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Caderno - de - Resumos - 2023 - XII Seminário - de - Pesquisas - Do - IMS - v.1.0.0

O documento é o caderno de resumos do XII Seminário de Pesquisa do IMS, coordenado por Gabriel Almeida Belmonte, abordando temas relacionados à saúde coletiva, serviços de saúde mental, e acesso a serviços de saúde. Ele contém uma série de trabalhos e estudos sobre saúde, educação, desigualdades e interseccionalidade, refletindo sobre desafios e inovações no setor. O evento ocorreu em 2023 no Rio de Janeiro e é publicado pela CEPESC Editora.

Enviado por

Camila Fortes
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Caderno - de - Resumos - 2023 - XII Seminário - de - Pesquisas - Do - IMS - v.1.0.0

O documento é o caderno de resumos do XII Seminário de Pesquisa do IMS, coordenado por Gabriel Almeida Belmonte, abordando temas relacionados à saúde coletiva, serviços de saúde mental, e acesso a serviços de saúde. Ele contém uma série de trabalhos e estudos sobre saúde, educação, desigualdades e interseccionalidade, refletindo sobre desafios e inovações no setor. O evento ocorreu em 2023 no Rio de Janeiro e é publicado pela CEPESC Editora.

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Maria Alice Nogueira

SUPERVISÃO Sarah Diniz Isola Lago


Jane Araújo Russo Stephanie Fernandes da Silva

COORDENADOR PARECERISTAS
Gabriel de Almeida Belmonte Aline Navega Biz
Ana Sara Semeão de Souza
ORGANIZADORES DO CADERNO DE Andreza Santos
RESUMOS Anna Beatriz Antunes
Gabriel de Almeida Belmonte Beatriz de Moraes Braga Ferreira
Jane Araújo Russo Clara Camatta
Julia Xavier Biagi Paulo Daniela Faus
Ueslei Solaterrar Dayan Oliveira
Everton Rangel
COMISSÃO ORGANIZADORA DO Fabiano Saldanha
EVENTO Heloisa Ayres
Anna Beatriz Souza Antunes Joana Maia Brandão
Anna Beatriz Torres Madalena Campos Cirne
Bruna Gonçalves Andrade Márcia Silveira Ney
Danielle Pereira Paulo Ronaldo Teodoro
Gabriel de Almeida Belmonte Rosana Castro
Igor Coelho Rodrigues da Motta Rosângela Caetano
Madalena Campos Cirne Roseni Pinheiro
Tássia Áquila Vieira Stephanie Lima
Ueslei Solaterrar Vanessa Herdy

MONITORES DO EVENTO CAPA


Agatha Fidelis da Silva dos Santos Ana Clara Lemos
Amanda Bessa Ribeiro de Lima Gabriel de Almeida Belmonte
Gabriele Fernandes da Silva
Hector Portugal da Silva Leite EDIÇÃO
Johnny Cesar Freitas E Silva CEPESC Editora
Marcia de Souza Faria das Chagas
DIAGRAMAÇÃO E REVISÃO
Mancen Editorial
Verônica Lazzeroni Del Cet (revisão)
CATALOGAÇÃO NA FONTE
UERJ / REDE SIRIUS / BIBLIOTECA CB-C

S471 Seminário de pesquisa do IMS (12: 2023: Rio de Janeiro: RJ) Caderno de resumos 2023 do
XII Seminário de pesquisa do IMS: retomar o coletivo para reintegrar a saúde [recurso eletrônico]
/ Coordenador: Gabriel Almeida Belmonte; Organizadores: Gabriel de Almeida Belmonte, Jane
Araújo Russo, Julia Xavier Biagi Paulo, Ueslei Solaterrar - 1. ed. - Rio de Janeiro: CEPESC
Editora, 2024. 1 recurso online: 3.215 KB

ISBN 978-85-9536-016-7

DOI: 10.5281/zenodo.13931947

1. Saúde Coletiva. 2. Serviços de Saúde Mental. 3. Educação em Saúde. 4. Trabalho. 5. Acesso Efetivo
aos Serviços de Saúde. I. Belmonte,
Gabriel Almeida. II. Russo, Jane Araújo. III. Paulo, Julia Xavier Biagi. IV. Solaterrar, Ueslei. V.
Instituto de Medicina Social Hesio Cordeiro.

CDU 614.2

Bibliotecária: Thais Ferreira Vieira CRB-7/5302


Em memória de Tânia França e Cris Serra.
SUMÁRIO
1. APRESENTAÇÃO
Gabriel de Almeida Belmonte e Ueslei Solaterrar
2. COLETIVO TEMÁTICO: Acessos à saúde: serviços, medicamentos e judicialização
2.1. A experiência da gestão da atenção primária de Maricá: uma análise da produção do
cuidado ofertado no ano de 2022
Felipe Fernandes dos Santos e Amanda Firme Carletto
2.2. Desafios para a construção da Clínica Ampliada na saúde bucal: narrativas de dentistas da
Atenção Primária à Saúde
Amanda Firme Carletto, Felipe Fernandes dos Santos e Nayara Rudeck Oliveira Sthel Cock
2.3. Estratégias para aprimorar o acesso a partir da organização da agenda médica na Atenção
Primária à Saúde
Lays Costa Silva
2.4. O direito à saúde durante a crise de COVID-19: uma análise das principais decisões do
Supremo Tribunal Federal
Thauanne de Souza Gonçalves
2.5. Transtorno de Oposição Desafiante e medicalização da infância: aspectos históricos e
conceituais
Felipe Barbosa da Silva
3. COLETIVO TEMÁTICO: Agravos de Saúde Transmissíveis e Não Transmissíveis
3.1. Adesão à alimentação escolar e consumo alimentar segundo o grau de processamento, em
Sumidouro – RJ
Danielle Pereira Paulo
3.2. Alteração na glicose, insulina e lipídios séricos devido ao consumo de alimentos
ultraprocessados em crianças com obesidade
Caroline Cortes Moreira et al.
3.3. A presença de crianças no domicílio influencia na escolha dos alimentos adquiridos pelos
pais: análise dos anos 2009 e 2018 no Brasil
Isabela de Albuquerque Ribeiro e Eliseu Verly Junior
3.4. Bioacúmulo de poluente orgânico persistente: correlação entre DDE
(diclorodifenildicloroetileno) e percentual de gordura corporal em adultos
Anna Beatriz Torres et al.
3.5. Caracterização do consumo alimentar de brasileiros em uso de dietas para diabetes e
hipertensão: II Inquérito Nacional de Alimentação 2017-2018
Beatriz Salari Bortolot et al.
3.6. Consumo de café e a ingestão de açúcar de adição e adoçantes
Marijoe Braga Alves Simões et al.
3.7. Grupo de trabalho para enfrentamento da sífilis em Maricá – RJ
Shirley Ribeiro dos Santos Linhares et al.
3.8. Impacto da redução do consumo de bebidas açucaradas nas mortes prematuras por doenças
crônicas não transmissíveis no Brasil
Anna Beatriz Souza Antunes et al.
3.9. Tempo de sono e marcadores bioquímicos de dislipidemia em crianças com obesidade
Danielle Coelho de Azevedo e Diana Barbosa Cunha
4. COLETIVO TEMÁTICO: Educação e (in)formação em saúde: caminhos e desafios
sociais e políticos para coletividade
4.1. A elaboração de cartilha como ferramenta para desmistificar o cuidado em saúde mental
na atenção primária
Gabriela dos Santos Melo Bomfim e Rafaela Lopes Ravazzi
4.2. A cacofonia dos discursos nutricionais: informação e desinformação nas narrativas sobre
alimentação
Bia Rique
4.3. Desafios à participação social na 9ª Conferência Estadual de Saúde do Rio de Janeiro
Danielle Portella Ferreira et al.
4.4. “Eu vi no zap”: promoção à saúde e divulgação de informações no Whatsapp durante a
pandemia da COVID-19
Liana Santos de Carvalho
4.5. Formação em saúde como formação humana: interpretações críticas à diversidade e aos
valores coletivos na formação em saúde para o SUS
Júlia Barcelos Bittencourt et al.
4.6. Gerência de investigação, prevenção e controle da esporotricose: desconhecimento dos
pacientes e dos profissionais
Maria Lucivane de Oliveira
4.7. O regime da saúde global e a resposta brasileira à pandemia do SARS-CoV-2
Kathucia Calmon Mendonça et al.
4.8. Os impactos da implementação das tecnologias digitais na educação do ensino profissional
em saúde
Alessandra Rachel Gomes da Silva et al.
4.9. Pandemia da COVID-19 e cloroquina: autoridades, defesas e usos no ano de 2020
Beatriz de Moraes Braga Ferreira
5. COLETIVO TEMÁTICO: Interfaces entre ciência, bioética e tecnologia
5.1. Avaliação do padrão de atividade física por acelerômetro em crianças com obesidade e seus
responsáveis: um relato de pesquisa de um ensaio clínico
Magno Conceição Garcia et al.
5.2. A vida social dos medicamentos genéricos
João Balieiro Bardy
5.3. Cooperação acadêmica brasileira e a construção da ciência: entre o Sul e o Norte
José Arnon Silva Santos e Paulo Henrique Almeida Rodrigues
5.4. Determinantes tecnológicos da saúde: uma proposta para a relação saúde-tecnologia no
contexto da COVID-19
Virgilio Magalde de Azevedo
5.5. Normatização e controle: uma investigação do discurso do Conselho Federal de Medicina
sobre o corpo da mulher
Carolina Aita Flores
5.6. Risperidona em rede: reflexões iniciais sobre o uso de antipsicóticos para crianças no
espectro autista passíveis de irritabilidade
Luis Phillipe Nagem Lopes
5.7. Transplante uterino no Brasil: uma análise de publicações científicas
Juliana Vieira et al.
5.8. Vantagens socioeconômicas do tratamento de radioterapia hipofracionada de próstata para
o paciente oncológico da região metropolitana do Rio de Janeiro
Patricia Vieira de Abreu
6. COLETIVO TEMÁTICO: Interseccionalidade e Desigualdades na Saúde
6.1. As maternidades (in)inteligíveis no Estado: quando a mãe vira sujeito de suspeição?
Tássia Áquila Vieira
6.2. “Ela não pode ser pai”: um estudo sobre a transparência a partir de três casos de mulheres
trans
Sessiz Zarif Rosa Barbosa e Barros de Oliveira
6.3. Entre a (in)visibilidade e direitos: dispositivo “saúde de mulheres lésbicas e bissexuais
privadas de liberdade”
Layla Vitorio Peçanha
6.4. Masculinidade(s), privacidade e prazer na era digital: um estudo sobre a pornografia no
Twitter/X e suas repercussões para a saúde coletiva
Jonathan de Oliveira Almeida
6.5. “Não tem vaga, só se conhecer alguém”: percepção do acesso aos serviços de saúde por
mulheres congolesas residentes no Rio de Janeiro
Paula Colodetti Santos
6.6. O nutricídio da população negra periférica: aprendizados de uma estagiária de nutrição
clínica em um hospital municipal do Rio de Janeiro
Patricia Penna Ferreira
6.7. Políticas intersetoriais de atenção à população em situação de rua: uma revisão de escopo
Caroline dos Santos Pereira et al.
6.8. Saúde da população negra: uma análise das desigualdades raciais na política de atenção
primária à saúde
Luanda Café Santana dos Santos Fontes e André Luís de Oliveira Mendonça
6.9. Servir, cozinhar e limpar de mulheres negras: um olhar através da segurança alimentar e
nutricional
Larissa Brillo Nunes Rúbio et al.
7. COLETIVO TEMÁTICO: Itinerários de cuidado e processos saúde-doença
7.1. Abordagem interdisciplinar às pessoas com obesidade grave no SUS: relato de experiência
Liliane Siqueira et al.
7.2. A gente nasce aprendendo, cresce aprendendo e morre sem saber: o fortalecimento coletivo
em um grupo de convivência de idosas no município de Petrópolis
Luana Papelbaum Micmacher et al.
7.3. A interdisciplinaridade e a integralidade no SUS: um olhar acerca do trabalho
multiprofissional no cuidado de usuários com indicação de transplante cardíaco
Mariana Camargo Tumonis Oliveira e Roseni Pinheiro
7.4. As deficiências e o HIV/AIDS do ponto de vista de médicos e pessoas que vivem com
HIV/AIDS
Cassiano Ricardo Dezotti de Abreu et al.
7.5. As margens do cuidado: quem pode ser mãe?
Tamara Vicaroni da Silva
7.6. Avaliação da elaboração dos objetivos gerais dentro do plano terapêutico de crianças com
desordens neuromusculares, transtornos e distúrbios do desenvolvimento infantil através de um
método de estimulação integrada intensiva.
Priscila Ferreira Leite Pereira e Raquel do Carmo dos Passos
7.7. O fechamento das creches públicas e o cuidado de crianças pequenas na pandemia da
COVID-19: reflexões a partir da perspectiva de mulheres das classes populares
Leticia Hastenreiter
7.8. Relações entre cuidado e automutilação
Madalena Campos Cirne
7.9. Shantala como caminho para a humanização do cuidado em saúde
Ana Cecília de Oliveira Valdés, Esmeralda Corres e Angela Fernandes Leal da Silva
8. COLETIVO TEMÁTICO: Relações entre saúde, meio ambiente e política
8.1. Contribuições da organização comunitária no combate à insegurança alimentar e
nutricional
Mônica Gouveia Matos e Paulo Henrique Ambrozio Polonine
8.2. Desordem do espaço urbano e consumo de álcool entre adolescentes de capitais brasileiras
Rayara Mozer Dias, Claudia de Souza Lopes, Taísa Rodrigues Cortes, Katia Vergetti Bloch e
Washington Leite Junger
8.3. Entre o normal e o patológico no século XXI: cosmovisões alternativas ao capitaloceno
Jade Martins Leite Soares
8.4. Etnocentrismo e preconceito: Pilares de sustentação das atuais conjecturas sociais
Igor Coelho Rodrigues da Motta
8.5. Interseções de gênero e raça/cor na insegurança alimentar em domicílios no Norte e
Nordeste brasileiro
Karine de Sales Carneiro, Luana Teixeira Ghiggino, Larissa Brillo Nunes Rúbio, Eloah de
Sant’Anna Ribeiro e Aline Alves Ferreira
9. COLETIVO TEMÁTICO: Subjetividade, Atenção Psicossocial e Saúde Coletiva no
Brasil
9.1. A horizontalidade na manutenção da desinstitucionalização: relato de um estagiário em
extremos opostos da RAPS
Daniel Vasconcelos
9.2 A leitura psi de Georges Canguilhem no Instituto de Medicina Social: implicações para a
Reforma Psiquiátrica e a Saúde (Mental) Coletiva
Murilo Galvão Amancio Cruz
9.3. Censo psicossocial do estado do Rio de Janeiro: uma leitura interseccional das instituições,
usuários e profissionais
Bruno Lopes Lima, Amanda de Almeida Sanches, Daniel de Souza Campos, Erika Rodrigues
Silva, Isabel Cristina Lopes Barbosa, Jessica Taiane da Silva, Lucas Moura Santos Silva,
Priscila Fernandes da Silva, Thaissa dos Santos, Tatiana Wargas de Faria Baptista e Rachel
Gouveia Passos
9.4. Cuidados não prescritos: sofrimento psíquico e recursos comunitários terapêuticos de
jovens moradores de periferia da cidade do Rio de Janeiro
Franklin Torres Neto
9.5. Entre a redução de danos e a arte-educação: conexões entre o Rio de Janeiro e Salvador
Monique Lima dos Santos Bezerra, Bruno Lopes Lima, Giovanna Caruso Tangerino, Elza
Cristina Cabral Marques e Thalya da Costa Carvalhaes
9.6. Entre o registro e a denúncia: práticas nos CAPS durante a pandemia da COVID-19
Elena de Souza Machado
9.7. Gênero e cuidado na atenção psicossocial: o cotidiano de mulheres cuidadoras em um
CAPS no Rio de Janeiro
Vanessa Crumial Herdy de Andrade
9.8. Maternidade, raça e loucura: (des)caminhos, violações e vicissitudes no exercício da
maternidade
Ueslei Solaterrar e Laura Lowenkron
9.9. Práticas antirracistas na atenção psicossocial: vivências que potencializa o orí
Marcelo da Silva Guimarães e Thamires Costa Meirelles dos Santos
9.10. Os diferentes estados do ser: pedalando pelas redes do afeto
Tito Firmino Lima Pereira e Izadora dos Santos Praça
9.11. Um estudo das inter-relações entre estruturas manicomiais e o legado eurocêntrico-
colonial na saúde mental brasileira
Camila Fortes Monte Franklin
10. COLETIVO TEMÁTICO: Transformações no mundo do trabalho
10.1. A política de saúde e as mudanças no mundo do trabalho: Breves reflexões sobre a
Atenção Básica
Débora Holanda Leite Menezes
10.2. A precarização no mundo do trabalho sob a perspectiva da Teoria Marxista da
Dependência: o caso da enfermagem no Brasil
Isabelle de Almeida Motta, Thauanne de Souza Gonçalves, Inês Leoneza de Souza e Paulo
Henrique de Almeida Rodrigues
10.3. Experiência nos atendimentos remotos nos Núcleos de Cuidados Paliativos do Hospital
Universitário Pedro Ernesto durante a pandemia da COVID-19
Bruna Gonçalves de Andrade, Camila Aparecida de Paula Iellamo, Fernanda Martins Pereira
Hildebrandt e Roseni Pinheiro
10.4. Migração e interseccionalidades: Refugiados congoleses no Rio de Janeiro
Fabiana Chicralla Siqueira
10.5. Socialização e inclusão: movimento dos grupos sociais – campo da Psicologia do
Trabalho e das Organizações
Heloísa Helena Ferraz Ayres, Eric Davi Ferreira Arcelino, Gabryella Bazeth de Souza Nery
da Silva, Isaac Pinto Firmino, Maria Clara de Souza Cherem e Rayane Aretuza Borges
Ferreira
10.6. Vínculos de trabalho da enfermagem na Estratégia Saúde da Família: Contribuições para
gestão do trabalho
Thaís de Almeida Brasil, Márcia Silveira Ney e Carinne Magnago
11. COLETIVO TEMÁTICO: Violência e construção de saúde: impactos na sociedade e
nos indivíduos
11.1. A gestão da saúde reprodutiva na atenção primária à saúde: tensões entre diferença, poder
e violências
Dandara Pimentel Freitas
11.2. A violência contra lésbicas no Brasil: análise de um problema social em construção
Giovana Martins Maximiano
11.3. Atividade de educação permanente em uma Clínica da Família para qualificação do
preenchimento da ficha de notificação e acompanhamento de casos de violência contra criança
Amanda Bessa Ribeiro de Lima, Matheus Veras Martins, Eduarda Garcez Almeida e Maria
Birman Cavalcanti
11.4. Cruzando pesquisas, sofrimento e resistência: narrativas sobre gêneros e sexualidades
dissidentes no Rio de Janeiro
Delia Da Mosto e Ueslei Solaterrar
11.5. Enfrentamento da violência doméstica e seus agravos para a saúde através dos grupos
reflexivos para autores de violência
Marina Barbosa Cabral e Jade Martins Leite Soares
11.6. Formação de vínculo no contexto atual da atenção primária: um relato de experiência
Andréia Augusto dos Santos
11.7. Homícidio-suicídio: masculinidades, letalidade e adoecimento mental
Gabriel de Almeida Belmonte e Aryelle Patricia da Silva
11.8. Muito além do trauma: uma investigação sobre o papel das reações peritraumáticas sobre
o transtorno de estresse pós-traumático
Leticia Rocha Pereira, Michael Eduardo Reichenheim e Evandro da Silva Freire Coutinho
11.9. Na cápsula do fuzil ou do Rivotril? O trabalho profissional do Assistente Social em
situações de violência policial e de negação à Política de Saúde Mental
Paulo Henrique Ambrozio Polonine
11.10 Programa extensionista mulherio: tecendo redes de resistência e cuidados – a extensão
como prática pedagógica revolucionária
Paula Land Curi e Paloma Lima Ramos Jashar
11.11. Reflexões sobre a necessidade de um olhar mais humanizado na saúde: um relato de
experiência com idoso portador de síndrome demencial na instituição de longa permanência
Mayara Marques Bragança, Rose Mary Costa Rosa Andrade Silva e Lucas Soares Diniz Pinto
e Sarah de Barros Oliveira Silva
11.12. Sob o olhar de Asclépio: uma análise histórica da construção da masculinidade moderna
pelo discurso médico em salvador entre 1880-1920
Daniel de Castro Barral e Sérgio Carrara
11.13. Tecnodiversidade e saúde: Como se dá o reflexo da masculinidade na concepção da
gagueira no Instagram
Maria Clara Conrado de Niemeyer Soares Carneiro Chaves
11.14. (TRANS)formação na Atenção Primária: um relato de experiência no Programa
Aquarela para adolescentes trans e não binários
Welison Matheus Fontes da Silva
11.15. Vivência Prática-Reflexiva
Mirian Teresa de Sá Leitão Martins
12. Programação do XII Seminário de Pesquisa do IMS
APRESENTAÇÃO

Gabriel de Almeida Belmonte e Ueslei Solaterrar

Em meados de maio de 2023, um grupo de alunas e alunos do Coletivo de


Estudantes do IMS, que apenas ouvia falar do seminário, iniciou os trabalhos para a
retomada do evento que não acontecia desde 2017. Entre reuniões presenciais e virtuais,
chegaram a proposição temática do novo seminário, configurada em pensar 2023 a partir
das retomadas: um período de recomeços no Brasil, situado no pós-pandemia da COVID-
19 e a morte de mais de 700 mil brasileiros, mortes estas distribuídas desigualmente a
partir de marcadores de raça e classe, concomitante a instauração de um governo
representante de um projeto político democrático e inclusivo, que investe na ciência, na
saúde e na educação — ao mesmo tempo atravessado por fragilidades e contradições.
Pensar também a saída do virtual, do ensino remoto emergencial e o retorno das
primeiras turmas presenciais de mestrado e doutorado do IMS desde 2019. Pensar e
propor este retorno para assim também reintegrar à saúde coletiva em nosso instituto.
Desmontar as desarticulações entre os seus departamentos e áreas temáticas. Retomar o
coletivo para reintegrar à saúde, retomar a saúde para o espaço vigente que o governo e
o mundo dão à saúde, após uma pandemia e pandemônios políticos. Novas expectativas e
possibilidades de estar na pós-graduação e ocupar a UERJ. Retornar ao presencial graças
à ciência e à saúde sucateadas nos últimos anos.
Sobre o seminário, vale destacar sua história, como uma longeva iniciativa discente
das três áreas do Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva da UERJ: Ciências
Humanas e Saúde; Epidemiologia; e Política, Planejamento e Administração em Saúde.
Surgiu lá em 2006, entre as estudantes e os estudantes de Ciências Humanas e Saúde, mas
logo se tornou uma proposta do corpo estudantil de todos os departamentos do IMS, na
qual constrói-se, continuamente, como um espaço de compartilhamento de saberes e
práticas na Saúde Coletiva e em toda sua interdisciplinaridade. Como principal interesse,
há a intenção de mobilizar os estudantes do IMS para produção de debates sobre temas
importantes para a Saúde Coletiva e o SUS, divulgando e integrando trabalhos
desenvolvidos por pós-graduandos do IMS; de outras instituições de ensino, pesquisa,
gestão e serviços de saúde; de usuários do SUS; e de ativistas e atores de movimentos
sociais.
O seminário, por sua vez, tornou-se um evento acadêmico protagonizado pelo
Coletivo de Estudantes do IMS, um grupo orgânico horizontal de discentes do instituto
que atua na representação estudantil, mas também na formação acadêmica, profissional
e política, paralelamente a pós-graduação, seja pelo mestrado, seja pelo doutorado. Quem
pode acessar uma pós-graduação no Brasil? Quem pode permanecer nesta com
“dedicação exclusiva”? O Coletivo é composto, portanto, por estudantes que, em sua
grande maioria, estão tentando equilibrar suas duplas, triplas, múltiplas jornadas e
inserções na vida, para gerir o desafio não apenas de acessar a pós-graduação, mas de
permanecer nesta, sendo que se trata de um espaço ainda atravessado por desigualdades
e privilégios latentes.
A Comissão Organizadora 2023 foi composta por pós-graduandas e pós-
graduandos, do mestrado e do doutorado das áreas de Ciências Humanas e Saúde;
Epidemiologia; e Política, Planejamento e Administração em Saúde, dispostas e dispostos
em reproduzir um evento, cuja história e procedimentos foram descontinuados.
Sobretudo, pelas questões políticas e sanitárias dos últimos anos. Portanto, nossa missão
também foi criar fluxos e processos. Registrar o evento e propriamente retomar a
memória do seminário, que, pela fluidez do espaço e do tempo daqueles que nos
antecederam, compartilhados em curtos espaços de tempo do mestrado e do doutorado,
além das adversidades da vida, acaba sendo esquecida, empilhada entre outras
responsabilidades e lembranças.
Com isso, nos colocamos à disposição para aprender. Para receber nos corredores
do IMS, um público em busca de trocas, conversas e falas sobre as questões pertinentes
de acesso à saúde e suas manutenções necessárias, em variadas lentes e enfoques.
Esperávamos encontrar pesquisadores e pesquisadores, profissionais da ponta, ativistas
e suas propostas de apresentações de trabalho nas modalidades de Relato de Pesquisa e
Relato de Experiência, e encontramos.
Um tempo depois, mais especificamente, entre 4 e 8 de dezembro de 2023,
retomamos, de forma coletiva, o Seminário de Pesquisa do IMS, depois de um hiato de seis
anos. Ao longo da primeira semana de dezembro, não ouvíamos mais falar do seminário
dos alunos, estávamos vivendo o evento. Em sua potência máxima — sobretudo para a
Comissão Organizadora, que estava imersa há meses em todos processos e burocracias,
inclusive em retomadas daquilo que não conhecíamos, vivendo aquilo de dentro para fora,
a partir da semente germinada — de forma presencial e renovada, entre elevadores e
escadas que nos direcionavam para o sexto e sétimo andares do bloco D da UERJ, sem
deixar de rememorar (e às vezes até consultar) aqueles que vieram antes de nós.
Incontáveis encontros, pessoas, compartilhamentos de pesquisas, projetos e
atividades, como mesas redondas, oficinas, apresentações de trabalho, rodas de conversa,
música, poesia, saraula e homenagens. Os corredores e salas do IMS foram visitados por
mais de 400 pessoas: discentes e docentes do IMS, de diferentes institutos, cidades e
estados do Brasil. Um coletivo de pessoas que se mobilizaram para participar e colaborar.
Desde pesquisadores residentes da cidade do Rio e do estado do Rio de Janeiro, até de São
Paulo, Brasília e Barcelona, entre as mais de 95 horas de atividades simultâneas que
aconteceram nos cinco dias de evento.
Das 120 submissões, contamos com a apresentação de 86 trabalhos de estudantes
e pesquisadores do IMS, da UERJ e comunidade externa, como outras instituições do Rio
de Janeiro e Brasil. Dentre os relatos de pesquisa e de experiência, 17 sessões foram
realizadas ao longo da semana, inseridas nos eixos de discussão dos dez coletivos
temáticos da décima segunda edição do evento:

• Interseccionalidades e Desigualdades em Saúde;


• Transformações no mundo do trabalho;
• Acessos à saúde: serviços, medicamentos e judicialização;
• Relações entre saúde, meio ambiente e política;
• Itinerários de cuidado e processos de Saúde-Doença;
• Educação e (in)formação em saúde: caminhos, desafios sociais e políticos
para coletividade;
• Entre violência e construção de saúde, impactos na sociedade e nos
indivíduos;
• Agravos de saúde transmissíveis e não transmissíveis;
• Atenção Psicossocial e Saúde Coletiva no Brasil;
• Interfaces entre ciência, bioética e tecnologia.

Enquanto estudantes do IMS e membros orgânicos do Coletivo de Estudantes do


IMS, retomamos o seminário de pesquisa do IMS. Assumimos o compromisso do encontro
e do compartilhamento de pesquisas e discussões acadêmicas, científicas e de
movimentos sociais na saúde. Enquanto Comissão Organizadora, aprendemos em ato —
tentativas, erros e acertos — estendendo o desejo de dar continuidade a um movimento
importante, talvez mais importante para as alunas e os alunos do que para o próprio
instituto. Além de registrar neste caderno, todo empenho coletivizado. Para isso, a
mobilização dos estudantes demarca sua pertinência, através do Coletivo de Estudantes e
daqueles que o compõem, contando com apoio de toda comunidade de docentes, corpo
técnico, administrativo e terceirizado do IMS e da UERJ, bem como a confiança do CEPESC
e da direção pelo suporte oferecido na realização do seminário.
Este Caderno de Resumos é apenas um pequeno resultado de grandes esforços,
reuniões, e-mails e contatos, mas que, paralelamente, condensa e apresenta, de forma
objetiva, a energia envolvida nos agenciamentos de produção de saberes e práticas do
Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva da UERJ. Quanto à estrutura,
apresentamos resumos dos trabalhos apresentados segmentados pelos 10 coletivos
temáticos nas modalidades de relato de pesquisa e relato de experiência e, na parte final,
há o registro da programação do evento.
No dia 03 de dezembro de 2023, um dia antes do início do Seminário, perdemos,
enquanto sociedade brasileira, Antônio Bispo dos Santos, conhecido como Nêgo Bispo, aos
63 anos, em São João do Piauí, território onde liderava um importante movimento
quilombola. Nêgo Bispo foi, e seguirá sendo, um ativista e pensador fundamental na
articulação do povo e comunidades quilombolas no país.
Em agosto de 2018, Bispo esteve no Rio de Janeiro e foi à Maré para uma roda de
conversa com o “Núcleo de Memórias e Identidades dos Moradores da Maré”. Na ocasião,
nos presenteou com o poema que segue abaixo:

“Nós, caminhando pelos penhascos,


atingimos o equilíbrio das planícies.
Nós, nadando contra as marés,
atingimos a força dos mares.
Nós, edificando nos lamaçais,
atingimos a firmeza dos lajeiros.
Nós, habitando nos rincões,
atingimos a proximidade da redondeza.
Nós somos o começo, o meio e o começo.
Existiremos sempre,
sorrindo nas tristezas
para festejar a vinda das alegrias.
Nossas trajetórias nos movem,
Nossa ancestralidade nos guia.”

A retomada do Seminário, a construção deste caderno de resumos e todo o


movimento em torno desse contexto jamais teriam sido possíveis sem o trabalho e
dedicação de muitos e muitas, um trabalho tecido a muitas mãos, sobrecargas e desejos,
um trabalho coletivo. Coletivo no Brasil, no pretuguês, como nos ensina Lélia González,
tem outro nome: quilombo. Portanto, não somos início, meio e fim.
Somos a retomada. Somos continuidade. Somos início, meio e início.

Sigamos juntos e de mãos dadas.

Até a próxima.
COLETIVO TEMÁTICO:
Acessos à saúde: serviços, medicamentos e judicialização

O direito à saúde, apesar de ser assegurado pela constituição brasileira e figurar como
um dos direitos humanos, não possibilita o acesso igual à saúde para todos, pois sua efetivação
depende das distintas possibilidades que pessoas e grupos sociais têm aos bens, serviços
públicos e privados, informação e reconhecimento social e político. Sendo assim, este Coletivo
Temático teve por objetivo divulgar e debater estratégias e resultados alcançados por meio de
pesquisas desenvolvidas e/ou em desenvolvimento e trabalhos acerca de acessos e barreiras à
saúde a partir de serviços, medicamentos e judicialização da saúde. Assim, buscamos análises
de ações judiciais ligadas à assistência à saúde, seus impactos no sistema de saúde, no acesso a
tratamentos, na alocação de recursos, nas políticas públicas de saúde e no diálogo institucional.
Procuramos também, a partir de abordagem interdisciplinar, analisar os desafios associados à
judicialização como forma de efetivação do direito à saúde no campo da saúde coletiva e áreas
relacionadas. Além disso, o coletivo teve a prerrogativa de se debruçar sobre o SUS e debates
acerca da medicamentação em condições de doenças crônicas, psiquiátricas e problemáticas da
saúde, como o aborto; vacinação; capacitismos; racismos, práticas discriminatórias e limitantes
em relação a garantia do direito à saúde. Buscando, assim, promover uma discussão
interdisciplinar e propositiva para a construção de conhecimentos e para uma sociedade mais
justa e igualitária.
Relato de Experiência

A experiência da gestão da atenção primária de Maricá: uma análise da produção


do cuidado ofertado no ano de 2022

Felipe Fernandes dos Santos 1


e Amanda Firme Carletto 2

Palavras-chave: Atenção Primária à Saúde; Produção em saúde; Gestão em


Saúde.

Contextualização
Desde 2020, a gestão da saúde de Maricá tem buscado promover uma transformação do
modelo de atenção à saúde até então mais direcionado à lógica dos “postinhos de saúde” que
recebiam os usuários, em grande parte, já enfermos e realizavam o cuidado mais centrado no
médico. Com os investimentos na Estratégia de Saúde da Família (ESF), a Atenção Primária à
Saúde (APS) vem desconstruindo práticas biologicistas e fragmentadas, concomitante com a
construção de direcionamentos coletivos, transdisciplinares e focado no usuário, considerando
os aspectos relacionais e o território em saúde.

Descrição
O relato de experiência em gestão analisa a produção da APS do município de Maricá
quanto às consultas clínicas, atividades de educação em saúde e visitas domiciliares realizadas
no ano de 2022. O estudo trabalha sob a égide da saúde pública com fins a analisar o estado da
arte, busca distanciamento da produção como uma proposta mercantil.

Período de Realização
O recorte temporal da experiência compreende o ano de 2022, período anual completo
mais recente.

Objetivos
Problematizar a experiência de gestão da APS de Maricá por meio da análise da
produção das equipes de Saúde da Família (eSF) e Saúde Bucal (eSB) da ESF no ano 2022.

Resultados
Quanto aos serviços ofertados à população considerados neste estudo, que foram
realizados pelas eSF e eSB no ano de 2022, identifica-se mais de 408 mil visitas domiciliares,
seguidas de mais de 305 mil consultas (médico, enfermeiro e dentistas) e pouco mais de 14 mil

1
Doutorando pelo Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva do Instituto de Medicina Social da
Universidade do Estado do Rio de Janeiro; [email protected]
2
Doutoranda pelo Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva do Instituto de Medicina Social da
Universidade do Estado do Rio de Janeiro.; [email protected]
atividades coletivas. Essas últimas demandam reflexão sobre a operacionalização dos grupos
de tabagismo, pré-natal e planejamento reprodutivo que são amplamente conhecidos e
incentivados, assim como as salas de espera e colegiados gestores.
Quanto ao total de consultas realizadas, as consultas médicas representam um
quantitativo expressivo, isto porque os médicos atendem duas vezes mais que os enfermeiros e
quatro vezes mais que os dentistas. Vale ponderar que os atendimentos médicos, em muitas
situações clínicas, abarcam também o trabalho realizado pelo corpo técnico de enfermagem, ao
atender as atribuições técnicas que competem a cada categoria. Outro ponto que merece
destaque é a proporção de referências que estão atrelados à competência médica de coordenação
clínica na rede. Sobre as consultas odontológicas, vale mencionar que não há proporção
equilibrada entre eSB e eSF e o processo de cuidado, por questões clínico-cirúrgicas, solicita
mais tempo de consulta. Entretanto, a demanda reprimida e a atenção para a continuidade do
cuidado solicitam mais esforço de integração local, comportamento não comum nas eSB.
Em um cenário bastante diferente, do total de visitas domiciliares ofertadas no ano,
identifica-se uma média de 1% de visitas realizadas por médicos, 1% realizadas por equipes de
saúde bucal, 2% efetuadas por enfermeiros e técnicos de enfermagem e 96% de visitas
realizadas por Agentes Comunitários de Saúde (ACS). Com esses dados, pode-se inferir que os
ACS têm realizado o trabalho territorializado, e que, provavelmente, sofre inflexões por
desafios do trabalho multiprofissional. Isto porque, segundo os dados, os profissionais ainda
estão enfocados no atendimento ambulatorial.
Quanto à produção da enfermagem (consultas e visitas domiciliares), pode-se inferir
que o não protagonismo nestas atividades pode ser consequência do protagonismo em
atividades de gestão de setores, de campanhas e de liderança, ou equipe que não são
contabilizadas na produção. Essa análise nos chama atenção sobre o não reconhecimento de
atribuições que são rotineiramente realizadas pela enfermagem.

Aprendizados e Análise Crítica


Este estudo assume que a produção apresentada não possui um arcabouço robusto de
variáveis a serem analisadas, mas apresenta dados que geram informação e permitem reflexões,
dentre elas, que a ESF tem realizado o seu trabalho por meio de consultas, visitas domiciliares
e atividades de educação em saúde com os usuários e famílias cadastradas, saindo do lugar de
serviços quase exclusivamente ambulatoriais desenvolvidos até 2020. Entretanto, o município
segue com desafios pertinentes ao trabalho multiprofissional e territorializado que, sob nossa
análise, merecem atenção imediata.
Dentre as principais estratégias de avanço, destaca-se o quanto é fundamental que a
gestão de Maricá invista em programas de residência multiprofissionais e de medicina da
família, amplie os programas de educação permanente para a crescente qualificação das atuais
equipes quanto ao trabalho da ESF e fomente a integração ensino-serviço por meio de estágios
curriculares. Para além disso, também se destaca a importância de rever o processo de trabalho
das equipes com enfoque nas atribuições dos enfermeiros, além de realizar o esforço coletivo
para a integração da gestão e das equipes às características locais.
Relato de Experiência

Desafios para a construção da Clínica Ampliada na saúde bucal: narrativas de


dentistas da Atenção Primária à Saúde

Amanda Firme Carletto 3


Felipe Fernandes dos Santos 4
Nayara Rudeck Oliveira SthelCock 5

Palavras-chave: Clínica ampliada, Atenção Primária à Saúde, Saúde Bucal.

Contextualização
A Clínica Ampliada é uma ferramenta teórico-prática que direciona atenção para o
sujeito, superando o foco em doenças e procedimentos. Sendo assim, lida com a complexidade
do processo de saúde-doença e as diferentes práticas terapêuticas. Para consolidá-la, é
necessário respeitar a autonomia e a singularidade dos sujeitos, e operacionalizar o acolhimento
respeitoso, o diálogo saudável, além de valorizar os vínculos relacionais.
Quanto à prática odontológica, se estrutura por meio do trabalho em espaços privados
de acesso individual e fragmentado; é baseada em ações mutiladoras e caracterizada pela livre
demanda do usuário. A formação tem perfil clínico assistencialista de onde provém a ênfase no
adestramento da mão e no desenvolvimento de técnicas (BOTAZZO,2015).
Estes fundamentos, ainda presentes na formação e predominantes no atendimento do
setor privado, afetam os serviços públicos, deflagrando incoerência com as políticas e princípios
orientadores do SUS (MARTELLI, et al. 2008) e da Atenção Primária à Saúde (APS) (BRASIL,
2006, 2011, 2017).
Corroborando com a demanda sinalizada por Fonsêca e Botazzo (2023), quanto à
necessidade de realizarmos mais estudos sobre a incorporação da Clínica Ampliada nas práticas
odontológicas cotidianas, apresentamos narrativas de dentistas de família sobre os desafios
vivenciados no período de 2020 a 2023.

Descrição
Os comentários originam de trajetórias no âmbito da gestão e do cuidado em saúde
bucal. Englobam vivências de gestão federal e municipal. Além disso, inclui a atuação em
comunidade de uma metrópole brasileira fortemente afetada pela violência e em distrito de um
município com 5.000 habitantes, sendo grande a parcela de população rural. As trajetórias
integram cursos de residências, mestrados e doutorados (em andamento) realizados em
diferentes estados e experiências docentes em universidade pública.

3
Doutoranda pelo Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva do Instituto de Medicina Social da Universidade
do Estado do Rio de Janeiro; [email protected]
4
Doutorando pelo Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva do Instituto de Medicina Social da
Universidade do Estado do Rio de Janeiro; [email protected]
5
Doutoranda pelo Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva do Instituto de Medicina Social da
Universidade do Estado do Rio de Janeiro; [email protected]
Período de Realização
As análises compreendem o período de março de 2020 a maio de 2023.

Objetivos
Apontar desafios empreendidos na ampliação da Clínica odontológica no âmbito da
APS.

Resultados
Das narrativas surgem questões que dão subsídio para problematização nas seguintes
interfaces: desafios cotidianos, processos formativos e prática odontológica sob a lógica de
reestruturação da clínica.
Como obstáculos para a ampliação da clínica, sublinhamos: 1) histórica demanda por
tratamento com uma oferta de serviços bastante limitada, cenário agravado pela desproporção
da quantidade de equipes de saúde bucal por equipe de saúde da família; 2) organização do
acesso por critérios de vulnerabilidade e risco em territórios que convivem com a sobreposição
de privação de direitos, dificultando a busca por equidade; 3)marcante hierarquia de fala entre
os dentistas e usuários, postura que fragiliza a escuta atenta e o acolhimento afetuoso; 4)
desconhecimento profissional sobre as alternativas terapêuticas integradas ao conhecimento
popular, dificultando considerar as singularidades dos sujeitos; 5) distanciamento territorial,
prática que mantém a oferta de serviços desarticulados com a dinâmica local; 6) dificuldade de
integração com as equipes de saúde da família fortalecida pelo isolamento da infraestrutura; 7)
modelo de avaliação do trabalho pautado por indicadores que reforçam a atuação tecnicista; 8)
frágil compreensão democrática quanto ao direito de acessar serviços de saúde bucal, quadro
que complica o fortalecimento da participação e controle social e diminui as chances de
crescente qualificação do serviço; 9) demora e instabilidades na manutenção dos equipamentos
e fornecimento de insumos para oferta do cuidado clínico, o que desafia a continuidade do
cuidado; 10) impermanência na distribuição de kits de saúde bucal, embarreirando as medidas
de promoção da saúde e prevenção a doenças; 11) fragilidades da Rede de Atenção à Saúde
para a garantia do cuidado integral e longitudinal.

Aprendizados e Análise Crítica


Ao analisar os entraves que se interpõem à ampliação da Clínica, surgem mais questões
que respostas. Trabalhar em territórios com intensa desigualdade social e de saúde requer uma
atuação odontológica diferenciada, mas “como os cirurgiões-dentistas podem atuar nessa lógica
se ainda são formados sob os ditames da clínica reduzida e fragmentada?” (FONSÊCA et al,
2018, p.161).
Articulado com os desafios formativos, este estudo identifica dificuldades persistentes
na prática dos dentistas da APS. Dessa forma, corrobora com o estudo de Fonsêca e Botazzo
(2023) sobre o arcabouço de trabalho neste nível de atenção seguir centrado no conhecimento
técnico e na clínica odontológica.
Contudo, este estudo enfatiza que a ampliação da Clínica extrapola superar os desafios
formativos e assistenciais porque depende, obrigatoriamente, de investimentos técnicos,
políticos e éticos da gestão dos três entes federados. Sendo assim, avançar para a Clínica
Ampliada se constitui em um desafio amplo que requer investimentos diversos rumo à
universalização do acesso crescentemente qualificado.
Referências Bibliográficas
BRASIL. Ministério da Saúde. Portaria nº 648, de 28 de março de 2006. Dispõe sobre a
revisão de diretrizes e normas para a organização da Atenção Básica para o Programa da
Saúde da Família (PSF) e o Programa de Agentes Comunitários de Saúde (Pacs). Diário
Oficial da União. 2006.

_______.Humaniza SUS. Clínica Ampliada e Compartilhada, 2009.

_______. Ministério da Saúde. Portaria nº 2.488, de 21 de outubro de 2011. Aprova a Política


Nacional de Atenção Básica, estabelecendo a revisão de diretrizes e normas para a organização
da Atenção Básica, para a Estratégia Saúde da Família (ESF) e o Programa de Agentes
Comunitários de Saúde (Pacs). Diário Oficial da República Federativa do Brasil. Brasília,
DF, 22 out. 2011.

_______. Ministério da Saúde. Portaria nº 2.436, de 21 de setembro de 2017. Aprova a Política


Nacional de Atenção Básica, estabelecendo a revisão de diretrizes para a organização da
Atenção Básica, no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS). Brasília, DF: Ministério da
Saúde, 2017.

BOTAZZO, C. et al. Inovação na produção do cuidado em saúde bucal: possibilidades


de uma nova abordagem na clínica odontológica para o Sistema Único de Saúde:
relatório técnico. São Paulo: Fapesp, 2015.

FONSÊCA, G.S, PIRES, F.S, JUNQUEIRA, S.R, BOTAZZO, C. Redesenhando caminhos


na direção da clínica ampliada de saúde bucal, 2018.

FONSÊCA, G. S.; BOTAZZO, C. A clínica em odontologia: nexos e desconexões com


a clínica ampliada de saúde bucal. Saúde e Sociedade, v. 32, n. 1, p. e200277pt, 2023.

MARTELLI, P.J.L, et.al., Análise do modelo de atenção à saúde bucal em municípios


do estado de Pernambuco. Ciência & Saúde, 2008.
Relato de Pesquisa

Estratégias para aprimorar o acesso a partir da organização da agenda médica na


Atenção Primária à Saúde
Lays Costa Silva 6

Palavras-chave: atenção primária à saúde; acesso aos serviços de saúde; agendamento


de consultas.

Contextualização
A imprevisibilidade da demanda espontânea em detrimento aos agendamentos prévios em
um cenário constante de pressão por assistência na Atenção Primária à Saúde (APS) é um
grande desafio para profissionais e gestores em relação à organização da agenda médica de
modo a garantir o acesso dos usuários aos serviços de saúde.

Objetivos
Apresentar os diferentes sistemas de agendamento e formas de organização da agenda
médica para unidade de APS e discutir os desafios e potencialidades dessas estratégias na oferta
de atendimento aos usuários.

Metodologia
O presente estudo consiste em uma revisão da literatura e foram consultadas as bases de
dados Scientific Electronic Library Online (SciELO) e National Library of Medicine (NLM) -
PubMed. Foram incluídos artigos publicados nos idiomas espanhol, inglês e português,
considerando os descritores da presente pesquisa (acima). Os dados foram agrupados em
tabelas e, posteriormente, analisados criticamente.

Resultados e Discussão
Sobre a organização da agenda dos profissionais da APS, existem alguns tipos de
sistemas e, embora existam pequenas variações, são cinco os principais: 1. Tradicional,
saturated ou supersaturated: as consultas são previamente agendadas de acordo com a
demanda do usuário e as demandas espontâneas são absorvidas entre os atendimentos
programados; 2. Carve-out ou open access sytem (agendamento aberto) de primeira geração: o
profissional começa o dia com parte de sua agenda disponível para atendimento das demandas
espontâneas. Nesses dois primeiros modelos há a tendência de que a agenda do(a) profissional
de saúde esteja com vagas esgotadas nos próximos dias ou semanas (ou mesmo meses) e as
consultas para problemas agudos devem ser “encaixadas” em um horário já previamente
ocupado por outro usuário (double booking); 3. Modelo agendamento-dia, access by denial
(acesso por recusa) ou book on the day (livro no dia): todas as consultas disponíveis são

6
Doutoranda pelo Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva do Instituto de Medicina Social da
Universidade do Estado do Rio de Janeiro; orientadora: Márcia Silveira Ney; [email protected]
oferecidas para o mesmo dia e todas as vagas são preenchidas para aquele dia e, caso extrapole,
a pessoa é orientada a retornar no dia seguinte; de modo que há uma dualidade entre o aumento
do acesso e restrição ao término das vagas pré-estabelecidas; 4. Acesso aberto: não existe
agenda pré-definida e os usuários são atendidos por ordem de chegada. Esse sistema gera uma
chamada “fila central”, onde as pessoas vão sendo colocadas na agenda de acordo com a sua
ordem de chegada e os profissionais vão atendendo de acordo com essa ordem, não havendo
direcionamento ao profissional de referência; 5. Acesso avançado: há a superação da distinção
entre demanda programada e demanda espontânea e 65 a 75% da agenda fica completamente
aberta. Estudos apontam que esse sistema pode reduzir o tempo de espera de 55 dias dos
usuários por consultas para apenas um dia, melhorando as chances de os pacientes consultarem
seus próprios médicos em até 80%, sendo a intervenção mais utilizada para reduzir o tempo de
espera para consultas na APS.

Aprendizados e Análise Crítica


Compreender as diversas possibilidades de organização de agenda médica e suas
aplicabilidades considerando o perfil das unidades e usuários pode ser uma ferramenta de
grande valia aos profissionais de saúde da APS frente ao desafio do equilíbrio entre o
atendimento de demanda programada e espontânea. É válido ressaltar que garantir acesso não
é simplesmente ofertar vagas na agenda, é necessário que haja resolutividade às demandas dos
usuários. A causa do problema do acesso aos serviços de saúde deve ser identificada em sua
raiz, ou raízes, para que possamos pensar em melhorias, muitos delas dependentes de aumento
importante de recursos financeiros ao sistema de saúde.

Referências Bibliográficas
BALASUBRAMANIAN, H; BIEHL, S.; DAI, L.; MURIEL, A. Dynamic allocation of same-
day requests in multiphysician primary care practices in the presence of prescheduled
appointments. Health Care Manag. Sci., v. 17, p. 31-48, 2014.

CAMPOS, R. T. O.FÉRRER, A. L. GAMA, C. A. P.;CAMPOS, G. W. S.; TRAPÉ, T. L.;


DANTAS, D. V. Avaliação da qualidade do acesso na atenção primária de uma grande cidade
brasileira na perspectiva dos usuários. Rev. Saúde Debate. Rio de Janeiro, v. 38, n. especial,
p. 252-264, 2014.

DEGANI, N. Impact of advanced (open) access scheduling on patients with chronic diseases:
an evidence-based analysis. Ont Health Technol Assess Ser, v. 13, p 1-48, 2013.

KNIGHT, A.; LEMBKE, T. Appointment 101: how to shape a more effective appointment
system. Aust. Fam. Physician, v. 42, n. 1-2, p. 152-156, 2013.

MURRAY, M. Improving patient access doesn’t mean increasing workload. Cambridge:


Institute for Healthcare Improvement, 2016.

SANT’ANA, A. M. Pesquisa operativa para adequação das agendas num serviço de Atenção
Primária. Revista Brasileira Medicina de Família e Comunidade. 2017. \ MURRAY, M.;
TANTAU C. Same-day appointments: exploding the access paradigm. Fam Pract Manag.
2000.
VIDAL, T. B.; ROCHA, S. A.; HARZHEIM, E.; HAUSER, L.; TESSER, C. D. Modelos de
agendamento e qualidade da atenção primária: estudo transversal multinível. Rev. Saúde
Pública, São Paulo, v. 53, p. 1-10, 2019

VIDAL, T. B. O acesso avançado e sua relação com o número de atendimentos médicos em


atenção primária à saúde. Dissertação (Mestrado em Epidemiologia). Universidade Federal
Do Rio Grande Do Sul. Porto Alegre, n. 86, 2013.
Relato de Pesquisa

O direito à saúde durante a crise da COVID-19: uma análise das principais


decisões do Supremo Tribunal Federal

Thauanne de Souza Gonçalves 7

Palavras-chave: Judicialização da Saúde; COVID-19; Direito à Saúde; Decisões Judiciais.

Contextualização
A crise da COVID-19 no Brasil assumiu contornos que a tornou uma das mais
complexas e dramáticas do mundo. Durante a Emergência em Saúde Pública de Importância
Nacional, o Brasil passou por uma diversidade de conjunturas que merecem ser analisadas. No
atual período da democracia brasileira, ocorre o processo de expansão do Poder Judiciário.
Estudos prévios investigaram esse fenômeno e perceberam a relevância da participação do
Supremo Tribunal Federal (STF) na vida política nacional (CASTRO, 1993; SADEK, 2001;
TEIXEIRA, 2001; VIANNA; BURGOS; SALLES, 2007). O STF tem como sua função mais
importante a de realizar o controle concentrado de constitucionalidade, visando garantir que as
demais normas estejam de acordo com Constituição Federal. Na emergência da crise sanitária,
inédita para a contemporaneidade, o termo “jurisprudência de crise” foi mencionado, para tratar
da necessidade do Estado Democrático de Direito se redescobrir no meio da conjuntura adversa
(FUX, 2020).

Objetivos
Analisar as principais decisões do Supremo Tribunal Federal durante o principal período
da pandemia de COVID-19.

Metodologia
O presente estudo consiste em pesquisa empírica através de jurisprudência. Foram
analisadas as principais ações do STF de controle concentrado de constitucionalidade (ADIs,
ADCs, ADOs e ADPFs) relacionadas à pandemia, conforme seleção de importância
determinada pela coordenadoria de jurisprudência do STF (PORTAL STF, 2020). Os processos
foram então organizados em uma planilha e descritos de acordo com sua principal temática. As
temáticas mais frequentes e/ou com maior relevância e associação direta com o campo da Saúde
Coletiva tornaram-se tópicos de discussão para o presente trabalho. Os processos incluídos
nessas categorias foram lidos na íntegra e seu conteúdo foi o centro dos debates propostos.

7
Doutoranda em Saúde Coletiva do IMS/UERJ. Mestre em Ciências ENSP/Fiocruz. Cursando graduação em
Direito na UNIRIO. Enfermeira graduada pela UFRJ. [email protected]
Resultados e Discussão
Foram identificadas 15 temáticas principais. As menos frequentes ou com menor
relação direta com o direito à saúde (Educação, Fiscal, Funcionamento do Judiciário,
Funcionamento do Legislativo, Orçamento, Responsabilização, Recursos materiais e/ou
financeiros, Suspensão de pagamento) ou que tratavam de áreas do direito distintas (Eleitoral,
Penal e Trabalhista) não se tornaram categorias temáticas de análise. As categorias resultantes,
que originaram os tópicos de discussão do presente trabalho foram: Atos/Omissões do
Presidente e/ou do Poder Executivo; Conflitos federativos e/ou Medidas restritivas;
Dados sobre a COVID-19; e População indígena. A atuação do Governo Federal,
especialmente do Presidente da República, gerou ações, requeridas principalmente por partidos
políticos, objetivando restringir atos que pudessem agravar as condições sanitárias. Em relação
aos conflitos federativos, esta é a temática principal da maior parte das ações mais relevantes
sobre a pandemia. A atuação do Governo Federal também esteve presente nesses processos e
as medidas mais restritivas de combate à pandemia, principalmente o isolamento social, foram
o objeto mais recorrente. Na terceira temática, sobre os dados da COVID-19, os processos
trataram da necessidade de manter o controle e a publicização dos dados sobre a pandemia,
considerando que o Ministério da Saúde parou de disponibilizá-los durante a crise. Por fim, a
temática sobre as populações indígenas não foi tão frequente quanto às demais, porém sua
importância reside como demonstrativa de que populações vulneráveis foram ainda mais
prejudicadas pela crise da pandemia.

Aprendizados e Análise Crítica


A atuação ou omissão do Governo Federal durante a crise da COVID-19 gerou muitos
conflitos e movimentou a arena política, que recorreu frequentemente ao judiciário. Essa foi a
temática que mais atravessou as principais ações sobre a COVID-19 no STF. Também, os
conflitos federativos foram uma questão bastante recorrente. O federalismo brasileiro apresenta
um debate bastante relevante para o campo da saúde coletiva e vem sendo tratado como um
dos grandes desafios do SUS desde a sua criação. Em relação aos dados sobre a COVID-19, a
ausência do Ministério da Saúde gerou uma grande necessidade de mobilização de atores para
garantir que as informações essenciais sobre a pandemia continuassem sendo divulgadas. O
STF parece ter participado de forma bastante importante na garantia do direito à saúde durante
a crise sanitária, contudo, ocorreram iniquidades na proteção de populações vulneráveis,
especialmente populações indígenas.

Referências Bibliográficas
CASTRO, M. DE. Política e Economia no Judiciário: As Ações Diretas de
Inconstitucionalidade dos Partidos Políticos. Cadernos de Ciência Política - Depto de C.
Política e Rels. Internacionais - UnB, v. 7, 1 jan. 1993.

FUX, L. Luiz Fux: A lição de Santo Agostinho. Disponível em:


<https://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2020/04/a-licao-de-santo-agostinho.shtml>. Acesso
em: 18 set. 2023.

PORTAL STF. Resumo Covid. Disponível em:


<http://portal.stf.jus.br/textos/verTexto.asp?servico=resumocovid>. Acesso em: 23 out. 2023.
SADEK, M. T. A. Acesso à justiça: um direito e seus obstáculos. 2001.

TEIXEIRA, A. Decisão liminar: a judicialização da política no Brasil. Brasília, DF: Editora


Plano, 2001.

VIANNA, L. W.; BURGOS, M. B.; SALLES, P. M. Dezessete anos de judicialização da


política. Tempo Social, v. 19, p. 39–85, nov. 2007.
Relato de Pesquisa

Transtorno de Oposição Desafiante e Medicalização da Infância: Aspectos


Históricos e Conceituais

Felipe Barbosa da Silva 8

Palavras-chave: Medicalização; infância; Transtorno de Oposição desafiante; psiquiatria


infantil.

Contextualização
O presente trabalho procurou investigar como se deu a formulação do Transtorno de
Oposição Desafiante (TOD), mapeando as bases teóricas e conceituais que permitiram a
formulação do mesmo. Também se discute o processo de medicalização da infância e seus
impactos nos manuais classificatórios. Apontam-se quais foram os caminhos que permitiram
que a infância fosse sendo tomada como um objeto de intervenção da psiquiatria contemporânea
e de que forma essa tomada se deu por meio de uma aliança entre medicina e direito. Por fim,
discutimos como esse processo fez com que fossem criadas categorias diagnósticas que visam
dar conta de comportamentos disruptivos e analisamos o surgimento da categoria de transtorno
de oposição desafiante seus aspectos teóricos e conceituais bem como as controvérsias em torno
dessa categoria.

Objetivos
A pesquisa teve como objetivo geral mapear o processo de medicalização da infância e
como objetivos específicos delimitar como se deu o processo de formulação da categoria
diagnóstica de TOD, seus antecedentes históricos e sua inclusão no Manual Diagnóstico e
Estatístico (DSM).

Metodologia
Dois métodos de pesquisa bibliográfica foram utilizados: o primeiro foi a revisão
narrativa e o segundo a revisão integrativa. Como o tema ainda é pouco estudado, não foi
possível delimitar critérios fechados para a busca de material. Os seguintes critérios foram
utilizados: artigos e capítulos de livros que abordem a constituição do TOD, enquanto categoria
diagnóstica; textos que abordem ferramentas terapêuticas utilizadas no tratamento do TOD;
artigos que examinem as relações do TOD com o Transtorno de Déficit de Atenção e
Hiperatividade (TDAH) e com a categoria de Transtorno de Conduta (TC). Não definimos um
período específico para a seleção do material, dado que a produção sobre o TOD é espaçada ao
longo dos anos. Também Incluímos na busca capítulos de livros que versam sobre
comportamentos disruptivos e que abordam a psiquiatria infantil e a psiquiatria do
desenvolvimento. Os seguintes descritores foram utilizados para nossa busca: Oppostional

8
Doutorando pelo Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva do Instituto de Medicina Social da
Universidade do Estado do Rio de Janeiro; orientador: Rossano Cabral Lima; [email protected]
disorder; Oppositional defiant disorder; ODD, e as combinações: Oppositional disorder and
Attention-Deficit/Hyperactivity Disorder; Oppositional defiant disorder and Attention
Deficit/Hyperactivity Disorder; Oppositional Defiant disorder and conduct disorder.

Resultados e Discussão
Os resultados obtidos foram: o TOD ainda é uma categoria diagnóstica pouco
pesquisada e a produção sobre o tema é feita, em sua maioria, em língua inglesa. Há uma
deficiência de produção nacional sobre o tema. Existe uma dependência teórica do TOD em
relação a outros transtornos como TDAH e o TC; dentre esses destacamos a relação do TOD e
TC com a criminalidade. Por fim, temos o fato de haver duas vertentes principais sobre o estudo
do referido diagnóstico. A primeira é a psiquiatria biológica, que vê a categoria diagnóstica
como válida, e com determinantes biológicos, sociais e individuais. Tais pesquisas pontuam
que há a necessidade de mais estudos sobre os fundamentos biológicos do diagnóstico (QUAY,
1999; RILEY, 2016; REY et al, 2015). No outro polo temos os estudos críticos ao diagnóstico
que argumentam contra a psiquiatria biológica (Albuquerque, 2013; Caponi, 2018; Lucero et
al, 2021). Tais estudos enfocam que o TOD é uma categoria moral que medicaliza a infância.
Ressaltam que há uma forte correlação entre o diagnóstico e criminalidade futura, apontando
para a aliança entre dispositivos de segurança e de saúde mental.

Aprendizados e Análise Crítica


O tema da delinquência é um dos mais presentes nos debates e pode ser visto como o
vetor pelo qual a psiquiatria norte-americana passou a olhar para a infância, tendo como
objetivo evitar os comportamentos delinquentes que podem surgir nesse público. Esta vertente
parece ter ressonâncias na seção destinada aos comportamentos disruptivos presentes no DSM.
O TOD é visto como uma categoria que facilita a medicalização da infância, devido ao fato de
os sintomas listados nesse diagnóstico serem encontrados em grande parte das crianças. Apesar
disso, os autores da psiquiatria biológica consideram que o TOD possui fundamentos e será
legitimado pelos estudos subsequentes (QUAY, 1999; CAPONI, 2018).
Tal movimento abre o espaço para a medicalização da infância, tendo em vista que os
desvios passam a ser encarados como sinais de um transtorno que poderá trazer prejuízos sociais
e individuais futuros. Intervenções precoces com objetivo de ajuste social passam a ser comuns.
Assim a maioria dos autores que se interessam no TOD, o fazem a partir de uma vertente
medicalizada, ou seja, não questionando seu impacto na prática clínica. Isso se dá inclusive
entre autores do campo da psicologia que visam produzir ferramentas de intervenção voltadas
ao treinamento comportamental das crianças com TOD sem, contudo, questionar a relevância
deste diagnóstico. Junto a isso, a literatura acadêmica brasileira pouco produziu sobre este
transtorno (Serra Pinheiro et al, 2004; Lucero et al, 2021; Caponi, 2016; Albuquerque, 2013),
sendo a maior parte do material disponível advindo dos Estados Unidos, local onde o TOD é
amplamente aceito. Assim, em nossa busca, tivemos dificuldades de encontrar textos que
apresentassem uma análise crítica sobre o referido transtorno, e grande parte do material
encontravam-se alinhado ao DSM, o que demonstra que a proposta da psiquiatria norte-
americana de homogeneizar as classificações por meio de uma lista de sintomas tem alcançado
sucesso, ao menos no que tange o diagnóstico de TOD.
Referências Bibliográficas
ALBUQUERQUE, R.N. Transtorno de Conduta: um olhar na perspectiva psicanalítica.
Sindromes, vol 3 n1. p, 11-19. 2013.

CAPONI, S. N. Dispositivos de segurança, psiquiatria e prevenção da criminalidade: o TOD e


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LUCERO, A. SOUZA, I.M.C; CITTADINO, N.S. A criança agressiva para além do Transtorno
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RILEY, M. AHMED, S. LOCKE, A. Common Questions About Oppositional Defiant Disorder


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SERRA-PINHEIRO, M. A., SCHMITZ, M., MATTOS, P., & SOUZA, I. Transtorno


desafiador de oposição: uma revisão de correlatos neurobiológicos e ambientais, comorbidades,
tratamento e prognóstico. Brazilian Journal of Psychiatry, 26(4), 273–276. 2004
COLETIVO TEMÁTICO:
Agravos de Saúde Transmissíveis e Não Transmissíveis

Dedicamos este CT (Coletivo Temático) a divulgar pesquisas e experiências


relacionadas a agravos de saúde comunicáveis (como HIV, tuberculose, infecções entéricas,
doenças tropicais negligenciadas etc.) e não comunicáveis (como doenças cardiovasculares,
neoplasias, doenças respiratórias, transtornos neurológicos, diabetes, doenças ginecológicas
etc.). Foram bem-vindos trabalhos relativos ao rastreio, tratamento, inovações e técnicas
diagnósticas; produção de tecnologias; produção de insumos farmacêuticos; padrões de
disseminação e incidência; georreferenciamento; tendências de morbimortalidade; e relatos de
casos. Também aceitamos discussões sobre iniquidades sócio-históricas na disseminação,
identificação e tratamento de doenças; doenças transmissíveis e não transmissíveis e sua relação
com o mundo do trabalho e com o ato de cuidar. Nos interessamos também por relatos que
abordam a influência do estilo de vida na incidência de doenças, como hábitos alimentares,
atividade física e tabagismo. Valorizamos trabalhos que demonstrem a efetividade de
programas de prevenção e controle de doenças, além de pesquisas que avaliem os impactos
socioeconômicos dessas enfermidades. Além disso, incentivamos relatos de pesquisa e
experiência sobre a relação entre as doenças transmissíveis e não transmissíveis com a saúde
mental e o bem-estar emocional. Por fim, investigações sobre as estratégias de enfrentamento
adotadas por diferentes comunidades e populações vulneráveis frente às doenças foram bem
recebidas.
Relato de Pesquisa

Adesão à alimentação escolar e consumo alimentar segundo o grau de


processamento, em Sumidouro - RJ

Danielle Pereira Paulo 9

Palavras-chave: Seminário; Pesquisa; Pós-Graduação; Saúde Coletiva; Formação; Estudantes;


Coletivo; Intercâmbio.

Contextualização
A Política Nacional de Alimentação e Nutrição (PNAN) busca promover o Direito
Humano à Alimentação Adequada (DHAA) por meio da promoção de práticas alimentares
saudáveis, vigilância nutricional e prevenção de problemas relacionados à alimentação,
garantindo o acesso regular a alimentos de qualidade, atendendo às necessidades nutricionais e
culturais, de forma sustentável e respeitando os direitos humanos. Para alcançar o DHAA, A
PNAN promove a Educação Alimentar e Nutricional, em conformidade com o Guia Alimentar
para a População Brasileira, que adota a Classificação NOVA de alimentos (BRASIL, 2011).
O Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) garante acesso à alimentação
adequada nas escolas, promovendo hábitos saudáveis. Em consonância com a Classificação
NOVA dos Alimentos, o PNAE determina que os cardápios sejam majoritariamente compostos
por alimentos in natura e/ou minimamente processados (AMP) e restringe a oferta de alimentos
processados (AP) e ultraprocessados (AUP). Contudo, a nível nacional, a adesão dos alunos à
alimentação escolar (AE) é baixa, aproximadamente 40%. No município de Sumidouro, 66,6%
dos estudantes consumem a AE três vezes ou mais por semana. Vários fatores afetam essa
adesão, incluindo a presença de cantinas nas escolas, que favorece o consumo de alimentos
ultraprocessados. Estudos indicam que estudantes de escolas que possuem cantina têm maior
consumo de AUP. Apesar da importância do PNAE no Brasil, estudos que examinam os efeitos
da AE sobre o consumo de AUP são escassos (BRASIL, 2009; FACCHINI; CAMPAGNOLO,
2020, 2020; HORTA et al., 2019; LOCATELLI; CANELLA; BANDONI, 2017, 2018;
MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2014; VALE et al., 2021; VALENTIM et al., 2017).

Objetivos
Verificar a associação entre a adesão à alimentação escolar e consumo alimentar,
segundo o grau de processamento em Sumidouro, Rio de Janeiro.

Metodologia
Análise transversal, com base nos dados da linha de base de um estudo quase-
experimental de base escolar realizado em três escolas públicas do município de Sumidouro -
RJ, que oferecem alimentação escolar com base no PNAE e não possuem cantina. Os dados de

9
Mestranda pelo Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva do Instituto de Medicina Social da Universidade
do Estado do Rio de Janeiro; orientadora: Diana Cunha Barbosa; [email protected]
consumo alimentar foram coletados por meio de um Questionário de Frequência Alimentar
(QFA) semiquantitativo. A adesão à alimentação escolar foi avaliada pela pergunta sobre a
frequência de consumo da merenda oferecida na escola, com 6 opções de resposta. Para fins de
análise, as respostas foram reorganizadas em três categorias (“Não Adesão”; “Adesão” e
“Adesão Efetiva”).
Para analisar o consumo de alimentos de acordo com o grau de processamento, os dados
foram transformados em frequência diária de consumo e posteriormente em gramas/mililitros
por dia. Os alimentos foram classificados em três grupos com base na Classificação NOVA:
AMP, AP e AUP. A comparação das médias de consumo entre os grupos de alimentos e as
categorias da variável de adesão foram realizadas por meio da Análise de Variância (ANOVA).

Resultados e Discussão
O estudo envolveu 518 participantes, com 52,3% de meninas e idade média de 12,3
anos. A maioria (66,6%) dos estudantes relatou consumir a AE 3 ou mais vezes por semana e
38,4% mostraram adesão efetiva, consumindo-a diariamente. O grupo de AUP foi o mais
consumido, com uma média diária de 528,4g.
Observou-se um gradiente de aumento no consumo de AMP entre aqueles que não
aderem à AE (432g/dia), aqueles que aderem à AE (459g/dia) e aqueles que aderem
efetivamente (488g/dia) (p valor=0,02). Por outro lado, o consumo de AUP foi maior entre
aqueles que não aderem à alimentação escolar (580g/dia), 506g entre aqueles que aderem à AE
e 499g entre aqueles que aderem diariamente à AE (p-valor=0,02).

Aprendizados e Análise Crítica


O estudo ainda está em andamento, mas aponta para a influência da adesão à
alimentação escolar no consumo de AMP e AUP.

Referências Bibliográficas
ATENÇÃO BÁSICA. Guia alimentar para população brasileira. 2. ed. Brasília: Ms, 2014.

BRASIL, P. DA R. C. C. S. PARA A. J. Lei no 11.947, de 16 de junho de 2009. Programa


Nacional de Alimentação Escolar. 2009.

FACCHINI, A.; CAMPAGNOLO, P. D. B. Consumo da alimentação escolar e qualidade da


dieta de escolares. Revista da Associação Brasileira de Nutrição - RASBRAN, v. 11, n. 1, p.
115–127, 22 jul. 2020.

LOCATELLI, N. T.; CANELLA, D. S.; BANDONI, D. H. Fatores associados ao consumo da


alimentação escolar por adolescentes no Brasil: resultados da PeNSE 2012. Cadernos de
Saúde Pública, v. 33, p. e00183615, 18 maio 2017.

VALE, D. et al. Adesão à alimentação escolar por adolescentes brasileiros: determinantes


individuais e do contexto escolar. Ciência & Saúde Coletiva, v. 26, p. 637–650, 12 fev. 2021.

VALENTIM, E. DE A. et al. Factors associated with adherence to school meals by adolescents


in State public schools in Colombo, Paraná State, Brazil. Cadernos De Saúde Pública, v. 33,
n. 10, p. e00061016, 26 out. 2017.
Relato de Pesquisa

Alteração na glicose, insulina e lipídios séricos devido ao consumo de alimentos


ultraprocessados em crianças com obesidade

Caroline Cortes Moreira 10


Joana Maia Brandão 11
Diana Barbosa Cunha 12
Vitor Barreto Paravidino 13
e Rosely Sichieri 14

Palavras-chave: Alimentos ultraprocessados; Marcadores sanguíneos; Crianças; Obesidade.

Contextualização
Um estilo de vida inadequado, incluindo a alimentação não saudável e o crescente
consumo de alimentos ultraprocessados (AUP), está relacionado à obesidade e distúrbios
metabólicos1-4. Esses são problemas mundiais de saúde pública com prevalência crescente em
crianças e adolescentes5,6. Os AUP são produtos derivados de formulações industriais contendo
ingredientes como açúcares, óleos, gorduras, proteínas e amidos. Frequentemente carecem de
componentes integrais e geralmente contêm diversos aditivos cosméticos para torná-los mais
palatáveis7. Embora exista uma associação consistente entre o consumo de AUP e doenças
crônicas não transmissíveis entre adultos, as evidências específicas dos efeitos do seu consumo
em crianças, especialmente aquelas com obesidade, ainda são limitadas, mas de extrema
importância para compreender e mitigar os riscos à saúde dessa população.

Objetivos
Investigar a influência do consumo de AUP na glicose, insulina e lipídios séricos em
crianças com obesidade.

Metodologia
Trata-se de um estudo de coorte prospectivo realizado entre agosto de 2018 e fevereiro
de 2020, com crianças de 7 a 12 anos com obesidade. Ao longo de seis meses, as crianças e
seus responsáveis participaram mensalmente de consultas individuais e atividades educativas,

10
Doutoranda pelo Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva do Instituto de Medicina Social da
Universidade do Estado do Rio de Janeiro; Orientadora: Rosely Sichieri; [email protected]
11
Doutora pelo Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva do Instituto de Medicina Social da Universidade
do Estado do Rio de Janeiro; [email protected]
12
Professora adjunta do Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva do Instituto de Medicina Social da
Universidade do Estado do Rio de Janeiro; [email protected]
13
Professor colaborador do Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva do Instituto de Medicina Social da
Universidade do Estado do Rio de Janeiro; [email protected]
14 5
Professora titular do Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva do Instituto de Medicina Social da
Universidade do Estado do Rio de Janeiro; [email protected]
com o objetivo de incentivar a redução do consumo de AUP. Peso corporal, altura e recordatório
alimentar de 24 horas foram medidos em todas as visitas. Os marcadores séricos foram
coletados no início do estudo, no segundo e quinto mês de acompanhamento. Foram utilizados
modelos lineares de efeito misto para avaliar se as variáveis de interesse apresentaram
alterações significativas ao longo do período de acompanhamento do estudo e a influência da
mudança no consumo de AUP nos marcadores séricos utilizando uma matriz de covariância
não estruturada. Todas as análises foram conduzidas utilizando o SAS OnDemand for
Academics.

Resultados e Discussão
O estudo incluiu 95 crianças submetidas a análises sanguíneas ao longo do
acompanhamento, com uma média de idade de 9,2 anos, sendo 55 do sexo feminino. Dentre
elas, 44 foram identificadas como gravemente obesas, e 42 como fisicamente ativas. Durante o
período de acompanhamento, houve um aumento no colesterol total e LDL colesterol, ao passo
que os níveis de glicose diminuíram. O HDL colesterol e triglicerídeos, inicialmente,
aumentaram, mas depois diminuíram em relação aos níveis iniciais. As medidas de insulina e
HOMA-IR indicaram uma diminuição inicial seguida de um aumento subsequente. Na linha de
base, o consumo médio de AUP foi de 658 kcal, representando 38% da ingestão energética
total. Ao final do estudo, observou-se uma redução no consumo de AUP, representando 33%
da ingestão total de energia. Houve alteração quadrática no IMC, no consumo de AUP em
gramas e energia e no percentual de AUP em gramas, com redução nos dois primeiros meses e
posterior aumento. Durante o período de acompanhamento, a glicemia apresentou redução
linear, com alteração média de -2,25 mg/dL desde o início até o final do acompanhamento, após
ajuste pelo IMC. Além disso, ocorreu diminuição da insulina durante o seguimento, mas essa
associação deixou de ser significativa após ajuste pelo IMC. Não houve associação entre
consumo de AUP e marcadores bioquímicos.
Estes números refletem o aumento da disponibilidade de AUP em todo o mundo, o que
é consequência de transformações significativas no sistema alimentar global, particularmente
em termos de avanços tecnológicos e processamento de alimentos8,9. Além disso, a indústria
alimentar comercializa agressivamente estes produtos, visando especialmente a população mais
jovem10. No entanto, é importante notar que estes alimentos muitas vezes levam a respostas
glicêmicas elevadas e têm baixo potencial de saciedade2.

Aprendizados e Análise Crítica


Nossos achados sugerem que uma diminuição no consumo de AUP pode influenciar
positivamente nos níveis de glicose sérica em crianças com obesidade independentemente das
flutuações de peso.

Referências Bibliográficas
[1] INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. Pesquisa de
orçamentos familiares 2017-2018: avaliação nutricional da disponibilidade domiciliar de
alimentos no Brasil. [S. l.]: IBGE, 2020b. Disponível em:
https://biblioteca.ibge.gov.br/visualizacao/livros/liv101704.pdf. Acesso em: 26 out. 2021.
[2] FARDET, A. Minimally processed foods are more satiating and less hyperglycemic than
ultra-processed foods: a preliminary study with 98 ready-to-eat foods. Food & Function, [S.
l.], v. 7, n. 5, p. 2338–2346, 18 maio 2016.

[3] CEDIEL, G. et al. Ultra-processed foods and added sugars in the Chilean diet (2010). Public
Health Nutrition, [S. l.], v. 21, n. 1, p. 125–133, jan. 2018.

[4] LEFFA, P. S. et al. Longitudinal associations between ultra-processed foods and blood
lipids in childhood. British Journal of Nutrition, [S. l.], v. 124, n. 3, p. 341–348, ago. 2020.

