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Artigo A Epifania Nos Contos Clariceanos - Revista Nupem

O trabalho analisa a epifania nas narrativas de Clarice Lispector, destacando como suas personagens femininas enfrentam o aprisionamento à condição feminina e buscam liberdade. A epifania surge em momentos cotidianos, levando a um processo de autoconhecimento e revelação interior. A análise se concentra nos contos 'Amor', 'Os laços de família' e 'A imitação da rosa', evidenciando a crítica à tradição patriarcal e a busca pela identidade feminina.

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Artigo A Epifania Nos Contos Clariceanos - Revista Nupem

O trabalho analisa a epifania nas narrativas de Clarice Lispector, destacando como suas personagens femininas enfrentam o aprisionamento à condição feminina e buscam liberdade. A epifania surge em momentos cotidianos, levando a um processo de autoconhecimento e revelação interior. A análise se concentra nos contos 'Amor', 'Os laços de família' e 'A imitação da rosa', evidenciando a crítica à tradição patriarcal e a busca pela identidade feminina.

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EPIFANIA: O CLÍMAX DA NARRATIVA NOS CONTOS DE CLARICE

LISPECTOR

Maiara Cristina Segato (UEM)1

Resumo: Clarice Lispector, em muitas de suas narrativas, retrata o


aprisionamento das personagens à condição feminina e o desejo de liberdade
que as perseguem. Essas personagens, em um dos momentos banais do
cotidiano, se deparam com o imprevisto de um súbito instante de revelação ou
epifania, levando-as a um processo de autoconhecimento e a um momento de
lucidez. Sendo assim, no presente trabalho, analisaremos o processo epifânico
nos contos “Amor”, “Os laços de família” e “A imitação da rosa”, que integram a
coletânea Laços de família, publicada em 1960. O trabalho pautar-se-á em
estudos feitos por críticos de Clarice Lispector como: Affonso Romano de
Sant’Anna (1973) e Benedito Nunes (1973) (1989).
Palavras-Chave: Clarice Lispector; Contos; Epifania.

EPIPHANY: THE CLIMAX OF THE NARRATIVE IN THE SHORT STORIES


OF CLARICE LISPECTOR

Abstract: Clarice Lispector, in many narratives, describes the imprisonment of


the characters to the female condition and the freedom desire which pursue
them. These characters, in one of the banal moments of the quotidian, they
appear with the unforeseen of a sudden instant of revelation or epiphany,
leading them to a process of self knowledge and to a moment of clarity. This
way, in the present work, the epiphany process will be analyzed in the short
stories “Amor”, “Os laços de família” and “A imitação da rosa”, which integrate
the anthology Laços de família, published in 1960. The work will be organized in
the studies done by critical of ClariceLispector such as: Affonso Romano de
Sant’Anna (1973) and Benedito Nunes (1973) (1989).
Keywords: Clarice Lispector; Short stories; Epiphany.

A literatura revolucionária de Clarice Lispector, marcada pelo caráter


existencial e psicológico, se inscreve em uma linguagem profundamente

1Mestre em Estudos literários, pela Universidade Estadual de Maringá (UEM). Integrante do


