Ebook Praticas Pedagogicas Inovadoras para A Educa 240824 134303
Ebook Praticas Pedagogicas Inovadoras para A Educa 240824 134303
INOVADORAS PARA A
EDUCAÇÃO ANTIRRACISTA
Artesanias do LABDOC Equidade Racial
1
LABDOC EQUIDADE RACIAL
Participantes:
Profa. Dra. Antonia Regina Neves - SENAC/RS
Profa. Dra. Caroline Medeiros Martins de Almeida - UNISINOS
Ma. Cristiaine Johann - UNISINOS; Defensoria Pública/RS
Profa. Dra. Elí Terezinha Henn Fabris - UNISINOS
Profa. Dra. Sandra de Oliveira - Fundação Liberato
Profa. Dra. Sandra Lilian Silveira Grohe - SMED São Leopoldo/RS
Profa. Ma. Selenir Corrêa Gonçalves Kronbauer - Faculdades EST
Coordenação:
Profa. Dra. Viviane Inês Weschenfelder - UNISINOS
2
Viviane I. Weschenfelder
(Organizadora)
PRÁTICAS PEDAGÓGICAS
INOVADORAS PARA A
EDUCAÇÃO ANTIRRACISTA
Artesanias do LABDOC Equidade Racial
3
Copyright © Autoras e autores
Todos os direitos garantidos. Qualquer parte desta obra pode ser reproduzida,
transmitida ou arquivada desde que levados em conta os direitos das autoras e dos
autores.
DOI: 10.51795/9786426508824
CDD – 370
4
Dedico esta obra à Agatha Weschenfelder de
Oliveira, que foi sonhada, gestada e teve seu
primeiro ano de vida durante a execução
deste projeto. Filha de casal inter-racial,
Agatha renova em nós a esperança e a força
para trabalhar na construção de uma
educação antirracista e de um país com
equidade racial.
5
6
AGRADECIMENTOS
7
para a elaboração e execução do projeto. São amigas que admiro
profundamente pelo trabalho que desenvolvem, em sua
pedagogia engajada para construir, com estudantes e outros
públicos, formas outras de pensar e de viver em uma sociedade
mais justa e ética. Que possamos brindar esta obra e traçar planos
para os projetos seguintes.
A Profa. Elí Fabris, um agradecimento especial por permitir
e incentivar a criação do LABDOC Equidade Racial, a partir de
sua pesquisa que criou o Laboratório de Docências
Contemporâneas (LABDOC/UNISINOS/CNPq). Como ex
orientanda de mestrado e doutorado, é uma honra poder seguir
atuando de forma próxima e colaborar para levar adiante o
legado de suas investigações sobre docência. Obrigada por me
ensinar tanto!
Agradeço também ao Programa de Pós-Graduação em
Educação e a Unisinos por fornecer as condições para a
execução da pesquisa, a começar pela possibilidade de coordenar
o projeto e de finalizar com apoio de bolsista. Nestes dois anos,
tive a primeira experiência como professora pesquisadora com
financiamento público e o apoio institucional é determinante
nesta jornada. Agradeço à Jéssica Caroline da Silva Terra, nossa
bolsista de Iniciação Científica CNPq, que colaborou para a
organização final da obra.
Agradeço às quatorze Secretarias Municipais de Educação
do Vale do Rio dos Sinos, que se reuniram com nossa equipe
para conhecer a proposta da pesquisa. Agradeço especialmente
aos dez municípios que seguiram parceiros no projeto, dando sua
anuência e indicando docentes para compor o LABDOC
Equidade Racial. São elas: Araricá, Canoas, Estância Velha,
Esteio, Ivoti, Nova Hartz, Nova Santa Rita, Portão, São
Leopoldo e Sapucaia.
Agradeço de forma especial as/aos professoras/es dos dez
municípios que estiveram conosco durante o desenvolvimento
da pesquisa. Uma boa parte dos/as docentes que conheceram a
proposta, acreditaram nela e permaneceram até o fim, se
tornando autores/as desta obra. Não são menos ocupados/as do
que a maioria dos/as professores/as, que atuam em mais de uma
escola, em mais de um município até, possuem compromissos
8
familiares e tantas outras responsabilidades. Mesmo assim,
concluíram o curso no LABDOC e seguem ativos/as em nosso
grupo de WhatsApp, aguardando novas possibilidades de
continuar em formação, aprendendo e compartilhando suas
práticas. Juntos/as, construímos uma rede de trabalho por uma
educação antirracista, construímos alguns caminhos para a
equidade racial no Vale do Sinos. Juntos/as, construímos pontes
entre universidade e redes de ensino, entre redes e escolas, entre
municípios. Juntos/as, aprendemos uns/umas com os/as
outros/as e somos mais fortes. Somos uma comunidade
engajada com a educação antirracista. Como nos lembra bell
hooks (2021, p. 78-79), "construir comunidade exige uma
consciência vigilante do trabalho que precisamos fazer
continuamente para enfraquecer toda socialização que nos leva a
ter um comportamento que perpetua a dominação"1.
Por fim, agradeço ao Fagner Oliveira, meu companheiro de
vida, pelo incentivo e presença diária. Agora com a Agatha, nossa
cumplicidade e parceria são fundamentais para continuar
sonhando e desenvolvendo projetos como esse. Obrigada por
entender as necessárias renúncias para levar adiante aquilo que
entendo como missão.
9
10
SUMÁRIO
PREFÁCIO 15
LABDOC EQUIDADE RACIAL: UM ESPAÇO
POTENCIAL PARA A TRANSFORMAÇÃO DE SI
E DO OUTRO, NA CONSTRUÇÃO DE UMA
ESCOLA E UMA EDUCAÇÃO ANTIRRACISTA
Elí Henn Fabris
APRESENTAÇÃO 19
A ESCOLA QUE RECONHECE A
DIVERSIDADE E CONSTROI EQUIDADE
RACIAL
Viviane I. Weschenfelder
CAPÍTULO 1 31
RACISMO NA ESCOLA: O QUE FAZER?
Viviane I. Weschenfelder
CAPÍTULO 2 43
ENTÃO EU DESCOBRI: PERTENCER É VIVER
Verlani Catarina da Silva
Vanusa Wiechorek Fagundes
CAPÍTULO 3 53
NA TRILHA DA DESCONSTRUÇÃO
Rodrigo Santiago da Silva Garcia
CAPÍTULO 4 63
A SALADA DE FRUTAS DOS ORIXÁS
Graziela Oliveira Neto da Rosa
CAPÍTULO 5 69
“TODOS FAZEM PARTE DESTA RODA”: A
CAPOEIRA NA ESCOLA
Andréia Fabiana Armani
Cecília Luiza Etzberger
Deisi Gracieli Wommer Scherer
Marília Gabriela Graeff
11
CAPÍTULO 6 83
TECNOLOGIAS DIGITAIS COM
INTENCIONALIDADE PEDAGÓGICA NO
PROCESSO DE ENSINO E APRENDIZAGEM
NA EDUCAÇÃO BÁSICA
Caroline Medeiros Martins De Almeida
CAPÍTULO 7 93
PROMOVENDO A EDUCAÇÃO ANTIRRACISTA
A PARTIR DO PROTAGONISMO DOCENTE
EM UMA ESCOLA QUILOMBOLA
Evelise Ferreira Pereira
Mariana da Silva Barcellos
Rodrigo Barbosa Fagundes
CAPÍTULO 8 101
AS FEIRAS DE CIÊNCIAS E MOSTRAS
CIENTÍFICAS COMO ATMOSFERA PARA A
PROMOÇÃO DA EQUIDADE RACIAL: O CASO
DA MOSTRATEC JÚNIOR
Sandra de Oliveira
CAPÍTULO 9 113
EQUIDADE RACIAL NA PRÁTICA ESCOLAR
DO MUNICÍPIO DE ARARICÁ: UMA
PROPOSTA FORMATIVA
Cristiane Lowe de Oliveira
Rodrigo Pletikoskits de Ávila
CAPÍTULO 10 125
UM NOVO OLHAR AO CONTINENTE
AFRICANO: RELATO DE EXPERIÊNCIA
Silvia Tolentino
CAPÍTULO 11 135
PROJETOS ESCOLARES SOBRE RELAÇÕES
ÉTNICO-RACIAIS: É PRECISO SER
ANTIRRACISTA
Andréia Roseli da Rosa Pereira
Leandro Arévalo de Souza
12
CAPÍTULO 12 143
PROJETO PEDAGÓGICO RECONHECENDO O
RACISMO ESTRUTURAL: IDENTIFICAR,
REPENSAR, TRANSFORMAR
Carla Cristina Pedrozo da Silva
Daril Velasque de Lima
CAPÍTULO 13 167
PARCERIAS PARA TRABALHAR A EDUCAÇÃO
EM DIREITOS HUMANOS NOS AMBIENTES
ESCOLARES
Cristiaine A. Johann
CAPÍTULO 14 175
BRINCANDO E APRENDENDO:
ESTRATÉGIAS PARA UMA EDUCAÇÃO
ANTIRRACISTA NO ENSINO FUNDAMENTAL
Simone Cristina Reis Conceição Rodrigues
CAPÍTULO 15 183
TÃO IMPORTANTE QUANTO FALAR SOBRE
EDUCAÇÃO ANTIRRACISTA É VIVENCIÁ-LA
NA PRÁTICA: UMA PROPOSTA PARA
FORMAÇÃO DE GESTORES ESCOLARES
Vanusa Wiechorek Fagundes
CAPÍTULO 16 193
O CONCEITO DE CIDADES SUSTENTÁVEIS:
UMA INVESTIGAÇÃO SOBRE ESTUDOS NO
CAMPO DA EDUCAÇÃO
Sandra Lilian Silveira Grohe
13
14
PREFÁCIO
15
escolas e comunidades contra todas as violências, agressões e
racismos, para que possam ensinar e educar crianças, jovens e
adultos, acreditando que um outro mundo seja possível e, junto
a isso, uma outra escola, uma outra família e uma outra
comunidade possam existir.
Retomo a epígrafe ao iniciar afirmando que, “Não há
educação antirracista e promoção de equidade racial na Escola
sem intencionalidade” (Santos, 2022, p.114), por acreditar que o
LABDOC Equidade Racial, funcionou como um espaço para
gestar intencionalidades. Considero que o espaço do LABDOC
Equidade Racial funcionou como um espaço potencial, para
problematização, estudo, criação e organização das lutas pela
equidade racial. O espaço, por si só, não transforma os sujeitos,
ele necessita ser habitado sem medo da crítica e com exercícios
de pensamento para que possibilite a transformação dos
sujeitos e do outro.
No caso, além dessa potência, ele serviu para organização
política e pedagógica dos participantes, para que os professores
de diferentes municípios pudessem ficar em estado de alerta,
criar ações e projetar “intencionalidades” em suas lutas diárias
nas suas comunidades.
Saber identificar ações racistas e saber organizar-se para
enfrentar cada uma delas é uma importante ação que essas
professoras das escolas puderam vivenciar ao criar um espaço de
pertencimento. Esperamos que, cada escola e município atingido
por essa pesquisa, seja divulgador e propositivo do que aqui foi
projetado e construído. Que cada professor ou professora
tocado por essa forma de ser antirracista possa ampliar essa
forma de vida em suas escolas e municípios.
O título da obra não poderia ser mais sugestivo: Práticas
Pedagógicas Inovadoras Para A Educação Antirracista: Artesanias Do
Labdoc Equidade Racial, resultado de vários encontros (de)
formação, em que o conceito de formação nunca foi tomado
com uma formatação rígida e uniforme, mas como a
possibilidade de, por meio de “exercícios de pensamento”, de
estudos, discussões, pensar de outras formas, criar outros modos
de viver e relacionar-se na vida e nos espaços educativos. Com
um objetivo claro, uma intencionalidade pedagógica bem
16
definida, criar práticas pedagógicas a partir de uma educação
antirracista, buscando inspiração no trabalho artesanal, por isso,
apostando na arte, na literatura, no teatro, dança, na alegria das
diferentes culturas, mas em um trabalho “bem-feito”, como nos
ensina Richard Sennett (2013), ao abordar o trabalho dos
artífices. Bem-feito, porque é pensado, usando a mão e o
pensamento, usando um tempo mais longo para
aperfeiçoamento das ações e dos conhecimentos científicos e dos
conhecimentos compartilhados em cada momento (de)formação
nos encontros do LABDOC Equidade Racial. Práticas
inovadoras, não com o sentido de novidade, mas como àquilo
que quebra padrões, racha preconceitos, (de) forma, esse é o
sentido das práticas inovadoras que foram gestadas e produzidas
por esse grupo de pesquisadores e pesquisadoras negras, pardas
e brancas.
O tema Equidade Racial foi escolhido como bússola para
os encontros, como inspiração e luta. Pois, foi a forma que
encontramos, para junto com os professores, trabalhar no
Laboratório “experimentos” para que pudéssemos reconhecer e
buscar a efetiva igualdade dos direitos da população, sem
restrições de acesso e de estigmatização das diferenças na
sociedade, conforme Sposati (2002) nos diz e complementa:
17
pessoas. Não são obras de ficção, mas estão encarnadas nas duras
vidas daqueles que sofrem seus efeitos.
Estudos científicos e estudos de legislações foram
importantes para que casos públicos recentes de racismo fossem
analisados, tanto aqueles que ocorreram nas escolas, nas ruas,
nos supermercados, nos diferentes espaços de nossa sociedade,
como os que foram narrados pelos participantes do laboratório.
Casos, em que o próprio LABDOC Equidade Racial, foi
chamado para dar assistência e que pode contribuir, convidando
as professoras e a escola para participação, e, ou delegando para
algumas pesquisadoras os encaminhamentos.
Convido a todos os leitores para que aproveitem esse livro
para revisar seus próprios preconceitos e ações racistas que,
muitas vezes, por falta de informação e ou desconhecimento
carregamos de nossa formação e cultura. Além desse exercício
pessoal, esse livro foi pensado para ser compartilhado com as
escolas e comunidades que desejam lutar por uma educação
antirracista. Professora e professor precisamos de aliados!
Podemos contar com o seu engajamento? Tua sala de aula e tua
escola são teu laboratório! Boa leitura e boa luta!
REFERÊNCIAS
18
APRESENTAÇÃO
Viviane I. Weschenfelder
19
Em termos populacionais, conforme a Pesquisa Nacional
por Amostra de Domicílio (PNAD), é importante destacar que
o Sul é a região que menos concentra população negra e parda
no País. No Brasil, em 2022, 42,8% da população se
autodeclarava branca; 10,6% preta e 45,3% parda, resultando em
uma população negra de 56% (são somados pretos e pardos). No
mesmo ano (2022), no Sul 72,8% pessoas se autodeclaravam
brancas; 5,4% pretas e 20,9% pardas, resultando em 26,3%.
O índice menor de população negra no Sul, todavia, não
tira a importância de olharmos para as relações étnico-raciais
nesta região. Pelo contrário, estamos falando de ¼ da população
gaúcha que historicamente vivencia intensos processos de
(in)visibilidade cultural e exclusão. Sujeitos negros e indígenas
não só ainda se veem poucos representados nos diferentes
segmentos sociais, mas também possuem maiores dificuldades
de concluir os estudos e menos oportunidades em função de seu
pertencimento étnico-racial. Observadas as especificidades e as
lutas de cada uma das populações, ambas são vítimas do racismo
histórico, que se atualiza nos discursos de superioridade europeia
tão presentes em nosso estado. Por esta razão, não se trata
apenas de contemplar nos currículos a diversidade étnico-racial,
mas, também, entender a educação escolar pública como um
espaço importante de produção de equidade. Em artigo sobre
direitos humanos e equidade racial, Johann e Weschenfelder
(2022, p. 23), assim explicitam o conceito de equidade:
20
Em cenário de crise econômica e sanitária, quando não há
oportunidades para todos, o peso da exclusão recai sobre os
mesmos sujeitos, reforçando a discriminação. De acordo com
Gomes (2020), em relatório sobre A questão racial e o novo
coronavírus no Brasil, "a situação é fruto de uma perversidade
histórica e estrutural ativamente produzida que, no contexto de
exacerbação do neoliberalismo e da crise sanitária, revela a
imbricação entre raça, pobreza, saúde pública e Estado".
(Gomes, 2020, p. 2). É também por esta razão que, além do Art.
26A da LDBEN, esta produção contempla dois dos 17
Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da
Organização das Nações Unidas - ONU: O Objetivo 4,
Educação de qualidade; e o Objetivo 10, Redução das
desigualdades.
O Vale do Rio dos Sinos envolve uma parte significativa da
região metropolitana de Porto Alegre e é composto por 14
municípios, 10 dos quais fizeram parte deste projeto de pesquisa.
Cada rede municipal de ensino foi convidada a aderir por meio
da indicação de até cinco docentes para participar do LABDOC
Equidade Racial, um grupo de trabalho e formação que foi
constituído neste projeto, inspirado no Laboratório de
Docências Contemporâneas desenvolvido pela pesquisadora Elí
Henn Fabris. De acordo com a autora, ele pode ser
21
desigualdades provocadas pelo racismo estrutural e; promover
um trabalho efetivo nos seus espaços de atuação. Em 2022,
realizamos dez encontros com o grupo de 35 docentes, sendo
nove encontros on-line e um encontro presencial. Neste grupo
encontramos diversidade: são professores/as brancos e negros,
homens e mulheres, com diferentes níveis de experiência e
formação acadêmica, que atuam na Educação Básica, em
diferentes níveis, e na gestão educacional, seja das escolas ou das
redes municipais. Neste primeiro ano, não tivemos a participação
de nenhum professor indígena no grupo.
Além das ricas discussões promovidas pelo grupo nos
encontros, que foram gravados a fim de gerar dados para a
pesquisa, temos aqui o fruto do trabalho da grande parte dos seus
integrantes, compondo artesanias docentes para a equidade
racial. Entendemos a artesania como a criação pedagógica, aquilo
que é produzido por nós e que envolve nosso saber-fazer e nosso
compromisso com a formação dos nossos estudantes em uma
sociedade mais justa.
22
pós-pandêmico fizeram com que o imperativo da inovação fosse
maximizado em nossas escolas. Compreende-se que as práticas
pedagógicas inovadoras, para além de serem um imperativo do
nosso tempo, são potentes para a construção coletiva de
conhecimento, principalmente através do uso de metodologias
ativas, que pressupõem que o estudante construa ativamente seu
conhecimento. De acordo com José Moran (2018), o uso dessas
metodologias representa a:
Possibilidade de transformar aulas em experiências de
aprendizagem mais vivas e significativas para os estudantes da
cultura digital, cujas expectativas em relação ao ensino, à
aprendizagem e ao próprio desenvolvimento e formação são
diferentes do que expressavam as gerações anteriores (Moran,
2018, p. 16).
1
Educação das Relações Étnico-Raciais.
23
consideramos inovadora a conexão da temática com as
digitalidades e as ações de cooperação que as metodologias ativas
e as TD podem fomentar.
Ao longo dos encontros do LABDOC Equidade Racial, foi
possível observar que as tecnologias digitais não foram os
maiores desafios para a atuação dos/as docentes participantes, e
sim as resistências da comunidade escolar para trabalhar a
temática da diversidade étnico-racial. É inegável o impacto que o
fortalecimento do conservadorismo fascista, incentivado pelo
governo Bolsonaro (2018-2022) proporcionou na região do Vale
do Sinos. Tivemos relatos de professores/as que se sentiam
acuados e inclusive ameaçados por abordar questões de gênero e
raça nas escolas. Mesmo com o respaldo legal para trabalhar a
ERER e a educação inclusiva vimos que existe, em alguns
espaços educacionais, a ausência de apoio e até mesmo a
hostilidade diante da diversidade e da luta pela equidade.
Podemos afirmar que nesses 20 anos de ensino da história
e cultura afro-brasileira nas escolas, um trabalho importante já
foi e está sendo realizado, como apresentam nossos/as autores
nos capítulos que seguem. Ao mesmo tempo, e talvez em
proporção maior, temos desafios pela frente, para que haja: a) o
compromisso das redes de educação em tornar a temática da
diversidade e da equidade racial uma pauta permanente de
formação a atuação pedagógica, incluindo a previsão de recursos
financeiros; b) o desenvolvimento de um protocolo do que fazer
diante de casos de discriminação racial, garantindo a atenção que
a situação merece e o compromisso com a educação antirracista;
c) o apoio incondicional aos docentes engajados com a temática,
para que possam atuar também como multiplicadores das
práticas que desenvolvem e encontrar parcerias, inclusive entre
escolas e redes municipais.
Acreditando que a sensibilização com a ERER acontece
com a difusão do conhecimento, em especial o conhecimento já
direcionado para a atuação docente, esta obra quer ser um
movimento em prol da construção da equidade racial no Vale do
Sinos e, por que não, em todos os espaços alcançados por este
trabalho. A seguir, apresentamos brevemente o conteúdo de
cada capítulo:
24
No primeiro capítulo, intitulado Racismo na escola: o que fazer?,
Viviane Weschenfelder traz uma contribuição para a ação
pedagógica nas múltiplas cenas de conflito racial que ocorrem no
ambiente escolar. Na busca pela resposta do que fazer, apresenta
resultados das discussões realizadas em alguns encontros do
LABDOC Equidade Racial e desdobra o conflito racial em três
tipologias, com a sugestão de encaminhamentos para cada um deles.
