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BARRETO, Cristiana (2013) - Bancos Indigenas

O capítulo discute a importância cultural e social dos bancos indígenas, que são objetos sagrados e símbolos de identidade entre diversos povos da América do Sul. Os bancos, tradicionalmente feitos de madeira, pedra ou cerâmica, refletem a resistência cultural e a continuidade de práticas artesanais ao longo dos séculos. Além de sua função utilitária, eles desempenham um papel significativo em rituais e na hierarquia social das comunidades indígenas.

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BARRETO, Cristiana (2013) - Bancos Indigenas

O capítulo discute a importância cultural e social dos bancos indígenas, que são objetos sagrados e símbolos de identidade entre diversos povos da América do Sul. Os bancos, tradicionalmente feitos de madeira, pedra ou cerâmica, refletem a resistência cultural e a continuidade de práticas artesanais ao longo dos séculos. Além de sua função utilitária, eles desempenham um papel significativo em rituais e na hierarquia social das comunidades indígenas.

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Bancos Indígenas: entre arte e artefato

Chapter · January 2015


DOI: 10.13140/RG.2.1.1461.5767

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1 author:

Cristiana Barreto
Laboratório de Arqueologia dos Trópicos
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Bancos indígenas: entre arte e artefato
Cristiana Barreto
Museu de Arqueologia e Etnologia
Universidade de São Paulo

Origens, tradição e resistência em pedra, encontrados dentro de


Foi sentada em seu banco de quartzo antigos templos ou palácios (como os
que a Avó do Universo, moradora da famosos bancos da cultura Manteña
Maloca do Céu, criou os homens, os da costa do Equador, feitos entre
animais, a terra e as águas. O banco os séculos IX e XVI) até pequenos
foi entregue aos ancestrais dos atuais bancos circulares de cerâmica,
Tukano, que passaram a reproduzi-lo típicos de algumas culturas pré-
em madeira. O mito Tukano – povo incaicas do Equador e do Peru (como
do noroeste da Amazônia que ainda Narrío e La Tolita), mas presentes
hoje fabrica os bancos em seu estilo também na Amazônia, como os da
tradicional – indica o lugar dos cultura Marajoara, fabricados entre
bancos entre os objetos sagrados, os séculos IV e XIV.
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ao mesmo tempo parte do universo Se não temos bancos
primevo e fonte do poder de criação. arqueológicos de madeira, podemos
A presença nos mitos de inferir seu uso e sua forma a partir
origem de alguns povos atesta de estatuetas e urnas funerárias
a antiguidade da arte de talhar cerâmicas que retratam indivíduos
bancos: os primeiros registros do sentados. Essas representações
uso desses objetos entre ameríndios mostram que os bancos usados no
das terras baixas da América do Sul, passado não eram diferentes dos
do Caribe e da América Central atuais: sempre talhados em uma
datam de, pelo menos, 4 mil anos. única peça, com dupla base
São assentos individuais feitos de de apoio e decoração externa,
pedra ou de cerâmica (materiais tomando às vezes a forma de animais.
que, diferentemente da madeira, Constata-se assim que, ao contrário
resistiram ao ambiente tropical) do que aconteceu com outras
de diferentes dimensões. Existem práticas tradicionais, a produção de
desde verdadeiros tronos esculpidos bancos perdurou até nossos dias,

