A HISTÓRIA, CATIVA DA MEMÓRIA ?
Para um mapeamento da memória no campo das Ciências Sociais
Ulpiano T. Bezerra de Meneses*
RESUMO
A crescente popularidade da memória, seja como tema acadêmico, seja como
bandeira política, tem obscurecido sua natureza de fenômeno social, A fm de
reafirmar sua natureza original, são discutidas três questões: a reifieação da
memória, suas raízes no presente e aspectos de sua fisiologia. Chama-se a
atenção para dois tópicos Jreqíientemente negligenciados: a amnésia social e,
sobretudo, a gestão sacia! da memória. Sugere-se, enftm, que conceitos da
Psicologia Social, como o de representações sociais, podem contribuir para o
estudo da memória enquanto objeto do conhecimento histórico,
Uni termos: Memória; Memória como fenómena social; Memória Social;
Fisiologia da memória social: Memória versus História.
O tema da memória está em voga, hoje mais que nunca. Fala-se de
memória da mulher, do negro, do oprimido, das greves do ABC, memória da
Constituinte e do partido, memória da cidade, do bairro, da empresa, da família.
Talvez apenas a memória nacional, tantas vezes acuada (e tantas vezes
acuadora) esteja retraída. Multiplicam-se as casas de memória, centros,
arquivos, bibliotecas, museus, coleções, publicações especializadas (até mesmo
periódicos). Os movimentos de preservação do patrimônio cultural e de outras
memórias específicas já contam como força política e têm reconhecimento
público. Se o antiquariato, a moda retrô, os revivais mergulham na sociedade
de consumo, a memória também tem fornecido munição para confrontos e
reivindicações de toda espécie.
Isto tudo, é claro, é positivo, na medida em que nào só reflete a salutar
emergência da consciência política, como também récolhe, organiza e conserva
*Dirctor do Museu Paulista da USP.
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indicadores empíricos preciosos para o conhecimento de fenômenos relevantes
e merecedores de análise e apreensão histórica.
Todavia, precisamente para conhecer o campo da memória, é necessário
depurá-la de uma série de traços que lhe são vulgarmente atribuídos, para abrir
caminho ao crivo da História.
O objetivo deste trabalho é uma espécie de mapeamento de território,
para que, reposta a memória na sua condição de fato social, possa ficar melhor
definida sua fronteira com a História. Não se trata de balanço critico do tema,
nem de síntese historiográfica sistemática. Trata-se de sinalizar, a partir de
escolhas numa já vastíssima bibliografia, a possibilidade de superar os limites
da conceituação corrente de memória e suas funções. Para tanto, foram
selecionados cinco problemas-chave: a resgatabilidade da memória, o peso do
passado, a memória indivisível, a marginalização do esquecimento e, finalmente,
as estratégias e a administração da memória. Após o que se poderá reafirmar
a natureza diversa de História e memória, malgrado a solidariedade.
O impossível resgate da memória.
A caracterização mais corrente da memória é como mecanismo dc
registro e retenção, depósito de informações, conhecimento, experiências. Daí
com facilidade se passa para os produtos objetivos desse mecanismo. A
memória aparece, então, como algo concreto, definido, cuja produção e
acabamento se realizaram no passado e que cumpre transportar para o presente.
Diz-se, também, que a memória corre o risco de se desgastar, como um objeto
friável submetido a uma ação abrasiva; por isso é que precisa não só ser
preservada, mas restaurada na sua integridade original. E também sc deixa
aprisionar pelo esquecimento, pela ocultação, enreda-se em caminhos que não
conduzem ao presente; portanto, tem que serresgatada: como a criança que caiu
num poço e não consegue subir à superfície sem o auxílio providencial dos
bombeiros. Ou como as lembranças traumáticas que, reprimidas, produzem
material patogênico, capaz, todavia, de ser neutralizado na cura psicanalítica,
por sua remoção, estrato por estrato, até a luz do dia tal como o arqueólogo
desenterra os objetos retidos no solo.(l)
No entanto, nem a memória pode ser confundida com seus vetores e
referências objetivas, nem há como considerar que sua substância é redutível
a um pacote de recordações, já previsto e acabado. Ao inverso, ela é um
processo permanente de construção e reconstrução um trabalho, como aponta
Ecléa Bosi.(2) O esforço ingente com que costumam investir grupos e
sociedades, para fixá-la e assegurar-lhe estabilidade, é por si, indício de seu
caráter fluido e mutável. As sociedades de comunicação oral, por exemplo,
desenvolveram sofisticadas e eficientes técnicas mnemónicas para evitar
variações: o ritmo, a convenção formular, os sistemas de associação, etc. Nem
porisso, revelam os especialistas,(3) a tradição se deixa cristalizar: a comunicação
(1) Para caracterização dessa operação da cura psicanalítica, que é consideravelmente diversa do
conhecimento histórico, ver U. Bezerra dc Meneses. Frcud arqueólogo. In: Adante, 3: pp.60-66,
1990; ver também David F.KjcIÍ. Of memory reminiscence and wrinng. Bloomington, Indiana
Univcrsity Press, 1990. pp. 105-162.
(2) Memória e sociedade. Lembrança de velhos. São Paulo, T.A. Queiroz, 1971. p.7.
(3) Ver J, Goody & 1. P. Watt. Thc conscquences of litcracy. In: Comparalive Studies in Societyand
Hisíory, 5: pp.304-45, 1963,
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nunca se faz rigorosamente palavra por palavra, mas absorve variações de
escala diferenciada. O caso das culturas orais é interessante porque, nelas, o
processo de registro e conservação de informação coincide inteiramente com
o processo de sua comunicação, socialização.