grupo de pesquisa Diálogos literários, pela Universidade Estadual do Paraná – Campus de
Campo Mourão (UNESPAR).
pessoal e inovadora, fugindo do padrão estandardizado. Dessa forma, ao
lermos a ficção de Clarice, em um primeiro momento, pode nos causar certo
estranhamento e certa inquietude, devido à densidade de seus escritos. No
entanto, não se trata de uma escritura alienada, pois a fragmentariedade dos
seus textos mostram a fragmentariedade do sujeito e da própria vida e a
epifania denuncia a problemática existencial das personagens e, portanto,
conduzem à revelação dos aspectos sociais. Assim sendo, a escritora trata da
problemática humano-existencial atrelada à sociocultural, pois a posição
ocupada pela mulher na ordem social, cultural e literária, a identidade feminina,
as relações familiares e as relações de gênero entre homem e mulher estão
entre os principais temas de Clarice Lispector.
As narrativas de Clarice Lispector situam-se “no intervalo entre a prosa e
a poesia, entre um poema-prosa ou uma prosa-poema” (DINIS, 2001, p. 28).
Sendo assim, a estética e a linguagem bem elaboradas, centrada na “prosa
poética”, servem para revelar a relação entre o sujeito e a realidade,
representando o ser humano, nas mais variadas situações da vida cotidiana,
enfocando suas angústias, medos, anseios, sentimentos reprimidos,
frustrações e questionamentos existenciais. Dessa forma, torna-se marca
característica da autora a sua franqueza ao tratar de aspectos psicológicos,
fluxo da consciência e crises existenciais, por meio de um estilo solto e
fragmentário, empregando a sutileza do humor, da ironia, bem como o uso
diferenciado dos tempos verbais, foco narrativo e figuras de linguagem como o
uso intensivo da metáfora insólita, “que valem como sintomas de crise da ficção
introspectiva” (BOSI, 1989, p. 474), isto é, uma tensão psicológica que reflete
na tensão linguística, pois “o envolvimento do personagem com a linguagem
expressa um ritual presente” nas narrativas clariceanas (SANT’ANNA, 1973, p.
196).
Os críticos literários, incompreendidos com a ficção de Clarice Lispector,
por não conseguir enquadrá-la em nenhuma classificação dos gêneros
literários, até então, instituída, se debruçaram sobre suas obras, a fim de
perscrutar os seus escritos. Álvaro de Lins (apud SANT’ANNA, 1973, p. 181),
ao tentar explicar a literatura intimista e introspectiva da escritora, aproxima-a
das técnicas inovadoras do romance psicológico e do chamado fluxo de
consciência presente na literatura de Virgínia Woolf e James Joyce.
Rosembaum (2006, p. 37), acrescenta ainda que, podemos reconhecer “no
‘realismo psicológico’ chocante de James Joyce e na ‘sondagem introspectiva’
de Virgínia Woolf as principais afinidades de Clarice Lispector”. Já Benedito
Nunes (1973, p. 96) aponta na ficção clariceana uma “temática marcadamente
existencial” relacionada “a certos tópicos da filosofia da existência,
particularmente ao existencialismo sartreano”. Entretanto, o crítico esclarece
que o misticismo presente na obra de Clarice Lispector é o elemento que a
difere da obra de Sartre.
O termo epifania, que perpassa as obras de Clarice Lispector, vem do
grego “epi sobre e phaino aparecer brilhar”, ou seja, “epipháneia significa
manifestação, aparição” (Sá, 1979, 168). Inicialmente utilizado como conceito
bíblico que significa, segundo Sá (1979, p. 168-169), “manifestação divina [...]
que sempre traz salvação”. Nesse sentido, o escritor inglês James Joyce
ultrapassa o significado bíblico do termo e o transforma em técnica literária,
passando a ser a transfiguração do cotidiano na descoberta do real, em alguns
momentos fugidios da vida. Sendo assim, Clarice Lispector se apropria do
termo reformulado por Joyce e, inspirada no escritor inglês, dá o título Perto do
coração selvagem (1944), ao seu primeiro romance.
Embora a escritora tenha apreendido o fenômeno da epifania de James
Joyce, as maiores semelhanças estão entre suas obras e as de Virgínia Woolf.
Mesmo sem haver uma influência direta, a relação Clarice / Virgínia pode ser
notada nas evidências e analogias entre aspectos como, entre outros, a não
linearidade de escrita, o tempo e o espaço, sendo que o tempo é dirigido pelo
fluxo da consciência e o espaço é configurado para auxiliar na compreensão
dos aspectos psicológicos das personagens e, principalmente, na discussão
sobre o sujeito feminino inscrito no meio social, familiar e literário. Assim, seja
por influência de James Joyce ou de Virgínia Woolf, Clarice Lispector, na
tentativa de dizer o indizível, expõe as questões psicológicas e existenciais,
utilizando o fluxo da consciência, técnica que transcreve o pensamento integral
da personagem, e o monólogo interior, processo em que a narração se
transfere à personagem, que fala para si mesma, ligando a palavra com o
pensamento da personagem.
Se em Clarice Lispector “a escritura é epifânica, a escrita é um rito que
cumpre como forma de ‘submissão ao processo’” (SÁ, 1979, p. 203). Nessa
conjuntura, o ponto crucial nas narrativas clariceanas é o que muitos
estudiosos, como, entre outros, Benedito Nunes (1973) (1989) e Affonso
Romano de Sant’Anna (1973) denominam epifania ou “tensão conflitiva”,
“instante existencial”, “momento privilegiado”, isto é, uma espécie de
descortinamento interior, um momento revelador que “ilumina” a vida da
personagem, abrindo-lhe a consciência, levando-a a uma reflexão, fazendo-a
dar-se conta de sua problemática. A epifania clariceana é decorrente do
encontro entre o Eu e o Outro e entre o Eu e o Mundo. O “Eu x Outro aparece
implícita e explicitamente em praticamente” todos os trabalhos de Clarice
(SANT’ANNA, 1973, p. 195). No entanto, não existe, em Clarice Lispector,
sequer a menção da palavra epifania, mas podemos notar que esse evento é
recorrente do drama existencial de suas personagens, que querem escapar de
uma vida mecanizada:

É um instante existencial, em quem as personagens


clariceanas jogam seus destinos, evidenciando-se por uma
súbita revelação interior que dura um segundo fugaz como a
iluminação instantânea de um farol nas trevas e que, por isso
mesmo, recusa-se ser apreendida pela palavra. Esse momento
privilegiado não precisa ser excepcional ou chocante; basta
que seja revelador, definitivo, determinante. Atinge a escritora o
anelo de todo ficcionista: o momento da lucidez plena, em que
o ser descortina a realidade íntima das coisas e de si próprio.
(SÁ, 1993, p. 165)

