Caráter Público e Identidade Acadêmica Na Educação Superior
Caráter Público e Identidade Acadêmica Na Educação Superior
Faculdade de Educação
Programa de Pós-Graduação em Educação
Tese de Doutorado
Porto Alegre
2004
Universidade Federal do Rio Grande do Sul
Faculdade de Educação
Programa de Pós-Graduação em Educação
Porto Alegre
2004
Caráter público e identidade acadêmica na educação superior: uma análise
da diversificação institucional por meio do estudo de centros universitários
Aprovado em:
2
Ao Nazur, à Marina, ao Filipe e ao Vinicius, razões
maiores da minha vida, pela paciência e pela espera
amorosa.
3
Agradecimentos
À Prof ª Dr ª Denise Balarine Cavalheiro Leite pelo acompanhamento, pelo incentivo e pela
oportunidade de aprendizado.
Aos Centros Universitários estudados pela oportunidade de investigar a sua realidade e pelo
despojamento necessário para isso.
À FAPA pelo apoio e pela trajetória. Aos colegas queridos, na pessoa da Coordenadora do
Núcleo Integrado de Pós-Graduação Jane Batista.
4
Resumo
Esta tese interpreta o caráter das mudanças que ocorrem na educação superior a partir
do processo de reformas iniciado nos anos 1990. O contexto dos acontecimentos é o das
reformas políticas com dimensão globalizada. Focalizou-se a diversificação institucional por
meio do estudo de casos de centros universitários. A análise exigiu o estudo de disputas
históricas, da legislação recente e de concepções e práticas sobre a vida acadêmica em
instituições de ensino superior.
A ótica sobre a realidade e sobre elementos da filosofia política, a partir de Hannah
Arendt e de Jurgen Habermas, bem como da sociologia política de Boaventura de Souza
Santos permitiram a constituição das categorias analíticas de caráter público e de legitimidade
pública.
A compreensão a que se chegou permite defender que a diversificação institucional na
educação superior, uma tendência internacional, possui caráter público frágil e está presente
no caso brasileiro, expressando-se por meio dos centros universitários, os quais, não
possuindo identidade acadêmica consolidada, contam com baixa legitimidade no sistema,
embora situem-se em um marco legal de definição crescente e tendam a aprimorar-se
academicamente. Nos casos estudados, vê-se que a legitimidade pública existente é oriunda
dos históricos institucionais comunitário e/ou confessional.
5
Abstract
This study interprets the changes occurred in the high education when a reforming
process was begun in the 90′s. The context of these happenings is one of political changes
linked to globalization. The institutional diversification was focused through a case study in
universitary centers. The analysis demanded a study of historical disputes, as well as the
present legislation, conceptions and practices about academic life in higher education
institutions.
The view over reality and elements of political philosophy - from Hannah Arendt and
Jurgen Habermas, as well as the political sociology of Boaventura de Souza Santos – allowed
the constitution of analytical categories of public character and legimity.
It can be said that institutional variety in high education – an international tendency –
has a fragile public character and it exists in the Brazilian reality. It is expressed in the
universitary centers, which without a consolidated academic identity are not strongly
accredited by the system, though supported by a growing definition law and showing
academic improvement. From the cases studied, it was observed that the existent public
legitimity comes from the history of communitary and/or confessional institutions.
6
Lista de Quadros
7
Lista de Tabelas
8
Lista de siglas
BM – Banco Mundial
9
UDN – União Democrática Nacional
10
Sumário
Resumo............................................................................................................................5
Abstract...........................................................................................................................6
Lista de quadros.............................................................................................................7
Lista de tabelas...............................................................................................................8
Lista de siglas..................................................................................................................9
Prólogo...........................................................................................................................13
Introdução: a construção do objeto de estudo...........................................................14
O problema e sua constituição...................................................................................14
Objetivos e justificativa.............................................................................................18
Abordagem teórica.....................................................................................................21
Método do estudo.......................................................................................................25
Estrutura do texto.......................................................................................................32
11
Capítulo 4 - Educação superior, setor privado e centros universitários
contradições e características legais e reais........................................150
4.1 Setor privado e centros universitários................................................................151
4.1.1 Diversidade no sistema e setor privado....................................................151
4.1.2 Marco legal: diversificação dos centros universitários.............................162
4.1.3 Campo político: concepção, representações e disputas............................168
4.2 Educação superior privada no Rio Grande do Sul..............................................179
4.3 Educação superior e competitividade institucional: tipos ideais para
análise dos casos................................................................................................184
Conclusão.....................................................................................................................258
Referências Bibliográficas..........................................................................................262
Apêndices.....................................................................................................................271
12
Prólogo
trajetória de vínculo com a universidade pública é forte e criou condições para a formação de
graduação, suportando, com infra-estrutura necessária, as condições para que pudesse dedicar-
me ao estudo. Além disso, a universidade pública também criou condições para realização de
meu mestrado e doutorado. Sem ela, certamente, haveria um número a menos nas estatísticas
sobre sua importância e de defesa da sua continuidade com a legitimidade e a força capazes
impediriam-nos de obter uma formação superior. Com a outra instituição, minha relação é de
públicos.
Meu interesse acadêmico pelo estudo da educação superior está diretamente ligado à
minha vida estudantil e profissional. A abordagem proposta nesta tese alia esse interesse com
frente ao desafio de buscar entender e discutir o caráter público de instituições que não são
públicas a priori.
13
Introdução: a construção do objeto de pesquisa
estudo. Além dos objetivos do trabalho, são apresentados a abordagem teórica e os métodos e
público da educação superior. As instituições responsáveis por esse nível de educação são
movimento que repercute nas políticas educacionais. Paralelamente, ocorrem alterações nas
uso de tecnologias que permitem, e também exigem, uma relação dinâmica dos indivíduos
modo geral, nas últimas décadas, as sociedades têm de atender a um contingente maior de
1
Neste estudo, as expressões educação superior e ensino superior são utilizadas como sinônimos porque o foco
do estudo não são as relações pedagógicas, embora estas não sejam menos importantes. Focaliza-se o tipo de
conhecimento universitário e acadêmico, e isso permite trabalhar com educação e ensino de forma análoga.
Quando se discute a noção de educação superior (Capítulos 2 e 4) é com o objetivo de distingui-la de educação
terciária, uma vez que esta é entendida como acadêmica e a educação terciária como vocacional, técnica.
14
indivíduos que buscam educação superior. Esse fenômeno é particularmente visível em países
que possuem baixo índice de escolarização superior, como é o caso do Brasil. Portanto, a
expansão do acesso tem sido uma ação indispensável das políticas governamentais. Isso,
porém, não é realizado de forma linear de modo a garantir ganhos ao conjunto dos segmentos
envolvidos e à sociedade.
superior. Os destaques citados não constituem algo peculiar da sociedade brasileira. É nítido o
do Comércio (OMC).
Diante disso, o problema, objeto de estudo desta tese, é interpretar o caráter das
mudanças do ponto de vista de suas implicações sociais e políticas e, para isso, a noção de
público precisa ser considerada. Assim, este estudo propõe-se a analisar e discutir o caráter
políticos. Dessa forma, por exemplo, entende-se que o caráter público da educação superior
15
brasileira pode ser compreendido a partir das perspectivas externas que o influenciam, assim
sociedade.
ações da esfera estatal e da esfera do setor privado, cria o fenômeno da reforma da educação
1960-70. Isso ocorre porque se está vivendo outro momento histórico e porque já não existe
precederam, a reforma dos anos 90 foi sendo gestada aos poucos, sem que houvesse um grupo
sistema. Isso não significa, porém, que se trate de mudanças políticas oriundas de discussão
com a sociedade civil organizada ou com a comunidade acadêmica. Ela resulta, em grande
medida, de ações estatais, cuja origem está no ajuste do Estado com vistas a atender a
ampliação do número de instituições. Ocorre, desde a segunda metade dos anos 90, um novo
boom no crescimento desse setor, fenômeno semelhante ao de diversos países em que houve
desenvolvimento do setor privado tardio e/ou o setor tornou-se responsável pela massificação
desse nível de ensino. No caso brasileiro, o setor privado é responsável por aproximadamente
76%2 do número de matrículas do sistema e por 88% do total de instituições, tendo uma
2
MEC/INEP, Sinopse Estatística da Educação Superior, 2002.
16
Por outro lado, observa-se que o ensino superior brasileiro vem ampliando as formas
instituição de ensino superior, os centros universitários. A partir de 1997, esse novo tipo é
O novo tipo institucional no sistema de ensino superior brasileiro nasce, portanto, num
internacionalmente e sua expansão com base no setor privado. Diante disso, cabe investigar a
identidade da educação desenvolvida nestes novos formatos e o possível caráter público que
identidade acadêmica desse tipo de IES, bem como a revelação de traços da política de
possibilita também interpretar uma nova faceta do caráter público da educação superior.
várias naturezas, a fim de que a realidade empírica seja interpretada numa relação orgânica
com aquilo que contribui para sua constituição. Desta maneira, trata-se de examinar
relação com o modelo clássico da universidade moderna, considerando a legitimidade que lhe
discussão sobre o que se entende por caráter público da educação superior. Para tanto, busca-
17
As disputas históricas em torno do caráter público e das identidades da educação
associados a períodos de reformas políticas. As disputas mais recentes que opõem público e
da diversificação.
Ressalta-se que não há consenso sobre a utilização dos termos para expressar os
Vê-se que autores como Sguissardi (2000) entendem que o termo diferenciação
institucional se aplica aos casos de ampliação dos tipos de instituições, distinguindo, por
caminho inclusive para que a universidade pública busque auto-financiamento junto ao setor
estudo, etc. Neste estudo optou-se por classificar a heterogeneidade institucional como
diversificação institucional.
Objetivos e justificativa
Este estudo tem como objetivo geral discutir o caráter público da educação superior
18
Para realizar esse objetivo, estudam-se dois casos de centros universitários do Rio
eleição dos centros universitários justifica-se pelo fato de que esse tipo de instituição, de
importante mudança na política para educação superior, uma vez que a prerrogativa da
19
acadêmica especificada na lei para detê-la, ou seja, praticar ensino, pesquisa e extensão de
por meio de estudos sistemáticos, permite conhecer um pouco mais sobre o sistema brasileiro
instituições sociais específicas. Nesses espaços e IES, há tanto expressão da lógica maior
como outros elementos e outras potencialidades. Diante do exposto, a análise dos centros
e, menos ainda, sua negação. Busca-se, isto sim, conhecer um espaço social que tem a
educação superior como objeto central e que, devido a isso, precisa contribuir para realização
entendido, neste estudo, como válido para analisar a realidade atual. Sua validade não se
nele a inspiração para analisar o presente. Enquanto a vida em sociedade exige um nível de
política e pertinência social, se estará tratando de caráter público. É hipótese de trabalho que
20
esse traço também pode ser encontrado nas IES, cujo mantenedor não seja necessariamente o
Estado.
De outra parte, o presente estudo colabora para a apreensão de uma realidade que não
tem sido privilegiada como campo de investigação. Grande parte dos estudos sobre o
educação superior no Brasil e sobre suas transformações volta-se para a análise das
universidades, especialmente tomando como objeto as grandes IES públicas e estatais3. Uma
pesquisa, são elas próprias e seus agentes que estão à frente na realização de análises sobre a
realidade das transformações. Se, de um lado, isso contribui para o conhecimento de um setor
de indubitável importância quando se fala em educação superior, por outro lado, essa ênfase
setor privado.
afirmar que, historicamente, tem havido grande preocupação com a função ensino e é possível
que se encontre aí uma justificativa para a ausência de pesquisas que viabilizem um auto-
dinâmica de sua expansão tem suscitado interesse pela produção de estudos que contribuam
Abordagem teórica
A análise do ensino superior precisa ser entendida a partir das políticas que lhe dão
origem, e essas não poderiam ser tratadas se não se considerassem as transformações globais
3
Há uma importante variedade de estudos que apresentam a problemática em torno das Universidades Federais.
Atualmente o contingente de estudos sobre a idéia de crise nesse tipo de IES tem evidenciado preocupação, por
exemplo, com perspectivas de diminuição de autonomia frente à necessidade de busca de auto-financiamento no
mercado, frente à necessidade de adoção de lógica produtivista, etc. Vários estudos refletem esse tipo de
preocupação, por exemplo, LEITE, 1997; CATANI,1998; CHAUÍ, 1999;.TRINDADE, 1999, SGUISSARDI,
2000; SGUISSARDI, 2001; PANIZZI, 2002.
21
que intervêm nessa elaboração. Essas transformações são oriundas das relações de mercado,
preciso tratar do atual momento histórico, mas é preciso também compreender qual é a
natureza das mudanças no que tange à atuação do Estado na relação com a sociedade civil e
com o mercado.
Estado, sinônimo de instituição pública na modernidade, sua lógica e sua capacidade de ação
desenvolvimentista. Por sua vez, a saída neoliberal do Estado mínimo mostrou-se frágil em
pouco tempo. A atual reforma do ensino superior que diversifica institucionalmente e que
promove a expansão do setor privado, parece estar no cenário de um Estado que não é nem
neoliberal típico, nem é ente, estritamente, liberal, político, e democrático como foi o Estado
de bem-estar social.
ação política e para afirmação da esfera pública. Trata-se de questões teóricas que permitem
Estado, mas em espaços e instituições sociais que possam garanti-los, na medida em que o
objeto de seu fazer está diretamente ligado à natureza pública da vida em sociedade. Este é o
caso da educação superior. As questões teóricas sobre a noção de público são debatidas a
Hannah Arendt contribui para que se valorize a política como arte de construção de
4
“Público, como adjetivo filosófico, designa o conhecimento que não pertence à esfera privada, é tudo aquilo
que pode ser participado ou comunicado pela linguagem nas suas diferentes formas”. (Abbagnano, N.
Dicionário de filosofia. São Paulo: Mestre, 1982)
22
sua exposição pública. É nas trocas públicas que a coletividade e também as individualidades
apresentada por ele, discutindo a noção de democracia procedural, procura um caminho para o
vista. Nesse caminho, ele considera a política e o agir comunicativo não-estratégico como
elementos básicos para a efetivação da soberania como procedimento e não como um corpo
Boaventura de Souza Santos entende que as sociedades atuais não podem ser pensadas
através da contradição entre Estado x sociedade civil ou entre a dicotomia público x privado,
estruturais, cada um com um tipo de dinâmica e ênfase próprias, capazes de interligar relações
Esses elementos teóricos permitem trabalhar com o conceito de esfera pública, não
como sinônimo de estatal, nem como oposição ao Estado. Público é entendido como esfera
pública constituída por relações que se produzem nos interstícios criados pelos agentes sociais
23
por definição. Especialmente na fase de internacionalização da economia e de trocas culturais,
o Estado apresenta fragilização e perde mais claramente autonomia como poder político
central de uma nação. Torna-se um imperativo que muitas de suas ações tendam a convergir
segui-las. Entretanto, não significa que não haja espaço para a contradição, permitindo ver
Essa ótica sobre o Estado permite a compreensão das políticas estatais como resultado
de processos políticos contraditórios, através dos quais os agentes sociais e os políticos, com
Jr., 1999), de quase-mercado (AFONSO, 2000 e 2001) e vê-se que a idéia de Estado regulador
(NUNES, 2002), no caso do ensino superior, está muito mais próxima da lógica de mercado
pública.
24
trajetória de formação do Estado e das disputas em torno do caráter público do ensino superior
no Brasil.
A noção de educação superior foi explicitada através dos estudos que discutem a idéia
de educação superior, os quais expressam distintas atuações e relações com práticas de caráter
entendida como apoio em Thomaz S. Popkewitz (1997), como se pode ver a seguir.
Método do estudo
Este estudo possui um caráter empírico, pois analisa uma realidade concreta, por meio
Segundo Bravo (1996, p. 137), as “tesis empíricas son las que implican una investigación
empírica, es decir, las que tienen por objeto el estudio de una determinada realidad
possuem origens diversas e que são também de naturezas distintas – empírica, teórica,
histórica, estrutural, entre outras. Sendo assim, o caráter empírico expõe o fato de que há uma
realidade concreta que está no centro da análise, e isto quer dizer que os dados e as
diversas etapas da elaboração. De outra parte, o objeto da investigação persegue uma natureza
saber “cuáles son las fuerzas e interesses sociales y económicos que actúan respecto al
25
fenómeno de que se trate, y cuáles son los conflictos y tensiones que producen” (BRAVO,
1996, p. 144). As tensões aparecem no contexto internacional, nas disputas nacionais sobre as
como resultado de conflitos, capazes de qualificar relações nos mais variados espaços sociais.
traço das relações sociais no campo sob investigação. Buscou-se encontrar a possibilidade de
reconhecimento por parte dos segmentos sociais. Assim, a noção de tipo-ideal é utilizada
para pensar a natureza das instituições e o tipo de competitividade que elas implementam a
sociais, mas que também valoriza as microrrelações, entendendo ambas como produtoras da
26
realidade. Trabalhou-se com a idéia de reforma educacional produzida não apenas por um
ente que possui autoridade para tal – o Estado –, mas por uma conjugação de fatores e poderes
que se combinam fazendo preponderar um tipo de direcionamento sobre como reformar, uma
vez que a idéia de reforma não possui sentido ideológico e ou epistemológico únicos
(POPKEWITZ, 1997).
O estudo das reformas educacionais, desse ponto de vista, seguiu a interpretação das
racionalidades em jogo nos processos sociais. Daí se originou a análise do elemento política,
poder como nos públicos aos quais se refere. A argumentação do autor permite entender que,
no caso do uso da noção de reforma, os analistas têm se projetado sobre o fato a ser analisado
que essa noção não possui um conteúdo essencial em si, mas varia de acordo com o fenômeno
e com as condições históricas em que ocorre. Ela implica “uma consideração das relações
27
No caso do presente estudo, nem se pretende uma ‘neutralidade’ positivista, nem a
postura de curiosidade intelectual diante de uma realidade que tem sido investigada no âmbito
mais amplo – transformações recentes no ensino superior -, mas é muito pouco conhecida na
Sul.
científicos. Sua posição é instigante. Popkewitz procura romper com as idéias iluministas de
progresso, de verdade única, chamando atenção para o fato de que as pesquisas e a ciência
28
decisão e da formulação da política estatal como na ação de agentes e outros poderes
envolvidos. Por isso, entende-se que a idéia de reforma é compatível com as características do
fenômeno que se busca entender. Enfim, a noção de reforma aqui adotada e inspirada em
Popkewitz significa que é possível ver ações políticas prescritivas, normativas e limitadoras
das práticas sociais. As reformas ocorrem com base em relações de disputas que se revelam
agentes sociais.
Com base nesse ponto de vista, há uma tendência da dinâmica histórica atual de
pretensamente universal. Nesta pesquisa questiona-se esta posição, inclusive através da sua
ótica metodológica plural. Deseja-se, através da lógica da descoberta, trazer à tona fragmentos
A - Coleta de informações
1).
29
Junto a personalidades vinculadas à produção e/ou interpretação das políticas públicas
para que se interpretassem traços de legitimidade pública, através de aspectos que expusessem
as concepções e práticas de ensino, pesquisa e extensão em cada uma das instituições. Para
B - Categorização e análise
meramente intuitivas. Elas têm origem em alguma fonte que ofereça o substrato ao
classificador, permitindo a criação de nexos entre ações e relações, objeto de atenção (MARI,
2002, p.71). No presente estudo, chegou-se às categorias de análise por meio da consideração
legitimidade em Weber (1984) e de reforma em Popkewitz (1997). Com base neles, tornou-se
possível formular duas categorias centrais de análise para englobar o tratamento dos níveis da
ensino superior na sua dimensão ampla e o da diversificação em sua dimensão estrita, como
30
De outra parte, a idéia de universidade e a de educação superior são trabalhadas a fim
identidade acadêmica das instituições analisadas nos casos eleitos. Portanto, através da
interpreta-se sua identidade, sendo que este é um aspecto básico para constituir a categoria de
refere à organização acadêmica, à seleção e à repercussão social de seu trabalho, enfim ao tipo
de competitividade que implementam. A construção como modelo para a análise foi elaborada
obedecendo o princípio weberiano de recurso para comparação com a realidade e não como
auxílio do software para análise de dados qualitativos chamado N-Vivo, Versão 1.1. Desta
maneira, o conteúdo das entrevistas com dirigentes de centros universitários foi classificado
inicialmente a partir de uma diversidade de recortes que permitiram alimentar três grandes
focalizadas.
organização do material coletado, formando cada uma das dimensões de estudo. As mesmas
construção intelectual com nível de abstração baixo, a qual foi articulada de forma crescente
31
Estrutura do texto
Este estudo está dividido em seis capítulos. O primeiro capítulo apresenta aspectos da
Ainda no mesmo capítulo, trata-se do setor privado do ensino superior em diversos países,
nessa macrorrealidade.
O segundo capítulo trata de dois tipos de questões de naturezas distintas, mas que
pública.
O capítulo seguinte, com foco para a educação superior em diferentes períodos, trata
disputas ideológicas entre público e privado que formaram a tônica de desenvolvimento desse
nível educacional no Brasil. O liberalismo aparece nas diversas fases como liberalismo
adjetivado e combinado com traços bastante típicos da vida política brasileira. Na fase mais
recente, durante os anos 90, apresentam-se duas formas de interpretar a reforma da educação
que defende o formato único para o ensino superior, da universidade com ensino, pesquisa e
32
O quarto capítulo aproxima-se do foco do estudo empírico, analisando a presença do
aos centros universitários na legislação, bem como concepções e disputas políticas em torno
desse tipo institucional. Ao final deste capítulo, são constituídos os tipos-ideais de instituições
análises de cada caso, com base em elementos coletados nas instituições focalizadas.
legitimidade.
público lato senso da educação superior, mesmo em instituições não públicas como fonte para
33
Capítulo 1 – Educação superior, reformas e tendências internacionais
determinismo desses processos macro sobre a dimensão microssocial. Eles precisam ser
locais. Há lógicas globais que se fazem nitidamente presentes, mas há também diferentes
ocorre no interior do modelo capitalista de organização social mundial têm reflexos diretos na
organismos internacionais, que avaliam e propõem caminhos para a dinâmica dessa realidade,
educação. As políticas estatais nacionais não estão fora desse circuito de mudanças e atuam de
forma convergente com as dinâmicas mais amplas seja das transformações econômicas, seja
Econômico (OCDE). Estes organismos atuam em nível internacional, mas possuem grande
34
importância na definição de políticas, de investimentos e no desenvolvimento dos sistemas de
Este capítulo apresenta outras tendências atuais dos sistemas de educação superior,
possa ser suficiente para explicar as situações locais, sem essa noção se estaria distante de
aspectos básicos que intervêm nas mudanças e nas reformas da educação superior brasileiro
na atualidade.
O termo globalização tem sido intensamente usado para interpretar o atual processo de
Para iniciar a análise, é necessário considerar elementos das fases que precederam a
5
Essa ótica aparece, por exemplo, desde um ponto de vista sociológico em Boaventura de Souza Santos, Octávio
Ianni e Zigmunt Baumann, e desde uma análise econômica em François Chesnais.
35
fase do Estado intervencionista – de bem-estar ou desenvolvimentista – em termos políticos.
O esgotamento desse período ocorreu não pelo seu insucesso, mas por ter levado ao limite o
como é o caso de automóveis, eletrodomésticos, e outros. Essa fase também propiciou aos
aumento dos lucros. O resultado pode ser visto na alta prosperidade das economias
financeiros.
acumulação flexível. Formaram-se três grandes regiões econômicas que permitem uma
36
Agreement (Nafta), tendo os Estados Unidos da América (EUA) à frente; a da União
Santos (2001) sintetiza os principais aspectos através dos quais as transformações têm
Estas transformações têm vindo a atravessar todo o sistema mundial, ainda que
com intensidade desigual consoante a posição dos países no sistema mundial.
As implicações destas transformações para as políticas económicas nacionais
podem ser resumidas nas seguintes orientações ou exigências: as economias
nacionais devem abrir-se ao mercado mundial e os preços locais devem
tendencialmente adequar-se aos preços internacionais; deve ser dada prioridade
à economia de exportação; as políticas monetárias e fiscais devem ser
orientadas para a redução da inflação e da dívida pública e para a vigilância
sobre a balança de pagamentos; os direitos de propriedade privada devem ser
claros e invioláveis; o sector empresarial do Estado deve ser privatizado; a
tomada de decisão privada, apoiada por preços estáveis, deve ditar os padrões
nacionais de especialização, a mobilidade dos recursos, dos investimentos e dos
lucros; a regulação estatal da economia deve ser mínima; deve reduzir-se o peso
das políticas sociais no orçamento do Estado, reduzindo o montante das
transferências sociais, eliminando a sua universalidade, e transformando-as em
meras medidas compensatórias em relação aos estratos sociais inequivocamente
vulneráveis pela atuação do mercado (SANTOS, 2001, p. 35).
De fato, as mudanças ocorrem em vários terrenos e estão interconectadas, uma vez que
produzir políticas que anunciam maior liberdade de mercado. Isso não impede que existam
6
Segundo Gomez (1999) entre1980 e 1988, a massa de capital-dinheiro teve capacidade de duplicação no
mundo, o comércio internacional cresceu três vezes e os investimentos diretos feitos pelo capital financeiro, as
transações financeiras internacionais aumentaram oito vezes e meia.
7
Segundo Vizentini (1997), “tigres asiáticos” refere-se aos novos países industrializados que sofreram impulso
dinamizador do “capitalismo japonês e, posteriormente, a ascensão econômica do mundo chinês”.
37
Mundial do Comércio. Junto ao processo de financeirização das economias e de intensificação
do comércio internacional, esses organismos assumem tarefas que lhe garantem alta
seja precoce falar-se em fim dos estados-nacionais, porém visualizar fragilizações nesse
econômicos não expõem apenas necessidades para circulação mais rápida de capitais, mas
expressam a capacidade que o capital altamente concentrado tem de garantir seus interesses
contradição está no fato de que os Estados não produzem riqueza; arrecadam-na ou criam
limite, uma vez que as dívidas públicas, através dos déficits públicos e déficits fiscais,
intervêm nesse processo. Para Boaventura Santos, é falácia considerar que a globalização é
38
política dos Estados centrais como são políticas as decisões dos Estados que o adoptam com
Desse ponto de vista, não há como separar o fenômeno da globalização de sua base de
Estado.
Outra contribuição importante para pensar as ações do Estado nesse contexto vem de
Almerindo Afonso (2000). Ela rejeita tanto a ótica liberal como a marxista ortodoxa e entende
que há novas formas de representações das concepções de bem comum e de espaço público na
ações políticas voltadas para racionalidade do mercado. Isso ocorre sem que haja uma
neoliberais.
reformas políticas realizadas até aqui no caso brasileiro, identifica-se com características do
8
A expressão Consenso de Washington foi cunhada no meio acadêmico a partir de um paper publicado em
1990, o qual expressava o conjunto de reformas considerado necessário para a América Latina a partir da
perspectiva de organismos internacionais como o FMI, FED, BIRD, BID, etc. Fonte: Palestra de José Luiz Fiori,
1996. Http://www.dhnet.org.br/direitos/DireitosGlobais/textos/consenso-w.htm Acesso em 31/03/2004.
39
Estado no seu vínculo com a comunidade, e isso evidenciaria fortalecimento de funções
públicas do Estado. Entretanto, se esta é uma possibilidade, o que predomina por enquanto é
um forte papel de organismos internacionais interferindo nos rumos da política e das ações
Esta seção apresenta elementos sobre a concepção de educação superior e sobre sua
educacional.
9
O Apêndice D, Quadro 1.1: Concepção de Educação Superior e de Diversificação Institucional em Documentos
de Organismos Internacionais, apresenta uma síntese da exposição a seguir.
40
e dificuldades financeiras. A UNESCO reconhece o período de rápidas transformações e
liberdade acadêmica e autonomia institucional, afirma que a “pesquisa não é tão-somente uma
das maiores funções do ensino superior, mas também uma pré-condição de sua relevância
como princípios fundamentais para assegurar e enaltecer a relevância; (b) qualidade, definida
ensino superior; (c) e interiorização, a característica inerente ao ensino superior que tem
p.27): tipo, tamanho, perfil acadêmico, corpo estudantil e status. Relativo ao tipo de
instituição, as IES podem ser universitárias ou não universitárias. O critério neste caso, faz
estudos. O tamanho das instituições constitui outro indicativo da diversidade, sendo que há
multicampus. O perfil acadêmico e nível de estudo é outra variante, havendo não apenas
instituições que não compõem o sistema de ensino superior e cujos portadores requerem
41
entre estudos e experiência profissional, por razões econômicas e sociais. Os recursos que
Nesse documento, que foi elaborado em 1995, tendo sido debatido nos anos anteriores,
já ficava bastante evidente a preocupação com a expansão da educação superior com base
numa política de restrição de gastos públicos. Ficava também registrado o compromisso com
externos e internos (UNESCO, 1999a, p. 34). Externamente, (a) acorrem novas clientelas, (b)
acontecem mudanças no mercado de trabalho que repercutem junto a esse nível de ensino e a
sua organização, (c) há corte em gastos públicos. Internamente, (a) ocorre maior
ensino superior .
aspectos que chamam atenção para fins da análise aqui proposta. O primeiro diz respeito à
42
O outro ponto importante diz respeito à pesquisa. Considera que seja indispensável a
um bom sistema de ensino superior desenvolver pesquisa envolvendo pelo menos parte dos
tendências gerais, mas também para instigar aspectos pontuais sobre o fazer acadêmico e
ao mesmo tempo, o aumento das disparidades nesse segmento entre países industrializados,
como questão social, apontando alternativas que possuem um enfoque filosófico humanista.
Defende que a educação superior precisa ser vista a partir da contribuição para qualificação da
10
A CMES, de 1998, foi precedida de Conferências Regionais sobre Educação Superior. O Brasil fez parte da
Conferência Regional sobre Políticas e Estratégias para a Transformação da Educação Superior na América
Latina e Caribe, em Havana/Cuba, em novembro de 1996.
43
diversos níveis. A educação superior possui missões e funções básicas que são enumeradas,
esclarecendo também uma visão de futuro e ações correspondentes. Para este estudo,
também para consolidação dos direitos humanos. A igualdade no acesso para diferentes
mérito individual. Além da pesquisa, entendida como função essencial, a educação superior
deve garantir sua relevância, visando a objetivos de longo prazo, mas incluindo respeito a
um “bien público, esto es, un bien patrimonio de la sociedad entera, em una nación dada.”
(GUARGA, 2003, p. 2). Guarga destaca, entre outras coisas, a “fuerte énfasis en la
11
“A segunda metade do século XX passará para a história da educação superior como o período de sua
expansão mais espetacular: o número de matrículas de estudantes em escala mundial multiplicou-se mais de seis
vezes, de 13 milhões em 1960 a 82 milhões em 1995” (UNESCO, 1999b, 17).
44
A valorização da pesquisa nesse documento parece possuir um sentido restrito e está
havendo diversificação, nem todas as IES terão essa função. A diversificação do ensino
superior, por sua vez, é apresentada como forma de ampliar a igualdade de oportunidades.
Assim,
Cabe destacar que o presente artigo (8º) não apresenta de forma mais minuciosa a
sem fins lucrativos, entre outras”, deixando o espaço aberto também para tipos opostos. Além
disso, o documento não trata da distinção entre instituições universitária e não universitária,
deixando indicativo de que há espaço para todas, uma vez que a diversificação de ofertas de
estudos deve ser intensa. Como já se chamou atenção, no entanto, considera a função e a
embora isso não signifique que todas as IES praticarão pesquisa acadêmica stricto sensu.
práticas. O tipo de encaminhamento dado à realidade depende das óticas e das forças em
disputa. Como se verá, há óticas que adotam ênfases bastante divergentes e forças expressivas
ocorreu cinco anos após, em 2003. Desse encontro não se obteve documento final, mas sim
um documento que esclarece alguns pontos importantes. Sob o título Paris 1998+5:
45
Seguimento o revision de la Conferencia Mundial sobre Educación Superior de la UNESCO,
Esclarece que o propósito de seu trabalho é sintetizar o significado que a CMES possui
Procede uma análise que denuncia a ótica privilegiada pelas análises do BM sobre educação
registra também o descontentamento com a plenária final, quando o relator geral apresenta
não expressava uma posição de consenso. No conteúdo, defendem a noção de bem público,
referente aos estados nacionais que o legitimam, frente à noção de bem público global que,
46
1.2.2 A visão do Banco Mundial: diversificação e otimização de resultados
econômicos
implementação das mudanças no ensino superior em diferentes países. No caso brasileiro, sua
influência é inegável. Neste item, é apresentada a ótica defendida por esse organismo, a qual
novo modelo de produção: o conhecimento. Com base nas análises de Rafael Guarga
apresentar-se-ão contrapontos.
O primeiro documento objeto de atenção tem sua versão original publicada em 1994 e,
para reformas que obedeçam a quatro requisitos básicos: (a) fomentar maior diferenciação de
para que as IES públicas diversifiquem as fontes de financiamento; (c) redefinir a função do
governo no ensino superior; (d) e adotar políticas que dêem prioridade à qualidade e à
igualdade.
superior é o ponto alto desse documento. Quanto à diversificação institucional, identifica que
as matrículas têm crescido em instituições de ensino superior não universitárias, que incluem
de ensino a distância. Nesse tipo de IES os custos são mais baixos, sendo mais baratos para os
47
estudantes e tendo maior facilidade de execução por parte de mantenedoras privadas (BM,
1995, p. 5).
instituições privadas, uma vez que “pueden reaccionar en forma eficiente y flexible al cambio
de la demanda, y amplían las oportunidades educacionales com poco o ningún costo adicional
para el Estado”12 (BM, 1995, p. 6). Fica claro o posicionamento no sentido de fortalecer
quando consideradas instituições de segunda categoria diante das universidades, essas IES
não oferecem ensino de qualidade que possa garantir a competição na disputa de vaga por
trabalho. De outro lado, o BM alerta para o fato de que IES com objetivos específicos -
autorgar títulos, por exemplo. Assim, essa situação é chamada de ‘desvio acadêmico’ e é
para o mercado com novas características numa sociedade que organiza sua produção baseada
associação entre BM e UNESCO que se denominou The task force on higher educacion and
12
O Estado deve criar mecanismos de fiscalização, avaliação e de acreditação de instituições privadas.
Entretanto, deve evitar desincentivos como controles de preços das matrículas (BANCO MUNDIAL, 1995, p. 6).
No que tange às IES públicas, deveriam ter uma meta de, pelo menos, 30% de obtenção de financiamento
privado (p. 8).
13
O documento foi elaborado por uma equipe de pesquisadores de treze países ditos em desenvolvimento e
também desenvolvidos. O representante brasileiro foi José Goldemberg, professor da USP e ex-ministro da
educação.
48
países considerados em desenvolvimento e trata mais especificamente da revolução do
importada de países desenvolvidos com força de trabalho relativamente barata e (2) através do
deslocamento da força de trabalho de setores de baixa para alta produtividade. Nesse padrão
tradicional de desenvolvimento, uma força de trabalho educada tem uma grande vantagem,
outro lado, para esse organismo os avanços na tecnologia da informação têm tornado o
conhecimento em circulação do que se colocou em qualquer outro período. Aqueles que têm
as habilidades para usá-la, têm acesso a um recurso de muito valor na sociedade atual. O
documento salienta que sem capital humano aprimorado, países irão inevitavelmente ficar
14
Conforme Schwartzman (2003), há uma crença difundida de que entramos uma nova ‘economia do
conhecimento’, que demanda da força de trabalho níveis muito mais elevados de competência técnica e científica
e isso explicaria a expansão da educação superior nas últimas décadas. O fato é que as novas tecnologias, pela
sua própria natureza, dependem de um limitado número de pessoas com qualificações, extremamente altas,
diferentemente das tecnologias mais velhas, que requeriam um número grande de trabalhadores habilitados ou
semi-habilitados. Assim a tese do autor é de que a expansão da educação superior, tanto nos países
desenvolvidos como nos em desenvolvimento, tem mais a ver com a mudança no estilo de vida dos mais novos e
com o valor econômico de credenciais educacionais em um mercado de trabalho instável e altamente
competitivo, do que com as demandas tecnológicas da nova economia do conhecimento. A partir dessa
interpretação entende-se que seria mais adequado falar-se em sociedade da escolarização do que em sociedade
do conhecimento, expressão altamente difundida.
49
atrasados e viver a marginalização e o isolamento intelectual e econômico. Assim, defende
uma ação urgente no sentido de ampliar a quantidade e a qualidade do ensino superior nos
países em desenvolvimento.
A Task Force enfatiza que nos países em desenvolvimento a situação atual do ensino
níveis baixos de titulação, que usam métodos tradicionais de ensino e recebem com baixa
remuneração.
Outro tipo de problema é identificado junto aos estudantes. Esses são, em geral,
quais lhes dão limitado campo de atuação profissional, e, de um modo geral, precisam decidir
precocemente sobre seu futuro no mercado de trabalho. Isso ocorre porque a formação
Os dois tipos de problemas citados têm como elemento comum a falta de recursos para
sua superação. Mesmo gastando uma proporção do PIB maior que a dos países desenvolvidos,
Junto a esses problemas, aparecem elementos de uma nova realidade para o ensino
secundária. Tudo isso combina com o fato de que o setor público e o setor privado têm se
expandido de forma caótica, com uma deterioração da qualidade das antigas instituições e
intensificado.
A Task Force trata da diferenciação entre instituições de ensino superior, que tem se
número de instituições operadas por mantenedores privados, principalmente os que têm fins
50
lucrativos, mas também por instituições filantrópicas e grupos religiosos. A força motora é a
e com a natureza das atividades que privilegiam. O documento trata de quatro tipos verticais:
escolas vocacionais15.
A Task Force afirma que o sistema de educação superior precisa ser estratificado, a
fim de garantir qualidade e educação de massa. Os segmentos sociais seriam orientados (1) à
pesquisa e à alta competitividade ou (2) à educação mais acessível, de massa, voltada para o
ensino. Segundo essa perspectiva, a diferenciação teria origem nas habilidades e interesses
dos estudantes e na caracterização dos docentes a partir dos mesmos critérios. Não há uma
por docentes, estudantes e recursos entre instituições similares. Com isso, haveria uma
acadêmico fértil.
