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Trilha de Aprendizagem. B1 UNIDADE 2 - As Ações Antrópicas Sobre o Meio Ambiente. APOSTILA

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PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE GOIÁS

PRÓ-REITORIA DE PÓS-GRADUAÇÃO E PESQUISA


COORDENAÇÃO DE PÓS-GRADUAÇÃO LATO SENSU
ESCOLA DE FORMAÇÃO DE PROFESSORES E HUMANIDADES
CURSO DE ESPECIALIZAÇÃO EM EDUCAÇÃO
CULTURA E PATRIMÔNIO

Trilha de Aprendizagem
Módulo B - Políticas Públicas e Meio Ambiente

Disciplina - B1 Ciências do Meio Ambiente

B1 UNIDADE 2 - As ações antrópicas sobre o meio ambiente

Professor Me Helder Lúcio Rodrigues Silva

Goiânia, 2023
Trilha de Aprendizagem

1 Objetivos da unidade de estudo


 Entender as atividades antrópicas iniciadas pelo ser humano há muito tempo, as
modificações no meio ambiente e os diferentes motivos dos impactos ambientais
causados por ações antrópicas.
 Estudar as ações humanas que direta ou indiretamente podem ocasionar
interferência no ciclo de vida de animais e biomas nacionais.
 Compreender de que forma as mudanças e o progresso atingem o desenvolvimento
da espécie humana e o meio ambiente.
 Abordar as alterações nos atributos naturais dos geossistemas a partir das
intervenções mais intensas na busca dos recursos naturais.

2 Textos obrigatórios

 BORSATO, V. A.; SOUZA FILHO, E. E. Ação antrópica, alterações nos


geossistemas, variabilidade climática: contribuição ao problema. Revista Formação -
Edição Especial - n. 13 v. 2. 2004. p. 213-223.

 DUBOC, E.; VELOSO, R. F. Desafios para a mitigação de impactos das ações


antrópicas no cerrado. Embrapa Cerrados. Documento 220. Planaltina - DF.
Documentos. ISSN 1517-5111. Agosto de 2008. p. 08-27.

3 Atividades

Atividade 1

 Ler atentamente ambos os textos obrigatórios e destacar os principais problemas


ambientais abordados em cada texto.
 Destacar as alterações ambientais causadas pelas ações antrópicas.
 Dar sugestões que poderão minimizar os impactos ambientais.

Atividade 2

 Formular por escrito pelo menos quatro sugestões que poderão minimizar os
impactos ambientais no Bioma Cerrado.
 Fazer uma análise crítica dos dois textos em, no mínimo, 20 linhas para cada texto
obrigatório.
Atividade 3

 Assistir ao vídeo:

Link : https://www.youtube.com/watch?v=XJfYPVirsvw

 Elaborar uma Resenha, considerando os quatro (4) aspectos importantes que se


seguem.
1- Queima de combustíveis.
2- Uso do solo.
3- Elevação do nível dos oceanos.
4- Utilização dos recursos naturais.

Bom estudo!!!
BORSATO, V. A.; SOUZA FILHO, E. E.
Ação antrópica, alterações nos geossistemas, variabilidade climática: contribuição ao problema.
AÇÃO ANTRÓPICA, ALTERAÇÕES NOS
GEOSSISTEMAS, VARIABILIDADE CLIMÁTICA:
CONTRIBUIÇÃO AO PROBLEMA∗.

Victor Assunção BORSATO∗∗


Edvard Elias SOUZA FILHO∗∗∗

Resumo: Este artigo aborda as preocupantes alterações nos atributos naturais dos geossistemas a partir
das intervenções mais intensas na busca dos recursos naturais para satisfazer a crescente demanda
comandada pelos sistemas socioeconômicos em curso. Procurou-se fazer uma comparação na velocidade
de ocupação e alterações comandadas pelo homem na zona temperada e na tropical da Terra e,
conseqüentemente, as alterações que esses geossistemas apresentam em função da posição astronômica e
do equilíbrio térmico. Assim como as respostas que possam desencadear na dinâmica geral da atmosfera
— a entropia e as suas conseqüências no clima. Propõe-se uma discussão que considera uma nova razão
para um novo conhecimento do fenômeno climático, frente as eminentes variabilidades desencadeadas a
partir das ações antropogenéticas.

Palavras-chave: Geossistema; clima; ação antrópica; entropia.

Resumen: Este artículo aborda las preocupantes alteraciones en los atributos naturales de los geosistemas
a partir de las intervenciones mas intensas en la busca de los recursos naturales para satisfacer la creciente
demanda comandada por los sistemas socioeconómicos en curso. Se busca comparar la velocidad de
ocupación y alteraciones comandadas por el hombre en la zona templada y en la tropical de la tierra y
consecuentemente las alteraciones que esos geosistemas presentan en función de la posición astronómica
y del equilibrio térmico así como las respuestas que puedan desencadenar a la dinámica general de la
atmósfera – entropia, y las consecuencias en el clima. Se propone una discusión que considere una nueva
razón para un nuevo conocimiento del fenómeno climático, frente a las eminentes variabilidades
desencadenas a partir de las acciones antropogénicas.

Palabras llave: geosistema; clima; acción antropica; entropia.

1. Introdução.

Os problemas decorrentes da gestão de procedimentos concernentes à renovação dos recursos


naturais, à conservação e à preservação do meio ambiente são preocupantes. A mídia, de uma forma
geral, tem enfocado as grandes preocupações do momento. Como, por exemplo, o efeito estufa, as chuvas
ácidas e, principalmente, as mudanças climáticas, embora essas questões deveriam receber maior atenção
dos órgãos governamentais e, principalmente, dos países que mais contribuem com tais alterações do
meio ambiente.
Procurou-se, sem aprofundar na problemática, questionar alguns conceitos; como a entropia, a
troca de energia entre os geossistemas e mesmo entre a superfície e a atmosfera; e esta e o espaço e a
dinâmica natural. Embora se sabe que os ritmos dinâmicos dos sistemas sofrem intervenções e alterações
antropogênicas em determinados componentes, os quais, com as alterações nos inputs, desencadeiam
impactos. Ao mesmo tempo, a natureza procura reestabelecer o equilíbrio entre os componentes.
Dependendo do grau ou da intensidade das modificações no meio natural, os desequilíbrios são
inevitáveis. Na busca de restabelecer sua dinâmica habitual. As respostas que o meio nos dá é através de
modificações na dinâmica climática ou geomorfogênese até atingir um novo equilíbrio e, às vezes, não


Texto publicado em 2004 (n.11 v. 2).
∗∗
Professor da FAFIMAN.
∗∗∗
Professor da Universidade Estadual de Maringá – PR.
213
Revista Formação – Edição Especial – n.13 v.2

desejáveis. A evolução, ou seja, o tempo necessário para reestabelecer a nova dinâmica depende do grau
de intervenção e também do nível de fragilidade do geossistema.
Hoje, com todo o arsenal tecnológico disponível, não há como aumentar a produção de bens sem
explorar os recursos naturais. As intervenções nos componentes dos geossistemas são tanto maiores
quanto maior o potencial de recursos disponíveis. Há uma crescente taxa de transferência de recursos
entre as grandes regiões da Terra. Hoje, informações e mercadorias circulam o planeta, considerando-se
os fluxos de matéria e energia, ou seja, o input e output dentro de um geossistema como fator de
equilíbrio; considerando também os princípios da termodinâmica. Haverá, como conseqüência das trocas
desequilíbrios, principalmente, considerando os recursos provenientes da biomassa, tanto na área onde os
recursos foram explorados quanto onde estão sendo destinados. Questiona-se, também se o homem
poderá utilizar e desenvolver tecnologia capaz de controlar os inputs e outpus nos geossistemas?
A evolução da sociedade e as alterações nos ambientes evidenciam o jogo da estrutura social,
particular a cada momento histórico, que incide no espaço geográfico diferencialmente. Os estudos
climáticos têm, na grande maioria deles, priorizado o estudo de casos ou abordado uma escala local,
principalmente ao se tratar de alterações nos padrões habituais. Neste artigo, pretende-se a partir de um
enfoque local, analisar e questionar o comportamento climático regional e global; abordando os princípios
básicos dos geossistemas, frentes às alterações comandadas pela ação do homem, na cobertura vegetal.

2. A relação homem-meio natural.

A partir da Revolução Industrial, as alterações na paisagem aceleram-se em níveis cada vez mais
sofisticados e intensos. As indústrias ampliaram suas áreas de influências a partir da Europa e
atravessaram os oceanos. Hoje constituem o símbolo da paisagem antrópica.
A partir da produção em série, o desenvolvimento tecnológico, mais cedo ou mais tarde,
envolveu os mais diversos segmentos tecnológicos e permitiram, através dos meios científicos, não só o
aumento populacional, como também uma maior longevidade do homem. A tecnologia médica curativa e
preventiva reduziu drasticamente a mortalidade para depois conscientizar a população das necessidades
da redução da natalidade. Fatores que alteraram significativamente o ritmo demográfico humano.
A transição demográfica se caracteriza pelas três fases: na primeira, a natalidade e a mortalidade
são altas; na segunda, a mortalidade cai, e a natalidade permanece alta; e na terceira fase, a natalidade e
mortalidade são baixas. Os Países mais desenvolvidos alcançaram a terceira fase. Os demais, em sua
grande maioria ainda estão longe de completar a transição demográfica e, continuam registrando
crescimento acelerado de sua população.
O desenvolvimento tecnológico e o sistema capitalista possibilitaram, a cada ser humano, um
aumento no consumo de energia per capta. Embora seja sabido que as desigualdades entre os povos se
acentuaram com o advento da Revolução Industrial, seja em sua primeira fase (Capitalismo
Concorrencial), na Segunda (Capitalismo Monopolista), ou na atual, monopolista e globalizada.
Nos Países do Norte, a população adquiriu um padrão de consumo elevadíssimo, principalmente,
estadunidenses e europeus; enquanto a grande maioria da população dos Países do Sul vive com uma
baixa renda monetária e baixo de consumo de energia per capita. Mesmo não levando em consideração o
tamanho das desigualdades na distribuição da riqueza.
Dessa forma, percebe-se que os recursos naturais são cada vez mais intensamente explorados
para atender as necessidades consumistas da população do planeta. Seja em razão da elevação do
consumo, seja pelo aumento populacional. Hoje são mais de seis bilhões de seres humanos considerando-
se o que cada indivíduo estadunidense consome em média, os recursos naturais disponíveis,
principalmente os não renováveis, seriam exauridos em poucos anos, e as conseqüências ambientais
colocariam em risco a própria existência da vida humana no planeta. Embora o desejo de uma grande
parcela da população seja o estilo de vida norte-americano.
Por essa razão, o mundo começa a se organizar em defesa da qualidade de vida e de um meio
ambiente saudável com perspectiva de garantir meios de sobrevivência para as gerações futuras. E o
grupo dos que defendem o desenvolvimento sustentável para o planeta é cada vez maior.