[5] ABARCA-GÓMEZ, L. et al. Worldwide trends in body-mass index, underweight,


overweight, and obesity from 1975 to 2016: a pooled analysis of 2416 population-based
measurement studies in 128·9 million children, adolescents, and adults. The Lancet, [S. l.], v.
390, n. 10113, p. 2627–2642, 16 dez. 2017.

[6] HAN, C. et al. Global prevalence of prediabetes in children and adolescents: A systematic
review and meta‐analysis. Journal of Diabetes, [S. l.], v. 14, n. 7, p. 434– 441, 5 jul. 2022.

[7] MONTEIRO, C. A. et al. Ultra-processed foods: what they are and how to identify them.
Public Health Nutrition, [S. l.], v. 22, n. 5, p. 936–941, abr. 2019.

[8] MONTEIRO, C. A. et al. Ultra-processed foods: what they are and how to identify them.
Public Health Nutrition, [S. l.], v. 22, n. 5, p. 936–941, abr. 2019. 8. MONTEIRO, C. A. et al.
Ultra-processed products are becoming dominant in the global food system. Obesity
Reviews,14(S2):21–8, 2013.

[9] MOODIE, R. et al. Profits and pandemics: prevention of harmful effects of tobacco, alcohol,
and ultra-processed food and drink industries. The Lancet, 381(9867):670–9, fev. 2013.

[10] ONITA, B. M. et al. Eating context and its association with ultra-processed food
consumption by British children. Appetite,157:105007, fev. 2021.
Relato de Pesquisa

A presença de crianças no domicílio influência na escolha dos alimentos


adquiridos pelos pais: análise dos anos 2009 e 2018 no brasil

Isabela de Albuquerque Ribeiro 15


Eliseu Verly Junior 16

Palavras-chave: Alimentação infantil; Pesquisa de Orçamentos Familiares; Aquisição de


alimentos.

Contextualização
A construção dos hábitos alimentares saudáveis em crianças pode ser influenciada pela
disponibilidade dos alimentos nos domicílios. Alimentos com alto teor de açúcar livre e
gorduras e baixo teor de fibra, como biscoitos e refrigerantes, comprometem a regulação do
balanço energético, aumentando o risco de desenvolvimento da obesidade infantil e outras
doenças crônicas não transmissíveis na idade adulta. Em contrapartida, o consumo de frutas e
vegetais pode contribuir para sua prevenção. O exemplo parental e a disponibilidade de
alimentos no domicílio parecem exercer uma influência na formação dos hábitos alimentares
das crianças. Não se sabe o quanto os pais estão engajados/dispostos a modificarem seus
hábitos a fim de tornar seus filhos mais propensos ao consumo de alimentos saudáveis, evitando
alimentos não saudáveis. Dados nacionais de orçamentos domiciliares podem fornecer
evidências robustas sobre diferenças nos padrões de compra em domicílios com e sem criança.

Objetivos
Comparar a média de aquisição per capita de frutas, vegetais, refrigerantes e biscoitos
entre os domicílios brasileiros com e sem crianças, segundo quartos de renda per capita, em
2008-2009 e 2017-2018.

Metodologia
Este estudo utilizou os dados da Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF) conduzidos
pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) no Brasil, nos inquéritos de 2008-
2009 e 2017-2018. Foram consideradas as amostras de 55.970 e 69.660 domicílios,
respectivamente. Os domicílios foram classificados em: i) presença ou não de crianças de um a
cinco anos de idade e ii) maiores de cinco anos até dez anos de idade. Foram estimadas as
médias per capita em quilogramas (Kg) da aquisição de frutas, vegetais, refrigerantes e biscoitos
num período de uma semana. As diferenças das médias per capita da aquisição dos alimentos
entre domicílios com e sem criança foram estimadas por modelos de regressão de duas partes,

15
Doutoranda pelo Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva do Instituto de Medicina Social da
Universidade do Estado do Rio de Janeiro; orientador Eliseu Verly Junior; [email protected]
16
Prof. Dr. Eliseu Verly Jr, Departamento de Epidemiologia, Instituto de Medicina Social da Universidade do
Estado do Rio de Janeiro; [email protected]
combinando um modelo de regressão logística e um modelo linear generalizado de distribuição
gama para valores positivos de aquisição, em função da distribuição assimétrica e inflada de
zeros para compra de alguns itens alimentares na semana. As análises foram estratificadas por
quartos de renda domiciliar per capita, com ajustes pelo sexo e idade do morador de referência
do domicílio, número de bebês, adolescentes, adultos e idosos vivendo no domicílio, e gasto
mensal com alimentação. A comparação entre as médias de aquisição de alimentos entre os
domicílios com e sem crianças foi dada pela intersecção dos intervalos de confiança de 95% e
levou-se em consideração o peso amostral e o desenho complexo das
amostras.

Resultados e Discussão
Foram observadas maiores médias per capita da aquisição de frutas nos domicílios dos
quartos de renda mais baixos. Este resultado pode ser fruto da implementação bem-sucedida de
programas de transferência de renda no país, ao acesso de alimentos por famílias de baixa renda
e da percepção dos pais sobre a importância de comprar mais frutas para o domicílio, diante da
chegada da criança. No entanto, o mesmo comportamento dos pais não é observado para a
compra de vegetais, considerando que: i) não houve diferença de compra entre os domicílios
analisados, ou ii) houve uma redução da compra de vegetais em domicílios com crianças em
diferentes classes de renda e idades nos dois períodos analisados. Sabe-se que o consumo
adequado de frutas e hortaliças acarreta o aumento no custo da alimentação para parte da
população brasileira, o que poderia explicar as menores quantidade de compra de vegetais pelos
domicílios com crianças de famílias de baixo poder aquisitivo.
Em geral, a média per capita da compra de refrigerantes nos domicílios com crianças
foi maior do que os domicílios sem crianças, sobretudo nos domicílios mais ricos. Os domicílios
com crianças compraram maiores quantidades médias per capita de biscoitos nos dois períodos.
Os pais e/ou cuidadores podem não reconhecer que o consumo de alimentos não saudáveis seja
prejudicial à saúde de seus filhos, e por isso não reduzam a disponibilidade destes alimentos
em casa, ou reconhecem, mas não reduzam a quantidade comprada.

Aprendizados e Análise Crítica


Ter uma criança na família não parece ser um fator decisivo para que os pais diminuam
a compra de alimentos não saudáveis para o domicílio. Por outro lado, a compra de frutas, no
geral, foi maior nos domicílios com crianças nos períodos estudados.

Referências Bibliográficas
DE OLIVEIRA, M. C.; SICHIERI, R.; VENTURIM MOZZER, R. A low-energy-dense diet
adding fruit reduces weight and energy intake in women. Appetite, v. 51, n. 2, p. 291–295,
2008.

INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA (IBGE). Pesquisa de


orçamentos familiares 2017-2018: primeiros resultados. Coordenação de Trabalho e
Rendimento. - Rio de Janeiro: IBGE, 2019

INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA (IBGE). Pesquisa de


orçamentos familiares 2008-2009: análise da disponibilidade domiciliar de alimentos e do
estado nutricional no Brasil. Rio de Janeiro: IBGE; 2010.
MAUBACH, N.; HOEK, J.; MCCREANOR, T. An exploration of parents’ food purchasing
behavior’s. Appetite, v. 53, n. 3, p. 297–302, 2009.

SGAMBATO, M.R., LIGNANI, J de B; PIRES, CA, RIBEIRO, EC de S.A, DOMINGOS,


T.B; FERREIRA, AA. Inequalities in food acquisition according to the social profiles of the
head of households in Brazil. Ciência Saúde Coletiva, 2022.

VERLY JUNIOR, E.; OLIVEIRA, D. C. R. S. DE.; SICHIERI, R.. Cost of healthy and
culturally acceptable diets in Brazil in 2009 and 2018. Revista de Saúde Pública, v. 55, n.
Rev. Saúde Pública, 2021 55 suppl 1, 2021.

WANG, Y.; GE, K.; POPKIN, B. M. Why do some overweight children remain overweight,
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WORLD HEALTH ORGANIZATION. Population-based approaches to childhood obesity


prevention. World Health Organization. 2012. Disponível em:
https://apps.who.int/iris/handle/10665/80149
Relato de Pesquisa

Bioacúmulo de poluente orgânico persistente: correlação entre DDE


(diclorodifenildicloroetileno) e percentual de gordura corporal em adultos

Anna Beatriz Torres 17


Eliseu Verly Junior 18
e Diana Barbosa Cunha 19

Palavras-chave: Agrotóxicos; Bioacumulação; composição corporal; DDE; meio ambiente.

Contextualização
O Brasil, há mais de 10 anos, lidera o ranking dos países que mais utilizam agrotóxicos
na sua produção agrícola. Segundo dados da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária
(EMBRAPA), anualmente são usados, no mundo, cerca de 2,5 milhões de toneladas de
agrotóxicos, destes, o consumo anual de agrotóxicos no Brasil tem sido superior a 300 mil
toneladas (BRASIL, 2018).
O DDT, um inseticida organoclorado, foi amplamente utilizado na agricultura, mas foi
banido em vários países devido à persistência ambiental e biomagnificação na cadeia alimentar
(ARAUJO, 2021). Como parte da lista de poluentes orgânicos persistentes da Convenção de
Estocolmo, o Brasil, signatário do tratado, aboliu completamente o uso do DDT em 2002,
embora a exposição da população ainda seja possível devido ao histórico uso extenso
(CETESB, 2020). A principal via de exposição é por ingestão de alimentos contaminados,
particularmente alimentos gordurosos de origem animal e leite materno.
A literatura tem apontado que diversos poluentes ambientais podem interferir no
processo de adipogênese, porém os mecanismos de ação ainda precisam ser melhor elucidados.
Os organoclorados são altamente lipossolúveis, atravessando as barreiras biológicas (pele,
mucosas, pulmões e trato digestivo), o que facilita sua absorção por todas as vias de exposição
(ARAUJO, R. A. L., 2021). Assim, podem interferir na homeostase energética, metabolismo
lipídico, saciedade e sensibilidade à insulina levando a desregulação metabólica ou aumento
57 de gordura corporal (HEINDEL et al. 2017, 2015). Além disso, podem ligar-se diretamente
a receptores hormonais que irão agir na regulação da diferenciação e proliferação de adipócitos,
ou ainda impactar o metabolismo e transporte de hormônios endógenos.

Objetivos
Analisar a correlação entre níveis séricos de DDE e percentual de gordura corporal em
adultos

17
Doutoranda em Epidemiologia pelo IMS/UERJ; [email protected]
18
Professor Associado de Epidemiologia pelo IMS/UERJ; [email protected]
19
Professora Associada de Epidemiologia pelo IMS/UERJ; [email protected]
Metodologia
Foram utilizados dados do Estudo Pró-Saúde, uma coorte prospectiva iniciada em
funcionários de uma universidade pública. A análise foi baseada em dados coletados de 3.339
indivíduos residentes no município do Rio de Janeiro (80% do total), que participaram de
alguma das quatro ondas de coleta de dados (conduzidas em 1999, 2001, 2007, 2012) e que
possuíam informações de endereço geocodificados e informações para o cálculo do Índice de
Massa Corporal. Serão medidos níveis séricos de pesticidas organoclorados em amostra
aleatória de 520 participantes. Na análise estatística, utilizaram-se os testes de correlação de
Spearman, com nível de significância de 5%. A análise dos dados foi realizada utilizando o
programa Statistical Analysis System, versão 9.3 (SAS, Institute Inc, Cary, NC).

Resultados e Discussão
Foi observada uma correlação positiva significativa entre o p,p'-DDE e a Massa Total
(r = 0,13, p-valor = 0,005), indicando que quanto maior a exposição a esse composto, maior a
Massa Total das pessoas avaliadas. Além disso, tanto a Massa do Braço (r = 0,16, p-valor =
0,0005) quanto a Massa da Perna (r = 0,18, p-valor < 0,0001) e a Massa Ginoide (r = 0,16, p-
valor = 0,0005) mostraram associações positivas significantes com o p,p'-DDE.
Não foram encontradas correlações significativas entre o p,p'-DDE e a Massa do
Tronco (r = 0,08, p-valor = 0,08) e a Massa Androide (r = 0,07, p-valor = 0,12).
Esses resultados indicam que o DDE está associado positivamente com a massa total,
massa do braço, massa da perna e massa ginóide, que se concentra na região inferior do corpo,
ao redor dos quadris e coxas em adultos no Brasil.
A exposição a poluentes orgânicos persistentes (POPs) se mostrou relacionada à
distribuição de gordura corporal, sendo vista uma associação positiva entre a exposição a p,p′-
DDE (ou outros POPs) e a “massa androide” (VAT – gordura visceral) no contexto da
distribuição da gordura corporal em população adulta americana, sugerindo que a exposição a
essas substâncias pode estar relacionada a um aumento na gordura visceral (Zong et al., 2015).
A combinação de resultados de estudos em diferentes populações pode contribuir para uma
compreensão mais abrangente dessa relação. Isso pode ser relevante para o desenvolvimento
de estratégias de saúde pública e políticas ambientais.

Aprendizados e Análise Crítica


A exposição ao p,p'-DDE correlaciona-se com maior Massa Total, Massa do Braço e
Massa da Perna e Massa Ginoide, mas não demonstra uma relação significativa com a Massa
do Tronco e Massa Androide. Essas descobertas podem ter implicações importantes para a
compreensão dos efeitos da exposição a pesticidas na saúde e composição corporal das pessoas,
uma vez a população geral ainda pode estar exposta ao DDT e seus produtos de
biotransformação por causa do amplo uso no passado e da persistência ambiental e biológica e
pode ser relevante para o desenvolvimento de estratégias de saúde pública e políticas
ambientais.

Referências Bibliográficas
ARAUJO, R. A. L, Associação entre exposição a agrotóxicos e excesso de peso em
agricultores da serra Gaúcha. Dissertação mestrado Faculdade de Medicina, Programa de
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Relato de Pesquisa

Caracterização do consumo alimentar de brasileiros em uso de dietas para


diabetes e hipertensão: II Inquérito Nacional de Alimentação 2017-2018

Beatriz Salari Bortolot 20


Eliseu Verly Junior 21
e Marina Campos Araujo 22

Palavras-chave: Inquérito Nacional de Alimentação; Dieta; Consumo alimentar;


Diabetes; Hipertensão arterial.

Contextualização
As DCNT são um problema de saúde pública global, com elevada morbimortalidade
por estas doenças no Brasil e no mundo1. Segundo a PNS, de 2019, 23,9% e 7,7% dos adultos
com 18 anos ou mais relataram ter hipertensão e diabetes, respectivamente2. A adesão a um
tratamento dietético específico, em conjunto com mudanças nos hábitos de vida, pode ser
importante para alcançar o controle das DCNT3. A nível nacional, não se conhece se as pessoas
que referem fazer dieta estão efetivamente implementando modificações no consumo alimentar.
Conhecer o impacto da realização de dietas para diabetes e hipertensão no consumo dietético
pode ser útil para o monitoramento do cuidado e enfrentamento das DCNT no Brasil.

Objetivos
• Objetivo geral: Avaliar o impacto do uso de dietas para diabetes e hipertensão na
ingestão de alimentos e nutrientes na população brasileira em 2017-2018.
• Objetivo específico: Comparar as médias de consumo de alimentos entre os indivíduos
que seguem e não seguem dietas para diabetes ou hipertensão.

Metodologia
Trata-se de um estudo transversal utilizando dados do segundo Inquérito Nacional de
Alimentação 2017/2018 (n=46.164 indivíduos com pelo menos 10 anos de idade). Foi
questionado o uso de dietas para diabetes e hipertensão, sendo classificado em quatro
categorias: “não realiza dieta”; “somente para diabetes/hipertensão”; “diabetes/hipertensão
mais qualquer outro tipo” e “qualquer outro tipo”. Foi estimada a média de consumo de
alimentos entre os indivíduos que seguem e não seguem dietas para diabetes ou hipertensão,

20
Doutoranda pelo Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva do Instituto de Medicina Social da
Universidade do Estado do Rio de Janeiro; Orientador: Eliseu Verly Juior; [email protected]
21
Professor Associado do Departamento de Epidemiologia do Instituto de Medicina Social da Universidade do
Estado do Rio de Janeiro; [email protected]
22
Pesquisadora em Saúde Pública da Escola Nacional de Saúde Pública (ENSP) da Fundação Oswaldo Cruz
(Fiocruz); [email protected]
por meio de regressão logística de duas partes, considerando o efeito do uso da dieta
independentemente das covariáveis (sexo, idade, renda domiciliar per capita, escolaridade e
raça/cor). Todas as análises foram realizadas no SAS® OnDemand, considerando o desenho
amostral, para cada grupo de alimento, além de considerar os fatores de expansão da amostra.

Resultados e Discussão
Pessoas em dieta para diabetes e outras dietas consumiram mais frutas (172,4g) do que
aquelas que não faziam dieta (95,4g). Aqueles em dieta exclusiva para diabetes consumiram
mais hortaliças (40,6g), porém menos raízes e tubérculos (39,5g) em comparação com os que
não realizavam dietas (28,3g e 57,8g, respectivamente). Consumo de refrigerantes foi menor
entre os que seguiam dieta apenas para diabetes (38,0g), enquanto os não adeptos consumiam
mais (107,2g). Para doces, quem fazia dieta para diabetes somado a outras dietas consumia
menos (52,4g) do que aqueles que não faziam dieta (86,1g). Em relação à pressão alta, pessoas
que faziam outras dietas consumiram mais frutas (160,7g) e hortaliças (40,5g) do que os que
não realizavam dietas (95,4g e 28,3g, respectivamente). O consumo de refrigerantes foi menor
(56,7g) entre aqueles em dieta para pressão alta e outras dietas em comparação com os que não
realizavam (107,2g), enquanto o consumo de carne vermelha foi menor entre os que seguiam
dieta para pressão alta e outras dietas (91,4g) e maior entre os que não seguiam dietas (107,1g).
Ainda não há estudos a nível nacional que avaliassem o consumo alimentar de pessoas que
referiram realizar dietas e que comparassem os indivíduos com e sem dieta. O consumo médio
de frutas, vegetais, doces e refrigerantes diferiu entre os que relataram fazer dieta para diabetes
e outros tipos de dieta dos que relataram não realizar dietas. A qualidade do carboidrato é muito
importante no papel da diabetes, o que configura como fator positivo o resultado encontrado:
maior consumo de frutas e hortaliças e menor consumo de raízes e tubérculos, doces e
refrigerantes entre os que faziam dietas. Em dieta para pressão alta e somada a outros tipos de
dietas também se observou resultados positivos: maior consumo de frutas e hortaliças e menor
consumo de carnes vermelhas e refrigerantes.

Aprendizados e Análise Crítica


Os resultados deste estudo, ainda que de forma inicial, indicam diferenças no consumo
alimentar entre indivíduos com e sem dieta. A princípio, os resultados parciais aqui
demonstrados sugerem que os que referem fazer dieta estão implementando modificações no
consumo alimentar, o que pode ser um fator positivo para o controle da diabetes e da
hipertensão, dentre outras DCNT. Importante mencionar que os dados do presente estudo não
permitem avaliar a qualidade das dietas individuais e a indicação necessária ou diagnóstico
prévio que justifique a finalidade da dieta adotada. Importante mencionar também que este
estudo está em andamento e constituirá parte de uma tese de doutorado. Por fim, espera-se, com
este estudo, melhorar a compreensão em auxiliar o enfrentamento às doenças crônicas no país,
mais especificamente, à hipertensão e diabetes.

Referências Bibliográficas
[1] BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde. Departamento de Análise
de Situação de Saúde. Plano de ações estratégicas para o enfrentamento das doenças
crônicas não transmissíveis (DCNT) no Brasil2011-2022 / Ministério da Saúde. Secretaria
de Vigilância em Saúde. Departamento de Análise de Situação de Saúde. – Brasília: Ministério
da Saúde, 2011. 160 p.: il. – (Série B. Textos Básicos de Saúde).
[2] IBGE - Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Pesquisa Nacional de Saúde 2019.
[Internet]. Rio de Janeiro: IBGE, 2020. Disponível em:
https://www.ibge.gov.br/estatisticas/sociais/saude/9160-pesquisa-nacional
desaude.html?=&t=resultados. Acesso em: 11 out. 2023

[3] ZANETTI, M. L. et al. Adesão às recomendações nutricionais e variáveis


sociodemográficas em pacientes com diabetes mellitus. Rev. esc. enferm. USP [online]. 2015,
v.49, n.4, pp.0619- 0625.
Relato de Pesquisa

Consumo de café e a ingestão de açúcar de adição e adoçantes

Marijoe Braga Alves Simões 23


Anna Beatriz Antunes 24
Joana Maia Brandão 25
e Rosely Sichieri 26

Palavras-chave: Consumo de café; Açúcar de adição; Bebidas adoçadas; Adoçantes.

Contextualização
O café está entre as bebidas mais consumidas no mundo (OIC, 2020). Segundo a ABIC
(Associação Brasileira da Indústria de Café), em 2022 o Brasil manteve a posição de segundo
maior consumidor de café do mundo (ABIC, 2022). Uma revisão realizada por Alves et al.
(2009) apontou para um efeito benéfico do café relativamente ao desenvolvimento de
determinadas doenças, entre elas: diabetes tipo 2 e determinados tipos de câncer, Doença de
Parkinson e Alzheimer. Além disso, o consumo moderado de café pode diminuir os índices de
depressão, estimula a memória, atenção e concentração, melhorando a atividade intelectual
normal (ALVES et al., 2009; EMBRAPA, 2011).
Bebidas adoçadas com açúcar são todas aquelas bebidas não alcoólicas, não
fermentadas, adoçadas com diferentes formas de adição de açúcar, de baixo valor nutricional e
prontas para consumo, como os refrigerantes, refrescos e néctares (IMAMURA et al., 2016). O
consumo das bebidas açucaradas é crescente em todo o mundo, contudo, as maiores taxas de
crescimento são observadas nos países em desenvolvimento (Popkin et al., 2016). O consumo
de açúcares livres, adicionados às bebidas, é uma preocupação mundial devido à associação
com potencial desregulação hormonal, resistência à insulina, dislipidemia e obesidade
(COLLINO, 2011). Podem ocasionar o excesso de peso decorrente da baixa saciedade e
compensação incompleta para a quantidade de energia total (IMAMURA et al., 2016).
O presente trabalho justifica-se por contribuir com o entendimento da importância do
consumo de açúcar adicionado ao café, visando possíveis caminhos para a redução da ingestão
do açúcar.

23
Doutoranda pelo Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva do Instituto de Medicina Social da
Universidade do Estado do Rio de Janeiro; orientadora Dra. Rosely Sichieri; [email protected]
24
Doutoranda pelo Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva do Instituto de Medicina Social da
Universidade do Estado do Rio de Janeiro; orientadora Dra. Diana Cunha; [email protected]
25
Pós-Doutoranda pelo Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva do Instituto de Medicina Social da
Universidade do Estado do Rio de Janeiro; orientadora Dra. Rosely Sichieri; [email protected]
26
Professora Doutora do Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva do Instituto de Medicina Social da
Universidade do Estado do Rio de Janeiro; [email protected]
Objetivo
Caracterizar o consumo de café e o uso de adições incluindo açúcar e/ou adoçante na
população adulta brasileira.

Metodologia
Estudo crossover (caso-cruzado) realizado com a população da edição de 2017-
12018 do Inquérito Nacional de Alimentação (INA), módulo da Pesquisa Nacional de
Orçamentos Familiares (POF).
Foram analisados dados de dois dias de consumo alimentar de 23.487 adultos (20–59
anos de idade) entrevistados através de Recordatórios de 24h (R24h). O consumo alimentar foi
avaliado por meio de dois R24h, no domicílio do entrevistado, em dias não consecutivos. Foram
incluídos nas análises apenas os participantes que responderam os dois dias de R24h. Mulheres
gestantes e lactantes no período da coleta foram excluídas
Os itens alimentares foram classificados em três grupos: café (café, café expresso, café
carioca, café descafeinado e café expresso descafeinado), açúcar (açúcar, açúcar demerara e
açúcar mascavo) e adoçantes (adoçante light, adoçante artificial, açúcar light, adoçante em pó
light e adoçante líquido light). A quantidade de açúcar é estimada sendo 10% do alimento
relatado. Foram comparadas as médias de consumo de açúcar e outros itens, para os dias com
e sem consumo para os mesmos indivíduos, e realizadas análises da frequência e média de
consumo para o grupo de café, açúcar e adoçantes.
As frequências foram estimadas segundo sexo e faixa etária. Todas as análises foram
realizadas no pacote estatístico SAS OnDemand for Academics (SAS Institute Inc., Cary, NC,
EUA), considerando a complexidade do desenho amostral.

Resultados e Discussão
Os resultados apontaram que mais da metade da amostra estudada relatou consumir café
(54,7%; 53,7%) e açúcar (67,3%; 66,5%) nos dois dias do R24h. O consumo excessivo de
açúcar está relacionado ao ganho de peso, à obesidade, ao diabetes tipo 2, às doenças
cardiovasculares e à cárie dentária (DALMOLIM et al., 2012). (Tabela 1)
Apesar do açúcar de adição relatado nesta pesquisa estar relacionado a todos os tipos
de preparo culinário, observa-se uma tendência no aumento da média e da frequência de
consumo de açúcar de adição conforme o aumento no consumo diário de café, tanto para o
primeiro dia de R24h quanto para o segundo dia de R24h. O café puro traz benefícios para a
saúde, reduzindo o risco de diversas doenças como a diabetes do tipo 2, doença de Parkinson,
doença de Alzheimer e alguns tipos de câncer, combatendo a depressão e melhorando o humor
(ALVES et al., 2009). (Tabelas 2 e 3)
Aprendizados e Análise Crítica
Entre os adultos brasileiros, destaca-se que a maior frequência de consumo de café
relaciona-se a maior frequência de consumo de açúcar e maior consumo em gramas.

Referências Bibliográficas
ABIC. Associação Brasileira da Indústria de Café. Indicadores da indústria de café 2022. Rio
de Janeiro, 2022. Disponível em: https://estatisticas.abiCcom.br/estatisticas/indicadores-da-
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Popkin, B. M.; Hawkes, C. Sweetening of the global diet, particularly beverages: patterns,
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Relato de Experiência

Grupo de trabalho para enfrentamento da sífilis em Maricá - RJ

Shirley Ribeiro dos Santos Linhares 27


José Mario Faria dos Santos 28
e Maria Magdalena Kelly Pinto 29

Palavras-chave: Garantia da Qualidade dos Cuidados de Saúde; Sífilis; Atenção Primária à


Saúde.

Contextualização
Apesar de ser uma doença de etiologia conhecida, com diagnóstico e tratamento simples, a
sífilis se mantém como um problema de saúde pública. Sua persistência indica problemas na
atenção materno-infantil, em especial ao pré-natal. No Brasil, em 2021, foram notificados
167.523 casos de sífilis adquirida, 74.095 casos de sífilis em gestantes e 27.019 casos de sífilis
congênita. Com relação aos Estados, em 2021, o Rio de Janeiro apresentou a maior taxa de
detecção de sífilis em gestantes, bem como de incidência de sífilis congênita: 62,6 gestantes
por 1.000 nascidos vivos (NV) (12.456 casos) e 26 casos de sífilis congênita por 1.000 NV
(5.186 casos), respectivamente (BRASIL, 2022; RAMOS JR, 2022).
Em Maricá, apesar da ampliação do número de Equipes de Saúde da Família (eSF), os
casos de sífilis continuam elevados no município, com 46 casos de sífilis em gestante, 13 sífilis
congênita e 51 de sífilis adquirida, em 2021. Esse cenário exigiu da Secretaria Municipal de
Saúde o desenvolvimento de ações estratégicas para o enfrentamento da sífilis (RAMOS JR,
2022; SAES, et al, 2022).

Descrição
Trata-se de um relato de experiência sobre a implantação do Grupo de Trabalho para
enfrentamento da Sífilis (GT Sífilis) em Maricá. O GT Sífilis foi idealizado pela coordenação
da Área Técnica de Saúde da Mulher (ATSM) com o objetivo de reduzir a transmissão da sífilis
nos diversos grupos populacionais, por meio do fortalecimento da educação permanente e
disseminação de informação a respeito da sífilis. Profissionais da ATSM e os
Ginecologistas/Obstetras do Núcleo Ampliado da Saúde da Família (NASF) participaram da
construção e implementação do GT, que foi desenvolvido em três etapas: (1) Construção do
questionário de investigação de Sífilis Congênita; (2) Construção da planilha de
acompanhamento de sífilis gestacional e congênita em conjunto com a Maternidade; (3)
Implantação do GT Sífilis: para orientação, discussão e apoio técnico das eSF.

27
Mestre pelo Programa de Pós-Graduação em Enfermagem da Escola de Enfermagem Anna Nery - Universidade
Federal do Rio de Janeiro; Secretaria Municipal de Saúde de Maricá; [email protected]
28
Mestre pelo Programa de Pós-Graduação em Saúde da Criança e da Mulher - Instituto Nacional de Saúde da
Mulher, da Criança e do Adolescente Fernandes Figueira; Secretaria Municipal de Saúde de Maricá.;
[email protected]
29
Especialista em Enfermagem Obstétrica e Neonatal pela Universidade Gama Filho; Secretaria Municipal de
Saúde de Maricá.; [email protected]
Período de Realização
As reuniões do GT iniciaram em maio de 2022 e ainda ocorrem semanalmente com a
participação da eSF envolvida no caso selecionado para a discussão.

Objetivos
Qualificar as ações de prevenção da infecção, de diagnóstico precoce e de tratamento
adequado da sífilis nas USF de Maricá - RJ.

Resultados
Desde o início do GT Sífilis foram realizadas 73 reuniões, das quais 32 foram para
discussão dos casos de sífilis em gestantes que tiveram desfecho do tratamento inadequado, 15
encontros em conjunto com a equipe da maternidade para discussão de casos de sífilis congênita
(sem critérios clínicos e epidemiológicos) e 27 encontros para discussão de casos de sífilis
adquirida e inadequadamente tratada. As reuniões revelaram graves problemas de qualidade na
assistência à sífilis, tanto na Atenção Primária à Saúde (APS) quanto na maternidade, como:
início do pré-natal tardiamente; não realização do VDRL em gestantes com resultado do teste
rápido positivo; não realização do acompanhamento mensal da titulação do VDRL; tratamento
inadequado da sífilis; recém-nascido com diagnóstico de sífilis congênita sem ter realizado
pesquisa VDRL no líquor, sem radiografia de ossos longos e/ou com VDRL menor que o
materno em duas diluições (PADOVANI, OLIVEIRA, PELLOSO, 2018; PAULA, et al, 2022).
Dentre os encaminhamentos discutidos no GT para o enfrentamento da sífilis, destaca-
se: a construção do Plano Municipal de Enfrentamento à Sífilis; ampliação do questionário de
investigação de Sífilis Congênita para a maternidade; realização do I Encontro Municipal sobre
as Infecções Sexualmente Transmissíveis.
O GT tem proporcionado discussões de casos clínicos reais, troca de experiências e
readequação do processo de trabalho, tornando-se espaço de fala e escuta e possibilitando à
gestão a identificação das necessidades e dificuldades dos profissionais de saúde para a
efetivação das ações envolvidas no cuidar.

Aprendizados e Análise Crítica


Apesar da redução do número de gestantes inadequadamente tratadas, observa-se que
ainda há muito o que evoluir para a redução da sífilis adquirida, gestacional e congênita no
município. Para reduzir a incidência da sífilis, é essencial que os profissionais de saúde e a
comunidade se sensibilizem sobre a importância do diagnóstico precoce e do tratamento
adequado, incluindo o de seu parceiro. Nesse contexto, os encontros têm permitido maior
aproximação dos profissionais da assistência com a gestão, auxiliando na identificação e no
enfrentamento dos desafios para o manejo adequado da sífilis.
O GT propicia a busca por novas estratégias que visam a construção de respostas
integradas e colaborativas que possam intervir de modo direto no controle da sífilis, com
diferentes parceiros da sociedade, garantindo uma assistência humanizada, integral e de
qualidade.
Referências Bibliográficas
BRASIL. Secretaria de Vigilância em Saúde. Ministério da Saúde. Boletim Epidemiológico -
Sífilis 2022. Brasília: Ministério da Saúde, 2022.
RAMOS JR, A.N. Persistência da sífilis como desafio para a saúde pública no Brasil: o caminho
é fortalecer o SUS, em defesa da democracia e da vida. Cad. Saúde Pública, v. 38, n. 5,
PT069022, 2022.

SAES, M.O. Assessment of the appropriate management of syphilis patients in primary health
care in different regions of Brazil from 2012 to 2018. Cad. Saúde Pública, v. 38, n. 5,
EN231921, 2022.

PADOVANI, C; OLIVEIRA, R.R; PELLOSO, S.M. Sífilis na gestação: associação das


características maternas e perinatais em região do sul do Brasil. Rev. Latino-Am.
Enfermagem, v. 26, e3019, 2018.

PAULA, M.A; et al. Diagnóstico e tratamento da sífilis em gestantes nos serviços de Atenção
Básica. Ciência & Saúde Coletiva, v. 27, n. 8, p.3331-3340, 2022.
Relato de Pesquisa

Impacto da redução do consumo de bebidas açucaradas nas mortes prematuras


por doenças crônicas não transmissíveis no brasil

Anna Beatriz Souza Antunes 30


Rosely Sichieri 31
Rafael Lavourinha Pinto 32
e Diana Barbosa Cunha 33

Palavras-chave: Ingestão de Alimentos; Bebidas Adoçadas com Açúcar;


Doenças não Transmissíveis; Mortalidade Prematura; Risco Atribuível.

Contextualização
Apesar da redução da frequência de consumo de refrigerantes na última década, este
permanece entre os alimentos mais consumidos entre os brasileiros (Rodrigues et al., 2021). O
consumo de bebidas açucaradas representa a maior fonte de açúcar de adição das dietas e está
relacionado com diversos desfechos cardiometabólicos, incluindo obesidade, doenças
cardiovasculares e diabetes mellitus (DM) (Malik e Hu, 2022). As mortes por doenças crônicas
não transmissíveis (DCNT) representam 75% do total de mortes no Brasil (WHO, 2022) e
dessas, cerca de um terço ocorre de forma prematura, entre 30 e 69 anos (Malta et al., 2020). A
doença isquêmica do coração (DIC) é a maior causa de mortes no Brasil, seguido da doença
cerebrovascular (Oliveira et al., 2022), que é a principal complicação da DM. A faixa etária de
30 a 69 anos também foi responsável por 72% dos custos atribuíveis à hipertensão arterial,
diabetes mellitus e obesidade no Sistema Único de Saúde em 2018 (Nilson et al., 2020). O
impacto do consumo de bebidas açucaradas nas mortes prematuras a partir de recentes dados
de consumo usual e mortes no Brasil ainda é desconhecido e é importante para
acompanhamento e desenvolvimento de políticas públicas.

Objetivos
O presente estudo tem como objetivo estimar a redução de mortes prematuras por
DCNT em função da redução de consumo bebidas açucaradas para a população brasileira.

30
Doutoranda pelo Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva do Instituto de Medicina Social Hésio Cordeiro
da Universidade do Estado do Rio de Janeiro; orientador: Diana Barbosa Cunha; [email protected]
31
Professora do Departamento de Epidemiologia do Instituto de Medicina Social Hésio Cordeiro da Universidade
do Estado do Rio de Janeiro; [email protected]
32
Professor Substituto do Instituto de Nutrição Josué de Castro da Universidade Federal do Rio de Janeiro.;
[email protected]
33
Professora do Departamento de Epidemiologia do Instituto de Medicina Social Hésio Cordeiro da Universidade
do Estado do Rio de Janeiro; [email protected]
Metodologia
Utilizamos uma estrutura de avaliação comparativa de risco (em inglês – Comparative
Risk Analyses – CRA) onde foi calculada a Fração Atribuível Populacional (FAP). Para tanto,
utilizamos óbitos de indivíduos entre 30 e 69 anos provenientes do Sistema de Informações
sobre Mortalidade (SIM) por Unidade Federativa de residência e agrupamos pelos códigos de
causa básica morte conforme a 10ª Classificação Estatística Internacional de Doenças Lesões e
Causas de Óbito (CID-10), corrigidos para dados ausentes e mortes mal definidas (WHO,
2020): DIC: I20-25 e DM: E10-14.
Dados de consumo de bebidas açucaradas foram obtidos do Inquérito Nacional de
Alimentação (INA) 2017-2018, módulo que avaliou o consumo alimentar individual através de
dois recordatórios alimentares de 24 horas conduzidos em dois dias não consecutivos, em uma
subamostra de 34,7% dos 57.920 domicílios investigados na Pesquisa de Orçamentos
Familiares (POF) (IBGE, 2020). Foram estimadas medidas de tendência central, precisão e
dispersão considerando a variabilidade intraindividual (Tooze et al., 2006) e a complexidade da
amostra, sendo excluídas as gestantes e lactantes no período de coleta, totalizando 56,7% da
amostra original. Os efeitos etiológicos dose-resposta entre bebidas açucaradas e os desfechos,
e efeitos mediados pelo índice de massa corporal, foram obtidos de metanálises recentes de
grandes estudos epidemiológicos que identificaram evidências que apoiam tais relações causais
conduzidas a partir de estudos de coorte prospectivos (Micha et al., 2017). Por fim, obtivemos
o número de mortes evitáveis de cada desfecho devido o consumo de bebidas açucaradas
multiplicando o FAP estimado pelo número de mortes devido a cada desfecho (Micha et al.,
2012). Todas as análises foram conduzidas por sexo e intervalos de dez anos de mortalidade
prematura, utilizando os softwares SAS On demand e R.

Resultados e Discussão
Ocorreram 54.298 óbitos por DIC entre adultos brasileiros na faixa de 30 e 69 anos. As
maiores taxas de mortalidade foram observadas entre 60 e 69 anos e para homens em todas as
faixas etárias e regiões, representando mais que o dobro de óbitos do sexo feminino. Para DM
ocorreu o total de 27.810 óbitos, seguindo a mesma distribuição do desfecho anterior, porém
com diferenças menos expressivas entre os sexos. As maiores médias de consumo foram
observadas entre 30 e 39 anos, homens e para a região Sul.
Foram atribuídos ao consumo de bebidas açucaradas 3.674 (7%) óbitos prematuros por
DIC no Brasil em 2018. O maior número de óbitos atribuídos foi observado nas faixas etárias
mais velhas, com 1.297 óbitos entre indivíduos entre 60 e 69 anos e na região Sudeste, em todas
as faixas etárias, totalizando 1.816 óbitos.
Do total de óbitos prematuros por DM em 2018 no Brasil, 1.919 (7%) foram atribuídos
ao consumo de bebidas açucaradas. Sendo, novamente, o maior número de mortes atribuídas
na faixa etária entre 60 e 69 anos (776 óbitos) e na região Sudeste (840), em todas as faixas de
idade. No entanto, em ambos os desfechos, as maiores FAP foram observadas nas faixas etárias
mais jovens, até 49 anos.

Aprendizados e Análise Crítica


Aproximadamente cinco mil e quinhentos óbitos prematuros foram atribuídos ao
consumo de bebidas açucaradas no Brasil em 2018. As populações que mais contribuíram para
esse total foram as faixas etárias mais velhas e a região Sudeste.
Referências Bibliográficas
INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA (IBGE). Pesquisa de
Orçamentos Familiares 2017 - 2018: análise do consumo alimentar pessoal no Brasil. Rio
de janeiro: Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, 2020.

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Heart Disease, Stroke, and Type 2 Diabetes in the United States. JAMA, v. 317, n. 9, p. 912, 7
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NILSON, E. A. F.; ANDRADE, R. DA C. S.; et al. Custos atribuíveis a obesidade, hipertensão


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v. 44, p. 1, 10 abr. 2020.

OLIVEIRA, G. M. M. DE et al. Estatística Cardiovascular – Brasil 2021. Arquivos Brasileiros


de Cardiologia, v. 118, n. 1, p. 115–373, 19 jan. 2022.

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2022. Geneva: World Health Organization, 2022.

WORLD HEALTH ORGANIZATION (WHO). WHO methods and data sources for country-
level causes of death. Geneva: World Health Organization (WHO), 2020.
Relato de Pesquisa

Tempo de sono e marcadores bioquímicos de dislipidemia em crianças com


obesidade

Danielle Coelho de Azevedo 34


e Diana Barbosa Cunha 35

Palavras-chave: Sono; Crianças; Dislipidemia; Obesidade.

Contextualização
O tempo de sono é um fator comportamental de crescente interesse na literatura, por se
tratar de um fator de risco modificável (Pot, 2018), fisiologicamente ligado à obesidade e pelo
aumento da prevalência de inadequação do tempo de sono entre jovens, concomitante com o
crescimento da epidemia de obesidade (Kruisbrink et al., 2017; Gohil e Hannon, 2018). Além
disso, o sono pode afetar o metabolismo lipídico por meio da adiposidade (Quist et al., 2016).
A associação entre tempo de sono e marcadores bioquímicos têm sido estudada na população
pediátrica, e os resultados são ainda inconclusivos tanto em estudos seccionais (Rey-López et
al., 2014; Flint et al., 2007; Hitze et al., 2009; Kurube, Widjaja e Ardianah, 2023) como nos
estudos longitudinais (Hjorth et al., 2014; Cespedes et al., 2014). Tendo em vista que as
crianças e adolescentes apresentaram redução no tempo de sono nos últimos anos (Matricciani,
Olds e Petkov, 2012), fator este que contribui para o ganho de peso, consequências
cardiometabólicas são esperadas nas crianças com obesidade (Quist et al., 2016).

Objetivo
Verificar a associação entre duração do sono e marcadores bioquímicos de dislipidemia
em crianças com obesidade.

Metodologia
Estudo transversal que utilizou dados da linha de base de um ensaio clínico randomizado
para tratamento da obesidade infantil (PAPPAS HUPE). Para o presente estudo, foram incluídas
101 crianças entre 7 e 12 anos, com obesidade, que apresentavam informações sobre duração
de sono, medidas antropométricas e exames bioquímicos. O número de horas de sono foi
calculado a partir da pergunta: Quantas horas em média você dorme numa noite habitual de
sono? __ horas, considerou-se sono adequado entre 9-12 horas por dia. As determinações
bioquímicas de colesterol total, LDL - colesterol, HDL - colesterol e triglicerídeos foram
realizadas após 12 horas de jejum e foram utilizados os pontos de corte da Diretriz Brasileira
de Dislipidemias e Prevenção da Aterosclerose. A associação entre duração de sono e

34
Mestranda pelo Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva do Instituto de Medicina Social da Universidade
do Estado do Rio de Janeiro; orientador Diana Barbosa Cunha; [email protected]
35
Docente do Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva do Instituto de Medicina Social da Universidade
do Estado do Rio de Janeiro; [email protected]
marcadores bioquímicos foi avaliada por regressão linear. Foram realizados modelos
estratificados pelo nível de obesidade, uma vez que análises preliminares mostraram que a
prevalência de sono curto é maior entre crianças com obesidade grave e maiores valores médios
de CT (mg/dl) e LDLc (mg/dl) foram encontrados nas crianças classificadas com obesidade.
Todas as análises foram realizadas no SAS, versão Ondemand.

Resultados preliminares
A média de idade das 101 crianças avaliadas foi de 9,08±1,55 anos e 57,43% eram
meninos. O tempo médio de sono diário foi de 8,61±1,58 horas/ dia, abaixo do recomendado
para a faixa etária. Observou-se que 48,5% dos participantes apresentaram tempo de sono
inadequado, sendo em sua totalidade sono curto. 47% das crianças apresentavam obesidade
grave, com a média de IMC z-escore de 3,18±0,98. Em relação aos exames bioquímicos,
observa-se que a média de HDLc (mg/dl) das crianças, correspondeu a 45,72±13,39, e 58,7%
do total da amostra apresentou HDLc alterado. A média de triglicerídeos (mg/dl) foi de
100,39±48,69, e de colesterol total (mg/dl) 153,91±33,64, sendo 54% e 23%, respectivamente
com alteração. Foi observada associação negativa entre tempo de sono e colesterol total entre
as crianças obesas (β = -5,99; p-valor = 0,04) e entre tempo de sono e o LDLc entre os meninos
com obesidade (β = -10,68; p-valor = 0,01).

Referências Bibliográficas
CESPEDES, Elizabeth M.; RIFAS-SHIMAN, Sheryl L.; REDLINE, Susan; GILLMAN,
Matthew W.; PEÑA, Michelle-Marie; e TAVERAS, Elsie M. Longitudinal associations of
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COLETIVO TEMÁTICO:
Educação e (in)formação em saúde: caminhos e desafios sociais e políticos
para coletividade

A pandemia de COVID-19, o movimento antivacina no Brasil e no mundo, o anti-


cientismo, o negacionismo e a disseminação de fake news compõem atravessamentos
contemporâneos e importantes na saúde das populações. Desse modo, este coletivo temático
pretende discutir a inserção e fortalecimento do tema Educação Popular e Saúde; a comunicação
como uma dimensão central da saúde e fundamental para as propostas de fortalecimento do
Sistema Único de Saúde; a infodemia e a desinfodemia durante a pandemia de COVID-19; a
inserção e os impactos da Inteligência Artificial nos diversos aspectos da saúde. Assim,
buscamos pesquisas e relatos de experiência acerca das dimensões necessárias para o
aprofundamento das problemáticas dos déficits educacionais em saúde e da desinformação,
demandando agendas investigativas e, sobretudo, de intervenções, a partir da promoção de
comunicação e informação no contexto da saúde, como direito à informação, à saúde e, em
última instância, à vida. Tivemos o intuito de debater trabalhos que se debruçam sobre:
impactos em práticas e saberes nas redes de atenção à saúde conforme os níveis de capacitação,
educação e informação; as pressões e divergências frente às tecnologias digitais no setor saúde;
formas contemporâneas de comunicação e informação em saúde; difusão de informações
qualificadas em saúde; desinformação através de discursos em redes sociais relacionados à
infodemia e desinfodemia e às fake news; desmantelamento e privatização das instâncias
públicas de comunicação e informação em saúde; transformações na era digital e
mercantilização da vida, como compartilhamento e monitoramento de dados de saúde de
controle digital; instauração de novos regimes produtivos de informação; demandas estratégicas
de regulamentação de mídias e atores sociais que disseminam informações e desinformações
relacionadas à saúde, como vacinação, nutrição e cuidados estéticos, entre outros; comunicação
entre ciência e saberes populares, fazendo surgir novos atores sociais e produzindo ou
diminuindo visibilidades; acionamento de políticas públicas de combate à desinformação e
promoção da educação popular em saúde, reconhecendo a pertinência social e de intervenções
nos embates por escuta e atenção. Buscamos, por fim, possibilitar um debate inter e
transdisciplinar de mapeamento de intervenções sociais e políticas para as sociedades em
relação aos atravessamentos da saúde a partir da educação e informação.
Relato de experiência

A elaboração de cartilha como ferramenta para desmistificar o cuidado em saúde


mental na atenção primária

Gabriela dos Santos Melo Bomfim 36


e Rafaela Lopes Ravazzi 37

Palavras-chave: Saúde Mental; Atenção Primária; Estratégia de Saúde da Família;


Medicalização.

Contextualização
A experiência relatada advém da atuação na equipe multiprofissional de uma clínica da
família do Rio de Janeiro. A dificuldade na abordagem de questões de saúde mental pelas
equipes da Estratégia de Saúde da Família (ESF) é um desafio na Atenção Primária (AP), cujo
cotidiano de trabalho é permeado por questões como: quando e com que serviço compartilhar
o cuidado, o que fazer e de quais ferramentas disponho.
A persistência de estratégias medicalizantes na AP, com uso da prescrição de
medicação em detrimento de tecnologias leves (SANTOS, 2023), está ancorada ao
entendimento histórico de que a saúde está circunscrita à doença (CZERESNIA, 1999) e de
que a saúde mental é exclusividade da Psicologia e Psiquiatria. A ausência de conhecimento
técnico e de apropriação das ferramentas de cuidado, oriunda de déficits da graduação e dos
treinamentos contínuos, provoca insegurança ao lidar com estas demandas (ALMEIDA et al.,
2023).
Embora o psicofármaco seja importante recurso terapêutico, sua utilização como única
ferramenta para o cuidado em saúde mental faz parte de um processo de medicalização do viver
(PEREIRA et al., 2021). Isso pode contribuir para agravos à saúde como o uso inadequado de
benzodiazepínicos, favorecido na AP pela pouca apropriação do cuidado em saúde mental
pelos profissionais (FEGADOLI; VARELA; CARLINI, 2019).

Descrição
A identificação das dificuldades do trabalho na instituição impulsionou a produção de
material educativo sob a forma de cartilha, na perspectiva da pesquisa-intervenção. Esta
metodologia compreende que a produção do conhecimento se dá na própria ação junto aos
grupos e comunidades, estando todos implicados em seu campo (CHASSOT; SILVA, 2018).
A produção ocorreu em etapas: 1) Identificação das dificuldades das equipes, definição
dos tópicos a serem abordados e mapeamento dos serviços para o cuidado em saúde mental do
território; 2) Pesquisa bibliográfica sobre os tópicos definidos; 3) Elaboração da cartilha

36
Graduanda em Psicologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro; acadêmica bolsista na Atenção Básica
pela Secretaria Municipal de Saúde; [email protected]
37
Rafaela Lopes Ravazzi; Psicóloga e mestranda no Instituto de Medicina Social da Universidade Estadual do Rio
de Janeiro (IMS/UERJ); e-mail: [email protected]
“Como cuidar das demandas de saúde mental nas unidades básicas de saúde - orientações na
atenção básica”, utilizando a plataforma on-line Canva.
Os tópicos abordados foram divididos em seções: 1) explicação dos elementos que
constituem uma urgência; 2) esclarecimento da rede da atenção psicossocial referente às
unidades e/ou áreas programáticas; 3) explicação da função de cada serviço da rede de cuidado
em saúde mental; 4) determinação social da saúde, interseccionando questões de raça, gênero
e classe e seu impacto na saúde; 5) medicalização da vida e apresentação das ferramentas de
cuidado, como o acolhimento e a escuta. Na sequência, a cartilha foi divulgada para os serviços
e profissionais da rede.

Período de Realização
A cartilha foi construída entre junho e agosto de 2023 e sua divulgação ocorreu a partir
do final de agosto.

Objetivos
A experiência visa que os profissionais da ESF se apropriem da rede de atenção
psicossocial e dos recursos disponíveis para o cuidado em saúde mental, aumentando a
segurança para assumir a corresponsabilização com os usuários. À medida que as equipes se
percebem como capazes de responder a estas demandas, pretende-se uma maior filtragem dos
casos compartilhados com a equipe multiprofissional e, consequentemente, maior
aproveitamento dos matriciamentos. Sobretudo, o principal objetivo almejado é a
transformação da visão dos profissionais de saúde sobre o papel da ESF no cuidado em saúde
mental, propiciando segurança na atuação em rede a partir das ferramentas de cuidado.

Resultados
O material apresentou grande repercussão e compartilhamento entre os profissionais de
saúde. A solicitação de unidades básicas de saúde de outros municípios para troca de
experiência, bem como a rápida difusão do material entre os serviços, indica a ressonância das
dificuldades enfrentadas a partir das lacunas formativas na Atenção Primária à Saúde para o
cuidado em saúde mental, conforme observado na literatura.

Aprendizados e Análise Crítica


A versão inicial do material já apontava a importância do atravessamento de questões
sociais no sofrimento psíquico. Entretanto, a partir de críticas à ausência de tópicos específicos
abordando questões raciais na cartilha, foi elaborada uma nova versão contendo uma seção
dedicada à determinação social de gênero, raça e classe na saúde. O exposto corrobora com o
propósito da pesquisa-intervenção e com a noção de implicação, compreendendo o papel do
pesquisador não como mero observador, mas como agente que também produz e é produzido
na atividade. A ausência inicial de uma perspectiva interseccional nos processos de saúde e
doença denuncia a invisibilidade das temáticas e chama atenção para a importância de reafirmar
a determinação social da saúde.

Ao mesmo tempo que o material visa transformar a realidade, também se espera que
seja transformado por contribuições dos profissionais que diariamente constroem o sistema de
saúde coletivamente. A repercussão da cartilha entre os profissionais indica a oportunidade de
apropriação de ferramentas de cuidado alternativas à medicação, ampliando o escopo
interventivo na AP.

Referências Bibliográficas
ALMEIDA, D. R. et al. O cuidado aos portadores de sofrimento mental na atenção
primária: uma prática interdisciplinar e multiprofissional. Revista de Pesquisa Cuidado é
Fundamental [online], v. 12, jan-dez. 2020. Disponível:
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CHASSOT, C. S.; SILVA, R. A. N. da. A pesquisa-intervenção participativa como estratégia


metodológica: relato de uma pesquisa em associação. Psicologia & Sociedade [online], v. 30,
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jul. 2023].

CZERESNIA, Dina. O conceito de saúde e a diferença entre prevenção e promoção. Cadernos


de Saúde Pública, v. 15, n. 4, 1999.

FEGADOLLI, C.; VARELA, N. M. D.; CARLINI, E. L. de A. Uso e abuso de


benzodiazepínicos na atenção primária à saúde: práticas profissionais no Brasil e em Cuba.
Cadernos de Saúde Pública [online], v. 35, n. 6, 2019. Disponível:
https://www.scielo.br/j/csp/a/m3LBtSVDM9hzCWV9BSkqXcp/ [acessado em 17 jul. 2023].

PEREIRA, E. L. et al. Medicalização do viver entre usuárias de psicotrópicos na atenção


básica. Revista Polis Psique [online], Porto Alegre, v. 11, n. 2, ago. 2021. Disponível:
http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S2238-
152X2021000300004&lng=pt&nr m=iso [acessado em 17 jul. 2023].

SANTOS, J. C. G. dos. et al. Medicalização do sofrimento psíquico na Atenção Primária à


Saúde em um município do interior do Ceará. Physis: Revista de Saúde Coletiva [online], v.
33, 2023. Disponível: https://www.scielo.br/j/physis/a/D7jSK6Vsncfrhkc47GjQv9x/#
[acessado em 22 jul. 2023].
Relato de Experiência

A cacofonia dos discursos nutricionais: informação e desinformação nas


narrativas sobre alimentação

Bia Rique 38

Palavras-chave: Discursos Nutricionais; Reducionismo Nutricional; Racionalidade


Nutricional; Cacofonia.

Contextualização
Minha experiência como nutricionista clínica no consultório e na Santa Casa de
Misericórdia do Rio de Janeiro trouxe à tona “uma polifonia de sentidos atribuídos à nutrição”
(RIQUE, 2018, p. 18), me instigando a buscar conhecimentos para além da visão biomédica e
nutricional, a fim de compreender melhor a complexidade das relações entre ciência,
alimentação, corpo e saúde. Passei, então, a explorar outros saberes, como exemplo, as ciências
humanas e sociais, para que me auxiliassem a capturar a reverberação dos discursos nutricionais
no senso comum. Algumas inquietações nesse sentido acabaram me levando a cursar o
mestrado e posteriormente o doutorado em Saúde Coletiva no Instituto de Medicina Social
Hesio Cordeiro (IMS), da Universidade do Estado do Rio de Janeiro.

Descrição
Ao longo dos anos de exercício profissional, venho identificando pacientes que chegam
à consulta com pedidos de prescrições nutricionais ou suplementos e imbuídos de conceitos
contraditórios provenientes da grande mídia e do senso comum. Cada novidade nutricional
promove grande interesse por parte das pessoas (RIQUE, 2018). Dietas detox, com restrição de
glúten ou de lactose são apenas alguns exemplos de crenças que desencadeiam ansiedade em
relação à comida e ao comer, dificultando escolhas alimentares dos pacientes e comprometendo
seus objetivos. Segundo Mudry (2009), a linguagem acerca da alimentação reconfigura a
relação das pessoas com a comida. Embora a mídia não seja um campo de produção autônomo
de saber nutricional, ela tem grande relevância para a compreensão da nutrição no
contemporâneo, com suas ambiguidades e contradições. A partir desses desafios na prática
clínica, analisei os sentidos dos discursos nutricionais da grande mídia brasileira na minha
dissertação de mestrado e para tal, examinei os significados da comida e do comer, assim como
os conceitos de alimentação adequada ou inadequada veiculados na mídia, a partir de um olhar
socioantropológico, uma vez que as abordagens jornalísticas, investidas de credibilidade e
poder simbólico, são fundamentais para a compreensão dos fenômenos urbanos
contemporâneos (TRAVANCAS, 2008). No doutorado, investiguei a experiencia feminina em
torno do emagrecimento em uma enfermaria de cirurgia plástica no Rio de Janeiro e nesta
pesquisa também identifiquei reflexos de discursos nutricionais midiáticos nas narrativas das
interlocutoras (RIQUE, 2023).

38
Doutora pelo Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva do Instituto de Medicina Social da Universidade
do Estado do Rio de Janeiro; orientadora: Profª. Dra. Jane Russo.
Objetivos
O presente trabalho tem como objetivo relatar minha experiência no campo da Nutrição
Clínica, no que tange à disseminação de discursos nutricionais no senso comum, com destaque
particular para minha pesquisa de mestrado cujo objetivo foi investigar os discursos nutricionais
propagados pela Revista Veja na primeira década do século XXI.

Período de Realização
A partir de minha experiência clínica ao longo de 20 anos, apresento minha chegada e
desenvolvimento de pesquisa no IMS desde 2016 até 2023.

Resultados
Diversos significados, sentidos e práticas em torno do corpo, da comida e do comer,
assim como a busca por uma aparência normativa – impregnada por discursos de ordem moral
– emergiram em minhas pesquisas de mestrado e doutorado. O padrão hegemônico do corpo
em forma e saudável congrega um ideal de beleza, sobretudo feminina, onde magreza e
juventude são fundamentais. Na pesquisa de mestrado, o emagrecimento foi o tema dominante
das reportagens jornalísticas, enquanto na de doutorado, ele surge como uma constante angústia
nas narrativas das mulheres. Em ambos os cenários, a alimentação aparece como uma escolha
pessoal e essa noção de responsabilidade individual emerge nas duas pesquisas combinada a
um sentimento de culpa que se transforma em carga moral. Esta prescrição que moraliza o corpo
e a comida facilita a proliferação de dietas da moda e uso de substâncias como atalhos para
alcançar um corpo adequado, saúde e vida longa.

Aprendizados e Análise Crítica


A partir de minha experiência e pesquisas de mestrado e doutorado, percebo que a
complexidade da Ciência da Nutrição é maior do que recomendações reducionistas e os sentidos
do comer são mais amplos e profundos do que nutrientes ou calorias que ingerimos. Desta
forma, a cacofonia dos discursos nutricionais distorce este processo íntimo e social que, acima
de tudo, deveria ser mediado por experiências e não por números ou nutrientes. A disseminação
de informações conflituosas portanto, afeta a relação das pessoas com a comida e o comer.

Referências Bibliográficas
MUDRY, J. J. Measured meals: Nutrition in America. New York: State University of New
York, 2009.

RIQUE, A. B. R. A teia da magreza e da juventude: os discursos sobre alimentação na revista


Veja. Dissertação (Mestrado em Saúde Coletiva), Universidade do Estado do Rio de Janeiro,
Rio de Janeiro, 2018.

RIQUE, A. B. R. A redescoberta alimentar: experiências e desafios do emagrecimento em uma


enfermaria de cirurgia plástica no Rio de Janeiro. Tese (Doutorado em Saúde Coletiva),
Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2023.

TRAVANCAS, I. A mídia no foco da antropologia. In: 26a Reunião Brasileira de


Antropologia, 01 e 04 de junho de 2008. Porto Seguro, 2008. Disponível em:
https://silo.tips/download/a-midia-no-foco da-antropologia-1.
Relato de Experiência

Desafios à participação social na 9ª Conferência Estadual de Saúde do Rio de


Janeiro

Danielle Portella Ferreira 39


Marília Procópio de Carvalho 40
Marcos Vinicius Sales 41
Bibiana Machado Nunes 42
e Rachel Guimarães Vieira Pitthan 43

Palavras-chave: Participação social; Conferência; Relatoria, Direitos sociais e Democracia.

Contextualização

Estamos em um novo período para a democracia brasileira. As realizações das


conferências nas etapas municipais, estaduais e as livres expressam o momento. É importante
reconhecer todo o esforço empenhado para a realização das conferências, das etapas de sua
construção e sua colaboração na construção de políticas.
Entretanto, na observação do evento aqui relatado, foi possível notar que não se trata de
uma participação social democrática plena, igualitária, equânime e justa. Para os municípios
que participaram, não houve consenso do processo organizativo pelos gestores que estavam no
evento e ainda, do curtíssimo prazo para o planejamento da conferência.

Descrição
Trata-se de relato de experiência, a partir da vivência, das observações dos técnicos de
relatoria da 9 ª Conferência Estadual de Saúde (CES/RJ). A função dos relatores consistia em:
dar suporte aos grupos de trabalho, realização de registro das discussões das propostas, pelos
destaques, moções e ajustes textuais, além da contagem de votos das propostas.

Período de Realização
A conferência ocorreu entre os dias 26 a 28 de maio de 2023 na UERJ. Para confecção
do relatório, a equipe se reuniu semanalmente para discussões e organização do relatório final.
Esse trabalho, que incluía ainda reuniões externas na Secretaria Estadual de Saúde, findou
quatro meses após a realização da conferência.

39
Doutora em Saúde Coletiva (IFF/FIOCRUZ) Orientador: Dr. Saint Clair dos santos Gomes Jr.;
[email protected]
40
Mestranda em Saúde Coletiva (IFF/FIOCRUZ) Orientadora: Dra. Adriana Teixeira Reis;
[email protected]
41
Doutorando em Sociologia e Antropologia (PPGSA/UFRJ) orientador: Dr. Marco Aurélio Santana;
[email protected]
42
Doutoranda em saúde Coletiva (IMS/UERJ) Orientador: Marcia Silva Ney; [email protected]
43
Doutoranda em saúde Coletiva (IMS/UERJ Orientador: Ronaldo Teodoro dos Santos;
[email protected]
Objetivos
Descrever a experiência, na perspectiva de técnicos participantes do processo de
relatoria, dos desafios à participação social plena no SUS dentro da 9 ª CES.

Resultados
O relatório final da 8ª Conferência Nacional de Saúde (1986), preconizou a criação de
conselhos de saúde, compostos por representantes escolhidos pela comunidade, no nível
municipal, estadual e regional (ESCOREL; MOREIRA, 2012). As conferências têm como
objetivo avaliar e propor diretrizes para a política de saúde nas três esferas de governo
(CORREIA, 2009,107), objetivando o controle social, definido de diversas maneiras, mas que
podemos entender como a “possibilidade de a sociedade controlar o Estado por meio de
instâncias participativas” (ESCOREL; MOREIRA, 2012,871). A 9ª CES/RJ, teve como tema:
“Garantir direitos e defender o SUS, a vida e a democracia. Amanhã vai ser outro dia!”.
No primeiro dia, tivemos a sessão de abertura com apresentação de autoridades do
Estado do Rio de Janeiro. Os temas de saúde pública mais abordados na 9ª CES pelos gestores
foram: aumento dos casos de tuberculose no Rio de Janeiro, sistema de regulação de vagas e
dificuldades orçamentárias. Os profissionais de saúde relataram problemas com a precarização
do vínculo de trabalho, falta de concurso público e planos de carreiras. Já os usuários,
reclamaram da falta de incentivo para a participação social na conferência, além de questões
mais amplas e relevantes. As conferências de saúde são um convite à participação social e se
constituem como espaços em que os anseios da população sobre territórios podem ser
significados e ouvidos. Num país constituído pelo racismo estrutural e a heteronormatividade
compulsória, episódios de discriminação racial e LGBTQIA+ fobia ocorridos dentro de uma
conferência de saúde são chocantes, à medida que existem participações com objetivo de
derrubar as barreiras constituídas pelas desigualdades.
Na 9ª CES/RJ, uma mulher negra e um homem trans, durante um momento de
assembleia, sofreram tentativas de silenciamento em seus discursos. É importante salientar que
a assembleia reprimiu os agressores e fez os encaminhamentos cabíveis para assegurar a
integridade das vítimas.

Aprendizados e Análise crítica


Pelo marco teórico que foi a 8ª Conferência Nacional de Saúde, ocorrida em um contexto
de redemocratização do país, sendo a primeira a contar com a participação popular na qual seus
atos deram base a criação do SUS e, a 17ª Conferência Nacional de Saúde que aconteceu
posteriormente à pandemia de COVID-19, em um cenário de reconstrução devido a um legado
negacionista do governo anterior e com uma contribuição efetiva das conferências livres, temos
a contribuição da 9ª Conferência Estadual do Rio de Janeiro no processo de construção de uma
saúde para todos (FLEURY, 2023).
Este evento cumpriu seu papel de promoção da participação social pelo fato de os
usuários terem sido o maior quantitativo de delegados eleitos para a etapa nacional, como
também pela expressiva participação dos municípios do estado, ação importante na construção
de políticas públicas capazes de contemplar as principais demandas territoriais. Nessa
perspectiva, foi visto que, apesar de todos os avanços e conquistas da participação social em
conferências de saúde, ainda temos desafios para consolidar essa participação para que assim,
realmente possamos “garantir direitos e defender o SUS, a vida e a democracia”, como diz o
título desta conferência para a construção de um novo amanhã.

Referências Bibliográficas
BRASIL. Lei 8.142, de 28 de dezembro de 1990. Dispõe sobre a participação da comunidade
na gestão do Sistema Único de Saúde (SUS) e sobre as transferências intergovernamentais de
recursos financeiros na área da saúde e dá outras providências. Diário Oficial da União,
Brasília, DF, 31 dez. 1990. Seção 1. Disponível em:
https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l8142.htm

CORREIA, Maria V Costa. Controle Social. In:DICIONÁRIO de educação profissional em


saúde. Rio de Janeiro: Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio/Fiocruz, 2009.
Disponível em: http://www.sites.epsjv.fiocruz.br/dicionario/Dicionario2.pdf Acesso em: 27 de
setembro de 2023.

ESCOREL, Sarah; MOREIRA Marcelo Rasga. Participação Social. IN: GIOVANELLA, Lígia
(org.). Políticas e sistema de saúde no Brasil. 2ª ed. rev. e amp. Rio de Janeiro: Editora
FIOCRUZ, 2012.

FLEURY S. A Conferência e o Contexto. Fiocruz Notícias, 2023; 14 jul.


https://portal.fiocruz.br/noticia/em-artigo-sonia-fleury-analisa-os-desafios-enfrentados-pela-
17a -cns. Acesso em 20 de setembro de 2023.

STANGA, A. C.; REZER, R. Concepções de saúde, trabalho docente e o Pró-Saúde: nos


caminhos da hermenêutica. Physis: Revista de Saúde Coletiva. Rio de Janeiro, v. 25, n. 2, p.
593-614, 2015.
Relato de Pesquisa

“Eu vi no zap”: promoção à saúde e divulgação de informações no WhatsApp


durante a pandemia da COVID-19

Liana Santos de Carvalho 44

Palavras-chave: Pandemia; WhatsApp; Promoção à Saúde e Internet; Informação e


Comunicação em Saúde.

Contextualização
Tendo em vista as características descentralizadoras das mídias sociais, quase todos os
que têm acesso e habilidade podem ser, simultaneamente, criadores, difusores e consumidores
de informação (MORAES, 2007). Especificamente quanto ao WhatsApp, Felipe Bonow Soares
et al. (2021) pontuam que, considerando seu potencial informacional, que se expressa devido a
sua popularização, muitas pessoas com objetivos e interesses específicos utilizaram o aplicativo
como meio de espalhar informações sobre a pandemia da COVID-19.
Nesta pesquisa, investigo a instrumentalização do WhatsApp na circulação de
informações sobre a pandemia, procurando entender de que forma as informações sobre saúde
disponíveis na internet podem contribuir para a participação dos sujeitos na produção e prática
das ações de Promoção à Saúde, sem deixar de averiguar seus potenciais riscos. Nesse sentido,
realizo um estudo de caso do projeto Jovens Comunicadores, que durante a pandemia atuou
capilarizando da internet e compartilhando no WhatsApp, informações confiáveis sobre a
COVID-19. Além disso, exploro de que modo as mídias sociais permitem a descentralização
da comunicação e proporcionam a criação de informações por diferentes grupos sociais.

Objetivos
Compreender o papel do WhatsApp, enquanto aplicativo de comunicação, na
circulação de informação sobre a COVID-19 durante a pandemia, com foco na forma de atuação
do projeto Jovens Comunicadores e sua contribuição para a participação dos sujeitos na
produção e prática das ações de Promoção à Saúde durante a pandemia; Investigar de que
maneira o aplicativo WhatsApp foi moldado de acordo com grupos sociais/políticos para
divulgação de conteúdos durante a pandemia.

Metodologia
A pesquisa tem caráter qualitativo e se baseou na realização de entrevistas
semiestruturadas com integrantes do projeto Jovens Comunicadores e análise de relatórios
referentes a circulação de informações durante a pandemia. Os resultados da pesquisa foram
analisados à luz da Antropologia Digital e literatura sobre promoção da saúde.

44
Mestranda pelo Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva do Instituto de Medicina Social da Universidade
do Estado do Rio de Janeiro; orientado: Rosana Castro; [email protected]
Resultados e Discussão
Com a pandemia, o WhatsApp foi a plataforma digital que mais cresceu, sobretudo em
países mais impactados pela crise decorrente da COVID-19. Na primeira fase da pandemia, o
uso do WhatsApp teve um crescimento mundial de 40% 45, crescimento acompanhado pela
propagação desenfreada da desinformação e do negacionismo envoltos em teorias da
conspiração impulsionadas “[...] pelo discurso político e pela falta de alinhamento entre as
autoridades” (RECUERO; SOARES, 2020 apud SOARES et al., 2021, p. 77), que orientou, de
certa forma, a escolha e a opinião de milhares de brasileiros sobre as recomendações e medidas
para evitar a proliferação do vírus no Brasil, em um momento tão trágico para o mundo.
O projeto Jovens Comunicadores, com apoio da Missão em Foco FIOCRUZ, surge
nesse contexto, visando instrumentalizar o WhatsApp como um meio de difundir informações
verídicas, em confronto com as informações falsas que circulavam pelo aplicativo. O projeto
que, entre os meses de julho e novembro de 2020, alcançou 500 jovens das periferias da região
metropolitana do Rio de Janeiro, ofertou oficinais sobre produção de conteúdo para mídias
sociais. O objetivo das oficinas era auxiliar os jovens na identificação e checagem de notícias
falsas que circularam na internet na fase inicial da pandemia para que eles pudessem reunir
informações confiáveis sobre a COVID-19, produzir conteúdo e compartilhar com seus
contatos por meio de listas de transmissão do WhatsApp.
Nessa direção, como destaca Denis de Moraes (2007), a mídias sociais se transformam
em um espaço de lutas e conflitos por disputas ideológicas e podem se configurar como
importante meio de questionamento da ordem vigente e de ativismo social, possibilitando que
diferentes grupos produzam e compartilhem informações num sentido contra-hegemônico.
Com a realização das oficinas, o projeto cumpre alguns princípios fundamentais da Promoção
à Saúde que são: a educação em saúde, o desenvolvimento de habilidades pessoais e o reforço
a ação comunitária. Dessa forma, ao passar pelo processo de capacitação formativo e
compartilhar com os seus pares, a saúde começa ser construída de forma conjunto com a
comunidade.

Aprendizados e Análise Crítica


Observo que o aplicativo do WhatsApp se tornou um campo de disputas informacionais,
e a apropriação do aplicativo pelo projeto Jovens Comunicadores permitiu a construção de
outras narrativas para além das que estavam sendo propagadas. Nessa direção, acredito que o
WhatsApp nos ofereça elementos que nos ajudam a compreender como a tecnologia digital
participa da vida social e a configura, atuando tanto para a manutenção das normatividades
sociais existentes quanto na proposição de agências cotidianas e formas de resistência. Assim,
frente ao período tenebroso que assombrou o Brasil nos últimos quatro anos, tornou-se
emergente as ações realizadas pela população e para a população a fim de salvaguardar a vida
dos que foram lançados a sua própria sorte.

45
COVID-19 barometer: consumer attitudes, media habits and expectations. Kantar, London, 3 Apr. 2020.
Disponível em: https://www.kantar.com/Inspiration/Coronavirus/COVID-19-Barometer-Consumerattitudes-
media-habits-and-expectations. Acesso em: 8 set. 2021.
Referências Bibliográficas
COVID-19 barometer: consumer attitudes, media habits and expectations. Kantar, London, 3
Apr. 2020. Disponível em: https://www.kantar.com/Inspiration/Coronavirus/COVID-19-
Barometer-Consumer-attitudes-media-habits-and-expectations.

MORAES, Denis. Comunicação alternativa, redes virtuais e ativismo: avanços e dilemas.


Revista Eletrônica Internacional de Economia Política da Informação, da Comunicação e
da Cultura, São Cristovão, v. 9, n. 2, maio/ago. 2007. Disponível em: https://seer.ufs.br/in
dex.php/eptic/article/view/226/224.

SOARES, Felipe Bonow et al. Desinformação sobre o Covid-19 no WhatsApp: a pandemia


enquadrada como debate político. Ciência da Informação em Revista, Maceió, v. 8, n. 1,
pág. 74-94, 2021. DOI https://doi.org/10.28998/cirev.2021v8n1e. Disponível em: https://
www.seer.ufal.br/index.php/cir/article/view/11246/8561.
Relato de Pesquisa

Formação em saúde como formação humana: interpretações críticas à diversidade


e aos valores coletivos na formação em saúde para o SUS

Júlia Barcelos Bittencourt 46


Matheus Oliveira de Paula 47
Jullie Doria Freitas 48
e Débora Holanda Leite Menezes 49

Palavras-chave: formação em saúde; universidade; política de saúde; política social.

Contextualização
Os tensionamentos e disputas no campo da saúde pública ocorrem entre dois projetos
principais (MATOS, 2017): por um lado, um projeto de cunho privatista, o qual compreende a
saúde enquanto mercadoria e que ganhou mais espaço no cenário político com o avanço do
neoliberalismo; por outro lado, um projeto de cunho democrático, cujo conceito ampliado de
saúde vai para além da ausência de doenças e abarca o acesso aos demais direitos sociais -
trabalho, lazer, alimentação, habitação, transporte (MS/AROUCA, 2022).
Para além das disputas no âmbito do fazer profissional no campo da saúde, ambas as
perspectivas atravessam o contexto da formação. Em busca de uma formação pautada e que
reafirme os valores do SUS, a indissociabilidade entre teoria e prática deve ser uma
competência perseguida. As atividades exercidas no cotidiano do trabalho profissional devem
estar ancoradas em uma teoria crítica, qualificando o trabalho na política de saúde. A formação
é o espaço no qual as técnicas e estratégias são articuladas e conduzidas para a reflexão
sistematizada e crítica à intervenção dos profissionais de saúde.

Objetivos
O objetivo do trabalho é refletir sobre a formação dos trabalhadores de saúde no Brasil,
considerando os tensionamentos e disputas que atravessam a política de saúde pública na
contemporaneidade e, consequentemente, impactam no processo de formação profissional.

46
Mestranda em Serviço Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Assistente Social graduada
pela Universidade Federal do Rio de Janeiro; [email protected]
47
Mestre pelo Programa de Estudos Pós-Graduados em Política Social da Universidade Federal Fluminense;
[email protected]
48
Graduanda em Serviço Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Graduanda em Psicologia
pelo Instituto Brasileiro de Medicina e Reabilitação (IBMR); [email protected]
49
Professora Adjunta do Departamento de Fundamentos da Escola de Serviço Social da Universidade Federal do
Rio de Janeiro (UFRJ). Doutora em Política Social pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Coordenadora
do Projeto de Pesquisa e Extensão Universidade e Saúde; [email protected]
Metodologia
A reflexão atravessa as inserções sociais dos autores, implicados com o trabalho na
política de saúde, em três espaços diversos, a saber: Graduação, Mestrado e Residência. A
construção do trabalho surge no bojo da investigação do Projeto de Pesquisa e Extensão
Universidade e Saúde, inserido no Núcleo de Estudos sobre “Políticas Públicas, Questão Social
e Serviço Social” (NUPEQUESS/UFRJ), da Escola de Serviço Social, Universidade Federal
do Rio de Janeiro. A pesquisa busca estudar a formação em saúde no âmbito das universidades
públicas do Estado do Rio de Janeiro, de maneira crítica, com vistas a contribuir para a
ampliação do debate da saúde pública e dos princípios do SUS.
Os estudantes-pesquisadores se aproximam da literatura acadêmica da formação em
saúde e da área da saúde coletiva para a construção deste artigo. Para além da revisão
bibliográfica, este estudo parte também da análise do levantamento documental no âmbito das
produções universitárias apresentadas nas jornadas científicas, realizadas por membros da
graduação e pós-graduação. Os resultados preliminares da pesquisa estão sendo comunicados
em seminários e eventos da área da saúde coletiva e políticas sociais; observa-se o afastamento
da área da saúde com os valores e princípios do SUS, sobretudo no que tange a dimensão social
da saúde.
A formação em saúde é produzida em diferentes espaços institucionais: escolas,
universidades, unidades de saúde, espaços culturais, dentre outros. É possível perceber que a
inserção do setor privado tanto na saúde, quanto na educação promove disputas da consciência
dos trabalhadores da área de saúde desde o momento de sua formação até sua prática
profissional. Isto porque, os sujeitos sociais inseridos nesses espaços reproduzem, por vezes, a
lógica neoliberal de naturalização das condições e relações sociais de vida e trabalho.
Após a década de 1990, a inserção da agenda neoliberal espraiou o discurso individual
sob todas as relações sociais; o mercado é posto como ordenador principal dos processos
sociais. Nesse contexto, a formação em saúde se aproxima da valorização do individual, do
patológico, do biológico e de interpretações que naturalizam as relações sociais, com o emprego
da resposta individual e fragmentada aos problemas em saúde.
Machin et al. (2022) discutem sobre a formação em saúde e a inserção da diversidade
nos currículos de profissionais da área da saúde. A defesa da importância de comunicar o debate
sobre identidade e diversidade, com enfoque na formação social brasileira, é a centralidade do
debate, ao passo que evidencia as dificuldades e os limites impostos pela lógica curricular. A
produção da radicalidade crítica é colocada no âmbito individual ou em pequenos grupos,
enquanto a norma reproduz a retórica vigente do individualismo neoliberal.

