Robert H.
Hopcke
SlNCRONICIDADE
ou por que nada é por acaso
Tradução de
LYGIA ITIBERÊ DA CUNHA
Nova Era
Rio de Janeiro
1999
CIP-Brasil. Catalogação-na-fonte
Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ.
Hopcke, Robert H.
H76n Sincronicidade ou por que nada é por caso/Robert H. Hopcke; tradução de Lygia Itiberê da Cunha.
Rio de Janeiro: Record: Nova Era, 1999.
Tradução de: There are no accidents ISBN 85-01-04804-2
1. Consciência - Aspectos psíquicos. I. Título.
CDD -133.8
CDU - 159.961
99-0668
Título original norte-americano
THERE ARE NO ACCIDENTS
Copyright © 1997 by Robert H. Hopcke Publicado inicialmente por Riverhead Books, The Putnam Berkley
Group, Nova York.
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Agency. Primeira edição simultânea nos EUA e no Canadá.
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ISBN 85-01-04804-2
PEDIDOS PELO REEMBOLSO POSTAL
Caixa Postal 23.052
Rio de Janeiro, RJ - 20922-970
Para Lena Drusback e Emma Hopcke,
minhas avós,
por sua fé em mim e em meus dons.
Ruht in frieden.
Contracapa
Um guia esclarecedor para aquelas coincidências significativas que acontecem
em nossas vidas e nos deixam profundamente intrigados. Encontros que nos
parecem "casuais" têm na verdade uma lógica para se darem naquele exato
instante, com aquela pessoa e em determinado lugar.
Sincronicidade ou por que nada é por acaso cita casos de sincronicidade
que fizeram a vida de muitas pessoas mudar drasticamente. Novos rumos
profissionais, um grande amor reencontrado são apenas alguns exemplos que
podem determinar nosso futuro.
É bem verdade que somos habituados a pensar que temos o controle de
nossos destinos e que somos nós quem definimos encontros e desencontros. Mas
não podemos negar que também habita em nosso consciente um mistério que nos
surpreende e intriga toda vez que coincidências acontecem.
O autor entrevistou diversas pessoas, e a maioria dos depoimentos é
relacionada a coincidências na vida profissional e amorosa.
Os relatos indicam fortes ligações entre os sonhos e a vida cotidiana dos
entrevistados. As narrativas são coerentes e confirmam o ponto de vista de
Robert Hopcke, que afirma que tais encontros geralmente acontecem em
períodos de transição. O livro é uma orientação para entendermos melhor as
sincronicidades que ocorrem e como podemos direcionar estas conexões para
nos trazer equilíbrio e prosperidade.
ROBERT H. HOPCKE é psicoterapeuta junguiano e realizou entrevistas
para este livro em seu próprio consultório. Dirige o Center for Symbolic Studies,
um instituto de apoio e orientação com base na terapia junguiana, e ministra
workshops nos Estados Unidos. Hopcke reside em Berkeley, Califórnia.
Agradecimentos
Cada livro tem seu próprio caminho até ficar pronto, alguns difíceis, alguns
fáceis, mesmo assim todos exigem esforços de muitas e muitas pessoas além
daquele cujo nome aparece na capa como o autor. Para elas!
Tendo imaginado este livro muito tempo atrás, devo muitos agradecimentos à
minha agente, Candice Fuhrman, que sincrônica e intencionalmente me ajudou a
ver aquilo que eu queria fazer e como fazê-lo. Sua assistente, Haden Blackwell,
também merece muitos agradecimentos por toda a sua atenção aos detalhes
pragmáticos dentro do mundo editorial, detalhes que poucos conhecem, mas que
são de vital importância para o autor.
Para toda a equipe da Riverhead Books uma dose igual de gratidão,
especialmente para Susan Petersen, Dolores McMullan e Tim Meyer, cujos
comentários oportunos e correções no manuscrito me ajudaram a dar forma a
este livro. No entanto, eu gostaria de estender minha gratidão especial à minha
editora, Cindy Spiegel, cuja inteligência, perfeição e encorajamento eram
exatamente o que eu precisava para corrigir e revisar este livro. Considero-me
extremamente afortunado em ter tido a experiência de trabalhar com alguns dos
melhores editores que na melhor das circunstâncias são capazes de ser também
terapeutas, professores de escritores, companheiros de discussão e amigos, tudo
ao mesmo tempo. Cindy foi tudo isso, e eu guardarei com carinho as lembranças
de muitas tardes de discussão que tive com ela, pessoalmente ou através das
margens do manuscrito; minha própria visão de sincronicidade foi ampliada e
melhorada depois de conhecê-la. Ela é uma pedra preciosa.
Para as várias pessoas que usaram seu tempo para me contar suas histórias e
aos meus clientes que permitiram que seu trabalho comigo ajudasse também aos
outros, eu estendo minha grande admiração. Sinto-me bastante privilegiado por
ter sido depositário destas partes íntimas e frequentemente espantosas da história
de suas vidas, e espero que sintam que ao recontá-las eu tenha feito justiça ao
significado daquilo que vocês dividiram comigo.
E, como sempre, para as pessoas com quem eu divido minha vida diária, que
me mantiveram equilibrado, ligado, são e encorajado, baci edabbracci: meus pais
e minha irmã, Carolann; Tanya, Jurgen, Padma, Freya e Nimbus; os Ritrosani; os
Campton; os Castillo e os Schwartz todos; Phil La Tona, o irmão mais velho que
não tinha tido até agora; e, é claro, minha própria família envelhecendo graciosa
mente, Paul Schwartz, Bianca Neve e Minou.
Sumário
Introdução
As Histórias que Vivemos, as Conexões que Fazemos Capítulo Um
Quando É que as Coincidências Não São Somente Coincidências?
Definindo Sincronicidade Capítulo Dois
Como um Relâmpago Sincronicidade e Nossas Histórias de Amor Capítulo
Três
Ganhando e Gastando
Sincronicidade e o Trabalho de Nossas Vidas Capítulo Quatro
Uma História íntima
Sincronicidade e Nossas Vidas dos Sonhos Capítulo Cinco
Entrando em Contato com o Autor Sincronicidade e Nossas Vidas
Espirituais Capítulo Seis
Toda História Tem um Começo e um Fim Sincronicidade e as Questões de
Vida e Morte Notas
Bibliografia
Introdução
As Histórias que Vivemos, as Conexões que Fazemos
É errado, portanto, censurar um romance que é fascinante por
suas misteriosas coincidências (...) mas é certo censurar o
homem que é cego a essas coincidências em sua vida diária.
Pois sendo assim, ele priva sua vida de uma nova dimensão
de beleza.
MILAN KUNDERA, A insustentável leveza do ser
A origem deste livro está numa única e simples pergunta que me fiz depois de
um daqueles tipos de sonho muito especiais que as pessoas têm de vez em
quando. No sonho, eu estava preso numa história que eu mesmo estava
escrevendo, e incapaz de convencer meus personagens de que eu era seu autor e
realmente não fazia parte da trama. Frustrado por ser incapaz de sair de minha
própria história, mas ao mesmo tempo divertido pelo meu dilema, acordei. Como
escritor, leitor e terapeuta, minha vida é cheia de histórias. Eu conto histórias. Eu
leio histórias. As pessoas me contam histórias. Então, naquele dia especialmente,
enquanto o sonho estava vivido em mim, eu pensava nas histórias e no papel que
elas representam em nossas vidas.
A vida de todos nós é baseada em contar histórias. Você volta do trabalho e a
primeira pergunta é: “Como foi seu dia?” Em outras palavras: “Por favor, conte-
me a história de seu dia.” Ou você encontra uma amiga para almoçar e antes que
pegue o guardanapo, ela está perguntando: “Então, quais são as novidades?” Em
outras palavras: “Conte-me uma história.” Se você tem filhos, raramente
precisará pedir que eles contem suas histórias. Crianças vivem suas vidas no
mundo das histórias, e goste ou não, essas histórias serão contadas a você, com
detalhes minuciosos.
Em vista dessa verdade, portanto, surgiu a pergunta seguinte em minha
cabeça: “E se o sonho fosse verdade? E se eu fosse realmente um personagem de
uma história?” Em certo sentido, já sei que sou. Se você perguntar aos meus pais
a meu respeito, terá a confirmação definitiva de que sou, sim, um personagem
em várias histórias — acontece que estas são as suas histórias. Da mesma forma,
pergunte aos meus amigos, meus clientes, meus colaboradores — todos eles irão
contar histórias a meu respeito.
Mas não foi isso que eu quis dizer com a pergunta se eu — ou você — somos
personagens de uma história? E se o que vivenciamos como nossa vida for na
verdade uma obra de ficção? Como saberíamos? Como podemos saber?
Presumindo que a história seja coerente e os personagens e suas vidas façam
sentido, como poderia um personagem saber se ele ou ela são parte de uma
trama? Com certeza, somente algo de fora, algo surgido do além, poderia chamar
a atenção do personagem para a natureza da história que ele ou ela estão
vivendo. Ainda assim, essa extraordinária ocorrência, qualquer que fosse,
precisaria fazer parte dessa trama: teria que fazer sentido, ter um significado,
dando aos personagens e à história começo, meio e fim, certo?
Quase todos os dias um determinado tipo de acontecimento, que nós
chamamos de coincidência, ocorre em nossas vidas. Duas coisas acontecem, e a
forma como estão interligadas chamam nossa atenção por alguma razão.
Algumas dessas coincidências parecem não nos afetar muito, seja emocional ou
intelectualmente; ou seja, elas não têm muita importância em nossas vidas. Elas
são o que normalmente chamamos “somente uma coincidência”.
No entanto, se prestarmos um pouco de atenção ao efeito que os
acontecimentos provocam em nós, percebemos um tipo diferente de
coincidência, uma confluência de acontecimentos que nos balança. No momento
em que ocorre uma dessas coincidências, nós sabemos que algo muito
importante, algo muito significativo, está acontecendo. Nós podemos ver e sentir
um significado no acaso. Enquanto para alguns esse segundo tipo de
coincidência pode parecer pura sorte, ou “somente uma coincidência”, nossa
experiência pessoal nos diz que algo categoricamente diferente está
acontecendo; e é esse segundo tipo de coincidência significativa que o psicólogo
suíço C. G. Jung chama de “sincronicidade”.
Minha ideia e base para este livro que vocês estão para ler é de que nossa
vida é de fato uma história e que as ocorrências sincronísticas nos alertam para
este fato. Vou contar uma história que esclarece o que quero dizer.
Minha amiga Ann em determinada fase de sua vida tinha uma tendência para se
envolver com homens casados. Divorciada há algum tempo e sem querer muito
compromisso, ela teve alguns relacionamentos sexuais de certa forma
duradouros com homens casados que eram emocionalmente distantes de suas
esposas. Naquele momento, o papel de “outra mulher” era-lhe conveniente. Um
desses relacionamentos começou durante umas férias no México, com um
homem chamado Dan, que tinha se separado recentemente de sua mulher e
estava levando seu barco para o Sul. (Como seu confidente, eu soube de todos os
detalhes.) O romance era intenso, como tendem a ser os romances de férias, e
mesmo vivendo a 180 km de distância, eles continuaram o relacionamento
depois de acabadas as férias. Ele era bonito, financeiramente estável e
sexualmente era ótimo. Ann se apaixonou. E assim continuou durante quase um
ano, com ele dirigindo a qualquer hora do dia ou da noite até sua casa para
visitas e passar as noites. Então, lentamente, parecia que os seus sentimentos
começavam a mudar. A separação pesava mais e mais sobre ele, até que ele
percebeu que por mais que gostasse de Ann, seu lugar era com sua mulher de
tantos anos. Assim, sua intensa ligação chegou ao fim lenta e dolorosamente.
Passou-se um ano, e Ann, que tem uma atitude muito madura em relação às
coisas do coração, curou suas feridas e continuou sua vida. As vezes ficava
pensando a respeito de Dan, mas sempre percebia que ligar para ele não traria
nada de bom, na verdade só complicaria as coisas, sem necessidade. Então uma
amiga sugeriu que fizessem um passeio e dirigissem até a cidade da costa onde
Dan morava para passar o dia. Ann hesitou, imaginando o que sentiría passeando
pela cidade onde ele vivia com a mulher, mantinha seu barco e tinha seus
negócios, mas foi mesmo assim.
Era um dia glorioso de primavera, daqueles que fazem você se sentir
apaixonada, mesmo não estando. E como era de se esperar, Ann sentiu a
presença de seu antigo amor em toda parte, embora tenha resistido a cada passo
do caminho à forte tentação de ligar para ele, ir à sua casa ou visitar a marina
onde ele guardava seu barco. De qualquer maneira, ela nunca tinha visitado a
cidade antes e encontrá-lo ou a seu barco ia requerer uma boa investigação.
Então ela e a amiga saíram passeando e fazendo compras, almoçaram vendo a
baía e assistiram a um lindo pôr-do-sol na praia antes de voltar para casa. Cheia
de lembranças de como tinha sido o dia, quando entrou em casa o telefone estava
tocando. Para seu espanto, quando atendeu, ouviu uma voz muitíssimo familiar.
“Oi, Ann, aqui é o Dan. Pensei em você o dia todo e resolvi ligar para saber
como você está.”
Bem, esta história parece inventada, daquelas que só acontecem nos filmes.
Primeiro, o momento perfeito demais: receber o telefonema de seu ex-amante
no instante em que você entra em casa de volta de um passeio até a cidade dele.
Esta é a minha questão. As formas especiais de coincidências, que são o assunto
deste livro, as coincidências significativas que chamaremos de sincronísticas,
percebi que sempre carregam em si uma característica claramente dramática ou
novelística, pela maneira como um acontecimento interior, um estado emocional
— os sentimentos de Ann por Dan —, se reflete em uma ocorrência casual do
mundo exterior — o telefonema de Dan. Eu me aventuraria a dizer que a maioria
de nós, normalmente, não pensa que é assim, com fatos externos
caprichosamente arrumados para espelhar, confirmar ou transformar nossa vida
interior, e mesmo assim essas coisas acontecem. A verdade pode ser tão
espantosa quanto a ficção.
Em segundo lugar, em função do impacto emocional que causou, é difícil
acreditar que o telefonema de Dan tenha sido só puro acaso. Se você é como a
maioria das pessoas, provavelmente está pensando nas várias maneiras de
explicar tudo racionalmente — Dan viu Ann em sua cidade naquele dia mas não
tomou conhecimento, ou só registrou subliminarmente, e então telefonou mais
tarde. Ou, de alguma forma, sentiu sua presença misticamente. Ou ela enviou
“vibrações” que o “fizeram” ligar. De qualquer forma, a verdade dos fatos é que
o telefonema de Dan naquele dia, naquela hora, foi uma ocorrência do acaso,
mas uma ocorrência do acaso com uma diferença crucial: foi significativo para
Ann, depois de ter passado o dia imersa em lembranças, ela viu sua conexão com
Dan restabelecida sem nenhuma interferência de sua parte.
É o significado desses acontecimentos do acaso que tornam uma coincidência
sincronística diferente dos outros tipos de coincidências. Obviamente, se Ann
estivesse entrando pela porta e sua mãe ligasse naquele mesmo momento, teria
sido também uma coincidência. “Oi, mãe, engraçado você ter ligado. Acabei de
entrar em casa.” Mas é a história por trás do telefonema de Dan, a história de seu
relacionamento, o ambiente onde Ann acabara de passar seu dia que tornam esta
coincidência diferente.
Não são todos esses elementos que estabelecem as bases para uma boa
história? Nós esperamos uma trama interessante e bem-construída, na qual os
eventos acontecem de acordo com um plano, o qual não precisamos ser
necessariamente capazes de perceber de início, mas que com a continuação da
história se torna cada vez mais claro para nós, então o que parecia fortuito e sem
sentido torna-se de grande importância. E sua importância na trama tem a ver
principalmente com o impacto emocional causado por esses acontecimentos na
vida dos personagens, nas mudanças e transformações que provoca, às vezes
para melhor, às vezes para pior, mas sempre significativas.
Sincronicidade de acontecimentos, como o telefonema de Dan, nos alerta
para o lado da história de nossas vidas e para a maneira como é estruturada: uma
trama que não podemos perceber de início mas que em momentos chaves de
nossas vidas chama nossa atenção para um tipo de confluência entre um fato
externo e um estado interior que nós — erradamente, eu afirmo — imaginamos
que só pode acontecer na ficção. Como na ficção, a sincronicidade tem um
impacto significativo. Traz à tona uma forma diferente de olharmos para nós
mesmos, uma perspectiva ampliada de nossas vidas ou um entendimento mais
profundo do outro no mundo.
Vou contar outra história que mostra o que faz de uma coincidência uma
sincronicidade e por quê. Novamente, essa história parece ter sido tirada de um
conto de O. Henry, mas, como todas as histórias deste livro, é verdadeira. Em
absoluto contraste com sua criação cristã, uma de minhas clientes, que chamarei
de Bobbie, começou a ter uma série de sonhos contendo imagens que eu
reconheci como sendo imagens do tarô. Embora ela desconhecesse
completamente o tarô e desaprovasse fortemente aquilo que a igreja de sua
infância chamaria de ocultismo, mesmo assim as imagens eram: a Imperatriz em
seu trono, o Imperador com seu cetro, o Tolo andando sobre o abismo. E como
sempre acontece com os sonhos quando ignoramos sua mensagem, eles se
tornaram mais explícitos, até que na véspera de seu aniversário ela sonhou com
um jogo de tarô, treze cartas dispostas em forma de diamante. Apesar de seu
ceticismo em relação ao beneficio que o tarô podería lhe trazer, esse sonho ficou
marcado. A simples ideia de ir a uma loja esotérica, procurar um baralho de tarô
e depois pagar em dinheiro, era, em sua opinião, muito estranha. Ela não estava
convencida de que seria capaz de fazer isso.
Tendo acompanhado, ao longo de minha vida profissional, algumas pessoas
pelas trilhas da resistência ao que podemos chamar de elementos de suas
histórias — elementos que elas não querem reconhecer como parte importante
da trama —, eu sabia que não deveria pressioná-la. Na seção seguinte ao seu
aniversário, Bobbie chegou, e para minha surpresa, trazia um baralho de tarô.
— Eu não comprei — disse ela em resposta à pergunta que eu não fiz.
— Ah. Então...?
Ela ria, mais de si mesma, pensei, do que da situação.
— Meu marido me deu de aniversário. E, não, eu não contei para ele nenhum
dos sonhos a respeito dos quais temos conversado. Você sabe minha atitude em
relação a essas coisas; dificilmente vou sair por aí falando sobre isso,
especialmente para ele. — Como Bobbie, seu marido era bastante conservador e,
segundo ela, achava até o fato dela estar fazendo psicoterapia um pouco fora dos
padrões. — Então no meu aniversário, abri a caixa, simplesmente estarrecida.
Imediatamente pensei, será que ele anda lendo meu diário? Ouvindo nossas
sessões? Mas não. Eu perguntei a ele: “O que fez você me dar isto?” E ele disse,
de uma maneira totalmente irreconhecível: “Eu vi na vitrine de uma livraria, e
algo me disse, preciso comprar para Bobbie, isto vai ajudá-la. Feliz Aniversário,
meu bem!”
Como na história do telefonema de Dan para Ann, Bobbie e seu tarô são a
fábula da inesperada coincidência entre uma situação interior e um fato externo
que parece, como todos os eventos de sincronicidade, quase perfeito em seu
timing e significado. No caso de Bobbie, a situação interna era seus vários sonhos
com as figuras do tarô, figuras que ela, pelas razões mais variadas,
persistentemente se recusava a tomar conhecimento. O fator externo, claro, foi o
surpreendente presente de seu marido; e o elemento de sincronicidade dessa
coincidência foi o efeito causado por esse presente de aniversário perfeito, na
resistência de Bobbie. Ela começou finalmente a trabalhar com o tarô, depois de
tê-lo literalmente recebido em suas mãos, e seu trabalho com o imaginário
iniciou um longo período de crescimento espiritual e psicológico que a tornou
uma pessoa bem mais criativa e tolerante do que sempre fora.
Embora os sonhos de Bobbie estivessem deixando claro durante meses para
onde a trama de sua história particular estava indo — especificamente, para
longe da confiança exclusiva nas imagens religiosas de sua infância, para dar
significado à sua vida e direcioná-la até uma ampla apreciação da sabedoria
manifestada em outras formas de espiritualidade e religião —, foi necessário o
ato inusitado de seu marido, dando-lhe um presente que ela não pedira, algo que
ela jamais poderia imaginar receber dele, para dissolver sua resistência. Como o
telefonema de Dan, o presente de Bobbie não foi algo que ela tivesse provocado;
foi um acontecimento que ocorreu por pura sorte, e mesmo assim trazendo um
impacto significativo e transformador da vida. Este significado é o que fàz desse
presente — comparado a qualquer outro, um anel de diamante, um livro de
poesia — uma sincronicidade. Esperamos que esse tipo de coincidência aconteça
com personagens de contos, porque nos contos sabemos que o momento, a trama
e os acontecimentos se encaminham para o desenvolvimento dos protagonistas.
Insisto, outra vez, que nossas vidas têm uma estrutura narrativa, como a dos
contos, e nesses momentos que chamamos de sincronicidade, essa estrutura é
trazida ao nosso conhecimento de uma maneira tal que causa um impacto
significativo em nossas vidas.
Reparem neste exemplo, quando, confrontada com a sincronicidade do
encontro entre interior e exterior, Bobbie começou a procurar maneiras de
explicar o mistério desse acontecimento inesperado. Se seu marido tivesse lido
seu diário ou estivesse espiando nossas sessões, então seu presente de um
baralho de tarô teria “feito sentido” dentro da forma que a maioria de nós
normalmente pensa sobre nossas vidas. Nesse sentido, Bobbie é uma pessoa
razoavelmente típica, e seu desejo de se sentir controlando sua própria vida, o
que ela chama “postura direta”, em relação à vida, é, em minha experiência,
comum à maioria dos nós.
O presente do marido desafiou Bobbie; antes de recebê-lo, ela pensou que
sabia qual era a trama de sua história. De fato, nossa cultura nos encoraja a
acreditar que somos — ou deveríamos ser — os autores de nossas histórias. Mas
quando acontecimentos externos espelham com tal precisão nosso estado interior
que o impacto da coincidência não pode ser ignorado ou sua importância negada,
e ao mesmo tempo nossa falta de controle sobre os acontecimentos é
indiscutível, enfrentamos a pergunta que Bobbie teve que encarar: se eu não sou
a autora de minha história, quem é?
Embora a resposta para esta pergunta seja uma das que estaremos explorando
nos próximos capítulos, meu objetivo é esclarecer por que os acontecimentos
sincronísticos quase sempre esbarram com uma tendência a serem negados,
diminuídos ou menosprezados pelos leitores e até mesmo pelos próprios
participantes. Acontecimentos sincronísticos nos confrontam com o fato de que
algumas vezes as histórias que inventamos a nosso respeito e que gostaríamos de
viver não são necessariamente as histórias que estamos vivendo, ou, indo além,
que devemos viver.
É claro que, sendo escritor, talvez mais do que ninguém, posso ficar seduzido
pela ideia de que sou o autor de minha história. Para ilustrar quantos
emaranhados e viradas a trama pode tomar para destruir a ilusão da autoria, vou
contar a história de como encontrei um dos meus melhores amigos, Phil. Como
antigo associado da ACM local, tenho visto funcionários entrarem e saírem com
certa regularidade. Um dia, há uns cinco anos, reparei um novo rapaz
trabalhando lá, o tipo completo de rapaz que você espera ver numa academia de
ginástica: mais de trinta, tipo italiano, do gênero calado, musculoso. A ACM
daqui não é definitivamente um desses lugares onde os garotões fortes vão para
malhar seriamente. As pessoas vêm para a ACM para fazer aeróbica, levantar
um peso ou dois, e ir para casa, portanto os funcionários geralmente não têm
muito o que fazer. Os mais comunicativos conversam com os associados para
passar o tempo, os mais fechados sentam nas escrivaninhas e não falam com
ninguém. Esse rapaz novo geralmente se sentava e ficava com cara de tédio, e
durante muitos meses eu passava por ele, fazia minha ginástica e saía, achando
que ele era mais um dos muitos atletas que eu já vi nesse lugar.
Então morre um amigo próximo; embora não sendo inesperada, sua morte foi
um choque para mim, pois já perdi muitos amigos em acidentes e doenças. Senti
uma solidão rasteira me invadindo, na medida em que meu círculo social ficava
cada vez menor, isto já tinha sido objeto de boa parte de minha atenção
emocional nos últimos anos, e os meus maiores esforços para expandir meu
círculo de amigos na realidade não rendera muito, talvez algumas amizades de
curta duração e superficiais, mas nada muito profundo. Eu tinha meus interesses
solitários, ia à ginástica, à opera, andava de bicicleta. Quando meu amigo
morreu, em abril, eu já estava de certa forma acostumado a essa situação e tinha
aprendido, mais ou menos, como tomar conta de mim mesmo. Na manhã do seu
funeral, no qual eu havia concordado em cantar, decidi fazer uma massagem na
ACM, com um massagista com quem eu já tinha feito várias vezes.
Eu estava preocupado com o funeral, ansioso com minha performance e me
sentindo fisicamente tenso. Como você deve imaginar, minha expectativa na
história que eu estava vivendo naquela manhã era de que logo estaria deitado na
mesa de massagem completamente relaxado e solto. Mas acontece que havia
uma nova conspiração a caminho. Eu sentei no saguão à espera da minha hora
marcada, 9h, e a hora passou. 9hl5. E nada do massagista. Isso não era normal,
pois o massagista era um dos principais elementos da equipe. Ninguém
conseguia localizá-lo. 9h30. E nada do massagista. Nesse momento, eu sentia
um misto de raiva, frustração, desapontamento e uma enorme tensão física, que
até o funcionário da mesa sentiu. Com profundas desculpas, ele marcou hora
com um outro massagista para o dia seguinte, sem cobrar o custo da massagem.
Ainda assim eu continuava lívido, porque não era dessa forma que as coisas
deveriam ter acontecido.
O serviço funeral daquela tarde foi difícil, ajudado pelo incidente da manhã,
pois, além da minha raiva, minha sensação de solidão e abandono continuava me
influenciando. No dia seguinte fui à ACM para minha massagem de graça, para
viver uma reprise do dia anterior. O massagista desse horário era outro, mas
depois de esperar durante meia hora soubemos que seu carro tinha quebrado e
que ele não poderia vir. Isto, definitivamente, não deveria fazer parte da minha
história, e o roteiro que eu tinha na cabeça para toda essa situação era muito mais
vantajoso do que o que estava acontecendo. A essa altura eu já estava furioso.
Marquei mesmo assim uma hora para a noite seguinte com o único massagista
disponível, para minha surpresa, o caladão, entediado tipo italiano, que para mim
parecia tão massagista quanto Rocky Balboa. Mesmo hesitando em fazer uma
massagem com ele, fui em frente e marquei hora pela terceira vez.
Como num conto de fadas, em que as coisas precisam acontecer três vezes
para darem certo, na noite seguinte apareci para minha massagem com Phil e
passei a conhecer não o atleta que eu achava que ele era, mas um homem muito
inteligente, culto, com quem eu tinha muito em comum. Fora ele que na semana
anterior havia colado no quadro de avisos da ACM uma lista de eventos do
Centro Masculino, que incluía uma palestra minha. Enquanto conversávamos,
descobri que ele tinha planos de se tornar terapeuta e era também um ávido
ciclista. Para encurtar, nos meses seguintes à primeira massagem, ele se tornou
meu melhor companheiro de ciclismo, depois meu parceiro de ginástica, e agora,
com o passar dos anos, meu melhor amigo.
O conjunto de fatores do acaso que nos uniu como amigos — os sucessivos
cancelamentos por parte de funcionários geralmente bastante responsáveis da
equipe de massagem — representa o fator externo dessa sincronicidade; foi
também esse fator externo que fez nascer uma amizade em um momento da
minha vida no qual minha solidão interior, tristeza e raiva precisavam muito de
uma transformação. Como veremos em muitas das histórias que se seguem,
alguns dos mais memoráveis acontecimentos de sincronicidade na vida das
pessoas se relacionam com os encontros com as pessoas certas, por mero acaso,
justamente em momentos de grande necessidade ou de uma abertura fora do
comum.
Mas existem elementos adicionais de sincronicidade nesta história que tem a
ver com a história que eu pensava estar vivendo versus a história que eu estava
vivendo na realidade. Sem a chance da série de cancelamentos, eu
provavelmente nem chegaria a conhecer Phil, pois baseado em sua mera
aparência eu já havia escrito a sua e a minha história: ele era um atleta bobo com
quem eu não tinha nada em comum. O impacto de nossa amizade, que só
começou “acidentalmente” depois de meses passando um pelo outro na
ginástica, tinha tanto a ver com o que tínhamos em comum, quanto com a lição
que aprendi a respeito de minha ilusão sobre autoria — eu não sei tão bem
quanto imagino quem é quem e o que é melhor para mim. E o tipo de lição que,
acredito, muitos de nós só aprendemos através de uma chance significativa.
Fazendo um jogo de palavras, este livro pode ser considerado como mostrando
um enfoque novelesco da sincronicidade, baseado, como eu disse, na ideia de
que cada uma de nossas vidas é uma história e que as sincronicidades chamam
nossa atenção para a estrutura desta história, a novela, se preferir, que estamos
vivendo. Além disso, examinar a sincronicidade sob esse ângulo é também, num
outro sentido da palavra, um enfoque novelesco, como a maior parte do que já se
escreveu sobre sincronicidade até agora indica, ou um ponto de vista puramente
psicológico, ou uma perspectiva científica. O ponto de vista psicológico, descrito
principalmente pelos seguidores de Jung, vê nesse fenômeno um argumento a
favor da primazia da subjetividade, enquanto a visão científica formula um
argumento a favor de uma nova física através da sincronicidade.
Em minha visão, essa novela, em vários sentidos, não é para questionar, mas
para depois de uma pequena introdução a alguns aspectos da sincronicidade
simplesmente contar histórias e examinar seus significados. Algumas serão
histórias de amor — as surpreendentes conexões entre as pessoas, amores
perdidos, encontrados e o começo de boas amizades. Algumas serão histórias de
nossas profissões e vocações — oportunidades perdidas ou ganhas através de
chances fortuitas que não poderiam ser provocadas ou antecipadas por ninguém.
Seguindo essa linha, teremos histórias de transformação e crescimento interior,
pois os sonhos, como já dissemos, são frequentemente sincronicidades, como
também formas de adivinhação baseadas na sorte, como o tarô, o I Ching e assim
por diante, que usam a sincronicidade para nos ajudar a ver com mais clareza a
história que estamos — ou deveríamos estar — vivendo. E porque cada história
tem começo e fim, haverá histórias de sincronicidade em torno desses dois
pontos de transição que todos enfrentamos, nosso nascimento e nossa morte. O
tempo todo, estarei incluindo as histórias daquilo que, em nossas ilusões
autorais, chamamos de “acidentes”, acontecimentos desagradáveis, que fizemos
o máximo para evitar mas às vezes, sincronisticamente, não são nem falta de
sorte nem sem sentido dentro da história de nossas vidas.
Em cada uma dessas histórias — algumas das quais são experiências
pessoais, outras me foram contadas pelas pessoas envolvidas e outras são
exemplos tirados da literatura sobre sincronicidade — a linha que divide o que
parece ficção e o que é de fato vida real se torna confusa. Você, leitor, pode
duvidar da veracidade de algumas dessas experiências e achar difícil apreciar o
significado desses acontecimentos para as pessoas envolvidas. Como já
mencionei antes, nada mais fácil do que menosprezar a experiência de
sincronicidade de outra pessoa. Mas, através deste livro e das muitas histórias
que virão, eu convido você a examinar suas próprias experiências com a maior
frequência possível, especialmente quando você se pegar dizendo “Isto é
impossível, ele inventou” ou “E daí.?”. Nessas horas, lembre da verdade de sua
própria vida, quando aquele fato significativo porém inteiramente fortuito, que
ajudou a moldar sua própria história, parecia mais estranho do que ficção. Como
diz o autor de A insustentável leveza do ser, Milan Kundera, estamos certos em
repreender aqueles que são cegos para as coincidências da vida, pois, como este
livro irá mostrar, essas coincidências especiais que chamamos de sincronicidade
nos alertam, muitas vezes, para a beleza, a ordem e a conexão das lendas que
vivemos.
Capítulo Um
Quando É que as Coincidências Não São Somente
Coincidências?
Definindo Sincronicidade
C. G. Jung, cujo livro Sincronicidade: um princípio casual de conexão foi
publicado em 1952, inventou o termo “sincronicidade” e lançou-o na linguagem
psicológica, o qual foi rapidamente adotado pela cultura popular. Como muitas
das ideias que incendeiam a imaginação popular, a noção de Jung de
coincidências significativas não era nem nova nem única, mas o crédito de Jung
é que o seu enfoque dos acontecimentos sincronísticos nos permite vê-los de
uma forma mais clara e prática.
Filho de um ministro evangélico e de uma mãe com um psiquismo diferente,
talvez com tendências psicóticas, Jung seguiu um caminho de vida nada
incomum para um filho de pastor. Profundamente religioso, Jung no entanto
repetida e explicitamente rejeitou as religiões organizadas com suas teorias
dogmáticas e espiritualidade institucionalizada, e sua escolha pela carreira de
psiquiatra, como descreve sua autobiografia Lembranças, sonhos, reflexões, tem
muito a ver com a crise de fé de seu pai. Por causa de seu passado, Jung se
dedicou, durante sua longa carreira, a entender o que Heráclito chamou de
“fronteiras da alma”, usando as ferramentas da moderna psicologia. Ele aplicava
constantemente métodos científicos para examinar os assim chamados
fenômenos “irracionais” e para elucidar o significado psicológico e a função
dessas experiências na vida humana — experiências paranormais, percepções
extra-sensoriais, OVNIs, psicocinética e afins. Sua tese de doutorado, por
exemplo, chamada “Sobre a psicologia dos chamados fenômenos ocultos”,
tentava trazer uma explicação psicológica racional para as habilidades
mediúnicas de uma mulher cujos estados de transe, comportamento automático e
habilidades psicocinéticas eram notáveis.
A utilização por Jung de métodos científicos para dar sentido aos fatos que
muitos rejeitam como sendo fantásticos, sem sentido, ou, pior, perturbações, era
vista pela instituição psicanalítica de seu tempo como um sinal da tolice e
excentricidade de Jung, pois a pesquisa no campo da psicologia acadêmica era (e
ainda é) organizada seguindo linhas estritamente comportamentais ou cognitivas.
Quando as teorias psicanalíticas de Freud começaram a desafiar essa visão
mecânica da psicologia colocando esses eventos como resultado de processos e
conflitos inconscientes, Jung inicialmente gravitou em torno dessa nova maneira
de pensar. Porém, depois de discordar de Freud sobre o papel da sexualidade e a
natureza do inconsciente, Jung se encontrou novamente excluído e isolado,
enquanto os psicanalistas freudianos ganhavam terreno na Europa e nos Estados
Unidos.
Mesmo hoje, equívocos a respeito do interesse de Jung em fenômenos como
sincronicidade levam muitos a terem uma visão depreciativa de seu trabalho,
desvalorizando-o como mero misticismo com roupagem psicanalítica ou como
resultado de seu autoindulgente subjetivismo. O que é frequentemente mal
compreendido é que Jung sempre se aproximou de fenômenos como fantasmas,
astrologia e sincronicidade não de uma forma simplista, crédula, mas ao
contrário, sob o ponto de vista mais objetivo e racional possível. Sua intenção
em seus estudos sobre esses fenômenos foi sempre perguntar: “Quais são as
condições psicológicas internas, tanto conscientes quanto inconscientes, para que
nossa experiência externa seja afetada de maneira tão inesquecível e
transformadora?” Ao contrário de muitos, nos dois lados dessa discussão, Jung
tentava examinar esses fatos sem prejulgá-los como ridículos ou aceitar de
imediato que a forma mais literal de entendê-los era a verdade absoluta.
Ao longo de minhas pesquisas para este livro percebi que várias pessoas
ficam confusas a respeito do que realmente é sincronicidade ou não. Talvez seja
melhor, portanto, começar com a simples definição do conceito como Jung o
desenvolveu, como uma “coincidência significativa”. O problema dessa
simplicidade, no entanto, é que se você procurar no dicionário a definição da
palavra “coincidência” encontrará algo do gênero “sequência acidental de fatos
ocorridos simultaneamente ou no mesmo período de tempo”. Infelizmente esta
definição árida deixa de fora a forma como geralmente empregamos a palavra, o
que faz toda diferença do mundo.
Se estou, por exemplo, datilografando esta frase e um passarinho entra pela
janela, segundo o dicionário, isto é uma coincidência — uma sequência acidental
de fatos ocorridos com proximidade temporal. A maioria das pessoas, no
entanto, não chamaria esse fato de “coincidência”. Por outro lado, se estou
datilografando esta frase e uma amiga telefona e me diz que ela também está em
meio a uma tentativa de escrever uma definição de sincronicidade para um artigo
seu, a maioria das pessoas chamaria isto de uma coincidência muito interessante.
Porém, se você soubesse que minha amiga e eu havíamos combinado na noite
anterior de passarmos uma hora durante essa tarde tentando escrever uma
definição de sincronicidade, o fato de estarmos os dois fazendo a mesma coisa
ao mesmo tempo já não seria mais tanta coincidência, seria? Em outras palavras,
a mera ocorrência simultânea de dois ou mais fatos não nos leva a chamar algo
de “coincidência”, mesmo que o dicionário o faça. Ao contrário, no uso popular
o termo coincidência é uma sequência de fatos que acontecem proximamente,
que são ligados uns aos outros e que são relacionados entre si pelo acaso através de
uma similaridade notável.
Muito embora isso não exprima exatamente a forma como usamos a palavra
“coincidência”, pois se minha amiga me ligar às seis da tarde para dizer que está
fazendo o jantar, para me ouvir responder que estou fazendo exatamente a
mesma coisa em minha casa, a maioria das pessoas provavelmente não
consideraria isso uma coincidência, pelo simples fato de que a maioria das
pessoas possivelmente estará preparando seu próprio jantar por volta dessa hora
do dia. Em outras palavras, a definição do dicionário da palavra coincidência
também diz que uma coincidência é uma sequência incomum de acontecimentos
simultâneos que têm algum tipo de relação entre si. Coincidências são, como
geralmente usamos a palavra, ocorrências extraordinárias.
Definindo sincronicidade, Jung deu ainda um outro passo. Coincidências —
acidentais, porém sequências de fatos incomuns relacionados entre si —
acontecem de vez em quando para todas as pessoas, mas essas coincidências não
são necessariamente muito significativas. Se, de fato, a amiga que está
escrevendo seu artigo sobre sincronicidade é alguém cujo interesse nesses
tópicos espelha os meus e isso é parte das razões pelas quais somos amigos,
pode ser muito interessante que ela esteja coincidentemente envolvida em
escrever sobre o mesmo assunto que eu, mas a coincidência não teria
necessariamente qualquer significado além do fato de ter acontecido. Porém, se
enquanto eu estava escrevendo me sentia muito isolado, pensando comigo
mesmo que ninguém sabe ou sequer se importa com sincronicidade, uma amiga
liga para dizer que também ela está escrevendo sobre sincronicidade nessa
mesma tarde, bem, só a partir de então a coincidência tem um significado
considerável para mim, e pode muito bem ter um efeito significativo na forma
como me vejo e na minha maneira de escrever. Isto seria então o que Jung viria a
chamar de “sincronicidade”, ou, simplesmente, uma coincidência significativa.
Os exemplos que citei na introdução são boas ilustrações de eventos
sincronísticos — sequências significativas de acontecimentos fora do comum.
Durante seu longo relacionamento com Dan, Ann jamais visitara sua cidade. Seu
passeio até lá com uma amiga, portanto, era fato incomum. Da mesma forma,
desde o tempo em que Dan terminara o relacionamento, ela não tinha tido
notícias dele. Portanto, quando ele ligou no momento em que ela entrava pela
porta naquele dia, a ligação não era somente uma coincidência, mas também
cheia de significado, pois ela passara o dia inteiro silenciosamente tentando lidar
com seus sentimentos a respeito dele e de seu relacionamento. Se, como já
mencionei, sua mãe tivesse ligado no momento em que ela entrou, mesmo que
Ann não tivesse tido notícias suas há muito tempo, o fato ainda seria uma
coincidência — como o diálogo “Engraçado você ter ligado, acabei de entrar em
casa” —, mas não teria o significado emocional que a ligação de Dan teve.
Da mesma forma, com Bobbie. Se o marido dela tivesse lhe dado o anel de
diamante que ela vira na véspera numa vitrine de joalheria, teria sido com
certeza uma coincidência, mas não teria o mesmo significado que o presente do
baralho de tarô teve para ela, em função dos vários meses sonhando com as
imagens do tarô e de sua resistência em lidar com isso. Como minha amizade
com Phil, que começou por puro acaso, depois de incomuns e acidentais
cancelamentos de uma série de compromissos, não teria sido sincronística se
tivesse acontecido num momento da minha vida em que eu não estivesse
sentindo tanto sofrimento e solidão — mas aconteceu, e assim a coincidência de
nosso encontro carregava e ainda carrega para mim um grande significado.
Surge então a pergunta: o que exatamente quer dizer “significativo”? Longe
de estar filosofando inutilmente, é importante fazer esta pergunta imediatamente
não só porque é crucial para a definição do conceito de sincronicidade de Jung,
mas porque, sem aceitar que a sincronicidade se refere ao significado subjetivo
dos fatos para os indivíduos envolvidos, muitos leitores vão achar que as
histórias que se seguem não têm nenhum significado real. Contando as histórias
que aparecem neste livro para algumas pessoas, percebi que a mesma história
que pode provocar excitação, interesse e admiração em alguns, pode provocar
um tedioso “Grande coisa!” ou “Quem se importa” em outros. O que provoca
esta diferença?
Por que, por exemplo, vou ao cinema com uma amiga, e ela sai em lágrimas
enquanto eu acho o mesmo filme ridículo e sentimental? O que torna uma coisa
significativa para uma pessoa e sem sentido para outra?
Quando dizemos que algo é significativo para nós, geralmente estamos
indicando uma de duas coisas: ou estamos dizendo que algo tem importância
para nós por causa de certos valores que carregamos — em outras palavras,
significa algo porque é valioso para nós —, ou estamos dizendo que algo nos
causou um impacto significativo — quer dizer, significa algo porque afetou
nossas vidas de maneira fundamental. Obviamente, um acontecimento pode
também ser significativo em ambos os sentidos. Continuando a usar os exemplos
da introdução, o telefonema de Dan era importante para Ann porque ela prezava
seu relacionamento, e o fato dele se importar o suficiente para ligar afetou-a
emocionalmente. Para Bobbie, o baralho de tarô de presente foi significativo
principalmente por causa do impacto causado nela, mas também porque lhe foi
dado justamente quando o que ela valorizava mais em sua vida, sua vida
espiritual, estava em processo de mudança. Para mim, as amizades são
relacionamentos que sempre me influenciaram grandemente — significam muito
para mim.
Portanto, um evento sincronístico é uma coincidência que carrega um
significado subjetivo para a pessoa envolvida, e como todas as coisas subjetivas,
o que para uma pessoa pode ser significativo — quer dizer, valioso e/ou
significativo por seu efeito — outra pode muito bem achar sem sentido. Um
exemplo perfeito desse aspecto de sincronicidade foi um incidente que aconteceu
com minha amiga Jill. Jantando em um restaurante movimentado, ela se sentou
perto de um homem que contava animadamente ao seu companheiro de jantar a
história de dois amigos seus que estavam tendo casos extraconjugais com as
irmãs um do outro. Ele não sabia, é claro, que a estranha perto dele, minha
amiga Jill, também conhecia as pessoas de quem ele estava falando. No final
dramático da história, ele se recostou com imensa autossatisfação e disse ao seu
companheiro, retórica e rebuscadamente, para finalizar a fofoca: “E você não vai
adivinhar nunca com quem ele está saindo agora!” Ao que Jill não pôde resistir e
se inclinou na direção deles e concluiu por ele, dizendo: “A prima de Mimi!”
O homem ficou boquiaberto; que experiência deve ter sido para ele quando
uma completa estranha, surgindo do nada, num restaurante público, finalizou sua
narrativa! Mas para Jill, que não tinha nenhum investimento emocional, como
ele tinha feito ao contar esta suculenta história de casamento e traição, era
simplesmente uma coincidência engraçada. Na verdade os dois viveram a
mesma experiência, mas o que era para Jill uma piada engraçada pode muito
bem ter sido vivida como uma incrível sincronicidade pelo homem cuja história
ela terminou, contendo uma importante lição sobre contar histórias íntimas de
uma forma indiscreta em um lugar público. As muitas histórias apresentadas
aqui, e as muitas mais que ouvi, me lembram sempre como um mesmo incidente,
ocorrido com duas pessoas, pode muito bem gerar duas experiências
completamente diferentes, uma sincronística e significativa, outra não.
Esta subjetividade torna fácil ridicularizar, menosprezar e fazer graça das
ocorrências sincronísticas dos outros. De fato, eu antevejo que qualquer um
lendo este livro vai descobrir que certas histórias tocam fundo enquanto outras o
deixam frio. Algumas histórias vão lembrá-lo de um momento quando uma coisa
parecida aconteceu com você, enquanto a outros perecerão triviais,
desinteressantes ou forçadas.
Além disso, veremos que a descrição sincronística se aplica a uma larga
escala de coincidências significativas. Em algumas coincidências, como em
nossos exemplos, a extrema improbabilidade do evento e o fantástico paralelo
entre estado interior e ocorrência externa será sua característica mais notável.
Esses tipos de eventos sincronísticos geralmente provocam uma sensação de
“Ah!” a respeito deles. Em outras coincidências significativas, pode levar muito
tempo até que o significado do que aconteceu fique claro, ou você pode perceber
que o significado de um evento pode desenrolar devagar através do tempo. Esses
tipos de sincronicidade provocam mais de uma sensação “Ah, agora entendi...”.
Em alguns casos o acontecimento externo ocorre primeiro e o significado
subjetivo, interior, vem em seguida. Em outros, a coincidência significativa é
entre uma imagem interior, como um sonho, e um acontecimento externo,
subsequente. Em todos os vários eventos sincronísticos, contudo, o princípio de
ligação entre interior e exterior é o significado do acontecimento para as pessoas
envolvidas.
Algumas pessoas, geralmente indivíduos analiticamente orientados, podem
ficar absortos tentando decidir se algo é ou não sincronicidade: se encaixa na
definição? Vai de encontro aos critérios? Gostaria de enfatizar neste início que o
conceito de sincronicidade é mais bem usado como uma ferramenta do que como
um fim em si. Assim como as ideia s a respeito do que constitui uma verdadeira
obra de arte, pode-se tranquilamente se envolver em indagações estéreis, sobre
se isto ou aquilo é realmente sincronístico, especialmente porque em todos os
eventos sincronísticos, como na obras de arte, está envolvida considerável dose
de subjetividade.
Sem dúvida o melhor uso do conceito é um que seja exploratório e
provocador. A ideia de que um acontecimento pode ser sincronístico dá a você
uma perspectiva diferente do fato, aprofunda sua compreensão do mesmo ou
intriga você o suficiente para olhar além do que aconteceu? Se for assim, então,
a ideia proposta por Jung serviu aos seus mais altos propósitos e ao propósito
para o qual este livro foi escrito — para ajudar pessoas a verem o significado das
histórias que estão vivendo a cada dia.
Mesmo que a sincronicidade seja uma ideia que existe desde a origem da cultura
humana, a contribuição de Jung foi sua observação de que a confluência especial
de acontecimentos, para a qual ele empregou o termo “sincronicidade”, quase
sempre tem três características distintas, às quais minhas próprias experiências e
pesquisas me levaram a acrescentar mais uma. Portanto, esses acontecimentos
que estamos chamando de sincronísticos geralmente têm quatro características.
Primeiro, estes acontecimentos são ligados pela casualidade, em vez de
ligados através de uma corrente de causa e efeito que um indivíduo pode
distinguir como intencional ou deliberada de sua parte. Segundo, esses
acontecimentos são sempre acompanhados de uma profunda experiência
emocional, geralmente na hora do acontecimento em si, porém nem sempre.
Terceiro, o conteúdo de uma experiência sincronística, o que o acontecimento é
realmente, é sempre de natureza simbólica, e quase sempre percebi, em relação
ao quarto aspecto especificamente, que essas coincidências ocorrem em
momentos de importantes transições em nossas vidas. Um evento sincronístico
geralmente se torna um momento de virada na história de nossas vidas.
Se Eu Não Provoquei,
Como Pode Ser? O Acaso e Nossos Egos
Dizer que somos, como cultura, acostumados a pensar em termos de causa e
efeito seria uma declaração incompleta. Nossa verdadeira concepção do mundo,
pelo menos para aqueles de nós com herança intelectual euro-americana, é
baseada na ideia de que cada ação provoca uma reação, cada estímulo uma
resposta. Certamente, não é surpresa que muito do moderno pensamento
científico desde o chamado Século das Luzes, ou Iluminismo, passando pela
espantosa produtividade da Revolução Industrial, tenha sido fundado
diretamente em cima dessa ideia . Nós agimos, segue-se a consequência, e nos
dizem que somos causadores do efeito produzido pela ação. Nós introduzimos
um elemento químico em uma solução, ela reage, nós causamos a reação. Nós
apertamos as teclas do computador para digitar uma palavra, apertamos a tecla
imprimir e uma frase pula fora num pedaço de papel. Nós causamos a escrita que
aparece na página. Ou quando deixamos de agir, por exemplo, esquecemos de
almoçar e consequentemente ficamos tontos. Causamos nossa tontura deixando
de almoçar. Este hábito de pensar em termos de causa e efeito é uma parte tão
fundamental da mentalidade ocidental que dificilmente estamos conscientes
disso. Isto é, até que esbarramos de frente com uma sequência de eventos que
por sua própria natureza mostram uma forma diferente pela qual os eventos
podem estar relacionados.
Uma conversa que pega fogo na certa em qualquer acontecimento social é
perguntar às pessoas se alguma vez já experimentaram um acontecimento
sincronístico. Quase todos têm seu exemplo favorito, e minha amiga Cathy não é
exceção. Sua história é uma boa ilustração de como o nosso hábito causai de
pensar é desafiado pela sincronicidade.
Durante certo período de sua vida, Cathy estava, como se diz, indiferente e
indecisa. Havia concluído o colegial mas não tinha certeza sobre o que fazer a
seguir. Como quase sempre acontece, ela gravitava em torno de um
relacionamento com um rapaz mais ou menos de sua idade, eles estavam saindo
há mais de um ano até que, como em geral acontece outra vez, se separaram e
seguiram seus caminhos. Para Cathy isso significou mudar para a Califórnia,
casar e ter duas filhas. Com o passar dos anos, durante seu casamento, o divórcio
e o segundo casamento, às vezes ela pensava em Richard, seu verdadeiro
primeiro amor, mas depois de três décadas, o pensamento tinha mais o sentido de
uma vaga curiosidade, como lembrar a trama de um filme que ela tinha visto há
muito tempo. Que ela soubesse, estava muito longe, e como estivesse bastante
satisfeita com sua própria vida, não tinha grandes motivações para fazer mais do
que fantasiar a respeito dele de vez em quando. A história de sua vida agora que
ela estava na casa dos cinquenta parecia razoavelmente bem escrita, e todas as
tramas e subtramas que ela viveu pareciam insignificantes.
O que então a levaria a pensar cada vez mais em Richard a esta altura?
Estaria ela sonhando com ele e não se lembrava? Estaria encontrando com
pessoas que a fizessem lembrar dele? Estaria ela infeliz em sua vida e no
casamento? Quando eu perguntei, Cathy não soube me dizer o porquê, somente
que, de repente, ela sentia insistentes impulsos internos para descobrir o que
tinha acontecido com ele. Seria tédio? Seria uma conexão psíquica? Seria uma
chance do acaso? Quem sabe? Mas o fato é que ela começara a dar alguns
telefonemas para tentar localizá-lo, primeiro ligando para pessoas em sua cidade
natal, depois com sua curiosidade aguçada seguindo suas pistas. Ela descobriu
que ele trabalhava para uma certa companhia de seguros no Leste, mas a
companhia de seguros era imensa, com filiais pelo país inteiro, e seu nome era
bastante comum: Richard Johnson. Ela passou um ano tentando encontrá-lo,
falando com vários Richard
Johnson e pessoas que conheciam Richard Johnson e que estiveram em negócios
de seguros, mas nenhum deles era o seu Richard Johnson. Como não havia
nenhuma razão imperativa para localizá-lo, e como as dificuldades para
encontrá-lo estacam superando a curiosidade que ela sentia, parou com seus
esforços efetivos e pôs a coisa toda do lado racional da mente que todos nós
temos e no qual se lê “Coisas Que Nunca Saberemos em Toda a Vida”.
Um dia porém, num jantar, ela se sentou à mesa em frente a uma mulher que
alegava ter habilidades psíquicas, e como todos os seus maiores esforços para
localizar Richard haviam falhado, Cathy achou que pedir à mulher para localizar
Richard Johnson seria um bom teste de seus supostos dons. Então Cathy contou
sua história à mulher e perguntou se ela podia encontrar Richard Johnson. A
mulher pediu a ela que escrevesse o nome dele num papel, desenhasse uma caixa
preta em volta, para manter a energia em volta dele, e olhasse para ele todos os
dias. Dificilmente acreditando nesse tipo de coisa, Cathy riu e decidiu fazer,
principalmente para provar o quanto a sugestão era ridícula. Se todos os seus
telefonemas e pesquisas durante um ano falharam, como é que este exercício
absurdo poderia funcionar? Assim fez ela. Escreveu o nome dele, desenhou uma
margem preta, grossa em volta, colocou em seu espelho e olhava para ele todos
os dias.
Já ouvimos o suficiente sobre essas histórias para imaginar o final. Depois de
uma semana, Cathy foi à sua caixa de correio e encontrou uma carta do
desaparecido Richard Johnson que não sabia nada a respeito de suas buscas em
torno dele no ano anterior, mas, de sua casa no Meio-Oeste, tinha decidido entrar
em contato com algumas pessoas do seu passado. Ele ligou para a irmã de Cathy
em sua cidade natal, conseguiu seu endereço através de um simples telefonema e
decidiu escrever.
Como demonstra a experiência de Cathy, ocorrências sincronísticas envolvem
uma conexão não-casual entre os acontecimentos físicos, as ações de Cathy e a
carta de Richard, eventos sem a menor possibilidade de estarem ligados por
cansa e efeito como entendemos, porém que são ligados pelo significado
subjetivo do acontecimento. Enquanto a importância da conexão de Cathy com
Richard fica clara através de suas ações — suas pesquisas, sua busca de conselho
com uma vidente, escrever seu nome em um papel e meditar em cima dele —,
fica claro também que nenhuma de suas ações fez com que Richard telefonasse
para ela. Poder-se-ia, imagino, discutir que fatores não-físicos entraram em jogo
nesse incidente, que algum tipo de comunicação secreta, silenciosa ou mágica
aconteceu entre eles de forma que fez com que Richard procurasse por Cathy,
porém acreditar em causas não-físicas que não podem ser provadas ou refutadas
é simplesmente uma questão de credo pessoal ao contrário do que é geralmente
entendido pelo termo “causalidade”. Em termos “causais”, o restabelecimento de
contato é pura coincidência, incomum, porém significativa, fato ocorrido com
Cathy por puro acaso.
A razão, eu acho, pela qual a sincronicidade, "a ocorrência simultânea de dois
eventos significativos porém não ligados pela causalidade”,1 continua
controvertida e difícil de aceitar desde o desenvolvimento desse conceito por
Jung, é porque a sincronicidade nos força a sacudir a tirania inconsciente da
teoria de causa e efeito. Por que, perguntaríamos, nos apegamos tão tenazmente
a essa visão de vida como uma corrente de ação e reação? Qual o proveito que
tiramos em acreditar que todas as conexões são e devem ser causa e efeito?
Na minha opinião, o pensamento causai nos seduz com uma ilusão de poder
total sobre as coisas que nos cercam e aumenta a sensação de termos nosso
destino sob controle, uma visão bastante lisonjeira para os nossos egos. A teoria
de causa e efeito nos proporciona a sensação de controle, de nos distanciar do
mundo “externo” e intervir nele. Nessa visão de mundo causai, somos limitados
somente pelas consequências de nossos atos, devemos então agir, e livremente.
Pensar diferente, principalmente da forma como a sincronicidade nos convida
a fazer, é abraçar a ideia de que os eventos do acaso podem ser significativos em
vez de sem sentido. De um modo geral, essa ideia pode ser um duro golpe em
nosso ego, desafiando a visão de completo poder e controle que criamos para nós
mesmos. A ideia de que eventos do acaso podem nos acontecer, eventos que não
podemos controlar mas que podem nos causar um efeito profundo, é algo, me
atrevo a dizer, que provoca ansiedade na maioria de nós. Como parceira de Jung,
Marie-Louise von Franz coloca em suas palestras sobre sincronicidade: “O acaso
é o inimigo — o acaso é o que você deve eliminar (...)”,2 uma forma sucinta de
descrever a atitude da maioria das pessoas em relação ao lugar que as
ocorrências do acaso ocupam em suas vidas.
Porém, contatos com indivíduos de culturas não-europeias revelam que
existem com certeza outras maneiras de pensar e de ser no mundo. Vendo-nos
como uma simples parte de um grande todo no qual tudo na vida é conectado,
índios americanos ou povos de uma cultura tradicional asiática como a China ou
Tibete percebem suas ações de uma maneira muito diferente, não uma causa
produzindo um efeito, não como um indivíduo atuando sobre o mundo, que é
separado e objetivo, porém como parte de uma teia de interligações subjetivas.
Para atuar efetivamente dentro dessas culturas, no entanto, exige-se a
percepção do momento apropriado, investigar suas próprias atitudes, pedir apoio
da grande comunidade da qual se faz parte e tentar determinar a vontade divina.
Nessas culturas, ainda é comum consultar as estrelas ou visitar a vidente do
vilarejo antes de dar algum passo importante na vida. Agir, dentro dessa visão de
mundo, é um processo humilde e cuidadoso. Essa maneira de pensar, na qual a
sua experiência subjetiva de interligação com o mundo é mais importante que o
controle individual sobre o meio ambiente através de causa e efeito, é um modo
de viver que se adapta à realidade do acaso significativo facilmente. E não temos
sequer que sair de nossas próprias raízes históricas no Ocidente para descobrir
precedentes para a ideia de sincronicidade. Como estarei discutindo no Capítulo
5, áreas de interesse como astrologia, tarô e outros métodos de adivinhação
contam com a sincronicidade para seus efeitos.
Além de desafiar a sensação de controle que o pensamento de causa e efeito
nos proporciona, admitir conexões não-casuais entre acontecimentos significa
também reconhecer que o mundo físico não está separado dos acontecimentos
psíquicos interiores. Porém, a divisão de mundo entre “interno” e “externo” está
profundamente arraigada em nosso pensamento, tão profundamente, na verdade,
que a maioria das pessoas sequer tem consciência disso. Os sentimentos de
Cathy em relação a Richard são “internos”; o telefonema de Richard é um
acontecimento “externo”. As ações dela com o nome dele no papel são um
acontecimento “externo”. O impulso dele para encontrá-la é um fenômeno
“interno”. Definir a coincidência da redescoberta um do outro como
“sincronicidade” é simplesmente uma outra maneira de dizer que, naquele
momento, “interno” e “externo” estão conectados.
Realmente, em outra parte de seu trabalho sobre sincronicidade, Jung define
sincronicidade como “a ocorrência simultânea de um certo estado psíquico com
um ou mais acontecimentos externos que aparecem como paralelos
significativos do estado subjetivo do momento”.3 Portanto, por definição,
sincronicidade sugere que nossa divisão radical entre “interno” e “externo” é na
verdade falsa. Fenômenos internos como sentimentos, valores, pensamentos,
sonhos, in-tuições, desejos e assim por diante, podem muitas vezes estar ligados
de uma forma decisiva a acontecimentos “externos” como telefonemas,
presentes, vida social, casos de amor e afins. Acontecimentos sincronísticos nos
impõem uma visão do mundo como um campo único no qual nossas
experiências pessoais e ações estão fundamentalmente ligadas às experiências de
ações de outros.
Além de desafiar nossa ilusão de controle e a cuidadosa divisão entre a
realidade subjetiva e objetiva, a sincronicidade como um princípio não-casual de
conexão também desafia nossa noção de tempo, especificamente, a forma como
confiamos numa noção linear de tempo para organizar nossa visão do mundo. A
teoria de causa e efeito necessita dos conceitos “antes” e “depois”: as causas
acontecem antes dos efeitos. Mas o reconhecimento de uma conexão não-casual
entre acontecimentos torna o quando algo aconteceu menos importante que o que
aconteceu e o que significa para mim ou você. Não que o momento do
acontecimento seja completamente sem importância, mas, usando nosso
exemplo de Cathy e Richard, o momento de sua carta meramente transformou o
fato numa coincidência. Foi o significado da carta que a tornou sincronística para
Cathy, depois de toda energia gasta tentando entrar em contato com ele, depois
de administrar a frustração e o desapontamento de encontrar um beco sem saída,
depois de iniciativas pessoais para focar sua atenção nele escrevendo seu nome
como instruiu a vidente. Suas iniciativas e a carta dele foram conectadas pelo
significado da coincidência e não pela proximidade temporal dos dois eventos.
A sincronicidade nos convida a olhar para nossas vidas sob um ângulo
diferente, no qual nossas experiências subjetivas determinam nosso lugar em um
universo de eventos do acaso que ocorrem conosco à nossa volta e que estão
ligados através daquilo que representam para nós. Em nossas vidas, são essas
conexões entre nós mesmos e o mundo que criam as histórias que vivemos.
Isso nos leva ao segundo aspecto de sincronicidade: emoção.
Pense, Não Sinta: Sincronicidade e a Moderna Dúvida da Realidade Emocional
Elaborando, em seguida, o que é sincronicidade e como funciona, Jung observa
que os acontecimentos que chamamos sincronicidade têm um certo tom
emocional inegável em si que ele chamou de “numinous”, tomando emprestado o
termo do teólogo Rudolph Otto. Numinosidade é aquela experiência que temos
quando sentimos que estamos inegavelmente, irresistivelmente e
inesquecivelmente na presença do Divino, a vivência de algo que transcende
nossas limitações humanas. Essa elevada qualidade de sentimento que
acompanha os acontecimentos sincronísticos é talvez a característica mais
impressionante desses eventos. Se a sincronicidade está acima de todos os
princípios de conexão, então a qualidade das sensações provocadas por uma
sincronicidade, a numinosidade e energia psíquica que ela desperta, é o agente
através do qual é feita a conexão. Simplificando, os eventos sincronísticos têm
sempre um profundo caráter emocional.
Quando eu comecei a estudar Jung na faculdade, me senti sozinho e isolado.
E claro que estudantes universitários são por natureza propensos a esse tipo de
sentimento, e alguns são até muito apegados à pose de intelectual
incompreendido. Não posso afirmar que me sentia dessa maneira. Eu vinha de
um seminário luterano no qual nenhum de nossos estudos incluía muita
psicologia e muito menos alguém como Jung, um evangélico afastado, com
tendências místicas, e muitos de meus colegas estudantes me achavam um pouco
maluco em ter tão alta consideração por ele. Como uma forma de conter os
fantásticos sonhos e experiências que eu estava tendo a partir de meu
conhecimento da obra de Jung, decidi começar a trabalhar com um analista
junguiano, e como isso seria também uma forma de superar o isolamento
intelectual que eu estava sentindo, simplesmente peguei as páginas amarelas,
olhei a lista de psiquiatras e liguei para o primeiro que anunciava análise
junguiana. Marquei um encontro para as 15h de sábado para começar a terapia.
