Estudo de Geomorfologia:
Alegrete, RS*
ALBA MARIA BAPTISTA GOMES,**CARMEM SPALDING
DE CARVALHO E VERA REGINA DUBOIS BARBOZA***
A - Introdução
A finalidade do presente trabalho é o estudo de
fenômenos de degradação do meio natural em áreas,
do município de Alegrete, Rio Grande do Sul.
Desde algum tempo, os problemas das "manchas de areia" vêm
preocupando técnicos e constituem motivos de reportagens que
chamam a atenção para a gravidade do fenômeno com respeito à
agricultura e à pecuária.
Entretanto, o conhecimento da área revelou que este não é o mais
grave problema que se manifesta na região. Ocorrem outros que
afetam as terras lavradas e que também acarretam preocupação para
lavradores e criadores. São, além das manchas de areia, os
ravinamentos intensos, as inundações das várzeas e os afloramentos
rochosos.
Os processos de degradação se intensificam pelo inadequado uso dos
solos, revestindo-se de importância regional. Afetam não só as áreas
das bacias superiores, em via de rápida e intensa degradação, como
atingem áreas das planícies aluviais adjacentes.
Para controlar os processos naturais perigosos e eliminar parcialmente
seus efeitos, é necessário conhecer exatamente a maneira de freá-los e
determinar quais são os pontos do sistema onde uma intervenção
oferece a maior probabilidade de sucesso e com menor custo.
* Publicado originalmente no Boletim de Geografia Teorética, 15(29-30):291-8,1985
(Simpósio de Geografia Física Aplicada).
** Alba Maria Baptista Gomes é professora do Instituto de Geociências da UFRGS.
*** Carmen Spalding de Carvalho e Vera Regina Dubois Barboza são pesquisadoras
do CNPq.
Para isso, foram realizados estudos básicos que consistiram em:
1 — Reconhecimento e extensão areal dos processos
Foram mapeados os vários aspectos das manifestações de degradação.
Esse inventário realizou-se em duas cartas, na escala 1:50.000, que
evidenciam áreas onde os fenômenos estão bem representados:
— A carta que abrange áreas da Lagoa Parové — Vila Manuel Viana
demonstra os problemas dos areais, está situada entre as
coordenadas de 29°35'03 e 30°00' de latitude sul, e 55°15' e
55°30' de longitude oeste.
— A carta da área de Inhanduí assinala os rochedos localizando-se
entre as latitudes de 29°30' e 29°45' e 56°00' e 56°15' de
longitude.
As outras manifestações de degradação como os ravinamentos e as
várzeas inundáveis são também reveladas nas cartas.
2 — Estudo listógico e das condições edáficas
Este estudo foi representado em uma carta de síntese, na escala de
1:130.000. Nesta, com base nos conhecimentos geológicos existentes,
foram evidenciadas litologias que auxiliam a localização e compreensão
dos fenômenos de degradação.
Os documentos básicos para o levantamento geomorfológico foram:
1 — Fotografias aéreas, escala 1:60.000, data: 1964.
2 — Cartas topográficas da Diretoria do Serviço Geográfico do
Ministério da Guerra, escala 1:50.000.
3 — Cartas geológicas em escala de 1:50.000, data: 1965. Projeto
Sudoeste I — Projeto 01 — Alegrete — RS. Estudo de
Viabilidade Técnico-Económica e cartas geológicas. Escala:
1:50.000. Autor: Antônio Carlos S.P. Geske. Data: 1979.
As análises de laboratório foram realizadas:
— No Laboratório de Mineralogia e Petrografia do Instituto de
Geociências, para elaboração e análise de lâminas;
— No Laboratório de Geografia do Brasil, do I.G., para análise da
granulometria e da morfoscopia.
O trabalho de campo, realizado em várias etapas, consistiu em
cartografia, traçado de perfis e coleta de amostras.
B — Análise das cartas
Tendo em vista os propósitos do presente trabalho, as observações de
campo foram direcionadas ao estudo de detalhe das duas áreas
consideradas como demonstrativas dos problemas evidenciados no
Município:
— a área de Manoel Viana — Lagoa Parové e
— a área de Inhanduí.
Estes estudos resultaram na construção de duas cartas geomorfológicas
com as características específicas da cada área.
l — A carta Vila Manoel Viana — Lagoa Parové
Apresenta uma área com predominância de formações areníticas,
ocupando a posição leste do Município. Esta carta assinala um
modelado de entalhe com superfícies aplanadas, delimitadas por linhas
de cornijas. São as áreas de topos dos cerros. Apresentam superfícies
O trabalho de
campo, realizado horizontalizadas, com cotas altimétricas em torno de 180 — 200m.
em várias etapas,
consistiu em
cartografia, As cornijas são constituídas de rochas muito coerentes, tendo a análise
traçado de perfis e de Laboratório classificado como: ortoquartzitos, protoquartzitos,
coleta de
amostras. arcóseos e arenitos arcoseanos.