Importante destacar que é muito significativo o ato de pensar na


construção da epifania e na cosmovisão de Clarice Lispector, pois não se trata
apenas de um ato voluntário ou racional, mas sim um acontecimento que
arrebata as personagens, ou seja, se pensar é um ato incontrolável, exige certa
prudência do ser pensante, porque pensar leva o ser ao risco do encontro com
o caos, com um estado de experimentação e libertação, que o arrasta para
longe dos territórios conhecidos e previsíveis. Portanto, no universo clariceano,
o exercício do pensamento torna-se um ato de transgressão, pois nasce da
experimentação das sensações, produzindo, assim, “um pensar-sentir” (DINIS,
2001, p. 127), isto é, uma forma inusitada de libertar o corpo de suas amarras e
de experimentar o mundo de diferentes formas.
Clarice Lispector, “surpreende o trivial, o corriqueiro da situação familiar
e espreita atrás do cotidiano o advento de uma epifania qualquer”
(SANT’ANNA, 1973, p. 196). Assim, o episódio epifânico ou “tensão conflitiva”,
que funciona como “núcleo da narrativa”, é provocado por algo banal do
cotidiano em um momento fugidio, o que resulta no clímax, estabelecendo uma
“ruptura da personagem com o mundo”, mediada por uma situação de
confronto de pessoa a pessoa e de pessoa a coisa, seja esta um objeto ou um
ser vivo, animal ou vegetal (NUNES, 1973, p. 79). Dessa forma, o processo
epifânico é “uma experiência que a princípio se mostra simples e rotineira, mas
que acaba por mostrar toda a força de uma inusitada revelação” (SANT’ANNA,
1973, p. 187).
Conforme Affonso Romano de Sant'Anna (1973, p. 190), tanto nos
contos quanto nos romances, o momento epifânico das personagens de Clarice
Lispector passa por quatro passos, o que facilita a análise do processo: 1) A
personagem é disposta numa determinada situação cotidiana, em um contexto
comum do seu dia-a-dia; 2) Prepara-se um evento que é pressentido
discretamente, isto é, a narrativa dá indícios de que algo está para acontecer e
a personagem inicia o processo de “tensão conflitiva”; 3) Ocorre o evento, que
lhe “ilumina” a vida, ou seja, o clímax da narrativa ou a epifania propriamente
dita; 4) Ocorre o desfecho, onde se considera a situação da vida da
personagem, após o evento.
Sendo assim, seguindo essa estrutura, proposta por Sant’Anna (1973),
as narrativas clariceanas são povoadas por personagens predominantemente
femininos e mostra a imagem de mulheres “incapazes de gerar sua própria
autonomia” (HELENA, 1997, p. 45), reféns do cotidiano, confinadas aos limites
do lar e da família, retidas às dimensões de uma casa, numa espécie de prisão
emocional. Essas personagens, divididas entre deveres e desejos, vivem
sempre em conflito, diretamente ligados à sua identidade, em um estado de
inacabamento, em processo de se completar, “como uma espécie de essência
da mulher que está sempre em processo de tornar-se mulher” (DINIS, 2001, p.
71). Mas de acordo com Bella Josef (apud RAMALHO, 1999, p. 173), “o
mistério estabelece-se em torno de situações insólitas extraídas do cotidiano”.
Dessa forma, a partir do banal do cotidiano, mesmo sem querer e sem
entender, essas personagens, inesperadamente, se deparam com o mistério,
com o imprevisto, com “um momento de uma revelação súbita em que a
“verdade” é desvelada para trazer os objetos à consciência” (JOSEF apud
RAMALHO, 1999, p. 173), buscando em elementos exteriores e naturais, o seu
interior, a sua identidade, a fim de fugir dessa existência moldada pelas
convenções sociais. Contudo, por mais que essas personagens se defrontem
com uma situação inesperada, de revelação interior, de ruptura em suas vidas,
elas não terão um final feliz. Elas não conseguem encontrar uma “senda de
plenitude, de encontro com sua própria identidade, ou de libertação” (HELENA,
1997, p. 45). Essas mulheres, através do momento epifânico, expõem seus
desejos reprimidos, mas “não completam o seu processo de despertar para a
autoconsciência, nem se libertam das garras que as aprisionam” (HELENA,
1997, p. 45). Segundo Lúcia Helena (1997, p. 43) “há um encontro, um
confronto e um desencontro sem final feliz”, pois tudo termina de forma instável
ou ameaçada, levando à loucura ou ao confinamento do lar novamente. No
entanto, nada volta a ser como antes. Sendo assim, a partir dessa
característica das narrativas de Clarice Lispector, isto é, a epifania,
analisaremos o processo epifânico nos contos “Amor”, “Os laços de família” e
“A imitação da rosa”, dos quais a escritora questiona, com muita ironia, o
modelo familiar imposto pela tradição patriarcal, na qual a mulher, condenada à
imanência, fica reduzida ao espaço privado, impedindo-a de atingir sua
plenitude existencial.
Ana, a personagem central do conto “Amor”, após intensa juventude, da
qual lhe proporcionara uma “exaltação perturbada”, enquadra-se no “destino de
mulher” (LISPECTOR, 2009, p. 20), ou seja, no cotidiano doméstico, dos
afazeres do lar, vivendo em função dos filhos e do marido. Ela se mantinha
sempre ocupada, para não ter que pensar, para se proteger da dor de estar
viva, mas em alguns momentos do dia, nas horas perigosamente atraentes,
Ana inquietava-se. Em seu inconsciente emergiam desejos, os quais ela
