A sociedade da noite-eterna.
Por Nickolas Leal Fernandes (@nickolasleal)
Orn. Uma pequena vila a pouco fundada pelos Ornek, família de nobres de
Valkaria, a vila estava crescendo rapidamente graças aos esforços de camponeses mal
pagos que procuravam uma oportunidade de vida melhor nessas novas terras. Em
apenas alguns meses os camponeses haviam levantado um templo de adoração a Marah,
deusa da paz, que era a maior construção da cidade embora não fosse nada mais que
uma grande casa de madeira com o estandarte do culto, uma pena sobre um coração,
também havia uma biblioteca que também funcionava como escola e em poucos dias
receberiam alguns professores. E apesar de ainda ser uma pequena cidade, Orn estava
parada, pois o dia do reencontro estava próximo, nesta data se comemorava o encontro
dos humanos exilados do sul com a estatua da deusa da humanidade, a partir do
encontro o continente norte seria desbravado, dando origem ao reinado.
Em meio aos camponeses que colocavam as ultimas coisas nas suas carroças para
viajarem até a capital ou os que enfeitavam a cidade para as festividades se destacava
um grupo, eles não eram daquela cidade, haviam chegado pela manhã, eles eram
quatro, aquele que parecia o líder era Sir Gilleon Hendmarr, estava montado em um
cavalo negro, usava uma armadura pesada que protegia quase todo o corpo, tinha
cabelos e barbas bem aparados e grisalhos, na sua cintura carregava uma espada de
duas mãos, seus olhos azuis olhavam em todas as direções com se esperasse que
acontecesse alguma coisa que o fizesse sacar a espada. Ao lado dele estava um garoto
que não devia ter mais que vinte invernos, aquele era Sir Marcus Hendmarr, filho de
Gilleon, ele era muito parecido com o pai, apesar de não ter barba e seus cabelos ainda
estarem negros como a noite, eles usava uma armadura leve, mais apropriada para
viagens que a de seu pai, e carregava duas espadas na cintura. Atrás dos dois guerreiros
estava Willian McForriem, um homem baixo, com cabelos loiros caídos sobre os
ombros, roupas leves de viagem e uma capa, todos esses homens seguiam um único
garoto, tinha cabelos ruivos rebeldes, olhos verdes, carregava consigo uma espada e um
escudo de madeira com bordas de aço sem nenhuma marca, nenhuma história, ele sorria
como uma criança, aquele era Arthur Ornek, filho do fundador daquela vila e escudeiro
de Gilleon.
Arthur os guiou até uma grande casa com a flâmula da família Ornek, um enorme
touro de pelagem vermelha, aquele local seria o mais próximo de um palácio naquela
vila, tinha sido construído para abrigar os nobres em suas visitas, e estava repleta de
luxo apesar de ser uma construção rústica, enquanto todos entravam pela pequena
porta, Arthur declarou:
- Bem-vindos a Orn meus amigos, aqui vocês serão tratados como reis.
- Partiremos amanhã quando o sol nascer – declarou Gilleon – estejam preparados.
Gilleon era como um general, e embora ninguém tivesse respondido a sua ordem,
todos estariam prontos ao amanhecer.
Então anoiteceu. E lhes foi servido um banquete digno de heróis. Eles comeram e
beberam tudo o que lhes foi servido. Ao fim do banquete Arthur contava histórias sobre
suas aventuras ao lado de Gilleon pelo mundo de Arton, os filhos dos servos ouviam
boquiabertos enquanto Arthur contava como eles haviam expulsado um bando de Orcs
de uma vila em Samburdia. E parecia uma noite tranqüila. Parecia.
- Senhor Arthur, um bando chegou a cidade – anunciou um dos servos.
Arthur tomou a frente do grupo, e todos saíram, quando ganharam as ruas avistaram
um grupo com nove homens encapuzados, aquele que pareceu o líder retirou o capuz e
revelou um rosto pálido, cabelos negros até o meio das costas, suas orelhas pontudas
revelavam que aquele homem era um elfo, seus olhos eram negros e vazios, ele abriu a
boca e libertou uma voz melódica:
- Estamos com fome.
