Capa
Almeidaadesigner
Projeto gráfico da série
Oneminutedesigner
Diagramação
Katherine Salles
Revisão e Preparação de Texto
Ana Roen
Livro Digital
1ª Edição
Aline Damasceno
Todos os direitos reservados © Aline Damasceno.
É proibido o armazenamento ou a reprodução de qualquer parte desta obra,
qualquer que seja a forma utilizada – tangível ou intangível, incluindo
fotocópia – sem autorização por escrito do autor.
Esta é uma obra de ficção. Nomes de pessoas, acontecimentos e locais que
existam ou que tenham verdadeiramente existido em algum período da
história foram usados para ambientar o enredo. Qualquer semelhança com a
realidade terá sido mera coincidência.
Índice
Sinopse:
NOTA DA AUTORA
Prólogo
Capítulo um
Capítulo dois
Capítulo três
Capítulo quatro
Capítulo cinco
Capítulo seis
Capítulo sete
Capítulo oito
Capítulo nove
Capítulo dez
Capítulo onze
Capítulo doze
Capítulo treze
Capítulo quatorze
Capítulo quinze
Capítulo dezesseis
Capítulo dezessete
Capítulo dezoito
Capítulo dezenove
Capítulo vinte
Capítulo vinte e um
Capítulo vinte e dois
Capítulo vinte e três
Capítulo vinte e quatro
Capítulo vinte e cinco
Capítulo vinte e seis
Capítulo vinte e sete
Capítulo vinte e oito
Capítulo vinte e nove
Capítulo trinta
Capítulo trinta e um
Capítulo trinta e dois
Capítulo trinta e três
Capítulo trinta e quatro
Capítulo trinta e cinco
Capítulo trinta e seis
Capítulo trinta e sete
Epílogo
Bônus
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Agradecimentos
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Sinopse:
Bombeiro protetor + vizinha em apuros + friends to lovers + recomeços +
bebê rejeitada
Ian Quinn acreditava que tinha a vida perfeita: tinha pais amorosos,
que sempre fizeram de tudo por ele, tinha dinheiro, então pôde seguir a
carreira que sempre sonhou, a de bombeiro no Fire Brigade do Reino Unido.
Só faltava encontrar a garota certa para dividir a vida perfeita que tinha.
No entanto, todo seu mundo perfeito começou a ruir quando, logo após a
morte precoce da mãe, seu pai foi diagnosticado com câncer e decidiu revelar
que Ian havia sido tirado de sua família biológica quando tinha quatro anos.
Depois do falecimento do pai, ele parte para Edimburgo, guiado por
uma única lembrança: a de estar brincando com um menininho que acreditava
ser seu irmão.
O que Ian não esperava era que, em meio a sua busca por descobrir sua
real identidade, o destino colocaria em seu caminho dois amores
inesperados...
NOTA DA AUTORA
pesar de conter spoilers do livro do irmão do Ian, Três
Amores Inesperados para o Milionário Escocês, este livro pode ser lido de
forma independente.
No entanto, se você preferir ler a história do Grant primeiro, baixe
aqui: https://a.co/d/ixxN6SG
Prólogo
— Precisamos conversar, filho! — meu pai murmurou, ao mover a
peça para frente, comendo o meu peão.
Olhei para ele e, como sempre vinha acontecendo nos últimos dias,
senti meu coração se apertar.
Mesmo que tivesse mais de setenta anos, John Quinn sempre fora
sinônimo de força para mim, mas, nos últimos meses, via o meu pai definhar
mais e mais devido ao maldito câncer que, mesmo em tratamento, sugava
toda a energia que ele tinha, deixando-o com uma aparência fragilizada. Todo
seu corpo, na verdade, mostrava como estava debilitado. Eu pedia todos os
dias aos deuses para que ele fosse curado.
— Mas nós já não estamos conversando, pai? — Imprimi diversão à
minha voz, movendo minha peça no jogo de xadrez.
Não queria falar sobre a doença que o acometia. Ele precisava de
positividade, não de melancolia e desesperança. Ele podia não acreditar, mas
eu tinha certeza de que ele iria sair dessa. Ele era a única pessoa que eu tinha
no mundo depois que perdemos a mamãe, e só de pensar que eu poderia vir a
perdê-lo também, meu coração sangrava.
Ele não sorriu, como costumava fazer diante as minhas gracinhas, e eu
vi nos olhos azuis não apenas seriedade, mas também medo e incerteza.
— O que tenho para dizer é algo bastante sério, filho. — Voltou a usar
aquele tom baixo.
— Você vai sair dessa, pai! Vai me ver me formar e me tornar coronel
do Corpo de Bombeiros! — Toquei a mão dele que estava sobre a mesa,
sentindo todas as veias, que ficaram mais saltadas quando a pele se tornou
mais frágil.
— Não tenho dúvidas de que um dia você será o chefe da Estação. —
Esboçou um leve sorriso, que morreu poucos segundos depois. — Mas não é
sobre minha doença que quero conversar, já estou conformado com a
situação toda.
— Não deveria…
— Você deveria também, Ian — interrompeu-me.
— Pai… — comecei, mas novamente ele me impediu.
— É o melhor a ser feito!
— Claro que não!
Senti que começava a ficar contrariado, porém, ignorando a sensação,
continuei a fazer carinho no dorso da mão enrugada.
— Eu nunca mereci o seu amor, filho, nem os seus abraços, nem seus
sorrisos... — A voz soou meio trêmula. Percebi que havia dor em seu tom de
voz.
— Que bobagem é essa? Claro que você mereceu. Sempre foi um
ótimo pai — retruquei, cedendo à irritação.
Balançou a cabeça, negando.
— Tenho certeza de que você não achará isso, Ian, não depois de tudo
o que fiz.
Vi algo como uma pontada de culpa em seu olhar. Senti um calafrio
percorrer a minha espinha, mas ignorei aquele desconforto.
— Você e a mamãe foram os melhores pais do mundo! — Fiz uma
pausa. — Hoje, consigo entender o porquê de vocês terem sido firmes
comigo. Foi para o meu bem. Muitas vezes, eu fui um menino travesso.
Meu pai tornou a fazer um gesto negativo com a cabeça.
— Você sempre foi um bom menino. Eu e sua mãe é que nunca fomos
bons para você. — Respirou fundo, soltando o ar devagar.
— Bobagem.
— Não, não é. Você vai nos odiar, com razão.
Arqueei uma sobrancelha, antes de brincar com ele:
— Se você não tivesse ganhado de mim duas vezes, eu diria que não
está bem da cabeça, pai. E é a sua vez. — Apontei para o tabuleiro, que tinha
mais peças dele do que minhas.
— Estou falando sério, Ian. — O tom foi firme.
— Eu também — retruquei, antes de ceder, controlando-me para ficar
sério e não o alfinetar: — O que você quer me contar de tão importante
assim, John?
— Não é algo fácil, tanto que eu passei as últimas semanas pensando
se eu devia ou não te contar.
Outra vez, senti um calafrio, mas, dessa vez, não consegui ignorá-lo,
muito menos a sensação de que algo ruim aconteceria depois de escutar o que
ele queria me dizer.
Permaneci em silêncio. Gostando ou não, só me restava esperar.
— Eu só quero que você entenda que tudo o que nós fizemos foi por
amor. Nós te amamos demais, Ian! — disse em um tom rouco.
— Eu sei, papai.
— E é por esse amor que eu te peço que nos perdoe.
— Independentemente do que seja, saiba que já estão perdoados.
Aquilo era verdade. Eu os amava demais para não passar por cima de
erros banais. Pais não eram infalíveis, e se um dia eu me tornasse pai, sabia
que iria cometer alguns vacilos com o meu filho.
— Não fale isso. Você não sabe o porquê de ter que nos perdoar. — A
expressão de John era de tristeza.
— Não, não sei.
A aflição dentro de mim aumentava a cada segundo que se passava, e
eu me peguei dizendo:
— Você não precisa me contar, pai. Para que mexer em feridas
antigas?
— Eu poderia morrer sem te dizer nada, mas você tem o direito de
saber... É sobre o seu passado... — Os lábios se curvaram com uma expressão
de culpa, e eu não gostei nada daquilo.
Respirou fundo novamente, exalando o ar devagar, e eu senti os olhos
azuis dele me queimarem ao me fitar, a ponto de eu me controlar para não
remexer na cadeira.
— Você não é nosso filho biológico, Ian — confessou tão baixo, que
eu quase não o escutei.
A angústia que eu estava sentindo se dissolveu consideravelmente no
meu peito à medida que o meu cérebro processava a informação. Era uma
notícia um pouco chocante, já que nunca me passou pela cabeça que eu não
tinha sido gestado por minha mãe. Como eu era parecido com os dois, em
nenhum momento aquela hipótese foi levantada por alguém.
— Isso não importa, o fato de não termos o mesmo sangue não me
impede de ser seu filho e de Katriona — afirmei de forma rápida, mesmo que
várias perguntas começassem a brotar na minha mente.
— Se as circunstâncias fossem outras, eu seria obrigado a concordar
com você.
Franzi o cenho.
— Não vejo por que não pode. Vocês me deram um lar, uma vida
confortável, muito carinho e amor.
— Tudo isso é muito pouco perante aquilo que nós dois tiramos de
você. — John fez um gesto desolado com a cabeça, enfatizando ainda mais
sua fala.
Meu pulso acelerou instantaneamente.
Meus músculos ficaram rígidos.
O medo que se acumulou no meu estômago fazia com que ele
revirasse.
Procurei me acalmar. Não podia ser algo tão ruim assim, não mesmo,
ainda que o semblante dele dissesse o contrário.
— Muitos considerariam um presente não ter que morar em um
orfanato — falei, mal reconhecendo o meu tom de voz falhado.
— Você não morava em um orfanato, Ian.
— Ou em um lar abusivo… — continuei tentando me manter
esperançoso.
— Duvido muito que fosse esse o caso. Você era um menino tranquilo
e saudável quando nós… — Não completou a frase.
Me encarou novamente com aquele olhar de culpa, o que trouxe à tona
várias emoções que praticamente se tornaram uma bomba-relógio dentro de
mim e que não demorou a explodir.
— Quando nós... o quê? — o pressionei. Agora, eu precisava saber
mais do que nunca o que havia acontecido.
— Quando nós tiramos você da sua família, Ian. Nós o sequestramos!
— sussurrou.
Olhei para o homem que me criou como se fosse a primeira vez que eu
o visse, e, de alguma forma, era. Eu não conseguia acreditar naquilo. Não
podia imaginar que John e Katriona eram tão cruéis a ponto de cometer uma
insanidade dessas. Só poderia ser uma piada de mau gosto ou um pesadelo,
não podia ser verdade.
Balancei a cabeça de forma frenética.
Não! Não! Não!
Eu me recusava a acreditar naquilo.
Mesmo assim, as lágrimas começaram a se formar nos meus olhos,
meu coração parecia que sangrava.
— O quê? — gritei.
— Você tinha uma família em Edimburgo, Ian, mas nós o tomamos
deles.
Continuei a balançar a cabeça, tentando clarear os pensamentos. As
palavras de John me rasgavam ao meio.
Não. Não. Não.
Não queria acreditar, mas quando uma lembrança vaga de um
menininho, cujo rosto eu não conseguia me recordar direito, brincando
comigo em um parque surgiu em minha mente, senti que desmoronava, e não
só de forma literal.
As lágrimas deslizavam queimando por minhas bochechas, e a dor se
tornava ainda mais crua.
Quantas vezes pensei que estava louco quando dizia que tinha um
irmãozinho e meus pais me desmentiam, falando que era apenas uma
invenção tola de uma criança?
Quantas vezes me encolhi quando eles brigavam comigo por causa
disso?
Quantas vezes quis sair pelas ruas para procurar o tal menininho, mas
acabava dizendo a mim mesmo que eu deveria parar de inventar histórias?
Quantas vezes fui levado a sessões de terapia para esquecer todas as
minhas lembranças, que eram bastante vívidas?
Tentei me lembrar da tal “família que eu tinha”, mas tudo o que eu
consegui foi uma densa nuvem cinzenta e aquele pequeno fragmento
doloroso de uma única recordação.
Fui tragado pela amargura e comecei a chorar convulsivamente, não
conseguindo aceitar aquela situação.
Foram muitas as vezes que eles me foderam mentalmente, que
brigaram comigo, que me colocaram de castigo, deixando-me sem jantar por
mencionar que tinha um irmão e outros pais. Foram tantas vezes que, para
não ser taxado de problemático e desejando ser amado, ser o filho perfeito,
com a ajuda da terapia, acabei deixando essas lembranças para lá; hoje, só me
restaram sombras do meu passado.
— Vocês são uns monstros! — acusei com aspereza, erguendo-me de
um salto, sentindo nojo e raiva daquele que me ensinaram a chamar de pai.
— Sei que sou um maldito desgraçado, mas saiba que me arrependo
muito daquilo que fiz, Ian. E tenho certeza de que Katriona também —
murmurou, com um ar de pesar.
— Será mesmo? — cuspi.
— Todos os dias, a culpa por ter tirado você da sua família me
consome, mas nunca me arrependerei de ter amado você e de tê-lo como
filho.
— Você é doente!
— Você é a melhor coisa que me aconteceu, filho — defendeu-se.
— Não me chame assim! — gritei.
— Me perdoe, por favor.
— Eu… Eu… — Tentei dizer algo coerente, mas não consegui.
Sacudi minha cabeça de forma frenética, como o animal ferido que me
sentia, enquanto rangia os dentes a ponto de ouvir o som.
Não sabia se um dia conseguiria perdoá-lo, não sabia nem se poderia
olhar para o rosto dele outra vez, agora que descobri o quão cruel John
poderia ser.
Naquele momento, eu só sentia repulsa, e foi essa repulsa que me fez
sair correndo daquela sala, sem olhar para trás.
Uma avalanche de perguntas sobre meu passado surgiu na minha
mente e parecia entalar na minha garganta, formando um bolo que me
sufocava, mas, por enquanto, eu só conseguia chorar. Iria me apegar à única
lembrança que tinha, aquela do menininho, mas que, infelizmente, não iria
me ajudar a organizar o caos que havia se instaurado dentro de mim.
Capítulo um
Eu não sabia bem o que estava fazendo naquela cidade, na verdade, eu
não sabia mais de nada...
O tempo não me trouxe as respostas que eu queria, e duvidava muito
de que um dia as trouxesse.
Todas as informações que eu poderia obter sobre o meu passado
haviam sucumbido com o homem que me criou, quando ele começou a
definhar ainda mais depois da nossa conversa.
Eu deveria ter perguntado... Sabia que ele me daria todas as
informações que tinha sobre quem eu era, mas a compaixão e o medo de não
descobrir nada de concreto, e também o amor, o amor que ainda sentia por
ele, foram maiores do que a repulsa e a mágoa, e me fizeram ficar em
silêncio.
Apesar do monstro que John foi, eu ainda o amava o suficiente para
não o forçar a desperdiçar o pouco de energia que tinha comigo.
Permaneci ao lado dele, até que seu corpo sucumbiu.
Na verdade, não podia negar que eu fui movido por um sopro de
esperança de que aquele assunto poderia ser tratado depois, se ele focasse no
próprio bem-estar.
Eu já havia passado tanto tempo vivendo uma vida que não era minha,
o que custava esperar mais um pouco para descobrir quem eu realmente era?
Infelizmente, minha fé cega de que ele se recuperaria não foi o
suficiente.
Ele partiu...
Hoje, a dor era mais pungente. Pela perda do homem e da mulher que
eu amava com intensidade; pelo menininho que assombrava a minha mente
com sua forma vaga desde a minha tenra idade; pela família que eu tinha e
que, por mais que eu tentasse me recordar, não passava de borrões... mas a
pior dor era perder a mim mesmo.
Eu não tinha um nome, não um real. Procurei nas coisas dos meus
“pais”, mas nada encontrei além da minha certidão de nascimento, que dizia
que eu era Ian Quinn, filho de John e Katriona Quinn, algo que eu não era,
mas que, mesmo assim, me aferrava a essa identidade com força, precisando
de algo que me mantivesse são.
A todo momento, como agora, eu me lembrava de que era um homem
com um passado ilusório, vivendo um presente vazio, cujo futuro era
nebuloso e sombrio.
Droga!
Encontrar... nunca achei que seria uma palavra tão difícil.
Eu tinha que me encontrar, encontrar a minha verdadeira família,
porém estava perdido, sem saber por onde começar a busca, então vagava
pela Escócia sem nenhum norte.
Mudar-me da Inglaterra pareceu fazer mais sentido. Precisava me
afastar daquela vida que levava até então, mesmo que nunca pudesse
esquecê-la, e nem queria, afinal, eu sabia o quanto memórias eram valiosas,
mas, agora, não tinha tanta certeza.
Oitenta mil quilômetros quadrados. Mais de cinco milhões de pessoas.
Sem nenhuma informação além de uma lembrança vaga de um
menininho, lembrança essa que não me dava um rosto direito ou alguma
identificação que pudesse ajudar um detetive particular a encontrá-lo.
Além do mais, quem poderia garantir que esse menino que brincava
comigo era o meu irmão? Que ele residia em algum lugar da Escócia e não
em outro lugar da Grã-Bretanha, da Europa, do mundo? Pior, quem poderia
me garantir que ele ainda estava vivo?
Senti um aperto no peito ao pensar naquela possibilidade e pedi a todos
os deuses que eu conhecia para que, mesmo que eu nunca conseguisse
encontrá-lo, esse garotinho estivesse vivo. Hoje, a busca seria por um homem
adulto, que provavelmente já teria a própria família, era o que podia deduzir.
Bem, eu tinha outra coisa a que me agarrar. Era a única coisa concreta
na minha vida e que me fazia sentir que eu não era de todo uma fraude: eu era
um bombeiro. Poderia nunca vir a descobrir quem eu realmente era, mas me
expor ao perigo para salvar pessoas e animais sempre seria parte de mim.
Ciente de que eu iria me afundar mais tarde na melancolia, no
desespero, na raiva e na dor que sentia por John e Katriona terem me tirado
de minha “família”, me forcei a não pensar e entrei no prédio do Crewe Toll
Fire Station com passos apressados.
Não sabia como era o processo seletivo para o corpo de bombeiros
escocês, ainda mais para um inglês, como dizem que sou em meus
documentos, mas torcia para que eles me aceitassem no serviço voluntário.
Eu precisava que o departamento me aceitasse. Eu necessitava ocupar a
minha mente com algo externo, caso contrário, temia me afundar ainda mais
nas minhas incertezas, mais do que já estava soterrado.
Ignorei a vozinha que sussurrou no meu ouvido que dizia que eu podia
sobrecarregar o meu corpo com trabalho, com a sensação de ajudar a
comunidade, mas que tudo seria em vão, porque nada poderia me salvar.
Só o menino da minha recordação.
Capítulo dois
— Por que estamos aqui, mesmo? — Jane resmungou baixinho.
— Porque nós duas trabalhamos aqui — falei o óbvio em um tom
divertido, desviando meu olhar dos dois únicos clientes que se aventuraram a
sair de casa naquele dia especialmente frio e fitei a jovem, que tinha o rosto
voltado para a janela.
— Não tem graça! — Ela girou na minha direção com um bico
enorme.
— Não era para ter! — Dei de ombros.
Jane mostrou a língua para mim de forma infantil, antes de dizer:
— Deveria ser um crime vir trabalhar em dias assim.
— Duvido muito que a senhora Mclin iria concordar com isso.
— O fato de ela não estar aqui diz muita coisa — murmurou.
— Você às vezes brinca demais com fogo, sabia? — ralhei, mesmo que
ela tivesse um pouco de razão, já que, ao olhar para fora, vi o tempo ficar
cada vez mais escuro, ainda que não fossem nem duas da tarde.
— É mais forte do que eu… — se defendeu.
— Você pode se complicar.
— É… mas eu só queria estar na minha cama! — falou em meio a um
suspiro.
— Se pudesse, viveria em cima da sua cama, Jane — brinquei.
— Isso não é verdade! — Ela se controlou para não gritar comigo, mas
eu não consegui sufocar uma gargalhada.
— A cada cinco frases, três são você dizendo que queria estar
dormindo!
— Claro que não! — continuou, ainda emburrada.
— Sei. — Olhei com suspeita para ela.
Jane era a maior dorminhoca que eu conhecia, talvez até mais do que a
pequena Molly. Se Jane pudesse, eu não duvidava que ela hibernaria como
um urso.
— E o que que tem isso? — falou, como se tivesse lido os meus
pensamentos. — Não há nada melhor do que dormir, ainda mais nesse tempo
horrível!
— Consigo pensar em outras coisas melhores — retruquei, me
arrependendo no segundo seguinte, já que a expressão de Jane se tornou
maliciosa.
Droga! Ela não deixaria aquele comentário passar batido.
— Ailie, sua safada! — disse em tom divertido, confirmando a minha
teoria.
— Jane! — sussurrei, ficando vermelha de imediato.
Olhei para os clientes que estavam no salão, temerosa de que alguém
pudesse ter ouvido o comentário indecente dela, mas, felizmente, eles
pareciam imersos na conversa deles e em seus cafés.
— Sabia que por trás dessa carinha de santinha havia uma devassa!
— Pare com isso! Estamos no trabalho! — pedi com a voz
estrangulada!
— Você que começou! — me provocou.
Deu uma risadinha quando retruquei:
— Eu não estava falando disso!
— Sei. — Foi a vez de ela demonstrar descrença.
Revirei meus olhos.
— E você tem razão, Ailie, sexo é melhor que dormir! — concluiu
naquele tom malicioso.
— Jane! — Arfei, voltando a checar se alguém tinha escutado aquilo, e
me senti aliviada quando constatei que não.
Jane era terrível.
— É verdade! Vai me dizer que não?
— Não! — protestei rápido demais, arrancando uma risada dela que
chamou a atenção de um dos clientes que olhou na nossa direção, curioso.
Pelos deuses!
Eu deveria estar mais vermelha que um pimentão, tamanha vergonha
que eu sentia.
— Não deveríamos estar falando disso aqui no salão! — ralhei outra
vez, dando uma cotovelada nela.
— Okay, senhora McLin! — debochou de mim, abrindo um sorriso
maldoso, me chamando pelo nome de nossa empregadora.
Estalei a língua para ela, que voltou a dar uma risada.
Balancei a cabeça em negativa e, decidida a ignorar a garota, procurei
alguma coisa para fazer. Eu não perderia o meu tempo falando bobagens, não
no meu ambiente de trabalho, mas Jane parecia discordar de mim, já que ela
me seguiu e continuou a falar:
— Será que eles vêm hoje?
— Como vou saber, Jane? — respondi, ciente de quem ela estava
falando: dos bombeiros que costumavam frequentar o café, já que uma
unidade da Brigada de Bombeiros ficava há dois quarteirões de distância
daqui.
— Você está pior do que um cavalo hoje!
Franzindo o cenho, deixei de encarar o tampo da mesa que eu limpava
e voltei a fitá-la.
— Não estou, não! — me defendi.
— Tá, sim! Já me deu vários coices em menos de uma hora!
— É um pouquinho dramático da sua parte, não?
— Viu? — Voltou a fazer biquinho.
Respirei fundo, sentindo um pouco de impaciência com ela.
— Me desculpe se soei ríspida.
— Sabe o que eu acho, Ailie? Que você precisa sair para dançar, se
divertir.
Mordi o interior da minha bochecha para não praguejar.
— Sabe que eu não posso, Jane.
— Não pode ou não quer?
Neguei com a cabeça.
— Eu sou responsável por uma bebê agora — recordei-a daquele fato.
— Isso não tem nada a ver. Mães… mulheres com filhos — se corrigiu
—podem se divertir, sabia?
— Sim, eu sei, mas Molly ainda é muito pequena para eu poder sair
por aí. Ela precisa de mim.
— Você a deixa na creche! — tentou argumentar.
— É diferente, Jane. Eu não tenho escolha, preciso trabalhar, e eu não
tenho ninguém com quem possa deixá-la.
— Sabe que posso ficar com ela por algumas horas, não sabe? — Ficou
séria.
— Obrigada, Jane, mas, no momento, já é difícil deixá-la meio período
na escolinha para vir trabalhar… pensar em sair sem ela me parece algo
horrível! — continuei em um tom baixo, enquanto tentava lidar com as
minhas emoções.
Poderia parecer dramático e pouco saudável, afinal eu não deveria ser
tão dependente emocionalmente da bebezinha, mas era difícil para mim não
querer ficar com ela o tempo todo.
Molly era tudo o que havia me restado para me lembrar da minha
prima Rebecca. Não que pudesse dizer que nos últimos tempos tivéssemos
sido melhores amigas, porque, depois que ela conheceu Noah, acabamos nos
afastando uma da outra. Rebecca tinha ficado irreconhecível, muito
irresponsável, mas, apesar da raiva que eu sentia dela por seu comportamento
tão estranho depois que começou a se relacionar com aquele cara, ela sempre
seria a menina que me acolheu no momento mais difícil da minha vida.
Ciente do meu sofrimento, Jane colocou a mão no meu ombro em um
gesto de apoio.
— Eu entendo, Ailie… — disse, mas eu realmente não sabia se aquela
menina de dezoito anos realmente entendia. — Sabe que eu te admiro, né?
— Você já disse isso algumas vezes. — Abri um sorriso, tentando
afastar as lágrimas que já tomavam meus olhos.
— Não sei se conseguiria pegar essa responsabilidade para mim.
— No meu lugar, você faria o mesmo.
— Eu duvido.
— Eu não — falei convicta, antes de provocá-la: — Você é meio
maluca, mas tem coração mole.
— Eu não sou maluca!
— Será? — Fiz um ar de mistério.
Nós duas rimos da careta que ela fez.
— Seria bom um pouco de calor por aqui, não acha?
— Estou achando aqui bem quentinho.
— Sabe que não estou falando disso, Ailie.
— Sei?
— Não se finja de sonsa.
Arqueei a sobrancelha para ela.
— Estou falando dos bonitões do batalhão — foi maliciosa.
— Ah!
— Dos solteiros, é claro! — Começou a balançar a mão, se abanando.
— Só de falar neles, eu sinto a minha temperatura subir!
Acabei gargalhando da interpretação exagerada da garota.
— Se a sua temperatura está subindo, eu não sei, mas o meu cliente
está acenando e tem outros chegando — falei após lançar um olhar para o
salão vazio. Sem esperar uma resposta, pus o pano com que limpava a mesa
no bolso de trás da calça e fui atender o senhor que me chamava.
A calmaria de outrora precedeu a tempestade. Rapidamente, o salão do
café começou a encher de clientes ávidos por uma bebida quente,
demandando que eu, Jane, o barista e a equipe da cozinha fôssemos ágeis,
liberando rapidamente os pedidos.
Não demorou muito para que o grupo “mais” esperado pela Jane
passasse pela porta, o que a deixou bem corada e alvoroçada.
Quis gargalhar. Jane poderia ter me chamado de safada, mas era ela
que era uma tremenda coquete e libertina.
Realmente, a garota não tinha medo do perigo, já que flertava com os
caras descaradamente, e eles adoravam a atenção que recebiam. Não era para
menos. Com os cabelos loiros e lisos, olhos verdes e baixinha, Jane era muito
atraente.
Definitivamente, os bombeiros e alguns policiais que também
apareciam por aqui sempre caíam aos pés dela... menos um deles.
Enquanto esperava o barista terminar de preparar o meu pedido, foi
automático olhar na direção da mesa onde eles costumavam se sentar, ainda
que talvez ele não estivesse de plantão naquele dia.
Quando avistei o homem sentado no canto, separado do grupo, meu
corpo pareceu tomado por eletricidade, o que fez com que todas as minhas
células se agitassem.
Era uma reação absurda, sabia, mas todas as vezes que eu via aquele
homem, eu me sentia estranha.
Eu poderia não querer curtir a vida como Jane, mas era inegável que
ele me chamava atenção. Era bonito e atraente, se destacava dentre os outros
bombeiros, que também eram bonitões, mas não como ele.
Talvez fosse o corpo musculoso e largo, a altura, ou o rosto quadrado
que mexiam com o meu ser. Ou podiam ser os olhos verdes tão escuros que
toda vez que eu os fitava tinha a impressão de entrar em uma floresta, não
uma encantada, mas uma cheia de tormenta, um bosque onde quem se
atrevesse a entrar acabaria se perdendo com o seu dono.
Bobagem! Eu não acreditava que os olhos eram uma janela da alma.
Era impossível de se ler alguém só através do olhar, ainda mais um
desconhecido que eu só sabia o nome porque Jane me contou.
Quando Ian olhou na minha direção, o ar ficou retido nos meus
pulmões por alguns segundos enquanto uma nova corrente elétrica me
perpassava, me arrepiando.
Senti como se desse um passo em direção à perdição.
Era uma reação desmedida, e muito, mas ainda mais irracional foi
parecer que me derretia quando os lábios bem-feitos começaram a se curvar
em um sorriso que o deixava ainda mais lindo.
— Ailie? Está pronto! — Escutei a voz do barista soar atrás de mim e
eu quase dei um pulinho no lugar com o susto.
— Me desculpe — falei, me voltando para o balcão.
— Se eu receber reclamação de que está frio, a culpa é toda sua.
Me lançou um olhar meio irônico e, sem graça com a reprimenda mais
do que justa, peguei a bandeja com os cafés.
Coloquei-me em movimento e busquei me concentrar no meu trabalho,
evitando ao máximo olhar para a mesa onde ele estava sentado.
Eu não podia me dar ao luxo de a senhora McLin ouvir uma
reclamação sobre mim. Ela me pegava muito bem, muito acima da média, o
que me dava condições de requerer a guarda legal da Molly.
Tinha sido uma decisão difícil abdicar do salário de um trabalho de
quarenta horas semanais para ficar mais tempo com Molly e cuidar dela da
forma como o meu coração achava que tinha que ser. Felizmente, meus pais,
que não eram mais vivos, me deixaram um apartamento e algum dinheiro
para emergências, mas perder o meu emprego por algo tão besta como ficar
olhando para um homem bonito e misterioso estava fora de questão.
Eu tinha a mim mesma e uma linda bebezinha para cuidar.
Capítulo três
— O que você vai fazer depois que acabar o turno, cara? — Escutei a
voz de Cameron soar abafada pelo som dos chuveiros do vestiário, que eram
bastante barulhentos.
— Ir para casa — menti.
Passei a esfregar o sabonete com mais força, tentando me enganar,
dizendo a mim mesmo que eu só queria me livrar da sensação de podridão do
meu corpo após ter feito um resgate de um cachorro, que ficou preso em um
poço que estava imundo. Felizmente, apesar do estresse, o animalzinho
parecia bem e o dono havia levado ao veterinário assim que o entreguei a ele.
— Sério? — Pareceu surpreso.
— Sim.
— Pensei que iria passar no café!
— Por que eu faria isso?
— Sabe bem o porquê, apaixonado — zombou, caindo na gargalhada.
Desde que eu me peguei sorrindo como um bobo ao olhar para Ailie —
os colegas haviam me dito o nome dela —, os caras vinham fazendo troça de
mim, me chamando de apaixonado, o que estava bem longe da realidade.
Apesar de ser magra e alta, a blusa do uniforme não escondia a cintura
fina que contrapunha a curva mais pronunciada dos quadris.
Os seios pequenos eram empinados e a bunda, redonda e arrebitada.
Tinha sido apenas um olhar, algo bem natural, já que, apesar do caos
em que eu vivia, eu também era humano e apreciava mulheres belas, bom,
isso que eu tentava dizer a mim mesmo.
O corpo esbelto e delicado, sem dúvidas, era lindo, mas queria dizer
que foi apenas isso que me fez comportar como um parvo. Eu tinha ficado
uns instantes admirando o rosto em formato de coração, o lábio inferior mais
cheio do que o superior e os cabelos acobreados, que pareciam longos e me
fazia desejar desfazer o coque que os prendia para tirar a dúvida, mas o que
roubou o meu fôlego e fez meu coração disparar foram os olhos verdes, que
tinham prendido os meus.
O mero olhar de Ailie me ofereceu um instante de acalento, o que eu
sabia ser irreal, afinal, ela era uma desconhecida. Eu não podia afirmar que
ela tinha um calor que chegava à minha alma. E mesmo que um dia chegasse
a conhecê-la e descobrir que não era uma ilusão da minha mente, que aquela
mulher era capaz, sim, de oferecer muito calor, lembraria que eu era um
desconhecido para mim mesmo.
— Seu silêncio diz muita coisa, apaixonado — o idiota brincou.
— Isso é uma confissão de que você está apaixonado, Cameron? —
devolvi a pilhéria, mesmo que eu me sentisse sem humor.
Era engraçado o quanto eu havia mudado em pouco tempo, o quanto
John – não conseguia mais o chamar de pai - havia matado algo dentro de
mim. Não que eu fosse a pessoa mais sociável do mundo, eu havia me
acostumado ao estilo reservado dos Quinn, que nunca foram festeiros.
O foda era constatar que o Ian de antes teria rido com o colega.
O batalhão sempre tinha sido a minha segunda casa, mas, agora, eu não
conseguia.
Os colegas tinham me recebido bem quando cheguei, no entanto, eu
não estava sendo eu mesmo com eles.
— Claro que não! — Cam retrucou com rapidez.
— Não é você que vai todos os dias ao café? — disse.
Coloquei o sabonete no suporte, sabendo que o mau cheiro que eu
ainda sentia era mais o meu psicológico agindo do que tudo.
— Gosto do cappuccino e dos bolinhos de batata[1] de lá — se
justificou. — Mas não estamos falando de mim, mas de você. Deveria
convidar a Ailie para sair!
Balancei a cabeça, negando, mesmo que Cam não pudesse ver,
sentindo uma pontada incômoda no peito em saber que eu não podia fazer
aquilo. Se fosse em outra circunstância, provavelmente eu não hesitaria em
convidá-la, mesmo correndo o risco de tomar um fora. Ela era bem gata e só
um louco não tentaria, mas não podia, não naquele momento.
— Eu deveria convidar ela só para você deixar de ser um otário —
Cam me provocou quando fiquei em silêncio.
— O que está esperando? Tem medo de ser rejeitado? — Senti uma
acidez subir pelo meu estômago.
— Claro que não!
— Já levou um fora dela?
— Vai se foder! — grunhiu, parecendo irritado, me dando a certeza de
que tinha acertado em minha suposição.
— Já estou fodido, cara, nem imagina o quanto. — Movi os meus
lábios, mas sem emitir nenhum som.
Apoiei os meus braços contra o azulejo do box, baixando a minha
cabeça, deixando que a água quente molhasse meus cabelos, enquanto sentia
como se uma faca invisível fosse enfiada em meu peito.
Cinco meses. Já estava morando em Edimburgo há cinco meses. Cinco
meses em que eu me afundava em uma busca infrutífera, o que já era
esperado.
Eu sabia que era uma perda de tempo continuar vagando pelas ruas,
olhando cada rosto, achando que eu iria encontrar o menino das minhas
lembranças, como se isso me ajudaria a encontrar os meus pais biológicos,
mas, mesmo assim, dia após dia, eu fazia o mesmo: procurava, procurava...
Enquanto a água escorria por meu corpo, parecia ouvir uma voz
maldosa sussurrando “você nunca vai encontrar, você nunca saberá quem
realmente é”. Me sentindo despedaçado, desferi um soco com força no box, e
minha mão latejou com o impacto.
Mesmo assim, a dor causada pelo meu gesto não era maior do que
aquela infligida pelo desespero, pela perda, por ter sido enganado,
sentimentos que se tornaram as minhas companheiras.
Ofeguei.
Eu tinha que me encontrar, eu tinha... Até mesmo para eu poder dar
algo de mim para alguém, seja amizade ou algo a mais. Ninguém merecia se
relacionar com alguém num estado tão caótico.
Com um último soco, lutando contra a sensação que me rasgava, fechei
o registro e puxei a toalha que eu tinha colocado sobre a porta, e me sequei
rapidamente.
— Está tudo bem, Ian? — Cameron perguntou quando eu saí do box
que eu usava.
— Sim, está — murmurei, e sem olhar para o homem loiro, caminhei
em direção ao meu armário para pegar minhas roupas.
— Não parece.
— É apenas cansaço. Foi um turno do caralho! — menti ao dar de
ombros, começando a vestir a cueca e a calça.
— Você é mole demais, tenente!
Virei-me para ele com uma sobrancelha arqueada.
— Mas o que se esperar de um inglês? — zombou, remontando ao
período que a Inglaterra colonizou a Escócia, que resultou não apenas em um
conflito violento, mas também em um massacre da cultura escocesa.
Abri e fechei a boca para retrucar, argumentando que eu poderia ser tão
escocês quanto ele, mas não queria dar margens a perguntas, não quando eu
não tinha nenhuma resposta.
Cameron gargalhou, mas a risada dele morreu quando uma sirene soou.
— Que porra!
Também praguejei. Faltavam menos de duas horas para o fim do nosso
turno que, ao contrário do que Cameron tinha dito, tinha sido exaustivo.
Ainda assim, o cansaço e a melancolia foram imediatamente trocados pela
adrenalina do chamado.
Já que manter a calma e racionalidade era fundamental, rapidamente
me controlei, deixando as emoções turbulentas de lado e me concentrando em
meu trabalho.
Terminei de me vestir e fui calçar minhas botas. Em menos de noventa
segundos, após apanhar nossos equipamentos de proteção, eu e Cameron
estávamos dentro do veículo que nos conduziria até o local onde houve um
choque de um carro contra uma parede e que, segundo informações, tinha
uma pessoa presa às ferragens.
Demorou pouco mais de seis minutos para que chegássemos ao lugar e,
liderados por Archie, o chefe dos bombeiros que me aceitou no batalhão,
levou menos de um minuto para que começássemos a nos mobilizar. Havia
inúmeros procedimentos necessários para garantir a integridade de todos,
como fechar o perímetro para garantir a segurança, organizar o local e os
materiais que precisávamos usar, confirmar a quantidade de vítimas e
eliminar a possibilidade de algum vazamento de combustível que pudesse
colocar não só o homem envolvido no acidente em perigo, mas nós também.
— Não se mexa, por favor, senhor. Eu sou o bombeiro Daniel Wash e
estamos aqui para te ajudar, mas para isso eu preciso que você siga as minhas
instruções. — O paramédico da equipe iniciou a verbalização com a pessoa
presa no veículo, enquanto outro bombeiro tentava encontrar um acesso ao
interior do carro para imobilizar o pescoço do homem.
Não prestei atenção na resposta grogue, já que eu estava verificando se
não havia combustível vazando, mas fiquei atento a Daniel, que informava o
estado da vítima, para ver se não precisava de meu apoio imediato.
Por alguma razão desconhecida, já que não era o primeiro acidente do
tipo em que trabalhava, minha capacidade de me controlar pareceu
enfraquecida. Meus batimentos cardíacos estavam bastante acelerados, uma
fina camada de suor se formando sobre a minha pele. Eu me sentia ansioso
como nunca. Merda! Eu tinha que parar com aquilo e focar no salvamento. O
que estava acontecendo comigo?
— Parece que as pernas da vítima estão presas sob o painel — Cam
falou minutos depois, quando passamos a pensar na melhor estratégia de
retirar o homem do veículo.
— Confirma, Daniel? — O comandante perguntou.
— Sim. Perguntei e ele confirmou que não consegue mover as pernas.
— Será mais fácil usar um extensor para rebater o painel para soltá-lo.
Vão buscá-lo — O comandante Archie ordenou.
— Sim, senhor!
Eu e Cam fomos pegar as ferramentas que precisaríamos para a
remoção da porta, que tinha ficado inutilizada com a batida frontal:
pulsionador para quebrar o vidro, ferramenta hidráulica de corte, extensor
para alargar a passagem e as luvas de procedimento.
Começamos a trabalhar na retirada da porta lateral para depois tirar o
painel, verbalizando os procedimentos que iríamos fazer em voz alta, em
meio às vozes de Daniel e do comandante, que davam instruções
complementares. Não demorou para que, removendo o vidro da janela com o
pulsionador, eu manejasse a ferramenta hidráulica para cortar a lataria do
carro e finalmente abrir espaço.
A remoção do painel do veículo que prendia as pernas do homem
deveria ter sido realizada em poucos minutos, mas toda a minha noção de
tempo, algo necessário em salvamentos, já que cada minuto era importante,
pareceu evaporar quando, ao ajudar a mover a vítima para colocá-la na
prancha, eu olhei para o rosto do homem que havia sofrido o acidente.
Meu coração disparou, tanto que eu jurava que eu conseguia ouvir cada
eco que fazia, mesmo que não estivesse usando um estetoscópio para
auscultá-lo, e minhas pernas ficaram instáveis.
Pisquei uma, duas vezes, temendo que minha visão estivesse me
pregando uma peça.
Mesmo com sangue manchando o rosto do homem, os traços dele me
eram bem familiares. Muito. Eu via algo bem parecido todos os dias da
minha vida quando me olhava no espelho.
Pisquei novamente, mas o rosto tão parecido com o meu não sumiu.
Senti um calafrio na espinha e minha boca secar.
Ele…
Ele era…
— Ian? Está me ouvindo? — A voz de Daniel me tirou do transe e eu
olhei para o paramédico, só então me dando conta de que eu tinha ficado
imóvel.
— Sim, me desculpe — minha voz soou rouca.
— Troque de lugar comigo — ordenou.
Assenti e fiz o que ele pediu.
Tentei focar na vítima, não nos meus sentimentos conflituosos, mas
várias perguntas queriam escapar pelos meus lábios, porque sentia uma
esperança imediata de que tinha encontrado uma luz no fim do meu túnel. No
entanto, não era hora, muito menos lugar.
Aquele homem ainda precisava de nós e eu não me perdoaria se a
minha conduta colocasse sua vida em risco.
Segui os comandos de Daniel e dos outros membros da equipe, até que
a vítima estivesse estabilizada na prancha e fosse retirada com cuidado para
não causar nenhuma lesão, sendo finalmente desencarcerado do carro.
Enquanto eu observava o homem ser levado para a ambulância, os
meus sentimentos, até então controlados pelo momento de risco, explodiram
dentro de mim.
As vozes e sons do entorno pareceram cessar, só havendo o barulho das
batidas do meu coração, que voltou a aumentar.
As inúmeras perguntas que consegui silenciar até então surgiram com
toda a sua força, e eu não pude contê-las, deixando-as eclodirem.
Aquele homem tão parecido comigo seria capaz de me dizer quem eu
era?
Ele era o menino das minhas lembranças? Ele seria um parente meu?
Minhas pernas fraquejaram e achei que iria ao chão, tamanha
instabilidade que eu sentia.
Aquele homem poderia ser meu irmão, ou talvez um primo?
A esperança se espalhou por todos os meus membros, me deixando em
uma espécie de letargia eufórica ao ver uma luz no fundo do poço onde eu
estava e que, até então, parecia cada vez mais escuro, as paredes se fechando
sobre mim.
Paralisado, refém daquela sensação, continuei a olhar para o homem
que agora era transferido para a maca pelos paramédicos. Ele poderia ser
algum parente meu!
Quando ele foi colocado dentro da ambulância, eu tive que lutar contra
mim mesmo para não sair correndo e ir até a pessoa que parecia deter todas
as respostas às minhas perguntas.
Me obriguei a ficar parado. Eu tinha que ser sensato. O cara havia
acabado de sofrer um acidente, estava com confusão mental. O que ele
poderia me dizer naquelas circunstâncias? Nada.
Foi esse mesmo momento de sensatez que aniquilou a esperança que eu
sentia com um golpe certeiro, deixando o medo em seu lugar.
O calor transformou-se em frio e a luz que eu havia visto ficou ainda
mais distante.
E se fosse apenas uma brincadeira do destino? Um engano? A
semelhança entre nós dois não dizia nada.
Quantas pessoas não se pareciam e não necessariamente tinham um
laço sanguíneo? Várias. O mundo era gigante.
Engoli em seco o bolo que havia se formado na minha garganta.
Vi as portas da ambulância se fecharem e não demorou para que o
veículo, com a sirene ligada, passasse pelo perímetro de segurança, se
afastando, me deixando com os meus medos e inquietações.
Capítulo quatro
Meu estômago rodopiava com o nervosismo. Minhas palmas estavam
suadas com a ansiedade, como nunca estiveram antes. Minhas pálpebras
estavam pesadas, já que eu não consegui conciliar o sono, o rosto do homem
que se chamava Grant me assombrando.
Não me surpreendi pelo acidente ter sido coberto pela imprensa, mas
não podia negar que foi chocante descobrir que ele não era um homem
comum. Ele era o milionário Grant McCormack, um CEO de sucesso, sócio
de uma empresa de gestão de fundos de pensionatos e dono de vários outros
empreendimentos.
Senti que hesitava quando apertei o botão para chamar o elevador, me
questionando o que eu estava fazendo naquele hospital.
Apesar das inúmeras perguntas feitas pelo Comandante Archie sobre o
meu interesse pela vítima, consegui arrancar dele a informação para onde o
homem havia sido levado, como também não foi difícil passar pela recepção
e entrar na área restrita do hospital ao apresentar os meus documentos que
diziam que eu era um oficial do corpo de bombeiros. O difícil mesmo era
lidar com o medo e a insegurança que a perspectiva de o encontrar me
causava.
Provavelmente, um homem poderoso como ele estranharia minhas
perguntas. Não seria uma surpresa se o senhor McCormack acabasse pedindo
para a equipe de segurança dele e do hospital me remover do quarto, afinal,
era loucura o que perguntaria a ele, mas eu precisava arriscar.
Meus instintos diziam que, além de não conseguir descansar se não
fizesse uma tentativa, eu estaria perdendo uma chance de encontrar os meus
pais biológicos.
Foi essa necessidade urgente que me fez dar um passo à frente, entrar
na caixa de metal e apertar o botão do andar onde ficava o quarto do senhor
McCormack.
Os ses bombardeavam a minha mente, tornando o medo mais brutal,
mais esmagador. Eu não queria me deixar levar pela esperança de que minha
busca estava perto de ter um fim, mesmo assim, era mais forte do que eu. Ou
talvez fosse a urgência de tentar descobrir minha história que me impelia.
Assim que o elevador parou, respirei fundo e, com passos apressados,
me dirigi até o apartamento em que ele estava instalado.
Parei em frente à porta, estranhando o fato de não ter um segurança
particular por ali. Por mais seleto que o hospital fosse, homens podres de rico
teriam segurança, não?
— Importa? — murmurei.
Não, não importava.
Parando de perder meu tempo com divagações, bati na porta para
anunciar a minha presença. Como não obtive resposta, levei a minha mão
suada à maçaneta, girando-a devagar.
Abri uma fresta, o suficiente para que o senhor McCormack pudesse
me ver e eu a ele.
Quando os olhos do homem, que tinha a cabeça enfaixada e a perna
engessada, pousaram sobre mim, vi que ele parecia ficar surpreso. Senti que
retinha o meu fôlego, o sangue correndo veloz, mas minhas veias.
Definitivamente, o senhor McCormack tinha que ser algum parente
meu. Ele era bem parecido comigo. Era mais velho que eu, com certeza,mas
sem nenhuma dúvida éramos muito parecidos.
Caramba! Eu pedi a todos os deuses que eu conhecia para que ele
fosse.
— Não sabia que tinha um parente tão parecido com você, Grant —
escutei a voz de outro homem e, após fitá-lo rapidamente, voltei a encarar o
senhor McCormack.
— Eu não tenho… — a resposta soou trêmula, tão trêmula quanto eu
me sentia.
— Não? — O outro cara pareceu surpreso.
— Não.
— Pelos deuses! — O cara exclamou. — Ele é…
Senti um arrepio na coluna e um desejo profundo de perguntar a ele
quem eu era me invadiu.
— Não sei… — O CEO respondeu e eu fui tomado por vários choques.
A esperança parecia que ia vencer a cautela.
— Irei comprar um café para mim. — O outro homem falou, e
rapidamente se levantou e veio em minha direção.
Sem dizer uma palavra, passou por mim, me deixando a sós com o
CEO.
— Posso entrar, senhor? — perguntei, ciente de que eu estava fazendo
papel de bobo ao ficar parado no lugar.
— Sim.
Fechei a porta atrás de mim e caminhei em direção à cama hospitalar
onde ele estava, meus passos carregados de tensão.
Parei em frente a ele e, estando mais próximo, as similaridades entre
nós, apesar dos machucados e hematomas, pareceram ainda mais absurdas.
O senhor McCormack me olhou nos olhos e muitas emoções cruzaram
a feição dele, mas não pude entender o motivo. Me senti desconfortável por
estar ali e pelas perguntas que eu iria fazer.
— Fico feliz que você esteja bem, senhor. — Desviei o olhar,
colocando as mãos nos bolsos do meu jeans.
— Tenho que te agradecer por você ter me salvado. — Pareceu
cauteloso e acho que sei o porquê. Eu era um desconhecido parecido com ele.
— Só estava fazendo o meu trabalho, senh…
— Grant. Me chame só de Grant, Duncan… — Me interrompeu e, por
um momento, fiquei preso pelo nome que ele havia me chamado. Duncan.
Meu nome poderia ser Duncan?
— Ian — falei, quando pareceu esperar uma resposta.
— Desculpe-me — o tom saiu rasgado, ou assim me pareceu.
Balancei a cabeça em negativa.
— Sabe o que é estranho, Grant?
— O quê?
— Eu me chamo Ian, eu fui registrado como Ian — sussurrei, tentando
abordar o motivo pelo qual eu estava ali.
— Qual o problema disso? — Franziu o cenho.
— Eu realmente não sei se me chamo Ian. — Bom, uma parte de mim
sabia que eu não me chamava Ian, apesar de eu me chamar Ian. Droga! Era
confuso!
— Não?
— Não. — Meus lábios se torceram com acidez, o ressentimento por
aquilo que John e Katriona haviam feito comigo surgindo com força, criando
sombras no meu peito.
— Bom, por que está aqui, Ian? Acredito que socorristas não
costumam ir visitar as vítimas que eles ajudam.
— Bombeiro. Sou bombeiro, Grant.
— Tem diferença?
— Tem, sim. Todos são importantes, claro, mas tem o lance do perigo
e tals — falei em tom de brincadeira, tentando aliviar um pouco a tensão que
eu sentia.
— Se você diz. — Deu um leve sorriso, mas logo voltou a ficar sério.
— Por que veio me ver?
— Meio óbvio, não? As semelhanças entre nós… — dei de ombros,
sentindo os meus músculos doloridos, e não hesitei em provocá-lo: — Apesar
de eu ser muito mais bonito do que você.
Grant riu, mas logo fez uma careta de dor.
— Existem várias pessoas parecidas no mundo, Ian. Pode ser só
coincidência. — Era uma verdade, mas ouvi-lo dizer aquelas palavras doeu
em mim com força. A esperança que sentia começou a morrer dentro de mim.
— Talvez seja só uma coincidência mesmo, mas eu precisava tentar
descobrir se temos algum parentesco — murmurei.
— Tentar?
O encarei antes de dizer em um murmúrio:
— Estou buscando o meu passado. Pode parecer maluquice, mas quero
descobrir quem eu sou.
— Você é um bombeiro, não é?
— É a única certeza que tenho, Grant, certeza que não me é mais
suficiente. Qual é a minha idade real? Qual é o meu nome verdadeiro? Eu não
sei nada disso. Descobri que o homem que me criou não era meu pai
biológico! Ele confessou que me tirou de uma família... ele me sequestrou!
Dor. Mágoa. Raiva. Essa era a tríade que me feria com toda a sua
força, que machucava a minha carne, a minha alma, que me rasgava ainda
mais por eu ainda amar aqueles que me criaram como filho, mesmo eles
tendo cometido um crime tão grave.
Continuei minha explicação quando Grant ficou em silêncio:
— Ele confessou quando estava morrendo que me fez passar por louco,
me enviando para fazer terapias, quando eu dizia ter um papai, uma mamãe e
um irmão. Dizia a todos que eram devaneios de uma criança tola. Eu não sou
louco, caralho!
Quando ele ficou em silêncio, a ausência de uma resposta pareceu me
fazer afundar ainda mais em angústia, mas não consegui me conter.
— Preciso descobrir o meu passado, Grant. Preciso encontrar o garoto
das minhas lembranças, o menininho que brincava comigo.
— Da mesma forma que preciso achar meu irmão que perdi —
sussurrou.
Fiquei em choque com a sentença dele, a esperança retornando com
tudo.
Ele poderia ser o menininho?
— Você está procurando uma pessoa também?
— Por toda a minha vida, eu procurei pelo meu irmão. — A dor de
Grant era tão crua que fiquei estagnado, sem conseguir dizer nenhuma
palavra, apenas fiquei ali olhando para ele.
— Nunca deixei de procurar por você, Duncan — prosseguiu e a forma
como ele disse aquilo, como se tivesse certeza de que eu era o irmão dele, me
fez estremecer. — Cada segundo da minha vida, eu busquei por você. Tudo o
que eu construí, todo o meu patrimônio, foi para tentar encontrar você.
— Eu me chamo Duncan? — perguntei, temendo ser um sonho.
— Acredito que sim, mas faremos um exame de DNA para ter certeza
absoluta. — Voltou a ter cautela, me fazendo colocar os pés no chão outra
vez. Ou talvez aquilo fosse uma tentativa de não querer dar esperanças falsas
para ele mesmo.
— Eu…
— Tenho quase toda a certeza de que você é o meu irmão Duncan. —
Abriu um sorriso e eu vi lágrimas correrem pelas bochechas dele, parecia
muito emocionado. — Coincidências existem, mas tantas? Eu não acredito
que seja apenas uma mera semelhança física.
— E se for, Grant? É estranho reencontrar as pessoas que procuramos
nessas circunstâncias. — Tentei ser racional.
— Destino, talvez?
Neguei com a cabeça, não estava tão certo disso.
— Mas se após o teste descobrirmos que não somos irmãos,
continuaremos juntos a nossa busca. Usarei os meus recursos para te ajudar.
— Você não é obrigado a me ajudar — retruquei.
Guardei para mim que duvidava muito que dinheiro ajudaria nessas
circunstâncias. Eu poderia não ter os milhões dele, mas eu estava bem
financeiramente, e sabia por experiência própria que sem informações para
ter um ponto de partida seria impossível se descobrir algo.
— Não sou, mas sei o que é amar um irmão e não o ter ao meu lado.
— Entendo. — Passei a mão pelos meus cabelos. — O ama tanto
assim? O Duncan.
— Eu daria tudo o que tenho, daria a minha vida por ele. Encontrá-lo
me tornaria mais completo.
— Eu não sei dizer como me sinto. — Fiz uma pausa, tentando
suprimir que me invadiu pelo irmão dele ser tão amado. — Estou com medo.
Medo de ser o Duncan que você procura, medo de não ser. Medo das
respostas que obterei para tantas perguntas se for.
— Eu não posso te julgar. Eu sei de onde vim, eu sei o que perdi, eu sei
o que busco, mas você não sabe nada sobre sua história.
Assenti, engolindo a amargura que se tornou mais brutal.
— Você tem alguma lembrança? Dos seus pais, do seu irmão? — Me
perguntou, quebrando o silêncio.
— Poucas. Lembro de brincar de bola e de correr com um menininho
mais velho. Na verdade, o homem que me criou fez com que eu acreditasse
que tudo não passava de uma fantasia de criança por achar que eu tinha outra
família, que fiz de tudo para suprimir esses pensamentos. Eu não queria ser
considerado um insano — confessei.
— Compreendo.
— Como Duncan se perdeu? — questionei de súbito.
— Brincando de esconde-esconde em uma feira. Achamos que ele
havia encontrado um lugar legal para se esconder, até que não o encontramos
em lugar algum. Nunca mais o vimos. Não sabemos o que aconteceu.
— Que crueldade! — comentei.
A raiva pelo que John e Katriona haviam feito comigo só aumentou ao
ouvir isso. Eles tinham pessoalmente me sequestrado ou pagaram alguém
para fazer o serviço? Nunca iria obter uma resposta.
— Muito.
— E os seus pais? Eles estão vivos? Procurando ainda pelo filho? —
Fiquei esperançoso, afinal, se fosse eu no lugar deles, eu nunca deixaria de
procurar um filho. Eu morreria tentando.
Grant pareceu desconfortável com a pergunta.
— Estão vivos e decidiram seguir em frente com as vidas deles.
Formaram novas famílias, mas não posso dizer mais nada além disso, já que
perdi o contato com eles.
Eu não os conhecia, não me recordava das suas feições, mas me senti
magoado por saber daquilo, mesmo que eu ainda não tivesse certeza de que
era filho deles. Me senti duplamente traído. Pelos meus pais biológicos e
pelos meus pais de criação.
— É normal seguir em frente, não? — Tentei encontrar uma
justificativa, dizendo para mim mesmo que talvez ele estivesse exagerando.
— Talvez, mas eu não sou a melhor pessoa do mundo para responder a
essa pergunta. Por muito tempo, minha vida se resumiu a minha busca…
— E agora? — Fiquei curioso com o tom que ele havia usado.
— O destino me deu uma família. Tenho dois filhos lindos e uma
mulher que me entende, que entende a minha dor, a razão da minha busca
incansável. Ela não me deixou cair quando pensei em desistir…
— Fico feliz por você. Eu o invejo, na verdade.
— Mesmo?
— Por não estar sozinho… — admiti em voz alta. Sempre quis ter uma
família, filhos, uma garota que me amasse, mas, agora… Era um sonho que
ficava cada vez mais longínquo.
— Não está mais sozinho, Dun… Ian…
Tornei a negar com a cabeça, me obrigando a agir racionalmente.
Mesmo que Grant parecesse um cara legal por me oferecer a ajuda dele, eu
sabia que não poderia aceitar e que nem podia me tornar amigo dele.
— Faz muito tempo que você procura o seu irmão, digo, sua família?
— Me perguntou.
— Cinco meses, desde que me mudei para cá.
— É recente.
— Muito. Como faremos? Me refiro ao DNA.
— Quando você estiver preparado, podemos fazer — sugeriu.
— Quando você estiver recuperado desse susto.
Fui sensato. Ou melhor, covarde. Eu queria fazer o exame de DNA,
mas estava aterrorizado com a possibilidade de um resultado negativo.
— Isso não é um problema.
— Está em um hospital, cara. Nem consegue se mexer.
— Isso também não é nenhum empecilho para a realização do exame,
Ian.
— Esqueci que você não é um cidadão comum — tentei brincar.
— Sou comum.
— Não tem nada de comum.
— Bem, só um pouco extravagante.
Acabei rindo, já que ele me parecia bastante, e Grant acabou
gargalhando também.
— Eu preciso de tempo — confessei.
Precisava de tempo não só para absorver tudo, mas também para lidar
com a frustração do resultado não ser aquilo que o meu coração e anseios
desejavam.
— Tudo bem.
— Bom, acho que é isso. O horário de visitas está terminando.
— Deve saber que o horário de visitas não é um problema para mim,
balach[2]— me provocou.
— Tenho que me lembrar disso — brinquei, antes de ficar sério
novamente e completar: — Mas você precisa descansar e eu já o incomodei
bastante.
— Não foi incômodo nenhum.
— Eu preciso de tempo, Grant — repeti.
— Claro. — Pareceu ficar desapontado. — Anota o meu número de
telefone?
— Pode deixar. — Peguei o aparelho do bolso e salvei o número dele
na minha agenda. — Enviei uma mensagem para você salvar meu número
depois.
— Obrigado.
— Vou nessa então — falei, sem graça. — Desejo que você tenha uma
boa recuperação e fique bem logo.
— E que você não se exponha a tanto perigo, bombeiro!
— Faz parte do trabalho. Gosto da adrenalina.
Ele bufou um palavrão e eu acabei rindo.
— Sem essa de irmão mais velho, cara…
— Se formos mesmo irmãos, se acostume.
— Tentarei. Até mais, Grant!
— Cuidado, balach! — me advertiu em um tom sério.
Revirei os olhos, mas acabei sorrindo com o instinto de proteção dele.
Com um último aceno, virei as costas e fui até a porta, mas senti certa
relutância em deixar o quarto.
Eu queria ficar com Grant, continuar a conversar, fazer mais perguntas
sobre o Duncan, sobre ele, sobre os pais dele, mas realmente foi demais para
um único dia. Para ele, porque estava com o corpo todo quebrado pelo
acidente, e para mim, que estava todo fodido emocionalmente e temia que, ao
dar mais um passo à frente, eu ficasse ainda mais.
Capítulo cinco
— Você está ficando tão pesadinha, Molly! — murmurei, segurando-a
com mais firmeza no meu braço, que estava bastante dolorido, apressando os
meus passos para chegar logo em casa e colocar a menininha no chão. —
Sim, bem pesadinha! Ou talvez seja a titia que esteja ficando cada vez mais
fraca!
Voltei a ajustá-la em meu colo, o que demandou que equilibrasse a
minha bolsa sobre os meus ombros e ajeitasse a mochila dela nas minhas
costas.
Fiz um bico quando Molly balbuciou umas sílabas, tomando o som
como uma resposta, mas logo acabei sorrindo. A bebê sempre tinha aquele
efeito em mim desde que coloquei meus olhos nela. Molly havia
transformado a dor da perda e a melancolia em algo mais brando.
O cansaço do trabalho e o estresse da rotina eram mitigados sempre
que eu via o rostinho dela.
Molly era meu motivo de sorrir. Ela havia me preenchido de uma
forma que eu nunca imaginei ser possível. Ela era o meu docinho. Minha
menininha, que estava cada vez mais espertinha, já compreendendo muitos
gestos e palavras.
Eu mal via a hora em que as sílabas que ela balbuciava virassem
palavras. Seria tão bonitinho ter respostas de verdade, mas também sabia que
poderia ser algo desafiador. Com a fala, viriam os primeiros passos e também
a necessidade de ficar ainda mais vigilante, já que em um segundo ela poderia
fazer alguma arte e se machucar. Se só arrastando a bundinha ela dava
trabalho, imagina quando estivesse andando.
— E a titia reclamando de te carregar! — Emiti um suspiro, mudando o
braço que eu a segurava, descansando um pouco.
Molly deu um gritinho.
— É, tenho que aproveitar essa fase, pois quando você começar a
andar, a tia vai ter mais trabalho!
Dei uma risada com o pensamento.
Quando virei a esquina, senti um alívio por finalmente alcançar o
quarteirão onde ficava o meu prédio, mas minha felicidade morreu de forma
instantânea quando avistei um rosto bem familiar, um que eu não esperava
ver tão cedo, na entrada do meu edifício.
Parei de andar, assustada ao vê-lo.
O que Noah estava fazendo ali?
O vento, que até então não me incomodava, pareceu gelar minhas
veias. Instintivamente, trouxe a bebê para mais perto de mim, querendo
protegê-la, e senti que Molly ficou agitada com o meu gesto.
Engoli em seco, levando a minha mão a parte de trás a cabecinha dela.
— Tudo bem — murmurei para Molly, que começou a dar soquinhos
em mim.
Antes que eu pudesse dar as costas para Noah e fingir que eu não o
tinha visto, o homem corpulento ergueu o rosto e me encarou.
Fui tomada por um calafrio que foi sucedido por vários outros quando
vi os olhos avermelhados, que pareciam ainda mais sinistros, a barba por
fazer e a sujeira das roupas.
— Olá — disse ao se erguer.
Quando deu um passo na minha direção, recuei, como um animal
assustado.
Molly deu um gritinho, que foi abafado pelo meu corpo, o meu estado
de espírito espelhando o dela.
— O que quer aqui? — Não respondi o cumprimento do homem.
— Vim ver e ficar um pouco com a Molly — sentenciou, voltando a
dar um passo à frente, o que me fez recuar mais uma vez.
O medo era uma espiral crescente. Algo me dizia para passar por ele
correndo, mas eu estava paralisada no lugar.
— Por quê? — Minha voz saiu meio estrangulada.
— Preciso de uma razão?
— Sim, precisa.
Afunilou os olhos, parecendo furioso, e eu senti um bolo se formar na
minha garganta.
— Eu sou o pai dela!
Não iria discutir o fato de que Molly estava longe de ser filha dele, já
que ele nunca se importou com a bebê, nem mesmo quando ela estava no
ventre de Rebecca. Nesses sete meses de vida da menina, se ele tentou vê-la
ou ter notícias dela foram umas três vezes no máximo, mas esse contato foi o
suficiente para que eu desejasse que visitas não ocorressem nunca mais. Noah
sempre me causou medo.
— Tenho o direito de ver a minha filha! — Deu mais um passo à frente
e, mais uma vez, eu me afastei.
— Sim, você tem, mas não hoje e não dessa forma! — sussurrei.
Ele me olhou por alguns segundos de forma atônita.
— O que você disse, vadia? — gritou, o ódio parecendo transtornar a
expressão dele ainda mais, fazendo-o parecer com um demônio.
O pavor me deixou bamba e a minha respiração entrecortada. Molly
começou a chorar, talvez assustada com o grito.
— Não precisa chorar, docinho. Está tudo bem! — falei baixinho,
acariciando-a, a movendo no meu colo para deixar um beijinho no rosto dela,
antes de me voltar para o homem e pedir: — Por favor, volte outra hora,
Noah.
— Eu vou ver a minha filha agora! — gritou outra vez, fazendo o
choro de Molly se tornar mais alto.
— Por favor, vá embora, Noah, você está assustando a bebê. Você não
está em condições de vê-la — falei em meio ao pranto da pequena, que foi o
que me deu coragem para me mover, procurando a segurança do prédio.
Assim que passei por ele, senti sua mão segurar meu braço, me fazendo
gelar de pânico e sentir repulsa.
— Quem você pensa que é para dar as costas para mim? — Me virou
como se eu fosse uma boneca de pano e eu tive que firmar meus pés no chão
com medo de cair com Molly em meus braços. Ela começou a se debater
como um peixe em meu colo.
— Você está alterado. Me solte! — pedi, dando uma cotovelada nele
por instinto, mas o aperto dele se tornou mais forte. Lágrimas começaram a
surgir nos meus olhos.
— Nenhuma vadia vai me impedir de ver a minha filha!
— Não vou te impedir se você quiser vê-la em outro momento, quando
estiver limpo e sóbrio — tentei argumentar.
— Mentirosa!
— Por favor — implorei, movendo o meu braço cada vez mais
dolorido. — Podemos marcar um dia para você visitar Molly. Eu nunca
impediria dela conviver com o pai…
Deu um tapa na minha face tão forte, que fez com que eu girasse o meu
rosto para o lado com o impacto.
— Você é uma vagabunda mentirosa igual à puta da Rebecca… —
berrou, fazendo a bebezinha chorar mais alto. Eu fiquei desesperada.
Com as lágrimas caindo no meu rosto, estava a ponto de gritar por
socorro, esperando que alguém fosse bondoso e viesse me ajudar, quando
uma voz masculina, que me soou pelo sotaque, se fez ouvir:
— Se afaste das duas, agora, e vá embora!
— O quê? — Noah arfou, surpreso.
— Eu não vou falar duas vezes — ameaçou.
Noah me soltou e se virou para o homem.
Eu deveria aproveitar e sair correndo, mas, outra vez, fiquei paralisada.
O medo ainda percorria todos os meus membros, mas olhar para o
homem alto e musculoso, que tinha uma expressão severa no rosto, como se
estivesse prestes a saltar sobre Noah, me provocou uma onda de alívio e uma
sensação de segurança que talvez eu não devesse sentir.
Ignorando a minha dor, afaguei a bebê nos meus braços, deixando
beijinhos no rosto úmido, murmurando que ficaria tudo bem.
— Quem é você? — Noah perguntou, parecendo perder um pouco a
bravata.
Era Ian, bombeiro bonitão que sempre ia ao café, mas ele não se
identificou para o Noah. O vi pegar o celular do bolso da calça do uniforme.
— Vá embora se não quiser problemas, e não é só comigo que você
terá encrenca, mas com a lei também!
— Eu…
— O que vai ser? Sou bombeiro, mas pode ter certeza de que tenho
alguns contatos que podem te ferrar, cara, e te ferrar com força por
importunar uma mulher e uma bebê — advertiu naquele mesmo tom perigoso
e, pelo rosto ainda mais fechado de Ian, eu soube que ele estava muito prestes
a avançar em Noah.
Capítulo seis
Um. Dois. Três.
Comecei a contar, dando um tempo para que aquele maldito saísse da
minha frente antes que eu quebrasse os dentes dele. Eu não era um cara dado
à violência e também não era covarde em bater em alguém que estava
visivelmente alterado, mas eu não estava em mim.
O choro da bebê e ver a marca de um tapa no rosto bonito de Ailie
marcado por lágrimas me perturbavam.
Eu apertava o meu maxilar com tanta força, que ouvi o rangido devido
ao atrito.
Porra! Ele a tinha agredido!
— Eu só quero ver a minha filha.
— Você já viu e a assustou, agora vá embora. E juro que não falarei de
novo. — Ignorei o valentão e o impacto que as palavras dele me causaram.
Não deveria estar surpreso por Ailie ter uma filha, afinal, o que eu sabia sobre
ela, além de que ela trabalhava no café? Nada.
— Quatro! Cinco! Seis! — Dessa vez contei em voz alta.
O cara passou por mim correndo e eu me virei para vê-lo se afastar.
Saiu tropeçando nos próprios pés. Caiu e se levantou rapidamente, para logo
tornar a cair. Dessa vez, ficou mais tempo no chão, mas conseguiu se erguer.
O observei até ele sumir.
Mesmo que o canalha tenha evaporado, isso não fez diminuir a minha
tensão e raiva. Todos os meus músculos estavam contraídos, meus sentidos
estavam em alerta, como se, a qualquer momento, o filho da mãe fosse
aparecer na minha frente outra vez.
— Obrigada por intervir. — Ao escutar a voz trêmula de Ailie em meio
ao choro da bebê, me virei para as duas.
Talvez não devesse, mas o meu senso de proteção fez com que eu
cruzasse a distância entre nós, e eu quase ergui a mão para tocar a bebê, mas
me impedi.
— Não por isso. — Dei um sorriso sem graça, antes de lançar um olhar
preocupado. — Vocês estão bem?
Balançou a cabeça.
— Meu braço está um pouco dolorido pelo aperto, e meu rosto um
pouco dolorido…
— Canalha! — Uma nova onda de raiva me tomou e eu me arrependi
de não ter dado uma lição naquele merda.
— Estamos bem, não se preocupe — tentou me apaziguar. — Molly só
está um pouco nervosa. Não é, docinho?
A bebê deu um gritinho em meio ao choro, se agitando ainda mais no
colo dela, obrigando Ailie a virá-la nos braços. As mãozinhas e os bracinhos
balançaram, mas fiquei preso foi ao rostinho que, mesmo que estivesse
franzido pelo choro, era a coisa mais linda que eu já tinha visto. O rostinho
redondo era emoldurado por fios rebeldes castanhos claros; os olhos também
castanhos eram enormes, e a boquinha era tão perfeita, que parecia ter sido
esculpida.
— Acho que é melhor eu entrar, eu não vou… — Se interrompeu
quando a menininha esticou os braços na minha direção.
Abri um sorriso abobado, meu coração saltitando com uma felicidade
estranha, no momento em que, mesmo que ainda chorasse de forma menos
convulsa, Molly começou a abrir as mãozinhas, como se estivesse me
buscando.
Ailie emitiu um som espantado e eu desviei o olhar da bebê
rapidamente para a mulher, vendo a boca rosada formar um O. Levou uns
segundos para uma chama começar a invadir meu corpo.
O balbuciar da bebê me fez encará-la e eu vi que ela continuava a
mover as mãozinhas na minha direção.
— Posso? — perguntei em um tom rouco, antes de dar aquilo que a
menininha queria e que uma parte de mim também desejava.
Molly deu um gritinho.
— Se não for um problema para você — Ailie respondeu, parecendo
um pouco sem graça.
— Claro que não — retruquei, abrindo um sorriso para a mulher.
— Então, tudo bem. — Devolveu o sorriso, me estendendo a bebê.
Sem hesitar, estiquei os meus braços para pegar a menininha. Várias
emoções me atingiram no momento em que tive Molly em meus braços, e eu
senti meu corpo ficar trêmulo. Firmei meus braços com medo de deixá-la
cair, já que ela estava agitava, e respirei fundo, sentindo seu cheiro docinho
se infiltrando nas minhas narinas, mas mais doce foi o momento em que a
mãozinha dela roçou o meu rosto.