insistia em negá-los, em sufocá-los, por considerá-los um perigo à situação
segura que imaginava viver. A personagem lutava para manter um equilíbrio e
procurava viver uma vida prática, tranquila e previsível, sem situações
inusitadas, cuidando do lar e da família. Tudo ia perfeitamente normal e
tranquilo, até que, voltando das compras, a imagem de um cego mascando
chicletes em um ponto de bonde, provoca-lhe sentimentos dormentes e
desconhecidos, desencadeando um súbito processo de autoconhecimento: “Foi
então que olhou para o homem parado no ponto. [...] Alguma coisa intranquila
estava sucedendo. Então ela viu: o cego mascava chicles... Um homem cego
mascava chicles” (LISPECTOR, 2009 p. 21). A visão desse homem desperta
em Ana todos os sentimentos que ela tentara sufocar durante tanto tempo. Por
meio do cego, ela desperta, mesmo contra a sua vontade, e as sensações
subjetivas inundam o seu mundo, levando-a a mergulhar em crise,
questionando a sua existência. O mundo regrado e dosado que,
diligentemente, Ana construíra, protegendo o ovo e fechando-o às paixões, é
posto à prova por um intenso sentimento de vitalidade e piedade. “A
descoberta do amor e seu inferno nunca mais permitirá que o mundo familiar
de Ana seja igual ao que era antes” (XAVIER, 1998, p. 10).
Então, “O bonde deu uma arrancada súbita jogando-a desprevenida
para trás, o pesado saco de tricô despencou do colo, ruiu no chão [...] os ovos
se haviam quebrado no embrulho de jornal. Gemas amarelas e viscosas
pingavam entre os fios da rede” (LISPECTOR, 2009, p. 22). “Na arrancada
súbita” e no “quebrar dos ovos”, Ana sente, subitamente, romper sua paz
interior, ocorrendo o evento epifânico que provocará a crise existencial na
personagem que, a partir desse momento, fica completamente atônita e
desequilibrada emocionalmente. Ana sente as sensações e os sentimentos
fugirem ao seu controle, tudo se desconstrói ao seu redor, causando-lhe medo.
No entanto, ela sente, aos poucos, esvaziar-se do peso de sua vida pessoal,
desligando-se por alguns instantes de seu cotidiano represado.
“O bonde se sacudia nos trilhos e o cego mascando goma ficara atrás
para sempre. Mas o mal estava feito [...] A piedade sufocava, Ana respirava
pesadamente [...] O mundo se tornara de novo um mal estar. Vários anos
ruíam, as gemas amarelas escorriam” (LISPECTOR, 2009, p. 22). Esse mal é a
crise existencial que ela tanto temia nas horas perigosas da tarde e que agora
a atinge irremediavelmente, fazendo com que ela passe a olhar e a sentir o
mundo de forma diferente, colocando em risco tudo que Ana construíra ao
longo de sua vida: “O que chamara de crise viera afinal. E sua marca era o
prazer intenso com que olhava agora as coisas, sofrendo espantada [...] Ela
apaziguara tão bem a vida, cuidara tanto para que esta não explodisse [...] E
um cego mascando goma despedaçava tudo isso” (LISPECTOR, 2009, p23).
Ana não vê seu ponto de parada do bonde passar e acaba parando em
frente ao Jardim Botânico, onde ocorre o clímax da epifania e, portanto, da
narrativa: “Só então percebeu que há muito passara do seu ponto de descida
[...] enfim pôde localizar-se. Andando um pouco atravessou os portões do
Jardim Botânico” (LISPECTOR, 2009, p. 24). Conforme Olga de Sá (1979,
p.106), “a epifania é um modo de desvendar a vida selvagem que existe sob a
mansa aparência das coisas, é um pólo de tensão metafísica, que perpassa ou
transpassa a obra de Clarice Lispector”. Assim, ao atravessar os portões do
Jardim Botânico, Ana entra em contato com o lado selvagem e imprevisível da
vida, vê um lugar de múltiplas existências e percebe que a vida é muito mais do
que aquilo que ela conhecia e havia se acostumado. Os “ruídos serenos”, o
“zunido de abelhas e aves”, “o poderoso gato”, os ramos que balançavam e as
sombras que “vacilavam no chão” são metáforas da vida explodindo com
surpresa desejável e possibilidade do novo: “A crueza do mundo era tranqüila
[...] era um mundo de comer com os dentes [...] era fascinante, a mulher tinha
nojo, e era fascinante [...] o mundo era tão rico que apodrecia [...] a
decomposição era profunda, [...] o jardim era tão bonito que ela teve medo do
inferno” (LISPECTOR, 2009, p. 25). Dessa forma, o Jardim Botânico representa
a novidade, a imprevisibilidade, o excesso de vida, isto é, o avesso dessa vida
previsível e automatizada do cego e dela própria. Ana sente-se, então,
fascinada e com um prazer intenso por esse mundo novo de sensações que
ela desconhecia.
Em “Os laços de família”, os personagens são entrelaçados por conflitos.
Catarina e Severina, mãe e filha, vivem em um clima de tensão. Contidas e
reprimidas, sentiam-se duas desconhecidas. Esse mau relacionamento entre
elas conduz os demais laços no conto, influenciando Antônio, marido de
Catarina, e o filho do casal. Nesse conto, o momento epifânico provocará uma
redescoberta para as duas personagens, mãe e filha, mas principalmente para
Catarina que desdobrará outra relação com o filho e com o marido.
Após as duas semanas de visita, Catarina acompanha a sua mãe à
estação de trem. As duas se acomodam em um taxi e, de repente, no caminho
para a estação, uma freada súbita do carro lançou-as uma contra a outra, como
se lhes acontecesse um desastre, uma catástrofe irremediável:

Catarina olhava a mãe, e a mãe olhava a filha, e também a


Catarina acontecera um desastre? seus olhos piscaram
surpreendidos, ela ajeitava depressa as malas, a bolsa,
procurando o mais rapidamente possível remediar a catástrofe.
Porque de fato sucedera alguma coisa, seria inútil esconder:
Catarina fora lançada contra Severina, numa intimidade de
corpo há muito esquecida, vinda do tempo em que se tem pai e
mãe. (LISPECTOR, 1998, p. 96)

Essa súbita freada do táxi provoca a epifania, causando uma ruptura em


toda aquela formalidade existente entre os laços de família e na rotina
superficial que os comportamentos exigiam, fazendo com que Catarina e
Severina se reconhecessem como mãe e filha, unidas por um amor esquecido
há muito tempo. Segundo Nunes (1973, p. 83), “O olhar recíproco revela, no
conto “Os Laços de Família", a mútua afeição, inconfessada que une mãe e
filha”. Dessa forma, elas se olhavam espantadas e atônitas, com a sensação
de que haviam esquecido alguma coisa: “— ... Não esqueci de nada?
perguntou a mãe. — Também a Catarina parecia que haviam esquecido de
alguma coisa [...] porque se realmente haviam esquecido, agora era tarde
demais” (LISPECTOR, 1998, p. 97). Nesse instante, elas se despertaram para
os sentimentos escondidos, contidos, reprimidos e desconhecidos.
Após o momento epifânico, além de mãe e filha se reconhecerem como
tal, ocorre também uma ruptura da personagem Catarina com o mundo,
provocando uma sensação de liberdade, pois a partida da mãe lhe provocara
um intenso desejo de usufruir a largueza do mundo: “Caminhava serena,
moderna nos trajes, os cabelos curtos pintados de acaju. E de tal modo
haviam-se disposto as coisas que o amor doloroso lhe pareceu a felicidade -
tudo estava tão vivo e tenro ao redor, a rua suja, os velhos bondes, cascas de
laranja - a força fluía e refluía no seu coração com pesada riqueza. Estava
muito bonita neste momento, tão elegante; integrada na sua época”
(LISPECTOR, 1998, p. 98).
Catarina, extasiada, chega em casa e encontra o marido na sala, “lendo
os jornais de sábado, “o seu dia”, pois , a tarde de sábado sempre fora "sua"
(LISPECTOR, 1998, p. 99). Catarina vai até o quarto do filho, empurra a porta
e avista o menino, que, até então, com quatro anos de idade ainda não falava.
Foi quando, pela primeira vez, o menino com tom de constatação lhe diz:
“Mamãe” (LISPECTOR, 1998, p. 99), ocasionando o clímax da narrativa.
O momento em que o menino diz “mamãe”, Catarina sente algo novo,
inexplicável, puro, inédito, rompendo a barreira do silêncio sentimental entre
eles, despertando-a para a vida em liberdade. Liberdade de seus sentimentos,
de amar, de sentir, de dizer e, sobretudo, sente-se liberta daquela prisão
inconsciente imposta pela lei familiar de banir as emoções.
Catarina pega na mão do filho para saírem e “sem parar avisou ao
marido: vamos sair!” (LISPECTOR, 1998, p. 100). Ela segurava forte a mão da
criança, andava depressa e com os olhos fixos adiante, e os cabelos da criança
voavam como se estivesse libertos da aparente prisão do lar. Então, o marido
fica sozinho em “seu sábado”, no apartamento arrumado, onde "tudo corria
bem", “na sala de luz bem regulada”, “móveis bem escolhidos”, “cortinas e
quadros” (LISPECTOR, 1998, p. 101), ou seja, na sua vida de aparências,
máscaras e convenções moldadas pelos valores impostos pela sociedade
patriarcal. Para o marido, importava-lhe somente dar uma vida confortável à
mulher e ao filho. Tudo material, nada mais.
Clarice Lispector, em seus contos, faz mais que uma divisão entre
homens e mulheres, ela faz com que o mundo masculino seja ameaçado pela
força do instante epifânico feminino, pois por meio dele, a mulher tenta superar
a sua suposta inferioridade. Assim, o marido ao ver Catarina sair com o filho é
como se pressentisse os momentos reveladores e libertadores que a mulher
vivenciara. Antônio sente-se preocupado e inquieto, pois a liberdade
conquistada por Catarina e pelo filho representava uma ameaça à harmonia e a
integridade de sua família. O marido também sente o seu posto de chefe
ameaçado, em vista da alegria de Catarina vivida individualmente, pois “ela
conseguia tomar seus momentos - sozinha. Por exemplo, que fizera sua mulher
entre o trem e o apartamento? não que a suspeitasse mas inquietava-se.
(LISPECTOR, 1998, p. 102). Talvez ele realmente soubesse que Catarina,
naquele dia, rompera as barreiras e as leis existentes até então. Ele “temia que
neste momento em que ambos estavam fora de seu alcance ela transmitisse a
seu filho... mas o quê?”(LISPECTOR, 1998, p. 101). Catarina conquista a
liberdade emocional e transmite essa liberdade ao seu filho.
Em “A imitação da rosa”, a narrativa gira em torno de Laura, dentro do
espaço fechado da casa e do cotidiano doméstico. No conto, a personagem
Laura, esposa de Armando, está de volta ao lar, após um período de
internamento numa clínica psiquiátrica, esperando pelo marido para saírem
para jantar com o casal de amigos Carlota e João. A narrativa dá certas
evidências de que Laura tivera “problemas psicológicos” e estivera por
determinado tempo ausente do convívio social, o que, na verdade, trata-se de
inquietações da personagem em relação à sua existência. Contudo, na
sociedade em que ela estava inserida, sair do padrão era considerado uma
doença, pois o que Laura tivera significava um desvio, uma rebeldia.
Enquanto estava na sala, a espera de Armando, Laura cochilou
levemente, mas ao abrir os olhos percebeu um jarro de flores em cima da
mesa:

Olhou-as com atenção. Mas a atenção não podia se manter


muito tempo como simples atenção, transformava-se logo em
suave prazer, e ela não conseguia mais analisar as rosas, era
obrigada a interromper-se com a mesma exclamação de curio-
sidade submissa: como são lindas! [...] mas sem saber por quê,
estava um pouco constrangida, um pouco perturbada. Oh,
nada demais, apenas acontecia que a beleza extrema
incomodava. (LISPECTOR, 2009, p. 43)
No momento em que Laura se depara com as rosas, ocorre a epifania e
o clímax da narrativa. As rosas a incomodam e a perturbam, pois significam a
perfeição, mas, ao mesmo tempo, a desorganização da natureza, sem moldes
e sem regras. As rosas exercem nela um contínuo e gradativo processo de
sedução que vão do “olhar” ao “ver”: “Olhou-o” (o vaso); “Olhou-as”; “Olhou-a à
distância”; “E quando olhou-as, viu as rosas” (LISPECTOR, 2009, p. 42-46).
Provavelmente, a perfeição das rosas tenha provocado em Laura o impulso de
romper novamente com seu lado submisso e subserviente, para se tornar
“incansável”, “super-humana”, “independente”, “tranquila”, “perfeita” e “serena”.
Assim, a beleza das rosas fez com que Laura voltasse ao estado de transe que
fizera com que ela fosse internada, anteriormente.
As rosas são metáforas da tentação humana e dos sentimentos
reprimidos. Elas provocam um incômodo desejo de experimentar e de
transgredir. Entretanto, Laura sente-se culpada por ter comprado rosas tão
bonitas, porque ela quer se enquadrar no socialmente aceito. Então, ela, após
muito hesitar, decide dar as rosas à amiga Carlota: “[...] porque que não pedir a
Maria para passar por Carlota e deixar-lhe as rosas de presente? E também
porque aquela beleza extrema incomodava. Incomodava? Era um risco. Oh,
não, por que risco? apenas incomodava, eram uma advertência, oh não, por
que advertência?” (LISPECTOR, 2009, p. 43). A sensação é de que se ela se
livrasse das rosas, acabaria o problema. No entanto, após a decisão de
abnegar-se das rosas, o conflito apenas se acalmou, mas “as rosas haviam
deixado um lugar sem poeira e sem sono dentro dela” (LISPECTOR, 2009, p.
50), ou seja, claro e desperto.
Nos contos “Amor”, “Os laços de família” e “A imitação da rosa” esses
momentos de ruptura, cuja profunda crise existencial das personagens
resultam de episódios que parecem ser atos banais, pequenos detalhes do
cotidiano, algo que não despertaria sequer a atenção, isto é, o ato de mascar
chicletes, a súbita freada do taxi e as rosas silvestres, fazem com que as
personagens se extasiem num processo epifânico, como um momento
necessário e insustentável de tensão:
Não há no mundo de Clarice Lispector, senão uma hierarquia
provisória. As grandezas são aparentes, tudo existe por
demais. Mesmo aquilo que é pequeno, insignificante ou vil,
pode ser objeto de uma visão penetrante, que se estende além
da aparência. As coisas representam fisionomia dupla: o
comum, exterior, produto do hábito, e a interna, profunda, da
qual a primeira se torna símbolo. (SÁ, 1993, p. 166)