Sobre a ação dos Estados, a Task Force avalia que eles têm tido pouca representação
no sistema de educação superior, uma vez que não têm realizado a necessária regulação. Isso
oferecendo elementos não ofertados pelo mercado, promovendo igualdade e dando ‘apoio às
15
Esses tipos serão apresentados mais detalhadamente na abordagem sobre os tipos ideais de instituições de
ensino superior, na seqüência deste estudo.
51
Porém, na ótica da Task Force prepondera a interpretação de que o interesse público e
funcionamento no mercado devem ser iguais, conforme o tipo de instituição, e o Estado deve
garantir isso. Por outro lado, a noção de interesse público traduz-se como ganho dos
que possa produzir. As palavras registram essa ótica e permitem que se vejam nesse
A Task Force, seguindo sua lógica de defesa do ensino superior e da ação reguladora
estatal nesse campo, voltada para o desenvolvimento econômico, entende que a pesquisa e a
pelos Estados e destacam-se pelo compromisso com caráter acadêmico das atividades que
cada vez mais difícil o investimento nacional em universidades de pesquisa que produzirão
16
The macroeconomic impact of education is strong: just as individuals with better education tend to achieve
greater success in the labor market, so economies with higher enrolment rates and years of schooling appear to
be more dynamic, competitive in global markets, and successful in terms of higher income per capita (WORLD
BANK, 2000, p.38) .
52
No terceiro documento do BM, aqui analisado, Constructing Knowlege Societies: New
Challenges for terciarty education, (WORLD BANK, 2003), há dois fatores cruciais para o
terciária e novos tipos de competição, fazem com que IES tradicionais mudem suas formas de
operação e de oferta.
Assim, o BM considera que a maioria dos países enfrenta problemas de longa data em
seus sistemas de educação superior. Seria preciso expandir o acesso com auto-
defende aspectos que pretendem ir além da ótica apresentada em 1994 (BANCO MUNDIAL,
1995), trabalhando com a noção de bem público global e defendendo que há (WORLD
BANK, 2003, p. XIX): o papel emergente do conhecimento como fator principal para o
forças de mercado; o aumento das solicitações dos países por suporte financeiro para
17
Embora a expressão educação terciária já aparecesse em outros documentos internacionais, ela se torna mais
incisiva neste documento, exprimindo uma concepção bastante aberta a tipos de programas e de agentes e
instituições promotoras desse tipo de educação anteriormente classificada de superior. No documento de 1994 já
apareciam as expressões educação superior, educação terciária e pós-secundária como sinônimos (BANCO
MUNDIAL, 1995, p. IX).
53
reformas e desenvolvimento na educação terciária; o reconhecimento da necessidade de um
equilíbrio e uma visão compreensiva da educação como um sistema holístico que conta com
capital humano, social e humanístico e seu papel como bem público global.
comunicação e trabalho conjunto entre os níveis de ensino remete à noção de bem público.
Entretanto, para além dessa noção de bem público nacional, o documento trabalha com a
BANK, 2003, p. 5): (a) progresso social e econômico é obtido principalmente através do
profissional; (c) países em desenvolvimento e em transição estão sob o risco de serem ainda
mais marginalizados numa economia global altamente competitiva, porque os seus sistemas
arcabouço que encoraje as instituições de educação terciária a serem mais inovativas e aptas a
às mudanças nas necessidades do mercado de trabalho por capital humano avançado; (e) o
grupo do BM pode dar assistência aos países clientes para capitalizar experiências
internacionais e para mobilização de recursos para melhorar a eficiência e agilidade dos seus
54
caso da América Latina, cuja tendência à diversificação aumentou junto com o crescimento
Uma segunda onda de diversificação aparece com novas formas de competição, que
instituições que emergem no mercado da educação terciária sem fronteiras são: universidade
cursos no seu local de desenvolvimento através das instituições locais, os quais são validados
tradicionais e podem operar através de seus próprios campos, através de universidade virtuais
e através de parcerias com IES existentes. Poucas universidade corporativas têm sido
acreditadas oficialmente e podem conferir graus, embora essa possa ser uma tendência para o
secundárias têm alcançado o mundo da educação terciária. São exemplos: editoras que
oferecem serviços de design de currículo e preparação de material educacional para oferta on-
line, também museus e bibliotecas que oferecem cursos de educação continuada. Agentes
55
O BM, em 2003, refere questões ligadas à flexibilização da gestão, à atuação
superior de elite para um de massa nos países em desenvolvimento envolve riscos. Para
85).
documento afirma que a garantia de qualidade das atividades desenvolvidas por uma IES deve
educação superior. O fato é que o sentido amplo dado a essa expressão inclui desde as
18
Expõe como a tendência de transformação na profissão de professor a qual tende a mudar de perfil. A carreira
pode desaparecer, fazendo com que profissionais que atuem em outras áreas do mercado desenvolvam atividades
de docência. Além disso, na educação como o recurso da tecnologia, num cenário mais avançado, os tutores
substituirão os professores (WORLD BANK, 2003, p. 42).
56
seria tão ampla a ponto de abarcar as iniciativas heterogêneas de missões institucionais, de
intensificação de uma tendência já presente entre diferentes tipos institucionais, qual seja a de
estabelecer missões que as distinguem umas das outras, além de estabelecer padrões de
educação à distância e a aproximação entre educação secundária e terciária por meio uma
desenvolve-se com tendências comuns entre diversos países. Em todas as recomendações dos
predominantes. Isso ocorre também no caso brasileiro. A diversificação dos sistemas parece
segmentos que se desenvolveram mais recentemente. A seguir serão vistas situações nacionais
ensino superior são visíveis nas últimas décadas, especialmente através da readequação dos
57
nacionais de educação superior e também provocando reacomodações a partir da lógica de
competitividade mercadológica.
econômico está presente de forma clara nos sistemas de ensino superior. “Se a universidade
sempre foi uma instituição global, o processo de globalização actual reforça, sem dúvida, a
A autora chama atenção para quatro tipos de implicações que estariam ocorrendo
nesse setor com base na competitividade globalizada. O primeiro seria a retração dos
diversidade crescente desde os anos 1960. Os elementos que os autores apresentam permitem
não como uma coisa boa em si. Pretendem vê-la como resultado das relações de mercado e da
tendência à privatização (2001, p. 360). Por outro lado, salientam que essa noção, pela
58
Os autores apresentam interpretações sobre a noção de diversidade, baseados numa
cursos ou programas. Entretanto, enfatizam que a diversidade, nesse caso, não se refere
pela ótica econômica e da inovação, refere-se a quatro aspectos relevantes. A diversidade (a)
nos mercados de produtos de ensino superior (ensino, pesquisa e extensão); (b) nos processos
de produção (novos métodos de ensino e pesquisa); (c) nos fatores de produção19, diversidade
programática, por exemplo); (d) nas novas redes comerciais (formas alternativas de tornar os
programáticas. Embora os autores anunciem os aspectos acima como aqueles que indicam
que se concentra mais nos resultados do que nos mecanismos pelos quais os resultados são
[...] porque esta perspectiva concentra-se mais nos resultados do que nos
mecanismos pelos quais eles são alcançados, ela auxilia a esclarecer alguns dos
resultados intrigantes de pesquisa na área, incluindo a complexidade associada
com a diversificação institucional, por exemplo, direção acadêmica e
isomorfismo institucional. (AMARAL E TEIXEIRA, 2000, p. 360)20
importante dos mercados e também dos estados, que têm regulado fortemente o ensino
19
Neste item deduz-se que se trata da utilização de recursos materiais e intelectuais para a produção acadêmica
nas IES.
20
“[...] because this perspective concentrates on results rather than on the mechanisms by which these are
achieved, it helps to illuminate some of the puzzling findings of research in the area, including the complexities
associated with institutional diversity, e.g., academic drift and institutional isomorphism.” (AMARAL E
TEIXEIRA, 2000, p. 360)
59
superior. Dois fatores colaboram para essa situação. Um diz respeito ao limite na capacidade
de financiamento por parte do Estado. Há um novo contexto para a intervenção estatal atual a
partir do qual Estados e IES têm modificado suas relações. Os governos, limitados
para o ensino superior. Nessa mudança, o financiamento direto perdeu espaço para o
autofinanciamento por parte dos consumidores, e novas formas de regulação do setor privado
sistema que se viabiliza com o crescimento do setor privado. Embora a idéia de massificação
possa manifestar-se com índices variados de acordo com o contexto social em que ocorre, os
autores entendem que o setor privado do ensino superior se constitui na tendência para o
público-estatal.
2001 p. 361). A busca de eficiência e de mudanças institucionais em geral ocorre com maior
rapidez no setor privado do que no público. Apesar disso, os resultados das análises de
Amaral e Teixeira indicam que o setor privado tem promovido diversidade limitada e parcial.
As instituições privadas têm privilegiado o ensino, com pouca ou nenhuma pesquisa e com
pouca qualidade acadêmica frente a instituições mais antigas. O novo setor privado tem
60
O senso comum interpreta que o mercado tenderá a produzir uma diversidade maior
do que a regulação estatal possa vislumbrar. Isso ocorreria nos tipos de instituições, de
escassos, tende a haver um maior direcionamento dos gastos, e a função acadêmica tende a
Com relação às regiões do mundo, os autores afirmam que a Europa Ocidental (e até
mesmo o processo de privatização inglesa) não conseguiu implantar um mercado real para o
Por outro lado, dizem os autores, na América Latina, na Ásia, nos EUA e na Europa
por organizações não públicas e financiadas pelos estudantes. O estudo focaliza este último
Países com processo tardio de privatização, cujas instituições privadas tiveram o papel
na massificação do ensino superior, têm condições semelhantes. Assim, nos EUA houve
Europa, Portugal passaram por privatização tardia, e suas instituições privadas possuem outro
61
caráter, excetuando-se algumas instituições confessionais associadas à Igreja Católica, que
são ‘nobres’ em seus países. Esse ‘outro caráter’ das instituições privadas mais recentes está
acadêmica.
O autores afirmam que Portugal tem um setor privado que se diferencia da Europa
Ocidental, o qual se desenvolveu entre as décadas de 1980 e 1990. Houve expansão do setor
privado com custos baixos para o setor público, mas isso tem se tornado um problema. As
mais populosas e ricas (Lisboa e Porto). A busca de resultados econômicos tem provocado
Ciências Sociais, com custos mais baixos e populares. A áreas mais caras não são
lado das politécnicas e das públicas periféricas, compõem um grupo com menor prestígio
junto aos estudantes e são incapazes de competir pelos docentes mais reconhecidos, uma vez
do setor público de dar conta da demanda por ensino superior. Também ocorrem problemas
caso pode ser visualizado através da oferta de novos cursos sedutores que não
21
Helena Sampaio (2000, p. 99 e 100) mostra como a estratégia de crescimento das instituições do ensino
superior privado no Brasil conta com o elemento da multiplicação de cursos dentro de uma área do
conhecimento. Isso ocorre, por exemplo, nas áreas de administração, nas engenharias e na comunicação.
62
A distinção entre o setor privado tradicional e o novo setor privado é útil para
segmento de matrícula22. As IES de tipo tradicional também têm se expandido, mas isso
ocorre muito mais porque elas têm sabido se beneficiar dos limites da IES públicas, como
sucedida por um grande número de IES de baixa qualidade, dedicadas ao ensino e com
ausência de pesquisa.
Amaral e Teixeira (2001) dizem que a expansão do setor privado, em diversos países
da pressão de organismos internacionais, como o BM. Entendem que esse processo apresenta
ganha força e possui características que o diferenciam do setor privado da primeira geração ou
tradicional23.
22
Sob o título Conglomerados dominam ensino superior, o Jornal Folha de São Paulo publica artigo registrando
o crescimento fantástico de instituições universitárias criadas recentemente. No Rio Grande do Sul o exemplo é a
Universidade Luterana do Brasil - ULBRA. Criada em 1989, possui em torno de 40 mil estudantes e prevê ter
80 mil em 2005. Folha de São Paulo, 02.12.2001.p.C1.
23
No caso brasileiro, como se poderá verificar no capítulo que busca elementos históricos, a idéia de que há
diferentes gerações na expansão do setor privado é válida. Nesse caso parece adequado pensar em termos de três
gerações: a primeira, que originou as universidades confessionais nos anos 40. A segunda geração originou –se
da reforma de 1968 com a criação de faculdades isoladas de iniciativa de grupos laicos. Uma terceira teve
origem, entre o final dos nos anos 80 e meados dos 90, a partir da mudança de estratégia do setor. Várias escolas
isoladas ou federações de escolas superiores privadas são transformadas em universidades, dando origem a
grandes universidades. Entre 1984 e 1993, este órgão [Conselho Federal de Educação] aprovou, somente no
estado de São Paulo, a transformação de dezoito estabelecimentos isolados privados em universidades
(SAMPAIO, 2000, p. 78).
63
atendendo principalmente grupos de adultos maduros ou de estudantes de grupos
socioeconômicos em desvantagem.
Do ponto de vista social, isso que parece um paradoxo explica-se através da
seletividade de exigências acadêmicas dada pelo sistema público, o que tende a impedir a
e de baixo custo.
privadas com instituições estrangeiras para aumentar a sua credibilidade e/ou para
desenvolver alternativas baratas para o estudo no exterior. Essas redes têm sido vistas como
uma estratégia para viabilizar o avanço do setor privado tem sido a inclusão de docentes do
caracterizam a diversificação do setor privado. Tudo isso, entretanto, não é geral no setor.
Muitas IES privadas têm imitado as públicas, principalmente nos processos de ensino e de
de comportamento inovativo. Às vezes, replicam o setor público ou, em geral, garantem uma
64
rápida expansão (não inovação) através de cursos de baixo custo. Para o novo setor privado,
os recursos não faltam porque a demanda excede a oferta. A diversificação limitada e parcial
que ocorre no novo setor privado parece estar nas condições de oferta (horários, perfil de
autonomia das IES privadas. É tarefa dos governos obter esse equilíbrio.
responsabilidade.
nos anos 70, contavam com um setor privado crescente junto com o aumento de matrículas
nesse grau educacional. No Chile, nos anos 80, houve uma mudança radical na organização
24
“Governments have either controlled too much, because of their mistrust towards private initiative in
education, or they have assumed an over-relaxed position, which has allowing the mushrooming of private
institutions that posses no sound academic and financial criteria.” (AMARAL E TEIXEIRA, 2000, p. 389).
65
O Chile, no início dos anos 80, possuía duas instituições públicas e seis privadas, todas
financiadas pelo Estado. A reforma dos anos 80 trouxe importante expansão das IES privadas
com a criação de novas instituições sem financiamento público. Além disso, muitas
instalações das duas universidades públicas, deslocadas de suas sedes centrais que serviam
licenciados e técnicos de nível superior, com carreiras de quatro anos. Os centros de formação
Rollin Kent esclarece que das oito universidades existentes em 1980 “se transformaron
en un total de 301 instituciones posteriores a la secundaria en 1990, 93% de las cuales eran
último año del gobierno militar” (1997, p. 49/50). Os governos democráticos que sucederam
essa reforma não romperam com o modelo, embora tenham estabelecido uma maior
fez com que houvesse diminuição na criação de universidades privadas e, até mesmo,
fechamento de escolas de formação técnica. De qualquer forma, entre 1989 e 1990 foram
criadas 16 novas universidades, revelando ainda um fôlego na expansão fantástica vivida pelo
O crescimento do número de estudantes tem sido alcançado pelo setor privado técnico
os grandes centros urbanos. As novas instituições privadas têm menor prestígio que as suas
congêneres da primeira geração, entre outras coisas, porque atende estudantes adultos que não
66
tiveram chances de ingressar nas instituições mais prestigiadas e que não puderam ingressar
no ensino superior na idade padrão. No Chile, das 62 universidades, 42 não possuem apoio
estatal, e a imagem pública do novo setor privado recente, de fato, não é boa (AMARAL E
TEIXEIRA, 2001).
Os dados mais recentes, fornecidos por Leite, quando discute a noção de reforma na
educação superior, mostram que “das 8 universidades públicas em 1980, o sistema hoje
comporta 67 universidades (16 públicas por regime jurídico), 73 institutos profissionais e 127
centros de formação técnica; os estudantes pagam taxas que chegam a U$ 3.000 anuais, as
universidades indistintamente podem receber até 30% de seus ingressos do estado, sendo a
O caso da Argentina, embora tenha contado desde 1958 com instituições privadas, não
instituições eram majoritariamente católicas. Com exceção do ano de 1968, não houve grande
crescimento do setor privado até o início dos anos 90. Mesmo assim, se, em 1958, havia 13
Na década de 80, com o fim do regime militar e como resposta a ele, foram
privado, que decresceu 2,3% diante do setor público, que cresceu 19,4%, fruto do ‘retorno’ de
estudantes que haviam migrado para o setor privado devido à repressão policial e ao
fechamento de programas. No início dos anos 90, houve crescimento do setor privado na
Argentina.
25
A PAA – Prueba de Aptitud Académica – constitui-se em mecanismo que regula o ingresso, garantindo aos
melhores classificados o acesso às melhores universidades (LEITE, 2002B, p. 31).
67
A criação de novas universidades se intensificou no período entre 1988 e 1995.
Em 300 anos (Córdoba foi fundada em 1613) foram criadas 8 universidades
nacionais. Até 1970, havia 10 universidades nacionais e 21 privadas; entre 1970
e 1990 criaram-se mais 24 públicas e 7 privadas; de 1991 até o presente
aumenta o número de universidades privadas. Hoje são 89 universidades (45
públicas e 44 privadas) em todo o território argentino com uma cobertura de
40%, para faixa etária de 18 a 24 anos (LEITE, 2002, p. 21)26.
grupos empresariais (KENT, 1997, p. 25). O conjunto que compõe o setor privado se
diferencia do público, uma vez que tem agilmente oferecido as mesmas carreiras, porém com
menor tempo de duração. Na Universidade de Buenos Aires, os cursos em geral são de seis
anos, e os mesmos cursos nas privadas podem contar com quatro anos. A característica
marcante é que a grande maioria dos estudantes está matriculada em instituições públicas.
O conjunto dos movimentos nas esferas social, política e econômica que se relacionam
aos sistemas nacionais de educação superior remete para o seu caráter privatizante. Tanto o
Ocorrem reformas políticas e estatais interligadas a essa dinâmica que reafirmam a força de
uma perspectiva ideológica que fortalece as relações de mercado diante de outras lógicas de
26
O referido estudo mostra o caso da UDELAR – Universidad de la República -, no Uruguai, como o exemplo
de uma universidade que possui características peculiares como o co-governo que conta com a participação de
docentes, alunos e egressos e possui um conceito de avaliação institucional que é entendido como “ formulação
de um juízo de valor mediante o qual se procura qualificar atividades universitárias de modo sistemático e
rigoroso”, combinando com a prática do co-governo (LEITE, 2002, p. 85).
68
ação política. Os Estados deveriam diminuir de tamanho em virtude de privatizações e
desobrigações financeiras, mas são ativos e fortes na promoção de mecanismos que ampliam
coloca a necessidade de discussão sobre o que seja o caráter público da educação superior no
Através da UNESCO e do Banco Mundial, viu-se uma tendência geral para reafirmar a
algum percalço – não houve documento em 2003 –, a CMES de 1998 foi enfática em
valorizar uma educação superior comprometida com a qualidade de vida e com o direito
base nisso evidenciam que a interpretação sobre o que privilegiar na educação superior não
69
de construção de conhecimentos sobre a vida social mais ampla e sobre caminhos para
Coraggio (2001) afirma que o BM pode ser uma banco da informação, mas não do
saídas para problemas existentes precisa do compromisso e dos conflitos entre diferentes
assim como no estudo de Amaral e Teixeira (2001), atribui sua necessidade aos objetivos de
evitar sobreposição de funções e de selecionar públicos de acordo com suas habilidades e com
gênero. Entretanto, quando se adota uma perspectiva sociológica, vê-se que há não apenas
indivíduos com interesses e habilidades específicas, mas segmentos sociais que são
termos de um caráter que vá além do privado – individual e/ou mercadológico – e que remeta
O setor privado de educação superior mostra que existem qualificativos próprios para
70
período recente. As características das instituições e de seus estudantes, socialmente
Pensar o caráter público da educação superior passa, entre outras coisas, por verificar
O objetivo é entender a identidade dos tipos de IES, suas variações, para avançar na discussão
privadas.
71
Capítulo 2 – Caráter público e legitimidade pública da educação
superior: mudanças contraditórias
seu caráter acadêmico, procurando mostrar que existem modelos de instituições de educação
ritmo acentuado com que se expandiu esse nível educacional, em período recente, colocou
legitimidade pela qual passa a universidade é um exemplo disso. Torna-se válido, portanto,
formação das noções de caráter público e de legitimidade pública. O estudo sobre a concepção
Santos. Os elementos teóricos são trabalhados com o objetivo de constituir caminhos para
superior. A categoria de legitimidade pública será utilizada para a análise no nível micro,
entendido como o do sistema nacional de educação superior para o nível local, do estudo de
casos. Para chegar a cada uma dessas categorias, considera-se, além de conceitos clássicos
perspectiva da UNESCO. Por fim, trata-se de esclarecer em que termos é possível falar-se em
72
2.1 As diferentes idéias de universidade e de educação superior
e válido igualmente para todos, embora tanto no método, quanto nos resultados das pesquisas
científicas tenha atingido e/ou esteja atingindo de forma e em ritmos desiguais as camadas
sociais e os povos.
A universidade não foi o locus de gestação dos ideais modernos nem do método
científico, ficando à margem do desenvolvimento dos novos valores e novas idéias e aderindo
embora, muitas vezes, sejam símbolos, junto com o método científico, de desenvolvimento
27
“A universidade moderna a qual estamos acostumados desenvolveu-se da universidade clássica, que tinha uma
dupla função: a produção e reprodução do conhecimento na forma de modos de aprendizagem
teológica/filosófica/profissional/científica/secular; junto com a reprodução das elites pela formação de um
habitus distinto e reconhecível, a educação implícita do corpo e do sentido. [...] Do ponto de vista das
humanidades, uma preocupação central da universidade moderna, desenvolvida com o Iluminismo do século
XVIII era não apenas a inculcação do conhecimento – embora no novo sentido enciclopédico de catalogar e
ordenar todo o conhecimento histórico e cultural – mas também a formação da pessoa” (FEATHERSTONE,
2000, p. 62).
28
Santos Filho (2000), analisando a universidade na modernidade, enfatiza três aspectos que fundamentam a
compreensão e a percepção moderna de mundo. “A primeira crença básica da modernidade foi o conceito de
progresso social, ou seja, a crença no progresso da sociedade e do indivíduo, na sua capacidade de melhorar a
sociedade e de progredir pessoalmente; de certo modo, essa é a ideologia dos países capitalistas atuais. [...] Esta
visão moderna de progresso social não acredita que a sociedade vá desembocar num beco sem saída ou ter um
retrocesso histórico nesse seu processo de evolução. [...] A segunda verdade fundamental da modernidade foi a
crença em universais. O valor fundamental dos universais da religião, da Idade Média, vai ser transferido para a
crença em universais buscados e descobertos pela ciência [para analisar o mundo físico, o mundo social e a
subjetividade humana]. A terceira crença fundamental da modernidade foi a da regularidade dos fenômenos. A
ciência moderna se construiu na convicção de que existe regularidade e predizibilidade no mundo da natureza
física e biológica e os sociólogos dessa tradição paradigmática vão estender essa crença para o mundo social
[...]” (SANTOS FILHO, 2000, p. 31–32).
73
universidade, como instituição símbolo do conhecimento na modernidade, obteve
em contexto históricos, sociais e intelectuais e não pode ser idealizada. Ver-se-á que a idéia de
modernidade.
movimentos. Junto com o processo de laicização, foi ocorrendo um aumento do controle dos
universidades foram sendo criadas academias e escolas especializadas que respondiam pela
formação profissional30.
29
Na idade média “a universidade nasceu marcada pela presença da Igreja e pela sua chancela, o que de início
balizou-a com consideráveis restrições de pensamento e de pesquisa.[...] Na luta por mais autonomia e liberdade,
a universidade terminava por solicitar a mediação da Igreja de Roma, do poder papal, libertando-se do controle
do bispo local. Então, a universidade buscou uma autoridade mais distante para de algum modo, ampliar seu
espaço interno de liberdade acadêmica. Neste episódio histórico e por meio desta estratégia começou na Idade
Média a conquista progressiva da autonomia da universidade.” (SANTOS FILHO, 2000, p. 19) Na
modernidade, pode-se falar em duas ondas de reformas das universidades. Uma no contexto do absolutismo,
século XVII, e outra, no século XVIII, marcada pelo despotismo esclarecido. Nos dois casos, a universidade teve
sua origem vinculada à interferência do Estado. Este foi progressivamente assumindo responsabilidade pelos
salários e por infra-estrutura para o seu funcionamento. Conforme Charle e Verger [...] “as reformas e os
projetos de reforma do século XVIII que, acompanhando o progresso da tolerância religiosa e do espírito das
Luzes refletem um verdadeiro desejo de modernização, geralmente pelo viés de uma adequação mais estrita com
as necessidades dos Estados e das profissões.” (CHARLE E VERGER, 1996, p. 45 e 62).
30
Profissionalização claramente comprometida, laicização completa do pessoal docente, controle pelo Estado do
recrutamento e da gestão, numerus clausus e internato para alunos, tudo contrapunha tais estabelecimentos – que
a Revolução irá transformar em paradigma do ensino superior – às antigas universidades (CHARLE E
VERGER, 1996, p. 66).
74
Em 1806, Napoleão recria a universidade como universidade imperial31 e, dois anos depois,
por decreto, as antigas universidade são concebidas como conjunto de faculdades32. Nesse
vinculadas.
O modelo francês conta com uma rede de instituições tendo o Estado como
nacional, para a pesquisa técnica e científica e para resposta a problemas sociais. As Grandes
Na Alemanha criou-se o modelo de universidade que passou a ser tomado como uma
referência da universidade moderna. O que se passou a chamar de modelo alemão33 teve por
ser compreendida como tendo a função de formar o espírito crítico e de preparar para o
avanço das ciências. “Humboldt via a universidade como a alma da sociedade e da cultura;
assim, para desenvolver o mais alto saber, era necessária absoluta liberdade de ensinar e
aprender. [...] O ensino e a pesquisa não constituíam um fim em si, mas instrumentos para
atingir uma meta mais alta: o desenvolvimento da ciência.” (ROSSATO, 1998, p. 86).
Mais do que qualquer outro, o modelo da universidade alemã abriu caminho para a
31
O Estado garantiu para si o monopólio sobre essa universidade. O corpo docente ficava encarregado
exclusivamente do ensino público em todo o Império. O monopólio tinha dois objetivos: (1) formar quadros que
o Estado necessitava para ocuparem empregos civis e militares e (2) transmitir a ideologia do mesmo Estado
(ROSSATO, 1998, p. 83- 84).
32
“As faculdades de medicina e direito se estabeleceram rapidamente, pois formavam profissionais, ao passo que
as faculdades acadêmicas, de ciências e letras, gozavam de pouca autonomia em relação aos liceus,
desempenhado um papel um tanto confuso e sem prestígio.” (ROSSATO, 1998, p. 84)
75
complementar a esta. A Universidade de Berlim sofreu a reforma humboldtiana no século
XIX e passou a contar com alguns princípios de atuação que lhe são próprios e considerados,
institucional; (2) busca de novos conhecimentos com a pesquisa; (3) unidade entre pesquisa e
instituição acadêmica. Entende que ela (1) distingue-se, a partir de Humboldt, pela excelência
em pesquisa, porém tem se expandido cada vez mais como ensino e de forma cada vez mais
escolar; (2) apresenta-se como sendo mantida pelo Estado, mas também por variados tipos de
iniciativas do setor privado; (3) tem como característica a autonomia, mas depende de
regulação e de perspectivas políticas estatais; (4) necessita formar para o mercado, porém
também precisa formar para a vida em sociedade em seu sentido mais amplo. Essas
admite desde colleges com cursos de curta duração até universidades que incluem a função de
33
Mesmo que se possa falar num modelo que inclusive serviu de referência em outros lugares e tempos, Charle e
Verger alertam para o fato da persistência de prática antigas e a preocupação dos soberanos em controlar a
universidade. (CHARLE E VERGER, 1996, p. 79)
34
Rossato (2003, p. 37-38) apresenta cinco modelos de universidades quanto às suas funções: universidade da
pesquisa, Wilhem von Humboldt; universidade do espírito, tendo a função do ensino e sendo voltada para o
conhecimento e para a ciência, defendida por John H. Newman; universidade do Estado, a napoleônica;
universidade da cultura, formadora da cultura como sistema de idéias de uma época, presente no pensamento
de Ortega y Gasset; e universidade pragmática, defendida por Anísio Teixeira, voltada para a pesquisa, mas
com sentido utilitário para a sociedade industrial e tecnológica.
76
privados35. O compromisso pragmático da universidade com o progresso e com suas funções
não se esgotaram na clássica relação entre pesquisa e ensino. As múltiplas funções assumidas
por universidades norte-americanas fizeram com que houvesse uma tradução da idéia de
multiversidade, oriunda dos anos 60. Nela está presente a idéia de que a universidade está no
centro dos acontecimentos, sendo uma instituição que responde a demandas sociais de
serviços públicos, oferecendo assistência jurídica, para saúde e outras. A partir dessa idéia de
modelo da multiversidade foi questionado por analistas que indagam sobre a qualidade
mas também de problemas de identidade internos à vida universitária e aos sistemas de ensino
superior. Exemplo da complexidade é visto no fato de que a universidade clássica, de elite, foi
se massificando e se modificando. Por outro lado, nem sempre instituições não universitárias
superiores voltadas para a pesquisa e selecionadoras de elites acadêmicas e sociais que não se
Quanto às mudanças sofridas pela universidade, cabe uma aproximação maior ao caso
35
O mecenato é uma característica presente no sistema norte-americano, uma vez que ex-alunos e empresários
fazem doações em manifestação de apreço e de tradição na relação com instituições de ensino superior
(ROSSATO, 1998, p. 134).
36
Professor de Filosofia na Universidade de Munique, Alemanha.
77
contemporaneidade. Ele entende que o significado do termo universidade, na prática, tem sido
aplicado a situações muito heterogêneas e que o modelo humboldtiano terminou por produzir
norte-americanas37.
O autor considera ter havido um grande ‘erro’ histórico em seu país com a passagem
para uma educação superior de massas, nos anos 60, mantendo-se o modelo de universidade
abrangência e a dificuldade de unidade das ciências e, por último, trabalharia com o conceito
moderno de pesquisa que expressa a contínua busca, o inacabado, e pressupõe que a ciência
institucional universidade, por outro lado, ele apresenta uma caracterização nítida de um tipo
37
O termo ‘universidade’ não é aplicado hoje à primeira categoria de instituições científicas, isto é, às
instituições de pura pesquisa (estas se chamam ‘Institute’, ‘Sociedades Científicas’ [...] ‘academias’(sendo,
porém, que esta expressão também é usada num sentido eminentemente profissional, por exemplo Academia de
Medicina). Com respeito a isso a linha delimitadora é clara. Mas o termo ‘universidade’ é usado muito
freqüentemente para denominar instituições que não superam o nível puramente profissional (técnico) (seja
porque tais instituições têm explicitamente uma finalidade puramente profissional (técnico), seja porque, tendo
uma finalidade não-puramente profissional, não alcançam efetivamente um grau superior; este último caso é
certamente o mais comum). (PUNTEL, 2002, p.150)
38
A noção de elite aparece aqui traduzindo a idéia de que um grupo restrito de pessoas que teria interesse e
identidade com o trabalho de pesquisa num ‘lugar clássico’ da ciência e da própria pesquisa, a qual conta com o
desenvolvimento do saber metódico e sistemático (PUNTEL, 2002, p.141/142).
78
No que tange à identidade institucional, na Alemanha há também um tipo de
instituição que compõe o sistema de ensino superior e que ganha legitimidade no sistema por
históricos das sociedades e de seus sistemas educacionais, mesmo em países tidos como
superior, bem como diante das características próprias da sociedade atual, pela massificação e
Santos (1999) trata da idéia de universidade e analisa contradições e crises pelas quais
essa instituição passa. Santos afirma que mesmo com a crítica de Ortega y Gasset40 e com os
39
Os sistemas nacionais de educação superior desenvolvem alternativas mais ou menos polêmicas para atender a
demanda por ensino superior. Na Alemanha há os Fachhochschule, voltados para formação profissional; na
Inglaterra existem os Politécnicos, que recentemente puderam optar por transformarem-se em universidades; nos
EUA os Comunity colleges, garantidores de uma formação básica no ensino superior. No caso brasileiro,
especialmente a partir da segunda metade do século XX, tem-se a presença das faculdades como alternativa às
universidades.
40
Ortega y Gasset defende que a missão da universidade nem é apenas formar para profissionalização, nem para
a pesquisa. Ela deve ter diversas missões e voltar-se de cultura geral, tendo o estudante e o conhecimento como
centros. Criticando a idéia de que se deva seguir o modelo alemão e defendendo que o fundamento da pedagogia
é diferente do princípio da ciência, Ortega y Gasset diz que a “cultura é o sistema vital das idéias em cada época.
Importa muito pouco que essas idéias ou convicções não sejam, nem em parte, nem totalmente, científicas.
Cultura não é ciência. É traço de nossa cultura atual que grande parcela de seu conteúdo proceda da ciência; mas
em outras culturas não foi assim [...] a Universidade contemporânea complicou enormemente o ensino
profissional que aquela, em embrião, proporcionava, e acrescentou a pesquisa, retirando quase por completo o
ensino ou a transmissão da cultura (1999, p. 63).
79
movimentos dos anos 6041, os objetivos da universidade se mantiveram como sendo a
novas áreas do saber fazem com que a idéia de universidade também modifique. Na prática, a
universidade adotou um caráter cada vez mais utilitário, respondendo a uma multiplicidade de
funções. Essas funções tendem a se traduzir, às vezes diretamente, outras vezes de forma mais
da vida universitária.
crise’. A noção de crise adota diferentes matizes, de acordo com a perspectiva analítica.
Assim, aparece desde a crise de organização interna, de perda de autonomia, até a crise de
reconhecimento público sobre sua função na sociedade. Santos classifica três tipos de crise:
41
Nos anos 60, o isolamento da universidade em relação à sociedade foi objeto de crítica e se expandiu a
demanda para que fosse mais prática. Essa compreensão teve duas vertentes. Uma, traduzindo prática como
atuação mais tecnológica e, outra, entendendo-a como sócio-política (SANTOS, 1999, p. 200). O movimento
estudantil foi o protagonista da mais intensas críticas à universidade.
80
A crise de hegemonia é uma crise entre ‘conhecimentos exemplares e conhecimentos
funcionais’ e diz respeito ao fato de que esse tipo institucional, na medida em que cumpre
demandados pela sociedade, deixando de ser o centro e passando a ser uma das alternativas do
caráter de instituição social que tem a tarefa de pensar a sociedade da qual é fruto42.
vez que deixa de ser vista de forma consensual. “[...] está em causa o espectro social dos
42
Marilena Chauí tem discutido, com base no caso brasileiro, a identidade da universidade, entendendo que ela
se desloca da condição de instituição social para a de organização. Como instituição visaria sua função na
sociedade numa perspectiva universalista. Como organização, volta-se para o eficientismo interno, ficando
marcada por um caráter instrumental e efêmero. (CHAUÍ, Marilena. Sociedade, universidade e Estado:
autonomia, dependência e compromisso social. Seminário Universidade: Por que e como reformar?
MEC/SESu. Disponível em: http//www.mec.gov.br. Acessado em: 20 de abr. 2004.)
81
De fato, a educação superior exercida de maneira democrática não foi a marca
modelo alemão de universidade de pesquisa não se poderia ter a ilusão de qualificá-la como
trabalhou com a alta cultura e foi incapaz de produzir cultura de massas. Entretanto, o conflito
dessas culturas era um fenômeno que ocorria externamente a essa instituição. Ocorre que com
a democratização do acesso, nos anos 1960, a “universidade não atenuou a dicotomia, apenas
a deslocou para dentro da universidade pelo dualismo que introduziu entre universidade de
moderno, Santos afirma que nos anos 1980 a dicotomia permanecia entre universidades de
ou seja, da cultura desenvolvida pela elite. Com isso não houve uma ruptura em relação ao
elitismo, mas sim sua promoção. De qualquer maneira, a universidade havia de responder
pelo mundo ilustrado e pelas demandas diretas do mundo do trabalho, já que este demandava
profissionais e também culturais. Essa flexibilidade interna permitiu sua sobrevivência, mas
82
cada vez mais a universidade precisou responder intensivamente às demandas do trabalho.
Essas mudanças e a centralidade do conhecimento como recurso para produção e para trocas,
indica que a universidade não consegue responder às demandas e que a educação estará cada
característico o elitismo, essa instituição manteve-se legitimada por longo período histórico. O
caráter elitista pode ser visto no limitado acesso e na referência ao conceito clássico alemão
interpretação social sobre seu papel manteve uma dimensão de reconhecimento que
inexistentes anteriormente, tornou-se visível socialmente o caráter elitista que não era
nos sistemas de educação superior de diferentes sociedades. Certamente que a crise em foco
cria o seu contraponto, ou seja, a oportunidade promissora para outras ações e instituições no
campo do ensino superior. Como lembra o próprio autor, uma crise em um subsistema traduz
83
A crise de legitimidade vivida pela universidade certamente não é idêntica à
superior por meio da diversificação institucional, (3) a educação superior será acessada a
partir de uma heterogeneidade de IES, (4) a natureza da educação superior não se limita a
e da economia, (5) a educação superior e as suas instituições, através de suas funções sociais e
Por outro lado, entende-se que o contexto mais amplo da educação superior, no qual se
interpretar seus traços específicos. Essa situação conduz à necessidade de análise da noção de
público para que se possa entender o caráter do contexto e das tendências internacionais. Para
avançar na análise com base nesses pressupostos, é necessário que se esclareçam as fontes
Com esta revisão, entendemos neste estudo, que o reconhecimento de uma instituição
social de educação superior ocorre pela legitimidade pública que obtém e pelo seu caráter
público, considerando que este possui um sentido político e social. Para esclarecer os
caminhos que se percorre a seguir, trata-se das noções de legitimidade, de público e, agregada
a elas, a noção de pertinência social. Cabe ressaltar que se faz necessário analisar elementos
84
da relação público e privado, não só porque se trabalha com a noção de público para qualificar
a idéia de legitimidade e natureza da educação superior, como também porque se tem como
objeto empírico um setor da educação superior que pertence ao segmento privado, particular.
organizam-se a partir de um envolvimento dos indivíduos que é consentido por eles próprios.