A partir do topo dos cerros, desenvolvem-se os glacis, com material
grosseiro em blocos e fragmentos de blocos, que, partindo das
cornijas, constituem os colúvios modelados em lombadas de cerros e
coxilhas. À medida que o material detrítico se afasta do pé da cornija,
diminui a granulometria, tornando-se um material arenoso
entremeado de rochas areníticas friáveis. Neste tipo de modelado, as
vertentes com 10 — 15° gradativamente evoluem em direção aos
talvegues para um modelado ondulado, com pendentes suaves de
3—4°, até coalescerem e se confundirem com os terraços.
Os terraços mais amplos estão localizados na calha do Ibicuí. Possuem
grande volume de sedimentos arenosos, em dois níveis, passando
depois ao nível dos terrenos argiloso-arenosos das várzeas. Grandes
extensões de diques marginais e cordões arenosos são recobertos por
uma floresta densa e baixa. No leito menor, numerosos bancos de
areia têm mobilidade nos períodos de grandes cheias.
Os elementos cartografados neste setor permitiram revelar a
sensibilidade do meio natural. As manchas de areias atuais ou as
estabilizadas, com pobre cobertura vegetal, estão todas sobre extensas
áreas coluviais que dominam esta área. São produtos arenosos e
síltico-arenosos de desagregação. Provêm do arenito pouco cimentado,
heterométrico, cor amarelo-alaranjado, tornando-se vermelho—tijolo
por meteorização. Este arenito foi desnudado acidentalmente no
passado. É retrabalhado de maneira incessante:
— por escoamento divagante em pequenos glacis e
— pelo vento, que forma pequenas dunas (l — 1,5 m de altura),
pouco estabilizadas por gramíneas com haste escieromorfa.
As areias de desagregação são cultivadas onde se apresentam
suficientemente espessas e contínuas. A facilidade de penetração das
raízes compensa a ausência de matéria orgânica e a pobreza mineral.
Quando consegue manter este equilíbrio mínimo de meio ambiente, a
vegetação sobrevive. São as áreas cartografadas como manchas de
areias estabilizadas. Estas, áreas, portanto, possuem medíocre proteção
da cobertura vegetal e, dada a instabilidade do meio, incluindo as
condições climáticas atuais, podem perder esta fitoestabilização. Por
exemplo: a exposição do solo nos terrenos lavrados. Bastaria uma
enxurrada para pôr em movimento uma boa quantidade de terras, que,
sendo arenosas, iriam se espraiar, formando as línguas de areia, quer
sobre outras terras cultivadas, quer sobre estradas, arrolos, etc., como
foi observado em vários locais.
2 — Carta de Inhanduí
A área está localizada a oeste do Município. Em relação à primeira
área descrita, são terrenos pouco mais rebaixados topograficamente,
apresentando uma altitude máxima de 202m no Cerro da Candelária,
o ponto mais elevado da Coxilha de Inhanduí. Esta forma o
interflúvio entre os arroios de Itapororó e Inhanduí, alinhando-se no
sentido SW—NE. A média de altitudes mantida na Coxilha é em
torno de 150m, descendo para os talvegues, onde vai atingir, nas
baixas vertentes, 91 e 83m.
Geológicamente, trata-se da área de intertrap, com uma boa
representação de rochas basálticas.
Predomina o modelato de entalhe, com superfícies degradadas, dando
origem a um relevo de coxilhas alongadas nos amplos interflúvios. As
pendentes são fracas, em torno de 5 — 6° os solos são pouco mais
espessos e a cobertura é de gramíneas. Freqüentemente, a incisão do
lençol aluvial do pequenos vales entalha bordos abruptos,
vegetalizados e nao ativos. Estes recuaram, liberando um fundo plano
rochoso e muito pouco aluvião. Num destes bordos (l,20m de altura),
foi possível constatar uma camada inferior arenosa cor
amarelo-ferrugem; uma camada intermediária, de cor cinza, com
aproximadamente 0,25m de espessura, e a superior, com 0,70m,
constituída de areia argilosa negra, com nodulos brancos de carbonato
de cálcio. Estas concreçôes carbonatadas já foram estudadas por Setzer
(1954) e por Bombin (1976).