Enquanto isso, no estágio em que eu vinha trabalhando durante alguns anos,
um programa impróprio que dava longos tratamentos de psicoterapia freudiana
para os estudantes da Universidade da Califórnia, entrou para a equipe uma nova
consultora. Agradável e divertida, ela e eu descobrimos vários interesses em
comum, particularmente nas artes. Eu era escritor; ela, contadora de histórias. Eu
estive envolvido com teatro; ela também. Ela era de Nova York; eu vim de Nova
Jersey. Mas foi somente depois de vários meses de amizade que descobri que ela
não somente partilhava de meu interesse por Jung como estava também
frequentando o mesmo analista que eu. Além disso, quando começamos a
comparar nossas anotações, descobrimos que, na semana anterior ao início de
meus trabalhos com ele, ela havia trocado seu horário normal de consulta de
sábado às l1h para um outro horário. Em outras palavras, sincronisticamente, eu
conhecera a pessoa cujo horário de consulta na agenda do meu analista agora era
meu.
O que tornou esta coincidência dos horários de consulta importante para
mim, e portanto o que fez dela uma sincronicidade, tem principalmente a ver
com os sentimentos que eu tive de estar repartindo algo, por total coincidência,
com essa amiga que eu sequer conhecia naquele momento. A história que eu
pensava estar vivendo — o pobre solitário estudante universitário interessado em
um maluco de quem ninguém sabia nada a respeito — não era, descobri mais
tarde, a história verdadeira. A verdadeira história era que um espaço tinha sido
criado para mim, no consultório do meu analista, por uma mulher com quem eu
tinha muitas coisas em comum, e o efeito emocional foi enorme. Sentime
consideravelmente menos isolado e maluco. Senti a presença de uma
comunidade de pessoas com mentes semelhantes à minha volta, portanto, me
senti mais apoiado e seguro de mim. Senti a importância de meus estudos
junguianos sendo-me confirmada.
Infelizmente, nossa cultura tem quase tanta dificuldade em reconhecer o
sentimento quanto em abandonar a teoria de causa e efeito. Como já discuti
antes, estamos habituados a dividir o mundo em “interior” e “exterior”, em
“subjetivo” e “objetivo”, e mesmo que essa divisão não seja necessariamente
incômoda, como ocidentais somos parte de uma tradição que valoriza o
“exterior” e “objetivo” enquanto desmerece o “interior” e “subjetivo”. E nada é
mais “interior”, mais individual e subjetivo do que os nossos sentimentos.
O grande ideal do mundo ocidental é atingir a objetividade. Para a ciência
significa eliminar a tendência subjetiva do pesquisador e cancelar, através da
repetição e da análise estatística, os efeitos do acaso em um processo. No
pensamento intelectual, rigorosamente apoiamos e documentamos cada
conclusão com evidências, fatos e demonstrações. Na indústria, premiamos
produtividade e lucros, ambos podem ser medidos e monitorados à custa de
outros interesses, como o bem-estar dos trabalhadores ou a qualidade do
produto. Em nossa tradição, sentimentos são um estorvo, um contágio, uma
possível fonte de distorção, falsificação e erro.
A natureza emocional, essencialmente subjetiva, de um acontecimento
sincronísticos o profundo efeito que esse tipo de coincidência provoca em nossos
sentimentos, derruba o argumento diante de nós e nos leva a questionar esse
ideal ocidental de objetividade: e se valorizarmos os sentimentos tanto quanto o
pensamento, como os eventos sincronísticos nos convidam a fazer? Em todas as
sincronicidades, inclusive em nossos exemplos até agora, o importante não são
os “fatos objetivos” das coincidências, porém o impacto emocional que
causaram nas pessoas envolvidas, um impacto emocional tão forte que anos
depois pessoas como Ann ou Cathy foram capazes de me contar a respeito
desses incidentes com grandes detalhes. Acontecimentos sincronísticos apelam
para nossa capacidade de sentir intensamente e de tomar consciência dos nossos
sentimentos, visto que a qualidade e intensidade dos nossos sentimentos é o que
torna essas coincidências significativas.
Porém, sentimentos fortes são temidos nesta cultura, pela mesma razão, creio
eu, que a não-causalidade representa tanto problema para a maioria de nós.
Permitir-se sentir significa que você deve afrouxar o controle sobre si mesmo e
se abrir para suas experiências. Você deve se permitir ser o que você é em vez de
quem você pensa que é, ou o que foi dito que deveria ser. Sentir significa ser
vulnerável, e vulnerabilidade é uma experiência de submissão.
O medo de perder o controle não é a única coisa que torna nossas vidas
emocionais tão ameaçadoras para nossas mentes racionais. Como a não-
causalidade, sentimentos desafiam a hipótese de que somos separados uns dos
outros, de que existe uma rigorosa divisão entre externo/objetivo e
interno/subjetivo. Se estamos abertos para os sentimentos, podemos sentir não só
os nossos como também os sentimentos do outro. A natureza do sentimento e seu
poder de empatia demonstram que estamos todos ligados, pelo menos
potencialmente, quando experimentamos dor, alegria, tristeza, satisfação,
orgulho ou vergonha do outro. Enquanto compartilhar sentimentos é para muitos
de nós uma experiência que pode ser profundamente gratificante e com um
enorme poder de cura, é uma atividade que transgride alguns valores culturais
importantes, como a autonomia, a individualidade e a independência, portanto,
essa vitrine aberta de sentimentos é permitida e vista como apropriada em um
número limitado de situações sociais, a maioria delas de caráter privado e
somente muito poucas delas públicas.
Por ser o sentimento espontâneo, natural, livre — como uma corrente de água
na qual entramos, podemos senti-la à nossa volta, mas não podemos dirigir ou
controlar —, para mim, é preciso grande coragem para que as pessoas, dentro
dessa cultura, se coloquem deliberadamente nesta água corrente que não para,
especialmente quando os sentimentos são profundos e fortes e a correnteza é
rápida e forte à nossa volta. E um evento sincronístico nos joga de cara no meio
dessa correnteza. Não é de admirar que muitos de nós fujam diante de uma
sincronicidade, ridicularizando-a — e aos nossos sentimentos a respeito —como
uma fantasia: “E só minha imaginação.” Sincronicidade significa ter que afirmar
seus sentimentos como um modo crucial de viver a vida, com tanta importância
quanto seus pensamentos, e, em certas situações, até mais. Nossos sentimentos
são a fonte principal de nossas histórias, e são os nossos sentimentos que fazem
a trama andar para a frente.
O que nos leva ao terceiro aspecto da sincronicidade: sua natureza simbólica.
Se Eu Não Estou Ciente, Como Pode Ser? Sincronicidade e Símbolos
Arquetípicos do Inconsciente Coletivo
Um terceiro aspecto pode ser encontrado no conteúdo de um acontecimento
sincronístico, que, como mencionei, é sempre simbólico. Infelizmente, em minha
experiência, esse fato é geralmente negligenciado no curso dos trabalhos com
sincronicidade, esmagados como geralmente estamos pelo sentimento numinoso
que o acontecimento inspira ou pelo espanto de que acontecimentos tão
improváveis como esses possam realmente ter acontecido. Assim, sempre que
acontece uma coincidência significativa, percebi que os acontecimentos em si
sempre têm um forte caráter simbólico.
Um exemplo forte do simbolismo em um acontecimento sincronístico
aconteceu comigo durante um impasse com um cliente quando eu era residente.
Tendo sido dominado por sua mãe durante a maior parte de sua vida, inclusive
adulta, meu cliente Frank tinha a maior dificuldade em achar que alguém iria
tratá-lo de maneira diferente. Foi por isso que ele começou o aconselhamento, o
que se seguiu é que sua visão de que as pessoas desejam controlar e dominá-lo
dominava amplamente sua experiência comigo também. Em meio a uma série de
sessões difíceis durante um certo período, eu cheguei num sábado pela manhã
para nossa sessão. Caía uma forte tempestade lá fora, mas não me preocupei
muito por Frank não aparecer, pois ele morava na mesma rua da clínica. Antes
de a sessão começar, eu revia minhas anotações quando, bum, as luzes se
apagaram. A sala que eu usava tinha uma pequena janela, mas a luz fraca era
suficiente para ver; então, quando Frank chegou, fomos em frente. Nossa
conversa daquele dia era igual a muitas das nossas discussões anteriores. Frank
estava convencido de que eu me tornara psicanalista para controlar as pessoas,
que eu gostava de ter outras pessoas, que eu gostava de ter outras pessoas
dependendo de mim, que eu sentia prazer em fazer as pessoas pagarem por suas
necessidades, e assim por diante. E como sempre as minhas respostas, que eram
uma tentativa de ligar sua experiência com sua mãe a essas percepções a meu
respeito, pareciam não funcionar muito.
Então, em certo ponto, vendo que não estávamos chegando a lugar nenhum,
resolvi tentar um outro enfoque, desafiá-lo mais abertamente. Perguntei-me alto
que peso teria para ele o fato de eu ter aparecido no meio de uma tempestade,
sem eletricidade no prédio, somente para que ele pudesse continuar me dizendo
o quanto não gosta de mim. Não seria isso uma evidência de que eu me
importava com ele? Por que então eu escolheria fazer algo tão inconveniente, tão
flagrantemente desagradável a não ser que eu estivesse realmente preocupado
com seu bem-estar? Nesse ponto Frank se calou e eu pude sentir uma mudança
emocional acontecendo. Depois de alguns minutos pensando, Frank disse: “Eu
entendo seu ponto de vista. Talvez você se importe, talvez não seja pelo poder.”
E naquele instante a energia voltou e o consultório ficou subitamente iluminado,
sincronisticamente, brilhantemente iluminado outra vez.
O simbolismo nessa história de “falta de energia” é tanto óbvio quanto
importante para entender a natureza do que aconteceu em meu relacionamento
com Frank. Começar a sessão literalmente no escuro da interrupção da força
refletia o estado emocional do relacionamento no qual nenhum de nós conseguia
perceber a saída através da luz da consciência. Ele era incapaz de me ver
claramente, metaforicamente falando, como alguém que se importava com ele, e
a falta de energia transformou sua incapacidade em verdade, literalmente. Nem
eu conseguia ver que o que eu precisava fazer era começar a ser uma pessoa real
naquela sala com ele, afirmar o quanto me importava e começar a demonstrar,
em vez de interpretar as dinâmicas de sua mãe. Havia para ele ambas as “faltas
de energia”, a interna e a externa, isto é, até que finalmente eu consegui chegar a
ele, no nível emocional. Então as luzes se acenderam — literalmente mas
também simbolicamente —, quando subitamente o consultório se iluminou de
eletricidade literal e emocional. A conexão foi restabelecida entre nós, e ele
sentiu seu poder outra vez.
Essa história é uma boa ilustração de uma questão que levantei sobre
sincronicidade, especificamente, como a mesma coincidência pode muito bem
ser significativa para uma pessoa e ao mesmo tempo completamente perdida
para outra: Frank, muito enredado em suas sensações de ser dominado, não tinha
percebido, até onde posso dizer, se as luzes estavam acesas ou não. Fui eu que
percebi quão perfeitamente esse fato externo espelhava nossos estados internos,
quão forte era o simbolismo dessa coincidência em particular. Realmente, como
esta sincronicidade aparece na história de minha vida como terapeuta tem a ver
especificamente com esses símbolos e o que significam para mim, isto é, poder.
Eu estava me empenhando, como um terapeuta relativamente inexperiente, em
encontrar o meio mais eficaz de demonstrar que eu não era como sua mãe, sendo
então seguido de uma intervenção que parecia ter funcionado para Frank, que,
como o próprio simbolismo do evento indica, era uma experiência bastante
fortalecedora para mim. Para Frank, no entanto, foi somente uma das muitas
experiências de comunicação direta que ele precisa de mim até começar a
acreditar que nem todo mundo ansiava por dominá-lo e controlá-lo.
A analista junguiana contemporânea Jean Shinoda Bolen, em seu breve e
atraente livro sobre sincronicidade, A sincronicidade e o tao, usa uma expressão
para descrever o caráter simbólico dos acontecimentos sincronísticos, uma frase
que eu já ouvi outros também usarem, que este tipo de coincidência significativa
é como “um sonho acordado”.4 Esta expressão apreende bem, eu acho, muito do
que fàz de um acontecimento sincronístico uma ocorrência única na história de
nossas vidas. Como os sonhos, os quais não provocamos e que geralmente são
cheios de sentimentos, os acontecimentos sincronísticos têm um caráter
simbólico. Essas coincidências significativas são memoráveis justamente porque
possuem o tipo de coerência simbólica que a maioria das pessoas só experimenta
em sua vida nos sonhos. Ou através de histórias.
Conte a história da falta de energia, ou do telefonema de Dan, ou do tarô de
Bobbie para alguém não familiarizado com o conceito de sincronicidade, e você
poderá muito bem ouvir: “A quem você está enganando? Esse tipo de coisa só
acontece nos filmes”, ou o menos cético: “Que história ótima!” Realmente, a
semelhança entre a coerência simbólica que esperamos das histórias e a
coerência simbólica que experimentamos nessas coincidências significativas é
inegável. Como nas histórias, a dimensão simbólica de nossas vidas é trazida à
tona durante um acontecimento sincronístico, quando somos forçados, por assim
dizer, a examinar os vários aspectos do acontecido. Pegamo-nos fazendo os
mesmos tipos de perguntas com relação à nossa vida quando lemos uma história
ou assistimos a um filme. Qual é o objetivo disso? Para onde isso está indo? O
que quer dizer com relação ao que sou, tenho sido ou serei?
E importante entender a diferença entre um sinal e um símbolo nessa
conjuntura. De forma breve, um sinal é um objeto que aponta para algo além de
si próprio que é definido, finito e reconhecível; enquanto símbolos são objetos,
situações ou eventos que apontam para uma realidade além de nossa consciência
ou de nossa total compreensão. Consequentemente, se nós reconhecemos a
natureza simbólica dos acontecimentos sincronísticos e nos fazemos a pergunta
“Para o que além de mim este evento aponta?”, veremos que a resposta, se
formos fiéis à realidade simbólica do ocorrido, será sempre uma multiplicidade
de coisas.
Um símbolo é sempre e essencialmente um mistério; um sinal, não. O
hexágono vermelho no alto do poste da esquina quer dizer “PARE”. Isso é tudo
que ele significa, e este será sempre seu significado; quando você se aproximar
com um veículo em movimento, pise nos freios. E um sinal, não um símbolo. No
entanto, se você vai ao Museu de Arte Moderna e vê pendurada numa parede
uma obra de um escultor político de vanguarda — fotos de campos de
concentração, bombas, armas e matadouros cercados por um hexágono com a
palavra “PARE” escrita —, você não está mais olhando para um sinal. O que
fora um simples sinal de pare foi transformado pelo contexto artístico em um
símbolo. Na parede do museu, “PARE” significa muitas coisas: que matar é
errado, que o assassinato de inocentes é algo contra o que temos que agir para
prevenir, que comer carne causa a violência e assim por diante.
Da mesma forma, um evento sincronístico, como ocorrência simbólica, pode
significar muitas coisas como também o significado simbólico de um evento,
como o da minha história pode na verdade mudar com o tempo. Em muitos
eventos sincronísticos que discutiremos nos capítulos seguintes, a multiplicidade
dos significados simbólicos que um simples evento tem para nós pode às vezes
se tornar avassalador. Porém, como as várias gamas de significados em uma
história, pode-se, com tempo, paciência, prática e familiaridade, expô-los com
uma atitude cuidadosa e aberta.
Eventos sincronísticos funcionam, como todos os símbolos fazem, para tornar
consciente o inconsciente. A contribuição única de Jung para a psicologia está
em sua controvérsia de que o inconsciente não consiste meramente de restos, por
assim dizer — coisas que nos acontecem das quais já não lembramos mais ou
deliberadamente mantemos esquecidas e reprimidas —, mas que o inconsciente
é também o armazém da psique da raça humana. Jung chamava este armazém de
“inconsciente coletivo”, que contém uma coleção compartilhada de símbolos dos
quais desconhecemos a maior parte, exceto em circunstâncias ou estados mentais
especiais. O conteúdo desse nível da nossa existência, esses padrões, situações e
símbolos que constituem esse inconsciente coletivo, é o que Jung denominou de
“arquétipos”.
Sempre achei que a ideia de que todos os seres humanos partilham certas
formas comuns de pensar, sentir e imaginar é algo fácil de entender e aceitar. Na
verdade, como poderia ser diferente? Não temos todos pais e mães? Não tivemos
todos nós a experiência do nascimento, infância e envelhecimento e, finalmente,
a morte? Não existem certas constantes que vão além da experiência individual e
da cultura, além de tempo e lugar, que nos tornam humanos e que nós, portanto,
compartilhamos com todos os outros seres humanos? Esses padrões fazem os
arquétipos do inconsciente coletivo, alguns dos quais são vividos de forma
pessoal, através de figuras como o velho sábio, o trapaceiro, a virgem, a eterna
criança, como também os deuses, deusas, demônios e anjos da mitologia e da
teologia. Mas muitos dos arquétipos do inconsciente coletivo não são figuras,
pelo contrário, são situações e experiências — o crescimento, experimentar a
plenitude, ser pego dentro de um conflito insolúvel, perdendo nossa inocência,
atingindo o êxtase da união com Deus — e podem ser esses arquétipos de
“situações” que as ocorrências sincronísticas trazem também ao nosso
conhecimento.
As histórias que vivemos, as histórias que a natureza simbólica dos eventos
sincronísticos trazem ao nosso conhecimento, são de certa forma míticas. No
entanto, quantos de nós se consideram como personagens de uma história, não
mais que figuras vivendo um mito? A ocorrência anormal de uma sincronicidade
serve para elevar nossa sensibilidade para essa dimensão sagrada e simbólica de
nossas vidas diárias. Mas por que tantos de nós resistimos a essa maneira de
pensar? Por que gostaríamos de menosprezar ou ignorar a história que estamos
vivendo?
Uma das respostas, acredito, é que o contato direto com o inconsciente
coletivo é uma experiência de um poder tão enorme que através dela estamos em
constante perigo de nos perdermos e ao nosso próprio ponto de vista. Um
arquétipo é como uma força natural, um padrão de percepção tão arraigado que
poucos indivíduos são capazes de manter sua percepção pessoal quando abalados
por um arquétipo. Então, enquanto devemos estar de guarda para não permitir
que nossos egos fiquem no caminho de uma experiência completa de eventos
arquetípicos por termos a cabeça fechada e tentar controlar nossas vidas internas,
nossos egos podem, contrariamente, ser o próprio meio que nos permite resistir à
investida do simbolismo arquetípico com toda sua riqueza, maravilha e poder.
Aqui novamente nossa habilidade para refletir simbolicamente sobre uma
experiência é o mais importante para ajudar a compreender os fundamentos
arquetípicos para a história de nossas vidas. Com essa habilidade para meditar
sobre as experiências e discernir qual é especial para nós como indivíduos e qual
é a comum aos outros, essas experiências como eventos sincronísticos, sonhos e
histórias podem enriquecer e aprofundar nosso sentido de humanidade.
Para falar de uma forma mais simples, o simbolismo da sincronicidade nos
mostra em certo nível a parte específica da história de nossas vidas onde a
conexão com todos os outros seres humanos pode ser encontrada. Através da
sincronicidade, de receber uma série de símbolos através de seus sonhos e depois
um presente semelhante aos seus sonhos, Bobbie foi envolvida em um
relacionamento vivo com toda a sabedoria contida nos símbolos do tarô. O
telefonema de Dan, a carta de Richard e o início sincronístico de algumas das
minhas amizades ajudaram Ann, Cathy e a mim, respectivamente, a participar
dessa experiência universal que os seres humanos normalmente chamam de
amor. Minha iniciação como conselheiro residente, nos misteriosos poderes de
cuidar do bem-estar de outra pessoa, é, graças à experiência sincronística de ter
sido “conduzido até a luz”, algo que tenho repartido com muitos outros
principiantes através de todos os tempos e todas as culturas.
Quo Vadis: Sincronicidade e Transições da Vida
Existem períodos em nossas vidas nos quais nos sentimos estabelecidos, quando
as coisas, em sua maioria, alcançaram um ponto de relativa estabilidade. Nossos
relacionamentos são satisfatórios, nossa vida profissional e atividades pessoais
parecem estar indo bem. Se não arrebatadamente feliz, estamos satisfeitos o
suficiente, e existem certas preocupações e ansiedades no horizonte do nosso
consciente, elas estão longe o bastante para não perturbar o curso natural dos
acontecimentos humanos.
Mas, como todos sabemos, existem outros tempos em nossas vidas nos quais
a estabilidade já não mais satisfaz internamente e sentimos que devemos fazer
uma mudança na vida que está se tornando monótona e paralisada, ou quando
acontecimentos fora de nosso controle interferem para interromper uma vida
com a qual estamos satisfeitos. As vezes esses períodos de transição podem até
ser motivados por ambos ao mesmo tempo — uma necessidade interna de andar
para a frente e uma série de fatos externos nos impelindo para fora de um trilho
que podemos nem saber que estamos trilhando.
No momento dessas transições, as pessoas geralmente procuram a ajuda de
outras. Às vezes essas outras são profissionais — terapeutas, pastores, médicos
ou conselheiros. As vezes, as outras são amigas ou pessoas da família que
passaram por transições semelhantes ou simplesmente amigos em geral. Durante
essas transições, procurando ajuda de pessoas experientes, frequentemente nos
sentimos nos afastando de uma maneira de ser que não se adapta mais a nós e
guiados para um mais pleno e mais satisfatório meio de vida.
No entanto, muitas pessoas recebem uma forma de ajuda durante essas
transições que não é simplesmente de natureza externa ou social, porém interna e
psicológica. Sem mesmo desejar ou procurar, a ajuda frequentemente chega sob
a forma de uma sequência acidental de eventos que ocorrem precisamente na
hora exata para nos ajudar a seguir com nossas vidas, muito frequentemente
quando sentimos que resta muito pouco que possamos fazer.
Um dos principais pontos no qual as ideia s de Jung sobre a psique diferem
de muitos pensadores reside na discordância de que a psique é um fenômeno
natural e todos os aspectos da psique, mesmo aqueles que nos parecem
patológicos ou destrutivos, na verdade cumprem a função de promover nosso
desenvolvimento psicológico. Um exemplo simples dessa maneira de pensar tem
a ver com o que a maioria das pessoas chama de defesas. Uma pessoa que teve
uma experiência traumática de cair de uma grande altura pode experimentar
grande ansiedade em lugares altos pelo resto de sua vida. Em consequência, ela
evitaria deliberadamente, mesmo sem necessidade, esses lugares. Dependendo
de quão severamente esse comportamento restringir sua vida, ele pode ser visto
como um ardil interessante ou como uma disfunção totalmente inexperiente, mas
permanece o fato de que essa atitude defensiva serve para proteger a pessoa
contra a repetição de traumas e atividades avassaladoras, e, como veria Jung,
para preservar seu equilíbrio emocional. Você e eu podemos julgar se isso é
saudável ou não, bom ou ruim e assim por diante, mas do ponto de vista da
psique e seu processo natural, mesmo respostas fóbicas têm sentido e função
para orientar a habilidade de um indivíduo em seguir adiante e crescer de uma
forma equilibrada.
A visão de Jung da natureza proposital do fenômeno psicológico ratifica o
seu conceito de sincronicidade. Nos eventos do acaso tanto emocional quanto
simbolicamente significativos, nossa experiência psicológica de sincronicidade
sempre acontece para nos dar a possibilidade de andar para a frente de alguma
forma. É por isso que as sincronicidades acontecem naqueles pontos de transição
de total importância em nossas vidas. Da mesma forma que a ajuda social
externa que frequentemente procuramos durante esses períodos, a psique
também às vezes proporciona, na forma de coincidências significativas, um tipo
de ajuda interna e psicológica.
As vezes essa ajuda pode ser meramente de um tipo de serviço de
despertador, com uma coincidência para simplesmente trazer ao nosso
conhecimento o fato de que a transição que temos tentado evitar ou negar está
acontecendo de fàto, gostemos ou não. A experiência de Bobbie com o tarô é
desse teor. Outras vezes, o significado da sincronicidade tem a ver com a lição
que precisamos aprender sobre nossa necessidade de desenvolver uma atitude ou
perspectiva diferente — como comigo e meu cliente Frank, quando parei de
duelar com seu passado e comecei a me concentrar em meu relacionamento com
ele no presente. íbrém, em todos os casos, quando uma pessoa vivência o tipo de
coincidência significativa que estamos chamando de sincronicidade, algum tipo
de transição de vida importante está ocorrendo.
Uma moça que conheço chamada Ellen mudou-se para a Califórnia para
começar a faculdade, iniciando um conflito bastante grave com seu pai, que
havia concordado em pagar sua educação mas que era também preso a certas
ideia s de como sua filha deveria viver. Ele a queria no campus; ela queria viver
fora do campus, com amigos. Ela queria um carro; ele não achava o carro uma
boa ideia . Ela sentia que sua vida social era parte importante de sua educação;
seu pai achava que ela não deveria gastar dinheiro e tempo em nada que não
fosse seus estudos. A medida que os sentimentos foram esquentando entre eles,
através de uma série de telefonemas internacionais, seu pai finalmente disse que
se ela não se comportasse como ele desejava, ele suspenderia seu apoio
financeiro. Com raiva ela respondeu: “Tudo bem. Vá em frente”, e desligou o
telefone.
Remoendo furiosamente sobre a situação que tinha finalmente se tornado
insustentável, ela andava pelo campus no dia seguinte apavorada, sem saber o
que ia fazer. Ela não tinha nenhum preparo, e a atitude controladora de seu pai
criou essa dependência dele, então não conseguiria levar sua ameaça adiante. Ela
continuou a andar pelo campus até esbarrar com um amigo, e sentada embaixo de
um pé de eucalipto, contou-lhe sua história. Não achando seu dilema nem um
pouco engraçado, ela quase ficou ofendida quando ele riu — isto é, até ele dizer
por que estava rindo. Ele estava justamente vindo de seu trabalho como
processador de texto em uma firma de engenharia na vizinhança e o supervisor
do dia havia perguntado se ele conhecia alguém que quisesse um trabalho. Eles
estavam pagando bem, o suficiente para permitir que Ellen se sustentasse, o
horário era totalmente flexível e eles estavam dispostos a pagar pelo seu
treinamento. Dessa maneira, sincronisticamente, Ellen encontrou um trabalho
que lhe permitia se libertar da desconfortável dependência de seu pai e cair fora,
de maneira bastante apropriada, por conta própria. Além disso, a experiência em
processamento de texto que ela aprendera naquele trabalho direcionou-a para
uma carreira de editora que dificilmente esperaria, pois ela havia ido para a
escola estudar bioquímica.
Cada movimento para a frente em nossas vidas, cada degrau do crescimento,
envolve três partes. Primeiro, tomamos consciência de que nossa situação atual
não serve ou não funciona mais para nós. Algumas vezes fatos externos tornam
isso claro — nosso pai ameaçando retirar o apoio financeiro —, enquanto outras
vezes são nossos sentimento internos que nos apontam isso — estamos infelizes
com as restrições de nossa liberdade em viver como queremos. Então entramos
num estado de confusão e transição. Começamos a imaginar que as coisas
podem ser diferentes e que podemos até deixar nossa atual situação sem saber
exatamente o que está por vir ou como devemos proceder. Batemos o telefone
gritando: “Está bem. Vá em frente”, então ficamos num estado intermediário.
Podemos voltar, mas na verdade não sabemos ainda o que fazer, e esse estado de
transição pode durar um dia, um mês ou anos, até que finalmente algo acontece
— conseguimos ajuda, nossos sentimentos se tornam claros, uma oportunidade
se apresenta, tomamos determinada atitude — e então mudamos para uma
maneira de ser diferente, mais satisfatória.
Na história de Ellen, sua necessidade de romper com seu pai já estava
bastante clara antes que o trabalho que ela tanto precisava sincronisticamente
caísse em seu colo, por assim dizer. Mas algumas vezes os acontecimentos
sincronísticos ocorrem para chamar a nossa atenção para o fato de estarmos
fazendo uma transição sem ao menos ter percebido. Esse é o caso de um amigo
chamado Sam que fora transferido da Costa Leste para a filial de São Francisco
da firma de contabilidade onde trabalhava e achou seu novo trabalho muito pior
e menos satisfatório do que esperava.
Apesar de ser um músico talentoso, Sam se dedicava muito ao seu trabalho
de contador. Então uma série de acontecimentos sincronísticos ocorreram: a
igreja frequentada por Sam recebera dinheiro para inaugurar um programa de
música ao mesmo tempo que decisões da direção da firma o levaram a ser
demitido. E claro que a experiência do imediato e inesperado desemprego o
fizeram sentir-se mais do que um pouco desorientado. Mas eu o encorajei a se
conscientizar da sincronicidade dos acontecimentos e perseguir as oportunidades
que estavam se apresentando na música, o que ele fez. Sam ganha menos
dinheiro atualmente, mas está muito mais satisfeito em sua carreira, fazendo algo
num campo que ele há muito gostava mas tinha muito medo de tentar. O evento
sincronístico dessa história, a porta fechada de sua demissão e a janela aberta de
sua nova carreira, fez com que ele começasse a viver uma história em sua vida
que muitos de nós à sua volta, conhecendo seu amor pela música e seu talento,
sempre achamos que era a história que ele deveria estar vivendo.
Para mim, histórias como as de Ellen e Sam reforçaram minha convicção,
baseado na maneira de pensar de Jung, de que essas pessoas se movimentam em
seu próprio tempo e de sua maneira em direção a uma consolidação significativa
de quem realmente eles são, mesmo quando outros podem pensar, vendo de fora,
que seu processo é louco, destrutivo ou mau. Se sua vida é uma história, então é
uma história que, como todas, tem vários capítulos. As vezes, somente o
profundo encontro simbólico entre interior e exterior na forma de uma
coincidência significativa pode trazer o tipo de impulso psicológico que talvez se
necessite para virar a página e partir para um novo episódio na história que
devemos viver.
A ideia , porém, de que as pessoas se movem de maneira própria em direção
ao que são mais profundamente não quer dizer que “as coisas estão melhorando
a cada dia em todos os sentidos”. Afinal de contas algumas histórias são
tragédias. Mas, nos capítulos que seguem, você vai ouvir sobre pessoas para
quem o pior acontecimento de suas vidas — a morte de alguém querido, fracasso
nos negócios, um suicídio próximo — se transformou num evento sincronístico,
um importante momento transformador de sua existência. Acontecimentos
sincronísticos — coincidências significativas — nos fazem reconhecer que pode
haver mais coisas em nossa história do que pensamos, e que tudo, mesmo o que
nos parece assustador ou ruim, como perder um emprego ou ser rejeitado pela
família, faz parte da estrutura narrativa de nossas vidas.
Como vimos em nossas discussões anteriores a respeito do aspecto casual,
emocional e simbólico da sincronicidade, o fato de a sincronicidade sempre
acontecer durante um contexto de transição, quando estamos parados no limiar
de uma nova maneira de ser, mais uma vez nos faz olhar para nós mesmos como
parte de um grande todo do qual participamos. Se somos personagens de uma
história, o final pode não ser feliz, mas pelo menos a vida que estamos vivendo
será plena e coerente. E função da sincronicidade nos ajudar a ver essa totalidade
— se não a excelência — por trás dos altos e baixos de cada capítulo da vida que
vivemos.
Por Que Agora? Avaliando o Interesse em Sincronicidade
Como já mencionei nesta introdução, sincronicidade é um termo relativamente
novo para descrever uma ideia e um conjunto de experiências que são tão velhas
quanto a raça humana e comum a todas as culturas. Por que agora, subitamente,
vemos tanto interesse no conceito de coincidências significativas? Por que os
estudos de Jung sobre sincronicidade provocaram as faíscas de uma nova
literatura nos últimos vinte anos?
Acho que as quatro características da sincronicidade que descrevi acima são o
que chamam a atenção, pois cada uma delas apresenta ao homem moderno uma
maneira mais completa de pensar, sentir e estar no mundo. Acostumado a pensar
em termos de causa e efeito, somos chamados pelos acontecimentos
sincronísticos a tomar consciência que a linha divisória entre realidade objetiva e
experiência subjetiva não é tão clara como fomos levados a pensar. Se essa
constatação é às vezes confusa e assustadora, enriquece também nossa
experiência sobre o mundo e nos restaura o sentido de totalidade e de
participação. Da mesma forma, acontecimentos sincronísticos, com seus níveis
de significado emocional e simbólico, servem para lembrar ao homem moderno
de duas qualidades humanas muito valiosas e únicas: nossa habilidade de sentir e
de imaginar, aspectos fundamentais de nossa humanidade que infelizmente
foram postos de lado num mundo de crescente obsessão pela racionalidade.
Com o fim das comunidades unidas e o aumento do individualismo e
isolamento em nossa sociedade, as importantes transições de vida se tornaram
mais e mais difíceis de administrar, para muitos de nós, e como nossa cultura fez
o papel principal, de conselheira espiritual, xamã, curandeira ou mais velho da
comunidade, com muita frequência nos vemos perdidos sem saber como
proceder. Coincidências significativas, que sempre ocorrem em momentos de
mudança e transformação, são, portanto, símbolos da nossa profunda conexão
com o outro e nos reafirmam que verdadeiramente não estamos nunca de fato
sozinhos em meio a essas transições.
Porém, o aspecto mais essencial e evidente da sincronicidade é a vivência do
significado em cima da qual essa coincidência se baseia. Através da nossa
habilidade de descobrir e vivenciar o que cai sobre nós, recebemos num
acontecimento sincronístico um lembrete sobre uma importante verdade: que
nossas vidas são organizadas, consciente ou inconscientemente, da mesma forma
que uma história, que nossas vidas têm coerência, têm uma direção, uma razão
de ser e também beleza. Sincronicidade nos lembra o quanto as histórias de
nossas vidas podem ser obras de arte.
Capítulo Dois
Como um Relâmpago
Sincronicidade e Nossas Histórias de Amor
É tão precipitado, tão sem aviso, tão súbito,
Tão como um raio, que não cessa de ser
Antes que se diga “Está relampejando”. Meu bem, boa noite!
Este botão de amor, amadurecendo sob o hálito de verão,
Pode ser uma bela flor da próxima vez que nos encontrarmos.
WILLIAM SHAKESPEARE, Romeu e Julieta
Amor e amizade em suas várias formas — apaixonado ou afetuoso,
desabrochando lentamente ou rápido como o relâmpago — estão no centro da
maioria das nossas histórias. Quem conhecemos e como os conhecemos, aqueles
por quem nos apaixonamos ou quem se apaixona por nós, quem são nossos
amigos e como esses relacionamentos aconteceram, como esses relacionamentos
se aprofundaram ou, algumas vezes, falharam, todos esses trancos e barrancos do
amor e da amizade servem para dar a cada uma de nossas vidas o formato
especial que elas têm. O amor entre duas pessoas é, sem dúvida, basicamente
uma coincidência, duas vidas se cruzando por acaso; e assim, naturalmente,
ocorrências sincronísticas frequentemente estabelecem as bases para nossas
histórias de amor e amizade.
Uma das características do acontecimento sincronístico é que ele é único e
sem repetição, uma experiência única na vida. Quando pensamos o quanto é raro
um amor verdadeiro, o quão pouco provável, entre muitos milhões de pessoas
que encontramos ao longo de uma vida, é que consigamos encontrar uma dessas
poucas pessoas que se encaixam tão bem conosco, daí tornar-se óbvio o quanto o
acaso aparece em relação a quem escolhemos como parceiros, amantes e amigos.
Você já reparou que nos livros e histórias que lemos sobre o amor existe
sempre uma certa sensação de inevitável na trama? Sabemos dentro de nós
mesmos quando duas pessoas são destinadas uma para a outra. Nós
testemunhamos a rivalidade entre famílias como em Romeu e Julieta, e também
sentimos o que vai acontecer, o que deve acontecer, quando os jovens amantes se
juntam. Ainda assim, ao mesmo tempo, sempre há aquela inconfundível
sensação de magia, o encantamento de saber que algo muito precioso está
acontecendo, puramente pelo acaso.
Falando com as pessoas sobre os amores de suas vidas, fui surpreendido pelas
semelhanças entre nossas vidas e as histórias que lemos. A frágil linha do acaso
na qual muitos desses relacionamentos estavam pendurados era espantosa —
pois por um minuto ou dois de atraso, ou um simples imprevisto, muitas dessas
pessoas jamais teriam conhecido a pessoa que, através do amor, mudou toda sua
história permanente e irrevogavelmente. A sensação do inevitável percebida nas
histórias de amor que lemos não é só porque nós, como narradores oniscientes,
estamos de fora da trama. Como a história real a seguir nos mostra, essa
sensação faz parte do significado do nosso encontro com o acaso, um golpe de
sorte que nunca cessa de nos maravilhar ao longo de nossas vidas.
Muitas das sincronicidades no amor e na amizade têm a ver com encontrar a
pessoa certa, na hora certa, nas circunstâncias certas, mas pela completa
improbabilidade na maneira como Pete e Mary começaram, seu relacionamento
merecia um prêmio. Eles se conheceram numa grande comemoração, uma festa
pela qual Marin County, na Califórnia, ficou conhecido no final dos anos setenta.
Apesar do óbvio interesse mútuo na época, talvez um fato não muito raro aos
vinte e poucos anos de idade, eles se separaram naquela noite sem trocar nada
mais que os primeiros nomes, pois cada um deles estava envolvido com outra
pessoa. Na semana seguinte à da festa, Mary deixou a Califórnia
definitivamente, para acompanhar seu namorado para outra parte do país, mas,
antes de partir, perguntou o dono da festa sobre Pete, conseguindo seu endereço
e número de telefone. Inicialmente ela pretendia ligar ou escrever, o que nunca
conseguiu fazer, pois o tumulto da mudança e depois a rotina normal da vida não
deixaram. No entanto, por razões obscuras até para ela, todos os anos copiava o
endereço de Pete em sua nova agenda de endereços, nunca ligando ou
escrevendo, mas guardando a informação durante quase uma década.
Da parte de Pete, Mary vinha à sua cabeça duas ou três vezes por ano, quando
acontecia dele encontrar por acaso o amigo que dera a festa. Dada a sua história
de namoros frequentes sem assumir nenhum compromisso duradouro, Pete
nunca deixava de perguntar ao amigo sobre a “garota da festa” e sempre
descaradamente pedia ao seu amigo que avisasse quando ela estivesse
disponível. Pelo que sabia seu amigo, Mary estava vivendo feliz com seu
namorado no Texas, mas, continuando a brincadeira, ele prometeu que não
esquecería de avisar a Pete.
No inverno seguinte, Pete soube que sua tia tinha morrido em Las Vegas.
Mais por dever que por afeição, ele marcou um voo saindo de São Francisco no
dia seguinte, pensando que talvez quando seus deveres familiares estivessem
concluídos ele poderia ficar um pouco e aproveitar a cidade. Quando chegou ao
aeroporto, no entanto, descobriu que não estava saindo nenhum vôo por causa do
nevoeiro, e não havia previsão de quando sairiam de novo. Assim, num impulso
de momento, decidiu alugar um carro e dirigir até Las Vegas; demoraria um
pouco, mas ao menos ele tinha a certeza de chegar lá, e a perspectiva de uma
viagem por estrada agradou-o. Na verdade, uma vez na estrada, ele pensou que
poderia parar à noite na cidade de Mojave para visitar um amigo e descansar
antes de partir cedo para Las Vegas na manhã seguinte. Como ele disse, nunca
imaginou que essa viagem acidental de carro fosse mudar sua vida.
Perto de Mojave no fim do dia, o carro começou a dar problemas e parecia ter
um pequeno vazamento em um dos pneus. Pete parou então em um posto de
gasolina, encheu o pneu e foi ligar para seu amigo, que não estava em casa. Pete
se lembra de ter pensado que nada parecia destinado a dar certo nessa viagem
para Las Vegas, tirando disso a lição de não fazer nada sem coração, por
obrigação, ao invés de um verdadeiro comprometimento. Esse hábito, ele disse a
si mesmo, era responsável por aquilo que estava errado em sua vida.
Ele estava se hospedando num pequeno motel de beira de estrada, ao
anoitecer, quando seu humor mudou subitamente: ao virar para pegar suas malas,
ele esbarrou em Mary, que nesse momento entrava no escritório do motel.
Incapaz de acreditar que dentre todos os lugares do mundo, eles se encontrariam
por acaso, depois de oito anos, no mais improvável dos lugares, eles ficaram
ainda mais admirados ao saber das circunstâncias. Mary estava voltando para
São Francisco para achar um lugar para morar. Na semana anterior, ela havia
rompido com seu namorado de muito tempo, pela mesma razão pela qual Pete
vinha se autocensurando. Seu namorado depois de tantos anos ainda era incapaz
de se comprometer com ela e, em vez de passar sua vida esperando, ela decidira
tomar uma atitude e voltar para onde se sentia mais ela mesma. O resto, como
dizem, é história.
Na história de como eles se encontraram, o que aparece como significativo
para Pete e Mary não é só a espantosa coincidência externa — imagine encontrar
alguém por quem você se sente atraído por quase uma década, no meio do
deserto da Califórnia —, porém, muito mais pelo momento psicológico de seu
encontro. Pete, tendo acabado de concluir que sua meia-entrega era a raiz de seu
problema, estava se deparando com a oportunidade de fazer uma mudança ao
encontrar Mary depois de tantos anos. Ao mesmo tempo, Mary, voltando para o
lugar onde ela se sentia bem, encontra o mesmo homem cujos endereço e
telefone ela vinha inexplicavelmente guardando e tinha seriamente planejado
ligar assim que chegasse na cidade. A chance de que um encontro como esse,
num lugar como esse, acontecesse sem nenhuma ação de sua parte para provocá-
lo era, realmente, extraordinária. Porém, o que faz dele um evento sincronístico,
é que aconteceu num momento muito significativo para cada um deles
emocionalmente, em meio a uma transição psicológica, e para Mary ao menos,
geográfica, de uma antiga vida para um novo capítulo em sua história.
O elemento momento certo, a coincidência entre os acontecimentos externos
e o estado interno, é com certeza uma das mais maravilhosas partes inerentes de
uma experiência sincronística. Mostra-nos que realmente somos parte de uma
história, que existe, como nos contos que lemos, um significado e um propósito
para todos os eventos aparentemente do acaso que nos acontecem. Pete e Mary
concluíram a partir do tempo sincronístico de seu encontro que realmente eles
tinham sido feitos para ficar juntos, assim como o delicado timing da sequência
de eventos da próxima história, que se refere aos meus amigos Gery e Rosanne,
fez do início de seu relacionamento uma experiência sincronística para ambos.
Casada há anos, com três filhos, Rosanne conta como eles se conheceram.
“Eu estava em Detroit num trabalho temporário, morando com meus pais e
guardando dinheiro para mudar para o Colorado, depois de uma longa visita à
Europa. Eu tinha mais ou menos um intervalo de seis semanas nas quais estaria
em casa, e, nessa época, saí com um amigo que disse: ‘Ah, sabe, eu gostaria de
dar uma passada rápida e me despedir de meu amigo Paulinho, que está partindo
para a Costa Oeste em breve.’ Fui então à casa. de Paul com meu amigo; Paul
comentou que, chegando em São Francisco, iria encontrar seu amigo Gery, que
ele conhecia de Detroit e agora morava lá.
“Nesse instante um dos rapazes olhou para mim e disse: ‘Ei, dentro de duas
semanas teremos nossa festa anual. Por que você também não vai?’ Eu
concordei, sem saber ao certo o porquê de estar interessada, mas eu estava, e na
semana seguinte eu fui.
“Então lá estou eu, nessa festa, parada na fila do banheiro, quando uma voz
disse em meu ouvido — isso é tão profético —: ‘Você sabe onde tem cerveja?’
Foi o máximo para os olhares encantados do outro lado da sala. Aquela voz era
de Gery, o amigo da Califórnia de Paul. Bem, durante uma hora e meia falamos,
falamos e falamos — nem fui ao banheiro —, até que finalmente nos separamos
decidindo que seria melhor nos misturarmos aos outros. Gery continuava com
sede, ainda não tinha tomado sua cerveja. Naquele ponto trocamos telefones,
nomes e sobrenomes.
“Meus pais tinham se mudado da casa onde eu crescera, e eu continuava com
eles, portanto dei-lhe esse número de telefone — pelo menos foi o que pensei —
e pelo resto da noite esbarramos um no outro pela festa. Acabamos ficando até
as cinco da manhã, e nesse ponto eu sabia que estava realmente interessada nele.
Pensei comigo mesma, vou dar a ele três dias, então eu telefono para ele.
“Foi três dias depois quando liguei para ele que descobri que não tinha dado
o telefone de meus pais para ele — tinha dado o telefone do Supermercado
Chatham. Pensei, Supermercado Chatham? Por que eu faria isso? E, de repente,
juntei as peças.
“Eu havia trabalhado quatro anos como responsável pela folha de pagamento
do Supermercado Chatham, e quando Gery e eu trocamos telefones, eu vi seu
sobrenome, e o reconhecí como de um dos rapazes que trabalhava comigo no
Supermercado Chatham. Eu tinha dado o telefone de onde nós dois havíamos
trabalhado em vez do meu telefone.
“Em todo caso, o tempo estava ficando curto, pois eu iria partir para o
Colorado em três dias. Quando liguei para Gery, soube que ele realmente tentara
me telefonar mas sempre caía numa mulher dizendo ‘Supermercados Chatham’,
é claro, e ele pensou que eu estava dando o fora nele porque não tinha lembrado
que havíamos trabalhado juntos lá.
“Mesmo assim, apesar de tudo, em vista do curto espaço de tempo que
tínhamos, era surpreendente que nos tivéssemos encontrado. Ele só estava em
Detroit para o Natal, pois estava morando na Califórnia, e no dia seguinte iria
para o Norte visitar uns amigos durante dois dias. Antes que tivesse voltado eu
teria partido para o Colorado. O espaço era realmente curto. A confusão dos
telefones, ambos termos trabalhado num mesmo lugar no passado, fazia a coisa
toda parecer coincidência demais.”
Aquele primeiro telefonema seguiram-se muito mais telefonemas para a
Califórnia, seguidos de uma visita, da decisão de mudar para a Califórnia, do
casamento, lar e filhos. O tempo do encontro, no curto espaço de somente um
dia, é o que espanta Gery e Rosanne, espaço ainda menor pela confusão
acidental dos números de telefone que atrasou sua conversa por mais um dia,
mas deixou claro para cada um deles a história comum que dividiam. Quando
Gery e Rosanne contam a história, o que nos toca mais do que o extraordinário
timing é o significado emocional dessas conexões e desconexões, a sensação de
que o que parecia um erro — dar o número do telefone errado — na verdade se
transformou em algo de grande significado para eles.
Em nossas discussões anteriores sobre a natureza casual dos eventos
sincronísticos, reconhecemos nossa tendência bastante humana de tentar exercer
e estabelecer controle sobre nossas vidas, como se o consciente decidisse qual é
a história que vamos viver e fazer o que for necessário, faça chuva ou sol, para
que isto aconteça, fosse a única e melhor maneira de conquistarmos a felicidade
e a realização. Com certeza, faz parte das maravilhas dos eventos sincronísticos
a forma como atitudes como essas mudam em sua cabeça. Por mero acidente,
sem que desejemos, às vezes certos eventos nos acontecem e nos mostram que
nossas vidas podem muito bem estar seguindo uma trilha narrativa
completamente diversa, que a história que inventamos para nós mesmos pode
não ser nossa de maneira alguma e que somente nossa abertura para reconsiderar
a trama vai nos permitir usar essa coincidência significativa em nosso proveito.
Por essas razões, eu acho, coincidências significativas parecem florescer em
circunstâncias onde há resistência ao amor. Rena conta a história de como
conheceu seu marido, Bob, que ela deliberadamente se recusava a conhecer, e
que vinha sendo elogiado há muitos meses por um casal de amigos que estava
muito interessado em apresentá-la a ele. Ele era perfeito, interessava-se por arte,
era bonito, atencioso, mas para Rena, não estava no jogo. Ela estava em meio ao
esforço de uma mudança de vida determinada por ela mesma, planejando passar
o próximo ano viajando pelo mundo. Não havia a menor possibilidade de um
romance, mesmo que fosse com o homem perfeito, impedi-la de concretizar seu
sonho antigo.
Então, seus amigos perceberam que isso requeria uma certa esperteza se eles
realmente quisessem fazer com que Rena conhecesse Bob. Um dia, tendo
esbarrado com ela andando de bicicleta, seus amigos a convidaram para um
drinque, o caráter totalmente fortuito do encontro levou Rena a baixar sua
guarda. Na verdade, seus amigos sabiam que Bob iria encontrá-los no
restaurante, e através dessa bem-intencionada pequena manipulação, Bob e Rena
finalmente se conheceram.
Rena conta a história de como a atração entre os dois foi imediata e forte, e
não demorou muito para que a ideia de viajar sozinha pelo mundo começasse a
parecer cada vez menos interessante. Assim, ela e Bob decidiram, baseados em
um conhecimento sabidamente curto, porém verdadeiramente intenso, passar o
próximo ano viajando pela Europa juntos, indo aonde tivessem vontade, ficando
onde quisessem, pelo tempo que quisessem.
O pai de Rena havia falecido no ano anterior, e sua mãe tivera um ataque
cardíaco logo em seguida, mas se recuperou totalmente, então Rena não ficou
preocupada em só ter um número de telefone de um amigo do Bob na Alemanha,
onde poderia ser encontrada em caso de emergência, para deixar com sua irmã.
Por causa da liberdade de seus planos (o que, claro, emprestou a essa viagem
grande parte de seu fascínio romântico), Rena e Bob não tinham ideia de
quando iriam estar com esse amigo. Portanto, cabia realmente a eles ligar
regularmente, o que fizeram enquanto vagavam pela Europa.
No decorrer da viagem, o romantismo de tudo, como geralmente acontece
com o romantismo, começou a diminuir. Bob era arquiteto, encarava a viagem
com uma organização que começou a irritar Rena, planejando itinerários em
torno dos edifícios famosos e monumentos, enquanto Rena, que se autodescrevia
com uma “pessoa comum”, achava essas coisas consideravelmente menos
interessantes. Com uma gargalhada, ela descreve sua experiência como “ele
olhando o tempo todo para cima, em direção às torres e catedrais; e eu olhando o
tempo todo para baixo, em direção às pessoas”. Como na maioria das viagens,
foi uma experiência para descobrir mais do que aquilo que você gostaria sobre a
outra pessoa, e no caso de Rena, o que ela estava encontrando eram sérias
dúvidas se esse era ou não homem para ela.
Foi quando a sincronicidade se mostrou. Rena e Bob finalmente tomaram o
rumo do amigo de Bob na Alemanha, onde planejavam ficar três dias. No
primeiro dia, por acaso, receberam um telefonema da irmã de Rena, informando
que sua mãe estava extremamente doente e ao que tudo indicava morrería em
breve. A chance deles estarem no único lugar da Europa, no decurso de um ano,
do qual sua irmã tinha o telefone já era bastante significativa, mas o momento da
crise continha ainda mais significado para Rena. Como suas dúvidas a respeito
de Bob haviam aumentado ao longo de suas viagens, de repente achou esse
homem racional e organizado, muito insistente em acompanhá-la de volta para
casa. “Ele ficou comigo no quarto durante uma semana, dia e noite, enquanto
minha mãe morria”, contou-me Rena, com grande emoção, “e você sabe, isso
mudou tudo. Qualquer dúvida que eu tivesse a respeito dele foi respondida por
sua atitude tão amorosa enquanto eu passava por isso. Se minha irmã não tivesse
nos encontrado, na verdade, se a morte de minha mãe não tivesse ocorrido
quando ocorreu, durante meu relacionamento com Bob, eu não sei se estaria com
ele agora. Para começar, tinha resistido em conhecê-lo.”
A história de Rena é um bom exemplo de como a história que decidimos
escrever para nós mesmos pode perfeitamente fazer alguém parecer a “pessoa
errada no lugar errado”. Mostra-nos que talvez precisemos de um conjunto de
eventos do acaso, fatos sobre os quais não temos nenhum controle, para
demonstrar como ele ou ela é realmente a “pessoa certa no lugar certo”. Rena,
uma mulher forte e decidida, tinha sua vida planejada, mas quando a notícia
chegou até ela no único lugar no mundo onde poderia ser encontrada, tornou-se
uma coincidência significativa que revelou a verdadeira natureza do homem que
ela estava planejando tirar fora da história da sua vida. De-nominamo-nos os
únicos de nossa vida, e o que mais senão o caos inerente nos acasos da vida
poderia nos mostrar a estupidez de nossa pretensão?
À pergunta que me é feita com frequência: “Como você trabalha com a
sincronicidade?”, eu respondo geralmente: “Esteja aberto para o significado
daquilo que você não quis que acontecesse.” Somente essa atitude de abertura, a
habilidade para pôr de lado nossas próprias agendas e considerar que a nossa
pode muito bem ser uma história que nós não planejamos ou não pudemos
prever, permite que o significado do que inicialmente nos parece como mera
falta de sorte desabroche naquilo que está destinado a ser.
Rena e os outros nas histórias acima apontam para o momento dos
acontecimentos que os uniu, porém sua abertura em considerar uma alteração na
narrativa de suas vidas transformou uma coincidência em algo significativo para
eles. Se Pete não se sentisse infeliz com sua incapacidade de se comprometer e o
desconforto que isso trazia para ele; se Rosanne tivesse acidentalmente dado o
número correto do telefone, como pretendia; se Rena tivesse se apegado às suas
desconfianças sobre Bob, todas essas histórias teriam sido bem diferentes. Foi
sua boa vontade em olhar e viver o significado daquilo que não deveria ter
acontecido, isto é, segundo as histórias que eles pensavam estar escrevendo para
si mesmos, que fez toda a diferença.
Encontrando o Homem Errado: Lições Sincronísticas sobre o Amor
Nem todo relacionamento, obviamente, se transforma nesse romance livresco
como o de Rena e Bob. Pelo menos algumas das histórias de amor terminam
infelizes (Romeu e Julieta é, afinal, uma tragédia), e mesmo assim, mesmo nas
histórias infelizes, existe uma importante sensação de significado. Portanto,
examinando alguns desses acontecimentos sincronísticos que transformam
nossas vidas amorosas, podemos encontrar crescimento que não vem somente
quando encontramos o homem certo mas também através da “má sorte” de
encontrar o homem errado.
A história de Kathryn apresenta uma ligeira mudança na forma pela qual a
sincronicidade intervém quando resistimos em nos abrir para o amor. Das muitas
histórias que ouvi, a dela está entre as mais incríveis e interessantes dentro do
tipo de sincronicidade “pessoa errada no lugar errado”: em suas próprias
palavras, é a história de seu “encontro às escuras do inferno”. Advogada,
Kathryn frequentou a faculdade em Nova York, e ali mesmo começou a trabalhar
em uma firma depois de formada. Ela havia saído com alguns rapazes na
faculdade mas percebera que sua personalidade forte — ponderada, preocupada
em não cometer erros — e sua bastante ambiciosa visão de vida não eram
apreciadas pelos homens com quem saía. Tendo passado por essas más
experiências, portanto, ela decidira que a sua seria a história de uma mulher com
uma carreira profissional: o sucesso em seu ramo seria seu apogeu, e os
relacionamentos ficariam sempre em segundo plano. Assim, quando vários
amigos tentaram arranjar encontros para ela com esse ou aquele, ou outro
homem perfeito, Kathryn, de modo educado e firme se recusava a cooperar e
continuava tocando sua vida como achava conveniente. Uma amiga, a quem
Kathryn chamava de “quase tão cabeça-dura quanto eu”, decidiu que um amigo
seu era quem Kathryn precisava em sua vida, e através de lentamente
enfraquecer sua resistência durante quase um ano, essa amiga finalmente
conseguiu que ela concordasse em um encontro com Charlie, que foi descrito
pela amiga como alguém capaz de se igualar à Kathryn em sua “intensidade”.
Com muita relutância, Kathryn encontrou o rapaz em um simpático
restaurante. Apesar de inegavelmente bonito, para seu desânimo, Kathryn achou-
o tão intenso quanto descrito, tão “intenso” que conseguiu ter uma pequena
discussão com o maitre antes mesmo de se sentarem, outra discussão com o
garçom a respeito da pronúncia correta do nome de um prato no menu e ainda
outra discussão com a moça da chapelaria na saída. Durante o jantar, ele
monopolizou a conversa com seus grandes planos para sua carreira como ator —
no momento ele estava trabalhando como garçom de banquetes — e regalou-a ao
longo do jantar com histórias das pessoas ricas e famosas que ele conhecia,
muitas das quais, Kathryn sabia por suas próprias conexões, que nada mais eram
que pura fantasia. Resumindo, os minutos pareciam horas, e no final da noite,
Kathryn jurou nunca mais ouvir suas amigas, não importa quão bem-
intencionadas fossem. Fora, ela decidira, seu primeiro e último encontro desse
tipo.
Insatisfeita com a firma em Nova York depois de algum tempo, ela enviou
propostas para outro trabalho e conseguiu arranjar uma colocação no
departamento legal de um estúdio de cinema em Los Angeles, onde parecia
haver muito mais possibilidades de promoção. Ela mudou-se para o outro lado
do país, e começou na Califórnia uma vida nova e bem mais satisfatória,
continuando presa à convicção de que seu trabalho vinha antes e seus
relacionamentos depois. Amigos intrometidos evidentemente não conhecem
limites geográficos, pois na Califórnia, também, sua recusa em tentar a
possibilidade de um relacionamento parecia incitar aqueles à sua volta a tentar
fazê-la mudar de ideia, através dos vários e qualificados irmãos, primos, colegas
e amigos com os quais, eles tinham certeza, ela se daria bem. Usando sua, agora
lendária, história do “encontro maldito” como um escudo social, Kathryn
conseguiu rechaçar todas as tentativas de arranjo feitas para ela.
Mais de um ano passou até que uma de suas colegas de trabalho, através de
um pouco de antipsicologia, conseguiu abrir uma brecha na sua resolução,
falando ocasionalmente a respeito de um amigo solitário, ardiloso, um rapaz
incomum, nativo da Califórnia, que era “como você, não tem interesse em
relacionamentos”. Sem jamais pressionar realmente Kathryn, ela a provocava de
vez em quando com uma informação aqui, um comentário engraçado ali, sobre
seu amigo, até que um dia no almoço deixou escapar a dúvida se os dois dariam
certo juntos, e Kathryn teve que admitir que estava bastante curiosa. “Talvez
fosse o sol, talvez o vinho, talvez”, ela me disse, “estivesse crescendo um
pouquinho.” De qualquer forma, ela pediu à sua colega que verificasse se seu
amigo estaria interessado em conhecê-la, o segundo e último encontro desse tipo
de sua vida.
Eles se encontraram num lugar bastante informal na beira do mar ao pôr-do-
sol. Como você sabe que este é um livro sobre sincronicidade, já pode imaginar
o que se passou. Para seu espanto total, ela encontrou Charlie na mesa à sua
espera. Ela o tinha transformado numa figura quase mística, no entanto percebeu
que o tempo o tinha tornado mais alegre, além do mais, a incrível coincidência
de sair em dois encontros com desconhecidos, com o mesmo homem em lados
opostos do país, era engraçada demais para deixá-la aborrecida. Na verdade, a
coincidência era hilariante. Tomaram um aperitivo numa atmosfera bem mais
relaxada do que anos antes, e ela soube que ele tinha voltado para a Califórnia
fazia alguns anos e mudara de nome, conseguindo trabalho bastante para se
manter mas sem realmente acertar em cheio.
O encontro daquela noite foi bastante agradável, mesmo assim Kathryn
continuava não achando sua personalidade suficiente atraente para reconsiderar
sua decisão de evitar relacionamentos. Passados um ou dois meses, ela tropeçou
num homem com quem ela realmente tinha muito em comum e com quem está
muito feliz atualmente.
“Não é engraçado que eu tenha tido dois encontros arranjados malsucedidos
com um mesmo homem para finalmente ficar convencida a me abrir um
pouco?”, disse ela com autodepreciativa sabedoria. “Ou talvez fosse o medo de
que, se eu não estivesse envolvida, poderia ser condenada a sair com ele pela
terceira vez! ” A história de Kathryn demonstra como a sincronicidade e o
romance nem sempre levam ao consolo de um final feliz que esperamos de um
conto de fadas ou filme, mas nos ajuda a ver que ter uma atitude aberta diante do
que as coincidências podem significar em nossas vidas na verdade pode nos
ajudar a viver uma história mais plena e mais rica, por mais inesperado que seja
o final.
Decidindo escrever o roteiro de nossas histórias baseados naquilo que
conhecemos de nós mesmos, decidindo, como fazem os autores, qual será o
começo, o meio e fim de nossas narrativas, esquecemos que o que
conscientemente sabemos a nosso respeito é somente parte da história. O
significado dos dois encontros sincronísticos arranjados de Kathryn, com o
mesmo homem, fazia parte da mudança que ela estava fazendo aos poucos em
sua vida sem seu conhecimento, uma transformação inconsciente da resistência
aos relacionamentos para uma aceitação de sua capacidade de amar e ser amada
pela mulher que é. Essa história inconsciente, o subtexto, por assim dizer, de sua
vida nesse momento foi o que tornou a coincidência significativa. Somente sua
abertura para perceber que Charlie havia mudado alertou-a para o fato de que ela
também havia mudado. Uma página foi virada em sua vida, e um novo capítulo,
mais maduro, sincronística e significativamente, tinha começado.
Alex conta uma história parecida sobre “pessoa errada no lugar errado”. Durante
seu último ano na faculdade, ele se apaixonou por uma garota que sentava ao seu
lado na classe. Alta, morena, misteriosa e exótica, Beija estava um ano ou dois
abaixo dele, e ele a achava tremendamente, até mesmo irresistivelmente,
fisicamente atraente. Porém, na época, era fato conhecido na pequena e liberal
escola de artes que frequentavam que o interesse dela não era pelos rapazes, e
sim pelas moças. Para não fazer papel de bobo, ele mantinha seu relacionamento
com ela no nível da amizade e deixava que suas fantasias sobre ela florescessem
na garantida privacidade de sua psique. Depois da formatura ele se transferiu
para uma pós-graduação, conheceu uma mulher na mesma atividade, se
apaixonou e se casou.
Ainda assim a lembrança de Beija permaneceu com ele por muitos anos,
durante os quais ele frequentemente sonhava com ela, algumas vezes sonhos
explicitamente eróticos, às vezes sonhos meramente românticos sobre os dois
vivendo um relacionamento. Quando seu casamento começou a passar por
dificuldades de toda espécie, algumas circunstanciais, outras emocionais, seus
sonhos com o “amor que nunca houve” começaram a lhe fazer mais e mais
companhia.
Ele e sua mulher procuraram juntos um conselheiro para tentar melhorar seu
relacionamento, e durante uma sessão sozinho com o conselheiro, Alex contou
ao terapeuta que vinha há muito cultivando um complexo jogo de fantasias sobre
Beija, que passara a representar, com o passar dos anos, tudo que ele sempre
quisera de um relacionamento. Ela era linda, generosa, inteligente, ele seria o
único homem para o qual ela se abriria e assim por diante. Seu conselheiro
escutou, tentando extrair da fantasia alguma noção do que Alex achava que era
um bom relacionamento para usar essa informação no aconselhamento do casal.
Porém, o que o conselheiro não sabia era que essa era a primeira vez que Alex
contara sobre sua paixão secreta dos tempos de faculdade.