A compreensão subjetiva dos indivíduos de que determinada relação social é válida confere
dominação.
A relação de dominação para Weber é, portanto, uma forma de relação social que
instituições sociais. A base dessa crença pode ter diferentes naturezas, ou seja, pode obedece a
racionalidades distintas.
Por um lado, a legitimidade não é algo dado ou definitivo e, por outro lado, é buscada
e considerada necessária para fins de manutenção das formas de dominação existentes. Cabe
85
política. Para ele, a sociedade organiza-se através de diferentes esferas de ação que possuem
relativa autonomia entre si, já que não há uma que seja predominante por excelência. Desta
convivência através do qual as relações de poder perdem força diante das relações de
pode ser compreendida mais pelo caminho da dominação e do consentimento concebido por
Max Weber, do que por uma pretensa validade universal e igualitária dessa mesma instituição.
De qualquer forma, existem situações nas quais determinadas instituições são dominantes,
menos pelo consentimento do dominado e mais pelo monopólio de poder que exercem. Por
esse caminho parece válido considerar que a universidade deve manter-se, no próximo
período histórico, como a representante maior das instituições de educação superior. Mesmo
referência para os sistemas de educação superior porque possui trajetória e identidade definida
É importante reter que a noção de legitimidade não é idêntica à de legalidade e que ela
tipo institucional.
86
vida humana em sociedade. Identifica-se, portanto, com o caráter democrático da vida social e
com a construção de alternativas que permitam espaços para realizações de grupos sociais na
sua identidade e na sua promoção social, política e intelectual. Seriam oportunidades para
superior
O objetivo desta seção é reunir elementos que permitam pensar a noção de público
para poder adotar a idéia de caráter público e de legitimidade pública da educação superior.
Opta-se por buscar elementos históricos e referenciais da filosofia política para chegar a uma
Bobbio (1997), analisando aspectos de uma teoria geral da política e voltado para a
historicamente, ocorreu o primado do direito privado sobre o direito público no Ocidente. Isso
contrato e os testamentos43.
pela razão histórica desse período. Isso ocorre no contexto da consolidação da sociedade
43
“... o direito privado romano, embora tendo sido na origem um direito positivo e histórico (...) transforma-se
através da obra secular dos juristas, glosadores, comentadores, sistematizadores, num direito natural, até
transformar-se de novo num direito positivo com grandes codificações do início do século XIX, especialmente a
napoleônica (1804) – um direito positivo ao qual seus primeiros comentadores atribuem uma validade absoluta,
considerando-o como o direito da razão.” (BOBBIO, 1987, p. 21)
87
burguesa e tem raízes na afirmação de uma nova lógica de organização social e econômica.
derivado da razão, no período posterior, essa mesma razão criará espaço para um direito
A ótica moderna sobre a noção de público, que se refletiu nos próprios estudos da
interpretar-se a política tendo o Estado como centro das atenções e entendendo que por esse
caminho se daria conta de apreender o caráter público das políticas, o qual só poderia estar na
Bobbio (1997) expõe que a redução da política à sua ligação com o Estado tem raízes
históricas. Se na antiguidade a polis fazia o ‘político’ coincidir com o ‘social’, nos períodos
“a totalidade tem fins não reduzíveis à soma dos fins dos membros singulares que a
compõem, e o bem da totalidade, uma vez alcançado, transforma-se no bem das suas partes”
(BOBBIO, 1987, p. 25). A noção de democracia grega está na base da defesa da participação
antigo46.
44
Para fazer frente a algumas de suas auto-contradições, no pós Segunda Guerra Mundial, as sociedades
capitalistas avançaram no sentido de reconhecer que não seria apenas a soma dos interesses de seus membros
individuais que constituiria o interesse público. Esteve presente certa preocupação com a totalidade da
sociedade. Assim, desenvolveu-se um modelo de esfera pública intensamente ligado às ações estatais sob o título
de Estado de bem-estar. Sobre esse período afirma Bobbio: “o Estado foi pouco a pouco se reapropriando do
espaço conquistado pela sociedade civil burguesa até absorvê-lo completamente na experiência extrema do
Estado total” (BOBBIO, 1987, p. 25).
45
“De um lado o cristianismo subtraiu da esfera da política o domínio sobre a vida religiosa, dando origem à
oposição entre poder espiritual e poder temporal, que era ignorada no mundo antigo. De outro lado, o nascimento
da economia mercantil burguesa subtraiu da esfera política o domínio sobre relações econômicas, dando origem
à oposição (...) entre sociedade civil e sociedade política, entre esfera privada, ou do burguês, e esfera pública, ou
do cidadão, que era, também ela, ignorada no mundo antigo”. (BOBBIO, 2000, p. 172)
46
“O princípio constitutivo do organicismo foi formulado de uma vez para sempre por Aristóteles, nas primeiras
páginas da Política: ‘o todo precede necessariamente à parte, com o que, quebrado o todo, não haverá mais nem
pés nem mãos’, com a conseqüência de que ‘a cidade é por natureza (atente-se: ‘por natureza’) anterior ao
indivíduo”. (BOBBIO, 1988, p. 46)
88
Como se sabe, o período conhecido como moderno, sob a égide do liberalismo, não
aceita a premissa organicista. Pelo contrário, adota a perspectiva do direito natural dos
adoção do princípio do egoísmo individual como base para realização dos interesses
individuais e coletivos. Os bens públicos e ganhos sociais são externalidades dos ganhos
individuais, ou seja, são bens desejados, mas resultam das ações de responsabilidade
individual e não coletivas. A educação no mundo moderno é entendida como necessária, mas
como um bem individual capaz de produzir, como decorrência, resultados positivos, do ponto
considerados como conceitos históricos, contribuem para que se interprete essa situação.
distintas, de acordo com os períodos históricos e, inclusive, são postas sob discussão - como
conceitos pouco ou nada válidos - para compreender a realidade presente. Este estudo defende
a interpretação de que tais conceitos não só não podem ser ignorados porque formam
servem como categorias que permitem entender, de forma não estanque, a presença difusa de
problemáticas concretas.
pública e esfera privada aparecem bem delimitadas. No centro dessa questão, estão o Estado e
a sociedade civil que, opondo-se, formam monolitos. Na perspectiva de John Locke, ambos
47
Para John Locke, o indivíduo é ponto de partida para realização do contrato necessário para fundar a sociedade
civil e, embora a natureza humana não tenda a produzir conflitos, é necessário institucionalizar as relações entre
os homens, a fim de garantir a liberdade e o direito à propriedade, fruto do trabalho. Torna-se necessário o
governo civil, que representa a comunidade, garantindo a vida, a liberdade e a propriedade.
89
espaço privado, e o governante representa o interesse público. A comunidade, neste caso, teria
O dualismo presente nesta interpretação é visto por Santos (2000) como algo incapaz
de dar conta da relação e do caráter da autonomia existente na relação entre as duas instâncias.
A forma dual de interpretar sociedade civil e Estado esteve longe de ser consensual em
século XIX, é o pensamento de Marx que mostra a utilização privada do Estado por uma
No início do século XX, o marxista Antonio Gramsci demonstra que o Estado é mais
que seu aparelho e dilui seu poder no âmbito da sociedade civil. Hoje, de diferentes maneiras,
a separação liberal é posta em questão. A partir de Gramsci (1987), trabalha-se com a idéia de
que a sociedade civil é um espaço privado, mas também coletivo de relações e de trocas
políticas fundamentais. Isso pode ser verificado através dos conceitos de hegemonia e de
sociedade civil pela persuasão, pelo convencimento. A sociedade política atua com base na
coerção e no uso da força enquanto que o Estado é um ente que abrange e também está
90
Conforme Coutinho (1994), Gramsci elaborou uma teoria ampliada do Estado, capaz
Gramsci (1987) estava preocupado com a oposição à dominação de classe e não com a
idéia liberal, no outro extremo, de bem-comum. Entretanto, o caminho que persegue para
relações entre os sujeitos coletivos e individuais que construirão alternativas sociais para
viabilizar um socialismo democrático. Do ponto de vista deste estudo, vale salientar a idéia de
que há valorização das relações políticas na teoria de Gramsci e que a ela se vincula a
ênfase no caminho da defesa da participação política, e tanto Estado quanto sociedade civil
A compreensão liberal de que o Estado seja monolítico frente à sociedade, bem como
a idéia de que apenas esta se reproduz no Estado de classe são postas sob questionamento.
Tudo isso torna mais complexa a compreensão sobre relações entre interesses públicos e
necessário que se considerem concepções teóricas que agregam novos elementos à noção de
48
“Já não existem mais, de um lado, indivíduos atomizados, puramente ‘privados’, lutando por seus interesses
econômicos imediatos, e, de outro, o Estado e seus aparelhos, como únicos representantes dos interesses ditos
‘públicos’. Surge uma complexa rede de organizações de massa, de sujeitos políticos coletivos. O pluralismo
deixa de ser apenas um pluralismo de indivíduos para se tornar cada vez mais um pluralismo de organismos
coletivos. Com isso, o espaço da política se amplia para além do âmbito do Estado em sentido estrito, surgindo
como componente decisivo dessa nova esfera pública ‘ampliada’, aquilo que Gramsci iria chamar de ‘sociedade
civil’”. (COUTINHO, 1994, p. 77)
91
A noção de público em Hannah Arendt
Para Arendt (2000) o homem não é naturalmente político, mas busca sua imortalidade
através da política, através da arte de produzir a novidade de criar e de deixar sua criação para
o mundo. A noção de vita activa, com a qual ela trabalha, tem origem na antiguidade e é
composta por três elementos: (1) o labor que diz respeito à garantia de sobrevivência do
indivíduo e da espécie; (2) o trabalho que produz artefatos e dá durabilidade à futilidade; (3) a
ação, “única atividade que se exerce diretamente entre os homens sem a mediação das coisas
O agir, mais do que o labor e o trabalho, permite a criação. O novo é, entre outros, a
têm alguma relação com a política: mas esta pluralidade é específica da condição – não
apenas a conditio sine qua non, mas a conditio per quam - de toda vida política” (p. 15). Se o
agir é que permite as trocas humanas, a política é o mecanismo que viabiliza as trocas entre as
individual e, na medida em que troca com os outros, as identidades plurais e também coletivas
se constituem.
Arendt (2000) entende que seria necessário dominar o espaço das relações políticas,
não para dominar os outros, mas para relacionar-se com a alteridade e criar novas formas de
Esse é o espaço em que o indivíduo cria novas possibilidades, novas formas de existência e de
comunidade.
doméstico, enquanto que a política estaria na esfera pública, na troca com os outros e na arte
92
do lar doméstico (oikia) ou das atividades econômicas ao nível público”. A economia e o
resultado’, sendo legítimo, muitas vezes, submeter o outro pelo uso da força ou pela violência.
É através da ‘ação’ – para além do labor e do trabalho -, que se produz a vida política, uma
das dimensões básicas da condição humana, a qual se viabiliza com o novo (ARENDT, 2000,
p. 15-19).
qual o indivíduo constrói sua identidade e suas utopias. Porém, tal identidade não ocorre
isolada dos outros. É uma construção social que tem a vitalidade de produzir o novo, de
idéia de espaço público em Arendt não expressa uma unidade ou um lugar (ou lugares)
específicos como se fazia desde a concepção moderna do século XVIII, mas também não é o
caso de buscar sua visualização nas ações mais privadas (ou íntimas) dos indivíduos. A idéia
de espaço público está ancorada na suposição da troca com os outros, e isso requer exposição
pública, a publicização com o uso de espaços comuns que são, ao mesmo tempo, lugares
importantes para que se entenda a noção de esfera pública. A comunicação coloca-se como
49
“Não ligando o espaço público ao Estado, não existe nenhum local privilegiado para a ação política, isto é,
existem múltiplas possibilidades de ação, múltiplos espaços que podem ser criados e redefinidos constantemente,
sem precisar de suporte institucional, sempre que os indivíduos se liguem através do discurso e da ação: agir é
começar, experimentar, criar algo novo, o espaço público como espaço entre os homens pode surgir em qualquer
lugar, não existindo um locus privilegiado.”(ORTEGA, 2000, p.23)
93
requisito para o exercício da troca política e para o exercício do poder no domínio público.
Ainda, se a política é lugar de troca, de criação, também é lugar das relações de poder. A
política, neste caso, é vista como a arte de limitar, mas não de extinguir, poderes.
Assim, a filósofa valoriza uma dimensão da realidade entre as pessoas que é vista
como negativa por muitos daqueles que pretendem uma sociedade mais equilibrada ou
igualitária. Arendt utiliza a noção de poder, remetendo à idéia de vontades plurais que se
intercomunicam. Entretanto, neste caso, não pretende diluir poderes, mas intercambiá-los a
Habermas. Nos anos 60, em Mudança estrutural da esfera pública, o filósofo movimentou-se
num campo de reflexão que, fazendo crítica à ótica liberal sobre a esfera pública, procurou
enfatizar sua expansão com base nos novos movimentos sociais50. Embora haja continuidades,
moderno” fazem parte de diferentes escolas filosóficas do século XX, as quais produziram
50
O conceito de esfera pública acompanha e se transforma junto com o pensamento de Habermas, contudo não é
abandonado. Desde “A evolução estrutural da vida privada” (BRONNER, 1997) até suas construções mais
recentes, no texto da “Soberania popular como procedimento” (1990) vinculado à obra de maior fôlego, “Teoria
da ação comunicativa”, a problemática da esfera pública se faz presente.
51
Adotando-se a classificação das três fases do pensamento de Habermas, tem-se a primeira até os anos 1970, a
qual expressa a influencia hegeliana e marxista, discutindo o poder e o autoritarismo. A segunda, a partir da
segunda metade da década de 1970, apresenta a preocupação mais epistemológica com a discussão sobre a
hermenêutica e a idéia de reconstrução crítica. A última é a fase da filosofia política e do estudo da evolução
social, considerando a racionalidade comunicativa, a qual seria capaz de garantir por meio do agir comunicativo
um caminho para a democracia e para a ampliação da esfera pública. A fim de centrar atenção em elementos
desta última fase, é necessário que se entendam aspectos de suas construções teóricas mais recentes. Habermas
inicia seu livro “O pensamento pós-metafísico” – publicado pela primeira vez em 1988 - assinalando que o
“pensamento moderno se desloca” e que esse deslocamento encontra-se mais nos motivos do pensamento
moderno que no método (HABERMAS, 1990, p.14). Quatro motivos básicos são assinalados: o pensamento pós-
metafísico e seu cientificismo; a guinada lingüística com a passagem do paradigma da filosofia da consciência
para a filosofia da linguagem; o entendimento de que a razão não pode ser apenas situada como razão abstrata,
mas sim como razão prática, histórica; por fim, a “inversão do primado da teoria frente à prática, ou seja,
superação do logocentrismo” (p. 14).
94
conhecimentos e também limitações. A crítica a tais limitações é que expõe uma visão cética
da razão, pois esta passa a ser vista sempre como razão instrumental. Habermas certamente
Com a guinada pragmática, Habermas conduz seus leitores a elementos que permitem
entender o “agir comunicativo”. Como uma filosofia da linguagem que norteia o raciocínio
reflexivas em si, performativas. Ao falar, o agir impõe-se e, assim, os atos de fala têm feição
uma orientada para fins (estratégica) e, outra orientada para o entendimento. Uma não é
redutível à outra, e da última é que surge o agir comunicativo. De um lado, o agir estratégico é
essa ação cooperativa não é qualquer racionalidade teleológica, mas a pretensão de validez
(validade criticável) da fala de cada um. A noção de pretensão de validez foi sendo trabalhada
não no sentido de vê-la como algo objetivo, mas sim como algo que se forma no processo de
sucesso ou à verdade, mas diz respeito à relação entre linguagem e mundo da vida
(HABERMAS, 1990).
De fato, a noção de que é necessário um espaço político, uma esfera pública através da
qual o convencimento possa ser exercitado, coloca-se como condição para o agir
comunicativo. Porém, junto com isso também está presente a necessidade de um grau de
normatividade, já que, para haver o agir comunicativo, deve haver a procura de entendimento
95
ou, no mínimo, o propósito do diálogo. Passa a ser indispensável, para realização da
comunicação, que os indivíduos adotem uma postura ético-social comum, uma disposição
validade, desfazendo assim as condições para o agir comunicativo. Portanto, para que este
seja viável, é necessário que se elimine o uso estratégico do poder. Segundo a ótica que se
adota aqui, este parece ser um elemento importante do ponto de vista de possíveis limitações
noção de mundo da vida em Habermas tomando com referência Piaget. Trata-se do processo
de superação do egocentrismo que permite ações abertas e reflexivas. Ocorre uma fluidez de
conteúdos e consciências individuais que permitem uma troca social mais rica e menos
controlada. O mundo da vida também é complexo, composto por experiências e por trocas
que ocorrem a partir de diversos níveis. “Os componentes do mundo da vida – a cultura, a
(HABERMAS, 1990, p. 98). É nesse mundo que tradições culturais se mantêm vivas
poder político organizassem sistemas próprios que operam com base na racionalidade
96
tempos52. Habermas aposta na perspectiva do agir comunicativo, e isso não ocorre como uma
idealização ou uma perspectiva teleológica. Sua aposta está vinculada à percepção crítica que
se apresenta, historicamente, na sua análise social e disposição por pensar uma esfera pública
desvalorização da política como processo. Além disso, procura demonstrar que é necessária (e
O autor volta aos clássicos dos séculos passados para fazer a crítica ao que chama de
problema do privilégio, uma vez que o soberano resultante do contrato social não pode existir
pensador do século XIX, na medida em que este se opõe decididamente à idéia de que se
fundamentais, neste caso. Mas, além disso, o soberano não seria constituído por um “corpo”, e
52
Axel Honneth mostra que a comunicação, na construção habermasiana, tanto serviu para colonizar o mundo da
vida como pode servir para construção de alternativas que se oponham à lógica dos sistemas. “Somente porque
considera as modernas sociedades divididas em sistema e mundo existencial, em contextos funcionais
organizados racional e intencionalmente, e esferas de ação comunicativamente construídas, é que Habermas
pode entender a incursão de formas sistêmicas de controle nos domínios até o momento intactos da prática
comunicativa diária como a patologia determinante de nossa época.” (HONNETH, 1999 p. 543)
53
A política como processo foi, ao longo dos tempos, desvalorizada e, para isso, vários fatores convergiram.
Entre outros, Habermas cita os seguintes: (1) a compreensão de que uma possível revolução social deveria ser
realizada, fundamentalmente, por meio da tomada do poder do Estado; (2) o reformismo social que levou à
desmobilização política e à expansão do aparelho de Estado; (3) e a democracia liberal, com a estatização dos
partidos e com a limitação da participação frente à orientação administrativa.
97
Há dois tipos de poder político: um legitimado pela via da comunicação e, outro
legitimado pelo sistema político-administrativo. “O sistema político lida com o direito de uma
livremente, há uma grande dificuldade em manter viva uma democracia baseada, antes de
mais nada, nos procedimentos, na comunicação livre. Apesar disso, essa compreensão de
soberania popular, defendida por Habermas, expressa a idéia de espaço público como um
conceito normativo. Parece coerente considerar que o espaço público passa a ter valor em si.
Precisa ser preservado como espaço de formação de vontade política e também de correntes
Há uma ponderação. Essa forma de soberania não poderia se desenvolver sem uma
cultura política e sem um mundo da vida racionalizado. Tal racionalização não passaria por
uma noção de virtude política que “sobrecarregaria os cidadãos” (como na ótica republicana
interesse próprio. Não se poderia imaginar, neste caso, a existência de uma razão centrada no
sujeito e nem numa consciência teleológica. Os espaços públicos autônomos só podem existir
na medida em que a dinâmica cultural se expande. Há que existir uma cultura política
igualitária para viabilizar a soberania popular como procedimento e há que existir uma
racionalidade própria no mundo da vida. É a razão do agir comunicativo, que supõe uma
54
“Esse modo de uma reprodução auto-referida do espaço público revela o lugar ao qual se recolhe a expectativa
de uma auto-organização soberana da sociedade. Com isso, a idéia de soberania popular é dessubstancializada.
Mesmo a concepção de que uma rede de associações poderia tomar o lugar do corpo popular que foi afastado–
para, por assim dizer, tomar o posto vago da soberania– é demasiadamente concreta”. (Habermas, 1990a, p. 111)
98
Dificuldades da esfera pública em Habermas
A crítica de Habermas, que não aceita a idéia de que a razão reduza-se ao instrumental,
é coerente com a busca de contradições internas às relações sociais. Nesse sentido, mesmo
que se possa questionar as concepções de mundo dos sistemas e mundo existencial, estas
concepções ganham consistência, uma vez que são coerentes com as contradições produtivas
Importante mérito da categoria ‘contradição’ é que ela impede que os processos sejam
entendidos como meramente homogêneos, para reproduzir ou para transformar. Assim, ela
No entanto, o que acabou de ser dito não parece válido para se pensar uma perspectiva
sociedades.
É preciso dizer que em Habermas o elemento que parece mais obscuro é o do poder.
Não parece haver uma discussão através da qual Habermas coloque o problema de forma
nítida. Ele pretende que haja um equilíbrio de poderes no exercício da razão comunicativa,
porém questiona-se sobre como será a produção de tal equilíbrio sob relações sociais
profundamente desiguais como as das sociedades atuais55. Habermas parece incorrer num
55
Existem, de fato, dificuldades em implementar um agir comunicativo de forma generalizada, a ponto de se
poder contar com uma nova cultura política que tenha um caráter universalizante. Assim, parece pertinente a
idéia de que a proposta habermasiana possa ser pensada como viável, em termos práticos, para grupos sociais
reduzidos numericamente. Isso se explica na medida em que a identidade comunitária permite que se visualize
com mais concretude a possibilidade de entendimento. Embora a idéia de comunidade remeta a relações de tipo
tradicionais, aceitando-se a noção de contradição inerente às relações sociais, parece possível visualizar aí a
postura normativa necessária à ação comunicativa: uma disposição originária para o diálogo.
99
fundo socioeconômico. Estas são questões profundamente imbricadas com inúmeras formas e
Para Habermas, pensar a esfera pública como soberania popular procedural supõe a
existência de uma vitalidade democrática sempre intensa e supõe, também, uma precária
institucionalização, a fim de que a vitalidade não seja sugada pelo sistema político e pelos
seus subsistemas. Se, do ponto de vista teórico, a idéia não só parece compreensível como tem
questão, junto à tomada de decisões no Estado, passa sempre por algum patamar de
reconhecimento daquilo que está sendo objeto de discussão e de posterior decisão. Ora, o
simples fato de incluir uma questão na estrutura de funcionamento do Estado significa algum
nível de institucionalização. Os agentes do Estado que tratam de tais questões não poderão
agir senão no âmbito das prerrogativas que detêm no interior do sistema político.
moderna e da relação entre o público e o privado, bem como para que tais concepções sejam
de base para a interpretação que segue, o caderno cujo título é Reinventar a democracia
(1998) e os livros Pela Mão de Alice (1999) e A crítica da razão indolente56 (2000).
modernidade, embora com diferenças no que diz respeito a três questões. Trabalha no sentido
56
O autor persegue o caminho do questionamento de referenciais e práticas desenvolvidas com o paradigma da
modernidade e aponta para possibilidades de criações e rupturas no período em que ele denomina de transição
paradigmática. Santos defende a tese da necessidade de uma pós-modernidade inquietante frente ao que tem se
apresentado de maneira hegemônica como uma pós-modernidade reconfortante, incapaz de questionar modelos
de dominação existentes. Ele entende que a transição paradigmática possui várias dimensões e que as mais
significativas são a epistemológica e a societal.
100
de valorizar o senso comum, não crê na possibilidade emancipatória dentro do paradigma
estatais. Santos entende que seja possível republicizar o espaço estatal a partir da proliferação
através dos tempos. Santos entende que o contrato social da modernidade revela uma tensão
vontade geral.
para viabilizar os processos de inclusão e exclusão. A primeira que vem pela socialização da
economia e expressa a regulação no campo da produção. A sua origem está ligada aos
mecanismos de socialização que foram sendo criados e fizeram emergir as classes sociais
torno da regulação.
57
A base empírica para reflexão é oriunda de uma diversidade de lugares no mundo, por exemplo, Portugal, seu
país de origem, África e América Latina, em especial o Brasil.
101
num elemento fundamental em importantes fases da existência do Estado. Essa busca de
de capitalismo desorganizado.
Santos mostra que inclusive o Estado liberal na sua primeira fase é um Estado
regulatório. A distinção entre direito privado e direito estatal é ilusória uma vez que o
dominação política. O direito privado é criado e se realiza através de outras instâncias que
A segunda fase estatal na relação com a sociedade e o mercado capitalista, que o autor
data do final do século XIX e que aparece com muito mais clareza no pós-1930 e pós-1945,
tem o Estado como agente central. Duas mudanças básicas ocorrem na relação Estado e
sintetizam a gestão econômica que é produzida. Outro tipo de dinâmica diz respeito à gestão
política ou à politização das questões sociais, dando origem ao Estado Providência. Sua
origem esteve na necessidade de reforma por parte do Estado capitalista e nas lutas
102
Sobre a terceira fase capitalista e estatal, Santos afirma que, ao contrário do que
aparece num primeiro momento, estaria havendo “expansão do Estado na forma de sociedade
importante considerar o caráter das reformas políticas por que passam os Estados capitalistas
mercado, as reformas não têm significado nem diminuição da centralização decisória, nem
Entende-se, então, que no campo das relações Estado/mercado, muitas vezes não se
tem uma dicotomia entre público e privado. Historicamente se vê o que o autor aponta como
mercado, num jogo de reciprocidade e auxílio mútuo, têm mostrado intensa capacidade de
identidade à nação. Não permitiu que se visualizassem questões que atingem grupos parciais e
58
“A meu ver, a expansão do Estado na forma de sociedade civil é a característica mais saliente do Estado
capitalista nos países centrais, no período no capitalismo desorganizado.” Hoje “...o poder que aparentemente se
retira ao Estado para dar à sociedade civil continua a ser, de facto, exercido sob a tutela última do Estado, apenas
substituindo, na execução directa, a administração pública pela administração privada e, consequentemente,
dispensando o controlo democrático a que a administração pública está sujeita.” (SANTOS, 2000, p. 174)
103
fez ocorrer o fenômeno da despolitização da esfera não-estatal59.
entrou em crise. Essa crise se manifesta não só na crise do ideal de bem-comum, mas na
Isso ocorreria através de outros conceitos que dêem conta da compreensão das estratégias
políticas atuais combinadas com os poderosos interesses privados de mercado, mas que
59
Regionalmente também se manifestaram diferenças importantes. “Na periferia e na semiperiferia, a
contratualização tendeu a ser mais limitada e mais precária que no centro. O contrato conviveu sempre com o
status; os compromissos foram quase sempre momentos evanescentes entre os pré-compromissos e os pós-
compromissos; a economia foi socializada em pequenas ilhas de inclusão que passaram a existir em vastos
arquipélagos de exclusão; a politização do Estado cedeu freqüentemente à privatização do Estado e a
patrimonialização da dominação política; a identidade cultural nacionalizou muitas vezes apenas a caricatura de
si mesma.”(SANTOS, 1998, p. 14/15)
60
A tese da transição paradigmática e societal expõe que, nas últimas décadas, o princípio da comunidade foi
reativado “de forma aparentemente autônoma” (2000, p 156). Segundo essa ótica, ocorrem movimentos distintos
e entrelaçados: há ‘expansão do Estado’ (na forma de sociedade civil) e isso ocorre sob a ‘égide do mercado’,
mas com a reativação da comunidade. A idéia é “... encarar a criação futura de um terceiro sector, situado entre o
Estado e o mercado, que organize a produção e a reprodução (a segurança social) de forma socialmente útil
através de movimentos sociais e organizações não governamentais (ONGs), em nome da nova solidariedade
ditada pelos novos riscos contra os quais nem o mercado nem o Estado pós-intervencionista oferecem garantia”
(SANTOS, 2000, p. 157) No âmbito da transição para um novo paradigma societal estão essas organizações e
movimentos não tradicionais, os quais se generalizaram a partir da crítica à regulação social capitalista. Eles têm
origem na sociedade civil, mantendo um certo distanciamento em relação ao Estado, aos partidos políticos e aos
sindicatos tradicionais (SANTOS, 1999, p. 261). Constituem-se espaços públicos não-estatais que podem
contribuir para promover o Estado no seu caráter público renovado. Esses sujeitos envolvendo interesses de
grupos mais localizados ou mais amplos (talvez universalizáveis), estariam “alargando a política para além do
marco liberal da distinção entre Estado e sociedade civil” (SANTOS, 1999, p. 263). Seria equivocada, portanto,
a idéia de que tais movimentos tenderiam a atuar num nível mais pessoal, social e cultural ao invés de no nível
político. Convergindo com a interpretação de Habermas, os movimentos nascem de grupos privados que vão se
organizando coletivamente, buscando tornar públicas suas demandas e, na medida em que obtêm sucesso,
deixam de ser eminentemente privados. Tem-se aí, portanto, uma ampliação da esfera pública.
104
Santos vê possibilidades de ampliação da esfera pública ao lado de um novo mapa de
esquema dicotômico da relação entre esfera pública e privada e entre Estado e sociedade civil,
apresenta um mapa que trata de seis formas de poder, de conhecimento e de direito, as quais
não existir apenas um poder como privilegiado. Estaria sendo superada a centralidade de
mas as noções de público e de privado continuariam a ter validade, embora devam ser
buscadas e se realizem diluídas em múltiplos espaços. Ocorre que esses interesses divergentes
não estariam localizados (apenas) em pólos opostos, mas estariam dispersos, entrelaçando
Dessa perspectiva existem seis espaços estruturais em torno dos quais se organiza a
espaço mundial. Cada um deles - através de suas instituições, práticas sociais, formas de
A construção analítica de Santos contribui para que se entenda que não se podem mais
estrutura-ação que esclarece sobre a existência de seis espaços estruturais, é necessário que se
105
privados formando, de maneira distinta da concepção liberal/moderna, uma outra noção de
esfera pública e de esfera privada. Assim, no caso da educação superior, o seu conteúdo
público precisa ser identificado nas práticas sociais dos diferentes espaços onde se efetiva,
análise. Para chegar a isso, é necessário ainda buscar inspiração na concepção de pertinência
os elementos teóricos básicos tratados neste capítulo permite que se chegue a categorias que
Ensino Superior (CMES) de 1998, expõe a noção de pertinência do ensino superior como um
dos elementos fundamentais para pensar tendências ou perspectivas do ensino superior para o
século XXI. Outros elementos considerados igualmente importantes são a qualidade, a gestão
106
Em 1998, o principal documento da CMES, de maneira convergente com o anterior,
afirma
aspectos. Alguns desses serão tratados aqui, a fim de construir caminhos para investigar
recomendação de ir ao (1) encontro dos políticos e do Estado, fica presente que cabe a estes a
tomada de decisões, com os devidos subsídios da estrutura estatal. O ensino superior seria
influência desse mundo que é dinâmico e desafiador. “No entanto, é imperativo que o ensino
superior se adapte às transformações do mundo do trabalho, mas sem perder sua identidade
(UNESCO, 1999b, p.125). Além disso, a ênfase curricular deve ser muito mais na produção
Ir ao (3) encontro de outros níveis de ensino diz respeito a outro aspecto da pertinência
social do ensino superior. Nesse sentido a formação de uma cadeia educativa traduz a
o sistema educativo deve produzir um todo coerente ligando “subsistemas ou níveis que sejam
107
articulados em torno de um projeto educativo comum, a serviço de um projeto de
Tanto o reconhecimento da (4) cultura como universal, una e plural e como bem
Ir ao (6) encontro de todos os lugares, todo o tempo, traduz a idéia de que é necessário
uma maior flexibilidade e diversificação dos meios utilizados pela prática de educação
superior, a fim de que ela tenha maior alcance. Para tanto, deve ocorrer a diversificação
como uma interligação entre o mundo dos estudos e o mundo do trabalho, sendo que o
sistema deve estar apto para atender estudantes que possuem conhecimentos oriundos de suas
Por fim, ter pertinência significa (7) ir ao encontro dos estudantes e dos professores.
Os estudantes devem, desde essa fase, participar ativamente da vida institucional, inclusive ter
oportunidades de gestão em certos órgãos. Por sua vez, os professores são o recurso
108
a preocupação com a pertinência se coloca com maior acuidade ainda nos
períodos de transformação, quando as situações paradoxais abundam e quando
as forças presentes na sociedade puxam em direções contrárias. Mais do que em
qualquer outra época, o ensino superior deve cumprir então um papel
fundamental, colocando todos os seus recursos e seu espírito de independência a
serviço do que é pertinente para o homem e para a sociedade em geral
(UNESCO, 1999b, p.123).
A noção de pertinência61 expõe o fato de que a educação superior necessita ser válida
do ponto de vista da prática social. Esta envolve desde o utilitário mundo do trabalho,
desenvolvimento social e humano de longo prazo. Essa noção diz também da validade da
saídas conjuntas para questões consideradas problemas em caráter local, regional e bem mais
amplas. A pertinência do ensino superior contribui para uma ação de caráter público e para o
Pertinência, portanto, pode ser traduzida como pertinência social porque seu
desenvolvimento social, como se pode ver acima. Também relaciona-se diretamente com a
sociedade e obtém o reconhecimento que lhe dá os elementos próprios que caracterizam uma
61
A noção de pertinência na publicação brasileira Política de Mudança e Desenvolvimento no Ensino Superior.
Rio de Janeiro: Garamond, 1999a, foi traduzida pelo termo relevância.
109
2.4 Público e caráter público da educação superior: categorias de análise
Neste estudo, não se pretende trabalhar com conceitos ideais de esfera pública, de
que se relacionam com essas categorias formam-se como fruto de relações dinâmicas e
e realização de utopias.
Através de Arendt (2000) e Habermas (1984 e 1990), vê-se que há uma dificuldade em
viabilizar a afirmação da esfera pública e da política, como arte de inventar alternativas diante
outras esferas. No presente, o mundo da economia e seus sistemas, aliado ao sistema político
institucionalizado pelo Estado, o qual tem grande capacidade de persuasão, tornam legítimas
no debate e na tomada de decisões. Isso ocorre numa dimensão nacional e conta com a
Assim, não basta adotar a idéia de legitimidade sem qualificá-la. Weber (1984) alertou
para o fato de que em situação de monopólio de poder gera-se, muitas vezes, consentimento e
legitimidade por parte de dominados. Para que se possa adotar uma compreensão de
legitimidade não correspondente ao monopólio de poder e que, além disso, tenha conteúdo
110
compreensão de que é necessário valorizar a política e a esfera pública como possibilidade
alternativas de convivência. Efetivamente, trata das relações de poder como sendo inerentes à
política. De maneira convergente, as relações de poder são entendidas aqui como inerentes à
pretende conquistar esta articulação enquanto que a arendtiana não coloca essa discussão,
dando atenção à idéia de realização das singularidades através da política e da esfera pública.
pública aparece como espaço de troca e se sustenta na idéia de construção das alternativas
políticas como processo. A democracia, como soberania procedural, não está na afirmação da
processo de comunicação permanente, o qual faria reaparecer argumentos de uns frente aos
outros, efetivando consensos provisórios. É importante lembrar que, para viabilizar tal
democracia e afirmar a esfera pública, seria necessário superar o agir estratégico e garantir o
Entendeu-se que essa ótica valoriza processos, mais do que resultados, aspecto importante do
De um lado, vê-se o agir estratégico na atual forma de ação estatal e na sua inter-
111
superior. Ele é voltado para um fim determinado e com quase nenhum debate político
expressando-se no processo de reforma que adota uma concepção, em grande parte definida
De outro lado, a concepção habermasiana permite considerar que o caráter público não
colocado em xeque através das relações e práticas sociais. A adoção dessa compreensão é
importante para o presente estudo, já que permite buscar, mesmo em condição adversa,
organização das sociedades no período recente, denominado por ele de pós-moderno. Mostra
representante político público por excelência, tal qual na modernidade. O público e o privado
O caráter público das ações e relações sociais, portanto, não está localizado num
espaço social ou político específico. Ele possui um conteúdo político, dado pelo processo –
democrático - e dado pelo resultado - de cunho social -, podendo estar disperso e, inclusive,
fazendo-se presente em instituições que tenham uma definição jurídica nomeada de privada.
Na atualidade parece ganhar primazia a esfera dos interesses privados tanto em instituições
112
A noção de pertinênica do ensino superior aparece num nível de concretude muito
maior do que a de esfera pública. Por isso, essa noção contribui para que se sintetizem
perspectivas de ação em sentido público presentes na educação superior, indo além da ótica
liberal que privilegia resultados externos aos benefícios da educação obtidos individualmente.
também, atuação no âmbito de construções públicas. Esse campo da pertinência social não é
entendido aqui pelo reducionismo de políticas afirmativas, embora essas sejam importantes.
As concepções e ações que traduzem pertinência social e que contribuem para possibilidade
de legitimidade pública de uma IES, neste caso, são compreendidas como aquelas que
conhecimentos acadêmicos a uma população que, em geral, não possui identidade com ele.
com a reflexão crítica sobre a sociedade e sobre seu tempo histórico-social. Crê-se que há,
nesse tipo de ação, não só um sentido pragmático de responder às necessidades, mas uma
convergência com a noção do agir e do sentido político da convivência social enfatizado por
instituições diversas, os riscos que impediriam a constituição de legitimidade pública não são
apenas os de oferecer uma vida acadêmica débil, de baixa qualidade, mas também de
113
desenvolvê-lo de forma distanciada do mundo social e de necessidades concretas das
sistema de educação superior e na sociedade num sentido maior do que os interesses privados
Para os fins deste estudo, considera-se que um tipo de instituição de ensino superior é
legítimo quando é reconhecido publicamente, tendo seu reconhecimento dado pela identidade
acadêmica e, por conseqüência, pela função que desempenha no sistema de educação superior
de uma dada sociedade. A sua possível legitimidade pública supõe o sentido político e
político-social dado pelo caráter público, bem como pela pertinência social das ações
A noção de público neste estudo pressupõe que (1) o público não é restrito ao
Estado (HABERMAS, 1984 e 1990; ARENDT, 2000); (2) os espaços sociais, da produção,
também permitem que o público se manifeste nos múltiplos lugares sociais (SANTOS, 1999 e
2000); (3) o caráter público pode manifestar-se por meio de diferentes mecanismos e da
participação não apenas política, mas também cultural e social (SANTOS, 1999 e 2000),
administrados por grupos privados, em sentido não estrito, podem possuir caráter público.
acessibilidade do público a esse nível de educação; (2) lugar ou função acadêmica das IES
114
auxilia a interpretação da atuação de instituições de educação superior, portanto, torna-se
categoria para análise da micro realidade. Ela é traduzida por meio de três elementos: (1)
identidade acadêmica clara da IES; (2) legitimidade como tipo institucional dentro do
social.
