Política e Contágio: A Peste Enquanto Ferramenta Estética Para a
Observação de Protestos na Segunda Década do Século XXI
Resumo
O presente artigo se propõe a investigar possíveis relações entre aspectos estéticos,
éticos e políticos frequentes em protestos populares, ocorridos em diversos lugares do
mundo, entre os anos de 2011 e 2016 e teorias e obras artísticas voltadas para o tema do
contágio e da epidemia.
Palavras-chaves
política, protestos, gesto, coletividade, literatura, epidemia.
Abstract
The present article focuses on investigating relationships between the aesthetical,
ethical and political aspects found in social movements taken place in different parts of
the world between the years of 2011 and 2016, as well as works of art and theories
related to the themes of contagion and epidemics.
Keywords
politics, protests, gesture, collectivity, literature, epidemic.
Porque ele sabia o que essa multidão eufórica ignorava e que se pode ler nos livros : o
bacilo da peste não morre nem desaparece nunca, pode ficar dezenas de anos
adormecido nos móveis, nas roupas, espera pacientemente nos quartos, nos porões, nos
baús, nos lenços e na papelada. E sabia, também, que viria talvez o dia em que, para
desgraça e ensinamento dos homens, a peste acordaria seus ratos e os mandaria
morrer numa cidade feliz.
Albert Camus
Introdução
Os efeitos da peste atuam de modo considerável no plano cultural e escatológico
do imaginário de uma cidade. A palavra “peste”, derivada do termo em latim pestis,
significa “calamidade” ou “flagelo” e foi rapidamente associada às grandes epidemias,
sobretudo à Peste Negra de 1348. Para além da medicina, a peste permanece mesmo
depois de séculos como um elemento remanescente da linguagem corrente e popular.
1
Mencionamos aqui, algumas das piores catástrofes sanitárias que o mundo já conheceu.
Primeiramente, o caso das três epidemias sucessivas de peste. Foram elas:
- A peste de Justinien.: primeira pandemia no Mundo Antigo (China, Europa e
Ásia muçulmana), ocorrida entre os anos de 541-767 d.c.;
- A peste negra: segunda pandemia na Europa Continental, iniciada no ano de
1.347 e cujo fim só se deu verdadeiramente no ano de 1.720;
- A pandemia de varíola: que assolou o mundo inteiro, inclusive a América e a
Oceania, no século XVII, tendo sido uma das principais responsáveis pela
destruição das populações nativas da América, após sua importação da Europa.
O desenvolvimento da ciência e a evolução de processos científicos foram
fundamentais para a redução de doenças infecciosas aterradoras, ao menos em países
mais desenvolvidos. No século XVIII, foram descobertas as primeiras vacinas contra a
varíola. No século XIX podemos destacar o desenvolvimento da higiene, a descoberta
da assepsia por Semmelweis e a presença de Pasteur com as vacinas antidiftérica e
antirrábica. Na segunda metade do século XX, nota-se a utilização massiva de
antibióticos e os trabalhos de Alexander Flaming sobre a penicilina, nos anos de 1940.
Não obstante, a tuberculose e a sífilis, doenças muitas vezes relacionadas ao
“passado” (entre os séculos XIX e XX) ainda hoje se anunciam como ameaça. No
contexto dos anos 1980, a aparição de resistências a antibióticos e a emergência de
doenças como a AIDS, acabam por pôr fim à esperança em relação à erradicação das
epidemias.
Atualmente, diante de diversas previsões apocalípticas, as doenças infecciosas
aparecem como um dos grandes temores da humanidade. Frequentemente são
noticiados pela mídia casos de epidemias, pandemias, assim como a capacidade de
transformação e mutação de diferentes tipos de doenças de larga escala. A AIDS, a
SARS, o chikungunya, o Ebola, as gripes aviárias e a gripe H1N1 são alguns dos
exemplos destes casos. As maiores crises sanitárias são caracterizadas por doenças
infecciosas que afetam boa parte da população e apresentam uma alta taxa de
mortalidade. Muitas vezes essas crises vêm acompanhadas de fortes degradações
econômicas; perturbações a sistemas de produção, educação e saúde; aumento da
criminalidade e desorganização de serviços públicos.
2
A história das epidemias está intimamente ligada a noções como “preservação” e
“prevenção”. Algumas questões se apresentam a partir destes conceitos:
1)A previsão da crise é algo possível de se fazer?
