A QUESTÃO DA ESCRAVIDÃO SEXUAL MILITAR JAPONESA ANTES E
DURANTE A SEGUNDA GUERRA MUNDIAL: INTERSECÇÃO ENTRE
PODER COLONIAL, GÊNERO E CLASSE
Alicia Rodrigues
Graduanda em Relações Internacionais na Universidade Federal do Rio de Janeiro,
Rio de Janeiro, RJ, Brasil
RESUMO
O presente trabalho trata-se de um estudo de caso a respeito da escravidão sexual militar
japonesa, comumente conhecida como sistema de “Mulheres de Conforto” o qual violou
e explorou mulheres coreanas antes e durante o período da Segunda Guerra Mundial em
meio a política imperialista japonesa no Leste Asiático. A escravidão sexual militar
japonesa foi uma prática incorporada pelo Governo do Japão em combate a emergência
de um sentimento “anti-japonês” de povos colonizados, mas também usada como uma
arma de controle e disciplina do próprio exército do Império. A construção deste estudo
ocorreu com base na revisão de artigos científicos específicos acerca do histórico da
exploração sexual no Japão durante e depois do período Meiji e de quais maneiras
estruturas de opressão, nesse caso, o colonialismo, o patriarcado e o sistema de classes
sociais determinaram a experiencia de mulheres e meninas coreanas pobres mobilizadas
a prostituição forçada durante as primeiras décadas do século XX. Os resultados
demonstraram que o sistema das “Mulheres de Conforto” operava de forma a submeter à
humilhação e destruição da identidade e humanidade não só de mulheres escravizadas
como o povo coreano em si. Um sistema de exploração pautado na ideia patriarcal e
colonial de emascular os homens do território dominado pela violação de suas mães,
esposas e filhas, logo, tornando-os incapazes de se rebelar contra o Império e a exploração
de corpos femininos como recursos militares ilimitados.
Palavras-chave: Mulheres de Conforto; Interseccionalidade; Poder Colonial; Gênero;
Classe
Introdução
No último dia 8 de janeiro de 2022 o movimento de mulheres vítimas da
escravidão sexual japonesa chamado Wednesday Demonstration completou 30 anos. Toda
quarta-feira, mulheres ativistas se reúnem em frente à embaixada do Japão em Seul,
Coreia do Sul, como ato de protesto e luta por justiça e lembrança das vítimas dos crimes
de guerra cometidos pelo Governo japonês entre 1930 a 1945. Essas manifestações
exigem que o Japão assuma sua responsabilidade por explorar e violentar mulheres e
meninas coreanas através do sistema chamado “Mulheres de Conforto” idealizado e
orquestrado pelo Império durante o processo
de colonização da península coreana.
O termo “mulheres de conforto” constitui-se em um crime de guerra baseado no
recrutamento de mulheres e meninas a serem enviadas como escravas sexuais ao exército
japonês. Uma prática incorporada pelas políticas imperialistas de autoridades japonesas
com o objetivo não só de entretenimento masculino, mas também como uma arma de
controle e disciplina do próprio exército e de populações colonizadas. Estima-se que a
origem do sistema se deu durante a Guerra Russo-Japonesa (1904 - 1905) a qual as
“mulheres de conforto” eram, em sua maioria, japonesas sequestradas por militares e
traficantes. Nos anos seguintes, como parte da colonização da Coreia (1910) e da segunda
invasão japonesa à China (1937), as políticas dos prostíbulos foram orquestradas e
organizadas pelo próprio Estado, o qual sequestrou mulheres ao redor da Ásia em países
como as Filipinas, Tailândia, Taiwan, Indonésia e, principalmente, a Coreia.
Neste artigo, primeiramente propõe-se discutir a respeito das origens da escravidão
sexual militar japonesa na Ásia durante a Segunda Guerra Mundial e, em seguida as
estruturas sociais interrelacionadas as quais agravaram a perspectiva de mulheres
coreanas pobres. Por último, analisar as múltiplas opressões dos diferentes sistemas de
coerção como a hierarquia de gênero, a classe social e o poder colonial. Ademais, o
objetivo do estudo é apresentar uma perspectiva geral de como os três sistemas de coerção
se entrelaçam no processo de instrumentalização do estupro pelo Governo Japonês e as
forças armadas. Então, averiguar a lógica de dominação e emasculação do inimigo pelo
Império e os seus possíveis paralelos com os mecanismos de dominação colonial de
mulheres negras nas Américas.
