A CIDADE DE DEUS
Santo Agostinho
V O L U M E II
(L ivro IX a X V )
Tradução, prefácio, nota biográfica e transcrições
de
J . D ia s P e r e i r a
2.a Edição
0^0
SERVIÇO DE E D U C A Ç Ã O E BOLSAS
F U N D A Ç Ã O C A LO U STE G U LB EN K IA N
T ra d u ç ã o do o rig in al latin o in titu lad o
D E C IV IT A T E D EI
de S anto A g o stin h o , baseada na
q u a rta ed ição de B. D o m b a rt e A. K alb.
R e se rv a d o s to d o s o s d ire ito s
dc h a rm o n ia c o m a lei.
E d iç ã o d a F u n d a ç ã o C alo u ste G u lb c n k ia n .
A v . de B e rn a . L isb o a
2000
ISBN 972-31-0897-6
P ara esta tra d u ç ã o foi u tiliz a d o o te x to la tin o da
q u a rta edição de B. D o m b a rt e A. K alb, col. B ib lio th eca
T eu b n erian a, Leipzig, 1928-1929, rep ro d u zid a em O e u v res
de Saint A ug u stin , edic. bilin g u e de D esclée de B ro u w e r,
Paris, 1959, c o n fro n ta d o p o rém , pan passu co m o te x to
latino dos b en ed itin o s de S. M a u ro u tilizad o p o r M igne
na P atro lo g ia L atina X LI e rep ro d u z id o pela B A C
(B ib lio teca de A u to re s C ristian o s, M ad rid , 1977) em
O b ra s de San A u g u stin , X V I-X V III — La C iu d a d de
Dios.
LIVRO XI
Com eça a segunda parte desta obra que trata da origem
das duas Cidades — D a C eleste e da T e rre s tre — , do seu
desenvolvimento e dos seus fins.
Neste prim eiro livro com eça Agostinho por dem onstrar
que os prim órdios das duas cidades tiveram um precedente na
distinção entre anjos bons e anjos maus.
Por tal m otivo trata da criação do M undo de que as
Sagradas Escrituras nos oferecem a descrição no principio do
livro do Génesis.
[985]
CAPÍTULO I
Nesta parte da obra com eça-se por se mostrar
as origens e os fins das duas Cidades —
— da Celeste e da Terrestre.
Cham am os C idade de Deus àquela de que dá teste
munho a E scritura que, não devido a m ovim entos fortui
tos dos ânimos, mas antes devido a um a disposição da
Suma Providência, ultrapassando pela sua divina autori
dade todas as literaturas de todos os povos, acabou por
subjugar toda a espécie de hum anos engenhos. É, real
mente, nela que está escrito:
Disseram de ti coisas gloriosas, ó cidade de Deus
e num outro salmo lê-se:
O Senhor é grande e digno dos maiores louvores na
cidade do nosso Deus, na sua montanha santa, ele que
aumenta o júbilo de toda a terra 2;
e um pouco mais à frente no mesmo salmo:
Como ouvimos assim vimos na Cidade do Senhor das
virtudes, na cidade do nosso Deus; Deus fundou-a para a
eternidade3;
1 Cloriosa dieta sunt de te, civitas Dei.
Salmo LXXXVI, 3.
_ _ Magnus Dominus et laudabilis nimis in civitate Dei nostri, in monte
t0 ^ Ks> dilatans exultationes universae terrae.
Salmo XLVII, 2-3.
Sicut audtvims, ita et vidimuns, in civitate Domini virtutum, in civitate
a nosfn’ Deus Jundavit eam in aetemum.
Salmo XLVII, 9.
[987]
e da m esm a form a noutro salmo:
Uma torrente de alegria inunda a cidade de Deus; o Altís
simo santificou o seu tabernáculo; Deus está no meio dela: ela
não será abalada 4.
C om estes testem unhos e outros que tais, que seria
longo citar, sabemos que há um a C idade de Deus da qual
aspiramos ser cidadãos movidos pelo am or que o seu fun
dador infundiu em nós. A este fundador da cidade santa
p referem os cidadãos da C idade T errestre os seus próprios
deuses, ignorando que Ele é o Deus dos deuses — não dos
deuses falsos, isto é, ímpios e orgulhosos que, privados da
luz im utável e a todos com um , reduzidos por isso a uma
espécie de poder indigente, prosseguem o seu domínio a
bem dizer pessoal ao reclam arem honras divinas daqueles
que, por seus em bustes, se lhes subm eteram , — mas é o
Deus dos deuses piedosos e santos que preferem pôr toda a
sua alegria em só a Ele se subm eterem a pô-la em que
m uitos outros a si se subm etam e preferem adorar a Deus
a serem adorados em lugar de Deus.
Nos dez livros precedentes respondem os, com o nos
foi possível com a ajuda de nosso Senhor e Rei, aos inimi
gos da C idade Santa. A gora, — sabendo o que de mim
esperam doravante e recordado do meu compromisso,
sem pre com confiança no auxílio do m esm o Senhor e Rei
nosso — , vou tratar de expor a origem , o desenvolvimento
e os fins destas duas cidades, a terrena e a celeste, que
estão, com o disse, interligadas e de certo m odo misturadas
um a na o u tra no século presente. Mas antes direi de que
m aneira a origem das duas cidades teve com o precedente
a diversidade dos anjos.
4 Fluminis impetus laetificat civitatem Dei, sanctificavit tabemaculurn suu
Altissimus; Deus in medio ejus non commovehitur.
Salmo XLV, 5-6.
[988]
CAPÍTULO II
Ao conhecimento de Deus nenhum hom em chega
senão pelo Mediador entre Deus e os hom ens
__o hom em Jesus Cristo.
É grandioso, mas m uito raro, que alguém se eleve,
por um esforço da m ente, acima de todas as criaturas cor
porais e incopóreas, depois de ter observado e reconhecido
a mutalibilidade, para atingir a im utável substância de
Deus e aprender d ’Ele mesmo que toda a criatura d ’Ele
distinta só a Ele tem por autor. De facto, Deus não fala ao
homem por uma criatura corpórea — com o se ferem os
ouvidos do corpo fazendo vibrar o ar entre aquele que
fala e aquele que ouve;
também se não serve dessas imagens espirituais que
tomam a forma e a semelhança dos corpos — com o se
produz nos sonhos e tudo o que se lhes assemelha (nestes
casos Ele fala por assim dizer aos ouvidos do corpo como
se falasse por interm édio de um corpo, através do espaço
corpóreo; realm ente, m uito se assemelham aos corpos
estas vistas imaginárias);
mas fala pela própria verdade se alguém está apto a
ouvir pelo espírito e não pelo corpo. Fala deste m odo à
parte mais excelente do hom em , superior a todos os ele
mentos que constituem o hom em e à qual só Deus é supe
rior.
Com preende m uito bem o hom em ou, se não chega
lh C° mPreendê-l°, pelo menos crê que foi feito à seme-
seu^ ^ eus‘ C ertam ente que está mais perto de Deus,
do -UPen o r Pela parte superior de si m esm o, feita para
nar as partes inferiores que tem de com um com os
[989]
animais. Mas com o a própria parte m ental, sede natural
da razão e da inteligência, está m uito debilitada pelos
vícios inveterados que a obscurecem , necessitava, antes de
tudo, de ser purificada pela fé para aderir à luz imutável e
dela gozar, ou m esm o para lhe suportar o esplendor, até
que, renovada e curada dia a dia, se tom e capaz dum a tão
grande felicidade.
E para cam inhar mais confiadam ente nessa fé para a
verdade — a própria verdade, Deus Filho de Deus, assu
m indo o hom em sem anular a Deus, fundou e estabeleceu
essa m esm a fé para que o hom em tivesse um caminho
para o Deus do hom em por interm édio do homem-Deus.
Este é que é, realm ente, o M ediador entre Deus e os
hom ens — o hom em Jesus C risto: é M ediador por ser
hom em e com o tal é cam inho. Porque, se entre o que
cam inha e o lugar para onde se cam inha há no m eio um
cam inho, há esperança de lá chegar; se, porém , falta ou se
desconhece por onde se deve seguir, que interessa que se
saiba para onde se deve seguir? Só há, portanto, um cami
nho que exclui todo o erro: que o próprio Deus e o
hom em sejam o m esm o — Deus para onde se vai, homem
por onde se vai.
[990]
CAPÍTULO III
Autoridade da Escritura canónica, obra do
Espírito Santo.
Deus falou, prim eiro, por interm édio dos profetas,
depois, directam ente, Ele próprio, e finalm ente, na
medida em que o ju lgou suficiente, pelos Apóstolos. Insti
tuiu também a Escritura cham ada canónica e investida da
mais alta autoridade. Nela acreditam os a respeito de tudo
o que convém não ignorar e que somos incapazes de
conhecer por nós próprios. E certo que podemos saber — e
disso somos nós próprios testem unhas — o que está ao
alcance dos nossos sentidos, interiores ou mesm o ex terio
res, (daí que chamem os presente (praesentia) ao que se apre
senta aos nosos sentidos (prae sensibus), com o dizem os que
está diante (prae) dos nossos olhos um objecto que aos
olhos se apresenta). Todavia, para as coisas que não estão
ao alcande dos sentidos, porque as não podemos conhecer
pelo nosso próprio testem unho, procuram os outras teste
munhas e depositamos nelas fé quando julgam os que essas
coisas não estão ou não estiveram afastadas dos seus senti
dos. Da mesma form a, portanto, que a respeito das coisas
visíveis que não vemos, depositam os fé naqueles que as
viram, como acreditam os nas outras coisas que dependem
de cada um dos respectivos sentidos do corpo, — assim
deve ser a respeito das coisas que são percebidas pela alma
e pelo espírito (porque se pode m uito bem falar de um
sentido do espírito, donde vem o term o sententia (sentença —
pensamento). Q u er dizer: para as coisas invisíveis que
escapam ao nosso sentido interior, devemos fiar-nos
laqueies que as captaram tais quais elas se encontram na
m corpórea ou naqueles que as contem plam na sua
ermanência (manentia — existência actual).
[991]
CAPÍTULO IV
Criação do Mundo: ela não é intem poral nem
foi estabelecida segundo um plano novo de
Deus, com o se Deus tivesse querido depois
o que antes não quisera.
De todos os seres visíveis o m aior é o M undo; de
todos os invisíveis o m aior é Deus. M as que o M undo
exjste — vem o-lo nós; que Deus existe — crem o-lo. De
que Deus fez o M undo não tem os mais segura garantia
para o crer do que o próprio Deus. O nde o ouvim os? Em
parte algum a m elhor, com certeza, do que nas Santas
Escrituras onde um seu profeta disse:
No princípio fe z Deus o Céu e a Terra *.
Então este profeta estava lá quando Deus criou o
Céu e a T erra? Não. Mas esteve lá a Sabedoria de Deus
pela qual se fizeram todas as coisas, que se transm ite tam
bém às almas santas, faz delas os amigos e profetas de
Deus, e, no seu íntim o, silenciosam ente, lhes conta as suas
obras.
Também lhes falam os anjos de Deus que vêem sem
pre a face do Pai e anunciam a sua vontade a quem é
preciso. Era um deles o profeta que disse e escreveu:
^ No princípio fe z Deus o Céu e a Terra 1.
é tal a autoridade que tem , com o testem unho, para que
^creditemos em Deus, que, pelo m esm o Espírito de Deus
vlue por revelação lhe deu a conhecer estas coisas) pre-
1SSe Com tanta antecedência a nossa fé.
principio fecit Deus coelum et terram.
Gén., I, 1.
[993]
E porque é que ao D eus e tern o aprouve cria r, então,
o C éu e a T e rra que antes não tinha criado? Se os que isto
p erg u n ta m p re te n d em que o M undo é etern o , sem princí
pio e, p o rtan to , parece que não foi feito por D eus, estão
m u ito afastados da v erdade e deliram atingidos da enfer
m idade m o rtal de im piedade. P orque, além das vozes pro
féticas, o próprio M undo pelas suas m udanças e revoluções
tão bem ordenadas, com o pelo esplendor de todas as coisas
visíveis, proclam a silenciosam ente, a bem dizer, não só
que foi feito, m as tam bém que não pôde ser feito senão
por D eus inefável e invisivelm ente grande, inefável e invi
sivelm ente belo.
O u tro s há que confessam que o M undo foi feito por
D eus; todavia, não adm item que ele tenha tido com eço no
tem po m as sim com eço na sua criação: de um a m aneira
difícil de co m p reen d er, foi feito desde sem pre. Julgam
estes que, com tal m an eira de dizer, defendem Deus de
c e rta tem erid ad e fo rtu ita, não se vá c re r que lhe veio de
rep en te ao espírito a ideia, jam ais antes concebida, de.
fazer o M undo, e que foi d eterm inado po r um a vontade
nova — Ele até en tão absolutam ente im utável. N ão vejo
com o, em o u tras questões, p o d erão sustentar esta opinião,
sobretudo acerca da alma. Se pretendem que ela é co-etem a
com D eus, to rn a-se-lh es im possível ex p lica r donde lhe
adveio um a infelicidade nova, nunca antes por ela expe
rim en tad a na eternidade. Se disserem que ela sofreu sem
pre altern ativ as de infelicidade e de felicidade, terão,
en tão , de afirm a r esta altern ativ a tam bém p ara sem pre —
m as, então, seguir-se-ia o absurdo de, nos m om entos em
que se diz feliz, m esm o neles não p oder sê-lo, se prevê a
sua infelicidade e torpeza futura. E se não prevê, mas cre
que será sem pre feliz, e essa falsa crença a to m a nesse
caso feliz — nada se pode afirm ar de m ais insensato.
E, se se pensar que sem pre, no decurso dos séculos
infinitos, ela suportou alternativas de infelicidade e de
felicidade, mas que agora, finalm ente libertada, não v o
tará a c a ir na infelicidade, fica-se, pelo m enos, obrigado a
[994]
adm itir que ela nunca foi v erd ad eira m e n te feliz mas vai
apenas co m eçar a sê-lo de um a felicidade nova que não
engana. C onfessar-se-á, então, que qualquer coisa de novo
lhe aconteceu, q ualquer coisa de grande e de m agnífico
que ela jam ais antes conhecera d u ra n te a sua eternidade.
Se negarem que D eus, po r um desígnio etern o , foi a causa
desta novidade, terã o tam bém que n egar que Ele é o au to r
da felicidade — o que é um a abom inável im piedade. Se
disserem que o p ró p rio D eus, po r um novo desígnio deci
diu que a alm a será d o rav an te feliz para sem pre — com o é
que o m o strarão en tão alheio à m utabilidade que nem
mesmo eles q u erem adm itir? M as, se se confessar que a
alma foi criada no tem po e que em nenhum m om ento do
futuro ela p erecerá, à m aneira de um n ú m ero que tem
começo m as não tem fim , de m an eira que, depois de te r
experim entado um a vez a infelicidade e desta se te r lib er
tado, ela não v o ltará a conhecê-la, ninguém duvidará de
que isso ac o n tecerá sem prejuízo p ara a im utabilidade dos
desígnios de Deus. C reia-se, pois, tam bém que o M undo
pôde ser feito no tem p o sem que, ao fazê-lo, D eus tenha
mudado o seu desígnio e a sua vontade eterna.
