Copyright © 2021 Editora Angel
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qualquer forma, meios eletrônicos ou mecânico sem a permissão por escrito
da Autora e/ou Editora.
(Lei 9.610 de 19/02/1998.)
1ª Edição
Produção Editorial: Editora Angel
Capa e Projeto gráfico: Denis Lenzi
Revisão e Diagramação: Carla Santos
Esta é uma obra de ficção. Nomes, personagens, lugares e acontecimentos
descritos são produtos da imaginação da autora. Qualquer semelhança com
nomes, datas e acontecimentos reais é mera coincidência.
TEXTO REVISADO SEGUNDO O NOVO ACORDO ORTOGRÁFICO
DA LÍNGUA PORTUGUESA.
Editora Angel
Campinas/SP
Capa
Folha de Rosto
Ficha Catalográfica
Dedicatória
Prólogo
Capítulo 1
Capítulo 2
Capítulo 3
Capítulo 4
Capítulo 5
Capítulo 6
Capítulo 7
Capítulo 8
Capítulo 9
Capítulo 10
Capítulo 11
Capítulo 12
Capítulo 13
Capítulo 14
Capítulo 15
Capítulo 16
Capítulo 17
Capítulo 18
Capítulo 19
Capítulo 20
Capítulo 21
Epílogo
Agradecimentos
Biografia
Editora Angel
Para todas as amantes de romance de época.
Lucynda não conseguia entender tudo o que se passava em sua mente.
Sabia é claro que não queria se casar por imposição da sociedade, ou por
alguma obrigação como o fato de ter ido para a cama com um homem sem
ser casada.
Por que a sociedade se importava tanto se uma jovem aos vinte anos não
estava casada?
Por que, para todos, era um absurdo ela querer se casar um pouco mais
velha?
Ou, então, que ela decidisse esperar por um amor de verdade?
Os homens podiam se casar quando bem entendessem, podiam estar
praticamente com cinquenta anos e não ter se casado, nada disso importava.
Mas uma jovem que passasse dos dezoito sem se casar, era um absurdo.
Isso a irritava tremendamente.
E agora, aos vinte anos, se via sendo obrigada a se casar, porque todos
diziam que era a melhor decisão. Mas, por algum motivo, insistia em negar
ao pedido.
Mesmo que quem estivesse pedindo sua mão em casamento fosse o
homem que ela amava.
Lucynda vai até a janela de seu quarto e suspira, tinha chegado
finalmente a sua estreia na alta sociedade. Seus pais, a seu pedido, tinham
adiado um ano para o seu debut, queria esperar por Evelyn que era um ano
mais nova que ela, assim poderiam estrear juntas, ter uma a outra para se
apoiarem.
Evelyn estava com dezessete anos, Lucynda com dezoito. Estariam
juntas nos salões de baile, conversando, dançando. Por muitos anos
sonharam com esse momento, por isso não poderia ser de outra maneira que
não juntas.
Foram apresentadas a rainha naquela tarde, e agora se preparavam para o
baile daquela noite, o primeiro delas.
— Tudo bem, meu amor? — Sua mãe Eloise entra em seu quarto, Lucy
gira para olhá-la.
— Sim, apenas um frio na barriga. É tudo desconhecido para mim.
— Não se preocupe, tudo ficará bem. Estarei ao seu lado, bem como sua
tia Dayse.
— Mamãe, tenho que encontrar meu futuro noivo nesse baile?
— Claro que não. — Eloise leva Lucy para um sofá e se sentam. —
Lucy, não há qualquer obrigação por parte minha ou de seu pai, pode pensar
muito bem, não queremos pressioná-la. Se não gostar de ninguém, terá
sempre o ano seguinte e o outro.
— Não serei considerada solteirona? Isso me irrita completamente,
mamãe.
— Eu sei, a sociedade pode até considerá-la como uma solteirona, mas,
para mim, prefiro que se decida com o coração, escolha alguém que fará
com que seja muito feliz, que a ame completamente e que fará tudo por
você.
— É tudo o que eu desejo.
O baile parecia grandioso, era o que Lucy acreditava, era o seu primeiro
baile oficialmente, então tudo parecia maravilhoso. As mulheres estavam
lindamente arrumadas, algumas a olhavam dos pés à cabeça a avaliando,
para descobrir se ela seria mais uma de suas rivais naquele ano.
Após cumprimentar as pessoas conhecidas, ela vai até sua tia Dayse, que
a abraça.
— Você está linda, meu amor.
— Obrigada, tia Dayse, onde está o tio Wesley?
— Conversando com um dos sócios dele. — Dayse aponta para o outro
lado do salão.
— Como está seu cartão de danças, Lucy? — Eloise pergunta ao se
aproximar.
— Somente três danças preenchidas.
— Não se preocupe, logo ele estará cheio. Muitos rapazes estão a
olhando — Dayse diz tentando tranquilizar a sobrinha.
— Ouvi no caminho até aqui que as matronas estão comentando sobre
você. Estão dizendo que provavelmente é a sensação da temporada.
— Não entendo o motivo, parece até que somos um objeto que deve ser
cobiçado por todos.
— É normal, Lucy, muitas meninas são disputadas, por serem a sensação
do ano. Muitas desejam essa posição — Dayse explica.
— Eu não desejo. — Lucy dá de ombros.
— Vejam só quem está aqui. — Lucy olha por sobre o ombro e revira os
olhos em uma atitude considerada pouco feminina.
— Como vai, Aaron? — Eloise cumprimenta e ele beija a sua mão.
— Estou bem, tia Eloise, preferia estar em outro lugar ao invés de
acompanhar minha irmã em seu primeiro baile — ele brinca, após beijar a
mão de Dayse ele se vira para Lucy. — Está muito bonita essa noite, o que
é um milagre. — Ele pisca, Lucy tenta tirar sua mão da dele, mas ele a
segura.
— Sua falta não seria notada — Lucy responde.
— Desse jeito, pensarei que não se importa comigo. — Aaron pega o
caderninho de danças de Lucy e escreve seu nome em uma das danças.
— Não precisa dançar comigo.
— Prometi que dançaria, não se lembra? Há uns três anos, prometi que
dançaria com você e minha irmã, pode me acusar de muitas coisas, Lucy,
mas de quebrador de promessas nunca.
— Onde está sua irmã? — Eloise pergunta tentando amenizar as
provocações dos dois.
— Cumprimentando algumas pessoas, consegui escapar. — Aaron olha
pelo salão e aponta para onde a mãe e a irmã estão. — Minha mãe insiste
que chegou a hora de começar a pensar em me casar, então fugirei dela a
noite toda.
— E por que não pode se casar? Praticamente todos os solteiros estão
aqui para isso.
— Na verdade não, muitos estão aqui apenas para serem vistos, Lucy,
outros à procura de aman... — Ele olha para ela e abre um sorriso. — Me
desculpe, isso não vem ao caso agora, você e Evelyn estão aqui para, quem
sabe, conseguirem pretendentes bons o suficiente para se casarem, espero
que façam boas escolhas.
— Não vou me casar — Lucy resmunga e Dayse olha para Eloise
curiosa. — Por que devo me casar aos dezoito anos, enquanto Aaron aos
vinte e seis não tem obrigação nenhuma de se casar? Por que homens e
mulheres são tratados de forma diferente pela sociedade?
— Porque...
— Se disser alguma asneira, juro que teremos um grande escândalo
nesse baile, porque vou matá-lo — Lucy diz para Aaron, que ri e se afasta
um pouco.
— Como quiser, minha querida, vou aproveitar a oportunidade e rodar
um pouco pelo salão, assim consigo fugir da minha mãe.
Aaron pisca para Lucy e se afasta na mesma hora que Sarah e Evelyn se
aproximam.
— Ele fugiu de mim? — Sarah pergunta para Eloise.
— Não, de Lucy, ela prometeu que iria matá-lo.
— Estou quase fazendo o mesmo. — Sarah suspira. — Ele insiste em
continuar com a vida despreocupada dele, mas é o herdeiro, tem obrigações.
— Mamãe. — Evelyn solta um gemido.
— Está bem, vou esquecer seu irmão por ora, essa noite é sua e de Lucy.
E amanhã teremos diversos pretendentes em casa.
— Ou não — Lucy diz baixinho e somente Evelyn a escuta.
No decorrer da noite, Lucy dança praticamente todas as músicas, quando
finalmente chega a vez de Aaron ela se sente um pouco nervosa. Ele a guia
até a pista com um sorriso e, assim que a música começa, se movimentam.
— Alguns rapazes com quem dançou não seriam ideais nem mesmo
para limparem as minhas botas.
— Preocupado comigo?
— Nos conhecemos desde crianças, Lucy, claro que me preocupo com
você. Não quero que escolha algum estúpido que deseja apenas seu
dinheiro.
— Tenho meu pai para preocupar com isso. Não me casarei com
ninguém que meu pai não dê sua bênção.
— Tio Ethan é um homem ajuizado, tenho certeza de que ele vai tomar
cuidado.
— Para quem está olhando? — Lucy pergunta após notar que o olhar
dele pula para alguém algumas vezes.
— Apenas um amigo com quem preciso conversar mais tarde. Então?
Pronta para receber seus pretendentes?
— Não possuo nenhum ainda, só saberei amanhã.
— Tenho certeza de que será um dia agitado. — A música termina e
Aaron toma a sua mão a levando de volta para perto de Eloise. Ele se
despede e rapidamente se afasta.
Lucy o acompanha com o olhar e, ao invés de um amigo, ele se dirige
até uma mulher.
— Quem é ela? — Lucy indaga baixinho.
— A viúva de Daugherty, o marido morreu faz um ano e meio, ela
voltou do campo após o período de luto — diz Dayse a sobrinha. — Dizem
que os homens estão disputando por sua atenção, já que é jovem e muito
bonita.
— Então, Aaron é um deles?
— Ao que tudo indica sim, muitos procuram as viúvas para serem suas
amantes, porque estão interessadas apenas em um passatempo.
— Deveria ser tão honesta comigo?
— Provavelmente não. — Dayse ri. — Não diga a sua mãe que eu
contei.
— Não direi. — Lucy pega a mão da tia. — Obrigada por me explicar.
— Entendo que não queira se casar por uma obrigação, quando tinha a
sua idade pensava da mesma forma.
— Mas se casou com o tio Wesley por causa de um escândalo.
— Sim, mas um escândalo que nós dois preparamos. Casei-me com o
seu tio porque foi uma decisão minha e não de outra pessoa. Como você,
acredito que uma jovem deve se casar quando e com quem quiser. Seus
pais, eu e seu tio desejamos apenas a sua felicidade, minha querida. Tenho
certeza de que todos vão entender se decidir que não quer se casar esse ano.
É uma escolha sua, e estaremos ao seu lado sempre.
Dois anos depois...
Lucynda já estava acostumada com os falatórios, afinal de contas estava
com vinte anos de idade e não havia se casado ainda. Como prometido, seus
pais não a pressionaram em nenhuma de suas temporadas, eles conheciam o
amor e queriam que sua filha também conhecesse, que ela tivesse a mesma
sorte que tiveram. Por isso, quando sua terceira temporada começou, estava
tranquila, sabia que não tinha pressão por parte de sua família.
Ao contrário dela, Evelyn conheceu um rapaz por quem se interessou
logo em sua primeira temporada e se casaram, agora ela era mãe de uma
linda menininha de um ano. Estava feliz por sua prima, a amava como uma
irmã.
A única coisa que realmente incomodava Lucynda era o fato de que a
cobrança para que se casasse, por parte da sociedade, era enorme. Em cada
baile podia sentir os olhares e, por mais que ignorasse a maior parte deles,
alguns a machucava. Por que era tão difícil de aceitarem que ela não queria
se casar apenas por se casar?
Tinha desejos, sonhos e não queria deixá-los de lado apenas para que a
sociedade se desse por satisfeita. Se casaria com o homem que se
importasse com ela, que não desejasse mudá-la ou subjugá-la. Conhecia
muito bem o que toda a sociedade dizia, a mulher deveria dar o máximo de
filhos possíveis para o seu marido, de preferência vários do sexo masculino
para que tivesse herdeiros, deveria aceitar que seu marido tivesse uma
amante, porque era algo comum para a sociedade.
Mas não para Lucynda, ela queria que seu marido fosse apenas seu,
queria uma amizade verdadeira, companheirismo, queria o que seus pais
tinham.
A temporada estava para começar, o primeiro baile seria em alguns dias,
Londres e os nobres estavam se preparando para as festas. Como as moças
daquele ano, Lucy encomendou seus vestidos, seus trajes estavam
praticamente prontos e ela não poderia negar que sua parte favorita da
temporada era fazer vestidos.
Amava vestidos e horas do chá.
— Lucy? — Eloise entra na sala íntima da família e se senta ao lado da
filha, que lhe serve uma xícara de chá. — A procurei por toda casa, devia
ter imaginado que estava aqui.
— Estava pensando nessa nova temporada que vai começar. A Senhorita
Davies passou a manhã recitando os nomes dos nobres solteiros que
provavelmente estarão presentes nessa temporada. Acho que tentava me
incentivar a escolher um, não deve aguentar mais ser minha preceptora.
— Não fale bobagens, tenho certeza de que ela recebe bem o suficiente
para acompanhá-la durante as temporadas, não têm por que ela querer que
se case logo — Eloise brinca com a filha, que sorri. — Alguém
interessante?
— Acredite ou não, mamãe, noventa por cento da lista é a mesma da
minha primeira temporada, muitos não se casaram e tenho certeza de que
esse ano será igual.
— Preciso olhar essa lista...
— Por quê? Não vê a hora que eu me case também?
— Sabe que só desejo sua felicidade e se nenhum desses rapazes vai lhe
fazer feliz, então vamos esperar.
Lucy sabe que provavelmente seus pais estavam preocupados por não se
decidir. Eram pais, claro que se preocupavam. Não queriam ver a filha
solteira e sendo alvo de fofocas.
— Prometo me empenhar esse ano.
— Quer dizer que não se empenhou nos outros anos?
— Como conseguiria vestidos novos todos os anos?
— Arrumando um marido para limpar os bolsos dele e não os meus —
Ethan diz ao entrar na sala e beijar a testa da esposa.
— O senhor não tinha feito uma poupança apenas para os meus
vestidos?
— Poupança essa que não é infinita. — Ethan sorri.
Lucy não estava preocupada pelas palavras do pai, sabia que ele estava
apenas brincando, ele não se importava que ela fizesse vestidos novos todos
os anos, ele a amava incondicionalmente. Mas não conseguia deixar de
imaginar que, talvez, começasse a ser um fardo para seus pais.
Aos vinte anos, ela começa a ser um peso, deveria ter se casado antes,
deveria começar uma família e estava adiando isso, estava na hora de levar
a sério as temporadas, ao contrário das outras vezes, esse ano ela tentaria
encontrar o rapaz que faria seu coração bater mais rápido.
Aaron chega ao seu apartamento, o local que morava desde que voltou
da universidade, seu pai ainda era Barão de Conway, o que significava,
esperava ele, que levasse muito tempo para se mudar para a casa oficial da
família, como o novo barão. Tinha esperanças de que seu pai vivesse por
muitos anos, tirando qualquer obrigação de seus ombros.
Aos vinte e oito anos, ele sabia que tinha algumas obrigações para com a
família, como, por exemplo, se casar e ter um filho, garantindo assim a
continuidade do título. Mas uma vez que seu pai ainda estava vivo, não via
motivos para apressar as coisas.
Estava feliz com a sua vida de solteiro, eram seis da manhã e tinha
acabado de sair da casa de sua amante, uma viúva dez anos mais velha que
ele. Para a sorte da dama, teve um filho homem, garantindo assim que
continuasse com sua vida privilegiada. O acordo entre eles funcionava, se
divertiam juntos sem qualquer tipo de obrigação, a única coisa que
desejavam um do outro era o sexo, e para ele tudo estava como desejava.
Como o dia ainda está começando, ele retira sua roupa largando tudo no
chão, o que irritará seu valete, e se joga em sua cama para dormir. Aaron
sente como se tivesse apenas piscado, até que seu nome é chamado.
— Vou matar seja lá quem estiver me chamando! — ele resmunga sem
levantar a cabeça do travesseiro.
— Sinto muito, milorde, mas Lady Conway está aqui.
— Minha mãe? — Aaron gira na cama e olha para seu mordomo. — O
que ela está fazendo aqui?
— Não sei, milorde, não perguntei.
— Que horas são?
Ele ignora o tom ácido do mordomo.
— Onze da manhã.
— Minha mãe precisa aprender que isso não são horas para visitas.
Aaron se levanta, seu valete entra naquela hora e olha de forma
reprovadora para as roupas no chão. Sua vontade era de reclamar, mas
decide deixar para lá, já que a mãe de seu patrão está ali, o que significa que
provavelmente haverá um puxão de orelhas.
— Achei que não se levantaria nunca — Sarah reclama com o filho
assim que ele entra na sala.
— Se sabia que eu não estaria disponível a essa hora da manhã, por que
veio tão cedo? — Ele a beija no rosto e se senta ao lado dela.
— Precisa mudar, Aaron, não é mais um rapazinho que poderia fazer o
que bem entende.
— Ainda tenho muito tempo para me tornar um homem de família,
papai ainda está vivo...
— Seu pai está doente.
— Doente? Algo sério? — Aaron se ajeita no sofá e pega as mãos de sua
mãe.
— O coração já não é o mesmo, o médico da família o examinou ontem.
Não está à beira da morte, mas precisa tomar muitos cuidados. Claro que
está resmungando por ser obrigado a descansar algumas horas por dia. Você
precisa assumir alguns compromissos de seu pai, cuidar dos assuntos mais
importantes. Ele precisa de descanso, Aaron, sei que ama a sua vida de
solteiro, de libertinagem, suas amantes. Mas agora o seu pai precisa que
você seja o homem que criamos para ser. Meu marido precisa descansar.
— Eu vou ajudá-lo mamãe, não se preocupe, eu mais do que ninguém
desejo que ele viva muitos anos — Aaron brinca e sua mãe sorri. — Vou
tentar me aquietar e ajudá-lo. Passarei algumas horas por dia com ele, até
entender tudo o que necessita da minha atenção. Quem sabe, depois não vão
para o campo.
— Como se seu pai fosse querer ir para o campo. — Sarah dá uma
risada triste. — Ficaremos em Londres, principalmente porque o médico
está aqui. Ele quer acompanhar seu pai nessas primeiras semanas. Se estiver
um pouco mais forte tentaremos convencê-lo a ir para o campo.
— À tarde irei visitá-lo. E o Maxwell?
— Ele está terminando a universidade, seu pai não quer que ele perca o
ano, então será um segredo nosso. Evelyn nos visitou ontem, acredito que
tenha desconfiado de alguma coisa, você é o único que sabe a verdade.
— Vou manter segredo, prometo.
— Aaron, você mais do que nunca precisa se casar.
— Mamãe, vamos lidar com uma coisa de cada vez. Como eu disse, o
papai vai viver muito ainda. Tirarei todos os problemas e trabalhos de suas
costas para que possa descansar, assim ele ainda a atormentará por muitos
anos.
— É o que eu mais desejo. — Sarah dá um tapinha na mão do filho. —
Mantenha os olhos abertos, Aaron, muitas jovens estão debutando esse ano,
não custa nada estar aberto as opções, talvez uma jovem o conquiste, não
seria ruim se casar e ter alguém ao seu lado. Nunca me arrependi de me
casar com o seu pai e, para o bem dele, espero que ele pense o mesmo.
— Claro que ele pensa, ele a ama, mamãe.
— E eu o amo. — Sarah tenta segurar o choro, Aaron puxa a mãe para o
seu ombro e sente ela tremer levemente enquanto chora.
— Vai ficar tudo bem.
Aaron não sabia se era verdade que tudo ficaria bem, mas queria
acreditar que sim, seu pai era muito amado por todos na família; e se o
perdessem, sofreriam terrivelmente.
Duas semanas depois...
O salão estava praticamente lotado naquela noite, era o primeiro da
temporada e todos queriam ver e serem vistos. Como nos últimos dois anos,
Lucy sente os olhares sobre ela, mas mantém sua cabeça erguida conforme
atravessa o salão. Muitos ali eram seus conhecidos, ela acena para alguns
até que finalmente se aproxima de sua tia Dayse.
— Mais uma temporada começando — Wesley diz abraçando a
sobrinha, que revira os olhos.
— Mais uma temporada tentando me casar, tio Wesley?
— Sempre. — Ele pisca para ela em tom de brincadeira. — Como
estão? — ele cumprimenta a irmã e o cunhado.
— Desejando que essas pessoas cuidem da própria vida ao invés da vida
da minha filha — Eloise diz.
— Não se preocupe, temos pelo menos vinte debutantes esse ano, tenho
certeza de que se concentrarão nelas. — Dayse tenta acalmar a cunhada.
Enquanto seus pais e tios conversam, Lucy deixa seus olhos vagarem
pelo salão, por duas semanas pensou em seu plano de tentar levar um pouco
mais a sério a temporada naquele ano e, quem sabe, encontrar finalmente
um marido. Sabia que eram poucos candidatos, o que a irritava ainda mais.
Aos vinte anos, ela era praticamente uma solteirona, mas muitos
daqueles homens tinham trinta anos e não eram considerados velhos demais
para se casar, como ela estava sendo considerada. Pelo contrário, eram
incentivados a esperar. Era completamente injusto que fosse tão diferente
para mulheres, enquanto eram obrigadas a aceitar o primeiro pedido de
casamento, apenas para não ficarem solteiras por anos, eles poderiam se
casar com quarenta ou cinquenta anos e tudo estaria bem.
— Quem foi que lhe irritou? — Lucy escuta atrás dela e abre um sorriso.
— Você.
— Eu? Acabo de chegar. — Aaron leva a mão dela até os lábios e
deposita um beijo.
— Tia Sarah conseguiu convencê-lo a vir hoje?
— Minha mãe sabe ser muito persuasiva quando quer, mas não foi só
por isso que estou aqui. Decidi me divertir um pouco.
— É claro, isso é totalmente permitido aos homens.
— O quê? Se divertir? Vocês não se divertem?
— As mulheres devem encontrar um marido o mais rápido possível,
gerar herdeiros, de preferência uns dez, aceitar tudo o que o marido diz.
Diversão não está na inúmera lista de obrigações de uma mulher.
— Desse jeito vou acreditar que é horrível ser uma mulher.
— Você tem vinte e oito anos e não tem toda a sociedade o criticando
por não se casar, ao contrário de mim.
— Mande todos a favas, ninguém deve obrigá-la a fazer o que não
deseja.
— Adoraria responder cada um deles, mas nem mesmo isso uma mulher
tem direito.
— Quer que eu faça isso por você?
— Como se fosse arrumar confusão por minha causa.
— É minha prima e minha amiga, claro que faria isso por você.
— O que deveria fazer é convidar sua prima para dançar, assim instigará
os outros homens do salão — Sarah diz ao filho e abraça Lucy. — Está
linda, minha querida.
— Obrigada, tia Sarah, confesso que não ser obrigada a usar branco é
maravilhoso.
Enquanto a mãe conversa com Lucy, Aaron pega o caderninho de danças
e rabisca seu nome na valsa, já que dançaria com a prima seria a dança mais
disputada da noite.
— Vou dar uma volta no salão.
— Leve Lucy com você.
— Mamãe...
— Sua prima não pode ficar em um canto a noite toda, Aaron... — Sarah
para de falar e ele entende o que ela quer dizer. Na última temporada, Lucy
passou mais tempo sentada do que dançando.
Ele estica o braço para Lucy, que coloca sua mão delicadamente e o
acompanha, eles param em alguns grupos para uma conversa rápida e, após
algumas voltas, vão para a sacada tomar um pouco de ar.
— Papai estava preocupado, ouvi enquanto conversava com minha mãe.
Alguma coisa sobre tio Lincoln, ele está bem? — Lucy pergunta, Aaron
olha em volta para ter certeza de que ninguém está ouvindo.