214
BORSATO, V. A.; SOUZA FILHO, E. E.
Ação antrópica, alterações nos geossistemas, variabilidade climática: contribuição ao problema.
Os Países do Norte desenvolveram a indústria clássica. De certa forma, ao longo do tempo,
puderam equilibrar o desenvolvimento tecnológico com o social e reduziram as desigualdades internas,
proporcionando melhores condições de vida à população. Enquanto nos Países do Sul há uma ampliação
das desigualdades sociais por conta do empobrecimento da população, consubstanciadas pelo modelo
desenvolvimentista adotado, que por sua vez, está fundamentado na importação de tecnologia
desenvolvida em países cujas necessidades de uso de mão-de-obra estão centradas no setor terciário da
economia.
O modelo desenvolvimentista promoveu a saída da população do campo que engrossou o
contingente de mão-de-obra, não qualificada, nos centros urbanos: fomentando a criação de cidades
informais e ampliando os cinturões de pobreza que caracterizam as grandes cidades em todos os países
subdesenvolvidos.
A explosão urbana é um fenômeno mundial, mas é nos países subdesenvolvidos que os
problemas de infra-estrutura se agravam. Embora seja ainda um processo em curso, verifica-se que as
maiores aglomerações urbanas do mundo crescem em ritmo acelerado nos países subdesenvolvidos.
O crescimento urbano é uma agressão ao meio ambiente por si. Visto que, além da remoção da
vegetação natural, modifica a superfície do terreno, impermeabiliza vastas áreas, contamina o solo,
subsolo, o ar, as água subterrâneas e superficiais, além de alterar o mesoclima. As “ilhas de calor”
verificadas, principalmente nas grandes metrópoles, são mais um exemplo de alterações ambientais que se
manifestam em função da metropolização da sociedade contemporânea.
O mesmo modelo desenvolvimentista fomentou a expansão de fronteiras agrícolas. A demanda
de madeira dizima áreas florestais e amplia o impacto ao meio ambiente. As práticas econômicas
predatórias mais agressivas se iniciaram pela Zona Temperada da Terra e hoje atuam principalmente nas
áreas de baixa latitude, provocando o desmatamento de vastas áreas de florestas equatoriais.
Considerando-se que na região tropical a energia absorvida é maior que a irradiada, a
transferência de calor que se dá entre as zonas da Terra, seja por condução, convecção ou advecção segue
a dinâmica da circulação geral da atmosfera terrestre. Alterações no balanço de energia, seja através da
irradiação terrestre ou da radiação solar, alterarão sua própria dinâmica.
A princípio, sabe-se que o desmatamento, além dos inúmeros “traumas” ao ecossistema,
modifica totalmente o balanço de energia local, o qual comanda a dinâmica atmosférica. A porcentagem
de energia refletida, em relação à incidente, é alterada. Assim como as condições de umidade atmosférica.
Se as considerações de Varejão-Silva (2000) forem levadas em conta, o desmatamento da Faixa
Equatorial poderá modificar por completo a dinâmica atmosférica.

Os mecanismos responsáveis pela transferência meridional de calor para áreas com balanço de radiação
negativo são as correntes aéreas (transporte de calor sensível e latente) e, em segundo plano, as oceânicas
(transporte de calor sensível). O transporte de calor latente, em direção aos pólos, está associado a mudanças
de fase de água, comprovando-se assim, mais uma vez, sua importância para a energia do sistema superfície-
atmosfera.

Os estudos geológicos demonstram os efeitos das alterações ou mudanças climáticas sobre a


paleogeografia e paleoecologia. O crescimento acelerado da população humana, a mecanização da
agricultura e a urbanização vêm sendo acompanhados por um processo de degradação ambiental jamais
dimensionados em tempos Modernos na superficie do planeta. Esta degradação pode levar às
modificações climáticas que podem ameaçar a nossa própria existência.

3. A relação do homem com o meio e as mudanças climáticas.

Os trabalhos cujo enfoque está centrado no clima urbano são


conclusivos em mostrar as diferenças térmicas verificadas nos grandes centros urbanos com relação à
periferia ou ao entorno. MENDONÇA (2001) estudou o clima urbano de Londrina, cidade do norte do
Estado do Paraná, e constatou importantes anomalias em inúmeros elementos do clima, principalmente
diferenças térmicas entre a superfície urbana e o seu entorno rural.

215
Revista Formação – Edição Especial – n.13 v.2

O mesmo raciocínio pode ser feito para as diferenças entre uma área florestada em comparação
com o seu entorna agrícola. Por ora, não foi encontrado estudo que aborda as diferenças de
comportamento dos elementos climáticos entre área com vegetação natural e área ocupada pela
agricultura moderna em regiões tropicais. A sensibilidade humana, neste caso, pode dar-nos uma resposta,
pois é fácil perceber as diferenças de temperatura e umidade entre uma área florestada e a área vizinha em
dias quentes ou numa manhã fria.
Para diversos autores, o total de radiação solar que é interceptada pela Terra e a que retorna ao
espaço direta ou indiretamente se equivalem (VAREJÃO-SILVA, 2000). Contudo, mesmo considerando
que o balanço radiativo médio planetário se verifica um equilíbrio, as alterações antrópicas, em dadas
regiões do globo, implementarão a recepção das radiações solares, ou seja, um solo arado, uma via
pavimentada, as edificações urbanas, uma plantação em fileira, entre outros exemplos, absorvem a
energia solar em quantidade e intensidade diferentemente de uma região natural e coberta por uma
floresta tropical.
O acréscimo de energia pode vir a ser dissipado, mas até que as trocas se processam (sejam
através das convecções atmosféricas, sejam através das correntes marinhas ou outras). Este acréscimo
tenderá a dinamizar o sistema e flutuações climáticas poderão se manifestar em qualquer parte do
planeta, ou mesmo uma manifestação de tendência climática.
Como o clima é um dos componentes integrante de um geossistema, é muito dificil caracterizar
alterações nos padrões habituais. Sant’Anna Neto (1995) estudou as chuvas no Estado de São Paulo e
evidenciou que elas não sofreram grandes atterações em valores anuais, mas sofreram uma diminuição
nos dias com registros de precipitações. Isso caracteriza que as chuvas se tornaram mais intensas em cada
episódio.
Os fenômenos EL NIÑO e LA NIÑA têm se manifestado em intervalo de tempo cada vez menor
e intensidade maior. Embora o intervalo de tempo em que o fenômeno tem sido sistematicamente
acompanhado seja muito reduzido para conclusões definitivas. Para Monteiro (1999), o fenômeno EL
NIÑO é uma manifestação ou conseqüência direta da flutuação da energia solar e é conseqüência direta
da flutuação de nossa fonte primária de energia. A atividade solar é extremante variada, a partir das
manchas solares. Fenômeno esse que tem uma influência direta na emissão da radiação solar e, sobretudo
na recepção pelo planeta Terra. Como a circulação geral segue uma dinâmica ditada pela energia
proveniente da irradiação terrestre, é claro que alterações na intensidade de energia liberada pela
superfície da Terra alteram a dinâmica habitual.
Para Monteiro (1999), qualquer abordagem da atmosfera, seja ela meteorológica ou geográfica,
há que se partir dos fenômenos básicos. Assim, o ponto de partida é a compreensão dos mecanismos das
trocas de energia entre o Sol e a Terra. Por isso, é necessário compreender os mecanismos das formas de
transmissão de energia. Para Ross (1992), o entendimento do relevo e sua dinâmica passam
obrigatoriamente pela compreensão do funcionamento e da inter-relação entre os demais componentes
naturais (águas, solos, clima e cobertura vegetal). Observa-se que, para o entendimento do clima ou
qualquer outro componente natural, é necessária a compreensão do funcionamento da inter-relação entre
os componentes do meio, ou seja, uma investigação geossistêmica. Para melhor entender a concepção
geossistêmica e todo o debate dela provindo, deve destacar o que afirmou Sotchava (1978) sobre o
Geossistema. Em condições normais, deve-se estudar não os componentes da natureza, mas as conexões
entre eles; não se deve restringir à morfologia da paisagem e suas divisões, mas, de preferência, projetar-
se para o estudo de sua dinâmica, estrutura funcional, conexões, (SOTCHAVA, 1978).
O princípio básico do estudo de sistemas é o da conectividade. Pode-se compreender um sistema
como um conjunto de elementos com um circuito de ligações entre esses elementos; e um conjunto de
ligações entre o sistema e seu ambiente, isto é, cada sistema se compõe de subsistemas, e todos são partes
de um sistema maior, onde cada um deles é autônomo e ao mesmo tempo aberto e integrado ao meio, ou
seja, existe uma inter-relação direta com o meio.

