Boaventura S Santos 2010 - A Universidade Sec Xxi Imprimir
Boaventura S Santos 2010 - A Universidade Sec Xxi Imprimir
A Universidade no Século XXI: A primeira versão deste texto foi apresentada em Brasília, no
Para uma reforma democrática e emancipatória da
Universidade dia 5 de Abril de 2004, no âmbito do Calendário Oficial de
Debates sobre a Reforma Universitária do Ministério da
* Sociólogo. Professor Catedrático da Faculdade de Economia da
Universidade de Coimbra. Director do Centro de Estudos Sociais. Educação do Brasil, sendo Ministro o Dr. Tarso Genro. Este
Sumário é um texto de intervenção num debate e como tal deve ser
Prefácio
Introdução lido e discutido.
Parte I
Os últimos dez anos Na preparação deste texto contei com o apoio decisivo de um
A descapitalização da universidade pública conjunto vasto de colegas e amigos que comigo partilham a
A transnacionalização do mercado universitário
A oferta transfronteiriça luta pela defesa e dignificação da universidade pública:
O consumo no estrangeiro António Sousa Ribeiro, Denise Leite, Elísio Estanque, Emir
A presença comercial
A presença de pessoas Sader, Francisco de Oliveira, João Arriscado Nunes, José
Do conhecimento universitário ao Geraldo Sousa Júnior, Juan Carlos Monedero, Leonardo
conhecimento pluriversitário O fim do
projecto de país? Avritzer, Marcos Barbosa de Oliveira, Maria Irene Ramalho,
Da fala ao écran Naomar Almeida Filho, Nuno Serra, Pablo Gentili, Paula
Parte II
Que fazer? Meneses, Julio Emilio Diniz Pereira, Tiago Santos Pereira,
Enfrentar o novo com o novo Paulino Motter, Zander Navarro e ainda os meus estudantes
Lutar pela definição da crise
Lutar pela definição de universidade do Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Faculdade
Reconquistar a legitimidade de Economia da Universidade de Coimbra: Allene Lage,
Acesso
Extensão Denise Carvalho, Mariza Rios, Vilma Francisco. Com
Pesquisa-acção excepção dos erros, que são todos meus, este texto pertence-
Ecologia de saberes
Universidade e escola pública lhes em boa parte. À Ana Cristina Santos o meu
Universidade e indústria agradecimento por, como sempre, ter cuidado da preparação
O reforço da responsabilidade social da
universidade final do texto.
Criar uma nova institucionalidade
Rede Introdução
Democracia interna e externa
Avaliação participativa Há precisamente dez anos publiquei um texto sobre a
universidade, as suas crises e os desafios que lhe eram feitos
Regular o sector universitário
A universidade privada no final do século XX. O texto intitulava se “Da ideia da
O Estado e a transnacionalização do mercado da educação
universidade à universidade de ideias” e foi publicado no meu
superior
Conclusão livro Pela Mão de Alice: o Social e o Político na Pós-modernidade
(Porto, Afrontamento, 1994; São Paulo, Editora Cortez,
1995). Nesse texto identificava as três crises com que se
defrontava a universidade. A crise de hegemonia resultava das
contradições entre as funções tradicionais da universidade e as
que ao longo do século XX lhe tinham vindo a ser atribuídas.
De um lado, a produção de alta cultura, pensamento crítico e
conhecimentos exemplares, científicos e humanísticos,
necessários à formação das elites de que a universidade se
tinha vindo a ocupar desde a Idade Média europeia. Do outro,
a produção de padrões culturais médios e de conhecimentos
instrumentais, úteis na formação de mão de obra qualificada
exigida pelo desenvolvimento capitalista. A incapacidade da responder criativa e eficazmente aos desafios com que se
universidade para desempenhar cabalmente funções defronta no limiar do século XXI.
contraditórias levara o Estado e os agentes económicos a
I
procurar fora da universidade meios alternativos de atingir
esses objectivos. Ao deixar de ser a única instituição no Os últimos dez anos
domínio do ensino superior e na produção de pesquisa, a Cumpriu-se, mais do que eu esperava, a previsão que fiz há
universidade entrara numa crise de hegemonia. A segunda dez anos. Apesar de as três crises estarem intimamente ligadas
crise era a crise de legitimidade provocada pelo facto de a e só poderem ser enfrentadas conjuntamente e através de
universidade ter deixado de ser uma instituição consensual em vastos programas de acção gerados dentro e fora da
face da contradição entre a hierarquização dos saberes universidade, previa (e temia) que a crise institucional viesse a
especializados através das restrições do acesso e da monopolizar as atenções e os propósitos reformistas. Assim
credenciação das competências, por um lado, e as exigências sucedeu. Previa também que a concentração na crise
sociais e políticas da democratização da universidade e da institucional pudesse levar à falsa resolução das duas outras
reivindicação da igualdade de oportunidades para os filhos das crises, uma resolução pela negativa: a crise de hegemonia, pela
classes populares, por outro. Finalmente, a crise institucional crescente descaracterização intelectual da universidade; a crise
resultava da contradição entre a reivindicação da autonomia da legitimidade, pela crescente segmentação do sistema
na definição dos valores e objectivos da universidade e a universitário e pela crescente desvalorização dos diplomas
pressão crescente para submeter esta última a critérios de universitários, em geral. Assim sucedeu também.
eficácia e de produtividade de natureza empresarial ou de
Há, pois, que investigar o porquê de tudo isto.
responsabilidade social.
A concentração na crise institucional foi fatal para a
Nesse trabalho analisava com algum detalhe cada uma das
universidade e deveu-se a uma pluralidade de factores, alguns
crises e o modo como estava a ser gerida pela universidade,
já evidentes no início da década de noventa, outros que
sobretudo nos países centrais. A minha análise centrava-se
ganharam um peso enorme no decorrer da década. A crise
nas universidades públicas. Mostrava que a universidade,
institucional era e é, desde há pelo menos dois séculos, o elo
longe de poder resolver as suas crises, tinha vindo a geri-las de
mais fraco da universidade pública porque a autonomia
molde a evitar que elas se aprofundassem
científica e pedagógica da universidade assenta na
descontroladamente, recorrendo para isso à sua longa
dependência financeira do Estado. Enquanto a universidade e
memória institucional e às ambiguidades do seu perfil
os seus serviços foram um inequívoco bem público que
administrativo. Tratava-se de uma actuação ao sabor das
competia ao Estado assegurar, esta dependência não foi
pressões (reactiva), com incorporação acrítica de lógicas
problemática, à semelhança do que se passa, por exemplo,
sociais e institucionais exteriores (dependente) e sem
com o sistema judicial, em que a independência dos tribunais
perspectivas de médio ou longo prazo (imediatista).
não é beliscada pelo facto de serem financiados pelo Estado.
O que aconteceu nestes últimos dez anos? Como caracterizar No momento, porém, em que o Estado, ao contrário do que
a situação em que nos encontramos? Quais as respostas se passou com a justiça, decidiu reduzir o seu compromisso
possíveis aos problemas que a universidade enfrenta nos político com as universidades e com a educação em geral,
nossos dias? Procurarei responder a estas três perguntas no convertendo esta num bem que, sendo público, não tem de
que se segue. Na primeira parte, procederei à análise das ser exclusivamente assegurado pelo Estado, a universidade
transformações recentes no sistema de ensino superior e o pública entrou automaticamente em crise institucional. Se esta
impacto destas na universidade pública. Na segunda parte, existia antes, aprofundou-se. Pode dizer-se que nos últimos
identificarei e justificarei os princípios básicos de uma trinta anos a crise institucional da universidade na grande
reforma democrática e emancipatória da universidade pública, maioria dos países foi provocada ou induzida pela perda de
ou seja, de uma reforma que permita à universidade pública prioridade do bem público universitário nas políticas públicas
e pela consequente secagem financeira e descapitalização das agravamento das duas outras crises, a de hegemonia e a de
universidades públicas. As causas e a sua sequência variaram legitimidade. E neste domínio houve, nos últimos dez anos,
de país para país.1 Em países que ao longo das últimas três desenvolvimentos novos em relação ao quadro que descrevi
décadas viveram em ditadura, a indução da crise institucional no início da década de 1990. Passo a indicá-los.
teve duas razões: a de reduzir a autonomia da universidade até
A perda de prioridade na universidade pública nas políticas
ao patamar necessário à eliminação da produção e divulgação
públicas do Estado foi, antes de mais, o resultado da perda
livre de conhecimento crítico2; e a de pôr a universidade ao
geral de prioridade das políticas sociais (educação, saúde,
serviço de projectos modernizadores, autoritários, abrindo ao
previdência) induzida pelo modelo de desenvolvimento
sector privado a produção do bem público da universidade e
económico conhecido por neoliberalismo ou globalização
obrigando a universidade pública a competir em condições de
neoliberal que, a partir da década de 1980, se impôs
concorrência desleal no emergente mercado de serviços
internacionalmente. Na universidade pública ele significou
universitários. Nos países democráticos, a indução da crise
que as debilidades institucionais identificadas – e não eram
esteve relacionada com esta última razão, sobretudo a partir
poucas –, em vez de servirem de justificação a uma vasto
da década de 1980, quando o neoliberalismo se impôs como
programa político-pedagógico de reforma da universidade
modelo global do capitalismo. Nos países que neste período
pública, foram declaradas insuperáveis e utilizadas para
passaram da ditadura à democracia, a eliminação da primeira
justificar a abertura generalizada do bem público universitário
razão (controle político de autonomia) foi frequentemente
à exploração comercial. Apesar das declarações políticas em
invocada para justificar a bondade da segunda (criação de um
contrário e de alguns gestos reformistas, subjacente a este
mercado de serviços universitários). Nestes países, a
primeiro embate da universidade com o neoliberalismo está a
afirmação da autonomia das universidades foi de par com a
ideia de que a universidade pública é irreformável (tal como o
privatização
Estado) e que a verdadeira alternativa está na criação do
mercado universitário.4 O modo selvagem e desregulado
1 No caso do Brasil, o processo expansionista de industrialização, quase totalmente assente no como este mercado emergiu e se desenvolveu são a prova de
endividamento externo, entre 1968 e 1979, conduziu, sobretudo depois de 1975, a uma profunda que havia a favor dele uma opção de fundo. E a mesma opção
crise financeira cujos efeitos se tornaram particularmente graves a partir de 1981-1983 e que se
prolonga até hoje. A crise financeira do Estado repercutiu-se de forma brutal na universidade explicou a descapitalização e desestruturação da universidade
pública, tanto mais que simultaneamente aumentou a demanda social pela expansão da educação
pública a favor do emergente mercado universitário com
básica.
transferências de recursos humanos que, por vezes,
2 No caso do Brasil é debatível até que ponto a ditadura militar afectou a autonomia universitária
– sobretudo em comparação com o que aconteceu no Chile ou na Argentina – e se a afectou configuram um quadro de acumulação primitiva por parte do
uniformemente ao longo de todo o período em que durou do ensino superior e o aprofundamento
sector privado universitário à custa do sector público. 5
da crise financeira das universidades públicas. Tratou-se de uma autonomia precária e até falsa:
porque obrigou as universidades a procurar novas dependências bem mais onerosas que a 3 Não quero com isto ser entendido como estando a subscrever uma teoria conspiratória do
dependência do Estado e porque a concessão de autonomia ficou sujeita a controles remotos
Estado contra a universidade pública. Verificada a perda de prioridade – o que basta para o
estritamente calibrados pelos Ministérios das Finanças e da Educação. Assim, da passagem da
argumento que estou a desenvolver – há que averiguar os factores que levaram a universidade a
ditadura para a democracia correram, por debaixo das manifestas rupturas, insuspeitadas
perder a corrida na luta pelos fundos do Estado num contexto de maior competição, provocado
continuidades.
pela redução global nos fundos e pelo aumento das demandas sociais.