O segundo capítulo, de Verlani Catarina da Silva e Vanusa
Wiechorek Fagundes, apresenta o relato de experiência com o
projeto: Então eu descobri: pertencer é viver, desenvolvido no
município de Nova Hartz/RS. A partir da diversidade étnico-
racial do município, o objetivo foi proporcionar a alunos e
professores a sensação de pertencimento e orgulho de sua
própria origem, valorizando as diferenças e desconstruindo
preconceitos.
No capítulo 3, Rodrigo Santiago da Silva Garcia
compartilha seu trabalho pedagógico com o jogo de tabuleiro.
Ao relatar a experiência de construção do jogo com os alunos
sobre personalidades negras, o autor nos brinda com sua prática
inovadora e com reflexões importantes sobre ser um professor
negro e atuar na educação das relações étnico-raciais. Em muitos
sentidos, temos aqui uma Trilha da desconstrução, como o próprio
título destaca.
O quarto capítulo, A salada de frutas dos Orixás, é de autoria
de Graziela Oliveira Neto da Rosa, que aceitou o convite de
contribuir com esta obra. Embora não seja até o momento
integrante do LABDOC Equidade Racial, Graziela é professora,
pesquisadora da ERER e colega formadora de professores no
Vale do Sinos. Foi em um dia de atuação conjunta que a ideia de
publicar esta prática nesta coletânea surgiu. Ela foi desenvolvida
com crianças de Educação Infantil de Esteio/RS, e resultou em
um projeto que articulou a alimentação e os Orixás. Assim,
encontramos aqui uma forma muito especial de inserir a cultura
afro-brasileira na infância.
O capítulo 5 apresenta o relato de experiência de um
projeto de Capoeira na escola, desenvolvido em quatro escolas
dos municípios de Estância Velha/RS e Ivoti/RS. Andréia
Fabiana Armani, Cecília Luiza Etzberger, Deisi Gracieli
25
Wommer Scherer e Marília Gabriela Graeff são as autoras do
capítulo “Todos fazem parte desta roda”: a capoeira na escola. Com este
texto, fica evidente o quanto os saberes contidos na Roda de
Capoeira expandem possibilidades para trabalhar a ERER e
promover a inclusão, pois parte dos alunos participantes
possuem Necessidades Educativas Especiais - NEE. Com a
perspectiva de fazer parte da roda, temos aqui uma proposta de
experienciar os valores afro-brasileiros com o Ensino
Fundamental.
No capítulo 6, Caroline Medeiros Martins de Almeida
compartilha um pouco do seu conhecimento sobre Tecnologias
Digitais com intencionalidade pedagógica no processo de ensino e
aprendizagem na Educação Básica. Sendo uma das pesquisadoras do
projeto, especialista nesta temática, Caroline nos brinda com
sugestões de tecnologias que podemos facilmente utilizar em sala
de aula, promovendo aulas mais dinâmicas e que desenvolvam
competências digitais com os estudantes.
Os autores Evelise Ferreira Pereira, Mariana da Silva
Barcellos e Rodrigo Barbosa Fagundes trazem no capítulo 7, o
texto Promovendo a educação antirracista a partir do protagonismo docente
em uma escola quilombola. Eles relatam uma experiência de
formação docente com uma escola quilombola do município de
Canoas/RS. A partir dos encontros formativos, mostram a
importância da construção da relação do corpo docente com o
território negro, além de uma proposta pedagógica que
contemple mais fortemente a educação antirracista.
No capítulo 8, Sandra de Oliveira, pesquisadora do
LABDOC Equidade Racial, reflete sobre As feiras de ciências e
mostras científicas como atmosfera para a promoção da equidade racial: o
caso da Mostratec Júnior. Além de contextualizar a feira Mostratec
Júnior, espaço referência de apresentação de projetos
científicos desenvolvidos nas escolas, desde a Educação
Infantil, a autora mostra como estes projetos são importantes
para o desenvolvimento de diversas competências nos
estudantes, promovendo um ambiente propício para fomentar
a equidade racial.
O capítulo 9 traz um projeto de formação continuada para o
município de Araricá/RS, desenvolvido por Cristiane Lowe de
26
Oliveira e Rodrigo Pletikoskits de Ávila. Os encontros do
LABDOC Equidade Racial foram contribuindo para que fosse
elaborado um projeto a ser executado pela rede municipal de ensino.
Ao entregar o projeto e discuti-lo com a gestão, temos aqui um
exemplo de ação pedagógica necessária para a ampliação da rede de
educação antirracista. Desta forma, destaca-se a relevância histórica
e social que esta obra contempla para o Vale do Sinos.
No capítulo 10, Silvia Tolentino traz o relato de sua
experiência pedagógica em uma escola da rede estadual de São
Leopoldo/RS. Como a principal referência do trabalho sobre
ERER da 2a Coordenadoria Regional de Educação - CRE do RS,
Silvia participou do LABDOC Equidade Racial e foi
desenvolvendo em sua escola um projeto que procurou
promover um novo olhar ao continente africano, como aponta o título
do capítulo.
Andréia Roseli da Rosa Pereira e Leandro Arévalo de Souza
compartilham conosco, no capítulo 11, a experiência de
elaboração de dois projetos escolas sobre relações étnico-raciais,
a serem desenvolvidos no município de Nova Hartz/RS. As duas
propostas se complementam e exploram a diversidade étnico-
racial da região, articulando o pertencimento de cada estudante
com as matrizes histórico-culturais que constituem o território.
Ambas as propostas também exploram tecnologias digitais.
No capítulo 12, temos a descrição do projeto desenvolvido
por Carla Cristina Pedrozo da Silva e Daril Velasque de Limae,
bem como o relato da experiência de sua execução. O projeto foi
intitulado Reconhecendo o Racismo Estrutural: identificar, repensar,
transformar, e desenvolvido com dois sétimos anos de duas
escolas da Rede Municipal de Portão/RS, no componente
curricular de História. Ao longo do texto, o/a leitor/a vai
encontrar muitos insights para replicar esse ou construir outros
projetos semelhantes, envolvendo passado e presente em prol da
equidade racial.
O capítulo 13 tem como título Defensores públicos como
parceiros para a educação em direitos humanos nos ambientes escolares, de
autoria da defensora pública e pesquisadora do LABDOC,
Cristiaine A. Johann. A autora relata como o LABDOC
Equidade Racial permitiu aprofundar os trabalhos do projeto
27
sobre Educação em Direitos Humanos na escola, especialmente
em tempos de conservadorismo e risco à democracia. Tendo
como ênfase o respeito às diferenças e a educação para a
equidade racial, o diálogo com estudantes e professores/as nas
escolas mostra a contribuição dos defensores públicos para
avançarmos nas temáticas que ainda consideramos sensíveis e
desafiadoras, como é também a educação antirracista.
Simone Cristina Reis Conceição Rodrigues é a autora do
capítulo 14, denominado Brincando e aprendendo: estratégias para uma
educação antirracista no ensino fundamental. Professora dos anos
iniciais, Simone descreve algumas práticas pedagógicas
inovadoras que desenvolve para relatar o quanto contação de
história, oficinas de arte, confecção de jogos, dança e jogos de
tabuleiro são importantes para engajar os estudantes e
desenvolver a educação das relações étnico-raciais.
No capítulo 15, Vanusa Wiechorek Fagundes relata uma
proposta de formação de gestores escolares que coordenou em
2022. Aproveitando o processo de habilitação para eleições
escolares do município de Nova Hartz/RS, Vanusa desenvolveu
com os candidatos um momento formativo, incluindo as
temáticas da educação em direitos humanos e a ERER. O
objetivo foi dar condições para que futuros gestores pudessem
inserir a perspectiva da diversidade étnico-racial nos seus Planos
de Ação, o que pode ser adotado como prática por outros
municípios da região.
No capítulo 16, Sandra Lilian Silveira Grohe, colabora com
a discussão sobre diversidade étnico-racial a partir do texto O
conceito de cidades sustentáveis: uma investigação sobre estudos no campo da
educação. Ao trazer resultados de seus estudos sobre as cidades
sustentáveis, Sandra propõe uma ampliação de sua compreensão,
para que possamos contemplar em nossas cidades "a educação
como um dos eixos centrais para a mudança, a governança com
visão holística para os territórios e a mobilização voltada para
novos começos", elementos fundamentais para a equidade racial.
Como pudemos visualizar, esta obra traz diferentes práticas
pedagógicas inovadoras para construirmos uma educação
antirracista. São inovadoras porque, cada uma a sua maneira,
trazem novos elementos para pensar e agir em seus contextos
28
educacionais. São inovadoras também porque, para cada autor/a,
é um modo de construir sua artesania em forma de escrita, de
colaborar para que a Educação tenha mais qualidade e faça mais
sentido para nossas crianças e jovens, com toda a sua diversidade
étnico-racial. Por fim, são inovadoras porque, em rede e em
formato de coletânea, pode fazer com que práticas sejam
replicadas e outras tantas surjam.
Que ao ler estes textos, o/a leitor/a possa sentir-se parte
desta rede, parte do nosso LABDOC Equidade Racial. Este é só
o começo. E que bom, pois como disse Emicida em AmarElo, "é
tudo para ontem"!
REFERÊNCIAS
29
(Doutorado em Educação). Universidade do Vale do Rio dos
Sinos. São Leopoldo, 2020.
SKOLAUDE, M. Identidades rasuradas: o caso da comunidade
afrodescendente de Santa Cruz do Sul (1970-2000). Santa Cruz
do Sul, RS: Edunisc, 2008.
SILVA, M. L. Educação, etnicidade e preconceito no Brasil. Santa Cruz
do Sul, RS: EDUNISC, 2007.
WESCHENFELDER, V. I. Processos de (in)visibilidade do sujeito
negro: o jornal de Venâncio Aires/RS em questão. Santa Cruz do
Sul, RS: Edunisc, 2015.
30
CAPÍTULO 1
Viviane I. Weschenfelder
31
nossas escolas, não se trata de "coisas de criança", e sim de
conflitos raciais que não só discriminam negativamente, como
constroem as subjetividades dos sujeitos envolvidos. Por isso,
precisam de um olhar atento e uma mediação pedagógica
responsável e comprometida com a eliminação do racismo no
ambiente escolar.
Após quase 20 anos da publicação das Diretrizes
Curriculares Nacionais para a ERER (MEC/SEPPIR, 2004),
grande parte das escolas não possuem uma orientação efetiva do
que fazer quando situações como essas ocorrem na escola. Por
mais que não haja receitas prontas, é dever dos sistemas escolares
contemplar não apenas os conteúdos relativos ao ensino da
história e da cultura afro-brasileira, africana e indígena, mas
discutir e promover educação das relações étnico-raciais que
valorize as diferenças, se posicione e haja de forma contrária aos
diferentes modos de violência que o racismo aciona.
Por ser estrutural e estruturante da sociedade (Almeida,
2019), o racismo se expressa em qualquer gesto que reproduza a
crença na superioridade de um determinado indivíduo ou grupo
étnico-racial sobre outro, de cor/raça diferente, em especial das
pessoas brancas em relação aos demais. Isso ocorre mesmo que
não haja a intenção ou a consciência do ato, e desde a primeira
infância, como mostram Oliveira e Abramowicz (2010). Embora
cenas de conflito racial sempre estivessem presentes, é consenso
que estamos vivendo um momento de maior consciência racial
em nossa sociedade. O racismo passou a ser pauta mais
frequentes nos diferentes espaços, em especial na mídia. Ao
mesmo tempo, o fortalecimento do movimento negro tem
contribuído para que as famílias negras passem a reconhecer sua
negritude, identificar e denunciar ocorrências de discriminação
racial com seus filhos/as.
Segundo as Diretrizes, um dos princípios que serão
referência para os sistemas de ensino, gestores e educadores é
"Ações educativas de combate ao racismo e discriminações". Ele
prevê “Condições para professores e alunos pensarem,
decidirem, agirem, assumindo responsabilidade por relações
étnico-raciais positivas, enfrentando e superando discordâncias,
conflitos, contestações, valorizando os contrastes das
32
diferenças” (MEC/SEPPIR, 2004, p. 20). Nesse viés, é função
dos agentes de formação docente, inicial e continuada, construir
com docentes as bases para que haja responsabilidade
pedagógica e competência para atuar de forma adequada no
combate ao racismo.
As cenas acima descritas, juntamente com algumas outras,
compuseram material para um dos encontros de formação do
LABDOC Equidade Racial. Os participantes foram divididos em
grupos e discutiram as situações, pensando em
encaminhamentos adequados para cada uma delas. O grupo
sinalizou o que fazer em cada uma das cenas e percebeu que a
cena 2 apresenta uma falta de compreensão dos sujeitos
envolvidos sobre o significado da palavra negro, que nas últimas
décadas passou a traduzir o pertencimento racial de herança
africana, em caráter afirmativo e não ofensivo. Todavia, se o
aluno sentiu-se ofendido pela forma como foi dita, entendemos
que há aqui um conflito racial para ser trabalhado.
Ao compartilhar as discussões, veio a necessidade de uma
orientação mais adequada sobre o que fazer diante de uma
situação de racismo na escola. Embora, os professores do
LABDOC saibam como agir nesses casos, em muitas situações
se sentem sozinhos ou mesmo desamparados
institucionalmente. A ausência de um protocolo para a gestão
escolar, por exemplo, contribui para que a maioria das situações
passem sem o devido encaminhamento. Por essa razão, inspirada
na conferência ministrada por Gládis Kaercher (2020) no curso
sobre equidade racial e em outros autores que trabalham com a
ERER, esse capítulo discorre sobre a importância da mediação
de conflitos étnico-raciais e tenta apresentar respostas a essa
questão: o que fazer?
33
cor/raça a qual pertencem, desconsiderando tantas outras
características; b) colocam estes indivíduos (negros, indígenas e
brancos) em relação uns com os outros. Estas relações podem
ser de aliança, de conflito, ou ambas, pois são determinadas pelas
condições históricas, sociais, culturais e econômicas em que são
vivenciadas. Independentemente do tipo de relação estabelecida,
é esperado que os tensionamentos estejam presentes,
especialmente quando são relações marcadas pela diferença racial
e pelas desigualdades constituídas a partir desta diferença. No
que tange aos conflitos raciais, vemos que as diferenças acabam
sendo usadas como forma de dominar e/ou subalternizar os
grupos historicamente excluídos.
Os conflitos raciais, então, não geram apenas a exclusão no
momento em que acontecem, mas produzem efeitos que se
refletem ao longo de toda a vida. A escola, sendo um espaço
formativo e de promoção a aprendizagens, em todos os sentidos,
tem o dever de conduzir tais atos como parte de sua ação
pedagógica. Assim, conflitos são também oportunidade de
formação, com base nos princípios da justiça e da dignidade da
pessoa humana. Tanto as Diretrizes quanto especialistas no tema
a exemplo de Cavalleiro (2001); Gomes (2008) e Silva (2015),
sugerem que as instituições de ensino deem cada vez mais
atenção ao modo como as relações são construídas pelos
estudantes. “Assim, o conflito poderá possibilitar o surgimento
de outra orientação ética da relação pedagógica, que valorize o
sujeito e que seja o limite para que não ocorra a violência
simbólica ou explícita” (Gomes, 2008, p. 82-83).
Vale lembrar que nem sempre o conflito racial se estabelece
entre alunos/as brancas/os e negras/os. Assim como laços afetivos
são construídos entre crianças e jovens diferentes entre si, também
encontramos muitos registros de exclusão entre estudantes
negros/as, pois não há uma essência a priori ou relação natural que
gere laços solidários. Estes laços acontecem à medida que ocorrem
processos de identificação, sendo eles positivos ou negativos.
A atenção conferida ao relacionamento entre os sujeitos
que habitam a escola pode gerar práticas pedagógicas que
direcionem docentes e alunos/as a refletirem sobre os
conhecimentos ensinados/aprendidos, suas ações e
34
compreendendo-as em uma dimensão política e social. A partir
disso, é possível exercitar a alteridade para que posturas
discriminatórias sejam alteradas. A alteridade implica em não
apenas colocar-se no lugar do outro, mas entender que toda a
relação social e nossa constituição como sujeitos depende deste
outro, que é diferente de nós. Deste modo, os conflitos causados
pelo confronto da diferença fazem parte do espaço escolar,
especialmente quando os ambientes de convívio fora da escola
são marcados por práticas racistas. Segundo Gomes (2008, p.
83), “entender a dimensão do conflito e repensar a prática
pedagógica com base nele, no sentido de exercitar uma postura
ética, poderá nos apontar para a liberdade, e não para o
aprisionamento do sujeito no preconceito, na desigualdade, na
discriminação e no racismo”.
No âmbito da educação antirracista, tanto o ensino da
história e da cultura afro-brasileira, africana e indígena quanto a
Educação das Relações Étnico-Raciais - ERER são
fundamentais para que possamos cumprir o que está disposto no
Art. 26A da LDBEN. Juntas, elas caminham na direção da
desconstrução da matriz eurocêntrica que constituiu os
currículos escolares. Vejamos a Figura 1:
35
Para caminhar no âmbito de uma educação antirracista, é
necessário, primeiramente, reconhecer que o racismo existe e se
manifesta no ambiente escolar, assim como em qualquer outro
espaço social. Em segundo lugar, precisamos compreender
como as práticas discriminatórias se manifestam e garantir
condições institucionais para que elas sejam interrompidas e
trabalhadas de forma adequada. Embora as relações étnico-
raciais sejam complexas e múltiplas em suas possibilidades,
defendemos que podemos sim, nos sentirmos preparados,
enquanto docentes e gestores escolares, para atuarmos
pedagogicamente.
36
crianças brancas naturalizam a desigualdade das diferenças
étnico-raciais, e por isso tendem a expressar suas percepções de
alguma forma, seja nas representações que criam nos desenhos,
nas brincadeiras de faz de conta, ou no modo como escolhem
com quem interagir (Oliveira; Abramowicz, 2010).
Não só as crianças e jovens, professores/as, especialmente
brancos/as, também somos constituídos/as por estas
percepções preconceituosas, por estes vieses. De forma
inconsciente, vemos as crianças negras como aquelas que
provavelmente são as mais carentes de recurso financeiro, vemos
os estudantes negros como os mais bagunceiros, ou como
aqueles que provavelmente se sairão mal nas avaliações, como os
que têm mais dificuldades. Também vemos suas famílias negras
com desconfiança, vemos o desafio antes mesmo de ele surgir.
Pode ser muito difícil ler isso e provavelmente muitos/as colegas
tendem a discordarem, mas infelizmente não faltam estudos que
comprovem essa percepção. Como destaca Ladson-Billings
(2008, p. 109), "os professores parecem ver apenas déficit e
necessidade. Eu admiro a força e a elasticidade dos alunos que
continuam a vir para a escola e participar, mesmo quando seu
intelecto e cultura são regularmente questionados".
Estas percepções são frutos do racismo estrutural e da falta
de compreensão de como nos constituímos racialmente na
sociedade brasileira. Tais percepções resultam em situações
dolorosas e discriminatórias, mas nem sempre causadoras de
embate entre as partes envolvidas. Pode ser o lápis cor da pele
(como até a pouco chamávamos o lápis rosa claro), pode ser a
professora negra "confundida" como a merendeira da escola,
pode ser um apelido com tom engraçado ou um comentário
aleatório sem intenção de machucar. São microagressões que ao
longo da vida escolar causam danos graves na produção da
subjetividade de quem é vítima, em que a queda no rendimento
acadêmico é apenas um dos efeitos. Os impactos também são
graves para o agressor e mesmo para quem assiste tais cenas, pois
há a tendência de naturalizar as práticas discriminatórias.
Estas situações, conflituosas ou não, sinalizam a
importância de um trabalho pedagógico que acione
conhecimentos para desconstruir as visões deturpadas. Mais
37
úteis do que intervenções orais que podem expor os estudantes
e acirrar o sentimento de inferioridade, livros infantis, narrativas
em que negros e indígenas são protagonistas em diferentes
papeis, murais com personalidades negras das diferentes áreas,
tudo isso contribui para que se possa rever os preconceitos. De
forma conjunta com este trabalho, o diálogo afirmativo será
sempre mais efetivo.
38
Diálogo, portanto, é sempre uma ferramenta poderosa, mas
a forma como ele é conduzido importa e muito. Kaercher (2020)
sugere fazer perguntas, escolhendo momentos estratégicos para
que o estudante perceba o ato cometido e reflita sobre o que fez.
Para crianças e jovens que sofrem a discriminação, é também
importante que aprendam desde cedo que não devem aceitar ser
alvo de piadas ou ofensas raciais de qualquer ordem, e que caso
isso ocorra podem lutar por seus direitos. Desta forma, a escola
torna-se um espaço seguro para todos/as.
No encaminhamento posterior ao conflito racial, deve ser
levado em consideração o tipo da ofensa, o contexto em que
ocorreu e o nível dos/as estudantes. Em todos os casos, sugere-
se notificar ambas as famílias, para que a comunidade escolar
possa estar a par dos encaminhamentos da escola e também se
responsabilizar, no caso do/a agressor. Se a frequência destes
atos de agressão é alta, isto sinaliza a necessidade de um trabalho
mais articulado de toda a escola, a começar pelo compromisso
com a educação antirracista no Projeto Político Pedagógico -
PPP e pela formação docente.
39
Rocha (2022, p. 22) argumenta sobre a importância de se
reservar:
40
oportunidades para construirmos uma pedagogia engajada (hooks,
2020) com a educação antirracista e com a equidade racial.