115
Capítulo 3 - Educação superior e universidade no Brasil: idéia de
público, caráter privado e reformas
público e privado de educação superior no Brasil. Para isso, na primeira parte consideram-se
períodos históricos e manifestações ideológicas dessas disputas, além de atentar para formas
fatos das reformas dos anos 1990, que possuem um caráter liberal próprio.
superior tal como se processam durante os anos de 1990. Duas perspectivas se destacam.
Uma, que afirma estarem ocorrendo duas reformas – do Estado e da educação superior,
considerando que ambas são reveladoras de uma adaptação à lógica eficientista do mercado.
Neste caso, há a defesa do modelo universitário único tendo o Estado como mantenedor. A
mantenedores.
políticas na história da sociedade para uma interpretação mais fiel sobre relações e
do ensino superior.
116
No Brasil, desde o período da vinda da família real, passando pela independência, pelo
primeiro e segundo reinados até a constituição do país como república, manteve-se o traço de
tese sobre o patrimonialismo estatal brasileiro, o qual teria se desenvolvido com base na
burocrática que se formaliza a partir de uma concepção moderna de Estado, promove uma
à pessoa do governante, e não ao seu poder legalmente instituído. Eis aí traços de exercício de
desaparecer, mas refere-se a uma forma própria de organização que permite o entrelaçamento
O autor mostra que, nesse tipo de situação, há uma tênue linha entre o interesse
convergir com o governo, com o poder centralizado, seja ele qual for no estado e na nação.
117
Daí que se constitui o “sistema de reciprocidade” nas relações de interesse, o qual garantirá
constituindo naquilo que Tavares (2000) chama de patriarcalismo feudalizante, ou seja, com
senhores com grande prestígio social e político local. Com isso, se processou descentralização
e privatização da ocupação dos espaços políticos e das funções públicas. “Desta fusão dos
expressam muito das características que marcam a relação do Estado com a sociedade através
do tempo.
Brasil
XI. Na América espanhola, o século XVI foi marcante. Várias universidades foram fundadas
em diferentes pontos: Santo Domingo (1538), México (1551), Lima (1551), Bogotá (1580),
de ensino superior foram constituídas apenas no século XIX, a partir de 1808, depois da
118
chegada da família real. Foram escolas superiores com cursos isolados, voltadas para
tardio, se esteve ainda longe da noção de universidade com entrelaçamento entre diferentes
elite brasileira.
O século XIX foi marcado por um tipo de profissional oriundo do meio acadêmico e
foram as de Olinda e de São Paulo e trabalharam com o ensino jurídico. A formação jurídica,
que num período inicial servia para dispor de magistrados e juristas, passa a priorizar o
supor-se que esse segmento profissional formasse um estamento próprio ao nível do estado;
da legislação a ela ligada (TAVARES, 2000, p. 62). Com base na tese do poder patriarcal e
retórica e à organização do aparato jurídico que legitimava o poder central. Ele foi um
‘personagem central do clientelismo’ mas, aos poucos, foi perdendo espaço. Assim, se a
formação na área jurídica foi, por excelência, característica do Brasil do século XIX, a
segunda fase se salienta pela ampliação na concepção dos saberes necessários à organização
119
Quando se aproximava a crise do Império e o início da Primeira República, a medicina
intelectuais capazes de auxiliar na tarefa de reorganização social por meio da atuação efetiva
profissionais que atuavam nesta área eram formados nas faculdades de medicina do Rio de
intelectualidade brasileira no final do século XIX. Hershmann e Pereira (1994) mostram que
junto com o positivismo, uma ótica naturalista convergia no sentido de valorizar a busca de
entanto, não era apenas dos currículos da área médica. As escolas técnicas têm histórias que,
Conforme Oliven,
120
a influência do positivismo, no grupo de oficiais que proclamou a República no
final do século passado, foi um fator importante que contribuiu para o atraso da
criação da universidade no Brasil. Os positivistas consideravam a universidade
uma instituição decadente anacrônica para as necessidades do Novo Mundo,
sendo, no entanto, favoráveis aos cursos técnicos profissionalizantes (OLIVEN,
1990, p. 60).
Paulo foi considerada uma instituição de ensino superior “modelar durante toda a Primeira
República”. Nasceu em 1894, como instituição estadual e trabalhou a partir de ideais como o
1987, p. 53).
Essa instituição que vai constituir, em 1934, parte da USP – Universidade de São
Paulo - expressou a crença no ensino técnico especializado, por um lado, e, por outro, investiu
pretendendo atender ao ensino técnico secundário e ao ensino superior, tendo constituído sua
identidade para o ensino superior ao longo de quase duas décadas (até 1912).
de mudanças, e acredita-se que aí vai sendo gestada uma noção de interesse público,
62
Cunha (1980 p, 87 - 88) afirma que “o positivismo vinha atender, no plano ideológico, a essas demandas.
Atacando o catolicismo (e o cristianismo em geral), como uma expressão ultrapassada do estado metafísico,
solapava a hegemonia da Igreja; defendendo o ensino livre de qualquer privilégio (qualquer um poderia ensinar
qualquer coisa que quisesse) e o exercício das profissões independentemente de privilégios corporativos
remanescentes, diminuía o poder da universidade (controlada pela Igreja) e dos sindicatos operários; defendendo
a ‘ditadura republicana’, legitimava a organização de um aparelho de repressão das manifestações populares
(principalmente dos operários), apesar dos valores proclamados de solidariedade universal, veiculados pela
‘religião da humanidade’”.
121
especialmente quanto à educação superior. Historicamente, é neste período que as discussões
em torno de valores sociais, culturais e políticos vão buscar definir uma identidade para a
sociedade brasileira e, com isso, remetem para a idéia de unidade nacional até então não
constituída.
1930 e a formação do estado nacional com bases autoritárias. Na educação, a novidade maior
vinha de parte da facção liberal que, de maneira genuína em nossa história, distanciava-se de
que a Revolução de 1930 significou um rearranjo das forças sociais no poder. Ela não se
Relativamente ao ensino superior, essa fase é marcada pela expansão, pela criação de
Universidade do Rio de Janeiro – até contar com a fundação da Universidade do Brasil. Cabe
63
Para reforçar a perspectiva com a qual viemos trabalhando, é importante considerar o que Norberto Bobbio
(1988) esclarece sobre o liberalismo. De fato ele nasce elitista e antidemocrático, contudo o processo de
desenvolvimento histórico exigiu sua aproximação com a democracia. Não se trata de considerar aqui que o
liberalismo seja igualitarista. Assim como no marxismo, admite-se a existência de correntes de pensamento
liberal. Tais correntes de pensamento e de práticas políticas liberais variam de acordo com perspectivas políticas
e epistemológicas adotadas, mas também de acordo com processos históricos que propiciam necessidades e
ênfases diferenciadas. No período em questão, defenderemos a compreensão de que há importantes ações por
parte de um liberalismo que converge, em certo sentido, com a defesa de interesses de caráter mais público que
privado.
3
Francisco Weffort considera que “a revolução de 1930, movimento liderado por homens de classe média e por
alguns chefes oligarcas (entre os quais o próprio Getúlio Vargas), abre a crise do sistema oligárquico de poder
estabelecido desde os primeiros anos da República (1889) e consagrado na Constituição liberal de 1891. Parece
haver sido uma das peculiaridades do processo de transformação política que a insurreição de 1930 desencadeia,
o fato de que as verdadeiras forças e os motivos reais de seu comportamento não tenham aparecido sempre de
maneira clara.” (p.63) Com base nisso, Weffort esclarece que, diferentemente do processo clássico europeu,
especialmente francês, no qual as classes sociais enfrentaram-se e estabeleceram uma clara ruptura com o antigo
regime, no caso brasileiro houve muito mais uma reorganização do poder ao nível das classes dominantes.
122
ressaltar, no entanto, que foi mantida a lógica estabelecida desde a Proclamação da República,
institucional (início das instituições privadas dá-se a partir de 1891); (2) o surgimento de
Comte nos círculos acadêmicos nacionais” (OLIVEN, 1990, p.60). Mas é com a Associação
Brasileira de Educação, fundada em 1924, que o debate em torno da idéia de universidade iria
avançar. Desde os inquéritos promovidos por Fernando Azevedo até a implantação, mais
ideológicas que revelam disputas no campo do ensino superior e que expressam novos
embates. O episódio de 1930 apresenta de maneira mais clara a disputa que coloca frente a
Entre os próprios liberais não havia óticas e práticas consensuais. Cunha (1980)
classifica-os nas variantes elitista e igualitarista. O primeiro caso é representado por Fernando
123
Azevedo. No rumo de interpretação construída por Cunha, um segundo tipo de liberalismo
pública, gratuita e autônoma. Depois do Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova, tendo
Universidade do Distrito Federal. Essa universidade, fundada por decreto em 1935, sintetizou
meios de adquiri-la’, tanto a idéia de autonomia, como a participação dos estudantes estavam
claramente previstas.
comunismo, temiam que a nova geração a ser graduada pela instituição recentemente criada
Brasil e aos verdadeiros ideais de uma sociedade sadia’” (OLIVEN, 1990, p.62).
ingerência direta do governo central, a Universidade do Distrito Federal teve apenas quatro
anos de existência. Extinta por decreto presidencial em janeiro de 1939, seus cursos foram
transferidos para a Universidade do Brasil, nome que passou a ter a antiga universidade do
124
O período da democracia populista, iniciado em 1946, registrou importantes conflitos
entre classes e segmentos engajados na defesa de posições sociais e outros, fazendo frente a
universidade vinculada à cultura popular - com Álvaro Vieira Pinto - e liberalismo autoritário,
faculdades independentes, muito mais do que uma integração entre os cursos, a estratégia de
ação dos governos populistas frente ao ensino superior foi de tender à federalização e à
Quanto às disputas em torno da LDB, debatida entre 1948 e 1961, em meados dos
anos 50 aparece claramente o enfrentamento entre os que defendiam a escola pública e os que
grupo, via-se Anísio Teixeira e Fernando Azevedo. No segundo, Carlos Lacerda e o segmento
entre seus idealizadores Anísio Teixeira e Darcy Ribeiro. Tinha como objetivo formar
cidadãos que buscassem soluções democráticas e expressar uma identidade ideológica com o
que não significava simples soma das cátedras, pretendia reunir disciplinas afins e corpo
125
docente “integrado pela unidade de pensamento e ação, num plano de trabalho de ensino e
Em 1964 inicia-se uma nova fase para a educação superior, a qual tem relação direta
com a tomada do poder político pelos militares através de um golpe de estado. Esta fase da
trajetória histórica da educação brasileira foi resultado de uma combinação de fatores, mas
Isso pode ser verificado tanto no contexto da Guerra Fria, quanto nos interesses de expansão
do capital multinacional - terminologia própria das análises oriundas das ciências sociais à
exemplo importante é o da Revolução de 1930, tendo sido efetivada num enfrentamento entre
elites e viabilizando uma mudança política importante sem que houvesse participação
popular. No caso de 1964, chama atenção que o golpe, além de buscar uma saída para a
Oliveira, também foi um recurso para a tentativa de alcance do poder por parte de segmentos
que até então não haviam tido condições de ocupá-lo e que se apresentavam como liberais.
Este é o caso, por exemplo, de partidos como a UDN. Os liberais brasileiros que faziam
econômica65 e política, o papel que assumiram foi no sentido de viabilizar equilíbrio nas
de intelectuais de esquerda e as de cunho popular (Álvaro Vieira Pinto, Ernani Maria Fiori,
126
Paulo Freire) ou aquelas que visavam à autonomia (Anísio Teixeira) foram atingidas
frontalmente.
inconfundíveis. Embora a LDB de 1961 admitisse que o sistema de ensino superior não mais
partir da reforma de 1968 que ocorre a expansão de instituições e de vagas no ensino superior.
nesse período foi capaz de garantir certa ‘massificação’ do ensino superior no Brasil,
Interessante é ver que essas importantes modificações não foram objeto de debate por parte de
norte-americanos e brasileiros.
65
Mesmo não obtendo o sucesso desejado, o II PND de Ernesto Geisel constituiu-se num plano que visou
fortalecer a indústria nacional associada ao financiamento e às empresas estatais. A expectativa era fortalecer a
aliança entre esses capitais frente ao capital estrangeiro.
127
universidade fosse autônoma, deveria constituir-se uma grande empresa
privada, fugindo ao modelo de repartição pública. Em seu entender ‘a
implantação da autonomia administrativa e financeira (...) é dever inescapável
da Nação’ (FÁVERO, 1991, p.29).
A linha de defesa dos estudos realizados por Atcon colocava a educação como
economicamente a nação estava no centro dessa compreensão. Nesse caso, além da expansão
De outra parte, o relatório Meira Mattos foi resultado da formação de uma Comissão
Especial nomeada pelo Presidente da República, Costa e Silva, para encontrar saídas frente às
mobilizações estudantis do período. O Decreto lei 477/69 e o AI-5 apoiaram-se nos estudos
previstas pela LDB têm provocado crise de autoridade e que a liberdade de cátedra tem
de direção.
128
Baseada no modelo norte-americano, a lei instituiu o ciclo básico de estudos, com dois
classificatório, fim da cátedra, aumento no número de vagas via criação de instituições não
A autora não crê que houvesse uma política de privatização deliberada. Para ela, os
autorização dos cursos conforme a capacidade de pressão dos demandantes. “Se as brechas
legais prevaleceram nesse período, foi em decorrência da pressão dos interesses do ensino
privado; respaldado, por sua vez, na pressão da demanda, a força do setor privado mostrou-se,
efetivamente, mais eficaz nessa arena decisória”. (SAMPAIO, 2000, p. 68) Entretanto,
certamente contribuiu de forma mais ou menos difusa para os deferimentos do CFE: a crença
129
decorrência disso e de prioridades governamentais, mas também atendendo a reivindicações
do movimento estudantil das décadas anteriores, o setor público das universidades passou a
contar com condições infra-estruturais para investir em pesquisa. Aliás, frente ao setor
privado que privilegiou o ensino de baixo custo, o setor público foi capaz de investir e de
universidades, em geral públicas, foi implantado, nos últimos anos, um sistema de pós-
brasileiro tem caráter de reforma, ou seja, atua em sentido determinado a partir de uma lógica
política própria. A idéia de reforma do ensino superior brasileiro, desde a segunda metade dos
anos 1990 para cá, evidencia-se através das regulamentações legais ocorridas até aqui e
Quanto às reformas de âmbito mais geral, trata-se de considerar que a atuação dos Estados no
do acesso à educação, mesmo que isso fosse resultado de lutas sociais e de conflitos entre
130
segmentos interessados nesse objetivo.66
A atual reforma do ensino superior tem ocorrido no contexto da reforma estatal que
noção de reforma com a qual se trabalha é inspirada em Popkewitz (1997). O autor permite
entender que, por sua natureza, as reformas prescrevem a realidade, sendo mais normativas
que as mudanças e limitando práticas sociais. Ocorrem com base nas relações de poder em
jogo nas práticas sociais e exprimem racionalidades predominantes entre os agentes sociais.
No caso da reforma do ensino superior brasileiro, nos anos 90, houve várias fontes de
poder que intervieram nos processos desde sua formação até sua implementação. Nesse
institucional.
talvez sejam os mais marcantes nessa reforma. O sistema de avaliação implementado pelo
Ministério da Educação e Cultura conta com o Provão – Exame Nacional de Cursos, com a
para Revalidação Periódica; ainda, conta com o ENEM – Exame Nacional do Ensino Médio.
A lei maior da educação, Lei de Diretrizes e Bases da Educação Brasileira, no seu artigo 67
66
Para Almerindo Afonso “as políticas sociais e educacionais podem ser interpretadas como instrumentos de
controlo social e como formas de legitimação da acção do Estado e dos interesses das classes dominantes, por
outro lado, também não deixam de poder ser vistas como estratégias de concretização e expansão de direitos
sociais, econômicos e culturais, tendo, neste caso, repercussões importantes (embora, por vezes conjunturais) na
melhoria das condições de vida dos trabalhadores e dos grupos sociais mais vulneráveis às lógicas da exploração
e da acumulação capitalistas” (AFONSO, 2001, p. 22).
131
superior, fez com que o setor privado investisse intensamente no crescimento do setor. A
qualidade, não há o que questionar; entretanto, ela apareceu como um qualificativo técnico e
não político. Há sempre epistemologias sociais que fundamentam decisões e ações, e estas
produzem políticas. A arte e a capacidade humana de produzir alternativas diante das questões
concretas revela a própria política, como expõe Arendt. Porém, nesse caso, não parece ter sido
uma produção conjunta dos segmentos interessados, com participação ampla dos acadêmicos,
Para Afonso (2001) esse tipo de reforma tem tido uma amplitude muito maior do que
concretas dos Estados em ações também variam de acordo com as especificidades históricas
locais.
organismos internacionais. Isso pode ser visto através da análise das recomendações do Banco
Mundial para o ensino superior e da sua convergência para as dinâmicas políticas nacionais. A
132
ação estatal, para garantir a avaliação do sistema, tem podido afirmar esse caráter regulador,
um, a noção de felicidade ligada à utilidade, que, mais do que em outros momentos históricos,
ponto diz respeito ao fato de que o Estado deve agir como ente centralizador para garantir o
alcance utilitário e ‘a felicidade’ para o conjunto da sociedade. Ora, no caso brasileiro o que
se observa quanto às políticas para o ensino superior é um tipo de ação ofensiva e intensa,
Isso é feito, entre outras coisas, através do Exame Nacional de Cursos (Provão) e da avaliação
67
O que se coloca em questão não é a necessidade de avaliar o sistema de educação superior. Trata-se de
questionar o processo que tem sido implantado sob o título de avaliação institucional, o qual padroniza currículos
entre instituições, uma vez que para todos a dependência de uma boa nota no Provão é crucial. Vários fatores,
entretanto, culminam na formulação de um currículo como necessidades locais, liberdade acadêmica, e isso fica
desvalorizado. Se o objetivo é atingir instituições com baixa qualidade acadêmica, o Estado tem conseguido
muito mais, ou seja, reafirmar uma ação ofensiva do executivo nesse campo nos últimos anos.
68
O pensamento utilitarista foi fundado por Jeremy Bentham (1748-1832), tornou-se um importante aliado da
ideologia liberal. Conforme Bobbio, a filosofia utilitarista passa a ser a maior aliada da teoria liberal. (BOBBIO,
1988, p.64). Ele substitui a noção de direito natural presente nos contratualistas pela idéia de utilidade. Segundo
a perspectiva utilitarista de interpretação das relações político-econômico-sociais, os homens são seres que se
mobilizam basicamente buscando o prazer frente à dor. É isso que impede que o ser humano fique inerte. Os
trabalhadores, por exemplo, mobilizam-se frente à ameaça da fome. A postura utilitarista é, por um lado,
antipaternalista, uma vez que trabalha com a idéia de que, na ausência dos bens, os indivíduos se mobilizam. Por
outro lado, ela é altamente centralizadora, já que delega ao Estado a possibilidade de agir em favor daqueles que
considera incapazes de garantir a própria felicidade, independentemente da vontade destes. Em Adam Smith pelo
menos um princípio do utilitarismo parece estar presente. Trata-se da idéia de que o indivíduo egoísta busca a
sua felicidade. É isso que move cada um dos homens. É a promoção da felicidade própria que gera a saudável
competitividade e o bem estar geral, como conseqüência. Isso significa que se chegaria à idéia utilitarista de
promoção da felicidade geral. Para Smith o estado também deve intervir para criar condições para o
desenvolvimento em áreas não competitivas com os interesses individuais. No utilitarismo de Bentham, há uma
ênfase maior no papel do Estado. Trata-se da idéia de que o Estado pode intervir garantindo a felicidade para o
maior número de pessoas – mesmo que em detrimento das outras, a minoria. Nesse sentido, a liberdade
individual fica prejudicada, tornando-a o ponto de partida, embora não o ponto de chegada.
133
As ações estatais, no sentido da regulação, centralizam-se no Ministério da Educação,
propostas da sociedade civil ou do parlamento. Nunes et al. (2002), que estuda as relações de
poder junto ao Estado e analisa o ensino superior, afirma que a ação regulatória foi
implementada pelo governo Fernando Henrique Cardoso como parte da política de reforma do
Estado69. Esse tipo de ação é intenso nesse governo e forma-se através de pelo menos ‘três
produzindo regras e normas que imputam custos às unidades reguladas” (NUNES et al., 2002,
p 21). Cabe à agência reguladora convencer, senão domesticar ou, ainda, capturar para
Entretanto, “nossas agências parecem mais com burocracias insuladas70 do passado do que
69
A noção de regulação, a partir da ótica de seu principal ideólogo, o Ministro da Administração Federal e
Reforma do Estado, L. C. Bresser Pereira, no governo de Fernando Henrique Cardoso, traduz a idéia de que,
através da privatização de setores sob responsabilidade do Estado, seria ampliada a ação de um setor público
não-estatal. O estudo organizado por Edson Nunes põe em questão essa qualidade de ‘público não-estatal’, já
que as agências e os órgãos mantêm características históricas do exercício do poder e da política no Brasil - as
quais não conseguem afirmar o princípio do universalismo de procedimentos.
70
O conceito de burocracia insulada foi desenvolvido pelo autor para traduzir um tipo de relação de poder que
ganha vida e força durante a fase desenvolvimentista. Refere-se à capacidade das elites tecnoburocráticas de
exercer poder no Estado. O insulamento burocrático fez-se necessário para implementar o processo de
industrialização. As elites desenvolvimentistas promoveram a criação de diversas agências organizadas com base
na competência tecnoburocrática. Essa nova forma de poder passou a ter força sem diluir o poder de clientela
historicamente constituído. NUNES, E. A gramática política no Brasil: clientelismo e insulamento burocrático.
2ª ed. Jorge Zahar Editor: Rio de Janeiro, 1999.
134
Na educação, há uma regulação fragmentada, e o principal órgão de regulação é o
CNE (Conselho Nacional de Educação). Esse órgão atua no campo da regulação com
importante poder na definição do caráter das políticas. Como se verá, no próximo capítulo,
centros universitários.
Os elementos apresentados por Nunes et al. (2002) permitem que se visualize a partir
do CNE71 três aspectos fundamentais da realidade das políticas estatais e do ensino superior:
(1) o poder centralizador do executivo, que atua através de Decretos ou Medidas Provisórias
para garantir a implementação de sua vontade72; (2) a tradição de relações de poder entre
se aí não só características da política no Brasil, mas também uma visão de pouco prestígio
sobre a postura acadêmica, mesmo em organismos que lhe dizem respeito diretamente. Esse
são um importante fator a ser considerado quando se pensa em reforma do ensino superior e,
especialmente, quando se trata de uma reforma que ocorre sob a égide do mercado num país
71
O CNE é um órgão que, segundo a Lei nº 9.131, deveria, em sua Câmara de Educação Superior, ser composto
por 50% de membros indicados pela comunidade acadêmica e pela comunidade científica. No mesmo dia da
sanção da lei, o Presidente FHC publicou um decreto, substituindo as referidas comunidades por entidades da
sociedade civil. Com isso abriu enormemente o leque de participações e excluiu a garantia de participação
daqueles segmentos. As indicações de nomes por membros do CNE passaram a ser o caminho mais efetivo para
sua composição, tornando-se eminentemente um órgão representativo de interesses.
72
A análise da legislação, no próximo capítulo, permitirá ver que esta se desenvolve basicamente pelo executivo
e pelo CNE, através de decretos, portarias, pareceres, resoluções, etc.
73
Esta seção de capítulo aborda a tradição de exercício de poder e de entrelaçamento Estado/sociedade,
chamando atenção para as relações patrimonialistas que se mantém em diferentes períodos históricos, o que
caracteriza o caso brasileiro.
135
A debilidade de ethos acadêmico não costuma ser mencionada como um dos
fatores problemáticos da educação superior brasileira, talvez pela dificuldade
em abordar uma variável de tipo cultural como essa de forma mais precisa. No
entanto, é bastante claro que os países que possuem hoje um sistema
educacional bem constituído desenvolveram, através do tempo, grupos sociais
fortemente envolvidos e motivados com as atividades educacionais e culturais,
que deram a suas instituições educativas conteúdos éticos, normativos e
culturais que explicam grande parte de sua pujança (1994, p. 162-163).
superior do país, garantiram que grande parte das instituições existentes tivesse um forte
anos 1990
Uma, que entende as mudanças como reforma, eminentemente vinculada à lógica de mercado,
triunfante na definição das ações do Estado. Autores como J. dos Reis Silva Jr. e V.
importante conexão para interpretar as políticas para o ensino superior num sentido crítico.
136
3.2.1 Reforma e adaptação à lógica de mercado: a defesa do modelo único
João dos Reis Silva Jr. e Valdemar Sguissardi (1999), Novas faces da educação superior no
necessidade de adequar a ação estatal a essa realidade, processam-se as reformas políticas que
necessidade de diminuição de seu tamanho, transformando-se num Estado Gestor, que garante
desenvolvimento capitalista exige mudanças no papel do poder estatal. Embora no Brasil não
inequívoco.
74
As reformas concebidas a partir do MARE não foram colocadas em prática no que diz respeito à educação
superior, embora atores sociais que as expõem criticamente expressem, com isso, um ponto de visto ideológico
forte que repercute no debate sobre a reforma. As medidas implementadas no sistema tiveram origem muito mais
na atuação do Ministério da Educação – MEC, do que no MARE. A postura dos autores em questão permite a
visualização de que existe um debate que expõe, mais uma vez, disputas entre concepções de público e de
privado na educação superior brasileira.
137
Mesmo em uma economia em que convivem as contradições de uma e outra fase de
desenvolvimento, aparece o Estado Gestor. Para Silva Jr. e Sguissardi, ele significa a adoção
as teorias organizacionais, antes restritas aos muros das fábricas, as verdadeiras teorias
O estudo em questão traz importantes contribuições para que se considere o campo das
Chama atenção para o fato de que organismos internacionais assumem papéis centrais na
Outro importante aspecto da crítica desenvolvida por Silva Jr. e Sguissardi diz respeito
uma vez que permite a idéia de um espaço entendido como público não-estatal, mas que seria,
de fato, vinculado ao mercado. Os setores que constituiriam o Estado, segundo o MARE, seria
de natureza pública não-estatal. A crítica está em que tal concepção reduz a esfera pública e
75
Pela importância que as avaliações e os documentos destes organismos representam no contexto atual do
ensino superior, mereceram análise no capítulo 1 deste estudo.
138
amplia a possibilidade de expansão do capital em setores que antes eram entendidos como
Para acompanhar o raciocínio dos autores, vale lembrar que o contexto a partir do qual
as mudanças na ação estatal para o ensino superior têm origem converge de fato com o
processo de privatização a partir de instituições privadas, mas também a partir das públicas.
mercantilização nas próprias universidades públicas por meio de diferentes mecanismos. São
‘aproveitados’ por instituições privadas; a discussão sobre autonomia que procura desobrigar
o Estado do financiamento público; ainda, a corrida competitiva dos docentes por resultados
76
A noção de quase-mercado, desenvolvida por Almerindo Afonso (2000), expressa uma perspectiva que vê no
Estado uma atuação intervencionista e tornando-se híbrido entre o público e o privado.
77
O termo neoliberalismo é utilizado para identificar uma postura político-ideológica que exalta a lógica de
mercado, constituindo-se num liberalismo muito mais econômico do que político (BOBBIO, 1988). Ele também
identifica um tipo de políticas praticado pelos Estados capitalistas, principalmente a partir dos anos 80. Essas
políticas têm como principal objetivo reformar o Estado, adequando-o à lógica do mercado globalizante.
139
aferíveis (publicações, participação em congressos, encontros internacionais, etc); e a
submetidas ao controle do Estado, por meio de políticas a partir das quais ele tende a se retirar
como investidor, mas acentua sua ação como gerenciador. Parece clara a posição política
estatal no sentido de manter a distinção entre instituições que investem em pesquisa e outras
que trabalham essencialmente com o ensino. Contudo, não há garantias sobre o investimento
público no campo das pesquisas, o que, de fato, tende a acirrar a dependência aos interesses
(1999) afirmam que as transformações ocorreram obedecendo ao ajuste mais global das
políticas estatais à nova ordem mundial. Nesse sentido, a reconfiguração operada neste setor
ensino superior, uma política muito mais econômica do que uma política educacional. Nesse
ponto pode-se ver uma vez mais a manifestação de uma postura utilitarista por parte da ação
78
Denise Leite (2002), que analisa a avaliação institucional e o redesenho capitalista da universidade, afirma que
é possível constatar a presença do mercado dentro da universidade de várias formas, como, por exemplo, através
das “lojas e empresas no campus e patrocínio de toda atividade realizada; da pesquisa utilitária, bem como outras
atividades financiadas, por entidades não tradicionais; do docente empreendedor, que capta os recursos externos
para sua pesquisa e laboratórios; de cobrança de taxas em cursos de graduação, especialização e pós-graduação,
mesmo oferecidos em universidades públicas e gratuitas, sustentadas pelo estado”. A autora afirma que o
redesenho capitalista ocorre quando essas instituições adotam traços característicos de comercialização do
conhecimento da ciência e dos serviços e, além disso, quando adotam novas formas administrativas, próprias de
instituições comerciais privadas.
140
esforço para participar da competitividade de mercado faz com que a natureza da política seja
modificada.
A educação passa da classificação de uma política social para uma política econômica
que precisa ser eficiente. Nesse caso não é simplesmente o mercado que dita sua lógica, é a
política estratégica do Estado que, na margem de opção que lhe resta, faz a escolha pela
acadêmicas.
estudiosos do ensino superior brasileiro, tendo-se dedicado, desde o início dos anos 90, a
análises sobre as IES públicas e privadas. Eunice Durham (2001), num breve balanço sobre o
início das atuais transformações no ensino superior, afirma que, desde os anos 80, os estudos
estagnação no setor privado. Nos anos 90, no entanto, houve um importante e tumultuado
crescimento.
mudanças. Entre elas estão (1) o novo e ‘eficaz’ sistema de avaliação (com Exame Nacional
79
Segundo Eunice Durham, as pesquisas feitas pelo NUPES demonstraram que, entre o setor privado e público,
havia crise neste último. “(...) a raiz do problema residia na obsolescência do sistema burocrático de controles
públicos e na irracionalidade do sistema de financiamento; propunha-se então uma reforma profunda das
relações entre poder púbico e instituições de ensino superior.” Entre as recomendações estava a necessidade de
autonomia plena, administrativa e financeira, e diferenciação de modelos institucionais. (DURHAM, 2001, p.
7/8).
141
de Curso); (2) a ampliação do sistema de Comissões de Avaliação (reconhecimento e
condições de oferta previstos na Lei 9394/06); (3) diversificação institucional; (4) criação de
cursos seqüenciais; (5) educação à distância; (6) diretrizes para a formação de professores.
Essa série de ações políticas constitui no seu conjunto uma política de reforma do
ensino superior. Essa idéia é aceita por autores como S. Schwartzman, que fala na existência
de uma ‘revolução silenciosa’, ocorrendo nos moldes da recomendação feita pelo documento
escolarização dos brasileiros. “Um sistema mais adequado seria um sistema mais amplo, que
permitisse que o Brasil chegasse a proporcionar algum tipo de educação superior para, pelo
menos, 30% de sua população em idade escolar, em contraste com menos de 10%, que é o
que ocorre hoje...” (2001, p. 20). Outras considerações são feitas como exigências para
universidades de elite e pela transformação de alguma de elite para um sistema de massa. Isso,
contudo, não significa democratização do acesso à universidade, uma vez que ocorre uma
Com base em Geiger, a idéia de diversificação deixa de ser problemática, já que seria
142
Em sentido estrito, pode-se dizer que o sistema superior no Brasil, desde sua
grande expansão ocorrida na década de 1960 até meados dos anos 80,
efetivamente, passou por diferentes experiências associadas à idéia de
diversificação. Entretanto, parece que no sistema de ensino superior brasileiro a
diversificação que ocorreu está mais próxima do sentido apontado por Blume.
Ou seja, diversificação como divisão de funções do sistema para acomodar a
ampliação, quantitativa e qualitativa, da clientela de ensino superior. Nesse
sentido, diversificação, se ocorreu, instaurou uma diferenciação e
hierarquização entre os estabelecimentos que compõem o sistema; nesse
processo, algumas universidades públicas e poucas instituições católicas ou
laicas de elite situam-se no topo, porque conseguiram preservar-se dos efeitos
da massificação, ao passo que os demais estabelecimentos que se instalaram
voltaram-se para o atendimento da demanda de massa. Essa hierarquia reflete-se
também na diferenciação institucional dos estabelecimentos, de serem escolas
isoladas ou universidades (SAMPAIO, 2000, p. 110).
universidade, que liga ensino, pesquisa e extensão, e pretender tê-lo como referência para
todo o ensino superior. Seria algo inviável e produziria simulacros de universidade. “Muitas
universidades privadas criadas nos últimos dez anos são simulacros do modelo valorizado de
âmbito internacional, enquanto que no Brasil isso ainda precisaria acontecer. As políticas
estatais, através da avaliação institucional, por exemplo, vêm atuado com objetivos de
diversos países (Capítulo 1), nem uma qualificação acadêmica consistente, nem a
elitismo do sistema.
afirma que “se, mesmo nos países desenvolvidos, a conjugação de pesquisa e ensino superior
de massa provocou uma crise de financiamento, quanto mais ainda no Brasil, onde todas as
80
WORLD BANK. Higher Educacion in Developing Countries: Peril and Promise. Washington, The World
Bank e and Task Force on Higher Educacion and Society, 2000. O conteúdo deste documento é tratado no
capítulo 1.
143
novas funções e o correspondente aumento de custos se concentram, em grande parte, nas
Segundo a autora, o Brasil precisa superar o sistema implantado nos anos 1950,
vinculado à concepção de sistema público estatal. “Não há, portanto, como viabilizar a
manutenção e a expansão do sistema de ensino superior sem uma profunda alteração das
sistema. Sabe-se que o acesso massificado ao ensino superior no Brasil foi proporcionado
primordialmente por instituições privadas de caráter não universitário e, ligado a isso, muitos
A idéia de que nem toda a população incluída no ensino superior possa obter uma
formação estritamente acadêmica com vistas a ocupar posto no campo da pesquisa parece
isso pode ser visualizado quando se toma a heterogeneidade institucional entre instituições
períodos.
144
O problema parece estar em definir que tipo de heterogeneidade se deseja, que tipos de
diferentes formatos legais também sofrem outro tipo de corte, o qual diz respeito a sua
competitividade. Sabe-se ser possível identificar entre instituições universitárias com ênfases
muito distintas, seja na relação com o ensino, seja na promoção da pesquisa. O mesmo é
válido para instituições de menor porte. A variação da qualidade da vida acadêmica não
depende apenas da classificação institucional diante das normas legais. Ela oscila com base na
proposta institucional que lhe serve de base e nas práticas que criam a sua identidade
acadêmica.
novos formatos institucionais tendem a se consolidar, fruto de tendências mais globais e das
necessidades e das condições internas – há um público grande com renda baixa, buscando
titulação superior para garantir espaços no futuro mercado de trabalho. Entretanto, essa
classificação ainda não é clara e se fazem necessários estudos que possam auxiliar no
Por ora vale lembrar que, de fato, persiste, nos meios acadêmicos e em importantes
não podem abrir mão da liberdade no campo das idéias, de condições necessárias para
produzidos. A noção do que seja o interesse ou o espaço público nesse campo precisa estar
presente.
145
3.3 Caráter da reforma e disputas político-ideológicas na renovação do sistema
embora não como um liberalismo clássico. Considerando a cultura política brasileira, tratou-
apresentaram a cada período. Viu-se que o ensino superior brasileiro manteve a tendência
A segunda fase, do liberalismo idealista (ou utópico), ocorre sob o clima cultural e
confronto entre interesses públicos e privados. A partir de Anísio Teixeira, vem a constituição
da idéia de universidade autônoma, preocupada não apenas com a formação acadêmica, mas
também com a participação dos estudantes, no acesso gratuito às vagas e na composição dos
Teixeira, teve a oposição ferrenha dos católicos e a ação drástica do Estado autoritário dos
anos 30.
estudantes foram importantes atores do debate público, manifestando-se por vagas e por
reformas nas universidades. Sua ativa participação política, no entanto, não garantia o caráter
público do ensino superior, já que o acesso era restrito, e o modelo de cátedra, limitado. A
146
criação da Universidade de Brasília foi o grande marco desse período, apresentando uma
estrutura interna para valorizar a aliança entre ensino e pesquisa, compromissada com a idéia
ensino superior seria garantida pelo setor privado, não universitário. O processo de
implementação da reforma foi claramente antipúblico, uma vez que veio pela via autoritária,
No último período, especialmente durante a segunda metade dos anos 90, há mudanças
lado, entende que os indivíduos mobilizam-se em busca do prazer frente à dor. Por outro,
conta com uma ação estatal altamente centralizadora, já que delega ao Estado a possibilidade
de agir em favor daqueles que considera incapazes de garantir a própria felicidade. Tratando a
educação superior como esse bem de consumo individual útil para a ‘felicidade’ geral, foi
As políticas estatais para o ensino superior desde o ano de 1996 - com o Ministro
significativas nas decisões políticas dos agentes que constituem o sistema de ensino superior
público e privado. Elas constituíram uma reforma do ensino superior, ocorreram no nível do
147
Estado nacional, mas vinculadas a dinâmicas e regulações supranacionais. Este tornou-se o
aparece, porém, de forma desordenada e capaz de manter vivas relações políticas entre Estado
políticas para o campo da educação superior. Esses autores assinalam a precariedade do setor
não parece razoável imaginar que um tipo único de instituição daria conta dessa realidade. De
outra parte, esse argumento não serve para desvalorizar a importância e a necessidade de
instituições público/estatais que cumpram papel fundamental não só na área de pesquisa, mas
também permitam que uma parcela de estudantes – mesmo que reduzida no Brasil – tenha aí a
servir para garantir a existência de instituições de ensino superior com qualidade acadêmica e
de modelo único para as instituições de ensino superior. Um dos argumentos usados é de que
148
a diversificação possibilita ampliação na quantidade e na qualidade da educação superior. Há
mais vulneráveis, em IES isoladas, mas também em grandes universidades que se destacam
qualquer forma, esse ponto de vista considera prioritário valorizar ampliação de vagas e de
vagas por meio do setor privado. Diante disso, enfatiza-se a necessidade de garantir um
caráter público para a educação superior brasileira, que vá além da simples compreensão de
que os ganhos individuais se multiplicarão em ganhos coletivos, e que isso possa acontecer
149
Capítulo 4 - Educação superior, setor privado e centros
universitários: contradições e características legais e reais
desenvolvem nesse contexto. Além disso, faz-se uma aproximação ao segmento do ensino
qual dá suporte à diversificação com especial atenção às políticas que originaram e foram
conseqüência, devem ocupar um lugar relativo à sua identidade acadêmica nesse sistema.