— Isso é um segredo, sempre soube que era curiosa.
— Estou preocupada, ele está bem?
— O médico ordenou que descanse um pouco, estou assumindo os
negócios da família, para que ele possa passar um tempo tranquilo ao lado
da minha mãe. Evelyn e Max não sabem.
— Não vou contar, não se preocupe. — Lucy gira para olhar o jardim e
solta um suspiro.
— Você não me parece tão feliz. O que houve, Lucy?
— Você jamais entenderia.
— É alguma coisa em relação a pretendentes? Não dê ouvidos a
sociedade, tenho certeza de que a hora certa vai chegar.
— Não sabe o que é ser alvo constantemente de fofocas. Fico irritada
todos os dias, só porque tenho vinte anos sou obrigada a me casar? Sou
considerada velha, mais um pouco e nunca mais me casarei.
— Você quer se casar?
— Claro que quero me casar, mas quero fazer isso porque encontrei a
pessoa certa e não porque a sociedade assim o decidiu.
— Sabe que toda a família está ao seu lado.
— Eu sei, mas também sei que começo a ser um fardo para os meus
pais. Eu deveria ter me casado e ter a minha própria família. Não sou
estúpida, Aaron, sei que meus pais me amam e querem o meu melhor, mas
também sei que estão preocupados porque eu não me casei ainda.
— O que vai fazer? — Ele apoia o antebraço no balaústre e olha para
ela.
— Me casar, o que mais posso fazer? Vou tentar encontrar o rapaz que
mais me agrade e que poderia me dar uma vida tranquila.
— É isso o que deseja? Uma vida tranquila?
— O que eu realmente queria, Aaron, é alguém que virasse meu mundo
de pernas para o ar, alguém que me olhasse como nossos pais olham para as
nossas mães. Queria um amigo, um companheiro, um homem que deseje
apenas a mim, que não tenha amantes, e que sua meta de vida seja passar
todos os seus dias ao meu lado até o fim de nossas vidas. Como encontrar
esse homem em um salão onde todos possuem amantes, onde veem o
casamento apenas como um contrato, como uma forma de ganhar dinheiro,
posição e status? Não vou encontrar o que desejo nos salões, mas vou ter
que me empenhar em encontrar o que mais se aproximar.
— Não deveria se conformar com menos do que deseja.
— Conhece alguém como eu descrevi? — Ela aponta para o salão. —
Algum de seus amigos poderia preencher os requisitos que desejo?
— Meus amigos não são bons o suficiente. — Ele balança a cabeça e
olha para o salão por sobre o ombro. — Lucy...
— Eu sei. — Ela suspira. — Mas, Aaron, vou ter que procurar, o
problema é que já sou considerada solteirona, nenhum rapaz vai querer
dançar comigo ou ser meu pretendente. Amanhã passarei o dia sentada na
sala de visitas com a minha mãe e nenhum rapaz vai aparecer. Isso é muito
injusto, não deveria haver tantas regras para as jovens.
— Posso ajudá-la... conheço alguns homens solteiros, claro que vou
apresentar apenas os que considero bons o suficiente para você.
— Faria isso?
— Tenho muitos amigos, homens também conversam, vou descobrir
quem está desejando se casar, ou então os que poderiam ter algum interesse
em você. Vou apresentá-los, vamos fazer com que seja novamente a
sensação da temporada. Terá muitas opções esse ano e, quem sabe, se case
no final de tudo.
— Qual a idade de seus amigos?
— Como assim? — Aaron ri.
— Não desejo me casar com um homem com mais de quarenta anos,
talvez no máximo uns doze anos mais velho que eu.
— Está bem, vou levar isso em consideração. Vamos voltar para perto
dos nossos pais, vou deixá-la com eles e darei uma volta, falarei com meus
amigos e os apresentarei a você. Terá uma longa lista de pretendentes,
amanhã seu dia será agitado, prometo.
Ninguém esperava a movimentação na casa Davenport no dia seguinte,
flores chegavam a todo momento e, no período da tarde, começaram as
visitas. Era como se Lucy estivesse debutando e não na sua terceira
temporada. Os nomes e títulos eram anunciados antes que cavalheiros bem-
vestidos entrassem na sala de visitas.
Seus cabelos, olhos, sorriso, sua delicadeza, tudo foi elogiado por eles,
bules de chá chegavam a todo momento para ser servido aos seus
convidados. Eloise estava sentada em uma poltrona um pouco mais afastada
garantindo o decoro e vigiando cada movimento. Quando parecia que tudo
terminaria, o mordomo entra com um homem por volta dos cinquenta anos
ou mais.
O cavalheiro como os outros insiste em tecer vários elogios, a todo
momento tenta pegar as mãos de Lucy, o que obriga Eloise a intervir e dizer
que tinham um compromisso, encerrando assim a visita.
— O que aconteceu hoje? — Eloise pergunta olhando para a porta sem
acreditar. — Nunca tivemos tantos visitantes.
— Lady Davenport. — O mordomo entra novamente e Lucy solta um
gemido. — Senhorita Seymour, Lorde Reilish.
— Boa tarde. — Aaron entra na sala e abre um sorriso enorme. —
Atrapalho?
— Claro que não, querido. Senhor White, a menos que seja alguém da
família, não receberemos mais visitas por hoje.
— É claro, Lady Davenport. — O mordomo faz uma reverência e sai da
sala.
— Dia agitado? — Aaron se senta ao lado de Lucy, Eloise pede licença
para os dois e se retira.
— Doze visitas ao total, sendo que o último foi um homem de cinquenta
anos.
— Juro que esse não tenho responsabilidade. — Aaron ri. — Então
meus amigos vieram... gostou de algum deles?
— Se mais alguém elogiar meus cabelos, os usarei para me enforcar. —
Lucy revira os olhos e serve uma xícara de chá para Aaron.
— Mas eles são lindos. E até onde sei esse é o início de conversa mais
usado.
— Já visitou muitas damas para saber?
Aaron abre um sorriso e Lucy sabe que ele está pensando em suas
amantes.
— Tenho certeza de que já se tornou assunto novamente, essa noite terá
vários pedidos para dançar, amanhã terá ainda mais pretendentes.
— Tenho certeza de que nem todos foram enviados por você. E mais
certeza ainda de que, pelo menos, dois estavam desesperados por um dote.
Já que perguntavam a todo instante se o conde tinha providenciado um dote
considerável.
— Risque os dois da lista então. Não tem por que lhes dar atenção.
— Aaron, tenho certeza de que os outros estavam se perguntando a
mesma coisa. Eu ouvi claramente ontem...
— O que ouviu? — pergunta assim que Lucy fica em silêncio.
— De que sou apenas a pupila de Davenport, e não sua filha de verdade.
Que não sou uma nobre, e muito provavelmente uma bastarda. E que por
isso não me casei todos esses anos.
Lucy se levanta e vai até o piano, ela deixa seus dedos tocarem
levemente as teclas. Não era seu instrumento favorito, preferia o violino,
era muito boa com ele.
— Lucy, você não é uma bastarda. — Aaron se levanta e vai até ela
pegando sua mão. — Não deixe que esses fofoqueiros coloquem besteiras
em sua cabeça. Você não se casou até hoje porque não aceitou nenhum dos
pedidos. Recusou todos.
— Sim, porque eu esperava algo muito melhor do que eles. Mas o que
consegui? Ser o assunto de todas as temporadas, tudo porque acredito que
as damas possuem o mesmo direito de esperar como os homens.
— Esperar?
— Você tem vinte e oito anos e é solteiro, Aaron, por que eu, aos vinte
anos, já estou passando da idade de me casar? Porque é aceitável que um
homem, aos cinquenta anos, não seja considerado um caso perdido, como
uma dama aos vinte?
— São as tradições e regras da sociedade.
— Tudo isso não passa de uma grande estupidez. Não deveria importar a
minha idade. Devo escolher entre homens quinze a vinte anos mais velhos
do que eu, porque os que tem a sua idade simplesmente não querem se
casar. Por que devo me sujeitar a um homem muito mais velho que eu?
Porque são os homens como você que decidem que preferem curtir, ter
milhares de aventuras, e que as damas devem aceitá-los apenas quando
estiverem cansados demais para acompanhá-las.
— Não é verdade, Lucy...
— Não? — Ela se afasta dele. — Você quer se casar, Aaron? Está
procurando por uma noiva? Porque tenho certeza de que não está.
— Minha mãe quer que eu me case, com a saúde debilitada do meu pai,
quer que eu me case o mais rápido possível.
— Está vendo? Casamento para homens como você é apenas quando
estão pressionados a isso. Jamais escolheria uma dama agora porque
simplesmente quer, ou porque ela é a mulher que vai querer para o resto da
vida. Deve estar muito feliz com sua amante.
— Amante? — Aaron ri. — O que sabe sobre amantes, Lucy?
— Mais do que imagina, minha mãe não me fez uma menina tola, me
contou como a sociedade funciona quando eu tinha apenas dezesseis anos.
Sei que é totalmente aceitável que os nobres possuam amantes, coisa que
jamais aceitarei. O que é mais um problema, já que meu marido não
aceitaria que eu fosse sua única mulher. Tia Dayse diz que nasceu na época
errada, acredito que eu também. Talvez muitos anos à frente, seja aceitável
que uma mulher aos vinte anos não seja considerada solteirona ou caso
perdido. Que ela possa decidir com quem se casar ou se vai se casar.
— Lucy, essas ideias não combinam com a nossa realidade.
— Por isso eu disse que nasci na época errada. E a culpa é dos homens.
— Nossa?
— Sim, porque vocês se acham no direito de decidir sobre a vida de
todos. Até mesmo o meu dote não é meu, passa a ser do meu marido.
Viverei à custa dele para o resto da minha vida, aceitando que me traia,
sendo usada apenas para gerar herdeiros; e, quando os tiver em números
suficientes, serei encaminhada para o campo. Para que ele possa se divertir
sem culpas em Londres. Isso tudo não lhe parece errado, Aaron?
— Juro que não entendo sua questão, Lucy.
— Você é homem, claro que não vai entender. Tudo lhe é permitido
fazer, nada estaria errado. Já para uma dama? Devo ficar sentada nessa sala
como um objeto em uma vitrine, para que os homens decidam se valho ou
não o sacrifício de um pedido de casamento.
— Você vale qualquer sacrifício, é linda, gentil, tem um coração
maravilhoso, mesmo que tenha pensamentos um pouco contraditórios.
— Melhor ir embora, Aaron... — Lucy lhe dá as costas.
Aaron suspira, não conseguia entender o que Lucy estava querendo,
nada daquilo funcionaria na sociedade atual, ela queria direitos iguais aos
dos homens? Era isso? Jamais conseguiria.
— Até a noite — ele diz e sai da sala.
— Aaron! — Richard, o irmão de quatorze anos de Lucy, grita ao vê-lo.
— Como vai, rapaz?
— Bem, vou muito bem na escola, já que sou muito inteligente.
— Isso é bom.
— Se é inteligente estaria na escola e não em casa — Agatha, de doze
anos, provoca o irmão e abraça Aaron. — Ele arrumou confusão, papai teve
que ir buscá-lo para uma conversa.
— Essas conversas nem sempre são boas — Aaron concorda. — Brigou
com alguém?
— Foi por um bom motivo.
— Sair no tapa com um colega de escola nunca é por um bom motivo,
ainda mais quando ele é dois anos mais velho que você e centímetros mais
alto — Ethan diz ao filho.
Aaron olha melhor para o garoto, agora podia ver algumas marcas em
seu rosto.
— E que bom motivo é esse que você garante que tem?
— Paul disse que ouviu o irmão dele falar que a Lucy é uma solteirona e
que vai se casar com ela apenas para fazer uma boa ação, porque nenhum
cavalheiro vai querê-la. Ninguém fala da minha irmã.
— Oh! — Aaron vira ao ouvir alguém ofegar, Lucy está parada com a
mão na boca, Eloise a abraça. — Eles estão aqui pelo mesmo motivo? Por
caridade?
— Sabe que não precisa aceitar nenhum desses pedidos; se quiser,
amanhã não recebemos ninguém — Eloise diz a filha, que se solta da mãe e
corre para o andar de cima, em direção ao seu quarto.
— Richard? Quem é o irmão desse Paul? — Aaron pergunta olhando
para o garoto.
Ethan coloca uma mão no ombro do filho e o leva para o escritório
gesticulando para Aaron os acompanhar.
— Ele vai apanhar? — Agatha pergunta para a mãe.
— Claro que o Richard não vai apanhar, querida.
— Ele não, mamãe, o irmão do Paul.
— Ah... ele definitivamente vai apanhar. — Eloise sorri para a caçula e
vai atrás de Lucy.
Aaron estava mais do que irritado. Como alguém ousava inventar
mentiras sobre Lucy?
Ethan estava de acordo que precisavam ter uma conversa com um Philis
Conroy, ele aprenderia que não deveria levantar mentiras sobre uma dama.
Se não tivesse que ir ver seu pai, resolveria aquele assunto naquela mesma
hora.
Ao entrar na casa onde cresceu, Aaron cumprimenta alguns criados e
segue até a sala onde seu pai estava descansando. Era estranho ver o
homem forte que o levava para pescar, andar a cavalo, sentado em uma
poltrona, seus cabelos praticamente todos brancos, as mãos já não estavam
mais firmes, o cansaço era aparente em seu semblante.
— Pai?
— Ah, Aaron, venha, sente-se. — O pai deixa o livro que estava lendo
de lado. — Como você está?
— Nervoso. — Suspira ao se sentar e conta toda a história para o pai.
— Imagino que Lucy tenha ficado terrivelmente abalada.
— Sim, senhor. Tio Ethan quer ter uma conversa com o Conroy,
provavelmente o encontraremos no baile e resolveremos isso.
— Lucy é uma menina geniosa. — Lincoln ri e balança a cabeça. —
Teimosa também, mas até mesmo os mais fortes algumas vezes se sentem
fracos. Fale com a sua mãe, ela poderá ajudar Eloise a cuidar de Lucy, ela
precisa da família ao lado dela agora. Fofocas podem prejudicar a reputação
de uma dama. Ela poderia até mesmo se tornar alguém inelegível para o
casamento.
— O que é uma besteira, Lucy não tem nada que a desabone para um
casamento. Enviei amigos para a casa dela, pai, os incentivei a fazerem
visitas para que ela voltasse a ser cortejada. E agora descubro que,
provavelmente, alguns deles estavam com segundas intenções.
— Então não são seus amigos de verdade, porque se fossem não fariam
isso com sua prima.
— Mudando de assunto, como o senhor está hoje?
— Estou bem. — Lincoln gesticula com a mão. — Sua mãe está
preocupada demais.
— Todos estamos preocupados, nós te amamos e nos importamos com o
senhor. Tem certeza de que não quer ir para o campo? Poderia descansar
melhor, o ar puro lhe fará bem.
— Estou bem, Aaron, prefiro ficar em Londres, meus filhos estão aqui,
não vou me esconder no campo. Sua mãe tem feito com que eu fique
sentado praticamente o dia todo. Estou cansado de não haver nada para
fazer, nem mesmo os negócios posso cuidar, já que você tem cuidado de
tudo.
— O médico disse que precisa de descanso e é isso o que o senhor vai
ter.
— Talvez eu deva dizer a sua mãe que você precisa se casar o quanto
antes, assim ela se esquecerá de mim e correrá atrás de uma noiva para
você.
— Não sabia que podia ser tão cruel, papai! — Aaron se levanta e se
serve de um cálice de licor.
— Você precisa se casar e sabe disso, deve ter um herdeiro.
— Tenho um herdeiro, Maxwell assume tudo se eu morrer.
— Não fale besteiras, Aaron, seu irmão não vai assumir nada. Você vai
ter uma família, vai ter filhos. Desejo isso para todos os meus filhos, quero
que tenham a mesma vida que eu tive ao lado da sua mãe. Nunca me
arrependi um só dia de ter me casado com ela.
— O senhor encontrou uma mulher única.
— E você vai encontrar alguém que seja única para você, isso se já não
encontrou.
— Não encontrei, porque não estava procurando. — Aaron se senta
novamente e olha para o pai. — Por que está bancando o casamenteiro?
— Porque me importo com você e seus irmãos, Evelyn está casada e
feliz, agora você e seu irmão precisam fazer o mesmo...
— Não é por isso — Aaron o interrompe, o pai olha para a lareira por
um tempo.
— Quero conhecer meu herdeiro antes de morrer. Se não se casar logo e
ter um filho, jamais o conhecerei.
— Agora quem está falando sandices é o senhor, não vai morrer, vai
viver muito tempo ainda.
— Ninguém sabe o seu futuro, Aaron, o que eu sei é que meu corpo está
fraco, não é o mesmo de antes. E o meu único desejo é vê-lo casado com
uma boa moça, e segurar meu neto pelo menos uma vez. Então, se eu
precisar instigar a sua mãe para que ela o apresente a todas as damas de
Londres para que isso aconteça, é exatamente o que eu farei.
Os cavalheiros estavam com pena dela, era a única coisa que Lucy
conseguia pensar enquanto olhava para o salão. Realmente queriam apenas
o dote dela, agora tudo fazia sentido. Era o seu dote ou talvez o prazer de
falarem que tinham conseguido convencê-la a se casar com ele. Ela não
sabia muito bem, estava enlouquecendo, queria se esconder em seu quarto,
quem sabe, por todo o resto da temporada.
Alguns cavalheiros se aproximaram e a convidaram para dançar, não
poderia recusar todos a noite toda, então foi obrigada a concordar com
algumas danças. Sua mãe estava ao seu lado lhe dando apoio, já que sentia
a filha triste.
— Tio Ethan. — Aaron se aproxima deles, ele cumprimenta Eloise e
Lucy e se vira para o tio. — Ele está na sala de carteado.
— Ele quem? — Lucy pergunta curiosa, o olhar de seu pai fica mortal e
ela entende. — Vão falar com ele?
— Será uma conversa rápida — seu pai garante e vai com Aaron atrás
de Conroy.
— Mamãe...
— Deixe-os, Lucy, eu mesma queria ir atrás desse rapaz.
— Lucy. — A mãe de Aaron se aproxima e a abraça. — Aaron contou o
que aconteceu, estou aqui para o que precisar.
— Obrigada, tia Sarah.
— Vou precisar de sua ajuda, Eloise. Lincoln passou a tarde toda me
dizendo que quer ver o filho mais velho casado, preciso conhecer quem são
as solteiras desse ano. Não estava me preocupando com isso antes, mas
agora é uma necessidade.
— Aaron decidiu se casar? — Lucy pergunta sem acreditar.
— Não, mas o pai dele quer que eu tente a todo custo. Então preciso
saber quem elas são, para decidir quem é a melhor opção.
— Há algumas beldades, Abigail Benbridge é uma das disputadas.
— Abigail? — Lucy tenta se segurar para não gritar. — Ela é uma
estúpida, mamãe.
— Não fale assim, Lucy. — Eloise olha em volta para ter certeza de que
ninguém ouviu.
— Mas ela é, a encontrei na confeitaria outro dia, tem mais cabelo do
que juízo naquela cabeça.
— Mas é uma bela dama. — Eloise ri. — Vou fazer uma lista para você,
Sarah.
Lucy tenta ignorar a conversa de sua mãe e sua tia de consideração.
Sarah era casada com o primo de seu pai, então a ligação entre as famílias
era um pouco distante. Lucy era a filha de um primo de Ethan por parte de
pai, enquanto Lincoln era seu primo por parte de mãe. Ela e Aaron não
poderiam ser considerados primos, mas era assim que a família os tratava.
Ela o conheceu quando tinha seis anos, durante os anos seguintes
discutiram, brigaram, se provocaram, como todo primo faz. Quando já
estavam um pouco maiores, a implicância diminuiu um pouco, cedendo
lugar a uma amizade.
Ela olha para o fim do salão, por onde seu pai e Aaron estão voltando.
Aaron era lindo, isso ela já sabia há muito tempo, alto com ombros
largos, seus cabelos escuros e um belo sorriso. Ela já não tinha reparado
isso antes? Por que agora estava fazendo uma lista de tudo que lhe
agradava nele?
Ele para ao lado de uma dama e conversa com ela por um tempo, Lucy
sabia quem ela era, Mabeth Linchestire era uma jovem viúva, alguns diziam
pelos salões que ela tinha um amante, e que provavelmente era Aaron. Não
sabia se tinham razão nessas suposições, mas o fato era de que ele estava
muito confortável falando com ela.
O estômago de Lucy parece embrulhar, ela sente como se fosse difícil
respirar, ela pede licença a sua família e vai para um dos reservados, se
senta no pequeno sofá e tenta respirar fundo. Não conseguia entender por
que estava se sentindo daquela forma desde que ouviu sua tia dizer que
estava escolhendo damas para apresentar a Aaron.
Ela poderia se importar menos com o que o primo fazia ou com quem se
casaria. Ela tinha que se preocupar com a própria vida, com o fato de que
ela mesma, se não quisesse ser o assunto dessa e da próxima temporada,
deveria escolher um noivo.
Levantando-se, ela vai até o espelho e olha o seu reflexo. Seus olhos
estavam avermelhados, a respiração dela ainda estava entrecortada. Sentia
como se fosse desmaiar, ela se agarra a pia tentando se firmar. Quando
começa finalmente a ficar mais calma sai do banheiro.
— Lucy? — Escuta Aaron chamá-la e gira para encontrá-lo no corredor
de braços dados com Mabeth, ele a solta e corre até ela. — O que houve?
Está se sentindo mal?
— Está muito quente no salão.
— E por isso correu para o lavabo? — Ele ri e pega o braço dela, os dois
saem para a sacada e ele a ajuda a se sentar em um banco. — Está melhor?
Lucy olha em volta, Mabeth por algum milagre não os seguiu.
— Ela é sua amante?
— Ela? O que está dizendo, Lucy?
— Todos estão comentando que Mabeth é sua amante, ela é?
— Isso não é assunto para todos, muito menos para você.
— Mas será para a moça que se casar com você, sua mãe está
procurando por uma noiva. Não sabia que quer se casar.
— Meu pai decidiu que eu devo me casar. Quer conhecer o neto antes de
morrer.
— Ele está tão ruim assim? — Lucy pergunta preocupada.
— Está muito fraco. — Aaron suspira e se senta ao lado dela. — Não
esperava vê-lo assim um dia. Não quero me casar isso é fato, mas me sinto
culpado por não atender a um pedido dele.
— Então vai conhecer as damas dessa temporada e escolher uma,
enquanto mantém uma amante.
— Lucy...
— Não, Aaron. — Ela se levanta nervosa e se afasta dele. — Eu estava
certa, todos vocês agem da mesma forma. Querem que suas esposas sejam
fiéis, que lhe devotem suas vidas, enquanto se divertem com mulheres
como Mabeth. Não esperava isso de você, seus pais lhe deram o exemplo de
um casamento feliz, duvido que tio Lincoln teve uma amante, que sua mãe
se sentiu preterida. E agora você quer fazer isso com sua futura esposa.
— Não será um casamento por amor. — Ele se levanta. — Será apenas
para que meu pai tenha o seu neto. Devo isso a ele.
— Tenho certeza de que ele iria querer muito mais que encontrasse uma
dama por quem sente alguma coisa. — Lucy lhe dá as costas para voltar ao
salão. — Tenho pena da dama que escolher para se casar. — Ela dá um
passo para dentro e olha por sobre o ombro. — E se fosse eu, Aaron? Se
estivesse se casando comigo, manteria sua amante?
— Não estou me casando com você, Lucy, é minha prima.
— Não, eu não sou sua prima. Sou a pupila do seu primo, somos primos
por consideração. Mas isso não faz diferença, faz?
Lucy volta para o salão deixando Aaron sozinho. Ele encara a porta por
onde ela passou e suspira.
— Faz, Lucy, isso faz toda a diferença.
