A Divina & O ESPLENDOR – Uma Farsa Forçada
Por
Rodrigo Hermínio
RECIFE
2022
Sumário
CENA 1 – O maior espetáculo da terra..................................................................... 3
CENA 2 – Uma reunião extraordinária .................................................................... 5
CENA 3 – O maior evento cultural da cidade ......................................................... 8
CENA 4 – Divina e o ESPLENDOR ........................................................................ 11
CENA 5 – Nasce a estrela .......................................................................................... 13
CENA 6 – Eu já sou um ator ..................................................................................... 16
CENA 7 – A Seleção ................................................................................................... 19
CENA CORTADA ..................................................................................................... 19
CENA 8 – A Divina .................................................................................................... 19
CENA 9 – ESPLENDOR ............................................................................................ 20
CENA 10 – O primeiro ensaio.................................................................................. 21
CENA 11 – O nosso Cristo ........................................................................................ 25
CENA 12 – A reunião de emergência ..................................................................... 27
CENA 13 – A visita ..................................................................................................... 28
CENA 14 – O beijo de Judas .................................................................................... 35
CENA 15 – A paixão de Cristo de Poço das Barreiras ......................................... 38
CENA 16 – A coxia ..................................................................................................... 40
CENA 17 – MARIA .................................................................................................... 41
CENA 18 – Feliz para Sempre! ................................................................................. 46
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CENA 1 – O maior espetáculo da terra
Entram um ator e uma atriz. Eles usam uma máscara de típicas da commedia dell’arte.
Se olham e em seguida se direcionam ao público.
ATRIZ 1 (Para o público) – Respeitável público. Viemos hoje apresentar para
vocês...
ATOR 1 (Interropendo-a) – “Leites e Gergerman”.
ATRIZ 2 – O que danado é isso?
ATOR 1– Tu nunca viu isso nos “filme” americano? Quer dizer senhora e
senhores.
ATRIZ 2 – Eu não. Eu “num sei” falar americano.
ATOR 3 – Mas os “filme num tem” legenda?
ATRIZ 3 – Eu mesma só assisto filme dublado.
ATOR 3 – “Oh mule”, tu num sabe ler não é?
ATRIZ 3 – Saber eu até sei.Só não consigo fica assistindo e lendo ao mesmo
tempo.
ATOR 1–Filme num é pra ver? Se fosse pra ler eu pegava o livro.
ATOR 2 – Eita bando mulher burra da gota.
ATRIZ 1– Num me chame de a gente burra não que isso é “meisplei”.
ATOR 3 – E o que bexiga é “meisplei”.
ATRIZ 2 – “Meisplei” é quando o homi chama a mulher de burra ou interrompe
quando ela ta falando.
ATRIZ 2 –E vocês tão fazendo os dois no mesmo tempo e no mesmo exato
momento.
ATOR 1 – Eu num sou isso não.
ATRIZ 1 – Então pare de me interromper a gente.
ATOR 2 – “Pardão”.
ATRIZ 2– E o que é “pardão”?
ATOR 3 – “Me desculpe me” em italiano.
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ATRIZ 3 – Se fala pardon e isso é francês. Eu estudei meu filho. Agora podemos
voltar?
ATOR 3– Podemos.
JUNTOS (Para o público) – Senhoras e Senhores. Meninos e meninas.
Convidamos a todos a prestigiarem o nosso humilde...
ATOR 1 – Mas limpinho. Espetáculo.
JUNTOS (Para o público) – Nossa história se passa na cidade de Poço das
Barreiras. E nesta trama vamos saber conhecer um pouco da vida de dois artistas.
ATRIZ 1 – Divina e o ESPLENDOR.
ATOR 2 – Juntos eles vão passar por diversas estrepolias.
ATRIZ 2 – Tudo isso e muito mais para alcançar o incrível sonho da fama e do
sucesso internacional, mundial e global.
ATRIZ 3 –Tudo isso com muita comédia e romance.
ATOR 3 – Ação, aventura, suspense, terror e ficção científica. Um
espetáculonunca antes visto na terra.
ATRIZ 1 (Para o Ator) – Homi, num vai ter tudo isso não.
ATOR 1– Mas tem que falar para poder chamar o público.
ATOR 2 – Tu sabe que o povo num vai para o teatro. Olha quantas pessoas tem
na plateia.
ATRIZ 2 – É verdade. (Olha para o público) vixe tem quase ninguém.
ATOR 3 – Aquela senhora ali é minha mãe (Acena para uma mulher na plateia).
ATRIZ 3 – Aquele outro ali entrou de penetra (Aponta para um homem na
plateia).Tenho certeza que não pagou.
ATOR 1 – (Escolhe outra pessoa) aquele ali é quem?
ATRIZ 1 – Meu namorado que ta fazendo a iluminação.
ATOR 2 – Oxi, ele num ia ficar na bilheteria?
ATRIZ 2 – Ele ta bilheteria, na iluminação, no som e antes da peça tava vendendo
água.
ATOR 3 – A gente ta tão liso assim é?
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ATRIZ 3 – É meu querido. Vida de artista é assim mesmo.
ATRIZ 1 –Se paga bem... bem pouquinho.
ATOR 1 – E quando pagam. (Olham para plateia).
JUNTOS – Caro público. Apresentamos para vocês o maior espetáculo da terra.
Uma história épica com mágicos, bailarinos, palhaços, acrobatas, cuspidores de
fogo e muito mais que sua imaginação pode pensar. Com vocês: Divina e o
ESPLENDOR!
(Saem e montam uma pequena lona improvisada)
CENA 2 – Uma reunião extraordinária
Na lona um grupo de ilustres moradores de Poço das Barreiras discutem o futuro da
comunidade. Todos os personagens são bonecos manipulados por atores e atrizes.
SECRETÁRIA GERAL – Bem-vindos meus caros colegas. Eu vos reunir aqui para
tratar de um assunto urgente.
DELEGADO – Que assunto seria esse que interrompeu a minha folga?
DIRETORA ESCOLAR – Sou todos ouvidos Secretária.
SECRETÁRIA GERAL – Como todos sabem estamos em ano de eleição estadual.
PASTOR – E qual a novidade nisso?
PADRE – Deixe a Secretária falar.
PASTOR – Sempre me interrompendo.
PADRE – Eu interrompendo o senhor? Não foi o senhor que esteja ontem com
uma caixa de som e um microfone pregando bem no horário da minha missa?
PASTOR – Estou exercendo o meu direito cristão de ir e vir.
PADRE – Já não basta roubar metade dos meus fies e agora quer atrapalhar a
minha missa?
DELEGADO – Senhores, por favor! Já não tratamos dessa disputa? Combinamos
que as missas acontecem nas quartas e domingos e os cultos nas terças e sábados?
PADRE – Acontece que na quarta-feira é um péssimo dia para realizar missas
pois é de futebol na TV.
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PASTOR – Não temos culpa se os seus fies preferem assistir ao futebol ao invés
da sua missa.
MÉDICO – Senhores. Estamos aqui para ouvir a senhora vossa Secretária Geral
que nos convocou para esta reunião extraordinária.
SECRETÁRIA GERAL – Exatamente, Doutor. Como eu estava dizendo. Estamos
em período eleitoral e a Prefeita me telefonou esta manhã informando que o
governador que vem fazendo sua campanha em todas as cidades do estado vem
visitar a nossa cidade.
DELEGADO – O governador vem para cá?
SECRETÁRIA GERAL – Exatamente. Próximo mês ele deve fazer uma passagem
em Poço das Barreiras.
MÉDICO – E você me tirou dos meus pacientes para dizer isso?
SECRETÁRIA GERAL – O doutor vai me deixar terminar de falar?
MÉDICO – Com sua palavra, secretária.
SECRETÁRIA GERAL – O governador pretende escolher como seu vice o
prefeito de alguma cidade que não faça parte da região metropolitana. E claro
que a nossa prefeita quer o cargo. E todos nos sabemos que o quanto isso pode
ser bom para nossa cidade.
PASTOR – E para a senhora também. Todo mundo sabe que a prefeita estava lhe
cogitando para vice nas próximas eleições.
PADRE – Mas sendo ela a vice-governadora a senhora automaticamente passa
ser candidata prefeitura.
DELEGADO – E a senhora já escolheu algum vice?
MÉDICO – O vice prefeito precisa ter algum peso. Eu mesmo cursei medicina na
capital e tenho uma excelente experiência em administração hospitalar.
DELEGADO – Seu hospital que está caindo aos pedaços? Falta medicações,
enfermeiros. Um bom nome seria alguém que entende de segurança pública, que
tem uma carreira notória e respeitada, como eu.
PASTOR – A cidade precisa é de uma pessoa que ajude a governar esta cidade
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com os verdadeiros valores cristãos.
PADRE – Creio que essa pessoa não seja você.
PASTOR – Tenho uma excelente oratória. Quantos não se converteram nessa
cidade sob a minha influência? E claro que tenho um grande número de fiéis que
seria excelentes cabos eleitorais e trariam muitos votos para nossa chapa.
PADRE – Nossa cidade precisa de alguém que conheça a cidade. Que seja amigo
de todos. Estou no sacerdócio há mais de cinco décadas.
DIRETORA ESCOLAR – A educação é o pilar de qualquer sociedade. E está na
moda professores na política. Tem prefeito, deputado, governador e até
candidato a presidente.
SECRETÁRIA GERAL – Senhores, senhores! Todos aqui estão aptos a fazerem
parte da minha chapa. Além do meu vice, precisamos de um vereador para o
nosso partido. Além de que minha vaga de secretária geral vai estar aberta. E
temos outras secretárias importantes: Saúde, segurança, educação.
DIRETORA ESCOLAR – Eu podendo continuar na direção da escola e ter algum
outro cargo da gestão para mim já é de grande tamanho.
SECRETÁRIA GERAL – Mas ainda o jogo não está ganho. Precisamos mostrar
para o Governador o como administramos bem a nossa cidade. A prefeita
mandou uma pauta de assuntos que precisam ter uma excelência em gestão.
Segurança, educação, economia, saúde, saneamento básico e cultural.
TODOS – Cultura?
DELEGADO – E pra que serve isso?
MÉDICO – Temos coisas mais importantes para resolver.
PADRE – Cultura não alimenta a fé e nem o bolso.
PASTOR – Nisto eu posso concordar com você.
SECRETÁRIA GERAL – Meus caros colegas. Nas principais capitais os fundos de
investimento para cultura pode ser uma boa soma aos cofres.