O toque inocente foi capaz de me fazer esquecer a raiva que ainda
queimava por aquele maldito ter ameaçado as duas, as minhas inseguranças e
a minha covardia, porque eu estava sendo um grande covarde. Eu estava
fugindo de Grant e do exame de DNA. Eu não queria que a esperança que se
tornou mais forte dentro de mim morresse ao receber um resultado negativo,
ou melhor, que aquele resultado tampasse a luz que eu via surgir naquele
buraco que habitava desde que descobri sobre meu sequestro.
Acariciei os cabelos finos da bebê, absorvendo o calor do corpo
pequenino e o carinho que Molly me dava sem saber. Ela me dava soquinhos
e balbuciava sons incoerentes.
— Pequena traidora! No colo dele, você para de chorar! — Ailie
resmungou, mas vi que ela sorria.
Acabei gargalhando.
— Que mamãe ciumenta você tem! — brinquei com as duas,
balançando a bebê.
— Muito! — Foi a vez de Ailie dar uma risada.
— Posso imaginar o porquê, sua filha é lindinha demais. — Abri um
sorriso ao olhar para o rostinho de Molly.
— Não sou a mãe dela, pelo menos, não da forma que você imagina —
me corrigiu e eu a encarei, surpreso.
— Não entendi.
— É complicado...— Deu um sorriso que não chegou aos olhos azuis.
— Me deixe pegar essa menininha traidora. Nós duas já te incomodamos
demais.
— Eu acompanho vocês até a sua casa, se você quiser — respondi,
ficando um pouco contrariado por ter que me afastar de Molly.
— Não é necessário, eu moro nesse prédio aqui.— Fez um gesto com o
queixo, apontando em direção ao edifício atrás dela.
Girei um pouco o meu pescoço para encarar a fachada.
— Sério? — Fiquei surpreso.
— Sim. Por quê? — A sobrancelha dela se uniu.
— Eu também moro ali.
— Mesmo?
— Na cobertura.
— Que coisa, não?
— Sendo assim, não será nenhum problema eu carregar Molly até a sua
porta, afinal, vizinhos estão aí para essas coisas — falei em tom de
brincadeira e a bebê acabou balbuciando algo.
— Tem vizinhos que não dão a mínima para ajudar o próximo, Ian.
— Não sou desse tipo.
— Coisa de bombeiro? — Ailie me provocou, o canto dos lábios se
curvando suavemente com malícia, e eu senti uma onda de desejo me
atravessar, algo que não deveria sentir por ela.
Droga!
Eu poderia capturar aquele sorriso com a minha boca... também podia
muito bem imaginar outras situações em que ela poderia sorrir para mim
daquela forma, o que envolveria bastante prazer, prazer que há muito eu não
sentia.
Na verdade, fazia muito tempo que ninguém tinha despertado o meu
desejo de forma tão intensa e devastadora só com um simples sorriso.
Molly, que estava no meu colo, deu um gritinho e me senti um
tremendo porco por estar tendo aqueles pensamentos.
— Digamos que sim — respondi em meio a um pigarrear e Ailie
acabou rindo, risada que atingiu o meu âmago. — Vamos entrar? A
propósito, embora a tenha visto no café, acho que ainda não nos
apresentamos. Sou Ian Quinn.
Ela balançou a cabeça, fazendo com que uma mecha de seu cabelo
escapasse do penteado que ela sempre usava e acariciasse a maçã do seu
rosto, me deixando com uma vontade enorme de tocá-la.
— Me chamo Ailie Kingston. — Me deu sorriso tímido, que a deixou
ainda mais linda.
Quando Ailie deu um passo à frente, me obriguei a fazer o mesmo.
Lancei um olhar rápido para o traseiro redondo dela e praguejei mentalmente
por isso, e logo me pus ao lado dela, para que eu parasse com aquela merda.
Porra! Ailie estava assustada, e eu agindo como um maldito doente.
— Aquele cara era realmente o pai da Molly? — puxei assunto, a
preocupação, até então esquecida, retornando com força na iminência de me
separar das duas.
Ailie puxou o ar com força, antes de responder:
— Infelizmente, sim.
— Entendo — murmurei, os pelos da minha nuca se eriçando, os
instintos protetores ficando mais aflorados pela raiva. — Ele costuma fazer
muito isso? Digo, ser violento.
— Sempre que ele bebe ou fuma crack, ele fica violento — falou em
tom baixo.
— Eu não gosto de saber disso.
— Eu também não gosto. Ele nunca tinha feito nada comigo, mas hoje
foi assustador.
Senti que ficava mais tenso ao pensar no quanto as coisas poderiam ter
desandado, ainda mais se eu não tivesse interferido.
Imagens vividas daquele cara fazendo coisas piores do que apertar o
braço de Ailie me deixaram bem puto.
— Vocês não estão seguras — falei em tom sério, me virando para ela,
assim que entramos no prédio e nos aproximamos do elevador.
— Por mais que eu ache que Noah não vai aparecer com frequência, já
que ele não dá a mínima para a Molly, eu não posso dizer que me sinto
confortável, ainda mais quando ele pode me agredir com mais força… — Vi
medo nos olhos azuis ao chamar o elevador. — Mas mesmo que eu tenha
receio de que isso ocorra novamente, eu não posso me mudar, muito menos
deixar de viver a minha vida.
— Não, não pode. — Senti amargura ao entrar na caixa de metal,
sendo logo seguido por Ailie.
Em menos de trinta segundos, em um silêncio que me pareceu
enlouquecedor, o elevador parou no andar dela e nós nos aproximamos de
uma porta.
— Eu vou fazer um boletim de ocorrência, pedir uma medida protetiva
e anexar isso no processo em que pedi a guarda unilateral da Molly — falou,
buscando a chave na bolsa.
— Não é o suficiente! — Senti a mãozinha da bebê no meu queixo, e
eu me senti derreter outra vez pela menininha.
Se virou para mim e eu vi impotência nela quando fitou a bebê que
agora me dava tapinhas.
— Mas é o que eu posso fazer — sussurrou e eu tomei as palavras dela
como um soco na boca do meu estômago.
— E o que eu posso fazer por vocês duas? — falei em um tom que, ao
mesmo tempo que me soou angustiado, eu sabia que era firme.
— Não mais do que já fez hoje, Sr. Quinn. — Me olhou nos olhos. —
E realmente sou muito grata por hoje.
— Ian. Não precisamos de formalidades, afinal, somos vizinhos... —
disse de forma jocosa, ignorando o agradecimento. — Bom, deve haver
alguma coisa que eu possa fazer.
— Tenho certeza de que não... Ian. — Ao falar meu nome, senti um
quê de provocação que quase me arrancou um sorriso.
— Posso te acompanhar quando estiver levando Molly para creche e
também na volta para casa, que tal? — sugeri, sem pensar muito naquilo que
estava propondo.
— É muito gentil, mas não posso aceitar.
— Não vejo o porquê! Você vê algum problema, Molly? — perguntei
para a bebê, balançando Molly no meu colo, arrancando uma risadinha da
neném.
Escutei um som que foi quase um bufar.
— Foi buscá-la na creche, suponho. Sempre volta nesse horário?
— Sim, mas…
— Que horas você entra no serviço? — a interrompi.
— Meio-dia. Levo Molly para a creche e de lá vou para o café.
— Perfeito. Te acompanho quando for levá-la para a creche amanhã,
está bem?
— Isso é sério?
— Sim, Ailie. Posso te chamar assim, não é?
— Sim, claro! — Deu novamente aquele sorriso lindo, mas logo ficou
séria ao continuar: — Você não precisa fazer isso, Ian, de verdade. Tem os
seus compromissos, seus horários no Corpo de Bombeiros.
— Que se encaixam perfeitamente com os seus — não sabia ao certo se
isso era verdade, mas eu faria acontecer.
— Tenho certeza de que não! — Pareceu ler os meus pensamentos.
— Eu me sentiria mais tranquilo dessa forma — retruquei.
Voltou a balançar a cabeça.
— Não, Ian, de verdade…
— Eu faço o mesmo caminho que você…
— E em outras situações? Se eu precisar ir ao mercado, comprar
alguma coisa? Ir à farmácia?
— Se eu não estiver no trabalho, que mal tem de acompanhar vocês?
— Dei de ombros.
Ela arregalou os olhos azuis.
— Você não pode bancar o nosso segurança particular. Na verdade,
nem eles ficam o tempo todo por conta dos protegidos — protestou.
— É só por um tempo, até você se sentir segura de novo —
argumentei.
Ela abriu e fechou a boca, incrédula.
— Quero ser um bom vizinho.
— É do tipo que não aceita negativas?
— Não nessas circunstâncias. — Fui honesto. Eu não estava disposto a
ceder, não quando eu podia fazer algo pela segurança das duas. Aquilo me
era tão importante, mas eu não sabia explicar por quê. Só sei que tinha que
fazer isso.
Os olhos azuis me fitaram com intensidade e eu senti como se Ailie
pudesse me virar do avesso.
Ela era capaz de enxergar meus demônios? Meus medos? Como eu
estava me sentindo?
Não. Felizmente. Ou infelizmente.
Uma parte de mim quis isso, mesmo que eu soubesse que não deveria.
Ailie carregava os próprios pesos para ter que me ajudar com os meus
fardos. Eu deveria me afastar, mas o meu senso de proteção com relação às
duas me faria me manter próximo.
— Tudo bem. Pela Molly — concordou.
— Pela Molly. — Sorri.
Devolveu o sorriso antes de se virar para a porta e destrancá-la
rapidamente. Assim que a abriu, se voltou para mim outra vez.
— Falando em Molly, por mais que ela esteja amando o seu colo, tenho
que cortar a mordomia dela. Me dê ela aqui, por favor!
— Okay, ciumenta! — disse em tom de brincadeira.
Deu uma risada e eu me obriguei a passar a bebê para ela, que
imediatamente começou a chorar.
Senti certo contentamento por saber que Molly tinha realmente gostado
do meu colo.
— Convencido! — A acusação de Ailie em meio ao berro de Molly me
surpreendeu.
— Estou sorrindo tanto assim?
— Sim, o que é meio estranho, já que você não parece ser do tipo
sorridente, Ian.
— Sério? — Me surpreendi novamente.
— Quase não vejo você sorrir no café — se justificou e eu a vi
enrubescer.
Senti-me inseguro e desconfortável por ela estar tão consciente assim
de mim, por Ailie me observar. Deveria estar em êxtase, afinal, quem não
queria uma mulher tão linda reparando em você? Mas não. Era foda. Optei
por mudar de assunto.
— Você pode me dar o seu número antes de entrar?
— Claro! — Os olhos dela brilharam e eu tive que sufocar meus
sentimentos.
— Quero que você tenha o meu telefone caso ele apareça na sua porta
enchendo o saco — disse e puxei o telefone do bolso.
— Ah, sim! — Deu um sorriso sem graça. — Anota aí.
Digitei o nome dela e depois o número que ela ditava em meio ao
choro da bebê.
Enviei uma mensagem para ela para que tivesse meu número.
— Nos vemos amanhã? — perguntei antes de deixá-la ir cuidar da
bebê.
Assentiu.
— Muito obrigada por ser o nosso herói!
Como eu não disse nenhuma palavra, me dando um sorriso, Ailie
entrou em seu apartamento e fechou a porta atrás de si.
Continuei ali ainda uns instantes paralisado no lugar, apenas ouvindo o
som da minha respiração.
Eu estava em busca de mim mesmo. Eu poderia ser Duncan, o irmão de
Grant, algo que me enchia de medo, mas, naquele momento, tudo o que eu
mais desejava, mesmo que não devesse, era ser de verdade o herói delas.
Capítulo sete
— Muito bem, meu docinho! — falei em um tom alegre ao olhar para o
pratinho da bebê que praticamente estava vazio.
Tinha quase certeza de que a introdução alimentar de Molly seria bem
caótica, com muitas recusas e choro, mas, felizmente, a menina comia quase
tudo o que eu oferecia para ela, tornando aquele processo menos exaustivo.
Esperava que se mantivesse assim.
— Estou orgulhosa de você!
Molly balançou o pedaço de aspargo que segurava entre os dedinhos,
balbuciando umas sílabas.
— A titia tem muito orgulho de você por comer tudo o que ela te
oferece.
Agora, vou limpar essa bagunça, lavar o seu rostinho, trocar as suas
roupas e terminar de me arrumar também.
Peguei o prato, fazendo com que Molly parasse de sacudir o vegetal e
me encarasse.
— Não precisa fazer bico, docinho! — Continuei a conversar com ela,
vendo o cenho da bebê se franzir enquanto ela jogou o vegetal na cadeirinha.
— Muito menos chorar!
Mal terminei de pronunciar aquelas palavras, o choro de Molly ecoou
nos meus ouvidos. Suspirei e, colocando o prato de volta no lugar, me curvei
para pegar a menininha no colo.
— Está tudo bem, Molly. — A balancei, tentando acalmá-la.
Continuei a falar baixinho palavras de conforto, aproveitando para
levá-la ao banheiro para limpar o rosto e as mãozinhas sujas.
Foi automático encarar o meu rosto e ver a mancha roxa um pouco
dolorida pelo tapa que havia levado do Noah.
Estremeci. Sem dúvida, as pessoas perguntariam o que havia
acontecido, mas tudo o que me vinha à mente ao olhar para a marca era
medo.
Um grito de Molly me tirou do transe, então abri o registro da torneira.
Como um passe de mágica, o choro dela diminuiu.
— É uma sapeca, docinho — falei no momento em que as mãozinhas
tentaram segurar o fiozinho de água.
A pequena deu uma risadinha quando os dedinhos se fecharam no
nada, e eu acabei sorrindo, entrando na brincadeira enquanto tentava limpá-
la. Levei uns bons minutos para conseguir meu objetivo. Assim que fechei a
torneira, logo voltou a chorar e tive que consolá-la de novo enquanto a levava
para o quarto para trocá-la.
Fui para a sala e a coloquei no chiqueirinho. No mesmo instante, Molly
começou a se arrastar, indo em direção a um brinquedo. Após verificar que
ela estava bem, resolvi limpar a bagunça do almoço, já que a cozinha era
conjugada com a sala e podia ver bem onde Molly estava. No entanto, antes
mesmo que eu conseguisse alcançar a pia, escutei a campainha tocar.
Resignada, fui ver quem era.
Meu coração se acelerou ao olhar o homem moreno extremamente alto,
cujo torso parecia ocupar toda a largura da minha porta.
O uniforme dos bombeiros deixava a musculatura dele, firme e
poderosa, ficar ainda mais em evidência.
Apesar de o corpo ser invejável, o que me chamou mais a atenção nele
foram os cabelos pretos úmidos, indicando que ele havia acabado de sair do
banho.
Pisquei várias vezes, como se estivesse olhando para uma miragem.
— Ian! Você veio... — murmurei, meio surpresa em vê-lo ali.
— Por que eu não viria? — O cenho dele se franziu e vi que ele
encarava o meu rosto, parecendo desgostoso. Mesmo que não devesse, afinal,
eu não tinha culpa de nada, senti vergonha pela mancha púrpura na minha
pele.
— Achei que talvez você tivesse pensado melhor e se dado conta de
que não seria necessário me acompanhar.
— É necessário, Ailie. — Foi firme.
Acabei respirando fundo e o cheiro amadeirado do perfume que ele
usava impregnou os meus sentidos. Meu pulso se acelerou ainda mais.
Puro desejo.
Devo ter me delatado, pois os olhos verdes escuros brilharam enquanto
deslizavam pelo meu corpo.
Mesmo que meu uniforme fosse bastante comportado, ele apreciava
com lentidão as minhas curvas.
Foi quase como se estivesse acariciando minha pele, o que produziu
mais fagulhas, que passaram a me queimar.
Minha respiração se descompassou.
Não duvidava que a minha pele estava ficando vermelha. Não me
permiti sentir vergonha por desejá-lo. Eu não era uma adolescente, fora que
Ian não era o primeiro gostosão que me fitava assim.
Acabei olhando para o peitoral dele e notei que a cadência estava
rápida, o coração batendo tão forte quanto o meu, me trouxe uma onda de
prazer.
Eu precisava furar aquela bolha inapropriada, principalmente quando
ouvi um gritinho.
Com o canto do olho, encarei o local onde Molly estava brincando e vi
que estava tudo bem.
— Se você diz, Ian — forcei-me a dizer, abrindo um sorriso, ignorando
o calor e o olhar intenso que ainda passeava pelas minhas curvas. — Eu ainda
não estou pronta para sair, mas se você não se importar de esperar um
pouco…
— Não, não me importo, e também fui eu que cheguei mais cedo. — A
voz grave soou rouca.
— Então entre, por favor, Ian. — Não fazia o mínimo sentido não o
deixar entrar, sendo que ele estava sendo gentil.
— Com licença, Ailie.
— Toda. — Fiz um gesto para ele entrar. — Fique à vontade.
Molly deu um gritinho. Ian abriu um sorriso ao ouvir o som. Mesmo
que não fosse para mim, ver aquele sorriso me derreteu e minhas pernas
ficaram um pouco bambas.
Dei um passo para trás para dar espaço para que ele pudesse entrar,
mesmo assim o braço dele roçou no meu quando passou, me deixando ainda
mais instável.
Outra vez, puxei o ar com força, tentando acalmar os meus nervos, mas
os resquícios do cheiro de homem só fizeram com que meus sentidos
ficassem mais desnorteados.
Fiquei paralisada no lugar. A única coisa que eu me sentia capaz de
fazer era respirar.
— Oi, Molly. — Escutei a voz grossa de Ian, o que me obrigou a
reagir, parando de me comportar como uma tola.
Virei-me a tempo de ver Molly balançar os bracinhos em direção a ele,
praticamente um convite para que o bombeiro se aproximasse dela, o
contraste de tamanho dos dois ficando ainda mais evidente.
— Como vocês duas passaram a noite? — Ian perguntou, se colocando
sobre os calcanhares para mexer com Molly.
— Como Molly é pequena e não entende muita coisa, só ficou
assustada com os gritos do pai — suspirei —, foi uma noite tranquila para
ela.
Ian girou o pescoço na minha direção e eu senti o olhar sério dele me
queimar.
— Mas não para você… — afirmou e eu acabei abrindo um sorriso
amarelo com a sagacidade dele.
— É difícil não se deixar levar pelos pensamentos, pelos ses, pelo
medo. Fiz um boletim de ocorrência online, mas…
— Não precisava ficar com medo, Ailie — murmurou.
— É difícil de se controlar a mente.
— Sim, é — concordou —, mas eu disse que você poderia ter me
chamado.
— Não queria te incomodar mais. De qualquer modo, não era
necessário. É impossível Noah passar pela portaria sem que eu autorize, e eu
não seria tola de permitir.
— Mesmo assim, Ailie. — Ian pareceu contrariado.
— Alguns medos, tenho que enfrentar sozinha — me justifiquei.
— Nem sempre.
Não respondi, não estava com disposição para entrar em uma
discussão, muito menos me abrir com um quase desconhecido, argumentando
que nem todo mundo podia se dar ao luxo de ter uma pessoa ao seu lado para
te apoiar.
Senti um nó na minha garganta. Eu tive alguém com quem me abrir,
Rebecca, mas, agora, eu não tinha mais ninguém.
Jane era uma boa colega de trabalho, mas não podia dizer que daríamos
a vida uma pela outra, apesar de ela me escutar algumas vezes e se oferecer
para cuidar de Molly para que eu pudesse “curtir” a vida.
— O cansaço acabou me vencendo no fim das contas, e eu dormi muito
bem até — continuei, quando Ian continuou a me encarar como se pudesse
ler a minha mente.
— Fico feliz por isso, Ailie, mas, da próxima vez, me mande uma
mensagem que eu venho ficar com você.
— Você é sempre tão prestativo assim, vizinho? — o provoquei.
Ian deu uma risada, atraindo a atenção de Molly, que o imitou, fazendo
com que ele voltasse a sua atenção para a bebê, o assunto morrendo.
— Alguém já disse que você é a coisa mais linda do mundo, Molly? —
disse em um tom bem doce.
Os olhos da menina arregalaram enquanto os braços ficaram ainda
mais agitados.
— Perfeita!
Ela abriu um sorrisinho antes de começar a arrastar o corpinho na
direção dele.
Escutei um suspiro. Meu? Dele? Não soube dizer de quem.
Importava? Não sei.
— Você é capaz de roubar o coração de alguém com facilidade, não?
— A voz de Ian soou rouca.
— Ela é — concordei. — Em um piscar, Molly nos torna em fiéis
vassalos. Se eu fosse você, tomaria cuidado.
Foi uma brincadeira minha, mas quando Ian girou o pescoço para me
encarar, me arrependi. Afinal, não era como se ele fosse se apaixonar
imediatamente por Molly, não como eu.
— E só agora você me avisa? — Soou divertido, me aliviando.
— Não se pode dizer que eu tive outra oportunidade. — Dei de
ombros.
— Mesmo assim, parece que foi tarde demais para mim — murmurou
ao voltar a encarar a menina que gritava por atenção.
Ela gritou quando conseguiu o que queria de Ian, ao passo que as
palavras dele me deixaram com uma sensação estranha na boca do meu
estômago.
— Não sei — sussurrei, ignorando os meus sentimentos e me
colocando em movimento, afinal, se eu ficasse parada, acabaria realmente
atrasada.
— Gosto de crianças — Ian respondeu e eu tomei um susto, já que
achei que tinha falado só para mim mesma.
— Sério? — Atordoada, peguei o prato e a colher de plástico de Molly
e a louça que eu tinha usado.
— Como não? — Lancei um olhar para ele, que, com um dar de
ombros, entrou no cercadinho.
A bebê gritou, movendo os braços e pernas, bastante animada.
— Existem pessoas que não gostam ou não têm nenhuma afinidade —
fiz uma pausa, antes de confessar —, eu mesmo nunca tive muita afinidade
com crianças.
— E acabou virando a “guardiã” de uma — comentou.
Voltei a olhar na direção deles, só que dessa vez, senti o meu fôlego
sendo roubado ao vê-lo esticar os braços e erguer a bebê no alto, que emitiu
um balbuciar animado.
Novamente, fiquei paralisada, olhando a interação de Ian e Molly.
Como ele estava de costas para mim, imaginei o rosto de Ian se
relaxando, as sombras que pairavam sobre ele, diminuindo a ponto de que ele
se transformasse em outro homem.
A ternura que eu tinha pela linda bebezinha se estendeu a Ian. Não
deveria, mas eu senti uma onda de carinho por ele.
Assisti os dois brincando por alguns minutos, antes de me forçar a
continuar a reunir as louças para colocar na máquina e terminar de ajeitar as
coisas, mas meus olhos eram sempre atraídos pelos sons animados que
vinham da bebê e pela voz de Ian que conversava com ela.
Deveria me sentir assustada com a rapidez com que eles travaram
aquela amizade, mas não consegui. Era bem natural, quase. Provavelmente,
era pelo fato de Ian gostar tanto de crianças que os dois se davam bem.
Em vinte minutos, eu terminava de ajeitar as coisas de Molly e de me
arrumar, passando bastante maquiagem para tentar cobrir o roxo, sem muito
sucesso, já que eu não tinha a maquiagem correta, e também prendendo os
meus cabelos em um rabo de cavalo.
Me aproximei do cercadinho.
— Podemos ir, Ian — falei em meio à algazarra que os dois faziam.
Coloquei a mochila de Molly nas minhas costas e a minha bolsa sobre os
ombros.
Ian baixou a bebê, que estava suspensa no ar pelas mãos fortes,
arrancando uma risadinha de Molly, antes de colocá-la no chão e tombar a
cabeça para trás para me encarar.
Meu coração deu um salto ao ver os lábios bem feitos se curvando em
um sorriso ao mesmo tempo que os olhos pareciam bem suaves.
Os cabelos meio rebeldes, caindo para trás com a inclinação, só o
deixava mais lindo.
— Mas já, Ailie? — Ian perguntou em um tom meio surpreso.
Fiz que sim com um assentir.
— Tudo bem… — Imaginei escutar um pouco de decepção no tom
dele.
Antes que eu pudesse fazer qualquer coisa, como se tivesse praticado
várias vezes aquele mesmo movimento, pegou a bebê em um braço e se
ergueu.
Molly deu uma risadinha, achando que era uma brincadeira, e começou
a bater a mão na outra.
Balançando-a no colo, arrancando mais palminhas, Ian se voltou para a
bebê, voltando a sorrir para a menina.
— Coisa linda do tio! — murmurou, inclinando a cabeça para deixar
um beijinho na mãozinha de Molly, que tentou capturar os lábios dele com os
dedinhos.
Ian riu e eu continuei atordoada por ele se intitular como “tio”. Era uma
denominação corriqueira, mesmo assim, me pegou meio desprevenida.
— Vamos? — Me encarou e eu fiquei rubra por estar dando
importância a algo tão idiota. Se fosse outra pessoa, não teria ligado.
— Sim. Me dê ela aqui.
Estiquei meu braço para pegar Molly dos braços dele e a menininha,
que parecia feliz, fez um bico grande para mim.
— Molly! — ralhei com ela em um tom suave.
Ela deu um gritinho, voltando o rosto em direção ao peito de Ian.
— Pode deixar que eu a levo — o bombeiro disse em um tom
divertido, balançando a bebê.
— Não, Ian. — Neguei, dando um passo à frente para pegá-la.
— Deixe de ser ciumenta, Ailie — me provocou, os olhos brilhando.
— Não estou com ciúmes, Ian!
— Você já tem Molly para si por várias horas — me ignorou.
— Isso não é verdade!
— Ela me quer, não é, Molly? — continuou a brincar com a pequena,
fazendo a bebê balbuciar sílabas toda alegre.
Abri minha boca para retrucar, dizendo que “dificilmente alguém não
iria querer você”, mas me contive a tempo, felizmente. Dificilmente o
bombeiro não acharia que eu estaria me insinuando para ele, como muitas
deveriam fazer.
Não era nenhum crime flertar, dar em cima, mas… sei lá. Eu sequer
sabia se ele tinha alguém. Senti meu estômago revirar com repulsa ao pensar
que Ian tinha uma namorada. Não pelo estado civil dele, mas pela forma com
que ele tinha me olhado. Era repulsivo.
— Ailie?
— Tudo bem, só não vá reclamar quando se cansar de carregá-la, Ian
— brinquei, fingindo que eu não estava embaraçada por dentro.
— Não irei — falou com convicção ao andar em direção à porta,
deixando meus pelinhos arrepiados.
Ignorei a sensação ridícula e segui os dois, trancando o meu
apartamento e guardando a chave na bolsa, bem como não dei importância ao
friozinho no meu abdômen quando nós três entramos no elevador que parecia
minúsculo com a presença do homem largo.
Um minuto pareceu bem mais.
A proximidade me deixava bem ciente não só do porte másculo, mas
também do cheiro de sabonete dele.
Quando o elevador alcançou o térreo e abriu suas portas, quis me bater
pela onda de alívio que eu senti por poder respirar um ar que não estivesse
contaminado por Ian.
Todos os segundos daquele percurso até a creche estavam sendo
preenchidos pela falação do homem com Molly, que recebia balbucios e
gritinhos em resposta.
— Você tem filhos, Ian? — acabei perguntando, vencendo a
curiosidade.
Assisti a felicidade que ele parecia sentir ao interagir com Molly
tornar-se uma espécie de sombra, e me surpreendi com sua reação.
— Não precisa me responder se não quiser, Ian. — Me senti
desconfortável, afinal, era uma pergunta boba que não tinha nada de mais.
— Eu… me desculpe, Ailie, mas não, eu não tenho filhos… —
murmurou, parecendo meio distante. — Por que a pergunta?
— Parece um profissional ao lidar com bebês! — Tentei aliviar o clima
pesado.
— Mesmo? — O canto dos lábios dele se curvaram.
— Quem te vê com Molly diz que você tem uma meia dúzia de filhos!
— Que exagero! — Ian disse em meio a uma gargalhada que fez a
bebê olhar para ele, a boquinha formando um O.
— Dos grandes… — concordei.
— Quer dizer que eu não sou tão bom assim com crianças para ter seis
filhos? — Fez uma careta e eu dei uma risada. — Isso foi um baita ataque ao
meu ego, Ailie!
— Exagerado.
— Eu já estava me imaginando sendo pai de seis filhos, mas, no
minuto seguinte, você roubou o meu sonho momentâneo, Ailie! — disse,
soando dramático, o que arrancou um gritinho de Molly.
— Ainda pode ter os seus seis filhos, Ian, nada te impede — retruquei.
— Quem sabe um dia? — sussurrou, meio descrente.
Um arrepio ruim percorreu a minha coluna.
— E você? — questionou.
— Eu o quê?
— Terá seis filhos? — Me provocou.
Revirei os olhos e ele deu uma risada.
— Uma criança já é difícil demais criar, Ian, imagine seis…, fora que
eu nem sei se estou fazendo um bom trabalho cuidando da Molly —
confessei.
— Claro que está fazendo um bom trabalho, Ailie.
— Não tem como você saber.
Fitei-o com o canto do olho, vendo a expressão dele se tornar séria.
— Molly está saudável, é uma bebê alegre, então, sim, eu posso
afirmar que você está fazendo um excelente trabalho.
Abri um sorriso. Era muito doce da parte dele dizer isso.
— Como se tornou mãe de Molly? — perguntou suavemente.
Uma pontada de dor surgiu, como sempre acontecia quando eu pensava
naquele assunto.
— Eu ainda estou tentando ter a guarda definitiva dela — comecei.
— Entendo.
— E não me considero a mãe dela… na verdade, não sei se um dia vou
me considerar.
— Por que diz isso? — O tom era surpreso.
— Parece errado. Afinal, ela tem uma mãe. — Senti um bolo se formar
na minha garganta, as lágrimas querendo surgir. — Mesmo que Rebecca não
esteja mais aqui, ela continua sendo a mãe de Molly.
— Sinto muito pela sua perda, Ailie. — O tom dele soou dolorido, não
por mim, mas por si próprio. Quis fazer perguntas, porém, me impedi.
— Eu sinto mais pela Molly do que por mim. Ela merecia ter
conhecido a mãe dela, mas não deu tempo.
— O que aconteceu?
— Uma complicação no parto. Ela não resistiu.
— Sinto.
— Parece que Rebecca não cuidava bem do próprio corpo durante a
gestação. Nem sei como Molly está se desenvolvendo bem, apesar dos
problemas respiratórios. Ela teve várias complicações pelo parto pré-maturo.
— Minha voz soou embargada e eu senti um pouco de raiva por Rebecca ter
feito isso com ela e com a bebê
— Drogas?
— E bebida também.
Os lábios dele se torceram, deixando claro a desaprovação que sentia.
Não o culpava. Se eu pudesse, eu mesma daria umas sacudidas em
Rebecca para que ela acordasse e visse a tempo o que estava fazendo.
— Apesar dos erros, Rebecca é a mãe de Molly — murmurei.
— Ela era sua irmã? — Ian teve tato em não fazer nenhum comentário
horrível, o que me deixaria na defensiva.
— Minha prima, mas de alma, sempre a considerei a irmã que nunca
tive. Rebecca era protetora, generosa, foi ela, uma garota cinco anos mais
velha, que me ajudou a passar pela perda da minha mãe…
— E então, quando ela faleceu, você pegou a bebezinha dela para
retribuir esse carinho — deu um palpite em um tom suave.
— Em partes, sim, parecia o certo a se fazer. A mãe do Noah não quis
ficar com ela, então só restavam eu e Noah. Na verdade, eu me apaixonei
pela bebê em um piscar de olhos, então, aqui estamos nós.
— E se tornou a mais fiel vassala de Molly — brincou ao retomar a
nossa conversa de mais cedo.
— Sim, me tornei. E não consigo me arrepender disso por um segundo
sequer.
— Eu também não me arrependeria — comentou.
— Quero ver você falar isso depois de ter que trocar uma fralda
tremendamente suja, bombeiro — brinquei.
— Se for de seis crianças, é possível que me arrependa mesmo! —
zombou.
Resmunguei alguma coisa, fazendo com que nós dois ríssemos.
Parei em frente a um portão de ferro, após andarmos mais um
quarteirão e atravessarmos uma faixa de pedestre.
— Está na hora de despedir do Ian, Molly! — falei com a bebê,
fazendo com que ela olhasse para mim, mas não quis deixar o colo do
bombeiro.
— É preciso, docinho! — Ian falou em um tom baixo, a expressão
ficando meio sofrida, ao deixar um beijinho no topo da cabeça dela e me
entregar a pequena.
Assim que a peguei dos braços dele, Molly começou a chorar a plenos
pulmões e a se debater, frustrada por ser tirada de seu colo.
— Não, docinho, não faz isso — Ian cruzou a pequena distância que
havia entre nós e fez um carinho nos cabelos lisos da bebê. — O tio logo
volta e te dará mais colo! Não precisa chorar!
Suspirei quando ele continuou a murmurar aquelas promessas que não
seriam compreendidas pela criança.
— É melhor eu levá-la logo para dentro — falei em meio ao choro da
bebê.
— Tudo bem! — Ian concordou, um pouco contrariado, ainda fazendo
carinho em Molly.
— Em um minuto, estou de volta! — prometi.
— Sem pressa.
Assenti antes de dar as costas para ele e passar pelo portão,
cumprimentando o porteiro.
— Por que está chorando, Molly? — Selma, uma das cuidadoras da
creche, se aproximou com um sorriso doce.
— Ela perdeu o colo do novo amigo dela — expliquei, balançando-a,
tentando fazer o choro parar.
— Huum! Mas vai ganhar o meu! Venha aqui, doçura! — falou,
tomando a iniciativa de pegar a bebê.
Hesitante, já que eu preferia eu mesma acalmá-la, entreguei Molly para
ela.
— Pronto, pronto! — Deu batidinhas nas costas da bebê, antes de me
encarar. — Ela ficará bem, Ailie.
— Eu sei. — Mesmo assim não era fácil, ainda mais quando Molly
continuava a chorar.
— Molly já almoçou?
— Sim, e comeu praticamente tudo, então só precisa dar o lanche da
tarde.
— Muito bem, Molly! Tem que comer tudo para ficar ainda mais forte
e brincar comigo um montão!— falou para a bebê em um tom amoroso, o que
atraiu a atenção da menininha.
Selma começou a fazer barulhos engraçados, desviando ainda mais a
atenção de Molly, que, mesmo fungando, tentava tocar os lábios dela com a
mãozinha.
— Acho que já estamos prontas para brincar! — comentou, animada,
antes de me encarar e perguntar em um tom sério: — O que aconteceu com o
seu rosto?
— O pai de Molly… — murmurei, estremecendo.
— Filho da mãe! — Cuspiu.
— É… — não estiquei o assunto. — Obrigada por sempre cuidar bem
dela, Selma.
— Nada. Vamos nos despedir da sua tia, doçura?
Se aproximou de mim com Molly nos braços e eu deixei um beijo na
bochechinha redonda da menininha, que me fitou, os olhos se arregalando.
— Tchau, docinho! Daqui a pouco eu volto.
Abriu um sorrisinho, o que tornou mais difícil para mim deixá-la para
ir trabalhar.
Outra vez, disse a mim mesma que eu precisava ir, tinha que trabalhar
para nos sustentar. Engoli o choro e, lançando um último olhar para a bebê,
caminhei para deixar o prédio, cada passo parecendo pesar no coração.
— Pronto! — falei, avistando Ian.
— Molly parou de chorar? — Pareceu preocupado, me enchendo de
ternura.
— Sim. — Voltei a andar pela calçada.
— Sei que é algo normal de bebês, mas é meio horrível vê-la chorar…
— comentou, me acompanhando.
— Eu que o diga.
— Como lida com isso?
— Lutando contra mim mesma para não chorar de volta! — brinquei.
Tornamos a rir.
— Não pode negar que é uma boa tática, Ian.
— É — murmurou.
Não dissemos mais nada, na verdade, nem daria tempo de puxar
assunto, já que, em menos de cinco minutos, alcançamos o café. Controlei a
onda de decepção pela distância não ser mais longa.
— Obrigada por me acompanhar.
— Foi um prazer, Ailie. — Sorriu, me provocando fagulhas. — Nos
vemos mais tarde?
— Sim.
— Bom trabalho para você. — Colocou as mãos nos bolsos das calças.
— Para você também. — Fiz uma pausa, me sentindo um pouco sem
graça, intuindo que ele deve ter feito um arranjo no trabalho para conseguir
sair no meio do expediente só para nos acompanhar. — Se cuide e não se
arrisque muito, bombeiro.
Os olhos dele brilharam, insondáveis. Senti que estava a um passo de
entrar na floresta daqueles olhos.
— Pode deixar, Ailie, não irei me arriscar — a voz soou rouca.
— Conto com isso. — Pisquei com um olho para ele.
Ian deu uma risada e eu acabei rindo também e, com mais um
agradecimento, entrei no café para bater o meu ponto e iniciar o meu
expediente e responder às inúmeras perguntas feitas por Jane, que tinha me
visto chegar com Ian através da janela.
Capítulo oito
Minha respiração estava ofegante, meu pulso estava acelerado e uma
fina camada de suor cobria a minha pele, mas continuei a subir os degraus do
simulador de escadas.
Não podia dizer que eu era um grande aficionado pela academia, mas
me manter em forma era uma necessidade para exercer bem o meu trabalho.
Eu mantinha como rotina fazer uma hora de exercícios físicos todos os dias
em um ritmo intenso.
Quanto mais o meu corpo estiver preparado, mais eu poderia oferecer o
meu melhor nos salvamentos.
Hoje, sabia que estava levando o meu corpo ao limite em uma busca
incessante pela dor, como se ela pudesse afastar todos os demônios que me
perseguiam.
Uma ilusão, mas, mesmo assim, eu prossegui até que o toque do meu
celular fez com que eu desligasse o aparelho.
Eu não era muito imediatista com relação a atender ligações, mas,
depois do cara que estava incomodando Ailie e Molly, eu não hesitava em
parar tudo para ver se era uma mensagem da ruiva.
Poderia estar agindo de forma paranoica com relação à proteção delas,
mas prevenção era o meu lema, então ficaria mais tranquilo agindo assim. Eu
não podia negar que aqueles poucos minutos em que eu ficava no
apartamento de Ailie brincando com Molly e conversando amenidades com a
minha vizinha agia como uma espécie de erva curativa em minha alma.
Sabia que eu deveria me manter mais afastado, só executando a
proteção delas, mas era com elas que eu me permitia ser o Ian de antes, que
não havia aquele peso gigante sobre os ombros, nem sombras pairando sobre
mim.
Estava sorvendo a alegria alheia, fingindo que eu poderia continuar a
ser aquele cara que tinha uma família estruturada, dinheiro, um emprego a
qual amava, mas não conseguia deixar de agir como um homem que tinha
direito de desejar uma mulher com a intensidade que eu desejava Ailie.
Era difícil não me ver envolvido pelas provocações dela; pelos sorrisos
que ela me dava; pelos olhares de apreciação que trocávamos e que eram
inevitáveis; pelos arrepios que o toque amigável, inocente, provocava; pela
proximidade crescente; pela essência do perfume dela ou pelo cheiro natural
depois de um dia de trabalho, odores que haviam se fixado na minha mente.
Porra!
Era infernal ter que lutar contra a vontade de beijá-la, de tocá-la, ciente
de que eu não poderia ter um futuro enquanto eu estava naquela situação de
incertezas.
Era difícil não flertar com uma mulher que podia retribuir o meu
avanço e me seduzir ainda mais, me enlouquecendo, me fazendo ficar de
joelhos por ela.
Ailie, sem dúvidas, conseguiria tudo o que quisesse de mim. Ela me
transformaria em um cativo viciado nela facilmente.
Balancei a cabeça, negando, tentando ignorar tudo o que eu não podia
ter, mas que, de alguma forma, eu me apropriava, mesmo que em pequenas
porções.
A ligação caiu assim que peguei o meu aparelho.
— Grant! — murmurei ao olhar o nome no visor, estremecendo
levemente.
Eu poderia me perguntar a razão pela qual ele estava me ligando, mas
eu sabia bem. Duvidava que era para perguntar como eu estava. Com certeza
era para falar do exame de DNA. Para um homem poderoso como ele, eu
sabia que ele estava sendo bem paciente em esperar o meu tempo.
Trocamos mensagens durante aquele período, porém, não posso dizer
que fui muito eloquente. Temia gostar daquele cara e, no fim das contas, não
sermos nada um do outro. Mas a paciência tinha limite e com certeza a dele já
chegou ao fim. Fazia o quê? Uns quinze dias do nosso primeiro encontro?
Não podia dizer que estava contando o tempo. Só sabia que meu tempo tinha
se esgotado. Eu tinha que encarar aquele teste.
Respirei fundo, antes de ligar de volta.
Cada sinal de chamada contra o meu ouvido me incomodava.
— Você pode falar, Dun… Ian? — A voz grossa se corrigiu a tempo e
eu senti meu estômago revirar a menção do nome Duncan. — Se estiver no
trabalho, posso ligar outra hora.
— Não, não estou no trabalho… — falei, mesmo sentindo uma vontade
enorme de mentir. — Como você está?
— Bem — pareceu hesitar, antes de dizer: — Eu tive alta do hospital
hoje.
— Fico feliz por ouvir isso, Grant!
— Mesmo? — Ficou surpreso e eu franzi o cenho para ele, ainda que
Grant não pudesse me ver.
— Eu me preocupo com você, afinal você é… — comecei a dizer, mas
me interrompi. Fiquei tenso. Droga! Eu não sabia ainda se ele era o meu
irmão ou não. Corrigi rapidamente: — Você pode ser meu irmão.
— Sim, posso. — O tom era um misto de esperança e melancolia.
— E eu não tive tanto trabalho para tirar você das ferragens à toa, cara!
Então, sim, eu fico feliz por isso! — tentei brincar com ele, mitigando um
pouco aquele clima.
Grant riu, mas logo eu ouvi um ofegar.
— Está tudo bem? — Fiquei tenso.
— Sim, é que tudo dói ainda.
— Entendi. — Me senti mais aliviado.
— Eu não aguentava mais ficar deitado em uma cama de hospital —
comentou.
— Um dos piores lugares para se estar, não?
— Tão cedo quero voltar para lá — acabamos dando uma risada, mas
ele voltou a parecer melancólico. — Eu estava sentindo muito a falta dos
meus filhos. Esse tempo longe deles foi muito difícil para mim, mas
principalmente para Craig, meu filho mais velho.
— Posso imaginar, Grant — murmurei, ignorando aquela pontinha de
inveja que eu sentia de qualquer pessoa que tinha alguém para amar.
Não que não tenha me sentido assim, afinal, fui amado por John e
Katriona e os amei muito, mas acho que sabia a que Grant estava se
referindo.
— Com eles, minha recuperação será bem mais rápida — completou
em um tom apaixonado, aumentando aquela pontada de inveja.
Uma lembrança de mim brincando com Molly passou a minha mente.
Um sentimento agridoce e um anseio que eu não deveria sentir, já que me era
proibido, me invadiu.
Nas circunstâncias em que me encontrava, eu não podia desejar ter
carinho paternal de ninguém. Eu já tinha tomado muito mais dela do que
deveria.
— E também mais divertida — voltei a brincar, sufocando aquele Ian
de outrora.
— Muito! Temo que passarei um bom tempo jogando videogame!
— Isso que é vida, cara! — Dei uma risada.
— Não tenho tanta certeza!
— Vai ser divertido.
— Pelo menos eu vou ficar melhor nos jogos! — resmungou.
— Vai nessa! — provoquei.
Voltamos a rir e eu escutei um gemido de dor.
— Odeio isso! — grunhiu.
Fiquei em silêncio, sem saber o que dizer, além do óbvio, que era uma
merda, mas que com o tempo a dor iria diminuir.
— Eu não quero desperdiçar o seu tempo falando sobre essas coisas…
— disse por fim. Novamente os meus medos e o desconforto do assunto que
Grant traria à tona retornaram, pesando em meu peito.
Engoli o bolo que se formou na minha garganta.
— Não é um incômodo — forcei-me a dizer.
— Talvez — puxou ar com força e eu o escutei exalar devagar —, mas
preciso te pedir uma coisa, Ian.
— Claro.
— Eu não posso mais esperar — havia urgência no tom de voz —, eu
estou tentando, mas não consigo. Preciso saber se você é…
— Entendo.
— Entende mesmo? Eu não quero te pressionar, Dun… Ian…
— Um dia teremos que fazer isso, não é?
— Sim, teremos.
— Não podemos continuar adiando isso, por mais que seja seguro… —
tentei convencer a mim mesmo daquilo.
— Seguro? — A voz dele soou rouca.
— Esperança.
Um silêncio desconfortável caiu sobre nós e foi a minha vez de respirar
fundo.
— Como você quer fazer isso, Grant? — perguntei o inevitável.
— A coleta do meu DNA será feita aqui em casa, já que a minha
mobilidade está precária.
— Terei que ir até sua casa para a coleta?
— Acredito que você poderá fazer direto no laboratório, não tenho
muitas informações sobre como funcionam os procedimentos… afinal, eu
nunca fiz isso antes. — Ouvi certa decepção em sua voz, o que atingiu minha
alma.
— Sinto muito — murmurei, não muito certo se eu realmente sentia.
Se eu fosse o irmão dele e Grant tivesse feito testes com outras pessoas, teria
ficado triste todas as vezes que recebesse uma negativa.
— A moeda sempre tem dois lados… — parecia ter lido os meus
pensamentos.
— Sim.
— Podemos pensar em uma data?
— Amanhã, milionário? — o provoquei, sentindo dor ao remover o
curativo com uma única puxada.
Grant deu uma risada, mas logo ficou sério e disse:
— Se for do seu desejo, posso pedir ao meu secretário para entrar em
contato com um laboratório para realizarmos o teste amanhã.
— Por mim, está tudo bem. Seria bom, já que é minha folga. — Fingi
uma indiferença que estava longe de sentir.
— Tentarei agendar, então.
— Tenho certeza de que terá seu desejo realizado!
— O dinheiro nem sempre tem o poder de realizar todos os nossos
desejos.
— Imagino que não. — Sabia que ele estava falando por experiência
própria.
O silêncio se instalou novamente, e, mais uma vez, não pude dizer que
era algo confortável. Pelo menos, não para mim.
— Me mantém informado sobre os arranjos? — quebrei o silêncio, não
aguentando mais.
— Claro. — Pigarreou. — Obrigado por isso, Ian. Por entender.
— Não precisa me agradecer, cara.
— Preciso, sim.
Fiz um gesto, negando.
— Ficarei no aguardo, Grant — disse em um tom de despedida.
— Até mais, Ian — murmurou.
— Grant? — acabei dizendo quando percebi que ele não tinha
desligado.
— Sim?
— Pode não acreditar, mas estou feliz de que você esteja bem o
suficiente para voltar para casa.
— Eu também.
— Até mais.
Dessa vez, não esperei a iniciativa dele, e acabei desligando a chamada.
Assim que encerrei a ligação, comecei a ser tragado pelos meus
sentimentos conflituosos, o pânico avançando e tomando conta de mim. Não
tinha mais volta.
Capítulo nove
Suspirei fundo, olhando a chuva bater suavemente contra a janela do
quarto, me sentindo não apenas cansada, mas também incomodada,
incômodo que eu sabia que não deveria estar sentindo, afinal, não tinha nada
a ver comigo ou com Molly. Mesmo assim, eu sentia certa apreensão.
Eu não podia dizer que eu conhecia Ian muito bem, afinal, fazia dez
dias que ele vinha me acompanhando no trajeto do café para casa, mas, hoje,
por mais que ele tenha sorrido, brincado com Molly e me provocado como
sempre fazia, ele parecia tenso, mais do que nos últimos dias.
A sombra nos olhos dele, de alguma forma, ficou mais intensa, havia
algo mais do que um espectro meio sombrio. Esse algo alimentava minha
curiosidade e minha inquietação.
Perguntas se embolavam na minha garganta, pedindo para serem feitas,
mas temi acabar sendo invasiva ao fazê-las. Esperei que ele dissesse algo, que
acabasse se abrindo, dizendo o que o estava deixando tenso, mas Ian ficou em
silêncio.
Agora, eu lutava contra mim mesma. A sensatez dizia para ficar calada,
respeitando-o, mas a parte intrometida, aquela que preferia ser acolhida
naqueles momentos, e que desejava uma amizade com aquele homem, me
dizia para fazer algo.
Outro suspiro me deixou enquanto meus dedos tateavam a cama em
busca do meu celular.
Pegando o aparelho, desbloqueei a tela e foi automático eu buscar pelo
contato de Ian.
Fiquei encarando a foto dele por minutos a fio, em um misto de
emoções.
Era difícil não admirar cada um dos ângulos que compunham um rosto
que parecia ter sido esculpido por um artista renascentista. O sorriso que
chegava aos olhos. Os cabelos escuros e lisos, que pareciam convidar meus
dedos a se embrenharem pelos fios de aparência sedosa.
Em meio à admiração, a urgência de saber o que o estava incomodando
pareceu duplicar de tamanho.
— Que mal tem perguntar? Não foi Ian que entrou na sua vida e a de
Molly em primeiro lugar? — murmurei para mim mesma. — Se ele não
quiser dizer nada, paciência.
Eram argumentos rasos, mas que me deram coragem de abrir a
conversa e digitar:
Está tudo bem com você, Ian?
Ciente de que talvez eu nem obtivesse uma resposta, primeiro por ele
não querer responder, segundo, por ser mais de dez da noite, abri o aplicativo
de streaming que eu assinava, mas mal tive tempo de clicar na série policial
que eu estava assistindo, quando recebi uma notificação de mensagem. Abri
rapidamente.
Fiquei um pouco decepcionada por ele não responder a minha
pergunta.
Ian:
Achei que já estaria dormindo a uma hora dessas, Ailie
Ailie
Eu te acordei?
Me desculpe por isso
Ian:
Eu estava acordado
não se preocupe
Ailie:
Menos mal.
Nenhum de nós digitou mais nada e me senti uma tola por ter mandado
uma mensagem para ele.
Meu pulso disparou quando logo a seguir o som de notificação de uma
mensagem chegou.
Ian:
Não sei se vou conseguir dormir…
Ailie:
Por quê?
Esperei.
Dessa vez, por muito mais tempo.
Estava prestes a digitar outro pedido de desculpa quando eu li:
Ian:
É complicado.
Ailie:
Trabalho?
Ian:
Não
Ailie:
Entendo
Milhares de conjecturas passaram pela minha cabeça enquanto
aguardava uma mensagem, até que ele digitou:
Ian:
Eu não estou sabendo lidar com isso
Engoli em seco, sentindo o desespero dele em cada letra daquelas
palavras.
Ailie:
Se quiser conversar
Ian:
Não quero incomodar você
Ailie:
Mais do que eu venho incomodando você?
Mordi os lábios.
Ian:
Sabe que não me atrapalha em nada
Ailie:
Sei…
Ian:
Estou falando sério
Ailie:
Eu também estou
Ian:
Está tarde
Ailie:
Não estou com sono
Ian:
Algo está te incomodando?
Noah?
Foi a minha vez de demorar a digitar algo, já que não sabia ao certo
como responder. Acabei olhando pela verdade.
Ailie:
Estou preocupada com você
Ian:
Se preocupa comigo?
Ailie:
Por que não me preocuparia?
Ian:
Não sei
Ailie:
Você é gentil
Se preocupa comigo e com Molly
Ian:
É o meu papel de vizinho rs…
Ailie:
Ian:
Agradeço por se preocupar
Ailie:
Estou fazendo meu papel de vizinha
Ian:
O vizinho do lado vai reclamar da altura da minha risada
Ian me roubou um sorriso.
Ailie:
Hahahahaha
Sei
Hesitei antes de escrever:
sou uma boa ouvinte
se quiser conversar
Ian:
Você me tenta, Ailie
Senti uma onda de desejo surgir no meu baixo-ventre e me xinguei em
pensamento, me chamando de idiota, já que eu sabia que Ian não disse isso se
referindo a algo físico.
Ian:
Posso ir aí?
Não havia nada de mais no pedido dele, mesmo assim, outra vez, eu
hesitei.
Sabia que ouvir a confissão dele pessoalmente era dar um passo grande
em direção a uma amizade mais forte, pelo menos para mim.
Não era aquilo que eu queria quando mandei aquela mensagem?
Então por que eu estava assustada?
Ailie:
Claro
Ian:
Obrigado
Não respondi e Ian também não disse mais nada. Ainda assim,
continuei a olhar a tela do celular, em uma espécie de transe, sem acreditar
que eu tinha realmente feito aquilo.
— Deixe de ser besta e medrosa, Ailie! — murmurei, jogando o
aparelho sobre a cama. — Pare de criar coisas que não existem. Desabafar
com alguém não significa que vocês serão amigos! E é ridículo você ter medo
de fazer um amigo!
Me ergui em um salto, ignorando os meus medos infundados, dizendo
a mim mesma que eu só queria retribuir aquilo que ele havia feito por mim e
por Molly.
Aproveitei para lançar um olhar para a bebê que dormia no quarto dela
e, vendo que estava tudo bem e que ela dormia profundamente, fui até a sala
para esperar por Ian na porta, já que eu não queria correr o risco da
campainha acordar a minha docinho.
Assim que girei a chave na fechadura e abri a porta, me surpreendi por
ver Ian na minha frente.
— Você foi bem rápido — falei em um sussurro, olhando o quanto ele
parecia transtornado.
Os olhos não estavam tomados apenas por sombras profundas, mas
podia ver também ansiedade e desespero.
— Se arrepende? — A voz dele saiu quebrada.
Ternura invadiu-me.
— Claro que não, só fiquei surpresa com o quão rápido você chegou
aqui.
— Eu desci no momento em que pedi para vir.
— Sério? — Arqueei uma sobrancelha para ele.
— Sim.
— É tão autoconfiante para achar que eu diria sim, Ian?
— Não.
— E desceu mesmo assim?
— Sim, desci. — Ficando sem graça, passou os dedos compridos e
elegantes pelos cabelos, bagunçando os fios ainda mais.
Meu olhar acompanhou seu movimento de abaixar a mão, atraindo a
minha atenção para o torso de Ian que eu sabia ser definido.
Minha boca secou.
Nu. Ele estava nu...Ou melhor, sem camisa.
Eu sabia que deveria voltar a encarar o rosto dele, mas eu não
consegui.
Enquanto eu sentia minha respiração ficar descompassada, meus olhos
se mantinham petrificados no abdômen marcado por vários gominhos, que
deixavam o torso largo ainda mais poderoso. No peitoral bastante definido,
sem nenhum pelo, que subia e descia em uma cadência forte. Nas linhas
firmes que compunham a musculatura dos ombros largos, dos braços
marcados por algumas veias visíveis, fruto do exercício físico intenso.
Gostoso não era uma boa palavra para defini-lo. Não, era pouco.
Talvez gostosão fosse melhor. Ou tentação, porque naquele minuto eu estava
muito tentada a me aproximar dele e roçar as pontas dos meus dedos pelo seu
corpo, deslizando minha mão pelo abdômen, conhecendo com o tato tudo
aquilo que ele mostrava.
Os gominhos dele se retrairiam?
Ian ofegaria ao meu toque?
— Talvez eu devesse ir colocar uma camisa — comentou com
rouquidão.
Olhei para o rosto dele, tentando não corar por ser pega em flagrante,
muito menos deixar que as labaredas que via na expressão dele me
queimassem, mas falhei, principalmente quando Ian retribuiu o olhar, dando
atenção ao decote em v da minha camisola de algodão, que revelava o topo
dos meus seios, e descendo para percorrer toda a extensão das minhas pernas
expostas pelo tecido, que embora não fosse tão curto, deixava pele demais a
mostra.
Fogo. Desejo.
Eu não era inocente. A atração física pulsava entre nós dois com força,
tornando o ar mais pesado, meu corpo mais sedento.
A resposta à minha pergunta de segundos atrás bombardeou os meus
sentidos. Quase ofeguei com o pensamento de que sim, de que os gominhos
da barriga dele poderiam reagir ao contato dos meus dedos.
Me xinguei mentalmente por isso. O que estava acontecendo comigo?
Ele precisava da minha amizade, não que eu subisse em cima dele.
— Não é necessário. — Pigarreei.
— Tem certeza, Ailie? — A voz era rouca e inconscientemente, ele
passou a mão pelo peitoral, atraindo ainda mais a minha atenção para o corpo
dele.
Droga!
— Se você não se incomodar com alguns olhares, Ian — brinquei,
tentando aliviar o clima, mas acabei colocando uma mecha atrás da orelha,
revelando o meu embaraço. — Apesar de que acredito que esteja acostumado
com isso.
— Não costumo andar sem camisa por aí, Ailie.
— Sério?
— Sim.
— Talvez devesse, Ian — falei por falar.
“Não, não deveria”, escutei uma vozinha ciumenta sussurrar no meu
ouvido. “Ele deveria ficar sem camisa só para mim.”
Tola.
Ian arqueou uma sobrancelha.
— Quase todos os bombeiros são assim? Definidos? — Fiz uma
pergunta besta, querendo mudar de assunto. Pelo menos não disse gostosos.
Os olhos dele brilharam com diversão.
— Não tenho o costume de olhar para os meus colegas, Ailie.
— Ah! Agora sei que fiz a pergunta para a pessoa errada.
— Mesmo?
Pisquei com um olho só antes de brincar:
— Jane é quem saberia me responder isso, com certeza.
Deu uma risada baixa, mas que morreu em segundos. O Ian que veio
até a minha porta, o homem caótico, não o que eu queria que me devorasse,
ressurgiu.
— Entre — pedi.
Recuei, deixando com que ele passasse por mim, e como sempre, o
braço roçando no meu corpo, provocou vários arrepios em mim. Fechei a
porta atrás de nós e girei a chave rapidamente para trancá-la.
Obriguei-me a respirar fundo quando, virando-me, tive uma visão das
costas cheias de pintinhas cuja musculatura parecia tensa. Tive vontade de
massagear a carne rígida, até que os nós de tensão se desfizessem.
Me xinguei mentalmente. Eu não era uma necessitada...Ou era.
Para mim, nos últimos minutos, ficou claro que eu estava quase
subindo pelas paredes.
— Quer beber alguma coisa? — falei ao vê-lo parado, próximo a uma
janela.
Se virou para mim e fez que não com a cabeça.
— Obrigado.
— Se quiser, só falar, Ian.
Assentiu, antes de voltar a encarar a escuridão lá fora.
Sentei na ponta do sofá e esperei.
— Eu deveria ter medo de você, Ailie — disse em um tom baixo.
As palavras dele foram como um soco na boca do meu estômago.
— Por te olhar? — Ignorei a sensação desconfortável, mantendo aquele
mesmo tom baixo, para não acordar Molly.
Voltou-se outra vez para mim.
— Seria um idiota se eu tivesse medo do olhar de uma mulher atraente.
O elogio, o olhar que me percorreu rapidamente e a centelha de desejo
me fizeram estremecer.
— Isso é gentil de sua parte.
— Não é gentileza, é só o que vejo. Você é linda, e está mais linda
ainda com essa camisola.
Me controlei para não me mover no assento com a onda de calor
líquido que tomou o meu baixo-ventre.
Estava ciente de que uma peça de algodão não era nada atraente, mas
ele parecia achar.
Ele continuou a me encarar, não me ajudando em nada a me acalmar.
— Se não é do meu olhar, por que tem medo de mim? — Mudei de
assunto.
— Você é perceptiva. — Deu de ombros.
— Isso não é tão assustador… E, em minha defesa, eu não sou tão
perspicaz assim.
— É o suficiente para me ver, me ler — murmurou em um tom mais
baixo ainda.
Abri e fechei a boca enquanto pensava no que dizer.
— Não sou tão capaz assim, Ian. Não sou nenhuma feiticeira e nem
tenho poções mágicas.
— Você poderia muito bem ser uma, Ailie… — sussurrou, e a
rouquidão presente no tom arrepiou os meus pelinhos.
As faíscas não controladas transformaram-se em labaredas quando,
inconsequente, os meus olhos pousaram no torso desnudo, o qual não resisti
em analisar cada centímetro de pele, desejando outra vez que fossem as
pontas dos meus dedos. Pigarreei, lutando contra as minhas emoções, quando
encarei o rosto de Ian e vi os olhos ficarem mais escuros.
— Tenho certeza que não.
— Combina com você…
— Só por causa da cor do meu cabelo? — Meu cenho se franziu.
Balançou a cabeça em negativa.
— É natural? — perguntou, olhando para as mechas que caíam
desordenadamente.
— Ainda diz que não é pela cor dos meus cabelos — resmunguei.
— É uma pergunta séria.
— Sei.
— É pintado?
— Me deixaria menos bruxa?
— Feiticeira. — Me corrigiu. — E não, os cabelos serem pintados não
deixariam você menos feiticeira.
— Hum...
— E então?
— Sim, são naturais.
— São lindos, Ailie.
Não soube o que responder perante a fala dele e o olhar de fascinação
que Ian lançava aos meus cabelos, como se desejasse tocá-los.
Rubor se espalhou pela minha pele ao passo que o prazer crepitava
com mais força no meu sexo.
— Por que tenho a impressão de que você está fugindo do assunto que
está te incomodando? — Pigarreei, ciente de que entraria em um terreno
espinhoso para ele, enquanto esquivava de algo perigoso para mim.
Vi o desejo de Ian sumir, a tensão tomando o seu lugar. E junto da
tensão, veio o amargor, que ficou evidente no tom de voz:
— Venho desenvolvendo uma grande tendência em fugir, de agir como
um covarde.
— Não é a primeira pessoa que não deseja estar em um relacionamento
sério, Ian, mas talvez você devesse ter deixado isso claro — murmurei,
compreendendo muito bem aonde ele queria chegar.
Guardei a decepção por saber que ele era um baita canalha por ter me
olhado como se eu fosse um pedaço de carne que ele desejava enquanto havia
outra pessoa em sua vida. Ainda que eu não tivesse culpa nenhuma, me senti
suja.
— O quê? — Pareceu confuso.
— Que você só quer diversão com a pessoa…
O cenho dele se franziu ainda mais.
— Do que você está falando?
— Relacionamentos amorosos. Você disse que estava fugindo deles…
Ian abriu e fechou a boca, sem saber o que dizer.
— Não é certo iludir uma pessoa, Ian, prometer coisas que você não
pode dar, ou dar a entender coisas que não vão acontecer — acabei ralhando.
— Eu não estou iludindo ninguém, Ailie. Não sou esse tipo de cara. —
Pareceu na defensiva.
— Menos mal. — Dei de ombros.
— Nunca estaria na casa de uma mulher, às dez horas da noite, olhando
para ela, sendo que tem outra me esperando.
— Fico feliz por isso, Ian.
— Não sou um moleque, Ailie.
— Não quis te ofender.
— Eu sou solteiro.
— Okay. — Coloquei uma mecha atrás da minha orelha, começando a
ficar sem graça pela reação exagerada dele.
— Não é nada relacionado a isso… — murmurou e eu vi o caos se
formando nos olhos verdes, mas o medo era o sentimento mais forte e
doloroso contido neles. — Sabe o que realmente me assusta, que me fode?
Que me corrói por dentro?
— Não.
— Grant não ser o meu irmão... — A voz soou desesperada. — Porra,
Ailie, eu tenho tanto medo dele não ser o meu irmão!
Um nó se formou na minha garganta. A compaixão pelo sofrimento de
Ian estava presente em cada batida do meu coração, que ficou apertado com
sua fala.
— Quem é Grant, Ian?
— O cara que pode ser o meu irmão biológico. — Era uma explicação
que não dizia muita coisa, pelo menos não para mim, ainda que respondesse o
motivo pelo qual ele não conseguia dormir. — Eu só penso no resultado do
teste de DNA.
— Quando sai?
— Amanhã.
— Entendo — falei por falar, antes de acrescentar: — Na verdade, não
entendo. Não tudo.
— Não expliquei o contexto de toda essa história, não? — quase não o
escutei.
— Não.
Esperei dizer mais alguma coisa, mas o silêncio que se fez, quebrado
apenas pelo som das respirações, era pesado.
Cada vez mais, a agonia crescia dentro de mim em uma espiral
violenta, já que eu via Ian lutar contra a dor, contra a mágoa, contra o medo
enquanto caminhava pela sala.
Algo em mim pareceu se quebrar em mil fragmentos quando ele parou
na minha frente e eu tombei minha cabeça contra o encosto do sofá, entrando
na floresta densa e cheia de dor que eram os olhos dele.
— Fui sequestrado quando eu era criança… — Suas palavras ditas em
um sussurro me deixaram em choque.
— Se-se-questrado? — gaguejei.
— Pelas pessoas que eu amava — os lábios se curvaram com acidez,
revelando mágoa: — ou melhor, pelas pessoas que eu aprendi a amar e a
chamar de papai e mamãe…
As lágrimas deslizaram pelas minhas bochechas de forma instantânea
quando meu cérebro assimilou as palavras dele. Foi difícil não ficar de pé em
um salto e ir envolvê-lo em um abraço.
— Eu tinha uma família, tinha um irmão, mas meus pais me tiraram
deles, Ailie. Eu não sei quem eu sou de verdade. Era para eu ter tido uma
vida diferente da que tive. Eles roubaram o que eu deveria ter sido.
— Esse Grant…? — Mal reconheci o som da minha voz, já que ela
saiu arranhada.
— Destino. Foi o destino que me fez ajudar no resgate de um cara tão
parecido comigo e que também estava procurando por alguém, e esse mesmo
destino pode me tirar isso. Posso não ser o Duncan, o irmão dele. — O tom
era trêmulo, deixando transparecer sua angústia.
— Tenho certeza de que será positivo o resultado — sussurrei.
— Estou com medo, Ailie, com muito medo. Estou com medo de tudo.
Não quero perder minhas esperanças. Não quero que tirem minha única
chance de descobrir quem realmente sou.
— Não é a sua única chance, Ian.
— Não lembro de nada, eu era muito pequeno quando me
sequestraram. Não tenho nenhuma informação que me ajude a procurar
minha família. Eu não tenho um passado. Eu não sei quem eu sou.
Quando Ian desmoronou em dor, o impulso, maior que a racionalidade,
fez com que eu finalmente ficasse de pé e passasse o meu braço em torno do
tronco dele, como se o meu abraço pudesse transferir um pouco do
sofrimento dele para mim; como se eu pudesse oferecer algum consolo.
Me controlei para não estremecer, sentindo um prazer mais que
impróprio tomar conta do meu corpo assim que os braços fortes me
envolveram de volta, prendendo-me contra o peitoral quente e firme.
Precisei de mil vezes mais força quando, estremecendo, Ian enterrou o
rosto nos meus ombros e respirou fundo, sucumbindo a tudo aquilo que o
consumia.
Ignorei o fato que, ainda que a diferença de altura entre nós dois fosse
significativa, quase quarenta centímetros, nossos corpos se ajustavam um ao
outro com perfeição.
— Ficará tudo bem, Ian… — falei, fazendo movimentos circulares
pelas costas largas ao sentir uma lágrima dele deslizando pela minha pele,
lutando para sufocar o meu próprio choro ao mesmo tempo que me maldisse
por sentir que eu reagia ao calor de pele contra pele.
— Estou com tanto medo de não ser o Duncan, Ailie… — sussurrou.
— Eu sei…
— E se…
— Ase me seith yef hope nere heorte to breake — o interrompi,
recordando de uma frase que eu tinha lido muito tempo atrás.
— O quê? — Ergueu o rosto para me encarar e eu senti a compaixão
me tomar ao ver os olhos avermelhados.
— Se não fosse pela esperança, o coração iria se quebrar — traduzi
para ele, erguendo a mão para tocar sua face, acarinhando-o.
— Não entendo.
— A esperança é maior que o medo, e é a esperança que cicatriza um
coração machucado. — disse, enquanto subia e descia meus dedos pela
bochecha dele.
— Não acredito em perdão, Ailie…
— Esperança é diferente de perdão. E é tudo o que você precisa agora,
por mais que você tenha medo de perdê-la.
— Eu… — Pareceu incerto, os olhos cheios de medo.
— Não posso afirmar que você é o irmão que esse homem procura, Ian,
mas posso ter esperança de que você seja.
Dei batidinhas na bochecha dele antes de baixar a minha mão e, sem
querer, minha palma tocou o braço dele.
— Não sei se é o suficiente, Ailie… — falou em meio a um arfar.
Não consegui dizer nada, já que, me olhando nos olhos, Ian segurou a
minha mão e a conduziu de volta ao rosto dele.
Dessa vez, não consegui conter o tremor com o contato da minha
palma contra seu rosto, muito menos controlar as batidas fortes do meu
coração com a intimidade daquele ato.
A respiração dele contra a minha pele foi como receber vários
beijinhos, me eletrizando.
Meus dedos ganharam vida sobre seu rosto, acariciando-o, mesmo
sabendo que eu não devia fazer isso.
Vi uma emoção diferente cintilar em meio à dor, mas que logo foi
sufocada.
— Eu sei que deve ser difícil passar o que você está passando. Na
verdade, eu nem consigo me imaginar enfrentando uma situação dessas, mas
se acontecer desse cara não ser seu irmão, não há nada que você possa fazer,
Ian, a não ser continuar sua busca — me forcei a dizer.
— E continuar sendo uma farsa.
— Certo ou errado, você é quem é.
— Não me conhece direito, Ailie. Nem eu mesmo…
Silenciei-o com um dedo, e eu senti um leve formigamento por tocar os
lábios macios e quentes.
— Você sabe quem você é, Ian — falei, com firmeza. — A versão que
está na minha frente não é uma mentira. É quase um desconhecido, sim, mas
uma mentira? Não.
— Eu tenho medo de você, feiticeira — me provocou.
Revirei os olhos e dei um tapinha no ombro dele, tentando me livrar de
seu contato. Ian gargalhou antes de voltar a me abraçar, só que dessa vez com
mais força, praticamente nos fundindo. Tive vontade de suspirar. Eu sentia
todas as minhas terminações nervosas se agitarem ao ter o peitoral dele
esmagando os meus seios, deixando os meus mamilos rígidos. Minhas pernas
estavam bambas.
Droga!
— Obrigado — murmurou contra a minha orelha.
O instinto fez com que eu apartasse o abraço. Estávamos indo longe
demais, pelo menos eu estava. Eu me sentia péssima por meu corpo reagir ao
dele dessa forma, quando ele só precisava de acolhimento.
— Eu não fiz nada. — Dei um passo para trás, fingindo que não via a
contrariedade dele.
— Você me ouviu, Ailie. — Esticou a mão e tocou uma mecha do meu
cabelo, esfregando-a por entre os dedos.
— Não se pode dizer que você disse muito, Ian — brinquei.
— Não tenho muito o que dizer.
— Posso ouvir o que você tiver para dizer…
Abriu um sorriso que pareceu vencer um pouco os sentimentos ruins e
naturais naquelas circunstâncias.
— Está tarde.
— Nem tanto.
— Acho que agora é uma boa hora para tomar refrigerante — brincou.
A risada brotou na minha garganta, escapando pelos meus lábios, e eu
tive que me controlar para não rir alto demais enquanto eu ia pegar o
refrigerante. De alguma forma, estava ciente de que, por mais que Ian
estivesse sorrindo e parecesse mais calmo, a ansiedade voltaria a invadi-lo,
ainda mais que continuaríamos a conversar sobre aquilo. Era inevitável.
Tinha muita coisa em jogo para ele e, com certeza, deveria ser muito
assustador.
Com certeza Ian voltaria a desabar.
Seria uma noite e uma madrugada longas.
É. Tomar refrigerante, sem dúvidas, ajudaria. Não havia nada melhor
que o líquido docinho nesses momentos.
Capítulo dez
Respirei fundo, olhando, sem enxergar de verdade a vista do jardim da
mansão de Grant.
Eu estava angustiado e igualmente nervoso.
Ailie tinha tornado a minha noite e parte da madrugada menos penosa,
mas assim que eu fiquei a sós, já que lá pelas duas da manhã o semblante dela
havia ficado bem esgotado, os sentimentos agonizantes retornaram.
Agora, na iminência de ter o resultado, todas as sensações se
intensificaram.
O medo era mil vezes mais poderoso, a ponto de sentir o meu
estômago queimar com a bile, minhas mãos ficarem suadas.
Se eu movesse o meu pescoço, eu não tinha dúvidas de que eu ouviria
os meus músculos estalarem com os nós de tensão.
— Obrigado por vir até aqui, Ian — escutei a voz de Grant, mas
continuei a encarar o nada.
— Faz sentido nós dois estarmos juntos nesse momento — retruquei.
Antes que eu recebesse o e-mail com o resultado do exame de DNA,
Grant me ligou, pedindo para que eu fosse à casa dele para que pudéssemos
descobrir juntos o resultado. Não hesitei em ir.
— Talvez precise de um tempo para absorver o resultado, qualquer que
seja ele. — Soou culpado.
