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AÇÃO CIVIL PÚBLICA DA DPU de Demarcação Da Terra Indígena de Laranjeiras

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Justiça Federal da 1ª Região

PJe - Processo Judicial Eletrônico

14/10/2024

Número: 1007859-58.2024.4.01.4005
Classe: AÇÃO CIVIL PÚBLICA
Órgão julgador: Vara Federal Cível e Criminal da SSJ de Corrente-PI
Última distribuição : 09/10/2024
Valor da causa: R$ 1.412,00
Assuntos: Direitos Indígenas, Terras Indígenas, Demarcação
Segredo de justiça? NÃO
Justiça gratuita? SIM
Pedido de liminar ou antecipação de tutela? SIM
Partes Procurador/Terceiro vinculado
DEFENSORIA PUBLICA DA UNIAO (AUTOR)
FUNDACAO NACIONAL DOS POVOS INDIGENAS - FUNAI
(REU)
INSTITUTO NACIONAL DE COLONIZAÇÃO E REFORMA
AGRÁRIA - INCRA (REU)
INSTITUTO DE TERRAS DO PIAUI INTERPI (REU)
Ministério Público Federal (Procuradoria) (FISCAL DA LEI)
Documentos
Id. Data da Documento Tipo Polo
Assinatura
215237119 09/10/2024 20:08 Petição inicial Petição inicial Externo
9
Documento id 2152371199 - Petição inicial

DEFENSORIA PÚBLICA DA UNIÃO NO PIAUÍ


Rua Rio Grande do Sul, nº 585, Ilhotas, Teresina-PI, CEP 64001-550, Telefone: (86) 3194-8800, E-mail: [email protected].
Gabinete do Defensor Público Federal Regional de Direitos Humanos no Estado do Piauí

EXCELENTÍSSIMO(A) SENHOR(A) JUIZ(ÍZA) FEDERAL DA VARA


ÚNICA DA SUBSEÇÃO JUDICIÁRIA DE CORRENTE-PI,

A DEFENSORIA PÚBLICA DA UNIÃO1, por intermédio do Defensor


Regional de Direitos Humanos no Estado do Piauí, que esta subscreve, vem, respeitosamente,
com fundamento no art. 5º, inciso LXXIV, c/c o art. 134 da Constituição da República
Federativa do Brasil, e com base no art. 4º, incisos VII, VIII, X e XI, da Lei Complementar nº
80/94, e no art. 5º, II, da Lei nº 7.347/1985, ajuizar

AÇÃO CIVIL PÚBLICA


– COM PEDIDO DE TUTELA DE URGÊNCIA –

em face da FUNDAÇÃO NACIONAL DOS POVOS INDÍGENAS – FUNAI , fundação


vinculada ao Ministério da Justiça e Segurança Pública, com sede com jurisdição sobre o Estado
do Piauí situada na Rua Gervásio de Castro, n° 53, Bairro Benfica, CEP: 60.015-343, Fortaleza-
CE, a ser citada por meio da sua Procuradoria Federal Especializada; do INSTITUTO DA
REGULARIZAÇÃO FUNDIÁRIA E DO PATRIMÔNIO IMOBILIÁRIO DO ESTADO
DO PIAUÍ – INTERPI, autarquia estadual, inscrita no CNPJ sob o nº 06.718.282/0001-43, a

1
PAJ nº 2024/015-01633.

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ser citada na pessoa do seu Diretor-Geral, com endereço na Av. Miguel Rosa, nº 2862, Centro
(Norte), CEP: 64000-480, Teresina-PI; do INSTITUTO NACIONAL DE COLONIZAÇÃO
E REFORMA AGRÁRIA – INCRA, autarquia federal vinculada ao Ministério do
Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar, com endereço na Av. Odilon de Araújo, nº
1296, Bairro Piçarra, CEP: 64.017-280, Teresina-PI, a ser citada por meio da sua Procuradoria
Federal Especializada, com base nos fatos e fundamentos jurídicos a seguir delineados.

I. SÍNTESE FÁTICA

A presente demanda visa a demarcação do território tradicionalmente ocupado


pela comunidade indígena Laranjeiras, território tradicional do povo Akroá Gamella, situado
no município de Currais-PI.
Segundo dados do Censo Demográfico de 2022, realizado pelo Instituto Brasileiro de
Geografia e Estatística – IBGE, a população indígena no Estado do Piauí é de 7.198 (sete mil,
cento e noventa e oito) pessoas. O Município de Currais-PI possui 4.844 (quatro mil, oitocentos
e quarenta e quatro) habitantes, sendo que 324 (trezentos e vinte e quatro) se autodeclaram
indígenas, o que corresponde a 6,69% (seis vírgula sessenta e nove por cento) da população do
município.
Estão incluídos na população indígena de Currais-PI os Akroá-Gamella da Aldeia
Laranjeiras que há muito tempo lutam pelo reconhecimento dos seus direitos originários sobre
as terras que tradicionalmente ocupam.
Consoante Informação Técnica nº 1207/2023/COIM/CGID/DPT-FUNAI (Anexo 01),
tramita na Fundação Nacional dos Povos Indígenas – FUNAI o Processo nº
08620.012443/2018-95, que trata a respeito de reivindicação fundiária do Povo Gamela do
Piauí, composta por várias comunidades, sendo uma delas a Aldeia Laranjeiras.
No entanto, a mesma Informação Técnica destaca que:

“[...] considerando o contexto de atendimento das decisões judiciais e


priorização das reivindicações mais antigas e de acordo com as situações de

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vulnerabilidade, conforme apontado por ranqueamento das reivindicações


fundiárias indígenas realizado pela equipe técnica com a finalidade de operar
de modo mais equânime o atendimento das solicitações de reconhecimento de
direito territorial, com o déficit crônico de servidores, não é possível, neste
momento, indicar uma previsão para planejar a constituição de GT para
iniciar os estudos multidisciplinares de identificação e delimitação das áreas
reivindicadas no estado do Piauí.” (Grifou-se)

