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Inefável e Sem Forma. Estudos Sobre o Monoteísmo Hebraico. Haroldo Reimer UCG. Grão-Chanceler. Reitor. Editora Da UCG

Inefável e sem forma. Estudos sobre o monoteísmo hebraico. Haroldo Reimer UCG. Grão-Chanceler. Reitor. Editora da UCG

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Haroldo Reimer

UNIVERSIDADE

Católica
DE GOIÁS

Grão-Chanceler
Dom W ashington Cruz, CP

Reitor
Prof. W olm ir Therezio Amado

Editora da UCG
Inefável e sem forma
Pró-Reitora da Prope
Presidente do C onselho Editorial
Estudos sobre o
Profa. Dra. Sandra de Faria
monoteísmo hebraico
Coordenador Geral da Editora da UCG
Prof. G il Barreto Ribeiro

Conselho Editorial

Membros
Profa. Dra. Regina Lúcia de Araújo
Prof. Dr. A parecido Divino da Cruz
Profa. Dra. Elane R ibeiro Peixoto
Profa. Dra. H eloisa Capei
Profa. Dra. M aria do Espírito Santo Rosa C avalcante
Prof. Dr. Cristóvão Giovani Burgarelli
Ms. H eloísa de Campos Borges
Iúri R in co n G odinho
M aria Luisa Ribeiro
U birajara Galli

iO K O S k E d ito r a
EDITOR» UCG

2009
© Haroldo R eim er - 2009
Rua 115 G, n° 10 - Setor Sul
7 4 0 8 5 -3 1 0 Goiânia/GO
h aro ld o.reim er@ g m ail.co m

Editoração: Editora Oikos SUMÁRIO


Capa: Allegra
Imagem da capa: Darci A. Linguitte
Revisão: Carlos A. Dreher
A rte-finalização: Jair de O liveira Carlos Apresentação.............................................................................................. 7
Im pressão: Roterm und S. A.
Introdução.................................................................................................15
C o n s elh o Editorial:
A n t o n io Sidekum (Ed. No va Harmonia) M artin N. D reh er ( U N I S I N O S ) Da diversidade à singularidade..........................................................21
A rth u r Blasio R a m b o ( U N I S I N O S ) M ilton Sc hw antes ( U M E S P )
Avelino da R osa Oliveira ( U FP EL ) On eid e Bobsin ( E S T ) Monoteísmo e identidade.................................................................... 53
Danilo St re c k ( U N I S I N O S ) Raul F o r n et-B e ta n co u rt
Elcio C e c c h e t ti ( A S P E R S C ) (U ni-B rem cn e U n i-A achen /A le m anh a) Inefável e sem form a..............................................................................69
Ivoni R. R eim er (U C G ) Rosileny A. dos San tos Sc h w a n tes
Luis H. D re h er (U FJF ) (U N IN O V E) A corporeidade de Deus .......................................................................91
Marluza Harres ( U N I S I N O S )
A serpente e o m onoteísm o...............................................................103
Editora Oikos Ltda. Editora da UCG
Rua Paraná, 240 - B. Scharlau Rua Colônia, Quadra 240-C R eferências............................................................................................. 127
Caixa Postal 1081 Lotes 26-28, Chácara 2
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R 363i Reim er, Haroldo


Inefável e sem form a: estudos sobre o m onoteísm o h e ­
b raico /H a ro ld o Reimer. - São Leopoldo: Oikos; Goiânia: UCG,
^ 2009.
136 p.; 15 x 21cm .
ISB N 9 7 8 -8 5 -7 8 4 3 -0 9 3 -1
1. M onoteísm o. 2. M onoteism o hebraico - História. 3.
Bíblia - Antigo Testam ento - Crítica - Interpretação. I. Título.
CDU 1 4 1 .4 1 2

Catalogação na Publicação:
B ib lio tecária E liete Mari D oncato Brasil - CRB 10/11 84
DA DIVERSIDADE À
SINGULARIDADE
Aspectos da história da
pesquisa sobre o
monoteísmo hebraico*

"As religiões são cam inhos diferentes convergindo


para o m esm o ponto. Q ue im portância faz se
seguimos por cam inhos diferentes, desde que
alcancem os o m esm o objetivo?"

Mahatma Gandhi

Para quem se põe a ler a Bíblia come­


çando pelo início, isto é, pelo livro de Gê­
nesis, parece ser evidente que a fé em um
Deus único está na origem das tradições
bíblicas mais remotas.

*Uma versão inicial deste texto foi publicada sob o título


“Sobre os inícios do monoteísmo no antigo Israel”, em
Fragm entos d e Cultura, Goiânia, v. 11, n. 5, 2003, p.
Da diversidade à singularidade Inefável e sem forma: estudos sobre o monoteísmo hebraico

Leitura sincrônica e monoteísmo original va, este monoteísmo das origens parece ter sido deturpado por meio
Em Gênesis, no primeiro livro da Bíblia, afirma-se que Deus de várias formas de adoração a outras divindades no decorrer dos
(em hebraico: elohim ), entendido como o Deus de Israel, ao criar séculos da história do povo hebreu. No mesmo viés, a luta dos
os céus e a terra (Gn 1,1), deu forma a tudo o que existe, criando profetas contra a ‘idolatria’ e o afastamento de Deus, com a adora­
os animais e também os seres humanos (Gn 1,26-28). No jardim ção de outras divindades, como Neustã (2 Reis 18,1-4), Asherah (2
do Éden, o Deus YHWH, entendido como o criador de todas as Reis 22-23), Baal (1 Reis 19), Rainha dos Céus (Jeremias 45), etc.,
seriam amostras de um processo de degeneração do monoteísmo
coisas, conversa com o primeiro casal, Adão e Eva, e desvenci­
puro das origens. Reformas religiosas empreendidas por alguns reis,
lha-se de uma ameaça de concorrência preparada pela serpente
(Gn 3). No capítulo 4 do livro de Genêsis, afirma-se que, nas re­ à escuta de denúncias proféticas de ‘idolatria’ e ‘prostituição’, pro­
motas origens da humanidade, um homem chamado Enos foi o curariam resguardar essa fé monoteísta original diante dos desvios
primeiro a invocar Deus por seu nome sagrado, representado no religiosos feitos pelo povo ou por seus dirigentes.2
Tetragama (YHWH). Depois, Noé, o patriarca da nova criação, Esta visão sincrônica, bíblica ou ‘biblicista’ foi ressaltada
recebe instruções da mesma divindade e constrói a arca, coope­ na história da pesquisa mais antiga por pensadores importantes
que buscavam coadunar os dados bíblicos com reflexões gerais
rando com o único Deus na recriação do universo (Gênesis 6-9).
Após a saída da arca, os primeiros sacrifícios são dirigidos para sobre história da religião na Antiguidade. Podemos destacar al­
este mesmo Deus (Gênesis 8,20). O fato dos patriarcas receberem gumas opiniões3:
revelações de divindades que recebem nomes distintos, segundo No século XVI, o filósofo deísta inglês Herbert von Cher-
0 nome do intermediário (Deus de Abraão, Deus de Isaque, etc.) bury (1582-1646) afirmava poder encontrar por trás da fa­
não atrapalha esta visão de que na origem havia somente um Deus. chada das religiões politeístas a revelação de um único Deus.
Afinal, a mesma divindade estaria se revelando ou sendo perce­ Dentro das próprias religiões seriam os sacerdotes os res­
bida e comunicada com nomes distintos. ponsáveis pela degeneração da revelação original.
Assim, as páginas iniciais da Bíblia, lidas em perspectiva sin­ No século XVIII, o cientista da religião francês Joseph-Fran-
crônica\ procuram projetar a ideia de que na origem havia a fé em çois Lafiteau (1681-1740) afirmava encontrar em todas as
um Deus superior, criador dos céus, da terra e de tudo o que nela
existe, sendo, neste sentido, um Deus único. Em perspectiva de
*
2 Aqui se pensa nas reformas empreendidas especialm ente por três reis de Judá:
leitura sincrônica da Bíblia, isto é lendo-se os conteúdos do modo Josafá (870-848 a.C.]; Ezequias (716-687 a.C.) e Josias (640-609 a.C.). Cada uma
como se apresentam na estruturação canônica dos textos, deduz- destas reformas estaria acompanhada de conjuntos de leis e normas, como por
exemplo o Código da Aliança (Êxodo 20,22-23,19), o Decálogo Cultico (Êxodo 34,10-
se, pois, a ideia de um m onoteísm o original. Na mesma perspecti- 26), o Decálogo Ético (Êxodo 20; Deuteronômio 5) e o Código Deuteronômico (Deu-
teronômio 12-26).
1 “Perspectiva sincrônica” diz respeito à disposição e leitura do texto na sua super­ 3 Valho-me aqui de pesquisas de Bernhard LANG, Die Jahwe-allein-Bewegung, em
fície, buscando-se entender a sua organização estrutural, sem aferir o perfil dia- LANG, B. (Ed.), D er ein zig e Gott. Die Geburt des biblischen Monotheismus. M uni­
crônico dos textos, isto é, sem fazer a pergunta quando e em que contexto determi­ que: Kosel Verlag, 1981, p. 47-48, bem como sua obra mais recente: Jah w e, d er
nado texto surgiu ou se um texto é anterior ou posterior. b ib lis ch e G ott: ein Porträt. Munique: Kosel Verlag, 2002.