2)Prever é a mesma coisa que preservar e prevenir?
3)Até que ponto a prevenção nos deixa completamente livres do risco?
Pudemos ver ao menos duas reprises de tentativas de previsão da doença que de
fato não aconteceram. Uma delas ocorreu com o prenúncio de uma hecatombe, no
momento da gripe aviária e da gripe H1N1; a outra, em 2010, quando epidemiologistas
anunciaram a morte de 250.000 pessoas ligadas à encefalite bovina. A multiplicação de
crises anunciadas que não se concretizam são, sem dúvida, um efeito perverso do
princípio de precaução, que paradoxalmente limita as consequências da aplicação
extrema desse princípio. A assepsia e a ideia de um modelo de saúde dominante se
impõem como uma forma de controle daquilo que não pode ser controlado.
Boa parte dessas doenças infecciosas humanas não dependem somente do
homem. Uma única doença contagiosa pôde ser erradicada: a varíola. Isto se deve ao
fato da reserva do vírus ser puramente humana, ao contrário de outras epidemias. A
declaração da erradicação, dada oficialmente pela Organização Mundial da Saúde, em
1980 (Vitaux, 2010), deu fim também à sua vacina, que apresentava riscos de encefalia.
Diversas outras doenças contagiosas não puderam ser erradicadas, visto que
muitas vezes elas tocam ao mesmo tempo o homem e o animal. São chamadas de
doenças “antroponozes”. Caso, por exemplo, da tuberculose humana (derivada de uma
bactéria bovina); da brucelose (conhecida como febre do Malte) e do tétano (ligada a
uma toxina produzida por uma bactéria comensal no intestino do cavalo). Isso sem falar
em doenças transmitidas pela proximidade com as ovelhas, após a invenção da
agricultura neolítica; gatos (linforreticulose), doenças trazidas por animais selvagens
como a tularemia (transmitida pelos lebres) ou a doença de Lyme (borreliose
transmitida pelo carapato do cervo). Os ratos também são vetores responsáveis pela
transmissão da leptospirose e da peste. Insetos que se alimentam do sangue dos homens
e de outros tipos de animal das mais variadas espécies podem transmitir doenças. O
paludismo, doença parasitária ligada ao Plasmodium Falciparum é transmitida pela
picada de um mosquito. Podemos também falar da Febre Amarela; da Dengue,
3
transmitida pelo Aedes Aegypti; da “doença do sono” transmitida pelo mosquito tsé-tsé;
da doença de Chagas transmitida pelo barbeiro; e o tifo, transmitido pela pulga.
Assuntos como epidemia, peste e contágio não são estranhos para o público
moderno e contemporâneo. Diversos filmes, livros, best-sellers e seriados sobre o tema
vêm atraindo a atenção de um número cada vez maior de leitores e espectadores.
Doenças misteriosas, sintomas insólitos e até mesmo ataques zumbis são elementos que
fazem parte deste imaginário. O interesse se deve ao fato de que a epidemia está
diretamente ligada ao campo político e retórico de uma comunidade. Seu estudo se
mobiliza mais em direção à crítica de regimes, Estados e nações do que à percepção de
subjetividades íntimas, ainda que ambas as condições possam dialogar absolutamente.
Em A Doença Como Metáfora (2009), Susan Sontag afirma que a nossa relação
com o contágio não é apenas médica ou literal. Segundo a autora, há uma diferença
marcante de escala da “peste” em relação a outras doenças “individuais”. Enquanto
doenças como o câncer aparecem como uma espécie de doença misteriosa que atinge
indivíduos isolados, ou mais ou menos nas palavras de Sontag: “como uma espécie de
flecha mortal, da qual ninguém pode se proteger e que escolhe uma a uma as suas
vítimas1” (54); a epidemia acaba por abrandar determinadas diferenças e por condenar
membros de uma população a uma mesma catástrofe comum, “mais ou menos como
um acidente do destino que depois de um golpe, simplifica um ‘eu’ complexo,
reduzindo-o aos limites de um universo de doentes2” (53).
