Artigo 2 Fatesul Sobre Evangelho de João.
Artigo 2 Fatesul Sobre Evangelho de João.
QUARTO EVANGELHO
Resumo
O quarto Evangelho é o escrito do Novo Testamente que possui a mais alta cristologia.
Desvendar as questões acerca da autoria, data e local, tem sido um dos maiores desafios
de muitos estudiosos do quarto Evangelho. Esse esclarecimento da autoria, data e local,
poderá ser uma chave mestra na reconstrução das obras joaninas e sinóticas bem como
na cientologia dos escritos do Novo Testamento. O presente artigo está fundamentado
no estudo do texto joanino e a investigação de revisão bibliográfica. Procurará
esclarecer e entender quem possivelmente foi o autor e qual data e local se encaixa
melhor no contexto da escrita do Evangelho de João. Os resultados obtidos revelam e
apontam que o ano 90 pode trazer um melhor esclarecimento para resolver a
problemática proposta no tema deste artigo. Espera-se que o conteúdo desta pesquisa
contribua para novas reflexões e traga novas perspectivas da leitura bíblica do quarto
Evangelho bem como dos demais escritos joaninos e sinóticos.
1
Mestre em Teologia pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), Curitiba, PR - Brasil,
e-mail: [email protected]. Este artigo é parte do trabalho de minha dissertação de
mestrado.
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Introdução
a afirmativa “aquele que viu testificou”, é uma referência para afirmar que João, o filho
de Zebedeu é o autor do Evangelho.
O autor foi dono de um barco na Galileia e, por ter funcionários a seu dispor,
crê-se que gozava de uma boa posição econômica. Afirmam que a esposa de João foi
prima de Isabel e da virgem Maria, que João foi o caçula e seu irmão mais velho foi
Tiago. Com base na “evidência interna” e na “evidência externa”, (PAROSCH, 2012, p.
179-188), sugere-se que a autoria não somente pertence ao filho de Zebedeu, como
também pode-se afirmar que são os mesmos que Jesus chamou de “os filhos do trovão”,
os cognominados “Boanerges”. Acreditam que foi bem próximo a Pedro no início da
igreja. Esse Pedro, junto com Tiago e João, foi considerado umas das colunas da igreja
em Jerusalém Gl 2.9.
O autor também foi um judeu da Palestina, isto pode ser percebido através do
estilo da linguagem utilizada por João que revela seu conhecimento e familiaridade com
o Antigo Testamento. Sua habilidade em lidar com o texto hebreu e a Septuaginta,
também revelam suas crenças judaicas e samaritanas, a exemplo das referências ao
Messias, encontradas em Jo 2.17; 10.34,35; 12.40; 13.18; 17.12; 19.24,28,36, 37; 4.25;
7.27,42; 12.34. As influências do Antigo Testamento também são perceptíveis em
algumas partes do Evangelho. Essas influências não estão acima da média; encontram-
se fragmentadas por boa parte da obra joanina. O autor conhece muito bem a topografia
da região. Seu esclarecimento e detalhes fornecidos da Palestina e Jerusalém talvez seja
uma indicação de que o autor do quarto Evangelho poderia ter sido um tipo de bispo na
Ásia menor 1.28; 3.23; 4.11,20; 11.54; 12.21.
A influência grega também é uma marca registrada no Evangelho e estão
representadas através das palavras arcaicas, carregadas de hebraísmos. Talvez estas
palavras já estivessem em desuso na época da composição do Evangelho, porém, tais
expressões arcaicas deixaram rastros que influenciaram o texto atual. Esta hipótese diz,
não há dúvida, de que, por trás dos holofotes está a autoridade de João. Uma minoria
acredita que a forma atual do Evangelho não saiu das mãos de João. Alguns afirmam
que João, o apóstolo, foi o autor do Evangelho, porém não o seu redator. Creem que a
influência e a memória do quarto Evangelho pertencem a João, o apóstolo. Ele é o que
relembra e dita os acontecimentos que contemplou no passado, porém, por trás desse
João há um outro autor, mais precisamente um redator, considerado o que tomou a pena
de tinta e escreveu o Evangelho. Esse autor escrivão seria um outro discípulo de João,
também chamado de João e “o Ancião”. Este escrevia o que aquele ditava.
