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Desigualdades raciais no Brasil:
um desafio persistente'
Márcia Lima?
lan Prates?
Comotem sido tratado o tema das relações e das desigualdades raciais
no Brasil? O quadro das desigualdades tem se alterado nas últimas déca-
das? Se sim, como essas mudanças têm sido interpretadas? O intuito deste
capítulo é apresentar o cenário das desigualdades raciais brasileiras nas
últimas décadas, procurando responder a essas indagações. Os aspectos
escolhidos partem da literatura sobre os mecanismos de reprodução social
que retêm a grande maioria dos negros brasileiros na base da pirâmide
social, não obstante as inúmeras transformações sociais pelas quais o país
passou nos últimos cinquenta anos.
Para conduzir essa discussão, a primeira parte do texto retoma, ainda
que de forma breve, como a literatura sobre relações e desigualdades tem
abordado a questão da situação social dos negros no Brasil, com destaque
para as transformações ocorridas nos anos 2000. Na sequência, serão
1 Agradecemos a Rogério Barbosa por sua gentil participação em nossas profícuas conversas
sobre questões analíticas e metodológicas acerca de raça e classe no Brasil, que resultaram
nos dados aqui apresentados.
2 Professora do Departamento de Sociologia da FFLCH/USP.
3 Doutorando em Sociologia na FFLCH/USP
163
Márcia Lima e lan Prales
analisadas as desigualdades raciais ao longo do tempo, considerando os
principais fatores relacionados à reprodução das desigualdades raciais,
tais como as oportunidades educacionais e a posse do diploma de ensino
superior e seus efeitos.
A construção do dilema raça versus classe: as origens
da discriminação e seus efeitos
Os estudos que procuram identificar os efeitos da condição racial na
sociedade de classes constituem peça fundamental para o entendimento
da questão racial brasileira pós-abolição. Não cabe na presente análise
uma revisão mais exaustiva da literatura sobre relações e desigualdades
raciais, porém, em função da proposta deste livro, optou-se por eleger
pelo menos três linhas principais de interpretação na trajetória dos estu-
dos sobre a situação social do negro e as relações raciais no Brasil: (1) os
negros ocupam as piores condições sociais devido ao fato de terem emer-
gido recentemente da escravidão, período em que não havia preconceito
racial, e sim de classe; (ji) o preconceito racial é um resquício da escravidão
e é incompatível com o desenvolvimento de uma sociedade de classes; e
(iii) a discriminação racial é um mecanismo que gera desigualdades por
meio da desqualificação competitiva dos negros, preservando, assim, os
privilégios e os ganhos mareriais e simbólicos para os brancos.
A construção dessas perspectivas teve início nos anos 1930 com a
pesquisa desenvolvida por Donald Pierson, entre 1935-1937, que resultou
no livro Brancos epretos na Bahia (Guimarães, 2002). Neste trabalho, o autor
conclui que o que se configura neste país é uma sociedade multirracial de
classes e que, apesar de as classes altas serem mais claras, o preconceito
prevalecente não é o de raça, e sim o de classe.
Nos anos 1950, o tema “raça e classe” foi retomado sob outra pers-
pectiva, a partir do desenvolvimento dos estudos denominados Projeto
Unesco (1953-1956) * Embora seu objetivo inicial fosse investigar as rela-
4 Designa-se como Projeto Unesco um conjunto de pesquisas financiadas por este órgão
acerca das relações raciais brasileiras. Tal proposta baseava-se na crença de que o Brasil
164
Desigualdades raciais no Brasil: um desafio persistente
ções raciais brasileiras, considerando justamente a ausência de conflitos,
os resultados apontaram em outra direção, ou seja, seus autores assumem
que há um efeito da condição racial nas chances de mobilidade social! e
na estrutura de classes, devido ao preconceito racial e às condições indi-
viduais do negro pós-abolição. Contudo, os achados não são consensuais
sobre a permanência ou não do preconceito e seus efeitos em longo prazo,
com o desenvolvimento da sociedade de classes.
O estudo Relações raciais entre negros e brancos em São Paulo: ensaio socioló-
gico sobre as origens, as manifestações e os efeitos do preconceito de cor no município
de São Paulo, escrito por Florestan Fernandes e Roger Bastide, em 1955, é
um marco. Florestan Fernandes encarregou-se de desenvolver um estudo
histórico-sociológico da sociedade paulistana, enquanto Roger Bastide
desenvolveu um trabalho sociográfico, descrevendo a diversidade de ati-
tudes nas relações raciais.
No capítulo “Cor e estrutura social em mudança”, Florestan Fernan-
des trata dos efeitos do preconceito na sociedade de classes e nomeia
esse processo de ajustamento entre negros e brancos. Em relação à
estratificação, evidenciada na composição da mão de obra, conclui que
não predominavam critérios relacionados à raça ou à cor dos trabalha-
dores. Afirma também que, dadas as condições sociais de exploração
econômica da mão de obra escrava, estas favoreceram a formação de
símbolos sociais e de padrões de comportamento polarizados em torno
da raça ou da cor (Fernandes; Bastide, 1955, p.67). Ou seja, o precon-
ceito existe, mas não é suficiente para explicar a desigual inserção dos
negros na estrutura social,
A pesquisa de Roger Bastide trata das manifestações e dos efeitos do
preconceito de cor no âmbito cotidiano e das experiências individuais.
Observando outros aspectos, o autor aponta os elementos societários
que levaram às manifestações externas do preconceito: a industrialização
e urbanização da cidade de São Paulo, o fluxo de imigrantes e o apare-
cimento de classes sociais estratificadas. Entretanto, tais manifestações
conviviam com o elemento escamoteador de conflito, as diferentes
tenderia para uma harmonia racial Ímpar, segundo os estudos realizados no país nos anos
1930 e 1940. As pesquisas foram feitas em Recife, Salvador, Rio de Janeiro e São Paulo.
165
Márcia Lima e lan Prates
condições sociais. Para Bastide, somente nas relações horizontais, é
possível discernir o que é preconceito racial do que é preconceito de
classe (Bastide, 1959, p.161).
Na década de 1970 surge um novo marco para esses estudos, man-
tendo a pergunta acerca das baixas posições sociais dos negros na socie-
dade de classes e os efeitos do preconceito racial na sua configuração.