É sob a ótica dessas grandes catástrofes coletivas – a noção de epidemia pode
ser encarada pelo sentido da origem da palavra grega: epi (sobre) demos (povo) – e com
base em trabalhos artísticos que de alguma forma se debruçam sobre o tema, que esse
artigo vai buscar destacar diferentes aspectos estéticos, éticos e políticos, frequentes em
protestos populares, ocorridos nos anos de 2011 à 2016.
A Literatura e a Peste
A peste enquanto material literário aparece como um poder de morte que cria
um vazio no qual a ficção e a narrativa se inserem. A condição da peste altera a
1
Minha tradução para : “une flèche mortelle dont nul ne pouvait se protéger et qui choisissait une à une
ses victimes” (SONTAG, 2009, pg.54)
2
Minha tradução para : “comme plus ou moin un accident du destin qui après coup, a simplifié un soi
complexe en le réduisant aux limites d’un univers de malades”(SONTAG, 2009, p. 53).
4
habilidade dos indivíduos de falarem sobre o horror dessa experiência. Sob esta
condição, a linguagem cansa e perde sua vitalidade descritiva. Deste modo, podemos
nos perguntar: de que maneira o silêncio se impõe em um período de peste latente? Ou
ainda: diante da falta de sentido de um circunstância extrema, de que maneira a
linguagem não se cala, mas engasga, tropeça, enlouquece? Como se manifesta a afasia?
Joël Coste, no livro Représentations et comportements en temps d’épidemie
dans la littérature imprimé de peste (2007) apresenta uma divisão sistemática das
diferentes etapas da peste. São elas:
1) Contágio
2) Inoculação
3) Instalação
4)Declínio
5) Desaparecimento.
Para o autor, os fatos e gestos comuns em períodos de epidemia seguem o
seguinte percurso:
1) Contaminação
2) Alternância de ritmos e intensidades diferentes
3)Vigilância e medo
4) Alerta ou a recusa de confessar a contaminação
5) Horror da Crise
6)Tempo de cura.
A crônica de uma cidade atacada pela peste desenha uma espécie de
dramaturgia biológica e comportamental. As regras e atitudes sucessivas que as
autoridades vão tomar diante de um período de infestação se repetem sem grandes
mudanças em diversas cidades. Podemos dizer, grosso modo, que essas decisões
respondem à pressões populares e se orientam a partir de precauções que visam
confirmar a realidade da cura e impedir a reintrodução de um mal.
E é nesse sentido que podemos dizer que doença e política são inseparáveis. Por
uma via, há uma reação institucional a partir da qual autoridades se organizam e
policiam. A resposta oficial se ampara sobre um período de observação, quarentena e
5
confinamento. A população é investigada, avaliada, enumerada e tratada. A emergência
decreta sanções a favor do Estado de controle.
Buscamos na literatura e no teatro, exemplos que de alguma forma apresentam o
tema da epidemia como pano de fundo para o contexto da difusão de ideias, ações e
gestos políticos. Em uma passagem de A Peste, Albert Camus fala da cidade cercada e
apartada pela peste:
(...) mas, na realidade, podia-se dizer nesse momento, nos meados do mês de agosto,
que a peste dominara tudo. Já não havia então destinos individuais, mas uma história
coletiva que era a peste e sentimentos compartilhados por todos. O maior era a
separação e o exílio, com o que isso comportava de medo e de revolta. (155) 3
Para pôr em prática medidas cruéis e muitas vezes impopulares – como o
fechamento de fronteiras para estrangeiros, o isolamento dos doentes, a destruição dos
bens dos contaminados, a punição de contraventores – o reino, burgo ou Estado,
geralmente dispõe somente de uma guarda de homens fracos e mal preparados.
Uma cidade empesteada vê sua ordem desmoronar. De nada adianta o poder do
Estado, do exército e da polícia. Os médicos, diante do terror, revelam-se
completamente ignorantes. As fogueiras multiplicam-se pelas ruas e nelas as famílias
queimam os seus mortos. Conforme o número de contaminados cresce, essas fogueiras
passam a ser disputadas com maior violência. Homens, que antes dos sintomas
desprezavam os pestíferos com orgulho e náusea, percebem-se tomados, da noite para o
dia, pelas mesmas características que até então desdenhavam. Os sobreviventes,
atordoados pelo desvario, invadem as casas desprotegidas e roubam objetos e riquezas
que não tem mais utilidade alguma.