Partem do pressuposto de que não há razões para se duvidar da autoria joanina,
pois a evidência interna chega carregada com embasamento e junto com as vozes de
mais autoridade da tradição. Isto também é apoiada pela cultura crítica e literária de
eruditos e peritos nas línguas originais. Afirma-se que João, o apóstolo, é o mesmo
“presbítero”, no sentido mais honroso do vocábulo, ou seja, o autor na visão desta linha
de pensamento está explícito, é João, o discípulo amado e apóstolo.
Alguns estudiosos dessas hipóteses parecem um pouco radicais em suas
colocações. Afirmam que quem negar a autoria a João, o apóstolo, está dizendo que a
espiritualidade do quarto Evangelho é uma falsificação. A expressão “falsificação”, é
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intencional, serve para polemizar a questão, pois denota que o Evangelho só é o que é,
em sua essência e espiritualidade, em vista do autor estar presente na hora dos fatos
ocorridos da vida de Jesus. Isto é o que faz a presente obra joanina ter o peso
inconfundível da veracidade autoral através da expressão: “aquele que viu testificou”
(Jo 19.35).
Na presente hipótese não há como ter dúvidas de que João, o filho de Zebedeu,
é o autor do quarto Evangelho, pois suas bases estão na tradição da igreja antiga, as
quais confirmam a autoria joanina. A certeza da autoria de João os leva a dizer com
exatidão que no dia 18 de setembro do ano 96, o apóstolo João foi libertado da ilha de
Patmos. Retornou a Éfeso e ali escreveu o Evangelho que leva seu nome. Já em idade
avançada, com mais ou menos 100 anos de idade, falou suas últimas palavras, ou as
únicas que conseguia dizer: “Filhinhos, amai-vos uns aos outros” (Jo 13.34; 15.12,17).
A evidência interna bem como a evidência externa, trazem boas segurança de
que João foi o mesmo discípulo amado, suas mãos estão nos registros ao longo de todo
o quarto Evangelho. Por certo, então, João o filho de Zebedeu, é o autor. São da opinião
que os demais livros que levam o seu nome também pertencem à sua autoria. As
diferenças na linguagem entre o Evangelho e o Apocalipse, não são motivos para
desacreditar da autoria de uma só pessoa. Afirmam: “com certeza João é o discípulo do
amor”. Nessa mesma linha teológica, alguns teólogos aplicam um processo
eliminatório. Nesse processo, os autores analisam cada um dos doze discípulos de Jesus.
Começam pelo exemplo de Judas, o homem de “Queriote” que, sendo o traidor e
suicida, não poderia ser o autor da obra.
Logo após analisam que não poderia ser Pedro, pois o autor do Evangelho
reclinou a cabeça no peito de Jesus, nesta ocasião Pedro estava junto, distinguido do
discípulo amado, conforme Jo 13.24. Provavelmente também não é nenhum dos quais
os nomes estão citados e distinguidos em Jo 13.2; 14.5,8,22. Afirmam sob a base de Mc
14.17, na cena da última ceia, que parece ser certo que o discípulo amado estava
presente entre os doze, se de fato estavam ali somente os doze. Também não seria
Mateus pois este é associado a outro Evangelho. Desta forma, continuam o processo
eliminatório até chegarem em João, o filho de Zebedeu, que acreditam ser o autor do
Evangelho. Analisados todos os nomes dos doze, conclui que o autor do Evangelho é
provavelmente um dos primeiros discípulos de Cristo, um dos seguidores de João, o
Batista.
A comparação dos sinóticos com o Evangelho de João, por exemplo de Jo
1.35-40 e Mc 1.16-20, deixa evidente, pela lista dos nomes dos chamados por Jesus, que
um deles é o autor do Evangelho, expresso em Jo 1.40 e 21.2. O autor “sem nome”, no
quarto Evangelho em Jo 1.35, é o autor da obra, um dos filhos de Zebedeu, comparado a
Mc 1.19-20, onde surgem Tiago e João pescando, ambos filhos de Zebedeu. Entende-se
então que o sujeito anônimo do quarto Evangelho é o próprio João expresso no
Evangelho de Marcos. Isto em parte é apoiado por Brown (1999), que afirma que estas
características podem ser do discípulo amado exceto que foi o autor do Evangelho.
Esta hipótese é adotada pelos seguintes autores:
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Taylor (1950, pp. 10.30); Barclay (1958, p. 21-22); Knight e Anglin (1983, p.
10); Hale (1983, pp. 151.157); Bruce (1987, pp. 14.72); Pearlman (1995, p. 235);
Tenney (1995. p. 195); Hörster (1996, p. 53-54); Gundry (1998, p. 76-77); Brown
(1999, p. 33); Hendriksen (2004, p. 35.46); Gorgulho (2005, p. 75-76); Earle e Mayfield
(2006, p. 21); Carson (2007, pp. 71.73.76) e Macarthur (2011, p. 5).