DIRETORA ESCOLAR – Na minha escola eu trabalho cultura. Toda data
comemorativa os professores fantasiam as crianças. Carnaval, São João, páscoa,
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natal, dia do folclore, do índio, do soldado, da árvore, do médico. CABELO
MALUCO, MOCHILA MALUCA. As crianças se ocupam, os pais tiram foto e os
professores ficam com tempo livre.
SECRETÁRIA GERAL – Mas precisamos muito mais do que isso. Precisamos de
um secretário de cultura para nossa cidade.
PASTOR – Eu posso assumir o cargo.
SECRETÁRIA GERAL – Mas eu já escolhi alguém.
TODOS – Quem?
SECRETÁRIA GERAL – Meu filho.
DELEGADO – Mas o garoto só tem 15 anos.
SECRETÁRIA GERAL – Mas o garoto tem bastante experiência. Fez até um
cursinho quando estudou no Sudeste.
MÉDICO – Não seria mais prudente colocar alguém com uma maior bagagem?
Fiz dois anos de teatro durante a minha faculdade.
PADRE – Protesto. O nome disso é nepotismo.
SECRETÁRIA GERAL – JÁ CHEGA vou mandar o meu filho entrar. É um jovem
muito sabido e em nossa família prezamos pela meritocracia. Todo mundo pensa
que quero lançar meu menino daqui a quatro anos para vereador. Mas ele vai
começar por baixo. Então uma secretária de cultura já está de bom tamanho. E
precisamos também mostrar que somos uma cidade que valoriza a juventude.
(Para o filho) Pode entrar, meu querido.
CENA 3 – O maior evento cultural da cidade
(Entrar o filho da Secretaria Geral)
SECRETÁRIO DE CULTURAL – Boa tarde aos senhores e as senhoras.
TODOS – Boa tarde.
SECRETÁRIO DE CULTURAL – Quando minha mãe me contou que eu
assumiria a pasta da cultura eu já pensei em um plano que vai movimentar toda
população de Poço das Barreiras. Uma peça de teatro.
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DELEGADO – Que tipo de peça?
DIRETORA ESCOLAR – E devemos pensar talvez em algo mais regional.
PASTOR – Uma passagem bíblica.
(Todos refletem).
SECRETARIO GERAL – Já sei. A Paixão de Cristo.
SECRETÁRIO DE CULTURAL – Em junho?
SECRETÁRIA GERAL – Sim é uma excelente ideia. Mostramos ao governador
que somos uma população que valoriza as tradições regionais e os valores
cristãos.
PADRE – Perfeito.
PASTOR – Concordo plenamente.
SECRETÁRIO DE CULTURAL – Precisamos arrumar um local para os ensaios,
atores, figurantes, trabalhadores.
SECRETÁRIA GERAL – Podemos usar a A ESCOLA
SECRETÁRIA GERAL – Usasse o pátio para os ensaios, algumas salas de aula
para construção dos cenários e figurinos.
DIRETORA ESCOLAR – E os alunos?
SECRETÁRIA GERAL – Dar-se férias.
DIRETORA ESCOLAR – No meio do ano?
SECRETÁRIA GERAL – Sim. Falamos ao governador que implementamos um
modelo de ensino exclusivo vindo direto da Europa, onde os alunos aprendem
em um semestre tudo o que aprenderiam em um ano. E graças nosso excelente
modelo escolar todos os alunos foram aprovados com média.
SECRETÁRIO DE CULTURAL – Algum clássico. Shakespeare, Molière...
MÉDICO – O povo dessa cidade nunca foi ao teatro. Você acha mesmo que eles
vão entender uma peça antiga.
PADRE – Somos uma comunidade cristã.
DIRETORA ESCOLAR – E que valorizamos os nossos professores que possuem
um recesso de seis meses.
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SECRETÁRIO DE CULTURAL – Mas precisamos de para figurantes, pessoas
para construir os cenários e confeccionar os figurinos.
DELEGADO – Os presos.
DIRETORA ESCOLAR – O que tem os presos?
DELEGADO – Os presos podem construir os cenários. Pintar, serrar e bater prego
qualquer um pode fazer. Podemos dizer que é uma medida socioeducativa no
qual os infratores prestam serviços a nossa comunidade e ao mesmo tempo
passam por um processo de ressocialização.
MÉDICO – Coloquemos os pacientes do hospital para costurar o figurino.
Dizemos faz parte do tratamento. Arteterapia. E assim esvaziamos os leitos.
PASTOR – Os fieis da igreja podem ser figurantes, posso falar que essa é mais
uma das atividades de evangelização de nossa casa. Cobramos um valor extra do
dízimo para os custos da produção e despesas extras para pagar os profissionais
envolvidos, no caso nós.
DIRETORA ESCOLAR – Os alunos podem também ser figurantes e ajudar os
presos na construção dos cenários. Falaremos que é um dos projetos pedagógicos
da nossa instituição que trabalha a arte e o social, que ensinamos que não
devemos discriminar ninguém.
SECRETÁRIO DE CULTURAL – Precisamos também de cadeiras e outros
adereços.
SECRETÁRIO DE CULTURAL – E os atores? Já sei. O Delegado como Pôncio
Pilatos, nada melhor que um homem que cuida da justiça.
MÉDICO – Meus anos de teatro na faculdade de medicina me permitem fazer um
excelente Herodes.
SECRETÁRIA GERAL – Então eu farei Herodias.
PADRE – E eu serei o Caífas.
PASTOR – E eu José de Arimateia.
DELEGADO – Um detento pode fazer Barrabás e alguns policiais os soldados.
SECRETÁRIO DE CULTURAL – Eu serei o diretor, produtor, fazer algum
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apóstolo e um Sumo Sacerdote.
PADRE – E o Jesus?
SECRETÁRIO DE CULTURAL – Tenho um amigo da capital que é modelo e já
fez diversos comercias na TV.
SECRETÁRIA GERAL – Mandarei confeccionar alguns cartazes na cidade com
convocando uma seleção para os demais atores e figurantes. Bem amigos, já
temos tudo planejado. Mãos a mão.
CENA 4 – Divina e o ESPLENDOR
(O Ator e a Atriz mascarados entrem em cena e colocam um cartaz pendurado
no meio do cenário e depois voltam para trás da tenda. Entra o ESPLENDOR).
ESPLENDOR – Olha a água freguês. Olha a água, minha senhora. Ta calor. Essa
água faz milagre. Mata até sede do deserto, cura ressaca, doença, combate piolho
e calvície. Água geladinha, diet, sem açúcar, sem glúten e ajuda emagrecer. (Entra
Divina).
DIVINA – Com licença senhor.
ESPLENDOR – Vai querer água madame?
DIVINA – Não, só queria uma informação. Onde fica a Escola Municipal de Poços
das Barreiras.
ESPLENDOR – Aqui não vende informação e nem mapa, só água. Vai querer
quantas?
DIVINA – Não quero água.
ESPLENDOR – Tem certeza? Ta calor. Água baratinha apenas cinco reais.
DIVINA – Cinco reais numa água?
ESPLENDOR – Minha senhora essa água é importada, cura gripe, mata sede,
cuida da pele.
DIVINA – Não quero água. Já disse. Ainda mais por esse preço. Com licença.
(Saí)
ESPLENDOR – Caiu, caiu viu. (Divina procura algo no chão)
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DIVINA – Caiu o que moço?
ESPLENDOR – Caiu o preço da água. Quatro reais. Aqui a freguesia não sai sem
levar água.
DIVINA – Moço eu já disse que não quero água.
ESPLENDOR – Três reais. e não se fala mais nisso.
DIVINA (Irritada) – Não quero.
ESPLENDOR – Ta bem. Nem eu e nem tu. Dois reais.
DIVINA – Se eu comprar você me diz onde fica um endereço?
ESPLENDOR – Sim senhora.
DIVINA – Senhora não. Senhorita. (Tira duas moedas do bolso e entrega). Pronto.
ESPLENDOR – Só vai querer uma? Ajude aí, três por cinco.
DIVINA (Irritada) – Eu só vou querer alguma. (Pega a água). E agora o senhor
pode me dizer onde fica a escola?
ESPLENDOR – A senhorita está na frente dela.
DIVINA (Irritada) – E você me fez comprar uma água.
ESPLENDOR – A senhorita me ajudou comprando meu produto e eu ajudei a
senhorita duas vezes matando sua sede e lhe dando uma informação. A senhorita
ainda saiu no lucro.
DIVINA (Irritada) – Faça-me o favor.
ESPLENDOR – Oh madame.
DIVINA (Irritada) – Senhorita!
ESPLENDOR – Senhorita! A senhorita vai fazer o que na escola?
DIVINA (Irritada) – Não é da sua conta.
ESPLENDOR – É que eu vi um monte de gente entrando e saindo. Aproveitei e
vim oferecer meu produto. É prova é?
DIVINA – Seleção.
ESPLENDOR – Vai ter concurso?
DIVINA – Seleção de Elenco.
ESPLENDOR – Seleção de Elenco?
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DIVINA – Estão escolhendo atores para a Paixão de Cristo.
ESPLENDOR – Paixão de Cristo? E é páscoa é?
DIVINA – Vão montar um espetáculo da Paixão de Cristo na cidade.
ESPLENDOR – Nem sabia que nesta cidade tinha teatro.
DIVINA – Agora vai ter.
ESPLENDOR – E a senhorita é atriz?
DIVINA – Naturalmente.
ESPLENDOR – E a senhorita já fez muito papéis importantes?
DIVINA – Da para parar de me chamar de senhorita o tempo todo?
ESPLENDOR – Naturalmente. Senhorita.
DIVINA – Olha vou indo.
ESPLENDOR – Espere um pouco me fale um pouco mais da sua carreira e desta
seleção.
DIVINA – Sou uma artista em ascensão. Com bastante experiência. Agora com
sua licença. (Saí)
(O Atormentado ler o cartaz fixado)
ESPLENDOR (Lendo) – Seleção para Atores, Atrizes e Figurantes para Paixão de
Cristo de Poços de Barreiras. Pessoas com e sem experiência artística. (Para o
público) Sabia que eu sempre sonhei em ser artista? Quem sabe essa não é a
minha grande oportunidade para o estrelado. Não custa nada tentar. O não eu já
tenho. (Saí)
CENA 5 – Nasce a estrela
Pátio da escola. O Secretario de Cultura e seu assistente entrevistam os
candidatos.
ASSISTENTE – Próximo!
(Uma mãe entra puxando sua filha)
JOVEM ATRIZ – Aí, mainha, eu não quero. Não gosto dessas coisas.
MÃE – Cala boca menina. Que não gosta o que.
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JOVEM ATRIZ – Tenho vergonha.
MÃE – Vergonha coisa nenhuma. Fica quieta peste.
ASSISTENTE (Impaciente) – Próximo!
