0% acharam este documento útil (0 voto)
38 visualizações9 páginas

Leda - A Questão Do Diagnóstico Na Primeira Infância

O documento discute a importância do diagnóstico psicanalítico na primeira infância, enfatizando a necessidade de entender a criança como um ser que se insere em um campo simbólico. Destaca que a relação com o 'Outro primordial' é crucial para a formação do psiquismo, e que diagnósticos precoces podem ser problemáticos se não considerarem a inacabamento da infância. A autora alerta para os riscos de rotular crianças com diagnósticos fechados, sugerindo que intervenções devem focar na plasticidade e no desenvolvimento subjetivo da criança.
Direitos autorais
© © All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
Formatos disponíveis
Baixe no formato PDF, TXT ou leia on-line no Scribd
0% acharam este documento útil (0 voto)
38 visualizações9 páginas

Leda - A Questão Do Diagnóstico Na Primeira Infância

O documento discute a importância do diagnóstico psicanalítico na primeira infância, enfatizando a necessidade de entender a criança como um ser que se insere em um campo simbólico. Destaca que a relação com o 'Outro primordial' é crucial para a formação do psiquismo, e que diagnósticos precoces podem ser problemáticos se não considerarem a inacabamento da infância. A autora alerta para os riscos de rotular crianças com diagnósticos fechados, sugerindo que intervenções devem focar na plasticidade e no desenvolvimento subjetivo da criança.
Direitos autorais
© © All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
Formatos disponíveis
Baixe no formato PDF, TXT ou leia on-line no Scribd
Você está na página 1/ 9

A QUESTÃO DO DI AGNÓSTICO NA PRIMEIRA INFÂNCI A:

ENTRE A INDICAÇÃO DE RISCO E A DEFINIÇÃO DE UM


DESTINO 1

Leda Mariza Fischer Bernardino

Para abordar a questão do dia gnóstico na primeira infância


do ponto de vista psicanalítico, faz -se necessário explicitar com
que concepção de criança trabalhamos.
Quando um bebê faz sua estreia na vida, vê-se
imediatamente diante de um grande desafio: inserir-se em um
campo simbólico que o antecede e que o determinará para além do
corpo biológico e dos engramas já insuficientes da espécie
humana, cuja vocação através dos tempos define -se cada vez mais
como simbólica. Este fato é determinante de sua vocação social
essencial: sem o auxílio de outro humano que o insira neste campo
simbólico ele não conseguirá vencer seu desamparo originário. Por
isso, Freud muito cedo em suas pesquisas definiu este ponto como
“fonte de todos os motivos mo rais” (Freud, 1895, p. 422). Por esta
razão ainda, Lacan (1953, 1988) cunhou o termo “Outro” com a
inicial em letra maiúscula e juntou-lhe o atributo “primordial” , para
demarcar a extrema imp ortância desta função, exercida p ela
pessoa que vai humanizar o b ebê, ao transmitir -lhe o sistema
simbólico e ao dar-lhe um lugar neste sistema – donde a
importância das funções materna e paterna e da estrutura familiar
que as sustenta (Lacan, 1938 , 2003).
Além da maturação do sistema nervoso central e dos
esquemas bás icos de funcionamento de que um organismo dispõe,
para haver um psiquismo, é necessária a instauração de um
sistema simbólico, uma estrutura que inicialmente encontra -se no

