque não possuía cabelos ruivos.
Quando afinal desceram, havia vários veículos aguardando do lado de fora.
O marquês e Peter os haviam retirado do armazém, onde ficaram guardados
durante várias gerações.
Havia um faetonte de assento alto, que era moda na época do reinado de George
IV, uma carruagem antiga, que fora fabricada no início do reinado da rainha Vitória, e
também uma carruagem bretã aberta, inventada pelo conde D'Orsay, amante de lady
Besborough.
Todos os veículos tinham uma aparência bastante pitoresca.
O marquês insistiu em dirigir o faetonte, conduzindo Carolina e Peter consigo.
— Não vou deixar minha esposa à mercê de nenhum de vocês — disse ele aos
outros homens. — Duque, sugiro que conduza Alton na carruagem bretã, que precisa de
um condutor prudente. Acredito que Mary Lee estará mais segura na outra carruagem.
Mary Lee parecia bastante satisfeita ao se sentar ao lado do conde.
No último momento, lorde Durrel disse que, como jamais estivera num faetonte
antes, ficaria satisfeito se pudesse viajar num e, assim, trocou de lugar com Peter.
Partiram, e Carolina sentiu-se agradecida pelo fato de o marquês dirigir tão bem.
— Sempre me pergunto — comentou ela — como é que os antigos ancestrais
conseguiam conduzir os faetontes por estradas que antes deveriam ser péssimas. Porém
me lembro de ter lido que o príncipe regente bateu um recorde na viagem até Brighton,
fazendo-a em cinco horas e vinte minutos.
— Eu poderia facilmente atingir o mesmo recorde hoje, com meus cavalos em
estradas melhores — foi a observação do marquês.
— Algum dia você deveria tentar — sugeriu lorde Durrel. — Tenho certeza de que
alguém no White's Club estaria preparado para apostar com você uma grande soma que o
derrotaria numa carroça puxada por burros ou qualquer coisa do tipo.

65
O marquês riu.
Carolina então pensou que, quando o final de semana terminasse, ela sempre se
lembraria do quão agradável ele havia sido. Tão diferente de tudo o que esperara!
Alton Westwood ficou bastante impressionado com a mansão antiga.
Todos retornaram para a casa bem na hora de um farto chá, ainda que tardio.
Carolina comeu pouco, não desejando estragar seu apetite para o jantar.
Quando subiram, Mary Lee entrou logo em seu quarto.
Então, quando Carolina já se dirigia para o seu, que ficava no final do corredor,
ouviu Peter chamá-la.
Ela parou e, quando o irmão a alcançou, disse em voz baixa:
— Preciso falar com você.
Carolina estava prestes a pedir-lhe que entrasse em seu quarto, quando se lembrou
de que a criada devia se encontrar lá.
Peter entendeu o que a irmã estava pensando e, então, abriu a porta de um quarto
do outro lado do corredor, que não era ocupado por nenhum hóspede.
Quando fechou a porta atrás de si, Carolina perguntou com voz preocupada:
— O que houve?
— Acabei de concluir — começou ele — que, apesar de Alton desejar ir à igreja
amanhã e o marquês ter providenciado para que todos nós o acompanharemos, você não
poderá ir!
— E por que não? — quis saber Carolina.
No entanto, antes que Peter pudesse responder, ela já sabia a resposta.
— Você acha que poderia haver alguém... — começou ela.
— Que pudesse reconhecê-la — completou Peter. — É claro que isso é provável. E
depois, outras pessoas do condado também vão à igreja e com certeza ficarão surpresas ao
saber que o marquês se casou, apesar de nunca terem ouvido nada a respeito.
— É claro! — exclamou Carolina. — Oh, Peter, que bom que tenha pensado nisso!
— Dando um leve suspiro, lamentou: — No entanto, eu sempre gostei de ir à igreja aos
domingos. Você sabe disso.
— Mas você poderá dizer suas preces na capela local. Só Deus sabe o quanto
estamos precisando.
— Na capela?! — exclamou Carolina. — Não sabia que havia uma aqui.
— É claro que há — respondeu Peter, como se ela fosse estúpida por não se dar
conta disso. — O problema é que tive tantas coisas a fazer que mal achei tempo de arrumá-
la.
— Assim mesmo vou lá rezar — afirmou ela. — Onde fica?

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— Será fácil para você achá-la — informou Peter. — Após ter passado pela porta do
quarto do marquês, no final desta passagem, você encontrará uma escadaria que quase
não é usada. Carolina ouvia com atenção as indicações do irmão.
— Essa escada leva diretamente à capela e era usada pelo próprio proprietário de
Brox Hall em outros tempos. Imagino que antigamente as pessoas fossem mais religiosas
que hoje!
— Eu a encontrarei — respondeu Carolina com convicção. — Mas, no caso de o sr.
Westwood desejar dar uma olhada nela, peça aos jardineiros que a enfeitem com algumas
flores, senão ele, com certeza, criticará o marquês por ter negligenciado um local tão
sagrado.
— Tem razão — concordou Peter. — É uma boa ideia. E, por falar nisso, Carolina,
todos estão surpresos pela forma magnífica como você tem conduzido nosso plano.
— Ainda temos muito caminho a percorrer — advertiu Carolina. — Precisamos ser
bastante prudentes.
— É o que estou tentando fazer — replicou Peter. O jantar foi agradável e delicioso.
Após a refeição, em vez de irem para a sala de visitas, conforme Carolina esperava,
o marquês conduziu-os todos até a sala de bilhar, que ficava na outra ala.
A sala era espaçosa, com uma grande mesa de bilhar bem no centro, eficientemente
iluminada.
Havia também outras espécies de jogos que Carolina não imaginara existirem lá,
como, por exemplo, um pequeno boliche, um alvo para dardos e um divertido jogo de
hóquei.
O hóquei podia ser jogado por quatro pessoas, que manipulariam a bola com
bastões que deveriam estar voltados para o lado da mesa.
Carolina jogou com o conde.
Então o duque insistiu para que ela jogasse boliche com ele.
Após pequenos erros no começo, Carolina foi se tornando cada vez mais habilidosa.
Ela estava se divertindo bastante, quando, ao se dar conta de que todos estavam
entretidos, o duque disse em voz baixa:
— Preciso falar com você em particular. Tem de saber que está me deixando louco!
— Tenha cuidado, por favor! — implorou ela. — Você sabe que ainda está de luto
por causa de sua esposa!
— Estou cansado dessa farsa — reclamou o duque em tom de voz petulante. — Está
tão quente aqui... Por que não vem passear comigo no jardim?
— Sabe muito bem que tal atitude chocaria o sr. Westwood — replicou Carolina.
— Aos diabos com Alton! — vociferou o duque. — Estou farto de ver Alexander
bajulando você, sabendo que isso nada significa. Preciso confessar-lhe o que sinto,
Carolina, e garanto que é bem diferente do que sente o marquês.

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— Acho que já é hora de eu ir para a cama — informou Carolina. — Boa noite.
Ela se afastou do duque, encaminhando-se até o marquês, que jogava bilhar com
Westwood.
— Sinto-me um pouco cansada — declarou ela —, sei que não ficará zangado se eu
for me deitar.
— É claro que não ficarei zangado. Acho até que é bastante sensato de sua parte,
querida — replicou o marquês.
— Eu a vejo daqui a pouco.
Ele pôs de lado o bastão de bilhar e disse a Westwood:
— Me desculpe, Alton, minha esposa vai se deitar e, como não quero perturbá-la
quando subir, vou me despedir dela agora.
Ele não aguardou a resposta do americano. Passou o braço ao redor da cintura de
Carolina e a conduziu até a porta. Quando já estavam fora do aposento, ele a soltou.
— Você tem sido maravilhosa! — exclamou ele. — Algum dia ainda poderei lhe
dizer isso com mais ardor!
— Ainda nos resta o dia de amanhã.
— Não me esqueci — replicou ele. Ambos alcançaram o começo das escadas.
Carolina percebeu que havia um lacaio a serviço no hall. O marquês também
percebeu e por isso se limitou a erguer a mão dela, depositando ali um leve beijo. Ela
sentiu quando os lábios dele tocaram seus dedos, antes mesmo que começasse a subir os
degraus.
— Não vou me demorar para ir para a cama — informou ele. — Tivemos um dia
cansativo.
— Mas bastante divertido — arrematou Carolina do topo da escada.
Ela correu para o quarto e pediu a Jones que a ajudasse a despir-se.
Era um alívio poder se deitar. No entanto, ela ainda gostaria de ler um pouco antes
de adormecer.
Carolina abriu o livro.
Foi então que percebeu que a difícil cavalgada durante a manhã e a estrada que
tiveram de percorrer durante a tarde deixaram-na exausta.
Cerrou as pálpebras desejando que o sono viesse logo.
Em vez disso, Carolina se viu pensando no marquês.
Ainda podia sentir o toque dos lábios dele sobre sua mão.
Perguntou-se se ele sentia saudade de Lilac Langley ou se estava ansioso para
retornar a Londres a fim de vê-la outra vez.
Carolina ouviu o som dos passos dos hóspedes que se dirigiam para seus quartos e

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o ruído de portas sendo fechadas.
Ela não conseguia dormir.
De repente sentiu sede.
Saiu da cama e puxou ligeiramente as cortinas.
O luar estendia-se sobre tudo e não havia necessidade de mais luz para conduzi-la
até a bilha de água.
Carolina ficou parada um momento diante da janela, extasiada com a beleza da
noite. A Lua e as estrelas pareciam pontilhar cada canto do céu, como um manto de luz.
Era tão adorável como se aquilo tudo fizesse parte de seus sonhos, um momento
envolvido pela imaterialidade do belo.
Carolina deixou-se absorver completamente pelo encantamento daquela beleza
mágica que lhe enchia os olhos.
De súbito, ouviu um ruído atrás de si e voltou a cabeça.
Foi então que se deu conta de que a porta que conduzia ao corredor estava sendo
aberta bem devagar.
Por um momento ela mal pôde acreditar que aquilo fosse verdade.
Talvez fosse Peter vindo lhe dizer que algo dera errado.
A porta se abriu um pouco mais.
Naquele momento ela percebeu a silhueta de um homem delineada contra a luz que
vinha do corredor.
O coração de Carolina parecia prestes a parar de bater.
Ela sabia quem era o homem e de repente foi tomada pelo pânico. A altura e os
ombros largos não a enganavam.
Quando ele afinal entrou no quarto, Carolina se lembrou da porta de comunicação,
da qual estava bem próxima.
Rápida e silenciosamente, auxiliada pelos pés descalços, ela alcançou a porta.
Girando a maçaneta, conseguiu entrar de mansinho no quarto ao lado.