Aprendizados e Análise Crítica


Diante do exposto, foi possível identificar que as políticas públicas de saúde são um
campo de intensas disputas de projetos societários, de modo que a incorporação dos interesses
neoliberais na implementação e gestão destas políticas direcionam para o atendimento
individualizado e segmentado das demandas de saúde, na contramão do cuidado integral em
saúde. Dentre as consequências desse processo estão o esvaziamento dos espaços de controle e
participação social, o enfraquecimento de espaços formativos críticos e multiprofissionais e a
desarticulação entre os espaços de formação – dentro e fora da universidade – o campo da
prática profissional em saúde.
Referências Bibliográficas
MINISTÉRIO DA SAÚDE. Anais - Relatório final da 8a Conferência Nacional de Saúde.
Biblioteca Virtual da Saúde/ Ministério da Saúde. 1986. Disponível em:
https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/8_conferencia_nacional_saude_relatorio_final.pd
f Acesso o em: 13 maio 2022.

MATOS, Maurílio Castro de. Serviço Social, ética e saúde: reflexões para o exercício
profissional. 2.ed. São Paulo: Cortez, 2017.

MACHIN, R. et. el. Diversidade e diferença: desafios para a formação dos profissionais de
saúde. Ciência & Saúde Coletiva. 2022, v.27, n.10. Disponível em:
https://www.scielo.br/j/csc/a/cd97PnSf9Q3kLMRkDZCwx6b/# Acesso em: 06 maio 2023.

PAULA, M. Interseccionalidade, desigualdades e saúde: estudo sobre os sentidos atribuídos


à interseccionalidade na literatura acadêmica brasileira da área da saúde, publicada entre 1980
até 2022. Dissertação (Mestrado Acadêmico em Política Social). Programa de Estudos Pós-
graduados em Política Social, Escola de Serviço Social, Universidade Federal Fluminense.
p.245, 2022.
Relato de Pesquisa

Gerência de investigação, prevenção e controle da esporotricose:


desconhecimento dos pacientes e dos profissionais

Maria Lucivane de Oliveira 50

Palavras-chave: Esporotricose, Prevenção, Profissionais de Saúde, Saúde Pública, Surtos


epidêmicos.

Contextualização
A Esporotricose é uma doença potencialmente zoonótica, que factualmente tem se
disseminado em forma de surtos epidêmicos. Tornou-se um problema de saúde pública, que
atinge principalmente pessoas de classes sociais menos privilegiadas. Devido à gravidade dessa
doença, a notificação passou a ser obrigatória em alguns estados. Também é uma doença de
caráter ocupacional e se trata de uma doença infecciosa presente nos gatos, que se infectam por
trauma por espinhos de plantas, solo contaminado, arranhaduras e mordeduras de animais
infectados. É causada pelo fungo dimórfico do gênero Sporothrix sp., e leva a uma série de
impactos à saúde animal e humana. Portanto, esse trabalho trará uma revisão sobre os principais
tópicos dessa enfermidade, com o objetivo de alertar sobre os riscos, gravidade e seus impactos
na saúde pública. A Esporotricose constitui-se em micose subcutânea, caracteristicamente
pápulo-nodular em fase pré-clínica avançada e como lesão ulcero gomosa, quando evoluí. O
agente causal, o fungo Sporothrix schenckii (Schenck, 1898), é monoespecífico e dimórfico, ou
seja, tem aspectos micro e macromorfológico distintos, em função do substrato e da
temperatura, em temperatura ambiente (25 ºC) é filamentoso e a 37 ºC é leveduriforme, tal como
se apresenta no suscetível, animal ou humano.
A infecção se dá pelo contato com o solo (transmissão dita geofílica, a partir do escavar
e encobrir as dejeções com terra pelo hábito inato dos felinos), com vegetais secos ou em
decomposição (locais de afiação ungueal de gatos errantes), pela mordedura e arranhadura do
suscetível. Após a entrada do agente no tegumento, fica estabelecido o período pré-patente, de
duração variável (três a 84 dias, com média de 21 dias). Na dependência do estado imunitário
do paciente, a lesão inicial pode permanecer localizada no ponto de inoculação traumática
(esporotricoma ou cancro esporotricótico) até involuir espontaneamente, remanescendo apenas
a “cicatriz” imunológica”, configurada, no homem, pelas provas intradérmicas positivas à
esporotriquina. O diagnóstico é realizado através de exames presuntivos associados aos
complementares como a citologia, exame de cultura micológica, histopatologia, provas
sorológicas, testes intradérmicos, inoculação em animais e na reação em cadeia de polimerase
(Larsson 2010).

50
Enfermeira. Aluna da Pós-graduação em Gestão em Saúde UERJ Universidade Estadual do Rio de Janeiro. Pós-
graduada em Infecção Hospitalar em Saúde (CIAS)/Universidade Federal Fluminense, Escola de Enfermagem
Aurora de Afonso Costa (EEAAC). Niterói – Rio de Janeiro, Brasil; [email protected]
No entanto, a cultura fúngica é o método definitivo para o diagnóstico da esporotricose
(Thrall 2002). O Itraconazol é o fármaco de escolha para tratamento de felinos com
Esporotricose, pois apresenta menos efeitos adversos quando comparado aos demais agentes
antifúngicos (Bustamante & Campos 2001, Schubach et al. 2004, Rosser & Dunstan 2006,
Pereira et al. 2010). O uso do medicamento deve estender-se por até 30 dias após a cura clínica
(Nobre et al. 2002, Nunes & Escosteguy 2005).

Objetivo
Orientar as pessoas da comunidade sobre a necessidade de comunicar ao serviço de
saúde o surgimento de pessoa com sintomas da Esporotricose.

Metodologia
Trata-se de um estudo bibliográfico, descritivo tipo revisão interpretativa, com recorte
temporal dos últimos cinco anos, realizado na biblioteca virtual nas bases de dados: SciELO,
PubMed e Lilacs.

Resultados e Discussão
Esporotricose é uma micose granulomatosa crônica, com lesões cutânea e subcutânea,
causada principalmente por Sporothrix schenckii. É de distribuição mundial, predominante em
áreas urbanas. No Brasil é mais frequente na região Sudeste. S. schenckii é encontrado no solo,
plantas, cascas de árvores e plantas em decomposição, e tanto homem como animais são
susceptíveis à doença. A infecção se dá pela implantação do fungo nos tecidos lesados e as
manifestações dessa micose são: lesões nodulares e ulcerativas, com eliminação de exsudato
acastanhado, e formação de crosta, que podem ser locais, disseminadas na pele e raro sistêmica.
O diagnóstico consiste no isolamento de S. schenckii em amostras de tecido e/ou exsudato, com
formação de colônias cremosas, branco-amarelada, pregueadas, sendo confirmado por exames
histopatológicos.
Na terapia usam o antifúngico Itraconazol. Esporotricose cutânea localizada é a primeira
fase da doença, a forma menos grave, mas, ainda assim, muito perigosa. Causa nódulos
vermelhos e feridas que podem ser profundas e de difícil cicatrização, devido aos fungos que
atacam o organismo. Afetam tanto a pele quanto as mucosas e aparecem, geralmente, na região
da cabeça, lombar e nos membros profundamente, causando úlceras na pele e atingindo o
sistema linfático do animal. Cutânea disseminada é a forma mais grave da doença. Atinge todo
organismo do animal, fazendo com que as úlceras fiquem ainda mais graves, podendo atingir
os ossos. A recuperação nesse estado se torna mais difícil.
Causas da esporotricose, infecção da “doença dos jardineiros”, como também é
conhecida, ocorre principalmente a partir do contato com os locais preferidos em que o fungo
se reproduz, como o solo, árvores e espinhos de plantas e roseiras. Áreas avermelhadas que
viram feridas difíceis de cicatrizar, porém, outros sintomas variam de acordo com o estágio da
doença. Aparecimento de feridas de difícil cicatrização com pus e nódulos avermelhados, lesão
na pele, secreções na pele e/ ou mucosas, apatia, febre, dificuldades para respirar, pirexia,
anorexia e alopecia (perda localizada de pelos) se caracterizam como sintomas.
Aprendizados e Análise Crítica
A melhor forma de prevenir a Esporotricose é evitar ao máximo que o gato tenha contato
com outro felino contaminado. Essa é a maneira mais efetiva (e fácil) de protegê-lo. Por ainda
ser uma doença pouco conhecida pela população, a transmissão acontece de forma excessiva.
Um gato infectado, por exemplo, deve ser isolado imediatamente e tratado somente por uma
pessoa usando luvas e outros equipamentos adequados.
Tais medidas servem para não ter contato direto com as lesões e secreções do animal.
Porém, ainda não há nenhum tipo de medida de controle a nível nacional. E, para piorar, essa
não é uma doença de notificação obrigatória no país. Ou seja, não há informações concretas
sobre casos de infecção. Além disso, a enfermidade costuma ocorrer em pessoas que trabalham
com plantas e com o solo, por isso é popularmente conhecida como a “doença do jardineiro”.
Sem utilizar os equipamentos ideais para o trabalho, essas pessoas pegam o fungo facilmente.
O aumento do número de casos está diretamente relacionado à falta de informação. Assim, a
melhor alternativa é conscientizar a população sobre a doença, além de prover um tratamento
especializado para a pessoa ou animal que esteja infectado. Graças à falta de conhecimento,
juntamente com a de controle, a esporotricose felina vem se alastrando em regiões isoladas do
país. Mas, por causa da facilidade de transmissão, tem potencial de se tornar uma epidemia,
caso nenhuma medida preventiva seja tomada.

Referências Bibliográficas
BELELA-ANACLETO, Aline Santa Cruz; PETERLINI, Maria Angélica Sorgini;
PEDREIRA, Mavilde da Luz Gonçalves. Hand hygiene as a caring practice: a reflection on
professional responsibility. Revista brasileira de enfermagem, v. 70, p. 442-445, 2017.

BARROS, Monica Bastos de Lima et al. Esporotricose: a evolução e os desafios de uma


epidemia. Revista Panamericana de Salud Pública, v. 27, n. 6, p. 455-460, 2010.

CABAÑES, F. Javier. Sporotrichosis in Brazil: Animals+ humans= one health. 2020.

LACAZ, C. da S. et al. Tratado de micologia médica. Revista do Instituto de Medicina


Tropical de São Paulo, v. 44, n. 5, p. 297-298, 2002.
Relato de Pesquisa

O regime da saúde global e a resposta brasileira à pandemia do SARS-CoV-2

Kathucia Calmon Mendonça 51


José Arnon Silva Santos 52
e Darline Novais dos Santos 53

Palavras-chave: Relações Internacionais; Organização Mundial da Saúde; Saúde Global;


Regimes Internacionais; Pandemia do SARS-CoV-2.

Contextualização
Somos parte de um mundo de interdependência complexa, que significa o
compartilhamento de situações devido à alta conexão pelos avanços na educação, ciência e
tecnologia (KEOHANE; NYE, 1977). Neste cenário, “os problemas de políticas públicas são
crescentemente globais: meio ambiente, saúde pública, migrações (...) As soluções, portanto,
precisam ser compartilhadas globalmente, e por uma diversidade de atores” (KRAUSE, 2017,
p. 170). Para o século XXI, a pandemia de coronavírus talvez seja o exemplo mais emblemático
da relevância da cooperação internacional e de como a Organização Mundial da Saúde (OMS)
tem atuado como agente de controle do regime da saúde global.
No caso brasileiro, a pandemia juntou-se a alguns agravantes como fakes news, ataques
à OMS e descrédito em evidências científicas através de discursos do ex-presidente, Jair
Bolsonaro (RUEDIGER; GRASSI, 2020; DUARTE; BENETTI, 2022). Este estudo justifica-
se por sua relevância em contribuir para o pensamento crítico em saúde coletiva. Utilizamos
uma abordagem interdisciplinar para investigar se as políticas do Brasil para o controle de
fronteiras, com foco no transporte aéreo, estiveram em concordância com as recomendações da
OMS e o Regulamento Sanitário Internacional (RSI).

Objetivos
Analisar o reconhecimento da OMS como gestor do regime da saúde global por meio
da política sanitária brasileira para o controle de fronteiras durante a pandemia do SARS-CoV-
2; discutir a força das instituições democráticas.

Metodologia
Este estudo se caracteriza como uma pesquisa documental, de abordagem qualitativa.
Foram escolhidos os anos de 2021 e 2022 para considerar a análise dos documentos, tempo em
que se poderia elaborar e avaliar os efeitos das políticas de contenção.

51
Enfermeira pela Universidade do Estado da Bahia -UNEB; Especialista em Enfermagem do Trabalho;
Ginecologia e Obstetrícia pela Faveni e Enfermagem em Centro Cirúrgico e CME Unyleia;
[email protected]
52
Doutorando no Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva do Instituto de Medicina Social da Universidade
do Estado do Rio de Janeiro; orientador: Ricardo Steffen [email protected]
53
Enfermeira Especialista em Enfermagem Dermatológica; [email protected]
A busca envolveu documentos disponíveis em meio eletrônico pela OMS em:
Coronavírus disease travel advice. Para o lado brasileiro, foram consideradas leis e portarias
sobre vigilância epidemiológica, decretos e demais orientações sobre a política sanitária
nacional para viagem internacional durante a pandemia do SARS-CoV-2, disponíveis on-line
em: Ministério da Saúde (MS). Os documentos do Brasil e da OMS foram comparados nas
seguintes categorias para o controle de fronteiras, com foco no transporte aéreo: direitos
humanos, vacinação, testagem, quarentena, e exames solicitados.

Resultados e Discussão
Seguindo as recomendações da OMS e o RSI, o Brasil empenhou-se em estabelecer as
seguintes medidas: controle de transporte aéreo com base em evidências disponíveis para
facilitar viagens internacionais; vacinação como principal ponto da política de controle de
viajantes internacionais, onde a OMS foi citada como autoridade na regulação de vacinas; prova
de vacinação COVID-19 através do esquema vacinal primário como pré-requisito necessário
para a entrada segundo status de vacinação completo ou não completo - administração do
imunizante deveria obedecer ao mínimo de 14 dias antes do embarque.
Para viajantes individuais não vacinados ou sem prova de infecção prévia, o Brasil
permitiu a apresentação de teste laboratorial RT-PCR e teste de antígeno com resultado
negativo ou não detectável; suspendeu a necessidade de quarentena com base em evidências
disponíveis; e cumpriu o RSI ao estabelecer canais de comunicação com a OMS a exemplo da
notificação da variante da linhagem B.1.1.28. Para os direitos humanos, o país estabeleceu
procedimentos de apoio para pessoas de origem em países com baixa cobertura vacinal e para
imigrantes em situação de vulnerabilidade social.
Sobre o certificado internacional de vacinação, em concordância com o RSI, até a data
deste estudo, o Brasil não havia estabelecido certificado de vacinação como uma exigência para
a entrada ou saída do país. Como pode ser visualizado em nossa bibliografia, ainda que o Chefe
de Governo/Estado tenha adotado um discurso desafiador para as políticas de contenção da
pandemia ao criar discursos de controvérsia e desconfiança nas evidências científicas, o Brasil
empenhou-se para cumprir, ao menos em relação ao controle de fronteiras com foco em
transporte aéreo, as recomendações da OMS e o Regulamento Sanitário Internacional.

Aprendizados e Análise Crítica


Os resultados apresentados neste estudo revelaram que o Brasil adotou estratégias
seguindo os compromissos estabelecidos no RSI e nas recomendações da OMS para a
formulação e implementação de políticas sanitárias para o transporte aéreo durante a pandemia
do SARS-CoV-2. Apesar do cenário de adversidade política, e ainda que apresente algumas
fragilidades, a OMS consolidou-se como uma instituição internacional reconhecida pelas
instituições democráticas brasileiras.
Trazendo a crítica, recomendamos que a OMS se atente para possíveis lacunas que
abrem brechas para manobras sem garantir o rigor científico. Recomendamos também que o
Brasil fortaleça as barreiras para impedir medidas com pouca força de cientificidade, como
declaração/atestado que possua o peso de induzir o entendimento de que o viajante se recuperou
da doença e não oferece risco a si mesmo ou ao coletivo.
Referências Bibliográficas
AGÊNCIA BRASIL. Bolsonaro diz que Brasil pode sair da OMS. Disponível em:
https://agenciabrasil.ebc.com.br/politica/noticia/2020-06/bolsonaro-diz-que-brasil-pode-
sair-da oms. Acesso em 25 maio de 2021.

BRASIL.MINISTÉRIO DA SAÚDE. Painel Coronavírus. Disponível em


https://covid.saude.gov.br/. Acesso em 07 de outubro de 2023.

DUARTE, D.E.; BENETTI, P.R. Pela Ciência, contra os cientistas? Negacionismo e as


disputas em torno das políticas de saúde durante a pandemia. Disponível em
https://www.scielo.br/j/soc/a/CJmdspZCg7KyFc47gKcjcxx/#. Acesso em 08 de outubro de
2023.

KRAUSE, F. Cooperação para o Desenvolvimento: o Brasil precisa de uma agência para o


desenvolvimento internacional? In: OLIVEIRA, F. A. et al (Org). Novos olhares sobre a
política externa brasileira. São Paulo: Contexto, 2017, 272 p.

RUEDIGER, M. A.; GRASSI, A. (Coord.). Desinformação on-line e processos políticos: a


circulação de links sobre desconfiança no sistema eleitoral brasileiro no Facebook e no
YouTube (2014-2020). Policy paper. Rio de Janeiro: FGV DAPP, 2020.

WORLD HEALTH ORGANIZATION. https://www.who.int/world-health-day/world health-


day-2019/fact-sheets/details/universal-health-coverage-(uhc).Acesso em 08 de outubro de
2023.

KEOHANE, R. O.; NYE, J. S., Jr. Power and Interdependence: World Politics in
Transition. Boston: Little Brown, 1977, 300 p.

WORLD HEALTH ORGANIZATION. International Health Regulations (2005).


Geneva: WHO Press, 3 ed. 2016. Disponível em:
https://apps.who.int/iris/bitstream/handle/10665/246107/9789241580496-eng.pdf
Acesso em 14 de maio de 2022.

_____ WHO Framework Convention on Tobacco Control. Disponível em:


https://fctc.who.int/who-fctc/overview. Acesso em 06 de outubro de 2023. PAN
AMERICAN HEALTH ORGANIZATION. Brazil will receive the first vaccines against
COVID-19 through the COVAX Mechanism. Disponível em:
https://www.paho.org/en/news/21-3-2021-brazil-will-receive-first-vaccines-against-covid-
19- through-covax-mechanism. Acesso em 06 de outubro de 2023.

UNITED NATIONS. UN Memebership. Dag Hammarskjöld. Disponível em:


https://research.un.org/en/unmembers/founders. Acesso em 05 de outubro de 2023.
PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA. Decreto n° 10.212, de 30 de janeiro de 2020.
Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2019-
2022/2020/decreto/D10212.htm. Acesso em 07 de outubro de 2023.
PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA. Decreto n° 5.658, de 2 de janeiro de 2006.
Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2004-
2006/2006/decreto/d5658.htm. Acesso em 05 de outubro de 2023.

UNITED NATIONS. Universal Declaration of Human Rights. Disponível em:


https://www.un.org/en/about-us/universal-declaration-of-human-rights. Acesso em 05 de
outubro de 2023.
Relato de experiência

Os impactos da implementação das tecnologias digitais na educação do ensino


profissional em saúde

Alessandra Rachel Gomes da Silva 54


Barbara Christiane da silva Louzada 55
e Ricardo Marcelo Brandão Martins 56

Palavras-chave: Impactos, tecnologias digitais, educação, saúde, profissional.

Contextualização
A realização deste trabalho se deu através da vivência da prática como docente no ensino
profissionalizante em saúde, onde percebemos que a tecnologia na Educação em saúde vem
sendo utilizada como ferramenta inovadora, promovendo a velocidade e eficiência da
informação neste processo formativo, onde o profissional terá subsídio para atuar na assistência,
promovendo uma interface com os usuários, de forma mais rápida. Porém, também vivenciamos
que a implementação de tais tecnologias devem ser mais acessível aos discentes, além disso, as
informações, nesta velocidade, podem gerar interações e entendimentos confusos dos usuários
do serviço, bem como a independência irresponsável destas rápidas disseminações nas mídias
digitais podem estar além do alcance da educação promovida pelos profissionais da área aos
pacientes.

Descrição
Através da implementação das tecnologias digitais dentro da nossa prática docente,
vivenciamos o uso de ferramentas tecnológicas, como Inteligência Artificial (IA), plataformas
interativas, manequins de simulações realísticas, tecnologias imersivas com altos níveis de
exigências de validação científica; Dentro da metodologia específica institucional, os
participantes foram os docentes simultaneamente treinados ao passo que as validações das
tecnologias iam acontecendo. O ambiente de aprendizagem foi adaptado para essas mudanças
tecnológicas. Projetos pilotos foram realizados com os discentes nos diversos ambientes
criados, simultaneamente ao seu processo formativo. As adaptações foram feitas de forma
rápida com boa aceitação de ambas as partes. Além das alterações do ambiente de
aprendizagem, foram criados ambientes virtuais, disponibilização de internet e mudança na
estrutura física das salas de aula e laboratórios de práticas, além da aquisição de manequins e
equipamentos.

54
Pós-graduanda em Gestão em Saúde pelo Programa de Pós-Graduação em Gestão em Saúde do Instituto de
Medicina Social da Universidade do Estado do Rio de Janeiro.; [email protected]
55
Pós-graduanda em Gestão em Saúde pelo Programa de Pós-Graduação em Gestão em Saúde do Instituto de
Medicina Social da Universidade do Estado do Rio de Janeiro; [email protected]
56
Pós-graduando em Gestão em Saúde pelo Programa de Pós-Graduação em Gestão em Saúde do Instituto de
Medicina Social da Universidade do Estado do Rio de Janeiro; [email protected]
Período de Realização: estabeleça o recorte temporal da experiência
A experiência vivenciada se deu no período do ano de 2021 e até o
presente momento.

Objetivos
Este trabalho tem como objetivo analisar, através de relato de experiência, os impactos
da implementação das tecnologias digitais na qualificação do ensino profissional em saúde,
considerando as mudanças no cenário educacional e as demandas do mercado de trabalho, bem
como as necessidades de inovação e velocidade da divulgação das informações em saúde.

Resultados
Realizamos uma revisão bibliográfica sobre o tema, buscando identificar os principais
benefícios e desafios das tecnologias digitais na educação profissional em saúde, bem como as
tendências e perspectivas para o futuro. A partir da experiência vivida, concordamos que as
tecnologias digitais podem contribuir para a melhoria da qualidade do ensino profissional em
saúde, proporcionando maior flexibilidade, interatividade, personalização e diversificação das
metodologias de ensino aprendizagem, além de favorecer o desenvolvimento de competências
e habilidades exigidas pelo mercado de trabalho.
No entanto, precisamos acrescentar que observamos na nossa experiência que a
implementação das tecnologias digitais na educação profissional em saúde requer uma série de
cuidados e estratégias, tais como: a adequação da infraestrutura e dos recursos tecnológicos; a
capacitação dos docentes e dos discentes para o uso pedagógico das tecnologias; a elaboração
de currículos e conteúdos alinhados às necessidades e aos interesses dos estudantes; a avaliação
contínua da qualidade e da efetividade das tecnologias; e a promoção de uma cultura de
inovação e de colaboração entre os atores envolvidos no processo educativo. As tecnologias
influenciam o modo de viver da sociedade atual como um todo e de modo específico exerce
suas modificações no contexto escolar, quando integrada no projeto pedagógico (AZEVEDO,
2022).

Aprendizados e Análise crítica


Conclui-se que as tecnologias digitais podem ser aliadas na qualificação do ensino
profissional em saúde, desde que sejam utilizadas de forma crítica, reflexiva e integrada ao
projeto pedagógico da instituição, e que estas precisam estar acessíveis aos diferentes níveis
socioculturais dos futuros profissionais. Cabe citar que neste contexto os benefícios e os
desafios das tecnologias aplicadas tanto na educação em saúde quanto nas suas práticas
assistenciais geram um impacto benéficos tanto na vida dos futuros profissionais da área quanto
na jornada dos pacientes que enxergam otimista as inovações para seus tratamentos. No entanto
tais implementações precisam ser cautelosas e acessíveis a todos os níveis e regiões e não deixar
que o uso da tecnologia influencie de forma negativa os cuidados de saúde, bem como não
substitua o papel do profissional treinado enquanto educador em saúde.

Referências Bibliográficas
AZEVEDO, A. L. P. F. DE. Usos da Tecnologia na Educação: uma revisão bibliográfica.
Revista de Educação da Unina, v. 3, n. 1, 12 maio 2022. Disponível em:
https://doi.org/10.51399/reunina.v3i1.102. Acesso em: 8 out. 2023.
BENEFÍCIOS e desafios das tecnologias em saúde | Podcast Senac SP. 6 jul. 2023. 1 vídeo (65
min 49 s). Publicado pelo canal Senac São Paulo. Disponível em:
https://www.youtube.com/watch?v=HKVRNBDE_XE. Acesso em: 8 out. 2023.

CAVALCANTE, Maria Tereza Leal; VASCONCELLOS, Miguel Murat. Tecnologia de


informação para a educação na saúde: duas revisões e uma proposta. Ciência & Saúde
Coletiva, v. 12, p. 611-622, 2007.

PISSAIA, Luís Felipe et al. Uso da tecnologia como recurso didático no ensino em
enfermagem: percepções dos estudantes. Revista Sustinere, v. 7, n. 2, p. 286-300, 2019.
Relato de Pesquisa

Pandemia da COVID-19 e cloroquina: autoridades, defesas e usos no ano de 2020

Beatriz de Moraes Braga Ferreira 57

Palavras-chave: COVID-19; Cloroquina; Hidroxicloroquina.

Contextualização
A pesquisa tem como tema a defesa de médicos e pesquisadores no uso de
medicamentos para o tratamento da COVID-19 pelo Youtube Brasil, durante o primeiro ano
de 2020. A constante menção ao tratamento envolvendo a CQ e a HCQ no Youtube Brasil,
durante o primeiro ano da pandemia da COVID-19, deve-se não somente pela divulgação
intensa de testes in vitro e aqueles que envolveram humanos, mas igualmente pela grande
capitalização política dessas substâncias que figuras como Donald Trump e Jair Bolsonaro
fizeram durante seus governos e na gestão da crise sanitária.
A terapêutica envolvendo ambas as substâncias ganharam destaque na plataforma
Youtube, com a reprodução da fala desses atores políticos, até se tornar repositório de
informações falsas sobre os tratamentos com medicamentos (RAMOS et al., 2020). As
visualizações dos conteúdos relacionados aos fármacos demonstram o alcance desse
material, de conteúdo duvidoso e controverso para usuários da rede social (CESARINO,
2021). Na plataforma Youtube, há vídeos com divulgação sobre o uso terapêutico da CQ e
HCQ que alcançaram mais de 700 mil visualizações, como verificado por Ramos et al.
(2020).

Objetivos
O trabalho traz como objetivo identificar e contextualizar o papel dos principais
atores, entre cientistas e médicos, envolvidos na produção de narrativas de validação do uso
de CQ e HCQ disponíveis no Youtube Brasil, publicados entre março e julho de 2020.

Metodologia
A coleta de dados contou com a colaboração da equipe do LABHD 58 por meio da
criação de um script na linguagem de programação Python para o download automatizado de
vídeos da plataforma Youtube. Para a extração foram utilizadas Application Programming
Interfaces (APIs) e o software YouTube Data Tools e Python Youtube DL. O Youtube Data
Tools foi desenvolvido pela Methods Iniciative da Universidade de Amsterdã, liderado pelo
professor Bernhard Rieder (HELMOND, s.d.). A API é responsável pelo processo de coletar
as métricas dos vídeos, que são as visualizações, “curtidas” ou “descurtidas” e os comentários
– em suma, todas as informações sobre interações realizadas por usuários que consumiram o
conteúdo.

57
Mestre pelo Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva do Instituto de Medicina Social da Universidade
do Estado do Rio de Janeiro; orientadora- Rosana Castro; [email protected]
58
Laboratório de Humanidades Digitais UFBA.
A escolha dos vídeos para a dissertação se deu por meio de escolha manual. Foram
selecionados manualmente 14 vídeos que médicos e/ou pesquisadores se referindo ao assunto
“cloroquina” e “hidroxicloroquina”, entre os meses de março e julho de 2020. Uma vez com
a base de vídeos, a pesquisa utilizou o aplicativo de análise qualitativa de dados ATLAS.ti
versão 7 para colaborar com a metodologia e a técnica etnográfica aplicada.

Resultados e Discussão
Os médicos e pesquisadores identificados eram profissionais da região Sudeste,
especificamente do estado de São Paulo. Os atores que alcançaram mais exposições foram Nise
Yamaguchi; Roberto Kalil; Paolo Zanotto; Luciana Cruz; Anthony Wong; Marina Bucar;
Dante Senra; Ludhmilla Hajjar; Roberto Zeballos e Pedro Batista Jr., todos com maior
proximidade e alinhamento ao governo da gestão Bolsonaro. Nove dos profissionais são
médicos, mas Paolo Zanotto e Ludhmila Hajjar são professores da Universidade de São Paulo
(USP), além disso, Hajjar também atua como cardiologista no Hospital das Clínicas na cidade
de São Paulo.
Sobre os argumentos e defesas das autoridades, observou-se a insistência na
manutenção do tratamento com CQ e HCQ dois elementos predominantes: críticas a
pesquisas nacionais e internacionais; e deslocamentos na fase e na dose do tratamento e
ideologia política como orientação. Esses recursos foram construídos de forma ágil, sendo
substituídos a cada resposta de cada estudo em relação aos seus efeitos inoperantes para
tratar a COVID-19. Castro (2021) colabora a refletir que, apesar da ausência de comprovação
científica, os fármacos não perderam o vigor como suposta solução para crise sanitária.
verifica-se que há a tentativa de transmitir a sensação de conspiração de médicos,
pesquisadores e governadores contra o governo federal e suas medidas sanitárias. Soma-se
a isso o enquadramento das matérias jornalísticas e a construção argumentativa de médicos
pró-uso. A figura do ex-presidente Bolsonaro e a associação da sua imagem a CQ e HCQ
seria a justificativa, segundo os especialistas, para a não adesão ao tratamento precoce.

Aprendizados e Análise Crítica


As características mais marcantes nas argumentações feitas por defensores desses
medicamentos, no escopo da amostra aqui estudada, giravam, dentre outros fatores, em torno
das supostas falhas na execução das pesquisas; acusações de problemas éticos envolvendo o
registro na CONEP 59; ausência de dados sobre a medicação destinada ao grupo controle das
pesquisas; e, o mais importante: o período de avaliação dos participantes dos estudos clínicos.
Era fundamental, para a maior parte das autoridades entrevistadas, que as pesquisas avaliassem
os medicamentos em pacientes que apresentassem sintomas leves da COVID-19 ou que
estivessem nos primeiros dias de infecção pelo coronavírus. O uso em pacientes graves era um
dos erros apontados pelos médicos e a causa diretamente ligada à ineficácia de ambas as drogas.
A defesa de ambos os medicamentos por meio de argumentos frágeis impulsionou uma
propaganda política de políticos do campo da extrema-direita, fato responsável por instigar
movimentos antivacina em 2021, ano de estreia da campanha de vacinação no país. Essa
movimentação colaborou com o aumento de casos, consequentemente a propagação do vírus,
algo que incluía a dificuldade a adesão a tratamentos comprovados cientificamente.

59
Comissão Nacional de Ética em Pesquisa.
Referências Bibliográficas
BRANDI RAMOS, Thales et al. YouTube as a source of information on chloroquine and
hydroxychloroquine during the COVID-19 pandemic. Journal of Science Communication, v.
19, n. 7, p. A06, 2020.

CASTRO, Rosana. Antropologia dos medicamentos: uma revisão teórico-


metodológica. Revista de Antropologia da UFSCar, v. 4, n. 1, p. 146-175, 2012.

CASTRO, Rosana. Mesmo sem comprovação científica…: políticas de ‘liberação’da


cloroquina. DILEMAS: Revista de Estudos de Conflito e Controle Social, p. 1-12, 2021.

CESARINO, Letícia. Identidade e representação no bolsonarismo. Revista de Antropologia,


v. 62, n. 3, p. 530-557, 2019.

CESARINO, Letícia. Pós-verdade e a crise do sistema de peritos: uma explicação


cibernética. Ilha Revista de Antropologia, v. 23, n. 1, p. 73-96, 2021.
COLETIVO TEMÁTICO:
Interfaces entre ciência, bioética e tecnologia

Contamos com o objetivo de trazer as discussões em relação à gestão da vida através da


ciência, bioética e tecnologias na saúde. Essa iniciativa busca promover o debate sobre várias
interconexões importantes entre ciência, tecnologia, sociedade e poder na área da saúde.
Abordando desde a produção de conhecimento em laboratórios até os impactos sociais e éticos
das tecnologias na saúde, o coletivo foca nas diversas facetas das transformações
contemporâneas nesse campo. A discussão se pautou a partir de trabalhos que abordaram temas
como a produção e a disseminação da interseção de ciência e tecnologia em redes
interdisciplinares de saberes; validação de escalas; novas formas de regulação e uso da ciência
e tecnologia; a biomedicalização e a produção de biossociabilidades e as interfaces entre
diferenças sociais e tecnologias; estudos de diferentes epistemologias tendo a vida como objeto,
desde conexões entre instituições de pesquisa, política e indústrias até a produção do
conhecimento científico traduzindo-se em inovações tecnológicas. Estivemos interessados em
pensar como as transformações nas regulações e intervenções dos enquadramentos científicos,
éticos e tecnológicos emergem no cotidiano dos sujeitos, moldando as compreensões sobre
saúde-doença e bem-estar e produzindo biossociabilidades. Buscamos também refletir sobre os
cruzamentos entre os marcadores sociais da diferença, como gênero, raça, classe, orientação
sexual e o desenvolvimento e uso de novas tecnologias. Isso pode envolver investigações sobre
como as tecnologias podem reforçar ou mitigar desigualdades existentes na sociedade.
Relato de Pesquisa

Avaliação do padrão de atividade física por acelerômetro em crianças com


obesidade e seus responsáveis: um relato de pesquisa de um ensaio clínico

Magno Conceição Garcia 60


Vitor Barreto Paravidino 61
e Rosely Sichieri 62

Palavras-chave: Sobrepeso; Exercício Físico; Comportamento Sedentário; Acelerometria;


Família.

Contextualização
A obesidade infantil tem se tornado uma importante questão em saúde pública ao redor
do mundo, atingindo níveis cada vez mais alarmantes e preocupantes (EK et al, 2023). Nos
Estados Unidos, cerca de 15% das crianças apresentam obesidade, na Europa esse número varia
entre 3,5% a 7,3%, enquanto no Brasil a prevalência é de 12,2%, sendo 12,3% meninos e 10,8%
em meninas (SANTOS et al., 2023, GARRIDO-MIGUEL et al., 2019). Mesmo que a maior
parte das comorbidades relacionadas à obesidade apareçam na fase jovem adulta, a trajetória
da obesidade que começa na infância associa-se a diversos efeitos negativos na saúde mental e
física (JUONALA et al., 2011). Nesse sentido, algumas evidências indicam que os programas
de intervenção combinado, aqueles que são pensados para mudar o estilo de vida de crianças
que englobem a família, são mais eficazes (STARK et al., 2018).
A prática de atividade física tem sido associada a diversos benefícios em saúde, e se
mostra um importante fator para controle de peso (POITRAS et al., 2016). Contudo, a prática
de atividade física vem diminuindo nos últimos anos e muitas crianças acabam não atendendo
às recomendações (POITRAS et al., 2016). A literatura tem mostrado que o padrão de atividade
física é algo que se repete, e o padrão de AF infantil é frequentemente transitório e de alta
intensidade, ou seja, existe um alto nível de transição de intensidade e duração do exercício,
que influencia diretamente no gasto calórico (GOMES et al, 2020). Contudo, aparentemente
ainda não existe um consenso sobre a conceituação de padrão de atividade física. As maneiras
pelas quais as repetições são descritas, medidas, compreendidas e analisadas apresentam
métodos distintos (GOMES et al, 2020).
Acelerômetros são dispositivos que capturam e registram padrões de movimento e não
movimento, que diferem acentuadamente entre o sono e a vigília (KLAMM et al., 2022). A
avaliação objetiva da atividade física a partir de acelerômetro possibilita testar padrões mais
detalhados de atividade pois são mais informativos que medidas tradicionais de atividade total

60
Doutorando pelo Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva do Instituto de Medicina Social da
Universidade do Estado do Rio de Janeiro; orientadora: Rosely Sichieri; [email protected]
61
Escola Naval/ Marinha do Brasil, Departamento de Educação Física e esportes – Rio de Janeiro (RJ), Brasil.
62
Universidade do Rio de Janeiro, Instituto de Medicina Social Hésio Cordeiro, Departamento de Epidemiologia
– Rio de Janeiro (RJ), Brasil.
(KLAMM et al., 2022). Ainda há grande variabilidade não esclarecidos em relação a perda de
peso em crianças com excesso de peso submetidas a sessões de atividade física e os fatores
associados a essa variabilidade (KLAMM et al., 2022; GOMES et al, 2020). O desenvolvimento
de métricas mais sensíveis e detalhadas, sobre a atividade física diária, pode permitir esclarecer
melhor os padrões de atividade física de crianças com obesidade e seus familiares. Isso porque
torna-se possível investigar padrões de atividade mais detalhados e obter informações sobre as
características e trajetórias da atividade física diária (TROIANO et al., 2014;).
Visto que o ambiente que a criança está inserida, o padrão de alimentação adotado, o
tempo de sono e atividade física, e alguns outros fatores são ligados ao estilo de vida adotados
pela família, espera-se que a adoção de uma intervenção combinada e com uso de novas
tecnologias seja mais efetiva. Consequentemente, uma forma de avaliação de atividade física
mais tecnológica pode colaborar para o entendimento de padrões de exercício diário
(TROIANO et al., 2014; GOMES et al, 2020; SANTOS et al., 2023;).

Objetivos
Trata-se de uma proposta de intervenção de múltiplas abordagens familiares para
redução da taxa de ganho de peso de crianças. Apesar de ser uma intervenção combinada, o
objetivo do presente relato de pesquisa é descrever a elaboração do braço da intervenção em
atividade física e sua avaliação, pautado em novas tecnologias para mensuração desta variável.

Metodologia
Trata-se de um ensaio clínico fatorial randomizado para tratamento da obesidade em
crianças de 7 a 12 anos. As crianças e um de seus responsáveis foram randomizados para
intervenção com orientação quanto à dieta baseada no PHD (Planetary Healthy Diet), na
redução do tamanho da porção e programa de exercícios físicos ou sem controle de intervenção
com orientação geral de alimentação saudável por um período de três meses. As orientações
foram direcionadas a todos os familiares.
O recrutamento dos participantes se deu por meio de divulgação do projeto em escolas
localizadas na cidade do Rio de Janeiro, banner e rádio da Universidade do Estado do Rio de
Janeiro (UERJ) e mídias sociais. Após selecionados, os participantes foram agendados para a
primeira consulta presencial onde receberam informações sobre o projeto e assinarão o Termo
de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE). Foram incluídas famílias com pelo menos uma
criança de 7 a 12 anos com sobrepeso ou obesidade (escore Z 1,5) e que fizessem pelo menos
1 refeição por dia em casa.
O critério de exclusão foi baseado na pré-existência de doenças genéticas associadas à
obesidade (deficiência congênita de leptina, síndrome de Down, síndrome de Prader-Willi) ou
distúrbio endócrino (hipotireoidismo, síndrome de Cushing), bem como crianças com alguma
deficiência que impeça a realização medidas antropométrica. Também foram excluídos
pacientes em uso de medicamentos para emagrecer e, por fim, famílias que tenham pelo menos
um membro que apresente alergia ou alguma outra restrição a algum ingrediente do sal
hipossódico de ervas.
O tamanho amostral de 48 duplas (criança e um responsável) por grupo foi calculado a
partir de um desvio padrão para o IMC igual a 3,0 e uma diferença esperada de 1,72 unidades
de IMC da criança entre os grupos. Considerando um poder estatístico de 80% e nível de
significância de 5%. Este tamanho de amostra de 96 pares, 192 indivíduos mais uma desistência
esperada de 10% dos participantes perfaz uma amostra final de 1.086 pares (543 pares em cada
grupo).
A intervenção ocorreu por meio de consultas presenciais em sala reservada no instituto
de pesquisa da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, por uma equipe de nutricionistas e
professores de educação física. Além disso, a intervenção para prática de atividade física foi
enviada por mensagem e serão mais descritas a seguir.
A intervenção em atividade física é baseada na Teoria Cognitiva Comportamental
proposta por Bandura (2008), em que as crianças são agentes do próprio comportamento, mas
influenciadas por fatores pessoais e pelo ambiente familiar, que neste caso vem a ser impactado
pela intervenção, gerando mudanças comportamentais. Além disso, todo conteúdo prático das
atividades do programa de intervenção da atividade física foi pautado no Guia de Atividade
Física para a população Brasileira (SILVA et al., 2021). A intervenção é composta pela entrega
de um kit de materiais (corda e bola), uma cartilha de recomendação para incentivo da atividade
física proposto pelo ministério de saúde brasileiro, um conjunto de mensagens motivacionais
com vídeos e uma lista de metas para diminuir o tempo sedentário e aumentar a atividade física.
Ambos os grupos (controle e intervenção) receberam uma cartilha com recomendações
gerais de atividade física, baseada no Guia de Atividade Física para a população Brasileira
(SILVA et al., 2021). O programa de intervenção de exercícios físicos proposto às famílias é
constituído de 26 mensagens motivacionais, enviadas durante 13 semanas consecutivas, onde a
cada semana duas dessas mensagens foram enviadas para as famílias pelo aplicativo de
mensagens WhatsApp. Cada mensagem foi composta por um vídeo de coreografia de dança e
mais dois ou três links de aula de ginástica disponíveis no YouTube. Em média, a soma do
tempo dos vídeos é de 45 minutos. Ambas as atividades podem ser caracterizadas como
atividades com moderado a alto gasto energético. Foi reforçado, tanto durante as consultas,
quanto nas mensagens, que o responsável e a criança devam fazer o máximo de atividade
possíveis.
Uma lista composta por 26 metas foi proposta para o grupo intervenção com o objetivo
substituir o tempo utilizando um equipamento eletrônico pelo tempo em atividade física. A
cada semana os indivíduos tiveram duas novas metas para serem cumpridas, uma que incentiva
a prática de atividade física e outra que visa diminuir o tempo sedentário, e o comprimento das
metas está sujeito ao ganho de recompensa.
A avaliação da atividade física entre os adultos se deu a partir do preenchimento do
Ipaq-curto, já as crianças responderam o Ipaq-c e ambos utilizaram o acelerômetro por sete dias
em dois momentos (linha de base e fim da intervenção). Foi entregue uma cartilha com
informações sobre acelerômetro e contato dos pesquisadores. Ao todo, as famílias foram seis
vezes a Uerj para encontros rotineiros, e em dois desses encontros elas sairão já com o
acelerômetro (primeiro e quinto). O retorno para o segundo encontro marca o início da
intervenção, assim como a saída do quinto encontro com o equipamento marca o fim da
intervenção. Já na volta na sexta da consulta os indivíduos responderam os últimos
questionários sobre aderência, entregam os diários e o quadro de metas.

Resultados e Discussão
A elaboração das intervenções em atividade física se deu ativamente, visando
incorporaram as diretrizes do Guia de Atividade Física para a População Brasileira. Preparamos
orientações claras sobre a quantidade e a intensidade de atividade física adequada para crianças
além de material didático ilustrativo. Também foram desenvolvidas estratégias motivacionais,
na forma de desafios e premiações para aumentar o engajamento das crianças e suas famílias
na promoção de um estilo de vida mais ativo. O trabalho com a avaliação da atividade física a
partir de medida objetiva foi desafiador. A logística de alocação dos equipamentos e consultas
dos pacientes, por vezes, apresentou limitações. Isso porque a quantidade de equipamentos
necessários era maior do que o número de equipamentos disponíveis. O que tornou um processo
de avaliação muito minucioso.
As fases da avaliação da atividade física consistiram em: aplicação do questionário de
atividade durante a consulta e programação do equipamento, após o preenchimento, era
explicado como o equipamento era usado e as recomendações. Depois dessa etapa, as crianças
saiam da consulta usando os equipamentos, e passavam sete dias com este no punho não
dominante, depois disso os responsáveis utilizavam o aparelho. Na consulta seguinte o
equipamento era devolvido. Após devolvido, os dados eram baixados segundo algumas
informações pessoas dos indivíduos, como sexo, idade, peso, altura, entre outras. Após
baixados, os equipamentos eram carregados e programados novamente para que outra família
pudesse utilizar.
Embora os resultados estatísticos não serem abordados no presente relato, acredita-se
que o trabalho com este equipamento nesta intervenção pôde colaborar para o conhecimento
técnico, metodológico e conceitual sobre avaliação de atividade física utilizando novas
tecnologias. Ademais, a parte de processamento dos dados e criação dos bancos de dados está
em curso e tem colaborado de forma ímpar na formação acadêmica do pesquisador.

Aprendizados e Análise Crítica


Em resumo, a estruturação de um braço de intervenção em um ensaio clínico fatorial
randomizado para tratamento da obesidade em crianças que englobasse o ambiente familiar foi
uma parte essencial na formação acadêmica do pesquisador relator. Tal experiência também
pode colaborar para o avanço da investigação da relação entre padrão de atividade física e
obesidade, visto que métricas de atividade baseadas em dados de acelerometria são cada vez
mais populares e úteis no campo de pesquisa da saúde coletiva. Com isso, a utilização de novas
tecnologias, tanto para intervenção quanto para avaliação, deveria ser cada vez mais adotada,
visando o maior índice de aceitabilidade e adesão aos ensaios.

Referências Bibliográficas
BANDURA, Albert et al. A evolução da teoria social cognitiva. Teoria social cognitiva:
Conceitos básicos, p. 15-41, 2008.

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randomized controlled trial. International Journal of Obesity, p. 1-9, 2023.

GARRIDO-MIGUEL, Miriam et al. Prevalence and trends of overweight and obesity in


European children from 1999 to 2016: a systematic review and meta-analysis. JAMA
pediatrics, v. 173, n. 10, p. e192430-e192430, 2019.

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concept, operational definitions, instruments, statistical analyses, and health implications.
International journal of environmental research and public health, v. 17, n. 16, p. 5837,
2020.
JUONALA, Markus et al. Childhood adiposity, adult adiposity, and cardiovascular risk factors.
New England Journal of medicine, v. 365, n. 20, p. 1876-1885, 2011.

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measured physical activity and health indicators in school-aged children and youth. Applied
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SANTOS, Fabrício De Paula et al. Prevalence of childhood obesity in Brazil: a systematic


review. Journal of Tropical Pediatrics, v. 69, n. 2, p. fmad017, 2023.

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brasileira. Revista Brasileira de Atividade Física & Saúde, v. 26, p. 1-18, 2021.

STARK, Lori J. et al. Clinic and home-based behavioral intervention for obesity in
preschoolers: a randomized trial. The Journal of pediatrics, v. 192, p. 115-121. e1, 2018.

TROIANO, Richard P. et al. Evolution of accelerometer methods for physical activity research.
British journal of sports medicine, v. 48, n. 13, p. 1019-1023, 2014.
Relato de Pesquisa

A vida social dos medicamentos genéricos

João Balieiro Bardy 63

Palavras-chave: Medicamentos; Medicamentos genéricos; Circuitos culturais; cultura


material; Biossocialidades.

Contextualização
A regulamentação dos medicamentos genéricos no Brasil tornou-se uma realidade com
a promulgação da Lei 9787 de 1999. Desde então, os medicamentos genéricos passaram a ser
um dos principais recursos para os brasileiros no cuidado com a saúde. Ao mesmo tempo, uma
indústria farmacêutica nacional foi estabelecida e desenvolvida com a ajuda de programas de
crédito e financiamento criados em conjunto com essa lei. Os medicamentos genéricos no
Brasil devem, por lei, ser 35% mais baratos que os medicamentos de referência, mas não é raro
que os descontos cheguem a 70%. Por conta de sua acessibilidade e proliferação - em grande
parte devido à criação de um sistema público de saúde (SUS) -, os genéricos representaram
40,9% de todos os medicamentos vendidos no Brasil - em embalagens - em 2022 e 15,1% do
faturamento do setor farmacêutico brasileiro no mesmo ano (SCMED, 2023). Hoje, os
genéricos se estabeleceram como um mercado de commodities por si só e produzem um circuito
distinto das demais classes de medicamentos.

Objetivos
Mapear o circuito dos medicamentos genéricos no Brasil e os diferentes atores e saberes
que esse circuito atravessa. Compreender o medicamento genérico não apenas como um objeto
da ciência com propriedades naturais, mas também como um objeto popular com propriedades
culturais que contribui na consolidação de um modelo ontológico de corpo e epistemológico
de saúde no contexto apresentado.

Metodologia
O presente relato de pesquisa se baseou na perseguição do medicamento genérico
através dos circuitos que ele produz, incluindo produção, distribuição e consumo para melhor
compreender as dinâmicas de saúde no sul global. O material etnográfico apresentado neste
relato é fruto da primeira metade de meu doutorado. Nesse período realizei entrevistas com
profissionais da indústria farmacêutica, participei de eventos científicos, fiz visitas a farmácias
junto de representantes comerciais e realizei 3 meses de imersão dentro de uma das 10 maiores
empresas nacionais do setor. Ao seguir o medicamento genérico nos diferentes espaços que ele
aparece e é produzido me deparei com um objeto que constantemente se desdobra ou foge para
outros contextos em que ele ganha novos contornos a partir de intrincadas políticas de valor

63
Doutorando pelo programa de Pós-Graduação em Sociologia e Antropologia da Universidade Federal do Rio de
Janeiro; Rodrigo Toniol, Professor adjunto do Departamento de Antropologia Cultural da Universidade Federal
do Rio de Janeiro, professor permanente do Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Antropologia da UFRJ
e professor colaborador do Programa de Pós-Graduação em Antropologia da Unicamp; [email protected]
(APPADURAI, 1996). Através destas conversas e espaços acabei por entrar em um vasto
circuito que articula Estado, iniciativa privada e população.
O exercício não é inédito na antropologia. Trabalhos que seguem os queijos da canastra
(DUPIN, 2019) ou os cogumelos matsutake (TSING, 2015), a economia do açúcar (MINTZ,
1986), chinelas havaianas (KNOWLES, 2014), flores (HUGHES 2004), bananas
(RAYNOLDS, 2007) e tomates (BARNDT, 2008) produzem um conjunto de bibliografias
robustas que delimitam um campo metodológico, um modo de fazer etnografia “seguindo as
coisas”.

Resultados e Discussão
O presente relato de pesquisa apresenta como o circuito dos medicamentos genéricos é
construído no Brasil e pensa os possíveis caminhos pelos quais suas estruturas mercadológicas,
legais e socioculturais compõem a construção de biossocialidades e modelos ontológicos do
corpo. Os medicamentos se apresentam para nós, por conta de suas propriedades e nosso
entendimento sobre eles, como objetos “naturais”. Afinal, eles são ainda objetos materiais e
concretos e possuem na farmacologia o lastro de uma ciência natural que sustenta seu valor
(WHITE; VAN DER GEEST, 1988). Esse entendimento faz com que, além de existirem
permanentemente enquadrados em entendimentos e práticas sociais e culturais particulares, os
medicamentos são objetos que são ativamente mobilizados para a construção de ideias sobre
corpo, saúde e identidades. Eles se tornaram uma escala para medir sofrimento subjetivo
(PIGNARRE, 2012) e dor física (SHERMAN, 2017), são objetos de reclamação política
(BIEHL & PETRYNA, 2016; CASTRO, 2018; AURELIANO & GIBBON, 2020) e articulam
grupos sociais e identidades biológicas (PETRYNA, 2013; ROSE, 2013).
Tal como sugerido por Nikolas Rose e outros (CLARKE ET AL. 2003, NOVAS E
ROSE 2000), emergem em contextos contemporâneos sociedades psicofarmacológicas nas
quais as formas pelas quais os indivíduos percebem a si próprios e aos outros passam a
mobilizar aspectos biológicos e psicológicos em detrimento de culturais e sociológicos. Novas
e Rose sugerem a emergência de “indivíduos somáticos” neste contexto (NOVAS E ROSE,
2000).
Estes indivíduos somáticos, contudo, não são desenhados como sujeitos passivos
manipulados pelas companhias de seguros e pela indústria farmacêutica ou mesmo por um
determinismo bioquímico ou uma tautologia genética. Pelo contrário, emergem como cidadãos
ativos que empregam estrategicamente a sua compreensão da biologia e da farmacologia para
fazer valer exigências políticas. A exploração de Petryna no caso de Chernobyl (2003) sublinha
a natureza multifacetada da cidadania biológica nas sociedades psicofarmacológicas,
englobando dimensões individuais e coletivas (RABINOW 1992, ROSE E NOVAS 2005). À
medida que mergulhamos neste território, torna-se evidente que a emergência de novas
categorias relacionadas com a vulnerabilidade corporal, o sofrimento somático e o risco
genético servem de catalisador para a formação de “biossocialidades”. Nas últimas décadas,
estas biossocialidades ganharam proeminência, com algumas a desempenharem mesmo papéis
fundamentais na formação dos mercados farmacêuticos (SHERMAN 2015).

Aprendizados e Análise Crítica


Os medicamentos genéricos no Brasil ampliaram o acesso à saúde da população, mas não só.
Paralelo a este processo, podemos observar a emergência e construção de novas práticas sociais
de demanda e acesso à saúde assim como a consolidação de um novo paradigma em relação à
saúde e ao corpo que progressivamente se reduz a processos químicos e biológicos pautando
um modelo epistemológico de saúde pública no contexto brasileiro.
Referências Bibliográficas
APPADURAI, Arjun. Commodities and the politics of value. In: PEARCE, Susan M. (Ed.).
Interpreting objects and collections. London: Routledge, 2012. p. 76-91.

AURELIANO, Waleska; GIBBON, Sahra. Judicialisation and the politics of rare disease in
Brazil: Rethinking activism and inequalities. In: SANTOS, Paulo G.; CARNEIRO, Ricardo
(Eds.). Critical Medical Anthropology: Perspectives in and from Latin America. New
York: Routledge, 2020. p. 248-269.

BARNDT, Deborah. Tangled Routes: Women, Work, and Globalization on the Tomato
Trail. New York: Rowman & Littlefield, 2008.

BIEHL, João; PETRYNA, Adriana. Tratamentos jurídicos: os mercados terapêuticos e a


judicialização do direito à saúde. História, Ciências, Saúde-Manguinhos, v. 23, p. 173-192,
2016.

CLARKE, A. E.; MAMO, Laura; FOSKET, Jennifer R.; FISHMAN, Jennifer R.; SHIM, Janet
K. Biomedicalization: technoscientific transformations of health, illness, and US Biomedicine.
American Sociological Review, v. 68, p. 161-194, 2003.

DUPIN, Leonardo Vilaça. A vida dos queijos mineiros: uma etnografia multiespécie.
Dissertação (Mestrado em Antropologia) – Universidade de Brasília, Brasília, 2019.

HUGHES, Alex. Retailers, knowledges and changing commodity networks: The case of the
cut flower trade. In: DUANE, Alison; THRIFT, Nigel (Eds.). The Blackwell Cultural
Economy Reader. Malden: Blackwell, 2004. p. 210-230.

KNOWLES, Caroline. Flip-flop: A journey through globalization's backroads. London:


Pluto Press, 2014.

KOPYTOFF, Igor. The cultural biography of things: commoditization as process. In:


APPADURAI, Arjun (Ed.). The social life of things: Commodities in cultural perspective.
Cambridge: Cambridge University Press, 1986. p. 68-94.

MINTZ, Sidney W. Sweetness and power: The place of sugar in modern history. New York:
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PIGNARRE, Philippe. A Revolução dos antidepressivos e da medida. Revista de


Antropologia da UFSCar, v. 4, n. 1, p. 140-145, 2012.

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XXI. São Paulo: Paulus, 2013.

ROSE, Nikolas; NOVAS, Carlos. Biological citizenship. In: ONG, Aihwa; COLLIER, Stephen
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SECRETARIA EXECUTIVA DA CÂMARA DE REGULAÇÃO DO MERCADO DE


MEDICAMENTOS (SCMED). Anuário Estatístico do Mercado Farmacêutico (2022).
Brasília: SCMED, 2023.

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economias políticas da doença e da saúde na experimentação farmacêutica. 2019.

TSING, Anna Lowenhaupt. The mushroom at the end of the world: On the possibility of
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In: The context of medicines in developing countries: Studies in pharmaceutical
anthropology. Dordrecht: Springer Netherlands, 1988. p. 3-11.
Relato de Pesquisa

Cooperação acadêmica brasileira e a construção da ciência: entre o Sul e o Norte

José Arnon Silva Santos 64


e Paulo Henrique Almeida Rodrigues 65

Palavras-chave: Educação Superior; Cooperação Internacional; Teoria das Relações


Internacionais; Ordem Internacional; Sul Global; Norte Global.

Contextualização
O conhecimento é um tema importante para explicar a distribuição global do poder ao
relacionar-se à dominação intelectual, que justifica como verdade formas particulares de ver e
conceber as coisas, especialmente na dinâmica das relações ‘Norte-Sul’, representada pela ideia
hegemônica de “Ocidentalcentrismo” e sua ciência (SMITH, 2009; DADOS; CONNELL,
2012; ACHARYA, 2014).
Este estudo pretendeu analisar o número de acordos estabelecidos através da
‘cooperação Sul-Sul’ e da ‘cooperação Norte-Sul’ de 2003 a 2021 em três universidades
públicas brasileiras: UERJ, UFRJ e UFF. Este objeto de pesquisa foi escolhido para discutir
como o conhecimento pode ajudar-nos a compreender a política mundial, refletindo o centro e
a periferia nas relações internacionais e moldando os significados que frequentemente
utilizamos para identificar as concepções de ‘Sul global’ e ‘Norte global’.

Objetivos
● Identificar e analisar a relevância da cooperação Sul-Sul nas universidades selecionadas;
● Discutir criticamente a relação do conhecimento com o poder e a construção de ‘Norte’
e ‘Sul’.

Metodologia
Este estudo utilizou uma abordagem quantitativa na análise de dados. Números gerais
de acordos, olhar tabelas I, II, III e IV.
Agrupamos os países de acordo com as categorias políticas de ‘Sul global’ e ‘Norte
global’, a partir dos seguintes critérios e seus respectivos pesos:
● Grupo de renda, segundo o Banco Mundial: renda alta, renda média alta, renda média
baixa, renda baixa; e Produto Interno Bruto (per capita) com base na paridade do poder
de compra – PIB per capita, PPC ($ internacional constante de 2017), calculado como
uma proporção (divisão do mais alto – Singapura = 106.032 dólares), o ano de referência
foi 2021 - Peso 4.
● Índice de Complexidade Econômica (ICE) do Atlas de Complexidade Econômica - Peso
3.

64
Doutorando pelo Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva do Instituto de Medicina Social da
Universidade do Estado do Rio de Janeiro; orientador: Ricardo Steffen; [email protected]
65
Docente no Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva do Instituto de Medicina Social da Universidade do
Estado do Rio de Janeiro; [email protected]
● Índice de Desenvolvimento Humano, Relatório de Desenvolvimento Humano (PNUD
2020) - Peso 3.
Os resultados da categorização estão disponíveis nas tabelas V (Sul Global) e VI (Norte
Global).
A inclusão da Romênia, Estônia, Bulgária, Letônia e Lituânia no ‘Sul global’ seguiu a
classificação proposta por Mark Blyth, em Austeridade: a história de uma ideia perigosa
(2013), e incluímos a Ucrânia, usando a variável REBLL+U para representá-los. Na categoria
‘Norte global’ foram incluídos os Tigres Asiáticos (Cingapura, Coreia do Sul e Taiwan) + I +
J (Israel e Japão), além de Austrália e Nova Zelândia, da Oceania. Não incluímos Hong Kong
nos Tigres Asiáticos por causa da Declaração Conjunta Sino-Britânica (1984), um tratado de
devolução de Hong Kong à China.
Destacamos as seguintes fórmulas para o cálculo das tabelas I, II, III e IV 66:
….. (V presente - V passado)
TP = X 100
V passado
Onde:
TP = Taxa Percentual
VPresente = Valor Presente ou Futuro
VPassado = Valor Passado ou Presente
Para calcular a variação percentual entre períodos:
Valor Presente
Variação percentual entre períodos = X 100 Valor Passado

Resultados e Discussão
Considerando todos os acordos (2.283), os dados mostram uma intensificação das
parcerias com o ‘Sul global’, que atingiu 593 (26%) acordos e uma variação percentual de um
período para outro de 330,4%. Os países BRICS obtiveram 111 (4,9%) acordos e a maior
variação percentual de um período para outro (1.650%). Com 1.690 acordos (74%), o ‘Norte
global’ consolidou-se como o maior parceiro na cooperação internacional destas instituições,
alcançando a maior variação percentual de um período para outro (338,1%).
Ainda que nossa bibliografia tenha reforçado as mudanças nas conjunturas
internacionais, que podem interferir na distribuição global do poder, países europeus, do ‘Norte
global’, mantiveram o maior número de acordos, o que ajuda a reforçar a sua presença no
exterior como centros de conhecimento científico e a sua estrutura de domínio intelectual,
especificamente a Europa Ocidental.

Aprendizados e Análise Crítica


Existem algumas dificuldades em estabelecer uma política nacional de longo prazo para
fortalecer a expansão internacional do ensino superior no Brasil. Variações no número de
acordos entre os períodos indicam maior ou menor investimento na internacionalização da
ciência. Esse dado torna-se mais visível durante a mudança de presidentes, evidenciando uma
influência dos ideais governamentais no apoio à educação universitária. Ainda é necessário

66
Bob Parker, “Planning Analysis: calculating Growth Rates.” Disponível em
https://pages.uoregon.edu/rgp/PPPM613/class8a.htm.
incentivar a utilização de instituições de ensino e pesquisa como fontes de poder, essenciais
para o desenvolvimento do país.
Embora a ‘cooperação Sul-Sul’ seja uma fonte importante para o desenvolvimento da
ciência brasileira na categoria de parceria internacional, a ‘cooperação Norte-Sul’ estabeleceu-
se como o parceiro mais forte. O ‘Sul Global’ precisa lembrar-se que a sua “geografia é a
geografia da injustiça e da opressão” (SOUSA SANTOS, 2016, p. 4), e que o conhecimento
compartilhado não pode ser roubado.

Referências Bibliográficas
ACHARYA, Amitav. Global international relations (IR) and regional worlds: A new agenda
for international studies. International studies quarterly, v. 58, n. 4, p. 647-659, 2014.

BLYTH, Mark. Austerity: The history of a dangerous idea. Oxford University Press, 2013.

DADOS, Nour; CONNELL, Raewyn. The global south. Contexts, v. 11, n. 1, p. 12-13, 2012.

DE SOUSA SANTOS, Boaventura. Epistemologies of the South: Justice against


epistemicide. Routledge, 2015.
PARKER, B. “Planning Analysis: calculating Growth Rates.” Disponível em
https://pages.uoregon.edu/rgp/PPPM613/class8a.htm.

HARVARD UNIVERSITY. Country & Product Complexity Rankings. Economic Complexity


Index. Disponível em: https://atlas.cid.harvard.edu/rankings.

SMITH, Karen. Has Africa got anything to say? African contributions to the theoretical
development of international relations. The Round Table, v. 98, n. 402, p. 269-284, 2009.

UNITED NATIONS DEVELOPMENT PROGRAMME (UNDP). Latest Human Development


Index Ranking. Disponível em: https://hdr.undp.org/en/content/latest-human-development-
index-ranking
WORLD BANK. GDP per capita, PPP (constant 2017 international $). Disponível em:
https://data.worldbank.org/indicator/NY.GDP.PCAP.PP.KD. Acesso em: 01 abr. 2022.
Relato de Pesquisa

Determinantes tecnológicos da saúde: uma proposta para a relação saúde-


tecnologia no contexto da COVID-19

Virgilio Magalde de Azevedo 67

Palavras-chave: Tecnologia; Saúde; Determinantes da Saúde.

Contextualização
No mundo atual, as tecnologias desempenham um papel central em nossa vida
cotidiana, influenciando uma ampla gama de aspectos, incluindo a saúde. A pandemia da
COVID-19, que impactou o planeta no século XXI, ressaltou a importância l das tecnologias
no campo da saúde. Dispositivos, como ventiladores mecânicos, equipamentos de proteção
individual, testes de diagnóstico molecular e monitores de pacientes, entre outros,
demonstraram seu papel vital na gestão da pandemia e na proteção das comunidades. Nesse
contexto, o Brasil, como muitos outros países, viu-se cada vez mais dependente de soluções
tecnológicas para enfrentar os desafios de uma crise de saúde pública sem precedentes.
Neste cenário de rápida transformação e inovação tecnológica, torna-se evidente que a
tecnologia se tornou entrelaçada com a saúde, tanto moldando quanto sendo moldada por ela.
Segundo Latour (1994) e Lemos (2015), não há humano sem tecnologia, sem um instrumento,
por mais primário que seja, pois somos animais sociotécnicos. Dessa forma, a história das
técnicas também é a história das sociedades, da política, do trabalho, da produção e do humano.
As técnicas não são somente técnicas, elas desencadeiam circunstâncias sociais, culturais e
políticas — ora possibilitando determinadas melhorias; ora dificultando; ora, ainda,
impossibilitando.

Objetivos
Essa pesquisa tem como objetivo propor uma visão de determinantes tecnológicos da
saúde como uma forma paralela e complementar aos determinantes sociais e, ao mesmo tempo
busca explorar a relação das tecnologias com a saúde, especialmente durante a pandemia da
COVID-19 e discutir como essas dependências estão moldando a saúde coletiva e individual.

Metodologia
Através da análise crítica dos fatores tecnológicos que influenciam a saúde, este estudo
busca contribuir para uma compreensão mais aprofundada das interações entre tecnologia e
saúde em nosso contexto contemporâneo. Esse trabalho utiliza a teoria ator-rede, de Bruno
Latour, como uma perspectiva para entender a relação entre tecnologia e saúde. A teoria ator-
rede auxilia no entendimento de como as tecnologias de saúde não são apenas instrumentos
passivos, mas atores ativos nas redes complexas que influenciam a saúde da população.

67
Doutorando pelo Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Estadual do Rio de Janeiro
(PPGCOM/UERJ); orientador: Dr. Erick Felinto; [email protected]
Resultados e Discussão
O corpo-tecnologia é constituído-mediado pelas técnicas e essas influenciam, moldam
e constroem possibilidades de saúde. Abordando de outra forma, a saúde é o que faz
experienciar e expressar o humano-tecnologia, sendo uma potência simbiótica que contempla
o risco, processos e experiências dessa composição orgânico-maquínica. É a partir dela também
que esse humano pode produzir e esquematizar novos arranjos e próteses. Na sequência, saúde
é interação, por isso, é afetada por artifícios, artefatos, instrumentos e técnicas.
Durante a pandemia da COVID-19, ficou evidente os desafios que surgiram à medida
que o Brasil, juntamente com o restante do mundo, procurava e incorporava tecnologias para
enfrentar essa crise de saúde. A escassez de suprimentos essenciais de proteção, como luvas e
máscaras, bem como a falta de equipamentos vitais, como ventiladores pulmonares e
dispositivos de monitoramento, destacou a interconexão entre tecnologia e saúde. Cada um
desses dispositivos desempenha um papel determinante no estado de saúde de indivíduos e
comunidades.
O conceito de “Determinantes Tecnológicos da Saúde” refere-se aos fatores
relacionados à tecnologia que têm um impacto direto na saúde de pessoas e comunidades. Ele
é uma extensão do conceito de “Determinantes Sociais da Saúde”, que reconhece a influência
crucial de fatores sociais, econômicos e ambientais na determinação do estado de saúde de uma
população. Os “Determinantes Tecnológicos da Saúde” reconhecem a crescente importância
das tecnologias, como dispositivos médicos, vacinas, testes e exames, aplicativos de saúde,
telemedicina, inteligência artificial, dispositivos e sistemas de informação em saúde, na
promoção, prevenção, diagnóstico, tratamento e monitoramento da saúde.

Aprendizados e Análise Crítica


No contexto da pandemia da COVID-19, o conceito de “Determinantes Tecnológicos
da Saúde” emerge como uma perspectiva essencial para compreender a influência das
tecnologias na saúde tanto em nível coletivo como individual. As tecnologias não se limitam a
ser simples instrumentos que aprimoram a eficiência da saúde ou dos sistemas de saúde, mas
são fatores decisivos que modelam o acesso aos cuidados, os tratamentos e as experiências da
população.

Referências Bibliográficas
LATOUR, Bruno. Jamais fomos modernos: ensaio de antropologia simétrica. Rio de
Janeiro: Ed. 34 Letras, 1994.
________. Reagregando o social. Salvador: EDUFBA, 2012; Bauru. São Paulo: EDUSC, 2012.

LEMOS, André. A crítica da crítica essencialista da cibercultura. Matrizes, v. 9, n. 1, p. 29-


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DOS REIS, Ademar Arthur Chioro. Saúde, terapias integrativas e espiritualidade: uma visão
ampliada da medicina e do cuidado integral à saúde. Religião, Saúde e Terapias integrativas,
p. 11.
Relato de Pesquisa

Normatização e controle: uma investigação do discurso do Conselho Federal de


Medicina sobre o corpo da mulher

Carolina Aita Flores 68

Palavras-chave: discurso normativo; Conselho Federal de Medicina (CFM); saúde


reprodutiva; análise de discurso; políticas de saúde.

Contextualização
A presente pesquisa se refere à construção do projeto de tese que trata do discurso
normativo do Conselho Federal de Medicina (CFM) sobre o corpo da mulher e está inserida na
área de Estudos de Gênero e Saúde. O discurso produzido pelo CFM é relevante, pois tem o
poder de gerir a prática médica ao estipular as condutas a serem seguidas pelos profissionais da
área. Meu interesse é pesquisar a medicalização do corpo feminino materializada nas produções
discursivas oficiais do Conselho Federal de Medicina.
Dias, Lima e Teixeira (2022) alertam para a existência de lacunas na literatura científica
quanto ao funcionamento e ao poder exercido pelas entidades de regulação da profissão médica
no Brasil. Portanto, a partir de uma objetividade corporificada (HARAWAY, 1995) e de um
trabalho científico empírico com arquivos (NUCCI, 2018), colaborando com os estudos sobre
gênero e medicalização da sociedade, esta pesquisa se mostra importante, pois leva em
consideração que os saberes construídos e disseminados pela medicina são influentes na
conformação do imaginário sobre a mulher, assim como na construção de biopolíticas sobre
seus corpos.

Objetivos
O objetivo geral é investigar como o Conselho Federal de Medicina (CFM) normatiza
questões relacionadas à reprodução, gestação, parto, abortamento e puerpério, por meio da
análise do discurso presente em suas resoluções, despachos e documentos, durante o período de
2013 a 2023, e compreender de que forma esse discurso influencia a prática médica e a saúde
reprodutiva no contexto brasileiro.

Metodologia
Como fontes primárias de análise, vasculharei o site do CFM em busca de documentos
que contenham descritores como “reprodução”, “gestação”, “parto”, “abortamento” e
“puerpério”. Quando a medicina se dirige ao corpo feminino, se ocupa primariamente de
processos envolvendo sua saúde reprodutiva, o que justifica a seleção desses termos como
critérios para a busca de materiais sobre o corpo da mulher.

68
Doutoranda pelo Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva do Instituto de Medicina Social da
Universidade do Estado do Rio de Janeiro; orientadora Jane Russo; [email protected]
O recorte temporal vai de 2013 a 2023, cobrindo uma década significativa na política
brasileira, marcada por mudanças políticas, governos com diferentes orientações ideológicas e
alterações nas políticas de saúde e saúde reprodutiva. Isso torna o período relevante para
analisar como as mudanças políticas podem ter influenciado o discurso normativo do CFM.
Para a discussão teórica, utilizarei Foucault como referência para pensar sobre o
nascimento da clínica, a medicalização da sociedade, a biopolítica e a histerização do corpo da
mulher, e como inspiração metodológica através da análise de discurso (FOUCAULT, 2010,
2014, 2019a, 2019b). A partir do que propõe Donna Haraway (1995, 2009), pretendo situar meu
lugar de fala, privilegiando a perspectiva parcial, além de tecer entrelaçamentos entre medicina,
ciência e feminismo.
Um conceito central na pesquisa é o de medicalização. Por constrangimento de espaço
nesse resumo, não discorrei sobre ele, apenas indico que seguirei os passos de Russo e Nucci
em suas discussões sobre a medicalização de processos como a gestação e o parto (RUSSO et
al., 2019; RUSSO; NUCCI, 2020; NUCCI et al., 2021; SILVA; RUSSO; NUCCI, 2021).
Também discutirei teoricamente construção da medicina como ciência da diferença, inspirada
em Rohden (2004). A partir desses autores e autoras, conceitos e documentos, observarei as
regularidades discursivas que emergirão do corpus e formularei as análises, levando em conta
as premissas da análise de discurso francesa.

Resultados e Discussão
Desde o surgimento da ginecologia e da obstetrícia, o corpo feminino é perscrutado e
manipulado por essas especialidades, que se destinam a “estudá-lo” e a intervir sobre ele. O
CFM, enquanto órgão regulador da profissão, produz discursos com efeito de práticas que se
direcionam ao corpo feminino. É importante saber o que esses discursos revelam sobre a
“gestão” do corpo feminino pela medicina. Assim como nos estudos empreendidos na área de
gênero e ciência, é preciso questionar a autoridade médica e identificar possíveis pressupostos
androcêntricos que alimentam hierarquias de gênero na prática médica (NUCCI, 2018).
Como o projeto está em construção, ainda não há resultados concretos para serem
analisados. Nesse momento, apenas posso inferir sobre os achados da pesquisa. Imagino que as
produções documentais poderão conter indícios de determinismo biológico, situando o “lugar
da mulher” na sociedade a partir das funções biológicas de seu corpo. A partir da experiência
com a pesquisa da dissertação (FLORES, 2022), também penso que alguns termos que
costumam tensionar conflitos irão emergir, como as noções de autonomia, protagonismo,
consentimento, entre outras.

Aprendizados e Análise Crítica


O discurso médico é um discurso que exala autoridade e aspira refletir o discurso da
ciência. Situar o CFM como sujeito a ser investigado possibilita problematizar a maneira como
o órgão se dirige ao corpo feminino, através de suas produções discursivas.

Referências Bibliográficas
DIAS, H. S.; LIMA, L. D. de; TEIXEIRA, M. Origem, trajetória e atuação política conjunta
das entidades médicas nacionais brasileiras de 1999 a 2015. Physis: Revista de Saúde Coletiva
[online]. v. 32, n. 1, 2022. Disponível em: https://doi.org/10.1590/S0103-73312022320109.
Acesso em: 08 ago. 2023.
FLORES, C. A. A violência obstétrica como discursividade a ser combatida. 2022. 187f.
Dissertação (Mestrado em Estudos Linguísticos) – Programa de Pós-Graduação em Estudos
Linguísticos, Universidade Federal da Fronteira Sul, Chapecó, 2022. Disponível em:
https://rd.uffs.edu.br/handle/prefix/5853. Acesso em: 04 out. 2023.