MÃE – Somos nós.
ASSISTENTE (Impaciente) – Uma candidata por vez.
MÃE – Não sou eu não senhor. É a minha filha. Sou a agente dela.
ASSISTENTE (Impaciente) – Você tem experiência?
MÃE – Ela tem Muita. Faz isso desde pequena.
ASSISTENTE (Impaciente) – Quais foram os principais trabalhos que você já fez?
MÃE – Minha filha faz ballet desde os quatro anos. Faz parte do coral da igreja.
Canta afinadíssima. Também é modelo e já foi três vezes rainha do milho e até
Miss Adolescente de Poços das Barreiras.
ASSISTENTE (Impaciente) – E ela não fala?
JOVEM ATRIZ – Eu...
MÃE (Interrompendo-a) – Ela prefere guardar a voz para os palcos.
ASSISTENTE – E qual a sua idade?
JOVEM ATRIZ – Dezessete.
MÃE – Faz dezoito ainda esse mês.
ASSISTENTE – Tem interesse em qual papel?
JOVEM ATRIZ – Sei lá.
MÃE – Maria!
ASSISTENTE – Ela não é muito nova para fazer Maria?
MÃE – O que importa é a idade cênica.
ASSISTENTE – O papel de Maria já está preenchido. Ela sabe dançar?
MÃE – Dança de tudo.
ASSISTENTE – Então vou coloca-la na coreografia do Bacanal de Herodes.
MÃE – Você está dizendo que minha filha tem cara de puta?
ASSISTENTE – Não, minha senhora. Falei que como ela é jovem e sabe dançar.
MÃE – Minha filha é uma estrela. Não vai ficar seminua dançando para um
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bando de marmanjo. Quero falar com o diretor. (Entra o Secretario de Cultura).
SECRETÁRIO DE CULTURA – Pois não?
MÃE – Você num é o filho da Secretaria?
SECRETÁRIO DE CULTURA – Sou sim.
MÃE – Me chame o diretor dessa joça.
SECRETÁRIO DE CULTURA – Sou eu.
MÃE – Então me chame o produtor.
SECRETÁRIO DE CULTURA – Também sou eu.
MÃE – Então vou ter que falar com o secretario de cultura.
SECRETÁRIO DE CULTURA – Também sou eu. Agora senhora, o que houve?
MÃE – Esse homem quer colocar minha filha para dançar nua em praça pública.
SECRETÁRIO DE CULTURA – Que história é essa?
ASSISTENTE – Eu falei que ela podia fazer parte da coreografia do bacanal de
Herodes.
SECRETÁRIO DE CULTURAE quem é sua filha?
JOVEM ATRIZ – Sou eu.
(O Secretario e a Filha se olha apaixonadamente, toca uma música romântica
melodramática)
SECRETARIO DE CULTURA (Apaixonado) – Você tem quantos? J
OVEM ATRIZ (Tímida) – Dezessete. Quase dezoito.
SECRETARIO DE CULTURA (Galante) – Tenho quinze, quase dezesseis.
SECRETÁRIO DE CULTURA E FILHA (Ao mesmo tempo) No completo no dia
12 de junho. Dia dos namorados.
SECRETARIO DE CULTURA (Galante) – Isso não pode ser apenas uma
coincidência, meu anjo.
MÃE – Meu anjo?
SECRETÁRIO DE CULTURA (Disfarçando) – Anjo Gabriel?
MÃE – Mas ele não é homem?
SECRETÁRIO DE CULTURA – Anjo não tem sexo.
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MÃE – Mas ele só aparece no começo.
SECRETÁRIO DE CULTURA – Exato. Sua filha vai abrir o espetáculo dando a
notícia pra Maria que ela espera o filho de Deus.
MÃE – E o que mais?
SECRETÁRIO DE CULTURA – Essa vai ser apenas a primeira aparição da sua
filha. Depois ela vai interpretar Maria Madalena.
MÃE – Outra puta!
SECRETÁRIO DE CULTURA – Não, minha senhora. Maria Madalena é uma das
personagens mais complexas de todo o texto. Escudeira fiel de Jesus. Com mais
falas que a própria Maria. E podemos ainda explorar os outros dons artísticos da
sua filha. Além de atuar ela vai cantar e dançar.
MÃE – Como assim?
SECRETÁRIO DE CULTURA – Vou escrever uma personagem exclusiva para
ela. Uma grande cantora que aparece no palácio de Herodes para cantar e dançar,
com um belo vestido brilhante, numa cena antes do Bacanal.
MÃE – Mas o vestido vai está coberto? Sem decotes?
SECRETÁRIO DE CULTURA – Cobertíssimo.
MÃE – Então para mim tudo bem.
SECRETARIO DE CULTURA (Para a Filha) – E para você minha estrela?
JOVEM ATRIZ (Tímida) – Não sei. Será que dou conta?
SECRETÁRIO DE CULTURA – Claro que sim. Tenho experiência na coisa e sei
quando vejo uma verdadeira artista na minha frente. E podemos marcar ensaios
extras.
JOVEM ATRIZ (Tímida) – Então tudo bem.
SECRETÁRIO DE CULTURA – Nos vemos nos ensaios. (Saem a Mãe e a Filha)
ASSISTENTE – Próximo!
CENA 6 – Eu já sou um ator
O Assistente espera pelo próximo candidato. Entre um jovem magricelo com
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roupas espalhafatosas.
ASSISTENTE – Próximo!
JOVEM ATOR – Sou eu!
ASSISTENTE – Qual o seu nome?
JOVEM ATOR (Desconfiado) – Pra que você quer o meu nome?
ASSISTENTE – Para preencher sua ficha.
JOVEM ATOR (Desconfiado) – Que ficha?
ASSISTENTE – Sua ficha.
JOVEM ATOR (Desconfiado) – Mas eu não quero dá o meu nome. Nem te
conheço.
ASSISTENTE – Como você quer fazer um teste se não quer nem dá o seu nome?
Vem cá, você tem quantos anos?
JOVEM ATOR (Desconfiado) – Pra que você quer saber minha idade?
ASSISTENTE – Isso aqui é um teste de elenco, como eu posso entrevistar você
sem saber o seu nome e sua idade?
JOVEM ATOR (Desconfiado) – Tenho quinze anos.
ASSISTENTE – Pensei que tivesse doze.
JOVEM ATOR (Debochado) – Meu querido, o que importa é minha idadecênica.
Minha professora do curso de teatro na internet disse que eu posso interpretar
personagens entre dez e vinte cinco anos.
ASSISTENTE – Curso de teatro pela internet?
JOVEM ATOR (Debochado) – Claro que sim. Eu já sou um ator. Já estudei. Fiz
uma oficina de teatro de três meses pela internet com uma professora renomada
de outro estado.
ASSISTENTE – Então, só estamos aceitando candidatos a partir de quinze anos.
JOVEM ATOR (Debochado) – Você acha que pode me esnobar sem antes
conhecer o meu talento? Você acha que é quem?
ASSISTENTE – O assistente de direção desse espetáculo?
JOVEM ATOR (Debochado) – Grande coisa. Você acha que pode me humilhar só
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porque você é o estagiário do diretor?
ASSISTENTE – Assistente.
JOVEM ATOR (Debochado) – Dá na mesma. Eu quero um papel!
ASSISTENTE – Como você quer um papel se você não quer falar nada? Olhe
estou sem tempo, você completa dezesseis ano até a estreia do espetáculo?
JOVEM ATOR (Debochado) – Pra que você quer saber? (Olha desconfiado)
Completo sim.
ASSISTENTE – Então vou colocar você como o filho de um dos apóstolos.
JOVEM ATOR (Irritado) – Filho? E eu lá vou fazer filho de ninguém.
ASSISTENTE – Você quer fazer o que?
JOVEM ATOR (Debochado) – Eu quero um papel de verdade!
ASSISTENTE (Irritado) – Tipo?
JOVEM ATOR (Debochado) – Jesus Cristo.
ASSISTENTE (Irritado) – Você acha que tem idade ou cacife para fazer Jesus?
JOVEM ATOR (Debochado) – Claro. Ou você ainda não entendeu que eu já sou
um ator. Eu já disse que fiz uma oficina de teatro na internet. Eu já estou apto a
subir nos palcos.
ASSISTENTE (Irritado) – Você mesmo não falou que sua “idade cênica” era de
dez aos vinte e cinco? Jesus tinha trinta e três.
JOVEM ATOR – Isso é apenas um detalhe. E eu posso sim. Minha professora
disse que eu sou ótimo! Eu era o nono melhor ator do meu curso, de uma turma
de oitenta pessoas. E eu já atuou. Faço vídeos na internet. Tenho quase mil
inscritos no meu canal.
ASSISTENTE – Lamento, já temos um ator para fazer o cristo. E você não tem
currículo. Próximo!
JOVEM ATOR (Gritando) – Quem é você para me diminuir? Ou você me da um
papel ou eu irei fazer um vídeo na internet falando mal de você!
ASSISTENTE – Boa sorte.
SECRETÁRIO DE CULTURA - que está acontecendo?
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JOVEM ATOR (Gritando) – Este seu empregado veio diminuir o meu trabalho.
Aguarde o processo.
ASSISTENTE – Na verdade ele...
SECRETARIO DE CULTURA (Interrompendo) – Na verdade ele pode ser útil!
Temos poucos jovens inscritos no elenco e ele tem um rosto agradável. Pode
pegar os dados dele (saí).
JOVEM ATOR (Debochado) – Viu? O seu diretor me quer no espetáculo. Ele disse
que tenho um rosto agradável. Minha professora do curso de teatro para internet
disse o mesmo.
ASSISTENTE – Muito bem. Preciso só dos seus dados e que você preencha o
termo de autorização de magem.
JOVEM ATOR (Desconfiado) – Que termo é esse?
ASSISTENTE – Todos do elenco precisam assinar o termo de autorização de
imagem, pois a prefeitura vai filmar e fotografar o espetáculo.
JOVEM ATOR (Desconfiado) – Eu não vou assinar nada. Eu não sei o que você
vai fazer com minha imagem por aí.
ASSISTENTE – Próximo!
JOVEM ATOR – Gostaria de negociar o meu cachê.
ASSISTENTE – Próximo!
CENA 7 – A Seleção
CENA CORTADA
CENA 8 – A Divina
ASSISTENTE – Próximo!
DIVINA – Sou eu!
ASSISTENTE – Possui alguma experiência.
DIVINA – Muitas. Faço teatro desde pequena. Faz fiz canto coral, sou mezzo-
soprano. (Solta um falsate). Canto em inglês e em francês fluentemente. Mas
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também posso cantar em português. Canto de tudo: Música erudita, samba, MPB,
POP, forro...eu posso cantar um pouco para você... (Começa a cantarolar)
ASSISTENTE – Certo, mas...