REFERÊNCIAS
41
Racismo e anti-racismo na educação: repensando nossa escola. São
Paulo: Selo Negro, 2001.
SILVA, P. B. G. Crianças negras entre a assimilação e a negritude.
Revista Eletrônica de Educação, v. 9, n. 2, p. 161-187, 2015.
42
CAPÍTULO 2
INTRODUÇÃO
43
professora Vanusa acompanhou o projeto e participou da
elaboração do presente texto.
Optou-se por desenvolver o Projeto: “Então eu descobri:
pertencer é viver” para proporcionar a alunos e professores a
sensação de pertencimento e orgulho de sua própria origem, ao
se conhecerem, se inteirarem de suas etnias, e, também, de outras
etnias que constituíram e constituem nosso país e, por
conseguinte, o município de Nova Hartz - RS. Diante desta
opção, protagoniza-se uma espécie de esclarecimento libertador
a todos os segmentos da comunidade escolar, ajudando-os a
identificar a quais etnias pertencem, e, ao mesmo tempo,
contribuindo para a construção de um ambiente de respeito
mútuo, haja vista que, ao saber quem somos, nos tornamos
capazes de perceber, ainda, “O que nos aproxima?”; “ O que nos
distancia?”, e “O que podemos modificar?”, para que impere a
diversidade e não as diferenças nas nossas relações interpessoais.
APRESENTAÇÃO DO PROJETO
44
● Desenvolver no educando a percepção de sua
identificação étnico-racial.
JUSTIFICATIVA
METODOLOGIA DE EXECUÇÃO
45
3. Na sequência, a professora Verlani deu continuidade à
elaboração do projeto, realizando pesquisas e elaborando os
materiais, com o apoio da Escola Bernardo Lemke;
4. Após confecção dos materiais necessários e preparação,
ela efetuou uma apresentação experimental à Equipe Diretiva e
a um grupo de professores da escola em questão;
5. Estendeu o convite aos demais colegas de Curso e à
Secretaria Municipal de Educação, Cultura, Turismo, Esporte e
Lazer (SMECTEL);
6. Por fim, envolveu alunos e professores de todas as etapas
de ensino, atendidas na unidade escolar, aplicando o projeto.
RECURSOS UTILIZADOS
DESENVOLVIMENTO DA PROPOSTA DE
EXPERIÊNCIA EDUCATIVA
46
O ambiente, onde a atividade foi realizada, foi organizado
nos moldes de um círculo de cultura, espalhando-se numa parte
acessível da sala: objetos, vestimentas, artefatos, livros que
remetessem às diferentes etnias que constituíram o nosso país e
o município de Nova Hartz. Sobre o Círculo de Cultura, Dantas
(2010) diz que ele se constitui locus da vivência democrática, de
formas de pensamentos, experiências, linguagens e de vida, que
possibilita o estabelecimento de condições efetivas para a
democracia de expressões, de pensamentos e de lógicas com base
no respeito às diferenças e no incentivo à participação em uma
dinâmica que lança o sujeito ao debate, focando os problemas
comuns.
Todos os estudantes, após participarem da “contação de
história” e da “roda/círculo de cultura” sobre a chegada das
etnias a esta terra, podiam fazer perguntas; vestir as roupas
típicas, se desejassem; contemplar os objetos trazidos para
ilustrar a história, além de se deixarem fotografar. Essa dinâmica
reforçou a sensação de pertencimento, além da identificação dos
alunos, para com seus grupos étnicos.
A necessidade de pertencimento foi primeiramente
mencionada por Baumeister e Leary, em 1995, sendo definida
como uma motivação que seres humanos têm para procurar e
manter laços socais profundos, positivos e recompensadores.
Desse modo, ela refere-se não só à necessidade de estar inserido
em um grupo, como, também, à qualidade dos laços
estabelecidos com outros indivíduos e o sentimento de aceitação
presente, haja vista que estudos posteriores demonstraram,
inclusive, que déficits no sentimento de pertencimento foram
identificados como prejudiciais às habilidades de socialização,
levando à ansiedade e, até mesmo, ao isolamento social (Gastal;
Pilati, 2016).
Na foto correspondente à Figura 1, os alunos aparecem
usando as vestimentas e adereços relacionados às etnias indígena
e africana.
47
Figura 1 – Alunos explorando elementos da história.
48
Figura 2 – Aluna vestida com uma capulana.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
49
à sua etnia de origem, uma vez que proporcionou que
reconhecessem sua própria identidade étnico-racial, bem como a
gama de elementos a ela associados, dos quais, muitas vezes,
sentiam vergonha de vivenciar e de ou valorizar, pelo fato de
desconhecimento da história e das culturas africanas e afro-
descentes. Afinal, para respeitar ou admirar algo (ou alguém) é
preciso, antes conhecer, e o professor precisa fazer a mediação
para que o aluno consiga fazer esta reflexão, inclusive atentando-
se a uma educação antirracista.
Considerando que a maioria dos objetivos propostos, junto
aos discentes e docentes, foram atingidos, avaliamos o projeto
como positivo.
Somos todos imigrantes e nativos e, também, o resultado
da ambição do ser humano, que, em dado momento, se sentiu
no direito de tomar/invadir e escravizar para enriquecer. E, isso
só reforça a importância e necessidade de nos reconhecermos na
história da qual fazemos parte, de modo a sentirmos orgulho e
não vergonha de nossa identidade. Nesse sentido, Sartori (2013),
nos traz que é preciso considerar as vivências multiculturais
como uma das possibilidades de dialogar com os diferentes. A
prática pedagógica, aqui relatada, propiciou a expansão de
conhecimentos e ao integrar comunidade, alunos/as e
professores/as, em um projeto comum, a escola demonstrou-se
protagonista ao diálogo reflexivo, crítico e libertador.
Ao realizarmos essa dinâmica de conversar, refletir e
desenvolver atividades significativas com os alunos e professores
acerca da equidade racial, possibilitamos a compreensão sobre a
constituição do espaço/meio onde viviam e sobre o respeito à
diversidade e à riqueza étnica, cultural, territorial de um povo
advindo de muitos outros lugares e composto por muitos outros
povos. Com isso, sem dúvida, abrimos espaço para avançar no
processo de desconstrução do racismo, esteja ele presente no
ambiente familiar, escolar ou em qualquer outro espaço de
convivência social.
Precisamos assumir a educação antirracista não só nas
escolas, mas em repartições públicas, na sociedade, enfim, em
todos os espaços, pois todo ser humano é capaz de se reinventar
e promover o bem, a justiça e a equidade.
50
REFERÊNCIAS
51
52
CAPÍTULO 3
NA TRILHA DA DESCONSTRUÇÃO
53
Para tanto, um tabuleiro foi confeccionado de forma
manual com as seguintes características: Duas folhas A4, papel
colorido (verde) que destacavam as trilhas, imagens das
personalidades: Dandara, Aqualtune, Zumbi e Ganga Zumba3,
tampas de refrigerantes que formavam a base das reconstituições
das imagens que foram coladas nas tampas pelos alunos. Havia
cartas informativas e educativas de acordo com a “casa” que o
jogador parasse. Nas cartas, os conteúdos se faziam presentes,
por exemplo, informações sobre o Quilombo dos Palmares,
estrutura física e sujeitos históricos. Para pensar este cenário,
precisamos novamente jogar os dados e avançar na trilha.
Avançamos no jogo, a casa é da metodologia, sendo duas
aplicadas: na primeira, formou-se um grupo de alunos que
articularam pesquisas com perguntas para os alunos dos oitavos
e nonos anos4. Depois, aplicação da pesquisa entre os alunos dos
anos citados.
Após o levantamento das respostas, houve uma aplicação
metodológica para todos as séries trabalharem com o tema. Em
uma das perguntas, indagamos se conheciam as personalidades
negras: Aqualtune, Zumbi, Ganga Zumba, Dandara ou outros
(as). A maioria respondeu que conhecia apenas Zumbi dos
Palmares, algo que fez com que se pensasse em articular estes
conhecimentos, de forma massiva, porém sem perder a
qualidade. Ainda na “casa”, outra resposta nos chamou a
atenção, relativa ao o que achavam sobre jogos de tabuleiro. Com
mais de cinquenta por cento, as respostas indicaram que poderia
ser divertido, mesmo na era da tecnologia, o que nos encorajou
a dar o próximo passo.
Rolando os dados, conseguimos avançar mais um pouco e
partimos para a segunda metodologia: a construção do tabuleiro
e jogo. O grupo de alunos articuladores deu o início da confecção
do jogo. Uma das preocupações era destacar as personalidades
3 Essas foram lideranças negras que estiveram à frente do mais famoso dos
Quilombos, o de Palmares.
4 Optamos por desenvolver o trabalho com alunos dos anos finais, por estarem
54
negras no tabuleiro a partir do levantamento das respostas para,
só então, começarmos a confeccionar. Neste momento
passamos a intercruzar a construção do divertimento, a tarefa de
aplicação e o ensino das relações étnico- raciais.
A complexidade das teorias e a prática de combate ao
racismo por meio da educação fez com que o processo
pedagógico, dessa atividade, se tornasse fundamental para os
enfrentamentos de problematizações raciais do dia a dia, que se
refletem na escola, entendendo que:
[...] é preciso considerar que tudo aquilo que é negado na
formação cultural do Brasil também é negado na escola brasileira.
Assim, vemos esta instituição social apresentar, transmitir,
disseminar e difundir a cultura considerada hegemônica, e não as
culturas nacionais (Lima, p. 22, 2015).
55
jogo) não tem como prever esse decorrer de trabalho, contudo,
seu resultado pode desconstruir alguns paradigmas acerca da
construção eurocêntrica da identidade negra brasileira.
Por muito tempo, a nossa história foi manipulada por um
currículo eurocêntrico, colonizado e estereotipado que
invisibilizou a cultura afro-brasileira em sua participação de
construção cultural, social e política, inferiorizando os negros a
uma posição objetificada, como seres humanos incapazes de
serem sujeitos da história, como se não tivessem nomes, origem
e laços históricos para além da escravidão. Com esta reflexão, o
jogo avança para um encontro da subversiva história dos
oprimidos, a história dos relegados por muito tempo, da
historiografia, vítimas de práticas discriminatórias fomentadas
pelas narrativas colonizadoras:
No Brasil que se inaugura com a colonização portuguesa, um
processo de naturalização das diferenças se expressou ao longo
dos anos através das desigualdades de oportunidades
experimentadas por indivíduos e grupos com atributos étnico-
raciais distintos. Independentemente das considerações
biológicas, o racismo brasileiro desenvolveu-se através de práticas
discriminatórias relativas à cor e, quanto mais próximo da
branquitude, menor pode ser o sofrimento e a distinção
preconceituosa. O que isso tem a ver com o jeito de como
contamos a nossa história, ou seja, com a historiografia? Para
responder tal pergunta, é importante buscar as presenças e
ausências de brancos, negros e índios nas narrativas
historiográficas e nos manuais didáticos de história do Brasil.
Muitas alternativas de resposta estão relacionadas com nosso
processo de dominação colonial, mas também com a forma como
nossa história foi sendo contada e reconstruída,
predominantemente a partir de referenciais eurocêntricos e
brancos (Gil; Meinerz, 2017, p.21).
56
Pernambuco e que durou quase um século (Araújo, 2020). A
visibilidade e a alocação de mulheres negras, em nossa história,
também se fizeram presente no jogo. Assim, todos estão
ganhando, avançado as casas e reconstruindo processos
educativos, agora quase no final, vamos verificar o antirracismo.
Para esta etapa, o que nos baliza legalmente é a Lei
10.639/035, que institui a obrigatoriedade do ensino de história
africana e afro-brasileira, em 2023, completando vinte anos de
vigência. Nela há um intenso trabalho voltado para o combate
ao racismo, reunindo diretrizes e formas de atuação do
profissional da educação para valorização da cultura negra, para
além do papel de escravizado, humanizando o sujeito histórico
africano e apontando para compreensão do papel histórico dos
negros na formação do Brasil. Logo entendemos a Educação das
Relações Étnico-raciais, sendo uma
57
Geralmente, a naturalidade da narrativa de cunho racial se dá em
forma de brincadeiras: “coisa de preto” (quando se faz algo
errado); “macaco”; “haitiano” e uma série de discursos que
tendem a tensões raciais. Os alunos ecoam aquilo que escutam
de forma naturalizada. Respirar profundamente ajuda a retornar
para o equilíbrio emocional e a acionar o racional.
Minha posição não é fácil, a de professor preto que educa
para a Educação das Relações Étnico-Raciais. O cuidado em
educar e não ser julgado como vitimista é tênue, há uma
sensibilidade marcada pelo racismo estrutural (Almeida, 2018),
associado a todas instituições existentes no país que solidifica
não apenas a hierarquia racial em escala social, pois perpassa pela
construção do sujeito e sua posição na sociedade.
A luta pela educação antirracista é a luta pela minha
integração enquanto sujeito negro, em constante (des)
construções psicológicas moldadas pela interação social. Quanto
menos se reconhece o racismo estrutural, mais suscetível ficamos
à ideia da não necessidade de falar sobre a ERER.
A sensibilidade do/a professor/a preto/a é inevitavelmente
diferente da pessoa branca. Nos deparamos com reflexos de
nossa infância, nos enxergamos no processo de identificação do
racismo e o quanto, ali presente em aula, isso nos assombra. A
empatia que outro docente, que não tem a pele preta, é
totalmente diferente, pois concorremos com nossos sentimentos
e a compreensão do nosso lugar enquanto educador de alunos
negros, brancos e indígenas e a sombra do racismo que reprime
a estigma, coloca em dúvida o lugar do docente preto/a, e faz
com que lutemos contra o complexo de inferioridade.
Lutar por uma educação antirracista é se tornar uma pessoa
que compreende o processo de construção racial que no Brasil é
acompanhado de sutileza e paradoxalmente, também aparece de
forma bruta e violenta. Contudo, a identificação da brutalidade
passa necessariamente pelo que hoje é compreendido como
“letramento racial crítico”, que tem por significado:
58
sociais e em nossas vidas, seja no trabalho, no ambiente escolar,
universitário, em nossas famílias, nas nossas relações sociais
(Ferreira, 2015, p. 138).
59
por vezes de maneira fácil, narrativas soltas entre conversas e
brincadeiras dos alunos ao se deparar com material de
representatividade negra.
Um avanço importante no jogo é desvelar, fazer entender
que gente preta tem história, foi rei ou rainha, pertenceu a um
império, aldeia e ou de um processo histórico de conquistas e
perdas. Assim, o antirracismo contextualizado é entendido como
Pedagogias de combate ao racismo e discriminações elaboradas
com o objetivo da educação das relações étnico/raciais positiva
têm como objetivo fortalecer entre os negros e despertar entre os
brancos a consciência negra. Entre os negros, poderão oferecer
conhecimentos e segurança para orgulharem-se da sua origem
africana; para os brancos, poderão permitir que identifiquem as
influências, a contribuição, a participação e a importância da
história e da cultura dos negros no seu jeito de ser, viver, de se
relacionar com as outras pessoas, notadamente as negras.
Também farão parte de um processo de reconhecimento, por
parte do Estado, da sociedade e da escola, da dívida social que
têm em relação ao segmento negro da população, possibilitando
uma tomada de posição explícita contra o racismo e a
discriminação racial e a construção de Diretrizes Curriculares
Nacionais para a Educação das Relações Étnico-Raciais e para o
Ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e Africana 17 ações
afirmativas nos diferentes níveis de ensino da educação brasileira
(Brasil, 2004, p.16).
60
Portanto, chegamos ao fim do jogo! Mas, não ao fim do
trabalho, a cada nova rodada poderemos nos deparar com as
mais variadas experiências, contudo, tenho certeza que todos
saem ganhando e principalmente, construindo conhecimentos
que possibilitem um olhar e ação antirracista.
REFERÊNCIAS
61
MOREIRA, A. Racismo recreativo. In: RIBEIRO, D (org.).
Feminismos Plurais. São Paulo: Pólen, 2019.
RIBEIRO, D. O que é lugar de fala?. Belo Horizonte: Letramento,
2017.
62
CAPÍTULO 4
63
maioria, uma população descendente de imigrantes vindos da
Europa, bem diferente da realidade em que eu trabalhava
anteriormente, pois morava e trabalhava na periferia de Porto
Alegre -RS. Ao chegar na escola para a qual fui designada, as
crianças de quatro anos da turma que assumi como professora
titular, demonstravam seu estranhamento com a cor da minha
pele, e, para me aproximar da turma, tive que repensar minhas
aulas. Não imaginava que seria provocado pelas próprias
crianças. E foi assim que a Educação das Relações Étnico-Raciais
(ERER) se tornou presente no meu cotidiano. Era preocupante
constatar que mesmo tão pequenas, as crianças demonstravam
ter atitudes e pensamentos racistas.
No início do ano letivo, as crianças ficavam na escola em
turno integral e estavam com dificuldades de aceitar a
alimentação ofertada pela escola, por necessidade do momento
iniciei um projeto sobre alimentação saudável. Nossas crianças
realizavam 4 refeições diárias conosco, por passar quase 12 horas
na escola. Portanto, havia a preocupação que eles pudessem
entender a importância de comer de forma saudável. Com a
intenção de realizar um projeto que trouxesse atividades da
cultura afro, pesquisei alternativas e possibilidades. Lembrei-me
dos orixás e das minhas vivências de terreiro e, assim, surgiu a
ideia de criar a história Salada de fruta dos orixás. Naquele
momento foi um grande achado pedagógico: as crianças ficaram
encantadas e gostaram de conhecer os guardiões dos elementos
da natureza.
Havia uma preocupação em pensar de que forma inserir o
tema afro-brasileiro nesse projeto de alimentação saudável, foi
então que fui aprofundar meus conhecimentos sobre as
oferendas que são realizadas aos orixás. Busquei o Google para me
ajudar nessas informações e descobri que assim como existe
mitologia grega, também existia a mitologia africana, confesso
que fiquei envergonhada por descobrir isso tão tardiamente. A
partir dessas informações descobri que os orixás tinham o papel
de proteger os elementos da natureza como terra, ar, fogo e a
água e que cada um tinha sua comida preferida, muitas vezes,
produzida nos terreiros para oferenda, mas além das comidas,
também tinham preferências de frutas.
64
Inspiradas nessas informações que encontrei estudando e
pesquisando, resolvi levar para sala de aula os orixás como
personagens da mitologia africana que gostavam de comer frutas
e que elas, as frutas os ajudam a proteger a natureza. Eu tornei
os orixás em super heróis.
A repercussão na turma foi fantástica, e eles, após a
rodinha, disputavam personagens; uns queriam ser Ogum,
outros Xangô. Mas, infelizmente, alguns familiares não gostaram
do que estava sendo trabalhado com seus filhos e foram até a
direção da escola reclamar. Fui questionada e ainda ouvi a
diretora me dizer que a família iria à Secretaria Municipal de
Educação da cidade. Posicionei-me, citei as Leis 10.639/03 e
11.645/08, mostrei para a direção da escola, o caminho de
argumentação frente às famílias e, com o tempo acabei
“ganhando” a confiança do grupo e da equipe pedagógica.
Não é fácil realizar o enfrentamento quando se está só, pois
infelizmente era a professora negra que, imbuída com a luta, trazia
representações, histórias e informações que não condizem com o
que a escola colonizadora sempre apresentou. Contudo, senti apoio
da equipe diretiva naquele momento e me encorajei a seguir o
trabalho, inclusive ampliando para toda escola. Ultrapassei o
primeiro desafio, sair do limite das paredes da minha sala de aula e
atingir toda escola. Na imagem abaixo segue a capa e a primeira
página das histórias que causou o primeiro desacomodar de muitos
outros que ocorreram no cotidiano escolar.
65
Esse é um exemplo que demonstra a necessidade de
mudarmos as ações na escola, frente a possibilidade de
descolonizar os currículos e, principalmente, o nosso pensar.
A ERER é necessária no contexto escolar, não é possível
que passados 20 anos da Lei 10.639/03, estejamos ainda
debatendo sobre a sua implementação. XX1.
A salada de frutas dos orixás chega na minha sala de aula
através de uma pesquisa no google, foi uma pesquisa rápida e
simples que me levou para mitologia africana2, e
consequentemente para o aprofundamento de como se dá a
religião de matriz africana. Conheci os orixás, suas características,
o que de fato são as oferendas e o porquê elas são feitas nas
encruzilhadas, assim como toda espiritualidade envolvida. A
partir daí, fui para o momento de criação e assim nasceu a
história: Salada de frutas dos Orixás.
Abaixo reproduzo a narrativa criada, que foi ilustrada pelo
orixá e pelo respectivo alimento:
66
pois é assim que as pessoas que são da religião afro-brasileira o
chamam, OXALÁ. Suas frutas prediletas são o coco e a pêra.
Você já foi à praia? A água do mar é doce ou salgada? Hum....
Essa é Iemanjá: Considerada a rainha dos peixes e das águas
salgadas, nosso conhecido mar. Sua fruta favorita é a melancia.
Tem também o orixá OGUM. Senhor dos metais. Ele próprio
construía suas ferramentas, tanto para a caça, como para a
agricultura e para a guerra. A fruta da preferência de Ogum é a
laranja que contém vitamina C e é muito importante para curar
feridas e machucados.