Contudo, se por um lado há terror, por outro, o perigo reforça mais do que
nunca um sentimento de solidariedade entre os seus habitantes. Há uma perturbação dos
humores no que parece solidificado. Uma mudança irreversível, um acontecimento
irreparável, mas não finalizado. As alterações promovidas pela peste não dizem respeito
somente a um indivíduo, mas a um encontro de múltiplas personalidades. Elas agem na
transformação de uma coletividade. A pulsação da desordem leva os participantes aos
3
Minha tradução para : « Mais, en fait, on pouvait dire à ce moment, au milieu d’août, que la peste avait
tout recouvert. Il n’y avait plus alors de destins individuels, mais une histoire collective que était la peste
et des sentiments partagés par tous. Le plus grand était la séparation et l’exil avec ce que cela comportait
de peur et de révolte ». (CAMUS, 2015, p.155)
6
gestos mais extremos. E é no esgotamento destes gestos que se abre espaço para o
impossível. Após a destruição, a população se une para limpar e perfumar as ruas,
varrer as cinzas dos objetos queimados e os restos das casas abandonadas, que
pertenceram aos pestíferos.
Ainda que o controle seja extremamente forte em contextos de epidemia, a
anarquia e o hedonismo são práticas notórias diante de uma doença: bebedeira, crimes e
outros atos considerados imorais aparecem à tona. Ambas as respostas constituem
espetáculos dramáticos e um tipo de posicionamento estimula o outro. O confinamento
forçado estimula atos de rebeldia à favor da liberdade, que por sua vez são contidos
ainda com maior rigidez. Em uma passagem de Décameron, Boccacio narra:
Outros, dados a opinião contrária, afirmavam que o remédio infalível para tanto mal era
beber bastante, gozar, sair cantando- divertir-se, satisfazer todos o desejos possíveis, rir
e zombar do estava acontecendo; e punham em prática tudo o que diziam sempre que
podiam, passando dia e noite ora nesta taverna, ora naquela, bebendo sem regra nem
medida, fazendo tais coisas muito mais nas casa alheias, apenas por sentirem gosto ou
prazer em fazê-las. (23)
Boccacio usa também a palavra “espetáculo” (25) para falar dos efeitos teatrais
da peste. Palavra essa que não passou incólume por escritores e dramaturgos do século
XX. Autores como Antonin Artaud, Karel Capek, Albert Camus lidam com a dimensão
política da encenação da Peste.
Segundo Artaud, em O Teatro e a Peste (1964), momentos de conflitos e
agitações políticas ou naturais constituem épocas em que um imaginário mais profundo
pode ser liberado nas mentes das pessoas. Artaud enxerga a doença como uma entidade
física e não como um vírus. Para ele, acontecimentos como a peste impõem uma grande
mudança social, na medida em que o comportamento humano acaba por contradizer a
lógica e o sentido das convenções sociais. Trata-se de uma experiência coletiva com
fortes consequências psíquicas.
Sua proposta não se dirige a um embate ou a construção de um programa
político, no sentido de um projeto social ou partidário. O teatro de Artaud não se agita
em prol de uma causa particular. Sua força política corresponde ao abalo promovido
nas bases do teatro, da arte e da vida. O teatro pestífero de Artaud aparece como
“vitorioso e vingativo”. As imagens latentes se ampliam através dos “gestos mais
7
extremos” que reforçam “o elo entre aquilo que é e aquilo que não é, entre a
virtualidade do visível e aquilo que existe na natureza materializada” (34) 4.
No teatro de Artaud, a peste não é representada enquanto tema. A peste é o
teatro. A peste é teatral e o teatro é pestífero no que diz respeito a seus efeitos cênicos e
físicos. Citando Ana Kiffer em uma passagem do livro Antonin Artaud: uma poética do
pensamento, na qual ela fala do potência da contaminação na obra do artista podemos
dizer que: “o corpo estilhaçado por uma linguagem partida pode assim se anunciar
novo, retomar as perguntas sobre a origem a partir de um outro lugar” (63).
Tanto o teatro, quanto a peste induzem a um delírio comunicativo, afetam
coletividades e podem promover importantes e poderosas possibilidades imaginativas
para além das imagens que nos atravessam na vida cotidiana. O estremecimento do
controle das instituições de autoridade e a profusão de diferentes programas e
propostas, muitas vezes divergentes entre si, serão fundamentais pra a compreensão dos
nossos objetos de estudo do século XXI.
