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br/actio
Divulgando astronomia no ensino
fundamental por meio de um planetário
móvel
RESUMO
João Paulo da Silva Melo Neste trabalho, descreve-se atividades desenvolvidas no âmbito de um projeto de extensão
[email protected]orcid.org/0000-0001-5213-5183 destinado à divulgação científica em Astronomia. Analisa-se também os resultados de uma
Universidade Federal de São João del-Rei
(UFSJ), São João del-Rei, Minas Gerais, pesquisa que discute o contato e o conhecimento prévio em Astronomia de 154 alunos do
Brasil
quinto e sexto ano do ensino fundamental de escolas da rede pública de cidades da região
Samuel William de Paulo Oliveira do Campo das Vertentes de Minas Gerais, e busca identificar manifestações espontâneas
[email protected] de aprendizagem decorrentes das sessões de cúpula realizadas com um planetário móvel.
orcid.org/0000-0002-9407-7150
Universidade Federal de São João del-Rei Os participantes responderam a questionários antes e um dia após a sessão de cúpula. Os
(UFSJ), São João del-Rei, Minas Gerais,
Brasil resultados sugerem que a atividade extensionista realizada foi bem-sucedida, tendo um
índice de aprovação superior a 98% e com mais de 93% dos participantes conseguindo
Alessandro Damásio Trani
Gomes
mencionar, corretamente, algo que avaliaram ter aprendido com a atividade desenvolvida.
[email protected] Com base nos resultados obtidos, são discutidas as implicações educacionais e propostas
orcid.org/0000-0001-9095-5270
Universidade Federal de São João del-Rei novas possibilidades de pesquisa na área.
(UFSJ), São João del-Rei, Minas Gerais,
Brasil PALAVRAS-CHAVE: Planetário. Extensão universitária. Educação não formal.
Fernando Otávio Coelho
[email protected]orcid.org/0000-0002-7069-8905
Universidade Federal de São João del-Rei
(UFSJ), São João del-Rei, Minas Gerais,
Brasil
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ACTIO, Curitiba, v. 5, n. 3, p. 1-21, set./dez. 2020.
INTRODUÇÃO
O homem tem observado o céu desde a pré-história, por motivações místicas
e/ou sócio-organizacionais. O ato de olhar para o céu também pode nos colocar
diante dos maiores questionamentos que dizem respeito a quem somos, de onde
viemos e para onde vamos. Tal prática, além de revelar a curiosidade humana, deu
início à Astronomia, uma das ciências mais antigas desenvolvidas pelo homem, que
foi responsável pela revolução científica dos séculos XVI e XVII.
Mesmo as pessoas que nunca tiveram contato formal com a Astronomia, já
olharam para o céu durante um dia ensolarado ou uma noite com céu limpo, e
admiraram as efemérides celestes e a imensidão do cosmos (MILONE et al., 2003).
Apesar de ser uma ciência muito antiga, com contribuições fundamentais para
a evolução da humanidade, os estudos relacionados ao ensino de Astronomia são
relativamente recentes (BAILEY; SLATER, 2003; LELLIOTT; ROLLNICK, 2010). Com o
lançamento do Sputnik em 1957, estudos relacionados ao ensino de Astronomia
ganharam força. Os países desenvolvidos reestruturaram seus programas
educacionais de Ciências, ampliando os conceitos científicos levados à comunidade
em geral, para não ficarem atrasados na corrida espacial. Para este propósito
foram utilizados a riqueza visual, o poder interdisciplinar e a atratividade da
Astronomia. Esse fato contribuiu para estimular a pesquisa na área (TÜRK;
KALKAN, 2015).
Assim como Gomes e Zanon (2019, p. 151), defende-se nessa pesquisa a
importância de que tópicos em Astronomia sejam devidamente abordados com as
crianças ainda no ensino fundamental, contribuindo para “despertar a
contemplação pela natureza e a consciência de que o ser humano está inserido no
tempo e no espaço, no mundo cósmico, trazendo a motivação necessária para a
busca pelo conhecimento científico”.
Infelizmente, no Brasil, apesar de prevista nos documentos oficiais que
regulam a educação básica, a Astronomia não é devidamente abordada, sendo
vista de forma fragmentada e episódica em disciplinas como Ciências no ensino
fundamental e Física no ensino médio.
Apesar de benefícios evidentes do ensino da Astronomia apontados por
Caniato (1974),
parece haver um descaso quanto à abordagem deste tema na educação
brasileira. Uma análise sobre a história mostra como a astronomia sofreu uma
gradual dispersão e quase desaparecimento dos currículos escolares. Nem
mesmo o professor brasileiro do Ensino Fundamental e Médio, na maioria dos
casos, aprende conteúdos de astronomia durante a sua formação na
faculdade. Como consequência, os professores, em geral, optam por duas
alternativas: preferem não ensinar astronomia ou buscam outras fontes de
informações. Porém, há carência de fontes seguras sobre astronomia, pois
até mesmo livros didáticos apresentam erros conceituais. A mídia é escassa
em documentários sobre este tema, e muitas vezes prefere exagerar no
sensacionalismo em notícias que envolvem assuntos sobre o espaço sideral
(LANGHI, 2009, p. 9).
Espaços não formais de educação podem ajudar a suprir, em parte, a carência
por um ensino adequado de Astronomia e contribuir para a popularização desta
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área do conhecimento humano que encanta e desperta o interesse de grande
parte da população.