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chegando mesmo a revitalizar-se nas cultura material indígena que,
últimas décadas. mesmo quando reapropriados fora de
Atualmente, os bancos mais seu universo original, permanecem
conhecidos, por sua comercialização, símbolos de uma duradoura tradição.
são os feitos pelos índios que Os bancos indígenas fazem
habitam o alto Xingu, no Mato parte, assim, do rol dos objetos ditos
Grosso. Seus diferentes estilos “resistentes”, isto é, aqueles que não
refletem a diversidade de origens, foram substituídos pelos produtos
línguas e histórias de cada um industrializados introduzidos aos
dos dezesseis povos que o Parque índios desde os primeiros contatos
Indígena do Xingu abriga. com o branco. Machados, panelas,
Fora do parque, os Tukano roupas e barcos, entre outros, foram
mantêm-se como um importante rapidamente absorvidos em razão
polo de produção. Vivendo ao lado de sua eficácia funcional e maior
de outros vinte povos indígenas, eles durabilidade, bem como da facilidade
compartilham um complexo sistema em obtê-los prontos. A resistência
de trocas de diferentes objetos e dos bancos é um bom indício de que
produtos, no qual os bancos são não a sua função utilitária certamente
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só a sua especialidade artesanal, mas não é a razão principal pela qual
também um distintivo de identidade. os índios continuam a fabricá-los,
Povos de outras áreas também reproduzindo, ao longo de gerações,
continuam a fazer bancos, como os uma cadeia operatória de técnicas de
Karajá, os Asurini e os Tapirapé, no entalhe e decoração que, ao fim de
Brasil central, ou como os Waiwai, três ou quatro dias, produz um único
os Wayana e os Palikur do norte banquinho.
amazônico, na região das Guianas Entre muitos povos indígenas,
e do Amapá. o uso dos bancos materializa
Seja como objetos usados no algumas regras sociais internas da
cotidiano da aldeia ou em situações comunidade. Sentar em bancos
cerimoniais, seja como produtos para é quase sempre uma prerrogativa
a venda externa, oferecidos como masculina; às mulheres são
artesanato ou design ou colecionados reservadas as esteiras, colocadas
como arte indígena, os banquinhos diretamente sobre o chão, o que
hoje estão entre poucos itens da determina que elas mantenham as

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pernas estendidas. O ato de sentar eram feitos especialmente para o uso
sobre bancos implica flexionar as ritual dos xamãs e grandes chefes. No
pernas e colocar os pés no solo com alto rio Negro, o banco, denominado
os joelhos apontando para o céu, kumurõ, é também o artefato do pajé,
numa posição que cria o contato entre do kumu, aumentando de tamanho
a terra e o céu, entre o mundo natural segundo seu prestígio.
dos humanos e o mundo sobrenatural Os bancos também podem ser
dos espíritos, posição esta muitas feitos para serem trocados com
vezes só permitida a alguns homens outros povos indígenas ou ofertados a
mais importantes da aldeia. seus aliados. Os homens tukano, que
Durante as cerimônias e os devem casar com mulheres de povos
rituais, sobretudo, os bancos são vizinhos, muitas vezes fazem bancos
usados de forma a diferenciar para seus cunhados ou sogros.
os indivíduos da comunidade, Além de funcionarem como
separando os homens das mulheres, um demarcador social ou uma
os jovens dos velhos, os guerreiros e insígnia de prestígio, os bancos
xamãs do restante da comunidade. possuem uma dimensão sagrada.
Entre quase todos os povos que São utilizados pelos xamãs para se
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fabricam bancos, seu tamanho está transformar, ascender a mundos
diretamente relacionado à idade e ao sobrenaturais e interceder junto
prestígio do usuário. àqueles que causam doenças,
O uso dos bancos varia entre mortes ou outras crises. Muitas
os diferentes povos. Entre os Suyá, vezes, é sentado sobre um banco
eles são usados por todos na aldeia, que o xamã é induzido a um estado
mas a mulher, o filho ou a filha não alterado de transe, seja por meio
podem sentar no banco do pai. Entre do consumo de bebidas alcoólicas
os Kaiabi, apenas os xamãs e grandes ou de drogas alucinógenas, seja
chefes podiam usar o banco. Entre fumando tabaco, ou ainda apenas
os Wayana, os bancos femininos através dos cantos e das danças
são visivelmente mais baixos que executados ao seu redor. Não por
os masculinos, e há um modelo acaso, entre os Desana, o desenho
diferente, com figuras de animais na superfície do banco é chamado
de cada lado, para os homens mais de pahmelin gohori, isto é, desenho
idosos. Entre os Yudjá, os bancos da transformação.