Aaron retorna ao salão de olho em Lucy que vai até os seus pais, Eloise
olha para a filha preocupada e elas conversam por um tempo, até que os três
se movem em direção a porta, com toda certeza eles iriam embora. E o
motivo provavelmente era ele.
Conhecia Lucy desde que ela tinha seis anos de idade, ele a viu se
transformar de uma menininha tagarela em uma bela moça. Ele não sabia ao
certo quando notou que a prima cresceu, que tinha belos olhos, um sorriso
lindo e curvas que o encantavam, o fato era que em algum momento houve
essa percepção. E ele se culpava em alguns momentos por pensar nela
assim.
Ele devia pensar em outra moça, sua mãe escolheria as que se
destacassem, as que poderiam de alguma forma o convencê-lo a se casar.
Mas nenhuma delas seria Lucy, ela era sua prima e isso por si só para a
sociedade deveria importar.
— Ela está bem? — Ele escuta Mabeth falar ao seu lado. — Não fui
para a sacada porque imaginei que a menina queria um pouco de
privacidade.
— Acho que está, ela foi embora com seus pais.
— Escutei os falatórios, alguém está dizendo que ela é uma bastarda.
Como a fonte parece ser confiável, todos estão dando ouvidos.
— Fonte confiável? Quem estaria falando uma mentira dessas?
— Felicity, Viscondessa de Plonsworth. Ela esteve no campo por causa
do luto pelo falecimento do seu marido nos últimos dois anos. Agora que
retornou e viu a moça, levantou essa suspeita, diz a viscondessa que tudo o
que cerca essa menina é uma grande farsa. E, na verdade, ela é filha
bastarda do Conde de Davenport.
— Mas ela recebeu diversas visitas hoje, muitos...
— Acredita que a maioria deles queria algo realmente honesto? —
Mabeth o interrompe e dá um gole em seu champanhe. — Meu querido,
conheço muitas das fofocas da alta sociedade. Ao que tudo indica, o dote
dela foi aumentado pelo conde na semana passada, poderia apostar que
muitos que foram até lá sabiam da alta quantia. Se pensar bem, verá que
alguns estão realmente necessitados por dinheiro, o que justificaria o
interesse nela, mesmo que seja uma bastarda.
— Lucy não é uma bastarda — Aaron responde irritado e começa a se
afastar. — Se não quiser que eu me torne seu inimigo, não repita isso
novamente.
Lucy não esperava receber visitas naquele dia, já que quase não ficou no
baile da noite anterior. Mas o fato é que o período da tarde estava
movimentado, alguns era a segunda vez que estava ali, Lucy sentia que
tinha alguma coisa errada, mas não sabia dizer ao certo o que era.
— Senhorita Seymour, está radiante hoje — um dos cavalheiros diz e
Lucy sente vontade de revirar os olhos.
Sua mãe como todas as vezes, estava em um canto da sala os
observando. Após vários elogios sem sentido, a sala começou a esvaziar, até
que um cavalheiro foi anunciado. Ele era alto, com cabelos claros e olhos
azuis.
— Lorde Walker.
Eloise olha para Lucy com uma sobrancelha erguida. Lorde Walker era
considerado, ao lado de Aaron, como um dos solteiros mais desejáveis
daquele ano. Ele era o herdeiro de um condado muito próspero.
— Senhorita Seymour. — Connor Walker faz uma leve reverência. —
Lady Davenport.
— Como vai, senhor Walker? — Eloise diz com um sorriso e gesticula
para que ele se sente, após os cumprimentos de praxe ele se vira para Lucy.
— Perdoe-me não vir antes, infelizmente estive enrolado com um
compromisso, queria ter vindo ontem.
— Não há por que pedir perdão — Lucy diz, sem entender os motivos
dele estar ali.
— Sei que deve estar estranhando minha visita. Devo confessar que
minhas intenções são antigas. — Ele sorri. — Me acompanharia em um
passeio?
— O que está fazendo aqui, Walker? — Aaron indaga de forma brusca e
todos olham para a porta.
— Visitando a senhorita Seymour, não que isso seja de seu interesse.
— Aaron é muito protetor com a prima — Eloise diz tentando dissipar o
clima ruim na sala. — Cresceram juntos.
— Lá fora, agora. — Aaron aponta para porta, mas Connor não se
levanta.
— Acredito que esteja com algum problema, Conway, mas isso não me
diz respeito. — Connor olha para Lucy e pega sua mão. — E então, vamos
dar um passeio?
— Ela não aceita. — Aaron entra na sala e levanta Lucy a direcionando
para a mãe. — Vai embora, Walker, não vou dizer novamente.
— Você não aceita ou rejeita qualquer convite feito para mim, Aaron,
quem decide sou eu — Lucy diz nervosa. — É claro que eu aceito, senhor
Walker, vou pegar meu chapéu.
Connor se levanta com um sorriso e olha para Aaron se sentindo
vitorioso. Assim que ele sai da sala, Aaron olha para Eloise.
— Ele é um bom rapaz...
— A senhora não o conhece como eu. Pode ser o herdeiro de um título
antigo, pode ter dinheiro, mas Lucy não é uma moça que lhe cause
interesse. Acredite em mim, tia Eloise, as intenções dele não são boas.
— É um passeio, Aaron.
— Com Connor nunca é apenas um passeio.
Eloise toca a campainha e o mordomo entra na sala.
— Peça para a senhorita Davis levar Agatha no passeio com Lucy.
— Sim, Lady Davenport.
— Melhor? — Eloise pergunta para Aaron que se senta no sofá
esfregando o rosto.
— A senhora ouviu a fofoca que tem circulado pela alta sociedade?
— Algo envolvendo o senhor Walker?
— Não, Lucy. — Ele olha para a tia, que se senta novamente. — Lady
Plonsworth tem espalhado que Lucy é uma bastarda, filha do tio Ethan.
— O quê?
— Grande parte dos homens que vieram aqui é porque tio Ethan
aumentou o dote de Lucy. Outros estão acreditando que Lucy é um alvo
fácil. A fofoca de Lady...
— Ethan! — Eloise grita assustando Aaron, ela sai correndo da sala.
— O que aconteceu aqui? — Aaron pergunta para a sala vazia e se
levanta.
Não sabia o que tinha deixado sua tia nervosa, mas agora ele precisava
descobrir para onde Walker tinha levado Lucy para o passeio. Ele ficaria
por perto para garantir que nada de mau lhe acontecesse.
Lucy não poderia negar que estava se divertindo, mesmo que a senhorita
Davis e Agatha os acompanhasse a uma certa distância, sentia como se
fosse apenas ela e o senhor Walker. Ele a fazia sorrir, algumas vezes lhe
arrancava uma risada. Durante o percurso em que caminharam, ele
cumprimentou diversas pessoas o que só poderia significar que conhecia
praticamente todos em Londres.
— Irá a ópera hoje? — Walker pergunta.
— Vou sim, mamãe está ansiosa por hoje. Como papai não consegue lhe
negar nada, estaremos lá.
— Então passarei em seu camarote para lhe dar um oi.
— O senhor gosta de ópera?
— É fascinante como alguém com apenas sua voz pode nos transportar
para lugares tão diferentes. É como se essa pessoa tecesse um mundo novo
apenas cantando.
— Nunca vi dessa forma.
— Pois preste atenção essa noite, entenderá o que quero dizer. — Os
olhos de Walker se fixam em um ponto por sobre o ombro dela por um
momento. — Não sabia que seu primo era tão protetor.
— Meu primo? — Lucy olha por sobre o ombro e suspira. — Aaron
nunca foi protetor, brigamos enquanto crescíamos. Sempre adoramos nos
provocar.
— Ele está olhando fixamente para nós dois. Diria que, pela reação dele
ao me ver em sua casa, não me suporta.
— O senhor e ele não são amigos?
— Estudamos juntos em Eton, tivemos nossa quota de brigas como todo
garoto. Acreditei que agora que estamos crescidos tinha deixado tudo para
trás. Devo estar enganado.
— Desculpe a pergunta, milorde, mas por que veio me visitar? —
Walker para de andar e olha fixamente no rosto de Lucy.
— A conheci no ano passado, infelizmente tive que tratar de assuntos na
França, por isso fui embora, retornei ontem e descobri que ainda estava
solteira, para mim foi um sinal de que não deveria perder essa
oportunidade. Por isso, fui até a sua casa. Me encantei por sua beleza,
senhorita Seymour, e se permitir quero conhecê-la de todas as maneiras,
para ter certeza de que é a esposa que tanto desejo ter ao meu lado.
— Ele disse que quer me conhecer, mamãe, disse que talvez quer que eu
seja sua esposa — Lucy diz rapidamente para a mãe, quando ela não se
manifesta e estranha. — Tudo bem, mamãe?
— O que disse?
— Perguntei se está tudo bem.
— Está sim, só estou com uma dor de cabeça, vou me deitar.
— Vamos a ópera hoje? O senhor Walker disse que iria até o nosso
camarote.
— É o que deseja? Nesses três anos a ouvi dizer que não estava
interessada em nenhum desses cavalheiros.
— Talvez porque nenhum deles era o senhor Walker, ele me fez sentir
especial.
— Está bem, iremos à ópera sim. Seu pai vai querer conhecê-lo. Por que
não vai descansar um pouco?
Após receber um beijo no rosto de sua filha, Eloise vai para o escritório
do marido. Ao ver que está preocupada, ele se levanta e a puxa para os seus
braços.
— Vai ficar tudo bem, meu amor. Vou cuidar de tudo.
— Ela está radiante com o passeio que deu com o senhor Walker,
combinaram de se encontrar na ópera essa noite.
— Acredita que talvez aceite ser cortejada por ele?
— É possível, mas, Ethan — ela se afasta dele —, Aaron parecia
preocupado com alguma coisa, não sei se era apenas uma preocupação de
primo. Ele não queria que Walker ficasse perto de Lucy.
— Se existe algo que eu possa dizer dos cavalheiros da minha época, é
porque estudamos juntos, a maioria sabia sobre cada coisa que aprontamos.
Se Walker estudou com Aaron, provavelmente ele realmente sabe de
alguma coisa.
— O que faremos?
— Vou conversar com Aaron, descobrir se existe algo que desabone
Walker.
— Além disso, temos que lidar com Felicity levantando fofocas. O tanto
que tentamos esconder a verdade.
— Tudo ficará bem, Eloise, talvez seja preciso apenas lembrarmos a
Felicity de que não é do interesse dela espalhar essas fofocas.
— O problema é que ela já espalhou, o estrago está praticamente feito.
O interesse que Lucy levantou nos cavalheiros dessa temporada pode
acabar. Sem contar que Aaron acredita que muitos só querem o dote que
você aumentou.
— Não achei que aumentariam o interesse nela, por isso.
— Ethan, muitos nobres estão praticamente falidos, pouco importa para
eles se ela é uma bastarda ou não quando estão prestes a colocar a mão em
uma fortuna.
— Isso significa que terei que aumentar minha vigilância. Me faça uma
lista com os nomes dos que vieram visitá-la, irei investigar cada um. Sei
quem pode nos ajudar a descobrir se estão falidos ou não.
Lucy estava com um de seus melhores vestidos, o tinha escolhido
especialmente para aquela noite. Estava ansiosa por encontrar com Walker
novamente. Ao entrarem no teatro, ela acompanha seus pais e cumprimenta
os conhecidos, ela é apresentada a outras pessoas. E quando já estava
praticamente zonza de tantos nomes o avista entrando.
A beleza dele parecia irradiar pelo lugar, muitas cabeças giravam para o
olhar, como se ele atraísse a todos, enquanto ele caminhava diretamente até
ela.
— Lorde Davenport, Lady Davenport — Walker cumprimenta seus pais.
— Senhorita Seymour.
— Como vai, Walker? — Ethan pergunta o olhando atentamente. —
Seus pais não vieram?
— Meu pai disse que já teve sua quota de canto lírico para umas dez
vidas. — Ele sorri. — Minha mãe ficou com ele.
— Então deve nos acompanhar em nosso camarote, se não teve outro
convite, é claro — Eloise diz.
— Será um prazer.
— Tio Ethan. — Lucy pula ao ouvir a voz de Aaron praticamente colada
a seu ouvido. — Tia Eloise.
— Aaron, meu querido. — Eloise abraça Aaron. — E seus pais? —
Aaron faz uma leve careta, que poderia passar despercebido para outras
pessoas, mas não para Lucy, que estava acostumada a tirar a mesma reação
dele. — Ele vai ficar bem, seu pai é um homem forte.
— É o que eu espero, tia.
— Venha, vamos para o nosso camarote, não ficará sozinho essa noite.
O grupo vai para o camarote dos Davenport, para a surpresa de Lucy ela
acaba ficando entre Aaron e Connor. Os dois se encaram por um tempo por
sobre a cabeça dela, já que era muito menor do que eles. Quando as luzes se
apagam e a cortina do palco se abre ela tenta se concentrar na música.
A intenção era boa, mas jamais conseguiria isso. Podia sentir os dois
cavalheiros a sua volta. Um deles deixara claro, naquele mesmo dia, que
tinha interesse nela; o outro era seu primo de consideração, que a deixava
louca a maior parte do tempo. Mas o casaco dele roçava em sua pele, a
fazendo estremecer sem saber por quê.
— Feche os olhos e escute a música, vai entender minhas palavras —
Connor sussurra em seu ouvido.
Lucy fecha os olhos como ele disse e escuta a cantora. Tudo parecia ser
realçado pelo fato de estar com os olhos fechados. Uma grande mão se
fecha sobre as suas, ela sabia que pela posição era Walker, do seu outro lado
um forte ombro encosta no dela, pode sentir o calor vindo de Aaron.
O que os dois estavam fazendo?
A música termina e as luzes se acendem assim que o primeiro ato
termina, Lucy se levanta assustando a todos.
— Preciso ir ao toalete, com licença.
Eloise se levanta e acompanha a filha.
— Lucy? Qual o problema?
— Nada, mamãe.
— Está corada, querida, alguma coisa aconteceu.
— O senhor Walker segurou a minha mão.
— Só isso?
— Claro, o que mais ele poderia ter feito?
— Está tão corada e sua respiração ofegante. — Eloise ri. — Gosta
dele?
— Parece ser um bom homem, não sei se diria sim para um pedido dele.
Teria que conhecê-lo um pouco mais.
— Sabe que pode levar o tempo que for preciso, mas não feche todas as
portas, nunca se sabe se outro cavalheiro vai atrair sua atenção.
— Como a senhora soube que o papai era aquele que queria passar toda
a sua vida juntos?
— No momento em que percebi que meus olhos não viam nenhum outro
homem. Quando tudo ao lado dele parecia tão certo, e a única coisa que
conseguia pensar é no futuro que teríamos juntos. Não foi fácil o caminho
que seu pai e eu traçamos, tivemos brigas, discussões, nos odiávamos. Mas,
em algum momento, nada mais importava a não ser ficarmos juntos. Claro
que para ele levou mais tempo.
— Sempre achei que tudo tinha sido fácil.
— Achou, porque nós dois não demonstrávamos a verdadeira luta que
travávamos. Nem todos os relacionamentos começam às mil maravilhas,
Lucy. Um casal vai discordar por diversas vezes, vão brigar, vão ficar sem
se falar por algumas horas. Quando se amam de verdade, tudo isso não
passa de apenas um degrau que estão dispostos a ultrapassar. Não procure o
relacionamento que parece mais fácil, procure pelo que realmente vale a
pena lutar.
Duas semanas se passaram desde o dia da ópera, Connor e outros
cavalheiros voltaram a visitá-la, diversas flores chegavam a todo momento,
convites para bailes e saraus pareciam encher a pequena bandeja do
mordomo.
— Voltei a ser a sensação da temporada? — Lucy pergunta para a mãe
enquanto ela escreve as respostas para os convites.
— Ao que tudo indica sim, se decidiu a respeito dos seus pretendentes?
— De todos, o único que se destaca é o senhor Walker. Os outros me
parecem falsos quando recitam poemas e declarações. As moças realmente
gostam de ouvir poemas?
— Algumas sim, mas acredito que você não.
— Realmente não suporto.
— Faremos um sarau esse ano. Sabe que teremos muito mais
convidados do que nos anos anteriores.
— Acha que devo tocar?
— Você toca lindamente, Lucy, se eu soubesse tocar como você,
arrumaria uma forma de tocar todas as semanas.
— Diz isso porque é minha mãe. — Lucy ri e deixa um convite de lado.
— Acho que podemos marcar um sarau. Falando nisso, mamãe, pensei em
fazer uma visita para a tia Sarah e o tio Lincoln, ele sempre adorou me
ouvir tocar. Pensei que talvez isso o animasse um pouco.
— É uma excelente ideia. Seu tio não tem saído de casa.
— Vou pegar meu violino, vai me acompanhar?
— Adoraria, mas ainda tenho muitas respostas para escrever. Leve a
senhorita Davis com você, leve Agatha também. Seu tio ficará imensamente
feliz em receber visita.
Meia hora depois, Lucy toca a campainha na casa de seus tios, o
mordomo permite a entrada delas e são levadas até a sala da família, onde
Sarah e Lincoln estão.
— Tio Lincoln! — Agatha corre até ele e o abraça, o sorriso em seu
rosto demonstra o quanto está feliz com elas ali.
— Decidimos fazer uma visita — Lucy explica para a tia.
— São muito bem-vindas.
— Esse violino em suas mãos é apenas um enfeite ou veio tocar para o
seu velho tio?
— Não é velho. — Lucy dá um beijo em sua bochecha e se senta na
poltrona em frente a ele. — E sim, a resposta é que vim tocar para o senhor.
Mamãe vai marcar um sarau, achei que o senhor poderia ouvir o meu
repertório e me dizer se estou tocando bem.
— Será um prazer — Lincoln diz.
Lucy podia ver em seu semblante que o tio não estava bem, seus olhos
pareciam fundos, a bochecha estava magra e os cabelos um pouco mais
ralos.
Ela tira seu violino da capa e começa a tocar para o tio, que fecha os
olhos com um sorriso. Deixando-se levar pela melodia, Lucy toca uma
música atrás da outra. Poderia passar uma hora inteira tocando sem se
cansar, adorava o violino e ver como a música estava confortando seu tio,
tocaria até que seus braços não aguentassem mais.
Ao entrar na casa de seus pais, Aaron ouve a melodia do violino, não era
preciso que os criados lhe dissessem quem estava ali, ele segue o som e, ao
entrar na sala, encontra Lucy tocando para o seu pai. Sua mãe estava um
pouco mais afastada com Agatha, as duas tomavam chá e conversavam.
Ele vai até as duas e dá um beijo na testa de cada uma, Agatha dá uma
risadinha e ele pisca para ela. Nem Lucy ou seu pai notaram a sua presença,
ele se serve de uma bebida e se senta de uma forma que possa olhar
diretamente para Lucy. Uma coisa que ninguém poderia negar é que ela
ficava linda enquanto tocava.
Seu semblante ficava leve, um pequeno sorriso se formava em seus
lábios, a forma com que ela inclinava a cabeça para o lado, a linha do
pescoço à mostra, se alguém a pintasse nessa posição, teria um dos quadros
mais lindo de toda a história do mundo. Mas então ele provavelmente teria
que comprar o quadro e o esconder, porque aquela imagem não era para os
olhos de qualquer pessoa.
Ele se ajeita na poltrona, deveria se recriminar por pensar essas coisas de
Lucy, ela era para todos os efeitos sua prima. De todos os homens da
sociedade não deveria pensar nela como uma mulher. Mas não podia evitar
quando a via daquela forma.
Sua mente vagava sobre como ela ficaria em sua cama, com o mesmo
sorriso satisfeito, seu corpo arqueando embaixo do dele. Ele a queria
naquele momento, queria ser o único a ver seu rosto satisfeito depois de
receber tanto prazer.
— Tudo bem, Aaron? — seu pai chama o assustando, Lucy para de tocar
e a sala fica em silêncio. — Estava com cara de quem...
— Estou bem — Aaron interrompe o pai.
— Nossa, perdemos a hora, tio Lincoln. — Lucy ri apontando para o
relógio.
— Para mim não foi hora perdida. — Lincoln sorri e estende a mão para
Lucy, que deixa o violino de lado e vai até ele se ajoelhando à sua frente. —
Você me trouxe conforto, alegria. Como posso pagar por isso?
— Sabe que não precisa, tio, foi um prazer tocar. Além do mais, o
senhor estava julgando meu repertório.
— E está maravilhoso, tenho certeza de que será um grande sucesso,
falarão de seu sarau por muitos anos.
— Obrigada. Acho melhor irmos para casa, o senhor precisa descansar.
— Eu levo vocês. — Aaron se levanta.
— Não precisa, podemos pedir uma carruagem de aluguel.
— Claro que não, Lucy, se Aaron está com a dele aí pode muito bem
aproveitar; se não estivesse, a nossa poderia levá-las — Sarah diz a
sobrinha.
— Tem algum compromisso para essa tarde? — Aaron questiona.
— Não, apenas o baile dessa noite.
— Então ainda temos tempo, o que me diz de irmos até a Lavely’s?
— Sim, por favor, Lucy! — Agatha implora a irmã.
— Vamos, Lucy, apenas um passeio. — Aaron puxa Agatha para perto
dele e os dois a encaram.
— Argh... está bem, podemos ir.
— Isso! — Agatha pula animada.
A loja de departamentos Lavely’s era conhecida por ter praticamente
tudo o que você poderia querer. Quando criança, Lucy adorava andar por
seus corredores e descobrir coisas novas. Agatha ao seu lado parecia
vivenciar a mesma coisa, seus olhinhos brilhavam, mesmo que não fosse a
primeira vez que estavam ali.
Aaron tinha estendido o braço para Lucy, então os dois caminhavam
lado a lado. Ele apontava para alguns objetos, a provocava e arrancava
alguns risos dela e de sua irmã. Enquanto as duas param em frente algumas
bonecas de pano, ele vai até um dos funcionários da loja e conversa com ele
sobre alguma coisa.
— Está tudo bem? — Lucy pergunta quando ele volta para o seu lado.
— Está sim, apenas tirando uma dúvida. — Ele pega uma moeda e
entrega para o vendedor indicando a boneca nas mãos de Agatha.
— Obrigada, Aaron. — A menina o abraça pela cintura e corre até a
senhorita Davis para mostrar seu presente.
— Vamos, quero levá-la até um lugar. — O pequeno grupo sobe as
escadas seguindo Aaron, ele para em frente a um balcão e os olhos de Lucy
se enchem de prazer ao notar os diversos jogos de chá. — Escolha o que
mais lhe agradar.
— Não posso, Aaron.
— Você fez meu pai sorrir em muito tempo, ele estava muito melhor
quando saímos, esse é o meu agradecimento.
— Não fiz esperando por um pagamento.
— Eu sei, e é justamente por isso que merece receber algo em troca. Sei
o quanto adora esses conjuntos para o chá, agora escolha o que mais gostar.
Lucy dá um gritinho feliz e se aproxima mais do balcão, suas mãos
seguram as xícaras como se fossem um tesouro. Ele podia sentir que era
praticamente impossível para Lucy escolher qual lhe agradara mais, Agatha
e a senhorita Davis davam sua opinião. Até que ela decide por um conjunto
levemente rosado com pequenas flores desenhadas. O vendedor embrulha
tudo em uma caixa e entrega para Aaron.
— Obrigada pelo presente.
— Agora deve me convidar para a hora do chá, devemos estrear o
conjunto juntos — ele diz com um sorriso.
— Faremos isso assim que chegarmos em casa.
Como prometido, ao chegarem em casa, Lucy entrega o conjunto para o
mordomo e solicita que chá, bolinhos e biscoitos sejam servidos para ela e
Aaron. Agatha corre atrás de sua mãe para mostrar seu presente, enquanto
os dois vão para a sala.
— Ainda me lembro das minhas visitas quando voltava do colégio, você
me obrigava a me sentar e tomar chá — Aaron diz e Lucy dá uma risadinha.
— Você odiava esses momentos.
— Claro, era um moleque, hora do chá parecia tão bobo.