CAPÍTULO VI

O quarto do marquês estava mergulhado na escuridão e Carolina se deteve como se

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olhasse para o vácuo.
Seu corpo todo tremia.
Antes mesmo que pudesse pensar no que fazia, uma porta se abriu no outro
extremo do quarto.
O marquês entrou, carregando um candelabro com quatro velas acesas. Colocou o
objeto sobre o criado-mudo e nesse momento Carolina correu a seu encontro, atirando-se
em seus braços.
Enquanto ele a abraçava com ar aturdido, Carolina sussurrava:
— O duque foi a meu quarto... estou com medo!
O marquês amparou aquele corpo trêmulo junto ao seu e por um momento nada
disse.
— Vou resolver isso — decidiu ele, em voz baixa, fazendo com que ela se sentasse
na cama.
Atravessou então o quarto até alcançar a porta de comunicação.
Carolina não a tinha fechado, apenas a empurrara de leve.
O marquês percebeu uma fresta que poderia lançar um raio de luz no quarto ao
lado.
Então, num tom de voz casual, ele comunicou em voz alta:
— Como estava lhe dizendo, Peter, você e Carolina precisam ter cautela com o que
falam na presença de Alton. Esta noite ele me disse o quanto ficou chocado quando ouviu
as barbaridades sobre o comportamento da sociedade londrina.
Ele fez uma pausa, como se esperasse pela resposta de Peter e Carolina, e então riu
divertido.
— Isso é verdade — continuou no mesmo tom —, porém não podemos esperar que
pessoas de outros países entendam as peculiaridades de nossa terra. Meu pai costumava
dizer que nós, ingleses, somos bastante retraídos, principalmente no que diz respeito a
nossos prazeres.
Ao terminar o discurso, ele parou para ouvir até se assegurar de que a porta do
outro lado se fechara.
Ele atravessou o quarto na direção de Carolina, que permanecia sentada no mesmo
lugar com os olhos repletos de medo.
Ela parecia alheia ao fato de estar usando apenas uma camisola fina e transparente.
Seus longos cabelos ruivos espalhavam-se pelos ombros até alcançarem a cintura.
Carolina tinha uma aparência tão adorável que, furioso, o marquês entendeu por
que o duque queria ficar a sós com ela.
— Está tudo bem, agora — ele a tranquilizou, sentando-se a seu lado. — O duque já
se foi.

70
Carolina emitiu um pequeno suspiro e escondeu o rosto no ombro do marquês.
— Nunca pensei que ele pudesse vir a meu quarto — murmurou ela.
— Talvez ele desejasse apenas conversar com você — disse o marquês. — Fica
difícil dialogar quando há tantas pessoas por perto.
— Ele disse que queria beijar-me, mas eu não quero!
O marquês imaginou que o duque desejava muito mais do que um simples beijo.
Então percebeu que Carolina era tão inocente que talvez não fosse capaz de
entender, e tentou tranquilizá-la:
— Tenho certeza de que ele não voltará.
Sentiu quando um ligeiro tremor percorreu todo o corpo de Carolina antes que ela
dissesse:
— Foi muito inteligente de sua parte fazê-lo crer que Peter estava aqui.
— Na verdade — respondeu o marquês sorrindo —, estou um tanto orgulhoso de
mim mesmo, mas seria um erro acusar o duque de ser indiscreto.
— Tenho tentado evitar isso... Juro que tenho! — argumentou Carolina, em tom de
voz suplicante. Não queria que o marquês pensasse que ela encorajara o duque ao flerte.
— Eu já havia notado — foi a resposta do marquês. Acho que foi muito sensato de
sua parte vir me procurar. No entanto, Carolina, ele é um duque e um homem
descomprometido.
Carolina ergueu a cabeça. Havia perplexidade nos olhos dela.
— Quer dizer que... Mas ele é velho, muito velho e... jamais me passou pela cabeça
que ele pudesse se apaixonar por mim.
— Você é muito bonita — o marquês argumentou em voz baixa e calma. — Precisa
se acostumar, Carolina, a ver os homens perdendo a cabeça por você, sejam eles velhos ou
jovens.
Carolina sentiu um calafrio e então comunicou:
— Eu acho que o quanto antes eu puder voltar a viver com meus cavalos por
companhia, melhor!
O marquês riu.
— Acho que seria um grande desperdício de beleza e inteligência, como já tive
oportunidade de dizer.
— Nunca imaginei que alguém como o duque pudesse vir até meu quarto! Mamãe
ficaria horrorizada!
— Acho que ela também não ficaria muito satisfeita ao vê-la representando o papel
de minha esposa — declarou o marquês. — Mas você deve saber que, agindo assim, estará
livrando a mim e, é claro, Peter de continuarmos nessa penúria.
Carolina deu um gritinho de excitação e então exclamou:

71
— Quer dizer com isso que tudo já está arranjado? Você será o presidente e Peter
um dos membros da diretoria?
— Tudo se resolveu hoje, antes do jantar — comunicou o marquês. — A menos que
algo de terrível aconteça, assim que voltarmos a Londres assinaremos os contratos.
— Estou tão... tão feliz!
— E eu muito grato! — tornou o marquês.
Carolina se levantou.
— Acha que já posso voltar para meu quarto? — indagou ela, ainda nervosa.
— Tenho certeza de que sim — assegurou o marquês. Mas primeiro deixe-me dar
uma olhada.
Ele se levantou, atravessou o quarto e abriu a porta de comunicação.
À luz do luar que entrava pela janela, banindo a escuridão, o marquês se certificou
de que o quarto de Carolina estava vazio.
A porta que dava para o corredor achava-se fechada.
— Ele realmente já foi? — sussurrou ela.
— Veja você mesma — respondeu o marquês. — Para que não mais se preocupe
vou trancar a porta enquanto você se deita.
Em seguida, ele voltou.
Banhada pela luz do luar, Carolina parecia uma criatura etérea e imaterial, como
uma princesa de contos de fadas.
O marquês continuou contemplando-a, incapaz de emitir uma palavra que fosse.
Ela afastou os longos cabelos para trás e então falou:
— Obrigada... obrigada por ser tão gentil e compreensivo. Talvez eu tenha sido
estúpida, me assustando tanto.
— O que fez foi muito sensato — assegurou o marquês.
— Você me procurou, e saiba que, se houver mais transtornos durante a noite,
sejam eles fantasmas ou seres humanos, meu quarto é aí ao lado.
Quando ele já estava prestes a sair, Carolina estendeu-lhe uma das mãos.
— Deve me achar uma grande tola — disse ela em tom hesitante. — Mas... pode
deixar a porta de comunicação aberta? Caso eu grite, pelo menos você me escutará.
— Asseguro-lhe que meu sono é bastante leve — foi a resposta do marquês. — Se
me chamar, virei imediatamente.
— Obrigada...
O marquês tomou a mão dela entre as suas.
— Agora tente dormir — pediu ele. — Quero que esteja maravilhosa amanhã, para
que Alton retorne a seu país imaginando que, seja lá o que a alta sociedade inglesa possa

72
parecer, nossas marquesas são muito bonitas. Carolina tornou a rir e respondeu:
— Tenho certeza de que, seja lá o que você diga, ele encontrará uma americana que
suplantará a beleza das inglesas.
— Espero que tenha razão — concordou o marquês. porém, quando eu me casar,
garanto que minha esposa não será americana!
Ele falou com tal determinação que surpreendeu Carolina. Em vez de beijar-lhe a
mão, ele se limitou a pousá-la gentilmente sobre o lençol à frente dela.
— Boa noite, Carolina — disse ele com voz rouca.
— Boa noite — respondeu ela. — Novamente você usou sua varinha de condão e
encantou tudo ao redor!
— É exatamente isso que desejo! — observou o marquês. Ele se encaminhou até a
janela e cerrou as cortinas, deixando lá fora o luar e as estrelas.
Em seguida saiu do quarto, mantendo a porta de comunicação aberta.
O marquês dera instruções a seu valete Dawkins para que o acordasse bem cedo,
pois desejava cavalgar antes do café da manhã.
Convidara Alton Westwood para fazer-lhe companhia, sugerindo que praticassem
alguns exercícios antes de irem para a igreja.
O americano ficou bastante satisfeito com a ideia.
O marquês prometera levá-lo até uma parte da propriedade que ele ainda não
conhecia.
— Há alguns obstáculos por lá — informou ele — altos demais para que uma
mulher possa saltar, mas acho que vai gostar.
— Tenho certeza de que sim! — foi a resposta de Alton Westwood.
O marquês vestira-se em silêncio, com a ajuda do valete. Não gostava de conversar
de manhã bem cedo.
Quando afinal ele já estava pronto, Dawkins, que era seu criado há anos, disse:
— Acho melhor que Sua Alteza saiba que ontem, quando um dos criados foi até o
vilarejo, ouviu alguns estranhos perguntando se o senhor tinha um americano como
hospede.
— Estranhos? — indagou o marquês, preocupado.
— Eles estavam conversando na loja e tinham um sotaque esquisito. Será que é
algum problema para o sr. Westwood, milorde?
O marquês franziu a testa.
— Parece estranho haver americanos em nosso vilarejo foi a observação do
marquês. — Seria melhor não comentarmos nada, nem com o sr. Westwood nem com seu
acompanhante.
— É o que também acho, milorde, mas, em caso de problemas, temos aqui alguns