Nessa nova linha de investigação, a expressão “preconceito de cor" dá
lugar ao vocábulo “discriminação”, e o termo “desigualdades raciais”
passa a ser mais recorrente. O trabalho de Hasenbalg, publicado em 1979,
estabelece um diálogo com os estudos sobre os modelos de escravidão
considerando a ótica da relação senhor/escravo e o processo de transição
para a liberdade, a fim de desenvolver uma análise das relações raciais
pós-emancipação. Esse diálogo é o caminho para consolidar sua crítica à
orientação teórica que explicava as relações raciais contemporâneas como
uma sobrevivência do passado escravista e da perspectiva que postulava
uma incompatibilidade entre industrialização e racismo. Para Hasenbalg,
ao contrário, a industrialização não elimina a raça como critério que estru-
tura as relações sociais.
Esse trabalho constituiu um marco para uma nova linha de inves-
tigação que se consolidou ao longo dos anos 1980 e 1990, fortemente
embasada pelo emprego de dados estatísticos e pelo aprimoramento no
uso de análises quantitativas. Seus resultados assinalavam extremas desi-
gualdades raciais em diferentes campos.
Nesse período, no campo demográfico, estudos apontavam para
intensas desigualdades raciais, em especial no que diz respeito às pro-
babilidades de superar o primeiro ano de vida e à esperança de vida ao
nascer. Berquó (1988), analisando os dados de mortalidade, nupcialidade
e fecundidade, destaca os altos níveis de mortalidade infantil dos segmen-
tos mais pobres da população, compostos majoritariamente por pretos e
pardos. Segundo a autora, em 1980 esses grupos ainda apresentavam o
nível de mortalidade infantil que os brancos possuíam em 1960.
Os estudos sobre educação e trabalho também destacaram fortes
desigualdades entre crianças negras e brancas para completar o ciclo fun-
damental, mesmo quando apresentavam características similares de classe -
como origem social e renda familiar per capita (Barcelos, 1992; Hasenbalg;
166
Desigualdades raciais no Brasil: um desafio persistente
Silva, 1988; 1990). Ainda mais acentuadas eram as disparidades no acesso,
permanência e finalização dos níveis médio e superior de ensino.
Essas desigualdades educacionais produziriam efeitos na inserção
desses grupos de cor no acesso ao emprego e na estrutura ocupacional.
Estudos sobre a participação dos negros no mercado de trabalho, ao
analisarem suas condições de ingresso, mostraram que as diferenças no
acesso à educação se refletiam de forma decisiva no acesso ao trabalho
(maiores taxas de desemprego) e na estrutura ocupacional, resultando
em um confinamento desproporcional de negros em ocupações manuais,
menos qualificadas e pior remuneradas (Bairros et al., 1992; Castro; Gui-
marães, 1993; Hasenbalg, 1992; Oliveira et al., 1985; Silva; Lima, 1992),
Tratando da relação entre origem familiar e desigualdade racial, Silva
(1988) questiona se a explicação da herança social é suficiente para dar
conta das diferenças sociais entre negros e brancos no Brasil, uma vez que
os brancos são oriundos de famílias mais bem posicionadas na hierarquia
social, o que facilita sua reprodução de status. Ele divide seu estudo em
duas etapas: na primeira, analisa a mobilidade social intergeracional, e,
na segunda, a aquisição de renda, observando de que forma pessoas com
a mesma posição na hierarquia ocupacional têm retornos monetários
distintos.
Examinando a mobilidade intergeracional para o ano de 1996, o autor
conclui que qualquer que seja o grupo ocupacional de origem que se tome
como referência, os negros estão mais concentrados nos estratos ocupa-
cionais inferiores. Dessa forma, no âmbito da distribuição ocupacional
de mobilidade social entre os grupos de cor, os negros estão expostos a
chances menores de ascensão social. As dificuldades aumentam com o
nível do estrato de origem, e aqueles nascidos nos estratos mais elevados
estão expostos a riscos maiores de mobilidade descendente.
Ao analisar a renda, Silva sugere que boa parte das diferenças inter-
“raciais de rendimentos não se relaciona com o fato de que os brancos estão
predominantemente inseridos nos estratos ocupacionais superiores, pois
esse autor compara as diferenças de rendimentos entre brancos, pretos e
pardos inseridos nos mesmos estratos ocupacionais.
Nota-se, então, que ao longo dos anos 1980 e 1990 houve grande
esforço analítico para identificar o peso do atributo racial na desigual
167
Múrcia Lima e lan Protes
inserção dos negros na escola e no mercado de trabalho. A agenda mais
recente de estudos tem mantido essa pergunta e avançado mais no campo
empírico e metodológico, além de se deparar com mudanças significativas
na estrutura social brasileira, como será visto na próxima seção.
Desigualdades raciais: mudanças recentes
Nos últimos quinze anos, especialmente pós-estabilidade econômica,
o Brasil viveu um conjunto de transformações que têm contribuído para o
processo de diminuição das desigualdades sociais. Ocorreram mudanças
tanto de caráter estrutural (estabilidade e crescimento econômicos e seus
efeitos no mercado de trabalho) quanto demográfico (queda da fecun-
didade e alterações no padrão da população em idade ativa). Mas exis-
tem também modificações oriundas da implantação de políticas sociais
extremamente importantes para a diminuição do núrnero de pessoas em
situação de pobreza e redução das desigualdades de oportunidades edu-
cacionais. No que diz respeito à desigualdade racial, são especialmente
importantes as políticas de ação afirmativa para o ensino superior.
Duas perspectivas complementares têm tratado das recentes mudan-
ças nas desigualdades raciais: (1) a redução das desigualdades raciais
entendida como fruto dos avanços educacionais e da queda na desigual-
dade de renda; e (ii) a contribuição da diminuição das diferenças entre os
grupos raciais para a redução das desigualdades em geral.
Observando o que aconteceu no âmbito da pobreza, Paixão (2009)
analisa as mudanças nos patamares de indigência e pobreza no Brasil,
comparando os dados das Pesquisas Nacionais por Amostra de Domicílios
(PNADs) 1995 e 2006 e analisando informações sobre a cor dos beneficiá-
rios (pessoa de referência no domicílio) dos programas governamentais.
No caso da linha de indigência, ele aponta que a população branca
reduziu em 30,4% a participação de seu grupo entre os indigentes. Para
os pretos e pardos, esse percentual foi ligeiramente maior: 33,4%. Não
obstante esse cenário, o autor mostra que, em 2006, 18,8% dos pretos e
pardos e 8,0% dos brancos ainda estavam abaixo da linha de indigência.