Na semana seguinte Alex foi com alguns amigos a um clube de esportes, e
quando saía, no final da noite, ele encontrou, para seu completo espanto, Beija, a
mulher dos seus sonhos. Ela ficou feliz em vê-lo mas não parecia especialmente
abalada pela coincidência, enquanto Alex mal podia conter seu espanto. Beija
não somente estava nesse lugar completamente inesperado, um clube de
esportes, como ele ficou sabendo conversando mais longamente com ela, que ela
também tinha escolhido a mesma área profissional que ele, e havia se mudado
recentemente para um apartamento numa esquina perto de onde ele trabalhava.
Mais tarde, depois de um educado porém objetivo interrogatório sobre sua vida
amorosa, ele descobriu que sua fase lésbica, tão notória no campus anos atrás,
não tinha passado de um acontecimento único e ela concluíra nesses anos que
era finalmente heterossexual, porém estava sem compromisso no momento.
Tentando se manter calmo e colocado, Alex se despediu amigavelmente depois
de haverem decidido se encontrar para um almoço para pôr o assunto em dia.
Para Alex, esse encontro foi importantíssimo. Não mais uma mera fantasia,
“esse amor que nunca foi” agora morava a uma quadra de distância de onde ele
trabalhava, estava no mesmo campo de atividade que ele e tanto estava
disponível quanto era heterossexual. Infeliz no casamento, por motivos que tanto
ele quanto sua mulher estavam pessimistas quanto a resolver, Alex interpretou
esse encontro casual como um sinal de que ele e Beija estavam destinados a ficar
juntos, uma interpretação reforçada pelo fato de sua tão antiga e cultivada
fantasia sobre ela ter sido recentemente descrita pela primeira vez para outra
pessoa. O momento de sua confissão, agora que ela estava de volta em sua vida,
parecia cheio de significados.
Mantendo esse encontro em segredo, de sua mulher, Alex passou a almoçar
com Beija, o que veio a se tornar um encontro semanal, decidiu que esperaria até
que ela desse alguma indicação de que queria aprofundar o relacionamento; só
então deixaria sua mulher para ficar com ela; a única mulher, ele tinha certeza,
que ele poderia amar.
Da maneira como Alex conta essa história, esse ataque de romantismo levou
algum tempo para passar, mas passou. Gradativamente foi ficando claro que
Beija não estava romanticamente interessada nele mas o considerava um
confidente com quem se sentia segura o suficiente para contar histórias
intermináveis de suas aventuras sexuais, de como ela, nova na cidade, pulava de
cama em cama sem nenhum cuidado. Alex começou a achar desagradável.
Quando a verdade de quem Beija realmente era ficou clara para ele, Alex se viu
apreciando mais e mais o que ele e sua mulher dividiam um com o outro.
Dessa maneira, o final da história é que o fracasso de Alex em ter um caso
com o “amor que nunca foi” levou-o, ironicamente, a uma renovação em seu
casamento. Apesar dos esforços ocasionais, seu relacionamento com sua mulher,
diz Alex, é agora totalmente satisfatório. Como um epílogo para essa história,
por assim dizer, aconteceu de Beija repentinamente levantar o acampamento e se
mudar para longe seis meses depois de sua chegada, como se tivesse ficado
tempo suficiente para ajudar Alex a tirar suas fantasias a respeito dela de sua
cabeça para sempre.
Então qual é a moral dessa fábula da vida real? É difícil não extrair um pouco
de sabedoria para nós mesmos das coincidências significativas, e essa é, sem
dúvida, uma das formas de se lidar com os significados desses acontecimentos.
Alex certamente pode dizer qual foi a moral de sua história: quando perguntei,
ele disse que às vezes parece que a pessoa certa na hora errada pode na verdade
ser a pessoa errada na hora certa, o que, para minha cabeça, é quase tão sucinto
quanto qualquer fábula que Esopo possa ter escrito.
Sincronicidade e Amores Proibidos: Quando Entra a Fé
Existem histórias de amores bem-vindos e histórias de amores complicados, mas
nenhuma exerce mais fascínio sobre nós do que as histórias dos amores
proibidos. A literatura está cheia dessas fábulas, nas quais os veículos externos
de família, cultura ou religião colocam uma barreira entre as pessoas que só
servem para inflamar a ligação. Essas são geralmente histórias da pessoa certa
no momento e lugar errados —Tony e Maria de West Side Story, como Romeu e
Julieta antes deles — ou, ao contrário, a pessoa errada em um, infelizmente,
tempo e lugar propícios — o incrédulo Conde Vronsky e Anna Karenina, do
livro de Tolstoi, ou de uma outra forma, Emma Bovary e seu amante, em um
relacionamento que os destruiu a ambos. Em qualquer caso, a qualidade
arquetípica do amor proibido assegura quase que praticamente um desfecho
trágico nas histórias que lemos. Felizmente para nós, as sincronicidades que
acontecem na vida real quando nossas paixões vão de encontro aos códigos
morais de nossa vida social geralmente provocam uma transformação em vez de
uma tragédia.
Eu gosto especialmente da história, que me foi contada em confiança
absoluta, por uma antiga colega de trabalho que chamarei de Camilla, sobre
como ela e um homem que conhecera através da Internet mantiveram durante
um ano um romance sex-chat através do computador, apoiado principalmente em
descrições minuciosas de uma fantasia sexual particular que ambos partilhavam.
Os detalhes daquilo em que ambos estavam interessados é menos importante que
a espantosa coincidência de encontrarem alguém que partilhava do mesmo
interesse peculiar. Porque ambos já estavam envolvidos em outros
relacionamentos e Camilla era de certa forma prudente em revelar suas
preferências sexuais, precisou de alguns papos antes que eles descobrissem seu
raro porém mútuo excitante interesse, do qual nenhum de seus respectivos
parceiros partilhava.
Bem, podemos perfeitamente imaginar que os nomes que trocaram na
Internet eram falsos (uma interessante coincidência nisso também, finalmente
veio à luz, quando eles descobriram que ambos usaram os nomes dos pais), e
uma vez que o prazer do amor proibido sempre está apoiado no ato da
transgressão, depois de muitos meses de tórridos papos pelo computador, durante
os quais cada um deles foi se sentido mais e mais confortável, Camilla e seu
parceiro sexual de computador tiveram coragem de ultrapassar os limites e
marcar um encontro. Eles resolveram se encontrar, sem nenhuma agenda sexual
explícita em princípio, mas meramente para trazer seu conhecimento do campo
verbal para a vida real e ver o que acontecia.
O que aconteceu a seguir não tem nada do charme ou satisfação dos outros
casos que ouvimos, mas foi significativo assim mesmo. Quando chegaram ao
café, vestindo o que haviam combinado para identificar um ao outro, Camilla e
seu parceiro de sex-chat descobriram que já se conheciam de uma desagradável
transação na vida profissional que tinham tido alguns anos antes. Na verdade,
quando Camilla se aproximava do café, ela viu seu antigo desafeto andando pela
rua e soube imediatamente que esse homem, que em sua cabeça representou
durante muitos anos tudo o que havia de errado em sua profissão, seria a pessoa
que ela tinha vindo encontrar.
Quando perguntei à Camilla qual era para ela o significado dessa
coincidência, encontrar um parceiro sexual ideal em alguém por quem ela havia
desenvolvido repugnância em outras áreas da vida, ela riu com certo desconforto
e, de uma forma interessante, enunciou o que novamente soou como a “moral da
história”.
“Primeiro”, disse ela, também para si mesma, senti, “fantasia é fantasia, e
realidade é realidade, e os dois não devem nunca se encontrar. A fantasia é
divertida porque não tem bagagem, porém essa estranha coincidência me
mostrou que atrás de todos os disfarces e voos da imaginação que fazemos para
esconder nosso verdadeiro eu, cada um de nós é uma pessoa de verdade. Não era
a lição que eu queria aprender — realmente é um saco —, porém, francamente,
me sinto muito mais com os pés no chão desde que isso aconteceu.”
Outras lições? Perguntei. Ela pensou um pouco e então, esboçando um
sorriso, disse: “Eu não sei, talvez isso seja uma contradição, mas não julgue um
livro pela capa. Você nunca sabe que tipo de relacionamento é capaz de ter com
uma pessoa que você odeia! Eu pensei que conhecia este camarada — conhecia
e não gostava —, mas descobri totalmente por acaso o que não poderia ter
descoberto de outra maneira, que nós de fato partilhávamos de algo bastante
incomum.”
Estando aberta para ter sua história reescrita para ela, a fábula de Camilla lhe
ensinou que quem é “certo” ou “errado” pode nem sempre ser quem nós, em
nossa autoritária sabedoria, pensamos que seja ou gostaríamos que fosse. Usando
outra vez a frase de Franz, “o acaso é o inimigo”; acontecimentos fortuitos
atrapalham nossos planos e algumas vezes atuam de forma dramática para nos
surpreender com um novo nível do que é “certo” e do que é “errado”, não nas
bases da moralidade convencional, mas nas bases de nossa própria experiência
subjetiva. O significado de partilhar um único ponto de contato com um homem
que ela detestava anteriormente reorganizou sua maneira de pensar a respeito de
si mesma de uma forma que só poderia ter acontecido por acaso. Exige uma
certa coragem para nos olharmos e nos fazermos algumas das mais duras
perguntas sobre nossas pretensões, com as quais um acontecimento sincronístico
nos põe em confronto. Porém, se nossa vida é uma história, isto serve para nos
alertar do que uma professora de inglês costumava dizer: escrever é reescrever,
ver é rever.
Minha amiga Ann, a quem eu considero uma especialista em amores proibidos,
nos conta como conheceu um homem chamado Richard Rosenstein e sua
namorada em uma festa em Nova York. Na semana seguinte, por motivos
principalmente de natureza profissional, Ann tentou encontrar Richard
Rosenstein. Ela sabia que ele morava no Upper East Side e pegou seu número de
telefone através do serviço de informações. Ligando, ela descobriu que tinha
contatado Richard Rosenstein sim, mas não aquele Richard Rosenstein que
estava procurando. No entanto, pegou-se conversando com este segundo Richard
Rosenstein, e conversaram todas as noites na semana seguinte. Eles finalmente
se sentiram confortáveis para se encontrar. Mesmo estando ambos envolvidos
com outras pessoas no momento (na verdade Ann estava casada mas fazia dos
casos extraconjugais um hobby nessa fase de sua vida), os dois se envolveram
num relacionamento que durou anos.
Parte do encanto dessa história está na ironia quase literária do seu estilo: o
número errado de Ann acaba se transformando no número certo,
metaforicamente falando, levando-a através do acaso até um homem que ela
acabou conhecendo e amando durante um longo tempo. Através desse
acontecimento sincronístico, somado ao telefonema sincronístico de Dan, seu
amante casado já apresentado na introdução, uma imagem de Ann toma forma
através desses eventos sincronísticos, não é?
Conhecendo Ann, você vai logo descobrir que, ao contrário de muitos dos
meus amigos, ela não é uma pessoa de muitas ideias psicológicas. À primeira
vista, ela parece muito convencional, uma mulher de pés no chão, certamente
não é alguém que filosofa muito a respeito de sua vida ou que retire muitas
lições de suas experiências. Porém, o caráter impactante dessas experiências
sincronísticas, no decurso de seus vários “amores proibidos”, por assim dizer,
traz à tona um lado bastante diferente de sua personalidade, o lado não-
convencional e francamente mais romântico. As circunstâncias externas de sua
vida — casou jovem e durante pouco tempo, depois se divorciou e não casou
mais — descrevem só superficialmente a história de sua vida, pois as
sincronicidades nos mostram uma mulher que tem profundas e duradouras
ligações com os homens, embora muitas convenções sociais suavizem a
importância dessas ligações.
Será Ann consciente, apesar da aparente estabilidade de sua vida, de quão
anticonvencional ela é em outro nível? Conhecendo-a como eu conheço há
muitos anos, devo dizer, até certo ponto. Com toda sua normalidade, ela gosta do
papel de rebelde e tende com frequência a se achar uma pessoa precavida contra
envolvimentos, mas essas reflexões a seu respeito definitivamente não ocupam o
centro do palco. Eu acho que lhe ajudaria fazer o que estou fazendo agora,
especificamente, levar a sério a forma como os relacionamentos significativos
em sua vida são pontuados pelas coincidências significativas, coincidências que
demonstram ser ela uma pessoa com habilidade para o amor, uma pessoa com
um especial talento para as conexões? Eu acho que sim: leal a um defeito como a
um amigo, ela se vê como alguém ambivalente em relação ao amor. Porém, as
histórias sincronísticas que ela conta só ajudam a perceber que pessoa realmente
amorosa ela pode ser. As sincronicidades revelam o caráter profundo de Ann da
mesma maneira que pistas casuais no decorrer de um mistério nos dizem para
não acreditar em tudo que vemos sobre essa “especialista em amores proibidos”.
Como a sincronicidade é em sua essência sobre conexões, não é surpresa que
telefones e números errados apareçam em muitas histórias. (Fico imaginando às
vezes como alguns desses tipos de coincidências costumavam acontecer no
passado quando era fácil trocar um número de telefone ou dois, e, assim,
tropeçar no destino.) Para completar essa trilogia dos amores proibidos pelo
telefone, vem a história de Yvonne e Gert.
Durante os últimos dias de seu casamento, Yvonne, minha colega de pós-
graduação, começou a desenvolver uma amizade com fortes tons românticos e
eróticos com um colega professor da sua escola, chamado Gert. Embora os dois
estivessem interessados um no outro, física e emocionalmente, ambos ainda
estavam tecnicamente comprometidos em um relacionamento com outra pessoa.
Gert, sendo alemão, e na intenção de respeitar as convenções sociais e a postura
moral, manteve, portanto, seu arranjo com Yvonne estrita e relutantemente
platônico. No entanto, está na natureza dramática de nossas histórias de amor ter
essas resoluções intelectualizadas apagadas, apesar das melhores intenções dos
protagonistas, Yvonne e Gert, neste sentido, não serem diferentes das de
Abelardo e Heloísa ou Tristão e Isolda. Gradativamente, eles se viram passando
cada vez mais tempo juntos, a maior parte no escritório de Gert que, ao contrário
do de Yvonne, era privativo e, portanto, o único lugar para se levar adiante um
caso em compasso de espera.
Isto é, até que uma série de números de telefone sincronisticamente errados
começou a acontecer, números errados tão específicos e frequentes que era
assustador: cada vez que James, marido de Yvonne, ligava para ela na faculdade,
durante vários meses, a mesa telefônica, por puro acaso, sem saber onde ela
estava, passava erradamente a chamada para o escritório de Gert. Dessa forma,
depois de uma série de mais de uma dúzia desses “números errados”, esses dois
homens, ambos envolvidos de formas diferentes com a mesma mulher,
sincronisticamente acabaram travando conhecimento um com o outro muito
antes que a relação anterior tivesse acabado ou a nova começado.
O lado assustador de ter seu marido ligando sempre, por engano, para o
homem que estava se tornando seu amante era, segundo Yvonne, uma das várias
coisas que confirmavam a direção que ela estava tomando para fazer a transição
para fora de seu casamento e para dentro de uma vida diferente com Gert, com
quem partilhava muito mais interesses e paixões mais profundas. Os números
errados criaram uma ponte entre o que havia sido e o que ainda estava em
processo de transformação, tanto literal quanto simbolicamente, o conjunto
externo de linhas cruzadas representava a encruzilhada na qual Yvonne se
encontrava naquela época. Esse amor proibido, essa fábula da pessoa certa na
hora errada, finalmente chegou a uma sincronicidade de cabeça também, que eu
soube quando saí para jantar com Yvonne e Gert, no restaurante em São
Francisco que foi o cenário dessa última coincidência significativa.
Tendo progredido, apesar das melhores intenções, do desejo platônico para o
prazeroso desempenho, Yvonne e Gert resolveram uma noite escapar para jantar
num lugar longe de onde ambos trabalhavam, numa área da cidade notadamente
turística, onde seria extremamente difícil esbarrar em alguém conhecido. Eles
descobriram na manhã seguinte uma coincidência que mais parecia a trama de
uma farsa francesa: o departamento onde o marido de Yvonne trabalhava
decidira fazer seu jantar de Natal nesse mesmo restaurante pequeno e tranquilo e
meio fora do caminho. Por pura sorte, literalmente por uma questão de minutos,
Yvonne e Gert escaparam de ser pegos.
Estando quase certos de que a mensagem em todas essas sincronicidades
entre seu marido e Gert era de que cedo ou tarde ela e Gert seriam descobertos,
os dois resolveram começar a agir para terminar seus relacionamentos anteriores
e seguir o deles juntos com liberdade e sem receios morais. Com a ajuda quase
implacável das sincronicidades, Yvonne e Gert fizeram a transição para
reconhecer seu relacionamento como importante e público.
Uma Fábula Comum: Coincidências Confirmadoras
Como essas histórias demonstram, quando eventos sincronísticos acontecem em
nossas vidas amorosas, podem funcionar de duas formas diferentes para atingir
nossa consciência: algumas vezes contrariam a direção que escolhemos,
mostrando algo de novo a nosso respeito e nosso relacionamento; ou, ao
contrário, um evento sincronístico pode confirmar e consolidar um
relacionamento sobre o qual temos dúvidas. Quando existe uma ligação
profunda e firme entre as pessoas, as inúmeras e abundantes coincidências entre
eles e suas experiências de vida têm o segundo significado, confirmador,
apoiando sincronisticamente o relacionamento e ajudando as pessoas envolvidas
a terem consciência dos seus sentimentos de conexão.
Esse foi o caso de Greg, que escreveu sobre uma série de coincidências entre
ele e sua namorada. “O número 11 começou a aparecer depois que comecei a
sair com minha ex-namorada no final de 1992. Foi quando ela me disse: ‘Eu
sempre olho para o relógio às 11h11.’ Provoquei-a, perguntando se ela possuía
poderes sobrenaturais ou algo assim, rimos disso e realmente não pensamos mais
nisso. Foi somente quando terminamos o relacionamento que eu vim a perceber
o ‘elo’ incomum que partilhávamos com esse número. Nós ficamos juntos
durante 11 meses. Nós terminamos o relacionamento no dia 11 de novembro.
Emprestei a ela minha camisa de hóquei favorita com o número 11. Eu acreditei
que isso era uma daquelas coisas bobas, melosas de relacionamento.
“Imediatamente reparei, no entanto, que esse número não foi embora com
nosso rompimento. Havia aparições estranhas e fortuitas demais do 11 comigo
para chamá-las simplesmente de coincidência.
“Uma vez cheguei em casa à noite, sentei em frente à TV e, ao olhar para o
vídeo que gravava um programa, notei que o visor mostrava 11h11 da noite no
canal 11 e o tempo de gravação era 11h11m11s.
“Vencido pela curiosidade, tentei sem sucesso encontrar um significado por
trás de tudo isso. Essas aparições acontecendo com frequência, fortuitamente, e
num período em que eu não tinha ligações físicas ou emocionais com minha ex,
agora vejo sua associação com o número 11 como um ‘gatilho’. Ela alega não ter
tido nenhum contato com o número 11 desde o rompimento.”
Assombrado pelo número 11, Greg parecia perdido sobre o que achar da
repetida aparição desse número em conexão com seu relacionamento. A forma
como ele escreve sobre a experiência — como se o significado pudesse ser
encontrado fora, em algum lugar, “por trás” de tudo, em vez de em sua própria
experiência, nas sensações e associações que o número evoca nele — nos mostra
um exemplo de uma forma pouco frutífera de lidar com sincronicidades.
Não há um único significado objetivo para o símbolo 11; como todos os
símbolos, ele aponta para algo que não conhecemos inteiramente. São infinitos
os significados que o número 11 pode ter. 1 +1 = 2 pode ser uma alusão à
maneira como ele + a namorada = uma nova união integral para eles. A repetição
do número 1 pode indicar a repetitiva solteirice de sua vida sem ela. Sem dúvida,
qualquer pessoa lendo este livro pode acrescentar suas próprias associações e
interpretações desse número em relação ao relacionamento de Greg.
Surpreendente enquanto coincidência, a aparição contínua desse número em
conexão com sua namorada é sincronística porque Greg é capaz de viver de
outra forma, o que significa para ele internamente: especificamente, que a sua
ligação emocional com a namorada podia não ter acabado ainda. Como a
imagem de um arcano numa história de terror, sua experiência em conhecer essa
mulher é manifestada no mundo externo pela aparição de um número, por mero
acaso. Greg, como a maioria das pessoas, fica sem saber o limite entre sua
experiência emocional subjetiva do que a namorada significa para ele e do que o
número 11 — ou qualquer símbolo de seu relacionamento — significa em si
mesmo.
Em contraste, volto-me para uma cliente que se envolveu em um
relacionamento com um homem muito mais velho. Logo que ela o conheceu,
pensou: “Ele é atraente mas, céus, tem idade para ser meu pai”, para descobrir
rapidamente que estava certa: ele tinha de fato nascido no mesmo dia do mesmo
ano que seu pai. Mesmo sua experiência não sendo como a de Greg de ser
perseguido, certamente a estranha coincidência das datas confirmou para ela a
importância do relacionamento e não podia deixar de chamar sua atenção para a
necessidade de considerar cuidadosamente a diferença de idade entre eles. Como
Greg, ela encarou essa interessante coincidência pelo “avesso”, por assim dizer.
A data em si objetivamente não representava nada; não era um sinal. Era mais
um símbolo, e era importante por causa do significado para ela: colocando
sucintamente, ela o vivenciou como um alerta para ser cuidadosa em não
transferir para esse homem sentimentos que tinham mais a ver com seu pai do
que com ele.
Um colega meu de trabalho, Ralph, tinha atravessado um longo e muito
acidentado relacionamento com seu caso, um relacionamento iniciado
sincronisticamente dez anos antes num bar quando, cruzando o olhar através do
bar totalmente lotado, o homem com quem ele viria a se envolver sinalizou com
as mãos “EU QUERO VOCE” pelas suas costas enquanto estava entretido numa
conversa com outra pessoa. Era somente por acaso que Ralph conhecia a
linguagem dos sinais, pois tinha crescido junto de uma sobrinha surda. O
relacionamento que se seguiu, conta Ralph, foi maravilhoso e difícil, terminando
tristemente com a morte de seu companheiro, de AIDS.
Depois disso, outra vez acidentalmente, ele reencontrou um homem que
conhecera anos antes, por quem ele sempre tivera uma certa queda. Esse homem,
chamado Jack, tinha justamente acabado com um caso de muito tempo na
semana anterior, jamais pegava o metrô para São Francisco, mas naquele dia
num impulso decidiu fazê-lo. Desse modo, colocados juntos sincronisticamente,
a pessoa certa, no momento certo, no lugar certo, Jack e Ralph
consequentemente começaram a descobrir todo tipo de conexão. Suas tias eram
grandes amigas numa cidadezinha ao norte do estado de Nova York. Igualmente,
quando Ralph disse o nome de uma mulher que ele deveria ir buscar no
escritório nacional da organização para a qual trabalhava, ele soube através de
Jack que a irmã dessa mulher tinha sido a melhor amiga de Jack na escola
primária trinta anos antes, numa pequena cidade do Meio-Oeste.
Essas sincronicidades confirmadoras, como passei a chamá-las, servem para nos
assegurar de que devemos estar com a pessoa com a qual estamos, que
geralmente constituem parte importante da história de amor que vivemos. Sem
dúvida, as pessoas que amamos são pessoas com as quais provavelmente
podemos, se não devemos, ter muita coisa em comum. Surge então a pergunta:
investimos de significado essas banalidades porque amamos alguém? Quando
estamos apaixonados, saímos procurando pontos de concordância que possamos
vivenciar como significativos?
A resposta é: claro que fazemos isso. Porém, o importante no tipo de
sincronicidade mostrado aqui é, primeiro, que essas banalidades se apresentam a
nós sem que as provoquemos ou procuremos por elas. Por exemplo, se a
experiência de Ralph com a linguagem dos sinais tivesse acontecido enquanto
ele participava de uma conferência para gays surdos, em vez de um bar gay
comum, não pensaríamos nela senão como coincidência, jamais como uma
sincronicidade. A experiência extraordinária de um homem que Ralph jamais
tinha visto comunicar-se numa linguagem que, por acaso, ele entendia, num
lugar público, levou-o até seu amante. Ele realmente revestiu a coincidência de
significado, porém não criou a circunstância externa. Aconteceu com ele.
Poder-se-ia também dizer, eu suponho, que, nesse caso, as pessoas então
inventam as sincronicidades para servir aos seus propósitos psicológicos vendo
significado em qualquer coisa que lhes aconteça. Nós provavelmente já
encontramos essas pessoas crédulas, sempre à procura de sinais, geralmente no
sentido literal, chegando às vezes a conclusões ridículas sobre os presságios que
buscam.
Essas coincidências que chamamos de sincronicidade são diferentes no nível
da experiência individual que se tem delas: são vividas como extraordinárias,
eventos fortuitos que acontecem primeiro e cujo significado depois se torna claro.
Se você sair intencionalmente procurando por um homem que seja bem mais
velho que você e encontrá-lo, dificilmente será uma coincidência, não importa
qual seja a sua idade. Existem muitos homens idosos no mundo, você já tinha
investido a sua idade de significado antes de começar sua busca. Se, no entanto,
ao longo de sua vida, você descobrir que o homem que a atrai faz aniversário no
mesmo dia que seu pai, a coincidência é um fato externo sobre o qual você
“então”, como meu cliente, pode muito bem investir de significado.
E claro que o significado de cada evento varia de pessoa para pessoa; nesse
sentido, talvez “inventemos” nossas sincronicidades. Mulheres, por exemplo,
que sempre se sentiram atraídas por homens da idade de seu pai podem muito
bem vivenciar a descoberta de um homem com o mesmo dia de aniversário que
seu pai como nada muito fora do comum ou significativo. Porém, para minha
cliente, era bastante extraordinário e se parecia muito com a definição de Jung,
“a ocorrência de um certo estado psíquico que um ou mais acontecimentos
externos refletem como paralelos significativos para o estado subjetivo
momentâneo”. Prestando atenção aos fatos externos de nossas vidas nos quais
uma extraordinária ocorrência do acaso tem significado imediato para nós,
psicológica, emocional e simbolicamente, fazemos o que sempre fazemos com
as histórias: permitimos que signifiquem algo para nós, que causem um impacto
que, provoque uma mudança em nós.
Seria isso “inventar alguma coisa”? Sob uma perspectiva, podería ser
encarado assim. Porém, se a experiência subjetiva de alguém é valorizada como
real e tão importante quanto os fatos objetivos e externos, então o tom de
menosprezo e cinismo dessa frase não cabe, porque todas as pessoas retiram
significados dos acontecimentos de sua vidas, usando símbolos para organizar e
aprofundar suas vidas e suas ligações com os outros. E uma atividade do coração
contar histórias, a essência da criatividade.
Além do mais, como as histórias de Alex e Beija ou Kathryn e Charlie
mostram, eventos sincronísticos servem tanto para ressaltar o fato de que algo
não está destinado a acontecer entre duas pessoas como também para encorajar
aquela sensação de fé ou destino que os casais frequentemente sentem logo que
se encontram. Como um exemplo de como a fé baseada nos sinais e símbolos é
um negócio arriscado, a história de Sharon mostra bem.
Sharon me contou que vem de uma longa linhagem de mulheres fortes e
psiquicamente dotadas, e algo que ela e sua avó fizeram juntas exatamente na
época em que ela começou a se interessar pelos meninos ficou sempre em sua
cabeça. Sua avó estava fazendo uma torta de maçã com Sharon, que tinha doze
anos, ajudando, quando a avó lhe pediu que descascasse uma maçã com cuidado
para que a casca ficasse uma longa tira. Sabendo da habilidade de sua avó em
“ver coisas” e a riqueza do conhecimento da tradição que ela possuía de seu
passado apache, Sharon fez como ela disse. A avó mandou-a então pegar a casca,
segurá-la nas mãos, pensar firmemente no homem que teria em sua vida como
seu único e verdadeiro amor, depois jogar a casca por cima de seu ombro
esquerdo. “A letra que a casca formar no chão será a inicial do primeiro nome de
seu verdadeiro amor.” A letra, ela e a avó concordaram, só podia ser um P, pelo
formato da casca no chão, porém Sharon tinha herdado também essa tradição de
dons femininos, decidiu melhorar a tradição e jogar a casca outra vez e obter
também a inicial do sobrenome de seu verdadeiro amor. Esta também acabou
sendo um E do que ela e a avó riram na época, brincando que ela estava fadada a
casar com Peter Piper e Pegar um Pote de Picles de Pimentão. No entanto, numa
família na qual os sonhos premonitórios eram comuns e as conexões entre as
mulheres eram encaradas como fatos do dia-a-dia, Sharon jamais esqueceu o
incidente, e embora nunca tenha falado com ninguém a respeito, secretamente,
quando começou a sair com rapazes, continuava na busca do Sr. P. P.
Claro que nenhum dos rapazes com quem saiu tinha as duas iniciais, e depois
da faculdade, ela conheceu David, e ficou loucamente apaixonada pela primeira
vez em sua vida, ignorando a previsão de anos antes. Ela e David ficaram noivos
e casaram em um ano, e muitos anos se passaram. Então, num Natal, estavam na
casa do pai de David, no ano seguinte à morte de sua sogra. Seu sogro estava
planejando vender a casa da família e ela e David o estavam ajudando a arrumar
todas as coisas no sótão, decidindo o que jogar fora e o que guardar. David
encontrou alguns brinquedos que sua mãe havia guardado em uma caixa por
motivos sentimentais, e rindo, ele pegou sua velha flauta preta, do tipo que
distribuem nas escolas para que as crianças se habituem a tocar um instrumento
e a ler música. Seu pai sacudiu a cabeça afetuosamente e perguntou se ele
lembrava de como ele tinha tocado sem parar durante um ano, quase deixando a
família maluca.
Sem saber do significado de suas palavras, David se virou para Sharon
inesperadamente e disse: “É, eles começaram a me chamar de Peter Pipe, de
maneira que meu irmão fez com que até as crianças na escola me chamassem
assim. O que não ajudou muito na minha autoconfiança musical!”
Até hoje, Sharon me disse, ela ainda não encontrou coragem para contar ao
seu marido que uma casca de maçã havia “predito” seu relacionamento, mas
com a condição de que trocasse seus nomes, ela disse que me deixaria usar a
história de como às vezes, mesmo quando você pensa que sabe qual é a sua
história, existe uma virada na trama para a qual somente um acontecimento
sincronístico pode chamar sua atenção.
A primeira vista, Sharon é exatamente o tipo de pessoa que nosso lado cínico
imagina que encontre sincronicidades em tudo; de uma longa linhagem de
mulheres sensitivas, ela se apegou a uma imagem prevista por uma casca de
maçã. Mesmo assim, a coincidência do apelido de infância de seu marido com o
personagem da cantiga infantil sobre a qual sua avó tinha brincado anos antes é
dificilmente algo que alguém possa acusar Sharon de ter “inventado”. A
coincidência externa simplesmente tinha um significado para ela, nesse caso
confirmando o acerto em estar com seu marido. Ela precisava dessa mensagem
de alguma forma? Obviamente não, porque, segundo ela, estava bastante feliz
com seu marido, apesar do fato dele não ter as iniciais “certas”. Mas a
coincidência, mesmo assim, fez com que ela sentisse que a história de sua vida
era de fato coerente, que sua infância e herança de clarividência estavam ligadas
à sua vida atual e ao seu futuro com o homem com quem se casou. Como numa
história, o símbolo do apelido e suas iniciais amarraram um fio solto e fizeram
com que Sharon sentisse como se um ciclo se tivesse encerrado.
Por essa razão, a pergunta que às vezes me fazem: “Como faço para
acontecerem sincronicidades para mim?” é certamente sem sentido, pois a
sincronicidade é fortuita, ou, como diria Jung, um fenômeno psicológico de
manifestação natural. Em termos simples, elas apenas acontecem, e quando
acontecem, o significado da história de nossas vidas e de nossos amores fica
claro. É por isso, talvez, que as sincronicidades parecem tão naturais quando a
história é de amor, pois não seria a experiência do amor uma das mais profundas
coincidências que qualquer um pode viver?
Por que Encontramos quem Encontramos Quando os Encontramos: Reflexões
sobre Sincronicidade no Amor
Tendo ouvido histórias de como pessoas, frequentemente sem levantar um dedo
e até apesar de seus melhores esforços, acabam ficando juntas, os leitores podem
também confirmar aquilo que descobri quando reuni todas as histórias de
amigos, conhecidos ou estranhos para este livro. E só mencionar que você está
interessado em coincidências significativas e é bem provável que você venha a
ouvir a história sobre o amor da vida de alguém. Histórias de amor sempre se
mantiveram como uma das formas mais populares de divertimento porque as
nossas próprias histórias de amor representam um importante meio que usamos
para entender as nossas vidas.
Par que será que alguns relacionamentos começam e terminam sob
circunstâncias tão dramáticas? E porque eu vivo essa vida tediosa e insípida,
você deve estar pensando consigo mesmo, enquanto os outros, psicologicamente
mais em harmonia ou mais afortunados que eu, vivem aquilo que eu só posso ler
em livros como este? A resposta para esta pergunta, eu acho, está no uso que
fazemos de nossos relacionamentos amorosos para nós e para nosso crescimento.
Se assumimos que os acidentes não existem, no sentido de que todas as
coisas que nos acontecem são potencialmente significativas, muitas das histórias
de amor sincronísticas parecem sugerir duas verdades sobre o papel dos nossos
relacionamentos. Primeiro, a pessoa que melhor pode nos ajudar a crescer não é
sempre a pessoa por quem nos sentimos atraídos inicialmente. Tanto em minha
experiência pessoal como profissional, passei a ver que aquilo que
imediatamente nos atrai na outra pessoa, se torna o que nos enlouquece a longo
prazo; por outro lado, coisas que vivemos no início como grandes diferenças,
geralmente quando apreciadas e trabalhadas, nos trazem muito mais crescimento
emocional.
Segundo, um relacionamento transformador com outra pessoa pode não ser
relativo a quem, num sentido absoluto, mas ao quando. Eu ficaria surpreso se
houvesse muitos leitores que não pudessem encontrar a verdade desses
depoimentos em sua própria experiência. Existe alguém que não tenha se
deixado levar emocionalmente por uma atração irresistível — física, emocional
ou espiritual — por alguém que não o tratasse bem? Essa foi certamente uma
lição que Alex aprendeu quando esbarrou em Beija, sua antiga paixão da
faculdade. Existe alguma pessoa que não pense em alguém que seria bom para
eles e para seu desenvolvimento mas por quem sentem uma pequena atração?
Isso foi com certeza o que aconteceu com Rena no meio de sua ambivalência
sobre o homem que tinha finalmente se tornado seu marido depois de demonstrar
tanta preocupação com ela quando sua mãe morreu.
No aconselhamento matrimonial, frequentemente falamos sobre o acordo
inconsciente dentro de um relacionamento, o acordo tácito entre duas pessoas
que é a verdadeira razão pela qual estão juntas em vez da razão pela qual cada
um pensa que está. Algumas vezes essas barganhas são malévolas e inúteis, por
exemplo, as frequentemente encontradas nos casamentos tradicionais: “Você
provê o conforto material e me deixa continuar infantil e eu farei todo o trabalho
emocional por você e deixo você continuar infantil também.” Algumas vezes, no
entanto, como essas histórias sincronísticas parecem mostrar, o mistério de um
relacionamento é quando um acordo emocional é atingido, apesar de nossa
consciência daquilo que queremos de um parceiro, que ajuda em nosso
crescimento. A história de Rena e Bob é alentadora para o coração por essa
razão: o que ela precisava de um parceiro não era o que ela pensava que queria
enquanto viajava pela Europa descobrindo os povos e suas culturas, mas o que
ela teve de Bob, alguém estável e presente durante uma crise, alguém que era
confiável e preocupado, que foi precisamente o que deu certo. A história da
paixão de Alex por Beija, que certamente o teria levado à loucura como parceira,
é um exemplo da situação inversa, um acordo inconsciente que seria péssimo
para todos os envolvidos. Felizmente para Alex, um evento sincronístico deixou
isso óbvio para ele, antes que tivesse qualquer consequência desastrosa.
A segunda verdade — de que muito do mistério dos relacionamentos não
reside tanto nas características fixas e imutáveis de nossos parceiros mas no
mistério do timing — é frequentemente trazida à tona pelos eventos
sincronísticos em nossas vidas amorosas, acontecendo em um momento especial
em nossas vidas quando somos capazes de ver quem é a pessoa e não somente o
que pode nos oferecer, emocional ou materialmente. A tendência em ver as
pessoas como objetos e os relacionamentos como uma mercadoria a ser
adquirida ou trocada tem uma longa história. Atualmente se pode pôr um
anúncio no jornal para procurar pessoas, da mesma maneira que se anuncia um
carro ou um apartamento, como os pais que costumavam avaliar os pretendentes
de casamento para seus filhos baseados em fortuna e status (e em muitos lugares
do mundo ainda o fazem).
Essa objetivação na forma de ver as pessoas e os relacionamentos —
acreditar que encontrar a pessoa com a combinação certa de atributos vai
garantir nossa felicidade no amor — ignora o que esses acontecimentos
sincronísticos no amor nos recordam: que nenhuma lista de lavanderia das
características ideais pode nos trazer um relacionamento satisfatório a não ser
que o momento seja certo. Pete e Mary, que estão bem felizes juntos e sempre
sentiram que poderiam ser, tiveram que esperar vários anos até que,
sincronisticamente, o momento fosse oportuno. Foi o momento do segundo
encontro de Kathryn com Charlie que fez efeito em sua resistência a
relacionamentos, acontecendo em um momento de sua vida em que ela, em suas
próprias palavras, tinha crescido e era capaz de perceber na incrível coincidência
de encontrá-lo outra vez uma lição e não somente uma maldição. Até o
relacionamento de Rena e Bob, “arranjado” num certo sentido por seus amigos,
só desabrochou quando circunstâncias além do controle de qualquer um deles
intervieram.
Amor não é uma questão de pessoa “certa” versus pessoa “errada”, porém,
parece, depois dessas histórias de amor, muito mais uma questão da nossa atitude
interna e de como essa atitude cria um momento especial em nossas vidas,
quando podemos encontrar uma outra pessoa em seus próprios termos. Esse
encontro entre interno e externo, esse momento sincronístico, está no centro de
muitas das histórias de amor que lemos e é a verdadeira essência de várias das
histórias de amor que vivemos.
Uma Boa Trama, Bons Amigos e Cheia de Expectativa: A Coincidência
Significativa das Amizades
Das histórias de amor onde a sincronicidade intervém para mudar a forma da
vida de uma pessoa, passamos para esse outro domínio das ligações humanas
que, para a maioria de nós, é pelo menos tão importante quanto a paixão
romântica e para algumas pessoas é ainda mais: a amizade. As chamas do amor
romântico e erótico são quentes e queimam rapidamente, dependendo de nossa
atitude em relação ao amor, com muita frequência elas queimam pouco e rápido,
enquanto o menos intenso porém mais profundo brilho de uma amizade
duradoura é com mais frequência um lado muito mais satisfatório de nossas
vidas. De certa maneira, a amizade, por causa da ausência da paixão erótica,
representa um tipo de relacionamento mais misterioso que os psicólogos,
escritores, poetas e filósofos se esforçaram através dos séculos para definir e
descrever.
A febre do amor pode ser causada pela química dos hormônios ou por aquele
conjunto de necessidades e desejos primitivos nascidos de nossos
relacionamentos primários, mas a causa de nossas amizades e a natureza dessa
forma única de relacionamento não é assim tão fácil de perceber. Na amizade,
existe química, naturalmente, porém não uma urgente e avassaladora paixão.
Com nossos amigos, existem as coisas em comum, com certeza, mas sem a
urgência de se consumir, se fundir e se perder. A amizade é um dos poucos
espaços numa cultura que idealizam o amor homem-mulher, onde reconhecemos
que o amor de outro homem ou de outra mulher é parte indispensável de uma
vida completa e bem-arrematada.
Uma vez que as nossas amizades nos proporcionam a possibilidade de uma
ligação sem a intensidade de nossos relacionamentos amorosos, muitas pessoas
sábias consideram um amigo de verdade mais valioso do que cem amantes, uma
introspecção que é o centro de milhares de histórias através dos tempos.
Algumas dessas amizades se tornaram lendárias: o amor guerreiro entre Aquiles
e Pátroclo ou a suave fidelidade de Ruth e Naomi nos vêm à mente. Os clássicos
da literatura e também os filmes contemporâneos nos têm mostrado as lendas de
algumas amizades memoráveis, das aventuras de Huck Finn e Tom Sawyer às
divertidas loucuras de um par mais recente, Thelma e Louise. Nossas próprias
amizades, nem sempre tão grandiosas ou ousadas, têm inegavelmente mudado a
história de nossas vidas.
Durante o período de minha própria vida em que, por várias razões, estive
privado de amigos, passei muito tempo pensando sobre o que era a amizade e
por que era tão importante. Meu analista, que tem sido sempre um valioso
mentor, me deu uma ideia de quais são as condições básicas de uma amizade,
uma ideia que está guardada para sempre em minha mente. De acordo com ele,
amizade consiste em “proximidade e interesses comuns”, quer dizer, uma boa
amizade requer tanto proximidade física quanto partilhar atividades. Faltando
um ou outro, nossa amizade em breve também faltará. Muitas amizades
enriquecedoras afundaram quando, por motivos internos ou externos, a geografia
entra no meio ou mudanças na vida provocam uma troca de interesses ou de
atenção.
Como é de se esperar, portanto, através da proximidade ou dos interesses em
comum, acontecimentos sincronísticos ocorrem em nossas amizades, pois a
amizade, assim como o amor romântico, é, em essência, sempre uma
coincidência — duas pessoas se encontram e suas vidas se tornam entrelaçadas.
Esse foi o caso de quando fiz esforços para expandir meu círculo social,
acabando com nada menos do que sete diferentes homens chamados Steve em
minha vida, o simbolismo disso até hoje ainda não consegui captar muito bem.
Tornava as comunicações difíceis, exigindo um confuso e elaborado código de
iniciais. Ainda assim, banhado por um mar de Steves durante algum tempo,
achei a sincronicidade tranquilizadora, lembrando pela pura repetição do nome
que eu não estava só.
Na mesma tendência está a história de Becky e as Deborahs em sua vida.
“Conheci a primeira Deborah há dezesseis anos. Nascemos no mesmo dia, temos
a mesma altura, constituição física, cor do cabelo, dos olhos e pele, parecidas o
bastante para sermos irmãs. Ambas éramos nadadoras na faculdade, e ambas
largamos antes de nos formar. Ambas casamos aos vinte anos, tivemos nossos
primeiros filhos com a mesma idade e ambas ficamos em casa para criar as
crianças. Ambas nos mudamos para Dakota do Sul com a mesma idade e
morávamos a menos de 2km de distância. Sua segunda filha e nosso cachorro se
chamavam Missy (os dois receberam os nomes antes de nos conhecermos). O
marido de Deb e meu cavalo favorito se chamavam Skip. A filha de Deb e meu
marido se chamam Dawn e Don, respectivamente.
“A segunda Deborah (também fã de cavalos e cães) entrou em minha vida
uns quatro anos atrás, ‘por acaso’, quando nós duas chegamos sem avisar na casa
de uma amiga comum. Essa Deb trabalhava com algumas terapias alternativas de
massagem e nessa época eu estava tendo sérios problemas de coluna por causa
de uma queda de cavalo. Nem é preciso dizer, ela iniciou o caminho da cura para
as minhas costas.
“A terceira Debra entrou em minha vida seis meses depois da segunda
Deborah. A casa vizinha à nossa tinha ficado desocupada por mais ou menos um
ano, e eu vinha rezando fervorosamente para que se mudasse alguém que
gostasse de cavalos e ficasse feliz em morar perto do nosso estábulo. No dia em
que Deb se mudou e nos falamos pela primeira vez, instantaneamente nos
tornamos grandes amigas.
“As similaridades entre a Deborah dois e a Debra três são incríveis. Elas
nasceram com seis meses de diferença e ambas são nove anos mais moças que
eu. São da mesma altura, peso, cor de cabelo e pele. Ambas casadas duas vezes,
e tiveram problemas conjugais ao mesmo tempo, que resultaram na mudança das
duas para a mesma cidade, na mesma época. Deb dois para 30km ao leste, Deb
três 30km ao sul.
“Deb três e eu temos coisas peculiares em comum que eu fico realmente
espantada. Seu marido uma vez comentou irritado que nós duas só podíamos ter
sido chocadas no mesmo ovo. Nossos maridos são ambos físicos e maníacos por
computadores e usam aparelho para surdez. Seu marido e meu irmão mais velho
se chamam Michael. Seu irmão e meu filho se chamam David. Seu irmão David
e meu irmão Michael deram o nome de Brian a seus filhos primogênitos.
Deborah e eu tivemos mães que batiam em nós. Ambas crescemos cercadas de
gado Holstein. As duas estamos voltando à faculdade de ciências, ambas somos
escultoras.
“Quando Deb e seu marido se mudaram para longe, no último outono, eles
alugaram sua casa para um casal jovem muito simpátic. O nome dele também é
Mike, e ele é o terceiro Mike consecutivo que mora na mesma casa vizinha.
“Mas a coincidência seguinte é a mais estranha de todas. Quando Deborah
tinha dezesseis anos, outra garota, também de dezesseis anos, mas sem
parentesco, mudou-se para sua casa e morreu no mesmo ano, de leucemia.
Quando eu tinha dezesseis anos, também morei,
como colega, na casa de uma garota da mesma idade, que também morreu de
leucemia!”
Claro que cada uma dessas banalidades em si pode não ser tão notável ou
poderia ser rejeitada, como Becky buscando sinais em seu mundo exterior para
confirmar sua necessidade de aceitação. Como um todo, no entanto, como minha
fartura de Steves, os elementos comuns entre ela e suas amigas são tantos e
existem em tantos níveis — família, geografia, interesses, nomes e experiências
— que a natureza sincronística dessas coincidências, e seu significado para
Becky, é inegável. Como as banalidades sincronísticas entre os amantes, as
sincronicidades banais entre amigos serve para apoiar e confirmar o sentido
significativo desses relacionamentos. O prazer óbvio que Becky sente contando
a história da corrente de participação que ela tem com suas amigas revela o
significado que ela retira dessas coincidências: que ela está ligada aos outros de
maneira profunda e permanente. Sem tudo que ela compartilha tão
sincronisticamente com as várias Deborahs, é claro que suas amizades
continuariam a ser significativas, mas talvez não tivessem esse forte lembrete da
boa sorte e da extraordinária interligação que ela está vivendo com suas amigas.
A história de como Laurie encontrou sua amiga Danielle num momento de
sua vida quando o que ela mais precisava era de uma amiga, mostra-nos um
exemplo de sincronicidade transformadora da vida que vem através da amizade.
“Não sei direito por onde começar a história”, ela me disse um dia no
escritório, “a não ser talvez dizendo que toda minha vida foi sempre pontuada
por dificuldades em torno de comida e peso. Cresci numa casa onde ser gordo
era ao mesmo tempo encorajado e ridicularizado, e durante longos períodos em
minha vida tive peso normal, às vezes através de meios pouco normais, como
dietas absurdas e exercícios obsessivos, havia também, por outro lado, pelo
menos o mesmo número de períodos de minha vida em que eu ficava fora de
controle em relação à comida, peso e minha relação com meu corpo. Como
música, cantora, compositora e pianista, isso era um problema, pois me deixou
insegura como artista e várias vezes atrapalhava meu caminho, me levando a
preferir apresentações, por assim dizer, menores, em vez de me desafiar a entrar
na grande cena.
“Quando fiz trinta anos, foi como se fosse o dia do juízo final. Eu tinha
engordado 25 quilos em três meses, depois de um período de quase anorexia,
tendo passado por todas as dietas e programas de exercícios que havia, eu estava
realmente no fim da linha. Uma colega do meu trabalho diurno falava muito na
época sobre sua decisão de entrar para os Comilões Anônimos. Foi uma ideia
que nunca me atraiu, pois o lado espiritual do programa me desanimava. Mesmo
assim, naquele ano, quando se aproximava do meu aniversário e parecia não
haver sinais de alívio em minha farra e meu aumento de peso, decidi que iria a
uma das reuniões para saber o motivo.
“Bem, dez anos antes, meu melhor amigo na época me perguntou se eu
cantaria no casamento de um de seus amigos. O casamento ia ser numa pequena
capela muito fora de mão, no alto das Serras, e meu amigo tinha sido chamado
para ser o organista. Ele não queria viajar sozinho e achou que eu poderia ir com
ele, você sabe, cantar alguns sucessos durante a cerimônia e fazer-lhe
companhia. Na época pensei, por que não? Então fui e cantei, e todos ficaram
agradecidos, especialmente os noivos, Danielle e Hank, e o que aconteceu foi
que na verdade esse foi o último casamento em que eu cantei, essa pequena
apresentação nas montanhas.
“De volta ao presente. Sendo uma pessoa fechada como eu sou, decidi não
arriscar indo a uma reunião dos CA na minha cidade, certa de que iria encontrar
alguém conhecido e querendo ficar o mais anônima possível. Então, o que fazer?
Consigo o horário das reuniões na cidade grande mais próxima, mais ou menos
uma hora ao sul de onde moro, e planejo ir à próxima reunião, que, na minha
cabeça, será uma das grandes onde não serei notada.
“Quando cheguei lá, naquele dia, sentime estranha, é claro. Rapidamente
sentei, sem realmente olhar para ninguém, de repente sinto uma mão em meu
braço, da mulher sentada ao meu lado, que sorri e pisca. Dentre todas as pessoas,
era Danielle, cujo casamento tinha sido o último em que eu cantara.
“Conseguimos chegar ao fim da reunião sem falar — conversas paralelas são
proibidas durante as reuniões dos CA, como nos AA —, depois passamos horas
maravilhadas tomando café. Esse casamento com todo seu encantamento e
romance, percebi, acabou num casamento não muito feliz, e Danielle se refugiou
num problema alimentar até três anos atrás quando procurou os CA e entrou em
recuperação. Nessa época, ela e o marido se separaram e divorciaram. Eu lhe
contei um pouco da minha história de como tinha resistido em vir; de que na
verdade morava a mais de uma hora de distância e até de como seu casamento
havia me afetado.
“Realmente as coincidências eram demais mesmo para uma cabe-ça-dura
como eu ignorar. Eu perguntei se ela seria minha responsável, ela concordou, e
graças à sincronicidade eu consegui pela primeira vez em minha vida começar a
me recuperar com relação à comida. Ela e eu somos ainda grandes amigas.”
Enquanto o isolamento de Laurien era interno e emocional, sincronisticamente
libertado pelo encontro com Danielle num lugar e momento particularmente
inesperados, a história do meu colega de faculdade John encontrar um amigo
exatamente no momento e lugar certos é disparada a mais geograficamente
exótica. Minha própria amizade com John, meu companheiro de quarto no
primeiro ano na Itália, ficou mais forte depois da formatura. Ele se engajou no
Corpo da Paz por dois anos, e durante esse período ficou baseado numa ilha
remota nas Filipinas. De certa forma, ele evitou conscientemente se comunicar
com seus antigos amigos, inclusive comigo. Mais tarde, fiquei sabendo que ele
estava vivendo o que chamou de período de discernimento espiritual, tentando
descobrir que rumo tomar em sua vida.
Quando seu compromisso com o Corpo da Paz terminou, ele decidiu viajar
pelo mundo, e a caminho da índia acabou pulando de ilha em ilha no Pacífico
Sul. Por causa do tamanho progressivamente menor das ilhas e da falta de
confiabilidade dos aviões e barcos, ele sem esperar ou querer acabou tendo que
passar a noite onde descreve como “um cartão-postal no Pacífico”, a minúscula
ilha de Truk, onde havia somente uma casa de hóspedes jesuíta. Quando se
sentou na varanda naquela noite, o potencialmente longo período de real
isolamento e solidão nesse esquecido pedaço de terra no meio do nada pesou
muito em sua mente.
Nesse momento, ele ouviu alguém chamar seu nome atrás dele, espantado,
ele se virou e encontrou uma colega de faculdade. Ela tinha frequentado a escola
de enfermagem conosco em Georgetown, e desde a formatura vinha viajando
pelo mundo, como ele. Só que no momento ela estava morando em Truk e
trabalhando no pequeno hospital que as missionárias abriram lá.
Durante o café, depois do almoço em minha casa, perguntei-lhe que efeito
tinha tido nele esbarrar nessa amiga em um dos mais remotos lugares do mundo.
Ele respondeu: “E engraçado, você sabe. Lá estava eu, me sentindo realmente
bastante só no mundo, mas como você sabe, eu havia escolhido vagar e não me
estabelecer. Esbarrar em alguém que eu conhecia de Georgetown na ilha de Truk
me fez entender, me fez sentir que na verdade não importa onde eu estivesse no
mundo, eu estava conectado, não estava realmente sozinho. Alguém cuidaria de
mim, não importa aonde eu fosse. Quando deixei Truk no dia seguinte, me
encaminhando para a índia, quem sabe aonde mais, me sentia realmente mais
seguro daquilo que tinha decidido fazer. Vê-la em Truk mudou as coisas para
mim.”
As histórias de Lauren e John nos mostram que às vezes nossas conexões
sincronísticas com amigos ocorrem em momentos de solidão e necessidade,
quando estamos isolados tanto psicológica quanto fisicamente e poderíamos
precisar de um lembrete que, apesar do que você sinta, nossos relacionamentos
resistem. E como se os amigos que chegaram até eles sincronisticamente eram
em si mesmos um tipo de símbolo, pessoas cuja proximidade e interesses em
comum apontam para além da solidão do presente para uma conexão que sempre
esteve lá.
O final da história de Sandra ainda não foi escrito, segundo ela, mas sua fábula
ilustra como a sincronicidade às vezes vem a nós para restabelecer uma ligação
que não queremos ou ainda estamos muito envergonhados para reconhecer.
Conheço Sandra de uma disciplina que cursávamos juntos durante a faculdade, e
quando contei-lhe sobre o livro em que estava trabalhando, ela ofereceu a
história que segue em troca de um chá com biscoitos.
“Nasci numa cidade pequena da Costa Leste, e sendo uma das crianças mais
brilhantes da minha classe, naturalmente batia de frente com o outro crânio da
classe, cujo nome era Adam. Adam e sua família moravam perto de nós, meus
pais e seus pais participavam ativamente da Associação de Pais e Mestres, e
assim por diante. Porque ambos éramos escritores, com frequência nos
colocavam juntos em nossas aulas na escola primária para fazermos projetos
especiais e tarefas, enquanto os outros alunos ainda estavam aprendendo coisas
que ele e eu já sabíamos.
“Foi num dia de primavera, me lembro, nós tínhamos nove ou dez anos,
naquela idade em que você começa a gostar mais um pouco de meninos mas
ainda precisa fingir que não gosta. Enfim, estávamos voltando para casa, e eu
tinha recém-descoberto uma grande amiga, e como crianças fazem, eu estava
muito preocupada em impressioná-la, fazendo tudo igual a ela, me vestindo da
mesma maneira que ela, você sabe como é. Estamos então voltando os três para
casa juntos, quando de repente ela começa a fazer graça com Adam, gozar de
seus óculos, seu cabelo, suas roupas, e eu me juntei a ela, sem na verdade saber
por quê, pois afinal ele e eu sempre fomos amigos. Ele ficou zangado,
naturalmente, mas principalmente magoado, eu acho; foi quando comecei a me
sentir mal com o que estava fazendo. E então, perversamente, aumentei meus
ataques sobre ele, talvez para impressionar minha amiga, talvez para mandá-lo
embora, pois secretamente eu gostava dele. Não sei, até hoje.
“Mas, repentinamente, minha boca começou a despejar um monte de
bobagens antissemitas — Adam era judeu — e eu comecei a dizer que todos
falam que os negros estão arruinando este país, mas na verdade são vocês,
judeus sujos, pena que os nazistas não pegaram todos vocês, pois não
precisaríamos mais lidar com vocês, e muito mais do que isso. Eu estava maluca,
e ainda não sei por que disse tudo aquilo, ou de onde tirei isso. Por ser na Costa
Leste, metade de nossa cidade ou era judia ou italiana, e eu jamais ouvira esse
tipo de coisa em minha família, nem mesmo comentários racistas sobre negros,
nada.
“E claro que Adam começou a chorar, e minha amiga e eu partimos para a
morte, jogando pedras e perseguindo-o até sua casa, e assim acabei com minha
amizade de infância num momento de completa crueldade irracional.
Frequentamos a escola juntos pelos dez anos seguintes, sem nunca mais falarmos
um com o outro, apesar de tudo o que tínhamos em comum. Ele se tornou
bastante introvertido e pouco popular, enquanto eu era do grupo quente da
escola. Durante meu crescimento, o que tinha acontecido entre nós pesava na
minha consciência o tempo todo, mas eu na verdade nunca soube como me
dirigir a ele ou como tentar reparar. Eu nem sequer sei por que fiz aquilo.
“Então saí da cidade para fazer a faculdade, e depois o mestrado, indo parar
na Califórnia. Ao longo do meu trabalho numa agência de aconselhamento da
comunidade, tínhamos no serviço interno de treinamento um dia sobre
preconceito e diferenças culturais. Durante um dos exercícios com um grupo
pequeno, eu realmente tive a coragem de contar esta história, minha e de Adam,
e de meu antissemitismo inconsciente, para o grupo, mostrando-a como um
problema moral que eu ainda não era capaz de resolver, ou até mesmo de
admitir. Essa foi a primeira vez que falei disso para alguém em anos, vinte, para
ser exata.
“Na semana seguinte, estava tomando um café perto de casa, sem pensar em
nada, quando Adam, quase idêntico à última vez que o vi, entrou no café. Bem,
eu estou muito diferente do que era no colegial — cor de cabelo diferente, muito
mais gorda, óculos diferentes. Muitas pessoas não me reconhecem quando me
veem, e Adam tampouco. Eu fiquei sentada lá, paralisada, mortificada,
parecendo que tinha sido ontem que eu dissera aquelas coisas para ele. Eu fiquei
observando-o pegar seu café e sair. Depois de desenterrar tudo isso na semana
anterior, achei incrivelmente sincronístico que ele tivesse entrado no café em
minha vizinhança, passado direto por mim, e nós dois termos vindo parar na
mesma cidade da Califórnia.
“Bem, a história não acabou. Continuei vendo Adam por toda cidade, nos
lugares mais inesperados provavelmente o menos esperado foi quando
reformaram minha academia de ginástica, eu entrei errado no vestiário
masculino justamente quando ele estava saindo. Eu nunca o tinha visto na
ginástica e não o vi mais desde então. Não tenho certeza se ele me reconheceu
ou não, e contando essa história para todos os meus amigos, eles continuam
dizendo que o universo não vai me deixar fora dessa enquanto eu não me
desculpar com ele pelo que aconteceu. Porém, até agora, ainda não fui capaz de
fazê-lo.”
O enquadramento da sincronicidade de Sandra é do tipo de insistência de sua
consciência para reparar uma amizade permanentemente danificada num
momento de imaturidade e ódio infantil, lembra a história dos infernais
encontros “arranjados”. E a lição a ser aprendida com essa série de aparições
sincronísticas é de que qualquer tentativa em ignorar a existência de nossa
conexão com o outro será seguida de uma consequência, com um permanente
lembrete de que o amor — romântico ou de amizade — é uma realidade sempre
presente, quer aceitemos ou não. Esse parece ser o ponto marcante na história da
experiência de Sandra, quase como se ela estivesse vivendo sua própria versão
psicológica de Crime e castigo ou Os miseráveis, onde uma ofensa do passado
continua a persegui-la ao longo de sua vida.
Todo relacionamento é um tipo de sincronicidade: um acontecimento único no
qual um encontro externo entre as pessoas assume um significado emocional,
simbólico e transformador. O que muitos dos acontecimentos vistos neste
capítulo mostram é que estamos muito mais conectados uns com os outros do
que normalmente achamos, e cada uma das coincidências significativas que
descreví endossa a ideia de Jung sobre o inconsciente coletivo, a noção de que
seres humanos dividem em um nível psicológico e espiritual uma conexão com
todos os outros seres humanos do planeta.
Como se fôssemos personagens de uma trama, geralmente encontramos as
pessoas que precisamos encontrar. Em momentos de crise ou de grande abertura,
um personagem nos é apresentado, por acaso, e se torna uma das mais
importantes figuras na história de nossa vida — um cônjuge, um melhor amigo,
o amor de nossa vida. Em outros momentos, quando estamos satisfeitos conosco
e com nossa vida, as conexões que acontecem com as outras pessoas se parecem
com uma força da natureza, como algo que estava destinado a acontecer.
Também, em outros momentos de nossas vidas, quando nos fechamos para o
mundo por egoísmo ou medo, os acontecimentos sincronísticos nos servem
como uma assombração e insistentes lembretes de que nossas conexões com os
outros não podem ser facilmente ignoradas. Quando esses eventos acontecem,
nós percebemos mais profundamente a história que estamos vivendo, a história
que diz: você não está sozinho.
O amor é um desejo humano central, ou, em termos junguianos, uma
realidade arquetípica. Porque somos envolvidos em histórias para dar estrutura e
significado aos acontecimentos, encontramos nas nossas histórias de amor e
amizade, como nas deste capítulo, um significado que é único. A sincronicidade
de quem nós amamos, portanto, reside não só nas circunstâncias surpreendentes
que compõem as nossas histórias de amor mas também no significado interno
que vemos e vivemos nas histórias de nossas vidas.
Capítulo Três
Ganhando e Gastando
Sincronicidade e o Trabalho de Nossas Vidas
O mundo está demais conosco; tarde e cedo, Ganhando e
gastando, desperdiçamos nossos poderes: Pouco vemos na
natureza que seja nosso.
WILLIAM WORDSWORTH
Melhor o trabalho rude que conta uma história ou registra um
fato do que o mais rico, sem significado.
JOHN RUSKIN, The Lamp of Memory
Que os eventos sincronísticos aconteçam em nossos relacionamentos parece
bastante natural, pois os relacionamentos que temos com os nossos parceiros,
cônjuges e amigos estão entre os mais significativos nas histórias de nossas
vidas; além do mais, tanto relacionamentos quanto sincronicidade tratam
essencialmente de conexões entre nosso eu interior e o mundo que nos cerca. No
entanto o amor sozinho não preenche todas as nossas necessidades, esperanças e
sonhos, mesmo que as canções populares e novelas de amor nos encorajem a
pensar assim.
Em minha experiência, as narrativas reais vividas pelas pessoas são muito
mais parecidas com os clássicos da literatura europeia do século XIX, onde uma
trama de tapeçaria ricamente entrelaçada, englobando muitos personagens e
situações, é o padrão. Quando autores como Dickens, Tolstoi, Zola e Melville
prestaram atenção nas condições sociais de seus personagens, a qualidade
realística das descrições das atividades através das quais as pessoas se
organizavam, preenchiam ou desperdiçavam suas vidas, mostram como o
trabalho que fazemos e seu significado têm sempre um papel central em nossas
histórias. O conhecido comentário de Freud a respeito do propósito da
psicanálise não foi ainda, em minha opinião, superado em simplicidade ou
precisão: quando perguntado em que a psicanálise ajudaria as pessoas,
respondeu: “A amar e trabalhar.” Conheço muito poucas pessoas que
discordariam da importância essencial dessas experiências humanas.
Houve um tempo, antes do desenvolvimento desenfreado da indústria e da
tecnologia, quando o significado do trabalho que fazíamos era indiscutível,
mesmo o mais humilde dos ofícios tinha seu significado. Em função de seu
caráter demorado, muitas atividades necessárias à sobrevivência eram
frequentemente repetitivas e embotavam a mente, meramente um trabalho
menor; porém, durante uma época, cultivar e preparar comida, fazer e consertar
roupas, construir e manter abrigos, eram encaradas como atividades essenciais
para a comunidade. Em torno dessas atividades humildes foram criados rituais,
associações ou se formavam círculos sociais, e a vida pública da civilização se
desenvolveu. Essas atividades eram consideradas significativas.