[995]
CAPÍTULO V
Não se deve imaginar uma extensão infinita de
tempos antes do Mundo, nem também uma extensão
in f in ita de lugares fora do M undo, porque antes
do Mundo não há tem pos nem fora dele há lugares.
Q uanto àqueles que adm item connosco que Deus é o
autor do M undo, mas nos põem a objecção do tempo do
Mundo, vejamos o que esses mesmos respondem acerca do
lugar do Mundo. Porque da m esma form a que nos
perguntam : — porque o fe z Ele em tal momento em vez de o ter
feito em tal outro?, assim tam bém se lhes pode perguntar:
— porque o fe z aí em vez de o ter feito noutro sítio? Efectiva
mente, se im aginam antes do M undo extensões infinitas de
tempos no decurso das quais, parece-lhes, Deus não podia
ficar inactivo, — pois imaginem tam bém , fora do M undo,
extensões infinitas de lugares. E se disserem que tam bém
aí o O m nipotente não se pode m anter inactivo, não serão
eles obrigados a sonhar, com o Epicuro, com inúm eros
mundos (com a única diferença de que em vez de, com o
ele, atribuírem a sua form ação e dissolução aos m ovim en
tos fortuitos dos átom os, dirão que foram criados por
Deus)? N ão será o que se conclui, se não adm itirem que
Deus se m antém inactivo na imensidade sem limites desses
lugares que se estendem por todos os lados à volta do
Mundo, nem será o que se conclui, se não adm itirem que
esses mundos não poderão ser destruídos por causa
alguma, com o eles pensam tam bém do nosso Mundo?
[997]
Lidamos com os que pensam, com o nós, que Deus é um
ser incorpóreo, criador de todas as naturezas distintas da
sua. Q uanto aos outros, seria dem asiado indigno admiti-los
nesta discussão acerca da religião; principalm ente porque,
àqueles que crêem que se deve prestar culto a um a m ulti
dão de deuses, estes filósofos os superam em nobreza e
autoridade e por isso, por m uito afastados que pareçam
estar da verdade, estão, todavia, dela mais próxim os que
todos os outros.
A respeito da substância de Deus, que não incluem
num lugar, nem nele a delim itam , nem fora dele a dei
xam , mas antes, com o convém pensar acerca de Deus,
reconhecem que ela está inteiram ente toda com um a pre
sença incorpórea em toda a p arte — acaso dirão que ela
está ausente desses espaços tam anhos que se estendem para
fora do M undo? Acaso dirão que ela ocupa unicam ente o
lugar deste M undo tão exíguo em com paração dos espaços
infinitos? N ão creio que cheguem a cair em tal palavriado.
Reconhecem , pois, que não há senão um M undo, formando
sem dúvida um a massa corpórea imensa mas lim itada e
circunscrita no seu lugar e que é obra de Deus. O que
eles respondem a propósito dos espaços que se esten
dem sem limites para fora do M undo quando perguntam :
porque é que Deus nada f e z aí? que o digam a si próprios a
propósito dos tempos ilim itados decorridos antes do
M undo, quando perguntam : porque é que Deus nada fe z
então? Se Deus estabeleceu o M undo no lugar onde está e
não noutro, quando nesses espaços infinitos todos os luga
res tinham os m esm os direitos de serem escolhidos, — não
se segue por certo que Ele o fez por acaso e não por uma
razão divina, em bora esta razão escape a toda a inteligên
cia hum ana. Pela m esma razão não é lógico atribuir a uma
decisão fortuita que Deus criou o M undo em tal tem po
em vez de em tal outro, m esm o que no passado tenha
havido um a infinidade de tem pos igualm ente anteriores
sem diferença algum a para ser preferido um tem po a
outro.
[998]
Se dizem que são vãos os pensam entos dos hom ens
que im aginam espaços infinitos, pois que não há lugar
algum fora do M undo, responder-se-lhes-á que tam bém é
vão im aginar tem pos passados em que Deus nada fazia, já
que tem po não há antes do M undo.
[999]
CAPÍTULO VI
Para o M undo com o para os tem pos o com eço
é o mesmo: um não precede o outro.
Sc, de facto, a verdadeira diferença entre a etern i
dade e o tem po consiste em que não há tem po sem
mudança sucessiva, ao passo que a eternidade não adm ite
mudança algum a, — quem não verá que o tem po não teria
existido, se não tivesse sido feita um a criatura que desloca
tal ou tal coisa por um qualquer m ovim ento? Essa
mudança, esse m ovim ento cedem o seu lugar e sucedem -
-se, e, não podendo existir ao m esm o tem po em intervalos
mais curtos ou prolongados de espaço, dão origem ao
tempo. Pois que Deus, cuja eternidade exclui a m enor
mudança, é o criador e o ordenador dos tem pos, com o é
que se poderá dizer que Ele criou o M undo depois dos
espaços de tempo? Eu não o vejo — a não ser que se diga
que antes do M undo já existia um a criatura cujos m ovi
mentos teriam determ inado o curso dos tempos. Mas as
Sagradas Escrituras, absolutam ente verídicas, afirm am que
«no princípio fez Deus o C éu e a T erra» (Gén. I, 1), para
nos darem a en tender que Ele nada tinha feito antes; por
que, se tivesse feito algum a coisa antes de tudo o que fez,
seria dessa coisa que estaria escrito «no princípio Deus fê-
-la». Está pois fora de dúvida que o M undo foi feito, não
no tem po, mas com o tem po. O que efectivam ente se faz
uo tem po, faz-se depois de algum tem po e antes de
outro — depois do que foi (praeteritum), antes do que será
{juturum). Mas não poderia haver passado algum , porque
Hão havia criatura algum a capaz, pelos seus m ovim entos
sucessivos de realizar o tem po. Foi, pois, com o tem po que
[1001]
o M undo foi feito pois que, ao cria r o M undo, Deus criou
nele o m ovim ento sucessivo. Assim o dem onstra a própria
ordem dos seis ou sete prim eiros dias: estão lá nomeadas
um a m anhã e um a tard e, até que, acabadas todas as obras
de D eus no sexto dia, o sétim o nos descobre, num grande
m istério, o repouso de Deus. M as de que dias se t r a t a —-é
difícil, impossível m esm o, fazer disso um a ideia, quanto
mais exprim i-la.
[1002]
I
CAPÍTULO VII
Natureza dos prim eiros dias que,
segundo a tradição, tiveram manhã
e tarde ainda antes da criaçjW do Sol.
C om o, efectivam ente, vem os, os dias, com o os
conhecemos, têm tarde porque há um ocaso, e têm m anhã
porque há nascer do Sol. M as os três prim eiros dias decor
reram sem Sol, feito, segundo a E scritura, ao q u arto dia.
É certo que ela nos conta que a luz foi feita em prim eiro
lugar pela palavra de Deus e que Deus a separou das tre
vas cham ando dia à luz e noite às trevas. M as que luz era
esta e por que m ovim ento altem an te fazia ela a tarde e a
manhã, é coisa que escapa aos nossos sentidos e não pode
mos co m p reen d er o que seja. T odavia, devem o-lo crer
sem hesitação. D e facto, ou é um a luz co rp ó rea situada
longe dos nossos olhares nas regiões superiores do m undo
— um fogo de que mais tarde se ilum inou o Sol; ou a
palavra luz designa a C idade Santa dos anjos e dos espíri
tos bem -aventurados de que fala o Apóstolo:
Ela é a Jerusalém do alto, nossa mãe etema nos céus
e noutro lugar:
Vós sois todos filhos da luz e filhos do dia; nós não
somos filhos da noite nem das trevas2,
se e que nós podem os co m preender a tarde e a m anhã
desse dia.
Quae sursum est Hiesusalem, mater nostra aetema in coelis.
Gál., IV, 6.
Otnnes enim vos filii lucis estis et filii diei; non surnus noctis neque
tenebrarum.
1 Tessal., V, 5.
[1003]
7
C om parada à ciência do C riad o r, a ciência da cria
tura é sem elhante a um crepúsculo; tam bém ela com eça a
clarear e a tornar-se com o que m anhã, quando é dirigida
ao louvor e ao am or do C riad o r. E não pende para a noite
senão quando abandona o C riad o r para am ar a criatura.
Enfim , a E scritura, quando enum era aqueles dias pela sua
ordem , em parte nenhum a intercala a palavra noite. Efec
tivam ente, em p arte nenhum a diz: a noite foi feita, mas sim:
Fez-se uma tarde, fez-se uma manhã: é um dia 3.
E da m esm a m aneira, do segundo e dos outros dias. Na
verdade, a ciência da criatu ra em si mesm a é, por assim
dizer, mais descolorida do que quando se conhece na
Sabedoria de D eus com o no m odelo de que ela procede.
Por isso, o nom e de tarde convém m elhor do que o de noite.
T odavia, com o disse, quando essa ciência se dirige ao lou
vor e ao am or do C riador, torna-se manhã,
quando a ciência se realiza no conhecim ento de si
própria, isto é o prim eiro dia;
quando ela se realiza no conhecim ento do firma
m ento, que, situado en tre as águas do alto e de baixo, se
cham a C éu, é o segundo dia;
quando se realiza no conhecim ento da terra e do mar
e de todos os seres que se reproduzem , que se continuam
através das raízes da terra, é o terceiro dia;
quando se realiza no conhecim ento dos luzeiros
m aior e m enor e dos astros, é o quarto dia;
quando se realiza no dos anim ais que nadam nas
águas e voam , é o quinto dia;
e quando se realiza no dos animais terrestres e do
próprio hom em , é o sexto dia.
3 Facta est vespera et factum est mane dies unus.
Gén., I, 5.
[1004]
CAPÍTULO VIII
C om o compreender a existência e a natureza
do repouso de Deus no sétim o dia, depois de
seis de trabalho.
Q ue Deus descansou de todos os seus trabalhos ao
sétimo dia e que o santificou — é facto que não deve ser
com preendido puerilm ente no sentido de que Deus se
fatigou com o trabalho. A palavra
falou e as coisas se fizeram
deve ser entendida com o um a palavra inteligível e eterna,
não sonora nem tem poral. M as o repouso de Deus signi
fica o repouso dos que nele descansam , com o a alegria de
uma casa significa a alegria dos que nela se alegram ,
mesmo que não seja a casa mas um o u tro objecto que os
torne alegres. Q u an to mais se a própria casa pela sua
beleza torna felizes os que nela habitam ! N este caso
chama-se alegre, não por essa figura de linguagem em que
o continente é tom ado pelo conteúdo (com o se diz: o teatro
aplaudiu, os prados mugem, quando num os espectadores
aplaudem e nos outros m ugem os bois), — mas pela figura
em que se tom a o efeito pela causa (com o se diz: um a
carta alegre, para significar a alegria que ela com unica aos
leitores). É por isso que com m uita propriedade, quando a
autoridade profética nos conta que Deus descansou, se
quer significar o repouso dos que descansam n ’Ele, a quem
Ele próprio faz descansar. R efere-se tam bém aos hom ens
a quem se dirige e para quem foi escrita a profecia: esta
dixit et jacta sunt.
Salmo CXLVIII, 5.
[1005]
prom ete-lhes, a eles tam bém , o repouso eterno em Deus
depois das boas obras que Deus opera neles e por eles, se
antes, nesta vida, se ap ro x im aram , por assim dizer, d ’Ele
pela fé. Este repouso é ainda figurado pelo do sabbat pres
crito pela lei ao antigo Povo de Deus. M as disto é minha
intenção tra ta r mais porm enorizadam ente no seu lugar
próprio.
[1006]
CAPÍTULO IX
Segundo os testem unhos d ivin os, que pensar da
criação dos anjos?
E a g o ra — já que em preendi falar da o rig em da
Cidade Santa, e, em prim eiro lugar, do que toca aos san
tos anjos que dela form am um a p arte considerável e tanto
mais feliz quanto ela jam ais foi peregrina — vou, com a
ajuda de D eus e na m edida em que m e parecer necessário,
explicar os testem unhos divinos referentes ao assunto.
Q uando falam da criação do M undo as Sagradas
Escrituras não referem claram ente se os anjos foram cria
dos, nem por que ordem . M as, se não foram esquecidos, é
a palavra Céu, na passagem em que está escrito
no princípio f e z Deus o Céu e a Terra 1,
ou antes a luz, de que acabo de falar, que os designa.
Aliás, eu não creio que eles tenham sido om itidos porque,
está escrito, no sétim o dia Deus descansou de todos os seus
trabalhos. Mas o livro com eça assim:
N o princípio f e z Deus o Céu e a Terra
de m aneira que, parece, D eus mais nada fez antes do C éu
e da T erra. Se, então, com eçou pelo C éu e pela T erra; se
a T erra, a prim eira coisa- que fez, era, com o a seguir
refere a E scritura, invisível e desorganizada; se, por falta
de luz, as trevas se estendiam sobre o abism o, isto é, sobre
a confusão da massa indistinta de terra e água (porque sem
2 não pode haver senão trevas); se, finalm ente, foram
criadas e organizadas todas as coisas que se descrevem
In principio jecit Deus caelum et terram.
Gén., I, 1.
[1007]
com o acabadas em seis dias — com o é que os anjos iam ser
om itidos entre as obras de Deus que descansou ao sétimo
dia?
N ão há dúvida de que os anjos são obra de Deus.
E m bora isso não esteja claram ente expresso, não foi
porém , om itido. T estem unha-o com toda a clareza, nou
tro lugar, a E scritura Sagrada. N o hino dos três homens
na fornalha, depois de ter dito:
Todas as obras do Senhor bendizei ao Senhor2,
nom eia tam bém os anjos entre as suas obras — e canta-se
no Salmo:
Louvai ao Senhor no alto dos céus — louvai-o nas alturas;
Louvai-os, vós, todos os seus anjos — louvai-o todas as
suas Virtudes;
Louvai-o, Sol e Lua — louvai-o, luz e todas as estrelas;
Louvai-o, vós, céus dos céus, e as águas que estão
acima dos céus — louvem o nome do Senhor;
Porque ele falou — e as coisas se fizeram;
Ele ordenou — e as coisas foram criadas 3.
Ainda aqui o declara abertam ente a palavra divina: os
anjos foram feitos por Deus pois que, depois de os ter
nom eado entre as outras realidades celestes, a todos
encerra nestas palavras:
Ele falou — e as coisas se fizeram 4.
Q uem ousará, então, sustentar que os anjos foram feitos
depois de todas as obras enum eradas no decurso dos seis
2 Benedicite omnia opera Domini Dominum.
Dan., Ill, 57.