Entretanto, além do lugar que deve ser dado pela identidade acadêmica, os centros
universitários e as outras IES ocupam lugares definidos pela competitividade que instigam
fins de análise não se traduzem de forma direta na realidade. Esta sempre é elaborada de
forma complexa, podendo mesclar vários tipos. Como recurso analítico, de qualquer forma, os
tipos ideais servem como parâmetros para comparação com a realidade e auxiliam na sua
interpretação.
150
4.1 Setor privado e centros universitários
que deu origem à educação superior no país não foi o universitário, embora o conceito de que
a universidade que alia pesquisa, ensino e extensão seja o modelo de referência no meio
acadêmico. É significativo ver que, embora este seja o modelo perseguido, há intensa
O sistema nacional tem sido objeto de debate e de crítica por parte de variados
escasso aproveitamento de recursos financeiros, entre outros. Outras questões que vêm à tona
dizem respeito à própria estrutura da educação superior. Nesse campo, discute-se desde a
organização interna do sistema, com tipos institucionais que não são claramente definidos e
integrados, até a idade de ingresso num sistema que direciona o estudante precocemente para
uma opção profissional. Em última análise, faltam políticas que permitam uma integração
Esse sistema tem suas raízes na reforma dos anos 1960 e foi alimentado por novas
brasileiro a partir da legislação da década de 1960, passou a ser usada sem o necessário rigor.
De um lado, há instituições que, submetidas a avaliação mais criteriosa, não poderiam ser
151
denominadas de universidades e o são e, de outro lado, passou-se a entender todo o sistema de
Entretanto, na atualidade, chamam atenção três tipos de fenômenos que se mesclam com a
realidade existente e que são produzidos e/ou induzidos por meio de políticas estatais,
noção de educação terciária ampliou enormemente o leque de opções para obtenção de títulos
desse nível educacional. Não são apenas instituições, mas também organizações, programas,
152
Efetivamente, há importante amplitude na noção de educação terciária81, o que a
diferencia da idéia de educação superior tradicional, impedindo que sejam usadas como
companhias de mídia, universidades corporativas e outras (WORLD BANK, 2003). Por outro
lado, se a educação superior é uma noção restrita, aquilo que tradicionalmente se denominou
mercados de trabalho.
Neste estudo, optou-se pela expressão educação superior justamente por entender-se
que esta, diferentemente da educação terciária, tem maior abrangência e por isso torna-se um
espaço possível para viabilizar o caráter público da educação. Ela vai além da resposta às
que lhe serve de sustentação. Com base nela a composição do sistema de educação superior
81
Esse conceito está presente em documentos da OCDE (OECD,1998), com no qual a autora se apóia, mas
também em documentos do Banco Mundial, especialmente do ano de 2003 (WORLD BANK, 2003), como se
pode ver no Capítulo 1.
82
Embora a autora adote a expressão educação terciária, trabalha com uma noção de sistema mais clássica do
que a do Banco Mundial (WORLD BANK, 2003), ou seja, tem por base o conjunto de IES que possui
fundamento na legislação nacional. Esta, por sua vez, classifica de maneira mais restrita do que o organismo
internacional.
153
brasileira segundo sua natureza, composta por três tipos de instituições: as (1) instituições
legislação recente (dezembro de 2003) coloca novidades quanto a essa situação, como se verá
adiante.
vagas e para criação de cursos, sendo que as primeiras atendiam, até recentemente, as
exigências que não eram feitas aos centros universitários. As IES integradas e/ou isoladas
ensino. Historicamente esse tipo de IES atendeu estudantes trabalhadores em cursos noturnos.
sistema e da própria sociedade. Nunes (2003) expõe o fato de que a taxionomia adotada no
presente tem um objetivo regulatório, sem contar com uma análise mais ampla sobre a
educação superior. A classificação adotada para identificar as IES representaria “fatias” que
compõem a educação superior, não constituindo uma unidade. O autor questiona as políticas
estabelecido pelo Estado durante os anos 1990. A tomada de decisões ficou centralizada no
154
executivo e especialmente no Ministro da Educação à época da implantação do sistema
inovação por seu intermédio84. Isso corre, especialmente, entre aqueles que valorizam a auto-
avaliação como caminho para construção de relações democráticas por via de um processo de
83
Há estudos significativos sobre essa problemática e um deles é o de Marco Antonio Rodrigues Dias (2002). O
autor mostra a complexidade da questão e detalha argumentos, assinalando riscos relativos a classificação da
educação superior como um serviço pela OMC. O problema não estaria no fato de que instituições de direito
privado atuem no campo da educação e nem na tendência à internacionalização da educação. Como atividade
essencialmente de caráter público, a educação não poderia simplesmente ser regida por regras do comércio e da
circulação de mercadorias. Trata-se, portanto, de uma concepção de princípio quanto ao bem educação superior.
Diferença nesse sentido aparece entre a postura da UNESCO (1998) e a do Banco Mundial (1995, 2000 e 2003).
84
Leite defende do processo de avaliação como um meio para analisar e qualificar o trabalho institucional no
ensino superior a partir da avaliação qualitativa empreendida pelos atores que constituem cada IES ou cada
núcleo de avaliação. Seus estudos apresentam vários exemplos através dos quais é possível verificar a inovação
no sentido emancipatório, rompendo com estruturas anteriormente existentes. Tratando do paradigma
emancipatório, afirma que “esse paradigma, uma vez acionado, envolve de tal modo seus protagonistas que
possibilita a cada um em particular apropriar-se do conhecimento que vai sendo construído. De tal forma, se dá a
apropriação, que os sujeitos se distanciam do input dado pelo processo de avaliação e passam a considerar as
mudanças como realizações suas, como cultura da IES.” (LEITE, 2000a, p. 147) Sobre essa abordagem da
mesma autora, cabe citar, entre outros, pelo menos dois títulos, tratando da problemática da avaliação
institucional numa universidade pública brasileira (LEITE, 2000b) e em universidades latino-americanas
(LEITE, 2002a).
155
O sistema de avaliação conta com uma variedade de modalidades e de fases no
com o governo de Luís Inácio Lula da Silva – que encaminhou mudanças nesse campo,
instituições85.
Além das questões assinaladas acima, é necessário analisar o setor privado e o lugar
que ocupa no sistema brasileiro de educação superior. Ele é expressivo, necessita qualificar-se
e pode contribuir efetivamente para ampliação do caráter público desse nível educacional.
cresce de modo bastante heterogêneo. O caminho construído pelas políticas estatais para a
vagas no setor privado. Este setor, nos anos 1950, desenvolveu-se através das universidades
confessionais. Estas gozam de prestígio junto aos meios acadêmicos e não são entendidas
85
A Lei 10.861, de 14 de abril de 2004, encerra a primeira etapa da nova proposta, já que instituiu o Sistema
Nacional de Avaliação da Educação Superior – SINAES. A segunda etapa pode ser considerada a efetiva
implementação da nova política. Essa política conta com quatro pilares de sustentação do processo avaliativo: o
processo de ensino, o processo de aprendizagem, a capacidade institucional e a responsabilidade do curso com a
sociedade em geral.
156
como privadas em sentido estrito. Decorrente da reforma de 68, houve grande proliferação de
IES não universitárias e mantidas por grupos laicos. Estas expandiram-se como promotores do
ensino superior característico do ensino de massa, nas áreas de menor custo de investimentos
– ciência humanas e sociais – com grande oferta de cursos noturnos para estudantes
do setor privado, entre o final dos anos de 1960 até meados dos anos 197086, decorreu da
O limite de crescimento se manteve durante a década de 1980 e parte dos anos 1990.
No entanto, houve desaceleração, no setor privado, entre 1975 e 1990. As razões para isso
foram “ (a) o estrangulamento do ensino médio no país, que reduz a demanda de concluintes
seguida, pela estagflação” (ALMEIDA, 2002, p.146). Entretanto, nesse período houve
Os principais fenômenos ligados às IES privadas, a partir dos anos 1980, segundo
privado, aliados ao crescimento do número de cursos com ampliação das carreiras. Entre 1980
e 1994, o número de universidades privadas passou de 20 para 59, enquanto que o número de
instituições isoladas passou de 643 para 490. O quadro abaixo mostra o crescimento e a
86
Apenas entre 1970 e 1975 o setor cresceu 208,3% (ALMEIDA, 2002, p.144).
157
Tabela 4.1 - Estabelecimentos privados de ensino superior em relação ao total de
estabelecimentos, segundo a natureza institucional – 1980/1994
Sampaio entende que a diminuição da demanda pelo ensino superior privado, entre os
anos 1980 e 1994, provocou mudanças estruturais importantes no setor. “O problema não
reside na falta de vagas no sistema de ensino superior, mas no número reduzido de candidatos
para essas vagas” (2000, p. 90). Os dados apresentados mostram que não houve
preenchimento de vagas, contudo o crescimento de vagas oferecidas foi de quase 50% entre
os anos pesquisados (1980 havia 404.814 e, em 1994, 574.135 vagas). O número de vagas
preenchidas também cresceu, mas não conseguiu acompanhar o aumento das vagas
crescimento do setor. Desta vez houve uma política deliberada de estímulo ao setor privado
isoladas.
158
Tabela 4.2 -Estabelecimentos privados de ensino superior em relação ao total de
estabelecimentos segundo a natureza institucional – 1997/2002
Faculdades, escolas e
Universidades Centros universitários Faculdades integradas
institutos
% %
Total Privadas % Total Privados Total Privadas Total Privadas
%
2002 162 84 51,8 77 74 96,1 105 102 97,1 1.240 1.160 93,5
crescimento do número de cursos, principalmente no início dos anos 1990, como meio para
atrair novos estudantes seduzidos por carreiras profissionais que prometiam despontar. Entre
“1985 e 1989, foram criados 54,4 cursos/ano; entre 1990 e 1996, a média cursos/ano foi de
cem” (SAMPAIO, 2000, p. 94). Um aspecto interessante deste processo é que tem aumentado
e variado o número de cursos, mas com base em poucas carreiras. Ocorre um processo de
p.100).
cursos foge à lógica estritamente acadêmica que tem origem em disciplinas científicas. Nesse
caso, os cursos se voltam mais para habilidades específicas para um ou outro tipo de trabalho.
159
Essa alternativa de escolha tem ganho legitimidade na prática, uma vez que a procura é fato
expressivo.
obedece a limites muito rígidos, tem se constituído num empecilho para garantir a
um modo geral, no ensino superior privado. Atualmente há mais vagas que alunos. As
O ensino superior público, financiado diretamente pelo Estado, não tende a crescer
de renda na sociedade para ampliar esse acesso. Essa alternativa, porém, é de longo prazo,
financiamento da educação superior. Essa é uma das políticas estatais por resolver.
regional, ligada à estratégia adotada pelos administradores das IES na busca de ampliação da
clientela. Sampaio (2000) mostra que houve crescimento em regiões como Norte e Nordeste,
e que, no Sul, a expansão deu-se para o interior dos estados. O processo de descentralização e
de instalação de campi em novas regiões tem sido comum entre as instituições universitárias.
observar os dados da Tabela 4.3. Em 2002, ele possui 1.442 instituições ou 88,8% do número
total. O número de vagas oferecidas pelo setor privado é de 1.477.733, ou seja, 83,3% do total
de vagas no ensino superior. Sendo que destas são preenchidas 924.649 ou 76,7%.
87
É heterogêneo quanto à natureza institucional (universidade, centro universitário, faculdades integradas ou
isoladas); quanto à personalidade jurídica da mantenedora (fundação, associação civil, sociedade civil de direito
privado);quanto aos fins lucrativos ou não; e quanto à identidade laica ou confessional. Relativamente à vida
160
Tabela 4.3 -Natureza pública ou privada das IES no Brasil/2002
Categoria administrativa
Pública
Estatísticas Total
Cursos 14.399 2.316 16,08 2.556 17,75 380 2,63 9.147 63,52
Matrículas 3.479.913 531.634 15,27 415.569 11,94 104.452 3,00 2.428.258 69,77
Docentes em exercício
242.475 51.020 21,04 35.354 14,58 5.841 2,40 150.260 61,96
e afastados
Vagas
1.773.087 124.196 7,00 132.270 7,45 38.888 2,19 1.477.733 83,34
Oferecidas
Vestibular
Inscrições 4.984.409 1.233.606 24,74 1.315.720 26,39 77.874 1,56 2.357.209 47,29
Ingressos 1.205.140 122.491 10,16 125.499 10,41 32.501 2,69 924.649 76,72
Se no início dos anos 1990 o setor privado representava cerca de 61% das vagas que
eram oferecidas, durante essa década os níveis de expansão não foram pouco expressivos,
representando cerca de 83,3%88 das vagas oferecidas nos dias atuais (INEP, 2002).
Pelo exposto até aqui vê-se que o crescimento do setor e a diversidade institucional
Enquanto 9,89% são universidades, 90,14% não o são. Os Centros Universitários no Brasil
161
totalizam 77 instituições em 2002 e constituem-se num tipo que cresceu rapidamente, desde
diversificação institucional como meio para ampliação do acesso ao ensino superior. A seguir
metade do século passado para cá. O quadro Marco Legal: diversificação da educação
162
Certamente o formato legal, à época, está intimamente vinculado à expressão do
período histórico anterior sobre esse nível de ensino. A inexistência de uma tradição brasileira
universitária e o grande peso, no século XIX, das escolas isoladas, bem como o esforço
frustrado de criação de Universidade do Distrito Federal, são fatores que devem ser
considerados para que se entenda o lugar de pouco destaque ocupado pela idéia de
universidade na legislação citada89. Cabe lembrar também que houve importante liberdade
para criação de cursos, vagas e instituições por parte do Conselho Federal de Educação
No texto do Decreto lei 5.540 de 1968 o tom é outro. Nele, tanto está presente a
5.540, Art. 2º). De outra parte, também fica clara a disposição por reconhecer, como formato
Na prática, o que seria uma excepcionalidade tornou-se o tipo predominante, uma vez
que o ensino superior privado cresceu, no período pós-68, basicamente através do modelo de
reconhecer e trabalhar com base em tipos institucionais diversificados torna-se mais intensa, e
isso fica claro em, pelo menos, dois níveis. Primeiro, quanto ao tipo de instituição dividido
89
Essa problemática é trabalhada no Capítulo 3, que analisa elementos históricos do ensino superior no Brasil.
163
tipo constitui novidade e converge com a tendência à produção de políticas de liberalização da
universitário iria ganhar vida. Embora houvesse aí a brecha, é por meio de um Decreto
Quadro 4.1). Esse decreto foi revogado e substituído pelo Decreto 2.306/97, alguns messes
depois, e pelo decreto 3.860 em 2001 (Apêndice F, Quadro 4.2). De qualquer forma, manteve-
se o conteúdo do texto que passou a definir o que são os centros universitários. Em seu artigo
O Decreto 3.860/01, define que, além da observância dos limites da lei maior da
90
Art. 20. As instituições privadas de ensino se enquadrarão nas seguintes categorias:
I - particulares em sentido estrito, assim entendidas as que são instituídas e mantidas por uma ou mais pessoas
físicas ou jurídicas de direito privado que não apresentem as características dos incisos abaixo;
II - comunitárias, assim entendidas as que são instituídas por grupos de pessoas físicas ou por uma ou mais
pessoas jurídicas, inclusive cooperativas de professores e alunos que incluam na sua entidade mantenedora
representantes da comunidade;
III - confessionais, assim entendidas as que são instituídas por grupos de pessoas físicas ou por uma ou mais
pessoas jurídicas que atendem a orientação confessional e ideologia específicas e ao disposto no inciso anterior;
IV - filantrópicas, na forma da lei.” (LDB/96).
164
credenciamento e recredenciamento”. Embora esse decreto tenha deixado explícito que a
origem desse tipo de instituição deva vir do credenciamento de instituições de ensino superior
interpretações que pudessem indicar uma necessária passagem para o nível institucional
maior: universidade91.
de excelência do ensino nessas instituições. É interessante ver que neste ato normativo
aparece a atividade de iniciação científica junto com a prática profissional para os estudantes.
Estes seriam requisitos para formação da excelência. Nesse período havia a compreensão de
que os critérios da comprovação da excelência do ensino por parte das IES seriam:
CNE 618/99 (Apêndice F, Quadro 4.2). A definição de critérios adicionais por parte do
Neste documento, que tem como referência entre outros a Portaria 639/97, fica estabelecido
91
Os dois decretos anteriores, 2207/97 e 2306/97, não apresentavam a condição de origem institucional e
também não indicavam uma possível passagem para condição de universidade.
165
tipo institucional em centro universitários. “Quanto à função, pela excelência de ensino
qualificação constante de seu corpo docente, pela oferta de cursos de graduação, extensão,
acadêmicas por parte dos centros universitários. O Parecer 600/97 esclarece que a autonomia
dos centros universitários será exercida na organização acadêmica, da mesma forma que em
pelo corpo docente e com competências terminativas. No ano seguinte, o Parecer 738/98
horas semanais e 20% com titulação entre mestres e doutores. A exigência da LDB para
universidades é de 33% para ambos os requisitos. Entende-se que essas orientações traduzem
aproximação com o tipo de organização das universidades, uma vez que os decretos até então
referiam esse tipo de requisito, ficando apenas com a noção vaga de excelência no ensino.
92
O Conselho Federal de Educação, que era o órgão encarregado de interpretar com exclusividade as leis
relativas ao ensino superior, foi extinto em 1994, durante a tramitação da nova Lei de Diretrizes e Bases da
Educação. Sampaio esclarece que além de motivações de natureza jurídica, “a extinção do CFE teve, por certo,
propósito de centralizar o poder decisório do próprio Ministério, retirando do Conselho atribuições que lhe
davam poderes que, no entender do Ministério, favoreciam a dispersão decisória, em razão da própria
independência do órgão, sobre a normatização do ensino superior. Além dessas motivações, recaíam, na época,
acusações de corrupção em relação à atuação do Conselho.” (SAMPAIO, 2000, p. 130) Para fazer frente ao
vácuo criado pelo antigo CFE, antes mesmo da LDB, foi criado, pela Lei 9.131/95, o Conselho Nacional de
Educação. A Câmara de Educação Superior – CES, que compõe esse Conselho tem poderes deliberativos e seria
formada por representantes da comunidade acadêmica e científica. Entretanto, um decreto presidencial de 1996
permitiu que o Presidente nomeasse seus integrantes a partir de critérios mais amplos, como é o caso da idéia de
‘representantes da sociedade civil’, o que permite a manutenção de antigas lógicas de compartilhamento de
relações de interesses.
166
4.2). Quanto aos prazos de recredenciamento para centros universitários, em 2001, através de
uma Portaria 1.465, o prazo era de até cinco anos e, em 2002, por meio da Resolução
CES/CNE 23, houve um aumento de prazo para até dez anos, após o primeiro
recredenciamento.
ensino, houve claros avanços no sentido de especificar em torno de que elementos acadêmicos
recredenciamento também pode ser entendido como um indicador de maior confiança das
que não ocorre com instituições tornadas universitárias antes da LDB de 1996. Esse fato
aos controles burocrático-administrativos, e, por outro lado, faz com que essas IES estejam
Em termos legais, entretanto, o Decreto de maior impacto desde a criação desse tipo
universitários passam a ter de responder por exigências que antes eram exclusivas das
universidades. Num prazo de quatro anos (até dez/2007), essas IES devem ter um terço de
docentes em seu quadro de pessoal com titulação de mestre ou doutores, um terço com
167
pesquisa e extensão e produção intelectual institucionalizada93. Essa exigência confirma a
tendência crescente, desde 1997, de aproximar as exigências da vida acadêmica dos centros
universitários com a das universidades, até então existentes (Apêndice G, Quadro 4.3).
A partir da nova norma legal, é razoável que se pense os centros universitários não
mais como IES intermediárias entre as faculdades e as universidades, mas sim na categoria de
instituições universitárias e que, no limite, poderão deixar de ser interessantes como tipo
institucional. Não parece vantajoso adotar a tipologia de centros universitários nos próximos
períodos, uma vez que tem de responder por exigências típicas das universidades sem usufruir
do título maior no sistema. Tudo indica que as estratégias das IES voltar-se-ão muito mais
para atingir a meta superior e não a imediatamente abaixo, a menos que esta se torne uma
universitárias.
Concepção
ocupantes de cargos político-estatais para esse nível educacional. Uma aproximação com esse
campo permite que se tenha mais elementos para interpretar a identidade dos centros
93
Segundo a Resolução 02/1998 do CES/CNE, Art 1º A produção intelectual institucionalizada consiste na
realização sistemática da investigação científica, tecnológica ou humanista, por um certo número de professores,
predominantemente doutores, ao longo de um determinado período, e divulgada, principalmente, em veículos
reconhecidos pela comunidade da área específica. Art 2º A produção intelectual institucionalizada será
comprovada: a) por três cursos ou programas de pós-graduação stricto sensu, avaliados positivamente pela
CAPES e/ou pela realização sistemática de pesquisas que envolvam: I – pelo menos 15% do corpo docente; II-
pelo menos metade dos doutores; III- pelo menos três grupos definidos com linhas de pesquisa explicitadas[...].
168
universitários e o lugar que ocupam no sistema de ensino superior e na sociedade
atualmente94.
ao projeto do Ministro Paulo Renato de Souza, o qual tinha o propósito de produzir uma
reforma política ampla na educação superior. Isso envolveria (1) qualificar as IES com
mercado educacional e (3) estimular o crescimento do setor privado, já que este seria o
centros universitários estão no contexto dessa reforma, embora a idéia estivesse presente no
Durham96.
universitários
94
Os elementos que seguem têm como fonte principal as óticas de duas personalidades que ocuparam
importantes cargos de comando no Ministério da Educação durante o período do Ministro Paulo Renato de
Souza. Um deles é Abílio Baeta Neves, ex-presidente da CAPES, que concedeu entrevista em julho de 2003. A
outra personalidade é Eunice Durhan, ex-Secretária de Políticas Educacionais do MEC (1995/1996), cuja ótica
foi obtida através de registros documentais de duas palestras.
95
Evidentemente que o projeto não se limitava a essas medidas, entretanto elas são as que mais diretamente
dizem respeito à figura dos centros universitários. Paulo Renato de Souza entendia, por exemplo, que em cinco
anos o atual sistema de financiamento do ensino superior caducaria. Como um elemento fundamental em seu
projeto estava a chamada autonomia universitária, especialmente no que tange ao item financiamento. Ver Cruz,
Valdo e Saloman, Marta. Ministro não vê sobrevida do ensino gratuito. Jornal Folha de São Paulo, 21 de
out./2001 São Paulo, Caderno Cotidiano, C3.
169
A afirmação esclarece não só a intenção de diversificar, que existia anteriormente à
ação do executivo e também fora dele, mas também vincula-a ao objetivo mais imediato de
o irreal é imaginar um modelo único aceitável e que seja possível, só por meio
dele, atender à demanda crescente por ensino superior (p. 17). [...] O modelo
único de ensino superior, que considera apenas universidades de pesquisa é
intrinsecamente elitista e iníquo, pois exclui a maior parte dos jovens do ensino
superior público. (p. 20). Estas instituições são “pesadamente acadêmicas” e
oferecem ensino mais teórico, voltado para a pesquisa.
da política estatal. Durham, proferindo palestra na USP – Universidade de São Paulo, afirma
que
170
Evidencia-se a compreensão de que as IES que investissem fortemente em ensino e
que ligassem a vida acadêmica na IES com a vida profissional no mercado de trabalho teriam
requisitos necessários para obtenção de um nível expressivo de autonomia. Isso pode ser visto
também nas palavras de Durhan quando salienta que a ‘formação do saber não se faz só na
superior é algo adequado para qualificar a formação de jovens estudante (DURHAM, 2002, p.
26).
instituições.
Embora a determinação quanto à idéia que deu origem aos centros universitários
aparecesse com certa nitidez, é importante registrar dificuldades práticas por parte desse tipo
de IES no sistema de educação superior. Elas, efetivamente, não são vistas de maneira
positiva pelo meio acadêmico e o principal motivo está no exercício da autonomia sem um
171
atenção e de debate no meio acadêmico, passaram a ser interpretados muito mais por ausência
comunitárias do Rio Grande do Sul (DURHAM, 2002, p. 21), mas não refere os centros
por uma IES que pratica ensino de qualidade e que não possui a estrutura de universidade.
de pesquisa é necessário. Isso se deduz da idéia de familiaridade dos estudantes com prática
de investigação. Esta parece ser viável quando se possui um corpo docente que pratica e que
constrói intelectualmente em torno do investigar, pesquisar para conhecer. Não seria possível
estrito e mais por meio do processo do trabalho docente. Este exigiria contínuo planejamento
do curso e das aulas, familiaridades com áreas afins, reflexão crítica sobre a bibliografia,
98
Schwartzman (2002), em estudo sobre a educação superior na América Latina, afirma que as IES modernas
deveriam desempenhar uma pluralidade de funções importantes, desde a oferta de habilidades de curto prazo
necessárias para o mercado de trabalho até a melhoria de médio e longo prazo das competências técnicas, do
conhecimento científico e da construção e da manutenção do capital social. Esse papel não está restrito a IES
universitárias e nem a IES públicas, ao contrário, deve ser desenvolvido com base na tendência à diversificação
institucional. As experiências, entretanto, não são simples. No caso brasileiro, o autor afirma que houve forte
pressão do setor privado para criar um tipo de instituição que detenha a autonomia universitária. Porém, para
Schwartzman a mudança de faculdade para Centro Universitário, não significa que os estudantes estão tendo
uma educação melhor ou diferente (SCHWARTZMAN, 2002, p. 63).
172
(DURHAM, 2001, p. 46) Além disso, assinalou a convergência, com necessária inspiração,
campo profissional, limitando-a e dando ênfase à atividade de ensino e a sua vinculação com
a extensão. Assim, mesmo que se discutam possibilidades de relações com outros tipos de
atividades, de qualquer forma na ótica dos participantes citados, a identidade dos centros
fundamental distinguir esse tipo de atividade da atividade de extensão. Desta forma, a busca e
173
sustenta-se ser indispensável o exercício e a qualificação de um certo nível de atividades de
Com efeito, a política que dá origem aos centros universitários trabalhou no espectro
Representações e disputas
e que dizem respeito diretamente aos centros universitários. Nesse caso, as fontes -
universitários gaúchos.
plausível a existência de análises críticas sobre seu desempenho, sobre o lugar que ocupam e
interesses pontuais que focalizam a autonomia obtida para criar cursos e vagas. É muito clara
concedida aos centros universitários é o requisito fundamental que atrai novas IES para esse
formato. De fato, é a partir da independência relativa que obtêm junto aos órgãos
174
que devem cumprir exigências legais que se traduzem em custos, as quais não existiriam para
figuras polêmicas do ponto de vista acadêmico. Toma-se como exemplo as manifestações dos
Universitários da Cidade do Rio de Janeiro, Ronald Levisohn99. Entre abril e maio de 2003,
com base nessa disputa ocorreram manifestações públicas através de sucessivas matérias
99
A UNIP é a maior universidade privada do país, com mais de 80 mil estudantes, tendo sido criada no início da
década de 1980 e fazendo parte do conjunto de universidade que obteve crescimento fantástico em pouco tempo.
Seu dirigente maior João Carlos Di Gênio é conhecido por agir com ousadia no setor educacional. Sobre ele
pesam acusações de opositores que indicam capacidade de formação de lobbies poderosissímos junto a políticos
profissionais (Ata ANACEU 03/06/2003). O UniCidade é o maior centro universitário, com 35 mil estudantes.
Tem Ronald Levisohn como reitor, o qual assume claramente sua identidade de empresário no setor educacional.
100
Cabe registrar também uma ação direta de João Carlos Di Gênio no sentido de limitar a autonomia dos
centros universitários. Ele enviou duas sugestões, com minutas, para alteração do Art. 11º do Decreto 3.860/01
ao Secretário de Educação Superior do MEC. (Carta/Fax 21.10.2003). O fato mostra a capacidade de articulação
política e a importância dada à questão. O material foi obtido e divulgado em forma de denúncia por Ronald
Levisohn (nov/2003). O Correio Brasiliense publicou matéria, expondo a situação de constrangimento pela qual
passava o então Ministro da Educação, Cristovam Buarque. Ele não teria cedido as pressões de João Carlos Di
Gênio para limitar a autonomia dos centros universitários e estaria sendo vítima de campanha difamatória
articulada por esse reitor e por assessores da Casa Civil que estariam numa linha de frente nas disputas de poder
no interior ao governo. Com base em interesses diversos, teria sido possível essa articulação com a finalidade
comum: afastar o Ministro da Educação. Correio Brasiliense. Os bastidores da fritura. Brasília,12.09.2003.
101
ANUP. A propósito de ‘estranhos fundamentalismos’. Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 20 de abril/2003,
p.A9 e ANUP, Estranho no Ninho. Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 20 de abril/2003, 2ª ed., p, A3.
175
Reitores das Universidades Brasileiras – Paulo Alcântara Gomes. “O fato de se estabelecerem
por si só, um fator nocivo para a educação nacional, desestimulando a pesquisa e a pós-
Para isso, põe em evidência uma postura pouco acadêmica, desvalorizando a pesquisa
Há uma postura de autodefesa desses centros, muito mais do que afirmações decorrentes de
sua identidade.
apresenta-se com o propósito de defender os interesses e a imagem dessas IES. Essa entidade
é ativa no propósito anunciado105 e isso também não ocorre sem conflitos internos106.
102
UniCidade.Tempos muito estranhos:os fundamentalismos. Jornal do Brasil. Rio de Janeiro, 13 ab/2003,
p.A9.
103
Criada em dezembro de 1999 e presidida, até 2003, por Magno de Aguiar Maranhão.
104
Conforme, ata de Assembléia Geral de 03/junho de 2003.
105
Exemplos de atuação da ANACEU: (1) alta mobilização junto a Congresso Nacional quando tramitou o
Decreto Legislativo 383/2003 que, segundo o autor Deputado Gilmar Machado, revogaria toda a regulamentação
sobre ensino superior e colocaria a necessidade de nova proposta. Centros universitários: ‘o ensino superior
virou balcão de negócios’. Entrevista do Deputado Gilmar Machado, Jornal Folha Dirigida, Rio de Janeiro, 21
de agosto/2003; (2) na defesa da autonomia, contratou o jurista Paulo Brossard para elaboração de um Parecer
sobre a prerrogativa da autonomia para IES não universitárias. A resposta foi positiva e formou o contraponto ao
Parecer que, se supõe, tenha sido encomendado pela ANUP – Associação Nacional da Universidades
Particulares – ao jurista Ives Gandra da Silva.
106
No caso em questão está em jogo uma estratégia de defesa do investimento empresarial em educação e de
lobbies políticos que possam garantir esse encaminhamento. Os protagonistas são figuras representativas de
grandes centros universitários. Eduardo Storópoli do UNINOVE – Centro Universitário Nove de Julho – e
Ronald Levisohn, do UniCidade (ata da As. Geral de 03 de junho de 2003).
176
Os centros universitários gaúchos, embora não se organizem em torno de entidade
Bersch, em junho de 2003, coloca três pontos de discussão: (1) a contribuição em dinheiro,
cobrada pela ANACEU, por decisão de assembléia; (2) a iniciativa do UniCidade de publicar
matéria na polêmica com o reitor da UNIP, apresentando os nomes dos centros universitários
necessidade de que os centros gaúchos apresentassem uma proposta “bastante concreta do que
entendemos ser um centro universitário”108. Essa mesma proposição é feita pelo dirigente à
ANACEU.
ANACEU no ano de 2003, quando a principal discussão era como alcançar o maior poder de
gaúchos assumem como primeiro ponto de discussão a idéia de centro universitário. Essa
2000, em Lajeado.
natureza dos centros universitários. Em carta assinada pelos cinco centros gaúchos e
necessidade de discussão sobre critérios que definam a excelência do ensino; (2) definição da
identidade dos centros universitários de forma que fundamente o princípio da autonomia; (3)
107
UniCidade. Conspiração Rechaçada. Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 06 de junho/2003.
108
Ofício Circular 047/CA/Fuvates. Lajeado, 10 de junho/2003.
109
Correspondência dirigida a ANACEU, 04.07.2003, como resultado da reunião dos cinco centros
universitários gaúchos realizada em 26 de junho de 2003.
177
reconhecimento da pesquisa como atividade acadêmica de centros universitários, porém com
Vê-se que os três primeiros itens dizem respeito a uma preocupação muito própria
desses dirigentes, a qual pode ser resumida na noção de identidade acadêmica desse tipo de
outubro, por iniciativa de Roque Danilo Bersch, é enviada uma Carta Aberta aos Membros da
proposto até então, esclarece que “as diferenças entre nossas instituições nos separam mais do
terceiro registro documental, em sua versão inicial esboçada pelo mesmo líder regional111,
universitários. Define que a atividade de pesquisa estaria presente nos centros universitários,
mas não necessariamente dando substrato a cursos stricto sensu, e sim garantindo o ensino de
graduação. Além disso, haveria a oferta de cursos pós-secundários para formação técnica
110
BERSCH, Danilo. Carta Aberta aos Membros da ANACEU. UNIVATES, Lajeado, 29 de outubro/2003.
178
seus dirigentes estabelecem interlocução com pares no âmbito nacional. De outra parte, viu-se
também que há lideranças nacionais disputando com grande afinco o mercado do ensino
A ótica de dirigentes sobre seus centros universitários, a partir de dois casos no Rio
Grande do Sul, será analisada mais detalhadamente no próximo capítulo. É necessário, agora,
abordar as características do ensino superior no Rio Grande do Sul, a fim de obter elementos
que permitem entender posturas como as apresentadas até aqui e o tipo de competitividade
iniciou com instituições isoladas. Seu desenvolvimento passou por fases distintas que
existiram quatro fases distintas. A primeira de instalação (entre 1883 e 1930), a segunda fase
quarta, de criação de novos modelos regionais (desde 1990 até, pelo menos, 95, quando o
A primeira fase teve como marco inicial a criação, em Pelotas, da Escola Imperial de
Medicina e Veterinária e Agricultura. Dois anos depois, a escola foi fechada (NEVES, 1995,
111
BERSCH, Roque Danilo. O sentido do Centro Universitário no contexto das IES do Brasil . UNIVATES:
Lajeado, outubro /2003.
179
p. 7). Durante a República Velha, em 1896, em Porto Alegre, foi fundada a Escola de
Engenharia que deu origem a Universidade Técnica do Rio Grande do Sul em 1922, que, mais
tarde, foi integrada a outras, formando a atual Universidade Federal do Rio Grande do Sul.
Na segunda fase, o ensino superior centraliza-se em Porto Alegre. Em 1934, foi criada
ensino superior, no período que inicia nos anos 60, não foi resultado de um planejamento
após a reforma de 1968. No RGS não foi diferente. Arabela Oliven afirma que
O número de matrículas aumentou onze vezes, entre 1950 e 1970 no RGS. O setor
privado foi responsável por um crescimento de cinqüenta e três vezes (OLIVEN, 1990, p. 82).
A diversificação de cursos também foi iniciada nesse período. Porém, a expansão baseou-se
em cursos de baixo custo, como é o caso de direito e, mais tarde, pode avançar para áreas
como a da medicina. A autora defende a idéia de que esse foi o período de expansão de vagas
que deu acesso ao ensino superior para a classe média. Ela apoia sua tese em dados objetivos,
180
como o número de habitantes e índice de crescimento das camadas médias da população de
vários municípios. Demonstra que foi o setor privado que propiciou as condições através do
Convergindo com Neves (1995), que detalha a temática, vinculando-a à noção de IES
questão. Assim, em municípios pequenos, onde não se pode contar com instituições de ensino
superior, nem universitárias, nem isoladas, houve uma perda de elites locais. Isso foi
municípios que contaram com IES, mesmo isolada, não universitária, o “processo de
provincialização foi mais intenso”, ou seja, o município não teve um contingente de migração
alto para centros urbanos maiores entre as suas elites locais (OLIVEN, 1990, p. 91 e 92).
locais que expressaram integração regional. É o caso da Universidade Santa Maria (USM), a
FIDENE/Ijuí, entre 1960 e 1970. Entre 1970 e 1980, essas instituições procuraram se
Conselho Federal de Educação (CFE) inviabilizou essa prática em 1971, quando, regulando a
Neves afirma que nos anos 1990 houve outro tipo de crescimento.
O estado contava com uma rede de IES já bem configurada na terceira fase. As
iniciativas bastante inovadoras, no entanto, em função das políticas gerais e
circunstâncias regionais, resultaram numa padronização da rede: a) na forma da
estruturação das IES, como universidades ou instituições isoladas; b) em
termos de ocupação de “espaços, com ofertas de cursos de fácil implantação e
acesso; c) no atendimento de uma demanda pouco qualificada, que, em
conseqüência, aceitava uma oferta pouco qualificada (NEVES, 1995, p. 9).
Integrada URI); novas instituições anexadas a universidades existentes (UCS, UPF, UNIJUÍ,
181
URCAMP); faculdades formando universidades (UNISC e UNICRUZ). Da interiorização,
portanto, nasceu uma aglutinação originando instituições de maior porte com núcleos
período.