Em 1995, 27,9% dos brancos e 43,6% de pretos e pardos estavam abaixo
168
Desigualdades raciais no Brasil: um desafio persistente
da linha da pobreza; em 2006, esses percentuais eram, respectivamente,
de 21,6% e 43,1%. O autor conclui que:
Apesar da redução percentual das desigualdades de cor ou raça, ao se
analisar em termos dos respectivos ritmos pelo qual o peso relativo de pes-
soas abaixo da Linha de Pobreza declinou, observa-se uma ampliação das
assimetrias. Assim, em 1995, a proporção de pretos e pardos pobres era
93,9% superior à de brancos na mesma situação. Já, em 2006, a proporção
de pretos e pardos abaixo da linha de pobreza era 99,5% superior à mesma
proporção entre os brancos. (Paixão, 2009, p.9)
Em se tratando dos programas de transferência de renda, Paixão
registra que, em 2004, do total de domicílios beneficiados por algum pro-
grama dessa natureza, 67,6% tinham indivíduos pretos ou pardos como
pessoas de referência do domicílio. Observa-se, então, que uma política
que beneficie os mais pobres refletirá certamente na desigualdade racial.
Entretanto, uma vez que o nível das desigualdades era extremamente
elevado quando se iniciaram tais mudanças, mesmo tendo apresentado
avanços significativos a população negra ainda apresenta fortes desvan-
tagens sociais. Segundo as projeções do Instituto de Pesquisa Econômica
Aplicada (Ipea), se a diminuição das desigualdades raciais de renda, ocor-
ridas entre 2001 e 2007, mantivesse o mesmo ritmo, seriam necessárias
três décadas para que esses grupos tivessem, em média, a mesma renda
(Ipea, 2008).
Outra perspectiva interessante para o entendimento das mudanças em
curso é captar quanto a desigualdade racial contribui para a trajetória da
desigualdade em geral. Ferreira et al. (2006) analisaram a desigualdade de
renda no Brasil entre 1981 e 2004. Os autores definem como efeito-renda
as mudanças nas rendas relativas dos grupos e como efeito-alocação as
transformações não apenas no tamanho dos grupos como também na
composição das características do grupo, tais como, por exemplo, níveis
de escolaridade. Ao realizar várias decomposições do nível e da variação
da renda ao longo de todo o período, seus resultados apontaram que
os efeitos renda e alocação estavam indo na mesma direção de redução
das desigualdades. Segundo eles, estaria ocorrendo uma diminuição das
169
Márcia Lima e lon Prates
desigualdades raciais (efeito-renda) e, ao mesmo tempo, uma melhoria na
composição dos grupos (efeito-alocação) que poderia estar relacionada ao
avanço da escolaridade dos não brancos.
Por fim, as pesquisas que focam nos processos de transição educa-
cional e de mobilidade social, utilizando modelos analíticos distintos,
são unânimes em apontar que as dificuldades educacionais segundo a
classe se sobrepõem às barreiras raciais. Entretanto, o efeito raça ganha
mais evidência nas chances de mobilidade social, na probabilidade de
perder posição social, bem como há maior desigualdade racial entre os
mais escolarizados e em posições ocupacionais de maior status. Ribeiro
(2006), analisando os efeitos de raça e classe de origem nas chances de
realizar transições educacionais, demonstrou que existe desequilíbrio nas
oportunidades para fazer as transições da escola para o trabalho, sendo o
efeito da desigualdade de classe de origem maior do que o efeito da raça.
Entretanto, o efeito da classe de origem diminui ao longo das etapas de
transição, ao passo que o efeito racial aumenta na transição nos níveis
mais elevados, em especial completar ou não o primeiro ano de universi-
dade e concluir o ensino universitário. Segundo o autor:
As análises indicam que há desigualdade nas chances de fazer transi-
ções tanto em termos de cor da pele quanto de classe de origem, mas que
o segundo tipo de desigualdade é maior do que o primeiro. Além disso,
enquanto a desigualdade de classe diminui ao longo das transições, a desi-
gualdade racial aumenta na transição cinco, completar ou não o primeiro
ano de universidade. Até a quarta transição (completar o ensino médio)
os efeitos de classe de origem são pelo menos seis vezes maiores do que
o efeito de raça. Ou seja, até a quarta transição a desigualdade de classes
é maior do que a de raça. Na quinta e na sexta transição (completar o pri-
meiro ano da universidade e terminar a universidade), a desigualdade racial
torna-se mais semelhante à desigualdade de classe, tendo em vista que o
peso da classe de origem é apenas 2,5 vezes maior do que o da cor da pele.
(Ribeiro, 2006, p.863-864)
170
Desigualdades raciais no Brasil: um desafio persistente
Raça e acesso à educação no Brasil
Conforme abordado na seção anterior, a constituição do campo da
sociologia das relações e das desigualdades raciais tem colocado como
objetivo central o intuito de estabelecer os limites entre raça e classe. O
principal desafio é contribuir para o entendimento da relação entre dis-
criminação e desigualdades. Se, por um lado, estudos pioneiros sobre o
tema apontavam para uma sobreposição de raça e classe, pesquisas mais
recentes afirmam que a permanência das desigualdades raciais não se
constituía apenas como efeito de classe. À discriminação torna-se evi-
dente à medida que os aspectos mais relevantes da condição de classe são
controlados e as desigualdades raciais permanecem.
Hasenbalg e Silva (2005) sintetizaram um modelo de análise de reali-
zação socioeconômica, com o objetivo de caracterizar um processo cumu-
lativo de desvantagens que afetam de forma diferenciada pretos e pardos.
A ideia dos autores é considerar todos os elementos importantes na tra-
jetória de realização socioeconômica dos indivíduos, procurando identi-
ficar o peso da raça nesse processo.
Essa análise inicia-se com a origem familiar dos indivíduos - quando
se observam a situação social das famílias e os recursos disponíveis a seus
membros -, passando por realização educacional, ingresso e posição no
mercado de trabalho, e termina analisando os efeitos dessas etapas na
composição da renda.
O escopo deste capítulo não permite cobrir todo esse ciclo, entretanto,
algumas escolhas analíticas foram feitas levando em conta a proposta
desses autores, em especial a fase que trata da internalização de recursos.
Considera-se que o acesso à educação formal é um mecanismo produtor
de desigualdades que afeta a desigualdade racial. Na presente análise,
foram eleitos três aspectos. Em primeiro lugar, o cenário de mudanças
no que diz respeito ao acesso à escola no Brasil; em segundo, o acesso ao
ensino superior e seus efeitos na renda e no mercado de trabalho; e, por
fim, serão apresentadas as diferenças de alcance educacional dos filhos
de pais com nível superior.