A indução da crise institucional por via da crise financeira, 4 Como mostrarei adiante, a ideia da irreformabilidade da universidade tem uma ponta de verdade
que aliás vem de longe. No caso português (que nessa altura também era brasileiro), a reforma da
acentuada nos últimos vinte anos, é um fenómeno estrutural
Universidade de Coimbra levada a cabo pelo Marquês de Pombal em 1772 foi feita “a partir de
decorrente da perda de prioridade da universidade pública fora” pelo entendimento que o Marquês tinha de que a universidade, entregue ao corporativismo
dos lentes (como hoje diríamos), nunca se reformaria por si só. As universidades criam inércias
entre os bens públicos produzidos pelo Estado.3 O facto de a como quaisquer outras instituições e, para além disso, são dotadas de um valor social – ligado à
crise institucional ter tido como motivo próximo a crise produção de conhecimento – que facilmente sobrepuja o valor real (em termos de produção e de
produtividade) do conhecimento efectivamente produzido por alguns dos universitários.
financeira não significa que as suas causas se reduzam a esta.
5 No caso do Brasil, este processo acelerou-se com o sistema privilegiado de aposentadorias do
Pelo contrário, há que perguntar pelas causas da própria crise sector público que facultava aos professores universitários aposentar-se precocemente (milhares
financeira. A análise destas revelará que a prevalência da crise deles antes de completar 50 anos) e, na sequência, “migrar” para uma universidade privada.
institucional foi o resultado de nela se terem condensado o Nalguns países, havia uma tradição de universidades privadas
sem fins lucrativos, as quais, aliás, com o tempo, tinham sobretudo industrial. Neste nível, a universidade pública
assumido funções muito semelhantes às públicas e gozavam mantém a sua autonomia e a sua especificidade institucional,
e gozam de estatuto jurídico híbrido, entre o privado e o privatizando parte dos serviços que presta. O segundo nível
público. Também elas foram objecto da mesma concorrência consiste em eliminar tendencialmente a distinção entre
por se considerar que a sua natureza não lucrativa não universidade pública e universidade privada, transformando a
permitia a sua expansão. A opção foi, pois, pela universidade, no seu conjunto, numa empresa, uma entidade
mercadorização da universidade. Identifico neste processo que não produz apenas para o mercado mas que se produz a
duas fases. Na primeira, que vai do início da década de 1980 si mesma como mercado, como mercado de gestão
até meados da década de 1990, expande-se e consolida-se o universitária, de planos de estudo, de certificação, de
mercado nacional universitário. Na segunda, ao lado do formação de docentes, de avaliação de docentes e estudantes.
mercado nacional, emerge com grande pujança o mercado Saber se e quando este segundo nível for atingido ainda fará
transnacional da educação superior e universitária, o qual, a sentido falar de universidade como bem público é uma
partir do final da década, é transformado em solução global questão retórica.
dos problemas da educação por parte do Banco Mundial e da
Vejamos cada um dos pilares do vasto projecto político-
Organização Mundial do Comércio. Ou seja, está em curso a
educacional em curso.
globalização neoliberal da universidade. Trata-se de um
fenómeno novo. É certo que a transnacionalização das trocas A descapitalização da universidade pública
universitárias é um processo antigo, aliás, quase matricial, A crise da universidade pública por via da descapitalização é
porque visível desde início nas universidades europeias um fenómeno global, ainda que sejam significativamente
medievais. Depois da segunda guerra mundial, traduziu-se na diferentes as suas consequências no centro, na periferia e na
formação, ao nível da pós-graduação, de estudantes dos países semiperiferia do sistema mundial. Nos países centrais, a
periféricos e semiperiféricos nas universidades dos países situação é diferenciada. Na Europa onde, com excepção da
centrais e, em tempos mais recentes, assumiu ainda outras Inglaterra, o sistema universitário é quase totalmente público,
formas (por exemplo, parcerias entre universidades de a universidade pública tem tido, em geral, poder para reduzir
diferentes países), algumas delas de orientação comercial. Nos o âmbito da descapitalização ao mesmo tempo que tem
últimos anos, porém, avançou-se para um novo patamar. A desenvolvido a capacidade para gerar receitas próprias através
nova transnacionalização é muito mais vasta que a anterior e do mercado. O êxito desta estratégia depende em boa medida
a sua lógica, ao contrário desta, é exclusivamente mercantil. do poder da universidade pública e seus aliados políticos para
Os dois processos marcantes da década – o desinvestimento impedir a emergência significativa do mercado das
do Estado na universidade pública e a globalização mercantil universidades privadas. Em Espanha, por exemplo, essa
da universidade – são as duas faces da mesma moeda. São os estratégia teve êxito até agora, enquanto em Portugal
dois pilares de um vasto projecto global de política fracassou totalmente. Deve, no entanto, ter-se em conta que,
universitária destinado a mudar profundamente o modo como ao longo da década, emergiu, em quase todos os países
o bem público da universidade tem sido produzido, europeus, um sector privado não universitário dirigido para o
transformando-o num vasto campo de valorização do mercado de trabalho. Este facto levou as universidades a
capitalismo educacional. Este projecto, que se pretende de responder com a modificação estrutural dos seus programas
médio e longo prazo, comporta diferentes níveis e formas de e com o aumento da variedade destes. Nos EUA, onde as
mercadorização da universidade. Das formas tratarei adiante. universidades privadas ocupam o topo da hierarquia, as
Quanto aos níveis, é possível distinguir dois. O primeiro nível universidades públicas foram induzidas a buscar fontes
a ultrapassar a crise financeira mediante a geração de receitas mercado e através do aumento dos preços das matrículas.
próprias, nomeadamente através de parcerias com o capital, Hoje, em algumas universidades públicas norte-americanas o
financiamento estatal não é mais que 50% do orçamento busca da inovação tecnológica e, portanto, no conhecimento
total6. técnico-científico que a tornava possível e na formação de
uma mão de obra altamente qualificada.
Na periferia, onde a busca de receitas alternativas no mercado
ou fora dele é virtualmente impossível, a crise atinge 7 A política do Banco Mundial para o ensino superior em África teve várias vertentes. Uma delas
foi a criação de institutos politécnicos anti-generalistas, orientados para a formação profissional;
proporções catastróficas. Obviamente que os males vinham a outra consistiu em conceber o trabalho universitário como exclusivamente trabalho docente,
sem espaço para a investigação. O pressuposto é que o Sul não tem condições para produção
de trás, mas agravaram-se muito na última década com a crise
científica própria nem as terá no médio prazo. Daqui a concluir-se que o Sul não tem direito a ter
financeira do Estado e os programas de ajuste estrutural. Um produção científica própria vai um passo. Sobre a universidade em África com especial incidência
em Angola ver Kajibanga, 2000.
relatório da UNESCO de 1997 sobre a maioria das
8 Na defesa da universidade pública no Brasil tem-se destacado Marilena Chauí. Cfr. por último
universidades em África traçava um quadro dramático de Chauí, 2003.
carências de todo o tipo: colapso das infra-estruturas, ausência 9 À revelia disto, é mister reconhecer que, no caso do Brasil, se é verdade que o governo central
quase total de equipamentos, pessoal docente miseramente não fez qualquer esforço para expandir o gasto com o ensino superior na década de 1990, não é
menos verdade que muitos governos estaduais criaram universidades públicas nesse período
remunerado e, por isso, desmotivado e propenso à corrupção, (Ceará, Bahia e, mais recentemente, Rio Grande do Sul).
informação, de aumento de eficiência na economia de 14 Como é fácil de ver, todas estas ideias traduzem o mundo à luz da realidade dos países centrais.
Por exemplo, a fractura digital entre o Norte e o Sul mostra que o modo como vive a grande
serviços e ainda como condição de empregabilidade, uma vez maioria da população mundial não tem nada a ver com a sociedade de informação.
que quanto mais elevado for o capital humano, maior é a sua 15 Muitas destas ideias não são originárias dos think tanks do Banco Mundial. A importância que
o Banco assume, neste domínio, nos países periféricos e semi-periféricos reside no modo como
capacidade para transferir capacidades cognitivas e aptidões
sintetiza estas ideias e as transforma em condicionalidades de ajuda ao “desenvolvimento”. Ver
nos constantes processos de reciclagem a que a nova também Mehta, 2001.
teve, entre os seus alvos principais, as chamadas pesquisa. Por exemplo, o Senegal.
de se esquecer de si próprio para não ter de optar entre, por ainda um terceiro factor, não exclusivamente mercantil,
um lado, o nacionalismo isolacionista do qual sempre se responsável pelo abalo da universidade. Trata-se do impacto
distanciara e agora se tornava totalmente anacrónico, e, por das novas tecnologias de informação e comunicação na
outro lado, uma globalização que, por efeito de escala, proliferação das fontes de informação e nas possibilidades de
condição de idiossincrasia local indefesa ante a imparável aprendizagem à distância. A universidade é uma entidade com
torrente global. forte componente territorial bem evidente no conceito de
23 Outra questão, bem distinta, é a de saber-se até que ponto a universidade não perdeu, ela campus. Essa territorialidade, combinada com o regime de
própria, a capacidade para definir um projecto de país, estando agora reduzida à capacidade de
estudos, torna muito intensa a co-presença e a comunicação
identificar a sua ausência. As orientações para a reforma da universidade que adiante apresento
visam criar as condições para que, no novo contexto em que a universidade se encontra, lhe seja presencial. As novas tecnologias de informação e de
possível definir, em termos igualmente novos, um projecto de país e não apenas a falta dele.
comunicação vêm pôr em causa esta territorialidade. Com a
24 As situações variam de país para país. Por exemplo, em Portugal o ataque neo-liberal só se
manifestou nos dois últimos anos e o seu impacto está ainda por definir. O Brasil tem mantido
conversão das novas tecnologias em instrumentos
um elevado nível de financiamento das ciências sociais. No caso da política científica europeia, pedagógicos, a territorialidade é posta ao serviço da extra
7º Programa-Quadro de Investigação e Desenvolvimento Tecnológico, que enquadra as
actividades territorialidade e a exigência da co-presença está a sofrer a
concorrência da exigência de estar on line. O impacto destas
Trabalhando nas águas subterrâneas, esta falta de projecto de
transformações na institucionalidade da universidade é uma
país não sabe afirmar-se se não através de mal-estar,
questão em aberto. Para já, é sabido que a transnacionalização
defensismos e paralisias. Penso, no entanto, que a
do mercado universitário assenta nelas e que, ao lado das
universidade não sairá do túnel entre o passado e o futuro em
universidades convencionais, estão a proliferar o ensino à
que se encontra enquanto não for reconstruído o projecto de
distância e as universidades virtuais. É também sabido que
país. Aliás, é isso precisamente o que está acontecer nos países
esta transformação é responsável por mais uma desigualdade
centrais. As universidades globais dos EUA, da Austrália e da
ou segmentação no conjunto global das universidades, a
Nova Zelândia actuam no quadro de projectos nacionais que
fractura digital. O que falta saber é, por um lado, em que
têm o mundo como espaço de acção. De outro modo, não se
medida estas transformações afectarão a pesquisa, a formação
justificaria o apoio que a diplomacia desses países dá a tais
e a extensão universitária nos lugares e nos tempos em que
projectos. É o colonialismo de terceira geração que tem, neste
elas se tornarem disponíveis e facilmente acessíveis, e, por
caso, por protagonista as colónias do colonialismo de segunda
outro lado, o impacto que terá a sua ausência nos lugares e nos
geração de I&D a financiar pela Comissão Europeia no
tempos onde não estiverem disponíveis ou, se disponíveis,
período 2006-2010, dá uma ênfase maior que o programa-
dificilmente acessíveis. Ao enumerar estas questões em aberto
quadro anterior às areas tecnológicas (“plataformas
não quero sugerir uma visão pessimista ou negativa do uso
tecnológicas”, “política espacial”, “investigação em
potencial das novas tecnologias da informação e comunicação
segurança”, etc.) (comunicação pessoal de Tiago Santos
por parte das universidades. Pretendo apenas salientar que
Pereira).