Tal reivindicação encontra-se em qualificação, restando pendente a constituição de


grupo técnico para conduzir os estudos de identificação e delimitação das terras indígenas. Essa
constatação é desalentadora, não só pelo longo período já decorrido sem providências efetivas
para a demarcação das terras indígenas, mas também pela inexistência de qualquer previsão de
início dos estudos necessários.
Desde o ano de 2018 até o presente ano de 2024, sequer houve a constituição do citado
Grupo Técnico, o que mantém o processo demarcatório estacionado, comprovando indevida e
mora excessiva no procedimento de reconhecimento e demarcação do referido grupo étnico.
Esse quadro é extremamente preocupante quando se tem em conta a quantidade de
comunidades da etnia Gamela no Piauí (situadas nos municípios de Santa Filomena, Baixa
Grande do Ribeiro, Bom Jesus, Currais e Uruçuí) que integra o processo administrativo
mencionado, cada qual com suas especificidades.
A demora da FUNAI, por sua vez, também acarreta imenso prejuízo ao direito
territorial dos indígenas, por conta do advento de grandes empreendimentos e crescimento de
atividades econômicas no Sul do Piauí, sobretudo mediante a expansão do agronegócio,
principal causador de disputa pelas terras produtivas e pelos recursos hídricos na região.
Em fevereiro de 2024, foi veiculada notícia2 no sítio eletrônico do Governo do Estado
do Piauí informando acerca de empreendimento rodoviário com impacto direto no território
indígena de Laranjeiras:

2
Disponível em: https://www.pi.gov.br/noticia/se-1. Acesso em: 02 out. 2024.

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“Para facilitar o escoamento da produção de grãos na região dos Cerrados,


o Governo do Piauí, por meio da Secretaria de Estado dos Transportes
(Setrans), deu início às obras de implantação e pavimentação asfáltica da
rodovia PI-392, entre o município de Currais e o entroncamento da rodovia
PI-397 (Transcerrado). O trecho corresponde ao Lote 2 da rodovia.
A Setrans aguardava a análise e aprovação da readequação do projeto
executivo da obra pela Caixa Econômica Federal (CEF) para iniciar os
trabalhos. Com as alterações, o Lote 1, com previsão inicial de 15
quilômetros, teve a extensão ampliada para 30 quilômetros. Já o Lote 2, antes
com 34 quilômetros, terá 19 quilômetros de extensão. Os dois lotes totalizam
49 quilômetros.” (Grifou-se)

Na Informação Técnica nº 16/2024/Segat - CR-NE-II (Anexo 02), a FUNAI explica


que as obras da mencionada rodovia foram iniciadas sem processo de consulta livre, prévia e
informada da comunidade indígena, senão vejamos do seguinte trecho:

“De acordo com os relatos apresentados, a comunidade foi surpreendida no


início de fevereiro de 2024 com máquinas realizando a supressão vegetal de
uma parcela do território. A área corresponde a um trecho transversal à
estrada não-pavimentada (PI-392) já existente - que havia suprimido uma
extensa área de vegetação preservada. Além disso, o trecho em questão
destruiu áreas de roçado utilizadas tradicionalmente pelos/as indígenas para
o cultivo de macaxeira, mandioca e arroz.
3.8. A comunidade informou que não houve nenhum processo de consulta
livre, prévia e informada. Assim, as famílias souberam apenas que se tratava
de um novo traçado da rodovia não-pavimentada já existente - que interligava
a sede municipal de Currais - PI, atravessando a Serra de Laranjeiras e
findando na rodovia Transcerrados [...].
3.9. As lideranças argumentaram que aquelas intervenções não poderiam ser

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realizadas dessa forma, que os roçados tinham sido destruídos e que a


abertura de uma estrada naquela área traria novos problemas decorrentes do
avanço do agronegócio em áreas que estavam preservadas.”

Essa violação ao direito de consulta das famílias indígenas direta e indiretamente


afetadas pelo empreendimento se dá, em grande parte, pela ausência de terras indígenas
demarcadas pela FUNAI no Estado do Piauí, o que torna mais fácil a omissão de informações
quanto à existência de comunidades indígenas no processo de licenciamento ambiental.
É nesse cenário, acrescente-se, que surge como alternativa buscada pela comunidade
o procedimento de regularização fundiária conduzido pelo Instituto de Regularização Fundiária
e Patrimônio Imobiliário do Piauí – INTERPI que envolve, segundo aquele Instituto Estadual,
as terras públicas de domínio do Estado do Piauí.
No caso em específico, está em curso no INTERPI o Processo nº 00071.003421/2021-
91 (Anexo 03), que, nos termos da Portaria nº 289/2021/DG/INTERPI (pág. 01), trata a respeito
de “regularização fundiária território indígena Laranjeiras, do Povo Indígena Gamela, que se
autodenomina ‘comunidade indígena Laranjeiras do Povo Gamela’, localizado no Município
de Currais, no Estado do Piauí”.

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Do referido processo do INTERPI é possível extrair mapa (pág. 49) com a localização
da área que seria a reivindicada pela comunidade indígena:

Consta expressamente do referido processo do INTERPI, em Parecer Técnico (pág.


47), que “a área está cadastrada no INCRA como Projeto de Assentamento Estadual – PE
LARANJEIRAS no Sistema de Informações de Projetos de Reforma Agrária – SIPRA”.
A existência desse Projeto de Assentamento Estadual, com pessoas que não se
reconhecem como indígenas, é um ponto que gera divergência entre assentados e indígenas
quanto à forma de titulação da área pelo INTERPI (individual para assentados ou coletiva para
indígenas).

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O momento em que ficou bastante evidenciada essa divergência ocorreu no dia 10 de


agosto de 2021, quando foi realizada pelo INTERPI uma Consulta Prévia com assentados e
indígenas de Laranjeiras a respeito da construção de uma rodóvia no território. A seguir o Aviso
de Consulta Prévia (pág. 03 do Anexo 03):

Na data da Consulta Prévia, 22 (vinte e duas) pessoas indígenas se manifestaram contra


a titulação individual, desejando o reconhecimento do território como área indígena, não como
assentamento (vide págs. 35 a 37 do Anexo 03).
Aqui importa destacar que, por mais que a aceitação da titulação individual como
assentados pelas famílias indígenas pareça ser a solução para as controvérsias possessórios
existentes na área em questão, o território Laranjeiras se trata de área visada por fazendeiros
devido ao seu grande potencial produtivo e hídrico, bem como que a busca pelo reconhecimento
dos direitos originários sobre as terras indígenas faz parte de um contexto de luta para evitar a
invisibilização e apagamento histórico desses povos e de suas tradições culturais.