Em Os Anormais, Foucault (1995) menciona a importância de uma “literatura
da peste”, que segundo ele, lida com a “decomposição da individualidade” (43). Há,
segundo o autor, uma espécie de sonho orgiástico nesse tipo de texto. Meio a um
cenário de grande confusão e pânico, ameaçados pela morte que transita, os indivíduos
jogam fora suas máscaras. O momento do surto de peste é o momento em que toda a
regularidade da cidade é suspendida. A lei é esquecida. A peste atravessa as regras
sociais e as regras dos corpos. Estes são alguns dos sonhos da literatura da peste.
Contudo, Foucault faz questão de marcar outras possibilidades de sonhos da
peste: um sonho em que o poder político é exercido de maneira plena. A declaração da
peste é também o momento no qual a população é enquadrada em seu ponto mais
extremo. Cada movimento individual é decodificado: cada tempo, cada espaço, cada
corpo. A mesma peste que carrega consigo o sonho literário e até mesmo teatral de uma
grande orgia, apresenta também o sonho político de um poder exaustivo e sem
obstáculos, exercido plenamente. Há uma forte relação entre o sonho de uma sociedade
militar e o sonho de uma sociedade pestífera. Sonhos nascidos justamente entre os
séculos XVII e XVIII. Não por acaso muitas das obras trazidas para esta pesquisa são
4
Minha tradução para : “la chaîne entre ce qui est et ce qui n’est pas, entre la virtualité du possible et ce
qui existe dans la nature materialisée” (ARTAUD, 1964, p. 34).
8
percebidas por diversos críticos como uma metáfora de sistemas totalitários, como o
nazismo, por exemplo.
Foucault é evocado de maneira fundamental neste capítulo, não para negar a
potência das “teorias da peste” enquanto instrumento de observação das grandes
encenações de nossa cidade, mas sim, para nos fazer indagar os diferentes rumos que a
política em “épocas de peste” podem tomar. Se por um lado, uma descrença nos valores
solidamente instituídos se apresenta durante os momentos de crise; por outro, o
desespero diante de uma catástrofe desmesurada pode conduzir uma coletividade a
pensamentos totalitários e a desejos de repressão, a partir da imposição de uma violenta
ordem. É sob esta perspectiva que seguimos para uma reflexão sobre possíveis
encenações da vida urbana, na segunda década do século XXI.
Peste e Política
Levando a reflexão política, estética e filosófica da peste para o campo dos
acontecimentos atuais, podemos dizer que o início da segunda década do século XXI
vem sendo marcado por uma eclosão viral de movimentos e mobilizações sociais por
todo o mundo. Tunísia, Líbia, Egito, Iêmen, Belarus, Grécia, Turquia, Espanha,
Portugal, França, Inglaterra, Estados Unidos, Chile, Brasil, entre outros países. Tendo
como pano de fundo uma crise econômica e social que já vinha se agravando desde
2008, movimentos presentes nestes e em outros países propagaram-se de forma
epidêmica. Nos Estados Unidos, a ocupação de Wall Street repercutiu em centenas de
cidade, em protestos e greves baseados na denúncia de bancos e corporações. No norte
da África e em alguns países árabes, as revoltas se organizaram a partir de uma
necessidade democrática em oposição a um longo período de ditadura. Na América
Latina, a reivindicação estudantil contou com o apoio de diversos setores.
Ainda que apresentassem reivindicações específicas em cada região, muitos
destes atos estruturam-se sob formas de luta semelhantes. Além da revolta diante de
uma certa ilusão democrática, os acontecimentos em questão trazem uma espécie de
catarse, uma consciência de solidariedade mútua e um êxtase político no qual os
envolvidos sentem-se parte de um processo coletivo difundido algumas vezes pela TV,
algumas vezes pelos jornais e principalmente pela internet. Henrique Soares Carneiro
(2012), na introdução da coletânea Occupy: movimentos de protesto que tomaram as
ruas, diz: “houve uma sincronia cosmopolita febril e viral de uma sequência de
9
rebeliões quase espontâneas surgidas na margem sul do Mediterrâneo e que logo se
manifestaram na Espanha com os Indignados da Puerta del Sol, em Portugal, com a
Geração à Rasca, e na Grécia, com a ocupação da Praça Syntagma”. (8)
A ocupação das praças e dos espaços públicos, bem como a articulação desses
movimentos por meios e redes alternativas de comunicação constituem pontos em
comum das linhas de ação. A rebelião popular volta a ser um tema frequente na vida
dos cidadãos, não sendo raras as comparações com o ano de 1968 e até mesmo com
insurreições mais antigas, como a Primavera do Povos, em 1848.