O termo “espaço não formal” tem sido utilizado por educadores,
pesquisadores na área de Educação e profissionais que trabalham com divulgação
científica para descrever lugares, diferentes da escola, onde é possível desenvolver
atividades educativas. Por haver divergências conceituais acerca do termo,
considera-se, assim como Elias, Amaral e Araújo (2007), que a educação não formal
representa um amplo conjunto de atividades extraclasse que possuem
metodologias flexíveis, nas quais o ensino ocorre de forma interativa, conduzindo
o aluno a participar ativamente do processo de construção de seu conhecimento.
O planetário é um exemplo de espaço não formal de educação destinado,
principalmente, ao ensino de Astronomia. Trata-se de um ambiente que conta com
uma cúpula semiesférica, onde são projetados o céu e os corpos celestes com
projetores optomecânicos ou digitais de última geração. O programa de simulação
dos movimentos dos corpos celestes permite avançar e retroceder no tempo e
mudar o ponto de observação para qualquer corpo do Sistema Solar, o que permite
a visualização de fenômenos como eclipses e chuvas de meteoros de vários pontos
de vista, facilitando sua compreensão.
Marandino e colaboradores (2004) consideram que as pesquisas na área de
ensino de Ciências que abordam a divulgação científica em espaços não formais de
educação são escassas. São ainda mais raros os estudos nacionais diretamente
relacionados ao ensino de Astronomia em espaços como planetários,
observatórios e clubes de Astronomia (LANGHI; NARDI, 2009; SIEMSEN;
LORENZETTI, 2017).
Este trabalho descreve as atividades desenvolvidas no âmbito de um projeto
de extensão destinado à divulgação científica em Astronomia. Analisa-se também
os resultados de uma pesquisa que discute o contato e o conhecimento prévio em
Astronomia de 154 alunos do quinto e sexto ano do ensino fundamental de escolas
da rede pública de cidades da região do Campo das Vertentes de Minas Gerais e
busca identificar manifestações espontâneas de aprendizagem decorrentes das
sessões de cúpula realizadas com um planetário móvel.
O ENSINO DE ASTRONOMIA, EDUCAÇÃO NÃO FORMAL E PLANETÁRIOS
A Base Nacional Comum Curricular (BNCC), documento de caráter normativo
que define o conjunto orgânico e progressivo de aprendizagens essenciais que
todos os alunos devem desenvolver ao longo da Educação Básica, propõe a
organização dos currículos de Ciências em três unidades temáticas que se repetem
ao longo de todo o ensino fundamental (BRASIL, 2018b). São elas: “Matéria e
energia”; “Vida e evolução”; e finalmente, “Terra e Universo”, na qual “busca-se a
compreensão de características da Terra, do Sol, da Lua e de outros corpos celestes
– suas dimensões, composição, localizações, movimentos e forças que atuam entre
eles” (p. 328).
Segundo a BNCC, os alunos começam a se apropriar de explicações científicas
envolvendo as temáticas “Vida e Evolução” e “Terra e Universo” no ensino
fundamental, também procedendo análises do sistema solar e dos movimentos da
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Terra em relação ao Sol e à Lua. No ensino médio, torna-se possível unificar essas
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duas temáticas, levando o aluno a uma compreensão mais ampla dos processos a
elas relacionados.
Ainda segundo a BNCC, uma das três competências específicas que a área de
Ciências da Natureza e suas Tecnologias deve garantir, está diretamente
relacionada a conteúdos ligados à Astronomia: “Construir e utilizar interpretações
sobre a dinâmica da Vida, da Terra e do Cosmos para elaborar argumentos, realizar
previsões sobre o funcionamento e a evolução dos seres vivos e do Universo, e
fundamentar decisões éticas e responsáveis” (BRASIL, 2018b, p. 539).
Diversos trabalhos abordam a distância entre o que é proposto nos
documentos oficiais e a realidade do insucesso do ensino de Astronomia nas
escolas. Os motivos para isso são discutidos em diversos artigos (CARVALHO et al.,
2016; LANGHI; NARDI, 2009; LANGHI, 2011).
Tendo em vista essa realidade, espaços de educação não formais como
planetários, observatórios e centro de Ciências podem desempenhar um
importante papel na promoção adequada do ensino e na divulgação científica em
Astronomia. Existe hoje um consenso em relação à importância e à necessidade de
se elaborar políticas e estratégias pedagógicas de divulgação da Ciência que
efetivamente auxiliem na compreensão do conhecimento científico, por meio de
experiências fora da escola (MARANDINO et al., 2004).
Bueno (2009, p.162) considera que a divulgação científica compreende a
“utilização de recursos, técnicas, processos e produtos (veículos ou canais) para a
veiculação de informações científicas, tecnológicas ou associadas a inovações ao
público leigo”. Para Loureiro (2003), a divulgação científica constitui-se no
emprego de técnicas de recodificação de linguagem da informação científica e
tecnológica objetivando atingir o público em geral e utilizando diferentes meios de
comunicação.
As formas de divulgação científica evoluíram, acompanhando a própria
evolução das Ciências e dos recursos tecnológicos, gerando, assim, uma grande
multiplicidade de formas e meios de popularização. Centros de ciências,
bibliotecas, laboratórios, museus, exposições, planetários, observatórios, centros
de tecnologia, zoológicos, jardins botânicos, dentre outros, são exemplos de
ambientes que podem ser considerados como espaços não formais de educação.