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Da diversidade à singularidade Inefável e sem forma: estudos sobre o monoteism o hebraico

religiões da Antiguidade a revelação do “ser supremo”, o Novos questionamentos


que, segundo ele, indicaria para a existência um ‘monoteís­
No campo da pesquisa bíblica, essa discussão está relacio­
mo original’.
nada com todo um processo de revisão de opiniões ‘clássicas’
Também no século XVIII, o filósofo Voltaire, no seu Dictionaire
acerca do perfil diacrônico7 dos textos da Bíblia hebraica e das
Philosophique, afirmava que primeiramente se teria conhecido
concepções relacionadas à sociedade do antigo Israel em seus
somente um único Deus e que a fraqueza humana posterior­
vários momentos históricos. Em foco estavam especialmente hi­
mente teria assumido a existência de mais e outros deuses.4
póteses sobre os inícios de Israel na fase da chamada ‘conquista
No século XX, o historiador católico-verbita alemão Wilhelm da terra’ e do ‘tribalismo’ do período anterior à constituição de
Schmidt (1868-1954) afirmava, na sua obra Ursprung d er Gottesi- um Estado na história dos hebreus. Mas também as teses tradicio­
d ee [Origem da Ideia de Deus], uma “teoria da decadência religio­ nais sobre o processo de surgimento dos próprios textos passa­
sa”. Segundo ele, o monoteísmo original ligado com a ideia do ram por uma ampla revisão. Assim, por exemplo, a chamada ‘hi­
Deus supremo estaria na origem de todas as religiões.5 pótese documentária’ ou ‘teoria das fontes’, que por mais de cem
Tais opiniões da pesquisa fizeram escola, influenciando anos serviu como explicação ‘científica’ para o surgimento do
muitos pesquisadores e de certa forma moldando todo um jeito Pentateuco entrou em descrédito, sendo substituída por novas
de conceber este processo de formação do ideário monoteísta, teorias explicativas. Com esses questionamentos à tradicional
especialmente no que tange à sua origem e ao seu desenvolvi­ explicação acadêmica acerca do surgimento dos textos, especial­
mento. Vários pesquisadores do Antigo Testamento se afiliaram a mente do Pentateuco, também a usual datação de determinados
essa tese do monoteísmo original.6 textos passou por consideráveis transformações.8Assim, por exem­
Na segunda metade do século XX, porém, uma intensa dis­ plo, textos que eram atribuídos à fonte “J”, tradicionalmente da­
cussão no campo das ciências da religião, da teologia, da história tada no século IX, na época do chamado ‘iluminismo salomôni-
das religiões e da filosofia das religiões trouxe profundas trans­ co’, passaram a ser alocados para o período do pós-exílio (séculos
formações nos conceitos e nas concepções acerca do postulado VI-V a.C.). O próprio período pós-exílico, que antes era visto como
de um monoteísmo original. o momento de decadência da época de ouro das revelações origi­
nárias de Israel, passou a ser visto como o momento histórico
4 VOLTAIRE, D icion ário filo só fic o . São Paulo, Martins Claret, 2002, artigo sobre
‘religião’.
’ É interessante notar que, para Schm idt, a cultura original do monoteísmo original
estaria isenta de forma míticas. “A concepção de um grande Deus único, no qual 7 A pergunta pelo ‘perfil diacrônico’ dos textos bíblicos está relacionada com a
reside a essência da Religião, é fundamentalmente ‘am ítica’: puro criador do céu e pergunta pelo provável momento histórico de seu surgimento. Na perspectiva
da terra, mas indiferente ao devir da humanidade, o Ser Supremo não se envolve diacrônica, faz-se a pergunta pelo surgimento, redação, composição, etc. dos textos,
com os acontecim entos nem com as m otivações” (Mareei DETIENNE, A In v en ção independente da alocação temporal que o texto recebe na estrutura narrativa do
d a M itologia. Brasília: UnB; Rio de Janeiro: José Olympio, 2 ed., 1998, p. 42). A cânon bíblico.
própria linguagem mítica, tida como posterior, seria constitutiva do processo de 8 Sobre isso ver especialm ente Albert de PURY (Org.), O P en tateu co em qu estão.
deturpação da pureza monoteísta original. Petrópolis: Vozes, 1996 e Jean Louis SKA, In trodu ção à Leitura do P entateuco. São
“ Sobre isso, ver mais abaixo. Paulo: Loyola, 2003.

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Da diversidade à singularidade Inefável e sem forma: estudos sobre o monoteísmo hebraico

decisivo para a formatação dos materiais literários da Bíblia He­ d iv ersid ade politeísta rum o à sin gu laridade m onoteísta. Em coe­
braica. rência com o deslocamento de ênfases sobre a própria história de
A revisão de aspectos da história de Israel tange também a Israel e com a tendência da datação tardia dos textos, esta ‘singu­
história da religião do antigo Israel e, por tabela, a concepção do laridade monoteísta’ passou a ser concebida como uma “forma
desenvolvimento do monoteísmo nas religiões da humanidade. tardia” no processo histórico de Israel.9
Esta revisão iniciou-se com a recolocação da pergunta fundamental Esta reviravolta na pesquisa tem antecedentes em alguns
orientada para as tradições próprias do povo hebreu: Q ual é a pensadores. Vale a pena revisitar ideias de alguns pensadores e
id a d e do m on oteísm o n o antigo Isra el? Esta pergunta fundamen­ posições na pesquisa mais antiga, cujas opiniões não receberam
tal pode ser desdobrada em algumas questões corolárias: muita aceitação entre os pesquisadores bíblicos.10
• Q uando historicam en te teve in ício um p rocesso m a ciço Já no século XVIII, o inglês David Hume, na sua obra N atu­
d e a d o ra ç ã o d e YHWH com o Deus único? ra l H istory o f Religions (1757), indicava para um desen­
• Em qu e m om en to da história do p ov o h ebreu consolidou- volvimento da diversidade para a singularidade.
se o m on oteísm o com o sistem a religioso dom inante? No século XIX, o historiador e pesquisador bíblico (judeu?)
• Com o co ad u n a r politeísm o, m on olatria e m on oteísm o n a Abraham Kuenen (1828-1891) afirmava que o berço do mono­
história do p o v o h ebreu e n a religião d este povo?
teísmo estaria na época clássica dos profetas de Israel. Os pro­
Muitos pesquisadores da Bíblia desde longa data estavam in­ fetas teriam sido os criadores do que o autor chamou de “mo­
clinados a aceitar tacitamente a teoria do monoteísmo original e sua noteísmo ético”. Ele afirmava: “O que os profetas realizaram?
posterior degeneração em religiosidade politeísta. De certa forma, O que é o resultado de sua atuação? E como devemos valorá-
isso estaria relacionado com os próprios documentos bíblicos, que los? A sua criação [= dos profetas] é o m onoteísm o ético. Eles
remontariam aos inícios da história da humanidade. No fundo, o
ascen deram à fé no único, santo e justo Deus, o qual realiza a
que estava em jogo era a manutenção da própria credibilidade dos
sua vontade no mundo, isto é, o bem ético”.11
textos bíblicos quanto à sua apresentação “histórica” dos fatos.
No início do século XX, o sociólogo alemão Max Weber indi­
E se as coisas tivessem tido um desenrolar contrário? Isto é,
cava em direção semelhante, afirmando que os profetas de
se a trajetória da fé monoteísta tivesse tido um desen volvim en to
Israel são os “parteiros” da ética ocidental. Com isso, ele igual­
d efo rm a s plu rais politeístas p a ra a afirm ação d e um a form a singu­
mente identificava o surgimento do monoteísmo na prega­
lar, no £ aso, o m onoteísm o, p assan d o p o r fo rm as interm ediárias
com o a m o n o latria ?
Esta foi a tônica na reviravolta na pesquisa sobre o tema em 9 Ver a respeito Erhard S. GERSTENBERGER, Teologias n o Antigo T estam ento. São
Leopoldo. CEBI/EST/Sinodal, 2007.
questão. A tendência da pesquisa, nas últimas décadas do século 10 Para uma visão de conjunto, ver LANG, Die Jahw e-allein -B ew egu n g.
XX, tinha, pois, o propósito de tomar como hipótese de pesquisa 11 Abraham KUENEN, The P rophets a n d P rophecy in A ncien t Israel. Londres, 1877,
p. 585. Tradução e destaque HR. Cabe ressaltar que o livro deste pesquisador
o inverso da concepção tradicional e demonstrar o desenvolvi­ surgiu alguns anos depois do inglês Charles Darwin publicar seu livro D escen t of
mento (ou evolução] do credo e da religião de Israel a partir da M an (1871).