Por sua vez, os praticantes da História Oral e outras disciplinas que
privilegiam as histórias de vida, estão atentos para o fato que uma autobiografia
nunca é estática, nem se desenvolve pela simples adição de elementos novos,
na sequência do tempo, mas comporta contínuas reestruturações de eventos
passados. E, ainda que se mantenham os núcleos fundamentais, os fios
condutores, as contingências do presente se integram a todas as dimensões da
narrativa. De forma semelhante, a memória de grupos e coletividades se
organiza, reorganiza, adquire estrutura e se refaz, num processo constante, de
feição adapta ti va. (4) A tradição (memória exteriorizada como modelo) nunca
se refere a nenhum corpo consolidado de crenças, normas, valores, referências
definidas na sua origem passada, mas está sujeita permanentemente à dinâmica
social.(5)
Finalmente, a heterogeneidade que pode estar presente na memória
individiual e, mais amplamente, na de grupos e coletividades, toma seu resgate
uma ilusão.
Memória, passado, presente.
Também na voz corrente, a memória aparece como enraizada no
passado, que lhe fornece a seiva vital e ao qual ela serve, restando-lhe, quanto
ao presente, transmitir-lhe os bens que já tiver acumulado. Ora, como se viu,
a memória enquanto processo subordinado à dinâmica social desautoriza, seja
a idéia de construção no passado, seja a de uma função de almoxarifado desse
passado. A elaboração da memória se dá no presente e para responder a
solicitações do presente. É do presente, sim, que a rememoração recebe
incentivo, tanto quanto as condições para se efetivar.
O caso limite do compromisso da memória com o presente está na
memória hábito, que já Bergson caracterizara como automatismo corporal,,
para distingui-la da memória pura. No entanto, sua significação é- mais
abrangente, como se vê na formulação de Connerton:
“The habit-memory more precisely the social habit-memory of
the subject is not identical with that subject's congnitive memory
of rules and codes; nor is it simply an additional or supplemen
tary aspect; it is an essential ingredient in the successful and
convincing performance of codes and rules “.(6)
No presenter é claro.
Uma reflexão sobre a constituição, em nossa sociedade, da categoria do
objeto antigo, objeto histórico, permitira ressaltar o papel fundante do presente.
(4) Cf. Manin Kohli. Biography: account, text, method. In: Daniel Bertaux, org., Biography and
society. The life history’ approach in the Social Sciences. London, SAGE, 1981, pp.61-75.
(5) Ver, p.ex., Eric Hobsbawm & Terence Ranger, orcs.4 invenção das tradições. Trad, bras.,
Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1984.
(6) Connerton, Paul. How societies remember. Cambridge, University Press, 1989, p.36.
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O objeto antigo, obviamente, foi fabricado e manipulado em tempo anterior ao
nosso, atendendo às contingências sociais, econômicas, tecnológicas, culturais,
etc.etc. desse tempo. Nessa medida, deveria ter vários usos e funções, utilitários
ou simbólicos. No entanto, imerso na nossa contemporaneidade, decorando
ambientes, integrando coleções ou institucionalizado no museu, o objeto antigo
tem todos os seus significados, usos e funções anteriores drenados e se recicla,
aqui e agora, essencialmente, como objeto-portador-de-sentido. Assim, por
exemplo, todo eventual valor de uso subsistente converte-se em valor cognitivo
o que, por sua vez, pode alimentar outros valores que o passado acentua ou
legitima. Longe, pois, de representar a sobrevivência, ainda que fragmentada,
de uma ordem tradicional, é do presente que ele tira sua existência, E é do
presente que deriva sua ambigüidade. Jean Baudrillard, estudando essa categoria
para rastrear, no '“sistema cios objetos'" a inserção do passado no circuito da
sociedade de consumo, assim vê, não sem um certo desencanto, a ambigüidade
do status do objeto histórico:
"Deitx mouvements inverses: eu tant qu ’il vient s ’intégrer dans
le système culturel actuel, l' objet ancien vient, du fond du passé,
signifier dans leprésent la dimension vide dn ternps. En tant que
régression individuelie, au contraire, c’ est itn mouvement dit
présent vers le passé pour y projeter la dimension vide de
O presente pode inverter radicalmente o valor original de um objeto
passado. Michael Thompson,(8) elaborando sua “teoria do lixo”, demonstrou
como, muitas vezes, é o descarte e abandono de um objeto, no passado, que vão
justificar especificamente sua tesaurização no presente.
Nessa perspectiva, pode-se dizer que a memória nào dá conta do
passado, nas suas múltiplas dimensões e desdobramentos. E não só, é claro,
porque sabemos muito mais do que as memórias vivenciadas no passado
poderiam saber, mas sobretudo porque o conhecimento exige estranhamento e
distanciamento. Somente a História e a consciência histórica podem introduzir
a necessária descontinuidade entre passado e presente: História, com efeito, é
a ciência da diferença. Não basta calibrar a oposição de um “agora" contra um
“antigamente"; é preciso identificar a substância passada do passado (aquilo
que em inglês se diz “pastness"), sem prejuízo dos interesses e direitos do
presente. The past is a foreign country, é o título do livro em que David
Lowenthal investiga como, desde o Renascimento, pôde vir-se consolidando
esta percepção do passado como descontinuidade. Este já c o passado da
História.(9)
Há também outros aspectos que conviria registrarpara melhor esclarecer
o presente na ação da memória. Limito-me, aqui, a uma q uestão que exemplifica
a preocupação documental de nossa sociedade e a preparação da memória
futura. Não me refiro, apenas, aos interesses individuais, nem às políticas
oficiais de abertura de horizontes e intensificação de atuação dos arquivos, na
(7) Baudrillard. Jean. Le système des objets. La consommation des signes. Paris, Denôel/Gouthier,
1968, p.92, n.l.
(8) Rubbish theory. The creation and destruction of value. Oxford, University Press, 1979.
(9) Lowenthal, David. The past is a foreign country. Cambridge, University Press, 1985.
