A Crise Dos Mísseis em Cuba - 1971
A Crise Dos Mísseis em Cuba - 1971
Rio de Janeiro
2020
CC DINALDO FERREIRA LOPES
Rio de Janeiro
Escola de Guerra Naval
2020
RESUMO
Considerando que o emprego do poder naval, pela sua complexidade e abrangência, convém
ser planejado e executado com base em doutrinas experimentadas e comprovadas para atingir
a eficácia e eficiência, este trabalho analisou o caso concreto do bloqueio naval da ilha de
Cuba, durante a crise dos mísseis de 1962, com o objetivo de verificar se houve aderência aos
principais conceitos estudados e defendidos por dois grandes influentes estrategistas navais
dos séculos XIX e XX: Alfred Thayer Mahan e Julian Stafford Corbett. Posteriormente,
aproveitando essa análise realizada, concluiu-se que o correto emprego do poder naval foi
eficaz e efetivo para a resolução pacífica da crise. Foi utilizado o método comparativo entre a
teoria e a realidade, por meio da pesquisa de algumas características e acontecimentos que
delinearam a crise, utilizando fontes bibliográficas atualizadas, além de fonte primária. A
relevância do trabalho foi constatada, ao se verificar que, apesar de passado mais de meio
século do confronto ocorrido entre duas principais potências militares mundiais, algumas
fontes repletas de conteúdo, foram tornadas públicas recentemente, modificando algumas
percepções da crise. Dessa forma, o estudo deste emprego real se mostrou de grande valia
para os dias atuais, considerando a utilidade da articulação diplomática, associada à utilização
do poder naval, como forma de instrumento nas relações internacionais, para resolução
pacífica de conflitos.
Palavras-chave: Bloqueio naval. Crise dos mísseis. Poder naval. Cuba. Guerra Fria. Fidel
Castro. Kennedy. Khrushchev. Mahan. Corbett.
LISTA DE ILUSTRAÇÕES
1 INTRODUÇÃO.....................……….……………..............................................................................….…………… 6
5 CONCLUSÃO........................……………………................................................................................……………… 43
REFERÊNCIAS...................……………………................................................................................……………… 46
ANEXO.….….….….….….….......................……………………...............................................................……………... 48
1 INTRODUÇÃO
foi profundamente investigada pelo historiador Tucídides (464-401 a.C), as batalhas navais
estavam presentes, porém o emprego do poder naval não estava estabelecido com base em
doutrinas, mas tão somente em modelos analíticos (MAGNOLI, 2009). Não havia obras
científicas sobre o assunto, que pudessem influenciar o pensamento estratégico naval. Assim,
o poder naval permaneceu por séculos sem modelos de estudos aprofundados, mesmo sendo
decisivo em algumas ocasiões, como na Batalha de Trafalgar2. Durante muito tempo, este
Foi somente a partir do fim do século XIX, que os pensadores estratégicos passaram a se
as próximas décadas.
publicou The Influence of Sea Power Upon History, 1660-1783, no qual abordou a atuação
marítimo sobre o império terrestre. Mahan teve forte influência do estrategista suíço Antoine-
poder terrestre. Outro historiador que se dedicou a estudar o poder naval no princípio do
século XX, foi o britânico Sir Julian Stafford Corbett (1854-1922), após analisar diversos
guerra terrestre. Porém, procurou pautar suas publicações pela originalidade, voltando-se para
a guerra naval, de forma metódica e sistemática. Iniciou escrevendo sobre a Guerra Espanhola
(1585-1587), no entanto, sua principal obra foi Some Principles of Maritime Strategy,
publicada em 1911, na qual ele procurou estabelecer princípios, baseados nas características e
possibilidades do poder naval, a serem aplicados pela marinha britânica, de forma a buscar a
gerações de líderes políticos, militares e civis, no decorrer dos séculos XIX e XX, bem como
definiram estratégias e divulgaram ensinamentos que não podem ser desconsiderados por
o século XX.
emprego do poder naval estadunidense na crise dos mísseis de Cuba (16 outubro a 28 outubro
de 1962), utilizando a teoria destes dois autores clássicos, para descrever alguns princípios de
estratégia naval, com a finalidade de avaliar a aplicabilidade deles, por meio do método
comparativo da teoria com os fatos observados no emprego real. Dessa forma, o propósito
deste trabalho será verificar se o bloqueio naval empregado durante a crise dos mísseis de
Cuba, teve aderência às teorias do emprego do poder naval de Mahan e Corbett, bem como
avaliar a hipótese de que este emprego foi efetivo para a resolução da crise.
8
O caso real escolhido foi a crise dos mísseis de Cuba de 1962, pela sua relevância
durante a Guerra Fria (1947-1989) e por contrapor as duas superpotências militares da época:
(URSS)3. Será analisado como a crise foi conduzida desde a sua percepção pelos EUA, até a
resolução da crise e seus desdobramentos. Dessa forma, o objeto da pesquisa foi delimitado
com a finalidade de se estudar uma crise que não resultou em conflito armado, mas caso
catastróficas.
visando a posterior confrontação com o caso real selecionado. Na segunda parte, será feita
uma contextualização da crise dos mísseis de Cuba, inserida na Guerra Fria, além de uma
análise da ameaça. Na terceira parte serão confrontados alguns aspectos observados neste
com um ou outro teórico estudado. Finalmente, será verificado se o emprego do poder naval
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3
A URSS teve sua origem com a Revolução Russa de 1917 e consolidou-se ao final Guerra Civil Russa (1918-
1922). Era formada por 15 países da Europa Oriental e norte da Ásia, entre eles Rússia, Armênia, Azerbaijão,
Bielo-Rússia, Cazaquistão, Geórgia, Estônia, Letônia, Lituânia e Ucrânia. A URSS se dissolveu em 1991, dois
anos depois da queda do muro de Berlim.
9
poder naval em direção a uma eficaz e eficiente utilização, buscaram realizar estudos ou
estudaremos os dois teóricos clássicos do poder naval que mais influenciaram as gerações de
Naval dos EUA em Annapolis, onde se formou Oficial e iniciou sua carreira naval em 1861.
Já como Capitão de Mar e Guerra, após uma carreira mediana, se aprofundou nos estudos de
história naval, como instrutor no United States Naval War College. Foi por orientação do
então presidente do Naval War College, que Mahan iniciou sua profunda pesquisa sobre a
atuação do poder naval ao longo da história militar, culminando na sua mais famosa obra, The
Influence of Sea Power Upon History, 1660-1783, lançada em 1890, a qual foi traduzida para
geopolíticos, pensadores e teóricos civis e militares em vários países (WEDIN, 2015, p. 35).