Algumas considerações prévias devem ser feitas. A primeira delas
refere-se à classificação racial. Estudos sobre desigualdades raciais
71
Márcia Limo e lan Prates
realizados por quase três décadas apontam que pretos e pardos apresen-
tam um perfil socioeconômico semelhante, o que levou diversas análises
estatísticas a somarem essas duas categorias (preto e pardo) e classificá-las
como “não brancos” ou negros (Silva, 1986). É importante enfatizar que
essa classificação não opera como sinônimo de identidade racial no Brasil
e, atualmente, as categorias utilizadas nas políticas envolvern tanto a clas-
sificação racial (pretos e pardos considerados como negros ou não brancos)
quanto a de identidade (indígenas e remanescentes de quilombos).5 Nas
primeiras análises, Os grupos preto e pardo serão apresentados separada-
mente para demonstrar a similaridade entre eles e, em seguida, o texto
seguirá somente com o grupo negro, entendido aqui como uma categoria
descritiva que agrega os grupos preto e pardo. Em relação ao período
investigado, foram selecionados os Censos de 1980, 1990, 2000 e 2010.
As informações serão trabalhadas em três conjuntos distintos. Um
primeiro conjunto enfoca o total da população brasileira, com destaque
para suas características educacionais, com ênfase na faixa de escolariza-
ção dos jovens de 15 a 17 anos e de 18 a 24 anos. Um segundo conjunto
considera apenas os indivíduos que possuem nível superior completo. E
um terceiro traz informações sobre as realizações educacionais dos filhos
cujos pais concluíram o ensino superior.
O cenário educacional brasileiro deve ser compreendido considerando
tanto as melhorias do sistema de ensino quanto as alterações nas carac-
terísticas demográficas da população e os efeitos de mudanças socioeco-
nômicas. A característica demográfica mais marcante para esse processo
é a condição etária da população, que é medida não apenas pela idade,
mas também pela coorte, pois ajuda a compreender fenômenos relacio-
nados ao período em que cada indivíduo acessou ou deveria ter acessado
a escola (Collares, 2009).
5 É importante destacar aqui a peculiaridade da situação dos grupos indígenas no que diz
respeito aos dados estatísticos. A sub-representação da população indígena está ligada a
diversos fatores. Em primeiro lugar, seu registro como um segmento separado dos demais
Erupos só aconteceu em 1872 e 1890, como caboclos, e nos Censos seguintes em categorias
residuais ou juntamente com os amarelos. A partir do Censo de 1940, índios e caboclos se
transformavam em “parda”, categoria indistinta que poderia significar também mulatos,
morenos etc. Somente no Censo de 1991 foi introduzida a categoria indígena. Neste 1ra-
balho, optou-se por excluir esse grupo da análise.
172
Desigualdades raciais no Brasil: um desafio persistente
Os gráficos a seguir mostram as mudanças nas taxas de escolariza-
ção líquida nos diferentes níveis de ensino, considerando a cor/raça.é
No caso do ensino fundamental, o Gráfico 1 demonstra uma tendência
à universalização para todos os grupos de cor, indicando que ainda nos
anos 1980 os grupos preto e pardo tinham desempenho muito similar
entre si e apresentavam participação bastante inferior ao grupo branco.
Esses dados demonstram que a única faixa etária cuja frequência à escola
é praticamente universal (98%) corresponde ao ensino fundamental, dos
7 aos 14 anos. Entretanto, pesquisas apontam que os desafios para a edu-
cação brasileira começam já na progressão nesse nível. Andrade e Dachs
(2007), em estudo sobre o acesso à escola no Brasil, segundo renda e cor/
raça, afirmam que para as crianças de 7 a 10 anos o acesso às primeiras
séries do ensino fundamental é praticamente universal, independente
de classe e raça, porém, na faixa de 11 a 14 anos a situação já se afasta
da universalização, verificando-se variação mais acentuada em relação à
renda e à cor/raça (Andrade; Dachs, 2007, p.405).
Em relação à participação dos jovens de 15 a 17 anos no ensino médio
(Gráfico 2), as transformações das últimas décadas não alteraram o cená-
rio, que é ainda bem desigual. Entre 1980 e 1990, há poucas mudanças
nas taxas de escolarização, sendo a década de 1990 o momento de sua
expansão, em que se evidencia a significativa vantagem dos brancos em
relação aos pretos e pardos (23,8%, 6,4% e 8,7%, respectivamente).
Em 2000, todos os grupos se beneficiaram da expansão de cobertura da
década de 1990, mas ainda permanece uma distância entre os grupos
de cor, com pretos e pardos apresentando tendências muito similares.
Somente em 2010 é que as desigualdades raciais caem mais: dentre os
jovens de 15 a 17 anos, 68,1% dos brancos frequentam o ensino médio,
enquanto para pretos e pardos esses percentuais são de 49,3% e 53,7%,
respectivamente,
6 Taxa de escolarização líquida refere-se à participação dos estudantes nos níveis de ensino
considerados adequados ao seu grupo etário: estudantes de 7 a 14 anos cursando o ensino
fundamental, de 15 a 17 anos cursando o ensino médio e de 18 a 24 anos cursando o nível
superior. O cálculo dessa taxa resulta do número total dos estudantes dentro de cada grupo
etário cursando o nível adequado de ensino dividido pelo número do toral de indivíduos da
mesma faixa etária.
173
Márcia Lima e lan Prates
Gráfico 1 - Taxas de escolarização líquida (7 a 14 anos) do ensino
fundamental, segundo cor/raça — Brasil, 1980-2010 (em %)
100
90
1980 1991 2000 2010
—-- Branco —*— Preto —>& Pardo —E Toral
Fonte: IBGE, Censos Demográficos 1980-2010. Tabulações especiais do Centro de Estudos da Meuró-
pole (CEM).
Gráfico 2 - Taxas de escolarização líquida (15 a 17 anos) do ensino
médio, segundo cor/raça — Brasil, 1980-2010 (em %)
70
60
50
1980 1991 2000 2010
—+*— Branco —i— Preto —— Pardo —— Total
Fonte: IBGE, Censos Demográficos 1980-2010. Tabulações especiais do CEM.
Há inegável diminuição da desigualdade racial entre os estudantes do
ensino médio. Essa mudança é extremamente importante para o debate
sobre o acesso ao ensino superior que se configurou na última década. O
crescimento do acesso ao ensino médio gerou uma demanda por acesso
ao ensino superior que cresceu de forma tímida ao longo dos anos 1990.