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Frise-se que, de acordo com os arts. 20, inc. IX e 231, § 5º da Constituição Federal, as
terras tradicionalmente ocupadas pelos indígenas são bens da União, a quem compete demarcá-
las, sendo nulos e extintos, não produzindo efeitos jurídicos, os atos que tenham por objeto a
ocupação, o domínio e a posse dessas terras.

II. PRELIMINARMENTE

II.1. DA LEGITIMIDADE ATIVA DA DEFENSORIA PÚBLICA DA UNIÃO E DO


CABIMENTO DA PRESENTE AÇÃO CIVIL PÚBLICA NA JUSTIÇA FEDERAL

O artigo 134, caput, da Constituição Federal de 1988 estabelece o seguinte:

“Art. 134. A Defensoria Pública é instituição permanente, essencial à


função jurisdicional do Estado, incumbindo-lhe, como expressão e
instrumento do regime democrático, fundamentalmente, a orientação
jurídica, a promoção dos direitos humanos e a defesa, em todos os
graus, judicial e extrajudicial, dos direitos individuais e coletivos, de
forma integral e gratuita, aos necessitados [...]”.

Além disso, a Lei Complementar nº 80/1994, no seu artigo 7º, dispõe:

“Art. 4º São funções institucionais da Defensoria Pública, dentre


outras: [...]
VII – promover ação civil pública e todas as espécies de ações capazes
de propiciar a adequada tutela dos direitos difusos, coletivos ou
individuais homogêneos quando o resultado da demanda puder
beneficiar grupo de pessoas hipossuficientes;
VIII – exercer a defesa dos direitos e interesses individuais, difusos,
coletivos e individuais homogêneos e dos direitos do consumidor, na
forma do inciso LXXIV do art. 5º da Constituição Federal;

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[...]
X – promover a mais ampla defesa dos direitos fundamentais dos
necessitados, abrangendo seus direitos individuais, coletivos, sociais,
econômicos, culturais e ambientais, sendo admissíveis todas as espécies
de ações capazes de propiciar sua adequada e efetiva tutela;
XI – exercer a defesa dos interesses individuais e coletivos da criança e
do adolescente, do idoso, da pessoa portadora de necessidades
especiais, da mulher vítima de violência doméstica e familiar e de outros
grupos sociais vulneráveis que mereçam proteção especial do Estado;”

O Supremo Tribunal Federal também confirmou a legitimidade da instituição para o


amplo manejo de Ações Civis Públicas, ao julgar, de forma unânime, como improcedente a
ADI n° 3943, em que se questionava a nova redação do inciso II do art. 5° da Lei n° 7.347/85.
No que tange à competência da Justiça Federal para o processamento e julgamento da
presente demanda, é preciso observar o que preconiza o art. 109 do texto constitucional:

“Art. 109. Aos juízes federais compete processar e julgar: [...]


I - as causas em que a União, entidade autárquica ou empresa pública federal
forem interessadas na condição de autoras, rés, assistentes ou oponentes,
exceto as de falência, as de acidentes de trabalho e as sujeitas à Justiça
Eleitoral e à Justiça do Trabalho;
[...]
XI - a disputa sobre direitos indígenas.

O fato de a demanda envolver interesse coletivo indígena é suficiente para atrair a


competência da Justiça Federal, bem como justifica a presença da FUNAI, ao menos como
interessada.
Cabe ressaltar, ainda, que “compete à Justiça Federal decidir sobre a existência de
interesse jurídico que justifique a presença, no processo, da União, suas autarquias ou
empresas públicas”, conforme dispõe a Súmula nº 150 do Superior Tribunal de Justiça.

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II.2. DA CONDENAÇÃO DOS RÉUS EM HONORÁRIOS EM FAVOR DA


DEFENSORIA PÚBLICA EM AÇÕES COLETIVAS

Faz-se imprescindível o pagamento de honorários sucumbenciais em favor desta


Defensoria, a serem revertidos ao Fundo de Aparelhamento da DPU, nos termos do art. 4°,
inciso XXI, da LC 80/942, considerando a autonomia administrativa e financeira que goza a
Defensoria, inclusive reconhecida pelo STF3. Não se tratando de confusão patrimonial entre
esta Instituição e os entes federativos, envolvidos direta ou indiretamente por meio de suas
autarquias e concessionária.
Convém anotar que não se desconhece a jurisprudência dos tribunais superiores, que
aplicam o princípio da paridade, entende-se pela impossibilidade de condenação do réu em
honorários sucumbenciais, salvo comprovada má-fé, assim como acontece com o autor da ação
civil pública. Tais decisões, todavia, foram adotadas em processos que tinham como autores o
Ministério Público4 e a União5.
Em uma análise rápida, pode-se entender que os critérios adotados nas decisões são
também aplicáveis à Defensoria Pública, pelas mesmas razões. Contudo, estes casos
envolveram ações propostas pelo Ministério Público ou pela União, havendo distinção –
distinguishing – com relação ao regime jurídico aplicável à Defensoria.
Embora a figura do Defensor Público também não se confunda com o advogado,
sendo-lhe, além disso, vedado o recebimento de honorários (LC 80/94, artigo 46, III), há
expressa previsão legal na Lei Orgânica Nacional da Defensoria Pública para a instituição
executar e receber as verbas sucumbenciais decorrentes de sua atuação, (artigo 4º, XXI, da Lei
Complementar 80/94).
2
XXI – executar e receber as verbas sucumbenciais decorrentes de sua atuação, inclusive quando devidas por
quaisquer entes públicos, destinando-as a fundos geridos pela Defensoria Pública e destinados, exclusivamente,
ao aparelhamento da Defensoria Pública e à capacitação profissional de seus membros e servidores;
3
É devido o pagamento de honorários sucumbenciais à Defensoria Pública, quando representa parte vencedora
em demanda ajuizada contra qualquer ente público, inclusive aquele que integra. STF. Plenário. RE 1.140.005/RJ,
Rel. Min. Roberto Barroso, julgado em 26/6/2023 (Repercussão Geral – Tema 1002) (Info 1100).
4
STJ. Primeira Seção. EREsp 895530 / PR. DJe 18/12/2009; Segunda Turma. AgRg no REsp 1386342 / PR. DJe
02/04/2014; REsp 1422427/RJ, Segunda Turma, Julgado em, DJE 18/12/2013.
5
EAREsp 962.250/SP. Corte Especial. Relator Ministro Og Fernandes. Julgado em 15.8.2018, DJe 21.8.2018.