2° Hipótese: Na segunda hipótese estão aqueles estudiosos que não aceitam
João, o filho de Zebedeu, como o autor e escritor do quarto Evangelho. Não foi uma
testemunha ocular e a visão de um só autor é inapropriada, pois não pode ser fruto de
uma só pessoa. Acreditam que muitos estavam envolvidos na construção e formação da
obra. Esses moldaram a tradição da identidade e do corpo da comunidade joanina.
Alguns autores como Brown (1999) e Konings (2005), consideram que o autor foi o
discípulo amado, porém não se pode identificá-lo com o filho de Zebedeu. Outros,
dentro desta hipótese, afirmam que ele é alguém de dentro da tradição fundada pelo
discípulo amado, talvez um editor conhecido pela sua devoção a Jesus e à comunidade.
Foi alguém que teve a responsabilidade de dar continuidade à tradição do evangelista e
de editar os escritos joaninos.
Esses escritos foram frutos das relembranças da comunidade acerca de Jesus,
relembranças que não deveriam ser esquecidas. Por trás dos holofotes desse Evangelho
brilha a luz de toda uma comunidade em desenvolvimento, que, com o tempo, veio
formar a sua identidade peculiar. Esta figura misteriosa do “discípulo amado”, também
pode ser apenas um discípulo de Jesus ou uma informação que representa toda uma
comunidade. Alguém que seja uma figura paradigmática de cada crente da comunidade,
isto “enquanto amigos de Jesus”. Esses amigos são aqueles que experimentaram o amor
incondicional de Jesus e a Ele corresponderam (CASALEGNO, 2009, p. 102-103). A
comunidade tem o Evangelho como uma herança recebida da real testemunha ocular,
ela é quem dá testemunho do discípulo amado e apresenta a veracidade dos fatos do
evangelista Jo 1.19; 21.24.
Não veem na figura do filho de Zebedeu uma opção convincente para afirmar
que ele foi o autor. Observam, em Mc 10.39, uma possibilidade de negarem a autoria do
filho de Zebedeu. Neste versículo percebe-se que João e Tiago sofreriam o martírio, já
em Jo 21.20-23, não se refere ao irmão de Tiago e sim ao “Discípulo amado”, o qual
não morreria como mártir, como foi o caso de Pedro. Como então seria João o mártir,
autor do quarto Evangelho, sendo que morreu antes da obra escrita e não com a mesma
morte que havia sido profetizada? Como expressa João “que tipo de morte havia de
glorificar a Deus” (Jo 21.19).
Brown (1999) e Perkins (2011) se expressam da seguinte forma: O João do
capítulo 21, por certo não é o Discípulo amado. Não há intenção aqui de identificar este
discípulo com o Filho de Zebedeu. O texto de João 21.2, se refere aos filhos de
Zebedeu, já nos capítulos 21.7-20, é uma identificação do “Discípulo amado”.
Percebem que há uma intenção no quarto Evangelho de isolar o discípulo amado do
meio dos doze “apóstolos”. Isto é uma forma clara de identificar que o discípulo amado
não é a mesma figura do Filho de Zebedeu. Mesmo parecendo não acreditar na autoria
de João, o filho de Zebedeu, relatam que não é necessário “debilitar o aspecto básico
ressaltado pela reafirmação da autoria apostólica” (PERKINS, 2011, p. 740).
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Outra prova de que o autor joanino foi um judeu é visto através do estilo da
linguagem utilizada pelo autor. Essa linguagem revela o seu conhecimento e
familiaridade com o Antigo Testamento. A habilidade em lidar com o texto hebreu e a
Septuaginta e o modo como aborda as crenças judaicas e samaritanas, também revelam
sua origem judaica, por exemplo, as referências acerca do Messias, encontradas em
2.17; 10.34,35; 12.40; 13.18; 17.12; 19.24,28,36,37; 4.25; 7.27,42; 12.34.
Outra questão se refere às raízes por trás da escrita helênica que revela sua
influência de origem. O conteúdo da obra deixa respingar o conhecimento do autor
acerca dos costumes judaicos. Isso pode ser perceptível através do grego do Evangelho,
nas palavras arcaicas carregadas de hebraísmos, talvez em desuso na época da
composição do Evangelho. Fato é que essas expressões arcaicas deixaram rastros de
suas origens que influenciaram o texto atual.