4. Os geossistemas e a ação do homem.

216
BORSATO, V. A.; SOUZA FILHO, E. E.
Ação antrópica, alterações nos geossistemas, variabilidade climática: contribuição ao problema.
Os sistemas Ambientais Físicos, ou Geossistemas seriam a representação da organização
espacial resultante da interação dos componentes físicos da natureza (sistemas). Aí, incluídos clima,
topografia, rochas, águas, vegetação e solos. Dentre outros, podendo ou não estar todos esses
componentes presentes. Bertrand (1971) dá ao Geossistema uma conotação uma pouco diferente de
Sotchava (1978). Para ele, o Geossistema é uma unidade, um nível taxonômico na categorização da
paisagem: zona, domínio, região, “geossistema”, geofaces, geótopo.
O geossistema é certamente um sistema natural, com dinâmica e mecanismos próprios,
interconectados ao sistema global. Mas o ser humano jamais pode ser apenas um figurante em sua análise.
O homem é parte integrante da natureza, de sua evolução e transformação e, portanto, faz parte do
geossistema.
A ação antrópica faz parte do geossistema, embora ela possa afetar seu equilíbrio ou até mesmo
sua dinâmica. Assim como o fazem as modificações naturais. A energia “consumida” e ou
“transformada” com a ação antrópica poderá ser liberada do meio em forma de calor, no clima, na erosão
dos solos, ventos ou mesmo nas geomorfogêneses ou podogêneses. A troca permanente de energia e
matéria adquire proporções e ritmo muito mais intenso que aquele que normalmente a natureza imprime.
Cada uma dessas formas de energia liberada ao meio desencadeará ações e reações, e a unidade
geossistêmica procurará restabelecer o equilíbrio.
Neste ponto, é oportuno empregar os conceitos de Unidades Ecodinâmicas preconizadas por
Tricart (1977), sobre o prisma da Teoria de Sistemas que parte do pressuposto de que, na natureza, as
trocas de energia e matéria se processam através de relações de equilíbrio dinâmico. A intervenção
humana tem alterado constantemente esse equilíbrio. Diante disto, Tricart (1977) definiu que os
ambientes, quando estão em equilíbrio dinâmico, são estáveis; quando em desequilíbrios, são instáveis.
Para que esses conceitos pudessem ser utilizados, ROSS (1990) ampliou-os, estabelecendo as
Unidades Ecodinâmicas Instáveis ou de Instabilidades Emergentes em vários graus, desde Instabilidade
Muito Fraca e Muito Forte. Ampliou-o para as Unidades Ecodinâmicas Estáveis; que, apesar de estarem
em equilíbrio dinâmico, apresentam instabilidade potencial em diferentes graus, tais como: as
Instabilidades Emergenciais, ou seja, de Muito fraca a Muito forte.
Claro que para o procedimento operacional, para a análise empírica da fragilidade dos ambientes
naturais, são necessários estudos básicos de todos os elementos e suas variáveis no espaço e no tempo
para se chegar a um diagnóstico das diferentes categorias hierárquicas da fragilidade dos ambientes
naturais.
Quanto à sua área (geossistema), ela deverá variar de acordo com o objetivo a alcançar. Nunca
poderá ser conceitualmente predeterminada. Cabe ao pesquisador encontrar seus limites sempre
lembrando que o espaço deve ser considerado como uma totalidade. A prática, porém, exige que ele seja
dividido em partes para sua melhor análise. Essas partes só terão sentido quando consideradas suas inter-
relações. Por um lado, é importante não esquecer que, em suas delimitação, deverão ser encontrados
aspectos homogêneos. Quanto maior a área menor a chance de encontrá-los. Por outro lado, geossisternas
muito pequenos correm o risco de ter um caráter muito significativamente verticalizado, mais afeito ao
estudo biológico, restringindo a inter-relação de seus componentes.
Bertrand (1971), ao estudar a paisagem, classificou-a em dois níveis: as unidades superiores
(zona domínio, região natural) e as unidades inferiores (geossistema, geofáces e geótopo). Veja as
considerações de Bertrand para a caracterização dos geossistemas:

Geossistema corresponde a dados ecológicos relativamente estáveis. Ele resulta da combinação de fatores
geomorfológicos (natureza das rochas e dos mantos superficiais, valor do declive, dinâmica das vertentes...),
climáticos (precipitações, temperatura...) e hidrológicos (lençóis freáticos epidérmicos e nascentes, pH das
águas, tempo de ressecamento dos solos...). E o potencial ecológico. Ele estuda por si mesmo e não sob
aspecto limitado de um simples lugar (...). Pode-se admitir que existe, na escala considerada, uma sorte de
“Contínuo” ecológico no interior dum mesmo geossistema, enquanto a passagem de um geossistema a outro
é marcada por uma descontinuidade de ordem ecológica.

Para ele, o geossistema está em estado de climax quando há um equilíbrio entre o potencial
ecológico e a exploração biológica. Como o potencial ecológico e a exploração biológica são dados
instáveis, que variam no tempo e no espaço, são comuns geossistemas em desequilíbrio bioclimáticos.
217
Revista Formação – Edição Especial – n.13 v.2

Bertrand (1971) classificou os geossistemas pautado na teoria de bioresistasia de H. Erhart apud


Bertrand (1971). Agrupando em dois conjuntos dinâmicos: os geossistemas em bioestásia e os em
resistásia — nos geossistemas em bioestasia, a intervenção antrópica pode provocar uma dinâmica
regressiva sem nunca comprometer o equilíbrio. Já os geossistemas em resistásia, a mobilidade dos
componentes leva a uma crise geomorfológica suficiente e capaz de modificar o modelado do relevo.
Na abordagem de Bertrand (1971), é evidente a sua preocupação em analisar as alterações na
paisagem. Sem, contudo, se preocupar com o desequilíbrio e suas conseqüências ambientais. Ao analisar
os exemplos citados pelo autor, constata-se, pelos componentes naturais citados, que foram estudos
efetuados em território europeu, onde o clima predominante é o temperado, cujas características são
muito diferentes daquelas apresentadas pelos climas tropicais.
Novos conceitos foram inseridos à Geografia Física principalmente se analisar a paisagem como
um geossistema, devido à massa organizada, à presença de energia livre e à existência de atividades
antrópicas. As preocupações com o meio ambiente se ampliam a cada dia. Talvez, com a intensificação
das ações antrópicas, os desequilíbrios têm nos dado respostas indesejáveis, tais como as mudanças
climáticas (...).
No campo da análise ambiental, o problema que desperta a atenção dos estudiosos é o fato de
que os componentes dos geossistemas serem governados por leis naturais. Seus componentes estão inter-
relacionados pelo fluxo de massa e ou energia. A paisagem tem sido ocupada e transformada pelo
homem. A sociedade humana tornou-se o principal agente nos processos naturais. Ela cria geossistemas
sócio-econômicos, com a finalidade da utilização racional da paisagem e de seus recursos naturais. Desse
modo, o homem tenta controlar e ajustar os geossistemas e, desta forma, manter as bases naturais e
energéticas a um nível que permita a satisfação e a segurança das necessidades da sociedade humana.
O homem pode até controlar a entrada e saída de massa de um geossisterna. A energia que entra
no sistema, se não “for utilizada”, potencialmente se agregará a outros componentes do geossisterna ou
ainda poderá ser liberada ao “componente global”, ou seja, é dissipada pelo balanço global.
De fato, o sistema tecnológico tem necessidade de energia extraída. A construção de uma
estrada, os meios de transportes, uma cidade, uma indústria, (...) necessitam de energia extraída e
“consumida/transformada” para que sejam construídas ou movidas. Exaurindo-se os recursos como o
petróleo, o metano e o carvão, o sistema tecnológico atual deverá converter-se e modificar-se, sob pena de
muitos dos atuais processos produtivos desaparecerem.
Para esta abordagem, as idéias reunidas por Christofoletti (1990) contribuíram para a discussão.
Salienta o autor que, ao se abordar os sistemas em Geografia Física, os geógrafos devem focalizar os
geossistemas, sem olvidar os controles exercidos pelas atividades antrópicas, que podem contabilizar
como inputs dc energia e matéria inferidas nas características, na dinâmica e transformação dos sistemas.
O objetivo não é chegar a um modelo de geossistema onde haja um equilíbrio, embora ao se
proceder a um estudo de impactos ambientais o pesquisador deverá considerar estar ciente do
entrosamento aninhado entre os vários níveis da concepção hierárquica da organização espacial e avaliar
adequadamente, em cada escala, a significância da ação exercida pelos fatores físicos e sócio-
econômicos. Não se devem considerar os componentes do quadro natural por si mesmo, mas investigar as
unidades resultantes da interação e as conexões existentes nesse conjunto. Essa concepção evidencia que
o conjunto resultante não é apenas a composição da somatória das suas partes, mas características que só
o todo possui.
Para Christofoletti (1990), toda atividade antrópica exercida na superfície terrestre age sobre a
dinâmica e características de um determinado geossistema e, por fluxos de energia, sobre os aspectos de
cada elemento particular. Nos estudos dos geossistemas, deve-se integrar os inputs energéticos dos
processos pluviométricos e dos processos geodinâmicos. Para exemplificar, citamos as mudanças e as
transformações na dinâmica e na expressividade espacial físicogeográficas.
Em tempos atuais, contamos com uma rede mundial de microcomputadores, com o imageamento
contínuo da superfície da Terra e com os mais diversos sistemas de monitoramento de dados. Com todo
esse arsenal tecnológico, as possibilidades de aplicabilidade nos estudos das possíveis alterações nos
componentes dos sistemas são satisfatórias. As imagens de satélites nos fornecem dados da superfície
seqüenciais possibilitando a análise de um contínuo evolutivo.

218
BORSATO, V. A.; SOUZA FILHO, E. E.
Ação antrópica, alterações nos geossistemas, variabilidade climática: contribuição ao problema.
Para uma compreensão a respeito de Geossistema e seus componentes, é necessário voltar-se ao
objetivo, pois ele direcionará a resposta. Seus elementos devem ser considerados de acordo com o seu
valor num dado momento histórico, o clima, a hidrografia, o solo, a vegetação e, sobretudo, o
componente antrópico. Todos devem ser considerados na análise.
Os componentes necessariamente considerados deixam de ter características próprias. O que
fundamenta a análise é o caráter da inter-relação, causas e evolução dos componentes e dos fluxos de
energia que propulsionam os geossistemas. A energia liberada ou acrescida é uma resposta a qualquer
alteração que se processa extra ou intra geossitêmica.
As ações antrópicas modernas têm dinamizado os geossistema a tal ponto que as inter-relações
entre os componentes têm gerado fluxos de energia não assimilados pelos componentes; gerando, dessa
forma, desequilíbrios. Podem ser considerados também, que a energia excedente está sendo
disponihilizada ao meio ambiente global, e o aquecimento geral da atmosfera pode ser uma das
conseqüências.