Nessa antiga visão de mundo, ocupações derivadas das necessidades básicas
de sobrevivência da comunidade, que tinham como alvo o grande bem-estar da
sociedade ou metas de natureza essencialmente não-material, eram chamadas de
“profissões” ou “vocações”, indicando novamente sua importância para a
sociedade. Professar algo é fazer uma declaração de crédito e/ou valorização,
portanto, ter uma profissão teve durante uma época um sentido mais completo e
quase espiritual, indicando que alguém organizou e dedicou sua vida a uma
atividade em consonância com um juramento prestado ou conjunto de valores
estabelecidos; o trabalho era uma declaração das crenças de cada um, uma
profissão, como na expressão “uma profissão de fé”. Igualmente, a vocação, da
palavra latina vox, ou voz, era uma atividade para a qual a pessoa se sentia
chamada, geralmente por Algo ou Alguém muito maior do que os seus interesses
ou gostos pessoais. Ter uma vocação era realizar um trabalho que a pessoa fora
escolhida para fazer por motivos que vão além de ganhar o sustento.
Alguns podem lamentar a perda desse suposto significado no trabalho do dia-
a-dia que fazemos, agora que a maior distinção que as pessoas fazem em suas
vidas profissionais parece ser entre um “emprego”, alguma coisa que fazemos
meramente para garantir o dinheiro da sobrevivência, e uma “carreira”, que
denota uma perspectiva de longo prazo com o qual encaramos nossos trabalhos,
o que pode ou não indicar que achamos nosso trabalho significativo. Não é
surpresa, nesse contexto cultural, que o conselho de Joseph Campbell, “siga sua
felicidade”, dado durante a série de entrevistas para Bill Moyers no canal
público de TV, se tornasse uma catarse da cultura popular, assim como o título
do livro de Marsha Sinetar, Siga sua vocação que o dinheiro vem (publicado no Brasil pela
Record, Rio de Janeiro, 1995), as pessoas, na verdade, sentem muita falta do sentido mais
profundo de satisfação que vem de sentir que nosso sustento faz parte da história
maior de nossas vidas.
O aspecto atraente com o qual nos iludimos em nossos “empregos” ou
“carreiras” não pode esconder o fato de que o sucesso, medido em termos
puramente materiais ou sociais na forma de dinheiro ou fama, não é alimento
suficiente para nossa alma e não serve de base para uma história
verdadeiramente satisfatória ou interessante. Portanto, não devemos nos
surpreender que as coincidências significativas sejam abundantes em nossa vida
profissional, talvez até mais atualmente do que antes, quando procuramos
encontrar significado e propósito na sociedade pós-industrial. O trabalho ocupa
uma posição central em nossas vidas, e, como sempre, a sincronicidade aparece
onde quer que haja — ou precise haver — maior compreensão da história que
estamos vivendo no dia-a-dia.
Nós Procuramos o Trabalho ou o Trabalho nos Procura?
Nós já ouvimos muitas histórias sobre pessoas cujas cabeças estão em
descompasso com seus corações, que haviam decidido que seus futuros
caminhavam em uma direção para que um encontro sincronístico praticamente
mude suas vidas através do poder do amor. Em muitas histórias a respeito de
sincronicidade e trabalho que eu tive o privilégio de ouvir, encontrei o mesmo
fenômeno. Muitas das pessoas com quem falei tinham a firme intenção de seguir
em uma direção profissionalmente, quando um acontecimento sincronístico as
desviou do caminho, conduzindo-as algumas vezes de forma surpreendente para
um outro trabalho mais satisfatório ou para uma linha de trabalho inteiramente
diferente. O exemplo anterior de meu amigo Sam, que foi demitido de seu
trabalho como contador para receber a oferta de um trabalho muito mais
satisfatório na música, sua verdadeira paixão, faz parte desse tipo de
sincronicidade. Em resposta à pergunta que surge: “Como trabalhar com a
sincronicidade?”, proponho o conselho aparentemente paradoxal de “esperar o
inesperado”.
Uma cantora, que conversou comigo sob a condição de ser confidencial, e a
quem chamarei Elise, contou-me a história do que considera sua grande chance,
que chegou até ela completamente não-intencionalmente, até mesmo apesar de
seus maiores esforços. Como a maioria das cantoras profissionais, Elise investia
muito tempo de sua vida com sua voz, representação, aulas de coreografia, tudo
por sua conta e com pleno conhecimento de que as possibilidades de ganhar a
vida decentemente vivendo de apresentações era um jogo com poucas chances.
Como os artistas em qualquer campo, porém, ela fazia o que fazia porque amava
o que estava fazendo, apesar das dificuldades, frustrações e incertezas.
Como sua formação era clássica, de cantora de ópera, seu interesse em
participar de produções de comédias musicais não era dos maiores, embora seu
professor e colegas frequentemente tentassem persuadi-la a tentar esses papéis,
em função de sua personalidade naturalmente cômica e brilhante, e da notável
versatilidade de sua voz. Mas apesar dos conselhos, Elisa resistia ao
encorajamento e continuava tentando entrar no muito pequeno e altamente
competitivo mundo da ópera, indo a entrevistas e mais entrevistas com um
sucesso mediano, arranjando um pequeno papel aqui e ali em pequenas
companhias locais, enquanto mantinha seu emprego diurno para pagar o aluguel.
Para a produção de uma ópera popular por uma pequena porém bem-
conceituada companhia de ópera, Elise passou um mês inteiro polindo sua ária
para a audição, e quando foi marcado o teste, solicitou especificamente o horário
das últimas audições, sabendo que sua voz soava melhor no final do dia. Quando
ela chegou ao centro comunitário onde seriam as audições, no entanto,
imediatamente ficou claro, pelo ar deserto em volta, que tinha havido algum
erro. Ansiosamente se aproximou de uma senhora que parecia a assistente e que
guardava alguns papéis em uma pasta no final do corredor onde estava escrito
“Audições”. Elise disse com o máximo de autocontrole possível:
— Não me diga que as audições terminaram. Tenho marcado o horário das
cinco horas.
A senhora pareceu surpresa.
— Na verdade, já acabaram — ela disse —, mas o comitê ainda não saiu.
Deixe-me ver se eles podem ouvi-la.
Depois de uma breve consulta a portas fechadas, a mulher voltou e levou
Elise para a sala. Elise me contou que lembra que o pianista deu uma olhada
estranha para ela quando ela lhe deu sua música, mas naquele momento, disse
ela, realmente “não registrei e encarei sua expressão como uma repreensão por
ter chegado atrasada à audição”. Dois homens e uma mulher se sentaram atrás de
uma escrivaninha, parecendo, como sempre, impassíveis porém atentos, e depois
de se concentrar, ela se lançou à sua peça da audição, uma ária de coloratura em
italiano. Ela sentiu que tinha ido muito bem, e no final agradeceu ao comitê com
um pouco mais de desenvoltura que o normal, pela sua indulgência com seu
atraso. Quando estava se preparando para sair, um dos membros do comitê
dirigiu-se a ela e então perguntou, estranhamente, se não havia preparado nada
em inglês.
Sem entender, ela respondeu que não tinha pensado que a peça fosse ser
apresentada traduzida.
— Candide? — disse o homem, levantando as sobrancelhas, se referindo à
comédia musical quase-operística de Leonard Bernstein, que tinha se tornado um
repertório conhecido.
Foi naquele momento que Elise percebeu que havia tropeçado, dentre outras
coisas, na audição totalmente errada.
— Eu realmente não sei o que dizer. Pensei que estava fazendo a audição
para outra companhia e outro espetáculo.
A mulher da porta riu.
— Isto é amanhã. A audição deles é amanhã, domingo.
Mas o diretor do espetáculo fez um sinal para o pianista e perguntou a Elise
se ela poderia cantar um pouco lendo uma partitura. Entre mortificada e
intrigada pelo desafio, Elise foi em frente com a música desconhecida, e no final
descobriu que eles estavam interessados nela para o difícil papel de Cunegonde,
a mulher de Candide, que ela na verdade conseguiu, descobrindo mais tarde que
ela fora a única, das três sopranos que eles ouviram, realmente capaz de cantar o
papel. A maioria das outras ou não tinha o mesmo preparo musical que Elise ou
não conseguia cantar adequadamente a música que Bernstein havia escrito.
Por sua apresentação nesse musical, Elise recebeu grande atenção por parte
da imprensa, o que resultou em outras ofertas para apresentações locais e
regionais, no teatro musical em vez da ópera. Porém, quando Elise me contou
essa história de sua chance sortuda, disse: “Não estou me queixando. Tive que ir
à audição errada para poder acordar e fazer o que acredito deveria estar fazendo
há muito tempo. Estou trabalhando regularmente, estou feliz. É isso que conta,
não? Embora eu não queira que o mundo saiba que eu fui doida a ponto de cair
no lugar errado com a música errada. E ruim para a imagem, você sabe.” Uma
vez diva, sempre diva, até mesmo na comédia musical, penso eu.
As sincronicidades geralmente acontecem, como a que aconteceu a Elise,
quando temos nossas cabeças determinadas que um final específico, e somente
esse final, é bom, uma característica tão comum nas histórias que ouvi sobre
essas coincidências que quase me faz querer responder à pergunta: “Como faço
para as sincronicidades acontecerem para mim?” dizendo, sem ser totalmente
petulante: “Fique obstinado a respeito daquilo que você aceita ou não da vida, e
então veja o que acontece.” Mas sincronicidades também acontecem quando
você não está predeterminado, quando estamos indecisos e quando estamos
indecisos, e quando estamos abertos, tropeçamos em uma pessoa, lugar ou algo
significativo. Foi assim a história de meu amigo John, que em meio à sua
transição vocacional encontrou um mentor num dos lugares mais inesperados da
Terra.
Sentindo-se levemente chamado para o sacerdócio durante o período de
faculdade, John se formou e decidiu que algum tempo no Corpo da Paz o
ajudaria a buscar sua verdadeira vocação. No entanto, como seu compromisso de
dois anos nas Filipinas estava acabando, e a questão de se tornar ou não
sacerdote continuava em aberto, como sempre, e sentindo necessidade de mais
algum tempo, John decidiu viajar pelo mundo, ao acaso.
Nós já ouvimos seu tranquilizante encontro com seu colega na ilha de Truk.
Porém, antes desse incidente, o período transitório da vida de John começou com
uma primeira parada, sem nenhum plano predeterminado, na India, onde ele
pensava em visitar um certo ashram e mergulhar na cultura nativa.
Chegando no ashram, no entanto, sua esperança em ser o único ocidental foi
frustrada ao encontrar um outro americano que tinha chegado antes dele — um
jesuíta, do mesmo estado que John. A coincidência, para a cabeça de John, foi
impressionante: ele foi parar por acaso num remoto ashram na índia durante um
período escolhido especificamente para o processo de decisão em relação ao
sacerdócio, para ter um jesuíta de sua cidade natal como seu único companheiro
ocidental nesse lugar. Suas conversas, como podemos imaginar, eram
significativas, pois John agarrou essa oportunidade sincronística que se
apresentou a ele para conversar com o padre sobre a incerteza de sua vocação,
sobre como era a vida na Sociedade de Jesus, sobre o que esperar e o que não
esperar. Desse encontro fortuito surgiu a grande certeza de John de que entrar
para a Sociedade era o próximo passo certo para ele, que foi o que ele fez
quando tomou seu caminho de volta para os Estados Unidos.
Contrariando meu conselho (reconhecidamente irônico) de ser teimoso sobre
o futuro como um convite aos acontecimentos sincronísticos, a história de John
inspira um outro tipo mais caprichoso de conselho para aqueles que querem
provocar acontecimentos do acaso. Se você quiser uma coincidência
significativa para mudar a história de sua vida, vagueie pelo mundo ao acaso e
esteja disposto a ouvir tudo que a vida apresentar. Essa última parte, “estar
disposto a ouvir tudo que a vida apresentar”, é, eu acho, um bom conselho para
quando nos deparamos com eventos casuais que confundem os nossos pianos ou
nos mostram algo diferente daquilo que esperávamos. A mudança inesperada dos
acontecimentos que devemos encarar pode muito bem ser uma virada de uma
história na qual somos personagens sem saber ainda.
Porém, essa atitude de abertura requer estabelecer uma linha fina entre ser
realisticamente auto direcionado e ser persistentemente cabeça-dura. Ser ambos,
determinado e disposto a deixar acontecer, é um desafio para qualquer um, ainda
assim, requer habilidade se quisermos buscar significado nos “acidentes” que
despencam sobre nós. Por exemplo, Gail, uma colega minha, passou sua vida
inteira perseguindo o objetivo de ser professora de religião comparada.
Começando o colegial, ela planejou sua carreira acadêmica com grande
premeditação, escolhendo faculdade e mestrado com grande cuidado, cultivando
contatos, participando de comitês, viajando nas férias para lugares com potencial
de pesquisa para teses, trabalhos ou dissertações.
Apesar desse planejamento cuidadoso e bem-encaminhada para seu
doutorado, Gail se viu bloqueada de formas que nunca poderia prever. Seu
supervisor e ela discordavam sobre a direção de sua dissertação por motivos que
aparentemente não tinham nada a ver com o conteúdo, porém Gail achava que
tinha muito mais a ver com conflitos de personalidade e machismo. Com a falta
de seu apoio, ela se sentiu incapaz de procurar as companhias chaves e tirar
vantagem de outras oportunidades, como tinha feito no passado, sendo, portanto,
forçada a se matar de trabalhar em bicos para pagar despesas de sobrevivência e
sobrando pouco tempo e energia para fazer seus trabalhos escritos e pesquisas
que precisava para avançar. Além do mais, a universidade que ela escolheu, uma
das melhores no campo, era também uma das mais caras, e com sérias
probabilidades de sua formatura demorar alguns anos a mais do que pretendia,
Gail começou a considerar, com ansiedade cada vez maior, a quantidade de
compromissos financeiros que estava acumulando.
Ela conta que acordou uma manhã e admitiu para si mesma que estava numa
crise de carreira. Naquele dia, ela estava sentada com o coração pesado, no café
onde tomava seu desjejum, quando ouviu um animado alô vindo por trás dela.
Nancy, uma mulher que ela conhecera em seu curso de pós-graduação, porém
sobre a qual sempre tivera sentimentos dúbios, sentou-se sem ser convidada.
Nancy contou a Gail que também tinha estado como ela, mas tinha
reconsiderado a vida acadêmica e resolveu então seguir a carreira de terapeuta.
Ouvindo Nancy no início por educação, Gail não pôde deixar de passar a ouvir
mais atentamente, e até de lhe fazer algumas perguntas sobre como estava indo
em sua nova profissão, quais eram as exigências e assim por diante. Naquela
época, as exigências para a licença que Nancy decidira conseguir eram mínimas,
não mais que um certo número de cursos específicos, ter um determinado
número de horas de experiência, e então passar pelos exames escrito e oral, o
que fázia tudo parecer muito fácil; e poderia realmente ser fácil em vista da
possibilidade de alguns dos cursos que Gail já tinha feito contarem pontos para
sua formatura.
Daquele dia e daquele encontro sincronístico veio a resolução final de Gail de
contar as perdas relativas à sua carreira de professora e obter sua licença de
psicoterapeuta, o que ela fez com um mínimo de alarde. Licenciada há vários
anos agora, Gail me contou que, ironicamente, está dando mais aulas — em
forma de supervisão, workshops e aulas como professora adjunta em escolas
locais — do que gostaria de estar.
“Eu seria muito infeliz na carreira acadêmica, percebo agora”, me disse ela.
“Eu era movida por uma ideia que não me cabia, uma ideia da infância para a
qual eu nunca olhei como adulta. Se eu tivesse que lecionar nos mesmos três ou
quatro cursos, durante anos e anos, eu enlouqueceria e iria para o espaço em
cinco anos. Portanto, tudo deu certo — apesar de meus maiores esforços, me
envergonho em dizer.”
Embora essa última afirmação seja da própria Gail, me pego pensando que na
verdade a habilidade de Gail em tolerar uma fase intermediária e em considerar a
possibilidade de que seu encontro acidental com a amiga indiscreta poderia
trazer algum benefício foi o que mais contribuiu para tornar a coincidência
sincronística. Sem a habilidade para estabelecer a linha entre determinação e
prudência, o aparecimento de Nancy teria sido simplesmente um aborrecimento
em vez de uma virada significativa.
Essas histórias de pessoas que se deparam com direções completamente
inesperadas ou ativamente combatidas em suas vidas deixam claro que a
sincronicidade é um fenômeno do acaso. Nada do que Gail, John ou Elise
fizeram intencionalmente os ajudou tanto quanto o que lhes aconteceu por acaso.
Todavia, enquanto podemos conjeturar a respeito do título deste livro,
declarando através de uma perspectiva literal que é claro que os acidentes
existem — ocorrências do acaso sem intenção ou significado —, histórias como
as acima nos fazem imaginar se na verdade existem acidentes, se os pequenos
detalhes não são partes importantes do propósito global da fábula que chamamos
de nossa vida. As verdades de certas afirmações, como “Virá quando você
menos espera” ou “Deixe estar, entregue a Deus”, são reflexões sobre como,
quando estamos mais investidos de nosso ego em nossos planos limitados ou, ao
contrário, mais abertos, nós criamos um momento na trama de nossas vidas
cheio de possibilidades.
Nós Encontramos Trabalho ou o Trabalho nos Encontra?
Acontecimentos sincronísticos nem sempre constituíram a base para uma
carreira, como com John, Gail e Elise, mas certamente tiveram seu papel em
muitos trabalhos. Lembre-se de Ellen do Capítulo 1, que desligou o telefonema
de seu pai sem ideia de como iria se sustentar sem a ajuda dele e recebeu uma
oferta de emprego no dia seguinte através de um encontro acidental: como entre
amigos e namorados, as oportunidades sincronísticas geralmente acontecem
quando mais precisamos delas.
Tony D’Aguanno, um professor e terapeuta da área da baía de São Francisco
que se especializou em assuntos em torno de trabalho e dinheiro, conta a história
de uma amiga sua cuja experiência em busca de trabalho foi significativa não só
para ela como também para Tony, confirmando sua sensação de que nossa vida
profissional pode ser tão espiritualmente envolvente como qualquer outra área de
nossas vidas. A amiga de Tony tinha se especializado como enfermeira assistente
no campo altamente especializado da neurocirurgia, mas não estava encontrando
trabalho. Andando por Westwood um dia, ela sentiu vontade de atravessar o
campus da UCLA em vez de seguir sua rota habitual. Em vez de reprimir sua
sensação, como muitos de nós faríamos, ela seguiu seu instinto, e seguiu seu
instinto outra vez quando ele a fez entrar em um prédio em especial do campus e
subir um lance de escada. Lá ela encontrou um quadro de avisos coberto por
várias camadas de informações, propagandas e anúncios. Impelida por uma
sensação obscura, ela começou a levantar os anúncios pregados neste quadro que
ela nunca tinha visto antes, continuou olhando até encontrar um pequeno
anúncio de um trabalho no seu campo de especialidade em um hospital
localizado a seis horas ao norte, na cidade de Santa Cruz. Ela ligou para o
departamento de neurocirurgia do hospital no mesmo dia, se inscreveu para o
trabalho no dia seguinte, foi entrevistada na semana seguinte e conseguiu o
trabalho.
Uma outra história de D’Aguanno mostra como as melhoras sincronísticas
em nossas vidas materiais podem chegar até nós através das nossas amizades. O
melhor amigo de Tony era um terapeuta que, em vista de seu comprometimento
com a saúde mental da comunidade, estava envolvido em uma série de trabalhos
de certa forma satisfatórios, porém quase sempre mal pagos. Enquanto a
satisfação não-material de fazer o bem era mais ou menos equilibrada com o
estresse de nunca ter dinheiro suficiente, Tony se via, cada vez com mais
frequência, queixando-se com os amigos sobre as dificuldades de sua situação
financeira.
Quando se aproximava o aniversário de seu amigo, Tony criativamente
pensou que o que gostaria de dar ao seu amigo era um trabalho que pagasse
melhor, mas como isso estava fora de questão, decidiu escolher uma nota de sua
grande coleção de moedas e notas raras, mandar emoldurar e dar ao seu amigo
como um amuleto de boa sorte. A nota que ele escolheu era de Weimar,
Alemanha, daquele famoso período de inflação selvagem quando o dinheiro era
impresso ao acaso em cada cidade individualmente e cujos valores cada vez mais
astronômicos. No entanto, o simbolismo de dar essa nota de valor
inacreditavelmente alto ao seu amigo extremamente mal pago, disse Tony, estava
menos presente em sua mente do que a linda cena representada na nota que,
depois de montada, parecia uma pintura em miniatura.
O amigo de Tony recebeu a nota, entregue com a história de que simbolizava
o presente que Tony realmente gostaria de dar: um trabalho que pagasse melhor.
Imediatamente após, de fontes totalmente inesperadas, seu amigo recebeu duas
ofertas de trabalho em meio expediente, que aumentaram em quatro vezes sua
receita, permitindo a ele que se demitisse do trabalho anterior.
Como Tony teve um número razoável de experiências sincronísticas em sua
vida, ele viu essa coincidência como uma vitória, feliz que sua boa intenção em
relação ao seu amigo tivesse se realizado, mesmo que ele não tenha tido nada a
ver com o ocorrido. Mais tarde, em seguida ao golpe de sorte de seu amigo, no
entanto, a situação do trabalho de Tony começou a ficar desagradável, e achando
que talvez ele estivesse mais necessitado da “nota da sorte” do que seu amigo,
que agora estava ganhando bastante dinheiro, Tony pediu e conseguiu a nota
emoldurada de volta, “emprestada”, como disse ele.
A semana seguinte, incrivelmente, chegou cheia de boa sorte. O patrão de
Tony anunciou, sem qualquer aviso, que daria um aumento a Tony. Enquanto
estava parado à toa em uma esquina, encontrou a mulher que viria a ser sua sócia
em um empreendimento que ambos ainda tocam, e que trouxe aos dois
satisfação profissional e material; e como última cartada da sorte, ele recebeu um
recado no trabalho perguntando se estava disposto a dar um curso na escola local
de educação para adultos. Embora muitas pessoas estivessem inscritas para
lecionar nesse curso, o administrador do programa ofereceu-o a Tony baseado na
recomendação de um amigo, mesmo sem Tony ter se inscrito para o trabalho.
Sete anos se passaram e ele continua dando aulas nesse mesmo curso.
De todos os objetos que encontramos no dia-a-dia, não existe nenhum mais
simbólico que o dinheiro. Que nada mais é que polpa de madeira e tinta, feito da
mesma substância que lenços de papel ou papel de bala, o dinheiro tem mais
poder, influencia mais vidas, inspira mais ansiedade, prazer, dor, alegria e
ambivalência do que qualquer coisa. A história da “nota mágica” de Tony, em
minha opinião, é uma boa ilustração do simbolismo que o dinheiro carrega,
como um colecionador. O interesse de Tony era no aspecto literal do dinheiro —
dinheiro como arte, arte colecionável, dinheiro como um objeto — e não
realmente em seu aspecto mais simbólico — dinheiro como poder, dinheiro
como escolha, dinheiro como liberdade, dinheiro como status. Na verdade, não
era esse o problema de seu amigo, que havia ignorado o aspecto não-material e
simbólico do dinheiro em favor de outros valores — ajudar às pessoas e auto
sacrifício —, e em consequência se viu literalmente sem dinheiro suficiente?
Como um objeto bonito em si, e portanto algo para ser apreciado, a nota tem
também um forte valor simbólico, tanto como um presente substituto para o
presente que Tony realmente queria dar, quanto ao mesmo tempo de um artefato
de uma época e lugar onde o dinheiro estava sendo desvalorizado de uma forma
extraordinária, refletindo simbolicamente a desvalorização de seu amigo em sua
própria vida material. Todos os símbolos podem ter múltiplos significados, e a
sincronicidade dessa nota de Weimar não é exceção. O que sua posse tinha
significado para ambos, Tony e seu amigo — apareceram sincronisticamente
com ela oportunidades que eram tanto materialmente compensadoras quanto
emocionalmente satisfatórias —, é, portanto, o centro desse posto-chave na
trama de suas vidas.
Uma perspectiva casual dessas coincidências atribuiria poderes mágicos à
nota, como vemos nos contos de fadas ou nas histórias contadas em volta da
fogueira nos acampamentos: as histórias dos talismãs da sorte, amuletos ou
outros objetos que as pessoas, modernas e pré-modernas também, investem de
algum tipo de poder objetivo de afetar os acontecimentos em nossas vidas.
Possuí-los “traz” para nós boa sorte e perdê-los “traz” má sorte.
A resposta racional/científica para essas crenças mágicas, no entanto, também
perde o alvo, em minha opinião, quando nega o poder objetivo desses objetos
sem considerar o poder subjetivo que carregam, o efeito simbólico que provocam
na autocompreensão das pessoas. Tony não era crédulo nas propriedades ocultas
da nota, mas tampouco diminuiu seu significado da maior importância como
símbolo de um momento de virada em ambas as vidas, sua e de seu amigo — o
que tornou os acontecimentos coincidentes, em torno da nota, sincronísticos em
vez de mágicos.
A palavra “acidente” é usada de duas formas diferentes na linguagem comum. Se
você está sentado em casa lendo o jornal e sua esposa entra anunciando: “Meu
bem, hoje tive um acidente”, é quase certo que você vai correr para a janela para
olhar o carro. Esse significado da palavra acidente, um contratempo físico, é
provavelmente a reação mais frequente que encontramos — tive um acidente
com minha bicicleta, quebrei meu braço quando caí acidentalmente de uma
árvore, minha sobrinha acidentalmente molhou as calças. Porém, até agora neste
livro, temos usado o termo “acidente” em seu sentido mais abstrato: um
acontecimento que parece do acaso, não planejado, ou não-provocado por
interferência pessoal específica. No entanto, às vezes a natureza de um
acontecimento sincronístico traz em si os dois sentidos da palavra, quando os
contratempos literalmente físicos, acidentes na linguagem corriqueira, provocam
acidentalmente mudanças importantes, por puro acaso. Os acidentes na história
de Stephen, de como seu emprego procurou por ele, em vez de ser ao contrário,
são tanto literais quanto figurativos.
“Em minha adolescência, minha ambição era ser cineasta. Depois do colegial,
entrei para a escola de cinema e consegui meu primeiro diploma. Armado de
minha pele de carneiro e muita confiança juvenil, me preparei para ser um
grande cineasta. Inscrevi-me em todos os lugares. Ninguém estava contratando
cineastas; um ano depois, eu estava fazendo fotos de bebês por setenta centavos
a cópia. Num dia de fevereiro, meu carro pegou fogo e explodiu, quase me
matando.
“Como eu precisava de carro para ser fotógrafo de bebês, decidi vender
minha Bolex [um tipo de câmera de filmar]. Eu já havia abandonado a ideia de
algum dia conseguir emprego na indústria do cinema. Qualquer estação de TV
ou produtora só contratava aqueles com experiência, e eu não tinha nenhuma: o
velho dilema. Admitindo o fracasso, condenado a ser fotógrafo de bebês para
sempre, coloquei um anúncio no jornal para vender minha filmadora.
“Mais ou menos às nove e trinta da manhã, um rapaz de uma grande rede de
TV ligou em resposta ao anúncio. Ele era cameraman e estava procurando uma
câmera extra para deixar na mala de seu carro como reserva, e me perguntou se
podería passar depois do jantar para ver a Bolex que eu tinha para vender. Eu
disse que sim, é claro.
“Naquela tarde um de seus cameramen levou um tiro [mas não morreu].
Quando o rapaz da TV chegou naquela noite, ele me perguntou: ‘Você filma
notícias?’ Falei: ‘Sim, claro.’ Ele disse que precisavam de alguém para fazer uma
substituição durante um mês ou dois e perguntou se eu poderia começar
imediatamente. Ansiosamente disse que sim, e no dia seguinte comecei a filmar
notícias. Embora fosse somente temporário enquanto seu colega se recuperava
do tiro, eu consegui ganhar experiência bastante para ser contratado por outra
estação de TV alguns meses depois, e jamais tirei outra foto de bebê.
“Apesar da vontade e da intenção, foi uma série de acontecimentos negativos
e indesejáveis que tornou possível aquilo que não podia ser obtido de outra
forma: sem trabalho; o carro explode; a venda da câmera; o rapaz da TV leva um
tiro; eu consigo trabalho.
“Se o carro tivesse explodido em outro dia, nada.
“Se o rapaz da TV não tivesse levado um tiro, nada.
“Se eu não tivesse posto o anúncio no jornal, nada.
“A vida se desenrola, apesar da vontade.”
Essa série de acontecimentos sincronísticos, nos quais os acidentes são literais e
conduzem a uma chance profissional para Stephen, mostra claramente, eu acho,
como o significado de um acidente não está fora de nós, porém nos
acontecimentos em si, que são acima de tudo acidentes, eventos do acaso. O
significado tem a ver com a maneira como montamos, como Stephen na sucinta
sinopse do final, a história do que nos aconteceu nesses acidentes, o que eles
significaram e de como mudaram nossas vidas.
Em nossas histórias, esses acidentes ganham significado — ou não.
Acidentes acontecem todos os dias. Confundimos o horário de um compromisso
como Elise, ou somos designados para trabalhar com machistas, orientadores
acadêmicos pouco cooperativos como Gail, ou nosso carro explode e um colega
tem suficiente falta de sorte para levar um tiro, como no caso de Stephen. Não se
trata do acontecimento em si, mas o seu lugar na narrativa de nossas vidas que
determina se um acidente é ou não sincronístico.
O que é interessante, no entanto, em tantas dessas histórias sobre
coincidências significativas que acontecem na vida de trabalho das pessoas é a
aceitação do fracasso que parece quase que necessário antes que sejam capazes
de seguir em frente, uma aceitação forçada sobre eles através de um aparente
infortúnio. Ter que sacrificar sua Bolex depois da explosão de seu carro levou-o
ao homem que finalmente conseguiu um trabalho para ele. A mancada de Elise
levou-a a ter que admitir seu próprio erro de sua visão tão estreita e voltada para
um só tipo de carreira musical. A má sorte de Gail, uma vez aceita, ajudou-a a
ampliar sua visão e encontrar a profissão com a qual continua muito satisfeita. A
expressão “acidentalmente de propósito” vem à mente quando se pensa em
acidentes desse tipo, pois ao longo da vida profissional dessas pessoas os
acidentes que sofreram e o sacrifício de atitudes anteriores que esses
contratempos impuseram sobre elas eram na verdade o eixo em torno do qual
gira a trama de sua vida profissional.
Vindas do Nada: Histórias de Ajuda Sincronística no Trabalho
Acontecimentos sincronísticos, como os das histórias anteriores, podem com
certeza sobrepujar nossa cabeça-dura tipicamente humana a respeito do tipo de
carreira que devemos seguir ou do tipo de trabalho que devemos ter. Porém, as
coincidências, percebi, podem também representar um papel importante nos
ajudando a conseguir e obter muito prazer em fazer os trabalhos ou seguir nas
profissões em que estamos no momento. Algumas vezes essas coincidências são
confirmadoras, algumas vezes desafiadoras, algumas vezes somente acidentais,
daquela forma propositada que só entendemos mais tarde.
Quando meu amigo Mark decidiu deixar seu trabalho como assistente social
de um grande hospital em Nova York e atravessar o país, era uma decisão repleta
de todo tipo de incertezas. Mesmo se sentindo atraído pelos serviços humanos,
uma série de decisões administrativas decepcionantes por parte do hospital o
levaram a ver com toda clareza que haveria poucas chances de qualquer tipo de
avanço profissional para ele num futuro próximo. Tinha acabado de terminar um
relacionamento, e uma visita à sua irmã na Costa Oeste deixou-o esperançoso o
suficiente para desistir de tudo em Nova York e mudar para San Francisco.
Porém, o estresse e a incerteza dessa mudança, mesmo depois de ter encontrado
trabalho numa agência de serviços sociais perto de seu novo apartamento,
continuavam.
Isto é, até que ele começou a falar com um colega, John, de um dos outros
programas da agência, da mesma forma que as três Debbies do Capítulo 2, e
descobriu uma lista de coisas estranhas que tinha em comum com seu novo
colega. Ele e John tinham se inscrito para o mesmo trabalho na agência, o qual
nenhum dos dois conseguiu, mas foram subsequentemente contratados para
trabalhos diferentes e seus escritórios eram próximos um do outro. Moravam em
calçadas opostas da mesma rua em San Francisco, descobriram que ambos
haviam morado em Nova York na mesma época e que o apartamento em que
Mark morara era do outro lado da rua do escritório de John. Durante um período
difícil de sua vida, John confessou que havia procurado ajuda na mesma clínica
em que Mark estivera trabalhando antes de se mudar para a Califórnia, e
voltando ainda mais atrás, ambos cresceram em cidades vizinhas no coração de
Iowa e frequentaram dois colégios secundários, dentre os vários existentes no
centro de Iowa, que eram arquirrivais em atletismo.
Esta série de coincidências, no meio de dúvidas e ansiedades sobre se tinha
ou não feito a coisa certa mudando para a Califórnia, pareceu significativa para
Mark, como se o fato dele ter ganho um colega no trabalho, com quem
partilhava tantas coisas em comum, fosse um sinal de que talvez, na verdade, ele
estivesse certo em ter se mudado. Em John, Mark tinha encontrado alguém que
sabia “onde ele tinha estado”, em ambos os sentidos da frase, literal e figurativo.
Dizendo de uma forma mais simples, encontrar John ajudou Mark a se sentir
fazendo parte da agência em que trabalhava.
De uma forma diferente, a sincronicidade representou um papel importante
no que uma conhecida minha chamada Patty me contou, o que seria um grande
erro de cálculo de sua parte quando aceitou o trabalho de gerenciar um recém-
criado departamento dentro da sua empresa de software. Querida e diligente, há
muito buscava aumentar suas responsabilidades e conseguir um cargo de
gerência. Então, quando conseguiu a aprovação para começar a desenvolver um
pequeno projeto com um outro homem da empresa com quem ela já havia
trabalhado anteriormente e se dava bem, ela se sentiu estimulada.
No entanto, contando a história, Patty não via com clareza como a novidade
de ser gerente e sua insegurança poderiam representar um papel que afetasse sua
mente. Ela tomou as rédeas com seu colega, agora seu subordinado, com um
entusiasmo e uma confiança auto compensadora que até o final da primeira
semana já tinham gerado um bom número de ressentimentos entre os dois. Sem
consultar ninguém, ela decidira modificar várias coisas sobre o projeto, a
organização do trabalho e a direção de seu novo departamento, apoiada em sua
atitude autoritária por experiência própria com seus patrões e por seu sentido
exacerbado de ser totalmente responsável. O resultado de sua arrogância ficou
rapidamente claro quando, na segunda-feira seguinte, o homem que ela estava
supervisionando delicadamente perguntou-lhe se gostaria de almoçar num
restaurante chinês na vizinhança e lá, durante o almoço, disse a ela, sem
economizar palavras, como se sentia sobre a forma pela qual ela o estava
tratando, dizendo-lhe abertamente que não estaria mais interessado em trabalhar
com ela se não encontrasse uma forma mais cooperativa de trabalhar.
Em outra situação e com outra pessoa, ela poderia facilmente colocar a
reação dele como problemas em trabalhar sob as ordens de uma mulher, mas o
fato é que Patty sabia por dentro que ela nunca tinha estado por cima, e havia
deixado suas próprias inseguranças e a alegria de se tornar gerente lhe subirem à
cabeça. Ela tentou se desculpar com seu colega, que estava muito mais
interessado em trabalharão» ela e não somente sob suas ordens ou para ela
desenvolvendo o novo projeto, mas o estrago estava feito, e ela sentiu que iria
precisar de mais do que um simples pedido de desculpas para reparar a ofensa. O
que dizia em seu biscoito da sorte naquele dia? “O grande líder comanda pela
força do coração e não da mão.”
Contando-me a história, Patty me mostrou o pedaço de papel no qual, disse
ela, lhe foram dadas “as palavras de como levar a vida”. Um incidente
aparentemente menor para Patty se transformou em uma nova postura. Ela colou
a sorte em sua mesa, onde continua, lembrando-a de que ser uma figura de
autoridade vai além do mero exercício do poder. Ela foi capaz de consertar o
relacionamento com seu colega, e diz que a sabedoria do biscoito da sorte a
manteve firme ao longo de sua carreira.
Nas profissões artísticas, ao contrário dos serviços profissionais ou do mundo do
comércio, a avaliação de seu desempenho no trabalho é uma questão subjetiva. A
competência em gerenciar o desenvolvimento de produtos de software ou em
administrar os serviços sociais de um hospital pode normalmente ser julgada
dentro de padrões objetivos. Se o principal no seu trabalho é criar algo belo, no
entanto só se pode contar com seu próprio instinto e experiência. Portanto, o fato
de as experiências sincronísticas — eventos do acaso, subjetivamente
significativos — serem frequentemente parte integral do processo criativo não
deveria ser encarado como um choque.
Quando Matthew me contou sua história, fez um prefácio em sua narrativa
com uma observação sobre o que ele diz ser uma antiga tradição no treinamento
vocal, professores tiranos que estão convencidos de que seu método é o método
e não toleram oposição da parte de seus alunos. Durante o início de sua carreira,
portanto, Matthew se viu numa situação nada incomum em seu campo — em um
conflito de longa escala com seu treinador vocal sobre que material usar numa
audição marcada. Seu treinador insistia que Matthew deveria cantar uma ária em
particular na audição, e intimidado pela fama e forte personalidade de seu
treinador, Matthew se escravizou nessa difícil peça musical até conseguir cantá-
la com perfeição. Para crédito de seu treinador, Matthew podia ver que essa ária
de fato mostraria o melhor de sua voz no menor tempo, mas como a peça era de
certa maneira nova para ele e ainda não tinha realmente sido “trabalhada para
sua voz”, como dizem os cantores, ele se sentia indeciso quanto a usá-la.
Relativamente novato na música profissional, Matthew, que na época tinha
participado de poucas audições, pensou, apesar da sua confusão de sentimentos,
que talvez seu professor soubesse o que era melhor.
Um dia, revirando o problema em sua cabeça, Matthew se pegou cantando
uma antiga canção italiana, um dos baluartes da pedagogia vocal que todos os
cantores treinam mas que é vista como uma “peça de estudo” em vez de uma
música em si. Saiu de casa com a fantasia rebelde de usar essa pequena
cançoneta como a peça para a audição, e ainda cantarolando a canção, entrou em
seu carro e ouviu ninguém mais que Pavarotti derramando sua própria versão da
mesma canção que Matthew vinha cantando. As probabilidades de existir uma
gravação tão diferente, ainda mais sendo tocada em uma estação de música
clássica que não era conhecida por tocar esse tipo de música, e ainda por cima
Matthew sintonizando o rádio no mesmo instante em que ela estava girando em
sua cabeça, parecia uma coincidência bastante significativa para prender sua
atenção. A versão de Pavarotti dessa canção, floreada com bom gosto e cantada
com simplicidade, fez Matthew decidir que seguiria sua própria intuição e usaria
a canção em sua audição, sem comunicar a troca ao seu professor.
Entendendo a aparição da música por acaso como um encorajamento para
confiar em seus próprios instintos, Matthew ficou surpreso ao perceber que os
fatos corroboravam sua interpretação sincronística da coincidência, pois na
audição o cantor anterior havia cantado a peça que seu professor queria que ele
usasse com uma voz tão perfeita que Matthew só poderia sofrer com a
comparação. Além do mais, Matthew descobriu mais tarde, quando foi
contratado para fazer um pequeno, porém importante, papel no espetáculo, que o
diretor musical tinha uma grande paixão pela antiga cançoneta italiana. A ousada
decisão de Matthew, ele soube mais tarde, foi fonte de grande prazer para o
diretor, que admirou Matthew incondicionalmente e serviu para garantir sua
participação no espetáculo.
O que essa experiência sincronística ensinou a Matthew? Por toda ajuda e
aconselhamento que recebeu de seu eminente professor, a maioria dos quais
muito valiosos, a vivência subjetiva de Matthew do seu talento — o que parecia
certo para ele, que material significava mais para ele — foi muito mais
importante do que as considerações objetivas. Na verdade a escolha de seu
professor de uma peça para uma audição estava “correta” para seu tipo de voz, e
foi exatamente por isso que o cantor antes dele na audição cantou-a. Porém, não
era uma peça com a qual Matthew se sentisse bem, relaxado e confortável
naquela época. Na história de sua carreira de cantor, Matthew usa essa
sincronicidade como um exemplo de como, depois que você domina a técnica, a
habilidade objetiva em sua arte, você precisa então ouvir a si mesmo e aos seus
sentimentos: se você não fizer isso, diz ele, a vida pode gentilmente lembrá-lo.
O encorajamento sincronístico que Matthew recebeu para usar uma canção
simples para sua audição é um exemplo dentre muitos que eu ouvi de como os
recursos que alguém necessita para completar um trabalho aparecem surgidos do
nada. Essas histórias da vida real de nos ser dado o que é mais útil em nosso
trabalho podem ter o mesmo charme e impacto dramático que os contos de fadas
de Rumplestiltskin. Aparecendo para ajudar a infeliz princesa prisioneira a
transformar um saco de lã em meadas de ouro, Rumplestiltskin aparece do nada
e encaminha a história para um final feliz. Porém, isso é um conto de fadas,
certo?
Não para Danielle, que era a líder de um pequeno departamento em uma
organização sem fins lucrativos que ela e dois amigos fundaram, que se dedicava
a fornecer ajuda material para os desabrigados em uma cidade de porte médio do
Sul. Sua vocação não era das mais fáceis, pois a atitude geral em relação aos que
vivem nas ruas vai de um nojo educado e indiferença até a total hostilidade.
Através de trabalho duro, conexões sociais e criatividade organizacional,
Danielle e seus parceiros conseguiram em poucos anos construir uma agência
com suficiente credibilidade e eficiência para solicitar e conseguir subvenção de
vários governos e fundações privadas.
O problema é que, como na maioria dos casos, o sucesso é mais difícil de
manejar que o fracasso. As subvenções começaram a chegar em quantidades tão
numerosas que estava ficando difícil controlar, e seu conselheiro financeiro
temporário não estava muito a fim da tarefa, e não escondia isso. Danielle e seus
dois parceiros esquentaram a cabeça na reunião administrativa semanal da
equipe, tentando imaginar onde encontrar um gerente financeiro com
conhecimento suficiente de organizações sem fins lucrativos para fazer bem o
trabalho pelo modesto salário que eles dispunham para o cargo. A situação
parecia bastante sem esperança.
Nesse momento o telefone toca na pequena sala de reuniões onde eles
estavam conversando, embora a recepcionista soubesse que eles não atendiam
chamadas durante reuniões. Ligeiramente aborrecida pela interrupção, Danielle
pegou o telefone e, para sua surpresa, acabou falando com uma senhora mais
velha que tinha sido gerente financeira das indústrias da Boa Vontade, que estava
aposentada e enviuvara recentemente. A senhora queria saber se eles estavam
precisando de alguém com suas habilidades. Sem acreditar muito em
sincronicidades, Danielle sentiu seu ceticismo um pouco abalado quando
conheceu a voluntária fortuita e descobriu que essa senhora era exatamente o
tipo de pessoa que eles precisavam. Ela combinou um período de seis meses de
experiência durante os quais tentaria conseguir fundos para que o cargo se
tornasse efetivo, o que acabou acontecendo.
Na história de Danielle, como na de Matthew, o que era necessário foi dado
no momento em que era mais útil, o que me leva a pensar que talvez os contos
de fadas como Rumplestiltskin continuam a nos encantar não porque nos trazem
uma fantasia reconfortante de como a vida poderia ser, mas porque descrevem as
histórias de algumas de nossas vidas como elas realmente são. Muitos de nós, de
uma forma ou outra, pequena ou grande, já tivemos a experiência
Rumplestiltskin, por assim dizer. Se reconhecemos a realidade da sincronicidade,
essas coisas saem do nada e chamam nossa atenção para a história que estamos
vivendo, então a famosa distinção entre verdade e ficção parece embaçada ou até
mesmo inexistente. Dada a qualidade dramática de acontecimentos
sincronísticos, como os de Danielle e Matthew, pode muito bem ser que nossa
ficção imite nossa vida, e não vice-versa.
Indo, Indo, Foi: Sincronicidade e Deixando um Trabalho
Conseguir um trabalho pode ser um acontecimento sincronístico. Conseguir
ajuda para realizar esse trabalho pode também vir através de uma coincidência
significativa. Da mesma maneira, as histórias de como trabalhos acabaram
centrados em coincidências que ou confirmaram transições das quais as pessoas
não estavam seguras, ou em alguns casos até forçaram os indivíduos para as
transições fora do trabalho que estavam realizando.
Minha experiência pessoal de sair de três empregos diferentes imediatamente
antes de grandes reorganizações em várias empresas continua sendo, na história
de minha vida, um padrão sincronístico significativo não simplesmente pela
experiência incomum e repetida de sair justamente na hora certa, mas por causa
de quem eu sou. Com a tendência em ser leal até o fim, eu assumo um
compromisso e me mantenho nele, algumas vezes muito além do que é bom para
mim ou para as pessoas em volta. Teriam três experiências sincronísticas do
mesmo tipo me ensinado algum tipo de lição?
Eu estava muito feliz em meu primeiro emprego, como processador de dados
numa firma de consultoria durante meio expediente enquanto estava na
faculdade, graças à flexibilidade do horário, o estupendo salário para aquele
momento da minha vida e os bons amigos que eu tinha feito em meu
departamento. Eu estava em um lugar no qual imaginava que seria capaz de
continuar a ganhar um bom dinheiro quando passasse para o horário integral
depois da formatura, enquanto eu ampliava minhas horas de estágio a caminho
da licenciatura como terapeuta. Deram-me toda garantia de que esse plano seria
possível, tanto o chefe do departamento de processamento de dados quanto o
chefe geral da equipe editorial. As avaliações meu desempenho eram
constantemente excelentes, pois eu era mais do que super qualificado para o
trabalho, e quando acabei de escrever minha tese, segui adiante com os planos de
passar para o horário integral no verão.
Então, um dia, fui chamado ao escritório do editor-chefe e fui informado
abruptamente de que não havia como eu trabalhar quarenta horas por semana
num futuro próximo. Outros funcionários haviam pedido aumento de horas, e
seus pedidos tiveram preferência sobre o meu. Eu estava zangado e desapontado,
é claro, principalmente porque tinha imaginado que meu emprego na firma seria
de longo prazo, uma fantasia sobre esse cargo que dizia mais a meu respeito e
sobre minha tendência em assumir compromissos a longo prazo do que,
obviamente, a realidade da firma e suas necessidades. Deveria eu ficar surpreso
deles terem dado preferência aos outros empregados e não a mim, que afinal
nunca havia feito segredo dos meus objetivos reais de carreira? Olhando para
trás, talvez não, mas mesmo assim eu fiquei. Cansado de não ter dinheiro
suficiente, cansado de ser um estudante trabalhando meio expediente,
relutantemente informei meu patrão que estaria saindo no final do semestre.
Teve a festa de praxe na qual me despedi de todos os amigos que fizera, embora
a tristeza estivesse um pouco diluída pelo fato de naquele momento eu já ter
conseguido um trabalho de horário integral em outra firma.
Dois meses mais tarde recebi um telefonema de um antigo colega que me
contou que uma auditoria havia descoberto todo tipo de irregularidade nos livros
da firma. Pessoas estavam sendo dispensadas a torto e a direito, e eu escapei por
um triz de participar dessa situação horrorosa. Inclusive, alguns dos
processadores de dados estavam sendo intimados pelo Departamento de Justiça
para depor sobre possíveis atividades ilegais no local! Eu não sei se haveria
qualquer pessoa que não tivesse uma sensação de alívio com essas notícias,
escapando por um triz de participar do que certamente deve ter sido uma
confusão no trabalho, portanto, eu me considerei sortudo. Porém, a sorte desse
incidente só passou a significar algo depois que a mesma situação aconteceu
novamente.
Meu novo trabalho, o segundo emprego, era para uma pequena firma de
investimentos financeiros, em horário integral durante o dia, com salário mais
alto e melhores benefícios, que complementava meu trabalho noturno e de finais
de semana como terapeuta interno. Passei seis anos trabalhando com eles. Havia
uma ligação familiar entre os funcionários, e na época em que consegui minha
licença e comecei a exercer a psicoterapia, me vi outra vez relutado em deixar o
emprego. Na verdade, muitos de meus amigos não acreditavam que eu, um
terapeuta licenciado, continuava trabalhando como processador de dados; de
novo, meus sentimentos de ligação e lealdade com as pessoas com quem
trabalhava tornavam difícil minha saída. Durante um tempo, eu reduzi meu
compromisso aos poucos, protelando as despedidas, arranjando para reduzir
minhas horas pela metade, o que me dava tempo para aumentar minha prática
mas não me forçava a romper todas as ligações.
Então, depois de ouvir de um amigo que uma importante clínica para doenças
mentais na cidade estava procurando um administrador para um de seus
programas, eu me inscrevi para o cargo, sem contar aos meus patrões. Para
minha surpresa, apesar da minha limitada experiência administrativa em
entidades não lucrativas, consegui o emprego. Minha saída da firma foi tão triste
quanto eu imaginara. Ainda assim eu estava ansioso para trabalhar no campo
para o qual era treinado, em vez de continuar trabalhando em escritório.
Seis meses mais tarde, a crise atingiu a firma também. Ampliada pelos
investimentos imobiliários e de crédito durante o boom dos anos oitenta, a
empresa teve que fazer uma redução radical para se salvar financeiramente na
economia mais austera dos anos noventa. A resignação de dois sócios-
fundadores, apesar de todo tipo de acusações e processos legais, cobrou seu
preço e forçou-os a economizar, a empresa toda mudou para um inconveniente
subúrbio mais barato. Outra vez, lá estava aquela sensação de ter sorte, mas
dessa vez começava a parecer que minha boa sorte era simplesmente isso —
pura sorte —, pois eu havia retardado minha saída da firma o maior tempo
possível.
A coincidência de deixar dois locais de trabalho justamente a tempo de
escapar de uma crise foi aos poucos me fazendo reavaliar o apego emocional que
eu sentia pelos lugares onde trabalhei. Retrospectivamente, foi uma boa coisa
sair, mas na época minhas saídas eram difíceis e só aconteceram porque eu sentia
que não tinha escolha. Todos os meus sentimentos indicavam a direção oposta,
me obrigando a ficar quieto. Na terceira vez que isso aconteceu, ficou claro para
mim quão potencialmente problemática minha tendência em adiar os finais
poderia ser.
Passados outros seis anos dirigindo o que começara com um pequeno
programa de prevenção à AIDS e que, através dos meus esforços e daqueles
colegas com as mesmas ideias, se expandiu ao longo dos anos em fundos,
serviços e treinamento, eu não era tão sentimentalmente apegado a essa
organização quanto era aos meus antigos empregos, mesmo assim, era um
sentimento de lealdade e comprometimento que me manteve lá um ano a mais
do que eu deveria. Eu me dizia várias coisas — que o trabalho era importante,
que havia mais coisas a fazer e aprender —, mas a verdade é que meu tempo na
organização tinha acabado. Nessa época, os problemas de organização que
vieram à tona depois que eu saí já estavam no ar. Na verdade, muito do último
ano foi gasto em discussões relativas à fusão com uma outra organização da
comunidade. Assim, com o fim de alguns projetos, naturalmente me senti frente
ao desfecho, pedi demissão, me diverti em meu jantar de despedida e saí. Dessa
vez, porém, não levou meses para a crise bater. Na semana seguinte, soube que o
diretor da organização se demitira, o novo diretor indicado da organização
associada tinha tirado licença para tratamento médico e nunca voltou, e o lugar
mergulhou num absoluto caos organizacional.
Portanto, três vezes eu evitei por um triz de participar de feias disputas de
organização, e me sinto grato pela minha boa sorte. Porém, o elemento
sincronístico dessa série de eventos, que para outras pessoas seja talvez somente
o timing certo, está na maneira como essas três experiências constituem a história
da minha vida no trabalho, especificamente como essas coincidências me
fizeram ver como às vezes é importante deixar um trabalho. Essa é uma lição
que eu não poderia ter aprendido de outra forma, sendo quem sou, dedicado e
comprometido, com uma tendência ao apego e um gosto pela estabilidade. Nas
coincidências de escapar de uma crise três vezes em seguida, percebi a história
de um homem que precisa ficar aberto ao significado inerente a terminar alguma
coisa no tempo certo e pelo motivo certo, não importa quão triste seja o
processo, ou quão importante o trabalho e os relacionamentos tenham sido.
Essas sincronicidades não me revelaram a estrutura da realidade, porém o que eu
sou mais completamente, para mim mesmo e para aqueles que ouvirem a
história.
Em outra história mais dramática de um sinal sincronístico para deixar um
emprego, uma amiga chamada Vai lembra uma época que como mãe solteira se
sentiu presa em seu emprego, escravizada por um patrão tirano a uma distância
considerável de sua casa porque precisava desesperadamente do dinheiro e tinha
pouca experiência para o mercado. Dia após dia ela se arrastava para o
escritório, fazia o que mandavam, pegava seu cheque e ficava de boca fechada.
No entanto, aborrecimento, depois raiva, então fúria lentamente começaram a
crescer dentro dela, tornando mais e mais difícil arrastar seu corpo até a estação
do metrô, depois ouvir ordens de seu desagradável patrão. E claro que a ideia de
largar tudo passava por sua cabeça mil vezes por dia, mas, dadas as
circunstâncias, sua falta de experiência, suas necessidades financeiras e sua
própria desesperança, era uma ideia que ela não achava prática ou mesmo
possível.
Então um dia, em pé na plataforma do metrô, com seu habitual medo do dia
que vinha pela frente, Vai sentiu uma intensa confusão de sentimentos — raiva
de sua situação e um desejo profundo de ter pelo menos um dia de folga, um dia
sem que tivesse que enfrentar aquilo tudo. “Porém teria que ser algo catastrófico
para meu patrão me deixar fazer uma coisa dessas”, me disse ela. “Ele não era
do tipo de pessoa para quem telefonar se dizendo doente signifique muito, ele só
tornaria sua vida mais difícil quando você voltasse, e não valia a pena. Não, para
sair de lá seria preciso algo realmente fora do comum.”
Nesse instante, Vai escutou uma enorme explosão, e muito longe nos trilhos
ela viu chamas gigantescas jogando para cima uma nuvem de fumaça negra. O
rumor logo se espalhou pela plataforma. O motor do trem que ela estava prestes
a embarcar, o trem que ela pegava todos os dias para o trabalho, tinha
simplesmente explodido. Hipnotizada pela cena, Vai ficou apavorada enquanto
os serviços de emergência corriam pela plataforma, caminhões de incêndio,
helicópteros chegavam para socorrer um desastre extraordinário e jamais visto.
Para Vai, no entanto, a explosão era um símbolo que dizia para ela: saia do
emprego ou exploda. Ela deixou o emprego logo em seguida e não olhou para
trás. Ela está agora empregada em uma área onde está muito mais feliz. Os
aspectos simbólicos de um acontecimento sincronístico nem sempre nos atingem
na cabeça de forma tão violenta, mas no caso de Vai, ela ficou contente de que a
mensagem fosse inconfundível.
O Mito do Sucesso e do Fracasso: Quando uma Porta se Fecha, Abre-se uma
Janela
Se o momento certo que envolve deixar um emprego voluntariamente pode estar
cercado de fenômenos sincronísticos, como no meu caso, entendido
posteriormente, ou no caso de Vai, apontado por um símbolo poderoso, então
deixar um emprego involuntariamente — em outras palavras, ser demitido —
pode muito bem ser um daqueles tipos de acontecimentos sincronísticos cujo
significado só pode ser percebido posteriormente. Mais do que qualquer outro,
esse aspecto da sincronicidade, quando a aparente má sorte passa a ser
significativa, nos torna conscientes do quanto a nossa vida é como uma história.
Mal sabia Bob Crachitt, do conto Uma canção de Natal, de Dickens, que tipo de
transformação estava reservada para o seu relacionamento com seu patrão
Ebenezer Scrooge naquela triste noite de Natal em que quase foi despedido. No
entanto, quando entendemos nossas vidas como histórias, através do significado
que os acontecimentos do acaso podem nos reservar, somos obrigados a
reconsiderar toda questão do que consiste “sucesso” e “fracasso”. As definições
convencionais desses termos ficam um pouco confusas quando começamos a
perceber que não existem acidentes.
No início da minha carreira de terapeuta, por exemplo, aprendi essa lição
quando repetidamente tinha um cliente me “despedindo”, por assim dizer, ou
seja, interrompendo abruptamente o tratamento comigo, frequentemente
demonstrando insatisfação com o rumo do tratamento ou com minhas
habilidades, para receber logo em seguida um telefonema de alguém querendo
iniciar um tratamento e só tendo um horário para vir me encontrar: justamente a
hora recém-aberta pelo cliente que saíra. A frequência com que esse tipo de
coincidência me aconteceu ao longo da minha prática é tão grande que, confesso,
é difícil não começar a pensar causalmente sobre essas coincidências, como se
alguma força benéfica do universo estivesse olhando pessoalmente por mim e
pelo horário do meu cliente, bem como reafirmando a certeza das minhas
próprias habilidades profissionais. Porém, sem essa crença em um agente
externo objetivo que está provocando essas coincidências (um assunto que
discutiremos mais alongadamente no Capítulo 6), o plano que eu percebo nessas
intrincadas manobras dos horários é a história subjetiva da minha vida como
terapeuta, meu próprio senso de mudar de pensar egoisticamente e
concretamente a respeito de sucesso e fracasso para reconhecer como o
“sucesso” e o “fracasso” são relativos, não absolutos. Como em minha
experiência em deixar os empregos, é o meu próprio crescimento que eu persigo
quando a mesma situação ocorre várias vezes, e não uma força objetiva me
ensinando uma lição para meu próprio bem.
Essa questão da relatividade do fracasso e do sucesso é premente, eu acho,
pela mesma razão que o acaso sincronístico é premente, porque ambos têm a ver
com o papel do nosso ego em nossas vidas. Não é difícil perceber o ego
profissional inseguro dos novatos no trabalho pelas definições de “sucesso” e
“fracasso” que eu costumava usar, a necessidade do meu ego em reafirmar que
eu sabia o que estava fazendo, que eu era competente, instruído e mantinha o
controle. Acontecimentos sincronísticos, coincidências significativas,
desafiavam meu ego em sua visão limitada, porque, a longo prazo, coisas que
inicialmente pareciam ruins acabaram tomando um significado totalmente
diferente.
Dependendo de quanto as pessoas usam seu ego para organizar suas vidas, os
acontecimentos sincronísticos podem ser transformadores ou, pelo contrário,
oportunidades perdidas de maior introspecção. Então, aqui também encontramos
mais uma resposta para a pergunta “Como utilizo um acontecimento
sincronístico?” que é: “Não ache que você já sabe todas as respostas, agora e
para sempre. O revés de hoje pode ser bastante diferente quando toda a história
se desenrola.”
Veja o exemplo do meu ex-patrão, Marco, que estava sonhando em comprar o
que ele considerava uma joia de restaurante num subúrbio muito na moda em
Nova Jersey com o sonho de ampliar seu negócio de restaurantes italianos. As
negociações se prolongavam, por inúmeras razões, algumas das quais tinham a
ver com o caráter bizarro do homem que estava vendendo o restaurante e outras
eram desvios, atrasos inevitáveis do acaso. Ansioso para reformar, redecorar e
todas as outras centenas de coisas necessárias para inaugurar um restaurante
novo com sucesso, a frustração de Marco crescia na mesma proporção do tempo
perdido em discussões aparentemente infindáveis. Uma questão ficava resolvida,
outra aparecia; eles resolviam o próximo problema, e aparecia outra coisa.
A personalidade tipicamente italiana de Marco caía muito bem para um
empresário. Ele era naturalmente uma pessoa extrovertida com muita energia,
muito segura de seu próprio poder em fazer as coisas acontecerem e
completamente satisfeito com seu ego, adaptado a situações de comando.
Portanto, quando sua mulher sugeriu que ele reconsiderasse todo o negócio —
em suas palavras, “este novo lugar é azarado” —, quase um ano de constantes
dificuldades passou antes que ele começasse a pensar seriamente se ela não
estaria certa. Então, finalmente, uma data final foi marcada para a venda, uma
mudança nos acontecimentos que conseguiu enganá-lo facilmente. Marco estava
fascinado, pois seu sonho, mesmo custando tanto tempo, energia e saúde mental,
seria finalmente realizado.
Sua alegria durou até a semana seguinte, quando foi informado
repentinamente que o dono anterior, depois de tudo, ia ficar com o restaurante,
achando que, pela ansiedade de Marco em comprar, aquilo poderia ser uma mina
de ouro. Marco conta que nesse ponto ele entrou num estado de fúria além das
palavras. Um ano de batalhas acabando em nada, um excelente restaurante
escapara entre seus dedos, e pior, para seu ego masculino, sua mulher estava
certa.
A data para fechar o negócio chegou e passou, um dia que Marco passou
rangendo os dentes, furioso sobre o que poderia ter sido. Então, um dia logo
depois, ele recebeu um telefonema de seu corretor de imóveis. Parece que o
dono do restaurante acabara de ser informado pelo Departamento Estadual de
Proteção Ambiental que sua licença para possuir e operar um restaurante estava
sendo revista. Eles tinham recebido denúncias de que o restaurante estava no
lugar onde havia funcionado uma tinturaria, e eles precisavam fechar o local por
um período considerável, mais de um ano, para ter certeza de que o lixo tóxico
tinha sido manipulado de forma correta, um processo que pode inclusive vir a
demolir o próprio prédio. Só então Marco compreendeu o golpe de sorte que seu
“fracasso” havia sido. Se ele tivesse tido “sucesso” na compra do restaurante,
teria significado sua ruína financeira.
Como se pode imaginar, Marco não é uma pessoa do tipo super-psicológico,
então quando lhe perguntei o que achava do significado desse acontecimento
sincronístico, ele meramente riu, eu acho que para disfarçar a atitude humilde
que teve que assumir, uma atitude que não foi fácil. “O jogo não acaba enquanto
a gorda não parar de cantar”, disse ele, que é uma forma mais rebuscada de dizer
que as coisas não são necessariamente o que parecem à primeira vista e que o
significado daquilo que nos acontece pode ficar óbvio somente mais tarde.
Embora eu tivesse segurado minha língua enquanto falava com ele, não pude
deixar de pensar comigo mesmo sobre o simbolismo desse acontecimento
sincronístico, esperando que Marco seja capaz de enxergar e aprender com seus
próprios sonhos, e de seu desejo furioso de construir um império com ele no
topo, que pode estar escondendo lixo tóxico por baixo, literalmente com certeza,
porém metafórica e emocionalmente também. Conhecendo seu passado, como
segunda geração de ítalo-americanos, vindo de um ambiente difícil da classe
trabalhadora, fico imaginando se os sentimentos remanescentes de inferioridade,
raiva pela falta de apoio da família e a frustração de achar que nunca tem o
suficiente não seriam o lixo tóxico em cima do qual estavam pousadas suas
ambições.
O que transformou um fracasso aparente em um sopro de boa sorte foi, como
sempre é numa história efetiva e satisfatória, o timing. Algo que “deveria” ter
demorado menos tempo foi extraordinariamente atrasado, porém levando ao
desfecho afortunado. Como nas histórias de amor e romance do Capítulo 2, essas
histórias relativas ao trabalho demonstram que quando as coisas não saem de
acordo com nossos planos ou horários, os resultados podem ser afortunados em
vez de desastrosos — um ponto a ser lembrado quando estivermos de frente com
uma situação, um problema ou uma oportunidade que pareça estar indo mal.