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revólveres de Sua Alteza.
— Onde os guardou?
— Na cômoda, milorde. Guardei o velho e também o novo que nós trouxemos dos
Estados Unidos.
— Espero que não precisemos deles — augurou o marquês. — No entanto,
Dawkins, fique atento. Nada acontecerá se mantivermos nossos olhos bem abertos.
— Deixe tudo por minha conta, milorde! — exclamou Dawkins.
O marquês deixou o quarto e desceu até o andar térreo. Stevens, o mordomo, o
aguardava. Os cavalos que ele e Westwood deveriam montar esperavam na porta de
entrada.
— Quantos vigilantes noturnos temos a serviço? — quis saber o marquês.
— Dois, milorde — foi a resposta de Stevens. — Acredito que o sr. Peter os tenha
nomeado antes de virmos de Londres.
O marquês fez um gesto com a cabeça, aprovando. Naquele momento, Alton
Westwood vinha descendo as escadas, apressado.
Carolina solicitou que seu café da manhã fosse servido no quarto, argumentando
uma súbita enxaqueca para não ir à igreja e dizendo a Jones que o marquês insistira para
que repousasse.
Carolina tinha certeza de que o marquês informaria Alton Westwood de que ela se
esforçara demais no dia anterior com a cavalgada e o passeio.
— Minha esposa jamais se poupa para agradar nossos hóspedes — disse o marquês.
— Eu já tinha notado! — replicou Alton Westwood. Penso que você é um homem
de sorte.
— Garanto que sou! — exclamou o marquês. Carolina observou o sol que brilhava
lá fora. Desejou poder cavalgar antes do café da manhã. Os cavalos do marquês eram tão
soberbos!
Ela sabia que, quando retornasse para casa, encontraria Furio e os outros cavalos
bastante destreinados.
"Sei que parece deslealdade de minha parte", pensou ela, "mas gostaria de montar
Heron outra vez antes de partir."
Contudo, tinha consigo um livro interessante que passou a ler enquanto tomava o
café da manhã.
Uma hora mais tarde, ainda não via razão para se levantar.
Jones veio ajudá-la e, quando Carolina já estava quase vestida, a criada comentou:
— A srta. Westwood não foi à igreja com os cavalheiros, milady.
Carolina ficou surpresa.
— Ela está aqui?

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— Sim, milady, quando Sua Alteza partiu, meia hora atrás, a menina ainda dormia,
mas agora já está de pé.
Carolina imaginou que Mary Lee deveria ter se deitado tarde na noite anterior.
Sem nada comentar, Carolina começou a ajeitar os cabelos.
Levou mais tempo que o normal, pois Carolina arrumou-os de maneira diferente.
Após uma leve batida na porta, Mary Lee entrou no quarto.
— Me disseram que você não tinha ido à igreja — declarou a menina. — Eu estava
dormindo quando papai saiu. Acho que ele vai ficar zangado comigo por ter faltado ao
ofício.
— E eu tive uma enxaqueca — explicou Carolina —, mas já passou e por isso vou à
capela. Quer me fazer companhia?
— Há uma capela aqui?! — indagou Mary Lee, surpresa. Que excitante! Eu gostaria,
sim!
— Você vai achá-la bastante "majestosa", como costumam dizer das grandes
edificações de Londres que têm suas próprias capelas — declarou Carolina.
— Eu chamo isso de uma ótima ideia, isso sim! — objetou Mary Lee. — Quando eu
falar a papai sobre a capela, garanto que ele desejará construir uma em casa.
Carolina riu.
— Então, quando ele retornar, devemos mostrar-lhe a capela.
Ela se levantou da banqueta em frente à cômoda, enquanto falava, e em seguida
disse a Jones:
— Pode me providenciar o chapéu que combina com este vestido? É aquele que
possui camélias estampadas. Devo usá-lo somente após o almoço.
— Muito bem, milady. Se precisar de mim, toque o sino — replicou Jones.
— Farei isso — foi a resposta de Carolina. Mary Lee a aguardava e então passou o
braço pelo de Carolina, ambas deixando o quarto.
— Há uma escadaria no final desse corredor — informou Carolina, lembrando-se
das instruções de Peter — que nos levará até a capela. Aquele lugar era usado antigamente
pelo marquês de Broxburne sempre que desejava orar em silêncio.
— Precisa dizer tudo isso a papai — argumentou Mary Lee. — Ele está convencido
de que os ingleses, se comparados aos americanos, são bastante pagãos.
— Então precisamos esclarecer esses fatos para ele, não acha? — sugeriu Carolina.
— Fico satisfeita em saber que ele ainda não possui sua própria capela!
— Mas tenho certeza de que ele terá uma tão logo retorne aos Estados Unidos —
predisse Mary Lee.
Encaminharam-se para o outro extremo do corredor, encontrando logo a escada,
conforme dissera Peter.

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Era bem diferente da outra, que eles costumavam usar, bastante imponente e larga,
encimada por candelabros de cristal tal e balaústres dourados.
Essa escada, ao contrário, era estreita e íngreme. ta por ela, só uma pessoa podia
descer de cada vez, e com bastante cuidado.
Então havia uma passagem antes que pudessem chegar até a porta que se abria
para a capela.
Essa passagem era estreita também, mas devia ter sido no passado originalmente
bonita.
Carolina notou vários pontos deteriorados que necessitavam de reparos.
Várias janelas, com seus vitrais coloridos, coavam a luz de fora, projetando-a no
interior da capela como dardos festivos.
Peter não se esquecera de pedir aos jardineiros que ornamentassem o local com
flores. Havia dois vasos sobre o altar e em cada extremo cachepôs altos de onde pendiam
lírios que tinham acabado de desabrochar. Podiam-se também avistar flores nos
parapeitos das janelas, e Carolina concluiu que o lugar se tornara bastante atraente e
agradável.
Bancos entalhados, dispostos em fileiras dos dois lados da capela, deixavam o
centro livre. Deviam estar ali desde que a capela fora construída.
Na frente do altar havia duas almofadas para que os fiéis se ajoelhassem. As duas
moças se dirigiram para lá, como que por instinto, e se colocaram de joelhos. Carolina
rezou com fervor para que tudo continuasse dando certo, como tinha acontecido até
aquele momento. Rogava também que os contratos envolvendo toda a transação fossem
assinados sem problemas em Londres. Então, de súbito, percebeu que dois homens se
postavam atrás dela.
No andar superior, Dawkins acabava de deixar o quarto do marquês, quando
encontrou Jones saindo do de Carolina.
— Ah, aí está você, Dawkins! — exclamou a criada.
— Sabe aonde milady foi?
— À capela, creio — replicou Dawkins —, e a srta. Westwood foi com ela.
— Você não vai acreditar — continuou a criada —, mas me esqueci de dar à milady
o lenço dela. Eu o coloquei sobre a cama e só fui encontrá-lo agora, quando estava
arrumando o quarto.
A criada hesitou por um momento e então pediu:
— Faça-me um favor, Dawkins, desça até a capela e lhe dê o lenço. Não gosto de me
sentir negligente em meus deveres.
Ela estendeu o lenço para Dawkins, enquanto falava, e o mordomo apanhou-o.
— Se eu fizer este favor para você — o valete investiu —, o que ganharei em troca?
Eu quero um beijo!

76
— Deixe isso! — replicou Jones, zangada. — Estou velha demais para bobagens
desse tipo e acho que você também!
— É aí que você se engana — retrucou Dawkins. — Ainda há muita vitalidade neste
velho aqui. Se me der uma chance, posso provar.
Jones saiu bufando, puxando furiosamente as saias. Dawkins riu e, com o lenço na
mão, desceu a escada na direção da capela.
Já estava atravessando a pequena passagem, quando percebeu que a porta à sua
frente se encontrava aberta.
Do lado de fora, para sua surpresa, ele notou a presença de uma carruagem.
Soube imediatamente que algo estranho acontecia dentro da capela naquele
momento e pressentiu que não era nada de bom.
Por que haveria pessoas entrando em Brox Hall sem se fazerem anunciar na porta
da frente?
Conhecendo bem a casa, Dawkins sabia da existência de uma porta lateral que
conduzia à sacristia.
Ele então seguiu por essa porta, indo na direção de onde havia uma cortina sobre a
entrada do presbitério.
O criado levou apenas um segundo para alcançá-la.
Dawkins espreitou através da cortina para ver o que ocorria do outro lado.
Para sua consternação, viu quando dois homens naquele exato momento colocavam
sacos grandes sobre as cabeças de Carolina e Mary Lee.
As duas moças estavam ajoelhadas perante o altar.
Os homens se movimentavam com destreza enquanto os gritos das duas eram
abafados pelos sacos.
Em seguida, eles puxaram os sacos até a altura da cintura das garotas, amarrando-
os com cordas para que não fossem tirados.
Dawkins percebeu que os braços de Carolina e Mary Lee jaziam inertes junto ao
corpo. A corda impedia que elas se movimentassem, com exceção das pernas.
Tudo isso aconteceu rapidamente.
No minuto seguinte os homens levantaram as duas garotas nos braços, carregando-
as sobre os ombros para fora da capela e jogando-as dentro da carruagem que aguardava
lá fora.
Dawkins não convivera tanto tempo com o marquês a ponto de aprender a ser
perspicaz e a pensar rápido como seu amo.
Ele deixou a sacristia e subiu correndo as escadas até o quarto do marquês.
Apanhou as duas pistolas da gaveta, colocando-as no bolso.
Então, desceu as escadas outra vez e tomou rumo diferente, indo na direção dos