Uma das mais belas guerreiras dentre os orixás, OXUM
sempre protegeu as águas doces. Adora estar na frente do espelho
e não dispensa uma boa fruta, pois sabe o quanto é importante
para sua saúde comer frutas. Suas frutas favoritas são bergamota
e melão.
Já Xangô é a força do trovão e o fogo provocado pelos
relâmpagos. Entre todas as frutas que existem a banana e o
moranguinho são seus preferidos. E o mais interessante é que
sempre quando chover ele sempre será lembrado.
Iansã dona dos ventos e ventanias. Com sua força e graça ela
sempre chega chegando e cheia de vontade de mudança e
transformação. Toda essa garra tem uma forte contribuição da
maçã, fruta a qual gosta de comer. Ela passou tão rápido por aqui
que já comeu todinha sua maçã.
Oxossí é um orixá caçador, senhor da fartura, senhor da caça;
ao contrário de muitos santos, ele gosta de todas as frutas, pois
ele sempre diz que não existe fruta ruim e nem boa, o que ele
credita é cada um tem seu próprio gosto e o dele é a mistura de
todas, que deixa ele pronto para caçar.
Esses são alguns orixás que até hoje se fazem presente na vida
de muitas pessoas, vamos usar o exemplo dos santos africanos
para fazer uma boa alimentação, pois só assim eles têm força para
proteger as pessoas e os elementos da natureza, que infelizmente
nos dias de hoje, os seres humanos teimam em destruir. Mas bom,
esse é outro assunto que podemos debater depois. E aí??? Vamos
comer a salada de frutas dos orixás? FIM.
67
diferentes religiões de matriz africana, daria um destaque às
oferendas, abordaria a importância do respeito e da
autodeclaração. Certamente se minha professora tivesse feito
isso comigo, hoje estaria dentro de um terreiro cultuando os
orixás, algo que hoje não é a minha realidade.
Não é mais admissível que estejamos esperando “alguém
pra fazer a história no nosso lugar”, assim como foi com a
“princesa”, como a ISABEL, a redentora, que levou a “glória”
de colocar fim ao mais tardio término de escravidão das
Américas. Bem mais “exemplar”, a princesa conceder a liberdade
do que incluir nos livros escolares o nome de uma “realeza” na
qual ZUMBI, DANDARA, LUIZA MAHIN, MARIA FELIPA
assumissem seu real papel na história da liberdade no Brasil.
Como mostrei em outro lugar (Rosa, 2022), é possível
transformar, desconstruir e descolonizar nosso fazer e nosso
saber, o povo negro e o povo indígena contam com a nossa ação
antirracista.
REFERÊNCIAS
68
CAPÍTULO 5
69
A cidade de Ivoti conta com o “Plug”, espaço que os alunos
frequentam no contraturno escolar e participam de diversas
oficinas. Dentre essas opções, são ofertadas aulas de Capoeira.
Três alunos dos quintos anos relataram suas experiências ao
participarem dessas oficinas e dispuseram-se a demonstrar
alguns movimentos aos colegas. Os alunos puderam exercitar seu
protagonismo e validar a sua experiência. O trabalho foi rico aos
demais alunos e oportunizou aos professores aprender com esses
jovens, que habitaram seu lugar ao demonstrar com seus corpos
e voz, seus conhecimentos.
70
escolar. Todos citaram o “Plug” como espaço que proporcionou
tal experiência.
A partir do formulário, com a articulação da professora de
currículo integrado, o professor de educação Física, a professora
de Música e a professora da Sala de Recursos Multifuncionais,
foi sendo tecido um novo olhar, utilizando a pesquisa nos
chromebooks, a exploração dos instrumentos utilizados na Roda de
Capoeira de forma a conhecer os ritmos. Deste modo, abordar
o contexto histórico e cultural possibilitou ricas vivências e
significativas aprendizagens.
Nesse sentido, cabe ainda ressaltar que na turma referida
participavam dois estudantes, da Sala de Recursos
Multifuncionais, diagnosticados com de TEA e DI.
Compreender que “Todos fazem parte dessa roda”, é de
fundamental importância para a construção de espaços
inclusivos na escola e na sociedade como um todo. Estes
estudantes fizeram parte de todas atividades, realizando os
movimentos básicos, concomitante com as músicas tocadas em
instrumentos e cantadas, como o berimbau, o pandeiro, além da
roda e do gingado com os movimentos do corpo. Uma
aprendizagem constante.
O ambiente da sala de aula foi transformado para dar lugar
a uma roda. As classes e cadeiras deixaram de ser importantes
nesse momento. O espaço da escola tradicional nos traz barreiras
e é preciso agir nele para criar a oportunidade do estudo
significativo e inclusivo.
A roda inclui a todos. Todos dentro, juntos. Estar no centro
da roda em interação com um colega de forma gentil e respeitosa,
vivenciando o aprender em conjunto. Alguns, ora no centro, ora no
contorno. Observar o outro em seu movimento, percebendo seu
tempo, ocupar, também, esse lugar de destaque, aceitando receber
os olhares dos demais, permitindo-se aprender, acertar e errar.
Nesse processo de demonstração e compartilhamento das
experiências, foi extremamente válida a participação de dois
alunos, irmãos gêmeos e portadores de necessidades especiais.
Esses meninos relataram sobre as aulas que participaram e
trouxeram toda a sensibilidade para a música e o ritmo. Eles nos
ajudaram a compreender o processo de tocar o pandeiro e de
71
como conduzir o canto junto dos movimentos. A experiência de
vida deles, repleta de desafios, mostrou que suas condições
físicas não são impedimentos para seu crescimento.
Após compreendermos um pouco mais da Capoeira,
conhecendo alguns movimentos e cantos, nos desafiamos a
realizar uma roda no pátio. E aí a Capoeira espalhou-se pelo
espaço, chegando a tantos outros alunos, aproximando-os da
roda e instigando olhares curiosos. Nesse processo, chamou-nos
a atenção sobre outros alunos da escola que também tinham
algum conhecimento sobre o tema. Com essa observação, eles
tiveram a oportunidade de trazer à tona essa vivência que estava
guardada em suas lembranças. Eles foram convidados a trazerem
seus conhecimentos para os grupos dos quintos anos e para as
suas respectivas turmas.
Nesse processo de crescimento da experiência da Capoeira
na escola, notamos que os alunos demonstraram o desejo de
conhecer mais sobre o tema. E assim o fizeram, tendo seus
colegas como professores. Destacam-se aqui, dois alunos do
sétimo ano, ambos com histórico de dificuldades de
aprendizagem e de relacionamento. Foi lindo ver como eles
ressignificaram seu lugar na turma ao compartilharem suas
experiências. Eles foram solicitados com frequência pelos
colegas para esclarecerem dúvidas, passando a ocupar um lugar
de destaque positivo no grupo.
A vivência realizada na EMEF Presidente Kennedy, de
Estância Velha, foi com uma turma de estudantes do segundo
ano, na faixa etária de 8 anos. Para dar início ao projeto, fizemos
um momento de conversa sobre os conhecimentos prévios sobre
a Capoeira, norteada com questionamentos, tais como: se
conheciam o termo e qual o entendimento que tinham da
capoeira, sua origem; se já haviam participado de uma roda de
capoeira e, em caso de resposta afirmativa, em qual local; se havia
espaços na cidade que oportunizam a Roda de Capoeira. Foram
instigados a pensar sobre quais elementos constituem a Roda
Capoeira, e como é possível aprender e vivenciar este
conhecimento no espaço escolar. Neste primeiro momento
houve significativas contribuições de estudantes que
72
apresentavam um bom conhecimento sobre o universo da
Capoeira e da cultura afro-brasileira.
73
Figuras 3 e 4 – Registro da apresentação de Capoeira, de dois
alunos do quarto ano do ensino fundamental 1, no espaço interno da
EMEF Presidente Kennedy.
74
conhecem, ou experienciaram e querem relatar sobre a pesquisa
realizada, com naturalidade e sem receios. Isto é muito bom. É
nesta mudança que acredito enquanto cidadã, mãe, professora,
que não haja mais desculpas, equívocos, para este vergonhoso
racismo estrutural.
75
No decorrer desta prática vivenciamos movimentos de
Capoeira que iniciaram na nossa turma e se estenderam para toda
escola, através de um momento de integração com estudantes de
outras turmas. Esta prática propiciou o conhecimento de
instrumentos musicais de matriz africana, a música e o gingado
com ritmo envolvente. O gosto pela música e pela dança afro-
brasileira foi tanto que pesquisamos outros ritmos, a exemplo de
Shosholoza, que despertou tamanho interesse que nos
aprofundamos em saber mais sobre seu significado, tradução da
letra, execução da coreografia e as vestimentas dos dançarinos.
Para que este conhecimento não ficasse restrito à nossa turma,
realizamos uma apresentação para toda escola da canção
Shosholoza na língua Zulu e sua coreografia, explanando aos
demais o que descobrimos sobre a mesma.
Na Escola Municipal de Ensino Fundamental Anita
Garibaldi, localizada na cidade de Estância Velha, a Capoeira foi
abordada com três turmas do sexto ano, objetivando
conscientizar os estudantes sobre a importância do respeito à
diversidade étnico-racial, a partir do reconhecimento da Capoeira
como protagonista no trabalho de cooperação, escuta, empatia e
respeito no ambiente escolar.
Com a proposta de desenvolver um projeto permanente
dentro do ambiente escolar, optou-se em iniciar as indagações e
pesquisas com as turmas do sexto ano, pois os estudantes terão
a oportunidade de serem multiplicadores do mesmo até o nono
ano.
Para isso, alguns objetivos específicos versam sobre esse
projeto, tais como:
● Pesquisar e se apropriar sobre a história da Capoeira;
● Compreender a importância da Capoeira para a cultura
brasileira;
● Pesquisar e conhecer personalidades de diferentes etnias,
buscando trabalhar a autoestima pela representatividade;
● Conhecer a música e sonoridades envolvidas na prática
da Capoeira;
76
● Conhecer os instrumentos musicais presentes na prática
da Capoeira, buscando através de materiais convencionais e não-
convencionais, a confecção desses na escola;
● Utilizar ambientes digitais colaborativos como forma de
compartilhar pesquisas, conhecimentos e práticas desenvolvidas
sobre o tema da Capoeira;
● Trabalhar o protagonismo dos estudantes envolvidos no
projeto de forma que se reconheçam como agentes de
transformação da sua realidade, nos grupos e espaços em que são
pertencentes: turma, escola, família e comunidade.
No 2022, iniciou-se o trabalho com as turmas, partindo de
uma sondagem sobre o que sabiam e imaginavam em relação à
história e importância da Capoeira2. Os estudantes responderam
algumas perguntas que, posteriormente, foram discutidas em sala
de aula, com apoio de imagens e vídeos, a fim de que o
conhecimento sobre o tema fosse construído de forma coletiva,
considerando as opiniões e indagações de todos, tornando a
aprendizagem significativa e próxima dos estudantes, de forma
que se reconhecessem como parte da história e cultura da
Capoeira.
77
Figura 9 - Crianças do 6º ano Escola Municipal de Ensino
Fundamental Anita Garibaldi.
78
Como forma de refletir sobre a importância da história de
cada estudante, fazendo com que se reconhecessem e se
valorizassem dentre as suas diferenças, compreendendo que
todos formamos a cultura que nos rodeia, os estudantes foram
desafiados a criar seus avatares no Laboratório de Informática,
ressaltando na criação, seus pontos fortes, interesses e como se
reconheciam enquanto sujeitos. Foi utilizado o programa
Mangatar, como ferramenta de criação.
79
CONSIDERAÇÕES FINAIS
REFERÊNCIAS
80
Temática “História e Cultura Afro-Brasileira”, e Dá Outras.
Providências. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 10 jan. 2003.
IPHAN. Roda de Capoeira é mais novo Patrimônio Cultural Imaterial da
Humanidade. 26 de novembro de 2014. Disponível em:
http://portal.iphan.gov.br/noticias/detalhes/66/.
81
82
CAPÍTULO 6
INTRODUÇÃO
83
discutir a preparação dos estudantes para a era digital, é
fundamental considerar a realidade diversificada das escolas
públicas brasileiras e buscar maneiras de superar as barreiras de
acesso à tecnologia.
Diante do exposto, defende-se a aproximação das
universidades com as escolas públicas da Educação Básica, para
que coletivamente, professores das universidades, estudantes
universitários e professores em serviço possam planejar ações no
ambiente escolar, diminuindo o distanciamento existente entre
as teorias propostas pelas universidades e as práticas realizadas
neste contexto (Rodrigues; Miskulin; Silva, 2019).
Atualmente, observa-me mais aproximação entre as
universidades e as escolas de Educação Básica, visando ao
compartilhamento de práticas. Este diálogo entre docentes de
diferentes níveis da Educação são grande importância, visto que
durante muito tempo houve um distanciamento entre estas duas
esferas, pois muito o que se produz nos espaços acadêmicos
acaba por impactar pouco no ensino básico, apesar do amplo
potencial transformador destas trocas (Almeida; Scheunemann;
Lopes, 2019).
O projeto de pesquisa que originou este livro tem esta
característica de aproximação e trabalho coletivo entre escola e
universidade para construir equidade racial na região de
abrangência da Unisinos. A literatura mostra que a cooperação
entre instituições de ensino básico e universidades tem
produzido resultados mutuamente vantajosos, levando a
reflexões e aprimoramentos tanto nas práticas de ensino nas
escolas como nas estratégias formativas das universidades.
(Almeida; Scheunemann; Lopes, 2019).
Assim, o professor pode observar e criar espaços de
aprendizagem em que o aluno seja desafiado a aprender e
resolver problemas sistematizando os novos conhecimentos,
com autonomia e criatividade. Percebendo as dificuldades no
que se refere ao ensino e aprendizagem, pensou-se em uma
forma de contribuir com esse processo. Com base no contexto
descrito, um dos objetivos desta pesquisa foi desenvolver com o
grupo de professores(as) competências docentes para trabalhar a
temática da diversidade e a equidade étnico-racial, utilizando
84
metodologias ativas e tecnologias digitais em conexão com os
territórios locais.
Necessitamos de estudantes que sejam capazes de buscar e
construir seu conhecimento, que sejam criativos e manifestem
vontade de aprender, pesquisar e saber (Amen; Nunes, 2006).
Assim, o novo perfil dos alunos na contemporaneidade instiga
um repensar das metodologias e estratégias didáticas, pois eles
desejam participar mais ativamente e serem desafiados. A partir
desta necessidade, metodologias são estudadas a fim de adequar
estratégias mais condizentes com este público, garantindo outras
formas de aprender por meio das tecnologias digitais. Para
Bittencourt, Albino e Grassi (2018), o uso das mídias digitais
como estratégia no campo do ensino, com um público cada vez
mais envolvido com a tecnologia, traz às instituições um grande
leque de recursos didáticos para lhes dar a oportunidade de
responder às diferenças individuais e às múltiplas facetas da
aprendizagem.
As tecnologias digitais são ferramentas que podem atender
as necessidades de flexibilização do processo de ensino e
aprendizagem, por serem mais versáteis e poderosas (Silva,
2010). As tecnologias trazem dinamicidade dos meios
mediacionais (Martins; Moser, 2012), porém precisamos levar
em consideração a intencionalidade pedagógica.
Segundo Szeuczuk e Souza (2016 p.1) “a utilização das
novas tecnologias na educação escolar é uma necessidade diante
aos desafios que os educadores se deparam no mundo
contemporâneo”. Para trabalhar com a temática da diversidade
étnico-racial, é urgente pensar a articulação com as mídias e os
ambientes digitais, cada vez mais presentes na vida dos
estudantes, desde o Ensino Fundamental.
As TD para Giordan (2005), se apresentam como recursos
que facilitam e contribuem com o processo de ensino e
aprendizagem, uma vez que fazem parte do cotidiano dos alunos
e tornam a aprendizagem dos conteúdos científicos mais efetiva.
Para Balakrishnan (2017), os alunos normalmente são receptivos
para usar as tecnologias no processo de ensino e aprendizagem,
por isso, as instituições de ensino devem investir neste
85
entusiasmo e encorajar os professores para que incorporem essas
tecnologias como parte das atividades em suas aulas.
METODOLOGIA
86
metacognitivas. Eles são mais voltados para a apresentação de
conteúdo e a navegação entre informações interconectadas.
Os mapas mentais são ferramentas de ensino e
aprendizagem, que se tratam de diagramas hierarquizados
contendo informações nos quais é possível perceber claramente
as relações entre elas (Buzan, 2005). Mapas conceituais são
ferramentas de representação do conhecimento, mostrando
conceitos e proposições explícitas formando uma estrutura
hierárquica (Novak, 2002).
Os mapas, sejam eles mapas mentais ou mapas conceituais,
representam uma ferramenta versátil e poderosa no contexto do
ensino e aprendizagem. Eles têm a capacidade de sintetizar
informações complexas e densas de maneira concisa e
visualmente atraente. Além de resumir conteúdos, eles podem
ser empregados para diversos propósitos, como explicar uma
disciplina, destacar os principais pontos de um livro ou artigo,
bem como promover a compreensão de conceitos interligados.
Uma característica que amplia ainda mais a utilidade dos
mapas é a possibilidade de incluir hiperlinks. Esses links podem
direcionar os usuários para uma variedade de recursos, como
vídeos instrucionais, documentos em formato PDF, livros
eletrônicos, páginas da web, entre outros. Ao incorporar hiperlinks
em seus mapas, educadores podem enriquecer o ambiente de
aprendizado, oferecendo acesso direto a materiais
complementares e aprofundando ainda mais a compreensão do
conteúdo.
O hipertexto é, por definição, uma forma de escrita/leitura
não-linear e não hierarquizada que permite o acesso ilimitado a
blocos de informação ligados a palavras, partes de um texto ou
imagens (Santos; Moser; Lima, 2019).
Tanto os hipertextos como os mapas podem ser recursos
interativos quando usados em ambientes digitais. Isso significa
que os alunos podem criar, explorar e colaborar de forma on-
line, tornando-os uma ferramenta valiosa para a aprendizagem
colaborativa e a construção conjunta de conhecimento.
Segundo Camargo (2016), ampliar os espaços da
aprendizagem é hoje o grande desafio da escola, ficando claro
que são necessárias novas estratégias de ensino e aprendizagem.
87
TECNOLOGIAS DIGITAIS
88
conceituais por usuários de todas as faixas etárias e promover a
colaboração e o compartilhamento ao longo desse processo.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
REFERÊNCIAS
89
Importância da Aprendizagem Significativa e dos Mapas
Conceituais na Aquisição do Conhecimento. Revista Brasileira de
Ensino de Ciências e Matemática, v. 2, p. 253-276, 2019.
AMEM, B. M. V.; NUNES, L. C. Tecnologias de informação e
comunicação: contribuições para o processo interdisciplinar no
ensino superior. Revista Brasileira de Educação Médica, v. 30, n. 3, p.
171-180, 2006.
BALAKRISHNAN, V. Key determinants for intention to use
social media for learning in higher education institutions.
Universal Access in theInformation Society, v. 16, n. 2, p. 289-301, 2017
BITTENCOURT, P. A. S.; ALBINO, J. P.; GRASSI, N. B. A
cultura digital e os serious games na educação. Revista Tecnologia
Educacional, 20, p. 7-18, 2018.
BUZAN, T. Mapas mentais e sua elaboração. São Paulo: Editora
Cultrix, 2005.
CAMARGO, A. Atividades Educativas no Hot Potatoes. Revista
Tecnologias na Educação, v. 8, n. 15, p. 1- 27, 2016.
CAÑAS, A. J. et al. CmapTools: A knowledge modeling and
sharing environment. In CAÑAS et al. (Eds). Concept maps:
Theory, methodology, Technology. Proceedings of the first
intenational conference on concept mapping. Universidad
Pública de Navarra, Pamplona, 2004, p. 125 -133.
GIORDAN, M. O computador na educação em ciências: breve
revisão crítica acerca de algumas formas de utilização. Ciência &
Educação, v.11, n. 2, p. 279-304, 2005.
NOVAK, J. D. Meaningful learning: The essential factor for
conceptual change in limited or inappropriate propositional
hierarchies leading to empowerment of learners. Science Education,
v. 86, n. 4, p. 548-571, 2002.
RODRIGUES, M. U; MISKULIN, R. G. S.; SILVA, L. D.
Formação inicial de professores “para dentro da profissão” no âmbito
do PIBID/Matemática. Dynamis, v. 25, n. 1, p. 26-45, 2019.
SANTOS, R. O.; MOSER, A.; LIMA, T. Hipertexto como
mediador pedagógico. Rev. Diálogo Educ., Curitiba, v. 19, n. 61, p.
792-808, abr. 2019.
SILVA, L. P. A utilização dos recursos tecnológicos no ensino
superior. Revista Olhar Científico, n. 1, v. 2, 267-285, 2010.
90
SOUZA, P. C. Aprendizagem colaborativa em ambientes
virtuais de aprendizagem. Maciel, C. (org.). Ambientes virtuais de
aprendizagem. Cuiabá: EdUFMT. 2012.
SPINARDI, J. D.; BOTH, I. V. Lendedlearning: o ensino
híbrido e a avaliação da aprendizagem no ensino superior. Boletim
Técnico SENAC, v. 44, n. 1, p. 1-12, 2018.
SZEUCZUK, A.; SOUZA, A. C. Softwares de autoria em
ambiente escolar: o JCLIC e sua contribuição no processo de
ensino e aprendizagem nas áreas iniciais do Ensino
Fundamental. Revista Tecnologias na Educação, v. 8, n. 1, 1-13, 2016.