- Se é apenas isso – disse Arthur com um enorme sorriso – Comam o que
desejarem, temos muita comida e não vamos negar a viajantes cansados.
- Obrigado – um sorriso maligno se abriu no rosto daquele homem.
Silêncio.
Tudo aconteceu muito rápido. Um dos homens que estava de capuz atrás do líder
avançou em uma criança que estava próxima, o movimento rápido revelou a criatura
abaixo do capuz, sua coluna era curva e seus dentes pontiagudos estavam sujos com
pedaços da criança, seu olhar mostrava seu desejo de matar. Os outros retiraram as
capas, haviam mais seis elfos com a mesma aparência daquele que era o líder. Um deles
pulou de dentro da capa e sua pele começou a se rasgar, de dentro daquele homem se
revelou um enorme lobo que caiu sobre um homem, a pequena vila de Orn estava sobre
ataque.
Gilleon sacou a espada ao mesmo tempo em que Marcus, Arthur estava paralisado
com o que tinha visto, Willian recuou, os arqueiros lançavam flechas incendiarias
contra as casas, fazendo entrar em chamas. O lobo atacava todas as pessoas próximas,
os elfos atacavam os que se colocassem no caminho do líder, que se direcionava até o
templo de Marah, gritos soavam de dentro das casas em chamas, o caos tomava a
cidade.
- Eu cuido do lobo, você vai cuidar daquilo – Gilleon ordenou para Marcus
apontando para a criatura que estava devorando as tripas de um homem – Você vai até
aquela casa – outra ordem, dessa vez para Arthur – E você vai impedi-los de chegar ao
templo – desta vez a ordem era para William.
Gilleon avançou desenhando um arco com a espada, a lamina encontrou o chão, o
lobo se esquivou e se preparou para o combate, o sangue de Gilleon fervia, a incerteza
da vitória tornava aquele um momento perfeito, os olhos do cavaleiro mostravam puro
êxtase, então o lobo avançou mais rápido do que ele havia previsto, as garras rasgaram
a sua armadura, mas não tocaram seu corpo, os reflexos de Gilleon responderam
rapidamente com a espada cortando o peito do inimigo e o jogando de costas no chão, o
lobo se levantou rápido, abriu a boca e avançou, e com um ataque preciso a espada
perfurou o peito do lobo, Gilleon já sentia a vitória quando as pressas rasgaram a
armadura e alcançaram seu ombro, o cavaleiro empurrou o corpo do inimigo que
encontrou o chão já sem vida, o combate teve um fim.
Marcus se moveu assim que recebeu a ordem sem olhar pra trás, não tinha nenhuma
duvida quanto a liderança de seu pai, nunca questionava e seguia a hierarquia, correu
pela vila em perseguição a criatura que caçava os aldeões, quando Marcus a alcançou
ela estava se levantando, o corpo de um homem estava no chão e já não tinha vida,
aquele monstro havia se alimentado com seus órgãos internos, Marcus olhou para
aquilo e gritou:
- Criatura, se renda, e terá uma morte rápida – sua voz era forte como a de seu pai.
Os olhos daquele monstro encontraram os de Marcus, e por um tempo eles se
encararam, as espadas abandonaram a bainha, Marcus sabia que a criatura não ia se
render.
Com um grito a criatura saltou em direção ao cavaleiro, que esquivou-se
perfeitamente e atacou, o sangue jorrou e o monstro gritou. Marcus avançou, golpeando
muitas vezes, todos os golpes encontraram o peito do inimigo que caiu no chão, Marcus
se levantou vitorioso, o inimigo não havia apresentado perigo. Já havia avançado dois
passos em direção a batalha que seu pai travava quando algo o jogou pela janela de uma
das casas, ele encontrou o chão, se arrastou para pegar a espada que havia deixado cair,
se levantou com a espada nas mãos, sentiu uma dor intensa no braço direito, não
conseguia movimentá-lo, então a criatura curva derrubou a porta e entrou pela casa,
Marcus sentiu que aquele podia ser seu ultimo combate, ele deu um passo em direção
ao inimigo e sentiu um golpe em seu braço ferido, com a dor fechou os olhos, sentiu um
golpe lhe atingindo o peito, suas costas encontraram a parede, mais dor, e então uma
seqüência de golpes contra seu corpo, o inimigo não queria se alimentar, estava
tentando vencer. Abriu os olhos durante um segundo para ver um terceiro guerreiro
entrando na casa, a criatura estava em frenesi, não percebeu a aproximação de um outro
inimigo:
- Azgher, destrua essa cria da noite.