É necessário destacar também que no conto “Amor”, quando Ana vê o


cego, sente uma piedade absolutamente profunda, causando um intenso mal-
estar. “E através da piedade aparecia a Ana uma vida cheia de náusea doce,
até a boca” (LISPECTOR, 2009, p. 23). Em “Os laços de família”, após o
choque provocado pela súbita freada do táxi, Catarina nota a aparência
envelhecida da mãe e sente um profundo pesar. Severina não sabendo como
expressar o seu amor em palavras, o exterioriza pelos olhos “e o peso da
responsabilidade deu-lhe à boca um gosto de sangue – como se “mãe e filha”
fosse “vida e repugnância” (LISPECTOR, 1998, p. 96-97). Em “A imitação da
rosa” quando Laura enxerga as rosas, apesar do fascínio, ela se sente
extremamente culpada, como se tivesse pecado por tê-las comprado, mas
tenta se convencer de que não era, pois “não fora de modo algum ela quem
quisera comprar, o vendedor insistira muito e ela se tornava sempre tão tímida
quando a constrangiam, não fora ela quem quisera comprar, ela não tinha
culpa nenhuma” (LISPECTOR, 2009, p. 46-47). A náusea, o gosto de sangue e
a culpa são os momentos extremos da sensação de ruptura, de tensão entre o
Eu e o Outro, entre o Eu e o cotidiano, entre o Eu e o mundo, decorrente do
processo epifânico. Em Clarice Lispector:

Os momentos epifânicos não são necessariamente


transfigurações do banal em beleza. Muitas vezes, como marca
sensível da epifania crítica, surge o enjôo, a náusea. [...] Assim
como existe em Clarice toda uma gama de epifanias da beleza
e visão, existe também uma, outra, de epifanias críticas e
corrosivas, epifanias do mole e das percepções
decepcionantes, seguidas de náusea ou tédio. (SÁ, 1993, p.
199-200)

Benedito Nunes (1973), o crítico que mais se aprofundou na dimensão


filosófico-existencialista da ficção de Clarice Lispector, acrescenta ainda que,
tal “tensão conflitiva” pode ser apreendida e diferentemente qualificada nos
contos da escritora pelo transe nauseante; acesso de cólera; de ira; de ódio; de
loucura; de medo; de angústia; e de culpa. Sant’anna (1973, p. 198) afirma
que, embora a palavra epifania não apareça nas narrativas clariceanas, alguns
vocábulos servem de eixo e têm um sentido específico no léxico de Clarice. A
escritora cria uma atmosfera de tensão, conflito e crise, e utiliza esses termos
referenciadores como “ritual” de sua escrita “explicitando o campo semântico
da revelação”, ou seja, para manifestar a epifania.
Até esse momento, percebemos que após o instante epifânico, os
conflitos, os dramas, o descontentamento e a insatisfação interior das
personagens, no que tange à vida matrimonial, arraigada às convenções
sociais, vêm à tona, fazendo-as darem-se conta de suas realidades
aprisionadas, levando-as a um intenso desejo de liberdade e de transgressão
aos valores impostos pela sociedade. Mas isso nos incita uma pergunta: Qual o
destino das personagens Ana, Catarina e Laura após essa experiência?
O “inferno” que Ana atravessara seria o desejado, o proibido, o avesso à
sua vida de dona de casa. Mas ela acaba se rendendo ao cotidiano e resolve
voltar para casa, para a família e para o amor convencional que a aprisiona. E
“o que o cego desencadeara caberia nos seus dias?” (LISPECTOR, 2009, p.
29). Ana, “que sempre tivera necessidade de sentir a raiz firme das coisas”
(Idem, p. 20), ao chegar em casa, faz com que todas as sensações subjetivas,
desencadeada pela “tensão conflitiva”, vão sendo abandonadas, dando lugar
ao concreto, “metonimizada pela figura do filho, a quem aperta com violência,
como quem se agarra ao confortável mundo pequeno-burguês” (ZOLIN, 1999,
p. 332).
Após a experiência do instante epifânico, Ana passa a ver o mundo de
outra maneira, percebendo-o em sua nudez. Ela nunca mais seria a mesma,
mas a família lhe trazia de volta à sua vida, à sua realidade: “num gesto que
não era seu, mas que pareceu natural, segurou a mão da mulher, levando-a
consigo sem olhar para trás, afastando-a do perigo de viver” (LISPECTOR,
2009, p. 29). Sendo assim, a situação que se desagrega vai se recompondo e
“deixa-nos entrever que o conflito apenas se apaziguou, voltando à latência de
onde emergira” (NUNES, 1973, p. 81). Então, guiada pela mão do marido, Ana
retorna ao lar, à normalidade, à segurança da vida doméstica, na aparente
tranquilidade do dia-a-dia. “E, se atravessara o amor e o seu inferno, penteava-
se agora diante do espelho, por um instante sem nenhum mundo no coração.
Antes de se deitar, como se apagasse uma vela, soprou a pequena flama do
dia” (LISPECTOR, 2009, p. 29). O espelho representa aqui, a desestruturação
existencial da identidade de Ana, que novamente fecha-se para o mundo com
todas as suas angústias e limitações. E ao soprar a “pequena flama do dia”, a
personagem mergulha novamente na escuridão.
Em “Os laços de família” o dia todo estava sob a ameaça de iluminação
e libertação, mas quando Catarina voltasse com o filho, “eles jantariam
afastando as mariposas. O menino gritaria no primeiro sono, Catarina
interromperia um momento o jantar... e o elevador não pararia por um instante
sequer?! Não, o elevador não pararia um instante” (LISPECTOR, 1998, p. 103),
ou seja, tudo terminaria bem e voltaria ao normal. Mas o fim do conto termina
em aberto. Após o instante epifânico provocado pela mãe e pelo filho, Catarina
também passa a enxergar o mundo de outra maneira, mas não sabemos se,
após essa experiência, ela realmente se libertará ou se ela se renderá ao
cotidiano e, enfim, retornará para casa.
Em “A imitação da rosa”, o fim é marcado pela chegada do marido em
casa. Armando, ao ver a esposa Laura, percebe que algo estava errado com
ela. “Com timidez e respeito, ele a olhava. Envelhecido, cansado, curioso. Mas
não tinha uma palavra sequer a dizer. Da porta aberta via sua mulher que
estava sentada no sofá sem apoiar as costas” (LISPECTOR, 2009, p. 53). O
“sem apoiar as costas” é uma atitude que afirma a sua liberdade e
independência em relação ao marido e às amarras sociais que a prendiam.
Laura estava novamente “alerta e tranquila” (LISPECTOR, 2009, p. 53), ou
seja, duas palavras contraditórias, assim como a própria personagem, dividida
entre razão e emoção, entre ser livre e ser aprisionada, entre ter uma
personalidade própria e ter uma escondida sob uma máscara social imposta,
simbolizando, assim, a dualidade do ser humano e o desejo de unificação.
Nesse conto, a personagem retorna ao estado inicial, contudo, esse retorno é a
um estado mental anteriormente experimentado, isto é, “a loucura”, e não à
segurança do lar. Não sabemos em qual grau, mas podemos perceber que, de
alguma forma, Laura se desliga das convenções.
Nunes (1973) refere-se à última etapa do processo epifânico como
“anticlímax”, pois, para ele, a personagem quase sempre retorna para a
situação inicial, já Sant’Anna (1973), deixa em aberto. Mas o fato é que
podemos observar que os três contos analisados se inserem em uma estrutura
linear diferente em relação ao desfecho, ou seja: No conto “Amor”, o quadro
inicial da personagem é de “equilíbrio”, sucedido por “desequilíbrio, causado
pela epifania e, por fim, retorna-se ao “equilíbrio”, mas diferente do primeiro
porque este é uma consequência e um resultado da epifania. No conto “Os
laços de família”, o quadro inicial da personagem é de “equilíbrio”, sucedido por
“desequilíbrio”, causado pela epifania, e continua em “desequilíbrio”, pois o
conto termina em aberto, mas nos deixa entrever que a personagem não
retorna ao quadro inicial. E no conto “A imitação da rosa”, o quadro inicial da
personagem é de “desequilíbrio”, pelo fato da personagem já ter experimentado
a epifania, sucedido por um suposto “equilíbrio”, do qual a personagem tenta
resgatar, e finaliza-se com o “desequilíbrio”, causado por um “novo” processo
epifânico.
Conforme, Affonso Romano Sant’Anna (1973, p. 204), depois da
revelação, a personagem fica “definitivamente perturbada ou regressa ao
repouso inicial. Mas continuará para sempre ‘ferida nos olhos’”. Sendo assim, o
momento de lucidez do instante epifânico ocorre para revelar os conflitos, pois
faz as personagens perceberem uma realidade contraria à sua e romperem
com o mundo, em busca da identidade e da liberdade. E embora os desfechos
sejam diferentes e não apontam para uma resolução dos dramas e conflitos,
pois estes são interiores, é impossível as personagens, ao deflagrarem a
epifania, retornarem ao “equilíbrio” do quadro inicial.

