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Sonho de Uma Noite de Verão William Shakespeare Texto Adaptado

No Ato I, Cena I, Diana busca a ajuda de Hera para lidar com Bruce, um mortal que deseja usar o Escudo de Temiscira, levantando questões sobre a responsabilidade dos mortais. Hera defende Bruce, ressaltando seu coração justo e a importância do amadurecimento humano, enquanto Diana expressa suas preocupações sobre o futuro da humanidade. A cena transita para Atenas, onde Teseu e Hipólita discutem seu casamento, e os dilemas amorosos de Hérmia, Lisandro e Helena são apresentados, refletindo as complexidades do amor e das obrigações sociais.
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Sonho de Uma Noite de Verão William Shakespeare Texto Adaptado

No Ato I, Cena I, Diana busca a ajuda de Hera para lidar com Bruce, um mortal que deseja usar o Escudo de Temiscira, levantando questões sobre a responsabilidade dos mortais. Hera defende Bruce, ressaltando seu coração justo e a importância do amadurecimento humano, enquanto Diana expressa suas preocupações sobre o futuro da humanidade. A cena transita para Atenas, onde Teseu e Hipólita discutem seu casamento, e os dilemas amorosos de Hérmia, Lisandro e Helena são apresentados, refletindo as complexidades do amor e das obrigações sociais.
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ATO 1

CENA 1

ATO I
Cena I A

Diana, lendo um livro.


Hera entra. Diana, surpresa, ajoelha-se aos pés de Hera.
DIANA — Hera, me dê forças!
HERA — Diana, primeiro: levante-se!
DIANA — Como eu poderia me levantar diante de ti, poderosa Hera?
Hera segura a mão de Diana para que esta se levante.
HERA — Eu venho atender a sua súplica. Como eu poderia te ajudar, minha Diana?
DIANA — O mortal Bruce quer usar o Escudo de Temiscira. Sábia Hera, o Bruce é
um tolo!
HERA — Realmente ele é apenas um mortal, mas o seu Bruce tem um coração
sincero e justo. Ele não viraria pó ao tocar o Escudo de Temiscira. E hoje é apenas
uma peça no museu.
DIANA — E se Hefesto não gostar de ver um mortal usando-o?
HERA — Hefesto... Por mais rabugento que ele seja, a vaidade dele está em seu
trabalho e ele adoraria ver o Escudo de Temiscira chamando a atenção depois de
três milênios.
DIANA — Mas, e se o Bruce perder o escudo na batalha e outro mortal puder se
tornar invisível e invulnerável? Os mortais estão perdendo a maturidade. Estão
regredindo e ficando menos responsáveis a cada geração. Logo serão apenas
bebês.
HERA — O mundo é um berçário e, por isso, estamos aqui: para facilitar o
amadurecimento e corrigir o caminho quando necessário.
DIANA — Aergia acredita na extinção da humanidade em poucas décadas.
HERA — A preguiça falou para você desistir, então você desiste?
DIANA — As chances do Bruce sobreviver ao armagedon são impossíveis... Ele
sempre quer algo impossível!
HERA — Zeus já lhe havia oferecido a imortalidade para participar do armagedon,
mas o Bruce rejeitou. Ele quer defender a humanidade sendo um ser humano. E, cá
entre nós, fazer o impossível é o passatempo dele.
DIANA — Poderosa Hera, se eu entregar o Escudo de Temiscira, eu estaria
aceitando o Bruce como meu marido.
HERA — Evidentemente você está tentando proteger o Bruce, então alguma coisa
tem nesse coraçãozinho.
DIANA — Ele nunca disse que me ama!
HERA — Quem foi ao Hades por você?
DIANA — Ele me trata como uma mulher, não como uma princesa e jamais como
uma amazona.
HERA — Você quer um marido ou uma entrevista de emprego?
DIANA — Ele pisou em Temiscira!
HERA — E seu pai também!
DIANA — Meu pai! Meu pai nunca!
HERA — Não é interessante como há tantas histórias diferentes sobre os mesmos
eventos? Que tal voltarmos no tempo e perguntarmos à sua mãe.
DIANA — Podemos perguntar agora.
E Diana já pega o telefone celular. Hera segura a mão da Diana, impedindo-a de
telefonar.
HERA — Hoje a sua mãe te conhece. Vamos ao passado, quando você ainda não foi
gerada e ela pode ser mais sincera sem ter medo da sua reação.
DIANA — Farei como a poderosa Hera disser! Veremos a batalha! E isso também
será muito interessante.
HERA — Minha amada Diana, por que nós iríamos a uma batalha? E com uma
amazona? Você ficaria empolgada e não prestaria atenção às minhas palavras.
Então vamos começar pelo pós-batalha. O melhor momento é da pacificação,
ainda mais se tiver um casamento, afinal, quem não gosta de um casamento?
DIANA — Um casamento?
HERA — Alguns casamentos. Segure minhas mãos e vamos lá!

Cena I B

O cenário muda para Atenas. O palácio de Teseu. Entram Teseu, Hipólita, Filóstrato
e pessoas do séquito. Diana corre para se esconder atrás da cortina e Hera a puxa.

HERA – Eles não podem nos ver sem nossa vontade.

Diana e Hera observam a cena.

Teseu: Depressa, Hipólita, nossas núpcias estão próximas. Quatro dias felizes nos
trarão uma nova lua. Mas, para mim, como esta lua velha se extingue lentamente!
Ela retarda meus anseios, como uma madrasta ou viúva que retém os bens do her
deiro.
Hipólita: Quatro dias passarão rápido; quatro noites farão o tempo escoar como u
m sonho. E então a lua, como um arco prateado, verá nossa noite de casamento.
Teseu: Filóstrato, vá e chame os atenienses para a festa, desperte o espírito da ale
gria, mande a tristeza embora, pois ela não combina com nossas festividades. (Sai
Filóstrato.) Com a espada em mão te conquistei, Hipólita; ganhei seu coração pel
a força, mas quero casar com música, pompa e festejos.
Diana: Ouviu, poderosa Hera!? Ele confessou que conquistou minha mãe com a
espada!
Hera: Calma, Diana. Toma um suco de maracujá e assista.
(Entram Egeu, Hérmia, Lisandro e Demétrio.)
Egeu: Saudações, Teseu, nosso duque famoso!
Teseu: Bom Egeu, obrigado. O que há de novo?
Egeu: Cheio de dor, venho reclamar da minha própria filha, Hérmia querida. Vem a
qui, Demétrio. Nobre lorde, este homem tem meu consentimento para casar com
ela. Agora venha, Lisandro. Este, meu príncipe, enfeitiçou o coração de Hérmia. Si
m, Lisandro, com suas rimas! Você trocou presentes de amor com ela; cantou can
ções sob a janela dela, e cativou suas fantasias com flores, anéis, doces, e outras
coisas. Você ganhou o coração dela com astúcia, mudou sua obediência para tei
mosia. Por isso, meu duque, se ela não quiser casar com Demétrio, eu me apoio n
a antiga lei de Atenas, que dá aos pais o direito de decidir sobre seus filhos. Ela é
minha filha, posso decidir sobre ela. Ou ela casa com este cavalheiro, ou enfrenta
a morte, como manda nossa lei.
Teseu: Hérmia, o que você diz? Pense bem, menina. Você deveria ver seu pai com
o um deus, pois ele lhe deu a forma, e tem o poder de preservá-la ou destruí-
la. Demétrio é um cavalheiro muito digno.
Hérmia: Assim como Lisandro.
Teseu: Sim, mas como seu pai não o aprova, você deveria considerar o outro com
o mais digno.
Hérmia: Ah, se meu pai visse com meus olhos!
Teseu: Com o julgamento dele é que seria razoável que seus olhos vissem.
Hérmia: Perdoe-
me, Vossa Graça, não sei o que me dá tanta coragem. Não entendo como minha m
odéstia me permite defender minha causa assim. Suplico a Vossa Graça que me d
iga o que de pior me acontecerá se eu me recusar a casar com Demétrio.
Teseu: Ou morrer, ou sair da sociedade para sempre. Pense na juventude, veja se v
ocê pode suportar a vida de freira, caso recuse a escolha de seu pai. Ficará num c
onvento, cantando hinos tristes para a lua. Bem-
aventuradas três vezes são aquelas que podem dominar seus desejos e viver virgin
almente. Mas muito mais feliz é a rosa que se deixa destilar do que a que cresce, vi
ve e morre virgem.
Hérmia: Prefiro crescer, viver e perecer assim a ceder os privilégios da minha juve
ntude a um senhor cujo jugo minha alma detesta.
Teseu: Pense mais um pouco. No próximo mês, quando selaremos nosso casame
nto, você deve decidir: ou morrer por desobedecer a seu pai, ou casar com Demétr
io, ou jurar viver virginalmente.
Demétrio: Hérmia, concorde; e você, Lisandro, desista da sua pretensão de se op
or ao meu direito.
Lisandro: O pai de Hérmia, Demétrio, tem seu afeto; case com ele, então; seja ela
minha.
Egeu: Lisandro zombador, meu amor é dele, e ele tem tudo quanto possuo: Hérmi
a me pertence; todo o direito que tenho sobre ela eu transfiro a Demétrio.
Lisandro: Eu sou, milorde, de família tão nobre quanto a dele; de patrimônio igual;
maior é meu amor. Quanto aos favores da fortuna, sou igual a ele, se não mais. Fin
almente, o que é mais importante: sou amado pela irresistível Hérmia. Por que raz
ão não deveria lutar pelo meu direito? Demétrio já namorou a filha de Nedar e gan
hou seu coração, e ela o adora, até quase à loucura.
Teseu: Sim, já ouvi falar disso e pretendia conversar com Demétrio, mas por exces
so de negócios não lembrei. Mas, Demétrio, venha comigo; e você também, Egeu.
Tenho de falar com vocês. Quanto a você, irresistível Hérmia, esforce-
se para deixar os caprichos e obedecer a seu pai; se não, será forçada a dobrar-
se às leis de Atenas: ou morte, ou viver solteira. Minha Hipólita, vamos. O que se p
assa, meu amor? Venham conosco, Demétrio e Egeu; preciso de vocês, não só par
a a festa, mas para tratar de algo importante.
Egeu: Seguimos alegres e obedientes.
(Saem Teseu, Hipólita, Egeu, Demétrio e séquito.)