— E agora?
— Agora sei aproveitar a companhia de uma bela dama.
Não demora muito e o chá é servido no novo conjunto de Lucy. Como
uma dança ela coloca o líquido quente na xícara e entrega a ele.
— Ele está muito doente? — Aaron suspira ao ouvir a pergunta de Lucy.
— Sim, a cada dia fica mais debilitado, não quer que ninguém perceba,
mas está muito doente. Tenho passado algum tempo com ele, peço a sua
opinião sobre os negócios, mas até mesmo isso, às vezes, o cansa. Minha
mãe tem evitado sair para lhe fazer companhia. Ainda me acompanha em
alguns eventos, porque está determinada a me casar.
— Escolha logo uma noiva e assim ela poderá ficar em casa com seu
pai.
— Foi exatamente a mesma coisa que ela me disse ontem. — Ele ri.
— Tem alguma preferida?
— Acredito que todos os homens solteiros tenham a mesma preferida.
— Abigail.
— Exato, mas não me decidi ainda. Não sei se é a moça certa para que
eu me case.
— Não deve escolher uma dama apenas pela aparência.
— Infelizmente, Abigail só tem a aparência como atrativo — Aaron diz
e Lucy não consegue evitar uma risada. — Então... soube que Walker a tem
visitado muitas vezes.
— Ele é muito gentil, um bom amigo.
— Ele não é o que muitos consideram ideal para um casamento.
— Dizem o mesmo sobre você.
— Sério? — Aaron coça o queixo. — Por que nunca ouvi isso?
— Porque ninguém tem coragem de dizer isso na sua frente.
— A não ser você.
— A não ser eu — ela concorda e pega um bolinho com uma linda
camada de creme sobre ele.
— Connor Walker não é o homem para você, Lucy, ele não é o que
imagina.
— E você diz isso por quê?
— Porque eu o conheço. Não sei qual é o jogo dele, ainda não descobri.
Mas ele não a deseja apenas para ser a esposa dele. Está escondendo
alguma coisa.
— Então quer dizer que não sou desejável? Que um cavalheiro não
possa querer se casar comigo sem ter segundas intenções?
— Não é isso, sabe muito bem que qualquer homem que se case com
você terá muita sorte. Mas esse homem não é o Connor, ele a está
enganando. Tenho certeza de que não passa de um jogo para ele, ou que
tenha algum segredo obscuro por trás desse súbito desejo de se casar com
você.
— Ou ele está apaixonado por mim... — Lucy para de falar quando
Aaron solta uma gargalhada. — Oras, por que está rindo?
— Ninguém se apaixona tão rápido, Lucy, acredita realmente em amor à
primeira vista? O que existe é desejo à primeira vista e não amor. Ele a
deseja por algum motivo, mas não porque deseja passar o resto da vida dele
com você. Acredite em mim, ele está mentindo quando diz que sente
alguma coisa por você. Ele a está usando.
— Feche essa boca, Aaron, está me irritando, Connor é gentil, um
cavalheiro, ele disse que deseja que eu seja a esposa dele.
— Por que motivo? Ele deu algum? Claro que não deu, Lucy, porque os
motivos dele são falsos.
— Você... você está me irritando! — Lucy praticamente grita. — Não
fale assim do homem que poderá ser meu marido.
— Por que o defende? Estou tentando abrir seus olhos, Lucy. Ele não é o
que você imagina, ele é um bastardo... — Aaron para de falar assim que é
atingido por um bolinho no meio de sua testa. — Que demônios... o que
você fez, Lucy?
— Não fale nunca mais de Connor dessa maneira. — Ela arremessa
outro bolinho.
— Céus, e eu que achei que essa fase tinha acabado. — Eloise entra
correndo na sala e entrega um guardanapo para Aaron. — O que está
acontecendo aqui, Lucy?
— Aaron falando besteiras. Está insinuando que Connor é um
mentiroso. Que está apenas me usando.
Eloise olha para Aaron, que limpa o rosto, ele estava furioso.
— Vai para o seu quarto, Lucy, precisa descansar para essa noite.
Lucy leva a mão a outro bolinho, mas Eloise segura seu punho e
gesticula para que saia da sala.
— Ele tem algum motivo errado para tudo isso, tia Eloise. Ele está
enganando Lucy e a todos vocês.
— Por que diz isso?
— Porque eu o conheço. — Aaron joga o guardanapo sobre a mesa. —
Ele está mentindo, não sei qual é o jogo dele ainda, mas existe um. E eu
juro a senhora que vou descobrir.
Aaron poderia ser considerado um homem com uma missão, precisava
descobrir o que Connor Walker pretendia com Lucy. Ela estava fascinada, e
poderia ser completamente enganada por ele. Se não descobrisse o que
Walker planejava, sua Lucy sofreria terrivelmente.
Sua Lucy.
Desde quando passou a pensar nela assim? Lucy não era sua da forma
que pensava. Era sua prima, sua amiga, mas não sua Lucy. Jamais seria sua.
A família os considerava como primos, o que significava que jamais
aprovariam um casamento entre eles.
— O que pretende, Aaron? — ele fala sozinho em sua carruagem.
Por diversos anos vira Lucy como uma menina irritante, que tinha como
missão o deixar louco em cada visita a sua família. Os dois mais discutiam
do que conversavam, somente quando já estavam maiores passaram a se
tratar cordialmente. Nos últimos três anos poderia dizer que tinham uma
amizade um pouco mais consolidada.
O único problema é que no ano passado, ele a viu com outros olhos. Ela
estava linda montada em seu cavalo atravessando o Hyde Park. A
temporada tinha terminado, muitos nobres voltaram para suas casas no
campo, a agitação em Londres diminuíra. O parque antes movimentado
estava tranquilo, por isso foi fácil encontrá-la e, principalmente, observá-la
de longe.
Pela primeira vez notara seu perfil delicado, a linha de seu pescoço que
passara a desejar beijar. Seu sorriso iluminado, sua risada contagiante. Ele a
desejou como nunca desejou outra dama. Mas era seu primo e não um
homem que cedia a seus desejos primitivos.
Tentou se manter afastado de Lucy o máximo que podia. Se perdia nos
lençóis de sua amante quase todas as noites. Mas, pela manhã, era nela que
pensava. E agora, naquele ano, provavelmente se casaria com outro homem,
seria outro que a beijaria, que tocaria seu corpo e que lhe daria prazer.
Irritado com o rumo de seus pensamentos, Aaron pragueja, sua
carruagem para e ele olha para o lado de fora, estava em seu clube. Sabia
que ali encontraria Walker e poderia confrontá-lo. Ele atravessa a porta e
entrega seu chapéu e bengala para um dos criados, as risadas em uma das
portas laterais chama sua atenção. Seus olhos passam por cada um dos
cavalheiros presentes, em busca do homem que estava prestes a tirar o que
ele tanto desejava.
— Algum motivo para estar aqui com o semblante de alguém que
planeja fazer um desafio para um duelo? — Wesley pergunta o assustando e
indica uma mesa para que o acompanhe.
— Estou procurando por Walker.
— O que ele fez?
— Não sei ainda, mas planeja alguma coisa. Esse súbito interesse em
Lucynda é muito estranho.
— Minha esposa disse que Lucy está bastante animada com a corte que
vem recebendo.
— Não está fazendo a corte ainda — Aaron resmunga. — Ele planeja
alguma coisa, eu sei disso.
— Lucy é uma das sensações dessa temporada, mesmo sendo mais velha
que as debutantes. Por que acredita que Walker não a deseje, Reilish?
— Porque Lucy não é o tipo de mulher que Walker deseje. — Aaron
aceita a bebida que lhe é servida e dá um grande gole. — Estudei com ele
por muitos anos, sei bem que tipo de mulher ele deseja. Abigail seria a
dama perfeita para ele e não Lucy.
— O que pretende fazer?
— Se tiver que ameaçá-lo para descobrir a verdade é o que farei.
— Ou, então, pode tentar investigar de uma forma que não o leve a
prisão. Conheço alguém que pode aceitar o serviço, se estiver disposto a
pagar.
— Por quê?
— Lucy é minha sobrinha, eu a amo. Se existe realmente a possibilidade
de que Walker esteja a enganando, quero saber.
— Quem é essa pessoa que pode investigar?
— Um amigo, ele trabalha como detetive. Conhece muitas pessoas. É o
quarto filho de um nobre, seu irmão assumiu o título, então não tem
qualquer obrigação para com a família. Como sempre gostou de resolver
mistérios, passou a trabalhar com isso. Vou falar com ele, pedirei que
investigue o Walker.
— E eu que pagarei por isso?
— Quem levantou a suspeita foi você, Reilish. Não eu. E algo me diz
que não é só por preocupação que quer saber a verdade. Walker o incomoda
não só por fazer a corte a Lucy.
— Ele me incomoda justamente por fazer a corte, Lucy deveria...
— O quê? — Wesley olha atentamente para Aaron. — Ela deveria o
quê?
— Se casar com um cavalheiro muito melhor do que o Walker. Deveria
ter um marido que se importe com ela e não que a use.
— Tem razão — Wesley concorda e se levanta. — Vou falar com o
William. Por ser a minha sobrinha, tenho certeza de que dará prioridade ao
caso.
— Obrigado. — Aaron se levanta também e aperta a mão de Wesley.
— Aceite um conselho, não procure por ele; se o assustar, vai atrapalhar
as investigações. Se achar que manda no jogo, vai acabar deixando pistas
para que William descubra.
— Está bem, vou tentar me controlar.
Wesley dá um tapa no ombro de Aaron e sai do clube à procura de seu
amigo.
Mais uma vez, o salão da mansão Davenport está cheio com rapazes
segurando flores e chocolates para Lucy. Sempre com elegância, ela recebe
a todos, conversam por um tempo até que, aos poucos, os cavalheiros vão
se despedindo.
— Lorde Walker — o mordomo avisa, assim que o último rapaz vai
embora.
— Lady Davenport, senhorita Seymour. — Connor faz uma reverência.
— Como está, Lorde Walker? — Eloise pergunta.
— Muito melhor, agora que estou aqui. — Ele se senta em uma poltrona
e aceita a xícara que Lucy lhe entrega. — Lorde Davenport está em casa?
Desejo conversar com ele.
Eloise troca olhares com Lucy e abre um sorriso.
— Sim, está em seu escritório, vou pedir que o mordomo o leve até lá.
Ao ficarem sozinhas novamente, Lucy corre até a mãe, que a abraça.
— Ele vai pedir para fazer a corte oficialmente?
— Provavelmente, é o que deseja?
— Lorde Walker é muito gentil, tem sido um bom amigo. Acredito que
poderíamos ter um bom casamento.
Do outro lado da mansão, Ethan indica a cadeira em frente à sua mesa
para que Connor se sente e olha atentamente para o rapaz.
— Lorde Davenport, gostaria de fazer a corte a sua filha. Quero me
casar com ela, de preferência antes do fim da temporada.
— Por quê?
— A Senhorita Seymour é uma bela dama, e sei que tem diversos
pretendentes. Como não estou disposto a perder a dama que tem
conquistado meu coração, quero sua permissão para fazer a corte e assim
dizer a todos que um dia ela será minha.
— Acredito que ainda não respondeu a minha pergunta. Por que deseja
se casar tão rapidamente com a minha filha?
— Que cavalheiro em sã consciência não iria querer se casar com
Lucynda? — Connor ri. — O que não pensa assim é um estúpido na minha
opinião.
— Conhece bem minha filha?
— Claro que sim, Lorde Davenport. Lucynda é uma dama gentil,
educada, delicada, de modos impecáveis.
Ethan ri com a descrição de Connor para Lucy, ele está para responder
quando a porta de seu escritório abre e Aaron entra.
— Aaron, que bom que está aqui. Pedi ao senhor Walker que
descrevesse Lucy, poderia fazer o mesmo por favor?
— Descrever Lucy? — Aaron estranha o pedido e sorri. — Tio Ethan,
Lucy é teimosa, obstinada, tagarela, totalmente irritadiça, pode lhe tacar
bolinhos na cara simplesmente porque está nervosa com você. Tem um
gênio terrível quando está brava.
— Essa é a descrição de alguém que conhece a minha filha — Ethan diz
apontando para Aaron. — Não conhece minha filha, senhor Walker, e
mesmo assim deseja fazer a corte.
— Acredito que alguns minutos em uma sala cheia de pretendentes e
uma dança à noite não sejam suficientes para conhecer uma dama. Mas, se
me permitir fazer a corte, poderei conhecê-la muito melhor. Tenho certeza
de que a descrição que Reilish fez é totalmente incorreta, provavelmente
Lucynda dê para cada pessoa o que ela merece.
— Se ela lhe deu um tratamento totalmente diferente ao que descrevi, é
porque não deseja que a conheça de verdade.
— Está enganado. — Connor sorri. — Tenho sua permissão, Lorde
Davenport?
— Terá minha permissão se for o que Lucy deseja. Falarei com minha
filha primeiro e só então lhe darei minha resposta.
— Não estou preocupado, tenho certeza de que ela concordará. —
Connor se levanta e acena para os dois, e sai do escritório.
— Ele não é o homem ideal para Lucy.
— Eu sei. — Ethan suspira. — Mas se for o que Lucy deseja, não
poderei ser contra. Sei o quanto ser tratada como uma solteirona indesejável
a tem machucado.
— Estou de olho nele, meu tio, só não entregue a mão de Lucy em
casamento até termos certeza do que ele planeja.
— Realmente acredita que tem alguma coisa errada?
— Sim.
— Está bem, Eloise e eu tentaremos adiar ao máximo um noivado. Mas
seja rápido, Aaron, conhece Lucy, se colocar na cabeça que se casará com
ele, dará um jeito de fazer isso.
Connor estava fazendo a corte oficialmente, o que significava que
podiam passear no parque, ir até a confeitaria, fazer longos passeios. É claro
que a senhorita Davis os acompanhava para manter o decoro. Mas Lucy não
se importava, gostava de estar ao lado de Connor, ele a fazia rir, muitos
diziam que eram o casal da temporada, o que Lucy adorava ouvir.
Seus pais disseram a ela que um noivado deveria ser algo um pouco
mais distante, porque o ideal seria que conhecesse Connor um pouco
melhor, o que ela acha desnecessário, já que não havia muito mais para
conhecer.
Lucy realmente acreditava estar apaixonada por Connor, não sabia como
era esse sentimento, mas achava ser o que ela sentia. E sabia que ele sentia
o mesmo por ela. Por isso, ao final daquele baile, diria aos seus pais que
queria se casar. Connor dizia a todo momento o quanto se importava com
ela, o quanto era louco por ela, e que não entendia o motivo de seus pais
para não concordarem com o casamento.
— Lucynda, não posso suportar mais ficar longe de você — Connor diz
a ela enquanto caminham lentamente pelo salão cheio. — Se seus pais não
concordarem essa noite, teremos que tomar uma atitude drástica.
— O que quer dizer?
— Talvez ser pegos em flagrante, assim eles serão obrigados a permitir
que nos casemos.
— Flagrante? Connor, não desejo ser pega pelos meus pais.
— Mesmo que signifique que estaremos casados no dia seguinte? Não
me ama, Lucynda?
— Acho um completo absurdo uma dama ter que se casar porque a
sociedade considera que sua reputação não é mais pura.
— Mas é assim que a sociedade funciona. — Connor olha em volta e
indica com a cabeça a porta da sacada para que os dois possam ficar a sós.
— Se queremos nos casar, talvez seja a única solução.
— Eu sei... — Lucy para de falar ao ouvir uma voz exaltada, ela
conhecia aquela voz, já que era sua mãe.
Se soltando de Connor, ela entra na sacada a tempo de ver sua mãe
desferir um tapa em Felicity, a viscondessa de Plonsworth.
— Nunca mais ouse falar sobre a minha filha novamente — Eloise diz
nervosa.
— Mamãe? — Lucy chama e Eloise se vira rapidamente.
— Vá para dentro, Lucy.
— O que está acontecendo?
— Isso não ficará assim — Felicity diz com a mão no rosto. — Tornarei
a vida dela um inferno.
— Ouse tentar. — Eloise vai para mais perto de Felicity, que corre para
dentro do salão.
— Mamãe? — Lucy toca o braço de Eloise, que olha para a filha, com
seus olhos se enchendo de água. — O que houve?
— Está tudo bem, Lady Davenport?
— Sim — Eloise diz fracamente.
Lucy abraça a mãe e as duas vão para dentro do salão. Como se sentisse
que a esposa precisasse dele, Ethan surge rapidamente ao lado delas.
— O que houve?
— Mamãe estava discutindo com Lady Plonsworth. Não sei ao certo o
que aconteceu, papai.
— Vamos para casa, Ethan, por favor.
— Posso levar Lucynda mais tarde para casa, a senhorita Davis pode
ficar nos acompanhando.
— Não — Eloise responde rapidamente e se agarra ao paletó do marido.
— Lucy vem junto.
— Está bem, mamãe, eu vou. — Lucy olha para o seu futuro noivo, que
concorda.
A curta distância até a mansão Davenport é feita em silêncio, Lucy
percebe que seus pais parecem conversar apenas com o olhar. Sempre
admirou que os dois pudessem fazer isso, eles se entendiam sem precisar de
palavras.
Ao entrar em casa, Lucy diz um boa-noite e começa a subir as escadas
para subir para seu quarto.
— Você é minha filha — Ethan diz e Lucy para na escada e olha para
ele.
— Claro que sou sua filha. — Ela ri.
Eloise aperta a mão do marido, que respira fundo.
— Não, Lucy, você é minha... minha filha. Eu sou seu pai.
— O... — Ela olha para a mãe, que concorda com a cabeça. Ela desce os
degraus se segurando ao corrimão. — Não sou sua pupila?
— Não. Quando a segurei em meus braços com algumas horas de vida,
soube que jamais poderia viver sem você. Não sabia ao certo o que fazer
para que fizesse parte da minha vida, até que uma força maior intercedeu.
Eloise era a viúva de meu pai, sua mãe tinha falecido há poucos dias, então
a única coisa que consegui pensar foi em torná-la minha pupila aos olhos de
toda a sociedade e assim você teria toda a educação, o conforto e o respeito
que deveria ter por ser minha filha.
— Por que nunca me contaram? Não acharam que eu gostaria de saber?
— Você cresceu como nossa filha, nunca perguntou sobre seus pais
biológicos, não havia motivos para contar — Eloise explica.
— Então por que agora?
— Felicity e a mãe descobriram a verdade, lembra que, quando tinha
seis anos, elas foram nossas convidadas?
— Sim, eu a ataquei diversas vezes. Ela era uma bruxa, não a suportava.
— Ela descobriu a verdade — Ethan diz. — Você aos seis anos já era
parecida com minha mãe, agora está ainda mais parecida. Ela entendeu que
era minha filha e não minha pupila. Depois de todos esses anos, ela decidiu
contar a todos a verdade. Por isso seu nome está em todas as rodas de
fofoca em Londres.
— Se Connor souber...
— Acredito que ele já saiba, meu amor — Eloise diz e vai para perto da
filha. — Tentamos esconder de você os mexericos. Aaron foi o primeiro a
ficar sabendo e nos alertou. Hoje, ao encontrar Felicity, perdi a cabeça e
acabei lhe desferindo um tapa. Minha vontade era de dar um tiro naquela...
naquela...
— Seria presa, mamãe — Lucy diz com uma risada.
— Saber a verdade muda alguma coisa para você? — Ethan pergunta.
— Sempre me amou como uma filha...
— Sim, tentei manter distância, mas você não permitiu. Entrou em meu
coração como um furacão, tomou posse de tudo. Minha vida jamais seria a
mesma sem você como minha filha. Não nasceu de meu ventre, Lucy, mas
sim do meu coração, eu escolhi ser sua mãe.
— Nunca me senti menos amada por vocês dois. Nunca senti a falta de
ter pais, porque eu já os tinha. Eu amo vocês dois, nada no mundo pode
mudar o que sinto por vocês.
Ethan puxa Lucy para os seus braços e Eloise abraça os dois. Não
importava se era filha ilegítima de seu pai, Ethan era o seu pai, o homem
que esteve ao seu lado durante todos esses anos. Ela o amava
incondicionalmente.
— Connor quer se casar o quanto antes, talvez a luz dos acontecimentos
seja o melhor — Lucy diz ao se separar deles.
— Não, não devemos apressar as coisas, Lucy. Esperou três anos para
encontrar alguém com quem quisesse se casar, por que apressar tudo? —
Eloise questiona.
— Ele me ama, mamãe, e quer se casar, não vejo por que esperar.
— Lucy, você confia em mim, como seu pai, para fazer o que for melhor
para você?
— Claro que confio, papai.
— Então, ouça seu pai, espere mais um pouco, não vamos apressar tudo,
ou no final poderá se arrepender. Me preocupo com você, por isso digo que
devemos esperar.
Aaron não tirava os olhos de Lucy e Connor enquanto caminhavam no
salão, sentia que algo de muito errado estava acontecendo e que poderia
afetar Lucy irremediavelmente. Ao avistar Wesley, ele atravessa a multidão
e se aproxima dele.
— Reilish. — Wesley estica a mão para ele. — Este é William, de quem
lhe falei.
— Boa noite.
— Como vai?
— Estaria muito melhor se já tivesse descoberto alguma coisa para
desmascarar Walker.
— Ansioso, rapaz? — Wesley ri.
— Walker tenta convencer Lucy a se casar o quanto antes, temo que
tente comprometê-la de alguma forma.
— William? — Wesley questiona o amigo.
— Minhas fontes informaram que não é problema de dinheiro, o pai dele
não foi um perdulário, possuem uma grande fortuna, então o dote de
Lucynda não é algo que deseje.
— Então por que a pressa? — Wesley pergunta aos dois.
— Não estaria apaixonado?
— Não — Aaron responde. — Ele não ama Lucynda, não é por isso que
quer apressar tudo.
— Estou esperando alguns informantes me retornarem, a única solução é
ficar de olho na menina. — William dá de ombros.
— Você acha que ele teria algo a esconder, e que por isso quer se casar?
— Esconder? — Aaron olha para Wesley sem entender.
— Seria possível. — William concorda e com pena de Aaron, que não
entendia a conversa, explica: — Ele poderia gostar de homens e se casar
seria uma forma de esconder isso, tentaria amenizar a situação com o pai
talvez?
— Walker não gosta de homens, já o vi em diversas festas regadas a
bebidas e mulheres. Esse não é o motivo.
— Existem aqueles que preferem os dois. — Wesley dá de ombros. —
Não deixaria de ser um motivo para um casamento às pressas.
— Vou aprofundar minhas investigações, uma vez que dinheiro não é
problema, vou mudar a linha de pensamento — William diz e Aaron
concorda.
— Obrigado e, por favor, seja rápido.
Aaron estava completamente dividido entre manter um olho em Lucy e
sua preocupação com o pai. Lincoln tinha momentos em que estava feliz,
parecia melhor; e em outros, estava fraco demais para sair da cama. Temia o
que poderia acontecer com o pai, o amava demais e não queria perdê-lo.
— Já escolheu uma noiva? — Sua mãe pergunta entrando no escritório,
que até então era de seu pai, mas a cada dia se tornava mais seu.
— Não, mamãe, praticamente não tive tempo para pensar nisso. O papai
precisa de mim.
— Aaron, seu pai deseja conhecer sua esposa, ele se agarra a isso.
— Então, talvez deva demorar o máximo possível, assim ficará mais
tempo aqui com a família.
— Sabe que não é assim que funciona. — A mãe dá um sorriso fraco.
— Estou preocupado com Lucynda, Walker quer se casar o quanto antes,
mas existe alguma coisa errada.
— Eloise me disse que Lucy concordou em esperar até que Ethan diga
que é o momento certo.
— Ele pode comprometê-la, sabe muito bem que um beijo em um canto
escuro será suficiente para que toda a sociedade comente.
— Eu sei. — Sarah suspira. — Mas também sei que sua prima é
geniosa, não vai permitir que Walker faça algo que ela não queira.