— Talvez estar sozinho seria pior.
Respirei fundo, expelindo o ar devagar, incerto se realmente estar ao
lado de Grant seria melhor do que estar sozinho. Se desse negativo, não sei se
conseguiria lidar com aquela perda, com a tristeza, pior, não saberia lidar
com o sentimento do homem ao meu lado. Não que eu precisasse consolá-lo,
afinal, a família dele estava a alguns passos de distância, mesmo assim, não
queria ver a esperança, que Grant fazia tudo para suprimir, se extinguir.
Esperança...
Ailie tinha dito que eu precisava ter esperança para que eu pudesse
curar as minhas feridas.
Não tinha certeza se, mesmo que a felicidade se concretizasse, a
esperança poderia cicatrizar meu coração. Poderia conseguir as respostas que
tanto queria, mas meu coração sempre sangraria por aquilo que John e
Katriona haviam feito.
— Vamos fazer isso logo, Grant, não temos que esperar mais —
murmurei.
Grant não me respondeu, então olhei para ele que, assim como eu, não
fez nenhum movimento para pegar o envelope que estava pousado no colo
dele, provavelmente a clínica havia mandado entregar, sendo mais formal
com o milionário.
Um silêncio pesado caiu sobre nós, cheio de agonia e expectativas. O
medo apertou o meu peito de novo. Eu engoli a bile que chegou bem próximo
à minha boca. Vomitar não me ajudaria em nada nesse momento.
— Que a sorte esteja ao nosso favor — murmurei, tragando ar com
força em uma tentativa de me controlar, mas a tensão era a vencedora. —
Abra o envelope, vamos acabar logo com isso.
Finalmente, ele pegou o envelope em seu colo, rasgando a borda e
removendo algumas folhas de dentro dele.
Os segundos se passavam com lentidão enquanto eu olhava para o
homem, em expectativa. O silêncio de Grant ao ficar olhando para o papel
aumentou a minha angústia. Quando eu vi as lágrimas deslizarem pelas
bochechas dele, eu senti que o meu mundo estava desabando debaixo dos
meus pés.
Não. Não. Não.
Porra, não.
— Grant? Qual é o resultado?
Ergueu os olhos do papel e me fitou com uma intensidade tão grande,
que senti como se o ar ficasse preso nos meus pulmões.
— Você é o meu irmão. Você é o Duncan. — A voz dele soou
embargada.
Fiquei paralisado ao ouvir as palavras de Grant, uma parte de mim
temendo ter ouvido errado ao mesmo tempo que a esperança e a felicidade
começavam a borbulhar dentro de mim.
Meu então irmão me passou o papel e eu fiquei encarando a palavra
redigida naquela folha, sentindo minhas vistas ficarem cada vez mais
embaçadas por lágrimas que queriam cair.
Positivo.
Grant era o meu irmão. Eu era o Duncan.
Encarei Grant. Ele era meu irmão biológico. Provavelmente, ele era o
menino que aparecia na minha única lembrança de quando vivia com ele.
— Eu…
Não consegui dizer nada, a felicidade formando um bolo na minha
garganta, enquanto eu continuava atordoado, me obrigando a engolir em
seco.
Caralho!
Vi o homem tão parecido comigo se erguer, em um esforço, já que a
perna dele ainda estava se recuperando, e ele parou na minha frente.
— Me dá um abraço, por favor, irmão? — sussurrou.
Irmão. Aquele homem era o meu irmão.
— Não sabe o quanto eu esperei por esse momento, Duncan… Ian…
ah, não importa — vi o choro dele se tornar mais forte e eu vi nos olhos dele
não só alegria, mas também dor. — Não sabe o quanto eu pedi aos deuses
para que um dia eu te encontrasse. Ano após ano, eu procurei por você por
cada pedaço da Escócia. Eu sofri, eu chorei, eu sangrei por dentro todas às
vezes que a minha busca não deu em nada.
— Eu morava em uma cidade pequena da Inglaterra — me forcei a
dizer.
A raiva que sentia pelo que meus pais fizeram envenenou aquele
momento que deveria ser feliz, e com ela vieram a amargura e o
ressentimento. Me deu uma vontade enorme de gritar que, se não fosse por
eles, aquele momento não existiria. Eu nunca teria me separado de Grant, ele
não precisaria ter sofrido tanto.
— Cheguei a ir para Londres e para outras cidades maiores na
Inglaterra para te procurar, mas… — começou, mas o interrompi, as minhas
lágrimas turvando minha visão:
— Por quantos anos, Grant? — Fiz a pergunta à queima-roupa,
sentindo que ela deveria ter sido feita há muito. — Por quanto tempo você me
procurou?
— Foram vinte e sete anos, mas se precisasse, eu te procuraria por toda
a minha vida, Duncan — fez uma pausa e eu me senti estranho ao ouvir o
meu verdadeiro nome —, felizmente, eu não preciso mais sair à sua busca,
você acabou me achando.
Abriu um sorriso e eu fiquei em silêncio, fitando Grant.
Vinte e sete anos. Meu irmão havia me procurado por malditos vinte e
sete anos! Era muito tempo, tempo que provavelmente se passou com
lentidão pela angústia da espera, pelas incertezas.
Chorando pelo sofrimento de meu irmão, me ergui em um salto e o
abracei com força, me esquecendo de que o corpo dele ainda se recuperava
do acidente. Grant chorou nos meus ombros como se fosse uma criança. Eu
não me sentia diferente, apenas o peso opressor se transformou em alívio,
alívio por saber quem eu deveria ter sido.
— É estranho escutar que eu amo você, irmão? — Grant perguntou,
dando um passo para trás, me olhando de forma emocionada.
Ouvir a declaração do amor dele por mim foi meio estranho. Me
ressenti, já que deveria ser algo natural, cotidiano. Tinha que me acostumar.
— Eu não sei, Grant — falei, confuso. — Por um lado, somos
desconhecidos. Não sou mais o menino que você conheceu. Eu mudei, e você
também, mas, ao mesmo tempo que é estranho, eu entendo você continuar a
amar a criança que eu fui, mesmo depois de tanto tempo. E quem sou eu para
julgar você? Eu não queria conhecer o garoto que era uma imagem borrada
em minhas lembranças? Eu não desejei um dia me tornar o melhor amigo
dele?
— Seremos amigos — afirmou, cheio de convicção, de esperança.
Queria ter aquela mesma esperança, mas eu precisava ter cautela por
nós dois, por mais que ele fosse um cara legal.
— Tentaremos ser.
— Eu tenho certeza de que seremos — soou arrogante e eu acabei
curvando meus lábios em um leve sorriso, me sentindo divertido.
— Sabe de uma coisa, Grant? — Mudei de assunto.
— O quê?
— Eu invejo você. Eu queria que a minha memória me permitisse amar
o meu irmão novamente. — Um gosto agridoce pareceu impregnar a minha
boca, quando tentei, mais uma vez, me lembrar de algum momento com ele,
mas tudo que consegui foi visualizar uma maldita névoa.
— Você era muito pequeno — falou baixinho, ecoando o meu
pensamento.
— Não para esquecer de quase tudo, esquecer do rosto dos nossos pais.
Uma criança de quase quatro anos deveria se lembrar dos pais!. Eu deveria
lembrar pelo menos do meu próprio nome. — Cedi à frustração
— Você foi forçado a esquecer, Duncan, é diferente. — Admoestou.
Dei de ombros. Não iria discutir, não valia a pena naquele momento.
— Sua vida foi ruim, Duncan? Foi maltratado? — questionou em um
tom tenso.
Fiz um gesto negativo.
— Não, não fui maltratado… Eu não posso dizer que tive uma vida
ruim. Sempre fui amado por eles, mimado até. Tive tudo o que quis. Estudei
nas melhores escolas, tive empregados para cuidar de mim, tive milhões de
brinquedos…
— Eu sempre tive medo de que você precisasse de mim…
— Sendo honesto, eu nunca conheci nada diferente de luxo com os
Quinn. Eles sempre tiveram muito dinheiro para me dar o que quisesse, mas o
que adianta tudo isso, todas essas mordomias, todo afeto, todo amor que eles
diziam ter por mim, quando minha vida sempre foi uma mentira? Quando
eles sabiam que eu não era Ian, mas Duncan, uma criança que já tinha uma
família? — Outra vez, a mágoa causada pelo que eles fizeram comigo me
tomou.
— É, não vale muito. — Grant tocou o meu ombro, querendo me
confortar, como um irmão mais velho faria.
— Com tantas crianças precisando de amor, para que sequestrar uma?
— Externei aquela pergunta dolorosa que sempre estava nos meus
pensamentos, como se Grant pudesse ter a resposta.
— Eu não sei. — Não me surpreendeu ele não saber.
Sabia que a verdade havia morrido com John e Katriona, agora, só me
restavam conjecturas e milhares de dúvidas.
Tentava entender os meus pais, mas não conseguia. Por que eles não
adotaram uma criança? Por que eles precisaram sequestrar uma? Como eles
conseguiram oficializar isso? Meus documentos eram verdadeiros!
— Foi muita crueldade.
Monstros. Meus pais eram dois monstros. Eles são dois vilões na
minha vida, vilões disfarçados de heróis.
Quis cair de joelhos e chorar de forma convulsa, de uma forma que até
então eu nunca tinha chorado. O rasgo no meu peito ficou ainda maior e o
sangue pareceu que ia jorrar.
— Dói ainda ter carinho por eles dois apesar de tudo — meu tom era
baixo, machucado, minhas palavras eram contraditórias, mas eram reais. — É
cruel sentir a falta deles, querer que eles estivessem aqui, desejar que eles
ainda estivessem vivos. Dói bastante saber que o amor que eu sinto pelos dois
ainda existe, amor que deveria sentir por outras pessoas, pelos meus pais de
verdade.
Vi compaixão no olhar de Grant antes que ele voltasse a me abraçar.
Chorando, me aferrei ao meu irmão com força, só diminuindo a intensidade
do meu abraço quando escutei um gemido de dor.
— O que será de mim agora, Grant? Tudo me foi roubado. Meu
passado é falso, até meu nome é falso, minha vida sempre foi uma farsa. —
Me senti desesperado. Eu tinha uma identidade agora, mas eu podia voltar no
tempo e ser o Duncan?
— Pode ter tido a sua vida e as memórias roubadas, mas você tem um
presente e um futuro. Não estará sozinho para descobrir o novo você, ou se
quiser continuar a ser o Ian.
Solidão.
Quando perdi meus pais e me mudei da Inglaterra para a Escócia em
busca da minha identidade, das minhas verdades, me senti mais sozinho do
que nunca.
Aquele homem, o meu irmão, que me fitava com o amor que ele sentia
pelo menino que fui outrora, me oferecia uma âncora para que o meu barco
não se afundasse ainda mais, mas a verdade era que Grant não era a primeira
pessoa que me ofereceu algo para me segurar.
Ontem, mesmo que tenha despertado o homem dentro de mim, me
deixando tentado a esquecer por uns instantes meus medos fazendo sexo,
algo que nunca fiz antes e que parecia injusto para com ela, mesmo sentindo
que o corpo dela era afetado pelo meu, Ailie tinha sido o meu porto-seguro, o
meu acalento, uma tábua de salvação que eu não hesitei em me segurar. Ela
tinha me acolhido, me tocado e me abraçado, transmitindo a ternura que
havia nela, me confirmando que seu calor não era apenas uma impressão.
Talvez a esperança pudesse não curar as feridas, mas o gesto de amizade
havia suturado algumas.
E também havia Molly. A pequena e doce menininha que me
presenteava com vários sorrisos inocentes, toques no meu rosto e risadas que
enchiam o meu peito de leveza e de coisas boas.
— Você tem um irmão que te amará, te apoiará, sempre — Grant
continuou.
— E se não nos dermos bem? — Era uma pergunta honesta que vinha
com uma pontada de medo.
— Eu nunca vou desistir de você, Ian ou Duncan, não importa. Sempre
vou lutar para sermos os melhores amigos do mundo.
— Estou vendo… — Abri um sorriso com a convicção presente não só
no tom de voz, mas nos olhos de Grant. Era tanta, que eu comecei a acreditar
que não havia outra opção a não ser sermos amigos.
— Nós dois já tivemos muitas incertezas, muitas dores, muitas perdas.
Tudo o que não for felicidade, pode ficar para trás.
— É sempre tão otimista assim, Grant? — Me senti divertido, já que,
inconscientemente, estava sendo eu mesmo com o meu irmão.
— Estou convivendo muito com o meu sogro. Max sempre tem essas
frases filosóficas prontas para dizer em um momento oportuno — brincou.
— Posso ver — disse.
— Ele é um bom homem, apesar das ameaças de me enfiar uma bala
no peito.
Arqueei a sobrancelha para ele, me sentindo assombrado.
— Merie sempre será a menininha do papai, assim como a Claire será a
minha, coisa de pai — se justificou.
— De um exagerado, talvez — zombei.
— Verá que não é exagero quando tiver as suas filhas — grunhiu.
— Continuarei achando que é, com certeza — provoquei, não muito
certo disso, afinal, demoraria alguns anos até eu ter uma filha, se é que eu iria
ter uma menina.
Quando Grant riu, acabei gargalhando também.
— Vamos entrar? — Vi Grant pegar as muletas que ele estava usando
para se locomover, já que a perna dele estava quebrada. — Tenho que
apresentá-lo a algumas pessoas.
— Você já me apresentou à sua família, Grant.
— Não apresentei o meu irmão — sussurrou, emocionado.
— Então vamos, mano. — Sorri para ele e Grant retribuiu, antes de
apoiar o peso nas muletas.
Coloquei as mãos nos bolsos das calças e o segui para dentro da casa.
— Grant? — A mulher alta, de olhos azuis, perguntou ansiosa.
— Sim. — Grant murmurou.
Merie ficou parada por alguns segundos, com lágrimas escorrendo
pelas bochechas, antes de se levantar de súbito e ir ao encontro dele.
Claire, a filha de Grant, deu um gritinho alegre e eu acabei sorrindo ao
ver a menininha jogar um brinquedo no chão.
— Quero apresentar a vocês uma pessoa — Grant murmurou.
— Quem? — Escutei a voz do filho dele.
— O Ian. — Meu irmão disse em um tom repleto de amor.
— Mas você já apresentou o Ian pra gente — o menino disse,
parecendo meio surpreso ao se erguer. — Ele é aquele seu amigo que é
parecido com você, não é?
Craig me lançou um olhar, e eu acabei sorrindo.
Errado, ele não estava.
Assim que eu tinha chegado à mansão, ele perguntou quem eu era, e
Grant disse que eu era um amigo.
Me encarou por alguns segundos, antes de se voltar para o pai com o
cenho franzido.
— Tá ficando lelé, papai? — O menino disse em um tom engraçado.
Gargalhamos, fazendo com que Claire desse um gritinho, começando a
correr pela sala.
— Não filho, não estou. — Negou com a cabeça. — O Ian não é só
meu amigo, ele é o meu irmão.
— Irmão? — A expressão do menino era pura confusão.
— Sim, ele é meu irmão, portanto, é seu tio e da Claire.
— É? — perguntou, surpreso.
— Sim, sou seu tio — murmurei.
Senti uma nova onda de emoção me atingir, e eu tive que controlar
minhas lágrimas.
Tio. Eu tinha não apenas um irmão, mas agora eu tinha duas crianças
lindas como sobrinhos, e eu não tinha dúvidas de que iria amá-los com o
tempo. Não tinha mentido quando eu disse que gostava bastante de crianças,
apesar de eu nunca ter tido muito contato com elas, mas estava pronto para
brincar com meus sobrinhos, pronto para mimá-los e fazer o meu papel de
tio.
— Legal, não? — completei.
Minha sobrinha deu um gritinho, entregando um bloco para mim.
Me coloquei sobre os calcanhares.
— Obrigado — murmurei para Claire, pegando o brinquedo da
mãozinha dela.
— O mais legal é que ele é bombeiro. — Grant acrescentou.
— Verdade, papai?
— Sim!
— Maneiro. — Craig se voltou para mim. — Você já entrou em uma
casa pegando fogo?
Abri um sorriso para ele.
— Algumas vezes.
— E em uma escola?
— Ainda não, Craig.
Pareceu um pouco desapontado com aquilo, antes de voltar a soar
animado:
— E em um shopping?
— Não — respondi, tentando alternar a minha atenção entre o menino
curioso e a bebê que, dando gritinhos alegres, brincava de pegar o bloquinho
da minha mão e me devolver. — Além deles verificarem todos os pontos que
podem resultar em um incêndio ou outro acidente, shoppings costumam ter
um sistema contra incêndio bem eficiente.
Meu sobrinho me olhou de forma analítica, parecendo pensativo, antes
de questionar:
— Por quê?
— Para evitar que as pessoas se firam ou até mesmo percam a vida.
Sabia que os bombeiros trabalham mais com a prevenção de acidentes? —
falei em tom de confidência.
— Mesmo?
Claire continuava brincando comigo e, quando estendeu os dedinhos na
direção do brinquedo, ouvi a risada dela de felicidade por conseguir pegá-lo
da minha mão.
Me sentei no chão para conversar com ele e continuei a usar aquele
mesmo tom.
— Quer saber como é?
— Quero! — Meu sobrinho pareceu animado.
— Então, sente aqui ao meu lado, Craig, porque o que eu vou falar é
muito importante — pedi, dando tapinhas no chão, o que atraiu a atenção de
Claire, que parou de chacoalhar o brinquedo e me encarou com os olhos
arregalados.
Mais do que depressa, o menininho se sentou ao meu lado e eu
comecei a minha explicação, fazendo pausas para brincar com a bebê antes
de responder às perguntas do menino para lá de curioso.
Praticamente me esqueci de tudo enquanto interagia com as crianças,
mas, em algum momento, eu olhei na direção do sofá onde Grant estava
sentado, ao lado de Merie. Não foi a visão das mãos que se acariciavam e que
revelavam a cumplicidade do casal que me chamou a atenção, mas, sim, a
expressão no rosto do meu irmão, que mostrava felicidade, carinho e
completude.
Me senti contente por aquele homem, ainda um quase desconhecido
para mim, ter encontrado o seu final feliz. E fiquei muito mais eufórico ao
pensar que era só mais um dos vários sentimentos fraternais que eu teria pelo
meu irmão. Torci, fortemente, para que essas emoções um dia se
transformassem em amor.
Capítulo onze
— Seu bombeiro já está esperando por você — Jane falou em um tom
malicioso, que me soou alto demais, mesmo sendo praticamente um sussurro,
e eu quase deixei a xícara que eu recolhia da mesa escapar dos meus dedos.
— Jane! — Arfei com indignação, me virando para a garota, morta de
vergonha.
— Que foi?
— Eu já disse para parar de falar assim — ralhei, sentindo a minha
irritação vir à tona.
— Assim como? — Se fez de inocente.
Suspirei fundo, pedindo paciência aos céus, enquanto terminava de
empilhar as louças sujas na minha bandeja.
— Sabe muito bem a que me refiro…
— Só disse que o seu bombeiro está te esperando! — Deu de ombros.
— Ian não é o meu bombeiro, Jane! Já te disse isso centenas de vezes!
— retruquei, controlando o tom da minha voz para não gritar e fazer com que
todos do salão olhassem para mim, já que eu ficava mais irritada a cada
instante.
Jane era uma garota legal, mas isso não me impedia de querer esganá-
la em alguns momentos.
— Não sei por que você fica contando mentiras, Ailie, todo mundo está
vendo vocês andando juntos.
— Já expliquei o porquê, agora, se você não quer entender, o problema
é seu — disse com acidez e, ignorando-a, peguei a bandeja, equilibrei as
coisas em cima dela e fui em direção à cozinha do café.
— O pedido da mesa cinco está pronto — o barista falou comigo assim
que me aproximei do balcão e dispus as louças sujas.
— Obrigada!
Abri um sorriso para o funcionário e, com agilidade, peguei a bandeja
com o pedido. O aroma do chocolate quente com whisky invadiu as minhas
narinas, o que abrandou instantaneamente o meu humor.
Enquanto caminhava em direção à mesa, fiz de tudo para não olhar na
direção de Ian, mas foi impossível. O dia inteiro estava me sentindo
angustiada para saber o resultado do exame de DNA. Sei que ele não tinha a
obrigação de me dizer nada, mas eu havia esperado receber pelo menos uma
mensagem de texto com a notícia do resultado.
Eu pedi muito aos céus para que ele não sofresse mais do que já tinha
sofrido. Ser sequestrado quando pequeno, ser vítima de violência psicológica
— eu não tinha dúvidas de que ele tinha sofrido aquilo — ter que lidar com o
luto e com tantas outras emoções, já era sofrimento o suficiente, ele nem
precisava verbalizar, mas bastou um rápido olhar em sua direção para que eu
sentisse a pressão da angústia se dissipar no meu peito.
O tal de Grant era o irmão dele. Sua expressão leve confirmava isso.
Sorri para ele, lutando contra as minhas lágrimas de emoção e a
vontade de ir correndo até lá para o abraçar, compartilhando da felicidade
dele. Não podia fazer isso, estava no meu local de trabalho, tinha que me
controlar. Mantendo o meu sorriso, me forcei a caminhar normalmente até
chegar a mesa cinco e `entregar o que haviam pedido.
— Desejam algo mais, senhoras? — perguntei, colocando a taça com a
bebida quente em frente a uma das mulheres.
— Um cranachan[3] e uns biscoitinhos, por favor — uma delas pediu.
— Claro, madam — respondi, enfiando a bandeja debaixo do braço,
pegando o bloquinho para anotar. — Algo mais?
— Só isso.
— Um momento, por favor, já trarei — fiz uma vênia para as duas,
antes de me afastar e ir atender outro cliente que fez um gesto para me
chamar.
Quase uma hora depois, após atender várias mesas, anotando pedidos e
servindo cafés e doces, trocando alguns olhares com Ian, lutando para
controlar as sensações que ele produzia em mim, já que os olhos verdes
escuros não me deixaram um minuto sequer, finalmente o meu horário de
trabalho havia acabado.
Bati o ponto, peguei minha bolsa e, após me despedir de Jane, que até
então eu estava dando um pouco de gelo pelo que havia me dito mais cedo, e
dos outros colegas, caminhei pelo salão e fui em direção ao lugar onde Ian
estava sentado.
Embora não fosse algo inesperado, já que Ian sempre fazia a mesma
coisa todos os dias que me buscava no trabalho, meu coração disparou
quando ele, ao me ver chegar perto de sua mesa, se levantou e abriu um
sorriso bonito. Meus lábios automaticamente se curvaram para cima em
retribuição. Não me importava se a reação do meu corpo fosse exagerada por
um simples gesto, não quando havia emoções mais viscerais e importantes
envolvidas. No entanto, hoje não era sobre mim que queria falar...
— Não sabe como estou… — Tentei dizer o quanto estava feliz por
ele, mas as palavras morreram em meus lábios no momento em que, me
surpreendendo de verdade, Ian me envolveu em um abraço, parecendo não se
importar com o fato de estarmos na frente de várias pessoas bem no meio do
salão do café.
— Grant é o meu irmão, Ailie — me contou com uma voz rouca.
Senti as minhas pernas bambearem com a emoção que havia naquele
abraço, que, diferente dos que eu havia dado nele na noite passada, era
repleto de alívio e felicidade.
— Eu sei, Ian — murmurei depois de uns instantes, deslizando minha
palma pelas costas dele.
— E como soube? — O abraço dele se tornou mais forte.
— No momento em que eu olhei para você e te vi tão sereno —
respondi. — Não sabe o quanto estou feliz por você e por esse homem terem
terminado sua busca.
— Eu posso sentir que você está realmente feliz por nós, Ailie… —
murmurou contra o meu ouvido.
Abri e fechei a boca para dizer algo, mas não consegui.
Por mais que eu tentasse me controlar, minha emoção foi mais forte do
que a minha vontade. Senti meus pelos se arrepiarem enquanto um leve
tremor percorria o meu corpo e um suspiro suave escapava pelos meus lábios.
Minha pele ardeu, não de desejo, mas de vergonha.
Isso fez com que baixasse meus braços e desse um passinho para trás,
interrompendo o contato, me sentindo bastante sem graça por abraçá-lo
daquela forma, e pior: no meu local de trabalho!
Os olhos dele me mostraram que ficou contrariado com o meu
afastamento. Ele puxou o ar com força antes de o soltar devagar.
— Obrigado, Ailie.
— Não precisa me agradecer, Ian, não por isso. — Pus uma mecha de
cabelo atrás da orelha, ainda mais constrangida, porque ele continuava a me
encarar daquela forma intensa.
— Claro que preciso. Você não é obrigada a torcer por mim e pelo meu
irmão, muito menos ficar feliz por nós, mas está aí claramente emocionada.
— Os lábios bem-feitos se curvaram em um sorriso que fez meu coração
disparar.
Retribui o sorriso dele antes de comentar:
— É isso o que amigos fazem, torcem pela felicidade do outro.
— Amigos… — Várias emoções cruzaram as feições dele.
Um nó se formou na minha garganta ao pensar que não era recíproco
para ele o sentimento de amizade que eu pensava que estávamos
desenvolvendo, por mais que eu estivesse levando tudo para um outro lado.
— Somos, não somos? — Meu tom mostrava minha insegurança.
— Somos.
Alívio banhou as minhas veias com a confirmação.
— Vamos buscar a Molly? — Pigarreei quando nós dois ficamos nos
encarando em silêncio, cada um parecendo digerir a ideia de que éramos
amigos.
— Claro. Primeiro as damas. — Voltou a sorrir para mim daquela
forma avassaladora e fez um gesto bem espalhafatoso.
Dei uma risadinha antes de me virar e deixar o café, Ian vindo logo
atrás de mim. Quando estávamos caminhando lado a lado, num silêncio
confortável pelo sentimento de amizade, não hesitei em puxar assunto,
desejando que ele compartilhasse mais detalhes de como foi a reação dele e a
do irmão ao receberem a notícia.
Não deveria ter me surpreendido quando comecei a chorar,
emocionada pelo reencontro dos dois irmãos. Estava feliz por Ian ter a
esperança de forjar laços inquebráveis com Grant e também com os filhos
dele.
Pedi fortemente para que o destino fosse ainda mais bondoso para com
ele e lhe concedesse mais uma graça.
Capítulo doze
— Você está com pressa para chegar em casa, Ian? — Ailie perguntou
e eu desviei a minha atenção de Molly, que dava vários tapinhas no meu
rosto, e olhei para ela com o canto do olho.
— Quer passar em algum lugar?
Molly deu um gritinho.
— Também quer, docinho? — brinquei com a bebê, deixando um
beijinho na mãozinha dela.
— Só se não estiver muito cansado. — Ailie fez uma pausa, antes de
dar um sorriso amarelo. — Como sou tola, claro que você deve estar, depois
de cobrir o turno de um colega.
— Não como você imagina, Ailie.
O cenho dela se franziu suavemente.
— Não é um super-herói.
— Não.
— Deixe para lá.
— Onde você quer ir?
— Realmente…
— Consegui cochilar nos meus turnos de descanso, Ailie.
— Isso não supre uma boa noite de sono!
— Estou acostumado a dormir pouco, e duvido que tão cedo irei
conseguir dormir… — fiz uma careta com a teimosia dela.
— Por quê? — Senti os olhos azuis dela pousados sobre mim.
— Pensamentos, perguntas…Inseguranças, medos... — confessei em
um tom baixo.
Aqueles sentimentos vinham me consumindo nos últimos dias depois
do torpor da felicidade de ter recebido a confirmação que era irmão de Grant
ter evaporado um pouco. Talvez não devesse continuar a levar meus
problemas para Ailie, mas desde que ela tinha me dito que éramos amigos,
me agarrei a isso. Por mais que eu queira conversar com Grant a respeito, eu
estava inseguro.
— Medos? — sussurrou.
— Bizarro, não?
— É natural.
— É asfixiante.
— Posso imaginar, Ian — a compaixão no seu tom de voz evocou a
lembrança dos vários abraços que eu tinha dado nela, e foi tão forte que eu
quase pude sentir o calor do seu corpo.
Queria dizer que a recordação ficou apenas no campo da fraterno, mas
o último abraço que dei nela, celebrando minha descoberta, não me
despertava nenhum sentimento do tipo.
Sem o peso do medo, eu fiquei muito mais ciente de cada uma das
curvas suaves dela; da forma com que os seios pequenos haviam se achatado
contra o meu peito, me provocando; do encaixe mais do que perfeito dos
nossos corpos que prometiam prazer um ao outro.
Eu quis beijá-la como uma besta faminta. Queria compartilhar por
meio do beijo a minha euforia, da mesma forma que achava que meu irmão
deveria ter beijado a mulher dele quando ficaram a sós, mas Ailie não era
minha mulher. Mesmo sabendo que ela nos considerava apenas bons amigos,
isso não me impediu de ter estado bem próximo de beijá-la. A única coisa
que me impediu foi estarmos no trabalho dela, já que o beijo não seria nem
um pouco casto e, sem dúvidas, me faria perder o controle, levando-me a
uma excitação tão forte a ponto de me deixar rijo.
Tinha que agradecer por ter conseguido me conter, mas ainda me
ressentia, mesmo sabendo que era o melhor para nós dois.
Droga! Ainda tinha tantos ses.
Um gritinho e o tapinha que recebi de Molly no meu rosto me
trouxeram de volta ao presente.
Sorri para a bebê, passando-a para o meu outro braço, arrancando uma
risada dela.
— Onde você quer ir? — Voltei-me para Ailie.
— Não é urgente.
— Ailie… — adverti.
— Queria passar no supermercado para comprar alguns ingredientes de
uma torta que estou com vontade de comer. Não é nada demais.
— Não me parece ser nada demais. Você está com vontade!
— Vontades passam, Ian.
Semicerrei os olhos.
— Torta de quê?
— De cordeiro. A massa é crocante e dissolve na boca.
— Hum. Parece bom.
— Bem-feita, é dos deuses. Nunca comeu torta de carne, Ian?
— Minha mãe sempre fazia uma com batatas — assim que as palavras
saíram da minha boca, me ressenti um pouco.
Mãe. Como era doloroso saber que a mulher que eu sempre considerei
como mãe havia escondido, com maestria, sua face perversa, a de alguém
capaz de tomar uma criança de outra família e agir como uma mãe carinhosa
e protetora, como se não tivesse feito nada de errado.
Droga!
Não deveria chamá-la mais de mãe!
— Essa torta inglesa que você conhece nem chega aos pés de uma
escocesa! — Ailie disse em um tom divertido, como se sentisse meu
desconforto.
— Será? — provoquei.
Ailie fez uma careta.
— Claro! — grunhiu.
Dei uma risada alta e ri ainda mais quando Molly emitiu uma
gargalhada infantil enquanto dava vários gritinhos.
— Só vou saber se provar — joguei no ar a ideia.
— Isso é um autoconvite? — ela brincou.
— Estou convidado então? — retruquei.
Ficou em silêncio, como se pensasse, e a minha expectativa pelo sim
aumentou. Eu não podia saber qual era o gosto da tal torta, mas eu sentia a
minha boca salivar por um pedaço dela.
Na verdade, sabia que não era apenas pela comida que estava tão
ansioso, mas também por poder ficar um pouco mais com a bebê, por
conversar com Ailie e desabafar as minhas inseguranças, enfim, compartilhar
com ela um momento tranquilo e leve, que me faria esquecer dos meus
medos. Eu precisava daquilo.
Ainda que eu tivesse que me controlar para não a beijar, eu necessitava
de tudo o mais.
— Por que não, Ian? Mas vou avisando que demora um pouco para
ficar pronta! — falou, os lábios se curvando com diversão.
— Eu não tenho pressa, apesar de que estou ficando com fome —
murmurei, me sentindo aliviado por poder passar mais um tempo com elas.
— Mas posso comprar algumas coisas para beliscar além dos ingredientes da
torta para aguentar a espera.
— Não precisa comprar nada, Ian. — Franziu o cenho para mim.
— Claro que preciso — retruquei.
— Não é necessário.
— Sem discussão, não é, Molly? — Balancei a bebê no meu colo. A
pequena deu uma risadinha.
Escutei um bufar.
— Deveria parar de fazer isso, Ian.
— O quê? — Fingi inocência.
— De perguntar coisas para Molly e fazê-la concordar com você!
Porque ela sempre dá a impressão que te apoia!
— Outra vez com ciúmes, Ailie? — provoquei-a.
— Só estou apontando a conveniência disso. E não adianta tentar me
convencer do contrário, eu não acho justo você pagar os ingredientes da torta
que eu vou fazer.
— Se eu pretendo comer, sim.
— Claro que não.
— Fará o mais difícil, que é cozinhar. E Molly concorda comigo, não é
doçura? — Só para provocar Ailie, voltei a balançar a bebê, que emitiu um
gritinho. — Viu?
— Isso não vale.
— Vamos? Realmente estou querendo saber se essa tal torta é melhor
do que a inglesa! — brinquei.
Quando Ailie fez uma careta para mim, voltei a rir, o que arrancou um
som delicioso da bebê.
Minha risada que se tornou mais alta ao ouvir o resmungo da mulher.
Aquela noite, sem dúvidas, prometia.
Capítulo treze
Peguei uma bolinha de massa e, colocando-a sobre o balcão de
mármore, passei o rolo sobre ela, esticando-a, até que ficasse com uma
espessura próxima de cinco milímetros.
Ajeitei-a sobre a forma e, antes que eu repetisse o mesmo processo,
olhei para onde Ian estava sentado, brincando com Molly, que mais parecia
um pequeno furacão de tanta energia.
Outro suspiro me deixou ao escutar as sílabas desconexas de Molly,
mas que eram repletas de alegria ao ficar de barriga para baixo, balançando
os braços e as perninhas.
Poderia contar que ao menos uns vinte suspiros me deixaram na última
hora. Era meio ridículo eu ficar suspirando tanto como uma boba apaixonada,
mas, ao olhar para a brincadeira interminável, eu só tinha uma única
conclusão: estava mais do que encantada por vê-los juntos.
Era doce. Ian era incrivelmente terno com ela.
Fofo.
Protetor.
Paciente em incentivá-la a engatinhar.
Ian agia como um pai, como Noah deveria ser para Molly, mas nunca
seria.
Coloquei de lado o pensamento que me levaria a uma melancolia
desnecessária e me obriguei a continuar a fazer as tartes. Sentir o cheiro da
carne de cordeiro temperada com várias ervas, só me fazia querer terminar o
mais rápido possível para poder dar uma mordida grande nela.
— Parabéns, docinho! — Ian disse em um tom de orgulho quando eu
estava começando a colocar as tampas das tartes.
Olhei na direção deles e vi a menina com as perninhas apoiadas no
chão, os bracinhos esticados, movendo o tronco para frente e para trás,
ensaiando o movimento de engatinhar.
Molly deu um grito e tentou esticar um dos braços para tocar Ian com
um movimento abrupto, mas acabou se desequilibrando, o rostinho só não
bateu no chão por causa da agilidade do bombeiro, que a segurou firme.
— Foi só um susto, querida — Ian murmurou em um tom calmo
quando a bebê começou a chorar forte.
Foi instintivo para mim largar aquilo que eu fazia para ir na direção de
Molly, querendo oferecer conforto, mas antes que eu pudesse fazer isso, Ian a
pegou no colo e a trouxe em direção ao peito.
— Não precisa chorar, você só se assustou. Você estava fazendo tudo
direitinho. — Continuou conversando com Molly, enquanto acariciava as
costas dela.
Continuou a chorar alto e eu vi o rosto de Ian ficar aflito por não
conseguir fazê-la parar de chorar.
Ian me olhou, pedindo ajuda de forma silenciosa.
— É só cansaço por ter passado o dia todo brincando e está quase na
hora dela dormir — expliquei em meio ao choro.
— Ah… — Pareceu decepcionado.
— Pode ser fralda também! Acho que é melhor conferir antes de eu
preparar a fórmula dela.
— Okay!
— Você pode tampar as tortinhas com um pano para mim?
— Sim.
— Obrigada. — Abri um sorriso e, sem que eu pedisse, ele me
estendeu Molly.
Me curvei para pegar a menininha agitada e foi automático deixar um
beijo no rosto úmido e aninhá-la contra o meu peito.
— Está tudo bem, meu docinho — falei em um tom calmo, me
dirigindo em direção ao quarto dela, enquanto a bebê me dava pequenos
soquinhos. — A titia vai verificar essa fralda agora! Sei que você não gosta
de ficar suja, já vamos resolver isso!
Deitando-a sobre o trocador, vi o rostinho avermelhado molhado pelas
lágrimas. Com destreza, comecei a abrir os botões do macacãozinho e
brinquei com a barriguinha da pequena, ganhando um arregalar de olhos.
— Que bagunça você fez, docinho! — Fiz uma cara engraçada para a
bebê ao abrir a fralda, descobrindo que estava suja, tentando atrair a atenção
de Molly, cujo choro havia diminuído consideravelmente. — Vamos deixar
esse bumbum limpinho? Vamos?
Brinquei com ela mais um pouco e segurei seus tornozelos para poder
levantá-la, para tirar a fralda suja.
— Já está bem melhor, não?
A resposta dela foi tentar rolar para pegar o tubo da pomada contra
assaduras.
— Menina sapeca! — ralhei com ela, impedindo-a de pegar o produto.
Entre brincadeiras, caretas e barulhos engraçados, dei atenção a cada
uma das dobrinhas sujas, fazendo todo o passo a passo para deixá-la
limpinha.
— Problema resolvido! — falei em um tom satisfeito ao terminar de
abotoar o macacão que ela usava.
Molly deu uma risadinha e eu abri um sorriso, antes de segurá-la nos
braços e ir jogar a fralda e os lencinhos sujos no lixo.
— Oh! — Tomei um susto ao ver Ian encostado na porta. Não podia
dizer que estava esperando que ele tivesse me seguido para me observar
trocando a fralda de Molly.
— Me desculpe, Ailie, não deveria ter sido tão invasivo.— pareceu
sem graça e estar um pouco tenso.
— Não por isso! É só uma fralda, Ian.
— Mesmo assim…
— Relaxa. Você não cometeu nenhum crime.
— Bem…
— Não sei o quanto viu, mas seria bom observar como se faz, afinal,
não é você que terá seis filhos, bombeiro? — o provoquei, desejando tirar o
desconforto que ele parecia sentir.
— Algo do tipo! — Os lábios dele se curvaram com diversão.
— Observar como se faz é o primeiro passo! — Pisquei com um olho
só para Ian, que jogou a cabeça para trás e riu alto.
No entanto, a risada dele morreu e virou chateação quando Molly mais
uma vez começou a chorar alto.
Suspirei.
Definitivamente, estava mais do que na hora de preparar a mamadeira
dela e colocá-la para dormir.
Capítulo quatorze
Lancei um olhar para Ian, que estava parado ao meu lado.
O rosto lindo de linhas fortes estava marcado por várias sombras,
afinal, apenas um abajur lançava uma luz fraca no cômodo, tinha lido em
algum lugar que isso acalmava bebês, mas, mesmo assim, pude ver a ternura
no semblante dele ao olhar para o berço onde Molly agora dormia
tranquilamente.
Me obriguei a engolir um suspiro não só para não correr o risco de
acordar Molly, mas também para que eu não expusesse meus sentimentos ao
vê-lo com aquela expressão terna no rosto, nem o quanto isso me deixava
com as pernas bambas.
Quando voltei a olhar para a bebezinha, senti os dedos de Ian
procurando pela minha mão. Não ousei encará-lo quando entrelacei meus
dedos aos dele.
O calor da pele dele contra a minha fez com que de imediato meu
coração batesse mais rápido, e eu tive a impressão de que o som dele poderia
rivalizar com os emitidos por um tambor.
O aperto de mão era confortável e desconfortável ao mesmo tempo.
Poderia parecer algo corriqueiro e sem importância, mas era algo bastante
íntimo. Impossível de não se conferir significados inexistentes ao gesto e isso
era perigoso.
Apesar do carinho que ele tinha pela menina, não deveria confundir os
papéis. Ian é protetor e está encantado com ela. Não estávamos juntos
naquilo.
Ele era um amigo, e só, não um companheiro com quem dividir o peso
da responsabilidade de criara uma criança.
Não iria me iludir, e o primeiro passo a dar era afastar a minha mão da
dele. Foi difícil fazer isso, mais difícil do que imaginei, e eu senti a ausência
de calor no segundo em que me afastei.
Os olhos dele pareciam queimar a minha pele. Decidi, então, me pôr
em movimento para deixar o quarto.
Escutei passos suaves vindo atrás de mim e o ranger da porta sendo
fechada.
— Deixe uma fresta aberta, por favor — pedi.
Não houve resposta, mas sabia que ele iria atender meu pedido.
Rapidamente, alcancei a cozinha e, após lavar as minhas mãos, peguei
a massa na geladeira e me concentrei no preparo das tampas das tortinhas
para levá-las para o forno.
— Ela é sempre tão agitada na hora de ir dormir? — Ian puxou
assunto.
— Molly é bem tranquila na maioria das vezes… — falei, vendo-o
passar pelo balcão e parar a alguns centímetros de distância de mim.
Os pelos da minha nuca se eriçaram com o arrepio que percorreu todos
os meus membros com a proximidade. Torci para não ficar tão corada.
Foquei em cobrir uma das tortas, tentando disfarçar.
— Então eu fui o causador da agitação dela de hoje… — Pareceu
culpado.
— Não se preocupe com isso. Apesar de Molly ser bem calminha, há
dias que ela dá mais trabalho para dormir. Bebês são assim! Não precisa se
martirizar, Ian. De verdade.
— Isso é mais uma lição para a minha formação de pai? — soou
jocoso.
— Digamos que sim. Não dá para se culpar por tudo, ou você irá
acabar surtando.
Deu uma risada antes do silêncio cair sobre nós.
Voltei a dar atenção as tartes. Confesso que assistir Ian me observando
trabalhar, ao mesmo tempo que me causava certo tipo de tensão, me parecia
natural.
— O cordeiro está com uma cara ótima. Posso experimentar? — pediu.
— Deve estar frio. — Virei-me para ele, de cenho franzido. — Quer
que eu esquente?
— Não precisa ter esse trabalho. Quero só experimentar mesmo.
— Tudo bem. — Fui pegar uma colher na gaveta e estendi o talher para
ele. — Espero que goste!
Enfiou a colher com gosto na panela e a levou a boca.
— Caramba! Essas tortas prometem!
Abri um sorriso, sentindo uma onda de calor no meu baixo-ventre.
— Então me deixe correr com essas tampas para colocá-las logo no
forno! — Minha voz soou mais animada do que deveria.
— Não tenho pressa… — disse em um tom baixo e rouco.
Olhei surpresa para Ian.
— Não?
Balançou a cabeça, antes de confirmar:
— Não.
Outro arrepio percorreu minha coluna, mas tentei ignorar.
— Confesso que eu estou — brinquei.
— Já está louca para se ver livre de mim, vizinha? — devolveu.
— Sabe que não.
— Hum... — Fingiu que não acreditava.
Revirei os olhos e vi o canto dos lábios dele se curvando num sorriso
com diversão, antes que ele desse uma risada baixa.
Tampei a última tarte com a massa e fiz um buraquinho no topo de
cada uma delas para deixar que o ar quente saísse.
— Agora é esperar quarenta e cinco minutos — falei assim que
coloquei as assadeiras no forno, regulei a temperatura para que a massa
ficasse no ponto perfeito e assasse de forma uniforme, e acionei o timer.
— Para quem não quer me dispensar, está até contando o tempo —
brincou.
— Para ficarem boas, não podem ficar um minuto a mais! —
resmunguei, como uma criança pequena. —
— Sei! — Mostrou descrença, mas era nítido que ele sufocava uma
risada.
— Você vai ver que não é exagero!
Pisquei com um olho só e ele voltou a rir. Acabei gargalhando também.
— Você vai querer purê de batata? — questionei ao começar a
organizar a cozinha. — Confesso que não costumo comer essa tortinha com
acompanhamento.
— Para mim, só a torta está ótimo.
— Tem certeza? — quis confirmar.
— Tenho.
— Okay.
Fui, então, pegar uma lata de refrigerante para mim e estendi outra para
ele. Resolvi me acomodar no sofá da sala para aguardar. Ian veio se
acomodar ao meu lado.
A proximidade mexeu com cada uma das terminações nervosas do meu
corpo, que ficaram ainda mais aguçadas com o cheiro do sabonete dele, que
se infiltrou nas minhas narinas quando respirei fundo. Para disfarçar o
desconforto, bebi um longo gole do meu refrigerante.
— Como você está? — Me virei no assento para olhar para ele,
tomando a iniciativa de entrar no assunto que era bem delicado
Ele me encarou e eu pude perceber as sombras se espalhando nos olhos
verdes que até então estavam relaxados. Senti uma pontada de culpa por ter
feito a pergunta, mas disse a mim mesma que não havia momento certo e
que, se ele não quisesse dizer nada, estava tudo bem.
— Num estado emocional caótico — respondeu. Foi instintivo eu
pousar a minha mão sobre a dele, que estava apoiada sobre a coxa. Virou a
palma e acabou entrelaçando os nossos dedos.
— Por que caótico? — Dei um apertão suave, tentando transmitir
conforto. — Você estava tão contente por encontrar seu irmão biológico.
— Eu ainda estou. Nós temos conversado bastante por telefone. Depois
daquele dia que recebemos o resultado do DNA, não tivemos oportunidade
de nos encontrarmos.
— Fico feliz por estarem tentando se conhecer.
— Grant é um cara legal. Ele vem se esforçando para que sejamos
amigos, mas os dias estão corridos, afinal, ele ainda está se recuperando do
acidente, e tem seus negócios para administrar, tem que dar atenção para os
filhos e a namorada…
— Mas estão tentando refazer os laços de família, isso é bom —
completei, sorrindo de forma genuína, minha alegria chegando ao coração.
Estava bem emocionada pelos irmãos.
— É o que Grant diz, mas nem todos os irmãos são próximos, fora que
ainda é muito cedo… — Levou a lata aos lábios e tomou um gole de
refrigerante, tentando talvez mascarar a insegurança, o medo de que isso não
viesse a acontecer, mas as emoções estavam presentes no rosto e nos olhos.
— Não há garantia, mas o importante é que vocês estão se esforçando
para que isso aconteça. Eu acho que tem tudo para dar certo.
— É o que eu mais quero, Ailie. Quero amá-lo da mesma forma que
ele parece me amar.
— Eu sei que sim. — Minha voz soou embargada ao notar o anseio
dele. — Mas o que está te assustando, Ian? As coisas estão correndo bem.
Ele fez um sinal de negativa com a cabeça, chacoalhando-a tanto que
parecia um animal lutando contra uma corrente invisível.
— Antes eu me perguntava quem eu era, agora me questiono quem eu
tenho que ser.
Desespero. Caos. Medo. As sombras o tomavam. Apertei a mão dele
outra vez, um nó apertando a minha garganta.
— Quem eu devo ser, Ailie?
Ele me encarou com intensidade, esperando que eu desse uma resposta,
mas eu não tinha.
— Não posso dizer quem você deve ser…
— Talvez você devesse me chamar de Duncan, Ailie.
— É o que você quer?
Puxou o ar com força, uma, duas vezes.
— Não sei. Eu não sei…
— Não precisa decidir agora — falei suavemente, colocando a minha
lata de refrigerante no chão, apenas para levar a minha mão agora livre ao
rosto de um amigo em sofrimento.
— Parece muito errado continuar a ser o Ian.
— Sabe que não é…
— Meu registro de nascimento e todos os documentos que tenho,
minha carteira de identidade e de motorista, tudo é falso!
— Não é bem assim…
— Como meus pais conseguiram uma certidão? Como eles
conseguiram fazer um sequestro se tornar algo legal?
Fiquei em silêncio. Só consegui ter um único palpite: suborno.
— John e Katriona me enganaram por anos; vivi uma mentira! — Os
olhos dele começaram a ficar vermelhos, como se lutasse contra as lágrimas.
Meu peito se apertou por causa de Ian. — Sinto que, se continuar me
chamando Ian, alguém que nunca deveria ter existido, eu estou traindo minha
família de verdade.
— Não é nenhuma traição. — Deslizei a minha palma pela bochecha
dele.
— É cômodo demais para mim. Mais seguro.
— Pelo contrário, é difícil.
— Posso magoar o Grant... — Fez uma pausa. — Não quero fazê-lo
sofrer ainda mais, Ailie.
— Grant lhe disse algo sobre isso? — Fiquei um pouco preocupada.
Seria cruel da parte dele pressionar alguém tão fragilizado.
— Ele disse que me apoiará se eu quiser continuar a ser chamado de
Ian ou se escolher Duncan, mas…
— Confie nele quanto a isso, Ian — o interrompi, ciente de que talvez
eu não devesse dizer nada do tipo, afinal, não conhecia o irmão dele. —
Confie que ele abraçará sua decisão. Mesmo que ele torça para que você volte
a se chamar Duncan, acredite que, independentemente do nome, Grant só
quer o irmão, só deseja conviver com o homem que existe dentro de você. E,
não, ele não poderá rejeitar o homem que foi moldado por outras pessoas.
— Eu…
— O seu passado faz de você quem você é hoje. Você pode querer
apagá-lo, mas sabe que não pode viver o passado do menininho que foi tirado
dos pais.
— Eu sei.
— Você pode escolher outro nome, pode viver um futuro de forma
diferente, mas sua essência será a mesma… pelo menos é o que eu espero.
— Espera? — Começou a esboçar um sorriso, os olhos se iluminando.
Dei de ombros e mesmo que eu me sentisse envergonhada, continuei a
fazer carinho no rosto dele.
Permanecemos em silêncio por uns instantes, e fiquei acariciando seu
rosto e observando toda a força presente na linha do maxilar.
As pontas dos meus dedos começaram a queimar com o toque, a
respiração ficando ruidosa. Tive que me controlar para não tocar os lábios
dele com os meus dedos, em um convite que não deveria ser feito.
Baixei minha mão. Senti um reboliço no estômago ao ver a expressão
dele ficar frustrada.
Não devia me iludir achando que ele precisava do meu toque com uma
ânsia visceral.
— Sabe o que eu acho, Ian? — Forcei minha voz a sair.
— O quê?
— Que, em vez de ficar pensando em quem você deveria ser, por que
não se dá um tempo? Converse com o seu irmão, tente saber mais sobre si
mesmo por meio das lembranças que ele tem. Você poderá tomar uma
decisão mais consciente do que realmente quer.
— Deveria ter feito psicologia, Ailie…
— Sim?
— Você fala como uma.
— Não tenho estrutura emocional para isso — neguei com um gesto
—, só estou dando um conselho de amiga.
— Hm.
— Mas falar é bem mais fácil do que agir. — Me curvei para pegar a
lata de refrigerante esquecida, e dei um gole no líquido adocicado.
— Sim.
— Não sei se acabaria seguindo o meu próprio conselho se eu estivesse
no seu lugar.
— Isso é uma tentativa de me dizer que ele é muito ruim?
— Não. Mas não é a única forma de lidar com tudo.
— Parece uma forma bem sensata — disse e deu um gole na sua
bebida —, mas eu sinto uma urgência estranha de definir isso na minha vida,
que eu não consigo explicar.
— Entendo… — murmurei. — Mas falando em psicólogo, talvez fosse
bom procurar um para te ajudar a lidar com tudo.
— Eu não sei.
— Te ajudaria.
Várias emoções passaram pelos olhos dele.
Não era fácil admitir que precisava de ajuda.
Na verdade, todos nós precisamos de ajuda para lidar com as porradas
da vida.
Ele ficou em silêncio, e eu o respeitei. Quem era eu para julgá-lo?
Eu também não tinha procurado ninguém para me ajudara a lidar com
meus medos, dores e traumas, e nem havia buscado ajuda para melhorar a
minha relação comigo mesma.
— E também há meus pais biológicos nisso tudo — sussurrou.
— Eles ainda estão vivos?
— Eu acho que sim.
— Acha?
— É… — Franzi o cenho com a fala dele, confusa, e Ian acabou se
explicando em um tom meio rasgado: — Grant disse que não tem contato
com eles.
Fiquei curiosa para saber a razão e estive bem próxima de perguntar,
mas a dor nos olhos dele me impediu.
— Parece que eles se separaram, formaram novas famílias, tiveram
outros filhos… — sussurrou.
— Eles não são o primeiro casal que decidiu se separar e buscou um
novo recomeço.
— Não…
— Isso também não muda o amor que eles sentem por você, Ian.
— Aí que está. Eles me amam? — Dor, ressentimento, voltaram ao
semblante dele.
— Claro.
— Eu não sei, Ailie. — Voltou a negar com a cabeça. — Como eles
podem me amar se desistiram de me procurar?
Abri e fechei a boca sem saber o que dizer, sentindo o meu peito se
apertar por ele.
Era de se esperar que aqueles que te deram a vida procurassem um
filho perdido até o fim da vida, não?
Desistir era uma palavra forte.
Toquei o rosto de Ian novamente e o acariciei na bochecha.
Ele fechou os olhos por alguns segundos, o que me emocionou o
bastante para que meus dedos ficassem trêmulos.
Não me afastei. Me obriguei a não ser covarde.
— Eu não sei o que fazer, Ailie.
— Você quer encontrá-los?
— Sou o filho deles, não sou? — A resposta não me dizia muita coisa.
— Sim.
— Eu deveria ir atrás deles, não? Eles têm o direito de saber que eu
estou vivo!
— Verdade.
— E se eles não quiserem saber de mim? E se os dois me rejeitarem
outra vez? Droga! Eu estou com medo.
— É o seu direito conhecê-los.
— Eu não sei…
— É, sim. E você não sabe se a reação deles será negativa, Ian. Desistir
muitas vezes foi a forma que eles encontraram para lidar com a dor…
— Eu pensei nisso.
— As pessoas também mudam.
— Nem todas.
— Mais otimismo, Ian!
— Preciso, não é?
— Um pouco. — Dei mais umas batidinhas no rosto dele. — Bom,
mas é aquilo, é só um conselho. Não posso dizer que sou tão otimista com a
minha própria vida.
— Posso te entender… — começou a abrir um sorriso, mas que logo
morreu. — Eu não sei nem os nomes deles.
— Pergunte ao seu irmão. Converse com ele sobre os seus pais.
— Grant parece muito magoado com eles, e eu não quero…
Acabei tocando os lábios dele com um dedo, silenciando-o.
— Se tudo o que você disse sobre o seu irmão é verdade, ele nunca
negaria dar essa informação, você sabe disso, Ian… — Baixei minha mão.
— Eu…
— É só o medo colocando empecilhos.
— E se tiver fundamento?
— Você sempre terá uma amiga para te abraçar — brinquei, não
sabendo ao certo se isso era algum tipo de consolo para ele.
— Me parece bom… — Os lábios de Ian se curvaram e o prazer se
espalhou pelo meu abdômen sem que eu pudesse contê-lo.
Ouvir o timer do meu forno apitando me foi um alívio, já que era uma
desculpa para me controlar.
— Preparado para comer a melhor torta da sua vida? — o provoquei.
Me ergui e, com passos enérgicos, caminhei até a pequena cozinha.
— Espero que seja mesmo! — brincou.
— Será! — Peguei as luvas no armário para lidar com a forma quente.
O cheiro delicioso que já impregnava o ar tornou-se ainda mais forte, e
eu senti que salivava ao olhar a massa dourada.
A vontade de dar uma mordida grande era tanta, que eu quase peguei
uma e mordi.
Felizmente não fiz: iria queimar meus dedos e boca, estragando a
experiência.
Em minutos, eu arrumei a mesa para mim e Ian, e foi automático servir
uma das tartes para ele.
— Espero que goste, Ian — falei, sentando-me na cadeira depois de
colocar uma torta no meu prato, sentindo-me insegura, sem nenhuma razão.
— O cheiro está ótimo — ele abriu um sorriso —, e sei que o recheio
está bem gostoso!
— Hm.
Vi quando ele pegou o garfo e tirou um pedaço generoso da torta em
seu prato, levando-o à boca.
Enquanto ele provava, aguardei em uma expectativa bizarra que
provocava um rodopiar no meu estômago. Por que eu me importava tanto
com a opinião dele? Por que eu queria tanto agradá-lo? Por que eu
necessitava de um elogio? Eu tinha feito as tortinhas mais pensando em mim
e na minha vontade, do que nele.
O pensamento fez com que eu parasse de ser boba em ficar ali
observando-o mastigar e desse uma garfada na iguaria no meu prato.
A textura aveludada da massa feita com banha de animal se dissolveu
na minha boca e o sabor do cordeiro e das especiarias explodiu em minha
língua enquanto eu mastigava.
Suspirei de prazer e assim que engoli, capturei as migalhas que haviam
ficado nos meus lábios com a ponta da língua.
Escutei um som baixo e olhei para o homem à minha frente, que
contemplava a minha boca com luxúria.
Traguei o meu próprio desejo, desviando o olhar para minha torta,
forçando-me a comer.
A massa perfeita, pareceu se tornar um bolo na minha garganta.
— Essa torta é a melhor! — Ian murmurou depois de um tempo, dando
mais uma garfada generosa na tarte.
— Eu disse! — falei ao terminar de mastigar, e me apeguei àquela
desculpa.
— Duvido que haja torta de cordeiro mais gostosa do que essa!
— Eu também duvido — o provoquei. Novamente, o prazer me
tomava, só que dessa vez, por saber que Ian havia gostado da torta que tinha
feito.
— Suas mãos fizeram mágica aqui, feiticeira — continuou.
— Bobagem. — Ruborizei.
— Me convidarei todas as vezes que você for cozinhar, Ailie. — Seus
olhos verdes brilharam, acompanhando seus lábios.
Tive sorte de não estar mastigando nada, já que acabei gargalhando
com o comentário.
— Será sempre bem-vindo, vizinho.
— Mesmo que eu não seja, eu vou vir do mesmo jeito — sussurrou,
com certa malícia.
Outra vez eu ri e Ian acabou soltando uma gargalhada também.
Trocamos uma espécie de olhar cúmplice que, ainda que não devesse, ateou-
me fagulhas.
Disse a mim mesma que não havia nenhum significado oculto além da
nossa amizade crescente enquanto mastigava a iguaria.
Era difícil me convencer disso quando nós dois estávamos tão
próximos um do outro. Quando Ian era devastadoramente lindo. O conjunto
do homem tornava quase impossível não o desejar.
— O que você gosta de fazer, Ailie? — puxou assunto.
— No dia a dia, gosto de ver filmes e séries, mas gosto mesmo é de
passear. Visitar igrejas, castelos e parques, mas faz tempo que eu não faço
isso… — falei ao terminar de mastigar.
— Por causa da Molly?
— Não sei dizer, na verdade… poderia ter resolvido a questão da
locomoção ao comprar um carrinho.
— Isso é verdade.
— Talvez eu devesse voltar a fazer esses passeios. — Mordisquei meu
lábio, pensativa, e vi que Ian acompanhou o meu gesto com interesse. Fiquei
sem graça, ao mesmo tempo que senti um calor me tomar. — Mesmo
pequena, seria bom para Molly passear um pouco. Tomar sol em um parque,
respirar o ar puro de Edimburgo, conhecer a praia.
— Hum, gostei do roteiro.
— Noah tem que deixar de ser um empecilho.
Era uma verdade. Fazia vários dias que Ian me acompanhava para ir e
voltar do trabalho. Apesar de gostar da companhia dele, sabia que eu tinha
que colocar um fim naquilo, por mais que fosse difícil fazer isso, afinal, a
presença do meu vizinho afastava meus temores.
— Ele te procurou de novo? — A voz de Ian soou bem séria e eu vi
ressentimento nele.
— Não. Eu teria te contado.
— Hum...
— Por isso mesmo que ele não deve mais nos atrapalhar…
— Me dispensando, vizinha? — Voltou com aquela ladainha.
— Sabe que não.
— Pareceu que sim.
Revirei os olhos.
— Estou convidado para o passeio?
— Vou ver e te falo.
Fez uma careta.
— Isso é crueldade!
— Sei.
— Bom que eu sempre posso me autoconvidar — soou malicioso.
— Só come a torta! — resmunguei.
Ian gargalhou, antes de me obedecer, se servindo de duas porções.
Sorri.
— E o que você faz no seu tempo livre, bombeiro?
— Vejo futebol.
— Urgh!
— Não é tão ruim assim. Você pode se convidar para ver uma partida
comigo, vizinha! — Zombou.
— Espere sentado! — Fiz uma careta e ele riu.
Continuamos a comer, a conversar e a rir, e poderiam ter se passado
horas sem que eu percebesse.
— Quer mais? — Ofereci, começando a reunir a louça que eu havia
usado.
— Para mim, chega! — Empurrando a cadeira, tombou o corpo contra
o assento e deu tapinhas na barriga. — Estou quase explodindo!
— E eu que pensava que nesse corpo de dois metros cabia mais coisa!
— debochei.
Lancei um olhar por toda a extensão do corpo dele, o que foi um erro.
A camiseta e a calça de moletom que ele usava não escondiam a força
dos músculos dele, o poder que Ian tinha de fazer cada uma das minhas
células vibrarem.
O desejei, principalmente quando veio a lembrança da vez que ele veio
até aqui sem camisa. Dessa vez, não quis só olhá-lo, mas sim, descobrir com
a minha mão, da mesma forma que agora eu sabia que a boca era macia, já
que eu tinha roçado a ponta dos meus dedos em seus lábios.
— Comi demais — disse em um tom rouco, o que me fez olhar para o
rosto dele, cometendo um outro erro, já que eu me senti queimar com o fogo
que havia na expressão dele.
Meu pulso se acelerou.
O desejo espiralava com fúria.
Droga! O que estávamos fazendo?
— Não me importo nem um pouco em levar o restante para casa,
feiticeira — murmurou, me causando arrepios.
— Você está virando um vizinho bem abusado! — Fiz troça, tentando
furar aquela bolha insana, e voltei a lidar com as louças.
— Sou obrigado a fazer uma tentativa de conseguir mais torta. —
Fiquei aliviada e decepcionada por Ian ter me ajudado a trocar de assunto.
— Abusado!
— Consegui? — Se fez de inocente.
— Infelizmente vou dividir com você! Mas só porque eu sei que fica
muito mais gostosa amanhecida!
— Mal posso esperar! — Ele abriu um sorriso largo e me obriguei a
focar em separar as tartes enquanto me xingava mentalmente por reagir a Ian.
Enquanto ajeitava tudo, deixando minha cozinha limpa, não fiz
nenhum esforço para puxar assunto e Ian também não fez nada nesse sentido.
Ainda que não fosse intencional, o olhar dele que acompanhava cada
movimento que eu fazia não me ajudava, já que não conseguia controlar
minha pulsação acelerada.
— Como o prometido — brinquei com ele ao pousar a vasilha sobre a
mesa.
— Obrigado, Ailie.
— Não foi nada.
— Prometo que devolvo a vasilha — me provocou.
— Bom mesmo — semicerrei os olhos, fingindo que estava brava: —
Se não devolver, não haverá autoconvite que faça com que você experimente
algo que eu preparei de novo.
— Essa me assustou, Ailie!
Arqueei a sobrancelha, antes de dar de ombros.
— O que posso fazer se sou muito apegada às minhas vasilhas?
— Posso ver! — murmurou.
— Está avisado! — Continuei a fingir.
Bobos, acabamos rindo da minha brincadeira sem graça.
— Então é isso — Ian murmurou, após ficarmos nos encarando em
silêncio por uns instantes.
— Preciso descansar. Amanhã meu turno começa cedo — explicou.
— É…
Silêncio de novo.
— Então é melhor eu ir… — falou e eu tive a impressão de que Ian
estava contrariado.
— Okay. — Fiquei meio decepcionada por dentro. Acabei falando
quando ele não fez nenhum movimento para sair: — Eu te levo até a porta!
Vi certa decepção nos olhos verdes quando ele se levantou. Suspirei.
Não era eu quem estava mandando-o embora, mas sim ele quem precisava ir.
Ian pegou a vasilha que eu havia separado para ele e, em poucos
passos, nos aproximamos da entrada do meu apartamento.
— Obrigado pela comida e por me ouvir… — Ian se virou para mim
quando nos aproximamos da porta.
— Não foi nada, vizinho!
— Sabe que foi, e muito — sussurrou, me olhando fixa e intensamente.
— Para muitos pode até ser, mas não para mim.
— Você é especial, Ailie — continuou em um sussurro.
— Obrigada. — Coloquei uma mecha de cabelo atrás da orelha, sem
graça com o elogio gratuito.
— Mais do que pode imaginar…
Antes que eu pudesse retrucar e dizer que não era para tanto, Ian deu
um passo à frente.
Nossos corpos estavam tão próximos que senti vários arrepios
enquanto minha boca ficava seca e o coração disparava, principalmente
quando Ian baixou a cabeça, ficando a centímetros dos meus.
A respiração quente dele provocava minha pele; os olhos me
mantinham cativa; a expectativa me consumia.
Ian iria me beijar?
A mulher dentro de mim, que não sabia o que era ser beijada há um
ano, queria muito. Não queria outro homem. Eu desejava o beijo daquele
gigante gentil, protetor, lindo e provocante. Ansiava pelo beijo do homem
que me olhava com um desejo forte, que era apenas um reflexo daquilo que
eu sentia.
Um gemido escapou de mim no momento em que os lábios de Ian
encontraram os meus. Vários outros se seguiram quando ele continuou a
roçar a boca na minha, explorando o encaixe do nosso beijo que, de alguma
forma, intui que seria perfeito.
Nem mesmo a nossa diferença de altura importava, não quando as
bocas se moldavam com perfeição.
Minha respiração se tornou ofegante. Meus lábios formigavam.
O desejo que eu sentia com aquele suave beijinho, que produzia vários
pequenos estalos, fez a espiral da ânsia se tornar cada vez mais forte.
Logo quis que Ian intensificasse o contato, que me beijasse de verdade,
a língua deslizando contra a minha.
Como ele continuava a manter aqueles “quase” selinhos, tomei a
iniciativa e me colocando nas pontas dos pés, deslizei a minha palma pelo
pescoço dele, sentindo a tensão da musculatura firme, fazendo-o pressionar a
boca com mais firmeza contra a minha, deixando escapar um gemido gutural
que ecoava o desejo que eu via na expressão dele.
Em resposta ao som primitivo, o meu corpo ficou bambo, a tensão
começando a se formar em meu sexo, reavivando-me e trazendo à tona a
Ailie há muito esquecida.
Deslizando meus lábios sobre os de Ian, retribuí seus movimentos,
enquanto um som baixo escapava de minha garganta, repleto de necessidade.
O instinto me fez entreabrir os lábios para Ian, permitindo que minha
respiração rápida o alcançasse, enquanto meus dedos tocavam os cabelos
dele.
Seus olhos verdes brilharam, quase sorrindo para mim, e eu ouvi um
gemido abafado quando fiz carinho nos fios, tão macios ao toque,
inflamando-me.
Perdi-me no momento em que, com outro grunhido de prazer, ele
aceitou o meu convite e saqueou minha boca, a língua deslizando pela minha,
finalmente me tomando.
O encaixe, como imaginei, era perfeito.
Se era sensato ou não, beijei aquele homem como se fosse a última vez,
o que provavelmente seria, entregando-me ao calor, ao gosto, àquele beijo
inesperado e gostoso.
Gemendo em uníssono, presos na espiral de prazer, eu brincava com os
cabelos de Ian, enrolando os fios em meus dedos, colocando mais pressão em
meus lábios sobre os dele, apreciando a lentidão que ele imprimia ao beijo.
Se ele não tinha nenhuma pressa, não seria eu quem teria, embora a
urgência de mais, de ter aquele homem devorando minha boca, crescesse com
força dentro de mim.
A excitação se fazia presente em cada parte de meu ser, me queimando
com lentidão.
Eu sentia a umidade crescer no meio das minhas pernas, enquanto as
paredes de meu sexo pulsavam de excitação ainda mais ao sentir o pau dele
se avolumando com o roçar dos nossos corpos em meio ao beijo.
Meu corpo clamava pelas mãos fortes de Ian, que eu não tinha dúvidas
de que me deixariam mais afogueada do que já estava, mas, como ele não fez
o que eu queria, segurei uma mecha de cabelo dele, puxando-a de forma
selvagem, enquanto minha mão livre explorava a extensão das costas largas.
Arfando contra meus lábios, reagindo a minhas carícias, sua expressão
se tornou mais faminta, e gemi com o prazer de ter Ian provando cada canto
de minha boca.
Gememos juntos quando a língua dele voltou a encontrar a minha, me
envolvendo naquele beijo lento que me deixava sedenta, ofegante, as pernas
cada vez mais bambas.
Não pensei em mais nada, apenas deixei-me ser mulher nos braços
daquele homem.
Os estalos provocados pelo beijo tornaram-se mais intensos, os
gemidos mais altos.
Lábios e línguas, por mais que Ian tentasse controlá-los, se buscavam
com o mais puro desejo, tornando o contato cada vez mais afoito e visceral.
Senti várias pequenas explosões em meu interior quando, finalmente, a
mão que estava livre, já que ainda segurava a vasilha, passou a explorar a
lateral de meu corpo, subindo por meus quadris, e apertando de forma
possessiva minha cintura. Mordisquei um dos lábios dele, antes de voltar a
infiltrar minha língua em sua boca.
Com os olhos me mantendo refém, devorou meus lábios com fúria,
finalmente me dando aquilo que eu tanto queria. Suspirando, ele me puxou
mais de encontro a si, fazendo-me sentir a ereção cada vez mais firme contra
meu ventre, submetendo-me ainda mais ao desejo que havia entre nós.
Movendo minha boca contra a dele naquele beijo gostoso, minha
explorava seu corpo sem nenhum pudor, sentindo toda a rigidez, ainda que o
tecido da camisa dele fosse uma barreira que me impedia de sentir sua pele.
Meu gemido soou abafado pelos lábios dominadores.
Gostoso. Ian era gostoso. E a mão pesada sobre mim só me deixava
mais mole e arfante.
No entanto, de repente, para minha decepção, ainda que a palma dele
permanecesse deslizando pelas minhas costas, a língua de Ian diminuiu a
intensidade com que me beijava, até que o beijo se tornasse em uma série de
selinhos castos e agridoces, para a minha frustração.
Ele colou a testa à minha ao colocar um fim ao beijo e, pela primeira
vez, eu não consegui ler as emoções nos olhos dele que sempre me pareceram
tão claras.
Eu deveria me afastar, mas continuei a acariciar seus cabelos, ouvindo
um suspiro baixo.
— Você é muito gostosa, Ailie — falou com a voz rouca.
— Você beija bem — murmurei brincando.
Guardei para mim o sentimento de rejeição que Ian tinha me causado.
Se eu era tão gostosa assim, por que ele tinha parado de me beijar? Por
que não estávamos tirando a roupa um do outro? Quis perguntar, mas, droga,
não faria aquilo. Seria humilhante.
O pênis dele ainda estava firme contra mim, revelando que ainda havia
desejo.
Como se sentisse a minha frustração, Ian voltou a roçar os lábios nos
meus, os dedos dele alcançando minha bunda, acariciando a carne
suavemente, reavivando as chamas que ainda estavam presentes em meu
corpo.
Quase fechei os olhos, choramingando com aquelas migalhas que ele
tinha me dado, fazendo papel ridículo, mas tive forças para me impedir,
assim como obriguei meus quadris a ficarem parados, não roçando nele.
Ainda assim, cada pedaço da minha boca ardia, querendo mais. Era
muito, mas muito agridoce o que ele me fazia sentir.
— Não sou eu que beijo bem — sussurrou, subindo a mão por minhas
costas em um dedilhar que me fez arquear em um espasmo —, somos nós
juntos, feiticeira. Nós.
Tombei um pouco a cabeça para trás, interrompendo o roçar, e encarei
os olhos dele, um pouco surpresa.
Não consegui responder à afirmativa que poderia muito bem me
transformar em uma barra de chocolate derretida.
Era um pensamento bem romântico, mas eu não tinha ilusões, ainda
que a decepção fosse pungente.
Tínhamos certa química? Sim.
Um beijo era um beijo. Apesar do bom encaixe entre nós e do desejo
inflamado, não tinha passado disso: de um mero beijo, um beijo que tinha
deixado marcas em mim e que, só de pensar, me deixava fraca, excitada.
Beijo que, como só amigos, nem deveria ter acontecido.
Era um beijo com desejo, mas que foi dado em um momento de mais
pura gratidão.
O pensamento me fez baixar a mão que estava nos cabelos dele e, ao
me livrar de seu toque, dei um último selinho nos lábios dele e me afastei.
