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BREVE INTRODUÇÃO AO METABOLISMO
O corpo possui uma demanda por energia infinita. Tudo que fazemos é
regido pela provisão suficiente de energia na forma de ATP. Através da
alimentação é possível tanto obter a quantia necessária momentânea quanto
fornecer em excesso para períodos de jejum — um balanço de catabolismo e
anabolismo influenciados pelas calorias ingeridas versus calorias gastas.
O conjunto de engrenagens biológicas que regulam o balanço catabólico
e anabólico se chama metabolismo. É por intermédio dele que matérias-primas
como o carboidrato, proteína e gordura são utilizados a fim de sintetizar tecidos
e moléculas (enzimas, organelas, etc.), e fornecer ATP.
Metabolismo
FONTE: BIOQUÍMICA ILUSTRADA
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Uma das engrenagens é a glicólise, em que a matéria prima é a glicose,
proveniente da alimentação ou da glicogenólise e gliconeogênese. Ela é
submetida a uma cadeia de 10 reações, sendo que ao final, forma piruvato.
Outra engrenagem é a gliconeogênese, que produz glicose (fundamental
para a manutenção da glicemia sanguínea) em períodos de jejum a partir de
compostos não glicídicos, como proteínas, e glicerol proveniente da quebra dos
triglicerídeos. A glicogênese, em contramão, proporciona a síntese de
glicogênio.
A glicogenólise envolve a quebra do glicogênio para formar glicose,
estocado no fígado e no músculo. O glicogênio hepático tem a função principal
de manter a glicemia estável em períodos de aproximadamente 12h sem
alimentação; enquanto o muscular é utilizado exclusivamente pelo músculo para
produzir movimento (desde uma caminhada até o levantamento de pesos).
A lipólise é o processo de quebra dos triglicerídeos estocados no tecido
adiposo. Após serem quebrados, circulam pela corrente sanguínea atrelado à
sua proteína transportadora, a albumina, até poderem ser captados pelos tecidos
necessitados de energia, principalmente em períodos de jejum ou exercício
prolongado.
Duas etapas subsequentes à todas estas vias citadas, são o Ciclo de
Krebs e cadeira de fosforilação oxidativa. O Ciclo de Krebs é um ponto de
encontro entre todas elas, pois diversos compostos, por exemplo, os
aminoácidos, Acetil-CoA proveniente da beta-oxidação das gorduras e da
glicose são considerados intermediários deste importante processo metabólico.
A principal função dele é produzir NADH e FADH2 — transportadores de elétrons
que fornecerão a matéria prima mais refinada (H+) para produção de ATP na
cadeia de fosforilação oxidativa.
Na cadeia de fosforilação oxidativa ou respiração celular, os elétrons são
conduzidos ao longo de 4 complexos que atuam como catapultas, lançando os
elétrons ao longo desta cadeia afim de chegar no último, denominado ATP-
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sintase, que se assemelha a uma catraca. Assim que os elétrons passam por
ela, produzem ATP, que é a forma de energia utilizável pelo nosso corpo.
REGULAÇÃO DO METABOLISMO
O metabolismo humano pode ser divido em 3 estados: estado pós
prandial, estado de jejum e estado de exercício; sendo que cada um é regulado
pela integração de fatores externos (alimentação e atividade física) respostas
internas (aumento/diminuição de hormônios, moléculas sinalizadoras — ATP,
ADP, cálcio — e atividade de enzimas).
Sinais reguladores do metabolismo
Fonte: NUTRIÇÃO NO ESPORTE
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Ao nos alimentarmos, há uma grande quantia de glicose, aminoácidos e
ácidos graxos livres circulantes na corrente sanguínea para que os tecidos
corporais possam os utilizar, logo, a maquinaria celular deve ser ajustada para
garantir o processamento mais eficiente possível de cada uma destas matérias
primas.
O período pós prandial é um período considerado anabólico, onde os
processos que conduzem à síntese de outras moléculas estão aumentados.
Como este período também garante uma provisão suficiente de energia
momentânea, a oxidação de nutrientes está aumentada, sendo assim, há o
aumento das enzimas chave da glicólise, glicoquinase e fosfofrutoquinase, e
enzimas participantes da lipogênese de novo, a Acetil-CoA carboxilase e ácido
graxo sintase; insulina aumentada e glucagon/hormônios catabólicos
diminuídos.
No período de jejum, o catabolismo prevalece, logo, os hormônios
catabólicos e razão ADP/ATP estão aumentados; culminando na maior atividade
de enzimas que participam dos processos catabólicos (gliconeogênese, lipólise
e glicogenólise), com o objetivo de manter a homeostase.