— Ela não é minha prima — Aaron resmunga, o escritório fica em
silêncio, então ele levanta o olhar para sua mãe, que está o analisando. — O
que foi?
— Você a ama.
— Claro que a amo, é minha prima, crescemos juntos, é insuportável as
vezes...
— Não, Aaron, você não a ama como sua prima, você a ama como uma
mulher.
— Não fale besteiras, mamãe.
— Não estou. Alguns anos atrás, Eloise e eu costumávamos brincar que
vocês dois acabariam se casando. Que todo aquele ódio infantil se
transformaria em um amor de adultos. Foi o que aconteceu, não foi?
— Mamãe, Lucy é minha prima.
— Ela não é... Aaron, muitos primos distantes se casam. Seu pai é primo
de Ethan, você e Lucy estão muito distantes, ela é filha de um primo dele
por parte de pai. Qual o motivo para não dizer a ela o que sente?
— Não há nada a dizer.
— O conheço melhor do que você, sua preocupação com Lucy não é por
amizade ou preocupação.
— Ela está sendo enganada.
— Então vá até ela e diga o que sente. Peça para que ela não tome
nenhuma decisão sem lhe dar a oportunidade de mostrar que é muito
melhor do que Walker.
— Mãe...
— Aaron, quero apenas o seu bem, quero se seja feliz. E se Lucy é a
mulher que o fará feliz, por que não luta por esse amor?
— Tio Ethan não concordaria.
— Tenho certeza de que seria o contrário, ele ficaria imensamente feliz
se fosse você a se casar com Lucy e não o Walker. Pergunto novamente,
Aaron, por que não vai atrás do que deseja? O que o impede de lutar pela
dama que ama? A sociedade? Sabe o quanto adoram uma fofoca, vão falar
de todas as maneiras. Vai permitir que a moça que você ama se case com
um homem que, segundo você, pode destruir a vida dela?
— Não ouviu sua mãe, garoto? — Aaron e Sarah se assustam e olham
para a porta. Lincoln estava apoiado em sua bengala e um criado o ajudava
a permanecer em pé. — Se quer essa moça para você, lute por ela. Não é
um covarde, é meu filho, eu o ensinei a ir atrás de seus sonhos e do que
deseja.
Aaron olha para sua mãe, que sorri. Ele se levanta rapidamente e vai até
o pai o abraçando forte. Após lhe dar um beijo em sua testa, ele corre para o
saguão gritando para prepararem a sua carruagem.
Faltava vinte minutos para que Connor viesse visitá-la, os dois tiveram
uma discussão três dias antes, porque ela dissera a ele que esperasse mais
um pouco para um noivado. Ele não queria esperar, mas Lucy prometera a
seu pai que seguiria seu conselho. Tinha certeza de que Connor ainda estava
irritado, mas enviara uma nota informando que iria naquela tarde para vê-la.
Como de costume, quando está ansiosa ou agitada, ela pede para que
uma mesa seja posta com seus quitutes favoritos para tomar chá. Tinha
convidado sua irmã para acompanhá-la, já que sua mãe tinha ido até a casa
de tia Dayse e não poderia estar presente.
— Ninguém adora tanto tomar chá com biscoitos e bolinhos como você
— Agatha diz com uma risada para a irmã.
— A mamãe que despertou esse interesse em mim, desde que eu era
pequenininha, criava a hora do chá, precisava ver o papai sentado no chão
esperando que eu o servisse.
— Papai faz qualquer coisa para os filhos, mesmo que seja passar
vergonha — Agatha concorda. — Acha que o senhor Walker um dia fará
isso com suas filhas?
— Não sei, não conversamos sobre filhos. — Lucy dá de ombros.
— Eu conversaria com ele, é um assunto muito importante; se o
cavalheiro não for um pai como o papai, não me casarei com ele.
— Sabe que é meio difícil de saber sem que ele tenha um filho.
— Sempre dá para saber, mamãe disse que a melhor forma de saber se
alguém será um bom marido, é só ver como ele trata a própria mãe.
— A mãe do senhor Walker morreu, então não há como eu saber.
— Cheguei na hora certa? — Lucy olha para Aaron, que entra na sala
sem qualquer convite e se senta entre ela e Agatha.
— Quem lhe convidou?
— Ninguém, vim para uma visita e já que estão tomando chá, ficarei
com vocês.
— Não seja rude, Lucy, sirva o chá.
— Você ouviu a Agatha, não seja rude e me sirva o chá.
— O que está fazendo aqui, Aaron? — Lucy pergunta após lhe servir
uma xícara.
— Precisamos conversar. — Ele dá um gole no líquido quente. — Meus
pais me abriram os olhos, e por isso estou aqui.
— E o que não queria ver? — Agatha questiona.
— Meus sentimentos. — Aaron olha para Lucy. — Não deve se casar
com Walker, na verdade, deve dizer a ele que nunca mais quer vê-lo.
— Isso seria uma mentira.
— Não, não seria, porque realmente não vai querer que ele esteja por
perto. Já que o único homem que ficará ao seu lado serei eu.
— Está louco?
— Não, estou muito lúcido. Dirá a Walker que não deseja mais que ele
lhe faça a corte, porque quem fará sou eu.
— Você quer se casar com a Lucy?! — Agatha grita e Aaron sorri.
— Sim. Por muito tempo não compreendi o que eu desejava de verdade.
— Aaron, você enlouqueceu!
— Estou muito bem da cabeça, Lucy. — Ele deixa a xícara sobre a mesa
e pega a mão dela. — Ele não a compreende como eu, não pode fazê-la
feliz como eu. Seria loucura da sua parte querer se casar com ele.
— Ele me ama e eu... — Lucy para de falar.
— E você o quê? Não sabe nem mesmo o que sente por ele, mais um
motivo para que não se case.
— Oras, você é que quer me deixar louca. — Lucy solta a sua mão e
começa a mexer em tudo na mesa, nervosa. — Não pode achar realmente
que vai chegar aqui e dizer que devo me casar com você e não com o
Connor, e que tudo será da forma que deseja.
— Por que não? Sou muito melhor do que ele.
— Ele tem razão.
— Agatha, por favor, não dê motivos para que ele continue com essa
loucura.
— Por mim, ela pode continuar à vontade.
— Aaron é muito mais bonito, inteligente e charmoso que o senhor
Walker. O seu pretendente parece que tem dor de barriga. Eu me casaria
com o Aaron.
— Então case-se você com ele.
— Tenho apenas doze anos, não posso me casar com ele. — Agatha
revira os olhos e Aaron ri. — Você pode, será muito mais feliz com ele.
— Você ouviu, sua irmã é muito sábia.
— Deveria ir embora, Aaron, Connor chegará a qualquer momento.
— Agora que sei disso, é que ficarei a tarde toda. — Aaron se estica na
cadeira ficando confortável. Ele observa Lucy atentamente, seu semblante
fecha, suas mãos partem para a bandeja de bolinhos, mas Aaron é mais
rápido a tirando de sua frente, ele se levanta e arremessa todos na lareira.
— Ele te conhece perfeitamente. — Agatha segura a barriga de tanto rir.
— O que está acontecendo? — Ethan entra na sala e olha para todos.
— Lucy queria arremessar bolinhos no Aaron, mas ele jogou tudo na
lareira — Agatha responde e o pai abre um sorriso.
— Nunca vi alguém ser mais rápido do que ela.
— Conheço todos os truques sujos de sua filha.
— Se tenho truques sujos, não deveria querer se casar comigo.
— Casar? — Ethan olha para Aaron.
— Vim até aqui para dizer a sua filha que deve se casar comigo e não
com Walker. Agatha e eu estávamos listando todos os motivos pelos quais
sou muito melhor do que ele.
— Não penso assim.
— Lucy, ele está te enganando. Ele não a ama, não quer se casar com
você por motivos corretos.
— É o que você diz, mas está apenas tentando me ludibriar. Connor é
um bom homem.
— Obrigado por me defender, minha querida.
— Agora sim está ficando interessante. — Agatha puxa o pote de
biscoitos para ela e assiste a cena à sua frente.
— Walker — Aaron rosna o nome.
— Como vai, Reilish? — Connor entra na sala e apoia a mão nos
ombros de Lucy, que está sentada.
— Chegamos tarde para a discussão? — Ethan gira ao ouvir a voz do
cunhado.
— Parece que não.
— Que bom, já que temos muito o que dizer. — Ele aponta para
William, que está ao seu lado, e Aaron abre um grande sorriso.
— Mal posso esperar para saber o que seria.
Vendo que o assunto era sério e que provavelmente haveria uma grande
discussão, Ethan sugere que todos vão para a sala onde ficariam mais
confortáveis.
— Você não, mocinha. — Ele segura Agatha pelo vestido.
— Mas, papai, como saberei o que aconteceu se não estiver presente?
— É muito nova ainda para esse tipo de assunto, vai para o seu quarto.
— Aaron precisa da minha ajuda para defendê-lo.
— Tenho certeza de que ele pode se cuidar sozinho, agora vai.
Agatha sobe batendo os pés, fazendo um verdadeiro teatro para que
todos saibam o quanto está irritada por não poder participar da conversa.
Uma vez que todos estão acomodados na sala, Ethan indica para que
Wesley fale.
— Algo atormentou a mim e Aaron por muito tempo. O que levaria
Connor Walker a decidir se casar com Lucy? — Wesley diz.
— Por ser eu não seria um bom motivo? — Lucy pergunta.
— Você seria todos os motivos do mundo para um homem querer se
casar, se ele fosse honesto sobre o seu desejo — Aaron diz. — O que
Walker não é.
— Não lhes dê ouvidos, Lucy, sabe que a amo.
— Não diga mentiras — William diz. — Sempre achei que era por causa
dinheiro, mas estava enganado, depois acreditei que seria por sua orientação
sexual, o que também se mostrou um equívoco.
— Orientação? — Lucy pergunta confusa, mas todos os homens da sala
a ignoram.
— Investiguei um pouco mais a fundo e já estava perdendo as
esperanças, quando ontem à noite, por um acaso, encontrei seu pai —
William diz a Connor, que parece ficar preocupado. — Ele estava no que
poderíamos dizer: um estado nada sóbrio. O questionei sobre o filho e ele
acabou confessando que tinha obrigado o rapaz a se casar, se quisesse
manter tudo em segredo.
— O que seria mantido em segredo? — Ethan pergunta abrindo e
fechando as mãos.
— Walker possui uma amante e dois filhos bastardos. A quem visita
diariamente, seu pai ameaçou deserdá-lo e passar tudo para o seu irmão
caso continuasse com o caso extraconjugal, a menos que se case e tenha
uma esposa respeitável, então poderia manter a amante e os filhos perto
dele. Mais precisamente nas mesmas terras, o prazo que o pai deu para o
casamento está findando, por isso está tão desesperado — Wesley responde
ao cunhado. — Ele tinha todo um plano preparado para comprometer Lucy
no último baile, mas por Eloise ter passado mal, seus planos foram
frustrados.
— É verdade? — Lucy pergunta para Connor.
— Claro que não — ele diz e se ajoelha na frente dela. — Estão
mentindo, não querem que eu me case com você, é tudo uma mentira.
— Lucy, sou seu tio, jamais mentiria para você.
— Naquela noite disse que, se me comprometesse, tudo seria resolvido
— ela diz baixinho.
— É mentira! — Connor grita. — Lucy, eu te amo, somos perfeitos um
para o outro.
— Não grite com ela. — Aaron puxa Connor com força, que se
desequilibra e acaba caindo.
— Sou o único que vai querer se casar com você, Lucynda. Acha
mesmo que algum nobre se casará sabendo que é uma bastarda?
— Você tem dois filhos bastardos e quer jogar isso na minha cara? —
Lucy se levanta. — Pois saiba que não sou uma bastarda e, mesmo que
fosse, isso jamais me definiria.
— Não importa. — Connor se levanta e bate na roupa para tirar os
pelinhos do tapete. — Ninguém se casará com você, sou a sua única opção.
— Isso não é verdade, fui pedida em casamento hoje.
— Hoje? — Connor ri e olha para Aaron. — Por ele? Claro, ele só a
pediria em casamento por pena da sua situação. Quem iria, em sã
consciência, se casar com a filha bastarda de um conde, sem algum motivo
por trás?
Aaron sente vontade de socar Connor, mas antes que se aproxime o
homem em questão é acertado por um copo na cabeça, o que lhe causa um
corte na sobrancelha.
— Nunca mais ouse falar assim de mim. Sei o meu valor, e não preciso
que se casem comigo por pena, compaixão, ou por motivos obscuros. Vá
embora, senhor Walker.
— Não ficará assim! — ele a ameaça, mas é puxado violentamente por
Ethan.
— Não ouse ameaçar minha filha, vá embora antes que eu o arrebente e
seu pai receba apenas pedaços de seu herdeiro.
Connor sai irritado da sala, batendo a porta e fazendo um grande
alvoroço. Aaron olha para Lucy, que está de queixo erguido, tentando se
controlar para não chorar.
— Acho que essa temporada terminou para mim, papai. Se não se
importar, preferia ir para o campo, não me casarei esse ano.
— Lucy, sabe que não é verdade, eu a pedi em casamento.
— Não quero sua compaixão, Aaron.
— Não a pedi em casamento por pena, maldição! Eu a amo, quero me
casar com você.
— Por favor, papai.
— Falarei com sua mãe assim que ela chegar.
Lucy acena com a cabeça e sai da sala.
— Tio Ethan... — Aaron para de falar quando Ethan levanta a mão.
— Realmente a ama, Aaron? Sempre brigaram, discutiram a vida inteira.
— Eu a amo. Percebi um pouco tarde demais, mas realmente a amo.
— Convencerei Eloise a ir para o campo com as meninas, arrume tudo o
que tem para arrumar aqui em Londres e depois vá para lá. Sem os olhos
questionadores da sociedade sobre vocês, provavelmente será mais fácil
para convencê-la a se casar.
— O que haveria para arrumar?
— Uma certa viúva que aceita suas visitas talvez? — Ethan diz e Aaron
suspira. — Convença seus pais a acompanhá-lo. Se chegarem com a
desculpa de que o campo fará bem para o seu pai, Lucy não poderá expulsá-
los de lá.
— Farei isso.
Assim que Aaron se despede e sai da sala, Ethan olha para Wesley.
— Como foi que não percebi que ele era apaixonado por Lucy?
— Acho que nem mesmo ele tenha percebido antes. — Wesley passa o
braço por cima do ombro de William. — Vamos deixar que resolva tudo,
será uma luta complicada para convencer Lucy de que Aaron é o melhor
para ela.
— Eloise saberá como fazer isso, Lucy algumas vezes é cabeça-dura
como eu, e somente Eloise sabe lidar comigo. Obrigado pela ajuda,
William.
— Imagine, sabe que me importo com essa menina, ela é sobrinha do
Wesley, então para mim é como da família.
Ethan sorri para os dois e se despede deles. Poucos sabiam a verdade
sobre William, ele mesmo somente soube que Wesley e William estavam
apaixonados, porque Eloise ouviu do próprio irmão. Não entendia como
isso funcionava no casamento do cunhado com Dayse, mas, de alguma
forma, parecia dar certo. Para a sociedade, Wesley e Dayse eram o casal
perfeito, felizes, com dois filhos.
Mas, na intimidade, os dois possuíam amantes, e sabiam a verdade sobre
isso e não se importavam. Dayse amava uma mulher, enquanto Wesley
amava um homem. Relações essas que a sociedade jamais aceitaria. Então
não havia solução a não ser viverem escondidos com as pessoas que
realmente amavam.
E era graças a esse amor que William tinha por Wesley que a reputação e
a felicidade de sua filha tinha sido salva. E como pai, ele jamais poderia
acusar ou fazer algo contra o homem que ajudou sua filha, simplesmente
porque William preferia homens. O que seu cunhado e seu amante faziam
da vida deles não era da conta de Ethan, que agora tinha uma dívida com
William.
Fazia uma semana que Lucy estava com sua mãe e a irmã na casa de
campo da família. Tudo o que ela queria era um pouco de paz, não queria
pensar na mentira que Connor contara a ela e o quanto fora estúpida por
acreditar em tudo que ouviu.
Estava disposta a não procurar por um noivo naquele ano. Passou os
dois anos anteriores solteira, poderia muito bem passar mais um. Ter um
marido em sua opinião não definiria quem ela era. E a última coisa que faria
é se casar simplesmente porque ficaria muito melhor aos olhos da
sociedade.
Seus dias se resumiam a ensaiar com seu violino, passear com a irmã no
jardim, ler um bom livro. Tudo parecia maravilhoso para ela, mas precisava
confessar que algumas vezes sentia falta de dançar em um baile, assistir ao
teatro ou a ópera, mas precisava daqueles dias de sossego para entender
tudo o que tinha acontecido com ela. Sua vida tinha mudado completamente
em pouco tempo.
Estava sentada no solário com um livro em suas mãos, completamente
distraída com um passarinho que saltitava no balaústre se aproximando
dela, o que fez com que não percebesse que tinha companhia.
Aaron estava apoiado no batente da porta, olhando para Lucy. Ela
continuava linda, seu semblante tranquilo enquanto observava um
passarinho. Involuntariamente, ele abre um sorriso.
— Lucy — ele a chama baixinho para não a assustar, ela gira os olhos
para ele e fica surpresa com a sua presença.
— O que está fazendo aqui?
— Meu pai teve uma leve piora, minha mãe decidiu sair de Londres para
que tivesse um pouco de ar puro. Tio Ethan sugeriu que o trouxéssemos
para cá, assim ele teria companhia de outras pessoas. Como sua visita com
Agatha da outra vez o deixou animado, mamãe concordou que faria bem.
— Está muito ruim?
— Compramos uma cadeira de rodas para ele, ficar em pé o cansa
muito. — Aaron se senta ao lado dela. — Espero que a companhia e o ar
puro o ajudem.
— Sinto muito, sei o quanto o ama.
— Ele subiu para o quarto para descansar, mas, quando acordar, talvez
se tocar um pouco para ele o fará se sentir melhor.
— É claro que tocarei para ele. — Lucy abre um sorriso. — Quando irá
embora?
— Tentando se livrar de mim?
— Não, é que como cuida de tudo para o seu pai, achei que não ficaria
muito tempo.
— Vou ficar, quero ter certeza de que ele está melhor antes de ir. Não
quero chegar em Londres e ouvir que ele... — Aaron leva as mãos ao rosto
e respira fundo. Ele sente que Lucy o abraça, levando sua cabeça de
encontro ao peito dele.
— Tio Lincoln não vai morrer, essa temporada no campo lhe fará bem,
você vai ver.
— Obrigado por tentar me animar. — Ele passa os braços pela cintura
dela a mantendo por perto.
— Não deveríamos estar assim. — Ela tenta se soltar, mas Aaron a
segura mais forte, ele levanta a cabeça para olhá-la.
— Está enganada, é justamente assim que deveríamos estar, Lucy.
Quando vai entender que ficarmos juntos é o ideal?
— Deixe-me ir — ela pede baixinho.
Aaron se levanta e segura o rosto dela delicadamente, ele se inclina e
roça os lábios sobre os dela. Uma vez que ela não grita ou o empurra, ele
cola os lábios, um de seus braços passa pela cintura dela, moldando seu
corpo de encontro ao dele. Ela solta um suspiro e ele aprofunda o beijo,
quando os dois estão sem fôlego ele se separa dela.
— Esse beijo diz tudo, Lucy.
— Não sei o que quer dizer.
— Você me deseja da mesma forma que eu a desejo.
— Desejo não é o suficiente para alguém se casar.
— Discordo, metade da sociedade se casou por desejo, a outra por
necessidade de dinheiro. Como não precisamos de dinheiro, não entramos
na última categoria.
— Nem na primeira, já que eu não o desejo.
— Não diria isso tão rapidamente, já que está mentindo. Você me deseja,
apenas não se deu conta disso.
— Melhor eu ir para dentro. — Lucy corre para dentro da casa e escuta a
risada de Aaron atrás dela.
O beijo foi algo inesperado, Connor não a beijara e somente agora se
deu conta disso, ele sempre dizia que a respeitava e que não queria de
alguma forma passar dos limites, mas tinha planos para comprometê-la e
obrigá-la a se casar com ela.
Ele era um bastardo sem escrúpulos, que faria qualquer coisa para
obrigá-la a se casar, sem se importar se a reputação dela estaria
comprometida, se seria alvo de fofoca e mal falada na sociedade. Só se
importava com ele mesmo.
Após um breve cochilo, Lucy decide dar um passeio, seu tio ainda
estava descansando, Sarah e sua mãe estavam na sala conversando,
enquanto Agatha recebia suas lições, Aaron estava em algum lugar na
propriedade e ela não queria saber onde.
Seu destino era sempre o pequeno rio aonde ia com sua mãe quando
criança, ela abre um sorriso ao se lembrar de sua fantasia infantil de que seu
peixe crescia e construía uma família. Muito provavelmente ele já tinha
sido servido em alguma refeição para a família.
Adorava saber que os pais permitiam que sua imaginação fosse fértil,
que não a podassem; se fosse honesta, diria que eles sempre permitiram que
Lucy fosse Lucy. Não tentaram moldá-la ao que a sociedade esperava que
ela fosse.
Era uma questionadora por natureza, e seu pai a incentivava a perguntar
tudo, questionar tudo e jamais aceitar uma simples resposta. Provavelmente
era o motivo para que ainda estivesse solteira, cada pretendente que surgira
em sua vida nesses três anos, ela se questionava se ele seria o marido ideal,
e em todas a resposta era não.
Apenas com Connor não ouvira a sua razão e quase teve sua vida
comprometida.
Ao se aproximar do rio, Lucy nota uma pequena agitação, o barulho da
água deixava claro que alguém estava nadando, não era um criado, porque
eles não usavam aquele rio. Só existia uma pessoa que estava faltando
quando saiu de casa.
Lucy se esconde atrás de uma árvore e olha para o rio, de onde um
Aaron vestido apenas seus calções sai da água agitando os cabelos. Seus
ombros eram largos, seu peitoral parecia firme e marcado, os olhos descem
mais um pouco para a cintura e ela se surpreende com o volume que
encontra.
Lucy sabia muito bem o que era, tinha visto seu irmão quando era bebê.
Sua mãe explicara a diferença entre um menino e uma menina. E quando
chegou a sua primeira temporada, explicou exatamente de onde vinham os
bebês e como eram feitos. Então ela sabia muito bem o que estava marcado
pelo calção molhado.
— Sei que está aí, Lucy — Aaron diz com uma risada e ela leva as mãos
à boca para evitar de responder. — Ouvi você se aproximar, e estou vendo a
barra do seu vestido.
— O que está fazendo aqui?
— Decidi nadar um pouco, o dia está quente e propício para isso, faz
tempo que não nado em um rio.
Lucy sente vontade de espionar novamente, mas se mantém virada para
o outro lado, de olhos fechados. Ela tenta forçar sua audição para ouvir o
que Aaron está fazendo, mas ele é silencioso demais.
— Eu vim dar um passeio — ela diz tentando fazer com que ele fale
alguma coisa e assim descobrir sua posição.
— Acredito que veio me espionar — ele responde e ela se assusta, já
que ele está praticamente colado a ela.
— O que está fazendo? — Ela apoia as mãos em seu peito e tenta
empurrá-lo.
— Você estava me espionando, deu uma bela olhada? — pergunta com
um sorriso, praticamente grudado a ela. Seu peito molhado está ensopando
o vestido dela. — Viu o que está perdendo?
— Não estou perdendo nada, agora saia da minha frente.
— Lucy, Lucy... por que tenta negar que gostou do que viu?
— Não vi nada.
— Mentirosa. — Aaron ri e aproxima seu rosto. — Está corando, Lucy,
suas bochechas estão com um lindo tom rosado. — Ele faz um carinho nela
e a beija delicadamente. — O que você quer?
— Não quero nada — ela diz ofegante.