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O banco permite ao usuário se acontece com muitos dos outros
destacar do que está à sua volta; objetos rituais indígenas, fazer o
usá-lo é um ato essencial da procura banco é tão importante quanto usá-
do xamã por poderes visionários, lo. Os bancos bonitos são aqueles
porque simboliza um eixo, um que são bem feitos.
ponto de referência central para
mediar, pressagiar e realizar as curas. Uma longa cadeia operatória
Assim, em muitos rituais, os bancos, Entre os ameríndios das terras
junto com outros objetos sagrados, baixas, todo trabalho com
adquirem poderes próprios e são matérias-primas de maior dureza
usados como verdadeiros veículos de e durabilidade – madeira, pedra e
transformação e transporte. osso – é tradicionalmente masculino.
Entre alguns dos povos do Assim, os bancos de madeira são
alto Xingu que produzem bancos sempre talhados pelos homens,
zoomórficos, tradicionalmente os mesmo que em alguns casos, como
bancos dos xamãs eram entalhados entre os Yudjá, a pintura seja feita
na forma de aves, animais pelas mulheres. Apesar de ser uma
considerados mais próximos do atividade em grupo, alguns homens
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mundo sobrenatural pela capacidade acabam sobressaindo nesta arte, e se
de voar. Aparecem, sobretudo, aves tornam assim artesãos especializados.
de rapina como o urubu-rei ou o Para fazer um banco com
jaburu, que em geral assumem um ferramentas modernas, leva-se em
grande protagonismo nos mitos de média três dias. Um dia para buscar
origem desses povos. Alguns desses a madeira e começar a entalhar, outro
bancos/aves apresentam duas ou para acabar o entalhe e lixar e mais
mais cabeças e uma concavidade na um para a decoração. Pode-se deixar
superfície do assento, usada para a madeira secar por mais tempo,
triturar e preparar os pigmentos entre o entalhe e a pintura, para um
usados na pintura corporal. melhor resultado.
Assim, para além do sentar, os O primeiro passo é buscar a
bancos materializam conhecimento, madeira na floresta. Vários tipos
tradição e crenças que são de certa de madeira podem ser usados para
forma reatualizados a cada vez que os bancos, mas são sempre as de
se talha uma nova peça. Como grande dureza e durabilidade,

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resistentes aos insetos, muitas nas proporções entre o assento e as
vezes as mesmas que são usadas bases, mas apresentando tamanhos
para fazer canoas e casas. São em e motivos pintados diversos, de
geral árvores de crescimento lento, acordo com a finalidade e a pessoa
encontradas em florestas de terra para quem está sendo feito o banco.
firme. Os Yudjá utilizam a mescla, Entre outros povos, a variação em
o cedro ou a sumaúma. Os Kaiabi torno dos modelos tradicionais
utilizam, além do cedro, a itaúba e pode ser maior e depende mais da
a canela. Os Suyá usam a amoreira, criatividade individual do artista.
o breu ou o almíscar. Os Tukano Os Tukano fazem medições e
utilizam a sorva, cujo tronco de uma marcações com carvão para garantir
árvore adulta pode render até vinte a perfeita simetria da forma típica
banquinhos. de seus bancos. Outros modelos,
Uma vez derrubada e como os bancos xinguanos dos
desbastada a árvore, a madeira é Kalapalo e Mehinaku em forma de
cortada em cilindros e levada para animal, tomam uma forma mais
a aldeia. Dependendo do tamanho livre, de acordo com a textura e o
do banco que se pretenda fazer, volume da própria madeira. Mas
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deve ser carregada por dois ou sempre o bom artista é o bom
mais homens. Algumas madeiras conhecedor da tradição.
escurecem com o tempo e, se não Durante o entalhe, à medida que
forem talhadas logo, precisam ser a escultura se torna mais delgada, as
conservadas dentro da água. retiradas se fazem em lascas cada vez
Uma vez na aldeia, inicia-se mais finas, para evitar rachaduras na
o entalhe, sempre levando em madeira. Uma vez atingida a forma
consideração o tamanho, a forma final, é preciso aplainar, lixar e polir a
e a textura da madeira. Hoje, as peça, utilizando-se formão, lima, lixa
ferramentas mais usadas são o enxó, e pedras. O importante é obter uma
a machadinha e o facão ou terçado. superfície muito lisa, sobretudo onde
As formas escolhidas seguem os será aplicada a pintura.
modelos tradicionais de cada grupo. É preciso notar, entretanto,
Entre grupos como os Tukano, os que nem todos os bancos recebem
Karajá e os Tapirapé, a forma é pintura. Entre muitos grupos, como
sempre a mesma, com pouca variação os Asurini, os desenhos tradicionais