Referências
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brasileira. São Paulo: Cultrix, 1989.

DINIS, Nilson. A arte da fuga em Clarice Lispector. Londrina: Ed. UEL, 2001.

HELENA, Lúcia. Nem musa, nem medusa: itinerários da escrita em Clarice


Lispector. Niterói: EDUFF, 1997.

JOSEF, Bella. Clarice Lispector e o ato de narrar. In: RAMALHO, Christina.


Literatura e feminismo: propostas teóricas e reflexões críticas. Rio de janeiro:
ELO, 1999.

LISPECTOR, Clarice. “Amor”. In:________. Laços de família. Rio de Janeiro:


Rocco, 2009.

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Janeiro: Rocco, 2009.

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Janeiro: Rocco, 2009.

NUNES, Benedito. Leitura de Clarice Lispector. São Paulo: Quíron, 1973.

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Paulo: Ática, 1989.

ROSEMBAUM, Yudith. Clarice Lispector. São Paulo: Publifolha, 2002.

________. Metamorfose do mal: uma leitura de Clarice Lispector. São Paulo:


Editora da USP, FAPESP, 2006.

SÁ, Olga de. A escritura de Clarice Lispector. Petrópolis: Vozes, 1979.


SANT’ANNA, Affonso Romano de. Análise estrutural de romances
brasileiros. 2. ed. Petrópolis: Vozes, 1973.

ZOLIN, Lúcia Osana. Literatura de autoria feminina. In: BONNICI, Thomas;


ZOLIN, Lúcia Osana. (Orgs.). Teoria Literária: abordagens históricas e
tendências contemporâneas. 3 ed. Maringá: Eduem, 2009.

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