Para Vieira, Bianconi e Dias (2005), espaços como museus de ciências,
observatórios, clubes de astronomia e planetários “oferecem a oportunidade de
suprir, ao menos em parte, algumas das carências da escola como a falta de
laboratórios, recursos audiovisuais, entre outros, conhecidos por estimular o
aprendizado” (p. 21). Tais espaços apresentam-se como recursos para auxiliar na
apropriação do conhecimento como um bem cultural, por meio de uma
abordagem interessante, possibilitando a utilização de métodos diferenciados de
ensino, atrelados às atividades que proporcionem informação acessível e de
qualidade.
Diversas pesquisas sobre a aprendizagem têm evidenciado o potencial destes
espaços, indicando que tais ambientes despertam o interesse e a curiosidade,
motivam, socializam e estimulam os alunos, sendo esses elementos fundamentais
nos processos de ensino e aprendizagem (FREITAS, GERMANO; AROCA, 2013;
Página | 4 VILAÇA, LANGHI; NARDI, 2013).
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Os planetários são exemplos de espaços não formais de educação. Segundo
Almeida e colaboradores (2017, p. 71),
o termo planetário diz respeito ao ambiente no qual, com equipamentos de
projeção, no centro de uma cúpula abobadada, som ambiente e até mesmo
sistemas mecânicos de movimento, é apresentada a imagem do céu de
qualquer ponto do Sistema Solar, em qualquer tempo e de qualquer época,
passada ou futura, bem como as trajetórias dos corpos celestes ao longo do
tempo, sendo possível inclusive a alteração na velocidade dos movimentos
para oferecer a melhor visualização de um fenômeno celeste específico.
Atualmente, além de simulações da esfera celeste, podem ser apresentados
filmes ou outros conteúdos multimídia sobre diversos assuntos científicos.
A cúpula configura-se, assim, como um ambiente tridimensional de ilusão e
imersão. Devido a esse fato, os planetários têm a capacidade de afetar
psicologicamente o senso de realidade do visitante, fazendo com que eles
mergulhem totalmente em uma envolvente experiência audiovisual (LANTZ,
2011). Lantz denomina essa experiência como “imersão sensorial” e sugere que o
valor educacional resultante pode ser tanto cognitivo quanto afetivo. Heimlich e
colaboradores (2010) apontam que o interesse do público no tema abordado é
maior em planetários com projeção em cúpulas, sendo este um modo estimulante
de apresentar informações científicas, seja de natureza astronômica ou não.
Os planetários são, portanto, ambientes adequados para pessoas de todas as
idades aprenderem conceitos básicos sobre Astronomia. Muitos desses conceitos,
como o movimento aparente do Sol, as fases lunares e as posições dos objetos no
céu, são conceitos-chave que se espera que os estudantes conheçam no final da
educação básica. Muitos desses tópicos são difíceis de serem visualizados, porque
acontecem lentamente ao longo de horas, dias ou até mesmo meses. Isso contribui
para o desenvolvimento, por parte de crianças e adultos, de ideais inadequadas ou
idiossincráticas sobre tais fenômenos (LANGHI, 2011; SLATER, MORRIS;
MCKINNON, 2018). Como o planetário pode acelerar os movimentos dos corpos
celestes, eles se tornam mais concretos e visíveis. Os planetários oferecem um
ambiente muito útil e imersivo para o ensino de conceitos de Astronomia por meio
da simulação desses fenômenos.
Planetários móveis objetivam a divulgação científica, possibilitam a conexão
de pessoas à Ciência, dão às Ciências, em especial à Astronomia, presença na
comunidade e oferecem às pessoas de todas as idades e classe social a
oportunidade de fazerem perguntas, discutir e explorar conceitos científicos.
Assim, necessariamente, um planetário móvel é interativo e busca a comunicação
com um público diversificado. Na aprendizagem alcançada em um planetário
móvel, o contexto social por ele proporcionado desempenha um importante papel,
e configura-se como oportunidade para o crescimento e desenvolvimento pessoal,
assim como ampliação da visão de mundo.
Foram identificados poucos trabalhos com relatos de resultados empíricos
decorrentes de projetos de extensão, com alunos ou com público em geral, tendo
um planetário como principal meio de ensino.
Romanzini e Ber (2012), por exemplo, realizam uma síntese das atividades
projetadas e desenvolvidas como parte de um projeto de extensão desenvolvido
no Planetário de Londrina, visando à popularização da Astronomia e ciências afins,
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mas não apresentam os resultados destas atividades.
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De Maman e colaboradores (2015), apresentam resultados preliminares do
projeto de extensão “Percorrendo o Vale, desvendando o céu”, baseado em um
planetário móvel, que tem por objetivo estimular os participantes a aperfeiçoarem
seu conhecimento e ampliarem sua cultura científica em Astronomia.
O PROJETO DE EXTENSÃO
Este trabalho insere-se em um projeto de extensão denominado “Planetário
móvel: a UFSJ leva o Universo até você”, que é desenvolvido há três anos. O
objetivo do projeto é promover a divulgação científica por meio da Astronomia.
Busca-se oferecer às comunidades, tanto local, quanto das cidades e municípios
da região do campo das Vertentes, a oportunidade de vivenciar a experiência
científica, maravilhar-se com a criatividade e beleza da Ciência e ter uma melhor
compreensão sobre o cosmos, a natureza e a tecnologia.
O público atendido pelo projeto de extensão, até dezembro/2019, foi de
10.000 pessoas, sendo realizadas 500 sessões de cúpula. Dessas, 400 sessões
foram destinadas às escolas da educação básica, públicas e particulares de treze
cidades da região do Campo das Vertentes, em Minas Gerais. Cerca de 8.000
alunos de 30 escolas puderam participar das atividades desenvolvidas. Também
foram realizadas 100 sessões regulares, abertas ao público em geral, que contaram
com cerca de 2.000 visitantes.