Apesar de a área, em seu conjunto, apresentar estabilidade, ela chama
atenção justamente porque é aí que se encontra a maior extensão de
rochedos contínuos. Ocupa quase a totalidade da superfície da Coxilha
de Inhanduí.
São afloramentos rochosos de arenito silicificados, muito resistentes à
erosão, formando um longo pavimento de superfície irregular.
Algumas depressões rasas, circulares, e outras dessimétricas se
intercalam neste piso rochoso, onde se desenvolve um solo de cor
marrom escura ou negra de apenas 0,10-0,20 m de espessura.
Disseminados sobre os rochedos, encontram-se nodulos de pisolitas,
quartzos e calcedonias, tamanho inferior a 1,0 cm, tais como as
encontradas também no topo dos cerros da Carta Manoel Viana.
Com a exposição do quadro morfológico e dos processos
morfodinâmicos demonstrados nestas duas áreas, procurou-se
sintetizar, com o mapa da Litologia e Condições Edáficas para todo
Município, as diferenças litológicas que emprestam sensibilidade ao
meio ambiente.
C — Definição, dos aspectos negativos
l — Os areais
Estudos vêm apontando, desde muito tempo, a presença de areais não
só no Município de Alegrete, mas abrangendo extensas áreas da
Campanha Gaúcha.
Entre os estudos referentes à área, encontra-se o de Bombin (1976)
que apresenta, como contribuição eólica no membro lamítico da
Formação Touro Passo, entre três diferentes origens, a das " areias
derivadas da erosão do Arenito Botucatu, trazidas pelos ventos SE e
NE dos campos de dunas da Campanha. Estes campos de dunas
existem ainda hoje e devem ter sido ativados durante períodos secos
do Quaternário; atualmente, a pecuária com sobrepastoreio e a
agricultura estão reativando esses pequenos desertos".
Outros estudos são específicos dos areais. Entre estes salienta-se o dos
técnicos da SUDESUL, Moller et alii (1975), "Diagnóstico sobre a
Presença de Manchas de Areias na Região Sudoeste do Rio Grande do
Sul". Neste documento, os autores identificam areais nos Municípios
de Quaraí e Alegrete. Apresentam uma análise geral do fenômeno e
concluem sobre os processos de erosão atuantes, demonstrando que
seu crescimento não é alarmante, encontrando-se casos nos quais
ocorrem regressões.
Cordeiro & Soares (1977), por iniciativa da SUFREN, realizaram
uma viagem de observação, de que resultou o trabalho " A erosão nos
solos arenosos da região sudoeste do Rio Grande do Sul". Os autores
percorreram os Municípios de São Francisco de Assis, São Vicente do
Sul, Jaguarão, Cacequi, Rosário do Sul e Quaraí, registrando quatorze
formas de erosão. Concluíram referindo a origem dos areais e fazendo
recomendações técnicas para prevenção ou recuperação dos solos
arenosos.
Foi possível verificar que os fenômenos observados afetam as terras
constituídas por uma formação geológica dada como Botucatu, que,
porém, se caracteriza por um fácies distinto da Formação Botucatu
eólica, observada em outras áreas do Município. E possível que aqui
ocorra o que Bortoluzzi (1974) propõe para a região de Santa Maria:
"duas unidades litológicas e geneticamente distintas: uma de
características fluvio-lacustres, compreendendo depósitos de calha, de
planície de inundação e lagos efêmeros, ocupando posição inferior; e
outra, superior, composta essencialmente de arenitos com
estratificações cruzadas de grande porte, geralmente em forma de
cunha, de sedimentação em ambiente desértico".
Pode-se admitir, também, tratar-se da Formação Rosário, de
Gamermann (1973), aqui não mapeada.
Numerosas manchas de areias foram observadas sobre os afloramentos
de um arenito róseo, com diáclases muito raras, granulometria
heterométrica, indo de alguns granulos a silte. Ao sul de Alegrete,
onde o arenito possui estratificação miúda e está muito fissurado,
passando ao quartzito com formações superficiais delgadas, não se
verificam as manchas de areia. Ao norte da carta Manoel Viana e
Lagoa Parové, onde o modelato está mais dissecado, e onde os
arenitos são mais permeáveis, se encontra um número maior de
manchas.
A impermeabilidade do arenito, portanto, é um fator determinante.
A presença de silte também é abundante nas formações superficiais,
nas quais ele dá uma cor marrom escura. Os solos, quando
permanecem, são uniformemente castanhos, avermelhados e muito
pouco filtrantes.