Ironicamente, Mahan (1890, p. 114) inicia sua obra afirmando não conhecer
nenhum estudo publicado, que confirme a relação do poder marítimo com a prosperidade das
nações, mas reafirma a necessidade do Estado ter em primeiro plano, os interesses marítimos,
demostrando como eles modificam o curso da história e são modificados por ela.
Em sua principal obra, ele afirma que para um Estado ser grande e próspero,
necessita possuir superioridade naval absoluta. Sua finalidade era tornar os EUA uma
10
(LCM), como meio fundamental para o progresso. Com visão geopolítica de futuro, Mahan
foi capaz de antever no canal do Panamá, então em construção, uma via marítima necessária
para impulsionar o desenvolvimento comercial e militar dos EUA (MAHAN, 1890, p. 642).
país, influenciando e sendo influenciado por esse desenvolvimento, em uma relação cíclica e
continua.
poderosa, capaz de espalhar seu domínio pelos oceanos, contando com apoio de bases
naval nos mais distantes e promissores mercados mundiais. Afirmava que o controle de Cuba,
Jamaica e das LCM da região do Caribe ou de outra região estrategicamente localizada, seria
essencial para um Estado se tornar uma potência marítima, como foi a Espanha de outrora
(MAHAN, 1890, p. 777). No entanto, os EUA ainda não possuíam o domínio de nenhuma
Para Mahan (1890), uma marinha deveria possuir o domínio completo dos mares,
Deveria, quando em combate, buscar a batalha decisiva4, não permitindo liberdade de ação e
O princípio mais defendido por Mahan foi a concentração das forças navais,
composta principalmente por navios de linha5, como meio de se alcançar a batalha decisiva,
por meio de operações ofensivas. Ele afirmava que a esquadra deveria concentrar sua força
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4
Batalha decisiva é aquela que acarreta perdas e avarias de tal monta, que incapacite quem as sofreu, para
qualquer ação posterior significativa.
5
Navio de grande porte, normalmente robusto e bem armado, para compor uma linha de batalha. Durante o
século XIX, o navio encouraçado cumpriu a função de navio de linha.
11
principal, para atacar o inimigo em local e momento decisivo, eliminando a esquadra inimiga.
De certo modo, as batalhas navais ocorridas entre as esquadras francesa e britânica, estudadas
por ele, já utilizavam esse princípio da concentração. Na mais decisiva delas, a Batalha de
decisiva estabeleceu a Grã-Bretanha como detentora do domínio dos mares no século XIX e,
juntamente com outros exemplos, serviu como uma forte base para os trabalhos de Mahan.
inimigo, de forma inesperada e com intensidade suficiente para definir a batalha e não deixar
espaço para o contra golpe adversário. Esse princípio não poderia ser desperdiçado contra
forças secundárias do oponente, deveria ser aplicado com toda intensidade sobre a força
Mahan também era adepto do bloqueio naval, porém apenas como um meio de
desperdício de recursos e meios. Também afirmava que um bloqueio poderia ser rompido em
algum ponto desprotegido, principalmente por navios isolados (MAHAN, 1890). Preferia o
domínio de uma posição central estrategicamente localizada, como a região do Caribe, citada
porém as batalhas decisivas foram poucas ao longo da história, sendo a mais recente, a
suas forças, conseguiu uma vitória estratégica sobre a esquadra alemã, levando esta a
permanecer com sua força naval de superfície atracada, até o término da Primeira Guerra
que levaria a formação de uma base para os EUA se tornarem a maior potência naval, militar
Sir Julian S. Corbett nasceu em Londres e realizou seus estudos em algumas das
historiador britânico John Knox Laughton (1830-1915), iniciou sua pesquisa a respeito da
Posteriormente, realizou diversas palestras no Royal Naval War College6 e veio a publicar em
1911, sua principal obra, Some Principles of Maritime Strategy, influenciando a Marinha Real
Seu trabalho situava o poder naval dentro de uma estratégia maior, fundamental
para garantir a soberania sobre o território. Dessa forma, subordinava a dimensão e o emprego
do poder naval aos acontecimentos em terra, atuando como uma extensão da força terrestre,
chegando a desagradar alguns líderes navais britânicos da época, por parecer diminuir a
Possuía como meta introduzir uma doutrina de emprego do poder naval da Grã-
estratégia e o esforço utilizados devem ser proporcionais aos objetivos visados (CORBETT,
_______________
6
O Royal Naval War College foi um centro de treinamento para Oficiais da Royal Navy, no Reino Unido,
durante o período de 1900 a 1914, passando as suas funções para o Royal Naval College, em 1914.
13
2009). Para Corbett, era inimaginável a guerra ser definida pela superioridade naval,
entretanto definiu sob seu ponto de vista, as bases para uma esquadra forte e balanceada.
Também defendia que o bloqueio limitado, por vezes seria a melhor opção para
uma força naval inferior, na tentativa de proteger as rotas marítimas. Para isso, Corbett
separava em dois tipos, bloqueio militar e bloqueio comercial, sempre com a finalidade de
forçar o inimigo a tomar uma decisão. Admitia, também, ser a melhor opção para a força
naval em superioridade, realizar o bloqueio afastado quando desejasse atrair as forças navais
recolhida às suas bases. Nessa questão porém, depreendemos de suas análises, que o bloqueio
aproximado se mostrava mais vulnerável, mesmo quando apresentava eficácia, por necessitar
uma força bem superior, além de levar a esquadra à exaustão (CORBETT, 2009).
para tal, não se tornava necessário concentrar as forças. A forma mais eficaz de se afetar o
tráfego marítimo seria dividindo a força naval e ocasionalmente, reunindo novamente, quando
e onde fosse imprescindível, atacando tanto as forças armadas do inimigo, quanto suas
comunicações marítimas. Para esse propósito, não seriam necessários navios de linha, como
armados. Com uma força naval balanceada, ele defendia inclusive, que a única estratégia que
poderia favorecer uma força menor, seria a divisão da força e o emprego na guerra de corso,
evitando confrontar o inimigo frontalmente. Também defendia essa divisão de forças para
uma marinha superior, como sendo a forma mais eficiente de se proteger as linhas de
comunicação marítimas. Segundo Corbett, uma força naval, ao concentrar seus meios, induz o
adversário a evitar o combate, além de expor seu tráfego marítimo ao ataque, em locais
Ao contrário de Mahan, Corbett alegava que não era necessário possuir o domínio
integral do mar, senão apenas o seu controle por um período limitado, em um espaço
suficiente para negar parcela do uso do mar ao inimigo e garantir o próprio uso. Sendo assim,
exercício do controle do mar. O controle de área marítima não poderia ser um fim em si
LCM. O recurso do controle limitado também tinha o propósito de levar o oponente à roda de
Poderia assim, alcançar o propósito político, sem riscos elevados de causar a destruição da
outros estrategistas do poder terrestre, ao afirmar que a defensiva prevalece sobre a ofensiva,
principalmente na guerra limitada, desde que se escolha uma posição favorável ao defensor,
que seja tão importante a ponto de representar o objetivo principal do oponente (CORBETT,
2009, p. 419). Não se deve, porém, manter uma postura passiva, mas aproveitar o melhor
momento para aplicar o contra-ataque. Não estamos afirmando que a defesa sempre irá
sobressair sobre o ataque, mas que o atacante deverá preparar um exército várias vezes
Isto porque o ataque exige grande desgaste físico, material e psicológico. Essa afirmação foi
18 de dezembro de 1916, quando a ofensiva do exército alemão foi detida pelas forças
francesas, que se permitiram permanecer na defensiva e manter posição, para depois avançar
_______________
7
Momento da batalha, no qual uma força atinge o limite do seu esforço, chegando à exaustão, sem alcançar os
objetivos, declinando a partir de então e perdendo a capacidade de continuar as operações com sucesso.