FOUCAULT, Michel. Em defesa da sociedade: curso no Collège de France (1975-1976). 2.


ed. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2010.

FOUCAULT, Michel. A ordem do discurso: aula inaugural no Collège de France,


pronunciada em 2 de dezembro de 1970. 24. ed. São Paulo: Edições Loyola, 2014.

FOUCAULT, Michel. História da sexualidade 1: a vontade de saber. 9. ed. Rio de Janeiro /


São Paulo: Paz e Terra, 2019a.

FOUCAULT, Michel. Microfísica do poder. Rio de Janeiro / São Paulo: Paz e Terra, 2019b.
HARAWAY, Donna. Saberes localizados: a questão da ciência para o feminismo e o privilégio
da perspectiva parcial. Cadernos Pagu, n. 5, p. 07-41, 1995.

HARAWAY, Donna. Manifesto ciborgue: Ciência, tecnologia e feminismo-socialista no final


do século XX. In: HARAWAY, Donna; HUNZRU, Hari; TADEU, Tomaz (Org.).
Antropologia do ciborgue: As vertigens do pós-humano. Belo Horizonte: Autêntica Editora,
2009, p. 33-118.

NUCCI, Marina Fisher. Crítica feminista à ciência: das “feministas biólogas” ao caso das
“neurofeministas”. Revista Estudos Feministas, v. 26, n. 1, p. e41089, 2018. Disponível em:
https://doi.org/10.1590/1806-9584.2018v26n141089. Acesso em: 20 ago. 2023.

NUCCI, Marina Fisher et al. A arte de “auxiliar” e “corrigir” a natureza: os debates obstétricos
sobre intervenção, indução e condução do parto em meados do século XX. In: TEIXEIRA, Luiz
Antonio et al. Medicalização do parto: saberes e práticas. 1. ed. São Paulo: Hucitec, 2021.
p. 79-94.

ROHEN, Fabíola. A obsessão da medicina com a questão da diferença entre os sexos.


In: Sexualidade e saberes: convenções e fronteiras. 2004. p. 183-196.

RUSSO, Jane Araujo et al. Escalando vulcões: a releitura da dor no parto humanizado. Mana,
v. 25, n. 2, p. 519–550, maio 2019. Disponível em: https://doi.org/10.1590/1678-
49442019v25n2p519. Acesso em: 24 ago. 2023.

RUSSO, Jane Araujo; NUCCI, Marina Fisher. Parindo no paraíso: parto humanizado, ocitocina
e a produção corporal de uma nova maternidade. Interface - Comunicação, Saúde, Educação,
v. 24, p. e180390, 2020. Disponível em: https://doi.org/10.1590/Interface.180390. Acesso em:
24 ago. 2023.
SILVA, Fernanda Loureiro; RUSSO, Jane; NUCCI, Marina. Gravidez, parto e puerpério na
pandemia: os múltiplos sentidos do risco. Horizontes Antropológicos, v. 27, n. 59, p. 245–
265, jan. 2021. Disponível em: https://doi.org/10.1590/S0104-71832021000100013. Acesso
em: 24 ago. 2023.
Relato de Pesquisa

Risperidona em rede: reflexões iniciais sobre o uso de antipsicóticos para crianças


no espectro autista passíveis de irritabilidade

Luis Phillipe Nagem Lopes 69

Palavras-chave: Risperidona; Transtorno do Espectro Autista; Pesquisa clínica; Crianças;


Medicamentos.

Contextualização
Os medicamentos engendram uma harmoniosa rede de atores humanos e não humanos
para a consolidação de seu estatuto como um produto de saúde (Latour, 2000; Castro, 2015). A
partir disso, discuto, em notas iniciais, os agenciamentos que fizeram a risperidona alcançar o
estatuto de medicamento eficaz para crianças no espectro autista (TEA) com irritabilidade
(Janssen, 2018). Minha aposta é a de que os fármacos são “moléculas fluídas e evoluem
continuamente” e, portanto, sua eficácia é um evento “processual, relacional e situado, bem
como farmacológico” (Hardon e Sanabria, 2017, p.118).

Objetivos
Em diálogo com os estudos sociais da ciência e tecnologia problematizo os fluxos
dessa substância da síntese química à regulamentação pela Food and Drug Administration
(FDA) nos Estados Unidos da América (EUA).

Metodologia
Etnografia de debates públicos, documentos e produção jornalística para refletir sobre
a construção da risperidona como medicamento eficaz para crianças no TEA.

Resultados e Discussão (In)Formando quimicamente as moléculas


A risperidona é um Antipsicótico de Segunda Geração (ASG) que age como
bloqueador dos receptores da dopamina e serotonina (Hilal-dandan e Brunton, 2015). É assim
chamada devido sua vantagem de promover efeito em doses que produzem menos eventos
adversos em comparação aos Antipsicóticos de Primeira Geração (APG) (Oliveira, 2000).
Mas também por possuir alguma semelhança quimicamente estrutural com os APG, como a
clorpromazina (Menegatti et al., 2004).
A história da clorpromazina iniciou quando se observou que “a introdução da
subunidade heterocíclica fenotiazina em fármacos anti-histamínicos causava sedação
excessiva” (Menegatti et al., 2004, p.452). A partir disso, “novas modificações moleculares”
foram realizadas para co(i)nstituir uma molécula capaz de proporcionar um “forte efeito
sedante” (Menegatti et al., 2004, p.452). Assim, a clorpromazina foi sintetizada em 1950.

69
Mestrando pelo Programa de Pós-Graduação em Ciências Farmacêuticos da Universidade de Sorocaba.;
[email protected]
“Logo de início, foi observado que a clorpromazina gerava uma predisposição ao sono e
desinteresse geral”, sendo rapidamente introduzida como antipsicótico (Menegatti et al.,
2004, p.452). Todavia, o percurso dessa substância foi parcialmente desbancado devido aos
seus efeitos adversos, abrindo espaço para um “novo” produto (in)formado (Hardon e
Sanabria, 2017).
Mais tarde, a partir da estrutura química da clorpromazina, o primeiro ASG foi
idealizado: a clozapina. O fato “d[a] clozapina ter demonstrado um perfil terapêutico
diferenciado dos antipsicóticos clássicos, seu núcleo [8- cloro-11-(4-metil-1-piperazinil)-5H-
dibenzo [1,4] diazepina] foi extensamente estudado, visando-se obter compostos que
apresentassem semelhante perfil terapêutico” (Menegatti et al., 2004, p.452). Foi a partir
dessas tentativas que essas moléculas fluíram e evoluíram em risperidona, o psicotrópico mais
usado por crianças na clínica (Oliveira; Viégas; Neto, 2021).

Fazendo um medicamento funcionar: risperidona em rede


Uma vez criada, a molécula (in)formada, sobrevivendo aos estudos pré-clínicos,
chegou na fase dos ensaios clínicos randomizados (ECR). A risperidona, apesar de sua
performance e promessas nos estudos pré-clínicos, não demonstrou resultados superiores aos
demais fármacos de sua família (Piontkewitz; Arad; Weiner, 2011), tampouco efeitos sobre a
psicose na esquizofrenia; não sendo, portanto, potencialmente competitiva com aqueles já
presentes no mercado.
Em crescente ascensão, o mercado farmacêutico envolvendo a “epidemia do autismo”
pareceu um campo bastante próspero para a inserção da risperidona (Grinker, 2010). Na
tentativa de disseminá-la como medicamento usado para a “irritabilidade”, a Janssen foi
acusada por propaganda indevida somando uma multa de US$ 2,2 bilhões, entre 1990 e 2003
(Opera Mundi, 2013). Curiosamente, em 1997, o Instituto Nacional de Saúde Mental (NIH)
dos EUA a partir de “acordos contratuais”, mobilizou uma rede de pesquisadores com a
finalidade de avaliar a eficácia e segurança de medicamentos para o TEA (McDougle et al.,
2000). Sob financiamento do NIH e da Janssen, a risperidona foi escolhida como intervenção
a ser investigada nos ECR, argumento mobilizado por neurotransmissores e evidências
científicas.
Anos mais tarde, com o primeiro ECR publicado, a risperidona foi legitimada como
opção “segura e eficaz para o tratamento [...] de raiva, agressão e comportamento auto lesivo
em crianças com transtorno autista” (McCracken et al., 2002, p.320). Em seguida, em outubro
de 2006, o FDA “aprovou [o] uso d[a] risperidona para o tratamento da irritabilidade
associada ao transtorno autista [...] em crianças e adolescentes de 5 a 16 anos”. Agora, o efeito
que outrora fez a Janssen pagar uma multa milionária, transformava-se em medida terapêutica
legitimada pela mesma agência que mobilizou tal penalidade.

Aprendizados e Análise Crítica


Esse curto relato do fluxo da síntese química até sua regulamentação junto ao FDA
mostra uma rede de atores que se alinharam em um projeto para fazer funcionar essa
substância, estabilizando, em torno da “eficácia”, seu estatuto como um medicamento para o
controle de corpos infantis, autistas passíveis de irritabilidade (Latour, 2000; Castro, 2015).
Referências Bibliográficas
BIOSPACE. FDA aprova RISPERDAL para tratamento de irritabilidade associada ao
transtorno autista. 2006. Disponível em: https://www.biospace.com/article/releases/fda-
approves-risperdal-rfor-treatment-of-irritability-associated-with-autistic-disorder-/ acesso
em 08 out. 2023.

CASTRO, Rosana. O estatuto do medicamento e o medicamento como estatuto: notas a partir


de uma etnografia da regulamentação sanitária. Anais da ReACT-Reunião de Antropologia
da Ciência e Tecnologia, v. 2, n. 2, 2015.

GRINKER, Roy Richard. Autismo: um mundo obscuro e conturbado. São Paulo:


Larrousse do Brasil. 2010

HARDON, Anita; SANABRIA, Emilia. Fluid drugs: Revisiting the anthropology of


pharmaceuticals. Annual Review of Anthropology, v. 46, p. 117-132, 2017.

HILAL-DANDAN, Randa; BRUNTON, Laurence. Manual de farmacologia e terapêutica


de Goodma+n & Gilman. AMGH Editora, 2015.

JANSSEN. Bula RISPERDAL® (risperidona): Janssen-Cilag Farmacêutica Ltda. solução


oral 1 mg/mL. 2018. Disponível em: https://www.qualidoc.com.br/file/general/Bula
1037927.RisperdalSolucao30ml.pdf. Acesso em 04 de out. 2023.

LATOUR, Bruno. Ciência em ação: como seguir cientistas e engenheiros sociedade afora.
Unesp, 2000.

MCCRACKEN, James T. et al. Risperidone in children with autism and serious behavioral
problems. New England journal of medicine, v. 347, n. 5, p. 314-321, 2002.

MCDOUGLE, Christopher J. et al. Research Units on Pediatric Psychopharmacology (RUPP)


AutismNetwork: background and rationale for an initial controlled study of risperidone. Child
and adolescentpsychiatric clinics of North America, v. 9, n. 1, p. 201-224, 2000.

MENEGATTI, Ricardo et al. Esquizofrenia: quarenta anos da hipótese dopaminérgica sob a


ótica da Química Medicinal. Química Nova, v. 27, pág. 447-455, 2004.

OLIVEIRA, Elaine Cristina de; VIÉGAS, Lygia de Sousa; NETO, Hélio da Silva Messeder.
Desver omundo, perturbar os sentidos: caminhos na luta pela desmedicalização da vida.
2021.

OLIVEIRA, Irismar R. Antipsicóticos atípicos: farmacologia e uso clínico. Brazilian Journal


of Psychiatry, v. 22, p. 38-40, 2000.

OPERA MUNDI. Johnson&Johnson pagará multa de US$ 2,2 bilhões por promoção indevida
de medicação. 2013. Disponível em: https://operamundi.uol.com.br/politica-e
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de medicacao. Acesso em 05 out. 2023.

PIONTKEWITZ, Yael; ARAD, Michal; WEINER, Ina. Risperidone administered during


asymptomatic period of adolescence prevents the emergence of brain structural pathology and
behavioral abnormalities in an animal model of schizophrenia. Schizophrenia bulletin, v. 37,
n. 6, p. 1257-1269, 2011.
Relato de Pesquisa

Transplante uterino no brasil: Uma análise de publicações científicas

Juliana Vieira 70
Rogerio Lopes Azize 71
e Marina Fisher Nucci 72

Palavras-chave: Útero; Transplante; Gênero; Tecnologia; Saúde.

Contextualização
Em 2016, um acontecimento científico no Brasil ganhou notoriedade ao redor do
mundo: o primeiro caso de nascimento após um transplante uterino. Além da gestação, de um
artigo publicado no The Lancet pelos pesquisadores, e muito capital científico envolvido, o
procedimento de caráter experimental gerou também debates importantes sobre o tema – do
imenso fascínio biotecnológico a duras críticas éticas. O procedimento – voltado para mulheres
que nasceram sem útero ou que realizaram histerectomia – já ocorreu em outros países, mas o
Brasil foi pioneiro ao utilizar o útero de uma doadora falecida e por ter alcançado um
nascimento após o transplante. Por tais feitos, o caso brasileiro é apresentado como um “caso
de sucesso”.

Objetivos
O artigo mencionado foi a pista inicial para uma pesquisa mais ampla sobre o tema do
transplante uterino em diversas frentes, com o objetivo de identificar, compreender e analisar
os sentidos sociais e os valores que cercam este procedimento. Neste trabalho, o objetivo foi
identificar e analisar artigos científicos que vêm sendo publicados no Brasil e no mundo, que
abordam o caso do transplante uterino realizado por uma equipe de pesquisa/médica brasileira.
Analisamos como estes discursos — que apresentam e discutem casos de sucesso, atividades
clínicas e variações nas técnicas do procedimento - se constituem, como se alinham em termos
políticos, éticos e científicos no campo das novas tecnologias reprodutivas, e as controvérsias
mais ou menos explícitas entre diferentes grupos de pesquisadores.

Metodologia
A partir de um número inicial de 40 publicações, selecionamos 13 artigos para análise,
por sua grande relevância no campo médico-científico e por discutirem o caso do transplante
uterino no Brasil. Os documentos foram localizados no PubMed, ferramenta de busca on-line
que acessa o banco de dados da Medline (Medical Literature Analysis and Retrieval System
Online), e BVS (Biblioteca Virtual em Saúde) através da combinação entre os termos
“Transplant”/“Transplantation”, “Uterus”/“Uterine” e “Brazil”.

70
Doutoranda em Saúde Coletiva no Instituto de Medicina Social Hesio Cordeiro (IMS-UERJ);
[email protected]
71
Professor associado no Instituto de Medicina Social Hesio Cordeiro (IMS-UERJ); [email protected]
72
Marina Fisher Nucci – Professora adjunta no Instituto de Medicina Social Hesio Cordeiro (IMS UERJ);
[email protected]
Resultados e Discussão
A partir disso, partimos da perspectiva dos estudos sociais da ciência que encaram o
discurso científico não enquanto um fato neutro, mas uma representação da realidade dotada
de contradições, atravessada e produzida por interesses sociais, econômicos e políticos.
Enquanto um artefato cultural, as verdades científicas desvelam uma série de articulações sobre
as relações entre gênero, sexualidade e poder. Diante disso, pensamos a anatomia não como
uma verdade inquestionável, mas, sobretudo, como uma construção histórica, provisória e
parcial.
Identificamos um crescimento significativo das publicações dos últimos 10 anos, o que
nos parece ser animado pelos resultados considerados positivos dos ensaios clínicos que vêm
sendo conduzidos. Tratando-se de uma tecnologia ainda experimental, os artigos tendem a
recuperar o que soa como os mitos de origem do procedimento, recuperando historicamente as
primeiras tentativas de transplante, as técnicas utilizadas e aplicando o principal critério de
sucesso da cirurgia, o feto nascido vivo – ainda que a noção de sucesso seja utilizada em alguns
contextos sem essa consequência, para se remeter aos procedimentos cirúrgicos em si.
Os artigos tendem a um ufanismo científico que apresenta o procedimento como um
“impressionante progresso científico”, o “começo de uma nova era” e outros termos que
apontam para uma revolução na lida com questões de tecnologia reprodutiva. O transplante é
apresentado também como uma possibilidade de esperança a mulheres sem útero, que
finalmente poderiam experienciar o “sonho de vivenciar uma gravidez”. É constante também o
debate sobre a dimensão ética deste tipo de “transplante efêmero”, uma novidade no campo do
transplante de órgãos, já que o útero transplantado é retirado logo após o nascimento do bebê.
Nesta direção, o debate envereda para os limites de intervenções que não tem como objetivo a
extensão da vida, lançando mão do valor – sempre algo nebuloso – da “qualidade de vida”.

Aprendizados e Análise Crítica


O aumento recente das publicações justifica a relevância da nossa discussão e aponta
para um futuro próximo de ainda maior visibilidade para este fenômeno. A análise dos artigos
aponta para uma noção de natureza enquanto algo instável que precisa ser produzida ou
assegurada pela medicina. Tal aspecto coloca em voga um tensionamento entre noções de
natureza e artifício, que vislumbra outros caminhos para as denominadas “novas tecnologias
reprodutivas”. A escolha pela maternidade e um aparente desejo coletivo para que seja um
processo biológico desenvolvido dentro do próprio corpo destacam um uso da ciência que se
ancora em argumentos morais e essencialistas. A problemática que se coloca nessa distopia,
para alguns, e utopia, para outros, nos remete aos limites borrados entre natureza e cultura e ao
valor atribuído neste contexto à “experiência de uma gestação” (termo êmico).
Relato de Pesquisa

Vantagens socioeconômica do tratamento de radioterapia hipofracionada de


próstata para o paciente oncológico da região metropolitana do Rio de Janeiro

Patricia Vieira de Abreu 73

Palavras-chave: Seminário; Pesquisa; Pós-Graduação; Saúde Coletiva; Formação; Estudantes;


Coletivo; Intercâmbio.

Contextualização
O segundo tipo de câncer que mais acomete a população masculina no Brasil é o câncer
de próstata, ficando atrás apenas do câncer de pele não melanoma. Segundo o INCA, a
estimativa para os anos de 2023 a 2025 é de 72 mil novos casos a cada ano. Dentre as
modalidades de tratamento oncológico para esse tipo de câncer, a Radioterapia é um dos mais
utilizados, podendo ser indicado de maneira exclusiva ou combinada com outras modalidades
de tratamento. Atualmente, uma das técnicas usadas na radioterapia é o hipofracionamento, que
consiste em menos dias de tratados com uma dose diária maior de radiação administrada.

Objetivos
O estudo tem como objetivo geral de demonstrar as vantagens do tratamento de
radioterapia hipofracionada de próstata para o paciente oncológico da região metropolitana do
estado do Rio de Janeiro. Como específicos, tem o objetivo de apresentar o que é o
hipofracionamento de próstata em radioterapia, identificar as vantagens do hipofracionamento
para o paciente e analisar a relação entre o hipofracionamento de próstata e os aspectos de
impacto socioeconômico.

Metodologia
Se tratará de uma revisão de literatura, descritiva exploratória com levantamento
bibliográfico nas bases de dados eletrônicos.

Resultados e Discussão
A nova tendência em tratamento hipofracionado favorece a qualidade de vida do
paciente oncológico. Com o número de dias de deslocamento até o local de tratamento
encurtado, os custos e despesas que circundam o processo terapêutico são igualmente
diminuídos, causando impacto positivo, tanto no âmbito socioeconômico quanto no
psicossocial, por meio da promoção de maior engajamento na adesão ao tratamento.

73
Especialização em Gestão de Saúde do Instituto de Medicina Social da Universidade do Estado do Rio de
Janeiro; Orientadora Dra. Eliane da Conceição Lourenço; [email protected]
Aprendizados e Análise Crítica
É entendido que é imprescindível um diálogo entre gestores quanto aos aspectos
técnicos da execução das técnicas de tratamento, novas tendências e sua análise crítica para
uma gestão que acompanhe as mudanças de paradigmas e identificação de potenciais
ferramentas que otimizem o serviço. No contexto desse estudo é entendido que a ampliação do
estudo sobre o hipofracionamento estimulará a ampliação da qualidade de vida do paciente e
possuirá um potencial de impacto positivo na experiência do paciente sobre o tratamento de
radioterapia. Além disso a diminuição dos dias tratados é diretamente proporcional à
disponibilidade de vagas nos aceleradores. Logo entende-se que a taxa de ocupação da máquina
terá um aumento, significando, assim, um acesso maior ao tratamento pelos pacientes. A
radioterapia hipofracionada não resolve o problema do acesso ao tratamento, mas, de maneira
imediata, amplia o acesso das pessoas, enquanto estratégias a longo prazo e de maior impacto
social seguem em execução.

Referências Bibliográficas
INSTITUTO NACIONAL DO CÂNCER. Estimativa 2029: incidência de câncer no Brasil
[homepage na internet]. Disponível em:
https://www.inca.gov.br/sites/ufu.sti.inca.local/files//media/document//estimativa-2023.pdf.
Acesso em: 27 ago. 2023.

ONCOLOGIA MULTIPROFISSIONAL: bases para assistência. 1. ed. São Paulo: Karin Gutz
Inglez, 2016. Cap. 17, p. 217-242.

ONCOLOGIA MULTIPROFISSIONAL: bases para assistência. 1. ed. São Paulo: Karin Gutz
Inglez, 2016. Cap. 8, p. 104-118.

CONSENSO BRASILEIRO DE HIPOFRACIONAMENTO EM CÂNCER DE PRÓSTATA


LOCALIZADO. Disponível em: https://sbradioterapia.com.br/noticias/consenso-brasileiro-de-
hipofracionamento-em-cancer-de-prostata-localizado/. Acesso em: 20 ago. 2024.

MITRE, J. Satisfação do cliente como ponto de partida para aumentar a competitividade de um


hospital especializado. Disponível em:
https://repositorio.fgv.br/server/api/core/bitstreams/3eaac469-9c23-455f-afc8-
2f408d66a48e/content. Acesso em: 20 ago. 2024.
COLETIVO TEMÁTICO:
Interseccionalidade e Desigualdades na Saúde

A partir das lutas por justiça social, igualdade e equidade no mundo, as minorias sociais
e políticas, como mulheres, população negra, povos indígenas e comunidades tradicionais,
pessoas com deficiência, comunidade LGBT+, passaram da invisibilização e do silenciamento
para a ação política de resistência e legitimação existencial. Em consequência disso, além da
incidência política, a produção científica, de conhecimento e saberes têm recebido mais
atenção, interesse e investimentos, reposicionando ideias e debates ao humanizar pessoas,
sobretudo pelo protagonismo de tais indivíduos que deixaram de ser objetos de pesquisa para
serem pesquisadores. Ao conquistar espaço para as discussões sobre diversidade e inclusão
social, as intersecções de gênero, raça, etnia, capacitismo, geração, etarismo, território, classe
social, entre outros, são evidenciadas. Assim, nos dedicamos a reunir pesquisas e análises na
área da Saúde Coletiva e em campos relacionados, acerca da produção da diferença com um
enfoque nas abordagens interseccionais. Abarcamos discussões e articulações entre marcadores
sociais da diferença, como gênero, sexualidade, maternidades, masculinidades, classe social,
saúde, raça, etnia e/ou idade/geração, entre outros, com a produção de desigualdades,
discriminações, violações, hierarquizações e normatividades na saúde coletiva e em contextos
relacionados. Exploramos também como esses cenários podem ser contestados, habitados e
desconstruídos, produzindo outros enlaces sociais. O foco esteve em trabalhos que analisam as
intersecções entre esses marcadores sociais da diferença em diversos temas, como processos
de subjetivação, migração, relações de poder, justiça reprodutiva, violações de direitos, direitos
LGBTQIAPN+, políticas públicas, ativismos, contextos institucionais e parentalidades, entre
outros.
Relato de Pesquisa

As maternidades (in)inteligíveis no Estado: quando a mãe vira sujeito de


suspeição?

Tássia Áquila Vieira 74

Palavras-chave: interseccionalidade; governança reprodutiva; regimes morais; destituição do


poder familiar; retirada de crianças; maternidades; direito; estado.

Contextualização
A proposta de apresentação está inserida em um debate acerca dos significados que
constroem as maternidades pelo Estado, mais especificamente as maternidades colocadas em
suspeição, a partir dos dispositivos de saúde e de assistência na cidade do Rio de Janeiro.
Assume-se como tema os modos de regulação do Estado de mães que acessam a rede de saúde
e assistência e que tem a sua maternidade judicializada em processos de destituição de guarda.
Nesse sentido, parte-se da construção de formas (in)inteligíveis do exercício de maternidades
pela gestão estatal que norteia as tomadas de decisões baseadas em regimes morais em
diferentes espaços institucionais. Busca contribuir para a compreensão a partir de
atravessamentos que se encontram na tutela desses casos como a noção de maternidade
destituição sob a ótica da governança reprodutiva (FONSECA, MARRE, RIFIOTIS, 2021 apud
BRIGGS) e da interseccionalidade (GONZALES, 1983; COHLINS, 2019; RIOS, PEREZ,
2019).

Objetivos
Este trabalho visa analisar a construção de retiradas compulsórias de bebês ainda na
maternidade, na Área Programática 4.0, na cidade do Rio de Janeiro a partir de um caso que
considero emblemático e foi tornado público. Seguido pelo aparato jurídico que circunscreve o
território e seus moradores nesse tema da destituição e, por fim, a articulação e intervenção da
rede de proteção do território (saúde e assistência).

Metodologia
A pesquisa apresentada está em estágios iniciais, é de ordem qualitativa, a partir da
observação participante construindo o método etnográfico em caráter multissituado (MARCUS,
1995) em diferentes espaços institucionais e de acolhimento que atravessam os casos de
destituição do poder familiar de mães. Em processo de pré-campo, estão sendo realizadas
participação nas reuniões mensais no Fórum de Maternidades, Uso de Álcool e Drogas na
cidade do Rio de Janeiro e entrevistas informais com profissionais de saúde, assistência e
justiça. A partir disso, busca-se seguir a articulação da rede intersetorial entre assistência, saúde
e judiciário na fabricação desses casos a partir de relatos e da materialidade documental

74
Doutoranda pelo Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva do Instituto de Medicina Social da
Universidade do Estado do Rio de Janeiro; orientadora: Laura Lowenkron.; [email protected]
(FERREIRA E LOWENKRON, 2020) nas produções de documentos como laudos e sentenças.
Esta apresentação concilia uma breve análise destes dados com uma discussão bibliográfica no
que tange à discussão de gênero dentro de uma perspectiva raça e classe e da antropologia de
Estado.

Resultados e Discussão
Esta proposta de pesquisa dialoga com o simpósio pós-graduado na abordagem de
gênero pensando como uma linguagem de direito nas práticas do Estado. A importância de
mapear a reprodução dentro da agenda política e sua centralidade em várias tecnologias de
governo é compreender como essa relação entre gênero e Estado está sendo constituída como
projeto de nação, ao mesmo tempo a iminência de uma dupla desestabilização como isso se faz
reciprocamente (LOWENKRON E VIANNA, 2018). As mães destituídas do poder familiar
pelo Estado aparecem como a figura que coloca sua maternidade em suspeição, como um mau
gênero não sendo a maternidade desejável no imaginário de nação, assume o papel de impedir
essa maternidade de existir. Essa mulher que está desempregada, pare no ônibus e não tira o
registro civil de seus filhos, é uma mãe que não cuida, não merece cuidado e nem suporte. Essas
zonas morais de regulação nos indicam sobre outras categorias como um bom ou mau gênero é
atravessado por imaginações racializadas.

Aprendizados e Análise Crítica


As considerações preliminares se encaminham para apreensão de como essas mães que
acessam as instituições de saúde e de assistência têm sua maternidade questionada a priori, seja
no seu acompanhamento pré-natal, no caso de gestantes, ou no acompanhamento de seus filhos.
As interrogações acerca da maternidade podem se apresentar em forma de acusações morais
tanto sobre o que consideram excesso de zelo como falta dele. Apesar da incidência de regimes
morais que acercam as maternidades em geral evidenciando uma desigualdade de gênero, os
encaminhamentos são outros quando mães que acessam o Estado são colocadas como alvo.
Avalia-se que um dos principais efeitos dessas práticas estatais que conduzem os atendimentos
é o enquadramento de produções interseccionadas entre gênero, raça e classe, bem como a
delimitação do exercício da “boa maternidade” atrelada às condições materiais de existência.

Referências Bibliográficas
DE MESQUITA FERREIRA, Letícia Carvalho; LOWENKRON, Laura (Ed.). Etnografia de
documentos: pesquisas antropológicas entre papéis, carimbos e burocracias. E-papers,
2020.

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HILL COLLINS, Patricia. Pensamento feminista negro: conhecimento, consciência e a


política do empoderamento. São Paulo: Boitempo, 2019
RIOS, Flávia; PEREZ, Olívia; RICOLDI, Arlene. Interseccionalidade nas mobilizações do
Brasil contemporâneo. Lutas Sociais, v. 22, n. 40, p. 36-51, 2018.

VIANNA, Adriana; LOWENKRON, Lowenkron, “O duplo fazer do gênero e do Estado:


interconexões, materialidades e linguagens”. Cadernos Pagu [online]. 2017
Relato de Pesquisa

“Ela não pode ser pai”: um estudo sobre a transparentalidade a partir de três casos
de mulheres trans

Sessiz Zarif Rosa Barbosa e Barros de Oliveira 75

Palavras-chave: Transparentalidade. Parentalidade. Maternidade. Transexual. Transgênero.

Contextualização
A dissertação de mestrado versou sobre o tema das transparentalidades a partir da
análise de registros publicamente disponíveis de três casos de mulheres trans no contexto
brasileiro. A escolha por adotar o termo transparentalidade, seguindo a lógica proposta por
Zambrano (2006), contribui para dar visibilidade às especificidades das vivências parentais de
pessoas trans. Sem a pretensão de esgotar a discussão do tema com respostas que se presumam
universalizantes, são levantadas questões que permitam pensar como mulheres trans
experimentam a parentalidade no contexto brasileiro, por exemplo, ao enunciar a si mesmas
como pais de seus filhos, numa peculiar forma de autoafirmação que escapa à
cisheteronormatividade compulsória.

Objetivos
Essa pesquisa tem como objetivo geral investigar de que formas as transparentalidades
de mulheres trans podem se constituir no contexto brasileiro, tomando como base a análise de
registros disponibilizados publicamente acerca das vivências parentais dessas mulheres trans.
Consequentemente, foram estabelecidos os seguintes objetivos específicos: 1) Analisar
registros (falas em documentários, congressos e programas de televisão; declarações em redes
sociais; autobiografias e matérias jornalísticas) de vivências transparentais, a fim de identificar
expectativas e receios em relação ao exercício da transparentalidade; 2) Investigar como se deu
o histórico das configurações de gênero de nossas interlocutoras, a fim de avaliar como
impactam em suas vivências parentais; 3) Investigar a possibilidade de existência de tensão
entre o desejo de manter suas relações familiares e o desejo de viver uma identidade de gênero
em sua plenitude, e como essa tensão se reflete na forma como nossas interlocutoras se
nomeiam e se situam nas suas relações familiares.

Metodologia
O estudo se baseia em três eixos: 1) a realização de uma revisão dos estudos de casos
de transparentalidade que se deram no contexto brasileiro; 2) a coleta e análise de registros das
vivências parentais de três interlocutoras; 3) a propositura de discussões teóricas que se baseiam
nos elementos identificados nos dados coletados.

75
Mestra pelo Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva do Instituto de Medicina Social Hesio Cordeiro da
Universidade do Estado do Rio de Janeiro; orientadora Laura Lowenkron; [email protected]
Os dados coletados se referem a três mulheres trans brancas; com ensino superior; com
mais de cinquenta anos de idade; que nasceram e residiram em diferentes locais dentro e fora
do Brasil; e que apesar de momentos de extrema vulnerabilidade material e social, tiveram a
oportunidade de ascender socioeconomicamente. As mulheres trans cujas vivências são
analisadas neste trabalho não são abordadas como objetos de estudo, mas como interlocutoras
de pesquisa. Isso significa reconhecer o papel ativo que elas possuem ao construir e divulgar
informações sobre transparentalidade.

Resultados e Discussão
As vivências transparentais possuem várias peculiaridades. Dada a transfobia resultante
de um contexto cisheteronormativo, as mulheres trans precisam fazer negociações com seus
familiares acerca dos termos utilizados para se referir a elas, muitas vezes criando termos novos
para dar conta da hipótese de que uma mulher trans tenha sido em um primeiro momento um
homem e pai, e posteriormente, realizada a transição de gênero, uma mulher que reivindica ser
mãe, mas que não é reconhecida como tal por seus filhos (Grenier, 2006).
Enquanto alguns estudos, como o de Elizabeth Zambrano (2008) revelam que mulheres
trans podem ter sua identidade de gênero respeitada, sendo consideradas mães dos filhos de
seus parceiros (filhos de um relacionamento anterior) outros estudos, como o de Fernanda
Cardozo (2006) mostram que a família de origem de uma pessoa trans pode apresentar alguma
resistência a respeitar a identidade de gênero mesmo após o término transição. Esses processos
diversos de apagamentos da subjetivação e de falta de acolhimento permitem que Mônica
Angonese (2016) proponha existir uma “esterilização simbólica” da população trans. Já
Mariana Trajano (2019) propõe que as vivências parentais de pessoas trans são marcadas pela
tensão entre o desejo de pertencimento e de transgressão.

Aprendizados e Análise Crítica


Para que sejam capazes de experimentar a parentalidade, mulheres trans precisam ora
recorrer a agenciamentos (Mahmood, 2006), ora enfrentar as normas hegemônicas com atos
contrassexuais (Preciado, 2017). Com certa frequência, mulheres trans rompem com a lógica
cisheteronormativa ao passo que se reinscrevem na mesma (Lanz, 2014). As interlocutoras
deste estudo operam de formas diversas para tornar possíveis as suas vivências parentais. Nesse
sentido, identificamos a existência de hierarquias dos processos parentais, que no caso de
pessoas trans se configura com o que chamamos de “parentalidade curinga”: as mulheres trans
precisam se predispor a assumir de forma dinâmica e mutável papéis parentais generificados de
acordo com o que o contexto lhes outorga. Ainda assim, seguem fazendo família, a despeito de
suas reivindicações e negociações com seus familiares.

Referências Bibliográficas
ANGONESE, Mônica et al. Um pai trans, uma mãe trans: direitos, saúde reprodutiva e
parentalidades para a população de travestis e transexuais. 2016.

CARDOZO, Fernanda. Parentesco e parentalidades de travestis em Florianópolis. Cadernos


NIGS Pesquisas, Florianópolis, v. 1, n. 1, 2010.
GRENIER, Myriam. Papa, t'es belle. Approche anthropologique des paternités transsexuelles.
2006.

LANZ, Letícia. O Corpo da roupa: a pessoa transgênera entre a transgressão e a coformidade


com as normas de gênero. 2014.

MAHMOOD, Saba. Teoria feminista, agência e sujeito liberatório: algumas reflexões sobre o
revivalismo islâmico no Egito. Etnográfica, Vol. X (1), p.121-158, 2006.

PRECIADO, Paul B. Manifesto Contrassexual. São Paulo: n-1 edições, 2017.

TRAJANO, Mariana Gracindo et al. Entre a cruz e a espada: experiências de parentalidade


de homens e mulheres trans em contextos cisheteronormativos. 2019. Tese de Doutorado.

ZAMBRANO, Elizabeth. " Nós também somos família": estudos sobre a parentalidade
homossexual, travesti e transexual. 2008.

ZAMBRANO, Elizabeth et al. O direito à homoparentalidade: cartilha sobre as famílias


constituídas por pais homossexuais. Porto Alegre: Vênus, 2006.
Relato de Pesquisa

Entre a (in)visibilidade e direitos: dispositivo “saúde de mulheres lésbicas e


bissexuais privadas de liberdade

Layla Vitorio Peçanha 76

Palavras-chave: Homossexualidade feminina; Bissexualidade; Saúde sexual e Reprodutiva;


Prisões; Políticas Públicas.

Contextualização
Como instrumento de análise, a concepção de dispositivo é desenvolvida por Foucault
(2020, 2023), sendo um mecanismo de poder que regula um contexto definido e se manifesta
através da articulação que se origina com base em uma profusão de elementos e da relação de
poder estabelecida entre eles. Além disso, o dispositivo manifesta uma determinação estratégica
que obedece a uma “urgência histórica”. Através da articulação entre os elementos que Foucault
(2023) nos oferta – em sua definição e nas demais significações refinadas em sua obra – que
um dispositivo ao se constituir, permanece disponível para ser instrumentalizado nas mais
diversas situações e momentos.
Na configuração de um dispositivo, o procedimento inaugural envolve uma delimitação
de seus elementos heterogêneos, seguido pela tarefa de identificar a natureza das relações
potenciais que podem ser estabelecidas inicialmente entre esses elementos heterogêneos. O
ponto é, que entre esses componentes, independentemente de serem de natureza discursiva ou
não, manifesta-se um tipo peculiar de dinâmica, uma espécie de “jogo”, ou seja, alterando
disposições, transformando atribuições, que além disso podem se apresentar de maneiras
distintas.
Tendo como fundamental compromisso responder a uma urgência em dado período
histórico, o dispositivo se apresenta como tendo um olhar estratégico importante (CARNEIRO,
2023). Sendo assim, a minha proposição reside na argumentação de que a concepção de
dispositivo - na perspectiva de autores diversos, como Foucault (2020, 2023) e Carneiro (2023)
-, nos fornece uma estrutura analítica importante para a que possamos discutir as políticas
públicas de saúde voltadas para conter os agravos em saúde sexual e reprodutiva de mulheres
lésbicas e bissexuais em penas privativas de liberdade. Tal esforço se fundamenta conforme se
verifica certa invisibilidade da vivência dessas mulheres, documentada na literatura,
proporcionando assim impactos negativos na saúde destas populações (ALMEIDA, 2005).
Desse modo, se as ausências a respeito do tema dispõem de um caráter produtivo, em outro
sentido, desdobra-se e desencadeia ruídos na realidade destas mulheres, é preciso perguntar
como se projetaram poucos debates no cenário nacional acerca das vulnerabilidades de saúde
da mulher lésbica e bissexual, em um esforço de interrogar qual visibilidade é dada como
sugestão nestes documentos, ao demarcar similarmente silêncios e as reverberações que forjam

76
Mestranda pelo Programa de Pós-Graduação em Saúde Pública da Escola Nacional de Saúde Pública-Sérgio
Arouca/ENSP-Fiocruz; orientador: Laís Silveira da Costa; [email protected]
(CARVALHO, CALDERARO, SOUZA, 2013). A fim de trilhar este caminho, abordaremos
percurso histórico ressaltando conflitos e discussões políticas, na perspectiva de pressagiarmos
como a sexualidade e a orientação sexual são refletidas a partir do registro da saúde no sistema
prisional.

Objetivos
• Objetivo Geral: Compreender como os possíveis padrões de gênero se fazem presentes
no acesso ao cuidado de saúde sexual e reprodutiva de mulheres lésbicas e bissexuais
privadas de liberdade?
• Objetivos específicos: 1- Compreender o percurso histórico do movimento de mulheres
frente a construção de políticas públicas voltadas a saúde de mulheres lésbicas e
bissexuais; 2- Analisar como expectativas relativas ao gênero podem intensificar
vulnerabilidades; 3- Refletir sobre as identidades interseccionais desses corpos
elaboradas; 4- Analisar como se dão as possíveis barreiras para efetivação do acesso aos
direitos sexuais e reprodutivos de mulheres lésbicas e bissexuais privadas de liberdade.

Metodologia
Trata-se de uma pesquisa bibliográfica, de cunho qualitativo, utilizando como fonte
artigos científicos, documentos e normativas governamentais. Decidiu-se por essa metodologia,
pois esse tipo de pesquisa propicia uma amplitude de referências e informações distribuídas em
diferentes publicações, também contribui na definição mais adequada acerca do panorama
conceitual que compreende o objeto estudado (SOUSA, OLIVEIRA, ALVES, 2021).
Além disso, para a análise dos documentos, nos valemos das contribuições de Foucault
(2020, 2023) e Carneiro (2023) sobre o conceito de dispositivo, de maneira que conseguíssemos
através disso compreender as enunciações e silêncios presentes nos documentos analisados. A
partir da pesquisa bibliográfica de abordagem qualitativa e das análises empreendidas por esses
autores, foram feitas leituras sistemáticas dos documentos coletados, onde escolhemos as
questões de maior relevância e ocorrência entre os textos analisados. Posteriormente serão
apuradas possíveis incongruências entre os documentos base e textos governamentais. Ao final,
será efetuada análises de questões que não estavam presentes nestes documentos.

Resultados e Discussão
O levantamento das publicações científicas foram feitas a partir das bases de dados
Scientific Electronic Library Online (SciELO) e Biblioteca Virtual em Saúde (BVS) - os
procedimentos para a busca das publicações científicas foram adaptadas de acordo com as
especificidades de cada base de dados, sendo pautadas pelo objetivo da pesquisa e pelos
critérios de exclusão e inclusão utilizados; os documentos e normativas governamentais; dados
referentes a população prisional Sistema Nacional de Informações Penais (Sisdepen), e
Conselho Nacional de Justiça. Os critérios de inclusão foram artigos escritos nas línguas
portuguesa, inglesa e espanhola, publicados no período de 2010 a 2022, que apresentassem no
título, resumo ou palavras-chave, ao menos uma vez, os termos “homossexualidade feminina”,
“mulheres homossexuais”, “bissexual”, “LGBT”, “lésbicas”, “prisões” e “cadeia” relacionados
ao contexto da saúde/saúde sexual e reprodutiva e estivessem disponíveis para leitura na íntegra
gratuitamente. Neste trabalho foram contemplados artigos a partir de 2010, pois foi o ano de
implementação das Regras de Bangkok – importante documento que versa acerca dos
parâmetros e diretrizes visando um tratamento digno as mulheres em cumprimento de penas
privativas de liberdade, além de medidas e aplicação penas alternativas as mulheres em cárcere.
Os demais dados estão em análise, devida a pesquisa estar em andamento, pois é fruto de minha
dissertação de Mestrado. Por esse motivo, ainda não abordei as considerações finais.

Referências Bibliográficas
ALMEIDA, Glaucia Elaine Silva de. Da invisibilidade à vulnerabilidade: percursos do" corpo
lésbico" na cena brasileira face à possibilidade de infecção por DST e Aids. 2005.

BARBOSA, Regina Maria; KOYAMA, Mitti Ayako Hara. Mulheres que fazem sexo com
mulheres: algumas estimativas para o Brasil. Cadernos de Saúde Pública, v. 22, p. 1511-1514,
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Disponível em: https://bityli.com/dFdHY. Acesso em: 23 out. 2023.

BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Ações


Programáticas Estratégicas. Política nacional de atenção integral à saúde da mulher:
princípios e diretrizes. Brasília: Ministério da Saúde, 2004.

BRASIL. Ministério da Saúde. Plano nacional de saúde no sistema penitenciário. Brasília,


DF: Ministério da Saúde, 2004. Disponível em:
http://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/cartilha_pnssp.pdf.

BRASIL. Ministério da Saúde. Política nacional de saúde integral de lésbicas, gays,


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BRASIL. Conselho Nacional de Justiça. Regras de Bangkok: regras das Nações Unidas para
o tratamento de mulheres presas e medidas não privativas de liberdade para mulheres
infratoras / Coordenação: Luís Geraldo Sant’Ana Lanfredi. Brasília: CNJ, 2016.
CARNEIRO, Sueli. Dispositivo de racialidade: a construção do outro como não ser como
fundamento do ser. Editora Schwarcz-Companhia das Letras, 2023.

CONSTITUIÇÃO FEDERAL DO BRASIL. Presidência da República, Casa Civil, Subchefia


para Assuntos Jurídicos. Brasília, 1988.

DE SOUSA, Angélica Silva; DE OLIVEIRA, Guilherme Saramago; ALVES, Laís Hilário. A


pesquisa bibliográfica: princípios e fundamentos. Cadernos da FUCAMP, v. 20, n. 43, 2021.
FACCHINI, Regina; BARBOSA, Regina Maria. Dossiê saúde das mulheres lésbicas:
promoção da equidade e da integralidade. In: Dossiê saúde das mulheres lésbicas: promoção
da equidade e da integralidade. 2006. p. 43-43.

FOUCAULT, Michel. História da sexualidade: As confissões da carne (Vol. 4). Editora Paz
e Terra, 2020.
Relato de Pesquisa

Masculinidade(s), privacidade e prazer na era digital: um estudo sobre a


pornografia no Twitter/X e suas repercussões para a saúde coletiva

Jonathan de Oliveira Almeida 77

Palavras-chave: Masculinidade; Privacidade; Sexo; Internet; Saúde Coletiva.

Contextualização
O resumo que ora se apresenta é extraído de parte do meu projeto de pesquisa do curso
de doutorado, que vem sendo desenvolvido no âmbito do Programa de Pós-graduação em Saúde
Coletiva do IMS/UERJ, desde o ano de 2021, na Área de Concentração “Ciências Humanas e
Saúde”, sob a orientação do Prof. Dr. Sérgio Carrara.
Em linhas gerais, o presente trabalho pretende explorar noções e possíveis articulações
entre masculinidade e privacidade no que concerne à produção, divulgação e comercialização
de conteúdo sexual homoerótico explícito na rede social Twitter, a qual, em julho de 2023,
passou a se chamar “X”. O aludido conteúdo é, em regra, criado, produzido, comercializado e
consumido por homens que fazem sexo com outros homens (“HSH”), em sua grande maioria
cisgêneros, enfatizando se não só os corpos que são selecionados ou excluídos sob a ótica do
prazer, mas também as suas interrelações com o binômio público/privado.
Com efeito, vem crescendo no Twitter/X um movimento de criação de perfis com
conteúdo sexual homoerótico e explícito ou pornográfico, que, na referida rede social, são
conhecidos como perfis “18+” / “+18”. Nesse quadro, surgem questões relevantes a serem
debatidas em torno de como a masculinidade e a privacidade são construídas e negociadas nesse
ambiente digital, além dos desafios concernentes à produção e divulgação do conteúdo sexual.
Ainda, verifica-se que a motivação dos usuários que produzem conteúdo sexual
homoerótico para o Twitter 18+ é diferente daquela que leva apenas ao seu consumo, sendo,
por isso, imprescindível analisar, na perspectiva dos estudos de gênero e sexualidade, as
dinâmicas afetas à (auto)exposição do corpo e ao engajamento perquirido ou obtido na rede
social, de modo a assinalar as noções de masculinidade (gay) que se apresentam, os possíveis
marcadores sociais que influenciam na criação de um perfil 18+ e os seus desdobramentos.

Objetivos
A partir do exame da junção dos fatores aqui assinalados, e de outros que as estreitas
linhas deste resumo não permitem elucidar, busca-se compreender os imaginários que os
indivíduos que criam, produzem, comercializam ou consomem pornografia no Twitter têm
sobre masculinidade, privacidade e prazer, identificando-se as dinâmicas subjacentes e os
impactos na construção de sua identidade na esfera digital. A inferência que se faz é que essas
complexas intersecções poderão, a um só tempo, revelar homofobia dentro da própria

77
Doutorando pelo Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva do Instituto de Medicina Social da
Universidade do Estado do Rio de Janeiro; orientador: Prof. Sérgio Carrara.
comunidade (gay), excluindo-se os corpos ou os comportamentos que não sejam
correspondentes à norma sexual vigente no âmbito da rede (o que se ora nomeia como
“homonormatividade”), ou, de outro lado, servir de instrumento de respeitabilidade social, uma
vez que se aproxima da masculinidade heteronormativa ou hegemônica.
Sem embargo, destaca-se, mais uma vez, que os marcadores sociais da diferença (como
raça, gênero e classe social) podem ser determinantes para a criação de um perfil no Twitter
18+, além de permitirem identificar as implicações dessa “escolha” em relação ao
reconhecimento do sujeito de direito e do sujeito erótico, tangenciando a ideia de cidadania ou
democracia sexual, bem como o aspecto relacional, isto é, para o desenvolvimento da
afetividade, do erotismo e do prazer, principalmente com base nas racionalidades e moralidades
dominantes no contexto brasileiro.
Nesse ponto, a propósito, vale dizer que o compartilhamento do conteúdo sexual
explícito ou pornográfico no Twitter/X pode produzir amplos efeitos para a sociedade em geral,
sobretudo quanto aos desafios éticos e legais relacionados ao consentimento, à objetificação e
ao papel das redes sociais na formação de possíveis normas de comportamento sexual,
perpassando, por exemplo, o uso de antirretrovirais e algumas drogas associadas ao prazer e/ou
à desinibição, o que traz importantes repercussões para a saúde coletiva.

Metodologia
A partir de uma abordagem qualitativa, que combina revisão bibliográfica, análise de
interações de conteúdos publicados por mais de 100 (cem) perfis e entrevistas com usuários
masculinos do Twitter/X que, não só praticam sexo com outros homens, como também
produzem, divulgam, comercializam e/ou consomem pornografia na mencionada rede social,
faz-se imprescindível investigar as representações de masculinidade nesse espaço, levando em
consideração todas as dimensões da privacidade e da (auto)exposição. Ademais, o
compartilhamento do conteúdo pornográfico no Twitter/X pode se apresentar como mecanismo
de livre exploração da sexualidade, empoderamento e (auto)afirmação, bem como de produzir
o senso de comunidade e de pertencimento, além de se mostrar como um meio de exercer
atividade remunerada (já que, repisa-se, alguns usuários comercializam as fotos e os vídeos
produzidos), dentre outros aspectos.

Resultados e Discussão
A presente pesquisa ainda se encontra em andamento.

Aprendizados e Análise Crítica


Por fim, a partir dos diálogos realizados com este estudo, espera-se contribuir para o
entendimento das sinuosas articulações entre masculinidade, privacidade e pornografia nas
redes sociais, fornecendo ideias e subsídios valiosos para outros pesquisadores, profissionais
de saúde e atores políticos na formulação de políticas públicas voltadas para a sexualidade e
para o uso responsável da tecnologia.
Referências Bibliográficas
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Janeiro: Bertrand brasil, 2019.

BRAGA, Gibran Teixeira. “Não Sou Nem Curto”: prazer e conflito no universo do
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SIBILIA, Paula. O Show do Eu: a intimidade como espetáculo. Rio de Janeiro: Contraponto,
2016 [Capítulo 5].

_____ (2015b). A nudez autoexposta na rede: deslocamentos da obscenidade e da beleza?


Cadernos Pagu, (44), 171-198.
Relato de Pesquisa

“Não tem vaga, só se conhecer alguém”: percepção do acesso aos serviços de


saúde por mulheres congolesas residentes no Rio de Janeiro

Paula Colodetti Santos 78

Palavras-chave: Acesso à saúde; Saúde da Mulher Negra; Racismo; Interseccionalidade;


Capital Social.

Contextualização
Como nos aponta Werneck (2016), os dados sobre a saúde da mulher negra e sua
presença como tema nos periódicos nacionais são escassos, principalmente se consideramos o
quão frequente é o uso da rede de atenção básica e do Sistema Único de Saúde (SUS) como um
todo, por essa população. Constatações que sugerem a influência do racismo estrutural,
fazendo-se presentes nos discursos e ações dos trabalhadores e instituições no campo da saúde
e por vezes naturalizadas, mas que atingem e afastam o acesso dessas usuárias aos serviços.
Para refletirmos sobre essas questões, partimos do racial interseccionalizado por classe,
gênero, cultura, território, problema central a ser enfrentado no campo da saúde coletiva (LIMA
e GAUDENZI, 2023). Para além dos marcadores sociais, precisamos refletir também em como
ultrapassar a retórica da equidade para a efetivação da prática de promoção da saúde (SOUZA
e GRUNDY, 2004).
Afim de propor essa análise, utilizo a ideia de capital social tal como apresentado no
trabalho de Santos e Farias Filho (2016) “resultante das redes sociais formais e informais,
estabelecidas pela confiança dos participantes, com usufruto de vantagens geradas pelo
conhecimento [...]” (p.1660) para situar as falas “só é atendido quem conhece alguém...”,
sinalizadas por mulheres congolesas residentes no Rio de Janeiro, por mim entrevistadas no ano
de 2018, quando questionadas sobre suas experiências em serviços de saúde brasileiros.

Objetivos
Avaliar a percepção do acesso e atendimentos em serviços de saúde oferecidos pela rede
do SUS, na cidade do Rio de Janeiro, por mulheres negras, periféricas, refugiadas e estrangeiras
– congolesas. E ainda, como as especificidades do campo, a língua, o desconhecimento de
funcionamentos e estruturas, assim como de pessoas e funcionários, promovem barreiras que
postergam suas entradas e podem influenciar para o agravamento de doenças e sofrimentos.

78
Doutoranda pelo Programa de Pós-graduação em Saúde Coletiva do Instituto de Medicina Social da
Universidade do Estado do Rio de Janeiro; orientadora: Laura Lowenkron; [email protected].
Metodologia
A pesquisa a ser apresentada é fruto de um estudo qualitativo, etnográfico, composto
por observação participante e entrevistas, realizado em uma instituição de acolhimento a
população refugiada – a Caritas RJ, em 2018.

Resultados e Discussão
Neste ano, se deu a intervenção militar no município do Rio, momento marcado por
ações estatais autoritárias e violentas. Situações que conforme me foi declarado nos
depoimentos colhidos, geravam estado de tensão frequentes, por mulheres que haviam saído de
situações de conflitos para territórios que consideravam pacificados. Vulnerabilidades que não
esperavam encontrar, mas que impactaram diretamente suas rotinas.
As limitações com a língua portuguesa e as dificuldades no aprendizado do idioma foi
outro ponto mencionado como gerador de apreensão constante, dificuldades diversas de
comunicação e manutenção de fragilidade financeira. Por fim, a falta de conhecimento das
instituições e direitos, ou vínculos interpessoais estabelecidos, as faziam sentirem-se
desamparadas, sendo a instituição da igreja católica, ou os pastores nativos da República
Democrática do Congo (RDC) aqui atuantes, seus principais pontos de apoio. Assim, as
unidades de saúde não só apareceram em suas falas como lugares onde não eram
compreendidas, como mostraram-se inacessíveis.
Como nos refere Souza e Grundy (2004) há benefícios e malefícios que podem ser
atribuídos ao capital social. Entre os benefícios, “destacam-se o maior controle social, a
provisão de suporte mútuo e todas as vantagens derivadas das organizações sociais que os
membros podem obter” (p.1358). Contudo, e pelos mesmos motivos, aqueles considerados “não
associados”, podem ter suas oportunidades reduzidas em prol dos associados.
Reconhecer o racismo como um dos fatores centrais na produção e manutenção das
iniquidades de saúde é um primeiro passo para que possamos avançar na consolidação de nosso
compromisso com a universalidade, integralidade e equidade (WERNECK, 2016). Refletir,
porém, a singularidade de cada grupo atendido, avaliando como “co-determinantes atuam
concomitantemente, aprofundando ou reduzindo seu impacto sobre pessoas e grupos” (idem, p.
543) em uma análise interseccional, faz-se necessário esse olhar para que possamos, enfim,
promover ações em saúde e bem-estar social como um todo, que tragam resultados favoráveis
e efetivos.

Aprendizados e Análise Crítica


Coletivamente, faz-se necessário privilegiar-se o cuidado em saúde de mulheres negras,
grupo marcadamente usuário dos dispositivos do SUS, observando suas particularidades e
promovendo ações afirmativas que estimulem sua participação ativa na elaboração de
prioridades assistenciais. Portanto, a atenção às mulheres congolesas e o chamado a sua
participação, principalmente nas unidades a que estão territorialmente vinculadas, podem
derrubar impedimentos e realmente ser gatilho para mudanças que estão para além do campo
da saúde, promovendo o pertencimento – por vezes fragilizado em quem se encontra expatriado.
Referências Bibliográficas
LIMA, F.; GAUDENZI, P. Racismo, Iniquidades Raciais e Subjetividade-Ver, dizer e
fazer. Saúde e Sociedade, v. 32, p. e230313pt, 2023.

SANTOS, C. W.; FARIAS FILHO, M. C. Agentes Comunitários de Saúde: uma perspectiva do


capital social. Ciência & Saúde Coletiva, v. 21, p. 1659-1668, 2016.

SOUZA, E. M.; GRUNDY, E. Promoção da saúde, epidemiologia social e capital social: inter-
relações e perspectivas para a saúde pública. Cadernos de saúde Pública, v. 20, p. 1354-1360,
2004.

WERNECK, J. Racismo institucional e saúde da população negra. Saúde e sociedade, v. 25, p.


535-549, 2016.
Relato de Experiência

O nutricídio da população negra periférica: aprendizados de uma estagiária de


nutrição clínica em um hospital municipal do Rio de Janeiro

Patricia Penna Ferreira 79

Palavras-chave: Nutricídio; Insegurança Alimentar; Fome; Genocídio Alimentar

Contextualização
Este trabalho refere-se a um relato de experiência da autora, sobre a sua atuação como
estagiária de nutrição clínica, em um hospital municipal no Rio de Janeiro, e as relações que
podem ser construídas a partir desta experiência com o nutricídio (genocídio alimentar) da
população negra periférica.
O termo nutricídio foi cunhado pelo norte-americano Llaila Oleta Áfrika na década de
90. Autor do livro Nutricide: The Nutricional Destruction of the Black Race, traduzido
livremente aqui como Nutricídio: A Destruição Nutricional da Raça Negra. Áfrika estabeleceu
uma relação a partir dos alimentos consumidos pela população negra, que são produzidos pelo
sistema alimentar branco. Estes alimentos, cultivados com agrotóxicos, ultraprocessados e
transgênicos, segundo Áfrika, poderiam levar ao desenvolvimento de DCNT — doenças
crônicas não transmissíveis (hipertensão, diabetes, obesidade, doenças cardíacas, dentre
outras), que levariam à morte (ÁFRIKA, 2001).
Pode-se entender por nutricídio como sendo o genocídio alimentar da população negra
em função da alimentação inadequada ou da falta do que comer. Nos dois casos, estamos
falando de insegurança alimentar e da violação do direito humano à alimentação adequada.
Carolina de Jesus, em seu livro Quarto de despejo, escreveu: “E assim no dia 13 de
maio de 1958 eu lutava contra a escravatura atual – a fome!” (JESUS, 2021, p. 32).
A fome é um fenômeno social, derivado da economia e política estabelecidas pelo
Estado, como Josué de Castro já havia apontado em Geografia da Fome, em 1946, e não algo
natural em decorrência de variações climáticas nas diferentes regiões do Brasil (CASTRO,
2022, p. 38). A fome assola majoritariamente a população negra periférica, assim como impacta
em maior percentual lares chefiados por mulheres segundo dados da Rede PENSSAN (2023)
que realizou estudo baseado no recorte de raça e gênero.
Desde o ambulatório até as emergências e UTIs, pode-se verificar quais pessoas são
mais impactadas por diversas doenças que são desenvolvidas e agravadas por uma alimentação
não adequada.

79
Graduanda em Ciências Sociais pelo Instituto de Ciências Sociais da Universidade do Estado do Rio de Janeiro
e graduanda em Nutrição no Instituto Brasileiro de Medicina de Reabilitação; [email protected]
Descrição
A experiência de estágio no hospital aqui relatada, em ambulatório e leitos de
emergência, coloca profissionais de saúde, e aqui especificamente, nutricionistas e estudantes
de nutrição em contato direto com as consequências da falta de acesso ao alimento adequado.
Através de anamneses, exames e prontuários são evidenciadas diversas histórias de doenças
desenvolvidas por condições de vida que não permitem ou tornam muito difícil o cuidar-se, o
acesso à informação e ao bem-estar.

Período de Realização
A experiência de estágio no hospital ocorreu em dois momentos, o primeiro entre abril
e maio de 2023 e novamente em setembro de 2023 até o presente momento.

Objetivos
O objetivo do relato desta experiência é procurar relacionar a condição de saúde de
pacientes atendidos e assistidos pela área de nutrição de um hospital municipal com um recorte
de raça e de gênero através de uma simples observação visual e qualitativa e o que isto pode
indicar.

Resultados
Os resultados do trabalho de observação durante atendimentos clínicos sugerem uma
maioria de pessoas negras, pardas e periféricas, em atendimento ambulatorial ou hospitalizadas
em função de doenças como diabetes mellitus, hipertensão, doenças cardíacas e obesidade.
Estas doenças estão relacionadas com a alimentação, e quando esta é adequada, pode-se
melhorar muito o quadro clínico e até mesmo evitar-se tais condições.
Tanto o Nutricídio de Llaila Áfrika quanto a Geografia da Fome de Josué de Castro
evidenciam uma marca constante e histórica que responde para quais corpos são impostos a
insegurança alimentar, a falta de acesso a alimentos saudáveis e a violação do DHAA – Direito
Humano à Alimentação Adequada. A resposta é: para os corpos negros, que há mais de 500
anos, são corpos desumanizados, “coisificados”, condenados ao descarte e à morte
(NASCIMENTO, 1978).

Aprendizados e Análise Crítica


Este trabalho procura refletir sobre a saúde das pessoas negras e periféricas, percebida
a partir da vivência hospitalar no estágio de nutrição, relacionando esta reflexão com uma
bibliografia que dê suporte para questionamentos como: Por que o Brasil voltou para o mapa
da fome? Por que o direito ao alimento adequado não é assegurado pelo Estado Brasileiro,
especialmente para a população negra?
A estrutura social e econômica do Brasil foi construída sobre uma base racista que
continua a marginalizar e oprimir os afrodescendentes, levando a uma série de consequências
devastadoras para essa população, conforme Nascimento (1978), incluindo a degradação da
sua saúde. Neste sentido, é fundamental destacar a importância do ativismo negro, da educação
sobre a história e cultura afro-brasileira e da luta por políticas públicas que promovam a
igualdade racial (NASCIMENTO, 1978).
Referências Bibliográficas
CASTRO, J. D. Geografia da Fome: O dilema brasileiro: pão ou aço. 1a edição. São Paulo:
Todavia, 2022.

JESUS, Carolina Maria de. Quarto de despejo – diário de uma favelada. São Paulo:
LLAILA, O. Afrika. Nutricide: The Nutritional Destruction of the Black Race.
Eworld, 2013.

NASCIMENTO, Abdias. O genocídio do negro brasileiro, processo de um racismo


mascarado. Rio de Janeiro: Editora Paz e Terra, 1978. p. 1.

REDE PENSSAN. II VIGISAN, Inquérito Nacional sobre Insegurança Alimentar no Contexto


da Pandemia da Covid-19 no Brasil. Suplemento II. Insegurança Alimentar e desigualdades
de raça/cor de pele e gênero. São Paulo, 2023. Disponível em:
<https://olheparaafome.com.br/wp-content/uploads/2023/06/OLHERacaEGenero-Diag-v7-
R05-26-06 -2023.pdf> Acesso em: 8 julho 2023.
Relato de Pesquisa

Políticas intersetoriais de atenção à população em situação de rua: uma revisão


de escopo

Caroline dos Santos Pereira 80


Willer Baumgarten Marcondes 81
e Kathie Njaine 82

Palavras-chave: Pessoas em situação de rua; Intersetorialidade; políticas públicas.

Contextualização
A população em situação de rua encontra dificuldades de acesso aos serviços públicos
que fragilizam as ações de cuidado e a proteção social. Ademais, essas ações devem ser
realizadas de modo articulado, não fragmentado e entre os diferentes setores, para que assim
seja possível a garantia de atenção à população. Deve-se realizar a implementação de políticas
públicas abrangentes e apropriadas para cada contexto, além de estratégias focadas em
resultados e avaliação das ações. Contudo, os dados são escassos sobre a população em situação
de rua no mundo, incluindo dados de como tais ações intersetoriais são realizadas.

Objetivos
O presente estudo trata-se de uma revisão de escopo com objetivo de examinar a
produção científica sobre políticas públicas intersetoriais de atenção à população em situação
de rua.

Metodologia
A revisão de escopo tem como premissa mapear os principais conceitos de um campo
de pesquisa, ampliar a visão sobre um tópico e resumir as evidências (PETERS et al., 2020a).
Dessa forma, a presente revisão de escopo segue o referencial do Joanna Briggs for Institute
for Scoping Reviews (JBI), com as etapas metodológicas de elaboração da pergunta de
pesquisa; identificação dos estudos relevantes; seleção dos estudos; mapeamento dos dados e
apresentação dos resultados (PETERS et al., 2020b).

Resultados e Discussão
Esta revisão de escopo demonstra que as políticas públicas de atenção para população
em situação de rua têm uma série de problemas e estudos muitas vezes encontraram e relataram
as dificuldades dos trabalhos intersetoriais. Ainda que os artigos tenham mais relatos nacionais

80
Doutoranda pelo Programa de Pós-Graduação em Saúde Pública da Escola Nacional de Saúde Pública da
Fundação Oswaldo Cruz; [email protected]
81
Professor Programa de Pós-Graduação em Saúde Pública da Escola Nacional de Saúde Pública da Fundação
Oswaldo Cruz. Orientador.
82
Professora do Programa de Pós-Graduação em Saúde Pública da Escola Nacional de Saúde Pública da Fundação
Oswaldo Cruz. Orientadora.
sobre a articulação entre assistência social e saúde, notam-se as experiências internacionais
positivas de habitação, com abrigos e moradia e saúde. Ademais, nota-se que experiências
foram norteadas pela Redução de Danos, onde se acredita na autonomia dos sujeitos e na
escolha e uso de substâncias psicoativas com apoio para o cuidado em saúde, com
oportunidades de trabalho, vagas em abrigos.

Aprendizados e Análise Crítica


Por fim, a intersetorialidade foi representada nos estudos sobre atenção à população em
situação de rua como uma dificuldade das práticas profissionais, de gestão e implementação.
Dentre essas ações, foi apresentado um leque de fragilidades que impedem que tal estratégia
aconteça no dia a dia. Os estudos corroboram que apesar disso é necessário articular para atingir
a complexidade de um problema multidimensional como é a situação de rua. Em casos de
sucesso, o objetivo das estratégias era variado, como a superação da situação ou a redução de
danos no uso de substâncias psicoativas, habitação e serviços especializados.
Considerando diferentes reflexões apresentadas nos estudos, das diferenças
estabelecidas entre políticas e práticas da realidade dos profissionais e serviços,
principalmente, especializados na população em situação de rua, que se encontram “soltos” na
rede, destacam-se os serviços de saúde, como CnaRua, que apresentam mais dificuldade de
atender as necessidades da população do que o Centro POP que tem como prerrogativa a
assistência e cuidados mais simples já podem ser considerados atingir a atenção. A preparação
dos profissionais também foi identificada como um ponto emergente e, portanto, se faz
necessário repensar a formação dos profissionais dos setores públicos para o atendimento de
pessoas em vulnerabilidade. Mesmo que estejam identificados problemas nas articulações, isso
significa que tem existido uma tentativa de se fazer e se pensar a intersetorialidade para a
população em situação de rua.
Identificou-se também uma lacuna de estudos brasileiros para além da assistência social
e saúde, principalmente relatos relacionados aos serviços específicos para essa população. O
que chamou atenção foram as variadas formas de prestar atenção à população em situação de
rua, desde saúde mental, moradia provisória, atendimento às doenças crônicas, oficinas
profissionalizantes.
O presente trabalho tem sido realizado com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento
de Pessoal de Nível Superior - Brasil (CAPES) - Código de Financiamento 001, bolsa de
doutorado acadêmico.

Referências Bibliográficas
PETERS, M. et al. Chapter 11: Scoping Reviews. Em: AROMATARIS, E.; MUNN, Z. (Eds.).
JBI Manual for Evidence Synthesis. [s.l.] JBI, 2020a.

PETERS, M. D. J. et al. Updated methodological guidance for the conduct of scoping reviews.
JBI Evidence Synthesis, v. 18, n. 10, p. 2119–2126, out. 2020b.
Relato de Pesquisa

Saúde da população negra: uma análise das desigualdades raciais na política de


atenção primária à saúde

Luanda Café Santana dos Santos Fontes 83


e André Luís de Oliveira Mendonça 84

Palavras-chave: saúde da população negra, desigualdades raciais em saúde, atenção primária


à saúde.

Contextualização
No Brasil, ainda persiste um cenário de ausência de ações efetivas para alcance da
equidade racial na assistência à saúde, apesar do reconhecimento do racismo, das desigualdades
étnico-raciais, e do racismo institucional como determinantes sociais das condições de saúde.
A aprovação da Portaria nº 992/2009 por unanimidade pelo Conselho Nacional de Saúde, que
institui a Política Nacional de Saúde Integral da População Negra (PNSIPN), é fruto das
reinvindicações e protagonismo dos movimentos sociais, especialmente o Movimento de
Mulheres Negras e o Movimento Negro. Nos anos 1990, esses movimentos já informam os
pressupostos teóricos da saúde coletiva, os indicadores de saúde e a relação existente entre
racismo e saúde (BATISTA; BARROS, 2017).
A PNSIPN tem o objetivo de promover a saúde integral da população negra, priorizando
os impactos do racismo na vida das pessoas e enfrentar a discriminação racial nas instituições
e serviços do Sistema Único de Saúde (SUS). Considerando os níveis de atenção à saúde na
rede hierarquizada de serviços do SUS, destacamos o estudo do campo da Atenção Primária à
Saúde (APS).
A Atenção Primária à Saúde é “a principal porta de entrada e centro de comunicação da
Rede de Atenção à Saúde, coordenadora do cuidado e ordenadora das ações e serviços
disponibilizados na rede” (BRASIL,2017). Neste sentido, a pesquisa busca colocar em debate
a invisibilidade sobre a organização da APS na relação com sistema de Saúde que leva à
desigualdade racial. O que se precisa evidenciar no racismo para que se possa avançar no
compromisso com a universalidade, equidade e integralidade? O estudo reforça a importância
da produção de indicadores étnico-raciais para análise da situação de saúde da população negra
que contribuam para o desenvolvimento de políticas públicas na garantia ao direito à vida.
Endossamos as palavras de Jurema Werneck (2018), que no caso da saúde, cada silêncio é uma
morte e quem não morre está sofrendo muito.

83
Doutoranda pelo Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva do Instituto de Medicina Social da
Universidade do Estado do Rio de Janeiro; Assistente Social da Secretaria Municipal de Saúde do Rio de Janeiro.
Orientador André Mendonça; [email protected]
84
Doutor em Filosofia pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (2008). Pós-doutorado em Saúde Coletiva
pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (2012-2013). Professor-Adjunto do Instituto de Medicina Social
da Universidade do Estado do Rio de Janeiro; [email protected]
Objetivos
A pesquisa em tela tem como objetivo analisar a saúde da população negra a partir da
concepção de racismo institucional, interseccionalidade e decolonialidade nas políticas
públicas. E, no que tange ao objetivo específico identificar os aspectos acerca da questão racial
invisibilizados na APS.

Metodologia
O Brasil tem participação expressiva da população negra e presença majoritária entre
usuários do SUS. Segundo o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), em 2008, 67%
dos usuários do SUS eram negros, mas isso não reflete em melhores condições de acesso e
cuidado a essa população.
Neste cenário, propomos um estudo qualitativo de abordagem teórico-explicativo na
forma de ensaio, com vistas a identificar os fatores determinantes a partir da análise
interseccional sobre os sistemas filosóficos, políticos e econômicos que perpetuam as
desigualdades raciais na Saúde. De forma, tomaremos o campo (de estudos e intervenção)
saúde da população negra objeto privilegiado para pensar o racismo estrutural e institucional
nas políticas públicas de saúde, com ênfase na APS. Neste percurso, destacando os desafios
enfrentados pela população negra, as lutas do movimento negro na implementação da PNSIPN.
Também as doenças, agravos e condições mais frequentes nesta população.

Resultados e Discussão
Uma das questões cruciais ao debate sobre a invisibilidade da população negra, está na
negação da humanidade do outro e que legitima um modelo de opressão e exploração. A
redução do sujeito ao lugar de coisa, suscetíveis a “ataques” subjetivos e concretos nas relações
interpessoais, estruturam e perpetuam as desigualdades econômicas, sociais e culturais. O autor
Achille Mbembe (2018), estudioso do pós-colonialismo, faz uma reflexão teórico-crítica em
torno do conceito de raça e da construção social do conceito de negro. Esta análise problematiza
o processo de coisificação do outro, que se expressa na redução do ser humano a aparência da
pele ou cor, que transforma o sujeito em coisa, objeto, mercadoria. Assim, o racismo representa
uma invisibilidade discriminada pela raça, que segundo o autor se revela no contexto do
exercício do biopoder. Nesta dinâmica é perceptível a seleção de quem deve ser eliminado
fisicamente, até a morte política e cultural.
Segundo a análise de Charles Mills (2023), a teoria do contrato racial nos permite situar
o debate sobre raça em um “sistema político, uma estrutura particular de poder e privilégio
socioeconômico na distribuição diferenciada das riquezas materiais e oportunidades” (Mills,
2023, p.35). É preciso refletir sobre as ideologias que perpetuam o racismo, mantendo a
preservação de lugares de privilégio, de forma que certos grupos detêm bens materiais e poder,
além de fortalecer um imaginário simbólico preconcebido. A ruptura com esses privilégios cria
entraves ao fim das prerrogativas da iniquidade racial e na repactuação de uma nova ética. A
exemplo da medicina ocidental moderna, esta se baliza em teorias raciais infundadas, no uso
de corpos negros para treinamentos experimentais e avanços da biomedicina.
No Brasil, o longo histórico de escravidão tem raízes na formação e manutenção de
relações de exploração. Os sistemas de exploração estão intimamente ligados a sistemas de
opressão que refletem a produção e reprodução de desigualdades sociais. Nos serviços públicos
de saúde, a interação entre sistemas de opressão/ exploração se evidencia na negação do direito
à vida e na reprodução das formas de violência institucional. O racismo institucional se
fortalece na propagação dos valores da sociabilidade burguesa que mantém seus lugares de
privilégio e reforçam a hierarquização/ interiorização dos indivíduos sociais.
Assim, as questões relacionadas à branquitude, passam por uma perspectiva relacional
entre brancos e negros na luta por uma sociedade mais igualitária. Portanto, o conceito de
branquitude é entendido como elemento da racialidade branca, que se entrelaça às dimensões
subjetivas e objetivas das relações raciais, operando como força motriz na reprodução do
racismo (Bento, 2014). O padrão ideal de branqueamento estabeleceu um modelo universal de
humanidade, que é mantido pela elite branca à sociedade, e assimilado como um problema do
negro.
Ao problematizar a noção de privilégio, compreende-se que o acordo tácito na
sociedade brasileira em não falar de racismo, desloca as desigualdades raciais como um
problema do negro. Neste contexto, o debate é bruscamente redirecionado para o discurso de
mérito e competência, em que se justifica a situação privilegiada. Nesse acordo inconsciente,
segundo estudos de Kaes, o racismo tem que ser rejeitado, abolido ou apagado.
A história do negro foi literalmente apagada, a exemplo do que fez Rui Barbosa, que
queimou importante documentação sobre o período escravocrata. A forma de apropriação
indébita concreta e simbólica durante quase 400 anos, no Brasil, traz mais vestígios do
silenciamento que envolve o pacto narcísico de cumplicidade entre os membros de um grupo.
Na análise macropolítica, a ideologia neoliberal na forma de acumulação flexível do
capital gera a fragmentação e afastamento de grupos e classes sociais, destruindo a identidade
e consciência coletiva de classe. A exacerbação da cultura do individualismo competitivo
propagada pelo neoliberalismo naturaliza as desigualdades sociais e econômicas. A
espetacularização da vida na imagem do sujeito consumidor de bens efêmeros, perecíveis e
descartáveis inaugura uma nova subjetividade.

Aprendizados e Análise Crítica


A naturalização do racismo nas práticas de saúde tem forte correlação à conservação
das marcas da sociedade colonial escravista em que predomina o autoritarismo e a
hierarquização das relações sociais e intersubjetivas. Historicamente, o favor é uma mediação
quase que universal na sociedade brasileira com padrão particular na relação entre classes e das
instituições do Estado, que disfarça a violência das relações sociais e de cuidado à saúde no
Brasil até hoje.
No cuidado em saúde, as características socioeconômicas devem ser relacionadas aos
indicadores de saúde, de modo a demarcar a importante relação entre saúde, seus determinantes
sociais e a organização do sistema de saúde, para a instrumentalização de políticas e programas
voltados ao combate às iniquidades sociais, com vistas a busca de um Sistema Único de Saúde
(SUS) equitativo no acesso e pautado na integralidade da saúde. Para isso temos que enfrentar
as práticas racistas no cotidiano nos serviços, bem como pautar os processos de formação e
educação permanente dos trabalhadores da saúde.
Referências Bibliográficas
ACHILLE, MBEMBE. Crítica da razão negra. Portugal: Antígona, 2014.