3 Lau date Dominum de caelis, lau date eum in excelsis; lau date eum omnes
angeli ejus, laudate eum omnes uirtutes ejus; laudate eum sol et luna, laudate eum
omnes stellae et lumen; laudate eum caeli caelorum et aquae, quae super caelos
sunt, laudent nomen Domini; quonium ipse dixit, et facta sunt; ipse mandavit, et
creata sunt.
Salmo CXLVIII, 1-3.
4 ipse dixit, et facta sunt.
Ib.
[1008]
dias? Mas se alguém chegar a este ponto de insensatez, tão
vã opinião ficará refutada pela autoridade da mesma
Escritura onde Deus diz:
Quando os astros foram feitos, todos os meus anjos me
louvaram com a sua poderosa v o z 5.
Portanto, os anjos já existiam quando foram criados os
astros. O ra estes fo ram -no ao q uarto dia. D irem os, então,
que foram criados ao terceiro? C laro que não. Sabemos
muito bem o que nesse dia foi feito: a terra foi separada
das águas, cada um destes elem entos recebeu as espécies
que lhes convinham e a te rra produziu tudo o que nela
cria raízes. Seria, porventura, no segundo? T am bém não.
Nesse dia foi feito o firm am ente en tre as águas do alto e
de baixo, dando-se-lhe o nom e de C éu; e no firm am ento
foram criados os astros ao quarto dia. E, pois, claro que se
eles se encontram entre as obras que Deus fez em seis
dias, os anjos são essa luz que recebeu o nom e de dia; e foi
para m arcar a unidade que se não disse o primeiro dia, mas
sim um dia. Porque o segundo, o terceiro e os seguintes
não são outros, mas o m esm o dia único repetido para
constituir o núm ero seis ou sete, em vista de um conheci
mento senário ou septenário — o senário relativo às obras
que Deus fez e o septenário relativo ao repouso de Deus.
Q uando, relam ente, Deus disse:
Faça-se a luz — e a luz fez-se 6
— se é ju sto v er nesta luz a criação dos anjos, é porque
certam ente eles foram feitos participantes da luz eterna
que é a sabedoria im utável do próprio Deus por quem
tudo foi feito e a quem cham am os o Filho único de Deus.
Assim, eles foram ilum inados por esta luz que os criou e
desde então eles tornaram -se luz e cham aram -se dia por
causa da sua participação na luz e dia im utável que é o
Quando facta sunt sidera, laudaverunt me voce magna omnes angeli mei.
Job., XXXVIII, 7.
Fiat lux, et facta est lux.
Gén., I, 2.
[1009]
V erbo de Deus por quem eles e todas as coisas fo ra m
criadas. Porque
a verdadeira luz que ilumina todo o homem que vem a
este mundo 1
ilum ina tam bém todo o anjo puro para que seja luz não
em si próprio mas em Deus. E se o anjo se afasta de Deus,
torna-se im puro, com o são todos os espíritos chamados
im puros que já não são luz no Senhor mas eles próprios
trevas, privados da participação da eterna luz. O mal, com
efeito, não é um a natureza: a perda do bem é que recebe
o nom e do mal.
7 Lumen verum quod inluminat omnem hominem venientem in hunc mundutn.
João, I, 9.
[1010]
CAPÍTULO X
Trindade sim ples e im utável de Deus Pai,
Deus Filho e Deus Espírito Santo que são
um só Deus, em quem as qualidades outra
coisa não são que a substância.
N ão há, pois, senão um bem simples e, consequente
mente, senão um bem im utável — Deus. E este bem criou
todos os bens que, não sendo simples, são, portan to, m utá
veis. Digo, precisam ente, criou, isto é, fez, e não gerou.
É que o que é gerado de um ser simples é simples com o ele
e é o mesmo que aquele que o gerou. A estes dois seres
chamamos Pai e Filho e um e o u tro com o seu Santo
Espírito são um só Deus. A este Espírito do Pai e do Filho
se chama nas Sagradas Escrituras Espírito Santo por um a
espécie de apropriação deste nom e. E, porém , distinto do
Pai e do Filho, pois não é nem o Pai nem o Filho. Disse
que é distinto mas não outra coisa, porque tam bém Ele é
igualmente simples, igualm ente im utável e coeterno. E esta
Trindade é um só Deus e não deixa de ser simples por
ser Trindade. N ão dizem os que esta n atu reza do bem é
simples porque nela está só o Pai, só o Filho, só o Espírito
Santo;
ou ainda porque a T rindade é apenas um ser sem
nenhuma subsistência de Pessoas, com o ju lg ara m os here-
jes sabelianos ’;
1 Segundo os Sabelianos, as três pessoas da SS. Trindade mais não
eram 9UC aspectos diferentes de um ser uno — Deus — ou nomes dife
rentes a este dados, conforme o ponto de vista por que era encarado.
A igreja, porém, ensina que as três pessoas são subsistentes sem deixa
rem de ser consubstanciais.
[1011]
m as cham a-se simples porque o que ela tem isso é
salvo que cada pessoa se diz pessoa em relação a cada um a
das outras duas. Pois, com certeza que o Pai tem um Filho
mas não é o Filho; o Filho tem um Pai mas não é o Pai.
Assim, pois, considerado em si m esm o e não em relação
com o o u tro , Deus é o que tem: com o se diz vivo em
relação a si m esm o porque tem evidentem ente a vida e
essa vida é Ele próprio.
É por isso que se cham a simples a natureza que nada
tem que possa perder; ou é simples a natureza em que
aquele que tem se identifica com aquilo que tem. Assim, o vaso
tem o licor, o corpo a cor, o ar a luz ou o calor, a alma a
sabedoria. Mas nenhum a destas coisas é o que tem. N em o
vaso é o licor, nem o corpo é a cor, nem o a r é a luz ou o
calor, nem a alm a é a sabedoria. Por conseguinte, podem
ser privados das coisas que têm: podem m udar e podem
transform ar-se em outras disposições ou qualidades: o vaso
pode ficar vazio do líquido de que estava cheio, o corpo
pode perder a cor, o ar pode escurecer ou arrefecer, a
alm a pode tresloucar-se. E m bora o corpo seja, após a res
surreição, incorruptível, com o foi prom etido aos santos,
m antendo, na verdade, a qualidade dum a inamissível
incorruptibilidade — o certo é que, m antendo-se a subs
tância corporal, o corpo e a incorruptibilidade não são a
m esm a coisa.
N a realidade, a incorruptibilidade está toda em cada
um a das partes do corpo — nem m aio r aqui, nem m enor
a li— , porque nenhum a parte é m ais incorruptível do que
a o u tra. N a verdade, o corpo é m aio r no todo do que a
parte; e se um a parte é m aior e a o u tra é m enor, nem por
isso a m aior é mais incorruptível. U m a coisa é o corpo
que, em si, não está todo inteiro em qualquer das suas
partes, o u tra coisa a in co rru p tib ilid ad e que em qual
quer das partes está inteiram ente. Porque toda a parte
incorruptível do corpo, ainda que desigual às demais, e
igualm ente incorruptível. O dedo, por exem plo, é mais
pequeno do que a m ão toda. T odavia, a m ão não é mais
[1012]
' n c o r r u p t í v e l do que o dedo. E m bora sejam desiguais a
mão e o dedo, é, todavia, igual a incorruptibilidade da
mão e do dedo. Por isso, em bora a incorruptibilidade seja
inseparável de um corpo incorruptível, um a coisa é a subs
tância que o faz cham ar corpo, outra é a qualidade que o
faz cham ar incorruptível. E, por isso, m esm o nesse estado,
ele não é o que tem.
A p rópria alm a, m esm ò que fosse sem pre sábia —
c o m o quando for libertada para a eternidade — será sábia
pela participação da im utável sabedoria que não é ela pró
pria. Pelo facto de, na realidade, o ar se não v er quando
privado da luz que o penetra, nem por isso se poderá
negar que um a coisa é o ar e o u tra a luz que o ilum ina.
Com isto não pretendo dizer que a alm a é um a espécie de
ar, com o pretenderam alguns, incapazes de conceber um a
natureza incorpórea. A alm a e o ar, todavia, apesar da sua
grande diferença, têm um a certa sem elhança e é perm i
tido dizer que a alm a incopórea é ilum inada pela luz
incorpórea da Sabedoria simples de Deus, com o o ar co r
poral é ilum inado pela luz corporal. E com o o ar privado
da luz escurece (porque o que cham am os trevas, seja em
que lugar co rp o ral for, nada mais é do que o ar privado
de luz), assim obscurece a alma privada da luz da Sabedoria.
P ortanto, nesta ordem de ideias, cham am -se simples
as perfeições que, por excelência e na verdade, constituem
a natureza divina: porque nelas não é a substância um a
coisa e a qualidade outra coisa — nem é pela participação
em qualquer o u tra coisa que elas são a divindade, a sabe
doria ou a beatitude. É certo que nas Sagradas Escrituras
se diz m últiplo o Espírito de Sabedoria — mas isso é por
que Ele encerra em si m uitas coisas: mas Ele é o que tem e
tudo o que tem é apenas Ele. A Sabedoria não é m últipla
Hias una, e nela existem tesouros infinitos — para ela
finitos — de coisas inteligíveis contendo todas as razões
invisíveis e im utáveis dos seres, m esm o visíveis e m utáveis
que por ela foram feitos. Porque D eus nada fez sem disso
Se aperceber — o que, na verdade, de nenhum artífice
[1013]
hum ano se pode dizer. M as se tudo fez conscientem ente
Ele não fez, evidentem ente, senão o que já antes tinha
conhecido. Daí o co rrer ao nosso espírito algo de m aravi
lhoso m as realm ente verdadeiro: para nós este M undo não
poderia ser conhecido se não existisse — mas para Deus,
se não fosse conhecido, não poderia existir.
[1014]
CAPÍTULO XI
D everem os acreditar que m esm o os espíritos
que se não m antiveram na verdade participa
ram da beatitude de que sempre gozaram os
santos anjos desde o com eço da sua existência?
Sendo isto assim, os espíritos a que cham am os anjos
de m aneira nenhum a com eçaram por ser durante certo
tempo espíritos das trevas, m as, no m om ento em que
foram feitos, fo ram feitos luz. N ão foram criados sim
plesmente para existir e viver de qualquer m aneira, mas
foram ilum inados para viver na sabedoria e na felicidade.
Alguns destes anjos que se desviaram desta ilum inação não
obtiveram a excelência dessa vida sábia e feliz que, sem
sombra de dúvida, só poderia ser e tern a com a perfeita
garantia da sua eternidade. M as possuem a vida racional,
em bora insensata, e de tal form a que não a podem p erd er
mesmo que o quisessem. M as quem poderá definir com o
foram participantes dessa sabedoria antes de terem pecado?
Com o é que poderem os dizer que nessa participação
foram iguais aos que são v erd ad eira e plenam ente felizes
precisam ente porque não se en ganaram acerca da etern i
dade da sua felicidade? R ealm ente, se tivessem tido essa
igualdade de felicidade, perm aneceriam tam bém na sua
eterna posse, igualm ente felizes porque igualm ente certos.
E que, na verdade, a vida, p o r m ais longa que seja, não se
poderá cham ar eterna se tiver que ter um fim. C om
efeito, a vida tem este nom e apenas p o r se viver e cham a-
~se etern a por não te r fim . N ão há dúvida de que o que é
eterno não é, só p or isso, feliz (tam b ém o fogo do castigo
se cham a eterno). T odavia, a vida perfeita e verdadeira-
[1015]
m ente feliz só pode ser eterna. De facto, tal não era a dos
anjos maus pois que, destinada a cessar, não era eterna,
quer eles o soubessem quer o ignorassem e supusessem
outra coisa. Porque o tem or — se o soubessem — ou o
erro — se o ignorassem — im pedia-os, com certeza, de
serem felizes. E se isto ignoravam de form a que não con
fiavam nem no falso nem no certo, mas não podiam dar o
seu assentim ento acerca da eternidade ou tem poralidade
desse seu bem , a própria hesitação acerca de felicidade tão
grande não adm itia a plenitude da vida feliz que cremos
existir nos santos anjos. N ão é que nós restrinjam os o sig
nificado de vida fe liz ao ponto de dizerm os que só Deus é
feliz; Ele é, de certo, verdadeiram ente feliz ao ponto de
ser impossível conceber felicidade m aior. E em com para
ção desta felicidade, a dos anjos tem toda a elevação e
toda a grandeza que lhes convém, mas — em que consiste
ela (quid est) e qual é a sua m edida (quantum est)?
[1016]
CAPÍTULO XII
Comparação entre a felicidade dos justos que
ainda não obtiveram a recompensa prometida
por Deus e a dos prim eiros hom ens no Paraíso
antes do pecado.
Julgam os que os anjos não são as únicas criaturas
racionais e intelectuais que devem ser tidas por felizes.
Quem é que, de facto, ousaria negar que os prim eiros
homens no Paraíso tenham sido felizes antes do pecado,
embora estivessem incertos da duração da sua felicidade
ou da sua eternidade? N ão é sem m otivo que nós hoje
chamamos felizes àqueles que vem os viverem na justiça e
na piedade com a esperança da im ortalidade, sem qual
quer crim e a roer-lhes a consciência, obtendo facilm ente a
misericórdia divina para os seus pecados de fragilidade
presente. Em bora estejam seguros de que serão recom pen
sados da sua perseverança, estão, porém , inseguros da
própria perseverança. Q ue hom em é que, efectivam ente,
sabe se perseverá até ao fim na prática e no progresso da
justiça, a não ser que obtenha a garantia por um a revela
ção d ’Aquele que, sem enganar ninguém , não revela a
todos, acerca deste ponto, o seu justo e secreto juízo?
Tam bém a respeito do gozo de um bem presente, o pri
meiro hom em era mais feliz no Paraíso do que qualquer
justo na debilidade desta vida m ortal. Mas quanto à espe
rança de um bem futuro, qualquer hom em , seja ele quem
for, por m uitos sofrim entos corporais que tenha de supor
tar, se sabe, não com o provável, mas com o verdade certa,
que gozará sem fim, ao abrigo de toda a prova, da socie
dade dos anjos na íntima união com Deus Soberano, — qual-
quer hom em é mais feliz do que o prim eiro hom em inse
guro da sua sorte na grande felicidade do Paraíso.
[ 1017]
CAPÍTULO XIII
Todos os anjos foram criados no m esm o estado
de felicidade, de forma que os que viriam a
cair não podiam saber se viriam a cair, nem ,
depois da ruína dos que caíram, os que se
mantiveram firmes tiveram conhecim ento certo
da sua perseverança.
Q ualq u er pessoa se apercebe facilm ente de que a
felicidade, objecto dos legítimos desejos da natureza inte
ligente, com porta conjuntam ente duas coisas:
— o gozo sem perturbação do bem im utável que é
Deus,
— a segurança sem qualquer dúvida ou erro acerca
da perseverança para sempre nesse gozo.