São levados em consideração o fato de o quarto Evangelho ter sido escrito
depois dos anos 80. Entende-se que, com a destruição de Jerusalém em 70, a cidade
poderia ter ficado irreconhecível. Isso impossibilitaria determinar alguma localização
exata, até mesmo para um judeu familiarizado com seu ambiente topográfico. Mais
difícil ainda seria para um cidadão de fora das cercanias de Israel determinar alguma
localidade.
A ideia que se tem seria então de que, somente um judeu familiarizado com
toda a topografia de Israel poderia apresentar detalhes tão exatos da região pós-
destruição de Jerusalém no ano 70. Pelo fato de João citar em seu Evangelho passagens
do Antigo Testamento, para apontar certas localizações, é evidente que o autor não
dependeu da Septuaginta. Isso somente seria possível se o autor joanino estivesse
familiarizado com o hebraico original. Sendo assim, poderia se localizar na topografia
da região através do texto original.
O autor vive em um mundo “helênico” e escreve em grego, porém, está claro
que o autor do quarto Evangelho pensa em hebraico. No decorrer do texto, o autor sente
a necessidade de traduzir certas expressões comuns a qualquer judeu, por exemplo as
expressões “Rabi” e “Messias”. Talvez a reposta da simplicidade e dificuldade do autor
em não ser profundo na gramática grega, signifique realmente que o autor não era
natural da região da escrita do Evangelho. Isso pode ser também uma indicação que, no
período da redação final do Evangelho, já havia na comunidade um grande número de
pessoas de origem não judaica, pessoas não familiarizadas com certos termos da fé
judaica. Isto explicaria a necessidade de traduzir palavras tão comuns para a época.
A escrita grega do autor, mesmo sendo limitada, com um número reduzido de
palavras em seu vocabulário e com sentenças simples, contudo não contém erros. Não é
preciso muito esforço na leitura para perceber no texto grego um fundo fortemente
semítico. Isto é resultado de alguém que está enraizado em um contexto de fala grega.
Ainda que o autor pense em seu idioma de origem, “hebraico e aramaico”, o escritor é
João, o judeu da Palestina, que pensa em aramaico e escreve sua obra em grego.
Esta hipótese é adotada pelos seguintes autores:
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Barclay (1958); Hale (1983, pp. 103.253); Bruce (1987, p. 13); Fabris e
Maggioni (1992, p. 263); Tenney (1995, p. 194); Höster (1996, p. 43-44); Hendriksen
(2004, p. 32); Konings (2005, p. 30-32); Earle e Mayfield (2006, p. 21); Bultmann
(2008, p. 438) e Beutler (2015, p. 31).
Datar uma obra sem acesso ao primeiro texto manuscrito, sempre será tomada
uma posição no campo das possibilidades, como é o caso do quarto Evangelho. Não se
tem conhecimento acerca do primeiro autógrafo para se precipitar em qualquer
afirmação, tanto no quesito autoral como sobre a data. Por isso, recorre-se então à
crítica textual e aos materiais encontrados até o momento. O processo de datação
utilizado é um pouco mais trabalhoso. Faz-se necessário analisar alguns papiros,
materiais mais antigos, a exemplo dos Papiros 52, datado do ano 125, o papiro 66, início
do século III e o papiro 75 (+ 200 d.C.) (MAZZAROLO, 2000, p. 26).
Antes de pensar em uma possível datação do Evangelho, deve-se levar em
consideração que João não escreveu no momento dos acontecimentos. A história gera a
escrita e não ao contrário. A escrita sempre será um registro do que se passou para que,
dessa forma, se torne história, ainda que o tempo seja muito próximo. Tenney (1995, p.
24) elabora um sumário, demonstrando as diferenças entre as datas em que foram
escritos os textos do Novo Testamento e o período no que diz respeito aos
acontecimentos. O autor percebe que o Evangelho joanino, bem como os demais livros
do Novo Testamento, está classificado como texto anacrônico.
Em relação ao texto grego do quarto Evangelho, a construção gramatical da
obra joanina quase sempre está no tempo presente e fixando-se em alguma parte na
história. É uma mistura de acontecimentos no passado e o que se vivencia no presente.
Suas palavras como referência ao passado superabundam mais do que qualquer outro
livro do Novo Testamento (CARSON, 2007, p. 82).