174
Desigualdades raciais no Brasil: um desofio persistente
Gráfico 3 — Taxas de escolarização líquida (18 a 24 anos) do ensino
superior, segundo cor/raça -Brasil, 1980-2010
70
60 2
50
40
30
20
10
ot
1980 1991 2000 2010
—i— Branco —*&— Preto —x& Pardo —E— Total
Fonte: IBGE, Censos Demográficos 1980-2010. Tabulações especiais do CEM.
Na faixa de 18 a 24 anos, as taxas de escolarização líquida são mais
baixas e as desigualdades raciais ainda mais expressivas, como se pode
observar no Gráfico 3. Novamente, observa-se um crescimento acentuado
da participação de todos os grupos, partindo de diferença marcante na par-
ticipação dos grupos de cor nos anos 1980, momento em que as taxas dos
pretos e pardos eram praticamente insignificantes. Apesar da ampliação
das taxas de escolarização, em 2010 ainda há uma distância expressiva
entre os grupos de cor/raça, apresentando ainda as dos grupos pretos e
pardos tendências muito similares.?
Se for considerada a participação dos grupos de cor no ensino supe-
rior segundo os quintis de renda (Tabela 1), percebe-se que ocorreram
mudanças consideráveis.º
7 O capítulo “Estratificação horizontal da educação superior no Brasil” (p.133), de Carlos
Costa Ribeiro e Rogerio Schlegel, aponta para diferenças significativas entre pretos e par-
dos se considerarmos as carreiras universitárias escolhidas. Parece haver uma tendência de
aumento da distância entre pretos e pardos quando são analisados os estratos mais altos
(educacionais via carreira ou mercado de trabalho), com vantagens para os últimos.
Nocálculo dos quintis de renda, os valores expressam os percentuais de pessoas no interior
de cada quintil que atingiram o nível superior. Cada quintil representa 20% da população,
sendo o primeiro quintil composto pelos 20% mais pobres e o quinto quintil, pelos 20%
mais ricos.
175
Márcia Lima e lan Prates
Tabela 1 — Taxas de escolarização líquida (18 a 24 anos) do ensino
superior, segundo os quintis de renda e cor/raça
Brasil, 1990-2010 (em %)
Nível Renda Cor/raça 1991 2000 2010
Branco 1,2 3,7 25,5
. Preto o1 0,4 8,1
1º quintl
Pardo 0,2 0,8 8,4
Totul 05 17 13,5
Branco 13 5,7 30,3
Preto 0,3
2º quintil 13 14,4
Pardo 0,5 2,0 17,0
Total o8 3,4 21,6
Branco 2,6 12,8 49,3
Superior- — 30 quintl Preto 9,7 3,5 25,9
18 a 24 anos Pardo 12 5,5 34,4
Total 1,9 9,1 41,2
Branco 6,5 30,4 68,7
o Preto 21 12,0 49,2
4º quindl
Pardo 3,1 15,4 54,8
Total 5,2 24,8 63,0
Branco 19,3 66,0 86,0
o Preto 4,9 33,0 73,5
5º quintil
Pardo 6,1 41,5 76,5
Total 15,2 61,3 83,5
Fonte: IBGE. Censos Demográficos 1990-2010. Tabulações especiais do CEM.
Em primeiro lugar, nota-se a baixa participação dos mais pobres (1º
quintil de renda) até o ano 2000 para todos os grupos de cor/raça. Somente
em 2010 é possível detectar um crescimento na participação desse grupo,
e com vantagem significativa dos brancos. Em resumo, no ano de 2010,
dentre os 20% mais pobres, a taxa de escolarização dos estudantes bran-
cos de 18 a 24 anos é de 25,5% e dos pretos e pardos, de 8,1% e 8,4%,
respectivamente. Trata-se de uma desigualdade muito expressiva para o
período recente.
Por outro lado, os dados da população pertencente ao quintil mais
alto de renda (5º quintil) revelam que, nos últimos trinta anos, há uma
176
Desigualdades raciais no Brasil: um desafio persistente
redução mais expressiva das desigualdades raciais nesse grupo. Em 1980,
18,5% dos estudantes brancos de 18 a 24 anos pertencentes ao quintil
maisrico frequentavarn o ensino superior. Para pretos e pardos, essas taxas
eram de 4,0% e 7,3%, respectivamente. Em 2010, essas taxas eram de
86% para os brancos, 73,5% para os pretos e 76,5% para os pardos, man-
tendo pequena diferença entre os dois últimos grupos (pretos e pardos).
Em resumo, ao comparar as desigualdades raciais dentro dos diferen-
tes quintis (entre os mais ricos e os mais pobres), é possível afirmar que
o negro pobre encontra dificuldade maior para atingir níveis mais altos
de escolaridade do que o branco pobre.
Reprodução das desigualdades: o atributo raça entre os
graduados
De modo a analisar o processo de reprodução das desigualdades
raciais, e tendo em vista que a escolaridade formal e o acesso aos dife-
rentes níveis de ensino constituem um dos seus principais mecanismos,
esta seção terá como enfoque principal as pessoas graduadas. Para aná-
lise da classe ocupacional e rendimentos das pessoas com ensino supe-
rior completo, foram selecionados todos os casos que contemplavam os
indivíduos que concluíram algum curso de graduação, para cada um dos
anos analisados.
Esse estudo divide-se em dois momentos. Primeiro, destaca as dife-
renças no mercado de trabalho das pessoas com ensino superior, cujo foco
será o destino socioeconômico, controlando pela área de formação (diploma)
e classe ocupacional, com vistas a enfatizar as desigualdades no acesso
a mecanismos de estratificação (escolaridade). Num segundo momento,
serão apresentadas as diferenças de alcance educacional dos filhos de país
graduados, isto é, de crianças e jovens com origem socioeconômica razoavel-
mente semelhante.
A Tabela 2 apresenta a evolução da população com ensino superior
no Brasil e as transformações na sua composição racial, em números
absolutos e relativos. A despeito do inegável aumento da participação da
população negra, percebe-se ainda que a composição é bastante desigual.
177
Márcia Lima e lon Prates
Em 1980, os negros correspondiam a 9,3% das pessoas com nível superior
completo e, em 2010, a 24,7%, demonstrando que a população branca
ainda constitui maioria expressiva. Por outro lado, um fato chama a aten-
ção quando se observa o crescimento percentual no interior dos grupos:
tanto na década de 1980 quanto na de 2000, o grupo de negros com ensino
superior completo teve seu tamanho aumentado na mesma e expressiva
intensidade - em quase três vezes (crescimento de 290%). Mas, se há
certa semelhança do ponto de vista do crescimento percentual dos negros,
a diferença emerge ao se constatar que dentre os brancos o aumento na
década de 2000 (102%) é sensivelmente inferior ao da década de 1980
(133%), sugerindo uma dinâmica distinta na redução das desigualdades.