O planetário utilizado no projeto consta de domo inflável com revestimento
polimérico de duas camadas (capa principal e capa para projeção interna),
fabricado por meio de costura, com 6 metros de diâmetro e 4,0 metros de altura,
com capacidade para até 25 pessoas por sessão (Figura 1). A operação do
planetário é feita por meio de um sistema digital para projeção hemisférica no
interior em cúpulas semiesféricas, com projetor único, com campo de visão de
180°x360°, sem utilização de espelhos e matrizes de projeção, mas por meio de
uma única lente fixa no sistema que lança a imagem para uma meia-esfera, sem
deformação.
O equipamento é desenhado para atender às necessidades pedagógicas
requeridas pelos brasileiros que ainda se veem distantes destes ambientes em
funcionamento no país, facilitando o acesso à valorosa vivência científica
proporcionada por tais instalações, democratizando e popularizando, assim, o
conhecimento científico, sendo adequado para o projeto de extensão em questão.
A Resolução MEC/CNE/CES Nº 7/2018, que estabelece as Diretrizes para a
Extensão na Educação Superior Brasileira, em seu Art. 3, considera a extensão uma
atividade que se integra à matriz curricular e à organização da pesquisa,
constituindo-se em processo interdisciplinar, político educacional, cultural,
científico, tecnológico, que promove a interação transformadora entre as
instituições de ensino superior e os outros setores da sociedade, por meio da
produção e da aplicação do conhecimento, em articulação permanente com
o ensino e a pesquisa (BRASIL, 2018a, p. 49).
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Figura 1 – Planetário móvel utilizado
Fonte: Autoria própria (2019).
Compartilha-se com Costa, Santos e Grinspun (2009) as concepções do fazer
extensionista, que inclui a possibilidade de construção da interlocução da práxis
pedagógica e intelectual com a sociedade. Visto dessa forma, as propostas e
produtos da extensão mantém e se produzem em uma dinâmica de aprendizagem
reflexiva, mútua e autônoma, por meio de um vínculo entre sociedade e
universidade.
Síveres (2010) propõe que a universidade seja considerada como uma
“ambiência de aprendizagem”. Segundo o autor,
na caracterização da universidade como uma ambiência de aprendizagem, a
extensão universitária tem um papel importante a desempenhar, na medida
em que a sua relação com os saberes potencializa a autonomia dos sujeitos,
a emancipação das comunidades e a soberania da população. Dessa forma, a
extensão constitui-se numa atmosfera propícia para acolher, cuidar e
desenvolver conhecimentos que, por sua vez, estão vinculados ao processo
educativo (p.10).
Síveres ainda considera a extensão universitária como um “percurso
aprendente”. Para ele, a extensão,
para além de contribuir com a identidade institucional e com a finalidade
educacional, a mesma pode ser compreendida como um processo
aprendente, objetivando desencadear um percurso que, junto com o ensino
e a pesquisa, postulem uma aprendizagem significativa para os sujeitos
envolvidos na reflexão e na prática acadêmica (SÍVERES, 2010, p.12).
O objetivo das atividades extensionistas é, portanto, a constituição de um
fluxo que estabeleça a troca de saberes acadêmico e popular, tendo como
consequência a produção do conhecimento resultante do confronto com as
realidades regionais e nacionais, a democratização do conhecimento acadêmico e
a participação efetiva da comunidade na atuação da universidade (MORAES;
WISNIEWSKI; ROCHA, 2014).
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ASPECTOS METODOLÓGICOS
Como já mencionado, o projeto de extensão “Planetário móvel: a UFSJ leva o
Universo até você” já desenvolveu atividades extensionistas de divulgação
científica em Astronomia para cerca de 10.000 pessoas. Destas, foi selecionada
uma amostra condizente com o objetivo almejado pela pesquisa.
Participantes
Os participantes desta pesquisa são 154 alunos do quinto e sexto ano do
ensino fundamental da rede pública de três cidades próximas a São João del-Rei,
com faixa etária entre 10 e 13 anos.
Por se tratar de um evento pedagógico promovido pela escola, os pais e/ou
responsáveis das crianças já haviam sido informados sobre a participação dos
alunos nas atividades do planetário. Para que os dados gerados pudessem ser
utilizados para fins de pesquisa, foram solicitadas autorizações à diretora da escola
e às professoras das turmas envolvidas, assegurando o anonimato e a integridade
moral dos participantes.
A atividade desenvolvida
O planetário móvel foi instalado nas quadras das escolas participantes e
permaneceu, em média, dois dias em cada escola. Antes da visita do planetário à
escola, foi organizado um cronograma para que todas as turmas pudessem
participar das sessões de cúpula.
As sessões de cúpula tiveram uma duração de aproximadamente 45 minutos.
Na primeira parte, por meio de uma abordagem dialógica e problematizadora, era
feita uma apresentação interativa sobre os movimentos aparentes do Sol e da Lua,
simulações de anoitecer e amanhecer, a identificação dos planetas visíveis da Terra
a olho desarmado e de algumas constelações mais tradicionais. Lopes (1991, p.42)
afirma que essa abordagem “utiliza o diálogo entre professor e aluno para
estabelecer uma relação de intercâmbio de conhecimentos e experiências”.