Acerca da data, muitos autores divergem desde antes da destruição de
Jerusalém, na primeira invasão romana, até à segunda invasão romana, mais ou menos
no ano 140, ou um pouco mais além dessa data. A respeito da data em que foi escrito o
Evangelho de João existem pelo menos duas hipóteses:
1° Hipótese: Nesta primeira hipótese estão aqueles autores que acreditam que
o quarto Evangelho foi escrito por volta dos anos 90-100. Pelo menos sua última
redação marca o final do século I. Nessa data destacam-se as ênfases das forças
gnósticas, um seguimento religioso e filosófico proeminente nesse período.
Brown (1999) leva em consideração um período que ele mesmo denomina de
período pré-evangélico, tempo em que se deu a formação joanina. O estudioso data esse
período entre os anos 50 a 80, porém, os anos 90 é o período mais aceito para a redação
final da obra. Nessa hipótese, alguns autores utilizam como base alguns versículos que
relatam acerca da violência e da expulsão dos cristãos das sinagogas, por exemplo, Jo
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9.22 e 16.2. Pode-se supor que o Evangelho não tenha sido escrito antes dos anos 90,
pois a expulsão “definitiva”, das sinagogas aconteceu por volta de 90 a 100, com
pequenas variações de datas entre os exegetas. Sustentam que estes versículos que
relatam as expulsões não pertencem à época de Jesus, nem apostólica e nem muito
menos para o ano da destruição do Templo em 70. Talvez essas perseguições perpassem
toda a história joanina, porém, as expulsões definitivas das sinagogas e as mortes em
nome de Deus em Jo 16.2, foram somente após o concílio de Jâmnia.
Esse concílio, datado por volta do final do século I e início do século II, ao que
parece, foi liderado pelo rabino Yochanan ben Zakai, que visou a elaborar e apontar
uma direção para o judaísmo pós-destruição do Templo. Os versículos que apontam
essas expulsões das sinagogas refletem o último quartel do século I. O judaísmo de
Jâmnia, que foi, em certo ponto, pluralístico antes da destruição de Jerusalém, após a
destruição passa a ser um judaísmo farisaico radical. É confirmado por Brown (1999)
que a reformulação do ano 85-90 em Jâmnia é o momento em que se concretiza a
expulsão das sinagogas e o período da redação final do quarto Evangelho.
Perkins (2011, p. 738) falando acerca do acréscimo da décima segunda
“bênção”, das dezoito bênçãos da religião judaica, que na verdade foi uma “maldição”
acrescentada contra os hereges, o “Birkat Hammynym - Heb. ”ַה ִּמ יִנ ים ִּב ְר ַּכ ת., os
desviados judeus e todos os que aderiram especialmente ao movimento de Jesus,
refletem o contexto de Jo 16.2, acera das perseguições do ano 90.
Não havia mais somente afastamentos das sinagogas. Agora, de uma vez por
todas, os hereges serão expulsos das sinagogas e excluídos das comunidades judias. A
perseguição ainda continua, mesmo após a expulsão. Depois de excluídos, os hereges
podem ser denunciados às autoridades romanas, por crime contra o estado e a religião
judaico-romana. Esta fase marcaria a conclusão do Evangelho joanino em um contexto
de muitas violências e mortes em nome de Deus.
Alguns são da opinião de que a maldição contra os hereges foi um dos motivos
pelos quais se deu a composição do quarto Evangelho. Tal obra serviria para encorajar
os cristãos judeus expulsos das sinagogas, para assim permanecerem firmes na fé.
Gundry (1998) relata que o Evangelho joanino parece ter tido um público alvo
considerável, diferente dos livros de Mateus, Hebreus e Tiago, que parecem ser
dirigidos para um público mais reduzido.
Bultmann (2008) relata que os versículos que retratam as expulsões das
sinagogas geralmente mostram uma comunidade que “já”, estava excluída das
sinagogas. O autor está vislumbrando o presente e transportando-o ao passado o que já
havia ocorrido. Uma das principais razões da expulsão foram os conflitos judaicos
contra os seguidores do movimento de Jesus que afirmavam ser Jesus “Deus” do mesmo
modo que o Pai.
Acredita-se que a datação da obra apocalíptica ajudou a definir a data da
composição do Evangelho. É comum pensar que o Apocalipse deva ser datado da época
de Domiciano, no ano 96 e não muito distante dessa data, aproximadamente uns seis
anos após o término do quarto Evangelho. Nessa opinião, o Evangelho foi escrito
próximo do final do primeiro século, pois o papiro 52, de Rylands, em meados de 125,
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retrocedeu a data em pelo menos “cem anos”. Muitos estudiosos que acreditavam em
um período mais tardio, para o fim do século II, terão que considerar uma nova data
para antes de 125.