5. As alterações nos geossistemas e o clima.

Como o clima é o componente dos geossistemas que mais transcendem os seus limites, tem sido
o objeto de maior preocupação de inúmeras instituições ligadas ao meio ambiente. Os Propósitos da
Convenção Sobre Mudança do Clima (C&T Brasil 2003), exemplificam esta preocupaçao:

1. “Efeitos negativos da mudança do clima” significam as mudanças no meio ambiente físico ou biota
resultantes da mudança do clima que tenham efeitos deletérios significativos sobre a composição, resistência
ou produtividade de ecossistemas naturais e administrados, sobre o funcionamento de sistemas
socioeconômicos ou sobre a saúde e o bem-estar humano.
2. “Mudança do clima” significa uma mudança de clima que possa ser direta ou indiretamente atribuída à
atividade humana que altere a composição da atmosfera mundial e que se some áquela provocada pela
variabilidade climática natural observada ao longo de períodos comparáveis.
3. “Sistema climático” significa a totalidade da atmosfera, hidrosfera, biosfera e geosfera e suas interações.
4. “Emissões” significam a liberação de gases de efeito estufa e/ou seus precursores na atmosfera numa área
específica e num período determinado.
5. “Gases de efeito estufa” significam os constituintes gasosos da atmosfera, naturais e antrópicas, que
absorvem e reemitem radiação infravermclha.
6. “Organização regional de integração econômica” significa uma organização constituída de Estados
soberanos de uma determinada região que tem competência em relação a assuntos regidos por esta
Convenção ou seus protocolos, e que foi devidamente autorizada, em conformidade com seus procedimentos
internos, a assinar, ratificar, aceitar, aprovar os mesmos ou a eles aderir.
7. “Reservatórios” significam um componente ou componentes do sistema climático no qual fica
armazenado um gás de efeito estufa ou um precursor de um gás de efeito estufa.
8. “Sumidouro” significa qualquer processo, atividade ou mecanismo que remova um gás de efeito estufa,
um aerossol ou um precursor de um gás de efeito estufa da atmosfera.
9. “Fonte” significa qualquer processo ou atividade que libere um gás de efeito estufa, um aerossol ou um
precursor de gás de efeito estufa na atmosfera. (C&T Brasil 2003)

Os objetivos estabelecidos pela Convenção sobre Mudança do Clima também reforçam a idéia
de que o clima é um componente do sistema terrestre a responder às agressões antropogênicas e natural, e
que as eventuais modificações nos demais componentes são conseqüências.
Por essa razão, justifica-se a preocupação em abordar as idéias de Sotchava (1978), que
considera as conexões e não os componentes em si e por si. Ou seja, devem ser consideradas as inter-
relações assim como também as interações que, quando alteradas, poderão desencadear fluxos de energia
que, em condições dinâmicas habituais, eram potencialmente engendradas pelos próprios geossistemas.
A energia liberada e acumulada no sistema global comanda a dinâmica do sistema planetário, ou
seja, as trocas de energia (calor) entre as zonas da Terra. As correntes oceânicas, os ventos alísios e
contra-alísios, os ciclones extratropicais, as correntes convectivas. são exemplos, entre outros, de como a
energia disponibilizada no meio é consumida”.
A ação antrópica está acrescentando ou redirecionando a energia nos geossistemas que, por sua
vez, está liberando ao meio essa energia. Assim, as alterações climáticas globais, parecem ser as
219
Revista Formação – Edição Especial – n.13 v.2

conseqüências mais significativas neste momento histórico. O objetivo principal da Convenção Sobre
Mudanças do Clima, além de reforçar a idéia de que o clima é o componente do sistema que, neste
momento, mais preocupa as autoridades governamentais (C&T Brasil 2003).
O objetivo final desta Convenção (Convenção Sobre Mudanças do Clima) e de quaisquer
instrumentos jurídicos com ela relacionados que adotem a Conferência das Partes é o de alcançar, em
conformidade com as disposições pertinentes desta Convenção, a estabilização das concentrações de
gases de efeito estufa na atmosfera num nível que impeça uma interferência antrópica perigosa no sistema
climático. Esse nível deverá ser alcançado num prazo suficiente que permita aos ecossistemas adaptarem-
se naturalmente à mudança do clima, que assegure que a produção de alimentos não seja ameaçada e que
permita ao desenvolvimento econômico prosseguir de maneira sustentável. (C&T Brasil 2003).
Há um grande questionamento a respeito de ser possível a redução da emissão de gases de efeito
estufa na atmosfera. E duvidoso que seja possível a produção de bens e alimentos em quantidade e
qualidade suficiente para garantir o mínimo de qualidade de vida para uma população crescente sem que
os geossistemas sejam modificados. E para finalizar, em uma utilização sustentável pode ser
implementada em um geossistema em resistásia.
O homem precisa, necessariamente, conhecer profundamente as interações que se processam no
interior dos geossistemas para, a partir de então, poder atuar de forma sustentável e sem agravar a
degradação do meio.

6. Abordagem geográfica sobre as alterações no meio físico.

Diante das idéias expostas, um conceito que deverá ganhar corpo neste princípio deste século é o
da entropia, aplicado aos sistemas terrestre. Sem pretensões de aprofundar na questão, parece oportuno,
principalmente diante das intensas agressões que o meio ambiente vem sofrendo.
Ao se analisarem as degradações ambientais, como resultado do estado de energia disponível no
meio, ou seja, o estado de desordem em que a energia se encontra que é medida por uma quantidade
conhecida por entropia. Para a Física, quanto maior é o estado de desorganização, tanto maior é a
entropia, quanto menos intensa for a desorganização, menor é a entropia. É essa a preocupação: seis
bilhões de seres humanos “consumindo” energia e aumentando a energia, essa transformada a partir da
agropecuária, da queda d’água, da combustão dos combustíveis fósseis e da energia retirada do átomo.
Aparentemente a dissipação da energia tende a provocar um aumento da entropia. O componente
que responde quase que simultaneamente é o clima, que, por sua vez, causará “desordem” nos demais
componentes. Um exemplo disso é a possibilidade de mudanças climáticas derivadas do aumento de CO2
na atmosfera. A variabilidade climática, por se tratar de parâmetro possível de ser mensurado, é um dado
muito interessante e possível de ser investigado, inclusive à grandeza de um geossistema.
Se numa dada região for constatado que a amplitude térmica anual teve alterações, os dias com
registros de precipitações diminuíram, as chuvas se tornaram mais intensas em cada episódio, a
velocidade do vento aumentou em determinados meses, admite-se a ocorrência de tornado pela primeira
vez no sul do Brasil; a temperatura no verão está mais alta, a umidade relativa do ar também se mostra
alterada, é possível que tais modificações desencadeiam fluxos de energia que afetam outros elementos do
geossistema, e aumenta o estado de desorganização, ou seja, aumentam a entropia do sistema. Como
causa ou como conseqüência, as alterações no clima são cada vez mais evidentes e as alterações
manifestadas ou desencadeadas são motivos de preocupação de pesquisadores e autoridades.

7. Abordagem geográfica sobre as alterações no meio físico, a busca de um novo paradigma.

Com todo o desenvolvimento tecnológico disponibilizado, a geografia não conseguiu dar conta
satisfatoriamente. Embora a climatologia brasileira se desenvolveu bastante a partir da rica e vasta
produção de Monteiro, que introduziu, no Brasil, a Climatologia Moderna.

220
BORSATO, V. A.; SOUZA FILHO, E. E.
Ação antrópica, alterações nos geossistemas, variabilidade climática: contribuição ao problema.
Para Sant’Anna Neto (2002), por uma Geografia do Clima, considera-se que o paradigma
perseguido pela climatologia brasileira, a partir de Monteiro através da análise rítmica, em 40 anos no
Brasil, produziu um grande volume de trabalhos, agora, aliado ao desenvolvimento computacional entre
outras ferramentas tecnológicas, possibilitou, pela primeira vez na história, de se obter uma visão da Terra
em escala planetária, como um planeta orgânico. Começou-se a perceber que o clima, mais do que um
fato, é uma teoria, que, longe de funcionar de acordo com uma causalidade linear herdada da concepção
mecanicista de um universo regulado como um relógio, “... se expressa num quadro conjuntivo ou
sincrônico à escala planetária, num raciocínio ao qual ainda não estamos acostumados”. Sant’Anna Neto
(2002) considera que:

As concepções aceitas até hoje não são mais suficientemente esclarecedoras para a explicação de um
universo “caótico” e “desordenado”. As novas revelações a respeito das teorias do caos e da catástrofe
podem, ao que tudo indica, ser capazes de trazer à tona antigos problemas de ordem conceitual que foram
incapazes de explicar, em toda a sua magnitude, o complexo funcionamento dos fenômenos atmosféricos e
permitir, sob novas perspectivas, a compreensão da dinâmica climática completamente inimaginável sob as
amarras metodológicas de uma ciência que ainda procede de modo simplista e que anda tão necessitada de
reformulações teóricas condizentes com estes novos espíritos científicos. Neste final de século, acrescenta o
autor, nenhuma postura investigadora parece ser mais acertada do que a busca de uma nova razão para um
novo conhecimento. Todo o esforço realizado nas últimas décadas, nos vários campos da ciência, tem
provocado inevitáveis reformulações teóricas, que têm convergido em uma tendência universal de busca de
uma concepção transdisciplinar, que exige uma postura mais radical para a compreensão do que Monteiro
(1991) chama de “imensa desordem das verdades estabelecidas”.