A frase que Jung normalmente usava para descrever o efeito desse tipo de
acontecimento sincronístico em nós é que eles servem para “tornar nosso ego
relativo”, isto é, eles acalmam os nossos próprios desejos que dominam tudo, e
nos levam a ver as coisas sob uma perspectiva mais ampla. A ilustração de
ficarmos presos em uma montanha durante uma tempestade, subirmos um pouco
mais e sairmos da tempestade para que possamos olhar para ela de cima em vez
de ficarmos presos nela, é uma analogia perfeita para descrever o que acontece
quando somos capazes de nos conscientizar da relatividade dos nossos egos. Não
quer dizer que o acontecimento desafortunado tenha passado — a tempestade
ainda ruge, a compra de Marco ainda assim foi desfeita, Sam ainda assim perdeu
seu emprego, Gail ainda assim teve que deixar seu programa de doutorado —,
mas seu significado mudou em função da mudança em nossa perspectiva com o
passar do tempo. Olhamos para trás em nossas histórias e finalmente vemos a
importância do que aconteceu, em vez do que pareceu naquele momento, para
nossos egos, simplesmente um sopro do azar ou mais um fracasso.
Se os acontecimentos sincronísticos demonstram para alguns de nós que o
fracasso pode ser boa sorte disfarçada, eles também demonstram que o inverso é
igualmente verdadeiro: o que comemoramos hoje como sucesso pode muito bem
sincronisticamente se transformar em algo de significado completamente
diferente.
Uma história triste contada por Larry, que passou sua vida profissional
trabalhando em instituições para grupos de jovens adultos com problemas no
desenvolvimento de habilidades e de distúrbios emocionais, lembra em especial
uma interna de uma dessas casas que demonstrava um forte medo de escadas
rolantes. Embora essa fobia não interferisse em nenhum nível em sua vida de
jovem por serem as escadas rolantes fáceis de evitar, os orientadores da clínica
encararam o desafio de cercar a interna de todo tipo de ajuda profissional,
trabalhando lentamente com ela para vencer seu medo até um ponto que, depois
de algum tempo, eles conseguiram levá-la ao shopping local e fazê-la andar na
escada rolante sozinha.
Por uma trágica coincidência, nesse exato momento, uma criança debruçou-
se sobre o parapeito do andar de cima, perdeu o pé e caiu diretamente em cima
da garota fóbica. A boa notícia é que, por estar embaixo dela, pôde amortecer a
queda e, sem dúvida, salvou a vida da criança; a má notícia é que a moça saiu da
experiência muito mais traumatizada do que antes.
Larry, que me contou essa história, tirou um bom número de conclusões sobre
o que isso significava, ao menos para ele, embora, como Marco, a conclusão
parecesse ser mais implícita que explícita. “Nunca se sabe”, foi sua observação
final sobre o acontecido, que, é claro, é uma maneira muito simplista de dizer
algo muito profundo sobre a natureza limitada da consciência de nossos egos.
Você nunca sabe ao ajudar alguém se não está fazendo exatamente o oposto,
Larry parecia dizer, e você nunca sabe quando o que pensa estar fazendo vai ter
consequências muito além das esperadas. Conselheiro por profissão, Larry tinha
um toque de mágoa e humildade em sua voz como tinha Marco quando refletiu
sobre sua virada inesperada da sorte.
“Nunca se sabe” é uma outra resposta para a pergunta “Com que tipo de
atitude devo encarar os acontecimentos sincronísticos?”. Uma atitude de “nunca
se sabe” certamente parece ser a indicada pelas histórias tiradas das experiências
das pessoas em suas vidas profissionais, área onde infelizmente nossos egos
podem ser particularmente ativos e onde as noções de sucesso e fracasso
determinam muito daquilo que fazemos em vez da relatividade de todas as
nossas ações.
Por Que Trabalhamos? A Coincidência Significativa de Nossa Vida
Convido os leitores deste livro a fazerem sua própria experiência em relação à
vida profissional das pessoas. Façam às pessoas a pergunta: “Por que você
trabalha?”, como eu fiz ao longo do meu trabalho neste capítulo, e veja se obtém
as mesmas respostas que eu.
Quando fiz essa pergunta, obtive variações em duas respostas básicas. A
resposta mais comum que as pessoas me deram foi colocada da forma mais
imaginativa por uma amiga que disse imediatamente: “Porque eu gosto de
comer”, sua maneira equivocada de dizer em uma palavra: dinheiro. No entanto,
uma minoria de pessoas respondeu também imediatamente, mas de forma
diferente: “Eu gosto do que faço.”
Se examinarmos essas duas motivações para trabalhar mais de perto, tendo
em mente as muitas histórias que ouvimos sobre sincronicidades na vida
profissional das pessoas, percebemos que, na melhor das circunstâncias, o
trabalho que fazemos é muito mais satisfatório quando essas duas respostas
coincidem, quando fazemos algo que gostamos que também é capaz de
proporcionar nosso bem-estar material. Aqui a diferença entre trabalho e
vocação é pertinente. Um trabalho pode muito bem atender às nossas
necessidades materiais mas não estar necessariamente ligado a fazermos algo de
que gostamos. Por outro lado, vocação é uma atividade que buscamos por
motivos que podem ou não suprir nossas necessidades materiais mas que
certamente atendem às aspirações não-materiais que temos como seres humanos;
a necessidade de nos sentirmos úteis e darmos uma contribuição, talvez, ou
incorporar e promover um conjunto de profundos valores ou crenças.
Podem as pessoas ficar satisfeitas em trabalhar somente para ganhar
dinheiro? Com certeza podem. Mas eu sei que muitas das pessoas que
responderam minha pergunta dizendo “Eu trabalho por dinheiro”, fazem seu
trabalho porque gostam do que fazem. Ou até mesmo que não estejam
completamente fascinadas pelo conteúdo de seu trabalho, elas estão de qualquer
forma felizes com seus trabalhos, pois o dinheiro que ganham ajuda a preencher
os anseios não-mate- riais que possuem. O homem da loja de cappuccino na
esquina do meu escritório está feliz fazendo café porque está sustentando sua
família. A recepcionista do lugar onde eu costumava trabalhar faz seu trabalho
porque, segundo ela, precisa; porém, a segurança econômica de um emprego dá
a ela um status social que não tinha antes, que é o porquê dela estar contente em
atender telefones e receber visitantes. Meu ex-patrão Marco diria que tem um
restaurante porque “é a sobrevivência”, mas fica muito claro para mim pela
forma como ele age em seu trabalho que é bem mais que somente um trabalho.
Se você é feliz em seu trabalho, provavelmente é tudo uma coincidência, no
sentido de que, o que você precisa para sua sobrevivência material coincide com
os valores não-materiais que você carinhosamente carrega. E aquelas pessoas
envolvidas em uma vocação que não supre com segurança suas necessidades
materiais? Podem ser felizes? Claro que podem. Mas quando você examina suas
vidas mais de perto, você verá que muitas dessas pessoas também trabalham
para ganhar a vida. Enquanto Elise e Matthew faziam audições em busca de uma
brecha da sorte para satisfazer suas aspirações artísticas, eles serviam mesas e
faziam telemarketing. Durante os anos em que eu fazia meu treinamento
profissional, eu datilografei relatórios, anotei recados e limpava a geladeira do
escritório todas as sextas-feiras à tarde. Por trás da alegria, mesmo das mentes
mais elevadas, existe a mesma coincidência: um meio de sobrevivência material
de qualquer tipo que sustenta sua dedicação às aspirações não-materiais.
Quando estamos infelizes em nossa vida profissional, portanto, acredito que
provavelmente seja porque um dos lados dessas coincidências esteja sendo
ignorado em favor do outro. Será que podemos conscientemente fazer algo a
respeito dessa situação quando, como Vai, odiamos nosso trabalho porque não
nos traz nada para a alma ou quando, como Stephen, nos sentimos estranhos em
nossa vocação por causa da pressão das necessidades materiais? Claro que
podemos. Podemos procurar conselheiros vocacionais, nos associar aos amigos,
pôr anúncios em jornais, responder aos anúncios dos jornais e mobilizar nossas
fontes de renda ou aumentá-la ou esclarecer que tipo de trabalho seria mais
compensador emocional ou simbolicamente.
Porém, como mostram essas histórias, algumas vezes é um acontecimento
fortuito que põe o aspecto material e o não material de nossa vida profissional
juntos para nós, na forma de um acontecimento que estamos chamando de
sincronístico. Algumas vezes a coincidência provoca uma mudança interna.
Patty, por exemplo, não precisava ter saído da firma de software; apoiada na
sabedoria de um biscoito da sorte, ela mudou sua atitude como gerente. O erro
no horário dos encontros de Elise resultou numa mudança sincronística em sua
perspectiva sobre ela mesma e seus talentos. Eu mesmo precisava dar uma
olhada nas minhas ligações com os vários locais de trabalho, ainda assim
precisou uma excêntrica repetição da mesma situação três vezes seguidas num
período de quinze anos para que eu me tornasse mais intimamente seletivo em
relação àquilo com que vou me comprometer e por quê.
No entanto, frequentemente, a transição que os acontecimentos sincronísticos
nos ajudam a fazer em nossas vidas profissionais são de natureza externa. A
amiga de Tony, de Los Angeles, precisava arranjar um outro emprego, mesmo
baseada num palpite ela teve que procurar no meio de uma pilha de papéis em
um quadro de avisos. Danielle precisava contratar um diretor financeiro para sua
organização sem fins lucrativos, e um telefonema passado para ela na hora
errada trouxe a diretora que ela precisava. Vai precisava pedir demissão, fato que
ficou amplamente claro quando a situação literalmente explodiu em sua frente.
Em todas essas histórias de sincronicidades, a característica é que o
acontecimento sincronístico uniu os aspectos material e não-material da vida
profissional das pessoas e criou uma coincidência entre seus trabalhos e suas
vocações, entre a necessidade material de ganhar dinheiro e as aspirações não-
materiais que tinham para si mesmos como seres humanos. Não que essa união
de necessidades objetivas e significados subjetivos não aconteçam
conscientemente às pessoas, pois acontece. Porém, essas histórias demonstram
que nosso ego pode precisar não ser sempre a única fonte de crescimento em
nossas vidas.
Quando vivemos as histórias de nossa vida profissional, podemos ficar
tentados a confiar unicamente em nossa própria habilidade em controlar e
manejar os acontecimentos, pessoas e objetos. Essa é a história que aqueles que
responderam “dinheiro” à minha pergunta pensam estar vivendo. Mais que isso,
numa sociedade capitalista como a nossa, somos encorajados a pensar em nós
mesmos em termos materialistas. De certa forma, nos é dado um roteiro no qual
somos somente agentes de produtividade.
Que os acontecimentos sincronísticos ocorrem conosco de fato é uma
mensagem que nos traz alívio, ânimo e nos inspira. Ouvimos de algumas pessoas
como o aspecto potencialmente criativo de seus trabalhos emergiu quando
deixaram de lado suas agendas e permitiram que o acaso tivesse um lugar na
história de suas vidas. Ouvimos também que mudar as circunstâncias externas de
nossas vidas pode envolver seguirmos os movimentos de nossos corações e
mentes — nossas intuições, palpites, sensações e ideais. Se alguma atitude pode
“criar” um acontecimento sincronístico e promover um final feliz na história de
nossas carreiras, será aquela que equilibra os aspectos materiais e não-materiais
pelos quais trabalhamos, tornando o que fazemos na vida uma profissão
consciente de quem somos e do que é importante.
Capítulo Quatro
Uma História Íntima
Sincronicidade e Nossas Vidas dos Sonhos
O poeta e o sonhador são diferentes,
Diferentes, completamente opostos, antípodas,
Um derrama o bálsamo sobre o mundo,
O outro o atormenta.
JOHN KEATS, “The Fali of Hyperion”
Aqueles que compararam nossas vidas com um sonho
estavam,
por acaso, mais certos do que imaginavam.
Estamos acordados dormindo,
e dormindo acordados.
MONTAIGNE, Ensaios
Sonhos, usando as palavras de Keats, atormentam e perturbam nossa vida
diária. Até as pessoas mais obstinadas e racionais em algum momento de suas
vidas se lembrarão de um sonho, serão acordadas por um pesadelo ou passarão
um dia atormentadas por uma imagem, sensação ou situação que viveram em
seus sonhos. Nas sincronicidades descritas até agora, nas histórias de amor e de
trabalho na vida das pessoas, as coincidências significativas aconteceram quando
um fator externo — um encontro, uma série de acontecimentos fora do comum
entre pessoas ou situações, um telefonema casual, uma oferta de trabalho
inesperada, um acidente como uma explosão ou tiroteio — coincidiu
significativamente com o estado interior do indivíduo num momento específico
ou ao longo de sua história particular. O sentido dessas sincronicidades tem sido,
por assim dizer, de fora para dentro: um acontecimento externo extraordinário
tinha ou passou a ter um significado interno emocional ou simbólico.
Neste capítulo partimos para as sincronicidades que vão na direção oposta, de
dentro para fora, quando ocorre um fato interno que, acontecendo, coincide com
um circunstância externa de uma forma importante e transformadora. E claro que
o ponto principal da sincronicidade é que a diferença entre “interior” e “exterior”
pode não ser tão rígida quanto geralmente acreditamos, portanto talvez seja
importante sermos o mais claro possível quanto a esse ponto: que a diferença
geralmente indicada quando usamos as palavras “interior” e “exterior” depende
da participação de outros em nossas experiências.
Naquilo que chamamos de eventos “externos”, pessoas e objetos estão
envolvidos de uma maneira que os outros podem ver. Quando um trem explode
na minha frente, ou quando encontro um conhecido num hotel no meio do
deserto, trata-se de uma experiência que é partilhada por mim e por outra pessoa.
Nas histórias que lemos, o grau do que ocorre com os personagens é o que
chamamos de trama: aconteceu isso, mais isso e então essa outra coisa
aconteceu. Acontecimentos “internos”, por outro lado, ocorrem somente com
uma pessoa, e nas histórias que lemos, assim como nas histórias que vivemos,
esse grau de experiência é o que a maioria das pessoas chamaria de
“personagem”: quem o protagonista é como pessoa, aquilo que pensa e sente,
suas esperanças pessoais, sonhos e quais são os seus conflitos.
O prodígio da sincronicidade neste capítulo está na maneira como os
acontecimentos do acaso no mundo externo representam significativamente
alguma manifestação pessoal da vida interior de alguém em forma de sonho. As
sincronicidades relacionadas com o sonho nas histórias que se seguem
aprofundam nossa compreensão das histórias que vivemos nos mostrando como
a trama de nossas vidas reside não somente nos acontecimentos externos que
vivemos — as interessantes histórias de aventura, romance e intriga — mas
também na essência de quem somos. Como num livro moderno, onde a trama
“é” o personagem, e os acontecimentos da história se passam na vida interior do
protagonista, é a vida subjetiva da alma que estará em foco nas histórias que
seguem.
Nossos sonhos têm vida própria, e muito mais, talvez, do que qualquer outro
fenômeno de nossas almas; são absolutamente particulares, únicos e subjetivos.
Podemos partilhar um sentimento com uma pessoa específica. Podemos
compartilhar uma aspiração, esperança ou visão com uma pessoa de ideia s
semelhantes. Porém, somente nós mesmos vemos, sentimos, ouvimos e vivemos
nossos sonhos. Não importa quão detalhada seja a nossa descrição, somente nós
mesmos vivenciamos a cadeira vermelha, o cheiro dos biscoitos da vovó ou a
sensação de chegar atrasado para uma prova. A absoluta privacidade da nossa
vida de sonhos é o que pode ser tão “aflitivo”, especialmente para pessoas cuja
personalidade, histórias e hábitos a levem a valorizar o “externo” muito mais do
que o “interno”. Nesse campo pessoal, na vida de nossa alma, temos nossa
maneira própria de ser, nossa linguagem especial, perspectivas próprias e nossas
reações. E sobre a vivacidade desse mundo interior que Montaigne se refere na
citação acima, quando ele percebe o quanto estamos “acordados” enquanto
dormimos. Quem nunca teve a experiência de acordar pela manhã se sentindo
esgotado e exausto depois de uma noite de sonhos reais, pesadelos assustadores,
incomodativos, ansiedades semiconscientes, fantasias de formas e tamanhos
perturbadores? Embora irônica, a afirmação de Montaigne — que algumas vezes
estamos mais dormindo quando acordados do que quando estamos dormindo —
soa verdadeira. Uma parte de nós está bem acordada enquanto dormimos, e
nossos sonhos são a prova disso.
Como nossas vidas interiores são tão individuais, nossas e de mais ninguém,
às vezes me parece que a psique pode ser comparada a uma ilha que já foi ligada
ao continente, porém agora está isolada. Como literalmente acontece nesses
casos, as plantas, animais e o meio ambiente desse lugar começam a desenvolver
suas particularidades e ritmos, suas próprias cores e formas. Não que as plantas e
animais de lugares como esse não tenham semelhança alguma com os outros —
a flora e a fauna de um lugar como a Austrália, por exemplo, têm conexões
óbvias com as encontradas em outros lugares, o meio-urso koala e o meio-coelho
canguru são demonstrações desse tipo de conexão. Porém, existem formas e
maneiras diferentes e únicas de se fazerem as coisas nesses lugares. Esse é o
caso dos nossos sonhos, e conta em larga escala para a estranheza de nossos
sonhos quando comparados com a realidade do mundo do dia-a-dia.
Em vista disso, pode-se muito bem perguntar: qual a razão de nossos sonhos?
Qual o papel que representam? Enquanto a resposta para essas perguntas pode
ser tão variada quanto as psicologias e filosofias do mundo, eu acho a resposta
sugerida pelos resultados das pesquisas do sonho moderno dentre as mais
aproveitáveis.
Recentemente alguns cientistas realizaram experiências para descobrir com o
que sonham os animais. Qualquer um que tenha um animal de estimação com
certeza já ficou intrigado com a agitação das patas, grunhidos altos e seus
movimentos inconscientes enquanto dorme, mas somente na última década
pesquisadores conseguiram determinar o que realmente ocorre no cérebro dos
animais. Monitorando as ondas cerebrais que ocorrem durante certas atividades
enquanto acordados e enquanto sonhando, os cientistas presumiram, baseados
nas semelhanças e diferenças das ondas cerebrais, que animais possivelmente
sonham com comportamentos de sobrevivência específicos de sua espécie,
armazenando e consolidando as lembranças das experiências de quando estão
acordados: gatos caçam, coelhos cuidam de seu território, ratos exploram.1
Extrapolando em cima dessa pesquisa, podemos supor que a razão do sonho
no ser humano é semelhante: seres humanos sonham a respeito de
comportamentos de sobrevivência específicos de sua espécie, tanto como prática
para enfrentar situações na vida real quanto como para trazer informação para
nosso consciente sobre nós mesmos e nosso ambiente que são vitais para nossa
sobrevivência e crescimento. Porque, ao contrário dos outros mamíferos, os
seres humanos têm autoconsciência, e muitas das informações para as quais os
nossos sonhos chamam nossa atenção podem ser sobre nosso mundo interior,
alimentando nosso crescimento emocional e saúde, nosso desenvolvimento
espiritual, ou outros aspectos de nossas experiências subjetivas, que são tão
cruciais tanto para nossa sobrevivência quanto para o nosso bem-estar físico.
Nossos sonhos podem muito bem ser os encarregados do cuidado com nossa
alma, nos contando uma história noturna, símbolos de quem somos. Dessa
forma, podemos entender o sentido do que vivemos no dia-a-dia. O
aprofundamento da moderna psicologia deduz, como também os intérpretes de
sonhos de todas as outras culturas, períodos e orientações religiosas, que os
sonhos são significativos, e, também, que um sonho é um texto — uma história
com uma estrutura narrativa e um propósito — que está entre as mais
importantes contribuições da psicologia para a auto compreensão do ser humano.
Seriam os Sonhos Proféticos Sincronísticos?
Seriam os Sonhos Sincronísticos Proféticos?
Seriam os Sonhos Psíquicos ou Extra-sensoriais Proféticos?
Desde muito antes da psicologia moderna, as pessoas têm sustentado que os
nossos sonhos, embora estranhos ou desagradáveis, têm um significado que a
sabedoria e a interiorização podem nos ajudar a entender. A atitude com relação
aos sonhos, demonstrada através dos mitos, lendas e rituais das culturas através
do mundo e através dos tempos, é um reconhecimento de que todos os seres
humanos são, de uma certa maneira, bilíngues. Nós falamos a linguagem de uma
realidade exterior, uma linguagem que o outro escuta e entende, e ao mesmo
tempo nós temos nossa linguagem interior própria e particular, uma linguagem
que nós temos que escutar de uma maneira especial para podermos compreender
inteiramente. Essa linguagem, a linguagem dos sonhos, tem sido sempre
compreendida como de natureza simbólica. Não é necessário ir-se muito longe
para mostrar que a psicologia moderna adotou uma maneira de ver os sonhos
que existia muito antes da Interpretação dos sonhos de Freud.
No Gênesis, por exemplo, o primeiro livro da Bíblia, muito se fala da
habilidade de José em interpretar sonhos, tanto os seus quanto os dos outros, e a
trama de sua vida gira em torno dessa habilidade. No início de sua história, José
tem dois sonhos que ao longo de sua vida se tornaram realidade: enquanto
ceifava feixes de trigo com seus onze irmãos, seus feixes se inclinavam para
reverenciá-lo; em outro sonho, José via o sol, a lua e onze estrelas se inclinarem
para reverenciá-lo. O que seu pai e seus irmãos pensaram desses sonhos —
vendo José sendo exaltado por esses símbolos — é tão claro quanto seu ciúme e
ressentimento.
Porém, como já vimos, nossos egos nem sempre estão completamente no
controle dos acontecimentos, e tentando se livrar de seu dotado irmão,
vendendo-o como escravo para os egípcios, os seus irmãos acabaram sem querer
colocando-o numa posição onde outro par de sonhos o levam, através de uma
coincidência, à atenção do governante do Egito, o Faraó. Prisioneiro por acaso
junto com o mordomo e o padeiro do Faraó, José ouve os sonhos desses dois
homens — o mordomo com uma parreira com três galhos brotando uvas que ele
espremia na taça de vinho do Faraó, o padeiro carregando três cestas em sua
cabeça e os passarinhos comendo da cesta de cima. José interpretou esses sonhos
com precisão: que em três dias o mordomo seria readmitido sob os favores do
Faraó, enquanto o padeiro seria decapitado e pendurado em uma árvore para ser
comido pelos pássaros. Anos mais tarde, o mordomo, que estava nas graças do
Faraó, se lembrou de José. O Faraó teve dois sonhos perturbadores que o
deixaram perplexo e preocupado, um sonho com “sete vacas saudáveis e gordas”
junto às “sete vacas magras e esqueléticas”, e um segundo sonho com “sete anos
de grãos fartos e bons” brotando nas hastes seguidos de “sete anos de escassez e
pragas”.
Ouvindo de seu mordomo sobre o jovem hebreu que através de um sonho
predissera com precisão a volta do mordomo aos seus favores, o Faraó ordena
que José seja trazido até ele, pois ao contrário de seu pai e seus irmãos, o Faraó
não resiste aos acontecimentos preditos nos sonhos. Quando José revela ao Faraó
que os símbolos de seus sonhos indicam sete anos de fartura seguidos de sete
anos de fome, o Faraó se prepara para os tempos difíceis armazenando grãos
durante os tempos de abundância. José é nomeado governador da terra,
cumprindo sua ascensão à proeminência predita anteriormente em seus sonhos
dos feixes de trigo e do sol, lua e estrelas.
Essa história bíblica escrita pela primeira vez há mais ou menos três mil anos
atrás, embora sem dúvida seja bem mais antiga que isso, pode ser vista sob uma
grande variedade de perspectivas. Para o autor dessa história, que está contando
essa lenda como parte da história sagrada de um povo, o sentido da história de
José é ilustrar os seus poderes proféticos, a sabedoria que lhe foi concedida,
como para alguém escolhido de Deus, para um único propósito na história.
Depois de reconhecer a intenção religiosa do autor, no entanto, podemos também
perceber que essa passagem do Gênesis é relevante para o assunto da
sincronicidade e a vida dos sonhos. Os irmãos de José, o mordomo, o padeiro e o
Faraó tiveram seus sonhos transformados em realidade, sonhos cujos
simbolismos têm importantes paralelos nos acontecimentos externos
subsequentes da história. Usando o termo moderno, descreveríamos essa
situações como sincronísticas para esses indivíduos — um acaso fora do comum
no mundo exterior, paralelo a um estado subjetivo de uma forma significativa
emocional e simbolicamente. Portanto, a história de José é uma evidência de
que, embora a sincronicidade seja um conceito moderno, não é de maneira
alguma uma experiência exclusivamente moderna.
Nem todos os sonhos são sincronísticos, é claro. Muitos, se não a maioria dos
nossos sonhos, são sobre circunstâncias que nunca aconteceram e podem de fato
nunca acontecer no mundo externo. Nossos sonhos são povoados de pessoas que
na realidade não existem. Em nossos sonhos temos habilidades que na verdade
não possuímos: de voar, saltar sobre edifícios com um simples impulso, de
encolher do tamanho de uma ervilha. As vezes, no entanto, sonhamos com um
fato que realmente acontece, porque o sonho nos mostra o fato literalmente ou,
como na história de José, simbolicamente. Chamaremos esse tipo de sonho de
sincronístico, um sonho no qual a lenda interior é contada antes que a história
externa idêntica aconteça.
Esse fenômeno evidenciado por José na história do Gênesis foi chamado por
diferentes nomes ao longo dos anos — profético, extrassensorial, premonitório,
divinatório. O que é importante entender é que esses termos não são puramente
descritivos, mas na verdade todos eles indicam uma certa compreensão do
propósito do sonho sincronístico. Chamar de “profética” essa coincidência de
uma imagem interior com um fato externo é chamar a atenção para a natureza
religiosa de seu significado, como faz o autor do Gênesis para ilustrar sua crença
na santidade de José e para narrar uma forma importante de como ele entendia a
ação de Deus na história do mundo. Chamar esses sonhos de “extra-sensoriais” é
outra vez não somente uma descrição, mas traz implícito em si uma afirmação de
causalidade, atribuir a coincidência entre um sonho e a realidade a uma
habilidade de perceber a realidade não-percebida pelos nossos cinco sentidos
normais. Chamar essas coincidências de “premonitória” ou “divinatória” é
trabalhar com uma suposição de que o futuro tem uma realidade objetiva da qual
são concedidas visões a determinadas pessoas em certas ocasiões, como se elas
adiantassem uma fita de vídeo ou como se espiassem as últimas páginas de um
livro de mistério para saber o final. Os termos “premonitório” ou “divinatório”
são afirmações de causalidade: a presumível existência objetiva futura de um
acontecimento provocou a nossa visão desse fato retroativamente no presente.
Em todos esses termos existe a suposição de uma conexão causai entre a
imagem do sonho e o subsequente acontecimento externo. A existência objetiva
futura do sonho ou a sua ocorrência em outra dimensão faz com que a vejamos
em um sonho através de algum tipo de sentido ou habilidade extraordinários. Ou,
de um ponto de vista religioso, Deus, em sua onisciência, pode nos conceder a
habilidade de profetizar, nos emprestando Seu conhecimento do futuro para
atingir Seus propósitos no mundo. Naturalmente, do ponto de vista do nosso ego,
é difícil não encarar as coisas causalmente quando uma visão interior
subsequentemente se torna realidade.
Porém, como já sabemos, o conceito de sincronicidade de Jung em relação a
esses sonhos enfoca essas experiências de forma completamente diferente. Em
vez de recorrer a uma explicação objetiva causai — de que o fàto
retrospectivamente causou nosso sonho —, ela enfatiza que o sentido da
coincidência entre uma imagem de sonho e o subsequente acontecimento externo
está no significado subjetivo que experimentamos com o acontecimento, o seu
efeito emocional ou, como venho dizendo, no papel que representa na história de
nossas vidas. E através dessa perspectiva não-causal que estaremos examinando
os sonhos que se seguem, sob a perspectiva do significado interior da
coincidência, seu significado para nós.'
Jung, de fato, especificamente desenvolveu seu conceito de sincronicidade
como um princípio de conexão não-causal, de forma a possibilitar a discussão do
fenômeno das coincidências significativas — uma experiência universal entre
humanos — de uma forma puramente descritiva sem se obrigar a fazer
afirmações metafísicas sobre a natureza e a estrutura do universo, ou um desafio
teológico e filosófico que ele considerava além do alcance de uma psicologia
empírica. Mesmo que não partilhemos da perspectiva do autor do papel de José
como profeta, ou mesmo que concordemos, o fato é que sonhos sincronísticos —
sonhos que espelham acontecimentos externos de uma maneira significativa —
têm e sempre tiveram um papel importante na história da vida de muitas pessoas.
Porque todas as perguntas sobre terminologia são importantes, e precisamente
porque acredito que descrever essas coincidências como sincronísticas, em vez
de premonitórias, extra-sensoriais ou proféticas seja uma maneira mais
cuidadosa, e principalmente mais proveitosa, de encarar esses acontecimentos,
talvez seja melhor ilustrar através de exemplos da vida real. A história de um
cliente que chamarei de William vai servir para mostrar meu ponto de vista.
William acordou em pânico e ansioso uma manhã depois de um sonho
realista no qual sua mãe estava dirigindo em uma estrada sinuosa ao longo da
costa, muito rápida e perigosamente, no carro da família de sua infância. Ele e
sua mãe, na verdade, nunca se deram muito bem, e muito de meu trabalho como
seu conselheiro lidava com esse problema. Tragicamente, na semana seguinte ao
sonho, a mãe de William na realidade morreu saindo da estrada e caindo em uma
ravina com seu carro, em circunstâncias que tanto poderiam ser acidentais
quanto suicidas de sua parte.
Essa coincidência entre um sonho anterior e o subsequente acontecimento foi
com certeza sincronística, seu impacto emocional e seu significado na vida de
William eram inegáveis. Teria sido premonitório, profético ou extra-sensorial?
Dizer que sim é dizer, em princípio, que o sonho de William deu a ele
conhecimento de que esse fato aconteceria. E uma afirmação que só pode ser
feita depois do acontecido. Porém, no momento do sonho de William, ele não
tinha nenhum conhecimento desse fato, porque isso ainda não havia acontecido.
William não se sentia nenhum profeta, ou que o seu sonho fosse profético. E sem
essa perspectiva, o que melhor podemos observar é que um sonho e seu
subsequente acontecimento são extremamente similares e incrivelmente
significativos.
Ver o sonho de William de outra maneira que não seja causai, uma
coincidência significativa pode induzir certas pessoas, e o próprio William,
talvez, a assumir uma certa dose de responsabilidade por sua morte. Em vista do
conhecimento de seu sonho, que de uma perspectiva “premonitória” ou, “extra-
sensorial” se tornaria equivalente às percepções através dos sentidos normais,
significa que ele deveria ter prevenido sua mãe, ou, ainda pior, sem a perspectiva
do acaso que reconhece a natureza casual do paralelo entre seu sonho e o
subsequente acidente, William poderia, na verdade, começar a acreditar que de
alguma forma sua hostilidade em relação à sua mãe e seu relacionamento difícil
seriam responsáveis por sua morte, que seus sentimentos doentios e seus desejos
haviam “provocado” seu acidente fatal. Afinal era seu sonho, não era?
Em certos momentos depois da morte da sua mãe, William, na verdade,
sentiu ambas as coisas, o que vem só demonstrar o quanto é difícil abrir mão da
forma causa e efeito de pensar que massageia seu ego, mesmo quando ele nos
causa sofrimentos desnecessários. Como esses sonhos são absolutamente
particulares e pessoais, a tentação de acharmos que somos responsáveis pela
realidade que eles retratam é muito forte, especialmente porque os sonhos podem
ter uma aura de realidade em si. Portanto, eu tive um certo trabalho para ajudar
William a ver que a coincidência do sonho da morte de sua mãe era, na verdade,
precisamente isso — uma coincidência, um acontecimento externo fora do
comum, sobre o qual não temos nenhum controle.
Um sonho pode ser sincronístico depois do fato, apesar do significado que se
possa sentir no momento. Neste caso, o significado da coincidência está na
forma que o sonho teve, antes da morte de sua mãe, aumentando a sensação de
ligação de William com sua mãe, apesar do afastamento de muitos anos, e de
uma certa forma também serviu para prepará-lo para a eventualidade de sua
morte, mostrando-a num sonho.
Ao examinar a razão e a natureza dos sonhos, especialmente sonhos
sincronísticos, o que é mais importante lembrar é que os sonhos usam uma
linguagem simbólica de imagens. Na história de José, as estrelas com as quais
sonhou não fizeram literalmente reverência, tampouco as três parreiras,
especificamente, floriram, ou sete vacas específicas emagreceram. Os sonhos
interpretados por José usavam símbolos de situações que tinham subsequentes
paralelos significativos na realidade. O que quer dizer que a natureza
sincronística de certos sonhos não se encontra necessariamente na imagem literal
do sonho que subsequentemente acontece na realidade externa, mas pode
encontrar seu paralelo numa conexão simbólica significativa entre a imagem
interior e um acontecimento externo. Se, por exemplo, no dia seguinte ao seu
sonho William tivesse sido forçado por circunstâncias acima de seu controle a
dirigir seu próprio carro para fora da estrada, o paralelo entre o sonho e o
subsequente acontecimento externo ainda assim seria significativo, somente
agora o significado sincronístico da coincidência estaria mais claro dentro do
simbolismo do sonho — o que significava para ele se encontrar em uma situação
externa projetada simbolicamente como aquela em que sua mãe se viu. Nesse
caso, a tentação de apontar uma causa objetiva para o sonho seria
consideravelmente menor.
Concluindo, olhar para os sonhos através das lentes da sincronicidade é
sempre examinar o significado subjetivo de uma coincidência entre um mundo
interno simbólico, imaginativo, e um acontecimento externo concreto: o que
fazemos com coincidências, o que elas significam para nós na narrativa de
nossas vidas. Através dos sonhos sincronísticos nos são mostrados aspectos das
nossas histórias, aspectos do nosso caráter, que talvez alguns de nós não
saibamos apreciar inteiramente, formas pelas quais a trama interna de nossas
almas tem uma conexão fundamental com o mundo ao nosso redor.
O Que Tiver de Ser Será: Sonhos “Premonitórios”
O sonho sincronístico de William sobre a morte de sua mãe foi dramático e
triste, no entanto é bom saber que a coincidência de uma imagem interna e o
subsequente fato externo em outros sonhos sincronísticos não precisam ser nem
espetaculares, nem devastadores ou externamente dramáticos. Vai, cuja história a
respeito de sua infelicidade no trabalho que coincidiu com a explosão do trem e
foi contada no capítulo anterior, teve uma experiência de sonho sincronístico
diferente, humilde em conteúdo e de efeito simples, porém importante e
memorável para ela.
O sonho de Vai aconteceu em um momento de sua vida que destruiu inclusive
suas dificuldades com seu tirânico patrão. Nesses tempos, ela era, em suas
palavras, “uma pobre mãe desempregada, lutando para seguir em frente”, porém
por dentro ela estava lutando também com uma extrema pobreza de autoestima,
se sentindo muito burra para seguir adiante, não boa o suficiente para conseguir
e não inteligente o suficiente para encontrar uma forma mais confortável de vida.
Então, ela teve o seguinte sonho:
Eu estava numa cama grande num grande quarto, e sentia nitidamente que não
deveria estar ali. Porém, em volta da cama havia várias pessoas deitadas, todas
em volta da cama de maneira que eu não conseguia encontrar um modo de sair
dessa cama sem pisar nelas. Incapaz de encontrar um jeito ou de ponderar a
situação, descobri que a razão pela qual eu deveria sair era porque aquela era a
cama do Dalai-Lama, o que somente amentou o meu sentimento de urgência.
Então o próprio Dalai-Lama entrou no quarto e, vendo-me em sua cama, não fez
nada além de olhar para mim com piedade. Nesse momento uma afirmação me
veio no sonho: “Quem quer que esteja na cama do Dalai-Lama, faz parte da
cama do Dalai-Lama.” O sonho acabou, sem qualquer outra conclusão diferente
desta.
Vai acordou do sonho intrigada, com uma estranha sensação de que tudo daria
certo para ela, e de que ela estava onde deveria estar em sua vida. A essa altura,
ela me disse, qualquer tranquilidade que tenha sentido por causa do sonho não
veio do conhecimento de quem ou o que o Dalai-Lama era, apesar de já ter
ouvido seu nome e ter uma vaga ideia dele como uma figura religiosa. Isto até a
noite seguinte à do sonho, quando ela viu que, na verdade, o Dalai-Lama estava
na cidade para visitar seus seguidores e ensinar. Espantada de ter “previsto” sua
visita, ela se sentou e prestou atenção com mais seriedade ao que parecia ser a
mensagem do sonho.
Não temos que recorrer às teorias de causalidade retrospectiva para explicar
por que Vai sonhou sobre a visita do santo homem tibetano sem saber
conscientemente de sua visita. A moderna teoria do inconsciente nos permite
uma explicação racional da ideia, em vez de mística ou metafísica, que poderia
ter sido um caso de percepção subliminar da parte da Vai: ela havia visto
anúncios da visita nos jornais ou noticiários e esquecera, ou talvez alguém tenha
mencionado de passagem sua visita, numa conversa que ela escutou mas à qual
não prestou
atenção. Mesmo assim sua percepção continuou inconsciente, até que o
inconsciente mostrou a ela em forma de sonho.
No entanto, nenhuma teoria de causalidade fala da importância desse sonho
“premonitório” para Vai, que está bem distante de qualquer explicação de causa
e efeito. Seu subsequente conhecimento de quem era o Dalai-Lama e o que ele
representava foi a razão central de como o sonho a afetou, indo até Vai em um
momento que ela estava se sentindo consideravelmente pouco enaltecida,
desconfortável com sua situação e incapaz de encontrar uma saída.
Discutindo o sonho com Vai, sugeri a ela, conhecendo-a como uma médica
especialmente boa em lidar com indivíduos que se encontravam na “gangorra”,
que talvez sua própria experiência de tempos difíceis possa ter sido um tipo de
cama, o lugar de onde vieram sua subsequente força e habilidade em ajudar
pessoas. Mas enquanto o sonho em si se exprime simbolicamente, foi somente o
acontecimento externo, ela respondeu, que realmente a fez apreciar aquilo que
ela estava atravessando no momento. “Foi realmente espantoso ver aquilo com
que sonhei tomar vida naquela noite e saber que eu tinha uma ligação com isso,
mesmo sem saber. Sentir que eu deveria estar na cama do Dalai-Lama, que ali
era meu lugar, e que estava tudo bem, era muito esperançoso.”
Embora não possamos evitar que nossa atenção seja atraída para um sonho
sincronístico como o de William, eu mostrei aqui o sonho de Vai para deixar
claro que frequentemente os acontecimentos sincronísticos em nossas vidas,
especialmente em nossa vida interna, têm em si uma aparência simples de dia-a-
dia, sem o alto teor de drama e extrema improbabilidade de muitas das histórias
que mostrei até agora. Sonhos são acontecimentos comuns, portanto,
acontecimentos sincronísticos em torno dos sonhos frequentemente trazem em si
um sensação de normalidade, o que não os fàz menos importantes.
Na verdade, essa mesma aparência de dia-a-dia de alguns dos meus próprios
sonhos sincronísticos me levaram a uma falha na apreciação de seus significados
para mim, ao longo da história da minha vida. Um incidente dos meus dias de
conselheiro interno aparece, envolvendo uma jovem com a qual eu tive um
relacionamento tempestuoso como conselheiro.
Vindo de um passado difícil, como filha única de pais infinitamente
indulgentes e negligentes, essa cliente que chamarei de Grace tinha grandes
dificuldades nos relacionamentos e com seus próprios sentimentos de
autoestima, primeiro idealizando alguém, geralmente um homem mais velho, e
procurando se confundir com ele para se sentir melhor sobre si mesma, em
seguida se sentir perdida no relacionamento, o que a levava a terminar rápida e
cruelmente, preservando, assim, seu senso de independência. Esses
rompimentos, embora provocados por ela, sempre a levavam a se sentir ainda
mais sozinha do que antes, e o ciclo começava outra vez.
Assim Grace fez durante seus anos de adolescência e juventude, o fato dela
tentar viver comigo o mesmo padrão de relacionamento, mesmo enquanto fazia
o aconselhamento para entender e mudar isso, não era uma fonte de admiração.
A única diferença comigo foi que, quando ela se sentiu sendo engolida, consegui
fazer com que ela continuasse no relacionamento de aconselhamento, o que ela
fez durante mais um ano, só me atacando uma vez ou outra durante o
relacionamento para manter distância de mim. Naturalmente, dentro dessas
circunstâncias, o relacionamento que nós tínhamos era tumultuado, porém,
felizmente, muito menos do que seus romances autodestrutivos.
Depois de muitas voltas nesse ciclo, Grace acabou o aconselhamento
bruscamente um dia, usando como desculpa outros compromissos e falta de
tempo, energia e dinheiro para continuarmos o trabalho juntos. Tentei convencê-
la a ficar, reafirmando que minha porta estava sempre aberta, e a vi partir com
tristeza. Meses se passaram, e assegurado por meu supervisor de que a saída dela
do aconselhamento não era necessariamente um sinal de minha incompetência
como conselheiro, mas poderia muito bem, na verdade, ser algo que ela
precisasse fazer como parte de seu crescimento, eu tive um sonho com ela uma
noite, o primeiro sonho que tive com um cliente de aconselhamento.
No sonho, eu vi Grace entrar pela porta da sala onde geralmente nos
encontrávamos, se sentar calmamente e dizer calorosamente que estava pronta
para recomeçar, que ela repensou o que tinha acontecido entre nós, queria se
desculpar por ter me tratado mal e que na verdade estava grata por eu ter ficado
com ela durante os altos e baixos de seus sentimentos. O sonho parecia tão
natural e real que eu nem pensei em mencioná-lo ao meu supervisor, acreditando
que eu estava de alguma forma inconscientemente tentando me fazer sentir
melhor por não ter sido um conselheiro “suficientemente bom” para ela e
tentando continuar “tratando-a” em meus sonhos.
Na semana seguinte, no entanto, percebi que talvez algo mais do que eu
imaginava estava acontecendo, pois Grace havia ligado para o consultório para
marcar uma hora comigo, e quando ela chegou, foi exatamente como aconteceu
no meu sonho. Ela estava calma, sem nenhuma animosidade áspera ou carência,
que ela sempre trouxera para seus relacionamentos. Ela me disse que tinha
aprendido muito com nosso relacionamento ao longo desse ano e que minha
firmeza ajudou-a a se juntar a uma comunidade religiosa, mostrando-lhe que
outras pessoas podem ser verdadeiras e comprometidas com o seu bem-estar. Por
sentir que parte do seu crescimento consistia em rever sua própria vida e assumir
a responsabilidade pelo seu comportamento, ela precisava voltar pelo menos
essa vez para me dizer que se sentia mal por ter sido tão complicada.
Na época, fiquei espantado pela precisão com a qual meu próprio sonho havia
“predito” as circunstâncias que finalmente aconteceram, mas agora, olhando
para trás, é claro que o único significado do sonho para mim era concomitante ao
fato que o evento, na verdade, coincidentemente ocorreu. Se a corrente dos
acontecimentos do acaso não tivesse rebatido meu sonho de volta para mim
através da coincidência, se a cliente não tivesse voltado para falar comigo uma
semana depois, meu sonho teria sido um dos muitos nos quais o simbolismo — o
que essa cliente significava para mim — teria ficado estritamente subjetivo.
A natureza sincronística do evento está na forma como o evento externo
fortuito aconteceu num tempo muito próximo ao da imagem interna, e isso me
forçou a trazer meus sentimentos subjetivos em relação a essa mulher para
dentro do relacionamento objetivo que eu tinha com ela: o significado
sincronístico para mim e para o meu desenvolvimento profissional era ver que
meus relacionamentos terapêuticos com meus clientes eram de fato
relacionamentos verdadeiros, não somente relacionamentos superficiais montados
ou serviços prestados por contrato. Eu percebi que me importava com eles —
eles existiam para mim subjetivamente —, em como eles se sentiam genuína e
profundamente ligados a mim, tão profundamente a ponto de voltar para
finalizar o relacionamento de fato e não somente em meus sonhos. Que o meu
primeiro sonho com um cliente tenha sido sincronístico é ainda uma fonte de
espanto para mim.
Ver esse sonho como “premonitório” em vez de sincronístico é entender o
acontecimento de uma forma totalmente diferente, e muito menos subjetiva. Se
um sonho meu é capaz de predizer o futuro, então eu devo ser dotado de
habilidades especiais. Teriam sido essas minhas habilidades especiais — minha
clarividência, meus talentos divinatórios, ser escolhido de Deus — e não a
simbólica subjetividade do evento externo que tomaria o centro do palco, uma
mudança na ênfase que, para quase todos os egos, exerce uma grande atração.
Ver esse sonho como premonitório significaria também que em alguns
momentos a corrente normal de causa e efeito, na qual o presente ocorre como
reação aos eventos do passado, é revertida por motivos desconhecidos e
indeterminados, de maneira que eventos que ainda vão acontecer no futuro
provocam eventos no presente retroativamente, como nos sonhos premonitórios.
Talvez porque eu mesmo lute tanto com meu ego, tenha sido tentado a
acreditar em alguns dos meios lisonjeiros através dos quais esses eventos podem
ser entendidos, a noção de sincronicidade de Jung é atraente para mim como um
exercício de prudência, baseada mais naquilo que é conhecido do que naquilo
que podemos especular se é verdade. Na mesma moeda, saber que algumas
pessoas chegam a uma apreciação da natureza sincronística de seus sonhos tão
naturalmente e sem qualquer treinamento a não ser sua própria experiência é
gratificante.
Marie, uma conhecida minha de muitos anos, dividiu comigo a experiência
de um sonho que ela teve depois do nascimento de seu filho. Ela e seu marido
tiveram muitos problemas para conceber esse filho, tentando durante vários anos
sem sucesso, fazendo, portanto, da falta de fertilidade uma questão em torno da
qual girava sua vida. Depois que seu filho nasceu, a situação econômica da
família fez com que Marie continuasse seu trabalho como enfermeira, mesmo
sentindo a necessidade de uma mudança.
Marie sempre olhou para dentro em busca de orientação, e uma noite ela foi
para a cama pedindo para ter alguma luz com relação ao seu dilema. Se Marie
fosse uma pessoa diferente, poderia facilmente ignorar o sonho que teve naquela
noite: ela sonhou que ia à clínica de fertilidade que ela visitara tantas vezes como
cliente, mas dessa vez, em seu sonho, ela estava indo para trabalhar.
Enquanto acordava e lembrava claramente de seu sonho, Marie não
conseguiu descartar a possibilidade de que poderia haver um significado
sincronístico nisso, principalmente porque ela se preparara antes de dormir
naquela noite para estar aberta para qualquer resposta que se apresentasse. Ela
ligou para a clínica imediatamente. A recepcionista reconheceu seu nome, é
claro, e um tanto intrigada com o motivo do telefonema, perguntou hesitante se
Marie queria marcar uma consulta. Marie disse que não estava querendo uma
consulta. O bebê estava bem, disse ela, e acrescentou que estava ligando para ver
se havia alguma vaga, pois ela estava procurando trabalho.
A recepcionista disse que de fato justo naquele dia ela soubera de uma vaga
para enfermeira em uma escola. Se Marie queria as informações sobre o
trabalho? Marie disse que sim e seguiu a dica, conseguindo o trabalho e a
mudança em sua carreira que estava querendo fazer há algum tempo, desde o
nascimento de seu filho. Como Marie mesmo colocou: “E o trabalho perfeito
para mim. Estou trabalhando com crianças em idade escolar, então tudo que eu
faço no meu trabalho se aplica à minha família, e tudo que faço com a família se
aplica ao trabalho. E simplesmente a mudança perfeita, da qual eu precisava.”
Pode-se discutir infinitamente, suponho, sobre as causas dessa coincidência.
Teria Marie recebido uma visão de Deus em forma de sonho? Teria ela percebido
subliminarmente a informação da última vez que visitou a clínica ou escutou
uma conversa na rua, para que seu inconsciente a formulasse na forma do sonho
que ela lembrava? Seria ela clarividente enquanto dorme? Mas enquanto
perguntas como estas não serão nunca respondidas e nem necessitam ser para
nossos propósitos, não se pode discutir o significado sincronístico do
acontecimento para Marie, para quem encontrar o trabalho foi uma grande
coincidência significativa, tampouco a forma pela qual, sem ler qualquer livro
sobre sincronicidade, mas simplesmente estando aberta para a conexão entre sua
experiência subjetiva e a realidade exterior, Marie juntou elementos díspares de
sua história num todo coerente.
Símbolos dos Sonhos e Acontecimentos Sincronísticos
Até agora, enfocamos sonhos cujas imagens têm paralelos quase literais com
subsequentes acontecimentos externos. Porém, a natureza simbólica das imagens
dos sonhos em si algumas vezes fica ecoando, significativamente, ao longo de
nossas vidas exteriores. A história de Bobbie, na introdução, na qual sua série de
sonhos com o baralho de tarô coincidiu com um excêntrico presente de um
baralho de tarô da parte de seu marido, é um exemplo de como um símbolo
interno pode ser encontrado por acaso na vida exterior. Bobbie não sonhou que
seu marido lhe dera um baralho de tarô: a conexão sincronística ao contrário era
o símbolo que se repetia, por um acaso significativo, na sua vida exterior.
Numa tarde chuvosa em San Francisco, Jonathan, um consultor de
computador meu amigo, contou-me a seguinte história em resposta à minha
descrição deste livro. No inverno anterior, o barbeiro que cortava o cabelo de
Jonathan há mais de quinze anos morreu depois de uma longa doença. Embora
ele conhecesse esse homem há um tempo considerável, Jonathan não
considerava o homem como um amigo, mesmo tendo convidado um ao outro
para festas, tendo almoçado juntos ocasionalmente depois de um corte de cabelo
e tido amigos pessoais e de negócios em comum. Como seu relacionamento não
era uma amizade íntima nem um conhecimento superficial, a morte de seu
barbeiro, me disse Jonathan, foi muito esquisita de enfrentar. O que ele deveria
fazer? O que deveria sentir? Que resposta deveria ter?
Na noite anterior ao serviço fúnebre do homem, Jonathan sonhou que estava
em frente a uma casa semiconstruída. A estrutura estava lá, mas as paredes não
tinham sido feitas ainda e ele tinha a sensação de que agora cabia a ele finalizar
o trabalho. O sonho ficou com ele, disse, porque as imagens eram tão claras e a
sensação de obrigação de terminar o trabalho muito vivida. Mais tarde, naquele
dia, soube que o principal texto da Bíblia escolhido pelo padre para o serviço
fúnebre de seu barbeiro era uma série de versos do livro dos Provérbios, que
começa com “A sabedoria construiu sua casa, ela assentou suas sete colunas”, e
continuava com outros versos relativos ao simbolismo da casa, incluindo: “O
fraco será destruído e não existe mais, porém a casa do justo ficará de pé” e “A
sabedoria construiu sua casa, porém a tolice a pôs abaixo com suas próprias
mãos”.
Jonathan levantou as sobrancelhas, enquanto me contava a história. “Devo
dizer, eu estava tão surpreso pela forma como meu sonho e a leitura do serviço
funeral se encaixavam, sem mencionar que o padre se referia continuamente à
vida de meu barbeiro como uma casa que ele havia construído, uma estrutura
que todos nós que o conhecíamos ajudamos a construir com ele. Fez-me pensar
em minha própria vida e sobre o poderoso sonho que eu tivera naquela manhã.
Estaria eu sendo sábio ou tolo? Por que a casa do meu sonho tinha sido deixada
inacabada? Seria isso a minha vida?
“Isso me fez sentir que o símbolo da casa, junto com a morte do meu
barbeiro, me avisavam que havia certas coisas que eu precisava fazer para pôr
minha casa em ordem, coisas que eu queria ignorar e deixar os outros fazerem
por mim, coisas que eu não poderia encarregar a outros. Eu não sou muito dos
que acreditam em sonhos, mas se você quer uma coincidência significativa, essa
foi uma delas.”
Perguntei a Jonathan a respeito do que exatamente ele estava falando, que
tipo de coisa ele sentiu que precisava fazer para botar em ordem sua casa.
“Bem, para começar, fiz um testamento. Finalmente marquei um encontro
com um consultor financeiro e acabei aplicando dinheiro em um fundo de
aposentadoria. Eu tinha sempre visto essas coisas como parte do trabalho de
minha mulher: eu fazia o dinheiro, ela o administrava para nós. Porém, naquele
dia na igreja, quando ouvi as palavras da Bíblia em cima do meu sonho, fui
atingido de alguma maneira.”
Pressionei-o um pouco no sentido de que poderia estar somente respondendo
ao fato de que alguém que ele conhecia tinha morrido.
“Isto era definitivamente uma parte, embora eu já tivesse estado em outros
funerais, de pessoas de quem eu me sentia bem mais próximo, que nunca
tiveram esse efeito. Foi essa estranha coincidência entre o sonho e as passagens
da Bíblia naquele dia. Eu ainda recito as palavras para mim mesmo até hoje. ‘A
sabedoria construiu sua casa, porém a tolice a pôs abaixo com suas próprias
mãos.’ Palavras poderosas.” E com isso Jonathan sacudiu a cabeça e mudou de
assunto.
Histórias como essa, eu confesso, são do tipo de história relativa aos sonhos
sincronísticos que eu considero as mais atraentes, pois desafiam todas as
tentativas de colocar o sonho dentro de uma corrente de causa e efeito. O sonho
que o próprio Jung usa para ilustrar os limites da racionalidade e o poder de
nossa imaginação noturna se tornou uma lenda tradicional nos anais da
sincronicidade, é, portanto, uma história apropriada para contar ao encerrarmos
nossa discussão sobre sonhos “premonitórios”. Vou deixar Jung contar a história:
O problema da sincronicidade me intriga há muito tempo, desde meados dos
anos vinte, quando eu estava investigando o fenômeno do inconsciente coletivo e
sempre encontrava conexões que eu simplesmente não podia explicar como
agrupamentos casuais ou “repetições”. O que encontrei foram “coincidências”
que eram tão significativamente ligadas que sua ocorrência por “acaso”
representaria um grau tão grande de improbabilidade que teria que ser
demonstrada através de um número astronômico. Para exemplificar devo
mencionar um incidente observado por mim...
Meu exemplo se refere a uma jovem cliente que, apesar dos esforços de
ambos os lados, provou ser psicologicamente inacessível. A dificuldade estava
no fàto de que ela sempre sabia tudo. Sua excelente educação fornecera a arma
ideal para esse propósito, isto é, uma racionalidade cartesiana altamente polida
com uma ideia da realidade impecavelmente “geométrica”. Depois de várias
tentativas infrutíferas para transformar sua racionalidade numa compreensão
mais humana, tive que confiar na esperança de que algo inesperado e irracional
aconteceria, algo que romperia com a retórica racional na qual ela se havia
trancado. Bem, eu estava sentado em frente a ela um dia, de costas para a janela,
escutando sua torrente de retórica. Ela tivera um sonho impressionante na noite
anterior, no qual alguém lhe dera um escaravelho de ouro — uma peça cara de
joalheria. Enquanto ela ainda estava me contando esse sonho, eu ouvi algo
batendo suavemente na janela. Virei-me e vi que era um inseto voador
relativamente grande que estava batendo contra o vidro pelo lado de fora num
esforço óbvio para entrar na sala escura. Isso me pareceu bastante estranho. Abri
a janela imediatamente e peguei no ar o inseto quando ele voou para dentro. Era
um escaravelho comum, cuja cor verde-doura- do quase se parecia com as de um
escaravelho de ouro. Eu entreguei o escaravelho para minha paciente com as
palavras: “Aqui está seu escaravelho.” Essa experiência abriu o buraco do desejo
em sua racionalidade e quebrou o gelo de sua resistência intelectual. O
tratamento pôde então continuar com resultados satisfatórios.2
Reconhecidamente, parte do charme duradouro dessa história é a forma floreada
com que Jung narra ele próprio dando ajuda e subsídio à sincronicidade, se
certificando de que o sentido do sonho e seu acontecimento paralelo no mundo
exterior não se perdessem diante de sua paciente recalcitrante e intelectual.
Como mencionamos anteriormente, conexões casuais podem com frequência se
beneficiar ao serem apresentadas através de um estilo correto para um maior
efeito transformador.
Mesmo que cada experiência sincronística seja em si única, parece haver padrões
nessas experiências, especialmente para pessoas que resistem a reconhecer os
níveis inconsciente, irracional e simbólico de suas existências. Quando o
Primeiro Ato de nossas histórias consiste de nosso ego cavando, e querendo tudo
à sua maneira, faça chuva ou faça sol — como no encontro arranjado de Kathryn
ou na recusa de Elise em considerar a comédia musical —, então o palco está
montado para que mais tarde um acidente do acaso levante a cortina para um
Segundo Ato muito diferente.
Trabalhando durante meses com um cliente que dizia querer trabalhar seus
sonhos comigo mas que menosprezava, resistia e denegria todas as tentativas de
encontrar significado nos sonhos que ele desafiadoramente contava em nossas
sessões, eu continuei em frente de certa forma esperançoso com ele, levando
cada um dos sonhos a sério, porém sentindo sinceramente que não estávamos
chegando a lugar algum. No entanto, quando eu sugeria que talvez trabalhar os
sonhos não estivesse sendo realmente produtivo, ele insistia que estava, e assim
continuávamos.
Quando terminamos uma das sessões, depois de termos gasto bastante tempo
com um sonho que ele tivera com um cachorro, tentando associações que eram
negadas, propondo possibilidades que eram derrubadas, sugerindo possíveis
sentimentos evocados no sonho pelo cachorro, que ele negava, tive que admitir
que estava aliviado. Levantei-me e abrindo a porta do consultório, que fica em
um edifício de escritórios no centro de Berkeley, eu gostaria de ter a
graciosidade de Jung para mostrar ao meu cliente o que via — pois na porta,
sentado obediente e atentamente, como que esperando que abríssemos a porta,
estava um grande e bem-comportado golden retriever.
Mudo de espanto, eu olhei para o meu cliente, que olhava do cachorro para
mim, depois para o cachorro. E sem dizer uma palavra, porém deixando no ar
uma sensação de mistério, ele partiu, os dois imaginando como um cachorro veio
parar sentado tão educadamente dentro do prédio do meu consultório, olhando
justamente para nossa porta.
Na semana seguinte, fiquei feliz ao perceber que meu cliente não estava mais
tão teimosamente antagônico à possibilidade de que seus sonhos poderiam
conter um significado para ele, e que a aparição do cachorro, um fato que nunca
discutimos, marcava o fim do tipo de resistência ao trabalho com sonhos que ele
havia mostrado durante toda a primeira parte do nosso trabalho juntos. Algumas
vezes um acontecimento sincronístico nem precisa de análise para ter um efeito
transformador, pois algumas vezes a história é tão perfeitamente elaborada que
atinge seu efeito sem mesmo você tomar conhecimento dela.
Mais do Que Você Sabe: Sonhos “Extra-sensoriais”
Além dos sonhos que coincidem com um acontecimento subsequente de uma
forma sincronística, muitos sonhos parecem revelar não somente o que será,
porém o que é, de uma maneira impossível de saber através da nossa experiência
sensorial normal. A palavra que a maioria das pessoas usa, “extra-sensorial”, é a
descrição mais simples para esses sonhos, porém empregar este termo, acredito,
confunde a questão da causalidade de uma forma não verdadeira dentro do
conceito de sincronicidade.
Para dar um outro exemplo relativo a cachorros, quando uma cliente minha
contou um sonho que ela tivera no qual eu brincava no quintal de uma casa com
um enorme cachorro branco, senti inicialmente aquela sensação familiar de
arrepio de uma sincronicidade a caminho, pois na verdade eu tenho um grande
cachorro branco da raça Samoyed em casa, conhecido entre os amigos e a família
por sua personalidade extrovertida e seu jeito mandão.
Contendo minha excitação, no entanto, percebi que fora uma boa coisa não
ter seguido o exemplo de Jung e feito uma dramática declaração sobre as
habilidades “extra-sensoriais” dessa cliente, pois quando ela começou a falar
sobre o sonho, ela estava muito reticente sobre sua clarividência: “Eu imagino
que sonhei com seu cachorro branco porque sempre vejo os pelos brancos nas
bainhas de suas calças. Ou é isto ou você tem um gato do Himalaia. Qual dos
dois?” Humildemente tive que admitir que talvez isso não fosse tanto um
exemplo de sexto sentido da parte dela, porém falta de aspirador de pó da minha
parte.
Não que não tenhamos seguido adiante e trabalhado produtivamente com
esse sonho, nem quando minha cliente associou livremente seu sonho aos
cachorros em geral com um cachorro em particular, nem quando exploramos o
que a minha imagem brincando com o cachorro queria dizer, como ela se sentia
em relação a mim como pessoa e sobre o nosso relacionamento. Obviamente,
conexões causais — ela viu os pelos brancos nas minhas calças e sonhou com o
que aquilo a fez pensar — podem ser tão significativas quanto as conexões
causais das sincronicidades.
Por outro lado, eu tenho clientes que contam sonhos com uma quantidade de
detalhes sobre minha vida pessoal que seriam impossíveis deles saberem, e os
quais, com certeza, nunca lhes revelei. Uma mulher sonhou que era meu
aniversário quando de fato era meu aniversário. Outra sonhou repetidamente
com o número 909, que é o endereço não-divulgado de minha casa. E outra, uma
vez, sonhou com uma trama que fazia um paralelo perfeito com um conto no
qual eu estava trabalhando, e que jamais tinha contado a ela.
Seriam elas sincronísticas, no sentido do termo que entendemos, ou seja,
significativas? Para mim eram, mesmo que tenham o alto conteúdo dramático de
alguns dos outros incidentes que contei ou experimentei, mas elas serviram para
reforçar o fator pessoal no relacionamento que eu tinha com esses clientes. Elas
eram como os pequenos toques que um escritor dá ao cenário no qual o
acontecimento principal da história se desenrola — a cortina num tom de roxo
profundo cuja cor reflete os sentimentos do personagem, o carinho na face que
cria um sentimento de ternura, o tom alegre da voz da recepcionista para
melhorar o humor.
Pequeno ou grande, dramático ou fútil, os sonhos sincronísticos e seus efeitos
em nossas histórias sempre nos desafiam a reconhecer o significado do acaso no
fio da trama que estamos vivendo. Como no meu sonho com a minha antiga
cliente Grace, na semana antes dela encerrar sua terapia comigo, minha
experiência com Jerry mudou o curso de minha biografia profissional e serviu
como uma ilustração hábil, embora dolorosa, de quão difícil pode ser algumas
vezes não tirar conclusões objetivas e causais sobre as interseções dos sonhos e
os acontecimentos externos.
Na minha experiência, os indivíduos geralmente procuram a psicoterapia por
duas razões. Algumas pessoas, capazes de lidar com a vida nos seus próprios
termos, vêm para o aconselhamento por causa de circunstâncias fora do comum
que as oprimiu e as levou a procurar ajuda; e algumas pessoas vêm porque sua
criação e desenvolvimento não são suficientes para torná-las capazes de lidar
com o estresse e a pressão comuns da vida diária.