Alguns demonstram dúvidas em qual parte do primeiro século foi escrita a obra
joanina. Uma pequena variação entre 90 e 100 é aceitável. Reprovam a ideia de alguns
comentaristas do Evangelho joanino, os quais afirmam que João já conhecia o
Evangelho de Lucas e, por isso, o tomou como base para sua escrita. A ideia é que João
foge para Éfeso um pouco antes de 70, data que marca a destruição de Jerusalém.
Outros desta hipótese reprovam a ideia de que o autor joanino não conhecia o
Evangelho de Lucas. Alguns desses estudiosos atestam que o autor joanino não só
conhecia Lucas como também os outros sinóticos. Acreditam que a composição do
Evangelho foi entre 80-90, aproximadamente cinquenta anos após presenciar a vida de
Jesus.
Ainda, quanto à dependência literária de João em relação a Lucas, alguns
poucos apoiadores dessa hipótese acreditam que seria improvável, pois a concordância
feita pelos estudiosos que acreditam nessa dependência lucana, estão baseadas em
passagens isoladas. Tais passagens apenas demonstram que ambos os autores usaram a
mesma fonte. Não existem provas concretas de ter havido dependência ou não do quarto
Evangelho quanto aos sinóticos, em especial Lucas. O pensamento é de João ter tido
como base inicial o “livro dos sinais”, porém, posteriormente, outro redator joanino, que
pensava como Lucas, recompôs a obra dentro de outro estilo com base em Lucas. A
razão seria pelo fato da comunidade lucana ter enfrentado os mesmos problemas que a
comunidade joanina enfrentou, em relação aos judeus e a comunidade judaica
(MAZZAROLO, 2000, pp. 21.23-24.42).
Alguns autores dessa hipótese chamam a atenção para o fato de João não
relatar o ministério de Jesus na Galileia. Estranham a omissão de algumas parábolas.
Todavia isso seria intencional, pois, o autor joanino deseja transmitir ao público novas
informações, evitando, desta maneira, informações corriqueiras ou repetidas que os
sinóticos já continham. Em vista do quarto Evangelho ser mais tardio que os outros três,
alguns acreditam em uma dependência parcial dos sinóticos, ou seja, na dependência
joanina de, ao menos, um Evangelho. Já outros acreditam que João não só conheceu
como também leu todos os sinóticos.
Esta hipótese é adotada pelos seguintes autores:
Lohse (1980, p. 196-197); Knight e Anglin (1983, p. 10); Tenney (1995, p.
205); Pearlman (1995, p. 236); Hörster (1996, p. 56); Carson, Moo e Morris (1997, p.
188-189); Gundry (1998, p. 80-81); Brown (1999, pp. 20-21.61); (MacArthur, 2001, p.
5); Mazzarolo (2002, p. 28); Keener (2004. p. 270); Gorgulho (2005, p. 76-77); Konings
(2005, p. 32); Bloom (2006, p. 99); Carson (2007, pp. 25.84); Richards (2008, p. 192);
Bultmann (2008, p. 433) Casalegno, 2009, p. 41-43); Lopes (2010, p. 17); Perkins
(2011, pp. 738.744); Macarthur (2011, p. 5); (BEUTLER, 2015, p. 32) e Bortolini
(2015, pp. 9.11.12).
2° Hipótese: Na presente hipótese se enquadram aqueles autores que acreditam
em uma data mais recente, ou seja, antes de 70. Analisam o silêncio joanino acerca do
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Tomando como ponto de partida os anos 66, sabendo que nessa época os
fariseus ainda tinham força política e influência na sociedade, por isso mesmo, ainda
controlavam as sinagogas e quase todo o ensino à população judaica. Com os inúmeros
embates com os romanos, muitos resistentes foram dizimados, tanto cristãos judeus
como os zelotes e saduceus. No entanto, um grupo de fariseus conseguiu sobreviver de
forma organizada, aos ataques romanos, o grupo de Jâmnia. Embora isto não
necessariamente se deva ao fato de serem somente mais inteligentes a ponto de não
resistirem à invasão romana, mais assim como pensa Hale (1983), talvez por serem bem
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A literatura da antiga patrística afirma que João foi morador de Éfeso em sua
velhice. Jerônimo também confirma que o autor, já em idade avançada, era transportado
de igreja em igreja por seus fiéis seguidores. Com sua voz quase inaudível, o que
conseguia falar era somente “filhinhos amai-vos uns aos outros”.