15
considerado uma ofensiva infalível pelos seus planejadores, o exército alemão, visivelmente
superior, após longas ofensivas contra a defensiva soviética, se viu cercado em Stalingrado,
não restando alternativa a não ser a rendição, após dois meses sendo massacrado pelo exército
da área, conseguirá imprimir a iniciativa das ações. Porém, em caso de ser surpreendida, a
força naval deveria reagir de forma agressiva, levando o inimigo a perdas substanciais, de
pequeno porte, nos séculos XIX e XX se viram nessa situação, tendo que se contrapor a forças
geográficos e da iniciativa das ações (CORBETT, 2009, p. 855). Foi o caso da Marinha
uma marinha russa superior em número e tamanho dos navios, porém, o Japão, possuindo
navios modernos e com grande poder de fogo, adotou táticas suficientemente agressivas para
estratégia naval deveria estar integrada a estratégia terrestre, de forma combinada, atendendo
e visando o exército inimigo como um objetivo principal. Estaria desse modo subordinada a
uma estratégia conjunta mais ampla, a qual ele chamava “major strategy”, voltada para os
exemplo de operação conjunta, na qual o poder naval foi parte fundamental para definir o
rumo da guerra.
_______________
8
Batalha decisiva entre os exércitos da Alemanha e da União Soviética, entre julho de 1942 e fevereiro de 1943.
A vitória soviética, mudou o curso da frente oriental na Segunda Guerra Mundial, em favor dos aliados.
16
essa estratégia como prioridade. Mahan alertava que a esquadra, mesmo concentrada, deveria
como um recurso a ser utilizado por uma marinha inferior, para negar ao inimigo a
possibilidade de obter o total controle do mar (MAHAN, 1890). Corbett também defendia que
a esquadra deveria atuar de forma agressiva e não permanecer inativa. Somente aceitava o
principalmente uma marinha grande, poderosa e eficaz, capaz de alcançar e manter o domínio
capacidades e características dos meios navais, de forma a exercer tão somente o controle das
meios navais de menor porte, porém bem amados, atuando de forma dispersa, utilizando por
de grandes forças navais, para buscar a batalha decisiva e então, dominar as principais LCM
do globo terrestre, com vistas a se tornar uma grande potência econômica e marítima.
_______________
9
Esquadra estabelecida em portos e bases bem defendidos, impondo ao oponente mais forte, a necessidade de
manter vigilância constante, com o fim de impedir a sua atuação ofensiva.
17
politicamente entre duas ideologias, já presentes décadas atrás, mas que intensificaram suas
diferenças e ganharam força por meio de disputas, buscando aliados governamentais ou não,
para se alinhar a um dos lados e desequilibrar a balança geopolítica entre o capitalismo liberal
Estados ideologicamente antagônicos, que por interesses convergentes, haviam unido suas
forças para derrotar a Alemanha nazista. Uma vez encerrada a guerra, as diferenças se
Mundial, sendo favorecidos pelo isolacionismo, que lhe rendia dividendos, pela ajuda
econômica fornecida para a reconstrução dos países que terminaram a guerra arrasados. Além
em que não era passível de ser atacado em seu território, pelas principais potências existentes.
Esses aspectos, possibilitaram uma rápida ascensão como potência econômica e militar, além
tecnológico (BLAINEY, 2010, p. 15). Após a Segunda Guerra Mundial, os EUA se firmaram
como potência mundial, passando a disputar uma corrida econômica, tecnológica, militar,
armamentista e espacial contra a ex-URSS, que também não deixaria por menos.
18
Russa de 1917, comandada pelo intelectual e líder dos bolcheviques10, Vladimir Ulianov
(1870-1924), conhecido pelo pseudônimo Lenin, após seu retorno do exílio na Suíça.
Mundial, para não atrapalhar seus planos de expansão (BLAINEY, 2010, p. 67). Mesmo
saindo devastada da guerra, a Rússia conseguiu retomar sua economia e prosseguiu como um
Estado comunista em ascensão, inspirando outros Estados do leste europeu. Além de inspirar,
em seus países. Com isso, em 1922, a Rússia instituiu a União das Repúblicas Socialistas
de Lenin, o líder revolucionário e defensor dos ideais marxistas, Joseph Stalin (1878-1953),
colocava em prática sua política de contenção, baseada nos estudos de George F. Kennan
_______________
10
Segundo o dicionário de política da UnB, o termo indica o grupo de linha política e organizativa, imposta por
Lenin ao Partido Operário Social-Democrático da Rússia (P.O.S.D.R.), no congresso de 1903.
11
Tratado político para defesa mútua entre a URSS e demais Estados membros, estabelecido em 1955, em
oposição à OTAN.
12
Ideologia política, em que a classe dos proletariados conquista o poder pela força, extinguindo as diferenças
entre classes sociais e assumindo o controle dos meios de produção.
19
2002, p. 24). Além disso, passou a disseminar sua ideologia política e econômica do
(OTAN). Essa política agressiva, levou a reação soviética e a criação do já citado Pacto de
pacto.
atuações controladas das duas potências, denominado de Guerra Fria, em que as relações
disputa não significava apenas possuir as melhores armas, também era necessário possuir
capacidade de atacar o adversário no seu território e se defender contra uma agressão inimiga.
Também não era suficiente possuir tal capacidade, era necessário demonstrar. Neste ponto, os
incluindo Moscou, com seu sistema de lançamento de mísseis Júpiter13, instalados na Itália e
treinado um grupo de insurgentes14, para invadir Cuba e depor o regime de Fidel Castro
_______________
13
Mísseis balísticos PGM-19 Júpiter de ataque ao solo, com alcance de cerca de 1.800 milhas e cabeça de
combate termonuclear.