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Gabinete do Defensor Público Federal Regional de Direitos Humanos no Estado do Piauí

Embora a figura do Defensor Público também não se confunda com o advogado,


sendo-lhe, além disso, vedado o recebimento de honorários (LC 80/94, artigo 46, III), há
expressa previsão legal na Lei Orgânica Nacional da Defensoria Pública para a instituição
executar e receber as verbas sucumbenciais decorrentes de sua atuação, (artigo 4º, XXI, da Lei
Complementar 80/94).
A previsão contida no artigo 4º, XXI, da LC 80/1994 revela que os honorários devidos
à Defensoria Pública possuem destinação específica, devendo ser empregados exclusivamente
no aparelhamento da instituição e na capacitação profissional de seus membros e servidores,
por meio de fundo gerido pelo respectivo ramo da Defensoria Pública. Não se pode, por
exemplo, destinar tais valores ao pagamento de benefícios pecuniários aos integrantes da
carreira (LC 80/94. Artigos 46, III; 91, III; 130, III).
Tais verbas se mostram essenciais para a manutenção da assistência jurídica pública,
especialmente diante dos custos que precisam ser suportados pela instituição e das limitações
orçamentárias impostas pelo poder público.
Reforçam este argumento as decisões do STJ no sentido de que nos casos de ações civis
públicas ajuizadas por associações (portanto, que não se enquadram nos casos em que os autores
são a União ou o MP), o réu não está isento do pagamento de honorários advocatícios de
sucumbência, não se aplicando o princípio da simetria6.

II.3. DA COMPOSIÇÃO DO POLO PASSIVO

A) FUNDAÇÃO NACIONAL DOS POVOS INDÍGENAS – FUNAI

6 REsp 1.974.436-RJ. Rel. Min. Nancy Andrighi. Terceira Turma. Julgado em 22.03.2022. DJe 25/03/2022; REsp
1.974.436-RJ. Rel. Min. Nancy Andrighi. Terceira Turma. Julgado em 22.03.2022. DJe 25/03/2022; REsp
1.796.436/RJ, Segunda Turma, DJe 18/6/2019; AgInt no REsp 1.818.864/SC, Segunda Turma, DJe 24/4/2020;
STJ, REsp 1.986.814, Terceira Turma, Rel. Min. Nancy Andrighi, j. 04/10/2022.

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A legitimidade passiva da Fundação Nacional dos Povos Indígenas – FUNAI na


presente demanda decorre da sua missão institucional. A lei incumbe à FUNAI a proteção e
promoção dos direitos dos povos indígenas, em nome da União, e essa atribuição é vinculada.
A Lei nº 6.001/73 regula a situação jurídica dos índios ou silvícolas e das comunidades
indígenas, com o propósito de preservar a sua cultura e integrá-los, progressiva e
harmoniosamente, à comunhão nacional. De acordo com o art. 2º dessa Lei, é dever da União
proteger as comunidades indígenas, garantindo-lhes o usufruto exclusivo de suas terras, sendo
que tal competência a União exerce por meio da FUNAI.
Nos termos do art. 2º, I, e II, “c”, do Anexo I do Decreto nº 11.226/2022, compete à
FUNAI, dentre suas finalidades, proteger os direitos dos povos indígenas, em nome da União,
e garantir o cumprimento da política indigenista do Estado brasileiro, com base em princípios.

B) INSTITUTO DA REGULARIZAÇÃO FUNDIÁRIA E DO PATRIMÔNIO


IMOBILIÁRIO DO ESTADO DO PIAUÍ – INTERPI

O Interpi, por sua vez, possui legitimidade passiva na presente demanda em razão da
sua competência de regularizar, na forma da lei, os territórios reivindicados por povos e
comunidades tradicionais, de acordo com o disposto no art. 3º, IX, da Lei Estadual nº
8006/2023, sendo que no caso em específico ele já realizou trabalhos e pretende titularizar a
área.
A política de regularização fundiária no Estado do Piauí é tratada na Lei nº 7.294/2019,
que traz diversos dispositivos alusivos à regularização das terras públicas e devolutas ocupadas
pelos povos e comunidades tradicionais, incluindo os indígenas. Segundo o art. 5º da referida
lei, a destinação das terras públicas deverá observar como prioridade a regularização dos
territórios tradicionais. Complementa, no art. 15, que, em caso de conflito nas regularizações
de ocupações incidentes em terras devolutas ou públicas estaduais, o Estado priorizará a
regularização em benefício das comunidades locais, se o conflito for entre essas comunidades
e particular, pessoa natural ou jurídica.
Preceitua o art. 29 da Lei nº 7.294/2019 que o Estado, através do INTERPI, “procederá

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à identificação e ao mapeamento das comunidades de que trata esta Lei, devendo desenvolver
e manter sistema integrado de informações, envolvendo os órgãos e as entidades da
administração direta e indireta do Estado”. O INTERPI poderá, inclusive, efetivar convênios
com outras instituições para proceder à identificação das comunidades tradicionais.