Lisandro: Então, minha querida, por que está tão pálida? Por que suas rosas murc
ham tão rápido?
Hérmia: Talvez por falta das lágrimas dos meus olhos.
Lisandro: Oh, Deus! Pelo que li e ouvi, o verdadeiro amor nunca teve um caminho
tranquilo. Ou havia diferença de classe...
Hérmia: Oh, sofrimento! Nascer alto e aceitar o cativeiro!
Lisandro: ... ou grandes diferenças de idade...
Hérmia: Oh, dor! Unir a juventude à velhice!
Lisandro: ... ou os pais decidiam tudo sozinhos...
Hérmia: Não há maior inferno do que estranhos escolherem o amor!
Lisandro: ... ou, quando havia simpatia, guerras, doenças e morte atrapalhavam,
deixando o amor tão breve quanto um sonho, tão instável quanto uma sombra, tão
rápido quanto um raio numa noite tempestuosa que, de repente, corta o céu e a te
rra, mas é tragado pelas trevas antes de podermos dizer "Vejam!". Tudo que brilha
acaba em ruína.
Hérmia: Se todos os amantes sinceros sempre enfrentam obstáculos, é porque o
destino determina assim. Que nossa provação nos ensine a ser pacientes, pois os
sonhos, pensamentos, suspiros, dores e lágrimas sempre acompanham o amor ve
rdadeiro.
Lisandro: Isso consola. Mas, Hérmia, ouça-
me: a sete léguas de Atenas mora minha tia, uma viúva rica que, sem filhos, me co
nsidera seu herdeiro. Na casa dela, querida Hérmia, podemos nos casar, longe da
s leis de Atenas. Se me amas, foge da casa do seu pai amanhã à noite. No bosque
a uma légua da cidade, onde uma vez te vi com Helena, te encontrarei.
Hérmia: Querido Lisandro, juro pelo mais potente arco de Cupido, pela seta doura
da, pelas pombas de Vênus, pelo que une as almas e dá ao amor belas palmas, pe
las chamas que consumiram Dido após ser abandonada, pelas juras infinitas que
os homens quebraram: amanhã, sem falta, no refúgio de que falamos, estarei cont
igo.
Lisandro: Não falte. Lá vem Helena. (Entra Helena.)
Hérmia: Linda Helena, por que tanta pressa?
Helena: Eu, linda? Desminta isso. Demétrio ama sua beleza; vê nos seus olhos a l
uz mais pura; acha sua voz mais melodiosa que a cotovia. Se a beleza fosse conta
giosa, eu adoraria ser infectada pelos seus encantos; ouvir sua voz, ver seu olhar,
e ser consolada pela sua fala. Se o mundo fosse meu, e não tivesse Demétrio, eu o
trocaria pela sua beleza e doçura. Porque, sendo meu oposto, você conquistou se
u coração bondoso.
Hérmia: Faço cara feia para ele, e ele me adora.
Helena: Quem me dera ter risos feios então!
Hérmia: Insulto-o, e ele me ama mais.
Helena: Quem me dera ter uma voz tão doce!
Hérmia: Meu desdém só aumenta seu ardor.
Helena: Seu desprezo aumenta meu amor.
Hérmia: Não é minha culpa ser assim.
Helena: É por sua beleza. Quem me dera tê-la!
Hérmia: Coragem! Ele não vai amar por muito tempo. Lisandro e eu decidimos fug
ir de Atenas. Para mim, Atenas era o paraíso, até que ele me encantou. Como é ter
rível este fogo interno que transforma o céu no inferno!
Lisandro: Não queremos esconder nada, Helena: amanhã, quando a lua refletir su
a luz prateada nas águas, cobrindo a relva de pérolas e encantando a floresta, eu e
Hérmia deixaremos a cidade, rumo à liberdade.
Hérmia: No bosque onde passamos momentos felizes juntos, eu e Lisandro nos e
ncontraremos ao amanhecer. Se em Atenas não temos abrigo, em outro lugar enc
ontraremos. Reze por nós, querida Helena, e que você encontre felicidade com De
métrio. Lisandro, cumpra sua promessa, mesmo que seu coração esteja angustiad
o: vamos nos privar da companhia por alguns instantes.
Lisandro: Cumprirei, minha querida Hérmia. (Sai Hérmia.) Adeus, Helena. Que De
métrio possa ser tão dedicado a você quanto eu sou a Hérmia, transformando sua
tristeza em felicidade. (Sai.)
Helena: Como é possível que a felicidade possa reinar em tanta desigualdade! Em
toda Atenas, sou considerada tão bonita quanto Hérmia; mas Demétrio não enxer
ga isso. Ele só vê a beleza de Hérmia, como eu só vejo a sua. O Amor é cego e não
vê com os olhos, mas com a mente; por isso é alado, cego e poderoso. Nunca dá p
rovas de bom gosto; cego e de asas: símbolo de desgosto. Eterna criança: apelida
do assim por sempre escolher errado. Como meninos quebram promessas, o Amo
r perjura o tempo todo. Assim, Demétrio me jurava amor quando Hérmia não via;
mas ao calor do sorriso de Hérmia, suas juras se derreteram. Vou contar a fuga de
Hérmia. No bosque ele madrugará para seguila. A notícia me dará a oportunidade
de vê-lo. Se o vir, ficarei feliz e enriquecida. (Sai.)

Cena II
O mesmo. Um quarto em casa de Quince. Entram Quince, Snug, Bottom, Flauta,
Snout e Starveling.

Quince: Está todo mundo aqui?


Bottom: Melhor chamar um por um da lista.
Quince: Aqui está a lista com o nome de todos que foram escolhidos em Atenas p
ara representar nosso interlúdio, diante do duque e da duquesa, no dia do casame
nto deles.
Bottom: Primeiro, Peter Quince, conte-
nos o enredo da peça; depois, leia o nome dos atores, para começarmos logo.
Quince: Nossa peça se chama: A mais lamentável comédia, a mais cruel morte d
e Píramo e Tisbe.
Bottom: Uma bela peça, divertida. Agora, Peter Quince, chame os atores pela lista
. Mestres, espalhem-se!
Quince: Respondam conforme eu chamar. Nick Bottom, tecelão!
Bottom: Presente. Diga qual é minha parte e continue.
Quince: Você, Nick Bottom, vai ser Píramo.
Bottom: Quem é Píramo? Amante ou tirano?
Quince: Amante, que se mata por amor.
Bottom: Então terei que chorar bastante. Se eu fizer esse papel, farei o público ch
orar; provocarei tempestades com meu lamento. Vamos aos outros papéis. Mas e
u seria melhor como tirano; faria um Hércules incrível, um verdadeiro rompedor. "
O furioso pico no mar estrondoso, já vem rompendo a prisão...". Grandioso! Nomei
e os outros atores agora. Essa é a verdadeira essência de Hércules, a essência de
um tirano. Um amante é mais sentimental.
Quince: Francisco Flauta, remenda-foles.
Flauta: Presente, Peter Quince.
Quince: Você vai ser Tisbe.
Flauta: Quem é Tisbe? Um cavaleiro andante?
Quince: É a mulher que Píramo ama.
Flauta: Ora, por minha fé, não me dê papel de mulher; minha barba já está cresce
ndo.
Quince: Não tem problema; você usará uma máscara e pode falar com voz fina.
Bottom: Se eu puder esconder meu rosto, me dê também o papel de Tisbe; falarei
com uma voz monstruosa: "Tisne! Tisne! Ah, Píramo, meu grande amor! Tua querid
a Tisbe, tua esposa idolatrada!"
Quince: Não! Você será Píramo, e você, Flauta, será Tisbe.
Bottom: Está bem; continue.
Quince: Robin Starveling, alfaiate.
Starveling: Presente, Peter Quince.
Quince: Robin Starveling, você será a mãe de Tisbe. Tom Snout, caldeireiro.
Snout: Presente, Peter Quince.
Quince: Você será o pai de Píramo; eu serei o pai de Tisbe; e Snug, marceneiro, ser
á o leão. Acho que está bem organizada a comédia.
Snug: Já está escrito o papel do leão? Se tiver, me dê logo, por favor, que sou um p
ouco lento para aprender as falas.
Quince: Você terá que improvisar, só precisa rugir.
Bottom: Me dê também o papel do leão. Vou rugir de maneira que comoverei os c
orações; rugirei de tal forma que o duque pedirá: "Ruja outra vez! Ruja outra vez!"
Quince: Se você rugir de maneira muito terrível, assustará a duquesa e as outras s
enhoras, a ponto de gritarem, o que seria suficiente para nos enforcarem a todos.
Todos: Para nos enforcarem. Nossas mães perderiam os filhos.
Bottom: Concordo, amigos, se assustarmos as senhoras, só lhes restará nos enfor
car. Mas eu rugirei tão docemente como uma pombinha; rugirei como um rouxinol.
Quince: Para você, só serve o papel de Píramo, por ser Píramo um indivíduo de bo
a aparência, um cavalheiro encantador. Por isso, você será Píramo.
Bottom: Está bem; serei Píramo. Que barba ficará melhor nesse papel?
Quince: A que você quiser.
Bottom: Vou desincumbir-
me com a barba cor de palha, ou laranja, ou púrpura, ou da cor da coroa da França
, amarelo perfeito.
Quince: Algumas coroas francesas são sem pelos, então você terá que representa
r sem barba. Mas, senhores, aqui estão os papéis. Peço que os aprendam para am
anhã à noite. Procurem-
me no bosque do palácio, a uma milha da cidade, quando a lua sair. Aí ensaiaremo
s; porque se nos reunirmos na cidade, alguém pode nos descobrir, e todo o plano
será revelado. Nesse meio tempo, farei uma lista dos itens necessários para a repr
esentação. Não faltem.
Bottom: Estaremos lá para ensaiar a peça de forma perfeita e corajosa. Esforcem-
se; sejam perfeitos. Adeus.
Quince: O encontro é junto do carvalho do duque.
Bottom: É quanto basta. Ou vai ou racha!
(Saem.)