Ignorei a contrariedade que o meu vizinho parecia sentir, bem como
meu próprio desejo, que me impelia a dar um passo à frente, voltando a tocá-
lo. Pelo contrário, me forcei a ir abrir a porta.
— Tenha uma boa noite, Ian — falei depois de ficarmos nos encarando
por alguns segundos.
— Boa noite, Ailie — murmurou.
— Nos vemos amanhã? — perguntei, insegura.
Ele assentiu.
— Qualquer coisa que precisarem, é só me ligar.
— Agradeço… — Fechei um pouco a porta, deixando só uma fresta
que permitia vê-lo ainda parado no mesmo lugar.
— Devolvo a sua vasilha depois.
— Tenho certeza de que vai! — Abri um sorriso.
— Vou mesmo, Ailie — prometeu, parecendo não querer ir embora.
Eu também não queria que ele fosse, mas, naquele momento, em que o
desejo ainda se fazia presente, sabia que não era uma boa ideia. Se ele
ficasse, eu acabaria cedendo ao impulso, e Ian também.
— Boa noite e até amanhã — repeti, antes de fechar a porta de vez,
colocando uma barreira entre nós.
Apoiei as minhas costas na superfície de madeira e deixei-me
escorregar, até que estivesse sentada no chão e apoiasse minha cabeça nas
mãos.
Droga! Sabia que era o melhor para nós dois, afinal, não valia a pena
estragar a amizade que estávamos construindo por alguns beijos em um
momento de pura carência, mas meu corpo, a mulher dentro de mim e até
mesmo um pedaço da minha alma, o que era ridículo, diziam o contrário e
afirmavam que valia muito a pena me entregar ao desejo que sentíamos…
Capítulo quinze
— Não precisava ter se dado ao trabalho de vir me recepcionar na
porta, cara — falei ao travar o veículo mais por hábito do que por segurança,
já que duvidava muito que meu carro pudesse ser roubado naquele
condomínio de luxo.
— Não estou tão debilitado a ponto de não poder receber meu irmão —
Grant fez uma expressão carrancuda para mim —, e, se não se lembra, eu sou
o irmão mais velho, não você!
Não consegui sufocar uma risada com a reprimenda enquanto me
aproximava dele e o envolvia em um abraço forte. Irmão. Ainda era estranho
pensar naquele homem como meu irmão, mas, ao mesmo tempo, era um
acalento saber que eu não precisava mais ficar procurando-o em vão.
— Desculpe por vir sem avisar, Grant — falei, me afastando um pouco
do abraço para olhar para ele, me sentindo um pouco sem graça por aparecer
de supetão, cedendo a um impulso de coragem, coragem que me vinha
faltando nos últimos dias para encará-lo e também para enfrentar as inúmeras
perguntas que eu me fazia sobre mim mesmo e meu futuro.
— Fico feliz que você esteja aqui, Dun… Ian — corrigiu-se. — Você
não precisa marcar horário ou algo do tipo. É meu irmão.
— Mesmo assim, deveria ter ligado antes.
Grant balançou a cabeça em negativa.
— Você poderia estar ocupado em uma reunião, ou fazendo outra
coisa.
— Não vou discutir com você, Ian. — Grant balançou a cabeça em
negativa. — Vamos entrar?
— Sim, não é bom você ficar de pé por tanto tempo!
— Já estou cansado disso! — resmungou, fazendo uma careta, antes de
se virar desajeitadamente com a muleta e caminhar em direção à entrada.
— Posso imaginar — murmurei, seguindo-o. — Os médicos deram
uma previsão?
— Em três semanas talvez eu possa tirar o gesso…
— Não é tão ruim assim, mano!
— É um inferno! Sabe-se lá quanto tempo mais eu terei que ficar sem
poder me esforçar tanto! E provavelmente terei que fazer algumas sessões de
fisioterapia também… — Continuou a resmungar.
— Entendi.
— Eu só quero poder correr atrás dos meus filhos, levar minha mulher
para dançar…
— Vai poder fazer isso quando menos perceber — tentei animá-lo. —
O tempo passa depressa.
— Felizmente ou infelizmente passa! — Concordou, antes de apontar
para uma poltrona, enquanto se sentava na outra. — Sente-se.
Assenti, antes de tomar o assento que ficava ao lado dele, ao mesmo
tempo em que uma mulher, que reconheci ser a governanta da mansão que
meu irmão morava, entrava na sala de estar:
— Boa tarde, senhor, deseja que eu prepare um café? — Ela foi formal.
— Gosta, Ian? Ou prefere beber outra coisa? — Grant perguntou para
mim.
— Para mim um café está ótimo.
— Certo. Tem shorties, Eilidh? — Grant perguntou para a funcionária.
— Em dez minutos ficarão prontos.
— Perfeito!
— Deseja mais alguma coisa, senhor?
— Ian?
— Não é necessário, obrigado.
A mulher se voltou então para Grant.
— Senhor McCormack?
— Só isso, Eilidh.
— Com licença, senhores.
Fez uma vênia que me pareceu perfeita antes de deixar a sala com
passos elegantes e rápidos.
— As crianças não estão em casa? — puxei assunto ao ficarmos em
silêncio, que não era de todo desconfortável, mas de alguma forma, eu sentia
a ausência do menino falante, cheio de perguntas, e da bebê.
— Craig está na escola e Claire está tirando a sonequinha da tarde. A
casa parece vazia sem o barulho deles, não?
— Um pouco. — Me movi na poltrona, me sentindo desconfortável por
ter dito a verdade.
— Não imagino mais a minha vida sem os dois — murmurou, com
carinho no timbre e na expressão de seu rosto, e eu senti aquela pontada de
inveja pelo amor de pai que ele tinha, ao mesmo tempo que ficava
imensamente feliz por Grant.
Em uma das ligações, meu irmão acabou me contando como ele
encontrou Craig na rua em uma noite fria e descobriu que o menininho havia
fugido de um orfanato para procurar a irmãzinha perdida. O amor e a
compaixão fizeram Grant adotá-lo e mover o mundo para encontrar a
irmãzinha perdida. E esse mesmo amor fez com que Grant e Merie morarem
juntos, e o destino os uniu, fazendo com que os dois se apaixonassem. Sem
dúvida, uma história de livro.
— Craig e Claire são crianças lindas! — afirmei.
— São, mas acho que a minha opinião não conta muito. É bem
tendenciosa.
— Não te julgo, mano.
— E se julgar, o que eu posso fazer. — Deu de ombros. — Sou o que
sou.
— Sim. — Concordei, ainda que as palavras de Grant me causassem
certo desconforto.
“Quem eu deveria ser?” não era uma pergunta que eu me vinha
fazendo de forma incessante? Que tinha me feito dormir mal algumas noites
até que eu tinha a pronunciado em voz alta para Ailie? Não era essa questão
que me trouxe até ali?
— Espero que você não tenha corrido muito perigo hoje — Grant disse
em um tom sério, me tirando dos pensamentos, e eu olhei para ele,
percebendo uma centelha de medo nos olhos claros.
Sabia que era difícil estar do outro lado, afinal, um descuido, um
imprevisto na minha profissão, poderia se tornar fatal, mas ver a tensão e
preocupação do homem que ainda era quase um desconhecido, ver
novamente o amor que Grant sentia pela criança que eu fui, fez com que um
bolo se formasse na minha garganta.
— Hoje não — respondi depois de tragar em seco —, felizmente foi
um dia bem tranquilo, sem nenhuma situação complexa e perigosa.
— Que bom! — Pareceu meio aliviado.
— Ajudamos a resgatar duas vítimas de um acidente de trânsito, um
alarme falso de vazamento de gás e um animal preso no telhado.
— Entendi.
— Todos os dias poderiam ser assim. Na verdade, não deveria
acontecer nada.
— Difícil, não?
— Infelizmente, mas não custa muito torcer para que não sejamos
necessários.
— Isso é verdade.
— Prometo me cuidar, Grant — falei em um tom baixo, sério —, sei
que pode não ser muito para você, mas é o que eu posso prometer.
— Confio em você, Ian. Confio que sempre prezará pela sua
segurança.
— Obrigado. — Assim que respondi, escutei passos se aproximando,
enquanto o cheiro de café forte e um outro que eu não sabia definir bem,
impregnava a sala.
Rapidamente, a mulher ruiva pousou a bandeja sobre a mesa de centro
e serviu o café, tornando a nos deixar a sós.
— Caramba! — Comentei depois de dar uma mordida no tal de shortie,
sentindo a massa amanteigada com um gosto forte de baunilha dissolver na
minha língua.
— Bom, não? — disse, levando a xícara de café aos lábios, e eu vi os
olhos claros dele brilharem, enquanto parecia me analisar.
— Demais.
— Meu sogro e meu filho são viciados nesse biscoito. Craig sempre
pede a Eilidh para fazer uma fornada para ele levar para os amiguinhos. —
Tinha um quê de diversão na voz do meu irmão.
— É fácil saber o porquê. É bom pra caramba!
— Sabe o que é engraçado? — Grant disse em um tom melancólico,
pousando a xícara sobre a mesa, e eu estranhei a mudança súbita dele.
— O quê?
— Você nunca gostou desses biscoitos — comentou em um tom baixo
e eu fiquei arrepiado por ele, sem saber, ter despertado uma memória que eu
não havia pedido.
— Sério?
— Lembro que eu comia os seus quando ninguém estava vendo — vi
certa diversão em seu semblante. — E uma vez, eu acabei sendo pego
comendo os seus biscoitos.
— E o que aconteceu?
— Fiquei de castigo, é claro! — Ele deu de ombros e dando uma risada
baixa, pegou um dos biscoitinhos e mordeu.
— Foi muito ruim?
— Para uma criança, sim.
— Você apanhou?
— Não chegou a tanto, mas não posso dizer que eu gostei de ficar
alguns dias sem poder brincar com os meus amigos da escola.
— É. Imagino o quanto você deve ter me culpado por isso.
— Um pouco — abriu um sorriso —, mas não posso dizer que me
arrependo de ter comido a sua parte. Estava bem gostoso!
Demos uma risada e, com um olhar meio cúmplice, que me foi
inesperado, já que tão cedo eu não esperava ter aquele tipo de cumplicidade
com meu irmão, eu dei outra mordida no biscoito.
Enquanto saboreava, tentei puxar na minha memória alguma lembrança
além da contada por Grant, mas foi infrutífero, o que me deixou bem
frustrado.
— Nós dois brigávamos muito, Grant?
— Não. Tínhamos nossos conflitos, como qualquer irmãos, momentos
em que ficávamos irritados um com o outro, mas nunca nos agredimos ou
esse tipo de coisa.
— Entendo.
— Você sempre foi muito desejado por mim — disse, com os lábios se
curvando num sorriso. — Sempre quis ter um irmão, então, quando nossos
pais contaram que eu teria um, eu me senti nas nuvens.
— Gostava de fazer o papel de irmão mais velho?
— Eu me achava por isso. — Deu uma risada.
— Você deveria ser bem chato! — Acabei sorrindo ao imaginar uma
criança parecida comigo se gabando por ter um irmão.
— Muito. Por um tempo eu só falava nisso.
— Agora tenho certeza!
Dei uma risada, fazendo com que Grant risse também.
Peguei minha xícara de café e tomei um gole da bebida e ataquei mais
alguns shorties.
— Eu era muito levado? — continuei a sondar meu passado.
— Um bocado. Eu não ajudava em nada, confesso, já que praticamente
instigava você a fazer várias coisas erradas... eu estava sempre à frente das
brincadeiras.
— Um tremendo mau exemplo!
— Sim!
Estalei a língua, e nós dois rimos.
— Não duvido que vá pagar pelos meus pecados com Craig e Claire!
— Meu irmão brincou, estremecendo de forma exagerada, fazendo com que
nós gargalhássemos outra vez.
— Irá corrigi-los, com certeza.
— Sim, irei.
Ficamos em silêncio, comendo mais alguns shorties e servindo-nos de
mais uma xícara de café.
Apesar de ser bem confortável ficar assim, eu desejava perguntar sobre
os nossos pais, o que fazia com que meu estado de relaxamento evaporasse,
dando lugar à tensão. Eu hesitava, já que percebi que em nenhum momento
meu irmão tinha mencionado nossos pais.
Estava com medo de perguntar. Com medo de magoá-lo. Mas eu
precisava saber mais sobre os nossos pais, da mesma forma que eu queria
muito conhecer as lembranças que ele tinha de nós dois.
— Como eram os nossos pais, Grant? — perguntei em uma voz
carregada de tensão quando a dúvida, a vontade de saber explodiram dentro
de mim.
Foi imediata a mudança no semblante do meu irmão, só que diferente
da tensão que se apoderava de mim, Grant parecia sentir dor, dor que eu não
queria ter causado a ele.
— Me desculpe, cara…
— São os nossos pais, Dun… Ian, você tem o direito de perguntar —
murmurou, pousando a xícara sobre a mesa.
— Eu…
— Eles eram carinhosos conosco, mas firmes quando precisavam ser,
como os pais devem ser — a voz saiu rasgada ao me interromper.
— Quais eram os nomes deles?
— Livy e Barack.
— Nomes bonitos.
— Sim. — Fez uma pausa antes de completar: — Eles nos amavam,
Ian.
— Mas…
— Perder você mudou a vida deles.
— Era de se esperar.
— Eles continuaram a ser bons pais para mim e tals, mas os anos
passando, a esperança de conseguir encontrá-lo se esvaindo a cada segundo,
os destruíram a ponto de eu não conseguir mais reconhecê-los.
— Eu sinto muito.
— Não era para ter sido assim. Não era para isso ter acontecido.
— Não era, mas aconteceu — falei, sentindo dor por meus pais
biológicos e raiva de John e Katriona ao mesmo tempo.
Ele assentiu.
— Eu nunca os culpei, na verdade, até entendia a dor que os dois
sentiam, mas… — se interrompeu, querendo evitar as palavras que me
feririam da mesma forma que Grant parecia machucado. Era uma besteira, já
que a minha dor estava ali, ainda pulsando.
— Mas? — Insisti.
— Desistir? Fingir que você nunca existiu? — Vi que os olhos dele
ficavam avermelhados, a dor se tornando mais profunda. — Não querer falar
sobre você foi demais para mim. Eu poderia ter aceitado tudo, eu acho
normal eles seguirem em frente, menos isso, droga! Eles eram pais
carinhosos, amorosos!
Não soube o que dizer, mas não tive tempo, já que Grant continuou a
falar:
— Eles me traíram. Eles nos traíram.
— E você se rebelou? — Minha voz soou quebrada, o meu peito
doendo por nós dois; o gosto amargo da rejeição, de ser esquecido por
aqueles que deveriam se lembrar, impregnava minha boca.
— Em partes sim, ainda que tivesse que viver sob o teto deles, afinal,
eu ainda era menor de idade — respondeu.
Assenti.
— Em outra, eu jurei a mim mesmo que faria diferente dos dois. Eu
lutei. Eu trabalhei duro para ter dinheiro e expandir a busca. E eu continuaria
nisso até o fim! — Balançou a cabeça em negativa, ferido. — Não consigo
aceitar! Livy e Barack deveriam ter lutado para te achar também! A vida
inteira. Comigo. Mas não. Eles não fizeram isso. E eu não posso perdoá-los.
Nunca.
Silêncio caiu sobre nós, mas, dessa vez, pesado, cortante. Doloroso.
Senti meus olhos ficarem úmidos.
Eu sangrava por dentro.
— Eu entendo suas razões para não conseguir perdoá-los, mano, nem
sei se eu consigo. Porra! Isso dói. — Tentei quebrar aquele gelo causado pela
ausência de palavras, mas sabia que em breve eu foderia ainda mais a coisa
toda.
— Dói.
— Dói saber que sei lá… — fiz uma pausa, antes de falar a merda: —
É errado eu querer conhecê-los?
Prendi o ar.
Esperei, com o coração apertado, a resposta do meu irmão, a decepção
que com certeza surgiria nos olhos claros dele. O julgamento. Não consegui
lê-lo, o que aumentou minha apreensão. Cada segundo sem ter uma resposta
dele passava com lentidão. Meu estômago dava nós.
— Não, não é — murmurou, por fim. — Talvez, no seu lugar, eu
também desejasse a mesma coisa, afinal, eles te deram a vida.
— Sim, é verdade. E também me amaram, pelo menos por um tempo.
… — Senti a acidez subir pelo meu estômago quando disse isso.
Grant não comentou mais nada. Me movi contra o assento da poltrona,
me sentindo de repente desconfortável. Hesitei, antes de prosseguir:
— Sei que não tem mais contato com eles, mas você tem alguma pista
de onde eles estão morando atualmente com suas novas famílias?
— Não, não tenho.
— Certo.
— É isso que quer, Ian? Quer mesmo encontrá-los? — questionou com
suavidade.
— Talvez não hoje ou amanhã, mas um dia, quando me sentir mais
preparado — confessei.
— Não será algo fácil, não?
— Temo que não, mas preciso fazer isso, Grant. Por mim e… — Não
consegui terminar.
— Eu entendo você, Duncan.
Pigarreei, antes de tentar me justificar:
— Mesmo que os nossos pais tenham “me esquecido”, eles têm o
direito de saber que eu estou vivo.
— Vou pedir para a última agência que eu contratei para encontra-lo
que tente descobrir os endereços deles ou pelo menos o número de telefone
— falou em um tom suave.
— Não precisa fazer isso — devolvi, me sentindo um pouco culpado.
—Sei que você não quer ter contato com eles, Grant.
— Não conversarei com eles, pelo menos, não tenho intenção, mas…
— se interrompeu, um relampejo de dor cruzando o semblante do meu irmão.
— Mas? — Outro arrepio percorreu a linha da minha coluna.
— Se isso fizer você feliz, eu deixaria meu orgulho, minhas mágoas de
lado, Ian. — Nos olhos dele, que me encarava fixamente, vi que Grant era
sincero. Ele estava disposto a tudo para me fazer feliz, o que era meio
assustador, ao mesmo tempo que eu sentia carinho por aquele homem.
— Nunca te pediria isso, Grant — minha voz saiu embargada com a
emoção —, sendo honesto, eu até estava com medo de tocar nesse assunto
com você.
— Medo? — Ele pareceu surpreso e um pouco ressentido.
— É um assunto que te machuca. E você mesmo disse que nós já
sofremos demais.
— Queremos proteger um ao outro… — Não era uma pergunta, mas
sim uma afirmativa.
— Somos irmãos. — Dei de ombros. — Deve ser instintivo.
— É… — um sorriso começou a surgir nos lábios dele —, ou não.
— Já foi mais otimista — brinquei.
Caímos na risada.
— Obrigado por querer me proteger — voltou a dizer em tom
embargado, antes de ficar sério: — não precisava ter medo de entrar nesse
assunto, na verdade, não quero que tenha receio de me perguntar, pedir, o que
quer que seja. Se quiser todas as minhas lembranças dos nossos pais que
tenho, eu vou tentar recordar de cada uma delas.
— Não deveria estar disposto a tudo para me ver feliz, Grant.
Foi a vez de ele tirar a importância da minha fala com um movimento
dos ombros.
— Você realmente precisa de limites, cara — ralhei com ele.
— Já disse que sou eu o irmão mais velho — provocou, sufocando uma
risada.
— Pode ser o mais velho, mas está precisando que alguém ponha juízo
nessa cabeça.
Explodiu em gargalhada e eu fiz uma carranca para ele.
— Estou falando sério, ainda estamos nos conhecendo.
— Pode deixar que eu tenho alguns limites, irmão — falou, respirando
fundo várias vezes para tentar parar de rir. — Mesmo te amando, existem
coisas que eu não aceitaria que você fizesse.
— Como o quê?
— Se você fosse um cara desonesto, se se envolvesse com coisas
erradas… se você fizesse ou falasse algo que machucasse meus filhos e
minha mulher... — Fez uma pausa antes de dizer em um tom de advertência
algo bem desnecessário: — Posso ficar quebrado por ter que me afastar de
você depois de ter te procurado durante todos esses anos, mas Craig, Claire e
Merie me trouxeram luz quando tudo me parecia escuro. Eles me trouxeram
vida, algo que eu achava que só era possível com o nosso reencontro. Eu os
amo, Ian, e não permitirei que ninguém os machuque.
— Não esperaria outra coisa de você, mano — falei, esticando o meu
braço para dar uns tapinhas nos ombros dele —, se fizer algo diferente disso,
nós dois teríamos um problema.
— Isso é uma ameaça? — Arqueou uma sobrancelha para mim, mas os
lábios curvados o traíam. O cara se divertia.
— Sim. Das grandes.
— Vai me dar um tiro também? — Fez alusão à ameaça do sogro dele.
— Talvez…
— Terei que levar isso em consideração — zombou.
— Bom mesmo — concordei.
Voltamos a rir.
— Desejo isso para você, ainda que não saiba muita coisa sobre a sua
vida, a respeito dos seus medos, seus desejos — continuou, ao se controlar.
— O quê? — Fiquei confuso.
— Ainda que as nossas circunstâncias sejam bem diferentes e que você
não precise dela para te resgatar, desejo que algum dia você encontre o
mesmo tipo de luz que eu encontrei.
— Eu encontrei — me peguei dizendo, sem refletir muito sobre o
impacto que as minhas palavras teriam no meu irmão.
— Sério? — Pareceu surpreso.
— Talvez não o tipo de luz que você conseguiu, mas Ailie e Molly
foram um refúgio nessa merda toda, principalmente quando não sabia se você
era mesmo o meu irmão…
Os olhos de Grant brilharam, mas o meu irmão não disse nada, como se
esperasse que eu continuasse.
Poderia me calar, mas acabei dizendo, em confissão:
— Ailie me encoraja quando eu quero fugir, de mim, de tudo. De
alguma forma, ela me faz mais forte quando eu tenho medo.
— Posso compreender, Ian. — Várias emoções passaram pelo
semblante dele e, de alguma forma, soube que ele pensava em Merie.
— Ailie me abraçou, me acolheu todas as vezes que eu precisei. Tento
oferecer algo em troca, escoltando as duas quando precisam sair, mas sei que
não é suficiente…
— Escoltando? — Pareceu confuso.
— O pai da Molly ficou alterado num dia em que queria ver a bebê de
qualquer jeito, e acabou ameaçando Ailie quando ela não permitiu. Eu
cheguei a tempo de impedi-lo de tentar fazer algo e acabei me oferecendo
para acompanhar as duas quando saíam.
— E vocês acabaram se aproximando por isso. — Era uma
constatação.
— Ailie é uma boa amiga!
— Só uma boa amiga, irmão? — o tom foi suave, com um toque de
curiosidade.
— Sim. — Tinha que ser só isso. Só podia ser.
Grant me encarou em silêncio e tive a impressão de que ele conseguia
ler minha alma.
— Você gosta muito dessa mulher — afirmou.
— Gosto — confessei, não conseguindo negar.
Eu gostava dela, da mulher que ela era, da doçura, das brincadeiras, das
provocações...
Ailie era linda. E gostosa demais.
Senti meu coração disparar com a lembrança vívida do beijo que eu
havia dado nela.
Foi um impulso, talvez um bem imprudente, mas, depois de ter me
ajudado a lidar com meus demônios, demônios que eu não estava pronto para
compartilhar com Grant, ter me feito esquecer de tudo enquanto comíamos a
torta, beijá-la pareceu algo tão certo, que eu acabei não pensando.
Me deixei levar pelo desejo, sendo o Ian que não temia, o Ian que não
passava por uma crise de identidade. Eu tinha sido o Ian que foi capaz de
alimentar a ânsia dela, que a fez retribuir com devoção, até que o choque de
realidade veio e me fez hesitar. Agora, eu sonhava acordado com o gosto
daquela mulher, com ter a minha mão sobre o corpo delicioso, em acariciar
os seios, em tocar a bunda macia outra vez, com meus lábios sobre a pele
alva, querendo descobrir se o sabor dela era tão bom quanto ao do beijo. Eu
queimava com as lembranças, ficava duro como nunca antes. Eu me
controlava para não usar as mãos e ceder ao impulso, ao desejo.
Eu não merecia Ailie.
— Ian? — A voz de Grant chegou-me aos ouvidos.
— Eu a beijei. — Outra vez as palavras saíram de mim, sem reflexão.
— E?
Olhei para o meu irmão, vendo o sorriso malicioso.
— Nada.
— Como nada?
— Eu interrompi.
— Por que? — As sobrancelhas dele se uniram.
— Insegurança.
— Do quê?
Pensei em não responder, afinal, eu não era obrigado, mas fui eu que
entrei nesse assunto.
Droga! O que eu tinha feito?
Talvez fosse bem natural falar dessas coisas se não tivéssemos sido
afastados, mas, nessas circunstâncias, eu me sentia embaraçado e também
arrependido.
Senti uma vontade enorme de fugir, mas já havia fugido demais, fora
que eu sabia que ainda teria que fugir outras vezes. Na verdade, eu teria que
fugir de mim mesmo.
— Ela não merece um homem confuso — falei, por fim, como uma das
minhas poucas justificativas.
— Mas será que ela pode ter a amizade de um?
Dei de ombros.
— Pode não acreditar, mas eu passei por algo semelhante, Ian —
murmurou, para minha surpresa.
— Sério?
— Mesmo depois de ter me envolvido com Merie, eu achava que ela
não merecia ter um homem que vivia em uma busca eterna. — Pareceu sem
graça.
— Entendi.
— Mas sabe o que ela me fez ver?
— O quê?
— Que a escolha de permanecer ao meu lado sempre foi dela, e não
minha, assim como a decisão de ceder em tudo para que nossa convivência
desse certo pelas crianças foi minha… — Fez uma pausa, e percebi um brilho
meio pícaro em seus olhos. — Essa mulher já te abraçou emocionalmente ao
oferecer a amizade dela, então qual o problema de beijá-la, de desejá-la? De
se sentir atraído?
— Eu sei que estou errado em manter uma amizade com Ailie… sei
que não deveria ter me envolvido com as duas desde o início, mas não pude
evitar — murmurei outra confissão, a qual era bem amarga.
— Nada do que você está sentido é errado, Dun… Ian.
Olhei para o meu irmão, antes de negar com a cabeça de forma
frenética.
— Eu tenho total consciência de que é errado eu esquecer meus
problemas quando ela está ao meu lado. Você não sabe o quanto eu fiz isso
quando eu não tinha quase nada, só uma esperança, Grant — passei a mão
pelos cabelos, antes de dizer em tom de crítica voltada para mim mesmo,
tentando ser sensato: — Eu não deveria querer beijar Ailie outra vez, mas eu
quero!
— Você acha que deveria se sentir amargurado para todo o sempre?
Que deve ficar infeliz eternamente? — Encarou-me com firmeza.
Abri e fechei a boca, querendo negar, mas não consegui.
— Sabe uma outra coisa que Merie me disse e que os meus filhos me
fizeram sentir, irmão?
— O quê?
— Que você pode viver, sorrir e brincar mesmo passando pelo pior
momento da sua vida. Que não há nada de errado em tentar ser feliz em meio
à dor — murmurou. — Não cometa o mesmo erro que eu cometi a minha
vida inteira, Ian. Você não precisa tornar o seu caminho mais espinhoso do
que já é.
— Eu…
— Não me arrependo de ter feito o que fiz nem por um momento
sequer. Se não tivesse escolhido esse caminho, eu não teria conhecido Craig,
Claire e Merie, e talvez eu não estivesse aqui conversando com você agora, o
que é assustador até de imaginar… — Respirou fundo antes de continuar: —
Você não precisa fazer isso consigo mesmo só porque acha que esse deve ser
o seu comportamento.
— Eu não sei o que dizer, Grant — sussurrei.
Na verdade, eu não sabia o que dizer, e muito menos o que fazer. Uma
parte de mim dizia que era uma visão muito romântica de toda essa situação,
mas a outra queria se apegar àquelas palavras como se fosse uma bolsa de
oxigênio, depois de passar tanto tempo sufocado.
— Só pense se vale a pena se culpar e se privar, irmão.
Assenti e antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, um grito infantil
quebrou o assunto:
— Papá!
— Oi, beag[4]. — O rosto do meu irmão se iluminou de imediato ao
olhar para a bebê, que entrou acompanhada da funcionária de Grant.
Eu não tinha ideia do que aquela palavra significava, mas não
perguntei, já que a minha atenção foi atraída pela menininha sapeca que, aos
gritinhos, corria na direção do pai dela movendo as duas mãozinhas no ar.
Sorri. Claire era uma graça. E ficou ainda mais lindinha quando
alcançou os joelhos de Grant, que rapidamente se inclinou para pegá-la no
colo.
— Descansou bastante, meu amor? — Grant perguntou para a bebê,
abrindo um sorriso enorme.
— Papa! — Ela tocou o rosto de Grant com as mãozinhas e meu irmão
acabou deixando um beijinho no rosto redondo emoldurado pelos cabelos
castanhos finos e desordenados.
A bebê riu com o gesto do meu irmão, fazendo com que ele repetisse a
beijoca, para o deleite da criança.
Não me orgulhei da inveja que eu senti do meu irmão, mas foi
impossível conter o desejo de ter uma criança tão fofa correndo na minha
direção e me chamando de papai.
Foi fácil imaginar-me no lugar de Grant. Eu me colocaria sobre os
meus calcanhares e abriria os braços para recepcionar a criança que me
chamava de papai. A imagem em mente não era tão imaginária assim: era
Molly.
Era loucura, sabia. Afinal, ela era só a minha vizinha. Apesar de ter um
carinho enorme por ela e saber que eu estava me apaixonando profundamente
pela garotinha, sabia que, mesmo que eu me permitisse, como Grant tinha
dito, ser pai de Molly um dia era forçar muito a barra.
Ainda assim, eu conseguia ver Molly correndo na minha direção,
gritando, chamando por mim.
Afastei o pensamento e a vontade, assistindo meu irmão brincar com a
filha dele, arrancando sorrisos e gritinhos da menina. Estavam se divertindo à
beça.
— O papai ama a sua atenção, beag, mas vamos cumprimentar o seu
tio primeiro? — Grant falou ao erguer a menina, que deu uma risada bem
alegre.
Ele ajustou a menina no colo para que Claire pudesse me encarar.
— Oi, Claire! — Acenei com a mão, cumprimentando a bebê que tinha
os olhos arregalados e parecia um pouco confusa.
— Fala oi para o titio, Claire — Grant incentivou.
Claire continuou a me encarar por um tempo, antes de girar o pescoço
para encarar meu irmão, que continuava a incentivar ela:
— Oi, Claire!
— Papa! — Ela esticou a mão para tocar o rosto dele.
— Papai te ama muito, beag. Muito! — Grant disse em um tom
embargado, e beijou a mãozinha dela.
A bebê brincou com Grant por uns instantes, antes de começar a se
remexer no colo do pai, querendo descer.
Dei uma gargalhada quando meu irmão fez um bico enorme ao ter que
colocar a menininha no chão e Claire e assistiu-a sair correndo em direção a
sua funcionária, que também fazia as vezes de babá, que estava em um canto
da sala.
Não demorou muito para que a minha sobrinha voltasse aos gritinhos e
eu terminasse sentado no chão, envolvido na brincadeira da menina que,
depois do cochilo, tinha bastante energia para gastar.
Infelizmente, em meio à diversão e à conversa amena com meu irmão,
que me brindou com outras lembranças da nossa infância, a tarde se passou
com rapidez, tanto que eu me assustei ao olhar as horas no meu celular.
— Está na minha hora de ir — falei, guardando o aparelho no bolso
antes de me levantar.
Claire, me encarou de soslaio, mas logo voltou a apertar o brinquedo
que emitia notas musicais.
Ela riu ao apertar dois botões ao mesmo tempo e eu acabei sorrindo.
— Está cedo, Ian, fique um pouco mais — Grant murmurou, meio
decepcionado —, Craig nem chegou da escola ainda. Ele vai adorar te ver e
poder jogar vídeo game com você.
— Do-do-do!
— Isso, beag, é a nota dó! — Meu irmão pareceu orgulhoso.
— Do! — Ela apertou o botão certo.
Sorri.
— Eu não quero me atrasar para o meu compromisso com Ailie e
Molly. Está quase na hora de elas voltarem para casa —justifiquei- me em
meio aos sons.
— É uma pena você não poder ficar mais um pouco, Ian.
— Voltarei em breve.
— Assim espero. Eu te levo até a porta. — Ele pegou as muletas.
— Fique aí, mano, não precisa disso!
— Eu…
— Sei o caminho da saída, mano. Não precisa se esforçar! — Com um
gesto da mão, não deixei que ele prosseguisse.
— De novo isso? — Fez uma carranca.
— Tenho que cuidar do meu irmão. — Pisquei com um olho só. — Ele
é teimoso!
— Merie diz a mesma coisa — Grant falou com diversão, antes de nós
dois cairmos na gargalhada.
— Ma-ma-mãe!
— Sim, a mamãe sempre fala isso para o papai — Grant gracejou com
a filha.
— Vou nessa — falei, me colocando sobre os calcanhares para
cumprimentar a minha sobrinha.
Foi automático a menina desviar a atenção do brinquedo e me encarar
com aqueles olhos lindos.
— Tchau, Claire.
Quando ela balançou a mãozinha para mim antes de voltar a brincar,
não resisti em deixar um beijo nas bochechas gordinhas. Ela fez um bico e eu
imaginei que iria chorar, mas logo voltou a apertar o botão do brinquedo
enquanto balbuciava umas sílabas.
Sorri para a menininha e, ao me levantar, voltei-me para o meu irmão.
— Até mais, cara — falei, estendendo a mão para ele.
Grant apertou a minha mão com força.
— Por que não vem passar o domingo com a gente? Tenho certeza que
Merie adoraria e as crianças também.
— Eu não sei se terei plantão, mas, se não tiver, por que não? — Vi a
decepção que ele parecia sentir enquanto eu falava se transformar em um
sorriso.
— Vou torcer para que não.
— Também. — Devolvi o sorriso.
— Foi muito bom você ter vindo aqui hoje, irmão.
— Não posso dizer que fui completamente agradável.
Negou.
— Com assunto agradável ou não, eu te quero comigo, irmão. Nunca
se esqueça disso.
— Não esquecerei da próxima vez — falei com a voz embargada. — E
saiba que eu também quero ser seu irmão em todos os sentidos da palavra.
Antes que Grant pudesse dizer qualquer coisa, envolvi-o em um abraço
apertado querendo selar não só a promessa contida naquelas palavras, mas
também criar um laço ainda mais forte com ele.
Capítulo dezesseis
Pedir aos outros para manterem a calma era algo muito fácil de se
dizer, mas cumprir o que se diz, nem sempre é tão simples de executar.
Os impulsos gritavam para que eu agisse o mais rápido possível, já que
cada segundo de espera poderia complicar a situação das vítimas, que não
estava das melhores, mas eu tinha sido treinado para saber esperar o
momento certo e era isso que me impedia de perder o controle.
O cenário era desolador: a estrutura colapsada, várias partículas de
poeira dançavam pelo ar. Perguntas feitas por membros da imprensa
alcançavam os ouvidos, mas não podíamos parar para respondê-las, havia
muito a ser feito ainda.
As testemunhas do incidente foram ouvidas e liberadas, mas muitas
tentavam ficar próximas do local para observar os resgates e até mesmo por
querer ajudar. Infelizmente, não deram informações precisas de quantas
pessoas estavam no edifício de dois andares quando a estrutura desabou.
Saber que a laje do andar de cima desmoronou sobre a outra, reduzindo
os espaços onde poderia haver sobreviventes, só aumentava a minha
urgência.
Sentia que não era o único que tinha vontade de usar as próprias mãos
para começar a remover os escombros, sem me importar com os perigos do
entorno. Esse instinto primitivo de resgate era forte, mas eu não podia segui-
lo, não sem colocar a todos em risco.
Respirei fundo, tentando controlar os batimentos cardíacos, escutando
atentamente cada palavra que era pronunciada pelos líderes da equipe naquela
operação, e que nos transmitiam não só informações sobre a estrutura do
local onde faríamos a busca, mas também as ações que deveríamos realizar
para iniciar o resgate.
— O Cameron ficará responsável pela logística — o comandante
Archie falou alto, quando as equipes foram separadas.
— Sim, senhor.
— Ian, sua dupla será o James. Marc ficará com o Trevor. Vocês irão
liderar as equipes de resgatistas.
— Sim, senhor.
O comandante continuou a passar instruções operacionais, dialogando
com o líder do grupo que cobriria outra área, até dar instruções para irmos
pegar as ferramentas, acessórios e equipamentos, que iam desde câmeras com
sensores térmicos até martelos e marretas.
— Posição! — gritou o comandante.
Eu, James e os resgatistas que nos acompanhariam tomamos nossas
posições em torno da grande pilha de entulhos, quase formando uma
disposição de relógio.
O trabalho, que envolvia a remoção dos escombros, exigia bastante
cautela, já que a superfície do local estava instável, não permitindo que nos
posicionássemos sobre ela.
Ao mesmo tempo em que os minutos pareciam transcorrer na
velocidade da luz, a lentidão de como tudo se passava, temperada com os
gritos que dávamos para nos comunicar, o barulho produzido pelos
equipamentos, ou o silêncio que fazíamos para ver se ouvíamos algum som
vindo dos blocos de concreto e ferragem, era agonizante.
O suor pelo esforço de trabalhar no sol quente começou a empapar a
roupa de proteção que eu usava, colando na minha pele.
— Há uma fonte de calor, cinquenta centímetros, abaixo daquele ponto
— minha dupla, que usava a câmera de sensor térmico, informou a todos com
um grito, depois do que pareceram horas em uma busca vã, mas deveríamos
estar ali nem dez minutos.
Senti um arrepio percorrer a minha nuca, como sempre acontecia
quando estava prestes a resgatar alguém.
A adrenalina tornou-se violenta dentro de mim, e foi bem difícil de
controlar. Os anos de treinamento não mudavam o fato de que vidas
dependiam de nós.
— Vê algum movimento na câmera, James? — perguntou o
comandante.
— Não.
— Merda! — Escutei-o praguejar.
— Qual a posição? — ele perguntou.
— Encolhida. Como se estivesse presa.
— Atenção! Silêncio! — o comandante Archie gritou, fazendo com
que todo mundo parasse o que estava fazendo. Até mesmo os repórteres
ficaram em silêncio. — Ian, executar chamado e escuta.
Mais do que depressa, removi a minha máscara de proteção e,
analisando rapidamente a estrutura próxima, colei o meu ouvido naquilo que
um dia fora um telhado.
— Somos da equipe de busca e resgate da Crewe Toll Fire Station, se
você estiver me escutando, grite ou bata três vezes — falei bem alto para que
a pessoa pudesse me ouvir, usando a técnica que era bem eficaz.
Fiquei atento a qualquer barulho que pudesse vir através dos destroços,
porém nada chegou a alcançar os meus ouvidos.
Um nó se formou na minha garganta, mas não havia lugar para a
desesperança. Talvez a pessoa estivesse desacordada, ou a grossura dos
escombros impedia a condução do som.
Olhei para o comandante, que se colocou ao meu lado. Ele fez um sinal
de negativa.
— James, executar chamado e escuta — ordenou o comandante.
Como norma, cedi lugar para que meu parceiro fizesse uma nova
tentativa de contato.
Enquanto aguardava uma segunda ordem de ação, já que eu não
poderia trabalhar sozinho, torci, com o coração apertado, para que a pessoa
presa lá embaixo respondesse ao chamado.
— Somos da equipe de resgate do Crewe Station, se você me escuta,
grite ou bata três vezes.
Um silêncio mortal caiu outra vez sobre aquele ambiente e eu fiquei
olhando para o ponto onde a vítima estava soterrada.
— James? — indagou o comandante.
— Nada. — Ele negou ter ouvido algo, com o rosto tomado por
frustração.
— Droga! — praguejei baixinho.
Seguindo o protocolo adotado pela corporação, outra equipe de
resgatistas foi chamada para assumir, e James e eu recuamos.
A tensão, que deixava os meus músculos bastante rígidos, se tornou
cada vez maior a cada negativa. Quando o comandante, fazendo uma última
tentativa, não recebeu nenhuma resposta, obriguei-me a me manter otimista,
embora a razão sinalizasse que não havia muita esperança de encontrarmos
alguém com vida ali.
— Como faremos? — perguntei.
— Você e James farão a remoção das telhas para identificar o que tem
por baixo e vamos ver como prosseguiremos. Mark, Trevor, eu e Cameron
faremos a linha para transportar os escombros. Cam será o último da linha.
— Sim, senhor! — respondemos em uníssono.
— Em posição! — Ordenou.
Colocando a máscara novamente, me posicionei, tendo James ao meu
lado. Tentando focar na ordem dada, comecei a remover uma das telhas que
estavam soltas.
Mais uma vez, tive uma vontade enorme de remover rapidamente tudo
o que havia à minha frente para resgatar a vítima o mais depressa possível,
mas sabia que não podia.
Praguejei ao ver a laje de concreto que estava por baixo das telhas.
Levamos alguns minutos para conseguir ter um vislumbre da vítima,
que estava deitada em posição fetal, os escombros a prendendo, de modo que
ela não conseguia se mover. Era visível uma laceração na região do crânio.
— Somos da equipe de resgate de Crewe Station, consegue nos
responder? — Apliquei a técnica de chamada e escuta, sentindo uma gota de
suor escorrer pelo meu rosto.
Não houve resposta, e eu senti um aperto no peito.
— Situação da vítima? — O líder do grupo perguntou.
— Grave. Inconsciente, sem nenhum movimento — James respondeu.
— Porra! — Escutei alguém praguejar.
— Continuar! — o comandante voltou a gritar.
Mais um minuto se passou.
Cinco.
Foram oito minutos para conseguir abrir um campo seguro para a
remoção e para que finalmente chegássemos à mulher, que tinha uma leve
protuberância na barriga.
— Como ela está? — perguntei em voz alta para James, que a alcançou
primeiro, torcendo para que ela ainda estivesse viva.
James levou a mão ao pescoço dela, buscando a pulsação, e antes
mesmo que meu parceiro pudesse dizer a palavra óbito, soube a resposta pela
expressão triste e frustrada.
A impotência era bem amarga e difícil de se digerir. Várias perguntas
surgiam na mente, mas, naquele momento em que removíamos o corpo, não
podíamos nos deixar abater por aquelas duas vidas que haviam se esvaído de
forma tão dolorosa. A revolta, ainda mais por haver um bebê envolvido, tinha
que ficar para outra hora. Havia ainda algumas pessoas, que não fazíamos
ideia de quantas seriam, para ajudar.
Antes de continuar naquela jornada que sem dúvidas seria exaustiva,
pedi aos céus para que nós pudéssemos encontrar todas as outras vítimas com
vida.
Capítulo dezessete
Olhei para o sobrado de dois andares cuja varanda era iluminada por
uma luz forte, sentindo não só o cansaço físico, mas também o emocional,
após os turnos exaustivos no trabalho.
Tentei não pensar muito nas vítimas que não conseguimos salvar com
vida na operação de busca e resgate na estrutura colapsada. Infelizmente,
tiveram mais baixas do que gostaríamos, mas, de alguma forma, foram essas
perdas que me fizeram criar coragem e dirigir até aquele endereço que meu
irmão, mesmo eu tendo dito que não precisava, havia conseguido para mim.
Na verdade, Grant conseguiu não só os endereços, mas também os números
de telefone de Livy e de Barack, nossos pais biológicos.
A vida se passava como um sopro e não valia a pena deixar para
amanhã o que poderia ser dito hoje, pois o amanhã pode não existir. No
entanto, mas, agora, em frente à casa onde a minha mãe biológica residia com
o atual marido, o argumento que me levou àquele impulso parecia frágil.
Colei minha testa ao volante do carro. Eu estava com medo do que
poderia encontrar.
Várias possibilidades passaram pela minha cabeça, desde um
reencontro terno, cheio de emoções, como foi meu encontro com meu irmão,
até as reações mais cruéis possíveis.
Senti um revirar no meu estômago. Eu sabia que havia chances de algo
ruim acontecer, ainda mais quando Grant tinha dito que os meus pais fingiam
que eu não existia, mas, uma parte de mim, a que vinha do meu caráter, me
dizia que tinha sido apenas uma forma que eles encontraram de lidar com
tudo, e que, assim que eu dissesse quem eu era, Livy abriria um sorriso em
meio às lágrimas e me abraçaria com força.
Eu a abraçaria de volta, prometendo a mim mesmo que, mesmo que eu
não fosse capaz de ofertar o amor de um filho por não ter lembranças devido
à separação, faria de tudo para amá-la como eu amei Katriona.
“É a esperança que cicatriza um coração machucado”, às palavras de
Ailie vieram à minha mente, imprimindo uma lufada de coragem que me fez
abrir a porta do carro e sair.
Sim, o nosso reencontro seria especial.
Trancando o veículo com um clique, caminhei em direção a casa, meus
passos me levando cada vez mais perto da minha felicidade.
Parei em frente a porta e eu fiquei olhando a superfície de madeira, a
minha esperança vacilando um pouco perante o nervosismo.
Perguntei-me o que eu estava fazendo ali, naquela hora da noite, e me
questionei se eu não deveria ter ligado antes para marcar um horário.
Covarde!
Pare de ser covarde e fujão!
Respirei fundo, passando a mão pelos cabelos, antes de puxar a
aldrava, dando uma risada sem graça por minha mão suada ter escorregado
do ferro.
O som que ressoou quando eu bati na porta poderia muito bem ser um
eco do meu coração. Nunca o meu pulso ficou tão acelerado, ao passo que o
meu corpo estava bem trêmulo. Minha respiração era ofegante, o medo, que
causava uma reviravolta na boca do estômago, me dizia para virar as costas e
sair correndo dali.
Estava quase fazendo isso, fugindo como um moleque, quando escutei
o som de uma tranca girando.
Reti o fôlego ao pensar que, em segundos, eu estaria cara a cara com a
mulher que me deu a vida, mas não foi Livy quem me atendeu, mas, sim, um
homem baixo de cerca de cinquenta anos. Me senti um pouco decepcionado
por não ser a minha mãe.
— Em que posso ajudar?
— Gostaria de conversar com a senhora McDonald, senhor. Ela se
encontra? — minha voz soou trêmula pelo nervosismo.
Ao ouvir o sobrenome dela, o homem que supus ser o atual marido
dela, me lançou um olhar desdenhoso de cima a baixo, antes de encarar o
meu rosto.
A expressão dele ficou estranha, mas não fiz esforço para tentar lê-lo.
— O que você quer com ela? — perguntou de forma ríspida.
— Conversar. — Dei de ombros.
— Isso eu sei.
— Me apresentar.
— Quem é você?
— O filho dela! — murmurei.
— O filho que Livy teve no primeiro casamento dela é um homem
mais velho e é muito poderoso — disse com descrença.
— Grant.
— Sim, esse mesmo.
— Eu sou o outro filho dela, senhor. — A bile começou a subir
queimando pelo meu esôfago, mas eu a engoli.
— Não sei do que você está falando.
— Ela teve dois filhos do primeiro casamento — expliquei, mesmo
achando que não era necessário.
Fez um gesto em negação.
— Livy só teve um único filho, balach. Ele se chama Grant e há anos
ele não tem contato com a minha esposa — disse em um tom frio.
Meu sangue congelou nas veias ao escutar aquelas palavras. Será que
aquele homem, marido da minha mãe biológica, não sabia da minha
existência?
Não. Não. Não.
— Eu não estou louco, rapaz.
“Eu não estou louco”. Quantas vezes disse aquelas mesmas palavras
para John e Katriona? Senti a dor se espalhar pelo meu corpo mesmo que eu
tinha certeza de que não estava doido.
— Livy é a minha mãe! — Imprimi um tom mais firme a minha voz.
— Grant é o meu irmão biológico e, se não quiser acreditar em mim, tenho
um exame de DNA para provar.
O homem ficou lívido, e vi a raiva se apoderar dele.
— Livy, venha cá! — gritou.
— Que foi? — Escutei uma voz doce e abafada vindo de outro
cômodo.
— Só venha!
— Okay!
Porra!
Eu não conhecia esse sujeito, mas a raiva que senti dele por falar
naquele tom com a minha mãe me deixou furioso, e um instinto de proteção
fez com que todos os pelos da minha nuca se arrepiassem.
Quis dar um soco na cara desse filho da puta, mas, ao ouvir os passos
leves da minha mãe se aproximando, fui invadido por uma explosão de
emoções, que iam desde a felicidade, ansiedade e algo que não sabia bem
definir. Sensações que se tornaram ainda maiores quando eu finalmente vi o
rosto da mulher.
Com cabelos escuros, olhos verdes, nariz mais aquilino, ela tinha tantos
traços em comum comigo que era assustador e inacreditável que o marido
dela não achasse que eu era seu filho.
— O que foi… — a voz doce começou a dizer, mas, ao me encarar,
Livy calou-se.
A expressão que estava levemente franzida, se transformou em choque.
Os olhos estavam arregalados, a boca aberta, antes de se aprumar.
— Grant?
Neguei com a cabeça.
— Não, mãe, sou eu, o Duncan. — Meu tom era emotivo.
Eu esperava que a expressão de minha mãe fosse de choque, afinal,
depois de tanto tempo, era de se esperar que ficasse perplexa ao me ver, mas
o horror que eu via no rosto dela machucou a minha alma de uma forma tão
lancinante que nem mesmo uma facada poderia produzir tanta dor.
As lágrimas que começaram a brotar nos meus olhos e que deveriam
ser de emoção eram, na verdade, de decepção.
— Que merda é essa que esse cara está falando, Livy? — O homem
grunhiu, quebrando o silêncio.
— Não tenho ideia, querido. Eu não tenho outros filhos além de Grant
e as minhas meninas. Eu não sei quem é Duncan! — Ela foi firme em suas
palavras, machucando-me ainda mais.
— Sou a criança que foi tirada de você — sussurrei, não conseguindo
conter uma lágrima que deslizou pela minha face. — Por favor, mamãe, você
sabe que teve um filho chamado Duncan!
Ela respirou fundo antes de se virar para o marido, que continuava
furioso e carrancudo:
— Você pode me dar um momento a sós com esse homem?
— Ele disse que tem um exame de DNA, Livy — disse de forma
grosseira.
Horror percorreu o rosto da minha mãe antes que ela voltasse a se
aprumar.
— Eu resolvo isso, querido. — Abriu um sorriso bastante falso. —
Esse rapaz só quer brincar com a gente. Não duvido que tenha sido Grant que
armou isso tudo ao contratar um ator bem parecido com ele para nos pregar
uma peça. O que ele ganha com isso, eu não sei, mas só pode ser isso.
— Grant nunca faria uma brincadeira dessas com você! — Defendi
meu irmão automaticamente, sentindo uma pontinha de raiva por ela ter
falado isso de um cara tão bacana como ele.
— Grant é capaz de fazer muitas coisas com o poder e dinheiro que
tem. — Ela deu de ombros. Voltando-se para o marido, falou: — Você pode
nos dar alguns minutos a sós, por favor?
— Livy… — O homem disse em tom de advertência.
Ela se encolheu um pouco, como se estivesse assustada, e mesmo
magoado com a reação dela, meu impulso fez com que eu a defendesse:
— Modere o tom ao falar com a minha mãe…
— Mãe? Ela não é sua mãe! — Ele trincou os dentes.
— Não vale a pena discutir com esse homem. Conversamos depois, por
favor, querido — Livy murmurou em tom de submissão.
— Tudo bem. — Assentiu
De cenho franzido, ele voltou a me encarar de cima a baixo com
desdém antes de dar as costas para nós.
Os lábios da minha mãe se crisparam com irritação.
Passando a mão em meus cabelos, engoli em seco, como se fosse um
menininho prestes a sofrer uma repreensão bem severa.
— O que você quer aqui? — Foi rude assim que nós não ouvimos mais
os passos de seu marido.
— Vim ver você, mãe…
— Pare de me chamar de mãe, garoto — sibilou. — Você não é meu
filho!
— Eu sou, droga! Você sabe que eu sou seu filho. Por que você está
fazendo isso comigo?
Balançou a cabeça com força, negando, fazendo com que os cachos
acompanhassem o movimento. Vi dor nos olhos, cuja cor verde escura, sem
nenhuma dúvida, eu havia herdado.
— Não tenho ideia de quem você é, porque Duncan está morto! Morto!
— Eu estou vivo, mãe! — Insisti em um tom baixo, sentindo meu peito
ser esmagado por essa atitude dela. — Eu fui sequestrado por um casal que
me levou para outro país.
Choque e dor cruzaram os olhos dela.
— Eu e Grant fizemos um exame de DNA, nós somos irmãos —
continuei e puxei o celular do meu bolso, sentindo uma pontada de esperança
surgir novamente dentro de mim. Talvez ela mudasse sua reação ao ver o
teste.
Rapidamente, procurei o e-mail com o resultado antes de estender o
aparelho para ela.
— Veja. Sou o Duncan, DNA não mente.
— Não. — Voltou a balançar a cabeça em negativa. — Não faça isso
comigo, por favor.
— Mãe…
— Duncan está morto e enterrado há muito tempo! Por que ainda
insiste em trazer essa história de volta? — falou com a voz embargada.
— Eu… — Um nó na minha garganta me impediu de continuar
tentando. Meu coração sangrava.
— E mesmo que você seja o Duncan, o que eu duvido, que bem você
faria para todos nós, voltando depois de tanto tempo? — O olhar dela ficou
duro. — Não vê que, em menos de dez minutos, você fez um estrago na
minha vida só de mencionar o nome de Duncan?
— Eu…
Me impediu de continuar com um gesto.
— Meu marido está furioso e eu vou ter que dar várias explicações,
explicações que eu não queria ter que dar… — Ela se encolheu, como se
estivesse fragilizada.
— Ele te agride? — murmurei.
— Não é da sua conta, garoto — disse com uma voz cheia de desdém.
— Você não deveria ter vindo aqui para falar de Duncan. Só trouxe dor e
problema.
— Eu…
— Vá embora, nunca mais venha aqui ou me procure — continuou
com acidez. — Na verdade, como mãe de Duncan, peço que nunca mais fale
dele com ninguém. Você não tem nenhum direito de remexer no passado dele
dessa forma. Deixe-o enterrado!
Antes que eu pudesse retrucar, dizendo que tinha esse direito, ela deu
um passo para trás e bateu a porta na minha cara.
Minha respiração ficou curta devido à dor, meus joelhos bambearam, e
as lágrimas queimavam em meus olhos. As palavras que minha mãe
biológica havia dito ainda ecoavam na minha mente, ferindo-me e me
deixando em pedaços.
Todas as possibilidades ruins que havia imaginado não chegavam aos
pés da realidade. Quis rir, sentindo um desdém amargo por mim mesmo, por
ter tido esperanças de que minha mãe ficaria feliz em me ver, por ter
acreditado, por um segundo sequer, que havia sido só um mecanismo de
defesa contra a dor quando ela decidiu desistir de me procurar e foi
reconstruir sua vida.
Tolo! Não era autoproteção. Livy havia matado a criança que eu fui,
enterrando-a bem fundo nas suas memórias, escondendo-a até do seu atual
marido.
“Não me procure”. “Não fale mais nele”.
Senti a bile voltar a queimar e subir pela minha garganta, mas a engoli
com força, mesmo que quase me sufocasse, mas não me sufocou. Só trouxe
dor física, que não era nada se comparada à dor emocional.
Não sei quantos minutos fiquei ali, parado na entrada da casa dela,
remoendo tudo o que havia acontecido. Só sei que, em algum momento, a
decepção, não pela esperança que eu tinha sentido em ter um bom primeiro
contato com Livy, mas sim pelo comportamento dela, fez com que eu
apagasse o rastro de lágrimas e me afastasse da casa com passos rápidos,
entrando no meu carro.
Como aquela mulher podia tratar um filho que lhe fora tirado de forma
tão traumática com tanta frieza? Como podia ser tão egoísta e pensar apenas
em si mesma, sem considerar os sentimentos do outro?
Em uma coisa Livy estava certa: tinha sido um erro procurá-la, erro
que eu não mais cometeria. Eu não deseja mais proximidade.
Dirigi por alguns quilômetros, criando uma distância física entre nós,
mas a lembrança das palavras duras ditas por Livy fez-me parar o veículo.
Encostei a cabeça no volante e cedi às lágrimas outra vez.
Morto... Para ela, Duncan estava morto.
Balancei a cabeça em negativa. Não, Duncan não estava morto. Ele
estava vivo, bem vivo. Não importava se Livy e Barack o tivessem banido de
suas vidas, porque Duncan foi mantido vivo no coração do meu irmão, que
nunca deixou de procurá-lo.
“Não quero que tenha receio de perguntar ou de me pedir o que quer
seja”.
Ao recordar as palavras de meu irmão, puxei o celular do bolso e liguei
para ele. Imaginei que não atenderia depois de vários toques, mas ouvir o oi
ao atender fez com que sentisse uma onda de alívio, e acabei por desabafar
tudo o que sentia com ele.
Capítulo dezoito
O som do elevador ecoou em meus ouvidos e deixei a caixa de metal
para ir até o meu apartamento.
Tomei um susto quando vi que não estava no meu andar, mas sim no
de Ailie, e que eu estava em frente à porta do apartamento dela, que era
adornado por um pendente, que segundo ela, se chamava triquetra e tinha o
poder de oferecer proteção.
Um arrepio percorreu minha coluna, e o pulso disparou.
Há uma hora, Grant, depois de me ouvir chorar por minutos a fio e
escutar a minha dor, havia me perguntado se eu queria ir até a casa dele, para
que pudéssemos conversar melhor, mas acabei dizendo que precisava ficar
sozinho para tentar digerir tudo.
Sabia que deveria dar meia volta para chamar o elevador novamente e
ir para o meu andar, mas continuei paralisado no lugar, encarando a
superfície de madeira, hesitando.
A perspectiva de ficar sozinho com meus pensamentos não me parecia
mais tão atraente, pelo contrário, a urgência em ter contato com outra pessoa,
em ser abraçado pela mulher que estava do outro lado da porta, era profunda
e visceral.
Eu ansiava não só pelas palavras de consolo que ela me ofertaria, mas
também que Ailie me fizesse sorrir, que ela me fizesse esquecer.
Queria conversas amenas, ansiava por suas provocações.
Eu queria a mulher!
Eu queria a mulher que eu tentava não desejar, como se estivesse
cometendo um crime. Queria minha amiga...
Não queria pensar em quem eu era e quem deveria ser, na rejeição que
havia sofrido por parte da minha mãe biológica, nem em como o trabalho me
consumia.
Não me imporia amarras ou barreiras, pensando se era certo ou errado
me envolver, se eu merecia ou não. Ansiava por mergulhar fundo, em ser o
homem que Ailie sempre me fazia sentir: vivo. Droga! Eu precisava disso.
Sem mais hesitar, peguei o celular e digitei uma mensagem.
Torci para que ela estivesse acordada e me desse tudo aquilo que eu
queria.
Capítulo dezenove
— Que coisa chata! — resmunguei, levantando-me do sofá para mexer
no meu computador.
Para mim não havia algo pior do que passar quase uma hora
escolhendo um filme no streaming e não conseguir passar dos dez minutos.
Bom, tinham coisas piores do que a escolha de um filme ruim, mas isso não
tornava a coisa menos frustrante.
Deslizei o dedo pelo mouse do notebook, pensando se eu iria perder
mais meia hora escolhendo outra coisa ou se iria assistir a uma opção segura.
— Pegue um que você já viu e pronto! — continuei a divagar.
Fui navegando pelas abas, até que o som de recebimento de uma
mensagem de texto chegou aos meus ouvidos.
Franzi o cenho, estranhando o horário, afinal, ninguém normalmente
tinha algo para falar comigo às nove da noite, mas acabei pegando o meu
celular.
Ian:
Estou na frente da sua porta
Meu pulso disparou, várias emoções brincando no meu interior, como a
alegria por saber que ele estava ali, já que não estávamos tendo muito tempo
para conversar nos últimos dias devido aos turnos que ele havia pegado, e
também uma espécie de preocupação.
Não pensei duas vezes e, colocando o celular na mesinha, me ergui e
fui atender a porta.
Senti um nó na garganta e um aperto no peito ao encarar seus olhos
avermelhados, como se tivesse chorado bastante.
Antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, perguntar o que tinha
acontecido, eu senti os braços dele me envolverem em um abraço apertado.
Sentindo o coração dele bater rápido contra os meus ouvidos, passei os
braços pelo tronco de Ian e devolvi o abraço.
— O que aconteceu? — Acariciei as costas largas dele com círculos
lentos.
Sabia que ele estava tendo uma semana difícil no trabalho. Por mais
que Ian tenha dito que tentava pensar somente nas pessoas que ele havia
salvado, e não nas que não conseguiu resgatar com vida, eu tinha ciência que
essas coisas pesavam, fora que, praticamente, não se falava em outra coisa
nos últimos dias, só no desabamento que vitimou dez pessoas e deixou outras
cinco feridas.
— Eu não existo para a minha mãe — respondeu com a voz quebrada.
Quando imaginei que não falaria nada, ele soltou essas palavras, que me
chocaram e apertaram meu peito ao mesmo tempo.
— O quê? — Tombei um pouco meu corpo para trás para encarar o
rosto dele, que estava transtornado pela dor.
Ergui minha mão e toquei sua bochecha, tentando oferecer algum
conforto, mas sabia que era em vão.
— Eu fui à casa dela hoje. — Deu um sorriso triste.
— Que bom que você criou coragem para fazer isso, sei que estava
com medo… — murmurei, me arrependendo no momento seguinte. — Me
desculpe.
Ele balançou a cabeça.
— Não precisa se desculpar, você não fez nada.
— Foi um comentário inoportuno.
— Eu teria que fazer isso algum dia.
— Sim, mas…
— O resultado teria sido o mesmo, Ailie… Mas, sabe de uma coisa?
— O quê?
— A culpa é minha. Idealizei demais esse momento, criando uma
fantasia feliz.
— Você não é culpado por isso, dileas[5], não é errado imaginar que
teria uma recepção calorosa — disse, continuando a fazer carinho nele.
— Eu não sei.
— Eu sei por você. Vamos entrar? Eu não quero ser xingada pelos
vizinhos por ficar conversando a essa hora no corredor.
— Estou sempre te incomodando com meus problemas, não? — Ele
disse com desgosto, os lábios se curvando em um sorriso triste.
— Sabe que não é incômodo… Se for continuar falando assim, pode
dar meia volta e ir embora — ralhei.
— Não quero ficar sozinho.
— E eu não quero que fique sozinho.
— Mas está me ameaçando. — Vi uma centelha de diversão nos olhos
dele.
— Para o seu bem. O que vai ser?
— Eu não mereço você, Ailie…
Revirei os olhos por causa do comentário sussurrado, que era o oposto
do que eu tinha pedido para ele não fazer, mas o beijo que deixou na minha
testa foi tão terno que me amoleceu. Mesmo que eu quisesse, eu não teria
forças para dar as costas para ele. Não me orgulhava da minha debilidade
perante a Ian, mas tentei não pensar nisso, afinal, amigos eram para essas
coisas.
— Primeiro as damas. — Fez uma vênia bem exagerada, que me
arrancou um sorriso.
Entrei, então, em meu apartamento e logo escutei o som de passos e da
porta sendo batida suavemente, antes de ser trancada por ele.
Caminhei até o sofá, sentei-me em uma ponta, e pedi:
— Deite aqui — falei em um tom suave, batendo com as mãos nas
minhas coxas.
Ian pareceu surpreso com a minha sugestão, e eu morri de vergonha
por ter pedido aquilo, mas parecia tão natural...
— Esquece… — murmurei, dando um sorriso sem graça.
Os olhos verdes brilharam enquanto ele balançava a cabeça em
negativa.
Rapidamente, removeu os tênis, ficando só com meias, e veio se
acomodar no sofá, pousando a cabeça no meu colo. Era engraçado ver o
grandalhão com as pernas dobradas para caber no sofá, mas tive que me
controlar para não estremecer com o ato, por nossos olhares estarem fixos um
no outro.
Tentei não pensar na sensação estranha que senti, apenas removi alguns
fios de cabelo que caíam sobre a têmpora dele, começando a fazer carinho em
seus cabelos.
Ele suspirou profundamente, fechando os olhos por alguns segundos,
como se estivesse um pouco extasiado.
— Não me lembro da última vez que alguém fez cafuné em mim —
quebrou o silêncio.
— Sério? — Passei os dedos por sua testa.
— Sim — sussurrou e vi um pouco de dor na expressão dele. — Acho
que tinha uns vinte anos quando a minha mãe, do nada, me pediu para deitar
no colo dela e ficou acariciando os meus cabelos.
— Faz muito tempo.
— Bastante.
— Estranho as suas namoradas não terem feito cafuné em você —
comentei, mordendo o interior de minha bochecha por perceber o comentário
fora de lugar.
— Eu nunca pedi.
— Não é algo que se precise pedir.
— É, de certa forma, não.
Um silêncio caiu sobre nós, até que eu decidi quebrá-lo, indo direto ao
assunto que o trouxe até aqui:
— O que você quis dizer quando falou que não existe para a sua mãe?
Uma dor crua pareceu tomar suas feições e eu deslizei meus dedos
pelos cabelos lisos e espessos com mais vigor, querendo apagar um pouco da
angústia que sentia.
— Meu irmão estava certo quando disse que Livy havia me enterrado
em suas lembranças — falou depois de um tempo e eu vi lágrimas surgirem
em seus olhos. — Ela me enterrou sem se importar em saber se eu estava
vivo ou não.
Um nó se formou na minha garganta com a afirmação dele.
— Livy sequer contou sobre mim para o atual marido, nem para os
meus outros irmãos. Ela não ficou chocada em me ver, como seria de se
esperar, ficou foi horrorizada quando eu disse quem eu era… — uma lágrima
escorreu pelo rosto dele. — Eu juro que nunca imaginei que seria tão odiado
pela mulher que me deu a vida.
— Ódio é uma palavra muito forte, Ian.
— Eu não tenho outra palavra para descrever o que vi nas feições dela,
Ailie. Foi o que ela me fez sentir e, quanto mais eu revivo a cena, mais
certeza eu tenho disso.
Não consegui dizer nada, já que lutava contra as minhas próprias
lágrimas, ainda mais vendo que Ian cedia ao pranto silencioso.
— Ela me odeia a ponto de não querer que eu pronuncie mais o meu
nome na frente dela.
— Lamento por isso. — Deslizei o polegar para limpar uma lágrima,
antes de afundar meus dedos nos cabelos dele.
— Me pergunto os motivos dela. O porquê dessa raiva, desse desgosto.
— Eu também não sei…
— Livy deveria estar feliz, não deveria? Não consigo entender essa
merda.
— Na teoria achamos que uma mãe deveria amar um filho, mas nem
sempre é assim, Ian. Por mais doloroso que seja, tem pessoas que nasceram
para ser só progenitoras. O pai de Molly é a prova viva disso.
— É… — puxou o ar com força antes de continuar: — Eu queria amá-
la, Ailie, queria aprender a amá-la como uma mãe. Ansiava que um dia ela
voltasse a sentir carinho por mim e que pudéssemos ter uma boa relação.
— Eu sei, dileas.
— Agora eu sei que isso não acontecerá, nunca... — murmurou.
— Talvez seja cedo para dizer algo, Ian. — Tentei ser otimista, mas
sabia que era em vão. Esse caminho só traria mais dor e, olhando para o
homem deitado no meu colo, sabia que ele tinha ciência disso.
— Não, Ailie — ele verbalizou, dando um sorriso triste. — Livy
deixou bem claro que minha presença só traria problemas para o casamento
dela.
Outra vez o silêncio caiu sobre nós.
Por vários minutos, só houve o som das nossas respirações e do carinho
que eu fazia nos cabelos dele. Senti uma pontada de culpa pela sensação de
prazer que me tomava por ficar ali acariciando seus cabelos, deveria estar
fazendo isso apenas para confortá-lo....
— É engraçado eu ter achado que Katriona era um monstro por ter
feito o que fez, mas Livy conseguiu ser tão cruel ou até mais do que ela —
disse depois de um tempo. — Droga! Pelo menos Katriona me amou. O que
eu ganhei de Livy? Rejeição.
Fiquei em silêncio. Na verdade, o erro de uma não podia ser
comparado ao da outra, fora que as circunstâncias seriam bem diferentes se
não houvesse o sequestro.
Ian não precisava da minha opinião, não quando ele falava isso por
estar sofrendo.
— Sabe de uma coisa, Ailie? — Voltou a falar depois de um tempo, a
dor ainda estava ali, mas havia uma espécie de resignação que eu não gostei
de ver.
— O quê?
— Isso tudo é melhor do que viver uma ilusão. Ilusão de que eu
poderia vir a ser amado pelos meus pais biológicos.
— Você não pode saber a reação do seu pai.
— Não acredito que será melhor — sussurrou.
— Ian…
— Talvez eu deva esquecer o passado e viver o presente — fez uma
pausa —, o que o meu passado poderá trazer de bom? Nada.
— Coisas boas também, dileas.
Ian fechou os olhos e gemeu baixinho quando eu apliquei um pouco
mais de pressão no meu carinho.
— Eu preciso seguir em frente, Ailie.
— Todos nós precisamos…
— Eu preciso me doar para quem me merece. Desejo amar quem me
quer, independentemente da situação em que eu me encontre.
— Você pode. — Abri um sorriso para ele.
— Grant, meus sobrinhos, a Molly — sussurrou e o meu coração deu
um salto ao ouvir o nome da minha bebê —, você.
— Ian… — minha voz saiu rasgada e foi imediato eu parar de acariciar
os cabelos dele, assustada com as palavras.
“Eu desejo amar quem me quer”... “você”.
Várias emoções rodopiaram no meu íntimo, criando uma espécie de
tornado que tinha como o centro o meu coração.
Tive que usar todas as minhas forças para tentar me convencer de que
essas não eram palavras de paixão, mas sim de amizade, ainda que
tivéssemos trocado um único beijo, beijo que, mesmo após quase duas
semanas terem se passado e que eu deveria já ter esquecido, ainda guardava o
gosto, o encaixe...ainda estava latente na minha memória. Eu receberia de
bom grado um beijo agora, mas sabia que não iria acontecer.
— Você sempre me quis. Você me quer nesse exato momento, com as
minhas dores, com os meus medos — continuou em um murmúrio.
— Sim, eu te quero, Ian. — Deslizei minha mão pela bochecha dele. —
Muito.
— Então me abrace, me faça sorrir, me provoque, me faça esquecer
toda essa merda, me dê um presente e um futuro… me faça viver, Ailie… —
Ian pediu com tanta ânsia, com tanto desespero, revelando sua
vulnerabilidade, que uma lágrima escorreu sorrateira pelo meu rosto.
Não sabia ao certo aquilo que ele me pedia, já que as emoções dentro
de mim pareciam encontrar um ponto de eclosão, o coração, o anseio,
vencendo a razão.
— Podemos começar pelo abraço, Ian — falei.
Ele abriu um sorriso que deu suavidade ao semblante abatido. Por que
ele tinha que ser tão bonito? Era essa beleza que me cegava?
Não tive tempo para pensar em nada, já que, ele praticamente deu um
salto no sofá, para se sentar, me arrancando uma risada que por pouco não
saiu alta.
Fiquei de pé para lhe dar um abraço, mas me surpreendi quando as
mãos fortes envolveram os meus quadris e me puxaram para baixo, me
sentando no colo dele. Foi automático me segurar nos ombros dele com o
susto. Sem dúvidas, meus olhos deviam estar arregalados enquanto meu
coração batia mais forte do que um tambor.
— Ian — arfei, incrédula.
A posição era íntima demais, já que nossas pélvis estavam coladas uma
na outra; a mão de Ian passeava com uma espécie de lentidão pela lateral do
meu corpo, me deixando à beira de entrar em curto-circuito.
Eu deveria sair de cima dele, mas falhei miseravelmente quando pediu
naquele tom cheio de ânsia, um reflexo do desejo que eu via nos olhos dele:
— Me abrace, Ailie.
Sem pensar, eu o abracei, dessa vez, com todas as minhas forças,
querendo doar parte de mim para ele, para que ele se sentisse acolhido em
meus braços, como se eu pudesse afastar os demônios que o atormentavam
hoje. Suspirei quando meu abraço não me pareceu forte o suficiente para que
ele pudesse me sentir.
— Isso não é justo! — acabei soltando quando os braços dele
pareceram se tornar uma barra de ferro em torno do meu corpo, e ele enterrou
o rosto no meu pescoço.
— O quê?
— Sua força em comparação com a minha. — Escutei a risada rouca
dele e franzi o cenho.