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Da diversidade à singularidade Inefável e sem forma: estudos sobre o monoteísmo hebraico

ção dos profetas, especialmente naqueles dos séculos VIII e médio da monarquia israelita (séculos VIII a.C.), recebeu, na meta­
VII a.C.12 de do século XX, um ‘revés’, na medida em que vários pesquisado­
O pesquisador francês V. Nikiprowetzky, na década de 1970, res rechaçaram expressa ou tacitamente as datações propostas.
retomou a ideia do monoteísmo ético, afirmando que o seu O grande exegeta alemão Gerhard von Rad, na sua Teologia
surgimento estaria relacionado com o desenvolvimento de do Antigo Testam ento15, especialmente na parte inicial desta obra,
um nacionalismo nos inícios do antigo Israel. “Visto de for­ propôs situar o início do monoteísmo nos tem pos prim averis do
ma religiosa, a pregação profética significa o chamamento p erío d o p ré-estatal do antigo Israel. Neste autor, as teses da tran­
para a luta contra os filisteus e para a fundamentação do Es­ sumância, formulada por Albrecht Alt, e da liga anfictiônica sa-
tado de Israel. Monolatria tornou-se o símbolo da obrigação cral no Israel pré-estatal, como foi postulada sobretudo por Mar­
em relação a Yahveh e à nação hebraica.”13 Segundo o autor, tin Noth, funcionaram como pressupostos de pesquisa. A partir
um ‘nacionalismo profético’ seria o berço do monoteísmo. do seu extenso levantamento de material, o autor afirma que, desde
o período da formação de Israel, passando pelo período pré-esta­
Não se pode deixar de observar nestes autores uma tendên­
tal, a adoração a YHWH coexistiu ao lado de outras divindades e
cia em acolher, em reconstrução histórica, ideias provindas da
expressões religiosas. O autor, porém, trabalha com o postulado
teoria sociológica de Emile Dürkheim e também da filosofia de
de um constante conflito e com bate entre a fé em YHWH e a ado­
Ludwig Feuerbach no sentido de que a divindade é expressão
ração a outras divindades no seio de Israel. “O combate começara
simbólica da sociedade. Esta ‘genealogia’ deste ideário talvez seja
com a chegada dos primeiros grupos javistas ao solo palestino,
um dos motivos pelos quais suas opiniões não tiveram aceitação
pois desde o início, a exigência da fé exclusiva em Javé recusava-
nas academias teológicas, recebendo antes reações e críticas. Ao
se a tolerar a coexistência pacífica de diversos cultos. Não se pode
invés de uma recepção positiva, que aconteceu somente em cír­
pensar num culto de Javé sem o primeiro mandamento.”16
culos mais restritos,14 na pesquisa dominante foram reforçadas
Neste juízo quase apodítico, o renomado pesquisador deixa
certas teses que se tornariam ‘clássicas’.
transparecer o seu postulado teológico extraído de suas pesqui­
sas do Antigo Testamento, mas também compartilhado com a te­
Reações e teses clássicas
ologia dialética de Karl Barth. Em sua vasta obra, von Rad toma o
A proposta de datação do surgimento do monoteísmo ético Deuteronômio e sua exigência da adoração exclusiva a YHWH
junto com os profetas clássicos de Israel, portanto no período como o centro teológico do Antigo Testamento. Para ele, a teolo­
gia deuteronômica ou deuteronomista é o coração teológico do
13 Ver Max WEBER. E con om ia e so cied a d e: fu n d a m en tos d a sociolog ia com preen siva.
3 ed., Brasília: Editora Universidade de Brasília, 1994. Antigo Testamento. Lendo-se a história religiosa de Israel na pers-
13 V. NIKIPROWEZTKY, Ethical monotheism. Em: D aedalu s, 1975, p. 80. Ver também
Paul GARELLI e V. NIKIPROWETZKY, O O riente Próxim o A siático. São Paulo:
Pioneira, 1982. 15 O primeiro volume do original alemão foi publicado em 1957 e o segundo, em
14 Para visão crítica das contribuições, porém, em sentido positivo, ver a obra 1960. No Brasil, esta obra foi publicada pela ASTE em 1973, recebendo nova
Wolfgang SCHLUCHTER (Ed.), M ax W ebers Studie ü b er d a s a n tike Ju den tu m . edição, com revisão completa da tradução, em 2006.
Interpretation und Kritik. (stw 340), Frankfurt am Main: Suhrkamp, 1981. RAD, T eologia, v.l, p. 42.

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Da diversidade à singularidade Inefável e sem forma: estudos sobre o monoteísmo hebraico

pectiva deuteronômico-deuteronomista, conforme é expresso no em favor de um panteão amorrita, no qual Baal teria sido a divin­
Deuteronômio e na Obra Historiográfica Deuteronomista, dificil­ dade mais dinâmica. A fé em El como deus único teria sido ab­
mente pode-se chegar a outra avaliação, uma vez que, muito pro­ sorvida e preservada em Israel por meio da transferência dos atri­
vavelmente, a visão e a versão deuteronomistas constituem o ponto butos de El para o deus nacional YHWH. Este autor nitidamente
climático, de síntese, de todo um processo de amalgamação de trabalha com o pressuposto de um monoteísmo original de data
tradições sociais e religiosas no antigo Israel.17 É possível que a antiga, que hoje é considerado como superado na pesquisa, mas
posição corajosa e obstinada da Igreja Confessante na Alemanha, inclui a noção de aproximações sincréticas na constituição do
que resisitiu ao fascínio nazista, tenha influenciado este tipo de imaginário religioso.
pressuposto beligerante em relação a todo tipo de culto ‘natural’ Uma perspectiva distinta, que ‘fez escola’ na década de 1980,
ou ‘pagão’ como era propagado pelo sistema nacional-socialista com fortes influências na pesquisa bíblica latino-americana, é a
da época. Elementos norteadores no passado recente da história do norte-americano Norman K. Gottwald na sua obra As tribos de
europeia e alemã parecem ser tomados como balizas para a re­ lah w eh , publicada em inglês em 1979 e em português em 1986.19
construção da história da religião hebraica. O autor propõe situar o início do monoteísmo no período pré-
Outro pesquisador alemão, o católico Victor Maag, fez a estatal do antigo Israel, isto é, no p erío d o do tribalism o (1250-
proposta de recuar ainda mais no tempo e situar o início do m o ­ 1050 a.C.). Gottwald fala mais de “monojavismo”, expressando
n oteísm o n os tem pos e n a vivência d e Israel no deserto. O autor com isso, em termos de conteúdo, algo similar a monoteísmo. O
aproveita estudos sobre a religiosidade (monoteísta) de grupos ‘monojavismo’ seria uma inovação social neste período da exis­
seminômades no atual Irã e propõe encontrar em ambiente de­ tência pré-estatal de Israel, no sentido de ser expressão de uma
sértico, no qual teriam peregrinado os patriarcas de Israel, o iní­ sociedade sem classes em contraposição à sociedade cananeia
cio da fé monoteísta, sendo esta, portanto, uma “fé pura”. O Deus organizada hierarquicamente em classes dentro do sistema das
adorado de forma monolátrica teria conduzido os patriarcas em cidades-estado. Em termos teóricos, o autor propõe uma relação
suas andanças rumo à terra prometida.18 interdependente entre o monojavismo e o igualitarismo sociopo-
Ainda outro pesquisador, Ulf Oldenburg, propôs retroceder lítico postulado para este período. Algumas passagens de sua obra
mais ainda o surgimento do monoteísmo, situando seus inícios podem expressar bem sua posição:
junto a grupos cananeus, que no III milênio a.C. já teriam adora­ (...) o m onojavism o se relacion a de m aneira segura com o iguali­
do o Deus El como o Deus único. Com a migração de grupos ára­ tarism o sociop o lítico , mas tam bém [...], da m esm a m aneira, o
bes e amorreus da região mesopotâmica, El teria sido suprimido igualitarism o so cio p o lítico relacion a-se de m aneira segura com
o m onojavism o. [...] A elevação e su sten tação de um sistem a
social igualitário israelita viável, ju nto com as suas feições es­
17 Sobre isso ver agora Thom as RÖMER, A c h a m a d a h istó ria d eu tero n o m ista .
Petrópolis: Vozes, 2008. truturais do direito de propriedade, pelas fam ílias extensivas,
18 Victor MAAG, Kultur, K ulturkontakt und fíeligion . Göttingen: Vandenhoeck &
Ruprecht, 1980, p. 111-119; 256-299. Esta postura recebeu críticas e revisões na
pesquisa. Ver Fritz STOLZ, Monotheism us in Israel. In: Othmar KEEL (Ed.). 1,1 Norman K. GOTTWALD, As Tribos d e lah w eh . Uma sociologia da religião de Israel
M on otheism u s im Alten Isra el und sein er Umwelt. Freiburg, 1980, p. 155-163. liberto. 1250-1050 a.C. São Paulo: Paulus, 1986.