A noção de IES comunitária também é típica da região, embora não se restrinja a ela.
distinguem. Essas IES tiveram origem na iniciativa de lideranças locais, trabalhando com a
mesmas. Muitas delas são hoje universidades devido ao processo de aglutinação apresentado
É importante ver que a expansão do ensino superior no Rio Grande do Sul, em período
recente, tanto ocorre pelo aumento no número de vagas e de cursos, muitas vezes variantes no
(ULBRA) cresceu intensamente durante os anos 1990. É uma instituição que se expande por
diversas regiões do país e pretende atingir a meta de 80 mil estudantes na graduação em 2005,
estando hoje entre as cinco maiores do país113. O caso da formação e expansão da ULBRA,
com uma história de crescimento bastante recente e rápido, com uma alta divulgação através
fase que amplia a heterogeneidade de tipos institucionais, como também amplia os tipos de
112
O COMUNG é constituído por oito universidades comunitárias gaúchas e um centro universitário de ensino
superior (FEEVALE) localizado em Novo Hamburgo. As universidades são as seguintes: Universidade de
Caxias do Sul (UCS), Universidade de Cruz Alta (UNICRUZ), Universidade de Santa Cruz do Sul (UNISC),
Universidade Regional Integrada do Alto Uruguai (URI), Universidade da Região da Campanha (URCAMP),
Universidade de Passo Fundo (UPF), Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul
(UNIJUÍ) e Universidade Católica de Pelotas (UCPel) (Rodrigues, 2002).
113
Jornal Folha de São Paulo, São Paulo, 02 de dez./2003, p. C1.
182
A tendência do final do século XX foi a da promoção de grandes instituições
universitárias que chamam atenção, não pela identidade com o modelo clássico humboldtino,
mas sim por oferecerem inúmeros atrativos comerciais aos estudantes. Os campi
universitários mais arrojados podem ser comparados a shoppings do ensino superior, já que
possuem ampla oferta de produtos, alguns mais diretamente ligados ao fazer acadêmico e
outros não. No Rio Grande do Sul esta realidade também se faz presente.
dirigentes buscam a autonomia que esse tipo institucional oferece e garantem seu espaço no
183
filantrópicos – UNILASALLE e Unifra – e um deles é privado em sentido estrito – UniRitter.
Eles estão distribuídos entre a região metropolitana e duas cidades do interior. É interessante
trajetória histórica apresentada anteriormente (NEVES, 1995), a qual parece ser menos
constituem tipos heterogêneos. Isso ocorre tanto em termos da tipologia oficial, como através
capítulo.
dos casos
legislação, vê-se que é necessário conhecer identidades acadêmicas, como também buscar a
caminho para a análise dos casos de centros universitários coloca a necessidade de construção
de tipos-ideais de IES. Para construção desses tipos, além de traços históricos anteriormente
analisados, são considerados basicamente dois estudos (WORLD BANK, 2000 e BOYER,
1997) que apresentam uma tipologia aplicada às IES baseadas em sua diversidade, os quais
permitem pensar possíveis tipos que compõem o sistema de ensino superior brasileiro.
O estudo da Task Force apoiado pelo Banco Mundial (WORLD BANK, 2000), por
exemplo, indica uma tipologia própria para diferenciar instituições em países ditos em
184
desenvolvimento, como é o caso do Brasil. Adota a seguinte classificação: universidade de
Segundo esse estudo, a universidade de pesquisa tende a ser pública e certamente sem
objetivo de lucro. Ela objetiva atingir excelência em pesquisa em vários campos e oferecer
educação de alta qualidade através de uma baixa carga horária dos docentes em sala de aula,
superior aos estudantes sem que necessitem se deslocar de sua origem regional. Oferecem
outros. Elas têm tido importância nos países em desenvolvimento, já que estes são carentes de
lucrativos direcionam-se para essas áreas. As carreiras que ofertam prometem um alto retorno
contabilidade, enfermagem, eletrônica, computação, etc. Elas têm um caráter técnico e pós-
Aparecem no setor privado e com objetivo de lucro. O quadro abaixo sintetiza o exposto de
185
Quadro 4.4 -Tipos de IES em países em desenvolvimento
Tipo Natureza Característica Ensino Seleção social Repercussão
Institucional acadêmica social
Universidade Pública/ Excelência em Alta qualidade. Altamente Forma elites
de pesquisa Estatal. Não pesquisa. Docentes selecionados seletiva acadêmicas e
visa a lucros. Padrões possuem trajetória em intelectualmente. sociais.
internacionais. pesquisa. Docentes com
baixa carga horária em
sala de aula.
Universidade Públicas ou Responde por Enfatiza o ensino para o Seleciona Atende a
regional ou privadas. grande número mercado de trabalho regionalmente. necessidades
provincial de estudantes. local. de formação
regionais.
Escola Privadas com São escolas ou Formação técnica e Atrai estudantes Promete alto
Profissional fins faculdades direta para profissões com capacidade retorno
lucrativos. isoladas. competitivas. financeira. financeiro e
social.
Escola Privadas com Está no limite Tem caráter técnico. Atende Forma
Vocacional fins mais baixo e é população profissionais
lucrativos. confundida com interessada em técnicos para o
cursos pós- formação técnico mercado.
secundários. profissional.
Fonte: Elaborado a partir do documento da Task Force, World Bank, 2000.
futuro, afirma que um variado número de tipos institucionais tem tido um comportamento
cada vez mais imitativo do que distintivo em relação às grandes universidades. “En lugar de
definir sus propios objetivos y dar forma a una misión propia, con convicción, las
instituciones buscan cada vez con más frecuencia obtener prestigio imitando a los centros de
genuínos, bem como de realização de missões próprias das instituições. Para ele, a tentativa
de imitação entre instituições tem impedido uma melhor qualidade nas atividades
114
Boyer afirma que, em cursos de pós-graduação, a conexão entre ensino e pesquisa é algo bastante viável e
necessário. Entretanto, “en el nivel de pregrado, y especialmente en cursos de educación general, el trabajo de
investigación con frecuencia compite con las obligaciones en el salón de clase, tanto en lo que se refiere al
tiempo como al contenido” (BOYER, 1997, 80).
186
Universidade de investigação, que tem como exigência básica a pesquisa original e a
publicação que serve para a avaliação dos docentes. O autor, entende que deva haver
integração e aplicação dos conhecimentos. Pondera que seja difícil conciliar alta qualidade em
pesquisa e em ensino, uma vez que são objetos distintos. Entretanto, essas instituições devem
em fase de transição para instituição de pesquisa. Boyer considera que o perfil docente nessas
instituições conta com um “mosaico de talentos” e são instituições que possuem um potencial
de serviço muito alto que deve ser aplicado nacional e regionalmente – cita as áreas de saúde,
professores desenvolvem suas atividades em torno dos estudantes dentro e fora da sala de
trabalho acadêmico nessas instituições sem que deixem de ter o ensino como centro.
Colégios comunitários, que têm o ensino como centro das atividades. Os professores e
por vezes, investigam o seu próprio fazer, ou seja, o ensino. Daí resulta a noção de ‘docente-
investigador’, tornando a investigação sobre o ensino a faceta mais importante de seu trabalho
187
Quadro 4.5 - Tipos de IES nos Estados Unidos
Tipo Natureza Características Ensino Seleção Repercussão
institucional acadêmicas social social
Universidade Pública ou Privilegia pesquisa Distingue-se pelo alto Altamente Garante prestígio
de privada. e publicações. nível em pesquisa seletiva. acadêmico e
Investigação frente ao ensino. Deve social.
remunerar
diferencialmente
professores que se
dedicam ao ensino.
Universidade Pública ou Encontra-se em Docentes formam um Seleciona Tem potencial
com privada. fase de transição “mosaico de talentos’’. estudantes nacional e
Programa de para instituição de Integram identificados regional, para
Doutorado pesquisa. conhecimentos e com suas prestação de
aplicam no ensino. áreas de serviços sociais
atuação. (saúde,
educação).
Colégio de Os professores O ensino de Forma indivíduos
Humanidades desenvolvem graduação constitui o voltados para
atividades voltadas centro das atividades. áreas das
para os alunos Há alguma integração humanidades e
--- dentro e fora da de docentes com --- com baixa
sala de aula pesquisa em especificidade
Há participação Universidades o que técnica.
esporádica de garante qualificação
docentes em no trabalho
pesquisas. acadêmico.
Colégio Privada. Os docentes Tem o ensino como Oferece Os estudantes,
Comunitário podem centro. ingresso em geral,
desenvolver bastante participam de
atividades de acessível. atividades
pesquisa sobre técnicas e
seu fazer, o profissionais
ensino. ligadas à sua
formação.
Fonte: Quadro elaborado a partir da descrição de Boyer, 1997.
resulta da ótica de quem estudou o sistema procurando propor uma identidade que distinga
No Brasil, se poderia pensar para além da distinção legal entre os tipos já conhecidos.
A nitidez das incumbências a que cada IES se propõe, relativamente ao seu papel social,
Para fins deste estudo, são elaborados cinco tipos-ideais constituídos a partir da
Brasil. Os tipos são classificados como IES de pesquisa, empresarial, comunitária, técnico-
188
profissional e de massa. Esses tipos não representam uma ou outra instituição, mas sintetizam
Entende-se que servem para pensar, por aproximação ou distanciamento, a realidade dos
como aquelas que aliam ensino, pesquisa e extensão. São instituições autônomas e, em geral
internacional. Podem também ser privadas, desde que possuam uma trajetória ‘clássica’ no
interior do setor privado. Isso significa que sua origem data, em geral, da primeira metade do
século XX.
não são homogêneas internamente, e seu caráter de pesquisa internacional se afirma mais em
caráter público não estatal. Elas possuem uma identidade regional ou local e se distinguem
das instituições confessionais, tendo importante vinculação com ações das elites regionais que
lhe garantem a existência. Conforme Frantz e Silva (2002, p. 21) essas instituições precisam
189
financeira-patrimonial fica nas mãos da IES, e não de uma mantenedora externa, e, em caso
A noção de IES comunitária veio ganhando força durante os anos 1980, e essa
estatal, embora possam contar com destinação de verbas públicas. Esse tipo de instituições
ensino superior e procura ganhar terreno e legitimidade junto à sociedade, para se diferenciar
de outras instituições que compõem o setor privado. No Rio Grande do Sul, é expressivo o
se à acadêmica, introjetando uma nova forma de governo no ensino superior distinto de uma
instituições de ensino superior com fins lucrativos, torna-se indispensável distinguir a noção
à adoção de uma racionalidade que não é meramente técnica, mas encerra uma nova forma de
universidades com trajetória clássica que se vêem obrigadas a adotar, na atualidade, modelos
ligados à ideologia neoliberal, que entende a universidade como empresa. Isso ocorreria, entre
outros fatores, pelo fato de haver uma crise ou desconstrução de tradições acadêmicas.
190
Embora não seja exclusiva, essa compreensão parece ter mais validade em instituições
profundo com esse modelo precisam ser avaliados nas situações concretas. Essas IES privadas
técnico-profissional. Essa instituições, em geral, não são universitárias e podem ser altamente
conceituadas nas áreas em que atuam, sendo nesse caso seletivas, ou, no outro extremo,
podem oferecer cursos mais rápidos voltados para o mercado profissional, adotando às vezes
sistema de ensino superior. Nos dois casos, sendo seletivas ou não, essas IES desenvolvem as
delas por oferecer um acesso facilitado no que tange aos custos financeiros. São instituições
que atendem um público com poder de consumo relativamente baixo. Em geral, são alunos
salas de aula contam com grande número de estudantes, e a prioridade nítida é para o ensino.
propõem .
191
Quadro 4.6 - Tipos-ideais de instituições de ensino superior
importância do setor privado. Voltou-se para os centros universitários como parte do sistema
com o intuito de melhor conhecer o tipo institucional e a sua existência concreta, buscou-se a
ótica daqueles que o conceberam politicamente, reuniram-se documentos legais que definiram
a fim de demonstrar que o campo de disputa é intensamente definido por relações do mercado
192
Para uma aproximação aos casos que serão tratados no próximo capítulo, ressaltou-se
as peculiaridades do ensino superior privado no Rio Grande do Sul. Por fim, criaram-se tipos-
Quanto aos tipos criados, não há um em especial que corresponda em plenitude à idéia
de efetivação do caráter público da educação superior. Por certo há os que se afastam e/ou se
aproximam mais dessa caracterização, nos termos definidos para este estudo. Assim, o tipo
seu trabalho utilitarista no mercado (LEITE, 2002; SGUISSARDI e SILVA Jr., 1999) . A
universidade de pesquisa, de outra parte, é por natureza de elite (SANTOS, 1999), porém isso
não significa que não possua sentido público em sua atuação, dada a relevância do
conhecimento que produz. A ampliação do seu caráter público ocorre na proporção direta de
A instituição comunitária é aquela que mais facilmente poderia ser associada à idéia
(NEVES, 1995; FRANZ e SILVA, 2002). Entretanto, na prática, a identidade regional ligada
ao desenvolvimento econômico e às elites locais pode tornar-se mais intensa do que o seu
Outro risco relevante, colocado pela noção de comunitário e local, é a possibilidade de limitar
conhecimentos. O elemento comunitário, para manter sua identidade, necessita voltar-se para
si, podendo produzir limites importantes no caso de uma instituição de educação superior.
bastante utilitário, ligado ao mundo econômico, das coisas. Entretanto, na medida em que
puder aliar trabalho profissional com produção de identidades de grupos sociais ou culturais,
193
capazes de integração com comunidades e sociedade, estará avançando no sentido do
necessário caráter público. Por fim, as IES de massa, em geral altamente desqualificadas
mas talvez contribuam para ascensão social no caso de estudantes que consigam responder de
forma bem sucedida às dificuldades da relação entre trabalho e estudo. Isso não aconteceria
194
Capítulo 5 - Educação superior e centros universitários no Rio
Grande do Sul: os estudos de casos
Os casos foram escolhidos obedecendo a dois tipos de critérios: trajetória como centro
experiência da IES como centro universitário e, por outro critério, buscou-se que relações com
Grande do Sul. Nesse sentido, dos dois centros eleitos para estudo, um é classificado como
confessional e o outro como comunitário, sendo que seus anos de transformação em centro
universitários são 1998 e 1999. Esses centros universitários passarão a ser chamados UNI1 e
UNI2, respectivamente.
estudo, a partir de sua vida institucional e acadêmica, bem como busca o tipo de
competitividade implementada, a qual pode ser visualizada pela relação com elementos que
evidenciem pertinência social. Havendo presença desses elementos, a IES estará mais
próxima da possibilidade de obter legitimidade pública, tal como se definiu neste estudo.
A interpretação dos casos é realizada com base nas trajetórias históricas e na atuação
presente das IES, sendo que as fontes utilizadas são documentais e orais, através de
entrevistas com dirigentes. Na primeira parte, tratou-se do histórico de cada uma das
instituições, uma vez que, como é o caso dos outros centros universitários, elas atingiram essa
condição tendo uma trajetória anterior como instituição de ensino superior. Para esse
Na segunda parte do capítulo, analisam-se as óticas dos dirigentes dos dois centros
195
institucionais: (1) a dimensão institucional mais ampla, que inclui aspectos acadêmico-
e (3) a dimensão da competitividade, promovida pelas IES, a qual permite relação com os
interpretação, na ótica da legitimidade pública, sobre a educação superior praticada por essas
instituições.
Nesta seção são apresentados aspectos históricos das instituições que serviram de base
O Centro Universitário UNI1 localiza-se na grande Porto Alegre e funciona com vias
confissão religiosa sendo pessoa jurídica de direito privado, sem fins lucrativos (Estatuto
a funcionar como centro de educação superior, com um curso de Estudos Sociais em 1976.
Além desse, foram implantados os cursos de Pedagogia e de Letras. Mais tarde, entraram em
196
Nos anos 1990 a mantenedora estabeleceu como objetivo, para o desenvolvimento da
educação superior. Com a mudança na legislação em 1997, a instituição optou por tornar-se
(UNI1, PDI, 2002, p. 3). Em dezembro de 1998 a IES adquire o status de Centro Universitário
e, em 2001, por ocasião do recredenciamento da instituição foi elaborado um novo PDI que
dimensões humana e cristã” (UNI1, PDI, 2002, p. 5) O “UNI1 tem personalidade jurídica e
Extensão – CONSEPE. A reitoria é um órgão executivo, e abaixo dela aparecem três pró-
cada curso de graduação estão registradas no mesmo nível, no organograma institucional. Não
da terra, ciências humanas, ciências sociais aplicadas, engenharia, lingüística, letras e artes. O
funcionaram também dez diferentes cursos de pós-graduação lato sensu (UNI1, PDI, 2002, p.
197
29). Em 2004, o número de cursos e habilitações em nível de graduação cresce para 27 e os
O UNI1 expõe com clareza em seu PDI o propósito de desenvolver vida acadêmica,
tendo por base o princípio constitucional que define a identidade da universidade no país.
fundamental para adquirir o status pretendido, a IES apoiava, em 2002, 46 projetos que
envolviam 57 professores pesquisadores (UNI1, PDI, 2002, p. 32). Em 2001 o UNI1 realizou
pelos pares extra-muros, e segundo na comunidade [local] e seu entorno, o que implica o
198
cultura numa instituição e o reconhecimento por pares não é algo que aconteça a curto prazo e
caráter, entre outras formas, nas atividades de extensão. “A ação extensionista tem dimensão
procedimentos assistencialistas.” (UNI1, PDI, 2002, p. 30) É interessante ver que na estrutura
característica que não é comum às outras IES. Curioso é que essa Pró-reitoria possui uma
evidencia pelo fato de que existem duas Coordenações de Extensão na mesma instituição.
2002, é de 253 docentes, sendo 154 mestres e 32 doutores. Dentre o total, 38 possuem
contrato de 40 horas, 38 contrato de tempo parcial e 177 são horistas, com até 19 horas
semanais (UNI1, PDI, 2002, p. 15-16). O PDI, planejado para o período 2002-2006, prevê a
mestrado, sendo um para 2004 e outro para o ano de 2006 (UNI1, PDI, 2002, p. 62).
com 3.441 estudantes. O corpo docente previsto para 2006 é de 542 professores (PDI, 2002,
p. 52).
115
Citados como sendo os cursos de Administração; Comércio Exterior e Serviços; Ciência da Computação;
Direito; Enfermagem; Fisioterapia; Nutrição; Engenharia de Telecomunicações; Relações Internacionais;
Comunicação e Cinema, Psicologia; Turismo; Mecatrônica e Engenharia Ambiental (UNI1, PDI, 2002, p. 50).
199
5.1.2 Centro Universitário UNI2
universitário em 1965. A iniciativa de constituir uma entidade que desse origem a uma
reconhecida pelo MEC, em 1975, a qual passou a manter a Faculdade de Educação e Letras e
a Faculdade de Ciências Econômicas. Durante a década de 1980 e até meados dos anos 1990,
Embora os registros indiquem que em 1998 houve expansão para fora da sede, com o
intenso da instituição de ensino superior só passou a ocorrer depois de 1999. Até esta data a
instituição de ensino havia se expandido com algumas novas habilitações e poucos novos
cursos em nível de educação superior, mas cresceu mais com cursos de nível médio ou pós-
oferecia sustentação para uma escola de nível médio e uma de ensino fundamental.
desta data, a expansão como instituição na categoria educacional de nível superior ganha
impulso com a aprovação da implantação de vários cursos novos naquele mesmo ano.
116
Ciências Biológicas; Educação Física; Filosofia; Física; Geografia; História; Letras; Matemática; Pedagogia.
Química e Teologia.
200
A entidade mantenedora, embora continue fundação, muda de caracterização com o
privado composta por 350 membros da comunidade regional. como prefeitos, promotores
fato de que o seu patrimônio, em caso de dissolução, deve ser destinado a entidade congênere.
(Estatuto da Fundação, 2000, p. 16, Art. 28). Como categoria administrativa, registrada no
mantida.
fiel ao modelo concebido pelas sociedades locais.” (PDI, UNI2, 2002, p. 38) Para eleição do
117
Segundo entrevista, a Fundação (mantenedora) foi criada e instituída pelo poder público Municipal e era
interpretada como fundação pública, tendo de prestar contas ao Tribunal de Contas, o que impedia agilidade
necessária à expansão. O entrevistado afirma, era uma “fundação de direito privado e não era mantida pelo poder
Público Municipal apenas ela foi criada e instituída e manteve-se por receitas próprias, mas começou a sofrer
fiscalização periódica do Tribunal de Contas” (Entrevista Assessor, UNI2, 2003). O limite burocrático imposto
por essa situação é que precisava ser transposto.
201
reitor participam o corpo docente (45%), o corpo discente (25%), a assembléia da
mantida, bem como o poder decisório em mãos de órgãos colegiados. Sua estrutura
Acadêmico e Administrativo. Este é o órgão deliberativo máximo ao qual cabe recurso e cuja
legais internos e a avaliação das ações executadas” (Estatuto UNI2, 2000, p. 22, Art. 13).
Câmara de Extensão como órgãos de natureza consultiva, os quais, entre outras coisas,
propõem política institucional e de avaliação em suas áreas (UNI2, PDI, 2002, p. 68 e 74).
O UNI2 oferece 28 cursos e possuia um total de 3.954 alunos, no ano de 2001 (UNI2,
202
91). As áreas de atuação e os cursos em funcionamento respondem a demandas de
Pólo de Modernização Tecnológica do Vale do Taquari que inclui vários projetos em áreas
empresas têm acesso a tecnologias que avaliam e propiciam a qualidade sanitária dos produtos
Desta maneira vê-se, através dos documentos institucionais, que a IES afirma sua
imagem a partir de dois pilares fundamentais. Seu caráter comunitário, pois a mantenedora
possui um esquema de ingresso, por concurso público, e de tomada de decisões, que envolve
regional.
No que tange à vida acadêmica, no aspecto ensino, além dos 28 cursos da graduação o
UNI2 conta com 14 cursos de pós-graduação lato sensu, havendo convênios ou sendo
oferecidos por outras IES na UNI2, como parece ser o caso do curso de Especialização em
Arquitetura, em convênio com UFRGS (UNI2, 2002B, p. 301). No ano de 2004, o número de
cursos de graduação ofertados subiu para 32 enquanto que houve uma redução, para sete, no
203
mostram uma capacidade de crescimento e, ao que parece, um maior investimento no ensino
Vê-se que a IES investiu também na atividade de pesquisa, registrando em seu PDI,
Rio Grande do Sul - FAPERGS -, tendo obtido aprovação de apenas um projeto em 2000, e
recebendo apoio para 13 projetos de pesquisa, em 2002 (UNI2, PDI, 2002, p. 70). Em 2003,
houve a VI Mostra de Ensino, Extensão e Pesquisa (VII MEEP) e o seu II Salão de Iniciação
Científica.
PDI, 2002, p. 79). Todos os programas de extensão citados são desenvolvidos em convênio
fato de o UNI2 constituir-se numa IES classificada legalmente como comunitária e ter
identidade regional contribui para que haja convergências entre políticas institucionais e
governamentais para a região. Esse deve ser um importante fator para viabilizar convênios
2002, é de 179 docentes, sendo 101 mestres e 13 doutores, além do que 52 dentre eles
possuem contrato de 40 horas ou dedicação exclusiva (UNI2, PDI, 2002, p.99). O PDI
204
e/ou habilitações, um mestrado na área de Planejamento e Gestão do Desenvolvimento para
2004 e um corpo discente de 9.550 estudantes na graduação (UNI2, PDI, 2002, p. 205, 207 e
217).
órgão estadual de fomento- FAPERGS (UNI2, PDI, 2002, p. 246). Outro aspecto interessante
a ótica dos dirigentes dessas IES. A partir dos elementos obtidos através de técnica de
três dimensões que compõem o trabalho de educação superior nessas IES. Elas dividem-se em
primeiras dimensões serão organizadas diretamente com base nas declarações dos
na medida em que é desenvolvida por referência aos tipo ideais construídos anteriormente.
Existe uma relação bastante íntima entre essas três dimensões e esse fato faz com que
118
O valor do financiamento estudantil chega a 50% da mensalidade e atinge 2,3% dos estudantes. O FIES,
financiamento federal, responde por 13% do número de estudantes na instituição.
205
acadêmica foi entendida a partir dos três elementos clássicos da educação superior: ensino,
pesquisa e extensão. Por fim, a dimensão de competitividade foi constituída com base em
aspectos que explicitam a expansão da IES, sua relação com a mantenedora e o tipo de
docentes dos dois centros universitários. Ele foi organizado com base em categorias empíricas
constituídas a partir do material coletado nas instituições e com o auxílio do software Nvivo,
Versão 1.1. O software permitiu que o conteúdo de cada entrevista pudesse ser codificado e
organizado a partir das óticas dos sujeitos e das instituições sobre os diferentes temas.
certos campos. Como ponto de partida, aparece em comum a idéia de que houve ganhos
claros com a transformação de faculdades para centro universitário e o ganho mais imediato é
206
Na realidade o que mudou aqui foi a possibilidade de atendermos melhor a
região, estávamos limitados em oferecer cursos, não tínhamos autonomia, então
havia uma demanda por diversos cursos na região, o pessoal tinha que estudar
fora e a gente não podia oferecer. [...] E hoje não, hoje a gente consegue
responder bem mais rápido sendo um centro universitário (Coordenador de
curso, UNI2).
Autonomia
vagas que ocorre o ganho mais visível das IES transformadas em centros universitários
Além dessa autonomia de criar o curso, tem autonomia para aumentar as vagas,
suspender vestibular e assim por diante. Tu alteras o currículo e não precisa ir
mais para o MEC, passas para o Conselho Universitário e no ano seguinte ele
entra em vigor. Esta autonomia para criar e toda a decorrência da expansão
acadêmica é fundamental, você não depender da burocracia (Assessor, UNI2).
A autonomia é algo caro à educação superior, e sua prática tem sido objeto de debate
mas nem sempre é plenamente realizada. Isso ocorre, por razões variadas, entre instituições
mantidas pelo estado ou por mantenedoras privadas. No caso dos centros universitários, a
anterior, a opção por ampliar estava limitada pelos processos burocráticos dos órgãos estatais,
207
embora já estivesse presente como desejo não realizado tanto na instituição mantida como na
não se conseguia abrir curso, a gente encaminhava um projeto para Brasília para
examinar, o projeto de curso ficava engavetado dois anos ou mais e quando era
retirado da gaveta em Brasília, eles olhavam e diziam estar desatualizado (Pró-
reitor, UNI2).
foi um momento difícil [...] ter sempre que vincular qualquer ação ao MEC,
então qualquer idéia que tu tivesses, tinhas de submeter ao MEC e do MEC
voltava, demorava e nem sempre era aceito (Coordenador de curso, UNI1).
cada assunto desses levaria dois anos, ou mais de tramitação e nós podemos
fazer isso com agilidade, é o caso [do curso] de ciências, de biologia, então foi
realmente a oportunidade da autonomia universitária que consolidou a região.
Nós entramos em uma nova fase, inclusive hoje estamos no período de
consolidação dessa fase, de uma forte expansão horizontal (Vice-reitor, UNI2).
dirigente chama atenção para a exigência legal e para a prática da avaliação dos centros
universitários por parte do Estado, a qual limita a autonomia. Ele detecta um limite prático
monopólio teria sido colocado em xeque a partir do surgimento dos centros universitários.
Com compreensão política que considerou interesses do setor privado sobre a questão da
dirigente cita o que entende ter sido o objetivo do Ministro da Educação à época da criação do
208
[...] descartorializar o segmento [do ensino superior], uma nova visão na oferta
do ensino superior no país e, para isso tirar a figura de cartório da universidade
[pois], quem galgou os degraus é agora universidade e ela pode tudo, é
autônoma total. O [objetivo] do Ministro era vincular a autonomia à qualidade e
nesse sentido, a autonomia não precisaria atingir nem só aos centros
universitários, ela poderia ser conferida a outras instituições (Vice-Reitor,
UNI2).
É preciso considerar que o depoimento foi feito no contexto das disputas com as
universitários. A visão exposta é estratégica e interessada, mas traz à tona traços de uma
também são autores de intensas críticas a esse tipo institucional, desde sua criação. Por
fim, uma vez que a quase totalidade dos centros universitários pertence ao setor privado,
torna-se objeto de críticas por parte daqueles que possuem um compromisso estrito com o
ensino superior público e gratuito. Por outro ângulo, os dirigentes de centros universitários
209
percepções bastante diversas. No caso que segue, a ênfase é sobre cursos que possam
instituição. Nesse caso os centros universitários teriam um papel social a cumprir oriundo
O entrevistado expõe um problema evidente nessas IES e no ensino superior de um modo geral, ou
do número de estudantes atualmente está integrando uma camada da população que não tem
trajetória familiar nesse nível de escolarização. Essa situação põe em evidência o fato de que
fim de garantir a necessária qualidade da educação superior oferecida. Esse problema está
adiante.
210
Há um tipo de controle estatal sobre o conhecimento promovido ao longo do curso de
graduação que é interpretado como válido. A política de avaliação externa, através do Exame
O que nos auxiliou muito foi, de certa maneira, esse ranqueamento que o provão
do MEC conseguiu trazer. A gente começou a ter resultados bons, em algumas
áreas excelentes, cursos como Letras, hoje, só tem todos os conceitos “A” desde
a primeira avaliação; administração teve três “A”, depois um “C” e três “B”,
nós temos 72% , 73% de conceitos “A” e “B” em todo o provão (Coordenador
de curso, UNI2).
Vejo que isto ajudou muito a nós, como em outras instituições a buscar a
melhoria no ensino por que ninguém queria ficar dependente das punições e das
advertências como bem vier, então isso também era uma forma de dizer para os
alunos e para a comunidade toda: nós queremos ser A. [...] Eu vejo que a
avaliação é necessária [...] (Reitor, UNI1).
No centro universitário tem destaque o ensino, até se diz que precisa ter só
excelência do ensino e que não precisa de pesquisa, mas é na avaliação de cada
curso [pelas comissões enviadas pelo MEC] que vai ser analisado como curso
de uma universidade. Então na hora da avaliação não há esta diferença, ‘este é
um curso de centro universitário, portanto não precisa pesquisa, publicação,
titulação...’ Os avaliadores vão avaliar cada curso como numa universidade,
então existe essa dificuldade (Pró-reitor, UNI2).
211
Há um exemplo sobre as contradições nos critérios avaliação dos cursos e sobre o
O curso de letras há cinco anos tem A no provão e nós temos professores com
titulação, o curso que está bem e tem história. [...] Se um professor de língua
portuguesa vai dar uma disciplina de português em um outro curso, isso é muito
bom, porque vê uma outra realidade [...] não acho que contribua para piorar o
curso de letras se um professor, com isso, consegue estar integralmente
trabalhando na mesma instituição. Mas, [essa situação] fez com que os
professores já não tivessem mais dedicação exclusiva ao curso e fez baixar a
pontuação. No item dos professores ficamos com um grau bem inferior, nós
recorremos [...] A resposta foi que estava correta a avaliação (Pró-reitor, UNI2).
preocupação com a intensa formalização que solicita, podendo definir maior importância
[...]desde que existe o curso de Filosofia aqui, nós temos semanas acadêmicas,
nós temos seminários, nós temos diálogos intermitentes, que é uma atividade
interdisciplinar e nunca ninguém perguntou se isso vale [horas complementares
ao currículo]. Os alunos participavam através de seu interesse e sempre tivemos
debates muito importantes. Agora, com o discurso de que deve ser reconhecido
como atividades complementares, se perde certamente o impulso originário que
movia esses encontros. [A política estatal para os currículos] é um instrumento
que força o curso a promover essas atividades e os estudantes a
participarem.[...] A inovação se perde porque começa a praticar a formalidade.
(Coordenador de curso, UNI1)
Gestão acadêmica
Isto é uma coisa de três, quatro anos para cá que está sendo elaborada de uma
forma mais constante. Inclusive na Pós-Graduação nós temos um Conselho de
Pós-Graduação e temos uma autonomia relativa para [decidir]. Penso que se
institucionalizaram órgãos, por exemplo, hoje em dia os colegiados tem uma
participação maior dos docentes, tem participação do corpo discente.[...] Tem-se
uma tentativa de trabalhar de uma forma mais orgânica, de forma mais
instituída e não de uma forma informal (Coordenador de Curso, UNI1).
212
Nessa IES há avanços na organização em questão, como mostra o depoimento
caso citado acima, o caráter comunitário intervém com maior força, entretanto, de um modo
Nas IES que têm grande tradição de centralização decisória nas mantenedoras, o que é
comum, esse ganho fica relativizado. Muitas vezes os colegiados passam a existir e se
caracterizam mais por serem instâncias de discussão do que de decisão. Sustenta-se que,
acadêmicos.
ela estivesse presente na UNI1 em 1998, na atualidade ele não mais aparece. Os documentos
mostram que, além de dois colegiados superiores, a UNI1 conta com uma organização
213
colegiada básica que tem como referência o curso. Na UNI2 os departamentos também
desaparecem e dão lugar a uma nova estrutura intermediária que são os centros em fase de
implantação.
a priori, constituem-se em formas de organização que vão sendo gestadas no processo, como
consolidadas, e isso converge com a idéia de ausência de tradição. Evidentemente que essas
instituições, sendo de pequeno porte e tendo história recente, não possuem amarras que
apresentam agilidade. Por outro lado, são as respostas genuínas, construídas diante dos
desafios da nova condição institucional, que, na ausência de uma compreensão mais geral
sobre o papel de cada IES no sistema de educação superior, permitem pensar a constituição
Esse núcleo foi criado, exatamente como o nome diz, para oferecer um
assessoramento para os universitários, tanto na área acadêmica, quanto na área
pessoal, questões de ordem pessoal, como na área profissional que seria a
questão de repensar os cursos [...] (Coordenadora de Núcleo, UNI1).
214
Núcleo de Apoio Pedagógico do UNI2 é mais voltado para a atividade de ensino e
Futuro institucional
Quanto ao futuro institucional, os projetos de cada uma das IES são distintos, como
se pode ver no que segue. Referindo-se ao embates políticos aos quais os centros
universitários estiveram submetidos durante o ano de 2003, o dirigente da UNI2 expõe sua
Agora mesmo nós recebemos notícias que no Congresso Nacional entrou mais
uma iniciativa das universidades privadas para por em xeque a autonomia. [...]
Isso sim, isso sempre me deixa em alerta, logo a gente vai ser empurrado para
ser universidade, é tudo que nós não queríamos neste momento. Nós
gostaríamos de ser, neste momento um centro universitário, então o nosso
esforço por mestrado, por strictu sensu não é um esforço que, digamos assim,
que seja de dentro para fora (Vice-reitor, UNI2).
desde de meados de 1990. Entretanto, não há convicção de que essa nova condição
215
Em 1995, a nossa intenção era virar universidade, e já começamos a abrir cursos
novos, que foram Administração, Comércio Exterior, Filosofia, Ciências da
Computação. Depois saiu a legislação dificultando a abertura de universidades e
criamos o centro universitário. Existe a idéia, mas por enquanto está deixada de
lado. Nós estamos preocupados em, agora, abrir mais cursos novos e também
dar condições físicas, as construções, por isso nós estamos começando agora o
Centro Esportivo (Assessor, UNI1).
A universidade ficou na nossa visão, mas por enquanto nós estamos dando mais
força para sermos reconhecidos pela excelência do ensino. Ficamos com o
termo excelência, por que é um termo que tem na lei, [atuamos] na pesquisa e
na extensão, procurando dar mais ênfase ao ensino e à extensão do que à
pesquisa (Reitor, UNI1).
comemoração pela expansão, fruto da nova oportunidade institucional e da autonomia que lhe
quanto às perspectivas institucionais, e isso se deve, em grande parte, a fatores externos: falta
a ausência de uma tradição da instituição que tivesse conduzido ao perfil institucional atual.
Excelência
muitas vezes, termina por ser desvalorizado, já que é pouco preciso. O esforço para dar um
significado ao termo mostra as diferentes concepções que os dirigentes possuem sobre o que é
216
O centro universitário tem que se caracterizar pela excelência de ensino, mas
excelência é um adjetivo que se coloca, excelência de ensino, qualidade de
ensino, seriedade de ensino, são adjetivos. O que tem que acontecer é ensino, as
pessoas que vêm, aprendem, e que haja alguém que ajude a aprender, que
aprenda junto. [...] Mas no fundo é isso, se o aluno aprende, o ensino é
excelente, se não aprende, não é tão excelente, mas eu acho que é só um
adjetivo (Pró-reitor, UNI1).
Excelência é fazer tudo certo da primeira vez, e isso é impossível, eu diria que
para nós está muito mais voltado à preservação da qualidade e para nós
qualidade de ensino hoje não precisa ter lei nenhuma, ou você tem ou você está
fora do mercado, os alunos vão para outro lugar. Nesse sentido o que nos
auxiliou muito foi, de certa maneira, esse ranqueamento, aspas, do que o provão
do MEC conseguiu trazer (Coordenador de curso, UNI2).
Buscando traduzir a compreensão do que seja o ensino a ser proporcionado pelo centro
universitário, há crítica à definição legal e há, até mesmo, questionamento quanto ao conceito
que o funda, já que as IES não são desafiadas a proporcionar conhecimento na forma de
pesquisa aparece como requisito. O dirigente questiona, a partir da definição legal, o caráter
Não pode haver excelência de ensino se não tiver pesquisa. Eu penso que uma
pessoa só consegue ter uma boa qualidade dentro da sala de aula, nos seus
trabalhos, ou mesmo fora da sala de aula se ela tiver uma certa autonomia
teórica que adquire através da pesquisa e da capacidade de dialogar com as
pessoas que pesquisam na mesma área. Portanto, a possibilidade de alguém ter a
autonomia é o pressuposto para se trabalhar o ensino é a pesquisa. Eu penso que
os centros universitários da forma como eles estão sendo propostos, eles não
217
podem atender aquilo que de fato deveriam atender, que é o Ensino Superior
(Coordenador de Curso, UNI1).