Segundo Santos, Machado e Sobral (2016, p. 208), “a dialogicidade se estabelece
entre os sujeitos envolvidos sobre a realidade que os mediatizam. Com o processo
educativo dialógico e problematizador está subjacente a ideia de transformação
para uma sociedade mais humanizada”, mais inclusiva, que compreende as
diferenças e que ofereça oportunidades de aprendizagem a todos.
Em seguida, era feita a exibição do filme “Os filhos do Sol”. O filme, em mídia
fulldome, extensão .avi, é exclusivo para projeção em planetários digitais e foi
produzido pela Projekt Design e Hiperlab Equipamentos Científicos Ltda e tem
duração de 22 minutos. Nele, apresentam-se os planetas do Sistema Solar e um
pouco sobre a composição e características físicas de cada um deles. O filme
começa apresentando o céu visto da Terra e mostra que cinco planetas podem ser
vistos a olho desarmado. Após apresentar a esfera celeste, o espectador é levado
a conhecer de perto as características do Sol, visitar os planetas, alguns de seus
satélites naturais e sobrevoar algumas superfícies planetárias. Ao final, simula-se
Página | 8 uma “carona” em um cometa para retornar à Terra, possibilitando uma visão mais
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detalhada do nosso planeta visto do espaço. Assim, os recursos visuais oferecidos
pelo planetário permitem, por exemplo, que seja feita uma rica discussão a
respeito de aspectos geológicos dos diferentes componentes do Sistema Solar e
do seu processo de formação, bem como a visualização da ordem de grandeza das
distâncias e do tamanho relativo dos corpos celestes, em especial quando
comparados com o Sol.
Instrumentos e procedimentos de pesquisa
Um questionário exploratório inicial (figura 2), composto por 3 questões, foi
elaborado para identificar o contato, as concepções prévias e as associações que
os alunos participantes fazem com Astronomia.
O questionário foi aplicado aos alunos antes da chegada do planetário à
escola, sem qualquer referência a ele e aos conteúdos que seriam abordados pela
atividade ainda a ser desenvolvida.
Figura 2 – Questionário inicial
Nome ________________________________________ Idade _______ Turma:______
1) Escreva as três primeiras palavras que vêm na sua cabeça quando você pensa em
ASTRONOMIA.
_______________ _________________ ________________
2) Você já olhou para o céu durante a noite?
( ) SIM
( ) NÃO
Se você respondeu SIM, o que você já observou no céu?
3) Você já assistiu algum filme ou programa de televisão que falou sobre Astronomia?
( ) SIM
( ) NÃO
Você sabe dizer qual programa? _________________________
Fonte: Autoria própria (2019).
Com o objetivo de avaliar a atividade desenvolvida, se ela supriu as
expectativas dos participantes e buscando identificar relatos espontâneos de
aprendizagem, foi utilizado um questionário final (figura 3), preenchido no dia
seguinte às atividades.
Foram realizadas oito sessões de cúpula, com cerca de 14 a 25 alunos por
sessão, devidamente acompanhados por seus professores. Os bolsistas de
extensão foram os responsáveis pela condução das atividades, operando o
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projetor, organizando a entrada e saída dos alunos do planetário e fazendo a
apresentação interativa.
Figura 3 – Questionário final
Nome:______________________________________ Idade _______ Turma:______
1) Você gostou da atividade desenvolvida com o planetário?
( ) SIM
( ) NÃO
2) Escreva o que você mais gostou.
3) Teve alguma coisa que você não gostou?
4) Escreva alguma coisa que você aprendeu com a atividade.
Fonte: Autoria própria (2019).
RESULTADOS E DISCUSSÃO
Durante a exposição interativa sobre o Sol, a Lua, os planetas e as
constelações, houve uma boa participação dos estudantes com vários comentários
e perguntas de variados níveis, estabelecendo-se entre os alunos e os bolsistas de
extensão uma interação muito produtiva. À guisa de exemplificação,
apresentamos algumas das perguntas feitas pelos estudantes durante essa etapa:
“Qual a diferença entre fases da Lua e eclipse?”
“Por que não temos eclipse todos os meses?”
“A fase da Lua é a mesma durante uma noite seguida aqui no Brasil e no
Japão?”
“Tem noite que não é possível ver nenhum planeta no céu?”
“A Lua sempre aparece no céu no mesmo horário?”
Os alunos perceberam que tinham a liberdade de expor seus questionamentos
e pensamentos e os bolsistas demonstraram tranquilidade e domínio do conteúdo
para discutir, dirimir as dúvidas e responder às perguntas. Arrigone e Mutti (2011)
defendem que perguntas e intervenções feitas pelos estudantes fornecem indícios
sobre o engajamento e o interesse deles durante as atividades. Portanto, pode-se
inferir que os alunos, de forma geral, se mostraram motivados e interessados
durante a sessão no planetário. Para Specht, Ribeiro e Ramos (2017), a utilização
da pergunta elaborada pelos sujeitos é um importante recurso de incentivo à
aprendizagem dos estudantes. Quando o estudante elabora espontaneamente
uma pergunta ele demonstra interesse pelo conteúdo que está aprendendo,
trazendo para a discussão os seus interesses e suas dúvidas.
Durante a exibição do filme, os alunos permaneceram em silêncio,
demonstrando atenção e interesse pelo conteúdo abordado. Em alguns momentos
pode-se ouvir expressões de surpresa e fascínio coletivo como “Nossa” ou “Nuh”,
quando eles percebiam a ordem de grandeza de determinados eventos. Após a
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ACTIO, Curitiba, v. 5, n. 3, p. 1-21, set./dez. 2020.
sessão, os alunos se mostraram muito entusiasmados e interessados em tudo que
foi exibido durante a sessão de cúpula.