Q ue a tiveram os anjos de luz, crem o-lo com fé pie
dosa; que os anjos pecadores, privados daquela luz pela sua
maldade, não tiveram essa segurança antes de caírem ,
concluím o-lo por lógico raciocíiiio. N ão há dúvida de que
temos que ad m itir que, se viveram antes do pecado, goza
ram, com certeza, de algum a felicidade, em bora dela não
tivessem conhecim ento prévio.
Pode parecer duro crer que, na criação dos anjos, uns
foram feitos sem terem conhecim ento prévio da sua per
severança ou da sua queda, e outros tenham conhecido
com toda a verdade a eternidade da sua felicidade, mas
que todos foram criados desde a origem igualm ente felizes
e assim se m antiveram até ao m om ento em que os anjos,
hoje maus, voluntariam ente se afastaram dessa luz, fonte
de bondade, — mas seria, sem dúvida, m uito mais duro
pensar que os santos anjos se m antêm agora incertos da
[1019]
sua beatitude eterna, ignorando acerca de si próprios o
que nós podem os saber deles pelas Sagradas Escrituras.
Q ue cristão católico, na verdade, ignora que mais nenhum
novo dem ónio sairá doravante do núm ero dos anjos bons,
assim com o à sociedade dos anjos bons jam ais voltará
qualquer dem ónio? R ealm ente, no Evangelho a Verdade
prom ete aos santos e aos fiéis que serão iguais aos anjos de
Deus e prom ete ainda que en tra rão na vida eterna. O ra,
se nós estam os certos de que jam ais decairem os dessa
im ortal felicidade, ao passo que eles não têm essa certeza,
nós não lhes somos iguais mas superiores. Mas, com o a
V erdade nunca engana e nos diz que serem os sempre
iguais, seguram ente, tam bém eles estão certos da sua
eterna felicidade.
D esta não estiveram seguros os outros (pois não
tinham a certeza de que era eterna a sua felicidade; a sua
felicidade tinha que ter fim); por isso, só se pode concluir
que — ou não foram iguais ou, se iguais foram , depois da
queda dos m aus sobreveio aos bons um a ciência certa da
sua eterna felicidade.
A não ser, talvez, que alguém sustente que o que o
Senhor diz do D iabo no Evangelho:
Era homicida desde o começo e não se manteve na
verdade ,
deve ser entendido no sentido de que foi hom icida não só
desde o princípio, isto é, desde o princípio do género
hum ano, desde que toi criado o hom em a quem podia
m atar com o engano, — mas tam bém no sentido de que
desde o princípio da sua criação não esteve na verdade e
por isso nunca foi feliz com os santos anjos, recusando-se a
ser súbdito do C riador, pondo a sua alegria em se orgu
lhar do seu pretenso poder pessoal, tom ando-se depois
falso e enganador. Porque ninguém escapa ao poder do
O m nipotente: aquele que recusou m anter-se, por uma
1 Ille homicida erat ab iititio et m veritate non stetit.
João VIII, 44.
[1020]
piedosa submissão, no que era na realidade, aspira, por
m^a orgulhosa elevação, a sim ular o que não é. E é tam
bém no m esm o sentido que é preciso entender o que diz o
apóstolo S. João:
O Diabo peca desde o começo2,
quer dizer, ele rejeitou desde a sua criação a justiça que só
uma vontade piedosa e submissa a Deus pode conservar.
Q uem adopta esta interpretação não pensa com o cer
tos herejes, isto é, m aniqueus e outras pestes da mesma
opinião, segundo os quais o D iabo teria recebido, um
tanto com o própria, a natureza do mal de um princípio
oposto ao bem . Esses deliram com tanta vaidade que,
embora adm itindo connosco a autoridade das palavras
evangélicas, não reparam que o Senhor não disse «o Diabo
é alheio à verdade», mas
não se manteve na verdade3,
querendo assim dar a entender que decaiu da verdade; e,
com certeza, se nela se tivesse m antido, dela participaria
ainda para continuar feliz com os santos anjos.
Ah initio diabolus peccat.
João III, 8.
3 In veritate non stetit.
João VIII, 44.
CAPÍTULO XIV
E m que sentido é que se diz do Diabo que
não se manteve na verdade porque a verdade
não está nele?
C o m o se nós tivéssemos p erguntado porque não perma
neceu o Diabo na verdade?, deu-nos o Senhor um sinal:
Porque a verdade não está nele '.
O ra ela estaria nele se ele nela se m antivesse. M as é um a
forma pouco usual de se exprim ir: porque
não se manteve na verdade porque a verdade não está
nele2,
parece q u erer d izer que o facto de não ter nele a verdade
é a causa de ele nela se não m anter; quando é antes o
facto de nela se não ter m antido a causa por que ele não
tem em si a V erdade. Esta expressão encontra-se no
Salmo:
Clamei porque me atendeste, meu Deus 3,
como se dissesse, parece, Tu atendeste-me, Deus meu, porque
chamei. M as, depois de ter dito clamavi (clam ei), o Salmista,
como se lhe tivessem perguntado como reconhecer que foste
atendido por Deus?, m ostra a sinceridade do seu clam or pelo
seu efeito de ter sido atendido por Deus; com o se dissesse:
a prova de que chamei é que tu me atendeste.
1 Quia non est veritas in eo.
Id. Ib.
In veritate non stetit, quia veritas non est in eo.
Id. Ib.
3 Ego clamavi, quoniam exaudisti me Deus.
Salmo XVI, 6.
[1023]
CAPÍTULO XV
Que pensar desta expressão
O Diabo peca desde o começo?
Aquilo que João diz acerca do Diabo:
O Diabo peca desde o começo 1
não o com preendem os herejes pois que, se tal é a sua
natureza, já não há pecado algum . M as que responder aos
testemunhos proféticos,
quer o de Isaías designando o D iabo sob a figura de
príncipe de Babilónia:
De que maneira caiu Lúcifer que surgiu ao alvorecer2,
quer o de Ezequiel:
Tu estiveste nas delícias do paraíso de Deus, adornado
de todas as pedras preciosas 3?
Não dão eles a en tender que esteve algum tem po sem
pecado? U m pouco mais adiante, de facto, diz-se dele
mais expressivam ente:
Caminhaste nos teus dias sem pecado 4.
Se a estas palavras se não pode d ar um a m elhor interpre
tação, a frase
não se manteve na verdade5,
' A b initio diabolus peccat.
João, III, 8.
2 Quo modo cecidit Lucifer, qui mane oriebatur?
Isaías, XIV, 12.
3 In deliciis paradisi Dei fuisti, omni lapide pretioso omatus es?
Ezequiel, XXVIII, 13.
4 Ambulasti in diebus tuis sine vido.
Id. Ib.
In veritate non stetit.
João, VIII, 44.
[1025]
deve com preender-se assim: ele esteve na verdade mas não se
manteve nela. E a frase
o Diabo peca desde o começo 6,
não significa que ele pecou desde o princípio da criação,
mas desde o com eço do pecado, neste sentido de que foi
pelo seu orgulho que o pecado com eçou.
E o que disse Job acerca do D iabo no livro em que
está escrito:
Este é o começo da obra do Senhor que Ele fe z para
que troçassem dela os seus anjos1,
(com o que concorda o que se lê no Salmo:
Este dragão que formaste para que dele trocem8),
não se deve entender que D eus o criou desde o princípio
para ser objecto de tro ça dos seus anjos, mas que, depois
de ter pecado, D eus o sujeitou a esse castigo. O seu p ri
m eiro com eço é obra do Senhor; realm ente, nenhum a
natureza existe, m esm o no últim o e mais pequeno dos
insectos de que não seja autor A quele de quem procedem
toda a m edida, toda a beleza, toda a ordem , sem as quais
nada se pode en c o n trar nem conceber, entre as coisas:
quanto m ais assim não é para a criatu ra angélica que se
eleva, pela dignidade da sua natureza, acim a de todas as
outras obras que Deus fez!
6 Ah initio diabolus peccat.
João, III, 8.
7 Hoc est initium figmenti Domini, quod fecit ad inludendum ab angelis suis.
João XI, 14.
8 Draco hie, quern finxisti ad inludendum ei.
Salmo CHI, 26.
[1026]
CAPÍTULO XVI
Graus e diferenças entre as criaturas conside
radas diversamente, conform e a sua utilidade
ou a ordem da razão.
E ntre os seres que de algum m odo são, mas não são o
mesmo que é Deus que os fez, colocam -se os vivos acim a
dos não vivos, e os que têm capacidade de gerar ou
mesmo de ap etecer acim a dos que carecem deste impulso.
D entre os vivos, os que possuem sensibilidade prevalecem
sobre os que a não têm , tais com o os animais sobre as
árvores. D en tre os que sentem , prevalecem os inteligentes
sobre os não inteligentes, tais com o os hom ens sobre os
animais. D en tre os inteligentes prevalecem os im ortais
sobre os m ortais, tais com o os anjos sobre os homens. Esta
ordem de preferência é a da natureza. Mas há outra
ordem de apreciação fundada sobre o uso particular que
fazemos de cada um dos seres. Assim, colocam os alguns
que carecem de sensibilidade antes de outros que dela são
dotados e de tal form a que, se estivesse em nosso poder, os
elim inaríam os da natureza, quer porque ignoram os o lugar
que nela ocupam quer porque, conhecendo-o em bora, os
subordinamos aos nossos interesses. Q uem não prefere ter
pão a ratos em casa? D inheiro a pulgas? M as que adm ira
se, m esm o quando se trata de avaliar hom ens cuja natu
reza é de tam anha dignidade, se com pra m uito mais caro
um cavalo do que um escravo, mais caro um a pedra pre
ciosa do que um a escrava! Assim, a liberdade de aprecia
ção estabelece um a grande diferença entre as reflexões da
razão e a necessidade do indigente ou o prazer do dese
joso. A razão considera o que vale um a coisa no seu grau
[1027]
de ser; a necessidade o que um a coisa espera da outra.
A razão busca o que se m ostra verdadeiro à luz da m ente;
o prazer vê o que há de agradável e de lisonjeiro para os
sentidos. T odavia, nas naturezas racionais a vontade e o
am or têm , por assim dizer, tão grande peso que, apesar da
superioridade dos anjos sobre os hom ens, segundo a ordem
da natureza, os hom ens virtuosos se antepõem aos anjos
maus segundo a lei da justiça.
[1028]
CAPÍTULO XVII
O vício da m alícia não pertence à natureza
mas é contra a natureza. N ão foi o Criador
mas a vontade a causa que levou a natureza
a pecar.
N um a interpretação correcta, a frase
este é o começo da obra de Deus
refere-se à n atu reza e não à m alícia do D iabo. Porque
uma m alícia que vicia supõe indubitavelm ente um a natu
reza a n terio r não viciada. M as o vício é de tal m odo con
tra a nautreza que só pode ser nocivo à natureza. N ão
seria, portan to , um vício separar-se de Deus se, para a
natureza de que esta separação constitui um vício, não
fosse m elhor estar unido a Deus. É por isso que m esm o a
vontade m á presta poderoso testem unho a favor da natu
reza boa. M as Deus, assim com o é o criador excelente das
naturezas boas, assim é tam bém o ordenador justíssim o das
vontades más. E quando estas abusam , para o m al, das
naturezas boas, serve-se m esm o das naturezas más para o
bem. Fez, p o rtan to , com que o D iabo, bom pela sua cria
ção, m au pela sua vontade, fosse atirado para o grupo dos
seres inferiores para ser entregue às m ofas dos seus anjos,
no sentido de que os santos tirem proveito das próprias
tentações pelas quais ele procurava ser-lhes nocivo. Ao
criá-lo, Deus não ignorava a sua m alícia futura e previa
’ hoc est initium figmenti Domitti.
Job, XI, 14.
[1.029]
todo o bem que do m al tiraria: foi por isso que o salm ista
disse:
Este dragão que fizeste para ser um objecto de troça 2,
para m ostrar que, no preciso m om ento em que o criou
— criando-o bom por causa da sua vontade — nos dava a
entender que já tinha preparado, graças à sua presciência,
os meios de tirar proveito m esm o do mal.
2 Draco hic quem fiuxisti a d inludetidum ei.
Salmo C III, 26.
[1030]
CAPÍTULO XVIII
A oposição dos contrários torna m ais patente
a beleza do M undo na ordem que Deus lhe
conferiu.
Deus não teria criado nenhum , já não digo dos anjos,
mas m esm o nenhum dos hom ens, cuja malícia futura pre
vira, se igualm ente não tivesse conhecido os meios de os
m udar em proveito dos bons, e assim em belezar a ordem
dos séculos, com o um formosíssimo poem a de variadas
antíteses. R ealm ente, aquilo a que se cham a antítese é um
dos mais graciosos ornam entos do discurso que em latim
se poderia ch am ar oposição ou, mais expressivam ente, con
traste. E m bora este term o não esteja em uso entre nós, a
figura é um dos ornam entos de estilo de que o latim , ou
antes, as línguas de todos os povos, tam bém faz uso. N a
segundo Epístola aos C oríntios é por antíteses que o após
tolo Paulo rodeia com suavidade aquela passagem em que
diz:
Com as armas da justiça combatemos à direita e à
esquerda: gloriosos e obscuros desacreditados e honrados, como
sedutores e verídicos, como se nos ignorassem e nos conheces
sem, quase moribundos e, todavia, pujantes de vida, castiga
dos mas não exterminados, tristes mas sempre alegres, pobres
mas a muitos enriquecendo, nada tendo e tudo possuindo '.
1 Per arma justitiae dextra et sinistra: per gloriam et ignobilitatem, per infa-
miam et bonam famam; ut sedutores et veraces, ut qui ignoramur et cognoscimur;
<Juas' morientes, et ecce vivimus, ut coherciti et non mortificati; ut tristes, semper
autem gaudentes, sicut egetü, muitos autem ditantes, tamquam nihil habentes et
omni possidentes.
II Corint., VI, 7-10.
[1031]
O ra, assim com o a oposição dos contrários em beleza o
discurso, assim tam bém um a espécie de eloquência, não
das palavras mas das coisas, põe em relevo, por um a seme
lhante oposição, a beleza do M undo. Isto no-lo m anifesta
com toda a clareza o livro do Eclesiástico desta m aneira:
Em frente do mal está o bem; em face da morte está a
vida. Da mesma forma em frente do justo está o pecador.
— E assim contempla todas as obras do Altíssimo: todas,
duas a duas, uma oposta à outra2.
2 Contra malum bonum est et contra mortem vita; sic contra pium peccator.
Ht sic intuere in omnia opera Altissimi, bina bina, unum contra unum.
Ecles., XXXIII, 15.
[1032]
CAPÍTULO XIX
C om o é que parece que se deve entender o que
está escrito Deus separou a luz das trevas.