Sant’Anna Neto (2002), ao considerar uma Geografia do Clima, propôs um novo paradigma,
Geografia do Clima, também preocupado com as respostas que poderão se desencadear com o avanço na
conquista e na ocupação do território. Veja as considerações do autor:

Neste contexto, à medida que o modo de produção capitalista avança na conquista e na ocupação do
território, primordialmente como um substrato para a produção agrícola e criação de rebanhos e,
posteriormente, erguendo cidades, expandindo o comércio, extraindo recursos naturais e instalando
indústrias, ou seja, ao se apropriar da superfície terrestre, este se constitui no principal agente produtor do
ambiente. Como este ambiente é “vivo” e regulado por processos e dinâmicas próprias, responde às
alterações impostas pelo sistema, resultando em níveis de produção dos ambientes, naturais e sociais, dos
mais variados.(...), a análise geográfica do clima que se tem praticado se sustenta a partir do tripé ritmo
climático — ação antrópica – impacto ambiental. A análise episódica comparece como fundamento básico
no desenvolvimento da Climatologia Geográfica que tenta dar conta da explicação, da gênese e dos
processos de natureza atmosférica intervenientes no espaço antropizado. Entretanto, esta análise não tem sido
suficientemente esclarecedora dos mecanismos de feedback, nem das projeções futuras que deveriam ser
incorporadas nas propostas de gestão e monitoramento dos fenômenos atmosféricos.

As questões ambientais têm despertado preocupações em todos os seguimentos científicos. As


diversas áreas de pesquisas tem direcionado atenções aos problemas relativos ao meio ambiente. Na
Geografia, as preocupações são ainda maiores, principalmente se considerá-la como uma ciência que
procura dar explicações à organização do espaço e, para isso, considera o homem como o agente
principal. Se o nível de desenvolvimento econômico e tecnológico de uma sociedade transforma o
ambiente, não há dúvida de que também o clima é influenciado. Pois o clima pode ser considerado um
regulador da produção agrícola além de um importante componente da qualidade de vida das populações.
Parece razoável, neste momento, em que o desenvolvimento tecnológico nos possibilita, através
da informática e do sensoriamento remoto, considerando que as informações veiculam em escala
planetária e podem ser obtidas e analisadas em tempo real, procurar investigar dentro da análise rítmica
um novo paradigma: o “estado de entropia dos geossistemas terrestres”. Para tanto, é necessária a
utilização das técnicas geoprocessuais.
As ciências exatas, tais como a Física, a Estatística e a Meteorologia, podem, já que apresentam
um arsenal metodológico capaz de realizar operações que envolvem elementos complexos, auxiliar e
configurar uma metodologia capaz de “estimar” (mensurar) o estado de entropia, ou seja, em função da
intensidade das alterações causadas pelo homem, categorizar o estado de entropia. Por outro lado, a

221
Revista Formação – Edição Especial – n.13 v.2

resposta pode estar no geoprocessamento, ferramenta cuja aplicação se amplia a cada dia. Não é exclusiva
de uma determinada área, está disponível a todos os pesquisadores e planejadores do meio físico.
O número de pesquisadores que utilizam o Sistema de Informação Geográfica (SIG) é cada vez
maior, e o campo de atuação se amplia. Novas tecnologias são disponibilizadas. A parcela da população a
ter acesso às ferramentas computacionais também se amplia. Ao que parece imutável é a consciência de
uma parcela da população; de um lado os grandes empresários que na busca do lucro selvagem e
irracional e do outro os consumidores e não consumidores desprovidos de conhecimentos não se
conscientizam sobre as questões das alterações que se processam no meio natural em função dos
desequilíbrios causados pela ação antrópica.

8. Considerações finais.

A transformação da fonte de energia fóssil em unidades caloríficas mais a redução da biomassa


do planeta, além da transposição da biomassa, ou seja, gêneros agrícolas produzidos na zona tropical, são
transportados e consumidos na temperada, considerando a biomassa como energia potencial e que se
encontrava em equilíbrio, principalmente anterior ao desenvolvimento tecnológico recente, pós
Revolução Industrial, são parâmetros a ser considerados.
Com a globalização econômica e o desenvolvimento tecnológico, a climatologia tem buscado
explicações para uma análise geográfica profunda. Embora não se tenha evoluído o suficiente para
predizer as respostas que poderão ser desencadeadas com as alterações que se procedem no meio natural a
partir da energia potencializada nos geossistemas. Parece prudente que se busquem novas metodologias e
fórmulas que sejam capazes de explicar como as ações praticadas se refletem no estados da entropia do
sistema terrestre. A partir do momento que a entropia for “mensurada”, os caminhos ficarão acessíveis.
Enquanto não se tem essa metodologia, os esforços terão que ser canalizado para a conscientização da
população, seja através da educação formal ou informal. E a partir do momento em que a grande maioria
da população estiver consciente do problema, medidas mitigadoras minimizarão os impactos que advirão
de mudanças climáticas, ou quem sabe, minimizarão os impactos no meio natural de tal forma que a
entropia seja minimizada e as características climáticas permanecerão estáveis.

9. Referências Bibliográficas.

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da Terra. São Paulo: IGEOG-USP,n. 13, 1971.
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- Editado e traduzido pelo Ministério da Ciência e Tecnologia com o apoio do Ministério das Relações
Exteriores da República Federativa do Brasil; C& T Brasil 2003, disponível on line www.ana.gov.br.
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CHRISTOFOLETTI, A. A aplicação da abordagem em sistema na Geografia Física. Revista Brasileira
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LOMBARDO, M. A. Mudanças Climáticas: Considerações sobre Globalização e Meio Ambiente. In:
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MONTEIRO, C. A. de F., Cadernos Geográficos. Universidade federal de Santa Catarina. Centro de
Filosofia e Ciências Humanas. Departamento de Geociências, n. 1 (maio 1999), Florianópolis; imprensa
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ROSS, J, L, S. O registro cartográfico dos fatos geomorfológicos e a questão da taxonomia do relevo. In:
Revista do Departamento de Geografia. São Paulo, FELCH-USP, n. 8, 1994.

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BORSATO, V. A.; SOUZA FILHO, E. E.
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SANTANNA NETO, J. L., e ZAVATINI, J. A. (Org.). Variabilidade e Mudanças Climáticas.
Implicações ambientais e socioeconômicas. In: SANTANNA NETO, J. L (org). As chuvas no Estado de
São Paulo: a variabilidade pluvial nos últimos 100 anos. Maringá: Eduem, 2000.
________. Por uma Geografia do Clima: Antecedentes históricos, paradigmas contemporâneos e
uma nova razão para um novo conhecimento. Laboratório de Climatologia. Departamento de
Geografia da FCT/IINESP. Grupo de Pesquisa “Climatologia Geográfica” (CNPq), 2002.
SOTCHAVA, V. B. Por uma Teoria de Classificação de Geossistemas de Vida Terrestre.
Universidade de São Paulo, Instituto de Geografia “14 Biogeografia”. 1978.
TRICART, J. Ecodinâmica. Rio de Janeiro: FIBGE/SUPREN, 1977.
VAREJÃO-SILVA, M. A. Meteorologia e Climatologia - Brasília: INMET, Gráfica e Editora Stilo,
2000.

223
Desafios para Mitigação
de Impactos das Ações
Antrópicas no Cerrado
Eny Duboc
Rui Fonseca Veloso

Introdução
O Brasil é considerado um dos países de maior diversidade biológica,
pois abriga cerca de 10 % das formas viventes no planeta, de um total
de aproximadamente 15 milhões de espécies (MYERS et al., 2000). Ou
seja, 1,5 milhão de espécies, entre vertebrados, invertebrados, plantas
e microrganismos.

O segundo maior bioma brasileiro é o Cerrado, um mosaico de


formações vegetais que variam desde campos abertos até formações
densas de florestas que podem atingir 30 m de altura (EITEN, 1972;
RIBEIRO; WALTER, 1998). Com uma extensão de cerca de 2 milhões
de quilômetros quadrados, o Bioma Cerrado ocupa 23,9 % do
território nacional (IBGE, 2007). Mesmo considerando a diminuição
na diversidade biológica, a riqueza de espécies no Cerrado ainda é
muito expressiva, podendo representar 33 % da diversidade biológica
do Brasil (AGUIAR et al., 2004). De acordo com Mendonça et al.,
(1998), cerca de 35 % das plantas do Cerrado são típicas da formação
denominada Cerrado sentido restrito, 30 % são de Matas de Galeria,
25 % de áreas campestres e 10 % ainda não estão classificadas. Para
Myers et al. (2000), o nível de endemismo no Cerrado pode chegar a
44 % para as plantas vasculares.
10 Desafios para Mitigação de Impactos das Ações Antrópicas no Cerrado

Atualmente, o Cerrado possui cerca de 6 % de sua área protegida em


unidades de conservação (IBAMA, 2007). Trata-se de uma condição
de extrema vulnerabilidade, pois os processos de ocupação agrícola e
expansão das áreas urbanas são intensos, penalizando a conservação
dos recursos naturais e da biodiversidade (AQUINO et al., 2008). Vale
ressaltar que, por comportar boa parte das cabeceiras de algumas
das principais bacias hidrográficas brasileiras, o Cerrado constitui-se
de grande importância para o fornecimento de recursos hídricos para
diversas regiões em todo o País (LIMA; SILVA, 2007).

Sob o ponto de vista do desenvolvimento socioeconômico, a pesquisa


tecnológica e a melhoria dos padrões de produtividade das atividades
agrícolas são fundamentais e podem contribuir para a redução da
pressão antrópica sobre as áreas nativas ou remanescentes de Cerrado.
Para Aguiar et al. (2004) e Hoeflich (2006), a competitividade do
agronegócio brasileiro não se deve apenas ao aumento das terras
plantadas e cultivadas, mas a um aumento da produtividade, graças à
pesquisa e à incorporação de novas tecnologias. Até o início da década
de 1990, o aumento da produção era obtido pelo aumento significativo
da área plantada, a partir de 1990 houve maior produtividade de grãos
por área plantada (Fig. 1).