A análise das respostas dos alunos à primeira questão do questionário inicial
revelou um universo de 442 palavras, sendo 403 palavras simples e 14 expressões
com mais de uma palavra. Houve também 20 lacunas sem resposta. Os
participantes utilizaram um total de 85 palavras diferentes para responder a
questão. Para se perceber a riqueza e a diversidade das palavras utilizadas,
construiu-se uma nuvem de palavras com aquelas que foram utilizadas, pelo
menos, duas vezes (figura 4).
Figura 4 – Nuvem de palavras que representa a frequência da ocorrência dos termos
relacionados à Astronomia escritos pelos alunos
Fonte: Autoria própria (2020).
As 10 palavras mais citadas contabilizam 310 ocorrências e são termos
intimamente ligados à Astronomia, bem como algumas expressões identificadas:
“Conhecer a Lua” ou “Vida em Marte”. Apenas 15 palavras e/ou expressões
utilizadas pelos alunos como “Economia”, “Eólica”; “Mergulho”; “Thanos” ou
“Ciência que estuda” não podem ser associadas diretamente à Astronomia. Isso
indica que a grande maioria dos alunos que participaram da atividade possuem
algum conhecimento prévio ou fazem ideia do que seja Astronomia ou o que ela
estuda.
Quando questionados sobre já terem olhado para o céu durante a noite
(questão 2 do questionário inicial), 147 alunos marcaram que sim e outros 7, não.
Em caso afirmativo foi solicitado que escrevessem o que observaram e a maior
parte dos alunos disseram ter observado as estrelas (122 ocorrências), Lua (88
ocorrências) e planetas (10 ocorrências). Foi possível identificar respostas mais
elaboradas como o nome de determinadas constelações, as fases da Lua, e
Página | 11 expressões como “Cruzeiro do Sul”, “Estrela Cadente” e “Via Láctea”, evidenciando
ACTIO, Curitiba, v. 5, n. 3, p. 1-21, set./dez. 2020.
que alguns alunos, dentre os participantes, possuem maior familiaridade com
observações do céu noturno.
Para investigarmos melhor sobre o contato dos alunos com temas e assuntos
relacionados à Astronomia, perguntamos se os alunos já tiveram oportunidade de
assistir algum filme ou programa de televisão no qual abordasse Astronomia. Dos
154 participantes, 32 responderam afirmativamente. Neste caso, era solicitado
que eles escrevessem qual era o filme ou programa. A tabela 1 mostra as citações
e suas respectivas ocorrências.
Tabela 1 – Filmes, Animação, Seriados, Documentários e Programas de TV citados
Programa Tipo Ocorrência
Dr. Who Seriado 4
A Culpa é das Estrelas Filme 3
National Geographic Canal de documentários 2
Star Wars Filme 2
Como Será? Programa de TV 1
Cosmos Documentário 1
Depois da Terra Filme 1
Futurama Animação 1
Jornal Nacional Programa Jornalístico 1
O Meteoro Filme 1
O Show da Luna Desenho Animado 1
Planeta Extremo Seriado/Documentário 1
Segredos da NASA Seriado 1
Toy Story Filme de Animação 1
Fonte: Autoria própria (2020).
Dois alunos relataram ter visto o tema ser tratado em programas que falam
sobre o Espaço e em programas que apresentam o funcionamento e as
particularidades do Sistema Solar. Outros dois escreveram que viram em
programas chamados “Astros luminosos” e “Falando sobre o Espaço” que não
foram identificados como existentes. E os outros 7 disseram não se lembrar o
nome do programa.
A análise dos tipos de programas presentes na tabela 1 permite verificar que
os alunos participantes desta pesquisa, em sua maioria, tem contato com assuntos
relacionados à Astronomia por meio de programas que não objetivam à divulgação
científica de qualidade e, portanto, não possuem o compromisso de transmitir
informações científicas com o devido rigor, o que pode gerar, em muitos casos, o
desenvolvimento ou o reforço de concepções inadequadas sobre diversos
fenômenos celestes. Por outro lado, nota-se a ocorrência de programas como
“Cosmos”, que tem o compromisso de divulgar conteúdos de Astronomia de
qualidade e o canal de TV National Geographic, que apesar de ser uma
exclusividade da TV por assinatura, e por essa razão não ser acessível a muitas
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pessoas, tem em sua programação vários seriados e documentários com
informações adequadas.
As respostas dos participantes as duas primeiras perguntas revelam um
aspecto a ser ressaltado. Cerca de 5% responderam que nunca olharam para o céu
durante a noite e quase 80% responderam que nunca assistiram um filme ou
programa de televisão que abordasse algum conteúdo de Astronomia. Tais
resultados, corroboram a posição de Soler e Leite (2012) ao argumentarem que,
considerar a Astronomia um assunto que desperta muito o interesse e curiosidade
dos alunos faz parte “do senso comum do ato de se ensinar e divulgar Astronomia”
(p. 377) e que não há tanto respaldo assim, por meio de pesquisas empíricas, sobre
essa afirmação.
No dia seguinte à atividade no planetário, os alunos responderam ao
questionário final. Na questão 1 foi perguntado se os participantes gostaram da
atividade realizada. A aprovação superou os 98%, com 152 participantes marcando
que gostaram da atividade.