Vale destacar, ainda, a peculiaridade dos anos 1990: não há mudança na
composição ao longo da década em termos proporcionais, além de as taxas
de crescimento serem muito inferiores.
O Gráfico 4, a seguir, que também considera apenas as pessoas com
ensino superior completo, traz dois tipos de informação: nas barras, a
proporção de negros no interior dos estratos ocupacionais ao longo do tempo;
nas linhas, a proporção de negros no total de pessoas que possuem nível superior
em cada um dos anos. A Tabela 2 já informou que houve crescimento da
participação dos negros dentro desse estrato educacional de 9,3%, em
1980, para 24,7%, em 2010. Ao conjugar ambas as informações, o Gráfico
4 permite indicar se as variações no interior dos estratos ocupacionais
Tabela 2 - Distribuição da população com nível superior completo e
taxas de crescimento, segundo cor/raça — Brasil, 1980-2010
1980 1991 2000 2010
Cor/raça
Nºsabs. % Nºsabs % Nºs abs. S% Nºs abs. Sn
Negros 140,449 9,30 547,572 14,60 853,539 14,50 3.326.957 24,70
Brancos 1.372.813 90,70 3.198.828 85,40 5.014.281 85,50 10.136.734 75,30
Taxas de crescimento (9%)
Cor/raça
1980-1991 1991-2000 2000-2010
Negros 290 56 290
Brancos 133 57 102
Fonte: IBGE, Censos Demográficos 1980-2010. Tabulações especiais do CEM.
178
Desigualdades raciais no Brasil: um desafio persistente
se dão em maior ou menor intensidade que a variação da proporção de
negros no total da população graduada. Desse modo, evitam-se possíveis
vieses de interpretação que poderiam advir do processo de reclassificação
racial ocorrido, em especial, na última década.
Quando se observa o saldo de todas as décadas, nota-se que as clas-
ses ocupacionais não manuais de rotina de nível alto (NA), manuais qualifica-
dos e manuais não qualificados são aquelas nas quais os negros tiveram um
crescimento (em pontos percentuais) superior ao de sua participação na
composição de pessoas com nível superior. A proporção deles em cada
um desses estratos ocupacionais, em 1980, era de 11,5%, 8,5% e 9,8%,
respectivamente e, em 2010, de 33,8, 30% e 34,2%, respectivamente.
Isso demonstra que, consideradas as transformações nesses trinta anos,
há distintas permeabilidades à inserção dos negros no universo ocupacio-
nal dos graduados, uma vez que sua maior participação e crescimento se
dão em estratos ocupacionais menos valorizados no mercado e que, em
muitos casos, não demandam diploma superior.
Gráfico 4 — Proporção de negros com nível superior completo, por
grupo ocupacional — Brasil — 1980-2010
mm 1980 maes 199] mem 2000 me 2010
—E-M(1980) —e- M(1991) --e-M(2000) —4- MÇQ010)
Fonte: IBGE. Censos Demográficos 1980 - 2010. Tabulações especiais do CEM.
179
Márcio Lima e lan Prates
Há, entretanto, comportamentos decenais não desprezíveis. Na
década de 1980, a despeito do forte crescimento de negros com ensino
superior, apenas no grupo dos não manuais qualificados (8,6%) esse
aumento superou em mais de ] ponto o da média geral, indicando uma
situação de relativa estabilidade. Por outro lado, a década de 1990 espelha
em alguma medida o comportamento do mercado de trabalho na época.
Embora a proporção de negros no total de graduados tenha se mantido
praticamente constante, o crescimento da ocupação se deu de forma con-
siderável dentre os manuais não qualificados e agricultores, justamente
as ocupações mais inferiores na hierarquia social.
Por fim, a década de 2000 marca o aumento da proporção de negros
em todas as classes ocupacionais, mas, corno se ressaltou anteriormente,
esse resultado deve ser balanceado com o “crescimento” da população
negra de um modo geral. Descontando esse aspecto, pode-se dizer que foi
entre os não manuais de rotina (alto e baixo) e os manuais sem qualifica-
ção que ocorreu um crescimento de fato da ocupação. Dessa forma, embora
seja verdade que a estrutura ocupacional tenha se mostrado mais recep-
tiva a uma incorporação menos desproporcional dos negros graduados, a
desigualdade ainda persiste no acesso ao topo da hierarquia.
O passo seguinte traz uma análise mais detalhada das dinâmicas das
desigualdades dentre os grupos de profissionais, justamente aqueles em
que os negros se encontram mais sub-representados. O Gráfico 5 apre-
senta a diferença de rendimentos no interior dos grupos ocupacionais de
“profissionais” e “manuais de rotina”, considerando apenas as pessoas
que têm ensino superior. Embora seja notável uma tendência de queda de
rendimentos em todos os estratos, nos dois grupos os negros têm rendi-
mento inferior ao dos brancos. Essa diferença, como bem se pode notar,
é maior no grupo superior (profissionais), reforçando a ideia de que a
desigualdade tende a aumentar à medida que se sobe na hierarquia social.
Uma possível objeção a essa interpretação seria que as desigualdades
de rendimentos no interior dos grandes grupos ocupacionais deve-se ao
fato de que os brancos tendem a ter diplomas de carreiras mais valoriza-
das do que os negros. Dessa forma, de modo a controlar essas possíveis
diferenças, apresentam-se, no Gráfico 6, os rendimentos no interior dos
Brupos ocupacionais, controlando também pelo diploma.
180
Desigualdades raciais no Brasil: um desafio persistente
Gráfico 5- Rendimento médio da ocupação principal, segundo cor/raça
Brasil, 1980-2010
8.000
7.000
6.000 +1
5.000 4
R$ 4.000
3000 1 EEE,
2.000 ITIOSOZLE HA ELI
1.000 4
o r r
1980 1991 2000 2010
—— Prof. não brancos —- Prof. não manuais de rotina não brancos
— Prof. brancos > Prof. não manuais de rotina brancos
Fonte: IBGE, Censos Demográficos 1980-2010. Tabulações especiais do CEM.
Essa análise será ainda mais específica para facilitar a comparação
das diferenças de retornos entres esses grupos. Para isso, foram selecio-
nadas algumas profissões. Primeiro, observaram-se as médias e medianas
da renda da ocupação por carreiras das pessoas com ensino superior e
identificaram-se os polos superiores e inferiores dessa distribuição, agre-
gados em dois grupos:
* Grupo 1: “Profissões imperiais”: Medicina, Engenharias e Direito
(três maiores médias salariais em 1980)º
* Grupo 2: “Profissões de baixo prestígio”: Letras, História e Ciên-
cias da Educação (três menores médias salariais em 1980).