Jerry se encaixa perfeitamente na primeira categoria. Bem-adaptado, com um
bom emprego num campo criativo, ele veio até mim por causa de duas situações
extraordinárias que ele precisava de ajuda para lidar: ter sido diagnosticado
portador de AIDS e a preocupação com a velhice de seu pai depois da morte de
sua mãe. Qualquer uma dessas situações já seria motivo suficiente para até
mesmo a pessoa mais competente procurar apoio; juntas, elas oprimem todas as
reservas emocionais de Jerry. Esperando sinceramente uma terapia de
aconselhamento de curto prazo, trabalhei com ele durante um certo número de
meses, dando-lhe apoio, checando com ele semanalmente que providências
havia tomado em relação à sua saúde, pesquisando com ele o que fazer para
mudar seu relacionamento com seu pai para que ambos pudessem cuidar de suas
necessidades, e depois de um período de pouco menos de um ano, tudo parecia
estar caminhando suavemente. A saúde de meu cliente estava estável graças ao
tratamento preventivo que ele estava fazendo para o HIV, e seu pai tinha se
mudado, com a ajuda e insistência do meu cliente, para uma comunidade de
aposentados onde muitas de suas necessidades sociais e físicas poderiam ser
atendidas sem a vigilância constante do seu filho.
Concordando que ele havia realizado aquilo para que tinha vindo, que era
como eu esperava em vista de seu pé firme na vida, terminamos nosso trabalho e
eu lhe desejei tudo de bom. Um ano mais tarde porém, surgindo do nada, sonhei
com Jerry. Ele estava numa casa de praia, deitado muito quieto em uma cama e
respirando muito lentamente. O sonho era ansioso, com uma sensação de que
algo estava errado, porém eu não estava no sonho e, portanto, não havia nada
que eu pudesse fazer senão olhar. Eu acordei inseguro naquela manhã,
lembrando claramente do sonho, e pelo resto da semana pensei muito em meu
antigo cliente. Muitas vezes cheguei perto do telefone para ligar para ele, só para
conferir, porém avaliava a mim mesmo, descontando minha ansiedade e dizendo
que ele não era do tipo de pessoa que aceitaria bem um telefonema preocupado
de antigos terapeutas. Para encurtar, eu fiz o que a maioria das pessoas fària
diante das circunstâncias: ignorei o sonho como se fosse uma peça de minha
imaginação.
Meses se passaram antes que eu fosse obrigado a ver quão poderosos esses
truques da imaginação podem ser. Um dia, inesperadamente, recebi um
telefonema urgente de Jerry. Ele veio ao meu consultório no dia seguinte,
parecendo emocionalmente exaurido, cansado e obviamente deprimido. Ao
longo de um relacionamento difícil que havia começado depois que tínhamos
terminado o trabalho juntos, todos os sentimentos que ele havia reprimido
durante anos e anos gerenciando, representando e lutando o alcançaram, até que
um dia, ele me contou, meses atrás, registrou-se em um hotel na beira do mar,
onde sua família tinha passado as férias inúmeras vezes quando ele era criança, e
seguindo a receita ensinada em um livro sobre suicídio assistido, tomou o
coquetel de drogas sugerido para se matar. Cansado de viver, certo de que teria
uma morte sofrida por causa da AIDS, e se sentindo desamparado por todos, ele
me contou que naquele momento decidiu que o melhor era acabar com tudo.
Perguntei-lhe o que tinha acontecido, preocupado com a situação e
lembrando com apreensão do meu sonho de muitos meses atrás.
“Bem, eu só fiquei lá deitado inconsciente durante quase três dias, até que
acordei me sentindo uma merda, porém vivo, é claro, e fui para casa. Ninguém
apareceu procurando por mim. Na verdade, parece que ninguém sequer sentiu
minha falta. No trabalho pensaram que eu tinha saído, num impulso de
momento, para um fim de semana prolongado. Meu pai e eu não nos falamos
com tanta frequência, e a mulher com quem eu tinha rompido, naturalmente, não
se surpreendeu que eu tivesse sumido de vista por um tempo.”
O terapeuta ideal, ensinaram-me, deve pensar em cada intervenção de cada
cliente, mas tenho que admitir que dessa vez, se eu pensei, foi rápida e
intuitivamente. Perguntei-lhe quando isso havia acontecido e ele me disse as
datas.
No primeiro momento disponível depois da sessão, consultei o meu diário de
sonhos, e, de fato, eu tivera o sonho na semana anterior à sua tentativa de
suicídio. Na semana seguinte, quando Jerry chegou, contei-lhe o que havia
sonhado e quando, na verdade lendo para ele o meu diário. Mais do que
levemente curioso em saber como ele reagiria à informação de que a imagem
que eu tivera continha um fantástico paralelo com o que, de fato, tinha
acontecido, minha esperança era que ele reconhecesse, a partir do meu sonho
sincronístico, mesmo que naquele momento ele não tenha sentido uma conexão
com ninguém ou com coisa nenhuma, que essas conexões existem mesmo assim.
Fico feliz ao dizer que Jerry aceitou minha auto revelação dentro do espírito
desejado, e continuamos nossa terapia por mais algum tempo depois disso.
Contudo, durante meses, eu ainda me pegava silenciosamente me auto
recriminando por não ter telefonado para ele quando tive o sonho, fazendo
inconscientemente aquilo que eu tinha visto muitas pessoas fazerem quando
enfrentam esse tipo de sincronicidade, agindo como se o sonho tivesse sido
premonitório, que é simplesmente uma outra forma de colocar meu ego no
centro das coisas, imaginando, na minha grande sabedoria, que poderá ter — e
na verdade, foi — sido concedido a mim, de alguma forma, um lampejo do
futuro, e que como Deus eu deveria ter interferido para mudar o curso da
história. O fato é que o sonho não tinha sido sincronístico para mim até o
momento em que eu descobri por mero acaso que um fato externo tinha um
extraordinário paralelo com a minha própria experiência interior. E esse é o
perigo de ver tais sonhos como “premonitórios”, pois não se pode nem se deve
autocensurar por não ter interferido em uma situação que, por experiência
própria subjetiva, ainda não tinha acontecido.
O significado desse evento não está na minha ação ou falta de ação, mas na
forma como o fato de eu ter sonhado com ele mudava muitas das suposições que
Jerry havia feito sobre qual era sua posição nos corações e mentes de outras
pessoas. Como tende a acontecer num evento sincronístico, a linha entre o
subjetivo e objetivo, interior e externo, nós e o outro, torna-se um ponto de
encontro, um ponto onde a trama do que fazemos e o personagem que somos se
juntam e é, como em toda boa história, resolvido no final.
Obviamente, o trabalho psicoterapêutico não é o único lugar onde os sonhos
sincronísticos figuram decisivamente na trama, mesmo se a relação terapêutica
seja um dos poucos lugares em nossa cultura nos quais os sonhos são
encorajados, examinados e apreciados. O vínculo especial entre mãe e filho é
sabidamente um relacionamento no qual todos os tipos de sincronicidades
ocorrem, inclusive aquelas que envolvem sonhos, e o sonho do meu colega Pete
relativo à mãe que nunca conhecera mostra quão decisivamente um sonho
sincronístico pode mudar toda a história de nossa vida.
Adotado ao nascer, porém sem muito desejo de localizar seus pais naturais,
Pete, aos vinte e sete anos, começou a ter o que me descreveu como uma série de
sonhos insistentes sobre seus pais naturais. Os sonhos, ele me contou, eram reais
o suficiente para chamarem sua atenção durante dias seguidos naquela época, e
ele se sentiu compelido a dividir muitos deles com seus amigos. Sentindo-se
bastante protetor e leal aos seus pais adotivos, ele jamais tinha pensado em
procurar seus pais naturais até esses sonhos se tornarem insistentes, então, em
resposta direta a esses sonhos, ele foi em frente e conseguiu toda informação
não-identificada que pôde da agência de serviços sociais através da qual fora
adotado.
Foi quando Pete descobriu a quantidade de detalhes sobre seus pais naturais
que lhe havia sido revelada com precisão em seus sonhos: sua herança étnica,
por exemplo, como também o fato de que quando os sonhos começaram ele
tinha a mesma idade que sua mãe natural quando abriu mão dele. Na esperança
de que agora que obtivera todas as informações seus sonhos iriam cessar, Pete
constatou que eles continuaram, até que uma noite ele teve um sonho no qual lhe
diziam em termos precisos: “O nome de sua mãe é Gladys.” Pete considerou o
sonho sem sentido, pois o nome de sua mãe adotiva era Gladys. O que ele me
contou que não tinha levado em consideração naquele momento era de que o
sonho poderia estar lhe trazendo uma outra mensagem diferente.
Depois de mais ou menos outro ano com esses sonhos, Pete levou a sério a
sugestão daqueles à sua volta que estavam convencidos de que havia uma razão
inconsciente para esses sonhos, e começou a encarar ativamente a busca de seus
pais naturais. As leis do estado onde ele tinha sido adotado eram liberais nesse
sentido, requerendo somente o consentimento dos pais naturais e o adotado ser
adulto para liberar a informação da identificação. Pete achou que seria um
processo fácil, pois a assistente social com quem havia falado anteriormente dera
indicações de que sua mãe tinha deixado esse consentimento. No entanto,
contatando novamente a agência, ele foi informado pela nova assistente que esse
consentimento não estava nos arquivos e que ele deveria iniciar sua própria
busca, foi quando, frustrado e aborrecido, ele viu que o sonho podia ser útil.
Na tentativa de convencer a assistente pelo telefone a liberar para ele ao
menos o nome de sua mãe natural e seu último endereço conhecido, ele disse a
ela que havia sonhado que o nome dela era Gladys. Muda de espanto, a
assistente levou um longo tempo para recuperar o fôlego.
“Ah, eu entendo”, disse ela com a voz trêmula. “Bem, seu nome é Gladys”, e
sentindo a força do sonho sincronístico de Pete, ela foi persuadida a revelar a
informação, dizendo, “Se alguém algum dia perguntar, responda somente que
veio do seu sonho”. Dois dias mais tarde, depois de uma pesquisa nos catálogos
telefônicos, Pete localizou sua mãe natural e conseguiu estabelecer um
relacionamento muito satisfatório com ela.
Contando esse pequeno trecho de sua biografia, Pete continua se espantando
não somente pela coincidência entre o sonho e o nome de sua mãe, que já é
suficientemente significativa, mas com a estranha coincidência de ambas as suas
mães terem o mesmo nome. Estando tão aflito desde o início da busca de sua
mãe natural, ele me disse que, outra vez, o significado dessa coincidência está no
valor simbólico, a coerência que representou em relação à sua vida. Ela dá à
história da sua vida aquela dimensão de beleza da qual falou Kundera, um
pequeno detalhe coincidente porém significativo, num conto, como também na
biografia de Pete, sentimos que se aplica de alguma forma.
Os sonhos “extra-sensoriais” que ouvimos até agora têm muito a ver com um
evento externo ocorrendo simultaneamente à imagem inconsciente interna de um
indivíduo. No entanto, o fenômeno de um sonho compartilhado — o mesmo
sonho compartilhado por duas ou mais pessoas ao mesmo tempo — é um outro
gênero na categoria geral dos sonhos sincronísticos que temos explorado.
Apresentada a mim por amigo que sabia que eu estava trabalhando neste livro,
Naomi me contou a história de como experimentou um tipo de sonho
sincronístico.
Naomi faz parte de um grupo fechado de amigos desde a sua juventude.
Enquanto estava sentada em casa um dia contando a novos amigos histórias de
seu antigo grupo, alguém do antigo grupo telefonou só para recordar os velhos
tempos. Encantada em ouvi-lo de uma maneira tão sincronística, ela implorou
por um papo mais longo e marcou uma hora para se encontrarem.
Quando ela e seu amigo se encontraram na semana seguinte e depois que o
requisitado papo foi posto em dia, eles começaram a conversar sobre um amigo
comum que havia morrido, um homem tão querido por todo o grupo que eles o
haviam apelidado de São Chris. Sentindo-se um pouco envergonhada de não ter
mantido contato com Chris durante seus últimos anos, Naomi confessou ao seu
amigo que durante muito tempo teve uma série de sonhos com Chris, vendo-o
em vários lugares em seus sonhos, fazendo várias coisas, vendo uma expressão
de espanto na cara de seu amigo. “Você também, hem.?”, disse ele, começando
com a sua série de sonhos sobre São Chris que ele nunca tinha contado a
ninguém, sonhos esses que eram idênticos aos de Naomi.
Perguntei a Naomi o que ela achava dessa coincidência. Ela respondeu
dizendo que havia duas sincronicidades aí. Primeiro, seu velho amigo entrou em
contato justo num momento em que ela precisava saber dele, especialmente por
causa de seus sentimentos de perda a respeito do antigo grupo de amigos.
Segundo, a descoberta de que sua tristeza sobre Chris e o antigo grupo era
compartilhada deu-lhe um sentido de ligação que ela sentiu a necessidade de
reparar.
A sensação que tenho depois de falar com Naomi é aquilo que, na literatura
da sincronicidade, é algumas vezes descrito como o campo inconsciente sendo
ativado, semelhante ao campo elétrico ou magnético, exercendo sua influência
nas pessoas que se encontram dentro do alcance desse campo. Outra metáfora
usada com frequência por Jung para descrever essa experiência de coincidências
simultâneas é que um conjunto de complexos arquetípicos se “propagam”
através dos sentimentos que duas pessoas compartilham sobre uma importante
virada dos acontecimentos nas histórias de suas vidas. A descrição da sensação
de ter um sonho compartilhado com um velho amigo, como um campo
inconsciente ativado, considero uma boa metáfora, pois resume o sentido de
estar incluído, de conexão mútua e de consciência de grupo que, para Naomi, era
o maior significado do incidente.
O problema, no entanto, com essas metáforas é que é muito tentador tentar
usar a metáfora concretamente como uma forma de explicar o que podería ter
“causado” essas coincidências, da mesma forma que é possível explicar por que
duas bússolas apontam para o norte magnético ao mesmo tempo em partes
diferentes do globo. O surpreendente do sonho compartilhado de Naomi, em
minha opinião, é precisamente que não poderia ter sido causado por um “campo
energético” ou “vibrações cósmicas”, mas estava além do controle consciente ou
inconsciente de qualquer um. O caráter extraordinário e definitivamente
inexplicável do evento serviu para chamar a atenção de Naomi para o quanto
Chris e todos os seus amigos significavam para ela enquanto ela seguia com sua
vida para um outro capítulo. A visão de Naomi da história é, ao menos para mim,
um desfecho que não perde em significado sem uma causa discernida.
Eu Posso Sonhar, Não Posso? Trabalhando Com Sonhos
Para realmente apreciar os sonhos sincronísticos, nossos e de qualquer pessoa,
precisamos, como disse no início deste capítulo, ser capazes de trabalhar
produtivamente com os sonhos, e o primeiro passo para fazer isso é presumir que
o que sonhamos é significativo. No início da moderna psicologia, isso era uma
dedução audaciosa, mas atualmente, apoiada por muitos anos de teorias
psicológicas, e até por pesquisas experimentais, vemos que a dedução do
significado nos sonhos não é nem primitiva nem autoprotetora.
Mesmo assim, deduzir o significado dos sonhos não quer dizer que o sonho
seja uma mensagem na garrafa do inconsciente, para ser decodificada a fim de
dar indicações secretas sobre situações específicas, como os dicionários dos
sonhos exibidos em bancas de jornais nos querem fazer acreditar, nos quais os
símbolos são listados alfabeticamente, de A a Z, e são dadas interpretações num
padrão universal, boas para todos, em todos os tempos.
O significado que um sonho carrega é mais como o significado de uma
história. Como os infinitos volumes de interpretação literária atestam, muitos
significados válidos podem ser encontrados para a mesma história, que podem
ser úteis para nos proporcionar uma introspecção, em nós mesmos como leitores
e dentro do mundo do autor da história. O mágico de Oz, de L. Frank Baum, por
exemplo, tem sido interpretado sob uma ampla variedade de perspectivas. O
significado psicológico que muitos junguianos, inclusive eu, encontramos na
história, vendo Dorothy como símbolo do arquétipo feminino e a história de sua
jornada como heroína dessa aventura em busca da maturidade emocional, é
apenas mais um dos vários significados que as pessoas encontram na história de
Baum. Em contraste, fui um dia presenteado com uma interpretação de um
homem que argumentava que Baum pretendia que sua história fosse uma
parábola da situação econômica dos Estados Unidos no início do século XX
quando a confiança americana no padrão do ouro — a estrada de tijolo amarelo
— deveria mudar para uma confiança em outra fonte de prosperidade
simbolizada pela Cidade das Esmeraldas e o Mágico de Oz.
Minha intenção ao citar essa larga variedade de exemplos de interpretação
literária no contexto do trabalho com os sonhos é para prevenir contra assumir
uma postura que infelizmente muitos críticos se sentem obrigados a assumir com
relação às suas interpretações de um texto: minhas ideia s estão certas, as suas
erradas; eu sei o verdadeiro significado do trabalho, você não. Lidando com um
trabalho literário, deve haver alguma justificativa para essa atitude, sabendo o
quanto uma interpretação conta para o texto. Uma interpretação do Mágico de Oz,
por exemplo, que não tenha nada a dizer sobre o papel da Bruxa Malvada do
Oeste na história, não seria obviamente uma interpretação muito boa. Porém, nos
sonhos, nos quais o texto é totalmente subjetivo, pode não haver interpretações
absolutamente certas ou erradas: elas são meramente interpretações melhores ou
piores.
Como na crítica literária, a precisão da interpretação do sonho depende em
parte do quanto essa interpretação que fazemos, seja qual for, leva em conta a
complexidade das imagens do sonho ou da série de sonhos. Porém, diferente da
crítica literária, nossa interpretação dos sonhos deve sempre levar em conta
também nossa experiência subjetiva — de como o sonho nos fez sentir, sobre o
que o sonho nos fez pensar e como o sonho se encaixa na visão geral da história
de nossas vidas. Uma interpretação que leve em conta as imagens mas ignore a
experiência interna ou o significado dela para quem sonhou não é uma
interpretação que valha muito, não importa quão elegante ou compreensível seja.
E em relação aos sonhos sincronísticos em particular, como eu espero ter
deixado claro até agora, nossa habilidade em avaliar nossa experiência subjetiva
é o segredo dessas coincidências enriquecerem ou não nossas vidas.
Para algumas pessoas que compartilharam suas histórias comigo, essas
atitudes duplas — deduzir o significado e valorizar a experiência subjetiva —
vêm naturalmente, pois elas cuidam de suas vidas interiores — seus sentimentos,
suas fantasias, seus sonhos — com tanta seriedade quanto fazem com sua vida
externa — seus relacionamentos, suas vidas profissionais. Na verdade, para
pessoas como os terapeutas, que gastam a maior parte de suas vidas pessoal e
profissional dedicados ao desenvolvimento da vida interior de si mesmo e dos
outros, as sincronicidades podem até ser chamadas de “ações da bolsa”. Porém,
as histórias que contei mostram que essas pessoas não possuem o monopólio
sobre os sonhos; não há nada inerentemente especial ou diferente ou talentoso
para que coisas como essas aconteçam a elas. Como Jonathan com seu sonho
sobre acabar sua casa, ou Pete com sua série de sonhos sobre sua mãe natural,
tudo que se precisa é um pouco de insistência de parte da vida interna de cada
um, acompanhada de uma coincidência que chame a atenção, e a importância em
cuidar de sua vida interna se torna uma coisa natural.
Uma vez que todas as pessoas sonham, vejo o sonho como uma ocorrência
diária, e examiná-lo com diligência é provavelmente a melhor maneira de
começar a trabalhar com os sonhos. Algumas pessoas escrevem seus sonhos em
diários, enquanto outras só escrevem seus sonhos de vez em quando, quando o
espírito (ou o sonho) os emociona. Desenhar, pintar ou esculpir as imagens do
sonho é uma técnica mais demorada, porém, para algumas pessoas, para quem as
palavras não vêm fácil, é a única forma de lhes dar a vida de direito.
O sentido de todos esses métodos de registrar os sonhos não está em como
fazê-lo, já que não existe a melhor forma, tampouco a melhor maneira de ler um
livro ou ver um filme. A melhor forma é a que funciona para você. Minha amiga
Yvonne se senta e lê ficção científica do começo ao fim de uma só tacada, para
poder penetrar no mundo criado pelo autor. Eu gosto de expandir a experiência,
fazendo pausas a cada capítulo, para deixar minhas próprias impressões
ferverem e borbulharem até a superfície. Da mesma forma com nossas lendas
interiores. Se você acha que os sonhos têm significado e gasta algum tempo
ficando com seus sonhos de uma forma que se encaixe com sua personalidade,
você irá sem dúvida saber mais a respeito de sua vida interior do que você
jamais achou que fosse possível.
Porque os sonhos são de natureza simbólica, quando eles coincidem
significativamente com eventos de nossa vida externa, o resultado é geralmente a
mesma coisa que acontece quando um bom livro tem o efeito pretendido pelo
autor: nossa percepção acorda, a consciência de quem somos e o do nosso lugar
no universo se amplia e aprofunda. No próximo capítulo, estaremos indo mais
adiante para o íntimo e para o alto, do mundo dos sonhos para o âmago de nossa
espiritualidade, onde a coincidência da vida interior e os eventos externos tomam
um significado transpessoal ainda maior.
Capítulo Cinco
Entrando em Contato com o Autor
Sincronicidade e Nossas Vidas Espirituais
O espírito é o eu verdadeiro.
CÍCERO
Desde o Iluminismo, aquele período decisivo na história ocidental quando a
fé na racionalidade e na ciência empírica começou a desafiar as crenças
religiosas e suplantar a fé nas experiências espirituais, muitos se encontraram
interiormente à deriva, inseguros, sem saber o que fazer com as experiências que
em uma certa época eram vistas simplesmente como atos de Deus em suas vidas,
e que quando vistas sob a luz da razão, ou não faziam sentido ou jamais
poderiam ter acontecido. Além disso, com o sucesso espetacular que a
Revolução Industrial teve em transformar a vida na Terra, essa fé científica
nascida do Iluminismo parecia estar bem-fundamentada, tornando ainda mais
difícil para muitas pessoas valorizar aqueles aspectos de nossas vidas que são
irracionais e subjetivos. Nossas experiências espirituais, para continuar usando a
imagem central deste livro, são vistas meramente como “ficção” sob a
perspectiva de uma visão racional, empírica da vida, e porque os significados
que atribuímos a essas experiências não podem ser provados pois as “causas”
desses fenômenos não podem definitivamente ser determinadas, nossa era
moderna fez da “crise de fé” uma aflição especialmente característica.
Esboçando o presente estado das coisas tão amplamente, como uma
introdução à nossa exploração de sincronicidade e espiritualidade, não desejo
negar o fato de que muitas pessoas modernas têm um conjunto estável de
crenças e práticas religiosas, frequentemente aliadas a comunidades particulares,
denominações ou tradições, que para elas resumem e dirigem suas vidas interior
e externa. Mas mesmo dentro dessas comunidades de fé existe um sentido
distinto de luta.
E para outros, ainda, essa moderna “crise da fé” assumiu outras formas.
Rejeitando as tradicionais crenças religiosas ou reconhecendo que tais práticas e
comunidades não se adaptam nem ajudam a encontrar sentido em suas
experiências, as próprias palavras “religião” ou “espiritualidade” estão
disponíveis e definidas de formas muitas vezes de natureza bastante individual.
Na verdade, na minha experiência, a palavra “religião” é na maioria das vezes
usada explicitamente para falar da religião institucional, e “espiritualidade” fala
de “minhas crenças pessoais” ou “minhas experiências individuais”, uma troca
semântica que tem como resultado um conjunto relativamente organizado de
crenças e práticas que normalmente são conhecidas como “Nova Era”.
Tanto na forma tradicionalmente religiosa como no formato de idiossincrasias
espirituais, o fato é que essas nossas “ficções”, nossas religiões e experiências
espirituais, crenças e práticas, são essenciais e parte universal do ser humano,
não importando quão externamente transformadora a fé na razão e na ciência
tenha sido ou continue a ser. Ser humano é contar histórias, viver e usar símbolos
para dar sentido às nossas vidas, buscar uma experiência profunda, direta,
daquilo que está além da nossa limitada existência mortal, e nenhum amontoado
de tecnologia é capaz de mudar essas nossas características. Ficando com os
primórdios da ciência da psicologia, nos quais havia uma corrida para identificar
em que consistiam os instintos básicos da personalidade humana, Jung fez sua
parte denominando o que ele chamou de “instinto religioso”, baseado em sua
observação de que todas as culturas humanas têm sempre contado histórias de
como as coisas aconteceram para dar sentido ao universo e para viver esse
sentido através de rituais programados para provocar experiências de uma
realidade transcendental.
Atualmente, a tensão é grande entre a forma puramente científica de ver o
mundo e aquela que admite a existência de um poder maior que nós mesmos, e,
querendo ou não, todos nós nos encontramos num estado de profunda transição
sobre o lugar das histórias sagradas em nossas vidas. Serão todas as minhas
crenças “ficção” no sentido menos respeitoso do termo, um conjunto de fantasias
autoindulgentes que formulei ou inventei sobre a natureza da criação para
tranquilizar, confortar ou iludir a mim mesmo? E possível “provar” de alguma
forma a existência de Deus, se tudo o que temos são nossas experiências
subjetivas — o que nos aconteceu individualmente, o que sentimos, o que isso
quer dizer?
Como vimos até agora, onde quer que existam questões profundas, onde quer
que haja uma história para contar, onde quer que haja transições a serem feitas,
aí também encontraremos eventos sincronísticos frequentemente exercendo um
papel importante e algumas vezes decisivo. E com relação às histórias de nossas
vidas espirituais e religiosas, o princípio de conexão não causal que está no
âmago de uma experiência sincronística, a forma como a realidade objetiva é
trazida para dentro do relacionamento significativo através da experiência
subjetiva, permite uma maneira de conciliar as exigências conflitantes da
racionalidade e da crença.
No entanto, neste capítulo não somente estaremos olhando para a forma
como as coincidências significativas moldam as histórias pessoais de indivíduos
em relação a suas vidas espirituais, como o valor dado à experiência subjetiva do
indivíduo nos levará a discutir questões básicas sobre a natureza das
experiências religiosas, sua relação com formas científicas de entender o mundo
e a perspectiva da psicologia sobre ciência e religião. E através das histórias que
ouviremos sobre as sincronicidades na vida espiritual das pessoas veremos mais
claramente o que significa sermos humanos.
Como Encontrei meu Mentor Espiritual
Como descobri ao fazer a pesquisa para o capítulo sobre amor e amizade,
pergunte a alguém como conheceu seu marido, mulher, amante ou companheiro
de vida, e as chances serão de que você ouvirá uma história de sincronicidades.
Portanto, não fiquei surpreso em saber que é a mesma coisa quando eu pergunto
a alguém sobre seu desenvolvimento espiritual. Pergunte a alguém como
conheceu seu mentor espiritual e como embarcou naquilo que considera seu
caminho espiritual e, provavelmente, aconteceu sincronisticamente. O que eu
não esperava, no entanto, falando com as pessoas sobre suas vidas espirituais,
era que poucas pessoas nunca tivessem contado a alguém mais a história de seu
despertar espiritual, um sinal, em minha opinião, de quão desvalorizadas (ou
talvez protetoras) as pessoas se tornaram sobre essas histórias sagradas que, em
outras culturas, têm um lugar central nas relações humanas. Sentime muito
privilegiado, por essa razão, ouvindo histórias e mais histórias sendo-me
reveladas de pessoas que se viram no caminho para uma consciência mais
elevada através de mero acaso.
Em retrospecto, não deveria me parecer estranho que, quando eu estava prestes a
me sentar para começar a escrever o rascunho deste capítulo, recebi um
telefonema de uma moça chamada Ellie. Tendo sabido através de amigos que eu
estava escrevendo um livro sobre sincronicidade, ela pensou em me telefonar e
oferecer a história do seu despertar espiritual. Eu pretendia escrever naquele dia,
porém resolvi praticar aquilo que prego sobre sincronicidade e ficar aberto a uma
coincidência significativa em potencial. Mudei meus planos para encontrar com
ela naquele dia, e logo depois, sob a luz do sol da primavera na Califórnia,
conseguimos nos encontrar no movimentado shopping perto de sua escola.
“Na verdade nunca me sentei para contar isso a ninguém”, disse ela,
igualmente tímida e autoconfiante, “mas a razão pela qual estou aqui falando
com você, e fazendo aquilo que estou fazendo na minha vida em geral, é puro
acaso.” Descrevendo a si mesma como estudante de ciências na UCLA sem
nenhum contato com espiritualidade ou psicologia, Ellie me contou que no ano
anterior, com vinte e cinco anos de idade, ela passou por uma “crise da metade
da vida”, percebendo que a carreira científica para a qual tinha sempre se
preparado não era o que ela queria realmente fazer, porém sem ter ideia de qual
seria sua vocação.
“Era como se eu estivesse no final da vida que eu conhecia como minha. Não
que eu tivesse alguma vez pensado em suicídio ou algo parecido, porém eu sabia
que a vida que eu vinha vivendo tinha acabado.” Por acaso, um amigo deu a ela
uma cópia do livro de Marianne Williamson, que Ellie leu com certo interesse, o
primeiro desse gênero de leitura que ela teve. Intrigada pela perspectiva
espiritual de Williamson, ela pensou que gostaria de ver Williamson falar, mas o
local das palestras e o fato de que Ellie não tinha carro tornava isso quase
impraticável. Descobrindo que Wlliamson também tinha um programa de rádio,
Ellie tirou um tempo para sintonizar no programa regularmente, durante um
período de seis meses, ficando cada vez mais atraída por suas mensagens
espirituais.
Ellie ficou intrigada especialmente pelas frequentes referências de
Williamson a um centro comunitário espiritual chamado Agape Center, e,
através do catálogo de endereços, conseguiu o número do telefone, descobrindo
então por pura sorte que ficava a uma distância de dez minutos a pé de onde ela
estava morando. Quando Ellie começou a frequentar as atividades do centro
regularmente, na mesma época seu tio, que estava treinando para praticar a
hipnose como terapia, perguntou se Ellie gostaria de fazer hipnose com ele, não
com propósitos psicoterapêuticos, mas para ajudar a parar com seu hábito de
roer as unhas.
“Então lá estava eu, na verdade sem programar, frequentando o Agape Center
e a hipnose”, me disse ela, continuando calmamente sua história, como se fosse
difícil para ela acreditar em si mesma. Uma noite, enquanto seu processo de
descoberta interior continuava em ambos os locais, Ellie estava sentada em uma
livraria, folheando uma revista, quando um livro deixado por alguém na mesa
em sua frente chamou sua atenção. Tendo chegado ao livro por acaso, ela então
deu uma rápida olhada, e embora não tivesse ficado muito impressionada,
encontrou no entanto uma referência a Ken Wilbur e à psicologia transpessoal,
sobre os quais ela já havia ouvido falar e dos quais ela nada sabia.
Logo depois desse contato acidental com a psicologia transpessoal, Ellie
passou por uma experiência espiritual transformadora durante sua meditação
usual que ela descreve como uma “comunhão consigo mesma”. Durante essa
experiência, seu longo período de confusão e falta de direção foi finalmente se
encaminhando para um fim, pois nela ela recebeu uma visão do que deveria estar
fazendo em sua vida, qual era seu propósito e como deveria seguir em frente. Ela
me contou que foi avisada em sua visão de que a psicologia transpessoal era o
caminho que deveria seguir, embora na época da visão não soubesse o que era
psicologia transpessoal.
Num café, logo depois dessa experiência, Ellie se viu trocando olhares com
um rapaz do outro lado da sala. Depois de evitar seus olhares numerosas vezes,
ela resolveu “seguir o rumo da experiência”, se apresentando a ele e começando
a conversar. Perto do fim da conversa, sabendo que ele era estudante de
sociologia, ela perguntou, por acaso, se ele sabia o que era psicologia
transpessoal. No início ele disse que não tinha ideia , mas depois, refletindo um
pouco, disse que tinha um amigo cuja mãe frequentara uma escola no Norte
especializada em psicologia, uma escola chamada Universidade John E
Kennedy, mas não sabia muito mais. Ellie sorriu enquanto continuava a história.
“Então, no dia seguinte, eu liguei para informações e consegui o telefone da
JFK. Telefonei e perguntei, da mesma maneira que vinha perguntando a várias
pessoas ao longo dos meses desde aquele momento de clareza, se eles sabiam o
que era psicologia transpessoal. O rapaz riu de mim. ‘Nós simplesmente temos
um curso inteiro dedicado a isso.’ E foi assim que eu acabei indo fazer um curso
universitário lá, e acabei decidindo ser um psicoterapeuta. Uma série de acasos:
o livro de Williamson me sendo dado do nada, pegando um livro numa livraria
por acaso, sendo avisada por meu eu superior de que psicologia transpessoal era
o meu caminho e depois aconteceu de conhecer um homem que me conduziu
para a JFK, sendo que ele próprio nem sabia o que era psicologia transpessoal!”
Como resultado do que parece, visto de fora, ser simplesmente uma série de
acasos, Ellie parecia bastante certa de que estava fazendo o que deveria fazer, em
ambas as suas vidas, espiritual e vocacional, e o papel que o acaso parecia
representar, empurrando-a de encontro ao que ela sentia que precisava ser,
obviamente concede um elemento fantástico à sua história, como é sempre o
caso em experiências sincronísticas.
Agora, muitos de nós provavelmente poderíamos contar histórias semelhantes
de como acabamos fazendo o que devemos estar fazendo em nossas vidas,
internamente ou externamente, e a história de Ellie, com seus acontecimentos do
acaso, não tem nada do drama ou da astronomicamente remota improbabilidade
de algumas das outras histórias de coincidências significativas que já ouvimos. O
que é importante ver, no entanto, é o significado que Ellie tirou dos
acontecimentos do acaso: que uma série de coincidências externas do acaso
pareciam guiá-la, geográfica e espiritualmente, a um lugar onde ela encontrou o
que considera sua vocação espiritual. Ela não estabeleceu que acharia a JFK. Ela
não decidiu que se tornaria psicoterapeuta. Ela não se sentou um dia e disse “Vou
fazer algo sobre o meu vazio espiritual” e começou a frequentar a igreja
deliberada e conscientemente buscando uma realização espiritual. De fato, no
início do que ela veio a perceber como seu despertar espiritual, ela não tinha
ideia do que fazer ou aonde ir para resolver seu desencanto com a carreira
científica que estava seguido.
As conexões que aconteceram com Ellie na verdade aconteceram para ela,
sem que ela as tivesse provocado, e ainda assim, tiveram grande significado e
influíram na direção de sua vida interior e exterior. Teria ela interpretado os
acontecimentos dessa maneira em retrospectiva? Teria ela “inventado” essa
história, no sentido de que ela colocou esses significados em acontecimentos do
acaso? Sim e não. Ela conta que as oportunidades externas do Agape Center, a
hipnose e a psicologia transpessoal aconteceram por acaso, entrando em sua vida
num momento de abertura para a transformação, ao qual ela respondeu agindo.
Como em todas as histórias que vimos, uma coincidência pode conter um
significado ou não, dependendo da atitude que trazemos para ela.
Uma outra mulher, Roberta, encontrou seu caminho espiritual através de uma
coincidência improvável, porém não menos transformadora. Atravessando o país
de carro, dirigindo e cansada da infindável estrada interestadual perto de Ohio,
Roberta seguiu um impulso e saiu da auto-estrada para seguir seu caminho para
o Oeste, pelo menos por um pouco, pelas estradas rurais. Ao longe, em meio aos
campos e mais campos das fazendas, ela avistou um amontoado de construções e
gente, os quais pareciam estar todos ocupados, em meio a uma colorida
celebração ou um tipo de desfile. Intrigada por encontrar um festival nesse fim
de mundo, seguiu seu faro e foi investigar, descobrindo uma comunidade
espiritual organizada em torno de um guru, cujo dia da fundação dessa
comunidade estava sendo celebrado e cuja tradição de receber bem um visitante
estranho nesse dia era vista como um sinal auspicioso.
Roberta estava mais do que comovida com a simples coincidência de tudo
aquilo, parecido com o tipo de sentimento que Pete teve ao encontrar Mary no
motel no deserto do Mojave ou o que meu amigo John teve quando encontrou o
homem que se tornaria seu mentor em um remoto ashram na índia. Ficando para
saber mais sobre a comunidade, seu mestre e suas práticas, Roberta me disse que
conta seu despertar espiritual como tendo começado nesse dia, quando ela
apareceu nessa comunidade no meio da celebração em meio ao nada. Se existe
uma moral nessa história, é, suponho, que mesmo a estrada que leva a lugar
nenhum leva a algum lugar.
Para uma outra coincidência sincronística envolvendo vagar pelo mundo e seguir
sua intuição, Naomi me contou uma história que se passou quando ela tinha
dezessete anos de idade e vivia num ashram no Nepal. Durante um longo período
ela sofreu de uma doença para a qual nenhuma prática médica do Ocidente ou do
Oriente que ela consultou puderam encontrar a causa nem a cura. Depois de um
sonho muito marcante sobre um homem que ela jamais conhecera mas cuja
imagem ela podia ver claramente em sua mente, ela deixou o ashram, embora
doente, e decidiu viajar.
Embora fosse difícil, pois ela estava sofrendo de uma doença crônica, Naomi,
como Roberta, não seguiu nenhuma rota específica em suas viagens e por acaso
e intuição foi atraída para uma cidade em especial na índia. Lá, vendo um clínica
naturalista e pensando que talvez as pessoas pudessem ajudá-la com seu
problema de saúde, para seu espanto conheceu o homem com quem havia
sonhado tantos meses antes, cujo rosto ainda estava fresco em sua memória
como na noite em que havia sonhado com ele. Sentindo claramente que tanto o
sonho quanto encontrá-lo eram sinais importantes demais para serem ignorados,
ela se submeteu ao tratamento prescrito por ele, ficando curada de sua doença,
permanecendo na clínica durante três anos depois para ser treinada pelo homem
cuja especialidade espiritual e médica abriram seus olhos para a conexão entre o
corpo, a mente e o espírito num período de formação de sua juventude.
Como Barry conheceu seu professor de astrologia é uma história que começou
com uma sincronicidade e acabou ensinando a Barry uma lição completamente
diferente daquela que ele pensou estar aprendendo. Em suas próprias palavras:
“Em 1981, enquanto eu estava na Universidade de Chicago, consegui uma bolsa
de estudos para estudar bengali em Calcutá. Como astrologia hindu seria o
assunto da minha tese, fiz indagações e encontrei um astrólogo, um velho
homem bengali que concordou em me ensinar os rudimentos da astrologia hindu.
Chamado Prodip, ele era um homem interessante e tinha levado uma vida
bastante movimentada. Em certo ponto, no meio de minha estada na primeira
visita lá, ele sugeriu que eu conhecesse seu filho, que era também astrólogo e
quiromante, chamado Torun.
“Astrólogos e quiromantes na índia geralmente dividem espaço com uma
joalheria, pois receitam pedras. Então, mais tarde, quando decidi procurar Torun,
encontrei essa pequena joalheria enfiada em meio a outras lojas em uma estranha
rua em Calcutá, onde tudo estava caindo aos pedaços daquela forma evocativa
que acontece na índia. Bati na porta da câmara de Torun — lá eles chamam
câmara — e, entrando, encontrei um homem sentando atrás de uma mesa num
cubículo pequeno e apertado, meio barrigudo, quarentão, pele escura e olhos
muito intensos. Eu me apresentei, dizendo que seu pai tinha me mandado para
conhecê-lo, mas não me senti atraído por ele, e a curta leitura que ele fez não me
impressionou, então eu me levantei, agradeci e saí.
“De volta a Chicago, depois de um ano, terminei minhas provas escritas, e
quando a bolsa de estudos que eu esperava para voltar para a índia não saiu, eu
imaginei se eu estava destinado a voltar ou não para a índia. Porém, de última
hora, consegui uma outra bolsa e lá fui eu, no início de 1983. Nesse ano eu
descobri que parte de minha alma estava em Calcutá. E uma cidade realmente
fascinante, uma das cidades mais fascinantes do mundo inteiro e certamente da
índia. E extremamente cosmopolita, porém muito tradicional e tribal, com
edifícios mofados e decadentes. E muito bonita em sua decadência, e todo
infortúnio ou vício da Terra pode ser encontrado lá, portanto, é calorosa e rica
em cultura.
“Como eu agora conhecia bengali muito bem, eu pensei em voltar a Prodip e
terminar minhas aulas. Mas quando procurei-o, ele me disse que sentia muito
mas estava muito velho e não podia mais aceitar alunos. Eu fiquei muito
desapontado. Implorei a ele, mas continuou dizendo não, dizendo que eu devia
estudar com seu filho. ‘Você conheceu meu filho?’, perguntou. Sim, eu disse
rapidamente, sem muito interesse, porém Prodip me obrigou a ir procurá-lo e
conversar mais com ele. Eu saí desanimado, realmente sem a menor intenção de
marcar o encontro com seu filho.
“Eu fiquei rodando durante mais ou menos uma semana, pensando sobre com
quem iria estudar. Certa vez, estava eu indo para o Instituto onde estudava,
passeando, tendo em mente a decisão de procurar um professor de astrologia
naquele dia, quando virei a esquina, a uma quadra do Instituto, e ao longe, numa
longa e poeirenta estrada, vi dois homens em pé à minha esquerda. Eu olhei para
eles, virei, depois olhei outra vez; no segundo olhar, vi que os dois estavam
olhando para mim. O mais jovem dos dois ficou subitamente excitado em me
ver, mas eu não o reconheci, ele veio até mim cheio de entusiasmo, dizendo ‘Oi,
como vai?’, e assim por diante, ao que eu respondi hesitante, perguntando ‘Eu
conheço você?’. Acabou que, na verdade, eu não o conhecia. Porém, o homem
que estava com ele ficou parado olhando para mim com um olhar intenso, tão
intenso que eu acabei ignorando o outro que estava me fazendo tanta festa. Eu
sorri para ele, embora sem saber por quê, e ele sorriu para mim. Eu não me
lembrava dele, mas andei até ele e disse ‘Alô’.
“Ele perguntou: ‘Você se lembra quem eu sou?’
“Eu disse: ‘Não, mas você me parece familiar.’
“Ele respondeu: ‘Eu sou o filho de Prodip, Tbrun.’
“ ‘Ah, alô’, eu disse. ‘Eu tenho pensado em encontrá-lo. Gostaria de lhe falar
sobre a possibilidade de estudar com você.’
“Ele se tornou verdadeiramente receptivo de repente. ‘Muito bem’, disse ele.
‘Venha comigo’, e me pegou pela mão, desde aquele momento nos tornamos
inseparáveis. Alguma coisa mudou repentinamente durante aquele encontro por
acaso com ele na rua, de completamente desinteressado por ele eu subitamente
me senti atraído como se fosse um ímã e não entendia por quê, mas assim que
aconteceu eu tive a sensação de que esse relacionamento estava destinado a
acontecer. Eu tinha finalmente encontrado a pessoa com quem iria estudar,
embora não tivesse noção de que seria esse o caso.”
Desse encontro do acaso com um homem que Barry já havia conhecido mas não
tinha sequer reconhecido na rua, nasceu uma amizade para o resto da vida. Para
começar, com a ajuda de Torun, Barry expandiu seus conhecimentos sobre
astrologia, hinduísmo e seu próprio caminho espiritual, mas ao longo do tempo o
relacionamento se tornou mais complexo e difícil, na medida em que Torun
revelava seus próprios atalhos, impelindo Barry a ver a necessidade de seguir
seu próprio caminho e não ficar preso tão intensamente e confiar em um
professor para lhe mostrar o caminho à frente.
A história que Lisa conta sobre seu desenvolvimento espiritual também esbanja
sincronicidade, demonstra a verdade do que Barry aprendeu através de seu longo
relacionamento com Torun: os insights espirituais vêm através de prestarmos
atenção ao movimento da própria alma e nem sempre da confiança em
professores e ensinamentos. A natureza na história de Lisa serviu como seu
professor espiritual na forma de coincidências que tiveram um impacto
significativo na maneira como ela enfrentou o mundo à sua volta.
De forte tradição protestante sulista, Lisa passou sua vida envolvida na igreja,
tanto como participante quanto como líder. Casada com um vendedor, com três
filhos, ela me contou que durante muitos anos, por mais que amasse seu marido,
suas repetidas ausências eram problemáticas e ela começou aos poucos a ver que
ele não era um homem capaz do tipo de intimidade que ela sempre buscara.
Quando seus filhos cresceram e se tornaram mais independentes, e depois que
ela voltou à escola para realizar seu sonho de se tornar fisioterapeuta, ela e seu
marido em acordo mútuo resolveram se separar em vez de continuar seu
relacionamento emocionalmente distante e frustrante.
O que Lisa não contava era de como a notícia de seu divórcio seria recebida
pela igreja que ela e seu marido frequentavam. Ela viu que muitos dos membros
de sua igreja, de quem ela fora próxima, foram mais solidários com seu marido,
que como vendedor foi capaz de colocar seu lado da história para eles de uma
maneira que ganhou simpatia e compreensão, e certas pessoas culparam
explicitamente a independência e a autoconfiança de Lisa pela separação. A
experiência de ser julgada e a repentina falta de apoio que ela experimentou do
que tinha sido sua comunidade religiosa foi uma experiência divisora de águas
para ela, colocando-a naquela situação que já vimos como característica dos
acontecimentos sincronísticos — um período de transição.
Durante esse período, Lisa me disse, ela começou a ter sonhos e visões de
uma maneira que naquele tempo eram totalmente sem precedentes para ela. Uma
série de sonhos envolvia rituais e figuras religiosas dos índios americanos, como
círculos de cura, curandeiros e pajés, e aconteciam durante o dia, quando Lisa se
pegava imaginando; ela tinha repetidas experiências acordada dessas figuras
aparecendo e falando com ela. Uma outra série de sonhos e visões envolvia
figuras que naquela época Lisa não tinha conhecimento, mas que em seguida
descobriu serem divindades hindus, o deus-elefante Ganesha e a poderosa figura
masculina da divindade Shiva, com quem ela teve uma visão de si mesma
fazendo amor. Um pouco chocada com essas imagens “pagãs”, do ponto de vista
de sua própria criação estritamente cristã, ela me contou que foi encorajada por
seu conselheiro na época — a quem ela procurou principalmente para receber
apoio em torno do rompimento de seu casamento — a seguir a linha dessas
visões para ver aonde levavam.
Para onde levaram, Lisa descobriu, foi para a natureza. Quando as principais
figuras que ela via começaram a desaparecer gradualmente, o que ela percebeu
estar ocorrendo em sua vida espiritual eram aparições repetidas daquilo que ela
chamava de “guias animais”. Essa fase de seu caminho espiritual foi inaugurada
por uma sincronicidade especialmente poderosa. Tendo tido a visão de uma
serpente enorme, tão grande que na verdade ela não podia ver nem a cabeça nem
o rabo, deitada em um altar em sua frente como um objeto sagrado para ser
reverenciado, ela se viu mais tarde naquela semana descansando num tronco
numa área selvagem próxima que ela havia escolhido para fazer suas meditações
pessoais durante o período do divórcio. Ela ouviu um sussurrar nas folhas e
olhou para baixo e viu deslizando, dentro de um arbusto, o corpo de uma linda
serpente lentamente seguindo seu caminho, passando por ela até desaparecer.
Este momento, no qual a realidade externa espelhou sua vida interior, foi um
momento de confirmação sincronística para ela, levando-a a ter mais certeza
sobre o solitário e estranho processo de crescimento espiritual que ela estava
experimentando nos últimos meses através dos sonhos e das visões.
Desse momento em diante, Lisa começou sua própria pesquisa com visões,
tendo o hábito de vir ao mesmo ponto da floresta, desenvolvendo um ritual
baseado em suas próprias visões e algumas de suas leituras sobre espiritualidade
na natureza. Ela desenhava um círculo na terra à sua volta, para simbolizar
totalidade e proteção, oferecia comida e outras prendas para os espíritos animais
da área como símbolo de respeito e relacionamento, então parava e esperava
para ver o que aparecia para ela. Praticamente sem exceção, Lisa era visitada
pelos animais residentes na área. Pássaros, lagartos, cobras e insetos, todos
apareciam em sua frente, algumas vezes respondendo a pedidos específicos de
orientação, algumas vezes somente para lhe fazer companhia.
A semelhança entre a prática espiritual espontânea de Lisa com os rituais dos
índios americanos me impressionou quando ela me contou a história, e eu fiquei
imaginando o que ela fez com isso. De sua parte, ela disse, tinha a sensação que
uma vez liberta de um casamento opressivo e uma atitude religiosa tradicional,
ela era capaz de entrar em contato com o espírito mais natural da terra na qual
ela vivia e que, é claro, tinha sido ocupada durante milhares de anos pelo mesmo
povo cujos rituais ela estava recriando para si mesma. Embora morando na
época em um recém-construído subúrbio fora de uma das maiores cidades do
Sul, a história de sua família na região vinha de mais de duzentos anos, e Lisa
conseguiu explicar as experiências para si mesma como uma aceitação de sua
profunda conexão com a terra onde vive.
Diferente das histórias anteriores onde, através de uma série de acontecimentos
do acaso, pessoas encontraram seus mestres espirituais ou tiveram suas
consciências ampliadas, essa história de como Lisa encontrou seu mestre
espiritual, por assim dizer, em forma de natureza e do passado vivo da terra
representa uma sincronicidade de outro tipo. Sua criação espontânea de rituais,
cuja similaridade com as práticas tradicionais as quais ela ignorava totalmente na
época, baseados em visões de guias e divindades com espantoso paralelo com
figuras religiosas específicas, parecia demonstrar que sincronicidades não
precisam ser somente incidentes dramáticos, mas podem também ter a forma de
um lento processo de surgimento da totalidade na história da vida de uma
pessoa.
É Tudo Sincronicidade? Na Percepção do Significado dos Acontecimentos
Até agora, se fiz meu trabalho, o leitor deste livro, tendo ouvido uma variedade
tão grande de experiências sincronísticas — tanto dramáticas como simples,
tanto externamente significativas como internamente transformadoras —, pode
muito bem estar perguntando: “Bem, o que não é sincronicidade?” — uma
pergunta que pode ser especialmente apropriada nas áreas de espiritualidade e
religião. Os exemplos que seguem de como pessoas perceberam eventos do
acaso em suas vidas como significativos, não somente porque eles resultaram em
mudanças externas específicas, como trabalho, casos de amor ou uma amizade,
mas por causa de mudanças “internas” que influenciaram sua compreensão de si
mesmos, mudanças que obviamente não podem ser confirmadas ou negadas por
ninguém mais, colocam uma questão chave: como as pessoas distinguem o que é
significativo em suas vidas?
Não teria Lisa simplesmente visto significado espiritual na aparição de
animais para se sentir melhor? Não pode ser que Ellie, ao recontar a história de
como ela foi para a faculdade, fez parecer como se ela tivesse sido guiada por
uma força espiritual fora de seu controle? Não poderia você tirar conclusões
filosóficas ou religiosas de quase tudo que lhe acontece? Não podemos investir
nossas vidas desse significado para nos fazer sentir importantes ou mesmo
escolhidos? Voltaire, este quintessencial pensador do Iluminismo, escreveu uma
maravilhosa sátira (Candide) especificamente para fazer piada das maneiras
indiscriminadas, fáceis e, portanto, tolas de como algumas pessoas vêem
significado em tudo e para responder perguntas como as acima.
O herói dessa história, Candide, é seguido por seu mestre, Dr. Pangloss,
através de catástrofes após catástrofes, que, apesar da aparente realidade,
sustenta que tudo é para o melhor com as melhores palavras possíveis. Voltaire
encerra seu livro com Pangloss balbuciando para Candide: “Todos os
acontecimentos neste melhor dos mundos estão admiravelmente ligados. Se um
simples elo dessa grande corrente for suprimido, a harmonia inteira do universo
será destruída. Se você não tivesse sido expulso daquele lindo castelo, com
aqueles chutes cruéis, por seu amor pela Srta. Cunegonde; se você não tivesse
sido preso pela Inquisição; se você não tivesse enfiado sua espada no barão; se
você não tivesse perdido todas as ovelhas que trouxe daquele belo país Eldorado,
junto com os ricos com os quais elas foram embarcadas, você não estaria aqui
hoje, comendo limões em conserva e pistache.”
Na verdade, em um livro sobre sincronicidades, história após história sobre
acontecimentos do acaso são mostradas pelas pessoas que as experimentaram
como significativas e transformadoras, de uma forma que agora pode se parecer
muito com a de Pangloss, onde a quase tudo — a aparição de uma cobra, o fàto
de encontrar um professor de astrologia, como fui parar na faculdade — é dado
um significado avassalador e transformador da vida. A sátira de Voltaire, no
entanto, como todas as sátiras, vem do exagero, e eu conheço muito poucas
pessoas que como Rangloss sentem uma certeza inabalável no significado das
coisas que acontecem com elas ou afirmariam que, se não tivessem visto a
serpente ou conhecido seu marido, toda a harmonia do universo seria destruída.
Eu gostaria de chamar a atenção do leitor para a forma como a maioria das
histórias mostradas até agora, inclusive aquelas recém-contadas, envolve pessoas
muito mais perdidas sobre o que fazer de suas vidas, pessoas que não sabem para
onde ir e o que fazer, que não encaram os acontecimentos de suas vidas sob a
posição filosófica de que “é tudo para o melhor no melhor dos mundos
possível”. Na verdade, muitos dos significados das sincronicidades aparecem em
contradição direta com o que as pessoas gostariam de acreditar sobre a direção
de suas vidas. A vida inteira frequentando uma igreja, Lisa se viu incomodada
quando seus amigos da igreja lhe viraram as costas, e certamente a última coisa
que ela gostaria era deixar para trás a comunidade da qual fazia parte há tanto
tempo. Da mesma forma, Ellie, cuja crise da meia-idade aconteceu quando ela
não tinha como evitar de reconhecer que aquilo que ela queria acreditar ser
importante—uma carreira científica — não era de fato nem realizadora nem
satisfatória.
O que ocorre em muitos, se não na maioria, dos acontecimentos
sincronísticos como me foram contados, é que o que as pessoas na verdade
queriam acreditar sobre si mesmas e suas vidas — emocional, profissional,
psicológica e espiritualmente — foi revelado a elas, contra suas vontades, por
mera coincidência, como nada do que parecia. Por termos que contar essas
histórias num livro, depois que elas aconteceram e depois de as pessoas já terem
articulado seus significados para si mesmas, existe uma tendência em ficar
obscuro para o leitor que quando os fatos aconteceram seus significados — o
que eles viriam significar no curso da história da vida dessas pessoas — ainda
não estavam totalmente claros e concisos como aparecem agora.
Portanto, se a facilidade demonstrada por Pangloss, com a qual algumas das
pessoas nessas histórias parecem estar investindo os acontecimentos menores de
um significado mais amplo, algumas vezes até cósmico, é preocupante, eu sugiro
que esse pode ser o efeito de ouvir a história depois do acontecido, e quero
lembrar ao leitor para prestar atenção no que a experiência subjetiva da pessoa
que viveu o fato deve ter sido naquele momento. Se nossas vidas são histórias, o
que é contado e o que estou apresentando são versões revisadas e editadas. O
rascunho, ou seja, a experiência original, é quando o significado da experiência é
mais completo para as pessoas envolvidas.
Mas, mesmo então, a questão não é totalmente resolvida, pois há objeção de
que as pessoas “leram” nos acontecimentos em retrospecto o que elas gostariam
que fosse? Eu acho essa objeção interessante, porque propõe uma questão que
parece em oposição com o equilíbrio entre subjetivo-objetivo que a psicologia
tenta atingir: seria sua experiência subjetiva mais importante que a experiência
objetiva? Ou, para usar a imagem central deste livro, seremos nós então os
autores de nossas histórias? Se significado é um fenômeno totalmente subjetivo,
no qual contamos a nós mesmos histórias sobre nossas vidas para encontrarmos
um sentido em tudo, não deveríamos ter que ser os autores?
No entanto, o que é importante notar, enquanto ouvimos e ouvimos de novo
histórias que as pessoas contam de acontecimentos sincronísticos, é que os
narradores não se sentem como se fossem, de fato, os autores da experiência.
Quando ocorre uma coincidência entre um estado interno e um acontecimento
externo do acaso, o qual nós não provocamos nem procuramos, não parece como
se tivéssemos escrito a história mas como se algo objetivo, uma força externa,
um princípio de ordem divina, Deus ou a Fé, tivesse em mente um plano para
nós e para nossas vidas. No momento desses acontecimentos, ou quando você
olha para trás para uma série desses acontecimentos, nós vemos uma
organização e intenção que parece objetiva, que parece uma história escrita por
outra pessoa, e certamente nada daquilo que nós mesmos teríamos escrito. Na
verdade, às vezes o espantoso sobre o acontecimento é que aconteceu de maneira
totalmente diferente e improvável, como o são algumas coincidências.
Quem é, então, o autor? De onde vem o significado nas histórias de nossas
vidas? Para pessoas com uma fé religiosa, cuja experiência subjetiva afirma a
existência de um Deus objetivo, Deus é claramente o autor. Em qualquer das
histórias até agora, alguém com esse tipo de fé em um, Deus que está envolvido
em sua vida diária provavelmente não teria chamado os acontecimentos
ocorridos consigo de sincronísticos, porém teria simplesmente dito: “Deus me
conduziu ao meu marido”, “Eu fui divinamente guiada para o trabalho que
arranjei” ou “Foi o plano de Deus para minha vida que fez com que eu estivesse
onde estava quando tudo aconteceu”.
Mas, e se você não pode ou não partilha sua perspectiva religiosa, sua crença,
na existência objetiva de Deus? A resposta para essas perguntas sobre de onde
vem o significado, ou quem é o autor de nossas histórias, me lembra uma citação
de ninguém menos que Voltaire, quando ele diz de seu modo tipicamente
irreverente: “Se Deus não existisse, seria necessário inventá-lo.” Esta observação
sobre seres humanos, nossa necessidade de inventar Deus, foi uma observação
para a qual Jung por sua vez trouxe uma explicação muito mais desenvolvida e
séria, pois, percebendo não que nós, como teria Voltaire, deliberada e
especialmente “inventamos” Deus, mas que todos os seres humanos partilham da
capacidade de ver ou imaginar a totalidade.
A noção de Jung do arquétipo, como mencionei na minha introdução, é
definida como uma forma típica de captação, um padrão de percepção e
entendimento psicológico comum a todos os seres humanos. Uma dessas formas
de percepção, e talvez uma das mais importantes identificadas por Jung, é o
arquétipo da totalidade, a habilidade de perceber a unidade fundamental entre as
partes dispersas de nossa experiência. Como vimos nas várias experiências
sincronísticas contadas até agora, a percepção de totalidade nesses incidentes
não vem do nosso ego, nosso sentido consciente de nós mesmos, mas sim da
forma como o significado reúne tudo o que somos, partes de nossa experiência
que não percebíamos, potenciais que possuímos mas que estavam adormecidos
ou não-desenvolvidos, elementos de nossa personalidade que não sabíamos que
existiam.
Por essa razão, Jung chamou o arquétipo da totalidade de Eu, pois na verdade
a experiência desse arquétipo é muita parecida com a de uma personalidade
supra ordinária, a totalidade de nós mesmos trazida para dentro de uma estrutura
coerente, como numa história onde todas as coisas têm seu lugar e significado.
De acordo com Jung, esse tipo de experiência, na qual um acontecimento ativa
nossa capacidade arquetípica de perceber a totalidade, é responsável pela
maneira pela qual nosso ego percebe que o significado desses eventos vem de
fora, de uma fonte externa, de um princípio objetivo da ordem do universo.
Quando percebemos essa totalidade, não sentimos como se nós, nossos egos,
nossos eus diários, fôssemos os autores do significado, mas como se houvesse
um autor, um Eu com E maiúsculo, cujo plano para nossas vidas parece
maravilhoso e compreensível em sua estrutura e coerência.
Esse arquétipo de totalidade é responsável pelo que Jung chamou de imagem
de Deus na psique humana. Seu termo, imagem de Deus, em vez de Deus, é uma
observação designada não para negar a possibilidade de um Deus objetivo nem
para denegrir as crenças ou experiências daqueles que se sentem capazes de
fazer essas afirmações sobre realidade definitivas. São meramente para observar
as qualidades particulares na experiência humana que permitem a alguns de nós
perceber a ação de Deus em nossas vidas, e para outros, que não acreditam em
Deus, entenderem por que a imagem de Deus é tão poderosa, universal e
importante, pois, como disse Voltaire: “Se Deus não existisse, seria necessário
inventá-lo.”
Nossa capacidade de perceber a totalidade, o arquétipo do Eu, é portanto o
autor de nossas histórias, os meios pelos quais os acontecimentos do acaso são
ligados através de seus significados objetivos. Para aqueles de nós para quem
Deus é a primeira causa em toda corrente de causalidade, cujo resultado é o
universo, como para Tomás de Aquino, não existem acidentes, pois Deus é o
autor de todas as nossas histórias. Para outros de nós, cuja fé num princípio
objetivo de ordem no universo não é tão certa, cuja noção do papel de Deus em
nossas vidas diárias não está clara, ou cuja crença em um Deus objetivo não
exclui um interesse no que acontece com os humanos que nos permite perceber e
conhecer Deus, a noção de Jung do Eu representa uma forma não-teológica de
falar e entender essas coincidências significativas.
Através do princípio psicológico da sincronicidade, o valor é colocado em
nossas realidades subjetivas, um valor que não é permitido por nenhuma outra
religião nem pelo ponto de vista científico relativo à realidade objetiva. Dentro
da ideia de que nossa capacidade humana inata de perceber a totalidade conta
para o significado que experimentamos nos acontecimentos do acaso, Jung nos
deu uma maneira de fàlar das transformações que atravessamos através das
coincidências de nossas vidas e os mitos que elas nos revelam sobre quem somos
mais profundamente.
Quando as Palavras Entram em Conflito: Experiências Místicas como
Acontecimentos Sincronísticos
Com um entendimento do conceito de Jung do Eu para se referir às questões
importantes que costumam despontar em torno da espiritualidade e da
sincronicidade, vamos agora nos embrenhar mais adiante neste emaranhado,
dentro do âmago do que é tradicionalmente chamado de experiências místicas.
No sentido normal do termo, cada experiência sincronística é mística, com isso
desafia a forma usual de entendermos nossas vidas como uma corrente de causas
e efeitos. Porém, enquanto as experiências sincronísticas são frequentemente
enganadoras, elas não são necessariamente “místicas” no sentido em que o termo
tem sido usado na religião ocidental: uma experiência de um indivíduo direta e
consciente de Deus.
Em vista dessa definição, obviamente, toda experiência mística não é
necessariamente sincronística, pois muitas não envolvem uma coincidência entre
o estado interior e um evento externo mas, ao contrário, são experiências
transformadoras totalmente internas que nos trazem uma consciência mais
elevada. Na história de Ellie, por exemplo, o despertar espiritual que ela
experimentou em sua prática meditativa não era em si um acontecimento
sincronístico, não era uma coincidência entre interior e exterior, embora fosse
realmente um exemplo de experiência mística — uma experiência direta de um
alto nível de consciência que mudou sua vida interior. O que ela experimentou
como sincronístico foi a série de acontecimentos do acaso que ocorreu depois, e
que a levou ao lugar onde ela sentiu que poderia preencher aquilo que se tornou,
através de sua experiência mística, sua vocação para a psicologia transpessoal.
As histórias que seguem se referem a experiências místicas que eram
sincronísticas por natureza. Essas histórias são coincidências significativas entre
visão interior e acontecimento externo que tinham em si um conteúdo
especificamente religioso ou espiritual, ou tinham um efeito importante no
desenvolvimento do despertar espiritual de um indivíduo. Elas ilustram o papel
que o acontecimento sincronístico representa até mesmo em nossa relação com
Deus, como quer que Deus seja entendido.