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coleta, processamento e difusão dos documentos “Je nascença”. Tampouco me
refiro à multiplicação de monumentos em que, como lembra Le Goff,( 10) está
sempre inscrita a prescrição do presente para leitura “correta” no futuro
(característica de que também participam os documentos originados nesta
função de registro). Refiro-mé, sim, à vertiginosa expansão da memória no
campo da cultura material. Excluídas as coleções pessoais, as coleções
institucionais (museus, empresas e outros organismos) não se colocam limites,
salvo os de ordem prática. Nos museus, sobretudo, a coleta de documentação
contemporânea é particularmente significativa e intensa e abrange da
amostragem periódica das mercadorias mais vendidas em supermercados até
a retenção dos objetos efêmeros (paradoxalmente contrariando sua razão de
ser), penetrando todos os desvãos da vida social(l 1) O problema não está na
generosidade destas iniciativas, mas, do ponto de vista do conhecimento, na sua
onerosa serventia, pois, longe de fornecer um caminho aberto aos historiadores
do futuro, deles exigirão um penoso trabalho prévio de codificação desse
simulacro de presente petrificado em memória - sem,dúvida precioso, ao menos
para o estudo do imaginário e das mentalidades. Com efeito, a falta de
orientação crítica, o predomínio do descritivo, o descompromisso com qualquer
problemática previamente delineada fazem com que essa massa enorme de
documentos corra o risco de transformar-se num duplo fragmentado e parcelar
do presente empírico. O extremo seria aquela pulsão documental alucinatória
descrita por Michel Melot:
“Imaginons chaque citoyen tranformè en collecteur et en
conservateur, chaque objet devenant son propre symbole et la
nation entière figée dans sa propre image, comme les tableaux
vivants au théâtre: le pollen ne s'échappant plus desfleurs mais
conservé pour des botanistes futurs, le manuscrit archivé avant
la publication, la matrice conservée pour plus de sûreté - dût-elle
pour cela n "avoirJamais produit aucun exemplaire. L ' Histoire
enfin produite pour le seul intérêt des historiens, et pour eux-
mêmes bloquée, comme un chirurgien immobilise son patient
pour mieux pouvoir opérer'\(J2)
Enfim, uma última reflexão sobre a dominação da memória pelo
presente pode ter como referência processos patológicos em que não só o
passado, mas também o futuro, podem ser eliminados. Um exemplo é fornecido
pelo caso famoso de um amnésico, o jovem K.C., que, após acidente cerebral,
passou arevelar ausência total de reminiscências pessoais (memória episódica),
( 10) Documento/Monumcnto. In: Enciclopédia Einaudi. Torino, G. Einaudi Ed., vol.5,1978, pp. 38/
48.
(11) Para os problemas relativos à documentação contemporânea dc cultura material, ver Thomas
J. Schlcreth. Conteniporary collecting forfuturc rccollccting. In: Musuurn Studies Journal, 1 (3):
pp.23-30, 1984; Edith Mayo, Connoisseurship o fthe future. In: Frcd Schrocder, org., Twentieth-
Ceiitury popular culture. in: muséums and libraries. Bowling Green, Bowling Green University
Popular Press, 1981, pp.l 1-24; Goran Rosander. Todayfor tomorrow. Muséum documentation
of contemporary society in Sweden by fhe acquisition of objecte. Stockholm, SAMDOK, 1980;
Gaynor Kavanagh. SAMDOK in Sweden: some observations and impressions. In; Afiueiinrs
Journal, 83(1): pp.85-6,1983; Timothy Ambrosc & Gaynor Kavanagh, orgs„ Recording society
today. Edinburgh, Scottish Muséums Council,-1987.
(12) Mclot, Michel. Des archives considérées comme une substance hallucinogène. Traverses, 36:
p.14, 1981.
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mas permanência, embora lacunosa, de outras lembranças (memória semântica,
impessoal). Endel Tulving, um dos estudiosos do caso, observou que o paciente,
ainda que incapaz de se lembrar de qualquer evento experimentado antes ou
depois de seu acidente (“remembering and recollecting”) podia conhecer
muitas coisas sobre si mesmo no passado (“knowing and recalling”), mas tal
como faria um observador externo. Sua apreensão do tempo enquanto
subjetivamente experimentado parece muito comprometida. Mais ainda, tal
comprometimento se estende ao futuro:
"Thus, when asked, K, C cannot tell a questioner what he is going
to do later on that day, or the day after, or at any time in the rest
of his life. He cannot conjure up images about his future in his
mind*s eye any more than he can do so about his past. Without
the ability io remember what he has done or to contemplate what
the future must bring, K.C. is destined to spend the reminder of
his life in a permanent present ".(13)
O que é aqui relevante não são as interferências neurofisiológicas (como
as diferentes sedes cerebrais das funções da memória), mas a observação
experimental de que a presentifícaçao da existência neutraliza a construção de
sua inteligibilidade. A memória é filha do presente. Mas, como seu objeto é a
mudança, se lhe faltar o referencial do passado, o presente permanece
incompreensível e o futuro escapa a qualquer projeto.
Memória individual, coletiva, nacional.
No enfoque principal deste artigo, as distinções entre as diversas
categorias propostas para a memória, segundo seu eixo de atribuições, tem
presença eventual. Não, porém, que elas sejam secundárias. Ao contrário,
convém acentuar alguns traços diferenciais de muita consequência.
Ass ciências sociais interessa a memória individual somente nos quadros
da interação social: é preciso que haja ao menos duas pessoas para que a
rememoração se produza de forma socialmente apreensível. É este fenômeno
da memória condividida (“sharing memories”) que tem relevância. Aliás, a
matéria bruta da memória individual pode permanecer latente anos a fio, até que
seja despertada por um interlocutor cujo papel, então, não é meramente
passivo.( 14) Essa dimensão extra-individual tem propiciado às ciências sociais
farta exploração da memória individual.(15) A contribuiçÚo das histórias de
vida tem sido crucial, sobretudo para a análise das mentalidades, como nas
obras exemplares de Carlo Ginsburg ou Natalie Davis.(16)
A memória coletiva e a nacional são outras categorias, ambas opostas
(13} Endel Tulving. Remembering and knowing the past. In: American Scientist. 77 (4): pp.363-4,
1989.
(14) Situações práticas características podem ser encontradas em Olga R. de Moraes von Simson.
Folguedo carnavalesco, memória c identidade social-cultural. In: Resgate, 3: pp.53-60. 1991.
(15) Ver Daniel Bertaux, org., Biography and society. The life-history' approach in the Social
Sciences. London, SAGE, 1981.
