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2 - Fernando Lamas - Povoamento e Colonização ZMM No XVIII

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Os primórdios do povoamento e da colonização da Zona da Mata Mineira no século

XVIII*

Fernando Gaudereto Lamas*

Resumo: O objetivo desse artigo é discutir o início do processo de povoamento e de


colonização da Zona da Mata Mineira no século XVIII. Não temos a intenção de contrariar
as análises que afirmam ser no início do século XIX o boom do povoamento e da
colonização da referida região. Contudo, acreditamos que este processo iniciou-se bem
antes, já no século XVIII, notadamente em duas áreas, o Sul da Mata Mineira, às margens
do rio Paraibuna (primeira metade do século) e no centro da mesma região, às margens do
rio Pomba (segunda metade). Cremos que sem a compreensão desse fenômeno, o estudo
sobre o povoamento e a colonização da Mata Mineira permanecerá incompleto.

Palavras-chave: Colonização; Povoamento; Zona da Mata Mineira; Século XVIII.

O objetivo deste artigo é apontar e discutir algumas questões relativas à penetração


e povoamento da atual Zona da Mata mineira. Não pretendemos esgotar o tema, uma vez
que este requer ainda um esforço de pesquisa e de teorização muito grande. Temos a
intenção apenas de levantar algumas questões relativas a este tema, tão caro e tão carente na
história brasileira e especialmente na história mineira.
Freqüentemente ouve-se que a História da Zona da Mata Mineira iniciou-se no
século XIX a partir da expansão cafeeira do Vale do Paraíba Fluminense. Isso decorreu de
uma interpretação que encarou a fase relativa ao século XVIII apenas como via de ligação,
através do Caminho Novo, entre o porto do Rio de Janeiro e a região mineradora. Contudo,
desde a primeira metade do Setecentos a região foi não somente devassada como também
podemos detectar os primórdios de um processo de colonização e povoamento que abriu
espaços e gerou condições materiais para a estruturação do povoamento no século XIX.
Antes de iniciarmos a análise histórica propriamente, faremos um rápido debate
conceitual, pois acreditamos que procedendo desta maneira poderemos esclarecer melhor as
intenções desse artigo.

*
Gostaríamos de agradecer a ajuda do pesquisador do Museu Histórico de Rio Pomba Assuero Araújo e de
seu Diretor, Silvio Caiafa Mendonça para a elaboração desse artigo. Gostaríamos ainda de agradecer os
conselhos do professor Doutor Ângelo Alves Carrara, sem os quais este artigo não teria sido possível.
*
Mestre em História Social pela Universidade Federal Fluminense (UFF), professor da Faculdade de História
das Faculdades Integradas de Cataguases (FIC) da Faculdade de Minas (FAMINAS) em Muriaé.

1
Caio Prado Júnior, baseando-se em depoimento do Governador das Minas Luís da
Cunha Meneses, afirmou que a Mata seria uma região fechada ao povoamento, não por
falta de interesse português mas para manter uma barreira natural aos descaminhos do
ouro. 1 Cunha Meneses provavelmente referia-se ao fato de não haver, já no último quartel
do século XVIII, nenhuma vila erigida na região, uma vez que o conceito de civilização
estava intimamente ligado ao de cidade.2 As palavras de Cunha Meneses, portanto, não
passaram disso: uma idéia sem qualquer aplicabilidade ou mesmo senso de realidade, pois a
extensa área dos vales dos rios Piranga/Doce e Pomba sempre experimentou, ao menos
desde meados do século XVIII, um processo ininterrupto de ocupação.
Obviamente, não podemos falar em povoamento no sentido de criação de vilas no
mesmo sentido em que se fala, por exemplo, na região propriamente mineradora. A atual
3
Zona da Mata Mineira era denominada de Sertões do Leste. Uma definição do termo
sertão encontra-se em Luís da Câmara Cascudo que, em seu “Dicionário do folclore
brasileiro”, definiu sertão como sinônimo de interior e afirmou que “as tentativas para
caracteriza-lo têm sido mais convencionais que reais”. 4
Caminhando na mesma direção, porém com uma definição mais precisa, Ângelo
Carrara definiu o termo sertão como região pouco povoada, passando, portanto, a
questão demográfica a determinar o uso da terminologia originalmente utilizada pelos
5
paulistas como área perigosa e povoada exclusivamente por índios. Contudo, não
podemos também deixar de mencionar que estas roças e pousos formados ao longo do
Caminho Novo foram de importância ímpar para o processo de povoamento da Mata
Mineira, uma vez que alteravam o meio ambiente por meio do trabalho, tanto para sustento