9 Medicina, Engenharia e Direito foram carreiras constituídas durante o período do Império
e, naquela época, a posse do diploma significava mais status do que profissão. Entretanto,
o diploma funcionava como forte instrumento de exclusão (Coelho, 1999).
181
Márcia Lima e lan Prates
Os gráficos 6 e 7 corroboram a interpretação de que há diferenças
salariais entre negros e brancos para indivíduos com o mesmo diploma e
inseridos no mesmo grupo ocupacional, Dentre os profissionais com di-
plomas menos valorizados, a diferença de rendimentos salariais é prati-
camente constante ao longo do tempo (em torno de R$ 500,00). Já para
aqueles com diplomas das “profissões imperiais” ocorre decréscimo na
década de 1980, pequeno crescimento nos anos 1990 e discreta queda
na década de 2000.
Gráfico 6 - Rendimento médio na ocupação principal dos “profissionais”
diplomados no grupo 1 (Medicina, Engenharias e Direito), segundo
cor/raça — Brasil, 1980-2010
9.000 7
8.000 +
7.000 1
6.000 1 À
5.000 1
R$
4.000 1
3.000 |
2.000 +
1.000 + o AA
o T T T 1
1980 1991 2000 2010
—e- Negros —E- Brancos —*- Diferença
Fonte: IBGE, Censos Demográficos 1980-2010. Tabulações especiais do CEM.
Considerando que estavam inseridos na categoria ocupacional pro-
fissionais com diploma nas carreiras selecionadas, ainda se encontram
diferenças entre brancos e negros, embora bastante reduzidas. À questão
é avaliar qual a participação dos negros nesses grupos.
182
Desigualdades raciais no Brasil: um desafio persistente
Gráfico 7 — Rendimento médio na ocupação principal dos “profissionais”
diplomados no grupo 2 (Letras, História e Educação), segundo cor/raça
Brasil, 1980-2010
4.000 +
3.500 4
3.000 +
2.500 1
R$ 2.000 4
1.500 4
1.000 1
500 4 bo - ”
o r r r ?
1980 1991 2000 2010
—e- Negros — Brancos —- Diferença
Fonte: IBGE, Censos Demográficos 1980-2010. Tabulações especiais do CEM.
Tabela 3 — Distribuição da população com nível superior completo,
segundo carreiras selecionadas e cor/raça — Brasil, 1980-2010
Carreiras selecionadas e cor/raça 1980 1991 2000 2010
Medicina, Direito, Engenharia
Total 100,0 100,0 100,0 100,0
Negros 8,7 12,9 11,8 17,9
Brancos 91,3 87,1 88,2 82,1
História, Educação e Letras
Total 100,0 100,0 100,0 100,0
Negros 11,2 19,9 21,5 35,7
Brancos 88,8 80,1 78,5 64,3
Fonte: IBGE, Censos Demográficos 1980-2010. Tabulações especiais do CEM.
A Tabela 3 nos mostra que há mudanças em curso, mas novamente
observa-se que o prestígio das carreiras é um elemento importante na com-
posição das desigualdades raciais. Os negros estão conseguindo ampliar
sua participação no ensino superior e, entre aqueles que o concluem,
183
Márcia Lima e lan Prates
nota-se diferenças significativas de inserção tanto em termos de ocu-
pação quanto de carreiras. Sua participação ampliou-se mais rapidamente
nas carreiras de menor prestígio, e seus rendimentos ainda mostram
retornos diferenciados.
Alcance educacional dos filhos de pais graduados
A partir do que foi demonstrado até aqui, pode-se afirmar que as
barreiras raciais têm diminuído, dada a ampliação de oportunidades edu-
cacionais nos níveis fundamentais a partir dos anos 1980, e nos níveis
médio e superior na última década. Entretanto, um olhar mais detido
sobre as pessoas que concluíram o nível superior revela a permanência
de desigualdades raciais significativas. Considerando o destaque dado à
questão da origem social neste livro e na literatura sobre o tema, optou-
-se por examinar o alcance educacional dos filhos cujos pais têm nível
superior.
Foram selecionados os domicílios em que pelo menos o responsável
ou o cônjuge tenham completado o ensino superior. Nesse caso, conside-
rou-se a raça do responsável pelo domicílio. A partir dessas informações,
realizaram-se as análises de alcance educacional dos filhos. Assim, foram
selecionados os domicílios em que havia pelo menos um filho maior de 14
anos (visto que não foram realizadas análises considerando as transições
“ingressar no ensino básico” e “concluir 4 anos de estudo”).
O gráfico a seguir demonstra a proporção de negros que compõem
esse grupo (filhos cujos pais possuem nível superior completo) e a renda
domiciliar per capita de brancos e negros. Em 1980, dentre os filhos cujos
pais tinham ensino superior, apenas 9,3% eram negros; em 1990, esse
percentual passou para 15,1%, mantendo-se estável em 2000 (14,9%).
Em 2010, essa proporção saltou para 29,1%. Em relação à renda, notam-
-se vantagens significativas dos filhos pertencentes ao grupo branco. Em
2010, a renda domiciliar per capita dos brancos atingiu R$ 3.313,14 ea
dos negros, R$ 2. 058,10.
184
Desigualdades raciais no Brasil: um desafio persistente
Gráfico 8 — Proporção de filhos negros dentre as famílias de pais com
ensino superior e renda domiciliar per capita (RDPC) das famílias,
segundo cor/raça — Brasil, 1980-2010
4.000 35
3.500 30
3.000 25
2.500
20
R$ 2.000 %
15
1.500
1.000 10
500 5
o+ r r o
1980 1991 2000 2010
WB Prop. negros —E RDPC negros —&—- RDPC brancos
Fonte: IBGE, Censos Demográficos 1980-2010. Tabulações especiais do CEM.
Esses dados apontam que, quando se consideram os filhos cujos pais
têm nível superior, há presença maciça de brancos, e com fortes vantagens
de renda. Tal cenário revela quais foram as chances desses filhos na realiza-
ção educacional. Como se trata de uma análise longitudinal, a ideia é captar
como, ao longo das décadas analisadas, o alcance educacional dos indiví-
duos cujos pais tinham nível superior se diferenciava pela condição racial.
O Gráfico 9 apresenta as razões de chance" dos filhos cujos pais têm
nível superior de completar as três transições educacionais (ingresso no
ensino médio, conclusão do ensino médio e ingresso no ensino superior).