Escravidão Sexual Militar Japonesa
Mulheres de Conforto (wianbu em coreano) é um eufemismo criado por forças
militares imperiais do Japão para se referir ao sistema de Escravidão Sexual Militar
Japonesa estruturado antes e durante a Segunda Guerra Mundial. O Japão Imperial passou
a organizar a escravidão sexual de forma sistematizada a partir do Incidente de 28 de
janeiro de 1932, o Incidente de Shanghai 1 . De acordo com a lógica patriarcal
desumanizante das forças militares japonesas da época, as mulheres de conforto eram
“presentes” do Império para o "alívio" sexual dos soldados.2 Entre os anos de 1930 a 1945,
o Japão foi responsável por mobilizar a força mulheres e meninas entre 11 e 24 anos à
prostituição forçada em bordeis militares onde sofriam estupros, espancamentos,
queimaduras e, alguns casos, tortura por meses e até anos. Elas eram sequestradas,
coagidas ou recrutadas com falsas promessas de trabalho em fábricas ou como enfermeiras
em acampamentos militares.
Conforme o Korean Council for Justice and Remembrance for the Issues of
Military Sexual Slavery by Japan 2 , o Governo Imperial do Japão era diretamente
responsável pela mobilização e transporte dessas mulheres. Ademais, para evitar a
proliferação de doenças venéreas entre combatentes, médicos do exército eram
encarregados de regular constantemente a higiene dos acampamentos e das “estações de
conforto”, as horas de “serviço” e a distribuição de métodos contraceptivos como
camisinhas e até a realização de abortos. O Governo Japonês foi o principal idealizador
do funcionamento das estações de conforto ou bordéis militares: casas temporárias
próximas aos acampamentos de tropas militares japonesas onde mulheres eram presas e
violentadas diariamente.
Em territórios colonizados pelo Japão, o número de mulheres varia de 80.000 a
280.000 vítimas coreanas, chinesas, japonesas, filipinas, taiwanesas e vietnamitas,
segundo Pyong Gap Min. Outrossim, 80% das vítimas mantidas em estações de conforto
eram coreanas. De acordo com a ideologia patriarcal do Governo do Japão, as mulheres
coreanas eram meros recursos necessários para a guerra, enquanto, por outro lado, as
mulheres japonesas eram encarregadas de cumprir a “missão nacional da maternidade",
1 A Batalha de Shanghai foi um conflito entre o Império Japonês e o Exército Nacional
Revolucionário da República da China na cidade de Shanghai durante o período de janeiro a
março de 1932. 2 THE KOREAN COUNCIL. 2007. “Annual Report” Unpublished Document.
2003 “Resource Materials” p. 31
2 Korean Council for Justice and Remembrance for the Issues of Military Sexual Slavery by Japan
(Conselho Coreano) é uma uma organização com sede na Coréia do Sul que trabalha para a
resolução justa da questão da escravidão sexual militar japonesa e violência sexual durante a
guerra. O Conselho movimenta diversas campanhas desde a década de 90, como manifestações
públicas, palestras em escolas, organizam eventos online e, principalmente, demostram suporte
as vítimas da violência sexual sofrida antes e durante a guerra.
ou seja, gerarem as próximas gerações de soldados do Império. Por se tratar de um povo
colonizado, a população coreana era vista como uma raça inferior não civilizada de acordo
com as doutrinas do Império Meiji. Tendo isso em vista, a nacionalidade era de suma
importância nos bordéis pois determinava o grau de violência o qual as mulheres de
conforto eram submetidas. Japonesas eram oferecidas exclusivamente aos oficiais,
coreanas aos soldados de baixa patente e as chinesas aos demais agentes militares. Os
regulamentos e as regras do funcionamento dos bordéis eram determinados de acordo com
a organização de cada estação, mas a hierarquia de nacionalidade era rigorosamente ligada
à patente militar.