1
PRADO JÚNIOR, Caio. Formação do Brasil contemporâneo. São Paulo: Brasiliense: Publifolha, 2000, p.
71. Cf também MERCADANTE, Paulo. Crônica de uma comunidade cafeeira. Carangola: o vale e o rio. Belo
Horizonte: Itatiaia. 1990, pp.138-139.
2
Cf. o comentário de HOLANDA, Sérgio Buarque de. Sobre uma doença infantil da historiografia. In: _____
Para uma nova História (textos de Sérgio Buarque de Holanda). Org. :Marcos Costa. São Paulo: Fundação
Perseu Abramo, 2004, p.120.
3
Cf. MERCADANTE, Paulo. Os sertões do leste. Estudo de uma região: a Mata Mineira. Rio de Janeiro:
Zahar, 1973, especialmente os capítulos 1, 2 e 3, pp. 15-52. Cf também os mapas e o estudo demográfico
sobre as Minas Setecentistas de CUNHA, Alexandre Mendes & GODOY, Marcelo Magalhães. O espaço das
Minas Gerais: processos de diferenciação econômico-espacial e regionalização nos século XVIII e XIX. In:
Anais do V Congresso Brasileiro de História Econômica e 6º Conferência Internacional de História de
Empresas. Caxambu: ABPHE, cinco a sete de setembro de 2003, p. 36.
4
CASCUDO, Luís da Câmara. Dicionário do folclore brasileiro Vol. 2. Rio de Janeiro: Edições de Ouro,
1969, p. 620.
5
CARRARA, Ângelo Alves. Agricultura e pecuária na Capitania de Minas Gerais (1674-1807). Tese de
doutorado. Rio de Janeiro: UFRJ. 1997, pp. 47-49.

2
próprio quanto para a comercialização, seja do espaço físico (acomodação de muares e de
pessoas) seja de gêneros alimentícios (oferecidos aos transeuntes).
Outro aspecto que deve ser levado em consideração é o fato de que a pequena
presença do elemento branco na região, apontada por alguns autores, como justificativa
para considerar a área despovoada não se justifica, uma vez que, como mencionou Maria
Odila Dias, nas Minas Setecentistas, durante as primeiras décadas do século XVIII, a
população branca estimada era menor que a população indígena e negra. 6
A inserção ativa do homem em uma paisagem provoca, segundo Milton Santos, a
transformação dos objetos pertencentes àquela paisagem; essa transformação não se
constitui apenas em uma mudança de lugar, mas em uma mudança no valor simbólico do
objeto, caracterizando, portanto, uma mudança de valor sistêmico.7 Essa transformação
apesar de lenta é contumaz. Nesse contexto, as palavras de Fernand Braudel acerca da
função da Geografia são esclarecedoras: “Em semejante contexto la geografia deja de ser
um fin em si para convertirse em um médio; nos ayuda a recrear las más lentas de las
realidades estructurales (...)”.8
Acompanhando a mesma discussão, porém com um enfoque um pouco distinto, o
conceito de região caminha na mesma direção do conceito de transformação sistêmica
proposto por Milton Santos. Em outro momento tivemos a oportunidade de discutir, mesmo
que sumariamente, a questão relativa à ocupação econômica do espaço assim como a
relação do conceito de região com a questão econômica quando afirmamos que:
“A região é um quadro arbitrário, definido com propósitos
políticos, econômicos ou administrativos. Sua identificação,
delimitação e construção estão ligados a noção de
diferenciação de áreas, ao reconhecimento de que o
território é constituído por lugares com uma ampla
diversidade de relações econômicas, sociais, naturais e
políticas.

6
DIAS, Maria Odila Leite da Silva. Sertões do rio das Velhas e das Gerais: vida social numa frente de
povoamento – 1710-1730. In: FURTADO, Júnia Ferreira. Erário Mineral de Luís Gomes Ferreira. Belo
Horizonte/Rio de Janeiro: Fundação João Pinheiro: Fundação Oswaldo Cruz, 2002, p. 49.
7
SANTOS, Milton. A natureza do espaço: técnica e tempo. Razão e emoção. 4º ed. São Paulo: EDUSP,
2004, p. 103.
8
BRAUDEL, Fernand. El Mediterráneo y el mundo mediterráneo en la época de Felipe II Vol. 1. Traducción
de Mario Monteforte Toledo, Wnceslao Roces y Vicente Simón. 2º ed. 2º reimpresión, México, D.F.: Fondo
de Cultura Economica, 1987, p. 27. Cf. Também o que diz a respeito MORAES, Antônio Carlos Robert.
Bases da Formação Territorial do Brasil: o território colonial brasileiro no “longo” século XVI. (Doutorado).
São Paulo: FFLCH/USP, 1991. p., 8.