A própria obscuridade da palavra divina tem esta
vantagem : suscita e esclarece várias explicações verdadei
ras quando uns a entendem de um a form a e outros de
outra form a (contanto que o que num a passagem se
entende com dificuldade se confirm e com o testem unho
de factos m anifestos ou com outras passagens bem claras;
— quer se acabe, enquanto se esclarecem m uitas questões,
por en co n trar o pensam ento do escritor, quer, em bora
continue oculto, se m anifestem outras verdades durante o
aprofundar dessa obscuridade). P arece-m e que não é um a
opinião em desacordo com as obras de D eus ver a criação
dos anjos na criação da luz p rim itiv a e a separação dos
anjos santos dos anjos im puros nesta frase:
E Deus separou a luz das trevas e à luz chamou dia e
noite às trevas ’,
— pois só pôde separar estas coisas A quele que antecipa
dam ente pôde saber, antes da queda, quais viriam a cair e,
privados da luz da verdade, perm aneceriam nas trevas do
orgulho. Q u an to ao dia e à noite que conhecem os, isto é,
a nossa luz e as nossas trevas, D eus ordenou a esses luzei-
1 Et divisit Deus inter lucem et tenebras; et vocavit Deus lucem diem et
tenebras vocavit noctem.
G én., I, 4-6.
[1033]
ros do C éu que ferem os nossos sentidos que estabeleces
sem a separação, ao dizer:
Façam-se luzeiros no firmamento do céu para que bri
lhem sobre a terra e separem o dia da noite2;
e pouco depois:
E Deus fe z dois grandes luzeiros — o maior para pre
sidir ao dia e o menor para presidir à noite; e fe z também as
estrelas. E colocou-os Deus no firmamento do céu para brilha
rem sobre a terra e presidirem ao dia e à noite e separarem a
luz das trevas 3.
Mas entre esta luz que é a sociedade santa dos anjos aos
quais o brilho da verdade dá um esplendor inteligível, e as
trevas contrárias, isto é, os som brios espíritos dos maus
anjos desviados da luz da ju stiç a só pode estabelecer a
divisão A quele para quem o m al futuro (mal não da natu
reza mas da vontade) não pode estar escondido ou obscuro.
2 Fiant luminaria in firmamento caeli, ut luceant super terram et dividant
inter diem et noctem.
Gén., I, 14.
3 Et jecit Deus duo luminaria magna, luminare majus in principia diei, et
luminare mtnus in principia noctis, et stellas; et posuit illa Deus in firmamento caeli
lucere super terram et praeesse diei et nocti et dividere inter lucem et tenebras.
Gén., I, 16-18.
[1034]
CAPÍTULO XX
Acerca das palavras E viu Deus que a luz
era boa, proferidas lo g o a seguir à sepa
ração da luz das trevas.
C onvém , por fim, não esquecer que, quando Deus
disse:
Faça-se a luz e a luz foi feita 1
logo acrescenta:
E Deus viu que a luz era boa2
— e isto, antes de Deus ter separado a luz das trevas e de
ter cham ado dia à luz e noite às trevas, para que não
parecesse que lhe agradavam as tais trevas m isturadas com
a luz. D e facto, sendo inim putáveis as trevas (entre as
quais e esta luz visível aos nossos olhos os luzeiros do C éu
estabeleceram a separação), não foi antes mas depois desta
separação que se disse:
E Deus viu que isso era bom 3.
O que se disse foi:
E pô-los no firmamento do céu para brilharem sobre a
terra e presidirem ao dia e à noite e separarem a luz das
trevas. E Deus viu que isso era bom 4.
1 Fiat lux, et facta est lux.
Gén., I, 3.
2 E vidit Deus lucem quia bona est.
Ib.
3 Et vidit Deus quia bonum est.
Gén., I, 17.
4 Et posuit ilia in firmamento caeli, lucere super terram, et praeesse diei et
noctl, et separate inter lucem et tenebras. Et vidit Deus quia bonum est.
Ib.
[1035]
8
Ambas — luz e trevas — lhe agradavam porque ambas
eram sem pecado. M as quando Deus diz:
Faça-se a luz e a luz foi feita
E Deus viu que a luz era boa2,
e em seguida se lê:
E separou Deus a luz das trevas e Deus chamou dia à
luz e noite às trevas 5,
não acrescenta:
E Deus viu que isso era bom 3
para evitar cham ar a um a e o u tra conjuntam ente quando
um a das duas era m á, aliás não por natureza mas por seu
próprio vício. Foi por isso que apenas a luz agradou ao
C riad o r. Q u an to às trevas angélicas, em bora tivessem de
ser subm etidas a um a ordem , não tinham , porém , de ser
destinadas a ser aprovadas.
1 Et separavit Deus lucem et tenebras; et vocavit Deus lucem diem et
tenebras vocavit noctem.
Ib.
[1036]
CAPÍTULO XXI
Acerca da ciência e da vontade eternas e im u
táveis de D eus, em conform idade com as quais
sempre lhe agradaram as obras que fez, tanto
antes com o depois de as fazer.
Q ue se deve, na verdade, entender por esta frase
repetida a propósito de tudo
Deus viu que isso era bom 1,
senão a aprovação da obra realizada em conform idade
com a arte que é a Sabedoria de Deus? C ertam ente que
Deus não esperou acabar a sua obra para saber que ela era
boa. Pelo co n trário — nada teria feito se lhe fosse desco
nhecido. Para Ele, portanto, v er que a sua obra é boa — e
se a não tivesse visto antes de a cria r não a teria feito —
não é ap ren d er m as ensinar-nos que é boa. E certo que
Platão se atreveu a dizer que Deus exultou de alegria
depois de ter acabado o U niverso. N ão era, todavia, tão
louco que acreditasse que Deus com a novidade da sua
obra se to rn ara mais feliz. Quis assim m ostrar que esta
obra, um a vez realizada, agradou ao seu artífice, tal qual
como lhe tinha agradado no seu projecto antes de ser rea
lizada. N ão é que m ude a ciência de Deus e opere nela de
forma d iferen te o que ainda não é, o que já é e o que foi.
Em Deus não há, com o em nós, a previsão do futuro, a
visão do presente e a recordação do passado, é totalm ente
diferente a sua m aneira de conhecer, ultrapassando, m uito
acima e de m u ito longe, os nossos hábitos m entais. Ele vê
1 Vidit Deus quia bonum est.
Gén., I, 4-10-12-18-21-25-30.
[1037]
com um olhar absolutam ente im utável, sem levar o seu
pensam ento de um objecto para outro. Por conseguinte, o
que se passa no tem po com preende, certam ente, não só
acontecim entos futuros que ainda não são, mas tam bém
presentes que já são e passados que já não são. M as Ele
abarca-os a todos na sua estável e sem piterna presença.
N ão os vê de form a diferente com os olhos do espírito
pois não é com posto de corpo e alma. N em agora de
form a diferente de antes ou depois. D iferentem ente do
nosso, na verdade, o conhecim ento que Ele tem dos três
tem pos — presente, passado e futuro — não está sujeito a
m udança porque
nele não há vicissitude nem sombra de mudança2.
A sua atenção não passa de um pensam ento para outro
pensam ento, mas ao seu olhar incorpóreo tudo o que sabe
está sim ultaneam ente presente. É que ele conhece os tem
pos sem qualquer representação tem poral, assim com o
m ove o que está sujeito ao tem po sem sofrer qualquer
m ovim ento tem poral.
Ele viu, pois, que a sua obra era boa precisam ente
quando viu que era bom realizá-la. E o facto de a ver,
um a vez realizada, não dobrou nem aum entou a sua ciên
cia com o se fosse m enos sábio antes de criar o que veria;
porque as suas obras não alcançariam toda a sua perfeição
se não tivesse actuado por um a ciência de tal form a per
feita que a nenhum a delas nada poderia acrescer.
É por isso que, para nos ensinar que é o autor da luz,
bastava dizer Deus fe z a luz. E para nos ensinar, não ape
nas que a fez mas tam bém por que m eio, bastaria anunciá-
-lo assim:
E disse Deus: Faça-se a luz e a luz fez-se 3.
Porque assim saberíamos que Deus fez a luz e que a fez
pelo seu V erbo. Mas com o há três coisas a respeito das
2 apud quem nott est inmutatio tiec mometiti obumbratio.
Tiago, I, 17.
3 Et dixit Deus: Fiat lux, et facta est lux.
G én., I, 3.
[1038]
c r i a t u r a s , dignas de serem conhecidas, que tinha de nos
e n s i n a r — quem a fez, por que m eio a fez e porque a
feZ__acrescenta:
Disse Deus: Faça-se a luz e a luz fez-se. E viu Deus
que a luz era boa 4.
Se, p o rtan to , perguntam os — quem a fez? Foi Deus; se
perguntam os — por que m eio a fez? Disse: Faça-se, e ela
fez-se; se perguntam os — porque a fez? Porque é boa. O ra,
não há au to r mais perfeito do que Deus, nem arte mais
eficaz do que o V erbo de Deus, nem causa m elhor do que
esta: o bem foi criado por um D eus bom!
E o pró p rio Platão — quer porque o leu, quer, tal
vez, porque o aprendeu dos que o leram , quer porque o
seu génio tão p en etrante o levou a perceber pela sua inte
ligência as perfeições invisíveis de Deus através das reali
dades visíveis, quer porque o aprendeu dos que assim as
tinham visto — considera justíssim a esta razão da criação
do m undo: que as obras sejam feitas por um Deus bom .
4 Dixit Deus: Fiat lux, et facta est lux. Et vidit Deus lucem quia bona est.
Gén., I, 3.
[1039]
CAPÍTULO XXII
D os que desprezam alguns dos seres do U n i
verso, bem feitos pelo criador b om , e ju lgam
que algumas naturezas são más.
Todavia, certos herejes não adm item esta causa, isto é,
a bondade de Deus, que explica a criação dos seres bons,
esta causa, repito, tão ju sta e tão conveniente que, consi
derada com cuidado e religiosam ente m editada, põe term o
a toda a controvérsia acerca da origem do m undo. E não a
adm item porque há m uitas coisas, tais com o o fogo, o
frio, os anim ais ferozes e outras deste teo r que, quando se
lhes faz oposição, ferem a pobre e frágil m ortalidade desta
carne, aliás, fru to de um justo castigo. N ão reparam —
quão cheias de vigor estão essas coisas na sua natureza e
nos seus lugares próprios,
— em que bela ordem estão dispostas,
— que beleza conferem por suas proporções a todo o
Universo com o à sua com um república,
— ou ainda que vantagens a nós próprios proporcio
nam se delas souberm os fazer um uso inteligente e apro
priado: os próprios venenos, nocivos se tom ados inconside
radam ente, transform am -se em m edicam entos salutares se
aplicados com critério. Pelo contrário, m esm o as coisas
com que nos deleitam os, com o o alim ento, a bebida e esta
luz, tom am -se nocivas se usadas im oderada e inoportuna
mente. Por isso, nos adverte a D ivina Providência para
que não inculpem os à toa as coisas, mas indaguem os dili
gentem ente a utilidade delas; e, quando falhar o nosso
engenho ou a nossa debilidade, pensemos antes que essa
utilidade está oculta com o os segredos que dificilm ente
podemos descobrir. Porque o próprio segredo desta utili—
[1041]
dade é um a provação para a nossa hum ildade ou um a
m ortificação para o nosso orgulho, pois um a natureza
jam ais é um m al e esta palavra mais não designa que um a
privação de bem . Mas da T e rra até ao C éu, do visível até
ao invisível, há bens — uns superiores aos outros: tinham
de ser desiguais para todos existirem . Mas Deus, que é um
tão grande artífice nas coisas grandes, não o é m enos nas
pequenas, as quais se não devem m edir pela sua grandeza
(que é nula), mas segundo a sabedoria do seu autor.
Assim, se se raspa um a só sobrancelha da face do hom em ,
ao seu corpo bem pouco se tira m as quanto se tira à sua
beleza! — porque esta não consiste no tam anho mas na
sem elhança e proporção dos m em bros.
N ão é m uito de adm irar, com certeza, que aqueles
que crêem na existência de um a natureza má, proveniente
de e propagada por algum princípio contrário, se recusem
a ver na bondade de D eus, au to r dos seres bons, a causa
da criação — preferindo cre r que D eus foi levado a criar
esta grande m ole do M undo pela ex tre m a necessidade de
repelir o mal que contra ele se levantava. E para o repri
m ir e superar, m isturou ao m al a sua natureza boa, e esta,
assim poluída da mais vergonhosa form a e oprim ida pela
mais cruel servidão, apenas pelo preço de pesados esforços
consegue Deus purificá-la e libertá-la, não inteiram ente
porém : mas a parte que não pôde ser purificada desta con
tam inação tornar-se-á envoltório e liam e do inim igo ven
cido e aprisionado. N ão teriam assim perdido o juízo os
m aniqueus, ou m elhor, não teriam assim caído em delírio,
se considerassem a natureza de Deus com o ela é na reali
dade: im utável e absolutam ente incorruptível, nada lhe
podendo ser nocivo; e se a respeito da alm a (que por sua
vontade pode decair, pode corrom per-se pelo pecado e ser
assim privada da luz da verdade im utável), a consideras
sem com sentido cristão, não com o um a parte de Deus
nem da n atu reza de Deus, mas sim com o criada por ele,
im ensam ente inferior ao seu C riador.
[1042]
CAPÍTULO XXIII
Erro de que está inquinada a doutrina de
Orígenes.
Mas o que é m uito mais de adm irar é que — m esm o
crendo, com o nós, num princípio único de todas as coisas
e na impossibilidade, para toda a natureza que não seja
Deus, de ter o u tro criador que não seja Ele — alguns,
todavia, não se têm conform ado em crer recta e simples
m ente nesta causa da criação do M undo tão boa e tão
simples, ou seja: que um Deus bom criou as coisas boas e
que, fora de Deus, as coisas, que não são o que Deus é,
mas são boas, só um Deus bom as poderia fazer. D izem
que as alm as, que não são parte de Deus mas feitas por
Deus, pecaram , separando-se do criador; e que, descendo
por etapas diversas, conform e a diversidade dos pecados,
desde os Céus até à T e rra m ereceram diversos corpos
como prisões. Isto é que é o M undo, e a causa da sua
criação não é a produção de bens mas a repressão de
males.
Disto é acusado justificadam ente Orígenes. Nos livros
a que deu o nom e de ITepl áp^cov, isto é, Acerca dos Princt-
cípios, é assim que pensa e escreve. E adm iro-m e, mais
do que poderia dizê-lo, que um hom em tão sábio, tão
versado nas letras eclesiásticas, não tenha notado, prim eiro
que tudo, quanto isso é contrário ao pensam ento tão auto
rizado da E scritura que, a seguir a cada obra de Deus,
repete:
e, acabado tudo, conclui:
E Deus viu que tudo o que f e z era muito bom 2,
querendo m ostrar que não há o u tra causa da criação senão
um Deus bom que fez seres bons. Se ninguém tivesse
pecado, o M undo estaria ornado e cheio só de naturezas
boas; e, lá porque se pecou, nem por isso tudo ficou cheio
de pecado — pois, entre os celestiais, um núm ero m uito
m aior de bons conservou a ordem da sua natureza. N em a
própria vontade m á, pelo facto de não querer observar a
ordem da natureza, pôde ev itar as leis de Deus ju sto que
ordena convenientem ente todas as coisas. Porque, tal
com o um quadro de cores som brias distribuídas nos seus
devidos lugares, assim tam bém o conjunto das coisas, se
alguém o puder abarcar com um só olhar, se m antém
belo, m esm o com os pecadores, em bora estes, encarados
separadam ente, apareçam desfeados devido à sua deform i
dade.