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Da diversidade à singularidade Inefável e sem forma; estudos sobre o monoteísmo hebraico

dos m eios de produção, com as m edidas de socorro m útuo para te, significaria “El semeia”. A adoração a El por parte de grupos
m anter as fam ílias extensivas num a paridade aproxim ad a na
cananeus já estabelecidos nas montanhas, em busca de formas
produção e no consu m o, com o tam bém a dispersão do poder
social, m ilitar, p o lítico e religioso por entre as subunidades es­
sociais alternativas à exploração nas cidades-estado cananeias,
truturais, r e la c io n a - s e d e m a n e ir a s e g u ra com a p rojeção con- teria servido como elemento catalizador de estruturas anti-hie­
ce itu a l-in stitu cio n a l inovadora de Ia h w e h c o m o o ú n ic o D eu s d e rárquicas.22
Is ra el, que m otiva e san cion a o desejado sistem a de relações so ­
Estudos sobre os inícios da fé em YHWH indicam que as
ciais por m eio de um cu lto com con trole m ínim o do poder p o lí­
tico e com consum o m ínim o da riqueza co m u n al.211 representações desta divindade não seriam originárias de Canaã,
mas proviriam da região desértica a caminho da atual Península
A conclusão principal do autor vai na direção de afirmar
do Sinai (Juizes 5; Habacuque 3; Deuteronômio 33). Muito prova­
que, assim como YHWH proíbe outros deuses, Israel como siste­
velmente, este tipo de crença foi o elemento religioso trazido por
ma social igualitário proíbe outros sistemas sociais dentro da es­
grupos migrantes desertícolas e/ou foragidos do Egito, comumen-
trutura tribal. O monojavismo pré-estatal seria uma espécie de
te chamados de ‘grupo mosaico’.23 Com esta vinculação com gru­
experimento sociorreligioso, portanto, um ‘produto’ deste perío­
pos emigrados do Egito, poderia se pensar também em influência
do do Israel tribal. Na sua perspectiva, pois, o monoteísmo, en­
ou vinculação com o monoteísmo de Áton no Egito, no século
quanto sistema de crenças religiosas, teria seu nascedouro nos
XIV a.C. Como uma divindade guerreira e desvinculada de um
tempos do ‘tribalismo igualitário’ da época pré-estatal de Israel.
panteão, YHWH teria sido um elemento bem-vindo na estrutura
Em direção similar argumenta o alemão Rainer Albertz na
social acéfala e segmentária já estabelecida nas regiões monta­
sua extensa obra R eligionsgeschichte Israels in alttestam en tlicher
nhosas de Canãa.24 Albertz postula, assim, um processo de sin­
Zeit [História da Religião de Israel no período do Antigo Testa­
cretismo religioso já na fase pré-estatal de Israel, portanto, nos
mento], de 1992.21 Albertz não trabalha com o pressuposto de um
séculos XII a X a.C., situando também nestes ‘tempos primaveris’
monojavismo exclusivo, como foi afirmado por Gottwald, mas
a constituição do ideário monoteísta.
com um processo de sincretismo entre o Deus El e o Deus YHWH.
A proposta de Gottwald, acima esboçada, recebeu muita
El seria uma divindade reverenciada entre grupos cananeus já no
adesão na pesquisa nas décadas de 1980 e 1990, especialmente
período anterior ao estabelecimento dos hebreus foragidos do
na América Latina. A tese do monojavismo ou do monoteísmo
Egito. Segundo o autor, esta divindade figura inclusive como ele­
nos tempos iniciais da história de Israel figura como postulado
mento teofórico na constituição do nome ‘Israel’, que, literalmen-
em muitos trabalhos de pesquisadores bíblicos latino-america­
nos como Jorge Pixley, Milton Schwantes, Carlos Mesters, Carlos
211 GOTTWALD, As tribos d e Ia h w eh , p. 622. Destaques HR. Para uma visão de
conjunto, deve-se ler toda a parte X do livro, sob o título “A religião da nova
sociedade igualitária: modelos idealistas, estrutural-funcionais e cultural-materiais
históricos”. Aí o autor desdobra as características principais do que ele considera 22 ALBERTZ, R eligion sgeschichte, v. 1, p. 117-120.
o monojavismo no Israel pré-estatal. 23 Milton SCHWANTES, H istória d e Israel. Vol. 1; Local e origens, São Leopoldo:
Obra publicada pela editora Vandenhoeck & Ruprecht, em Gõttingen. Esta obra Oikos, 2008, p. 107ss.
está em processo de tradução para o português; já existe tradução para o espanhol. 24 ALBERTZ, R eligion sgeschichte, v. 1, p. 119-120.

32
Da diversidade à singularidade Inefável e sem forma: estudos sobre o monoteísmo hebraico

Dreher e outros. Há anos, a teoria de Gottwald está passando por religiosos que deram ao Antigo Testamento], publicada em 1971.29
uma revisão crítica, especialmente pelo novo acercamento aos A perspectiva do autor é a de que, na história da religião de Israel,
textos em outra ótica histórica. Certo positivismo histórico com especialmente no período monárquico, não se trata de um resta­
relação ao uso dos textos bíblicos como fonte histórica direta para belecimento de uma monolatria ou um monoteísmo original do
a datação nos tempos pré-estatais, como é o caso na obra de Got­ Israel das origens. Trata-se muito mais de uma forte, porém, in­
twald, passa, hoje, por descrédito.25 Especialmente os trabalhos termitente influência de um grupo social, ou ‘partido religioso’,
do arqueólogo judeu Israel Finkelstein mostram que as monta­ adepto e difusor da adoração exclusiva a YHWH, que, por cir­
nhas de Canaã já eram habitadas ao longo do segundo milênio.20 cunstâncias sociais diversas, consegue dar voz às suas convic­
Isso influencia a perspectiva sobre o Israel e suas origens, colo­ ções. Este partido teria tido grande influência na redação e com­
cando em descrédito a tese de Gottwald.27 posição dos textos sagrados do povo de Israel, ainda durante o
Elementos fundamentais da teoria continuam a ter sua plau­ período monárquico, mas especialmente no período do exílio e
sibilidade histórica assegurada, como bem mostram as pesquisas do pós-exílio. Este grupo ou partido religioso pode ser identifica­
expressas na obra de Rainer Albertz, mas a ideia de um monoja- do, em traços básicos, com o grupo que se convencionou chamar
vismo plenamente estruturado no período pré-estatal não goza de ‘deuteronomistas’. Por meio de obras como a Obra Histórica
mais de ampla aceitação,2“ passando antes por críticas rumo a Deuteronomista (OHD = Deuteronômio + Josué a Reis) ter-se-ia
novas perspectivas. a visão deste grupo, que se tornou dominante especialmente na
época da reforma social e religiosa operada pelo rei Josias, na
Críticas e novas perspectivas segunda metade do século VII a.C.
Para Smith, há o desenvolvimento a partir de um imaginá­
A proposta mais crítica sobre a origem e o desenvolvimen­ rio politeísta originário, difundido e compartilhado na região do
to do monoteísmo no antigo Israel, e que, na pesquisa recente, antigo Oriente Próximo, passando por momentos de maior exi­
tem recebido significativo endosso e confirmação, ainda que por gência monolátrica até chegar à consolidação do credo monoteís-
vezes de modo tácito, é a do americano Morton Smith em sua ta judaico. Ele não acredita poder reconstruir as origens da mo­
obra Palestinian Parties that S h ap ed the Old Testam ent [Partidos nolatria, mas postula que seus inícios possam estar relacionados
com alguns elementos como, por exemplo, a concorrência entre
2j Sobre isso, ver Lester GRABBE (Ed.), Can a “History o f Israel" b e written?, Sheffield sacerdotes e profetas de uma expressão religiosa e os ‘funcioná­
1997.
28 Israel FINKELSTEIN e Neil Asher SILBERMANN, A B íblia n ã o tin ha ra z ã o , São
rios’ de outra expressão, representando outra divindade. O autor
Paulo: A Girafa, 2003. postula também a possibilidade de eventuais oposições conser­
27 A respeito ver Philip R. DAVIES, In S earch o f ‘A n cien t Is r a e l’, Sheffield: Sheffield
Academic Press, [1992], 2. ed. 1995.
vadoras de grupos nômades e seminômades, portadores e culti-
28 Para uma revisão autocrítica de seus trabalhos, cf. Norman K. GOTTWALD.
Revisitando as Tribos de Iahweh. In: Haroldo REIMER e Valmor da SILVA (Eds.),
L ib ertação-lib erd ad e. N ovas p ersp ectiv as. São Leopoldo: Oikos, Goiânia: Ed. da 2i) Tivemos acesso à tradução alemã deste trabalho publicada em LANG, Der ein zige
UCG; ABIB, 2008, p. 37-48. Gott, p. 9-46.