Ato II
Cena I
Puck: Olá, espírito! Para onde vais?
Fada: Nos densos cerrados, no bosque, nos belos gramados, vou por todo lado, m
ais rápida que a lua. Sirvo à rainha das fadas, minha senhora, e faço os círculos no
relvado. Ela adora a primavera; seu vestido é dourado e cheio de rubis e perfume.
Eu sacudo as pétalas das rosas à procura das pérolas para que ela as use como pi
ngentes. Adeus, espírito travesso; já vem a fada e os elfos; vou embora.
Puck: O rei está vindo para cá. Cuidado para não se encontrar com a rainha, pois
Oberon está muito irritado por ela ter roubado o gracioso menino da Índia. Ela ach
a que ele é um pajem sem igual. Oberon queria tê-
lo em seu séquito, mas ela não cede. Eles discutem tanto que assustam os elfos,
que se escondem nas bolotas.
Fada: Não estou esquecida. Você é aquele espírito travesso chamado Bom Robim
. Você prega peças nas pessoas, tira a nata do leite, desajusta o moinho, faz a man
teiga não bater e ri do viajante cansado. Mas quem te chama de Puck e trasguinho,
você ajuda com carinho, trazendo sorte. Diga, é você?
Puck: Fada, acertou. Sou o alegre vagabundo noturno que faz brincadeiras para al
egrar Oberon. Ele ri quando eu imito uma égua e assusto as pessoas. Às vezes, me
escondo no jarro de cerveja de uma velha, e quando ela vai beber, eu entorno a cer
veja. A sábia tia, às vezes, pensa que eu sou um banquinho e, quando se senta, cai
. As comadres riem e juram que nunca viram algo assim. Saia; Oberon está vindo.
Fada: E a senhora também. Que ele passe!
(Entra Oberon com seu séquito por um lado, e Titânia com o dela por outro.)
Oberon: Orgulhosa Titânia, é mau nos encontrarmos assim à luz do luar.
Titânia: O ciumento Oberon! Fadas, vamos; eu abjurei do seu leito e companhia.
Oberon: Detenha-se, presunçosa; obedeça às ordens do seu senhor.
Titânia: Então, senhora eu sou. Sei que veio furtivamente, após tomar a forma de
Corino, e cantou versos amorosos a Fílida. Por que veio aqui, deixando a Índia? Ce
rtamente por causa da Amazona que está prestes a casar com Teseu.
Oberon: Não se envergonha, Titânia, de me acusar por meu interesse em Hipólita,
se eu sei que você ama Teseu? Quem não sabe que você ajudou Teseu a fugir de P
erigônia e violar os juramentos a Egle, Ariadne e Antíopa?
Titânia: Isso é seu ciúme falando. Desde aquele verão, não podemos nos reunir se
m suas interrupções. Os ventos, em represália, aspiraram vapores contagiantes, i
nundando os rios e alagando as campinas. O lavrador perdeu o esforço, o trigo fic
ou podre, e os currais estão vazios. As quadras de pelota estão cobertas de lama,
os belos labirintos estão desertos. O frio inverno não chega, e as noites claras não
são mais abençoadas. A lua, cheia de rancor, deixou o ar úmido, causando catarro
s. As estações estão trocadas: geada nas rosas e flores de verão no inverno. Somo
s responsáveis por toda essa desordem.
Oberon: Então, remediem. Por que Titânia sempre contraria Oberon? Não peço m
uito, apenas a criança perdida para ser meu pajem.
Titânia: Tire essa ideia do coração. Nem todo o reino das fadas me faria vender est
e menino. Sua mãe era minha amiga, e muitas vezes passeávamos juntas nas prai
as, admirando os navios. Ríamos das velas enfunadas pelos ventos, ela imitava os
navios, mesmo grávida do meu pajem. Ela morreu ao dar à luz, e eu o criei por amo
r a ela. Não vou deixá-lo.
Oberon: Vai morar neste bosque?
Titânia: Até o casamento de Hipólita e Teseu. Se quiser participar de nossa ronda
e ver nossos jogos à luz da lua, seja bem-vindo. Se não, poupe-
me e eu evitarei seus lugares favoritos.
Oberon: Dê-me o menino e eu irei com você.
Titânia: Nem por todo o seu reino. Vamos, duendes! Ele nunca aprende a ser amig
o da paz.
(Sai Titânia com seu séquito.)
Oberon: Bem, siga seu caminho; deste bosque não sairá sem que eu a atormente
por essa ofensa. Venha aqui, meu gentil Puck. Ainda se lembra quando me sentei
num promontório para ouvir uma sereia cantar no dorso de um golfinho, com melo
dias tão doces que acalmaram o mar bravo e fizeram as estrelas saírem de suas ór
bitas para escutar a canção? Lembra disso?
Puck: Perfeitamente.
Oberon: Naquele instante, vi Cupido, armado, disparar uma flecha amorosa entre
a terra e a lua. Ele mirou uma vestal bela no ocidente e atirou com tal energia que
parecia querer ferir cem mil corações. Mas vi a flecha esfriar sob a influência da lu
a aquosa e dos seus raios castos, deixando a sacerdotisa imperial livre de pensam
entos amorosos. Vi onde caiu a flecha: uma florzinha do ocidente, antes branca co
mo leite, ficou purpurina com a ferida do amor. As garotas a chamam de "Amor ard
ente". Vá buscar essa flor; já lhe mostrei antes. Se aplicarmos seu suco nas pálpeb
ras de um homem ou mulher adormecidos, eles se apaixonarão loucamente pela
primeira pessoa que virem ao despertar. Vá buscar essa planta, mas volte antes qu
e o leviatã tenha nadado duas léguas no vasto mar.
Puck: Circundarei a Terra em quarenta minutos. (Sai.)
Oberon: Com esse suco, surpreenderei Titânia adormecida e aplicarei nos olhos d
ela. Ao despertar, ela se apaixonará pelo primeiro ser que ver, seja leão, urso, lobo,
touro, macaco ou orangotango, e antes de retirar o encanto, farei com que ela entr
egue o pajem. Quem vem aí? Sendo invisível, posso ouvir a conversa.
(Entra Demétrio, seguido de Helena.)
Demétrio: Não te amo; não me persigas. Onde estão Lisandro e a bela Hérmia? Q
uero matá-
lo e ser morto por ela. Disseste que ambos estavam nesta selva, mas procurei por
todo lado e não encontrei Hérmia. Vai! Fora daqui! Não me persigas!
Helena: Ímã de coração endurecido, sou atraída por você, mas meu coração não
é de ferro; é puro como aço. Pare de me aliciar e deixarei de seguir você.
Demétrio: Aliciar você? Já disse que não te amo nem posso amar.
Helena: Por isso mesmo te amo tanto. Sou seu cãozinho. Quanto mais me bater,
mais afável serei. Trate-me como um cãozinho; repila-me, golpeie-me, ignore-
me, mas deixe-
me seguir você. Não posso ter um lugar mais modesto no seu amor, mas para mim
será uma honra ser tratada como seu cãozinho.
Demétrio: Não me force a repugnância; sinto-me mal só de ver seu rosto.
Helena: E eu fico doente quando não te vejo.
Demétrio: Comprometes seu recato saindo da cidade assim, entregando-
se indefesa a um homem que despreza você, confiando às tentações da noite e a
um lugar deserto o tesouro de sua virgindade.
Helena: Sua virtude é minha segurança. Quando vejo seu rosto, a noite deixa de s
er noite; por isso, não presumo que seja noite agora. Nem me falta companhia nes
tes bosques, pois você é o meu mundo todo. Como posso estar sozinha se o meu
mundo todo me contempla?
Demétrio: Vou deixá-la, esconder-me e entregá-la às feras.
Helena: Qualquer fera tem coração mais brando que o seu. Fuja, mas a história m
udará: Apoio perseguirá Dafne, o abutre seguirá a pomba, a gazela correrá atrás do
tigre, a coragem fugirá e a covardia seguirá.
Demétrio: Não quero discutir. Deixe-
me. Se me seguir, vou fazer violência a você no bosque.
Helena: Você me ofende em toda parte. Sua atitude humilha as mulheres. Lutas d
e amor não são para mulheres, mas você não quer me cortejar. (Sai Demétrio.) Vo
u seguir você e transformar o inferno em céu; se morrer por você, ganharei eterna
mente. (Sai.)
Oberon: Adeus, ninfa! Ele não sairá do bosque sem se queixar de você. (Puck retor
na.) Trouxe a flor? Bem-vindo, espírito.
Puck: Aqui está.
Oberon: Obrigado. Sei um lugar onde há um belo canteiro, perfumado com tomilh
o, violetas e rosas. Titânia dorme ali parte da noite, acalentada por canções. Vou c
olocar o suco nos olhos dela, fazendo-
a ter fantasias estranhas. Pegue uma parte do suco e vá à floresta. Encontre uma a
teniense desprezada que se apaixona por um jovem cruel. Quando ele dormir, col
oque um pouco do suco em suas pálpebras. Certifique-
se que ao acordar ele veja a dama que despreza. Você reconhecerá o ateniense po
r suas roupas. Volte antes do amanhecer.
Puck: Pode deixar; vou encontrá-lo.
(Saem.)

Cena II
Outra parte do bosque. Entra Titânia, com seu séquito.
Titânia: Vamos à ronda! Uma canção de fadas! Depois de um terço de minuto, va
mos! Algumas para matar as lagartas nos botões das rosas; outras para fazer guerr
a aos morcegos e tirar suas asas, para fazer casacos para os elfos; outras para esp
antar as corujas que nos olham espantadas. Cantem até que eu durma e depois v
ão trabalhar, deixando-me em paz.
Fadas: Vamos cantar.
Fadas (cantam): Serpentes manchadas, ouriços feios, Sapos nojentos, fujam daq
ui; que nossas vozes os façam sumir, Enquanto nossa rainha dorme aqui. Cantem
conosco, rouxinol, A melodia: lullaby, lullaby. Que nossa música afaste toda a mag
ia. Boa noite, com lullaby.
Aranhas feias, não fiquem perto, correm, besouros, para o deserto, Deixem-
nos quietas no silêncio da mata. Cantem conosco, rouxinol, A melodia: lullaby, lull
aby. Que nossa música afaste toda a magia. Boa noite, com lullaby.
Fadas: Saiamos com cuidado; uma de nós ficará de guarda. (Saem as fadas; Titâni
a dorme.)
(Entra Oberon e espreme a planta nas pálpebras de Titânia.)
Oberon: A primeira criatura que você ver quando acordar, seja urso, gato ou leão, v
ocê amará de coração, como se fosse a flecha de Cupido. (Sai.)
(Entram Lisandro e Hérmia.)
Lisandro: Andamos tanto, querida, você está cansada. Para ser franco, erramos o
caminho. Hérmia, você quer descansar? Está escuro e pode ser perigoso.
Hérmia: Pode preparar um lugar qualquer, que eu durmo neste banco.
Lisandro: Podemos fazer um travesseiro com um punhado de relva. O verdadeiro
amor nunca se divide: duas lealdades, dois corações num leito, sem maldade.
Hérmia: Não, Lisandro; nem mesmo num deserto seria apropriado dormir perto d
e mim.
Lisandro: Querida, não queria te ofender. Falei por alegria. Meu coração bate por v
ocê; nossos corações formam um só, muito amoroso. Se nossas almas estão unid
as pelo amor, vivamos juntos. Em seu leito, me consente, porque sempre estarei p
resente.
Hérmia: Lisandro é muito eloquente. Minha altivez sofreria se eu dissesse que ele
fala com falsidade. Mas, amigo, prove seu carinho. Não falo zangada ou zombando
. Por cortesia e amor, afaste-
se de mim. Falar eloquente não é suficiente; o decoro exige que entre um rapaz vir
tuoso e sua amada haja uma barreira. Por isso, adeus; que sua alma leal seja sem
pre fiel.
Lisandro: Amém; assim encerro esta oração. Sem teu amor, meu coração para. (A
fasta-se.) Este é meu leito; que o sono te acalente.
Hérmia: E te conceda sonhos sorridentes. (Dormem.)
(Entra Puck.)
Puck: Percorri todo o bosque e não encontrei o ateniense para mudar o amor com
esta flor. Noite e silêncio. Que vejo? Um ateniense? Eis o homem de que meu mest
re falou, que não gosta da ateniense apaixonada. Coitadinha! Está longe deste bru
to e frio monge! (Espreme a flor nas pálpebras de Lisandro.) Ora nos olhos, tolo, de
ito este suco porque, com sua magia, você não terá paz até se apaixonar pelo próxi
mo que ver. Acorde logo; Oberon me chamou. (Sai.)
(Entram Demétrio e Helena, correndo.)
Helena: Pare! Mesmo que me dê a morte.
Demétrio: Vai embora! Não me persiga assim.
Helena: Deixa-me neste escuro e vai sozinho?
Demétrio: Para trás! Não me corte o caminho. (Sai Demétrio.)
Helena: Esta caçada amorosa me cansou; meus pedidos só aumentam a desgraç
a. Hérmia é feliz, onde quer que esteja; ninguém tem olhos tão brilhantes. Não é d
e chorar; com tantas lágrimas, eu deveria ter olhos mais brilhantes que o dia. Sim,
sou feia como um urso. As feras fogem de mim. Por que então Demétrio, ao ver me
u amor, também foge? Que espelho infernal me disse que eu sou igual a Hérmia?
Mas, o que vejo? Lisandro aqui? Não pode ser brincadeira. Está dormindo ou mort
o? Não vejo ferida ou arma. Lisandro, acorde! Está doente?
Lisandro (despertando): Ó, transparente Helena! Me jogarei no fogo por você. A n
atureza mostra, neste ímpeto, sua arte sublime, permitindo que eu veja seu coraçã
o puro e lindo. Diga-
me: onde está Demétrio, aquele vilão? Que nome vil! Não vale nada, exceto para s
er cortado pela espada.
Helena: Não, bom Lisandro; não diga isso. Só porque ele ama Hérmia? Ela te ama;
fique feliz.
Lisandro: Com o amor de Hérmia? Não, não sou louco. Lamento as horas que pas
sei com ela, cheias de tédio. Amo Helena; Hérmia era um estorvo. Quem não troca
uma rolinha por um corvo? A razão me leva ao seu valor. Amadureci. Antes, era jov
em; agora, sou homem, guiado pela razão, que vê em seus olhos um livro de amor.
Helena: Por que nasci para tanta afronta? O que fiz? Suas palavras me assustam.
Não basta que eu nunca tenha conquistado Demétrio, para que você zombe de mi
m? É desonroso cortejar-
me assim. Passar bem; confesso que nunca pensei que fosse tão indelicado. Só p
orque um jovem despreza uma donzela, não significa que outro deva abusar dela. (
Sai.)
Lisandro: Hérmia não percebeu. Durma até o dia, pois sua magia não tem poder s
obre mim. Como a indigestão vem dos doces, e as heresias são odiadas por quem
as sofreu: você, minha indigestão, minha heresia, será odiada por mim. No amor s
erei verdadeiro, sendo o cavaleiro de Helena bela. (Sai.)
Hérmia (despertando): Lisandro, socorro! Tire a serpente que me causa dor no pe
ito. Só em você encontro refúgio; veja como o medo me deixou trêmula. Pareceu-
me que uma serpente devorava meu peito, e você tão satisfeito! Lisandro! Fale! Já
foi embora? Não responde? Fale rápido. Tremo de susto. Onde está? Por todos os
amores, responda. Sinto que você não está ao meu lado; vou te achar e acabar co
m isso. (Sai.)