A história que Stuart me contou de como encontrou sua vocação como
terapeuta é um exemplo de uma experiência mística que era sincronística. Como
tinha sido o caso de muitos indivíduos que dividiram suas histórias comigo,
Stuart estava infeliz em sua situação como ator na cidade de Nova "York;
lutando por trabalho, “terminalmente auto absorvido”, para usar sua própria
descrição, e precisando demais de uma grande mudança em sua vida. Uma série
de acontecimentos ocorreu então, quando aconteceu essa mudança de vida, com
toda sua excitação e ruptura. Recebendo uma oferta de trabalho como ator fora
do estado em um grupo que trabalhava com crianças para despertar a consciência
sobre assuntos como maus-tratos, justamente quando seu companheiro estava
entrando nos estágios terminais de AIDS, ele ficou conhecendo uma mulher que
se tornaria sua mentora, quando ela impulsivamente lhe ofereceu um quarto em
sua própria casa, sem saber que ele estava precisando de moradia no momento.
Durante todos esses acontecimentos, no entanto, os sentimentos de Stuart não
eram daquele tipo surpreendente de experiência que outros tiveram, porém muito
mais uma sensação contínua de questionamento: “Por que isso está acontecendo
comigo? Por que não? Onde estará indo?” Ele tinha a vaga sensação de estar
sendo guiado a algum lugar por alguma coisa, mas sem realmente saber o quê ou
onde.
Não foi senão após a morte de seu companheiro que uma experiência interior
absolutamente única aconteceu para Stuart e sincronisticamente esclareceu o que
ele deveria fazer a seguir. Enquanto ele dobrava suas roupas numa lavanderia em
Manhattan, sua mente divagando, uma voz em sua cabeça disse claramente,
distinta e simplesmente: “San Francisco.” Nesse momento, enquanto me contava
a história, Stuart riu. “Eu não sei como descrever isso. Não era a minha voz. Não
era como se eu estivesse falando comigo mesmo ou algo parecido. Era muito
clara e isso foi tudo o que disse. Somente San Francisco.”
Bem, ao longo desse seu trabalho com crianças que, na verdade, era de
enfoque muito mais terapêutico do que meramente representar, Stuart cresceu
interiormente e aprendeu a prestar atenção a essas mensagens. Então, quando por
coincidência descobriu que amigos seus iriam fazer uma viagem a San
Francisco, ele se convidou para ir junto, e é lá que ele mora e segue sua carreira
de psicoterapeuta. Como ele me disse: “Aqui é onde devo estar. Este é o lugar
onde deveria vir”, eu podia ver a decisão em seu rosto, de todas as muitas
perguntas que ele vinha fazendo a si mesmo sobre o rumo de sua vida. Como as
histórias que já ouvimos de pessoas sendo aparentemente guiadas para o lugar
certo no momento certo, a história de Stuart envolve uma experiência direta,
imediata, consciente e transformadora de ouvir uma voz específica dizendo a ele
para fazer uma coisa específica, que definitivamente o levou a fazer a transição
que vinha buscando em sua vida.
A pergunta natural levantada por esse incidente é: quem ou o que era aquela
voz? Era o próprio Stuart? Stuart diz que não. Da forma como ele descreve a
experiência, não é uma simples tomada de consciência de seu desejo de se mudar
para a Costa Oeste, porém um acontecimento interno totalmente casual e muito
específico que o levou a mudar sua vida.
Seria Deus? Ao contrário de Ellie, que se sentia confortável usando
linguagem religiosa para descrever sua experiência de uma voz interna, Stuart
parecia bastante cuidadoso em concluir que Deus tinha dito a ele para ir para San
Francisco. Mesmo assim, ele se sentiu convencido de que se não fosse pela
experiência mística de ter sido avisado de que deveria ir, ele não teria a vida que
tem em San Francisco, um lugar onde ele jamais tinha realmente imaginado que
moraria.
Como nos sonhos, a direção sincronística de experiências místicas como essa
são de “dentro para fora”; o elemento do acaso é o acontecimento interno que
vem de lugar nenhum — certamente não vem da sensação consciente do eu do
indivíduo. O simples uso da palavra “mística” para descrever esses eventos
indica que quem quer que seja essa voz, jamais poderá ser determinado
objetivamente. Porém, o significado subjetivo do acontecimento, confirmado
pela subsequente satisfação de Stuart nesse novo capítulo de sua vida, faz da
história de Stuart sincronística — pois a sua voz interna guiou-o diretamente,
porém coincidentemente, para uma importante mudança em sua vida.
Todas as épocas e culturas estão cheias de histórias de curas físicas que
coincidiram sincronisticamente com revelações e instruções místicas. Eu vou me
limitar aqui a uma que me foi contada pessoalmente, para mostrar como aquilo
que da perspectiva de uma religião tradicional é uma cura mística, também pode
ser chamada de acontecimento sincronístico.
Juanita, que veio com sua família de Porto Rico para os Estados Unidos,
sofreu por quase toda sua vida de uma doença de pele nas mãos, para a qual os
médicos há tempos não conseguiam fazer nada. Ela havia tentado todo tipo de
tratamento médico convencional, como remédios e loções e, na falha desses,
Juanita se voltou para as formas menos convencionais de tratamento, remédios
de ervas nativas preparados por amigos e coisas semelhantes, também sem
sucesso.
Um dia, durante uma oração na qual, disse ela, seu problema não estava em
foco, ela, como Stuart, ouviu a voz de uma mulher a quem imediatamente
identificou com a Virgem Maria, que disse que ela deveria imergir as mãos na
água e agradecer a Deus por sua cura. Juanita se lembra da suavidade na voz
como sua característica mais impressionante, um tom amoroso que, segundo
Juanita, fez com que ela se sentisse imediatamente bem. Ela fez o que disse a
voz, enchendo de água a pia de seu banheiro e pondo suas mãos nela enquanto
agradecia a Deus. Em uma semana, a doença de pele que ela tivera a vida inteira
tinha desaparecido.
Tornou-se um passatempo dar explicações causais a esses acontecimentos
como o de Juanita, explicações geralmente baseadas na ideia de doenças
psicossomáticas ou, para usar um termo antigo, distúrbios de somatização, onde
o conflito emocional se manifesta ou é convertido num sintoma físico. Quando
ocorrem curas espontâneas, portanto, elas são explicadas como algum conflito
inconsciente obscuro que se resolve de forma que a pessoa pode “abrir mão” da
doença ou da aflição. Em termos teológicos ou religiosos, obviamente, a
explicação é bastante diferente, e a ideia de que a Virgem
Maria visitou Juanita como mediadora para uma manifestação concreta da
generosidade de Deus — que é a interpretação da própria Juanita sobre os fatos
— em si mesma explica a cura da sua doença de pele. Atualmente, em plena
consciência da Nova Era, a chamada conexão mente-corpo, despojada de
qualquer noção do inconsciente bem como de qualquer filiação doutrinária
específica, aceita como de fato a causa desses eventos. E, é claro, nenhuma
dessas explicações causais poderia ser persuasiva, em vista de nosso
conhecimento, hábitos intelectuais e experiências pessoais.
Se refreamos, no entanto, a tentação de declarar a causalidade do
acontecimento físico específico e apreciarmos, ao invés, a experiência subjetiva
da própria Juanita — surgindo do nada, uma voz adorável promete uma cura
física que de fato tem lugar subsequentemente, aparentemente atendendo à
obediência de Juanita às instruções que lhe foram dadas —, então, o que vemos,
é o que temos chamado até agora de sincronístico; um evento interno que para o
indivíduo é vivido não como ele mesmo, porém como Alguém lhe dando
instruções, orientação ou conselhos, que, quando seguidos, coincidem com um
significativo desfecho externo na vida da pessoa.
Minha colocação é que, chamando essa experiência mística de sincronística,
nós não estamos tentando explicar o que aconteceu em termos religiosos ou
psicológicos. Tudo que estamos fazendo é observando a estrutura do incidente,
na qual o acaso interno coincide com eventos externos significativos, e
constatando que esse evento foi incorporado como um incidente importante na
história que Juanita conta de sua vida. Porque nosso propósito neste livro tem
sido constantemente explorar como as pessoas encontram sentido em suas vidas,
como ocorrências do acaso se entrelaçam dentro de uma história que dá
coerência às nossas vidas, quando se trata de experiência mística especialmente,
o conteúdo do evento — o que ele significa — cabe sempre ao indivíduo
interpretar e viver.
Diferente de Juanita, Vai me conta a história de uma experiência mística que
resultou sincronisticamente numa cura de natureza emocional, em vez de física.
Durante a longa doença de seu pai, Vai e o resto de seus irmãos se mantiverarn a
distância dele. Malvado durante suas infâncias e não tendo amolecido com a
idade, ele se tornou na última parte de sua vida inteiramente dependente da mãe
de Vai para enfrentar o constante declínio de sua saúde. Portanto, quando sua
mãe chamou-a um dia para perguntar se ela viría ficar com eles para dar a ela um
pouco de descanso, Vai foi com o coração pesado e muita resistência.
Quando ela chegou, a cena era pior do que imaginava que seria. Ela se sentia
desconfortável dormindo na casa de onde tinha fugido muitos anos atrás. Seu
pai, com uma dor constante, a todo momento perdendo a consciência, e sua mãe
nervosa, exausta e dependendo dela. Depois de alguns dias lá, Vai subitamente
acordou uma manhã e sentiu o que ela descreveu como uma “poderosa
mensagem” para pegar o carro. Ela obedeceu e dirigiu como que guiada por uma
força desconhecida para uma área da cidade onde ela nunca tinha estado antes e
se viu em um shopping center que jamais visitara. Sua mente consciente,
preocupada com o porquê dela estar fazendo isso, mas mesmo assim se sentindo
compelida a fazê-lo, ela entrou em uma livraria e sem pensar foi direto até o
fundo, para uma prateleira de livros sobre tratamentos naturais de cura, pegando
um livro em especial dentre todos os outros, abriu-o em uma página específica
onde era descrito uma tratamento para alívio da dor com o uso de óleo de
cânfora e flanela. Estupefata, ela comprou o livro, foi a uma loja próxima, onde
comprou o óleo de cânfora e a flanela que fora orientada a comprar, e levou-os
para casa, onde sua mãe estava sentada, tomando café na cozinha no andar de
baixo.
Tendo certeza de que devia ir até fim, Vai contou à sua mãe sua experiência, e
as duas partiram para o tratamento contra a dor descrito no livro. Imaginando
que talvez ela mesma devesse fazer a cura descrita, Vai entregou a tarefa para
sua mãe, incapaz de enfrentar o tipo de contato necessário com seu pai.
“O relacionamento dos dois sempre fora ruim, e a doença não ajudou”, me
disse Vai, enquanto eu ouvia a caixa de som perto de nós tocar a música da cena
final de Tristão e Isolda de Wagner, um toque sincronístico do mundo real
fazendo a trilha sonora para a história que eu estava ouvindo. “Porém, você
sabia, aquela massagem com óleo de cânfora e flanela mudou completamente o
relacionamento deles. Eu não sei se aliviou sua dor fisicamente, suponho que
algo aconteceu, mas a verdadeira cura se deu emocionalmente, por causa dessa
massagem, que só aconteceu porque eu segui uma estranha mensagem interior
espantosamente específica, minha mãe e meu pai na verdade se apaixonaram um
pelo outro novamente. Eu fui embora logo após esse incidente, desde que senti
que não era mais necessária, e sua segunda lua-de-mel continuou durante todo o
último ano de sua vida. Eles eram realmente carinhosos um com o outro. Eu
ligava para falar com eles, e ambos eram como duas pessoas diferentes. Eu
estava realmente espantada. Foi como se eu tivesse sido o veículo para uma cura
emocional, no entanto não me pergunte como nem por quê. Eu não sei. Tudo que
sei é que a mensagem que recebi, como instruções do universo, mudou tudo. Foi
realmente algo especial.”
Nas experiências místicas de Stuart, Vai e Juanita, uma experiência interior de
caráter inteiramente diverso de qualquer experiência prévia que eles jamais
tiveram levou-os a atitudes no mundo externo que mudaram suas vidas ou as de
pessoas à sua volta, atitudes que eles jamais tomariam de outra maneira. Menos
espantosa, talvez, mas não menos mística é a história de Tony d’Aguanno e sua
busca do conhecimento. (O leitor deve se lembrar de Tony e de sua história da
“nota mágica”, que ele deu ao seu amigo em lugar de um trabalho.) Durante um
ritual de índios americanos no qual os participantes eram induzidos a escolher
um objeto de poder para si mesmos de uma pilha de pedras que ficava no meio
de um círculo, Tony se ofereceu para ser o primeiro. Ele tinha planejado
examinar cada uma das pedras da pilha para selecionar aquela que sentisse ser a
mais acertada para ele, porém, no canto de sua visão, ele viu uma pedra em
especial na forma de uma montanha com uma cabeça de lobo no topo,
“pulsando” em suas palavras. Sem pensar, escolheu essa pedra e levou-a para
casa depois do ritual.
Tony estava se preparando para partir para uma viagem de dois meses pelo
país, mas na semana antes da data de sua partida seu carro começou a dar
problemas e seu mecânico disse que a junta do motor não estava vedando. Ele
lhe sugeriu usar um outro carro, pois era certo que o motor do dele não
aguentaria, porém Tony ignorou seu conselho e partiu assim mesmo, pensando
no último momento: “E melhor eu levar aquela pedra comigo.”
No pé das Sierras, o inevitável aconteceu. O medidor de temperatura do carro
subiu até as alturas e Tony foi forçado a encostar na beira da estrada para
acampar durante a noite. Pela manhã, recebendo uma mensagem de algum lugar,
alguém ou alguma coisa, Tony fez uma espécie de ritual espontâneo com a pedra
sobre o motor do carro, se sentindo um pouco bobo e mesmo assim compelido a
continuar agindo. O carro funcionou na manhã seguinte, e embora continuasse
tendo problemas intermitentes durante todo o resto de sua viagem, ele conseguiu
levá-lo de volta para casa.
Quando Tony levou o carro até o mecânico sem demora para os consertos que
ele havia adiado por meses, ele olhou para Tony admirado. “Eu nunca vi isso
antes. A junta está boa”, disse ele, incapaz de acreditar em seus olhos ou em
Tony, quando ele lhe jurou que não tinha feito nenhum conserto no carro.
Que o “objeto de poder” em forma de pedra que ele havia escolhido ou o
ritual que realizara sobre o motor magicamente “causaram” a cura é mais do que
certo. Mas essas experiências místicas, como as de Vai e Tony, nas quais o
indivíduo se sente guiado, forçado ou levado intimamente a praticar certos
rituais que dramaticamente coincidem com acontecimentos externos, mostram
uma outra forma pela qual entramos em contato com uma sensação de plenitude,
o Eu do qual somos parte, que dá contorno e coerência à nossa história.
As vidas dos místicos são sempre pontuadas, se não totalmente estruturadas, por
histórias de acontecimentos espantosos do tipo apresentado no último parágrafo,
geralmente apontados pela linguagem religiosa como milagres, sinais da
intervenção direta de Deus na história humana. Na verdade, para a santidade de
alguém ser reconhecida pela Igreja Católica Romana é necessário um número
específico de milagres realizados pelo indivíduo, e coisas como curas, fenômeno
da bilocação (aparecer em dois lugares simultaneamente) e a transformação
física de objetos fazem parte do conjunto geral de realizações milagrosas que
evidenciam a santidade de alguém.
Em contraste com as histórias de cura, em algumas religiões tradicionais, as
feridas e o sofrimento são a essência da sincronicidade mística, como é o caso
dos homens e mulheres na tradição cristã que foram descritos como tendo
recebido as chagas de Jesus Cristo em seus próprios corpos. Estigmáticos, como
são chamados, começando com São Francisco de Assis, que recebeu as chagas
de Cristo durante uma experiência de êxtase perto do final de sua vida, são, sob
um ponto de vista, exemplos vivos de sincronicidade, as feridas físicas em suas
mãos e pés coincidindo com as chagas do Cristo crucificado descritas no Novo
Testamento. Embora seja fácil chamar essas histórias de meras lendas quando
elas datam da Idade Média, exemplos muito bem-documentados dessa forma
particular de experiência mística, mais recentemente como a do Padre Pio de
Pietrelcina, são difíceis de ignorar.
Nascido em uma pequena cidade do Sul da Itália em 1887, Francesco
Forgione era considerado por todos piedoso, mesmo para os padrões de seu
tempo e lugar. Ele entrou para o seminário e rapidamente manifestou uma
intensa devoção religiosa. Em 1918, depois da celebração do recebimento do
estigma de São Francisco, Padre Pio, como era chamado Forgione como padre,
acordou de um estado de êxtase de união com Deus que o deixou no chão do
sótão do coro da igreja, sangrando profusamente e dolorosamente nas mãos, pés
e lados. Essas chagas nunca cicatrizaram nos cinquenta anos seguintes de sua
vida.
Místicos e experiências místicas por sua própria natureza provocam respostas
fortes de crédulos e incrédulos igualmente. Em contraste com o que os tipos
anticlericais possam acreditar sobre a religião organizada — que essas
experiências místicas são usadas e promovidas pela igreja para avançar nas
reivindicações que a igreja supostamente tem da verdade total da existência —, a
realidade é que a hierarquia institucional da Igreja Católica Romana tem se
mostrado constantemente bastante hostil e desconfiada a respeito de experiências
místicas como as aparições da Virgem Maria, curas espontâneas e fenômenos
como os estigmas. Em parte devido ao medo de impostores agindo para
desacreditar a igreja ou enganar fiéis crédulos com truques de natureza
espiritual, financeira ou psicológica, e em parte devido à ansiedade geral que
qualquer burocrata sente quando se depara com desafios irracionais para sua
autoridade, os dirigentes da igreja não são tão diferentes dos mais ferrenhos
racionais fora da fé para acreditar na aparência desses fenômenos místicos.
Por exemplo, seguindo a aparição das feridas do Padre Pio, que durante sua
longa vida nenhum tratamento médico foi capaz de curar nem exame psicológico
capaz de explicar, os próprios superiores do Padre Pio o puseram praticamente
em “cárcere domiciliar”, proibindo-o de aparecer em público, celebrar a missa,
ter qualquer contato prolongado com qualquer pessoa fora de um círculo restrito.
Mesmo assim, como se pode imaginar, Padre Pio conquistou bastantes
seguidores, e as histórias das curas efetuadas por ele, ou aparições que ele fazia a
pessoas perturbadas ou necessitadas, e a sabedoria de seus ensinamentos,
rapidamente se tornaram uma legião. Como ele viveu no século XX, a história
do Padre Pio foi examinada com toda a eficácia da ciência moderna, e enquanto
se pode debater se a causa de seus estigmas era psicológica, espiritual, mística
ou histérica, um elemento da história do Padre Pio fica fora de dúvida: suas
feridas eram reais.
Sem conhecer essa história, durante o curso secundário eu cultivei uma
amizade muito próxima com o capitão do nosso time de futebol, Vince, cuja
família tinha nascido em Pietrelcina e tinha conhecido pessoalmente Padre Pio.
Meu passado é completamente protestante, de um tipo muito americano, pé no
chão, portanto eu não sabia nada de misticismo, e com certeza nada sobre Padre
Pio, exceto que Vince fora batizado por ele e que, na verdade, carregava uma
crosta de uma das feridas do Padre Pio em sua carteira. Como a maioria dos
adolescentes em Nova Jersey, eu achava estranha essa coisa de crosta de ferida,
mas o catolicismo do Sul da Itália era, como eu disse, mais ou menos como um
outro mundo para mim na época, e de místicos, santos, estigmas, milagres e
curas, eu era completamente ignorante.
Vince e eu continuamos nossa amizade na faculdade, e na semana anterior à
minha partida para um ano de estudos na Itália, fomos à missa juntos numa
igreja perto de seu alojamento na Universidade da Pensilvânia. Era uma missa
cedo e a enorme igreja estava praticamente deserta. Sentado bem no centro, sem
ninguém em volta de nós, três vezes distintas durante os serviços eu senti um
cheiro fortíssimo de rosas: uma vez, durante o sermão; uma vez, durante a
consagração da Hóstia, e uma vez, na bênção do final. O perfume era peculiar,
muito penetrante, como rosas em declínio, e muito forte, me atingindo em ondas.
Eu olhei em volta e vi que não havia rosas na igreja, nem mulheres perto que
pudessem estar usando perfume, nem incenso queimando.
Na nossa volta para o quarto no alojamento de Vince, ele simplesmente
perguntou: “Você sentiu algum cheiro estranho hoje na igreja?”
“Bem, na verdade, senti”, respondi, mas antes que eu pudesse dizer-lhe o que
era, ele me fez silenciar.
“Não me diga nada a respeito disso, está bem? Somente antes de você ir para
casa hoje à noite, vá até a casa dos meus pais e conte a eles que você sentiu um
cheiro estranho na missa hoje.”
Atordoado, eu fiz o que me fora pedido, indo até a casa dos pais de Vince
naquela noite e simplesmente relatando que tinha sentido um cheiro na igreja. O
pai de Vince, para meu espanto, descreveu o que eu havia sentido: “Rosas, muito
forte, e três vezes, depois do sermão, durante a consagração e no final dos
serviços.”
Bastante impressionado, eu devo ter parecido confuso quando disse: “Está
certo. Foi exatamente isto. Como você poderia saber?” Ele ficou absolutamente
calmo e, na verdade, sorrindo levemente do meu espanto. “Esse era o cheiro do
espírito do Padre Pio que estava com vocês dois hoje, antes de você partir para a
Itália. Ele estava enviando uma bênção para sua viagem e para sua amizade.” Na
verdade, como soube posteriormente, o odor de rosas está entre os mais
frequentes fenômenos descritos em conexão com o Padre Pio, mas minha
experiência pessoal disso, um tipo de experiência mística que eu tive sem
realmente saber que eu estava tendo, certamente entra no âmago das
sincronicidades místicas que vimos discutindo, embora no sentido inverso — um
evento externo absolutamente único no curso da minha vida significativamente
coincidiu com uma situação emocional interior para criar em mim uma atitude
muito diferente em relação a esse fenômeno do que aquela com a qual eu cresci
em minha religião, uma abertura em relação ao misterioso e inexplicável que eu
não tinha antes disso. Embora eu tenha assumido uma posição firmemente
agnóstica em relação a esse incidente, não me sentindo tão convencido quanto o
pai de Vince em dar uma interpretação religiosa à coincidência, mesmo assim
contei a história várias vezes para muitas pessoas, assim como Vai, Stuart ou
Juanita contaram suas histórias, um sinal de quão significativas essas
coincidências podem ser no curso da história de nossas vidas.
Quando as Visões de Mundo Entram em Colisão: Serão os Milagres
Sincronísticos?
O que as histórias do Padre Pio levantam é uma pergunta que me tem sido feita
com frequência, normalmente por pessoas que praticam uma fé religiosa: “Serão
os milagres exemplos de sincronicidade?” Embora a resposta para esta pergunta
novamente venha requerer uma ampla discussão dos termos e das propriedades
dos fenômenos, eu acredito que a questão é importante quando aplicamos um
conceito psicológico como a sincronicidade aos fenômenos geralmente
considerados como parte de histórias religiosas ou sagradas de uma cultura ou de
alguns indivíduos.
O que se precisa esclarecer primeiro é o que o termo “milagre” quer dizer,
uma palavra usada livremente numa conversa informal. Derivada da palavra
mirari do latim, olhar com admiração, no seu sentido mais usual, um milagre é
qualquer coisa que provoque nosso espanto. Nesse sentido amplo, portanto,
qualquer coisa extraordinária que nos faz abrir a boca de espanto — o dó de
peito de Luciano Pavarotti, o extraordinário púrpura de um pôr-do-sol de outono,
o fato de os Chicago Cubs terem vencido o campeonato — poderia ser chamada
milagrosa. Porém, dentro do contexto religioso, o termo “milagre” tem um
significado mais preciso e se aplica a eventos normalmente considerados
impossíveis no mundo físico mas que aconteceram através da intervenção
divina: Deus abrindo o mar Vermelho para os israelitas; Jesus de Nazaré
transformando água em vinho nas Bodas de Caná; Padre Pio curando um homem
de uma doença que todos os médicos especialistas declararam incurável.
Como mencionei antes, em nossa discussão sobre de onde vêm os
significados e quem é o autor de nossas histórias, esse uso religioso estrito da
palavra “milagre” descreve um acontecimento que mesmo de uma perspectiva
religiosa não é na verdade “casual”, pois acima de tudo, nessa visão, Deus é a
causa dos milagres. Porém a palavra “casual”, como a temos usado em relação à
sincronicidade, se refere à causa humana e intenção, em um acontecimento que a
própria pessoa não poderia ter feito acontecer e não pretendia que acontecesse.
Obviamente, quando o carro de Stephen explodiu no acidente que o levou ao seu
trabalho como cameraman, a explosão teve uma causa — o radiador do carro
tinha um vazamento, o óleo baixo, e assim por diante. Quando percebemos a
natureza coincidente do acontecimento, e o descrevemos como uma ocorrência
casual, estamos dizendo que o próprio Stephen não queria que isso acontecesse e
não agiu conscientemente ou deliberadamente para fazer isso acontecer.
De acordo com esse entendimento do uso da palavra “casual”, portanto,
vemos que os milagres são na verdade, sob nossa perspectiva humana,
acontecimentos casuais, pois atribuímos sua causa às forças divinas que estão
além da compreensão humana ou controle, daí os milagres serem definidos como
casuais. Por outro lado, os milagres seriam simplesmente “mágica”, uma palavra
que usamos para definir uma causalidade que não é empiricamente provável. Na
mágica, espetamos alfinetes numa esfinge do nosso patrão e creditamos que esse
ato vai matá-lo — quando ele morre, atribuímos a causa de sua morte à nossa
ação mágica deliberada, embora não tenhamos razão racional, empírica ou
plausível na qual apoiarmos nossa crença de que somos a causa. Na mágica, nós
fazemos o impossível acontecer através de uma forma oculta de causalidade,
através de forças e poderes ocultos para a maioria das pessoas mas que os
mágicos podem manipular para atingir seus próprios propósitos.
Em sistemas religiosos como o cristianismo, judaísmo ou islamismo, no
entanto, milagres são a antítese da mágica, porque, por mais que sacrifiquemos
cabras, rezemos para São Judas ou enviemos vibrações boas ou más para
alguém, somente através da graça da intervenção divina os milagres acontecem.
Qualquer ato que tenhamos feito — orações, sacrifícios e afins —, são
simplesmente para nos prepararmos para receber a generosidade que Deus, Alá,
o Grande Espírito ou o Sopro da Criação confere na forma de um acontecimento
impossível em termos humanos. Deus atendeu às nossas preces através de Sua
Graça, não porque rezamos para São Judas, sacrificamos uma ovelha no altar do
templo ou andamos sete vezes ao redor do templo em Meca. Os milagres são, no
entanto, acontecimentos casuais em dois sentidos: primeiro, no sentido que suas
causas físicas não podem ser determinadas, e segundo, no sentido que nós não os
causamos.
Concluindo, então “Serão os milagres sincronísticos?”. Claro que são,
embora o significado de um milagre para uma pessoa religiosa seja bastante
diferente do de um incrédulo. Aqui, precisamos somente notar a diferença entre
minha resposta ao perfume das rosas numa igreja vazia e a dos pais do meu
amigo Vince. O Sr. e a Sra. Mandato entenderam minha espantosa experiência
como um milagre, vendo nela o significado religioso padrão — que Deus,
através do Padre Pio, estava conosco naquele dia na igreja. Eu, no entanto, fui
capaz de aceitar essa experiência irracional como real vendo-a através das lentes
do seu significado para mim, subjetiva, emocional e simbolicamente. Para mim,
reprimindo declarações absolutas de realidade objetiva, eu posso no entanto
chamar o evento de sincronístico — uma coincidência cujo significado está na
diferença que fez em minha atitude religiosa, até agora muito prática, me abrindo
para a possibilidade de que Deus pode estar trabalhando de formas misteriosas
em minha vida. A cura espontânea das mãos de Juanita significa uma coisa para
ela e outra para seu admirado médico. Em ambos os casos, o evento tem
significado emocional e simbólico como uma ocorrência causai, mas em cada
caso o significado é diferente.
E a pergunta contrária: “Serão as sincronicidades milagres?” Claro que
podem ser, mas somente para aqueles cuja fé religiosa os leva a perceber a ação
de Deus nesse episódio especial de suas vidas. Chamar uma coincidência de
milagre é colocar uma interpretação religiosa no acontecimento, mas mesmo
depois de você haver explicado um acontecimento sincronístico de aspecto
milagroso em termos de uma causalidade comum, um passatempo popular desde
o advento da ciência moderna — a Estrela de Belém foi uma conjunção de
planetas fora do comum, a passagem dos israelitas pelo mar Vermelho foi
possível pelas condições da seca e de um tipo de vento caprichoso que soprou as
águas rasas para os lados —, ainda se tem que contar com o significado
subjetivo do acontecimento para aqueles que o experimentaram, como um
acontecimento do acaso, porém transformador nas histórias de quem eles são.
Para alguns, a palavra “milagre” cabe melhor para descrever esse significado
para outros, a descrição “sincronicidade” permite uma linguagem que nem
afirma uma posição teológica especial nem despreza a ocorrência como nada
além de um fenômeno natural fora do comum.
Lendo a Sorte: Sorte Proposital e Chance Significativa
As experiências místicas que temos discutido parecem simples de acontecer com
as pessoas, frequentemente acima de suas vontades, algumas vezes, como em
meu caso, mesmo sem seu conhecimento. Ainda, no âmago da espiritualidade e
da religião, através dos tempos e culturas, o princípio da sincronicidade tem sido
usado ativamente e propositadamente. Acreditando que eventos externos e
experiências interiores podem coincidir significativamente, praticamente todas
as pessoas em todos os lugares têm usado esses insights para desenvolver meios
de encontrar uma direção espiritual para si mesmas, para descobrir as histórias
de suas almas.
Tendo falado tanto da natureza casual da sincronicidade, a ideia de
adivinhação, um uso ativo e intencional dos eventos sincronísticos, pode parecer
uma contradição: como pode alguém determinar o uso de uma ocorrência que
acontece por acaso? Uma forma pobre, em minha opinião, é trazer a maneira de
pensar de causa e efeito para o trabalho de adivinhação, nesse caso a adivinhação
parecerá mais estereotipada do que ler a sorte: perguntar às cartas, folhas de chá,
bola de cristal ou tudo que nos fàle sobre acontecimentos futuros específicos,
quais os números para jogar na loteria de sábado, em que cavalos apostar, qual
dos nossos namorados será o mais bem-sucedido e, portanto, com quem
devemos nos casar. Essas atitudes concretas e materialistas em torno das
predições do futuro, embora com sentido místico, são baseadas na suposição de
que a cadeia de causa e efeito é imutável através do tempo — esta causa terá este
efeito previsível —, e se sabemos dessas causas e efeitos com antecedência,
seremos capazes de “causar” outro “efeito” por nós mesmos, isto é, ganhar na
loteria, ficar milionário, ser feliz.
Por mais comum ou universal que essa atitude tenha se tornado entre nós
(pessoas modernas são piores que as antigas nesse sentido, que às vezes usavam
o oráculo e necromancia tão maternalisticamente quanto qualquer cartomante
moderna), o fato é que existe um meio menos grosseiro e mais significativo de
encarar a sincronicidade. Todos os métodos de adivinhação assumem que o
acaso pode ser significativo; embora nem sempre ou definitivamente seja
significativo, geralmente é considerado significativo em relação ao estado de
desenvolvimento espiritual de cada um em vez do resultado da corrida de
cavalos de amanhã. Esse enfoque da adivinhação não é previsão, mas
exploração, e quando olhamos para vários métodos de adivinhação através do
tempo e das culturas, encontramos uma variedade sem fim de familiares e
corriqueiros até os esotéricos e elaborados.
Alguns desses métodos são folclóricos e curiosos, como a avó de Sharon que
acreditava no poder de previsão da casca da maçã no Capítulo 2. Alguns são
idiossincrasias, como quando Lisa analisava as diferentes atividades dos animais
que apareciam para ela na mata em busca de resposta para as várias perguntas
que ela tinha em mente naquela época. E eles podem ainda incluir uma matéria
elaborada como a astrologia, na qual as posições das estrelas em vários
momentos da vida de um indivíduo são entendidas e carregam um significado.
Por outro lado, alguns métodos de adivinhação são de natureza
explicitamente espiritual ou filosófica, por exemplo, o jogo dos palitos para
indicar que trecho ler no livro da sabedoria chinesa chamado I Ching, ou o Livro
das Mutações, ou a comum prática cristã de abrir a Bíblia ao acaso em qualquer
passagem que seu olho capte primeiro. Mesmo assim, ambas as práticas de
adivinhação envolvem a manipulação de objetos materiais, e, também, alguns
métodos de adivinhação consistem em nada mais que manipulações e exames,
vendo mensagens no fato em si: necromantes etruscos, na península itálica antes
do Império Romano, examinavam os fígados das galinhas, vendo em suas
marcas e formatos presságios para o futuro e significados relativos ao presente,
como o padrão encontrado no fundo de uma xícara de chá é levado em
consideração para saber das coisas que virão ou a ordem do universo naquele
momento em particular.
Vários métodos simbólicos, que usam imagens e ilustrações, têm longas e
veneráveis histórias, como as runas nórdicas, nas quais vários azulejos com
letras são escolhidos ao acaso e examinados para saber o significado. Nessa
mesma categoria de métodos simbólicos, uma das primeiras formas de
adivinhação para os ocidentais é o tarô, cuja história pode ser traçada por alguns
até o antigo Egito, mas que provavelmente data da Idade Média europeia. Que os
defensores da psicologia fiquem chocados ao ver esses testes como o de
Rohrschach, com seus borrões de tinta, ou o Teste de Percepção Temática, com
seus desenhos inacabados, como os descendentes do tarô dos dias modernos, não
muda o princípio por trás do modo simbólico da adivinhação: ao encontrar uma
realidade externa — um borrão de tinta, uma gravura, uma carta simbólica,
fígado de galinha, uma passagem da Bíblia ao acaso ou um padrão da natureza
—, podemos encontrar e ver melhor nossa realidade espiritual interior.
Por que isso é verdade? Por que as adivinhações funcionam? Por que
existiram pessoas sempre e em todos os lugares que desenvolveram esses
métodos e os usaram? Outra vez, aqueles que acreditam em uma divindade
objetiva vão assegurar que é por causa de Deus ou dos deuses que nos mandam
mensagens através dos padrões externos, objetos e sinais. Porém, se nos
eximirmos dessas afirmações ontológicas e ficarmos estritamente dentro do
âmago da experiência humana, podemos ver que os métodos de adivinhação nos
permitem usar a mesma capacidade que usamos para criar arte, escrever ficção
ou imaginar qualquer coisa significativa que se torna realidade. Ao encararmos a
realidade externa com a suposição de que o significado é possível, permitimos
ao arquétipo do Eu a habilidade de se manifestar, não externamente ou
casualmente, porém subjetiva e simbolicamente. A única diferença entre um
processo de adivinhação e outros eventos sincronísticos que ouvimos até agora é
que o último tende a nos pegar de surpresa, parecendo nos apresentar uma
coerência para nossas vidas da qual não tínhamos consciência, enquanto durante
uma adivinhação estamos conscientes e decididos a estarmos abertos para o
significado do que nos é apresentado pelo padrão casual das cartas, runas, folhas
de chá, haste de mil folhas ou moedas.
Esse é o caso do método muito cônscio e deliberado que os monges chineses
de Kuei-yuan usam para eleger um abade como líder de sua comunidade. Como
contado por Holmes Weích e Robert Aziz, estes monges escolhiam um abade
tirando a sorte dentre os nomes de centenas de candidatos: depois de uma oração
e um ritual, um antigo membro da comunidade usa palitos para pegar um nome
de dentro de um tubo de metal, e a pessoa cujo nome é retirado três vezes em
seguida — dentre as centenas possíveis — é reconhecido como abade. Como se
pode imaginar, esse demorado processo, que a comunidade continua enquanto
necessário até que apareça três vezes o nome escolhido, pode algumas vezes
finalizar a seleção numa pessoa que a comunidade inicialmente ache um
candidato mau ou problemático. Mas mesmo quando indivíduos universalmente
reconhecidos como inferiores foram escolhidos, mesmo assim esse método
parece ter sempre funcionado com eficiência: para surpresa da comunidade,
esses indivíduos “inferiores” se provavam líderes capazes, o que aponta para a
elegância desse método no qual a pura sorte — livre das influências humanas do
preconceito, inveja, malícia e ambição — é melhor para apontar a liderança da
comunidade do que qualquer mortal poderia.1
Esse exemplo de uma “sincronicidade deliberada” serve bem para
examinarmos quais são as condições necessárias para que esse acaso leve à
interiorização e significado. Primeiro, como os monges de Kuei-yuan, precisa-se
levar a sério o que está sendo mostrado. Como Marie, que não questionou seu
sonho depois de ter pedido orientação, quando se usa um método de
adivinhação, é preciso ouvir a resposta mostrada. A sincronicidade sempre se
refere ao ego, e, embora acidental ou deliberado, o resultado sincronístico de um
processo de adivinhação pode ser do tipo que inicialmente nós não queremos
aceitar ou ainda não somos capazes de ver.
Segundo, temos que ter em mente que o resultado do processo de adivinhação
será de natureza subjetiva, no âmago do significado interno da história de nossas
vidas, em vez de físico ou material no sentido básico. Muitas pessoas, na minha
experiência, encaram os métodos de adivinhação com a ideia de que vão ter as
respostas sobre o que fazer, como se o padrão das cartas de tarô ou nas estrelas
fosse um código secreto a ser decifrado e no qual a sugestão explícita de como
agir será feita, como se um significado objetivo de fora fosse transmitido de
alguma forma através de um receptor que seriam as cartas ou o mapa
astrológico. Ao apreciarmos como os significados se mostram em nossas vidas,
de dentro para fora em vez de fora para dentro, através da capacidade do nosso
Eu de organizar as partes dispersas de nossa vida em uma narrativa coerente, e
simbolicamente profunda, o padrão do acaso nos apresenta a oportunidade de
explorar o significado do que já existe naquele momento específico, em vez de
nos dizer o que será o futuro.
A casualidade é a diferença essencial entre testes psicológicos de projeção e
os métodos tradicionais de adivinhação. Testes como o de Rohrschach ou o TAT
têm sido padronizados para que os padrões sendo sempre os mesmos
possibilitem comparações de pessoa para pessoa, para a compilação e
organização de dados em grupos de pessoas por temperamento. Na adivinhação
ao contrário, os padrões criados pelas estrelas, as cartas do tarô, os palitos ou as
folhas de chá são cada vez diferentes e com tempo específico, significando que a
adivinhação é um processo individual, impossível de ser repetido, tão singular
quanto uma história ou uma obra de arte.
Minha cliente Bobbie, cuja história sobre ter ganho um baralho de tarô
sincronisticamente de seu marido, que apareceu na introdução deste livro,
começou sua iniciação no uso das cartas com a típica atitude “me dê uma
resposta” até que gradativamente ela viu sua atitude mudando para uma atitude
de exploração e abertura. Foi um incidente engraçado que ajudou a mudar sua
visão: ela me disse que havia pedido uma sugestão específica sobre o que fazer
em certa situação. Na época, ela usava um jogo simples de cinco cartas em cruz,
um jogo que lhe foi mostrado num sonho, no qual a carta do topo representava o
que ela sabia da situação em questão, a carta de baixo o que ela não sabia, as
cartas da direita e esquerda o que estava em conflito na situação e no centro a
carta da resolução.
No entanto, depois que Bobbie botou as cartas, ela sentiu que não gostava
muito da resposta que havia recebido das cartas — as cartas e seus símbolos
pareciam sugerir que ela não deveria tomar atitude alguma, pois eram somente
imagens de pessoas sentadas contemplando as situações. Bobbie sentia que uma
ação forte era necessária nessa situação, então decidiu que em vez de ouvir esse
jogo ela faria um novo jogo, esperando que a segunda leitura lhe desse uma
resposta mais palpável.
Ela jogou outra vez, descobrindo, para seu espanto, que todas as cartas
estavam de cabeça para baixo, ou seja, olhando para longe dela, como se não
quisessem falar com ela. Quando ela me contou sobre esse incidente,
embaraçada e esclarecida, ambos tiramos a mesma conclusão do ocorrido: tendo
ignorado a mensagem do primeiro jogo, o segundo jogo confrontava sua
resistência em ouvir aquilo que já tinha sido dito antes.
Em eventos sincronísticos como esse, até parece que as cartas têm uma
vontade própria, que elas estavam ofendidas. Ainda assim, é possível prestar
atenção e retirar significado do evento do acaso sem colocar uma construção tão
antropomórfica na ocorrência. Outra vez, a história dos monges é instrutiva:
quando eles deparavam com um abade que não é nada daquilo que imaginavam,
eles não começavam de novo até que a “sorte” escolhesse alguém que eles
considerassem mais adequado. Em vez disso, eles assumem o significado da
ocorrência do acaso e trabalham com ela num processo de exploração espiritual
interior.
Algumas vezes, no entanto, esses modos de adivinhação têm a mesma sensação
de “previsão” que alguns dos sonhos do capítulo anterior tinham, e ver essas
coincidências como exemplos de significado interior em vez de “adivinhação da
sorte” pode ser um bom desafio psicológico. Por todo meu interesse em
sincronicidade, eu não sou imune à tentação habitual de aplicar causalidades
retrospectivas em minha vida.
Numa farra na última noite de minhas férias na Itália com amigos, meu
melhor amigo de faculdade, Michael, e eu consultamos uma cartomante cujos
métodos eu jamais vira antes. Nós perguntamos: “O que o futuro reservava à
nossa amizade?”, e a mulher, usando um falso turbante cigano e tudo o mais,
começou a virar as cartas, uma depois da outra numa pilha, até que depois de
mais ou menos uma dúzia de cartas ela parou, puxou três e disse: “Uma mulher
vai se meter entre vocês dois”, de uma forma dramática, especial para turistas
como nós.
Bem, era difícil levar essa previsão a sério. Primeiro, soava como uma
previsão coringa que você poderia fazer para quaisquer dois homens, a não ser
que nós dois fôssemos gays e a possibilidade de uma mulher se meter entre nós
era quase nenhuma. Segundo, parecia que ela tinha simplesmente salteado
ostensivamente as cartas até encontrar duas cartas com figuras masculinas
separadas por uma figura feminina, para apoiar sua previsão e nos provar que
estava nas cartas. Nós rimos e não pensamos mais sobre isso.
Michael tinha reserva para voltar para casa no dia seguinte, no início da tarde,
e eu marcara um encontro cedo naquela manhã com o dono do vinhedo onde
estávamos hospedados para ver como eram as outras instalações da propriedade.
A propriedade não era grande e meu plano era chegar em casa a tempo para levar
Michael para o aeroporto em Pisa, a uma hora de distância. No entanto, o destino
interveio, e o carro que Benedetta, a gerente da propriedade, dirigia quebrou no
lado mais distante dali, e quando eu cheguei em casa, Michael já havia partido,
com medo de perder o avião. Eu não pensei muito sobre isso na época, pois nós
dois nos falamos no telefone à noite.
Como ele foi para a Alemanha e eu voltei para os Estados Unidos, quando
Michael morreu um ano mais tarde, a história que nos foi contada pela
cartomante em Florença naquela noite fora a história que vivemos. Uma mulher,
Benedetta, tinha se metido entre Michael e eu em nosso último dia na Itália, e
aquela noite em Florença foi a última vez que estive com Michael em sua vida.
Eu não tive chance de dizer adeus ao Michael pessoalmente: uma mulher havia
se colocado entre nós.
Como sempre em acontecimentos sincronísticos, como temos visto, somente
depois do fato o significado pode ser percebido e apreciado. Nesse caso, mais
comovente que a previsão da cartomante se tornar realidade, foi para mim a
contundência da coincidência, o modo inesperado como meu melhor amigo e eu
tivemos nossa despedida final, uma história que desde então se tornou parte
permanente da minha história. A previsão em si foi inútil no momento, afinal —
nenhum de nós poderia imaginar que o que ela nos dissera estava na verdade
acontecendo; sua importância está em como acontecimentos subsequentes me
afetaram. O que é importante num processo de adivinhação não é realmente a
previsão ou a revelação, os sinais e presságios em si, porém como a nossa
capacidade de perceber a totalidade de nossas vidas — o Eu — traz intimamente
ou visivelmente aspectos de nossas vidas para dentro de um relacionamento com
cada pessoa tendo como resultado que a história de nossas vidas é escrita
simultaneamente para nós e conosco.
Sincronicidade e a Psicologia de Nossas Histórias Sagradas
Como vimos neste capítulo, existem três diferentes visões de mundo que entram
em conflito nas histórias de sincronicidade na vida espiritual das pessoas. Uma,
apoiando a razão, a ciência e a causalidade, que geralmente chama essas
histórias de “mitos” no sentido depreciativo e deixa sua realidade de lado,
colocando-as ao lado de lendas fantásticas e outros pequenos tipos de
divertimentos de ficção: elas não aconteceram nem poderiam ter acontecido. A
segunda, apoiando a realidade objetiva de Deus, também chama esses eventos de
“mitos”, porém usa o termo afirmativamente, no sentido de uma “história
sagrada” cuja realidade é importante ver: essas coisas aconteceram, elas
aconteceram pela vontade de Deus, e seu significado é de natureza religiosa. O
terceiro ponto de vista, aquele que temos visto ser aplicado nessas
sincronicidades, é o da psicologia, que se exime de tomar essas posições e se
limita a apontar o quão importantes são esses mitos para a humanidade:
coincidências como essas acontecem e querem dizer alguma coisa.
Para responder perguntas aparentemente simples sobre as coincidências
significativas, é preciso, portanto, que entendamos que premissas estão por trás
das perguntas e gastar um tempo desenrolando as malhas dos termos e das
pretensões. Apesar do nosso enfoque, no entanto, os exemplos aqui
apresentados, de sincronicidade nas vidas espiritual e religiosa das pessoas, a
parte mais íntima e sagrada da história de nossas vidas indica, a meu ver, que a
nossa capacidade em encontrar significado é o que dá às nossas vidas a
qualidade de uma história única, e coesa. E o significado que estrutura nossas
vidas dentro de uma narrativa coerente, e, nos acontecimentos sincronísticos, as
ocorrências estão repletas de significados, entramos em contato com o Autor, um
Ser mais elevado, em quem nós, como as pessoas cujas histórias ouvimos neste
capítulo, devemos confiar para orientação, inspiração e realização.
Capítulo Seis
Toda História Tem um Começo e um Fim
Sincronicidade e as Questões de Vida e Morte
Doces brisas acordaram
Dia e noite elas mexem e sussurram;
Em todo lugar que eles estejam trabalhando.
Oh, perfume fresco, oh, nova música!
Agora, pobre coração, não tema mais,
Agora todas as coisas devem mudar.
O mundo fica mais bonito a cada dia,
E o que ainda pode acontecer, não se pode dizer.
O florescer não terá fim, e
Mesmo o mais profundo, mais distante dos vales está
florindo.
Agora, meu pobre coração, esqueça sua dor.
Agora, todas as coisas devem mudar.
LUDWIG UHLAND - “Fé na Primavera” (Frühlingsglaube)
Dos quatro aspectos da sincronicidade apresentados no começo deste livro, o
fato dessas coincidências sempre acontecerem em momentos de transição é o
aspecto que mais mostra a narrativa de nossa vida como um todo. Nós temos até
agora olhado a maior parte do tempo para as histórias dentro da vida das pessoas
— quem elas amam, o que fazem, como crescem, em que acreditam. Neste
capítulo final estaremos vendo um quadro mais amplo: a história de nossa vida, e
como os acontecimentos sincronísticos ocorrem nas duas transições mais graves
e universais — nossos nascimentos e nossas mortes.
Que nosso nascimento e nossa morte emolduram nossas histórias tão
significativamente parece de início quase óbvio demais para mencionar, exceto
talvez para dar ênfase, à luz do que temos mostrado em relação à sincronicidade
até aqui, que a transição literal para dentro e para fora da existência que todos
experimentamos adquiriu para os seres humanos um significado simbólico muito
importante. Não somente os teólogos ou estudiosos da religião, com certa razão,
colocam o arquetípico ciclo do nascimento, morte e renascimento como o centro
de todos os rituais religiosos através dos tempos e culturas, porém, como vimos
nas histórias já contadas, o aspecto simbólico do nascimento e da morte contam
a história de cada transição que fazemos ao longo das nossas vidas, de forma que
ao longo de nossas vidas experimentamos várias pequenas mortes e os
decorrentes renascimentos várias vezes.
Neste capítulo final estaremos enfocando essas histórias específicas, que me
sinto tentado a chamar de nossas autobiografias, e ainda mais especificamente,
no início e no final dessas histórias. Estou certo de que agora, por causa de todas
as histórias que já ouvimos, a noção de que acontecimentos sincronísticos
ocorrem em torno do nascimento e da morte dificilmente surpreenderá alguém.
Como era de se esperar, essas ocorrências nos mostram o que nos mostraram em
outras áreas de nossa vida, isto é, a narrativa coerente de nossas histórias, o
potencial de realização por trás das vidas que vivemos.
Lidando com nossa efetiva transição para dentro e para fora da vida, no
entanto, nosso nascimento literal e nossa morte literal, acontecimentos
sincronísticos frequentemente intervém para salientar o aspecto profundamente
simbólico dessas transições, que as pessoas com muita frequência ignoram.
Portanto, nas histórias de gravidez, nascimento, morte e o luto que se segue, foi
sempre uma coincidência que serviu para lembrar as pessoas envolvidas daquilo
que as imagens arquetípicas dos rituais religiosos e mitos têm mostrado sempre:
que nossa vida é um ciclo, no qual a morte se segue ao nascimento e o
renascimento se segue à morte, e como o poema de Uhland acima, tudo deve
mudar.
No Momento Oportuno: Gravidez, Nascimento e Sincronicidade
Mais ou menos trinta anos atrás, Mary Williams, uma analista junguiana em
Londres, apresentou um artigo ao Journal of Analytical Psychology relativo a uma
experiência com um paciente seu cuja história apresenta muitos temas que eu
também descobri quando ouvi histórias de mulheres sobre suas gravidezes. O
momento da concepção, as circunstâncias envolvendo a gravidez e o nascimento
e os sentimentos e reações das mulheres a essa experiência básica são
frequentemente tão repletos de elementos sincronísticos que depois de um tempo
praticamente paramos de nos admirar com a presença dessas coincidências e
começamos a esperar o inesperado.
A mulher da história de Mary Williams começou um tratamento de
psicoterapia por causa de profundos conflitos sobre sua feminilidade. Com trinta
e oito anos e casada, ela sofria de falta de interesse sexual e ataques de choro que
ela descobriu virem desde o início de sua menstruação; sua mãe reagira à sua
primeira menstruação como uma catástrofe. Sob os cuidados de uma mãe
dominadora e das tias, esta mulher, filha única, cresceu medrosa e insegura de si
mesma. Embora tenha se casado por conveniência, seu marido, no entanto, a via
como uma “boa mãe para seus filhos”.
Nessa situação, onde a mulher em questão obviamente precisava fazer uma
mudança em sua vida e em seus sentimentos sobre si mesma, um sonho com
tons proféticos e esperançosos não diferente dos muitos que já vimos aconteceu
a ela. Neste sonho, disse a mulher: “Eu estava numa sala como a sua [da
terapeuta]. Ouvi um barulho. Uma foto em uma moldura de mogno caiu da
parede. Quando fui olhar para ela, a foto pulou para fora. E era como um jogo de
cubos. Enquanto eu olhava, caíam fotos, uma após a outra. Então, bem no fundo,
eu vi uma boneca, um bebê. Suas mãos estavam levantadas e ela parecia estar
sorrindo para mim.”
Conhecedora da superstição inglesa na qual um quadro caindo da parede é
um prenúncio de morte iminente, a mulher ficou maravilhada com a justaposição
dessa profecia de morte e o que parecia, no momento, a remota possibilidade de
que ela pudesse estar grávida, simbolizada pela sua descoberta do bebê “lá no
fundo” com as mãos levantadas para ela. Williams continua descrevendo as
sincronicidades que aconteceram após o sonho, na vida dessa mulher.
“A primeira manifestação da natureza ‘profética’ do sonho ocorreu três
semanas mais tarde, com a morte súbita de sua mãe. A paciente se ausentou por
quatro meses, organizando o inventário e cuidando de seu pai. Na sua volta, ela
parecia estar grávida (e isto foi logo confirmado), mas não levou em conta, pois
sua menstruação tinha continuado, embora não fosse como normalmente... Não
havia mais ataques de choro. Suas reações à gravidez eram ambivalentes, um
prazer intenso junto com ressentimento contra a fé por ter imposto a questão
antes dela se sentir preparada para isso.
“As sincronicidades não estavam nem perto de acabar. Seu médico ficou
ansioso porque a cabeça do feto não tinha descido para a pélvis no tempo
esperado, então [ele] mandou a paciente a um especialista. Havia uma
discrepância de aproximadamente seis semanas entre suas previsões [do dia do
parto], o que deixou a paciente num grande estado de ansiedade, pois ela tinha
muitas coisas para organizar. (...) Ela apelou então para a analista, que sem
pensar entrou no papel de oráculo e, pegando a data do sonho como a data da
concepção, contou duzentos e oitenta dias e deu-lhe a resposta [de quando
nascería o bebê]. Isso fez com que a previsão do médico fosse três semanas mais
cedo e a do especialista três semanas atrasada. O oráculo parecia confuso, pois
nada aconteceu na data prevista. Três semanas mais tarde a mulher foi internada
no hospital para fazer uma indução ao parto. Na hora, porém, o tamanho do feto
comparado com o tamanho da dilatação tornavam uma cesariana aconselhável.
O bebê, um lindo menino, estava levemente desidratado e, pelo seu estado, a
data do sonho foi confirmada.
“Não podemos especular sobre o que atrasou o início do parto, porém duas
coincidências significativas devem ser mencionadas. A mãe da paciente morreu
três semanas depois do sonho e o bebê nasceu três semanas depois do prazo.
Teria ela inconscientemente equacionado os dois eventos no tempo? Então,
como notou a própria paciente, ‘Bebês de cesariana parecem bonecas e não
como recém-nascidos!’, uma observação de um fato que novamente liga a
realidade interior e exterior de uma forma significativa. O que parecia
fisicamente verdade era que a criança e o seu novo eu não tinham ainda se
tornado suficientemente reais para ela.
“Mãe e bebê foram vistos dois meses depois e pela sua expressão não havia
dúvida de que a criança tinha se tornado realidade. Agora sua família consistia
de três homens: seu pai, seu marido e seu filho; uma mudança importante no
padrão de seu arranjo anterior [ou seja, sua família originalmente dominada por
mulheres].”1
Portanto, o sonho dessa mulher sobre sua gravidez teve a sincronicidade
adicional de coincidir com a morte de sua mãe também, dentro de um conjunto
de circunstâncias que na verdade vieram a acontecer no mundo externo. Mas o
momento sincronístico da gravidez é o que é mais impressionante aqui: sendo
libertada através da morte da sua mãe de um relacionamento emocional doentio
que em primeiro lugar mandou-a para o analista, essa mulher quase
imediatamente se sentiu “capaz” de conceber, tanto literalmente quanto no
sentido figurado, de ser ela mesma mãe, e uma mulher madura e adulta.
Judy, uma conhecida minha, contou-me uma história quase idêntica, sobre o
momento de sincronicidade de sua primeira gravidez ocorrendo em conjunção
com a morte de sua mãe. “Eu vinha tentando durante um longo tempo engravidar
através de inseminação artificial, e nada parecia estar funcionando. Eu tinha
passado por várias tentativas, as quais, como você deve saber, têm uma
probabilidade de efeito decrescente. Isso quer dizer, se não funcionou da
primeira, segunda e terceira vez, é menos provável que outros remédios de
fertilização irão funcionar. É realmente um caso de resultado decrescente, e eu
sabia disso. Meu médico na época era muito franco, colocando as probabilidades
de ter um bebê saudável em cerca de 1 para 20 dentro das circunstâncias, mas eu
imaginei tentar mais um ciclo de remédios para ver o que acontecia, e, depois
disso, ficaria em paz com o fato de não poder engravidar.
“Nesse meio tempo minha mãe ficou doente, o que era mais um estresse, e eu
tendo que lidar com isso e também com a inseminação, os remédios e o timing de
tudo isso. Então minha mãe morre, inesperadamente. Mas como é você pode
estar realmente preparada para isso? Na ovulação seguinte, depois de sua morte,
eu fiquei grávida, e minha irmã também.”
A conjunção de nascimento e morte aqui na história de Judy espelha a
história que Williams conta do sonho profético de sua paciente (embora sem as
dificuldades emocionais da paciente de Williams) e também sublinha as curiosas
formas em que ocorre uma gravidez, com um timing que, em si mesmo, já pode
ser um exemplo de acaso significativo. Certamente o simbolismo de gerações
anteriores passando adiante para dar lugar às próximas é inerente nessas
histórias, relembrando os vários mitos nos quais a conexão entre nascimento e
morte é também mostrada; o velho rei ou rainha precisa ser deposto, morto ou
removido para que a criatividade e fertilidade sejam restauradas na terra. Nessas
histórias sincronísticas que ligam nascimento e morte tão intimamente, nós
vemos que, na verdade, a ficção frequentemente reflete a verdade sobre as
histórias que as pessoas vivem.
O elemento do timing nessas histórias, o fato de a gravidez poder
sincronisticamente ocorrer numa conjuntura especialmente significativa na vida
de alguém, se reflete em outra história que me foi contada, dessa vez por Marie,
cujos sonhos sobre a clínica de fertilidade a levam a um trabalho, também
contada no Capítulo 4. Marie conta sua história:
“Hank, meu marido, e eu vínhamos tentando engravidar durante dois anos. E
durante todo esse tempo eu estava trabalhando demais e Hank estava cursando
seu mestrado. Então havia muitas preocupações financeiras em torno de ficar
grávida, mas nós sabíamos que era o momento e estávamos prontos. E o que
aconteceu foi que no mês que ele arranjou um bom emprego eu fiquei grávida.
Mas o fato é que eu não sabia que estava grávida. Então ele conseguiu o
emprego e nós ficamos muito excitados, e uma semana mais tarde — lembre-se,
isso foi depois de dois anos tentando — eu recebi a notícia de que estava
grávida. Foi justo no momento em que eu podia relaxar com relação a isto.”
Embora se possa dizer que engravidar é um acontecimento causai — o
esperma encontra o óvulo, acontece a concepção, causa e efeito —, a história de
Marie enfatiza que a gravidez é, na verdade, um dos eventos da sorte em nossas
vidas, como o controle de natalidade é falível, e a frustração de muitas pessoas
que querem filhos também pode atestar. A gravidez é uma questão incerta,
mesmo atualmente, com uma fantástica tecnologia à nossa disposição, e quando
ocorre, pode ser uma coincidência significativa do tipo mais singular na vida de
um casal. Rara Marie, o momento da sua gravidez, coincidindo com a resolução
das ansiedades no mundo externo, possibilitou que ela relaxasse e desfrutasse a
experiência.
Igualmente, as ansiedades da minha amiga Jacqueline sobre seu segundo
filho foram resolvidas de uma forma fora do comum e sincronística,
possibilitando que ela também relaxasse e desfrutasse a experiência. Seu
primeiro filho, uma linda menininha, nasceu com defeito genético, como
consequência ela e seu marido decidiram não arriscar tendo outro bebê. Portanto,
quando ela se viu grávida novamente, foi mais um caso de preocupação do que
de comemoração. Jacqueline conta ela mesma a história:
“Eu estava preparada para me preocupar com essa gravidez. Eu não queria
estar, claro, mas eu não conseguia. Então meu marido e eu fomos numa sexta-
feira, durante o sexto mês de gravidez, fazer um ultrassom, para ter certeza de
que tudo estava bem. Mais tarde naquela noite, depois de ver as fotos de Joseph
dentro de mim, me bateu que nós tínhamos estado uma hora olhando para ele e
gravando imagens em videoteipe, mas durante esse tempo todo eu não tinha
visto os braços ou as mãos do bebê. Eu sentei de repente reta na cama, realmente
assustada, falei ao meu marido sobre isso. Ele me tranquilizou, é claro, mas
mesmo me sentido ridícula, passei aquela semana inteira preocupada que eu
fosse ter um filho sem nenhum braço ou mão. Meus amigos me diziam que os
médicos me diriam se houvesse algo, e assim por diante, eu concordava, agia
como se estivesse calma, mas por dentro eu dizia a mim mesma: ‘Eles não
sabem. Pode acontecer. Já aconteceu antes.’
“Mesmo ansiosa como eu estava, consegui esperar até segunda-feira, e então
liguei para o médico e disse: ‘Eu quero que você ligue para o departamento de
exames do hospital, para saber se meu ultrassom foi normal e me ligue de volta.’
Ele ligou de volta imediatamente, ele era realmente um grande sujeito, e disse:
‘Sinto muito que você tenha passado o fim de semana inteiro preocupada com
isso, você deveria ter ligado para mim. A razão de ter demorado tanto na sexta-
feira é que você tem um formato de útero diferente e todos queriam ver. Mas o
bebê está bem. Sabe, eu tenho um novo aparelho de ultrassom que está sendo
instalado agora mesmo, e eu preciso de alguém para testar como funciona. Por
que você não vem aqui e relaxa sua cabeça, dê uma outra olhada no bebê e então
vai saber que ele está bem?’
“Então lá fui eu naquele dia fazer um segundo ultrassom, e bem quando estou
olhando para a tela com aquela coisa na minha barriga, pensando, ‘Espero que
ele esteja bem, espero que ele esteja bem’, lá está o bebê, dentro de mim,
juntando seu polegar e indicador, fazendo o sinal OK para mim! Eu fiquei
atônita, e o médico caiu na gargalhada. ‘Viu, mamãe, ele está dizendo que está
bem.’
“Bem, os bebês fazem isso, é um reflexo, mas o que foi sincronicidade, se
você quiser usar esta palavra, foi que aconteceu no momento exato da
ultrassonografia em que eu estava dizendo ‘Espero que ele esteja bem’. Esta é
que eu acho a melhor parte. E não é mentira. Na verdade eu tenho a foto daquele
momento, tirada da fita de ultrassom, Joseph fazendo o sinal OK. Dali em
diante, relaxei. Eu sabia que ele estaria bem, e estava mesmo.”
O que é interessante nessa história não é somente que o medo bastante
racional de Jacqueline sobre seu segundo filho tivesse acalmado, mas que o
médico, acidentalmente, também tenha sentido o caráter sincronístico do gesto
de seu futuro filho, mostrando isso a ela, como Jung na história do escaravelho.
Embora os reflexos expliquem que o fato aconteceu, o momento e o significado
da coincidência ocupam o lugar central na história da família de Jacqueline.
Eventos sincronísticos muitas vezes se tornam parte da história que uma família
conta sobre si mesma, é a tradição. Para Rena, seguir suas próprias intuições em
relação ao momento do parto acabou sendo uma questão sincronística de vida ou
morte, e ela conta a história com grande sentimento, como se conta uma lenda ou
um mito:
“Faltavam três semanas para a data do meu parto previsto, e estávamos
acampando em uma ilha com dois outros casais. Um dos sujeitos era médico. O
tempo todo que estivemos lá, que deveria ser de uma semana mais ou menos, eu
ficava pensando comigo mesma: ‘Rena, algo não vai bem’, e pedia ao amigo
médico para me examinar, mas todo mundo continuava dizendo que eu estava
bem. Mesmo assim não conseguia me livrar da sensação, então um dia meu
marido e eu partimos cedo, remando para fora da ilha, e chegamos em casa sem
problemas. Bob, meu marido, é realmente tranquilizador e ficava repetindo que
tudo ficaria bem, que eu devia somente relaxar, seria bom. Mas eu sabia que algo
não estava certo. Eu simplesmente sabia.