1
Trabalho publicado em: VOLICH, Rubens, RANNA, W agner & LABAKI,
Mar ia Elisa. Psicossoma V – integração, desintegração e limites. São
Paulo: Casa do Psicólogo, 2 014, pp.347- 353.
exterior, mas que deve ser introjetada para permitir a conexão
entre o organismo e seu meio. Para isso são necessários
determinados acontecimentos, relações, palavras , em que a função
“Outro primordial” é essencial para o bebê, pois lhe transmitirá seu
lugar e suas significações, e sustentará seu psiquismo, enquanto
durar sua precariedade subjetiva .
A passagem que todo bebê deve realizar – de organismo a
sujeito de uma existência simbólica – pressupõe uma série de
operações que devem se realizar no interior de uma relação,
sustentada pelos outros parentais transmissores da est rutura
simbólica, tendo como resultante uma renúncia ao gozo próprio ao
organismo vivo. Tornar-se falante, ocupar um lugar no discurso
social, pressupõe que o filhote humano renunciou a uma existência
gozosa circunscrita ao âmbito de sua natureza corporal, em prol de
uma existência de linguagem, em qu e as satisfações se d arão na
relação com outros significativos, o corpo se constrói não mais
real, mas como representado, como sede de experiências
significativas que constituirão memórias, dando origem a uma
história.
Os relatos presentes na cultura sobre os cuidados dos bebês
permitem-nos constatar que há um saber inconsciente presente na
relação da família com o bebê, que passa de geração a geração, e
que é transmitido quando tudo vai bem entre o bebê e seus
principais cuidadores. É um saber ligado ao investimento libidinal
daquele que exerce a função materna , saber este que humaniza,
porque ao mesmo tempo em que organiza o campo pulsional,
também insere na família e na cultura (Bernardino, 2006). Saber
cuja origem remonta ao que Freud (1914 , 1977) situou como o
lugar do filho para seus progenitores: o renascimento de seu
narcisismo, projetado sobre o bebê. Os pais cuidam do filho mais
além de sua existência biológica porque já têm um lugar para este
filho, decorrente de sua história pessoal.
Jacques Lacan (1953 , 1988) propôs o conceito de inconsciente
como o que se constitui na relação do sujeito com o Outro. Da
renúncia ao gozo corporal decorrente desta entrada no registro
simbólico, surge o desejo como marca de uma satisfação
impossível enquanto puramente corporal, mas sempre buscada
enquanto representada, fantasiada. Se o desejo do filhote humano
surge do desejo do Outro, de quem recebeu marcas erógenas
fundamentais, sua relação com o outro - seu semelhante -, com o
corpo próprio e com os objetos será estruturada tendo como base
esta referência ao campo do Outro, elemento simbólico. Assim,
para a psicanálise, o sujeito psíquico é constituído primeiramente
pelo Outro e, após a a ssunção de suas identificações, torna-se
inconsciente. Constitui -se aí a divisão subjetiva que marcará o
humano, entre uma parte inconsciente que o constituiu
(inconsciente simbólico), uma parte pulsional que o assola
(inconsciente real) e uma parte consciente constituída via
recalcamento e educação.
Somente a partir de um encontro possível com seu Outro
primordial o bebê terá condições de habitar plenamente o campo
simbólico, de falar em nome próprio e de desejar de modo próprio,
ou seja, tornar -se sujeito. Desencontros ou maus encon tros abrirão
caminho para as psicopatologias da infância.
Assim, ressaltamos que na infância estamos sempre no
entrecruzamento e ntre uma maturação biológica e uma lógica de
linguagem que marca o acontecimento biológico, ao mesmo tempo
em que é dependente dele – as determinações genéticas,
constitucionais e ambientais vão sofrer a ação do desejo do Outro.
Os tempos lógico e cronológico se conjugam ou, como no caso das
patologias, “curto -circuitam-se”.
Nesse sentido, abordar as patologias que podem incidir sobre o
psiquismo em formação de uma criança implica transitar pela
maleabilidade das estruturas psíquicas na infância (Bernardino,
2004), por um lado, e, por outro, atentar à pregnância das
inscrições psíquicas que neste tempo inaugural se fazem.
As psicopatologias, na concepção psicanalítica, constituem as
consequências das vicissitudes próprias ao processo de
estruturação subjetiva e do mal-estar próprio da espécie humana,
de ter que conjugar dois campos tão heterogêneos quanto o
organismo e a linguagem. Assim, podemos entender a
psicopatologia como inerente ao elemento humano, que padece da
impossibilidade de conjugar perfeitamente essas instâncias tão
diferentes. Desse modo, o sofrimento psíquico faz parte da
experiência humana. Entretanto, quan do este sofrimento se torna
insuportável e passa a instigar defesas, podemos falar de
psicopatologia no sentido clínico, ou seja, as conquistas
desenvolvimentais da criança estarão em risco.
Um fracasso no encontro com o Outro que obstaculiza a
própria entrada no campo simbólico remeterá a manifestações
mais graves, do campo das psicoses e do autismo. Contudo,
devemos encarar com cautela essa questão, principalmente na
primeira infância.
Pela própria definição de infância enquanto tempo de
desenvolvimento; ou pelo próprio conceito de infantil que prevê
uma série de operações psíquicas que marcarão a relação do
sujeito que surgirá com um Outro, neste entrecruzamento entre os
aspectos evolutivos e estruturais que aí está em jogo, não se trata
ainda de algo def initivo. Este inacabamento próprio da infância
marca a psicopatologia da infância e é responsável pela
dificuldade de definir quadros nosológicos distintos e claros,
mesmo quando se trata de graves patologias, como a psicose, por
exemplo. Como afirma Volno vich (1993, p. 45), “a psicose na
infância, muito mais do que um conjunto de signos, revela -se como
formas clínicas que atestam as vicissitudes do desejo na criança.
Em outras palavras, as formas clínicas são, antes de tudo,
formações do inconsciente”.
Diante destes quadros clínicos graves surge uma questão. O
tempo da infância, caracterizado por um tempo gerúndio, de