Ainda observando a Fig. 1, nota-se que, na Região Centro-Oeste, a


partir da safra 1995/1996, a despeito do aumento da produtividade,
que passou de 2,4 t/ha para 3,25 t/ha de grãos, a área ocupada por
culturas esteve em franca expansão, passando de 7,7 milhões de
hectares para 15,1 milhões de hectares cultivados com grãos. Por
exemplo, de acordo com Aguiar et al. (2004), entre 1995 e 2002,
somente a área utilizada nos plantios de soja dobrou de tamanho,
passou de 4,3 milhões de hectares para mais de 9,5 milhões
de hectares. Entretanto, nas últimas safras, ou seja, a partir de
2005/2006, tanto na Região Centro-Oeste como no Brasil, a área total
de plantio de grãos apresentou certa estabilidade, com tendência a
redução.
Desafios para Mitigação de Impactos das Ações Antrópicas no Cerrado 11

60 4.000

3.500
50

3.000

40

Produtividade (kg/ha)
Milhões de hectares

2.500

30 2.000

1.500
20

1.000

10
500

0 0
2000/01
1990/91
1980/81

2001/02
1991/92
1981/82

2003/04
1989/90

1993/94

2005/06
1979/80

1983/84

1995/96
1996/97

2002/03
1985/86
1986/87

1992/93

1997/98
1998/99
1976/77

1982/83

1987/88
1988/89
1977/78
1978/79

2004/05
1994/95
1984/85

1999/2000

2006/07*
2007/08*
Safra
C-Oeste - Área Sudeste - Área Sul - Área BRASIL - Área * Previsão
C-Oeste - Yield Sudeste - Yield Sul - Yield BRASIL - Yield CONAB
Fig. 1. Evolução da área plantada e da produtividade de grãos em algumas regiões e no
Brasil.
Fonte: Duboc e Veloso (2008).

Cabe também ressaltar que a área destinada ao cultivo de outras


culturas, como a cana-de-açúcar, vem aumentando, num processo de
substituição de áreas de pastagens, como também de grãos e cereais.
Somente no ano de 2007, foram plantados no Estado de São Paulo
cerca de 600 mil hectares a mais de cana-de-açúcar, alcançando, nesse
estado, em 2007/2008, cerca de 4,2 milhões de hectares de cultivos
contínuos, por cinco anos (Fig. 2).

Concomitantemente, observa-se (Fig. 3) diminuição de


aproximadamente 480 mil hectares na área plantada com grãos
no Estado de São Paulo, a partir de 2004/2005, com respectiva
diminuição da produção, a despeito do aumento de produtividade.
12 Desafios para Mitigação de Impactos das Ações Antrópicas no Cerrado

7.000.000
2003/2004
6.000.000 2004/2005
2005/2006
5.000.000 2006/2007
2007/2008
Milhões de ha

4.000.000

3.000.000

2.000.000

1.000.000

0
Paraná São Minas Goiás Mato Mato Sub-total
Paulo Gerais Grosso Grosso
do Sul
Estado

Fig. 2. Expansão da área plantada com cana-de-açúcar na Região Centro-Sul do Brasil.


Fonte: INPE (2008).

8.000
Área (1000 ha) Produtividade (kg/ha) Produção (1000 toneladas)

7.000

6.000

5.000

4.000

3.000

2.000

1.000

0
2000/01
1990/91
1980/81

2001/02
1991/92
1981/82

2003/04
1993/94

1999/2000

2005/06
1979/80

1983/84

1989/90

1995/96
1996/97

2002/03
1985/86
1986/87

1992/93

1997/98
1998/99
1976/77

1982/83

1987/88
1988/89
1977/78
1978/79

2004/05
1994/95
1984/85

2006/07*
2007/08*

Safra * Previsão CONAB

Fig. 3. Evolução da área plantada, da produção e da produtividade de grãos no Estado de


São Paulo.
Desafios para Mitigação de Impactos das Ações Antrópicas no Cerrado 13

Atualmente, as culturas temporárias de ciclo anual ocupam cerca de


55 milhões de hectares (6,4 % do território nacional), as culturas
permanentes, de ciclo mais longo – café, cítricas e frutíferas –, 17
milhões de hectares (2 % do total) e as florestas plantadas constituem
5 milhões de hectares (0,6 %). As três classes somam 77 milhões
de hectares, ou seja, 9 % do total do território nacional. Os produtos
florestais respondem por 15,1 % das exportações do agronegócio,
ocupando a terceira posição, atrás somente da soja e da carne bovina
(HOEFLICH, 2006).

Cenários Atuais a Pressionar o


Cerrado
Expansão da demanda por alimentos
De acordo com projeções do Banco Mundial, em 2025, a população
mundial será de 8,5 bilhões de pessoas, 33 % maior que os atuais
6,4 bilhões de habitantes. O crescimento populacional, o processo de
urbanização e a elevação da renda nos países emergentes terão como
importante conseqüência o aumento da demanda mundial por alimentos
(PESQUISA AGRÍCOLA, 2008).

De acordo com o Instituto de Pesquisa em Políticas para a Alimentação


e a Agricultura (Fapri), organização norte-americana, na safra
2017/2018, as exportações mundiais chegarão a 340 milhões de
toneladas, das quais 58,3 milhões – cerca de 17 % – do Brasil. Ainda
segundo a Fapri, em 10 anos, o Brasil passará de 29,6 milhões de
toneladas de grãos de soja exportados atualmente, para 54,2 milhões,
um aumento de mais de 83 %. Esse resultado será puxado em grande
parte pelas importações da China, hoje responsável por 32 % das
vendas brasileiras do produto. O Ministério da Agricultura, Pecuária e
Abastecimento (Mapa) tem previsto um aumento de 6,9 milhões de
hectares na área plantada brasileira, alcançando 45 milhões de hectares
cultivados em 2018. E que, em 10 anos, o País deverá ser responsável
por mais da metade da carne bovina e de frango exportada (52,2 %
e 56,3 %, respectivamente, do mercado mundial), além de responder
por 23,7 % do comércio internacional de carne suína, não se limitando
apenas à exportação de grãos, para atender a demanda mundial de
alimentos (COUTO, 2008).
14 Desafios para Mitigação de Impactos das Ações Antrópicas no Cerrado

Vários fatores têm sido apontados como responsáveis pela alta mundial
nos preços dos alimentos. Entre eles, vale ressaltar os seguintes: o
impacto da alta do petróleo no agronegócio, em particular no transporte
e nos fertilizantes; a elevação dos preços de outras matérias-primas,
como o minério de ferro, usado na produção de aço, base para a
fabricação de tratores e outros bens; e o descompasso entre as
quantidades ofertadas e demandadas de produtos, que ocorreu no atual
ciclo de prosperidade global, situação geradora de problemas segundo
os analistas de mercado (FUCS, 2008) (Fig. 4).

(%) 250
213 220
193
200

150

92
100

50 39

0
Cereais Óleos e Carne Leite Açúcar
gorduras

Fig. 4. Aumento dos preços (em %) dos produtos agrícolas no


exterior desde a crise econômica de 2003 até o fim de 2007.
Fonte: FAO/ONU citado por Fucs (2008).

Consideram que a alta dos preços dos alimentos abre uma oportunidade
para grandes países produtores como o Brasil, mas ao mesmo tempo
têm um efeito desastroso para dezenas de países importadores,
principalmente os menos desenvolvidos (FUCS, 2008).

Expansão da demanda mundial por agroenergia


A Agência Internacional de Energia (IEA) estima crescimento de
53 % do mercado de agroenergia nos próximos 25 anos. Países em
desenvolvimento como a China, Índia e Brasil serão responsáveis pelo
atendimento de 70 % da demanda adicional. Estima-se que, entre
2000 e 2025, a produção de biocombustíveis cresça 10,2 % anuais.
Projeções da Shell indicam a elevação do consumo global de etanol de
48 %, quando comparado ao consumo de 152 bilhões de litros desse
combustível registrado em 2002 (PESQUISA AGRÍCOLA, 2008).
Desafios para Mitigação de Impactos das Ações Antrópicas no Cerrado 15

O Brasil reúne grandes vantagens comparativas, particularmente no


caso do etanol, em razão da produtividade da cana-de-açúcar em
relação a outras matérias-primas: o rendimento em etanol de um
hectare de cana no Brasil é, em média, de 6.800 L, mais que a mesma
área de beterraba na União Européia (5.400 L/ha), de cana na Índia
(5.200 L/ha), e de milho nos EUA (3.100 L/ha) (PESQUISA AGRÍCOLA,
2008). O programa brasileiro de produção de etanol, a partir da
cana-de-açúcar, tem sido considerado como o melhor do mundo, por
gerar menos impacto do que o petróleo no aquecimento global e pela
viabilidade econômica sustentável. A produção brasileira de etanol
passou de 6,3 bilhões de litros em 1998 para 9,3 bilhões de litros em
2007 (ETA NÓIS!, 2008).

Outro combustível renovável com grande potencial é o biodiesel.


Trata-se de uma atividade que praticamente não existia há dois anos,
e que atualmente apresenta 38 unidades industriais funcionando e
outras 47 usinas de biodiesel em diversos estágios de construção.
Os 2 % de óleo vegetal adicionados, na sua grande maioria de soja
(Tabela 1), ao diesel (B2), passaram em junho de 2008, para 3 % (B3),
com a demanda mensal subindo para cerca de 115 milhões de litros
(LOTURCO, 2008b).

Tabela 1. Matérias-primas usadas na produção de biodiesel (jan./07 a fev./08).

Matéria prima Participação em %


Óleo de soja 70,0
Sebo bovino 10,0
Óleo de palma/dendê 1,00
Óleo de algodão 0,33
Óleo de amendoim 0,08
Óleo de mamona 0,03
Óleo de nabo-forrageiro 0,03
Gordura de porco 0,01
Outros 18,5

Fonte: ANP citado por LOTURCO (2008b).