Imagem 1: Soldados japoneses formam filas para entrar nas Estações de conforto
Fonte: ⓒ Álbum de Moriyasu Murase “I Joined the Chinese Front”3
Dentre as vítimas da escravidão sexual militar japonesa, está Chong Ok Sun que foi levada
para uma estação de conforto aos treze anos quando foi buscar água para seus pais que
trabalhavam no campo.
Um soldado da guarda japonesa me surpreendeu e me levou embora e meus pais
nunca souberam o que havia acontecido com sua filha. Fui levada para a
delegacia em um caminhão, onde fui estuprada por vários policiais. Quando
3A to Z Guide for Just Resolution of the Japanese Military Sexual Slavery Issue (2020) Disponivel
em: A to Z Guide for Just Resolution of the Japanese Military Sexual Slavery Issue (2020) by
정의기억연대 The Korean Council - Issuu
gritei, eles colocaram meias na minha boca e continuaram a me estuprar. O chefe
da delegacia me acertou no olho esquerdo porque eu estava chorando. Naquele
dia, perdi a visão do olho esquerdo. Após cerca de 10 dias, fui levada para o
quartel do exército japonês na cidade de Heysan. Havia cerca de 400 outras
jovens coreanas comigo, e tivemos que servir mais de 5.000 soldados japoneses
como escravas sexuais todos os dias - até 40 homens por dia. Cada vez que eu
protestava, eles me batiam ou enfiavam trapos na minha boca. Um segurou um
palito de fósforo em minhas partes íntimas até que eu o obedeci. Das minhas
partes íntimas escorriam sangue. (...) Acho que mais da metade das garotas que
estavam no quartel foram mortas. Por duas vezes tentei fugir, mas nas duas vezes
fomos pegas depois de alguns dias. Fomos torturadas ainda mais, e fui atingida
na cabeça tantas vezes que todas as cicatrizes ainda permanecem. Eles também
me tatuaram no interior dos meus lábios, meu peito, meu estômago e meu corpo.
Eu desmaiei. Quando acordei, estava na encosta de uma montanha deixada para
morrer. Das duas garotas que estavam comigo, apenas Kuk Hae e eu
sobrevivemos. Um homem de 50 anos, que morava nas montanhas, nos
encontrou, nos deu roupas e algo para comer. Ele também nos ajudou a viajar
de volta para a Coréia, onde voltei, com cicatrizes, estéril e com dificuldades
para falar, aos 18 anos, depois de cinco anos servindo como escrava sexual para
os japoneses.4(A to Z Guide for Just Resolution of the Japanese Military Sexual
Slavery Issue, 2020 p.43)
A primeira sobrevivente conhecida e dá seus testemunhos foi Bae Bong-gi6,
nascida na província de South Chungcheong, foi levada em novembro de 1944 após ser
enganada por falsas promessas de trabalho. Bae Bong-gi foi levada para uma estação de
conforto em Tokashiki, Okinawa e lá permaneceu até o fim da Segunda Guerra Mundial.
Depois do fim da guerra, foi obrigada a servir as tropas militares dos Estados Unidos
durante a ocupação norte-americana. Bae Bong-gi viveu em Okinawa e sofreu com
severos danos psicológicos provocados por transtorno de estresse pós-traumático até a sua
morte em outubro de 1991.
Estabelecimento e Coordenação das Estações de Conforto
Após a Restauração Meiji em 1868, o Japão restabeleceu a ideologia nacional de
submissão ao Império, o qual o poder do imperador englobava todas as estruturas sociais
4 O depoimento é um trecho retirado e modificado da Comissão das Nações Unidas para os
Direitos Humanos, Relatório do Relator Especial sobre a violência contra a mulher, suas causas
e consequências, Radhika Coomaraswamy, apresentado de acordo com a resolução da
Comissão de Direitos Humanos 1995/85, E/CN.4/1996/53 (5 February 1996), disponivel em
https://undocs.org/E/CN.4/1996/53 6
Para saber mais sobre Bae Bong-gi: Jeong-gyu Lee, “Remembering Bae Bong-gi, the First
Comfort Woman to Testify About Her Experiences as Sex Slave,” The Hankyoreh, March 18,
2019, Remembering Bae Bong-gi, the first comfort woman to testify about her experiences as sex
slave : International : News : The Hankyoreh Seoul Metropolitan Government and Seoul National
University Chung Chin Sung Research Team, Records Memories: Stories of “Comfort Women,”
Untold Words, 201-250.