— Não tem graça. — Dei um tapa no ombro de Ian ao me mover no
colo dele, roçando no pau embaixo de mim. O sangue pareceu correr ainda
mais veloz pelas veias. Quis sumir pelo contato me excitar e, mais ainda,
porque Ian não parecia se incomodar; pelo contrário, ele estava quase
indiferente.
— Infelizmente a diferença de força é bem injusta — tentou amenizar.
— Muito! — grunhi. — Nem treinando eu conseguiria ser tão forte.
— E nem precisa, se não quiser. — Ele segurou o meu rosto com uma
palma e eu tive que me controlar para não fechar os olhos e me esfregar
contra ele, como se fosse uma gatinha. — Sabe que as minhas forças sempre
estarão à disposição de vocês duas, feiticeira.
— Eu sei, mas não é sobre isso que estou falando. — Respirei fundo,
tentando controlar o turbilhão dentro de mim, mas estava difícil.
— Então é sobre o que? — Os lábios dele se curvaram com um pouco
de diversão.
— Bobagens.
— Não para você, Ailie.
Dei de ombros.
— Qual é o problema? — Ele voltou a me abraçar com firmeza.
— É estranho eu dizer que eu acho que não consigo abraçar você
direito? — Soltei, meu nariz se franzindo. — Por que além de forte, você tem
que ser tão grandalhão?
Ian voltou a gargalhar, e eu não consegui sufocar a minha risada com o
comentário idiota.
— Pode acreditar... — Ele tornou a ficar sério, os olhos dele fixos nos
meus provocou um arrepio. — Você sabe me abraçar como ninguém, Ailie.
Seu abraço, de alguma forma, consegue ser mais forte do que a dor, que a
tristeza, até a mágoa. Esse abraço, de alguma forma, eu sei que vai ajudar a
curar minhas feridas.
— Ian — minha voz saiu rouca, meus olhos umedecendo.
— Eu liguei para Grant há uma hora, e eu disse que queria ficar
sozinho. E eu tinha a intenção de ficar sozinho.
— Entendo.
— Sabe que nem me dei conta de que apertei o botão do seu andar, até
que eu vi o seu apartamento?
— Hum.
— Eu tenho uma teoria da razão.
— Qual? — Não consegui controlar a minha curiosidade enquanto eu
voltava a tocar o rosto dele.
— Que os meus passos me trouxeram até aqui só por causa do seu
abraço, Ailie. Que os meus pés sabem melhor do que a minha mente aquilo
que o meu coração precisa.
Uma lágrima escorreu pelo meu rosto, depois outras, com as palavras
doces dele e eu tornei a abraçá-lo, mesmo que meus braços não conseguissem
circundar o tronco dele.
Sucumbi às minhas emoções, deixando-me levar por aquele abraço.
A afirmação de Ian, conseguiu me alcançar tão fundo no corpo, na
alma, que não achei mais meu abraço precário.
Continuei a abraçar Ian até que o sentimento fraternal se dissolveu
perante ao desejo impróprio que o bombeiro me fazia sentir.
Eu lutava para ficar quieta, para não me esfregar no volume abaixo de
mim, que se excitava um pouco, o que eu achava natural. Ian era um homem
jovem, viril; eu não duvidava que ele ficaria duro facilmente por qualquer
uma. Ele já não havia ficado ereto para mim durante o beijo que trocamos e
depois me rejeitado?
O pensamento me chateou mais do que eu imaginei ser possível,
fazendo com que eu baixasse os braços para sair do colo dele, mas a mão
forte dele me impediu, com uma pegada inesperada na parte de trás do
pescoço, e eu não tive mais nenhuma reação, a não ser sentir meu coração
parecer prestes a explodir no peito.
Capítulo vinte
— O que aconteceu? — falei com a voz séria, acariciando a nuca
delicada dela ao ver a mudança súbita nos olhos azuis, a faísca do desejo se
apagando.
— Nada.
Deu um sorriso sem graça, tentando sair do meu colo, mas eu a impedi
de sair novamente, só que, dessa vez, empurrando os quadris dela para baixo,
o roçar das pelves excitando o meu pau ainda mais.
Não me surpreendi com o fato de eu ter acabado ficando excitado com
ela no meu colo, mesmo com minha mente ainda fodida pela rejeição da
minha mãe.
Ailie provocava isso em mim. O mero contato suave do corpo dela
contra o meu, me deixava em combustão. Só que, dessa vez, não deixei que a
culpa por me sentir assim avançasse.
— Não minta para mim, feiticeira — pedi. — Algo aconteceu e eu
quero saber o que te fez querer sair do meu colo.
Vi várias emoções cruzarem o rosto dela: receio, vergonha, desejo,
frustração.
— Não deveria estar em cima de você, Ian.
— Por que não? — Afastei minha mão de sua nuca e passei a acariciar
seus cabelos longos, macios e cheirosos.
Escutei um suspiro.
— Não é certo.
— Não é errado.
— É, você sabe que é, pelo menos para mim é. — Ela umedeceu os
lábios, chamando a minha atenção para eles.
— Não vejo o porquê…
— Só me deixe sair do seu colo. Não vamos ter essa conversa que vai
estragar tudo — pediu baixinho.
Fiz uma careta.
— É o que você quer?
— Quer que seja honesta, Ian? — O rubor subiu pelo pescoço dela.
Embora eu engolisse um gemido ao imaginar o quanto o corpo de Ailie
ficaria ruborizado durante e depois de um orgasmo, foi difícil o sangue não
fazer meu pau ficar ainda mais duro. Porra! Ela ficaria linda demais, ainda
mais se fosse meu corpo que a deixasse avermelhada e ofegante.
— Sempre. — Minha voz me traiu.
— Nós queremos coisas diferentes, e está tudo certo.
— Desejamos a mesma coisa, Ailie.
Negou com a cabeça.
— Não, você sabe que não. E eu não posso pedir que você queira o
mesmo que eu.
— E o que eu quero?
— Amizade. — Ela puxou o ar com força antes de continuar: — Eu
entendo, de verdade, mas meu corpo parece não entender isso estando em
cima de você. É muito mais forte do que o meu autocontrole.
Meu pau pulsou, fazendo a mulher se remexer um pouco, arrancando
um outro latejar quando a minha mente absorveu a admissão de que Ailie
estava excitada no meu colo. Porra!
— Gosto de ter você assim, feiticeira — murmurei.
Tristeza e frustração fizeram os olhos azuis brilharem.
— Não posso ficar no seu colo, não quando eu sei que ficarei excitada
todas as vezes que fizer isso. Sei que você quer só a minha amizade.
— Quem disse que eu só quero isso?
— Você deixou bem claro, Ian.
— Acho que o meu corpo diz outra coisa, Ailie, e acho que você sabe
disso — falei suavemente.
— É só uma reação fisiológica, o que é normal.
Arqueei a sobrancelha para ela.
— Realmente acredita nisso? Que é só uma reação qualquer?
— Não precisa ter vergonha disso, Ian, eu sei que é algo natural.— Ela
tentou sair do meu colo outra vez, mas eu a impedi novamente.
— De onde tirou isso, Ailie?
— Do beijo impulsivo que você me deu e do qual se arrependeu. —
Abriu um sorriso amarelo.
— Merda! — Praguejei, irritado comigo mesma por fazê-la se sentir
rejeitada. — Eu não me arrependi de ter beijar você, Ailie. Droga! Eu me
arrependo de ter sido um idiota inseguro.
— Inseguro?
Segurei o rosto dela em concha para que seus olhos azuis
permanecessem nos meus.
— Eu me sentia um aproveitador por, na merda que estava, me apegar
com força à amizade que você me ofereceu. Eu me sentia puto comigo
mesmo por ser feliz, quando eu deveria estar na fossa. Eu achava que tinha
que me afundar em tristeza, na revolta. Eu tinha certeza que desejar você,
beijar você, era um erro, Ailie. Não por você ser um erro na minha vida, mas
por achar que eu era um erro na sua, e na de Molly também.
— Nunca foi um erro, Ian.
— Mas eu achava que tinha que me punir por sentir o que eu sentia.
Por ser o mesmo Ian de antes. Por sorrir, por não sofrer o tempo todo.
— Sinto muito. — Compreensão, ternura e também compaixão
tomaram o semblante dela.
— Eu me cobrava para amarrar todos os nós soltos da minha vida,
antes de poder seguir em frente.
— E o que mudou, Ian? — Tocou o meu rosto.
— Meu irmão me disse algumas coisas e, depois do desabamento e do
encontro de hoje, eu só tive a certeza de que ele estava certo.
— O que ele disse?
— Que eu não preciso criar mais nós invisíveis para mim mesmo. Que
eu posso coexistir com os meus medos e incertezas. Que não é errado sorrir.
— Não, não é.
— E eu não quero me impedir mais de desejar você, Ailie. — Levei
minha mão ao quadril dela e não hesitei em acariciá-lo. A excitação voltou a
crescer dentro de mim, reverberando no meu pênis. — Não quero continuar a
ser um imbecil.
— Não é um imbecil.
— Eu fui quando minha hesitação fez você se sentir insegura, quando
fez com que acreditasse que eu não te queria, quando era o contrário…
Subi com a palma um pouco mais até alcançar a curva da sua cintura,
que eu não resisti em apertar.
O arfar suave dela, a excitação que fez o corpo dela se remexer, só me
deu a certeza de que eu tinha que parar de ser idiota.
— Caralho, Ailie! — Olhei para os lábios rosados dela, sentindo o
desejo se tornar ainda mais forte. — É impossível parar de pensar no seu
gosto, no nosso beijo.
— Eu também penso bastante nisso, Ian — disse.
Emitindo um arfar com a afirmação dela, segurei sua cintura com mais
pressão, fazendo com que ela esfregasse a pelve contra meu pau por instinto.
Gostosa!
— Eu não deveria ter me privado de flertar com você, de tentar
conquistá-la. Deveria ter dito que você é linda, cheirosa, sexy, sedutora —
voltei a deixar que a minha mão a explorasse e eu não me abstive de roçar
meus dedos na lateral do seio, escutando um suspiro delicioso. — Há muito
tinha que ter dito que é fácil imaginar seus cabelos enrolados nos meus
dedos; que eu não me cansaria de ter as minhas mãos no seu corpo. Que eu
deveria deixar de ser um cavalheiro e ter admirado mais seus seios e sua
bunda gostosa!
— Ian! — exclamou, como se estivesse indignada, mas a respiração
ofegante a traía. — Gosto que você seja um príncipe.
— Serei, mas também serei um homem para você.
— O meu bombeiro? — me provocou, e a malícia em seus olhos fez
com que eu esfregasse meu pau no sexo dela.
Não consegui conter um gemido com a fricção, que logo se
transformou em um sorriso arrogante.
— Também. Eu quero tudo com você. Quero a sua amizade, o seu
beijo, o seu desejo, o seu toque, a sua admiração. Mas sabe o que mais desejo
nesse momento?
— O quê?
— Que saiba que nunca será uma válvula de escape para mim.
— Não veria problema nisso, Ian.
— Eu me importo, feiticeira, porque merece mais do que ser usada —
falei em meio a um arfar quando ela se moveu no meu colo.
Ficou em silêncio, encarando os meus olhos, até que sussurrou:
— Deveria ter medo de você, vizinho.
— Medo?
— Você tem muita lábia.
— Tenho?
— Demais — fez uma pausa, antes de resmungar: — e ainda diz que
eu quem sou uma feiticeira!
— Você é, Ailie, mas acho que já falei demais.
— Por que diz isso?
— Tenho uma ocupação melhor para os meus lábios.
Sem deixar que respondesse, segurei-a pela nuca e puxei o rosto dela
contra o meu, minha boca encontrando a dela.
O mero roçar dos lábios me deixou eletrizado, meu corpo já rígido se
excitou ainda mais ao ouvir o suspiro abafado dela.
Não pensei em mais nada, apenas me entreguei a morosidade e a
pressão do beijo que era um mero roçar, ao remexer instintivo de Ailie no
meu colo enquanto ela se entregava a minha boca, ao calor da pele dela
contra o meu tato e também a forma luxuriosa como os olhos azuis me
fitavam.
Segurando a nuca com mais pressão, mantendo-a à minha mercê, um
suspiro excitado escapou dela. Beijei cada um dos lábios voluptuosos,
tomando-os entre os meus, para depois lambê-los, traçando as curvas
perfeitas, decorando a boca dela da forma que eu deveria ter feito antes, sem
nenhuma pressa, por mais que os nossos corpos não concordassem.
Gemi alto, sentindo o suor começar a se formar sobre a minha pele,
quando, antes mesmo que eu pudesse intensificar o beijo, ela fez o mesmo
comigo, fazendo amor com cada um dos meus lábios, deixando beijinhos, me
tornando ainda mais seu cativo.
Verbalizando todo o prazer que eu sentia, escutando a respiração dela
ficar mais rápida, sentindo o meu peito quase explodir, deixei que a gostosa
fizesse o que quisesse comigo.
Minha boca clamava pela dela. O controle rapidamente se esvaía.
Afundei meus quadris no sofá antes de voltar a encontrar a pelve dela,
torturando meu pau e o sexo de Ailie que deveria estar molhado, pronto para
mim, e entreabri meus lábios, implorando pelo beijo dela.
Os olhos brilharam, como sorrindo para mim, e malevolamente, ela se
esfregou na minha ereção e saqueou minha boca com a língua, antes de
mergulhar fundo dentro de mim, fazendo o gosto dela impregnar os meus
sentidos.
Foi instintivo arfar e apertar a lateral do corpo esguio, quase que a
marcando com os meus dedos, enquanto eu me deixava ser beijado.
Sim.
Eu era idiota, um perfeito imbecil por ter me punido daquela forma.
Em poucos segundos, com a saliva dela se mesclando a minha, eu me
senti vivo, poderoso.
A boca de Ailie era como uma ambrosia e o ondular dos quadris, em
busca do próprio prazer, era o meu próprio inferno.
Eu precisava de mais.
O cavalheirismo morreu dentro de mim, cedendo à fome, ao meu lado
dominador.
Gememos juntos. Seus os olhos azuis ficaram mais nublados com a
excitação quando voltei a aplicar uma pressão sobre a parte de trás do
pescoço delicado e a beijei com fúria, exigindo que ela me retribuísse ao meu
desejo.
E a gostosa o fez. Tocando os meus ombros, meu peitoral, me fazendo
amaldiçoar a presença da blusa que me impedia de sentir o calor dela contra a
minha pele, Ailie moveu os lábios pelos meus, a língua habilidosa
acompanhando ao bailar da minha que era cada vez mais rápidos, sedentos.
Meu fôlego rapidamente se esvaía em meio ao beijo, o ar queimando os
meus pulmões a cada respirar.
Do pescoço, minha mão foi parar nos cabelos, e eu enrolei os fios
ruivos no meu punho. Eram macios ao toque pra caramba!
Poderia senti-los contra o meu tato pelo resto da minha vida.
O pensamento primitivo, fez com que eu esmagasse os lábios dela com
os meus, minha língua percorrendo cada canto da boca deliciosa, antes de
voltar a se enredar no beijo.
— Ian — ronronou, rebolando no meu colo, as unhas cravando nos
meus ombros, quando, com um puxão firme, fiz com que Ailie tombasse um
pouco a cabeça para trás.
Estava sem fôlego, mas isso não me impediu de gemer ao olhar a
expressão extasiada dela, enquanto abandonava os lábios entreabertos e
trilhava beijinhos pela mandíbula.
— Gostosa! — murmurei, respirando fundo, deixando que o cheiro
suave do sabonete que usava adentrasse as minhas narinas, antes de
mordiscar seu queixo.
— Hm? — Se remexeu no meu colo.
— Porra! Sim! — Gemi, incoerente, já que eu afirmava que ela era
gostosa ao mesmo tempo que o movimento dela fez o sexo dela pressionar
com mais força o meu pau que latejou.
Apliquei mais pressão no meu agarre dos cabelos, e abafei o suspiro de
prazer dela com os meus lábios, voltando a tomar Ailie em um beijo voraz,
cedendo à minha própria luxúria.
Um som gutural e excitado escapou pela minha garganta ao ter a língua
dela voltando a deslizar pela minha, em ter o corpo o ávido roçando e
rebolando na minha ereção me incinerava.
Ofegante, eu a punia com minha boca, movendo meus lábios com
fervor, dando puxões suaves nos cabelos dela para controlar o nosso beijo,
fazendo ela inclinar um pouco a cabeça para eu ganhar um novo acesso à
cavidade morna enquanto roubava os suspiros que a deixavam em meio aos
meus gemidos, gravando-os na minha memória.
Eu não era o único que punia com o prazer.
Rebolando, gemendo, se entregando ao beijo, a ruiva deslizou um dedo
pela região sensível do meu pescoço, traçando um círculo, o que me
impulsivamente tentar estocá-la em um espasmo.
Por um momento, perdi o controle, sendo dominado por aquele toque
suave que acelerava o meu pulso e fazia com que o meu corpo ficasse meio
trêmulo, deixando que a mulher me beijasse.
O prazer presente nos olhos azuis em comandar, provavelmente se
espelhava ao meu em ser submisso, mas o desejo em levar ela mais alto, em
dar aquilo que ela tinha dito que queria de mim, foi bem mais forte do que a
minha necessidade.
Deslizando a minha língua pela dela, forçando o meu controle, a minha
mão que não a segurava e a dominava, passou por debaixo do tecido da blusa
— para o meu pesar, ela não usava a camisola de algodão —, e eu espalmei a
minha mão pela barriga, que podia não ser plana, mas que era perfeita ao meu
tato.
Uma fina camada de suor cobria sua pele, que era macia e quente. Mas
o que em Ailie não era quente?
Aquela mulher era uma perdição. E estava bem mole em meus braços.
Uma risada brotou na minha garganta, morrendo contra as bocas que
não se deixavam, enquanto eu subia meus dedos, desbravando o abdômen
dela, tocando cada pedacinho.
Grunhindo, arfando, eu me deleitava com os cada estremecer que
percorria Ailie ao ser tocada, sentindo o meu corpo vibrar em uma resposta
bem primitiva ao desejo que eu a fazia sentir.
— Porra! — rosnei contra a boca dela, me sentindo latejar, ao alcançar
o mamilo e saber que nenhuma peça ou tecido me impedia de tocá-la.
Ailie estremeceu mais uma vez e eu gemi:
— Caramba, Ailie!
— Ian… — Suspirou o meu nome no momento em que espalmei a
minha mão, enchendo a minha palma com o seio pequeno e firme.
Ela se moveu no meu colo, excitada, e eu não resisti em roubar um
selinho dos lábios entreabertos enquanto continuava a brincar com o seio que
se tornava mais pesado sobre o meu toque.
Porra! Era perfeito.
Depois de erguer o seio suavemente, arrancando outro gemido, rocei
minha palma no botão sensível, estimulando Ailie ainda mais o que
praticamente a deixou insana.
Arrepiando-se, choramingando o meu nome, ela fechou os olhos e
começou a se esfregar em mim com mais afinco, roçando no meu pau
latejante, como se precisasse de alívio.
Esfreguei o mamilo com mais pressão, tornando a reação de Ailie a
mim ainda mais visceral.
O rubor que cobria a pele dela, a respiração ofegante, o abandono que
ela se movia, para frente e para trás no meu pênis, era assombroso.
Caralho!
Era uma visão e tanto, vê-la assim.
Linda...Perfeita.
Meu corpo todo estava enfeitiçado por aquela mulher.
Abandonando o bico sensível pelo meu toque, dei atenção ao outro
seio, roçando a gema do meu dedo sobre a aréola, até que ela se espichasse
sobre mim com um espasmo, um gemido abafado escapando pelos lábios que
ela mordia de uma forma extremamente sexy.
Continuei a atormentá-la, capturando a expressão dela, até que o desejo
me deixou impaciente.
Eu precisava de mais.
Muito mais.
Eu precisava do prazer dela, acima do meu.
Eu necessitava fazê-la sentir, explodir.
Eu não seria o Ian, o Duncan. Eu seria o homem que ela queria.
Não haveria culpa. Só haveria Ailie e seu corpo se convulsionando.
Belisquei o mamilo, arrancando dela um suspiro e também um ondular
instintivo, antes de baixar minha mão.
— Ian? — Ela abriu os olhos para me encarar e eu vi um pouco de
frustração neles.
Não respondi. Aproximando meus lábios dos dela para um selinho,
segurei a barra da camisa que ela usava.
— Oh! — Arfou quando passei a subir a blusa dela.
Sorri de forma safada, desnudando-a com lentidão, sentindo o meu
coração bater mais rápido a cada centímetro de pele que eu revelava os meus
olhos ao passo que aproveitava para acariciá-la, fazendo-a se remexer, se
esfregando na minha pelve.
Ela me ajudou a remover a blusa ao passar os braços pelas mangas e eu
joguei a peça para o lado.
Meu coração martelou com força no peito.
— Caralho, Ailie! — Senti minha boca secar ao olhar os seios firmes,
salpicados por algumas pintinhas, e os bicos eriçados pelas carícias que eu
tinha feito.
Não hesitei em levar as minhas mãos ao peito dela, segurando os seios
em concha, roçando as gemas dos meus dedos nas aréolas, que se retraíram
ainda mais.
Ailie suspirou, projetando o tronco à frente, oferecendo os mamilos
para mim, como se fosse uma deusa.
Minha deusa, minha feiticeira...
Com um som rouco, me esfregando contra ela em busca de meu
próprio alívio, não hesitei em esmagar os seios dela com as minhas palmas.
Gememos em uníssono outra vez quando pressionou a minha pelve com mais
força ao sentar no meu pau, antes de agarrar-me pelos cabelos e me puxar
para um beijo sôfrego.
Seus lábios, sua língua, eram tão cheios de urgência, que eu não
consegui recordar se alguma vez na vida fui beijado com tanto desejo. Era
um desejo que reverberava não só nos movimentos de Ailie, mas também em
seu rosto ruborizado, lindo, extasiado.
Rapidamente, fascinado pela expressão dela, fiquei trêmulo e ofegante
ao acompanhar o ritmo do beijo.
O suor impregnava minha pele.
Eu perdia o controle das minhas próprias mãos, que afagavam os
mamilos.
Massageava seus peitos, apertava-os, sem conseguir controlar a pressão
que eu exercia.
Eu estava fascinado com a forma como Ailie era tão sensível ali,
retribuindo minhas carícias com ondular cada vez mais ritmado.
Meu pênis lutava para sair do seu confinamento, querendo entrar no
sexo dela, estocá-la até que alcançássemos o prazer juntos, com Ailie
sussurrando o meu nome quando gozasse.
— Ian — choramingou, como se implorasse por algo a mais.
Ailie parecia perdida em sensações e, quando puxou os meus fios, fez
com que a besta dentro de mim se soltasse. Espremendo um dos seios, ergui
uma mão e voltei a segurar um punhado de cabelos dela. Gemeu meu nome
com o meu agarre, suspirando outra vez quando tombei levemente a cabeça
dela para trás e deslizei a minha boca por seu queixo, deixando uma trilha de
beijos por cada centímetro de pele que encontrava pelo caminho, indo em
direção à sua garganta.
O estremecer dela com a pressão dos meus lábios fez com que eu
sentisse uma gota de pré-gozo se acumular na cabeça do meu pênis.
Eu a estoquei, faminto.
— Gostoso! — Ailie ondulou-se sobre o meu pau, aumentando minha
tensão, e a urgência se tornou mais pungente.
Deslizei a minha língua por toda a extensão do pescoço, sentindo o
gosto da minha mulher junto ao suor antes de cravar meus dentes onde a
pulsação dela batia forte, baixando a minha mão pelo abdômen.
Ela se contorceu em cima de mim, gemeu enquanto eu continuava a
beijar, morder, lamber a garganta dela, segurando os fios dela com firmeza,
enlouquecendo-a, me enlouquecendo, enquanto meus dedos deslizavam por
sua barriga até alcançarem o cós dos shorts.
— Feiticeira! Está excitada pra caralho! — Minha voz soou abafada
pela pele dela quando, enfiando a minha mão no shorts para chegar até a
calcinha, sentindo a umidade dos pelos aparados contra os meus dedos. O
pré-gozo escorreu pelo meu pênis e não duvidava que terminaria melado.
— Sim. Muito, Ian! — Esfregou a vagina nos meus dedos, e eu grunhi
em resposta, antes de deixar um beijo na região entre o pescoço e a clavícula,
deslizando meus dentes pela pele.
— Porra!
— O que você vai fazer, bombeiro? — me provocou e pude imaginar
que Ailie tinha um sorriso malicioso nos lábios, sabendo que ela sairia
vencedora.
E ela seria, já que cada grama do meu corpo, da minha alma, pedia por
aquilo.
O som da vitória dela ecoou nos meus ouvidos quando, voltando a
lamber o pescoço dela, friccionei um dedo pelos grandes lábios de cima a
baixo, deixando que o prazer dela me encharcasse.
— Vai, gostoso! — pediu com uma voz extremamente sexy, rebolando
contra a minha mão.
Quando, gemendo, voltou a acariciar o meu pescoço, não precisei de
mais nada para que, voltando a tomar a boca gostosa em um beijo faminto,
penetrei-a com um dedo, deslizando facilmente pela lubrificação.
Uma onda de dor me assolou quando ela mordeu os meus lábios em
meio ao beijo e cravou as unhas em minha pele, mas eu não parei de mover a
minha língua pela de Ailie, agitando o indicador dentro do sexo encharcado,
fazendo ela se remexer em cima de mim.
Beijando-a, mas mantendo meus olhos fixos nos dela, explorei cada
centímetro de seu sexo, conhecendo cada ponto que fazia Ailie estremecer em
meu colo, pressionando os meus lábios com mais força, abafando seus
gemidos durante o beijo.
— Ian — arfou contra minha boca, dando um saltinho em meu colo
assim que a gema do meu dedo resvalou a carne inchada.
O desejo e a necessidade cresceram ainda mais dentro de mim, e, sem
pensar em meu pau, cada vez mais dolorido e insatisfeito, sem nenhuma
pressa, tracei círculos lentos sobre o clitóris dela, espalhando o prazer nela
naquele ponto sensível, fazendo com que Ailie acariciasse os meus cabelos
como resposta.
Sorri, me sentindo eufórico por dar prazer a ela. Tentei beijá-la e
enroscar nossas línguas, mas o ondular dos seus quadris contra o meu dedo,
os gemidos em meio a sua busca cega pelo orgasmo, tornaram a tarefa
bastante difícil.
Isso não me impediu de saborear seus lábios, deixando vários beijinhos
doces, de tocar seus cabelos úmidos de suor, de desfrutar o toque de Ailie nos
meus cabelos, que ficaram desordenados enquanto eu contornava toda a
borda do clitóris. De sentir sua respiração quente e rápida acariciando minha
pele. De apreciar cada som que Ailie deixava escapar quando aumentei a
velocidade com que eu acariciava a carne que ficava mais rígida e pulsante
sob meu toque.
Pressionei o clitóris com mais força, fazendo Ailie se espichar em cima
de mim, e ela mordeu os próprios lábios, como se contivesse um grito.
Repeti uma e outra vez aquele mesmo movimento, sentindo o sexo de
Ailie ficar mais úmido ao meu toque, com seu corpo ficando mais afoito.
Parecia que nunca estivesse tão suado na vida. Estava ofegante.
Porra!
Eu sentia um prazer extremo, mais do que imaginei ser possível, em
ver os olhos cada vez mais nublados diante dos movimentos que eu fazia, ao
ter seus seios pequenos e arfantes encontrando o meu peitoral enquanto ela se
arqueava, jogando o tronco para frente e para trás, demonstrando o quanto ela
era gostosa.
A cada esfregar dela contra meu dedo, meu pau latejava, meu corpo
entrando em uma espécie de combustão que não lembrava ter sentido antes.
Eu não podia mais aguentar.
A urgência era brutal.
Selvagem.
Mais. Eu precisava de mais.
Puxei-a novamente pelos cabelos em busca dos lábios dela, e, sem
hesitar, inseri mais um dedo dentro dela, depois outro.
— Porra! — grunhi, quando deu outro pulinho no meu colo e cravou as
unhas com força no meu pescoço, provocando um ardor, assim que meu
polegar resvalou em uma outra região sensível do sexo dela.
Não hesitei em continuar a pressionar o ponto G e o clitóris de Ailie,
construindo seu prazer, ganhando arranhadas em troca, marcas que eu
ostentaria com prazer e que desejei ter por toda a minha pele, me marcando.
— Por favor, Ian — pediu em um tom rouco, rebolando em minha
mão, levando em seguida a própria mão ao seio.
— Caralho! — rosnei, me sentindo no paraíso, quando ela esmagou o
seio que cabia inteirinho em sua mão. Isso fez minha boca salivar, meu pau
babar em resposta ao erotismo daquela mulher.
— Preciso… — sussurrou, deslizando a palma sobre o bico rígido, se
estimulando. Mordeu os lábios ao tombar um pouco para trás, enquanto eu
continuava a acariciá-la.
Essa única palavra foi minha perdição.
Selvagem, segurando os cabelos dela, minha boca esmagou a de Ailie,
ao passo que usei meu polegar para continuar a afagar o clitóris e com o
indicador e do meio, deslizei a ponta deles pelo canal, estimulando-o, como
se fosse meu pau, antes de invadi-la.
Arfei, ficando rígido com o desejo.
Porra! Ela estava encharcada.
Meus dedos não encontraram nenhuma resistência em deslizar até o
fundo.
Removi meus dedos antes de preenchê-la outra vez, encontrando o
mais puro calor e fogo, além de uma contração que reverberou em meu pau.
Entrei e saí, deslizando a gema do dedo por aquele pontinho, sentindo-
a cada vez mais tensa sobre o meu toque e sobre o dela, já que a gostosa
ainda continuava a se acariciar, tornando tudo mais primitivo para mim.
Eu estava por um fio de perder o controle.
Nosso beijo se tornou cada vez mais espaçado, alternando mordidas,
sucções, selinhos, que não eram menos intensos, enquanto ela me fodia com
as contrações que ela exercia sobre os meus dedos que iam mais rápidos.
Tentávamos abafar os nossos gemidos com as bocas para que não
soassem tão altos.
Dedos, mãos, corpos, encontraram um ritmo próprio, intenso, perfeito.
O ondular de Ailie, para frente e para trás, acompanhava meus quadris
que subiam e desciam por instinto, buscando por alívio que de alguma forma,
o mero roçar, proporcionava.
Nossos olhos se encontravam, não se deixando um minuto sequer,
querendo absorver a reação um do outro, tornando o prazer ainda mais
intenso, pelo menos para mim o era.
Estávamos trêmulos e ofegantes.
O tempo parecia suspenso enquanto eu continuava a estoca-la, vendo-a
chegar cada vez mais próxima do orgasmo.
Eu precisava fazê-la chegar lá, agora, da mesma forma que eu
precisava de ar.
Com o coração quase escapando pela boca de tão forte que batia, a
afaguei sem nenhuma gentileza, deslizando para cima e para baixo numa
busca insana, até que, tombando contra o meu corpo, Ailie colocou a boca
sobre a minha talvez para conter um som mais alto, enquanto suas unhas
voltaram a provocar uma dor prazerosa em minha pele. Ela estremeceu com
um orgasmo forte, seu canal apertando meus dedos com força.
Meu pau pulsou, precisando do mesmo êxtase que a percorria, mas eu
me concentrei em prolongar o prazer da minha gostosa. Continuei a brincar
com o clitóris e a penetrar o canal contraído e escorregadio, até escutar um
gemido baixo.
O corpo de Ailie voltou a ondular em último espasmo, e eu senti o
prazer em seu ápice, mesmo que ainda continuava duro e dolorido.
Satisfeito, deslizei uma mão pelas costas delicadas e com a outra
segurei a nuca dela, antes de meus lábios fazerem amor com os dela, sem
nenhuma pressa; meu prazer se intensificava conforme ela passava a retribuir.
— Gostosa! — falei, quando trocamos selinhos, descendo a minha mão
até encontrar a bunda redonda.
Apalpei-a sem comedimento, meu corpo reagindo ao toque. Jogou o
tronco para trás para me encarar e eu senti ternura, desejo, ao olhar o rosto
rubro, o azul dos olhos ganhando uma tonalidade mais clara com a satisfação.
— Linda — falei, amassando uma das nádegas. — Perfeita.
— Habilidoso! — provocou-me, deslizando um dedo pelo meu
pescoço, me arrancando um arfar.
Não contive um sorriso arrogante com o elogio.
Deixei um beijo nos lábios dela.
— Responsiva — brinquei, desferindo um tapa em sua bunda.
Ela rebolou contra a minha palma em resposta e acabei gargalhando,
dominado pela euforia, antes de segurar o pescoço delicado.
Ela gemeu.
Eu gemi.
— Se continuar a me enfeitiçar dessa forma, vou ter que fazer você
gozar todos os dias. — Forcei minha voz soar séria.
— Duas vezes, bombeiro? — brincou, os olhos azuis brilhando.
— Vai acabar comigo, feiticeira! — Abrir um sorriso malicioso foi
inevitável enquanto acariciava sua garganta.
— E eu vou ficar esfolada! E você também — disse em meio a uma
risada.
— Porra! — Grunhi quando ela rebolou em cima de mim.
Desferi um tapa na bunda da safada, sentindo meu pênis reagir à ideia
de sentir o canal dela me apertando a cada invasão.
Ela gemeu e segurou meu rosto, pressionando o meu maxilar com uma
pressão deliciosa antes de tomar os meus lábios em um beijo moroso que me
fez suspirar.
A boca se tornou mais ávida enquanto, ondulando-se por instinto, a
mão livre de Ailie deslizava pelo meu tronco, me fazendo amaldiçoar a
presença da blusa, até que alcançou o cós da minha calça jeans.
Ela apalpou meu pau por cima do tecido e meus quadris se ergueram
por instinto em uma busca das mãos dela.
Um som gutural, faminto, deixou meus lábios.
— Acho que estou sendo chamada para combater um incêndio,
bombeiro — disse em um tom cheio de malícia, os lábios se curvando de
forma provocante.
Ela deu um apertão suave em meu membro, o que me fez ficar ainda
mais babado. Segurei a mão dela, impedindo-a de continuar a me tocar, quase
me fazendo gozar só com as carícias que ela fazia. Caralho! Eu estava muito
sensível.
Vi o sentimento de rejeição nos olhos dela.
— Estou bem assim — me justifiquei.
Roubei um beijinho dela ao passo que as minhas mãos voltaram a
afagá-la, percorrendo os quadris, a cintura fina, até alcançar a lateral do seio.
Ainda que estivesse com o cenho franzido, o mamilo de Ailie reagiu à
minha carícia, o mamilo ficando mais duro. Olhei para os seios dela, que
arfava com a respiração rápida, sentindo minha boca salivar, desejosa por
sugar os montinhos até que Ailie choramingasse de prazer.
— Não é o que parece — resmungou.
Apertei um dos peitos dela, ao passo que meus dedos livres voltavam a
tocar seus cabelos dela, que estavam úmidos.
— Te dar prazer foi o meu prazer, Ailie — sussurrei, voltando a roçar
os meus lábios nos dela. — Por mais que meu pau esteja dolorido e que a
ideia de estar dentro de você me fode, eu não preciso de um orgasmo hoje.
Você já me deu o que eu precisava.
— Sério?
— Sim. O seu abraço, a sua amizade… o seu beijo… um futuro.
— Futuro? — O rosto de Ailie cintilou.
— Futuro — fui evasivo antes de abrir um sorriso malicioso: — Estou
comprometido na missão de fazer uma gostosa gozar duas vezes ao dia.
Segurei a bunda dela, amassando as nádegas, sem me importar com o
tecido dos shorts.
— Realmente estou com dó de mim. — Fez uma careta, rebolando em
um espasmo.
Minhas sobrancelhas se uniram em confusão.
— Dó?
— Ficarei bem assada! — decretou com malícia, antes de dar uma
risada, que só não soou alta demais porque a abafei com meus lábios.
Em meio ao beijo, onde as línguas se entrelaçavam de forma
preguiçosa, sem nenhuma pressa, acabei abraçando Ailie outra vez,
esmagando seus mamilos contra meu peitoral.
Quando o fôlego se perdeu, passamos a trocar vários beijinhos, toques
suaves, mais quentes, sorrindo um para o outro, e eu não pude negar que senti
umas borbulhas engraçadas no estômago.
Caramba! Era muito bom ficar assim com ela.
— Você comeu alguma coisa, Ian? — perguntou, se mexendo no meu
colo para me encarar, quando a minha barriga roncou alto. Me senti um
pouco constrangido.
— Não posso dizer que comer me passou pela cabeça hoje.
— Posso imaginar que não — deu um tapinha no meu rosto, e vi
compaixão em seus olhos. — Vou esquentar algo para você comer.
Antes que eu pudesse retrucar, me deu um selinho e se ergueu do meu
colo.
Emiti um resmungo quando se curvou para pegar a camiseta e a vestiu
com rapidez, me privando da visão dos seios, algo que parecia ter se tornado
uma espécie de obsessão para mim.
— Ian! — brigou comigo, dando um tapa na minha mão como se eu
fosse uma criança, quando tentei puxá-la pelos quadris, ao vê-la fechar os
shorts.
Fiz uma careta quando, após ganhar mais um tapinha, não obtive
sucesso em impedi-la de se afastar.
A carranca logo se transformou em sorriso ao olhar para sua bunda
redonda e perfeita.
Gostosa! Que mulher gostosa!
Futuro.
Poderia não saber o que me reservava, mas, de alguma forma, mesmo
que o ocorrido com a minha mãe ainda voltasse a me incomodar, eu me senti
mais esperançoso, esperança que tinha a ver com a mulher que agora se
movia pela cozinha para cuidar de mim.
Felicidade. Amizade. Amor... Quem sabe poderiam voltar a fazer parte
da minha vida?
Meu coração bateu com mais força no peito.
Não tinha dito só da boca para fora quando disse que queria me doar
mais e aprender a amar quem gostava de mim.
Queria amar Ailie. Desejava fazer sem medo, sem pensar demais no
meu coração, nas minhas inseguranças, já que aquela mulher poderia não vir
a corresponder aos meus sentimentos.
Queria me entregar e torcia para que eu pudesse me apaixonar por
alguém tão doce, forte, incrível, e para quem sabe, o sentimento fosse
recíproco.
Talvez fosse possível...
Porra!
Isso realmente poderia acontecer, mas, por enquanto, só me cabia viver
o presente e ver o que rolaria entre nós dois, da mesma forma que eu só podia
torcer para que eu e Grant acabássemos sendo melhores amigos.
Quando minha barriga fez um barulho alto outra vez, sai dos meus
devaneios e me ergui para ir até o banheiro para lavar as mãos rapidamente,
antes de ir encher o saco de Ailie, abraçando-a por trás, tentando roubar
beijos dela, exigindo sua atenção, sentindo-me feliz, em paz, para me
importar com as cotoveladas e com os resmungos que ela me dava e que me
arrancavam sorrisos e risadas.
Capítulo vinte e um
Uma buzina alta ecoou em meus ouvidos e automaticamente abri os
meus olhos, assustada com o som inesperado, sendo recebida por poucos
raios solares que se infiltravam no quarto e indicavam que ainda era muito
cedo.
Não pude negar que fiquei alarmada quando me dei conta de que
estava na minha cama, ficando ainda mais em alerta ao ficar ciente de que
uma mão grande estava espalmada sobre minha barriga e que o meu corpo
também estava praticamente moldado a outro.
Precisei de alguns segundos para que a minha mente processasse que
era Ian.
Não me recordava de como nós dois havíamos parado em minha cama,
mas tinha um bom palpite: cansada, eu havia dormido durante o filme que
havíamos escolhido juntos e ele me carregou até ali.
Senti meu corpo se derreter, como se fosse feito de manteiga, com a
hipótese de que Ian tinha feito aquilo.
Não me lembrava de alguma vez na vida um cara tivesse me carregado
no colo e me colocado para dormir. Podia parecer meio idiota para muitos,
mas achava algo tão de filme, tão romântico.
Suspirar foi inevitável, e me senti um pouco culpada quando Ian se
remexeu, se colando ainda mais a mim, passando a deslizar a mão pela minha
barriga com lentidão. O calor começou a se espalhar pelo meu corpo com o
toque, centrando-se no meu baixo- ventre, que se excitava.
Ian poderia ter me dado um orgasmo com os dedos dele, mas por mais
gostoso que tenha sido, não pude negar que eu queria sentir seu pau me
preenchendo por completo, levando-nos ao ápice. Mesmo que estivesse um
pouco frustrada, o respeitei quando Ian disse que estava bem sem gozar.
Acho que tinha que agradecer por aquilo. Eu não tomava pílulas, nem
usava outro método contraceptivo e também não tinha nenhuma camisinha.
Duvidava que Ian tivesse preservativo no bolso da calça. Bom, poderia ter
um na carteira. A verdade era que ontem, camisinha sequer tinha passado
pela minha mente e provavelmente não teríamos usado.
Teríamos outras oportunidades, tinha certeza. Eu tinha visto isso nos
olhos dele, eu sentia isso no toque delicioso.
— Me desculpe, não quis te acordar — pedi, acariciando o dorso da
mão dele.
Ian suspirou.
— Não precisa pedir desculpa — a voz de Ian soou sonolenta —, eu
acordei com a buzina.
— Eu também. Não sei como Molly não está chorando por ter sido
acordada… — falei em meio a um arfar quando os dedos dele alcançaram o
meu mamilo.
— Hm. — Ele gemeu quando o instinto fez com que eu esfregasse a
minha bunda na pelve dele.
Quando choraminguei, ele soltou uma risada rouca e levou as mãos aos
meus cabelos. Afastando-os, não demorei a sentir os lábios de Ian pousando
sobre meu pescoço, me provocando um arrepio.
— Bom dia, gostosa — murmurou com a voz rouca.
— Bom dia. — Me espichei contra ele quando senti a boca morna
deixando vários beijinhos na minha pele, subindo cada vez mais.
— Eu já estou tendo. — Ele mordiscou a beirada da minha orelha,
puxando-a.
— Sim? — arfei com a provocação.
A resposta de Ian foi um movimento brusco que me fez deitar de costas
na cama, antes do corpo musculoso e gostoso pairar sobre mim, me fazendo
afundar no colchão e gemer com o prazer de ter o pau em meia bomba
encaixado no meu sexo; o peitoral firme pressionando meus seios. O júbilo se
tornou ainda maior quando o acariciei, sentindo a pele nua.
— Sim, estou tendo um ótimo começo de dia! — ofegou quando
dedilhei a linha da coluna dele, pressionando meus quadris contra ele em um
impulso.
— Não vejo por quê, Ian… — Me movi debaixo dele, atiçando-o.
— Tenho a mulher mais linda do mundo debaixo de mim... — Abrindo
um sorriso malicioso, completou: —... e a mais gostosa.
— Sei — soei descrente.
Continuei a percorrer toda a extensão das costas dele, sentindo a
musculatura dele se retrair ao meu toque.
— Não sabe quantas vezes vou querer acordar assim, Ailie.
— Isso é um autoconvite, Ian?
— O que você acha? — Os lábios se repuxaram num sorriso.
Meus dedos alcançaram os cabelos dele e se entrelaçaram aos fios.
— Que eu tenho um vizinho terrível — comentei.
Deu uma risada e eu acabei dando uma risadinha também.
A graça se desfez assim que os lábios de Ian roçaram nos meus, e eu
abri a minha boca, suspirando de prazer quando a língua dele avançou em
busca da minha.
O beijo era lento, doce, e eu sentia o gosto dele em cada uma das
minhas papilas gustativas.
Recordei das palavras dele quando eu disse que ele beijava bem.
Nós...
Talvez tivesse algum sentido.
Um bem doce.
Movi meus lábios, deixando minha língua ser conduzida por ele, ao
passo que as minhas mãos se fartavam com sua pele.
Gostoso.
Lindo.
Perfeito.
Como era perfeito não só o modo como as bocas se moviam, mas a
forma como os nossos corpos se buscavam, desejando que estivéssemos nus
para nos fundirmos em um só.
Arfei.
Minha boceta ficava úmida em resposta ao roçar contra sua ereção
firme, pronta para mim.
O beijo se tornava cada vez mais quente, intenso, minhas unhas
raspavam na pele dele, provavelmente criando pequenos vergões, até que eu
interrompi para respirar.
Ian deixou vários beijinhos, e eu me contorci contra ele.
— Sim, vou me autoconvidar para dormir com você todos os dias,
feiticeira — a voz soou entrecortada.
Gemi no momento que Ian voltou a atacar meu pescoço.
— Me diz que você tem camisinha — ronronei, deslizando a minha
unha pela lombar do gostoso.
Ian parou de me beijar, o corpo dele ficando tenso ao meu tato.
Quando ele me encarou, eu vi frustração em seus olhos.
— Porra, não tenho!
— Acontece. — Fiz carinho nele.
— Vou me certificar de que isso nunca mais aconteça — resmungou.
— Bom, eu não preciso de mais um bebê. — Roubei um selinho dele.
— Não, não precisa.
Ele me deu um beijinho, depois outro e mais outro. Uma risada brotou
na minha garganta, mas foi sufocada pela boca exigente.
— É melhor pararmos, dileas — falei, sem fôlego, sentindo o meu
canal se apertar quando ele se esfregou em mim. — Não vou conseguir me
controlar.
— Eu me controlo por nós dois.
— Tem certeza?
— Não! — Ian estava frustrado, um reflexo da minha própria
frustração.
Ficamos em silêncio, nos encarando, enquanto eu acariciava os cabelos
dele próximos à nuca, até que meus lábios se curvaram.
— Por que está sorrindo? — Franziu o cenho.
— Tive uma ideia…
— Mesmo, gostosa? — Ian falou com rouquidão, ao passo que mordia
o meu queixo, deslizando os lábios para baixo.
— Sim — segurei os cabelos dele com firmeza e fiz com que Ian
inclinasse a cabeça para trás, para me encarar. — Espero que não se importe
de eu usar um brinquedinho que tenho enquanto eu… — Não completei,
deixando para a imaginação dele o que eu faria.
Com os olhos brilhando e a respiração mais ofegante, esfregou o pau
no meu ventre em um espasmo, me arrancando um gemido.
— Porra! — O palavrão saiu em um tom gutural.
— Isso é um não? — falei, insegura.
A mão grande segurou o meu pescoço com suavidade e eu senti meu
corpo todo vibrar, meu canal excitado pelos beijos, pelo peso do corpo dele,
que sentia se contraindo.
— O caralho que é um não, gostosa! — arfou, antes de voltar a baixar
o rosto contra o meu.
Seus lábios não me beijaram da forma que eu esperava, com fome, mas
sim, roçaram os meus, beijando-os com uma suavidade irritante, deixando a
minha boca formigando por mais.
Passei a me contorcer embaixo dele, deslizando minhas unhas pelas
costas largas, querendo provocar alguma reação além daqueles pequenos
moldares, mas Ian, que dizia que não tinha controle nenhum em si mesmo, a
meu ver, estava comedido demais.
— Ian… — ronronei, quando ele me surpreendeu ao aplicar um pouco
mais de pressão na minha garganta, sem me machucar, antes da língua
percorrer os meus lábios, para saquear minha boca.
Deslizei minha palma para cima e para baixo enquanto Ian me rendia
com a avidez com que me tomava, exigindo que acompanhasse os
movimentos rápidos da língua.
O som dos nossos gemidos abafados ecoavam no ar; nossas pelves se
encontravam; minhas mãos tentavam tocar cada pedaço de Ian; minha pele
guardava o calor da pele dele; meu pé deslizava pela sua panturrilha firme.
O gosto do beijo roubava minha capacidade de raciocinar e me prendia
a uma espiral prazerosa que fazia meu centro pulsar.
— Onde está o vibrador? — perguntou com a voz rouca, mordendo o
meu queixo.
— Eu pego.
— Okay.
Não me deixou ir buscar o brinquedo de imediato, já que continuou a
deixar beijos pelo meu pescoço, atiçando o meu fogo ainda mais, a ponto de
eu descartar os meus planos de dar o prazer que Ian tinha se negado,
ignorando a rigidez do pau dele.
Seria muito, mas, muito interessante ter a boca dele por todo o meu
corpo... Meu sangue ferveu com a ideia. Minha boceta ficou ainda mais
úmida.
Como se ele pudesse ler os meus pensamentos, deslizando a língua por
toda a lateral da minha garganta, em uma lambida que me fez espichar
debaixo dele, deixou um beijo bem próximo da minha orelha antes de sair de
cima de mim.
Me movi sobre o colchão e, assim que eu pousei meus pés no chão,
senti que as minhas pernas estavam bambas.
— Não tem graça! — chiei quando Ian riu da minha reação.
— É sexy, Ailie.
— Não vejo em quê! — Me aproximei do closet e tentei ficar nas
pontas dos pés para pegar a caixa na última prateleira.
— Gosto de saber que deixei você de pernas bambas sem fazer nada,
feiticeira — sussurrou de forma maliciosa. — Imagine quando eu fizer…
— Convencido. — Acusei-o, ainda que eu tive que me segurar em um
dos nichos para, literalmente, não cair, com o desejo que aquelas palavras
simples, me fizeram sentir.
Peguei a embalagem e me virei para ele, lançando um olhar para o
corpo do homem gigante, antes de parar no volume excitado em sua calça,
sentindo a minha boca secar e o coração disparar no peito.
— Sou eu quem deixará você trêmulo e ofegante — brinquei,
caminhando em direção à cama, parando de frente a ele.
— Sabe que já estou ofegante — falou com a voz rouca.
— Farei você ficar ainda mais, Ian. — Mal acreditei que acabei
dizendo aquelas palavras que me soaram bem ridículas.
Ian arfou.
— Vai acabar comigo só com palavras.
Neguei com um gesto de cabeça e coloquei a caixa com o vibrador
sobre o colchão antes de dar um passo para trás.
— Porra, feiticeira! — gemeu quando, fitando-o fixamente, segurei a
barra da minha camisa.
Ele arfou.
Mesmo que ele já tivesse visto parte do meu corpo, comecei a subir o
tecido com lentidão, tentando fazer uma espécie de strip-tease.
Definitivamente, eu era péssima naquilo, ainda mais quando eu tentava
sensualizar, deslizando a mão livre pela minha barriga.
O olhar de Ian foi o que me fez sentir que não estava fazendo um papel
ridículo. O desejo brutal que os olhos dele transmitiam, reverberando em seu
pênis, que parecia mais estufado contra o cós da calça, me fazia sentir
exatamente sexy e gostosa.
Minha excitação se fazia sentir contra a calcinha. Todas as terminações
nervosas do meu sexo, pediam por um afago que viria em breve.
Expus meus peitos para ele ao remover a camisa e jogá-la no chão, e
ouvi um som excitado quando, depois de deslizar a mão pela minha barriga,
subi meus dedos até encontrar meu seio.
Escutei meu gemido em meio a um som gutural de Ian assim que eu
apertei meu seio, o contato da minha palma contra a minha auréola sensível
me dando um choque que atingiu o meu âmago.
Continuei a me acariciar, esfregando o botãozinho com afinco, mas
tive que morder os meus lábios para conter um grito no momento em que
segurei o meu peito com pressão, como se fosse a mão de Ian.
— Gostosa! — Sorriu, safado, antes de levar a mão ao cós da calça e
passar os dedos por entre o elástico, libertando o pau de seu confinamento.
O desejo ao olhar o pênis ereto, me tragou com força, se tornando
ainda mais intenso quando ele o rodeou.
Gemeu ao deslizar os dedos para baixo, voltando a subir, fazendo com
que os quadris se erguessem do colchão em enlevo.
Iniciou um vai e vem lento, se masturbando, sons de prazer escapavam
de seus lábios.
Foi difícil para mim continuar a brincar com os meus seios enquanto
ele se tocava olhando fixamente para mim, já que eu sentia a saliva começar a
se acumular na minha boca. Queria sorver toda a extensão dele, até que o
sentisse explodir.
Tentando retomar o controle do jogo de sedução, deixei o seio e
escorreguei minha mão pela barriga até alcançar os meus shorts.
Olhei para o rosto de Ian e não para os movimentos que fazia em seu
pau, que se tornavam mais ritmados. Vendo que eu tinha um pouco da
atenção do gostoso, comecei a remover a peça com a mesma lentidão que eu
tinha feito com a blusa.
Remexi meus quadris, rebolando da mesma forma que um dia faria no
pau dele, ouvindo sua respiração ficar mais curta e ruidosa.
Dei um sorriso quando lancei um olhar para a pelve dele e vi que ele
não mexia mais os dedos, apenas me assistia. Comecei a fazer o mesmo com
a calcinha, até que o tecido estivesse no chão.
Com uma ousadia, peguei a lingerie e joguei-a na direção dele, que a
pegou no ar.
Senti um pouco de vergonha quando ele contemplou o tecido que
estava longe de ser bonito e sexy, mas logo o pudor se transformou em fogo
quando disse:
— Realmente, você vai acabar comigo, Ailie — falou com rouquidão,
cheio de ânsia, e eu senti minhas pernas bambearem enquanto choramingava
ao vê-lo traçar um círculo lento pelo forro da minha calcinha de forma
inconsciente, como se fosse meu clitóris. — Molhada pra caralho!
— A culpa é sua, gostoso! — sussurrei.
Os olhos dele brilharam com o prazer de ouvir-me falar assim, antes de
levar minha calcinha ao nariz e respirar fundo, emitindo um grunhido, que
me deixou mole, enquanto uma comichão fisgava minha boceta.
— Molhada! — repetiu para depois cheirar minha excitação que se
impregnara no tecido. — Cheirosa! — Olhou meu corpo com lentidão, como
se fosse uma carícia. — Gostosa!
— Hum.
— De costas, feiticeira, quero olhar para sua bunda também! —
ordenou.
Excitada com o comando, sob o olhar faminto de Ian, que parecia
analisar cada centímetro de mim, reuni meus cabelos em um rabo de cavalo
alto, me insinuando.
Sorrindo ao ouvir seu praguejar, fiz o que ele pediu, me colocando de
costas e empinando minha bunda.
— Que traseiro lindo, porra! — rosnou enquanto eu escutava o som
dele se movendo para deixar a cama. — Você é toda perfeita, Ailie.
— Nem tanto, Ian. — Forcei a minha voz a sair ao sentir as duas mãos
grandes agarrando minha bunda.
Soltando um palavrão, apertou as minhas nádegas uma contra a outra
para me punir pelas minhas palavras, e tudo o que eu fiz foi gemer em
resposta.
— Você é, Ailie.
— Mesmo?
Ganhei um tapa estalado em uma das bandas, que não tive nenhuma
dúvida de que ficaria vermelha com a marca da palmada.
Mais molhada com a ânsia, rebolei, tentando provocá-lo, ansiosa para
ganhar mais uma palmada.
Emiti um muxoxo por Ian não cair no meu charme, e já ia resmungar
com ele quando senti a ponta do vibrador sendo colocada na entrada do meu
sexo.
Com habilidade, provavelmente já tendo usado antes com alguém, o
que me causou uma pontada de ciúmes, Ian usou a borda arredondada para
brincar com as paredes do meu sexo, aumentando a tensão que espiralava
dentro de mim.
Segurou-me pelos quadris com uma mão, impedindo-me de ir ao chão
quando a borracha roçou o meu clitóris. Eu literalmente achei que meus pés
não me sustentariam.
— Ian — arfei o nome dele, sentindo um arrepio prazeroso percorrer a
minha espinha, quando ele voltou a deslizar a borda do brinquedo sobre o
meu ponto dolorido.
A resposta de Ian foi deixar uma mordida em minha nádega, um som
gutural saindo abafado pela minha pele, ao passo que ele ajustava o
brinquedo e deslizava mais um pedaço do silicone dentro do meu canal.
Mesmo sem lubrificante, meu corpo não ofereceu nenhuma resistência
ao avanço que Ian fazia dentro de mim, o vibrador deslizando pela minha
excitação com facilidade.
O suor cobria a minha pele. Meu prazer crescia a cada centímetro, e era
intensificado pela boca de Ian que dava atenção à minha bunda, deixando
várias mordidas e beijos.
Tornei a morder meus lábios para sufocar um soluço mais alto quando
Ian ligou as funções de vibração e de sucção. Mesmo que não estivesse
perfeitamente encaixado, senti as vibrações e o estímulo em cada ponto do
meu canal que o brinquedo tocava.
Fechei meus olhos e apenas me deixei levar pelas sensações prazerosas
em meu sexo e também pelos beijos que Ian desferia sobre minha bunda.
Eu me conhecia muito bem para saber que isso poderia me levar ao
ápice em pouco tempo.
Quando Ian aumentou a intensidade das vibrações e da sucção,
emitindo um som rouco e abafado, segurei seu pulso para impedi-lo de
continuar a controlar a velocidade e as funções.
— Ailie? — resmungou quando dei um passo para frente.
Não respondi de imediato, já que, ao ajustar melhor o vibrador,
encaixando o bocal do sugador no meu clitóris, várias ondas pressionaram o
ponto necessitado.
Agradeci pela mão de Ian em meus quadris, que me firmava no lugar,
já que a sucção forte me deixou mole. Eu estava ainda mais ofegante, só
saindo daquele transe quando ele mexeu no brinquedo e aumentou a
intensidade da sucção e das vibrações, ativando a função que imitava as
estocadas que eu tanto queria receber, mas só que dele.
— Não — a palavra soou mais como um gemido do que qualquer outra
coisa quando eu dei um passo para frente, afastando-me de seu toque.
Outro som rouco me deixou quando senti mais uma “invasão”, o que
fez o meu canal contrair com força sobre o cilindro, me levando a subir mais
um degrau na busca pelo ápice cada vez mais perto com as sucções
incessantes. No momento em que mudei as funções, diminuindo a
intensidade de tudo, senti a frustração se espalhar em mim como uma espécie
de veneno letal, deixando certo amargor em minha boca.
Tentei me convencer de que não era o momento e que não se tratava de
mim, mas sim, em sentir prazer ao dar prazer ao homem gostoso.
— Ailie? — perguntou, frustrado, me chamando a atenção,
principalmente ao esticar os braços para me tocar. A pegada firme em minha
bunda, junto com todos os estímulos em minha boceta, fez com que uma
tensão deliciosa percorresse o meu corpo.
Sim. Dar prazer a ele era o certo a se fazer.
— Deite de costas na cama, Ian — pedi com a voz entrecortada.
Virei-me na direção dele, que estava sentado na ponta da cama, e foi
automático olhar para o pau ereto, brilhando pelo pré-gozo, demonstrando o
nível de desejo que ele tinha por mim, o que me fez salivar.
Um espasmo me tomou, me fazendo ciente de que, em instantes, toda a
extensão dele estaria em minha boca.
— Gostosa! — O elogio fez com que eu fitasse o rosto másculo, e não
me surpreendi por ele devorar o meu corpo com os olhos, ao passo que suas
mãos passaram a me afagar, deslizando dos quadris para a cintura, apenas
para descer e agarrar minha bunda.
Toquei o rosto dele, erguendo-o, antes de me baixar para encontrá-lo.
Minha língua contornou os lábios dele com lentidão, fazendo com que
abrisse a boca para mim, mas, brincando com ele, desci minha boca,
mordendo o queixo que antes eu tocava.
O ofegar baixo e o escurecer dos olhos fizeram-me sentir uma
comichão no meu ventre, e eu acabei diminuindo ainda mais a intensidade do
sugador, já que o conjunto todo, me fazia perder ainda mais o controle.
— Caralho! — arfou, cravando os dedos nas minhas nádegas com
pressão, quando deixei outra mordida em seguida de uma lambida nos lábios
dele.
Com um selinho, infiltrei meus dedos nos cabelos dele, acariciando os
fios, antes de tombar a cabeça dele um pouco para o lado e enterrar o meu
rosto na curva de seu pescoço.
Inspirei fundo.
Mesmo que não houvesse resquícios do sabonete que ele usava, o
cheiro da pele dele, misturado ao suor e ao desejo, era uma fragrância ainda
mais excitante, um afrodisíaco que fez meu sangue correr mais rápido. Por
alguns segundos, me questionei como seria transar com Ian depois de um de
um expediente, com seu corpo completamente suado pelo esforço físico, mas
o pensamento morreu quando gemeu:
— Caralho, feiticeira!
Seus dedos cravaram com força em minha bunda assim que a minha
língua deslizou por toda a lateral da garganta, deixando que o gosto de Ian
impregnasse meus sentidos.
— Gostoso! — sussurrei no ouvido de Ian, antes de soprar meu hálito
quente, fazendo com que o homem gemesse e estremecesse. — Agora deita
de costas —ordenei.
— Ailie…
Ganhei um tapa forte na bunda. Engoli o meu gemido excitado para
voltar a deslizar a minha língua pelo pescoço dele, capturando a gota de suor
que escorreu, ao passo que a mão que não acariciava seus fios circundou o
pau babado, dando um apertão suave.
— Deus, Ailie! — Ele cerrou as pálpebras, ofegante.
— Deusa! — brinquei, deslizando os meus dedos pela ereção até
alcançar a base, voltando a subir ao passo que eu baixava os meus lábios em
direção ao peitoral, deixando beijos. — Deite, Ian — pedi outra vez.
Seus olhos brilharam, um sorriso maldoso surgiu em sua boca enquanto
ele assentia.
Dei um gritinho quando, segurando-me pelos quadris, ele me tombou
contra o colchão.
Ele riu antes de me beijar, me deixando ciente não só dos lábios que se
moviam com urgência, mas também das vibrações que o brinquedo exercia
no meu clitóris e no meu canal, do corpo seminu contra o meu, dos nossos
peitos se roçando, da sua ereção firme, que pressionava o meu abdômen e o
melava.
— Ian — murmurei quando a mão dele segurou minha nuca com
aquele agarre possessivo, tombando um pouco mais a minha cabeça para
mergulhar dentro de mim, me tomando.
Ele gemeu alto, o aperto se tornando ainda mais firme, a boca mais
exigente.
Mesmo que eu estivesse preenchida pelo vibrador, enquanto minha
língua se rendia ao beijo feroz, que arrancava sons baixos que morriam na
minha garganta, o instinto fez com que eu ondulasse meus quadris em cima
dele, querendo sentir o pau que deslizava contra o meu abdômen com os
movimentos afoitos dos corpos que tentavam se saciar em vão.
Rompi o beijo quando sentia que eu não estava aguentando mais
esperar pela explosão do orgasmo, e baixei minha boca pelo queixo firme.
Desci mais com os lábios, voltando a beijar seu pescoço, deixando
lambidas e raspando os meus dentes pela pele suada.
Eu saboreava cada gemido que ele me dava, a cada vez que tentava me
estocar em vão, mas eram o agarre nos meus cabelos, que se tornou
primitivo, sem medir a força, causando um pouco de dor, e a mão que
segurava a minha bunda, a minha completa perdição.
— Feiticeira… — murmurou, me surpreendendo com um carinho no
couro cabeludo, em uma espécie de êxtase ao ser marcado na jugular pelos
meus dentes.
O prazer que senti pelo gesto dele que era bem mais forte do que as
ondas que se iniciavam diretamente no meu sexo, fez com que eu continuasse
a avançar com a minha exploração, percorrendo com a boca o peitoral firme
dele, que passou a bater tão rápido com os meus beijos, que eu pensei que ele
explodiria.
Queria dizer que dei atenção aos bicos dos peitos dele, descobrindo se
eram tão sensíveis quanto os meus, mas, em meio a gemidos, Ian me fez
deslizar ainda mais pelo seu corpo suado, mal me deixando beijar o abdômen
trincado e gostoso que, além de se arquear contra os meus lábios e as pontas
dos meus dedos, se contraía de forma fascinante, fazendo-o gemer mais alto.
Eu poderia lutar contra ele, mas minha própria ânsia não permitia.
Eu pulsava pelo prazer dele, uma tensão que ficou ainda maior quando,
ao me movimentar, tive um vislumbre de seu rosto.
Vi luxúria...êxtase...um desejo cru.
A ânsia refletiu em seu gemido abafado quando, baixando mais a calça
dele, aproveitando para raspar minhas unhas em sua virilha, meus dedos
voltaram a encontrar sua ereção.
Com o coração batendo como um louco, não hesitei em acariciar a
rigidez, conhecendo toda a extensão aveludada, verbalizando o meu prazer
em tocar, em sentir seu pulsar com as minhas carícias.
Ian me deu um puxão nos cabelos, mas eu não dei o que ele queria,
apenas continuei a deslizar minha mão pelo seu pênis, enquanto meus dedos
livres brincavam com o saco, fazendo com que ele movesse os quadris,
estocando-me em busca de alívio.
— Ailie, eu preciso… — pediu, em meio a um grunhido, quando o
meu polegar roçou a glande, espalhando o líquido por toda a cabeça. —
Porra, eu preciso da sua boca!
— Assim? — Provoquei-o, ao usar a ponta da língua para acariciar a
fenda sensível, lambendo o líquido que saia por ela.
Ele gemeu, e eu também, já que o gosto salgado e almiscarado em
minha língua voltou a fazer minha boca salivar e meu canal se apertar com o
desejo.
Continuei a brincar com a fenda, tomando as bolas entre meus dedos,
atormentando o homem gostoso, que me punia prazerosamente com puxões,
até que, lambendo todo o perímetro da glande, tomei a cabeça entre os meus
lábios.
Com um gemido, ele arqueou os quadris na direção da minha boca em
um espasmo, mas segurando-o pela base, o impedi de estocar dentro de mim.
Um som frustrado voltou a escapar de seus lábios, mas se tornou prazer
no momento em que, acariciando parte do pênis ereto, passei a sugá-lo
lentamente, dando a Ian aquilo que ele desejava.
Minha boca, mãos, estavam a serviço dele, e eu me deliciava, não só
pelas carícias que ele fazia em meus cabelos, pelos sons baixos e ofegantes
que ecoavam nos meus ouvidos, mas também pela excitação dele, que se
misturava lentamente a minha saliva, tornando o meu desejo e a vontade de
agradá-lo ainda maior.
Cada vez mais ofegante, continuei a chupar Ian, deixando o pau dele
ainda mais tenso sob meu toque, latejante, reação que ficou mais visceral
quando passei a alternar pequenos beijos e lambidas na cabeça, enquanto
meus dedos continuavam a ordenhá-lo.
— Gostosa! — murmurou.
Gemi, e sem deixar de chupar, tomando-o um pouco mais em minha
boca, o encarei, sentindo uma fisgada em meu sexo ao ver que ele me fitava
de volta, os olhos brilhando, ainda que enevoados.
As gotinhas de suor que deixavam seus cabelos e escorriam pelas face,
me fez contrair os músculos do meu sexo outra vez, prendendo a haste do
vibrador com força.
Lindo...
Gostoso...
Rocei minha língua em seu pênis e apertei a base.
Ele gemeu mais alto e a mão soltou os meus cabelos apenas para
enrolar uma mecha espeça em seu punho.
Deu um toque firme nos meus fios, arrancando-me um suspiro, antes
de eu fechar os meus lábios em seu pau, como se fosse o meu sexo se
contraindo sobre ele, ao passo que levava a minha mão livre em direção à
minha boceta e tateava o controle.
Deslizando minha boca pelo pênis dele, mas sem tomá-lo por
completo, tive um pouco de dificuldade de aumentar a velocidade das
sucções, mas quando o fiz, por alguns segundos, eu só me deixei levar pela
pressão que o sugador fazia sobre o meu clitóris, irradiando por todas as
terminações do meu corpo.
Com a interrupção, ganhei um puxão nos cabelos enquanto, com um
grunhido, Ian estocava em minha boca, fazendo com que eu engolisse o pau
dele ainda mais, mas não a ponto de me sentir desconfortável.
Ele começou um vai e vem lento na minha boca, deslizando-se sobre a
minha língua, buscando o próprio prazer, até que eu tomasse a iniciativa.
Controlando minha respiração, o que era bem difícil com os estímulos
que eu recebia no meu ponto de prazer e que me levavam a uma espiral
intensa, voltei a segurar o pênis dele e fiz com que ele mergulhasse mais
fundo dentro da minha boca.
— Porra! — xingou, quando passei usar a minha língua na cabeça a
cada arremetida, mantendo o músculo solto para oferecer outro estímulo
durante as arremetidas.
Gemi com a pressão do brinquedo sobre a minha carne, e o prazer, que
formava uma nuvem densa sobre os meus pensamentos e se espalhava pelo
meu corpo com o turbilhão, fez com que eu tomasse Ian por inteiro dentro de
mim.
O agarre dele se tornou mais forte, as arremetidas curtas na minha boca
mais cadenciada, ao passo que eu sentia o brinquedo aumentar a sucção sobre
meu clitóris.
Esforcei-me ao máximo para dar atenção ao pau de Ian, que entrava e
saia dos meus lábios, em manter meus dedos trabalhando no pênis latejante e
em acariciar os testículos, mas eu me perdia nas ondas de prazer que se
tornavam mais fortes e precisas, fazendo com que eu perdesse o controle de
mim mesma. Sentia que o ápice estava cada vez mais próximo. No entanto,
eu não estava sozinha, o que fez o meu coração bater mais rápido.
Os quadris de Ian afundavam contra o colchão antes de se erguerem em
um impulso rápido, buscando o próprio gozo, que não tardaria a alcançar.
Éramos um, por mais que não estivéssemos completamente unidos.
Nossas respirações eram bruscas, rápidas, e ecoavam no ar em um
único ritmo.
Mãos, bocas e corpos, trabalhavam juntos para chegar ao orgasmo.
O cheiro de suor e do nosso desejo impregnava as minhas narinas, mas
o que realmente me dava a impressão de sermos um único ser era o fato de
ele me puxar a cada deslizar para encarar seus olhos, que sempre estavam
fixos em mim.
— Eu não posso segurar mais! — rosnou, jogando os quadris para
frente, antes de se jogar contra os meus lábios e se retirar.
Gemi baixinho, remexendo os meus quadris em um espasmo com a
sucção e vibração, minha língua roçando em seu pau ao mesmo tempo que os
meus dedos o masturbavam.
Ele estocou em minha boca uma, duas, três vezes, perdendo o controle
ao ir mais fundo, alcançando minha garganta.
Eu senti o desejo comandar o meu corpo mais uma vez. Não pensei em
mais nada, apenas me joguei naquelas sensações que me consumiam de cima
a baixo.
Minha vista ficou nublada, meu canal, apertava a parte vibratória do
brinquedo, e meus lábios se mantinham apertados para receber Ian, que
baixou a pelve antes de subi-la uma última vez.
O grunhido abafado dele que ecoou no ar reverberou em todo meu
corpo, o que me levou a minha própria explosão.
Enquanto eu sentia várias ondas me percorrerem, minha boceta se
contraindo, Ian me puxou pelos cabelos, fazendo minha cabeça tombar para
trás. Lutando contra a força do bombeiro, deslizei para baixo, sentindo o gozo
dele encher minha boca.
Engoli tudo, antes de soltar seu pênis e deitar-me sobre sua pelve.
Inspirei fundo, tentando normalizar o meu peito, mas com as vibrações
no meu canal e a sucção ainda estimulando meu clitóris com ondas,
prolongando o orgasmo, me senti indo mais alto.
Suspirei, gemi, busquei ar, até que, em meio aos carinhos que ele fazia
no meu cabelo, senti novamente uma comichão no meu sexo, outro ápice me
atingindo, deixando o meu corpo mole e extasiado.
Esperei alguns minutos para então desligar o vibrador e escalar o corpo
de Ian, até que nossos rostos ficassem próximos.
Foi automático meus quadris buscarem os dele em um último espasmo.
Sem deixar de acarinhar meus cabelos, sua mão livre percorreu toda a
extensão das minhas costas.
— Caralho! — gemeu quando eu rocei meus lábios no pescoço dele.
— Hm.
— Isso foi…
— Bom.
Deu um tapinha em minha bunda e, em troca, deixei uma mordida na
junção de sua garganta e clavícula.
Ele emitiu um suspiro, antes de dizer com a voz rouca:
— Bom é pouco. Isso foi espetacular, gostosa!
Acabei dando uma risadinha. Ele, então, segurou-me pelo queixo para
que eu o olhasse.
— Boca gostosa!
Abri um sorriso.
— Eu acabei perdendo o meu foco. Não me orgulho da minha
performance.
Ele franziu as sobrancelhas e me deu outro tapa.
— Eu sou o único que posso avaliar aqui, feiticeira.
— Sim?
— Sim. E você foi fantástica.
Suspirando, roubei um selinho dele, mas o homem era um tremendo
safado, já que, lambendo os meus lábios, fez com que eu abrisse a minha
boca para ele.