14
Segundo o dicionário de política da UnB, insurgentes são grupos de movimentos, contra a opressão do povo e
em prol da libertação geral, conduzidos de baixo para cima, visando derrubar o Governo existente.
20
Porcos15 foi malsucedida, mas suficiente para deixar o governo cubano em alerta, com a
possibilidade de nova invasão ou ataque proveniente dos EUA (ALLISON; ZELIKOW, 1999,
p. 82). Após isso, o presidente cubano Fidel Castro, em reunião secreta com seu aliado
A ex-URSS via nesse impasse regional a obrigação de socorrer seu único aliado
comunista no continente americano, a fim de evitar uma possível invasão estadunidense, além
de uma oportunidade para continuar sua tentativa de exportar o socialismo soviético, a partir
de suas relações para cooperação de defesa com Cuba (ALLISON; ZELIKOW, 1999, p. 82).
Estava em desvantagem no tabuleiro geopolítico mundial, mas com uma jogada estratégica
possibilidade de atingir o território dos EUA, com razoável precisão, eficácia e intensidade,
de forma a saturar as suas defesas. A própria geografia conferia dois extensos oceanos como
devido ao seu alcance insuficiente ou para os turboélices Tupolev Tu-95, devido à velocidade
baixa e pouca furtividade, que o tornava de fácil interceptação. Também não era uma opção
muito vantajosa em termos táticos, um ataque por submarino nuclear lançador de mísseis
_______________
15
Plano de invasão da Baía dos Porcos, levado a termo por exilados cubanos, treinados em solo norte-
americano, com o apoio velado da CIA.
16
Nikita Khrushchev foi o líder da URSS, como primeiro-secretário do Partido Comunista, de 1953 a 1964.
17
Mísseis que atingem camadas altas da atmosfera em sua trajetória, com a finalidade de alcançar grandes
distâncias. Após a queima do combustível, o míssil segue uma trajetória balística, não podendo mais ser
alterada.
18
Entre 1958 e 1961, a ex-URSS realizou diversos testes com artefatos nucleares. O mais poderoso deles foi o
teste da "Tsar Bomba", que tinha a potência muitas vezes superior às bombas atômicas lançadas em Hiroshima
e Nagasaki, no fim da Segunda Guerra Mundial.
19
Bombardeiro turbo jato soviético, capaz de desenvolver altas velocidades, mas com alcance limitado.
21
balísticos, já que encontraria uma forte defesa centrada em uma força de navios aeródromos,
inimigo em seu território (BLAINEY, 2010, p. 215). Porém, o transporte dos mísseis e demais
componentes, até a instalação em solo cubano, precisaria ocorrer em sigilo, para não
desencadear uma reação dos EUA, capaz de impedir essa etapa. Também seria necessário
possuir uma solução alternativa, para o momento que se iniciasse uma inevitável reação dos
EUA, o que não demorou a acontecer. Nesse caso, a ex-URSS exigiria a retirada do sistema
de mísseis Júpiter da Turquia, como condição para negociar a interrupção da instalação dos
seus mísseis em Cuba e a retirada dos que já se encontravam nesse país, operacionais ou não.
Sendo assim, a Guerra Fria teve um de seus momentos mais quentes, durante a
chamada crise dos mísseis de Cuba, com as duas superpotências podendo unilateralmente,
desencadear uma guerra nuclear de grandes proporções, a qual não poderia ser evitada nem
mesmo pelo embaixador soviético nos EUA, Anatoly Dobrynin20 (1919-2010), que exerceu o
cargo por mais de 24 anos e encarou como uma de suas primeiras missões como embaixador,
ansiosas por uma ação real direta contra seu oponente, onde pudessem realizar demonstração
de armas nucleares por ambos os lados, o que não era desejado que ocorresse. Com essa
elevação no nível de tensão entre EUA e ex-URSS, devido ao aumento significativo das
Boa parte dessa movimentação foi realizada em sigilo, porém com o aumento na
grande porte, as operações soviéticas não ocorriam mais em segredo. Não foi somente a
mísseis nas cidades cubanas de San Cristóbal e Guanajay21, a cerca de 150 milhas do estado
soviéticos, próximos a Cuba, no mês de setembro. Além disso, dois incidentes ocorridos com
aviões de patrulha S2F da força aérea dos EUA, partindo de Key West, na Flórida, em
solo, além de dezenas de aviões bombardeiros Il-2823 e cerca de 5.000 militares soviéticos.
Porém, essa capacidade ainda não era suficiente, visto que esses bombardeiros posicionados
em Cuba não possuíam raio de ação e velocidade suficiente para ameaçar o território dos
_______________
21
Cidades localizadas estrategicamente a noroeste de Cuba, camufladas naturalmente por extensas áreas verdes,
dificultando seu patrulhamento aéreo.
22
Avião de caça subsônico soviético Mikoyan Fresco, utilizado pela URSS durante a Guerra Fria.
23
Aeronave para bombardeio de curto alcance, Ilyushin Beagle Il-28, pertencente à Força Aérea soviética.
23
EUA. Era necessário tornar operacionais, os sistemas lançadores de mísseis balísticos, além
Em 16 de outubro, após a análise de novas fotografias aéreas obtidas nos últimos dias,
Joint Chief of Staff (JCS)26, o Chief of Naval Operations (CNO)27, Almirante George W.
Anderson (1906-1992), entre outras autoridades civis e militares dos EUA, quando ficou
decidido empreender medidas militares contra Cuba e o bloco soviético, para deter a
movimentação de mísseis balísticos. Iniciava então o tenso período de 13 dias de crise, que
iriam abalar o cenário militar e político da Guerra Fria e deixar o mundo a beira de uma
em solo cubano, os EUA tinham uma difícil decisão pela frente. Adotar uma atitude
puramente diplomática como a negociação, poderia lhes causar o risco de parecerem acuados
perante a ameaça soviética, dando a Moscou, a possibilidade de avançar nas ofensivas. Por
outro lado, ao partir para um ataque aéreo ou invasão contra Cuba, se tornariam nos principais
agressores, perante a opinião pública internacional, fato que poderia ser bem explorado pela
URSS na Organização das Nações Unidas (ONU), no sentido de forçar uma resolução contra
não era novidade e que a possibilidade de ser atacado a partir de Cuba faria pouca diferença;
principalmente seus riscos, sendo decidido pela realização do bloqueio naval, com a
finalidade de impedir o transporte de mísseis ou qualquer arma ofensiva para Cuba, associado
a pressões diplomáticas na ONU, para conseguir a retirada dos mísseis que já estavam na ilha.
caso a situação saísse de controle (DOBBS, 2009, p. 47). Por parte dos EUA, diversos navios
compor a força naval, sem denunciar a real intenção de se posicionar para um bloqueio naval,
ao menos por algum tempo. Quanto aos soviéticos, também haviam despachado em sigilo,
25
rumo ao atlântico, dezenas de navios de guerra, que estariam prontos para reagir, em caso de
necessidade.
identificar suas intenções, que poderiam culminar em um conflito armado, para então dissipá-
los e conduzir a situação para uma solução pacífica. Como afirmou Luigi Bonanate (2001, p.