34 35
Da diversidade à singularidade Inefável e sem forma: estudos sobre o monoteísmo hebraico

vadores da adoração exclusiva a YHWH, à cultura das cidades- um monoteísmo excludente seriam constituídos pela pregação
estado em Israel, bem como eventuais concepções de diferencia­ de exigência monolátrica de Oseias, pela reforma de Ezequias (2
ção cultural dos grupos ativos na conquista da terra em relação a Reis 18) e especialmente pela reforma de Josias (2 Reis 22-23).
grupos autóctones cananeus.30 Nesta última, haveria confluência de vários interesses: sacerdo­
Para Smith, a monolatria javista começou a ganhar contor­ tes sadocitas interessados no monopólio cultual, comerciantes
nos mais concretos no século IX a.C. Estaria, então, vinculada interessados nos lucros com as peregrinações a Jerusalém e gru­
com a atuação de profetas como Elias e Eliseu, no Reino do Nor­ pos monojavistas interessados em suprimir divindades e ritos de
te. Emblemáticas seriam, neste caso, as narrativas proféticas, que, fertilidade.31
de forma pedagógica e catequética, buscam ressaltar os poderes Esta ‘nova imagem’ das origens e da idade da monolatria e
de YHWH frente a outros deuses, em especial ao Deus Baal. do monoteísmo no antigo Israel a partir do século IX a.C. tem tido
Em Judá, a exigência monolátrica estaria vinculada com as grande repercussão e aceitação entre os pesquisadores, marcan­
reformas dos reis Asa (911-870 a.C.) e Josafá (870-848 a.C.), mas do os parâmetros da investigação acadêmica das últimas três dé­
também com as de Ezequias (em torno do ano 700 a.C.) e Josias cadas sobre o tema. Há alguns destaques a fazer.
(em torno do ano 625 a.C.). Vinculado com elas teria havido a O estudo sobre ‘O movimento somente Yahveh’ do pesqui­
supressão de práticas cultuais (indesejadas) no templo de Jerusa­ sador católico alemão Bernhard Lang procurou aprofundar o tri­
lém (2 Reis 18). No Reino do Norte teriam acontecido conflitos lho aberto por Morton Smith. Outro estudioso da questão é o pró­
diretos entre uma religião javista oficial ‘baalizada’, sustentada prio alemão Rainer Albertz, já mencionado acima, que na sua
pela estrutura do estado monárquico, e grupos minoritários adep­ monumental História da religião de Israel n o p erío d o do Antigo
tos da ideia de uma adoração exclusiva a YHWH. Não se trataria Testamento, de 1992, igualmente sublinha o século IX como o
tanto de uma ‘guerra religiosa’, mas muito mais de conflitos de contexto histórico em que se cristalizou a ideia da adoração ex­
poder político e religioso entre grupos diferentes dentro do pró­ clusiva a YHWH. O pano de fundo seria constituído pelos confli­
prio Israel. Enquanto governantes como Acabe e Jezabel, no Rei­ tos em torno do sincretismo oficial promovido pelo estado israe­
no do Norte, no século IX, perseguiam adeptos do movimento de lita neste período.32
adoração exclusiva a YHWH (1 Rs 18), o posterior rei Jeú deu Seguindo nesta mesma linha, o pesquisador alemão Frank
total apoio a eles, inclusive promovendo sangrentas lutas contra Crüsemann, em sua obra Elia - die Entdeckung der Einheit Gottes
os grypos adeptos de Baal (2 Reis 10). Outros momentos fortes [Elias - a descoberta da unidade de Deus],33 promoveu uma relei-
dentro deste processo de desenvolvimento da monolatria rumo a tura do ciclo de Elias (1 Reis 1 7 - 2 Reis 2) no intuito de destacar

“ Este talvez seja um ponto frágil da proposta do autor, na medida em que com isso 31 Sobre a reforma de Josias, ver o trabalho de Shigeyuike NAKANOSE, A P áscoa d e
se postula uma oposição entre ‘Israel’ e ‘Canaã’, o que na pesquisa recente torna- Jo sias. Metodologia do Antigo Testamento a partir de 2Rs 22,1-23,30. São Paulo:
se cada vez mais questionável, uma vez que é difícil fazer distinção clara em Paulinas, 2000.
termos étnicos entre israelitas e cananeus. 32 ALBERTZ, R eligion sgeschichte, v .l, p. 226-290.

36 37
Da diversidade à singularidade Inefável e sem forma: estudos sobre o monoteísmo hebraico

como estas narrativas bíblicas envolvendo o personagem proféti­ Essa discussão foi sensivelmente aprofundada no XIII Co­
co Elias comportam e transmitem a ideia da d escoberta da u n id a­ lóquio da Academia Suíça de Ciências Sociais e Humanas, reali­
d e de Deus. Essa pesquisa teve uma amostragem em língua portu­ zado em 1993, sob o tema “Yahveh entre as Deusas e os Deuses
guesa por meio do artigo “Elias e o Surgimento do Monoteísmo do antigo Oriente”. Este simpósio resultou na imponente obra de
no Antigo Israel”, publicado em 2001, no qual o autor afirma ex­ coletânea de conferências organizada e publicada um ano depois
pressamente que: por Walter Dietrich e Martin Klopfenstein: Ein Gott allein?JHW H-
o que a B íb lia cham a e apresenta com o Deus não pode ser co n c e ­
Verehrung und biblisch er M onotheism us im Kontext der israelitis-
bido sem Elias. Este profeta está ligado de um a form a ú n ica com chen und altorien talischen H eligiongeschichte [Um Deus somen­
o próprio Deus. As histórias que em Israel se contavam sobre ele te? A adoração a YHWH e o monoteísmo bíblico no contexto da
con stitu em por assim dizer um curso b ásico sobre a pergunta;
história da religião de Israel e do antigo Oriente].36 Nesta obra,
quem é Yahveh, o Deus de Israel? quem é o nosso D eu s?’4
diversos estudiosos europeus, norte-americanos e isrealenses ex­
A pesquisa sobre o tema do monoteísmo desencadeou tam­ pressaram seus pontos de vista sobre a questão ou sobre aspectos
bém uma série de seminários de estudo e publicações a partir de da questão. A tônica das pesquisas e dos trabalhos é a indicação
1980. Aqui se inscrevem especialmente os esforços do pesquisa­ clara para a existência de um p oliteísm o original compartilhado
dor católico suiço Othmar Keel, que, em 1980, coordenou uma com os povos vizinhos do antigo Israel e um g rad u al desen volvi­
importante publicação com o título M onotheism us im Alten Isra­ m en to rum o a o m on oteísm o no decorrer da história do povo he­
el und sein er Umwelt [Monoteísmo no antigo Israel e nos povos breu. Sobre os textos e discursos acerca de YHWH, um citado
vizinhos], A partir desta obra, a busca pelas raízes do monoteís­ poderá sintetizar um longo processo de pesquisa e discussão:
mo deixou de ser marcada somente por uma perspectiva intras-
YHW H, na origem , era provavelm ente um deus da m ontanha da
sistêmica, isto é, relacionada somente a Israel, passando a ser vis­ região d esértica do sul da Palestina, avançando para a fu nção de
ta no conjunto dos povos do antigo Oriente Próximo, dentro de deus pessoal de fam ílias israelitas; para o posto de deus n a cio ­
uma perspectiva interdisciplinar, reunindo contribuições de teó­ nal de Israel; para a função de deus da fertilid ade da terra cu lti-
vável; para o deus dos céus provedor de direito e salvação; para
logos, arqueólogos, cientistas da religião e historiadores da reli­
o rei dos deuses; para criad or do cosm o e dirigente da história;
gião. Esse tipo de abordagem e seus adeptos passaram a ser sub­ para o sen hor sobre a m orte e, por fim, para a fu nção de ju iz
sumidos sob o nome de ‘escola de Friburgo’.35 u n iv ersal.37

Em todo este processo, deve-se estar sempre atento para o


fato de que a história de Israel e também a história de sua religião
33 Publicado pela Editora Chr. Kaiser, Gütersloh, 1997.
se desenvolve sempre dentro do seu contexto histórico, político e
34 Frank CRÜSEMANN, Elias e o Surgimento do Monoteísmo no Antigo Israel, em:
Fragm entos d e Cultura, v. 11, n. 5, Goiânia, 2001, p. 570. social maior.
33 Este nome se deve ao fato do Prof. Othmar Keel haver sido na época o professor
titular da disciplina de Antigo Testamento na Universidade de Freiburg, Suíça, :lli Publicado em coedição por Universitátsverlag de Freiburg e por Vandenhoeck &
sendo também o responsável pela maior coleção de artefatos iconográficos do Ruprecht, de Gõttingen, em 1994.
antigo Oriente Próximo. 37 DIETRICH, Einleitung, p. 23. Tradução de Haroldo Reimer.

38 39
Da diversidade à singularidade Inefável e sem forma: estudos sobre o monoteísmo hebraico