DIVINA (Interrompendo-o) – Também sei dançar. Fiz aula de ballet, dança
popular, me arrisco na dança do ventre.
ASSISTENTE – Mas você...
DIVINA (Interrompendo-o) – Como já disse falo inglês e francês fluentemente.
Atualmente estou estudando espanhol e italiano. Aprendi sozinha, pois sou
autodidata. Já falei inglês fluente desde os doze anos. O professor da escola uma
vez que ficou doente me botou para substituir ele. O francês foi assistindo a muito
filme pois eu amo a cultura francesa. Uma cartomante me disse uma vez que em
outra vida eu era francesa. Isso explica toda essa minha paixão pela França.
Apesar de ultimamente eu esteja assistindo muito filme espanhol e em italiano
para treinar meu sotaque. Afinal, eu sou quase uma poliglota. Uma cartomante
me disse uma vez que em outra vida eu era francesa. Sou ariana, com ascendente
em peixes, lua em aquário e minha vênus também é em áries. Me considero uma
multiartista muito versátil. Sei fazer comédia, drama, tenho uma excelente
consciência corporal, pois faço ioga em casa todos os dias de manhã. Eu acordo
bem cedo, faço um café, sem açúcar, pois quem realmente ama café e sabe
saborear um verdadeiro café não põe açúcar. É que nem vinho, você precisa saber
apreciar. Isso precisa de muita classe e muito conhecimento é claro.
ASSISTENTE – Próximo!
CENA 9 – ESPLENDOR
Divina saí e entra o ESPLENDOR.
ASSISTENTE – Qual seu nome?
ESPLENDOR – ESPLENDOR.
ASSISTENTE – Nome completo.
ESPLENDOR – Só ESPLENDOR mesmo. Nome artístico de batismo.
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ASSISTENTE – Você tem alguma experiência com atuação?
ESPLENDOR – Várias.
ASSISTENTE – Por exemplo?
ESPLENDOR – Sou locutor.
ASSISTENTE – De rádio?
ESPLENDOR – Não.
ASSISTENTE – De futebol? ESPLENDOR – Também não.
ASSISTENTE – De que afinal?
ESPLENDOR – De tanta coisa. Posso mostrar meu trabalho?
ASSISTENTE (Impaciente) – Estou entusiasmado.
ESPLENDOR (Com a voz exposta) – Atenção, atenção, baixou o preço minha
senhora e meu senhor. Venha hoje mesmo fazer o seu óculos nas Óticas do Povo.
Consulta grátis e a sua armação fica pronta em até uma hora.
ASSISTENTE (Impaciente) – Legal!
ESPLENDOR (Com a voz exposta) – Alô freguês, alô freguesa. O quilo do filé de
frango por apenas R$ 19,90, coxa e sobrecoxa também R$ 19,90. Linguiça de
frango também é R$ 19,90 o quilo. Coração de galinha por apenas...
ASSISTENTE (Impaciente) – R$ 19,90.
ESPLENDOR – Isso mesmo.
ASSISTENTE (Impaciente) – Rapidez e conformo. Pois bem, você tem interesse
em algum papel específico?
ESPLENDOR – Seria um sonho poder fazer o nosso senhor salvador JesusCristo.
Dizem até que pareço com ele.
ASSISTENTE (Impaciente) – Vai continuar sonhando. Próximo!
CENA 10 – O primeiro ensaio
O Assistente encontra com o elenco no pátio da escola para ensaiar.
ASSISTENTE – Boa tarde a todos. Estamos aqui hoje reunidos para nosso
primeiro ensaio da Paixão de Cristo de Poço de Barreiras.
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(Todos aplaudem)
ASSISTENTE – Antes de começarmos, vamos falar sobre a questão financeira.
JOVEM ATOR – Ótimo, ninguém me falou nada sobre o meu cachê.
ASSISTENTE – Como todos sabem, foi cobrado um valor de 70 reais para o teste
de elenco.
DIVINA – Valor? Onde estava escrito isso?
ASSISTENTE – No cartaz.
ESPLENDOR – Eu estou com o cartaz e não diz nada disso.
ASSISTENTE – O outro cartaz. Esse aí veio com defeito da gráfica.
DIVINA – Eu não vi esse cartaz.
ASSISTENTE (Irritado) – Mas estava no novo cartaz. (Calmo) E além do valor da
inscrição que serviu para cobrir todos os custos da seleção, é preciso pagar uma
taxa de montagem. Esse valor vai ajudar na produção do espetáculo como
cartazes de divulgação, pagar os trabalhadores que vão confeccionar o cenário.
Num valor total de 375 reais, fora os 70 reais da inscrição que devem ser pagos
até o final desta semana.
DIVINA – E sobre os figurinos como vai ser? Vamos...
ASSISTENTE – Ter que pagar. Vai ser cobrada uma taxa de 225 reais para
confecção do figurino.
ESPLENDOR – Tudo isso?
ASSISTENTE – Você quis dizer só isso? Vamos cobrar os tecidos, as agulhas, as
linhas, pagar as costureiras. Você sabe quanto se cobra para fazer um figurino
desses na capital?
ESPLENDOR – E se paga para trabalhar?
ASSISTENTE – Isso se chama arte. Fazemos por amor e não por dinheiro.
ESPLENDOR – Que cilada.
ASSISTENTE – E também temos um pequeno valor a ser cobrado para o lanche
de vocês no dia apresentação. 50 reais.
MÃE – Até o lanche vamos ter que pagar?
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ASSISTENTE – Não. Vocês que vão trazer. Cada um traz um água, um café, umas
frutas e um sanduiche.
DIVINA – E os 50 reais?
ASSISTENTE – Para pagar os custos do lanche. Vamos precisar de toalhas, copos
e uma mesa.
ESPLENDOR – Rapaz, 750 conto para fazer uma peça.
ASSISTENTE – Perdão, são 785 reais.
ESPLENDOR – Como assim?
ASSISTENTE – Mais 30 reais para pagar a luz.
MÃE – Que luz?
ASSISTENTE – Da escola
JOVEM ATOR – Mas a escola não cedeu o pátio?
ASSISTENTE – Sim de bom grato. Mas a escola tem um orçamento anual já bem
definido. Vamos usar a escola em horário extra, então esse gasto de energia não
estava previsto no orçamento. Se a escola colocar mais um centavo a auditoria
pode fechar as portas da escola e vários alunos vão ficar sem aula.
ESPLENDOR – Mas os alunos não receberam seis meses de férias?
ASSISTENTE – Exato. Tudo previsto no orçamento. Lembre-se de trazer o
dinheiro até o final da semana ou serão cortados da peça. Agora vou distribuir o
texto para vocês com os seus determinados personagens. (Começa a distribuir).
ESPLENDOR (Para Divina) – Rapaz, 785 conto. Vou ter que vender muita água
para pagar isso. Vai querer uma não, madame?
DIVINA – Vou ter que tirar todo o meu dinheiro que eu tinha guardado para
poder pagar essa taxa. Espero que valha a pena.
JOVEM ATOR – Isso não é nada. Na minha montagem da oficina de teatro na
internet esse valor não paga nem a matrícula.
ESPLENDOR – Teatro na internet? Isso existe?
JOVEM ATOR – Claro que sim. Para que não sabe. Eu já sou um ator. E como eu
ia falar antes de ser interrompido, na montagem do curso a taxa foi quase três mil
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reais. Meu pai pagou tudo.
ESPLENDOR – Três mil conto? Ta doido.
JOVEM ATOR – Meu querido. Teatro é pra quem pode. Não é para qualquer um.
Alguns podem, outros querem.
JOVEM ATRIZ – Mãe, a senhora não achou isso muito caro não? Dá para dois
meses de feira.
MÃE – Mas é o valor que eu vou investir na sua carreira. A gente se aperta mais
um pouco. Troca a carne por ovo.
ASSISTENTE – Todos com os seus papéis?
ESPLENDOR (Para Divina) – Você pegou quem?
DIVINA (Desanimada) – Maria.
ESPLENDOR – A virgem Maria?
DIVINA (Desanimada) – Não.
ESPLENDOR – Maria Madalena?
DIVINA (Desanimada) – Não.
ESPLENDOR – Que Maria?
DIVINA (Desanimada) – Maria Claudia.
ESPLENDOR – Quem?
DIVINA (Desanimada) – Maria Claudia Prócula. A esposa ou mulher de Pôncio
Pilatos.
ESPLENDOR – Olha só. Vai ser da realeza. Tem até nome. Maria Claudia Prócula.
DIVINA – E você?
ESPLENDOR – Pescador 1, Soldado 3 e o vendedor de cabra. Esse último tem até
fala.
JOVEM ATOR – Tem algo errado.
ASSISTENTE – O que houve?
JOVEM ATOR – Eu só tenho sete falas.
ASSISTENTE – E daí?
JOVEM ATOR – Eu fiz um curso de teatro pela internet. Eu mereço mais do que
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sete falas.
ESPLENDOR – Eu tenho quatro, quer trocar?
JOVEM ATOR – Mas eu já sou ator.
ASSISTENTE – Quem estiver achando ruim que vá embora. Agora já temos todos
com os seus papéis? Falta alguém.
MÃE – Falta.
ASSISTENTE – Quem?
MÃE – O Cristo.
ASSISTENTE – Ele já deve estar chegando.
CENA 11 – O nosso Cristo
(Entra o Secretário de Cultura e o Modelo)
SECRETÁRIO CULTURA – Boa tarde a todos. Quero apresentar a todos o nosso
grande Cristo.
MODELO – Oi turminha, tudo bem. Estou ansioso para trabalhar com cada um
de vocês. Sinto essa energia de cada um. Sinto que vai te uma troca maravilhosa.
ESPLENDOR (Para Divina) – Onde já se viu um Cristo branco, loiro e dos olhos
azuis.
DIVINA – Mas ele tem um rosto angelical.
ESPLENDOR – Angelical? Ele tem cara desses modelos de comercial de
margarina.
MODELO – Antes de começar eu queria falar um pouco do meu currículo. Sou
modelo. Já fiz diversas “publi”.
ESPLENDOR – “Publi?”
DIVINA – Publicidade.
MODELO – O mais famoso deles é o comercial da Margarina Bem Cremosa.
ESPLENDOR – Eu num disse!
MODELO – Também faço algumas “publi” na internet.
JOVEM ATOR – Eu também.
MODELO – Também fiz uma oficina de teatro pela internet.
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JOVEM ATOR – Eu também.
MODELO – Você não é aquele garoto que foi expulso por gritar com a professora?