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usados na pintura corporal ou na vermelha mais escura. Trata-se de
cerâmica passaram recentemente a um pigmento retirado de um cipó por
ser aplicados também nos bancos, mulheres de outros povos vizinhos,
para torná-los mais bonitos. Mas os Bará e os Tuyuka, e obtido pelos
outros continuam a fazê-lo sem Tukano através da troca. Os Tukano
pintura, como alguns artistas recobrem todo o assento de seus
Mehinaku que preferem deixar bancos com uma espessa camada
a textura da madeira “decorar” desses corantes vermelhos, que serve
a superfície de suas esculturas de base para a impressão de seus
zoomorfas. grafismos tradicionais. Nesse caso, os
Já entre outros grupos, a pintura grafismos são aplicados carimbando–
dos bancos – tanto a maneira -se a superfície vermelha com
de aplicá-la como os desenhos pequenas talas de arumã embebidas
executados – é parte fundamental na argila. É a reação da argila com
de sua concepção. É comum a a base vermelha que produz a cor
decoração ser aplicada em preto, preta dos grafismos, que só aparecem
diretamente sobre a madeira, com depois que o banco é lavado.
uma tinta obtida da mistura do Quase sempre a pintura se
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carvão com algum tipo de fixador localiza na parte superior do assento,
vegetal. A casca de algumas espécies área de maior contato com o usuário.
de árvore (principalmente as Mas as partes laterais e as bases,
mirtáceas e as melastomatáceas) é sobretudo quando têm superfícies
espremida e o líquido misturado ao mais amplas, também podem ser
carvão. O mesmo pode ser feito com decoradas. Alguns bancos em forma
as sementes de urucu, para obter de animais recebem pintura por toda
uma coloração mais avermelhada. a superfície, imitando os padrões da
O urucu também ajuda a repelir os pele do animal, como as pintas das
insetos e a selar a madeira. O uso de onças e as listas dos quatis. É comum
várias colorações em um só banco os olhos serem representados por
é mais raro, como a combinação de incrustações circulares de concha,
amarelo, laranja e preto dos grafismos apresentando certo brilho.
karajás. A maior parte dos bancos
Os Tukano usam também o pintados exibe os motivos gráficos
carajuru, uma tinta de coloração do repertório tradicional de cada

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grupo, muitos também usados na aproximam das “obras de arte”, no
pintura corporal, na superfície de sentido ocidental do termo.
cerâmicas e cuias e nos trançados de Outros bancos são concebidos
fibras naturais. Os motivos variam dentro de modelos absolutamente
também de acordo com a ocasião e rígidos quanto à geometria das
finalidade específicas para as quais se formas. Os modelos são muitos e
fabrica cada banco. Nesse aspecto, extremamente diversificados nas
também a inovação ocorre dentro combinações entre a forma do
de certos parâmetros: o trabalho dos assento e estrutura de base. Em
indivíduos mais imaginativos é muito geral obedecem a uma simetria
prestigiado, mas sua imaginação deve absoluta, sendo idênticos tanto no
operar no sentido de combinar os eixo frente/costas como no eixo dos
padrões tradicionais e adaptá-los à lados direito/esquerdo.
superfície a ser decorada, e não no Os assentos podem ser planos,
sentido de inventar motivos novos. côncavos como os recipientes de
madeira, ou convexos, aproveitando
Identidade e diversidade das a forma roliça do tronco. A forma do
formas e grafismos assento varia entre retangular, em
25
Um olhar acurado sobre os bancos forma de canoa, oval, circular ou
feitos pelos diferentes povos alongada, com apêndices laterais,
indígenas do Brasil revela uma como os bancos Karajá e Tapirapé.
imensa diversidade de formas As bases, quando duplas, são
e desenhos. Entre os bancos formadas por duas paredes laterais
que replicam formas animais – perpendiculares ao assento ou
onças, tamanduás, quatis, sapos, inclinadas em diferentes ângulos,
arraias, tartarugas, tatus e outros resultando em formas mais ou
– a espécie é sempre facilmente menos elaboradas. Variam ainda
reconhecível, ainda que retratada entre paredes inteiriças ou vazadas
de forma mais ou menos estilizada. com vãos triangulares, como nos
Mesmo que representem com bancos waiwais.
maior precisão os atributos Os bancos kaiabi são os que
de uma mesma espécie, cada apresentam as linhas mais retas,
exemplar é único. Nesse sentido, com formas retangulares tanto
são verdadeiras esculturas e se nos assentos como na base dupla,