será desastroso se as inércias, atadas à ideia de que a
Para os países periféricos e semiperiféricos o novo contexto universidade sabe estar orgulhosamente parada na roda do
global exige uma total reinvenção do projecto nacional sem a tempo, não permitirem enfrentar os riscos e maximizar as
qual não haverá reinvenção da universidade. Como se verá potencialidades.
adiante, não há nesta exigência nada de nacionalismo. Há
apenas a necessidade de inventar um cosmopolitismo crítico
II Não é, pois, possível uma solução nacional sem articulação
global.
Que fazer?
A natureza política do projecto e do contrato deriva do tipo
Na segunda parte, procurarei identificar algumas das ideias-
de articulação que se busca. O contexto global é hoje
mestras que devem presidir a uma reforma criativa,
fortemente dominado pela globalização neoliberal, mas não
democrática e emancipatória da universidade pública.25
se reduz a ela. Há espaço para articulações nacionais e globais
Talvez a primeira questão seja a de saber quem são os sujeitos
baseadas na reciprocidade e no benefício mútuo que, no caso
das acções que é preciso empreender para enfrentar
da universidade, recuperam e ampliam formas de
eficazmente os desafios que defrontam a universidade
internacionalismo de longa duração.26 Tais articulações
pública. No entanto, para identificar os sujeitos, é necessário
devem ser de tipo cooperativo mesmo quando contêm
definir previamente o sentido político da resposta a tais
componentes mercantis, ou seja, devem ser construídas fora
desafios. À luz do precedente, torna-se claro que, apesar de
dos regimes de comércio internacional. A nova
as causas da crise da universidade serem múltiplas e algumas
transnacionalização alternativa e solidária assenta agora nas
delas virem de longa data, elas estão hoje reconfiguradas pela
novas tecnologias de informação e de comunicação e na
globalização neoliberal e o modo como afectam hoje a
constituição de redes nacionais e globais onde circulam novas
universidade reflecte os desígnios desta última. Tal como
pedagogias, novos processos de construção e de difusão de
tenho defendido para outras áreas da vida social (Santos,
conhecimentos científicos e outros, novos compromissos
2000; 2002a (org.); 2002b (org.); 2002c (org.); 2003 (org.)), o
sociais, locais, nacionais e globais. O objectivo consiste em
único modo eficaz e emancipatório de enfrentar a
resituar o papel da universidade pública na definição e
globalização neoliberal é contrapor-lhe uma globalização
resolução colectiva dos problemas sociais que agora, sejam
alternativa, uma globalização contra-hegemónica.
locais ou nacionais, não são resolúveis sem considerar a sua
Globalização contra-hegemónica da universidade enquanto
contextualização global. O novo contrato universitário parte
bem público significa especificamente o seguinte: as reformas
assim da premissa que a universidade tem um papel crucial na
nacionais da universidade pública devem reflectir um projecto
construção do lugar do país num mundo polarizado entre
de país centrado em escolhas políticas que qualifiquem a
globalizações contraditórias.
inserção do país em contextos de produção e de distribuição
de conhecimentos cada vez mais transnacionalizados e cada A globalização neoliberal assenta na destruição sistemática dos
vez mais polarizados entre processos contraditórios de projectos nacionais e, como estes foram muitas vezes
transnacionalização, a globalização neoliberal e a globalização desenhados com a colaboração activa das universidades e dos
contra hegemónica. Este projecto de país tem de resultar de universitários, é de esperar que, da sua perspectiva, a
um amplo contrato político e social desdobrado em vários universidade pública seja um alvo a abater enquanto não
contratos sectoriais, sendo um deles o contrato educacional estiver plenamente sintonizada com os seus objectivos. O que
e, dentro dele, o contrato da universidade como bem público. está em causa não é isolar a universidade pública das pressões
A reforma tem por objectivo central responder positivamente da globalização neoliberal, o que, além de ser impossível,
às demandas sociais pela democratização radical da podia dar a impressão de que a universidade tem estado
universidade, pondo fim a uma história de exclusão de grupos relativamente isolada dessas pressões. Ora tal não é o caso e,
sociais e seus saberes de que a universidade tem sido aliás, pode mesmo dizer-se que parte da crise da universidade
protagonista ao longo do tempo e, portanto, desde muito resulta de ela se ter já deixado cooptar pela globalização
antes da actual fase de globalização capitalista. Se a resposta a hegemónica. O que está em causa é uma resposta activa à
esta última tem de ser hoje privilegiada é apenas porque ela cooptação, em nome de uma globalização contra-hegemónica.
inviabiliza qualquer possibilidade de democratização e muito A globalização contra-hegemónica da universidade como bem
menos de democratização radical. É por esta razão que as público, que aqui proponho, mantém a ideia de projecto
escalas nacional e transnacional da reforma se interpenetram. nacional, só que o concebe de modo não nacionalista ou
autárcico. No século XXI só há nações na medida em que há a própria universidade pública, ou seja, quem nela está
projectos nacionais de qualificação de inserção na sociedade interessado numa globalização alternativa. A universidade
global. Para os países periféricos e semiperiféricos, não há pública é hoje um campo social muito fracturado e no seu
qualificação sem que a resistência à globalização neoliberal se seio digladiam-se sectores e interesses contraditórios. É certo
traduza em estratégias de globalização alternativa. A que em muitos países, sobretudo periféricos e semiperiféricos,
dificuldade e, por vezes, o drama da reforma da universidade tais contradições são por enquanto latentes já que o que
em muitos países reside no facto de ela obrigar a repor a domina é a posição defensiva da manutenção do status quo e
questão do projecto nacional que os políticos dos últimos da recusa, quer da globalização neoliberal, quer da
vinte anos não querem em geral enfrentar, quer porque ela é globalização alternativa. Esta é uma posição conservadora,
uma areia na engrenagem da sua rendição ao neoliberalismo, não por advogar a manutenção do status quo, mas porque,
quer porque a julgam ultrapassada enquanto instrumento de desprovida de alternativas realistas, acabará por ficar refém
resistência. A universidade pública sabe que sem projecto dos desígnios da globalização neoliberal da universidade. Os
nacional só há contextos globais e estes são demasiados universitários que denunciam esta posição conservadora e, ao
poderosos para que a crítica universitária dos contextos não mesmo tempo, recusam a ideia da inelutabilidade da
acarrete a descontextualização da própria universidade. O globalização neoliberal serão os protagonistas da reforma
excesso de lucidez da universidade permite-lhe denunciar que progressista que aqui proponho.
o rei vai nu e só por isso a reforma da universidade será
O segundo protagonista da resposta aos desafios é o Estado
sempre diferente de todas as outras. Será autoritária ou
nacional sempre e quando ele optar politicamente pela
democrática consoante a instância política se recusar ou aceitar
globalização solidária da universidade. Sem esta opção, o
ver-se ao espelho. Não há meio termo.27
Estado nacional acaba por adoptar, mais ou menos
25 Ao longo deste texto, quando me refiro à universidade pública assumo o seu carácter estatal.
incondicionalmente, ou por ceder, mais ou menos
Bresser Pereira, que foi Ministro da Ciência e Tecnologia e da Administração Federal e Reforma
do Estado no governo de Fernando Henrique Cardoso, tem sido um dos mais destacados relutantemente, às pressões da globalização neoliberal e, em
defensores da ideia da universidade pública não-estatal. Não é este o lugar para fazer uma crítica
qualquer caso, transformar-se-á no inimigo da universidade
detalhada desta proposta. Direi apenas que, para além de ser pouco provável que se possa adoptar
com êxito o modelo das universidades norte-americanas em contexto semi-periférico, esta pública por mais proclamações que faça em contrário. Dada a
proposta contém vários riscos: assume o fim da gratuitidade do ensino público; aprofunda o
desvinculamento do Estado em relação à universidade pública, já que o Estado deixa de ser o seu
relação de proximidade e de amor-ódio que o Estado manteve
financiador exclusivo; aumenta e desregula a competição entre a universidade pública e a com a universidade ao longo do século XX, as opções tendem
universidade privada e como esta, ao contrário do que se passa nos EUA, é de qualidade inferior
à universidade pública é natural que o nivelamento se dê por baixo. a ser dramatizadas.
26 Deve ter-se em mente que uma articulação inter-universitária não comercial não é, em si
Finalmente, o terceiro protagonista das reformas que
mesma, benigna. No passado, muitas articulações desse tipo foram o veículo privilegiado de
dominação colonial. No âmbito da reforma que aqui proponho deve submeter-se a escrutínio proponho são os cidadãos individualmente ou colectivamente
todo esse passado colonial. A reforma democrática da universidade fará pouco sentido se não
organizados, grupos sociais, sindicatos, movimentos sociais,
for também uma reforma anti-colonialista.
organizações não governamentais e suas redes, governos
27 Dada a desmoralização da universidade pública, acredito que muitos não vejam nesta lucidez e
muito menos “excesso de lucidez”. Outros, sobretudo universitários, exercitam esse excesso de locais progressistas, interessados em fomentar articulações
lucidez contra a universidade não vendo nela nada mais que privilégios e corporativismos. Com
nenhum deste grupos de críticos será possível contar para levar a cabo uma reforma progressista
cooperativas entre a universidade e os interesses sociais que
e democrática da universidade pública. representam. Ao contrário do Estado, este terceiro
A globalização contra-hegemónica da universidade como bem protagonista tem historicamente uma relação distante e por
público é, pois, um projecto político exigente que, para ter vezes mesmo hostil com a universidade precisamente em
credibilidade, tem de saber ultrapassar dois preconceitos consequência do elitismo da universidade e da distância que
contraditórios mas igualmente enraizados: o de que a esta cultivou durante muito tempo em relação aos sectores
universidade só pode ser reformada pelos universitários e o de ditos não cultos da sociedade. É um protagonista que tem de
que a universidade nunca se auto-reformará. Para isso, o ser conquistado por via da resposta à questão da legitimidade,
projecto tem de ser sustentado por forças sociais disponíveis ou seja, por via do acesso não classista, não racista, não sexista
e interessadas em protagonizá-lo. O primeiro protagonista é e não etnocêntrico à universidade e por todo um conjunto de
iniciativas que aprofundem a responsabilidade social da e globais.
universidade na linha do conhecimento pluriversitário
2.
solidário.