como a economia e a política. O sistema imperial japonês pode ser caracterizado como
um family-state system, ou seja, o Estado é organizado em uma estrutura familiar em que
os civis comuns são incorporados à disposição do Estado como membros de uma família
liderada pelo imperador. Inspirados nos fundamentos sociais de família do Período Edo 5,
o Código Civil Meiji autorizou prostituição assim como tornou a sua regulamentação
pública da mesma maneira que o recrutamento de mulheres pobres de classes mais baixas
como uma possível solução para conter o desejo sexual masculino (CHUNG, 1997) Para
mais, a mobilização de mulheres pobres da península coreana e outras colônias serviram
como mecanismo de perpetuação e proteção do family-state system visto que mulheres
japonesas de alta classe eram resguardadas para a gestação dos futuros filhos da nação
japonesa.
As imposições do sistema Meiji avançaram na Manchúria em 1931 e em toda a
China em 1937 em decorrência de uma série de resoluções internas do Governo japonês
mobilizadas a fim de alavancar recursos militares e econômicos que sustentassem suas
colônias na Ásia. Conforme Chung (1997), o Japão recrutou sete milhões de soldados
japoneses e cerca de treze milhões de trabalhadores. Por outro lado, as mulheres, em sua
maioria de classe baixa, eram estimuladas a mostrar lealdade ao Império através do
trabalho em fábricas, no campo e em bordéis exclusivos das forças armadas. A exploração
do trabalho e do corpo de mulheres pobres dentro e fora das fronteiras do Império permitiu
ao Governo do Japão que expandisse sua acumulação de capital e explorar suas colônias
por meio da criação da dependência econômica, do apagamento cultural e histórico e, do
controle sobre as estruturas sociais de
povos colonizados.
Durante o período de 1931 a 1945, à medida que o Japão expandia suas colônias
através de conflitos na Manchúria, na China e no Pacifico, o Governo japonês pôs em
prática as estações de conforto militares exclusivas para soldados. O planejamento e
organização das estações de conforto tiveram início no começo da década de 1930 com a
5Período em que o Japão era governado por xoguns da família Tokugawa (março de 1603 - maio
de 1868)
Invasão Japonesa à Shanghai, na China6, porém, em 1937 passaram a ser organizadas de
maneira sistemática e de total controle das forças militares japonesas. Os bordéis de
Shanghai serviram de protótipo para as políticas de regulamentação das estações de
conforto em 1937 após o Massacre de Nanjing 7 . A mobilização de mulheres como
escravas sexuais militares ocorreu em meio a expansão de esforços de guerra tanto no
Japão quanto nos territórios ocupados na Ásia e no Pacífico (CHUNG, 1997) As mulheres
de conforto eram reservadas ao papel de instrumentos de apaziguamento dos desejos
sexuais de soldados e prevenção de estupros de militares japoneses contra civis de
colônias ou territórios ocupados durante a guerra a fim de conter a proliferação de
possíveis manifestações anti-japonesas na China, por exemplo. Além disso, as estações
de conforto serviam como um método prático de reduzir o contágio de doenças venéreas
entre soldados e aumentar a moral masculina do exército durante a guerra.
As estações de conforto ou centros de estupro eram separadas em três categorias:
(1) os que eram diretamente organizados e controlados por militares; (2) aqueles sob a
gestão de civis, mas diretamente monitorados pelo exército e de uso exclusivo de militares
e funcionários civis e, por último; (3) aqueles controlados por administradores privados
em que militares possuíam prioridade, mas civis japoneses poderiam fazer uso
(MCDOUGALL, 2001) Como no princípio das ocupações, as estações de conforto ou
centros de abuso sexual de mulheres foram estabelecidas em Shanghai, mas logo se
expandiram para grande maioria do território ocupado por tropas japonesas. Devido à
grande expansão territorial japonesa, Chung afirma que o Ministério do Exército do Japão
pretendia expandir o número de estações e criar 280 bordéis militares ao longo de todo
território chinês ocupado, 110 no Sul da Ásia e 10 em Sakhalin para um total de 400 casas
de conforto militares até o final da Segunda Guerra.