Ato III
Cena I
Um bosque. Titânia está deitada, dormindo. Entram Quince, Snug, Bottom, Flauta,
Snout e Starveling.
Bottom: Estamos todos reunidos?
Quince: Sim, todos aqui. Este lugar é perfeito para ensaiarmos. Este chão verde é
nosso palco e esta sebe de madressilvas é nosso camarim. Vamos representar co
mo se estivéssemos diante do duque.
Bottom: Peter Quince...
Quince: O que você diz, valente Bottom?
Bottom: Nesta comédia de Píramo e Tísbe há coisas que não vão agradar. Primeiro
: Píramo terá de sacar a espada para se matar, o que vai assustar as senhoras. O q
ue acham disso?
Snout: Isso é perigoso!
Starveling: Acho que devemos suprimir a parte da morte.
Bottom: De jeito nenhum. Tenho uma ideia que resolve isso. Escreva um prólogo d
izendo que não causamos nenhum mal com as espadas e que Píramo não morre d
e verdade. E, para tranquilizar, diga que eu, Píramo, sou Bottom, o tecelão. Isso os
deixará tranquilos.
Quince: Boa ideia; faremos um prólogo em versos de seis e oito sílabas.
Bottom: Não! Acrescenta mais duas sílabas e escreve em versos de oito e oito.
Snout: E o leão? Não vai assustar as senhoras?
Starveling: Também pensei nisso.
Bottom: Mestres, precisamos pensar bem. Trazer um leão para o meio de senhora
s é pavoroso. Precisamos considerar isso.
Snout: Então, será melhor um prólogo dizendo que não é um leão de verdade.
Bottom: Não, basta dizer o nome de quem faz o papel do leão e mostrar o rosto atr
avés do pescoço do leão. E ele falará assim: "Senhoras, ou lindas senhoras, não te
nham medo. Minha vida pela sua. Se pensam que sou um leão, minha vida não val
e nada. Não, sou um homem como vocês. Meu nome é Snug, o marceneiro."
Quince: Boa ideia; faremos isso. Mas temos mais dois problemas: precisamos de l
uar, porque Píramo e Tisbe se encontram à luz da lua.
Snug: Haverá lua na noite da nossa apresentação?
Bottom: Um calendário! Um calendário! Veja no almanaque! Procure o luar!
Quince: Há lua, realmente, nessa noite.
Bottom: Então, basta deixar aberta uma janela para que o luar entre.
Quince: Boa ideia, mas será melhor alguém entrar com uma lanterna e um feixe d
e espinhos, dizendo que representa o luar. E precisamos de um muro, porque Píra
mo e Tisbe conversam através de uma fenda no muro.
Snug: Não podemos trazer um muro. O que acha, Bottom?
Bottom: Alguém deve fazer o papel de muro, com um pouco de gesso na roupa, pa
ra parecer um muro, e colocar os dedos assim para Píramo e Tisbe falarem através
da fenda.
Quince: Assim ficará bom. Agora, quem tiver falas deve ensaiar. Píramo, comece;
depois de recitar sua parte, vá para a sebe; os outros farão o mesmo, conforme as
deixas.
(Entra Puck.)
Puck: Quem são esses rudes que gritam tão perto do lugar onde nossa rainha repo
usa? Um ensaio teatral! Ótimo. Vou assistir e talvez até atuar.
Quince: Fale, Píramo! Tisbe, venha para a frente!
Bottom: “Tisbe, como as flores horrorosas...”
Quince: Odorosas! Odorosas!
Bottom: “... as flores odorosas, seu hálito, querida, é perfumado. Mas ouço vozes;
um momento, espera-me: vou voltar logo para você.” (Sai.)
Puck: Nunca se viu um Píramo como este. (Sai.)
Flauta: Sou eu que falo agora?
Quince: Sim! Ele saiu só para verificar o barulho; já volta.
Flauta: “Ó Píramo radiante, ao lírio igual, tão rubro quanto a rosa, esperto juvenil, j
udeu sacerdotal, fiel como potro em rápida carreira. No túmulo de Nino eu te enco
ntrarei.”
Quince: “Túmulo de Nino”, homem! Não é hora de dizer isso. Só quando responde
r a Píramo. Diga tudo de novo.
Flauta: Oh! “Fiel como potro em rápida carreira.”
(Entra Puck com Bottom, agora com cabeça de burro.)
Bottom: “Tudo isso, ó bela Tisbe, em teu regaço eu ponho...”
Quince: Oh! Terrível! Monstruoso! Estamos enfeitiçados! Fugi, mestres! Socorro! (
Saem os comediantes.)

Puck: Vou perseguir vocês sem descanso, por vales, montes, pela mata densa; or
a como cavalo, morcego, sapo, chama, urso sem cabeça; cavalo, leão, macaco, o
u burro, vou relinchar, rugir, guinchar e zurrar. (Sai.)
Bottom: Por que eles correram? Devem ter imaginado alguma travessura para me
assustar.
Snout: Bottom, você está diferente! O que há na sua cabeça?
Bottom: O que você vê? Vê uma cabeça de burro, a sua; não é isso? (Sai Snout.)
Quince: Deus te abençoe, Bottom! Deus te abençoe. Você está transformado. (Sai
.)
Bottom: Entendi a brincadeira. Querem me fazer de burro, para me assustar, com
o se isso fosse possível. Mas façam o que quiserem, não sairei daqui. Vou andar p
or aí, e cantar para que eles saibam que não estou com medo.
Bottom: O melro negro e esperto de biquinho alaranjado, o tordo de voz bonita, o c
arricinho espantado...
Titânia (acordando): Que anjo me desperta do meu leito de flores?
Bottom: O pardal, a cotovia, a rolinha, o tentilhão, o cuco cantando durante o dia,
sem que os homens digam "Não", porque, na verdade, quem discutiria com um pá
ssaro tão estúpido? Quem diria a um pássaro que ele mente, por mais que ele repi
ta "Cuco"?
Titânia: Cante outra vez, gentil mortal, por favor. Sua voz encanta meus ouvidos e
sua aparência arrebata meus olhos. Sua beleza me enleva e comove, e eu declaro,
sem mais desculpas, que te amo.
Bottom: Parece-
me, senhora, que sua razão é bem pequena. No entanto, hoje em dia, a razão e o a
mor quase nunca andam juntos. É uma pena que alguns vizinhos honestos não se
esforcem para deixá-
los amigos. Como vê, eu também posso ser espirituoso quando a ocasião se apres
enta.
Titânia: És tão sábio quanto belo.
Bottom: Nem tanto assim; se eu tivesse inteligência suficiente para sair deste bos
que, teria tudo o que preciso.
Titânia: Não coloque seu coração em outro lugar; você ficará no bosque, queira ou
não. Sou um espírito sincero; no meu país, é sempre verão, e eu te amo. Por isso, v
enha; você terá belos silfos que te trarão jóias do mar profundo, e te farão dormir f
eliz. Vou te livrar da grosseria mortal e transformar em espírito aéreo. Traça! Mosta
rda! Flor-de-Ervilha! Teia!
(Entram quatro silfos)
Traça: Pronto!
Semente-de-Mostarda: Eu também!
Flor-de-Ervilha: Aqui!
Todos Quatro: Para onde iremos?
Titânia: Sejam corteses com este gentil-
homem; dancem ao redor dele, dando saltos graciosos, para agradar sua vista. Dê
em-
lhe damascos doces, uvas rosadas, figos verdes e amoras. Aliviem as abelhas chei
as de mel. Façam um candeeiro com suas pernas, acendam-no com vaga-
lumes, e amarrem asas de mariposa transparente para que os raios da lua não ma
chuquem seus olhos. Elfos, cumprimentem-no alegremente.
Flor-de-Ervilha: Salve, mortal!
Teia-de-Aranha: Salve!
Traça: Salve!
Bottom: De todo o coração, peço perdão a Vossas Senhorias. Como é que Vossa S
enhoria se chama?
Teia-de-Aranha: Teia-de-Aranha.
Bottom: Desejo conhecê-lo melhor, meu bom mestre Teia-de-
Aranha. Quando eu me cortar, terei a ousadia de usar sua teia. E seu nome, honest
o cavalheiro?
Flor-de-Ervilha: Flor-de-Ervilha.
Bottom: Peço que me recomende à senhora Vagem, sua mãe, e ao mestre Grão-
de-Bico, seu pai. Caro mestre Flor-de-
Ervilha, espero que em breve estreitemos as relações. E seu nome, senhor, por fav
or?
Semente-de-Mostarda: Semente-de-Mostarda.
Bottom: Caro mestre Semente-de-
Mostarda, conheço bem sua paciência. O covarde Rosbife já devorou muitos caval
eiros de sua casa. Seus parentes já me deixaram muitas vezes com os olhos cheio
s de lágrimas. Desejo conhecê-lo melhor, caro mestre Semente-de-Mostarda.
Titânia: Levem-
no para o quarto de boninas. A lua úmida espalha sua claridade. Quando ela chora
, as flores pequeninas choram a perda de uma virgindade. Amarrem sua língua, m
as com bondade.
(Saem).

Cena II
Outra parte do bosque. Entra Oberon.