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prolongada por hastes paralelas parâmetros que devemos entender a
ao assento, ao longo do chão, que variedade de modelos de bancos: eles
dão maior estabilidade ao banco. correspondem às diferentes tradições
Nos bancos suyás, igualmente desses povos e funcionam como
retangulares, as bases são simples elementos de reafirmação de sua
retângulos perpendiculares ao identidade.
assento. Nos bancos xinguanos, Outra forte marca identitária
mesmo que os assentos tomem de cada povo corresponde aos
as formas de animais, existe uma grafismos aplicados sobre os bancos.
imensa variação na forma das Entre os Tukano, todos os bancos
bases, que podem ser triangulares, recebem o mesmo desenho de
trapezoidais, retas ou com hastes trançado, representando o couro
prolongadas. de uma cobra – a cobra Canoa de
Um levantamento regional Transformação, canoa mítica que
realizado pelo antropólogo Walter transportou a primeira humanidade
Roth, apenas na área das Guianas, em seu bojo. Esse desenho pode ser
revelou mais de quinze modelos de combinado a outros no centro do
formas usadas para os bancos feitos banco, relativos a outras partes da
26
pelos povos Karib e Arawak. cobra da transformação, como suas
A diversidade dos modelos costelas, ou outros seres da natureza,
formais de banquinhos, ainda como o desenho do couro de paca, de
presente entre diferentes povos borboleta, ou de casca do abacaxi.
indígenas das terras baixas da Nem sempre há uma
América do Sul, e principalmente no correspondência exata entre o
Brasil, é sem dúvida um espelho da grafismo e a origem ou língua
própria diversidade cultural dessas falada pelo povo indígena. No alto
populações. O que costumamos Xingu, povos de diferentes origens,
englobar sob uma única rubrica línguas e tradições vêm, ao longo
como “indígena”, na verdade acaba dos séculos, compartilhando não
por mascarar um quadro atual de só o território do Parque Indígena
234 povos, falantes de 180 línguas e do Xingu, mas também muitas das
dialetos, em mais de seiscentas terras tradições da cultura material. Alguns
indígenas distribuídas por todos os grafismos tradicionais dos povos de
estados do Brasil. É dentro destes língua karib, como os Kuikuro e os

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Kalapalo, são também aplicados aos No alto Xingu, muitas vezes
bancos feitos pelos Kamayurá, de a repetição ou sequência dos
língua aruak, ou pelos Waujá, de grafismos aplicados sobre os
língua tupi. Os Kuikuro reconhecem corpos e objetos correspondem
suas pinturas como uma de suas ao ritmo dos cantos e danças dos
marcas identitárias, mas também rituais. Outras vezes, os animais
como marca da humanidade alto- representados em bancos, cerâmicas
xinguana em geral. Contudo, outros e outros objetos são a expressão
povos que foram mais recentemente visual e material de conhecimentos
integrados à área, mas que não tradicionais e mitos transmitidos
fazem parte do chamado complexo através de gerações.
xinguano, como os Kaiabi, os Yudjá Os bancos encerram, assim,
e os Suyá, mantiveram seus estilos os conhecimentos tecnológicos
próprios tanto nas formas do entalhe e cosmológicos de cada cultura.
como nos motivos gráficos aplicados Entre a tradição e o desejo estético,
aos bancos. a função do sentar e a magia de
Muitos dos grafismos que vemos transformar, entre o artefato e a obra
nos banquinhos xinguanos são os de arte, a beleza dos bancos permite
27
mesmos da pintura corporal usada celebrar a diversidade e a identidade
durante os diferentes rituais. Um de cada povo indígena. São objetos
dos motivos mais tradicionais, o que nos ensinam a aproximar
da pintura da armadilha de pesca arte e artefato, contemplação e
tihigu, é usado apenas para artefatos funcionalidade, lembrando-nos
de madeira, no ritual funerário da capacidade estética de agir e
Kwarup, tanto nos troncos de transformar o mundo que toda
madeira que simbolizam os mortos criação humana tem.
como nos bancos. Na decoração Hoje, trazer à luz esta produção
dos troncos que os transformam em artesanal é fazer com que os bancos
verdadeiras efígies dos ancestrais continuem a exercer seu papel
reverenciados, é o grafismo que os de simbolizar a determinação dos
torna xinguanos. A pintura tem, povos indígenas em preservar suas
assim, um papel transformador, o identidades perante a complexa
poder de construir corpos e pessoas, dinâmica de sua inserção na
distinguindo-os dos não humanos. sociedade nacional.