— Não sabia que era tão mentirosa. Mas não se preocupe, sei
exatamente o que deseja.
Uma das mãos de Aaron desce por seu corpo, os dedos roçam sobre o
seu decote e vão em direção a sua cintura se abaixando um pouco mais até
suas coxas, ele levanta a perna dela para que o envolva pela cintura,
deixando seus corpos ainda mais colados.
Os lábios de Aaron roçam por seu pescoço, beijando e mordiscando, sua
cabeça desce lentamente até o topo dos seios, com a mão livre ele puxa o
decote liberando um dos seios para que ele possa beijar.
— Aaron — ela suspira, suas mãos agarram seus cabelos, mas ele não
para.
A mão dele segura o seio enquanto ele dá leves chupões, ele solta um
gemido angustiado e toma a boca dela em um beijo possessivo. Ele a queria
de todas as formas e agora que tinha sentido o gosto, não poderia parar.
— Diz que também quer isso, diz que me deseja também. — Ele a
prende com seu corpo de encontro a árvore.
Lucy sente a pele de Aaron de encontro ao seu mamilo sensível após os
chupões, a boca dele continua tomando a dela, sem permitir que ela possa
falar. Ele a possuiria ali mesmo se não o impedisse, sua cabeça estava
confusa, não sabia se desejava ser possuída ou não. Seu coração e sua razão
estavam brigando entre si, enquanto ele a fazia refém de seu desejo.
— Lucy? — ele chama parando de beijá-la. — O que você quer, Lucy?
— Me... me solta — ela pede e ele se afasta rapidamente.
Ela se vira dando as costas para ele e se arruma rapidamente.
— Você queria tanto quanto eu.
— Não sei, não consigo pensar. Quando faz essas coisas não consigo
pensar, Aaron.
— Porque me deseja, é isso que o desejo faz com uma pessoa; ela se
entrega completamente.
— Não sei se é o suficiente para que eu me entregue. — Uma vez
composta ela gira para enfrentá-lo. — Vou para casa.
— Isso vai acontecer novamente. — Aaron segura o braço dela. — Não
tem como evitar, Lucy, no final estaremos completamente unidos pelo
desejo, eu a possuirei de todas as formas e você não irá se opor, porque é o
que deseja também. O quanto antes perceber isso melhor.
— Acho que está enganado.
— Não estou. — Ele ri e a solta. — Pode correr agora, Lucy, mas será a
última vez que fará isso, na próxima não vai conseguir se afastar e, então,
será minha.
O jantar estava tranquilo, Eloise optara por algo mais simples para que
não cansasse Lincoln ainda mais. Lucy estava sentada o mais longe possível
de Aaron, que olhava para ela a todo momento e sorria, o que a estava
irritando, mas ao mesmo tempo deixando sem graça. Ainda se lembrava do
beijo, da forma como ele a prendeu de encontro com a árvore e tudo o que
fez com ela e seu corpo.
— Espero que não esteja causando problemas a você, minha querida —
Lincoln diz a Eloise.
— Claro que não está, família nunca nos causa problemas. Sua presença
é bem-vinda. Ethan está para chegar, disse que Londres está calmo demais
sem a nossa presença.
— Realmente, Londres sem Lucy fica muito pacífica.
— O que está insinuando, Aaron? — Lucy reclama.
— Você é um terremoto misturado com furacão, meu amor. Quando não
está presente, tudo fica calmo — ele diz, todos à mesa ficam em silêncio
muito provavelmente por terem entendido o que “meu amor” significava
naquele momento.
— Não sou seu amor.
— É sim, só está lutando contra.
— Não sei por que está lutando contra. Se fosse eu, já teria aceitado o
pedido dele. — Agatha dá de ombros.
— Tenho o direito de aceitar ou negar a qualquer pedido, papai e mamãe
me garantiram isso.
— Sim, tem razão — Eloise concorda. — A questão aqui é que você
está lutando contra algo que não deve lutar.
— Mamãe...
— Lucy, eu a conheço como ninguém, ouça o meu conselho. Dê uma
chance para Aaron. Você deu ao Connor e nem o conhecia direito. Por que
não fazer o mesmo com o Aaron?
— Obrigado, tia Eloise — Aaron diz e olha para Lucy. — Nossas mães
sempre sabem o que é melhor para os filhos, então escute o que sua mãe
está dizendo. Por que não me dar uma chance de mostrar que posso ser seu
marido?
— Você é meu primo.
— Apenas por consideração.
— Não, você é meu primo — Lucy diz e olha para a mãe.
— Lucy, ele é seu primo distante, e muitos primos se casam. E se existe
realmente a chance de que seja ele a pessoa que você procurou por tanto
tempo?
— Sempre achei que iriam acabar se casando — Sarah diz com uma
risada.
Lucy olha para todos à mesa sem acreditar, apenas Lincoln não tinha se
manifestado, mas podia ver em seus olhos que concordava com o que
disseram. Será que ninguém entendia que eram primos? Que seria mais um
escândalo na vida dela, além de ser considerada uma bastarda?
— Lucy, tudo o que estou pedindo é uma chance. — Aaron olha para ela
intensamente.
— Com licença. — Ela se levanta e sai da mesa.
Estava confusa, irritada. Tinha passado por uma situação constrangedora
com Connor, somado ao fato de que toda a sociedade estava comentando o
fato de que era uma bastarda.
Lucy sabe o quanto é amada por seus pais, para ela não importava se era
filha legítima ou não de Ethan, se era sua pupila. Tinha crescido sendo
amada por eles, nunca houve diferença entre ela e seus irmãos.
Não conseguia entender por que a sociedade queria tanto julgar se uma
pessoa era legítima ou não. Será que nunca tratariam uma pessoa por quem
ela era e não por seu nascimento?
— Por que está aqui fora? — Lucy escuta a voz do pai, estava tão
perdida em pensamentos que não tinha ouvido sua carruagem chegar.
— Porque todos lá dentro decidiram que devo me casar com Aaron —
ela responde.
Ethan se senta no banco ao lado dela e passa um braço pelos ombros
dela a puxando para perto.
— Não gosta dele?
— Nós brigamos a maior parte do tempo.
— Sua mãe e eu também brigamos no início. Ela não me suportava.
— Impossível ser verdade, lembro muito bem dos dois juntos.
— Não brigamos na sua frente. Quando cheguei aqui e disse a ela que
iria me casar e trouxe moças para que pudesse escolher, sua mãe ficou
muito brava. Discutimos a todo momento.
— Lembro delas, tia Dayse era uma.
— Sim, mas eu estava mais propenso a escolher Felicity. Sua mãe que
me mostrou que seria um erro. Só que eu era tolo demais para perceber que
a minha escolha ideal estava ali na minha frente. E agora está fazendo o
mesmo.
— Papai...
— Lucy, se não der essa oportunidade para Aaron, pode se arrepender
um dia. Como eu me arrependo de ter lutado contra o que eu sentia por sua
mãe. Se tivesse dado uma chance para a sua mãe, não teríamos Felicity
fazendo fofocas e, principalmente, ela jamais teria a machucado quando
criança.
— Lembro que não aceitei tudo o que ela fazia.
— Acho que nunca tantos bolinhos e sucos voaram nessa casa, como
naquela época.
— Bolinhos voam sozinhos, papai — ela diz e ele solta uma gargalhada.
— E então? Vai pelo menos permitir que Aaron mostre quem ele
realmente é, que talvez seja o marido que você deseja?
— Não posso prometer que será fácil.
— Se fosse fácil, não seria você. Sei que irá dar muito trabalho para o
Aaron, e isso é o ideal, faça com que ele lute por você.
— E se eu decidir que quero me casar com ele?
— Terá o meu apoio e minha bênção.
O dia amanheceu ensolarado, Agatha estava animada por poder passar o
dia do lado de fora da casa. Enquanto Aaron ajudava o pai a se instalar
embaixo de uma tenda, Lucy e Sarah caminham pelo jardim.
— Meu filho não é ruim, sabe disso.
— Eu sei, tia Sarah, justamente por isso não quero me casar com ele.
Aaron decidiu que quer se casar comigo por pena, porque todos estão me
tratando como uma bastarda.
— Não é por isso, ele demorou muito tempo para entender que a ama.
Por muito tempo ele a viu apenas como uma prima e, quando essa visão
mudou, ficou assustado. Não soube lidar com o que sentia. E agora que
entendeu que a ama, está lutando por isso. Acredito que o único problema
seja o fato de que não saiba demonstrar isso. O que a está confundindo.
Lucy olha por sobre o ombro para Aaron, que estava sentado ao lado do
pai. Os dois conversam com um sorriso.
— Sei que ele é um bom homem, mas não sei se é o certo para mim.
— Só vai saber se permitir que ele lhe faça a corte.
Lucy retorna para a tenda com Sarah, que vai verificar o marido.
Enquanto coloca um pequeno sanduíche em um pratinho, sente a presença
de Aaron atrás dela.
— Meu pai estava dizendo que Maxwell enviou uma carta, ele quer
fugir da faculdade e vir para cá.
— Ele sabe que seu pai está doente?
— Não, meu pai tenta esconder isso de meus irmãos. — Aaron suspira.
— Estou tentado a enviar uma carta para Maxwell pedindo que se apresse,
quem sabe, com a ajuda dele, fique mais fácil passar por tudo isso.
— Não seja todo, envie logo a sua carruagem junto com a nota, assim
apressará as coisas.
— Tem razão. — Aaron ri e pega o sanduíche do prato de Lucy dando
uma grande mordida. — Pepino? Você odeia pepino.
— Estou dando uma oportunidade para o pepino. — Ela revira os olhos
e pega outro sanduíche.
— Se o pepino pode ter uma oportunidade, por que eu não posso?
— O pepino não me irrita, o mesmo não pode ser dito por você.
— Engraçadinha. — Aaron ri e cruza os braços, apoiando o quadril na
mesa. — Preciso ir até a vila, quer ir comigo?
— O que vai fazer na vila?
— Minha mãe pediu para ir comprar o remédio do meu pai,
provavelmente levará algum tempo para que fique pronto, podemos passear
um pouco.
— Agatha vai querer ir junto.
— Será? — Ele aponta para a menina, que corria com os cachorros da
família.
— Se ela souber que pode ir até a vila sem nossos pais, ela
definitivamente vai querer ir.
— Não tem problema, já que ela está do meu lado, sei que será uma
grande aliada.
Duas horas depois, a carruagem encosta em frente à modista preferida de
Lucy, madame Durand era quem fazia todos os vestidos de Lucy para as
temporadas. Na sua opinião, nenhuma em Londres era tão talentosa.
— Se deixar, Lucy fará outro vestido — Agatha diz para Aaron, que ri.
— Sério, o papai disse que precisa trabalhar o dobro de todos os nobres,
apenas para que ela tenha vestidos. Por isso que ela precisa se casar, assim
quem vai gastar dinheiro é o marido dela.
— O seu pai disse isso? — Aaron ri.
— Sim, o marido dela precisa ser muito rico.
— Agatha! — Lucy chama a atenção da irmã, que ri.
— Então é bom que eu tenha dinheiro suficiente para bancar os vestidos
dela.
— Não preciso que compre meus vestidos. — Lucy dá as costas para ele
e entra na loja da modista.
— Se ela gostar de algum vestido e não o escolher, diga a modista que o
separe e envie para casa em meu nome. Darei de presente a ela — Aaron
diz baixinho para Agatha. — Escolha um para você também, será meu
presente por me ajudar.
— Obrigada. — Ela abraça Aaron pela cintura e corre atrás da irmã.
Se existia algo que Lucy gostasse mais do que a hora do chá, era de
vestidos. Amava experimentar e escolher tecidos. Para ela um vestido
bonito poderia deixar uma dama se sentindo linda. Não se vestia para que as
pessoas a vissem, mas sim para que se sentisse bem.
— Como está Londres? — Madame Durand pergunta para Lucy
enquanto a ajuda a experimentar um dos vestidos.
— Chata, parece que a única coisa que os move são as fofocas.
— Falar dos outros para que não falem de você, é um traço humano.
— Estão falando mal de Lucy — Agatha diz a modista enquanto coloca
um tecido em volta do corpo.
— Mal? Mande-os aqui e os espetarei com minha tesoura — Durand diz
a menina, que ri.
— Farei isso.
— E os pretendentes? Algum cavalheiro bonito esse ano?
— Alguns, mas nenhum que valha a pena. — Lucy dá de ombros.
As três conversam por algum tempo, Lucy tinha se apaixonado por um
vestido azul-marinho com rendas trabalhadas nele, mas não teria um motivo
especial para usar, já que estavam no campo, não participariam de um baile.
Então não teria por que o levar. Ela separa um vestido rosa claro florido e
entrega para a ajudante da modista embrulhar.
— Madame Durand — Agatha cochicha enquanto a modista faz sua
barra. — Aaron pediu para eu avisasse para separar o vestido que Lucy
mais gostasse e decidisse não levar. Ele pagará por ele, será um presente.
— Aaron?
— Sim, meu primo Aaron Reilish, ele está fazendo a corte para Lucy,
mas ela está lutando contra. Ele pagará pelo meu vestido também.
— Então, a menina tem um pretendente? — Durand ri.
— Sim, mas está lutando contra. É teimosa demais.
— Enviarei o vestido, não se preocupe, talvez eu deva começar a fazer
um vestido de noiva?
Agatha olha para a irmã através do espelho e dá uma risadinha.
— Por que não?
Lucy e Agatha saem da modista com seus embrulhos e encontram Aaron
sentado em frente à padaria, na mesa tinha alguns pãezinhos. Assim que ela
se senta, a dona traz um bule de chá.
— O remédio do meu pai levará ainda uns dez minutos para ficar pronto.
Podemos aproveitar o tempo tomando chá. — Aaron indica a mesa.
— Sabe que Lucy nunca dirá não para o chá. — Agatha ri.
— É um dos meus momentos favoritos, não nego.
— Eu sei. — Aaron sorri a observando enquanto serve o chá para todos.
— Mesmo que eu não entenda por que as mulheres gostem tanto de chá.
— Ele pode ser calmante, acalentador. Da mesma forma que seu
conhaque pode ser.
— Ah, por que nunca compararam o chá com o conhaque antes? Agora
tudo faz sentido. — Ele ri.
Algumas pessoas passam por eles e acenam, a preceptora de Lucy não
os acompanhou já que Agatha estaria com eles. Então não era estranho que
Aaron estivesse com ela, já que não estavam sozinhos.
Enquanto Lucy e Agatha terminam seus chás, Aaron busca o remédio e
os três voltam para casa. Lincoln estava em seu quarto descansando quando
chegaram, por isso ele entrega o remédio para um criado, para que leve para
a sua mãe.
— Acho que vou descansar um pouco — Lucy diz olhando para nada
em especial, Aaron pega o seu braço e a guia para o lado de fora da casa. —
O que está fazendo?
— Vamos dar um passeio.
— Não é certo, estamos sozinhos.
— Lucy, daremos um passeio no jardim, cercados por criados, e janelas
de onde nossa família pode nos ver. Estamos seguros.
Eles caminham lentamente pelo jardim, Lucy fica em silêncio, temia o
que ele pretendia com aquele passeio. Será que ele a beijaria novamente?
Será que ela permitiria ou lutaria?
— Estou cansada...
— Mentirosa. — Aaron ri e a leva para um banco. — Por que quer fugir
de mim?
— Não estou querendo fugir, não há motivo para isso. Não conseguirá
fazer nada que eu não queira.
— Eu sei. — Ele faz um carinho no rosto dela. — Por exemplo, se eu a
beijar sei que não irá lutar contra, porque é o que você quer também.
— Agora quem está mentindo é você. Não quero que me beije.
— Quer sim. Passou a noite pensando nisso, não foi?
— Claro que não, está completamente enganado, Aaron.
Aaron puxa Lucy para perto dele, ficando com seus corpos colados, ela
leva a mão ao seu peito para empurrá-lo, mas ele é muito mais forte que ela.
Ele beija seu pescoço, subindo lentamente até seus lábios. Ela deveria virar
o rosto? Deveria mordê-lo? Deveria gritar? Enquanto ela debate consigo
mesmo o que deve fazer, Aaron se aproveita de sua indecisão e a beija.
— Lucy... — ele solta um gemido ao se afastar para respirar.
— Não é certo.
— É completamente certo. — Ele volta a beijá-la, ele a puxa para que se
sente em seu colo, de frente para ele, o vestido dela está completamente
embolado sobre o seu colo.
Se alguém aparecesse estariam com sérios problemas.
Uma das mãos dele desce por suas costas até o quadril, enquanto a outra
segura o pescoço de Lucy. Ela envolve o pescoço de Aaron, completamente
esquecida de que deveria lutar contra o que estava acontecendo entre eles.
Aaron para de beijá-la e deixa a cabeça cair sobre o ombro dela, respirando
fundo para se acalmar.
— Você é uma tentação, Lucy.
— Não estou tentando ninguém.
— Eu a desejo imensamente.
— Não estou atrás de desejo. — Aproveitando que ele não a está
segurando, ela se levanta ajeitando o vestido. — Desejo não é tudo.
— Mas faz parte, se não há desejo entre um casal, o casamento pode ser
algo terrível.
— Não vou negar que gosto quando me beija, mas será apenas isso,
Aaron, nada mais irá acontecer entre nós dois.
— Sabe que vai acontecer, Lucy, é algo inevitável.
— Para você, sei muito bem me controlar — ela diz, torcendo para não
parecer mentirosa.
— Não é o que parecia alguns minutos atrás. — Aaron se levanta e Lucy
dá um passo para longe.
— Melhor eu voltar para casa, preciso descansar.
Lucy corre pelo jardim enquanto Aaron a observa, ele caminha
lentamente e, ao invés de ir pela porta principal, ele contorna a casa e entra
pela cozinha assustando a todos os criados.
— Deseja alguma coisa, senhor Reilish? — a cozinheira pergunta
preocupada e Aaron abre um grande sorriso.
— Sim, que a senhora não asse mais bolinhos para Lucy.
— A menina ficará completamente irritada.
— Eu sei. — Ele olha para todos. — Não vou fingir que não sabem o
que acontece nessa casa, porque sei que os criados sabem de tudo. Quero
que Lucy se case comigo, é uma luta que estamos travando, e se ela tiver
bolinhos a disposição para tacar em mim, será complicado. Não quero ser
alvo de seus bolinhos.
— Assim que a menina souber que o senhor proibiu que eu os asse, terá
muitos problemas. — A cozinheira balança a cabeça com um sorriso. —
Espero que saiba o que está provocando.
— Eu sei, mas é um risco que irei correr.
— Boa sorte, Lorde Reilish. — A governanta ri, desencadeando uma
risada entre todos os criados.
— Obrigado.
Aaron sai da cozinha com um grande sorriso. Agora que não tinha mais
munição para jogar contra ele, poderia partir para a luta, sem temer ter
creme e geleia em seus cabelos e roupas.
— Ele fez o quê?! — Lucy grita e a criada treme levemente.
— Ele pediu a senhora Foley que não assasse mais bolinhos para a
senhorita — a criada repete.
— Lucy, por que está gritando? — Eloise entra na sala com Sarah ao seu
lado.
— Seu filho proibiu que assassem meus bolinhos favoritos. — Ela
aponta para Sarah.
— E por que ele faria isso? — Sarah pergunta sem entender.
— Talvez porque a minha filha adora atirar bolinhos nas pessoas. —
Eloise ri e se senta.
— Não atiro bolinhos, eles que voam até as pessoas que me irritam.
— É claro, meu amor.
Lucy solta um bufo nada elegante e sai batendo os pés da sala, Eloise e
Sarah trocam olhares e, sem conseguir resistir, acabam caindo na
gargalhada.
— Senhora Foley. — Lucy entra na cozinha e todos param de trabalhar.
— Gostaria que fizesse a minha torta de creme com frutas vermelhas,
durante a estadia em Londres só conseguia pensar nessa torta — ela diz
com um sorriso angelical.
— Farei para o almoço de amanhã...
— Ah, não, queria para hoje. — Lucy faz um biquinho. — Não tinha
nada de tão gostoso em Londres.
— Está bem, querida, farei uma somente para você.
— Obrigada — Lucy diz animada e sai cantarolando da cozinha.
— Alguém mais estranhou o sorriso angelical? — um dos criados
pergunta e a senhora Foley balança a cabeça.
— Ela está tramando alguma coisa, isso é fato.
Aaron entra na sala da família e se senta ao lado da mãe, soubera que na
parte da manhã Lucy ficara irritada por conta dos bolinhos. Ao olhar para
ela que conversava tranquilamente, estranhava que não estava lançando
punhais na sua direção. Conseguiu passar o dia em segurança e acreditava
realmente que ela não se vingaria dele.
— Senhorita Lucy — uma das criadas chama e ela se levanta
elegantemente de sua cadeira e sai da sala.
— Ela está muito irritada por conta dos bolinhos — Sarah diz ao filho,
que ri.
— Imaginei.
Completamente alheio ao que Lucy estava fazendo, ele conversa com
seu pai e Ethan. Por estar distraído não percebe quando Lucy entra na sala
com a torta em mãos, nem mesmo quando ela tropeça e a torta voa em sua
direção. A única coisa que ele nota é o creme e a geleia que escorre por seus
cabelos, caindo em sua roupa.
— Lucy! — Eloise grita.
— Tropecei no tapete, sinto muito, Aaron, não era minha intenção.
Ele se levanta lentamente e olha para ela e depois para o chão, não havia
nenhum tapete.
— Tropeçou em um tapete invisível? — ele pergunta passando a mão no
rosto e pegando o creme.
— Claro que não... Argh! — ela grita quando Aaron joga o creme em
seu rosto, pegando mais da gosma que escorre de sua cabeça ele joga em
Lucy. — O que está fazendo?
— O mesmo que você. Agora está com uma deliciosa torta de creme
sobre você.
— Eu vou matá-lo.
— Quem começou tudo foi você — ele diz se inclinando sobre ela, uma
grande gota de geleia despenca de seus cabelos caindo no decote de Lucy.
— Quer ajuda para limpar?
Lucy o empurra irritada e sai da sala resmungando.
— Ela não vai parar — Eloise diz tentando disfarçar uma risada.
— Quem disse que eu vou desistir? — Ele dá de ombros. — Se me dão
licença, preciso trocar de roupa.
Uma vez que nem Lucy e Aaron estão na sala, seus pais começam a rir.
— Deus, esses dois não crescem nunca — Lincoln diz.
— Consegue imaginar como seriam casados? Vão acabar se matando —
Ethan diz a esposa.
— E é justamente por isso que Lucy deve se casar com ele. Outro rapaz
a machucaria, pisaria em seu espírito. Aaron permite que ela seja ela
mesma. Ele sabe exatamente como provocá-la. Lucy não é uma menina
fácil, e Aaron sabe como lidar.
— Eles são perfeitos um para o outro, isso não podemos negar.
— Acredito que talvez seja melhor pedir uma licença especial para se
casarem? — Lincoln pergunta.
— Não, acho que não será necessário. Esses dois não vão passar dos
limites do aceitável — Ethan diz e não percebe o olhar que Eloise e Sarah
trocam.
Toda a casa estava em silêncio, seus habitantes estavam dormindo há
muito tempo, ela era a única que não conseguia dormir. Estava impaciente,
Aaron tinha a provocado de uma forma que ninguém tivera coragem.
Ele dizia querer se casar com ela, mas a provocava.
Irritada, ela entra na biblioteca e deixa o castiçal sobre uma mesinha,
quem sabe se escolhesse um livro chato e maçante, conseguiria pegar no
sono.
— Não deveria andar no escuro sozinha.
— Aaaaaai! — Lucy grita e leva a mão ao peito, ela tenta olhar em
volta, mas longe da vela tudo estava escuro. — Aaron?
— Sim. — Ele ri e se levanta de uma poltrona do outro lado da
biblioteca.
— O que faz aqui?
— Estava lendo. — Ele se aproxima dela.
— No escuro? Ninguém lê no escuro.