Uma luz veio das mãos daquele homem e a criatura grunhiu de dor com o toque
santo, então o corpo que a pouco o golpeava se tornou areia. A criatura tinha sido
derrotada, Marcus permitiu-se desmaiar.
Arthur viu todos se moverem pra acatar as ordens, seu corpo não queria obedecer a
ordem de Gilleon, demorou alguns segundos para conseguir dar o primeiro passo.
Correu e jogou seu corpo contra a porta de uma casa em chamas, sentiu as queimaduras
pelo corpo, correu, ele tinha que concluir a missão, tinha que ser um herói em sua
cidade, subiu as escadas, mais um grito, havia dois quartos, seu pé encontrou a porta de
um deles, o fogo se libertou violentamente queimando-lhe o corpo, olhou o quarto,
estava vazio, então chutou a segunda porta, uma mulher estava no chão, ela ainda
gritava, Arthur correu até ela e levantou-a nos braços, um sorriso se abriu no seu rosto,
e ela desmaiou com a certeza de que seria salva, quando ele saísse daquela casa seria
um herói, correu e desceu as escadas, seu corpo pedia que ele desistisse mas ele
continuou correndo até que estivesse livre das chamas. E então saiu da casa, colocou a
mulher no chão e caiu, seu corpo tinha chegado no limite, antes de desmaiar viu uma
guerreira saindo com Marcus nos ombros de dentro de uma casa.
Os inimigos se moviam em direção ao templo, e teriam o alcançado rapidamente,
mas havia um homem impedindo a passagem, Willian não sabia o motivo de Gilleon ter
escolhido ele pra defender o templo, deveria ter escolhido Marcus, ele não tinha um
plano, não sabia como agir, Marcus entraria no caminho dos inimigos e eliminaria
todos, os inimigos se aproximavam mais, Arthur sentia um frio em sua barriga, tinha
medo de morrer. Eles pararam, o líder fez um sinal com a cabeça e os guerreiros
avançaram, Willian se abaixou e tocou o chão, um dos guerreiros foi atingido por um
punho de terra que saiu do chão, e então uma espada cortou o rosto de Willian que caiu
de costas, tentou conjurar uma outra magia quando um pé encontrou seu peito, os
guerreiro pisoteavam o mago, ele não tinha chance de se levantar, tentava defender o
rosto, Willian podia ouvir o líder rir, e pode ouvir os passos dele se afastando, Willian
tinha falhado, um ultimo chute no rosto fez ele perder a consciência.
Gilleon se aproximou de seu filho, e pode ver a guerreira que o carregava, ela usava
roupas de viajante e nenhuma armadura, tinha os cabelos castanhos amarrados em uma
longa trança atrás da cabeça e usava uma mascara com o desenho de um sol com um
olhos no centro, ela colocou Marcus no chão, colocou as mãos sobre o peito dele e
orou:
- Azgher, salve esse garoto que foi ferido em batalha.
Novamente a luz e os ferimentos de Marcus foram curados, então ela olhou para
Gilleon:
- Julia Goldenbird, serva de Azgher.
- Gilleon Hendmarr, general yudeano.
O cavaleiro se levantou, observou em volta, Willian e Arthur estavam feridos,
Marcus estava se levantando:
- Você. – apontou para Julia – ajude os feridos, eu irei até o templo.
- Não. Eu irei com você.
- Eles precisam de ajuda – Gilleon rugiu.
- Você também precisa.
Gilleon correu em direção ao templo acompanhado por Julia, eles entraram pela
porta principal, o líder estava no altar, o clérigo do templo estava amarrado totalmente
nu,