São encontradas manchas de areia em vários estados de
desenvolvimento. As mais interessantes são as que ainda se apresentam
em estado incipiente. Localizam-se em áreas de pastagens de encostas,
seja na parte superior, com maior inclinação da concavidade basal, seja
na parte inferior da sua convexidade somital. As primeiras são mais
freqüentes que as segundas. Todas elas aparecem quando a vegetação
do pasto se torna aberta, descontínua, o que resulta geralmente de um
pisoteio excessivo do gado. O processo que atua na fase incipiente das
manchas de areia é o escoamento superficial, conseqüente de uma forte
erosão pluvial, permitida pela cobertura vegetal insuficiente e à quase
ausência de solos. E evidente que o escoamento prejudica a vegetação e
gera maior diminuição da densidade da cobertura vegetal, a qual, por
As observações
sua vez, favorece o escoamento. Uma retroação positiva funciona,
realizados para resultando um desenvolvimento da mancha de areia. Esta passa, assim,
compreensão da rapidamente, à outra fase de desenvolvimento, caracterizada pela
dinâmica dos
processos atuais atuação combinada de dois processos morfogênicos: a erosão pluvial e
sugerem uma o escoamento, por um lado, e o transporte eólico, por outro. A típica
ligação com
heranças mancha de areia mostra acumulações eólicas, em forma de pequenas
paleoclimáticas... dunas vivas e formas escavadas pelos filetes d'água. A importância
relativa dos dois processos varia de uma mancha à outra. Em certos
casos, são as pequenas dunas empurradas pelo vento que invadem as
terras vizinhas. Em outros, um derrame de areia estéril se edifica num
pequeno vale na parte inferior da mancha. Neste caso, o fenômeno da
mancha de areia contribui para o desenvolvimento de um regime
hidrológico de tipo torrencial na bacia hidrográfica.
2 — As Ravinas
Um ravinamento intenso se observa em certos campos de pastagens,
onde a inclinação da pendente é maior e, freqüentemente, se produz
uma mudança de litologia. Certos ravinamentos desse tipo chegam a
ter uns 3 — 4 m de profundidade, cota margens abruptas. Edificam,
em sua saída, cones de dejeções de areia estéril. Mas outro tipo de
degradação, muito mais perigoso, afeta as terras lavradas,
principalmente as que são dedicadas ao cultivo do trigo e da soja. Em
campos de trigo, onde a planta já atingia uns 15 cm de altura, e com
boa densidade, observa-se intenso movimento de areia, sobre a parte
superior, convexa, de coxilhas, onde a inclinação não passava de uns 3
— 4°. Com inclinações de 10 — 15°, freqüentes nos campos lavrados
da região, se formam ravinas, mesmo quando as terras são aradas ao
longo de curvas de nível. O escoamento violento das encostas se
concentra nos talvegues, quando assume caráter torrencial, escavando
ravinamentos profundos. Estes fenômenos contribuem para a
degradação do regime hidrológico, mas, por outro lado, geram
conseqüências agronômicas importantes. Em certos sítios, funciona
uma ablação predominante, com exportação do solo; em outros, ao
contrário, acumulação rápida de material mineral vindo da parte
superior. Nos dois casos, a terra sofre uma intensa compactação, que
prejudica a infiltração da água. O regime hídrico do solo é alterado de
maneira desfavorável aos cultivos. Os rendimentos diminuem. O
escoamento leva, também, os adubos fornecidos à terra. A maior parte
deles só serve para aumentar a poluição dos rios.
A posição destas ravinas é registrada na Carta Manoel Viana — Lagoa
Parové.
Algumas estão assinaladas como ravinas fitoestabilizadas. Possuem
fundo plano bloqueado sobre a rocha coerente, os bordos são
íngremes, com recuo de vários metros.
3 — Rochedos
A Carta Inhanduí chama atenção para uma superfície extensa,
ocupando a parte central da carta. Trata-se dos afloramentos rochosos
intercalados de depressões com manchas de solos.
A rocha é o quartzito. Há, porém, outras áreas rochosas que
constituem o topo dos cerros ou a garupa de coxilhas, onde a rocha
nua é o basalto. Muitas vezes, torna-se difícil, no campo, distinguir os
rochedos basálticos dos quaertzíticos, que são mais resistentes.
Embora as grandes extensões (230 km2 aproximadamente) de áreas
rochosas do Município chamem atenção por sua aridez, não
constituíram, até agora, motivo de literatura como os areais. É verdade
que os rochedos estão inseridos em uma área estabilizada. São
contornados por relevos de origem arenítica e basáltica associados,
constituindo a área do intertrap. O modelato é de colinas, e não
comporta incisões rigorosas. Os pequenos vales são mais abertos e
com fundo colmatado. Constitui uma área de pastoreio, sobretudo de
ovinos, que mais facilmente vencem os rochedos para atingir as
gramíneas das manchas de solos.