3
Este ponto é importante posto que retira do conceito de
Região uma idéia de naturalidade – quer de área física, quer
de cultura comum, quer de território – que chegou a
influenciar e limitar a análise de geógrafos importantes
como Vidal de La Blache”.9

Em outras palavras, a ação do homem sobre a região da Mata provocou uma


alteração significativa da mesma. É incontestável que a área já era habitada por povos
nativos, contudo, a ação colonizadora provocou uma redefinição dos significados, uma vez
que há claras diferenças nas duas formas de agir sobre a paisagem. Partindo dessa análise
acreditamos que a Zona da Mata Mineira, apesar de ainda não possuir esta designação,
pode ser considerada mais do que uma mera área de interligação entre as Gerais e a
capitania do Rio de Janeiro no século XVIII, pois já existia uma atividade econômica que a
diferenciava da região mineradora, isto é, a atividade agrícola.
Logo, concordamos com Ricardo Zimbrão quando este, baseando-se Antônio Carlos
Robert Moraes, lembrou que “uma formação territorial envolve uma sociedade específica e
seu espaço, num intercâmbio contínuo que humaniza a paisagem, materializando as formas
de sociabilidade reinante numa paisagem e numa estrutura”. 10
É bem verdade que a atividade agrícola e a atividade mercantil derivada daquela
eram ainda muito insipientes se comparadas à região mineradora. Contudo, foi em torno
desses pequenos núcleos que se desenvolveram, no século XIX, cidades como Juiz de
Fora11 e Matias Barbosa. Logo, ignorar a presença daquele tipo de atividade econômica
assim como a relevância destas para o povoamento e a conseqüente colonização da área é,
em nosso entendimento, ignorar as raízes que caracterizam essencialmente qualquer tipo de
povoamento e de colonização.
Mesmo reconhecendo que a inserção das freguesias do Caminho Novo/Engenho do
Mato/Matias Barbosa/Simão Pereira/Chapéu d’Uvas no que veio a ser denominado Zona da
Mata ocorreu tardiamente e que o movimento de penetração foi alheio e distinto daquele

9
ALMICO, Rita; LAMAS, Fernando & SARAIVA, Luiz Fernando. A Zona da Mata Mineira: subsídios para
uma historiografia. In: V Congresso Brasileiro de História Econômica e 6º Conferência Internacional de
História de Empresas. Caxambu: ABPHE, sete a dez de setembro de 2003. p. 3.
10
PAULA, Ricardo Zimbrão Afonso de. Ocupação do espaço, formas de produção e território: uma nota
sobre a formação territorial de Minas Gerais. In: Revista Científica da FAMINAS. ANO 1, nº 2,. p. 1. (no
prelo).
11
SANTIAGO, Sinval Batista. Juiz de Fora à luz da História e dos documentos. In: Revista do Instituto
Histórico Geográfico de Juiz de Fora. ANO VIII, nº 8, dezembro de 1979, p

4
que ocorreu no vale do rio Pomba (área central da Mata), acreditamos que para nosso
objetivo nesse artigo devemos incluir a análise da supracitada região como um dos marcos
iniciais da colonização e povoamento da Mata, pois o Caminho Novo manteve uma relação
íntima com a colonização da área central, já que foi partindo da Borda do Campo que a
primeira bandeira liderada por Inácio de Andrade Ribeiro atingiu a serra das Mercês e
estabeleceu ali uma fortificação que possibilitou o início do processo de colonização
poucos anos depois.
Em outras palavras, incluímos a área do Caminho Novo em nossa análise não por
considerarmos que seu povoamento e colonização foram idênticos ao do vale do rio Pomba,
mas por percebermos que ambos estavam relacionados e assim se mantiveram quando da
criação da divisão administrativa denominada Zona da Mata.
Podemos considerar, para melhor entendimento, duas fases no processo de
colonização e povoamento da Zona da Mata Mineira Uma iniciada na primeira metade do
século XVIII e ligada à abertura do Caminho Novo, na região sul da Mata e outra que se
iniciou na segunda metade do mesmo século, a partir da penetração na área central da Mata,
localizada às margens do rio Pomba. Ambas possuem ligação, pois, a partir da primeira
área, o Caminho Novo, que partiu a expedição que deu origem à colonização da segunda
área, o vale do rio Pomba. 12
A área sul da mata foi devassada por Garcia Rodrigues após este pedir autorização
ao rei português D. Pedro II para abrir uma nova rota em direção às Gerais em 1702. No
ano de 1704 Garcia Rodrigues pediu auxílio à Coroa, pois havia, em suas palavras, gastado
muitos cabedais e a ainda não havia concluído o caminho. 13 O Caminho Novo do Rio de
Janeiro, como ficou conhecido, foi concluído em 1709. 14 Contudo, somente após o ano de
1720 passou à condição de rota principal entre o Rio de Janeiro e as Gerais.15