— O que você faz aqui?
— Vim pegar um livro, não que seja da sua conta, a casa é minha, posso
ir aonde eu quiser.
— Não tem medo do escuro? — Ele para atrás dela, colocando a mão
em sua cintura.
— Nã... não. Conheço cada canto dessa casa.
— Não é da casa que deve ter medo. Mas sim do que se esconde na
escuridão.
— E o que tem na escuridão?
— Eu. — Ele beija o pescoço dela.
Lucy estava apenas com sua camisola e um roupão. Ele podia sentir a
cintura fina dela, o quadril, e se subisse as mãos seguraria seus seios
delicados.
— Me solte.
— É isso o que realmente deseja? — Aaron vira Lucy de frente para ele
e a beija.
As mãos dela vão automaticamente para o pescoço dele, o corpo dela
arqueia em sua direção. Ele dá alguns passos e a deita no sofá, ficando
sobre ela. O corpo delicado e suave sob ele. Lucy solta alguns gemidos
involuntários. Ela estava completamente entregue, seria fácil possuí-la ali
mesmo, a mão dele sobe por baixo de sua camisola, tocando a pele delicada
de sua coxa.
— Aaron — ela sussurra seu nome.
Ele não queria parar, queria ir até o fim, mas não faria isso em um sofá.
Ele se levanta e pega Lucy nos braços, mesmo com pouca luz pode ver o
olhar de desejo dela. Ele sai da biblioteca e segue em direção ao quarto
dela, temendo que alguém apareça.
Uma vez dentro do quarto de Lucy, ele vai para a cama e a deita
delicadamente, voltando a beijá-la. Agora com uma cama sob eles, poderia
ir até o fim. Poderia amar Lucy, mostrar a ela o quanto poderiam ter prazer
e seriam bons juntos.
— Lucy... meu amor — ele diz a beijando.
As mãos de Lucy se agarram a camisa dele, perdendo completamente o
controle, Aaron decide que não irá se segurar mais, ele a desejava, a amava.
E quem sabe, se mostrasse a ela naquela noite o que sentia, ela finalmente
diria sim ao seu pedido de casamento.
A camisola de Lucy é retirada de seu corpo com a destreza de alguém
que sabe o que está fazendo, completamente enfeitiçada pelo desejo, ela
puxa a camisa de Aaron, alguns botões voam para longe, seguidos pela
camisa. Agora que estavam pele contra pele, Lucy sente seu corpo tremer
pelas sensações.
Aaron beija seu corpo lentamente, descendo pouco a pouco. Os mamilos
rijos de Lucy pareciam implorar por seu toque, a língua traça a aréola
delicadamente.
— Aaron — ela solta um gemido e agarra seus cabelos.
— Tenha paciência, meu amor, vou cuidar de você.
Tomando o cuidado de tocar e beijar cada pedaço do corpo de Lucy,
Aaron finalmente chega as coxas dela, ele morde a pele delicada, não
precisava tocar ou olhar para saber que ela já estava pronta para ele. Aaron
sai da cama e retira sua calça e volta para se juntar a ela. Delicadamente, ele
abre as coxas dela e se posiciona entre elas.
— Eu... Aaron... — Lucy agarra os braços dele, que se deita sobre ela.
— Vai doer apenas por um momento, prometo.
Aaron a beija até deixá-la completamente tonta pelo desejo e a penetra,
Lucy solta um grito e se agarra a ele. Ficando completamente imóvel,
Aaron deixa que ela se acostume com o corpo dele. Era uma verdadeira
tortura ficar parado, com seu membro dentro dela, o corpo dela pulsava o
pressionando.
— O que está acontecendo? — Lucy pergunta abrindo os olhos, seu
corpo arqueando contra o dele. — Aaron.
— Vou me mexer, meu amor. Tudo vai ficar muito melhor.
Ele se mexe lentamente, entrando e saindo.
Aaron não era inexperiente, ele tivera sua cota de mulheres, mas
nenhuma que passou por sua cama lhe deixava louco como a que estava sob
ele. Os gemidos de Lucy o incentivavam a ir cada vez mais fundo, as
pequenas mãos dela se agarravam a ele, as unhas provavelmente deixariam
diversas marcas em suas costas. Ele estava prestes a explodir, não conseguia
se controlar, era muito para suportar.
Mas não perderia o controle, não enquanto sua menina não tivesse seu
próprio prazer. Aaron leva uma das pernas de Lucy para rodear a sua
cintura, lhe dando uma nova posição, de alguma forma isso não só a
surpreendeu, mas também despertou novas sensações.
— Lucynda... — Aaron não consegue mais manter seu corpo suspenso,
ele se deita completamente sobre ela, ficando apenas apoiado nos
antebraços, seu rosto cai no vão do delicado pescoço.
Ele podia sentir que ela estava perto, precisava de apenas um estímulo,
com uma das mãos ele estimula seu clitóris enquanto suga um dos mamilos.
Parecia ser tudo o que ela necessitava, Lucy solta um grito, seu corpo se
retesando inteiro até relaxar completamente. Agora que ela teve seu prazer,
Aaron se movimenta cada vez mais rápido até finalmente se juntar a ela.
O quarto fica em silêncio, apenas as respirações deles podem ser
ouvidas, Aaron deitado sobre ela, ainda enterrado completamente dentro de
Lucy.
— O que foi isso? Senti como se tivesse morrido.
— Você descobriu o prazer que pode ter em uma relação.
— É sempre assim?
— Sempre, quer dizer... algumas pessoas dizem que somente com a
pessoa amada é tão bom. — Ele beija o pescoço dela, que fica em silêncio.
— O que foi?
— Você já teve outras...
— Não, Lucy. — Ele levanta o rosto, pode ver Lucy apenas pela
claridade da lua que entra pela janela. — Nunca foi assim para mim. É a
primeira vez que perco completamente o controle.
Aaron gira na cama, deixando Lucy sobre ele e puxa as cobertas para
cobri-los, ele não queria sair dali, não queria se mover, pelo menos não nos
próximos minutos. E se fossem pegos, ele não se importaria, estava
exatamente onde queria estar.
Lucy não conseguia acreditar que tinha dormido com Aaron, ele saiu de
seu quarto quando o dia começava a amanhecer. Ele a acordou por duas
vezes, não parecia necessário de muito para ele estimulá-la a ficar pronta
para ele. Parecia que bastava apenas que ele a tocasse para que seu corpo o
desejasse.
Ao entrar no quarto, sua criada a ajudou a se levantar e ir para o
banheiro se arrumar para o dia. Quando retornou para o quarto, sua cama
estava revirada, o lençol enrolado em uma bola no canto do quarto.
— Escolhi um vestido leve para hoje, o dia amanheceu quente, com
sorte não vai chover — a moça diz e ajuda Lucy com a camisola a
substituindo por um vestido. — Está bem, senhorita? Se quiser mais um
pouco de tempo, posso preparar um banho de banheira, caso esteja com dor.
— Dor? — Lucy olha para ela sem entender. — Não, eu estou bem, não
estou com dor.
— Talvez seja melhor usar a toalhinha, ainda está sangrando. — Ela
indica o calção de Lucy, que se surpreende com o sangue.
— Obrigada.
Somente quando já estava vestida e sentada em sua penteadeira, ela olha
no espelho, sua criada rapidamente enrola seus cabelos. Lucy sabia que,
como uma dama, era praticamente ignorante sobre a questão de se entregar
para um homem. As criadas pareciam saber muito mais do que ela e uma
prova disso era que Anne tentava deixá-la confortável. De alguma forma, a
criada sabia o que tinha acontecido naquela noite.
— Está pronta, senhorita.
— Vão saber, não é verdade?
— Não, senhorita, cuidarei eu mesmo dos lençóis. Não se preocupe, não
deixarei que saibam.
— Obrigada, Anne. — Lucy se levanta e alisa o vestido. — Agradeço
sua discrição.
— Não precisa agradecer, senhorita, se tiver alguma dúvida ou precisar
de ajuda, por favor, me procure. Quero apenas o bem da senhorita.
A criada sai do quarto com o lençol nos braços, ela cuidaria de todas as
provas.
Lucy desce para o café da manhã e se surpreende ao encontrar toda a sua
família, incluindo Lincoln, que parecia muito melhor naquele dia.
— Teve uma boa noite? — Aaron pergunta.
Tentando ignorar os olhares dele para ela, Lucy vai até a mesa de apoio e
se serve de alguns ovos, torradas e linguiça.
— Sim, dormi muito bem — ela responde ao se sentar à mesa, ao lado
de Agatha.
— Mamãe, quando vamos jogar? Queria brincar de caça ao tesouro —
Agatha diz a Eloise.
— Vou pedir para que arrumem as pistas, sua tia Dayse enviou uma
carta ontem, deve chegar daqui a pouco, Ivy está irritada por não ter com
quem brincar.
Ivy era a filha caçula de Dayse e Wesley, de onze anos. Lucy sabia que,
assim que a prima chegasse, teriam uma verdadeira confusão na casa,
porque Agatha e Ivy juntas poderiam causar uma verdadeira confusão.
— Acho que irei para Londres então — Lucy diz a mãe, que ri.
— Você ficará bem aqui.
— Não vou olhar as duas. — Lucy levanta as mãos.
— Não precisamos que olhe, podemos nos cuidar. — Agatha mostra a
língua para a irmã.
— Elas ficarão bem, tenho certeza de que não entrarão em problemas —
Ethan diz e recebe um olhar feio da esposa. — Elas são apenas meninas.
— Meninas que causam confusões de proporções épicas — Eloise
responde. — Lembre-se de que seu tio está doente, não aprontem nada
dentro de casa.
— Está bem, mamãe — Agatha concorda e olha para o tio. — A não ser
que o tio Lincoln queira brincar com a gente.
— Dependendo do que forem fazer, pensarei a respeito. — Lincoln pisca
para Agatha.
— Tio Lincoln, não sabe onde está se metendo. — Lucy balança a
cabeça.
— Que tal uma caça ao tesouro em duplas? — Aaron pergunta para
Agatha. — Você e Ivy, seus pais, Wesley e Dayse, eu e Lucy.
— Por que eu e você?
— Faremos uma ótima dupla.
— Não sei se quero jogar.
— Quer sim, ou então terá sapos em sua cama. — Agatha dá de ombros.
— Sapos não me assustam, lembra?
— Está bem, minhocas então.
O som de cavalos se aproximando faz com que Agatha pule de sua
cadeira e corra para a porta. Enquanto seus pais se levantam para receber
seus tios, Lucy come pequenos bocados de seu café da manhã, se
demorando ao máximo, tentando descobrir o que poderia fazer durante a
parte da manhã.
— Lucy, querida. Se importaria de tocar um pouco para mim essa
manhã?
— Claro que não me importo, tio Lincoln, agora que não terei meu
sarau, qualquer motivo para tocar será aproveitado. Podemos ir para a sala
de música, lá o som fica muito melhor.
Agora que tinha uma desculpa para a parte da manhã, Lucy poderia
ignorar a presença de Aaron, temia ficar sozinha com ele e não conseguir
resistir. O único problema é que Aaron parecia não ter nada para fazer, por
isso ele se junta a eles na sala de música, com seu olhar atento sobre Lucy
enquanto toca cada nota.
A manhã, que deveria ser tranquila, estava se tornando um verdadeiro
tormento.
Logo após o almoço, todos se reúnem na sala principal. Um dos criados,
que estava acostumado a fazer as pistas para Agatha, tinha preparado todo o
jogo. Apenas Sarah e Lincoln não iriam participar. As duplas foram
divididas, a contragosto de Lucy que não queria ficar com Aaron, mas todos
pareciam ignorá-la.
— Não vai conseguir fugir — Aaron diz baixinho no ouvido dela e
entrega a primeira pista.
— Quem disse que eu queria fugir? Apenas queria outro parceiro.
— E isso é fugir. — Ele ri. — E então? Qual a nossa primeira pista?
Lucy lê o papel e entrega para ele.
— O solário.
Os dois conseguem encontrar três pistas, a quarta os leva até a estufa de
Eloise. Sua mãe cultivava algumas ervas e flores, Lucy observa cada
detalhe da estufa procurando por algum papel.
— Lucy? — Aaron segura o seu braço e a vira para ele. — Eu a
machuquei?
— Não, estou bem. — Ela tenta se soltar dele. — Estou bem, Aaron.
— Eu não estou, só consigo pensar no que fizemos ontem à noite.
— Se arrepende?
— Não, nunca vou me arrepender. Não consigo esquecer, porque desejo
fazer novamente, eu quero você, Lucy. — Aaron a beija, Lucy tenta se
afastar e esbarra em uma das mesas.
— Está de dia, alguém pode entrar. — Ela tenta empurrá-lo.
— Ninguém vai entrar, fechei a porta, aqui é o local perfeito.
Ao entrar em casa, Lucy se surpreende com sua família na sala, apenas
seu pai e tios estavam faltando. Não sabia se estava descabelada ou suja.
Aaron a tomou sobre uma das mesas, ao fazerem isso à luz do dia, parecia
completamente diferente. O medo de serem pegos, a oportunidade de olhar
o corpo de Aaron, tudo parecia despertar novas sensações.
— Está bem, Lucy? — Eloise olha para a filha.
— Vocês perderam — Agatha diz rindo com Ivy.
— Não encontramos a quarta pista, alguém deve ter se confundido de
lugar.
— Sente-se aqui, Lucy. — Eloise aponta para o lugar ao seu lado no
sofá.
— Eu...
— Sente-se, Lucy. — Lucy vai até a mãe, que pede para a criada levar
Agatha e Ivy para um passeio. — O que aconteceu entre você e o Aaron?
— Nada, mamãe, apenas não encontramos as pistas.
— Lucy, você tem uma mancha de uma mão cheia de terra no seu
traseiro — Dayse diz tentando disfarçar um sorriso com a xícara.
— O quê? — Lucy se levanta e puxa o vestido, a marca estava bem ali
para qualquer um ver. — Eu vou matá-lo.
— Antes de matar meu filho, por que não diz o que foi que aconteceu
entre vocês dois?
— Nos beijamos, só isso, tia Sarah.
Eloise continua observando Lucy, que sentia vontade de se contorcer sob
o olhar atento da mãe.
— Lucy, vocês fizeram bem mais do que se beijar, não foi? — Dayse
questiona a sobrinha. — Eu diria que não resistiram a paixão, porque, além
da marca, falta um botão em seu vestido. E está corando.
— Pode nos contar. — Eloise pega a mão da filha. — Ele a forçou? A
machucou?
— Claro que não, mamãe — Lucy tenta não gritar. — Ele... nós... — Ela
respira fundo e fecha os olhos. — Ele não me machucou. Eu estou bem.
— Mas vocês dois ficaram... íntimos, suponho — Sarah diz e Lucy olha
para ela. — Ele tirou a sua virgindade?
— Não vejo por que isso seja importante.
— Porque, se for verdade, devem se casar — Eloise diz a filha, que se
levanta.
— Não, isso não é um motivo para se casar. Os homens possuem
amantes e não são obrigados a se casarem, por que eu devo me casar?
— Porque o que fizeram pode resultar em um bebê. — Eloise puxa a
filha para se sentar. — Você pode estar grávida, por isso deve se casar.
— Se eu estiver grávida cuidarei do meu bebê. Não preciso me casar.
— Lucy, a sociedade...
— A sociedade não vai decidir se devo me casar ou não. A decisão é
minha e somente minha. — Lucy sai correndo da sala. Eloise quer ir atrás
dela, mas Dayse pede para a cunhada que deixe que ela fale com a sobrinha.
Dayse entra no quarto de Lucy e a encontra enrolada praticamente em
uma bola, no sofá. Ela se senta ao lado da sobrinha, que apenas olha para
ela.
— Tia Dayse...
— Deixe-me contar uma coisa primeiro. — Dayse levanta a mão. — A
sociedade pode ser muito ruim, Lucy, eu mesma era obrigada pelos meus
pais a me casar. O que eu não queria fazer, não estava nos meus planos.
— Mas a senhora se casou com o tio Wesley.
— Sim, apenas porque seria algo favorável a nós dois, como seu tio me
mostrou na época que seria. Sei que é uma moça inteligente, sempre
mostrou ser uma menina além do seu tempo, então acredito que vai
entender o que eu vou dizer. Seu tio e eu somos diferentes, eu tenho desejo
por mulheres e ele por homens.
— O quê? — Lucy olha para a tia sem entender por um momento.
— O que você fez com Aaron, eu tenho desejo em fazer com mulheres e
seu tio com homens. Meus pais queriam me casar com qualquer homem, e
eu sofreria terrivelmente sendo maltratada por um marido cruel. Seu tio me
procurou e disse que poderíamos nos casar, assim nos protegeríamos.
— Tia Dayse, a senhora não ama o meu tio?
— Amo, como um grande amigo, e ele sente o mesmo por mim. Mas
amar, desejar, isso não existe entre nós. Nos relacionamos apenas para gerar
filhos, mas sabemos a verdade um sobre o outro. O que quero lhe dizer com
isso, Lucy, é que a sociedade pode ser muito cruel, por causa dela não posso
viver com a mulher que eu amo e seu tio não pode ficar com o homem que
ele ama.
— Espero que, um dia, vocês possam viver esse amor sem julgamentos.
— Eu também espero, mas, como a sociedade é na atualidade, isso não
acontecerá tão cedo, creio que levará anos para que as pessoas não sejam
julgadas por sua orientação sexual. — Dayse pega a mão de Lucy e faz um
carinho. — Chegou em seus ouvidos a fofoca de que é uma bastarda, Eloise
me disse que contaram a verdade para você. Agora me diz, Lucy, como
você acha que seria a sua vida se seu pai não mentisse e não a tratasse como
sua pupila? Acredita que teria uma temporada na alta sociedade? Que seria
apresentada a rainha? Que seria tratada com respeito por todos? Porque é
apenas uma fofoca, então muitos ainda a tratam bem, não têm certeza se é
verdade ou não. Mas e se soubessem?
— Me tratariam muito mal.
— Sim, agora me diz, gostaria que um filho seu fosse tratado assim?
Você é jovem, Lucy, não tem como esconder uma gravidez, não tem como
disfarçar o nascimento de uma criança e duvido que aceitaria entregá-lo
para outro o criar.
— Não daria o meu filho — Lucy diz nervosa. — Jamais faria isso.
— Lucy, se estiver grávida a única forma de proteger essa criança é se
casar com Aaron.
— Isso não é justo, por que devemos nos casar por obrigação? Ou para
esconder que um bebê foi gerado? Por que não nos deixam tomar nossas
próprias decisões?
— Porque a sociedade atual é assim, nós duas deveríamos ter nascido
em épocas diferentes, mas isso não aconteceu. Estamos presas nessas
regras, convenções e tradições. Por isso temos que fazer o que é melhor
para nós. E acredite em mim, Lucy, você será bombardeada com fofocas,
mexericos, dedos apontados, tudo porque estará grávida sem um marido.
Tudo porque decidiu tomar uma decisão que na época em que vivemos é
impensável.
— Não quero me casar com o Aaron obrigada. Ou porque é o certo.
Queria me casar por amor.
— Você não sente nada por ele? Aaron não faz seu coração bater mais
rápido?
Lucy fica em silêncio por um tempo olhando para a mão dela unida a da
tia.
— E se eu preferir mulheres? Poderia não saber se desejo, aí me casar
seria errado.
— Lucy. — Dayse ri e puxa a sobrinha para um abraço. — Você não
sente desejo por mulheres; se sentisse, não aceitaria o toque de Aaron, não
teria feito amor com ele em uma estufa.
— Mas a senhora teve dois filhos com o tio Wesley.
— Sim, porque eu entendi que seria necessário. Seu tio não toca em
mim há muitos anos, Lucy, e não sentimos falta. Feche os olhos. — Lucy
faz como a tia pede. — Agora quero que imagine os anos passando, você
ficando mais velha e, durante todo esse tempo, Aaron nunca mais a tocou,
ele nunca mais a beijou. Pelo contrário, agora ele está casado com outra
mulher, é ela quem está em sua cama, gerando seus filhos. Como você se
sente?
— Como se eu fosse morrer. — Lucy abre os olhos e apoia a cabeça no
ombro da tia. — Ainda sinto como se fosse uma obrigação, seja pela
sociedade, seja por uma gravidez. Por que não pode ser simples?
— E pode ser simples, a decisão é sua e de Aaron. Mas como eu disse,
se você o ama, não se casarão por obrigação ou por dever. Converse com
ele, já sabe o que vai sentir se não o tiver ao seu lado. Precisa agora decidir
com o que você pode conviver e o que não lhe fará falta.
Aaron entra no escritório de Ethan, seu pai e Wesley estão todos ali,
apreciando uma bebida.
— Comemorando alguma coisa? — Aaron pergunta se sentando ao lado
de Wesley.
— Não, apenas aproveitando um pouco de sossego, provavelmente
teremos mulheres pedindo para irem a vila, ou inventando alguma festa —
Wesley responde com um sorriso.
— Ethan, eu...
— Ethan? — Ethan estranha a forma como Aaron fala com ele. —
Sempre foi tio Ethan, o que aconteceu, rapaz?
— Achei que seria melhor ser um pouco mais formal. — Aaron pega o
copo de Wesley e bebe tudo em um gole só. — Quero pedir formalmente a
mão de Lucynda em casamento.
— Ela já concordou?
— Ainda não, mas quero oficializar com você, ela tem sido um pouco
teimosa.
— Lucynda? Teimosa? — Wesley ri e se levanta para se servir de outra
bebida.
— Ethan... ah, não sabia que todos estão aqui. — Eloise para a porta.
— Está tudo bem, meu amor?
— Sim... não... quer dizer... — Ela suspira. — Lucy e Aaron precisam se
casar o quanto antes.
— E por que exatamente? — Ethan olha para Aaron desconfiado.
— Porque não querermos uma criança nascendo tarde demais.
— Criança? Nascendo? — Ethan se levanta rapidamente e puxa Aaron
pelo colarinho, mas Wesley o puxa o afastando do rapaz.
— Tenha calma, homem, nós dois sabemos que você viveu algo
parecido e eu não tentei matá-lo.
— Ele se aproveitou da minha filha.
— E você se aproveitou da minha irmã. E até onde sabemos, o rapaz
tenta convencer Lucy a se casar, sem qualquer tipo de sucesso.
— E por isso decidiu tirar a pureza dela? — Ethan olha para Aaron, que
volta a se sentar ao lado do pai.
— Você passou dos limites, meu jovem.
— Eu sei, pai, mas não pude resistir. Eu amo a Lucy, quero me casar
com ela. Consegue imaginar estar ao lado da mamãe e não poder tocá-la?
Sabe o quanto está me matando saber que Lucy não é minha esposa?
— Eu sei — Lincoln concorda e olha para Ethan. — O que faremos?
— Alguém precisa de uma licença especial — Wesley responde. — E
alguém precisa convencer Lucy a se casar.
— Você vai buscar a licença. — Ethan aponta para Aaron. — Partirá
para Londres agora mesmo.
— Não posso deixar a Lucy.
— Ela não estará sozinha, quem sabe um pouco de distância vai fazer a
minha filha entender as consequências do que fizeram. Vai buscar a licença
e nós aqui cuidaremos de tudo.
Lucy não podia acreditar que Aaron tinha partido, ele dissera que ficaria
ao lado dela, mas agora tinha entrado em uma carruagem e partido para
Londres.
— Ele vai voltar — Eloise diz a filha, que olha para a janela.
— Por que ele foi embora?
— Ele não foi embora, ele foi apenas buscar uma licença especial para
se casarem — Sarah diz.
— Licença? Por quê? Não há motivos...
— Lucy, já conversamos sobre as consequências, a única forma de ter
certeza de que não haverá mexericos é se casarem. — Dayse se levanta e
vai até a janela. — Precisam da licença.
— Será que ninguém entende o que eu quero dizer?