inserção no campo da linguagem, de inacabamento em relação à
identidade, poderia abrigar a ideia de uma estrutura psíquica
definida uma vez p or todas?
Pensamos que não, pois, a clínica no -lo demonstra;
dificilmente, na infância, estas defesas de aparência psicótica se
apresentam sem, paralelamente, encontrarmos uma possibilidade
de abertura para o Outro e de apelo ao outro, característicos do
funcionamento neurótico.
Entretanto, esta posição não desmerece a importância da
avaliação diagnóstica e da formulação de hipóteses quanto ao
encaminhamento do processo de constituição subjetiva da criança,
principalmente nos casos em que este processo apar enta estar
extremamente obstaculizado, como no caso da instauração de
defesas psicóticas.
Há uma importância crucial na detecção do risco de
estruturação autística ou psicótica, porque permite a indicação de
tratamento, cuja precocidade é extremamente rele vante para os
efeitos psíquicos esperados, bem como para o conjunto do
desenvolvimento da criança.
Por outro lado, um diagnóstico fechado , seja de autismo, seja
de psicose, com as consequências que uma atribuição de lugar
pode ter para a fragilidad e identificatória de uma criança em risco,
ou que a confusão entre sintomas de defesa e estrutura definida
pode provocar, é contraindicado. No caso do autismo, muitas
vezes o diagnóstico é feito em uma única consulta, com base em
um check list de sintomas, e pode acarretar muitos equívocos, já
que estes sintomas que se instalam precocemente na vida de um
bebê ou de uma criança pequena podem indicar dificuldades
muitos diferentes. Por exemplo, a depressão do bebê pode se
caracterizar por sintomas que também são listados para os casos
de autismo.
Vale ressaltar que não estamos postulando a não realização
do diagnóstico em si, mas as condições em que este diagnóstico é
formulado e a certeza da conclusão diagnóstica que não se
coaduna com o estado de inacabamento da infância. Ao
generalizar sintomas, pela sistematização e ampla divulgação dos
mesmos, não há mais a preocupação com o que estaria
acontecendo com a criança, seu meio e as problemáticas que os
envolvem no longo processo de desenvolvimento sediado na
infância. Quando se conclui esse tipo de diagnóstico, produz–se,
desde o lugar do “saber científico” e anônimo, um efeito de
nomeação, a atribuição de um traço identificatório ao qual o sujeito
pode se agarrar, porque o recebe de maneira imperat iva. O efeito
disso pode ser iatrogênico, na medida em que o sujeito sofre
justamente dessa fragilidade identificatória. Efeitos semelhantes
ocorrem com os familiares, que pressionam por um diagnóstico
para situarem esse filho em um lugar e saberem finalme nte como
interpretá-lo, onde situá -lo. Mannoni (1970), enuncia claramente
tais riscos ao afirmar que esse paciente “espreita o perigo de
desaparecer como indivíduo sob as vestes da loucura, a fim de
transformar-se para sempre no objeto de que se fala, que se
manipula e de que se dispõe” (p. 58).
São muitas as hist órias clínicas que ouvimos que deixam
supor o efeito deletério da formulação precoce de um diagnóstico
fechado de determinado quadro clínico; observamos como a
previsão de sintomas e impedimentos pode conduzir a uma série
de elementos patológicos a que a c riança estaria “predestinada”,
muito mais pela força da palavra médica que pela patologia
propriamente dita, que em muitos casos nem chega a se confirmar.
Além disso, o tipo de encaminhamento proposto nessas situações
tende a confirm ar a posição objetal conferida à criança.
Algumas intervenções propostas pelos campos social e
médico-psicológico para as graves patologias da infância – tais
como a modificação de comportamento, a programação
neurolingüística, os métodos de treinamento – mantêm a criança
na posição de ser objeto para o Outro.
Sustentar um diagnóstico fechado de psicose na infância não
só contraria o estado de inacabamento próprio da infância, como
ainda pode imprimir à direção do tratamento condições contrárias
às necessárias para o su rgimento do sujeito, ou seja, passa -se a
reforçar as defesas psicóticas em detrimento de abrir outras
possibilidades para o sujeito de se posicionar perante o Outro.
Por outro lado, há uma grande importância em detectar
precocemente sinais de possíveis riscos psíquicos, pa ra a
indicação de uma intervenção a tempo com a criança e seus pais,
a fim de criar as condições de acionamento da plasticidade
cerebral, para que esses sinais não se tornem sintomas de uma
psicopatologia e, ainda, para que essa psicopatologia não venha a
se instalar como própria ao funcionamento psí quico a partir de
então.
Essa ideia de detecção precoce não conduz ao diagnóstico
precoce, pois na primeira infância, seguindo a lógica que
desenvolvemos, não há ainda a pos sibilidade de decisão estrutural
na criança. O desfecho clíni co possível é apenas o de conclu ir
pela presença de sinais de risco, para alertar à necessidade de
acompanhamento da criança do ponto de vista psíquico ou pela
conclusão de que o processo de estruturação psíquica da criança
está em curso.
O tipo de tratamento que a criança receberá após a hipótese
diagnóstica ser formulada tem papel fundamental, bem como é
fundamental a abertura e o aval dos pais diante deste processo.
Trata-se, antes de tudo, de propor um lugar de sujeito para esta
criança e de acompanhá -la nos caminhos que tomará para dar
conta desta antecipação, desta apost a na sua subjetividade.
É bem mais interessante que o clínico se mantenha em
suspense quanto à estrutura, em falta quan to a saber para onde
vai se inclinar a trajetória da criança. Seu papel principal é
justamente, como sugere Laznik (1997, p. 238), o de doar a sua
falta; posição que implica um saber que não é total, absoluto,
como poderia ser aquele apoiado na certeza da estrutura.
É nesse sentido que a psicanálise aparece como tratamento
privilegiado para as crianças que se apresentam nessa
encruzilhada estrutural entre ocupar, diante do Outro, a posição de
objeto ou de sujeito.
Referências