12
Ambas as regiões integram a área da bacia do rio Paraíba, pois o Pomba e o Paraibuna juntamente com o
Muriaé são seus principais afluentes.
13
Durante muito tempo a historiografia tradicional considerou Garcia Rodrigues o “construtor” do Caminho
Novo. Hoje já se sabe o bandeirante paulista seguiu antigas rotas indígenas. Cf. Apontamentos para a história
de Matias Barbosa. 3º edição. Juiz de Fora: Esdeva. 1998. Cf. também o que diz VENÂNCIO, Renato Pinto.
Caminho Novo: a longa duração. In: Varia História. Departamento de História, Faculdade de Filosofia e
Ciências Humanas, Belo Horizonte: UFMG, nº 21, jul. 1999, p. 182.
14
BASTOS, Wilson de Lima. Do Caminho Novo dos campos Gerais à atual BR. Juiz de Fora: Edições
Paraibuna
15
MARTNIÈRE, Guy. A implantação das estruturas de Portugal na América. In: SERRÃO, Joel &
MARQUES, A. H. de Oliveira (org.). Nova história da expansão portuguesa. Vol. VII O Império luso-
brasileiro (1620-1750). (coordenação: Frédéric Mauro). Lisboa: Estampa, 1991, p.162

5
Entretanto, o período que compreendeu os anos 1709-1720 não deixou de ser
caracterizado por um povoamento primário, já que Garcia Rodrigues recebeu o direito de
cobrar pela travessia dos rios Paraíba e Paraibuna.16 Mesmo sabendo que a área em que se
estabeleceu o filho de Fernão Dias encontra-se atualmente no estado do Rio de Janeiro, não
podemos descartar que na região da Mata também tenha sido povoada, uma vez que
estabeleceram-se roças e pousos, pois, mesmo tendo encurtado a viagem até a região
mineradora, o percurso levava entre 10 e 15 dias.
Tal perspectiva é fundamentada pelas observações do jesuíta Antonil em seu livro
“Cultura e opulência do Brasil por suas drogas e minas”, datado de 1711. Este jesuíta
destacou a presença de roças e pousos na área da Mata, sendo as principais as roças de
Simão Pereira, as roças de Matias Barbosa e as roças do Bispo. Estas roças e pousos
localizam-se onde hoje estão respectivamente as cidades de Simão Pereira, Matias Barbosa
e Juiz de Fora.17
Mesmo antes do período citado, encontramos evidências do início do povoamento e
da colonização da atual Zona da Mata Mineira. Em três cartas de doação de sesmaria, duas
delas de 1708 e outra de 1710 percebemos essas evidências, pois em todas os sesmeiros
pediam confirmação, uma vez que já estavam trabalhando a terra. Em uma delas, doada a
Tomé Correa Vasquez18 isso ficou bem claro que se lê: “(...) ele tem um sítio no Caminho
19
das Minas e quer manter a continuação dele e sustento de passageiros (...)”. Em outra
carta de doação de sesmaria, esta ao Capitão-Mor José de Souza Fragoso, datada de 1710,
lê-se que: “(...) ele suplicante tem escravos suficientes para poder cultivar as terras
20
devolutas e mandar plantar mantimentos na forma em que S. Majestade manda (...)”
Em ambas as cartas fica claro que mesmo sendo menos usado que o antigo caminho para as
Minas, a partir de Paraty, o Caminho Novo já era alvo de preocupações por parte da Coroa.

16
Esses mesmos direitos foram posteriormente questionados pela Coroa como pode ser conferido na seguinte
documentação. AHU-RJ, Cx. 27, Doc. 6180. INFORMAÇÃO sobre os registros das passagens de Paraiba e
Paraibuna e os direitos que indebidamente neles cobrava o Capitão mor Garcia Rodríguez Paes.
17
ANTONIL, André João. Cultura e opulência do Brasil. (organização e introdução histórica: Alice
Canabrava). São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1967, p. 289.
18
Tomé Correia Vasquez era casado com uma das filhas de Garcia Rodrigues Paes, considerado o homem de
abriu o Caminho Novo. Cf. SANTIAGO, Sinval Batista Juiz de Fora à luz da História e dos documentos. In:
Revista do Instituto Histórico Geográfico de Juiz de Fora. ANO VIII, nº 8, dezembro de 1979, p. 24.
19
Sesmaria doada a Tomé Correia Vasquez. In: Revista do Instituto Histórico Geográfico de Juiz de Fora.
ANO IX, nº 9, fevereiro de 1985, p. 8.
20
Sesmaria doada ao Capitão-mor José de Souza Fragoso. In: Idem, p. 11.