A) INSTITUTO NACIONAL DE COLONIZAÇÃO E REFORMA AGRÁRIA

A presença do INCRA no polo passivo justifica-se pelo fato de que a certificação do


georreferenciamento de imóveis rurais, criada pela Lei 10.267/2001, é realizada exclusivamente
por este via Sistema de Gestão Fundiária (SIGEF), ferramenta eletrônica desenvolvida para
subsidiar a governança fundiária do território nacional.
Por meio do SIGEF, ocorre a certificação de dados referentes a limites de imóveis
rurais, valendo a certidão para a finalidade legal de se atestar que não há sobreposição com
nenhuma outra poligonal constante do seu cadastro georreferenciado (seja poligonal de imóvel
privado, seja poligonal de áreas públicas, como unidades de conservação e terras indígenas),
para fins do disposto no §5º do art. 176 da Lei n. 6.015/1973. Ocorre que a sobreposição da
propriedade rural com área indígena, ainda que o processo de demarcação não tenha sido
concluído, inviabiliza a certificação de georreferenciamento. Nesse sentido, segue precedente
do Superior Tribunal de Justiça:

“ADMINISTRATIVO. MANDADO DE SEGURANÇA. CERTIFICAÇÃO


DE GEORREFERENCIAMENTO DE IMÓVEL RURAL.
SOBREPOSIÇÃO A TERRA INDÍGENA. INVIABILIDADE.
DECLARAÇÃO DE POSSE INDÍGENA PERMANENTE EM PORTARIA
DO MINISTRO DA JUSTIÇA. RECURSOS DO INCRA E DO MPF
PROVIDOS. [...] VI - O cerne do caso consiste em verificar se há ofensa ao
art. 176, §5°, da Lei n. 6.015/1973, no caso de verificação no sistema do
INCRA de que tenha havido a sobreposição da propriedade com a área
indígena e se tal sobreposição inviabiliza a realização do georreferenciamento,

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mesmo diante da tramitação do processo de demarcação de terra indígena. VII


- A certificação de imóveis rurais foi criada pela Lei n. 10.267/2001, sendo
exigida para os casos de desmembramento, parcelamento ou remembramento
de imóveis rurais, bem como para efetivação de registro, em qualquer situação
de transferência de imóvel rural, nos prazos fixados no Decreto n. 5.570/2005.
VIII - A Lei n. 10.267/2001 determina que caberá ao INCRA certificar que a
poligonal objeto do memorial descritivo não se sobreponha a qualquer outra
constante de seu cadastro georreferenciado e que o memorial atenda às
exigências técnicas, conforme ato normativo próprio. IX - O procedimento de
georreferenciamento integra o registro e dele emanam consequências, pois a
certificação do memorial descritivo do imóvel consta da matrícula. Trata-se
de ato cadastral que visa alcançar a identidade física no território.
X - No caso, houve pedido de certificação de georreferenciamento de imóvel
pelos recorridos-impetrantes, mas o INCRA constatou a ocorrência de
sobreposição com área sob gestão da FUNAI e, diante de manifestação
desfavorável à certificação, o requerimento foi acertadamente indeferido. Tal
constatação de sobreposição independe do procedimento de demarcação das
terras indígenas, em especial nos casos em que estas tenham sido nitidamente
invadidas. XI - As normas legais e infralegais são claras acerca da presunção
de veracidade dos estudos e das informações fornecidas pela FUNAI. E, na
espécie, a área onde está localizado o imóvel Fazenda Água Branca se
sobrepõe à Terra Indígena Taunay-Ipégue, inclusive já declarada de posse
permanente do grupo indígena Terena, pela Portaria 497/2016, do Ministro da
Justiça. Assim, o fato de tramitar procedimento demarcatório das terras
indígenas não afasta a possibilidade de que a propriedade seja da União. XII -
As terras ocupadas pelos indígenas são inalienáveis e indisponíveis, e os
direitos sobre elas, imprescritíveis (§ 4º do art. 231 da Constituição Federal).
Não pode a Administração ser compelida a certificar situação imobiliária em
descumprimento da lei e Constituição, pois são nulos os títulos particulares
sobre terras indígenas, a teor do § 6º do art. 231 da Constituição Federal. XIII
- Equivocou-se o Tribunal de origem ao manter a sentença determinando o

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seguimento ao processo administrativo n. 54290.000169/2012-12,


desconsiderando o óbice à certificação do georreferenciamento do imóvel
‘Fazenda Água Branca’, diante do fato de que o imóvel está sobreposto à Terra
Indígena Taunay-Ipégue. XIV - Agravos do INCRA e do Ministério Público
Federal conhecidos para dar provimento aos recursos especiais, para denegar
a segurança.” (AREsp n. 1.640.785/MS, relator Ministro Francisco Falcão,
Segunda Turma, julgado em 25/10/2022, DJe de 27/10/2022.)
II.4 - DA ISENÇÃO DE CUSTAS E HONORÁRIOS EM AÇÃO CIVIL PÚBLICA

A Lei n° 7.347/85 traz, em seu art. 18, disposição que isenta o Autor do pagamento de
custas e honorários advocatícios na Ação Civil Pública, conforme se observa a seguir:

“Art. 18. Nas ações de que trata esta lei, não haverá adiantamento de
custas, emolumentos, honorários periciais e quaisquer outras despesas,
nem condenação da associação autora, salvo comprovada má-fé, em
honorários de advogado, custas e despesas processuais.”

Dessa forma, por se tratar de Ação Civil Pública, requer-se a dispensa do pagamento
de custas, emolumentos e outros encargos.

III. DO MÉRITO

III.1. O DIREITO DA COMUNIDADE INDÍGENA À DEMARCAÇÃO DO SEU


TERRITÓRIO REIVINDICADO

Os direitos territoriais indígenas devem ser compreendidos muito além da ótica


civilista ou patrimonial. Em uma sociedade pautada pelo pluralismo, como a nossa própria
ordem constitucional reconhece, é imprescindível pensar a realidade de maneira aberta às
múltiplas cosmovisões existentes. Da mesma forma, a análise dos institutos contidos na
Constituição Federal não pode ceder a uma perspectiva unilateral, sob pena de se colocar certos

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grupos em situação de permanente inferioridade.