6 Em 1932 o Império Japonês invade e ocupa parte do território da China e estabelece um Estado
fantoche denominado Manchukuo e lá permanece até o final da Segunda Guerra Mundial.
7 Campanha expansionista contra a China a qual civis e soldados chineses foram submetidos a
torturas, estupros e mortes violentas pelo Exército Imperial Japonês.
Imagem 2: Mapa das estações de conforto
Fonte: ⓒWomen’s Active Museum on War and Peace8
Quando o Japão se rendeu aos Estados Unidos em agosto de 1945 firmando o fim
da guerra no Pacifico, milhares de mulheres e meninas foram abandonadas em campos de
batalha ou mortas, pois eram evidências visíveis dos crimes de guerra cometidos pelo
Japão. Isto posto, o Governo japonês tentou destruir grande maioria dos documentos
internos que continham informações sobre o planejamento do sistema de escravidão
sexual militar após a sua rendição. Apesar de tudo, as mulheres que conseguiram retornar
a suas casas ainda tiveram de lidar com o estigma social que se tinha e, ainda persiste
atualmente, contra vítimas de violência sexual. Além disso, após passarem meses e até
anos confinadas em centros de conforto, elas não obtiveram nenhuma assistência
econômica ou reparo significativo do Japão ou de qualquer outra nação dos Aliados.
8 Women’s Active Museum on War and Peace, “Nippongun iansho mappu” 日本 軍慰安所マップ
[Japanese military comfort station map], Acesso em 20 de Janeiro, 2022, Disponivel em: 日
本軍慰安所
マッ プ
Imagem 3: (Esquerda) Cadáveres de tropas japonesas e “mulheres de conforto” mortos na cidade de
Tengchung, 15 de setembro de 1944.9
Imagem 4: (À direita) Cadáveres de mulheres se alinhavam nas trincheiras que saíam da Fortaleza
Tengchung. A maioria eram “mulheres de conforto” coreanas. 10
Fonte: Sung Hyun Kang; Korea Journal 59, no. 2 (2019)
A omissão japonesa e as dinâmicas de poder internacionais após a guerra
contribuíram para o apagamento e esquecimento do sistema de “mulheres de conforto”
Lee Na-Young (2014) afirma: os problemas de reconstrução das nações no Leste Asiático
devem ser considerados pois, durante o período pós-guerra, os Estados Unidos miravam
o Japão como uma ótima oportunidade de aliança democrática contra as emergências
comunistas na Ásia como a China e a Coreia do Norte (República Popular Democrática
da Coreia) durante a Guerra Fria. Com isso, em razão das dinâmicas geopolíticas na época
e o início dos embates entre Estados Unidos e União Soviética, as exigências por
reparações de crimes de guerra cometidos pelo Japão foram menores se comparadas às da
Alemanha. Os Estados Unidos estavam empenhados em manter suas relações
diplomáticas bem próximas com o Japão através de acordos econômicos e políticos, os
quais refletiram diretamente na descolonização incompleta da península coreana. Após
1945, os Estados Unidos substituíram o sistema imperial japonês por princípios liberais
9 Sung Hyun Kang, “The US Army Photography and the ‘Seen Side’ and ‘Blind Side’ of the
Japanese Military Comfort Women: The Still Pictures and Motion Pictures of the Korean Comfort
Girls in
Myitkyina, Sungshan, and Tengchung,” Korea Journal 59, no. 2 (2019): 169.
10 Sung Hyun Kang, “The US Army Photography and the “Seen Side” and “Blind Side” of the
Japanese Military Comfort Women: The Still Pictures and Motion Pictures of the Korean Comfort
Girls in Myitkyina, Sungshan, and Tengchung,”
democráticos na Coreia do Sul, priorizando princípios ocidentais econômicos em
detrimento dos interesses populares.