Na questão 2, os alunos responderam sobre o que mais gostaram. Após a
leitura das respostas dos alunos, foi possível categorizá-las de acordo com o
aspecto mais destacado. A tabela 2 sintetiza os aspectos presentes nas respostas
mais recorrentes. A soma das ocorrências pode ultrapassar o número de
respondentes, pois em uma mesma resposta, pôde ser identificado mais de um
aspecto.
Tabela 2 – Aspectos que os alunos mais gostaram na atividade
Aspecto Ocorrência
Planetas 92
Tudo 29
Da viagem 20
Sol 15
História dos Planetas 14
Lua 7
Estrelas 6
Fonte: Autoria própria (2020).
Boa parte dos alunos (59%) citou os planetas como aspecto que eles mais
gostaram. Realmente, a ênfase do filme apresentado são os planetas do Sistema
Solar. Portanto, esse resultado era, de certa forma, esperado. Muitos alunos
citaram planetas e seus aspectos específicos. Um dos mais citados foi o nosso, o
planeta Terra. Também foram bastante citados Saturno, por causa de seus belos
anéis e Júpiter, por ser o maior planeta do Sistema Solar. As respostas abaixo
representam um pouco do espectro de respostas obtidas para essa questão:
“Eu gostei das tempestades em Júpiter.”
“Eu gostei dos planetas e das estrelas.”
“Gostei de aprender sobre os planetas.”
“A parte que a gente conheceu nosso planeta.”
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Algumas respostas como: “De ver os planetas como se eu estivesse lá”; “Da
parte em que o Sol estava se aproximando de nós. Parecia que ele estava caindo”;
“Eu gostei de tudo, porque parecia que a gente estava no Espaço.”, mostram que
os recursos audiovisuais do planetário foram capazes de prender a atenção dos
alunos, causando-lhes um grande encantamento e fazendo com que os
participantes permanecessem atentos a todos os detalhes.
Os planetários têm o potencial de mediar a aprendizagem, fornecendo
experiências sensoriais incomuns e intensas que focam a atenção do público.
Ambientes imersivos, como os planetários, dão aos participantes uma sensação de
pertença, que se correlacionam positivamente com a atenção, o que pode resultar
em níveis mais elevados de aprendizagens. A pesquisa educacional, incluindo
estudos conduzidos em planetários, indica que experiências ativas para o público
são mais efetivas na promoção dos tipos de engajamento que produzem mudanças
afetivas e cognitivas (DONOVAN; BRANSFORD, 2005).
Na terceira questão foi perguntado se teve algo durante a atividade que os
alunos não gostaram. Onze alunos responderam afirmativamente. Cinco citaram
não terem gostado do excesso de claridade quando foi apresentado o Sol, pois
causava algum desconforto visual. Dois alunos alegaram terem ficado tontos, um
aluno reclamou de ter que ficar deitado no chão durante a sessão e outros dois
alunos mencionaram passagens específicas do filme que não gostaram. Apenas um
aluno alegou, sem justificar, que não gostou de nada.
Por fim, foi solicitado que escrevessem algo que tenham aprendido com a
atividade desenvolvida. Dos 154 participantes, 147 escreveram alguma resposta.
A tabela 3 apresenta a compilação dos aspectos mais lembrados pelos alunos. A
soma das ocorrências pode ultrapassar o número de respondentes, pois em uma
mesma resposta, pôde ser identificado mais de um aspecto.
Tabela 3 – Aspectos aprendidos mais citados pelos participantes
Aspecto Ocorrência
Planetas 127
Sol 12
Sistema Solar 10
Lua 9
Estrela/constelações 6
Gelo no espaço 4
Fonte: Autoria própria (2020).
A maioria das manifestações espontâneas de aprendizagem mencionadas
pelos participantes versou sobre aspectos relacionados à origem dos nomes,
tamanho e composição dos planetas, sobre o Sol e a Lua e sobre o que há nos
planetas como crateras, tempestades e anéis. As respostas dos alunos variaram
bastante em termos de detalhes. Algumas foram mais curtas, outras mais
detalhadas:
“Aprendi sobre o espaço, planetas e estrelas.”
“Aprendi que o planeta Júpiter é o maior e o menor é Mercúrio. E que são 8
Página | 14 planetas.”
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“Eu aprendi que tem planetas que possuem anéis, e que os anéis são
compostos de pedras, gás e poeira.”
“Aprendi tudo sobre os planetas.”
“Aprendi que alguns pontinhos parecendo estrelas eram 5 planetas
diferentes.”
“Eu aprendi que a terra é o único planeta que tem vida.”
“Plutão já foi planeta e não é mais.”
“Eu conheci melhor os planetas do Sistema Solar.”
Houve quatro alunos que disseram não ter aprendido nada e três alunos não
responderam. Além disso, houve três respostas nas quais os alunos revelam certa
confusão e/ou a permanência de concepções inadequadas como:
“O Sol é um planeta, o maior planeta e o mais quente.”
“Aprendi que Mercúrio é o maior planeta do Sistema Solar.”;
“Que o Sistema Solar é composto de planetas, estrelas, asteroides,
meteoros etc.”
Essas respostas ilustram o fato de que os conteúdos de Astronomia devem ser
continuamente trabalhados na educação básica e que a atividade no planetário
deve ser integrada às atividades diversas para minimizar os riscos da permanência
de concepções em dissonância com o conhecimento científico.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Este trabalho faz parte de um projeto mais amplo, que contempla
ensino/extensão/pesquisa que visa à divulgação científica e a determinar as
aprendizagens decorrentes de intervenções pedagógicas realizadas com o
planetário, com o intuito de promover o ensino de Astronomia. Como parte inicial
deste projeto, buscou-se avaliar o contato prévio, as concepções de Astronomia
de alunos do Ensino Fundamental e, após a atividade, verificar a aceitação das
estratégias utilizadas e identificar manifestações espontâneas de aprendizagem.