6
E a principal preocupação era a ocupação da região, como ficou patente pelo conteúdo das
cartas de doação de sesmarias.
Referendando a ocupação da região podemos mencionar a construção da casa do
alcaide-mor do fisco Tomé Correa Bastos no ano de 1704.21 A presença do Alcaide-Mor do
Fisco demonstra que, desde seus primórdios, o Caminho Novo foi alvo de grandes
expectativas por parte da Coroa portuguesa, uma vez que encurtava o trajeto entre a cidade
do Rio de Janeiro e a região mineradora.22
Havia, além do temor de ataques de corsários estrangeiros na parte marítima do
Caminho de Paraty, o temor dos descaminhos do ouro, já que pelo mencionado Caminho
havia muitas possibilidades de extravio. 23 O Caminho Novo havia aliviado a Coroa de uma
parte de suas preocupações, especialmente em relação aos ataques corsários. Na carta que
concedeu a posse de sesmarias à Garcia Rodrigues lê-se o seguinte sobre o trânsito no
Caminho Novo:
“(...) de maneira que hoje freqüentavam comumente todos os
passageiros que vão para as Minas a dita passagem, com
grande segurança de seus cabedais e dos reais quintos, por
se livrarem das perdas que se experimentavam com as
presas, que os piratas continuamente faziam no transporte do
ouro de Santos para esta praça (...)”. 24

Cabe ainda destacar que, administrativamente, a figura do Alcaide-Mor estava


associada à idéia de justiça, pois, este cargo administrativo, segundo o Código Filipino,
atuava de forma subordinada aos juízes ordinários.25 Percebe-se, portanto, a preocupação da
Coroa lusa em estabelecer ordem, entendida como segurança, às margens do Caminho

21
A casa, situada atualmente no bairro Santa Terezinha e tombada em 1990, pode transformar-se em um
Museu sobre a escravidão. Cf. Caderno Dois In: Tribuna de Minas, 23-24 de janeiro de 2005, fl. 1. registro
para cobrança de tributos de entradas de mercadorias e escravos foi instalado em Matias Barbosa, ao menos
desde 1717 segundo a referência mais antiga.
22
Cf. o trajeto e a estimativa de tempo de viagem entre Rio de Janeiro e Ouro Preto em Antonil, André João.
Op. cit. pp. 288-290.
23
Para referências sobre o trajeto do Caminho Velho do Rio de Janeiro, cf. Idem. pp. 287-288.
24
AHU-RJ. Cx. 27, Doc. 6181 CARTA régia pela qual se mandaram passar cartas de sesmarias a Garcia
Rodrigues Paes e a seus 12 filhos das terras de que se lhes fizera mercê, em recompensa dos serviços que
prestara na abertura do caminho para as Minas. Datada de 14 de agosto de 1711, fl. 1.
25
LOBO, Eulália Maria Lahmeyer. Processo administrativo ibero-americano (Aspectos sócio-econômicos –
período colonial). Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército, 1962, p. 311.

7
Novo ainda no início de seu funcionamento. Esse tipo de preocupação foi constante nas
primeiras décadas da colonização e do povoamento da capitania das Minas Gerais. 26
Vale ainda destacar a preocupação dos Governadores das Gerais em povoar a área
do Caminho Novo na primeira metade dos Setecentos. Existem cartas administrativas que
mostram que pelo menos desde a administração de D. Pedro de Almeida Portugal (1717-
1720) o projeto de povoar com pousos, roças, ranchos e sesmarias a área próxima ao
Caminho Novo estava diretamente relacionada com o projeto de garantir segurança aos
transeuntes. Isso explica o grande número de sesmarias concedidas na região durante as
administrações de D. Antônio de Albuquerque (1721-1731) e Gomes Freire de Andrade
(1733-1760).
Renato Pinto Venâncio, analisando o relato de Tavares de Brito, percebeu que, no
ano de 1730, “o trecho entre a cidade do Rio de Janeiro e a região das minas encontrava-
se bastante povoado”, pois “o viajante contava com dezenas de roças e rocinhas onde
27
podia abastecer e descançar”. Esse relato coetâneo incluso no Códice Costa Matoso é
exemplar pois, demonstra com bastante clareza o povoamento e a colonização inicial da
Zona da Mata Mineira ainda na primeira metade do século XVIII. Muitas das roças e
rocinhas a que se referiu Tavares de Brito foram sesmarias concedidas nas décadas de 1710
e 1720 conforme analisado anteriormente.
Podemos considerar como data inicial do segundo momento de ocupação e
colonização da Mata Mineira o ano de 1750, quando uma expedição liderada pelo sertanista
Inácio de Andrade Ribeiro, partindo de Ouro Preto alcançou a área próxima ao rio
Coroados, afluente do rio Pomba.28 Os contatos iniciais com os indígenas locais foram
marcados por ríspidos conflitos. Esses habitantes estabeleceram-se na Mata após o início da
colonização do Rio de Janeiro; em outras palavras, fugiam dos contatos com os “homens
29
brancos”. Mesmo encontrando forte resistência indígena o sertanejo estabeleceu um

26
Sobre a preocupação constante da Coroa em estabelecer a ordem da capitania de Minas cf. FIGUEIREDO,
Luciano Raposo de Almeida. Barrocas famílias. São Paulo: Hucitec, 2000. & ZEMELA, Mafalda. O
abastecimento da capitania de Minas Gerais no século XVIII. São Paulo: Hucitec, 1999.
27
VENÂNCIO, Renato Pinto. Op. cit. p. 185.
28
Acreditamos que Inácio de Andrade Ribeiro saiu de Ouro Preto e seguiu até a Borda do Campo (nas
proximidades da atual Barbacena) e daí atingiu a serra das mercês (atual cidade de Mercês), uma vez que há
uma proximidade razoável entre estas duas cidades.
29
MARCATO, Sonia de Almeida. A repressão contra os botocudos em Minas Gerais. In: Boletim do Museu
do Índio: Etno-História, Rio de Janeiro nº 1, Maio, 1979, pp. 3-57.