Para sair da sua posição defensiva, a universidade tem de estar
Para além destes três protagonistas há nos países
segura que a reforma não é feita contra ela. 28 A ideia de
semiperiféricos e periféricos um quarto grupo que, não tendo,
contrato educacional é aqui crucial porque não há contrato
em geral, condições para ser protagonista da reforma que aqui
quando há imposições ou resistências inegociáveis. Para que
proponho, pode, no entanto, integrar o contrato social que
tal não suceda, é necessário conhecer em que condições e para
dará legitimidade e sustentatibilidade à reforma. Trata-se do
quê a universidade deve sair da posição defensiva. Para isso,
capital nacional. É certo que os sectores mais dinâmicos do
é necessário revisitar os conceitos de crise de hegemonia e de
capital nacional – os sectores potencialmente mais eficazes na
legitimidade.
construção do contrato social – estão transnacionalizados e,
portanto, integrados na globalização neoliberal hostil ao O ataque à universidade por parte dos Estados rendidos ao
contrato social. No entanto, o processo de neoliberalismo foi de tal maneira maciço que é hoje difícil
transnacionalização destes sectores nos países periféricos e definir os termos da crise que não em termos neoliberais.
semiperifericos não ocorre sem contradições e a busca de Aliás, reside aqui a primeira manifestação da perda de
condições que melhorem a sua inserção na economia global hegemonia da universidade. A universidade perdeu a
depende de conhecimento científico, tecnológico ou gerencial capacidade de definir a crise hegemonicamente, isto é, com
produzido nas universidades. Nesta medida podem ter autonomia mas de modo que a sociedade se reveja nela. Aliás,
interesse em associar-se a uma reforma que defenda a é esta perda que justifica a nível mais profundo a dominância
Universidade pública, sobretudo nos casos em que não há de posições defensivas. É por isso crucial definir e sustentar
conhecimento de excelência. Desta posição geral sobre a Nestes últimos vinte anos, a universidade sofreu uma erosão
reforma da universidade pública e seus protagonistas talvez irreparável na sua hegemonia decorrente das
decorrem os seguintes princípios orientadores. transformações na produção do conhecimento, com a
funções desta, seleccionando as que se lhe afiguraram fonte de da universidade deve centrar-se nela. São cinco as áreas de
lucro e concentrando-se nelas. acção neste domínio: acesso; extensão; pesquisa-acção;
ecologia de saberes; universidade e escola pública. As duas
As reformas devem partir do pressuposto que no século XXI
primeiras são as mais convencionais, mas terão de ser
só há universidade quando há formação graduada e pós-
profundamente revistas; a terceira tem sido praticada em
graduada, pesquisa e extensão. Sem …
algumas universidades latino-americanas e africanas durante
A reforma deve, pois, distinguir, mais claramente do que até alguns períodos de maior responsabilidade social por parte da
aqui, entre universidade e ensino superior.30 No que respeita universidade; a quarta constitui uma decisiva inovação na
às universidades públicas que o não são verdadeiramente, o construção de uma universidade pós-colonial; a quinta é uma
problema deve ser resolvido no âmbito da criação de uma área de acção que teve no passado uma grande presença mas
rede universitária pública, proposta adiante, que possibilite às que tem de ser hoje totalmente reinventada.
universidades que não podem ter pesquisa ou cursos de pós-
4.1. Acesso
graduação autónomos fazê-lo em parceria com outras
universidades no âmbito da rede nacional ou mesmo Na área do acesso, a maior frustração da última década foi que
transnacional. Não é sustentável e muito menos o objectivo de democratização do acesso não foi conseguido.
recomendável, do ponto de vista de um projecto nacional Na maioria dos países os factores de discriminação, sejam eles
educacional, um sistema universitário em que as pós- a classe, a raça, sexo ou etnia, continuaram a fazer do acesso
graduações e a pesquisa estejam concentradas numa pequena uma mistura de mérito e privilégio. Em vez de
minoria de universidades. democratização, houve massificação e depois, já no período
da alegada pós-massificação, uma forte segmentação do
No que respeita às universidades privadas – no caso de estas
ensino superior com práticas de autêntico dumping social de
quererem manter o estatuto e a designação de universidades
diplomas e diplomados, sem que nenhumas medidas anti-
dumping eficazes tenham sido tomadas. As universidades dos 3. Nas sociedades multinacionais e pluri-culturais, onde o
segmentos mais altos poucas iniciativas tomaram, para além racismo, assumido ou não, é um facto, as discriminações
de defenderem os seus critérios de acesso, invocando o facto, raciais ou étnicas devem ser confrontadas enquanto tal com
muitas vezes verdadeiro, que as mais persistentes programas de acção afirmativa (cotas e outras medidas) que
discriminações ocorrem a montante da universidade, a nível devem visar, não só o acesso, como também o
de educação primária e secundária. É de prever que a acompanhamento, sobretudo durante os primeiros anos
transnacionalização dos serviços de educação superior agrave onde são por vezes altas as taxas de abandono. Sem dúvida
o fenómeno da segmentação porque o transnacionaliza. que a discriminação racial ou étnica ocorre em conjunção
Alguns fornecedores estrangeiros dirigem a sua oferta para os com a discriminação de classe, mas não pode ser reduzida a
melhores alunos vindos das escolas secundárias mais elitistas esta e deve ser objecto de medidas específicas. Na Índia, a
ou vindos da graduação das melhores universidades discriminação de casta é objecto de acção afirmativa, apesar
nacionais. Num sistema transnacionalizado, as melhores de actuar em conjunção com a discriminação de classe e de
universidades dos países periféricos e semiperiféricos, que sexo. Na África do Sul, a discriminação racial é objecto de
ocupam o topo da segmentação nacional, passarão a ocupar acção afirmativa, apesar de actuar em conjunção com a
os escalões inferiores da segmentação global. Das quatro discriminação de classe. A reforma da universidade deve dar
formas de serviços transnacionalizados, o consumo no uma centralidade muito específica às acções contra a
estrangeiro é um dos mais responsáveis pelo novo brain drain, discriminação racial. Tal como acontece na Índia e na África
particularmente evidente na Índia, mas também presente do Sul, tais acções devem estar articuladas com medidas em
nalguns países africanos, como por exemplo no Quénia e no outras esferas, como o acesso a empregos públicos e, em
Gana. geral, ao mercado de trabalho, vinculando-se ao projecto do
país e dando testemunho dele.
Entre as ideias-mestras por que se deve pautar a área de
acesso, distingo as seguintes: 31 Em vários países há experiências concretas de colaboração entre as universidades e instituições
de ensino médio e básico. Em Portugal, por exemplo, várias faculdades e centros de investigação
“adoptam” algumas instituições para parcerias mais intensas de colaboração pedagógica e de
1. Nos países onde a discriminação no acesso à universidade
divulgação científica. O Programa “Ciência Viva” criado em 1996 tem feito um bom trabalho de
assenta, em boa parte, nos bloqueios ao nível do ensino intermediação entre as universidades e o ensino médio e básico. Ver adiante a secção sobre
universidade e escola pública.
básico e médio, a reforma progressista da universidade, por
32 Talvez seja mais correcto designar a área do acesso como acesso/permanência ou mesmo
contraposição à proposta pelo Banco Mundial, deve dar acesso/permanência/sucesso, uma vez que o que está em causa é garantir, não só o acesso, mas
incentivos à universidade para promover parcerias activas, no
No Brasil, as políticas de acção afirmativa assumem hoje
domínio pedagógico e científico, com as escolas públicas.31
grande destaque e merecem uma referência especial. Em
2. A universidade pública deve permanecer gratuita e aos resposta à crescente pressão de movimentos sociais pela
estudantes das classes trabalhadoras devem ser concedidas democratização do acesso ao ensino superior, especialmente
bolsas de manutenção e não empréstimos.32 Se não for do movimento negro, o Governo Lula lançou no primeiro
controlado, o endividamento dos estudantes universitários semestre de 2004 o programa “Universidade para Todos”
será a prazo uma bomba relógio. Estamos a lançar num (PROUNI) que preconiza uma acção afirmativa baseada em
mercado de trabalho, cada vez mais incerto, uma população critérios raciais e sócio-económicos. Dois projectos de lei
onerada pela certeza de uma dívida que pode levar 20 anos a elaborados pelo Ministério da Educação e já encaminhados ao
saldar. As bolsas devem ser concedidas mediante Congresso Nacional definem o escopo e os instrumentos
contrapartidas de trabalho nas actividades universitárias no dessa nova política de inclusão social no ensino superior. O
campus ou fora do campus. Por exemplo, estudantes de primeiro projecto prevê bolsa de estudo integral para alunos
licenciaturas poderiam oferecer algumas horas semanais em de baixa renda a conceder pelas próprias instituições privadas
escolas públicas, como tutores, ajudando alunos com de ensino superior em troca da manutenção de isenções
dificuldades de aprendizagem. fiscais e previdenciárias já concedidos pelo Estado.33 De
acordo com a proposta do Executivo, as instituições também da prioridade epistemológica concedida à ciência. As tarefas
a permanência e o sucesso dos estudantes oriundos de classes da democratização do acesso são, assim, particularmente
ou grupos sociais discriminados. exigentes porque questionam a universidade no seu todo, não
só quem a frequenta, como os conhecimentos que são
que aderirem ao programa deverão destinar pelo menos 10%
transmitidos a quem a frequenta.
das suas vagas para estudantes de baixa renda e professores
da rede pública de educação básica. A segunda proposta 33 Os incentivos fiscais concedidos pelo governo federal às instituições privadas filantrópicas
representam R$ 839,7 milhões ao ano. Este montante refere-se à renúncia fiscal. De acordo com
legislativa determina que as instituições públicas federais de a legislação brasileira, as instituições filantrópicas são isentas do recolhimento da contribuição
previdenciária patronal e outros tributos federais. Além dos incentivos fiscais, o ensino superior
educação superior deverão destinar pelo menos 50% das suas
privado conta neste ano com uma dotação de R$ 829 milhões para o programa de Financiamento
vagas para estudantes das escolas públicas. Estas vagas, por Estudantil. Desde a sua instituição, em 1999, o Fies já beneficiou cerca de 218 mil estudantes
(Folha de S. Paulo, 12/04/2004).
