Introdução à forragicultura e pastagens e ecossistemas de pastagens
• Introdução
O termo forragicultura, de uma maneira geral, emprega o estudo das plantas
forrageiras. Estas por sua vez podem ser definidas como todas aquelas consumidas por
herbívoros e, por isso, abrangem variada gama de gêneros e espécies, desde herbáceas até
arbustivas.
Para o entendimento correto do conteúdo referido ao tema forragicultura e pastagens,
o conhecimento de algumas terminologias se faz importante para um melhor
entendimento e correto emprego destas. Em Pastagens e Forragicultura, existem dezenas
de terminologias que são empregadas, muitas das quais em inúmeras vezes, de forma
equivocada. Diante disso, houve uma preocupação quanto ao uso correto destas
terminologias. Um conjunto de pesquisadores de língua inglesa, oriundo dos EUA,
Austrália e Nova Zelândia, constituíram, em 1989, uma Comissão (The Forage and
Grassland Terminology Committee – FGTC), para preparação de uma obra,
posteriormente publicada em 1991 e 1992, ampliada, atualizada e republicada por Allen
et al. (2011) com a finalidade de conceituar e uniformizar as terminologias utilizadas
em Ciência Animal, Pastagens e Forragicultura.
A seguir serão apresentados as principais terminologias utilizadas no dia a dia nas mais
diversas áreas e sub áreas da Forragicultura e Pastagens:
- Forragem: partes comestíveis das plantas, exceto os grãos, que podem servir na
alimentação dos animais em pastejo, ou colhidas e fornecidas.
- Pastagem: um tipo de unidade de manejo de pastejo, fechada e separada de outras áreas
por cerca ou outra barreira, e destinada à produção de forragem para ser colhida
principalmente por pastejo.
- Pasto: biomassa de plantas herbáceas, exceto os grãos, acima do nível do solo. Em
outras palavras, é a espécie forrageira que está disponível na pastagem.
- Piquete: área de pastejo correspondente a uma subdivisão da pastagem, fechada e
separada de outras áreas por cerca ou outra barreira.
- Taxa de lotação: relação entre o número de animais ou de unidades animais (UA) e a
área total de terra em uma ou mais unidades utilizadas durante um tempo especifico. Ou
seja, é uma relação de animal/área no tempo.
- Capacidade de suporte: é a máxima taxa de lotação que proporciona um determinado
nível de desempenho animal, dentro de um método de pastejo, e que pode ser aplicada
por determinado período de tempo sem causar a deterioração do ecossistema.
- Pressão de pastejo: relação entre o peso vivo animal e a massa de forragem por unidade
de área, em um ponto qualquer no tempo.
- Oferta de forragem: relação entre a massa de forragem e o peso vivo animal por
unidade de área, em um ponto qualquer no tempo.
- Massa de forragem: quantidade - massa ou peso seco - total de forragem presente por
unidade de área acima do nível do solo.
- Acúmulo de forragem: aumento na massa de forragem de uma área de pastagem
durante um determinado período de tempo.
- Forragem disponível: porção da massa de forragem, expressa como peso ou massa por
unidade de área, que está acessível para o consumo dos animais.
Existem dezenas de outras terminologias que são empregadas na comunicação do
estudo das plantas forrageiras. Entretanto, como foi mencionado anteriormente, as
terminologias supracitadas são as mais utilizadas no contexto do dia a dia dentro das
propriedades e, que muitas vezes, causam confundimento de quem as empregam
rotineiramente.
• Importância da forragicultura e áreas de pastagens
Do ponto de vista de importância, é relevante que a utilização de pastagens ocupa um
lugar de destaque no cenário mundial e nacional tanto no aspecto econômico quanto
no aspecto social.
As áreas de pastagem ocupam mais de 32 milhões de km2 ou 3,353 bilhões de
hectares no mundo inteiro, correspondendo cerca de dois terços de toda a área
agricultável do globo terrestre, sendo o principal uso dado a terra em nosso planeta
(FAOSTAT, 2010).
O Brasil é um país que possui vasta extensão territorial (aproximadamente 8,5
milhões de km²) e um clima privilegiado para o crescimento de plantas herbáceas,
cujas condições são excelentes para o desenvolvimento da pecuária.