77
estábulos.
Uma das coisas que o marquês sempre fazia todos os anos era ir até o sindicato
rural do condado, onde fazia alguns treinamentos, levando sempre Dawkins consigo.
Os dois animais que o marquês utilizava como cavalos de batalha também serviam
para a prática de fogo de artilharia. Quando Dawkins chegou aos estábulos, deu ordens e
os dois cavalos foram selados em tempo recorde.
Dawkins montou um deles.
Levando o outro cavalo pelas rédeas, cavalgou até a igreja tão depressa quanto
pôde.
A igreja situava-se dentro do parque, bem próxima ao começo da estrada.
Quando ele afinal chegou lá, os ofícios religiosos já tinham terminado.
Dois meninos do vilarejo estavam perambulando do lado de fora e Dawkins pediu-
lhes que segurassem os cavalos.
Caminhando a passos rápidos até a igreja, viu o marquês na companhia do pastor.
Ele deixou o local antes de seus hóspedes e estes puseram-se a acompanhá-lo a
passos lentos.
Quando alcançaram a porta principal, Dawkins ouviu o marquês dizer:
— Até logo, pastor, e obrigado pelos ofícios de hoje. É um prazer estar de volta.
— É uma grande alegria tê-lo aqui, milorde — replicou o pastor. — Todos ficaram
satisfeitos ao ver que Brox Hall pôde afinal ser reaberta por Sua Alteza.
— Obrigado — agradeceu o marquês.
Ele já caminhava na direção da carruagem, certo de que o lacaio já tinha lhe aberto a
porta, quando avistou Dawkins.
O mordomo ficou na ponta dos pés para que pudesse sussurrar ao ouvido do amo:
— A garotinha americana e Sua Alteza, a marquesinha, foram sequestradas,
milorde — informou Dawkins. — Acho que sei para onde foram. Trouxe os cavalos de Sua
Alteza e os dois revólveres. Já.
O marquês ficou petrificado por um momento.
— Obrigado, Dawkins — respondeu em voz baixa, acenando para Peter.
Quando Peter se aproximou, o marquês se dirigiu ao duque:
— Leve Alton de volta a Brox Hall, por favor. Acabei de saber que uma de minhas
fazendas está em chamas e Peter e eu vamos até lá para tomar as providências.
— Que azar... — começou o duque.
O marquês, porém, já não o ouvia. Correu apressado na direção dos cavalos.
Quando os alcançou, Dawkins colocou um dos revólveres discretamente dentro do
bolso do marquês, que então se acomodou na sela.

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Dawkins correu na direção de Peter, entregando-lhe a arma coberta com a outra
mão para que o menino que estivera tomando conta dos animais não desconfiasse de
nada. O marquês fez uma pausa suficientemente longa e então indagou:
— Para onde acha que foram e quantos eram, Dawkins?
— Ao todo eles eram quatro, milorde, e, julgando-se pela carruagem puxada por
dois cavalos, calculo que foram para Londres.
— É o que eu esperava.
Ele imprimia mais velocidade ao cavalo enquanto falava. Enquanto atravessavam o
vilarejo a trote veloz, Peter perguntou:
— O que houve? Acho que é sério!
— Sequestradores! — foi a resposta do marquês. — Fui advertido esta manhã, mas
não dei importância. Se algo acontecer a Mary Lee ou Carolina, será por minha culpa!
— Quer dizer que eles as levaram? — indagou Peter, incrédulo.
— Numa carruagem puxada por dois cavalos — respondeu o marquês. —
Precisamos detê-los antes que alcancem seus objetivos. Eles não poderão ir muito longe,
nessas estradas estreitas.
Quando acabou de falar, ele esporeou o cavalo, que se adiantou mais rapidamente,
enquanto Peter fazia o mesmo.
As estradas eram de fato estreitas, cheias de curvas, com sebes altas de ambos os
lados.
Peter achou impossível que uma carruagem de qualquer espécie pudesse correr
muito por ali, mesmo que vários cavalos a puxassem.
No entanto, percebeu que o marquês sentia-se tenso e ele também reconheceu estar
bastante preocupado.
Sabia que nada poderia contrariar mais Alton Westwood do que saber que sua filha
fora sequestrada.
Mesmo que tivessem a sorte de resgatar as duas moças, tal fato poderia fazer com
que o americano cancelasse todos seus planos. Ele, com certeza, retornaria a seu país.
O marquês cavalgava velozmente, e Peter só conseguia acompanhá-lo porque seu
cavalo era de primeira linhagem também.
Viajaram quase três quilômetros.
O marquês sabia que a estrada que os levaria até Londres encontrava-se logo mais à
frente.
Então, ao fazerem uma curva estreita da estrada, divisaram a carruagem a poucos
metros deles.
O marquês emitiu um suspiro de alívio.
Peter tentava acompanhá-lo com a mesma velocidade.

79
— O que vamos fazer? — indagou ele.
— Existe uma lagoa bem rasa a alguns metros daqui informou o marquês —, os
cavalos precisarão diminuir bastante a marcha, e é aí que entraremos em ação, e de forma
simultânea.
O marquês descreveu a Peter o que exatamente precisariam fazer.
Continuaram galopando e verificaram que a carruagem à frente ia diminuindo a
marcha.
A lagoa podia tornar-se funda e perigosa durante o inverno, mas, devido à pouca
chuva no mês anterior, com certeza a água devia ter a profundidade de apenas alguns
centímetros, no centro.
No entanto, os dois cavalos que puxavam a carruagem teriam de atravessá-la em
galopes moderados. Mal o primeiro deles alcançou a água, o marquês e Peter entraram em
ação. O Sol ia alto no céu e estava bastante quente. Conforme o marquês previra, as janelas
da carruagem estavam abertas. Por isso, ele pôde ver as duas moças amarradas e cobertas
no banco traseiro.
Havia dois homens sentados no banco oposto, com as costas voltadas para os
cavalos, e outros dois na boleia.
O marquês e Peter atiraram simultaneamente, conseguindo atingir o braço dos
homens que estavam dentro da carruagem. Ambos gritaram assim que se viram feridos.
Logo depois, o marquês e Peter dispararam novamente, dessa vez no condutor e no
homem que se achava sentado ao lado dele na boleia. Ambos os homens foram também
atingidos no braço, dando gritos de agonia. Os cavalos recuaram e, se não fosse pela lagoa,
teriam disparado alucinadamente.
Peter e o marquês desmontaram.
Abrindo as portas da carruagem, puxaram os dois homens para fora, segurando-os
pelos colarinhos.
O homem que o marquês arrastou para fora segurava o braço ferido e tinha o rosto
contorcido de dor. Contudo, quando foi atirado ao chão, ameaçou sacar o revólver.
O marquês foi rápido, apanhando a arma dele e atirando-a na água da lagoa.
Ele então voltou para dentro da carruagem a fim de resgatar Carolina.
Peter, do outro lado, suspendia Mary Lee nos braços.
Os homens da boleia, agonizando por causa do ferimento, rolaram para o chão.
O homem que se encontrava mais próximo de Peter deixara cair o revólver que
devia estar segurando durante a viagem.
Quando Peter tirou Mary Lee de dentro da carruagem, apanhou a arma e, como o
marquês, atirou-a dentro da lagoa.
Então começou a desamarrar a corda que prendia Mary Lee pela cintura, soltando-a
de seu cativeiro.

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Um tanto sufocada e tremendo de medo, Mary Lee, ao vê-lo, passou-lhe os braços
ao redor do pescoço.
— Você... me... salvou! — murmurou ela, num acesso de choro.
O marquês desamarrara a corda, libertando Carolina.
Assim que ouvira os tiros, Carolina imaginara que por alguma espécie de milagre
ele viera salvá-la.
Sentira muito medo no momento em que a tiraram da capela.
Fora com rudeza que o homem a carregara, jogando-a sobre o assento traseiro da
carruagem.
Quando vira que Mary Lee se reunia a ela, Carolina percebera o que estava
acontecendo.
Agora se perguntava como o marquês conseguira descobrir o que ocorrera.
Na capela, os homens não haviam dito uma única palavra.
Assim que a carruagem começara a se movimentar, no entanto, ela sentira que os
pés deles tocavam os seus, percebendo que havia dois deles sentados no banco oposto.
Concluíra então que ela e Mary Lee encontravam-se numa situação terrível. Não havia
mais ninguém nem dentro nem fora da capela.
Fora bastante inteligente, da parte dos intrusos, entrar sorrateiramente na casa
enquanto o marquês e seus hóspedes estavam na igreja.
E os sequestradores deviam saber com certeza onde elas estavam.
Carolina suspeitava que eles haviam subornado um dos criados. Deviam estar
esperando uma oportunidade de surpreender Mary Lee sozinha e indefesa.
Carolina nada tinha a ver com a história, mas eles não podiam deixá-la ali, pois
corriam o risco de serem delatados.
A carruagem então saíra em disparada, atravessando rapidamente o vilarejo.
Carolina desejara gritar, pedindo ajuda a quem pudesse estar passando pela
carruagem.
Contudo, concluíra que ninguém estranharia, ao ver uma carruagem particular
saindo de Brox Hall.
Ela achava que levaria muito tempo, até que o marquês, na igreja, soubesse do que
havia ocorrido.
Então, mais cedo do que esperava, Carolina ouviu os tiros. E homens gritando de
dor.
Conscientizou-se então de que estavam salvas afinal, como que por milagre.
Ao fitar os olhos do marquês, viu uma expressão de alívio neles.
Numa voz que não lhe pareceu a sua, Carolina indagou:

81
— Você veio... Como descobriu onde estávamos?
O marquês não respondeu. Limitou-se a toma-la nos braços, ajeitando-a na sela do
cavalo.
Conforme Dawkins previra, os dois cavalos não pareciam nem um pouco
perturbados pelo tiroteio.
Sobressaltaram-se um pouco assim que ouviram o ressoar dos tiros.
Então, quando os cavaleiros desmontaram, os animais foram para um canto da
estrada.
O marquês fitou Peter do outro lado da carruagem e viu quando ele beijou Mary
Lee.
Ambos pareciam completamente alheios aos gemidos dos homens e ao burburinho
incompreensível de suas vozes.
— Vamos sair desta encrenca! — ordenou o marquês. Peter levantou a cabeça.
Foi então que viu que o marquês colocara Carolina sobre a sela do cavalo.
Tomando Mary Lee nos braços, ele fez o mesmo.
Quando deram as costas para os homens que jaziam feridos no chão e para os
cavalos ainda aturdidos pelo alvoroço, Peter exclamou:
— Meus parabéns, Alexander! Se precisarmos seguir para a guerra, saiba que estou
preparado para lutar sob suas ordens!
— Vocês dois foram maravilhosos... maravilhosos! — gritou Mary Lee.
Ela pronunciava as palavras com voz bastante débil, pois as lágrimas ainda rolavam
por seu rosto.
Peter estreitou seus braços ao redor da cintura dela.
Os dois homens cavalgaram mansamente pela estrada, na direção de Brox Hall.
Quando já tinham vencido uma certa distância, o marquês percebeu que Carolina,
por estar envolta em seus braços, já não parecia tão assustada.
— Mary Lee — chamou o marquês —, espero que seu pai não se zangue tanto por
todo esse transtorno!
— E papai sabe do que houve? — quis saber ela. O marquês negou com um gesto
de cabeça.
— Não. A não ser Dawkins, que trouxe os cavalos até a igreja, ninguém mais sabe.
Eu disse a nossos hóspedes que Peter e eu íamos acudir a um incêndio em uma de minhas
fazendas.
Mary Lee deu um gritinho.
— Por favor, então não diga a papai — implorou ela. — Você não deve contar para
ele!

82
— Não devo? E por que não? — quis saber o marquês.
— Ele vai ficar muito agitado — explicou Mary Lee. Isso já aconteceu uma vez, e eu
passei por uma fase terrível.
Ela fez uma pausa, deu um soluço e então prosseguiu:
— Eu me vi rodeada por guarda-costas noite e dia. Não podia nem tomar um banho
sossegada sem que eles estivessem me vigiando para ver se eu me encontrava mesmo lá!
Ela suspirou fundo, então implorou outra vez:
— Por favor... por favor... não digam a papai! Vai estragar tudo!
Carolina percebeu quando o corpo do marquês se relaxou. A tensão que ele sentia
enquanto a abraçava se desvaneceu como que por encanto.
— Se você acha mesmo que não é necessário — disse ele a Mary Lee —, então esse
será um segredo que nenhum de nós deverá revelar a ninguém.
— Ah, que bom! — exclamou Mary Lee, aliviada. — Mal pude aguentar a confusão
que houve da última vez em que papai quis sair em busca dos sequestradores para matá-
los!
— Prometo que ninguém saberá sobre o que acabou de acontecer — proclamou o
marquês. — Quando estivermos próximos da casa, você e Mary Lee deverão saltar,
fazendo de conta que estiveram passeando no jardim.
— Combinado! — concordou Mary Lee. — Estou tão feliz que tenham vindo em
nosso socorro!
— Eu também — murmurou Carolina.
Ela voltou o rosto para o marquês, imaginando o quanto ele tinha sido maravilhoso.
Foi nesse momento que percebeu que seu rosto estava bem próximo do dele.
Não pôde deixar de pensar em como seria, magnífico se ele a beijasse. Ele tinha os
olhos fixos na estrada enquanto prosseguiam a viagem.
Então, de súbito, Carolina sentiu um baque no coração: descobriu que o amava.
Todo seu ser vibrava na presença do homem amado.
O que fora uma farsa no que dizia respeito a ele se transformara em pura realidade.
Nada havia de impuro ou mentiroso no que ela sentia: era amor.
O amor pelo qual sonhara, pelo qual pedira a Deus. Amor divino.
O mundo parecia glorificado, porque o marquês fazia parte dele.
No entanto, percebeu que seu amor não tinha esperanças.
Ele amava outra mulher e estava tão fora de seu alcance como a Lua.

83
CAPÍTULO VII

À medida que se aproximavam da casa, o Marquês disse:


— Vou deixá-las em algum lugar próximo daqui. Carolina soltou um suspiro.
— Precisamos entrar por alguma porta lateral — argumentou ela. — Tenho certeza
de que minha aparência deve estar horrível, depois de ter sido coberta por aquele saco!
O marquês fitou os cabelos dela. Alguns cachinhos graciosos adornavam a testa
delicada, enquanto uma grossa madeixa cobria-lhe os ombros.
— Você está adorável! — elogiou ele.
Por um momento, Carolina sentiu o coração contrair-se, ao perceber a
profundidade que havia na voz dele e na expressão de seus olhos.
Então disse a si mesma que ele devia estar apenas representando, pois Mary Lee os
ouvia.
Carolina então voltou o rosto para o outro lado, não tornando a encará-lo até que
tivessem parado no jardim da casa.
— Entre pelo portão do jardim — ordenou ele. — Ninguém poderá vê-las até que
cheguem a seus quartos.
— Bem pensado! — elogiou Mary Lee.
Peter, após ter desmontado, levantou Mary Lee da sela com gentileza.
Carolina percebeu que o irmão segurava a garota nos braços mais tempo do que o
necessário.
Então ela supôs que, como todos tinham passado por uma experiência traumática,
Peter devia estar apenas tentando acalmar Mary Lee, que ainda parecia sobressaltada.
Atravessaram um portão que as conduziu à parte de trás da mansão e em seguida
ao interior do jardim.
Enquanto prosseguiam, Carolina ouviu os cavalos se afastando na direção dos
estábulos.
Somente quando subiram a escadaria lateral que conduzia ao primeiro andar é que
Carolina se perguntou que horas seriam.
Aconteceram tantas coisas que, se alguém lhe dissesse que já era bem tarde, quase
noite, ela acreditaria.
Em vez disso, para sua surpresa, quando Carolina entrou em seu quarto e olhou
para o relógio de cabeceira, viu que ainda faltavam cinco minutos para a uma da tarde.

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Jones a aguardava e soltou uma exclamação de horror quando viu seus cabelos.
— O que aconteceu com a senhora? — indagou ela.
— Fiquei presa num arbusto de espinhos — apressou-se Carolina a explicar. — Foi
estupidez minha, mas tenho certeza de que você não levará muito tempo para ajeitar meus
cabelos outra vez.
— É claro que não — assegurou Jones —, mas milady deveria ter mais cuidado! Eu
espetei meu dedo num espinho uma vez e demorou muito tempo para sarar.
Carolina nada respondeu.
Agora que estava de volta à casa, sentia um súbito alívio e a tensão desaparecera.
Jamais se esqueceria de como se assustara ao ver aquele saco cobrindo-lhe a cabeça,
deixando-a cega e incapaz de se mover, a carruagem se afastando e a certeza, cada vez
mais crescente, de que ninguém viria salvá-la.
Sabia que os sequestradores não estavam à procura dela, mas de Mary Lee, pelo
fato de a garota ser rica.
No entanto, Carolina sabia que eles poderiam tratá-la muito mal ou livrar-se dela
sabe-se lá de que maneira.
Contudo, não havia por que continuar martelando naquele assunto.
O marquês, de maneira brilhante, as salvara e Carolina tinha certeza de que ele não
deixaria que fatos assim acontecessem outra vez.
Deviam ficar eternamente gratos a Mary Lee por ter-lhes dado a ideia de nada
dizerem ao pai dela.
Seria uma tragédia se Westwood retornasse aos Estados Unidos após ter lavado as
mãos acerca das negociações com os ingleses.
— Dê uma olhada no espelho, milady — sugeriu Jones.
Carolina olhou de relance no espelho e achou extraordinário que não houvesse
nenhum sinal de apreensão em seu rosto depois de tudo o que enfrentara.
Em vez disso, sua aparência era a mesma de sempre, e esperava que o marquês a
achasse mesmo adorável, conforme dissera na estrada.
"Não seja tola", ela se repreendeu; "se ele está apaixonado por uma das mulheres
mais belas de Londres, por que haveria de se interessar por você?"
Ela desceu as escadas e, à medida que se aproximava do hall, ouviu vozes na sala
de visitas. Peter e o marquês tinham se reunido aos outros.
Carolina entrou no aposento e foi também se juntar a eles, que bebericavam um
drinque antes do almoço.
— Vejam quem está aqui! — exclamou o marquês, caminhando na direção dela. —
Sua ausência já estava começando a me preocupar!
Ele passou o braço pelos ombros dela e a beijou no rosto. Apesar de Carolina tentar,