sua vez, deverão ser distribuídas de forma a reflectir a
34 Quanto ao tema do critério racial, o projecto do governo propõe o critério de auto-declaração.
composição étnica de cada unidade da Federação, cabendo
às respectivas instituições de educação superior fixar o 4.2. Extensão
percentual de vagas a serem preenchidas por estudantes A área de extensão vai ter no futuro próximo um significado
negros e indígenas. Em consonância com o princípio da muito especial. No momento em que o capitalismo global
autonomia universitária, o projecto garante latitude para que pretende funcionalizar a universidade e, de facto, transformá-
cada instituição determine os critérios de distribuição e de la numa vasta agência de extensão ao seu serviço, a reforma da
selecção para o preenchimento das vagas reservadas a universidade deve conferir uma nova centralidade às
estudantes de baixa renda e grupos raciais sub-representados actividades de extensão (com implicações no curriculum e nas
no ensino superior. Estas propostas representam um esforço carreiras dos docentes) e concebê-las de modo alternativo ao
meritório no sentido de combater o tradicional o elitismo capitalismo global, atribuindo às universidades uma
social da universidade pública, em parte responsável pela participação activa na construção da coesão social, no
perda de legitimidade social desta, sendo, por isso, de saudar. aprofundamento da democracia, na luta contra a exclusão
Têm, no entanto, enfrentado muita resistência. O debate tem social e a degradação ambiental, na defesa da diversidade
incidido no tema convencional da contraposição entre cultural. Esta é uma área que, para ser levada a cabo com êxito,
democratização do acesso e a meritocracia mas também em exige cooperação intergovernamental entre, por exemplo,
temas novos, como o do método da reserva de vagas e as Ministros da Educação, do Ensino Superior e Tecnologia, da
dificuldades em aplicar o critério racial numa sociedade Cultura e das Áreas Sociais. A extensão envolve uma vasta
altamente miscigenada.34 área de prestação de serviços e os seus destinatários são
Algumas das universidades públicas mais prestigiadas e variados: grupos sociais populares e suas organizações;
competitivas, como a Universidade de São Paulo (USP), têm movimentos sociais; comunidades locais ou regionais;
resistido à pressão social em prol de políticas de acção governos locais; o sector público; o sector privado. Para além
afirmativa, a despeito do acumulo de provas quanto ao seu de serviços prestados a destinatários bem definidos, há
carácter elitista35e têm proposto medidas alternativas de também toda uma outra área de prestação de serviços que tem
inclusão social que preservem o critério de mérito para a sociedade em geral como destinatária. A título de exemplo:
ingresso no ensino superior.36 4. A avaliação crítica do acesso “incubação” da inovação; promoção da cultura científica e
e, portanto, dos obstáculos ao acesso – como, de resto a técnica; actividades culturais no domínio das artes e da
discussão das áreas da extensão e da ecologia de saberes – deve literatura.
incluir explicitamente o carácter colonial da universidade Para que a extensão cumpra este papel é preciso evitar que ela
moderna. A universidade não só participou na exclusão social seja orientada para actividades rentáveis com o intuito de
das raças e etnias ditas inferiores, como teorizou a sua arrecadar recursos extra orçamentários.37 Nesse caso,
inferioridade, uma inferioridade que estendeu aos estaremos perante uma privatização discreta (ou não tão
conhecimentos produzidos pelos grupos excluídos em nome
discreta) da universidade pública. Para evitar isso, as aqui, como em geral, a luta contra esta funcionalização só é
actividades de extensão devem ter como objectivo prioritário, possível através da construção de uma alternativa que marque
sufragado democraticamente no interior da universidade, o socialmente a utilidade social da universidade, mas formule
apoio solidário na resolução dos problemas da exclusão e da essa utilidade de modo contra-hegemónico.
discriminação sociais e de tal modo que nele se dê voz aos
4.4. Ecologia de saberes
grupos excluídos e discriminados de escolas públicas e
expandindo a isenção da taxa de inscrição no vestibular para A ecologia de saberes é um aprofundamento da pesquisa-
alunos com carências económicas (Folha de S. Paulo, acção. É algo que implica uma revolução epistemológica no
30/5/2004). seio da universidade e, como tal, não pode ser decretada por
lei. A reforma deve apenas criar espaços institucionais que
35 Um estudo recente revelou, por exemplo, que apenas uma rua, a Bela Cintra, localizada na
região afluente dos Jardins, concentra mais ingressantes no vestibular da USP de 2004 do que 74 facilitem e incentivem a sua ocorrência. A ecologia de saberes
bairros periféricos da zona sul. Os bairros da elite de São Paulo, que representam 19,5% da
é, por assim dizer, uma forma de extensão ao contrário, de
população total do município, respondem por 70,3% dos ingresssantes da USP, enquanto os
bairros periféricos, que concentram 80,5% da população, ocupam apenas 29,7% das vagas da fora da universidade para dentro da universidade. Consiste na
universidade (Folha de S. Paulo, 30/5/2004). O estudo foi realizado pelo Núcleo de Apoio a
Estudos da Graduação (Naeg), vinculado ao Instituto de Matemática e Estatistica da USP. Os
promoção de diálogos entre o saber científico ou
resultados completos estão disponíveis na página do Naeg (www.naeg.prg.usp.br). humanístico, que a universidade produz, e saberes leigos,
36 É o caso da USP que, em vez de facilitar o acesso, se propõe “reforçar a competitividade dos populares, tradicionais, urbanos, camponeses, provindos de
jovens pobres”. Para isso, está abrindo cursos preparatórios para o vestibular destinados a
alunos culturas não ocidentais (indígenas, de origem africana,
37 É isto o que está a acontecer no Brasil com muitas das actividades de extensão das fundações
oriental, etc.) que circulam na sociedade. De par com a euforia
das universidades. tecnológica, ocorre hoje uma situação de falta de confiança
4.3. Pesquisa-acção epistemológica na ciência que deriva da crescente visibilidade
das consequências perversas de alguns progressos científicos
A pesquisa-acção e a ecologia de saberes são áreas de
e do facto de muitas das promessas sociais da ciência moderna
legitimação da universidade que transcendem a extensão uma
não se terem cumprido. Começa a ser socialmente perceptível
vez que tanto actuam ao nível desta como ao nível da pesquisa
que a universidade, ao especializar-se no conhecimento
e da formação. A pesquisa-acção consiste na definição e
científico e ao considerá lo a única forma de conhecimento
execução participativa de projectos de pesquisa, envolvendo
válido, contribuiu activamente para a desqualificação e
as comunidades e organizações sociais populares a braços
mesmo destruição de muito conhecimento não-científico e
com problemas cuja solução pode beneficiar dos resultados
que, com isso, contribuiu para a marginalização dos grupos
da pesquisa. Os interesses sociais são articulados com os
sociais que só tinham ao seu dispor essas formas de
interesses científicos dos pesquisadores e a produção do
conhecimento. Ou seja, a injustiça social contém no seu
conhecimento científico ocorre assim estreitamente ligada à
âmago uma injustiça cognitiva. Isto é particularmente óbvio à
satisfação de necessidades dos grupos sociais que não têm
escala global já que os países periféricos, ricos em saberes não
poder para pôr o conhecimento técnico e especializado ao seu
científicos, mas pobres em conhecimento científico, viram
serviço pela via mercantil. A pesquisa-acção, que não é de
este último, sob a forma da ciência económica, destruir as suas
modo nenhum específica das ciências sociais, não tem sido,
formas de sociabilidade, as suas economias, as suas
em geral, uma prioridade para a universidade. Tem, no
comunidades indígenas e camponesas, o seu meio ambiente.38
entanto, uma longa tradição na América Latina, apesar de ter
A vinculação recíproca entre injustiça social e injustiça cognitiva será uma das ideias que mais
sido mais forte nos anos 1960 e 1970 do que é hoje. Tal como
38
resistência encontrará no seio da universidade uma vez que esta foi historicamente o grande
acontece com as actividades de extensão, a nova centralidade
Sob formas muito diferentes, algo semelhante se passa nos
a conceder à pesquisa-acção deve-se ao facto de a
países centrais onde os impactos negativos ambientais e
transnacionalização da educação superior trazer no seu bojo
sociais do desenvolvimento científico começam a entrar nos
o projecto de transformar a universidade num centro de
debates no espaço público, forçando o conhecimento
pesquisa-acção ao serviço do capitalismo global. Também
científico a confrontar-se com outros conhecimentos, leigos,
filosóficos, de senso comum, éticos e mesmo religiosos. Por saberes.
esta confrontação passam alguns dos processos de promoção
Uma oficina de ciência é uma unidade que pode estar ligada a
da cidadania activa crítica.
uma universidade e, dentro desta, a um departamento ou
A ecologia de saberes são conjuntos de práticas que unidade orgânica específica, e que responde a solicitações de
promovem uma nova convivência activa de saberes no cidadãos ou de grupos de cidadãos, de associações ou
pressuposto que todos eles, incluindo o saber científico, se movimentos cívicos ou de organizações do terceiro sector e,
podem enriquecer nesse diálogo. Implica uma vasta gama de em certos casos, empresas do sector privado para o
acções de valorização, tanto do conhecimento cientifico, desenvolvimento de projectos que sejam claramente de
como de outros conhecimentos práticos, considerados úteis, interesse público (identificação e proposta de resolução de
cuja partilha por pesquisadores, estudantes e grupos de problemas sociais, ambientais, nas áreas do emprego, do
cidadãos serve de base à criação de comunidades epistémicas consumo, da saúde pública, da energia, etc., etc.; facilitação da
mais amplas que convertem a universidade num espaço constituição de organizações e associações de interesse social
público de interconhecimento onde os cidadãos e os grupos comunitário; promoção de debates públicos, etc.). A
sociais podem intervir sem ser exclusivamente na posição de solicitação é estudada em conjunto através de procedimentos
aprendizes. participativos em que intervêm todos os interessados e os
responsáveis da oficina de ciência. Estes últimos contactam
Quer a pesquisa-acção, quer a ecologia de saberes situam-se
os departamentos ou especialistas da universidade em causa
na procura de uma reorientação solidária da relação
ou, eventualmente, da rede inter-universitária de oficinas de
universidade-sociedade. É este o caso das “oficinas de
ciência potencialmente interessados em integrar o projecto.
ciência” (science shops). Com base nas experiências de pesquisa
Constitui-se então uma equipa, que inclui todos os
acção e de activismo de cientistas e estudantes nos anos 1970,
interessados, e que desenha o projecto e a metodologia
foram criadas as oficinas de ciência que viriam a constituir um
participativa de intervenção.39 Em universidades de alguns
movimento com algum dinamismo em vários países
países (Dinamarca, por exemplo), as oficinas de ciência são
europeus. Depois de um período de relativo declínio, o
integradas nas actividades curriculares de diferentes cursos.
movimento está hoje a ressurgir na Europa, com o apoio de
São oferecidos seminários de formação para os estudantes
programas da agente do epistemicídio cometido contra os
que desejem participar em oficinas de ciência e os trabalhos de
saberes locais, leigos, indígenas, populares em nome da
fim de curso podem incidir sobre os resultados dessa
ciência moderna. No Brasil, a resistência será quiçá maior uma
participação. O mesmo se passa com a realização de teses de
vez que a elite universitária se deixou facilmente iludir pela a
pós-graduação, que poderão consistir num projecto que
ideia auto-congratulatória do país novo, país sem história,
responde à solicitação a uma oficina de ciência.