Por último, ao contrário de um senso de responsabilidade e comprometimento em
ressarcir economicamente suas ex-colônias, o Governo japonês adotou a postura de
vítimas das bombas atômicas Hiroshima e Nagasaki como parte da reconstrução de sua
identidade nacional, logo, contribuindo para o apagamento do seu histórico nazista. As
mulheres sobreviventes do sistema “mulheres de conforto” permaneceram em silêncio
durante 50 anos quando em 1990 começaram a se organizar em grupos para lutar por
justiça e reparação.
Interseccionalidade e o Sistema Mulheres de Conforto
A escravidão sexual militar japonesa pode ser compreendida como diversas
interações entre mecanismos sociais de coerção. As intersecções entre diferentes
estruturas de opressão como o colonialismo, o imperialismo, o patriarcado e o
nacionalismo japonês moldaram os instrumentos de violência contra mulheres e meninas
de territórios invadidos pelo Japão antes e durante a Segunda Guerra Mundial. Outrossim,
é importante salientar que grande parte das jovens vítimas sequestradas ou enganadas com
promessas falsas de emprego eram de famílias pobres que trabalhavam em áreas rurais
ocupadas e colonizadas pelo Japão. Ao final da guerra, as mulheres que sobreviveram e
conseguiram, de alguma maneira, retornar ao seu país de origem sofreram rejeição e até
foram desacreditadas em razão do estigma patriarcal sobre vítimas de estupro. Por fim,
por não receberem nenhuma compensação econômica do Governo japonês após a guerra,
a maioria continuou pobres e sujeitas a empregos subvalorizados como empregadas
domésticas, garçonetes e vendedoras ambulantes.
Poder Colonial
Em 1910 o Japão invadiu e anexou a península da Coreia como uma de suas
colônias, se apropriando e distribuindo para civis japoneses as terras da dinastia Chosun.
Durante grande parte da Segunda Guerra Mundial, o Japão fez da Coreia, ainda unificada,
uma colônia a qual o único propósito era produzir alimentos e recursos para conflitos na
China, dessa forma, milhares de famílias que viviam em áreas rurais foram forçadas a
trabalhar em campos para o exército japonês na Manchúria. (C.S. Kang 1997 apud MIN,
2003) Além disso, o governo do Japão recrutou uma grande quantidade de homens
coreanos para preencher as demandas de trabalhadores provocadas pela grande expansão
japonesa na Ásia. Assim, os convocados eram levados para realizar trabalho escravo em
campos de produção de alimentos e armamento militar.
Desde o início, a ocupação japonesa na Coreia possuía fortes políticas de
apagamento cultural e histórico através da assimilação forçada de elementos culturais
japoneses como, por exemplo, a construção de templos xintoístas. A Política Um Corpo
Japão-Coreia (1938) foi uma tentativa de extinguir costumes e elementos históricos-
sociais coreanos em prol da política Meiji. A partir de 1940, o Governo impôs tanto aos
cidadãos coreanos quanto às mulheres de conforto que adotassem nomes japoneses, caso
contrário não receberiam alimento e seriam punidos com trabalho forçado. Além disso, as
crianças que recusassem elementos da cultura japonesa eram reprovadas nas escolas. O
idioma oficial da colônia passou a ser o japonês e os indivíduos eram induzidos a policiar
uns aos outros para que nenhum falasse sua língua materna, quando não eram agredidos
e não recebiam materiais e apostilas nas escolas. Ademais, os alunos eram obrigados a
reproduzir a ideologia imperial japonesa como sempre se curvar em direção ao palácio do
imperador e distribuir propaganda imperialista japonesa nas ruas.
As vítimas coreanas da escravidão sexual foram convocadas a realizar trabalho
forçado no serviço militar japonês e tratadas desumanamente principalmente porque eram
propriedades da colônia, isto é, a escravidão sexual do sistema mulheres de conforto foi,
simultaneamente, um fruto e um instrumento de colonização da Coreia pelo Japão (MIN,
2003) A grande maioria das mulheres escravizadas sexualmente eram coreanas pôr a
Coreia ser um território colonizado.