(16) CL Carlo Ginzburg, O queijo e os vermes. O cotidiano e as idéias de um moleiro perseguido
pela Inquisição. Trad, bras.. Suo Paulo, Companhia das Letras. 1989; Natalie Zemon Davis, O
retomo de Martin Guerre. Trad, bras., Rio de Janeiro, Faz e Terra, 1987.
14 Rav. Inst. Est. Bras., SP, 34:9-24,1992
à memória individual, mas de maneira diversa.
A primeira é um sistema organizado de lembranças cujo suporte são
grupos sociais espacial e temporalmente situados.(17) Melhor que grupos, é
preferível falar de redes de interrelaçòes estruturadas, imbricadas em circuitos
dc comunicação. Essa memória assegura a coesão e a soliedariedade do grupo
e ganha relevância nos momentos de crise e pressão. Não é espontânea: para
manter-se, precisa permanentemente ser reavivada. É, por isso, que é da ordem
da vivência, do mito e não busca coerência, unificação. Várias memórias
coletivas podem coexistir, relacionando-se de-múltiplas formas.
Já a memória nacional que nào c a somatória das diferentes memórias
coletivas de uma nação apresenta-se como unificada e integradora, procurando
a harmonia e escamoteando ou sublimando o conflito: é da ordem da ideologia,
Por isso mesmo, o estado e as camadas dominantes - mas nem sempre - sào,
como interessados na reprodução da ordem social (a que ela induz e que
simbolicamente realiza), os principais responsáveis pela sua constituição e
circulação.(18)
A memória nacional c o caldo de cultura, por excelência, para a
formulação e desenvolvimento da identidade nacional, das ideologias da
cultura nacional e, portanto, para o conhecimento histórico desses fenômenos.
Daí ser a questào da identidade nacional, em sua natureza problemática, o tema
melhor estudado dentre todos os que se referem á memória social.(19)
Entretanto, sào ainda escassos e fazem grande falta estudosque examinem
a fisiologia destas categorias de memória e, em particular, as simbioses,
adaptações passagens de uma categoria a outra, seja na sua complexa articulação,
seja intemamente. Dessa maneira, problemas tão graves como, por exemplo,
o da apropriação das memórias individuais ou o da “memória alheia”, são ainda
muito mal compreendidos. Mesmo os mecanismos mais elementares, tais as
transferências dc memória na circulação de objetos, são conhecidos quase que
(17) Ver. para diversas concepções, Mauricc Halbwachs. La mâmoire colleclive. Paris, PUF. 2a cd.,
1968: André Leroi-Gourhan. Le geste et la parole. La mênioíre et les ntfimes, Paris, Albin
Michel, 1965: PicrrcNora. MémoircCollcclive, ln;J. LcGoíTctalii,orgs.,£fljVor/re//e7fts/oín?.
Paris, CEPFL, 1978; Jacqucs Lc GoíT. Memória. In: Enciclopédia Einaudi. Torino. Einaudi Ed.,
vol.8, 1979, pp. 1068’1109; ver, ainda, Luis Felipe Qaêta Neves. Para uma teoria da memória
migrante e Migração e ideologia da memória social, In: Av máscaras da totalidade totalitária.
Memória e produções sociais. Rio dc Janeiro. Forense/Universitária, 1988. pp. 149-168.
(18) PierTC Nora (Entre memoire et histoire. In: P. Nora.dir..£es/ierur^wé»ioire« L La Republique.
Paris, Gallimard. 1984, p. XXII) chama a atenção para a substituição, que está em curso desde
a década de 30, do estado-nação pelo estado-socicdade, como referencial da memória. Michael
Pollak (Memória, esquecimento, silencio. In: Estudos Históricos* 3: p.5. 1989), por seu lado,
estuda fenômenos dc dominação da memória c observa que "a clivagem entre memória oficial
e dominante e memórias subterrâneas sobre o passado, não remete forçosamente à oposição
entre Estado dominador e sociedade civil. Encontramos com mais frequência esse problema
nas relações entre grupos minoritários e a sociedade engiobante
(19) Ver, para nossa sociedade, p.cx., Renato Ortiz. Cultura popular e memória racional. In: Leôncio
M. Rodrigues et alii, Trabalho e cultura no BrasiL Recifc/Brasília, ANPPCS/CNPq, 1981,
pp.289-302; ídem. Cultura brasileira c identidade nacional. Sao Paulo, Brasilicnsc, 1985; José
Rcginaldo Gonçalves. Autenticidade, mcmóriacideologianadonais:oproblcmados patrimônios
culturais. In: Estudos Históricos, I (2): pp.264-298. 1988; Afonso Carlos Marques dos Santos.
Memória, história, nação: propondo questões. In: Tempo Brasileiro,. 87: pp.5-13,1986; Ídem Da
casa senhorial à vila operária: patrimônio cultural c memória coletiva. lb.: pp. 127-139; U.
Bezerra de Meneses. Identidade cultural c arqueologia. In: Alfredo Bosi, org.. Cultura brasileira:
temas e situações. São Paido. Ática, pp. 182- 190.
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tão só no seu nível empírico imediato. Sirva de exemplo, para ressaltar as
lacunas e, ao mesmo tempo, o rico potencial que encerra, o problema do
“souvenir”. Pouquíssimos avanços se fizeram, mas já há pistas abertas. Assim,
Susan Stewart, no esforço de compreender certas metáforas associadas à
relação entre linguagem e experiência e, sobretudo, entre a narrativa e seus
objetos, introduziu precisamente o tema do “souvenir, Para ela, trata-se de
recurso discriminador de experiências. Não precisamos de lembranças de
eventos que são repetíveis e não os procuramos. Antes, desejamos lembranças
de eventos que sejam “narráveis” (“reportable”) e em que a contingência da
materialidade seja compensada pela invenção da narrativa. Eis, pois, o papel
desses objetos vinculados à memória até no nome:
"Through narrative the souvenirs substitutes a context- ofper
petual consumption for its context oforigin. It represents not the
lived experience of its maker, but the "secondhand" experience
ofhis possessor/owner. Like the collection, it always displays the
romance of contraband, for its scandal is its removal from its
"natural" location,,,The souvenir is by definition always
incomplete...First, the object is metonimic to the scene of its
original appropriation...Second, the souvenir must remain im
poverished and partial so that it can be supplemented by a
narrative discourse... "(20)
Este problema da apropriação e transferência da memória individual (e,
em outros termos, da coletiva), transforma-se num dos aspectos críticos - quer
como campo de atuação, quer como objeto de conhecimento - do domínio do
patrimônio cultural, de premente atualidade.