No centro universitário UNI1 aparece, com certa ênfase entre os entrevistados, a idéia
de que o ensino de excelência necessita de aliança clara com a pesquisa. Essa ótica converge
Eu penso que nós temos que ser, ao mesmo tempo, pessoas que tenham a
sensibilidade e o engajamento nas questões atuais, mas nós temos que conhecer
a nossa tradição. Qualificado só se pode ser se nos alicerçarmos naquilo que é
tradicional. [...] é o lugar positivo a partir de onde nós nos legitimamos. Saber
dizer o que faz parte das nossas tradições, o nosso ethos, a nossa cultura. Isso é
a nossa tradição, nós não podemos negligenciar por causa de uma simples
necessidade de atender exigências do ponto de vista de uma razão mais
instrumental (Coordenador de Curso, UNI1).
diálogo com o meio acadêmico que pesquisa, sendo assim um tipo característico da produção
O depoimento abaixo apresenta a segunda posição, mas admite que existem correntes
218
Pós-graduação
necessário considerar, entretanto, que a legislação sobre a oferta desses cursos é pouco
exigente, inexistindo qualquer forma de avaliação externa por órgãos estatais. De qualquer
A UNI1
de diversificação de ofertas que ocorre nas IES e com um sentido bastante amplo. Ocorre a
oferta de um curso stricto sensu em aliança com a Universidade Federal e grande parte do
público é composto por professores do centro universitário que o promove. A oferta mostra
Eles trazem o mestrado para cá, uma parte é feita aqui e outra lá. Nós já fizemos
uma edição com eles, agora vamos fazer uma nova edição. Como ele é feito
com a federal, ele é aberto ao público externo, então todo mundo pode se
habilitar a fazer esse mestrado. [...] Perspectiva de stricto sensu estamos
discutindo com a priorização de uma linha de pesquisa para formatar um
programa de pós-graduação para oferecer um mestrado próprio. [...] foi quase
um ano de estudo para conhecer todas as regras e normas, quesitos de titulação,
quais são as revistas que tem que equalizar, crescer para se publicar e tudo isso
(Coordenador de curso, UNI2).
219
Convergindo com a afirmação anterior e fortalecendo a convicção de que a oferta de
stricto sensu é uma perspectiva de curto prazo, há declarações de outro dirigente do UNI2.
tornar-se universidade que faz viabilizar o investimento em stricto sensu, mas sim o desejo de
O stricto sensu está sendo visto sempre na visão de centro universitário, não
estamos com isso dizendo que nós vamos ser universidade, como também não
estou dizendo que não vamos ser [...]. O strictu sensu vai ser, essa é uma idéia
que eu defendo junto aos meus pares, algo que vai fazer a instituição ser
conhecida para além de sua região, para além do seu estado. Mas, ele vai partir
da necessidade de um centro universitário que se dá dentro da qualificação do
ensino ou do desenvolvimento regional (Vice-reitor, UNI2).
concretas em dois sentidos. Um, voltar-se para qualificação do ensino e, outro, agir
Pesquisa
preocupação e, de certa forma, como prática por parte de dirigentes de centros universitários.
220
fato e mostram também que há ações concretas, embora as dificuldades para se investir nesse
Principalmente de uns dois anos para cá, buscamos identificar de uma forma
mais clara as linhas de pesquisa dentro da área, inclusive em vista de um
possível mestrado para o ano que vem certamente. Tentou-se ver as linhas de
pesquisa e, portanto, hoje em dia se tenta sempre vincular os cursos de Pós-
Graduação a linhas de pesquisa dentro da instituição. Inclusive as pesquisas dos
cursos de Pós-Graduação terão que tratar questões locais de uma certa forma e
dentro das linhas de pesquisa da instituição (Coordenador de curso, UNI1).
[Na pesquisa] nós trabalhamos de duas formas distintas. Uma é abrindo espaço
ao novo, então dá a liberdade para o professor pesquisar a área que ele bem
entender, porque se a gente limitar, amarrar, engessar demais a pesquisa, não sai
nada de novo. A outra, sai nos editais as linhas de pesquisa que contemplam os
cursos que a instituição tem, não todos, os principais cursos e as principais áreas
que ela tem, então por exemplo, na minha área aqui tem linhas de pesquisa que
trabalham com planejamento, gestão e contabilidade. Isso é uma linha de
pesquisa, então dentro disso, a gente desenvolve a pesquisa do departamento.
221
[De qualquer maneira] ela deve contemplar o retorno desse conhecimento à
graduação e à pós-graduação também. Ela tem que ter vínculos com a
graduação, principalmente (Coordenador de curso, UNI2).
interpretação sobre o que e como privilegiar o trabalho acadêmico vem das condições que as
mas também vem da observação crítica sobre universidades que investem em pesquisa e
integrando mais fortemente os dois tipos de atividades e contribuindo, com isso, para
aprimorar o próprio trabalho acadêmico. Isso se traduz também em disposição para constituir
acadêmico.
[Uma mudança] que chama atenção é que houve uma participação maior do
aluno, por exemplo, nessa parte de pesquisa, o que não existia antes. Porque
como não existia pesquisa, não havia a possibilidade de existência de bolsista de
iniciação científica. Hoje em dia há esta possibilidade e há a participação dos
alunos nas pesquisas dos professores, o que caracteriza já um processo mais
avançado. Na época da Faculdade, não havia essa possibilidade e essa mudança
surgiu também, por exemplo, com um programa de monitoria (Coordenador de
curso, UNI1).
ênfase a ser dada para esse tipo de atividade. O entrevistado expõe a idéia de que é algo em
construção.
222
Nós temos também aqui 4% do orçamento destinado a pesquisa, mas isso gera
conflitos, discussões. O dinheiro que se tem é um só e essa pesquisa tem de
contribuir sempre para a melhoria do ensino. [...] É um processo e é difícil
decidir que tipo de pesquisa deve ser, de fato, priorizada e quanto é que vamos
investir na pesquisa, nós sabemos que sim, pesquisa tem que existir (Pró-reitor,
UNI2).
possível ver que a discussão fica em torno do quanto investir, qual objeto de estudo privilegiar
e, isso pode variar enormemente. Porém, fica explicitado que a idéia de pesquisa e de uma
atividade que trata muito mais de conhecimento de realidades locais, de problemáticas ligadas
realidades sobre as quais se possa agir. Nesses termos a pesquisa traduz concepção e
universitários.
Extensão
As dificuldades e avanços para dimensionar o que seja pesquisa nas IES também se
223
Quanto à extensão, temos uma extensão muito desenvolvida aqui na instituição
esta extensão que se volta para a região para atender a demanda regional. A
pesquisa mais facilmente aproxima do ensino, mas a extensão tende, muitas
vezes, a atender outras demandas. Alunos envolvidos com a extensão, claro que
existe, mas não sei se dá para dizer que é tão generalizado (Pró-reitor, UNI2).
É interessante ver que essa IES tem como ponto alto de suas atividades de extensão os
que a extensão aconteça muito mais através de convênios institucionais onde a IES e seus
docentes são solicitados a prestar serviços, situação em que os estudantes muitas vezes não
são incluídos. Ainda, na mesma IES há presença da concepção de que é a partir da extensão
que se mantém um vínculo indispensável com o mundo social sobre o qual a IES atua.
reitorias responsáveis: uma, acadêmica e, outra, comunitária. Trata-se da IES confessional que
atua com programas de caráter social, numa política de atendimento e inclusão de segmentos
sociais específicos.
comunitária, essa situação apresenta o fato de que o campo de ação da educação superior é
cada vez mais amplo e, nesse caso, aplicado a demandas sociais e locais. A organização da
224
instituição de educação superior com duas pró-reitorias responsáveis pelo extensão pode gerar
serviços, mas a situação expõe também a ampliação das funções dessas IESs na atualidade.
Esse é o nosso foco atual, existe uma intenção de crescimento pela capacidade
que temos, o espaço que temos, pela vocação de Universidade na cidade, por
que aqui não temos a idéia de campus grande. Nós temos um espaço pequeno e
próximo à estação do trem urbano. Isso faz também ter uma vocação nesse
estilo, uma vocação também de estar ligado à cidade, ligada à formação da
cidade e isto pesou muito nas decisões, tanto internas, quanto da mantenedora.
[Não queremos] sair daqui para criar um campus fora ou comprar uma área e
criar uma outra unidade (Reitor, UNI1).
E o outro foco que nós temos trabalhado bastante é justamente essa idéia da
Universidade que procura se desenvolver junto com a comunidade local, na
relação de serviços que ela pode prestar. Nós acabamos de inaugurar o prédio
que chamamos UNI1/Serviços[...]. Tem a incubadora tecnológica, junto com o
município estamos desenvolvendo o centro de empreendedorismo da [cidade],
onde o espaço inicial é para vinte cinco empresas incubadas. [...] Se deseja um
centro universitário interligado fortemente com as demandas locais (Reitor,
UNI1).
225
O atendimento à comunidade local traduz-se em compromisso com o desenvolvimento
bem como de qualificação técnico profissional. Essa idéia ganha força quando o dirigente da
UNI1 a vincula com o que entende ser papel dos centros universitários.
para formação técnica, isso num nível de educação que não estaria na categoria de educação
superior.
que a instituição também se volta para atividades de nível pós-médio, com relativa
226
Pedagogia, vai se montando um currículo de acordo. [Como instituição o]
grande objetivo sempre foi ocupação desses espaços que ficam em aberto [...] O
curso técnico não é superior, ele é profissional pós-médio e nós estamos
procurando avançar sempre mais. [...] Estamos vendo com as prefeituras, com
os municípios novas sugestões, o que é que o pessoal precisaria, propostas bem
interessantes. É mais barato, é mais rápido (Pró-reitor, UNI2).
pesquisados. Há, por um lado, a compreensão de um alto dirigente (UNI1) de que a missão ou
identidade desse tipo de IES passa por investir fortemente em cursos técnicos e em cursos
seqüenciais. Na outra IES (UNI2) a compreensão parece ser mais prática, já que há demanda
Essa tendência de valorizar cursos técnicos e seqüenciais, comum às duas IES, revela
um traço que indica a constituição de identidade não acadêmica. O traço colabora para que a
identidade dos centros universitários esteja mais ligada a um nível de escolarização pós-médio
e intensivamente ligada a demandas do mercado. Essa prática converge muito mais com a
noção de educação terciária (BM e OCDE) do que com a noção de educação superior ver
Capítulo 1).
que possui acesso recente ao ensino superior. O crescimento dessas instituições, é provável,
absorve um público, cuja primeira geração familiar conseguiu acessar esse nível de
escolarização. Evidente que essa característica não é genuína apenas desse tipo de IES, mas
227
dos estudantes, já que a comparação é feita com o período em que a IES oferecia cursos
[...] está havendo uma redução, bastante grande da idade dos alunos, em função
dos cursos também, que são cursos com maior apelo mercadológico. Agora
abriu Engenharia de Telecomunicações, é um curso diferente dos antigos
Estudos Sociais, Pedagogia, enfim. Antigamente eram pessoas com mais idade
ou eventualmente, pessoas que queriam seguir carreira docente. Em geral eram
pessoas com mais de 25 anos para cima (Coordenador de curso, UNI1).
matrículas.
Poucos alunos são os que conseguem fazer no tempo previsto, quatro anos,
quatro e meio. O dado que tenho é que 80% fazem, em média, três disciplinas,
três noites (Pró-reitor, UNI1).
ofertar financiamento próprio. Os recursos são muito limitados, mas a declaração revela
[...] Nós temos nosso financiamento da instituição que é pouca coisa, devemos
ter lá em torno de 1 milhão de reais envolvidos em financiamentos, onde nós
não cobramos juros. O FIES cobra 9%. O aluno quando devolve, depois de
formado, devolve só o crédito atualizado, só que é muito pequeno o nosso
recurso. [...] nós estamos trabalhando junto ao setor privado, principalmente,
para engrossar esse fundo, para juntar mais recurso (Vice-reitor, UNI2).
O conjunto de elementos até aqui permitem ver traços que compõem a identidade das
duas instituições. Entende-se que, apesar de significativas diferenças entre elas, há pontos
228
bem como o esforço e o interesse institucional para que sejam preenchidas. Nesse sentido, o
tipo de seleção social ocorre em grande parte pela identidade regional na UNI2 e pela
promovida por essas IESs, por sua vez, responde pela formação de pessoas que possuem
com a localidade. Mesmo para UNI1, localizada numa região urbana de grande porte, há
esforço no sentido da integração com demandas da cidade onde se localiza, por exemplo,
enquanto que na UNI1 há ações crescentes nesse sentido. Essas características permitem
supõe a IES ligada às demandas locais e organizando-se internamente com base em decisões
colegiadas. Por outro lado, caracteriza-se pelo empenho em responder às demandas regionais
forma de identificação dos centros universitários com demandas regionais e locais aparecem,
nas práticas institucionais, de formas distintas. Além disso, as concepções e as práticas que
dão vida a cada uma das instituições não podem ser reduzidas a um modelo.
Dessa maneira, vê-se, em segundo lugar, que nessas IES, há investimento no ensino
intenção e esforço para que isso se efetive, no caso da UNI1. Quando essa modalidade de
ensino é posta em prática, a seleção dos indivíduos que comporão o quadro de estudantes
ocorre com base no critério de identificação estrita com um fazer técnico, ficando em segundo
plano a busca e a promoção de uma formação de educação superior, promotora de ótica mais
universalista sobre a sociedade. Como resultado desse tipo de ação, as IES atuam no sentido
229
de ofertar força de trabalho técnico e indivíduos com formação específica, voltada para
produção no mercado. Essa situação aparece no caso dos cursos seqüenciais e técnicos,
citados pelos entrevistados. Neste aspecto, há interligação com identidades regionais, mas a
ênfase está no desenvolvimento econômico produtivo da região e a relação mais direta ocorre
Tendo sempre presente que os centros universitários não se constituem como fruto de
algum modelo teórico ou abstrato que pudesse sintetizá-los, cabe lembrar que, na medida em
pequeno porte, há tendência também a adotarem elementos de IES classificadas como típicas
de recursos especificamente para esse fim, aspecto que não aparece em IES típica de massa,
esses casos são pouco seletivos acadêmica e financeiramente e também fornecem grande
número de titulados em busca de especialização e de cursos lato sensu para obter chances em
suas áreas no mercado. Com isso vê-se aproximação da realidade em questão com um terceiro
tipo abstrato.
também não há evidências que as relacionam com o modelo de mercado, uma vez que este
supõe crescimento rápido com alta expansão geográfica, em projetos de grandes instituições,
230
5.3 Educação superior nos centros universitários e legitimidade pública
formação profissional. Essa característica não é algo inusitado, tendo em vista a tradição de
ensino superior no país e considerando as trajetórias anteriores dessas IES. De outra parte, o
fato de oferecerem cursos que formam para profissões, alimentando diretamente o mercado de
mantenedoras.
mantenedoras, por sua vez, não têm perdido a oportunidade de crescimento de suas mantidas
Cabe interpretar como os centros universitários têm entendido e praticado sua nova
país e de necessitarem ter sua natureza acadêmica claramente definida a fim de contribuírem
para a organicidade desse sistema. Os casos estudados mostram que não há clareza sobre o
autonomia é o traço marcante, tendo se constituído, em primeiro lugar, como autonomia para
expandir-se e para abranger uma fatia maior do mercado do ensino superior. Entretanto, essa
sobre a atuação estatal que regula o novo tipo institucional, como também no debate com
outras IES em torno das disputas sobre a própria existência de autonomia para esse tipo
231
institucional. Enfim, a discussão sobre autonomia dos centros universitários é muito distinta
daquela que ocorre em torno das universidades públicas. De qualquer maneira, ela tem
Essas IES não possuíam, em suas estruturas anteriores, uma tradição própria e
adotavam como unidade básica o departamento. O fato é que, não possuindo estruturas
mais fácil dinamizar mudanças internas. Assim, há agilidade para reorganização interna,
referenciais de organização como, por exemplo, os centros que congregam representações dos
Embora não tenha aparecido de maneira formalizada, há esforço no sentido de criar também
mecanismos horizontais de organização interna aos cursos, com integração entre disciplinas
em educação superior. As IESs não têm encontrado dificuldades na titulação dos contratados,
visíveis dificuldades pedagógicas dos docentes. Para fazer frente a demandas de qualificação
do ensino, têm aparecido com freqüência a iniciativa de qualificar docentes seja através da
232
Outro importante elemento capaz de revelar características da dimensão institucional é
preocupação com a obtenção dos melhores resultados e estes são vistos como promotores da
IES junto à sociedade. Entretanto, nas duas instituições aparecem questionamentos sobre as
superior. Esse fenômeno fica registrado tanto através do ENC, como também pela ação das
comissões de especialista. Os centros universitários são IES que conceitualmente são distintos
Quanto à dimensão acadêmica viu-se que não é clara a idéia de excelência de ensino e
que há esforços no sentido de dar-lhe um significado mais preciso. Os resultados do ENC são
preocupação em buscar alternativas para garantir condições acadêmicas que viabilizem uma
qualidade desejada. Entre os dirigentes aparece, em vários situações, a idéia de que a pesquisa
Aqui cabem duas observações. Primeiro, entre dois dos maiores dirigentes das IES
eleitas, a pesquisa não se coloca como uma atividade fundamental (Reitor, UNI1 e Vice-
reitor, UNI2), contraditoriamente ao fato de que uma delas (UNI1) pretende tornar-se
universidade. Segundo, a noção de pesquisa, que aparece como elemento importante entre os
entrevistados, não é unitária. Identifica-se pelo menos duas maneiras de compreendê-la. Uma,
que entende a pesquisa como atividade decorrente do ensino e voltada para ele. Nesse caso a
233
pesquisa aparece muito mais como uma atividade acadêmico-pedagógica, como recurso
pesquisadores. Aqui cabe também a idéia de que o possível avanço metodológico da pesquisa
só poderia ocorrer na área da educação, pois apenas nessa área caberia pós-graduação stricto
sensu.
procurando definir linhas de pesquisa que possam constituir tradição investigativa no futuro.
O investimento em atuação docente desse gênero, é possível, possa formar grupos para
ensino e para além da sala de aula. Essa interpretação tem como referência o fato de que a
pesquisa em universidades típicas, muitas vezes tem seguido uma trajetória de desvinculação
com o ensino, como aponta Boyer (1997). A preocupação em estabelecer uma relação efetiva
entre ensino e pesquisa, de forma que o primeiro beneficie-se dos métodos da segunda parece
requerer algo específico: o desenvolvimento de pesquisa com rigor metodológico por parte
dos docentes e o envolvimento direto do maior número possível de estudantes com essa
atividade, de forma a ir além das atividades de sala de aula, porém, sem negar a vinculação.
234
Esse caminho, embora não seja nítido, parece estar sendo traçado como um recurso para
maiores parecem vir do histórico de constituição de cada uma das IES e de suas
Com base nos critérios estabelecidos para analisar a legitimidade pública relativa aos
centros universitários estudados, afirma-se que o seu desenvolvimento foi precário. Primeiro,
a identidade acadêmica dos centros universitários não se explicitou com clareza, embora
formato acadêmico próprio, se assim fossem assumidas pelo conjunto de agentes que
compõem as IES. Os movimentos num e noutro sentido, no interior dessas IES, dependem
235
se sentido da garantia da sobrevivência institucional, mais do que a busca de definições sobre
superior brasileiro, ocorrem problemas expressivos. Nesse campo o questionamento foi forte,
durante o ano de 2003, por parte de universidades privadas numa clara disputa no mercado de
colocar em xeque o tipo de instituição no sistema. De qualquer maneira, desde 1997, o meio
acadêmico que pratica pesquisa e aquele que entende ser legítimo apenas o ensino superior
público e gratuito, oferecido pelo Estado, olham com desconfiança para esse novo tipo
institucional.
Embora o modelo de universidade de pesquisa no caso brasileiro não seja tão comum
fato, há motivos para desconfiar da qualidade acadêmica na educação superior brasileira. Não
IES. Com isso, antes de defender um ou outro tipo institucional, entende-se que seja
acadêmicas específicas, que dessem origem a um novo tipo institucional, mas terem sido
existente em IES isoladas, fez com que o novo tipo já nascesse sendo questionado. Não houve
uma discussão ampla sobre o sistema de educação superior e seus tipos institucionais.
Ademais, é possível que não houvesse condições políticas para tanto no interior do processo
de reforma política implementado pelo governo à época. Entretanto, esse fato contribuiu para
236
que o lugar acadêmico a ser ocupado pelos centros universitários ficasse em aberto. Disso
resulta a falta de afirmação de uma identidade própria e de um lugar claro no sistema, situação
acesso por parte de populações locais e por parte de segmentos específicos da sociedade
aparece nas práticas das instituições estudadas, ocorrendo de maneira muito própria na sua
Nos dois casos estudados, a população que mais amplamente tem procurado as vagas
baixa renda, necessitando combinar estudo e trabalho. De fato, essa não é uma novidade e por
si só não caracteriza pertinência. Na medida em que se amplia o acesso ao sistema, como tem
ocorrido, os novos ingressantes são oriundos de trajetórias familiares que não possuem
tradição de escolarização superior e/ou não possuem facilidades no financiamento desse nível
educacional.
Paralelamente, nas duas IES não aparece a adoção de políticas afirmativas no âmbito
institucionais que promovem ações de interesses e repercussão social. Isso ocorre, por
terceira idade ou com crianças de periferia na praça, bem como atividades junto a
Nesse caso, as ações estão no âmbito das atividades de extensão. Além disso, evidentemente
social e de pertinência.
conquistar saídas diante das dificuldades encontradas por inúmeros estudantes no processo da
237
vida acadêmica. É lógico crer-se que as IES possuem o interesse em evitar evasão, em criar
condições adequadas para que os estudantes alcancem o fim almejado com a qualificação,
bem como a obtenção do diploma ao final do curso. Aliado a esse propósito, existem ações
auxílio na qualificação, conforme necessidade. Esse trabalho é realizado através dos Núcleos
classificados como um tipo de atenção que vai além daquilo que se espera como atividade de
uma IES, oferecendo inclusive atenção a problemas de cunho emocional. Por outro lado, os
indivíduo que está exposto a um desafio maior do que pode enfrentar sozinho e que necessita
de estímulo para atingir os objetivos propostos pelo curso e pela vida acadêmica.
financiamento estudantil por parte da IES. Como já foi exposto, diante de limites do
empréstimos aos estudantes, e promete ampliar os valores, buscando apoio no setor privado.
essas iniciativas são limitadas e estão distantes de viabilizar inclusões na proporção necessária
e/ou desejada para atender necessidades dos estudantes matriculados nessas IES. Por outra
parte, elas constituem caminhos muito concretos por onde se pode visualizar processos de
238
Diante do exposto, vê-se que existem ações muito identificadas ao tipo de atuação de
IES de pequeno porte e comunitárias. Parece haver uma identidade muito mais vinculada ao
tipo comunitário do que a um tipo centro universitário. Isso ocorre pelo porte das IES
investigadas e pela vinculação local que possuem e se esforçam por afirmar. Mesmo a IES
confessional, que expõe tomadas de decisão numa condição hierárquica mais rígida – por
tipo de atuação que tem dado espaço para avanços do ponto de vista de uma maior integração
crescente que deriva não apenas de aprimoramentos na regulamentação legal, mas também
dos processos internos e de seus embates com os questionamentos do meio externo. Nesse
contradições oriundas dos embates e das transformações, suas atuações podem contribuir para
entrelaçando de maneira própria ensino com práticas de pesquisa. Efetivamente isso pode
futuro, o qual poderá manter o nome centro universitário ou não, mas indica possibilidade de
239
identidade institucional própria só se efetivaria com definição de identidade acadêmica e esta
A distinção aqui indicada, para obter legitimidade pública, não poderia ser no sentido
240
Capítulo 6 - Educação superior e caráter público no contexto da
diversificação e da reforma
e dificuldades para se afirmar um caráter público da educação superior tal como foi aqui
institucional e acadêmica em casos concretos, mas também requer que se trate de outras
obedecendo a lógicas mais amplas, das reformas estatal e educacional. Entretanto, é a relação
dessa realidade com os acontecimentos concretos nas instituições que define possibilidades e
241
6.1.1 Identidade acadêmica e legitimidade no sistema: presença das políticas
estatais
presente e que isso se constitui num fator de preocupação por parte dos agentes que as
por construir uma identidade institucional, porém o problema que se coloca vai além da
iniciativa destes sujeitos. A questão que necessita atenção parece estar localizada no sistema
de educação superior. Este não está organizado de maneira clara, a fim de estabelecer o que se
teve uma motivação prática imediata por parte dos agentes das decisões políticas: ampliar,
avaliação externa, inferior ao das universidades. Eles são avaliados de forma recorrente,
centro das decisões político-estatais houve menos preocupação com o tipo de educação
superior e de identidade acadêmica que lhe deve ser inerente e mais preocupação com o
242
desse crescimento. Salienta-se que essas práticas das políticas estatais, entretanto, não
internacionalizante, a qual foi aqui classificada como liberal utilitarista (Capítulo 3). Os
número possível de pessoas no sistema. Para isso seria indispensável avaliar, desde critérios
identidade de suas IES. Evidentemente que esse não seria um debate sem grandes disputas de
institucionais.
119
Chamando atenção para a fragmentação regulatória, Nunes et al. (2001), registra o poder que as corporações
profissionais possuem sobre a definição das características dos cursos superiores, sem que haja um ponto de
partida comum ou uma política mais abrangente que oriente a qualificação necessária à educação superior
brasileira. O autor mostra que há exigências detalhadas para organização dos cursos e das IES que pouco tem
favorecido a qualificação e mais tem afirmado a fragmentação profissionalizante dos cursos. Como exemplo
aparece a exigência, dos avaliadores, nos cursos de Direito de um “acervo atualizado, com o mínimo de dez mil
exemplares de livros jurídicos, para cada grupo de mil alunos (...)” Para o curso de Administração é preciso ter
“1.600 títulos, dos quais 50% devem ser editados a partir de 1990”. “Já em Economia, fala-se em cobertura
adequada de bibliografia adotada no curso, com pelo menos cinco mil títulos” (NUNES et al. 2001, p. 25-26).
243
- foi o principal órgão promotor de uma relativa identidade sobre procedimentos e
características que definiriam a vida dos centros universitários (Capítulo 4). Os seus pareceres
e resoluções foram criando, aos poucos, um formato bastante difuso, mas capaz de fazer
avançar alguns referenciais sobre como organizar a vida acadêmica dessas IESs. É verdade
para estudantes sem que houvesse atividades de pesquisa, em algum nível, para docentes.
Tudo isso faz parte do processo contraditório e permeado de disputas econômicas, políticas e
centros universitários são instituições que obtiveram recentemente um status superior àquele
sentido de expansão e o objetivo de qualificação, porém isso ocorre sem que haja discussão
sobre o sistema de educação como um todo e, assim, cria-se um importante empecilho para a
educação superior fossem por si só além daquilo que as políticas estatais encaminham quanto
educação superior. Como se sabe, as lógicas de mercado são estritas e têm objetivos muito
bem definidos. Entretanto, a necessidade de luta pela sobrevivência das IES, a fim de
firmarem seu espaço num mercado competitivo, aliado a uma tradição cultural de organização
comunitária do ensino superior, própria da região, permite ver que nos casos em questão há
244
busca de constituição de identidade através de lógicas competitivas que visam ir além do
mercado.
contribuições para ampliar o acesso ao ensino superior, contando-se com características que
contribuem para formação de sua legitimidade pública. Nesse caso, interpreta-se que as ações
utilitarismo de mercado. Entende-se que, com base na noção de pertinência (UNESCO, 1999)
propiciar acesso ao conhecimento cultural e científico, indo além de uma formação básica
Cabe salientar que não se adota uma visão idealizada sobre o caráter da educação
que pode ser básica para sobrevivência no sistema; há empenho para o desenvolvimento de
universidade e fazendo parte das políticas de diversificação que, em variados níveis visam a
acadêmica qualificada. Esta, entretanto, teria de ir além dessa lógica vigente, promovendo, de
245
fato, conhecimentos e habilidades próprios de uma educação superior formadora no contexto
Essa formação requer que se ultrapasse o ensino voltado para formação profissional e que se
realidade, bem como metodologias para sua apreensão e registro. Tudo isso é útil para vida
pública dos estudantes, especialmente quando se trata de novas camadas sociais ingressantes
O desafio reside em garantir acesso não somente a vagas e a diplomas, mas sim acesso
ao conhecimento social em sentido ampliado como é próprio do fazer acadêmico. Esse fazer
acadêmico possui sentido científico, cultural e sócio-político, este último remetendo à idéia de
Essa interpretação ganha força quando se tem como referência o fato de que os
estudantes que têm sido incluídos no setor privado do ensino superior não são aqueles que
pertencem a camadas com expressiva trajetória na escolarização formal. Em geral, são novas
camadas, cujas gerações anteriores não tiveram essa oportunidade e que, portanto, terão uma
para realização do acesso a bens sociais e, com isso, cumprindo importante aspecto do caráter
246
Viu-se (Capítulo 5, especialmente no item Dimensão de Competitividade) que as IES
práticas de ensino primordiamente voltada para a produção ou para a obtenção de uma vaga
no mercado de trabalho.
distinta nas duas IES estudadas devido às suas origens. Ele aponta para democratização de
relações internas, tanto na sua organização institucional, como na relação com o mundo
social, na medida em que procura trabalhar sobre demandas locais e/ou regionais. Além disso,
pela sua vinculação com realidades concretas, permite o contato com situações problemáticas,
problemas. Esse traço apareceu nas duas IES estudadas, mostrando potencialidades para o seu
aprimoramento.
formação para o mercado de trabalho, mas requer qualificação dos estudantes a partir de uma
vida acadêmica que possa oferecer um conceito mais amplo de educação, ligando-a à cultura e
à formação ético-social.
247
Sustenta-se que esse tipo de IES, nominado de centro universitário ou não, ocupa um
ponto de vista da obtenção de legitimidade pública de sua condição institucional. Para isso
seria necessário implementar, a partir da compreensão dos agentes que pensam a vida
aprofundamento desses traços nas IES estudadas constatou-se que existe e que tem sua origem
Esta investigação permitiu ver que na prática acadêmica do centro universitário seria
efetiva educação superior, as IES estudadas têm potencial para efetivar núcleos de formação
pesquisa. Estes seriam capazes de multiplicar o seu conhecimento sobre pesquisa, orientando
248
investigação, análise e publicização dos resultados, visando a projetos de intervenção nos
poderiam prescindir da valorização dos clássicos e/ou universais, mas teriam uma
só para realização dos estudos, mas para construção de capacidades e habilidades, visando à
pesquisa para que fosse possível contar com parcela do quadro de docentes como
universidade de pesquisa. Esta, por natureza, é elitista e não se imagina que pudesse ser
institucional para a pesquisa que precisa possuir, nesses casos, consistência acadêmica e
pertinentes (UNESCO, 1999) estaria sendo promovida, já que pressupõe que a educação
249
superior precisa ser válida do ponto de vista social e precisa integrar ou ir ao encontro para
realidade investigada e que chama atenção, de acordo com o foco do presente estudo é a
demanda por conhecimento qualificado e útil para que os indivíduos possam participar da
capazes de se pensar a si e a sua vida social. Os grupos sociais e os indivíduos que garantem o
tivessem acesso ao conhecimento proporcionado por instituições que tenham clara identidade
da promoção técnica utilitária restrita ao mercado, como também negar visões essencialistas
institucional
O esforço deste estudo foi no sentido de interpretar o caráter público do atual processo
que esta tem por base a expansão do setor privado e que se realiza, entre outros meios, através
institucional na educação superior, uma tendência internacional, possui caráter público frágil
e está presente no caso brasileiro, expressando-se nos centros universitários, os quais não
250
embora situem-se em um marco legal de definição crescente e tendam a aprimorar-se
academicamente.
A noção de público com a qual se trabalhou não partiu e nem buscou perspectivas ou
posturas essencialistas sobre a realidade, mas visou, isto sim, a identificar processos e
procedimentos compatíveis com o agir público. Nesse sentido, não se ignorou o fato de que o
num contexto adverso, interpretar a realidade, explorando aspectos que fugissem a verdades já
reconhecidas.
A realidade que se expôs sobre a educação superior é constituída (1) pela reforma
mercado e da lógica de investidores privados, (2) pelo setor privado, devido a sua importância
no sistema nacional, mas também por constituir-se num segmento onde não se encontraria a
priori a noção de caráter público e, finalmente, (3) pelo caso dos centros universitários, os
universidade.
Buscou-se verificar formas de acesso que permitissem ver não só acesso a vagas e ao
mercado que são restritivos, mas também acesso a bens culturais e a conhecimentos clássicos
2000). Entende-se que esses elementos traduziriam um tipo de pertinência social para as
atividades desenvolvidas pela IES. O estudo mostra que não há predominância de caráter
público a partir da noção de público com a qual se trabalhou, porém mostra também que há
251
condições para que a vida acadêmica possa ganhar reconhecimento e proporcionar formação
O caráter público e democrático, tal qual compreendido por Santos (1999 e 2000) não
superior brasileiro, e isso se deve, além de outros fatores igualmente importantes, ao fato de
culturais e sociais (SANTOS, 1999 e 2000; ARENDT, 2000; UNESCO, 1999). É necessário
garantir que os indivíduos possam ir além da simples absorção desses traços culturais e
poderia residir apenas na obtenção de reconhecimento social por parte de instituições que
componham o modelo único ou seu contrário, o modelo diversificado (Capítulo 4). O limite
para aqueles que venceram a disputa mercadológica das vagas, está definido pela ausência de
formação profissional capaz de dialogar com as outras lógicas de vida, que os novos
estudantes trazem consigo. A noção de pertinência, nesse caso, significaria encontrar formas
contemporâneo, tornando-se uma condição de honestidade por parte das IES com os
252
indivíduos que buscam acesso e se autofinanciam, bem como com a sociedade como
acontecer de forma consensual pelo simples fato de que os interesses e as perspectivas dos
seu sentido público na sociedade atual, entende-se necessário estar ao lado das forças sociais
que não aceitam educação superior como resultado de forças competitivas de mercado
identidades diversas, não pode dispensar sua natureza crítica e reflexiva sobre a realidade
estão restritos a centros universitários. Eles se manifestam nos casos estudados, mas poderão
realidade das disputas de interesses entre agentes representativos dessas IES, analisada
253
6.2.2 Diversificação institucional e reforma política
Como se pode ver neste estudo, a legitimidade da instituição que serve de referência
para pensar a história da educação superior, a universidade, foi colocada em questão. Isso se
explica por diversas razões, havendo uma relação direta com as tendências de massificação no
relativizado, questionando-se sua capacidade de servir como modelo viável para um processo
de pesquisa, tal qual foi definida como tipo-ideal neste estudo (Capítulo 4). O problema,
viabilizar, numa única instituição, a pesquisa na sua qualidade maior e o ensino na sua
educacional como investimento do setor privado, o qual está intensamente vinculada à lógica
(Capítulo 1), mostram que o fortalecimento do setor privado é um fato e que, além disso, os
claramente, não só nas exposições de argumentos e nos documentos, mas também nas práticas
dos agentes estatais e sociais. Esse sentido fortalece, em vários níveis e por diferentes
caminhos, a afirmação da lógica privatizante da reforma. Isso pode ser visto naquilo que se
254
torna hegemônico através (1) das recomendações dos organismos internacionais; (2) das ações
políticas estatais; (3) da atuação de agentes institucionais privados; (4) da ação dos
superior, para cumprir seu papel na sociedade, necessita proporcionar conhecimentos que
possam contribuir para os indivíduos, para os grupos sociais e para sociedade, e isso requer
realidade mais ampla na qual se inserem esses agentes de atividades técnico-econômicas, que
são também culturais, políticas e sociais. Um sistema de educação superior que conte com
único que pretenda ter uma identidade de universidade de pesquisa. A questão está localizada
muito mais no esforço por viabilizar acesso ampliado a outros níveis educacionais com a
condição de que o conhecimento acadêmico não seja substituído por uma formação
mesmo de indivíduos.
é idêntica ao conceito de educação superior. Este requer qualidade acadêmica, que se traduz
120
Além das chamadas universidades corporativas, universidades virtuais, universidades de franquias a noção de
educação terciária admite outras instituições como: companhias da mídia, bibliotecas, museus, editoras que
oferecem serviços de design de currículo e preparação de material educacional para oferta on-line, também
museus e bibliotecas que oferecem cursos de educação continuada. Ainda, há agentes educacionais que são
empreendedores virtuais que se especializaram em reunir ofertantes e consumidores de serviços educacionais
(WORLD BANK, 2003).
255
em formação científico e cultural no contexto de sociedades concretas, como nos inspira a
A realidade mostra que, para além das instituições, as políticas estatais para a
busca de qualificação a partir de ações fragmentárias, sem contar com a análise do sistema
como um todo, os limites da reforma educacional podem ser expressivos. Além do sentido
propostas diferenciadas para construção do caráter público, uma vez que, não havendo projeto
em torno das grandes orientações políticas já detectadas ou sobre ações pontuais. Tudo isso
dispersa a energia direcionada para a análise sobre o tema da qualidade e do caráter público
da educação superior.
superior que cresceu de forma expressiva em período recente. É uma realidade que se
121
Criticando a profissionalização precoce e os modelos de avaliação do ensino superior brasileiro Nunes (et al.),
afirma que: “Educação, diversamente de adestramento profissional, é processo mais amplo: tem a ver, por
exemplo, com competência global do indivíduo para processar idéias complexas, estabelecer relações de causa e
efeito, relações multivariadas com causação múltipla e simultânea. Inclui, ademais, versatilidade no trato com a
história da espécie e suas circunscrições nacionais; habilidade para o uso erudito da língua original do indivíduo,
bem como a capacidade de ler e falar outras línguas, além da aptidão para se relacionar com o legado artístico da
humanidade e com a herança científica que nos permite entender nossa posição relativa no universo” (2001, p.
15-16).
256
sem, no entanto, haver uma análise que projete o sistema de educação superior brasileiro para
Viu-se que não é possível pensar a educação superior de forma independente de suas
diversificação institucional coloca-se de forma incisiva e deve ser debatida e questionada, mas
problema se coloca muito mais em termos de garantia da função pública da educação superior
mesmo quando praticada pelo setor privado. Os limites estruturais do Estado como ente
público e, especialmente, sua fragilidade atual diante da lógica de mercado, têm mostrado que
é necessário agir politicamente para construir ou ampliar o caráter público dessas práticas
sociais. A educação, por excelência, é um campo em que esse propósito precisa ser garantido.
A noção de público, de qualquer maneira, deve passar menos por um conteúdo cívico
ou por uma concepção do homem virtuoso. Como se propôs, essa noção é ponto de partida e é
meio, tendo sua finalidade dada pelo ponto de origem. Esse ponto inicial requer a
compreensão ética de que para viver em sociedade é preciso estar disposto à criação e à
comuns. Há, também, uma finalidade colocada na noção de público. Trata-se da busca de
de dignidade humana e social. O campo da educação superior tem como contribuir para isso.