O estado metabólico de exercício é peculiar, pois ele se sobressai aos
dois citados anteriormente, sendo que processos catabólicos são intensificados,
e a maquinaria celular é melhorada a fim de tornar a provisão energética cada
vez mais eficiente.
MODULAÇÕES METABÓLICAS DO EXERCÍCIO À CURTO PRAZO
Entender as adaptações metabólicas do exercício é fundamental para
refinar o repertório de estratégias nutricionais e aprofundar o conhecimento
sobre os processos que estão acontecendo.
O exercício, de forma dose-dependente com a duração e intensidade,
aumenta a demanda por energia. Existem 3 vias de provisão energética — a
fosfagênio (ATP-CP), glicolítica (glicogênio) e oxidativa (gordura). Exercícios de
alta intensidade precisam de ATP rapidamente, logo, recorrem à ATP-CP,
enquanto exercícios de baixa-moderada intensidade utilizam-se do glicogênio
muscular e hepático, e do tecido adiposo.
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Regulação das vias energéticas no exercício de acordo com a intensidade
Fonte: HARGREAVES e SPRIET, 2020
Os sinais reguladores que determinam qual via será predominantemente
utilizada são a relação demanda/consumo de oxigênio (quanto maior a
demanda, maior tentará ser o consumo de oxigênio, entretanto, ela pode não ser
atendida); relação ADP/ATP, cálcio intracelular e íon hidrogênio. A integração
entre estes determinará as modulações metabólicas necessárias. Vamos
entender por partes, então agrupá-las.
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Alterações agudas frente ao exercício.
Fonte: THYFAULT e BERGOUIGNAN, 2021
Nosso corpo tenta ser o mais eficiente possível, ou seja, fazer com que a
máxima quantia de energia seja extraída a partir de uma molécula. O bom
funcionamento do Ciclo de Krebs e cadeia respiratória celular é fundamental para
garantir esta eficiência, entretanto, é necessário que haja o fornecimento
adequado de oxigênio. Durante exercícios de alta intensidade, como a
musculação, a demanda por O2 sobe vertiginosamente, de forma com que a
respiração não é capaz de atendê-la. Com base nisto, vias energéticas que não
dependem do oxigênio precisam ser ativadas, como a glicolítica anaeróbia e
fosfagênica.
Durante o exercício, a relação ADP/ATP aumenta, já que o ATP está
sendo quebrado para gerar energia (vamos lembrar que, à medida que as
ligações de fosfato são quebradas, a energia é liberada). Isto serve como um
sinalizador para aumentar a atividade de enzimas glicolíticas e oxidativas que
irão repor o ATP quebrado, como a citrato sintase, piruvato desidrogenase e
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beta-hidroxiacilcoadesidrogenase. O exercício de baixa/moderada intensidade
aumentará exponencialmente a atividade de enzimas oxidativas, enquanto o de
alta intensidade, as que não dependem de oxigênio.
O mesmo ocorre a partir do cálcio. Concentrações aumentadas de cálcio
intracelular no exercício indicam fortes contrações musculaturas, que
necessitam de energia para ocorrer.
Veja, o cálcio ao mesmo tempo que permite a contração, modula o
metabolismo afim de produzir a energia necessária. Entretanto, o glicogênio
pode sofrer reduções significativas ao ponto de reduzir a performance (ponto
importante: é muito difícil de depletar o glicogênio em exercícios como a
musculação. A redução costuma ser de 24-40%, porém, esta quantia é o
suficiente para causar queda de performance). Para garantir provisões
suficientes, o músculo secreta a IL-6, que é capaz de se ligar ao fígado e induzir
glicogenólise hepática, que então será captado pelo músculo.
O íon hidrogênio, entretanto, atua como um lentificador da produção
energética. Quando depositado em grandes quantidades, ele gera acidose, o
que é danoso para a célula. Portanto, ao sinalizar redução da atividade de
enzimas, a contração muscular é cessada. Isto é um mecanismo preventivo ao
dano exacerbado.
Ao agruparmos todos estes fatores, é possível entender as modulações
metabólicas específicas de cada exercício.
À medida que o consumo de oxigênio se torna insuficiente num exercício
de alta intensidade, grandes quantias de cálcio são liberadas através do retículo
sarcoplasmático e a relação ADP/ATP se torna maior. Isto é capaz de aumentar
atividade de enzimas participantes dos processos anaeróbicos e mais rápidos
para a produção de energia possíveis. Por exemplo, a glicogênio fosforilase (que
quebra o glicogênio) fica mais ativa através da ligação do cálcio nela, já que o
glicogênio é uma fonte de energia rápida.
Outra modulação metabólica a curto prazo vista principalmente em
exercícios de alta intensidade é o aumento da captação de glicose independente
da insulina que pode perdurar até 4h pós-exercício. A força motriz que
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proporciona essa adaptação é o cálcio aumentado (pela contração muscular).