BRASIL. Política Nacional de Saúde Integral da População Negra. Ministério da Saúde:


Portaria nº992/2009.

______. Lei nº 8.080. Lei Orgânica da Saúde. Brasília; Ministério da Saúde, 1990

______. Portaria nº2.436. Política Nacional de Atenção Básica à Saúde. Brasília: Ministério
de Saúde, 2017

BATISTA, Luis Eduardo; BARROS, Sônia. Enfrentando o racismo nos serviços de


saúde. Cadernos de saúde pública, v. 33, n. Suppl 1, p. e00090516, 2017.

BENTO, Maria Aparecida Silva et al. Branqueamento e branquitude no Brasil. Psicologia


social do racismo: estudos sobre branquitude e branqueamento no Brasil. Petrópolis:
Vozes, p. 25-58, 2002.

MILLS, Charles W. O contrato racial: Edição comemorativa de 25 anos. Editora Schwarcz-


Companhia das Letras, 2023.

WERNECK, Jurema. “Mulheres Negras no SUS”. Disponível


https://youtu.be/Xdq9eiZO8Mw?si=LMXXagRSnLyHp4Zq. Acesso em: 21 de outubro de
2023.
Relato de Experiência

Servir, cozinhar e limpar de mulheres negras: um olhar através da segurança


alimentar e nutricional

Larissa Brillo Nunes Rúbio 85


Jayane Gomes Martiniano de Oliveira 86
Luana Teixeira Ghiggino 87
Eloah Costa de Sant Anna Ribeiro 88
e Aline Alves Ferreira 89

Palavras-chave: Interseccionalidade, Racismo, Sexismo, Insegurança Alimentar e Nutricional.

Contextualização
As mulheres negras, desde a diáspora, sofrem opressões cotidianas. As relações de
poder estabelecidas em quase três séculos de escravidão trazem uma realidade de violências,
marcadas principalmente, pela serventia e serviços domésticos incumbidos às mulheres negras
e perpetuadas na estrutura social brasileira patriarcal e racista até a contemporaneidade (CHAI,
C.G, et al. 2023).
Antes mesmo de existir a chamada “divisão sexual do trabalho”, as mulheres pretas e
pardas, em sua maioria, trabalhavam fora do lar. Como consequência histórica, elas detêm
menos oportunidades de emprego, menores expectativas de ascensão de carreira e salários,
ainda que ocupem o mesmo cargo, quando comparadas aos homens (Heilborn & Rodriguez,
2018). Mesmo no trabalho econômico, as mulheres negras ocupam com maior prevalência os
trabalhos domésticos e de cuidado de pessoas (IBGE, 2019). Como consequência, são as mais
afetadas pela pobreza (Souza et al., 2020). Ainda exercem tanto o trabalho doméstico como de
cuidado em suas casas, sendo responsáveis pela alimentação de suas famílias e pelos cuidados
com sua prole e seus parceiros (Heilborn & Rodriguez, 2018; Federici, 2019).

85
Graduanda em Nutrição pelo Instituto de Nutrição Josué de Castro da Universidade do Federal do Rio de Janeiro;
Integrante do Grupo Interdisciplinar de Estudos sobre Segurança Alimentar e Nutricional - GISAN/UFRJ;
orientadora Aline Alves Ferreira; [email protected]
86
Graduanda em Nutrição pelo Instituto de Nutrição Josué de Castro da Universidade do Federal do Rio de Janeiro;
Integrante do Grupo Interdisciplinar de Estudos sobre Segurança Alimentar e Nutricional - GISAN/UFRJ;
orientadora Rosana Salles-Costa; [email protected].
87
Mestranda em Nutrição Humana pelo Programa de Pós-Graduação em Nutrição da Universidade do Federal do
Rio de Janeiro; orientadora Aline Alves Ferreira; Pesquisadora no Grupo Interdisciplinar de Estudos sobre
Segurança Alimentar e Nutricional - GISAN/UFRJ; [email protected]
88
Doutoranda em Ciências Nutricionais pelo Programa de Pós-Graduação em Nutrição da Universidade do Federal
do Rio de Janeiro; orientadora Rosana Salles-Costa; Pesquisadora no Grupo Interdisciplinar de Estudos sobre
Segurança Alimentar e Nutricional - GISAN/UFRJ; [email protected]
89
Doutora em Ciências Nutricionais pelo Programa de Pós-Graduação em Nutrição da Universidade do Federal
do Rio de Janeiro; Vice-coordenadora do Grupo Interdisciplinar de Estudos sobre Segurança Alimentar e
Nutricional - GISAN/UFRJ; [email protected]
O trabalho doméstico perdura-se nos modelos casa grande e senzala. Dessa forma, as
relações de poder estabelecidas entre empregadores brancos e as mulheres, majoritariamente
negras de renda baixa, trazem para os patrões uma autoridade e controle das vidas das
trabalhadoras, domésticas e cozinheiras negras trabalhando em condições extenuantes e com
baixa remuneração (Thais Sant’Anna, 2022).
Este cenário contribui para a invisibilização da mulher negra no mercado de trabalho,
assim como o racismo estrutural colonial em que foram construídas as forças e relações
trabalhistas contemporâneas (Cida Bento, 2022). Assim como o não lugar imposto às mulheres
negras, ou seja, o outro (lê-se não branco) como um não sujeito e, portanto, passíveis a vertente
do fazer viver e deixar morrer, com a noção de necropolítica de Achille Mbembe (2018).
Assim, ao adicionar o recorte de gênero e raça, a partir de uma visão interseccional, cunhada
por Kimberlé Crenshaw (2002), observa-se um cenário agravante de opressão e violência na
saúde para mulheres negras, criando desafios significativos no acesso a uma alimentação
adequada.

Descrição e Período de Realização


A autora deste trabalho é graduanda em Nutrição e atua, desde 2022, no projeto de
Iniciação Científica na Universidade Federal do Rio de Janeiro, cujo objetivo é estudar sobre
a segurança alimentar e nutricional (SAN) e as desigualdades étnicas-raciais e gênero. As
reuniões acontecem de forma presencial, semanalmente com as estudantes de graduação, pós-
graduação e docentes onde ocorrem debates de artigos científicos.
Foi realizada uma análise documental nos inquéritos populacionais com dados do II
Inquérito Nacional sobre Insegurança Alimentar no Contexto da Pandemia da COVID-19 (II
VIGISAN), de 2020 e 2022, a partir da discussão do trabalho doméstico da mulher negra no
período de julho a outubro de 2023.

Objetivo
Esta pesquisa tem como objetivo analisar o trabalho de mulheres negras nas cozinhas
das casas brasileiras, dentro do processo de escravidão contemporânea colonial, e a prevalência
de IA nessa população.

Resultados
A intersecção de opressões, principalmente, de gênero, raça e classe traz para mulheres
negras um cenário de dificuldade de acesso à alimentação adequada. Não só lidam com o
racismo institucional e opressões de gênero no mercado de trabalho, evidenciados pela
diferença salarial de 30% a menos para mulheres e de 60% a menos para pessoas negras (IBGE,
2022) e pelo crescimento do trabalho informal (IBGE, 2022). Mas também trabalham para além
do trabalho econômico, com cerca de 6 horas a mais de trabalho doméstico em suas casas
(IBGE, 2011).
No campo da Segurança Alimentar e Nutricional, as mulheres negras chefes de
domicílio apresentam maior prevalência de insegurança alimentar, independente do grau
escolar ou renda familiar (Rede PENSSAN, 2022). Isso demonstra que a questão de raça e de
gênero é um fator determinante para a condição social e de renda dessas famílias, impondo
intersecções de cargas que podem limitar sua energia para o trabalho econômico, cuidado,
afetos e seu tempo disponível para o preparo de refeições de sua família. Ao mesmo passo que
cuidam de outras famílias, dentro do trabalho doméstico, cozinhando e atendendo às
necessidades de seus patrões.
Nesse sentido, é ao menos curioso observar que cerca de 69,9% de domicílios chefiados
por mulheres pretas e pardas se encontram em insegurança alimentar (Rede Penssan, 2022),
mesmo trabalhando diariamente dentro das cozinhas da classe média brasileira.

Aprendizados e Análise Crítica


Em linhas gerais, a mulher negra e seu trabalho, em especial aquele feito nas cozinhas,
são inferiorizados e diferenciados, numa perspectiva oposta ao ideal branco e, portanto,
negativa. Aquelas que se destacam são apreciadas, mas “não se sentam à mesa” (Thais
Sant’Anna, 2022). Não é à toa que o nome de tia Nastácia, famosa personagem infantil negra,
não estampa embalagens.

Referências Bibliográficas
BENTO, Cida. Pacto da Branquitude. Rio de Janeiro: Companhia das Letras, 2022.

CHAI, Cassius G.; MORAIS, Vitor M. S.; SOUZA, Karine S.; RAMOS, Fernanda F. C.
Interseccionalidades da escravidão contemporânea da mulher negra à luz do pensamento
decolonial: trabalho, determinantes e desigualdades sociais. Rio de Janeiro: Cadernos
EBAPE, 2023.

CRENSHAW, K. Documento para o encontro de especialistas em aspectos da discriminação


racial relativos ao gênero. Santa Catarina: Revista Estudos Feministas, 2002.

FEDERICI, Silvia. Calibã e a Bruxa: Mulheres, Corpos e Acumulação Primitiva. São


Paulo: Editora Elefante, 2019.

MBEMBE, Achille. Necropolítica: biopoder, soberania, estado de exceção,


política da morte. Tradução de Renata Santini. São Paulo: N-1 edições, 2018.

HEILBORN, Maria L.; RODRIGUES, Carla. Gênero: breve história de um conceito.


APRENDER - Caderno de Filosofia e Psicologia da Educação, [S. l.], n. 20, 2018

IBGE – INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. Censo


Demográfico 2010: características da população e dos domicílios: resultados do
universo. Rio de Janeiro: IBGE, 2011.

IBGE – INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. Coordenação de


População e Indicadores Sociais. Síntese de indicadores sociais: uma análise das
condições de vida da população brasileira: 2019. Rio de Janeiro: IBGE, 2019.

PENSSAN, Rede. II Inquérito Nacional sobre Insegurança Alimentar no Contexto da


Pandemia da COVID-19 no Brasil (II VIGISAN): relatório final. São Paulo: Fundação
Friedrich Ebert: Rede PENSSAN, 2022.
SANT’ANNA, Thais. Um pé na cozinha: um olhar sócio-histórico para o trabalho de
cozinheiras negras no Brasil. São Paulo: Fósforo Editora, 2022.

SANTOS, Lissandra A. et al. Interseções de gênero e raça/cor em insegurança alimentar nos


domicílios das diferentes regiões do Brasil. Rio de Janeiro: Cadernos de Saúde Pública, 2022.

SOUZA, Virgínia; PENTEADO, Camila; NASCIM Rafaelly; RAINER, Augusta P.


A Feminização da Pobreza no Brasil e seus determinantes. Toledo: IGepec, 2020.
COLETIVO TEMÁTICO:
Itinerários de cuidado e processos saúde-doença

A proposta do Coletivo Temático foi contribuir com as reflexões sobre as experiências


de adoecimento e cuidado. O evento doença produz uma série de interrupções e novos estímulos
nos fluxos da vida, atravessando e interferindo desde as rotinas domésticas e produtivas até a
relação com o próprio corpo e com outras pessoas. A possibilidade de acesso aos serviços de
saúde, a existência de uma rede de cuidado e as determinações sociais e geográficas do
território, entre outros fatores, circunscrevem as condições das experiências de adoecer e ser
cuidado. Neste contexto, o itinerário terapêutico (IT) é uma tecnologia avaliativa em saúde que
proporciona a investigação dos caminhos percorridos por pessoas na busca de cuidados para
seus problemas de saúde, trazendo visibilidade para os saberes, práticas e demandas dos
sujeitos, os atores principais dos ITs, e para as tensões entre a lógica do usuário e a lógica dos
serviços de saúde. Pensar as práticas em saúde sob a perspectiva do usuário amplia as redes de
conhecimento tecnológico com potencial para desenvolvimento de ferramentas para a produção
de um cuidado integral frente às desigualdades sociais e territoriais. Com isso, aceitamos
trabalhos que reflitam sobre: os processos de saúde-doença; os itinerários terapêuticos e
arranjos de cuidado; a integralidade em saúde; a distribuição desigual do cuidado; os
determinantes sociais da saúde; os grupos de ajuda mútua; práticas alternativas ou religiosas; o
impacto das tecnologias biomédicas e comunicacionais nas relações de cuidado; as
“bioidentidades” e as relações entre cuidado e militância, entre outros.
Relato de Experiência

Abordagem Interdisciplinar à Pessoas Com Obesidade Grave No SUS: Relato de


Experiência

Liliane Siqueira 90
Luana Siqueira 91
Vanessa de Moraes Tenius 92
e Luciane Pires da Costa 93

Palavras-chave: Obesidade; SUS; Multidisciplinaridade, Saúde Pública; Integralidade.

Contextualização
A obesidade grave é uma doença crônica e multifatorial que vem se destacando nos
últimos anos pelo crescimento a nível pandêmico, se tornando um grande desafio de saúde
pública. Grande parte da população com obesidade grave possui pouco ou nenhum acesso a
tratamento interdisciplinar, devido à situação socioeconômica, mobilidade e falta de linha de
cuidado no Sistema Único de Saúde (SUS).

Descrição
O programa de atendimento interdisciplinar do Laboratório de Assistência à Obesidade
(LAçO) tem por objetivo o tratamento interdisciplinar não cirúrgico desenvolvido pelo Grupo
de Estudos e Promoção de Saúde à Obesidade (GEPSO) para o enfrentamento da crescente
demanda da obesidade no Sistema Único de Saúde. Implantado em 2018 no Instituto de
Educação Física e Desportos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro e em 2021 na
Policlínica Universitária Piquet Carneiro, o LAçO visa promover qualidade de vida e bem-
estar, assim como emagrecimento saudável aos usuários e conta com uma equipe
multidisciplinar. As pessoas com obesidade grave oriundas do Sistema de Regulação do SUS,
encaminhamentos ou livre demanda são submetidas a uma triagem para verificação da
elegibilidade para o tratamento, as elegíveis assinam o termo de consentimento livre e
esclarecido, o termo de autorização de imagem, formulário de inscrição e os questionários de
qualidade de vida (Whoqol-Bref) e prontidão para atividade física (PAR-Q). Além disso,
recebem os encaminhamentos para realização dos exames laboratoriais, avaliação de médico
cardiologista e endocrinologista, caso seja pertinente outras avaliações são realizadas.
Posteriormente são realizadas as avaliações pela equipe de profissionais da nutrição, educação
física e psicologia. Após as avaliações realizadas, o indivíduo inicia o tratamento on-line em

90
Nutricionista e Supervisora no Laboratório de Assistência à Obesidade; [email protected]
91
Graduanda em Psicologia pela Universidade Estácio De Sá; [email protected]
92
Mestranda no Programa de Pós-graduação em Ciências do Exercício e do Esporte do Instituto de Educação
Física e Desportos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro; [email protected]
93
Coordenadora do Laboratório de Assistência à Obesidade da Policlínica Universitária Piquet Carneiro;
[email protected]
grupo, composto de aulas de treinamento físico 3x/semana, sessão de psicoterapia, educação
alimentar e nutricional, ambas com periodicidade quinzenal. A cada 3 meses os indivíduos são
reavaliados individualmente e o tratamento proposto tem duração de 6 meses.

Período de Realização
As atividades descritas neste relato de experiência são referentes ao período de
Fevereiro a Setembro de 2023.

Objetivos
Relatar a experiência de uma equipe multiprofissional no cuidado integral de usuários
com obesidade grave a partir de ações de assistência, ensino e pesquisa de um laboratório
inserido no SUS.

Resultados
Foram atendidos 86 pacientes, com idades entre 18 a 59 anos de ambos os sexos, desses,
56 não permaneceram no projeto por motivos diversos e apenas 12 pacientes seguem em
tratamento. Em relação a composição corporal 30,43% classificados com obesidade moderada
(IMC entre 35 a 39,9Kg/m²), 56,52% obesidade grave (IMC ≥ 40 kg/m²) e 13,04% com
superobesidade (IMC ≥ 50 kg/m²). Quanto ao WHOQOL-BREF a média do domínio foi 3,0
em relação ao físico, 2,8 ao psicológico, 3,2 às relações sociais e 2,9 ao meio ambiente. Os
resultados do IPAQ foram que 58,33% dos pacientes são irregularmente ativos, 25% são ativos,
8,33% são sedentários e muito ativos. Foram realizadas 13 oficinas psicoeducativos de nutrição
e alimentação, 65 aulas de treinamento físico e 23 sessões de psicoterapia em grupo. O projeto
proporciona aos participantes uma reflexão quanto à importância da alimentação saudável, do
cuidado com a saúde mental e da prática regular de exercício físico, objetivando que ao fim do
tratamento, os participantes possuam maior conscientização do adoecimento e da necessidade
de mudança de comportamento. Cada equipe utiliza instrumentos de avaliação pré e pós-
intervenção que demonstram eficiência do tratamento proposto. Entretanto, gostaríamos de
ressaltar que 65% das pessoas que chegaram ao nosso setor não usufruíram do nosso tratamento
por motivos como: desejo exclusivamente pela bariátrica, e principalmente por complicações
associadas à obesidade grave que necessitavam de avaliação de especialistas como
cardiologistas que atualmente é uma enorme carência no SUS.

Aprendizados e Análise Crítica


Ressaltamos como aprendizado a necessidade e a importância da informação em
relação à obesidade grave enquanto doença, para a qual são necessárias linhas de tratamentos
alternativos e complementares à cirurgia bariátrica que garantam a manutenção da saúde,
qualidade de vida e controle do peso dos pacientes, que contemplem suas necessidades forma
integral, considerando as dificuldades socioeconômicas, de mobilidade e para além da parte
metabólica, os cuidados com a saúde mental. Constatamos em nossa vivência a falta de
recursos institucionais para assistência à saúde de pessoas com obesidade grave e
superobesidade no SUS. Cadeiras, macas, esteira ergométrica, equipamentos de imagem,
balanças, instrumentos de avaliação específicos e recursos humanos especializados para uma
outra doença que vem crescendo no Brasil e que sem dúvida é muito diferente da obesidade
leve ou moderada, e que, portanto, necessitam de cuidados diferentes. Pela primeira vez o
Ministério da Saúde publicou dados especificamente sobre quantitativo de pessoas com
obesidade grave. Segundo o SISVAN, em 2023, no Rio de Janeiro 4,13% da população do Rio
de Janeiro possui obesidade grave.
Somos o único serviço no SUS interdisciplinar, a nível especializado, disponível para
o atendimento dessas pessoas, sendo extremamente difícil o acompanhamento concomitante
por outras especialidades (médicos cardiologistas, endocrinologista, ortopedista, psiquiatra e
psicólogos) para avaliar, atestar e acompanhar o tratamento.
A invisibilidade dessa doença pelo serviço de saúde é refletida na falta de dados, falta
de instrumentos específicos para essa população, o que dificulta inclusive a produção de
estudos que possam colaborar para a criação de políticas e uma linha de cuidados no SUS para
pessoas com obesidade no estado do Rio de Janeiro.

Referências Bibliográficas
CARDOSO, Márcia Roberta de Oliveira et al. El camino recorrido por usuarios de un
Centro de Atención Psicosocial del Estado de Pará: construyendo itinerarios en la
búsqueda del cuidado. Mental, v. 11, n. 20, p. 91-116, 2017.

YOUNES, Soraia; RIZZOTTO, Maria Lucia Frizon; ARAÚJO, Allan Cezar Faria. Itinerário
terapêutico de pacientes com obesidade atendidos em serviço de alta complexidade de um
hospital universitário. Saúde em Debate, v. 41, p. 1046-1060, 2017.

VELAZQUEZ, Amanda; APOVIAN, Caroline M. The effects of obesity on health care


delivery. Gastroenterology Clinics, v. 52, n. 2, p. 381-392, 2023.

SITHOLE, Bukhosi Raymond; PAPPAS, Yannis; RANDHAWA, Gurch. eHealth in obesity


care. Clinical Medicine, v. 23, n. 4, p. 347-352, 2023.
Relato de Experiência

A gente nasce aprendendo, cresce aprendendo e morre sem saber: o


fortalecimento coletivo em um grupo de convivência de idosas no município de
Petrópolis

Luana Papelbaum Micmacher 94


Ana Paula Belizário Souza 95
Bárbara Piulats 96
e Tatiane Jardim Costa 97

Palavras-chave: Grupo de Convivência; Estratégia Saúde da Família; Acessibilidade;


Envelhecimento feminino.

Contextualização
O trabalho com grupos na Saúde da Família é uma prática significativa para a promoção
e prevenção da saúde, sendo espaços “de empoderamento e de participação (...), de suporte e
de apoio” por sua aposta na coletividade enquanto ferramenta de cuidado (BRASIL, 2014, p.
68). Os grupos de convivência, em especial para a população idosa, promovem o
fortalecimento de vínculos, amplia as redes comunitárias e o olhar aos usuários. Esta faixa
etária, que cresce cada vez mais no Brasil (GALVÃO, 2023), vive uma posição ambígua no
imaginário social: de um lado, a velhice enquanto tempo de “desuso”, de abandono, de
inutilidade. De outro, a velhice como período em que se pode usufruir do tempo, estimulada a
ser produtiva, atendendo a ideais contemporâneos de independência (DEBERT, 1999). Deste
conflito que advém com esta nova posição no mundo, enquanto idosas, e a partir de demandas
de solidão constantemente acolhidas pela equipe de saúde, apresentamos aqui o processo de
trabalho com um Grupo de Convivência de idosas na cidade de Petrópolis.

Descrição
Em uma microárea recém-adscrita como território desta unidade de Saúde da Família,
percebeu-se barreiras de acesso dos usuários ao serviço, devido a dificuldades de locomoção e
da distância desta localidade ao equipamento de saúde. Assim, passou-se a realizar o que
denominamos de “posto itinerante” neste local, em um turno semanal, no qual a equipe passou
a dirigir-se até lá, realizando acolhimentos, aferição de pressão arterial, medição de glicemia e
visitas domiciliares. Essa experiência contou com a participação das residentes enfermeira,

94
Psicóloga; Especializanda pelo Programa de Residência Multiprofissional em Atenção Básica pela
UNIFASE/SMS; [email protected]
95
Enfermeira; Especializanda pelo Programa de Residência Multiprofissional em Atenção Básica pela
UNIFASE/SMS; [email protected]
96
Nutricionista; Especializanda pelo Programa de Residência Multiprofissional em Atenção Básica pela
UNIFASE/SMS; [email protected]
97
Mestra em Ensino na Saúde pela Universidade Federal Fluminense; Enfermeira servidora da Estratégia Saúde
da Família de Petrópolis; [email protected]
psicóloga e nutricionista, vinculadas ao Programa de Residência Multiprofissional em Atenção
Básica pela UNIFASE/SMS, e com enfermeira, dentista e agente comunitária da unidade. Esse
movimento denota a relevância da acessibilidade em saúde, que remete às possibilidades de
uso e acesso aos serviços, o que exige constantes adaptações por parte da equipe
(TRAVASSOS; MARTINS, 2004).
Percebendo a adesão de usuárias majoritariamente idosas, que se queixavam de solidão
e isolamento, foi criado um Grupo de Convivência, que passou a ser realizado em uma sala
disponibilizada pelas moradoras do local. No primeiro encontro, foram levantadas as demandas
a serem trabalhadas ao longo do percurso. O grupo passou a reunir cerca de quinze usuárias,
em encontros de uma hora e meia de duração, no qual visamos o trabalho de integração, a troca
de experiências e o “estar junto”. Dentre as atividades realizadas, são frequentes as rodas de
conversa sobre questões ligadas ao envelhecimento, ao ser mulher e a relações familiares.
Realizamos ações de educação em saúde sobre doenças crônicas, alimentação saudável e
fitoterapia. Além disso, privilegiamos momentos de descontração, como uma festa junina, além
dos frequentes “cafezinhos”, inaugurando uma prosa que antecede o grupo. Valoriza-se uma
postura de escuta ativa e de circulação da palavra, na qual as profissionais de saúde ocupam
um lugar de mediadoras do processo de cuidado.

Período de Realização
Esta experiência está em curso desde maio de 2023.

Objetivos
Relatar a experiência da formação de um Grupo de Convivência com idosas realizada
em uma Unidade de Saúde da Família da cidade de Petrópolis; expor a relevância do
dispositivo grupal dentro da Estratégia Saúde da Família.

Resultados
A partir da implementação deste grupo, percebemos como as usuárias são grandes
mobilizadoras deste coletivo, apontando para uma dimensão de responsabilidade relacional
(CAMARGO-BORGES; MISHIMA, 2009). Este espaço demonstra ser estratégico para o
levantamento de demandas territoriais. A partir da escuta, visualizamos novos vínculos e o
fortalecimento de redes de cuidado já tecidas na própria área.

Aprendizados e Análise Crítica


A partir desta experiência, percebemos como o processo de envelhecimento é
frequentemente associado à solidão e à sideração em relação ao lugar social de que se ocupa,
em especial as mulheres, que nos relatam sempre terem sido as principais cuidadoras de seus
núcleos familiares e comunitários, sentindo vergonha associada à necessidade de ser cuidada.
Percebeu-se que a aposta no coletivo enquanto estratégia de cuidado é capaz de fortalecer e
fomentar novos vínculos, ampliando a rede de apoio das participantes, que se agenciam e
constroem conjuntamente este espaço. Pelo coletivo, essas noções – a vergonha, a dificuldade
de lidar com esse corpo envelhecido (GOLDENBERG, 2013) – passam a ser deslocadas. As
usuárias reiteram que este espaço é de constante aprendizagem, positivando o envelhecimento.
Além disso, visualizamos a importância dos processos de itinerância da equipe de saúde para
ampliar a acessibilidade, promovendo equidade e universalidade de acesso ao serviço. Por fim,
percebemos como este dispositivo é um espaço potente, em especial por seu caráter de fazer
retornar ao coletivo ao que dele pertence, possibilitando que pela escuta de outras vozes, as
participantes possam se identificar e se fortalecer mutuamente, enxergando novos possíveis
para seus sofrimentos, além de visibilizar o fato de que o adoecimento – da pressão à depressão
– são historicizados (FLEISCHER, 2018).

Referências Bibliográficas
BRASIL. Ministério da Saúde. Cadernos de Atenção Básica, n. 39. Núcleo de Apoio à Saúde
da Família. v. 1. Brasília: Ministério da Saúde, 2014. Disponível em:
https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/nucleo_apoio_saude_familia_cab39.pdf. Acesso
em: 05 out. 2023.

CAMARGO-BORGES, C.; MISHIMA, S. M. A responsabilidade relacional como ferramenta


útil para a participação comunitária na atenção básica. Saúde e Sociedade, v. 18, n. 1, p. 29–
41, jan. 2009. Disponível em:
www.scielo.br/j/sausoc/a/9MPCYBgPxystgvfYkMj8Vwx/?lang=pt&format=pdf. Acesso em:
05 out. 2023.

DEBERT, G. G. Velhice e o curso da vida pós-moderno. Revista USP, [S. l.], n. 42, p. 70-83,
1999. Disponível em: https://www.revistas.usp.br/revusp/article/view/28456. Acesso em: 5
out. 2023.

FLEISCHER, Soraya. Descontrolada: uma etnografia dos problemas de pressão. São


Carlos: EDUFSCar, 2018.

GALVÃO, J. Dados do IBGE revelam que o Brasil está envelhecendo. Jornal da USP, 2023.
Disponível em: https://jornal.usp.br/radio-usp/dados-do-ibge-revelam-que-o-brasil-esta-
envelhecendo/#:~:text=Em%2
0dez%20anos%2C%20o%20n%C3%BAmero,milh%C3%B5es%20de%20idosos%20no%20
Pa%C3%ADs. Acesso em: 19 out 2023.

GOLDENBERG, M. Mulheres e envelhecimento na cultura brasileira. Caderno Espaço


Feminino, [S. l.], v. 25, n. 2, 2013. Disponível em:
https://seer.ufu.br/index.php/neguem/article/view/21803. Acesso em: 5 out. 2023.

TRAVASSOS, C.; MARTINS, M.. Uma revisão sobre os conceitos de acesso e utilização de
serviços de saúde. Cadernos de Saúde Pública, v. 20, p. S190–S198, 2004. Disponível em:
https://www.scielo.br/j/csp/a/PkyrsjDrZWwzzPVJJPbbXtQ/?lang=pt&format=pdf. Acesso
em: 05 out. 2023.
Relato de Experiência

A interdisciplinaridade e a integralidade no SUS: um olhar acerca do trabalho


multiprofissional no cuidado de usuários com indicação de transplante cardíaco

Mariana Camargo Tumonis Oliveira 98


e Roseni Pinheiro 99

Palavras-chave: Integralidade; Equipe de Assistência ao Usuário; Cuidado.

Contextualização
A compreensão acerca da interdisciplinaridade nos remete à necessidade de superar a
fragmentação das ações nas linhas de cuidado e a fortalecer o princípio da integralidade
defendido pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Dissertar acerca do trabalho interdisciplinar em
um hospital universitário requer a identificação das dificuldades para sua efetivação, com
destaque para o rompimento com o modelo hospitalocêntrico e com o ideário da supremacia
médica frente às demais categorias profissionais. Exige-se ainda um compromisso profissional
com uma atuação baseada nas prerrogativas da Reforma Sanitária e em defesa do SUS, diante
de um contexto de restrição dos direitos sociais e da não efetivação do caráter público e
universal da política de saúde. A compreensão acerca do trabalho em equipe, segundo Peduzzi
(2001), pressupõe sua identificação como um trabalho coletivo. Sob a perspectiva da integração
de práticas especializadas, configura-se na relação recíproca entre intervenções técnicas e a
interação entre os múltiplos agentes envolvidos.

Descrição
Quando nos referimos a usuários com indicativo de transplante cardíaco (TxC) e suas
respectivas redes de apoio, o vínculo com uma equipe de referência multiprofissional torna-se
indispensável para a garantia do cuidado, tomada de decisões, continuidade dos
encaminhamentos propostos e o consequente resultado positivo do procedimento. Ressalta-se
que os potenciais receptores de um novo coração são, obrigatoriamente, submetidos a uma
extensa avaliação clínica até o momento da cirurgia. Durante este acompanhamento, cabe aos
profissionais envolvidos o mapeamento das principais condições a serem trabalhadas, com base
em um conceito ampliado de saúde e a identificação de seus condicionantes sociais e
econômicos.
Sob uma perspectiva de atenção integral à saúde, ressalta-se a atuação de uma equipe
formada por assistente social, enfermeira, psicóloga, nutricionista, fisioterapeuta e uma médica
no atendimento destes usuários. Equipe esta que atua de forma coordenada e em rede a fim de
garantir a resolutividade de suas ações. Como condicionante, destaca-se a compreensão da

98 Mestranda pelo Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva do Instituto de Medicina Social Hesio Cordeiro
da Universidade do Estado do Rio de Janeiro; orientanda da Profa. Roseni Pinheiro; [email protected]
99 Profa. Associada do Instituto de Medicina Social da Universidade do Estado do Rio de Janeiro; Coordenadora
do Laboratório de Pesquisas sobre as Práticas de Integralidade em Saúde (LAPPIS); [email protected]
integralidade para além de um conjunto articulado e contínuo das ações e serviços em todos os
níveis de complexidade do SUS. A este princípio, também se vinculam diversas dimensões do
cuidado, como o acesso, a qualidade dos serviços e as relações interpessoais.

Período de Realização
Os apontamentos referem-se ao trabalho desenvolvido entre outubro de 2021, quando
se constituiu a equipe, até o mês de setembro de 2023.

Objetivo
O presente relato de experiência tem por objetivo retratar a relevância do trabalho
multiprofissional no acompanhamento de usuários com indicação de TxC.

Resultados
O êxito do trabalho interdisciplinar está descrito na capacidade de articulação entre
profissionais de distintas especialidades para um propósito comum. Neste caso, garantir que os
usuários com indicação de TxC sejam acompanhados durante todo o processo e que suas
demandas sejam minimamente atendidas. Uma vez que o transplante seja indicado e a
viabilidade confirmada, o usuário passa a ser acompanhado pela equipe multiprofissional de
modo a garantir que suas demandas biopsicossociais sejam devidamente acolhidas. Os
atendimentos são realizados de maneira conjunta e as avaliações específicas e individuais
acontecem em momentos oportunos. Práticas baseadas em uma escuta ativa e em ações
propositivas são indispensáveis durante todo o processo. A experiência demonstra que, apesar
dos desafios, a equipe tem caminhado no sentido de garantir que os acompanhamentos ocorram
de maneira sistemática e que estratégias sejam criadas diante das dificuldades encontradas.
Resultados positivos, bem como os desafios a serem enfrentados para a garantia da qualidade
do trabalho profissional, podem ser identificados por meio dos relatos dos usuários e pela
sistematização desenvolvida pelo próprio grupo acerca do trabalho realizado. Reforça se a
necessidade de avaliações periódicas como condição para o fortalecimento da equipe e o
destaque para a relevância da atuação multiprofissional.

Aprendizados e Análise Crítica


As análises de Pinheiro, Ferla e Junior (2007), ressaltam que priorizar a integralidade
nas políticas de saúde exige a compreensão de dois movimentos recíprocos presentes nos
processos organizacionais: o enfrentamento de obstáculos e a implementação de inovações e a
relação entre estes e a sociedade. Nesta lógica, aos profissionais de saúde, a partir de uma
postura horizontal com seus gestores e usuários dos serviços, cabe o acolhimento dos sujeitos,
considerando suas condições e necessidades de saúde, marcadas por um alto nível de
subjetividade, imprevisibilidade e complexidade. Nesta relação, destaca-se a importância de
garantir que os usuários se reconheçam como sujeitos e principais partícipes durante o processo,
sendo preservada sua total autonomia.

Referências Bibliográficas
PEDUZZI, Marina. Equipe multiprofissional de saúde: conceito e tipologia. Revista de Saúde
Pública, São Paulo, v. 35, n. 1, p. 103-109,2001.
PINHEIRO, Roseni; FERLA, Alcindo and SILVA JUNIOR, Aluisio Gomes da. A integralidade
na atenção à saúde da população. Ciênc. saúde coletiva [online]. 2007, vol.12, n.2, pp.343-
349. ISSN 1413-8123
Relato de Pesquisa

As deficiências e o HIV/ AIDS do ponto de vista de médicos e pessoas que vivem


com HIV/AIDS

Cassiano Ricardo Dezotti de Abreu 100


Claudia Mercedes Mora 101
e Veriano Terto Jr 102

Palavras-chave: Pessoas vivendo com HIV/AIDS e deficiência(s); Médicos; Estigma;


Preconceito; Discriminação; ONGs AIDS.

Contextualização
A pesquisa tem por foco o entrecruzamento de dois temas: deficiência e HIV/AIDS.
Estes compartilham aspectos como a necessidade de cuidados em tempo integral e a
importância do atendimento multidisciplinar. Sem contar o preconceito, discriminação e o
estigma os quais contribuem para a exclusão social e distorções da sexualidade de ambos os
grupos.

Objetivos
O objetivo principal foi compreender as experiências vividas pelas PVHA e
deficiência e conhecer as ações de apoio por parte de organizações da sociedade civil e de
médicos. Alguns objetivos específicos foram compreender a trajetória social da PVHA e
deficiência e apreender se a PVHA e deficiência considera que recebeu apoio psicossocial de
ONGs AIDS e Casas de Apoio.

Metodologia
Realizei uma observação participante em uma Casa de Apoio na região metropolitana
do estado do RJ, complementada por entrevistas. As observações participantes e entrevistas
com os médicos e PVHA e deficiência foram realizadas entre 1º de maio de 2022 e 30 de
novembro de 2022. Duas entrevistas foram presenciais com médicos voluntários da Casa e duas
com médicas do Hospital Pedro Ernesto. Por fim, realizei outras duas remotas com dois
médicos, uma que trabalhou no Hospital Emílio Ribas, em SP, e o outro que é pesquisador da
Fiocruz. Todos os entrevistados assinaram o TCLE e permitiram a gravação das entrevistas.
Transcrevia as anotações principais das observações participantes em diários de campo, assim
como as entrevistas semiabertas que fazia com os médicos.
Participei de duas reuniões como as pessoas que vivem com HIV/AIDS – PVHA – e
deficiência e são assistidos com cestas básicas pela Casa. Ouvi relatos de preconceito e
discriminação de parentes próximos que trouxeram à tona lembranças desagradáveis de

100
Doutorando do PPGSC do IMS/UERJ. Orientadora: Claudia Mora; [email protected].
101
Professora adjunta do PPGSC do IMS/UERJ; [email protected]
102
Diretor vice-presidente da Associação Brasileira Interdisciplinar de AIDS – ABIA.
preconceitos que vivi no início da lesão medular por familiares e amigos e fizeram-me notar o
quanto os deficientes e PVHA têm em comum. No entanto, seguindo a orientação de Velho
(2003), precisei refletir sobre “proximidade x distanciamento” e “familiaridade x
estranhamento”. Como pesquisador, foi necessário não naturalizar tudo o que via e ouvia,
questionava tudo. Estava no mesmo lugar que as PVHA e deficiência, porém não era morador
da Casa, não pertencia àquele universo.

Resultados e Discussão
A referida Casa acolhe jovens e adultos deficientes que adoeceram de AIDS, e sem
condições financeiras de custear os cuidados médicos necessários à sua vivência. Quando as
Casas de Apoio surgiram tiveram um papel histórico e fundamental de acolhimento de PVHA.
Atualmente, ainda são importantes, uma vez que, muitas vezes, as famílias não cumprem o
papel que deveriam fazer, ou pela falta de condições financeiras ou devido à falta de tempo para
cuidar de uma PVHA e deficiência.
A referida Casa pesquisa foi convertida na primeira Residência Inclusiva de Niterói,
região metropolitana do RJ. O Caderno de Orientações para Jovens e Adultos com Deficiência
em Residências Inclusivas (2014, p. 9) fala que seu propósito principal é interromper o
isolamento das pessoas com deficiência, que muitas vezes ficam distantes e não são estimulados
ao convívio comunitário. Os novos modelos de residências são adaptados e situados nas
proximidades da comunidade. A referida Casa dispõe de equipe especializada e suficiente para
atendimento personalizado ao cuidado às necessidades individuais e coletivas. A mudança
proposta de Abrigo Institucional para Residência Inclusiva tem como fim proporcionar a
construção da autonomia no desenvolvimento das Atividades da Vida Diária –
AVD′s dos residentes. Assim como, a participação da vida social e coletiva e o fortalecimento
dos laços familiares dos residentes, objetivando a reintegração ao convívio em sociedade. A
diretora da CMM, revelou 2 (duas) informações: 1. “A pessoa tem que apresentar alguma
deficiência e ser HIV positivo, preferencialmente, porém, não exclusivamente, uma vez que, se
a Casa só admitisse HIV positivo, estaria fazendo uma exclusão, não admitindo deficientes
devido a outras patologias”; 2. A CMM não abre espaço aos moradores para não adesão ao
tratamento com antirretrovirais. Disse: “Nunca pensei nessa possibilidade até porque se não
tomarem, a gente vai convencer a tomar”.

Aprendizados e Análise Crítica


A pesquisa que realizo revela que pessoas que vivem em situações de vulnerabilidade
social muitas vezes geram abandono da TARV ou desconhecem que vivem o HIV. Ambas as
situações favorecem o surgimento de infecções oportunistas, que promovem o desenvolvimento
de deficiência(s). As narrativas que costumamos ouvir que i = i ou indetectável =
intransmissível contribuem para o entendimento de que o HIV não pode evoluir à AIDS. Se
houver a adesão aos antirretrovirais de alta potência tudo vai ficar bem na vida da
PVHA. Entretanto, os discursos que vemos nesta pesquisa revelam que os casos de AIDS são
tão frequentes atualmente como há 3 (três) décadas atrás. A pesquisa evidencia uma experiência
atualmente pouco visibilizada de viver com HIV/AIDS e deficiência(s) e não apenas com HIV.
Referências Bibliográficas
BRASIL. Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome.
Acolhimento Institucional para Jovens e Adultos com Deficiência em Residências
Inclusivas. 2014. Disponível em:
https://www.mds.gov.br/webarquivos/publicacao/assistencia_social/Cadernos/caderno_reside
ncias_inclusivas_perguntas_respostas_maio2016.pdf. Acesso em: 25 set 2023

VELHO, Gilberto. O desafio da proximidade. In Velho, Gilberto & Kuschnir, Karina:


Pesquisas urbanas: desafios do trabalho antropológico. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2003.
Disponível em:
https://moodle.ufsc.br/pluginfile.php/1051600/mod_folder/content/0/VELHO%2C%20Gilber
to.%20O%20desafio%. Acesso em: 25 set 2023

VELHO, Gilberto. Observando o Familiar. In: NUNES, Edson de Oliveira – A Aventura


Sociológica, Rio de Janeiro, Zahar, 1978. Disponível em:
https://moodle.ufsc.br/pluginfile.php/1055165/mod_folder/content/0/VELHO%2C%20Gilber
to.%20Observando%2. Acesso em: 25 set 2023
Relato de Experiência

As margens do cuidado: quem pode ser mãe?

Tamara Vicaroni da Silva 103

Palavras-chave: Gênero; Justiça Reprodutiva; Medicina; Racismo.

Contextualização
Este relato de experiência refere-se à realização de uma Oficina de Violência de
Gênero, a qual fui convidada a coordenar. A Oficina fez parte da programação do Congresso
Médico Acadêmico UniFoa 2023 - A transversalidade da ginecologia obstetrícia no cotidiano
do médico generalista. Os participantes eram estritamente estudantes de medicina. Devido à
minha inserção na Rede Transnacional de pesquisas sobre Maternidades destituídas, violadas
e violentadas optei por abordar violência de gênero à luz da governança reprodutiva.
Em minha pesquisa proponho a pensar como diferentes aspectos de uma mãe
determinam a legitimidade e a aceitação social dessas maternidades. Esse tema de pesquisa tem
sido tensionado pela antropologia da reprodução, sendo uma das importantes chaves de leitura
a Governança Reprodutiva. Este termo foi consagrado em 2012 por duas antropólogas: Lynn
Morgan e Elizabeth Roberts (FONSECA, C. et al). Elas partem da compreensão de que, além
de um fenômeno biológico, a reprodução humana está entrelaçada com interesses coletivos e
forças políticas que se desenrolam no tecido social, e visa esmiuçar os mecanismos pelos quais
diferentes atores históricos se utilizam de controles legislativos, econômicos, culturais, morais
e éticos para monitorar comportamentos reprodutivos.

Descrição
Para discorrer sobre tal tema, utilizei o jogo “A História de Lurdes”. Esse jogo foi
desenvolvido por integrantes da Clínica de Direitos Humanos Luiz Gama (FD USP). O jogo
foi elaborado para que o jogador possa se deparar com os desafios que mulheres em situação
de rua atravessam para ter uma vida digna e acessar meios institucionais. O jogo inicia-se com
uma carta que posiciona quem é Lurdes, uma mulher negra de 22 anos que vive na rua desde
os seus três anos. A história é marcada por violências, abandonos e negações de direitos. A
carta nos conduz à primeira gestação da protagonista, na qual, apesar de ter realizado os
acompanhamentos previstos na legislação, como a realização do pré-natal e o acompanhamento
em uma Unidade Básica de Saúde, o serviço social do hospital acionou a Vara da Infância e
Juventude. A juíza que decidiu sobre o caso descreve que Lurdes seria incapaz de cuidar de
uma criança devido à sua situação.
Após essa contextualização, o jogador precisará decidir a trajetória de Lurdes. Na
oficina foi possível projetar o jogo e conduzir os alunos a discutir qual seria o caminho mais
adequado para que fosse possível que a protagonista pudesse cuidar de seu bebê. Ao longo do

103
Mestranda pelo Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva do Instituto de Medicina Social da
Universidade do Estado do Rio de Janeiro; orientada por Rosana Castro; [email protected]
jogo, foi possível reconhecer que mulheres como Lurdes têm perversamente suas maternidades
mais fiscalizadas por tecnologias de controle de conduta do que outras.

Período de Realização
Aconteceu nos dias 11 e 12 de maio de 2023 em Volta Redonda - RJ

Objetivos
A intenção e as provocações produzidas por esta oficina tiveram como horizonte
tensionar como o discurso médico, ao produzirem seus relatórios e diagnósticos, levam em
conta suas versões morais. Nesse sentido, significa dizer que as produções dessa natureza não
se sustentam somente por fatores “técnicos”, mas também por moralidades e sensibilidades
envolvidos no que é ser uma boa mãe (Fernandes, 2017).

Resultados
A oficina possibilitou a produção de perguntas e tensionamentos por parte dos alunos.
Referente às suas próprias formações e a possibilidade de uma clínica supostamente neutra.

Aprendizados e Análise Crítica


A oficina aconteceu em um espaço marcado pela disparidade racial. Havia apenas uma
pessoa negra na sala, o meu corpo. Castro (2022) salienta as tensões raciais, de gênero e classe
que constituem o campo da medicina no Brasil. Ao analisar as situações de racismo
genderizado que viveu durante seu trabalho de campo, a autora aponta para a necessidade de
as pesquisas levarem em conta as hierarquizações raciais e de gênero que constituem as
interações com os interlocutores de pesquisa, especialmente pesquisadoras negras em
ambientes majoritariamente brancos, como era o este caso. O curso de medicina no Brasil é
reconhecido pelo seu elitismo e sua branquitude. Nesta universidade a mensalidade custa R$
9.702,00, sendo a mensalidade maior do que 7 salários mínimos no país. O jogo utilizado
aborda diversos serviços públicos como o Consultório de Rua e o Centro de Atenção
Psicossocial Álcool e outras drogas. Ao abordar esses serviços, alguns alunos desconheciam
suas existências, o que serviu para dialogarmos sobre a formação médica. Esse fato demonstra
a complexa relação entre políticas do corpo e uma cultura médica voltada para especialidades.
A desumanização sistêmica, causada pelo racismo, descarrega-se em um aparato
institucional, na qual os interesses individuais e coletivos das mulheres negras e em situação
de extrema pobreza são oficialmente deslegitimados. Portanto, a posição de assujeitamento
destinado a mulheres negras as coloca muitas vezes à margem das políticas de cuidado.
Enxergo nesses aportes metodológicos e teóricos, possibilidades de sensibilização para a
construção de um cuidado e a produção de equidade para grupos que foram e são
vulnerabilizados.
Referências Bibliográficas
CASTRO, R.. Pele negra, jalecos brancos: racismo, cor(po) e (est)ética no trabalho de campo
antropológico. Revista de Antropologia, v. 65, n. 1, p. e192796, jan. 2022.

FERNANDES, Camila. 2017. Figuras da causação: sexualidade feminina, reprodução e


acusações no discurso popular e nas políticas de Estado. Tese de Doutorado, Museu
Nacional/UFRJ.

FONSECA, Claudia, MARRE, Diana e RIFIOTIS, Fernanda. “Governança reprodutiva: um


assunto de suma relevância política”. Horizontes Antropológicos [online]. 2021, v. 27, n. 61
Relato de Experiência

Avaliação da elaboração dos objetivos gerais dentro do plano terapêutico de


crianças com desordens neuromusculares, transtornos e distúrbios do
desenvolvimento infantil através de um método de estimulação integrada
intensiva.

Priscila Ferreira Leite Pereira 104


e Raquel do Carmo dos Passos 105

Palavras-chave: Formação continuada; Desenvolvimento infantil; Avaliação de processo de


trabalho.

Contextualização
Trabalhamos em uma clínica particular na cidade de Petrópolis, Rio de Janeiro, que
atende pacientes neuro diversos através da metodologia MEII que se trata de um Método de
Estimulação Integrado e Intensivo.
A metodologia do MEII enfatiza a avaliação transdisciplinar que visa nortear os
objetivos da intervenção terapêutica juntamente com a família do paciente. A Avaliação
Integrada favorece a investigação global do indivíduo, nos aspectos que envolvem o
desenvolvimento cognitivo, comunicativo, sensorial, motor/psicomotor, socioemocional e
comportamental.
A metodologia MEII dispõe-se ao desenvolvimento trimestral de objetivos gerais e
específicos para cada paciente, que são traçados em reuniões com os pais/responsáveis e
profissionais de áreas específicas referentes ao tratamento do paciente.
O objetivo geral do tratamento é elaborado de acordo com o propósito principal trazido
pela família e trabalhado por toda a equipe terapêutica transdisciplinar, estendido para os
familiares e responsáveis da criança. Em relação aos objetivos específicos do tratamento, cada
especialidade desenvolve trimestralmente de acordo com as avaliações realizadas
periodicamente.
A reavaliação é feita a cada trimestre em reuniões com os profissionais e a família do
paciente, cuja interação entre os profissionais envolvidos na terapêutica em consonância com
a família presume ser relevante para o tratamento a ser desenvolvido pela equipe
transdisciplinar.
De acordo com Wilson (1997), o tratamento em si normalmente reforça o componente
danificado por meio do treino cognitivo, a melhora do paciente é visualizada no desempenho
da tarefa treinada e em resultados provenientes de reavaliação, demonstrando que é preciso
haver interação entre os componentes terapêuticos cognitivo, sensório-motor, socioemocional
para que haja a efetivação dos ganhos terapêuticos.

104
Nutricionista, coordenadora de Nutrição na Clínica Infantil Criarte em Petrópolis, Rio de Janeiro;
[email protected]
105
Fisioterapeuta; Coordenadora do setor de fisioterapia respiratória na clínica infantil Criarte;
[email protected]
Na avaliação transdisciplinar, pode-se testar, analisar e investigar na criança as áreas
cognitiva, linguagem, motora, comportamento adaptativo e socioemocional, possibilitando
descrever e quantificar atrasos no desenvolvimento da criança, bem como construir o
planejamento terapêutico.
Os marcos do desenvolvimento, que são as habilidades que a criança deve atingir e
executar em uma determinada idade, são os norteadores das estratégias de intervenções que os
profissionais envolvidos no tratamento das crianças, desenvolvem para o alcance dos objetivos
gerais e específicos.
Com o objetivo de avaliar o serviço e as condutas adotadas nos planos terapêuticos, foi
criado um grupo de pesquisa, a fim de estudar e pesquisar bibliografias relacionadas que
embasassem a metodologia MEII empregada nos atendimentos de pacientes com transtorno de
neurodesenvolvimento. Ao estudar o processo de trabalho em relação à determinação de
objetivos trimestrais para o tratamento, foram observadas algumas incongruências, como a
falta de observância dos marcos de desenvolvimento e os antecedentes necessários para que o
paciente atingisse o objetivo proposto, levando em diversos casos o não atingimento destes
objetivos propostos.
Com a introdução da avaliação Bayley, foi possível ter esta visão ampliada em relação
à observância dos antecedentes não alcançados, trabalhá-los e assim nivelar a capacidade e/ ou
habilidade do paciente a fim de que ele tivesse recursos para atingir os objetivos propostos. A
Bayley é uma escala validada que infere métricas relacionadas com as aquisições de habilidades
referentes aos meses de vida da criança, demonstrando estar ou não adequada para idade.

Descrição
Foi realizado um levantamento dos objetivos gerais em banco de dados interno, dos
pacientes atendidos na clínica no período de janeiro a dezembro de 2022.

Período de Realização
No período de 1º a 30 de setembro foram coletados os dados referentes aos objetivos
traçados para os quatro trimestres de 2022.

Objetivos
Identificar os pontos chaves para elaboração de objetivos terapêuticos para pacientes
com transtornos do neurodesenvolvimento.
Avaliar os objetivos propostos do ponto de vista de adequação aos marcos de
desenvolvimento.

Resultados
De acordo com os estudos de caso é possível observar que alguns objetivos traçados
não estavam condizentes com os marcos de desenvolvimento. Uma vez observados os marcos
do desenvolvimento, é possível proporcionar estratégias e ferramentas para que o paciente
adquira as habilidades relacionadas à idade indicada pelo marco.

Para Loutzenhiser & Hadjistavropoulos (2008), a abordagem colaborativa


interprofissional favorece a interação, o planejamento, a avaliação e a execução de ações
conjuntas entre diferentes especialidades profissionais, proporcionando intervenções mais
eficazes. Dessa forma, uma vez observados os marcos do desenvolvimento de forma
interdisciplinar ou mesmo transdisciplinar, os objetivos gerais do paciente poderão ser traçados
de tal maneira que os resultados esperados poderão ser alcançados.
Quando avaliado trimestralmente o resultado dos objetivos, foi observado que, em
alguns casos, quando o paciente não atingia ou atingiu parcialmente os objetivos traçados,
houve mudança de objetivos e não foi observado persistência por um tempo maior deles. Com
isso, presume-se que seria mais benéfico para o paciente manter o objetivo, desde que adequado
as capacidades e as habilidades condizentes com a idade e/ou status de saúde, até que tivesse
sido alcançado.
Também foi observado que quando os objetivos traçados não se encontravam em
acordo com os marcos de desenvolvimento ou as habilidades já adquiridas pelo paciente, foi
necessário a regressão deste objetivo a fim de alinhar o marco com as habilidades já adquiridas,
ou promover a assimilação. Essa ocorrência pode afirmar que se houvesse uma avaliação prévia
e minuciosa, o desenvolvimento do paciente seria gradativamente favorecido.

Conclusões ou Considerações Finais


De acordo com o Manual de Vigilância do Desenvolvimento Infantil no contexto de
AIDPI (OPAS, 2005), o processo de desenvolvimento infantil acontece desde o período
intrauterino, passando pelo nascimento, crescimento físico, ganho ponderal, amadurecimento
emocional, intelectual, perpassando o comportamento, relacionamento com seus pares,
inserção social, entre outros. Tudo isso corrobora para que o indivíduo seja parte integrante e
produtiva da sociedade na qual ele encontra-se inserido. É necessário então avaliar e traçar
objetivos coesos com as habilidades e funções já adquiridas promovendo assim um ambiente
de oportunidades para o aprimoramento e desenvolvimento das potencialidades que foram
avaliadas como se encontrando em defasagem para idade ou status de saúde. Essa experiência
também nos lembra sobre a importância de avaliar e aprimorar os processos de trabalho.

Aprendizados e Análise Crítica


À medida que se avalia o serviço e a forma que se dá o trabalho, é proporcional aos
pontos críticos de controle a se identificar. O que à primeira vista pode ser impactante, na
verdade é algo que traz um aprimoramento a metodologia e por conseguinte ao tratamento
ofertado. Os pontos críticos observados podem ser controlados com a implantação de
estratégias que supram as necessidades identificadas. Por exemplo, a observação dos
antecedentes necessários, como o marco de desenvolvimento, para a execução das funções
requeridas no objetivo trimestral do paciente, poderá levar a um melhor índice de
aproveitamento e possível atingimento deste.
Os resultados iniciais desta pesquisa foram levados para os coordenadores de equipe e,
a partir disso, foi sugerido a utilização de uma frase padrão a fim de nortear a criação do
objetivo trimestral: “o paciente em três meses será capaz de”. Desta forma, podemos avaliar
previamente se o objetivo está coerente para a realização no período de três meses. Neste
momento também é possível observar se há a necessidade de algum recurso pregresso para o
alcance desse objetivo.
Esperamos que com isso os objetivos traçados a partir dessas observações sejam mais
assertivos e efetivos do ponto de vista de conclusão deles, possibilitando assim o
desenvolvimento progressivo do paciente.
Referências Bibliográficas
AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION et al. Manual diagnóstico e estatístico de
transtornos mentais. In: Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais. 2002. p.
880-880.

BAYLEY, Nancy. Bayley scales of infant development: Manual. New York, 1993.

FIGUEIRAS, Almira Consuelo et al. Manual para vigilância do desenvolvimento infantil no


contexto da AIDPI. 2005.

GOULART, Janaína Pinto. Análise do desenvolvimento infantil em um processo de avaliação


psicológica: um estudo de caso. 2016.

LOUTZENHISER, L., & Hadjistavropoulos, H. (2008). Enhancing interprofessional patient-


centered practice for children with autism spectrum disorders: A pilot project with pre-
licensure health students. Journal of Interprofessional Care, 22(4), 429-431.
https://doi.org/10.1080/13561820801886487

WILSON, Barbara A. Cognitive rehabilitation: How it is and how it might be. Journal of the
International Neuropsychological Society, v. 3, n. 5, p. 487-496, 1997.
Relato de Pesquisa

O fechamento das creches públicas e o cuidado de crianças pequenas na pandemia


de COVID-19: reflexões a partir da perspectiva de mulheres das classes populares

Leticia Hastenreiter 106

Palavras-chave: creche pública, pandemia, cuidado, crianças.

Contextualização
O fechamento das creches e escolas em março de 2020 foi uma das primeiras medidas
de controle da transmissão do novo coronavírus e sua longa duração suscitou debates na
sociedade. Marina Cortez (2022) afirma que “o longo fechamento [das escolas] só foi possível
porque havia a assunção tácita de que alguém se encarregaria das crianças e adolescentes em
casa: as mulheres, majoritariamente.”
Refletir de forma profunda e crítica sobre tal evento, portanto, implica em hierarquizar
no debate os estudos sobre cuidado e gênero. Há diversas publicações nesse sentido. Mas ao
procurar estudos sobre o trabalho de cuidado de crianças durante a pandemia, encontramos
majoritariamente pesquisas sobre mulheres de camadas médias e brancas.
Este trabalho, ao focar nas narrativas de mulheres de classes populares moradoras de
uma comunidade da Zona Norte do Rio de Janeiro sobre suas experiências de parentalidade na
pandemia, enfatiza os marcadores não só de gênero, mas também os de classe social, raça e
território, presentes em tais práticas de cuidado.

Objetivos
Analisar o significado do prolongado fechamento da creche pública de uma comunidade
da Zona Norte do Rio de Janeiro durante a pandemia da COVID-19, na perspectiva de mulheres
de classes populares, refletindo sobre a relação entre o extraordinário (a pandemia) e o ordinário
(o cotidiano) no cuidado de crianças pequenas nessas famílias.

Metodologia
Trata-se de uma pesquisa qualitativa que se deu a partir do trabalho exploratório (ou
pré-campo) realizado como parte da elaboração da minha Dissertação de Mestrado. Tal
pesquisa tem como recorte famílias cujos filhos tinham entre 0 e 5 anos durante o período em
que as atividades presenciais das creches estavam suspensas.
Tenho três filhos pequenos e os dois menores estudaram por mais de um ano em uma
creche municipal localizada em uma comunidade na zona norte do Rio de Janeiro. Pela minha
relação prévia com a creche, eu mantenho contato com mulheres das quais algumas poderão ser
minhas interlocutoras para a pesquisa da Dissertação (em que realizarei entrevistas longas
semiestruturadas). Mas a atividade cotidiana de levar e buscar meus filhos na escola acabou por

106
Mestranda pelo Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva do Instituto de Medicina Social da
Universidade do Estado do Rio de Janeiro; [email protected]
gerar oportunidades de conversas e observações que me ajudaram a refletir sobre o tema do
projeto e possibilitaram um conteúdo de pré
campo, que incluiu a realização de uma roda de conversa na creche sobre o tema da pesquisa,
conduzida junto com minha orientadora Laura Lowenkron, no âmbito do projeto “Gênero,
família e Estado: governo da infância, pandemia e a gestão da (não) reabertura escolar no Rio
de Janeiro”, apoiado pela FAPERJ. A partir desse conteúdo exploratório, já foi possível realizar
reflexões iniciais.

Resultados e Discussão
Durante conversas informais realizadas na porta da creche, algumas questões chamaram
mais a atenção. A maioria das mulheres cita como uma das principais preocupações que tiveram
com a ausência das aulas não a sobrecarga materna ou o cansaço de permanecer com as crianças
dentro de casa, mas sim o que elas chamaram de “desenvolvimento” de seus filhos. Durante a
roda de conversa, a maternagem durante a pandemia também não apareceu como “um fardo”
ou uma fonte de sofrimento nesse período. Para uma, a maior culpa veio após a reabertura
escolar, quando ela entendeu que estimulou “demais” seu filho, o que teria levado a uma
dificuldade de readaptação à creche. E para a outra, o maior sofrimento teria sido ficar sem seus
filhos e, quando a situação mais apontava para dificuldades e cansaço (cuidar de um recém-
nascido junto com outras duas crianças pequenas), ela optou por cuidar de 3 crianças durante o
isolamento social. Não cito esses casos para romantizar a maternidade ou enaltecer os
sacrifícios que ela impõe. Mas apenas para sinalizar que diferentes narrativas podem ser
encontradas em torno à maternidade e que entender as singularidades de cada relato é
fundamental. Esse dado contrasta com pesquisas que falam sobre mulheres de classe média,
que, em geral, destacam o tema do cansaço materno. Exemplos de Carneiro e Muller (2020) e
Dorna (2021).
Outro destaque na roda de conversa foi o tema dos problemas objetivos da vida,
principalmente perda de emprego e dificuldade para pagar aluguel. Foi interessante notar os
arranjos realizados para sobreviver a partir de solidariedade local.

Aprendizados e Análise Crítica


O tema do cuidado de crianças pequenas durante a pandemia da COVID-19 é muito rico
e precisa ser fortemente estudado. A maioria dos trabalhos se deu na perspectiva de mulheres
de classes médias, por limitações de métodos para aplicar as pesquisas no período da pandemia
e pela própria composição social das pesquisadoras. Analisar como se deu o processo de
maternagem de famílias das classes populares é fundamental para se ter uma abordagem que
não se limite a discutir gênero e sim entenda a forte influência da classe social e da raça.

Referências Bibliográficas
CARNEIRO, Rosamaria; MULLER, Elaine. Afinal, quanto de extraordinário a pandemia de
Covid-19 soma na vida das mulheres mães? In: Áltera, João Pessoa, v. 1, n. 10, p. 441-450,
2020.

CORTEZ, Marina. A administração pública da pandemia, o longo fechamento das escolas e a


socialização dos cuidados: notas sobre um debate que não pôde acontecer. In: SANCHÍS,
Norma (Compiladora). Debates feministas para la recuperación en la postpandemia. Políticas
económicas y su impacto en la vida cotidiana de las mujeres. Ciudad Autónoma de Buenos
Aires: Red de Género y comercio, p. 108-118, 2022.

DORNA, Livia Borges Hoffmann. O trabalho doméstico não remunerado de mães na


pandemia de Covid-19: mudanças e permanências. In: Laboreal [online], Volume 17, n. 1,
2021.
Relato de Pesquisa

Relações entre cuidado e automutilação

Madalena Campos Cirne 107

Palavras-chave: Automutilação; cuidado; promoção de saúde; escolas.

Contextualização
A automutilação é um fenômeno de alta prevalência na população de jovens, sendo
considerado um problema de saúde pública no mundo e uma temática de grande relevância na
comunidade científica internacional (MOREIRA et al., 2020; MORAES et al., 2020). Neste
projeto de pesquisa, concentro o olhar para os modos de produção de cuidado relativos à
automutilação entre adolescentes: como são as relações de cuidado mobilizadas por jovens que
se autolesionam? Busco me aproximar dessas experiências a partir do espaço da escola. A
escolha de pesquisar fora dos enquadramentos dos serviços de saúde se justifica pelo desejo de
compreender as relações que permitem não só que alguém busque acolhimento em uma unidade
de saúde, mas também as que impedem ou as que movem para outros espaços, como as formas
de cuidar que perpassam outras lógicas que não a dos serviços de saúde.

Objetivos
O objetivo deste projeto de pesquisa é compreender as relações entre cuidado e
automutilação, explorando as atividades humanas que buscam “manter, continuar e reparar”
(FISHER; TRONTO, 1990 apud TRONTO, 2007, p. 287) as vidas de jovens que se
automutilam. Os objetivos específicos são: compreender a rede de relações na qual a prática da
automutilação se insere; entender como a automutilação se transforma numa prática que requer
cuidados terapêuticos; e explorar formas de cuidado de adolescentes que se automutilam.

Metodologia
A metodologia adotada para o projeto de pesquisa será a etnografia, que envolverá a
imersão em uma escola frequentada por alunos do ensino fundamental II e médio. Pretende-se
realizar oficinas coletivas com os adolescentes, bem como entrevistas com professores,
familiares e outros adultos que desempenham papéis significativos para os adolescentes.

Resultados e Discussão
Esta pesquisa se encontra em uma fase inicial, de realização do pré-campo. A partir de
uma primeira aproximação, foi possível identificar discursos que apontam para uma
precariedade dos vínculos de cuidado: professores desorientados com questões relativas à saúde
mental; mães e pais que não possuem tempo e têm dificuldade de compreender seus filhos;
adolescentes que não conseguem buscar apoio, muitas vezes devido ao receio de preocupar os

107
Doutoranda pelo Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva do Instituto de Medicina Social da
Universidade do Estado do Rio de Janeiro; orientador: Rossano Lima; [email protected]
pais, e que entre seus pares temem a fofoca e os julgamentos. Tais achados corroboram a tese
de Simone Fullagar (2005) sobre o processo de buscar ajuda por parte de jovens em sofrimento
psíquico.
A autora traz alguns motivos pelos quais esses não buscam ajuda, como a ausência de
serviços de suporte considerados adequados, experiências no passado insatisfatórias, medo de
perder a confidencialidade e de ser visto como irracional ou anormal. A autora aponta para as
relações de poder que moldam tanto como os jovens são posicionados socialmente, quanto as
formas como percebem a si mesmos, influenciando nos processos de ajuda e cuidado. Tais
apontamentos iniciais são importantes, mas espera-se que a condução do trabalho de campo
possibilite explorar com mais complexidade como os adolescentes se localizam diante e para
além da precariedade e do sofrimento. Aqui a pesquisa se inspira no trabalho de Clara Camatta
(2022) sobre como jovens cumprindo medida socioeducativa agenciam modos de “fazer saúde”
em um contexto de privação e violência. A categoria “fazer saúde” aponta para os modos de
construção de vida e corporalidades a partir das múltiplas formas possíveis de incorporação da
norma, situando-se no encontro entre a capacidade agentiva e as configurações de poder
(CAMATTA, 2022).

Aprendizados e Análise Crítica


Pretende-se também explorar a posição dobradiça da automutilação, compreendida ora
como estratégia pertencente a uma pessoa com agência, ora como um sintoma, parte de um
processo de adoecimento de alguém visto como paciente (CSORDAS; JENKINS, 2018). Nesse
sentido, interessam para esse trabalho as discussões sobre as tensões entre agência e cuidado
(BORBA, 2019), como a obra de
Annemarie Mol (2008). Para a lógica do cuidado, a pessoa que recebe cuidados não é apenas
um indivíduo racional e autônomo ou um sujeito passivo, mas alguém dentro de um campo de
relações, interações e intervenções visando o seu bem-estar (MOL, 2008). As tensões entre
autonomia e passividade, assim como a precariedade dos dispositivos de educação e saúde e as
relações desiguais entre adolescentes e adultos modelam as possibilidades de fazer cuidado de
adolescentes que se automutilam. Trazendo a atenção para esse emaranhado de configurações,
este projeto de pesquisa pretende explorar os arranjos de cuidado (FAZZIONI, 2018)
mobilizados por e para adolescentes que se automutilam.

Referências Bibliográficas
BORBA, M. Entre produtividades, compassos e dispersões: mobilizações de atenção e
cuidado no cotidiano escolar. 2019. 262f. Tese (Doutorado em Antropologia). Niterói:
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128f. Dissertação (Mestrado em Saúde Coletiva). Instituto de Medicina Social Hesio Cordeiro,
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TRONTO, J. Assistência democrática e democracias assistenciais. Sociedade e Estado, v. 22,


p. 285- 308, ago. 2007.
Relato de Experiência

Shantala como caminho para a humanização do cuidado em saúde

Ana Cecília de Oliveira Valdés 108


Esmeralda Corres 109
e Angela Fernandes Leal da Silva 110

Palavras-chave: Shantala; Atenção Primária a Saúde; Educação Permanente; Humanização do


cuidado.

Contextualização
A prática da Shantala, no contexto da atenção primária à saúde e das práticas
integrativas e complementares, promove uma abordagem que envolve o toque terapêutico e a
interação tátil como ferramenta de cuidado. A Shantala transcende a mera dimensão física,
envolvendo também aspectos emocionais, cognitivos e sociais. Essa prática milenar, originária
da tradição indiana e transmitida oralmente de geração para geração, promove uma conexão
íntima entre o cuidador e o bebê, enfatizando a importância do contato físico e da sensibilidade
corporal. Através da Shantala, busca-se a conscientização e o fortalecimento de vínculos
afetivos. Essa abordagem integral e humanizada contribui para o desenvolvimento motor, a
consciência corporal e a redução do estresse, proporcionando uma experiência terapêutica e
integrativa para o bebê e seu cuidador. Assim, a Shantala se destaca como uma prática que
valoriza a humanização do cuidado abrangente e holístico, alinhado com os princípios das
práticas integrativas e complementares em saúde.

Descrição
Trata-se de um relato de experiência sobre a realização de oficinas de educação
permanente voltadas para profissionais da Atenção Primária à Saúde (APS) com a prática de
Shantala, realizada pela Área Técnica de Práticas Integrativas e Complementares da Secretaria
Municipal de Saúde do Rio de Janeiro. A atividade é sempre realizada em um espaço adequado,
no qual os profissionais participantes são solicitados a vestir roupas confortáveis e maleáveis
para também receberem a massagem.

Período de Realização
Março a agosto de 2023.

108
Enfermeira; Gerente da área técnica de Práticas Integrativas e Complementares da SMS-Rio;
[email protected]
109
Massagista; Área técnica de Práticas Integrativas e Complementares da SMS-Rio; [email protected]
110
Enfermeira; Coordenadora da Linha de Cuidados das Doenças Crônicas não transmissíveis da SMS-Rio;
[email protected]
Objetivos
Relatar a vivência da realização de oficinas para profissionais da APS Carioca, com a
demonstração e vivência da técnica de Shantala e outras técnicas de relaxamento. O objetivo é
repensar práticas de cuidado, indo além dos modelos prescritivos, de forma integrativa.

Resultados
No período de março a agosto de 2023, a Gerência de Práticas Integrativas e
Complementares realizou 26 oficinas para aproximadamente 500 profissionais, distribuídos em
09 das 10 áreas de planejamento do município do Rio de Janeiro.

Aprendizados e Análise Crítica


As ações de educação permanente, numa perspectiva crítica, lúdica e estimulando a
experimentação daquilo que é ensinado, proporcionam ao participante uma melhor forma de
compreensão e replicação do conteúdo aprendido. Na chegada ao espaço das oficinas, as
bonecas utilizadas para demonstração da técnica estão dispostas nas cadeiras. Essa é a primeira
visão quando o profissional adentra a sala, proporcionando uma verdadeira sessão de fotos,
favorecendo a integração com a turma. Antes de ensinar a massagem, há o preparo dos
profissionais com técnicas de respiração e automassagem. Essas ferramentas também serão
ensinadas a gestantes e cuidadores.
A sequência de movimentos completa ocorre primeiramente em bonecas, mas todos os
participantes são estimulados a praticar o toque no colega de turma, para experimentação da
realização e do recebimento da massagem. A vivência de tocar e ser tocado num ambiente onde
se possa sentir livre para descrever suas impressões, dúvidas e sensações é importante para que
esse profissional se sinta mais confiante em promover o cuidado humanizado em saúde. É
notório que profissionais resistem ao toque, mas é pactuada a importância da necessidade de
vencer as barreiras de cada um, na medida do possível. Após a sensibilização, é clara a
transformação desses ao perceberem o quanto a massagem é prazerosa. Para finalizar a oficina,
é solicitada, em palavras únicas, a expressão do que foi sentido, sendo as palavras mais
utilizadas: relaxamento; amor; aprendizado; cuidado.
A massagem Shantala se torna uma estratégia para iniciar o alcance da consciência
corporal, transcendendo o próprio corpo e valorizando as relações interpessoais com seu
cuidador, numa sequência de execução de movimentos que permitem vivenciar a sensibilidade,
a criatividade, a expressividade e a espontaneidade. Quem define o tempo e os movimentos da
massagem é o bebê, sendo ele o protagonista de seu corpo. O cuidador, para além da oferta da
massagem, também é um sujeito de integração do cuidado, não sendo limitado apenas à figura
materna, mas compartilhando espaços e funções na prática do cuidado. Além disso, é
importante destacar que a abordagem biomédica muitas vezes enxerga o corpo dissociado do
todo, tratando-o como partes corporais isoladas, numa perspectiva meramente fisiológica e
mecanicista. A Shantala aponta para um reencontro afetivo com o corpo, a humanização do
cuidado e uma vida saudável, proporcionando um olhar sistêmico e integrador.
Referências Bibliográficas
BVS Mapa de Evidências. Efetividade clínica da Shantala. São Paulo: Bireme/OPAS/OMS.
Versão atualizada em abril/2021.
CABSIN, Consórcio Acadêmico Brasileiro de Saúde Integrativa. Shantala: foco nas evidências
científicas para a saúde da criança. Tradução do Conhecimento, 2021.

IDEASUS-Observa PICS. Levantamento IDEIASUS - PICS. 2020.

TELESSAÚDE – ES. Webpalestra: PICS - Os benefícios da Shantala para bebês, 2021.


COLETIVO TEMÁTICO:
Relações entre saúde, meio ambiente e política

Vivemos uma crise socioambiental e sanitária sem precedentes, oriunda do modelo


capitalista implantado há 300 anos nos países de economia centrais e agravado no período
recente neoliberal e neoextrativista, naquilo que se entende como antropoceno a partir da
discussão sobre a relação dos humanos-não humanos e o consumo excessivo dos recursos
naturais. As principais consequências são o agravamento das desigualdades — especialmente
sobre as populações do Sul Global — e a ameaça ao meio ambiente. Consequências expressas
também na produção e comércio de alimentos ultraprocessados e com ação dos agrotóxicos,
entre outras.
Esse CT pretende debater os perigos deste contexto em nosso país e as políticas públicas
para combater a questão. Interessa refletir como a crise socioambiental expõe grupos
populacionais específicos a maior vulnerabilização e a diferentes situações de risco. Os
“pacotes da destruição e do veneno” ameaçam particularmente indígenas e quilombolas, sendo
urgente o enfrentamento do racismo ambiental. Buscamos também trabalhos que analisem as
diversas mobilizações políticas que objetivam a prevenção e a reparação dos danos dessa crise,
como os movimentos sociais por justiça e as ações governamentais, explorando como essas
realidades são enquadradas e produzidas por tais grupos e política. Seja pela inspiração do
Ailton Krenak de ações para adiar o fim do mundo, seja pela radicalidade imprescindível da
Denise Ferreira da Silva ao propor o fim deste mundo como o conhecemos, a (im)possibilidade
do futuro está colocada como questão. É desde esta encruzilhada que convocamos pesquisas e
experiências multidisciplinares, transdisciplinares e interculturais para dialogar a partir da
necessidade de priorização dos saberes populares e tradicionais. Ações e olhares intersetoriais
sobre a agricultura, nutrição e sistemas alimentares, na educação, o desenvolvimento urbano, a
vida rural, poluição, o direito à cidade, estudos epidemiológicos em saúde ambiental, os
processos de saúde e doença em sua relação com o meio ambiente. O diálogo com os
movimentos sociais e os saberes das comunidades tradicionais indígenas e quilombolas foram
bem-vindos nesta sessão.
Relato de Experiência

Contribuições da organização comunitária no combate à insegurança alimentar e


nutricional

Mônica Gouveia Matos 111


e Paulo Henrique Ambrozio
Polonine 112

Palavras-chave: Segurança alimentar e nutricional; Movimentos coletivos; Saúde


Coletiva; Nutrição; Atenção Primária à Saúde; Promoção da Saúde; Organização
comunitária; Fome.

Contextualização
Em 2022, a fome no Brasil atingiu a marca de 33,1 milhões de brasileiros. No estado
de São Paulo cerca de 6,8 milhões de pessoas estão vulneráveis à insegurança alimentar e
nutricional (REDE PENSSAN, 2022). Embora o direito humano à alimentação adequada
(DHAA) seja previsto constitucionalmente, ainda estamos longe de garantir sua efetividade.
As ações de combate à fome e a garantia da soberania alimentar precisam ser prioridade para
estados e municípios, contudo, o que se observa na prática, são ações institucionais ineficientes
para a garantia da segurança alimentar e nutricional (SAN), culminando na necessidade de
articulação da comunidade local para viabilizar ações de combate à fome.

Descrição
A experiência foi realizada por meio do mapeamento de equipamentos e organizações
que promovem ações de segurança alimentar e nutricional no território do Centro de Saúde
Escola Samuel Barnsley Pessoa da Faculdade de Medicina da USP, localizado no bairro
Butantã, na cidade de São Paulo. Agentes comunitários de saúde auxiliaram no mapeamento
inicial e após o contato com os responsáveis pelas ações locais, foram realizadas visitas
institucionais aos seus respectivos espaços, para conhecer mais a fundo e dialogar sobre os
desafios e avanços das diferentes formas de organização encontradas.