O rígenes e os que assim pensam deveriam ver que, se
tal opinião fosse verdadeira, o M undo teria sido feito para
dar às almas, conform e a gravidade dos seus pecados, cor
pos onde seriam encerradas para seu castigo com o num a
prisão: às m enos culpadas — corpos mais leves e mais ele
vados; às mais culpadas — corpos mais pesados e mais bai
xos; e os dem ónios — porque nada há de mais detestável
do que eles — teriam que receber, por mais razão que os
hom ens bons, corpos de terra, que são os mais baixos e os
mais pesados de todos. M as, na realidade, para que com
preendam os que não se devem avaliar os m éritos da alma
pelas qualidades do corpo, o dem ónio, o pior dos seres,
recebeu um corpo aéreo; ao passo que o hom em , que
agora é, sem dúvida, culpado, mas de malícia de bem
m enor im portância, e em todo o caso antes de pecar, o
hom em recebeu, todavia, um corpo de barro.
2 Et vidit Deus omnia, quae fecit, et ecce bona valde.
Gén., I, 31.
[1044]
H averá algum a coisa mais insensata do que dizer que
s6 há um Sol no M undo, não porque o artífice Deus o fez
na intenção de em belezar o M undo ou ainda na de prover
ao bem estar dos seres corporais, m as antes que isto acon
teceu por um a alm a ter pecado de form a a m erecer ser
encerrada num tal corpo? M as, se tivesse acontecido dife
rentem ente, não que um a só m as duas, não duas mas dez
ou cem, tivessem com etido o m esm o pecado, este M undo
teria cem sóis? N ão foi, então, a adm irável providência do
artífice que prom oveu o bom estado e a beleza dos seres
corporais: foi antes o grau dé pecado de um a só alm a que
lhe valeu m ere cer tal corpo. N ão é, com certeza, a pro
gressão das almas (acerca das quais eles não sabem o que
dizem) no afastam ento da verdade e do m érito que tem
que ser reprim ida, mas antes o desvario desses que tais
coisas chegam a pensar.
Q uando, pois, a propósito de cada criatura, se põem
as três questões acim a referidas: quem a fe z? , por que meio? e
porque a fe z ? — haverá que responder: Fê-la Deus, pelo Seu
Verbo, porque ela é boa. Mas estas respostas não insinua
rão elas, nas suas misteriosas profundezas, a própria T rin
dade, isto é, o Pai, o Filho, o E spírito Santo? V erifica-se
nesta passagem das E scrituras algum a coisa que im peça
esta in terpretação? E esta um a questão que dem oraria
muito a ex p o r e não se pode ex ig ir que tudo se explique
num só livro.
[1045]
CAPÍTULO XXIV
Acerca da Trindade divina que, em todas as
suas obras, deixou sinais que a revelam.
Nós crem os, m antem os e pregam os com fidelidade
que o Pai g erou o V erbo, isto é, a Sabedoria pela qual
tudo foi feito, seu Filho único: que Ele, o U no, gerou o
Único, o E terno, o C oeterno, o soberam ente bom , o
igualm ente bom ; e que o Espírito Santo é sim ultanea
m ente o Espírito do Pai e do Filho, Ele m esm o consubs
tanciai e coeterno a ambos; que tudo isto é T rindade por
causa da propriedade de pessoas e Deus único por causa da
sua inseparável divindade, assim com o é único O m nipo
tente por causa da sua inseparável om nipotência. D e tal
m aneira, porém , que, se alguém se in terro g ar acerca de
cada um , deve contentar-se em saber que cada um é Deus
e om nipotente; e se se in terro g a r acerca dos três conjun
tam ente, a resposta será que não há três deuses ou três
om nipotentes, mas um só Deus om nipotente, tão grande é
na sua T rin d ad e a inseparável unidade que desta m aneira
se quis m anifestar.
Se o Espírito Santo do Pai bom e do Filho bom ,
porque é com um a am bos, se poderá cham ar com c o rrec
ção bondade de ambos — é questão acerca da qual não m e
atrevo a em itir um a opinião tem erária. Mas o que não
tenho m edo de dizer é que o Espírito Santo é a santidade
das duas outras Pessoas, não com o qualidade de um a e de
outra, mas com o sendo ele tam bém substância e terceira
Pessoa na T rindade. O que m ais provavelm ente me leva a
esta opinião é o seguinte: o Pai é espírito e o Filho é
espírito, o Pai é santo e o Filho é santo — todavia, o Espí-
[1047]
rito Santo é que é propriam ente assim cham ado com o
sendo a Santidade substancial e consubstanciai de ambos.
Mas se a bondade divina se identifica com a santi
dade, já não será um a audaciosa presunção, mas exercício
atento da razão, ver nas obras de Deus, sob um a form a
m isteriosa de falar destinada a despertar a nossa atenção,
esta m esm a T rindade insinuada pela tríplice questão
acerca de cada criatura: Quem a fe z? , Por que meios a fe z ? e
Porque é que a fe z? . R ealm ente, foi o Pai do V erbo quem
disse Faça-se! E o que à sua palavra se fez, foi, sem dúvida,
pelo V erbo que se fez. Finalm ente, a frase Deus viu que era
bom exprim e bem que Deus sem necessidade algum a, sem
a m enor busca de proveito pessoal mas apenas por sua
bondade fez o que fez, isto é — porque é bom! E se a obra
é declarada boa depois da sua criação, é para m o strar que
ela está de harm onia com a bondade, razão da sua criação.
Mas se esta B ondade designa precisam ente o Espírito
Santo, é a T rin d ad e toda que se nos revela nas suas obras.
E é dela que a C idade Santa, a cidade constituída nas
alturas pelos santos anjos, tira a sua origem , a sua form a e
a sua beatitude. N a verdade, se se perguntar donde vem
— direm os: foi Deus que a fundou; donde provém a sua sabedoria
— direm os: é Deus que a ilumina; donde provém a sua
felicidade — direm os: é de Deus que ela goza! Subsistindo
n ’Ele, tem a sua form a; contem plando-o, tem a sua luz;
unindo-se a Ele, tem a sua alegria. Ela é, vive, am a; na
eternidade de Deus ela prospera, brilha na verdade de
Deus, regozija-se na sua bondade!
[1048]
CAPÍTULO XXV
D ivisão de toda a filosofia em três partes.
T an to quanto nos é possível com preendê-lo, é daí
que vem a divisão, pretendida pelos filósofos, do estudo da
sabedoria, em três partes — ou antes: eles puderam obser
var que estava dividida em três partes (não foram eles que
determ inaram que fosse assim, mas apenas descobriram
que assim é). A um a parte cham ou-se Física, à outra Lógica
e à terceira Ética. (A estes nom es correspondem , nos escri
tos de m uitos autores latinos, os de natural, racional e moral,
como resum idam ente já referim os no livro oitavo). D isto
não se pode concluir que esses filósofos tenham tido, nes
tas três partes, algum a ideia da T rindade com o Deus,
em bora Platão — o prim eiro, diz-se, a descobrir e a reco
m endar esta divisão — tenha visto em Deus o único autor
de todas as naturezas, o dador da inteligência, o im pera
dor do am or pelo qual se vive virtuosa e felizm ente. Mas
há diversas opiniões quando há que tra ta r da natureza das
coisas, dos m eios de discernir a verdade, do fim do bem a
que devemos referir tudo o que fazemos. Todavia, toda a
sua pesquisa vem dar a estas três grandes e gerais questões.
Assim, em bora em cada um a destas questões professe cada
um opiniões divergentes, nenhum , porém , hesita em reco
nhecer que existe um a causa para a natureza, um m étodo
para a ciência e um sentido para a vida.
T am b ém são três as coisas que concorrem para o
trabalho de um artífice: a natureza, a doutrina, o uso (prá
tica). A natu reza deve ser apreciada pelo engenho, a dou
trina pela ciência e o uso (prática) pelos frutos (resulta
dos). N ão ignoro que o «fruto» se diz propriam ente de
[1049]
alguém que frui e o «uso» (ou utilidade) de alguém que
utiliza. A diferença parece consistir em que — «fruir» se
diz de um a coisa que nos agrada por si m esm a sem estar
relacionada com o utra, «utilizar» se diz de um a coisa que
se procura para outra. (P or isso, mais que fruir, convém
utilizar os bens tem porais para se m erecer o gozo dos bens
eternos; não com o os perversos que querem gozar do
dinheiro e utilizar-se de Deus. Porque não é por causa de
Deus que em pregam o seu dinheiro — é antes por causa
do dinheiro que prestam culto a Deus). Todavia, con
form e o m odo de falar que o hábito fez prevalecer,
«utilizam-se» os «frutos» e «frui-se» do «uso»: não se fala
no sentido próprio de «frutos do campo», dos quais, na
verdade, todos fazem os um uso tem poral. E, pois, nesse
sentido que eu talei de uso a propósito das três coisas que
convinha considerar no hom em : a natureza, a doutrina e o
uso. C om o disse, foi a p a rtir delas que, tendo em m ente a
consecução da vida feliz, os filósofos dividiram em três
partes a sua doutrina. Foi a p artir delas que, tendo em
m ente a obtenção da vida bem -aventurada, deriva esta
divisão em três da disciplina descoberta, com o já disse,
pelos filósofos: a natural por causa da natureza, a racional
por causa da doutrina, a moral por causa do uso. P ortanto,
se a nossa natureza procedesse de nós, seríamos nós os
autores da nossa sabedoria e não teríam os a preocupação
de a adquirirm os da doutrina, isto é, de a aprenderm os dos
outros; e o nosso am or, de nós partindo e a nós referido,
nos bastaria para viverm os felizes sem necessidade de
qualquer o u tro bem de que gozássemos. Mas porque, de
facto, a nossa n atureza para ex istir tem Deus com o autor,
— sem dúvida que tem os de tê-lo com o m estre para
conhecerm os a V erdade e ainda com o dispensador das
nossas íntim as alegrias para sermos felizes.
[1050]
CAPÍTULO XXVI
Im agem da soberana Trindade que, de certo
m odo, se encontra m esm o na natureza do hom em
ainda não bem-aventurado.
T am bém reconhecem os em nós um a im agem de
Deus, isto é, daquela soberana T rindade. C laro que não é
uma im agem igual, mas antes im ensam ente distante. T ão
pouco é coeterna. N um a palavra: não é da m esm a subs
tância que Deus. Todavia, não conhecem os entre os seres
por Ele criados nada que seja d ’Ele mais próxim o pela
natureza do que essa im agem , — em bora esta tenha ainda
necessidade de um a reform a que a aperfeiçoe para ser
tam bém m uito próxim a pela sem elhança.
Efectivam ente, somos e sabemos que somos e am a
mos esse ser e esse conhecer. E nestas três coisas que
acabo de referir nenhum a falsidade parecida com a v er
dade nos p erturba. D e facto, não as atingim os, com o às
realidades exteriores, por qualquer sentido corporal com o
as cores pela vista, os sons pelo ouvido, os perfum es pelo
olfacto, os sabores pelo gosto, o duro e o m ole pelo tacto.
Destas coisas sensíveis tem os tam bém im agens que m uito
se lhes assemelham — mas são corporais: consideram o-las
no pensam ento, conservam o-las na m em ória e somos por
elas incitados a desejarmos as próprias coisas; mas sem
qualquer im agem enganosa da fantasia ou da im aginação,
é coisa absolutam ente certa que sou, que conheço e que
amo. Nestas verdades nenhum receio tenho dos argum en
tos dos académ icos que dizem : Q ue será se te enganares?
Pois se m e enganar, existo. R ealm ente, quem não
existe de m odo nenhum se pode enganar. Por isso, se m e
[1051]
engano é porque existo. P orque, p ortanto, existo se m e
engano, com o poderei enganar-m e sobre se existo, quando
é certo que existo quando m e engano? Por conseguinte,
com o seria eu quem se enganaria, m esm o que me engane
não há dúvida de que não m e engano nisto: — que
conheço que existo. M as a consequência é que não me
engano m esm o nisto: — que conheço que me conheço. D e
facto, assim com o conheço que existo, assim tam bém
conheço isso mesmo: — que m e conheço.
E quando eu am o estas duas coisas, acrescento às coi
sas que conheço o am or com o terceiro elem ento que não é
de m enor im portância. Pois não m e engano sobre se m e
am o, já que não m e engano nas coisas que amo; m esm o
que elas fossem falsas, seria verdade que am o as coisas
falsas. R ealm ente, por que m otivo eu havia de ser ju sta
m ente repreendido e ju stam en te im pedido de am ar as coi
sas falsas se fosse falso que as am o? C om o, porém , essas
coisas são verdadeiras e certas, quem duvida de que o
p róprio am or que as faz é tam bém ele am or verd ad eiro e
certo? E tão verdadeiro que ninguém há que não queira
ex istir com o nada existe que não queira ser feliz. E com o
poderá ser feliz se nada é?
[1052]
CAPÍTULO XXVII
D o ser e do conhecim ento — e do am or por um
e outro.
A existência é, por um a inclinação natural, tão agra
dável, que, só por isso, nem os m ais desgraçados querem
m o rrer e quando se sentem desgraçados não querem que
sejam eles a desaparecer, mas antes que desapareça a sua
desgraça. M esm o àqueles que se consideram os mais infe
lizes e de facto o são, assim julgados não só pelos sábios
que os têm por insensatos, mas tam bém pelos que, julgando-
-se felizes, os têm por pobres e indigentes, — se alguém
lhes oferecesse a im ortalidade em que nem m esm o a infe
licidade m orresse, de m aneira que, se se recusassem a
perm anecer etern am ente infelizes, deixariam todos e para
sempre de ex istir e seriam votados a total aniquilação,
com certeza que rejubilariam de alegria e prefeririam
continuar a ser eternam ente o que são a deixarem de todo
de ser. Disto m esm o é testem unha o seu bem conhecido
sentim ento. Porque será que receiam m o rre r e preferem
viver nos seus torm entos a acabar com eles na m orte,
senão porque é claram ente evidente que à natureza
repugna não ser? T am bém quando sabem que estão pres
tes a m o rrer, desejam que lhes seja concedida, com o um
grande benefício, a m isericórdia de viverem durante mais
algum tem po na m esm a m iséria e a m o rre rem mais tarde.
Não há a m enor dúvida de que m ostram assim com que
gratidão aceitariam a im ortalidade m esm o que com ela
nao pusessem term o à sua indigência.