91
92
CAPÍTULO 7
INTRODUÇÃO
93
Em relação ao corpo docente e demais funcionários da
escola, há equidade de condições entre todos os servidores, pois,
entre os professores, verifica-se que todos são habilitados para
suas funções, admitidos através de Concursos Públicos
realizados pela Mantenedora. Já os colaboradores da limpeza e
alimentação são contratados por meio de empresa terceirizada,
que promove qualificação para que sigam os preceitos
fundamentais apregoados na instituição.
O GT Canoas fará um relato das experiências promovidas
pelo Projeto ERER & Edgar, que visou organizar encontros
formativos com o corpo docente e equipe diretiva da EMEF
Prefeito Edgar Fontoura, desenvolvendo uma educação
antirracista. Essa pesquisa surgiu da necessidade de toda a
comunidade escolar da EMEF Prefeito Edgar Fontoura, perceber
que habita um território quilombola, para que um currículo escolar
mais justo, humanizado, significativo e plural seja constituído e
desenvolvido à luz da educação para as relações étnico-raciais.
94
Essa realidade legitima a existência dos diferentes
posicionamentos quanto às abordagens em relação às questões
étnico-raciais, por isso, de um lado temos escolas que pouco
tratam dessas questões, enquanto outras possuem ações
efetivas, estando já organizadas com projetos consolidados na
promoção da equidade social entre os diversos grupos étnicos.
Nesse caso, também se evidencia, que os conflitos por questões
étnico-raciais são mais raros e, quando acontecem, não são
naturalizados, mas sim vistos como um ato que necessita de
atenção imediata. Assim, evidencia-se na rede de ensino uma
diversidade de abordagens da qual não se deve orgulhar, mas
compreender o potencial dessas abordagens para a construção
de uma base de conhecimentos, reflexões e ações sobre a
ERER, uma vez que as atuais ações que acontecem na Rede,
ainda estão presas à semana do dia 20 de novembro, além de
desconexas enquanto Rede.
95
participação do LabDoc da Unisinos, através do grupo de
pesquisa “Artesanias Docentes para a Equidade Racial”.
A escolha da EMEF Prefeito Edgar Fontoura, como grupo
alvo da nossa pesquisa, atende também a uma demanda da
própria SME que almeja reduzir os índices de reprovação e
evasão escolar dos estudantes quilombolas dessa instituição.
Servidores da SME realizaram encontros na mantenedora, na
EMEF e no próprio Quilombo para situar-se e propor
alternativas para o avanço quantitativo e qualitativo desses
estudantes quilombolas em sua trajetória escolar. Nesse
contexto, ao propor mudanças, é preciso romper a mentalidade
calcada em uma visão eurocêntrica dos conteúdos escolares, que
precisam ser ressignificados através da nossa prática docente,
criticando as ausências da perspectiva dos negros e indígenas e,
assim, trazendo uma nova visão histórica que faz da escola um
local de reconstrução identitária, que dialoga com a diversidade
e respeita as diferenças e o lugar de fala de todos os seus
envolvidos. Segundo Ribeiro (2018, p.109):
96
outubro e novembro, com aplicação em novembro, nas suas
respectivas escolas. Conforme combinado, as escolas teriam de
enviar registros (escritos ou fotográficos) da aplicação do
projeto. Conforme a SME, das 83 escolas municipais, apenas
14 enviaram retorno, sendo 3 de Educação Infantil (EMEI) e
11 de Ensino Fundamental (EMEF).
PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS
97
questão étnico-racial (afro-brasileira, quilombola e/ou indígena).
Mas, para a surpresa do GT, essa etapa foi possível, pois durante
a Formação, os professores foram resgatando atividades que
sempre quiseram tirar das ideias ou do papel, além de, na medida
em que os diálogos foram acontecendo, alguns professores foram
elaborando propostas para realizar com os seus estudantes. Sendo
assim, na hora que o GT propôs a produção de propostas
pedagógicas, a maioria já sabia o que desejava realizar com as suas
turmas.
RESULTADOS E POSSIBILIDADES
98
Fontoura decidiram que por habilidade que contribuíssem no
desenvolvimento de competências, que possibilitassem aos
estudantes ampliar o seu repertório de ação pessoal e social em
prol do bem comum. Nesse sentido, foram destacados
habilidades e objetos de conhecimento relacionados ao
Pensamento Científico, ao Pensamento Computacional e ao
Multiculturalismo, conforme segue (Canoas, 2022):
99
de texto jornalístico sobre pessoas negras e indígenas; produção
de cartazes publicitários sobre filmes com a temática negra;
construção de máquinas a partir do filme “O menino que
descobriu o vento”, entre outras atividades.
O diálogo entre GT, SME e EMEF sobre os estudantes
quilombolas foi essencial para a escuta ativa daqueles
profissionais que querem fazer mais, atingir mais e ser mais
significativos na educação. Da mesma forma que foi possível
também informar que uma comunidade quilombola possui as
suas especificidades, a sua maneira própria de organização,
educação e de viver.
Acreditamos que a nossa formação além de sensibilizar às
causas negra, quilombola e indígena, também contribuiu para o
desenvolvimento de uma rotina escolar que promova atividades
à luz de uma educação antirracista de forma natural, permanente,
processual e significativa no cotidiano dessa escola canoense.
REFERÊNCIAS
100
CAPÍTULO 8
Sandra de Oliveira
INTRODUÇÃO
101
Feiras de Ciências e Mostras Científicas em âmbito nacional,
estadual e municipal, em todas as áreas do conhecimento”2.
Em 2023, pela primeira vez, a chamada pública privilegia
propostas de eventos científicos que adotam o antirracismo
como princípio ético das ações de educação e divulgação
científica e promovam a educação para as relações étnico-raciais,
no combate ao racismo, à discriminação e ao preconceito e em
outros conceitos fundamentais para a cultura científica e para a
formação na Educação Básica, em cumprimento das Leis
10.639/2003 e 11.645/2008.
O significativo aumento dos eventos científicos na
Educação Básica e a recente articulação com a educação para as
relações étnico-raciais nos convidam a olhar para as feiras de
ciências como espaços potentes para a promoção da equidade
racial. Os projetos desenvolvidos a partir dessa temática são
formas de implementar práticas pedagógicas inovadoras sobre a
diversidade étnico-racial nas mais diferentes áreas do
conhecimento, por isso são consideradas importantes para o
LABDOC Equidade Racial.
Este capítulo está fundamentado na minha experiência
profissional e investigativa, especialmente nos últimos dez anos,
período em que atuo na organização da Mostra Internacional de
Ciência e Tecnologia – MOSTRATEC e analiso práticas3 com
estudantes de escolas públicas que desenvolvem pesquisa na
Educação Básica e participam de feiras de ciências vinculadas à
Mostratec e Mostratec Júnior4. Também tenho me voltado aos
desdobramentos dessas práticas na constituição docente, em
articulação com estudos sobre a constituição do sujeito, desde o
Doutorado em Educação (Oliveira, 2015).
102
CONTEXTO INVESTIGADO: A MOSTRATEC
JÚNIOR E AS FEIRAS AFILIADAS
5 Até a escrita desse texto, não foram encontrados dados oficiais mais recentes
sobre o número de feiras de ciências e mostras científicas realizadas por estado
a partir do referido edital. Contudo, é possível encontrar o número de feiras
realizadas no país de 2010 até 2021, por categoria: municipais, estaduais e
nacionais. Os dados podem ser acessados em: < https://www.gov.
br/cnpq/pt-br/assuntos/popularizacao-da-ciencia/feiras-e-mostras-de-
ciencias>.
6 A Fundação Escola Técnica Liberato Salzano Vieira da Cunha caracteriza-se
como uma Instituição Científica e Tecnológica (ICT), visto que entre seus
objetivos está “realizar atividades de pesquisa básica ou aplicada, de caráter
científico ou tecnológico”, conforme Decreto nº 52.101, de 27 de novembro
de 2014, da Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul.
103
de projetos desenvolvidos por estudantes e professores da
Educação Básica no país.
A partir da sua vasta experiência com projetos de Iniciação
Científica no ensino integrado médio e profissionalizante, com a
organização da Mostratec e sua relação com as Secretarias
Municipais de Educação dos Municípios, de origem dos seus
estudantes, a Fundação Liberato passou a incentivar o trabalho
com a pesquisa científica nas salas de aula do Ensino
Fundamental não apenas na região do Vale do Sinos, mas de
todo o país. Assim, em 2011 ocorreu a primeira edição da Mostra
de Ciência e Tecnologia da Educação Infantil e do Ensino
Fundamental - MOSTRATEC JÚNIOR7, integrando mais dois
níveis de ensino à Mostratec. A mostra contou com a
apresentação de trabalhos da rede municipal de Novo
Hamburgo, cidade sede da Mostratec, com a qual a Fundação
Liberato firmou a primeira parceria, a partir de um curso de
capacitação em pesquisa para os professores do ensino
fundamental da rede municipal (Formação Continuada).
Em 2012, a Mostratec Júnior ampliou o número de
municípios participantes, contando com a presença de projetos
oriundos de escolas das redes pública e privada de Novo
Hamburgo, São Leopoldo e Bom Princípio. Desde então, foi
possível observar o crescente aumento de eventos científicos no
ensino fundamental da região de abrangência da Fundação
Liberato, o que envolveu a criação de uma rede de feiras de
ciências no entorno da Mostratec Júnior, evidenciada
especialmente pela quantidade de eventos afiliados. Em 2015, a
Mostra contou com 10 eventos afiliados, atualmente são mais de
70 feiras afiliadas no âmbito do ensino fundamental, de 46
municípios do estado do Rio Grande do Sul.
104
A ATMOSFERA DAS FEIRAS E A RELAÇÃO COM O
CONHECIMENTO
105
estudantes e professores de outras escolas, cidades e países. A
cada feira, a partir dos feedbacks recebidos, esse projeto se
transforma, e, principalmente, os estudantes e professores se
transformam. Do local ao global, o projeto passa por diferentes
feiras, diferentes olhares e perspectivas são lançadas sobre o
problema analisado pelos estudantes. Nesse processo, os
estudantes não só aprendem, como também ensinam. Inúmeros
são os relatos de avaliadores especialistas de diferentes áreas que
afirmam ter aprendido algo novo a partir de pesquisas
desenvolvidas pelos por crianças do ensino fundamental.
106
conhecimento. Quando uma criança compreende que é capaz de
produzir conhecimento, muda tudo, muda a sua relação com o
próprio conhecimento, com o professor, com a escola, mas
principalmente, muda a sua atitude em relação aos problemas do
seu entorno.
Outro aspecto importante a se destacar é o da visibilidade.
As feiras gestam um lugar de destaque para a escola, seus
professores e estudantes. Num país onde a escola pública
vivencia uma realidade de tantas mazelas, violência e
precariedade, poder ser olhada de modo diferente pela
comunidade é um importante mecanismo de transformação
dessas realidades. A feira de ciências oportuniza a toda a
comunidade viver a essência da Pedagogia, esse “encontro
articulado em torno do conhecimento” (Narodowski, 2020),
contribuindo para a constituição de uma atitude investigativa,
que nos mobiliza mesmo em situações tão difíceis e
inimagináveis como a que vivemos na pandemia, por exemplo.
Esse espaço de cooperação é relevante como lugar de
criação, de reflexão sobre a experiência e de socialização de ideias
para qualificar o conhecimento produzido. Um espaço-tempo
profícuo para a criação é instaurado nesse ciclo virtuoso de
produção e socialização do conhecimento. Essa atmosfera
apresenta certa condição que impulsiona a conexão entre os
estudantes e professores com atitudes de autoria, protagonismo,
partilha, cooperação e coformação (Oliveira; Bahia; Neves,
2022). Sem dúvidas, a proposta da pesquisa como ferramenta
pedagógica e a participação de estudantes em feiras de ciências
contribui para o desenvolvimento das 10 competências gerais da
Base Nacional Comum Curricular - BNCC.
107
e de mais de 21 países. Ao longo dos anos, tem-se observado que
mais de 70% do total de projetos de estudantes participantes
corresponde a escolas públicas.
Reportagens veiculadas por jornais da região do Vale do
Rio dos Sinos, Vale do Paranhana e Serra Gaúcha, durante os
anos de 2012 até 20238, destacam o trabalho com a pesquisa na
Educação Infantil e no ensino fundamental, a partir da
participação em feiras e mostras científicas afiliadas à Mostratec
Júnior. A ênfase dada para a temática em diferentes municípios
aponta para um movimento que indica mudanças curriculares,
ocorrendo por meio do uso da pesquisa como ferramenta
pedagógica nas salas de aula da Educação Básica.
Com o objetivo de contribuir para um futuro inclusivo,
resiliente e sustentável para todas as pessoas e todo o planeta, a
Mostratec Júnior desenvolve ações para a formação de
professores, incentivando o desenvolvimento de pesquisas junto
aos estudantes da Educação Básica com base nos 17 Objetivos
de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU, nos Pareceres
e Resoluções sobre Educação das Relações Étnico-Raciais, entre
outros temas que sensibilizem para a valorização da diversidade.
Essas práticas contribuem para a constituição de
subjetividades, produzindo sujeitos escolares com modos de ser
e agir específicos. A proposta do uso da pesquisa como
ferramenta pedagógica na sala de aula envolve tudo isso e
envolve mais, envolve um trabalho ético constituído na relação
do professor com seus alunos e na relação entre os colegas. Esse
grupo unido pelo desejo de saber algo e que coopera entre si para
o desenvolvimento do estudo, para a descoberta ou a construção
coletiva de conhecimento, participa de uma formação ética.
A postura do aluno frente ao conhecimento a ser
construído e a sua relação com os conteúdos escolares muda na
medida em que ele vai conseguindo estabelecer conexões com o
cotidiano e, muitas vezes, utilizar o conhecimento construído
para resolver problemas de seu entorno.
A experiência de pesquisa no ensino fundamental pode
contribuir para que os estudantes desenvolvam a capacidade de
108
problematizar situações próprias de seu entorno. Nesse sentido,
é importante compreender as feiras de ciências como um espaço
produtivo de interação da escola com a comunidade. Os estudos
de Silvio Gallo (2006, 2007) sobre a “escola pública e a
comunidade e os desafio dessa integração” auxiliam na
problematização dessas questões.
Ao analisar os sentidos atribuídos pelo docente à
experiência de participação em feiras de ciências, foi possível
perceber dois aspectos determinantes das práticas de Iniciação
Científica; são eles: a) a preponderância de projetos com
relevância social; b) a ênfase no fazer coletivo e colaborativo
ligada à ideia de intervenção como estratégia para a
transformação do meio e dos sujeitos envolvidos.
Esse sujeito a que venho chamando de sujeito interventor,
constituído no fazer pesquisa na sala de aula, ele identifica um
problema, analisa esse problema, propõe uma solução e se
compromete com essa solução. Fazendo uma intervenção no
contexto analisado, ele transforma o contexto, ao mesmo tempo
em que ele se transforma. Neste movimento, ao trabalhar com
projetos que contemplem as diversidades e as relações étnico-
raciais, os estudantes contribuem para a construção da equidade
racial em suas próprias comunidades, promovendo um impacto
social (intervenção) desde seu entorno.
Em tempos incertos e de profundas mudanças, precisamos
de sujeitos que possam ir além do fazer a crítica, além da
identificação dos problemas, mas que contribuam com soluções
para esses problemas, que se comprometam efetivamente com a
transformação, criação do mundo melhor para se viver. Acredito
que a pesquisa na sala de aula é uma das formas de fazermos,
vivermos essa transformação.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
109
pensamento, por descobrir e criar formas de melhorar o mundo?
Cada professor, ao escolher utilizar a pesquisa como ferramenta
pedagógica, oportuniza ao estudante ser protagonista de sua
própria aprendizagem e transforma a sua sala de aula num grande
laboratório para transformar o mundo.
Deste modo, as feiras de ciências nos convocam a entendê-
las como parte fundamental de um processo que envolve não
apenas as escolas e as Universidades, mas toda a sociedade. Elas
são atmosfera potente para formação dos sujeitos escolares. Por
isso a importância de políticas educacionais e programas que
promovam e garantam a realização de pesquisa em todos os
níveis de ensino com qualidade, como direito de todos os
estudantes e professores, como ação de estado e não de governo.
O conhecimento potencializado pelas feiras de ciências
pode contribuir para a promoção da equidade racial na medida
em que se revela como condição de possibilidade para a
transformação de si, do outro e de uma sociedade mais justa e
menos desigual.
REFERÊNCIAS
110
OLIVEIRA, S. A iniciação Científica no Ensino Fundamental e os 10
anos da Mostratec Júnior: impactos no ensino de ciências a partir do
uso da pesquisa como ferramenta pedagógica. FETLSVC, 2019.
[Projeto de Pesquisa].
OLIVEIRA, S. Iniciação Científica na Educação Básica: os impactos
na formação a partir do ensino e aprendizagem pela pesquisa.
FETLSVC, 2016. [Projeto de Pesquisa].
OLIVEIRA, S. Tornar-se professor/a: matriz de experiência e
processos de subjetivação na iniciação à docência. 2015. Tese
(Doutorado em Educação). Programa de Pós-graduação em
Educação, Universidade do Vale do Rio dos Sinos, São
Leopoldo, 2015.
OLIVEIRA, S.; SARDAGNA, H. V.; VIEGAS, A. L. Iniciação
Científica no Ensino Fundamental: a experiência de participação em
feiras de ciências e os impactos na formação. ANPEDSUL,
2016. Disponível em < http://www.anpedsul2016.ufpr.br/wp-
ontent/uploads/2015/11/eixo10>. Acesso em: out. 2023.
WALTER, O.; GONDRA, J. A escola pública e a comunidade:
o desafio da integração. In: NH na escola, Encarte do Jornal NH,
Novo Hamburgo (RS), n. 06, 30 de jun. 2007.
111
112
CAPÍTULO 9
EQUIDADE RACIAL NA
PRÁTICA ESCOLAR DO MUNICÍPIO DE ARARICÁ:
UMA PROPOSTA FORMATIVA
INTRODUÇÃO
113
Tema: A inserção do tema Equidade Racial no ambiente
escolar, visando o enfrentamento das desigualdades
provenientes do preconceito, do racismo e da discriminação.
Delimitação do tema
Problema
Objetivo Geral
114
Objetivos Específicos
Justificativa
115
justiça. Na busca por igualdade, é preciso reconhecer que existe
desigualdade.
116
Discriminação Racial: É dar tratamento diferenciado a alguém
ou a um grupo em razão da raça. Por exemplo, proibir a entrada
de pessoas negras em estabelecimentos.
Racismo: É o sofisma da existência de diferentes raças, possuindo
hierarquia entre elas. Consequência desse pensamento é a
discriminação racial, que gera violência e segregação de diferentes
grupos étnicos. O crime de racismo está previsto no Art. 20 da
Lei 7.716/1989. A transgressão da lei é inafiançável e
imprescritível.
Racismo Estrutural: É o processo histórico em que condições
de desvantagens e privilégios a determinados grupos étnico-
raciais são reproduzidos nos âmbitos políticos, econômicos,
culturais e até mesmo nas relações cotidianas.
Racismo Institucional: É o tratamento diferenciado entre raças
no interior de organizações, empresas, grupos, associações e
instituições congêneres.
Injúria Racial: É a ação de ofender a dignidade de uma pessoa
com base na raça, cor, etnia, religião, idade ou deficiência. O
crime de injúria racial está previsto no parágrafo 3º do Art. 140
do Código Penal. O crime de injúria racial foi equiparado ao
crime de racismo em 2021. A partir de então, o crime de injúria
racial tornou-se imprescritível, ou seja, passível de punição a
qualquer tempo.
Epistemicídio: É o apagamento de produções e saberes
produzidos por grupos oprimidos. O termo foi cunhado por
Boaventura de Sousa Santos para ilustrar o processo de
invisibilização e ocultação das contribuições culturais e sociais de
grupos oprimidos.
Genocídio: é toda forma de aniquilação de um povo - seja moral,
cultural ou epistemológica. O termo tem origem n discussão
acerca do holocausto – assassinato dos judeus durante a segunda
guerra mundial, e passou a ser utilizado com sentido de
extermínio de uma comunidade.
117
criar ações afirmativas para reduzir os danos causados pelo
racismo estruturalmente enraizado, seus mecanismos de
hostilidade.
O sistema colonial brasileiro manteve por mais de três
século o sistema de produção baseado na escravidão. Somente
em 1850, o governo imperial começou a estabelecer medidas
para proibição do tráfico de africanos. Em 1871, a Lei dos
sexagenários libertava escravos com mais de sessenta anos.
Somente em 13 de abril foi assinada a Lei 1390, conhecida como
Lei Áurea, na qual se proibia a escravidão em território nacional.
Em 1889 a Lei 1.716 define os crimes resultantes de preconceito
de raça ou de cor.
Somente em 2003 a Lei 10.639 estabelece as diretrizes e
bases da educação nacional da Rede de Ensino para incluir no
currículo a obrigatoriedade da temática “História e Cultura Afro-
Brasileira. Por meio de parecer do Conselho Nacional de
Educação são instituídas as Diretrizes para a Educação das
Relações Étnico-Raciais e para o Ensino de História e Cultura
Afro-Brasileira e Africana. E, no ano de 2010 a Lei 2.288 institui
o Estatuto da Igualdade Racial.