Oberon: Gostaria de saber se Titânia já acordou e o que ela viu primeiro que a fez s
e apaixonar. Ah, aí vem meu mensageiro. (Entra Puck.) Então, espírito travesso, qu
al foi a brincadeira mais estranha que você fez neste bosque mágico?
Puck: A rainha se apaixonou loucamente por um monstro. Bem na frente do lugar
sagrado onde ela dormia tranquilamente, um grupo de artesãos de Atenas ensaiav
a uma peça de mau gosto para o casamento de Teseu e Hipólita. O mais rude dele
s, que fazia o papel de Píramo, saiu da cena por um momento. Então, aproveitei a
ocasião para transformá-
lo, colocando uma cabeça de burro sobre os ombros dele. Quando Tisbe deveria r
esponder na peça, os outros artesãos, ao verem a transformação, fugiram assusta
dos como patos selvagens ao perceberem um caçador. Eles caíram uns sobre os o
utros, gritando por socorro: "Atenas! Morro!" Quanto mais assustados ficavam, ma
is eles corriam e se machucavam, deixando pedaços de roupas e chapéus pelos e
spinhos do caminho. Deixei-
os ir, dominados pelo medo, e nosso Píramo ficou sozinho, transformado em burro
. Nesse momento, Titânia acordou e se apaixonou loucamente pelo monstro à sua
frente.
Oberon: Melhor plano eu não poderia ter imaginado. E sobre a magia da planta no
ateniense, você fez o que pedi?
Puck: Encontrei-
o dormindo e fiz o que você pediu. Ao lado dele estava a ateniense desprezada qu
e agora ele vai amar.
(Entram Demétrio e Hérmia)
Oberon: Fique de lado; aí está o ateniense insensível.
Puck: Ela é a mesma, mas esse é outro, tenho certeza.
Demétrio: Por que você fala assim comigo? Deixe os rigores para seu inimigo.
Hérmia: Agora aceito suas censuras, mas as razões que você me dá aumentam mi
nha raiva. Se você tirou a vida de Lisandro enquanto dormia e manchou seus pés d
e sangue, continue a devastação e mate-
me também! O sol não era tão fiel ao dia quanto ele a mim. Ele fugir de mim seria c
omo acreditar que a terra emitisse a luz da lua, deixando o sol preso ao meio-
dia. Não tenho dúvida: você é um assassino; seu rosto e olhar o denunciam.
Demétrio: Parece que fui assassinado, não que sou um assassino, pois sua crueld
ade me transpassou. Mas você brilha com tanta claridade, mesmo com essa feiçã
o dura e severa, como a luzente Vênus no céu.
Hérmia: O que isso tem a ver com Lisandro agora? Ah, bom Demétrio, diga logo.
Demétrio: Eu antes jogaria sua carcaça aos cães.
Hérmia: Sai, monstro! Cão! Sua desfaçatez esgota minha paciência. Já não tenho
esperança. Sei que você o matou; mas, como um covarde, deve fugir dos homens
de agora em diante. Oh! Por amor a mim, conte-
me tudo; na minha dor encontro consolo. Você evitava olhá-
lo de frente e o matou enquanto dormia? Oh, coração cruel! Algum verme ou cobr
a poderia fazer obra tão hedionda tão depressa? Uma víbora dá uma picada meno
s pungente que você, serpente!
Demétrio: Seu medo está baseado num erro. Se Lisandro está mal, não sou culpa
do, e nem sei se está morto.
Hérmia: Então, diga, por favor, que ele está bem.
Demétrio: Se eu disser, que vantagem isso me traz?
Hérmia: A de nunca mais me ver; um serviço maior não há, como faço agora, seja
você culpado ou não em sua morte. (Sai.)
Demétrio: Nessa disposição não posso segui-
la. Vou esperar que fique mais tranquila e procurar dormir. Quando o sono falha, a
resistência à tristeza diminui. Dessa forma, talvez suporte melhor esse peso. (Deit
a-se e dorme.)
Oberon: O que você fez? Houve um erro; você colocou o suco em um amante hon
esto, deixando um fiel namorado traído sem castigo.
Puck: Foi o destino; para um sincero amante, mil falsos sempre há.
Oberon: Percorra o bosque mais rápido que o vento e encontre Helena de Atenas.
Traga-a aqui enquanto eu mudo o coração do infiel.
Puck: Já vou! Já vou! Veja como vou rápido, como uma flecha do Tártaro. (Sai.)
Oberon: Botão de rosa ferido pela flecha de Cupido, (Espreme a flor nos olhos de
Demétrio.) entre no coração deste jovem adormecido. Ao despertar, ao som de su
a voz, que seu coração se renda.
Puck (voltando): Capitão dos duendes, Helena está vindo, e o jovem também. De
vemos continuar com a brincadeira? Oh, mestre! Como são loucos os mortais! Sã
o poucos os sensatos.
Oberon: Saia de perto; quando o casal chegar, Demétrio acordará.
Puck: Dois homens apaixonados por uma só mulher! Não há diversão maior que u
m ciúme verdadeiro.
(Entram Helena e Lisandro.)
Lisandro: Por que você acha que estou brincando? Se fosse brincadeira, eu não c
horaria tanto. Minhas lágrimas provam a magia de sua rara beleza. Como pode hav
er dúvida no meu amor, se minha fé está com você?
Helena: Sua ousadia aumenta; é uma disputa santa e infernal matar o amor com j
uras. Sua fé era só de Hérmia; você a abandona? Suas promessas são falsas. Pare
ce um conto mentiroso jurar amor a nós duas ao mesmo tempo.
Lisandro: Quando jurei amor a ela, eu estava sem juízo.
Helena: E ao deixá-la, menos ainda.
Lisandro: Demétrio idolatra Hérmia e despreza você.
Demétrio (despertando): Ó Helena, deusa, ninfa, nada é mais fascinante que o br
ilho de seus olhos. O cristal parece baço perto deles; seus lábios são como cereja
s, sempre falando de amor. A neve do Monte Tauro parece um corvo ao lado de sua
mão delicada. Vou beijar esses lábios, feitos de luz pura!
Helena: Oh dor! Vejo que estão de acordo para zombar de mim. Se tivessem respe
ito, não me ofenderiam assim. Odiar-
me não basta; zombam de mim nesta farsa cruel. Se fossem verdadeiros cavalheir
os, não se comportariam assim, fazendo-
me chorar enquanto estou indefesa. Nenhum cavalheiro ofenderia uma virgem ass
im por diversão.
Lisandro: Demétrio, você é cruel; tenho certeza de que ama Hérmia. Serei franco:
cedo a você meu direito ao amor dela; e você me cederá seu direito ao amor de He
lena.
Helena: Nunca ouvi declaração tão vã.
Demétrio: Lisandro, não me alegra. Não quero mais saber de Hérmia. Se algum di
a a amei, está acabado. Esse amor foi um hóspede em meu coração, mas agora re
tornou a Helena.
Lisandro: Não acredite nisso, Helena.
Demétrio: Não despreze meu coração aflito. Se insistir, provará minha espada. Ma
s aí vem sua amada.
Hérmia: A noite tira a visão, mas torna o ouvido mais aguçado. Quanto mais a visã
o perde, mais os outros sentidos ganham. Bom Lisandro, não te encontrei com a vi
sta. Se estou ao teu lado, é porque tua voz me guiou. Por que me abandonaste sozi
nha?
Lisandro: Para ver meu amor, minha rainha.
Hérmia: Que rainha ou amor te afasta de mim?
Lisandro: A amada de Lisandro, a bela Helena, que ao teu lado não me deixava fic
ar. Ela brilha, iluminando a noite escura mais que as estrelas. Por que me buscas?
Não viste ainda que sinto antipatia por ti?
Hérmia: Não dizes o que pensas; é impossível.
Helena: Hérmia está com eles; será possível? Vejo que os três estão juntos nesta
brincadeira para zombar de mim. Ó
ingrata, Hérmia, como podes se unir a esses dois para me escarnecer? Esquecest
e nossas confidências, nossos votos de irmãs, nossos momentos de conversa ami
gável, a amizade dos bancos escolares, a inocência da infância? Hérmia, nós duas
como deusas prendadas, tecemos a mesma flor, sentadas juntas, cantando as m
esmas canções, como se tivéssemos corpos, mãos, almas e vozes em comum. Cr
escemos juntas, unidas; dois frutos num só talo, um coração em dois corpos, com
o dois escudos com uma só crista. Quer romper essa amizade para se unir a esses
moços que zombam de mim? Isso não é amizade, nem conduta feminina. Todo o
meu sexo te condena, embora só eu sinta a injúria.
Hérmia: Esse discurso me espanta. Não zombo de ti; creio que sou alvo da tua zo
mbaria.
Helena: Não instigaste Lisandro a me seguir e elogiar meus olhos e figura por zom
baria? Não fizeste Demétrio, teu admirador, que antes me repelia, me chamar de n
infa, deusa, rara, preciosa, celestial? Por que ele fala assim a quem detesta? Por q
ue Lisandro é falso ao teu amor e declara amor por mim, se não foi instigado por ti
? Por ser destituída dos teus encantos e não ter sorte no amor, amando sem ser co
rrespondida? Isso deveria causar piedade, não desprezo.
Hérmia: Não entendo o que você está dizendo.
Helena: Continuem fingindo olhares tristes e, quando eu me virar, façam caretas;
pisquem um para o outro; continuem com essa brincadeira bem planejada. Se tive
ssem moral, piedade ou sentimento, não me escolheriam para objeto de diversão.
Mas passem bem; em parte é minha culpa; a ausência ou a morte será o remédio.
Lisandro: Não vá, gentil Helena; ouça meus votos, amor, vida, minha alma, Helen
a linda!
Helena: Admirável!
Hérmia: Meu bem, não zombe dela.
Demétrio: Se os pedidos de Hérmia não te convencem, usarei a força.
Lisandro: Suas ameaças me obrigam tanto quanto o pedido dela. Amo você, Hele
na. Sim, por minha vida, por esta vida que arrisco por você, juro provar que é falso
quem diz que não te adoro.
Demétrio: Meu amor é maior que o dele, afirmo.
Lisandro: Então venha comigo.
Demétrio: Neste instante.
Hérmia: Lisandro, o que está acontecendo?
Lisandro: Para trás, negra etíope!
Demétrio: Ele finge estar furioso, mas realmente se abstém de me seguir. Homem
pacato, vamos!
Lisandro (a Hérmia): Gata, vá se enforcar! Bardana! Monstro! Se não, será tratada
como víbora.
Hérmia: Por que está tão rude de repente? Qual a causa, meu bem, dessa mudan
ça?
Lisandro: Teu bem, Tártara escura? Para trás, vomitório! Veneno odioso, fora!
Hérmia: Está brincando?
Helena: Sim, e você com ele.
Lisandro: Demétrio, manterei minha palavra.
Demétrio: Quisera ter a obrigação escrita por sua própria mão, pois vejo que sua p
alavra não vale nada.
Lisandro: Como! Devo bater nela? Assassiná-
la? Embora a odeie, não desejo mal a ela.
Hérmia: Como! Existe mal maior do que me odiar assim? Por quê? Por quê? Oh De
us! Amor, o que houve? Não sou mais Hérmia e você não é mais Lisandro? Sou tão
bonita agora quanto antes. Você me amava esta noite, e agora me rejeita. Será que
você me deixou de propósito? Diga: é isso?
Lisandro: Sim, por minha vida, e não quero te ver nunca mais. Perde a esperança;
não se iluda, não me faça perguntas sem sentido. Não é brincadeira, pode ter cert
eza; nada é mais verdadeiro; te odeio e amo Helena apaixonadamente.
Hérmia: Ai de mim! Feiticeira! Vil ladra de amor! Você veio à noite para roubar o co
ração do meu amado?
Helena: Fina, realmente! Não tem pudor, modéstia, vergonha? Será possível? Que
r forçar minha boca a dar respostas impacientes? Oh! Que vergonha! Fora, boneca
falsa!
Hérmia: Boneca! Agora entendo a brincadeira. Percebo que ela comparou nossas
alturas, insistindo em sua estatura mais alta, em sua aparência elevada, e assim o
seduziu. Subiu tanto na estima dele só porque sou pequena? Qual é minha estatu
ra? Vamos, fale, vara de pescar. Sou pequena, não é? Mas não tanto que não poss
a alcançar seus olhos com minhas unhas.
Helena: Senhores, embora todos estejam zombando de mim, por favor, não deixe
m que ela me machuque. Nunca fui má, nem gosto de discussões; sou mulher até
na minha covardia. Não deixem que ela me bata, pois não acham que, por ser mai
s baixa, eu possa dominá-la.
Hérmia: Baixa, baixa outra vez.
Helena: Hérmia bondosa, não fique zangada comigo. Sempre te amei; nunca te of
endi e sempre fui discreta com suas confidências. Só por amor a Demétrio, revelei
que você planejava fugir para este bosque; ele te seguiu; eu o segui também, por
amor a ele, mas fui repelida, ameaçada de pancada e até de morte. Mas agora, se
me deixar ir em paz, não te seguirei mais; volto para Atenas com minha loucura. Si
m, deixe-me; veja como sou simples e dócil.
Hérmia: Volte logo; quem te retém?
Helena: O louco coração que deixo para trás.
Hérmia: Com Lisandro, não é?
Helena: Não, com Demétrio.
Lisandro: Não tenha medo, Helena; ela não te causará dano.
Demétrio: De jeito nenhum, senhor, mesmo que você fique do lado dela.
Helena: Quando zangada, ela fica sarcástica e arrebatada. Era uma verdadeira rap
osa na escola; apesar de pequena, é perigosa.
Hérmia: "Pequena", sempre; é só "pequena" e "baixa". Permite que me insulte assi
m? Deixe-me segurá-la um momento.
Lisandro: Para trás, anãzinha! Dedo mínimo, ser composto de grama, semente, co
nta de rosário, fora!
Demétrio: Insiste demais com uma dama que não aceita seus serviços. Deixe-
a só; não fale mais de Helena, nem tome seu partido, pois se demonstrar amor por
ela, pagará caro.
Lisandro: Ela já não me prende. Se tem coragem, siga-
me; vejamos qual de nós dois tem direito a Helena.
Demétrio: Seguir você? Não! Irei junto, rosto a rosto. (Saem Lisandro e Demétrio.)
Hérmia: Você é a causa dessa briga; não convém sair.
Helena: Não confio em você; não quero ficar aqui. Se você pode me machucar, eu
posso correr rápido. (Sai.)
Hérmia: Não sei o que pensar dessas reviravoltas. (Sai.)
Oberon: Tudo isso é por sua negligência. Sempre se engana, a menos que seja um
a brincadeira voluntária.
Puck: Ó rei das sombras, pode acreditar em mim: houve um erro. Você disse que e
u reconheceria o jovem ateniense pelas roupas. Não mereço censura desta vez; e
ncantado deixei um jovem namorado ateniense. Mas me alegra ver tudo assim con
fuso; para mim, não há melhor diversão.
Oberon: Você viu que os dois rivais foram buscar uma clareira para um duelo. Dep
ressa, bom Robim, espalhe as trevas do Aqueronte entre eles; afaste os jovens ap
aixonados e faça-
os andar por caminhos diferentes. Imite a voz aguda de Lisandro para irritar mais D
emétrio; ou finja a voz de Demétrio, para que nunca se encontrem, e, cansados, se
jam surpreendidos pelo sono. Depois, nos olhos de Lisandro, esprema este outro s
uco para restaurar sua clareza de visão, libertando-
o da ilusão. Despertos, pensarão que esta confusão foi apenas um sonho. Voltarã
o a Atenas, os dois casais de namorados, unidos para sempre. Enquanto você faz i
sso, pedirei a Titânia o pajem e tirarei o encanto que a faz amar um monstro.
Puck: Meu rei dos duendes, isso será feito com toda a pressa. Os dragões da noite
escura já afastam as nuvens negras. Logo, veremos a aurora, e os espíritos procura
rão logo o cemitério; os espectros dos que morreram voltarão aos seus túmulos. C
om medo de mostrar suas vergonhas, esconderão suas faces na noite escura.
Oberon: Nossa essência é diferente. Costumo me divertir com o amante da Auror
a, no nascente. Às vezes, como caçador, gosto de andar pela terra até que o sol na
sça, colorindo o mar. Mas apresse-
se; a magia deve ser rápida; precisamos fazer tudo antes do dia.
(Sai Oberon.)
Puck: Com toda a velocidade vou trazê-
los. Nenhum escapará. Minha vontade prevalece na cidade e nas choupanas. Vou
trazê-los com velocidade. Lá vem um.
(Entra Lisandro.)
Lisandro: Sua fúria, Demétrio, deu em nada?
Puck: Aqui, vilão! Arranque logo a espada!
Lisandro: Já vou! Já vou!
Puck: Então, me acompanhe à clareira. (Sai Lisandro na direção da voz.)
(Volta Demétrio.)
Demétrio: Lisandro, sua fuga impede que eu saiba onde você se esconde.
Puck: Covarde, você luta com as estrelas? Ou com as árvores? Manda-me segui-
lo e se esconde? Bonito duelo! Venha, menino; uma vara de marmelo é suficiente
para puni-lo.
Demétrio: Já vai ver. Onde está?
Puck: É fácil seguir minha voz.
(Saem.)
(Volta Lisandro.)
Lisandro: Ele sempre está à frente; mas, ao tentar pegá-
lo, estou sozinho. Corro, mas ele é mais rápido; só tem forças nas pernas e na voz.
Estou exausto de tanta correria. Vou descansar. (Deita-
se.) Vem, dia abençoado! Se eu vir sua luz novamente, Demétrio pagará por essa v
ergonha. (Dorme.)
(Voltam Puck e Demétrio.)
Puck: Olá, covarde! Onde você se esconde?
Demétrio: Pare, se tem coragem. Não responde? Corre para todo lado, mudando
de lugar, sem que eu possa ver seu rosto. Onde está?
Puck: Aqui mesmo; não fuja.
Demétrio: Vamos brigar no claro; só corujas podem ver nesta escuridão. Se eu te
pegar de dia... A exaustão me obriga a descansar... (Deita-se e dorme.)
(Volta Helena.)
Helena: Ó noite tediosa e cansativa, passe rápido! Vem, radiante aurora, para que
eu chegue viva a Atenas, livre de quem minha alma implora em vão. Sono, que faz
esquecer a agonia, liberte-me da minha companhia. (Deita-se e dorme.)
Puck: Só três? Falta mais um para que o outro casal descontente fique completo.
Coitada! Como vem triste e cansada, transtornada por Cupido!
(Volta Hérmia.)
Hérmia: Jamais senti tanta dor e cansaço; estou toda molhada e dilacerada; não p
osso dar mais um passo; meus pés não me obedecem. Esperarei aqui o dia belo;
Deus proteja Lisandro nesse duelo. (Deita-se e dorme.)
Puck: No solo duro dorme; conjuro para que o efeito transforme o coração deste n
amorado. (Deita o suco nos olhos de Lisandro.) Quando acordar, que se renda ao a
ntigo amor. Cada mulher com um varão, diz o velho ditado com muita boa intençã
o. Com simplicidade, João pega Joana. Quem tem boa companheira, acha que tud
o está bem. (Sai.)