Em alguns textos do Novo Testamento, João não aparece em cena. Há pelo
menos nove referências ao apóstolo João em Atos. Logo após, João sai de cena. Earle e
Mayfield relatam que a razão seria em vista do destaque de Pedro, o apóstolo (EARLE;
MAYFIELD, 2006, p. 21-22). Paulo faz uma referência acerca das colunas da igreja em
Jerusalém, Tiago, Cefas e João, conforme Gl 2.9. No livro do Apocalipse aparecem as
últimas referências a João. Essas referências são as bases para alguns teólogos
acreditarem e atribuírem a autoria de ambas as obras a João.
É perceptível, no Evangelho, que o autor escreve em fronteiras gentílicas. Se
fosse em ambiente judaico, como já mencionado, não haveria a necessidade da
explicação de termos tão comuns a qualquer judeu, a exemplo das ênfases em explicar
as festas e cerimônias judaicas, bem como interpretar expressões tão simples como “rabi
que quer dizer Mestre” (Jo 1.38). O testemunho da igreja primitiva, acerca do
Evangelho ter sido escrito em Éfeso, na Ásia Menor, torna-se incontestável na medida
em que se apoie sobre o peso do testemunho de Irineu. A probabilidade de ser escrito
em Éfeso ganha ainda mais força quando se observa o movimento montanista. Esse se
estabilizou nas regiões da Frígia. É constatado que os montanistas fizeram várias
referências ao quarto Evangelho, utilizando-o como apologia para seus ensinos
doutrinários.
Brown (2002, p. 996) relata que, semelhantemente ao Evangelho, a obra da
revelação é dirigida às igrejas da zona Ocidental da Ásia menor, ideia também atestada
por Euzébio de Cesareia (2000) em seus escritos “História Eclesiástica”.
quarto Evangelho. Euzébio relata que o corpo de João repousa ali. Esse é o mesmo que
reclinou a cabeça no peito de Jesus. acerca disso Brown (1999) discorda. Foi sacerdote e
usou a lâmina de ouro, chamada de “pétalon” e seu corpo repousa em Éfeso. Quanto à
localidade da escrita da obra em Éfeso, Brown (1999) concorda, porém, difere na
questão de ser o mesmo João.
Esta hipótese é adotada pelos seguintes autores:
Taylor (1950, p. 24); Knight; Anglin (1983, p. 10); Hale (1983, p. 159-160);
Brown (1986, p. 23-24); Bortolini (1994, p. 7); Tenney (1995, p. 1987); Carson, Moo e
Morris (1997, p. 179); Gundry (1998, p. 76); Brown (1999, pp. 67.69); Mazzarolo
(2000, p. 28); Brown (2002, p. 996); Hendriksen (2004, p. 47-48); Gorgulho (2005, p.
32); Konings (2005, p. 32); Earle; Myfield (2006, p. 22); (Eus., Hist. Eccl., III, 31, 3).
Carson (2007, p. 87); Casalegno, 2009, p. 43); Macarthur (2011, p. 4); Perkins (2011, p.
739); (BEUTLER, 2015, pp. 31.33) e Beutler (2016, p. 28).
2° Hipótese do local da redação do Evangelho de João: Nesta hipótese estão
aqueles autores que atribuem a localização da composição do quarto Evangelho à região
da Palestina. A questão dos detalhes do autor a respeito do domínio do conhecimento da
topografia da Palestina, bem como, sua cultura e religião judaica, parece indicar que foi
escrito nessa região. O Evangelho joanino deixa transparecer um pano de fundo de uma
origem mais remota. Demostra que a sua essência está no judeu-cristão com tons da
Palestina, talvez especificamente de Jerusalém e às vezes tendendo mais para a Galileia.
Leve-se em consideração a afirmativa de Konings (2005), de que o
cristianismo (Sic) tem suas raízes no judaísmo cristão. É interessante observar que os
sinóticos dão ênfase às obras de Jesus nas redondezas da Galileia e, de modo abreviado,
na Judéia e Peréia. Já o Evangelho de João se concentra especialmente na Judéia e
Peréia e não há uma preocupação em detalhar a cronologia de Jesus.
As referências dos relatos das festas judaicas em Jerusalém e eventos nos
arredores, nos são conhecidos graças ao quarto Evangelho. Através do quarto
Evangelho é possível conhecer muitos locais e detalhes da Palestina e isso mais do que
documentam até mesmo os sinóticos, como exemplificado nos versículos que se
seguem, Jo 2.1,13; 3.22; 3.2,4-6; 5.1; 6.1; 7.1,10; 10.40;11.7,54; 12.1,12,
(CASALEGNO, 2009, p. 60-61).