Vale ressaltar que embora exista uma legislação específica
sobre o tema, propondo a criminalização dos atos de racismo, as
práticas encontram-se enraizadas historicamente em diversas
formas de manifestação, sejam elas pelos meios de comunicação,
na literatura, nos livros de história e no chamado “racismo
recreativo” que se expressa através de brincadeiras e anedotas
nas quais povos de origem africana e indígena são retratados de
modo pejorativo.
Nas escolas, o tema equidade racial, perpassa pelo
reconhecimento dessas desigualdades presentes desde o
planejamento estratégico, ao projeto político pedagógico quanto
ao currículo escolar. A mudança nas práticas pedagógicas
visando a inclusão e o combate ao preconceito devem atuar de
forma sistêmica, evitando que o tema seja abordado apenas em
datas específicas como o Dia da Consciência Negra ou da
Abolição da Escravatura.
118
FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
119
essa temática deveria ser muito melhor abordada, mas a gente não
tem muito tempo, né? Fica difícil, e terminamos repetindo essa
fórmula falha ano após ano [...] (Russo; Paladino, 2016).
120
a implementação e promoção da equidade racial e do ensino das
culturas afro-brasileira e indígena, em toda a estrutura curricular
nacional. Ademais, o ambiente escolar é o meio propício para
disseminar o ensino da história dos povos tradicionais e
originários, uma vez que os educadores e educandos podem e
devem debater acerca da importância da história indígena e afro-
brasileira, diante de perspectivas que englobam a luta e
resistência à opressão vivenciada pelos povos e comunidades
tradicionais desde a colonização do país.
Outrossim, cabe salientar que o ensino de História deve ser
trabalhado, visando as perspectivas sociais, locais e culturais dos
alunos, considerando a importância de aproximar o ensino da
realidade do educando, de maneira a possibilitar o debate acerca
da relevância do conteúdo para a Educação Básica, nos diversos
âmbitos da sociedade, ou seja, o ensino de história e culturas
afro-brasileira e indígena deve atingir todos os setores
populacionais do país, fazendo-se presente em âmbito nacional,
daí a obrigatoriedade estabelecida na Lei nº 11.645/2008 (Silva;
Neves, 2020).
METODOLOGIA
121
a respeito desses grupos de grande importância na formação da
cultura e da sociedade.
Para que haja um desenvolvimento completo e amplo do
projeto, no ano de 2023, irá ocorrer a implantação do projeto
junto a Secretaria de Educação, a qual, ficará responsável por
determinar as etapas da formação do corpo docente e definir a
aplicação do projeto junto a rede de ensino (corpo discente), bem
como, ficará responsável pela parte financeira necessária para
que o projeto se desenvolva.
Cada etapa atingida do projeto será visualizada, medida e
terá seus objetivos contemplados mediante relatos escritos e
registro de memórias promovidas com vídeos, fotografias, podcast
e publicação nas redes sociais das escolas envolvidas.
DESENVOLVIMENTO DO PROJETO
122
REFERÊNCIAS
123
124
CAPÍTULO 10
Silvia Tolentino
125
com a proposta do projeto, fiquei esperançosa de que houvesse
maior atenção à questão.
O projeto envolveu todas as turmas e disciplinas, desde o
1º. ao 9º. ano. Intitulava-se “Um novo olhar ao continente
africano” e visava ressignificar, ou seja, dar novas interpretações,
promover reflexões e mudanças de percepções, a fim de dirigir
um novo olhar à história e às culturas africana e afro-brasileira.
O intuito também era fomentar o cumprimento do artigo 26 da
LDBEN.
Nas atividades desenvolvidas na escola, ocorreu a
participação de todas as turmas, com subdivisões temáticas,
começando com o continente africano e suas belezas, a vinda
dos africanos para o Brasil, para serem escravizados, o que
trouxeram na bagagem, suas lutas, símbolos de resistência...
Outras abordagens ressaltam as contribuições dos africanos na
literatura, nas artes, na gastronomia, na arquitetura, na moda e na
religiosidade. Também houve a abordagem sobre a linguagem,
com enfoque sobre palavras de origem africana que fazem parte
do vocabulário do português brasileiro. Enfim, o projeto foi
idealizado e aplicado tanto para contribuir com o preenchimento
da grande demanda referente à abordagem das relações étnico-
raciais no ensino como também para apoiar o combate ao
racismo estrutural, tão evidente no Brasil.
Além disso, o projeto foi uma forma de fugir do jargão da
cultura escolar, do trabalho por meio das efemérides (datas
comemorativas). Com as atividades, foi possível que a escola
trabalhasse os temas voltados à história e às culturas africana e afro-
brasileira de forma mais efetiva, sem folclorizá-las, fazendo com que
os estudantes fossem produtores do conhecimento histórico à
medida que foram estimulados a pesquisar, usar fontes diversas,
fazer comparações, perceber vestígios históricos e entender a
formação do povo brasileiro. Por fim, realizou-se uma grande
exposição dos trabalhos empreendidos, como culminância do
projeto, conforme demonstram as imagens anexas.
Na exposição, a escola contou com a presença do jornal
local, como também revelam as imagens anexas.
126
Figura 1 – Exposição de trabalhos: o continente africano,
religiosidade e cultura.
127
Figura 3 – Painel de arte e cultura africana.
128
Figura 5 – Banner “Construtores da Liberdade”.
129
mobilizações do movimento negro. Estreou na literatura em
1962, com a publicação do volume de poemas Germinou, a
que se seguiram Poemas regionais (1968), Banzo, saudade
negra (1970) e mais sete outros livros de poesia publicados em
vida. No período de 1971 a 1978, participou do Grupo
Palmares, sendo também o mentor do estabelecimento do dia
20 de Novembro – data da morte de Zumbi dos Palmares em
1695 – como o ‘Dia Nacional da Consciência Negra’. Tal
inserção alcançou posteriormente repercussão nacional e
passou a fazer parte do calendário cívico e cultural do país,
sendo, inclusive, feriado em diversas cidades brasileiras. O
poeta foi também um dos fundadores na revista Tição, que
cumpriu importante papel no contexto de ressurgimento do
movimento negro1.
130
A Figura 6 mostra a divulgação das ações do projeto junto
à comunidade local.
O projeto foi desenvolvido no de período de 01/03/2022
a 30/11/2022, com a participação dos alunos das séries iniciais e
finais da Escola Estadual de Ensino Fundamental Visconde de
São Leopoldo, envolvendo todas as turmas e áreas do
conhecimento de acordo com a BNCC. As atividades forma
distribuídas, começando pelos 9º anos até os 1ª anos. A
culminância do projeto foi em dezembro com uma exposição
dos trabalhos realizados. O quadro abaixo apresenta as
atividades realizadas por cada turma.
131
diferentes estados do país, destacando o Rio Grande
do Sul.
Roda de Conversa
CONSIDERAÇÕES FINAIS
132
parte como Assessora do (ERER), Educação para as relações
étnico-raciais.
REFERÊNCIAS
133
134
CAPÍTULO 11
INTRODUÇÃO
APRESENTAÇÃO DO PROJETO 1
135
Tema: Identidade Étnico-racial
Público-alvo: Alunos do Ensino Fundamental II
Objetivo Geral
Objetivos Específicos
Justificativa
METODOLOGIA DE EXECUÇÃO
136
3. Em outro momento, a professora distribuirá textos com
conceitos sobre etnia e raça, em que os alunos farão a leitura
coletivamente com a professora.
De acordo com Santos et al. (2010), raça é uma palavra que
se refere a seres humanos para definir historicamente as
categorias humanas em aspecto social. As características mais
comuns relacionam-se à cor da pele, tipo de cabelo, conformação
cranial e facial, ancestralidade e genética. Na contemporaneidade,
a noção de raça não tem mais o sentido biológico, sendo
entendida como uma construção social. Historicamente, a crença
nas diferentes raças humanas, tidas como superiores e inferiores,
resultou no racismo científico.
Já, a etnia diz respeito a aspectos culturais, que são
definidos por afinidades linguísticas, culturais e semelhanças
genéticas que, por sua vez, reclamam estrutura social, política e
territorial.
4. Na continuidade das atividades, a professora abrirá
espaço para que os alunos dialoguem. Após a leitura, a professora
solicitará que os alunos procurem identificar-se com seus grupos
étnico-raciais. Registrarão em folha, à parte, e entregarão à
professora para que esses dados façam parte de um template no
aplicativo Canva como culminância.
APRESENTAÇÃO DO PROJETO 2
Justificativa
137
de racismo em diversos espaços sociais, como escola, estádio de
futebol, mercados, festas, trânsito de veículos/pedestre etc... Os
noticiários divulgados pela mídia são provas disso. Leis foram
criadas, no intuito de punir os autores ou responsáveis pelas
injúrias raciais ou pelo ato do próprio racismo visando erradicar
esse tipo de delito. Mesmo assim as estatísticas revelam que os o
aumento de casos de racismos, nos últimos anos. O que falta
para que a sociedade busque uma autoconscientização de que o
ato em si é inaceitável? Este projeto traz a ideia de que não basta
não ser racista, é preciso combatê-lo. Aplica-se o pensamento do
dito popular: “quem cala consente”, na tentativa de forçar o não
consentimento com o preconceito racial. O presente projeto
busca essa reflexão, tendo em vista que um dos papéis da escola
é educar para a cidadania.
Objetivo Geral
Objetivos Específicos
138
Componentes curriculares envolvidas:
Metodologia de Execução
139
momento atual e no passado lutam ou lutavam pelos direitos das
populações afrodescendentes e indígenas.
2. No caso da disponibilidade de uma sala de vídeo, por
exemplo, os visitantes da exposição poderão assistir algum vídeo
que complemente a temática expositiva. Alguns alunos devem
ser selecionados para auxiliarem na exposição, explicando aos
espectadores elementos sobre o conteúdo que está sendo
exposto (pode haver revezamento). A exposição será destinada a
todas as turmas da escola. Tempo de três aulas para montagem e
quatro para exposição.
Durante as aulas de Matemática, a proposta é que:
1. O professor consiga trabalhar com os alunos
interpretação e análise de gráficos e tabelas que envolvam dados
sócio raciais, a fim de que entendam a realidade que permeia o
racismo estrutural em nosso país. Tempo de uma aula.
Por fim, com o auxílio do professor de Português:
1. Realizar leituras de autores afro-brasileiros, conhecer
mais sobre o que dizem essas/esses autoras/autores. Sobre quais
temas escrevem?
2. Orientar pesquisa com os alunos sobre a legislação
existente no país que objetiva o combate ao racismo.
3. Por fim, juntamente com os estudantes, definir
estratégias dentro da escola e comunidade, que possam ter o
mesmo propósito. Tempo de uma aula.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
140
Falar sobre etnia racial e racismo na escola é necessário e
delicado. Muitas vezes, a abordagem pode ser vista de forma
agressiva e não informativa/explicativa. Trazer em nossas
conversas um assunto que pode ser tratado de forma natural
acaba, muitas vezes, sendo polêmico. No entanto, não deve ser
ignorado, afinal, propicia trocas importantes, além de possibilitar
conhecer, um pouco mais sobre o outro e sobre nós mesmos.
REFERÊNCIAS
141
142
CAPÍTULO 12
INTRODUÇÃO
143
De modo geral, a EMEF Visconde de Mauá atende alunos
de todos estes bairros/loteamentos/ocupações, além dos que
vêm do interior para os anos finais. Ela é a segunda maior escola
municipal, com 648 estudantes1. O grupo discente é bastante
heterogêneo, com alunos oriundos de diversas camadas sociais.
A turma do sétimo ano B desta escola convidada para
desenvolver o presente trabalho, contava em 2022 com 33
alunos, sendo 19 meninos e 14 meninas.
A EMEF Gonçalves Dias se localiza no interior do Município,
localidade do Morro do Macaco Branco. Conta com 168 alunos
(março de 2023) e atende da Educação Infantil ao nono ano do
ensino fundamental. Por se situar numa zona rural, a escola recebe
estudantes de muitas localidades dos arredores, em sua grande
maioria, filhos de agricultores, floristas, artesãos e moradores de
uma comunidade quilombola. A turma do sétimo ano contava em
2022 com 18 alunos, sendo 12 meninos e 6 meninas.
Objetivos do Projeto
Objetivo geral
Objetivos específicos
144
● Apontar frases e posturas atuais, baseadas no senso
comum, que reforçam o racismo estrutural.
● Identificar o movimento negro como um importante
elemento capaz de repensar e propor a desconstrução do
discurso dominante.
● Produzir sínteses, a partir de metodologias ativas e mídias
digitais, sobre as diversas formas de permanência do racismo
estrutural na atualidade.
● Posicionar-se a respeito da importância de reconhecer o
racismo para pensar formas de mitigá-lo.
Justificativa
145
indivíduos, intervenção dos seres
identificando-os como humanos no meio em que
entraves ao se inserem em diferentes
desenvolvimento da tempos e espaços.
cidadania (DOCTP, 2. Identificar conexões e
2020, p.103). interações entre as
sociedades.
3. Discutir o conceito de
escravidão de trabalho e
de servidão (Ibid, p. 106).
146
formação (sic) na
distribuição política e
territorial da população.
9. Reconhecer as relações
de poder que resultaram
na organização do
mundo na
contemporaneidade
(Ibid, p.112).
REFERENCIAL TEÓRICO
2 Sobre esta questão, ver o seguinte texto: Diretrizes Curriculares Nacionais para a
Educação das Relações Étnico-Raciais e para o Ensino de História e Cultura Afro-
Brasileira e Africana. Brasília (DF), MEC, 2004.
3 Sobre este assunto ver REIS, J.J.; SILVA, E. Negociação e Conflito. São Paulo:
147
história se pauta numa necessidade do tempo presente: a de se
pensar sobre a representação do negro (pretos e pardos) nos
discursos do passado e como esta representação pode, hoje,
legitimar ou não os lugares e papéis sociais ocupados pelos
escravizados e seus descendentes.
De acordo com as Diretrizes Curriculares Nacionais para a
Educação das Relações Étnico-Raciais (ERER, 2004), a Escola
age como um elemento transformador das relações sociais,
juntamente com políticas públicas e com um currículo que reflita
sobre as desigualdades existentes. No caso do racismo estrutural,
é importante lembrar que desigualdade passa pela falta de acesso
do negro à educação formal.
De acordo com o referido documento:
O Brasil, Colônia, Império e República, teve historicamente, no
aspecto legal, uma postura ativa e permissiva diante da
discriminação e do racismo que atinge a população
afrodescendente brasileira até hoje. O Decreto nº 1.331, de 17 de
fevereiro de 1854, estabelecia que nas escolas públicas do país não
seriam admitidos escravos, e a previsão de instrução para adultos
negros dependia da disponibilidade de professores. O Decreto nº
7.031-A, de 6 de setembro de 1878, estabelecia que os negros só
podiam estudar no período noturno e diversas estratégias foram
montadas no sentido de impedir o acesso pleno dessa população
aos bancos escolares (Brasil, 2004, p.8).
148
discursos, raciocínios, lógicas, gestos, posturas, modo de tratar as
pessoas negras. Requer também Diretrizes Curriculares Nacionais
para a Educação das Relações Étnico-Raciais e para o Ensino de
História e Cultura Afro-Brasileira e Africana que se conheça a sua
história e cultura apresentadas, explicadas, buscando-se
especificamente desconstruir o mito da democracia racial na
sociedade brasileira; mito este que difunde a crença de que, se os
negros não atingem os mesmos patamares que os não negros, é por
falta de competência ou de interesse, desconsiderando as
desigualdades seculares que a estrutura social hierárquica cria com
prejuízos para os negros (Brasil, 2004, p. 11- 12).
149
excludentes e em privilégios transmitidos através de gerações
(Mota, 2021, p.15).
150
Desse modo, a abordagem da temática “racismo
estrutural”, como uma permanência da discriminação social e
racial alicerçada na escravidão, vai ao encontro de se pensar um
currículo pautado nas competências e habilidades, ao mesmo
modo que busca enfrentar as desigualdades sociais a partir da
reflexão sobre este assunto.
Além disso, ambas as turmas têm alunos negros, que
enfrentam situações de racismo, apesar do discurso de
democracia racial existente no senso comum. Pelas falas desses
alunos, pode-se citar o exemplo de preconceito vivenciado por
uma aluna do sétimo B da Escola Mauá quando foi ao Centro da
Cidade com seu irmão. De acordo com ela, ambos foram
abordados pela polícia, de modo violento, por se tratarem de
pessoas suspeitas quando ocorreu um furto nas proximidades.
Ao ouvir o relato, a turma (que era bastante agitada) se calou, o
silêncio deu lugar à comoção da menina e da professora, que
pediu a palavra frisando a existência da discriminação velada.
Diante do exposto, fica evidente a necessidade e a
pertinência deste projeto. Mesmo entre os alunos não negros
(que são a maioria dos alunos das turmas envolvidas), pensar a
condição histórica do afrodescendente e sua luta pelo
reconhecimento à cidadania, permite que o jovem reflita sobre a
desigualdade social, reconhecendo os meios pelos quais tal
desigualdade se manifesta. O conhecimento é capaz de conduzir
à reflexão. Ao perceber-se como sujeito capaz de identificar as
formas veladas de discriminação, quiçá, este estudante possa agir
de modo a transformá-la.
151
COMPONENTES E CONHECIMENTOS
ABORDADOS
4 VAZ, V. História 7. São Paulo: SM Editora, 2018. p. 185-195, 200, 201, 204 e 205.
152
diversas rotas de comércio foram perdendo importância,
enquanto o tráfico no Atlântico foi gradativamente expandido.
153
Brasil colonial, tanto na esfera rural quanto urbana. Como o
trabalho braçal era considerado indigno, por parte das pessoas
livres, de origem portuguesa, este tipo de atividade era exercido
em sua grande maioria por pessoas escravizadas. Os
conhecimentos e tecnologias trazidos pelas pessoas de origem
africana tiveram grande importância na dinâmica colonial. Os
saberes advindos da África se fizeram presentes nas áreas de
construção de edifícios, metalurgia, artesanato, instrumentos
musicais, cerâmica e cultivos agrícolas, como o arroz e o inhame.
Após a abolição da escravidão, em 1888, os recém-libertos
não foram integrados à sociedade brasileira de forma plena,
permanecendo sem direitos e marginalizados por muito tempo.
Esta marginalização foi reforçada pela ideia de que no Brasil não
havia discriminação racial, originando o racismo velado e
estrutural (Vaz, 2018).
Somente após muitos anos de luta e afirmação das
identidades afro-brasileiras (meados do séc. XX em diante), os
afrodescendentes conquistaram direitos e espaços na sociedade
brasileira. Apesar destas conquistas, ainda existe muito
preconceito e obstáculos para que o direito à plena cidadania seja
efetivado.
Neste sentido, estudar a História da África e a cultura afro-
brasileira é essencial para reconhecer a importância dos africanos
e seus descendentes na história. Também faz-se necessária a
existência de políticas afirmativas que combatam o preconceito,
promovam a igualdade e criminalizem o racismo.
Após a abordagem das informações do livro, foi enfocada
a situação do negro pós- abolição. Este conteúdo (que também
foi abordado no material didático) foi trabalhado a partir de um
vídeo do Canal Nostalgia, denominado O Brasil depois da Abolição
da Escravatura5 .
O vídeo narra a história de Marianinho, um escravizado
liberto em 1888, que enfrentou muitas dificuldades para
sobreviver no Brasil daquela época. Ele, como um recém-liberto,
comemorou a assinatura da Lei Áurea, mas logo em seguida se
154
viu sem lugar para ir, sem trabalho, perseguido pela polícia por
ser visto como indolente, malandro e até mesmo perigoso.
A dificuldade de encontrar trabalho advinha, também, pelo
fato de o Brasil estar recebendo imigrantes6, que eram preferidos
para trabalhar nas fazendas e nas cidades. Além da questão
econômica, a existência da teoria da Eugenia, que considerava os
brancos europeus uma raça mais desenvolvida e superior,
ganhava força no Brasil, inclusive com a tentativa de branquear
a população. As políticas públicas existentes auxiliaram os
trabalhadores imigrantes, inclusive com a negociação de dívidas
advindas das compras das terras e das ferramentas.
Já os negros que tinham sido escravizados não receberam
ajuda nenhuma do governo, sendo lançados à própria sorte. De
acordo com o vídeo, a ideia do projeto de branqueamento era
fazer estes negros desaparecerem em meio ao abandono. Tendo
que contar com apenas eles mesmos, muitos negros, passaram a
ocupar terras no meio do mato ou então a morar em cortiços,
trabalhando como vendedores ambulantes ou trabalhadores
informais. Os lugares que eles habitavam eram vistos pela elite
como desagradáveis, alvo de doenças, depravação e que
retiravam a beleza das cidades.
A política de higienização das cidades lançada pelo governo
brasileiro no início da República retirou estes habitantes dos
cortiços, levando-os a migrarem para lugares distantes das
cidades, sem água, luz ou transportes. Bairros negros foram
transformados, recebendo imigrantes. A cultura negra foi muitas
vezes completamente esquecida.7
Sem moradia digna e sem trabalho, a educação de qualidade
seria um elemento que poderia mudar o destino dessas
155
populações. Mas, na época, os negros também não tiveram
acesso a isto. Eles permaneceram excluídos social, econômica e
intelectualmente. O racismo se fez então, presente na estrutura
que sustenta a sociedade. Daí, ser denominado “Racismo
Estrutural”.