Ato IV

Cena I
Bosque. Lisandro, Demétrio, Helena e Hérmia dormem. Entram Titânia e Bottom,
com o séquito de silfos. Oberon, atrás, invisível.

Titânia: Vem sentar-


se entre as flores perfumadas, para que eu possa acariciar seu rosto, cobrir sua ca
beça com rosas e beijar suas orelhas elegantes.
Bottom: Onde está Flor-de-Ervilha?
Flor-de-Ervilha: Presente!
Bottom: Flor-de-Ervilha, coce minha cabeça. Onde está Monsieur Teia-de-
Aranha?
Teia-de-Aranha: Presente!
Bottom: Monsieur Teia-de-
Aranha, tome suas armas e mate a abelha de ancas vermelhas naquele cardo e tra
ga seu saco de mel. Não se apresse muito e cuidado para não romper o saco de m
el. Ficaria triste de vê-lo coberto de mel. Onde está Monsieur Semente-de-
Mostarda?
Semente-de-Mostarda: Presente!
Bottom: Dê-me sua mão, Monsieur Semente-de-
Mostarda. Deixe esses cumprimentos, meu caro monsieur.
Semente-de-Mostarda: O que ordena?
Bottom: Nada, a não ser que queira ajudar o Cavaleiro Teia-de-
Aranha a me coçar. Preciso ir ao barbeiro, pois parece que estou com o rosto cheio
de pelos. Sou um asno tão delicado que, se um pelo me faz cócegas, preciso me a
rranhar.
Titânia: Amor, deseja ouvir boa música?
Bottom: Tenho ouvido razoavelmente musical. Que venham os tambores e martel
os.
Titânia: Ou diga o que prefere comer, amor.
Bottom: Magnífico! Um pouco de forragem. Também mastigaria aveia seca com g
osto. Acho que aceitaria um feixe de feno. Nada se compara ao feno perfumado!
Titânia: Tenho um silfo travesso e esperto, capaz de trazer nozes do celeiro do esq
uilo irrequieto num instante.
Bottom: Preferiria um ou dois punhados de ervilhas secas. Mas, por favor, não per
mita que sua gente me perturbe. Sinto-me tomado por um grande sono.
Titânia: Durma, enquanto esses braços te acalentam. Elfos, partam depressa; dis
persem-
se! (Saem os elfos.) Assim se enlaçam, gentilmente, a rude madressilva e a dos bo
sques, perfumada; a hera, desta arte, com meiguice, os dedos do olmo docement
e afaga. Quanto te quero! Quanto te idolatro!
(Adormecem.)
(Entra Puck.)
Oberon: Bem-
vindo, bom Robim. Veja que cena! Sua loucura agora me dá pena. Quando a encon
trei, atrás do bosque, procurando presentes para este odioso burro, repreendi-
a por ter adornado as fontes cabeludas com grinaldas de flores perfumadas. As go
tas de orvalho pareciam lágrimas de desgraça. Depois de censurá-
la e ela me pedir paciência em termos brandos, pedi o pajem, e ela de boa vontad
e me concedeu, mandando que seus elfos o levassem para meus aposentos no rei
no das fadas. Agora, com o menino em mãos, vou tirar-
lhe dos olhos o feitiço intolerável. Gentil Puck, retire a cabeça de burro do atenien
se, para que, ao despertar, ele e os outros voltem para a cidade, convencidos de q
ue os eventos desta noite foram apenas pesadelos. Mas primeiro quero desencant
ar nossa rainha.
(Tocando os olhos de Titânia com uma erva.)
Como eras antes, serás; como antes vias, verás; pois o botão de Diana desfaz o fei
tiço de Cupido. Titânia, minha flor, desperta!
Titânia: Meu Oberon, que pesadelo horrível! Parecia que eu estava apaixonada por
um burro.
Oberon: Ali, veja, está seu amor.
Titânia: Como isso foi possível? Que visão horrível!
Oberon: Silêncio por um momento. Sem demora, transforme-
o de volta, bom Robim. Titânia, agora mande vir música e em sono profundo merg
ulhe todos.
Titânia: Música, olá! para encantar o sono!
(Música.)
Puck: Quando despertar, verá um bobo.
Oberon: Músicos, continuem! Vamos, querida, de mãos dadas. Vamos nos esforç
ar para que todos que sonharam esta noite tenham uma vida feliz. Nossa discórdia
se transformou em harmonia, e amanhã dançaremos solenemente à meia-
noite em frente ao quarto de Teseu, para abençoar sua grande prole, e todos comp
arecerão alegremente ao altar para cultuar Amor, o deus potente.
Puck: Rei dos duendes, já anuncia a manhã a cotovia.
Oberon: Então, querida, sigamos a ventura da noite escura; podemos dar a volta a
o mundo em pouco mais de um segundo.
Titânia: Vamos, amor; no caminho, me conte como me encontrou dormindo neste
contraste.
(Saem.)
(ouve-se toque de trompa. Entram Teseu, Hipólita, Egeu e séquito).
Teseu: Alguém vá chamar o guarda-
caça. Terminamos o ritual sagrado e, como temos a manhã livre, minha amada vai
apreciar a orquestra dos meus lebréis. Desatem-nos no vale do oeste e deixem-
nos correr livremente. Rápido, chamem o guarda-
caça. Minha rainha, do alto daquele monte ouviremos melhor os ecos dos latidos.
Hipólita: Estive com Hércules e Cadmo quando caçaram o urso na floresta de Cre
ta com cães de Esparta. Tão galante barulho nunca ouvi; o bosque, o céu, as fonte
s, tudo era uma gritaria. Jamais ouvi música tão discordante e agradável.
Teseu: Meus cães também vêm de Esparta; têm o focinho manchado, orelhas caíd
as, pernas tortas e papadas, como touros da Tessália. Embora um pouco lentos na
caça, quando ladram, parecem toques de sinos; gritaria mais harmoniosa nunca
se ouviu em Tessália, Creta ou Esparta. Julgarás por si mesma. Mas, devagar! Que
m são essas ninfas?
Egeu: Esta, milorde, é minha filha; dorme profundamente. Ali está Lisandro; aquel
e é Demétrio; e ali está Helena, filha do velho Nedar. Espanta-me encontrá-
los juntos aqui.
Teseu: Decerto madrugaram para os ritos de maio e, ouvindo de nossas intenções,
vieram para dar graça aos festejos. Mas, Egeu, hoje não é o dia em que Hérmia de
ve decidir sobre o noivo?
Egeu: Sim, milorde.
Teseu: Mandem os caçadores acordá-
los com as trompas. (No interior, toque de trompa e gritos. Lisandro, Demétrio, Hér
mia e Helena acordam e se levantam.) Amigos, bom dia! Já passou São Valentim; s
ó agora esses pássaros se casam?
Lisandro: Perdão, milorde.
(Lisandro e os demais se ajoelham.)
Teseu: Levantem-
se, por favor. Sei que vocês dois são rivais e inimigos. Onde já se viu tanta concord
ância, que o ódio durma ao lado do ódio?
Lisandro: Confuso, meu bom lorde, falo meio a dormir, ainda mal desperto. Não s
ei como cheguei aqui. Mas, se não me engano — e quero ser veraz em tudo... Sim,
agora lembro — fugi com Hérmia, querendo ir para longe de Atenas, para fugir das
leis atenienses.
Egeu: Basta, milorde! É o suficiente. Exijo que a lei recaia sobre ele. Eles iam fugir,
burlando a mim e a você, privando-te da esposa e impedindo-
me de cumprir o prometido.
Demétrio: Milorde, Helena me contou que eles iam fugir e se esconderiam neste b
osque. Transtornado, vim atrás deles, e Helena me seguiu. Mas, milorde, não sei p
or que, mas foi uma força superior — toda a paixão que eu tinha por Hérmia se der
reteu como neve, restando só a memória, como um brinquedo da infância. A alegri
a dos meus olhos, a inabalável fé, minha virtude é Helena. Nós já éramos noivos a
ntes de eu ver Hérmia; mas, como um doente, eu repugnava aquele amor. Agora, r
ecuperei meu gosto natural e desejo Helena, adoro-
a, e prometo ser eternamente fiel.
Teseu: Belos amantes, como se encontraram no momento certo! Contarão o resto
da história com calma. Egeu, vou contrariar tua vontade: no templo, agora mesmo
, esses dois pares se unirão para sempre. E, como a manhã já está avançada, adiar
emos nosso plano de caça. Voltemos para Atenas; três a três, farão uma bela festa
de uma só vez.
(Saem Teseu, Hipólita, Egeu e séquito.)