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não pôde deixar de sentir um calafrio percorrendo-lhe o corpo todo.
— O passeio no jardim estava tão maravilhoso que perdi a noção do tempo —
explicou ela.
O marquês colocou uma taça de champanhe nas mãos dela.
— Acho que merece isto! — informou ele.
Tinha as costas voltadas para o resto do grupo e ninguém podia ouvir o que dizia.
— Você foi magnífico! — elogiou ela. Mary Lee entrou correndo na sala.
— Por favor, não ralhem comigo por eu estar atrasada — desculpou-se ela, olhando
para todos os presentes —, mas eu e a marquesa nos divertimos tanto entre as flores!
Ela se encaminhou até o pai, beijou-o e disse:
— Sinto muito por não ter ido à igreja com você, papai. Acho que dormi demais.
— Perdeu um sermão magnífico — afirmou Westwood. O almoço foi então
anunciado e todos se dirigiram para a sala de visitas.
A refeição foi bastante agradável.
No entanto, Carolina experimentava uma certa lassidão por todo o corpo. Sabia que
tal reação era devida a todos os fatos que tivera de enfrentar durante a manhã.
Enquanto os convidados deixavam a sala de visitas, o marquês comentou:
— Acho que deveria descansar, querida. Deve ter caminhado bastante, esta manhã.
Não se esqueça do que os médicos disseram.
— Sim, claro — replicou Carolina. — Realmente me sinto cansada.
— Tente dormir — aconselhou ele. — Se não puder descer para o chá à tarde, tenho
certeza de que a srta. Westwood poderá substituí-la no papel de anfitriã.
— É claro que sim — assegurou Mary Lee. — Mas Peter e eu vamos dar uma
olhada nos cavalos. Soube que vocês foram ao estábulo logo que voltaram da igreja.
— É verdade — confirmou Alton Westwood. — E posso dizer que fiquei bastante
impressionado. Infelizmente nosso anfitrião precisou partir por causa de um incêndio em
sua fazenda.
— Foi um alarme falso — informou o marquês, com ar soberbo —, ou melhor, foi
um incêndio insignificante, e eu preferiria muito ter estado com vocês.
— O que tem planejado para nós esta tarde? — quis saber Alton.
O marquês fez uma pausa e então declarou:
— Pensei que seria melhor se passássemos a tarde descansando, o sol está muito
quente. Eu, além disso, precisarei colocar minha correspondência em dia.
— Sugiro, então, que tenhamos outra reunião imediatamente após o chá, para
pouparmos tempo quando voltarmos para Londres — falou Alton Westwood.
— Boa ideia! — concordou o marquês. — Tenho certeza de que você tem muitas

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coisas a fazer. Já pedi a meu secretário para providenciar que o vagão particular seja
anexado ao trem expresso que deverá fazer parada às nove e meia. Ele fez uma pausa,
depois, prosseguiu:
— O que significa que estaremos em Londres em apenas uma hora e antes do
almoço já teremos assinado e selado todos os documentos necessários.
— Para mim está ótimo — concordou Alton Westwood.
Todo o restante do grupo aprovou a decisão. Carolina acreditava que o marquês,
após o encontro, estaria livre para voltar a viver sua própria vida, sem ter de se preocupar
mais com Brox Hall.
Ela subiu as escadas e, sem chamar Jones, tirou os sapatos e colocou os pés sobre a
cama.
Não puxou as cortinas para que o sol invadisse o quarto com sua luz agradável.
Ela estava de fato mais cansada do que imaginava e não demorou muito para que
mergulhasse num sono profundo.
Carolina acordou de súbito e logo se lembrou de que sonhara com o marquês.
Tudo parecera muito real. Sentiu-se desapontada ao perceber que tudo não passara
de um sonho e que ela ainda se encontrava na cama e sozinha.
Olhou para o relógio.
Ficou consternada ao verificar que já eram cinco horas e que perdera o chá.
"Vou descer imediatamente", pensou ela, calçando os sapatos.
Desceu correndo as escadas e, entrando na sala, percebeu que todos estavam lá,
com exceção de Peter e Mary Lee.
— Sinto muito se me atrasei — desculpou-se ela. — Espero que não tenham
perdido o chá por minha culpa.
— Estávamos realmente esperando por você, querida — respondeu o marquês,
sorrindo —, a srta. Westwood não se encontra aqui para ocupar seu lugar.
— Sinto muito — falou Carolina. — A única desculpa que tenho a dar é que
adormeci.
— É exatamente o que eu queria que você fizesse — asseverou o marquês. — Achei-
a tão pálida, após o almoço, mas agora, querida, vejo que as rosas voltaram a desabrochar
em seu rosto!
— Que poético! — riu Carolina.
— E ele diz a verdade — garantiu Alton Westwood. Eu não poderia expressar sua
beleza em palavras.
Carolina sorriu para ele e começou a despejar chá na xícara.
Como sempre acontecia, sobre a mesa estavam dispostas deliciosas iguarias, mas
Carolina não sentia fome.

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Só conseguia pensar no marquês, em como ele era elegante e bonito. Carolina sentia
que seu coração se comportava de maneira estranha sempre que ele se aproximava dela ou
lhe dirigia a palavra.
"Eu o amo", pensava ela, sentindo-se infeliz. "Depois de amanhã nunca mais o
verei."
Com uma vaga esperança de que Alton Westwood permanecesse um pouco mais
na Inglaterra, ela indagou:
— Quando Mary Lee e o senhor retornam para a América?
— Na terça-feira — foi a resposta —, tão logo eu acerte os negócios com seu esposo.
Preciso voltar para a fábrica a fim de verificar como estão meus automóveis.
— Tenho certeza de que tudo está correndo bem — tornou Carolina.
— Ficarei desapontado se algo der errado — replicou Alton Westwood.
— Aliás, todos nós! — exclamou o marquês, que estivera ouvindo a conversa.
Enquanto ele falava, a porta se abriu e Mary Lee entrou correndo, acompanhada de
Peter.
— Onde vocês dois estiveram? — quis saber Alton. Mary Lee se encaminhou até o
pai. Passando os braços pelo pescoço dele, ela disse:
— Oh, papai, estou tão feliz! Jamais pensei em ser tão feliz em toda minha vida.
Alton Westwood fitou-a surpreso e Peter, que vinha logo atrás, explicou:
— Sinto exatamente o mesmo, sir! Mary Lee acabou de me prometer que se tornará
minha esposa.
Alton Westwood encarou Peter completamente aturdido e o marquês exclamou:
— Ótimo! É a melhor notícia que já ouvi nos últimos tempos! Parabéns, Peter!
Ele estendeu a mão para Peter enquanto falava, e todos os outros fizeram o mesmo.
— Então você decidiu se casar com esse inglesinho? — indagou afinal Alton
Westwood para a filha.
— Eu o amo, papai, e ele também me ama — foi a resposta objetiva de Mary Lee.
O marquês notou que a expressão refletida no rosto de Alton era de
desapontamento.
Caminhou então até o americano e, colocando a mão sobre seu ombro, comentou
em tom casual:
— Eu acho, Alton, que deveria parabenizá-lo. Afinal, você terá como genro o jovem
que representa uma das famílias mais tradicionais da história da Inglaterra.
O americano fitou-o com olhos inquiridores e o marquês prosseguiu:
— Os Greton vieram com William, o Conquistador, e desde então eles têm se
distinguido de uma maneira ou de outra.

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Ele parou de falar para sorrir e então continuou:
— Um dos Greton foi condecorado na batalha de Agincourt. Outro foi um homem
de Estado na corte do rei Henrique VIII e Peter é o sexto baronete após o título ter sido
criado por James II.
Ele riu antes de acrescentar:
— A árvore genealógica dele é maior que a minha, e isso sempre perturbou meu
pai!
— Não sabia disso! — confessou o americano, sorrindo, e o marquês teve certeza de
que ele não se oporia mais ao casamento.
Carolina beijou Peter.
— Espero que vocês dois sejam felizes, querido — augurou ela.
— E seremos! — asseverou Peter.
Os homens se reuniram ao redor de Mary Lee, desejando-lhe felicidades, pedindo
licença para lhe beijar o rosto.
Ela ria e se divertia com tudo, enquanto Peter conduzia Carolina até a janela.
— Faremos planos mais tarde — informou ele. — Vou discutir com o marquês de
que forma diremos a Westwood que você é minha irmã.
— Seja lá o que queira fazer — advertiu Carolina —, espere até depois de amanhã,
quando tudo já estiver acertado.
— Ora, não sou nenhum tolo! — replicou Peter, com voz contrariada.
Ele fez uma pausa e depois disse:
— Eu amo Mary Lee, Carolina, e me casaria com ela mesmo que não tivesse um
pêni no bolso. Ela quer viver na Inglaterra e está ansiosa para conhecer Greton House.
— Então ela não vai retornar à América na terça-feira? — indagou Carolina.
Peter deu uma risada breve.
— Não tive tempo de pensar em qualquer coisa, exceto em dizer a Mary Lee o
quanto eu a amo. Combinaremos tudo quando estivermos a sós. Antes quero conversar
com Alexander.
— Sim, claro — concordou Carolina.
Peter retornou para junto de Mary Lee como se não suportasse ficar um minuto
longe dela.
O marquês mandou vir champanhe e todos brindaram à felicidade dos futuros
noivos.
Carolina sabia que o marquês esclareceria outros fatos da família Greton a Alton
Westwood.
Na verdade, ficou surpresa ao perceber o quanto ele conhecia a respeito de sua