Os resultados obtidos corroboram a expectativa de que o planetário se
constitui como um espaço não formal de educação com grande potencial para a
divulgação científica e para o ensino de Astronomia. Os alunos, de forma geral,
ficaram fascinados durante toda a sessão de cúpula, participando ativamente com
perguntas e comentários, demonstrando bastante interesse nos temas abordados.
Os alunos se divertiram olhando os “desenhos” das constelações, procurando
sempre por estrelas e planetas, pela Lua e pelo Sol. Durante a exibição do filme,
alguns imaginaram estar em uma nave espacial, explorando os detalhes do Sistema
Solar. Muitos alunos afirmaram que a atividade desenvolvida foi diferente de tudo
que já fizeram na escola, que aprenderam muito e se divertiram ao mesmo tempo.
Os alunos apresentaram concepções variadas sobre Astronomia. A grande
maioria conseguiu citar palavras diretamente relacionadas ao tema. Os alunos
participantes também afirmaram, no geral, que já observaram corpos celestes no
céu, como as estrelas e a Lua. O índice de aprovação da sessão de cúpula foi
superior a 98% e quase todos os alunos conseguiram citar algo de novo que
aprenderam com a atividade.
Atividades que melhorem a compreensão de crianças e jovens sobre
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Astronomia devem ser incentivadas e fazerem conexões com fenômenos do
mundo real. Não se está afirmando que uma única atividade no planetário seja
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suficiente para mudanças radicais na compreensão dos participantes. Em vez
disso, uma visita ao planetário deve ser parte integrante do currículo de Ciências,
com conexões feitas entre a experiência com o planetário e o conteúdo abordado
e as atividades realizadas em sala de aula, para uma compreensão mais adequada
sobre os conceitos astronômicos.
O estudo revelou que cerca de 5% dos participantes nunca observaram o céu
noturno e cerca de 85% nunca viram um programa ou filme relacionados à
Astronomia. Passa-se então a questionar o interesse, normalmente atribuído, de
estudantes por Astronomia. Mais pesquisas são necessárias para buscar identificar
melhor se há realmente um interesse maior pela Astronomia e se isto resulta em
atitudes positivas em relação ao tema (busca por informações, compra de livros
sobre o tema, observações etc.).
A atividade extensionista também é rica em experiências para os bolsistas,
alunos do curso de Física. Conforme afirma Coelho (2014, p.16),
certas habilidades adquiridas na extensão não são usualmente assimiladas na
experiência do ensino formal (por meio de disciplinas), tais como: capacidade
de interagir e organizar o trabalho em equipes (especialmente as
multidisciplinares); saber ouvir e saber comunicar diante de públicos diversos
e diferentes daqueles que circulam no meio acadêmico.
Considera-se fundamental a introdução das discussões sobre os processos de
ensino e aprendizagem desenvolvidos em espaços não formais como o planetário
nos cursos de licenciatura de Ciências da Natureza, contribuindo para o
desenvolvimento de atividades e metodologias que promovam a interação entre
escola e esses novos ambientes de ensino. A extensão universitária constitui-se em
uma ferramenta articuladora, alimentando o ensino e a pesquisa, oportuniza ao
futuro professor a experiência prática em situações concretas do cotidiano,
tornando-o um profissional muito mais comprometido e vinculado com as
questões sociais (MORAES; WISNIEWSKI; ROCHA, 2014).
Apesar dos resultados encorajadores, mais pesquisas, com o desenvolvimento
de novas abordagens e com diferentes públicos, são necessárias para ampliar
nossos conhecimentos sobre a contribuição dos planetários como espaços não
formais de educação para a divulgação e promoção do ensino de Ciências e de
Astronomia.
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Astronomy´s popularization in the
elementary school with a mobile
planetarium
ABSTRACT
This paper presents the results of a research whose objective is to analyze and discuss the
previous contact and the knowledge about Astronomy of students from schools in Minas
Gerais and to evaluate the learning outcomes from dome sessions with a mobile
planetarium. The activities described here were developed as part of an extension project.
This project aims to disseminate scientific content in astronomy. Two questionnaires were
applied before and after the dome session. The results suggest that the extension activity
performed was successful, with an accepting rate of over 98% and with more than 93% of
participants correctly writing something they learned from it. Based on the results, we
discuss the educational implications and propose new research possibilities in the area.
KEYWORDS: Planetarium. University extension. Non-formal education.
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AGRADECIMENTOS
À FAPEMIG pelo apoio financeiro.
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Recebido: 17 jun. 2020
Aprovado: 29 out. 2020
DOI: 10.3895/actio.v5n3.11600
Como citar:
MELO, J. P. da S.; OLIVEIRA, S. W. de P.; GOMES, A. D. T.; COELHO, F. O. Divulgando astronomia no
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Disponível em: <https://periodicos.utfpr.edu.br/actio>. Acesso em: XXX
Correspondência:
João Paulo da Silva Melo
Praça Dom Helvécio, 74 Sala A 2.06 DCNAT. Fábricas, São João del-Rei, Minas Gerais, Brasil.
Direito autoral: Este artigo está licenciado sob os termos da Licença Creative Commons-Atribuição 4.0
Internacional.
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