Este mineral é capaz de sinalizar duas proteínas: aPKC e AS160. Por sua vez,
elas interagem com o GLUT4 de forma a deslocá-lo para a membrana celular.
Esta modulação é responsável por aumentar a capacidade do músculo
armazenar glicogênio, o que evita a fadiga citada no parágrafo anterior, aumenta
a performance e melhora o controle glicêmico.
Translocação de glut4 pelo exercício
Fonte: MALONE et al, 2021
O exercício é capaz de aumentar a sensibilidade à insulina, mesmo que
somente em uma sessão. Isto se dá porque a célula muscular aumenta a
recepção por nutrientes e fluxo sanguíneo através da maior perfusão
microvascular causada pela permeabilidade da membrana aumentada através
do estresse mecânico. A força hemodinâmica é percebida pelos glicocálices
(antenas que percebem variações no meio extracelular), que por sua vez,
aumenta a síntese de endotelina-1. Por fim, isto aumenta a área de contato da
célula muscular com a corrente sanguínea, oxigênio e nutrientes, permitindo
maior perfusão microvascular mediada pela insulina.
MODULAÇÃO METABÓLICA A LONGO PRAZO
Para que adaptações celulares persistentes ocorram, é necessário a
perturbação do meio repetidas vezes. Podemos dizer que as modulações
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metabólicas a longo prazo acontecem quando os estímulos à curto prazo são
realizados periodicamente.
A fim de tornar a compreensão mais clara, irei separar as adaptações em:
provenientes do treinamento resistido e do treinamento aeróbico.
Em resposta ao exercício, os humanos alteram o fenótipo de seu músculo
esquelético; alterando o estoque de nutrientes, quantidade e tipo de enzimas
metabólicas, quantidade de proteína contrátil e rigidez do tecido conjuntivo, para
citar apenas algumas das adaptações. A mudança no fenótipo é o resultado da
frequência, intensidade e duração do exercício em combinação com a idade,
genética, sexo, alimentação e histórico de treinamento do indivíduo.
Adaptações crônicas ao exercício
Fonte: THYFAULT e BERGOUIGNAN, 2021
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O treinamento resistido (musculação/treino de força) leva ao acúmulo de
proteínas musculares (actina e miosina) — hipertrofia. O remodelamento destas
células altera a capacidade de concentração de aminoácidos e a capacidade do
músculo em utilizar as proteínas dietéticas para maiores níveis de hipertrofia
muscular através da maior atividade da proteína mTOR (fundamental para
causar aumento da SPM) e eficiência dos ribossomos aumentada (local onde o
RNA mensageiro que carrega o sinal para hipertrofia é traduzido). Ou seja, o
treinamento resistido à longo prazo aumenta a eficiência do consumo proteico.
O tecido muscular esquelético é um dos maiores responsáveis por captar
a glicose proveniente da alimentação, logo, ter o músculo hipertrofiado melhora
a regulação glicêmica. Isto se dá através de dois principais mecanismos: da
mesma forma que uma única sessão de treino resistido é capaz de aumentar a
sensibilidade à insulina pela maior perfusão microvascular mediada por este
hormônio, a exposição frequente aos estímulos causa uma perfusão ainda maior
através da proximidade do endotélio com a corrente sanguínea.
Ainda mais, a musculatura desenvolvida apresenta capacidades anti-
inflamatórias locais e sistêmicas. Uma preocupação grande em relação aos
indivíduos que apresentam sobrepeso/obesidade é a eficiência de regulação
glicêmica do músculo diminuída, causado pelo acúmulo de ácidos graxos
intramuscular e circulantes. Eles são capazes de se ligar aos receptores
insulínicos no domínio serina-treonina, piorando a resposta da insulina. Devido
ao músculo secretar miocinas quando está mais hipertrofiado, isto diminuirá a
capacidade de ligação dos ácidos graxos e citocinas no domínio citado e tornará
o receptor insuliníco mais “limpo” e sensível.
A translocação do GLUT4 também se torna mais fácil, tanto pela maior
sensibilidade à insulina citada nos parágrafos anteriores quanto pelo músculo
hipertrofiado, pois este desfecho (ganho de massa muscular) é causado pelo
treinamento resistido crônico, que por sua vez, aumenta a expressão de genes
relacionados à maior quantia de GLUT4, como o MEF2-GEF e HDAC4/5-MEF2.
A maquinaria enzimática, especialmente da glicólise e glicogenólise se
torna mais eficiente, já que a perturbação causada pelo treinamento resistido no
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meio intracelular reflete em requisições de energia aumentadas, que derivam
principalmente destas vias.