como se no Brasil só houvesse descendentes de imigrantes
europeus dos séculos XIX e XX e não, portanto, também As oficinas de ciência são uma interessante experiência de
povos ancestrais, indígenas e descendentes de escravos. democratização da ciência e de orientação solidária da
actividade universitária. Embora algumas delas – sob a
Comissão Europeia, e também noutras partes do mundo. Nos
pressão da busca de receitas no mercado – tenham evoluído
EUA, um movimento próximo, ainda que com outras
no sentido de se transformarem em unidades de prestação
características, é o da “pesquisa comunitária” (community-based
remunerada de serviços, os modelos solidários continuam a
research). Este movimento, já organizado internacionalmente
ter um forte potencial de criação de nichos de orientação
na rede “conhecimento vivo” (living knowledge), visa criar um
cívica e solidária na formação das estudantes e na relação das
espaço público de saberes onde a universidade possa
universidades com a sociedade, e de funcionarem como
confrontar a injustiça cognitiva através da reorientação
“incubadoras” de solidariedade e de cidadania activa.40
solidária das suas funções. As oficinas de ciência são um
híbrido onde se combina a pesquisa-acção e a ecologia de As oficinas de ciência são apenas um entre vários exemplos de
como a universidade, enquanto instituição pública, poderá metodologias quantitativas, na ênfase em estudos de carácter
assumir uma orientação solidária tanto na formação dos seus avaliativo e de diagnóstico informados pela racionalidade
estudantes como nas suas actividades de pesquisa e de económica, baseada na análise custo-benefício, e, finalmente,
extensão. Para além das oficinas de ciência, outras iniciativas na preocupação obsessiva com a medição dos resultados da
estão em curso que visam a contextualização do aprendizagem através da aplicação periódica de testes
conhecimento científico. Têm em comum a padronizados. Temas como eficiência, competição,
reconceptualização dos processos e prioridades de pesquisa a performance, choice e accountability ganharam centralidade na
partir dos utilizadores e a transformação destes em co- agenda educacional. As pesquisas produzidas fora das
produtores de conhecimento. universidades, patrocinadas e financiadas por organismos
internacionais e fundações privadas, passaram a ter uma
Veja-se, por exemplo, a contribuição dos doentes de AIDS no
enorme influência sobre as políticas públicas de educação,
desenvolvimento de ensaios clínicos e da própria orientação
condicionando as escolhas dos gestores dos sistemas públicos
da agenda de pesquisa da cura da doença, no caso do Brasil e
de ensino. Excluída do debate e frequentemente acusada de
da África do Sul.
defender o status quo das corporações do ensino público e de
39 A participação só é genuína na medida em que condiciona efectivamente os resultados e os
meios e métodos para chegar a ele. Sob o nome de participação e de outros similares, como, por
opor-se às reformas, a universidade recolheu-se ao papel de
exemplo, consulta, são hoje conduzidos projectos de “assistência” Norte-Sul indisfarçavelmente questionar o discurso dominante sobre a crise da escola
neo-coloniais.
pública e não se esforçou em formular alternativas. Daí que os
4.5. Universidade e Escola Pública41 educadores e gestores escolares comprometidos com
Ao tratar o tema do acesso referi a necessidade de vincular a projectos progressistas e contra-hegemónicos se queixem da
universidade à educação básica e secundária. Esta vinculação falta de envolvimento e apoio da universidade pública.
merece um tratamento separado por se me afigurar ser uma Igualmente, na área da formação, as reformas educacionais das
área fundamental na reconquista da legitimidade da últimas décadas revelam uma estratégia deliberada de
universidade. É uma área muito vasta pelo que neste texto me desqualificação da universidade como locus de formação
concentro num tema específico: o saber pedagógico. Este docente. A marginalização da universidade corre de par com a
tema abrange três sub-temas: produção e difusão de saber exigência da qualificação terciária dos professores de todos os
pedagógico; pesquisa educacional; e formação dos docentes níveis de ensino42, do que resulta a progressiva privatização
da escola pública. É um tema de importância crescente, dos programas de capacitação para professores. O
avidamente cobiçado pelo mercado educacional, onde a “treinamento e capacitação de professores” tornou-se um dos
universidade já teve uma intervenção hegemónica que
segmentos mais prósperos do emergente mercado
entretanto perdeu. Este facto é hoje responsável pelo educacional, testemunhado pela proliferação de instituições
afastamento da universidade em relação à escola pública – a privadas que oferecem cursos de capacitação de professores
separação entre o mundo académico e o mundo da escola – para as redes de ensino.
um afastamento que, a manter-se, minará qualquer esforço
O fosso cavado entre a universidade pública e o saber
sério no sentido de relegitimar socialmente a universidade.
pedagógico é prejudicial, tanto para a escola pública, como
Sob a égide da globalização neoliberal, organismos para a universidade. A resistência desta última ao novo
internacionais, organizações não-governamentais e uma receituário educacional não pode reduzir-se à crítica já que a
plêiade de fundações e institutos privados têm vindo a crítica, num contexto de crise de legitimidade da universidade,
assumir algumas das funções da universidade pública no acaba por vincar o isolamento social desta. Para dar um
desenvolvimento da educação pública, em especial no campo exemplo, a crítica produzida nas faculdades de educação tem
da pesquisa educacional aplicada. Esta mudança na reforçado a percepção de que a universidade está sobretudo
titularidade das funções repercute-se no conteúdo do seu empenhada na defesa do status quo. Romper com esta
desempenho. Essa mudança manifesta-se na primazia das percepção deve ser um dos objectivos centrais de uma
reforma universitária progressista e democrática.43 O princípio popularidade com que circulam hoje, sobretudo nos países
a ser afirmado é o compromisso da universidade com a escola centrais, os conceitos de “sociedade de conhecimento” e de
pública. A partir daí, trata-se de estabelecer mecanismos “economia baseada no conhecimento” é reveladora da
institucionais de colaboração através dos quais seja construída pressão que tem sido exercida sobre a universidade para
uma integração efectiva entre a formação profissional e a produzir o conhecimento necessário ao desenvolvimento
prática de ensino. Entre outras directrizes, a reforma aqui tecnológico que torne possível os ganhos de produtividade e
defendida deve propugnar: de competitividade das empresas. A pressão é tão forte que vai
muito para além das áreas de extensão, já que procura definir
1) Valorização da formação inicial e sua articulação com os
à imagem dos seus interesses, o que conta como pesquisa
programas de formação continuada;
relevante, o modo como deve ser conduzida e apropriada.
2) Reestruturação dos cursos de licenciatura de forma a Nesta redefinição colapsa não só a distinção entre extensão e
assegurar a integração curricular entre a formação profissional produção de conhecimento, como a distinção entre pesquisa
e formação académica; fundamental e pesquisa aplicada.
3) Colaboração entre pesquisadores universitários e Nos Estados centrais, e sobretudo nos EUA, a relação entre
professores das escolas públicas na produção e difusão do o Estado e a universidade tem vindo a ser dominada pelo
saber pedagógico, mediante reconhecimento e estímulo da imperativo central neste domínio: a contribuição da
pesquisa-ação. universidade para a competitividade económica e também
4) Criação de redes regionais e nacionais de universidades para a supremacia militar. As políticas de pesquisa têm sido
públicas para desenvolvimento de programas de formação orientadas de modo a privilegiar a pesquisa nas áreas que
continuada em parceria com os sistemas públicos de ensino. interessam às empresas e à comercialização dos resultados da
pesquisa. Os cortes no financiamento público da universidade
40 Uma análise das oficinas de ciência pode ler-se em Wachelder, 2003.
são vistos como “incentivos” a que a universidade procure
41 Esta secção deve muito aos meus diálogos com Paulino Motter.
financiamentos privados, entre em parcerias com a indústria,
42 É este o caso do Brasil onde a nova lei de directrizes de bases da educação nacional (LDB,
1996) estabelece que a partir de 2007 todos os professores da educação básica devem ter patenteie os seus resultados e desenvolva actividades de
formação de nível superior.
comercialização incluindo a comercialização da sua própria
43 Experiências inovadoras de integração entre universidades públicas e sistemas de ensino devem
marca.
servir como referência prática. Por exemplo, no Brasil, algumas universidades federais
responderam criativamente às novas exigências estabelecidas pela LDB, criando licenciaturas
especialmente desenhadas para atender professores das redes estaduais e municipais de ensino
A resposta a esta pressão assume algum dramatismo e é o
que não possuem formação profissional académica. Uma experiência bem sucedida tem sido domínio que mais dificuldades levanta à universidade. Por
desenvolvida pela Universidade Federal de Pelotas (comunicação pessoal de Paulino Motter).
quatro razões principais: porque é o domínio em que é maior
4.6. Universidade e indústria a disjunção entre o modelo institucional tradicional da
As áreas de conquista de legitimidade que acabei de referir são universidade e o modelo novo que está implícito nos
áreas que devem ser particularmente incentivadas, porque desempenhos exigidos; porque nele a universidade entra em
estão globalmente em risco. São também as áreas mais concorrência directa com outras instituições e actores que
consistentemente articuladas com um projecto de reforma emergiram do modelo novo com objectivos muito distintos
progressista. Há, no entanto, uma área de legitimação e de dos da universidade; porque é aqui que os modelos de gestão
responsabilização social que tem vindo a assumir nos últimos pública da universidade são mais directamente postos em
vinte anos uma premência sem precedentes. Trata-se da causa e comparados negativamente com os modelos privados
relação entre a universidade e o sector capitalista privado de gestão; porque torna mais evidente que a legitimação e
enquanto consumidor ou destinatário de serviços prestados responsabilização da universidade em relação a certos
pela universidade. Como vimos, este sector surge hoje interesses e aos grupos sociais que os sustentam pode
crescentemente como produtor de serviços educacionais e significar a deslegitimação e a desresponsabilização da
universitários. Aqui refiro-me a ele enquanto consumidor. A universidade em relação a outros interesses e outros grupos
sociais subalternos, populares. É neste domínio que ocorre a universidade. Por outro lado, a pesquisa direccionada e, muito
transformação do conhecimento como bem público em bem mais ainda, a pesquisa comercialmente contratualizada e a
privado ou privatizável, transaccionável no mercado. A consultoria impõem ritmos de pesquisa acelerados impelidos
universidade é pressionada para transformar o conhecimento pela sede de resultados úteis. Estes ritmos impedem a
e os seus recursos humanos em produtos que devem ser maturação normal dos processos de pesquisa e de discussão
explorados comercialmente. A posição no mercado passa a ser de resultados, quando não atropelam os protocolos de
crucial e, nos processos mais avançados, é a própria pesquisa e os critérios de avaliação dos resultados.
universidade que se transforma em marca.
Não se exclui a utilidade para a própria universidade de uma
Neste domínio, a reforma progressista da universidade como interacção com o meio empresarial em termos de
bem público deve pautar-se pelas seguintes ideias: identificação de novos temas de pesquisa e de aplicação
tecnológica e de análises de impacto. O importante é que a
1. É crucial que a comunidade científica não perca o controle
universidade esteja em condições de explorar esse potencial e
da agenda de pesquisa científica. Para isso, é necessário antes
para isso não pode ser posta numa posição de dependência e
de mais que a asfixia financeira não obrigue a universidade
muito menos de dependência ao nível da sobrevivência em
pública a recorrer à privatização das suas funções para
relação aos contratos comerciais.
compensar os cortes orçamentais. É crucial que a abertura ao
exterior não se reduza à abertura ao mercado e que a O tema mais polémico nesta área é a do patenteamento do
universidade possa desenvolver espaços de intervenção que, conhecimento. Nos países centrais a luta por patentes,
de algum modo, equilibram os interesses múltiplos e mesmo sobretudo em áreas comercialmente mais atractivas como,
contraditórios que circulam na sociedade e que, com maior ou por exemplo, as da biotecnologia, está a transformar por
menor poder de convocação, interpelam a universidade. completo os processos de pesquisa e as relações no interior da
Mesmo nos EUA, onde a empresarialização do conhecimento comunidade científica, uma vez que bloqueia a colegialidade
avançou mais, é hoje defendido que a liderança tecnológica dos processos de pesquisa e a discussão livre e aberta dos
deste país assenta num certo equilíbrio entre a pesquisa resultados. Segundo muitos, põe em causa o próprio avanço
fundamental, realizada, sem directo interesse comercial, nas da ciência, para além de provocar uma distorção fatal nas
universidades, e a pesquisa aplicada sujeita ao ritmo e ao risco prioridades da pesquisa. O problema do patenteamento é um
empresarial. dos que melhor revela a segmentação global da produção de
conhecimento. Ele só é relevante nos poucos países em que
2. As agências públicas de financiamento da pesquisa devem
há grande capacidade de absorção comercial do
regular – mas sem eliminar – o controle da agenda por parte
conhecimento produzidos.