16 Desafios para Mitigação de Impactos das Ações Antrópicas no Cerrado

Com relação ao consumo de carvão vegetal, Loturco (2008a)


considera que o impacto do corte desordenado de florestas nativas
para colher lenha e, na seqüência, carvão vegetal produzido em fornos
rudimentares tem gerado um desconforto que o Brasil ainda sofre
por descaso e incúria. Ao contrário do que aconteceu nos países
industrializados, no Brasil, o uso industrial do carvão vegetal continua
sendo uma opção adotada. O Brasil é um dos maiores produtores e
consumidores de carvão vegetal do mundo (ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA
DE PRODUTORES DE FLORESTAS PLANTADAS, 2006). No País, a
utilização da lenha, empregada principalmente nas carvoarias para
produzir carvão vegetal e na cocção de alimentos nas residências, é
significativa. Com um consumo de 136,6 milhões de metros cúbicos,
em 2004, o Brasil era o terceiro maior produtor de lenha do mundo,
menor apenas do que a Índia e a China com 303,8 milhões de
metros cúbicos e 191,0 milhões de metros cúbicos, respectivamente
(FAO, 2007). Em 2005, para a produção de carvão vegetal, foram
consumidos cerca de 39,3 milhões de toneladas de lenha, equivalentes
a 42,8 % da produção. O setor residencial consumiu cerca de
26 milhões de toneladas (29,3 % da produção) e os restantes 28 %
representaram consumos diretos de lenha na agropecuária e indústria.
A lenha e o carvão vegetal representaram 13 % da matriz energética
brasileira em 2005 (BRASIL, 2006).

Apesar de o consumo de carvão originário de florestas plantadas ter


saltado de 2,8 milhões de MDC1 em 1980 (14,1 %), para 19,2 milhões
de MDC em 2005 (50,4 %), houve também aumento no consumo de
carvão vegetal de origem nativa, que passou de 16,9 milhões de MDC
em 1980 (86 % do total consumido), para 18,8 milhões de MDC em
2005 (49,6 %). Houve aumento constante do consumo de carvão
oriundo da silvicultura de 1980 até a primeira metade da década
de 1990, apresentando, entretanto, nos 10 anos seguintes, uma
estabilização (DUBOC et al., 2007). Esse fato pode estar relacionado
à queda, nesse mesmo período, do preço do petróleo e a conseqüente
queda do preço internacional do carvão mineral. Essa insuficiência de

1
MDC – Metro de Carvão: unidade de medida equivalente à quantidade de carvão que pode ser
contida em um metro cúbico.
Desafios para Mitigação de Impactos das Ações Antrópicas no Cerrado 17

carvão vegetal proveniente de reflorestamento intensificou a pressão


sobre os remanescentes florestais, em especial, do Cerrado. Do total
de 5,5 milhões de toneladas de carvão vegetal produzidas no Brasil em
2005, 34,5 % foram oriundos da vegetação nativa do Cerrado (DUBOC
et al., 2007) (Fig. 5).

4.000.000

Carvão vegetal (esp. plantadas)


3.500.000
Carvão vegetal (esp. nativas)

3.000.000

2.500.000
Produção (t)

2.000.000

1.500.000

1.000.000

500.000

0
1991

2001
1992

2002

2004
1990

1994

2000
1993

1996

1997

2003
1998

1999
1995

Ano 2005

Fig. 5. Evolução da produção de carvão vegetal no Cerrado.

A pressão sobre a vegetação nativa deverá aumentar ainda mais,


se considerarmos os investimentos previstos pela indústria mineral
brasileira. Pois de acordo com o Instituto Brasileiro de Mineração
(Ibran) citado por Brito (2008), estão previstos investimentos na
ordem de US$ 48,2 bilhões até 2012, sendo o minério de ferro o
principal mineral do rol das prioridades, com cerca de US$ 27 bilhões.
Lembrando que o carvão vegetal, assim como o carvão mineral (coque),
é utilizado como redutor do minério de ferro na produção do aço, bem
como para fornecer energia no processo. Esse investimento permitirá
ainda, segundo estimativas do Ibran, que a produção passe dos atuais
18 Desafios para Mitigação de Impactos das Ações Antrópicas no Cerrado

350 milhões de toneladas por ano para quase 700 milhões de toneladas
de minério de ferro (BRITO, 2008).

Importância do negócio agrícola brasileiro


De acordo com Pesquisa Agrícola (2008), crescerá a cada ano a
importância do Brasil para o mundo como produtor e fornecedor de
alimentos, agroenergia e matérias-primas agrícolas. O Mapa projeta,
para 2017, uma colheita de 148 milhões de toneladas de arroz, feijão,
milho, soja e trigo, valor 27 % superior à safra 2005/2006 e de
31,4 milhões de toneladas de carnes, num acréscimo de 10 milhões de
toneladas em relação à mesma safra. Concorre para isso o fato de que
o Brasil tem a maior disponibilidade de terras aráveis (mais de
280 milhões de hectares em pastagens ou não utilizados). Além do
Brasil, apenas Rússia e Estados Unidos possuem cerca de
170 milhões de hectares e 110 milhões de hectares, respectivamente,
de reservas relevantes de terras aráveis, mas de uso limitado pelos
rigores do inverno. China e Índia não dispõem de mais terras livres
para a agricultura, já são importadores líquidos de alimentos e deverão
aumentar sua demanda, pois devem desmobilizar terras agrícolas para
avanço da indústria.

Segundo levantamento do Banco Mundial, existe cerca de 90


milhões de hectares, desconsideradas as áreas de conservação
ambiental, apontadas como terras ociosas, abrangendo diferentes
regiões brasileiras. Uma delas, a chamada Pré-Amazônia, ou Arco do
Desflorestamento, faixa de terra desmatada a partir dos anos 1970
para a formação de pastos, e mais recentemente, zona de extração
madeireira que contorna a floresta e abrange o sul do Maranhão, parte
do Tocantins, norte do Mato Grosso e norte de Rondônia. O
Centro-Oeste – contando com as regiões sul do Mato Grosso do Sul e
norte e nordeste do Mato Grosso – continuará como grande provedor
de grãos, que na próxima década terão uma alta demanda tanto para
exportar como para integrar as rações dos rebanhos nacionais. No
cálculo das áreas com potencial de cultivo entram ainda norte e
centro-oeste de Minas Gerais, norte e noroeste do Estado do Rio de
Janeiro, desde que passem por processos de recuperação, e noroeste
do Paraná (COUTO, 2008).
Desafios para Mitigação de Impactos das Ações Antrópicas no Cerrado 19

Meio ambiente
Embora dois terços da superfície da Terra sejam cobertos de água,
apenas 1 % é apropriada para beber ou ser usada na agricultura e na
indústria; o restante corresponde à água salgada dos mares (97 %) e
ao gelo nos pólos e no alto das montanhas. Uma em cada três pessoas
não dispõe desse líquido em quantidade suficiente para atender às
suas necessidades básicas. As maiores reservas de água subterrâneas
existentes no mundo distribuem-se entre vários países, o primeiro em
extensão, aqüífero Arenito Núbia, distribui-se pelo subsolo de quatro
países – Líbia, Egito, Chade e Sudão. O aqüífero Guarani, segundo em
extensão, é dividido entre Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai.

Poucos notam, mas a água tornou-se um dos produtos mais presentes


no comércio global. Países com poucos recursos hídricos, como a
China, compensam a escassez importando a “água virtual” embutida
em produtos agrícolas ou industriais, calcula-se que sejam necessárias
10 t de água para produzir o equivalente a dois dólares em trigo
e a mesma quantidade do recurso natural, para obter um produto
industrializado de 140 dólares. Como se gasta muito mais água na
irrigação do que nas fábricas, em proporção ao valor final do produto,
pode valer mais a pena para um país importar alimentos e desenvolver
mais os demais setores. Em 2007, a China importou 30 milhões de
toneladas de soja, boa parte oriunda do Brasil, ou seja, está importando
água. Apesar de estar ocorrendo uma mudança no “mercado virtual”
de água, por algum tempo, isso pode contrabalançar a escassez. Mas,
no fim das contas, não existe água suficiente no mundo para atender
ao aumento projetado na demanda de alimentos. A irrigação consome
cerca de 70 % de toda a água doce utilizada no mundo, seguida pela
indústria (22 %) e pelo uso doméstico (8 %) (SCHELP, 2008).

O acréscimo anual de 70 milhões de pessoas à população mundial


está concentrado em países onde os níveis dos lençóis freáticos
estão baixando, os poços secando, as florestas encolhendo, os
solos erodindo e os campos desertificando-se (BROWN, 2008). A
distribuição de água no planeta é desigual. A América do Sul e a
20 Desafios para Mitigação de Impactos das Ações Antrópicas no Cerrado

Oceania são, proporcionalmente à sua população, as regiões com


maior disponibilidade de água. A América do Sul, com apenas 6 %
da população do mundo por continente, possui 26 % da água do
mundo por continente, e a Oceania, com 1 % da população, possui
cerca de 5 % da água. Com cerca de 8 % da população do mundo,
a América do Norte possui 15 % da água. Enquanto a Europa, com
12 % da população, possui apenas 8 % da água, também em posição
desconfortável está a África, com 13 % da população mundial por
continente, e 11 % da água. Mas a situação é crítica na Ásia com
cerca de 60 % da população por continente, possui somente 35 % da
água (SCHELP, 2008).

A escassez de água causada pela poluição e pelo uso abusivo ameaça


algumas regiões. No México, o Lago Chapala teve seu volume reduzido
pela metade e a área em 30 % entre 1986 e 2001, motivados pela
expansão da agricultura em torno dos rios que abastecem o lago e o
uso da água para consumo urbano. O Lago Chade na África Central
perdeu 95 % do seu tamanho original nos últimos 40 anos devido ao
uso da água para irrigação e mudanças climáticas. O Mar de Aral na
Ásia Central perdeu 75 % do seu volume de água desde 1960, em
virtude de dois rios que o abasteciam terem sido desviados para irrigar
plantações de algodão. O Rio Amarelo, na China, teve redução de 75 %
em seu volume desde os anos 1950 em razão do uso para irrigação.
Com cerca de 20 % da população mundial, o território chinês guarda
apenas 7 % das reservas de água, tendo desaparecido 80 % dos peixes
dos rios chineses devido à poluição (SCHELP, 2008).