No caso dos direitos territoriais indígenas, torna-se imperioso percebê-los não a partir
de uma visão unilateral, hegemônica, que remonte ao histórico tratamento de estigmatização e
inferiorização desses povos, mas a partir de uma interpretação do texto constitucional que
identifique a sua fundamentalidade e perceba o desenho constitucional por outras perspectivas,
que não se limitem a um olhar patrimonialista ou a uma subordinação a definições estatais.
Nesse contexto, o direito de propriedade sobre as terras tradicionalmente ocupadas
pelos indígenas deve ser analisado de forma distinta da privada, de modo que a sua proteção
não se limita ao art. 231 da Constituição Federal, mas também ao art. 5º, XXII, que trata do
direito fundamental de propriedade. Trata-se de uma propriedade constitucional, diferente
daquela do direito civil, que prescinde de registro e é moldada por uma relação existencial com
a terra.
As terras tradicionalmente ocupadas pelos índios são bens pertencentes à União (art.
20, inciso XI, da Constituição Federal) e se destinam à posse e ao usufruto das riquezas do solo,
dos rios e dos lagos nelas existentes pelos indígenas. Essa propriedade tem precedência sobre
qualquer outro direito sobre a terra, nos termos do art. 231, § 6º, da Constituição, in verbis:

“§ 6º São nulos e extintos, não produzindo efeitos jurídicos, os atos que


tenham por objeto a ocupação, o domínio e a posse das terras a que se refere
este artigo, ou a exploração das riquezas naturais do solo, dos rios e dos lagos
nelas existentes, ressalvado relevante interesse público da União, segundo o
que dispuser lei complementar, não gerando a nulidade e a extinção direito a
indenização ou a ações contra a União, salvo, na forma da lei, quanto às
benfeitorias derivadas da ocupação de boa fé.”

Nessa esteira, a Declaração das Nações Unidas sobre os Direitos dos Povos Indígenas
de 2007 estabelece que os povos indígenas têm o direito de manter e de fortalecer sua própria
relação espiritual com a terra, territórios, águas, mares costeiros e outros recursos que
tradicionalmente possuam ou ocupem e utilizem, e de assumir as responsabilidades que a esse

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respeito incorrem em relação às gerações futuras (art. 25). Ademais, a Convenção nº 169 da
Organização Internacional do Trabalho sobre Povos Indígenas e Tribais ratifica o dever dos
Estados-partes de respeitarem a importância especial que para as culturas e valores espirituais
dos povos interessados possui a sua relação com as terras ou territórios (art. 13, §1º),
determinando o reconhecimento da posse desses povos sobre essas terras (art. 14, §1º). Para
concretização desse, assegura-se o acesso ao Poder Judiciário (art. 14, §3º).
Assim, o processo de demarcação do território indígena deve resultar na ampliação de
direitos, uma vez que, além de um direito em si mesmo, também é necessário para o desfrute
efetivo de outros direitos básicos.
A Constituição Federal, no art. 67 do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias
– ADCT, prioriza a demarcação de terras indígenas, no contexto da proteção da diversidade
cultural e de reconhecimento dos direitos destes povos sobre suas terras, estabelecendo o prazo
de 5 (cinco) anos para que a União concluísse o processo de demarcação.
Por seu turno, o Decreto n.º 1.775/1996 disciplina o processo de demarcação,
estabelecendo, inclusive, prazos para a sua conclusão:

Fase Momento
1. Estudos de identificação Elaboração de relatório
2. Aprovação do relatório pela FUNAI Prazo de 15 dias
3. Contraditório Até 90 dias após a publicação do relatório
pela FUNAI
4. Encaminhamento do processo Até 60 dias após o encerramento do prazo de
administrativo de demarcação pela FUNAI contraditório
ao Ministério da Justiça
5. Decisão do Ministério da Justiça Até 30 dias após o recebimento do
procedimento. Edição de portaria
declaratória dos limites da terra indígena,
determinando a sua demarcação.

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6. Homologação mediante decreto da


Presidência da República
7. Registro Até 30 dias após a homologação

O que se teme, na situação em voga, é que a conclusão do processo de reconhecimento


e demarcação se arraste ainda mais no tempo, ao longo do qual o povo habitante do território
permanecerá sob forte insegurança e à mercê de invasores não indígenas (sejam eles grupos
empresariais ou pessoas físicas), que exploram indevidamente os recursos naturais e degradam
o meio ambiente, repercutindo sobre a própria existência dos povos indígenas.
Nesse sentido, a omissão estatal se demonstra demasiadamente danosa, uma vez que as
pressões sofridas pelo povo Gamela na região sul do Piauí são severas, levando alguns
indígenas a até mesmo abandonar seus territórios tradicionais, deixando para trás uma história
mais que centenária.
Importante frisar que o Estado Brasileiro possui prática reiterada de demora no
andamento dos processos demarcatórios, como observado pela Relatora Especial da ONU,
Victoria Tauli-Corpuz, que externalizou preocupação com a situação dos povos indígenas no
Brasil, especialmente com a “ausência de progresso” depois de oito anos da última visita ao
país de um relator das Nações Unidas para o tema. Com efeito, no relatório de 2016, enviado
pelo então Secretário-Geral da ONU, Ban-Ki-moon, à Assembleia Geral, restou consignado
que o Brasil não deve subestimar os riscos de “efeitos etnocidas” que o cenário atual representa
para os povos indígenas.
Recorde-se, por fim, a condenação do Brasil na Corte Interamericana de Direitos
Humanos – CIDH, em 2018, sobre a mora na demarcação, proteção e reconhecimento dos
direitos territoriais do povo Xucuru, do estado de Pernambuco, cuja íntegra da sentença pode
ser visualizada em: https://www.corteidh.or.cr/docs/casos/articulos/seriec_346_por.pdf.

III.2. DA COOPERAÇÃO ENTRE OS ENTES FEDERADOS NO PROCEDIMENTO


ADMINISTRATIVO DE DEMARCAÇÃO DAS TERRAS INDÍGENAS.