da comunidade universitária em nome de interesses sociais
considerados relevantes e que obviamente estão longe de ser 4.7. O reforço da responsabilidade social da universidade
apenas os que são relevantes para a actividade empresarial. O
Reconheço que o que acabo de propor é um vasto programa
recurso crescente aos concursos para a chamada pesquisa
de responsabilização social da universidade. Julgo, no entanto,
direccionada (targeted research) tem de ser moderado por
que só através dele a universidade pública pode lutar
concursos gerais, em que a comunidade científica, sobretudo
eficazmente pela sua legitimidade. A universidade tem de
a mais jovem, tenha a possibilidade de desenvolver criativa e
entender que a produção de conhecimento epistemológica e
livremente novas áreas de pesquisa que, por enquanto, não
socialmente privilegiado e a formação de elites deixaram de
suscitam nenhum interesse por parte do capital ou do Estado.
poder assegurar por si só a legitimidade da universidade a
A pesquisa direccionada centra-se no que é importante hoje
partir do momento em que perdeu a hegemonia mesmo no
para quem tem o poder de definir o que é importante. Com
desempenho destas funções e teve de as passar a desempenhar
base nela, não é possível pensar o longo prazo e, como referi,
num contexto competitivo. A luta pela legitimidade permite
é este talvez o único nicho de hegemonia que resta à
ampliar o potencial destas funções, complementando-as com
outras onde o vínculo social seja mais transparente. Mas para onde o debate e a crítica sobre o longo prazo das sociedades
que isso ocorra, a universidade tem de ser dotada das se pode realizar com muito menos restrições do que é comum
condições adequadas tanto financeiras como institucionais. no resto da sociedade. Este cerne de hegemonia é demasiado
Ao contrário do que o capitalismo educacional faz crer, as irrelevante nas sociedades capitalistas de hoje para poder
deficiências no desempenho da responsabilidade social da sustentar a legitimidade da universidade. É por isso que a
universidade não decorrem do excesso de autonomia, mas, reforma institucional se tem de centrar nesta última.
pelo contrário, da falta dela e dos meios financeiros
A reforma institucional que aqui proponho visa fortalecer a
adequados. O Estado e a sociedade não podem reclamar da
legitimidade da universidade pública num contexto da
universidade novas funções quando a asfixia financeira não
globalização neoliberal da educação e com vista a fortalecer a
lhe permite sequer desempenhar as funções mais
possibilidade de uma globalização alternativa. As suas áreas
tradicionais.44 Uma vez criadas as condições, a universidade
principais podem resumir-se nas seguintes ideias: rede,
deve ser incentivada a assumir formas mais densas de
democratização interna e externa, avaliação participativa.
responsabilidade social, mas não deve ser funcionalizada
nesse sentido. A responsabilidade social da universidade tem 5.1. Rede
de ser assumida pela universidade, aceitando ser permeável às A primeira ideia é a de rede nacional de universidades públicas.
demandas sociais, sobretudo àquelas oriundas de grupos Em quase todos os países há associações de universidades,
sociais que não têm poder para as impor. A autonomia mas tais associações estão longe de constituir uma rede. Na
universitária e a liberdade académica – que, no passado, foram maior parte dos casos, são meros grupos de pressão que
esgrimidas para desresponsabilizar socialmente a universidade reivindicam colectivamente benefícios de que só
– assumem agora uma nova premência, uma vez que só elas individualmente se apropriam. Muito para alem disso,
podem garantir uma resposta empenhada e criativa aos proponho que o bem público da universidade passe a ser
desafios da responsabilidade social. Porque a sociedade não é produzido em rede, o que significa que nenhum dos nós da
uma abstracção, esses desafios são contextuais em função da rede pode assegurar por si qualquer das funções em que se
região, ou do local e, portanto, não podem ser enfrentados traduz esse bem, seja ele a produção de conhecimento, a
com medidas gerais e rígidas. formação graduada e pós-graduada ou a extensão. Isto implica
identificar o que é.45 Os processos de globalização tornam a universidade pública no seu conjunto de modo a qualificá-
mais visível essa heterogeneidade e intensificam-na. O que la para discutir os termos da sua inserção na globalização da
resta da hegemonia da universidade é o ser um espaço público universidade, a construção da massa crítica é uma
precondição e essa só é obtível na grande maioria dos países universidade como bem público tem de partir da
quando se põem recursos em conjunto, se buscam sinergias solidariedade e da cooperação no interior da rede nacional de
e se maximiza o desempenho funcional a partir dos universidades. Mas, como referirei adiante, esta rede nacional
contributos diferenciados que os diferentes nós da rede deve estar à partida transnacionalizada, isto é, deve integrar
podem dar. Assim, a construção da rede pública implica a universidades estrangeiras apostadas em formas de
partilha de recursos e de equipamentos, a mobilidade de transnacionalização não mercantil. Obviamente que essas
docentes e estudantes no interior da rede e uma padronização relações – ditas hoje “relações internacionais” – já existem. Só
mínima de planos de cursos, de organização do ano escolar, que têm de ser intensificadas até ao ponto de serem tão
dos sistemas de avaliação. Nada disto tem de eliminar as constitutivas da rede que deixam de ser consideradas
especificidades com que cada universidade pretende exteriores ou apendiculares.
responder ao contexto local ou regional em que se insere.
A reforma deve incentivar a constituição da rede, mas a rede
Pelo contrário, essa especificidade, ao ser mantida, pode ser
não se decreta. É preciso criar uma cultura de rede nas
valorizada no interior da rede. Por exemplo, no Brasil, tenho-
universidades o que não é tarefa fácil, pois nem sequer no
me apercebido de experiências riquíssimas de extensão nas
interior da mesma universidade tem sido possível criar redes.
universidades do Norte e do Nordeste que são totalmente
Tal cultura não se cria de um momento para o outro. Talvez
desconhecidas ou desvalorizadas no Centro-sul e Sul. E estou
se crie de uma geração para a outra e penso que o impulso
seguro que o inverso também ocorre.
para ela advirá em boa medida da percepção de que, sem rede,
44 A gravidade da asfixia financeira é potenciada pelo facto de a universidade, em geral, não
a universidade pública sucumbirá ingloriamente ao mercado e
administrar bem os recursos financeiros e humanos de que actualmente dispõe. Um dos aspectos
centrais da reforma será a aposta na maximização desses recursos. Por exemplo, porque é que em à transnacionalização do comércio da educação superior.
Portugal são raras as universidades públicas que oferecem cursos nocturnos enquanto nas
Quando a rede for uma questão de sobrevivência a
privadas isso é prática corrente?
universidade saberá transformá-la numa questão de princípio.
45 Daí a importância da luta pela definição da universidade que referi acima.
46 Talvez, por isso, seja de programar processos de transição que garantam uma passagem inter Uma vez criada a rede, o seu desenvolvimento está sujeito a
geracional, pois é de prever que as gerações mais velhas (e hoje com mais poder) resistam a
qualquer mudança neste sentido.
três princípios da acção básicos: densificar, democratizar,
qualificar. A teoria das redes fornece hoje pistas
47 A ideia de estabelecer rankings não é, em si, negativa. Tudo depende dos critérios que o definem
e do modo, transparente ou não, como são aplicados. No quadro da reforma que proponho, as organizacionais preciosas. Podem ser multinível e
hierarquias deveriam servir sobretudo para a aferir o desempenho das redes.
multiescalares, devem fomentar a formação de nódulos
A rede visa, pois, fortalecer a universidade no seu conjunto ao (clusters) e, em geral, promover o crescimento da
criar mais polivalência e descentralização. Não se trata de multiconectividade entre as universidades, os centros de
levar as universidades de excelência a partilhar de tal modo os pesquisa e de extensão, os programas de divulgação e
seus recursos que possa pôr em causa essa mesma excelência. publicação do conhecimento.
Trata-se antes de multiplicar o número de universidades de
Penso que na constituição da rede poderá ser útil ter em mente
excelência, dando a cada uma a possibilidade de desenvolver
o exemplo da União Europeia.48 Como referi atrás, a política
o seu potencial de nicho com a ajuda das demais. Ao contrário
universitária europeia visa a criação de uma rede universitária
do que é corrente pensar-se, num contexto de globalização
europeia que prepare as universidades europeias no seu
neoliberal, a concentração da pesquisa e da pós-graduação em
conjunto para a transnacionalização da educação superior.
poucas universidades ou centros de excelência expõe a
Ainda que não concorde com a excessiva ênfase no lado
universidade pública a grande vulnerabilidades, sobretudo nos
mercantil da transnacionalização, penso que é uma estratégia
países periféricos e semiperiféricos. Como referi acima, essas
correcta porque parte da verificação de que as relações entre
universidades, mesmo as melhores, são presa fácil das
as universidades europeias se pautaram até há pouco pela
universidades globais dos países centrais, e sê-lo-ão tanto mais
heterogeneidade institucional, a enorme segmentação, o quase
quanto mais isoladas estiverem.
total isolamento recíproco, ou seja, condições que à partida
A reforma com vista a uma globalização solidária da
enfraquecem a inserção das universidades europeias no cidadania activa e da construção de alternativas solidárias e de
contexto globalizado da educação superior. O que a União longo prazo.
Europeia está a fazer a nível internacional, entre os diferentes
As mudanças institucionais não vão ser fáceis mas elas são o
países que a compõem, é certamente uma tarefa mais difícil da
único meio de resistir com êxito às enormes pressões para
que é exigida a nível nacional. E se uma região central do
alinhar a organização e a gestão das universidades com o
sistema mundial conclui pela sua vulnerabilidade à escala
modelo neoliberal de sociedade. O pressuposto das reformas
global neste domínio e decide preparar-se ao longo de mais
que proponho é que o Estado reformista pretenda dar
de uma década para a remediar, através da constituição de uma
condições à universidade para resistir a tais pressões. Claro
rede de universidades – bem na lógica do que tem ocorrido
que se for o próprio Estado a fazer pressão para a
noutras áreas do comércio mundial –, não me parece que
empresarialização da universidade então compete a esta
menos do que isso se deva esperar, sobretudo dos grandes
resistir à reforma do Estado. É o que tem vindo a acontecer
países semiperiféricos, como o Brasil, dado, por um lado, o
em Espanha, na luta dos reitores e professores da
potencial de desenvolvimento que têm e, por outro, a
universidade pública contra a tentativa de reforma
fragilidade desse potencial se não for correctamente
conservadora da universidade, na Itália especificamente na luta
aproveitado.
contra a precarização do vínculo contratual dos docentes, ou
48 Mas atente-se também na rede AUGM (Associação de Universidades do Grupo Montevideo)
em França na luta contra a desresponsabilização do Estado
que congrega 15 universidades públicas do Mercosul (comunicação pessoal de Denise Leite).
na área da ciência e da cultura.