Nesse caso os danos seriam catastróficos e não poderiam ser revertidos a médio prazo,
Pelas tratativas que ocorreram entre alguns chefes de Estado, nas horas que
antecederam a quarentena28, vemos que ainda tentavam evitar a crise, de forma diplomática.
também como Presidente do Conselho de Segurança, recebeu uma carta com as intenções dos
EUA, de estabelecer um bloqueio limitado. Essa comunicação foi suficiente para iniciar uma
negociação, que viria a evitar o conflito armado (EUA, 2001). O presidente norte-americano e
seu secretário de defesa não queriam o conflito, bem como o líder soviético Khrushchev.
Somente alguns Generais desejavam o conflito armado, como uma forma de impor a
(1882-1945) queria o fim para o início das guerras (MAGNOLI, 2009, p. 9). A ONU também
queria, mas não demonstrou essa capacidade, talvez porque no decorrer de toda a Guerra Fria
e mesmo após, teve como principal peso nas decisões, os interesses de Estados com
ideologias diversas como EUA, ex-URSS e China. Woodrow Wilson30 (1856-1924), ao final
_______________
28
Termo atribuído ao bloqueio naval, pelos EUA, com a finalidade de afastar qualquer interpretação como sendo
um ato de guerra (DOBBS, 2009, p. 56).
29
Franklin D. Roosevelt foi presidente dos EUA de 1933 a 1945.
30
Woodrow Wilson foi presidente dos EUA de 1913 a 1921.
26
da Primeira Guerra Mundial, também desejava uma Liga das Nações31 (MAGNOLI, 2009)
capaz de evitar todo e qualquer conflito armado, mas infelizmente sua voz não encontrou eco
na população de seu país e assim, a tal liga não teve peso suficiente, para evitar o início da
do perigo, antes de apoiar a ação do Estado. O Estado constrói e delimita a sua percepção das
conquistar a opinião pública e fazer esta enxergar a gravidade, com a mesma visão do Estado.
descrição proposta pelo Estado. A partir daí, estará aberto o terreno para a escalada da crise,
navios em direção aos portos cubanos, a corrida por parte dos dois lados em possuir a
o território do adversário.
com cabeça de combate nuclear ou não, diretamente em solo russo, devido aos mísseis
sistemas de mísseis Júpiter de médio alcance, instalados na Turquia anos atrás. Essa estratégia
de construção da ameaça, estava constantemente presente nas ações de defesa dos EUA.
_______________
31
Liga criada em 1919, após o fim da Primeira Guerra Mundial, durante a Conferência de Paz de Paris. Possuía
como meta, "Tornar o 'mundo seguro para a democracia'." (MAGNOLI, 2009, p. 344).
27
argumentavam que era necessário desenvolver a contramedida para se opor a essas ameaças
Essa possibilidade de ser atingido no seu território durante a Guerra Fria, jamais
foi comprovada, mas serviu como argumento para gastos consideráveis em armamento e
defesa, bem como para justificar a premente necessidade de implementar o bloqueio naval de
Cuba.
Outras ações e operações foram realizadas antes do bloqueio iniciar, como a preparação para
defesa de Porto Rico, reforço da Base Naval de Guantánamo32 com fuzileiros navais e
de ataque e bombardeio, nas bases aéreas do estado da Flórida (EUA, 2001). Com toda essa
mobilização, a crise poderia ter sido conduzida de forma a distender, mesmo sem a realização
demonstrava um grande poder de dissuasão, pronto para ser utilizado na manobra de crise.
Antes de iniciar as ações, os EUA montaram uma rede de apoiadores, por meio do
estratégia da propaganda, os EUA atribuíram aos seus aliados a nomeação de mundo livre,
_______________
32
Base naval norte-americana, estabelecida na província de Guantánamo, em Cuba. Abriga desde 2001, a prisão
de Guantánamo, para prisioneiros acusados de terrorismo.
28
como uma forma de argumento, para angariar apoio na luta contra a ideologia comunista. Por
detrás dessa promessa de apoio futuro, existia o receio dos EUA, de possíveis insurgências de
A propaganda, tanto externa quanto interna, era realmente intensa. Para os não
sua retirada:
Toda essa propaganda visava conquistar o apoio, mas não somente apoio, como
curso.
contra os EUA. Essa propaganda era basicamente contrária ao capitalismo. Alegava que o
capitalismo praticado representava uma forma de vida que favorecia pequenas classes em
apoiaram os EUA, como por exemplo o Japão, as Filipinas e até mesmo a China. O bloco
socialista angariava pouco apoio fora do seu espaço geográfico eurasiano. Cuba era o Estado
poderia provocar na URSS. Afinal, a dissuasão contra a transferência dos mísseis para Cuba,
Varsóvia ou da União Soviética? Até mesmo o nome da ação foi cuidadosamente escolhido
de forma a não caracterizar um ato de guerra, por isso chamaram de quarentena e não de
bloqueio.
tratados ou acordos de segurança, além dos já existentes como a Carta das Nações Unidas, a
Organização dos Estados Americanos (OEA) e a OTAN. Caso contrário, poderia ser
interpretado como presságio de um conflito e originar alianças do lado oposto. Ao invés disso,
foram realizados contatos bilaterais discretos, inclusive entre o Almirante George Anderson,
América Latina, solicitando a cooperação deles, quando necessário. Essa estratégia mostrou
resultado e foi comprovada pelo apoio que obteve em assembleia da OEA, recebendo
dezenove votos a favor da quarentena e nenhum voto contra. O apoio fora confirmado logo no
para serem empregados na crise. Também a Coréia do Sul, Filipinas e Vietnã do sul,
confirmaram seu apoio à decisão dos EUA, além de seus tradicionais aliados na Europa
contrário, foi marcado por um discurso do presidente John F. Kennedy, com dois dias de
também à URSS, aos Estados aliados e a diversos países da América Latina (EUA, 2001).
Outra forma inteligente de descaracterizar como ato de guerra e utilizar como argumentação
O bloqueio iniciou de forma limitada, visando somente armas, mais uma tentativa
de não levar a uma interpretação de ato de guerra, por parte dos demais Estados.