Demétrio: Tudo o que aconteceu parece pequeno e indistinto, como montanhas a


o longe misturadas com as nuvens.
Hérmia: Parece que minha visão está perturbada, vejo tudo em dobro.
Helena: Eu também. Encontrei Demétrio como uma joia que, embora seja minha,
parece não ser.
Demétrio: Tem certeza de que estamos acordados? Parece que ainda estamos so
nhando. O duque esteve aqui? Não disse que fôssemos com ele?
Hérmia: Sim, e meu pai também estava.
Helena: E Hipólita também.
Lisandro: Mandou que todos o seguíssemos ao templo.
Demétrio: Então, é verdade; não estamos dormindo. Vamos acompanhar o duque
e contar nossos sonhos no caminho.
(Saem.)
Bottom (despertando): Quando chegar minha vez, me chamem, que eu responde
rei. Minha próxima fala é: “Formosíssimo Píramo!” Olá, Peter Quince! Flauta, reme
nda-foles! Snout, caldeireiro! Starveling! Deus do céu! Foram-
se todos e me deixaram a dormir. Tive uma visão extraordinária. Tive um sonho que
nenhum entendimento humano é capaz de explicar. Será um grande asno quem t
entar explicar esse sonho. Parece-
me que eu era... Não há quem possa dizer o que eu era. Parece-
me que eu era... e parece-
me que eu tinha... Só um bufão tentaria explicar o que me parecia ser. Não há olho
que tenha visto, nem ouvido que tenha ouvido, nem mãos que tenham tocado, ne
m língua que tenha concebido, nem coração que tenha relatado o que foi meu son
ho. Vou pedir a Peter Quince que escreva uma balada sobre esse sonho, intitulada
“O sonho de Bottom”, por ser um sonho embotado, e a cantarei no fim da peça, di
ante do duque. Talvez, até, para ficar mais graciosa, eu a cante depois da morte de
Tisbe. (Sai.)

Cena II
Atenas, um quarto em casa de Quince. Entram Quince, Flauta, Snout e Starveling.
Quince: Alguém foi à casa de Bottom? Ele já voltou?
Starveling: Não há notícias dele; deve ter sido levado para algum lugar.
Flauta: Se ele não voltar, a comédia estará arruinada; não poderá ser representad
a, não é?
Quince: De jeito nenhum; não há ninguém em toda Atenas como ele para fazer o p
apel de Píramo.
Flauta: É a pura verdade; ele é simplesmente o maior talento entre os artesãos de
Atenas.
Quince: E a melhor pessoa também; quanto à doçura da voz, é um verdadeiro ten
or.
Flauta: "Tenor", homem, é o que você quer dizer! "Tenor", Deus nos acuda, é outra
coisa!
Snug: Mestres, o duque está vindo do templo, onde se casaram, junto com mais tr
ês senhores e três senhoras. Se nossa peça tivesse passado do ensaio, seríamos g
randes hoje.
Flauta: Ah, o valente Bottom! Assim ele perde uma renda vitalícia de seis pences p
or dia. Tenho certeza de que o duque lhe daria seis pences diários pela interpretaç
ão de Píramo. Era o que ele merecia: seis pences por dia, ou nada.
Bottom: Onde estão os rapazes? Onde estão esses corações?
Quince: Bottom! Que dia maravilhoso! Que hora felicíssima!
Bottom: Mestres, tenho coisas maravilhosas para contar, mas não me perguntem
nada, porque se eu contasse, não seria um ateniense legítimo. Contarei tudo exat
amente como aconteceu.
Quince: Conte-nos o que houve, amável Bottom.
Bottom: Não direi uma palavra. Só posso dizer que o duque já jantou. Vá buscar as
roupas, coloquem bons atacadores nas barbas e fitas novas nos sapatos. Reuna
mo-
nos no palácio; todos revisem seus papéis, porque, para resumir, nossa peça foi a
preferida. De qualquer forma, que Tisbe se apresente com roupa limpa, e quem fiz
er o papel do leão não deve cortar as unhas, para parecerem garras. Finalmente, n
ão comam alho nem cebola, pois precisamos exalar um bom hálito, e assim todos
acharão nossa comédia muito doce. E agora, nem mais uma palavra. Adiante! Mar
chemos!

(saem)

Ato V

Cena I
Atenas. Uma sala no palácio de Teseu. Estão Diana e Hera e entram Teseu, Hipólita,
Filóstrato, fidalgos e séquito.
Hera: Diana, agora preste atenção nas palavras da sua mãe!
Hipólita: Estranha história, meu Teseu, nos contam todos esses amantes.
Teseu: Mais estranha do que veraz, decerto. É impossível acreditar em fábulas anti
gas e histórias de fadas. Os amantes e os loucos são de cérebro tão quente, a fant
asia é tão criadora, que enxergam o que o frio entendimento jamais pode entender
. O namorado, o lunático e o poeta são compostos só de imaginação. Um vê demô
nios em número maior do que o inferno comporta: tal é o louco. O namorado, igual
mente transtornado, enxerga a linda Helena em rosto egípcio. O olho do poeta, nu
m delírio excelso, passa da terra ao céu, do céu à terra. A fantasia dá relevo a coisa
s desconhecidas, a pena do poeta dá forma, e essa coisa aérea e vácua ganha no
me e lugar certo. A imaginação é tão caprichosa, que para qualquer mostra de ale
gria logo inventa uma causa; se medo vem da noite, transforma um galho à-
toa em um urso feroz.
Hipólita: Contudo, as ocorrências desta noite, como eles as contam, e as mudan
ças por que passaram, mostram algo mais do que simples fantasia, que ganha cer
ta consistência, apesar de tudo ser estranho e raro.
Teseu: Nosso amor foi conquistado pela espada. Como eu poderia julgar o amor
alheio?
Hipólita: Tolo! A espada conquistou Temiscira. O seu amor conquistou meu
coração. Eu sei que a lei e a tradição mandam eu casar para pacificar e salvar
Temiscira, agora que será toda reconstruída numa ilha graças às riquezas de
Atenas, mas eu poderia esperar um momento de vulnerabilidade para tirar a vida do
meu amado. A força enfraquece e abre as defesas. O amor é permanente. O amor
constrói o mundo. E o meu amor é seu, meu amado Teseu!
Teseu: Alegres e felizes, os amantes vêm vindo. (Entram Lisandro, Demétrio, Hérm
ia e Helena.) Muita alegria, gentis amigos; que belos dias de amor acompanhem s
eus ternos corações.
Hera: Agora você já ouviu e nós já podemos ir embora.
Diana: Nós não podemos ficar mais um pouco? Minha mãe parece tão feliz.
Hera: Mais alguns minutos. Depois você vai voltar, tomar banho, jantar e dormir.
Diana levanta a mão, como se fosse falar algo.
Hera: Ouvi alguma discordância?
Diana: Claro que não, poderosa Hera! Sua vontade é minha alegria!
Lisandro: Maior ventura possais achar em vossos passeios reais, no leito nupcial e
nos banquetes.
Teseu: O que teremos para preencher essas três longas horas entre o jantar e a ho
ra de dormir? Onde está nosso chefe de distrações? Que passatempos há? Não há
nenhuma peça para aliviar esta longa hora? Chamem Filóstrato.
Filóstrato: Presente, grande Teseu.
Teseu: O que temos para nos divertir esta noite? Que música? Que peça? Como m
ataremos o tempo, se não tivermos diversão alguma?
Filóstrato: Neste papel estão as opções ensaiadas. Vossa Alteza dirá o que deseja
ver primeiro. (Dá-lhe um papel.)
Teseu: “A luta dos Centauros, ao som de harpa, cantada por eunuco ateniense.” N
ada disso; já contei essa história à minha noiva para glorificar meu parente Hércul
es. “A orgia das Bacantes embriagadas; como o vate de Trácia foi estraçalhado.” É
uma peça antiga; foi representada quando voltei de Tebas, vitorioso. “As nove Mus
as lastimando a morte da Ciência, falecida na miséria.” Deve ser alguma sátira mo
rdaz, que não ficará bem em nossas núpcias. “Cena curta e tediosa do jovem Píra
mo e sua amada, a bela Tisbe; tragédia divertida.” Ora! Tragédia divertida! Tediosa
e curta ao mesmo tempo! É como dizer fogo gelado, neve negra. Como conciliar ta
manha discordância?
Filóstrato: É uma peça, senhor, de dez palavras. Jamais vi algo tão curto. Mas, mil
orde, ainda assim, com dez palavras, tem palavras demais, pois não contém palav
ra alguma certa, nem ator que vá bem. É muito trágica, sem dúvida, pois Píramo ac
aba se matando. Ao ver o ensaio, vieram lágrimas aos meus olhos, mas nunca sou
be que tanto riso provocasse tantas lágrimas.
Teseu: Quem são os comediantes?
Filóstrato: Gente rude, senhor, de mãos calosas, que exercem seus ofícios em Ate
nas e nunca trabalharam com o espírito. Pela primeira vez, com esta peça, martiriz
am a memória fraca para brilhar em vosso casamento.
Teseu: Então vamos ouvi-los.
Filóstrato: Não, milorde; não é digna de vós; já vi o ensaio; não vale nada, a menos
que encontre distração no zelo doloroso com que se martirizam, apenas para vos
entreter.
Teseu: Desejo ouvi-
los, pois nunca poderá ser ofensivo quanto a simplicidade e o zelo ditam. Fazei-
os vir. Senhoras, sentem-se.
(Sai Filóstrato)
Hipólita: Tais situações sempre me causam pena, quando a incapacidade se esfo
rça tanto e não alcança o objetivo.
Teseu: Ora, querida, não verá isso aqui.
Hipólita: Mas se eles não entendem nada da arte!
Teseu: Tanto mais generosos seremos ao aplaudi-los.
Seus próprios erros nos darão prazer. Quando o dever não consegue nada, o respe
ito nobre considera a intenção, não o mérito. Quando cheguei, sábios eminentes
me saudaram com longos discursos estudados. Vi-
os tartamudear, empalidecer, interromper uma sentença no meio, a palavra sumir,
até que se tornaram mudos, sem me dar as boas-
vindas. Pode acreditar, querida: do silêncio tirei a saudação, e vi na modéstia da le
aldade temerosa mais do que a língua eloquente e audaciosa poderia dizer. O dev
er fala mais com a língua atada, muito mais quando é mudo e nada diz.
(Volta Filóstrato.)
Filóstrato: Vossa Graça permite? Aí vem o Prólogo.
Teseu: Deixe-o vir.
(Toque de trombetas.)
(Entra Quince, como Prólogo.)
Prólogo: Se ofendemos, não é porque queremos. Devem pensar que se ofendemo
s é com boa vontade. Estamos aqui só para mostrar o que queremos. Nossa inten
ção é dar alegria, não desagrado. Nosso grupo chega arrependido; só em ver-
nos, podem conhecer nosso desvelo.
Teseu: Este camarada não faz muito caso da pontuação.
Lisandro: Ele montou no prólogo como em um cavalo selvagem, que não para de
correr. A moral é boa, milorde: não basta falar, é preciso saber falar.
Hipólita: Realmente, ele tocou o prólogo como as crianças tocam flauta, produzin
do sons, mas não música.
Teseu: O discurso dele é como uma cadeia emaranhada: os elos estão inteiros, m
as em grande desordem. De quem é a vez agora?
(Entram Píramo e Tisbe, o Muro, o Luar e o Leão, como em uma pantomima.)
Prólogo: Senhores e senhoras, porventura vos espanta a vista desta gente; aqui es
tá Píramo e a formosa Tisbe; é evidente. Este homem com cal traz o Muro que sepa
ra os namorados, por cuja fresta desabafam seus cuidados. Este outro com lanter
na, cão e espinhos traz o Luar, pois é sabido que os amantes trocavam carinhos n
o sepulcro de Nino falecido. Este é o Leão de juba desajeitada, que fez Tisbe fugir a
pavorada, ao chegar antecipadamente. Mas, ao fugir, deixou cair o manto, que o L
eão logo sujou de sangue; Píramo, ao ver o manto ferido, desespera-
se. A espada, então, sangrenta, enfia no peito ardente; Tisbe, que estava sob uma
amoreira, saca o punhal e morre. O restante vos será contado pelo Luar, o Muro e
o Leão, que irão falar.
(Saem o Prólogo, Píramo, Tisbe, o Leão e o Luar.)
Teseu: Admiro-me de ouvir um leão falar.
Demétrio: Não há de que se admirar, milorde; se tantos asnos falam, por que um l
eão não pode fazer o mesmo?
Muro: Neste entremez de enredo obscuro, sou Snout, o Muro, coisa estupenda! C
om um buraco, fenda, por onde Tisbe e Píramo se queixam da vida dura. Estas ped
ras e argamassa mostram que sou um Muro de verdade, e este é o buraco por ond
e o casal fala.
Teseu: Pode-se exigir melhor discurso de cal e cabelo?
Demétrio: O muro mais espirituoso de que já ouvi falar, milorde.
Teseu: Píramo se aproxima do muro. Silêncio!