A ideia de ocupação das ruas vista nos últimos anos nas grandes cidades mostra
a força e a potência de se permanecer parado em um ambiente destinado à circulação. O
que há de transgressor na ausência de movimento? Porque simplesmente permanecer
em um espaço causa tanto incômodo? De que maneira o gesto de “ocupar” se relaciona
com o gesto de “se apropriar”?
Algo que chama a atenção nestes movimentos de contestação é o fato deles
escaparem ao lugar-comum destinado aos protestos no espaço urbano. Estes
aglomerados revelam na adoção de determinados códigos gestuais um outro tipo de
opção estética, para além de cartazes e megafones. Em Belarus, por exemplo, no ano de
2011, centenas de pessoas foram para as ruas e ao invés de gritarem slogans de luta,
usaram o “aplauso” como forma me protesto. O então presidente Alexander
Lukashenko, em reação a esse episódio, tornou ilegal o aplauso público no país. Na
Turquia, em 2013, vários manifestantes permaneceram parados e em silêncio na Praça
Taksim, seguindo o exemplo do ator Erdem Gündüz, que havia passado horas em pé,
olhando para o Centro Cultural Ataturk, alvo de protestos devido à ameaça de ser
transformado em um centro comercial. Em diversas cidades do Brasil, a Marcha da
Vadias ocorre anualmente, desde 2011, como forma de protesto feminista contra à
cultura do estupro, a proibição do aborto e a violência sofrida por mulheres e
transgêneros.
Arte e política aparecem mais do que nunca como atividades mutuamente
constitutivas, que se reconhecem na possibilidade de desorganização de hábitos,
comportamentos e pensamentos previamente estabelecidos. É no exercício do dissenso
do que até então se apresentava como norma e também, em alguns casos, em práticas
de ruptura, que ambas se encontram. Arte e política confundem e redistribuem
territórios visíveis (corpos, espaços, arquiteturas), dizíveis (discursos, leis) e sensíveis
(forças, subjetividades, afetos, desejos).
10
A polícia reprime cega e deliberadamente aquilo que não consegue
compreender, enquanto uma parcela da imprensa mundial, de acordo com os seus
interesses, transforma os manifestantes em lunáticos alienados sem real compreensão
dos problemas. Os atos são noticiados como violentos e radicais, ainda mais quando os
participantes acendem fogueiras nas ruas ou quebram carros, bancos e monumentos.
Mas o que é essa violência quando comparada a todos os aparatos que sustentam a
economia capitalista global? E aliás, será que é mesmo o suposto vandalismo que tanto
apavora as instâncias do poder dominante?
É inegável a pluralidade de desejos e programas dos aglomerados sociais que
aparecem como objetos de estudo desta tese. A noção de identidade se mostra no século
XXI de maneira bastante complexa. O aprofundamento da temática revelada em
diferentes discursos e produções é fundamental para a investigação do campo do
pensamento urbanístico e da cidade enquanto palco de representações das relações
humanas. Tal conceito apresenta características diferentes daquelas lançadas por
teóricos da modernidade.
Apesar das críticas e da resistência, muitos observam na ausência de definição e
programa destas insurreições, um vazio muito potente capaz de instaurar um espaço
para o novo impensado. Estas ações se estabelecem como uma espécie de resposta a
questões que ainda não puderam ser formuladas; provavelmente porque os conceitos
utilizados atualmente, como “democracia”, “liberdade” e “direitos”, se apresentam em
conflito com a realidade em que se desenvolvem. Somente a partir de questionamentos
que já estão sendo feitos e dos que ainda estão por vir é que se poderá criar novos
programas, novas palavras, novos conceitos.