Até aqui buscamos destacar alguns ‘pontos altos’ da pes­ o Altíssimo, o criador do céu e da terra”. Em Gênesis 2,7 [“e então
quisa sobre o monoteísmo hebraico no último século. Foram res­ formou Deus (Elohim - YHWH) o ser humano a partir da terra”]
saltadas tão-somente algumas tendências sem entrar em maiores também transparece essa função criadora de El. A a menção de
detalhes.38 A seguir, buscando sintetizar resultados da pesquisa YHWH no contexto pode estar remetendo para uma releitura fei­
mais recente, quero apontar de forma esquemática para fases ou ta a partir da tradição javista posterior. O nome genérico Elohim é
momentos históricos importantes do processo de desenvolvimento utilizado várias vezes como referência a YHWH.
do monoteísmo. Essa forma sincretizada entre El e YHWH provavelmente
foi assumida por grupos que constituem o Israel das origens, sen­
do, posteriormente transposta, assumida e difundida nos inícios
Fases do desenvolvimento do Monoteísmo
do período monárquico nos tempos de Davi e Salomão. Outros
A apresentação a seguir é bastante sintética, pressupondo elementos da representação religiosa cananeia ou jebusita (tradi­
vários resultados que mereceriam maior desdobramento. Vamos ções locais relacionadas à conquista de Jerusalém por Davi) são
indicar cada fase da constituição do ideário monolátrico e mono- agregadas à representação de YHWH, como, por exemplo, a ideia
teísta enquanto representação realizada por sujeitos históricos atu­ do deus-rei, exposta muitas vezes nos salmos. A adoração a ou­
antes naquele contexto e substanciada em textos e ainda acessí­ tras divindades parece não haver constituído problema ‘teológi­
veis em restos arquitetônicos e artefatos trazidos à luz pela ar­ co’ nos tempos iniciais da monarquia israelita.
queologia. Apontaremos também para momentos de sincretismo
com representações de outras divindades, bem como para a su­ Segunda fa s e : conflitos com B aal
peração de elementos indesejados.
No século IX a.C., desenvolve-se em Israel uma série de
conflitos em relação à divindade Baal. No mundo religioso cana-
Prim eira fa s e : sincretism o p a c ífico entre El e YHWH
neu-israelita deste período, o Deus Baal, filho de El, assumiu a
Nos tempos iniciais da história do Israel das origens, surgi­ primazia no panteão divino, como é expresso no poema “Baal, o
do em meio à diversidade dos grupos étnicos de Canaã, com apor­ Senhor da Terra vive”, encontrado em Ugarit. Baal é o Deus do
tes de grupos seminômades provenientes de ondas migratórias, raio, responsável pela chuva e, assim, pela fertilidade do solo e
deve-se trabalhar com a hipótese de sincretismo inclusivo e har­ também dos ventres.
monização entre El e YHWH. No panteão cananeu, El é celebrado Para o século IX, postula-se, em geral, uma política oficial
como o deus criador da terra, como criador e pai de outros deu­ de ‘baalização’ do culto javista sob o governo de Acabe e Jezabel
ses. Em Gênesis 14,19, ainda se pode perceber essa memória: “El, (874-853 a.C.). Tratar-se-ia de um “sincretismo oficial”.39 Em ter­
mos de razões do estado, há uma política de expansão e comércio
Uma exposição mais detalhada está sendo preparada pelo autor e deverá ser
apresentada sob o título de O Uno e a D iv ersid ad e - Uma h istória d o m o n o teísm o
h e b r a ic o e d a d iv ersid a d e relig iosa n o antigo Israel. 30 ALBERTZ, R eligion sgeschichte, v. 1, p. 226.

40 41
Da diversidade à singularidade Inefável e sem forma: estudos sobre o monoteísmo hebraico

internacional, que parece ser fomentada por meio de maior in­ YHWH.41 Em geral, nos textos, a polêmica está dirigida contra os
cremento do deus da fertilidade, Baal. A historiografia deutero- “baalins”, isto é, formas e representações concretas do deus Baal,
nomista situa nesta fase as críticas de Elias e Eliseu contra tal entendido como responsável pelo raio e, com isso, também pela
política e especialmente a disputa no monte Carmelo (1 Reis 18), fertilidade da terra e do ventre.
com a qual se quer mostrar, a partir da perspectiva deuterono- A julgar pelas palavras polêmicas do profeta, o problema
mista, a superioridade do Deus YHWH.40 O próprio nome de Eli­ principal no período em questão está em que os dízimos e as
as parece ser um programa religioso: “meu Deus [El] é YHWH” (1 ofertas na ‘eira’, isto é, nos momentos altos da colheita agrícola
Reis 19,10.14). são destinados pelos israelitas não para YHWH, mas para Baal,
A historiografia deuteronomista também situa neste perío­ considerado em todo o mundo cananeu como o responsável pela
do a ação de Jorão (852-841 a.C.), que retira a estátua de Baal do fertilidade. Vistos no seu conjunto, os textos do livro de Oseias
templo de YHWH em Samaria, bem como a posterior ação militar estabelecem a exigência da adoração somente a YHWH. Assim,
de Jeú (841-813 a.C.), que, sob a ‘animação profética’ e ideológica para quem se expressa nestes textos, seria inconcebível não ver
do ‘programa’ de Elias e Eliseu, manda destruir o templo de Baal em YHWH o garantidor e doador da produção agrícola e bem-
e promove uma matança dos sacerdotes de Baal (2 Reis 9-10). estar na terra (Oseias 2,7).42
Segundo Crüsemann, aqui deveria ser localizada a hora do nasci­ Nesta terceira fase, também pode ser alocada a chamada
mento do monoteísmo bíblico. Teríamos aí o monoteísmo em fase ‘reforma de Ezequias’, mencionada em 2 Reis 18,4. Sem entrar no
de nascença, isto é, em seu momento inicial enquanto exigência mérito da discussão se ela é histórica ou não, entre as ações reali­
monolátrica. zadas por Ezequias menciona-se que ele removeu os “altos” (he­
braico: b am ot), que quebrou as colunas (hebraico: m assebah ) e
Terceira fa s e : ên fa se m a io r n a a d o r a ç ã o exclusiva a YHWH que fez em pedaços a serpente de bronze, chamada Neustã
[nehushtan), a qual até aquele momento estava no templo de Je­
Há uma tendência na pesquisa de se afirmar que, com o
rusalém para adoração pública. Pode-se afirmar, pois, que o “cul­
profeta Oseias, há maior ênfase na constituição de ideias mono-
látricas e monoteístas no antigo Israel. A atuação deste profeta é
situada no século VIII a.C., entre os anos de 736 e 722, no Reino
do Norte. Nos textos atribuídos a Oseias, está expressa a denún­ 41 Deve-se, porém, trabalhar com a suspeita de que os textos originários do profeta
Oseias do século VIII a.C. possam ter passado por processos de releitura em sua
cia da‘ ‘idolatria’ e da ‘prostituição’ de Israel (Oseias 2,4-15), o que recepção no Reino do Sul, após a destruição do Reino do Norte, no sentido de
seria o equivalente à adoração de outras divindades que não acréscim os de partes de textos com polêmicas advindas de épocas posteriores,
por exemplo, do período pós-exílico, dirigidas talvez contra outras divindades como
Asherah. Sobre isso, ver Osvaldo Luiz RIBEIRO, Ela não é minha mulher. O piogiama
religioso da golah em Os 2,4-15, em: Fragm entos d e Cultura, Goiânia, 2003, v. 13, n.
40 CRÜSEMANN, Elias, p. 77. A disposição sincrônica dos textos bíblicos apresenta 5, p. 1017-1046 e Pedrinho SECRETTI, Deus cium ento: análise exegética de Oseias
a atuação de E lias com o ‘h istó rica ’, mas também é possível contar com a 2, 4-15. (Dissertação). Goiânia, Universidade Católica de Goiás, 2006.
possibilidade de retroprojeções historiográíico-religiosas especialm ente sobre a 42 Sobre isso, ver também Haroldo REIMER (Org.), O seias. Juízo, misericórdia,
figura de Elias. conversão. São Leopoldo: CEBI, 2005.

42 43
Da diversidade à singularidade Inefável e sem forma; estudos sobre o monoteísmo hebraico

to de Nehushtan está incorporado ao culto de Yahveh no templo” mantelamento do Reino de Judá, a exemplo do que aconteceu ao
em Jerusalém.43 Reino do Norte, em 722 a.C. Pode-se também pensar que seja a
O culto à serpente de bronze, a qual tem até um mito funda­ proposta de reorganização do país após o término da pressão dos
dor ou uma etiologia registrada em Números 21,4-9, até este mo­ assírios, sendo entendido como um conjunto de leis para o Judá
mento histórico, isto é, final do século VIII, não deve ter sido con­ sobrevivente ao cerco estrangeiro.
siderado como empecilho para o culto javista no templo em Jeru­ A análise da organização estrutural do texto do código indi­
salém. Pelo contrário, pode-se afirmar, com Ribeiro, que “2 Reis ca também que, além de ser respostas às graves denúncias profé­
18,4 registra o momento em que, sendo considerado empecilho à ticas, o código também incorpora a exigência monolátrica como o
exclusividade do culto monárquico javista e à necessidade de cen­ centro da estrutura concêntrica do texto em questão. É sintomáti­
tralização desse culto por razões estratégicas de Estado, o culto à co que este código de leis apresenta o seu centro teológico no
serpente de bronze é posto em antagonismo ao javismo”.44 culto exclusivo a YHWH, em detrimento de qualquer outra di­
Na pesquisa recente, há uma tendência de se relacionar o vindade. Em Êxodo 22,19, admitido como o centro, afirma: “Quem
‘Código da Aliança’ (Êxodo 20,22-23,29) com a reforma de Ezequias, sacrificar aos deuses e não somente a YHWH será destruído”.
no final do século VIII a.C., no sentido deste haver constituído a Transformando-se essa proibição em linguagem positiva, resta a
sua base legal.45 Este código de leis reúne material legal com perfil afirmação da exigência monolátrica do culto a YHWH.
diacrônico diferenciado, remontando partes de texto até o tempo Em linha teológica similar indica o próprio ‘primeiro man­
do tribalismo e derivando outras de decisões de jurisprudência de damento’ do Decálogo Ético em Êxodo 20,2-17 e Deuteronômio
um tribunal de Jerusalém.45 A análise do conteúdo de várias das 5,1-21. A respeito do Decálogo, o exegeta alemão Crüsemann afir­
leis deste código indicam claramente no sentido de que aspectos ma: “O Decálogo pertence à época pré-exílica tardia. Ele é um
das críticas sociais dos profetas do século VIII, especialmente Amós, produto da época entre Oseias e o Deuteronômio; historicamente
Isaías e Miqueias tiveram eco e acolhida em leis específicas.47 Se a falando: entre a destruição do Reino do Norte e Josias”.48
vinculação do código com a atuação de Ezequias tiver base históri­ Com isso, há uma série de evidências de que a ênfase no ‘pri­
ca, deve-se lembrar que aquele momento histórico corresponde à meiro mandamento’, isto é, na adoração exclusiva a YHWH é uma
iminência da conquista de Judá pelos assírios e ao eventual des­ ênfase religiosa a partir do século VIII a.C. Pode-se, pois, dizer que
o século VIII é o momento histórico do acirramento da exigência
44 Osvaldo Luiz RIBEIRO, N ehushtan. Pesquisa exegética, fenomenológica e histórico- monolátrica do culto a YHWH somente. Aqui não se trata mais
socialsobre a origem, a supressão e o suporte social do culto à serpente de bronze
somente de polêmicas entre grupos proféticos e sacerdotais distin­
em Israel com base em Nm 21,4-9; Is 6,1-7 e 2Rs 18,4. Dissertação, Seminário
Teológico Batista do Sul do Brasil, Rio de Janeiro, 2002, p. 97. tos, mas a monolatria adquire contornos de ‘razão de estado’.
44 RIBEIRO, N ehu shtan , p. 70.
45 ALBERTZ, fíelig ion sg esch ich te, v. 1 , p. 283.
4I> CRÜSEMANN, A Torá, p assim .
47 Assim CRÜSEMANN, A Torá; Haroldo REIMER e Ivoni RICHTER REIMER, Tem pos 4,1 Frank CRÜSEMANN, P res erv a ç ã o d a lib e r d a d e , O decálogo em perspectiva
d e g raça. O jubileu e as tradições jubilares na Bíblia. São Leopoldo; CEBI/Sinodal, histórico-social.Tradução de Haroldo Reinier. São Leopoldo: Sinodal/CEBI, 1995,
São Paulo: Paulus, 1999. p. 24.