Portanto, é possível inferir que as adaptações metabólicas causadas à
longo prazo pelo treinamento resistido residem principalmente na maior
captação e metabolização da glicose e glicogênio.
O treinamento aeróbico proporciona adaptações distintas do treinamento
resistido. Devido à característica de menor intensidade e tempo sob exercício
prolongado; consumo de oxigênio que atende à demanda e relação ADP/ATP
aumentada, a ativação da AMPK (proteína quinase regulada por 5’AMP —
ativada em momentos de escassez ou demanda energética aumentada) é
saliente.
A AMPK é uma proteína que possui uma diversidade de vias conectadas
muito grande. Por exemplo, ela aumenta a atividade de enzimas glicolíticas e
oxidativas (curto e longo prazo). Uma proteína subjacente à AMPK que é elevada
em resposta ao treinamento aeróbico crônico é a PGC1alfa (coativadora do
receptor ativado por proliferador de peroxissomos 1alfa). Ela é ativada através
da maior relação ADP/ATP; ativação da p38 MAPK; relação NAD+/NADH e
concentração de cálcio citosólico.
A PGC1alfa, por sua vez, é muito conhecida pela biogênese mitocondrial
(geração de mais mitocôndrias e conteúdo mitocondrial). Nas mitocôndrias é
onde ocorre o Ciclo de Krebs e cadeia respiratória celular, responsáveis por
oxidar substratos na presença de oxigênio, especialmente a gordura. Portanto,
um indivíduo que pratica aeróbico frequentemente tem uma capacidade
aumentada de oxidar substratos, tanto durante o treino quanto em períodos sem
exercício. Se lembrarmos das moléculas sinalizadoras-reguladoras do
metabolismo, a capacidade aumentada de produzir energia diminui a fadiga e
aumenta a performance.
Essa é uma adaptação bem-vinda até mesmo para praticantes da
musculação, pois enzimas como a creatina quinase estão presentes na
mitocôndria e o ATP ressintetizado durante os descansos é feito principalmente
através das mitocôndrias.
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Remodelamento fenotípico do músculo
Fonte: EGAN e ZIERATH, 2013
O treinamento aeróbico também tem a capacidade de causar a
“obesidade-atlética”. O órgão principal por estocar gordura é o tecido adiposo.
Quando a gordura passa a ser alocada em outros órgãos, é denominado
deposição ectópica.
Num indivíduo sedentário, isso pode trazer prejuízos, especialmente a
inflamação induzida por transição do perfil M2 para M1 de macrófagos, que são
mais pró inflamatórios. O exercício aeróbico é capaz de induzir maior acúmulo
de triglicerídeos intramusculares, porém, eles são alocados perto das
mitocôndrias, o que facilita a geração energética e não traz prejuízos para a
célula. Esta é uma adaptação que permite maior produção energética.
Em resumo, o exercício aeróbico tem a propriedade de induzir adaptações
metabólicas que permitem a maior utilização de substratos energéticos que
dependem do oxigênio para serem oxidados e produz biogênese mitocondrial
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(auxiliando na sensibilidade à insulina através da capacidade aumentada de
oxidar nutrientes).
É importante mencionar que embora as adaptações tenham sido divididas
de acordo com cada tipo de exercício, elas não se restringem exclusivamente a
um ou outro, e sim que cada uma produzirá adaptações que sobressairão a uma
ou outra.
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REFERÊNCIAS
Malone JJ, Hulton AT, MacLaren DPM. Exogenous carbohydrate and regulation
of muscle carbohydrate utilisation during exercise. Eur J Appl Physiol. 2021
May;121(5):1255-1269. doi: 10.1007/s00421-021-04609-4. Epub 2021 Feb 5.
PMID: 33544230; PMCID: PMC8064975.
Thyfault JP, Bergouignan A. Exercise and metabolic health: beyond skeletal
muscle. Diabetologia. 2020 Aug;63(8):1464-1474. doi: 10.1007/s00125-020-
05177-6. Epub 2020 Jun 11. PMID: 32529412; PMCID: PMC7377236.
Smith, J.A.B., Murach, K.A., Dyar, K.A. et al. Exercise metabolism and adaptation
in skeletal muscle. Nat Rev Mol Cell Biol (2023). https://doi.org/10.1038/s41580-
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Egan B, Zierath JR. Exercise metabolism and the molecular regulation of skeletal
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doi:10.1016/j.cmet.2012.12.012
Hargreaves M, Spriet LL. Skeletal muscle energy metabolism during exercise
[published correction appears in Nat Metab. 2020 Sep 10;:]. Nat Metab.
2020;2(9):817-828. doi:10.1038/s42255-020-0251-4
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