JOVEM ATOR (Desconfiado) – Você deve estar me confundindo.
MÃE – A “bença” seu Cristo. Essa aqui é minha filha. Ela será a Maria Madalena.
Praticamente a sua esposa, se você não fosse o filho de Deus e nem tivesse
morrido.
JOVEM ATRIZ – Mãe!
MODELO – Um prazer divino em conhecer você.
MÃE – E ela também vai fazer o Anjo Gabriel.
MODELO (Para a Filha) – Você tem carinha de anjo, viu bebê. Quantos anos você
tem?
SECRETÁRIO DE CULTURA (Par o Modelo) – Ela ainda é de menor.
MODELO – Você também.
SECRETÁRIO DE CULTURA – Mas você é muito velho para ela.
MODELO – E você muito novo para ela.
MÃE – Seu Secretário queria ver com o senhor se posso dividir essas taxas no
cartão em doze vezes.
SECRETÁRIO DE CULTURA (Para o Assistente) – Taxas?
ASSISTENTE (Nervoso) – Um valor simbólico. Para ajudar na produção. S
ECRETÁRIO DE CULTURA – Mas eu não cobrei nenhuma taxa, a prefeitura...
ASSISTENTE (Nervoso) – Não fui eu, foram os atores que estão fazendo uma
vaquinha para comprar um lanche para os ensaios. (Para todos) Todos serão
ressarcidos das taxas após a montagem.
SECRETÁRIO DE CULTURA – Minha senhora. Posso chamar você de mãe? Pois
tenho um carinho enorme pela senhora e sua filha. Qualquer custo na produção
para vocês duas é por conta da casa.
ASSISTENTE (Nervoso) – Pois bem, vamos começar o ensaio.
MÃE – Ainda falta Maria.
SECRETÁRIO DE CULTURA – A nossa Maria chega nas próximas semanas. É a
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minha querida vozinha.
ESPLENDOR – Nepotismo até no teatro!
SECRETÁRIO DE CULTURA – Saiba que a minha santa vozinha, mãe de papai,
já interpreta o papel de Maria há 92 anos.
ESPLENDOR – Ela vai fazer Maria ou Matusalém?
SECRETÁRIO DE CULTURA – Mais respeito.
DIVINA – Se ela faz Maria há 92 anos ela começou com quantos?
SECRETÁRIO DE CULTURA – Aos 6 anos na Evangelização de Crianças da
Igreja da sua. Quando jovem ela continuou fazendo a mãe do Cristo no Grupo de
Jovens da mesma igreja e continua até hoje na Paixão de Cristo da Paróquia da
sua comunidade lá na Capital. Mas enquanto ela não chega preciso de alguém
para ler suas falas durante os ensaios. (Para a Filha), que tal você, minha alma
gêmea.
MÃE – Alma gêmea?
SECRETÁRIO DE CULTURA (Disfarçando) – Quis dizer, irmã gêmea. Fazemos
aniversário no mesmo dia.
JOVEM ATRIZ – Eu já tenho muito texto para decorar.
DIVINA – Eu posso ler Maria enquanto sua vozinha não chega.
SECRETÁRIO DE CULTURA – Tudo resolvido. Vamos começar os ensaios. A
arte nos espera.
CENA 12 – A reunião de emergência
A Secretária Geral se reúne com o Médico, o Delegado, a Diretora Escolar, o
Pastor, o Padre e o Secretário de Cultura.
SECRETÁRIA GERAL – Meus amigos, estamos aqui reunidos para essa reunião
de emergência. A Prefeita me informou que o Governador decidiu adiantar uma
das suas visitas a nossa cidade para a inauguração de uma importante obra.
DIRETORA ESCOLAR – Mas retiramos os alunos os professores estão de férias.
DELEGADO – Os presos estão trabalhando no cenário da peça
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MÉDICO – Os pacientes estão costurando os figurinos.
SECRETÁRIA GERAL – Precisamos de pelo menos um professor, um detento e
um doente.
PADRE – E porque não pegamos algum ator do espetáculo para se passar por
preso, paciente e professor?
DELEGADO – Que ideia absurda. PASTOR – Eu acho uma ideal fabulosa.
SECRETÁRIO DE CULTURA – Acho que já tenho as pessoas certas. Tem dois
atores no grupo que topariam tudo por um dinheiro. Posso oferecer 50 reais para
cada um.
SECRETÁRIA GERAL – Tudo isso? Ofereça 20 reais para cada e diga que vai
ajudar no currículo deles.
SECRETÁRIO DE CULTURA – Posso dizer que na verdade eles estão fazendo
um comercial da prefeitura. Que tudo não passa de uma grande encenação.
Assim eles não vão abrir a boca para o governador.
SECRETÁRIA GERAL – Muito bem meu filho. Você tem talento. Em breve
iremos lançar você para deputado estadual.
SECRETÁRIO DE CULTURA – Pois bem. Ao trabalho.
CENA 13 – A visita
O Secretário de Cultura encontra com o ESPLENDOR em frente à delegacia. Eles
esperam a chegada do Governador, da Secretária Geral e do Delegado.
SECRETÁRIO DE CULTURA (para ESPLENDOR) – Escute bem. Isso é um
comercial para a prefeitura. O Governador vai chegar e conversar com você. Vai
fazer umas perguntas e você responde exatamente o que tem no roteiro (entrega
um roteiro).
ESPLENDOR – Posso improvisar?
SECRETÁRIO DE CULTURA – De forma alguma. Você segue palavra por
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palavra. Não mude um virgula. Se ele fizer alguma pergunta que não esteja no
roteiro deixe que eu respondo.
Chegam o Governador, o Delegado e a Secretária Geral.
SECRETÁRIA GERAL – Senhor Governador esse é o nosso Secretário de Cultura.
SECRETÁRIO DE CULTURA – Boa tarde, senhor Governador. Boa tarde,
mamãe.
GOVERNADOR – É seu filho?
SECRETÁRIA GERAL (Tentando disfarçar) – Sim, sim. É meu garoto. Ele tem
uma ampla experiência com gestão cultural. Eu ia nomear outro nome para o
cargo, porém, a população fez um abaixo assinado pedindo para que ele
assumisse. Afinal, nossa cidade valoriza muito a cultura. E a voz do povo é a voz
de Deus.
GOVERNADOR – Quantos anos você tem?
SECRETÁRIO DE CULTURA – Quinze, quase dezesseis.
GOVERNADOR (Assustado) – Quinze?
SECRETÁRIA GERAL (Tentando disfarçar) – Quinze anos de experiência.
GOVERNADOR – E ele tem quantos anos afinal?
SECRETÁRIA GERAL (Enrolando) – Trinta e três, a idade de Cristo. Começou
muito novo. Aos dezoito.
GOVERNADOR – Parece ter quatorze.
ESPLENDOR – O que importa é a idade cênica.
GOVERNADOR – E você quem é?
DELEGADO – Esse é um dos nossos detentos.
GOVERNADOR – E porque ele não está na cela?
DELEGADO (Tentando disfarçar) – Temos um modelo prisional espelhado com
o de países da Europa. Damos o voto de confiança para o infrator para ele nos
provar que em breve estará apto para voltar a viver em sociedade.
GOVERNADOR – Qual seu nome meu rapaz?
ESPLENDOR (Com uma voz amedrontadora) – Todos me conhecem como o
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Triturador.
GOVERNADOR – Triturador? E qual foi o crime dele?
DELEGADO – Dirigiu uma vez bêbado.
ESPLENDOR (Com uma voz amedrontadora) – Após fugir de um assalto de um
banco.
GOVERNADOR – Assalto a banco?
ESPLENDOR (Ainda com a voz) – Isso. Deixei vinte e dois feridos e quarto
mortos na ocasião.
GOVERNADOR – Mortos?
ESPLENDOR (Ainda mais amedrontador) – Isso mesmo. Atirei em todos que
apareceram no meu caminho. Menos o policial que tentou me abordar. Para ele
dei uma morte lenta e dolorosa. Ele parecia com o meu padrasto. E eu odiava
meu padrasto. Eu o matei aos oito anos e depois toque fogo na minha casa. Então
depois de fugir sai pelo mundo procurando e matando todos que se parecem com
meu padrasto. Ganhei o nome de Triturador pois trituro minhas vitimas com um
triturador de carne e vendo no mercado clandestino.
SECRETÁRIO DE CULTURA – Ele está brincando. É um rapaz de bem. Que
sonha em ser comediante.
ESPLENDOR (Ameaçador) – Eu tenho cara de quem faz brincadeira? (Para o
Governador) Tenho, senhor Governador? Alias, você se parece muito com meu
padrasto. Talvez você mereça ter o mesmo final que ele.
DELEGADO – Ele está confuso. Está delirando por causa da abstinência ao álcool.
O Doutor falou que é assim mesmo. As primeiras vinte e quatro horas acontece
essas confusões. Depois ele já vai está curado.
SECRETÁRIA GERAL – Próxima parada, o hospital.
(Se dirigem ao hospital e encontram o Médico e a Divina que tem o braço enfaixado).
MÉDICO – Boa tarde, secretária. Boa tarde Governador.
GOVERNADOR – Boa tarde, doutor. Quem é essa?
MÉDICO – Uma das nossas pacientes. Fez questão de falar com o senhor. Disse
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que é uma eleitora do senhor.
DIVINA (Com sotaque francês) – Jamais “vortaria em uma crápula com a
senhor”!
GOVERNADOR – Mais o que é isso?
MÉDICO – Ela está nervosa. Esperou o senhor a manhã toda. Eu disse para ela
ficar de repouso, mas ela insistiu.
GOVERNADOR – E o que ela tem?
MÉDICO – Deu um jeito no braço enquanto...
DIVINA (Interrompendo) – Enquanto eu treinava para o meu número.
GOVERNADOR – Número?
DIVINA (Com sotaque francês) – Sim. “Je suis une grande actrice francesa”.
GOVERNADOR – A senhora é francesa?
DIVINA (Com sotaque francês) – Sim! “De France!”
GOVERNADOR – E o que a senhora faz aqui?
DIVINA (Com sotaque francês) – “Je suis vim au Brésil para pesquisar sobre
minha nueva personagem. Mas o navio que eu embarguei estava tomado por
uma doença mortal e muito contagiosa. Todos morreram e eu sobrevivi graças a
minha inteligência. Fiquei a deriva em alto mar durante semanas. Bebi minha
própria urina para não morrer de sede. Mas ao chegar em terra descobri que
também estava contaminada!
GOVERNADOR – Contaminada?
DIVINA (Com sotaque francês) – Altamente contaminada. O senhor
provavelmente também já se contaminou ao chegar perto de mim. Alias, toda
cidade está contaminada. Mas os cientistas descobriram que sou inume a doença.