A pergunta que este gráfico responde é: considerando apenas os indiví-
duos que concluíram uma etapa escolar, quais são as chances de ingressar
na etapa seguinte?
10 A análise das razões de chance foi realizada considerando a proporção de “sucesso” no
interior de cada grupo e a razão entre os grupos. Ou seja: Razão de chance = (Pb/1-Pb)/
(Pn/1-Pn) = Pb x (1- Pn) / Pn x (1 - Pb); em que: Pb = proporção de brancos que atin-
giram o nível escolar e Pn = Proporção de negros que atingiram o mesmo nível escolar.
Valores menores significam menores desigualdades.
185
Márcia Lima e lan Prates
Gráfico 9 - Razões de chance do grupo de brancos realizar as transições
educacionais* — Brasil, 1980-2010
3,00 ]
2,50 1
2,00 |
1,50 1
1,00 |
0,50 1
0,00 4
Ingresso no Conclusão do Ingresso no
ensino médio ensino médio ensino superior
mm 1960 me 199) Nem 2000 me 2010
Fonte: IBGE, Censos Demográficos 1980-2010. Tabulações especiais do CEM.
* Foram considerados apenas os que realizaram a transição prévia.
Em geral, houve redução das desigualdades raciais ao longo do tempo
nas três transições, com algumas especificidades. Para ingresso no ensino
médio, nota-se um declínio da vantagem do grupo branco (que cai de 2,25
vezes para 1,5), sendo que, entre 1990 e 2000, houve ligeiro aumento.
Para a conclusão do ensino médio, observa-se queda brusca da posição
dos brancos entre 1980 e 1990, nenhuma mudança entre 1990 e 2000
e ligeira queda entre 2000 e 2010. A vantagem dos filhos brancos para
ingresso no ensino superior não se altera entre 1980 e 1990, aumenta
entre 1990 e 2000 e diminui entre 2000 e 2010.
O interesse fina! desta análise é destacar quais foram as chances, nas
décadas analisadas, de os filhos conseguirem se aproximar do destino
dos pais, ingressando no ensino superior. O gráfico a seguir traz dados
específicos sobre essa transição. Considerando os que concluíram o ensino
médio e que ingressaram no ensino superior, Observa-se desigualdade um pouco
maior. Dentre os brancos, a proporção que ingressa é de 87,1%, e, dentre
os negros, de 78,1%.
186
Desigualdades raciais no Brasil: um desafio persistente
Gráfico 10 — Proporção e razão de chance de ingresso no ensino
superior de filhos de pais com nível superior, maiores de 18 anos,
segundo cor/raça* — Brasil, 1980-2010
90,0 + r 3,00
385,0 + F 2,50
FE
nn.
a
o 800 1 F 2,00 &
E q
É O
275,0 1 - 1,50 €
= o
E 1
E 70,0 1 - 1,00 3
2 65,0 | S 0,50
60,0 r r t 0,00
1980 1991 2000 2010
—E- Não brancos —&- Brancos —O- Razão de chance
Fonte: IBGE. Censos Demográficos 1980-2010. Tabulações especiais do CEM,
* Concluíram o ensino médio e ingressaram no ensino superior.
Analisando a linha das razões de chance, conclui-se que, entre 1980
e 1990, a vantagerm dos grupos brancos não se alterou; entre 1990 e
2000, aumentou; e, entre 2000 e 2010, decresceu, marcando mais uma
vez a especificidade do último período no que diz respeito à tendência de
mudança do cenário racial brasileiro.
Considerações finais
Aolongo deste capítulo, procurou-se demonstrar que a condição racial
é um atributo importante no entendimento das desigualdades sociais em
geral. Ao mesmo tempo, a construção dessa agenda de pesquisa sempre
se deparou com a necessidade de lidar com o cerne da questão, qual seja,
raça e classe. Essa dificuldade não é exclusiva da sociedade brasileira, mas
187
Márcia Lima e lan Prales
por aqui ganha contornos muito específicos. Isso fica claro com a revisão
dos estudos clássicos sobre o tema no Brasil, nos quais se percebe uma
distinção entre a análise das desigualdades e a das relações raciais.
Em relação às desigualdades raciais, os dados têm sido inequívocos
e mostram como o processo cumulativo de desvantagens socioeconômi-
cas não só colocou a população negra na base da pirâmide social, como
também revelou forte capacidade de reprodução, fazendo que diversas
gerações desse grupo tenham maiores dificuldades de mobilidade social
(Hasenbalg; Silva, 1990; Lima, 2001; Hasenbalg et al., 1999). Quanto à
investigação sobre situações de discriminação, os desafios são de outra
ordem, pois pesquisas desse tipo dependem do relato dos indivíduos que
viveram suas próprias experiências e, por isso, enfrentam dificuldades
analíticas. Enquanto os dados relatam situações de grupos, o cotidiano
fala de situações de discriminação associadas a experiências individuais
e em contextos muito específicos.
Este capítulo empregou dados censitários e examinou realizações
educacionais, inserção ocupacional e rendimento de negros e brancos,
considerando o pertencimento ao mesmo quintil de renda ou tendo ambos
a posse de ensino superior ou pais com nível superior, para investigar o
efeito racial dentro de condições semelhantes de classe.
Os achados mais importantes apontarn que as desigualdades raciais
diminuíram, mas, dado seu alto índice nos anos 1980, ainda é possível
encontrar taxas expressivas em 2010. Além disso, o rendimento familiar
interfere na diminuição da desigualdade, apresentando menos desequilí-
brios dentro dos quintis de renda. Porém, novamente há resquícios dessa
desigualdade, principalmente se se considerar o acesso ao nível superior
entre os mais pobres.
No que diz respeito aos retornos no investimento em educação
superior, o pertencimento ao grupo dos graduados é fator importante,
porém não decisivo para diminuir desigualdade racial. Entre as carreiras
escolhidas, há diferenças na inserção nos estratos ocupacionais e, mesmo
entre aqueles que têm qualificações e inserções semelhantes, as distorções
salariais persistem.
Por fim, a posse do diploma superior dos pais tem impacto decisivo
no alcance educacional dos filhos. Nesse item, a desigualdade racial se
188
Desigualdades raciais no Brasil: um desafio persistente
expressa pela baixa proporção de negros dentre aqueles cujos país têm
nível superior e pela maior desigualdade para que esses filhos façam a
transição entre o ensino médio e o ingresso na universidade. Essas dife-
renças, porém, têm diminuído ao longo do tempo.
189
PARTE Ill
POLÍTICAS PÚBLICAS