Torna-se evidente, portanto, que o imperialismo japonês na Ásia, especificamente
na Coreia, reduziu a identidade e a existência das mulheres em seres menos humanos.
Ainda que o processo de colonialidade de Maria Lugones se refira ao sistema de
colonização da América do Sul, é visível os possíveis paralelos entre as ferramentas de
coerção inseridas dentro de circunstâncias distintas em tempo, contexto histórico e
cultural. Esse processo apagou laços coletivos e toda organização social pré-existentes à
colonização (CAMPANARO, 2020)11 Hierarquizou e classifica quem era ou não humano
e define que humanos são apenas os civilizados. Maria Lugones (2019) afirma que a
hierarquia dicotómica é instrumento da missão civilizatória que julgou povos colonizados
como inferiores, subordinados naturais e amparou a violência sobre eles. A concepção do
povo coreano como meros recursos para se fazer a guerra afirma a ideia da construção do
“outro” como inferior, logo, naturalmente suscetível à subordinação.
Hierarquia de Gênero
Sobre a questão de gênero, a dicotomia hierárquica “(...) fez mulheres e homens
colonizados se tornarem machos e fêmeas. Os machos se tornaram não-humanos-como-
não-homens, e as fêmeas colonizadas se tornaram não-humanas-como-não-mulheres”
(LUGONES, 2019, p. 360). A hierarquia de gênero no que se refere a colonização
demarca o sexo feminino enquanto inferior e o nega a sua humanidade, reduzindo-o a
recursos a serem explorados e territórios a serem desbravados pelo Império. Assim, o
dominador japonês emascula os homens coreanos através da lógica de feminilização do
colonizado, ou seja, o dominador é masculino que adestra e castra o colonizado rebelde e
não-humano. O desprezo e desvalorização de características denominadas femininas
(falta de controle, irracional, passional) atribuídas aos povos colonizados aponta uma
inferioridade “natural” que legitima essas hierarquias. A desvalorização do feminino é
tanto ideológica quanto material, logo, as estruturais estatais-patriarcais se organizam de
maneira que mulheres e homens colonizados se encontram em espaços subalternos como
casas de prostituição e campos de trabalho forçado respectivamente.
Sendo assim, as mulheres de conforto coreanas se diferenciavam de outros grupos
de mulheres forçadas a escravidão sexual justamente por serem de uma colônia explorada
especificamente para produzir recursos militares. Segundo Min (2003), a subordinação de
mulheres ao Estado e ao imperador da lógica patriarcal-estatal foi a base ideológica do
planejamento e criação dos bordéis exclusivos para “confortar” soldados militares. A
11 Ezine Teoria Feminista (2020). Feminismo decolonial: uma introdução
intersecção da hierarquia de gênero, o histórico patriarcal e o advento das guerras
imperiais japonesas na Ásia foram fundamentais para a instauração do sistema de
escravidão sexual militar. Nesse contexto, o estupro foi utilizado como arma disciplinar
contra coreanos colonizados a fim de prevenir ou combater a ascensão de movimentos
anti-japoneses e evitar rebeliões entre soldados do império.
Durante e após a guerra, milhares de mulheres coreanas foram assassinadas, a
maioria com idade entre quinze e dezenove anos. Hyunah Yang descreve esses homicídios
não só como uma solução rápida que o Japão encontrou de apagar seus crimes como
também uma maneira de promover um massacre contra o povo coreano. Segundo Yang
(1997), a guerra é o “estupro” metafórico da pátria do inimigo pois envolve tanto o campo
físico-mental quanto o de batalha. As experiências das vítimas coreanas com a escravidão
sexual estão intrinsicamente relacionadas com o fato de serem do sexo feminino em uma
Coreia colonizada, além disso, o fato de a maioria serem de famílias pobres também
agravaram as chances de serem forçadas a prostituição.