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família.
No entanto, ela sabia que, por ser eficiente, era típico do marquês fazer questão de
conhecer tudo sobre as pessoas que deveriam se envolver com ele.
De súbito, Carolina percebeu que o duque se aproximava dela.
E por isso, após ter bebido à saúde de Mary Lee e Peter, ela subiu para seu quarto.
Houve tempo apenas para que ela descansasse um pouco antes do jantar.
Carolina colocou um de seus vestidos mais bonitos e no último momento resolveu
acrescentar como acessório uma das lindas jóias que o marquês trouxera de Londres.
Seu vestido era azul-pálido, da cor que tinha o céu na primavera.
Entre as jóias, ela encontrara um colar azul-turquesa, brincos e braceletes da mesma
cor.
Todas as jóias eram marchetadas com diamantes, porém nada havia que ela
pudesse usar sobre os cabelos.
Enviou então um recado aos jardineiros por intermédio do lacaio.
Um pouco depois, quando Carolina já estava prestes a descer para o jantar, chegou
uma grinalda de flores, confeccionada com orquídeas brancas e alguns miosótis
cuidadosamente espalhados entre elas.
O adorno era tão adorável e tão elegante que nenhuma jóia, por mais preciosa que
fosse, se compararia a ele.
No momento em que ela entrou ha sala de visitas, percebeu a admiração nos olhos
do duque.
No entanto, ela não soube dizer, pela forma como o marquês a fitou, se seu olhar
era de admiração ou apenas reconhecimento por ela estar desempenhando tão bem seu
papel.
Ao jantar todos pareceram de bom humor, conversando alegremente com os
futuros noivos, que, sentados lado a lado, irradiavam felicidade.
— De uma coisa eu tenho certeza — observou o duque, dirigindo-se a Mary Lee. —
Se vocês saírem em lua-de-mel em um dos carros de seu pai, vai haver enorme
publicidade e muitos veículos serão vendidos a noivos e noivas!
Mary Lee deu um grito de protesto.
— Não pretendemos esperar até que os carros cheguem a Londres — afirmou ela
com veemência. — Se quiserem assistir ao casamento, precisarão ir até os Estados Unidos
no mês que vem!
— Tão depressa?! — exclamou o duque, surpreso. — O que nosso presidente diz
sobre isso?
O marquês se limitou a fazer um gesto expressivo com as mãos.
— Quando duas pessoas estão apaixonadas — filosofou ele —, o tempo não passa!

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— Vamos nos casar em Nova York — anunciou Mary Lee.
— Papai vai nos oferecer o maior casamento de todos os tempos e, antes que isso
aconteça, Nova York será palco do maior baile que jamais se viu.
Todos riram, e durante a refeição os homens fizeram sugestões não apenas para a
lua-de-mel mas também para a cerimônia.
Ao deixarem a sala, Carolina passou os braços ao redor do pescoço de Mary Lee e
disse:
— Estou tão feliz por você e Peter!
— Ele é o homem mais maravilhoso que conheci — afirmou Mary Lee. — Tenho
certeza de que seremos muito, muito felizes!
— É lógico que serão — concordou Carolina.
— Ele me disse — prosseguiu a americana — que, não tinha a intenção de se casar
com ninguém, muito menos com uma mulher americana, mas, assim que me viu, soube
que eu era a mulher de sua vida. Ele não quer correr o risco de me perder.
— Conheço bem Peter — comentou Carolina em voz baixa. — Posso garantir que
jamais o vi tão apaixonado por alguém como está agora por você.
— vou cuidar dele — garantiu Mary Lee —, e depois de casados viveremos na
Inglaterra, na casa que tanto significa para ele.
— Será maravilhoso! — concordou Carolina. Quando ouviu os homens se
aproximando da sala de visitas, ela pediu a Mary Lee:
— Diga-lhes que fui me deitar.
Saiu de mansinho do aposento por uma das portas de vidro que davam para o
jardim.
Atravessou o gramado correndo, até que estivesse fora do campo de visão, e então
continuou caminhando, desta vez mais devagar.
O luar transformara o jardim num recanto prateado e imaterial, enquanto no céu
acendiam-se todas as estrelas.
Tudo era tão magnífico que Carolina achou injusto não entregar-se à doçura que a
noite lhe oferecia. Em vez disso, o mundo pareceu-lhe sombrio e triste.
Em primeiro lugar, o que a deixava infeliz era saber que não haveria mais lugar
para ela em Greton House, já que Peter, após o casamento, levaria Mary Lee para viver lá.
Em segundo, e isso parecia-lhe assustador, era saber como Alton Westwood
reagiria quando soubesse que Peter não era seu primo, mas seu irmão.
E, por último, mais cedo ou mais tarde, ele descobriria que o marquês não era
casado.
Todos esses problemas pareciam pairar como uma grande ameaça sobre as cabeças
de Peter e do marquês.

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De início, ela se sentira amedrontada demais para pensar numa solução.
Então, como se a resposta tivesse sido dada por alguém. exteriormente a ela,
Carolina concluiu que a única solução para que pudesse garantir a felicidade de todos,
ainda que tivesse de abrir mão da sua, era desaparecer.
O marquês poderia dizer depois, quando retornasse dos Estados Unidos, que ela
morrera.
Agindo dessa forma, não haveria reprovações nem recriminações.
"É isso mesmo o que devo fazer", ela garantiu a si mesma. "Mas quando?"
Pelo menos ainda lhe restava algum tempo, já que Mary Lee primeiro retornaria aos
Estados Unidos com o pai.
Era apenas questão de o marquês e o restante da diretoria também irem para lá com
Peter.
Raciocinando melhor sobre o assunto, Carolina concluiu que seria melhor "morrer"
antes que eles partissem para que não houvesse perguntas indiscretas sobre o fato de o
marquês ser ou não casado.
De qualquer forma, o plano poderia ser posto em prática bem antes de eles irem
para os Estados Unidos, na verdade, tão logo chegasse em Londres no dia seguinte.
"Preciso pensar onde poderei me esconder", pensava ela, como se estivesse
alucinada.
Seria melhor, imaginou ela, se pudesse também deixar o campo como os outros.
Tentou pensar em alguns de seus amigos que viviam na França ou em outra parte
da Europa.
Ela caminhou um pouco mais até chegar perto de alguns arbustos em flor, atrás dos
quais havia um banco, onde se sentou.
Dali conseguia avistar a imponente casa ao longe, com o luar banhando as estátuas
que encimavam o teto.
Acima das esculturas, tremulava a bandeira do marquês como uma sentinela.
Ela imaginou que, depois que partisse na manhã seguinte, jamais voltaria a ver
aquele panorama magnífico.
Não suportaria mais passar cavalgando na frente de Brox Hall como costumava
fazer, tendo a certeza de que não mais poderia entrar na imponente casa.
Nunca mais ouviria a voz do marquês, tão doce e melodiosa sempre que lhe dirigia
a palavra. Não sentiria mais a presença dele atrás de si, como se quisesse protegê-la.
"Eu o amo", suspirava ela, sentindo as lágrimas banhando-lhe o rosto formoso.
A dor que aqueles pensamentos lhe causaram a fez cerrar os olhos.
De súbito, ela ouviu uma voz atrás de si:
— Por que está chorando, Carolina?

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Com certeza, ele a seguira desde o gramado. Carolina fez um gesto brusco, levando
as mãos até os olhos. O marquês se sentou ao lado dela e, tirando um lenço do bolso,
enxugou-lhe as faces e em seguida os olhos.
— Não há motivo para chorar — asseverou ele com voz suave.
— Mas... é claro... que há — foi a resposta dela, embargada pelas lágrimas. — Estive
pensando na confusão... em que entramos. A única solução... é que eu desapareça.
— Desaparecer?! — exclamou o marquês, aturdido.
— Você poderá... dar a desculpa de que eu... morri — argumentou Carolina, com a
voz incoerente. — Seria melhor... que eu morresse antes do casamento de Peter!
As palavras pareciam estar presas em sua garganta.
E outra vez as lágrimas escorreram-lhe pelo rosto.
Carolina ficou furiosa consigo mesma por parecer tão descontrolada e por isso tirou
o lenço das mãos do marquês, esfregando os olhos com ele bruscamente.
— Realmente acha que eu deveria dizer a todos que você morreu? — perguntou ele,
em tom de voz bem baixo.
— Não há nada mais que se possa fazer — tornou Carolina. — Mais cedo ou mais
tarde, você precisará contar ao sr. Westwood que Peter é meu irmão, e não meu primo.
Esta é uma das mentiras. A outra não precisará ser desvendada, se ele souber que eu
morri. Alton ficará chocado, se descobrir que jamais fomos casados.
— Eu entendo — comentou o marquês.
— Então concorda em que a única solução é que eu desapareça e você se torne
viúvo?
Um silêncio se seguiu antes de o marquês indagar:
— É isso mesmo que quer?
A pergunta era tão absurda que Carolina desejou dizer-lhe que aquela era a coisa
que menos queria no mundo.
Ser afastada de tudo o que lhe era familiar e ainda mais ver-se longe dele parecia
um inferno insuportável.
Em vez disso, ela se apressou a dizer:
— É a única coisa que podemos fazer... no momento.
— E você planejou tudo sem me consultar? — ralhou o marquês.
— Mas eu estava justamente pensando em você — respondeu ela. — Poderá
assumir a presidência sem nenhum problema. É importante para você, para seus amigos e,
é claro, para Peter.
— Você é altruísta e doce — elogiou ele —, mas bastante tola — contrapôs em
seguida.
— Não sei... por que... diz isso — gaguejou ela.