“Eu esperei até a manhã seguinte. Bob tinha saído, ele estava no playground
com as duas outras crianças, então eu simplesmente decidi, vou até o hospital,
sozinha. E isso aí. Deixei um recado para ele, tentando parecer normal, ‘Vou até
o hospital, vejo você em uma hora’. Cheguei no hospital e pedi à médica interna
para chamar meu médico, mas ela ficava me fazendo uma porção de perguntas
para me avaliar: ‘Por que você acha que algo está errado? Você usa alguma
droga de rua? Álcool?’ esse tipo de coisa, às quais eu respondi não, é claro.
‘Bem, então’, disse ela, ‘eu acho que isso pode esperar até amanhã de manhã.’ E
eu disse: ‘Não, eu preciso telefonar para meu médico agora’, o que ela fez,
graças a Deus, e meu médico disse para a interna: ‘Se a Rena está aí, é por uma
boa razão.’ Ele me pediu para esperar até ele chegar lá, e quando chegou, fez um
ultrassom portátil, mas o resultado era muito fraco. Ele me assistiu durante toda
a noite.
“Então, no dia seguinte, depois de um exame que indicava que algo não
estava certo, eles induziram meu parto e nasceu minha filha.
Bem, aconteceu que o cordão umbilical dela estava enrolado no pescoço, não
uma volta, porém duas, o que é realmente fora do comum, e se eu não tivesse
vindo naquele momento, ela teria sido estrangulada até a morte dentro de mim.
Eu sempre me senti realmente espantada por ter teimado pela minha sensação.
Havia uma razão. E você sabe como afirmam que as experiências de parto das
pessoas as afetam mais tarde na vida. Até hoje, Katie, minha filha, não usa gola
alta.” Rena acreditou em suas armas quando teve a intuição sobre o perigo de
seu bebê, uma situação que não havia possibilidade dela saber, e foi
sincronisticamente confirmada para ela.
No entanto, o momento dos acontecimentos pode não ser o único elemento
que carregue significado sincronístico na concepção e no nascimento. A intuição
de Rena sobre seu parto encontra paralelo numa história ainda mais dramática
sobre o sonho de minha amiga Gail. A primeira gravidez de Gail ocorreu sem
novidades, e com grande esperança, ela e seu marido se prepararam para um
parto em casa com uma parteira, “como todo bom hippie”, como ela dizia.
Porém, o vivido sonho que teve logo antes de entrar em trabalho de parto
parecia improvável, parecia mais como um produto de seu medo inconsciente do
que de expectativas razoáveis: Gail sonhou que Sam nascera mas não estava
respirando, que ela teve que empurrar a parteira para fazer-lhe respiração boca a
boca pois o cordão umbilical não estava funcionando, ele estava ficando roxo, e
que finalmente começou a respirar quando seu marido o tocou. Como Gail não é
do tipo de mulher que rejeite esse tipo de sonho, quando entrou em trabalho de
parto, ela ficou em guarda, e de fato tudo que ela havia sonhado aconteceu. Sam
não estava respirando quando nasceu. As suaves medidas que a parteira estava
tomando não estavam funcionando. Gail empurrou-a para o lado para fazer boca
a boca e Sam fez sua primeira respiração, para enorme alívio de todos, no
momento em que seu pai o tocou pela primeira vez.
Sentindo a situação interior e também as atitudes que deveriam ser tomadas,
Gail exemplifica o quão mais fácil pode ser a vida quando se está aberto à
possibilidade de que as imagens internas podem na verdade encontrar paralelos
nos acontecimentos externos. “Não me pareceu assustador enquanto estava
acontecendo, pois eu já havia sonhado com tudo antes. Estava simplesmente
acontecendo da forma que eu tinha visto, e eu fiz o que tinha que fazer.”
Reparando-a para o evento improvável, de um parto complicado, a habilidade de
Gail em considerar a possibilidade de que seu sonho pudesse ter semelhança
sincronística com o evento do nascimento de seu filho na verdade ajudou-a a
salvar sua vida.
Gravidez e parto acontecem em seu próprio tempo, apesar de nossos desejos
conscientes, esperanças, esforços e fantasias. Podemos decidir que queremos um
filho e fazer todos os esforços para ter um, ainda assim, se acontece ou não está
além do controle mesmo do mais desejoso e diligente dos casais. E mesmo
quando acontece a gravidez, quando o surpreendente momento da concepção é
confirmado, os médicos nos dão uma data prazo que pode ser somente uma data
aproximada, porque quando e como o bebê chega é também uma questão além
de determinação. Por essa razão, em minha opinião, uma gravidez e parto
merecem nada mais serem chamados de sincronicidade: a coincidência do acaso
de um dos milhares de espermatozoides encontrar um óvulo em especial, ainda
dessa coincidência, a qual nós absolutamente não controlamos, crescer toda a
vida. Podemos experimentar coincidência significativa maior?
Por Que Temos os Filhos Que Temos: Lições Sincronísticas
Se ficamos grávidas é uma questão de sorte, e quando e como parimos está na
maioria das vezes além do nosso controle consciente, porém as sincronicidades
em potencial na experiência da paternidade não acabam somente com a chegada
da criança. O significado da experiência de quem somos e quem é a criança
como pessoa também carregam aspectos sincronísticos para muitos pais, fazendo
algumas vezes com que os pais confrontem suas próprias fantasias egoístas de
quem eles gostariam que seus filhos fossem, e outras vezes, e para pais
diferentes, trazendo confirmações sincronísticas do que é importante nas
histórias de suas próprias vidas.
De uma mulher que serviu de parteira para muitos nascimentos, inclusive o
de sua irmã Janet que está no centro desta história, vem uma narrativa que nos
fàz imaginar, da mesma maneira que muitas sincronicidades fazem, quão casual
é a atitude psicológica de alguém e sugere a pergunta de por que nos é dado
aquilo que nos é dado em nossas crianças:
“Quando minha irmã Janet teve sua filha Jeannie, seu marido, Kefir, na
verdade queria um menino. Ele é de Mali, norte da África, e vem de uma cultura
onde ter o primeiro filho homem é realmente importante. Então, durante a
gravidez, ele chamava o bebê dentro dela de ‘ele* o tempo todo, e não fazia
mistério disso. Ele havia decidido que seria homem; tinha que ser. Então chegou
a hora e Janet entrou em trabalho de parto. Nós tínhamos planejado um parto em
casa, mas depois de um longo período de trabalho de parto, nós fomos para o
hospital, mas ainda assim nada do bebê. Finalmente todos os médicos decidiram
prepará-la para uma cesariana.
“Nesse momento, Kefir se entregou. Ele pôs sua mão na barriga de Janet e
disse ao bebê: ‘Tudo bem, você pode ser uma menina.’ E esse foi o momento,
depois de todo esse intenso e longo trabalho de parto, que ela nasceu!”
Essa história da mudança de sentimento de Kefir sobre ter uma menina, uma
mudança interior coincidindo sincronisticamente com o nascimento de sua filha
depois de horas de trabalho de parto, mostra como esse homem se viu
confrontado pelo significado real do que é ser pai, uma experiência muito menos
sobre o sexo da criança e muito mais sobre o aspecto sagrado da vida em si,
sobre amar as crianças que temos sem exigir que elas sirvam às ideia s de nosso
ego sobre a vida perfeita. Por outro lado, a história de Williams de sua paciente,
que cresceu entre mulheres dominadoras, se encontrar cercada de homens pela
primeira vez em sua vida depois do nascimento de seu filho foi vivida como um
evento sincronístico que complementou em vez de confrontá-la, pois trouxe para
ela uma experiência de masculinidade que ela dolorosamente precisava.
A questão levantada pelos significados que esses pais colocam no por que
eles têm os filhos que têm, serve novamente para aperfeiçoar e aprofundar a
compreensão sobre sincronicidade. Não queremos todos nós amar os filhos que
temos? E tão surpreendente que Salomão viesse a amar sua filha tanto quanto ao
seu filho, ou que a paciente de Williams percebesse o significado da família que
tem e teria percebido o significado de qualquer maneira, mesmo que ela tivesse
tido somente meninas? Enquanto essas reflexões têm algum mérito e podem de
fato ser verdade sobre muitos, se não a maioria, dos pais, elas perdem o ponto
principal dessas histórias.
Para esses dois pais, o sexo de suas crianças tinha um significado
sincronístico por causa da história que emergiu de suas experiências: quem seus
filhos se tornaram foi uma coincidência que os levou a entender as histórias de
suas vidas de uma forma que revela não a verdade objetiva sobre suas vidas,
porém a subjetiva. Sem dúvida, se Kefir tivesse tido um menino ou a paciente de
Williams não tivesse tido somente meninas, nós, é claro, estaríamos ouvindo
uma outra história — como estaríamos também se todos os casos deste livro não
tivessem ocorrido aos outros indivíduos. O que aconteceu a Kefir e à paciente de
Williams foi o que acontece em todas as coincidências significativas: nosso ego
encontra uma chance do acaso de uma forma que se torna simbólica e
emocionalmente transformadora para a história de nossa vida. A questão de
aceitar o que nos acontece e gostar de seu significado nunca é mais significativa
quando o que acontece é uma vida nova. No entanto, para muitos pais, cujos
passados, personalidades ou histórias de vida ficam no caminho dessa abertura,
aceitar quem são seus filhos algumas vezes assume um significado sincronístico.
Helen foi uma cliente que procurou acompanhamento num momento de
transição em sua vida, fazendo a mudança de uma vida muito introvertida de
uma contadora, que tinha ficado desgastada, para tentar sua sorte no mais
extrovertido e potencialmente lucrativo campo imobiliário. Explorando os
relacionamentos de sua família com ela como parte do meu processo para
conhecê-la, fiquei inicialmente impressionado pela maneira como ela e sua filha
de vinte anos, Hannah, pareciam, pela sua descrição, ter uma grande dificuldade
uma com a outra. “Nós na verdade não nos damos bem”, disse ela. “Eu sempre
tive grande dificuldade em lidar com ela. Desde pequena, ela era difícil. Muito
ativa, constantemente testando os limites, sempre precisando de atenção. Meu
marido, que é uma pessoa muito mais expansiva, e Hannah sempre tiveram um
relacionamento melhor um com o outro do que ela e eu tínhamos.”
Arquivar essa informação para um uso futuro, como fazem os terapeutas, não
funcionaria. Percebi que muito do meu trabalho com Helen estava centrado na
questão do desenvolvimento de sua extroversão e superação de suas dificuldades
em ser aberta, ambiciosa e autodeterminada o suficiente para fazer sucesso em
seu trabalho com imóveis. Não fui eu no entanto, mas seu marido, quem fez o
comentário que ela achou transformador, quando um dia, depois de uma das
nossas sessões, na qual eu tinha falado sobre introversão e extroversão, ele lhe
disse que parecia que ela deveria ter umas aulas com Hannah. O momento se
cristalizou num evento sincronístico para Helen.
“Eu fiquei arrasada. Toda minha vida eu tive sempre tantos problemas com
Hannah. Eu a amava, é claro, da maneira que todas as mães fazem, eu imagino,
mas na verdade nunca a entendi, e Deus sabe o esforço que eu fazia para apreciá-
la como pessoa. Mas então, quando meu marido me disse aquilo, foi como se o
quebra-cabeça inteiro se encaixasse. Era isso: a personalidade de Hannah era
tudo o que eu precisava. Era com ela que eu precisava aprender o que eu tinha
que aprender nessa altura da minha vida.”
Com a habilidade de Helen em ver um significado em quem sua filha era
como pessoa, as coisas que eram difíceis há tempos para ela se juntaram num
momento de entendimento sincronístico quando o processo interno encontrou o
acidente dos dons especiais de sua filha numa coincidência que acabou mudando
as vidas de ambas. Com todo o meu apoio, Helen começou a “consultar” Hannah
sobre como Hannah se comportaria em certas ocasiões e, com o tempo, a brecha
entre elas lentamente se fechou.
Essa sincronicidade compensadora entre pais e filhos tem sua contrapartida
na história do meu colega Jack, que foi criado por um homem cujas ideia s sobre
quem e o que Jack deveria ser tivera efeitos prolongados e desastrosos. Fanático
por esportes toda sua vida, o pai de Jack tinha decidido cedo o que seu único
filho seria, fizesse chuva ou fizesse sol: um atleta profissional, e foi assim que
Jack foi criado, numa atmosfera de campo de treino onde todas as atividades
eram dirigidas à meta da excelência atlética. Infelizmente, a coincidência dos
talentos atléticos quase inexistentes de Jack e o ego de seu pai era uma
sincronicidade que não tinha nada dos resultados sanguíneos dos acima, e o
significado que teve para Jack em sua vida era o de uma praga em vez de uma
bênção. Na verdade, como se pode imaginar, a rebeldia e raiva que Jack sentia
por essa criação marcou a maior parte de sua vida, embora nem sempre os
resultados fossem terríveis. Por exemplo, sua atitude “não me diga o que fazer”
foi um instrumento que o capacitou a construir um negócio de sucesso para si
mesmo, no entanto deve ter sido limitador e doloroso em outras áreas de sua
vida.
Então Jack teve seu próprio filho, que não só se parecia com o muito odiado
pai de Jack, como, enquanto amadurecia, parecia ter herdado de seu avô o
interesse pelo atletismo. “Será que essas coisas pulam uma geração? Não é o que
dizem?”, Jack me disse um dia, a caminho de um encontro quando eu lhe
perguntei como estava sua família. “Eu passei toda minha vida tentando fugir
dos esportes, porque isso era enfiado pela minha garganta dia e noite, e o que
acontece?, eu estou vivendo em uma casa cheia de figurinhas de beisebol e com
futebol às segundas à noite. Ele até convida os amigos e eles se sentam lá,
gritando na frente da TV, exatamente como papai. Isso está me deixando louco.”
Mera coincidência ou sincronicidade? O aspecto coincidente do paralelo
entre seu filho e seu pai certamente não é ignorado por Jack, mas o seu
significado, como Jack encaixa isso em sua vida, ainda está em processo.
Minhas ideia s, ou as suas, estando de fora da situação, podem ver algum sentido
nessa impressionante coincidência entre aquilo de que Jack procurou fugir sua
vida inteira e o que por pura ironia do destino veio a ele na forma de seu filho,
mas não somos nós que escrevemos a biografia de Jack, é ele quem deve
escrever sua autobiografia. E até agora tem sido uma coincidência sem aquele
momento interno definidor de interiorização que, apesar de sua evidência
flagrante para você ou para mim, tornaria isso uma sincronicidade para Jack.
Pode ser que para a maioria dos pais, quem seus filhos se tornam como
pessoas, não é vivido como especialmente sincronístico, no sentido de que
nossas crianças frequentemente tendem a se parecer conosco e muito do que eles
são é resultado não de puro acaso mas de como nós os criamos, o que fizemos ou
deixamos de fazer — em outras palavras, fatores causais em vez de casuais. Pais
sem um grande ego, agendas ou conflitos têm algumas experiências de
sincronicidade em torno de quem são seus filhos porque o significado dos filhos
em suas vidas cresce não de um encontro casual do destino, mas de sua
habilidade natural em aceitar, amar e apreciá-los. Mas nem todos os pais são
criados igualmente, e os encontros sincronísticos que têm com seus filhos, no
nascimento ou ao longo de suas vidas, é o material do qual a literatura como
também nossas vidas são feitas. Nessas horas, para esses pais, os filhos são o
futuro simbólico de todas as nossas histórias de vida, confrontar as pessoas com
o que suas vidas significaram pode ser o único ponto de interiorização e
crescimento ao longo de suas histórias.
Aproximando-se da Morte e Além Dela: Sincronicidade e a Transição Definitiva
Eu peguei emprestado uma imagem de uma amiga minha que é enfermeira
profissional de um hospício para enquadrar as histórias que seguem, as últimas
do nosso livro. Como ela assistiu à morte de tantos indivíduos, observando suas
famílias se segurando para impedir a perda, vendo indivíduos lentamente
abandonando tudo que eles consideravam caro sobre si mesmos e suas vidas, ela
falava do processo de morte com grande sabedoria e introspecção. Sua imagem
do processo para a morte é muito parecida com o trabalho de parto, tem uma
verdade que muitas das histórias que eu recolhi de pessoas que têm um contato
íntimo com a morte podem confirmar.
A morte é um processo de desligamento dos interesses, investimentos e
conexões com este mundo e não muito diferente do trabalho de parto, é um
processo que tem seu próprio tempo e ritmo, sobre os quais temos pouco
controle. Como um antigo cliente descobriu em sua tentativa de suicídio
mencionada no capítulo sobre os sonhos, mesmo quando tomamos todas as
providências para morrer, nós só vamos quando for nossa hora de ir e não antes;
essa é uma lição que qualquer família que assistiu à morte de um ser amado
sabe, e é uma lição que muitas histórias de ocorrências sincronísticas parecem
levar para casa.
Como a imagem de um espelho da história de Kefir, o pai africano que no
momento de fazer as pazes com a filha que ele não desejava parecia ter dado a
ela permissão para nascer, Linda conta a história do último dia de sua
companheira Jane. A filha delas, Annie, que tinha só dois anos de idade quando
o câncer de Jane entrou em sua fase terminal, vinha evitando abertamente ir ao
quarto de Jane durante sua última semana de vida, uma resistência que Linda
percebeu enquanto ela cuidava de Jane em seu processo de morte mas que ela
sabiamente deixou acontecer. Reunindo seus amigos em torno de Jane quando
ela entrou em coma, Linda e sua comunidade fizeram um sinal em torno do
corpo dela naquela noite, durante o qual Annie, em outro quarto, dormindo, foi
ouvida quando caiu em lágrimas.
Pensando que a morte provavelmente aconteceria naquele dia e continuando a
respeitar a necessidade de Annie de manter distância de Jane, Linda mandou
Annie, para a casa vizinha para passar o dia com amigos. Quando a respiração de
Jane se tornou pesada, Linda soube que o fim do longo processo de morte estava
perto e se deitou na cama com Jane para ficar perto dela. Ela ouviu Annie chegar
em casa, querendo pela primeira vez em mais de uma semana estar com Jane.
Annie entrou no quarto, foi para a cama com elas, e então, menos de um minuto
mais tarde, Jane morreu.
“Era como se ou Jane estivesse esperando Annie vir para estar com ela ou de
alguma maneira Annie, estando em paz com a morte de Jane, permitiu que ela
finalmente se deixasse ir”, contou-me Linda, maravilhada com o timing de sua
filha de dois anos de idade e comovida de quanto significado teve para ela ter
toda a família reunida enquanto Jane era entregue à morte.
Previsões de morte formam uma grande parte do que as pessoas geralmente
chamam de superstições, como a da história neste capítulo na qual um quadro
caindo da parede significa que alguém próximo vai morrer, ou a crença de minha
própria avó de que um pássaro voando dentro de casa é o mesmo presságio. A
palavra “superstição” literalmente significa “sobrevivência”, se referindo à
maneira como as crenças desses povos sobreviveram à investida da modernidade
para ainda continuarem frescas na imaginação como sinais de um tempo onde os
eventos sincronísticos eram mais bem compreendidos e apreciados.
Jung contou um bom número de histórias de sua própria vida nas quais suas
premonições sincronisticamente refletiam os acontecimentos subsequentes.
Durante a Segunda Guerra Mundial, num trem, ele conta que foi “dominado pela
imagem de alguém se afogando”, a lembrança de um incidente ocorrido durante
seus dias de militar, ele percebeu que não conseguia tirar esta lembrança de sua
mente durante toda sua viagem para casa. Quando finalmente chegou em casa,
ele encontrou o lugar em tumulto pois no momento exato em que essa lembrança
começou a persegui-lo, seu neto Adrian quase se afogara no lago atrás de sua
casa. Igualmente, tendo sonhado com uma sepultura classicamente antiga de
dentro da qual saía flutuando uma figura parecida com sua esposa, Jung acordou
na manhã seguinte e soube que a prima de sua mulher tinha morrido naquela
noite.
No entanto, numa mistura de divertido e arrepiante, a narrativa de Jung sobre
o sonho que teve em 1922 pressagiando a morte de sua mãe dificilmente pode
ser superada. “Eu não sonhava com meu pai desde sua morte em 1896”, escreve
Jung em sua autobiografia. “Então ele mais uma vez apareceu em um sonho,
como se tivesse voltado de uma jornada distante. Ele parecia rejuvenescido, e
tinha deixado de lado sua aparência de autoritarismo paterno. Eu entrei em
minha biblioteca com ele, e estava muito feliz com a possibilidade de saber o
que ele andava fazendo. Eu estava também ansioso e especialmente feliz em
apresentar minha mulher e filhos para ele, mostrar minha casa. (...) Mas eu
rapidamente percebi que tudo isso seria inoportuno, pois meu pai parecia
preocupado. Aparentemente ele queria algo de mim. Eu sentia claramente. (...)
Então ele me disse que como eu era antes de tudo um psicólogo, ele gostaria de
me consultar sobre psicologia matrimonial. Eu fiquei pronto para lhe fazer uma
longa preleção sobre as complexidades do casamento, mas nesse momento eu
acordei. Eu não conseguia entender inteiramente o sonho, pois eu jamais poderia
imaginar que isso pudesse se referir à morte de minha mãe. Eu só compreendi
isso quando ela morreu subitamente em janeiro de 1923.
“O casamento dos meus pais não foi feliz, porém cheio de sofrimentos,
dificuldades e testes de paciência. Ambos cometeram os erros típicos de muitos
casais. Meu sonho foi uma previsão da morte de minha mãe, pois lá estava meu
pai que, depois de uma ausência de vinte e seis anos, queria perguntar a um
psicólogo sobre os mais novos avanços e informações em problemas conjugais,
pois logo ele te-ria que começar esse relacionamento outra vez. Evidentemente
ele não tinha adquirido uma compreensão melhor nesse estado fora do tempo e,
portanto, tinha que apelar para alguém entre os vivos que, aproveitando dos
benefícios da mudança dos tempos, poderia ter um enfoque novo de tudo isso.”2
Enquanto falava de seu pai como se o sonho fosse na verdade uma visita
literal do além, o tom de Jung é claramente o de uma pessoa familiar com o
frequente lado extraordinário dos acontecimentos sincronísticos, tratando a visão
de seu pai do outro lado com a mesma indiferença que ele teria se qualquer outro
parente visitasse sua casa. Essa visão, no entanto, que Jung posteriormente
entendeu como um presságio da morte de sua mãe, é um exemplo do tipo de
ocorrência sincronística que tende a acontecer quando nossas histórias, ou as
histórias de nossos seres amados, chega ao fim.
Nas várias outras histórias que as pessoas compartilharam comigo, no
entanto, eu encontro pouco da gentil familiaridade de Jung com os fantasmas.
Francês, por exemplo, ficou completamente amedrontada quando, durante o
demorado processo de morte de seu marido no hospital, ela encontrava a sua foto
favorita dos dois aparecendo em vários lugares da casa, lugares nos quais ela
sabia que ela mesma não havia deixado, e ainda mais, ela morava sozinha e
ninguém mais tinha a chave da casa. Ela voltou para casa na primeira noite e
encontrou a foto virada para baixo no sofá da sala, que de alguma forma tinha
sido tirada de seu lugar habitual na prateleira sobre a lareira. Ela colocou perto
na mesinha de centro e acordou na manhã seguinte com ela outra vez virada para
baixo, na pia do banheiro. Voltando de sua visita ao hospital naquele dia,
descobriu que a foto tinha andado de alguma forma do banheiro para o canto do
hall de entrada, em pé, virada para a parede.
“Se tivesse acontecido somente enquanto eu dormia”, disse ela, “eu poderia
explicar como sonambulismo ou algo assim. Você sabe, eu estava num estado de
grande perturbação com a doença de Frank e sua morte lenta, e acredito que
pudesse ficar vagando enquanto dormia ou mudando distraidamente de lugar eu
mesma, hipnotizada ou algo parecido. Porém, eu não sabia como explicar que
ela se movimentasse pelo apartamento enquanto eu estava fora, e depois da
morte de Frank, a foto nunca mais se moveu. Ela fica na prateleira como uma
pedra.”
Qual o efeito que essa série de improváveis e realmente inexplicáveis
movimentos da foto tiveram em Francês? Minha impressão falando com ela era
de que serviu para fazer com que a realidade da morte de seu marido “fosse para
casa” para ela, integrando a experiência do hospital no momento com a vida na
casa que ela dividira por muitos anos com seu marido. Quando os objetos da
realidade exterior começam a se mexer parecendo responder ao esforço e dor
emocional, a conexão sincronística torna a realidade subjetiva dolorosa e
inevitavelmente óbvia. Porém, com toda estranheza do acontecimento, eu
também tive a sensação de que esses efeitos visíveis de sua morte eram de certa
forma gratificantes, como se sua morte fosse suficientemente importante para ter
esses resultados tangíveis.
De acordo com várias lendas populares ou superstições relativas aos presságios
de morte, tragédias e perdas podem ser sinalizadas sincronisticamente pela
aparição de animais, especialmente aqueles com marcas e características que os
ligam simbolicamente ao depois da vida, como os pássaros que, como criaturas
voadoras, são frequentemente associados ao espírito ou a alma, ou gatos pretos e
cachorros cuja cor escura os liga ao invisível e desconhecido.
Meu amigo Michael, antes de sua morte seis anos atrás, teve a estranha
experiência de estar sentado perto da janela de seu apartamento em Berlim,
Alemanha, calmamente lendo quando um enorme barulho na parede da casa o
assustou. Como ele morava no terceiro andar de um prédio de apartamentos,
abriu a janela para olhar para o pátio interno abaixo onde ele pôde ver o pequeno
corpo de um corvo batendo as asas cada vez mais lentamente até morrer em
consequência de seus ferimentos. Cheio de pombos, esse pátio interno era um
lugar estranho para um corvo encontrar sua morte, portanto o incidente ficou em
sua mente como sendo bastante esquisito. Na semana seguinte, ele recebeu um
telefone de sua mãe: seu irmão mais moço tinha sido encontrado morto em sua
cama naquela manhã, de causas desconhecidas na época, e que as duas autópsias
que se seguiram nunca foram capazes de descobrir. Olhando para trás, Michael
viu o corvo morto como uma configuração sincronística da morte
completamente inesperada de seu saudável irmão de vinte e quatro anos. Aqui
uma interpretação sincronística, em vez de profética, coloca a ênfase em como a
experiência de Michael com a morte de seu irmão mudou subjetivamente sua
visão da própria vida, incorporando em sua história o símbolo do corvo como
um marco da importância de sua experiência posterior.
Fenômenos sincronísticos na hora da morte são comuns o suficiente para dar
origem a explicações de natureza causal — que a morte de um indivíduo liberta
sua “energia de vida”, e é por isso que fotos se movem pelo apartamento, ou que
nossa intercomunicação com a própria espécie ou família nos permite perceber
ou sentir o que a pessoa morrendo percebe ou sente, que é por isso que Jung ou
Michael puderam ter sonhos e experiências configurativos. Essas explicações
deram origem a todo tipo de ritual e procedimentos, como o de abrir as janelas
para deixar a alma sair voando, ou fazer velório ou vigília do corpo para
assegurar sua passagem, e assim por diante.
Se o fenômeno da hora da morte é causado pela energia, pela alma ou por
outros fatores ainda não determinados, o fato de que ocorrências sincronísticas
tendem a acontecer no momento da morte está fora de dúvida. Minha avó, mãe e
tia-avó, todas confirmam que no momento da morte de minha bisavó, durante o
qual ela dizia estar vendo Jesus saindo de uma cruz no canto do quarto para levá-
la com ele, uma luz brilhante de uma fonte desconhecida iluminou o quarto e se
extinguiu quando ela morreu. Pela maneira como a história é contada em minha
família, o significado sincronístico do que elas experimentaram estava no grande
conforto que sentiram e que tinha sido dado a elas por Deus, sabendo que minha
bisavó estava sendo levada para o paraíso através de sua morte.
Pãul, um cético professor de filosofia meu conhecido, para quem todo o
assunto deste livro quando descrevi para ele foi causa de muito divertimento
indulgente, mesmo assim contribuiu com uma história sua nas linhas que
seguem. Resistindo em encarar a morte próxima de um amigo que ele havia
empregado como jardineiro em sua casa durante o lento declínio da doença de
Hodgkins, Paul conseguiu com sucesso evitar visitar seu amigo no hospício
durante seu último mês lá, até que, se sentindo culpado, ele armou-se de
coragem e venceu sua resistência. As enfermeiras o chamaram de lado antes da
visita e lhe disseram que seu amigo parecia estar resistindo bem e que o que
parecia uma morte iminente poderia, no entanto, não ser assim tão em breve.
No meio daquela noite, semiadormecido, Paul viu seu amigo se dirigir a ele,
todo vestido de branco. Ele conversou um pouco sobre
assuntos variados com Paul, nesse sonho meio visão, e então seguiu seu caminho
com uma saudação. “Até logo. Tenho que ir andando.” No dia seguinte, ligando
para o hospício, Paul ficou sabendo que seu amigo havia morrido na mesma hora
do seu sonho. Essa era verdadeiramente a primeira experiência desse tipo que
Paul teve, e o que me impressionou enquanto ele contava a história era a maneira
como misturava um pouco de seu divertimento e ceticismo e algumas das
maneiras como os outros neste livro, inclusive eu, encaramos as histórias de
nossas vidas.
Para algumas pessoas, no entanto, a experiência sincronística ligada à morte é
ainda mais dramática, passam por uma efetiva experiência física da morte em si.
Uma antiga conselheira minha costumava contar a história de como ela foi
acordada por uma dor horrível nas costas e no peito na noite do violento
assassinato de seu pai a facadas. Sua dor era tão aguda que somente sua teimosia
a impediu de ligar para pedir uma ambulância. O terrível conhecimento no dia
seguinte do que havia acontecido a seu pai naquela noite, do outro lado do país,
dava sentido ao que ela havia sentido. “Ele e eu sempre fomos muito próximos, e
eu preferi acreditar que me foi dada a oportunidade de compartilhar sua morte
também.”
Todas essas experiências sincronísticas, que desafiam a habilidade de
qualquer um de entendê-las de uma forma causa e efeito, carregam uma
importante similaridade simbólica umas com as outras. Enquanto
experimentamos a morte como uma obliteração, um rompimento, uma
dissolução do mundo que conhecemos e vivemos, então parece que o
simbolismo de sincronicidades como as acima é também do tipo de dissolução e
obliteração das leis que geralmente governam nossa experiência do mundo do
dia-a-dia. E como se os princípios naturais não se aplicassem durante o processo
de morte, como se a causalidade e a matéria fossem removidas. Para algumas
pessoas, essa suspensão das leis naturais inspiram terror, mas para outras essas
coincidências carregam um importante significado, reafirmando em momentos
de extrema tristeza e desamparo as conexões que temos com aqueles à nossa
volta aos quais amamos e com os quais compartilhamos nossas vidas. Em alguns
momentos o significado sincronístico de uma coincidência parece ser quase
capaz de reparar e unificar aquilo que a morte separou.
A Sincronicidade da Continuidade: Quando o Fim Não É o Final
Qualquer um que já tenha perdido um ente querido para a morte sabe que nossas
conexões não acabam depois da morte, certamente, e eventos sincronísticos às
vezes aparecem para nos lembrar desse fato. Eu me lembro de uma conversa que
tive durante um almoço anos atrás quando eu era conselheiro interno, com uma
amiga minha cuja irmã tinha encontrado a morte precocemente depois do parto
de seu primeiro filho. Na época fiquei preocupado com a falta de reação de
minha amiga diante da situação, mas olhando para trás agora vejo que eu estava
sofrendo daquela terrível infecção que os conselheiros em treinamento
geralmente contraem — o vírus Eu-Sei-Tudo. Com tudo o que já li sobre
sofrimento, lamentação e luto, mas sem a experiência de vida para sustentá-lo,
eu comecei a puxar por minha amiga em relação à raiva que eu acreditava que
ela estava sentindo sobre a morte de sua irmã. Minha amiga continuava me
dizendo que suas crenças espirituais haviam-na ajudado a aceitar a tragédia, que
ela sentia que sua irmã tinha ido para Deus, e que Deus tinha um plano em
mente que nenhum de nós entendia, tudo isso, em vista da minha certeza de que
ela estava se negando, simplesmente me fazia puxar mais pela raiva e sofrimento
que estava obviamente “reprimindo”. A ironia é que eu tinha sido re-cém-
diplomado em aconselhamento pastoral e jamais sofri esse tipo de pressão da
parte de nenhum conselheiro.
Finalmente, a paciência de minha amiga acabou, e mostrando sua irritação,
ela disse: “Você precisa deixar isso de lado”, nesse momento ouvimos um forte
barulho nas proximidades. Concentrados na situação, nenhum de nós realmente
pensou muito nisso, pois naquela hora estávamos mais preocupados em
recuperar um pouco de civilidade entre nós. Somente mais tarde naquela noite,
limpando os pratos do almoço, eu descobri o que tinha acontecido: o prato de
porcelana que estava entre nós na mesa se partira ao meio em dois pedaços.
Bem, pode haver múltiplas interpretações para esse evento. Duas das
explicações causais podiam ser que a raiva reprimida de minha amiga uma vez
expressada havia partido o prato com sua “energia” ou que algum tipo de força
de vida da irmã morta de minha amiga tinha se manifestado no prato quebrado.
Uma visão sincronística, no entanto, asseguraria que o prato quebrado era
significativo para mim porque era um símbolo perfeito de como minha
insistência havia de uma certa forma quebrado nosso relacionamento. Em
qualquer caso, a conjunção da morte, sentimento, simbolismo e realidade
material faz desse evento uma das mais espantosas sincronicidades que eu
experimentei.
Que o poder simbólico da morte persiste, algumas vezes por um certo tempo
depois da morte verdadeira, me veio com a história de Rachel, que me falou em
se preparar conscientemente para uma comemoração pessoal e particular do
aniversário de um ano da morte de seu marido Steve. Apesar dos inúmeros
convites de amigos compreensivos para passar o dia e a noite com eles, ela
pensou que seria melhor ficar sozinha e fazer um ritual que ela havia criado para
si mesma, pegando todos os álbuns de fotos e vendo-os lentamente, apagando
todas as luzes da casa e acendendo velas, e tentando ao máximo recriar a
presença dele com ela naquela noite.
“Então, aqui estou eu, a casa está toda escura, somente com a luz das velas, e
se aproxima das sete horas da noite, que foi quando ele morreu um ano antes,
subitamente o telefone perto de mim toca. Pensando que é um amigo meu
ligando, atendo em vez de deixar a secretária eletrônica responder. Do outro lado
da linha, ouço esta vozinha estranha, como um adulto fingindo ser uma criança
pequena, realmente assustador. Ele me pergunta: ‘Steve está aí?’ Eu estou
arrasada, chocada demais para sequer pensar, você sabe, pode ser um tipo de
brincadeira cruel ou algo assim. Então eu respondo simplesmente: ‘Não, ele não
está.’ Mas a voz não para, e pergunta de novo, realmente calma: ‘Steve está aí?’
De novo eu digo: ‘Não, ele não está. Quem é você? O que você quer?’ Então esta
pequena criança diz: ‘Eu só estava pensando se o Steve gostaria de vir aqui para
brincar comigo’, que foi quando eu tive certeza de que era de fato uma criança
afinal, e não um brincalhão. Então eu disse: ‘Não, Steve não está aqui.’ E a
criancinha disse mais uma vez: ‘Você tem certeza? Onde ele está?’, e como a
coincidência era tão estranha e eu estava me sentindo tão perdida, disse somente,
meio em pânico: ‘Steve está morto’, e desliguei o telefone. Fiquei lá sentada,
assustada, então acendi todas as luzes, apaguei as velas e liguei para amigos,
dizendo: ‘Sirvam o jantar, estou passando aí.’ Só mais tarde foi que pensei como
eu deveria ter traumatizado uma criança em algum lugar, dizendo-lhe que seu
amigo estava morto, mas foi simplesmente assustador e eu não estava realmente
pensando quando aconteceu.”
Quando eu perguntei a Rachel o que ela aprendera dessa estranha
coincidência, ela levantou as sobrancelhas, levantou as mãos para o ar para
sugerir que não sabia o que significava. “As pessoas sugeriram que era o próprio
Steve ligando para mim, como se meu ritual tivesse sido eficiente ao invocar seu
espírito ou algo assim, que eu mesma não acredito. Mas como você perguntou,
eu imagino se o significado não pode ser algo como que eu não deveria ficar
sozinha naquela noite. Não diz Freud que a intenção inconsciente de uma ação se
revela no resultado? Eu olho para o resultado: basicamente corri para os meus
amigos naquela noite e abandonei meu pequeno ritual, e talvez isso é o que eu
deveria fazer, você sabe, passar mais tempo com os vivos em vez de continuar a
viver entre os mortos. Se era isso, o evento foi certamente eficaz.” Conhecendo
Rachel, e especialmente quão importante seu círculo de amizades foi para ela
durante seu luto, eu acho que talvez a estranheza da coincidência tinha encoberto
o significado para ela, que eu precisava cavar mais um pouco para lhe revelar,
especificamente, que esse parecia ser o momento dela seguir adiante e afirmar
sua habilidade de viver.
Se a presença da morte pode ser o foco desses fenômenos sincronísticos, então
pode ser também que a ausência ou evitar a morte, sob circunstâncias
surpreendentes, sejam igualmente tão significativas e sincronísticas. Uma
história famosa desse tipo, publicada pela primeira vez na revista Life em 1950 e
repetida em vários outros lugares, conta a história de um coro de igreja na
pequena cidade de Beatrice, Nebrasca, que tinha o horário marcado para o ensaio
às 7h20 da noite no dia l2 de março. Naquela noite todos os membros do coro —
25 pessoas ao todo — chegaram atrasados por alguma razão. A família do pastor
estava atrasada por causa da lavagem de roupa, o carro de alguém não pegava,
outra pessoa estava envolvida em um programa de rádio, outra ainda estava
acabando seu trabalho de escola, uma mãe e uma filha estavam atrasadas porque
a filha demorou para acordar de uma soneca. Cada um tinha uma razão para
perder o início do ensaio, o que na verdade foi um golpe de sorte: porque por
causa de uma falha não-detectada no sistema de aquecimento, a igreja explodiu
às 7h25 da noite. Essa corrente de acontecimento, tão improvável que a chance
de acontecer foi calculada mais tarde por um matemático, e literalmente era de
uma em um milhão, teve um impacto mais que matemático nas vidas desses
afortunados paroquianos que na revista Life na época imaginaram se na verdade
essa sincronicidade não era um “ato de Deus”.3
Outra história mais genuinamente espiritual de um acidente com um
propósito determinado é do século XIX, do monge chinês Hsu Yun, que a
caminho do monastério caiu em um rio e por um triz escapou de perder a vida.
Conseguindo de alguma forma chegar ao seu destino, ele deitou em meditação,
esperando a morte. Em suas próprias palavras, Hsu Yun escreve na sua
autobiografia espiritual: “Minha concentração se tornou tão pura que nem eu
percebia que tinha corpo. Pouco depois de vinte dias, todos os meus ferimentos
subitamente ficaram curados. (...) Uma noite durante o intervalo da meditação,
eu abri meus olhos e subitamente lá estava um grande clarão, como pleno dia. Eu
podia ver através de tudo, por dentro e por fora. (...) Em toda minha vida eu
jamais senti tanta alegria. Era como acordar de um sonho. Eu pensei nas muitas
décadas vagando desde que me tornei monge. (...) Então, se eu não tivesse caído
na água e ficado muito doente, se eu não tivesse passado por tempos fáceis e
tempos difíceis que ensinaram lições e mudaram minha compreensão, eu poderia
quase ter perdido minha chance nesta vida, como este dia poderia nunca ter
acontecido.”4
O que é interessante em relação a Hsu Yin e à história do coro da igreja de
Beatrice, em Nebrasca, é o significado comum que essas histórias tiram de sua
esbarrada com a morte. Ambas veem uma razão espiritual por trás de sua
“grande sorte”, e viveram sua sorte do acaso como tendo um significado ligado à
ação de Deus ou da divina providência em suas vidas. O significado
sincronístico que cada um encontrou em não morrer se tornou um momento
definitivo e transformador em suas vidas no qual a continuidade da vida ficou
clara para eles, assim como para Rachel. Algumas vezes, se enquadrando a
mensagem em termos religiosos ou não, esses sopros sincronísticos da morte são
bastante eficazes no aprofundamento de nossa apreciação pela vida que temos.
Reflexões Sobre a Tragédia: Encontrando um Significado no Sofrimento
O caráter “e se” dessas últimas duas histórias nas quais as vidas das pessoas são
salvas por pura sorte frequentemente levanta o ceticismo e o lado depreciativo
nas pessoas. Como Voltaire que faz Pangloss se apegar ao “Se você não tivesse
feito isso, ou aquilo, ou a outra coisa, você não estaria onde está hoje”, uma
mulher me disse enquanto me contava uma dessas histórias: “E daí? Para cada
avião que cai há sempre alguém que o perdeu. Acontece todos os dias.” Mas
como continuo apontando, em toda resistência em ver o caráter sincronístico dos
acontecimentos, muito do que é ignorado ou não é inteiramente compreendido é
o significado subjetivo do acontecimento para as pessoas envolvidas. Para elas,
essas coincidências—de terem escapado por pouco de perder suas vidas — mais
do que certamente não acontecem todos os dias.
Quando eu faltei pela primeira vez à reunião de pauta em um novo emprego
na tarde de 17 de outubro de 1989, e escapei do desabamento da ponte Oakland
— baía de San Francisco, durante o terremoto, eu posso assegurar aos céticos
que minha boa sorte sincronística significou muito para mim. O ponto principal
de uma história sincronística, quando nós olhamos para ela mais tarde como a
chance que nos poupou de uma catástrofe, é que ela aconteceu “conosco”. Essas
histórias não são sobre dados concretos de quem morreu ou não, mas são mais
sobre os meios que a morte, esta experiência definitiva sobre a qual não temos
controle, pode usar para nos deixar extremamente atentos para o que significa
nossa vida, para nós mesmos e para aqueles à nossa volta.
E ainda, a resistência que alguns sentem pela maneira simples ou
autorreferente na forma como o significado desses eventos é elaborado em
nossas vidas, pode não ser somente devido à falta de empatia, porém pode
envolver algumas dúvidas morais legítimas. Porque nem todas as histórias têm
finais felizes. Pessoas morreram no terremoto de 1989, mesmo que eu não tenha
morrido. Os céticos, Voltaire entre eles, não estão, eu acredito, somente sendo
obstinados, mas estão vendo uma sombra que os finais felizes de tantas das
histórias neste livro frequentemente não apresenta.
Se tantas das histórias deste livro parecem ter um final positivo, é porque
uma experiência sincronística tem por definição um significado, e essa
percepção de significado dá uma sensação de ordem, coerência e totalidade às
nossas vidas. Porém, quando encontramos a morte, encontramos um limite
estabelecido em nossas vidas, do qual nenhum de nós escapa e para o qual não
há final feliz. O processo de morrer em si, por todo seu potencial significativo, é,
a longo prazo, muito doloroso, frequentemente uma torturante experiência de
perda, fragmentação, de desorientação.
Então, há a experiência de sobreviver à morte de um ser amado, uma
experiência similar à de morrermos nós mesmos, onde nossas vidas como
conhecemos são despedaçadas, os cuidados significativos, rituais e prazeres que
dividíamos se foram para sempre. Nós podemos ficar revirando em nossas
mentes e corações muitas vezes o que poderia ter sido, como gostaríamos de ter
dito isso ou feito aquilo, como se pensando diferente sobre o que aconteceu
pudesse suavizar a perda. Mas não suaviza, e nós sofremos.
O título deste livro, Sincronicidade ou por que nada é por acaso, tem em si uma
aura de esperança, concluindo que nada acontece por acaso e que tudo tem
potencial para ser significativo. E ainda, a palavra “acidente” se refere quase
sempre aos acontecimentos que tememos e que a todo custo tentamos prevenir
ou evitar. Acidentes matam as pessoas. Acidentes despedaçam vidas.
Insistir que existem certamente acidentes neste mundo, e que a tragédia
atinge numa escala grande ou pequena todos nós ao curso de nossas vidas, não é
ser meramente polêmico; é verdade. Alguns de nós não encontra o amor de sua
vida e cavalga ao pôr-do-sol. Muitos de nós se encontram afastados, sozinhos,
sem amigos, às vezes por um período curto, e às vezes mais longo. Alguns de
nós não se sentem chamados a fazer alguma coisa que use seus talentos e dons,
ou podemos ser impedidos socialmente, economicamente ou psicologicamente
de desenvolver nossos potenciais. Alguns dos sonhos e planos mais importantes
para nós mesmos nunca são realizados. Nosso negócio fracassa, e nenhum
amuleto de prata de boa sorte se esconde dentro da nuvem negra: nós
quebramos, perdemos a família e sofremos avarias. Somos incapazes de ter
filhos, ou os filhos que temos ficam doentes ou são mortos num ato casual de
violência. As pessoas que mais amamos no mundo nos são tiradas pela doença,
guerra, desastre natural, má sorte. Acidentes de avião. Terremotos, furacões,
incêndios, enchentes destroem o que nos é mais precioso. Assim como ninguém
vivo escapa da morte, nenhuma história de vida se desdobra sem acidentes,
acontecimentos trágicos, dor, perda e separação.
Tragédias são uma forma particular de história que os seres humanos sempre
contaram, transmitidas para nós do Ocidente de maneira definitiva pelos antigos
gregos. Essas tragédias, nas quais a queda e destruição de grandes homens e
mulheres eram retratadas de forma dramática, eram o foco principal das práticas
religiosas da antiga Grécia: montadas em festivais em honra dos deuses, essas
histórias davam vida ritual ao terrível destino dos indivíduos retratados. Através
da representação teatral, os antigos gregos na verdade reviveram o autoengano
de Edipo, a fútil rebelião de Antígona ou a vingança autodestrutiva de Orestes.
“Teatro”, lembre-se, vem da mesma palavra grega que teologia — theos ou
“deus” —, e as tragédias da Grécia antiga eram vistas como verdades sagradas,
não como mero entretenimento.
Podemos achar que fazemos tudo que está ao nosso alcance para nos
protegermos contra as tragédias — usando cintos de segurança, instalando
alarmes de incêndio, ensinando nossas crianças a dizer não, fazendo aulas de
defesa pessoal e rezando por boa sorte —, por que as pessoas dão credibilidade a
todos esses ritos? Pela mesma razão que lotamos o cinema para ver filmes de
desastres ou sintonizamos a televisão em programas com base na realidade? Que
tipo de arquétipo a tragédia, como uma forma de história, exerce em nossas
almas?
A resposta pode ser encontrada, eu acho, na natureza sagrada das tragédias
gregas. As cenas de destruição pessoal tomando forma nessas peças dão sentido
ao sofrimento sem necessariamente aliviá-lo, negá-lo ou removê-lo, assim dando
forma à verdade universal que todos ficamos sabendo ao longo de nossas vidas:
que o sofrimento é inevitável e ainda assim tem seu lugar e sua razão de ser.
Esse era o propósito da tragédia na antiga Grécia e é por isso que, até hoje,
continuamos a encenar essas antigas histórias.
Ao longo deste livro olhamos para nossas vidas como histórias. A tragédia é
uma forma de história que põe o sofrimento dentro de uma estrutura coerente
enquanto é ao mesmo tempo fiel à sua realidade. Portanto, encontrar sentido no
sofrimento, entender os finais infelizes de muitas de nossas histórias, não requer
que minimizemos ou ignoremos a dor. Ver a dimensão trágica de nossas
experiências mais negras, ser capaz de contar parte de nossa história, é, pelo
contrário, ver sentido nela.
Muitas das dificuldades que os indivíduos encontram nas histórias que
ouvimos até agora ocorreram quando seus egos foram confrontados e derrotados
pelas circunstâncias que não podiam controlar: acordos imobiliários fracassando,
relacionamentos acabando, planos pessoais de vida que encontram obstáculos
intransponíveis. Mas eu penso que é útil passar além da história pessoal para
considerar as catástrofes de maiores dimensões, aquelas quase incompreensíveis,
quando elas confrontam nossa capacidade de dar sentido ao sofrimento. O triste
fato da história do século XX é, como Einstein apontou, que o desenvolvimento
da nossa tecnologia ultrapassou o desenvolvimento de nossa humanidade até um
ponto em que uma destruição de vidas humanas sem paralelo se tornou possível
na forma do Holocausto. Não que destruição em massa não tenha sempre sido
uma sombra na história da humanidade; na verdade, a história sagrada do
próprio povo judeu, as principais vítimas do genocídio nazista, é uma história de
constante opressão e escravização. Mas a diferença na escala e a total e
avassaladora cumplicidade de tantas nações “civilizadas” no assassinato em
massa de seis milhões de pessoas nos mostra desde então uma questão moral
para a qual não existe uma resposta simples.
Dentre os aspectos mais difíceis que um indivíduo confronta nesses eventos,
um é o puro sentido aleatório da destruição, a maneira pela qual muitos milhões
de pessoas inocentes são destruídas, não por alguma coisa que fizeram, mas
simplesmente por quem são. A abominável insanidade do Holocausto é a
maldição para nós que sobrevivemos, pois sua irracionalidade o torna quase
incompreensível. E possível encontrar sentido num evento como este? Se for,
como?
Em seu trágico romance A escolha de Sofia, William Styron mostra em
dolorosos detalhes o que aconteceu a uma mulher que foi incapaz de encontrar
sentido quando confrontada com a irracionalidade de seu sofrimento durante o
Holocausto. A escolha à qual o título do livro se refere, Sofia sendo forçada pelo
capricho de um guarda a escolher qual de seus filhos viveria e qual morreria
durante uma seleção no campo de concentração para onde fora mandada, é um
símbolo de capricho do seu sofrimento. O que ela é forçada a fazer não é uma
escolha, mas uma tortura sem fundamento racional, e sua experiência, como
descrita na história de Styron, permanente e irrevogavelmente corroeu sua
sanidade e capacidade de continuar vivendo.
Elie Wiesel conta em primeira mão sua própria experiência nos campos de
concentração, Night, e registra o mesmo fracasso em transformar a falta de
sentido do Holocausto em algo significativo em qualquer padrão religioso ou
filosófico. Uma companheira de Buchenwald, Akiba Drumer, cuja fé tradicional
foi praticamente destruída pelo sofrimento em sua volta, declara: “E o fim. Deus
não está mais conosco”, e se oferece ao carrasco quando chega a seleção. O
resultado do próprio confronto de Wiesel com o horror do que estava sendo feito
a ele e a sua gente só pode ser exprimido através de uma contradição: “Apesar
de mim mesmo, uma oração se ergueu de meu coração até Deus em quem eu não
acreditava mais.”
O horror que tanto nos domina na insanidade do Holocausto não impediu, no
entanto, as respostas que escritores como Styron junto com outros sobreviventes
como Wiesel e muitos outros deram para a falta de compreensão desse mal. E
essa talvez seja a única resposta possível nessa situação: lembrar do que
aconteceu, em ambos os sentidos usando sua memória como também no sentido
de reconstituir, juntando as partes. Ao lembrar da história do nosso sofrimento,
contamos a história de nossa vida, e se o conteúdo da história não pode resolver
a irracionalidade desse sofrimento, de nenhum sofrimento, o ato de contar a
história pode ser a resposta moral válida, a única maneira de dar um sentido ao
que aconteceu. Esse é o propósito da tragédia — contar a história do sofrimento
e, durante o ato de contar, dar ao sofrimento um significado final, dar um sentido
à experiência de destruição do sentido.
Já percebemos como nossa capacidade inata de usar símbolos, de contar uma
história, é responsável pelo sentido que experimentamos em acontecimentos
aleatórios. O sofrimento, também, é um evento aleatório. Contando as histórias
do nosso sofrimento, nós juntamos o caos e a fragmentação que sentimos em
uma coerência que pode nem sempre reprimir a experiência. A realidade da
morte, seja ou não a nossa própria, ou de nossos entes queridos, as de pessoas
inocentes ou de milhões sem rostos, não muda ao contarmos nossa história.
Como nas experiências sincronísticas, somos nós que mudamos em relação ao
trágico acontecimento aleatório, vendo seu lugar em nossa história, contando
nossas histórias sobre o que aconteceu, reconstituindo.
Renascimento e o Ciclo da Vida
No final desta seção no final de nossas vidas, e no final deste livro, as seguintes
perguntas parecem adequadas: qual é realmente o final de nossa história? Há
realmente um final? Enquanto provas definitivamente empíricas de uma vida
além desta é e pode sempre continuar fora de nosso alcance, temos visto que os
eventos sincronísticos em torno da morte frequentemente nos ajudam a ver a
continuidade de nossas vidas. O que sabemos de nossas histórias é que nossas
vidas aqui, limitadas pelo nascimento e pela morte, seguem um ciclo de
crescimento, maturidade, declínio e fim. Nós nascemos e renascemos muitas
vezes durante nosso tempo de vida. Mesmo quando encaramos nossos momentos
mais sombrios, um evento sincronístico pode acontecer para nos ajudar a
transformar a escuridão em uma experiência de renascimento e continuação,
uma chance para ser lembrada e dizer mais uma vez quem somos nós.
Eu ouvi (e agora contei) muitas histórias estranhas sobre coincidências
espantosas e significativas, então fico cauteloso em catalogar a história de
Charlotte entre as mais estranhas e improváveis. No entanto, sua história fica em
minha mente como um perfeito exemplo de como um evento sincronístico pode
nos devolver a medida do que sentimos que perdemos através da morte e, como
na vida, o renascimento do significado é sempre possível.
O filho de Charlotte, Todd, um jovem estudante universitário cheio de
vitalidade e ativo, foi morto perto de sua escola na noite de Ano-novo por um
motorista bêbado, e o estrago que seu corpo sofreu no acidente, somado ao
choque e o sofrimento esmagador de Charlotte, tornaram impossível para ela ver
o corpo de seu filho. Seu marido, arrasado porém mais racional durante essa
tragédia, concordou que não era uma boa ideia que Charlotte fosse confrontada
com a horrível realidade do que tinha acontecido, e depois de um funeral de
caixão fechado e cremação, o filho de Charlotte foi posto para descansar.
Ao longo do meu trabalho com sobreviventes da dor, comecei a ver que por
mais dolorosa e horrível que seja, a oportunidade de ver o corpo de um ser
amado que morreu pode ser bastante eficiente no processo de se libertar e seguir
em frente, e a história de Charlotte deixa isso claro. “Depois, durante meses,
mesmo que na época eu realmente não pudesse ter feito nada mais, eu vivia
atormentada pelo fato de que nunca mais veria Todd. No arrependimento, eu me
sentia cada vez pior por não ter tido a chance de dizer adeus, não ter sido
corajosa o suficiente para encarar o que tinha acontecido. Meu marido ficava me
dizendo que eu tinha feito a coisa certa, que era melhor para mim lembrar Todd
como ele era, mas devo dizer que eu estava começando a me sentir incompleta.
Eu me sentava algumas vezes somente para olhar os nossos álbuns de fotos sem
parar, olhando para as fotos que tínhamos tirado, pensando comigo mesma:
‘Nunca mais, Charlotte. Nunca mais. Todd se foi. Lembranças nunca mais.’
“E isso começou a nos desgastar, minha incapacidade em seguir adiante.
Você já ouviu isso, como o casamento das pessoas acaba depois da morte de um
filho, mas enquanto não acontece com você, você não pode imaginar. Porém,
agora, falando disso depois de anos, eu vejo que estava presa na minha dor e
que, devo dizer, era um grande peso para meu marido. Então, um dia, estou
sentada em casa, chorando sobre o álbum de fotos, dizendo aquilo que sempre
dizia a mim mesma: ‘Se eu pudesse vê-lo mais uma vez’, quando eu ouvi o
carteiro chegar. Vou até a caixa do correio e lá, inacreditavelmente, está um
grande envelope de Todd. Todos os meus cabelos ficaram em pé e eu fiquei toda
arrepiada. O envelope estava bastante estragado e quando olhei vi que tinha sido
enviado no dia em que Todd morreu: 31 de dezembro! Dentro tinha um bilhete
de Todd, com um monte de fotos do nosso último Natal juntos que ele havia
revelado e enviado para mim naquele dia, só que ele não tinha selado
corretamente e fora devolvido, enviado novamente, e passaram-se meses de lá
para cá.
“Você pode imaginar minha reação. Era como se realmente o universo me
tivesse dado o maior presente, como se estivesse me dizendo: ‘Viu, ele ainda
está aqui. Você pode seguir em frente. O que Todd foi para todos continua. Sua
vida não acabou. Aqui está ele. Ele está morto, mas de certa maneira ainda vive.’
Pelo menos foi o que eu concluí disso. Realmente espantoso.” Charlotte fez uma
longa pausa com um sorriso agridoce em seu rosto. “Eu não sei o que teria me
sacudido se eu não tivesse recebido aquela carta e aquelas fotos dele, se eu não
tivesse tido a chance de vê-lo outra vez. As coisas melhoraram um pouco depois
disso. Nunca ficaram boas. Eu não acho que você possa algum dia realmente se
recuperar de algo como isso, mas a coincidência dessas fotos uniram sua morte e
sua vida para mim de uma forma que era como se fechasse um círculo. Eu era
capaz de seguir dali. Mesmo assim, não posso acreditar. (...)”
Como a história de Charlotte de uma coincidência significativa que ilustra os
ciclos de nascimento, vida, morte e renascimento, uma última história com os
mesmos significados me foi contada, de forma suficiente sincronística, enquanto
eu estava a meio caminho de escrever este último capítulo sobre a morte. Em
uma conversa de trabalho com minha agente, Candice, ela me contou, sem meu
encorajamento, que uma adorável sincronicidade acabara de lhe acontecer. Seu
marido tinha morrido no ano anterior, na verdade, na mesma semana em que ela
e eu estávamos dando os retoques finais na proposta deste livro, e a remota casa
em meio às montanhas, na qual eles moravam, sem ele não parecia mais
adequada, não era mais um lugar do qual ela fizesse parte.
Um tempo atrás, quando sua filha ainda era criança, eles moraram em uma
outra casa. Durante o período do luto, Candice me disse que pensou muito em
sua outra casa. Não era nada de especial, disse ela, pequena, porém agradável,
um lugar que eles alugaram no começo de seu casamento e cheio de boas
lembranças de tempos melhores. Quando eles estavam em condições de comprar
uma casa, em vez de continuar alugando, eles procuraram o proprietário com a
possibilidade de comprá-la, mas na época ele não estava interessado, então a
família deixou a casa para trás.
Numa caminhada com sua filha já adulta, Candice se lembrava da casa
antiga, mostrando o quanto ela ainda pensava nela com carinho, especialmente
agora que tinha ficado viúva e precisava de uma mudança. Num rompante, sua
filha sugeriu que passassem por lá e olhassem a velha casa, algo que não faziam
desde que a tinham deixado, quinze anos antes. Para sua alegria, quando
chegaram lá, elas viram a placa de A Venda do lado de fora, e se considerando
com uma sorte inacreditável, descobriram que só estava anunciada desde a
véspera. Candice fez uma oferta imediatamente, e o negócio foi fechado
rapidamente: a casa que guardava tantas lembranças boas era sincronisticamente
delas, e a mudança para uma nova vida, depois de um período de sofrimento,
uma mudança que de certa forma era uma mudança para uma vida antiga
também, aconteceu de uma forma que a própria Candice não poderia ter
planejado ou executado com maior eficiência. Sincronicidades como essa nos
mostram que mesmo a partir da morte é possível uma nova vida, e não somente
no campo mítico além desta vida, mas também em nossa existência diária,
presente.
Conclusão
Nossas vidas são cheias de eventos significativos que nós deliberada e
conscientemente provocamos em proveito próprio: quando procuramos um
relacionamento com alguém por quem nos sentimos atraídos, solicitando um
emprego que sempre esperamos, escrevendo um livro, interpretando um sonho,
dando nome aos filhos, decidindo como gostaríamos de morrer quando chegar a
nossa hora. Esses eventos não são acidentais ou casuais. Eles são atos
intencionais.
Eventos sincronísticos, no entanto, em sua natureza acidental nos impõem
uma outra verdade sobre nossas vidas, uma verdade que muitos de nós têm o
hábito de ignorar: que o sentido de nossas vidas, a trama da história da nossa
vida, não é escrita simplesmente pelo que sabemos de nós mesmos mas vem de
um ponto muito mais profundo, da nossa capacidade humana inata de
experimentar a totalidade vivendo uma vida simbólica. Como na ficção, as
sincronicidades vêm de formas diferentes, e, na verdade, não existe uma área de
sua vida que num momento ou outro não seja tocada pelo acaso. Todas as
histórias que contei deixaram isso bastante claro; a questão é o que fazemos
quando uma virada acidental do destino reorganiza nossas vidas e nos mostra
algo que não esperávamos. Nós damos as costas e negamos sua veracidade? Ou
encaramos aquilo que não provocamos nem criamos em nossas vidas com
abertura de espírito, interesse e seriedade?
Minha esperança é que este livro e suas muitas histórias da vida real tenham,
depois de tudo, encorajado uma atitude de curiosidade psicológica, emocional e
simbólica sobre os eventos do acaso que nos acontecem, bons ou maus,
dolorosos ou felizes, doces ou amargos. Da próxima vez, portanto, que algo
inesperado cruzar seu caminho — um telefonema, um encontro, um sonho, um
golpe de boa ou má sorte —, eu apelo a todos que lembrem de algumas das
histórias mostradas aqui e estejam abertos para considerar que esse encontro da
sorte, essa ocorrência do acaso, pode bem ser um momento de virada na história
que estamos vivendo no dia-a-dia. Se trouxermos a atitude simbólica para dentro
de nossas vidas, pesquisando o significado do que nos aconteceu e, portanto,
permitindo que nossa capacidade de tirar uma noção de totalidade do acaso e
diferenciar os eventos de nossas vidas, então, como este livro mostrou, não
importa o que acontece na trama, qual o cenário, quem sejam os personagens,
maiores ou menores, nós veremos que, na verdade, não existem acidentes nas
histórias de nossas vidas.
Notas
Capítulo 1
1. C. G. Jung, The Collected Works of C. G. Jung, vol. 8 (Princeton:
Princeton University Press, 1960), p. 441.
2. Marie-Louise von Franz, On Divination and Synchronicity: The
Psychology of Meaningful Chance (Toronto: Inner City Books, 1980), p. 48.
3. C. G. Jung, op. cit., p. 441.
4. Jean Shinoda Bolen, The Tao of Psychology: Synchronicity and the Self
(San Francisco: Harper and Row Publishers, 1979), p. 37.
Capítulo 4
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What’s That on your Eyelash?”, National Wildlife (abril/maio de 1994), pp. 50-
Í9.
2. C. G. Jung, The Collected Works of C. G. Jung, vol. 8 (Princeton:
Princeton University Press, 1960), pp. 437-38, 525-26.
Capítulo 5
1. Robert Aziz, C. G. Jung‘s Psychology of Religion and Synchronicity
(Albany, NY: State University of New York Press, 1990), pp. 153-54.
Capítulo 6
1. Mary Williams, “Short Communication”, Journal of Analytical
Psychology, vol. 2, n.° 1 (1957), pp. 93-94.
2. C. G. Jung, Memories, Dreams, Reflections (Nova York: Vintage Books,
1965), p.
316.
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4. Robert Aziz, C. G. Jung‘s Psychology of Religion and Synchronicity
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Este livro foi composto na tipologia Caslon Old Face
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