Amnésia Social.
Se a memória costuma ser automaticamente correi acionada a mecanismos
de retenção, depósito e armazenamento, é preciso apontá-la também como
dependente de mecanismos de seleção e descarte. Ela pode, assim, ser vista
como um sistema de esquecimento programado. Sem o esquecimento, a
memória humana é impossível. O famoso conto de Jorge L. Borges, Funes, o
memoriosp(2l), transformou-se num emblema da perda da condição humana
pela saturação da memória e incapacidade de esquecer, incapacidade de pensar,
já que, segundo o próprio Borges, pensar é esquecer uma diferença, generalizar,
abstrair.
Infelizmente, a absoluta relevância do tema não inspirou entudos
aprofundados a respeito da amnésia social. Com efeito, a amnésia é bem
conhecida apenas na bibliografia neurofísiológica, psicológica e psicanalítica.
Naturalmente, dispomos do livro de Jacoby, que tem por título, precisamente,
Amnésia Social. O sub- título, porém (fUma critica à Psicologia conformista
de Adler a Láing”\ já revela que seu interesse cuja legitimidade não se pode
contestar levam-no a um campo diverso do nosso. O que ele realiza é o processo
(20) Stewart, Susan. On longing. Narration of the miniature, the gigantic, the souvenir, the
collection. Baltimore, The Johns Hopkins Press, 1984. pp. 135. 136.
(21) in: Ficções. trad. bras. Porto Alegre Globo, 1970.
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daquilo que denomina “obsolescência dopensamento” ou a “falsa originalidade”
em Psicologia. A amnésia social tem ai, consequentemente, a função de um
referenciai geral. Por isso mesmo o autor limita-se a cernir nosso tema apenas
no capitulo inicial, definindo a amnésia social como o “esquecimento e a
repressão da atividade humana e social que faz e pode refazer a sociedade”.
A memória expulsa da mente pela dinâmica social e econômica da sociedade
é vitima de um processo de retficação. Mais ainda, trata-se da forma “primor
dial de reificaçâo”, diz ele, concluindo com uma citação de Horkheimer e
Adorno: “toda reijicação é um esquecimento”.(22)
Esta citação permite-nos assinalar a importante contribuição da Escola
de Frankfurt na crítica à substituição das memórias “encantadas” pela “memória
oficial cejebrativa”, no processo de metropolização da cidade contemporânea,
em que o valor de uso c dominado pelo valor de troca - processo legitimado pela
“razão instrumental, inimiga do passado e da lembrança, que visa acriticamente
o futuro e o passado”.{23)
A falta de estudos sistemáticos e globais tem sido contrabalançada por
um grande número de investigações tópicas, embora algumas de amplo
alcance. Assim, muitos estudos se dedicaram aos mecanismos explícitos do
esquecimento, pela eliminação dc seu referencial empírico, principalmente
simbólico. E o que sepoderia chamarde procedimentos dedamnatio memoriae,
condenação da memória, a exemplo da instituição vigente na Roma imperial,
para contrapor-se, quando conveniente, ao peso da memória epigráfica e
monumental. Com a damnatio memoriae, que normalmente sucedia, por voto
do Senado, ao assassínio de um imperador odiado, apagava-se seu nome de
onde quer que estivesse.gravado e se proscrevia sua menção futura de qualquer
ato cerimonial; colocava-se em risco inclusive a eficácia de decisões
passadas.(24) A. damnatio memoriae é frequente em regimes totalitários, seja
na sua instalação e preservação, seja na sua desagregação: exemplos são os
casos orwellianos ocorridos na Checoslováquia cm 1618 e 1948, mencionados
por Connerton(25), ou a desestalinizaçao da União Soviética e países satélites,
a que se refere Pollak.(26) E certamente a desmontagem, em curso, da União
Soviética dará espaço para pesquisas sobre a iconoclastia como reversão da
memória.
Outra faixa que tem sido bem servida é a das ocultações, dissimulações,
inversões (nem sempre associdas às instâncias de dominaçao, que ocorrem no
campo da memória. Os rituais, como os funerários, são propícios para tanto.
Jean Didier Urbain chamou a atenção para uma paradoxal polaridade de
funções (lembrança/esquecimento) que o cemitério apresenta no Ocidente:
'7/ est une déjinition " fonctionelle du cimeíière qui est un peu
(22) Jacoby. Russel. Amnésia Social. Uma critica à Psicologia conformista de Adler a Laing. Trad,
bras. Rio de Janeiro. Zahar. 1977, p. 19.
(23) A expressão é de Olgária C. F. Mattos (A cidade c o tempo: algumas reflexões sobre a função
social das lembranças. InrEvpwfo e Debates, 7: pp.49, out.Zdcz.1982), num estudo da critica
frank tun ia na a esta razão instrumental "que busca tão somente a eßciência e a produtividade
e transforma o indivíduo em instrumento de si própria " (ib. :p.45), induzindo a amnésia.
(24) Ver Fergus Millar. The Roman Empire and its neighbours. London. Duckworth, 2’ cd., 1981,
pp23-4.
(25) Connerton, Paul. op. cit„ p. 14
(26) Pollak, Michael op. cit,t p.4.