44 45
Da diversidade à singularidade Inefável e sem forma: estudos sobre o monoteism o hebraico

Quarta fa s e : reform a d e Jo sia s e o m on oteísm o n acion alista “pequena constituição” de seu governo.50 Neste código, há clara­
mente uma concentração no “primeiro mandamento”, isto é, na
Após a reforma de Ezequias, houve em Judá o governo do rei
adoração exclusiva a YHWH. Provavelmente, o famoso s h e m a ’
Manasses (687 a 642 a.C.), um período sob forte dominação assí­
y israel de Deuteronômio 6,4 expressa, a partir deste momento
ria. Neste período, ao que tudo indica, houve reintrodução de prá­
histórico, a consciência ou a projeção de que Yahveh é o Deus
ticas religiosas interditadas pela reforma de Ezequias, de forma
nacional de Israel, sendo, pois, indicativo de uma espécie de ‘cons­
que o processo de monoteização deve ter sofrido um retrocesso.
ciência monoteísta nacional’. Com Josias, dá-se a efetivação de
O avanço decisivo parece estar relacionado com a reforma
um m on oteísm o n acion alista excludente.
de Josias. A julgar pelas informações contidas no relato de 2 Reis
Paralelo à concentração na exigência da adoração exclusiva
22-23, houve nesta reforma um conjunto de medidas que visa­
de YHWH, verifica-se no antigo Israel também um impulso ani-
vam fortalecer a adoração exclusiva a YHWH, e esta, por sua vez,
cônico cada vez mais acentuado.51 Verifica-se cada vez mais, nos
exclusivamente em Jerusalém, com a centralização do culto no
textos, uma condenação de imagens. Se as formas religiosas mais
templo principal. Do santuário central de Jerusalém, teriam sido
antigas toleravam sem problemas as imagens de Deus, a partir
retirados utensílios e artefatos cúlticos utilizados para o culto a
dos séculos VIII e VII a.C., há uma tendência de suprimir qual­
Baal, a Asherah e ao Exército do céu; sacerdotes dos “altos” fo­
quer tipo de imagem de divindades e, sobretudo, do próprio Deus,
ram depostos, a estaca sagrada (hebraico: ash erah ) foi destruída,
YHWH. A proibição de imagens divinas está presente de maneira
cabanas, nas quais mulheres teciam véus para Asherah, foram
toda especial no Livro de Deuteronômio, cujo núcleo é datado
demolidas, etc.49 Também os santuários do interior foram desau­
para a segunda metade do século VII a.C., chegando aí inclusive
torizados e desmantelados. Houve, assim, claramente uma con­
ao ápice da negação de qualquer imagem visual na história da
centração do culto a YHWH em Jerusalém. A exigência da adora­
revelação de YHWH a Israel: “(...) não vistes qualquer imagem/
ção exclusiva a YHWH passa ainda mais fortemente a ser imple­
forma no dia em que falou YHWH; não fareis para vós imagem de
mentada com a força do aparato estatal, considerando-se que o
escultura em qualquer forma de ídolo, masculina ou feminina”
santuário central, assim como os santuários em geral, estava in­
(Deuteronômio 4,15-16).
serido na estrutura do estado monárquico.
Na análise desta quarta fase da história do monoteísmo no
A participação importante do estado na consolidação da mo-
antigo Israel, deve-se estar atento para duas questões importantes:
nolatria javista também tem a ver com o fato de que é o próprio
a) a existência de liderança feminina e diversidade religio­
rei qtie a consolida. Há muito tempo é reconhecido na pesquisa
sa neste período, especialmente a adoração a Asherah como con-
que o ‘Código Deuteronômico’ deve ter servido de base legal para
a reforma de Josias, funcionando talvez até como uma espécie de
50 CRÜSEMANN, A Torá, p. 159-283; ALBERTZ, R eligion sgeschichte, v. 1, p. 304-
360.
49 Sobre isso ver o trabalho de Ana Luisa CORDEIRO, Asherah, a Deusa proibida, 51 Sobre isso, ver Haroldo REIMER, Não verás o corpo de Deus. Anotações sobre a
em: Ivoni RICHTER REIMER (Org.), Im ag in ários d a D ivindade. São Leopoldo: corporeidade de YHWH na Bíblia Hebraica. Revista d e In terpretação B íblica Latino-
Oikos, Goiânia: Editora da UCG, 2008, p. 25-48. A m erican a, n. 38, Petrópolis, 2001, p. 45-54.

46 47
Da diversidade à singularidade Inefável e sem forma; estudos sobre o monoteism o hebraico

sorte de YHWH. Expressões proibidas ou interditadas supõem ecos posteriores, o poder criacional de YHWH sobre “todo o uni­
fiéis praticantes na base da sociedade; verso”. Este é também o momento histórico das formulações in­
b) a pergunta até que ponto a reforma de Josias foi capaz de cisivas de YHWH como Deus criador, conforme atestadas no mito
suprimir tais religiosidades nas camadas populares em Judá e nas cosmogônico de Gênesis 1.5B O exílio babilónico é, provavelmen­
regiões periféricas ao norte e sul (deserto). A descoberta de um te, o caldeirão histórico-cultural em que os mitos cosmogônicos
templo javista na região desértica ao sul, em Kuntillet Ajrud, da­ de origem babilónica são ressignificados e adaptados para o usos
tado do século VII a.C., com inscrição relativa a “Yahveh e sua próprios em Judá.57
Asherah” parece colocar limites à reforma. Algo semelhante pode- O monoteísmo absoluto, excludente ou clássico firmou-se
se perceber em Hirbet el Qom, Tell Miqneh e em Elefantina, no em Israel de modo mais contundente no período do pós-exílio,
Egito.52 Há, pois, claros limites até territoriais para a reforma e, com o retorno de parcelas da antiga elite sacerdotal exilada na
junto com isso, as reinvenções e recriações próprias que os sujei­ Babilônia, designada de golah. O pós-exílio é o tempo em que, no
tos religiosos, isto é, as pessoas simples, faziam neste momento antigo Israel, acontecem as formulações decisivas das tradições e
da história da religião.53 dos textos referenciais e sagrados da história religiosa do povo
hebreu. É neste período que deve ser localizada a formatação de­
Quinta fa s e : m on oteísm o absolu to ou clássico cisiva do Pentateuco ou da Torá. As projeções dominantes neste
A quinta fase, e talvez a mais marcante, está relacionada período tornam-se marcantes para todos os outros períodos pos­
inicialmente de forma forte com o período e a experiência do exí­ teriores.
lio. Aqui o “monoteísmo já está afirmado em sentido absoluto - Neste período, há algumas tendências importantes a res­
Javé é o único existente”.54 saltar:
A convicção monoteísta é colocada na boca do profeta Dêu- a) a afirmação do domínio exclusivo de YHWH, manejado
tero-Isaías, cuja atuação em geral é situada junto aos exilados pelo sacerdócio masculino no segundo templo em Jerusalém;
na Babilônia. Aí se lê: “Eu sou YHWH e fora de mim não existe b) a supressão de referências a outras divindades, sobretu­
outro Deus” (Isaías 45,5).55 Diante da supremacia da religiosida­ do femininas, na literatura produzida e moldada neste período.58
de babilónica fiel a Marduc, afirma-se, no contexto do exílio e com Em vários textos deste período, verifica-se uma tendência de apa­
gar a memória (erasio m em oriae) da representação de outras di­
vindades, especialmente da Deusa Asherah;
57 J. Severino CROATTO, A Deusa Aserá no antigo Israel. A contribuição epigráfica
da arqueologia. Revista d e In terpretação B íblica Latino-A m ericana, n. 38, Petrópolis,
2001, p. 32-44, esp. p. 36-9.
53 ALBERTZ, R eligion sgeschichte, insiste muito na análise da dimensão da “piedade 56 Haroldo REIMER, Toda a criação. Bíblia e ecologia, São Leopoldo: Oikos, 2006, p.
pessoal” {j)ersön liche Fröm m igkeit). 19-44.
54 J. Severino CROATTO, A sexualidade da divindade. Reflexões sobre a linguagem 57 Élcio SANT’ANNA, Os m itos cosm og ôn icos n o Antigo Testam ento. (Dissertação) -
acerca de Deus. R evista d e In terp retação B íblica L atin o-A m erican a, n. 38, Petró­ S em in á rio Teológico B atista do Su l do B rasil, Rio de Jan eiro , 2 0 0 2 . Ver
polis, 2001, p. 25. especialm ente RIBEIRO, C osm ogon ia d e in au g u ração.
55 Ver também Isaías 40,25; 4 3 ,1 0 b -ll; 44,6b-8b; 46,9. 58 CROATTO, A sexualidade da divindade, p. 25.