8
posto avançado na serra das Mercês, conjunto de montanhas pertencentes à Serra da
Mantiqueira, nas proximidades da atual cidade de Mercês. 30
Em 1757, após mais algumas expedições fracassadas, o capitão Francisco Pires
Farinho conseguiu se aproximar dos índios coroados e coropós que habitavam a região do
rio Pomba iniciando um relacionamento mais amistoso e menos violento entre brancos e
índios. 31 O sucesso de Francisco Pires Farinho possibilitou que em 1764 fosse criada, pelo
então governador da capitania das Minas Gerais, Luís Diogo Lobo da Silva, a Freguesia do
Mártir São Manoel do Rio da Pomba e Peixe dos Índios Coroados e Coropós. Contudo,
somente com a chegada do padre Manoel de Jesus Maria à região, em 1767, foram
construídas as primeiras casas que deram origem ao aldeamento com fins evangelizadores
na área onde hoje se localiza a cidade de Rio Pomba.32
A ação do padre Manoel de Jesus Maria referenda a visão exposta por José Ferreira
Carrato que afirmou ter ocorrido em Minas Gerais uma ação evangelizadora na capitania de
Minas Gerais na segunda metade do século XVIII, tal como ocorreu nas capitanias do Rio
de Janeiro e de São Paulo ao longo dos séculos XVI e XVII.33 Apesar de acertar na análise,
José Ferreira Carrato cometeu um pequeno deslize quando afirmou que o padre Manoel de
Jesus Maria agiu “nas impenetráveis florestas do Rio Doce, com os bravios botocudos às
voltas”.34 O padre em questão atuou às margens do rio Pomba, na região central da atual
Zona da Mata Mineira, e não nas proximidades do rio Doce, localizado bem mais ao norte
da verdadeira área de atuação do padre. 35
É freqüente a análise da ação missionária do padre Jesus Maria caminhar para uma
ação isolada, sem a presença de contingentes de brancos e negros escravizados no
aldeamento criado pelo padre em questão. Entretanto, analisando o livro de registro de

30
SANTIAGO, Sinval. História do município de Rio Pomba: síntese histórica. Belo Horizonte: Imprensa
Oficial, 1991. p. 39.
31
Se os conflitos diminuíram na área do vale do rio Pomba o mesmo não se pode dizer de outras regiões
dentro da Zona da Mata. Cf. VENÂNCIO, Renato Pinto. Comércio e fronteira em Minas colonial. In:
FURTADO, Júnia Ferreira (org.). Diálogos oceânicos: Minas Gerais e as novs abordagens para uma história
do Império Ultramarino Português. Belo Horizonte: EdUFMG, 2001, p. 187. Cf. também GOMES, Abel Braz
Pire. Subsídios para a história da colonização em Minas Gerais. Rio de Janeiro: Irmãos Pongetti. 1951.
32
Ibidem. pp. 39-45.
33
CARRATO, José Ferreira. Igreja, iluminismo e escolas mineiras coloniais. São Paulo: Companhia Editora
Nacional: EDUSP. 1968, p. 73.
34
Ibidem. p. 73.
35
Apesar do rio Doce passar mais ao Norte, há uma cidade denomina Alto Rio Doce nas proximidades do rio
Pomba. Tal fato pode ter causado a confusão acima mencionada.

9
batismos percebemos que entre oito de novembro de 1767 e sete de janeiro de 1772 foram
realizados aproximadamente 100 batismos na Freguesia de Rio Pomba, sendo que 95 de
indígenas, 2 de escravos e 3 de brancos que seguiram junto com o padre para a colonização
da região.36 O capitão Francisco Pires Farinho apareceu algumas vezes como padrinho de
indígenas convertidos à fé católica. 37
O fato de encontrarmos escravos e brancos sendo batizados na Freguesia de Rio
Pomba é indicativo da intenção colonizadora da região, extrapolando, portanto, a
característica exclusiva de missão ou aldeamento como foi normalmente definido por
muitos historiadores.
O adensamento populacional pode ser acompanhado também pelo livro de registro
de batismos da Freguesia de Rio Pomba. Segundo Ângelo Alves Carrara a população de
Rio Pomba saltou de 1.179 almas de confissão em 1780 para 4.815 em 1800,38 o que
corresponde a um aumento de mais de 400% em 20 anos. Não acreditamos que este
aumento se deva exclusivamente à incorporação de indígenas, apesar de não podermos
ignorar este fato. Contudo, a imigração oriunda da região mineradora também deve ser
levada em conta. 39
Tais fatos corroboram a análise de Ângelo Carrara. Este autor, analisando os
registros de compra e venda de propriedades ao longo do vale do rio Pomba, concluiu que:
“o movimento mais intenso de ocupação das terras ‘serra
abaixo’, isto é, desde a região de altitudes maiores –
contrafortes das serras da Mantiqueira e do Espinhaço –
para uma região mais baixa e de relevo mamelonar
característico do vale do rio Pomba, começou a tornar-se
perceptível a partir do final do século XVIII, considerando-se