Classe Social
A invasão e apropriação de territórios coreanos pelo Japão no início do século XX
resultou em um aumento significativo do número de famílias sem-terra e de
desempregados em áreas urbanas. As vítimas da escravidão sexual em sua maioria
pertenciam justamente a famílias pobres as quais viviam no campo que tiveram suas terras
apropriadas ou famílias pobres que migravam para os grandes centros para conseguir
trabalho. Dessa forma, a política colonial do Japão tornou meninas e mulheres de famílias
sem terra ou sem emprego sujeitas à prostituição forçada através de falsas promessas de
emprego (MIN, 2003) A maioria das mulheres e meninas coreanas vítimas da escravidão
sexual foram levadas para as estações de conforto mediante a falsas promessas trabalho
no Japão. Em alguns casos, pais pobres eram enganados e vendiam suas filhas pensando
que iriam trabalhar em casas de famílias como empregadas ou babás, porém, elas eram
levadas para bordéis próximos aos acampamentos militares japoneses.
O imperialismo japonês junto ao sistema de divisão de classes sociais durante o
período de colonização da península coreana tornou meninas e mulheres mais vulneráveis
a serem enganas ou até mesmo sequestradas para servir ao sistema de escravidão sexual
militar. Jovens coreanas de famílias pobres de trabalhadores rurais eram foco do sistema
de conforto militar exatamente por estarem na base da pirâmide social do Império, logo,
suas condições eram frágeis e não possuíam qualquer amparo econômico-social. Por outro
lado, meninas coreanas as quais pertenciam a famílias de classe alta de grandes
empresários em centros urbanos tinham baixas chances de serem forçadas a escravidão
sexual. Outra maneira de receptar vítimas para os bordéis era através da violência,
militares e policiais civis japoneses sequestravam e abusavam de mulheres e meninas
quando estavam sozinhas. Tanto o governo quanto a população japonesa acreditam que
as mulheres de classe baixa poderiam ser mobilizadas como prostitutas, pois, assim, as
mulheres de classe média/alta teriam a sua castidade protegida e a vida sexual resguardada
a reprodução de filhos do Império.
Considerações Finais
Neste artigo, a questão da escravidão sexual militar japonesa destaca-se como um
caso na história contemporânea da institucionalização do estupro como arma de guerra e
instrumento disciplinar das forças armadas japonesas antes e durante a Segunda Guerra
Mundial para com povos colonizados na Ásia, em especial, a Coreia. Em suma, o sistema
Mulheres de Conforto pode ser sumarizado por meio da interação de três principais
estruturas de opressão. Primeiro, o processo de colonização do Japão na Coreia
desumanizou milhares de mulheres e meninas coreanas as quais foram forçadas a
prostituição em bordeis militares das forças armadas japonesas. Segundo a hierarquia de
gênero facilitou a instauração das estações de conforto, uma vez que as estruturas
patriarcais junto à ideologia Meiji classificavam as mulheres como seres subordinados e
a serviço do Império tanto coreanas quanto japonesas. Se por um lado, as mulheres
coreanas eram mobilizadas para a prostituição, as mulheres japonesas eram encarregadas
de reproduzir e garantir a continuidade da nação. Por último, as mulheres coreanas
originárias de famílias pobres e, principalmente, de áreas rurais eram mais propensas a
serem enganadas com falsas propostas de emprego ou de serem
vítimas de sequestro e, assim, levadas para estações de conforto ao redor da Ásia.
Este presente artigo busca contribuir para os estudos feministas de modo que,
através da perspectiva interseccional, possamos entender um dos mecanismos de
exploração e violência contra mulheres contemporâneo que ainda não é devidamente
analisado sob a ótica feminista nos estudos de Relações Internacionais no Ocidente.
Ademais, ao analisarmos as Mulheres de Conforto podemos nos questionar a respeito de
paralelos entre diferentes métodos de coerção masculina contra mulheres em nações
colonizadas como, por exemplo, o estupro de mulheres negras por homens brancos nas
Américas durante a colonização. Dessa forma, a pesquisa procura abrir caminhos a fim
de ampliar perguntas como possíveis relações entre o feminismo de colonial e a luta de
vítimas por justiça hoje na Coreia do Sul e em outros países no Leste Asiático. Por fim, o
artigo busca contribuir para as análises de abuso sexual de mulheres em contexto de guerra
ou zonas militarizadas por forças armadas ou pelo próprio Estado.
Referências
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