(Volta Píramo)

Píramo: Ó noite de olhar negro, ó noite escura, que sempre estás onde não há dia!
Ó noite negra! Minha desventura! Tisbe não chega! A pobre enlouquece. E tu, muro
querido, doce muro, que entre meu terreno e o do pai dela te levantas cruel, não s
ejas duro, mostra-
me uma fresta ou uma janela. (O Muro afasta os dedos.) Graças, bom muro; Júpite
r há de te amparar. Mas, o que vejo? Em vão procuro Tisbe. Possas, muro, rachar-
se por me deixares espiar no escuro.
Teseu: A meu ver, o muro deveria também amaldiçoar, por ser sensível.
Píramo: Não, senhor; isso ele não faz, posso garantir. “Espirar no escuro” é a deixa
de Tisbe. Está na hora de ela entrar, e eu devo espiá-
la através do muro. Aí vem ela.
(Volta Tisbe.)
Tisbe: Ó muro, que meu pranto tens ouvido, por afastar-
me do doce Píramo, quantas vezes beijei, muro querido, tuas faces de cal irregular
es.
Píramo: Ouço tua voz; vou correr para a fresta para ver tua bela face, Tisbe. Tisbe!
Tisbe: Amor! Que alegria ouvir tua voz.
Píramo: Alegre ou não, que eu seja sempre amado, e, como Lisandro, eterno nam
orado.
Tisbe: E eu, outra Helena, até que o destino queira.
Píramo: Como Sáfalo e Procro, sou constante.
Tisbe: Como Sáfalo e Procro, sou fiel amante.
Píramo: Dá-me um beijo através deste vil muro.
Tisbe: Não te beijei; beijei o barro duro.
Píramo: Ao sepulcro de Nino vais agora?
Tisbe: Ou viva ou morta, estarei lá numa hora.
(Saem Píramo e Tisbe.)
Muro: Desta forma, eu, muro, fiz minha parte; ora o muro se retira feliz. (Sai.)
Teseu: Já foi derrubado o muro que separava os dois vizinhos.
Demétrio: Não há remédio, milorde, uma vez que as paredes se obstinam em ouvi
r sem aviso prévio.
Hipólita: É a peça mais tola que já vi.
Teseu: As melhores produções desta classe não passam de simples sombras, e a
s piores deixarão de ser assim se a imaginação ajudar.
Hipólita: Mas nesse caso é a vossa imaginação que trabalha, não a deles.
Teseu: Se não pensarmos pior deles do que eles mesmos pensam, poderão passa
r por excelentes pessoas. Eis que chegam dois nobres animais, um homem e um l
eão.
(Voltam o Leão e o Luar.)
Leão: Senhoras que tremem de medo ao ver um ratinho, que fariam se ouvissem n
o arvoredo o rugido de um leão raivoso, mesmo de longe? Saibam que sou Snug, o
marceneiro; nem leão, nem leoa, mas um homem verdadeiro. Se eu fosse uma fer
a intimidadora, minha vida não valeria nada.
Teseu: Eis um animal verdadeiramente cortês e de boa consciência.
Demétrio: É o melhor animal, milorde, que já vi em toda minha vida.
Lisandro: Este leão, quanto ao valor, é uma raposa legítima.
Teseu: E quanto à discrição, um verdadeiro ganso.
Demétrio: Não é assim, milorde, pois o valor dele não pode carregar a discrição, c
omo a raposa carrega o ganso.
Teseu: O que sei é que sua discrição não pode carregar seu valor, pois o ganso não
carrega a raposa. Muito bem; vamos deixá-lo e ouvir a lua.
Lua: Eis na lanterna a lua com seus chifres...
Demétrio: O ator deveria trazer os chifres na cabeça.
Teseu: Mas é lua cheia; os cornos estão invisíveis na circunferência.
Lua: Eis na lanterna a lua com seus chifres, tal como eu, que sou o homem da lua.
Teseu: De todos os erros, este é o mais absurdo; o homem deveria entrar na lanter
na; se não, como poderia ser o homem da lua?
Demétrio: Ele não tem coragem de entrar na lanterna, com medo da vela; veja co
mo já está inflamado.
Hipólita: Já estou cansada dessa lua; quem dera ela se alterasse!
Teseu: Pela pouca luz da sua discrição, podemos concluir que está na fase mingu
ante. Apesar disso, por delicadeza, teremos de aguentá-la todo o tempo.
Lisandro: Adiante, lua!
Lua: Tudo o que tenho a dizer é que esta lanterna é a lua; eu, o homem da lua; este
feixe de espinhos, meu feixe de espinhos, e este cachorro, meu cachorro.
Demétrio: Nesse caso, tudo isso deveria estar dentro da lanterna, por estarem na
lua. Mas, silêncio! Tisbe vem chegando.
(Volta Tisbe.)
Tisbe: Esta é a tumba de Nino; onde está Píramo?
Leão (rugindo): R-r-r-ó-ó-ó!!!
(Tisbe foge.)
Demétrio: Bem rugido, leão!
Teseu: Bem corrido, Tisbe!
Hipólita: Bem iluminado, lua! Realmente, a lua brilha com graça.
(O Leão estraçalha o manto de Tisbe e sai.)
Teseu: Bem rasgado, leão!
Demétrio: Agora entra Píramo.
Lisandro: E assim o leão sai.
(Volta Píramo.)
Píramo: Ó lua, brilhas como o sol! Agradeço, ó lua, a luz brilhante, pois pretendo v
er Tisbe à luz da tua corrente dourada. Mas, pare! Oh, dor! Donzela do amor! Oh, vi
são cruel e horrorosa! Estou acordado? Pode ser verdade? Oh, minha franga formo
sa! Teu manto rubro me aumenta o pranto. Aproximem-
se, Fúrias! Tudo acabou! Destino, aqui estou! Acabe com meu sofrimento!
Teseu: Esta lamentação pela morte de um ente querido quase daria para entristec
er.
Hipólita: Faz-me pena o pobre homem.
Píramo: Por que fizeste leões, Natureza? Um leão estraçalhou minha amada, a ma
is linda mulher, sempre adorada. Nada me conforta. Lâmina, corta-
me o coração. Sim, deste lado, varado por esta mão. (Apunhala-
se.) Já tenho calma; ao céu minha alma vai correr. Some-
te, língua! Lua, essa minguante me faz morrer, morrer, morrer... (Sai a Lua.)
Demétrio: Não teve sorte; ficou sozinho.
Lisandro: Menos do que um ás; agora é nada, pois está morto.
Teseu: Com a ajuda de um cirurgião, poderia voltar à vida e provar que é um asno.
Hipólita: Por que a Lua foi embora antes de Tisbe encontrar o amante?
Teseu: Ela o encontrará à luz das estrelas. Aí vem ela; suas lamentações encerram
a peça.
(Volta Tisbe.)
Hipólita: Ela não deveria lastimar a perda de um Píramo como este. Espero que se
ja breve.
Demétrio: Se pesássemos Píramo e Tisbe, uma palha faria pender a balança. Ele,
como homem, Deus nos acuda! Ela, como mulher, Deus nos proteja!
Lisandro: Seus olhos já viram Píramo.
Demétrio: Vai começar a lamentar, assim:
Tisbe: Dormes, querido? Como! Ferido? Píramo, acorde! Fala, estás mudo? Acabo
u tudo; a voz se foi. Sinto-
me louca. A tua boca açucarada levou a Morte de negro porte, deixando-
me abandonada. Chorei bastante. Parca gigante, falsa e traiçoeira, já cortaste do b
elo engaste o fio vital de seda. Língua, calada! Vem, bela espada, leve-
me aos pés de Deus. A linda Tisbe aqui termina, dizendo adeus, adeus, adeus... (M
orre.)
Teseu: A Lua e o Leão ficaram para enterrar os mortos.
Demétrio: Sim, e o Muro também.
Bottom: Não, posso garantir; já foi derrubado o muro que separava os pais deles.
Querem ver o epílogo ou preferem uma dança bergamasca, executada por dois ho
mens de nossa companhia?
Teseu: Não, por favor; nada de epílogo. Vossa peça não precisa de desculpas, por
que quando todos os atores morrem, nenhum merece censura. Se o autor da peça
representasse Píramo e se enforcasse com uma liga de Tisbe, teria feito uma linda
tragédia, como de fato fez, e foi bem representada. Que venha a dança bergamasc
a, e deixem de lado o epílogo. (Dança.) Já deu meia-
noite. Para a cama, namorados! É quase hora das fadas. Receio que passemos a
manhã dormindo profundamente, como desfrutamos parte da noite acordados. E
sta peça grosseira foi suficiente para entreter a noite preguiçosa. Caros amigos, to
dos para o leito. Teremos quinze dias de festas, com representações e outras diver
sões.
(Saem.)

Cena II
Entra Puck.

Puck: O leão ruge a cada passo, o lobo uiva para a lua, o camponês cansado dorm
e, esquecendo do arado. As últimas brasas se consomem na lareira; o pio da ave a
gourenta assombra o doente. Nesta hora da noite escura, as almas vagam, saindo
das sepulturas, rumando para as igrejas. Nós, os elfos, seguidores de Hécate, fugi
mos da luz do sol como num sonho e estamos de guarda agora. Nenhum rato pert
urbará a paz desta casa abençoada. Com a vassoura vim limpar o batente e jogar
o pó atrás da porta.
(Entram Oberon, Titânia e séquito.)
Oberon: Espalhem luz pelo carvão quase extinto. Elfos e fadas, dancem no clarão,
e, seguindo meu caminho, cantem comigo baixinho.
Titânia: Aprendam a melodia e a letra, depois dancem com graça e abençoem est
a casa.
(Cantam e dançam.)
Oberon: Enquanto a aurora não chega, rondem esta casa, e no quarto principal la
nçarei a bênção real. Sua prole será numerosa e venturosa. Os três casais viverão
em harmonia; seus filhos não terão defeitos. Com orvalho consagrado, cada elfo c
umpra o recado, abençoando o palácio e espalhando paz. Que nunca caia em aba
ndono e o dono seja feliz. Mãos à obra, sem demora! Voltem antes da aurora.
(Saem Oberon, Titânia e séquito.)
Puck: Se causamos enfado por sermos sombras, pensem que foi um sonho; foi tu
do mera visão nesta sessão. Senhoras e cavalheiros, não zombeis de nós; se me p
erdoarem, darei algo melhor. Sou Puck, honesto e bravo; se puder evitar o agravo d
a língua má, verão que Puck não mente. Liberto das brincadeiras, digo boa-
noite a todos. Se derem a mão agora, Robin sai alegremente. (Sai.)

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