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O art. 2º da Lei nº 6.001/1973 (Estatuto do Índio), incisos IX e X, estabelece o seguinte:

“Art. 2° Cumpre à União, aos Estados e aos Municípios, bem como aos órgãos
das respectivas administrações indiretas, nos limites de sua
competência, para a proteção das comunidades indígenas e a preservação dos
seus direitos:
[...]
IX - garantir aos índios e comunidades indígenas, nos termos da
Constituição Federal, a posse permanente das terras tradicionalmente
ocupadas em 5 de outubro de 1988, reconhecendo-lhes o direito ao usufruto
exclusivo das riquezas naturais e de todas as utilidades naquelas terras
existentes;
X - garantir aos índios o pleno exercício dos direitos civis e políticos que
em face da legislação lhes couberem.”

Por seu turno, o artigo 2º, §§ 1º e 2º do Decreto nº 1.775/1996 prevê o que segue:

“Art. 2° A demarcação das terras tradicionalmente ocupadas pelos índios será


fundamentada em trabalhos desenvolvidos por antropólogo de qualificação
reconhecida, que elaborará, em prazo fixado na portaria de nomeação baixada
pelo titular do órgão federal de assistência ao índio, estudo antropológico de
identificação.
§ 1º O órgão federal de assistência ao índio designará grupo técnico
especializado, composto preferencialmente por servidores do próprio quadro
funcional, coordenado por antropólogo, com a finalidade de realizar estudos
complementares de natureza etno-histórica, sociológica, jurídica, cartográfica,
ambiental e o levantamento fundiário necessários à delimitação.
§ 2º O levantamento fundiário de que trata o parágrafo anterior, será realizado,
quando necessário, conjuntamente com o órgão federal ou estadual específico,

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cujos técnicos serão designados no prazo de vinte dias contados da data do


recebimento da solicitação do órgão federal de assistência ao índio.” (Grifou-
se)

Depreende-se das disposições acima que é admitida a participação dos entes federados
no procedimento administrativo de demarcação das terras indígenas. Existe, inclusive, a
Portaria MJ nº 2498/11, que regulamenta essa participação dos entes federados no processo
demarcatório. Segundo o art. 3º dessa Portaria, a FUNAI realizará, no decorrer dos trabalhos
de identificação e delimitação, reunião com representantes e técnicos dos entes federativos, com
o fim de prestar informações sobre os trabalhos de identificação e delimitação da terra indígena
e coletar dados de natureza técnica.
A oportunidade de participação de entes federados no procedimento demarcatório deve
ser vista com bons olhos, sobretudo no atual contexto em que a FUNAI apresenta inúmeras
limitações para concluir os trabalhos de identificação e delimitação das terras indígenas, sendo
a principal delas a escassez de servidores.
Neste cenário, ganha especial relevo os trabalhos realizados pelo INTERPI no âmbito
dos processos de regularização fundiária de comunidades tradicionais no estado do Piauí, que
demonstram a plena capacidade dessa autarquia estadual de auxiliar a FUNAI no levantamento
fundiário necessário à delimitação territorial.
A propósito, o art. 29 da Lei Estadual nº 7.292/2019 dispõe que o Estado do Piauí, por
intermédio do INTERPI, procederá à identificação e ao mapeamento das comunidades
tradicionais, devendo desenvolver e manter sistema integrado de informações, envolvendo os
órgãos e as entidades da administração direta e indireta do Estado. Para tanto, o INTERPI
poderá efetivar convênios com outras instituições para proceder à identificação das
comunidades tradicionais.
No Estado do Ceará, por exemplo, no dia 01/11/2023, foi celebrado um acordo de
cooperação técnica para a demarcação de quatro terras indígenas no Ceará: Jenipapo-Kanindé,
no município de Aquiraz; Tapeba, no município de Caucaia; Pitaguary, nos municípios de

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Pacatuba e Maracanaú; e Tremembé de Queimadas, no município de Acaraú. O acordo foi


assinado por meio do Instituto do Desenvolvimento Agrário do Ceará (Idace), autarquia
independente vinculada à Secretaria do Desenvolvimento Agrário (SDA), conjuntamente com
a Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai).
Com a mesma finalidade, poderia o INTERPI firmar com a FUNAI acordo de
cooperação técnica, convênio ou instrumento congênere, para a demarcação de terras indígenas
no Estado do Piauí.

IV. DA TUTELA DE URGÊNCIA

A tutela de urgência será concedida quando houver elementos que evidenciem a


probabilidade do direito e o perigo de dano ou o risco ao resultado útil do processo, ausente
perigo de irreversibilidade dos efeitos da decisão, de acordo com o artigo 300 do Código de
Processo Civil.
A probabilidade do direito – fumus boni juris – resulta dos fatos narrados e
fundamentos jurídicos apresentados, juntamente com os documentos que instruem esta
exordial. Com efeito, a verossimilhança do direito invocado foi exaustivamente demonstrada
nos tópicos anteriores.
No mais, o risco ao resultado útil do processo é consubstanciado pela ameaça à
preservação do território tradicionalmente ocupado pelos indígenas, na medida em que este
configura não somente seu local de moradia, mas também de onde se extrai o insumo que
provém seu sustento e o seu próprio modo de vida.
Também é urgente a demarcação da área pela FUNAI em razão do desmatamento e
destruição da área, com retirada de vegetação, para a construção de uma rodovia estadual pela
Secretaria de Estado dos Transportes do Piauí (SETRANS-PI),
Repise-se que a referida comunidade está inserida numa área visada por fazendeiros
devido ao seu grande potencial produtivo e hídrico, sendo certo que os indígenas se encontram
em vulnerabilidade em sua reprodução física e cultural, o que não se pode prolongar no tempo

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sem uma rápida e efetiva adoção de medidas visando a defesa dos direitos dessa coletividade.
Por fim, não há perigo de irreversibilidade dos efeitos da decisão, uma vez que esta,
ao manter a propriedade sob o uso e gozo das famílias indígenas que tradicionalmente ocupam
a área, também confere ao ambiente natural um uso equilibrado e sustentável.
Ademais, as medidas destinadas à identificação e delimitação do território indígena
contribuem sobremaneira para a melhor visão da situação fundiária na região e diminuição das
controvérsias existentes acerca da propriedade da área.
É incontestável, portanto, o preenchimento dos requisitos para o deferimento dos
pedidos ora formulados em sede de tutela de urgência.