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trop rapidement passée dans le langage courant pour être
honnête et qui consiste à dire que le cimetière est un lieu du
souvenir, un “parc des ancêtres ”. Cette définition en cache une
autre: le cimetière c'est aussi, avant toute chose et
paradoxalement, un lieu d'oubli. C 'estpar lui, ne l'oublionspas,
que s'accomplit fanîasmatiquement le rêve de conservation: il
est enfait, par excellence, le lieu de la négation des morts en tant
que morts (négation de la différence), le lien réservé à l'oubli de
la limitation ontologiquefondamentale de l'étant humain, le Heu
d'oubli de la réalité biologique, de la pourriture, du néant, de la
mort, de l'histoire, du devenir social. Il est, en quelque sorte, le
champ public et officiel d'une amnésie collective'1. (2 7)
Michel Vovelle, porsua vez, demonstrou como o Iluminismo procurou
esquecer a morte/28) De teor compararável a estes processos de esqueeimento
sâo os movimentos vanguardistas, como, por exemplo, o modernismo: “This
combined interplay ofa deliberateforgetting with an action thaï is also a new
origin reaches the fiull power of the idea of modernit/’.(29)
Outra vertente de enorme significação na pesqüisa, e que se vem
desenvolvendo, é a da amnésia na história dos excluídos, dos escravos,
mulheres, crianças, operários, minorias raciais e sociais, ioucos, oprimidos de
todo tipo. Contudo, não é suficiente apenas dar voz aos silenciados. E imperioso
detectar e entender as multiformes gradações e significações do silêncio e do
esquecimento e suas regras e jogos. Michelle Perrot, que se notabilizou nesta
história dos marginais da História, além de registrar o lisilêncio dos arquivos
e dos sótãos" sobre as mulheres, no século XIX, procura acompanhara memória
sexuada, indispensável para manter uma determinada configuração de direitos
e obrigações, operando por esquecimentos.(30) A memória familiar, memória
do privado, de que as mulheres são fiéis e eficientes guardiãs, duplica,
socialmente, a reprodução biológica da família; para tanto, porém, submete-se
a exclusões: todo sistema classificatório funciona por inclusao/exclusão.
Chega-se aqui ao núcleo de questões sem as quais o conhecimento da
amnésia social ficaria comprometido ou reduzido: o das condições de
“dicibilidade" da memória, os padrões c coveniências das rememorações, os
critérios de credibilidade, utilidade, qualificações, desqualificações, que vigem
nas sociedades e grupos historicamente localizados. Podem ser apontados
como contribuindo para estes temas, inclusive pela preocupação metodológica,
os trabalhos de Michael Pollak, que encontram no artigo “Memória,
esquecimento, silêncio"(31)9 um resumo adequado. Para compreender as
“memórias subterrâneas", ele analisa as dificuldades e bloqueios, as
considerações sobre o valor imediato das lembranças compartilhadas ou
reprimidas, as possibilidades e impossibilidades de comunicação. Em suma, as
condições em que soeialmente se produz o silêncio, por pressão coletiva ou
(27) Urbain, Jean-Didier. La société de conservation. Étude sémiologique des cimetières d'Occident.
Paris, Payot, 1978, p.20.
(28) Vovellc, Michel, org. Mourir autrefois. Attitudes collectives devant ia mort aux XVII e.et
XVIII e.siècles. Paris, Gallimard, 1974.
(29) Paul De Man. Litenity History and literary modernity. In: Daedalus, 91 (2): p.389, 1970.
(30) Pcrrot, Michelle. Pratiques de la mémoire feminine. In: Traverses, 40; pp. 18-27, 1987.
(31) Estudos Históricos, 3: pp.3-15, 1989.
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conveniência pessoal, até que a memória possa sair dc sua letargia e
eventualmente atuar como alavanca para reinvidicaçoes, !nciuem-sc nesse
leque as lembranças proibidas (caso dos crimes sob Stalin na União Soviética),
indizíveis (caso dos deportados para os campos de concentração nazistas) ou
vergonhosas (caso dos alsacianos recrutados à força pelos alemães durante a 2:|
Grande Guerra),
A gestão da memória.
De par com a postura, já tratada acima, que ignora o caráter dinâmico
da memória, dcsenvolvc-sc também a tendência vulgar de reduzi-la
objetivamente a seus produtos, vetores ou referenciais. Por isso c que as
coleções arquivisticas são tomadas por “memória da indústria no país" c
relíquias da atividade de comediantes, cenarístas, etc., se transformam em
“memória do teatro" e assim por diante. Já sc vê como é iminente o risco da
rcificaçào, acima apontada como forma de esquecimento.
Para cobrir a problemática social da memória é necessário considerar
não somente o sistema (os mecanismos, os suportcs/vetores/referenciais), os
conteúdos (as representações), mas também incluir os agentes e suas práticas.
Sobre estes pontos vale a pena dizer rapidamente alguma coisa, para situá-los
no conjunto.
Os conteúdos constituem material suficientemente explorado,
principalmente sob o prisma da critica da ideologia. No entanto, muitas vezes,
nos estudos históricos, tcm-sc isolado os conteúdos e as ideologias,
dcsarticulando-os das estruturas e dos processos sociais.
Pode-se dizer que c a ausência de estudos sistemáticos dos suportes da
memória que explica, em parte, a utilização metonimica do conceito. Dentre
as principais categorias de suporte - a linguagem, o corpo, as cerimônias, os
objetos materiais - apenas a primeira mereceu atenção suficiente, cm especial
no que concerne à palavra narrativa e à passagem do registro oral para o escrito
(até os desdobramentos eletrônicos atuais). Esta última questão revela, com
clareza, a impossibilidade de analisar tais fenômenos do* ângulo apenas
instrumental: eles correspondem a mudanças substantivas c generalizadas da
memória; com a escrita surge a objetividade derivada da separação entre
conhecido c conhecedor, dado c interpretação, lógica e retórica, conhecimento
e sabedoria, ser e tempo; reduz-se a fluidez oral/aural pela fixação de um espaço
visual; elimina-sc, no tempo e no espaço, a concomitância entre fonte e
receptor; abrem-se as portas da abstração; da verbalização, agora exclusiva do
contexto, deriva o controle da significação (precisão); diferencia-se,
intemamente, a linguagem (falada, escrita); a administração civil, religiosa,
comercial, distingue-se de outros tipos dc ação social, etc., etc., etc. - e
distancia-se o passado do presente.(32)
Já o conhecimento dos demais vetores da memória é assistemático e
(32) Cf. Walter J. Ong, Writing restructures thought. In: Gerd Baumann, org. The written word.