Período de Realização
Julho a outubro de 2023.

111
Nutricionista pela Universidade Federal do Paraná; Residente do Programa Saúde Coletiva
e Atenção Primária da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo; [email protected]
112
Assistente Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro; Residente do Programa
Saúde Coletiva e Atenção Primária da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo;
[email protected]
Objetivos:
Mapear e analisar as mobilizações coletivas para o combate à fome no território do
Centro de Saúde Escola Samuel Barnsley Pessoa.

Resultados
O mapeamento resultou na descoberta de três hortas comunitárias, uma cozinha
solidária e um ponto de economia solidária. Duas hortas comunitárias ficam em região aberta
à comunidade e uma dentro de uma escola municipal. Um grande desafio em relação às hortas
é envolver a comunidade e desenvolver o pertencimento à esta ação (SANTOS et al., 2021).
Na horta da escola, os alunos estão mais envolvidos com as atividades de cuidado e a
manutenção do espaço. Embora haja impermanências, o apoio da direção e do professor mentor
da ideia, são potencializadores do projeto. Entretanto, há pouco vínculo com o centro de saúde,
o que fragiliza as ações do espaço enquanto promotor de saúde e SAN.
A segunda horta comunitária foi desenvolvida com o engajamento do mesmo professor
da escola, o que destaca sua importância no desenvolvimento destas ações para a comunidade.
A terceira horta comunitária identificada surgiu da mobilização de moradores da comunidade
durante o período pandêmico. Contudo, embora sua construção e implementação tenha sido
um processo coletivo, com o passar do tempo, os moradores foram abandonando
gradativamente o cuidado e a manutenção do espaço. Atualmente, um número insuficiente de
moradores é responsável pelas ações na horta. Eventos coletivos envolvendo o preparo de
alimentos provenientes da horta tem sido uma alternativa para tentar uma reaproximação com
a população.
A única cozinha solidária identificada no território nasce de um movimento estudantil
que busca garantir refeições aos finais de semana para os estudantes residentes do conjunto
residencial da Universidade de São Paulo (CRUSP). Os restaurantes universitários próximos à
moradia fecham aos finais de semana, deixando muitos alunos sem ter o que comer. O projeto
da cozinha solidária é coordenado pelos próprios estudantes que se organizam para realizar
arrecadações e o preparo dos alimentos, possibilitando a garantia de refeições para os mais de
200 estudantes que frequentam o local. No entanto, há inúmeros desafios: o fato do espaço não
ser adequado para cozinhar para tantas pessoas; não ter utensílios e equipamentos adequados;
além de não ter a supervisão e apoio da universidade ao projeto.
O ponto de economia solidária é referência como um projeto socialmente estruturado.
Gerido por seus trabalhadores e antagônico à lógica privada, o desenvolvimento do espaço
surge da reivindicação dos trabalhadores e usuários do Centro de Atenção Psicossocial de
Adultos para obter um espaço de saúde e trabalho. Hoje o projeto tem apoio da prefeitura que
garante alguns serviços mínimos para a permanência do local. No espaço, também são
fornecidas refeições ovolactovegetarianas com alimentos orgânicos e contam com vários
microempreendimentos que auxiliam na manutenção do local e pagamento aos trabalhadores.

Aprendizados e Análise Crítica


Embora haja muitos desafios, a organização da comunidade e do movimento estudantil
são exemplos de ações comunitárias para o combate à fome. Em um cenário onde o poder
público não se capilariza adequadamente, seja por deficiência da gestão ou desinteresse
político, a autogerência das comunidades se apresenta como alternativa a ser fomentada. A
união de ações ambientalmente sustentáveis e promotoras de saúde, devem ser potencializadas
com o apoio institucional de escolas e centros de saúde, os quais devem pregar esforços para
articular-se junto à comunidade. O estado, por sua vez, em seus três poderes e níveis, deve ser
responsabilizado e cobrado para a garantia ao DHAA.

Referências Bibliográficas
Emenda Constitucional nº 64 de 4 de fevereiro de 2010. Altera o artigo 6º da Constituição
Federal para introduzir a alimentação como direito social. Diário Oficial da União, Poder
Executivo, Brasília, DF, 5 fev. 2010.

REDE BRASILEIRA DE PESQUISA EM SOBERANIA E SEGURANÇA ALIMENTAR E


NUTRICIONAL (REDE PENSSAN). II Inquérito Nacional sobre Insegurança Alimentar
no Contexto da Pandemia da COVID-19 no Brasil: II VIGISAN: Suplemento I -
Insegurança Alimentar nos estados. Disponível em: https://olheparaafome.com.br/. Acesso em:
1 out. 2023.

SANTOS, L. S.; RÉGIS, M. M. NASCIMENTO, A. P. B. Hortas comunitárias: contribuição


para segurança alimentar e inclusão social. Revista Nacional de Gerenciamento de Cidades,
ISSN eletrônico 2318-8472, v. 09, n. 69, 2021.
Relato de Pesquisa

Desordem do espaço urbano e consumo de álcool entre adolescentes de capitais


brasileiras

Rayara Mozer Dias 113


Claudia de Souza Lopes 114
Taísa Rodrigues Cortes 115
Katia Vergetti Bloch 116
e Washington Leite Junger 117

Palavras-chave: Desordem urbana; Saúde ambiental; Saúde urbana; Saúde do Adolescente;


Consumo de álcool; Epidemiologia.

Contextualização
A desordem do espaço urbano tem sido compreendida como determinante da saúde em
ambientes urbanos e está relacionada aos problemas físicos do espaço, podendo ser
caracterizada por sinais visuais de negligência e deterioração, como prédios abandonados,
postes de luz quebrados e terrenos cheios de lixo (JANG; JOHNSON, 2001; HÖFELMANN et
al., 2015; QUINN et al.; 2016). Estudos têm buscado identificar possíveis impactos da
desordem urbana nos indicadores de bem-estar individual que possam ser capazes de produzir
comportamentos negativos à saúde como, por exemplo, o consumo de álcool (MARCO et al.,
2015), considerado um importante problema de saúde pública no Brasil e no mundo (SEKULIC
et al., 2012). No entanto, apesar da literatura demonstrar que a vivência em bairros
desordenados pode ser prejudicial ao bem-estar dos residentes, incluindo as pessoas mais
jovens, os mecanismos que explicam esta associação ainda não foram totalmente
compreendidos (TURNER et al. 2013). Além disso, poucos estudos investigaram a associação
entre características do ambiente urbano e o consumo de álcool entre adolescentes (KANTOR
et al., 2019; GONÇALVES, 2020).

113
Doutoranda pelo Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva do Instituto de Medicina Social da
Universidade do Estado do Rio de Janeiro; Washington Leite Junger; [email protected]
114
Professora do Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva do Instituto de Medicina Social da Universidade
do Estado do Rio de Janeiro. Doutora em Epidemiologia pela University of London, UL, Inglaterra;
[email protected]
115
Doutora pelo Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva do Instituto de Medicina Social da Universidade
do Estado do Rio de Janeiro; [email protected]
116
Professora de Epidemiologia do Instituto de Estudos em Saúde Coletiva - IESC / UFRJ. Doutora em Saúde
Coletiva. Universidade Federal da Bahia, UFBA; [email protected]
117
Professor do Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva do Instituto de Medicina Social da Universidade
do Estado do Rio de Janeiro. Doutor pelo Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva do Instituto de Medicina
Social da Universidade do Estado do Rio de Janeiro; [email protected]
Objetivo
O objetivo deste estudo foi estimar a associação entre a desordem do espaço urbano e
o consumo de álcool entre adolescentes brasileiros.

Metodologia
Estudo seccional com os dados do Estudo de Riscos Cardiovasculares em Adolescentes
(ERICA) realizado em 2013 e 2014 (BLOCH; CARDOSO; SICHIERI, 2016; ALVES et al.,
2019). A amostra foi composta por 2.384 adolescentes, de 12 a 17 anos, residentes nas capitais
brasileiras Fortaleza, Porto Alegre e Rio de Janeiro. A variável de desfecho foi o consumo de
bebidas alcoólicas caracterizado pela ingestão de bebidas alcoólicas pelo menos uma vez nos
últimos 30 dias, em qualquer frequência ou quantidade. A variável de exposição foi a desordem
do espaço urbano avaliada por meio de indicadores de entorno construídos com base nas
características urbanísticas do Censo 2010 (IBGE, 2010a). A estimação do efeito total dos
indicadores de exposição à desordem do espaço urbano no consumo de álcool entre
adolescentes foi realizada por meio de modelos de regressão de Poisson com variância robusta.
Foram calculadas as Razões de Prevalência (RP) brutas e ajustadas com intervalos de 95% de
confiança para cada exposição, controlando possíveis variáveis de confundimento. As análises
estatísticas foram desenvolvidas com a utilização do programa estatístico R na versão 4.1.2,
mediante uso do pacote survey na análise de amostra complexa. O estudo seguiu os princípios
éticos.

Resultados e Discussão
A amostra foi composta por 49,6% participantes do sexo feminino e 50,4% do sexo
masculino. Do total, 572 participantes relataram a ingesta de pelo menos 1 copo (ou dose) de
álcool nos últimos 30 dias, resultando na prevalência geral de consumo de 19,6% (IC95%: 17,1
- 22,1). Foi possível observar associação entre indicadores de desordem do espaço urbano e o
consumo de álcool entre adolescentes.
Os resultados demonstraram menor consumo de álcool entre adolescentes que vivem
em ambientes com rampa para cadeirante, sugerindo que a presença de rampas pode ser um
indicador de cenários com maior desenvolvimento. Áreas que possuem infraestrutura urbana
bem desenvolvida podem contribuir para a promoção de bem-estar influenciando diretamente
comportamentos e desfechos de saúde (NEVES et al., 2017). Em contrapartida, adolescentes
que residem em locais com maior proporção de domicílios com calçada ou bueiro nas vias
públicas demonstraram estar mais propensos ao consumo de álcool. Tal resultado sugere que a
presença de calçada e bueiro pode caracterizar áreas que favoreçam uma maior densidade de
estabelecimentos comerciais no entorno (CARDOZA; SANTOS; HOFELMANN, 2021;
PERES et al., 2021), resultando em aumento da oferta de bebidas alcoólicas. Além do mais,
adolescentes que vivem em ambientes com esgoto a céu aberto nas vias públicas demonstraram
ter menor consumo de álcool. Para Teixeira et al. (2018), a deficiência de esgotamento sanitário
se faz mais presente em regiões que são ocupadas por populações de baixa renda e escolaridade,
o que pode sugerir que pessoas com menor nível socioeconômico teriam menor poder de
compra, logo teriam menor consumo de álcool.
Aprendizados e Análise Crítica
Considerando os desafios atrelados a um estudo que se propõe investigar a associação
da desordem do espaço urbano a um desfecho de saúde, pelas poucas referências metodológicas
para se mensurar desordem urbana, este estudo apresenta uma abordagem inovadora em relação
aos itens utilizados para mensuração da desordem do espaço urbano e sua relação com o
consumo de álcool entre adolescentes. A prevalência de consumo de álcool entre adolescentes
demanda atenção na saúde pública e o investimento em estudos que visem o conhecimento,
além dos fatores individuais, dos fatores contextuais, e suas possíveis relações com o consumo,
podem ser uma importante estratégia para a compreensão ampliada do cenário atual de saúde
de adolescentes que residem em ambientes urbanos.

Referências Bibliográficas
ALVES, M. A. et al. Dietary patterns of Brazilian adolescents according to geographic region:
an analysis of the Study of Cardiovascular Risk in Adolescents (ERICA). Cadernos de Saúde
Pública [online], Rio de Janeiro, v. 35, e00153818, n. 6, p. 1-14, maio 2019. Disponível em:
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BLOCH, K. V.; CARDOSO, M. A.; SICHIERI, R. Study of Cardiovascular Risk Factors in


Adolescents (ERICA): results and potentiality. Revista de Saúde Pública, São Paulo, v. 50,
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https://www.scielo.br/j/rsp/a/tCBGwJ4nktddZW5kzXtdwYh/?format=pdf&lang=pt. Acesso
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CARDOZA, L. M. S.; SANTOS, D. S.; HOFELMANN, D. A. Caracterização dos pontos de


venda de bebidas alcoólicas no entorno de escolas estaduais. Ciência & Saúde Coletiva
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https://doi.org/10.1186/1471- 2458-12-274. Acesso em: 08 mar. 2021.

TEIXEIRA, M. D. S. Impactos socioambientais provenientes do esgotamento sanitário a céu


aberto. Revista Brasileira de Gestão Ambiental e Sustentabilidade, v. 5, n. 11, p. 849-858,
dez. 2018. Disponível em: https://doi.org/10.21438/rbgas.051104. Acesso em: 20 fev. 2022.

TURNER, H. A. et al. Community Disorder, Victimization Exposure, and Mental Health in a


National Sample of Youth. Journal of Health and Social Behavior, v. 54, n. 2, p. 258-275.
2013. Disponível em: https://doi.org/10.1177/0022146513479384. Acesso em: 17 jun. 2021.
Relato de Pesquisa

Entre o normal e o patológico no século XXI: cosmovisões alternativas ao


capitaloceno

Jade Martins Leite Soares 118

Palavras-chave: Cosmovisões; Justiça Ambiental; Direitos Humanos; Capitaloceno.

Contextualização
A obra de Georges Canguilhem desempenhou importante papel na etapa inicial de
construção da Saúde Pública no Brasil. Estudos pioneiros, como o de Sérgio Arouca (1975),
Anamaria Tambellini (1976) e Cecília Donnângelo (1976), por exemplo, realizaram críticas
filosóficas do pensamento sanitário tradicional a partir de noções como a de normal e
patológico (1943). A partir da percepção de que o conteúdo do estado patológico não pode ser
deduzido, de maneira lógica ou analógica, do conteúdo da saúde, Canguilhem (1943) afirma a
inexistência de uma saúde ideal (o que não implica em negar a existência da saúde), postulando
sobre uma noção de saúde ligada a norma. De acordo com a argumentação do autor, não seria
a ausência de normalidade que constituiria o anormal, já que a experiência do ser vivo inclui a
doença. Assim, o patológico implicaria uma certa forma de viver, pois não há vida sem normas
de vida. Nesse sentido, o estado fisiológico falaria mais sobre um estado são do que um estado
normal. Por meio desse raciocínio, a qualidade que diferenciaria o estado de saúde do estado
patológico seria justamente a possibilidade de eventuais modificações, já que essa abertura
estaria presente na saúde, porém ausente no estado patológico. O estado de doença constituiria,
portanto, uma norma de vida empobrecida, incapaz de se transformar em outra norma. Já a
saúde se caracterizaria pela capacidade de ultrapassar a norma que define o normal
momentâneo, tolerando infrações à norma habitual e podendo instituir novas regulações para
novas situações. Nesse sentido, a cura não implicaria necessariamente saúde.
Segundo Canguilhem (1978) não foi por acaso que a palavra normal surgiu no século
XVIII, com o movimento da Revolução Francesa, quando a burguesia funda uma nova ordem
capaz de funcionar como norma para a sociedade ocidental: a ordem econômica capitalista. E,
partindo desse pressuposto, podemos considerar que haveria um imperativo nessa ordem que
vincula a ideia de normal ao sistema vigente. Levando o exposto em consideração, mas
ponderando sobre o momento em que vivemos, talvez fosse importante nos perguntarmos o
porquê dentro do que nomeamos de Capitaloceno há uma crença quanto a impossibilidade de
enrevesar as mudanças climáticas que vivenciamos. Estaríamos nós, partindo de visões de
mundo ocidentais, adoecidos por não sermos capazes de instituir novas regulações a la

118
Mestranda em Psicologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), psicóloga pela mesma
instituição, especialista em Saúde Pública pela Escola Nacional de Saúde Pública Sérgio Arouca (ENSP/Fiocruz)
e em Saúde Mental e Atenção Psicossocial também pela instituição, além de bacharel em Direito pela Universidade
do Estado do Rio de Janeiro (UERJ); [email protected]
Canguilhem? E para imaginar formas de adiar o fim do mundo (2020) não poderíamos
(deveríamos?) nos apoiar em cosmovisões divergentes das nossas?

Objetivos
A partir de cosmovisões indígenas trabalhar o conceito de saúde associado a noções de
natureza e ecossistema de forma a realizar uma crítica ao período geológico em que vivemos,
por alguns nomeado de antropoceno, mas aqui apresentado como capitaloceno. Assim,
pretendemos transpor a arrogância de ver o ser humano “universal” como centro do mundo.

Metodologia
A orientação metodológica deste estudo é de natureza qualitativa, envolvendo
elaboração eminentemente conceitual, o que se dará mediante análise comentada e crítica de
material bibliográfico relevante dedicado ao tema aqui eleito como central. Como ponto de
partida, o método será a realização de uma apreciação de textos que compõem o centro das
problemáticas envolvidas na nossa proposta de investigação: partir de cosmovisões outras para
(re)pensar a vida no planeta.

Resultados e Discussão
Para desenvolver o tema nos utilizaremos do conceito de capitaloceno proposto por
Jason W. Moore (2022), e compreendido como o período geológico mais recente do planeta,
época ainda não datada oficialmente, mas estabelecida ou aprofundada no rastro da Revolução
Industrial, quando as atividades de uma pequena parcela da humanidade passaram a impactar
e deteriorar ecossistemas e o clima em toda a Terra. O conceito de capitaloceno tenta dar conta
e tornar visível o papel e a responsabilidade do sistema econômico capitalista na destruição do
planeta. Tal definição procura enfatizar que a ação humana é sempre perpassada por relações
políticas e econômicas de poder e desigualdades no contexto do capitalismo global. O
capitaloceno ressalta, portanto, como a apropriação da natureza e de seus territórios é causadora
de transformações ambientais profundas. Como esclarecem teóricos que cunharam o conceito,
o capitaloceno não significa a definição do capitalismo como sistema econômico e social. Em
vez disso, entende-se o capitalismo enquanto maneira de organizar a própria natureza – como
uma ecologia-mundo multiespécie, situada e capitalista (MOORE, 2016/2022).
A partir dessas noções, mas não somente, procuraremos considerar concepções como a
de insegurança climática, buscando compreender e reconhecer que fazemos parte do mundo,
estamos nele, somos ele e por isso podemos transformá-lo ao nos transformarmos, e que
também podemos nos transformar ao transformá-lo. Assim, “fazemos parte da natureza
ecologicamente interconectada deste mundo e estamos conectados uns aos outros, somos
responsáveis uns pelos outros, como explorados e oprimidos e como companheiros de luta”
(PARKER, PAVÓN-CUÉLLAR, 2022).

Aprendizados e Análise Crítica


O presente trabalho procurou pensar em interconexões entre os humanos e o mundo,
partindo da noção de ecologia. Para tanto, refletimos sobre concepções como a de ambiente,
saúde e doença, mas não para considerar o mundo enquanto algo separado, à parte de nós, mas
sim enquanto parte do que somos, do que nos garante a vida. Sendo assim, uma possibilidade
de potência de transformação de nossa realidade atual.
Referências Bibliográficas
CANGUILHEM, Georges. O Normal e o Patológico. São Paulo: Forense Universitária. 7ª
edição, 2011.

KRENAK, Ailton. A vida não é útil. Rio de Janeiro: Companhia das Letras, 2020.

KRENAK, Ailton. Futuro Ancestral. Rio de Janeiro: Companhia das Letras, 2022.

KRENAK, Ailton. Ideias para adiar o fim do mundo. Rio de Janeiro: Companhia das Letras,
2019.

KRENAK, Ailton. O amanhã não está à venda. Rio de Janeiro: Companhia das Letras, 2020.

PARKER, Ian; PAVÓN-CUÉLLAR, David. Psicanálise e revolução: Psicologia crítica para


movimentos de liberação. São Paulo: Autêntica, 2022.

MOORE, Jason. Antropoceno ou Capitaloceno? São Paulo: Editora Elefante, 2022.


Relato de Pesquisa

Etnocentrismo e preconceito: Pilares de sustentação das atuais conjecturas sociais

Igor Coelho Rodrigues da Motta 119

Palavras-chave: Etnocentrismo; Preconceito; Estudos pós-coloniais; Interseccionalidade;


Diferença entre grupos.

Contextualização
De onde surge o “Nós” e o “Eles”, se somos todos humanos? O etnocentrismo pode ser
visto como a tendência de sempre apontar para outro grupo a causa de algum mal ocorrido.
Logo, o etnocentrismo e o preconceito, se demonstraram no cotidiano como prática cultural em
aspectos de nossa sociedade e suas formas de pensamento. A questão da diferença entre
determinados grupos fora agenciadora da gestão social ao longo da história e como estes grupos
se reuniram desta maneira e vieram a se constituir sob esta concepção (Rocha 1986; Ribeiro,
2011).

Objetivos
Esta pesquisa foi objeto de estudo para elaboração da minha monografia de graduação
em Psicologia, com título “Etnocentrismo e Preconceito: Pilares de sustentação das atuais
conjecturas sociais”. Busquei enfocar em como as influências que as práticas etnocêntricas
podem ter na vida dos sujeitos, em suas realidades culturais, obtendo função normatizadora
dos modos corretos de se viver em sociedade.

Metodologia
Esta pesquisa foi elaborada como uma revisão bibliográfica e histórica do conceito de
Etnocentrismo, junto com uma crítica social, histórica e política das relações entre grupos
sociais diferentes que estabelecem relações hierárquicas e de desigualdade social.
Discuti como a herança de dominação política, e consequente imperialismo, sustentou diversas
bases de pensamento etnocêntrico e a desvalorização da sociedade nativa ameríndia e sua quase
extinção. Analisei alguns tipos de preconceitos observados na sociedade, enfatizando-se o
histórico preconceito religioso e racial, bem como, outros relacionados ao gênero e
sexualidade.

Resultados e Discussão
A história do Brasil começa com um choque cultural, onde os colonizadores usaram a
sua sociedade como referencial para julgar os demais. Aliás, esta foi à lógica que norteou as
ações de estratégia geopolítica das nações, dentre as quais nasceu o capitalismo como modo

119
Mestrando pelo Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva do Instituto de Medicina Social da
Universidade do Estado do Rio de Janeiro; orientadora: Rosana Maria Nascimento Castro Silva;
[email protected]
de produção. Esses países consideravam a adoção do modo de vida do europeu como “homem
civilizado”, fatores necessários e urgentes. Logo, caberia à função de civilizar o mundo (Levi-
Strauss, 1976; Telles, 1987; Laplantine, 2003). Logo, isso gera uma imposição de valores
pertencentes a um grupo hegemônico sobre outros, visando o favorecimento daqueles que
dominam a velha lógica da sobreposição da versão dos vencedores sobre os derrotados, quer
seja no campo ideológico, político, social ou econômico (Lima, 1999). Os negros africanos
escravizados e seus descendentes foram excluídos durante séculos. Aqueles que não se
adequaram ao modo capitalista foram excluídos, taxados como vagabundos, bandidos,
marginais, malandros e preguiçosos. E os que não seguiram a tradição cristã foram chamados
de demoníacos, devassos, imorais, sem alma e destruidores da família. Assim, o
Etnocentrismo marcou as relações sociais no Brasil (Telles, 1987).
Apesar dos indígenas serem o povo nativo desta região, eram apontados pelos
estrangeiros como os errados. Assim se retrata o fato de a intolerância ser fator presente na
história, principalmente as de origem étnica e religiosa como foco de opressões e injustiças
(Magnabosco, 2002). Sendo assim, percebemos que as nuances dos preconceitos históricos
permeiam diversas esferas da vida. As diversas formas estigmatizadas de ver o sujeito têm
lugar nas justificativas apresentadas pelos envolvidos, seja em espaços individuais ou
coletivos, público ou privado. Essa justificação de aspectos ditos superados se mostra em
várias linguagens, seja nas artes, na forma de se comunicar, nas formas corporais e
psicológicas de se expressar. Estes conteúdos sutis, que fundam o que é “natural”, formam
toda uma estrutura que dita identidades, hierarquias e poderes diferenciadores, que geram entre
outras coisas, lógicas de inclusão-exclusão dentro dos grupos sociais (Bandeira, 2002).

Aprendizados e Análise Crítica


Os grupos historicamente subjugados têm despertado para estes fatores. Porém, este
despertar não foi passivo, e sim fruto de lutas históricas que vêm sendo travadas há séculos em
busca da equidade e justiça social (Silva, 2003; Bandeira, 2002). O reconhecimento igual não
é somente a modalidade apropriada para uma sociedade democrática saudável. Sua recusa
pode infligir danos àqueles a quem é negado. Logo ao colocar o outro como diferente, distante,
já estou lhe infligindo danos e é assim que se processa o preconceito. Assim sendo, não há
maneiras saudáveis de julgar o outro a partir de meus próprios referenciais (Sadala, 1999;
Taylor, 2000). Uma das causas básicas da dificuldade humana é a perspectiva com a diferença.
A existência da diferença é deflagradora de uma clara não homogeneidade, que estará presente
em qualquer grupo que possa existir. Desta forma, a diferença se mostra como riqueza de
conteúdo, aonde as diferenças entre os sujeitos demonstram um arsenal de variações de
possibilidades do ser, reafirmação da potência do ser humano (Souza, 2000).
Portanto, se abre um caminho que aborde estratégias que possam visar a reduzir o
etnocentrismo entre grupos, valorizando as diferenças em prol de uma sociedade mais forte e
coesa.

Referências Bibliográficas
BANDEIRA, Lourdes; BATISTA, Analía. Preconceito e discriminação como expressão de
violência. Revista Estudos Feministas, v. 10, n. 1, p. 1-16, Florianópolis, 2002.
LAPLANTINE, François. Aprender antropologia. 15. ed. São Paulo: Brasiliense, 2003. p. 25-
37.
LÉVI-STRAUSS, Claude. Raça e história. 2. ed. São Paulo: abril, 1976. p. 49-56. (Coleção
Os Pensadores).

LIMA, Tania Stolze. Para uma teoria etnográfica da distinção natureza e cultura na cosmologia
juruna. Revista Brasileira de Ciências Sociais, v. 14, n. 40, p. 43-52, 1999.

MAGNABOSCO, Maria. Identidade, alteridade e globalização: uma reflexão a partir do


testemunho de Rigoberta Menchú. Psicologia: Ciência e Profissão, v. 22, n. 1, p. 10-17,
Brasília, mar. 2002.

RIBEIRO, Paulo Silvino. Movimentos sociais: breve definição. Brasil Escola, Campinas, 2011.
Disponível em: https://brasilescola.uol.com.br/sociologia/movimentos-sociais.htm. Acesso
em: [data de acesso].

ROCHA, Everardo. O que é etnocentrismo. 3. ed. São Paulo: Brasiliense, 1986. p. 1.


SADALA, Maria Lúcia Araújo. A alteridade: o outro como critério. Revista da Escola de
Enfermagem da USP, v. 33, p. 355-357, 1999.

SOUZA, Solange Jobim. Mosaicos: imagens do conhecimento. Rio de Janeiro: Rios


Ambiciosos, 2000. p. 110-115.

SILVA, Sérgio Gomes da. Preconceito no Brasil contemporâneo: as pequenas diferenças na


constituição das subjetividades. Psicologia: Ciência e Profissão, v. 23, n. 2, p. 2-5, Brasília,
2003.
TAYLOR, Charles. Argumentos filosóficos. São Paulo: Loyola, 2000. p. 241-275.

TELLES, Norma. A imagem do índio no livro didático: equivocada, enganadora e a questão


indígena na sala de aula. São Paulo: Brasiliense, 1987. p. 75-76.
Relato de Pesquisa

Interseções de gênero e raça/cor na insegurança alimentar em domicílios no Norte


e Nordeste brasileiro

Karine de Sales Carneiro 120


Luana Teixeira Ghiggino 121
Larissa Brillo Nunes Rúbio 122
Eloah de Sant’Anna Ribeiro 123
e Aline Alves Ferreira 124

Palavras-chave: Desigualdade de Gênero; Fatores Raciais; Insegurança Alimentar;


Inquéritos Populacionais.

Contextualização
No Brasil, mais da metade dos domicílios chefiados por mulheres estão em insegurança
alimentar (IA). Ainda, domicílios chefiados por pessoas pretas/pardas representam 65%
daqueles em situação IA (Rede Penssan, 2022). Apesar de todas as mudanças políticas,
econômicas e sociais que ocorreram ao longo dos anos na sociedade brasileira, as desigualdades
sociais, tais como de raça e gênero são documentadas como determinantes sociais da IA (Rede
Penssan, 2022; 2021; Lignani et al., 2020). Entretanto, há uma escassez de estudos sobre a sua
interseção.
O conceito de interseccionalidade pressupõe a necessidade de analisar dois ou mais
eixos de subordinação que se sobrepõem (Creenshaw, 2002) e podem influenciar a forma como
a IA se mostra em uma população. Portanto, a análise do gênero e da raça/cor da pele sob a
ótica da interseccionalidade visa compreender as múltiplas diferenças e desigualdades dos
indicadores sociais atuais a partir de contextos históricos e relações de privilégio (Collins &
Bilge, 2020).
Embora a maioria da população brasileira seja formada por homens e mulheres negras,
75% destes se encontram nos estratos mais pobres da população (IBGE, 2018). Nesse cenário,

120
Estatística pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e Graduanda em Nutrição pelo Centro Universitário
Augusto Motta; Integrante do Grupo Interdisciplinar de estudos sobre Segurança Alimentar e Nutricional -
GISAN/UFRJ; orientadora Aline Alves Ferreira; [email protected]
121
Mestranda em Nutrição Humana pelo Programa de Pós-Graduação em Nutrição da Universidade do Federal do
Rio de Janeiro; orientadora Aline Alves Ferreira; Pesquisadora no Grupo Interdisciplinar de Estudos sobre
Segurança Alimentar e Nutricional - GISAN/UFRJ; [email protected]
122
Graduanda em Nutrição pelo Instituto de Nutrição Josué de Castro da Universidade do Federal do Rio de
Janeiro; Integrante do Grupo Interdisciplinar de Estudos sobre Segurança Alimentar e Nutricional - GISAN/UFRJ;
orientadora Aline Alves Ferreira; [email protected]
123
Doutoranda em Ciências Nutricionais pelo Programa de Pós-Graduação em Nutrição da Universidade do
Federal do Rio de Janeiro; orientadora Rosana Salles-Costa; Pesquisadora no Grupo Interdisciplinar de Estudos
sobre Segurança Alimentar e Nutricional - GISAN/UFRJ; [email protected]
124
Doutora em Ciências Nutricionais pelo Programa de Pós-Graduação em Nutrição da Universidade do Federal
do Rio de Janeiro; Vice-coordenadora do Grupo Interdisciplinar de Estudos sobre Segurança Alimentar e
Nutricional - GISAN/UFRJ; [email protected]
as mulheres negras são colocadas na posição mais marginalizada e apresentam piores condições
de vida (IPEA, 2011). No âmbito da alimentação e nutrição, a insegurança alimentar reforça as
desigualdades entre os gêneros e as raças, revelando indicadores socioeconômicos que levam à
vulnerabilidade da mulher negra (Silva et al, 2022).
Ainda, a distribuição dos determinantes sociais no Brasil também ocorre de forma
desigual entre as macrorregiões, visto o histórico de desigualdade socioeconômica que também
irá refletir na IA. Domicílios das regiões Norte e Nordeste apresentam as maiores proporções
de IA moderada e grave quando comparados às regiões Sul e Sudeste (Rede Penssan, 2022).

Objetivos
Mediante o exposto, o objetivo do trabalho foi investigar as intersecções de gênero e
raça/cor da pele da pessoa de referência na insegurança alimentar em domicílios no Norte e
Nordeste brasileiro.

Metodologia
Trata-se de um estudo transversal de base populacional realizado com os dados da
Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (PNAD), realizada em 2004, 2009 e 2013.
Utilizou-se as classificações da Escala Brasileira de Insegurança Alimentar (EBIA), divididas
em segurança alimentar, IA leve, IA moderada, IA grave; o gênero segundo as classificações
do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (homem e mulher); a raça/cor da pele (branco,
pardo e preto); a escolaridade (sem escolaridade, de 1 a 7 anos de estudo, de 8 a 12 anos de
estudo e mais de 12 anos ) e rendimento (<½ salário mínimo, de ½ a 1 salário mínimo e acima
de 1 salário mínimo) estratificadas pela região Norte e Nordeste do Brasil. As prevalências dos
perfis de gênero e raça/cor da pessoa de referência foram estimadas e estratificadas pelos níveis
de insegurança alimentar comparando a significância pelo teste qui-quadrado (valor de p <
0,05). A análise estatística foi realizada através do software STATA 16.0. O estudo dispensou
submissão ao comitê de ética por serem dados de domínio público (resolução CNS nº
510/2016).

Resultados e Discussão
Entre 2004 e 2013, ocorreu um decréscimo da IA e um aumento de todos os perfis de
gênero e raça/cor. As mulheres pretas e pardas apresentaram os maiores percentuais de IA
quando comparadas com outros perfis de gênero e raça/cor. As mulheres negras foram as mais
afetadas pela IA, principalmente nos níveis mais severos. As mulheres pretas apresentaram os
maiores percentuais de IA grave nas regiões Norte (17,66%, 2004; 15,86%, 2009 e 10,74%,
2013) e Nordeste (23,36%, 2004, 15%, 2009 e 9,18%, 2013). Enquanto os homens brancos
apresentaram menores percentuais de IA grave nas regiões Norte (6,09%, 2004; 6,20%, 2009 e
3,63%, 2013) e Nordeste (8,69%, 2004; 5,97%, 2009 e 16%, 2013), como também obtiveram
maiores percentuais de SA durante todo o período, quando comparados aos demais perfis. Ao
observarmos os indicadores sociais associados à IA, na região Nordeste apresentaram maior
prevalência dos chefes de domicílio sem escolaridade (48,36%, 2004; 48,35%, 2009; 46,13%,
2013) e rendimento menor que 1⁄2 salário mínimo (47,67%, 2004; 47,05%, 2009 e
46,97%,2013). Ainda, na região Norte observamos menores prevalências de pessoas com mais
de 12 anos de estudo (4.21%, 2004; 5,32%, 2009 e 5,58%, 2013) e rendimentos acima de 1
salário mínimo (4,99%, 2004; 4,90%, 2009 e 5,11%, 2013).
Aprendizados e Análise Crítica
Os resultados evidenciaram que apesar da melhora nos níveis de Segurança Alimentar
e Nutricional nos perfis de gênero e raça/cor nas regiões Norte e Nordeste, as mulheres negras
(pretas e pardas) permanecem como o grupo mais vulnerável à IA apresentando os maiores
percentuais do seu nível mais severo, demonstrando o impacto da interseccionalidade no perfil
de alimentação e nutrição no país.

Referências Bibliográficas
COLLINS, P.; Bilge, S. Interssecionalidade. São Paulo: Boitempo, 2021.

CRENSHAW, K. Documento para o encontro de especialistas em aspectos da discriminação


racial relativos ao gênero. Revista Estudos Feministas, v. 10, n. 1, p.171–188, jan. 2002.

INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA (IBGE). Estudos e


Pesquisas. Informação Demográfica e Socioeconômica. Desigualdades por cor ou Raça no
Brasil. n.41. 2018. Disponível em:
https://biblioteca.ibge.gov.br/visualizacao/livros/liv101681_informativo.pdf. Acesso em: 21
out. 2023.

LIGNANI, J. DE B. et al. Relationship between social indicators and food insecurity: a


systematic review. Revista Brasileira de Epidemiologia, v. 23, p. e200068, 2020.
REDE PENSSAN. VIGISAN, II inquérito Nacional sobre Insegurança Alimentar no
Contexto da Pandemia da COVID-19 no Brasil. Rede brasileira de Pesquisa em Soberania e
Segurança Alimentar. São Paulo, SP. 2022. Disponível em: https://olheparaafome.com.br/wp
content/uploads/2022/06/Relatorio-II-VIGISAN-2022.pdf. Acesso em: 19 de jun. de 2023.

INSTITUTO DE PESQUISA ECONÔMICA APLICADA (Ipea). Retrato das desigualdades


de gênero e raça. 4. ed. Brasília: Ipea, 2011. 39 p. Disponível em:
https://www.ipea.gov.br/retrato/pdf/revista.pdf. Acesso em: 23 out. 2023.

SILVA, S. O. DA. et al.. A cor e o sexo da fome: análise da insegurança alimentar sob o olhar
da interseccionalidade. Cadernos de Saúde Pública, v. 38, n. 7, p. e00255621, 2022.
COLETIVO TEMÁTICO:
Subjetividade, Atenção Psicossocial e Saúde Coletiva no Brasil

O movimento da Reforma Psiquiátrica e da luta antimanicomial no Brasil alimenta a


Política Nacional de Saúde Mental e é atravessado por uma constante disputa de narrativa,
paradigmas e projetos ético-políticos e de cuidado. A subjetividade e os processos de
subjetivação são engendrados também a partir de uma dimensão sócio-histórica e refletem e
falam sobre o seu tempo. A pandemia da COVID-19, como evento crítico que desestabilizou a
vida ordinária, nos convocou a um encontro radical com as desigualdades estruturais que
conformam a nossa história enquanto sociedade e nação, seja por meio dos indicadores de
mortalidade e sua correlação com raça, gênero, território e classe, seja pelos índices de
desemprego e precarização da vida, seja pelas barreiras e desafios no acesso à saúde mental,
seja pelo recrudescimento de uma onda ultraconservadora no país. A verdade é que nunca
estivemos no mesmo barco, e na pandemia não seria diferente. Logo, pensar em lentes e formas
de gestão do sofrimento psíquico e do cuidado em saúde mental a partir do sofrimento social,
do sofrimento encruzilhado, da perspectiva analítica interseccional e da epidemiologia, por
exemplo, se faz fundamental para evitarmos os processos de psicologização, psiquiatrização e
patologização das desigualdades sociais brasileiras. O campo da atenção psicossocial, marcado
por saberes interdisciplinares, têm no cuidado em liberdade, de base territorial e na defesa do
direito à cidadania alguns de seus pilares. Contudo, como campo social, político e eticamente
complexo, é atravessado pelo desafio constante de sustentar um cuidado antimanicomial, um
cuidado que seja efetivamente integral e ancorado numa clínica ampliada. Por tudo isso, através
deste Coletivo Temático convocamos à diversidade de disciplinas e práticas (experiências) que
compõem o campo da Saúde Mental no Brasil, para compartilhar novas ideias ou conceitos,
achados de pesquisa, inovações metodológicas e relatos de boas práticas - articuladas às
diferentes dimensões da atenção psicossocial (epidemiológico, teórico conceptual; teórico
assistencial; jurídico-político; sociocultural). Construímos, assim, um espaço de troca que
fortaleça a radicalização de uma Reforma Psiquiátrica brasileira antirracista, antipatriarcal,
antiproibicionista, contracolonial, socialmente justa e emancipatória.
Relato de Experiência

A horizontalidade na manutenção da desinstitucionalização: relato de um


estagiário em extremos opostos da RAPS

Daniel Vasconcelos 125

Contextualização
O seguinte relato contará as angústias e elaborações de um estagiário/extensionista
frente a dois dispositivos de atenção psicossocial posicionados em extremos opostos no
contexto da Reforma Psiquiátrica Brasileira (RPB): o Hospital Psiquiátrico e o Centro de
Atenção Psicossocial (CAPS). É sabido a marcante disparidade entre os aprendizados teóricos
– muitas vezes deficitário quanto às políticas públicas – e a práxis assistencial. Contudo, ao
tratarmos especificamente da promoção e manutenção da desinstitucionalização, esta lacuna
potencializa-se. Neste caso, buscaremos demarcar os paradoxos presentes em cada dispositivo
e, como resposta, reforçar os aprendizados recolhidos destas experiências.

Descrição
Trata-se das observações e experiências coletadas, primeiramente, como estagiário de
Psicologia em uma enfermaria de longa-permanência em Hospital Psiquiátrico – aqui
identificada como Albergue. Posteriormente – e atualmente –, como extensionista-oficineiro
em um CAPS III. Algumas distinções entre os trabalhos realizados nos diferentes serviços
foram determinantes para os resultados alcançados, como a horizontalidade presente em uma
das equipes e ausente em outra. Bons e maus exemplos podem ser observados nos dois polos,
porém a concepção atribuída aos dois distingue-se a partir da posição que os serviços ocupam
num espectro virtual de evolução da RPB. Demonstraremos a importância de não nos
restringirmos a tais concepções.

Período de Realização
As experiências relatadas ocorreram (e ocorrem) nos anos de 2022 e 2023. De março a
outubro de 2022, no Albergue. E de junho ao momento presente (out. 2023) no CAPS III.

Objetivos
Em seu objetivo principal, este relato busca comparar as dinâmicas estabelecidas em
ambos os dispositivos da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS), ressaltando, a partir das
experiências, a importância da horizontalidade e da “desespecialização” (ELIA, 2015) da
equipe multiprofissional na atuação em rede. A natureza dos serviços aqui analisados é posta
em suspensão, para que as pré-concepções sobre os mesmos não poluam as reflexões que aqui
se fazem necessárias.

125
Graduando pelo Instituto de Psicologia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro;
[email protected]
Resultados
De início, o Albergue contava com cerca de 20 usuários em estado asilar. Caminhando
para finalmente zerar os leitos de longa permanência no município, a equipe multiprofissional
lotada no Albergue precisou, “a toque de caixa” – cumprindo determinação do Ministério
Público –, articular a saída de 90% dessas pessoas em poucos meses. A equipe – composta por
Técnicas de Enfermagem, Enfermeiras, Assistentes Sociais (as duas últimas sendo a chefia do
setor), Psicólogas, Residentes e Estagiários de Psicologia –, foi capaz de, e em direta parceria
com a rede e o Serviço de Residências Terapêuticas (SRT) que enfim acolheria tais
usuárias(os), promover as transferências sem abdicar da lógica de cuidado que nos orientava:
radicalmente emancipatória.
No CAPS III, por sua vez, são realizadas oficinas terapêuticas semanais e promovidas
por equipe composta de discentes da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Não
há interlocução com o restante do corpo profissional para além da rotina protocolar do serviço.
As reuniões semanais ocorrem sem a participação da equipe das oficinas, o que impede o acesso
às discussões e aos Projetos Terapêuticos Singulares (PTS) de cada usuária(o) também por nós
referenciados. Tal cenário nutre um sentimento de inércia quanto ao trabalho realizado, pelo
desconhecimento dos demais fatores que compõem a rotina das pessoas assistidas, assim como
pela total cisão junto às demais componentes do serviço. Dá-se, portanto, o marcador
fundamental para a produção de resultados tão diversos: a horizontalidade.

Aprendizados e Análise Crítica


Diferentemente do que é observado no CAPS, onde a falta de articulação com o restante
do serviço e a equipe que ali atua provoca um isolamento do próprio trabalho em rede, no
Albergue, por ser um dispositivo intensamente marcado por seu passado manicomial, move-se
em constante conflito com este passado, e assim vê-se permanentemente angustiado para lidar
com tal herança. O trabalho era direcionado para fora da instituição; raramente algo era
planejado para o interior do Hospital e todas as profissionais participavam das mesmas,
respeitando a disponibilidade diária de cada.
A desinstitucionalização, como “crítica do paradigma racionalista problema-solução”
(ROTELLI; LEONARDIS; MAURI, 2019, p. 18.) falhou, no Brasil. Ela sobrevive, em grande
parte, como um “mito” (Ibid., p.19) estruturante dos serviços que atualmente compõem a
RAPS. O grande disparador para a escrita deste relato é o conflitante sentimento de que no
CAPS, dispositivo construído como alternativa aos manicômios, observamos a sutil re-
insitucionalizado de suas(seus) usuárias (os), fazendo com que tais pessoas reduzam suas
rotinas às atividades realizadas no mesmo. É preciso reavaliarmos constantemente os caminhos
que estamos percorrendo e alimentemos a angústia que nos acompanha para que não caiamos
na armadilha de retroceder perante os progressos alcançados.

Referências Bibliográficas
BRASIL. Ministério da Saúde. Gabinete do Ministro. Portaria n.º 3.088, de 23 de dezembro de
2011. Institui a Rede de Atenção Psicossocial para pessoas com sofrimento ou transtorno
mental e com necessidades decorrentes do uso de crack, álcool e outras drogas, no âmbito do
Sistema Único de Saúde (SUS). Diário Oficial da União. Brasília, DF, 2011.
ELIA, L. F. Uma equipe muito peculiar: a equipe do CAPS. In KAMERS, M. (Org). Por
uma (nova) psicopatologia da infância e da adolescência (pp. 243-266). Editora Escuta,
Belo Horizonte, 2015.

ROTELLI, F.; de LEONARDIS, O.; MAURI, D. DESINSTITUCIONALIZAÇÃO, UMA


OUTRA VIA: A Reforma Psiquiátrica Italiana no Contexto da Europa Ocidental e dos “Países
Avançados”. In NICÁCIO, F. (Org.). DESINSTITUCIONALIZAÇÃO (pp. 17-60).
Hucitec Editora, São Paulo, 2019.
Relato de Pesquisa

A leitura psi de Georges Canguilhem no Instituto de Medicina Social:


implicações para a Reforma Psiquiátrica e a Saúde (Mental) Coletiva

Murilo Galvão Amancio Cruz 126

Palavras-chave: Georges Canguilhem; Campo Psi; Reforma Psiquiátrica; Saúde Coletiva;


Circulação de Ideias; Instituto de Medicina Social.

Contextualização
Georges Canguilhem possui uma extensa produção intelectual cuja importância
percorre diferentes áreas do saber. No Brasil, a circulação de suas ideias foi marcada pelo
campo de construção da Saúde Coletiva entre os anos 70 e 80, quando sua filosofia se tornou
ferramenta para discussão do processo saúde-doença sob uma perspectiva ampliada (Ayres,
2016; Cruz, 2022). Nesse sentido, a efervescência no que tange à leitura e apropriação de suas
ideias ocorreu no bojo dos movimentos das reformas Sanitária e Psiquiátrica brasileiras, as
quais ensejaram rupturas epistemológicas, políticas e institucionais no contexto de luta por
democracia, acesso universal à saúde e humanização do cuidado. Com efeito, o Instituto de
Medicina Social – caracterizado por uma significativa presença de psicanalistas – protagonizou
parte importante deste processo, sobretudo a partir de alguns personagens que impulsionaram
as ideias do filósofo francês no interior da Saúde (Mental) Coletiva.

Objetivos
Este trabalho é parte dos resultados de minha tese, “A circulação de Georges
Canguilhem no Brasil: para além do normal e patológico” (Cruz, 2022), e visa apresentar a
leitura realizada pelo campo psi sobre o pensamento de Canguilhem no interior do IMS entre
os anos 70 e 80.

Metodologia
Inspirado nas perspectivas teórico-metodológicas da Circulação Social de Ideias
(Bourdieu, 2002) e da História Oral (Portelli, 1997), foram realizadas pesquisa bibliográfica e
entrevistas com ex-professores do IMS relacionados à leitura e difusão do pensamento de
Canguilhem no Brasil. Essas ferramentas possibilitam, por um lado, aprender a forma como as
ideias circulam de maneira autônoma, costuradas com o coletivo de pensamento que as
reivindicam e, por outro, incorporar à análise a tríade memória, oralidade e narrativa,
percorrendo elementos subjetivos e sociais que compõem a experiência.

126
Doutor pelo Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva do Instituto de Medicina Social da Universidade
do Estado do Rio de Janeiro; orientadora: Profª Drª Rafaela Teixeira Zorzanelli; [email protected]
Resultados e Discussão
A partir de fontes orais e escritas, constata-se que a perspectiva teórica de Canguilhem
compôs o debate de construção de uma nova proposta de saúde, articulada à sociedade e com
ênfase nas determinações sociais do adoecimento e nos processos históricos de subjetivação,
presente no contexto das reformas Sanitária e Psiquiátrica. No IMS, Roberto Machado, Jurandir
Freire Costa, Joel Birman e Benilton Bezerra Jr. foram alguns dos principais leitores e difusores
das ideias do filósofo francês entre os anos 70 e 80. Em suma, seus trabalhos incorporaram a
perspectiva da epistemologia histórica e a problemática relacionada à verdade, à ciência e à
ideologia; a reflexão crítica em torno dos conceitos de normal e de patológico; e a noção de que
o pathos precede o logos, o que sugere uma defesa da escuta clínica sensível ao contexto social
e histórico.
Estes atores incorporaram essas ferramentas teóricas para construir uma crítica ao
universalismo do saber médico e a defesa de sua historicidade. Dessa forma, recusam-se noções
universais em prol da apreensão do sujeito concreto e histórico, fornecendo subsídios à luta
antimanicomial. Estas ideias foram transmitidas para diversas gerações no interior do IMS,
direcionando diversas linhas de pesquisa para uma crítica emancipatória dos saberes psis,
impulsionada pela RPB.

Aprendizados e Análise Crítica


Amparados na reflexão teórica de Canguilhem, alguns atores inseridos nos movimentos
da RSB e RPB, que coincidem historicamente com a constituição da Saúde Coletiva, recusaram
a tese que reduz o fenômeno da doença física ou mental ao corpo anátomo-fisiológico. Com
efeito, a expansão da compreensão do processo saúde-doença para incluir o corpo social é uma
das teses compartilhadas por ambos os movimentos de reforma, que buscam a criação de outras
normas para os saberes e práticas em saúde. Daí que se assiste, naquele contexto, a um aumento
expressivo na produção acadêmica do campo que, suscitado à reconstrução e invenção de novos
marcos teóricos, direcionou sua análise aos saberes psi, em aliança com as Ciências Humanas
e Sociais, promovendo novas perspectivas que se compõem, entre outros aspectos, a partir da
percepção da complexidade que envolve as relações sociais; dos processos históricos de
subjetivação e sua inserção nos modos de produção social da vida material; e da implicação do
sujeito na produção do conhecimento (Yasui, 2010).
A experiência de circulação de Georges Canguilhem no Brasil é perpassada por fatores
históricos, sociais, políticos e acadêmicos que influenciaram a leitura e a apropriação de seu
pensamento. Nesse sentido, as fontes circunscreveram o cenário que envolveu este fenômeno
de recepção – balizado pelas ideias historicizadas de clínica, ciência e normatividade – onde se
desenvolve um estilo de leitura e aplicação de Canguilhem, próprio ao Brasil, voltados à
reflexão e análise críticas do campo da saúde. De fato, o filósofo francês circulou pelo país e
deixou a sua marca sobre diferentes gerações implicadas com a Saúde (Mental) Coletiva. Que
as suas ideias permaneçam produzindo o debate e a crítica tão necessários ao processo de
construção do conhecimento sob uma perspectiva ética e humana.
Referências Bibliográficas
AYRES, J. R. C. M. Georges Canguilhem e a construção do campo da Saúde Coletiva
brasileira. Intelligere, 2 (1), pp. 139-155, 2016.
BOURDIEU, P. Les conditions sociales de la circulation internationale des idées. Actes de la
Recherche en Sciences Sociales. n. 145, pp. 3-8, 2002.

CRUZ, M. G. A. A circulação de Georges Canguilhem no Brasil: para além do normal e


patológico. Tese (Doutorado em Saúde Coletiva). Universidade do Estado do Rio de Janeiro,
Rio de Janeiro, 2022.

PORTELLI, A. Forma e significado na História Oral. A pesquisa como um experimento em


igualdade. Proj. História. São Paulo, 14, p. 7-24, 1997.

YASUI, S. Rupturas e encontros: desafios da reforma psiquiátrica brasileira. Rio de


Janeiro: Editora Fiocruz, 2010.
Relato de Pesquisa

Censo psicossocial do estado do Rio de Janeiro: uma leitura interseccional das


instituições, usuários e profissionais

Bruno Lopes Lima 127


Amanda de Almeida Sanches 128
Daniel de Souza Campos 129
Erika Rodrigues Silva 130
Isabel Cristina Lopes Barbosa 131
Jessica Taiane da Silva 132
Lucas Moura Santos Silva 133
Priscila Fernandes da Silva 134
Thaissa dos Santos 135
Tatiana Wargas de Faria Baptista 136
e orientadora: Rachel Gouveia Passos 137

Palavras-chave: seminário; pesquisa; pós-graduação; saúde coletiva; formação; estudantes;


coletivo; intercâmbio.

127
Assistente Social. Residente Multiprofissional em Saúde Mental (IPUB/UFRJ). Integrante da Pesquisa Censo
Psicossocial dos usuários dos serviços de saúde mental do Estado do Rio de Janeiro, [email protected]
128
Assistente Social. Especialista em Saúde da Criança e do Adolescente (IPPMG/UFRJ). Residente
Multiprofissional em Saúde Mental (IMPP/SMS). Integrante da Pesquisa Censo Psicossocial dos usuários dos
serviços de saúde mental do Estado do Rio de Janeiro; [email protected]
129
Assistente Social. Mestre em Saúde Coletiva pela Fiocruz. Doutor em Serviço Social e Professor da Graduação
da Escola de Serviço Social da UFRJ. Coordenador da Pesquisa Censo Psicossocial dos usuários dos serviços de
saúde mental do Estado do Rio de Janeiro. E-mail: [email protected]
130
Assistente Social. Residente Multiprofissional em Saúde Mental (IPUB/UFRJ). Integrante da Pesquisa Censo
Psicossocial dos usuários dos serviços de saúde mental do Estado do Rio de Janeiro;
[email protected]
131
Assistente Social. Integrante da Pesquisa Censo Psicossocial dos Usuários dos serviços de saúde mental do
Estado do Rio de Janeiro; [email protected]
132
Assistente Social. Residente Multiprofissional em Saúde Mental (IPUB/UFRJ). Integrante da Pesquisa Censo
Psicossocial dos usuários dos serviços de Saúde Mental do Estado do Rio de Janeiro; [email protected].
133
Graduando em Psicologia (IP/UFRJ). Integrante da Pesquisa Censo Psicossocial dos usuários dos serviços de
saúde mental do Estado do Rio de Janeiro; [email protected]
134
Assistente Social. Integrante da Pesquisa Censo Psicossocial dos usuários dos serviços de saúde mental do
Estado do Rio de Janeiro; [email protected]
135
Graduanda em Serviço Social (ESS/UFRJ). Integrante da Pesquisa Censo Psicossocial dos usuários dos
serviços de saúde mental do Estado do Rio de Janeiro; [email protected]
136
Psicóloga. Doutora em Saúde Coletiva pelo Instituto de Medicina Social da UERJ. Pesquisadora do
Departamento de Administração e Planejamento em Saúde da Escola Nacional de Saúde Pública da FIOCRUZ.
Integrante da Pesquisa Censo Psicossocial dos usuários dos serviços de saúde mental do Estado do Rio de Janeiro;
[email protected]
137
Assistente Social. Pós-Doutora em Direito (PUC/RJ). Professora da Graduação e da Pós-Graduação da Escola
de Serviço Social da UFRJ. Coordenadora do Projeto de Pesquisa e Extensão Luta Antimanicomial e Feminismos.
Coordenadora da Pesquisa Censo Psicossocial dos usuários atendidos nos serviços de saúde mental do Estado do
Rio de Janeiro; [email protected]
Contextualização
A presente pesquisa faz parte das ações desenvolvidas pelo Projeto de Pesquisa e
Extensão Luta Antimanicomial e Feminismos, da Escola de Serviço Social da Universidade
Federal do Rio de Janeiro (ESS/UFRJ), em parceria com a Coordenação de Atenção
Psicossocial da Secretaria Estadual de Saúde (COOCAPS).
O processo que viabilizou a Reforma Psiquiátrica Brasileira (RPB) proporcionou a
mudança processual do modelo de assistência, permitindo a implantação da atenção
psicossocial. Neste percurso, deslocou-se o tratamento psiquiátrico clássico – centralizado no
paradigma da tutela, da exclusão social e da ausência de direitos sociais - para um modelo de
cuidado pautado na liberdade, nos direitos humanos e na autonomia. No modelo da atenção
psicossocial, as ações são realizadas a partir do paradigma da desinstitucionalização e na
criação de novas práticas assistenciais, viabilizadas através dos serviços substitutivos de base
comunitária e territoriais, a exemplo dos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) que são os
equipamentos centrais da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS).
No Estado do Rio de Janeiro, até o presente momento, não é de conhecimento público
a produção de um levantamento do perfil da população atendida na RAPS. Assim, identificar
o perfil e os atravessamentos interseccionais que impactam diretamente na saúde mental da
população atendida torna-se primordial para qualificar tanto a construção e viabilização da
política pública, quanto na qualificação dos profissionais e das estratégias de cuidado em saúde
mental. Com isso propomos a construção, execução, monitoramento e avaliação do Censo
Psicossocial.

Objetivos
• Objetivo geral: Identificar o perfil e os atravessamentos interseccionais que
impactam na saúde mental dos usuários atendidos na Rede de Atenção
Psicossocial do Estado do Rio de Janeiro, no período de 2023 a 2024.
• Objetivos Específicos: 1. Realizar oficinas de educação permanente com os
profissionais das nove regiões da Rede de Atenção Psicossocial do Estado do
Rio de Janeiro e identificar as percepções acerca dos marcadores sociais; 2.
Mapear o perfil dos usuários dos equipamentos de saúde mental da Rede de
Atenção Psicossocial do Estado do Rio de Janeiro identificando os impactos das
violências que atravessam os usuários; 3. Subsidiar a Coordenação de Atenção
Psicossocial do Estado do Rio de Janeiro para a execução de um plano mais
direcionado às necessidades em saúde dos atendidos e dos profissionais.

Metodologia
A primeira etapa trata-se de uma pesquisa de cunho descritivo qualitativa, com coleta
de dados primários a partir da realização de atividades de educação permanente e aplicação de
questionário semiaberto para os profissionais que atuam na RAPS do Estado do Rio de Janeiro.
Já em relação a segunda etapa, ela será uma pesquisa de abordagem quantitativa com coleta de
dados secundários fornecidos pelo banco de dados de cada equipamento. Será aplicado um
questionário fechado. Por se tratar de uma pesquisa que envolve seres humanos, ela está
submetida à aprovação do Comitê de Ética em Pesquisa da UFRJ.
Resultados e Discussão
Até o mês de outubro de 2023, apresentamos o Censo Psicossocial em diversos eventos
estaduais promovidos pela COOCAPS. As falas de apoio, pontuações de contribuição e
curiosidade evidenciam a formação de algo que une um público acadêmico e de profissionais
que se mostram interessados nos desdobramentos que pode trazer para a RAPS e para os
movimentos sociais.
Atualmente, a equipe aguarda aprovação no Comitê de Ética da UFRJ para iniciar as
oficinas de Educação Permanente, finalizando a primeira etapa da metodologia. No entanto,
destacamos a importância do movimento de aproximação com as nove regiões do ERJ, assim
como aproximação com os profissionais da COOCAPS, divulgando a realização da pesquisa e
recolhendo seus impactos.

Aprendizados e Análise Crítica


Como uma breve análise inicial de um movimento em curso, torna-se fundamental
ficarmos atentos ao movimento e temporalidade processual do Censo Psicossocial,
reconhecendo os desafios e apostando nas potencialidades. Nesse momento, precisamos
acompanhar o rumo que a RPB tem tomado. Recentemente, o Conselho Nacional de Justiça
(CNJ) publicou a Resolução 487, que institui a Política Antimanicomial no Poder Judiciário,
gerando uma discussão em torno dos hospitais psiquiátricos de custódia e dispositivos
territoriais da RAPS.
A partir desta Resolução, acreditamos que haverá um impacto ainda maior na produção
dos dados do Censo Psicossocial. Dessa maneira, estimula-se o fomento ao debate sobre o lugar
da loucura e a relação com a suposta periculosidade, assim como o perfil dessas pessoas que
ocuparam por tanto tempo os hospitais de custódia e que agora irão experienciar o cuidado em
liberdade. Nesse caminho, desejamos que a pesquisa proporcione o fortalecimento de políticas,
práticas e ações antimanicomiais e antirracistas, rompendo com as experiências de destruição
e manicomialização da vida.

Referências Bibliográficas
AMARANTE, Paulo. Saúde Mental e Atenção Psicossocial. Ed. Fiocruz. 123p, 2007.

AMARANTE, Paulo. Cultura da formação: reflexões para inovação no campo da saúde


mental In: Saúde Mental, formação e crítica, 2015. Paulo Amarante e Leandra Brasil (org.)

BANCO INTERAMERICANO DE DESENVOLVIMENTO (BID). Políticas Públicas


orientadas por dados: os caminhos possíveis para governos locais. 41p. 2020.

BARROS, S.; BATISTA, L.E.; DELLOSI, M.E.; ESCUDER, M.M. Censo psicossocial dos
moradores em hospitais psiquiátricos do estado de São Paulo: um olhar sob a perspectiva racial.
Revista Saúde Soc., São Paulo, v.23, n.4, p.1235-1247, 2014.
BRASIL. Ministério da Saúde. Política Nacional de Educação Permanente em Saúde /
Ministério da Saúde, Secretaria de Gestão do Trabalho e da Educação na Saúde, Departamento
de Gestão da Educação em Saúde. – Brasília: Ministério da Saúde, 2009. 64 p. – (Série B.
Textos Básicos de Saúde) (Série Pactos pela Saúde 2006; v. 9
BRASIL. MINISTÉRIO DA SAÚDE. Óbitos por suicídio entre adolescentes e jovens
negros 2012 a 2016. Ministério da Saúde, Secretaria de Gestão Estratégica e Participativa,
Departamento de Apoio à Gestão Participativa e ao Controle Social. Universidade de Brasília,
Observatório de Saúde de Populações em Vulnerabilidade – Brasília: Ministério da Saúde,
2018.

CARDOSO, A.J.C. et al. Violência institucional e enfermidade mental: narrativas de egressos


de um manicômio da Bahia. Revista Saúde em Debate, Rio de Janeiro, v.44, n°127, p. 1105-
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COSTA, P.H.A.; MENDES, K.T. Colonização, Guerra e Saúde Mental: Fanon, Martín-Baró e
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Relato de Pesquisa

Cuidados não prescritos: sofrimento psíquico e recursos comunitários


terapêuticos de jovens moradores de periferia da cidade do rio de janeiro
Franklin Torres Neto 138

Palavras-chave: marcadores sociais da diferença, sofrimento psíquico, juventude, rede de


atenção psicossocial, recursos comunitários de cuidado.

Contextualização
Os recursos comunitários, para lidar com o sofrimento psíquico, utilizados por jovens
moradores de periferia emerge como o cerne desta pesquisa que ainda está em fase inicial de
desenvolvimento. Embora não seja o foco da pesquisa, faz-se necessário investigar sobre a
articulação entre marcadores sociais da diferença e o campo da Saúde Mental e Atenção
Psicossocial no Brasil, já que a pesquisa parte da premissa de que os marcadores sociais da
diferença contribuem para o sofrimento psíquico da população pesquisada.
Coutinho et al. (2020), citando Yasui e Amarante (2016), mencionam que apesar do
arcabouço teórico da Reforma Psiquiátrica Brasileira e do paradigma do Cuidado Psicossocial
aludirem a uma abordagem que visa tratar os usuários e conceber a clínica em sua
complexidade, as discussões acerca da cultura2 não são integradas à compreensão dos
transtornos psíquicos.
Ortega e Wenceslau (2019) ainda apontam que a temática cultural também se encontra
omissa nos documentos oficiais que deveriam orientar as práticas de cuidado em Saúde Mental
e Atenção Psicossocial, levando-nos a concordar, com base em Coutinho et al. (2020), que “a
diversidade cultural frequentemente é desconsiderada, naturalizada ou relativizada, o que
culmina no silenciamento da cultura no contexto da saúde mental”. (p.11).
Embora as disparidades socioeconômicas sejam reconhecidas como marcadores
relevantes, questões cruciais como identidade de gênero, orientação sexual, etnia, raça, crenças
religiosas e localização geográfica, que se interseccionam, frequentemente são negligenciadas
ou tratadas de forma insuficiente.
Portanto, considerar as formas de sofrimento psíquico à luz dos marcadores sociais
permite acessar as modalidades particulares de expressão do sofrimento em contextos locais,
bem como compreender os modos de elaboração e compartilhamento dessas experiências,
assim como as estratégias de enfrentamento ancoradas em realidades políticas e históricas.
Conforme observa Couto (2012), é nesse contexto que a forma de acolhimento e resolução das
aflições deve ser ponderada. Trata-se de uma abordagem que visa compreender os marcadores
sociais da diferença próprios de cada território, para, conforme destacado por Coutinho et al.
(2020), ter acesso aos "idiomas locais do sofrimento" e das formas próprias que cada território
encontra para lidar com as vivências de sofrimento psíquico, encontrando saídas locais como
produção de cuidado.

138
Doutorando pelo Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva do Instituto de Medicina Social da
Universidade do Estado do Rio de Janeiro; Orientador: Rossano Cabral Lima; [email protected]
Objetivos
• Objetivo Geral: Investigar como os recursos locais são apropriados como formas de
cuidado em saúde mental por jovens moradores de periferia da cidade do Rio de Janeiro.
• Objetivos Específicos: Investigar os modos como marcadores sociais da diferença
contribuem para o sofrimento psíquico. Verificar se a população pesquisada encontra
espaços de escuta e encaminhamento das demandas de sofrimento atreladas aos
marcadores sociais, quando em contato com as equipes de saúde.

Metodologia
Pesquisa etnográfica, a partir da vivência no espaço de Grupo Focal que será organizado
e coordenado pelo pesquisador do estudo. Além da pesquisa bibliográfica, trata-se de uma
pesquisa de campo, que terá como cenário de investigação serviços da Atenção Primária à
Saúde, localizados em periferias da Zona Norte Rio de Janeiro, previamente escolhidos, por já
realizarem grupos com jovens (adolescentes e jovens adultos).

Resultados e Discussão
Considerando tratar-se de uma pesquisa em fase inicial de desenvolvimento, por ora,
só é possível apresentar o que fora encontrado no levantamento bibliográfico sobre a temática.
Utilizando os descritores “recurso comunitário” AND “sofrimento psíquico” AND “Atenção
Psicossocial” e seus equivalentes em inglês e espanhol nas bases de dados SciELO, Portal
Regional da BVS, PubMed, Redalyc e Lilacs, não foram encontradas pesquisas que abordem o
tema referente à investigação de recursos locais como formas de cuidado em saúde mental de
jovens moradores de periferia.
A partir de buscas manuais, é possível identificar estudos que abordam a formação de
profissionais de saúde no contexto da competência cultural, considerando-a uma ferramenta
essencial para aprimorar o atendimento direcionado a diferentes populações. No entanto, é
importante ressaltar que a categoria “competência cultural”, embora tangencie o objeto desta
pesquisa, não engloba completamente a temática investigada.

Aprendizados e Análise Crítica


Após uma análise bibliográfica das pesquisas indexadas em bases de dados de
periódicos, constatou-se que, até o momento atual, não foram encontrados estudos no Brasil
que explorem as práticas de cuidado utilizando recursos territoriais não-médicos para abordar
questões de sofrimento psíquico na população em questão. Isso ressalta a importância de
investir em pesquisas que investiguem os aspectos comunitários que se configuram como
ferramentas terapêuticas em contextos urbanos periféricos, especialmente em áreas de
vulnerabilidade, como nas periferias do Rio de Janeiro.

Referências Bibliográficas
COUTINHO, M. F. C., PORTUGAL, C. M., NUNES, M. de O., O’DWYER, G. Articulações
entre o projeto de Saúde Mental Global e os aspectos culturais do cuidado na Rede de Atenção
Psicossocial e Atenção Primária à Saúde no Brasil. Physis. v.30(2), e3002019. p.1-21, 2020.
COUTO, M. T. Contribuições da antropologia médica para a medicina. Revista de Medicina,
v. 91, n. 3, p. 155-158, 2012.

ORTEGA, F.; WENCESLAU, L. D. Challenges for implementing a global mental health


agenda in Brazil: the ‘‘silencing’’ of culture. Transcultural Psychiatry, 2019.
Relato de Experiência

Entre a redução de danos e a arte-educação: conexões entre o Rio de Janeiro e


Salvador

Monique Lima dos Santos Bezerra 139


Bruno Lopes Lima 140
Giovanna Caruso Tangerino 141
Elza Cristina Cabral Marques 142
e Thalya da Costa Carvalhaes 143

Palavras-chave: seminário; pesquisa; pós-graduação; saúde coletiva; formação; estudantes;


coletivo; intercâmbio.

Contextualização
Este relato de experiência foi construído a partir da inserção em Estágio Externo de
cinco residentes do Programa de Residência Multiprofissional do Instituto de Psiquiatria da
Universidade Federal do Rio de Janeiro (IPUB/UFRJ), realizado durante o mês de setembro
de 2023 na cidade de Salvador. O referido programa de especialização em saúde mental, possui
como direcionamento a atenção psicossocial, de acordo com a Reforma Psiquiátrica Brasileira
e modelo substitutivo de cuidados em saúde mental, através da Rede de Atenção Psicossocial
(RAPS).
Com o modelo de Educação Permanente em Saúde (EPS), a formação durante os dois
anos é realizada em campo dentro do Estado do Rio de Janeiro, em cenários que façam sentido
para o Programa e que estejam dentro do Projeto Pedagógico Singular. Ao final do segundo
ano os/as residentes podem realizar o Estágio Externo, momento em que podem atuar e
experienciar durante o período de um mês outros cenários que não possuem diretamente relação
com o Programa de Residência do IPUB/UFRJ, podendo ocorrer fora no Estado do Rio de
Janeiro e do Brasil.

Descrição
A partir do interesse na formação social histórica do Estado da Bahia e na política de
redução de danos intrínseca neste território, em especial no município de Salvador, realizamos
articulação com diferentes serviços a fim de iniciarmos o estágio. Foram estes: o Programa
Corra Para o Abraço, Consultório na Rua do Pelourinho e Consultório na Rua da Gamboa. Os
consultórios na rua estão vinculados à prefeitura de Salvador e atuam na região do centro

139
Psicóloga. Residente Multiprofissional em Saúde Mental (IPUB/UFRJ); [email protected]
140
Assistente Social. Residente Multiprofissional em Saúde Mental (IPUB/UFRJ); [email protected]
141
Psicóloga. Residente Multiprofissional em Saúde Mental (IPUB/UFRJ); [email protected]
142
Terapeuta Ocupacional. Residente Multiprofissional em Saúde Mental (IPUB/UFRJ);
[email protected]
143
Assistente Social. Residente Multiprofissional em Saúde Mental (IPUB/UFRJ); [email protected]
histórico, pela Atenção Básica. O Programa Corra Pro Abraço atualmente está vinculado ao
Governo do Estado da Bahia, pela Secretaria de Assistência e Desenvolvimento Social
(SEADES). Ambos os cenários atuam com populações vulnerabilizadas.

Período de Realização
O estágio externo no território de Salvador foi realizado durante o mês de setembro
de 2023, com início no dia 1º e encerramento realizado no dia 30.

Objetivos
Compreender as relações socioculturais e políticas que atravessam o cuidado dos
assistidos pelos programas acompanhados no território de Salvador, sendo este considerado a
nível nacional como referência de tecnologias leves em redução de danos.

Resultados
Como resultado de nossa experiência, entendemos o quanto a
implementação/fortalecimento da cultura decolonial no território, e na atuação profissional,
possibilita a construção de cuidados potentes muito além da perspectiva ocidental e médico
centrada na qual estamos habituados no sistema de saúde de forma geral. Em contrapartida, o
que vivenciamos nesta prática foi o fortalecimento dos sujeitos em seu protagonismo, no senso
de cuidado coletivo e integrado a sua comunidade, estando assim, alinhados aos princípios da
luta antimanicomial através de muitos outros saberes descentralizados da “ciência” imposta
como saber único e totalitário.
Para além disso, é latente a expressão de resistência frente às violências produzidas
pelo sistema capitalista em sua necropolítica, que possibilita produção de vida àqueles
subjugados pela sociedade burguesa racista.

Aprendizados e Análise Crítica


Ao longo da experiência, foi possível entender em ato, como a cultura afro-brasileira
tem uma forte presença no cuidado com os assistidos. O resgate da ancestralidade faz marca a
todo tempo, seja em atividades de integração à comunidade como a capoeira, seja através das
práticas integrativas como o uso de ervas no cotidiano, chás, escalda pés, auriculoterapia e uso
de óleos essenciais na perspectiva da radicalidade da redução de danos. Há, além disso, um
forte protagonismo dos assistidos, em espaços coletivos extramuros institucionais,
compreendendo a cidade enquanto direito e produção de vida através dos encontros.
O atravessamento da violência policial e da guerra às drogas se apresentou como um
dos fatores determinantes de vulnerabilidades sociais, impactando diretamente no cuidado a
ser pensado e construído, tal qual a mudança de facção do poder paralelo, muito influenciada
pelo Sudeste, que também apresentou impactos no acompanhamento com os assistidos.
A partir disso, foi imprescindível nos destituirmos do lugar de suposto saber que nossas
respectivas formações nos colocam e operarmos através de uma outra perspectiva de
integralidade do cuidado. Este só foi possível de acontecer através de uma construção e
aprendizado atentos e respeitosos para com outros saberes e outras formas de pensar saúde, na
perspectiva de um cuidado horizontal e participativo dos sujeitos assistidos.
Referências Bibliográficas
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1986. Brasília: Centro de Documentação do Ministério da Saúde, 1987, p. 35-42.

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Brasília: Presidência da República, Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas, 2005.
Disponível em: https://www.justica.gov.br/central-de-conteudo/politicas-sobre-
drogas/cartilhas-politicas-sobre-droga s/2011legislacaopoliticaspublicas.pdf. Acesso em 20 de
outubro de 2023.

CARNEIRO, Henrique Soares. Transformações do significado da palavra" droga": das


especiarias coloniais ao proibicionismo contemporâneo. Álcool e drogas na história do
Brasil, 2005.

CHALHOUB, Sidney. Cidade Febril: Cortiços e Epidemias na Corte. São Paulo:


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FANON, Frantz. “A experiência vivida no negro”. In.: Pele negra, máscaras brancas.
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Disponível em:
http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S003471672019000900312&lng=pt
&nrm=i so. Acesso em 14 de março de 2021.

ZAMBONI, Marcio. Marcadores sociais da diferença. Sociologia: grandes temas do


conhecimento (Especial Desigualdades), São Paulo, v. 1, p. 14-18, 2014.
Relato de Pesquisa

Entre o registro e a denúncia: práticas nos CAPS durante a pandemia da COVID-


19

Elena de Souza Machado 144

Palavras-chave: CAPS; pandemia; práticas de cuidado.

Contextualização
A pandemia colocou em questão a lógica da atenção psicossocial, que tem em seu cerne
a proximidade e o contato presencial. O distanciamento social se tornou uma realidade imposta,
com efeito direto na manutenção dos vínculos terapêuticos e no acesso aos cuidados
necessários. As unidades de saúde também experimentaram uma diminuição significativa do
fluxo de pessoas; o medo do contágio, aliado à dificuldade de acesso aos transportes públicos
e a premissa do distanciamento reduzem o contato dos usuários com os serviços, que, por si,
passavam por um processo de readequação e reestruturação para atender aos desafios impostos
pela nova realidade sanitária.
A mortalidade pandêmica vai além dos contaminados pelo vírus e se mostra também
em pessoas com dificuldades mentais, financeiras ou físicas, bem como nas pessoas
indiretamente afetadas pela pandemia – aquelas cujas condições de vida se degradaram pelo
contexto de crise vigente (OMS, 2020). Uma vez que as medidas mais eficazes de mitigação
do vírus são o isolamento domiciliar, o distanciamento social e a restrição de contato, aqui
entram em questão as dificuldades que a pandemia da COVID-19 impõe ao cuidado em saúde
mental.

Objetivos
Investigar as práticas de cuidado desenvolvidas nos CAPS durante o período da
pandemia da COVID-19 a partir dos relatos 2020 e 2022, de forma a acessar, reunir e
sistematizar os registros disponíveis on-line no formato de relatos de experiência; identificar se
as recomendações de isolamento domiciliar e distanciamento social aparecem como obstáculo
ao exercício do cuidado em liberdade no território e verificar quais estratégias de vinculação
dos usuários ao serviço são acionadas pelos CAPS.

Metodologia
Os relatos foram coletados a partir da pesquisa em diferentes bancos de dados. A
amostra inicial contemplou 415 trabalhos que posteriormente foram reduzidos a 23, seguindo
os critérios de exclusão e inclusão. Os critérios de inclusão para a pesquisa abrangem estudos
do tipo relato de experiência que tenham ocorrido durante o período de 2020 a 2022 e que

144 Mestre pelo Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva do Instituto de Medicina Social da Universidade
do Estado do Rio de Janeiro; [email protected]
abordem questões relacionadas aos CAPS. Foram excluídos estudos anteriores a 2020 ou
posteriores a 2022, resumos ou descrições que não continham informações suficientes para
análise e textos que não tenham a pandemia da COVID-19 como questão central e aqueles que
não se relacionem com os CAPS.