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Da diversidade à singularidade Inefável e sem forma: estudos sobre o monoteísmo hebraico

c) junto com a supressão das representações de outras di­ de tradições e textos normativos da religião oficial de Israel a
vindades, verifica-se um processo de demonização ou diaboliza- partir do pós-exílio. A partir daí, há uma retroprojeção desta sín­
ção de outras experiências e expressões religiosas combatidas pela tese para quase toda a literatura canônica da Bíblia Hebraica, es­
linha oficial. O caso mais típico é a interpretação da serpente em pecialmente a Torá, cuja formatação decisiva se deu neste perío­
Gênesis 3. O símbolo ‘serpente’ em si é polissêmico, podendo do. O monoteísmo excludente ou clássico é a síntese oficial de
remeter a uma diversidade de experiências e sentidos. No relato um longo processo, cujas origens vão sendo afirmadas e enuncia­
mítico de Gênesis 3, contudo, a serpente é colocada na ‘isotopia das em construção contrastante ao politeísmo cananeu, do qual
do negativo’, passando a ser interpretada como a matriz e o amál­ Israel sempre fez parte.
gama de todas as expressões religiosas entendidas como concor­ Tendo-se este monoteísmo absoluto ou clássico como resul­
rentes e alternativas do culto a YHWH.59 No nível histórico da tado histórico de um processo, deve-se, porém, trabalhar com re­
produção do relato, há que ver a atuação de grupos sacerdotais, sistências durante todos os períodos, lembrando que a religião efe­
vinculados ao santuário central, isto é, o chamado ‘segundo tem­ tiva, ou a religiosidade no cotidiano é uma questão de invenção
plo’, que, por meio de narrativas míticas, dão forma de maneira criativa ou recriação constante a partir dos próprios sujeitos da fé.
decisiva o imaginário religioso com prerrogativas para YHWH Assim, por exemplo, nos momentos derradeiros posterio­
somente e para o universo masculino. res à destruição de Jerusalém e na interpretação deste evento dra­
mático, o povo de Judá invocava a Rainha dos Céus (Jeremias
Síntese e resistências 44), dizendo que o abandono de sua veneração era a causa da
catástrofe.60 A isso se contrapõe a voz do profeta Jeremias, que
A afirmação do monoteísmo javista absoluto ou clássico no
representa a voz oficial, ‘deuteronomista’, dizendo que a desgra­
antigo Israel nos séculos VI e V a.C. tem atrás de si um longo
ça da destruição foi consequência do abandono da adoração ex­
processo. Momentos de inclusividade sincrética e momentos de
clusiva a YHWH. Também o livro de Ester faz uma interessante
exclusividade monoteísta alternam-se neste processo. A partir das
releitura messiânica da deusa Ishtar, talvez até como contrapon­
práticas dos sujeitos religiosos em Israel, certas expressões foram
to ou complementação à religiosidade oficial javista.
ganhando força; em determinados momentos históricos, outras
A resistência mais significativa, também no sentido de re­
práticas e expressões foram sendo tabuladas em textos tornados
cuperação de uma divindade feminina, aparece na figura da hok-
oficiais ou normativos. O sh em a Israel (Deuteronômio 6,4) e a
m a h ou Sabedoria conforme é expresso em Probérbios 8,22-26.61
afirmação “Eu sou YHWH e fora de mim não há outro Deus” (Isaías
45,5) são sínteses textuais de processos históricos e de fé; são o
™Sobre isso, cf. o importante estudo de Renate JOST, Frauen, M än ner und d ie
resultado que se tornou normativo para a redação e a formulação H im m elsk ö n ig in , E xegetische Stu dien, G üterloh: Chr. K aiser; G ütersloher
Verlagshaus, 1995. Ver tam bém Erhard S. GERSTENBERGER, Ja h w e - ein
p a t r ia r c h a l e r Gott?, Stu ttg art: K ohlham m er, 1988, p. 27 -3 7 [Ischtar, die
50 J. Severino CROATTO, Quem pecou primeiro? Estudo de Gênesis 3 em perspectiva Himmelskönigin].
utópica: R evista d e In terp reta ção B íblica L atin o-A m erican a, n. 37, Petrópolis; São 81 Silvia SCHROER, A justiça de Sophia: tradições sapienciais bíblicas e discursos
Leopoldo, 2000, p. 15-27. feministas. C oncilium , Petrópolis, n. 288, p. 69-81. Ver também o valioso estudo

50 51
Da diversidade à singularidade

A sabedoria é afirmada como figura feminina em Provérbios 1-9,


e até se verifica um processo de hipostatização, isto é, a sabedo­
ria, figura feminina, tabulada pela vertente oficial, é afirmada como
a companheira de YHWH na obra da criação. “Não haverá ali um
resto - ou antes, uma recuperação? - da Deusa?”, pergunta Croatto MONOTEÍSMO E
neste contexto.62 Essa recuperação do feminino no divino terá
consequências em épocas posteriores, por exemplo, com a incor­
IDENTIDADE*
poração de expressões cúlticas a deusas ‘pagãs’ no processo de
expansão do cristianismo, amalgamados na figura de Maria.
Há muito o que desvendar no emaranhado da formação da "Para ser to leran te,

identidade cultural do povo do antigo Israel. Sem dúvida, a cons­ é preciso fixar os limites

trução do imaginário monoteísta foi motivo de significativos con­ do intolerável"

flitos ao longo da história do povo; mas foi também elemento Umberto Eco
outorgador de identidade.
Aqui somente apontei para alguns momentos constitutivos do
processo de formação do ideário monoteísta, que necessitam ser O monoteísmo hebraico é um siste­
muito mais elaborados em seus detalhes e nuances históricos. É ma religioso que afirma fundamentalmen­
importante, contudo, perceber que todo este processo deve ser en­ te a existência de um só Deus. Enquanto
tendido dentro das coordenadas de um longo desenvolvimento his­ sistema religioso, em termos históricos, tra­
tórico e dentro da dinâmica de um sincretismo religioso, no qual ta-se de uma construção cultural-religiosa
atribuições e funções de determinada divindade são transferidas a ocorrida ao longo de um período histórico
outra no mesmo compasso em que, na base social, isto é junto aos
sujeitos religiosos, há um processo de amalgamação e inculturação
das expressões e representações religiosas. Ao longo de todo teste * As ideias fundamentais deste texto foram apresentadas
processo são criadas representações teológicas, nas quais o Deus originalmente na forma de ‘comunicação científica’
co m o m esm o títu lo d u ran te o I C on gresso
YHWH passa a receber cada vez mais atributos, destacando-se o de Internacional em Ciências da Religião realizado em
Deus da justiça que luta em favor em favor dos empobrecidos. Goiânia nos dias 3 a 5 de setembro de 2007 pelo
Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião
da Universidade Católica de Goiás. Versão deste texto
foi publicada em Protestantismo em Revista, São
de Mercedes LOPES, A mulher sábia e a sabedoria mulher. São Leopoldo: Oikos, Leopoldo, v. 16, maio-ago, 2008, disponível em: <
2007. http://www3.est.edu.br/nepp > . Outra versão impressa
62 CROATTO, A sexualidade da divindade, p. 20. Ver também Ana Luísa CORDEIRO, se e n c o n tra em Ivoni R ich te r REIM ER (O rg.),
Recuperando o imaginário da Deusa: estudo sobre a Divindade Aserá no Antigo Im aginários da divin dade, São Leopoldo: Oikos,
Israel. (Dissertação) Goiânia, Universidade Católica de Goiás, 2009. Goiânia: Editora da UCG, 2008, p. 9-24.

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