De acordo com estimativas do último Censo Agropecuário Brasileiro (IBGE, 2017),
a área total de pastagens (naturais e cultivadas) no Brasil é de 160 milhões de
hectares, na qual ocupa cerca de três quartos da área agrícola nacional, assumindo
posição de destaque no cenário agrícola brasileiro. No mínimo 100 milhões de há são
de pastagens cultivadas.
A introdução de pastagens cultivadas tem impulsionado a produção pecuária a
pasto no Brasil. Cerca de 97% do rebanho brasileiro são criados a pasto, ressaltando
a importância das pastagens no cenário econômico brasileiro, visto que o Brasil é o
maior exportador de carne bovina do mundo. No Brasil cerca de 85% das pastagens
cultivadas são formadas por espécies do gênero Brachiaria e Panicum. A grande adoção
de pastagens com essas espécies se deve ao fato destas plantas forrageiras
desenvolverem, ao longo de sua evolução, mecanismos de escape ao superpastejo e
aos predadores, além de adaptação a condições edafoclimáticas adequadas à sua
sobrevivência e dispersão, principalmente nos trópicos.
As pastagens são a principal fonte de alimento volumoso para os animais nos
trópicos. Estima-se que metade do que é produzido em carne e leite seja proveniente
de animais criados em áreas de pastagem.
Diante da importância que as pastagens desempenham para a maioria dos modelos de
produção praticados, é fundamental que seu uso esteja condicionado a práticas
sustentáveis de manejo, como adubação, introdução de leguminosas, ajuste da taxa de
lotação, entre outras, a fim de que a produtividade seja mantida ao longo do tempo, sem
comprometer os componentes principais do ecossistema.
• Ecossistemas de pastagens
Os ecossistemas de pastagens corresponde a um conjunto complexo e
interdependente constituído por herbívoros, plantas e condições edafoclimáticas que
ocorrem numa determinada área, ou seja, é uma unidade natural constituída de parte não
viva (água, gases atmosféricos, sais minerais e radiação solar) e de parcela viva (plantas
e animais, incluindo os microrganismos) que interagem ou se relacionam entre si,
formando um sistema estável.
Em pastagens, independente do papel desempenhado pela biodiversidade no
funcionamento e estabilidade desse ecossistema, sabe-se que a cobertura vegetal é a
base dessa biodiversidade, e que os animais herbívoros têm papel fundamental no
manejo dessa vegetação por meio do pastejo
O ecossistema de pastagens monoespecífica, por exemplo, forma uma comunidade
com o animal em pastejo e tem seus limites bem definidos, consistindo do solo que
suporta as plantas pastejadas pelos animais, dos resíduos destas plantas e dejetos
animais, microrganismos que decompõem os resíduos, minerais solúveis e
insolúveis, e os gases atmosféricos. Estes componentes estão ligados pela cadeia
alimentar e pelos fluxos de energia, gases, água, etc.
Os ecossistemas de pastagens são comumente áreas formadas com uma só
gramínea, Brachiaria decumbens, Panicum maximum, etc. Esse tipo de ecossistema
caracteriza-se por ser simplificado, floristicamente pobre, e incapaz de se
autossustentar, dependendo sobremaneira da interferência do homem. É um
ecossistema aberto, num dos seus pontos, pela exportação de quantidades variáveis
de nutrientes, sob forma de produtos animais. Geralmente nas áreas de produtividade
animal os interesses econômicos determinam a manutenção da capacidade máxima
do meio ambiente com altas taxas de lotação. O que se observa nessas áreas é uma
grande sazonalidade, que altera a produtividade primária, resultando numa
adversidade recíproca entre ambiente e animais.
Um avanço muito importante na evolução das pastagens, já nos anos 60, foi da
aceitação de que a pastagem constituía um ecossistema, pois envolve a acumulação,
circulação e transformação da energia e da matéria, através de processos biológicos,
como a fotossíntese e decomposição, onde a parte não viva, que envolve a precipitação,
erosão e deposição, reage com a parte viva de um sistema.