Resultados e Discussão
Este estudo registrou as ocorrências um CAPS I, oito CAPS II, dois CAPS II, um CAPS
AD, três CAPS AD III, 3 três CAPSi e 2 dois CAPS não especificados. Dois CAPS na região
Norte do país, quatro no Nordeste, oito na região Sul, quatro no Sudeste e um no Centro-Oeste.
Todas as modalidades de CAPS e regiões do país foram contempladas pela amostra.
As orientações sanitárias da OMS (2020) destacavam a importância do distanciamento
físico, não social. No que se refere ao efeito específico dessa recomendação na rotina dos
CAPS, observa-se que algumas atividades presenciais foram interrompidas, enquanto outras
foram mantidas. As práticas envolveram promoção, prevenção e recuperação da saúde mental,
apontando para formas de cuidado de modo remoto, que ao mesmo tempo visam prevenir
agravos e doenças como as infectocontagiosas e proteger os usuários durante a crise sanitária.
Além disso, essas práticas de cuidado podem ser consideradas tecnologias leve-duras, já que
apontam para saberes que indicam a necessidade de manutenção dos vínculos para sustentar a
relação terapêutica. Ao mesmo tempo, os relatos escancaram a negligência advinda da política
negacionista do país diante da pandemia, com o fechamento de serviços, aumento da procura
por leitos hospitalares e o não fornecimento de EPIs.

Aprendizados e Análise Crítica


O trabalho vivo, que se constitui em ato, “exige experimentações de novos modos de
cuidar do sujeito, por uma disponibilidade de afetar e ser afetado, que pode estar em qualquer
sujeito, espaço e saber, desde que se esteja à disposição para o encontro com o diferente”
(BARBOSA et al., 2020, p.17). Para além das redes institucionais que já estão estabelecidas, a
atenção psicossocial demanda nas redes vivas, produzidas no trabalho em ato. O modelo
biomédico hospitalocêntrico se mostra insuficiente para enfrentar a crise em suas distintas
esferas, evidenciando a importância de um sistema universal que articule tecnologias leves de
cuidado num arranjo mais eficaz e construído a partir das demandas levantadas por usuários,
grupos e demais atores da vida social no território (SEIXAS et al., 2020) e é esse o caminho
encontrado nos relatos desta amostra.
Conclui-se, portanto, o papel fundamental das tecnologias leves e leve-duras no cuidado
em saúde mental, mas também na resposta à pandemia articulada com os territórios e em
relação, hipótese essa que vai de encontro às recomendações de que as medidas mais efetivas
de mitigação do vírus são as medidas não-farmacológicas (ABRASCO, 2022).

Referências Bibliográficas
ABRASCO. Dossiê Abrasco Pandemia de COVID-19. 2022. Disponível em:
https://abrasco.org.br/dossie-abrasco-pandemia-de-covid-19/.

BARBOSA, Anália da S. et al. Processo de trabalho e cuidado em saúde mental no Centro de


Atenção Psicossocial da UERJ na pandemia de COVID-19. Brazilian Journal of Health and
Biomedical Sciences, v. 19, n. 1, p. 11-19, 2020.
MEHRY, EE. Saúde: a cartografia do trabalho vivo. 2ª ed. São Paulo: Hucitec; 2005.

SEIXAS, Clarissa Terenzi et al. A crise como potência: os cuidados de proximidade e a


epidemia pela Covid-19. Interface-Comunicação, Saúde, Educação, v. 25, p. e200379, 2020.

WORLD HEALTH ORGANIZATION et al. COVID-19: operational guidance for


maintaining essential health services during an outbreak: interim guidance, 25 March
2020. Disponível em: https://apps.who.int/iris/handle/10665/331561.
Relato de Pesquisa

Gênero e cuidado na atenção psicossocial: o cotidiano de mulheres cuidadoras


em um CAPS no Rio de Janeiro

Vanessa Crumial Herdy de Andrade 145

Palavras-chave: mulheres; cuidado; gênero; reforma psiquiátrica; CAPS.

Contextualização
Este trabalho se propõe a investigar as formas de gestão do cuidado acionadas pelo
mandato da Atenção Psicossocial enquanto práticas sociais, e sua relação com as propostas
pautadas pelo movimento da Luta Antimanicomial e pela Reforma Psiquiátrica no Brasil (RPB),
especialmente o lugar central ocupado pela família e cuidadores da rede socioafetiva dos
usuários no cotidiano de cuidado em saúde mental. Entendendo que esse processo é atravessado
pelas dimensões de gênero, raça, classe e território, busquei analisar essas relações como formas
de reiteração de normas regulatórias que passam por esses eixos de opressão.
Ao longo do percurso da pesquisadora como trabalhadora nesse campo, chama a atenção
o protagonismo feminino nesses arranjos de cuidado (Fazzioni, 2018), que se apresenta tanto
na rede de cuidado não técnico, exercido geralmente por familiares e companheiras amorosas,
quanto entre as equipes de saúde mental, compostas em maioria por mulheres de categorias
profissionais bastante feminizadas. A hipótese que norteia a pesquisa é que a familiarização do
cuidado com a RPB aponta para a ocupação desigual com seus encargos, que reproduz as bases
de um modelo societário em que essa tarefa é delegada às mulheres, especialmente as que se
encontram em condições sociais mais vulnerabilizadas. Desse modo, buscou-se analisar como
a política de saúde mental se apropria de atributos culturalmente forjados como femininos para
fazer valer as diretrizes da Reforma, enquanto as condições para sua efetiva implementação vão
sendo precarizadas e negligenciadas; e como essas dinâmicas aparecem nas relações entre as
profissionais, enquanto agentes do Estado, e as familiares e cuidadoras.

Objetivos
O objetivo geral foi investigar o processo de feminização e familiarização do cuidado
em saúde mental na RPB a partir do cotidiano de um serviço da rede de Atenção Psicossocial.
Seus objetivos específicos foram: observar as formas de gestão do cuidado em um CAPS, tendo
em vista a participação de mulheres nas relações de cuidado; investigar a relação entre gênero,
cuidado e trabalho no contexto da Atenção Psicossocial; e investigar a relação entre cuidado e
mecanismos de regulação de gênero que têm operado na reformulação da política de saúde
mental no país.

145
Mestre pelo Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva do Instituto de Medicina Social da Universidade
do Estado do Rio de Janeiro; psicóloga pela Universidade Federal Fluminense; trabalhadora da Atenção Primária
do município do Rio de Janeiro; [email protected]
Metodologia
Trata-se de um estudo etnográfico, realizado a partir da observação participante em um
CAPS do município do Rio de Janeiro, tendo em vista as relações entre mulheres que se ocupam
do cuidado dos usuários. A pesquisa empírica privilegiou os espaços coletivos do serviço, em
especial a “convivência”, e as atividades coletivas que contavam com a participação dos
cuidadores, como a assembleia e os grupos de acolhimento aos familiares.

Resultados e discussão
As análises evidenciam as múltiplas camadas de sobrecarga e sofrimento psicossocial
no exercício do cuidado, bem como as hipóteses em relação à massiva participação feminina
nesses arranjos, especialmente em sua apropriação como trabalho não remunerado, no caso das
cuidadoras da rede socioafetiva. É possível perceber que diferentes atores vão sendo acionados
nos expedientes do serviço substitutivo, entre familiares e profissionais, sustentando a
assistência e o acolhimento de um lado, o controle, a gestão, a contenção de outro. Ainda que
esses dois polos sejam fortemente marcados em relação ao gênero, de modo que as mulheres
parecem mais convocadas a cuidar e homens a controlar e conter, ao longo da pesquisa foi
possível notar como esses sentidos se entrecruzam no cotidiano das relações de cuidado,
evidenciando sua dimensão normativa (Drotbohm, 2022). Na relação dos cuidadores com a
equipe do CAPS, diferentes noções de cuidado vão sendo confrontadas, ainda que de forma
sutil. O próprio projeto da Reforma e os ideais da Luta antimanicomial por vezes se contrapõem
ao cansaço das cuidadoras, evidenciando a complexidade que esse encontro faz aparecer na
intersecção de seus papéis sociais.

Aprendizados e Análise Crítica


Ao falar da centralidade do papel das cuidadoras nos arranjos de cuidado na Atenção
Psicossocial, é preciso considerar que falamos de mulheres vulnerabilizadas pelas relações
raciais e de classe, além das dinâmicas de violência e exclusão que permeiam sua vinculação
com o território. É preciso dimensionar o lugar social desses atores nos contornos que a Reforma
ganha ao longo de seu curso, na medida em que reproduzem a convocação de grupos
subalternizados para seu exercício, evidenciando que as ausências do Estado são localizadas e
contribuem para o duplo apagamento de suas experiências, seja como cuidadoras sem o suporte
adequado, ou como sujeitos que também demandam cuidado.

Referências Bibliográficas:
DROTBOHM, H. O cuidado além do reparo. Revista Mana, Rio de Janeiro, v. 28, n. 1, p. 1-
23, 2022.

FAZZIONI, N. H. Nascer e Morrer no Complexo do Alemão: políticas de saúde e arranjos


de Cuidado. 2018. Tese (doutorado em Sociologia e Antropologia) - IFCS, UFRJ. Rio de
Janeiro, p. 212, 2018.
Relato de Pesquisa

Maternidade, raça e loucura: (des)caminhos, violações e vicissitudes no exercício


da maternidade

Ueslei Solaterrar 146


e Laura Lowenkron 147

Palavras-chave: mulheres negras; loucura; maternidade; violência; Rede de Atenção


psicossocial.

Contextualização
O presente trabalho parte da aposta de que toda reprodução é política e toda política é
reprodutiva (Fonseca, Marre e Rifiotis, 2021; Ginsburg; Rapp, 1995; Briggs,2017). É a partir
desse macroteórico, ético e epistemológico que se propõe se aproximar da discussão sobre
maternidade, raça e loucura. A experiência da maternidade como algo associado cultural e
socialmente à condição de mulher é uma realidade em diferentes momentos e contextos
(Carneiro, Aquino Jucá, 2014), fomentando discursos sobre a maternidade que trazem a ideia
de que a mulher/ mãe que se recusa a assumir “o seu papel” estaria na posição de uma
“desnaturada”, “doente”, um “monstro” que não respeita aquilo que é da sua “natureza”
(Badinter, 1985). Mas, e quando essa mulher é negra e, por ter um diagnóstico de transtorno
mental, é lida socialmente como louca? Por quais (des)caminhos, tensões e moralidades passa
a inversão do apelo social no sentido de destituição e violação do direito a maternar?

Objetivos
O objetivo principal aqui é analisar o itinerário de cuidado acionado pela Rede de
Atenção Psicossocial (RAPS) em dois casos que envolve mulheres negras diagnosticadas com
algum transtorno mental e as vicissitudes quanto ao direito de maternar e a consequente
violação deste direito. Objetiva se, por fim, pensar sobre os (des) caminhos, violências e
agenciamentos de mulheres negras e mães que carregam consigo o estigma da loucura no
desafio de sustentação do desejo e direito de ser mãe.

Metodologia
O trabalho é fruto de uma pesquisa de doutorado que se utiliza da etnografia
multisituada (MARCUS, 1995; TOGNI, 2014) como aposta metodológica. A essência de tal
proposta prático teórica, conforme sublinham Olwing e Hastrup (1997), é uma “etnografia
móvel”, que “segue as pessoas, suas conexões e relações através do espaço” (apud TOGNI,
2014). Este trabalho se debruça em um recorte acerca da análise e discussão de dois casos de

146
Doutor pelo Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva do Instituto de Medicina Social da Universidade
do Estado do Rio de Janeiro; orientadora: Profª Drª Laura Lowenkron; [email protected]
147
Doutora em antropologia social pelo Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social do Museu Nacional
da UFRJ; [email protected]
mulheres negras de um Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) III de um município da Baixada
Fluminense que em algum momento dos seus itinerários de cuidado passagem pela gravidez,
parto e puerpério deparando-se com os desafios e consequências das violações do direito ao
exercício da maternidade. O material de análise foi oriundo de prontuários, relatórios
produzidos sobre os casos, discussão de casos em supervisão semanal de equipe e encontro com
as mulheres no espaço de convivência do CAPS por um dos autores do trabalho. O principal
meio de análise será o resgate das memórias a partir das experiências vividas (SCOTT, 1999;
VENSON E PEDRO, 2012), os registros de diário de campo e documentos importantes do
serviço durante o período em questão, como livro ata de supervisão de equipe, caderno pessoal
de anotações sobre processo de trabalho e demandas institucionais, além os documentos
supracitados. Quanto aos procedimentos para o tratamento analítico dos dados, optou-se pela
análise socioantropológica e pela perspectiva analítica interseccional.

Resultados e Discussão
O encontro com as histórias de vida e os itinerários de cuidado de duas mulheres negras
e usuárias de um CAPS III de um município do território da Baixada Fluminense é o guia para
a construção desse trabalho. Trata-se de Maria e Conceição (nomes fictícios), mulheres jovens
(20-30 ano), pobres, diagnosticadas ambas com esquizofrenia e, no caso de Conceição, com
transtorno por uso abusivo de múltiplas drogas. As duas mulheres têm em comum o fato de que
em algum momento da sua última gestação estiveram no acolhimento noturno do CAPS III,
espaço de atenção à crise em saúde mental. Maria chega no último mês da gestação e em franca
“crise psicótica” e Conceição, que já era usuário do CAPS há mais de dez anos, chega a
permanecer no acolhimento noturno por cerca de seis meses. Maria, por um lado, é lida pelo
território onde vive como “louca”. Conceição por sua vez, como “cracuda”.
As duas com a mesma sentença: incapacidade para o maternar e impossibilidade de ter
garantido o direito e desejo à maternidade a partir de um julgamento atravessado por
moralidades e desigualdades de várias ordens. Maria tem a maternidade destituída ainda na
maternidade, de forma oficial, seu filho é encaminhado para um abrigo com possibilidade de
adoção. Conceição tem a maternidade destituída, de forma extraoficial, ao ser impossibilitada
de conviver com sua filha, que passa a ser cuidada por sua mãe, como já havia acontecido com
seus dois outros filhos. Para essas duas mulheres, em algum momento do itinerário de cuidado
proposto, a laqueadura aparece como uma prescrição com efeitos de “cura” e solução frente ao
“descontrole mental e sexual” que a marcam enquanto figuras de causação (Fernandes, 2021).
Destaca-se que na gestão dos arranjos de cuidado (Fazzioni, 2018) dessas mulheres frente aos
seus direitos reprodutivos o dispositivo de saúde mental, por meio de sua equipe, ocupou sempre
um lugar de resistência, contracorrente e discurso contra hegemônico diante da sentença
precocemente decretada para essas mulheres a partir do argumento da falha moral da loucura,
do uso de drogas, da pobreza e da questão racial.

Aprendizados e Análise Crítica


Quem pode ser mãe? A partir das trajetórias de vida e de cuidado de Maria e Conceição
e das vicissitudes enfrentadas frente, primeiro, ao desafio de tentar exercer o desejo de ser mãe
e, posteriormente, com as consequências de tal violação afirma-se que não basta querer, ser
sincero e desejar profundo. Vimos que quando se trata de mulheres negras, pobres e loucas o
imperativo para o exercício da maternidade cai por terra no acionamento das mesmas categorias
e lugares utilizados para acusar as mães que “abandonam seus filhos”. Ou seja, para essas
mulheres parece que sobrará sempre o lugar de doente e desnaturada como contaminando,
desumanizando e impossibilitando o lugar de ser vista e respeitada como mãe. Como se o “ser
mãe” dependesse de uma dimensão natural e a-social. Deixando de lado a importância e, muitas
vezes, condição de possibilidade para o exercício da maternidade, a dimensão de uma
maternidade que seja socialmente amparada (Mattar, Diniz, 2012) pelo Estado e pela sociedade
como um todo. Por fim, encontram-se conexões e alianças importantes entre a luta
antimanicomial e a justiça reprodutiva, no sentido de entender que o manicômio pode se
expressar como uma lógica que censura, viola e destitui o direito de mulheres negras e loucas
exercerem a maternidade.

Referências Bibliográficas
BADINTER, E. (1985). Um Novo Olhar: O Amor Materno. In Um Amor Conquistado: O
Mito do Amor Materno. (pp.145- 235). Rio de Janeiro: Nova Fronteira.

BRIGGS, Laura. How all politics became reproductive politics: From welfare reform to
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CARNEIRO, U.S.S.; JUCÁ, V.;AQUINO, J. Desafios da integralidade na assistência: o


itinerário terapêutico de mães com sofrimento psíquico grave. Revista de Psicologia,
Fortaleza, v. 5 n. 1, p. 46- 57, jan./jun. 2014.

FAZZIONI, Natália Helou. Nascer e morrer no Complexo do Alemão: Políticas de saúde e


arranjos de cuidado. 2018. Tese de Doutorado. Tese de doutorado, Universidade Federal do
Rio de Janeiro, Rio de Janeiro.

FERNANDES, C. Figuras da Causação: as Novinhas, as Mães Nervosas e Mães que


Abandonam os Filhos. Rio de Janeiro: Editora Telha,2021.

FONSECA, C. MARRE, D.; RIFIOTIS, F. Governança reprodutiva: um assunto de suma


relevância política. Horizontes Antropológicos, 61, Governança reprodutiva, 2021.

GINSBURG, Faye D. Conceiving the new world order: The global politics of reproduction.
University of California Press, 1995.

MATTAR, Laura Davis; DINIZ, Carmen Simone Grilo. Hierarquias reprodutivas: maternidade
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SCOTT, J. W. Experiência. In: SILVA, A. L. da; LAGO, M. C. de S., RAMOS, T. R. O. (Org.).


Falas de gênero: Teorias, análises e leituras. Florianópolis: Mulheres, 1999. p. 21-55.
Relato de Experiência

Práticas antirracistas na atenção psicossocial: vivências que potencializa o Orí

Marcelo da Silva Guimarães 148


e Thamires Costa Meirelles dos Santos 149

Palavras-chave: antirracismo; atenção psicossocial; luta antimanicomial; saúde mental; trança


afro.

Contextualização
O contexto no qual se situa este relato parte da atuação e formação em um Programa de
Residência Multiprofissional em Saúde Mental, no município do Rio de Janeiro. Dentre as
intervenções que orientam o trabalho psicossocial inclui-se o acolhimento, o processo de
cuidado, a alta e a desinstitucionalização dos usuários(as) da política de saúde mental. Sendo
assim, buscou-se construir práticas coletivas durante o acolhimento e cuidado de usuários(as)
em contexto de internação psiquiátrica, nos quais as pertenças étnico-raciais são determinantes
no processo de adoecimento psíquico.

Descrição
A experiência desse relato foi adquirida no primeiro semestre do Programa de
Residência (2023.1), e consistiu nas intervenções individuais e em grupo com realização de
trança afro 150 nas(nos) usuárias(os) majoritariamente negras(os) em internação psiquiátrica. De
antemão, foi observado que a autoestima de pessoas negras é profundamente abalada nas
condições de internação e o trançar surgiu como prática de empoderamento e reafirmação da
estética afro-brasileira. Em vista disso, ao utilizar do ato de trançar, o qual consiste no manuseio
do cabelo a partir de uma técnica matemática apreendida de forma ancestral por gerações de
pessoas negras, foi possível estabelecer vínculos e relações de cuidado com as(os) usuárias(os).
Por meio da escuta qualificada e abordagens terapêuticas não coloniais, o trançar proporcionou
um movimento de potencialização da subjetividade das(dos) usuárias(os), considerando suas
singularidades e atravessamentos interseccionais enquanto pessoas negras. Através das relações
estabelecidas ao manusear o cabelo, tocar na cabeça (Ori 151) de cada pessoa negra, construir

148
Assistente Social e Residente do Programa de Residência Multiprofissional em Saúde Mental do Instituto de
Psiquiatria da Universidade Federal do Rio de Janeiro (IPUB/UFRJ); [email protected]
149
Assistente Social, Mestre em Serviço Social e Residente do Programa de Residência Multiprofissional em Saúde
Mental do Instituto de Psiquiatria da Universidade Federal do Rio de Janeiro (IPUB/UFRJ);
[email protected]
150
Segundo os estudiosos do tema, as tranças afro surgiram há mais de três mil anos antes de Cristo, na África, e
era utilizada como identificação de tribos, estado civil, religião, posição social e até mesmo como instrumento de
comunicação. No Brasil e em outros países da América Latina, a trança afro é associada a símbolos e movimentos
históricos de resistência e ancestralidade.
151
Segundo o Candomblé, religião de matriz africana, Ori é o nome dado a entidade portadora de toda a
individualidade do ser humano, representando o mais íntimo e inconsciente de cada um. Para essa religião afro-
vínculos, escutar suas vivências e processos de adoecimento ou cura, foi possível estabelecer
direções outras de cuidado clínico.
Dessa forma, as(os) usuárias(os) são convidadas(os) para o salão de beleza localizado
na enfermaria do hospital psiquiátrico. A confecção das tranças envolve uma conversa prévia
para entender os modelos de penteados com tranças pensados pelas(os) usuárias(os) e suas
motivações para escolha do tipo de trança que desejam, ao qual perpassam as suas referências
de estéticas, gostos e elaborações subjetivas de padrões de beleza não eurocêntricos. Nessa
intervenção, os objetos utilizados são típicos de salão de beleza afro, como pentes, pomadas
modeladoras, elásticos e prendedores de cabelo. Ao final da atividade, as trocas entre os
profissionais e pacientes em relação ao processo da internação, criação de vínculos,
sensibilização das experiências compartilhadas de cada usuária(o), são evoluídas em
prontuário.

Período de Realização
De 08 de março de 2023 até 21 de julho de 2023.

Objetivos
Práticas na atenção psicossocial com usuárias(os) negras(os) de serviços da política de
saúde mental.

Resultados
Durante este relato de experiência foi observado a partir de uma análise empírica que a
população negra é maioria nas internações psiquiátricas e serviços de saúde mental do
município do Rio de Janeiro, revelando a urgência de práticas de cuidado que pensem as
particularidades dessa população e contribuem para a efetividade da reforma psiquiátrica
alicerçada na luta antirracista.
A partir disso, a experiência na realização de atividades coletivas e intervenções com o
trançar proporcionaram resultados na autoestima das(dos) usuárias através do reconhecimento
da identidade racial e da positivação de suas trajetórias como sujeitos. Além disso, possibilitou
que o cuidado multiprofissional pautado em um direcionamento ético-político interseccional
(CRENSHAW, 2002) fosse a via pelos princípios da Política Integral da Saúde da População
Negra (2009) fossem efetivados.

Aprendizados e Análise Crítica


No Candomblé, existe uma cerimônia de equilíbrio do Orí (cabeça), chamada Bori, que
simboliza dar oferenda ao Orí para fortalecer a cabeça (OLIVEIRA, 2012). Desse mesmo
modo, buscando uma reorganização subjetiva das(os) usuárias(os), o trançar foi utilizado como
estratégia antirracista de cuidado em saúde mental. Essa e outras práticas que pensam formas
não coloniais de cuidado e consideram os atravessamentos históricos da sociedade brasileira,
que revelam o racismo enquanto estrutura societária, criam condições de efetivação da Política
Nacional de Saúde Integral da População Negra — PNSIPN, com estratégias interventivas que
consideram a diáspora africana transversal aos cuidados em saúde.

brasileira, o Ori mora dentro das cabeças humanas e torna cada indivíduo aquilo que ele realmente é, na sua
essência.
Referências Bibliográficas
BRASIL. Portaria nº 992, de 13 de maio de 2009. Institui a Política Nacional de Saúde
Integral da População Negra. Ministério de Estado da Saúde, 2009.

CRENSHAW, K. Documento para o encontro de especialistas em aspecto da discriminação


racial e de gênero. Estudos feministas, p. 171-188, 2002.
Relato de Experiência

Os diferentes estados do ser: pedalando pelas redes do afeto

Tito Firmino Lima Pereira 152


e Izadora dos Santos Praça 153

Palavras-chave: rede; clínica; subjetividade; música; afeto; território.

Contextualização
Em setembro de 2022, iniciamos o acompanhamento de um jovem de 25 anos que,
segundo o relato dos pais, era “usuário de drogas”, numa Unidade de Saúde da Família (USF).
Os pais desse jovem, extremamente aflitos e ansiosos, buscam ajuda para o seu filho junto a
Equipe de Saúde da Família (ESF), que recolhe dos pais queixas relacionadas a importante
alteração no comportamento do jovem que, segundo eles, se justificava “por causa da
maconha”. A família ressalta que o jovem vinha se tornando mais recluso, introspectivo e, ao
ser confrontado, era agressivo. Diante desta queixa, a ESF solicitou suporte da Equipe
Multidisciplinar de Atenção Psicossocial (EMAPS), que, enquanto dispositivo da Atenção
Psicossocial do município, atua estrategicamente junto a atenção primária, fincando sua atuação
nos territórios da cidade. Enquanto técnico dessa equipe, acolho os pais desse jovem que se
comprometem a levá-lo à USF para que fosse realizada uma avaliação.

Descrição
O jovem comparece à USF para a realização de uma interconsulta com a minha
participação, como psicólogo, e com a participação do psiquiatra (ambos técnicos da EMAPS)
mais a enfermeira da ESF. Neste atendimento, o jovem fala muito pouco, demonstrando-se
impaciente, embotado e desanimado. Diz estar sem uso de substâncias desde fevereiro/2022,
por falta de dinheiro. Menciona que fazia uso para aliviar a ansiedade e induzir o sono. Sem
expectativas quanto ao futuro, diz que seu único problema no momento é a dificuldade para
dormir. A avaliação inicial se sustentou na suspeita de abertura de um quadro psicótico e, por
isso, se prescreve um anti-psicótico de baixa dosagem para ajudá-lo no sono e no controle de
sintomas negativos. Propõem-se a ele atendimentos semanais, pelo território, a partir da
proposta da clínica peripatética, circulando ora a pé, ora de bicicleta pela orla e praças do
território. A proposta é aceita e esse arranjo de atendimento pretendeu perceber o significante
do isolamento, fazendo o sangue circular, promovendo movimentos e estreitando cada vez mais
o vínculo necessário para que o trabalho pudesse ser realizado. Durante as supervisões clínico
institucionais da EMAPS, vislumbramos a necessidade de ampliar os cuidados dessa família,
articulando com o Núcleo Ampliado da Saúde da Família (NASF), o atendimento e

152
Músico. Ator. Musicólogo clínico integrante da EMAPS – Equipe Multidisciplinar de Atenção Psicossocial –
RAPS/SMS/Maricá (Distrito de Itaipuaçu); [email protected]
153
Assistente Social. Gerente da EMAPS - Equipe Multidisciplinar de Atenção Psicossocial - RAPS/SMS/Maricá;
[email protected]
acompanhamento para os pais dele. A partir da discussão de caso, a mãe do jovem começa a
fazer acompanhamento psicológico, passa a frequentar grupos terapêuticos e a realizar
atividades como alongamento, entre outras.

Período de Realização
Agosto/2022 a Outubro/2023.

Objetivos
Desenvolver outras formas de cuidado, articulando equipes da atenção primária em
saúde, família e território, com propostas emancipatórias de conceber aquilo que socialmente
se atribui como loucura.

Resultados
Caminhando ou pedalando, vamos falando sobre “outros temas” que interessem a ele,
como filmes, séries, videogames, dinheiro-trabalho, sociedade, política etc. O objetivo é que a
partir destas temáticas, fosse possível trazer o jovem para a cena, demonstrando interesse em
saber como ele se percebe/se enxerga nestes contextos. A partir do vínculo, ele passa a falar
sobre suas dúvidas, desejos, ambições, evitando adentrar em assuntos familiares ou que
resgatam aspectos negativos de sua história. Em maio/2023, ele volta a um quadro severo de
depressão. Junto com o Agente Comunitário de Saúde (ACS), realizo uma VD, na qual sua mãe
diz que, após uma melhora, ele parou de tomar a medicação, voltou a se isolar no quarto e a ter
conflitos com a família. Após o jovem se apresentar, percebe-se a fisionomia muito entristecida.
Pergunto se ele conhece Bob Marley, dizendo que fui até lá cantar uma música para ele.
Ele sorri, e eu canto: Three Little Birds. A partir desta intervenção, ele retorna aos encontros,
demonstrando mudanças de comportamento, apresentando-se mais comunicativo e expansivo.
A melhora é perceptível no contato com ele e no relato dos companheiros de trabalho da USF.
É de sua escolha não fazer mais uso da medicação. A cada semana, vou observando mais
evoluções em seu quadro. Diz estar se relacionando melhor com os pais e com a irmã de três
anos, interagindo mais e sendo mais prestativo. Passa, inclusive a buscar por emprego. Por
desejo dele, começamos a trazer o tema do “tempo”, entendendo que é mais importante falar
sobre o futuro (que se pode construir) do que do passado (que não se pode mudar). Em
outubro/2023, o jovem pede para que sua mãe vá até a USF informar que ele não poderá mais
comparecer, pois está começando um novo trabalho.

Aprendizados e Análise Crítica


Em um ano de trabalho, podemos considerar que o jovem de 25 anos não atende a um
padrão socialmente estabelecido para sua idade. Abrir canais para expressar-se a seu modo,
permite que ele se perceba de outra maneira no mundo, se estranhar – mas sem rechaçar as
próprias dores – e se implicar com a vida. O jovem me comoveu desde o início de seu
acompanhamento. Saber do agravamento de seu quadro me moveu até ele e, neste Encontro,
algo se passou. Uma perspectiva singular de estar em movimento começa a operar. Robert se
sente percebido e, assim, outros afetos – além da apatia típica da depressão – começam a
conseguir passar. Citando o dramaturgo francês Antonin Artaud, Nise da Silveira fala sobre os
“inumeráveis estados do ser” (1989) como via possível de compreensão e tratamento em casos
de sofrimento psíquico. É muito difícil compreender a dor do Outro, sua Alteridade. É
necessário, então, ir ao seu encontro e, a cada dia, assimilar que um único estado deste ser não
o define por completo. Pensar a subjetivação enquanto processo (Deleuze, 1992), as emoções
enquanto modulações, geram em nós – psicoterapeutas – uma possibilidade de instrumentalizar
sem enrijecer, de contar com o afeto enquanto ferramenta para os desdobramentos clínicos
singulares que cada vida pode (re)inventar para si.

Referências Bibliográficas
DELEUZE, Gilles. Conversações. São Paulo: Editora 34, 1992.

LANCETTI, Antonio. Clínica peripatética. Políticas do Desejo. Editora Hucitec, 2007.

MARLEY, Bob &TheWailers.Three Little Birds (9ª faixa). In: Exodus. TuffGong, Island
Records, 1977.

SILVEIRA, Nise da et al. Artaud: a nostalgia do mais. Rio de Janeiro: Numen, 1989.
Relato de Pesquisa

Um estudo das inter-relações entre estruturas manicomiais e o legado


eurocêntrico-colonial na saúde mental brasileira

Camila Fortes Monte Franklin 154

Palavras-chave: loucura; saúde mental; eurocentrismo; colonialismo; estrutura manicomial.

Contextualização
Este trabalho analisa a relação entre as antigas estruturas manicomiais no Brasil e o
legado do eurocentrismo e colonialismo. O objetivo é discutir sobre como essas estruturas,
originalmente introduzidas durante o período colonial, foram utilizadas para controlar e
marginalizar aqueles que não se conformavam às normas sociais eurocêntricas e que, durante
séculos, foram considerados impróprios para o convívio.
A pesquisa explora como essas estruturas manicomiais, com sua origem profundamente
enraizada no eurocentrismo, perpetuaram estigmas em torno da saúde mental e contribuíram
para a marginalização de grupos sociais específicos, como mulheres, pessoas negras, pessoas
com deficiência, pessoas LGBTQIAPN+, pessoas pobres e pessoas com transtornos mentais.
Além disso, o estudo examina como a herança colonial afetou a percepção e o tratamento de
questões de saúde mental, revelando padrões de discriminação e falta de acesso a cuidados
adequados, de modo a interferir na aplicação de políticas públicas de saúde mental no país. Este
trabalho oferece uma análise aprofundada sobre como o legado eurocêntrico-colonial continua
a moldar a saúde mental no Brasil, destacando a necessidade urgente de uma abordagem mais
inclusiva e culturalmente sensível no campo da saúde mental no país, considerando, sobretudo,
o cenário recente de ameaças e retrocessos nessas políticas de saúde.

Objetivos
• Analisar a relação entre as estruturas manicomiais e as estruturas eurocêntricas e
coloniais no Brasil;
• Identificar de que modos as estruturas eurocêntricas e coloniais foram utilizadas para
controlar e marginalizar certos grupos marginalizados socialmente, como também, os
impactos desse processo de estigmatização nos tempos atuais;
• Apontar de que modos essa herança colonial afeta o acesso às políticas públicas de saúde
mental no país;
• E contextualizar, a partir de casos recentes compartilhados pelo jornalismo brasileiro,
os modos com que essas narrativas são construídas, dando sentido e forma para o que
hoje compreende-se por loucura.

154
Jornalista. Doutoranda no Programa de Pós-Graduação em Informação e Comunicação em Saúde no Instituto
de Comunicação e Informação Científica e Tecnológica em Saúde na Fundação Oswaldo Cruz (ICICT/FIOCRUZ).
Mestra em Comunicação na Universidade Federal do Piauí (UFPI). Membro do NECHS (Núcleo de Estudos em
Comunicação, História e Saúde) e NUJOC (Núcleo de Pesquisa em Jornalismo e Comunicação). Realiza pesquisas
na área de comunicação, saúde mental e gênero; [email protected]
Metodologia
Enquanto metodologia, essa pesquisa se utiliza da Narratologia (MOTTA, 2005; 2007;
BORGES, 2014) enquanto aporte teórico-metodológico, esta, se apresentando como uma
ferramenta capaz de apontar a formação de processos simbólicos que conferem significados à
realidade. Assim, no presente trabalho, essa metodologia se torna um guia, um dispositivo
argumentativo (MOTTA, 2017) capaz de apresentar diversas camadas de interpretação
sistemática, ao capturar memórias que são compartilhadas socialmente, cujas homologias são
realocadas para um tempo presente e que interferem nos modos do que os sujeitos e sujeitas
produzem significação no processo de recepção da narrativa.

Resultados e Discussão
No processo analítico, partimos do princípio de que o sistema colonial estabeleceu
hierarquias raciais, sociais e de gênero, marginalizando e oprimindo grupos não brancos, e que
essa é uma dinâmica que também se refletia nas práticas das instituições manicomiais (FANON,
1968). Através do controle de corpos e saberes, as instituições e figuras colonizadoras
concentravam se em impor práticas eurocêntricas, ignorando sistemas de cura indígenas e
tradicionais de um povo e de uma região, muitas vezes rotulando-as como formas de insanidade,
o que justifica o longo processo de medicalização em massa que se consolidou no mundo e
sobretudo no Brasil desde a década de 1960 (FRANKLIN, 2020).
As estruturas manicomiais serviam como símbolos de controle colonial, onde os
colonizadores reforçavam a ideia de superioridade cultural, justificando assim a imposição de
suas práticas sobre as comunidades colonizadas. Na sociedade contemporânea, essa estrutura
se apresenta de modos distintos, mas ainda possível de serem identificados: as disparidades no
acesso à saúde, no diagnóstico e tratamento de saúde mental; as narrativas midiáticas
estigmatizantes sobre os transtornos mentais (FRANKLIN; BORGES, 2022); as abordagens
médica, política e jurídica sobre os corpos das pessoas com transtornos mentais; e a presença
de outras estruturas manicomiais camufladas no discurso da cura e da abstinência, como as
comunidades terapêuticas.

Aprendizados e Análise Crítica


Compreendendo que o estigma em torno da saúde mental é exacerbado por normas
eurocêntricas, que as práticas discriminatórias e estigmatizantes dentro das instituições
manicomiais contribuíram para a perpetuação do estigma em torno dos transtornos mentais,
podemos concluir que as estruturas manicomiais e as estruturas eurocêntricas e coloniais no
Brasil ainda se mantém imbricadas umas às outras, de modo a refletir na sociedade
contemporânea, não apenas os padrões de estigmatização do século XVIII, em um cenário onde
os corpos indesejados eram alocados em manicômios, mas também dos novos modos de
manicomialização e patologização, presentes nas narrativas higienistas, sejam elas, religiosas,
médicas, midiáticas e farmacológicas.
Referências Bibliográficas
BORGES, Wilson Couto. A Narratologia deve estar atenta à cultura. In: LERNER, K.;
SACRAMENTO, I. (Orgs.) Saúde e Jornalismo: interfaces contemporâneas. Rio de Janeiro:
Editora Fiocruz, 2014.

FANON, Frantz. Os Condenados da Terra. Tradução de José Laurênio de Melo. Rio de


Janeiro: Civilização Brasileira, 1968.

FRANKLIN, Camila Fortes Monte. O Retrocesso nas Políticas de Saúde Mental do Sus: Como
a Lógica Manicomial (Re)Atualiza os Estereótipos de Gênero?. In: ANAIS DO 13º
CONGRESSO BRASILEIRO DE SAÚDE COLETIVA, 2022, Salvador. Anais eletrônicos.
Campinas, Galoá, 2022. Disponível em: O RETROCESSO NAS POLÍTICAS DE SAÚDE
MENTAL DO SUS: COMO A LÓGICA MANICOMIAL (RE)ATUALIZA OS
ESTEREÓTIPOS DE GÊNERO? | Galoá Proceedings. Acesso em: 26 set. 2023.

FRANKLIN, Camila Fortes Monte; BORGES, Wilson Couto. Narrativas manicomiais: a


produção de sentidos e as práticas comunicativas sobre a loucura no Brasil. In: Trayectorias
Humanas Trascontinentales, 9ª ed., 2022. Disponível em:
https://doi.org/10.25965/trahs.5014. Acesso em: 26 set. 2023.

FRANKLIN, C. F. A construção da figura do louco no Piauí no Jornal O Dia: um panorama de


1970 a 2019. Dissertação (Mestrado em Comunicação) – Programa de Pós-Graduação em
Comunicação, UFPI, Teresina, 2020.

MOTTA, Luiz Gonzaga. Análise pragmática da narrativa: Teoria da narrativa como teoria da
ação comunicativa. In: Narrativas midiáticas contemporâneas: perspectivas epistemológicas. /
Demétrio de Azeredo Soster, Fabiana Quatrin Piccinin – Santa Cruz do Sul: Catarse, 2017.

______. “Análise pragmática da narrativa jornalística”. In: Lago, C.; Benetti, M. (Orgs.).
Metodologia de pesquisa em jornalismo. Petrópolis: Ed. Vozes, 2007.

______. Narratologia: análise da narrativa jornalística. Brasília: Casa das Musas, 2005.
COLETIVO TEMÁTICO:
Transformações no mundo do trabalho

O trabalho assume um dos principais meios de transformações sociais, partindo do


indivíduo até a sociedade, em cenários construtivos e de desenvolvimento. Na história do
trabalho, diversas mudanças nas relações entre os sujeitos e suas atividades laborais ocorreram
e ainda ocorrem, sendo atravessadas por modos de produção e sistemas políticos, econômicos
e sociais, como a escravidão, as guerras, a migração, a revolução industrial até chegar ao
neoliberalismo. Torna-se necessário entender as transformações no trabalho, avaliar a saúde do
trabalhador, a gestão e o planejamento, desconstruindo as normativas através das necessidades
e diversidades humanas antes e depois da pandemia da COVID-19. Inclusive, pensando e
refletindo sobre a utilização do home-office devido à pandemia, a terceirização/uberização do
trabalho, flexibilização de contratos, diminuição de direitos e salários. Além da precarização do
trabalho e da remuneração, é pertinente também discernir as recentes notificações de trabalhos
análogos a escravidão no país, utilizando mão-de-obra de migrantes internos e migrantes
internacionais. Do mesmo modo, as demarcações de gênero, sexualidade, raça, etnia, classe
social, formação e idade no mundo do trabalho devem ser analisadas e suas desigualdades e
iniquidades transformadas. Dessa maneira, é importante reconhecer o suporte necessário para
o mundo do trabalho e para o trabalhador, a partir da sua valorização e da construção de meios
produtores de qualidade de vida e bem-estar social, impactando subjetividades. Uma vez que o
debate demanda também posicionamentos emancipatórios e de resistência sindical e coletiva
diante de situações que envolvem acidentes com óbito, incapacidade permanente, estresse,
sofrimento mental, assédios, racismos, exploração, discriminação, entre outras violências. Esta
proposta de CT buscou fomentar a discussão sobre as transformações do mundo do trabalho, a
fim de gerar subsídios teórico-metodológicos plurais e compartilhar resultados de estudos
inseridos na Saúde Coletiva e áreas correlatas. Assim, foram aceitas apresentações sobre os
temas: trabalho e saúde; saúde do trabalhador a partir do gênero e raça; investigações sobre as
distintas modalidades de trabalho na América Latina e no Brasil.
Relato de Pesquisa

A política de saúde e as mudanças no mundo do trabalho: Breves reflexões


sobre a atenção básica

Débora Holanda Leite Menezes 155

Palavras-chave: Política Social, Modelos de Gestão, Saúde Pública e Mundo do trabalho.

Contextualização
Estudar a política de saúde, em particular os modelos de gestão, nos aproxima das
transformações sociais e históricas vividas pelo Brasil, em particular nas unidades da atenção
básica do Rio de Janeiro, que são decorrentes dos efeitos deletérios dos direcionamentos
internacionais e rebatem diretamente na sociedade contemporânea, nas políticas sociais no
mundo do trabalho.
Posto isso, o estudo sobre os modelos de gestão nos permite compreender como sua
dinâmica reflete na operacionalização e na condução da política social, e o que gera a
desconstrução das concepções de direito social e de saúde como política pública de
responsabilidade do Estado. Assim como, gera efeitos significativos na classe trabalhadora, que
operacionaliza a política de saúde.

Objetivos
Dessa maneira, considera-se essencial apurar e analisar como esses modelos têm sido
direcionados por orientação dos organismos internacionais em resposta à crise estrutural do
capital vivida a partir da década de 1970, se opondo de maneira contraditória às conquistas
democráticas postas no Brasil, principalmente aquela deflagradas pela Constituição Federal de
1988. O objetivo é analisar como o desenho dos modelos de gestão na política de saúde pública,
tendo como locus o Estado do Rio de Janeiro, tem afetado diretamente os trabalhadores da
saúde, que constantemente tem vivenciado processos de flexibilização, pejotização e até mesmo
violação dos seus direitos trabalhistas (ANTUNES, 2007).

Metodologia
Diante dessa proposta, a metodologia do trabalho tomou por base o método dialético da
teoria marxista, posto que permite compreender criticamente a contraditoriedade e os
fenômenos para além da aparência. O percurso adotado incluiu a leitura dos referenciais
teóricos sobre o tema, o mapeamento das instituições e os modelos gestão, bem como a
realização de visitas em algumas unidades de saúde, elencadas ao longo da pesquisa a fim de
compreender a dinâmica dos modelos. A prioridade do estudo se debruça sobre as unidades
básicas de saúde, que no contexto contemporâneo tem vivenciado a lógica do modelo gerencial
na execução das políticas sociais.

155
Doutora em Política Social pela Universidade Federal Fluminense. Professora Adjunta da Escola de Serviço Social
– UFRJ; [email protected]
Resultados e Discussão
Nos procedemos de análise a partir dos valores basilares do SUS (BRASIL, 1990) e dos
modelos de gestão atualmente implementados nas instituições em especial da atenção básica.
Concluímos que a substituição e a implantação dos modelos de gestão na condução da política
de saúde não é simplesmente uma adoção do modelo gerencial no SUS em resposta à
burocracia, e sim mais uma estratégia do capital para mercantilizar a política pública e
reproduzir a desconstrução das concepções de direitos sociais, principalmente da classe
trabalhadora, que vivência além da precarização das condições de trabalho, processos de
flexibilização das formas de contrato.

Aprendizados e Análise Crítica


Assim, consideramos que a participação da sociedade civil no monitoramento da
organização e funcionalidade do fundo público pode ser uma excelente estratégia para que
possam superar os desafios postos pela lógica mercantil no âmbito das políticas sociais, que
fragilizam os direitos sociais dos usuários e dos trabalhadores desta política pública.

Referências Bibliográficas
ANTUNES. Ricardo. Os sentidos do trabalho. Ensaio sobre a afirmação e a negação do
trabalho. São Paulo. Boitempo, 2007.

BRASIL. Lei nº 8.142, de 28 de dezembro de 1990 [1990a]. Dispõe sobre participação na


comunidade na gestão do Sistema Único de Saúde e sobre as transferências intergovernamentais
de recursos financeiros na área da saúde e dá outras providências. Diário Oficial da União.
Brasília, 30 de dezembro de 1990.

____. Lei nº 8.080, de 19 de setembro de 1990. Dispõe sobre as condições de promoção,


proteção e recuperação da saúde, a organização e funcionamento dos serviços correspondentes
e dá outras providências. [Mensagem de Veto]. Diário Oficial da União. Brasília, 20 de
setembro de 1990.
Relato de Pesquisa

A precarização no mundo do trabalho sob a perspectiva da Teoria Marxista da


Dependência: O caso da enfermagem no Brasil

Isabelle de Almeida Motta 156


Thauanne de Souza Gonçalves 157
Inês Leoneza de Souza 158
e Paulo Henrique de Almeida Rodrigues 159

Palavras-chave: Trabalho; Condições de Trabalho; Capitalismo; Profissionais da


Saúde; Profissionais de Enfermagem.

Contextualização
O desenvolvimento capitalista brasileiro é determinado por um padrão de
desenvolvimento subordinado aos interesses do capital internacional, guiado pelo Estado
dependente e que constantemente impõe limites políticos e econômicos, principalmente no setor
de seguridade social e desenvolvimento de políticas sociais. A Teoria Marxista da Dependência
(TMD) propõe compreensão dos mecanismos desse Estado sobre a economia política dos países
da periferia do capitalismo. Marini (1973), ao descrever os fundamentos para a compreensão
da TMD e os mecanismos da dependência, aponta para a superexploração do trabalho como
uma categoria fundamental da economia dependente
(MARINI, 2017).
A enfermagem brasileira compõe metade da força de trabalho do setor de saúde e a
segunda maior força de trabalho do país. Considerando tal dimensão e a relevância do setor de
saúde na economia brasileira, compreender a correlação entre a superexploração da força de
trabalho no Brasil e a força de trabalho da enfermagem parece essencial para entender a
realidade material do mundo do trabalho no país e contribuir para um Sistema Único de Saúde
ampliado e capaz de garantir a valorização de seus profissionais.

156
Graduada em História pela Universidade Católica de Petrópolis. Integrante do Grupo de Pesquisa Saúde,
Sociedade, Estado Mercado: estudos socioeconômicos em saúde coletiva (Grupo SEM);
[email protected]
157
Doutoranda em Saúde Coletiva do IMS/UERJ. Mestre em Ciências ENSP/Fiocruz. Cursando graduação em
Direito na UNIRIO. Enfermeira graduada pela UFRJ. Integrante do Grupo SEM; [email protected]
158
Enfermeira, professora associada do Instituto de Enfermagem UFRJ- Macaé. Doutora em Enfermagem, Mestre
em Saúde da Família, especialista em Saúde Coletiva. Atualmente compõe o Departamento APS da ABEn-RJ e
está como Vice-presidente da seção gestão 2022-2025. Integrante do Grupo SEM; [email protected]
159
Sociólogo, mestre e doutor em Saúde Coletiva pelo Instituto de Medicina Social Hesio Cordeiro da
Universidade do Estado do Rio de Janeiro (IMS/UERJ), professor e coordenador do Programa de Pós-graduação
acadêmico em Saúde Coletiva do IMS/UERJ. Líder do Grupo SEM; [email protected]
Objetivos
Relacionar a formação sócio-histórica e as condições de trabalho da enfermagem do
Brasil com os mecanismos descritos pela categoria da superexploração dos trabalhadores
proveniente da Teoria Marxista da Dependência, conforme apresentada por Ruy Mauro Marini
em Dialética da Dependência (1973).

Metodologia
Estudo exploratório, de abordagem qualitativa composto de revisão de literatura. Foi
realizado um levantamento sobre os indicadores que poderiam ser utilizados para analisar a
existência de sinais de superexploração dos trabalhadores da enfermagem no Brasil, incluindo
as três principais categorias profissionais: enfermeiros, técnicos e auxiliares. Após, buscou-se
na literatura científica e em sistemas de informação em saúde textos e dados que descrevessem
as condições de trabalho desses profissionais. Em seguida, considerando os textos de referência
sobre TMD, os resultados foram categorizados de acordo com os mecanismos de
superexploração.

Resultados e Discussão
As categorias determinadas foram: Pagamento da força de trabalho abaixo do valor
normal; Prolongação da jornada de trabalho; e aumento da intensidade do trabalho.
Observaram-se sinais de superexploração nas três categorias profissionais que compõem a força
de trabalho da enfermagem, que somam 2,8 milhões de registros profissionais, formando a
maior categoria de trabalhadores da saúde e segunda maior do país (COREN, 2023). É
composta sobretudo por mulheres, negras e sem formação de nível superior. Os sinais de
superexploração são muito visíveis com boa parte dos profissionais possuindo jornadas
superiores a 40h semanais, com múltiplos vínculos e recebendo valores muito inferiores ao
salário-mínimo necessário.

Aprendizados e Análise Crítica


As consequências que a superexploração traz para os trabalhadores são diversas, como
o alto desgaste dos profissionais e o aumento de acidentes e doenças relacionadas ao trabalho.
Utilizar a categoria da superexploração para compreender as condições de trabalho é de grande
relevância para incluir as categorias profissionais na compreensão sobre as economias
dependentes. A enfermagem nos ajuda a trazer a TMD para o campo da saúde coletiva.

Referências Bibliográficas
COFEN. Cofen – Conselho Federal de Enfermagem. [citado 21 de outubro de 2023].
Enfermagem em Números. Disponível em: http://www.cofen.gov.br/enfermagem-em-numeros
MARINI RM. Dialética da Dependência. Germinal Marx E Educ Em Debate [Internet]. 16 de
dezembro de 2017 [citado 9 de agosto de 2023];9(3):325–56. Disponível em:
https://periodicos.ufba.br/index.php/revistagerminal/article/view/24648
Relato de Experiência

Experiência nos atendimentos remotos nos Núcleos de Cuidados Paliativos do


Hospital Universitário Pedro Ernesto durante a pandemia da COVID-19

Bruna Gonçalves de Andrade 160


Camila Aparecida de Paula Iellamo 161
Fernanda Martins Pereira Hildebrandt 162
e Roseni Pinheiro 163

Palavras-chave: Cuidados Paliativos, Integralidade, Educação Interprofissional, Saúde do


Trabalhador.

Contextualização
Apoiadas em Pinheiro, R, Ferla, A e Gomes Jr, que definem três dimensões de análise
das práticas de integralidade na atenção à saúde: uma relativa à organização dos serviços, outra
dimensão relativa aos conhecimentos e as práticas de trabalhadores de saúde, e, por fim, outra
dimensão relativa às políticas governamentais, com participação, visando a efetivação do
direito a participação da população para desenvolver propostas de programas, ações e decisões
junto ao governo. Os Cuidados Paliativos possibilitam condições normativas e institucionais de
natureza interprofissional para elaboração de protocolos e procedimentos que sejam capazes de
proporcionar tratamento precoce. A articulação de saberes e práticas para a produção de
conhecimentos que sejam capazes de consubstanciar a elaboração de um projeto terapêutico
singular, o que requer uma maior interação entre os profissionais, internos e preceptores na
compreensão das demandas e necessidades de cada paciente. Segundo esses autores, será
necessário realizar novas leituras sobre os modos de atuar nas vidas das pessoas, grupos e
coletividades, cuja potência criativa do cotidiano se configura em experiências dos atores no
exercício de práticas ativas de ensino e de saúde, que são amistosas à integralidade do cuidado
nas instituições de saúde.

Descrição
O NCP foi criado em 2009, no processo de acreditação do Hupe da UERJ, como um
Centro de Assistência de Alta Complexidade em Oncologia, com equipe multiprofissional. Os
atendimentos no NCP são ambulatoriais, todas as terças-feiras e quartas-feiras, das 8h às 12h.

160
Mestranda pelo Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva do Instituto de Medicina
Social da Universidade do Estado do Rio de Janeiro; [email protected].
161
Psicóloga; Especialista em Psicologia Médica; [email protected]
162
Prof. Dra. da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual do Rio de Janeiro;
Terapeuta Cognitiva certificada pela Federação Brasileira de Terapias Cognitivas;
[email protected]
163
Prof. Associada do Instituto de Medicina Social da Universidade Estadual do Rio de Janeiro;
Pós-doc em Direito PUC-RJ/UNIPO-Itália; Coordenadora do Laboratório de Pesquisas sobre
Práticas de Integralidade em Saúde (LAPPIS-UERJ), Rio de Janeiro; [email protected]
Os atendimentos ocorrem de maneira individual e/ou coletiva, em média 6 pacientes por dia. O
retorno é agendado de acordo com a complexidade do caso, em torno de 1 a 3 meses, geralmente
acompanhados de seus cuidadores.

Período de Realização
No período de março de 2020 a Agosto de 2021.

Objetivos
Este trabalho objetiva discutir a importância da assistência remota à pacientes de
Cuidados Paliativos (CP) em emergências sanitárias durante a pandemia da COVID-19, a partir
do relato de experiência dos atendimentos psicológicos remotos oferecidos pelo Núcleo de
Consultas da Psicologia (NCP) do Hospital Universitário Pedro Ernesto (HUPE)-RJ.

Resultados
É crível afirmar que a pandemia da COVID-19 se revelou em um enorme desafio para
garantia da integralidade do cuidado, em especial no contexto da atenção hospitalar onde os
pacientes demandantes CP exigem o cumprimento integral de um dos principais princípios da
assistência que é proporcionar alívio do sofrimento. Com a pandemia da COVID-19, o
funcionamento do HUPE mudou, sendo necessário a criação de mais leitos no hospital devido
ao aumento da demanda, tendo em vista ser um dos hospitais de referência para internação de
pacientes infectados pelo Coronavírus no Estado do Rio de Janeiro.

Aprendizados e Análise Crítica


Este contexto fez com que todo o funcionamento do hospital fosse alterado, até mesmo
alguns ambulatórios, dentre eles o NCP, o que favoreceu uma maior aproximação entre a equipe
do NCP e os pacientes, à medida que tratavam de pessoas do grupo de risco, sendo na maioria
idosos e pessoas com comorbidades. Sendo o local de atendimento insuficiente, afinal havia a
necessidade de evitar ao máximo a aglomeração de pessoas, e a maior parte dos profissionais
da equipe estavam envolvidos nos demais setores de pacientes internados pela COVID-19, com
falta de equipamento de Proteção Individual. Diante dessa situação, A Psicologia Médica junto
a equipe do NCP desenvolveu uma nova modalidade de atendimentos, as Teleconsultas,
gerando impactos significativos. De forma sinérgica, a demanda de trabalho durante a pandemia
aumentou significativamente, mas com a adoção das tecnologias como práticas oriundas da
interação entre os conhecimentos e práticas dos trabalhadores, os pacientes ficaram mais
próximos da equipe, entretanto, demandava mais carga horária de trabalho. O NCP não parou
com o funcionamento e tiveram algumas mudanças, inclusive, desafios enfrentados pela
psicologia.

Referências Bibliográficas
D’ALESSANDRO, M. P.; PIRES, C. T. Manual de cuidados paliativos. São Paulo: Hospital
Sírio-Libanês/Ministério da Saúde; 2020 [cited 2022 Nov 16].

DA SILVA, Maria Júlia Paes; DE ARAÚJO, Mônica Martins Trovo. Comunicação em


cuidados paliativos. Manual de cuidados paliativos ANCP, p. 75, 2012.
MESSIAS, A. de Almada. Manual de Cuidados Paliativos. São Paulo: Hospital Sirio-Libanes;
Ministério da Saúde; 2020.

PINHEIRO, Roseni; FERLA, A. A.; SILVA JÚNIOR, Aluisio Gomes da. A integralidade na
atenção à saúde da população. Marins JJN, Rego S, Lampert JB, Araújo JGC,
organizadores. Educação médica em transformação: instrumentos para a construção de
novas realidades. San Pablo: Hucitec, ABEM, p. 269-284, 2004.
Relato de Pesquisa

Migração e interseccionalidades: Refugiados congoleses no Rio de Janeiro

Fabiana Chicralla Siqueira 164

Palavras-chave: Migração, refugiados, desafios, interseccionalidades.

Contextualização
Na atualidade, assistimos a um incremento dos deslocamentos humanos, sobretudo de
refugiados. O impacto das migrações tem reflexos no Brasil, que vem acolhendo pessoas de
diferentes nacionalidades. Atualmente, diferente do que acontecia no século XX, o fluxo
migratório para o Brasil era predominantemente de pessoas cujo países de origem vivenciam
expressiva fragilidade política e econômica, como países do Sul Global — aqui em destaque
para a República Democrática do Congo (RDC). Isso demonstra a relevância do tema, pois são
os “países em desenvolvimento” — como o Brasil — que têm recebido um grande número de
deslocados, apesar de serem locais onde as pesquisas sobre o tema são ainda insuficientes. Não
obstante, a maior parte destes países, sob o ponto de vista socioeconômico, encontram-se em
condições precárias, com políticas insuficientes para acolher a população migrante e refugiada.
Este trabalho é resultado de uma pesquisa de mestrado que buscou compreender os desafios
enfrentados por migrantes e refugiados congoleses no Brasil. Indubitavelmente, são diversos os
desafios enfrentados pela população congolesa durante o processo migratório, sendo em alguns
casos necessária a assistência à saúde, inclusive à saúde mental. No entanto, o que a referida
pesquisa buscou apontar é a importância em contextualizar a experiência de sofrimento,
entendendo que a sua vivência por refugiados e solicitantes de refúgio não está necessariamente
atrelada ao passado, mas também a todo cenário de violências e discriminações vivenciadas no
país de acolhida.

Objetivos
Compreender os principais desafios vivenciados pelos refugiados e solicitantes de
refúgio da República Democrática do Congo quando em território brasileiro, mas
especificamente no município do Rio de Janeiro.

Metodologia
Este estudo qualitativo, fruto de uma pesquisa de mestrado, de abordagem etnográfica,
composto por observação participante e entrevistas em profundidade, realizado no bairro de
Brás de Pina – zona norte do município do Rio de Janeiro onde, na época, residiam o maior
número de refugiados e solicitantes de refúgio de nacionalidade congolesa no município. A
partir das observações tecidas no campo e do levantamento de pesquisa bibliográfica, foi
possível reconhecer as diferenças socioculturais de que portam migrantes e refugiados —

164
Doutoranda pelo Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva do Instituto de Medicina Social da
Universidade do Estado do Rio de Janeiro; orientadora: Claudia Mora; [email protected].
sobretudo de origem congolesa — e dessa forma problematizar os principais desafios
enfrentados pela supracitada população.

Resultados e Discussão
A pesquisa permitiu perceber que os desafios enfrentados por migrantes e refugiados
não se encontram vinculados apenas às vivências no país de origem, mas também à
invisibilidade e a marginalização vivenciadas no país de acolhida — responsáveis por
importantes repercussões subjetivas. Buscando refletir sobre os desafios enfrentados pelos
congoleses, quando em território brasileiro, utilizamos a interseccionalidade como ferramenta
analítica. Para a compreensão da dinâmica interseccional, esta pesquisa realizou uma análise
da realidade da RDC e do Brasil, buscando entender os diversos aspectos que acirram as
exclusões e discriminações. Foi possível perceber que a população congolesa, quando migra,
carrega consigo as marcas das desigualdades enraizadas em seu país desde o período colonial
— um cenário de violências, explorações e discriminações de várias ordens que se mantêm até
os dias de hoje. E ao aportarem no Brasil, também se deparam com as hierarquias sociais
estabelecidas no território, assim como as consequências destas — discriminações e violências
de várias ordens. Prova disso é o racismo: elemento estruturante das relações sociais no Brasil,
normalizado na sociedade e excluindo de forma sistemática determinados grupos
marginalizados. Quando pensamos nas populações migrantes e refugiados, esse impacto é ainda
maior devido à confluência de discriminações. Esse cenário também sofre influência do atual
contexto brasileiro, em que o país tem atravessado dificuldades no âmbito político, econômico
e social, acabando por expor migrantes e refugiados a uma exclusão ainda maior, interferindo
em diversas esferas da vida cotidiana, como no acesso ao mercado de trabalho — apontado
como um dos aspectos fundamentais quando pensamos na integração da população migrante e
refugiada ao país de acolhida. A confluência de discriminações — particularmente quanto à
nacionalidade, raça, classe e gênero — afeta a vida dos migrantes e refugiados congoleses que
estão no Rio de Janeiro, dificultando sua integração social à medida que não permite a usufruir
de uma vida com dignidade, com acesso a trabalho, morada e necessidades básicas como saúde
e educação.

Aprendizados e Análise Crítica


O atual fluxo migratório global é cada vez mais intenso e, sobretudo, mais complexo
diante de uma racionalidade global neoliberal que tem como marca a produção e a distribuição
de riqueza de maneira desigual. Mesmo com o fim do colonialismo, assistimos à continuidade
do domínio e das mais variadas formas de exploração das grandes potências sob os países
periféricos, sobretudo os países africanos. O crescente número de refugiados na atualidade é
também resultado deste cenário. Em relação à RDC, o passado de dominação e exploração a
que país foi submetido, resulta em uma posição desigual frente a outros países do globo,
produzindo uma marginalização de seus cidadãos, que são interpretados como ameaça e/ou
risco quando buscam sobreviver em outros países. No Brasil, os congoleses enfrentam uma
sobreposição de opressões — particularmente quanto à nacionalidade, raça, gênero e classe e
dificultando o acesso ao trabalho, moradia e vida digna, que, somado às atuais políticas do país,
tem provocado repercussões subjetivas importantes e sendo a origem de muito sofrimento entre
os congoleses. Esse cenário acaba sendo um empuxo para a emigração. Mas cabe destacar que,
o que esse quadro também salienta a potência de sujeitos que, diante das adversidades, resistem
às condições sub-humanas a que são submetidos e se lançam em busca de outras saídas na
tentativa de melhores condições de vida ou, ainda, de existência.

Referências Bibliográficas
ALMEIDA, S. L. O que é racismo estrutural? Belo Horizonte: Letramento, 2018.

BRANCO PEREIRA, A. O refúgio do trauma. Notas etnográficas sobre trauma, racismo e


temporalidades do sofrimento em um serviço de saúde mental para refugiados. In: Revista
Interdisciplinar da Mobilidade Humana (REMHU). Brasília, v. 26, n. 53, ago. 2018, p. 79-
97. Disponível em:
https://www.scielo.br/j/remhu/a/5Djq7XVxwmWXMwMmVQB7SjQ/?format=pdf&amp;am
p;lang= pt. Acesso em: 17 nov. 2021.

CANDIOTTO, C. O governo biopolítico do migrante de sobrevivência: uma leitura crítica da


lógica do capital humano na era neoliberal. In: Trans/Form/Ação [online]. v. 44, n. 02, 2021, p.
87-106. Disponível em: https://doi.org/10.1590/0101-3173.2021.v44n2.07.p87. Acesso em: 17
nov. 2021.

MBEMBE, A. Necropolítica: biopoder, soberania, estado de exceção, política de morte. São


Paulo: N-1 edições, 2019.

MORAIS, R. J. Desconstruindo vulnerabilidade: a resistência de mulheres congolesas


migrantes em face às desigualdades interseccionais da sociedade brasileira. Dissertação
apresentada para conclusão em Mestrado em Relações Internacionais pela Universidade
Federal de Santa Catarina. Santa Catarina: UFSC, 2019.

PISCITELLI, A. Interseccionalidades, categorias de articulação e experiências de migrantes


brasileiras. In: Revista Sociedade e Cultura [online]. v. 11, n. 2, jul.-dez. 2008. p. 263-274.
Disponível em: https://www.revistas.ufg.br/fcs/article/view/5247. Acesso em: 02 jan. 2021.
Relato de Pesquisa

Socialização e inclusão: movimento dos grupos sociais – campo da Psicologia do


Trabalho e das Organizações

Heloísa Helena Ferraz Ayres 165


Eric Davi Ferreira Arcelino 166
Gabryella Bazeth de Souza Nery da Silva 167
Isaac Pinto Firmino 168
Maria Clara de Souza Cherem 169
e Rayane Aretuza Borges Ferreira 170

Palavras-chave: Migração; Refúgio; Psicologia; Trabalho; Pesquisa; Projeto.

Contextualização
O projeto de pesquisa “Socialização e Inclusão Social - movimento dos grupos sociais”,
do Instituto de Psicologia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (IP/UERJ), tem como
foco o estudo sobre os processos de socialização de refugiados e solicitantes de refúgio sob um
olhar psicossocial, propiciando a ampliação da pesquisa-intervenção. Baseando-se nas
discussões sobre estudos integrados das relações sociais, do movimento dos grupos sociais, do
trabalho e das organizações, o objetivo é possibilitar ações de inclusão social aos grupos
citados, considerando o trabalho como dispositivo fundamental na sobrevivência e na
identidade social.

Objetivos
Como uma pesquisa-intervenção, o objetivo principal do projeto é participar de ações
com pessoas em situação de refúgio, que estão vivenciando o processo de socialização,
possibilitando compartilhar essa experiência, vivenciar seus sentimentos frente a essa nova
situação, explorar suas expectativas e as perspectivas em relação ao trabalho como dispositivo
de inclusão social, criando condições para que cada participante, no grupo e em grupo, possa
(re)pensar e rever esta etapa da vida. Por outro lado, as supervisões proporcionam ao grupo de
estudos do Projeto, graduandos do IP/UERJ, um desenvolvimento pessoal e profissional,
ampliando seus conhecimentos teóricos e práticos sobre a temática de refúgio e trabalho no
Brasil para que, enfim, a pesquisa prossiga.

165
Profa. Dra. Heloisa Helena Ferraz Ayres - Psicóloga, Professora Adjunta do Instituto de Psicologia da
Universidade do Estado do Rio de Janeiro/Uerj. Coordenadora do Laboratório Trabalho, Inclusão Social e
Sustentabilidade- movimento dos grupos sociais (LaTIS). Orientadora; [email protected]
166
Graduando em Psicologia pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro/UERJ; [email protected]
167
Graduando em Psicologia pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro/UERJ; [email protected]
168
Graduando em Psicologia pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro/UERJ; [email protected]
169
Graduando em Psicologia pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro/UERJ; [email protected]
170
Graduando em Psicologia pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro/UERJ; [email protected]
Metodologia
Possui como base as discussões sobre a complexidade na contemporaneidade e a
importância de estudos integrados das relações sociais, do movimento dos grupos sociais, do
trabalho e das organizações, assim como estudos teóricos sobre processos grupais,
especificamente relacionados com o desenvolvimento intra e interpessoal e a pesquisa-ação
(Thiollent, 2015), delineada na Concepção Psicossocial Integrada (Ayres, 2018). Os
fundamentos dessa Concepção estão na participação de todos, tendo como característica básica
a implicação das pessoas que têm algo a “dizer” e a “fazer”. Sendo assim, objetivo é possibilitar
ações de suporte emocional e inclusão social a esses grupos, entendendo o trabalho como
dispositivo fundamental para a sobrevivência e a identidade social, ao mesmo tempo que se
propicia a ampliação do espaço de pesquisa-intervenção no campo da Psicologia Social e da
Psicologia Organizacional e do Trabalho.

Resultados e Discussão
O Projeto tem início em 2017, em parceria com o Programa de Atendimento a
Refugiados e Solicitantes de Refúgio/PARES Cáritas-RJ, e o Projeto Vidas
Paralelas/Migrantes perspectiva Brasil-França - CAPES/COFECUB, constituído no Brasil
pelos Programas de Pós-Graduação: em Saúde Coletiva da Universidade de Brasília (UnB) e
em Psicologia Social da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), por meio da
participação nas oficinas de “Direitos Humanos e Fotografia para Refugiados”, com a
elaboração de relatórios de observação e da introdução do tema “Trabalho”.
Em 2018, foi consolidada a parceria com o PARES Cáritas-RJ, com a realização de
oficinas abertas, temáticas e informativos sobre “Trabalho, Profissão e Mercado de Trabalho -
uma trajetória de experiências”. Em junho/novembro de 2018 foram realizadas 6 Oficinas, com
56 participantes, envolvendo 8 estudantes de Psicologia. No período de abril/novembro de
2019, foram totalizadas 14 oficinas, com 197 solicitantes de refúgio/refugiados e 11 estudantes.
Com diversos parceiros durante nossa trajetória iniciada em 2017, o grupo de extensão
ampliou para o grupo de prodocência no último trimestre de 2022. Desde então, foram
realizadas oficinas abordando temas relativos à inserção no mercado de trabalho. Participaram
52 refugiados, solicitantes de refúgio e 9 alunos da graduação. Em 27 de maio de 2023, as
ONGs Aldeias Infantis SOS e Venezuela Global, em parceria com organizações
comprometidas com a questão do refúgio e migração, realizaram a “1ª Feira de
Empregabilidade” para desempregados brasileiros e venezuelanos do Morro do Banco, no
Itanhangá, Barra da Tijuca-RJ. Participamos do evento e oferecemos oficinas sobre
“Currículo” e “Entrevista de Emprego”, bem como criamos um espaço de escuta e acolhimento
às questões relacionadas ao mercado de trabalho, elucidando as dúvidas sobre entrevista de
emprego e currículo, além disso realizamos 11 entrevistas de pesquisa, com a participação de
6 bolsistas e estagiários do LaTIS/IP/UERJ. Por fim, em junho de 2023 foi realizada a oficina
com tema “Desenvolvendo Competências para o Mercado de Trabalho”, com a participação
de 6 migrantes e refugiados.
Aprendizados e Análise Crítica
Dessa maneira, em um processo coletivo-colaborativo entre as equipes técnicas do
Projeto e do Programa, frente às dificuldades e possíveis demandas, busca-se desvelar a
trajetória migratória, a cultura e a inserção desses solicitantes de refúgio e refugiados no
mercado de trabalho brasileiro, possibilitando a criação de planos de ação para o enfrentamento
dessas situações. Os resultados podem ser identificados através dos relatos dos refugiados e/ou
solicitantes de refúgio que participam das oficinas.

Referências Bibliográficas
AYRES, Heloisa Helena Ferraz. Conselhos de Gestão de Parques: grupos sociais
em movimento. Rio de Janeiro: UFRJ, 2012.

AYRES, H.H.F; Research and Integrated Intervention - a trajectory for new values
in the field of work and organizations.In: Organization 4.1: the role of values in the
organizations of the 21st century of 16th Conference of the International Society for
the Study of Work & Organizational Values, ISSWOV, Edited by Dr. Ilona
Baumane-Vītoliņa, ISBN 978-0- 9817997-5-9 , 2018 .

_____________ O Processo Grupal. IN AYRES, H H F Conselhos de Gestão de


Parques: grupos sociais em movimento? Rio de Janeiro: UFRJ, 2012. Tese
(doutorado) - Universidade Federal do Rio de Janeiro, Instituto de Psicologia,
Programa de Pós-Graduação em Psicossociologia de Comunidades e Ecologia
Social – EICOS, 2012.

_____________ Parâmetros Conceituais para a Leitura do Processo Grupal.IN


AYRES, H H F Conselhos de Gestão de Parques: grupos sociais em movimento? RJ:
UFRJ, 2012. Tese (doutorado) - Universidade Federal do Rio de Janeiro, Instituto de
Psicologia, Programa de Pós-Graduação em Psicossociologia de Comunidades e
Ecologia Social – EICOS, 2012.

MOSCOVICI, Fela. Desenvolvimento interpessoal. 17a. ed. – Rio de Janeiro: Jose


Olympio, 2008.
Relato de Pesquisa

Vínculos de trabalho da enfermagem na Estratégia Saúde da Família:


Contribuições para gestão do trabalho

Thaís de Almeida Brasil 171


Márcia Silveira Ney 172
e Carinne Magnago 173

Palavras-chave: Precarização do trabalho. Enfermagem. Estratégia Saúde da Família.

Contextualização
No final do século XX, a flexibilização dos vínculos e a deterioração das condições de
trabalho se expandiram. Entendida como precarização social do trabalho por Franco, Druck e
Seligmann-Silva (2010), esse fenômeno no Brasil se instalou permanentemente a partir da
década de 1990 mediante reformas administrativas do aparelho estatal com impactos em todos
os cenários de trabalho, inclusive no setor saúde. Decerto, identificou-se ampliação de
contratações de natureza não estável dos trabalhadores da saúde no país. Vínculos de trabalho
que não assegurem direitos sociais e trabalhistas é uma dimensão da precarização social do
trabalho. De acordo com Brasil (2006), trata-se de um problema crônico para o Sistema Único
de Saúde (SUS) e para a consolidação da Atenção Básica (AB) por meio da Estratégia Saúde
da Família (ESF). A ESF é o modelo prioritário da Atenção Básica no país que, na última
década, sofreu retrocessos quanto ao financiamento e ao modelo assistencial. Esse desmonte
agravou a precarização social do trabalho na ESF com impactos negativos aos trabalhadores,
com destaque para a enfermagem. Reconhecida como a maior categoria profissional de saúde
do país, a enfermagem tem centralidade no Sistema Único de Saúde ao assumir uma função
assistencial imprescindível em diferentes cenários de atenção à saúde, como na ESF, além de
incorporar atribuição gerencial no que se refere ao trabalho do(a) enfermeiro(a). Embora seja
indiscutível a necessidade da valorização da enfermagem brasileira, pode-se dizer que não
houve avanços de agendas políticas ministeriais direcionadas para a garantia de vínculos
estáveis e/ou formais aos profissionais dessa categoria profissional.

Objetivo
O objetivo geral foi descrever os vínculos de trabalho da enfermagem na ESF do Estado
do Rio de Janeiro (ERJ) em 2022.

171
Doutoranda pelo Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva do Instituto de Medicina Social da
Universidade do Estado do Rio de Janeiro; [email protected]
172
Doutora e professora pelo Instituto de Medicina Social Hesio Cordeiro - Universidade do Estado do Rio de
Janeiro; orientadora; [email protected]
173
Doutora pelo Instituto de Medicina Social Hesio Cordeiro - Universidade do Estado do Rio de Janeiro.
Professora pela Faculdade de Saúde Pública - Universidade de São Paulo; coorientadora; [email protected]
Metodologia
Estudo de abordagem quantitativa e descritiva com uso do Cadastro Nacional de
Estabelecimento de Saúde (DATASUS, 2023), fonte nacional pública de dados sobre os
serviços e profissionais de saúde do SUS. Os dados selecionados foram enfermeiros, técnicos
e auxiliares de enfermagem da ESF com Classificação Brasileira de Ocupação 223565, 322245
e 322250 do ERJ em dezembro/2022. Para tabular os dados, utilizou-se o programa Tabwin.
Os resultados foram apresentados em quadros e gráficos. Cabe ressaltar que tal análise de dados
secundários é uma das etapas metodológicas de uma pesquisa em andamento de doutorado
acadêmico.

Resultados e Discussão
Em 2022, o total de trabalhadores da enfermagem na ESF do ERJ eram de 8881 sendo
3937 enfermeiros (44,33%); 4623 técnicos de enfermagem (52,05%); e 321 auxiliares de
enfermagem (3,61%). Sobre os vínculos de trabalho da enfermagem: 37,63% (n=3342) eram
celetistas; 26,24% (n=2331) contratados por tempo determinado; e 16,55% (n=1470)
estatutários. Destaca-se que a maioria dos enfermeiros e técnicos de enfermagem se
concentravam no Rio de Janeiro, município cuja contratação para ESF se dá por Organizações
Sociais.

Aprendizados e Análise Crítica


Reconhecendo os avanços na agenda implementada pela Secretaria de Gestão do
Trabalho e da Educação na Saúde, o desafio atual é assegurar a proteção social e trabalhista
aos trabalhadores da saúde diante da terceirização. Investigar a precarização social do trabalho
no SUS produzirá subsídios teóricos para um planejamento da gestão do trabalho que garantam
vínculos formais e estáveis aos trabalhadores da saúde e da enfermagem. Espera-se que esse
estudo contribua com a discussão sobre o fortalecimento da política de gestão do trabalho no
SUS a partir de uma análise das relações de trabalho da enfermagem da ESF do ERJ.

Referências Bibliográficas
BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Gestão do Trabalho e da Educação na Saúde.
Departamento de Gestão e da Regulação do Trabalho em Saúde. Programa Nacional de
Desprecarização do Trabalho no SUS: DesprecarizaSUS: perguntas & respostas. Brasília:
Editora do Ministério da Saúde, 2006. 32p.

Departamento de Informática do Sistema Único de Saúde (DATASUS). Cadastro Nacional de


Estabelecimento de Saúde. In: Transferência de arquivos. Download de arquivos. Brasília,
2022. Disponível em: Acesso em 15 abr. 2023.