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— Acha mesmo que eu a deixaria sacrificar sua vida inteira apenas porque eu
desejei dinheiro e posição? — foi a pergunta do marquês.
— Eu ficarei bem — garantiu Carolina.
— Mas eu não! — contrapôs o marquês. — No entanto, é maravilhoso saber que se
preocupa comigo. Você me deixa profundamente emocionado, Carolina.
— Então... fará o que eu sugeri? — quis saber ela com ansiedade.
— Certamente que não! — foi a resposta convicta dele. Carolina ficou tensa.
— Mas você precisa entender...
— Eu já entendi — tornou ele. — Você acabou de responder à pergunta que eu ia
lhe fazer tão logo estivéssemos a sós.
— Que pergunta?
— É simples — explicou o marquês. — Precisava saber, Carolina, o que sente a meu
respeito. Quero dizer, não como alguém que você esteja querendo ajudar, mas como...
homem.
Carolina fitou-o demoradamente.
Sob a luz do luar, o rosto do marquês parecia ainda mais belo.
O coração de Carolina bateu com mais força ao sentir a presença dele a seu lado.
O braço do marquês estava apoiado no assento do banco atrás dela.
Então, enquanto tentava pensar numa resposta, ela respondeu com certa hesitação:
— Eu o admiro, acho-o inteligente, é claro. Você tem sempre solução para tudo, mas
acho que não há solução para esse problema exceto a que acabei de sugerir.
— Aí é que você se engana — contradisse o marquês. Minha solução é bem melhor
que a sua. Como eu já disse, você já deu a resposta à pergunta que eu queria lhe fazer.
Carolina, sem entender, fitou-o com olhar inquiridor.
— Eu acho — começou o marquês devagar — que, se você for honesta e sincera,
terá de admitir que me ama, mesmo que só um pouquinho.
Carolina ficou petrificada.
Ela não esperava, de forma alguma, por aquelas palavras, e por isso, com as faces
em fogo, desviou o rosto do dele.
Nada lhe parecia mais humilhante do que o marquês saber que ela o amava, mas
que lamentava, pois seu coração pertencia a outra mulher.
— É importante que eu saiba a verdade — argumentou ele com urgência na voz —,
pois, apesar de eu temer amedrontá-la por lhe confessar o que sinto, saiba que a amo
muito.
Por um momento, o mundo pareceu confuso e Carolina pensou que talvez não
ouvira direito.

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Quando então ela tentou pedir-lhe que repetisse as palavras, os braços do marquês
a envolveram, puxando-a para junto de si. Antes que os lábios dela se abrissem para falar,
ele os fechou com um beijo repleto de paixão e possessividade.
Carolina sentiu como se estivesse sonhando.
Estivera ansiando por aquele momento desde a primeira vez em que ele a beijara.
No entanto, o beijo naquele instante era bem diferente do da primeira vez, e
Carolina sentiu que seu coração já era inteiramente do marquês.
O amor que Carolina experimentava parecia consumi-la como chamas que se
apoderavam de todo seu corpo, mergulhando-o num mundo de êxtase e paixão.
Era maravilhoso sentir-se totalmente envolvida por aquele amor verdadeiro. Na
medida em que o marquês a atraía cada vez mais para si, beijando-a com amor, Carolina
pensou que, se morresse naquele momento, teria conhecido a maravilha e perfeição do
paraíso ainda na Terra.
Somente quando ele ergueu a cabeça é que ela tentou dizer, ainda que de forma
incoerente:
— Eu... o amo, é claro que o amo! Mas nunca imaginei que você pudesse me amar.
— Eu a amei desde o primeiro momento em que a vi afirmou ele. Nunca imaginei
que alguém pudesse ser tão adorável. Mas, minha querida, tinha tanto medo de assustá-la
como o fez Cumbria!
— Jamais tive medo de você — murmurou Carolina.
— Não deixarei que ninguém mais a assuste — prometeu o marquês.
Beijaram-se por longo tempo, até que Carolina sentiu que ambos flutuavam num
paraíso de felicidade enquanto estrelas multicoloridas pareciam pairar sobre seus olhos.
Somente quando os dois já estavam quase sem fôlego, embevecidos pela paixão que os
unia, é que o marquês disse:
— Minha querida, meu amor, será que existe alguém no mundo mais maravilhoso
que você? Como pode me fazer sentir tamanho amor?
— Você me ama... de verdade mesmo? — quis saber ela.
— Mas eu pensei que você amasse...
Ele pousou os dedos sobre os lábios dela.
— Nunca amei ninguém, exceto você — garantiu ele. É claro que existiram
mulheres em minha vida por quem me apaixonei por serem bonitas. Mas o que sinto por
você, meu amor, é completamente diferente.
— Como assim? — indagou Carolina.
— Levarei muito tempo até poder lhe explicar como foi a resposta dele. — Mas será
mais fácil depois de amanhã à noite.
— Depois de amanhã? — repetiu ela, sem entender.

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— Nós dois vamos nos casar em segredo, aqui na capela, tão logo eu retorne de
Londres.
Carolina outra vez achou que não ouvira direito.
— Casar?! — murmurou ela, surpresa.
— Não lhe disse que minha solução era bem melhor que a sua? — brincou o
marquês, sorrindo. — Já planejei tudo.
Carolina deu uma risada.
— Deveria supor mesmo que você planejaria tudo com antecipação.
— Devia ter confiado em mim — tornou ele. — De fato, venho planejando isto
desde que descobri que já não poderia perdê-la. E, ainda que demorasse, eu faria de você
minha esposa.
— E eu quero tornar-me sua esposa. Quero desesperadamente! — apressou-se a
dizer Carolina. — Mas tem certeza de que sou a pessoa certa para você? Como poderemos
nos casar sem que o sr. Westwood saiba de tudo?
— Já lhe pedi que confiasse em mim — respondeu o marquês. — Tomei as
providências com o pastor, que é também meu capelão particular, para que nos casemos
amanhã às seis horas da tarde. Ninguém, exceto Dawkins, tomará ciência do fato. Ele
ficará a postos para evitar que alguém interfira na cerimônia ou nos sequestre.
— Por favor, não deixe que nada de terrível aconteça implorou ela.
— Tomarei conta de tudo — assegurou o marquês. — Até já pensei num argumento
para explicar a Alton por que menti quando disse que Peter era seu primo.
— E qual é? — quis saber Carolina, curiosa.
— Vou lhe dizer, depois que os papéis estiverem assinados e selados, é claro, que
eu não queria que ele pensasse que Peter estava entrando na diretoria por ser meu parente
e por isso menti.
Carolina murmurou baixinho, mas não interrompeu o marquês, que prosseguiu:
— Tenho certeza de que Alton Westwood vai aceitar essa explicação sem mais
delongas. Ficará também satisfeito por Mary Lee estar ainda mais unida à minha família,
já que você será cunhada dela.
Carolina riu.
— Tenho certeza de que sim. Você pensa em tudo!
— Desde que a vi pela primeira vez, foi-me impossível pensar em qualquer outro
assunto — confessou o marquês. — Não quero jamais vê-la preocupada, triste ou
assustada.
— Eu o amo! — assegurou Carolina.
— Quero ouvi-la dizer essas palavras muitas vezes — pediu ele. — Tenho certeza
de que fará isso quando estivermos em lua-de-mel.

96
— Poderemos ter uma... lua-de-mel? — indagou Carolina.
— É minha intenção que tenhamos — arrematou ele. Após nosso casamento, iremos
para meu chalé de caça em Leicestershire.
Ele fez uma pausa para sorrir-lhe e prosseguiu:
— Teremos poucos vizinhos por perto, nessa época do ano, meu amor. Ficaremos
completamente sozinhos e eu poderei dizer-lhe o quanto significa para mim, o quanto a
amo e o quanto você é linda, a mulher mais bela que jamais conheci.
— Tem certeza? — indagou Carolina com ansiedade na voz. Ela pensava na
maravilhosa lady Langley, temendo comparar-se a ela.
— Juro por tudo o que há de mais sagrado — asseverou o marquês — que você é
ainda mais bela do que qualquer mulher que eu já tenha conhecido ou desejado.
Carolina se aproximou dele.
— É isso o que eu também desejo — murmurou ela.
— E é assim que será — respondeu o marquês. — Querida, há tantas coisas que
poderemos fazer juntos. E o mais importante é que começaremos a restaurar a casa e a
propriedade, tornando felizes e prósperas as pessoas que aqui vivem.
— Eu também quero ajudá-lo — comunicou Carolina, quase sem fôlego.
— E há muitas outras coisas que podemos empreender, não apenas no mundo
social, mas também no político, onde sei que poderei oferecer ajuda em muitas causas do
Parlamento. Sei que terei dinheiro e tempo para aliviar aflições e angústias que apavoram
nosso povo.
— Gostaria muito de ajudá-lo nesse sentido. Você é... tão maravilhoso, tão
inteligente! — Carolina estava emocionada.
— Não deve se esquecer de que também sou mágico brincou ele. — E, querida,
saiba que ofereceremos a magia do amor para todos os que se aproximarem de nós, amor
este que sempre ansiei encontrar um dia, mas que julgava impossível.
— Agora eu posso dar-lhe esse amor — murmurou Carolina com voz apaixonada.
O marquês não deu a resposta em palavras. Beijou-a até que ambos estivessem
trêmulos de amor e êxtase. O luar os envolveu com seu manto e as estrelas pareceram
brilhar ainda com mais ardor no céu.
Quando o marquês a atraiu de novo para si, Carolina concluiu que eles já não eram
dois seres, mas um.
Uma só criatura, unida pelos laços do amor até a eternidade.

97
QUEM É BARBARA CARTLAND?
As histórias de amor de Barbara Cartland já venderam mais de 350 milhões de
livros em todo o mundo. Numa época em que a literatura dá muita importância aos
aspectos mais superficiais do sexo, o público se deixou conquistar por suas heroínas puras
e seus heróis cheios de nobres ideais. E ficou fascinado pela maneira como constrói suas
tramas, em cenários que vão do esplendor do palácio da rainha Vitória às misteriosas
vastidões das florestas tropicais ou das montanhas do Himalaia. A precisão das
reconstituições de época é outro dos atrativos desta autora, que, além de já ter escrito mais
de trezentos livros, é também historiadora e teatróloga. Mas Barbara Cartland se interessa
tanto pelos valores do passado quanto pelos problemas do seu tempo. Por isto, recebeu o
título de Dama da Ordem de São João de Jerusalém, por sua luta em defesa de melhores
condições de trabalho para as enfermeiras da Inglaterra, e é presidente da Associação
Nacional Britânica para a Saúde.

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