Estima-se que, nas próximas duas décadas, a temperatura ambiental


aumente, pelo menos, entre 1 ºC e 2 ºC, o que geraria, a partir de
2020, um custo de US$ 150 bilhões para o tratamento de desastres
ecológicos. Segundo o World Wildlife Fund (WWF), com um aumento
de 2 ºC na temperatura, a população ameaçada pela escassez de água
deverá se elevar de 662 milhões para 3 bilhões de pessoas em todo
o mundo. Além disso, estimativas do Painel Intergovernamental sobre
Mudanças Climáticas, da Organização das Nações Unidas, indicam a
Desafios para Mitigação de Impactos das Ações Antrópicas no Cerrado 21

gradativa redução da produção futura de grãos em razão da elevação


da temperatura (PESQUISA AGRÍCOLA, 2008).

A agricultura tem que ser sustentável, mas, também precisa gerar


lucro. Os produtores rurais têm hoje dois papéis: gerar alimentos
e riquezas e ainda preservar as Reservas Legais e as Áreas de
Preservação Permanente de sua propriedade. Para tanto, deveriam
ser remunerados por ambas as funções. Para Brown (2008), os dois
desafios dominantes são reestruturar os impostos para fazer com que o
mercado conte a verdade ecológica e reorganizar as prioridades fiscais
para conseguir os recursos necessários para restaurar a Terra, erradicar
a pobreza e estabilizar o crescimento populacional.

A síndrome do câmbio global tem propiciado a consciência da


insustentabilidade das práticas produtivas atuais e, ao mesmo tempo,
a possibilidade de integração conceitual entre meio ambiente e
desenvolvimento. Assentada em três aspectos principais: a) síndrome
da ameaça à seguridade global, derivada da destruição ambiental e que
ameaça a viabilidade do sistema econômico mundial e sobrevivência
humana; b) síndrome dos limites ao crescimento, ao reconhecer-
se a impossibilidade do crescimento material ilimitado dentro de um
planeta finito e c) síndrome da interdependência entre pobreza e
riqueza, resultante da intrincada inter-relação entre meio ambiente e
desenvolvimento humano (CAPORAL; COSTABEBER, 2007).

As dificuldades para definir com precisão os indicadores e critérios


operativos do que seria uma agricultura verdadeiramente sustentável
têm levado muitos autores a enumerar toda uma série de métodos e
técnicas de produção que estariam mais de acordo com os princípios
gerais básicos da sustentabilidade. Assim, em vez de monoculturas
produzidas com elevados aportes de insumos químicos-mecânicos, a
agricultura sustentável estaria assentada numa maior diversificação
de culturas; integração de agricultura e pecuária; rotação de cultivos;
fertilização orgânica do solo; reciclagem de nutrientes; controle
biológico de pragas, ervas daninhas e doenças; redução do consumo
22 Desafios para Mitigação de Impactos das Ações Antrópicas no Cerrado

energético; eliminação do uso de insumos agroquímicos; incremento da


biodiversidade; entre outros (CAPORAL; COSTABEBER, 2007).

Alguns analistas consideram, no entanto, que não se pode pensar em


propor modelos alternativos que não sejam capazes de garantir níveis
de produção e produtividade agrícola similares aos alcançados com
o modelo tecnológico dominante. Destacam, ademais, que foi tão
somente neste século – a partir do advento da agricultura moderna –
que algumas sociedades conseguiram superar o problema da escassez
de alimentos e, inclusive, assegurar uma superprodução agrícola e
alimentar nunca antes alcançada na história da humanidade. Em todo o
caso, mudar o atual modelo produtivista por outro mais sustentável não
seria, em essência, uma simples opção que se apresenta à sociedade,
seria muito mais um imperativo ecológico, já que são os problemas
ambientais e suas manifestações sociais e econômicas que determinam
a necessidade de maiores esforços com o objetivo de assegurar a
sustentabilidade da agricultura em médio e longo prazo. Entretanto,
não existe até agora uma perspectiva clara de qual seria o padrão
tecnológico resultante desta segunda transição agroecológica do século
(CAPORAL; COSTABEBER, 2007). Para Veiga (1995), citado por
Caporal e Costabeber (2007), espera-se que um futuro modelo mescle
elementos da agricultura moderna com novos resultados gerados em
pesquisas agropecuárias convencionais e agroecológicas.

Considerações Finais – desafios


para o Cerrado
A maior racionalização do dinâmico processo produtivo – via redução
de insumos industriais – constituiria o objetivo principal da agricultura
atual, incorporando, ao mesmo tempo, novos processos e tecnologias
consideradas ambientalmente mais apropriadas (o plantio direto e
o controle biológico de pragas, por exemplo), reduzindo os custos
de produção, mantendo os níveis de produtividade e diminuindo os
impactos ecológicos da atividade agrícola. Será, talvez, a mais provável
linha a ser seguida pela atual agricultura intensiva em capital e insumos
praticada em países desenvolvidos e em determinadas áreas de países
Desafios para Mitigação de Impactos das Ações Antrópicas no Cerrado 23

em desenvolvimento. Poderia se dizer que o modelo produtivista estaria


se adaptando a incorporação de uma “segunda geração tecnológica da
Revolução Verde”, aproveitando inclusive os avanços mais recentes da
biotecnologia (CAPORAL; COSTABEBER, 2007).

Vegetações nativas deverão ser objeto de manejo e preservação,


porque reconhecidas não apenas como estoque genético, mas também
porque provedoras de serviços ambientais, tais como seqüestro de
CO2, a purificação da água e do ar, e o controle climático (PESQUISA
AGRÍCOLA, 2008). A diversidade do Bioma Cerrado é manifestada na
grande quantidade de espécies com potencial de exploração econômica,
incluindo alimentícias, medicinais, ornamentais, forrageiras, apícolas,
produtoras de madeira, cortiça, fibras, óleo, tanino, material para
artesanato e outros usos (FELFILI et al., 2004).

A questão ambiental deverá direcionar a pesquisa agropecuária para a


geração de tecnologias que contribuam para o aumento da eficiência
dos processos produtivos e de consumo. Os novos processos
produtivos precisam atender a critérios de conservação e manejo
dos recursos hídricos, principalmente no que tange à irrigação e à
reutilização do recurso água em processos das cadeias do agronegócio.
A importância tecnológica e econômica de processos naturais como
fixação biológica de nitrogênio e fósforo – com auxílio de bactérias e
micorrizas e a reutilização de resíduos orgânicos para recuperação de
nutrientes, envolvendo resíduos urbanos, como o lodo de esgoto e o
lixo orgânico compostado – tem sido enfatizada em diferentes estudos.

Pela semelhança aos sistemas florestais naturais, os sistemas


agroflorestais podem representar uma alternativa de manejo
agroecológico para os agroecossistemas, em virtude da sustentabilidade
conferida por três princípios básicos: o ecológico, o social e o
econômico. O princípio ecológico, pela multiestratificação de copas e
do sistema radicular e pela diversidade biológica de espécies com usos
e funções múltiplas, permite melhor aproveitamento dos recursos,
conferindo maior sustentabilidade ao sistema. O princípio social, por
meio da sedenterização do homem ao campo, melhor distribuição na
24 Desafios para Mitigação de Impactos das Ações Antrópicas no Cerrado

utilização da mão-de-obra ao longo do ano e pela produção de maior


número de serviços e produtos para consumo humano, contribuindo
para a segurança alimentar. E o princípio econômico, pela maior
estabilidade conferida pela diversificação de produtos e dos ingressos
financeiros distribuídos no decorrer do ano e maior possibilidade de
agregação de valor.

Entretanto, há que se considerar que existe um grande número de


sistemas agroflorestais desde os mais simples, compostos por apenas
uma ou poucas espécies arbóreas, até os mais complexos, compostos
por dezenas de espécies, fazendo com que esses princípios não
sejam equânimes e possam ter preponderância uns sobre os outros.
O entendimento dessas relações deve auxiliar na escolha de sistemas
mais adequados para diferentes situações.

Os sistemas agroflorestais, além de poderem exercer influência benéfica


sobre os aspectos sociais e econômicos, possuem grande potencial
para recuperação de agroecossistemas degradados. As práticas de
recuperação de fragmentos florestais visam facilitar os processos da
sucessão natural, restabelecendo a estrutura e composição da floresta
por meio da regeneração natural. Os sistemas agroflorestais, pela
aproximação aos ecossistemas naturais em estrutura e diversidade,
representam um grande potencial para recuperação de fragmentos,
além de ser interessante para a restauração de corredores de
interligação, manejo das bordas dos fragmentos e até mesmo para a
recuperação de Matas Ciliares e de Galeria. Dado que determinados
processos necessários para a recuperação, dependendo do nível de
degradação e de resiliência do ecossistema, podem ser de elevado
custo financeiro (DUBOC, 2008).

No sistema agroflorestal denominado Taungya, a espécie florestal


é plantada junto com cultivos agrícolas de ciclo curto, como milho,
arroz, feijão, soja e mandioca, entre outros, com o objetivo de reduzir o
custo de estabelecimento dos plantios florestais (DUBOC, 2006). Esse
sistema, além de propiciar ingressos financeiros antes da maturidade
da espécie florestal, pode aumentar a taxa interna de retorno (TIR) dos
Desafios para Mitigação de Impactos das Ações Antrópicas no Cerrado 25

investimentos, além do valor presente líquido (VPL), do valor anual


equivalente (VAE) e do valor esperado da terra (VET) (RODIGHERI,
1998; DUBE et al., 2002; SILVA, 2004; VALE, 2004), aumentando a
atratividade do cultivo de florestas.

Os sistemas agroflorestais, mesmo com a utilização de espécies


exóticas ao bioma, além da produção de carne e grãos, com capacidade
para amortizar os custos iniciais das plantações florestais para
produção de madeira, frutos, energia ou biocombustíveis, podem
produzir serviços ambientais importantes, sendo uma atividade
econômica, social e ambientalmente viável para o Cerrado.

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