Posteriormente, a operação seria estendida a todas as embarcações e por mais que se quisesse
contexto do Direito Internacional, a Doutrina Militar Naval (BRASIL, 2017, p. 3-10) cita que
"a operação de bloqueio tem por finalidade evitar que navios de todos os Estados, inimigos e
próximos passos planejados, mas não executados, seriam os ataques aéreos em alvos militares
Mesmo após o início do bloqueio, não houve uma reação imediata em termos de
movimentação militar, por parte dos membros do bloco soviético. As reações se limitaram a
ou submarino, haveria uma guerra total, sentimento que era compartilhado do lado oposto,
levando a uma tendência defensiva por parte dos dois lados. Até mesmo os cinco
não lançaram uma arma sequer. Após alguns lançamentos de bombas com pequena carga de
profundidade por aeronaves da força naval do bloqueio, mais com a função de alertar os
contato, sendo convencidos a deixar a área da quarentena. Também não havia informação de
URSS (EUA, 2001). Internamente, nos Estados soviéticos, como por exemplo na Polônia, a
intenção era diminuir a importância e gravidade da crise, para não criar pânico e
_______________
34
Os submarinos eram convencionais das classes “Foxtrot” e “Zulu”, portanto não possuíam grande autonomia
quando submersos (DOBBS, 2009, p. 61).
31
considerável. Na realidade não era mesmo esperada reação militar imediata. O discurso
presente por parte dos EUA, constantemente induzia a crença de que a ameaça era iminente.
Não fosse assim, dificilmente conseguiriam justificar a intensa movimentação da força naval
absoluto por parte dos EUA. Os planos de operação detalhados, somente foram emitidos para
por um lado essa estratégia favorece a surpresa, por outro, retarda a sua utilização como meio
de dissuasão, o que poderia ocorrer mesmo durante o seu planejamento. Além disso, para que
uma operação de bloqueio seja efetiva como forma de distensão da crise, necessita ser
forma a dissuadir qualquer intenção hostil do oponente, bem como notificar aos Estados
neutros, da sua existência. Com relação ao sigilo, é importante pesar qual decisão irá surtir
se opor a futura ameaça ou até mesmo levar o inimigo a agir antecipadamente, tomando a
O bloqueio transcorreu nos primeiros dois dias sem atividades suspeitas, que
pudessem provocar uma reação mais agressiva por parte da força naval dos EUA. Alguns
navios soviéticos que estavam com rumo em direção a Cuba, foram inicialmente
acompanhados por navios da força de bloqueio, mas inverteram seu rumo antes de alcançarem
navios se dirigiam de volta aos portos soviéticos. Os primeiros dois navios russos
32
interceptados, com rumo que indicasse sua entrada em breve, na linha de quarentena,
comprovaram suas cargas próprias de navio tanque e foram autorizados a seguir destino em
cargas. Também prosseguiram as negociações tanto no gabinete de crise dos EUA, quanto nas
rodadas da ONU, sem grandes avanços, mas também sem indicações de agravamento na
situação.
carta ao presidente Kennedy, aceitando manter seus navios fora da área da quarentena. Em
Castro, propondo a suspensão dos trabalhos nas bases de mísseis, ao mesmo tempo em que
concordou em retirar os mísseis de Cuba e em contrapartida solicitou aos EUA a retirada dos
mísseis Júpiter da Turquia (EUA, 2001). Essas declarações foram imediatamente divulgadas
pela grande agência de notícias russa, TASS36, sendo usadas como propaganda para ganhar
força e apoio para a negociação de um acordo pacífico, mas que atendesse aos interesses
nacionais russos.
balísticos de médio alcance (MRBM) pareciam estar operacionais e mais três sistemas de
acelerada, demonstrando uma incoerência entre a solução proposta por Khrushchev e as ações
_______________
35
Diplomata da Birmânia, que exerceu o cargo de Secretário-geral da ONU, de 1961 a 1971.
36
Conceituada agência russa de notícias, desde 1904.
37
Mísseis estratégicos de ataque ao solo, com alcance superior a 3.000 km, capazes de atingir mais da metade do
território norte-americano.
33
inconsistentes pelo presidente Kennedy, que respondeu por meio da imprensa, no dia
seu espaço aéreo para sobrevoo de aeronaves soviéticas, além de outros apoios, caso
solicitados. Após esse desentendimento dos líderes, a vigilância aérea na área de interceptação
foi intensificada, com a orientação inclusive de realizar ataque aéreo a Cuba, caso alguma
aeronave fosse abatida. No mesmo dia chegou a ser registrado um incidente, no qual o
representante de defesa de Cuba afirmou ter disparado com armas antiaéreas, contra
reconhecimento e patrulha dos EUA retornaram as suas bases, com avarias provocadas por
consideradas ofensivas pelos EUA, o que evitaria uma ação por parte dos EUA no sentido de
destruir as bases de lançamento em Cuba. Após essa decisão, seguida de negociações com o
Robert McNamara e o presidente John F. Kennedy, decidiram não tomar medidas mais
agressivas contra Cuba. As inspeções pela ONU, conforme acordado, seriam permitidas
apenas após a conclusão da retirada dos mísseis. A desmontagem e retirada completa levaria
cerca de duas semanas. Essa medida visava resguardar informações confidenciais, visto que a
URSS desenvolvia sua própria tecnologia de ponta, em termo de armamentos (EUA, 2001).
Com isso, os mísseis balísticos estavam sendo retirados, mas a URSS ainda
mantinha a operação de submarinos próximos à Cuba, inclusive com apoio logístico das bases
34
cubanas. Esses submarinos SLMB38 operando próximos de Cuba, poderiam atacar o território
estadunidense, além de oferecer perigo ao tráfego marítimo, nas rotas largamente utilizadas
pelos navios, com destino aos portos do Caribe e América do Sul. Essa situação ainda
representava uma ameaça aos EUA. Como reação imediata, os EUA estabeleceram que os
deveriam ser afastados das bases cubanas. Além disso continuaram com os voos de patrulha e
soviéticos permitiram aos EUA, inspecionar os navios que transportavam os mísseis para fora
de Cuba, de acordo com suas quantidades e tipos, sendo mísseis balísticos de médio alcance e
Cuba. Junto com essa promessa dos EUA, foi negociada também, a retirada dos contingentes
de militares soviéticos de Cuba. Nesses termos, foi proposto pelos soviéticos a retirada dos
IL-28 e aceito pelo presidente cubano, dando fim a crise dos mísseis de Cuba.
teorias de emprego do poder naval, bem como se foi eficaz para a resolução da crise.
_______________
38
Submarinos lançadores de mísseis balísticos.