V. DA DESIGNAÇÃO DE AUDIÊNCIA DE CONCILIAÇÃO


O Código de Processo Civil prevê, em seu art. 319, os requisitos da Petição Inicial,
dentre eles a opção pela realização ou não de audiência de conciliação ou mediação:

“Art. 319. A petição inicial indicará:


I - o juízo a que é dirigida;
II - os nomes, os prenomes, o estado civil, a existência de união
estável, a

III profissão, o número de inscrição no Cadastro de Pessoas


Físicas ou no Cadastro Nacional da Pessoa Jurídica, o endereço
eletrônico, o domicílio e a residência do autor e do réu;
IV - o fato e os fundamentos jurídicos do pedido;
V - o pedido com as suas especificações;
VI - o valor da causa;
VII - as provas com que o autor pretende demonstrar a verdade
dos fatos alegados;
VIII - a opção do autor pela realização ou não de audiência de
conciliação ou de mediação.” (Grifou-se)

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Visto que a demanda em discussão gira em torno da implementação de políticas


públicas, sem que haja ingerência em questão que envolve o poder discricionário do Poder
Executivo, manifesta-se pela pretensão de designação de audiência, a fim de que ocorram
tratativas conciliatórias e, assim, obtenha-se a melhor solução entre as partes.

VI. DOS PEDIDOS

Ante o exposto, requer-se à Vossa Excelência:

1. A dispensa no pagamento de custas, emolumentos e outros encargos, em


conformidade com o artigo 18 da Lei nº 7.347/85;
2. A intimação pessoal da Defensoria Pública da União de todos os atos processuais,
contando-se em dobro todos os prazos, conforme art. 44, I, da Lei Complementar n° 80/94 e
art. 186, caput, do Código de Processo Civil;
3. os processuais, contando-se em dobro todos os prazos, conforme art. 44, I, da Lei
Complementar n° 80/94 e art. 186, caput, do Código de Processo Civil;
4. Dar vista dos autos ao Ministério Público Federal;
5. Seja concedida tutela de urgência, liminarmente, inaudita altera pars, para:
a) determinar a constituição, no prazo máximo de 60 (sessenta) dias a partir da
ciência da decisão, de grupo de trabalho pela FUNAI para realização dos estudos de
identificação e delimitação do território indígena Laranjeiras, sob pena de multa diária de R$
1.000,00 (mil reais) correspondente aos dias em que houver descumprimento da decisão
judicial;
b) determinar ao INTERPI e INCRA que cooperem com a FUNAI para a
realização dos estudos complementares de natureza etno-histórica, sociológica, jurídica,
cartográfica, ambiental e o levantamento fundiário necessários à delimitação do território
indígena Laranjeiras, podendo, para tanto, celebrarem acordo de cooperação técnica, convênio
ou instrumento congênere;

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c) determinar à FUNAI fazer publicar, no prazo máximo de 180 (cento e


oitenta) dias a partir da ciência da decisão, o Relatório Circunstanciado de Identificação e
Delimitação – RCID, sob pena de multa diária de R$ 1.000,00 (mil reais) correspondente aos
dias em que houver descumprimento da decisão judicial;
d) que a FUNAI, INTERPI e INCRA adotem todas as providências necessárias
para que não haja futuras certificações de áreas particulares no SIGEF sobrepostas à área
reivindicada pela comunidade enquanto não finalizado o processo demarcatório pela FUNAI;
6. Após a apreciação do pleito liminar, o encaminhamento dos autos para o Centro
Judiciário de Conciliação (CEJUC-PI) da Seção Judiciária do Piauí, para que seja designada
audiência de conciliação entre as partes, nos termos do art. 334 do CPC;
7. Determinar a citação dos Réus para que, querendo, ofereçam resposta no prazo legal,
sob pena de sujeitarem-se aos efeitos da revelia;
8. Em sede de cognição definitiva, a total procedência da presente ação, confirmando-
se os pedidos de tutela provisória de urgência, para:
a) a confirmação dos efeitos da tutela de urgência deferida;
b) a finalização dos trâmites administrativos pela FUNAI, com
encaminhamento do procedimento demarcatório ao Ministro de Estado da Justiça, no prazo de
60 dias após finalização do contraditório, na forma preceituada no art. 2º, § 9°, do Decreto n.º
1.775/96;
c) determinar ao INTERPI e INCRA que cooperem com a FUNAI para a
conclusão dos trâmites administrativos, nos termos do item anterior, podendo, para tanto,
celebrarem acordo de cooperação técnica, convênio ou instrumento congênere;
9. A condenação dos Requeridos ao pagamento dos honorários advocatícios de
sucumbência, que serão revertidos para o Fundo de Aperfeiçoamento e Capacitação da DPU,
segundo o artigo 4º, inciso XXI, da Lei Complementar nº 80/94;
10. A fixação de multa diária no valor de R$ 1.000,00 (um mil reais) para o caso de
descumprimento pelos réus das r. decisões desse Juízo, nos termos do art. 537 do CPC, bem
como encaminhamento ao MPF para a apuração de eventual delito de desobediência (art. 330

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do Código Penal), além da adoção de outras medidas reputadas necessárias ao fiel cumprimento
da decisão;
Por fim, protesta provar o alegado por todos os meios de prova admitidos em direito,
notadamente a juntada de documentos novos, realização de perícias, oitivas de testemunhas,
sem exclusão de qualquer outro.

Dá-se à causa o valor de R$ 1.412,00 (mil, quatrocentos e doze reais), equivalente a um


salário mínimo, para fins meramente fiscais.

Nesses termos, pede-se deferimento.

Teresina-PI, 09 de outubro de 2024.

JOSÉ RÔMULO PLÁCIDO SALES


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