257
Conclusão
década. O objetivo maior era entender o possível caráter público da educação superior.
alargamento no conceito desse fazer através da expressão educação terciária. Criticou-se esta
noção na medida em que ela dilui traços específicos do fazer acadêmico e da idéia de
atividades possíveis nesse nível, mas restringe as formas de qualificação voltadas para a vida
idéia de pertinência, defendida pela UNESCO (1999) contribuiu para formar a compreensão
diversos países mostram que há tendência não só de investimentos privados, mas também de
para interpretar suas características e a função social que desempenham. Viu-se que, através
258
O fato de ser elitista propiciava a esse tipo institucional legitimidade obtida através da
a legitimidade obtida pela instituição de educação superior naquele formato, o novo cenário
fez com que o modelo institucional sofresse crise de legitimidade, ao mesmo tempo em que se
que de conhecimentos.
muito mais como idéia do que como consolidação. A ausência de tradição na constituição de
ethos acadêmico distinto apareceu combinada a uma disputa forte entre o setor público e o
com o ensino de massa. Ao longo das diversas fases históricas tem-se a predominância de um
caráter público restrito, seja no sentido de clara definição acadêmica e formadora, seja no
estatais são discutíveis quando se trata do caráter público da educação superior. O problema
maior não está na diversificação institucional, mas nos objetivos de sua implementação e na
259
maneira como isso ocorre. A amplitude do setor privado combinada com a ausência de
critérios claros para formação de um sistema orgânico, bem como para garantia do caráter
público necessário constituem problemas efetivos para educação superior brasileira. Nessa
de mercado de títulos e preços, e isso é incompatível com educação, como fenômeno social
que necessita realizar seu caráter público para além da ótica liberal utilitarista e com base na
A realidade dos casos estudados mostrou que existem limites importantes do ponto de
vista da identidade acadêmica, porém aparecem potencialidades expressivas que têm origem
na trajetória de identidade das instituições e no caráter regional das articulações que produzem
para praticar educação. Essa realidade mostra também a necessidade de se avançar em estudos
sobre os casos concretos para conhecer os traços que caracterizam suas práticas e concepções
e para explorar possibilidades de ações a partir de princípios de vida pública, mas também a
Por fim, entendeu-se que o contexto em que se insere a reforma política da educação
superior não contribui para a afirmação de seu caráter público. Entretanto, a atuação estatal e
as práticas institucionais podem disputar espaços, a fim de garanti-lo. Isso requer propostas
muito concretas, disposição por contribuir para qualificação da educação superior e, antes de
tudo, compreensão de que esse nível educacional necessita de qualificação técnica, mas
além de profissionais bem formados em suas áreas, os indivíduos precisam estar habilitados
e práticos.
260
O estudo não permitiu ver as perspectivas dos docentes e aí há um limite
proporcionado pela sua viabilidade nessa etapa. Evidentemente que é indispensável saber o
que pensam e como se posicionam esses agentes que constroem a prática da educação
com outras IES que possuem caráter semelhante. Assim, cabe analisar a disposição dos
docentes para estudo e implementação de ações de caráter acadêmico qualificado não idêntico
com o qual se trabalha. Portanto, identificar e interpretar a formação dos docentes e entender
sua ótica sobre a educação superior seria fundamental, mas não foi objeto deste estudo.
superior no contexto adverso não é simples, mas é valoroso, pois, estimula a resistência a
simplificações sobre a realidade. Enfrentar esse desafio contribui para evitar a visão que
limita a educação superior a um bem público por natureza; contribui para evitar entendê-la
apenas como resultado de serviço de natureza social e/ou comercial, o qual garantiria ganhos
individuais com instrução e como informação, repercutindo por si só ganhos para a sociedade.
De outra parte, buscar o caráter público no sentido de construção social não restrita a
instigação para compromissos ético-sociais, permite que a realidade não seja simplificada.
Dessa maneira, as características que são hegemônicas não são ignoradas e nem
desvalorizadas, entretanto elas também não são entendidas como absolutas, permitindo a
261
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270
Apêndices
Apêndice A
Fontes primárias consultadas
1 Organismos internacionais
Documentos da UNESCO – 1995, 1998, 2003.
Documentos do Banco Mundial – 1994, 2000, 2003.
Documento da OCDE – 1998
2 Legislação
BRASIL. Conselho Nacional de Educação (Câmara de Educação Superior). Parecer CES
618/99, aprovado em 08 de junho de 1999.
271
3 Imprensa escrita
OS BASTIDORES DA FRITURA. CORREIO BRASILIENSE. BRASÍLIA, 12.09.2003.
AZEVEDO, João Carlos. O guizo do gato. Jornal do Brasil. Rio de Janeiro, 11.06.2003.
‘Conglomerados’ dominam ensino superior. Jornal Folha de São Paulo. São Paulo,
02.12.2001. Folha Cotidiano, p. C1.
Faculdades privadas criam três cursos por dia. Jornal Folha de São Paulo. São Paulo,
18.10.2003. Folha Cotidiano, p.C1.
Ministro não vê sobrevida do ensino gratuito. Jornal Folha de São Paulo. São Paulo,
21.10.2001. Folha Cotidiano, p.C3.
GOIS, Antônio. Expansão de centros universitário cria atrito. Jornal Folha de São Paulo
Paulo, 27.05.2003.
272
5 Outros documentos
BERSCH, Roque Danilo. O sentido do Centro Universitário no contexto das IES do Brasil.
UNIVATES: Lajeado, outubro /2003.
UNIVERCIDADE. Carta Aberta II. (Divulga Projeto de Decreto apresentado por João Carlos
Di Gênio, em 21.10.2003 ao Secretário de Educação Superior do MEC).
273
Apêndice B
Lista de Entrevistados
274
Apêndice C
Roteiros de entrevistas
1 O que mudou em sua IES com a transformação de faculdade para centro universitário?
2 Como se pode constatar a excelência de ensino desenvolvido em sua IES?
3 Em sua opinião, o que de fato diferencia o centro universitário de outros tipos de IES?
4 Que tipo de mudanças as atuais políticas estatais têm provocado em sua instituição?
5 Que mudanças a atual política de avaliação do ensino superior tem provocado no
cotidiano de sua instituição?
6 Além das atividades de ensino, a pesquisa e a extensão são praticadas? Como são
concebidas e que práticas se destacam nesse campo?
7 Como aparecem as atividades de iniciação científica e investigação desenvolvidas por
estudantes em sua instituição?
8 Como é a organização acadêmico-administrativa (colegiados, departamentos,
coordenações, centros, etc.) e como se viabilizam os espaços para participação de
docentes?
9 Na caracterização dos estudantes de sua IES, quais o traços que se destacam?
10 As instituições educacionais possuem um caráter público mais visível em algum momento
do desenvolvimento de suas atividades. Como se traduz essa idéia na atuação de sua
instituição?
11 Quais as suas expectativas quanto ao futuro de sua instituição (universidade, centro univ.
especialização em alguma área)?
12 Outros:
275
(continuação)
276
Apêndice D
Quadro 1.1 - Concepção de educação superior e de diversificação institucional em
documentos de organismos internacionais
122
Reitor da Universidad de la República/ Uruguay, elaborou um documento que disponibilizou na internet. O
título é Paris+5 Seguimento o revision de la conferencia mundial sobre educación superior de la UNESCO
(Paris, 1998) e a data é Julio de 2003, disponível em http:/www.rau.edu.uy/universidad.
277
(continuação)
278
(continuação)
279
Apêndice E
Quadro 4.1 - Marco Legal123
DIVERSIFICAÇÃO DA EDUCAÇÃO SUPERIOR NO BRASIL
Lei 4.024 de Art. 66. O ensino superior tem por objetivo a pesquisa, o Noção de
dezembro de desenvolvimento das ciências, letras e artes, e a formação de ensino superior
1961 profissionais de nível universitário. aparece antes
Art. 67. O ensino superior será ministrado em estabelecimentos, agrupados da noção de
ou não em universidades, com a cooperação de institutos de pesquisa e universidade.
Lei de
centros de treinamento profissional.
Diretrizes e Art. 79. As universidades constituem-se pela reunião, sob administração
Bases da comum, de cinco ou mais estabelecimentos de ensino superior. [..]
Educação Art. 80 As Universidades gozarão de autonomia didática, administrativa,
financeira e disciplinar, que será exercida na forma de seus estatutos. [...]
Art. 81. As universidades serão constituídas sob a forma de autarquias,
fundações ou associações. A inscrição do ato constitutivo no registro civil das
pessoas jurídicas será precedido de autorização por decreto do governo
federal ou estadual.
Art. 83. O ensino público superior, tanto nas universidades como nos
estabelecimentos isolados federais, será gratuito para quantos provarem falta
ou insuficiência de recursos. (art. 168, II da Constituição).
Art. 84. O Conselho Federal de Educação, após inquérito administrativo,
poderá suspender, por tempo determinado, a autonomia de qualquer
universidade, oficial ou particular, por motivo de infrigência desta lei ou dos
próprios estatutos, chamando a si as atribuições do Conselho Universitário e
nomeando um reitor pro tempore.
Art. 85. Os estabelecimentos isolados serão constituídos sob a forma de
autarquias, de fundações, ou associações.
Art. 86. Os estabelecimentos isolados, constituídos sob a forma de
fundações, terão um conselho de curadores, com as funções de aprovar o
orçamento anual, fiscalizar a sua execução e autorizar os atos do diretor não
previstos no regulamento do estabelecimento.
Lei 5.540 de Art. 2º.O ensino superior, indissociável da pesquisa, será ministrado em Universidade e
novembro universidades e, excepcionalmente, em estabelecimentos isolados, pesquisa.
de1968 organizados como instituições de direito público e privado.
Art. 8º Os estabelecimentos isolados de ensino superior deverão sempre
que possível incorporar-se a universidades ou congregar-se com IES isoladas e
estabelecimentos isolados da mesma localidade ou de localidades próximas, o estímulo à
constituindo, neste último caso, federações de escolas, regidas por uma unificação.
administração superior e com regimento unificado que lhes permita adotar
critérios comuns de organização e funcionamento.
Art. 18. Além dos cursos correspondentes a profissões reguladas em lei, as
universidades e os estabelecimentos isolados poderão organizar outros para Cursos de
atender às exigências de sua programação específica e fazer face a formação de
peculiaridades do mercado de trabalho regional. tecnólogos.
123
Os registros que seguem transcrevem extratos dos textos legais. Os destaque em negrito foram incluídos na
transcrição.
280
(continuação)
Lei 9.394 de Art. 45. A educação superior será ministrada em instituições de ensino Diferenciação
dezembro superior, públicas ou privadas, com variados graus de abrangência ou de IES pelos
de1996 especialização. graus de
Art. 48, § 1º Os diplomas expedidos pelas universidades serão por elas abrangência .
Lei de próprias registrados, e aqueles conferidos por instituições não-
Diretrizes e universitárias serão registrados em universidades indicadas pelo Autonomia
Bases da Conselho Nacional de Educação. para expedir
Educação Art. 52, § Único. É facultada a criação de universidades especializadas por diplomas.
campo de saber.
Art. 54, § 2º. Atribuições de autonomia universitária poderão ser Extensão da
estendidas a instituições que comprovem alta qualificação para o ensino autonomia
ou para a pesquisa, com base em avaliação realizada pelo Poder Público universitária.
Decreto 2.306 Art. 8º. Quanto à sua organização acadêmica, as instituições de ensino Revoga o
de agosto de superior do Sistema Federal de Ensino classificam-se em: Decreto 2.207
1997 I - universidades; de abril de
II - centros universitários; 1997, mas não
III - faculdades integradas; muda a
IV - faculdades; classificação
V - institutos superiores ou escolas superiores. das
Art. 9º. As universidades, na forma do disposto no art. 207 da Constituição instituições.
Federal, caracterizam-se pela indissociabilidade das atividades de ensino, de
pesquisa e de extensão, atendendo ainda ao disposto no art. 52 da Lei nº
9.394, de 1996. Reafirma o tipo
Parágrafo único. A criação de universidades especializadas, admitidas na Centro
forma do parágrafo único do art. 52 da Lei nº 9.394, de 1996, dar-se-á Universitário.
mediante a comprovação da existência de atividades de ensino e pesquisa em
áreas básicas, como nas aplicadas.
281
(continuação)
Decreto 3.860 Art. 7o Quanto à sua organização acadêmica, as instituições de ensino Revoga o
de julho de superior do Sistema Federal de Ensino, classificam-se em: Decreto 2.306
2001 I - universidades; de agosto de
II - centros universitários; e 1997.
III - faculdades integradas, faculdades, institutos ou escolas superiores.
rt. 8o As universidades caracterizam-se pela oferta regular de atividades de Reafirma o tipo
ensino, de pesquisa e de extensão, atendendo ao que dispõem os arts. 52, Centro
53 e 54 da Lei no 9.394, de 1996. [...] Universitário.
§ 2o A criação de universidades especializadas, admitidas na forma do
parágrafo único do art. 52 da Lei no 9.394, de 1996, dar-se-á mediante
a comprovação da existência de atividades de ensino e pesquisa, tanto em
áreas básicas como nas aplicadas, observado o disposto neste artigo.
282
Portaria/ Art. 3°. Observado o disposto no artigo anterior, a SESu Solicitação de
MEC 1.465 de solicitará ao Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas recredencia-
julho de 2001 mento de
Educacionais, INEP, a realização de avaliação na instituição em Universidades
processo de recredenciamento. e Centros
Art. 6°. A homologação de parecer desfavorável conduzirá ato do Poder Universitários e
Executivo de descredenciamento da instituição ou, se for o caso, de reclassificação
credenciamento em outra classificação institucional. institucional
Art. 7º. - A SESu recomendará à CES o recredenciamento, pelo prazo de em caso de
cinco anos, das universidades e centros universitários que, na data de parecer
publicação desta Portaria, atenderem aos seguintes requisitos : desfavorável
I - ter obtido conceitos A ou B em mais da metade de seus
cursos avaliados nas três últimas edições do Exame Nacional de
Cursos
II - ter obtido conceitos CMB ou CB em mais da metade de seus cursos
avaliados nas condições de oferta dos cursos de graduação;
III - ter comprovado, no caso de universidades, a oferta de programa de pós-
graduação stricto sensu avaliado com conceito igual ou superior a três pela
Fundação Coordenação de Aperfeiçoamento do Pessoal de Nível Superior,
CAPES e reconhecidos pelo MEC;
IV - ter atendido ao disposto no art. 52 da Lei 9.394, de 20/12/1996.
Parágrafo único. As instituições de que trata o caput deverão apresentar
pedido de recredenciamento à SESu, acompanhado de seu plano de
desenvolvimento institucional para um período de cinco anos.
Decreto 4.914 Art. 1º Fica vedada a constituição de novos centros universitários, exceto Veda a
11 de aqueles em fase de tramitação no Ministério da Educação para constituição de
dezembro de credenciamento, cuja comissão avaliadora já tenha sido constituída, ficando novos Centros
2003 restritos os seus cursos e vagas ao limite constante do seu Plano de Universitários
Desenvolvimento Institucional – PDI, aprovado pela Secretaria de Educação
[...]
Art. 2º Os centros universitários já credenciados e os de que trata o art. 1º, se
credenciados, deverão comprovar, até 31 de dezembro de 2007, que
satisfazem o princípio da indissociabilidade entre ensino, pesquisa e
extensão, previsto no art. 207 da Constituição, e os requisitos
estabelecidos no art. 52 da Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996,
sendo que os trinta e três por cento do corpo docente em regime de tempo
integral serão satisfeitos da seguinte forma: Agrega ao tipo
I – quinze por cento, até dezembro de 2004; institucional
II - vinte por cento, até dezembro de 2005; Centro
III - trinta por cento, até dezembro de 2006; e Universitário
IV - trinta e três por cento, até dezembro de 2007. exigências até
§ 1º Sem prejuízo do disposto no art. 46 da Lei nº 9.394, de 1996, aos centros então para
universitários de que trata o caput deste artigo ficam asseguradas as Universidades
atribuições e interdições a eles deferidas pelo credenciamento e pelo art.
11 do Decreto nº 3.860 [...]
283
Decreto 4.914 Art. 1º Fica vedada a constituição de novos centros universitários, exceto Veda a
de dezembro aqueles em fase de tramitação no Ministério da Educação para constituição de
de 2003 credenciamento, cuja comissão avaliadora já tenha sido constituída, ficando novos Centros
restritos os seus cursos e vagas ao limite constante do seu Plano de Universitários
Desenvolvimento Institucional – PDI, aprovado pela Secretaria de Educação
Superior daquele Ministério.
Parágrafo único. Admitir-se-á a criação de centros de ensino superior nas
cidades em que o Ministério da Educação indicar, em função de necessidades
sociais, devendo atender a critérios e condições estabelecidas em normas
próprias e em editais específicos, com cursos e vagas definidos por aquele
Ministério.
Art. 2º Os centros universitários já credenciados e os de que trata o art. 1º, se
credenciados, deverão comprovar, até 31 de dezembro de 2007, que Estabelece
satisfazem o princípio da indissociabilidade entre ensino, pesquisa e exigências das
extensão, previsto no art. 207 da Constituição, e os requisitos estabelecidos Universidade
no art. 52 da Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996, sendo que os trinta e para Centros
três por cento do corpo docente em regime de tempo integral serão satisfeitos Universitários
da seguinte forma:
I - quinze por cento, até dezembro de 2004;
II - vinte por cento, até dezembro de 2005;
III - trinta por cento, até dezembro de 2006; e
IV - trinta e três por cento, até dezembro de 2007.
§ 1º Sem prejuízo do disposto no art. 46 da Lei nº 9.394, de 1996, aos centros
universitários de que trata o caput deste artigo ficam asseguradas as
atribuições e interdições a eles deferidas pelo credenciamento e pelo art. 11
do Decreto nº 3.860, de 9 de julho de 2001, com a ressalva constante do § 2º.
§ 2º É vedada aos centros universitários a introdução no PDI aprovado de Limita
cursos e vagas para graduação em medicina, odontologia, psicologia e direito, autonomia de
sem a prévia manifestação do Conselho Nacional de Saúde no caso dos três expansão de
primeiros, e do Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil no caso vagas e cursos
do último, não se permitindo o aumento posterior de vagas sem consulta aos ao estabelecido
órgãos anteriormente citados e ao Ministério da Educação. no PDI e aos
Art. 3º Findo o prazo de que trata o art. 2o, cabe ao Ministério da Educação Conselhos
averiguar junto aos centros universitários, no prazo de cento e oitenta dias, a profissionais,
satisfação dos princípios e requisitos estabelecidos na mesma disposição para alguns
regulamentar. cursos
§ 1º Constatado o não-atendimento dos princípios e requisitos estabelecidos
no art. 2º, será notificado ao centro universitário, por meio de relatório
circunstanciado, o não-cumprimento das exigências estabelecidas, tendo a
instituição o prazo de trinta dias para apresentação de sua defesa.
§ 2º Em caso de não-acolhimento da defesa, a Secretaria de Educação
Superior do Ministério da Educação listará as providências a serem tomadas
pela instituição no prazo de trinta dias.
§ 3º Da decisão de que trata o § 2º, cabe recurso para o Ministro de Estado da
Educação no prazo de trinta dias.
§ 4º O não-atendimento das exigências constantes do art. 2º importa no
imediato descredenciamento do centro universitário, retornando ele a sua
situação anterior junto ao Ministério da Educação.
284
Apêndice F
Quadro 4.2 - Marco Legal124
Caracterização dos Centros Universitários
Decreto Art. 6°. São centros universitários as instituições de ensino superior Cria e define
2.207 de pluricurriculares, abrangendo uma ou mais áreas do conhecimento, que se centro
abril de caracterizem pela excelência do ensino oferecido, comprovada pela universitários.
1997 qualificação do seu corpo docente e pelas condições de trabalho acadêmico
oferecidas à comunidade escolar, nos termos das normas estabelecidas pelo
Ministro de Estado da Educação e do Desporto para o seu credenciamento.
§ 1° Serão estendidas aos centros universitário credenciados autonomia para Confere
criar, organizar e extinguir, em sua sede, cursos e programas de educação autonomia.
superior, previstos na Lei n° 9.394, de 1996.
§ 2° Os centros universitários poderão usufruir de outras atribuições da
autonomia universitária, além da que se refere o parágrafo anterior,
devidamente definidas no ato de seu credenciamento, nos termos do § 2° do
art. 54, da Lei n° 9.394, de 1996. Reclassifica
Art. 13º Nos termos do § 2° do art. 88 da Lei n° 9.394, de 1996, as instituições universidade
atualmente credenciadas como universidades terão o prazo de oito anos para como centro
cumprir integralmente as condições estabelecidas no art. 52 da mesma Lei, universitário
observados os seguintes prazos intermediários: em caso de
VII - o descumprimento dos requisitos fixados neste artigo, nos prazos descumprimen-
estabelecidos, resultará na reclassificação da universidade em centro to de
universitário, até nova avaliação positiva. exigências
Portaria/ Art. 1°. Os centros universitários, na forma do disposto no art. 6° do Decreto Esclarece a
MEC 639 n° 2.207, de 15 de abril de 1997, serão criados pela transformação de origem dos
de maio de faculdades integradas, faculdades, institutos superiores, escolas superiores centros
1997 ou universidades, já credenciadas e em funcionamento, que demonstrem universitários.
excelência no campo do ensino.
Parágrafo único. Serão admitidos centros universitários especializados numa
área de conhecimento ou de formação profissional. Esclarece
Art. 3°. A comprovação da excelência do ensino, exigida para o critérios para
credenciamento como centro universitário, será feita através da análise dos definição do
seguintes critérios: que seja
I- capacidade financeira, administrativa e de infra-estrutura da instituição; excelência de
II- qualificação acadêmica e experiência profissional do corpo docente; ensino,
III- condições de trabalho do corpo docente; indicando
IV- resultados obtidos no exame nacional de cursos e em outras formas de atividades de
avaliação da Qualidade do ensino. iniciação
V- atividades de iniciação científica e de prática profissional para os alunos. científica.
Art. 4°. A solicitação para o credenciamento como centro universitário,
deverá ter acompanhada do projeto, contendo, pelo menos, as seguintes Solicita dos
informações. centros
X- principais atividades de extensão desenvolvida nos últimos dois anos; universitários
XI- experiência acumulada em cursos de pós-graduação latu sensu; extensão,
XII- indicação de atividades extra-curriculares e de prática profissional práticas
oferecida aos alunos. profissionais e
lato sensu.
124
Os registros que seguem transcrevem extratos dos textos legais. Os destaque em negrito foram incluídos na
transcrição.
285
(continuação)
Decreto Art. 12. São centros universitários as instituições de ensino superior Revoga o
2.306 de pluricurriculares, abrangendo uma ou mais áreas do conhecimento, que se Decreto
agosto de caracterizam pela excelência do ensino oferecido, comprovada pela 2.207/97 e
1997 qualificação do seu corpo docente e pelas condições de trabalho acadêmico matém a
oferecidas à comunidade escolar, nos termos das normas estabelecidas pelo definição de
ministro de Estado da Educação e do Desporto para o seu credenciamento. centro
§ 1º. Fica estendida aos centros universitários credenciados autonomia para universitário.
criar, organizar e extinguir, em sua sede, cursos e programas de educação
superior, assim como remanejar ou ampliar vagas nos cursos existentes. Esclarece sobre
§ 2º. Os centros universitários poderão usufruir de outras atribuições da a autonomia.
autonomia universitária, além da que se refere o parágrafo anterior, devidamente
definidas no ato de seu credenciamento, nos termos do § 2º do art. 54 da Lei nº
9.394, de 1996.
Portaria Art. 1° Os Centros Universitários são instituições que se caracterizam: Define critérios
2.041 de I – quanto à origem, pela transformação de faculdades integradas, faculdades, adicionais
outubro de institutos superiores ou universidades, já credenciados e em funcionamento; Reafirma
1997 II – quanto à abrangência, por organização pluricurricular em uma ou mais definições
áreas de conhecimento ou de formação profissional, nos níveis de anteriores e
graduação, extensão, especialização; práticas de
III – Quanto à função, pela excelência do ensino ministrado, pelas modalidades ensino,
de aperfeiçoamento permanente do ensino de graduação, pela qualificação extensão e
constante de seu corpo docente, pela oferta de cursos de graduação, extensão, ‘pesquisa
especialização e seqüenciais, e pelas atividades integradas de pesquisa discente’.
discente.
Art. 3° Na análise dos processos de credenciamento e recredenciamento de
centros universitários, a Secretaria de Educação Superior irá considerar todas as Estabelece
informações disponíveis acerca do desempenho da instituição em processos de prazo de três
avaliação de seus cursos de graduação e pós-graduação, nos termos do anos para
Decreto n° 2026, de 10 de outubro de 1996. recredencia-
Art. 4° Os Centros Universitários credenciados até 31 de dezembro de 1998 mento.
deverão submeter-se a processo de recredenciamento num período máximo de
três anos, após a data de seu credenciamento.
286
(continuação)
Parecer [...] o Relator submete à Câmara de Educação Superior do Conselho Nacional de Estende
CES/CNE Educação o projeto de resolução em anexo, propondo que seja prorrogado até Período para
750 de 21 de agosto de 1998, o prazo para que as Universidades e Centros adapatação das
dezembro Universitários adaptem seus Estatutos à nova LDB e às normas conexas. IES às normas.
de 1997
287
(continuação)
288
(continuação)
Parecer 1 – Histórico
CES/CNE O parecer CES 738/98 que trata da definição de critérios para avaliação das Reafirma a
618 junho solicitações de credenciamento de Centro Universitário foi restituído à Câmara importância e
de 1999 de Educação Superior [...] pretende
Relator: Os Centros Universitários nasceram dentro do espírito de flexibilização da esclarecer a
Roberto Educação Superior contido na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Brasileira conceituação,
Cláudio [...] conclui-se que os Centros Universitários se constituem em Instituições de os pré-
Frota Ensino Superior da maior importância dentro do Sistema Nacional de Educação. requisitos e o
Bezerra, Essa importância é devida não apenas a sua missão, aos seus objetivos, mas processo
com também ao grau de autonomia que a legislação pertinente lhes confere. [...] avaliatório de
aprovação Indubitavelmente, a avaliação adequada dos processos de solicitação de centros
da CESU. credenciamento dos Centros Universitários é peça fundamental para o universitários.
Contribui sucesso dessa nova modalidade de Instituição de Ensino Superior.
para que se Pelas razões expostas, é imprescindível que no contexto do processo de
possa avaliação, fiquem claras: a conceituação dos Centros Universitários; a
vislumbrar definição de pré-requisitos para sua criação e a necessidade de um processo
com maior avaliatório abrangente que inclua, além da análise dos documentos
detalhe a apresentados, visita à Instituição para verificação in loco da exatidão das
noção de informações prestadas, bem como das condições acadêmicas e da infra-estrutura
excelência para promoverem a excelência no ensino.[...]
de ensino Itens a serem avaliados
nos Os itens a serem avaliados pela Comissão são listados a Seguir.
Centros 4. 1 -Curso de Graduação
Universit. - Existência de processos de avaliações institucionais de ensino;
- existência de um núcleo institucionalizado responsável pelo sistema de
avaliação interna;
- desempenho no Exame Nacional de Cursos e as condições de oferta (Decreto
n.º 2.026/96);
- relação aluno/ docente e aluno/ funcionário;
- existência de planos e recursos para a melhoria do ensino de graduação(PDI);
- existência de projeto de atualização e inovação curricular, estratégias e Solicita
métodos de ensino, aprendizagem e avaliação; atualização
- oportunidades de iniciação científica ou de práticas investigativas curricular, bem
relacionadas aos cursos de graduação ministrados; como iniciação
- dados relativos à divulgação dos cursos, seleção, acompanhamento, número de científica ou
alunos por turma, evasão, retenção, número de vagas, demanda, matrículas e práticas
diplomações; investigativas e
- oferecimento de atividades de Prática Profissional. [...] práticas
4. 5 – Atividades de Extensão e Práticas de Investigação profissionais.
- Participação dos alunos em práticas articuladas às áreas dos cursos oferecidos;
- Atividades permanentes de formação continuada e de interação com a
comunidade;
- planos e recursos para a melhoria das atividades de extensão(PDI) e de Solicita
investigação; extensão e
- incorporação de atividades de investigação como parte integrante dos cursos atividades de
de graduação. investigação.
4. 6 - Cursos de Pós-Graduação (stricto e lato sensu)
-Experiência acumulada em cursos de especialização;
- planos e recursos para a melhoria dos cursos de especial especialização (PDI);
- existência de cursos de Pós-Graduação stricto sensu reconhecidos.
4. 7 - Organização Institucional
- Participação dos docentes nos órgãos Colegiados; Recomenda
- definição da estrutura organizacional deliberativa e executiva em colegiados com
organograma que expresse as competências e os níveis de subordinação, participação
tanto para os Órgãos Colegiados como para os Dirigentes, desde o superior até os docente e
das Unidades Acadêmicas e Administrativas. esclarecimento
- participação do corpo docente na elaboração do projeto pedagógico dos da estrutura
cursos ministrados e da instituição. organizacional.
289
(continuação)
Decreto Art. 11. Os centros universitários são instituições de ensino superior pluri- Mantém
3.860 de curriculares, que se caracterizam pela excelência do ensino oferecido, definição
julho de comprovada pelo desempenho de seus cursos nas avaliações coordenadas pelo anterior sobre
2001 Ministério da Educação, pela qualificação do seu corpo docente e pelas centro
(Este condições de trabalho acadêmico oferecidas à comunidade escolar. universitário.
decreto § 1o Fica estendida aos centros universitários credenciados autonomia para criar,
revoga o organizar e extinguir, em sua sede, cursos e programas de educação superior,
2.306 de assim como remanejar ou ampliar vagas nos cursos existentes.
1997) § 2o Os centros universitários poderão usufruir de outras atribuições da
autonomia universitária, além da que se refere o § 1o, devidamente definidas no
ato de seu credenciamento, nos termos do § 2o do art. 54 da Lei no 9.394,
de 1996
§ 3o A autonomia de que trata o § 2o deverá observar os limites definidos no
plano de desenvolvimento da instituição, aprovado quando do seu
credenciamento e recredenciamento.
§ 4o É vedada aos centros universitários a criação de cursos fora de sua sede Mantém
indicada nos atos legais de credenciamento. limitada a
§ 5o Os centros universitários somente serão criados por credenciamento de ampliação de
instituições de ensino superior já credenciadas e em funcionamento regular, com vagas para a
qualidade comprovada em avaliações coordenadas pelo Ministério da Educação. sede.
Art. 12. Faculdades integradas são instituições com propostas curriculares em
mais de uma área de conhecimento, organizadas para atuar com regimento
comum e comando unificado.
Art. 13. A criação de cursos superiores em instituições credenciadas como
faculdades integradas, faculdades, institutos superiores ou escolas superiores
depende de prévia autorização do Poder Executivo.
Portaria/ Art. 7º. - A SESu recomendará à CES o recredenciamento, pelo prazo de cinco Define prazo
MEC anos, das universidades e centros universitários que, na data de publicação desta para de cinco
1.465 de Portaria, atenderem aos seguintes requisitos : anos para
julho de I - ter obtido conceitos A ou B em mais da metade de seus cursos avaliados nas recredencia-
2001 três últimas edições do Exame Nacional de Cursos mento.
II - ter obtido conceitos CMB ou CB em mais da metade de seus cursos
avaliados nas condições de oferta dos cursos de graduação;
III - ter comprovado, no caso de universidades, a oferta de programa de pós-
graduação stricto sensu avaliado com conceito igual ou superior a três pela
Fundação Coordenação de Aperfeiçoamento do Pessoal de Nível Superior,
CAPES e reconhecidos pelo MEC;
IV - ter atendido ao disposto no art. 52 da Lei 9.394, de 20/12/1996.
Parágrafo único. As instituições de que trata o caput deverão apresentar pedido
de recredenciamento à SESU, acompanhado de seu plano de desenvolvimento
institucional para um período de cinco anos.
290
(continuação)
Resolução Art. 3º O recredenciamento de centros universitários, obrigatório para todos, Dispõe sobre
CES/CNE será feito em consonância com o Manual de Avaliação Institucional para recredencia-
23 de Recredenciamento de Centros Universitários, aprovado pela Câmara de mento de
novembro Educação Superior do Conselho Nacional de Educação. centros
de 2002 § Único: Por ocasião do primeiro recredenciamento dos centros universitários, universitários,
devem ser levadas em consideração as normas pelas quais estes foram permitindo
credenciados.[...] aumento de
Art. 5º Os centros universitários poderão ser recredenciados por prazos de até 10 prazo para dez
(dez) anos, pelo que seus PDIs, constituídos a partir do indispensável diagnóstico anos.
institucional, deverão, também, abranger o período de 10 (dez) anos.
Art 6º No recredenciamento das universidades, obrigatório para todas, será Recredencia-
ofertada a oportunidade de recredenciamento voluntário, devendo a SESu/MEC, Mento
para aquelas que aderirem, organizar calendário de atendimento às solicitações voluntário às
por elas livremente encaminhadas. universidades.
291
(continuação)
Decreto Art. 1º Fica vedada a constituição de novos centros universitários, exceto Veda a
4.914 de aqueles em fase de tramitação no Ministério da Educação para credenciamento, constituição de
dezembro cuja comissão avaliadora já tenha sido constituída, ficando restritos os seus novos centros
de 2003 cursos e vagas ao limite constante do seu Plano de Desenvolvimento universitários
Institucional – PDI, aprovado pela Secretaria de Educação Superior daquele
Ministério.
Parágrafo único. Admitir-se-á a criação de centros de ensino superior nas cidades
em que o Ministério da Educação indicar, em função de necessidades sociais,
devendo atender a critérios e condições estabelecidas em normas próprias e em
editais específicos, com cursos e vagas definidos por aquele Ministério. Art. 52 º LDB
Art. 2º Os centros universitários já credenciados e os de que trata o art. 1º, se exige
credenciados, deverão comprovar, até 31 de dezembro de 2007, que indissociabili-
satisfazem o princípio da indissociabilidade entre ensino, pesquisa e dade e
extensão, previsto no art. 207 da Constituição, e os requisitos estabelecidos no produção
art. 52 da Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996, sendo que os trinta e três intelectual
por cento do corpo docente em regime de tempo integral serão satisfeitos da institucionaliza
seguinte forma: da.
I - quinze por cento, até dezembro de 2004;
II - vinte por cento, até dezembro de 2005; Estabelece
III - trinta por cento, até dezembro de 2006; e exigências
IV - trinta e três por cento, até dezembro de 2007. similar a
§ 1º Sem prejuízo do disposto no art. 46 da Lei nº 9.394, de 1996, aos centros universidades
universitários de que trata o caput deste artigo ficam asseguradas as atribuições e para centros
interdições a eles deferidas pelo credenciamento e pelo art. 11 do Decreto nº universitários
3.860, de 9 de julho de 2001, com a ressalva constante do § 2º.
§ 2º É vedada aos centros universitários a introdução no PDI aprovado de cursos
e vagas para graduação em medicina, odontologia, psicologia e direito, sem a
prévia manifestação do Conselho Nacional de Saúde no caso dos três primeiros, Limita
e do Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil no caso do último, autonomia de
não se permitindo o aumento posterior de vagas sem consulta aos órgãos expansão de
anteriormente citados e ao Ministério da Educação. vagas e cursos
Art. 3º Findo o prazo de que trata o art. 2o, cabe ao Ministério da Educação ao estabelecido
averiguar junto aos centros universitários, no prazo de cento e oitenta dias, a no PDI e aos
satisfação dos princípios e requisitos estabelecidos na mesma disposição Conselhos
regulamentar. profissionais,
§ 1º Constatado o não-atendimento dos princípios e requisitos estabelecidos no para alguns
art. 2º, será notificado ao centro universitário, por meio de relatório cursos.
circunstanciado, o não-cumprimento das exigências estabelecidas, tendo a
instituição o prazo de trinta dias para apresentação de sua defesa.
§ 2º Em caso de não-acolhimento da defesa, a Secretaria de Educação Superior
do Ministério da Educação listará as providências a serem tomadas pela
instituição no prazo de trinta dias.
§ 3º Da decisão de que trata o § 2º, cabe recurso para o Ministro de Estado da
Educação no prazo de trinta dias.
§ 4º O não-atendimento das exigências constantes do art. 2º importa no
imediato descredenciamento do centro universitário, retornando ele a sua
situação anterior junto ao Ministério da Educação.
292
Apêndice G
Quadro 4.3 - Marco Legal:
Semelhanças entre universidade e centro universitário
Ensino
Graduação Com atividades de
investigação Par.
618/99 CES/CNE e
PNE com prática
profissional
Par.738/98
CES/CNE.
Cursos seqüenciais Portaria 2.041/97
Pós-graduação Par. 639/97
lato sensu CES/CNE
Pós-graduação Passa a ser típica
Stricto sensu quando cumprido o
Decreto 4.914
dex/2003.
Pesquisa
Acadêmica Exigida pelo
institucional Decreto 4.914 de
consolidada. dez de 2003, com
indissociabilidade
entre ensino
pesquisa e extensão
e produção
intelectual
institucionalizada,
do Art, 52º LDB.
Iniciação Científica Par. 639/97
CES/CNE.
293
(continuação)
Extensão
Com formação
continuada,
interação com
comunidade e
atividades de
investigação Par.
618/99 CES/CNE.
Diversidade de
áreas de
conhecimento
Colegiados Com composição
majoritária de
docentes e com
competências
terminativas (Par.
6000/97 CES/CNE).
Plano de Carreira
Titulação 33% de mestres Anterior: 20% de 33% de mestres
e/ou doutores até mestres e/ou e/ou doutores.
2007 Decreto 4.914 doutores Par.
de dez/ 2003. 600/97 CES/CNE.
Contratação Um terço tempo Anterior: 10% com Um terço tempo
integral com, pelo tempo integral; 40% integral com, pelo
menos, 20 horas com tempo menos, 20 horas
para estudos, contínuo; para estudos,
pesquisa, extensão, 20% com metade da pesquisa, extensão,
etc., até 2007. jornada de trabalho etc.
Decreto 4.914 de em atividades extra-
dez/ 2003. classe Par. 600/97
CES/CNE.
294
Apêndice H
Quadro 5.1 – Cursos de graduação e de pós-graduação oferecidos pelo
UNI1, em 2004
295
Apêndice I
Quadro 5.2 – Cursos de graduação e de pós-graduação oferecidos pelo
UNI2, em 2004
296