As línguas se entrelaçaram e mesmo que o beijo não fosse urgente,
senti Ian enrijecer debaixo de mim.
— Melhor não continuarmos — falei, interrompendo o contato,
espalmando minhas mãos no peito firme.
— Acho que podemos, sim. — Abriu um sorriso malicioso, suas mãos
tocando minhas costelas.
Fiz que não.
— Molly daqui a pouco vai acordar e eu quero tomar um banho antes
— me justifiquei.
— Banho me parece bom! — Agarrou minhas nádegas. — Você fez
uma meleca e tanto!
— Eu? — Franzi o cenho.
— Sim.
— Ninguém merece! — Desferi uma tapinha no ombro dele.
— Eu mereço, Ailie — disse com contentamento.
Antes que eu pudesse responder qualquer coisa em provocação, ele me
puxou novamente para si e seus lábios voltaram a tomar os meus, fazendo
com que eu me lembrasse do banho só tempos depois.
Capítulo vinte e dois
— Oi — falei, atendendo a ligação.
— Ocupado? — Grant perguntou. — Posso ligar mais tarde.
— Não. Acabei de sair do banho.
— Espero que não esteja pelado! — comentou, divertido.
— E se eu estiver? — provoquei.
— Vá colocar uma roupa, balach! — disse em um tom sério.
— Faz diferença, mano? — Sufoquei a risada.
— Eu não vou conversar com um cara que está pelado! — Ralhou, e eu
pude imaginar a cara desgostosa do meu irmão.
Não consegui me controlar e caí na risada.
— Estou falando sério — continuou, mas a risada o denunciava.
— Sei.
— Posso esperar você se vestir.
— Relaxa. Eu estou coberto…
— Sério?
— Tenho certeza de que você não quer uma selfie minha para provar
que eu estou vestindo uma calça, mano — fui jocoso.
Quando o meu irmão soltou um bufo, voltei a rir da cara dele.
— Quem diria que atrás da fachada de cara silencioso e sério se
escondia um piadista? — resmungou.
— É o meu charme.
— Você não tem charme…
— Falou o sem-charme! — Fiz uma careta.
— Tenho uma mulher linda, não tenho? — gabou-se.
— Como conseguiu, eu não tenho ideia.
— Meu charme!
Gargalhamos.
Era engraçado pensar o quanto as brincadeiras e zombarias haviam se
tornado algo natural entre nós e não algo forçado, como da primeira vez que
o conheci e eu tinha falado que eu era o mais bonito.
— Como vocês estão? — questionei.
— Bem e você? — Pareceu um pouco preocupado.
— Feliz... Tranquilo — murmurei.
— Não sabe o quanto me alegra em ouvir isso, irmão.
— Eu sei…
Felicidade. Tranquilidade. Duas palavras que tão cedo imaginei que
usaria para me referir à minha vida, mas que, agora, eram a realidade do meu
dia a dia, uma bolha somente rompida quando havia uma baixa no meu
trabalho.
Dez dias haviam se passado desde o meu reencontro com a minha mãe,
mas parecia que tinha transcorrido muito mais. Pensei que iria sofrer mais
pela rejeição dela, mas a tristeza e a dor, que foram intensas no dia do
ocorrido, talvez pelo choque, não me assombravam mais. Vez ou outra, o
ressentimento dava as suas pontadas, assim como uma certa preocupação por
Livy estar vivendo em um relacionamento abusivo com o marido dela.
Poderia pedir a meu irmão para mandar investigar e confirmar as
minhas suspeitas, mas o que eu faria com aquela informação? Sabia que nem
sempre se podia fazer algo para ajudar, não sem que a pessoa percebesse que
está vivendo algo ruim e peça socorro, e Livy havia deixado claro que minha
presença na casa dela havia trazido um problema para ela, então eu só iria me
machucar mais ainda ao tentar intervir.
Toda vez que a preocupação e o sentimento de impotência apareciam,
disciplinei-me para as suprimi-los. Esquecer o passado que não poderia ser
mudado era o que eu precisava fazer. Optei por focar no meu presente, no
que estava vivendo com Ailie.
Eu fazia amor de várias formas com Ailie, me entregando ao calor de
pele contra pele, de ouvir os nossos suspiros, de ter o corpo dela se arqueando
contra mim, de ter o gosto do prazer dela em meus lábios, de dormir e
acordar com ela.
— Você deveria me apresentá-la, Ian — falou em um tom sério, me
tirando do transe.
— Apresentar quem?
— É natural eu querer conhecer a namorada do meu irmão —
justificou-se.
Merda! Não sei por que acabei contando para ele que eu tinha beijado
Ailie e que nós dois acabamos nos envolvendo. Talvez a culpa fosse do meu
irmão, que começou a me questionar sobre ela.
— Ailie não é a minha namorada, Grant — murmurei.
— Mas será pelo visto — afirmou.
— Você não pode prever isso, cara.
— É um palpite.
— Sei.
— Deveria pedi-la em namoro… — sugeriu.
— E você deveria pedir a Merie em casamento — retruquei.
— Sabe que não é tão simples assim. — O tom antes divertido tornou-
se inseguro.
Era engraçado ver um homem poderoso como ele nos negócios temer
fazer uma proposta para a mulher que ama, mas eu acho que o entendia,
afinal, a mulher dele já havia passado por um casamento e pode ter sido algo
traumático para ela.
— É só fazer algo romântico — incentivei-o.
— Merie pode não aceitar.
— Tenho certeza que ela irá aceitar.
— Você não pode saber, Ian.
— É um palpite — provoquei.
— Insolente.
Rimos.
— Vocês já são casados, cara — continuei.
— Eu já me considero casado, mesmo.
— Eu não tenho dúvidas de que ela também…
— Não sei, só sei que preciso criar coragem.
— Eu te ajudarei nisso.
— Da mesma forma que você vai criar coragem para pedir Ailie em
namoro?
— Vou fazer isso, mas, no momento, estamos na fase de nos
conhecermos e nos curtir.
— Esses jovens! — Me recriminou.
— Falou o velho que não tem nem quarenta anos ainda — brinquei. —
A diferença de idade entre nós é mínima!
— Mas sou mais velho que você.
— Grande coisa.
Voltamos a rir.
— Falando sério, eu quero conhecer a mulher que te faz feliz, e
também a bebezinha dela, irmão. Tenho que agradecer às duas por te fazerem
tão bem — murmurou.
— Vou conversar com a Ailie sobre isso, Grant — prometi, ainda que
soubesse que não devesse, afinal, da mesma forma que meu irmão temia
assustar Merie com um pedido de casamento, eu temia a reação de Ailie a um
pedido de namoro. Não era um pedido simples, implicava muita coisa.
— Mudando de assunto, pedi aos meus advogados para entrarem em
contato com o Barack para informar que você está vivo, como me pediu.
Respirei fundo e soltei o ar devagar.
Tinha sido uma decisão difícil pedir aquilo para Grant, porque
acreditava que, julgando pela reação de Livy, nosso pai poderia se ressentir
também com a minha aparição, então era o melhor a se fazer. Se ele quisesse
me ver, o que duvidava muito, já que esse tempo todo ele não havia nem
entrado em contato com o meu irmão, que me procurasse.
— Obrigado, mano.
— É o mínimo que eu poderia fazer por você.
— Você sabe que significa muito para mim.
— Torci para que as coisas fossem diferentes — sussurrou a confissão.
Não pude negar que eu fiquei surpreso ao ouvir isso.
— Sério?
—merecia mais do que um contato frio, como se fosse um homem
qualquer, não o filho que foi tirado deles.
— Eu tenho mais do que imaginei ser possível nessas circunstâncias,
Grant — comentei com a voz embargada.
Ele não pareceu tão satisfeito com minha resposta. Algo me dizia que,
realmente, ele queria que as coisas fossem diferentes para mim, que eu
tivesse a mesma acolhida que recebi dele.
— Bom, vou dar um pulo no apartamento da Ailie. Deve estar quase no
horário de Molly dormir e eu quero dar um beijinho nela antes disso.
— Vai lá! Vou ficar mais um pouco com Claire e Craig antes de
colocá-los na cama.
— Dê um beijo nos dois por mim e mande um oi para Merie.
— Claro. Te vejo depois de amanhã?
— Sim, mano.
— Tenha uma boa noite.
— Boa noite, Grant.
Ele desligou a ligação, mas eu continuei com o celular junto à orelha
por alguns segundos antes de guardá-lo no bolso.
Sem me preocupar em vestir uma camisa, querendo chamar a atenção
de Ailie, peguei umas sacolas que tinha deixado na geladeira antes de ir.
Assim que alcancei o apartamento dela, mandei uma mensagem avisando que
eu estava na porta.
Quando a porta se abriu, senti meu coração disparar ao olhar para a
mulher linda, que tinha um sorriso nos lábios, antes de se jogar em cima de
mim, os braços envolvendo o meu pescoço, pressionando os seios contra o
meu peito.
Passei o meu braço livre em torno do corpo delicioso e esperei pelo
beijo. Ela não me decepcionou. Sua boca se moveu sobre a minha em um
beijo suave, que deve ter durado poucos segundos, o que era frustrante, já que
eu queria muito mais, mas compreensível, pois Molly estava acordada e
estávamos no corredor do prédio.
— Vamos entrar — falou, dando um passo para trás.
— Já ia me convidar, vizinha. Primeiro as damas! — brinquei, fazendo
com que ela sorrisse para mim.
Ela me roubou um selinho antes de dar as costas e entrar. Meu olhar
recaiu automaticamente na bunda da mulher gostosa, que parecia mais
arrebitada pelo short de lycra. O desejo de agarrá-la, de ter as nádegas
rebolando contra as minhas palmas enquanto ela cavalgava em mim foi
instantâneo, mas me controlei e entrei atrás dela no apartamento.
Molly deu uns gritinhos quando me viu. Desviei o olhar de Ailie para a
bebê abrindo um sorriso ao ver a menininha de bruços.
— Oi, docinho — cumprimentei-a, andando na direção de onde ela
estava e me posicionando a alguns centímetros dela, pousando as sacolas no
chão. — Vem aqui no titio, Molly!
Ela esticou um bracinho na minha direção, abrindo e fechando as
mãozinhas. Bati as mãos nos meus joelhos para incentivá-la.
— Você consegue, docinho! — Dei mais umas batidinhas.
Balbuciando sílabas desconexas, o rostinho de Molly se franziu, como
se estivesse concentrada, continuando a sacudir os braços e pernas.
Assisti, com o coração se enchendo de orgulho, a menininha avançar
na minha direção, apoiando as mãos e os joelhos no chão.
— Parabéns, Molly — falei em um tom animado quando ela conseguiu
alcançar-me.
Ela esticou a mão em direção às sacolas.
— Pensei que você queria o titio — gracejei quando Molly deu um
gritinho ao alcançar o objeto de desejo dela enquanto eu escutava uma risada
vinda de Ailie. Impedi a bebê de tocar nas sacolas. — Não pode!
Molly me encarou, frustrada, antes de voltar a tentar pegar a bolsa,
sendo impedida outra vez.
— Não, docinho! — falei quando ela fez um bico enorme e antes que
Molly começasse a chorar, a peguei no colo, fazendo barulhos com a boca
para distraí-la.
Sentei-me no chão e Molly emitiu uma risada quando eu a ergui bem
alto, descendo-a devagar, antes de subi-la de novo.
— Você pode guardar na geladeira as coisas que trouxe, Ailie? — pedi
em meio aos gritinhos de euforia de Molly.
— Claro. O que tem na sacola? — perguntou, se aproximando.
— Algo que comprei pensando em você.
— Em mim? — Pareceu surpresa e eu olhei para ela ao baixar a bebê.
— Espero que goste! — Sorri.
— Eu já amei, Ian, mesmo sem saber o que é. — Me devolveu o
sorriso se inclinando para pegar as sacolas.
Molly deu um grito, chamando a minha atenção. Ergui a bebê de novo,
que deu uma gargalhada.
— Refrigerante? — Ailie murmurou.
— Vi uns sabores diferentes e pensei que poderia gostar — me
justifiquei, ficando um pouco inseguro.
— Obrigada, dileas, não precisava — Ailie sussurrou e para a minha
surpresa, se curvou na minha direção e me deu um selinho, que ficou ainda
mais gostoso junto a palavra querido.
— Precisava, sim. Quero sempre te agradar — sussurrei.
Os olhos dela brilharam e eu vi que pareceram ficar um pouco úmidos.
Molly novamente chamou a minha atenção, balbuciando várias sílabas
desconexas e agitando os bracinhos, já que eu havia interrompido a
brincadeira.
Ailie se afastou.
— Que bebê ciumenta! Puxou sua tia? — brinquei com ela, erguendo-a
mais uma vez.
— Ian! — Ailie resmungou.
— Viu que Molly concorda, né? — Provoquei-a, ao passo que a bebê
ria, feliz com o sobe e desce.
— Sabe que ela ainda não entende essas coisas.
— Claro que ela entende. Meu docinho é muito esperta! — A defendi,
deixando um beijo estalado na bochecha gordinha e fofa.
— Eu desisto! — bufou.
Gargalhei, e Molly me imitou, o que me deixou abobado. Continuei a
brincar com Molly, mudando as brincadeiras quando ela se cansava, até que a
bebê começasse a ficar irritada.
— Já quer dormir, não quer, docinho? — falei, quando a menina
passou a emitir sons que era bem próximos ao choro.
— Você faz as honras? — Ailie questionou.
— Claro! — Na verdade, eu contava os minutos para chegar a essa
parte do dia.
Levantei-me com Molly no colo e fui me sentar no sofá. Aninhei a
menininha contra o meu peito, como Ailie tinha me instruído, aguardando
para dar o leitinho da noite a ela.
Suspirei, fazendo carinho nos cabelos da bebê, uma onda de paz
tomando-me de imediato por ter a menininha em meus braços. A recíproca
era verdadeira, já que Molly não chorou, parecendo apreciar o calor da minha
pele. Ternura e carinho me preencheram. Não demorou para que Ailie
aparecesse com a mamadeira.
Entreguei-me ao momento prazeroso de colocar Molly para dormir,
com várias emoções díspares enchendo o meu peito.
Passando por aquelas etapas, não era difícil desejar ser pai daquela
bebê linda e fofa. Era um anseio que se tornava mais forte a cada segundo
que eu encarava o rostinho dela, as pálpebras lutando contra o sono.
Alguns minutos depois, eu velava o sono de Molly na beira de seu
bercinho, abraçado a Ailie. Ficamos ali por um tempo, antes de deixarmos o
cômodo com passos silenciosos.
— O que você quer fazer hoje? — ela perguntou ao voltarmos para a
sala.
— Acho que é meio óbvio, feiticeira — falei, segurando-a pelo braço,
girando Ailie para que ficássemos frente a frente.
— Pode não ser, Ian. — Levou a mão à minha nuca, acariciando os
meus cabelos.
Gemi baixinho, e os olhos azuis dela cintilaram.
Não hesitei em passar os meus braços pelo corpo dela, trazendo-a para
mim.
— Mas é, feiticeira.
— Sim?
Deixei minha mão escorregar em direção à bunda dela.
— Eu só penso nisso a cada segundo do meu dia.
— Tenho certeza de que não.
— Não duvide, Ailie, pois a sua boca é a minha grande obsessão.
— Só a minha boca? — Fingiu mágoa, a mão livre acariciando a lateral
do meu tronco.
Desferi um tapa na bunda gostosa, fazendo com que ela gemesse
baixinho.
— Você inteira — rosnei, baixando os meus lábios sobre o dela.
Não tive pressa em dominar a boca de Ailie, por mais que tudo em
mim clamasse pelo beijo intenso que passei o dia inteiro pensando em dar. Eu
moldava seus lábios com os meus, os lambia, provocando-a, ao passo que
minhas mãos a afagavam com fervor.
Caramba!
Parecia que fazia anos que eu não a tinha, e não horas.
O pensamento, o leve entreabrir dos lábios, o carinho que ela fazia, o
modo como o corpo dela roçava no meu me fizeram mandar tudo ao léu.
Gemi, puxando-a ainda mais contra mim, no momento em que a língua
dela encontrou a minha e nossas bocas se amaram com desejo. O gosto do
nosso beijo era intoxicante, excitando-me a ponto de eu sentir meu pênis
começar a endurecer contra a barriguinha dela. Pensar que ela também estava
ficando úmida no meio das pernas alimentou a besta faminta que vivia em
mim e que só se saciava com ela. Apenas ela tinha esse poder.
Segurei-a pela parte de trás do pescoço, ganhando um arranhar suave
na minha lombar que me fez gemer outra vez, antes de tombar a cabeça dela
um pouco e ganhar novo acesso à boca, ao mesmo tempo que meus lábios
demandavam a mesma resposta brutal.
Arfei, mordiscando a mandíbula dela quando a intensidade do beijo
roubou o meu ar; minha mão deslizando dentro da blusa soltinha que usava.
— Preciso te contar uma coisa — murmurou.
— Agora? — Agarrei um seio, agradecendo silenciosamente por ela
não usar sutiã.
— Estou contando os minutos para te falar, Ian. — Os olhos dela
brilharam de entusiasmo.
— É importante, então. — Fiquei sério, baixando minha mão.
— Para mim, sim.
— Se é importante para você, é para mim, feiticeira.
— Isso é bastante doce de se dizer — disse, jogando charme e
enrolando uma mecha do meu cabelo em um dedo.
Segurei o rosto dela.
— Estou falando sério.
— Posso ver que sim.
— E o que é mais importante que o nosso beijo? — brinquei. — Estou
ficando curioso.
— A moça que me representa na Corte me ligou hoje mais cedo e me
disse que, semana que vem, terá uma nova audiência para formalizar a
adoção de Molly. — Vi lágrimas de emoção se formarem nos olhos dela. —
Ela disse que a equipe de assistência social concluiu que não há nenhum
impedimento criminal, médico ou financeiro que me impeça de adotá-la.
— Deus, Ailie! — sussurrei, meu peito parecendo explodir de tanta
felicidade.
— Se nada der errado, semana que vem, Molly finalmente será minha
oficialmente. — Uma lágrima deslizou pela bochecha dela.
— Nada dará errado. Você será a mãe de Molly legalmente, Ailie.
Ninguém poderá tirá-la de você. Ninguém! — falei com convicção,
relembrando as palavras dela sobre ter esperança.
A abracei com força e senti as mãos dela espalmadas nas minhas
costas.
Ela chorou ainda mais contra o meu peito e, deixando vários beijos no
topo da cabeça dela, inspirando o cheiro dos fios, ficamos assim por vários
minutos, até que eu dei um passo para trás.
— Temos que comemorar, feiticeira!
— Ainda não, Ian.
— Não vejo por que não.
— E se…
— Formalidade, Ailie. Ela não disse que a audiência é só a
formalidade?
— Sim, mas…
— Você pode me dar uns tapas se algo contrário acontecer… —
brinquei.
— Combinado — devolveu.
Dei uma risada, antes de tocar o queixo dela.
— Eu estou feliz por vocês, Ailie.
— Eu sei que está.
Me roubou um selinho.
— Sabe de uma coisa?
— O quê?
— Agora que penso, não me importo se você quiser me dar uns tapas
agora!
Ela arqueou uma sobrancelha para mim e eu abri um sorriso malicioso,
antes de voltar a tocar na bunda dela.
— Seu safado! — Fingiu que estava indignada.
— Sei que é mais safada do que eu, mulher! — A apalpei.
— Claro que não!
— É, sim.
Fez uma careta, antes de dar um lindo sorriso, colando-se novamente a
mim.
— Você tem sorte…
— Tenho?
— Fica falando assim de mim… — Espalmou as mãos em meu
peitoral.
— Eu gosto da sua safadeza! — Defendi-me, sentindo o meu corpo
vibrar.
— Bom que ganhou pontos comigo hoje… — debochou, deslizando a
palma pelo meu abdômen e cada uma das minhas terminações se contraiu.
— Ganhei?
— É romântico ganhar refrigerantes.
— Tenho certeza de que não é algo muito romântico.
— Não é você quem decide isso, bombeiro — sussurrou. Ficou nas
pontas dos pés e me beijou.
Podia não decidir sobre aquele assunto, mas em um ponto eu estava
certo: eu seria muito idiota se não decidisse me entregar aquela mulher mais
uma vez.
Capítulo vinte e três
— Bom apetite, senhoritas — falei ao entregar o último prato de torta
da bandeja para as garotas.
— Obrigada — respondeu a moça que eu havia servido, já que as
outras estavam de bocas cheias.
Sorri e fiz uma vênia, antes de ir atender outra mesa que havia me
chamado quando eu organizava os pedidos.
— Em que posso ajudá-lo, senhor?
— Um café preto, por favor.
— Claro — registrei o pedido dele —, mais alguma coisa?
— Peça para capricharem no whisky. — Piscou com um olho só para
mim.
— Pode deixar. Algo mais?
Fez que não com a cabeça.
— Daqui a pouco eu volto com o seu café, senhor — falei.
Com outra vênia, afastei-me em direção à cozinha, mas fui parada por
outro cliente.
O salão começou a lotar, instaurando uma correria sem fim. Não
ajudava em nada os baristas se atrapalharem com os pedidos. A senhora
McLin estava esbravejando com todos.
Droga!
Seria um dia daqueles em que tudo o que eu iria querer é um banho
longo e quente de banheira para relaxar, pena que não havia uma no meu
apartamento. Uma massagem teria que servir.
Tentei não pensar nas mãos fortes de Ian aplicando pressão nas minhas
costas, mas falhei, sentindo que ruborizava, o calor se espalhando-se por meu
corpo com as imagens que vieram à minha mente. Sorte que eu tinha a
correria como desculpa para minha pele avermelhada.
— Meus pés estão me matando! — Jane resmungou quando, depois de
quase uma hora e meia, finalmente os pedidos foram acertados e o café deu
uma esvaziada.
— Eu já disse para você não usar essa sapatilha no trabalho.
— Ah, mas ela é bonita!
— Mas aperta seus dedos, de que adianta?
A loira fez uma careta.
— Às vezes você é muito chata, Ailie!
— Sei. — Lancei um olhar pelo salão. — Um cliente do seu setor de
atendimento está te chamando!
Emitiu um suspiro longo e cansado, antes de dizer:
— Do seu também.
— Estou vendo. — Fui atender o cliente.
— Eu preciso ficar bonita! — comentou quando retornamos para
entregar os pedidos.
— Já é linda, Jane.
— Preciso ficar ainda mais. Diferente de você, eu ainda não arrumei
um bonitão. — Estalou a língua para mim.
Revirei os olhos.
— Por que você não está brigando comigo, dizendo que o bombeiro
não é o seu bonitão? — perguntou.
— Talvez eu tenha cansado de negar! — desconversei.
Fazia praticamente um mês que eu e Ian estávamos nos conhecendo,
mas preferia manter em segredo, já que, por mais que a nossa relação
estivesse bem gostosa e que ele sempre me dizia coisas doces e românticas,
sabia que não tinha nada “oficial”.
Ela ficou me encarando com suspeita, e eu soube que era pedir demais
que Jane não dissesse nada.
— Sua safada! — sussurrou, mas eu a conhecia o suficiente para saber
que ela queria gritar. — Vocês dois estão juntos!
— Claro que não!
— Mentirosa! — Sibilou. — Está na sua cara que você está transando
com ele!
— Jane! — Quase gritei com ela, exasperada com o comentário
impróprio para o local de trabalho.
— Viu? Você acabou de confirmar que está dando para ele!
— Tem um cliente me chamando — me agarrei a oportunidade para
fugir da ladainha dela. — Você deveria cuidar das suas mesas!
— Não vai escapar de mim — escutei a voz dela soar atrás de mim.
Xinguei-a mentalmente, antes de abrir um sorriso para atender o meu
cliente. Sabia que ela não me deixaria em paz. Fugi ao máximo dela durante o
expediente, procurando qualquer coisa para me ocupar. Emiti um suspiro
quase de alívio quando o meu turno chegou ao fim e eu fui buscar minhas
coisas para ir embora.
— Covarde! — Dei um pulo no lugar, assustada com a acusação dela.
— Jane! — Arfei, colocando a mão no peito, olhando para a loira. —
Que susto!
— Pensei que éramos amigas! Mas não. Você mentiu para mim várias
vezes quando disse que não estava se envolvendo com o bonitão! — Fez
biquinho.
— Eu não menti…
— Mentiu. E por quê? Todo mundo do café sabe que vocês estão
juntos.
— Não precisa bancar a traída, Jane! — Suspirei, cansada.
— Mas eu fui.
Arqueei uma sobrancelha para ela.
— Bem, talvez eu esteja exagerando.
— Que bom que sabe disso.
Bufou.
— Quanto tempo faz que estão ficando juntos?
Respirei fundo, soltando o ar lentamente. Eu não iria escapar dela.
Então, resignada, respondi:
— Um mês.
— Um mês? — gritou.
— Jane… — Semicerrei os olhos para ela.
— Um mês, Ailie.
— O que que tem?
— Deveria ter me contado antes.
— Faz diferença?
— Claro que faz.
— Não vejo em quê.
— Amigas não mantém as coisas em segredo por tanto tempo.
Abri e fechei a boca para retrucar, dizendo que ela não me contava de
todos os caras que ela saía, mas acabei desistindo, dando uma resposta
amena:
— Não foi intencional.
— Sei. — Fez uma expressão de descrença, antes dos lábios se
curvarem com malícia: — E então?
— O quê?
— Os bombeiros são tudo isso que parecem?
Fiz uma careta.
— Isso é bastante pessoal, Jane — adverti. — Não vou responder isso.
— Por que não, sua chata?
— O que eu tenho de chata, você tem de inconveniente — fui seca.
— É só um sim ou não.
— Por que você não descobre por si mesma, Jane? — sussurrei,
maliciosa.
— Eu…
— Deveria, melhor do que obter a informação de segunda mão! —
provoquei-a.
— Não tem graça! — resmungou.
Ri da cara dela enquanto pegava a minha bolsa. Ela não gostou nem
um pouco.
— Estou atrasada para buscar a Molly. Te vejo amanhã! — falei,
tentando controlar a minha risada, deixando um beijo na bochecha dela.
— Ailie! — gritou, indignada.
Tornei a rir enquanto caminhava para deixar o espaço de funcionários,
só parando para bater meu ponto e me despedir dos meus colegas e da
senhora McLin.
— Ailie! — Assim que saí do café, ouvi uma voz bastante conhecida
me chamar.
Um calafrio ruim percorreu minha espinha, a tensão se acumulando
sobre meus ombros.
Fingindo que eu não tinha escutado, continuei a andar, mas mal dei
cinco passos, senti Noah segurar meu braço.
Fiquei rígida de forma instantânea, o medo formando um bolo na
minha garganta.
— Não me toque! — o adverti, minha voz traindo o meu medo.
— Eu só quero conversar. — Fiquei surpresa quando ele me soltou,
mesmo assim, não senti nenhum alívio ao terror que me acometia.
— Não temos nada para conversar.
— Não finja que não temos, pois temos, Ailie. — A voz soou mais
firme, e eu imaginei que ele fosse voltar a agarrar meu braço. Felizmente, não
o fez. — Molly é minha filha.
— Não… Ela é minha agora! — Tentei imprimir firmeza ao meu tom.
— Você cuidar dela não faz Molly ser menos minha filha.
Me virei para encará-lo. Diferentemente da última vez que o vi, Noah
parecia limpo e sóbrio.
— Muito tarde para se lembrar disso — falei instintivamente.
Vi os olhos dele brilharem de uma forma que me pareceu bastante
perigosa, aumentando meu terror.
Ele me daria outro tapa, ou desta vez faria algo pior?
Engoli em seco.
— Eu não quero brigar com você, Ailie. — Ele rapidamente se
controlou.
Fiquei em silêncio.
— Eu quero um recomeço com minha bebê… Eu quero ficar com ela,
ser o pai dela — se justificou.
— Não é só aparecer e dizer isso que fica tudo bem.
— Você não pode tirar meu direito.
— Eu não estou fazendo nada, Noah.
— Sim é o que você está fazendo — falou em um tom de voz mais
alto. — Acha que eu sou tolo? Recebi uma carta notificando que tenho que
ficar longe de você e, consequentemente, de Molly. Rebecca ficaria
decepcionada ao saber que você está tentando me afastar da nossa filha.
As palavras dele me atingiram com força, fazendo meu peito se apertar.
Talvez receber um tapa tivesse sido menos doloroso.
Eu estava fazendo meu melhor para criar Molly e, várias vezes, me
questionei o que Rebecca acharia.
Depois da ameaça que Noah me fez, eu tinha registrado um boletim de
ocorrência e relatado o ocorrido, e acabei pedindo uma medida protetiva,
afinal, Noah poderia ser bem perigoso.
Não, eu não era uma vilã por querer me proteger e também a Molly.
— Eu sou…
— Eu sou a mãe de Molly agora e tenho a tutela dela de forma
definitiva — o interrompi.
— O quê?
— Eu sou a responsável legal dela, tenho a obrigação de assegurar o
bem-estar físico de Molly.
— Você está falando que eu sou uma ameaça para a minha filha? —
Deu um passo à frente para me amedrontar, e conseguiu. Recuei alguns
passos.
— Infelizmente você é — murmurei. — Não só a ela, mas a mim
também.
— Que merda é essa, Ailie?
— Da última vez você estava sujo, drogado, me deu um tapa na cara, e
se não fosse a intervenção de um vizinho, você teria me machucado ainda
mais — acusei, em um arremedo de coragem de que talvez me arrependesse,
já que nada impedia de Noah fazer isso agora. — Você poderia ter
machucado Molly! Então não fique surpreso se eu acho que você é uma
ameaça a nós duas, Noah.
Ele pareceu atônito.
— Eu fiz isso?
— Fez.
— Não me lembro.
— Deveria imaginar — falei com amargor. — Você fez isso, Noah.
Você me obrigou a tomar uma providência.
— Escuta…
— Se você quer mesmo um recomeço com ela, fique sóbrio, e entre
com um pedido de visita, eu não negaria isso. — disse.
Guardei para mim meu temor em pensar nele conseguindo aquele
direito e ficando próximo de Molly, mas sabia que eu não podia fazer nada se
eu fosse obrigada judicialmente.
— E quem me garante?
— A justiça, que pode me prejudicar se eu não cumprir uma ordem.
Bom, acho que não temos mais nada para falar um com o outro, Noah.
— Eu quero vê-la…
— Isso não vai acontecer. Então por favor, vá embora. Dessa vez, eu
não vou hesitar em chamar a polícia para você se não nos deixar em paz.
Ele abriu e fechou a boca.
— O que vai ser?
— Isso não vai ficar assim, Ailie! — cuspiu. — Eu vou atrás do meu
direito e você terá que me engolir.
— Okay — murmurei.
Me fuzilou com os olhos, como se quisesse me matar, antes de cuspir
no meu sapato, e dar as costas para mim.
Fiquei paralisada no lugar, assistindo Noah se afastar com passos
raivosos.
Senti minhas pernas começarem a tremer assim que ele saiu do meu
campo de visão, a adrenalina baixando junto com a bravata.
Eu era uma tola por tê-lo enfrentado. Uma grande idiota.
O medo me varreu de cima a baixo quando minha mente foi
bombardeada por várias formas como aquela conversa poderia ter acabado
mal.
Estremeci e me obriguei a respirar fundo diversas vezes, tentando
acalmar meus batimentos cardíacos e também a minha mente. Molly
acabaria percebendo a minha agitação e ficaria ansiosa.
Foi difícil, muito difícil me controlar. Desejei que Ian estivesse ali, ao
meu lado, mas não podia tirá-lo do trabalho só por aquilo.
Continuei meu caminho até a creche de Molly, temendo que a qualquer
momento Noah aparecesse na minha frente.
Mesmo que a distância fosse curta, peguei um táxi para nos levar até
em casa e pedi ao motorista para me acompanhar até a portaria do meu
prédio. Agradeci dando a ele uma boa gorjeta, mas só suspirei aliviada
quando estava dentro do meu apartamento, com a porta bem trancada atrás de
mim.
Capítulo vinte e quatro
— Porra! — xinguei entre dentes, apertando Ailie com mais força
contra mim, me sentindo não só irritado, mas também muito puto.
A raiva não era somente voltada para aquele verme ter abordado Ailie
hoje querendo ver Molly, mas também direcionada a mim mesmo, afinal, eu
havia baixado a minha guarda quanto a proteção das duas.
E se ele tivesse agredido Ailie outra vez só porque ela se recusou a
deixá-la ver a bebê?
— Caralho! — rosnei outro palavrão.
Senti os lábios de Ailie contra o meu peitoral, como se quisesse me
apaziguar, mas não consegui sentir o prazer de ter a boca dela sobre a minha
pele, o que mexeu ainda mais com o meu brio.
Odiei esse cara e a mim mesmo ainda mais por ter roubado aquele
pequeno momento de deleite.
— Me desculpe, Ailie — falei após respirar fundo várias vezes,
tentando me controlar, ciente de que eu não me perdoaria se eu descontasse
minha fúria na pessoa errada, fora que ela precisava que eu fosse o homem
dela, um que a protegeria, não um babaca.
— Pelo quê?
— Por não cumprir o meu papel.
— Papel? — Ela parecia confusa.
— Eu prometi que iria protegê-las, mas falhei.
— Não é para tanto, Ian.
— Isso não vai acontecer outra vez. Não serei negligente com vocês
duas de novo! — Ignorei a tentativa dela de amenizar minha culpa.
— Hey! Você nunca foi negligente no cuidado com nós duas, Ian.
Ailie afastou meu braço que estava em torno dela, e eu já ia protestar
quando ela subiu no meu colo e segurou meu rosto com aquela pressão que
eu amava para me olhar nos olhos. Outra vez, fiquei revoltado por não sentir
prazer com esse toque.
— Eu sou, Ailie! Eu não podia ter deixado de acompanhar vocês duas,
como prometi que faria.
— Eu disse a você que não era mais necessário.
— Mesmo assim! Porra, e se ele tivesse te machucado? Só de pensar
que esse imbecil poderia ter tocado um dedo em você, eu sinto vontade de
matá-lo — externei minha raiva.
O leve estremecer do corpo dela e as sombras rápidas que cruzaram os
seus olhos só aumentaram ainda mais aquela minha vontade de mandar
aquele homem para o inferno.
— Você é um homem honrado, Ian. Você não faria isso! Você salva
vidas, não as tira... — brincou comigo.
— Mas sou capaz de fazer isso, Ailie.
— Você só está nervoso. — Acariciou minha bochecha.
Neguei com a cabeça.
— Eu sei que sou.
— Não valeria a pena.
— Tenho certeza que valeria.
— Não encaro bem o fato de um cara se impor e incomodar minha
mulher, muito menos que coloque medo nela — continuei o meu discurso
passional, apertando uma das coxas de Ailie.
Ódio. Sentia um ódio mortal. Só um verme faz aquele tipo de coisa. Se
eu o visse na minha frente nesse instante provavelmente daria um soco bem-
merecido na cara dele por fazer isso com Ailie.
— Sua mulher? — murmurou, os olhos se arregalando.
Ergui a mão para tocar o rosto redondo.
— Eu sou o seu homem, Ailie. Em todos os sentidos. Não só na cama
— expliquei.
Abri um sorriso meio sem graça quando Ailie não disse nada.
— Pelo menos eu quero ser, se você quiser.
— Ian…
— Eu estou me apaixonando por você, Ailie, e pela Molly também —
confessei. — Você me avisou que eu tinha chances de me tornar vassalo dela,
então não me surpreendi.
— Sim, eu avisei. — Começou a abrir um sorriso, os olhos irradiando.
— Deveria ter me avisado que eu poderia me tornar seu vassalo
também, feiticeira — brinquei.
Ela riu e acabei gargalhando também, mas logo fiquei sério novamente,
encarando os olhos azuis.
— Eu quero ser parte da vida de vocês duas.
— Você já faz parte, Ian.
— Não como um mero vizinho.
— Nunca foi só um vizinho.
— Não apenas como um amigo — me corrigi.
— Isso é um pedido de namoro? — brincou.
— Está bem longe de ser romântico, mas, sim, é um pedido para eu ter
um futuro com você, para que eu possa transformar o carinho, a paixão e o
desejo em amor. — Vi os olhos dela ficarem marejados.
— Deseja um futuro comigo, Ian? — perguntou, meio abobada.
— Você quer um futuro comigo, Ailie? — devolvi a questão.
— Sim — murmurou. Vi uma lágrima deslizando por sua face quando
segurou o meu rosto.
Meu corpo estremeceu, um suspiro me deixou no momento em que os
lábios dela encontraram os meus. Meu coração começou a martelar com
força.
Em meio ao contato dos lábios e das línguas, esqueci a raiva que eu
sentia daquele merda, bem como a vontade de socá-lo, preso à euforia de ter
Ailie como minha.
Caralho!
Ela era minha!
Intensifiquei o beijo, sentindo o gosto dele diferente, talvez pela
consciência de que éramos namorados. Minhas mãos a acariciavam sem
nenhum pudor, percorrendo desde os quadris até as costelas, chegando bem
próximo aos mamilos sensíveis.
Gememos juntos e, segurando-a pelas coxas, fiz com que ela se
esfregasse no meu pau. O desejo se tornava algo brutal dentro de mim,
tomando o controle do meu corpo, mas, para a minha surpresa, ela
interrompeu o beijo.
— Obrigada por ter deixado meu dia melhor, Ian — falou com a voz
rouca, acariciando meu rosto. — Eu nunca imaginei que, depois do medo que
passei, eu acabaria a noite sorrindo.
— O único que tem que agradecer sou eu por você me permitir fazer
parte da sua vida de forma oficial. — Acariciei a curva do quadril, não
deixando que aquele babaca estragasse o momento.
Ela abriu um sorriso que iluminou todo o rosto, inclusive os olhos.
Me peguei retribuindo, ciente de que, naquele momento, eu me
apaixonei por aquele olhar e queria mantê-lo assim para sempre.
— Jane vai morrer de inveja de mim — me provocou, deslizando a
mão pelo meu pescoço.
— Por quê?
— Porque tenho um namorado bombeiro! — Piscou com um olho só.
Joguei a cabeça para trás e ri.
— Quem sabe um dia ela consiga o bombeiro dela, porque esse aqui
tem dona. E uma um pouco ciumenta!!— falei.
— Só um pouco? — fiz um muxoxo.
— Não quero que fique muito convencido — brincou.
— Já sou! — devolvi, deixando um tapa estalado na bunda dela.
Deu uma risada antes de me dar um beijinho nos lábios.
— Meu irmão vai querer conhecer minha namorada — falei,
aproveitando a abertura que ela havia me dado.
— Seu irmão? — Vi um pouco de insegurança nela.
— Faz um tempo que Grant me pediu para conhecer a mulher e a bebê
que me faz sorrir.
— Eu…
— Eu também gostaria que o meu irmão conhecesse as duas mulheres
que mudaram a minha vida — pedi.
— Nossa relação está ficando bem séria — murmurou.
— Sim, mas pode ser quando você estiver confortável — sugeri.
Negou com um gesto de cabeça.
— Sei que é importante para você, dileas.
— E é, mas eu não quero impor os meus desejos, te causando
desconforto. Quando estiver pronta, faremos isso.
— Quando o seu irmão marcar, então — sugeriu.
— Tem certeza?
— Sim.
Olhei para ela, sem acreditar.
— Obrigado, Ailie. — Toquei uma mecha do cabelo dela.
Ela se moveu no meu colo, pressionando os seios no meu peitoral, e
aproximou o rosto do meu ouvido.
— Me agradeça sendo meu homem na cama, gostosão — sussurrou,
para depois mordiscar a minha orelha.
Uma trilha de excitação percorreu o meu corpo, tendo como vértice
meu pênis.
— Então se segure em mim, gostosa!
Não precisei pedir novamente, já que a minha namorada envolveu meu
pescoço e prendeu as pernas em torno do meu tronco com força. Gargalhei,
eufórico, ao segurá-la pela bunda.
Não tive dúvidas de como a agradeceria. Começaria por me colocar de
joelhos para beijar e venerar o sexo da minha mulher.
Capítulo vinte e cinco
— Não precisa ficar nervosa — Ian falou quando eu suspirei de forma
profunda, pela milésima vez, em meio aos gritos da bebê que se divertia com
uma pelúcia em sua cadeirinha.
— Queria que fosse fácil não ficar — respondi, equilibrando a
embalagem da torta no meu colo. Estava com minhas mãos um pouco suadas.
Por mais que eu dissesse a mim mesma que não havia nada a temer, eu
não conseguia controlar o nervosismo em saber que em minutos eu
conheceria a família de Ian.
Como namorada de Ian, sabia que um dia eu teria que conhecê-los um
dia e estava ciente de que o tempo não me daria mais autoconfiança para ser
apresentada. Nem uma década me ajudaria, afinal, o irmão de Ian não era um
cara qualquer, era um milionário. Aquilo era apavorante.
— Será um pouco estranho no início, afinal, até mesmo para mim foi
difícil relaxar, mas é só ser você mesma, Ailie — continuou.
— Isso não ajuda muito. — Fiz um som com a língua.
— Conhecer a família de alguém não é muito confortável — se
justificou.
— Já passou por isso muitas vezes? — perguntei, curiosa, me
arrependendo do meu impulso. Nunca questionei sobre o passado amoroso
dele, afinal, não me pareceu tão importante.
Nossos olhares se cruzaram através do retrovisor, antes de ele desviar.
— Acho que umas três vezes.
Senti uma pontada de ciúmes, mesmo que eu estivesse já esperando por
aquilo. Dificilmente Ian não teria tido uma namorada.
— Não deve ser sua primeira vez conhecendo a família de um
namorado também — disse, parecendo incomodado.
— Não é, mas nenhum dos parentes deles era milionário.
— Certo — grunhiu, outra vez me fitando pelo espelho.
Um sorriso começou a curvar meus lábios.
— Com ciúmes, Ian? — o provoquei.
— Muito, tanto que eu acho melhor mudarmos de assunto!
Dei uma risada quando ele admitiu de forma rabugenta.
Molly deu um grito ao sacudir o brinquedo, o que desviou minha
atenção.
— Oi, meu docinho.
— Já estamos chegando, doçura — Ian falou, iniciando uma conversa
com Molly que “respondia” da forma dela.
Sentia meu estômago rodopiar de nervosismo. Para me distrair, olhei
pela janela e fiquei observando a paisagem passar pelo movimento do carro,
mas sem realmente vê-la.
Devem ter passado uns dez minutos para que o veículo passasse pela
portaria do condomínio de luxo e Ian estacionasse o veículo em frente a uma
casa térrea, que parecia gigante.
Não prestei muita atenção no imóvel, já que meu olhar focou no
garotinho que, de mãos dadas com uma menina, corria em direção ao carro.
Uma mulher linda acompanhava um homem alto e corpulento, que andava
com uma espécie de muleta, e eles vinham logo atrás das crianças.
O homem parecia muito com Ian, sendo só um pouco mais velho, era
impressionante essa semelhança.
— Como vocês dois ainda tinham dúvidas de que não eram irmãos? —
murmurei, incrédula.
— Tínhamos muito a perder — Ian respondeu em um tom sem nenhum
julgamento, justamente quando eu estava prestes a me desculpar pelo
comentário ridículo.
— Tio! — O sobrinho de Ian deu um grito animado ao alcançar o carro
e a menina que o acompanhava, também gritou, assustando Molly, que
arregalou muito os olhos:
— Ti.
— Ei, cara! — Ian cumprimentou os dois.
Rapidamente, coloquei a torta no banco desocupado e removi o cinto
da cadeirinha de Molly antes que ela começasse a chorar, e ela estava muito
próxima disso, já que os lábios formaram um biquinho. Trouxe-a contra o
meu peito.
— Está tudo bem, meu docinho — murmurei.
Ian se virou para nos encarar, preocupado.
— Ela só se assustou um pouco com os gritos — expliquei.
— A Claire também chorou quando me viu da primeira vez! — O
menininho falou e eu olhei para ele que estava no banco da frente e me
observava atentamente.
— Ela não está chorando, querido — conversei com ele, enquanto
acariciava os cabelos de Molly, que se agitava, movendo braços e pernas.
— Ah… — ficou em silêncio por alguns segundos enquanto me olhava
de forma analítica: — Quem é você?
Sorri com a pergunta inocente.
— A namorada do tio! — Foi Ian quem respondeu.
— Namorada? — Pareceu surpreso.
— O que eu falei de colocar o pé no banco, balach? — A voz de Grant
me alcançou.
— Que não pode! — O menininho ficou cabisbaixo. — Mas o tio disse
que não se importa!
— Filho… — A esposa de Grant começou a dizer.
— Não, não me importo com isso — Ian disse com diversão —, na
verdade, o tio adora bagunça!
Escutei um bufar.
— Não deveria incentivá-lo, Dun… Ian… — Grant ralhou.
Ian deu uma risada alta que atraiu a atenção de Molly, que se virou
para ele.
— Isso não tem graça — Grant falou em um tom firme com Ian, antes
de se virar para o menino e ordenar: — Tire os pés do assento, filho, por
favor. Não é legal fazer isso, só seu tio acha.
— Tá bom, papai! — Vi o menino obedecer.
Abri um sorriso.
— Você pode me ajudar com a Molly? — perguntei para Ian, porque
eu não conseguiria sair por nenhum dos lados, já que em um estava a torta, no
outro, a cadeirinha.
— Se você não se importar, eu posso segurá-la para você, Ailie —
Merie respondeu ao abrir a porta do carona.
Eu olhei para a mulher, cujos olhos azuis pareciam duas safiras. Sem
dúvidas, ela era uma das mulheres mais lindas que eu já tinha visto.
— Obrigada. — Não tinha por que negar a ajuda.
— Não por isso.
Sorri para Merie, esticando meus braços por cima da cadeirinha para
entregar uma Molly agitada a ela.
— Oi, querida! — Merie sussurrou, pegando a bebê com destreza.
Esperei pelo choro imediato da minha bebê pelo afastamento de mim, mas ele
não veio, já que me Merie continuava a conversar com ela: — você é muito
linda, sabia?
Não prestei atenção no que ela dizia para distrair Molly, já que a outra
porta foi aberta por Ian, que tinha a sobrinha dele no colo, que se contorcia
para descer.
— Tudo bem, Claire, vou te colocar no chão. — Meu namorado deu
um suspiro alto, como se sentisse dor, ao se virar um pouco para colocar a
menina no chão.
Dramático.
— Pode deixar que eu levo — falei quando Ian fez como quem ia
pegar a torta e vi diversão nos olhos dele.— Você pode pegar a bolsa da
Molly?
— Okay, possessiva — murmurou em um tom zombeteiro.
Revirei os olhos, fazendo com que o meu namorado voltasse a
gargalhar.
Mostrei a língua para ele de forma infantil, antes de pegar minha torta
para finalmente deixar o carro.
— O que é isso? — O menininho me perguntou, apontando para a
embalagem que eu segurava.
— Uma torta.
— De quê?
— É uma Butterscotch[6].
Os olhos castanho-escuros do menino brilharam.
— Eu vou poder comer? — Pareceu empolgado.
— Sim. — Abri um sorriso para ele.
— Agora?
— Ainda nem cumprimentamos a namorada do seu tio — Grant disse.
— Ah! — O menino se virou para ele, depois voltou a girar na minha
direção: — Oi.
— Oi, Craig.
— Você sabe o meu nome? — Ficou surpreso.
Assenti.
— Como? Por um superpoder?
— Seu tio me contou.
— Ah! — Pareceu decepcionado, antes de voltar a ficar animado. —
Posso adivinhar o seu?
— Por que não? — Acabei rindo.
— Brenda?
— Não.
— Lindsay?
— Também não.
— Jessie?
Neguei.
— Violet?
— Também não.
Pareceu frustrado.
— Deve ser difícil.
— Um pouco… me chamo Ailie — resolvi responder, já que
dificilmente ele descobriria sozinho.
— Ah! Você é tão bonita quanto a mamãe!
Sorri com o elogio.
— Obrigada, querido.
— Seu cabelo é legal! Parece o da vovó!
— Mesmo?
— Uhum.
Meu sorriso ficou ainda maior.
— Você é a minha tia? — continuou a me bombardear com perguntas.
— Como ela está namorando comigo, sim! — Ian respondeu.
— Legal!
— Agora, cadê o meu abraço, cara? Sem abraço, sem videogame mais
tarde.
Em um segundo, o menino estava nos braços de Ian que o ergueu e
começou a brincar com o garoto, atraindo a atenção de Claire que também
queria participar da brincadeira, o que me deixou frente a frente com o irmão
do meu namorado.
O nervosismo, até então esquecido, retornou.
— Me desculpe, Ailie. Meu filho é bastante falante — Grant falou,
dando um sorriso sem graça, enquanto me analisava.
— Não por isso — controlei-me para não ficar sem jeito —, Craig
parece ser um menino bastante doce.
— Ele é. — Os olhos, que eram mais claros que os de Ian, brilharam.
— Muito prazer em conhecer você.
— O prazer é todo meu.
— Estava ansioso para te conhecer.
— Entendo.
— Não sabe o quanto eu devo a você…
— Você não me deve nada. — Fiquei sem jeito.
— Sim, eu devo. Nunca serei capaz de agradecer você por ter ficado ao
lado do meu irmão quando ele mais precisou de alguém.
— Da mesma forma que ele ficou ao meu lado quando eu precisei.
Ninguém deve nada a ninguém.
— Reciprocidade — Merie falou ao se aproximar com a minha bebê no
colo.
— Sim — concordei. — Ian é um cavalheiro.
— Então deve ser mal de irmão — um sorriso surgiu nos lábios dela
—, Grant, tirando a vez em que nos conhecemos, é terrivelmente galante.
— Isso é uma reclamação, madam[7]?
Merie estalou a língua, chamando atenção de Molly, que balbuciou
uma sílaba.
Ela fez carinho nos cabelos da bebê.
— Sabe que me apaixonei por você por causa disso!
— Sei?
— Grant! — Deu um gritinho, e o rubor tomou a pele pálida de Merie.
O homem gargalhou e ela revirou os olhos, antes de se aproximar de
mim, me cumprimentando com um beijinho no rosto, o que me surpreendeu.
— Prazer em conhecê-la, Ailie.
— O prazer é todo meu. — Devolvi o beijinho.
— Vamos entrar? — Merie sugeriu.
— Claro! — Sorri.
— Mulher terrível! — Escutei Grant dizer em um tom divertido
enquanto eu seguia Merie, que deu uma risada com o comentário do
milionário.
Passos ecoaram atrás de nós e assim que Molly viu Ian, ela começou a
gritar algumas sílabas, esticando os braços na direção do homem que
brincava com os sobrinhos. Me surpreendeu quando ele veio até nos para
pegar Molly dos braços dela.
— Mama! — Claire deu um gritinho meio que enciumado pela mãe ter
pegado outra bebê no colo, esticando as mãos na direção dela.
— Venha cá, minha pequena ciumenta! A mamãe é toda sua! — A
mulher de cabelos escuros e longos se curvou para pegar a menina.
— Mama! — falou ao ganhar um beijo estalado na bochecha.
— Agora já pode comer a torta? — Craig, que saltitava de um lado
para o outro, perguntou.
— Filho! — Merie repreendeu-o em tom suave.
— Eu também comeria a torta agora! — Ian comentou. — Na verdade,
eu comeria tudo sozinho!
— Ian! — Gritei com ele.
— Não vai, não! — Craig resmungou.
— Eu vou, sim — o provocou. — Está muito gostosa!
— Você nem provou — falei.
— Mas eu sei que está.
— E como você sabe? — Grant perguntou com diversão.
— Todas as tortas da Ailie são maravilhosas, cara!
— Sério? — Craig pareceu animado.
— Duvido que essa não vai estar — Ian continuou.
— Não exagera — falei, meio sem graça.
— A gente já vai comer então? — O menino voltou a perguntar,
esperançoso.
— Faz tempo que não como uma butterscotch — Grant murmurou —,
eu estou sentindo a minha boca salivar.
— Hm. — Merie suspirou. — Então para que esperar então? Confesso
que eu estou ficando com vontade.
— Vocês não vão se arrepender — Ian continuou a me elogiar e
mesmo que eu não devesse, senti uma vontade de esganá-lo e pedir que ele
parasse.
— Precisa de ajuda, senhora? — Uma mulher ruiva, de quase
cinquenta anos, perguntou a Marie assim que alcançamos a sala de estar.
— Você pode nos servir a torta que a Ailie trouxe, por favor? — ela
respondeu.
— Claro, senhora — fez uma vênia, antes de me encarar e dizer:—
Pode deixar que eu levo para a cozinha.
Entreguei a torta que eu havia feito para a mulher.
— Obrigada, senhorita.
— Eu que agradeço.
Abriu um sorriso que transformou a aparência séria, e eu me peguei
sorrindo também. Com um aceno de cabeça, a mulher se afastou.
— Podemos esperar na mesa, mamãe? — Craig disse em um tom
empolgado.
— Pelos Deuses, balach! Nem parece que você acabou de encher a
barriga! — Grant disse com diversão.
— Mas não de torta, papai! Sabe que eu amo torta! — O menino
protestou, fazendo com que todos nós ríssemos com o tom que ele tinha
usado. Molly deu um gritinho alegre e eu vi com o canto do olho Ian brincar
com ela.
— Você ama tudo, filho! — Merie disse em tom divertido, colocando
Claire no chão, que se agitava nos braços dela. A menininha começou a
correr. — Menos os vegetais!
— É… — murmurou, antes de abrir um sorriso bem maroto, enquanto
argumentava: — A vovó disse que eu tô em fase de crescimento, que eu
preciso comer muitão!
Voltamos a rir.
— A vovó sempre irá dizer para você comer mais do que deve, Craig!
— Grant disse.
—Mas pode, né, papai?
— Eu concordo em esperar lá na mesa — Ian murmurou com diversão.
— Você só quer fazer a vontade dele, Ian — meu irmão grunhiu.
— E o que que tem isso?
— Pode, papai? — Craig insistiu.
— Vamos! — Ian disse.
— Eeee! — o menino deu um grito animado, antes de correr, fazendo
com que Claire saísse correndo atrás dele com seus passinhos incertos.
Com Molly no colo, Ian começou a caminhar, como se fosse o dono da
casa.
Não nos restou alternativa a não ser segui-los.
— Você é muito desaforado! — Grant resmungou.
— É o papel do tio estragar os sobrinhos! — Se defendeu e deu uma
risada.
— Bom saber disso, Ian, vou ter o prazer de estragar os seus! — Merie
falou com diversão.
— Quero só ver você lidar com seis deles — provoquei-o.
Quase perdi o fôlego no segundo seguinte, ao contemplar a vista do
cômodo, que era uma espécie de “jardim de inverno”. De lá, dava para ver
parte da cidade histórica de Edimburgo, nos brindando com uma bela visão
da Catedral de Saint Giles, igreja construída no século XII, cujo pináculo se
destacava contra o céu azulado.
— Seis? — Grant perguntou com diversão, puxando a cadeira para
Merie se sentar.
— A convidada primeiro, amor — ela murmurou.
— Não precisa. — Dei um sorriso e fui tomar um lugar à mesa. — E
sim, seu irmão quer ter seis filhos!
— Corajoso! — Merie brincou.
— Nós somos corajosos! — Ian disse, colocando Molly na cadeirinha
ao meu lado.
— Nós? — Franzi o cenho para ele.
— Nós dois estamos juntos nessa… — Deu de ombros.
— Ian, eu não vou ter seis filhos! — gritei com ele.
— Por quê? — Craig perguntou.
— Dá muito trabalho, querido — Merie explicou.
— É o que veremos… — Piscou com um olho só para mim.
Arfei e o idiota caiu na risada enquanto pegava Claire para colocar na
outra cadeirinha.
— Acredito que consigo mimar seis crianças — Grant falou com
diversão.
— Eu também! — Merie foi maliciosa.
— Talvez eu devesse repensar essa relação — sussurrei, brincando.
— Não é para tanto! — Ian bufou, fazendo uma careta.
O casal deu uma risada enquanto o meu namorado continuava a
resmungar.
Revirei os olhos e senti a mão pesada dele sobre uma das minhas
coxas, em um toque bem possessivo.
Olhei para o meu namorado e vi que Ian me fitava, com um brilho
perigoso nos olhos.
Apertou a minha carne. Dei um tapa na mão dele.
Não demorou para que a mulher de cabelo vermelho aparecesse com a
torta, pratos e talheres.
— Não precisa servir, Eilidh — Merie disse em um tom suave quando
a mulher fez com que iria partir a torta.
— Mas, senhora…
— Pode deixar que a gente faz isso. — Merie abriu um sorriso quando
a mulher pareceu hesitar.
— Quer comer torta também, vovó? — Craig perguntou. — Tá
gostosa!
— Obrigada, balach, mas a vovó preciso fazer outras coisas enquanto
isso.
— Ah! — Pareceu decepcionado.
— Coma por mim! — brincou antes de voltar a ficar séria. — Se
precisar de algo, só me chamar, senhora.
— Obrigada, Eilidh.
Fez uma vênia, antes de se afastar.
— Vamos comer? — Grant brincou, pegando o talher para partir.
— Vamos! — Craig e Ian disseram em uníssono, animados.
Molly deu um gritinho e eu olhei para a minha bebê, antes de dar um
pedaço de fruta para ela se divertir.
Enquanto Grant servia a todos e Merie oferecia frutas para as bebês, eu
senti o nervosismo voltar a fazer o meu estômago embrulhar.
Apesar de eu ter experimentado cada uma das camadas separadamente,
agora, eu não tinha certeza de que a torta estava gostosa, não para o gosto
daquelas pessoas. Era horrível chegar na casa de uma pessoa de mãos vazias,
mas era igualmente ruim levar algo que não esteja tão gostoso assim.
— É gostoso! — Craig praticamente gritou, antes de levar a colher a
torta e pegar um pouco mais. Me senti um pouco aliviada, mas nem tanto,
afinal, dá para concluir que ele não é tão exigente assim.
— Eu falei, cara! — Ian se vangloriou. — Todas as tortas dela são
maravilhosas!
— Não me lembro de já ter comido uma butterscotch tão gostosa —
Grant disse.
— Nem eu. — Merie concordou. — Você cozinha muito bem.
— Obrigada, Merie — Senti o nó no meu estômago se desfazer com o
fato de que eu não havia passado vergonha com o meu prato.
— Eu poderia comer tudo! — Craig falou.
— A gente sabe que sim, filho — Grant disse com diversão, fazendo
com que todos déssemos uma risada.
— Pode?
— Terá que dividir comigo, cara — Ian o provocou.
— Ah, não!
— Ah, sim.
O menino ficou emburrado.
— Depois eu faço outra para você, Craig — falei com ele.
— Só para mim?
— Claro. — Balancei a cabeça para frente e para trás, enfatizando.
Uma individual não era problema nenhum.
— Oba! Você é legal! — Abriu um sorriso enorme para mim.
— Acha mesmo?
— De montão!
Foi a minha vez de sorrir para o garotinho doce.
— Viu, tio? Vou ganhar uma torta! — O menino começou a se gabar.
— Tenho certeza de que vou ganhar uma também — meu namorado o
provocou, arrancando um resmungo dele.
— Eu não tinha intenção de fazer uma para você, Ian, só para Craig! —
brinquei.
— Isso não é justo!
— A vida não é justa, dileas — retruquei.
Meu namorado fez uma carranca, e eu e Craig acabamos rindo da cara
dele.
— Bom que eu já provei a melhor das tortas! — Ian resmungou.
— Qual?
— De cordeiro!
— A vovó também faz!
— Mas te garanto que não é tão boa quanto da Ailie… — Fingiu que
salivava.
— Está sendo rude! — Dei uma cotovelada nele.
— É a melhor torta do planeta! — continuou.
— Eu só vou saber se provar — Grant disse com diversão.
— Eu acho boa, principalmente com uma taça de vinho — falei.
— Então está mais do que convocada a trazer essa torta na próxima,
Ailie — Merie piscou com um olho só. — Vinho é o que não falta nessa
casa!
— Você me mataria se eu deixasse faltar, madam — Grant disse em
um tom pastoso.
— Que bom que sabe disso, Grant — concordou.
Enquanto riamos do comentário, o milionário se virou para a mulher e
segurando-a pelo queixo, roubou um selinho de Merie, que, ruborizando,
ficou toda desconcertada.
Ela pigarrou.
— Você joga videogame, tia? — Craig perguntou depois de dar mais
uma colherada na sobremesa.
Senti um calorzinho no peito ao ser chamada de tia, mesmo que eu não
fosse tia de verdade dele.
— Nunca joguei.
— Sério?
— Sim.
— Ah! — Pareceu decepcionado.
— Mas você pode me ensinar a jogar — retruquei.
Isso foi uma abertura para o menino tagarelar entre uma colherada e
outra sobre os jogos.
Craig era bem-falante e engraçado, arrancando de nós várias
gargalhadas, principalmente com os seus comentários quando nós mudamos
de assunto para algo mais “adulto” e “tedioso”, com Grant e Merie querendo
me conhecer melhor e vice-versa.
Rapidamente me esqueci de que eu era uma intrusa. Relaxando, passei
a provocar a todos, sendo provocada de volta.
Poderia não ter certeza por quanto tempo eu permaneceria na vida
daquelas pessoas, afinal, eu e Ian tínhamos muitos passos para tornar a nossa
relação ainda mais sólida, mas desejei que fosse por muito e muito tempo, e
que um dia quem sabe, eu poderia vir a pertencer de fato àquela família.
Capítulo vinte e seis
Suspirei ao ver o mocinho do filme dar um beijo daqueles na
protagonista.
Antes, no auge da minha solteirice, eu sentiria uma baita inveja de
Greta.
Afinal, quem não iria querer um gato daqueles te beijando
furiosamente?
Dei uma risada baixinha.
Eu não precisava mais invejar, afinal, eu tinha o meu próprio “gostoso”
que era capaz não só de me deixar de pernas bambas com um único beijo,
mas que, a cada dia que passava, me deixava suspirando.
Me apaixonar por Ian não foi tão difícil, ainda mais quando o bombeiro
era tão carinhoso, engraçado e protetor comigo e com a minha pequena. Não
quando ele demonstrava quase todos os dias, com pequenos gestos, o quanto
o sentimento era recíproco.
Ian era o meu príncipe, que havia surgido de forma inesperada, e eu só
me deixava afundar naquele mar de emoções, que contrastava com a
tranquilidade que nos rodeava quando estávamos juntos, e que só era
quebrada pelos momentos em que ele estava de serviço.
Suspirei outra vez ao ver Henry deitar Greta na cama. Bem, talvez eu
estivesse só com um pouco de inveja da personagem, já que Greta estava com
o namorado dela, e eu vendo filme sozinha ao invés de estar sentindo a mão
forte do meu bombeiro me apalpando.
De repente, escutei uma espécie de batida na porta. Ignorei o som,
achando que era no filme, mas quando ele se repetiu, só que um pouco mais
forte, pausei o streaming e fui ver quem estava na porta.
— Ian — murmurei ao destrancar a porta e ver o homem parado à
minha frente, usando o uniforme com as faixas fluorescentes e o capacete,
como se estivesse preparado para algum chamado.
Senti a minha boca secar, o desejo borbulhando no meu baixo-ventre.
Gostoso! Aquele homem ficava um verdadeiro gostoso usando
uniforme! As pontas dos meus dedos pareceram queimar com a vontade de
tocá-lo.
— O que você está fazendo aqui? — perguntei, quando ele não disse
nada.
— Sou o bombeiro Ian Quinn. Recebi um chamado em que me
informaram que nesta unidade estaria ocorrendo uma situação muito
perigosa, senhorita — disse com a voz levemente rouca.
— Perigosa? — Mordi os meus lábios, entrando no jogo dele.
Os olhos escuros dele brilharam enquanto deslizavam pelo meu corpo
como se fosse uma carícia, me deixando ainda mais quente.
— Sim, muito. Posso entrar, senhorita?
— O que acontecerá se eu negar?
— Terei que tomar providências mais drásticas — a voz soou bem
insolente.
— Então eu acho que não tenho escolha a não ser deixá-lo entrar,
senhor — murmurei.
Fiquei um pouco tentada a ver qual tipo de providência ele tomaria,
mas preferi continuar a brincadeira, que me soava bem pervertida, querendo
saber até onde ele iria com aquilo.
— Obrigado, senhorita. — Os olhos de Ian brilharam quando eu dei
um passo para trás para deixá-lo passar.
O safado roçou deliberadamente o braço no meu, fazendo com que eu
respirasse fundo, o cheiro natural dele, depois de um dia de trabalho,
deixando-me mais excitada do que já estava, meu sexo ficando úmido.
Fechei a porta, me virando na direção do bombeiro, que não disfarçou
que estava olhando para a minha bunda.
Descarado!
— Qual a emergência que te trouxe aqui, senhor? — forcei-me a
perguntar, minha voz soando entrecortada.
— Você.
— Eu?
— Você está quente!
— Como você sabe?
Me olhou da cabeça aos pés, o que me deixou não só de pernas
bambas, mas também com muito calor.
Gemi, respondendo por ele, fazendo com que Ian abrisse um sorriso
lascivo.
— E o que você fará para combater este incêndio, bombeiro? Ou eu
terei que aplacar o fogo sozinha? — provoquei.
A resposta dele foi um grunhido, enquanto o corpo másculo e robusto
me prendia contra a superfície de madeira. Emiti um gemido baixo com o
movimento abrupto e também por ter a pelve excitada dele contra a minha.
Com uma única mão, ele segurou os meus pulsos acima da minha
cabeça, então, projetei meus seios por instinto, esfregando os bicos sensíveis
no tecido grosso do uniforme.
Luxúria tomou toda a expressão dele.
— Você é uma safada, Ailie — murmurou contra a minha bochecha,
saindo do personagem.
O ar quente que saía pelos lábios dele e encontrava a minha pele, a mão
livre passeando pela lateral do meu corpo, enquanto o agarre dele nos meus
pulsos se tornou mais forte, só aumentaram o fogo no meu baixo-ventre.
Sim. Ele estava criando uma verdadeira emergência.
— E você está um tremendo gostoso com esse uniforme, bombeiro,
mas você deve saber disso.
— Sei?
— Sim.
— Prefiro ouvir dos seus lábios.
— Gos-to-so! — falei pausadamente, me esfregando na ereção dele em
busca de alívio.
— Porra! — gemeu.
— Mas o que vai ser, gostoso? — Comecei a provocá-lo outra vez. —
Para um bombeiro, sua reação está lenta demais!
Meu namorado grunhiu outro palavrão, e, só para me contrariar, sua
reação foi extremamente rápida ao inclinar a cabeça e saquear a minha boca,
mergulhando sua língua dentro de mim, ao mesmo tempo em que o quadril
prendia o meu contra a superfície de madeira.
Suspirei, me entregando ao beijo, ao encaixe dos corpos, sentindo todas
as minhas células vibrarem com o prazer de ser beijada e ter a mão pesada
sobre mim, passeando sem nenhum comedimento.
Eu me sentia derreter contra a boca de Ian, o meu canal começando a
se contrair em vários espasmos, querendo ter o pau dele me preenchendo com
várias estocadas fortes, até que tivesse que morder os meus lábios para
sufocar um grito com o ápice.
Fazia o quê? Menos de vinte e quatro horas que havíamos feito sexo
antes de ele encarar o plantão, mesmo assim, parecia que fazia muitos anos
que eu não o tinha. Ter Ian era quase que uma droga potente. Eu sempre
queria mais, muito mais.
O pensamento de que o sentimento era recíproco, já que aquele homem
me devorava sempre que podia, fez com que eu voltasse a gemer, o som
sendo tragado pelos lábios ávidos e quentes que me tomavam, os dedos dele
se infiltrando pela minha camisola.
O calor da palma contra a minha pele, que subiu pelas minhas coxas, o
polegar roçando propositalmente na minha virilha, provocou uma comichão
na minha boceta, fazendo com que os meus pelos ficassem ainda mais
eriçados, e também ciente de que o bombeiro me deixava a mercê dele não
somente com os lábios, mas também com a mão que me impedia de tocá-lo
de volta.
— Ian — choraminguei, esfregando minhas coxas uma na outra ao
sentir uma fisgada, quando ele alcançou meu seio.
A resposta dele foi mordiscar o meu queixo e roçar a gema do dedo
sobre o bico sensível.
Cada círculo lento que ele traçava na minha auréola era uma tortura
que me levava a uma espiral violenta de sensações, deixando a minha
respiração tão rápida, que eu sentia o meu peito prestes a explodir.
— Toque o seu bombeiro, gostosa! — ordenou, soltando minhas mãos.
Espremeu o meu seio e eu suspirei quando baixou os lábios ainda mais
pelo meu rosto, trilhando o meu pescoço com beijos, fazendo com que o
capacete me incomodasse.
Ainda assim, por alguns segundos, eu me perdi na sensação das
carícias que a boca fazia em mim, antes de ficar ciente de que Ian havia
soltado meus pulsos.
Apesar de Ian ficar sexy com o uniforme completo, não hesitei em
levar a mão ao capacete que ele usava e que nos atrapalhava.
— Deixe que eu tiro! — murmurou ao perceber o que eu queria fazer,
mas antes deu uma mordida suave na minha garganta.
Rapidamente, ele removeu a peça e a pousou no chão.
— Bem melhor! — disse em meio a um ronronar, acariciando seus
cabelos enquanto sua boca voltava a fazer sua mágica.
Ian deu uma risada que soou tão rouca nos meus ouvidos, que eu senti
os dedos dos meus pés se curvarem, o desejo se tornando mais latente,
minhas mãos começando a passear por todo o corpo do gostosão, que eu
vinha explorando muito nos últimos tempos.
Mesmo que eu não tocasse diretamente a pele dele, a reação do meu
homem foi rápida.
Os olhos verdes eram pura luxúria; sons roucos e viscerais escapavam
da sua garganta; os quadris dele buscavam os meus em vários espasmos; as
mãos dele veneravam o meu seio enquanto os lábios amavam a minha pele.
Queria dizer que eu lhe infringia uma tortura, mas a pressa, a urgência
da minha carne, fez com que, segurando-o pela nuca, eu capturasse os lábios
dele em um beijo apaixonado, sedento, que tinha a intenção de dominá-lo da
mesma forma que ele tinha feito comigo.
Ian não me decepcionou ao, em meio aos gemidos que eu tomava para
mim, mover os lábios pelos meus no ritmo que eu impunha a nós. Meu
bombeiro se entregava, suspirando quando agarrei o colarinho do uniforme e
deixei a minha língua passear por todo o interior da boca, provando o gosto
dele, antes de intensificar o beijo. Os olhos ficaram mais escuros quando, sem
interromper o contato, eu comecei a abrir os botões da camisa que ele usava.
— Porra, Ailie! — Fechou os olhos rapidamente quando abrindo toda a
blusa, contemplando o contraste entre o uniforme e o tronco sarado, deixei
que as pontas dos meus dedos deslizassem pelo peitoral rígido.
— Gostoso! — sussurrei, abaixando a minha mão para acariciar cada
gominho perfeitamente esculpido do abdômen. — Que porra de bombeiro
gostoso que eu tenho!
— Sim, você tem — ofegou quando, ficando nas pontas dos pés, lambi
o pescoço dele, o gosto do homem junto ao suor, me fazendo pulsar.
— Admitindo que é gostoso, Ian? — brinquei.
Me segurou pela nuca, e eu emiti um som rouco pela pressão deliciosa
que o agarre dele exercia.
— Admitindo que eu sou seu, Ailie.
— Mais uma vez? — Minha voz soou rouca, as pernas ficaram
bambas, mas por outra razão além do desejo.
Não era a primeira vez que Ian dizia que me pertencia, mas sempre que
ele dizia isso, o meu namorado ganhava um pedaço do meu coração que,
mais e mais, pertencia a ele.
— Mais uma vez — acariciou a minha garganta, abrindo um sorriso
—, e com certeza vou dizer a mesma coisa amanhã.
— Então me ame da forma que você desejar, Ian — pedi, voltando a
deslizar as minhas mãos pelo peito e abdômen trincado.
— Eu tinha outros planos — roçou os lábios nos meus.
— Sim?
— Você me tenta demais, feiticeira. — Pressionou a ereção firme no
meu ventre, deixando-me sentir o desejo que ele sentia por mim.
Gemi baixinho, sentindo a urgência por tê-lo dentro de mim me
dominar outra vez.
— Sabe que eu estou sempre pegando fogo por você, bombeiro —
murmurei, tocando a região do pescoço dele que eu sabia ser bem sensível.
Sorri ao sentir o leve estremecer que o acometeu, além de ouvir o
praguejar.