E eles estão usando meu sangue e minha urina para criar um antidoto.
GOVERNADOR – Antidoto?
SECRETÁRIO DE CULTURA (Disfarçando) – Sim, sim. Ela acabou de contar um
trechinho do seu monólogo que ela veio encenar na cidade. “A atriz em alto mar”.
DIVINA (Em francês) – “Actrice en haute mer!”
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SECRETÁRIO DE CULTURA (Ludibriando) – Um espetáculo que já rodou os
sete cantos do mundo e veio fazer uma breve temporada na minha cidade.
DIVINA (Sotaque francês) – “Un espetáculo que mergulhei tanto na construção
da minha persona que enlouqueci e hoje ma vie se mistura com a arte. No sei
mais o que é de mim e nem o que é da arte”.
SECRETÁRIA GERAL – Acho que devemos ir visitar a escola.
DIVINA (Sotaque francês) – Non. Antes o senhor governador vai me ouvir
cantar!
SECRETÁRIA GERAL – Depois ele lhe escuta. Vamos indo senhor Governador.
(Seguem até a escola onde encontram a Diretora Escolar e o ESPLENDOR que usa um
bigode falso)
DIRETORA ESCOLAR – Boa tarde, senhor Governador. Seja bem-vindo a nossa
escola.
SECRETÁRIA GERAL – Senhor Governador, essa é a diretora da nossa escola.
GOVERNADOR – (Para o Secretário de Cultura) e esse quem é? É um dos
professores.
GOVERNADOR – Professor de que?
SECRETÁRIO DE CULTURA – De ciências.
ESPLENDOR (Com uma voz embostada) – De ciências quântica experimental
holística.
GOVERNADOR – Ciências o que?
ESPLENDOR (Com uma voz embostada) – De ciências quântica experimental
holística. Uma área das ciências exatas humanas biológicas que tratam sobre os
grandes mistérios do universo.
SECRETÁRIO DE CULTURA (Disfarçando) – Ele ensina ciências básica para
alunos.
ESPLENDOR (Com uma voz embostada) – Sou Doutor em Ciências
Antropológicas pela Universidade de Harvard. Pós-Doutor em Ciências Ocultas
e Magia pela Universidade de “Massachute.”
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GOVERNADOR – Você não parece com aquele detento? O Esmagador?
ESPLENDOR (Com a voz normal) – Você quis dizer o Triturador?
GOVERNADOR – Esse.
ESPLENDOR (Com uma voz embostada) – Eu jamais poderia ser o grande serial
killer o Triturador. Afinal, eu tenho bigode e ele não.
(Entra a Divina com uma peruca)
DIVINA (Interrompendo) – Oh, pardon, pardon! Desculpe a minha demora.
GOVERNADOR – Quem é a senhora?
DIVINA (Sotaque francês) – “Je suis a professora de francês vinda direto da
França”.
SECRETÁRIO DE CULTURA (Falando baixinho para a Divina) – O que você está
fazendo aqui? Isso não foi combinado.
DIVINA (Para o Secretário) – Ele vai ter dois papeis e eu só um?
GOVERNADOR – Você parece a paciente do hospital.
DIVINA (Sotaque francês) – “Impossible, temos cabelos diferrente”
GOVERNADOR – E a mesma voz.
DIVINA (Irritada) – Mesma voz? “Ela é do norte da França e Je suis de sul de
France”.
GOVERNADOR – As senhoras são idênticas.
DIVINA (Sotaque francês) – “Clarro, nous sommes irmãs.
GOVERNADOR – Gêmeas?
DIVINA (Sotaque francês) – Trigêmeas, na verdade.
GOVERNADOR – Ela não era do norte da França e você do sul?
DIVINA (Sotaque francês) – Nossa mãe nos deu a luz na fronteira do norte e sul
da França. Ela nasceu no Norte e eu no sul. Nossa irmã nasceu na linha de
fronteira. Já já ela vai aparecer por aqui.
SECRETÁRIO DE CULTURA (Falando baixinho para a Divina) – Não vai não.
GOVERNADOR – Então a senhora ensina francês?
DIVINA (Sotaque francês) – E música. O senhor quer me ouvir cantar?
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SECRETÁRIO DE CULTURA – Nada disso. Bem a visita acabou. Vamos embora.
ESPLENDOR (Para Divina) – Vamos embora, meu amor. (Segurando Divina pelo
quadril).
GOVERNADOR – Amor?
ESPLENDOR – Somos casados.
DIVINA – Não somos.
ESPLENDOR (Para Divina) – Você precisa manter a personagem.
GOVERNADOR – São casados?
ESPLENDOR – Quase.
DIVINA – Somos noivos.
(ESPLENDOR dar um beijo na bochecha de Divina e leva um tapa)
SECRATÁRIA GERAL – Bem, acho que estar na hora de irmos embora. A visita
acabou.
DIVINA – Mais o Governador nem meu ouviu cantar.
SECRATÁRIA GERAL – O Governador precisa ainda passar no meu gabinete.
DIVINA – Onde vai ser recebido pela minha trigêmea que é cantora de ópera
francesa.
SECRATÁRIA GERAL – Fica para um outro momento. (Saem a Secretária, O
Governador e Diretora Escolar).
SECRETÁRIO DE CULTURA – Vocês quase estragaram tudo.
ESPLENDOR – Somos atores. Nosso oficio é improvisar.
SECRETÁRIO DE CULTURA – Era só seguir o roteiro.
DIVINA – O seu roteiro estava péssimo. Não tenho informações sobre a minha
personagem. Então acrescentei os detalhes para dar mais vida e dramaticidade.
SECRETÁRIO DE CULTURA – Dramaticidade?
ESPLENDOR – E o nosso cachê?
SECRETÁRIO DE CULTURA – Toma aqui. Vinte reais para cada um.
ESPLENDOR – Fizemos dois papeis. Então fica quarenta reais para cada.
DIVINA – E o dinheiro da peruca.
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ESPLENDOR – E do bigode.
DIVINA – E do vestido.
SECRETÁRIO DE CULTURA – Que vestido?
DIVINA – Da terceira irmã. A cantora de ópera.
SECRETÁRIO DE CULTURA – Mas ela nem apareceu.
DIVINA – E o dinheiro do almoço. Trabalhamos dois turnos.
SECRETÁRIO DE CULTURA (Irritado) – Está bem. Vamos embora, temos que ir
para o ensaio.
CENA 14 – O beijo de Judas
O Secretário de Cultura, o ESPLENDOR e a Divina chegam ao ensaio. O Modelo
e a Filha estão ensaiando uma cena.
MODELO (melodramático) – Oh, Madalena, minha querida. Porque estais aqui
diante de mim e embaixo desta lua brilhante que nos alumina com a sua beleza.
E esses soldados o que fazem aqui? Vieste com eles para entregar-me para meus
inimigos? Iras me trair com um beijo que selará a tua traição?
JOVEM ATRIZ (melodramática) – Oh, Jesus, Jesus. Forçada eu fui, a vim aqui em
tua presença, embaixo desta lua que nos banha com a luz mais bela de todas as
noites. Forçada fui! Para que aqui diante de ti, eu venha trair a fidelidade que
jurei que teria por ti. Recebe de mim esse beijo. Esse beijo que selará a minha
traição e te levará para a tua sina e teu destino que se cumprirá após esse beijo.
Beijaríeis não tua face e sim teus lábios nunca antes tocado por outra pouca a não
ser pela minha que em breve o beijareis. (Se inclinam para beijar).
SECRETÁRIO DE CULTURA (interrompendo) – O que está acontecendo aqui?
ASSISTENTE – O beijo de Jesus e Maria Madalena!
SECRETÁRIO DE CULTURA (Nervoso) – Beijo? Que beijo?
ASSISTENTE – Eu quis dar uma adapta no texto. Deixa-lo mais moderno. Invés
de Jesus ser beijado por Judas, pensei comigo: E se Judas forçasse Maria
Madalena beijar o Cristo? As pessoas gostam de romance, reviravoltas.
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SECRETÁRIO DE CULTURA (Nervoso) – Que coisa mais absurda.
PADRE – Ele teve a minha autorização.
PASTOR – E a minha também.
PADRE – Não ia ficar nada bem um homem beijando outro homem.
SECRETÁRIO DE CULTURA – Mas o Cristo foi traído por Judas com um beijo.
PADRE – Isso foram em outros tempos. A paróquia condenou o beijo de dois
homens.
PASTOR – Nossa igreja também.
MÃE – Eu também aprovei. No começo eu fiquei preocupada. Afinal, minha filha
nunca beijou outro homem. Mas agora ela é uma artista. Precisa passar por esse
desafio e mostrar que é uma atriz profissional. E também não acho boa essa
história de Judas beijando Jesus.
ASSISTENTE – Por isso pensei numa versão mais moderna da Paixão de Cristo.
Judas força Maria Madalena a beijar o Cristo na frente dos Soldados para evitar
que o Cristo seja preso, mas no final ele não cumpre sua palavra. Fica muito mais
contemporâneo. E também não ia ficar nada bom um homem beijando outro
homem no palco. No teatro não tem essas coisas.
SECRETÁRIO DE CULTURA (Para a Jovem Atriz) – E você concordou com isso?
JOVEM ATRIZ (tímida) – Eu achei que ficou mais moderno.
SECRETÁRIO DE CULTURA – E você vai beijar outro homem?
JOVEM ATRIZ (tímida) – Minha mãe insiste. Diz que se eu quero ser uma atriz
de verdade eu preciso fazer isso.
SECRETÁRIO DE CULTURA – Eu entendo. (Para todos) Muito bem. A cena do
beijo de Jesus e Maria Madalena fica. Mas o beijo só vai acontecer no dia da peça.
Acabei de voltar do consultório do Médico e ele falou que tem uma gripe muito
forte assolando na nossa cidade e proibiu até segunda ordem qualquer tipo de
proximidade. Por isso os atores precisam ficar um metro de distância um dos
outros.
MODELO (para o Secretário) – Gripe? Sei bem. Você está é com medo de que ela
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se apaixone por mim.
SECRETÁRIO DE CULTURA – Essa garota é tudo que sempre sonhei. Não é
como as outras que eu conheci. Ela é ingênua, verdadeira, meiga.
MODELO – Mulher é tudo igual.
SECRETÁRIO DE CULTURA – Essa não.
MODELO (Sarcástico) – Está bem, senhor diretor.
SECRETÁRIO DE CULTURA (Sarcástico) – Está bem, Cristo. Vamos começar a
cena de Maria e o Anjo Gabriel. Vovó, pode entrar.