Literacy in transition. Oxford, Clarendon Press. 1986, pp.23-50. Ver t.imbcm Jack Goody. The
domestication ofthe savage mind. Cambridge, University Press. 1977; idem. The logic ofwriting
and the organizati an of so ciety. Cambri dge, U ni v e rs i Ly Press, 1986; AI fred Bums. The power
ofthe written word. The role ofliteracy in the Western Civilization. New York, Peter Lang, 1989;
Walter J. Ong. Orality and literacy. The technologizing of the word, London, Methuen. 1982.
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lacunoso, O estudo do corpo c da cerimônia como traços mnemónicos, por
exemplo, mal está comcçando.(33) O estudo dos objetos, apesar da vastíssima
bibliografia sobre cultura material, tem significativamente desprezado a
problemática da memória. Pouca coisa pertinente poderia ser mencionada,
como a obra de Csikszentmihalyi c Rochbcrg-Halton,(34) ela própria
insuficiente, mas interessada no papel da memória para a configuração da
identidade, eventualmcnte mediada pelos objetos. Muitos aspectos relativos à
memória, contudo, estão embutidos em estudos cujo eixo é a formação c
manipulação de coleções,(35)
Sem investigação sobre os agentes ativos c passivos da memória c seus
papéis sociais - os bardos e rapsodos da epopeia, os escribas c escrivães,
feiticeiros, líderes políticos e religiosos, arquivistas, muscólogos, vizinhos,
velhos, avós e netos, filhos, testemunhas autorizadas, vigilantes, adolescentes,
alunos, recrutas, turistas, etc.,etc.,etc. - debilita-se o estudo da memória. No
entanto, dé pouca coisa se dispõe entre nós, com algumas exceções relevantes,
como o excepcional estudo de Ecléa Bosi sobre velhos (36) ou o de Myriam
Moraes Lins de Barros sobre os avós, filhos e netos.(37)
Quanto às práticas, os segmentos anteriores já deixaram várias pistas.
Acrescente-se, agora, a necessidade de examiná-las como estratégias c formas
de negociação, capazes de estabelecer equilíbrios entre memórias em conflito.
Mas tais transações não são aleatoriamente flexíveis, nem o passado pode ser
considerado um recurso simbólico infinito c plástico. Somente a Antropologia,
a meu ver, preocupou-se com este problema, como testemunha o trabalho de
A. Appadurai que, numa fórmula feliz, reconhece no passado um "recurso
escasso'\ Estudando, na Ondia contemporânea, memórias diversas a disputar
o controle de santuários, levantou a existência de regras e normas específicas
que regulamentam "lhe inherent debutttbility ofthe pdst iu lhe presenf' (grifo
meu) c instituem laços entre os eventos sociais c a ação social (com implicações
até na mudança social), funcionando como "a codefor socieiy to talk aboul
lhemselves and not only within theitiselves” .(3$)
Um conceito capaz de amplo alcance operacional, pois pode articular
as práticas, os agentes, os referenciais c os conteúdos da memória é o lugar de
memória, na formulação de P. Nora, que reciclou o conceito de locus mcmoriac
produzido pela Antiguidade e Idade Media. Pode ser entendido como um ponto
<33) Paul Connerton, op. cit. dá um primeiro tratamento sistemático à problemática das cerimonias
comemorativas como ações performáticas, do hábito, dos automatismos corporais - nos quadros
da memória. Unia obra como a de Mona Ozouf, La fête rèvolntümnaire, 1789-1799, Paris,
Gallimard, 1976, também pode ser considerada como uma das poucas monografias disponíveis
que deram atenção ao tema do corpo c da cerimônia como asseguradores de memória.
(34) Csikszentmihalyi. Mihály & Eugen Rochbcrg-Hahoii. The meaning of things. Domestic
.vvih/mj/x o/t/ie sef/.‘Cambridge, University Press, 1981.
(35) Cf F.Raphael & G.Hcrbcrich-Marx. Le musée, provocation de la mémoire. In: Ethnologie
française, 17 (1), 1987: Elizabeth Stillingen The Antiques. New York, A. Knopf. 1980 (ver
também nota 7, supra): Thomas J.Schlcrcth. Artifacts ami the American past. Nashville.
AASLH, 1980: Susanne Küchlcr & Walter Melion, orgs. images oj memory. On remembering
and representation. Washington DC, Smithsonian Institution Press. 1991.
(36) Op.cit.
(37 ) Autoridade e afeto: avós. filhos e netos na família brasileira. Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1987;
id.Memória c familia. In: Estudos Históricos, 3: pp.29-42. 1989.
(38) The past as a scarce resource. In: Alan. NS, 16: p.21S. 1981.
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de condensação, de sentido material, simbólico e funcional. Na verdade, a visão
de Nora c mais cética c limitada, visto como, segundo ele, nossa sociedade
forjou os lugares dc memória porque já não mais existem os meios de memória,
onde ela era vivenciada.(39) A rigor, ainda conforme Nora, a reprodução
paroxística dc lugares de memória, a que estamos assistindo, deve ser considerada
uma patologia de nossa sociedade. A caracterização que ele faz do fenômeno,
embora longa, merece transcrição, pelo seu fôlego:
"Ce reversement tient à la prolifération rapide des mémoires
collectives, liée, d'une part, aux bouleversements et aux ruptures
des sociétés contemporaines et, d'autre part, à la puissance des
moyens d'information modernes. Rupture de fa guerre de 1914,
rupture des économies et des systèmes de vie traditionnelle,
rupture des ordres nationaux et coloniaux; massification par les
media des événements qui marquent la mémoire et donnent à
TaclHulité une manière de présence et d'autorité historiques
immédiates. Tonte l'évolution du monde contemporain - son
éclatement, sa mondialisation, sa précipitation, sa
démocratisation - tend à fabriquer davantage de mémoires
collectives, à multiplier les groupes sociaux qui s 'autonomisent
par la préservation ou la récupération de leur propre passé, à
compenser le déracinement historique du social et l'angoisse de
transformer la discipline en champ deforces idéologiques. Il n V
avait autrefois, au sens que nous leur donnons désormais, ni
histoire scientifique ni mass media: c 'est ce quifait la différence
du rapport de la mémoire et de l'histoire, "(40)
Este quadro apocalíptico precisa ser matizado c se tem que considerar,
na fermentação contemporânea da memória, duas direções bem diversas. A
primeira c conservadora, valc-sc da fetichização, quer para transformar a
memória cm mercadoria, quer para utilizá-la como instrumento dc legitimização
potenciada pelo valor “cultural". A segunda, ao inverso, é uma resposta,
precisamente, às alienações provocadas pela expropriação da memória e
representa pelo menos a emergência de uma consciência política. Se não se
exprime como memória ví venciada é talvez porque, na sociedade da economia-
mundo, das massas, da indústria cultural, do consumo, a vivência deva ser
historicamente reformulada e ainda não tenha encontrado fórmulas de expressão
que já nos apareçam como positivas. Também Platão chegou a decretar a morte
da memória ideal, quando o alfabeto a deslocou da mente dos homens.