Os trabalhadores não negros e as pessoas mais pobres não
queriam, neste contexto, ser comparados aos ex-escravizados e
passaram também a ter um discurso de identificação com a elite
branca, reforçando o racismo na sociedade. A própria imprensa
da época fazia menções racistas ao trabalho e às características
físicas e culturais do negro, debochando de seus atributos e de
sua condição social (Vaz, 2018).
E, seguindo a história de Marianinho, que durou 114 anos,
o país nunca quis escutar sua voz. Quando escravo, havia a lei do
silêncio na fazenda em que ele trabalhava. Quando liberto, a
sociedade preferiu não escutar suas necessidades e sonhos. Ao
contrário, a intelectualidade brasileira preferiu esquecer os anos
de escravidão e, na gestão de Rui Barbosa, quando Ministro da
Fazenda, queimou os documentos que registravam a entrada dos
africanos no país e as negociações comerciais decorrentes. A
intenção era não deixar marcas, para evitar processos judiciais,
mas o que aconteceu de fato foi que muito material histórico se
perdeu.8
Enfim, o material trabalhado mostrou, de forma sucinta e
instigante ao conhecimento, como as marcas da escravidão
permaneceram na sociedade atual, mantendo o negro excluído.
O vídeo não mostrou a luta dos negros pela conquista de espaços
sociais e afirmação da sua identidade. A partir da observação do
vídeo, buscou-se enfocar o racismo estrutural com base em um
texto teórico.9
156
Por se tratar de uma resenha acadêmica, a abordagem se
deu de modo expositivo, elencando-se os seguintes aspectos:
Batista (2018), ao citar Almeida (2018), reflete que o
racismo é “uma forma sistemática de discriminação que tem a
raça como fundamento, e que se manifesta por meio de práticas
conscientes ou inconscientes que culminam em desvantagens ou
privilégios, a depender ao grupo racial ao qual pertençam”
(Almeida, 2018 apud Batista, 2018, p. 2582).
No contexto atual, o conceito de raça se configura muito
mais como um termo sociológico, do que biológico, pois leva em
consideração as relações sociais, políticas, jurídicas e econômicas
que ao longo da história construíram um lugar social para o negro
(e para o não negro).
Nestas relações, ocorre uma reprodução da desigualdade
social. Porém, como tais relações se baseiam no pressuposto do
individualismo, esta desigualdade social se naturaliza,
inferiorizando os negros como portadores de incapacidade ou de
falta de vontade.
Existe então, uma violência direta ou estrutural do Estado
(ou de suas instituições sociais) na aplicação das decisões do
grupo dominante, que se consolidou enquanto elite através de
atitudes discriminatórias.
A ideia de democracia racial manteve o pavor do branco
de ser comparado ao negro. E a ideia de miscigenação era
defendida como uma evolução para os negros. Neste contexto
de “democracia”, a negação do racismo se aperfeiçoou junto
com a ideia de meritocracia, mantendo a desigualdade e tornando
desnecessárias as políticas de combate ao racismo.
De acordo com a autora, desde o colonialismo, “a
racionalização da raça passou a servir como instrumento de
dominação” (Batista, 2018, p. 2586). E, o Direito foi um
instrumento utilizado pelo Estado para dar legalidade às
condutas racistas.
Por fim, o conceito de raça provoca uma desigualdade
econômica. E não se pode pensar em combate ao racismo se não
157
se considerar a desigualdade econômica. Para a autora, se uma
ação de combate ao racismo não levar em consideração a
desigualdade econômica, ela não será efetiva.
É preciso considerar, ainda, que no Brasil, a manifestação
de racismo é extraeconômica, pois o negro, mesmo que ascenda
econômica e socialmente, sofrerá atos racistas.
Assim, conhecer os mecanismos que estruturam o
racismo e a desigualdade na sociedade brasileira permitirá pensar
formas eficientes de sua mitigação.
158
Figura 2 – Alunos do sétimo ano B da EMEF Visconde de Mauá.
Atividade realizada em 06/10/2022.
159
Figura 4 – Alunos do sétimo ano B, da EMEF Visconde de Mauá.
Atividade realizada em 27/10/2022.
160
RESULTADOS DO PROJETO
161
assistência e garantia. Muitas ex-escravas eram tratadas como
prostitutas (Aluno Gustavo S.).
162
Linguagens racistas. Temos que cuidar da nossa linguagem com
brincadeiras, às vezes não é por querer [...] (Auno Jeremias S. F.).
163
Figura 7 – Mapa mental realizado pelo aluno Guilherme F. L.
164
Como se pode observar, os trabalhos elaborados pelos
alunos demonstram o processo de apropriação dos conceitos
trabalhados. Os alunos estabeleceram relações entre a escravidão
dos tempos coloniais com a discriminação velada no tempo
presente. Esta permanência se mostrou também nas falas e nos
mapas conceituais sobre o racismo estrutural, atividade final,
avaliativa, realizada nos Chromebooks da escola, no aplicativo Canva.
De um modo geral, pode-se afirmar que os alunos
perceberam a existência de preconceito nas falas cotidianas, em
expressões racistas, em ações policiais, nas proibições de “olhar
vitrines sem serem confundidos com ladrões”, como eles
disseram, na exclusão aos cursos superiores e às profissões
melhor remuneradas, e principalmente, na naturalização desta
exclusão como uma fala fundamentada no senso comum de que
o sucesso é obra do empenho pessoal e a pobreza, obra da
indolência e da preguiça.
Em suma, a realização deste projeto foi de uma grande
valia. Seu desenvolvimento mostrou que a abordagem do
assunto escravidão inserida nas discussões atuais sobre o racismo
estrutural pode contribuir para a formação de sujeitos
comprometidos com a transformação/supressão do racismo e
das injustiças sociais.
Sabemos que a abordagem escolar e curricular é apenas um
dos pilares da construção de um país mais justo e igualitário. Que
a transformação precisa vir cercada de políticas públicas e de uma
legislação que puna o racismo e proteja os sujeitos que sofrem.
Mas não podemos minimizar o papel transformador do saber.
Esperamos que o trabalho pedagógico, aqui pensado e
desenvolvido, sirva como um pilar na mitigação da
discriminação.
165
4. Pontualidade e responsabilidade na entrega dos
trabalhos;
5. Fundamentação teórica, estabelecendo uma relação entre
o que foi lido, pesquisa, visto e discutido em aula com as
suas produções pessoais.
REFERÊNCIAS
166
CAPÍTULO 13
Cristiaine A. Johann
INTRODUÇÃO
167
a educação em e para os Direitos Humanos de forma
interdisciplinar.
A proposta do projeto se deu em um período no qual se
verificou, nos discursos políticos no Brasil e no mundo, falas que
legitimavam afrontas aos direitos humanos e ao Estado
Democrático de Direito, demonstrando o crescimento de um
movimento autoritário e antidemocrático que culminou com a
invasão dos prédios públicos do Três Poderes em janeiro de 20233.
Todo esse movimento de intolerância dos últimos anos
acabou afetando o ambiente escolar nas diversas regiões do país,
que passaram a reproduzir esse tipo de comportamento. Um
exemplo dessa influência sobre os estudantes pode ser verificado
pela notícia de criação de um grupo de WhatsApp por alunos de
um colégio da cidade de Valinhos/SP que, de acordo com o
DLNews (2022)4, pretendia criar a “Fundação dos Pro
Reescravização do Nordeste”. Segundo a reportagem, os
estudantes “compartilhavam mensagens de cunho racista,
homofóbico, nazista e gordofóbico”, postando figurinhas
elogiando Adolf Hitler.
A participação no curso do LABDOC proporcionou a
construção de conhecimentos novos através dos encontros
virtuais com os professores participantes do curso,
oportunizando também a coleta de dados importantes para a
pesquisa acerca dos desafios enfrentados por aqueles que são os
responsáveis por essa educação nas escolas e sobre as
possibilidades de contribuição dos Defensores Públicos para seu
fomento. Parte dos resultados auferidos foram publicizados em
artigo intitulado “Equidade racial nas escolas e a contribuição
168
dos Defensores Públicos na Educação em direitos humanos”,
publicado no ano de 20225.
Além disso, a parceria favoreceu a realização de atividades
presenciais dos Defensores Públicos com professores e alunos
de diversas escolas da região do Vale dos Sinos. O registro que
compartilho deriva de atividade presencial realizada com alunos
de 6ºs anos do município de Ivoti/RS.
169
holocausto, a atividade foi se desenvolvendo de forma dialogada,
com bastante participação dos alunos, permitindo que eles
trouxessem suas informações e percepções sobre assuntos já
estudados, servindo de apoio para reflexões guiadas acerca da
dignidade de todos os seres humanos, cada um com suas
respectivas singularidades.
Posteriormente, foram mostradas imagens de pessoas com
diferenças físicas e realizadas provocações a respeito. As reações
dos alunos indicaram, de forma geral, concordância com a
igualdade de todos os seres humanos, independentemente das
diferenças, demonstrando receptividade para o desenvolvimento
do tema.
Esse procedimento teve como propósito sensibilizar e
desenvolver a dimensão exposta no Plano Nacional de Educação
em Direitos Humanos (PNEDH) que trata:
a) apreensão de conhecimentos historicamente construídos
sobre direitos humanos e a sua relação com os contextos
internacional, nacional e local;
b) afirmação de valores, atitudes e práticas sociais que
expressem a cultura dos direitos humanos em todos os espaços
da sociedade;
c) formação de uma consciência cidadã capaz de se fazer
presente em níveis cognitivo, social, ético e político;
d) desenvolvimento de processos metodológicos
participativos e de construção coletiva, utilizando linguagens e
materiais didáticos contextualizados;
e) fortalecimento de práticas individuais e sociais que gerem
ações e instrumentos em favor da promoção, da proteção e da
defesa dos direitos humanos, bem como da reparação das
violações (Brasil, 2018a, p. 25).
Na sequência, os materiais foram inserindo questões que
perpassavam a visão dos indígenas sobre os colonizadores, a
relação destes com a natureza, a escravidão, as diversas culturas,
as diversas religiões, o racismo, a legislação sobre o tema e a
responsabilização sobre os atos infracionais. Durante a atividade,
os professores participantes, por vezes, faziam perguntas que
permitiam adentrar em questões mais sensíveis que julgavam ser
oportunas de esclarecimentos para os alunos daquelas turmas.
170
Surgiram também perguntas dos discentes sobre
informações que ouviram através de plataformas como o Tik
Tok, sobre suposta existência de um racismo reverso, bem como
foram trazidas provocações a respeito de expressões pejorativas
referentes ao trabalho desempenhado por negros6. Essa questão
foi imediatamente vinculada à questão da liberdade de expressão,
sendo explicado que essa liberdade encontra limites. Para
espanto de muitos dos alunos ali presentes, foi explicado que sua
realização deve ser feita de modo a observar outros direitos
igualmente garantidos pela Constituição Federal. Desta forma, se
ofendo alguém usando minha liberdade de expressão, tenho que
ter ciência de que posso ser responsabilizado civil e penalmente.
O Código Civil, no Artigo 186, estabelece o ilícito civil: “aquele
que, por ação ou omissão voluntária, negligência ou
imprudência, violar direito e causar dano a outrem, ainda que
exclusivamente moral, comete ato ilícito” (Brasil, 2002, p. 29).
Além disso, foi salientado que a liberdade de expressão não
tem o condão de justificar um crime de racismo, por exemplo,
sendo explicado também que a homofobia e a transfobia foram
enquadradas como condutas de racismo pelo STF, quando do
julgamento, em 2019, de ação direta de inconstitucionalidade por
omissão.
Oportunas foram as falas na medida em que oportunizaram
reflexões sobre atitudes que podem ofender ou mesmo magoar
alguém. Desta forma, ao trabalhar essa questão de forma natural
e respeitosa, a atividade realizada trouxe essa temática dos
direitos humanos ao ensino formal, contribuindo para a abertura
de um espaço importante para que a escola possa desenvolvê-la
com os alunos, de forma a promover “[...] a formação de um
cidadão consciente desses dilemas e disseminador de uma cultura
de paz, de tolerância, de respeito às diversidades” (Ardenghi,
2005, p. 92).
Segundo Silva e Tavares (2011, p. 23), é por meio da
educação em direitos humanos que os sujeitos são instados a
aderir a valores humanitários, com respeito às diferenças e para
171
um espírito de entendimento. Portanto, é oportuna para
contrapor o movimento de intolerância e autoritarismo referido.
De acordo com o Artigo 29, da Convenção sobre os
Direitos da Criança (1990, p. 9), a Educação das crianças deve
ser orientada no sentido de:
a) desenvolver a personalidade, as aptidões e a capacidade
mental e física da criança e todo o seu potencial;
b) imbuir na criança o respeito aos direitos humanos e às
liberdades fundamentais, bem como aos princípios consagrados
na Carta das Nações Unidas;
c) imbuir na criança o respeito aos seus pais, à sua própria
identidade cultural, ao seu idioma e seus valores, aos valores
nacionais do país em que reside, aos do eventual país de origem
e aos das civilizações diferentes da sua;
d) preparar a criança para assumir uma vida responsável em
uma sociedade livre, com espírito de compreensão, paz,
tolerância, igualdade de sexos e amizade entre todos os povos,
grupos étnicos, nacionais e religiosos e pessoas de origem
indígena;
e) imbuir na criança o respeito ao meio ambiente.
De acordo com Candau (2012, p. 717), para a construção
de uma cultura de respeito aos direitos humanos na sociedade é
preciso que esses direitos “sejam internalizados no imaginário
social, nas mentalidades individuais e coletivas, de modo
sistemático e consistente”. E isso pode ser feito por meio da
educação em direitos humanos.
Ao final da atividade foram distribuídas aos alunos e
professores participantes cartilhas da Defensoria Pública sobre o
combate ao racismo. Nestas cartilhas há informações
importantes sobre condutas típicas e respectivas penalidades que
poderão ser acessadas pelos familiares daqueles alunos.7
172
CONSIDERAÇÕES FINAIS
173
REFERÊNCIAS
174
CAPÍTULO 14
INTRODUÇÃO
175
frequência. Os índices de violência contra a população negra,
vem aumentando progressivamente, agressões por motivos
banais que justificam culpando a vítima. A Lei 10.639/03
completa 20 anos de aprovação e o que realmente temos visto
no chão das nossas escolas, na Educação Básica?
Essa pergunta nos inquieta e nos leva a pensar sobre a
complexidade e amplitude que envolve o ensino sobre Educação
e Relações Étnico-raciais no contexto brasileiro. Conforme
Nilma Lino Gomes (2005), precisamos pensar uma educação que
dialogue com a realidade da sociedade na qual estamos inseridos
construindo coletivamente novas formas de convivência e de
respeito entre professores, alunos e comunidade.
No ano de 2022, pensando em dialogar com a comunidade
escolar e visando a elaboração de estratégias para uma educação
antirracista, elaboramos coletivamente o projeto ERER na Padre
Orestes, colocando alguns objetivos de aprendizagem que
gostaríamos de desenvolver com os alunos do 4º ano do ensino
fundamental, em parceria com os alunos do 9° ano, através da
confecção de jogos, oficina de dança e arte, como forma de
expressão cultural.
A integração entre as turmas foi promovida através de
oficinas de jogos, onde os alunos do 4º ano jogavam o jogo de
trilha elaborado pelos alunos do 9ºano. Essa integração e troca
de conhecimento foi muito significativa para os alunos. Os
alunos da Educação Infantil ao 3º ano jogaram o jogo da “velha
afro”, inspirado no símbolo Adinkra, (Adinkrahene), que
simboliza grandeza e liderança. O jogo foi desenvolvido pelos
alunos do 4º ano, que monitoram essa oficina. Esse processo de
monitoria despertou nos alunos um sentimento de
pertencimento e valorização do seu conhecimento.
176
lhes possibilitou a expansão de conhecimentos sobre história e
cultura africana e afro-brasileira, ao longo do ano letivo. No
decorrer das atividades, outros professores passaram a se
envolver com o projeto, mostrando o que já trabalhavam, ou se
lançando ao desafio de trabalhar com a ERER.
No contexto do projeto, eu atuava como professora de
Geografia/ERER, nos primeiros e segundos anos do ensino
fundamental. Desenvolvi o projeto Circularidade Africana e o
Ensino de mandalas na Educação Básica1. Do primeiro ao quarto ano,
realizei a contação de histórias com protagonismo negro nas
aulas. Além da contação de histórias foi elaborado o Alfabetário
Africano2 pela professora Denise Fernandes, e ilustrado por Luis
Dias. Trata-se de um alfabeto ilustrado com figuras de elementos
presentes na nossa cultura, herança do povo africano, com o
conceito de cada elemento. Os símbolos Adinkras estão
presentes na construção dessa arte. Por exemplo, a letra A-
Atabaque – com a ilustração do instrumento musical de
percussão. Quando trabalhei a letra A, com as crianças, mostrei
fotos do instrumento e o som do mesmo, além de fazer uma aula
de musicalização com o Agogô.
No decorrer do ano, realizamos uma oficina de jogos afro,
com a monitoria dos alunos de 4º ano, na Semana do Brincar,
em Maio. Montamos um circuito com os jogos da “velha afro”,
amarelinha africana e jogo da memória com símbolos Adinkras,
confeccionado por esses alunos em 2021, e utilizado nas oficinas
de jogos em 2022.
O quarto ano teve também, oficinas de mandalas que
resgataram o ensino da circularidade africana, aprofundando o
conhecimento sobre tecidos, máscaras africanas e ancestralidade.
Em Geografia, trabalhamos a formação histórica do município
de São Leopoldo, estudando as contribuições dos povos negros
177
e indígenas, que por muito tempo foi invisibilizada na história de
São Leopoldo. Essa proposta se estendeu por todo o ano letivo,
onde em parceria com a professora Gabriela Romer, fizemos um
passeio pelos territórios negros de São Leopoldo. Tivemos o
apoio da Secretaria de Educação do município responsável pela
ERER, a participação da professora Rose Diaz que nos
acompanhou durante o passeio e explicou alguns dos pontos
importantes das nossas visitas.
Os jogos de tabuleiros, principalmente o da trilha, tinha
como tema o “Quilombo dos Palmares”. O recorte do tema se
centrava nos personagens negros. Esta atividade se desenvolveu
após um projeto de pesquisa para apresentação na Feira
Científica da escola, tendo o professor Rodrigo Garcia como
mediador, envolvendo os alunos do oitavo e do nono ano.
Também, ocorreram oficinas de dança afro com a
mediação da professora do “Mais Educação”, que montou uma
coreografia com a música “Amarelo azul e branco”, de Ana
Vitória. Esta música foi sugestão da professora Simone, com o
objetivo de realizar uma experiência artística. A música foi
escolhida por trazer em sua letra uma singularidade com o
conceito de Sankofa presente na cultura Adinkras, que significa
“não é tabu voltar atrás e buscar o que esqueceu”. Esse conceito
me remete ao ensino das relações étnico-raciais, que resgata a
história do povo africano, mostrando as contribuições dos
nossos antepassados na construção do nosso país, percebendo
que nosso futuro reflete o passado de lutas e conquistas dos que
vieram antes de nós. O que nos remete ao trecho da letra da
música de Ana Vitória:
178
cultura eurocêntrica. Contudo, sabemos que sempre é tempo para
olhar buscar a nossa ancestralidade, para lembrar dos povos
originários que contribuíram na construção do nosso país.
Segundo Januário Garcia (2021) “Existe uma história do povo
Negro sem o Brasil, mas não existe uma história do Brasil sem o
povo Negro”. Escolhemos esta citação potente para ilustrar o
mural da escola, provocando reflexão e conscientização sobre a
origem do nosso povo.
Nesse sentido, buscamos proporcionar aos alunos da escola
uma imersão no conhecimento da ERER, por meio da Arte.
Juntos com os participantes do projeto, construímos uma
escultura da árvore sagrada africana, o Baobá. Passamos por
dentro dessa escultura sentindo o que a força desta árvore
contém. Envolvemos a maioria dos professores da escola em
uma grande exposição de trabalhos, oficinas de jogos e dança,
conseguimos realizar a produção de um Baobá, através do artista
plástico Valdeme Ribeiro dos Santos.
179
exploraram várias técnicas, escutando e refletindo sobre a
apresentação de dança sobre o tema.
A semana da Consciência Negra de 2022 foi a culminância
das propostas desenvolvidas. Nosso projeto inicial, com sua raiz
forte, própria de um tronco robusto, se desdobrou em diversas
iniciativas de aprendizado como os ramos do Baobá.
Alcançamos espaço que foram além dos muros da escola.
Os alunos do quarto ano, juntamente com outras turmas da
escola, participaram do Festival de Arte estudantil com a
apresentação de dança e exposição das Mandalas confeccionadas
com diversos materiais reciclados. O jogo de tabuleiro teve
exposição em canais de mídia como o Instagram e proporcionou
um elo ainda maior entre a parceria dos autores do projeto com
o curso de extensão do LABDOC Equidade Racial, que nos
conectou com a Atômic, agência experimental de Jogos Digitais
da Unisinos, com a qual, em parceria, vamos desenvolver o jogo
virtual de tabuleiro, ampliando o repertório de conteúdos, com
objetivo em comum que é o trabalho com a ERER, voltado tanto
para História, quanto para a Alfabetização.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
180
Como realizadora das propostas não imaginava que as
oficinas de mandalas iriam produzir um engajamento desta
natureza. Os relatos dos alunos quanto às aprendizagens
adquiridas ao longo das propostas são um grande incentivo para
continuar acreditando em uma educação antirascista. Relato do
aluno D, em entrevista durante o passeio realizado nos territórios
negros de São Leopoldo:
181
REFERÊNCIAS
182
CAPÍTULO 15
INTRODUÇÃO
183
BREVE HISTÓRICO SOBRE A FORMAÇÃO
CULTURAL DO BRASIL
184
registro da memória e o instrumento de transmissão da cultura e
da história das sociedades ágrafas, isso, infelizmente, se perdeu
com relação aos povos indígenas do Brasil.