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A produção indígena artesanal fazer, denominações linguísticas,
contemporânea memórias, mitos, cantos e danças
A preservação da cultura material, de rituais são reatualizados através
objetos e técnicas tradicionais, é uma da produção material. Em 2003,
ação de autodeterminação e uma das por exemplo, a partir da pesquisa
formas mais eficazes de resistência e do dossiê montado por agentes
dos povos indígenas. A salvaguarda indígenas sobre a pintura corporal
e a revitalização de conhecimentos e os grafismos dos índios Wajãpi,
tradicionais vêm sendo feitas de povo indígena do Amapá, sua
inúmeras maneiras. É crescente o arte gráfica foi reconhecida como
número de cooperativas de produção Patrimônio Imaterial Nacional pelo
de artesanato, de cursos e oficinas Iphan e depois como obra-prima
para a transmissão de conhecimentos do Patrimônio Oral e Imaterial
tradicionais dos mais velhos para da Humanidade pela Unesco.
os mais novos, de atividades de A pesquisa evidenciou que os
pesquisa e documentação de grafismos estavam intimamente
objetos tradicionais por agentes associados aos mitos e à memória
indígenas. Cresce também o número oral desse povo.
28
de publicações, vídeos, filmes, Outro exemplo importante
exposições e museus que trazem ocorreu em 2008, com a criação
à luz o rico universo artístico e do Museu Kuahi pelos indígenas
tecnológico indígena. do Oiapoque, também no Amapá,
Uma análise rigorosa dos objetos com a proposta de integrar a
produzidos hoje pelas comunidades produção estética de distintos
indígenas mostra não apenas a ênfase povos da região, promovendo
no processo, o “fazer com arte” atividades de intercâmbio entre
característico da produção artesanal aldeias, instituições acadêmicas e
indígena, mas também a relação museus. Isso mostra a participação
entre esse fazer e a salvaguarda de ativa de comunidades indígenas na
conhecimentos tradicionais. elaboração de seus próprios museus
A revitalização da cultura ou em programas de pesquisa e
material acaba também por recuperar preservação de seu patrimônio,
importantes aspectos da cultura fenômeno resultante de um duplo
imaterial: gestos e modos de processo de amadurecimento: de

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um lado, as comunidades percebem os índios e a sociedade nacional.
suas tradições estéticas como um Mas é através dele que muitos dos
instrumento efetivo de afirmação objetos indígenas como os bancos,
de sua identidade específica; de a rede de dormir, os cestos e os
outro, a sociedade nacional valoriza a adornos corporais têm entrado no
complexidade dessas manifestações universo do design ocidental.
ancoradas em tradições orais, Alguns antropólogos estudiosos
conhecimentos e cosmologias nem das artes indígenas brasileiras
sempre visíveis e tangíveis. acreditam mesmo que o fato de que
É nesse quadro que se situa os povos indígenas não concebam
a atual produção artesanal dos a arte como um domínio autônomo
banquinhos para a venda. A renda e meramente contemplativo – ou
gerada pela venda de artesanato seja, não separem arte de artefato,
raramente se constitui na principal ou o belo do útil – faz com que
fonte de recursos de qualquer suas criações se aproximem mais de
comunidade indígena, mas vem nossos projetos de design do que de
sendo mantida entre muitos povos obras de arte. Acreditam, ainda, que
por também propiciar uma atividade somente quando o design suplantar
29
agregadora, coletiva e de salvaguarda as “artes puras” ou as “belas
de conhecimentos tradicionais. artes” é que teremos na sociedade
A venda realizada por meio ocidental um quadro similar ao das
de lojas da Funai, de cooperativas sociedades indígenas.
indígenas ou de comerciantes Enfim, na fruição estética dos
especializados em artesanato bancos indígenas aqui retratados,
indígena traz elementos tanto de sejam eles reconhecidos enquanto
revitalização como de mercado. obras de arte, artefatos ou objetos
Modificações podem ser introduzidas de design, talvez a lição mais
a partir de padrões estéticos importante que tenhamos a aprender
ocidentais, isto é, de quem compra, seja a de que nada deva ser feito sem
estabelecendo-se uma dinâmica nem arte, tradição e beleza.
sempre positiva para a manutenção
de tradições. O mercado talvez
não seja a via ideal para que se
estabeleça um diálogo estético entre

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