(Entra a Maria Idosa)
JOVEM ATRIZ (Melodramática) – Oh, Maria.
A Maria fica muda.
JOVEM ATRIZ (Mais alto) – Oh, Maria... (pausa) Oh Maria!
MARIA (Ranzinza) – O que é?
JOVEM ATRIZ (Melodramática) – Oh, Maria...sou eu!
MARIA (Ranzinza) – Eu quem?
JOVEM ATRIZ (Melodramática) – O Anjo Gabriel, Maria. Vim até ti, Maria. Te
dá uma notícia, Maria. Uma notícia que vai mudar a tua vida, Maria. Tu, Maria.
Serás mãe, Maria. Mãe, do filho de Deus, Maria.
MARIA (Ranzinza) – Então que seja feita a... seja feita a... Então...
SECRETÁRIO DE CULTURA – Então seja feita a vontade de Deus.
MARIA (Gritando) – Eu sei porra. Quer vim fazer no meu lugar?
SECRETÁRIO DE CULTURA – Calma vovó. Só pensei que você tivesse
esquecido a fala.
MARIA (Gritando) – Eu fiz esse papel a minha vida toda. Eu Maria por mais
tempo que a verdadeira Maria foi mãe de Judas.
SECRETÁRIO DE CULTURA – De Jesus.
MARIA (Ranzinza) – Que seja.
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CENA 15 – A paixão de Cristo de Poço das Barreiras
O Ator e a Atriz entram em cena.
ATOR – Se passaram dias.
ATRIZ – Se passaram semanas. A
TOR – E chegou o grande dia.
ATRIZ – O momento mais esperado dessa farsa.
ATOR E ATRIZ – A Paixão de Cristo de Poço das Barreiras.
(Saem e se escondem atrás da lona)
ESPLENDOR – Olha o sanduiche de Mortadela. Olha o sanduiche mais gostoso
de todos os tempos. Olha o sanduiche. Caiu, caiu o preço.
ASSISTENTE – O que você está fazendo?
ESPLENDOR – Vendendo um sanduiche para arrecadar uns trocados.
ASSISTENTE – Você não pode vender aqui.
ESPLENDOR – E o povo vai comer o que? Vocês cobraram taxa disso e daquilo.
Prometeu que ia ter lanche para o elenco e até agora nada.
ASSISTENTE – O fornecedor atrasou o pedido.
ESPLENDOR – Atrasou... sei. Você pensa que me engana. Mas sei que você
comeu foi o dinheiro.
ASSISTENTE – Que absurdo.
ESPLENDOR – Ou você deixa eu vender, ou eu conto pra todo mundo que você
tá comendo o dinheiro!
ASSISTENTE – Está bem...
MODELO – E aí cara? Tá quanto esse sanduba?
ESPLENDOR – Dez reais.
MODELO – Pô cara, vou querer dois. (pega o sanduíche e sai)
DIVINA – Vou querer um.
ESPLENDOR – É três reais.
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DIVINA – Oxe, e não era dez reais?
ESPLENDOR – Pra esse Cristo dos olhos azuis é dez.
VOZES – Vou querer também!
(ESPLENDOR distribuir os sanduiches para o elenco).
ASSISTENTE – Vamos todos para o camarim. Vai começar a peça.
MÃE – Que camarim? Aquela cortina que vocês botaram com um espelho?
JOVEM ATOR – Eu pensei que teria um camarim só para mim com direito a
maquiador.
MÃE – E vocês pensam que eu sou besta? Esses figurinos são as roupas que a
igreja tinha arrecado no natal passado para doação.
ASSISTENTE – Eu não sei do que a senhora está falando.
MÃE – Esse vestido que a minha filha está usando é o mesmo que ela usou na
festa de quinze anos dela.
ASSISTENTE (Nervoso) – Nos reaproveitamos algumas poucas peças de roupa
para contribuir no figurino?
MÃE – Algumas? Foi é tudo. Tem até as roupas que o Padre usava nas missas.
ASSISTENTE (Nervoso) – Minha senhora, o espetáculo vai começar. Depois
discutimos isso.
(Entram o Ator e a Atriz e montam um pequeno palco de teatro de sombras. Toda
encenação da Paixão de Cristo será dentro desse palco. Entra a Jovem Atriz
vestida de Anjo Gabriel e a Maria Idosa).
JOVEM ATRIZ (Melodramática) – Oh, Maria.
A Maria fica muda.
JOVEM ATRIZ (Mais alto) – Oh, Maria... (pausa) Oh Maria!
MARIA (Ranzinza) – O que é?
JOVEM ATRIZ (Melodramática) – Oh, Maria...sou eu!
MARIA (Ranzinza) – Eu quem?
JOVEM ATRIZ (Melodramática) – O Anjo Gabriel, Maria. Vim até ti, Maria. Te
dá uma notícia, Maria. Uma notícia que vai mudar a tua vida, Maria. Tu, Maria.
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Serás mãe, Maria. Mãe, do filho de Deus, Maria.
A Maria fica calada.
JOVEM ATRIZ (Mais alto) – Tu, Maria. Serás mãe, Maria. Mãe, do filho de Deus,
Maria.
MARIA (Ranzinza) – Já ouvi, ora diabo. (Saem)
CENA 16 – A coxia
(ESPLENDOR aparece do lado de fora do teatro de sombras e encontra com
Divina que parece apreensiva).
ESPLENDOR – Você está bem? Quer uma água?
DIVINA (Nervosa) – Não quero comprar sua água.
ESPLENDOR – Eu não estou vendendo. Estou oferecendo. Você parece um pouco
tensa.
DIVINA – Estou ansiosa! Essa é minha grande oportunidade de fazer um papel
de verdade.
ESPLENDOR – Pensei que você já fosse atriz profissional.
DIVINA – Estou lutando para isso. Meu sonho é ser uma grande atriz.
ESPLENDOR – E de onde veio esse sonho?
DIVINA – Desde pequena. Eu assistia novela e dizia para minha mãe que um dia
queria ser artista. Mas uma vez na excursão da escola fomos ao teatro e eu me
apaixonei por tudo aquilo. As luzes, o figurino, a maquiagem. Ver uma atriz
tão de perto, ao vivo da minha frente é bem mais emocionante do que pela TV.
Eu sentei na primeira fila. Conseguia sentir a respiração dela. Desde então eu
pedia para minha mãe me levar todos os domingos ao teatro. Comecei aulas na
minha escola e sempre fazia parte das apresentações que a professora de artes
criava.
ESPLENDOR – E o que mais?
DIVINA – EU AMAVA MUSICAIS. Mas como não tínhamos dinheiro parar
pagar aulas de canto eu entrei para o coral da igreja.
ESPLENDOR – Eu também fiz tempo do coral da igreja.
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DIVINA – Você?
ESPLENDOR – Sim. Minha mãe era voluntária na igreja e me obrigou a entrar.
No começo eu achava tudo muito chato, mas com o tempo comecei a me
apaixonar por aquilo. Eu era criança ainda. Meu pai tinha uma locadora e sempre
levava uma dúzia de fitas para a gente assistir no final de semana.. Minha irmã
quando completou quinze anos ganhou uma câmera digital. Eu, ela e meu irmão
usávamos para fazer filmes caseiro.
DIVINA – MEU SONHO É SER ATRIZ
ESPLENDOR – Você vai conseguir.
ASSISTENTE (Gritando) – É a sua vez.
ESPLENDOR – É você.
DIVINA – Obrigado pela conversa, estou bem mais calma. Boa sorte para nós
dois. Ou como dizem no teatro: merda!
CENA 17 – MARIA
(De volta ao teatro de sombras)
ASSISTENTE (Gritando) – Próximo! Próximo!
JOVEM ATRIZ (Melodramática) – Oh, Maria. (A Maria fica muda)
JOVEM ATRIZ (Mais alto) – Oh, Maria... Maria, você conceberás o filho de Deus,
Maria. Você Maria, foi a escolhida por Deus para conceber o salvador da
humanidade, Maria.
MARIA (Ranzinza) – Então que seja feita a...
(Maria fica parada)
JOVEM ATRIZ – Maria?
ASSISTENTE (Gritando em off) – Maria!
(A Jovem Atriz toca em Maria que cai dura e morta no chão)
MÃE (off) – Ave Maria! Maria morreu!
SECRETÁRIO DE CULTURA (off) – Vovó?
ASSISTENTE (off) – Alguém entra lá e faz alguma coisa.
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ESPLENDOR – Então José e Maria viajaram para Belém, mas no meio dessa
viagem Maria deu à luz ao menino Jesus, e numa estribaria simples e humilde,
veio ao mundo o filho de Deus. (Para o Assistente) e agora o que eu faço?
ASSISTENTE (off) – Improvisa
(Aparecem na coxia o Secretário, Divina e o Assistente)
SECRETÁRIO DE CULTURA – Minha vó, morreu.
DIVINA – Morreu em cena. Fazendo aquilo que amava. Queria ter uma morte
assim.
ASSISTENTE – O que a gente faz?
SECRETÁRIO DE CULTURA – Quem se importa. Minha vozinha morreu.
ASSISTENTE – E a peça?
SECRETÁRIO DE CULTURA – Não sei. Diz que a Maria morreu.
ESPLENDOR (No teatro de Sombra) – E então, Maria morreu. Deixando seu
único filho. O filho de Deus, sozinho para cumprir seu destino.
SECRETÁRIO DE CULTURA – Mas Maria não pode morrer.
ESPLENDOR (No teatro de Sombra) – Mas Maria não podia morrer sem antes
ver seu filho cumprir o seu destino.
ASSISTENTE – Mas morreu.
ESPLENDOR (No teatro de Sombra) – Mas morreu.
SECRETÁRIO DE CULTURA – Não podemos fazer uma Paixão de Cristo sem
Maria.
ESPLENDOR (No teatro de Sombra) – Mas o que seria da vida de Cristo sem
Maria?
DIVINA – Eu posso fazer Maria.
ASSISTENTE – Você?
DIVINA – Eu tenho todo o texto decorado. Eu fiz Maria nos ensaios enquanto a
Maria não chegava.
SECRETÁRIO DE CULTURA – Vá trocar de roupa.
ESPLENDOR (No teatro de Sombra) – Então Maria ressuscitou no terceiro dia.
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Eis o primeiro milagre do nosso senhor Jesus Cristo.
ASSISTENTE – Cadê o Cristo?
MÃE – Está no banheiro. Está com caganeira. O elenco todo está com caganeira.
Comeram sanduiche de mortadela estragado. A maionese ta vencida.
ESPLENDOR (off) – Meu sanduiche não está estragado. Pode olhar a validade da
maionese. A embalagem está dentro do isopor. Até dezembro.