— Caralho!
— E eu tenho certeza de que vamos executar todos os seus planos, mas
mais tarde. Agora, vou realizar minhas fantasias, e elas incluem essa farda.
Os lábios começaram a se curvar com malícia.
— E quais são? — Acariciou a minha garganta.
— Terá que ceder aos seus impulsos para descobrir, dileas!
Pisquei com um olho só, tentando brincar com Ian, mas ele levou bem
a sério as minhas palavras.
Segurando o meu rosto, a boca dele voltou a esmagar a minha em um
beijo urgente, primitivo, aumentando ainda mais a tensão no meu baixo-
ventre.
Eu me rendia aos lábios que pressionavam os meus, ao toque mais rude
do meu namorado na lateral do meu corpo. Deixei escapar um ruído excitado
que foi um eco do som que Ian emitia em meio ao encontro das bocas.
Igualmente, o desejo furioso presente nos olhos verdes, era um espelho
daquilo que eu sentia.
Éramos um... Em fúria... Em ânsia... Em toques urgentes. Logo,
seríamos em corpos.
— Sim, Ian! — suspirei, cada vez mais perdida na selvageria dele,
quando senti suas duas mãos baixarem em direção as minhas ancas.
Segurando a barra da minha camisola, deixando beijos, mordidas e
pequenas sucções na minha garganta, começou a subi-la de forma apressada.
Não hesitei em ajudá-lo a passar os meus braços pelas alças, me
desnudando.
— Perfeita! — Segurou um dos meus seios com um agarre firme,
erguendo-o um pouco, me fazendo sentir uma onda prazerosa que ondulou
por todo o meu corpo. — Linda.
— Gostosa! — murmurei, perdida, sentindo o meu ponto de prazer
pulsar de forma dolorosa.
— Pra caralho!
Aplicou um pouco mais de pressão ao agarre, me fazendo gemer,
gemido que se tornou mais alto quando resvalou sobre o tecido fino da minha
calcinha.
Cravei minhas unhas no peito firme, quando ele não hesitou em tocar-
me por cima da renda, fazendo com que eu ficasse mais úmida.
— Por que eu ainda fico surpreso? — murmurou.
Não consegui responder, já que Ian aumentou a fricção que ele exercia
sobre a minha boceta, e eu senti um espasmo forte no meu canal.
Mordi os meus lábios para conter um ruído ainda mais alto e tentando
me prender a única corda que me mantinha racional, já que Ian me prendia
cada vez mais pelo desejo, intuindo o que ele desejava, comecei a trabalhar
no cós da calça.
— Porra, Ailie! — Ofegou no momento em que baixando o zíper,
enfiei minha mão dentro da cueca e tomei seu pênis entre os meus dedos.
Pressionando a ponta, deixando que uma gota do pré-gozo escapasse,
deslizei minha mão por toda a extensão rígida, sentindo o pau latejar com a
minha carícia, ouvindo a respiração de Ian ficar mais ofegante, os gemidos
mais altos.
— Ian — murmurei, perdendo o foco dos movimentos que eu fazia
sobre o pênis dele, ao sentir a fricção no centro dos meus grandes lábios
ficarem mais intensa, meu ponto de prazer pulsando por mais afagos.
— Ailie — a voz soou rouca.
Gemi, me segurando no pescoço do meu homem, quando, conhecedor
do meu corpo, o dedo dele deu atenção ao meu clitóris sensível, me fazendo
espichar contra a superfície da porta, a espiral que me levava em direção ao
ápice se tornando ainda mais intensa.
Passei a rebolar na mão dele, os sons que me deixavam ficando mais
altos com a fricção precisa do dedo, o tecido fino da calcinha oferecendo
mais um estímulo ao meu clitóris. Calou-me com os lábios, marcando a
minha boca com um beijo forte, que foi um combustível potente para o meu
desejo, o êxtase chegando mais próximo.
— Faça amor comigo agora, Ian — pedi, ao ver através dos olhos dele
o quanto ele se controlava para não se enterrar dentro de mim.
— Ailie…
— Quero o seu pau — removi o pênis dele de dentro da cueca,
voltando a acariciá-lo, sentindo todas as veias, e o quanto ele estava sensível
ao meu toque.
Os olhos dele brilharam de forma furiosa, enquanto uma gota de suor
escorria pelo rosto dele.
— E você terá! — Rosnou, aplicando uma pressão ainda mais forte
sobre o meu ponto de prazer e eu me senti prestes a desmanchar.
Me arrependi de ter pedido no momento em que Ian deixou de me
tocar, fazendo com que a frustração pelo gozo não ter vindo se espalhasse.
Quando ele deu um passo para trás, provavelmente para ir buscar
camisinha no meu quarto, chiei um protesto por ter cortado nosso clima.
— Isso que eu chamo de estar preparado — falei com rouquidão, me
sentindo bem quente, ao ver Ian tirar do bolso da calça um invólucro.
Ele apenas me olhou, abrindo um sorriso malicioso, que o deixava
ainda mais sexy.
Em um minuto, Ian segurava o próprio pau e o encapava, no outro, ele
voltava a me prensar contra a porta com o corpo dele, me arrancando um
gemido baixo com o impacto da pegada, ao passo que eu me segurava nos
ombros dele.
Por um momento, eu apenas senti a respiração quente dele contra o
meu rosto, e contemplei os olhos cheios de desejo, mas todo o desejo voltou a
explodir no meu interior quando Ian, com um gesto brusco, rasgou a minha
calcinha.
— Ian… — Fiquei atordoada, já que ele sempre removia a peça com
delicadeza, ao mesmo tempo que a minha boceta se contraia.
— Não precisamos dela — o tom soou entrecortado enquanto a mão
dele agarrou a minha coxa, me fazendo erguer a perna.
Qualquer raciocínio lógico que eu poderia ter tido, evaporou ao ter
pênis dele me preenchendo com um tranco firme e inesperado.
Com um grunhido, me olhando nos olhos, jogando um pouco os
quadris um pouco para trás, voltou a me invadir, iniciando um vai e vem
rápido, fazendo com que um som primitivo e gutural escapasse das nossas
gargantas.
Não havia nenhum comedimento nas estocadas, no agarre na minha
coxa, que sem dúvidas deixaria marcas, na mão que passeava, só uma ânsia
bruta de que nós dois gozássemos juntos.
Os gemidos dele ao mergulhar dentro do meu corpo com fúria eram
combustível para o meu prazer, tanto que eu sentia o orgasmo cada vez mais
próximo. Ele continuou a se remover, repetindo o processo uma, duas, três
vezes, roçando a carne dele no meu ponto de prazer.
Eu me agarrava à lapela da camisa de Ian, como se estivesse prestes a
cair de um precipício. Minha respiração ficava cada vez mais curta e
ofegante. Meus quadris buscavam pelos dele no meio do caminho,
provocando vários estalos que ecoavam em meio aos suspiros altos. A cada
invasão do pau dele, eu sentia meu canal cada vez mais escorregadio e
contraído.
— Mais forte — pedi com rouquidão, entrelaçando meus dedos nos
cabelos dele.
— Por… — O impedi de continuar, puxando o rosto dele para um
beijo.
Meu corpo vibrou com o impacto da estocada forte, ficando trêmulo.
Meus lábios, que faziam amor com os dele, foram dominados pelo meu
bombeiro mais uma vez.
Ele enroscava a língua na minha, a boca demandava, e eu sentia o meu
fôlego se esvaindo, o que de alguma forma, só intensificou ainda mais as
sensações.
Me entreguei de corpo, alma e coração, recebendo o pênis dele que me
invadia com a velocidade e pressão que eu tinha pedido.
Dele. Aqui e agora, eu era dele.
E esse homem lindo, gostoso e gentil que me tomava, era meu. Meu!
Pensar que pertencíamos um ao outro, me fez subir mais um degrau
naquela busca incansável.
Eu era puro instinto, meu corpo só obedecia àquilo que Ian impunha.
Minha vista estava ficando desfocada.
Suor tomava conta da minha pele.
Meus dedos se tornaram bem torpes nas carícias.
Ele levantou ainda mais a minha perna, e a nova posição permitiu que
ele fosse mais fundo dentro de mim.
Quando o pau dele chocou-se com a minha carne em outra investida,
senti que entrava em combustão. Meu canal se contraiu com força sobre o
pênis dele, o orgasmo me alcançando em todo o seu esplendor, me deixando
bamba, trêmula, extasiada. Sensações que ficaram mais intensas, se
prolongando, quando meu namorado continuou a bombear dentro de mim, na
busca do próprio ápice.
— Sua — murmurei contra a boca dele, em uma espécie de delay,
movendo a minha pelve para frente, tomando-o.
— Porra, Ailie… — Ofegou.
O segurei pela nuca.
— Eu sou sua, Ian… — confessei.
Agarrando a minha coxa com mais força, ele jogou os quadris para trás
e voltou a meter fundo, se deixando levar pelo próprio êxtase, fazendo com
que eu engolisse o som animalesco dele, enquanto ele se esvaía na camisinha.
Saber que ele tinha gozado com as minhas palavras, me conduziu a
uma explosão ainda mais poderosa, que me fez agradecer pela presença da
porta e do corpo forte, já que eu não confiava na minha única perna que
estava no chão.
— Minha — murmurou, ofegando, ao baixar a minha perna, só para
segurar o meu rosto com as duas mãos.
— Sua — concordei, deixando que a minha mão acariciasse o peitoral,
que subia e descia com a respiração rápida, sentindo o pênis dele latejar
dentro de mim, me fazendo contrair.
Sorri ao ver o júbilo nos olhos verdes.
Roubou-me um beijo doce e suave.
Ficamos um tempo nos beijando, onde acabei removendo a camisinha
do pau dele, dando um nó na ponta e guardando-a no bolso da calça dele.
— Acho que terei que chamar mais os bombeiros — brinquei,
passando os meus braços em torno do pescoço dele, amassando os meus seios
contra o peitoral dele.
Ian fez uma carranca antes de segurar o meu pescoço de forma
possessiva, mas carinhosa.
— Você só pode ligar para um único bombeiro, Ailie — rosnou.
— Sério?
— Pelo menos, nessas circunstâncias — cedeu, e eu acabei dando uma
risada.
— Possessivo — acusei.
— Bastante. — Acariciou a minha garganta. — Você é minha, Ailie.
— Sou… — Admiti.
— Porra! — Os lábios de Ian se curvaram em um sorriso. — Sabe que
eu vou fazer você repetir isso várias vezes, não sabe? Muitas vezes…
— Terá que ganhar esse direito, bombeiro — provoquei.
— É mesmo? — Ficou curioso.
— Sim.
— E como conquisto esse direito?
— Ficando de joelhos, claro. — Pisquei com um olho só para ele.
Ian gargalhou.
— Com prazer — soou malicioso.
Poderia ter acabado de gozar, mas quando eu vi meu bombeiro se
ajoelhar no meio das minhas pernas, pensei que eu iria explodir outra vez só
com a visão.
Tive certeza de três coisas: eu era dele; ele era meu; e Ian iria usar
aquela roupa para mim várias e várias vezes.
Capítulo vinte e sete
— Molly apagou — Ailie falou ao voltar para a sala e eu olhei na
direção dela. — Mas era de se esperar. Ela estava bastante cansada, a ponto
de ficar bem chatinha.
— Ela nunca é “chatinha” — defendi minha bebê.
— Você sabe que às vezes ela fica bem irritada quando está com muito
sono. — Franziu o cenho para mim.
— Isso não faz dela uma chata!
— Sabe que é só força de expressão.
— Mesmo assim.
— Não vou discutir com você, Ian. — Revirou os olhos.
— Porque sabe que eu estou certo! — Estiquei os braços para puxá-la
para mim.
— Está tão errado, Ian, que o melhor que eu faria era fugir de você.
— Ei, isso é demais! — Fiquei carrancudo.
— Não mesmo. Você tem um potencial enorme de se tornar o maior
estragador de crianças que eu conheço — brincou.
— Não exagera, feiticeira! — Deslizei as mãos pela bunda dela.
— Você é muito leviano.
— Sou só um cara legal.
— Se quiser ser pai, terá que ser mais firme, Ian.
Abri e fechei a boca, prestes a dizer que, de alguma forma, já me
considerava quase um pai para Molly, mas eu não tinha esse direito. Eu e
Ailie poderíamos ser namorados, mas isso não me dava o direito de me
chamar de pai, ainda mais quando Ailie só se considerava a titia da bebê. O
desejo de um dia me tornar pai de Molly ficaria só no campo dos desejos.
— Não gostamos desse papel, mas é necessário corrigir, ainda mais na
fase em que Molly está, engatinhando para tudo e qualquer lado, ficando de
pé e tentando andar.
Sorri ao lembrar de quando eu segurava as mãozinhas da bebê,
incentivando-a a caminhar.
— O tempo passa depressa — murmurei.
— Muito. — A gostosa colocou um joelho sobre o sofá depois o outro,
sentando no meu colo.
O sangue começou a circular com mais força pelas minhas veias, mas
eu apenas ignorei a reação inevitável do meu corpo ao dela. Era algo
instantâneo, intenso. Eu era incansável. Não me recordava se, alguma vez,
meu corpo e minha mente já se sentiram assim.
— Falando em tempo, da próxima vez podemos ficar mais — mudei de
assunto, falando da viagem que tínhamos feito no final de semana,
acariciando a bunda dela.
— Eu até queria, mas não sei se será possível —murmurou, parecendo
um pouco desanimada ao dedilhar meu pescoço. — Você tem os plantões e
eu só terei férias remuneradas ano que vem.
— Algum feriado?
— Falta um mês para a festa da primavera, mas um dia não é muita
coisa…
— Melhor do que nada. — Desferi um tapinha no traseiro dela.
— É, mas a verdade é que, mesmo que eu ficasse um mês em St
Andrews, eu não me cansaria de lá… — Ailie suspirou.
— Se apaixonou, não? — Era uma pergunta retórica, já que sabia que
sim.
— Difícil é não se apaixonar. Merie estava certa quando disse que o
lugar é lindo…
— Sim. — Tive que concordar, mas de alguma forma, sentia que,
qualquer lugar que eu visitasse ao lado de Ailie se tornaria lindo.
O brilho entusiasmado nos olhos azuis enquanto ela contemplava o
castelo de St. Andrews, que parecia flutuar sobre a água, tinha me fascinado,
mais do que a estrutura construída no século XIII e que funcionou não só
como moradia de religiosos, mas também como prisão.
Tanto que, em várias partes da visita, eu me peguei olhando para ela.
Pensar no olhar dela, me fez querer ficar lá não só por um mês, mas a
vida inteira com ela.
— Queria que tivesse dado tempo de visitar o Cambo Gardens — me
tirou do transe, fazendo um biquinho. — Queria tanto ver a coleção de rosas,
das gotas de neve… — Tornou a suspirar.
— Podemos ir no próximo final de semana — falei.
Tinha jurado para mim mesmo que eu faria muito mais viagens como
aquela com as minhas duas garotas, só para ver a felicidade no rosto da
minha namorada. Havia sido um final de semana incrível e relaxante.
Precisava disso depois de uma semana difícil no trabalho, já que houve várias
situações complicadas que criaram muita tensão.
— Não sei.
— Não sabe?
Ailie mordeu os lábios daquela forma que eu achava extremamente
sexy. Meu pênis reagiu a imagem e, quando ela remexeu no meu colo,
acabou arrancando de mim um gemido baixo.
— É longe.
— É pouco mais de uma hora.
— Que se tornam mais de duas com a volta.
— Podemos sair cedo e voltar à noite — sugeri.
— Tentador.
— Não precisa ser só uma tentação — continuei a instigar.
— Isso é jogar sujo, Ian. — Voltou a remexer em cima de mim, e eu
poderia dizer que a única que estava jogando sujo era ela.
— Você quer.
— Quero.
— Então vamos — sentenciei.
Estalou a língua para mim e eu sorri, vitorioso, antes de segurá-la pela
nuca e reivindicar os lábios dela.
— Vamos ver um filme ou uma série? — disse, ofegante, ao
interromper o beijo que tinha se tornado bem quente.
— Filme?
— Sim.
— Eu tinha outros planos — falei, cravando com mais pressão os meus
dedos na bunda dela, abrindo um sorriso malicioso.
— Nossa vida não pode ser resumida a só transar, Ian.
— Não vejo por que não.
Arqueou a sobrancelha para mim.
— Você quer fazer sexo, Ailie.
— Mesmo?
— Quer.
— Quem disse?
— Seu corpo.
Colocou os olhos em branco.
— Estou errado?
— Não.
— Então?
— Filme e depois sexo.
— Sexo durante o filme? — sugeri.
Os olhos azuis dela brilharam e eu soube que a minha sugestão havia
vencido.
— Enquanto você escolhe o filme, eu vou olhar as correspondências.
— Sério, feiticeira? — Franzi o meu cenho para ela.
— Não sei como não fiz isso antes de viajar. Sabe que eu gosto de ter
tudo em dia.
— Isso pode esperar até amanhã.
— Só leva cinco minutos. — Moveu os ombros.
— Okay. — Me dei por vencido.
Ailie me roubou um selinho, antes de sair do meu colo e ir buscar a
correspondência no balcão da cozinha.
Resignado, peguei meu celular no bolso, procurando alguma coisa para
vermos, antes de conectar meu aparelho à tv.
— Que estranho! — murmurou e eu olhei para ela, vendo-a de cenho
franzido com um envelope na mão.
— O quê?
— Uma comunicação da justiça.
— Comunicação? — Fiquei confuso.
— É.
— O processo de Molly não tinha acabado? — Minhas sobrancelhas se
uniram.
— Sim. — Se sentou ao meu lado, rasgando o envelope.
Removeu uma folha de dentro dele e eu tentei não olhar para o
conteúdo, dando um pouco de privacidade para ela, mas não podia negar que
estava curioso.
— Pelos Deuses! — A voz dela soou trêmula.
— O que foi, Ailie? — perguntei, preocupado.
— Noah! — Desviou o olhar do papel e me encarou, assustada.
Um calafrio ruim me percorreu a menção do nome do pai de Molly.
Quando ela não disse mais nada, insisti:
— O que que tem ele?
— Estou sendo convocada para uma audiência na Corte para discutir os
horários que ele poderá visitar Molly…
— O quê? Como assim? — sussurrei, incrédulo, o instinto protetor
querendo explodir dentro de mim.
— Eu não sei, não entendi.
— Esse cara pode fazer isso? Exigir visitas depois do pedido de
medida protetiva?
— Parece que sim — sussurrou, e eu vi o medo tomar a expressão dela.
— Posso? — pedi, apontando para o papel.
Ela assentiu, então, peguei a folha dos dedos trêmulos e deixei que
meus olhos percorressem o documento formal, que informava o horário e o
local da audiência.
— Droga! — bufei.
— Eu não consigo acreditar que isso esteja acontecendo… — A vi
apoiar a cabeça nas mãos, parecendo derrotada.
— Deve ser algum erro…
— Qual a chance disso?
Balancei a cabeça em negativa, me sentindo contrariado.
— Eu não quero esse cara perto de vocês duas! — acabei confessando,
com raiva desse maldito e da justiça também.
— E você acha que eu quero, Ian? Lógico que não quero. — Sua voz
soou esganiçada.
Tentando me controlar, sabendo que ela precisava da minha calma
nesse momento, não da minha fúria, passei meu braço em torno dela, fazendo
com que ela se aninhasse em mim, e deixei um beijo no topo de sua cabeça,
odiando o leve tremor que percorreu seu corpo.
— Isso é um pesadelo? — perguntou, agarrando minha camisa.
— O documento parece bem real para mim. — Puxei o ar com força,
soltando-o devagar.
— Eu não terei escolha a não ser permitir, não é? Céus, eu temi tanto
que isso acontecesse... — choramingou.
Não consegui responder. Fiquei apenas ali, segurando-a em meus
braços.
— Não posso perder a Molly, não posso…
Antes que eu pudesse falar qualquer coisa, escutei o choro desesperado
de Ailie, que era mais fruto do medo do que tudo, afinal, Noah era um cara
violento, teve problemas com bebidas e drogas, quem garante que não pode
ter uma recaída?
Como a justiça permitiu aquilo?
Senti uma bigorna espremer o meu peito, enquanto a minha boca
parecia ter sido tomada por fel.
— Está tudo bem. — Deslizei minha mão pelo braço dela, acariciando-
a.
— Não, não está — falou em meio a um soluço. — Eu não quero esse
homem perto da minha bebê, Ian. E se…
— Hey! — A interrompi, erguendo o rosto dela para que me fitasse. Vi
que seus olhos estavam avermelhados. — Noah não fará nada com nenhuma
de vocês duas. Nunca que eu deixaria as duas pessoas que eu amo sozinhas
com ele, Ailie, mesmo em encontros em lugares públicos — falei em um
impulso, mal me dando conta das minhas palavras.
— Ian… — murmurou.
— Estarei ao seu lado nas visitas agendadas. Não vou correr o risco de
que Noah faça algo contra vocês duas — continuei o meu discurso passional.
Prometi a mim mesmo que antes mesmo que o pai de Molly pensasse
em fazer algo contra ela, eu iria agir e protegê-la.
— Não acho que esse cara tentará fazer nada de mal contra vocês. Ele é
só um daqueles valentões que, no final das contas, é um grande covarde —
brinquei querendo arrancar um sorriso dela.
Ela não riu, apenas continuou a me encarar em silêncio. Tentei ler as
emoções dela, porém não consegui.
— Você me ama, Ian? — perguntou com a voz rouca. — Você me ama
e ama a Molly também? Foi isso que você disse?
Hesitei, com medo da reação de Ailie ao responder aquelas perguntas,
mesmo que eu já tivesse dito em voz alta que eu as amava. Para mim, essa
confissão mudaria tudo entre nós dois.
— Sim, amo. Me apaixonar por vocês duas foi bastante rápido, e amar
muito mais — sussurrei —, como não amar a Molly? Ela é tão linda,
inteligente e fofa.
— Sim, ela é.
— Eu me tornei um vassalo dela assim que eu a vi. — Abri um sorriso.
— E eu juro que sempre irei protegê-la, porque eu a amo.
— Ian…
— Talvez nunca tenha sido paixão o que eu senti por você, Ailie. Acho
que de alguma forma, você me fez pular várias etapas. Eu amei você quando
sorriu. Eu amei você quando me estendeu os braços e me abraçou com força.
Eu amei você quando me ofereceu esperança.
Abri um sorriso sem graça quando ela não disse nada, mesmo que uma
lágrima voltasse a escorrer pelo rosto dela.
— Vou continuar te amando, mesmo que você não queira isso —
adicionei, tocando a face dela. — Vou te amar hoje, amanhã, sempre,
feiticeira.
— Falar que é “para sempre” talvez seja demais, Ian — falou baixinho.
Neguei com um mover de cabeça.
— Não. Você é meu destino, Ailie... Se lembra da vez que eu disse que
os meus passos me conduziram até você, porque o meu coração sabe melhor
do que a minha mente aquilo que ele precisa?
— Lembro.
— A verdade é que meus pés sempre me guiarão até você porque é
onde o meu coração está.
— Ian…
— E sempre estará. Com você, com a Molly. E eu nunca deixarei que
ninguém machuque as garotas que têm o meu coração em suas mãos.
— Eu prometo que vou cuidar bem dele, Ian.
— Eu sei. Você já cuida do meu corpo e da minha alma, vai cuidar
bem do meu coração também — falei.
A mulher me abraçou com força e eu a segurei firme em meus braços,
sentindo meu peito ser tomado por carinho, por amor.
— Eu sempre farei de tudo por vocês, Ailie. — Acariciei as costas
dela.
— E eu entrego parte de mim a você, Ian. — Se acomodou melhor no
meu colo para me encarar.
— Parte sua? — Fiquei surpreso.
Tocou o meu rosto.
— Eu não estou só me apaixonando, mas estou a um passo de amar
você, Ian.
— Sério?
— Sério.
Euforia se espalhou pelo meu corpo e, quando ela sorriu para mim, não
pensei em mais nada a não ser beijar aquela boca gostosa e que se tornava
muito mais minha, já que minha mulher entregava parte do coração dela para
mim.
Enquanto a beijava, fiz mais uma promessa silenciosa que tinha toda a
intenção de cumprir: faria de tudo para que Ailie nunca se arrependesse de ter
se entregado a mim. Cuidaria dela, a apoiaria e a faria feliz todos os dias da
minha vida, ainda que eu não pudesse evitar alguns dissabores, que, sem
dúvidas, viriam.
Capítulo vinte e oito
Ignorando o toque do meu celular, tentei voltar novamente para o
torpor provocado pela sonolência, mas tornou-se difícil quando o som ia e
voltava, com um intervalo de poucos segundos.
Fiz um esforço maior, cerrando as pálpebras com força. Eu estava
cansado.
— Não vai atender, Ian? — Escutei a voz rouca de Ailie enquanto ela
se virava em minha direção no colchão.
— Droga! — grunhi, puto pelo barulho ter acordado Ailie também.
Fazia pouco mais de uma hora que nós havíamos conseguido cochilar,
a ansiedade nos impedindo de conciliar o sono.
Tinha sido difícil ouvir que o filho da puta poderia ficar com Molly
algumas horas durante a semana, mas, infelizmente, não tinha nada que eu
pudesse fazer para impedir isso.
O infeliz estava sóbrio, tinha conseguido um emprego, ou seja,
“tomado um jeito” aos olhos da justiça, que entendia que ele não representava
perigo para a filha.
O boletim de ocorrência reportando a ameaça de agressão não tinha
sido o suficiente para impedir Noah de conviver com a filha, e como minha
namorada não confiava em ninguém para intermediar a visita a não ser ela
mesma, iria ignorar a medida protetiva que determinava que Noah se
mantivesse afastado dela.
E tinha chegado o fatídico dia.
Ailie, por mais que eu tentasse acalmá-la, dizendo que daria tudo certo,
presa pelo medo, ela tinha se perdido divagando sobre várias situações que
poderiam ocorrer.
— Ian? Deve ser importante para a pessoa insistir várias vezes… —
falou quando o meu telefone voltou a tocar.
Quando ela disse isso, pensei no meu irmão.
Maldizendo-me por ter ignorado a ligação, quando Grant poderia estar
precisando de mim para alguma coisa, rapidamente removi o meu braço, que
estava um pouco dormente porque eu tinha o costume de dormir abraçado
com Ailie, rolei no colchão em direção ao móvel lateral e peguei o celular.
Senti uma onda de alívio ao ver o nome do comandante Archie no
visor, ao mesmo tempo que a irritação tornou a me invadir.
— Comandante? Algum problema? — perguntei, me sentando na
cama.
— Preciso que você venha para o Batalhão, agora!
— Mas hoje é a minha folga, comandante.
— Preciso de você aqui. Se apresente o mais rápido possível! — a voz
soou tensa.
— Mas tenho um compromisso importante daqui a pouco. O Cam não
poderia me substituir? Cubro o turno dele em outra oportunidade.
— Não está entendendo, Ian. Todos estão sendo convocados, não
apenas você. Se apresente o mais rápido possível! — sentenciou antes de
desligar.
— Porra! — Joguei o meu aparelho na cama, passando a mão pelos
meus cabelos, me sentindo frustrado.
— O que foi? — Ailie perguntou com a voz mais desperta e eu olhei
para o lado, quase sorrindo ao ver a forma como os cabelos embolados
emolduravam o rosto dela.
— O Comandante Archie disse que eu preciso me apresentar no
Batalhão imediatamente.
— Por quê?
— Ele não disse, mas parece ser algo sério.
— Então você precisa ir, Ian.
Olhei para ela como se um par de chifres tivesse surgido no meio da
testa dela.
— Sério, Ailie?
— Sério.
Balancei a cabeça em negativa.
— Eu tenho um compromisso com você — falei.
— É o seu trabalho, Ian.
— Vocês duas são mais importantes.
Ela deixou um beijinho no meu ombro, um sorriso surgindo em seus
lábios.
— Você é um verdadeiro príncipe, sabia?
— E você é uma gostosa! — falei malicioso.
— É melhor você se levantar e se aprontar para ir trabalhar, Ian —
sentenciou.
— O quê?
— Você me ouviu, você precisa ir.
— Ailie…
— Sei que você pode ser punido se não atender a uma ordem de seu
comandante.
— Não me importo.
— Eu te conheço o suficiente para saber que você se importa, sim.
— Porra!
— Não adianta negar, dileas, você ama o que faz e tem orgulho de
estar sempre pronto para atender um chamado. Sei que odiaria ganhar uma
advertência ou algo pior por não cumprir uma ordem do seu superior. —
Sorriu.
Tornei a passar os dedos por entre os meus cabelos, me sentindo
frustrado.
Sim, odiaria não cumprir uma ordem. Mesmo assim, estava receoso de
ir e deixá-la sozinha com aquele crápula.
— Tenho orgulho de você ser assim, Ian, um homem honrado.
Senti um calor surgir no meu peito com as palavras dela, mas que logo
se dissolveu com a lembrança de que quebraria minha promessa.
— Como fica a minha honra quando eu prometi estar ao seu lado
durante as visitas de Noah?
— Ficará intacta. Não vamos perder tempo discutindo, Ian, você irá se
atrasar.
— Droga, Ailie! Você está com medo desse cara!
— Estou.
— Então…
— Se não estivesse com você, eu teria que encarar Noah sozinha.
— Mas estou com você! — grunhi.
— As coisas não acontecem da forma como desejamos — falou
baixinho. — Seja qual for a razão pela qual o seu chefe te chamou, é o seu
dever estar lá, fazendo o seu trabalho.
— Ailie...
— Me deixe orgulhosa, da mesma forma que você ficará ao saber que
eu enfrentei os meus medos.
Não disse nada, apenas continuei a encará-la.
— Vá se vestir, eu não vou falar novamente — brincou.
— Ailie…
— Por favor.
Passei a mão pelo meu rosto.
Droga! A indecisão me matava.
— Ficaremos bem. Vá tranquilo.
Quis rir com as palavras dela, já que sabia que Ailie não acreditava no
que dizia, mas tudo o que fiz foi encará-la.
— Você não me dará escolha, não é mesmo?
— Não.
Se ergueu para deixar um selinho nos meus lábios.
— Sabia que iria tomar a decisão certa… Eu te levo até a porta, Ian.
Respirei fundo e, imitando Ailie, que saltou da cama com um pulo, me
levantei.
Realmente esperava que tivesse feito a escolha certa.
Por mais que achasse que daria tudo certo, não me perdoaria se algo
acontecesse a uma das duas, afinal, prevenção era um dos principais lemas
daquilo que eu jurei servir.
Capítulo vinte e nove
Molly deu um gritinho que doeu nos meus ouvidos enquanto se movia
freneticamente no meu colo, querendo descer.
— E eu reclamando do seu peso. — Emiti um muxoxo, colocando
minha menininha, cada vez mais independente, no chão.
O tempo passava depressa demais.
Segurei as mãos dela, incentivando-a a andar.
Molly presenteou-me com um “Ti” gritado, uma das novas façanhas da
bebê que rapidamente se desenvolvia. Como da primeira vez que havia
acontecido, acabei sorrindo, mas ser chamada de “ti” não conseguiu desfazer
o aperto que eu sentia no meu peito.
Eu dizia para mim mesma que não havia nada a temer, afinal,
estávamos rodeados de pessoas que usavam o local para fazer piquenique,
caminhar, andar de bicicleta, mas, mesmo assim, eu não conseguia me
acalmar.
Já estive rodeada de pessoas antes, mas o que elas fizeram? Nada.
A bravata que eu tinha demonstrado a Ian para atender o chamado do
superior dele — que se mostrou bastante grave, já que se tratava de um
incêndio que poderia se tornar de grandes proporções no Pentland Hill, o que
me fazia temer também pela segurança do meu namorado —, se mostrou
apenas momentânea.
Eu estava sentindo um medo surreal. Sabia que estava exagerando, mas
não podia evitar.
Covarde, eu queria pegar Molly no colo e sair correndo, colocando
uma distância segura entre nós duas e Noah, mas não podia fazer isso, assim
como eu não podia desmarcar com Noah, pedindo para deixar para outro dia,
em um que Ian estivesse presente.
Sabia que o pai de Molly não iria encarar bem uma sugestão de
mudança de data. Com certeza, ele levaria isso como mais uma “tentativa”
minha de afastar a bebê dele. Não queria nem pensar nas consequências se eu
fizesse a sugestão. Sem dúvidas, ele levaria isso para a Corte e me faria
perder meus direitos, e com razão, fora que, no fundo, eu sabia que estava
sendo um pouco egoísta. Por mais que eu tivesse uma impressão ruim dele
pela tentativa de agressão, Noah estava tentando recomeçar a vida.
Eu não podia privá-lo da filha.
Molly gritou umas sílabas quando parou no meio da sala, me tirando do
transe de pensamentos.
— Já cansou de andar, meu docinho? — comecei a conversar com ela.
Para minha surpresa, ela me encarou por alguns segundos com os olhos
meio arregalados, antes de tentar se desvencilhar da minha mão que a
segurava.
— Ba-ba-ba. — Balbuciou e fez um biquinho.
— O que foi? — perguntei quando ela mexeu o pulso tentando se
soltar.
Soltei uma das mãozinhas de Molly, mas mantive a outra bem segura.
Molly apontou para uma direção e eu acompanhei o olhar dela.
— Ah, os patinhos!
Ela continuou a apontar, dando um passinho à frente, querendo
alcançar os bichinhos, que estavam a certa distância.
— Opa! — Firmei-a quando ela quase tropeçou nos próprios pés e,
segurando o outro pulso, ajudei-a a andar novamente.
Não fomos muito longe, afinal, não era bom se aproximar tanto, apesar
de que algumas pessoas sempre o faziam.
Não conseguindo o que queria, o choro de frustração veio, mas eu não
iria ceder.
— Está tudo bem, meu docinho — murmurei não sabendo se ela
poderia compreender aquilo que eu dizia, pegando-a no colo e afagando as
costas da menininha. — Sei que quer brincar com eles, mas não pode. Além
de ser perto do lago, os patinhos são só para contemplar.
— Da- da! — gritou.
Com um suspiro, afastei-a do lugar onde estavam os patos, tentando
desviar a atenção dela para outra coisa, sem muito sucesso, já que ela se
debatia no meu colo, querendo se aproximar dos animais.
Caminhei em direção ao local onde havia combinado de encontrar o pai
de Molly, não sem ser interrompida por uma ou duas pessoas que
perguntaram se estava tudo bem ao ver a bebê chorar.
— Não precisa continuar a chorar, docinho — falei ao pousar a bolsa
no banco e me sentar em seguida. Movi a bebê no meu colo, acomodando-a
melhor. — Olha como as crianças estão se divertindo, Molly!
Apontei para um grupinho que brincava de correr, e isso atraiu a
atenção da menina, que arregalou os olhos, rapidamente parando de chorar,
começando a se agitar, talvez querendo também brincar.
Coloquei-a no chão e voltei para a “brincadeira” do andar.
Distraí-me com ela, aproveitando o calor do sol que beijava meu rosto
e minha pele, as risadas alegres de Molly me fazendo esquecer de tudo, só
tendo a ciência de que uma meia hora havia se passado quando parei para dar
um pouco de água para ela.
Noah estava atrasado. Poderia ligar para ele, perguntando se já estava a
caminho, mas não faria isso, porque a cada minuto que se passava, eu me
sentia esperançosa de que ele não viria e que poderíamos combinar um outro
dia, mas, como se fosse conjurado pela minha mente, vi o homem alto
aparecer no meu campo de visão.
A tensão e o medo retornaram com força dentro de mim, mas tentei
aparentar calma e não que estava em pânico. Gostei de ver que Noah estava
limpo e sóbrio. Isso era um bom sinal, não era?
— Desculpe o atraso, Ailie — o pai de Molly murmurou ao se
aproximar, parecendo bem sem graça, e eu confesso que fiquei surpresa com
as desculpas.
— Essas coisas acontecem. — Dei de ombros, sentindo meus músculos
meio doloridos. A proximidade me deixava bastante em alerta, e discutir que
o atraso foi quase de uma hora não ajudaria em nada.
Não disse mais nada, voltando-se para a bebê que estava no meu colo.
— Você é linda, filha — ele falou com a voz embargada. — Você se
parece tanto com a Becca. Os olhos, o nariz... Você é tão linda quanto ela era.
Era estranho ouvir aquelas palavras doces sobre a minha prima depois
de ouvir chamar sempre Rebecca de vagabunda, mas disse para mim mesma
baixar a guarda.
Segundas chances.
Tinha que lembrar que, até então, ele não havia feito nada para não
merecer uma nova oportunidade.
— Sim, Molly é tão bonita quanto Rebecca, pelo menos nos tempos em
que ela não usava drogas — falei.
Me arrependi das minhas palavras de imediato, já que em partes, ele
havia conduzido a minha prima por aquele caminho sem volta, mas
estranhamente eu não o culpava. Rebecca era adulta e responsável pelas
próprias decisões.
Noah me encarou e eu senti um arrepio ruim me percorrer, meu pulso
se acelerando com o medo.
Ele estava tão próximo. Noah tentaria me machucar de novo?
Desviou o olhar de mim ao ver que a menininha se agitava no meu
colo.
— Lindinha do papai. — Abriu um sorriso.
Como a menina o ignorou, estava olhando para as crianças que
brincavam ali perto, Noah esticou o braço para tocar o rostinho dela, fazendo
com que Molly se virasse na direção dele, os olhos ficando arregalados.
O rosto alegre dela se transformou e não demorou para que abrisse a
boca e começasse a chorar de novo.
— Não precisa chorar, meu docinho — murmurei, acalentando-a.
— Por que ela está chorando? — Noah perguntou com a voz tensa e eu
o encarei, vendo que ele parecia aborrecido.
— Molly às vezes fica tímida com desconhecidos — murmurei em
meio ao choro da bebê, relembrando a primeira vez que ela viu Ian e o quanto
se sentiu à vontade com a presença dele.
Noah não gostou muito da minha resposta, já que a expressão
continuou fechada.
— Eu sou o pai dela, Ailie — a voz soou mais grossa.
Outro calafrio percorreu a minha espinha.
— É, mas ela ainda não sabe disso. Molly é muito pequena. Com
paciência e convivência, ela vai acabar percebendo que você é o pai dela.
— Ah, eu não entendo nada de bebês — ele se justificou, o tom soando
mais suave, mas, mesmo assim, eu não me senti aliviada. — Agora, terei que
aprender como lidar com ela.
— Tem várias coisas na internet — falei, tentando me controlar.
— Vou pesquisar, mas devo aprender muita coisa na prática, já que
estarei presente na vida da minha filha a partir de agora. — Voltou a tocar a
bebê.
— Tenho certeza que sim, Noah — murmurei, ignorando o nó que se
formou na minha garganta com aquelas palavras.
Droga! Eu tinha que me acostumar com aquela ideia que era mais do
que real.
— Não precisa chorar, Molly, eu sou o seu pai — falou, esticando a
mão para tocar os cabelinhos dela.
Não o impedi.
O toque era importante.
— É normal ela chorar tanto assim? — Ele perguntou depois de um
minuto e eu senti um pouco de empatia pela angústia dele.
— Sim. Agora pouco, ela chorou por uns bons minutos porque queria
brincar com os patinhos.
— Ah!
— Não é nada pessoal, não é, meu docinho? — Movi Molly no meu
colo e comecei a balançá-la.
Precisei de um tempinho para que ela parasse de chorar.
Virei a bebê no meu braço, para que ela encarasse Noah.
— Esse é o seu pai, Molly — falei, sentindo um gosto amargo na boca
por chamá-lo assim —, não precisa ter medo.
— É… o papai só irá proteger você.
Minha sobrancelha quase se arqueou, mas me contive a tempo.
Ele voltou a acariciar o rosto de Molly e eu imaginei que ela tornaria a
chorar com o toque, mas apesar do bico, a bebê não chorou.
— Posso pegar ela no colo? — Noah perguntou.
— Por que não? — Falei.
Mesmo insegura e temerosa, já que Noah poderia fazer qualquer coisa,
ao mesmo tempo que me sentia um pouco egoísta em querer mantê-la nos
meus braços, estendi Molly na direção dele.
Pegou-a no colo.
Outra vez pensei que ela iria chorar, mas não o fez.
— O que ela gosta de fazer? — Noah puxou assunto, balançando
Molly, que deu uma gargalhada com a brincadeira.
— Brincar com a bola, com os blocos, com as pelúcias... O novo hobby
dela é andar — respondi.
Molly começou a se agitar, gritando várias sílabas desconexas. Sem
dúvidas, logo ia querer descer para dar seus passinhos.
— Ela já anda? — Pareceu surpreso.
— Não sozinha, mas acho que, em pouco tempo, ela já estará com os
passos mais firmes. Molly passou do engatinhar para o ficar de pé muito
rápido.
— Entendi — Noah fez uma pausa, encarando-a de uma forma
estranha que me fez ficar em alerta, pronta para reagir, antes de dizer: — Isso
é meio surpreendente, não?
— Surpreendente? — meu tom saiu meio estrangulado, me traindo.
— É, ela ser tão esperta e saudável.
Franzi o cenho.
O medo pareceu se tornar ainda maior. Eu não queria falar do passado,
não com ele, não quando ele ainda me era tão ameaçador e eu esperava uma
explosão de fúria a qualquer momento.
— Eu e Becca fizemos muitas merdas... ela é consequência de uma
delas.
— Milagres acontecem, Noah — falei, tentando não ficar na defensiva
por ele acusar a minha prima, ainda que eu mesma a tenha julgado por sua
imprudência.
— Molly é um milagre, não é mesmo?
Nesse momento, Molly balbuciou alguma coisa e começou a se
retorcer no colo de Noah, até que ele a colocasse no chão.
— Assim que faz? — Segurou a pequena pelas mãos.
— Pelo pulso é melhor — expliquei.
— Okay. — Fez como eu instrui.
Voltei a ficar em alerta.
Molly soltou uns gritinhos e gargalhou quando deu alguns passinhos
com a ajuda de Noah.
Observei, supervigilante, o homem brincar com a minha bebê,
esperando um passo em falso que ele desse, mil e uma possibilidades sendo
criadas pela minha mente. Outra vez, Noah me surpreendeu por manter-se
próximo de onde eu estava sentada, a uns dois passos se eu precisasse
intervir.
— Tem um espaço kids. Podemos ir lá — o homem sugeriu ao se
aproximar.
— Acho que os brinquedos não serão adequados para a idade dela,
Noah. Fora que tem crianças mais velhas.
— Eu cuidarei dela, Ailie.
— Noah…
Ele me encarou com seriedade.
— Sei que você não confia em mim. Nunca te dei motivos para confiar.
Sei que todas as vezes que nos encontramos, eu agi como um babaca.
— Sim.
— Estou arrependido. Eu não quero mais ser aquele cara. Pode não
acreditar, mas realmente quero recomeçar.
— Por quê? Por que agora você quer ser o pai da Molly se nunca a
quis? — Questionei baixinho. Duvidava não só das palavras de Noah, mas
também das razões dele.
— Ficar frente a frente com a morte faz isso — sussurrou.
As palavras de Noah aumentaram a minha apreensão e eu tive que me
controlar para não me erguer do banco, pegar Molly e sair correndo,
colocando o máximo de distância entre nós e o perigo que ele carregava atrás
de si.
Me perguntei como a justiça permitiu aquilo.
— Tráfico? — sussurrei, assustada.
— Não, apenas consumo. Relaxa, minha mãe pagou a minha dívida
que tinha com os caras e eles não vão vir atrás de mim. Estou limpo. Estou
tomando jeito. Mudei de bairro e de companhias. Tenho me apegado ao
espiritual. Eu preciso que você acredite que eu só quero recuperar o tempo
que perdi com minha filha, Ailie.
— Não tenho escolha, não é mesmo? — Fui honesta.
— Legalmente, não. Mas quero que a nossa relação seja de respeito
mútuo, por Molly.
— Não questionará minhas decisões a respeito do bem-estar dela?
— É a guardiã dela. Eu também tenho regras para seguir. — Deu de
ombros, antes de mudar de assunto: — podemos ir? Confie em mim que não
vou deixá-la se machucar.
— Só vou dar um pouco mais de água para Molly primeiro — falei,
pegando a garrafinha dela.
Sabia que, por mais reticente que eu estivesse e também em alerta, eu
não tinha escolha a não ser dar um voto de confiança a ele. Não queria
também agir de forma tirana e infantil, tornando a nossa convivência ainda
mais difícil e infernal. No fim das contas, era direito de Molly também. Só
me cabia torcer para que ele colaborasse com uma boa vivência e
demonstrasse ser digno da oportunidade de conviver com a própria filha.
Capítulo trinta
— Será que esse cara realmente vem? — perguntei, me sentindo um
pouco impaciente, afinal, já haviam se passado dez minutos do horário
marcado da visita.
Molly emitiu um som animado, batendo os pezinhos no chão. Meu
sorriso foi instantâneo, o que não era nada surpreendente. Tudo na bebê me
encantava. Molly era a segunda dona do meu coração e eu amava cada coisa
que ela fazia.
— Da primeira vez, Noah se atrasou quase uma hora, então, não
duvido que ele deva acabar aparecendo — Ailie respondeu
— Certo.
— Sabe-se lá se ele virá mesmo — completou, mordiscando os lábios,
o que revelava certa ansiedade. — Quem perde tempo é ele no final das
contas.
— É — concordei, guardando para mim o comentário de que, ainda
que eu não gostasse de esperar, eu agradecia o fato de ele ser um imbecil e
desperdiçar o tempo que poderia ficar com a filha.
Apesar de a primeira visita ter sido tranquila, o cara ter respeitado
Ailie, principalmente o horário de término do encontro, e ter se mostrado
cuidadoso com Molly no parquinho, eu ainda estava bem reticente.
Não podia negar que, por mais inevitável que fosse, eu não queria esse
cara perto das duas. Então, quanto mais tempo o idiota se mantivesse
distante, melhor.
Talvez estivesse sendo injusto, afinal, as pessoas podiam mesmo
mudar, mas não acreditava muito na desculpa de que o cara decidiu se
transformar numa pessoa digna depois de sofrer uma ameaça de morte.
Sabia que essas “mudanças” não eram tão fáceis assim de acontecer,
era um processo, não acontecia da noite para o dia.
Uma hora ou outra, o vício poderia acabar vencendo, levando a uma
recaída.
Na verdade, eu ficava irado só de pensar nos riscos que só a presença
de Noah trazia consigo, o que me fazia desejar que ele nunca mais
aparecesse.
Caramba! Como a justiça permitiu aquilo?
— O que você está pensando, dileas? — Ailie murmurou, pousando a
mão sobre minha coxa.
Encarei-a, percebendo que ela me olhava fixamente.
— Nada importante — menti.
A sobrancelha ruiva se arqueou.
— Seu cenho está franzido, Ian.
— Eu realmente deveria ter medo de você, feiticeira — brinquei, meus
lábios se curvando em provocação.
— Já passamos dessa fase, você só quer fugir da minha pergunta —
Ailie resmungou.
— Realmente, muito perigosa! — A vi revirar os olhos.
Me voltei para a bebê, que continuava a dar gritinhos e tentava girar o
corpinho. Baixei minhas mãos em direção ao tronco dela e a suspendi no alto,
arrancando uma risada da menina.
— Não é, Molly?
A bebê riu quando voltei a subi-la e descê-la.
— Isso não é justo — Ailie bufou.
— O quê? — Me fiz de inocente.
— Você sempre usar seu charme de bombeiro para fazer Molly ficar
do seu lado… Você é um manipulador!
Dei uma risada ao ouvir a acusação dela, fazendo com que Molly risse
também, me imitando.
— Sorte a sua que eu te amo, Ian.
Meu coração disparou ao ouvir aquelas palavras ditas em tom de
brincadeira.
Com Molly em meus braços, me inclinei para deixar um beijo suave
nos lábios de Ailie.
— Sorte a minha que sou amado — murmurei.
— Por nós duas.
Um calor se espalhou pelo meu peito ao ouvir aquilo.
— E por sua família também — continuou, olhando-me nos olhos.
— Sou um homem de sorte. — Voltei a sorrir.
Um pigarrear se fez ouvir e eu olhei para frente, de cenho franzido,
contemplando o homem que eu torci para que não aparecesse.
A tensão recaiu sobre os meus ombros de forma imediata, e não se
dissolveu quando eu busquei por sinais de uso de entorpecentes e, felizmente,
não encontrei nenhum. Realmente, eu não gostava dele.
— Atrapalho alguma coisa?
Sim, atrapalhava. Muito.
— Oi, Noah! — minha namorada o cumprimentou. — Claro que não.
Estávamos só conversando enquanto te esperávamos.
— Me desculpe pelo atraso — murmurou, parecendo bem sem graça.
— Talvez devêssemos marcar uma hora mais tarde, já que você está
tendo problemas em chegar no horário — Ailie sugeriu por educação.
— É, talvez seja melhor mesmo. — Subitamente tenso, Noah alternou
o olhar entre mim e a bebê, que emitia várias sons. Todos os meus sentidos
ficaram em alerta. — Quem é esse cara e por que ele está segurando Molly?
— Sou o namorado da Ailie — me apresentei.
— Ah. Você me parece familiar. Já nos encontramos antes? — Tentou
ser simpático.
— Foi o Ian que me ajudou no dia que você tentou ver Molly à força
— Ailie respondeu.
— E você está com ele?
— Algum problema? — Arqueei uma sobrancelha para ele, talvez
sendo mais beligerante do que deveria.
— Não, cara, só quero conhecer as pessoas que estão na vida da minha
filha. — Tentou imprimir certa tranquilidade no tom de voz, mas os meus
instintos me diziam que algo estava errado.
— O que é natural — concordei.
— Creio que sim, sou novo nessas coisas. — Moveu os ombros. —
Você estará sempre presente nas visitas?
— Era para o Ian ter vindo comigo da primeira vez, mas ele não pôde,
já que esteve combatendo o incêndio no Pentland.
— Terrível o que aconteceu, não é? Vários hectares queimados, de
forma criminosa — Noah comentou.
— Poderia ter sido bem pior se uma equipe grande não tivesse sido
rapidamente mobilizada e coordenada corretamente. As chamas poderiam ter
se alastrado por um perímetro ainda maior se não fosse isso. Mas felizmente
deu tudo certo e conseguimos extinguir todos os focos — falei.
Tinham sido três longos dias de turnos extenuantes, de poucas horas de
sono e descanso para realizar os revezamentos. Era um trabalho mecânico e
sem muita pompa. Várias vezes, durante a ação, imaginei que o meu braço
iria cair ao manejar o abafador sobre o mesmo ponto da chama, até que ela se
extinguisse. A união, saber que o colega ao lado estava dando seu melhor no
combate, fez com que nós mantivéssemos focados.
— Você é um herói, cara — Noah me tirou dos meus pensamentos.
— É o que eu disse para Ian — Ailie falou em um tom orgulhoso.
— Eu só estava fazendo o meu trabalho.
— Que falsa modéstia — Noah tentou brincar.
— Foi um trabalho em equipe — comentei, não me sentindo muito
confortável com a brincadeira. Ele não me conhecia.
— É. Heróis no plural então. — Abriu um sorriso.
— Sim, no plural. — Forcei um sorriso, já que não queria ser tão filho
da puta assim. Eu não gostava dele por todas as merdas que tinha feito, mas
ele parecia estar realmente se esforçando para mudar.
— Posso? — Finalmente se voltou para a bebê que estava alegre no
meu colo e nem parecia se importar com esse cara.
“Não. Não pode”. Senti uma vontade enorme de rugir aquelas palavras,
me deixando levar pelos meus impulsos protetores com relação a Molly, mas
sabia que não poderia foder com tudo para Ailie.
— Claro — sussurrei.
— Vem, Molly, vem com o papai — Noah disse em um tom alegre,
chamando a bebê, que girou o pescocinho para encará-lo.
Tive que usar todo o meu autocontrole para não fazer uma careta por
ele ter se denominado como o “papai” dela, e não me orgulhei da onda de
ciúmes que me invadiu quando, depois de fazer uns barulhos, a minha bebê
esticou os bracinhos na direção daquele cara.
Entreguei-a para Noah. Exagero ou não, eu me sentia como se eu
entregasse o meu bem mais precioso a um inimigo.
— Coisa linda do pai — murmurou, deixando um beijo na bochechinha
dela.
A risada de Molly ao ser balançada por ele fez com que o ciúme se
tornasse ainda mais forte dentro de mim. A cada segundo contemplando
aquela interação, eu me sentia mais contrariado.
Eu queria gritar que Molly era minha filha e não dele, que sangue não
importava, não quando se amava, que eu nunca seria capaz de virar as costas
para uma filha como ele tinha feito, que se Ailie não me impedisse, eu seria
para sempre o protetor daquele serzinho lindo. Eu acompanharia cada
momento da vida dela, vibraria com as pequenas conquistas. Eu a abraçaria
quando Molly precisasse, enxugaria todas suas lágrimas quando elas caíssem.
Um pai faria isso... Eu queria aquele papel, e não o queria dividir com
ninguém...
Engoli em seco.
Era difícil contemplar aquela minha face, era uma bem egoísta.
Talvez não devesse estar comparando situações, afinal, John e Katriona
haviam ido longe demais ao ter me sequestrado, supostamente por amor, mas
me senti um hipócrita, porque queria impedir que Molly vivesse aqueles
momentos com o pai biológico. Uma vozinha ciumenta sussurrava na minha
orelha que esse cara não merecia essa chance.
Senti os dedos de Ailie entrelaçando-se nos meus. Olhei para ela e vi
que parecia entender meu conflito.
— Vamos trabalhar isso, Ian — falou baixinho, apertando suavemente
a minha mão.
— Sim, vamos — prometi.
Seria difícil, talvez mais do que eu poderia imaginar, mas ser pai,
mesmo que de coração, era permitir que novas pessoas entrassem no coração
da sua filha e possam conviver com ela.
Se aquele homem seria capaz de se redimir com Molly, eu tinha as
minhas dúvidas, mas uma coisa era certa, por Molly, eu tentaria derrubar
cada um dos meus preconceitos.
Me mantendo vigilante ao mesmo tempo que tragava o meu ciúme, só
me restava torcer para que esse cara não jogasse fora aquele doce presente
que a vida o dava: o de amar Molly.
Capítulo trinta e um
— Oi, docinho!
Vi a menininha abandonar os movimentos de engatinhar para tentar se
colocar sobre os pezinhos e vir em minha direção.
Senti meu pulso disparar, como sempre acontecia ao vê-la fazendo
aquilo, mas busquei me manter calma, enquanto batia no chão, incentivando-
a a se aproximar.
Era difícil colocar na minha cabeça que quedas eram algo normal no
processo de aprender a andar e que a minha bebê, que deu um passinho à
frente, depois outro, não estava isenta disso.
— Falta pouco, Molly! — continuei a bater no chão para incentivá-la.
Ela deu mais um passinho. Desequilibrou-se um pouco ao dar um
passo maior, o corpo tombando um pouco para trás, e eu senti o ar ficar retido
nos meus pulmões. Eu queria me antecipar para socorrê-la, mas não precisei,
já que ela usou um bracinho para se estabilizar, continuando a avançar.
— Muito bem, Molly! — falei em um tom empolgado quando ela
conseguiu cruzar a distância que nos separava.
Deu um gritinho alegre quando a peguei no colo.
— Estou muito orgulhosa de você! — continuei a conversar com ela.
Sustentei-a no ar e a risada da minha garota sapeca preencheu todo o
meu apartamento.
Continuei a brincar, sentindo-me feliz por passar aquela tarde
preguiçosa e fria de domingo com Molly, período que ficaria ainda mais
perfeito se Ian estivesse ali, e não em mais em um dos seus plantões.
Depois de quatro meses namorando um bombeiro, a espera deveria se
tornar mais fácil, mas não se tornava.
Mesmo que eu soubesse que Ian era bem cuidadoso e que ele também
seguia todos os protocolos, conversar sobre o trabalho dele, sobre os
procedimentos, me fez ficar ciente de que bastava um descuido para o perigo
se fazer presente.
Me consolava um pouco saber que não estava só. A esposa de Daniel,
um dos amigos de Ian, que eu havia conhecido em uma festa organizada pelo
batalhão, tinha me dado um alento ao deixar-me saber que eu não agia como
uma paranoica em minha preocupação.
Suspirei, pedindo a todos os deuses que eu conhecia para que o
protegessem enquanto ia atrás de Molly que se divertia ao engatinhar pela
sala, explorando-a.
— O monstro te pegou! — falei alto, pegando-a antes que ela se
aproximasse da cadeira.
Ela deu um gritinho, se agitando no meu colo.
— Monstro terrível! — Virei-a para mim, brincando com a barriguinha
dela.
A menininha riu alto e eu acabei rindo também.
Pousando-a no chão, continuamos a brincar até que nenhuma
brincadeira que eu inventava ou que tinha visto na internet parecia prender a
atenção dela.
— Titi! — falou em um tom lamurioso, esticando os braços na minha
direção.
— A titia está aqui, sempre preparada para te dar um colinho quando
você precisa. — Deixei um beijo na testa dela ao pegá-la no braço. — Não
precisa ficar amuada, docinho, a titia vai verificar a fralda e preparar algo
para você comer, está dando o horário!
Rapidamente, chequei a fralda que ela usava e, como estava tudo certo,
fui com ela até a cozinha. Suspirei quando tentei colocá-la no cercadinho,
mas, manhosa, ela fez com que iria chorar.
— A tia consegue lidar com isso — murmurei.
Não era a primeira vez que eu teria que fazer todas as tarefas com ela
no colo. Firmando-a em um braço, fazendo malabarismo, comecei a preparar
um lanchinho. Demorei mais de dez minutos para picar uma maçã em um
corte seguro, já que a minha bebê estava bem agitada e querendo conforto.
— Bem melhor, não, meu docinho? — brinquei, acariciando a curva do
rostinho dela, quando ela pegou um pedaço da fruta.
Sequer olhou para mim, levando o pedaço de maçã à boquinha.
Abri um sorriso.
Bem melhor.
Continuei a observar minha docinho comer, me preparando para o
surto de energia de Molly que viria a seguir. Não se passou nem um minuto
quando o meu celular começou a tocar.
Sentindo um arrepio, temendo ser do trabalho de Ian, falando que ele
sofreu algum acidente ao atender um chamado, vigiando Molly com o canto
do olho, rapidamente fui pegar o meu aparelho, que estava em cima do sofá.
Senti uma onda de alívio ao ver que não era da Estação, ao mesmo
tempo que um novo tipo de tremor me invadia.
Noah.
Apesar de, mais e mais, ele se mostrar um homem responsável,
cuidadoso e carinhoso com Molly, sempre atento às necessidades dela como
um pai deveria fazer, e também digno da chance que ele estava recebendo, eu
não podia dizer que me sentia completamente confortável em conversar e
ficar perto de Noah, por mais breve que aqueles momentos fossem.
Havia baixado um pouco minha guarda? Sim. Mas, não sei por quê eu
não conseguia relaxar. Eu sempre tinha um pé atrás.
Suspirei, e antes que a chamada caísse, deslizei o dedo pela tela,
atendendo a ligação:
— Oi.
— Ailie.
— Está tudo bem? — perguntei por educação.
— Sim, está. E com a Molly?
Lancei um olhar para a bebê que sacudia um pedaço da fruta.
— Neste momento? — meus lábios se curvaram em um sorriso ao vê-
la levar a fruta à boca, e nem me dei conta de que havia brincado com Noah:
— se divertindo torturando a pobre da maçã antes de comê-la.
— Essa é a minha garota! — Noah disse antes de dar uma risada.
— Está tudo certo para a visita de sábado? Ou quer que eu chegue com
ela mais tarde? — perguntei, arriscando um palpite, já que Noah, apesar de
ter se mostrado confiável, sempre chegava atrasado nas visitas. — Realmente
não é um problema para mim mudar o horário.
— Não é isso — murmurou.
— Não? — Franzi o cenho.
— Bem, tem a ver com isso.
— Não estou entendendo, Noah — falei confusa.
Respirou fundo.
— Eu estou em frente ao seu prédio e queria saber se eu posso ver a
minha filha — pediu em um tom que era quase que de súplica e, quando eu
não respondi, fiquei atordoada por ele estar lá embaixo, continuou: — Estou
sentindo falta dela.
O impulso dizia para eu negar de cara, afinal, não era dia de visita dele,
mas, além de gerar indisposição à toa, não custava nada ser flexível.
— Quando ela terminar de comer, eu a visto com algo mais quente e
desço para você vê-la, Noah — respondi, mal reconhecendo meu tom de voz,
que saiu bem trêmulo sem razão alguma.
— Não precisa, eu posso subir — sugeriu, esperançoso.
Senti um calafrio percorrer minha espinha.
— Não é uma boa ideia — murmurei.
— Por que não?
A pergunta era inocente, mas me fez sentir bastante acuada.
Antes que eu pudesse pensar em uma justificativa que não causasse
tanto mal-estar, Noah sibilou:
— Eu não sou um monstro, Ailie.
Mais um arrepio percorreu meu corpo.
— Eu não disse que você é.
— Não precisa dizer, eu entendi muito bem. Eu não sou burro! —
explodiu.
— Noah…
— Eu só quero ver minha filha, Ailie.
— Eu não estou impedindo você — forcei minha voz a sair calma,
ainda que a minha vontade fosse de gritar com ele. Não queria alertar Molly,
que mastigava um pedaço de maçã. — Eu falei que desceria com ela para que
você pudesse vê-la, mesmo que não seja seu dia de visita.
— Nunca vou ser bom o suficiente para a minha filha, não é mesmo?
Por mais que tente, que me esforce para ser um cara melhor, sempre serei o
drogado, o irresponsável! — Foi ríspido.
— Eu não disse isso, Noah. — Respirei fundo. — Sei que você tem se
esforçado para ser um bom pai…
Riu, mas, dessa vez, a risada soou estranha, o que fez meu sangue
congelar de medo.
— Posso ser sempre um maldito aos seus olhos, Ailie, mas, felizmente,
existe a justiça, e ela saberá que eu tenho tentado — disse friamente
Não respondi. Nada do que eu falasse iria arrumar a situação e o
convenceria de que ele estava levando as coisas para o lado errado.
— E sabe de uma coisa, Ailie? Eu vou continuar a lutar pelos meus
direitos.
— É justo — murmurei.
— Vou entrar com um pedido para que Molly possa passar os finais de
semana comigo.
— O quê? — Arfei, sentindo o meu corpo ficar trêmulo, tanto que eu
quase deixei o celular escorregar por entre os meus dedos.
— Quero passar mais tempo com a minha filha, e como você não
permitirá isso, eu não vejo escolha a não ser apelar novamente para a Corte.
— disse em um tom frio.
— Noah…
— Se você confia ou não em mim, não importa. Não poderá impedir
que eu fique um final de semana todo com a minha filha.
— Não precisa chegar a tanto, Noah...
— Realmente pensei que não precisaríamos chegar a tanto, afinal,
estávamos levando as coisas de boa, tanto que não me importava com a
presença do seu namorado nas minhas visitas. Fui burro em não sacar a
verdade, de que era para me intimidar.
— Tudo bem, Noah, pode subir — acabei falando de súbito, com
minha voz saindo esganiçada.
— Isso tudo é medo de eu ir à Corte e exercer o meu direito, Ailie?
Sim, era. Muito.
— Eu só não quero criar mais mal-estar entre nós — sussurrei.
— Mesmo? — Escutei um certo deboche no tom dele.
— As coisas têm funcionado bem, não é? — murmurei.
Senti meus olhos encherem de lágrimas quando não tive uma resposta
imediata, apenas escutava o som da respiração dele do outro lado da linha.
— Não quero brigar, Ailie.
— Também não quero, Noah.
— Só desejo estar mais presente na vida da minha filha… duas horas
na semana é muito pouco.
— Sim — concordei, baixinho.
— Quero ser um pai para ela. Sei que você é importante na vida de
Molly, talvez mais do que um dia eu serei, então, preciso manter um clima de
amizade com a guardiã da minha filha… me deixe subir...— Eu senti um
bolo na minha garganta com as palavras de Noah.
— Okay. Vou pedir para o porteiro liberar a sua entrada.
— Obrigado.
Quando ele desligou a ligação, senti minhas pernas ficarem bambas
com uma espécie de alívio, mas que sabia que poderia ser temporário, já que
o fato de permitir Noah subir não garantiria que ele não apelaria à Corte
pedindo para passar os finais de semana com a filha.
Meus olhos caíram na menininha, que estava sentada na cadeirinha,
ainda se divertindo com a comida em seu pratinho.
Olhando para o rostinho dela, percebi que eu cederia quantas vezes
fosse preciso se isso me desse uma chance de poder estar acompanhando-a
nas visitas do pai.
Fui tirada dos meus pensamentos quando o meu interfone tocou. Dei
meu aval para o porteiro, permitindo que Noah subisse.
Logo, ouvi uma batida na porta. Fui tomada por um calafrio súbito que
disparou o meu pulso, o medo retornando com força dentro de mim. Um flash
daquele dia que ele ficou agressivo comigo aumentou a sensação de
desconforto. Eu sabia que estava vulnerável.
Respirando fundo, obriguei-me a ir atender, apegando-me às palavras
de Noah sobre manter uma “amizade” em prol do bem-estar da bebê. Não me
orgulhei do medo que me tomou enquanto abria a porta.
Outro calafrio me varreu assim que eu encarei os olhos escuros de
Noah, me deixando ainda mais em alerta. Busquei algum sinal de que ele
pudesse estar alterado, mas não encontrei nada além de um pouco de
desconforto, o que achava que era natural depois do ocorrido. Ainda assim, a
sensação ruim não passava.
— Entre, por favor — disse, tentando ser mais amistosa.
— Agradeço por me deixar subir, Ailie — falou, a voz soando um
pouco insegura.
Entrou e eu fechei a porta atrás de nós. Por alguma razão, não a
tranquei.
— Realmente ela está acabando com a maçã — Noah comentou
casualmente e eu o vi se aproximar do meu docinho.
— Sabe que é a fruta favorita dela.
— Sim, eu sei. Eu tenho que me lembrar de contar isso para os Smiths.
— Smiths? Por que vai contar isso a eles? — Fiquei confusa.
— É uma informação importante — murmurou.
Meu sangue pareceu congelar nas veias.
— Importante? Não estou entendendo.
— Ela é tão linda. — O vi esticar o braço e tocar o rosto da minha
bebê, que estava entretida brincando com a comida.
Molly parou o que fazia para encará-lo e deu uma risada gostosa.
— Vão adorar você, filha.
Senti um aperto estranho no peito.
— Quem? — sussurrei.
— Eu já disse, os Smiths. — Noah se voltou para mim.
Senti minhas pernas bambearem diante da transformação que eu vi no
semblante dele, o pânico se instaurando dentro de mim em um piscar de
olhos.
Eu não fitava o homem amigável, nem mesmo o cara desconfortável,
mas, sim, um demônio assustador, capaz de qualquer coisa.
— Quem são eles? — repeti, um sentimento mais primitivo me fez dar
um passo à frente, para tentar pegar Molly e afastá-la de Noah.
O homem caminhou na minha direção, parando a centímetros de mim.
Tombando um pouco a cabeça para o lado, me olhou de uma forma
triunfante. O terror se tornou mais forte, a ponto de eu começar a suar frio e
sentir meu corpo tremer, entrando em uma espécie de colapso nervoso.
— A nova família dela — sentenciou.
Antes que eu pudesse reagir e tentar alcançar a minha bebê, vi Noah
tirar algo do bolso do casaco que usava e senti algo duro batendo contra
minha têmpora, fazendo com que a minha vista ficasse escura e eu perdesse
os sentidos.
Capítulo trinta e dois
— Depois dessa merda de dia, vou encher a cara de cerveja! —
Cameron disse, jogando o corpo sobre o sofá do refeitório e se esparramando
no assento.
— Permissão concedida! — Comandante Archie respondeu.
— Eu não preciso da sua permissão para isso, chefe! — Ele
resmungou.
— Sou o comandante, não sou? — devolveu.
— Não durante o meu tempo livre! Quando eu saio daqui, nem me
lembro que o senhor existe.
— Duvido. Você deve até sonhar comigo, Cam!
Cameron fez uma carranca, antes dos lábios começarem a se curvar,
indicando que diria alguma besteira.
— Só se for um pesadelo.
Rimos. Estávamos mesmo precisando relaxar.
— Realmente preciso beber. O plantão está do caralho! — Cam
comentou
— Está muito mole, “escocês” — o provoquei, aproveitando aquele
momento em que as coisas haviam se acalmado um pouco.
— Vai se foder, apaixonado! Da próxima, você fará o trabalho pesado
sozinho, fortão!
— Não tenho medo de pegar no pesado, fracote!
— Qual bar nós vamos, gente? — O comandante perguntou.
— Eu não vou a lugar nenhum com vocês — retruquei.
— Por que não? — Cam começou, mas acabou revirando os olhos para
mim. — Ah, lá vem o apaixonado com coisas de apaixonado. Não precisa
ficar grudado na gata o tempo todo, sabia?
— E eu estou fazendo isso por acaso?
— Está. Tem medo dela fugir de você? Por que se fosse eu, eu correria.
— continuou a provocar.
Os colegas riram da minha cara e eu fiquei em silêncio, não caindo na
pilhéria daquele imbecil.
— Quando será o casório? — James perguntou.
— Do jeito que ele é desesperado, é capaz de fugir para Gretna
Green…— Marc brincou.
— Não é uma má ideia — retruquei.
Os imbecis começaram a fazer troça de mim, mas eu não me importei.
Eu era aquilo tudo o que eles falavam. Não duvidava que logo acabaria
pedindo Ailie em casamento. Eu desejava que ela fosse muito mais minha,
queria amar aquela mulher pelo restante da minha vida. Ansiava por vê-la,
sentir seu corpo suado buscando o meu enquanto meus lábios deslizavam
pelos dela, me entregando totalmente a ela mais uma vez.
O toque do meu celular fez com que eu saísse do transe de
pensamentos. Puxei o aparelho do bolso da calça e abri um sorriso ao ver o
nome e a foto da minha garota no visor.
— Preciso atender — falei, me levantando praticamente com um pulo.
— Pela sua cara de imbecil, precisa mesmo — Cam zombou.
O ignorei, indo rapidamente para o cômodo que eu usava como
“quarto” quando eu precisava pernoitar ali.
— Acredita que eu estava pensando em você nesse exato momento,
gostosa? — falei em um tom sedutor ao atender a ligação, ciente de que ela
me provocaria de volta, me excitando só com sua voz.
— Ian… — murmurou meu nome com uma voz estranha, antes de cair
em um choro convulso, que fez com que a névoa de desejo evaporasse dentro
de mim e desse lugar à preocupação, que pareceu fincar suas garras no meu
peito.
Os pelos do meu corpo se arrepiaram, aumentando minha apreensão.
Porra! Ela não iria me ligar chorando se algo bastante grave não tivesse
acontecido. Eu a conhecia.
Várias coisas passaram pela minha cabeça, mas tentei me manter calmo
e não me deixar levar pela imaginação. Surtar não me ajudaria em nada.
— O que aconteceu, meu amor? — questionei Ailie continuou a
chorar.
— Molly! — falou, desesperada. — Ela…
Um soluço alto a interrompeu e ela cedeu ao pranto novamente.
Dessa vez, não consegui controlar a minha mente treinada para manter-
se racional, já que ela criou várias situações perigosas que poderiam ter
acontecido, desde a bebê ter caído durante uma das suas travessuras, se
machucando de forma grave, até algum engasgo que a tenha causado uma
fatalidade. Pensar em perder Molly fez com que o aperto no meu coração se
tornasse mais forte.
Não. Não. Não. Não podia ser tão grave.
Porra! Não podia...
— Ailie, por favor, respira. Tenta se controlar e me conta o que houve
— pedi em um tom estrangulado. — Eu estou com você.
Escutei Ailie puxar ar com força uma e outra vez.
— O que aconteceu? — Fiz uma nova tentativa depois de segundos
que me pareceram séculos.
— Levaram ela... — disse em meio a um choramingar.
Um arrepio ruim percorreu a minha coluna. Me questionava se eu tinha
ouvido certo ou se eram os meus ouvidos pregando uma peça.
— Levaram Molly? Quem?
— Noah! — A voz soou fraca e ela voltou a respirar fundo, como se
lutasse para não entrar em pânico. — Ele esteve aqui e… e eu deixei ele
entrar. Noah bateu na minha cabeça com alguma coisa e eu apaguei. Quando
consegui acordar, eles não estavam mais aqui.