36
Livro de Registro de Batismos da Freguesia de Rio Pomba. Livro nº 1. fll. 1-20. Os livros estão sob custódia
da Igreja Matriz de São Manuel, na cidade de Rio Pomba.
37
Sobre a prática do batismo em indígenas e suas implicações na América Espanhola cf. GRUZINSKI, Serge.
La red agujerada. Identidades estnicas y occidentalizacion em el México colonial (siglos XVI-XIX). In:
América Indígena. Año XLVI, num. 3 volumen XLVI Julio-Septiembre, 1986, pp. 411-433. Para os casos
brasileiros cf. BOSCHI, Caio. As missões no Brasil. In: BITHENCOURT, Francisco & CHAUDHURI, Kirti.
História da expansão portuguesa Vol. II: do Índico ao Atlântico (1570-1697). S. l. : Círculo de Leitores,
pp.394-396.
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CARRARA, Ângelo Alves. Estruturas agrárias e capitalismo: contribuição para o estudo da ocupação do
solo e da transformação do trabalho na Zona da Mata Mineira (séculos XVIII e XIX). Departamento de
História, Núcleo de História Econômica e Demográfica. Série Estudos, nº 2, Mariana: UFOP, 1999, p. 16.
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Esse aceleramento da migração rumo às terras baixas da Zona da Mata Mineira levou muitos historiadores a
concluírem que a região foi povoada somente após o declínio da atividade minerador. Cf. PRADO Jr. Op. cit.
pp. 71-72.

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o número de escrituras de compra e venda de propriedades
rurais situadas nessa região”.40

A chegada do elemento branco nas terras baixas situadas ao longo do Vale do rio
Pomba na segunda metade do século XVIII é indicativo tanto da queda da atividade
mineradora quanto da diversificação econômica da região. Um pouco acima da Freguesia
de Rio Pomba, Ângelo Carrara encontrou um registro de venda de sesmaria situada às
margens do rio Xopotó,41 datada de 1775. Segundo Carrara, a sesmaria possuía: “43
escravos, ferramenta de roça e lavra, carros e cangas, tachos de cobre, gado vacum,
porcos” além de fumo, provavelmente da safra do ano anterior, “casas, paiol e senzalas
cobertas de telhas, ranchos, moinho e monjolo de socar milho cobertos de capim” . 42 Uma
sesmaria dessa magnitude não poderia ser construída do dia para a noite.
Há indícios de que ela remonta alguns anos antes da década de 1770, pois havia até
mesmo fumo proveniente da safra do ano anterior além de milho. Se por um lado o milho é
um cereal de fácil carregamento e de produção rápida, como acentuou João Antônio de
Paula, o mesmo não podemos dizer em relação ao fumo. Segundo João Antônio de Paula, a
plantação de tabaco requeria “adubação e cuidados especiais por parte de seus
cultivadores”, pois necessita de um solo extremamente fértil, exigindo, portanto, maiores
cuidados que o milho e o feijão. 43
O fato do documento em questão mencionar a presença de gado vacum caracteriza
bem a produção de fumo colonial, pois segundo Alice Cannabrava era comum plantar o
fumo em currais, uma vez que desta maneira a adubação fazia sem muito esforço.44 Os 43
escravos mencionados, seguindo o raciocínio de Alice Cannabrava, poderiam ser utilizados
na fase final do processo que incluía “torcer e enrolar a em corda as folhas já curadas,

40
CARRARA, Ângelo Alves. Op. cit. p. 30.
41
Este rio, com nascente também na Serra da Mantiqueira, localiza-se um pouco mais ao norte do rio Pomba,
ainda na Zona da Mata Mineira e é afluente do rio Piranga.
42
CARRARA, Ângelo Alves. Op. cit. pp. 30-31.
43
PAULA, João Antônio de. O Prometeu desacorrentado: economia e sociedade da capitania das Minas dos
Matos Gerais. Tese de Doutorado. São Paulo: USP, 1988, pp. 265-274. Ainda sobre a difusão e o uso do
tabaco na sociedade brasileira cf. DORNAS FILHO, João. Aspectos da economia colonial. Rio de Janeiro:
Biblioteca do Exército, 1958, pp. 229-250.
44
CANNABRAVA, Alice. A grande propriedade rural. In: HOLANDA, Sérgio Buarque de. História geral da
civilização brasileira. Tomo I, Vol. 2, São Paulo: DIFEL, 1960, p. 212.