Hoje, precisamos lidar com assuntos como a viralização na internet, dissolução
de gêneros e o surgimento de novos grupos e movimentos sociais que se estabelecem a
partir de novas necessidades. Para pensar questões relativas a identidades pessoais,
coletivas, fragmentárias, plurais, culturais, nacionais, memoriais, sexuais e linguísticas,
Evelyne Grossman (2009) coloca a seguinte questão: “que pertencimentos a prática do
‘viver junto’ deve reinventar?5” (4). Se o que está em jogo é uma catástrofe de grande
escala, como aproveitar o acontecimento que se apresenta, abrindo portas para o
impensável, ao invés de apenas intensificar formas extrema já conhecidas? É preciso,
segundo Grossman, defrontar-se com a questão do como e do comum, “sugerindo
5
Minha tradução para : “quelles appartenances pour quel vivre ensemble à reinventer?” (4)
11
novas formas coletivas de identificação para além da conduta gregária, para além do
totalitarismo6”(4). Reconhecer o potencial de transformação destes atos, não significa
“passar a mão” na cabeça dos manifestantes. Alguma coisa está para acontecer e é
importante não perder de vista a responsabilidade pelo ainda desconhecido. “Que
organização social pode substituir o capitalismo atual? De que tipo de novos líderes
precisamos? E de que orgãos, incluindo aqueles de controle e de repressão?”(Zizek, 16)
Há um caminho a ser percorrido e não demorará muito para que tenhamos que
dizer aquilo que queremos. Entretanto, há também um caráter extremamente subversivo
na ausência ou na confusão de palavras de ordem e de identidades partidárias.
Considerando a relação fundamental entre o humano, o animal e o contágio; e
tendo em vista os objetos de estudo do capítulo seguinte, traremos a noção de “devir-
animal”, de Gilles Deleuze e Félix Guatarri (1972), presente em Mille Plateaux, para
esta pesquisa. Segundo Deleuze e Guatarri, o devir-animal está sempre relacionado “a
um conjunto, a um bando, a uma população, a um povo, logo à uma multiplicidade 7”
(292). O que esta em jogo para nós na relação entre o devir-animal e o contágio é a
possibilidade de contaminação entre diferentes espécies: homens, animais, insetos,
bactérias. Um tipo de propagação que carrega consigo a marca da heterogeneidade, a
partir de combinações que não são hereditárias, nem genéticas e que abarcam
posibilidades de diferentes reinos.
As mobilizações que nos inspiram aqui, lidam com a ideia de contágio, na
medida em que seus impulsos e formas se espalham não apenas através do contato
presencial, mas também por outras vias, como a internet, por exemplo. Há uma força
epidêmica que ultrapassa as fronteiras territoriais. Não sabemos exatamente qual a
origem, nem porque caminhos estes movimentos se espalham e se ligam. Também não
é possível traçar com precisão um único perfil ou motivação daqueles indivíduos que
lhes conformam.
A presença de grupos e gestos que se influenciam, assim como a propagação de
ideias e discursos, não pode ser vista de maneira linear. É possível que não haja apenas
um “vírus”, mas uma porção deles, vindos de diferentes lugares, vírus que se
6
Minha tradução para : “en suggérant de nouvelles formes collectives d’identification, hors suivisme
grégaire, hors totalitarisme” (4).
7
Minha tradução para : « à une meute, à une bande, à une population, à un peuplement, bref à une
multiplicité » (292).
12
reconhecem, se encontram, se modificam, tornam-se mais fortes ou se aniquilam. É sob
esta perspectiva que seguimos para uma reflexão sobre possíveis encenações da vida
urbana, na segunda década do século XXI.
Voltando às referências literárias, segundo Artaud, a peste mais terrível e
potente é aquela que não tem uma única face. Diferente do mito agregador da religião,
da psiquiatria, do Estado, da uniformização na prisão, nos orfanatos; o gesto criado
coletivamente reúne corpos para desagregar e desorganizar organismos institucionais.
O corpo sem órgãos de Artaud aparece como o corpo de uma gestualidade não-
subordinada, liberada, afetada, ativada, em composição criadora. Para Artaud, há gestos
de pensamento que não podem ser exprimidos pelas palavras. Seus gestos são
impulsivos, explosivos, repulsivos, da ordem de um golpe e da recusa a subordinações
tidas como orgânicas.