Ailie voltou a chorar em desespero. Minha mente, lentamente, tentava
processar as palavras. Ao conseguir assimilar o que ela havia dito, senti que
meu sangue pareceu congelar nas minhas veias, minhas pernas nunca
estiveram tão bambas como agora.
Ailie, apagada... Molly, raptada. Noah!
Senti um ódio mortal daquele cara por ter machucado a minha garota,
mas o medo foi muito mais forte do que a fúria. Ele havia levado Molly!
Por quê? Para quê?
As razões desse filho da puta não importavam agora. As únicas coisas
importantes eram Ailie e Molly. Ailie estava ferida e precisava ser avaliada.
Para onde Noah havia levado minha bebê? Ela deveria estar assustada....
Precisava ajudar minhas garotas.
— Estou indo para aí, amor. Não desligue, fique comigo! — falei para
ela ao me colocar em movimento.
Ailie pareceu não me ouvir, presa ao choro e ao desespero, que
ecoavam os meus sentimentos. Mesmo que o som fosse agonizante, eu
precisava ouvir sua voz, saber que ela permanecia consciente. A culpa me
invadiu por eu não ter estado com elas quando precisaram de mim. Me
perguntei outra vez o porquê daquilo tudo, mas voltei a dizer a mim mesmo
que não importava, não agora.
— Eu preciso ir, senhor — me reportei ao meu superior ao alcançar o
refeitório, pouco me fodendo se ele iria me dar uma advertência por eu deixar
meu turno.
— O que aconteceu, cara? — Cam, que ria de alguma coisa, ficou sério
de forma abrupta.
— O pai da Molly agrediu Ailie e levou a bebê com ele.
— Caralho! Vamos! Vou levar você — disse o comandante Archie, se
erguendo de um salto.
— Não precisa, comandante.
— Não tem escolha, Ian. Chame o Daniel, Cameron! — ordenou.
Balancei a cabeça em negativa, mas não retruquei, apenas os segui até
a garagem.
— Eu já estou a caminho, amor, ficará tudo bem — sussurrei para ela,
que não tinha parado de chorar, enquanto me acomodava no assento.
— E se eu nunca mais… — Não conseguiu terminar a frase.
Não precisava. Soube muito bem o que ela estava pensando.
Senti meu peito ficar ainda mais apertado. Por mais que soubéssemos
que Noah estava envolvido no rapto, o que era uma boa pista a ser seguida, o
terror fazia com que pensássemos no pior, na possibilidade de nunca mais
vermos Molly.
Era impossível não comparar as situações, pelo menos não para mim. E
se a bebê e esse cara sumissem do mapa da mesma forma que eu tinha
sumido quando fui levado?
Fiquei mais amedrontado ainda ao pensar que a vida de Ailie poderia
se assemelhar a que meu irmão levou quando fui sequestrado. Não só a dela,
porque não seria apenas Ailie que procuraria eternamente por Molly, eu
estaria ao lado dela naquela busca até o meu último suspiro.
Molly era a minha bebê, minha filha de coração, eu nunca desistiria
dela. Ela podia não ter meu sangue, mas tinha meu coração e minha alma. Eu
não pararia até encontrá-la.
Quando o veículo em que estávamos parou em frente ao prédio que
morávamos, pedi ao destino que ele fosse benévolo e não nos trouxesse ainda
mais dor e angústia do que já estávamos sentindo, que não nos condenasse a
viver em uma busca eterna.
Capítulo trinta e três
Mal o elevador se abriu, saí sem me importar com os colegas que me
acompanhavam, percorrendo o corredor que levava ao apartamento de Ailie
com passos rápidos. Não precisei bater na porta, já que ela estava
escancarada.
Assim que entrei, fui recebido pelo som agonizante do choro da minha
namorada e a encontrei sentada no sofá, parecendo alheia a tudo. Quando
levantou o rosto ao sentir minha presença, notei um filete de sangue
escorrendo pela têmpora dela e lágrimas molhando o rosto belo. Senti o meu
estômago revirar. A dor pareceu me rasgar ao meio, a raiva daquele filho da
puta retornado com força. Por que ele havia feito aquilo?
— Amor — falei com Ailie, tentando controlar minha fúria para checar
como ela estava.
— Ian — meu nome saiu em um sussurro. Ela se ergueu com um
pouco de dificuldade, o que me deixou bastante preocupado.
Cruzei a pequena distância que havia entre nós e logo senti os braços
finos de Ailie me envolverem. Ela se aninhou em mim.
— Eu me odeio tanto — lamentou em meio ao choro.
— Não precisa se odiar — sussurrei, acariciando os cabelos dela.
— Eu não deveria ter deixado Noah subir...
— Não pense nisso agora — tentei acalmá-la.
Segurei o rosto dela, fazendo com que me encarasse.
— Aconteceu, Ailie. Se você poderia fazer diferente, não é mais
importante. O que importa agora é você ser avaliada pelo Daniel, para saber
como você está — disse, deslizando as costas da minha mão pelo rosto dela,
fazendo um carinho.
— Eu estou bem — murmurou e eu vi uma pontada de desespero nos
olhos dela.
— Lesões na cabeça podem ser graves mesmo que você não sinta nada,
amor.
— Mas Ian…
— Não discuta, Ailie.
— Molly é mais importante. Preciso chamar a polícia, contar o que
aconteceu... pedir ajuda...— falou baixinho.
— Não se preocupe com isso. Eu já liguei para a polícia e uma viatura
está a caminho — escutei a voz de Cam atrás de mim.
— Viu? Não tem desculpas para não ser examinada agora.
Roubei um selinho dela, antes de dar um passo para trás e permitir que
Daniel fizesse os procedimentos de primeiros socorros.
Assisti meu colega limpar o ferimento enquanto fazia perguntas
básicas, como se ela estava com dor na cabeça, se sentia náuseas ou
sonolência. Aferiu a pressão, olhou as pupilas e buscou outros possíveis
sintomas que poderiam indicar algo mais grave e que necessitaria levá-la
imediatamente para o hospital.
— E aí, Daniel? — perguntei depois de alguns minutos, me sentindo
apreensivo, afinal, não estava mentindo para Ailie quando eu disse que uma
pancada na cabeça poderia ser algo perigoso.
— Parece que está tudo bem com a Ailie. É normal ter um pouco de
dor de cabeça, afinal, ela sofreu uma pancada no crânio. Apesar de não haver
indícios de um traumatismo mais grave, ainda assim, eu quero que ela vá a
um hospital para fazer uma tomografia. É só por precaução.
Senti uma onda de alívio me invadir por saber que não era nada grave e
que ela ficaria bem.
Logo a seguir, vozes se fizeram ouvir e dois policiais entraram no
apartamento. Após se apresentarem, se dirigiram a Ailie para pegarem
detalhes do que havia ocorrido.
— Pode nos contar o que aconteceu, senhorita? — O policial
perguntou com gravidade.
A simples pergunta fez com que Ailie voltasse a chorar.
— Está tudo bem, amor — sussurrei, entrelaçando meus dedos aos
dela, apertando-os suavemente, tentando passar confiança.
— Leve o tempo que precisar, senhorita — o outro oficial murmurou.
Ela respirou fundo, tentando controlar o pranto, e começou o relato.
— O pai da Molly, Noah Johnson, me ligou perguntando se ele poderia
vê-la. Eu disse que desceria depois que Molly terminasse de comer, mas…
Voltou a tragar o ar com força para se acalmar. Continuou:
— Ele queria subir de qualquer forma, mas eu não queria deixar, estava
com medo, afinal, eu estava sozinha com Molly.
Apertei suavemente a mão dela outra vez.
— Ele achou que eu estava negando o convívio dele com a filha, o que
não era verdade, então disse que iria apelar à Corte e pediria para passar os
finais de semana com ela, que ele não queria brigar, só queria ficar mais
tempo com a bebê...
Ailie interrompeu o relato e cedeu as lágrimas de forma convulsa
novamente. Foi nesse momento que meu cérebro processou as palavras dela,
a tensão que já me tomava ficando ainda mais forte. Porra! Mesmo sabendo
que era direito daquele filho da puta, a ideia de deixar Molly sozinha com ele
nos finais de semana era repulsiva.
— Eu achei que ceder ao desejo dele de subir para ver a Molly faria
com que ele mudasse de ideia sobre a questão da guarda, mas eu… — fez
uma pausa, antes de dizer quase que histericamente, as lágrimas caindo de
forma copiosa: — Como fui ingênua!
— Ailie…
— Se eu não tivesse deixado ele subir, Molly estaria aqui.
— Você não podia prever o que iria acontecer. — Afaguei a mão dela.
— Eu deveria ter imaginado. Eu fui muito burra! — disse, com raiva.
Senti meu maxilar trincar, detestando o fato da fúria dela ser toda direcionada
para si mesma.
— O que aconteceu depois, senhorita? — O policial tentou conduzir
Ailie direto ao ponto.
— Ele entrou. Comentou algo banal, antes de começar a ficar estranho,
falar de uns tais Smiths — respondeu em um sussurro. Respirou fundo antes
de continuar o relato: — Senti que tinha algo errado, então tentei me
aproximar de Molly, para protegê-la, mas não tive chance, porque Noah tirou
algo do casaco e me atingiu com força na cabeça. Eu apaguei e, assim que
recuperei a consciência, vi que Molly não estava mais na cadeirinha. Ele a
levou! Eu não pude fazer nada!
Desfazendo-se do meu toque, levou as duas mãos ao rosto, chorando
com força.
— Ele tirou a minha bebê de mim — gritou em desespero,
desmoronando perante meus olhos.
A bigorna que havia no meu peito pareceu ainda mais pesada, me
massacrando. Porra! Me matava ver a minha mulher assim...
— Será por pouco tempo, Ailie — falei com a voz baixa.
— A senhorita tem ideia de para onde ele possa ter levado a bebê? —
O policial perguntou.
Ela negou com a cabeça.
— Ele forneceu algum endereço?
— Deve ter algum no processo de visita, vou verificar — respondi por
ela e fui buscar o documento, que sabia que Ailie mantinha em uma gaveta
em seu quarto.
Retornei para a sala e entreguei o papel que continha o endereço que
Noah havia informado no processo ao policial.
Voltei a me sentar ao lado de Ailie. Quando a abracei, a senti
estremecer contra mim. Vi o rosto dela ficar mais pálido, o que me deixou em
alerta extremo.
— Ele tem algum parente que possamos entrar em contato? Mãe? Pai?
Irmã?
— Lembro que ele morava com a mãe em Granton, mas teve que se
mudar por conta do seu envolvimento com o tráfico.
— Ele chegou a falar onde em Granton?
— Não.
— Mais alguma informação que poderá nos ajudar nas buscas,
senhorita? Ele disse algum lugar que costuma frequentar? Onde estava
trabalhando?
— Ele disse que trabalhava em uma oficina mecânica, mas não
perguntei o endereço.
— Algo mais?
— Noah disse que Molly vai ter uma nova família, que ele vai dar a
minha bebê para os Smiths... — informou, o tom de sua voz saindo
estrangulado.
Meu coração pareceu parar de bater por um segundo e vi o pânico
crescer dentro de mim. Várias emoções se agitavam. Nunca senti um medo
tão intenso de perder alguém.
Esses Smiths pareciam estar agindo como os meus pais de criação, que
estavam dispostos a cometer uma loucura para terem um filho, inclusive
conseguir uma criança de forma ilegal.
Que pai faz esse tipo de coisa com um filho? Raptar e dar para pessoas
que, sem dúvidas, ele não conhecia? Deve ter dinheiro envolvido nisso, só
pode.
O ódio me queimava a ponto de eu jurar para mim mesmo que eu
mataria aquele Noah se ele aparecesse na minha frente, pouco me fodendo
para as consequências. É, a fúria era o mais perigoso dos sentimentos.
Caralho!
— Noah disse algum nome além de Smiths? — O policial perguntou.
— Não.
— Sabe se no círculo de conhecidos dele há alguém com esse
sobrenome? Pode ser um vizinho, um parente?
— Eu não tinha muito contato com ele, só conversávamos sobre a
Molly, então eu não sei. Eu só quero a minha bebê de volta! — disse em um
sussurro.
— Faremos de tudo para encontrá-la e trazê-la em segurança para casa
— o policial falou.
As palavras dele fizeram com que Ailie voltasse a chorar e,
instintivamente, a abracei com mais força.
— Obrigado, oficial — agradeci.
— Se puderem me dar uma fotografia para identificação da bebê.
— Pega na estante para mim, Cam? — pedi, não querendo me afastar
de Ailie.
— Claro!
Os policiais, depois de anotar todos os fatos sobre a ocorrência,
comunicaram-se com a central pelo rádio, reportando o desaparecimento da
minha bebê e passando as informações que colheram para começarem as
buscas. Em seguida, deixaram o apartamento junto com meus colegas, mas,
antes de ir, Daniel voltou a me recomendar que eu levasse Ailie para o
hospital para ser examinada.
O tempo parecia se passar com uma lentidão agonizante. Meus
pensamentos corriam de forma veloz, conjecturando vários ses. O choro de
Ailie ecoava nos meus ouvidos e, junto aos murmúrios de culpa que ela
deixava escapar, me fazia sentir impotente. Eu só consegui emergir daquele
caos emocional quando me recordei que Ailie tinha que fazer a tomografia
para garantir que estava tudo certo. Foquei, então, na minha preocupação por
ela.
Meu hiperfoco não durou muito. Estávamos no hospital e, enquanto
aguardávamos os resultados dos exames, me afoguei de novo naquela
desordem obscura. Eu era um homem de ação e a impotência de não poder
fazer nada de concreto para trazer Molly de volta para nós, ter que esperar
que os policiais fizessem o trabalho deles e nos dessem notícias, era muito,
mas muito angustiante.
Caralho! Isso me matava por dentro, deixando um gosto ruim na boca.
Queria sair pelas ruas, procurando por Molly. Talvez eu devesse estar
fazendo aquilo nesse exato momento. Podia ir até aquele endereço que Noah
forneceu no processo, pelo menos estaria fazendo algo... Não, não podia
deixar Ailie ali sozinha... A aninhei com mais força nos meus braços.
Porra! Eu nunca mais queria experimentar essa sensação na vida.
Capítulo trinta e quatro
Vozes chegavam até meus ouvidos, mas tudo o que eu escutava era um
tic tac de um relógio imaginário na minha cabeça.
Cinco horas... Cinco horas que poderiam se transformar em seis, sete e
oito. Ou uma vida.
O pensamento recorrente de que eu nunca mais olharia para o rostinho
lindo de Molly fez com que o pânico voltasse a me tomar. Minha cabeça
começou a doer...
Meu coração, já fragmentado, pareceu ficar ainda mais estilhaçado com
o medo de nunca mais ver minha bebê. A única coisa que seria capaz de
colar os pedaços novamente seria ter o meu docinho de volta.
Cinco horas. Cinco horas sem saber onde Molly estava, sem saber se
ela estava bem, se Noah havia trocado a fralda dela, que a essa hora deveria
estar suja, se ele havia dado algo para ela comer ou cuidado do bem-estar
dela. Será que ela estava chorando? Estaria assustada? Será que, naquele
exato momento, Molly já tinha sido entregue ao casal que iria adotá-la e já
estava a quilômetros de distância de Edimburgo?
Engoli o bolo que parecia ter se formado na minha garganta e que me
sufocava. Uma vontade enorme de chorar novamente me invadiu, mas as
lágrimas pareciam não querer mais se formar nos meus olhos.
Eu deveria chorar, eu deveria gritar, mas eu estava um caco. Sem
forças.
A agonia era pungente, vibrava em cada célula do meu corpo, bem
como a tristeza e a culpa.
Nunca me perdoaria por ter deixado Noah subir. Eu não deveria ter
permitido. Eu não deveria ter sido tão tola, tinha que ter desconfiado. Eu
havia sido burra em acreditar que Noah queria manter as coisas amigáveis, e
que ele entendia que eu era importante na vida de Molly.
As pessoas não mudavam, não tão drasticamente assim, mas, mesmo
assim, eu confiei nele. Ignorei meus instintos, ignorei a prudência, agora, eu
pagava um preço muito alto, a de colocar a segurança de Molly em risco.
Nunca iria me perdoar.
Ficava me perguntando por que ele tinha feito isso... Por que tinha
levado Molly para entregá-la a essas pessoas? Era por dívida com drogas?
Seria por dinheiro?
Ácido parecia queimar meu estômago, e eu respirei fundo para não
vomitar ali mesmo.
— Preparei um chá e algo para você comer — escutei a voz de Merie e
só então me dei conta de que ela estava à minha frente e pousava uma
bandeja sobre a mesa de centro.
Embora Merie estivesse sendo bastante gentil, primeiro por ficar ali
comigo, segundo, por preparar algo para que eu comesse, mais uma vez,
contemplei os olhos dela buscando o julgamento, mas só encontrei
preocupação e compaixão. Me senti envergonhada por ter buscado o pior na
mulher que sempre me tratou bem.
— Açúcar? — perguntou.
— Agradeço, Merie, mas eu estou sem fome e não quero beber nada.
— Você precisa se alimentar, Ailie.
— Eu não consigo — murmurei.
— Nem tentou — ralhou de forma suave, como se estivesse falando
com Craig, o filho mais velho dela, que era um menininho bem sapeca que
não gostava de certos alimentos.
Neguei com um balançar de cabeça.
— Não posso, não quando não sei se Molly… — Outro nó se formou
no meio da minha garganta, me impedindo de continuar.
Senti mais um aperto no meu peito.
Como seria capaz de fazer qualquer coisa diante da ideia de que a
minha bebê poderia estar sendo privada de tudo?
Pensei que não era mais capaz de chorar, mas me enganei, já que meus
olhos ficaram nublados pelas lágrimas que rolaram pela minha face.
Como eu poderia viver sem a minha menininha?
Como eu poderia sorrir, sabendo que ela poderia estar chorando? Eu
não podia.
A dor no meu peito ficou ainda mais profunda.
Merie se sentou ao meu lado, e eu senti o braço dela me envolver em
um abraço gentil.
— Eu sinto muito, Ailie, de verdade — sussurrou com a voz quebrada,
como se estivesse lutando contra as próprias lágrimas.
— Eu também sinto.
— Nenhuma mãe deveria passar por isso — continuou.
As palavras de Merie foram fundo na minha alma, e o meu pranto ficou
ainda mais convulso, os pensamentos voltando a se acelerar.
— E se… — meu desespero se tornou ainda maior quando a ideia de
nunca mais ver Molly retornou com força, me cortando.
Solucei, lutando para não tremer, com o medo.
— Nós vamos encontrar a Molly, Ailie. — Escutei a voz de Grant e me
surpreendi ao vê-lo se colocando sobre os calcanhares na minha frente.
— Eu… — Covarde, não consegui olhar nos olhos dele.
— Farei tudo o que estiver ao meu alcance para ajudar a encontrá-la. Já
contatei várias agências de investigação, e a que eu mais confio tentará
rastrear Noah através do sinal do celular. Se conseguirem localizá-lo, irão
comunicar à polícia.
— Obrigada — murmurei ao olhar finalmente para Grant,
envergonhada por temer o julgamento dele, já que ele conhecia o peso de
conviver com a dor de ter alguém amado sequestrado.
Só vi preocupação, medo e aflição em seu rosto. Não eram eles quem
me julgavam. Era eu mesma quem me julgava.
— Se for necessário, o que acredito que não será, percorremos todo o
Reino Unido em busca dela — afirmou com a voz rouca.
— Eu não sei como agradecer a sua ajuda, Grant — falei, fungando.
— Somos uma família, Ailie. E tudo o que eu mais desejo nesse
momento é ter a minha sobrinha nos braços de quem a ama.
Mais lágrimas deslizaram por minha face, e desviei o olhar de Grant
para o homem que eu amava, tomada por um sentimento agridoce por saber
que eu tinha outras pessoas com quem contar.
A firmeza que encontrei nos olhos verdes-escuros, meio avermelhados
pelo choro que ele tinha feito de tudo para tentar segurar, mas não conseguiu,
me cobriu como uma espécie de manto, oferecendo um alento.
Quanto tempo aquela esperança de que o rastreamento poderia nos
levar a achar Molly iria durar, eu não podia dizer. Talvez ela morresse em um
piscar de olhos, quando não resultasse em nada, mas, pela primeira vez,
desde que acordei e não encontrei minha bebê, essa esperança suplantou o
medo, a angústia e o desespero.
Podia parecer que era uma estrada onde uma cabra não conseguiria
retornar[8], mas sempre temos que manter a fé.
O destino não traça a mesma linha reta, e eu tinha que ter esperança de
que a estrada que tinha tomado a minha bebê de mim faria uma curva e a
traria de volta aos meus braços, sã e salva.
Capítulo trinta e cinco
— Para de chorar, caralho! — rosnei, sentindo a minha cabeça pulsar
com o som contínuo e irritante.
O fato da galeria subterrânea onde estávamos, uma que não fazia parte
do roteiro turístico das agências de viagem de Edimburgo, propagar o som
em forma de eco, não ajudava em nada. Pelo contrário, só me deixava
extremamente puto.
Olhei para a menina que eu mantinha presa a uma grade através de uma
corda, com o mais puro desdém:
— Você é um saco!
Os lábios dela se franziram.
— Se você não valesse tanto, eu juro que apagaria você, como fiz com
aquela puta — devolvi, andando de um lado a outro.
Claro que aquela merda com rostinho angelical continuou a berrar na
minha cabeça.
— Está acabando, Noah. Logo essa garota não será mais problema seu!
— Tentei me manter calmo, dizendo a mim mesmo que em menos de uma
hora o som irritante estaria bem distante de mim.
Estava exausto de toda aquela farsa, mas finalmente consegui colocar
meu plano em ação.
Porra! Não era só a hora marcada de entregar aquela fedelha para
aquele casal esquisito que estava chegando, mas o meu prazo para pagar a
minha dívida também. Eu tinha exatas vinte e quatro horas para pagar Luke
antes de que a minha cabeça rolasse. E eu sabia que iria rolar. Fugir não era
solução. Aquela porra me acharia e o final seria o mesmo: morte. E eu não
queria morrer.
Eu tinha muito o que cheirar, muitas putas para foder.
Uma pena que eu não tive tempo de foder a ruivinha. Eu conhecia
putas como aquela a quilômetros de distância e não duvidava que ela era bem
gostosa, fora que ela tinha o sangue de vadia igual ao da Rebecca, o que me
dava mais certeza de que ela era uma rameira experiente.
— Não se pode ter tudo o que se deseja — murmurei em meio ao choro
da bebê.
Infelizmente, a essa hora, a vagabunda deveria estar nos braços do
capeta. Dei uma risada com o pensamento e acabei puxando o celular do
bolso quando o aparelho vibrou.
Me surpreendi por ter sinal naquela merda de local fedorento, afinal, as
paredes eram tão espessas que eu achei que a telefonia móvel não pegaria ali.
Ignorando a mensagem de Luke me pressionando, bem como a criança
irritante que eu tinha feito, comecei a ver uns vídeos enquanto esperava.
Não podia negar que, a cada minuto que passava, eu me sentia mais
ansioso. Desejei ter um pouco de pó para aliviar a tensão que sentia. Na
verdade, cada uma das células do meu corpo clamava por uma cheirada.
Me manter limpo para conseguir me aproximar da fedelha e de Ailie
foi uma das coisas mais difíceis que eu tive que fazer, mas não tive escolha,
não se eu quisesse afastar a minha sentença.
Estava muito difícil lutar contra os sintomas da abstinência. Eu não
dormia. Não tinha fome. Meu humor estava volátil. Passei a não ir mais para
o trabalho. Por várias vezes, estive prestes a surtar na frente de Ailie ao
brincar com a criança, incomodado com os gritos e risadas dela.
Fingir não estava mais funcionando. Como aqueles imbecis não
haviam percebido o meu descontrole emocional, eu não tinha ideia.
— Está acabando, você logo vai ter a sua coca e a sua heroína — repeti
em um sussurro, sentindo minha boca secar com desejo, um leve tremor me
percorrendo.
Continuei a repetir aquelas palavras, tentando controlar não só a
ansiedade, mas também os sintomas da abstinência que pareciam se tornar
mais forte quanto mais eu pensava naquilo. Eu estava nervoso e os gritos
daquela fedelha só me deixavam prestes a explodir. Sentia meus dentes
rangendo, o suor cobrindo a minha pele fria, deixando-a úmida.
Olhei as horas novamente. Cinco minutos para o horário da entrega.
— Porra! — grunhi, ficando mais puto quando, agindo como um
grande imbecil, acabei chutando a parede, sentindo meu pé latejar com o
impacto.
Fuzilei a menina chorosa com o olhar, culpando-a por aquela merda, e
senti a fúria encontrar o seu ápice ao ver os lábios da maldita se curvando de
forma desdenhosa, como se zombasse de mim.
— Sua filha da puta desgraçada — berrei, caminhando com passos
largos em direção a fedelha, me sentindo determinado a dar uma lição que ela
nunca esqueceria.
O som de passos se fez ouvir antes mesmo que minha mão envolvesse
o pescoço frágil da pirralha.
Parei de súbito, olhando assustado para a criança como se eu nunca a
tivesse visto na vida. Ela chorava a plenos pulmões, o rosto estava franzido e
avermelhado. Não havia nenhum sorriso.
Senti uma náusea estranha. Estive bem próximo de estrangulá-la,
fodendo não só com a vida dela, mas com a minha também. Eu estava me
descontrolando. Como pude esquecer a grana que ela valia? Porra! Eu estaria
fodido se não conseguisse a grana.
Balancei a cabeça com violência, me sentindo trêmulo.
— Pensei que vocês não viriam mais — murmurei ao ouvir novamente
som de passos, que se tornavam mais altos, indicando que os Smiths estavam
bem próximos.
Ao dizer aquilo, senti uma onda de alívio me tomar, já que eu não tinha
ideia do que poderia acontecer se eu ficasse mais tempo sozinho ali com a
pirralha.
— Tive problemas para encontrar o local — um homem disse.
— Não tinha erro. Era só virar à direita e depois a esquerda.
Me virei na direção da voz, franzindo o cenho ao ver somente um
homem, que era tão gordo que me perguntei como ele não ficou entalado no
túnel.
Sufoquei uma risada com a ideia, mas devo ter feito algum barulho, já
que ele fechou a cara.
— Qual o problema?
— Cadê sua esposa? — retruquei, estranhando a ausência da senhora
Smith.
— Não deixaria que ela se arriscasse em participar de uma transação
como essa num lugar imundo desses — murmurou.
— Tá certo. Vamos acabar logo com isso.
— Essa é a criança? — apontou para a menina atrás de mim, que
continuava a chorar.
— Sim.
— É mais velha do que gostaríamos.
Senti o meu sangue gelar com o comentário dele, ao mesmo tempo que
a raiva subiu.
— Faz diferença? Ela é um bebê!
— É, mas minha esposa queria um mais novo. — Passou a mão na
barba.
— Encontrarei um novo comprador então — blefei, apertando os meus
lábios com força, sentindo o suor brotando na minha testa.
Sabia que achar alguém disposto a comprar uma criança não iria
acontecer da noite para o dia. Tempo definitivamente era uma coisa que eu
não tinha. Os tremores que percorriam o meu corpo se tornaram mais
violentos. Desejei poder socar aquele homem.
— Posso vê-la melhor?
— Só entregando o dinheiro — falei friamente, dando um passo para
trás em direção a bebê.
— Nada feito.
— Você não tem o poder de decidir nada aqui, caralho! — grunhi,
minha vista começando a ficar vermelha com a fúria.
Ele arqueou uma sobrancelha para mim.
— Você quer uma criança, eu tenho uma. Onde você encontrará uma
sem ser entrando na fila de adoção?
— Não encontrarei.
— Ela é bonitinha, engraçadinha. Tenho certeza de que sua esposa
ficará apaixonada por ela.
Olhou para a menina, e a cobiça que vi nos olhos do estranho me fez
sentir um calafrio, que eu tratei de ignorar. Que me importa o desejo que ele
parecia sentir ao olhar para a fedelha? Isso não era problema meu.
— O dinheiro, ou nada — sentenciei.
Antes que o homem pudesse dizer qualquer coisa, em meio aos gritos
de Molly, imaginei ouvir som de passos outra vez, e não eram de uma única
pessoa, mas de várias. Minha mente estava criando fantasias outra vez?
— Que porra é essa? — O senhor Smith disse rispidamente e eu o vi
ficar lívido, indicando que não era a minha abstinência fodendo com tudo de
novo. Fui tomado pelo pânico.
— O dinheiro, rápido! — repeti.
O imbecil deu as costas para mim, tentando fugir, porque o som se
tornava mais alto. Isso fez com que outra explosão de ódio surgisse dentro de
mim. O desgraçado não iria embora com o meu dinheiro, não mesmo.
Ele sequer tinha dado três passos quando, dominado pela raiva, eu o
interceptei, pulando sobre as costas dele, agarrando-o com meus braços e
pernas, como se eu fosse um carrapato.
— Me solta, caralho! — Tentou se livrar de mim, se chacoalhando
como uma besta raivosa.
— Me dá meu dinheiro, porra! — gritei, deixando uma mordida no
pescoço dele com força, fazendo com que ele uivasse de dor.
— Parados onde estão! É a polícia! — Uma voz grossa se fez ouvir.
Olhei por cima do ombro do imbecil e vi, no espaço apertado, várias
armas apontadas para nós.
Minhas forças se esvaíram, e senti que ficava lívido, o pânico
corroendo minhas entranhas.
Aqueles segundos de distração foram o suficiente para que o homem
conseguisse se livrar de mim e me jogasse no chão.
O ar pareceu queimar em meus pulmões com o impacto da batida, a
dor reverberando das minhas costas para meus membros. Ainda assim, o
instinto de sobrevivência, a urgência de sair dali, fez com que eu me erguesse
em um salto.
O tempo pareceu entrar em uma espécie de suspensão enquanto tentava
correr para o lado oposto da galeria.
— Parado! Mãos onde eu possa ver! — Uma voz feminina soou nos
meus ouvidos quando dei alguns passos.
Finalmente enxerguei a mulher que apontava uma arma para mim e vi
os lábios da vadia se curvarem em deboche.
A fúria me consumiu. Uma mulher, mesmo que empunhando uma
arma, não me pararia. Mulheres não prestavam para nada, a não ser para
serem fodidas. Eram fracas e patéticas!
Me joguei sobre a puta a fim de dominá-la, mas um disparo ecoou nos
meus ouvidos. Caí no chão. Ouvi pessoas rindo de mim. Comecei a me
debater, sentindo uma queimação no meu ombro.
Fui virado com um movimento brusco pela policial. Quando senti o
peso da gostosa sobre as minhas costas, o sangue bombeou para o meu pau,
me excitando, mas quando o metal frio das algemas tocou a pele dos meus
pulsos, senti que tudo ruiu.
Eu estava morto e não havia nada que pudesse me salvar.
Capítulo trinta e seis
Continuei a olhar para a xícara de chá que eu sequer havia tocado,
como se no líquido claro houvesse uma fórmula mágica que fizesse os
minutos passarem com mais rapidez.
Eu sabia que deveria me apegar à esperança, mas naquele exato
momento, não conseguia, então continuei ali, fitando a porcelana, tentando
controlar os temores e o pânico que eu sentia.
Fazia pouco mais de meia hora que a equipe de investigação que Grant
tinha contratado informou que eles conseguiram rastrear o sinal do telefone
de Noah, obtendo uma localização, que foi imediatamente passada à polícia.
Isso, por si só, deveria ter diminuído a pressão que eu sentia no meu
peito, mas ainda temia descobrir que ele havia descartado o aparelho em um
lugar qualquer e que a pista do paradeiro deles havia se esvaído.
Noah poderia ainda estar com o celular, mas nada garantiria que ele já
não tivesse entregado Molly para o tal casal.
Um arrepio percorreu o meu corpo, um bolo se formou na minha
garganta. Os ses atormentavam a minha mente, criando possibilidades que
poderiam passar longe da realidade, aumentando o meu desconforto. Era
cruel, tão cruel quanto aquela espera agonizante.
Apoiei minha testa em meus dedos, mantendo o meu olhar fixo na
xícara. Nem mesmo o toque de Ian na minha coxa, tentando passar conforto,
me fez levantar a cabeça e olhar para ele.
Continuei naquela espécie de hipnose, me deixando levar pelo meu
cérebro aflito, sentindo a minha cabeça pulsar com a dor, até que o toque do
meu celular fez com que eu desse um salto com o susto.
— Ailie, pode ser a polícia — Ian disse em um tom ao mesmo tempo
ansioso e esperançoso, mas fiquei petrificada, meu coração batendo mais
forte do que um tambor.
Reagindo, com os dedos trêmulos, peguei o meu celular.
— Boa noite — falei com a voz meio ofegante ao deslizar o dedo para
atender.
— Boa noite. Falo com a senhorita Kingston?
Pigarreei, para tentar soar mais firme, mas falhei.
— Sim, ela mesma.
— Me chamo William Johnson, detetive do Departamento de Polícia
de Edimburgo, e estou entrando em contato para comunicar que a sua
tutelada, Molly Kingston, foi resgatada e encaminhada ao Royal Hospital for
Children para avaliação…
— Ela está bem? — A pergunta saiu em um sussurro pelos meus lábios
antes mesmo que o homem completasse a frase. O medo de que meu docinho
estivesse gravemente ferida me oprimia, trazendo lágrimas aos meus olhos.
— Segundo a equipe de paramédicos, sim, a criança está bem. É
procedimento padrão em situação de sequestro levar a vítima para ser
examinada.
— Entendi — murmurei, e senti como se as garras invisíveis que
feriam o meu peito afrouxassem o aperto.
— Como responsável legal da bebê, solicitamos que compareça ao
hospital para receber informações sobre o estado de saúde da criança e para
assinar a alta quando ela for liberada.
— Claro, estou indo para lá agora. Obrigada.
—Tenha uma boa noite, senhorita.
— Boa noite — murmurei.
Assim que desliguei a ligação, não consegui mais controlar o pranto,
presa a várias emoções díspares, que iam desde felicidade e alívio, passando
pela pontada de culpa, afinal, se eu tivesse agido de forma diferente, Molly
não precisaria ter passado por aquilo tudo.
Minha bebê estava viva! Ela estava bem! Isso que importa agora!
— Amor? — Ian sussurrou e eu vi a ansiedade estampada em seu
rosto.
Merie e Grant me olhavam em silêncio.
— Eles a encontraram, Ian — minha voz soou embargada.
— Deus! Como ela está?— Com um movimento abrupto, meu
namorado me abraçou e eu senti não apenas a força presente na musculatura
dele, mas também o alívio que o tomava.
— Molly está bem, mas a levaram para o hospital para fazer uns
exames. — Encarei o rosto do homem que eu amava, percebendo que os
olhos estavam marejados.
— É o procedimento padrão nesses casos. — Deslizou um polegar pela
minha bochecha, apagando um rastro de lágrima.
— Foi o que disseram — falou em um sussurro, antes de sentir a
urgência me invadindo, criando um outro tipo de agonia. — Eu tenho que ir
até o Royal Hospital, eu preciso ver a minha bebê, Ian. Eu preciso vê-la com
os meus próprios olhos para ter certeza de que ela está bem.
— Nós precisamos, Ailie — Ian disse com a voz rouca.
Deixou um beijo na minha testa, que me fez fechar os olhos por alguns
segundos.
Senti um amor intenso, um de roubar o fôlego, por aquele homem.
— Vamos?
— Sim — falei e ele se ergueu de um salto.
— Eu levo vocês — Merie ofereceu.
Me levantei também.
— Obrigado, Merie — Ian respondeu por mim.
Rapidamente, nós quatro deixamos meu apartamento e alcançamos o
veículo estacionado na garagem. Merie assumiu o volante e logo ganhávamos
as ruas.
Olhei através da janela, vendo edifícios e as pessoas passarem pelo
meu campo de visão, mas eu não as enxergava de fato. Eu só pensava em
Molly e nos vários quilômetros que ainda nos separavam.
O trajeto, em outras circunstâncias, seria bastante curto, não mais que
vinte minutos, mas a ânsia de abraçar e de consolar a minha bebê me deixava
a impressão de estar no outro lado do globo.
O pedido para que Merie fosse mais depressa estava preso na minha
garganta, junto com as várias emoções que me tomavam, que só seriam
aplacadas com o corpinho dela junto ao meu.
Respirei fundo, soltando o ar devagar, e isso foi o suficiente para que
Ian pegasse a minha mão, entrelaçando nossos dedos. O simples toque das
mãos suadas, indicando a ansiedade, me ofereceu algum alento.
Nunca estive só. Meu companheiro, meu protetor, meu porto seguro
não me deixou por nem um instante. Esteve comigo por mim, por Molly.
Um celular tocou. Escutei a voz de Grant atendendo, mas a ligação
rapidamente se encerrou.
— Noah e o suposto comprador da Molly, que também já tinha
passagem pela polícia, foram detidos e encaminhados para a delegacia —
meu cunhado disse.
— O cara era fichado pelo quê? — meu namorado perguntou.
Não prestei atenção na resposta, nem na conversa que se seguiu, e
agradeci por isso, já que, pela tensão de Ian, eu não iria querer saber. Na
verdade, as únicas coisas que me importavam eram que eles pagassem pelo
que fizeram e se mantivessem longe de mim e de Molly.
O trânsito não estava ajudando. Cada segundo com o veículo parado,
só aumentava a minha ansiedade. Vinte minutos pareceram ter se tornado o
dobro.
Finalmente, chegamos ao hospital e fomos encaminhados ao local onde
a minha bebê estava.
Meu pulso disparou quando parei em frente ao quarto onde Molly
estava em observação. Ian, que foi autorizado a subir comigo, abriu a porta.
Uma enfermeira veio nos receber.
— Em que posso ajudar?
— Sou Ailie Kingston, a tutora de Molly — expliquei.
— Oh, claro. A senhora deve estar louca para ver a sua pequena. —
Abriu um sorriso. — Venha comigo.
— Obrigada — respondi quando ela fez um gesto para que eu a
acompanhasse.
Minhas pernas ficaram bambas no momento em que me aproximei da
cama hospitalar. Meu coração doeu assim que eu me dei conta do acesso na
mãozinha dela, ligado ao soro, mas a emoção de ver o rosto amado foi muito
mais intensa.
Segurei-me na grade de proteção e comecei a chorar. Minha bebê, ela
estava ali!
— Vou chamar o médico que avaliou sua tutelada para vir conversar
com a senhora. Com licença.
Agradeci com um aceno de cabeça, não conseguia falar. Me virei
novamente para a cama e, como para ter certeza daquilo que os meus olhos
viam, ergui a minha mão e toquei a bochecha dela com suavidade. A maciez
da pele dela, que eu conhecia muito bem, contra a minha pele fez as pontas
dos meus dedos queimarem.
Meu choro ficou mais intenso enquanto eu sentia que todos os cacos do
meu coração se colavam ao ver meu docinho perto de mim de novo, me
fazendo sentir novamente completa.
O alívio caiu sobre mim como um manto protetor, e removeu quase
todo o peso que estava em meus ombros. A culpa ainda existia,
provavelmente não me deixaria tão cedo, já que tudo ainda era tão vívido,
mas saber que eu não passaria uma vida inteira em uma busca agonizante me
trazia certo conforto.
— Eu amo você, docinho — falei baixinho.
— E eu amo vocês duas — escutei a voz sussurrada de Ian, e só então
me dei conta do calor do corpo dele junto ao meu.
Continuei a acariciar a bochecha da minha bebê.
— Com toda a minha força, com a minha alma. Pode parecer
exagerado, mas eu posso afirmar que, sem vocês, não existiria vida para mim.
Não existiria calor. Não existiria esperança. Não existiria cor. Não existiria
motivos para sorrir. Vocês deram sentido à minha vida quando eu não tinha
um.
— Ian…
— Amar vocês duas é a minha razão para continuar a respirar. — Ele
se virou para Molly — E você me ensinou um amor completamente diferente,
Molly. Nessas poucas horas, soube que era algo irrevogável. Eu te amo,
Molly, mas não como titio, mas como pai.
Movi meu pescoço para encarar Ian enquanto abria e fechava a minha
boca, tentando encontrar algo para dizer perante as palavras dele, cujo
significado era bastante impactante.
Pai. Um pai protetor, amoroso, presente... Tudo o que Molly nunca
teria com Noah, já que o genitor dela esteve prestes a vendê-la a um
desconhecido que sabe-se lá o que faria com ela, mas que o homem que eu
encarava se oferecia para ser.
Ian me olhou e eu vi várias emoções perpassarem o semblante do
homem que eu amava, como carinho, ansiedade, nervosismo...
Senti minhas lágrimas caindo, mas, dessa vez, por um tipo de emoção
bem diferente da de horas atrás.
— Me desculpe, Ailie, eu não deveria ter falado isso nesse momento
— murmurou em um tom rouco quando eu não disse nada. Vi o pesar
brilhando nos olhos dele.
— Não se desculpe por expressar seu amor por Molly, nunca — falei
baixinho, erguendo minha mão para tocar a bochecha dele.— Foi uma
declaração tão bonita, Ian.
Ele começou a esboçar um sorriso, mas tentou contê-lo.
— Isso é um sim?
— Não precisa da minha permissão para exercer esse papel na vida de
Molly, Ian, mas exercer um papel é diferente de se tornar um laço de fato. Eu
não posso determinar isso, a única que pode é Molly. Você tem que fazê-la se
sentir sua filha, em primeiro lugar.
— Passei a mão pelo rosto dele, pensando no peso que as minhas
palavras trariam para o nosso futuro, afinal, isso prometia ser algo muito mais
sério, não só entre ele e a bebê, mas que nos envolveria.
— Eu farei o meu melhor, Ailie. Me esforçarei para ser o protetor e o
amigo que ela precisa.
— Eu sei disso, e sei que você irá conseguir.
— Assim eu espero.
Sorriu para mim, devolvendo as promessas de um para sempre.
— Não sei se te disse isso hoje, mas eu amo você, Ailie — falou com a
voz rouca.
— Disse algumas vezes em meio a sua declaração — o provoquei. —
Eu também amo você, Ian.
Ele me encarou por alguns segundos antes de me envolver em um
abraço forte, repleto de amor e aconchego, que me acolheu e se tornou mais
intenso quando nos viramos para o nosso docinho, velando seu descanso. A
magia foi quebrada apenas com a chegada do médico, que nos informou que,
apesar do estresse pelo qual passou, não havia nada com o que se preocupar
em relação à saúde da minha doce menininha.
Capítulo trinta e sete
Me curvei sobre o berço improvisado com travesseiros onde a minha
bebê dormia de forma pacífica, não resistindo a deixar um beijinho na
mãozinha fechada.
Molly era linda. Como se fosse possível, a cada dia que se passava, ela
me tornava mais babão, principalmente ao ver o quanto ela estava cada vez
mais espertinha. Os passos estavam mais firmes e algumas palavrinhas já
compunham o seu vocabulário.
Minha namorada ficava de cabelos em pé com as doces travessuras da
pequena que adorava escalar um móvel. Não podíamos piscar que lá ia ela
subindo no que quer que visse pela frente. Bom, para ser justo, não era
apenas Ailie que estava tendo um troço com isso. Eu estava pirando também.
Minha profissão fazia com que eu enxergasse cada objeto como
potencialmente perigoso para uma criança extremamente sapeca, o que
Molly, sem dúvidas, era.
Era difícil relaxar um pouco e não ser superprotetor o tempo todo. Meu
irmão fazia troça de mim, zombando da minha cara. Vivia dizendo que eu era
um “pai” zeloso demais, e que eu deveria deixar a pequena explorar e ter suas
próprias experiências com o mundo, o que incluía quedas e machucados. Em
parte, eu concordava com ele, mas se eu pudesse evitar, que mal tinha? Não
queria que nada acontecesse à minha menininha.
Apesar das zombarias de Grant, não pretendia mudar de atitude. Eu só
estava me esforçando para cumprir a minha palavra de ser o pai de Molly em
todos os sentidos. O amor que eu sentia por ela sempre me impulsionaria a
tentar afastar todas as sombras que pudessem vir a se fazer presentes em sua
vidinha dela. O que me deixava mais tranquilo era que a principal sombra já
não podia fazer nenhum mal a ela.
Noah, antes mesmo que pudesse ser julgado pelo rapto e
comercialização de pessoa, havia se envolvido em uma briga com outro
detento na prisão, resultando em um ferimento fatal. Eu não consegui sentir
pesar pela morte dele, nem minha mulher. Era uma vida perdida, claro, mas
Noah era um criminoso que planejara entregar minha pequena a um homem
igualmente vil.
Não querendo estragar aquele dia feliz, repleto de comemorações, em
que finalmente o meu irmão havia se casado oficialmente com a mulher que
amava, com lembranças ruins, deixei mais um beijinho nos dedos de Molly
antes de me afastar dela.
Passei os olhos pelo cômodo, observando os móveis, e como não
encontrei nada potencialmente perigoso, passei pelo vão que ligava o quarto
onde Molly estava instalada ao nosso e fechei a porta.
Meu sangue pareceu ser bombeado com mais força no segundo em que
o meu olhar recaiu sobre a mulher que, de costas para mim, estava debruçada
sobre a enorme janela aberta que deixava um vento suave entrar. Por um
minuto, eu só fiquei admirando a forma como a massa de cabelos ruivos
flutuava ao ser soprado pela corrente de ar, conferindo-lhe um ar etéreo.
Parecia uma feiticeira... a minha feiticeira, que havia me seduzido no
instante que me ouviu com atenção, que me abraçou e me transformou em
seu vassalo no momento em que os nossos lábios se tocaram pela primeira
vez, a mulher que, naquele momento, me enfeitiçava, despertando a minha
fome por ela, fazendo a minha boca secar e o meu pau começar a enrijecer.
Quantas horas se passaram desde que eu a tive pela última vez?
Não sabia precisar, mas sabia que depois de um plantão e da viagem
até o castelo onde foi realizada a cerimônia de casamento do meu irmão, já
haviam se passado muitas.
Estava sentindo falta do encaixe do corpo de Ailie no meu, dos
arquejos de prazer, do estalo das pelves se chocando, dos gemidos que nos
elevavam com o prazer.
Olhar para a bunda dela, que ficava ainda mais gostosa no vestido
colado, só me deu a certeza de que já havia se passado muito tempo.
Me aproximei de onde ela estava e não hesitei em passar os meus
braços em torno da cintura delgada, trazendo-a de encontro ao meu corpo e
fazendo com que ela sentisse meu pau ficar duro por ela.
Ela roubou o meu fôlego ao emitir um suspiro e se roçar ainda mais em
mim, provocando a minha rigidez.
Gostosa!
— Por que o céu parece tão diferente aqui? — sussurrou, deslizando os
dedos pelo meu braço em uma carícia suave.
Olhei através da janela, encarando o objeto de apreciação da minha
mulher. Vários pontos luminosos apareciam contra o fundo de um azul
escuro profundo. Era bonito, sem dúvida, mas não mais bonito que o brilho
que eu via sempre nos olhos azuis de Ailie.
— Deve ser porque aqui não é tão poluído — respondi em um
murmúrio, reunindo os cabelos dela em uma das minhas mãos para colocá-
los de um lado.
— Não é isso.
— Não? — Deixei um beijo na curva suave do pescoço.
— Não. Há algo de mágico.— Ela se retorceu.
Meus lábios começaram a percorrer cada centímetro da pele exposta.
Mágico...A única magia que havia era a que ela exercia sobre mim.
— Talvez o casamento realizado no pátio seja o que me deixa com essa
sensação de que tudo aqui é etéreo, romântico — sussurrou, a voz rouca por
causa das minhas carícias.
— Sabia que eu estava pensando em magia? — ronronei.
— Sério? — Pareceu surpresa.
— Sobre as várias formas que você me enfeitiçou — respondi.
— Ian! Eu estou falando sério.— Ela se virou nos meus braços,
apoiando as duas mãos sobre os meus ombros, fitando-me com os olhos que
eu tanto amava.
— Eu também estou, feiticeira.— O canto da minha boca se curvou
com malícia, minhas mãos baixando até alcançar a bunda gostosa.
Ela colocou os olhos em branco e eu me peguei sorrindo, antes de me
deixar mergulhar na profundeza das pupilas azuis e na boca perfeitamente
esculpida.
— Me encanta, me fascina, me deixa completamente louco e
apaixonado — sussurrei, antes de inclinar meu rosto em direção ao dela.
Nossos lábios se encontraram com suavidade, iniciando um beijo casto,
que eu sabia que em minutos alcançaria o ápice, tornando-se aflito e
desesperado.
Sim, havia mágica... em Ailie, nas nossas bocas, na forma como as
nossas línguas se enroscavam, nos nossos corpos que se deixavam guiar pelo
instinto, se tocando de forma afoita ao querer despir um ao outro, enquanto
expressávamos o prazer que sentíamos com gemidos. Mas, apesar do desejo
que eu sentia por ela, a necessidade crua que fazia o meu pau pular, eu acabei
interrompendo o beijo.
Por mais que tenha tentado ignorar, havia uma outra urgência dentro de
mim que crescia cada vez mais, sem dúvidas despertada pelo espírito
romântico e casamenteiro do momento.
— Ian? — protestou, insinuando os quadris contra os meus.
— Eu li uma coisa interessante esses dias sobre um ritual.— acabei
dizendo, colando a minha testa na dela.
— Ritual?
— Sim, sobre o handfasting.
Seus olhos brilharam com lágrimas quando me coloquei de joelhos e,
abrindo a bolsa de couro que fazia parte do kilt que eu trajava por causa da
cerimônia de casamento do meu irmão, tirei de lá um pedaço de tecido
rendado.
— Sei que talvez não seja assim a tradição e que eu talvez esteja
fazendo tudo errado, que a “união das mãos” deve ser feita em um outro
momento, em meio à natureza, mas li que atar nossas mãos significa fazer
votos de um futuro juntos, como marido e mulher.
Ela levou as mãos ao rosto.
— Por mais que eu sei que eu te pertenço, de corpo e alma, eu quero
você como a minha esposa, Ailie. Sei que nós dois já dormimos e acordamos
juntos, que eu praticamente vivo na sua casa.
— Você é um vizinho muito abusado! — brincou, entre lágrimas e
risos.
— Sou, mas a culpa é das suas tortas.
— Sei.
— Quero que nós dois nos tornemos um único ser.
— Já somos um, Ian, há muito tempo — disse em um tom choroso.
Ela pegou a fita dos meus dedos e pediu:
— Levante-se.
— Isso é um sim? — Fiquei inseguro quando Ailie apenas continuou a
me encarar, os cabelos voando ao vento e criando um halo ao seu redor.
Ela não me respondeu com palavras, apenas pegou a minha mão
esquerda, fazendo os meus batimentos cardíacos se acelerarem.
— Ailie… — sussurrei o nome dela.
— Ian… — devolveu, abrindo um sorriso ao colocar sua palma direita
contra a minha.
O contato da pele de Ailie contra a minha me deixou trêmulo e
ofegante.
— Eu não conheço os votos sagrados que abençoariam ainda mais a
nossa união — disse em uma voz embargada ao começar a passar a fita entre
as nossas mãos —, mas as promessas de amar de forma compreensiva, de
fidelidade, de respeito, de companheirismo, talvez sejam igualmente fortes.
— E são.
— Eu prometo te amar, Ian, ontem, hoje, amanhã e nos dias vindouros.
Eu prometo estar ao seu lado nos momentos de adversidade, de abundância,
de alegria e de tristeza, como uma única carne, uma única alma.
Ela deu mais uma volta com a fita.
— Eu irei te amar, te apoiar, te venerar enquanto eu existir, enquanto
eu respirar — minha voz saiu meio tremida —, não só porque iremos nos
tornar um único ser em um plano metafísico, mas porque você sempre será
meu destino, minha casa, meu abrigo. Meu coração.
Com um soluço, Ailie terminou de dar uma terceira volta do tecido nas
nossas mãos, e a natureza, de forma estranha e mágica, nos brindou com uma
brisa suave, como se aprovasse a nossa união.
— Isso está bem frouxo, dileas — me provocou.
Olhei para o tecido que escorregava por nossas mãos e braços.
— É… — Fiz uma pausa dramática. — É bom que eu tenha algumas
habilidades.
— Habilidades?
— Sim. Sei dar nós.
A malícia cintilou nos olhos dela e eu arqueei uma sobrancelha para a
minha futura esposa, que deu uma risadinha.
Peguei a ponta do tecido com a mão livre e dei algumas instruções para
que formássemos uma espécie de nó, atando nossas mãos com mais firmeza,
significando a fortaleza que seria a nossa relação.
— Ian… — Pareceu chocada quando, com um movimento abrupto,
puxei meu braço um pouco para trás, fazendo com que a corda ficasse
próxima de um símbolo do infinito.
Lágrimas voltaram a escorrer pelas bochechas dela.
— Seremos eternos um do outro, Ailie — expliquei.
— Para sempre! — prometeu.
Com as mãos ainda atadas, ela voltou a se aproximar de mim e, em
segundos, nossas bocas tornaram a se encontrar.
Dessa vez, os lábios e os corpos não pararam, se amando e se tornando,
mais uma vez, um.
Epílogo
— Eu não sei o que vamos fazer — Jane falou com a voz esganiçada
ao entrar na cozinha, que tinha se tornado quase uma estufa, com os vários
fornos ligados ao mesmo tempo.
— O que aconteceu? — Franzi o cenho, preocupada, enquanto
separava a massa em seis partes iguais.
Fazia pouco mais de sete horas que eu não sabia o que era contato com
o mundo externo, então não tinha ideia do que poderia ter. Só torcia para não
ser algo tão grave, a ponto de eu precisar parar aquilo que estava fazendo.
— A fila de pessoas aguardando está quilométrica!
— Não exagera — falei, me sentindo aliviada por não ser realmente
um problema sério.
— Você não está entendendo, Ailie — continuou a usar aquele tom que
beirava à histeria —, deve ter umas trinta pessoas no salão.
— Entendi.
Mordisquei o meu lábio.
Ao mesmo tempo que eu ficava feliz por várias pessoas terem vindo
para a inauguração da minha “padaria”, que iria oferecer alguns bolos,
biscoitos e tortas típicas escocesas e inglesas, eu me questionava se os meus
produtos eram realmente tão bons assim.
Tudo começou com uma brincadeira, já que todo domingo eu era
encarregada de levar uma torta para o Dia da Família na casa de Merie e
Grant. Em algum momento, Maxwell, pai de Merie, havia me incentivado a
levar uma das minhas tortas para uma competição culinária na Highlander
Games.
Foi chocante ganhar o concurso com a minha tarte de cordeiro. A
vitória ficou na cabeça do meu marido, que me fez uma pergunta: por que
não ir mais além?
Era uma loucura, afinal, para mim tinha sido apenas um golpe de sorte,
mas acabei mergulhando no mundo da panificação, fazendo alguns cursos até
que tudo mudou quando entrei na Escola de Comida e Vinho de Edimburgo,
por onde passaram vários chefs renomados.
Abandonar meu emprego foi difícil, afinal, a sede da escola ficava em
uma cidade próxima, mas meu marido me apoiou, da mesma forma que ele
tinha me ajudado a abrir a minha pequena loja, e que um dia eu esperava que
se tornasse muito maior.
— É essa a sua reação, Ailie? — Jane praticamente gritou comigo,
tirando-me do fluxo de pensamentos, e eu parei de fazer bolinhas com a
massa e olhei para ela, com uma sobrancelha erguida.
— O que você quer que eu faça?
— Sei lá. Surtar? — fez uma careta para mim.
— Vou deixar isso com você, Jane — respondi, voltando a trabalhar,
tentando não pensar tanto e deixar-me levar pelas minhas inseguranças.
— Ailie!
— Nós duas surtando não ajudará em nada — tentei me convencer
disso.
— Okay.
— Só respira fundo, querida. Você é a melhor garçonete que eu
conheço!
— Até melhor do que você?
— Sim — confessei. — Você sempre foi mais doce, mais carismática.
— Ailie…
— Você conquista as pessoas com o seu jeito. — Peguei mais um
pedaço de massa, para reiniciar o processo.
— Quer me fazer chorar? — Fungou de forma dramática, me
arrancando um sorriso. Aquela era a Jane.
— A única coisa que eu quero é que você continue a conquistar as
pessoas como sempre fez. Sabe que eu preciso de você para fazer esse
negócio dar certo.
— Está quase conseguindo borrar o meu rímel.
Revirei os olhos e, deixando a tarefa que fazia, fui olhar os fornos.
— Deveria usar um rímel à prova d'água, já que é uma chorona —
aconselhei.
— Gosto desse!
— Então não reclama!
— Chata.
— Hm.
— Eu só poderei conquistar a todos se tiver torta para todo mundo. —
Fez uma pausa. — Tem, não tem? Não quero ter que dizer às pessoas da fila
que os produtos acabaram!
— Acho que a quantidade será mais do que suficiente — respondi, sem
levar a pergunta dela para o lado pessoal. Seria horrível faltar produto.
Comecei a remover as tartes de carne do forno.
— O cheiro está delicioso!
— Sim — murmurei. — Que tal a gente antecipar um pouco e não
deixar as pessoas esperando mais?
— Concordo!
— Então vamos dar o nosso melhor! — Abri um sorriso.
— Você já é um sucesso, Ailie! — afirmou.
Balancei a cabeça em negativa mesmo que Jane não pudesse ver, já que
deu as costas para mim e deixou a cozinha.
Continuei a trabalhar, terminando de olhar as outras tortas do forno,
tirando as que estavam prontas, mas não se passaram nem dois minutos
quando a porta se abriu outra vez.
— Mamãe! — Escutei o gritinho do meu docinho e, automaticamente,
senti um calor gostoso se espalhar pelo meu peito ao ser chamada assim.
Tinha sido um pouco desconcertante ouvir Molly me chamando de mãe
pela primeira vez, afinal, sempre busquei falar de Rebecca para a menininha,
mas, ao mesmo tempo, compreendi seu sentimento, já que era natural ela
desejar ter uma mãe e um pai. Me entreguei à ideia sem culpa, ainda que não
de forma exultante como Ian tinha encarado a coisa.
— Oi, meu docinho. O que vocês estão fazendo aqui?— falei por fim,
ao girar o pescoço para encarar Molly, que estava no colo do meu marido, já
que a cozinha era um lugar perigoso.
— Pa dá beijo — articulou.
— Beijo? — perguntei, curiosa.
— Papai qui falo!
— Hum — Fiz uma cara engraçada para ela. — E por que o papai disse
isso?
Me encarou de forma confusa por alguns segundos antes de se voltar
para Ian.
— Papai? É pá quê?— perguntou para ele.
— Para dar boa sorte para a mamãe, docinho — meu marido
respondeu.
Molly se voltou para mim, o rostinho todo se iluminando.
— Ah, entendi. — Abri um sorriso para ele. — E então? Cadê o meu
beijo de boa sorte?
— Papai, qué decê — Molly gritou, remexendo nos braços dele.
— Já vamos. O que o papai disse? Que você não pode ficar na cozinha
da mamãe, não foi? — disse ao caminhar na minha direção.
— Faz dodói!
— Isso mesmo — confirmei, dando dois passos para trás para me
afastar da bancada.
Não demorou para que eu recebesse um beijo estalado e bem úmido em
uma das minhas bochechas.
— Sote, mamãe.
— Obrigada, docinho. — Dei um beijinho no rosto dela.
— No oto — pediu.
Nunca conseguiria negar receber mais um beijo dela, então me virei
para que Molly voltasse a tocar a minha face com a boquinha.
— Ponto! — disse animadamente.
— Sim, pronto! Agora a mamãe sabe que dará tudo certo!
— Eu não tenho nenhuma dúvida, amor — Ian disse, roubando um
selinho. — Você é a rainha das tortas, Ailie.
— Sua opinião é sempre muito suspeita, dileas — murmurei.
— Verá que não é só a minha opinião. — Deu um sorriso convencido.
Bufei só por bufar, já que Ian sabia que eu sentia certo prazer em ter
aquilo que eu preparava sendo elogiado.
— Obrigada, por tudo. Eu não teria começado isso se não fosse por
você — falei, olhando nos olhos verdes que eu amava.
— Um dia você teria…
— Não, Ian — o impedi de continuar —, você tornou as coisas mais
fáceis. Me deu um sonho a ser sonhado.
— Que eu sonharei com você, todos os dias da minha vida, porque…
— Somos um só — completei, meus olhos ficando marejados.
Ele se inclinou novamente sobre mim, os lábios me tomando em um
beijo doce.
— Papai! — Molly deu um gritinho, já que ela estava no meio de nós,
fazendo com que eu recuasse.
— Vamos comer a torta que a mamãe fez? — perguntou, voltando-se
para a menininha, balançando-a no colo daquela forma que nem mesmo o
passar dos anos fez com que a garotinha deixasse de gostar.
— Torta! — Ela bateu palminhas.
Abri um sorriso para os dois, mas não tive muito tempo de conversar,
já que Jane voltou a aparecer, pedindo a torta feita de purê de batatas,
repolho, rutabaga e um tubérculo que tinha um sabor mais adocicado[9].
Mergulhei de cabeça no trabalho, fazendo muitas tarefas ao mesmo
tempo.
Embora meus pés doessem, por ficar em pé por várias horas, e meus
ombros estivessem tensos, essas sensações não sobrepujavam o prazer em
mexer nas massas, nos fornos, de preparar os recheios, e de ouvir Jane me
repassando a opinião das pessoas.
Cansada, sim, porém, com um sorriso no rosto, um sorriso que não
tinha preço e que me era valioso: o da autorrealização.
Bônus
O destino era engraçado em sua forma de atuar. Ele me trouxe dor
quando John revelou que eu tinha sido sequestrado da minha família
biológica, trouxe angústia por não saber como buscar a “minha verdade”. Foi
cruel ao me fazer perceber que meus pais biológicos não se importavam
comigo, afinal, Barack nunca me ligou ou mandou uma mensagem ao longo
desses anos, e Livy, naquela vez em que nos esbarramos sem querer na rua,
me perguntou se eu a estava perseguindo, o que me deixou bem mal. Porém,
aquele fio invisível que nos guia me ofereceu ainda mais ao me conduzir por
caminhos tortuosos.
O destino foi generoso o suficiente para fazer com que eu salvasse a
vida do meu irmão, ao mesmo tempo em que colocava Ailie no meu
caminho.
Meu irmão me conduziu aos meus dois sobrinhos e a Merie, que se
tornou não só uma grande amiga minha, mas também da minha esposa.
Ailie, inicialmente, me ligou a Molly. Há cinco anos, ela me
presenteou com um lindo menininho chamado Doni. Há dois anos, recebi
outra surpresa: Angus. Três filhos.
A paternidade era algo incrível, ainda que tivesse seus desafios. Não
era fácil educar e manter a firmeza, ainda mais quando eu, segundo minha
esposa, podia ser facilmente manipulado com carinho e sorrisos. Todos os
dias eram uma nova aventura. Sempre havia algo para se aprender, ainda
mais com três crianças de idades e necessidades diferentes. Eu tentava.
Falhava às vezes, mas sempre tentava.
Respirei fundo, olhando o palco de madeira à minha frente sem
realmente vê-lo.
Quem diria que eu, um bombeiro perdido no mundo, sem saber quem
era, formaria uma família e teria três filhos? Que uma mulher linda, bastante
sedutora e inteligente, que cada vez mais fazia o negócio dela de tortas
prosperar, ainda estaria apaixonada por mim? Eu não diria, mas, felizmente,
foi o que aconteceu.
— Papai? — Molly me tirou do transe de pensamentos ao gritar para se
fazer ouvir em meio ao som alto da gaita de fole e do violino, além das
pessoas conversando.
— Oi, docinho — falei ao olhar para a minha menininha que vestia
uma blusa branca com manga bufante, colete e saia xadrez nas cores verde e
vermelho do clã McCormack, e polainas da mesma cor.
Suspirei.
Ela estava tão linda!
— Não vai me dar um beijo, papai? Tá começando! — perguntou,
fazendo um biquinho.
Não contive um sorriso perante o “amuleto” que eu havia criado: o
beijinho da sorte. Foi um gesto para desejar boa sorte a Ailie em sua nova
etapa de vida que se tornou uma “tradição” familiar. Era uma demonstração
de afeto presente nos momentos importantes e que se estendeu ao cotidiano.
— Nunca deixaria você ir sem te dar um beijinho.
Molly me deu um sorrisinho, que sempre me deixava bobo, antes de
virar a bochecha para mim.
— Boa sorte, filha — falei depois de beijá-la.
Ganhei um beijo estalado de volta.
— No outro?
— Claro!
Quando dei a outra beijoca, Molly foi saltitando para completar o
“ritual”.
— Doni? — Molly chamou, ao parar em frente ao menino agitado, que
estava louco para correr pela feira e brincar com as atrações.
— Sorte, mana! — Meu menininho deu um gritinho após dar um beijo
na bochecha da irmã.
Escutei um suspiro alto, mas não sei se veio de Ailie ou de mim.
Provavelmente era meu, já que uma umidade se formou nos meus olhos.
Eu me emocionava ao ver os irmãos dela fazendo o nosso ritual, até
mesmo Angus, que era bem novinho, já participava. O amor florescia entre os
três, apesar das pequenas contendas do dia a dia, e assistir esse crescimento,
essa união, era de roubar o fôlego.
O pensamento fez com que meu olhar recaísse sobre meu irmão, que
estava sentado ao meu lado e conversava com Craig. Não era somente o amor
entre meus filhos que crescia.
Eu me perguntei várias vezes se um dia conseguiria amar Grant com a
mesma intensidade com que ele havia amado a criança que eu fui, se um dia
nós dois teríamos aquela cumplicidade de irmãos que deveríamos ter tido.
Uma parte de mim dizia que era impossível, mas a outra sabia que eu o já o
amava com força, que o admirava muito.
Éramos diferentes? Sim. Tínhamos algumas rusgas, principalmente
porque ele achava que precisava me dar alguns sermões no seu papel de
irmão mais velho? Também. Mas isso não nos impediu de nos tornarmos
melhores amigos, até mesmo confidentes.
Como se soubesse que eu o encarava, ele girou o rosto na minha
direção.
— Admirando o quanto o meu rosto é bonito? — Os lábios de Grant se
curvaram em um sorriso.
— Na verdade, estou questionando o quanto você consegue ser feio —
devolvi a provocação.
Escutei uma risada, fazendo com que o meu irmão fizesse uma careta.
— Deveria se olhar no espelho — resmungou. — Se eu sou feio, você
também é, balach!
— Concordamos que eu sou o mais bonito! — me gabei.
— Tenho que discordar, Ian — Merie brincou.
— Viu? — Grant falou, pomposo.
— Isso não vale! Ela é apaixonada por você! — retruquei.
— Sou.
— Eu não consigo acreditar nisso até hoje, caoimnheas[10] —
respondeu, galante.
— Com essa sua cara feia, realmente é difícil de acreditar — continuei
minhas provocações.
— Ian! — Ailie ralhou comigo. Olhei para ela, que permitia que Angus
desse pequenos passinhos no lugar.
— Nem eu consigo! — A voz de Max soou atrás de mim.
As crianças deram uma risadinha.
— Papai! — Merie disse ao mesmo tempo que Eilidh:
— Maxwell!
— Vai começar, gente! — Molly avisou, e só então me dei conta de
que a mulher no palco falava o nome das integrantes do grupo.
— Boa sorte! — Puxei minha filha pelo braço e deixei um último beijo
em sua testa.
— Obrigada, papai! — Disparou em direção ao palco.
Senti um frio na barriga assim que meu docinho tomou seu lugar em
meio a várias outras garotas da idade dela.
Podia ser apenas uma atração cultural do grupo de dança do qual ela
participava, mas eu estava ansioso. Era a primeira apresentação oficial dela e
Molly havia ensaiado tanto com as amiguinhas que eu não queria que ela se
decepcionasse.
A gaita de fole começou a ecoar novas notas, e, com os braços
cruzados atrás do corpo, vi minha menininha fazer uma vênia antes de ficar
nas pontas dos pés e erguer um dos braços, como uma bailarina.
Assisti, hipnotizado, os pulos que ela dava, com um pé só, depois com
os dois, seguindo a coreografia com muitas piruetas, e movimentos dos
braços e das pernas, que pareciam extremamente complexos de executar,
ainda mais em sintonia com as notas que subiam e desciam.
Aos meus olhos de pai e de leigo, todas as “acrobacias” que minha
filha executava pareciam perfeitas.
O orgulho que eu sentia por minha menininha, explodia dentro de mim,
a ponto de eu sentir que não conseguiria conter as minhas lágrimas.
Assim que Molly fez uma vênia, acompanhando a última nota da gaita
de fole, terminando a apresentação, me ergui em um salto, como se meu
corpo tivesse uma mola, e comecei a aplaudir, e não fui o único.
Não olhei para os lados, mas sabia que Ailie, Doni, Grant, Merie,
Claire, Graig, Max e Eilidh também vibravam com aquela apresentação,
porque era isso que uma família fazia: comemorava as vitórias, e se apoiava
nas derrotas.
Sim. O destino poderia trazer seus dissabores, mas o amor sempre
vencia.
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Sinopse:
Milionário solitário + mocinha recém divorciada + dois irmãos
separados no orfanato + convivência forçada + recomeços
Sócio de uma grande companhia responsável por administrar fundos de
pensionatos, Grant McCormack nunca desistiu de reencontrar o irmão que se
perdeu há quase trinta anos.
Ninguém era capaz de compreender sua busca incansável pelo irmão
desaparecido, o quanto ele o amava, nem mesmo os pais e o seu sócio Akir.
Em um momento de tormenta, o milionário escocês sai caminhando pela
noite fria de Edimburgo para espairecer e acaba encontrando um menininho
perdido, Craig, que fugiu de um orfanato para cumprir uma linda missão:
reencontrar a irmãzinha que foi separada dele ao ser adotada.
Tocado com a história e disposto a tudo para ajudar o garotinho corajoso a
encontrá-la, não querendo que passasse pelo mesmo sofrimento que ele,
Grant o adota e o ajuda em sua busca.
O que Grant não esperava era que aquela noite sombria traria para ele não
apenas um, mas três amores inesperados...
Agradecimentos
ão sabe o quanto eu sinto falta das suas opiniões, mãe, o
quanto eu queria que você estivesse aqui, me pedindo mais palavras, mais
capítulos.
A saudade aperta todas as vezes que escrevo meus agradecimentos,
mas prefiro acreditar que, apesar de não poder mais ouvir sua voz, você, onde
quer que esteja, está lendo minha história.
Eu agradeço pelo seu amor incondicional, mãe, e por você ter me dado
meu segundo amor: minha irmã.
Seu amor e o amor da minha irmã são o que me mantém de pé, que me
fazem sorrir, que me fazem dar um passo, depois outro. Eu amo vocês duas,
eterna e incondicionalmente.
Ana, fadinha linda, e meu duendezinho, Pedro, eu deveria agradecer a
vocês, principalmente a você, Ana, pelo carinho com que revisa meus textos,
mas, em vez de agradecer, quero desejar. Não desejo amor, luz e esperança,
porque isso vocês têm de sobra. Desejo saúde, felicidade e vitalidade. Desejo
todas as coisas boas do mundo, coisas que não consigo, neste exato momento,
colocar em palavras, mas que sei que você deve sentir.
Às leitoras e amigas do grupo de WhatsApp, meu muito obrigada.
Obrigada por estarem comigo todos os dias, por lerem minhas loucuras, por
jogarem conversa fora comigo, por me acolherem e tentarem me levantar nos
dias mais preguiçosos e difíceis. Sem a leitura de vocês, as histórias que
escrevo perdem o sentido.
Por fim, agradeço a você, leitora, que chegou ao fim dessa jornada e
também esperou pacientemente pelo nosso bombeiro.
Espero que minhas palavras tenham emocionado e cativado você.
Beijos,
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[1]
Conhecido como tattie scone, é um prato feito com purê de batata, manteiga e sal. É servido torrado
ou frito.
[2]
Garoto.
[3]
Doce escocês feito com framboesa, aveia, creme, whisky e mel, montado em camadas, como se
fosse um pavê. Conhecido também como o rei das sobremesas escocesas.
[4]
Pequena em escocês gaélico
[5]
Querido em gaélico escocês
[6]
Torta feita com uma base de biscoito amanteigado, caramelo macio e chocolate.
[7]
Senhora
[8]
Ditado escocês antigo: It’s a lang road that’s no goat a turn usado em uma versão livre.
[9]
Denominada de rumbledethumps, a torta é caracterizada pela sua crosta dourada e textura macia.
[10]
Carinho.