Pois quê? T odos os anim ais, m esm o os privados de
razao, aos quais não é dado escogitar estas coisas, desde os
[1053]
dragões gigantes até aos mais pequenos verm ezitos, não
exprim em eles tam bém por todos os m ovim entos possí
veis, o seu desejo de ex istir e, deste m odo, de evitar a
m orte? Pois quê? Todas as árvores e plantas (sem sensibi
lidade para evitarem , com m ovim entos exteriores, a sua
destruição), não é ce rto que, para lançarem para o ar os
cimos dos ramos, m ergulham no solo as extrem idades das
suas raízes para dele colherem o sustento e assim, à sua
m aneira, se esforçam por conservarem o ser? Enfim , os
próprios corpos destituídos não só de sensibilidade mas até
de vida vegetativa, lançam -se para o alto, caem cá em
baixo ou quedam -se suspensos no m eio para conservarem
a sua essência num lugar onde, segundo a sua natureza, ela
possa subsistir.
Pois bem : quanto se am a o conhecer e com o repugna
à natureza hum ana ser enganada, pode concluir-se do
facto de que ninguém há que não prefira afligir-se em são
juízo a alegrar-se na dem ência. Esta grande e adm irável
força não se encontra, fora do hom em , em qualquer ani
mal destinado à m orte. É certo que alguns, para contem
plarem a nossa luz, têm o sentido da vista mais agudo que
o nosso; mas não podem atingir aquela luz incorpórea que
na nossa m ente brilha de certo m odo para que possamos
em itir acerca de todas as coisas um juízo correcto; porque
é na m edida em que a possuímos que desse ju ízo somos
capazes. T odavia, se não há ciência nas sensações dos ani
mais privados de razão, há neles, porém , pelo m enos uma
certa sem elhança de ciência. Os outros seres corpóreos
cham am -se sensíveis, não porque sintam mas porque são
sentidos. E ntre eles os vegetais im itam a sensibilidade pelo
acto de se n u trirem e se reproduzirem . T odavia, estes e
todos os seres corporais têm na natureza as suas causas
latentes. Q uanto às suas form as, que em belezam a estru
tura deste m undo visível, eles apresentam -nas aos nossos
sentidos para serem percebidas, parece que com o se qui
sessem dar-se a conhecer para com pensarem o conheci
m ento que não têm . Nós captam o-los com os sentidos do
[1054]
corpo, mas não é com esses sentidos do corpo que os ju l
gamos. C om efeito, um o u tro sentido do hom em in terior,
m uito superior aos outros, perm ite-nos sentir não só o
ju sto mas tam bém o injusto: — o ju sto pela sua beleza
inteligível, o injusto pela privação dessa beleza. Para o
exercício deste sentido não chega nem a agudeza da
pupila, nem a abertura dos ouvidos, nem os respiradouros
do nariz, nem a abóbada do palatino, nem tacto algum
corpóreo. E nesse sentido que enco n tro a certeza de que
existo e de que conheço; é nesse sentido que encontro a
certeza de que am o tudo isso e de que amo.
[1055]
CAPÍTULO XXVIII
Deverem os nós amar tam bém o próprio amor com
que am am os o ser e o saber, para m ais nos
aproximarmos da im agem da Trindade divina?
M as acerca desses dois pontos, ou seja, do saber e do
conhecer, quanto os am am os e m . nós, com o deles se
encontra um a sem elhança, em bora longínqua, m esm o nas
coisas que são inferiores a n ó s — já dissemos o bastante,
tanto quanto m e parece que o exigia o plano desta obra.
Acerca do am o r com que são am ados, não disse se esse
am or tam bém é am ado. Mas esse am or é am ado — e pro
vamos que o é com o facto de que, quanto mais um
hom em é legitim am ente am ado, mais este am or é ele pró
prio am ado. E com razão, de facto, que se diz bom não
quem conhece o bem mas sim quem o ama. Porque não
temos então consciência de am arm os em nós esse m esm o
am or que nos faz am ar tudo o que de bom nós amamos?
Porque tam bém há um am or com que am am os o que
amado não deve ser, e a este am or o odeia em si aquele
amor com que se am a o que am ado deve ser. Podem
ambos estes am ores existir no m esm o hom em — e o bem
para o hom em consiste em que, progredindo no que nos
faz viver bem , vá retrocedendo, até com pleta cura, no
que nos faz viv er m al e se m ude em bem toda a nossa
vida.
Se fôssemos gado, am aríam os a vida carnal e o que é
conform e com os seus sentidos. Isso bastaria para nosso
bem e se nos encontrássem os bem com isso, nada mais
procuraríam os. D a m esm a form a, se fôssemos árvores,
nada amaríamos, com certeza, com um m ovim ento sensível,
[1057]
— contudo, parece que desejaríam os o que nos tornasse
mais fecunda e abundantem ente frutíferas. Se fôssemos
pedras, ondas, ventos, cham a ou coisa parecida, não
teríam os nem sensibilidade nem vida; todavia, não sería
m os desprovidos dum a certa tendência para o lugar pró
prio e para a ordem . São com o que am ores dos corpos as
forças dos seus pesos, quer tendam para baixo, devido à
gravidade, quer para cim a, devido à leveza. Efectiva
m ente, assim com o a alm a é arrastada pelo am o r para
onde quer que vá, assim tam bém o corpo é arrastado pelo
seu peso.
M as nós somos hom ens criados à im agem do nosso
C riad o r, cuja eternidade é verdadeira, a eterna verdade, a
eterna e verdadeira caridade, e Ele próprio é, sem confu
são nem separação, a etern a T rin d ad e, a verdadeira T rin
dade, a bem am ada T rindade. C onsiderem os todas as coi
sas que estão abaixo de nós: de form a nenhum a existiriam ,
não se m anteriam em qualquer form a, não desejariam
nem observariam qualquer ordem , se não tivessem sido
feitos por A quele que soberanem ente é e que é a soberana
sabedoria e a soberana bondade. P ercorram os todas as
obras que Ele fez na sua adm irável estabilidade e reco
lhamos, por assim dizer, os vestígios mais ou m enos pro
fundos com que as m arcou. Pois, com o aquele filho mais
novo do Evangelho olhando para a sua figura, entrem os
d entro de nós e levantem o-nos para regressarm os Aquele
de quem nos afastám os pelo pecado. Lá, o nosso ser não
mais terá m orte; lá, o nosso conhecer não mais terá erro;
lá, o nosso am ar não mais terá obstáculo. Estas três reali
dades, bem nossas, têm o-las nós por certas. A creditam os
nelas, não devido ao testem unho de outrem mas porque
nós as sentim os presentes, vêm o-las dentro de nós com um
olhar que não engana. M as até quando durarão elas?
Jam ais acabarão? Q ue será delas conform e o m au ou o
bom uso que lhes derm os? N ão podem os sabê-lo por nós
próprios. E por isso que a este propósito procuram os
outros testem unhos ou já os tem os. A cerca da garantia
[1058]
que deve oferecer-nos a sua fidelidade — não é este o
lugar, mas mais adiante, em que disso se tratará porm eno
rizadam ente.
M as neste livro trata-se da C idade de Deus que não
peregrina na m ortalidade desta vida, mas reside, sem pre
im ortal, nos Céus — a dos santos anjos, unidos a Deus, que
jam ais foram ou serão desertores. H á anjos que deserta
ram da luz eterna e se to rn aram trevas; mas, com o disse
mos, Deus desde as origens separou-os dos prim eiros.
C om a ajuda d ’Ele acabem os, pois, de explicar com o
pudermos o que com eçám os.
[1059]
perece com um a m orte em que não é abandonado pela
alm a e que conserva a vida e os sentidos no m eio dos
torm entos. Nesse castigo suprem o e eterno, de que opor
tunam ente tratarem os com mais porm enores, bem se pode
dizer que a alm a m orre porque já não vive de Deus; mas
com o é que se pode d izer que o corpo m orre, se vive
ainda da alma? D e facto, ele não poderá sentir de outra
m aneira os torm entos corporais que hão-de seguir-se à
ressurreição. Sendo a vida, qualquer vida, um bem , e a
d or um m al — será que terem os então de dizer que não
vive um corpo no qual a alm a não é a causa da vida mas
da dor?
A alm a vive, pois, de D eus quando vive no bem .
N ão pode, na verdade, viver no bem se Deus nela não
o perar o que é bom . M as o corpo vive da alm a quando a
alm a está nele, viva ou não ela de Deus. A vida que há no
corpo dos ím pios não é, portanto, vida da alm a, mas do
corpo; e essa vida até as alm as m ortas (isto é, abandonadas
de D eus), a podem dar, em bora nelas não cesse a sua pró
pria vida pela qual são im ortais.
Mas na condenação derradeira, em bora o hom em
não deixe de sentir, todavia, m elhor é cham ar-se-lhe
m orte do que vida, visto esta sensibilidade não se to m ar
agradável pelo p razer nem salutar pelo repouso m as antes
penosa pela dor. E cham a-se-lhe «segunda» porque se
segue a um a prim eira em que se realiza a tuptura de natu
rezas estreitam ente unidas, quer de Deus e da alm a, quer
da alm a e do corpo. D a p rim eira m o rte do corpo se pode,
pois, dizer que é um bem para os bons e um m al para os
maus; mas a segunda, com o não é, com certeza, própria
de nenhum bem , para ninguém é boa.
[1160]
CAPÍTULO XXIX
Ciência pela qual os santos anjos conhecem a
Trindade na sua própria deidade — e pela qual
vêem na arte do Criador as causas das suas
obras antes de as considerarem na própria obra
do artífice.
Os santos anjos conhecem a Deus não pelos sons das
palavras mas pela própria presença da V erdade im utável,
isto é, pelo V erbo, Filho único de Deus. C onhecem o pró
prio V erbo e o Pai e o Espírito Santo d ’Eles; vêem que
esta T rindade é inseparável, que n ’Ela cada um a das pes
soas é substancial e que, todavia, todas juntas não fazem
três deuses mas um só Deus; e tudo isto lhes é mais conhe
cido do que nós somos de nós próprios. C onhecem tam
bém m elhor a criatura aí, isto é, na Sabedoria de Deus,
como na arte em que foi feita, do que em si mesma. Por
conseguinte, conhecem -se m elhor aí a si mesmos do que
em si m esm os, em bora se conheçam tam bém em si m es
mos. Foram , na realidade, feitos e são diferentes de quem
os fez. Aí, no V erbo, têm eles, com o acim a dissemos, um
conhecim ento, digam os, diumo e neles próprios um conhe
cim ento, digam os ainda, vespertino. E, de facto, m uito dife
rente conhecer um objecto na própria ideia segundo a
qual foi feito e conhecê-lo em si mesmo. Assim se conhece
a direcção em recta das linhas ou a verdade das figuras,
quando se vêem na inteligência, de form a diferente de
quando se escrevem na areia; ou ainda: a justiça na im utá
vel V erdade é diferente na alm a do justo. D a m esm a
forma quanto ao resto: o firm am ento cham ado céu posto
entre as águas superiores e as inferiores; a reunião das
[1061]
águas em baixo, a secura da terra, a form ação das plantas
e das árvores; a criação do Sol, da Lua e das estrelas; os
animais provenientes das águas, com o as aves, os peixes e
os m onstros que nadam ; da m esm a form a os animais que
andam ou rastejam na terra; e o próprio hom em que
supera tudo o que há na T erra: todos estes seres os anjos
conhecem no V erbo de Deus, em quem residem im utáveis
e perm anentes as suas causas e as suas ideias, isto é,
Aquele que presidiu à sua criação, de um a form a que
difere do conhecim ento deles em si mesmos: — com um
conhecim ento mais claro aí, mais obscuro aqui, com o o da
arte e o das obras. Q uando estas obras se referem ao lou
v o r e glória do C riador, com o que resplandece a m anhã
no espírito de quem contem pla.
[1062]
CAPÍTULO XXX
A perfeição do número seis — o prim eiro que
é a soma exacta das suas partes.
É por causa da perfeição do núm ero seis que se narra
(na Escritura), que as coisas ficaram p e rfe ita s 1 em seis
dias, ou no m esm o dia repetido seis vezes. N ão é porque a
Deus tosse necessário algum intervalo de tem po, com o se
ele não pudesse criar dum a só vez todos os seres que dora
vante por seus m ovim entos apropriados gerariam o
tempo: mas porque o núm ero seis significa a perfeição das
obras. E fectivam ente, ele é o prim eiro a ser a soma exacta
das suas partes, isto é, do seu sexto, do seu terço e da sua
metade — que são, respectivam ente, um, dois e três cuja
soma faz seis. D evem -se, neste cálculo, tom ar com o partes
aquelas de que se pode dizer que são alíquotas2 — tais
como a m etade, o terço, o q u arto e assim de seguida.
Assim, por exem plo, quatro é um a p arte do núm ero nove
mas não se pode dizer qual, com o se pode dizer de um —
que é o nono e de três — que é o terço. Mas estas duas
partes somadas — o nono e o terço, isto é, o um e o
três — estão longe da soma total que é nove. T am bém
quatro é parte de dez, mas não se pode dizer qual, com o
' Em vez de «acabadas», conform e o seu étim o (perjectus, de perfi-
c‘°)> preferim os traduzir o term o perfecta por «perfeita» para m anter o
J°go de palavras do original.
Com a palavra alíquota, Santo A gostinho pretende referir-se,
conio resulta, aliás, do contexto, à quota parte ou parte proporcional e
j 3° a Urna parte qualquer, isto é, que cabe no todo um núm ero inteiro
de vezes.
[ 1063]
se pode dizer de um — que é um décim o, de dois — que é
um quinto, de cinco — que é m etade. Mas estas três partes
— décim o, quinto e m etade, ou seja, um , dois e cinco
— som am oito e não dez. U ltrapassam -no, porém , as par
tes adicionadas do n úm ero doze, sendo um — o duodé
cim o, dois — o sexto, três — o quarto, quatro — o terço, e
seis — m etade; pois um , dois, três, quatro e seis perfazem
dezasseis, p o rtan to , m ais de doze. Julguei que isto devia
ser sum ariam ente rem em orado para m ostrar a perfeição
do núm ero seis que, com o disse, é o prim eiro a ser a soma
exacta das suas partes: é neste núm ero que Deus deixou
p e rfe ita s1 as suas obras. N ão se deve, pois, desprezar a
teoria dos núm eros de que as Sagradas Escrituras, em m ui
tas passagens, desvendam o alto valor aos que as estudam
com atenção. N ão foi em vão que se disse em louvor de
Deus:
Tudo dispuseste em número, peso e medida .
3 Omnia in mensura et numero et pondere disposuisti.
Sab. de Salomão, XI, 21.
[1064]
CAPÍTULO XXXI
Sétim o dia — em que se põem em destaque o
repouso e a perfeição.
N o sétim o dia, isto é, no m esm o dia sete vezes repe
tido, Há tam bém um núm ero perfeito mas por outra
razão: ele anuncia o repouso de Deus em que, pela pri
m eira vez, se fala de santificação. N ão quis Deus santificar
esse dia com a algum a das suas obras mas com o seu
repouso que não tem tarde. N ão há criatura algum a que,
conhecida de um a m aneira no V erbo e de outra m aneira
em si m esm a, subm inistre um conhecim ento diurno e um
conhecim ento vespertino.