É nesse sentido que a ausência de uma única palavra de ordem ou a profusão de
inúmeros discursos e interesses, muitas vezes contraditórios entre si, nos inspira a
imaginar uma política incessante, que não para de se repensar, reagir, recriar. A reunião
de diferentes corpos em um mesmo gesto, nestas ações, não se estabelece pela
orientação de um único desejo. Pelo contrário, o coro provisório, formado pelas
multidões, grita de modo dissonante e desafinado que existem muitas diferenças nas
cidades e que essas diferenças não podem ser vistas de modo apaziguado.
Qual o alcance de um gesto coletivo no cenário caótico urbano? Em que medida
estas mobilizações desempenham o papel de coro da nossa Tragédia contemporânea?
Como devemos reconhecer estes grupos? Coletivos provisórios, aglomerados,
multidões? Que relações entre identidade e multiplicidade podem ser destacadas nestes
movimentos?
Os gestos coletivos de resistência têm como ponto em comum um desejo de
eliminação de um sentimento de servidão. Parecem se estruturar a partir de uma
necessidade de libertação de determinadas relações de subordinação. Por exemplo,
trabalhadores que reivindicam maior participação nas decisões políticas ou que têm
como objetivo menos submissão no que diz respeito a uma instância dirigente. Seus
gestos coletivos são gestos políticos em relação a outros gestos de poder. Tais gestos
são gestos “intergestuais” (Roy, 241). Muitas são as possibilidades de gestos
intergestuais: podemos ser portadores dos gestos os quais nos opomos; podemos
interromper um gesto (fazer uma greve ou a resistência de Bartleby); podemos nos
desviar, fugir, ou efetuar diferentes tipos de contra-condutas; etc.
13
É notável que o gesto político de alguma forma está ligado a um gesto de
recusa. Estes gestos em particular não implicam necessariamente em um ato. Eles
jogam no nível afetivo do pensamento: nos opomos a um gesto que somos solicitado a
efetuar. Quais seriam então as condições para que sejam liberados novos gestos
políticos, gestos inaugurais? Uma situação política torna-se insustentável. O gesto
coletivo tem um desejo emancipador.
Nesse sentido é possível dizer que o gesto não está ligado necessariamente a um
ato corporal. Ele pode aparecer na forma de um gesto de pensamento. O gesto pode ser
percebido também como aquilo que conecta um ato a uma virtualidade. Por exemplo,
um historiador que “corta”, decupa períodos históricos. O gesto, mesmo quando
manifestado em forma de ato está ligado à uma memória, à uma condição de memória
de outros gestos, que de alguma forma são repetidos ou reativados. Todo gesto político
de alguma forma implica em uma responsabilidade, na medida em que está ligado a
uma tomada de consciência.
Gestos coletivos de resistência, como no caso das manifestações, dos motins,
dos combates, supõem uma confluência de diferentes centros, de cada indivíduo,
colocados em contato, no lugar onde o acontecimento se dá. Como uma orquestra que
joga com o “gesto sonoro” de apresentar uma música a partir do gesto de diferentes
instrumentistas, o gesto coletivo político também se dá por uma relação de
concentração.
Os centros de gravidade não necessariamente são únicos a cada acontecimento.
Cada centro está potencialmente ligado a diferentes centros. Quando determinados
centros não estão de acordo podem provocar um desequilíbrio. Mas esse desiquilíbrio
não precisa ser visto apenas de maneira negativa. Muito pelo contrário. Para a dança o
desequilíbrio é fundamental na medida em que convoca novas formas de equilíbrio, não
como resultado, mas enquanto processo. O equilíbrio instável não tem um ponto fixo ou
um centro único, mas diferentes formas de suporte e centros múltiplos e heterogêneos.
As resistências internas ao desequilíbrio que são organizadas pelos músculos do sistema
gravitacional dão qualidade e carga afetiva aos gestos.
A adoção de uma mesma imagem gestual em uma manifestação não pretende
uma unidade. Os corpos se juntam para fazer volume e gritar ao mundo (ainda que
muitas vezes, literalmente, de modo silencioso) que é preciso se transformar. A peste
enquanto protesto revela uma ferida que não pode ser facilmente controlada, maquiada,
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disfarçada. E é sobre o seu viés, político, filosófico e estético que nossa pesquisa ganha
(e perde) corpo. Sobre esse palco/ rua assistimos e atuamos em nosso teatro/ baile/ vida.
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