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seguido da cura das cordas que demorava de 15 a 20 dias”. Segunda a mesma autora este
trabalho era “reservado sempre para os escravos” . 45
Além dos cuidados no cultivo, o tabaco exigia um árduo trabalho no cuidado com
pragas (larvas, formigas e pulgões) e no preparo da planta para consumo, segundo relatou
minuciosamente o jesuíta Antonil.46 Devemos também levar em consideração a importância
do tabaco para a economia colonial, não somente em função do seu largo uso,
especialmente no formato de rapé, mas para a compra de escravos no comércio atlântico
realizado com a África. 47
Mesmo levando em conta que o fumo não demora muito para atingir o grau certo de
colheita e ser aproveitado economicamente, pois em aproximadamente 1 ano já está pronto
para ser transformado e consumido, sabemos pelos relatos acima citados que este produto
exigia cuidados excessivos em virtude da fragilidade natural da planta. Se levarmos em
conta esse trabalho e que a tarefa de roçar uma área de mata virgem pode levar seis meses
ou mais, não seria errôneo considerarmos que a sesmaria estava em atividade desde o final
da década de 1760 e início da década de 1770. 48 Tal fato colocaria o início da colonização
da área central da Zona da Mata Mineira coincidindo com a chegada do padre Manoel de
Jesus Maria.
Analisando outros aspectos do documento mencionado por Ângelo Carrara
podemos vislumbrar o tamanho da sesmaria e a sua importância econômica. Se a criação de
porcos não demandava muito espaço e nem terras apropriadas, a criação de gado vacum é
indicativo, não só do tamanho da propriedade como também da diversificação das
atividades criatórias nas Minas Gerais Setecentistas. Renato Pinto Venâncio faz menção da

45
Idem, p. 213.
46
ANTONIL, André João. Cultura e opulência do Brasil. Introdução e vocabulário: Alice Canabrava. São
Paulo: Companhia Editora Nacional, 1967, pp. 237-246.
47
Roberto Simonsen avaliou as seguintes quantidades de arrobas de fumo exportadas durante o século XVIII:
1757 = 248.702 arrobas; entre 1761 e 1763 = 248.197 arrobas, sendo 185.000 para a África e 56.500 para
Lisboa; 1767 = 209.245 arrobas. O jesuíta André João Antonil estimou como preço médio do valor de um
rolo de oito arrobas na alfândega da Bahia para a cidade de Lisboa a quantia de 12$124. Ambas as citações
mostram-nos o quanto era importante a cultura do fumo durante o período colonial, particularmente ao longo
dos Setecentos. Cf. SIMONSEN, Roberto. História econômica do Brasil (1500-1820). 8º ed. São Paulo:
Companhia Editora Nacional, p. 368. & ANTONIL, André João. Op. cit. p. 250
48
Ângelo Carrara faz menção também a uma sesmaria com benfeitorias vendida no ano de 1788 em uma área,
situada entre o rio Xopotó e o rio Pomba, denominada Turvo. Cf. CARRARA, Ângelo Alves. Op. cit. pp. 31-
32.

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criação e venda de gado vacum proveniente da Zona da Mata Mineira para a região de Ouro
Preto. 49
Tais fatos demonstram que o processo de colonização e povoamento do vale do rio
Pomba e de suas áreas adjacentes que englobam a região central da Zona da Mata Mineira
iniciou-se quase que concomitantemente com o processo de catequese dos indígenas
locais. Indo mais longe ainda, podemos dizer que a catequese dos habitantes originais teve
como objetivo a pacificação dos mesmos para a inserção da Zona da Mata Mineira na
economia colonial, uma vez que a mineração, atividade principal da capitania desde o final
do século XVII, encontrava-se em franco declínio.
À guisa de conclusão, referendamos a opinião expressa anteriormente a respeito da
análise conjunta da área Sul e Centro da Zona da Mata Mineira como a forma mais
adequada de compreendermos o processo de colonização e povoamento, senão como um
processo único, mas que apesar das evidentes diferenças, de forma e de objetivo,
mantiveram relação, uma vez que a colonização do Sul facilitou em certa medida a
colonização do Centro, enquanto que a pacificação dos indígenas dessa área trouxe maior
tranqüilidade para aqueles que transitavam pelo Caminho novo.

49
VENÂNCIO, Renato Pinto. Comércio e fronteira em Minas colonial. In: FURTADO, Júnia Ferreira (org.).
Op. cit., p. 187.

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