— Lucy. — Ethan entra na sala. — Venha comigo. — Lucy acompanha
o pai até o jardim, ele pega a mão dela e apoia em seu braço. — Soube o
que está acontecendo com o Aaron.
— Soube?
— Sim, que vocês dois passaram um pouco dos limites. E que um
casamento agora é necessário.
— Juro que não entendo essas convenções...
— Lucynda... — Ethan suspira. — Sei que adora questionar o mundo,
que tudo é motivo para perguntas, para se rebelar. Mas realmente quer viver
marcada para sempre como a moça que teve um filho sem se casar? Quer
realmente sujeitar uma criança a ser apontada na rua? Porque, mesmo que
eu use meu título para proteger meu neto, isso ainda pode acontecer.
— Todos falam como se eu estivesse grávida, isso nem é certeza ainda.
— Mas pode ser, basta apenas uma vez para uma gravidez acontecer. Só
queremos proteger você e essa criança. — Ethan volta a caminhar
lentamente. — Fiz de tudo para que você não sofresse quando criança, para
que tivesse um futuro, uma família. Que ninguém a apontasse ou fizesse
mexericos. Por isso me irrita tanto o fato de Felicity ter levantado tudo
novamente. Como pai, quero protegê-la do mundo, quero garantir a sua
felicidade. Por que está lutando tanto contra o fato de que pode ser feliz?
— Porque todo mundo decidiu que sabe o que é melhor para mim, mais
do que eu mesma.
— Eu sou seu pai, sou mais experiente que você. Sempre disse que
poderia esperar, escolher com quem quer se casar. Mas as coisas mudaram,
você e Aaron se precipitaram, e agora uma criança pode acabar pagando por
isso. Quer realmente viver escondida durante a gravidez? Quer mesmo que
alguém crie essa criança sendo dela e não sua? Quer passar talvez o resto da
sua vida escondida no campo, sem se casar, sem saber o que é ter alguém
para dividir sua vida? Porque, Lucy, não quero isso para você. Como pai,
quero a sua felicidade e sei o quanto será triste por ter que se esconder,
sofrerá terrivelmente ao ver seu filho sendo rejeitado por ser ilegítimo.
Aaron foi buscar uma licença especial para que se casem, para que você
possa ter a oportunidade de ser feliz, como eu sou com a sua mãe.
— E se eu não for feliz?
Ethan leva Lucy até um banco e se sentam.
— Eu não queria me casar com a sua mãe, imaginava que a minha vida
seria ao lado de outra mulher. Que não poderia ter felicidade com Eloise. Eu
estava enganado. — Ethan olha para a filha e abre um sorriso. — Nós dois
também nos precipitamos e mesmo assim, na minha cabeça, não havia
motivos para me casar com ela. Estava sendo teimoso como você. Para
mim, Eloise não era o que eu desejava. Mas no final descobri que ela era o
que eu necessitava. Jamais seria feliz sem ela e minha teimosia estava
impedindo que eu vivesse o que poderia ser o melhor momento da minha
vida. Não sente nada pelo Aaron?
— Sinto, eu... poderia morrer se ele não estivesse ao meu lado.
— Então, por que continua insistindo em não se casar? Teme que não
será feliz ao lado dele? Que ele poderá machucá-la?
— Não, sei que o Aaron jamais me machucaria.
— Então por que continua dizendo que não quer se casar?
— Não sei. — Lucy sente uma lágrima escorrer por seu rosto. — Acho
que queria que fosse uma decisão minha e não porque é o certo.
— A decisão é sua, você pode escolher viver aqui no campo com essa
criança para sempre, ou pode dizer sim para o Aaron quando ele voltar. A
decisão cabe apenas a você e, como pai, irei apoiá-la. Mas não posso deixar
de dizer que quero apenas sua felicidade e o seu bem; e, na minha opinião,
sua felicidade estará ao seu alcance se decidir que Aaron é o homem certo
para você.
Lucy soube que Aaron voltou no fim do dia seguinte à sua partida, ao
que tudo indicava tinha conseguido a licença especial de forma rápida e
nem ao menos descansou, voltou na mesma hora. Ela não o tinha visto
ainda, já tinha passado da hora do jantar e estava em seu quarto, pronta para
dormir. A única questão é que sua mente não a deixava descansar, estava
assim desde que seu pai conversara com ela.
Por estar tão perdida em pensamentos, não escuta quando alguém bate
em sua porta e acaba entrando, por não obter uma resposta.
— Lucy? — Agatha pula na cama ao lado da irmã. — O que foi?
— Não deveria estar dormindo?
— Você também devia.
— Você é mais nova, seu horário de dormir é mais cedo.
— Não posso dormir, já que minha irmã parece que está com problemas.
— E meus problemas estão te afetando? — Lucy ri.
— Você está triste, não gosto de você triste. Você chata, mal-humorada,
rindo feito uma doida, eu aceito, mas triste não. — Lucy olha para a irmã
sem saber como responder. — Você está com medo de se casar com o
Aaron?
— Claro que não.
— Então por que não quer se casar? — Agatha olha para ela de uma
forma tão inocente, que Lucy acaba suspirando.
— Não sei — ela confessa. — É como se todo mundo decidisse a minha
vida, eu acho.
— Não faz sentido. — Agatha balança a cabeça. — Ele não é um
cavalheiro com quem gostaria de se casar?
— Agatha, ele seria alguém com quem me casaria sem pensar.
— Então por que está pensando demais? Para mim é medo. Você nunca
teve medo de nada, Lucy, nem mesmo de fantasmas.
— Fantasmas não existem, Agatha. — Lucy ri.
— Existem sim, parece que você está com medo de um e não de se casar
com o Aaron.
— Por que insiste tanto de que estou com medo?
— Porque é o que parece. — Agatha suspira e passa um braço pelas
costas da irmã a abraçando meio sem jeito. — Eu te amo, Lucy, você é a
melhor irmã do mundo, e fico triste com você triste.
— E o que eu deveria fazer na sua opinião? — Lucy pergunta baixinho.
— Casar-se com o Aaron. Posso ser muito nova para ficar acordada até
tarde, mas não sou muito nova para saber que ele gosta de você. Eu ouvi
quando ele disse para a tia Sarah hoje, assim que chegou, que estava
enlouquecendo por não poder se casar com você e dizer para todo mundo
que te ama. Não precisa ter medo, Lucy, tenho certeza de que ele vai te
fazer muito feliz, igual o papai e a mamãe são.
— E se não fizer?
— Pare de ser medrosa, Lucynda! — Agatha grita cruzando os braços.
— Você vai ser feliz, porque vai se casar com o homem que ama.
— Vai acordar a casa inteira. — Lucy ri e puxa a irmã para um abraço.
— Eu te amo muito, Agatha.
— Eu também te amo, sua insuportável. Promete que não vai mais ficar
triste ou com medo?
— Prometo.
Lucy não sabia ao certo o que a levou até a porta do quarto de Aaron,
muito provavelmente foram as palavras de sua irmã. Toda a sua família
parecia tentar colocar um pouco de juízo na sua cabeça, mas foi uma
menina de doze anos que disse a verdade de que tudo não passava de medo
por sua parte. E muito provavelmente era verdade.
Estava morrendo de medo, não só de ser infeliz, de estar cometendo um
grande erro. Suas inseguranças que não sabia existir pareciam querer levar a
melhor. E precisou ouvir que estava realmente com medo para entender que
precisava mudar de atitude. Por isso, respirando fundo, ela bate na porta,
que se abre revelando um Aaron vestido apenas com sua calça, com alguns
botões abertos.
— Lucy?
— Posso entrar? — Aaron deixa Lucy passar por ele e fecha a porta.
Lucynda estava ali no quarto dele, vestida apenas de camisola e seu robe
delicado, enquanto ele estava seminu.
— Está tudo bem?
— Você conseguiu a licença? — ela pergunta de costas para ele.
— Sim, não foi muito difícil, podemos nos casar amanhã, se quisermos.
— Não quero...
— Lucy...
— Existem algumas coisas para serem preparadas, nos casaremos na
sexta.
— Está dizendo que aceita se casar comigo? — Aaron vai até ela e a
gira de frente para ele.
— Sim — ela diz baixinho. — Precisei ouvir de uma menina de doze
anos que eu era uma medrosa por não querer me casar com o homem que eu
amo.
— O que disse? — Aaron abre um sorriso.
— Que precisei ouvir...
— Não — ele a interrompe com uma risada. — Você disse que me ama?
— Sim... eu te amo.
Sem pensar duas vezes, Aaron a levanta em seus braços e a leva para a
cama, estavam sozinhos, em seu quarto. Lucy tinha dito que o amava. Nada
poderia ser melhor do que aquilo naquele momento.
— Eu também te amo. — Aaron beija Lucy, ele a amava e demonstraria
o quanto.
Não precisou muito para Aaron saber que tinham perdido a hora, bastou
olhar para a janela para ver a claridade da manhã e sentir Lucy em seus
braços. Ela ainda estava em seu quarto e alguém poderia vê-la saindo. Não
que fosse fazer diferença, eles se casariam na sexta, tinham dois dias para
prepararem tudo. Toda a sua família já sabia que eles tinham passado a
noite juntos. Mas se preocupava com o fato de que, talvez, Lucy ficasse
preocupada.
— Acorda, meu amor. — Aaron beija o rosto de Lucy. — Já amanheceu.
— Estou com sono — ela resmunga.
— Eu sei, mas precisa ir para o seu quarto. Daqui a pouco, os corredores
dessa casa estarão cheios de criados e da nossa família, e todos saberão que
dormiu aqui.
Lucy rapidamente pula da cama, procurando por sua camisola, e escuta a
risada de Aaron.
— Do que está rindo?
— Do seu pânico por correr o risco de ser pega. — Ele se levanta,
coloca sua calça e vai até ela e a abraça. — Sexta realmente nos casamos?
— Se não me irritar até lá. — Ela dá de ombros e se solta para colocar
sua roupa. — Preciso ir para o meu quarto.
Lucy abre a porta e já está para sair quando Aaron a puxa para os seus
braços e a beija possessivamente.
— Eu te amo — ele diz baixinho e Lucy solta uma risadinha.
— Eu também te amo.
Correndo pelos corredores nas pontas dos pés, Lucy vai para o seu
quarto, sua criada estava arrumando suas coisas e a acaba a assustando.
— Desculpa, senhorita.
— Não se preocupe, eu... — Lucy olha para a cama sem graça.
— Está tudo bem, por que eu não a ajudo a se vestir para que desça para
o café da manhã?
— Está bem.
Uma vez que está vestida e arrumada, Lucy desce para tomar o café da
manhã. Ao entrar na sala de jantar, se assusta com toda a sua família já à
mesa.
— Bom dia, querida. — Eloise abre um sorriso ao ver a filha.
— Bom dia, acho que perdi um pouco a hora. Dormi demais.
Aaron olha para ela com uma sobrancelha erguida e um sorriso.
— Mas você não saiu do seu quarto, estava no quarto do Aaron, Ivy e eu
vimos quando saiu de lá. Não foi, Ivy?
— Foi sim — Ivy concorda.
— O que disse, Agatha? — Eloise olha para a caçula, que estava
cutucando seus ovos no prato.
— Eu vi quando a Lucy saiu de lá, eles até se beijaram... Eca! — Agatha
treme e Ivy imita a prima.
— Eu vou te matar — Lucy diz entredentes para a irmã, que dá de
ombros.
— Não se preocupe, Lucy. — Aaron ri e a abraça. — Vamos nos casar,
lembra? Na sexta, pela manhã, será minha esposa.
— Oh! Você aceitou? — Eloise se levanta e vai até a filha a puxando
para um abraço.
— Sim, ela concordou — Aaron diz.
— Serei a dama de honra — Agatha diz batendo palmas.
— Fique feliz se eu deixá-la entrar na igreja — Lucy diz para a irmã,
que mostra a língua para ela.
Eloise tenta acalmar as coisas entre as filhas, e faz com que Lucy se
sente para comer. Depois que todos estão satisfeitos, eles se levantam da
mesa. Com apenas um olhar para a caçula, Eloise faz com que ela fique na
sala de jantar.
— Estou com problemas? — Agatha questiona a mãe assim que ficam
sozinhas.
Eloise se levanta e vai até a filha, se sentando ao lado dela.
— O que estava fazendo vigiando o quarto do Aaron?
— Ivy e eu decidimos que iríamos ver o nascer do sol, aí, quando
estávamos voltando, eu a vi saindo do quarto dele, só isso.
— Só isso? Nascer do sol? Eu a conheço desde o dia que nasceu,
mocinha.
Agatha ri e abraça a mãe.
— Agora eles vão se casar, mamãe, não era isso que todo mundo queria?
— Era sim. — Eloise ri e abraça a filha ainda mais forte.
Ao que tudo indicava, Agatha seria outro desafio para ela e Ethan
quando chegasse a sua vez de debutar.
Sexta-feira amanheceu clara e ensolarada, parecia que o dia concordava
que tudo seria especial para o casamento de Lucy.
Ela foi acordada por sua criada, que preparou um banho de banheira
quente para relaxar seus músculos, os cabelos foram penteados e arrumados
com pequenas pérolas, o vestido tinha sido uma surpresa de Aaron, o lindo
vestido azul que ela experimentou na modista e que Agatha tinha visto que
ela tinha adorado, agora estava esticado em sua cama, esperando pela noiva.
— Nervosa? — Eloise pergunta para a filha enquanto a observa se
vestindo.
— Achei que estaria mais, nos últimos dois dias minha barriga tinha mil
borboletas, mas agora estou tranquila.
— Porque sabe que tomou a atitude certa. Que Aaron será um marido
maravilhoso e que os dois serão muito felizes.
— Eu o amo, mamãe.
— Eu sei. — Eloise ri. — Sarah e eu sempre desconfiamos de que isso
um dia iria acontecer. Que a briga se transformaria em um grande amor.
— O que eu mais desejo é ter um casamento feliz como o da senhora.
— E vai ter. — Eloise se levanta e faz um carinho no rosto da filha. —
Quando damos e recebemos amor, o casamento tem tudo para dar certo.
Está se casando com o seu amigo, com alguém que a conhece, e que deseja
tanto que você seja feliz.
— Está pronta, senhorita.
— Obrigada, Anne.
Eloise acompanha Lucy até o andar de baixo, onde Ethan as aguardava,
todos já tinham ido para a capela da propriedade onde a cerimônia seria
realizada.
— Está linda. — Ethan tenta enxugar uma lágrima discretamente e
falha. — Quando a peguei nos meus braços, você tinha algumas horas de
vida apenas, o que mais desejei é que você fosse feliz, que encontrasse
alguém que a respeitasse e a amasse. Que tivesse o respeito da sociedade e
um bom homem ao seu lado.
— Parece que seu desejo se realizou. — Lucy ri sentindo as lágrimas
querendo escorrer.
— Eu sei que sim. — Ethan a abraça. — Pronta para se tornar a
responsabilidade de outro homem?
— Falando assim, até parece que não vê o momento em que sairei de
casa.
— Sei que sairá por um bom motivo, vai construir uma família, ter
filhos que a deixarão louca. — Ethan pega o braço dela e caminham para
fora de casa em direção a capela. — Então, em alguns anos, chegarão os
netos, o que não vejo a hora de começar a acontecer comigo, mocinha. —
Ele olha para ela de lado, que ri. — E então você vai entender que, ao
contrário do que imaginava, o dia de hoje não foi uma imposição da
sociedade, não foi um erro, foi a melhor coisa que lhe aconteceu, porque
hoje é apenas o primeiro dia dos melhores dias da sua vida.
— É assim que o senhor se sentiu quando se casou com a mamãe?
— Foi, e a única coisa do qual me arrependo daquela época foi de ter
demorado tanto para me casar. Sua mãe é minha outra metade, eu estava
incompleto sem ela, foi Eloise que fez tudo na minha vida ser tão certo. E
será da mesma forma que Aaron vai pensar em alguns dias. Que se casar
com você foi a melhor decisão dele.
— E eu?
— Você provavelmente ficará louca nos próximos dias. — Ethan ri. —
Vai achar que tomou a decisão errada, somente porque adora questionar
tudo.
— Estou errando?
— Não, se casar com Aaron é a coisa certa a se fazer, não porque é
certo, mas sim porque você o ama.
— Obrigada por me apoiar e me aconselhar.
— Pelo que sei, quem teve o conselho certo foi uma menininha.
— Sim. — Lucy olha para a capela, que já estava próxima. — Ela me
mostrou o quanto eu estava com medo. E o que me deixa mais feliz é que,
em alguns anos, o senhor terá outro grande desafio nas mãos com a Agatha.
— Pelo menos, ela não deseja mais vestidos do que poderá vestir em
uma vida inteira.
Ethan para na porta com Lucy ao seu lado, os poucos convidados se
levantam enquanto eles atravessam o corredor, Aaron estava à sua espera no
altar, vestido de preto, os cabelos bem arrumados e um sorriso enorme. Ao
colocar sua mão na de Aaron, Lucy sente como se tudo estivesse finalmente
certo.
Lucy não presta muita atenção no que é dito na cerimônia, a única coisa
que realmente importa é o final quando são declarados marido e mulher.
— Agora é minha esposa — ele sussurra em seu ouvido e Lucy abre um
grande sorriso.
— Sim, para todo o sempre.
Aaron beija Lucy na frente de todos, ao coro de aplausos e duas
menininhas gritando “eca!”, fazendo todos rirem.
O café da manhã preparado por Eloise tinha todos os quitutes que Lucy
amava, incluindo seus bolinhos com creme e frutas vermelhas. Esses em
especial foram prontamente localizados por Aaron, que manteve vigilância
sobre eles, nunca se sabia quando eles poderiam misteriosamente voarem
para todos os lados.
Como estava muito em cima da hora, Maxwell, Richard e Tyler não
puderam vir ao casamento, mas Aaron prometeu a sua esposa, que, assim
que voltassem de lua de mel, fariam um jantar especial para todos.
Lincoln parecia renovado, seu sorriso era constante enquanto observava
o filho e agora sua nora de braços dados.
— Ele finalmente se casou — Sarah diz ao marido se sentando ao seu
lado.
— Foi a única coisa boa que essa doença nos trouxe.
— Você está muito melhor nos últimos dias, Lincoln.
— Espero poder resistir pelo menos até o nascimento do nosso primeiro
neto.
— Você vai. — Sarah pega a mão do marido emocionada.
— Não chore, mulher, não por mim.
— Eu te amo, homem insensível.
— Eu a amo mais que tudo. Mas nós dois sabemos que é apenas uma
questão de tempo. E prefiro que eu vá primeiro, não quero que nossos filhos
vejam o fantasma que eu me tornaria sem você. Não suportaria perdê-la.
— Eu devo suportar?
— É muito mais forte do que eu. — Lincoln aponta para Aaron e Lucy.
— Eles vão precisar de você. Estão começando a vida deles, e cabe a você
estragar nossos netos.
— Farei isso, mas me prometa que resistirá ao máximo.
— Eu prometo. — Lincoln puxa a esposa para um beijo. — Tentarei
viver ao máximo.
— Um dia estaremos assim. — Aaron aponta com a cabeça para os pais.
— Velhos e apaixonados.
— Eles não são velhos. — Lucy ri. — Mas sim, um dia estaremos como
eles e meus pais. Vendo nossos filhos se casarem.
— E tendo a sorte de serem tão felizes como nós dois somos.
Na sala todos riam e conversavam felizes, na sacada um jovem casal se
beijava e tentavam descobrir a melhor forma de fugirem para ficarem
sozinhos. Na escada da frente da antiga mansão da família, duas meninas
comiam os bolinhos de Lucy conversando como os adultos eram bobos e
que um dia elas seriam muito mais espertas que Lucy, porque se um belo
rapaz a pedissem em casamento, elas não iriam demorar tanto para se
decidir como Lucynda. Diriam sim na mesma hora.
A não ser, é claro, que fossem bobos como os meninos da idade delas.
Aaron observa sua bela esposa descansando, tinha acabado de dar à luz
ao seu terceiro filho. O pequeno pacotinho estava agora em seus braços,
com as bochechas rosadas, pequenos lábios em formato de coração.
Francesca tinha trazido luz para a casa deles, após dois meninos.
Ele sai do quarto o mais silenciosamente que consegue e atravessa o
longo corredor até o quarto de seus pais. Após bater duas vezes na porta, ele
entra.
— Olha quem veio lhe visitar — ele diz a Lincoln, que abre um sorriso
fraco.
Seu pai tinha lutado contra a doença o máximo que conseguia, mas
agora estava perdendo a batalha, naquela manhã confidenciara ao filho que
esperava pelo nascimento de seu sexto neto. Evelyn, sua irmã, dera aos pais
três netos e agora ele tinha igualado os números.
— Ela é linda — Lincoln diz ao filho. — Vou derrubá-la — reclama
quando Aaron coloca o bebê em seus braços.
— Não vai não, vou ajudá-lo. — Aaron apoia o braço do pai, que segura
a pequena neta.
— Consegui.
— Sim, o senhor conseguiu.
— Não imaginei que resistiria tanto tempo. É uma pena que eu não
possa conhecer o quarto.
— Não sabemos se teremos um quarto, Lucy ameaçou me castrar entre
uma contração ou outra.
— Assim que ela descansar, vai voltar a te amar, não se preocupe. —
Lincoln ri sem tirar os olhos da neta. — Você, minha pequena luz, será uma
menina brilhante, terá o mundo aos seus pés, será alguém a quem todos irão
amar. Seu avô a abençoa e pede aos céus por sua felicidade, saiba que o
vovô te ama e, mesmo que não tenha passado tanto tempo ao seu lado, esse
breve momento valerá por toda uma vida.
— Não fale assim, pai, você viverá muitos dias ainda.
— Pegue essa caixa ao seu lado, por favor. — Aaron pega a caixa ao
lado da cama e abre revelando um lindo conjunto de colar e brincos de
safira e diamantes. — Pertenceu a minha mãe, guardei especialmente para a
sua filha. As outras joias estão com sua mãe e irmã, que guardou as da filha
dela. Quero que Francesca tenha algo que ganhou de seu avô.
— Ela ficará linda com essas joias. — Aaron sente a garganta se apertar.
— Eu te amo, pai.
— Eu também te amo, e amo essa pequena menina.
Infelizmente, Lincoln não resistiu àquela noite, Aaron sentia
profundamente a perda de seu pai, mas estava feliz por aquele último
momento ao lado dele e sua filha.
Lucy abraçou o marido com seus três filhos entre eles, sua pequena
família era o seu maior apoio naquele momento. E cada dia ao lado deles,
tinha certeza de que tinha tomado a decisão correta de lutar por uma menina
teimosa e arremessadora de bolinhos.
Durante os anos de casados, precisou se desviar várias vezes de bolinhos
voadores, mas não podia reclamar, Lucy era assim; sua amada esposa era
geniosa, teimosa e lutadora. E tinha se tornado uma grande mãe.
Eles eram imensamente felizes, e passariam por aquele momento triste
unidos, como fizeram nos últimos anos. Porque, ao lado de Lucy, ele
poderia enfrentar o mundo e sabia que jamais perderia.
Primeiramente queria agradecer a Deus por ter me proporcionado a
realização de mais um sonho.
Não poderia deixar de agradecer mais uma vez a Naty, Luzia, Luciane,
Cláudia, Stephanie e a Gessica que criticaram e apoiaram cada linha que
escrevi, sem vocês não conseguiria terminar.
Para todos os blogs parceiros.
Muito obrigada a você também que dedicou um pouco do seu tempo
para ler esse livro.
Nascida em São Paulo, capital.
Viciada em livros, chocolate, sapatos e maquiagem.
Leitora compulsiva, já chegou a ler 25 livros em um mês.
Sempre gostou de escrever, mas parou quando uma professora disse que
não tinha talento, porém nunca desistiu de seu sonho.
Autora de várias obras, entre elas Nossa História, As duas faces da
mesma mulher e A proposta do conde e A recusa da lady, que fazem parte
da Duologia Davenport, publicados pela Editora Angel.
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