4 — As áreas inundáveis
A carta de síntese, que assinala os problemas do Município, indica
também grandes extensões, junto aos leitos dos médios e grandes
cursos d'água, de áreas de inundação temporárias.
O Ibirapuitã, o mais importante afluente do Ibicuí, se alonga de sul
para norte, cortando o Município em sua parte central. Aí o problema
das chuvas chama atenção por atingir a área mais povoada, que inclui a
sede do Município.
O rio corre, em geral, ao nível dos terrenos colinosos e de pouca
expressão altimétrica, mas, na cidade de Alegrete, se encaixa nas
margens arenosas, com mais de 15 metros de altura.
O gradiente é baixo a jusante da queda de São Diogo, que está,
aproximadamente, a 100 km de Alegrete, fazendo uma média de 0,27
metros por quilômetro.
Os terrenos da bacia do Ibirapuitã são de basalto e arenito fino, o que
empresta impermeabilidade aos solos.
Estes são dois elementos que implicam a retenção de água e lento
escoamento, auxiliando a ampliar as zonas inundáveis.
O regime dos rios reflete a irregularidade pluviométrica, podendo
atingir estiagens e cheias excepcionais.
Esses elementos naturais, somados aos fenômenos de degradação das
terras, impedem maior intensificação da agricultura.
As várzeas constituem também áreas muito afetadas, e as
conseqüências podem ser vistas sob dois aspectos:
a) uma alteração do regime hidrológico, com enchentes mais violentas,
inundações mais graves e danosas. Estiagens mais baixas, com
vazão reduzida pela diminuição da infiltração que alimenta os
lençóis freáticos; a água falta quando ela é mais necessária e
procurada;
b) acumulações importantes de areia estéril, transportada através dos
ravinamentos durante as chuvas.
A combinação destes dois aspectos da degradação impede que as
várzeas sejam utilizadas pelos arrozais, como se verifica onde as
condições naturais são preservadas.
As observações realizadas para compreensão da dinâmica dos
processos atuais sugerem uma ligação com heranças paleoclimáticas:
— A presença das concreções de carbonato de cálcio encontradas na
região de Inhanduí indicam um passado climático mais seco que o
atual.
— Aproximadamente a 10 km do sul de Alegrete, sobre colinas de
arenito, o solo foi despido e a pedogênese holocênica o ataca
dificilmente, devido à sua impermeabilidade e também pela forte
tendência à erosão pluvial e ao assoreamento. Entretanto, neste
setor, muitas cabeças de vale com vertentes suaves entre 5 — 10°
são caracterizadas por uma obstrução coluvial esboçando
glacis-vertentes na parte baixa das encostas. Esta obstrução é
formada por uma terra escura, que é um solo retrabalhado. As
ravinas com fundo plano são entalhadas neste material.
— Por toda área de rochedos, quer na carta Inhanduí, quer na Manoel
Viana, sobre os cumes rochosos das coxilhas e dos cerros, os
nodulos silicosos foram retomados e expandidos como resultado da
dissecação, estendendo-se como um lençol superficial.
As pastagens são esparsas sobre este tipo de pavimento.
Estes aspectos, assim como os de vegetação xerofítica, nos revelam
uma herança de aridez do último período seco. Desta maneira,
poder-se-á compreender a sensibilidade da área e as dificuldades que
deverão ser enfrentadas numa tentativa de recuperação.
Por isso, não se pode falar em desertificação. Ao contrário, o clima
atual tem a tendência a expandir áreas de vegetação com recobrimento
total do solo, quando encontra meio menos hostil. Por exemplo, as
cicatrizes de manchas de areia ainda com medíocres proteções de
cobertura vegetal.
A interferência do homem, com a sobrecarga de pastoreio nos campos,
e o aumento das áreas cultivadas estão a impedir uma recuperação
natural.
Porém, ao contrário do que se poderia esperar, estão contribuindo
para uma degradação do meio, que se traduz:
— por uma destruição do tapete vegetal;
— por retomadas da mobilidade das dunas;
— por ravinamento dos glacis;
— por alterações dos regimes hídricos.
A partir do estudo dos aspectos negativos, o trabalho foi concluído
com o mapa de Avaliação dos Aspectos Particulares do Meio
Ambiente e o Quadro das Conclusões, com diagnósticos e
recomendações.
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