MÃE – Dezembro do ano passado. Tu comprou maionese vencida. Vai todo
mundo se acabar de cagar.
ASSISTENTE – E agora que vai fazer o Cristo?
JOVEM ATOR – Eu! Eu trouxe meu próprio lanche.
ASSISTENTE – Qualquer um menos você.
DIVINA – Ainda bem que não comi meu sanduiche.
ESPLENDOR (off) – Eu faço o Cristo. Agora preciso trocar de roupa.
ASSISTENTE – Vá se trocar urgente! Está na hora da Santa Ceia. (ESPLENDOR
vai trocar de roupa)
SECRETÁRIO DE CULTURA – E o que a gente faz enquanto o Cristo não chega?
DIVINA – Eu posso cantar!
ASSISTENTE – Não!
DIVINA – Em francês.
SECRETÁRIO DE CULTURA – Pelo amor de Deus. Precisamos de alguém em
cena.
(Divina entra no teatro de sombras e começa a cantar Ave Maria)
ASSISTENTE – O que ela está fazendo?
SECRETÁRIO DE CULTURA – Não sei, mas até que ela tem uma bela voz.
ASSISTENTE – Verdade. Ela realmente canta bem
(Divina saí e entra ESPLENDOR e os Apóstolos)
ESPLENDOR (melodramático) – “Em verdade, em verdade vos digo que um
dentre vós me trairá”.
JOVEM ATOR (melodramático) – Acaso sou eu Mestre? Serei eu o traidor?
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ESPLENDOR (melodramático) – Não... É aquele a quem eu der um pedaço de...
JOVEM ATOR (melodramático) – Tem certeza que não sou eu mestre? Poderia
ser eu. Eu sinto que pode ser eu. Talvez seja eu. Há de ser eu.
ESPLENDOR (melodramático) – Não! É aquele a quem eu der um pedaço de pão
molhado.
(Saem)
ASSISTENTE – Agora é a cena do beijo de Jesus e Maria Madalena.
SECRETÁRIO DE CULTURA – E cada o novo cristo?
JOVEM ATRIZ – Ele foi se trocar para a cena do Bacanal de Herodes.
SECRETÁRIO DE CULTURA – Mas o Bacanal de Herodes é depois.
JOVEM ATRIZ – No texto diz que é a próxima
ASSISTENTE – Acho que eu esqueci de atualizar o texto.
JOVEM ATRIZ – E agora?
ASSISTENTE (Para o Secretário) – Entra você e faz o Cristo.
SECRETÁRIO DE CULTURA – Eu?
ASSISTENTE – Você fica de costas e bota essa peruca (entrega uma peruca)
JOVEM ATRIZ – Tem um figurino reserva aqui.
SECRETÁRIO DE CULTURA – Mas, mas...
ASSISTENTE – Mas nada. É a sua vez de brilhar.
(Entram a Jovem Atriz e o Secretário no teatro de sombras)
SECRETÁRIO DE CULTURA (nervoso) – Oh, Madalena, minha querida. Porque
estais aqui diante de mim e embaixo desta lua brilhante que nos alumina com a
sua beleza. E esses soldados o que fazem aqui? Vieste com eles para entregar- me
para meus inimigos? Iras me trair com um beijo que selará a tua traição?
JOVEM ATRIZ (Apaixonada) – Oh, Jesus, Jesus. Forçada eu fui, a vim aqui em
tua presença, embaixo desta lua que nos banha com a luz mais bela de todas as
noites. Forçada fui! Para que aqui diante de ti, eu venha trair a fidelidade que
jurei que teria por ti. Recebe de mim esse beijo. Esse beijo que selará a minha
traição e te levará para a tua sina e teu destino que se cumprirá após esse beijo.
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Beijaríeis não tua face e sim teus lábios nunca antes tocado por outra pouca a não
ser pela minha que em breve o beijareis. (Se beijam apaixonadamente).
SECRETÁRIO DE CULTURA (Para a Jovem Atriz) – Me sair bem?
JOVEM ATRIZ (Apaixonada para o Secretário) – Você se saiu ótimo. E eu preciso
de contar algo. Esse foi o meu primeiro beijo.
SECRETÁRIO DE CULTURA (Apaixonado) – O meu também. Você gostaria de
ser a minha namorada?
JOVEM ATRIZ (Apaixonada para o Secretário) – Pensei que você nunca fosse
perguntar.
(Saem. Entram o ESPLENDOR como Jesus e Divina como Maria. Jesus é pregado
na cruz)
DIVINA (Melodramática) – Meu filho! Carne de minha carne. O que fizeram
contigo.
ESPLENDOR (Melodramático) – Mãe, não chores. Em breve voltarei para a casa
de meu pai. (Olha para o céu). Pai, perdoai. Eles não sabem o que fazem.
(Começa a chover, sons de relâmpagos)
ESPLENDOR (Melodramático) – Pai, em tuas mãos entrego o meu...
(A cruz quebra e o ESPLENDOR caí no chão. A chuva fica mais forte. Trovoadas.
O cenário começa a ser destruído pela forte chu)
MÃE – Ave Maria, foi tanta blasfêmia que Deus está castigando!
JOVEM ATOR – Vai ter um dilúvio.
SECRETÁRIO CULTURA – Salve-se quem puder.
(Vemos pelo teatro de sombras todos correndo, gritando e indo embora. Divina
ajuda o ESPLENDOR a se levantar da Cruz)
ESPLENDOR – Você não foi embora?
DIVINA – Eu não podia deixar o Cristo morrer afogado.
ESPLENDOR – Fizeram uma cruz com madeira podre.
DIVINA – A chuva derrubou todo o cenário.
ESPLENDOR – Foi um fiasco.
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DIVINA – Na verdade não. Foi divino. Pelo menos eu pude cantar para o público.
E pela primeira vez eu sentir que todos pararam para me ouvir.
ESPLENDOR – Você tem uma bela voz.
DIVINA – E você soube improvisar muito.
ESPLENDOR – Quando se leva uma vida como a minha. Improvisar é a primeira
regra para sobreviver nesse mundo tão louco.
DIVINA – Sério. Você foi esplendido. Dava para ver o brilho nos seus olhos
quando você estava em cena.
ESPLENDOR – Eu podia sentir a emoção na sua voz em cada palavra que você
dizia.
DIVINA – Eu me sentir divina.
ESPLENDOR – Você é divina.
DIVINA – E agora o que a gente faz?
ESPLENDOR – Primeiro a gente procura algum lugar para se esconder dessa
chuva.
DIVINA – E depois?
ESPLENDOR – Quando a chuva passar a gente decide. Está bom para você?
DIVINA – Parece divino.
ESPLENDOR – Me parece esplendido.
(Fade out)
CENA 18 – Feliz para Sempre!
(Entram o Ator e a Atriz mascarados)
ATOR 1 – Essa foi a trágica história da Divina e do ESPLENDOR na Paixão de
Cristode Poço das Barreiras.
ATRIZ 1 – Mas a história ainda não acabou!
ATOR 2 – Não?
ATRIZ 2 – Claro que não. O público precisa saber o que aconteceu com os
personagens.
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ATOR 3 – Mas o povo está cansado. Quer ir para casa.
ATRIZ 3– Eles aguentam mais um pouco. Depois da tempestade destruir o
cenário da Paixão de Cristo, o Assistente do Secretário fugiu com o dinheiro que
pegou do elenco.
ATOR 2– A população também ficou revoltada com o fiasco que foi a Paixão de
Cristo e chamou os jornais.
ATRIZ 3 – Poço das Barreiras virou notícia no país inteiro. Escândalo atrás de
escândalo.
ATOR 1 – Descobriram toda as falcatruas que os poderosos fizeram na
cidadecom a Paixão de Cristo.
ATOR 2 –A Secretária Geral fugiu com a dona Prefeita e não se teve mais notícias
dela.
ATRIZ 1– O seu filho, o Secretário da Cultura, assumiu a prefeitura de virou o
prefeito mais novo do Brasil com apenas 16 anos.
ATOR 3 – E pode isso?
ATRIZ 2– Aqui Poço de Barreiras pode tudo.
ATOR 3– O Delegado não conseguiu escapar e foi preso.
ATRIZ 3– E preso e para não apanhar dos detentos que ele prendeu ta tendo
quelimpar todas as privadas da delegacia.
ATOR 1– O Padre fugiu com o seu “primo”, e outro “primo” apareceu para
cuidar da paróquia.
ATRIZ 1 – O Pastor deixou a igreja nas mãos da mulher, a Missionária, para
virarDeputado Federal e ter imunidade parlamentar.
ATOR 2 – O Médico perdeu os direitos de exercer a Medicina, pois nunca
terminou a faculdade e tá trabalhando como limpador de penico no posto de
saúde.
ATRIZ 2 – O Jovem Ator virou uma celebridade na Internet. E a Jovem Atriz
fugiucom o Cristo dos olhos azuis. Ela na verdade estava grávida dele.
ATOR 3– Oxe, e ela não disse para o Secretário que aquele tinha sido o seu
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primeiro beijo?
ATRIZ 3 – Primeiro beijo? Aquela ali se fingia de santa. Mas já tinha passado o
rodo na cidade toda.
ATOR 2 – E foi? Se eu soubesse tinha tirado meu proveito.
ATRIZ 1– Toma vergonha homi!
ATOR 1 – Brincadeira, minha flor.
JUNTOS – E vocês devem estar se perguntando: e a Divina e o ESPLENDOR?
ATOR 2 – Eles decidiram partir juntos pelo mundo.
ATRIZ 2 – Pegaram uma carroça e saíram de cidade em cidade. Apresentandonas
praças, na frente das igrejas, nas feiras, um pouco da sua arte.
ATOR 3 – E viraram grandes artistas populares e formaram uma trupe com
outros artistas. E rodam o país todo. Levandodiversão e alegria por onde passam.
ATRIZ 1 – Mas agora eles vão dar uma pequena pausa (Alisa a barriga) pois
afamília vai aumentar.
ATOR 1 (bobo) – Minha flor? Eu vou ser?
ATRIZ 1(Feliz)– Vai sim!
ATOR 1 (bobo) – Verdade verdadeira?
ATRIZ (1 Feliz)– Verdade verdadeira. Palavra de honra. Batata!
ATOR 2 – Bem meu querido público. Eis o momento de se retirar.
ATOR 3 – Chegou o momento de o roteiro da nossa vida ganhar um novo
personagem.
ATRIZ 2–Por isso nos despedimos de todos vocês.
ATRIZ 3– Nos encontraremos futuramente.
JUNTOS – Essa foi a história da Divina e do ESPLENDOR!
(Blackout)
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