39
Avião de caça supersônico soviético Mikoyan Fishbed, utilizado pela URSS durante a Guerra Fria.
35
Nesta seção, iremos analisar como as forças navais dos EUA foram posicionadas
emprego do poder naval, difundidos por Alfred Thayer Mahan e Julian Stafford Corbett.
destroieres, em torno de um ponto fixo de coordenadas 27N e 68W, cerca de 700 milhas a
nordeste de Cuba (FIG. 1). Além dessa força concentrada de bloqueio, posicionaram uma
força menor entre o sul da Flórida e a costa norte de Cuba, para se defender de possíveis
para a defesa da Base Naval (EUA, 2001). Essa disposição inicial, concentrava meios,
capacidades e forças, conforme pregava Mahan, contribuindo para ações decisivas, desde que
concentrar a capacidade onde seria mais decisivo, no caso do conflito se tornar inevitável. Ao
contrário do que defendia Corbett, a força naval principal não foi dividida, além do
Parece que Mahan antecipava a situação de Cuba, quando afirmou que era
necessário o controle dessa ilha para controlar as LCM da região do Caribe (MAHAN, 1890,
p. 777). Mesmo que a intenção da URSS em Cuba, fosse somente alcançar a capacidade de
atingir o território norte-americano com mísseis, não é errado concluir que o domínio e
influência soviética, também atenderiam a propósitos de controle de uma região central com
_______________
40
CINCLANT – Comandante-em-chefe do Atlântico (tradução nossa), baseado em Norfolk, no estado da
Virgínia.
36
encontramos semelhanças aos ensinos de Mahan, uma vez que a base naval de Guantánamo,
mesmo estando em território inimigo, foi reforçada, além de mantido seu controle e operação
pelos EUA durante todo o bloqueio. A base militar de Porto Rico, que se encontrava
suficientemente próxima para servir de ponto de apoio, também foi reforçada e poderia ser
A decisão pelo bloqueio naval, no entanto, bem como sua finalidade, se aproxima
mais dos conceitos de Corbett, pois claramente está sendo empregado a serviço de um
propósito maior e não como um fim em si mesmo. Seguindo a mesma linha de raciocínio,
vemos que, apesar de estar relacionado com o tráfego marítimo, o bloqueio não possuía o
domínio das LCM, como objetivo principal a ser alcançado, mas tão somente visava impedir
o transporte de sistemas de mísseis para Cuba, além da retirada dos já instalados, denotando
mais uma vez, a subordinação dos objetivos militares aos objetivos políticos, como Corbett
era somente a capacidade de operação dos mísseis balísticos em Cuba. Pelo rápido desenrolar
do conflito, parece que esse nem mesmo era o objetivo principal. Na realidade a grande
conquista foi alcançada na mesa de negociação, como prevista e defendida por Corbett. Sendo
assim, a URSS já tinha planos de negociação com vistas a conquistar mais do que ceder,
ganhar mais do que perder. Ou seja, conseguir a retirada dos mísseis Júpiter da Turquia e a
promessa de os EUA não tentar invadir Cuba novamente, as custas apenas da desistência
soviética quanto à instalação dos mísseis em Cuba. Na prática, a URSS estava retornando à
condição inicial, existente no início daquele mesmo ano, na qual já não possuía a capacidade
2009). Na operação naval analisada, vimos que a preparação dos EUA para o bloqueio e para
muito o número de meios soviéticos disponíveis. Apesar de não ter ocorrido o conflito
armado, foi mobilizada e empregada uma diplomacia naval representada por centenas de
meios navais e aeronavais, além de contingentes terrestres e aéreos, para garantir uma
dissuasão efetiva.
Quanto a opção dos EUA por realizar o bloqueio, dentre diversas opções, entre
elas a invasão de Cuba, vemos outra aderência aos ensinamentos de Corbett. A escolha por
um bloqueio e não uma invasão, reflete a opção por uma ação limitada, empregando uma
estratégia proporcional ao objetivo principal, que era forçar a retirada dos mísseis de Cuba
e bloqueio militar, sendo empregado este último, com a finalidade de persuadir o inimigo a
interessante pois, neste ponto, o bloqueio naval de Cuba se mostra aderente aos dois
pensadores. Por um lado, se mostra adequado ao modelo corbettiano, pois foi estabelecido
dentro de um limite geográfico ao redor de Cuba, além de ter permanecido ativo apenas pelo
armamento ofensivo soviético em Cuba e forçar a retirada dos mísseis já instalados. Por outra
perspectiva, se encaixa também no modelo mahaniano, uma vez que garantiu aos EUA um
no emprego do poder naval, durante a crise dos mísseis, que apresentaram aderência às teorias
de Mahan ou Corbett.
QUADRO 1
Características que apresentaram aderência às teorias analisadas
Mahan Corbett
Força principal foi Emprego do bloqueio para
concentrada inicialmente alcançar objetivo político
Controle de Cuba para Defensiva apresenta
controlar as LCM do Caribe vantagem sobre a ofensiva
Controle de bases de apoio Estratégia proporcional ao
ultramarinas objetivo principal
Domínio completo sobre a Domínio marítimo limitado
área do bloqueio no tempo e espaço
decisão de empregar o poder naval, já estão sendo articuladas no nível político e estratégico,
diversas ações diplomáticas, com a intenção de controlar a crise para, de acordo com os
Essa diplomacia naval não deve esperar a crise se tornar realidade, por outro lado,
deve manter estreito relacionamento com outros Estados, incluindo visitas diplomáticas de
internacionais estão se tornando mais voláteis e incertas, por vezes, os decisores não terão
instrumento fundamental.
“A estratégia naval se vê assim flanqueada por uma diplomacia naval cada vez mais intensa,
que se exerce de maneira quase permanente, mas que se manifesta naturalmente, de maneira
espetacular, em caso de crises públicas.” Podemos verificar, que para ser efetiva, a principal
característica da dissuasão é a presença da força naval. Além disso, também é necessário que
essa força seja adequada, bem dimensionada e possua credibilidade comprovada em situações
reais de emprego. Possuir poder naval, apesar de necessário, não é suficiente para exercer
Aplicando ao caso da crise dos mísseis de Cuba, também teria sido alcançada uma
dissuasão eficaz, por meio da realização de outras operações diversas do bloqueio, como
Para dar efetividade ao bloqueio naval, foi estabelecido como área proibida à
passagem de navios soviéticos contendo armas, o espaço entre os paralelos de 15N e 30N e a
40
oeste do meridiano de 60W. Após o início do bloqueio, foi estabelecida como área de
interceptação, o interior formado por dois círculos de 500 MN de raio, centradas nas cidades
O bloqueio naval, que fora anunciado dois dias antes, começou a demonstrar sua
navegando em direção à Cuba, estavam invertendo seus rumos. Essas informações foram
comprovadas posteriormente, confirmando que tais navios regressavam a seus portos russos.