BERNARDINO, Leda Mariza Fischer. As psicoses não decididas


na infância: um estudo psicanalítico . São Paulo: Casa do
Psicólogo, 2004.

BERNARDINO, Leda Mariza Fischer. A abordagem psicanalítica do


desenvolvimento infantil e suas vicissitudes. In: BERNARDINO ,
Leda Mariza Fischer (org). O que a psicanálise pode ensinar
sobre a criança, sujeito em constituição. São Paulo: Escuta,
2006, pp. 19-41.

BERNARDINO, Leda Mariza Fischer. A questão da psicose na


infância, seu diagnóstico e tratamento diante do seu
“desaparecimento” da atual nosografia. In: JERUSALISNKY,
Alfredo & FENDRIK, Silvia. O livro negro da psicopatologia
contemporânea. São Paulo: Via Lettera, 2011, pp. 205 -217.

FREUD, Sigmund. (1895) Projeto para uma psicologia científica.


In: Edição Standard Bra sileira das Obras Completas de
Sigmund Freud. Vol. I. Tradução de Jayme Salomão. Rio de
Janeiro: Imago, 1977 , pp. 381-452.

FREUD, Sigmund (1914). Sobre o narcisismo: uma introdução. In:


Edição standard Brasileira das Obras Completas de Sigmund
Freud. Vol. XIV, Tradução de Jayme Salomão. Rio de Janeiro:
Imago, 1977, pp. 89-119.

LACAN, Jacques. (1938). Os complexos familiares na formação do


indivíduo. In: LACAN, Jacques. Outros escritos. Tradução de Vera
Ribeiro. Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor, 2003, PP. 29-90.
LACAN, Jacques. ( 1953) Função e campo da fala e da linguagem
em psicanálise. In: Escritos. Tradução de Inês Oseki -Depré São
Paulo: Perspectiva, 1988, pp. 101-187.

LACAN, Jacques. (1957/1958) O Seminário, livro 5: as


formações do inconsciente. Tradução de Vera Ribeiro. Rio de
Janeiro: Jorge Zahar, 1999.

LAZNIK, Marie-Christine. Rumo à palavra. Tradução de Mônica


Seincman. São Paulo, Escuta, 1997.

MANNONI, Maud (1970). O psiquiatra, seu louco e a psicanálise .


Tradução de Marco Aurélio Mattos. 2ª ed. Rio de Janeiro, Zahar,
1981.

VOLNOVICH, Jorge. A psicose da criança . Tradução de Andréa


Campos Romanholi, Daniela Reis e Silva, Maria Regina José
Abranches. Rio de Janeiro, Relume -Dumará, 1993.

Sobre a autora:
Psicanalista, analista membro da Associação Psicanalítica de
Curitiba, doutora pelo IPUSP em Psicologia Escolar e do
Desenvolvimento Humano, com pós-doutorado em Tratamento e
Prevenção Psicológica pela Universidade de Paris 7. Pesquisadora
FAPESP.

Você também pode gostar