C ertam en te que acerca da perfeição do núm ero sete
muitas considerações poderiam ser aventadas. M as este
livro já se vai alongando e receio, ao apresentar-se a o por
tunidade, p arecer desejoso de alardear a m inha cienciazi-
nha (scientiola) com mais vaidade do que proveito. D eve,
pois, ter-se em conta a regra da m oderação e da gravidade
para se ev itar que, falando m u ito do núm ero, m e sur
preenda a desprezar o peso e a m edida. Basta, pois, recor
dar que três é o prim eiro núm ero im par com pleto, que
quatro é o prim eiro núm ero par com pleto e que dos dois
resulta o sete. P or isso m uitas vezes se tom a o sete pela
universalidade, com o nas frases:
Sete vezes o justo cairá e se levantará ',
1 Septiens cadet justus, et resurget.
Prov., X X IV , 16.
[1065]
isto é, por m uitas vezes que caia, não perecerá; estas que
das não se referem à iniquidade mas às tribulações que
conduzem à hum ildade. E
louvar-te-ei sete vezes por dia2,
que ex p rim e o pensam ento, já exposto, noutra passagem,
nestes term os:
O seu louvar estará sempre na minha boca 3.
Há nos autores sagrados m uitas passagens sem elhantes em
que o núm ero sete é, com o disse, usado para exprim ir a
universalidade de qualquer coisa. Por isso com o mesmo
núm ero se significa por vezes o Espírito Santo do qual
disse o Senhor:
Ensinar-vos-á toda a verdade 4.
Aí está o repouso de Deus, graças ao qual se repousa em
Deus. N a verdade, é no todo, isto é, na perfeição plena,
que está o repouso: o trabalho está na parte. P or isso nos
esforçam os enquanto conhecem os em parte; quando chega
o que é perfeito, desvanecer-se-á o que é em parte. E por
isso, tam bém , que tão trabalhosam ente exam inam os estas
Escrituras.
Mas os santos anjos (a cuja sociedade e congregação,
neste tão laborioso p eregrinar, aspiram os) esses têm eter
nidade de perm anência, facilidade de conhecim ento e feli
cidade de repouso'— e por isso é que nos ajudam sem difi
culdade porque não têm que se esforçar na sim plicidade e
liberdade dos seus m ovim entos espirituais.
Septiens in die laudabo te.
Salmo C X V III, 164.
Semper laus ejus in ore meo.
Salmo X X X III, 1.
Docebit vos omnem veritatem.
João, X VI, 13.
[1066]
CAPÍTULO XXXII
O piniões dos que ju lg a m que a cria
ção dos anjos precedeu a do M undo.
Q ue ninguém venha suscitar contendas dizendo que a
frase:
Faça-se a luz e a lu z fe z -s e 1,
não se refere aos santos anjos m as se refere à criação,
desde os prim órdios, de certa luz corpórea, e os anjos não
só não foram criados antes do firm am ento posto entre as
águas e cham ado céu, mas foram criados m esm o antes do
facto a que se refere a frase:
N o princípio fe z Deus o céu e a terra 2,
e a frase:
N o princípio 3
não designa o com eço da criação (pois os anjos foram
feitos antes) mas quer d izer que Deus tudo fez na sua
Sabedoria, isto é, no seu V erbo, designado pela E scritura
por «Princípio» (Ele próprio o declarou no Evangelho
quando, à p ergunta dos Judeus «quem era», respondeu que
«era o Princípio»),
N enhum a resposta darei em contrário, sobretudo
porque m e apraz ver no livro sagrado do Génesis, logo
desde o exórdio, que a Trindade é evocada. Q uando se diz:
N o princípio f e z Deus o céu e a terra2
1 Fiat lux, et facta est lux.
Gén., I, 3.
In pnnápio fecit Deus caelutn et terram.
Gén., I, 1.
3 In principio.
Gén., I, 1.
[1067]
9
n
dá-se a entender que o Pai criou o Filho, com o o testem u
nha o Salmo em que se lê:
Como são magníficas as tuas obras, Senhor!
A todas fizeste na Sabedoria 4,
— pois, m uito a propósito, o Espírito Santo é tam bém
m encionado pouco depois. E fectivam ente, a E scritura —
depois de d eclarar que a T e rra tinha Deus feito no princí
pio, ou a que massa de m atéria destinada à construção do
M undo tinha cham ado céu e T e rra , e depois de ter
acrescentado:
A terra era invisível e desorganizada e as trevas esta
vam sobre o abismo 5,
— então é que acrescenta, para com pletar a m enção da
Trindade:
E o Espírito de Deus pairava sobre a água .
P ortanto, cada um escolha o sentido que quiser dar a
estas palavras tão profundas que se pode, para exercício
dos leitores, interpretá-las de diversas m aneiras que não
colidem com a regra de fé. D o que ninguém pode, porém ,
duvidar é de que os santos anjos estão nas m oradas subli
mes e, em bora não coeternos com Deus, estão, todavia,
seguros e certos da sua verdadeira e eterna felicidade. Que
é a esta sociedade que pertencem os pequeninos, ensinou-o
o Senhor não só quando disse:
Serão iguais aos anjos de Deus 1
4 Quam magnificata sunt opera tua Domine!
Omnia in sapientia fecisti.
Salmo CI 11, 24.
s Terra autem erat invisibilis et incomposita et tenebrae erant super abyssum.
Gen. I, 1-2.
6 Et Spiritus Dei superferebatur super aquam.
Gen., 1, 1-2.
7 Erunt aequales angelis Dei.
M a t., X II, 30.
[1068]
nias tam bém m ostrou de que contem plação gozam os
mesmos anjos quando diz:
Cuidado! Não desprezeis um só destes pequeninos,
pois eu vo-lo digo: os seus anjos nos Céus vêem sempre a face
de meu Pai que está nos C é u s 8.
s I idete, ne contemnaüs unum ex pusillis istis; dico enim vobis, quia angeli
eorum in caelis semper vident faciem Patris mei, qui in caelis est.
Mat., XVII, 10.
CAPÍTULO XXXIII
Duas sociedades angélicas distintas e opostas
que, co m razão, se podem chamar lu z e trevas.
Q ue alguns anjos pecaram e foram precipitados nos
abismos deste m undo que para eles se tornou com o que
um cárcere até à sua d errad eira condenação no dia do
juízo — é o que clarissim am ente m ostra o apóstolo Pedro
quando diz que Deus não poupou os anjos pecadores e os
encerrou nos tenebrosos cárceres do Inferno, conservando-
-os para serem castigados no dia do juízo. Q uem pode
duvidar de que en tre estes anjos pecadores e os outros
estabeleceu D eus, na sua presciência, ou de facto, a sepa
ração e que, com justiça, aos outros cham ou luz? M esm o
nós, que vivem os ainda na fé e na esperança de nos to r
narmos a eles iguais, sem ainda o term os conseguido,
somos já apelidados de lu z pelo A póstolo ao dizer:
H ouve tempo em que fostes trevas, mas agora sois luz
no Senhor 1.
Mas que os anjos desertores têm sido com toda a clareza
chamados trevas, sem dúvida que o notam todos os que
crêem ou sabem que eles são piores que os hom ens infiéis.
E por isso que, ainda que fosse preciso v er um a outra
luz nesta passagem desse livro onde se lê:
Deus disse: Faça-se a lu z e a lu z fe z - s e 2
I'uistis enitn aliquando tenebrae, nunc autem lux in Domino.
Efés., V, 8.
Dixit Deus: Fiat lux, et facta est lux.
Gén., I, 3.
[1071]
e outras trevas onde está escrito:
Deus separou a lu z das trevas 3
— para nós, todavia, há duas cidades de anjos:
um a que goza de Deus, e outra que intum esce de
orgulho;
um a à qual se diz:
Adorai-o todos vós seus anjos
e outra cujo chefe diz:
Tudo isto te darei se prostado me adorares 5;
um a abrasada no santo am or de Deus, e outra
ardendo num am or im puro da sua própria grandeza. E por
que, segundo está escrito:
Deus resiste aos soberbos e concede a sua graça aos
humildes 6,
um a habita no mais alto dos Céus — a outra foi de lá
expulsa e anda a causar a desordem nas regiões inferiores
do céu aéreo;
um a é tranquila na piedade lum inosa — a o u tra tur
bulenta nas suas tenebrosas paixões;
um a, atenta aos sinais de Deus, socorre com clem ên
cia e executa com justiça — a outra, sob o aguilhão do
orgulho, ferve em desejo de dom inar e de prejudicar;
um a, por todo o bem que pretende fazer, põe-se ao
serviço da bondade de Deus — a outra, com m edo de não
fazer todo o mal que pretende, é retida pelo freio do
poder de Deus;
um a faz troça da segunda quando, com pesar desta,
tira proveito das suas perseguições — esta inveja a pri
m eira ao vê-la recolher os seus peregrinos.
3 Divisit Deus inter lucem et tenebras.
Ib.
4 Adorate eum omnes atxgeli ejus.
Salmo XCVI, 8.
" Haec omnia tibi dabo, si prostratus adoraveris me.
M a t . , I V , 9.
6 Deus superbis resistit, humilibus autem dat gratiam.
Tiago, IV, 6.
[1072]
P o rtan to , para nós estas duas cidades de anjos, desi
guais e co ntrárias, um a boa po r sua natureza e vontade, a
outra boa por sua natureza e m á por sua vontade, crem os,
segundo outros testem unhos mais claros das Sagradas
Escrituras, que, ainda nesse livro cham ado Génesis, elas
são designadas pelas palavras lu z e trevas. M esm o que
quem isto escreveu lhes tenha dado nesta passagem outra
significação, não creio que tenha sido inútil ter sondado a
obscuridade do seu pensam ento: se não penetrám os na
intenção do au to r desse livro, pelo menos não nos afastá
mos da regra de fé que é tão bem conhecida dos fiéis
através de outras passagens das Sagradas Escrituras com a
mesma autoridade. Em bora, na verdade, as obras de Deus
aqui m encionadas sejam corpóreas, não há dúvida de que
têm certa sem elhança com as realidades espirituais con
forme disse o Apóstolo:
Vós sois todos filhos da luz, filhos do dia; nós não
somos filhos da noite nem das trevas 1.
Se é assim que tam bém pensa quem isto escreveu, a
nossa intenção alcançou o perfeito fim da disputa; na v er
dade, não é de crer que um hom em de Deus, penetrado
de sabedoria divina, ou m elhor, o Espírito de Deus nele,
ao enum erar as obras de Deus até ao seu com pleto aca
bam ento no sexto dia, tenha deixado de m encionar os
anjos, qualquer que seja o sentido da passagem:
N o princípio f e z Deus o Céu e a Terra 8:
quer «no princípio» (in principio) queira dizer que foram os
primeiros a serem criados — quer «no princípio» queira
dizer (o que é mais provável) que Deus os tenha feito no
Verbo, seu Filho único. Estas palavras «o C éu e a Terra»
— designam a criação universal não só do espiritual mas
Omties enim vos filii lucis estis et filii diei, non sumus noctis neque
ttnebrarum.
I Tessalón, V, 5.
In principio fecit Deus caelum et terram.
Gén., I, 1.
[1073]
tam bém do corpóreo, ou então (o que é mais provável)
designam as duas grandes partes do m undo que englobam
todos os seres criados: de m odo que a Escritura, prim eiro,
apresenta-nos o conjunto e, logo a seguir, as partes do
m undo segundo o núm ero m ístico dos seis dias.
[1074]
CAPÍTULO XXXIV
Julgam alguns que, na criação do firm am ento, os
anjos são designados com o nom e de águas sepa
radas, julgan do outros que as águas não foram
separadas.
Pensaram alguns que com o nom e de águas foram de
certo m odo designados os povos angélicos e que foi este o
significado da frase:
Faça-se o firmamente entre uma água e outra água .
Assim, os anjos seriam colocados acim a do firm am ento e
abaixo dele as águas visíveis ou a m ultidão dos anjos maus
ou toda a raça hum ana. Se assim foi, então já não se vê
quando teriam sido criados os anjos, mas sim quando
foram separados. Alguns negam (opinião sem fundam ento
e a mais perversa e ím pia) que as águas tenham sido cria
das por Deus porque em parte nenhum a está escrito Deus
disse: façam-se as águas! C om a m esm a falta de fundam ento
poderiam tam bém dizer isso da T erra: efectivam ente, em
parte nenhum a se lê disse Deus: faça-se a Terra! Mas está
escrito, dizem eles:
N o princípio f e z Deus o céu e a terra .
Então, está aí com preendida a água pois sob o m esm o
nome estão com preendidas um a e outra. C om efeito,
como se lê num Salmo:
O mar é d ’Ele e fo i Ele mesmo quem o fe z; e as suas
mãos formaram a terra árida 3.
1 Hat firmamentum inter aquam et aquatn.
Gén., I, 6.
In principio fecit Deus caelutn et terram.
Gén., I, 1.
Ipsius est mare, et ipse fecit illud, et aridam terram manus ejus finxerunt.
Salmo X C IV , 5.
[1075]
Mas os que pretendem que, sob o nom e de águas que
estão sobre os Céus, se quer designar os anjos, são im pressio
nados pelo peso dos elem entos e, por isso, pensam que a
natureza fluida e pesada das águas não pode estabelecer-se
nos lugares superiores do M undo. Segundo este raciocínio,
se esses pudessem fazer um hom em não colocariam na
cabeça a pituíta que em grego se cham a φλέγμα e que
ocupa o lugar das águas entre os elem entos do nosso
corpo 4. C om efeito, a cabeça é a sede deste flegma, con
form e a obra tão bem ordenada de Deus, m as de tal
form a absurda, segundo as conjecturas desses tais, que se
não o soubéssemos e se estivesse escrito no Génesis que
Deus colocou um hum or fluido, frio, e por isso pesado, na
região mais alta do corpo hum ano, estes pesadores de
elem entos recusar-se-iam absolutam ente a adm iti-lo; e se
reconhecessem a autoridade da Escritura, ju lg ariam que
p or tal seria necessário entender um a coisa totalm ente
diferente.
M as se com cuidado sondássemos e discutíssemos
tudo o que nesse livro sagrado se contém acerca da cria
ção do m undo, m uito haveria para dizer e seria preciso
que nos afastássemos dem asiadam ente do plano da nossa
o bra — e já tratám os do que nos pareceu suficiente acerca
destas sociedades de anjos, diversas e contrárias entre si,
nas quais se encontram as origens das duas cidades, mesmo
nas coisas hum anas, de que estou decidido a v oltar a falar.
Mas já é tem po de acabarm os tam bém com este livro.
4 A exposição de Santo Agostinho com preender-se-á m elhor
recordarm os que a flegma, fleuma ou fleugma era, na medicina antiga,
um dos hum ores (aquoso p ortanto) resultante da inflam ação da pituíta
(em lat. pituita c em grego φ λέγμ α).
[1076]