Boa parte dessa hipótese se concentra nas ênfases que o texto bíblico faz a
Jerusalém, Peréia e Galileia. Essas ênfases poderiam ser uma indicação de que, mesmo
o autor joanino compondo o quarto Evangelho em Éfeso, estaria dizendo, através destas
ênfases, que sua origem e influência foram realmente a Palestina? Conforme a hipótese
presente, essas localidades são uma forma de afirmar que o Filho de Zebedeu é o autor
do Evangelho, que migrou para Éfeso após a perseguição de 70, para compor o
Evangelho.
Os que assim pensam são da opinião de que o evangelista utilizou fontes orais
e originais que em sua maior parte não se ligam aos sinóticos. Em vista disso, creem na
evidência de que o local foi um ambiente palestino. Isto pode ser uma tentativa de
devotar a autoria a João, o filho de Zebedeu, o mesmo que foi contado com os doze.
15
Considerações finais
foi em um tempo antes dessa data, no reinado de Domiciano 81-96. Fato é que, mesmo
com a descoberta do papiro Egerton 2 e o papiro 52 de Rylands, não há como pensar em
uma data antes de 80 ou depois do século II.
A hipótese apresentada por Brown (1999), parece bem esclarecedora, o autor é
da opinião de que não é viável datar uma obra só pelo fato dela supor isoladamente
textos ou versos e fragmentos antigos. Reconhecidamente, deve-se ter em mente que o
último elemento da obra é o referencial que guiará até à data aproximada, porém a
mesma não pode ser datada antes desse último elemento. A melhor ideia é que o
Evangelho foi escrito por volta do ano 90. Que houve um período pré-evangélico que
foi responsável em formar o corpo do Evangelho joanino.
O período de conclusão dessa formação joanina durou várias décadas e
abrangeu os anos 50 a 80, período pré-evangélico. Já o ano 90, envolve a situação da
vida da comunidade joanina e foi a data que marcou a redação final do quarto
Evangelho, situada na segunda fase proposta por Brown (1999). Por fim, Éfeso é o
lugar mais indicado para a composição da obra, parecendo ser mais aceita e apoiada
pela evidência interna e evidência externa, isto é, que o quarto Evangelho foi composto
em algum local da Ásia Menor. Este local, possivelmente, foi a região em que se deu a
redação final do quarto Evangelho, e também pode ter sido a localidade de permanência
da comunidade joanina.
Referências
BLOOM, Harold – Jesus e Javé os nomes divinos. Rio de Janeiro: Objetiva, 2006.
BORTOLINI, J. Como ler o Evangelho de João: O caminho da vida. 1º ed. São Paulo:
Paulus, 1994.
BRUCE, F. F. João - Introdução e Comentário, 2a ed. São Paulo: Vida Nova e Mundo
Cristão, 1987.
FABRIS, Rinaldo; MAGGIONI, Bruno. Os evangelhos (II). São Paulo: Loyola, 1992.
KONINGS, Johan. Evangelho segundo João: amor e fidelidade. São Paulo: Loyola,
2005.
LOPES, Hernandes Dias. 1, 2, 3 João, como ter garantia da salvação. São Paulo:
Hagnos, 2010.
MACARTHUR, John. João. Jesus - O Verbo, Messias, Filho de Deus. São Paulo:
Cultura Cristã, 2011.
MAZZAROLO, Isidoro. Lucas em João: Uma nova leitura dos evangelhos. 1° ed.
Porto Alegre: Mazzarolo Editor, 2000.
20
PERKINS. Evangelho Segundo João. In: BROWN, Raymond. E.; FITZMYER, Joseph.
A.; MURPHY, Roland. E. (Eds.). Novo comentário bíblico São Jerônimo: Novo
Testamento e artigos sistemáticos. Trad. Celso Eronides Fernandes. Santo André:
Academia Cristã; São Paulo: Paulus, 2011, pag. 730-816.
ROBINSON, A.T. Redating the New Testament, London: SCM Press, 1976.
TAYLOR, William Carey. Evangelho segundo João. 2. ed. Rio de Janeiro: Casa
Publicadora Batista, 1950.
TENNEY, Merril C. O Novo Testamento, sua origem e análise. São Paulo: SHEDD
PUBLICAÇÕES - Vida Nova, 1995.