A partir desse entendimento, a produção animal em pastagens no Brasil tem
passado por transformações conceituais e mudanças significativas de paradigmas nos
últimos anos. Dentre elas, o reconhecimento de que as pastagens correspondem a um
ecossistema específico, complexo e caracterizado por uma série de interações entre
seus componentes bióticos e abióticos que, para que seja sustentável, necessita da
composição de um equilíbrio harmônico entre processos aparentemente
conflitantes. Ou seja, é necessário que seja tratada dentro de um enfoque sistêmico,
considerando aspectos de ecologia, biologia, preservação e impacto ambiental,
porém com responsabilidade econômica e social.
O pastejo via animal afeta de forma significativa a atuação da entrada e saída de
energia nos ecossistemas de pastagens. A captura inicial da energia solar pela
vegetação, a eficiência da utilização da vegetação pelos animais, e a eficiência com
que a energia ingerida é convertida em tecido animal formam o principal processo
de transferência de energia observado nesses ecossistemas.
De uma maneira geral, o pastejo provoca dois impactos principais na planta, um
negativo e outro positivo. De forma negativa ele reduz a área foliar pela remoção dos
meristemas apicais, reduz a reserva de nutrientes da planta e promove uma mudança
na alocação de energia e nutrientes da raiz para a parte aérea a fim de compensar as
perdas de tecido fotossintético. Inversamente, o pastejo beneficia as plantas pelo
aumento da penetração da luz dentro do dossel, alterando a proporção de folhas novas,
mais ativas fotossinteticamente, pela remoção de folhas velhas e ativando os
meristemas dormentes na base do caule e rizomas, especificamente no caso de pastejo
não seletivo. Do ponto de vista do ecossistema pastagem, o animal afeta o
compartimento produtor primário (vegetal) diretamente e outros compartimentos
tais como, decomposição, ciclagem de minerais no solo, etc., indiretamente. Os
efeitos físicos do pastejo são: pisoteio, manchas de esterco e dispersão de sementes.
Os animais enquanto movem-se pela pastagem perturbam o solo com seus cascos,
quebram a crosta superficial do solo melhorando assim a percolação da água. Além
da remoção e redistribuição de nutrientes, o pastejo muda o balanço da energia na
superfície do solo, e altera a colonização por plantas.
O pastejo realizado de forma adequada, respeitando os limites fisiológicos da planta
que compõe o pasto, resulta em fator preponderante para uma exploração racional do
ecossistema pastagem, visando a otimização do uso da forragem produzida e, por
conseguinte, maximizando a conversão de biomassa forrageira em produto animal,
sem causar danos ao ecossistema.
• Perspectivas futuras dos ecossistemas de pastagens
Como mencionada anteriormente, dentre os ecossistemas de pastagens presentes no
Brasil, dois gêneros (Brachiaria e Panicum) se destacam e respondem por mais de 85%
das sementes forrageiras tropicais comercializadas. Constata-se, assim, que a diversidade
genética das pastagens cultivadas é baixa, uma vez que se baseia em materiais
essencialmente apomíticos (reprodução assexuada, sem mistura de genes). Dessa forma,
o aumento da diversificação das pastagens visando à redução dos riscos potenciais
desses extensos monocultivos por meio da liberação de novos cultivares é essencial e
imprescindível.
Outra forma de diversificar esse ecossistema é através da adoção de tecnologias
como a ILP, SPD e os SAFs. Estes sistemas têm sido implementado nas áreas de
pastagens como forma de diversificar o ecossistema e, principalmente, como forma de
reduzir e/ou recuperar a degradação ambiental causadas pelos monocultivos
observados nas áreas de pastagens nos trópicos. A utilização dessas tecnologias surge
como forma de otimizar o uso da terra com a associação de diversas espécies de
plantas, conservando o solo e diminuindo a pressão pelo uso da terra para produção
agropecuária.
-- Considerações finais
Diante do exposto, fica visível a importância da forragicultura e pastagens e do
conhecimento sobre os fatores que interferem nos ecossistemas de pastagens, tendo
em vista o papel relevante que estas ocupam no cenário mundial e nacional, uma vez
que parte dos alimentos que consumimos tem como produtor primário a vegetação
compreendida nesse ecossistema. Além de servir como fonte de alimentos para os
herbívoros, em especial os ruminantes, as áreas de pastagens têm significativa
importância no sequestro de carbono com, consequente, mitigação do Efeito Estufa,
o que vem ganhando importante destaque no cenário mundial.