O primeiro navio que efetivamente sofreu abordagem e recebeu a equipe de inspeção a bordo,
transportar carga que não se enquadrava como carga proibida pela quarentena, sendo
visto que a partir do estabelecimento, nenhum navio contendo armamento ofensivo alcançou
porto cubano, vemos que os líderes políticos dos dois Estados conduziram a situação, de
forma a se encaminhar para a solução pacífica, como se o bloqueio já fosse esperado pelas
duas partes do conflito. O risco da guerra nuclear, já se mostrara suficiente para induzir os
dois líderes a buscar a solução para a crise. Um dia após o presidente Kennedy proferir o
discurso e anunciar o bloqueio naval, Zorin, como embaixador soviético na ONU, reconheceu
a existência da crise e demonstrou o desejo pela solução pacífica, bem como a intenção
soviética de não deflagrar um confronto direto com os EUA (EUA, 2001). Pronunciava isso
como se já quisesse uma solução pacífica para o fim da quarentena, recém iniciada. Na
realidade tanto Zorin, quanto Khrushchev, queriam mesmo. Como veremos adiante, a
negociação beneficiou em grande parte URSS, mas também reduziu este tipo de ameaça por
mísseis balísticos ao território estadunidense. Deixava desde então, a questão aberta para o
diálogo.
41
uma solução para a crise, o bloqueio naval fora mantido, com a finalidade de evitar a entrada
em Cuba, de mais sistemas de mísseis e para forçar uma dissuasão e levar a um acordo
diplomático.
URSS voltou a intensificar a sua propaganda como uma forma de conseguir convencer os
EUA da retirada dos mísseis Júpiter da Turquia e Itália como contrapartida à retirada dos
mísseis de Cuba, tendo consciência de que o ocidente costuma ser vulnerável à opinião
pública. Também insistia em um posicionamento por parte dos EUA, de não tentar invadir
Cuba novamente (DOBBS, 2009). Com isso o caminho ficaria livre para o bloco soviético
continuar exercendo sua influência política em Cuba e a partir daí, tentar disseminar o
enquanto se tratava dos termos da inspeção, após a retirada dos mísseis. Voos de
IL-28 russos. A quarentena prosseguiu pelos próximos cinco dias, somente estabelecendo a
vigilância dos navios que entravam ou saiam dos portos cubanos, sem abordagem. A retirada
dos bombardeiros IL-28 foi iniciada, sendo monitorada por aeronaves de reconhecimento.
antecipadamente. Por outro lado, a operação Anadyr41 aparentava não ter ações contingentes.
Alguns dos navios mercantes e os próprios submarinos soviéticos, após se depararem com o
bloqueio, adotavam rumos aleatórios por certo tempo, demonstrando não haver orientações
_______________
41
Nome dado pela URSS, à operação de instalação dos sistemas lançadores de mísseis, aviões bombardeiros e
demais armamentos no território cubano.
42
para esta situação. Ao que parece, o único plano de contingência à instalação dos sistemas de
mísseis em Cuba, era a negociação para retirada dos mísseis Júpiter da Turquia.
pelos EUA na Turquia em 1961. Uma capacidade que pudesse representar uma ameaça
externa ao território dos EUA, seria um feito estratégico. O grande problema porém, foi que a
URSS planejou e executou tudo de forma secreta, sem ao menos assinar um acordo de defesa
com Cuba, enquanto que a instalação e operacionalização dos sistemas de mísseis Júpiter, foi
com a Turquia (DOBBS, 2009, p. 51). O fato de Moscou não possuir um acordo de defesa
com Cuba, tornaria o bloqueio não somente efetivo, mas também legítimo, por sua proposta
de conter uma ameaça real e não declarada. Apesar disso, a URSS conseguiu, além da retirada
dos mísseis balísticos norte-americanos da Turquia, a promessa dos EUA de não invadirem
Cuba novamente.
embate nuclear durante a Guerra Fria, bem como foi estabelecida uma linha telefônica direta
costeiro, contribuindo neste caso, de forma eficaz e efetiva para a dissuasão e distensão da
crise.
43
5 CONCLUSÃO
operações navais se tornaram mais complexas nas últimas décadas, de forma que seria difícil
Dessa forma, este trabalho procurou destacar, dentre os aspectos mais relevantes
dos teóricos analisados, aqueles que tiveram contribuição marcante para definir o andamento
concentradas em torno de uma posição inicial, estando desta forma, preparadas para alcançar
centrais estrategicamente localizadas, se aplicava bem a ilha de Cuba, que era naturalmente
cobiçada tanto pelos EUA como pela URSS. Essa importância, mesmo não declarada
abertamente, bem pode ajudar a entender o interesse que ambos demonstravam por exercer o
Mahan, na sua insistência pelo controle de bases de apoio localizadas além do território.
ao atingimento dos objetivos políticos, sendo subordinado a uma estratégia nacional, como
propagado por Corbett. Ainda com relação à escolha pelo bloqueio naval, dentre alternativas
mais agressivas disponíveis, observamos a opção por uma ação limitada e proporcional aos
para fazer frente às dezenas de meios disponibilizados pelos soviéticos, que apresentaram
44
buscou semelhança com os princípios de Mahan, pois foi planejada com o fim de obter
superioridade naval, de forma a exercer o controle total da área marítima. Porém, também
mostrou aderência aos ensinamentos de Corbett, uma vez que foi limitada às proximidades da
Dessa forma, podemos concluir que o emprego eficiente do poder naval, deve
propagados pelos estrategistas navais dos séculos XIX e XX, de forma a contribuir como
nacionais.
eficácia inicial do bloqueio. Ademais, após a verificação de que os sistemas de mísseis não
foi novamente fundamental para a distensão da crise, confirmando nossa hipótese de que o
bloqueio naval foi efetivo, para que a crise não se encaminhasse para o conflito armado.
Dessa forma, o poder naval ainda se apresenta como uma ferramenta fundamental
Almirante Herbert Richmond e o Almirante Raoul Castex, entre outros, que permanecem
sendo relegados ao segundo plano, apesar de terem publicado diversos livros e estudos na área
e eficácia do emprego do poder naval na resolução da crise dos mísseis de Cuba. Com isso, o
poder naval se confirmou como um importante instrumento de poder nacional, como pregado
REFERÊNCIAS
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FRANÇA, Júnia Lessa; VASCONCELLOS, Ana Cristina de. Manual para Normalização de
Publicações Técnico-Científicas. 8. ed. rev. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 2009. 257 p.
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ANEXO