Com a colonização, os indígenas acabaram sendo
expulsos de suas terras e submetidos a uma série de violências
e discriminações, mas, antes, conforme destaca Brito (2012),
contribuíram para garantir a unidade territorial brasileira, pois
sempre estiveram ocupando as faixas fronteiriças e sofreram
fortes pressões do Estado para serem transformados em
guardiões das fronteiras, em especial, através da implantação de
escolas nestas localidades, com a finalidade de abrasileirar esses
povos e nacionalizar os territórios de fronteiras em favor da sua
defesa contra os possíveis “invasores estrangeiros”. Sobre mais
algumas contribuições dos povos indígenas à cultura brasileira,
Berta Ribeiro (1995) assinala que os povos indígenas são
detentores de saberes milenares, porém, ainda pouco
conhecidos pelos não indígenas. São saberes diversos que
passam pelo campo do manejo florestal, práticas agrícolas e
medicinais que fazem parte do convívio cotidiano nas aldeias.
Nesse sentido, a autora destaca que as pesquisas realizadas por
antropólogos e biólogos entre os indígenas “levou-os a
desenvolver ramos associados entre a etnologia e a biologia aos
quais se deu o nome de etnobotânica, etnozoologia etc.”
(Ribeiro, 1995, p. 197). Até hoje sua cultura e suas tradições
ainda influenciam a cultura brasileira, seja através da língua, da
culinária, dos costumes, entre outros.
Outro elemento marcante para a formação do povo
brasileiro foi a escravidão. Durante mais de três séculos, os
negros africanos foram trazidos para o Brasil e escravizados,
principalmente para trabalhar nas plantações de cana-de-açúcar
e de café. E, depois disso, ainda foram condenados ao abandono,
com a “falsa abolição da escravatura”, que fez com que os negros
libertos fossem largados à própria sorte, de um dia para o outro,
em condições sub-humanas de sobrevivência. Diante disso, ao
longo da história a população negra precisou criar diferentes
formas de resistência e se organizar para enfrentar a
desigualdade, pois não existia preocupação por parte das
autoridades de garantir trabalho/ocupação para esses indivíduos
185
agora “libertos”, mas que, de certo modo continuavam “escravos
do sistema”, após trezentos anos de escravidão (Pires; Silva;
Souto, 2018).
Ainda assim, a herança cultural africana se faz presente na
cultura brasileira, em diversas atividades culturais: música,
literatura, pintura, dança, teatro, culinária, vestimentas, religião e
na nossa língua.
Além dos africanos, o Brasil também recebeu um grande
contingente de imigrantes, especialmente no final do século XIX
e início do século XX. A chegada desses imigrantes,
principalmente italianos, alemães e portugueses, agregou novos
elementos culturais ao país, como a culinária, a arquitetura, a
música, a literatura, etc. Vale lembrar que a imigração europeia
foi também fruto de uma política de branqueamento da
população, uma vez que autoridades e cientistas da época se
preocupavam com o alto percentual de negros e indígenas que
formava a população brasileira.
Em resumo, a formação do povo brasileiro é resultado de
uma mistura de diferentes grupos étnicos e culturais, que
deixaram suas marcas na língua, na arte, na música, na religião,
na culinária, na economia do país e em muitas outras áreas. A
diversidade é um dos principais traços da cultura brasileira e
representa uma riqueza inestimável para a nação e não poderá,
jamais, ser substituída e, ou sufocada pela parte da história que
fez com que o Brasil se tornasse um país desigual, sócio e
economicamente, fato que acabou privilegiando uns em
detrimento de outros.
186
Dentro do contexto educacional, em 1996, a Lei de
Diretrizes e Base (LDB) reforça que o currículo deveria “ter base
nacional comum, a ser complementada, em cada sistema de
ensino e em cada estabelecimento escolar, por uma parte
diversificada, exigida pelas características regionais e locais da
sociedade, da cultura, da economia e dos educandos”. No ano
seguinte, embora os Parâmetros Curriculares Nacionais (Brasil,
1997) sugerissem, foi somente no ano de 2003, que foi criada a
Lei nº 10.639/03, de 9 de janeiro de 2003, que incluía no
currículo brasileiro, o estudo da história e das culturas africanas
e afro-brasileira, nos estabelecimentos de ensino fundamental e
de ensino médio, públicos e privados, como forma de amenizar
o preconceito racial, o racismo e a discriminação. A redação da
referida Lei foi complementada em 2008, através da Lei nº
11.645, de 10 Março de 2008, para incluir no currículo oficial da
rede de ensino a obrigatoriedade da temática “História e Cultura
Afro-Brasileira e Indígena”. Também, a partir de 2003, a
Educação em Direitos Humanos ganhou um Plano Nacional
(PNEDH), revisto em 2006, aprofundando questões do
Programa Nacional de Direitos Humanos e incorporando
aspectos dos principais documentos internacionais de Direitos
Humanos dos quais o Brasil é signatário.
Esse plano se caracteriza como uma política educacional de
Estado voltada para cinco áreas: Educação Básica, Educação
Superior, educação não-formal, mídia e formação de
profissionais dos sistemas de segurança e justiça. Em linhas
gerais, pode-se dizer que o PNEDH ressalta os valores de
tolerância, solidariedade, justiça social, inclusão, pluralidade e
sustentabilidade.
Atualmente, a Base Nacional Comum Curricular – BNCC
(Brasil, 2017), que passa a se constituir como base para o
planejamento curricular das instituições e redes de ensino no
Brasil, evidencia a obrigatoriedade de continuar a trabalhar a
pluralidade cultural nos currículos, tendo em vista a importância
desses povos na construção da sociedade brasileira. Para tanto,
traz no seu texto oficial, a Educação para as Relações Étnico-
Raciais, a História e a cultura africana, afro-brasileira e indígena,
187
além de orientações de uma educação pautada no respeito aos
Direitos Humanos.
188
Figura 1 – Curso de Formação de Gestores.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
189
REFERÊNCIAS
190
RIBEIRO, B. A Contribuição dos povos indígenas à cultura
brasileira. In: SILVA, A. L.; GRUPIONI, L. D. B. A temática
indígena na sala de aula: novos subsídios para professores de
primeiro e segundo graus. Brasília: MEC/MARI/Global, 1995.
191
192
CAPÍTULO 16
INTRODUÇÃO
193
ESTUDOS SOBRE CIDADES SUSTENTÁVEIS NOS
ESTADOS DO PARANÁ E RIO GRANDE DO SUL
194
QUAL DEFINIÇÃO PARA CIDADES SUSTENTÁVEIS?
195
centro o Bem Viver, estreitamente relacionado ao viver
sustentável (Acosta, 2016). E este pensamento, por vezes, é um
confronto aos caminhos teóricos e metodológicos percorridos
pela universidade tradicional.
A partir destes posicionamentos, as teses e dissertações
foram analisadas tendo como questão central: Quais definições e
caminhos cada estudo utilizou para definir cidades sustentáveis?
Iniciamos a análise pelo estudo de Carlos Karam que
destaca o conceito do desenvolvimento sustentável e a aplicação
do Planejamento Estratégico Municipal (PEM). Karam destaca a
metodologia do PEM, considerando-a como "limitada'', porém,
ao mesmo tempo, sendo capaz de formular e estimular ações
sociais de caráter substantivo, contribuindo para o
desenvolvimento sustentável das cidades.
Já Raiana Tavares (2019) traz como foco o “Programa
Cidades Sustentáveis” (2012) e também os doze eixos que
integram as dimensões sociais, ambientais, econômicas, políticas
e culturais para cidades sustentáveis. Tavares destaca o conceito
trazido por Lopes, em que “cidade sustentável é aquela em que
os elementos do ambiente natural [...], os elementos do ambiente
construído [...] e os elementos humanos [...] interagem em
simbiose em meios urbanos, buscando-se a projeção qualitativa
e duradoura de cada elemento no tempo (Lopes, 2016, p. 19).
Neste mesmo sentido, na dissertação Cidades inteligentes e
sustentáveis: uma análise de Planos Diretores de municípios brasileiros
selecionados, a pesquisadora Andressa Felipe conceitua cidades
sustentáveis a partir da concepção do Programa das Nações
Unidas para os Assentamentos Humanos (ONUBR) (2009). E,
desde Elkington (1994), aponta que as cidades sustentáveis
“correspondem a um espaço que contribui para a melhoria da
proteção ambiental, do desenvolvimento econômico, e da
equidade e bem-estar da sociedade que nele habita” (Elkington,
1994, p. 50).
Com um foco um pouco distinto da pesquisa anterior, em
sua dissertação, intitulada Gestão de operações de serviços de emergência
no contexto de cidades inteligentes e sustentáveis: o caso da Polícia Militar
do Paraná, Vanessa Oliveira (2020) apresenta diversos conceitos
para cidades sustentáveis. A partir do relatório técnico do Grupo
196
de Foco da União Internacional de Telecomunicações (ITU,
2014), foram analisadas 120 definições corporativas e acadêmicas
referentes às cidades inteligentes e sustentáveis. Oliveira
identificou definições distintas para as cidades, inteligentes e
sustentáveis, concluindo o quanto o conceito é ambíguo e
polissêmico.
Assim como Oliveira (2020), uma análise profunda em
relação ao conceito de cidades sustentáveis e as diversas variáveis
deste conceito, foi realizada por Roberto Bichueti (2016), na tese:
Fatores que condicionam a formação de ambientes urbanos inovadores em
cidades sustentáveis. O pesquisador destaca “as potencialidades
promovidas pela diversidade urbana encontrada nas metrópoles,
que resultam em desenvolvimento econômico e riqueza da vida
coletiva” (Bichueti, 2016, p. 16), assim como a importância da
inovação. Segundo Bichueti (2016), para a construção de cidades
sustentáveis, é identificado o quanto é importante o esforço dos
governantes locais nas esferas públicas nesse processo. Em seu
estudo, assim como nos outros estudos analisados, ele aponta o
“Programa Cidades Sustentáveis” (2012) e os doze eixos,
embasados nos estudos realizados por Tavares (2019).
Seguindo outra linha de pesquisa, em sua dissertação,
(Res)significando o direito à cidade sustentável: os grafismos urbanos como
parte integrante do patrimônio cultural brasileiro, Cristiane Menezes
(2016), destaca que “uma cidade não nasce sustentável”. Para a
pesquisadora, o direito à cidade sustentável só pode ser
alcançado, quando forem “observadas todas as suas
multidimensões, principalmente a social, que está atrelada e
indissociada à qualidade de vida dos cidadãos, com a preservação
e garantia de direitos sociais” (Menezes, 2016, p. 108). Menezes
complementa que “os espaços devem ser mais do que públicos,
devem ser populares, com respeito a toda a diversidade”
(Menezes, 2016, p. 105).
Na pesquisa intitulada Desenvolvimento urbano sustentável e
qualidade de vida: um estudo de caso na cidade de Florianópolis-SC,
Pabla Silva (2019) conceitua cidade sustentável a partir de
Rogers e Gumuchdjian (2013) e Williams (2010), assim como
nos estudos realizados por Bichueti (2016). Silva (2019),
reafirma a estreita relação do conceito de cidade sustentável
197
com a qualidade de vida. Neste estudo, também são analisados
os doze eixos do “Programa Cidades Sustentáveis” (2012).
Tatiane Burmann, com a dissertação Cidade sustentável: uma
nova e necessária condição urbana, retoma o Estatuto da Cidade,
principalmente o artigo 2º, que define o direito à cidade
sustentável. Burmann, aponta o tripé “governo, mercado e
sociedade” como fundamentais na implementação da cidade
sustentável e a Carta Mundial pelo Direito à Cidade, que vai “ao
encontro do objetivo constitucional da política urbana de
ordenar o pleno desenvolvimento das funções sociais”
(Burmann, 2014, p. 31). Assim como Bichueti (2016), Burmann
também salienta a concretização do planejamento de
desenvolvimento urbano para cidade sustentável não relacionada
à inexistência de normas e teorias, mas à vontade política.
A dissertação denominada Índice de Avaliação do Desempenho
Hídrico - IADH: contribuição ao desenvolvimento de cidades sustentáveis,
de Roseméri Greef (2018), traz o conceito de Urbanismo
Sustentável para constituir cidades sustentáveis. Assim como
Silva (2019), a pesquisadora define cidades sustentáveis como
aquelas que visam “a equidade social, explorando novas
tecnologias e administrando a complexa dinâmica urbana”, assim
como “devem estar relacionadas com as necessidades
econômicas, físicas e sociais da comunidade” (Greef, 2018, p.
23). Greef (2018) parte dos conceitos de Unidade de Vizinhança
e Comunidades Sustentáveis, destacando sete componentes, a
partir de Egan (2004, p. 19): governança, serviços, transporte e
conectividade, meio ambiente, economia, ambiente natural e
construído, social e cultural. Conforme Greef (2018), esses
componentes são essenciais para uma comunidade sustentável e,
consequentemente, uma cidade.
O último estudo analisado foi a dissertação denominada
Cidade, poder e diferença: outros caminhos para a compreensão do direito à
cidade sustentável em Henri Lefebvre, de Diego Silva (2018). Os
conceitos de meio ambiente, sustentabilidade e cidade
sustentável são considerados pelo autor como “naturalizados”.
A “reinvenção da juricidade” seria um dos caminhos possíveis,
indicados por Silva (2018), em direção ao direito à cidade
sustentável. A possibilidade de um projeto para cidade
198
sustentável, está na “possibilidade de superação, através do
direito urbano libertador, capaz de conduzir a cidade à posição
de verdadeiro locus da emancipação e da realização dos direitos
do homem” (Silva, 2018, p. 122).
CONSIDERAÇÕES FINAIS
REFERÊNCIAS
199
BANIWA, G. S. L. O índio brasileiro: o que você precisa saber
sobre os povos indígenas no Brasil de hoje. Brasília:
MEC/Secad: Museu Nacional/UFRJ, 2006.
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condição urbana. 2014. Dissertação (Mestrado em Direitos
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- Paraná. 2019. Dissertação (Mestrado em Desenvolvimento
Regional). Universidade Tecnológica Federal do Paraná, Pato
Branco, 2019.
201
202
SOBRE OS/AS AUTORES/AS
Pós-graduada em Tutoria à
Distância pela Pontifícia
Universidade Católica (PUC).
Licenciada em Letras-
Português/Licenciatura Plena,
pela Universidade do Vale do
Rio dos Sinos. Professora de
Língua Portuguesa no
município de Nova Hartz/RS.
E-mail:
[email protected].
Instagram: @andreiaroseli78.
203
Carla Cristina Pedrozo da
Silva
Mestre em História pela
Universidade do Vale do Rio
dos Sinos (Unisinos).
Especialista em História pela
Universidade do Oeste
Catarinense (Unoesc, Campus
Chapecó). Licenciada em
História pela Universidade do
Vale do Rio dos Sinos
(Unisinos). Professora de
História do Ensino
Fundamental na Rede Municipal de Portão. Professora de História do
Ensino Médio no Colégio Sinodal da Paz. Email:
[email protected].
204
Cecília Luiza Etzberger
Pós-graduada em Arte, Ensino e
Linguagens Contemporâneas.
Graduada em Ensino da Arte na
Diversidade. Professora de Arte
da rede municipal de Ivoti.
E-mail: [email protected]
Instagram:@ceciliaeducacaocriativa
Cristiaine A. Johann
Mestre em Educação e
Especialista em Direitos
Humanos e Políticas Públicas
pela Universidade do Vale do
Rio dos Sinos (Unisinos).
Defensora Pública do RS.
Coordenadora do Projeto Social
de Educação em Direitos
Humanos, da Associação das
Defensoras e dos Defensores
Públicos do Estado do RS;
Membra fundadora da Ass.
Nacional das Defensoras e dos
Defensores pela Democracia.
Membra fundadora da Rede
Brasileira de Educação em
Direitos Humanos (ReBEDH). Representante da Ass. Mães e Pais pela
Democracia no Conselho Estadual de Direitos Humanos do RS
(CEDH/RS). Integrante das Comissões Temáticas de Educação em
Direitos Humanos e de Enfrentamento ao Racismo do CEDH/RS.
Integrante do Fórum Justiça do RS e do Fórum de Combate à
205
Intolerância do RS. Pesquisadora sobre Educação em Direitos
Humanos e Cidadania.
E-mail: [email protected]
Instagram: @cristiainea.johann
206
Deisi Gracilei Wommer
Scherer
207
Evelise Ferreira Pereira
Mestre em Genética e Biologia
Molecular pela Universidade
Federal do Rio Grande do Sul
(Ufrgs). Licenciada em Ciências
Biológicas. Profa. de Ensino
Básico II da EMEF Prefeito
Edgar Fontoura - Rede Pública
Municipal de Canoas - RS.
Doutoranda no Programa de
Pós-graduação em Ensino de
Ciências e Matemática
(PPGECIM), da Universidade
Luterana do Brasil (Ulbra). Pesquisadora na linha de Pesquisa
Metodologia de Ensino e de Aprendizagem em Ciências voltadas à
ERER.
Email: [email protected]. Redes Sociais: @evelisepereira
208
Leandro Arévalo de Souza
Pós-graduado em Gestão e
Organização da Escola, com
ênfase em Coordenação e
Orientação Escolar pela
Universidade para o
desenvolvimento do Estado e
da Região do Pantanal.
Licenciado e Bacharel em
Geografia pela Pontifícia
Universidade Católica do Rio
Grande do Sul. Professor concursado de Geografia nos municípios de
Nova Hartz- RS e Parobé- RS.
E-mail: [email protected]. Instagram: @andreiaroseli78.
209
Marília Gabriela Graeff
Pós-graduada em Educação
Transformadora: pedagogia,
fundamentos e práticas, pela
Pontifícia Universidade Católica
do Rio Grande do Sul.
Licenciada em Artes Visuais
pela Universidade Feevale.
Professora de Arte na Rede
Municipal de Estância Velha. E-
mail: [email protected].
210
Rodrigo Pletikoszits de Ávila
Mestre em Ciências Sociais pela
PUC Minas. Bacharel e
Licenciado em História pela
PUC Minas. Professor de
História na Rede Municipal,
Araricá e Estância Velha.
E-mail: [email protected]
211
Sandra de Oliveira
Doutora em Educação pela
Universidade do Vale do Rio
dos Sinos (Unisinos). Mestra em
Educação pela Universidade
Luterana do Brasil (Ulbra).
Especialista em Gestão Escolar.
Licenciada em Pedagogia.
Gestora na Fundação Escola
Técnica Liberato Salzano Vieira
da Cunha – FETLSVC.
Pesquisadora no
LABDOC/Unisinos. Atua na
formação de professores e
pesquisa as temáticas: docência,
pesquisa como ferramenta pedagógica, planejamento e currículo,
processos de subjetivação.
E-mail: [email protected] Instagram:
@sandradeoliveira.rs
212
Silvia Tolentino
Professora da Rede Estadual
por 33 anos. Alfabetizadora por
18 anos. Graduanda em História
(Uninter). Assessora do (ERER)
- Educação para as Relações
Étnico-raciais (2ª CRE) São
Leopoldo. Aos 63 anos, me
reinventando na educação. E-
mail: silvia-
[email protected]
Instagram: @tolentino7526
213
Vanusa Wiechorek Fagundes
Pós-graduada em
Psicopedagogia Institucional e
Clínica pela FACCAT. Pós-
graduada em Informática
Instrumental pela UFRGS. Pós-
graduada em Supervisão e
Orientação Educacional, pelo
Centro Universitário Barão de
Mauá. Licenciada em Filosofia
pela Unisinos. Licenciada em
Pedagogia, pela Ufpel.
Licenciada em Letras - Língua
Portuguesa e Respectivas
Literaturas pela Ulbra.
Coordenadora Pedagógica na
Secretaria Municipal de
Educação de Nova Hartz/RS. Vice-diretora da EEEM Elvira Jost, da
Rede Pública Estadual do RS e estudiosa das temáticas relacionadas à
ERER e da Educação em Direitos Humanos (EDH), entre outras.
E-mail: [email protected]
214
Viviane Inês Weschenfelder
Mestra e Doutora em Educação
pela Universidade do Vale do
Rio dos Sinos (Unisinos).
Licenciada em História e
Pedagogia. Vice-líder do Grupo
de Pesquisa Educação,
Diversidade e Cidadania
(GPEDiC/Unisinos/CNPq).
Professora da Escola de
Humanidades da Unisinos,
onde coordena a Cátedra Sérgio
Vieira de Mello
(CSVM/ACNUR). Ativista da ONG Alphorria. Pesquisadora das
temáticas: docência, relações étnico-raciais, interculturalidade e
equidade racial. E-mail: [email protected]. Instagram:
@profa_viviane_w
215