(39) Entre mémoire et histoire. In: op.cit., p.XXXIV.
(40) Mémoire collective. In: o/xc/7;, p.4Q0. Vertambcm J. Le Goff. Memoria. In:op. cil.; Henri-Pierre
Jcudy. Mémoires du social. Paris, PUF. 1986; G. N armer. Mémoire et société. Paris. Méridiens/
Klincksieck, 1987.
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Na segunda direção é que tem havido, recentemente, uma mobilização
da memória como bandeira política e como combustível para movimentos
sociais. Paralelamente, é a própria atividade profissional do historiador que é
chamada a integrar essa militância da memória. Paul Thomas, um dos teóricos
da História Oral, não esconde o proselitismo dessa modalidade de pesquisa, ao
afirmar que, na Europa, ela não é apenas um método, mas sobretudo um
movimento.(41) O caráter desse movimento fica patente das declarações e
práticas aglutinadas em tomo, por exemplo, do History Workshop Journal ou
do Popular Memory Group da Universidade de Minnesota.(42) Para completar
este cenário, vaie a pena incluir menção a grupos étnicos americanos, australianos
e africanos que, apresentando-se como únicos intérpretes legítimos dc sua
memória, reinvidicam também sua gestão museológica integral.(43) Daí uma
nova tipologia em que se distingue o “museu étnico” dos demais museus
antropológicos c arqueológicos.
Mcmória/História
De todo o exposto até aqui evidencia-sc como imprópria qualquer
coincidência entre memória e História. A memória, como construção social, é
formação dc imagem necessária para os processos dc constituição e reforço da
identidade individual, coletiva e nacional. Não se confunde com a História, que
é forma intelectual de conhecimento, operação cognitiva, A memória, ao invés,
é operação ideológica, processo psico-social de representação de si próprio, que
reorganiza simbolicamente o universo das pessoas, das coisas, imagens e
relações, pelas legitimações que produz.(44) A memória fomccc quadros de
orientação, de assimilação do novo, códigos para classificação e para o
intercâmbio social. Nessa perspectiva, o estudo da memória ganharia muito se
fosse conduzido no domínio das representações sociais problemática na qual
a Psicologia Social tem investido consideravelmente, nos últimos anos,
procurando parâmetros e instrumentos metodológicos para análises de gênese,
operações, produtos e funções.(45)
(41 > Life histories and the analysis of social change. In: Daniel Bcnaux, org.. "p. cil., p.290.
(42) Ver, por exemplo, Popular Memory Group, Popular memory: theory, politics, method. In:
Richard Johnson ct alii, orgs., Making Histories, Studies in History writing and politics.
Minneapolis, University of Minnesota Press, 1982, pp.205-252.
(43) Para exemplos, assim como de questões conexas, ver Phyllis M. Messenger, org. The ethics of
collecting cultural property: whose culture ? Whose property ? Albuquerque, University of
New Mexico Press, 1989; P. Gathercole & D. Lowcnthal, orgs. The politics ofthe past. London,
Unwin Hyman, 1990; R. Layton.org, Who needs the past ? Indigenous values and Archaeology.
London, Unwin Hyman, 1989; Isabel McBrydc, org. Who owns the past ? Melbourne, Oxford
University Press, 1985.
(44) Ver P.Nora, opera citata; J, Le Goff. Mcmoria. Op.cit..
(45) Sínteses capazes de caracterizar o tratamento que a Psicologia vem aplicando ao problema das
representações sociais (e do imaginário social) podem ser encontradas cm Denise Jodclct, org.
Les representations socudes. Paris, PUF. 1989; Robert M. Farr& Serge Moscovici, orgs. Social
representations. Cambridge/Paris, Canidbridgc University Press'Éds. de la Maison des Sci
ences de 1’Hommc, 1984; Serge Moscovici, org. Psychologic Sociale. Paris, PUF, 1990;
W.Doise & A. Palmaridis. L 'étude des representationssociales. Lausannc/Ncuchãtck Dclachaux
& Nicstlc, 1986.
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Mas do exposto também fica patente que, após o divórcio, nas instâncias
acadêmicas, entre memória e História, sobretudo depois que esta passou, cada
vez mais, de História-narração a História-problema, as condições atuais de.
gestão da memória de novo contaminam a História. Sem dúvida, na prática
profissional, asexigênciaspolíticaseoscompromissoscicntíficosnão deixarão
dc colocar dilemas cvcntualmente embaraçosos. Entretanto, é possível continuar
fixando balizas claras para evitar, nào a conspurcaçào dc uma hipotética e
indefensável pureza, mas a substituição da História pela memória: a História
nao deve ser o duplo científico da memória, o historiador não pode abandonar
sua função crítica, a memória precisa ser tratada como objeto da História.
ABSTRACT
The growing popularity ofmemory either as an academic subject or as a political
banner has obscured its character as asocial phenomenon. bi order to reafirm irs
original nature three issues are discussed: the reification uf'mcmory, its roots in
the present and aspects ofits physiology. Attention is coiled to two often neglected
topics: social amnesia and especially the social management of memo/y It is
suggested that Social Psychology- 's concepts, like that of social representations,
might help in the study of memory as an object of historical knowledge.
Keywords: Memory Social: Memory versus History: Memory as a social phenom
enon: Social memory's physiology.
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