A organização das universidades no interior da rede deve ser
orientada para viabilizar e incentivar a prossecução das quatro O modelo de conhecimento universitário convencional
áreas de legitimação: acesso, extensão, pesquisa-acção e domina ainda hoje os cursos de graduação mas sofre uma
ecologia de saberes. Mas, para além disso, deve facilitar a crescente interferência do conhecimento pluriversitário ao
adaptação da universidade às transformações que estão a nível da pós-graduação e da pesquisa. O facto de as unidades
ocorrer na produção do conhecimento. O modelo de orgânicas tradicionais terem sido moldadas pelo modelo
institucionalidade que hoje domina foi moldado pelo universitário explica em boa parte a resistência destas a
conhecimento universitário e não se adequa ao conhecimento concederem à pós-graduação e à pesquisa a centralidade que
pluriversitário. A passagem, como vimos, é de conhecimento devem ter nas próximas décadas. Há, pois, que criar outras
disciplinar para conhecimento transdisciplinar; de circuitos unidades orgânicas transfacultárias e transdepartamentais que,
fechados de produção para circuitos abertos; de aliás, podem estar ancoradas na rede e não exclusivamente em
homogeneidade dos lugares e actores para a heterogeneidade; nenhuma das universidades que a integram. A maior
aplicação técnica à disjunção entre aplicação comercial e pesquisa deve ser um dos outros objectivos centrais das novas
evidente nos países centrais mas é já detectável nos países 5.2. Democracia interna e externa
semiperiféricos ou periféricos, ainda que nestes últimos a
Para além da criação da rede, a nova institucionalidade deve
passagem não seja autónoma e antes heterónoma e, no pior
ter por objectivo o aprofundamento da democracia interna e
dos casos, resultado de imposições das agências financeiras
externa da universidade. Quando se fala da democratização
internacionais. Na fase de transição em que nos encontramos
da universidade tem-se normalmente em mente a questão do
os dois tipos de conhecimento coexistem e o desenho
acesso e o fim das discriminações que o limitam. Mas a
institucional tem de ser suficientemente dúctil para os albergar
democratização da universidade tem outras dimensões. Em
a ambos e para possibilitar que o conhecimento pluriversitário
tempos recentes, a democratização externa da universidade
não seja contextualizado apenas pelo mercado e, pelo
tem sido um importante tema de debate. A ideia da
contrário, seja posto ao serviço do interesse público, da
democratização externa confunde-se com a responsabilização
social da universidade, pois o que está em causa é a criação de só uma pressão democrática externa poderá levar a que os
um vínculo político orgânico entre a universidade e a temas sem interesse comercial, mas de grande impacto social,
sociedade que ponha fim ao isolamento da universidade que entrem nas agendas de pesquisa.
nos últimos anos se tornou anátema, considerado
A necessidade de uma nova institucionalidade de democracia
manifestação de elitismo, de corporativismo, de
externa é fundamental para tornar transparentes,
encerramento na torre de marfim, etc. O apelo à democracia
mensuráveis, reguláveis e compatíveis as pressões sociais
externa é ambíguo porque é feito por grupos sociais diferentes
sobre as funções da universidade. E sobretudo para as debater
com interesses contraditórios. Por um lado, o apelo vem do
no espaço público da universidade e torná-las objecto de
mercado educacional que invoca o défice democrático da
decisões democráticas. Esta é uma das vias de democracia
universidade ou para justificar a necessidade de ampliar o
participativa para o novo patamar de legitimidade da
acesso à universidade, o que só é possível mediante a
universidade pública.
privatização da universidade, ou para defender a maior
aproximação da universidade à indústria. Em ambos os casos, Articulada com a democracia externa está a democracia
a democratização externa implica uma nova relação da interna. Este é um tema que adquiriu nos países centrais um
universidade com o mundo dos negócios e, em última grande destaque na década de 1960 e todos os países que
instância, a transformação da universidade num negócio. passaram por períodos de ditadura na segunda metade do
século XX introduziram formas de governo democrático da
Mas, por outro lado, o apelo à democratização externa
universidade logo que a ditadura foi derrubada. A pressão
provém das forcas sociais progressistas que estão por detrás
empresarial sobre a universidade tem vindo a fazer um ataque
das transformações que estão a ocorrer na passagem do
sistemático a essa democracia interna. A razão é óbvia: a
modelo universitário para o modelo pluriversitário; provém
funcionalização da universidade ao serviço do capital exige a
sobretudo de grupos historicamente excluídos que
proletarização de docentes e pesquisadores, a qual não pode
reivindicam hoje a democratização da universidade pública.
ocorrer enquanto os mecanismos de democracia interna
O modelo pluriversitário, ao assumir a contextualização do
estiverem activos, pois são eles que sustentam a liberdade
conhecimento e a participação dos cidadãos ou comunidades
académica que barra a passagem à proletarização. Esta só é
enquanto utilizadores e mesmo co-produtores de
atingível a partir de um modelo de gestão e de organização
conhecimento, leva a que essa contextualização e participação
empresarial, com profissionalização de funções e uma estrita
sejam sujeitas a regras que tornem transparentes as relações
separação entre administração, por um lado, e docência e
entre a universidade e o seu meio social e legitimem as
pesquisa pelo outro.
decisões tomadas no seu âmbito.
A democracia externa proposta pelo capital é, assim,
Este segundo apelo à democracia externa visa, de facto,
fortemente hostil à democracia interna. Já o mesmo não
neutralizar o primeiro, o apelo da privatização da
sucede com a democracia externa de origem comunitária ou
universidade. O apelo à privatização teve na última década
solidária. Pelo contrário, a democracia interna pode potenciar
um impacto enorme nas universidades de muitos países, ao
a democracia externa e vice-versa. Em face disto, a reforma da
ponto de os investigadores universitários terem perdido
universidade como bem público deve defender a democracia
muito do controle que tinham sobre as agendas de pesquisa.
interna da universidade pelo valor dela em si mesma, mas
O caso mais gritante é o modo como se definem hoje as
também para evitar que a democracia externa seja reduzida às
prioridades de pesquisa no domínio da saúde, onde as grandes
relações universidade-indústria. A democracia externa pode
doenças que afectam a grande parte da população do mundo
ser concretizada, por exemplo, através de conselhos sociais,
(malária, tuberculose, HIV-AIDS) não têm lugar nas
social e culturalmente diversos, com participação assente na
prioridades de pesquisa.49 A partir do momento em que os
relevância social e não nas contribuições financeiras, definida
mecanismos de auto-regulação da comunidade científica
em base territorial (local regional), sectorial, classista, racial,
passam a estar dependentes dos centros de poder económico,
sexual. A participação nos órgãos de democracia interna depende da vontade política e da eficácia que presidirem às medidas no domínio do acesso, da pesquisa-acção,
da extensão e da ecologia dos saberes. Os diferentes grupos sociais só serão convencidos das vantagens da
deverá assim ser informada pelos princípios da acção participação no governo da universidade se esta tiver um retorno bem concreto.
afirmativa, trazendo para os Conselhos os grupos e os A fixação dos critérios através dos mecanismos de democracia
interesses sociais até agora mais distantes da universidade.50 interna e externa é fundamental uma vez que são eles que
O importante é que os conselhos não sejam uma mera definem o valor do retorno das diferentes actividades
fachada e, para isso, para além das suas funções consultivas, universitárias. A universidade não deve promover modelos
devem ter participação nos processos de democracia idênticos à actividade docente, mas sim modelos
participativa que forem adoptados no interior da diferenciados que valorizem as competências específicas de
universidade. cada grupo de docentes, garantindo uma qualidade mínima
dentro de cada modelo ou vertente. Isto permite ampliar o
5.3. Avaliação participativa
retorno social da universidade e a introduzir incentivos
Finalmente, a nova institucionalidade deve incluir um novo internos para novas actividades, serve como escudo contra a
sistema de avaliação que abranja cada uma das universidades pressão unilateral dos incentivos mercantis. Os modelos de
e a rede universitária no seu conjunto. Para ambos os casos avaliação participativa tornam possível a emergência de
devem ser adoptados mecanismos de auto-avaliação e de critérios de avaliação interna suficientemente robustos para se
hetero-avaliação. medirem pelos critérios de avaliação externa. Os princípios de
Os critérios de avaliação devem ser congruentes com os auto-gestão, auto-legislação e auto-vigilância tornam possível
objectivos da reforma indicados anteriormente, que os processos de avaliação sejam também processos de
nomeadamente com as tarefas de legitimação e com a aprendizagem política e de construção de autonomias dos
valorização das transformações na produção e na distribuição actores e das instituições. Só estes princípios garantem que a
do conhecimento e suas ligações às novas alternativas auto-avaliação participativa não se transforme em auto-
pedagógicas. Isto significa que o desempenho dos professores contemplação narcisista ou em trocas de favores avaliativos.
e das unidades orgânicas tem de ser visto à luz destes critérios. 6. Regular o sector universitário privado
Também aqui há que tomar opções entre uma avaliação
A reforma da universidade como bem público que acabei de
tecnocrática e uma avaliação tecnodemocrática ou
delinear não terá qualquer viabilidade se os princípios que a
participativa. A primeira é hoje fortemente recomendada pelo
norteiam não forem complementados por duas decisões
capital educacional transnacional. Trata-se de uma avaliação
políticas: uma tem a ver com a regulação do ensino superior
quantitativa, externa, quer do trabalho de docência, quer do
privado e a outra, com a posição dos governos face ao GATS
trabalho de pesquisa, deixando-se de fora o desempenho de
no domínio da educação transnacionalizada. Passo a tratar
quaisquer outras funções, nomeadamente as de extensão por
brevemente cada uma delas.
mais relevantes que sejam no plano social. No caso da
pesquisa, centra-se no que é mais facilmente contabilizável 6.1. A universidade privada
através de técnicas bibliométricas que diferenciam tipos e
Quanto à universidade privada, e partindo do princípio que a
locais de publicação ou o impacto das publicações medido
universidade é um bem público, a grande questão é saber se e
por índices de citação. Nas áreas de extensão, menos
em que condições pode um bem público ser produzido por
facilmente quantificáveis, pouca avaliação tem sido feita e
uma entidade privada. Tratei acima o sector privado como
quando ocorre tende a privilegiar as relações universidade-
consumidor de serviços universitários. Passo agora a centrar-
indústria e a centrar-se em critérios quantitativos, como, por
me no sector privado como produtor. É um sector
exemplo, o número de patentes.
internamente muito diferenciado. Alguns produtores de
serviços são muito antigos, enquanto outros, a maioria,
49 A malária tem uma incidência exclusiva nos países do Sul; a tuberculose tem uma incidência treze vezes superior
no Sul que no Norte; a AIDS tem também uma incidência maior no Sul que no Norte mas é suficientemente
perturbadora no Norte para justificar que na vacina da AIDS se invista sete vezes mais que na vacina da malária.
surgiram nas duas últimas décadas. Alguns têm objectivos
Cfr. Archibugi e Bizzarri, 2004.
cooperativos ou solidários, não lucrativos, enquanto a
50 No Brasil, onde essa distância é enorme, o êxito da articulação entre democracia interna e democracia externa
esmagadora maioria busca fins lucrativos. Algumas são
verdadeiras universidades, a maioria não o é e, nos casos
piores, são meras fabriquetas de diplomas-lixo. Algumas são
universidades com excelência em áreas de pós-graduação e
pesquisa e enquanto outras chegam a estar sob suspeira de
serem fachadas para lavagem de dinheiro ou tráfico de armas.