Classificação Brasileira de Ocupações (CBO). Ministério do Trabalho. In: Busca. Disponível


em:http://www.mtecbo.gov.br/cbosite/pages/regulamentacao.jsf#e. Acesso em: 02 jun. 2022.

FRANCO, T.; DRUCK,G.; SELIGMANN-SILVA; E. As novas relações de trabalho, o


desgaste mental do trabalhador e os transtornos mentais no trabalho precarizado. Rev. Bras.
Saúde Ocup., São Paulo, v.122, n.35, p.229-248, 2010.
COLETIVO TEMÁTICO:
Violência e construção de saúde: impactos na sociedade e nos indivíduos

Através do CT, nos propomos a discutir os cruzamentos entre violência e saúde,


refletindo sobre as impossibilidades e as possibilidades de construção de saúde em tais
contextos de invisibilização e vulnerabilização, sendo demarcados por atravessamentos de raça,
classe social, gênero e sexualidade, entre outros. Foram recebidos trabalhos que abordam as
diferentes formas de violência e sua relação com o campo da saúde coletiva e áreas correlatas:
as violências que chegam aos serviços de saúde através de demandas de cuidado; as violências
que são produzidas pelas práticas assistenciais; as tensões de se produzir cuidado em contextos
marcados pela violência, como favelas e lugares desassistidos pelo aparato público; a violência
de caráter racial e social; a violência em contexto escolar; os comportamentos de suicídio e de
homicídio e seus impactos psicossociais; as violências de gênero e sexualidade, relacionadas
aos comportamentos discriminatórios e de extermínio, direcionados à população LGBT+; as
violências a partir de assédios morais e sexuais e de feminicídio; os ataques virtuais promovidos
por masculinidades contemporâneas, como o movimento redpill e incel; o neoconservadorismo,
as práticas reacionárias e o neofascismo; as ações e políticas públicas de enfrentamento das
violências. A proposta de debate, portanto, acolheu trabalhos investigativos e de experiências
sobre as problemáticas citadas, bem como movimentações de intervenção como o ativismo e a
busca pela garantia do direito à vida e à saúde, a partir de discussões, como a determinação
social da saúde e o sofrimento social.
Relato de Pesquisa

A gestão da saúde reprodutiva na atenção primária à saúde: tensões entre


diferença, poder e violências

Dandara Pimentel Freitas 174

Palavras-chave: atenção primária à saúde; direitos sexuais e reprodutivos; violência de gênero;


relação profissional-paciente.

Contextualização
As práticas com atenção à saúde reprodutiva das mulheres, no Sistema Único de Saúde,
têm na atenção primária à saúde seu locus primordial, compreendendo desde a oferta e
orientação acerca de métodos contraceptivos ao seguimento pré-natal de risco habitual
(BRASIL, 2013). O termo “saúde reprodutiva”, entretanto, não está dado, apresentando
construto próprio a partir de disputas teórico-políticas desde as instituições aos movimentos de
mulheres (CORRÊA, 1997) e que, na contemporaneidade, reatualizam-se nos debates acerca
da violência e racismo obstétricos (DAVIS, 2018) e justiça reprodutiva (SIQUEIRA, 2021). A
despeito da incorporação, pelas políticas, da linguagem dos direitos reprodutivos, estudos como
os de Leal (2017) e de Góes (2018) são reveladores das iniquidades raciais que persistem na
atenção à saúde reprodutiva, corroborando o viés racializado destas práticas e das violências
corporificadas através destas.

Objetivos
• Objetivo geral: Compreender as tensões entre diferença, poder e violências, a partir da
análise da gestão da saúde reprodutiva na APS.
• Objetivos específicos: 1) compreender as configurações das interações entre
profissionais e usuárias no âmbito das práticas com atenção à saúde reprodutiva, com
enfoque nas tensões derivadas das representações, saberes e expectativas de ambos os
atores em cena; 2) interpretar de que forma as categorias de raça, classe, gênero,
orientação sexual, geração e território, constitutivas das relações entre profissionais e
usuárias, se articulam à ocorrência de violências nos serviços de saúde.

Metodologia
Trata-se de pesquisa qualitativa, de cunho etnográfico, tendo como campo de imersão
uma Clínica da Família situada na zona norte do município do Rio de Janeiro. Os sujeitos da
pesquisa são profissionais de saúde – médicas e enfermeiras envolvidas em práticas com
atenção à saúde reprodutiva - e usuárias da referida unidade. O trabalho de campo teve duração

174
Mestranda pelo Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva do Instituto de Medicina Social da
Universidade do Estado do Rio de Janeiro; orientadora: Claudia Mora Cárdenas;
[email protected]
de dois meses, com duas idas semanais à unidade. Os procedimentos metodológicos
empregados foram a observação participante dos espaços de sociabilidade, como sala de espera
e corredores, além de grupos educativos, e entrevistas abertas com profissionais de saúde e
usuárias do serviço. Os dados obtidos através de diário de campo e da transcrição de entrevistas
foram categorizados e analisados, tendo como base teórica as perspectivas interacionista
(CASTRO, 2011) e interseccional (CHO et al, 2013).

Resultados e Discussão
O trabalho de campo trouxe à tona um complexo jogo de posicionalidades em campo,
não apenas entre profissionais e usuárias, como também entre pesquisadora e profissionais, e
entre pesquisadora e usuárias, derivado do duplo-papel exercido pela pesquisadora, também
profissional de saúde (MENEZES, 2006). Isto permitiu menor resistência a sua entrada em
campo, enquanto, possivelmente, e em conjunto com uma postura inquisitória inicial e à
brancura enquanto marcador corporal, reverberou na tradução de sua presença, pelas usuárias,
enquanto profissional do serviço (FLEISCHER, 2010; CASTRO, 2022). Inicialmente, o termo
“saúde da mulher”, como categoria êmica, foi mobilizado para a comunicação do objeto da
pesquisa, o que trouxe, a partir das agentes comunitárias de saúde, relatos de “casos
complexos”, ao se referirem a mulheres com muitos filhos e com dificuldade em comparecer
às consultas de pré-natal.
Tais estigmas reprodutivos (MILANEZI, 2024), generificados e racializados, operam
através de constrangimentos e acusações tácitas (FERNANDES, 2019), como no caso das
usuárias, em sua maior parte jovens e negras, que buscavam os guichês das equipes para a
aplicação de contraceptivos injetáveis “em atraso”. A estas usuárias era, ainda, comumente
ofertado o dispositivo intrauterino, método reversível de longa duração (LARC). Brandão
(2022) sinaliza como este direcionamento dos LARC a corpos “vulnerabilizados” - a exemplo
de mulheres negras e pobres – evoca tensões entre autonomia reprodutiva e a reatualização
de posturas coercitivas por sobre seus corpos e úteros. Não houve relatos de violências
explícitas durante o seguimento pré-natal por parte das usuárias que, de modo geral, estavam
satisfeitas com seus acompanhamentos, em geral descrito de forma vaga. Entretanto, narrativas
de desrespeito e violações durante experiências de parto prévias foram acessadas, ainda que
não reconhecidas nominalmente como violência, evidenciando a multifatorialidade dos
processos de nomeação (CASTRILLO, 2016). Por fim, as categorias de diferenciação
constitutivas das subjetividades das profissionais entrevistadas, bem como suas formações e
trajetórias reprodutivas pessoais pareceram estar relacionadas às suas implicações e
sensibilizações a temas específicos, fornecendo uma importante pista a respeito de mecanismos
de resistência desde o seio dos serviços de saúde.

Aprendizados e Análise Crítica


A partir do presente estudo, foi possível a análise das configurações das interações
entre profissionais e usuárias a partir das práticas com atenção à saúde reprodutiva, em sua
correlação com processos de violência em diferentes facetas – simbólica, de gênero, de Estado
–, que operaram, principalmente, através de estigmatizações e constrangimentos. Os relatos de
violência física foram evocados a partir de experiências externas ao serviço. Em ambos os
casos, foi possível asseverar as diferentes categorias de diferenciação como constitutivas destes
processos, ainda que para além da díade profissional-paciente, complexificada pelas interações
entre usuárias e ACS, estas, a um só tempo, trabalhadoras e moradoras do território. Por fim,
salienta-se a delicadeza do tema das violências, cuja interpretação foi possível primariamente
a partir de entrelinhas, silêncios e ausências, do que da explicitude das narrativas.

Referências Bibliográficas
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Básica. Saúde sexual e saúde reprodutiva / Ministério da Saúde, Secretaria de Atenção à
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Disponível em: https://criola.org.br/criola-lanca-dossie-mulheres-negras-e-justica-
reprodutiva-nesta-sexta-feira-01-1 0-as-19h/. Acesso em 23/10/2023.
Relato de Pesquisa

A violência contra lésbicas no Brasil: análise de um problema social em


construção

Giovana Martins Maximiano 175

Palavras-chave: Violência; Lésbicas; Lesbofobia; Lesbocídio; Estupro Corretivo; Violência


de gênero.

Contextualização
Os estudos acerca da violência, sobretudo a partir da percepção deste fenômeno como
multifatorial e relacional, são temáticas que têm recebido crescentes atenções no âmbito
acadêmico já há algumas décadas. Quando o assunto é a violência e suas interlocuções com a
Saúde, é possível apontar a forma como o tema emerge muito ligado à Saúde Pública
(MINAYO e RAMOS, 1998; SARTI, 2009). Estas explanações fornecem um “pano de fundo”
onde a violência, cada vez mais, aparece como categoria central em diversas análises
acadêmicas nos anos posteriores. Inspirada na abordagem construcionista dos problemas
sociais proposta por Lenoir (1996), a minha pesquisa tem como objetivo explorar a forma como
o problema social violência contra lésbicas no Brasil tem se constituído no Brasil
contemporâneo. Nesse sentido, não é possível falar da violência contra lésbicas sem antes citar
os contextos sociais em que esta temática emerge. Facchini (2005) aponta que os estudos de
sexualidade e gênero tiveram seus “inícios” marcados por grupos socialmente organizados
compostos por mulheres e pessoas que não se identificavam com orientações heterocentradas,
entre os anos 1970/80. Nas décadas posteriores o tema da violência contra lésbica avança a
partir dos coletivos que hoje conhecemos como comunidade LGBT+. Nesse contexto, as
preocupações estão voltadas predominantemente para a violência contra homens gays e pessoas
travestis e transexuais.
Considerando que estes dois grupos citados detém os maiores índices de violência letal
se comparados a outros membros da comunidade LGBTQIA+ (ANTRA & ABGLT, 2022, p.
18; MENDES & SILVA, 2020, p. 1717). Além dos altos índices de letalidade, Efrem (2016)
aponta para a brutalidade que essas mortes ocorrem. A brutalidade característica destes crimes,
também é acionada politicamente como forma de trazer ainda mais visibilidade para a violência
(EFREM, 2016). Uma das principais estratégias utilizadas pela comunidade LGBT+ para
avançar com a pauta dos direitos, foi a visibilização massiva do fenômeno da violência. No que
concerne a visibilização enquanto estratégia para ampliação da compreensão de um fenômeno,
Mason (2003), Debert e Gregori (2008) e Sarti (2009) apontam que este caminho pode oferecer
um paradoxo em si mesmo, pois permite uma maior circulação dos aspectos de um fenômeno,

175
Mestranda pelo Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva do Instituto de Medicina Social da
Universidade do Estado do Rio de Janeiro; orientada pela Profa. Dra. Laura Lowenkron;
[email protected]
mas também poderia produzir categorias estanques e cristalizadas dificultando a análise da
violência enquanto fenômeno relacional.
Quando o assunto é a violência contra lésbicas especificamente, os avanços que eu
delimitei durante a pesquisa, nos âmbitos acadêmicos e dos ativismos, se relacionaram com a
emergência e circulação de termos como lesbofobia e lesbocídio (PERES, SOARES e DIAS,
2018) para descrever especificamente a violência contra lésbicas. E da institucionalização
legislativa e judiciária do problema através de projetos de lei que nomeiam e criminalizam o
estupro corretivo a partir das PLs 452/2019 e 1619/2021, que tem por objetivo caracterizar o
estupro corretivo como um tipo específico de estupro, aumentando sua pena, e não apenas como
um “agravante” para o crime de estupro de modo geral.

Objetivos
• Objetivo geral: O objetivo geral da minha pesquisa é analisar como a violência contra
lésbicas tem se tornado visível e se constituído como um problema social na realidade
brasileira. Considerando documentos produzidos por instâncias sociais, como os
ativismos e âmbitos legislativos e judiciários que ajudam a compreender o contexto mais
geral da caracterização desta temática tecendo “contornos próprios”. Além do âmbito
acadêmico.
• Objetivos específicos: a. Investigar quais são as modalidades de violência contra
lésbica que ganham mais visibilidade no debate acadêmico e as categorias utilizadas
para nomeá-las; b. Analisar a emergência e circulação de termos, como lesbocídio,
lesbofobia e estupro corretivo, que são utilizadas para nomear a violência contra
lésbicas; c. Identificar os atores sociais envolvidos na construção da violência contra
lésbica como problema social, tais quais instituições, esferas de poder (legislativo,
judiciário), movimentos sociais e sociedade civil; d. Analisar a correlação entre a formas
de gestão da visibilidade desta violência e a produção de categorias sociais utilizadas
para nomeá-las.

Metodologia
A metodologia escolhida foi a revisão integrativa pois permite, a partir de diversas
etapas metodológicas, produzir a síntese de um determinado assunto e da forma como ele vem
sendo abordado por áreas particulares de estudo. De acordo com Mendes, Silveira e Galvão
(2008), a revisão integrativa possui criteriosas etapas para que seus resultados sejam fidedignos,
aos quais segui no desenvolvimento deste trabalho. Como encontrei uma baixíssima quantidade
de artigos sobre o tema nas bases de dados SciELO e BVS, optei por explorar teses e
dissertações. Foram utilizadas três estratégias de busca em duas bibliotecas virtuais (Biblioteca
de Teses e Dissertações e Portal Periódicos Capes), originando, ao todo, seis buscas. As
estratégias de busca utilizadas estarão disponíveis a partir do recurso visual no dia da
apresentação, nomeada como quadro 1. Quanto aos critérios de exclusão, como meu interesse
era investigar trabalhos produzidos na área de Ciências Humanas e Sociais e em Saúde, o
critério de exclusão 1 consistiu em retirar todas as produções fora deste escopo de
conhecimento. O critério de exclusão 2 foi desconsiderar aqueles trabalhos que não tinham
como foco lésbicas. E o critério de exclusão 3 teve por objetivo eliminar as produções que não
tratavam da temática da violência como objetivo principal. Os critérios de exclusão foram
aplicados a partir da leitura do resumo dos trabalhos. Na tabela 2, que estará disponível como
recurso visual no dia da apresentação, explicito quais foram os trabalhos selecionados para a
revisão integrativa.

Resultados e Discussão
O conteúdo de análise das teses e dissertações foram organizados por “eixos” temáticos e
pretendo explorá-los durante a roda de conversa, sendo eles:
1. A violência contra lésbicas ao longo do tempo e a (des)centralidade do tema quando
vista juntamente as demais demandas do movimento LGBTQ+;
2. Entre limites e contornos: como a violência contra lésbicas vem sendo definida e
nomeada;
3. Descrição e lócus da violência contra lésbicas: diálogos com a violência de gênero;
4. Subvertendo sentidos acerca da (in)visibilidade: análise do manejo e reações de lésbicas
frente à violência e o conceito de agência.

Aprendizados e Análise Crítica


Para finalizar, ressalto que a minha pesquisa está na fase final de desenvolvimento, mas
ainda não foi concluída. Logo, algumas teorizações ainda estão em andamento. Além disto, a
minha intenção é poder discutir os resultados, divididos em quatro tópicos, de forma mais
esmiuçada durante a roda de conversa proposta pelo Coletivo Temático.

Referências Bibliográficas
Acontece Arte e Política LGBTI+. Mortes e violências contra LGBTI+ no Brasil: Dossiê 2021
/ ANTRA (Associação Nacional de Travestis e Transexuais); ABGLT (Associação Brasileira
de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Intersexos). – Florianópolis, SC:
Acontece, ANTRA, ABGLT, 2022.

DEBERT, Guita Grin; GREGORI, Maria Filomena. Violência e gênero: novas propostas,
velhos dilemas. Revista Brasileira de Ciências Sociais, v. 23, n. 66, p. 165-211, 2008.
EFREM FILHO, R. (2016). Corpos brutalizados: conflitos e materializações nas mortes de
LGBT. Cadernos Pagu, (46), 311–340.

FACCHINI, Regina. Sopa de letrinhas: movimento homossexual e produção de identidades


coletivas nos anos 90. In: Sopa de letrinhas: movimento homossexual e produção de
identidades coletivas nos anos 90. 2005.

HEILBORN, Maria Luiza; SORJ, Bila. Estudos de gênero no Brasil. O que ler na ciência
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LENOIR, Remi. Objeto sociológico e problema social. Iniciación a la práctica sociológica, v.


21, p. 57-102, 1993.

MASON, Gail. The spectacle of violence: Homophobia, gender and knowledge. Routledge,
2003.
MAHAMOOD, S. (2019) / «Teoria feminista, agência e sujeito liberatório: algumas reflexões
sobre o revivalismo islâmico no Egito», Etnográfica, vol. 23 (1) | 2019, 135-175

MENDES, Wallace Góes; SILVA, Cosme Marcelo Furtado Passos da. Homicídios da
população de lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais ou transgêneros (LGBT) no
Brasil: uma análise espacial. Ciência & Saúde Coletiva, v. 25, n. 5, p. 1709-1722, 2020.

MENDES, Karina Dal Sasso; SILVEIRA, Renata Cristina de Campos Pereira; GALVÃO,
Cristina Maria. Revisão integrativa: método de pesquisa para a incorporação de evidências na
saúde e na enfermagem. Texto & contexto-enfermagem, v. 17, p. 758-764, 2008.

MINAYO, Maria Cecília de Souza; SOUZA, Edinilsa Ramos de. Violência e saúde como um
campo interdisciplinar e de ação coletiva. História, Ciências, Saúde-Manguinhos, v. 4, p.
513-531, 1997.

PERES, Milena Cristina Carneiro; SOARES, Suane; DIAS, Maria Clara. Dossiê sobre
lesbocídio no Brasil: de 2014 até 2017. Livros Ilimitados Editora e Assessoria Ltda., Autoral,
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SARTI, Cynthia. Corpo, dor e violência: a produção da vítima. Sexualidad, Salud y Sociedad-
Revista Latinoamericana, n. 1, p. 89-103, 2009.
Relato de Experiência

Atividade de educação permanente em uma Clínica da Família para qualificação


do preenchimento da ficha de notificação e acompanhamento de casos de
violência contra criança

Amanda Bessa Ribeiro de Lima 176


Matheus Veras Martins,
Eduarda Garcez Almeida,
e Maria Birman Cavalcanti

Palavras-chave: atenção primária à saúde; ficha de notificação; violência contra criança.

Contextualização
A violência contra criança pode ser definida como “quaisquer atos ou omissões dos
pais, parentes, responsáveis, instituições e, em última instância, da sociedade em geral, que
redundam em dano físico, emocional, sexual e moral às vítimas” (BRASIL, 2001). O Estatuto
da Criança e do Adolescente (ECA) estabelece que “nenhuma criança ou adolescente será
objeto de qualquer forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e
opressão, punindo na forma da lei qualquer atentado, por ação ou omissão, aos seus direitos
fundamentais” (BRASIL, 1990).
A Política Nacional de Atenção Integral à Saúde da Criança (PNAISC) define a atenção
integral à criança em situação de violências, prevenção de acidentes e promoção da cultura de
paz como um de seus eixos estratégicos (BRASIL, 2015). Casos de violência precisam ser
tratados de forma intersetorial, tendo a saúde, com a atenção primária, um papel fundamental
para o acompanhamento dos casos e atuação na prevenção. Sendo assim, os profissionais da
atenção primária à saúde devem estar capacitados para identificação de sinais e sintomas,
preenchimento correto das fichas de notificação, acompanhamento dos casos e realização de
ações de prevenção. Considerando tais fatores e percebendo que a unidade da Clínica da
Família que os residentes estão alocados era considerada uma unidade silenciosa devido à
ausência de fichas de notificação de violência preenchidas, os residentes multiprofissionais em
Saúde da Família da Escola Nacional de Saúde Pública realizaram duas ações de educação
permanente.

Descrição
A primeira atividade aconteceu no mês de maio de 2023, com a participação de agentes
comunitários de saúde, técnicos de enfermagem e enfermeiros da Clínica da Família durante a
última hora da jornada de trabalho no auditório da unidade. Foi realizada uma exposição
dialogada com recursos participativos como jogo de perguntas.

176
Residentes do Programa de Residência Multiprofissional em Saúde da Família -
ENSP/FIOCRUZ; [email protected]
Uma segunda ação foi realizada na reunião geral da Clínica da Família no mês de julho
de 2023 e contou com a participação de profissionais da unidade que não haviam participado
da atividade anterior.

Período de Realização:
As atividades foram realizadas nos meses de maio e julho de 2023.

Objetivos
O objetivo das atividades foi aumentar a capacidade da Clínica da Família para a
identificação e acompanhamento de casos de violência contra crianças, bem como o correto
preenchimento das fichas de notificação.

Resultados
Como resultado, os profissionais da unidade relataram que suas dúvidas e medos sobre
o preenchimento da ficha de notificação foram esclarecidos. Além disso, houve um discreto
aumento no número de notificações de violência nos meses posteriores às atividades.

Aprendizados e Análise Crítica


Durante as atividades, foi possível aprender sobre identificação de possíveis sinais e
sintomas, o correto preenchimento da ficha de notificação e trocas sobre condutas clínicas
adotadas. A metodologia participativa com exposição dialogada trouxe as visões dos
profissionais e mostrou-se um potente método de compartilhamento de informações.
Nota-se um interesse dos profissionais no tema, mas a sobrecarga de atendimentos e
cobranças para alcançar metas de indicadores dificuldade a atuação mais qualificada e a
disponibilidade de espaços para educação permanente, discussão de fluxos e articulação
intersetorial.

Referências Bibliográficas
BRASIL. Ministério da Saúde. Política Nacional de Redução da Morbimortalidade por
Acidentes e Violências. Brasília: MS; 2001.

BRASIL. Ministério da Saúde. Portaria nº 1.130, de 5 de agosto de 2015. Institui a Política


Nacional de Atenção Integral à Saúde da Criança (PNAISC) no âmbito do Sistema Único de
Saúde (SUS).

BRASIL. Lei 8.069, de 13 de julho de 1990. Dispõe sobre o Estatuto da Criança e do


Adolescente e dá outras providências. Diário Oficial da União, Brasília, 16 jul. 1990a.
Relato de Pesquisa

Cruzando pesquisas, sofrimento e resistência: narrativas sobre gêneros e


sexualidades dissidentes no Rio de Janeiro

Delia Da Mosto 177,


e Ueslei Solaterrar 178

Palavras-chave: mulheres trans; trabalho sexual; saúde coletiva; feminismo


decolonial; resistência.

Contextualização
Os modelos hegemônicos construídos sobre fenômenos de opressão, como capitalismo,
patriarcado, racismo e colonialismo, resultam na marginalização de pessoas que não se
identificam com as categorias definidas pelos paradigmas dominantes. Nesse sentido, as
pessoas que não se identificam com o gênero que lhes é associado no nascimento ou que
praticam uma sexualidade que se desvia das normas cis-hetero-patriarcais, como as
profissionais do sexo (Rubin, 1984), estão expostas a vários mecanismos de opressão, inscritos
na ordem social. Entretanto, embora esses processos resultem na vulnerabilidade de pessoas
que performam sexualidades ou gêneros dissidentes, várias autoras feministas decoloniais
destacaram como a margem pode ser ressignificada, revelando-se como um local de
possibilidade e resistência radicais (hooks, 1989).

Objetivos
Com base nessas considerações, o trabalho a seguir tem como objetivo investigar, a
partir de uma perspectiva interseccional, o impacto dos mecanismos de violência estrutural
(Farmer, 2006) na saúde de pessoas que praticam e/ou desempenham sexualidades ou gêneros
que não se encaixam no paradigma dominante e suas práticas de resistência e ação contra-
hegemônica. Especificamente, o trabalho a seguir visa investigar quais fatores engendram
sofrimento psíquico em pessoas trans ou travestis, prestando atenção especial ao papel do
trabalho sexual na geração de processos de marginalização e resistência.

Metodologia
O trabalho a seguir é o resultado de duas pesquisas etnográficas multisituadas (Rajan,
2021) realizadas no Rio de Janeiro, em dois momentos diferentes, 2020 e 2023,
respectivamente. O primeiro trabalho baseou-se principalmente na análise do material coletado
de uma “rede de cuidados trans em (des)construção” e nas histórias de vida de quatro mulheres

177
Mestranda pelo Programa de Pós-Graduação em Antropologia Médica e Saúde Coletiva da Universitat Rovira
i Virgili; [email protected]
178
Doutorando pelo Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva do Instituto de Medicina Social da
Universidade do Estado do Rio de Janeiro; [email protected]
trans e travestis que trabalham ou são usuários de serviços de saúde mental. O segundo trabalho,
por outro lado, é uma etnografia coletiva (Rappaport, 2007), que envolveu a colaboração de
serviços de saúde mental, organizações voluntárias e coletivos de ativismo compostos por
pessoas que foram ou são profissionais do sexo. Ambos os trabalhos usaram vários
instrumentos, inclusive observação participante, entrevistas semiestruturadas e rodas de
conversa.

Resultados e Discussão
O diálogo e contribuição mútua dos dois trabalhos destaca como os processos de
opressão se manifestam e se infiltram nas dimensões relacionais e materiais das mulheres trans
e travestis, agindo direta e indiretamente em sua saúde mental, física e social. No entanto, a
exposição aos fenômenos de marginalização segue padrões interseccionais, destacando como
diferentes elementos da identidade das pessoas determinam a geração de diferentes
experiências de sofrimento, mas também de resistência e agenciamentos (Brah, 2006) de outras
formas de habitar o mundo, com base nos eixos de opressão e privilégio.
O tema do trabalho sexual e o marcador da rua aparecem nos dois trabalhos como
analisadores importantes de um processo em que a violência estrutural empurra essas mulheres
para lugares de precarização onde a escolha é muito mais uma não escolha. Analisadores que
nos fazem sair da lógica binária do certo ou errado, do bom e ruim para aprofundar e
complexificar a aproximação com as histórias de vida dessas mulheres. Entretanto, por meio
de diferentes práticas e redes de resistência e agência, as mulheres trans e travestis conseguem
se ressubjetivar, gerando um conjunto de identidades fluidas e contraditórias que conseguem
coexistir. Nesse sentido, as práticas de autoatenção (Menéndez, 2016), as redes formais de
solidariedade, mas também as informais geradas por subjetividades dissidentes, são
fundamentais. Propõe-se que a produção do sofrimento que tivemos contato trata-se de um
sofrimento encruzilhado (Solaterrar, 2020), que é gestado na intersecção entre os itinerários de
vulnerabilização e os itinerários de encruzilhamento. Por fim, ambos os trabalhos destacam
como o envolvimento de mulheres trans e travestis em locais de atendimento, seja como
usuárias, seja como trabalhadoras, permite; por um lado, o empoderamento de subjetividades
dissidentes e, por outro, o desenvolvimento de práticas que, a partir do conhecimento situado
(Haraway, 1988), são capazes de compreender e responder à complexidade das necessidades
de saúde das pessoas envolvidas (Da Mosto, 2023).

Aprendizados e Análise Crítica


Esta pesquisa oferece uma perspectiva profunda e intersetorial sobre saúde mental,
transexualidade e prostituição, examinando estratégias de enfrentamento, resistência e
autoatenção. Ela contribui para uma maior compreensão dos desafios enfrentados pelas pessoas
envolvidas e oferece insights para promover uma visão mais inclusiva e respeitosa de suas
experiências e identidades.
Referências Bibliográficas
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276, 2006.
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Global. Universitat Rovira i Virgili. 2023.

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Sofferenza Sociale, v. 8, n. 2, p. 17-49, 2006.

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Estadual do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro, 2020.
Relato de Pesquisa

Enfrentamento da violência doméstica e seus agravos para a saúde através dos


grupos reflexivos para autores de violência

Marina Barbosa Cabral 179


e Jade Martins Leite Soares 180

Palavras-chave: violência de gênero; lei Maria da Penha; masculinidades; psicologia jurídica;


grupo reflexivo.

Contextualização
De acordo com os dados do 17º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, houve um
crescimento de todas as formas de violência contra a mulher em 2022. O número de denúncias
em delegacias de polícia se refere a cerca de 673 casos por dia. Ademais, a violência doméstica
é um problema de saúde pública, que causa prejuízos à saúde da mulher, da família e da
sociedade, sendo cerca de 40 mil mulheres atendidas no Sistema Único de Saúde ao ano por
motivos relacionados à violência (SILVA, et al, 2018). A Lei Maria da Penha (LMP) trouxe
mecanismos para coibir e prevenir essa violência, sendo uma dessas medidas o
comparecimento obrigatório do agressor a programas de recuperação e reeducação – os Grupos
Reflexivos (Lei nº 11.340/06, art. 45). Diante das informações e dados que evidenciam a
violação de direitos das mulheres no âmbito doméstico e familiar, enquanto um problema
sociocultural, de saúde e de políticas públicas, a presente pesquisa parte da necessidade de
estudar os grupos reflexivos para os homens que participam da medida alternativa e as
contribuições dos mesmos para o enfrentamento da violência contra a mulher.

Objetivos
O principal objetivo da pesquisa é estudar o Grupo Reflexivo enquanto mecanismo de
enfrentamento à violência contra a mulher. Caracterizar discursos e compreensões sobre
gênero, violência e experiências de vida, a partir das discussões, reflexões e histórias
compartilhadas durante os encontros, articuladas aos referenciais teóricos da pesquisa.

Metodologia
O trabalho foi realizado a partir do acompanhamento dos grupos reflexivos e da
produção de diários de campo elaborados por estagiários do projeto de pesquisa “Violência no
âmbito das relações familiares”, que acompanham encontros dos grupos reflexivos para autores
de violências vinculado ao Núcleo de Penas e Medidas Alternativas (NUPEM) do I Juizado de

179
Graduanda de Psicologia pelo Instituto de Psicologia na Universidade Federal do Rio de Janeiro;
[email protected]
180
Mestranda em Psicologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), psicóloga pela mesma
instituição, especialista em Saúde Pública pela Escola Nacional de Saúde Pública Sérgio Arouca (ENSP/Fiocruz)
e em Saúde Mental e Atenção Psicossocial também pela instituição, além de bacharel em Direito pela Universidade
do Estado do Rio de Janeiro (UERJ); [email protected]
Violência Doméstica e Familiar Contra a Mulher do Rio de Janeiro (I JVDFM/RJ). Para o
estudo foram considerados grupos realizados em 2023, com a participação de cerca de 8
homens. Os 8 encontros de cada grupo, eram mediados por um psicólogo e uma assistente
social. Além dos diários de campo, referenciais teóricos sobre violência de gênero e
masculinidades basearam a pesquisa.

Resultados e Discussão
A partir de metodologias derivadas de Paulo Freire, os grupos reflexivos têm como
objetivo geral a desamarração da conexão entre masculinidades e violência (BEIRAS, et al.
2021). Muitos homens iniciam o contato com o grupo posicionando-se como injustiçados, seja
por não reconhecerem a violência cometida ou por negarem qualquer ato de violência contra
outrem. Chauí (2011) aponta que a sociedade brasileira é marcada pelo mito da não-violência.
Muitas violências não são consideradas como tais, acredita-se que a nação brasileira não é
violenta, portanto, qualquer violência praticada não constitui parte da nação, assim cria-se a
ideia de que “eles” – “os criminosos”, “os violentos” e afins, não fazem parte de “nós” – “os
trabalhadores”, “os cidadãos de bem”. Tal imaginário social é identificado na fala dos autores
de violência que participam do Grupo Reflexivo, eles não concebem que a violência cometida,
seja ela física ou não, é caracterizada como violenta ou como um crime. Deste modo, produzem
comportamentos, ideias e valores como se não fossem violentos (CHAUÍ, 2011), e através das
falas recorrentes nos grupos é possível verificar uma naturalização da opressão contra a mulher.
Ao longo dos 8 encontros os homens têm a oportunidade de refletir sobre questões de gênero,
se responsabilizar sobre os fatos violentos vivenciados, conhecer os aspectos fundamentais da
lei, do ciclo da violência presente nas relações conjugais, entre outros temas que se relacionam
com o rompimento de violências, sobretudo a de gênero. Ao final dos encontros é possível
perceber a mudança de perspectiva dos homens sobre a relação entre masculinidade e violência,
e, de modo geral, os participantes passam a ter maior conscientização sobre comportamentos
sexistas e misóginos. Assim, os grupos reflexivos com a implicação dos autores de violência
se constituem como um importante mecanismo de enfrentamento a violência de gênero e os
seus agravos.

Aprendizados e Análise Crítica


Acreditamos que por meio das reflexões suscitadas, é possível minimizar a repetição
da violência e seus efeitos, seja para as mulheres ou para os homens que passam a desassociar
seu papel à superioridade frente à mulher e como naturalmente agressivo. Além disso, o espaço
do grupo oferece aos participantes um espaço de escuta, identificação e compartilhamento de
experiências, assim como construção de novas formas de se relacionar e entender a violência
de gênero. Dessa forma, além de enfrentarem a violência, os Grupos Reflexivos são uma
ferramenta para o entendimento de que homens também são afetados pela masculinidade
hegemônica.

Referências Bibliográficas
BEIRAS, Adriano; MARTINS, Daniel Fauth Washington; SOMMARIVA, Salete Silva;
HUGIL, Michelle de Souza Gomes. Grupos reflexivos e responsabilizantes para homens
autores de violência contra mulheres no Brasil: Mapeamento, análise e recomendações. Edição
Eletrônica, Florianópolis, 2021. Disponível em: https://ovm.alesc.sc.gov.br/wp-
content/uploads/2021/11/grupo-reflexivo.pdf. Acesso em: 2 de out. 2023.

BRASIL. Lei Maria da Penha. Lei N.°11.340, de 7 de Agosto de 2006. Disponível em:
https://presrepublica.jusbrasil.com.br/legislacao/95552/lei-maria-da-penha-lei-11340-06.
Acesso em: 2 de out. 2023.
CHAUÍ, Marilena. Ética e Violência no Brasil. Revista Bioethikos, Centro Universitário São
Camilo, v. 5, n4, p.378-383, 2011. Disponível em: http://www.saocamilo-
sp.br/pdf/bioethikos/89/A3.pdf. Acesso em: 5 de out. 2023.

FÓRUM BRASILEIRO DE SEGURANÇA PÚBLICA. 17º Anuário Brasileiro de


Segurança Pública. São Paulo: Fórum Brasileiro de Segurança Pública, 2023. Disponível em:
https://forumseguranca.org.br/wp-content/uploads/2023/07/anuario-2023.pdf. Acesso em: 2
out. 2023.

SILVA, Andrey Ferreira, et al. Reflective group contributions to coping with marital violence:
a descriptive study. Online Brazilian Journal of Nursing. v. 17 n. 2, p. 210-219, 2018.
Disponível em: https://www.objnursing.uff.br/index.php/nursing/article/view/5982/html_2.
Acesso em: 7 out. 2023.
Relato de Experiência

Formação de vínculo no contexto atual da atenção primária: um relato de


experiência

Andréia Augusto dos Santos 181

Palavras-chave: atenção primária à saúde; pandemia da COVID-19; saúde; usuário; vínculo.

Contextualização
A experiência ocorreu em uma unidade de saúde que possui eAB (equipe de Atenção
Básica) e eSF (equipe Saúde da Família), em um território de grande vulnerabilidade na zona
portuária, região metropolitana do Estado do Rio de Janeiro. Passados mais de três anos fora da
assistência direta na APS (Atenção Primária à Saúde), tive acesso ao local durante a realização
de uma pesquisa. A vivência ocorreu através da observação de usuários do serviço, com ênfase
para a formação de vínculos entre o trabalhador e a comunidade.

Descrição
A vivência foi apoiada na observação durante reencontros eventuais e saudosos com
usuários do serviço, durante as visitas que realizei como pesquisadora na unidade. Os encontros
ocorreram no hall de entrada, acomodações de espera e áreas externas na própria unidade, com
a percepção sobre o momento pandêmico e o momento atual, com ênfase para a formação de
vínculos entre o trabalhador e a comunidade.

Período de Realização
Ocorreu durante os meses de maio a setembro de 2023. Período de grande importância
no contexto político, pós-pandemia e posterior a reformulação da nova PNAB (Política
Nacional de Atenção Básica) de 2017, que causou transtornos aos usuários do serviço,
trabalhadores, com alteração de fluxos assistenciais, saída de trabalhadores e outras alterações
importantes para APS.

Objetivos
A percepção sobre a formação de vínculo entre o trabalhador e os usuários do serviço
de saúde de seu território de abrangência, relacionando o momento da pandemia e pós-
pandemia, para a construção da saúde na APS.

181
Graduada em Enfermagem pela UERJ; Mestranda em Saúde Coletiva do Instituto de Saúde Coletiva - UFF;
Enfermeira da UFF; Enfermeira da SMS do Município do Rio de Janeiro; [email protected]
Resultados
Perda de vínculo entre trabalhadores e usuários na pandemia, com atuais
reaproximações. Distanciamento social, com apelo “Fique em Casa”, restrições de acesso à
APS por mudanças nos fluxos de atendimentos, afastamentos de trabalhadores devido à
COVID-19. Para diminuir os riscos de contaminação e adoecimento em um momento de
emergência sanitária, optou-se por restrições de atendimentos, o que levou os usuários a se
tornarem “órfãos” temporariamente da unidade de saúde, prejudicando vínculos. Mesmo com
os efeitos benéficos do distanciamento, quando pensamos nas comunidades mais carentes, com
a ausência do estado, prevalência da violência e possível aumento de doenças crônicas,
observamos como as vivências foram heterogêneas (MALCHER et al., 2021).
Alta rotatividade de trabalhadores da APS. Fracos vínculos empregatícios, sobrecarga
de trabalho e violência no território, além do destaque para a nova PNAB. Nela é possível notar
mudanças que promoveram a relativização da cobertura universal, alterações nas equipes,
redução da carga horária dos profissionais, diminuição de ACS, entre outras (MOROSINI;
FONSECA; LIMA, 2018).
Ainda sobre a formação de vínculo, o uso de tecnologias leves deve ser priorizado em
relação às duras e leves-duras, pois são baseadas nas relações, visto que o espaço relacional
entre os sujeitos, proporciona a formação de vínculos, acordos, além de outras trocas para a
saúde (MERHY, 2000). O aprendizado entre trabalhador e usuário, proporciona a criação mútua
do conhecimento entre os sujeitos e através dos múltiplos encontros, sofrem transformações
sensíveis ao longo da vida, os problemas são ressignificados, aprimorando as formas de cuidar
da saúde, o acolhimento, a construção de vínculos e o compartilhamento de conhecimentos
(FRANCO, 2015).

Aprendizados e Análise Crítica


Recentemente, se destacou a necropolítica, quando pessoas que vivenciaram o mesmo
período histórico, apresentam realidades extremamente diferentes e a crise na pandemia
evidenciou ainda mais as desigualdades sociais (BASTOS et al., 2020). Posto isto, as
percepções apontam para uma APS, a qual apresentou grande rotatividade de trabalhadores,
afastamentos e dificuldades no acesso, o que dificultou a formação de vínculos. Apresenta
reorganização atual das atividades rotineiras, captando as demandas reprimidas, melhorando a
relação do trabalhador com os usuários. A nova PNAB agravou o período de urgência,
insegurança e medo causado pela COVID-19. A diminuição na quantidade de trabalhadores,
normalmente torna o trabalho mais técnico, diminuindo as oportunidades do cuidado relacional
em um momento difícil para a população, seja por dificuldades socioeconômicas, de
infraestrutura ou saúde.
Gestores e trabalhadores assistencialistas devem priorizar as tecnologias leves,
propiciando acordos, trocas de experiências, ensinamentos mútuos e cuidados mais próximos
da realidade dos usuários, que possam ser negociados, adaptados e que realmente possam ser
introduzidos nos processos de cuidar da saúde no cotidiano dessas pessoas. Esses conceitos
devem ser introduzidos na academia e posteriormente, através da educação permanente. A
formação de vínculo, fortalece os laços, permitindo escolhas, proporcionando uma maior
participação da comunidade no cuidado e bons resultados para a saúde.
Referências Bibliográficas
BASTOS, M. A. de P. C. et al. O ESTADO DE EXCEÇÃO NAS FAVELAS: perspectivas
biopoliticas a partir da pandemia do covid-19. Revista Augustus, [S. l.], v. 25, n. 51, p. 113–
129, 3 jun. 2020. Disponível em:
https://revistas.unisuam.edu.br/index.php/revistaaugustus/article/view/564. Acesso em: 18 dez.
2021.

FRANCO, T. B. Trabalho criativo e cuidado em saúde: um debate a partir dos conceitos de


servidão e liberdade. Saúde e Sociedade, São Paulo, v. 24, n. suppl 1, p. 102–114, jun. 2015.
Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-
12902015000500102&tlng=pt. Acesso em: 1 jul. 2022.

MALCHER, C. M. S. R. et al. Mapa conceitual e desafios da promoção à saúde na pandemia /


Conceptual map and challenges of health promotion in pandemia. Brazilian Journal of Health
Review, [S. l.], v. 4, n. 1, 8 jan. 2021. Disponível em:
https://www.brazilianjournals.com/index.php/BJHR/article/view/22733. Acesso em: 19 set.
2021.

MERHY, E. E. Um ensaio sobre o médico e suas valises tecnológicas: contribuições para


compreender as reestruturações produtivas do setor saúde. Interface - Comunicação, Saúde,
Educação, [S. l.], v. 4, n. 6, p. 109–116, fev. 2000. Disponível em:
http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1414-
32832000000100009&lng=pt&tlng=pt. Acesso em: 1 jul. 2022.

MOROSINI, M. V. G. C.; FONSECA, A. F.; LIMA, L. D. de. Política Nacional de Atenção


Básica 2017: retrocessos e riscos para o Sistema Único de Saúde. Saúde em Debate, [S. l.], v.
42, p. 11–24, mar. 2018. Disponível em:
http://www.scielo.br/j/sdeb/a/7PPB5Bj8W46G3s95GFctzJx/?lang=pt. Acesso em: 22 mar.
2023.
Relato de Pesquisa

Homícidio-suicídio: masculinidades, letalidade e adoecimento mental

Gabriel de Almeida Belmonte 182,


e Aryelle Patricia da Silva 183

Palavras-chave: homicídio; suicídio; masculinidades; letalidade; segurança pública;


adoecimento mental.

Contextualização
O trabalho é resultado dos encontros do Grupo de Estudos em Saúde Mental e
Segurança Pública do Instituto de Pesquisa, Prevenção e Estudos em Suicídio (IPPES),
realizados entre 2021 e 2023. As reuniões do grupo se configuram como espaços de discussões
sobre temáticas que integram as linhas de pesquisa do Laboratório de Estudos de Violência e
Saúde Mental do IPPES. Os participantes têm formação nas áreas de sociologia, segurança
pública, psicologia, psiquiatria e educação, de forma geral. Este relato de pesquisa, por sua vez,
concentra-se na discussão dos comportamentos de homicídio-suicídio (h/s) a fim de
compreendê-lo no contexto brasileiro contemporâneo e nos debates sobre saúde mental,
recorrendo aos registros das ocorrências de h/s no Brasil, entre 2022 e 2023 e na literatura
especializada.

Objetivos
A proposta do trabalho é refletir sobre os comportamentos de h/s a partir dos
desdobramentos das masculinidades e saúde mental no Brasil.

Metodologia
O grupo de trabalho iniciou suas discussões a partir de estudos de referência acerca do
h/s e em articulação com os encontros mensais do grupo compartilhando reflexões, vivências,
notícias relacionadas aos temas centrais ou relacionados, e colaborações científicas individuais
e multidisciplinares advindas de cada formação. Além disso, outras produções foram
acionadas, bem como, foi iniciado o levantamento de ocorrências, a partir do recorte temporal
de 2022 e setembro de 2023.

182
Psicólogo, mestre e doutorando pelo Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva do Instituto de Medicina
Social da Universidade do Estado do Rio de Janeiro; Francisco Javier
Ortega;[email protected]
183
Psicóloga e mestranda em Psicologia; Universidade Federal de Pernambuco; Sintria Labres Lautert;
[email protected]
Resultados e Discussão
Entre janeiro de 2022 e setembro de 2023, foram registrados on-line 75 casos de
homicídio-suicídio no Brasil, em sites e portais de notícias. Desses, apenas 9 casos tiveram
mulheres na perpetração da violência, enquanto 64 homens foram responsáveis pelos atos de
violência. Em um caso, a polícia não distinguiu o praticante do h/s em um casal. Os
comportamentos associados a relações conjugais heteronormativas são representados por 57
ocorrências ao lado de um homoafetivo. Além disso, há ocorrências familiares em 20 casos,
atravessados, por sua vez, a filicídio (12) e parricídio (3).
Em 46 casos, foi utilizado arma de fogo para a prática da violência contra o outro e
contra si. Inclusive, 13 ocorrências foram perpetradas por profissionais da segurança pública,
como policiais civis, sendo 11 homens e 2 mulheres. A maioria das vítimas são mulheres,
enquanto o gênero masculino assume protagonismo no papel de violentador. Foram 61
mulheres e 29 homens vitimizados pelas violências praticadas por 10 mulheres e 64 homens
através de comportamentos de h/s. Além disso, de todos os casos apenas 14 ocorrências tiveram
sobreviventes, sendo 10 vítimas (6 mulheres e 4 homens) e 5 perpetradores da violência (1
mulher e 4 homens), implicados nas tentativas de homicídio de uma ou mais pessoas, sucedido
pelo suicídio do perpetrador.

Aprendizados e Análise Crítica


Torna-se necessário discernir o h/s das definições comuns de homicídio e suicídio,
trazendo as especificidades para sua compreensão e formas de atuar, como as distinções de
feminicídio, filicídio e parricídio conjugados ao homicídio. A saturação dos h/s junto de
violências de gênero, associadas a elementos de poder, podem ser entendidos no encontro com
a cultura patriarcal. São violências atravessadas por questões de gênero e sexualidade visto
que, em maioria como o levantamento demonstra, são cometidas por homens contra mulheres
em contextos de relacionamentos afetivos finalizados ou não. Demarcados por elementos como
a posse e ciúme (Teixeira, 2009), os casos de h/s associados a relações de gênero e sexualidade
são influenciados e influenciadores da cultura patriarcal, cujo discernimento alinha-se às
teorias da dominação masculina (Femenías, 2008). Apontam para um histórico social e
imaginário de domínio sobre o corpo e o significado feminino, além de um fator agravante da
eliminação como mecanismo de defesa (Souza, 2020). Os homens perpetradores também
acabam sendo vítimas da sua incapacidade de lidar com perdas e abandonos (Teixeira, 2009).
A partir disso, é possível refletir sobre homens imersos em uma cultura de
masculinidade, na qual há uma negação de direito à administração dos sentimentos próprios,
reduzindo sua capacidade de mediar conflitos por meio do diálogo e avançando a um “direito”
à violência (Santos, 2017) contra o outro e contra si mesmo. O problema do h/s e suas
especificidades deve ser entendido como emergente e estruturante, demandando reflexões e
ações preventivas e de posvenção. Ademais, buscar desenvolver integrações interdisciplinares
de intervenção, considerando a complexidade de tal questão de saúde e segurança pública. Com
isso, este trabalho busca auxiliar diretamente no discernimento e enfrentamento dos
comportamentos e seus impactos nas dimensões sociais e pessoais, mas também, e
fundamentalmente, epidemiológicas, sociais e políticas da saúde. A fim de desenvolver espaços
de diálogo e prevenção de habilidades socioemocionais, promoção de saúde mental a partir das
masculinidades e gerar conhecimento para o desenvolvimento de políticas públicas contra o
h/s e as violências de gênero e familiar, impulsionando formas saudáveis de masculinidades.
Referências Bibliográficas
FEMENÍAS, María Luisa. Violencia contra las mujeres: urdimbres que marcan la trama. En:
FEMENÍAS, María Luisa; APONTE SÁNCHEZ, Élida. Articulaciones sobre la violencia.
La Plata: Universidad Nacional de La Plata, 2008. Disponível em:
http://sedici.unlp.edu.ar/handle/10915/35346

SANTOS, Rosângela da Silva. A violência doméstica e familiar contra a mulher sob a ótica
dos profissionais de segurança pública. Dissertação (Mestrado em Ciências Sociais) -
Universidade Federal de Campina Grande, Centro de Humanidades, Campina Grande, 2017.

SOUZA, Adilson Paes de. O policial que mata: um estudo sobre a letalidade praticada por
policiais. Tese (Doutorado em Psicologia Escolar e do Desenvolvimento Humano) - Instituto
de Psicologia, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2020.

TEIXEIRA, Analba Brazão. Nunca você sem mim: homicidas-suicidas nas relações afetivo-
conjugais. São Paulo: Annablume, 2009.
Relato de Pesquisa

Muito além do trauma: uma investigação sobre o papel das reações


peritraumáticas sobre o transtorno de estresse pós-traumático

Leticia Rocha Pereira 184,


Michael Eduardo Reichenheim 185,
e Evandro da Silva Freire Coutinho 186

Palavras-chave: Transtorno de estresse pós-traumático. Reações peritraumáticas.


Imobilidade tônica. Dissociação. Pânico. Culpa. Vergonha.

Contextualização
Experiências traumáticas são comuns ao redor do mundo [1]. No entanto, apenas uma
fração dos indivíduos que passa por um trauma desenvolve transtornos mentais, como o
Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT) [2]. O TEPT é uma condição debilitante que
impacta significativamente a qualidade de vida dos seus portadores. A doença também está
associada a outros transtornos mentais, como ansiedade e depressão, além de comorbidades
como doenças autoimunes e gastrointestinais [3,4].
Dentre vários fatores de risco para o TEPT, as reações peritraumáticas (RP), como a
imobilidade tônica peritraumática (ITP), dissociação (DP) e reações físicas de pânico (RFP),
estão entre as mais investigadas. Essas reações foram associadas a um aumento do risco de
TEPT, a desenvolver uma forma mais grave da doença e com pior prognóstico [5–8]. No
entanto, a maioria dos estudos avaliou essas RP separadamente, e o elo entre as RP e o TEPT
ainda não foi bem compreendido. Uma hipótese concerne ao sentimento de culpa e vergonha
desenvolvidos após a experiência traumática, especialmente quando a RP exibida inibe a
capacidade de o indivíduo combater seu agressor, gritar, se mover ou correr [9,10]. Como a ITP
reúne essas características, a reação é uma candidata plausível a ser investigada nesse caminho
da reação ao TEPT sendo mediada pela culpa/vergonha [10].
A investigação das RP é um dos caminhos para entendermos melhor os mecanismos
causais desse transtorno mental. Esse entendimento pode trazer novas possibilidades e
direcionamento de abordagens terapêuticas que aliviem os sintomas do transtorno ou reduzam
os riscos de sua ocorrência. Essa busca foi a força motriz de nossa investigação.

184
Doutoranda pelo Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva do Instituto de Medicina Social da
Universidade do Estado do Rio de Janeiro; orientadores Evandro da Silva Freire Coutinho e Michael Eduardo
Reichenheim; [email protected]
185
Professor Associado; Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva do Instituto de Medicina Social da
Universidade do Estado do Rio de Janeiro; [email protected]
186
Professor Associado; Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva do Instituto de Medicina Social da
Universidade do Estado do Rio de Janeiro; [email protected]
Objetivos
Estimar simultaneamente o efeito das três RP sobre o TEPT utilizando um instrumento
validado, explorar possíveis interações entre as RP e avaliar se há efeito indireto da ITP sobre
o TEPT mediado pelo sentimento de culpa/vergonha.

Metodologia
Utilizamos modelagem de equações estruturais para analisar dados de 3.211
participantes do Estado do Rio de Janeiro e de São Paulo. Tratamos as RP como variáveis
latentes, selecionando desconfundidores específicos para cada reação, incluindo sexo, tipo de
trauma, intensidade do pior trauma, número de experiências traumáticas e número de diferentes
tipos de trauma. Nossas exposições foram as RP, TEPT foi o desfecho e culpa/vergonha a
variável mediadora. Obtivemos odds ratios e intervalos de confiança de 95%. Para as análises
de mediação utilizamos efeitos contrafactuais decompostos. Empregamos o Bayesian
Information Criterion para comparar o ajuste dos modelos.

Resultados e Discussão
Quando analisadas separadamente, todas as RP alcançaram significância estatística. No
entanto, apenas DP (ORDP=1,8; IC95%:1,3-2,4) e RFP (ORRFP=2,5; IC95%:1,8-3,4)
permaneceram estatisticamente significativas quando incluímos as três reações em um modelo
com seus respectivos desconfundidores e as correlações entre elas. A ITP alcançou significância
estatística limítrofe, com nossos resultados sugerindo um possível efeito dessa RP sobre o TEPT
(ORITP=1,4; IC95%:1,0-1,9). Nenhuma das interações entre as RP foi estatisticamente
significativa.
Ao investigarmos culpa/vergonha como mediadora entre ITP e TEPT, o efeito indireto
alcançou apenas significância estatística limítrofe (ORITP(TNIE)=1,1; IC95%:1,0-1,2). Os efeitos
direto (ORITP(PNDE)=1,3; IC95%: 0,8-1,8) e total (ORITP(TE)=1,4; IC95%:0,9-1,9) para ITP
perderam significância quando todas as RP, seus desconfundidores e correlações entre elas
fizeram parte do mesmo modelo. As demais RP, no entanto, permaneceram estatisticamente
significativas (ORDP=1,7; IC95%:1,3-2,3 e ORRFP=2,5; IC95%:1,8-3,4).
Nossos resultados mostraram que a DP e as RFP aumentaram o risco de TEPT mesmo
quando consideradas em conjunto. A ITP pode ter efeito sobre o risco de TEPT, mas esse
achado deve ser interpretado com cautela devido à significância limítrofe dessa RP em nosso
modelo final. Os achados na análise de mediação sugerem que pode haver um pequeno efeito
da ITP mediado pela culpa/vergonha. Identificamos uma significância estatística limítrofe para
esse efeito, mas investigações adicionais são necessárias. Novamente, DP e RFP permaneceram
estatisticamente significativas em todos os modelos.

Aprendizados e Análise Crítica


Nossos achados reforçam a hipótese de que as reações peritraumáticas devem ser
analisadas e compreendidas como ocorrências simultâneas. Seria oportuno que estudos
envolvendo culpa/vergonha, ITP e TEPT focalizassem traumas caracterizados por
aprisionamento e impossibilidade de escapar, dado que estas experiências são apontadas como
mais susceptíveis para desencadear a ITP. Investigações futuras também se beneficiariam do
uso de um instrumento único para avaliar a ocorrência de múltiplas RP, evitando a sobreposição
de itens dos questionários.
Referências Bibliográficas
[1] BENJET, Corina et al. The epidemiology of traumatic event exposure worldwide: results
from the World Mental Health Survey Consortium. Psychological medicine, v. 46, n. 2, p.
327-343, 2016.

[2] KESSLER, Ronald C. et al. Trauma and PTSD in the WHO world mental health
surveys. European journal of psychotraumatology, v. 8, n. sup5, p. 1353383, 2017.

[3] PACELLA, Maria L.; HRUSKA, Bryce; DELAHANTY, Douglas L. The physical health
consequences of PTSD and PTSD symptoms: a meta-analytic review. Journal of anxiety
disorders, v. 27, n. 1, p. 33-46, 2013.

[4] Longo MS de C, Vilete LMP, Figueira I, Quintana MI, Mello MF, Bressan RA, et al.
Comorbidity in post-traumatic stress disorder: A population-based study from the two largest
cities in Brazil. J Affect Disord [Internet]. 2020; 263:715–21. Available from:
https://doi.org/10.1016/j.jad.2019.11.051

[5] FISZMAN, Adriana et al. Peritraumatic tonic immobility predicts a poor response to
pharmacological treatment in victims of urban violence with PTSD. Journal of Affective
Disorders, v. 107, n. 1-3, p. 193-197, 2008.6.

[6] LIMA, Alessandra A. et al. The impact of tonic immobility reaction on the prognosis of
posttraumatic stress disorder. Journal of psychiatric research, v. 44, n. 4, p. 224-228,
2010.Available from: http://dx.doi.org/10.1016/j.jpsychires.2009.08.005

[7] OZER, Emily J. et al. Predictors of posttraumatic stress disorder and symptoms in adults: a
meta-analysis. Psychological bulletin, v. 129, n. 1, p. 52, 2003.

[8] FIKRETOGLU, Deniz et al. Peritraumatic fear, helplessness and horror and peritraumatic
dissociation: Do physical and cognitive symptoms of panic mediate the relationship between
the two?. Behaviour research and therapy, v. 45, n. 1, p. 39-47, 2007.

[9] PUGH, Lauren R.; TAYLOR, Peter J.; BERRY, Katherine. The role of guilt in the
development of post-traumatic stress disorder: A systematic review. Journal of affective
disorders, v. 182, p. 138-150, 2015.

[10] BOVIN, Michelle J. et al. Does guilt mediate the association between tonic immobility
and posttraumatic stress disorder symptoms in female trauma survivors?. Journal of
Traumatic Stress, v. 27, n. 6, p. 721-724, 2014.
Relato de Experiência

Na cápsula do fuzil ou do Rivotril? O trabalho profissional do Assistente Social


em situações de violência policial e de negação à Política de Saúde Mental

Paulo Henrique Ambrozio Polonine 187

Palavras-chave: prisões; reforma psiquiátrica; saúde mental; serviço social; violência.

Contextualização
Em 2023 a Chacina da Candelária completou 30 anos e o artigo "Quando o Camburão
chega antes do SAMU: Notas sobre os procedimentos técnicos – operativos do Serviço Social”,
de Tânia Dahmer Pereira (2010), continua sendo referência para assistentes sociais que atuam
no sociojurídico. O mesmo expõe a trajetória de Jota, uma criança sobrevivente da chacina em
questão. Jota, pessoa com transtorno mental, foi presa na vida adulta, em 2002, ao invés de ser
encaminhada para a rede de saúde mental. O fato ocorreu um ano após a Lei da Reforma
Psiquiátrica (Lei Nº 10.216, BRASIL). Com isso, mostra-se notória a criminalização da
“loucura” e a condução coercitiva das prisões por parte do Poder Judiciário. De acordo com
Lopes (2019), os indivíduos que não são capazes de entender o caráter do fato ilícito por eles
praticado, precisam ser encaminhados para rede pública de saúde, pois precisam ser tratados e
não punidos.
Em nosso cotidiano profissional na Central de Audiências de Custódia da Capital,
constantemente atendemos pessoas que foram presas com algum tipo de transtorno mental,
algumas já referenciadas em equipamentos de atenção psicossocial, outras sem nenhum suporte
médico e assistencial. Compreende-se, portanto, que Jota, assim como centenas de pessoas que
são presas diariamente, padecem de políticas públicas eficientes para resolução de suas
problemáticas.

Descrição
A experiência foi realizada por meio de análise qualitativa de artigos, livros e
legislações sobre a temática, que posteriormente foram comparados com os atendimentos
realizados e com os relatos apresentados pelas pessoas custodiadas que apresentavam questões
relacionadas à saúde mental. A experiência profissional ocorreu na Central de Audiências de
Custódia da Capital, localizada no Complexo Prisional de Benfica, bairro da cidade do Rio de
Janeiro.

Período de Realização
O relato de experiência corresponde ao período de julho de 2021 a março de 2022.

187
Bacharel em Serviço Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro; Assistente Social Residente do
Programa em Saúde Coletiva da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo; [email protected]
Objetivos
Comparar o artigo Quando o Camburão chega antes do SAMU: Notas sobre os
procedimentos técnicos – operativos do Serviço Social de Tânia Dahmer Pereira (2010), que
relata o acompanhamento social de uma sobrevivente da Chacina da Candelária, com o
cotidiano de trabalho dos assistentes sociais na Central de Audiências de Custódias da Capital
- CEAC/RJ.

Resultados
O artigo relatado é usado como referência por assistentes sociais que atuam em
presídios, Tribunais de Justiça etc., e ele aponta para três políticas públicas bastante utilizadas
pela população, a saber: Política de Justiça Criminal, Política Penal e a Política de Saúde
Mental. Ao compararmos o caso de Jota com os atendimentos realizados na Central de
Audiências de Custódia, se constrói uma reflexão crítica acerca dos sujeitos inimputáveis e
usuários da política pública de saúde mental, ao mesmo tempo em que aborda a complexidade
e a contradição existente na sociedade capitalista, na qual Estado e Mercado estão presentes no
cotidiano de profissionais e usuários, na dinâmica e no processo societário; mas, onde é cabível
a defesa dos direitos sociais, tais como o direito à saúde, à moradia e a políticas sociais
universais.

Aprendizados e Análise Crítica


O compromisso político da ação profissional do Serviço Social em casos de violência,
prisão e saúde mental revela o potencial ético-político com os usuários atendidos na Central de
Audiência de Custódia de Benfica, que por vezes pode aparecer em seu caráter imediatista, que
recai constantemente sobre a profissão do assistente social. Segundo Pereira (2010), é
necessário um trabalho diário de apropriação da produção teórica sobre a problemática e
principalmente o entendimento de que cada momento histórico exige demandas e respostas
diferentes.
A construção de uma prática compromissada com os interesses das classes mais
pauperizadas e desprotegidas requer apropriação de uma teoria social crítica. Foucault (2014),
em suas análises, indicava que todos os delitos e crimes eram punidos de maneira mais
uniforme, e observava como o aprisionamento era adotado como o único remédio para todas
as doenças, ou seja, um remédio que não curava. Michel Foucault foi um teórico considerado
como referência nos estudos e esclarecimentos sobre a loucura, a prisão e as instituições
políticas, elementos trabalhados neste relato de experiência. Mas não se deve esquecer do
caráter crítico refletido em práticas profissionais comprometidas com a ampliação de serviços
públicos de saúde que sejam universais, integrais e que produzam equidade.

Referências Bibliográficas
BRASIL. MINISTÉRIO DA SAÚDE. Lei n.º 10.216, de 06 de abril de 2001. Dispõe sobre a
proteção e os direitos das pessoas portadoras de transtornos mentais e redireciona o modelo
assistencial em saúde mental. Lex-Legislação em Saúde Mental, Brasília, 2001.

FORTI, Valéria; GUERRA, Yolanda. Serviço Social: temas, textos e contextos. Rio de
Janeiro: Lúmen Júris, 2010.
FOUCAULT, Michel. Vigiar e Punir. Tradução: Raquel Ramalhete. 42. ed. Petrópolis:
Vozes, 2014.
LOPES, Ariadne Villela. (Manicômios judiciários, justiça e saúde mental em debate na Escola
Nacional de Saúde Pública Sérgio Arouca da Fiocruz). Rio de Janeiro: FIOCRUZ, 2019.
Disponível em https://www.youtube.com/watch?v=56cmh3lRRvo. Acesso em: setembro de
2023.

PEREIRA, Tânia Maria Dahmer. Quando o camburão chega antes do SAMU: notas sobre os
procedimentos técnico-operativos do Serviço Social. Serviço Social: temas, textos e
contextos, v. 4, p. 163-182, 2013.
Relato de Experiência

Programa extensionista mulherio: tecendo redes de resistência e cuidados - a


extensão como prática pedagógica revolucionária

Paula Land Curi 188


e Paloma Lima Ramos Jashar 189

Palavras-chave: formação profissional; práticas de estágio e extensão; estratégias pós


pandêmicas; políticas públicas; violência de gênero.

Contextualização
As linhas que conduzem à estruturação do Programa Extensionista Mulherio: Tecendo
redes de resistência e cuidados apontam a importância da luta por uma psicologia feminista na
graduação. É através de uma procura das alunas que os trabalhos que precedem o Programa se
iniciam, revelando que, embora o tema esteja largamente presente no campo social, sua
presença nos cursos de psicologia é tímida e recente. Em 2020 operávamos a reunião dos
projetos oriundos dessa demanda no Programa Mulherio quando a COVID-19 chegou,
impondo que reinventássemos os métodos de trabalho, ante o imperativo do distanciamento
social. Com a chegada das vacinas, o imperativo passou a ser a transição do remoto ao
presencial em um mundo que já não é mais como era. O que se mantém, antes, durante e depois
do pico da pandemia, é a realidade endêmica da violência de gênero contra as mulheres e
meninas, outra linha que aponta a importância de uma formação feminista das psicólogas e
psicólogos que terão como campo de suas práticas esse novo-velho mundo patriarcal.

Descrição
Sendo o objetivo desta experiência operar tanto pela formação de profissionais da
psicologia sensíveis às questões de gênero, aos direitos humanos, sexuais e reprodutivos, como
também pela intervenção social na problemática da violência de gênero, o trabalho se dá via o
cuidado com a experiência formativa, bem como via inserção nos dispositivos municipais que
atendem às mulheres e meninas em situação de violência. Com essa perspectiva, expandimos
a atuação das alunas para atendimentos que se dão em equipamentos diversos da rede de
atendimento às mulheres do município de Niterói e a mulheres encaminhadas pela rede.
Também levamos a discussão da violência no namoro a escolas de ensino médio, conduzimos
à supervisão dos casos do Centro Especializado de Atendimento à Mulher neste município,
junto ao qual organizamos o Seminário de Políticas Públicas para o Enfrentamento às

188
Professora Doutora do Instituto de Psicologia da Universidade Federal Fluminense; [email protected]
189
Doutoranda pelo Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade Federal Fluminense; orientador:
Kátia Farias de Aguiar; [email protected]
Violências de Gênero Contra as Mulheres da Cidade de Niterói, além dos e-books e cartilhas
produzidos.

Período de Realização
Embora estejamos nos referindo a um Programa continuado, o período do qual dita este
relato de experiência é compreendido entre 2020 e 2023.

Objetivos
Objetivamos compartilhar as ações realizadas pelo Programa Extensionista Mulherio:
Tecendo redes de resistência e cuidados, visando não apenas a coletivização das práticas e
produtos do Programa, mas principalmente colocá-los em discussão, atentas às possibilidades
de construção de novos caminhos e/ou da atualização destas práticas formativas.

Resultados
Afirmamos como resultados dessa intervenção a Cartilha A de Adolescente, M de
Mulheres; a Cartilha Rede de Atenção a Violência Sexual contra a mulher; a Cartilha de
cuidados: Enfrentando as violências de gênero e cuidando de mulheres; os e-books Mulherio:
Memórias da Pandemia; Tecendo Redes e Transpondo Desafios; Reflexões Feministas na
Universidade; e o Seminário de Políticas Públicas para o Enfrentamento às Violências de
Gênero Contra as Mulheres da Cidade de Niterói. Não o fazemos na perspectiva de crer ser
possível quantificar em produtos o investimento na formação em uma psicologia feminista, mas
porque entendemos estes produtos como afirmação da busca de nosso Programa por fazer da
experiência formativa uma ação dialógica com a sociedade, comprometida com a
transformação social através da aposta em uma pedagogia feminista verdadeiramente
libertadora porque verdadeiramente revolucionária (HOOKS, 2019). A adesão da rede de
atendimento a mulheres e meninas do município de Niterói, o interesse das alunas, a evolução
dos casos atendidos, o retorno das instituições parceiras, são índices que se configuram também
em sinais de que esse trabalho tem tido resultados que seguem em micro revoluções que
reverberam em um horizonte de libertação.

Aprendizados e Análise Crítica


Para produzir fissuras nos “muros que separam a produção do conhecimento acadêmico
da realidade da vida cotidiana” (CURI; BAPTISTA, 2016, p.270), parte do trabalho é inserir
as alunas no campo prático, em contato com a realidade das mulheres e as rotas que percorrem
em nosso município pela busca de reparação de seu direito à vida e à dignidade. Parte
igualmente importante é sustentar esse processo em uma orientação teórica com foco na
pluralidade, no cuidado e nos direitos humanos. A provocação de uma escuta do cuidado e de
uma formação mais implicada não se pauta pela “importação cega de saberes e técnicas
produzidas em outras latitudes com pretensão de universalidade” (MAYORGA, 2018, p.25),
mas sim a partir da construção de metodologias de resistência e cuidados enraizadas no chão
de nosso cotidiano, capilarizando-se em nossas práticas, reverberando nossas existências, não
a negação imposta por séculos de pesquisa científica empreendidas por e para homens (LÖWY,
2009). Enraizar no solo de nossa realidade é impossível sem uma escuta também do município,
das vivências reais dos/das profissionais que operam o sistema de proteção e garantia de direitos
das mulheres e meninas.
Referências Bibliográficas
CURI, Paula L.; BAPTISTA, Júlia G. B. Quando a universidade verte para a cidade:
emancipando sujeitos através de ações no território. Ensino, Saúde e Ambiente, Niterói, v.9,
n.3, dez. 2016.

HOOKS, bell. Erguer a voz: pensar como feminista, pensar como negra. São Paulo:
Elefante, 2019.

KERGOAT, Danièle; HIRATA, Helena; LABORIE, Françoise. Dicionário crítico do


feminismo. Divisão Sexual do Trabalho e Relações Sociais de Sexo. Editora UNESP, 2009.

MAYORGA, Claudia. Prefácio. In: DE MATOS ALMEIDA, Marlise Miriam. Pedagogias


feministas decoloniais: a extensão universitária como possibilidade de construção da cidadania
e autonomia das mulheres de Minas Gerais. 2018. p. 23-26.
Relato de Experiência

Reflexões sobre a necessidade de um olhar mais humanizado na saúde: um relato


de experiência com idoso portador de síndrome demencial na instituição de longa
permanência

Mayara Marques Bragança 190


Rose Mary Costa Rosa Andrade Silva 191
Lucas Soares Diniz Pinto 192
e Sarah de Barros Oliveira Silva 193

Palavras-chave: violência; idoso; instituição de longa permanência para idosos; serviços de


saúde.

Contextualização
O presente trabalho é um relato de experiência acerca da vivência enquanto estudante
de enfermagem em uma Instituição de Longa Permanência. Esse relato irá abordar a
necessidade de um olhar mais humanizado frente a uma idosa portadora de síndrome demencial
por parte dos profissionais de saúde da instituição.

Descrição
A experiência ocorreu em uma Instituição de Longa Permanência no município de
Niterói, no Estado do Rio de Janeiro, no ambiente da instituição destinado a idosos com
comprometimentos funcionais. O relato aborda um acontecimento de um dia de ensino teórico
prático de uma disciplina do curso de graduação de enfermagem, com uma vivência que
demonstrou a necessidade um olhar mais humanizado frente a uma moradora, uma idosa
portadora de síndrome demencial. A moradora em questão apresenta declínio cognitivo e um
comportamento agitado em muitos momentos, sendo uma das suas ações realizar pedidos
inúmeras vezes até ser atendida, porém quando o profissional corresponde a demanda, a idosa
afirma não querer e modifica para outro pedido, replicando a situação que é conhecida pelos
profissionais que frequentam a instituição.

190
Graduanda de Enfermagem pela Escola de Enfermagem Aurora de Afonso Costa da Universidade Federal
Fluminense; [email protected]
191
Doutora em Enfermagem pela Universidade Federal do Rio de Janeiro; Doutora em Psicologia pela
Universidade do Estado do Rio de Janeiro; Doutora em Filosofia pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro;
Professora Titular da Universidade Federal Fluminense; [email protected]
192
Mestrando pelo Programa Acadêmico de Ciências do Cuidado em Saúde da Universidade Federal Fluminense;
[email protected]
193
Graduanda de Enfermagem pela Escola de Enfermagem Aurora de Afonso Costa da Universidade Federal
Fluminense; [email protected]
Na data da vivência, a moradora estava verbalizando pedidos de maneira incessante e a
docente e os demais profissionais da saúde ignoravam a idosa quase todas as vezes. O
comportamento da senhora chamou minha atenção e indaguei alguns profissionais que estavam
ao redor que não souberam responder acerca do quadro clínico da moradora e disseram: “é
sempre assim” e, em outro momento, “você não é formada em gerontologia? Fica com ela”,
mantendo uma postura conformista e distante da idosa. Cheguei perto da senhora, conversando
com ela enquanto segurava suas mãos, como forma de acolhimento. Após, precisei voltar para
outras atividades na instituição, enquanto os profissionais que estavam naquele ambiente
continuaram com uma postura de afastamento e indiferença, ao invés de procurar maneiras de
melhorar o bem-estar da senhora com cuidado humanizado.

Período de Realização
A experiência aconteceu no segundo semestre do ano de 2022.

Objetivos
• Relatar vivências problemáticas no cuidado ao idoso portador de síndrome
demencial;
• Refletir sobre a humanização do cuidado na assistência à saúde.

Resultados
Os cuidados humanizados são necessários para que seja prestada uma assistência de
qualidade nas instituições de saúde. Assim, é necessário perceber o indivíduo além das suas
necessidades biológicas, considerando também seus aspectos psicossocial e espiritual,
garantindo sua dignidade ética (Barbosa; Silva, 2007). Entretanto, é possível perceber que na
prática profissional, em diversos momentos, as pessoas não são consideradas de forma
holística, como no caso da idosa da Instituição de Longa Permanência do relato, em que suas
demandas são constantemente negligenciadas e seu comportamento demasiadamente agitado
é ignorado pelos profissionais da saúde, ao invés desses profissionais buscarem possíveis
causas e modos para contribuir com o bem-estar da moradora.
Além disso, as violências podem ser físicas, psicológicas, sexuais, abandono,
negligências, abusos financeiros e autonegligência (Rocha, 2017). Nesse sentido, o
afastamento e a indiferença no cuidado pelos profissionais da saúde na vivência relatada
configuram violência dentro da instituição, violência essa que se passa despercebida sob um
discurso conformista. Visto que a negligência é o contrário do cuidado dentro das instituições
(Poltronieri; Souza; Ribeiro, 2019), torna-se necessário maior atenção sobre essas práticas
danosas, para que sejam reparadas e seja promovido um cuidado humanizado e acolhedor,
como previsto na Política de Humanização, e em consonância com os direitos dos idosos
previstos no Estatuto do Idoso.

Aprendizados e Análise Crítica


É possível perceber, em diversos momentos, a necessidade de um olhar mais
humanizado na assistência em saúde. Sabe-se que a institucionalização pode agravar o quadro
clínico da pessoa, tornando um desafio ainda maior o cuidado do idoso com demência.
Entretanto, é necessário que sejam realizadas capacitações para que os profissionais ofereçam
um cuidado digno e humanizado para a pessoa idosa, percebendo-a de maneira holística. Dessa
forma, embora a síndrome demencial não tenha cura, é possível utilizar da atenção e
acolhimento, além de buscar outros modos para melhorar o bem-estar do idoso, a exemplo de
possibilitar ambientes tranquilos e utilizar práticas integrativas e complementares.

Referências Bibliográficas
BARBOSA, Ingrid de Almeida; SILVA, Maria Júlia Paes. Cuidado humanizado de
enfermagem: o agir com respeito em um hospital universitário. SciELO Brasil. Disponível
em: https://www.scielo.br/j/reben/a/zwq9mcbRqtP8xVNHxg3QtJF#. Acesso em: 21 out.
2023.

POLTRONIERI, Bruno Costa; SOUZA, Edinilsa Ramos de; RIBEIRO, Adalgisa Peixoto.
Violência no cuidado em instituições de longa permanência para idosos no Rio de Janeiro:
percepções de gestores e profissionais. SciELO Brasil. Disponível em:
https://www.scielo.br/j/sausoc/a/4zx4JDdkybgYnZYjVBsthSd/?lang=pt#. Acesso em: 21 out.
2023.

ROCHA, C. Violência contra idosos. In: SOUZA, A. C. S. Brasil 2050: desafios de uma nação
que envelhece. Brasília, DF: Centro de Estudos de Direito Econômico e Social, 2017. p. 81-
102.
Relato de Pesquisa

Sob o olhar de Asclépio: uma análise histórica da construção da masculinidade


moderna pelo discurso médico em Salvador entre 1880-1920

Daniel de Castro Barral 194


e Sérgio Carrara 195

Palavras-chave: masculinidades; subjetivação; história da medicina; Salvador; higiene.

Contextualização
O historiador E. P. Thompson (1963) descreveu a formação de classes na Inglaterra
como uma “educação do desejo”, uma descrição que Ann Laura Stoller (1995) reapropriou para
refletir as relações coloniais de raça e classe dentro do pensamento de Foucault acerca da
produção da sexualidade como um dispositivo. De maneira similar, o historiador José Murilo
de Carvalho (1995) nomeia seu livro como “A formação das almas” quando aborda a formação
da identidade cidadã brasileira durante os anos que precederam a Proclamação da República.
Seguindo a sugestão de Carrara em "O Tributo a Vênus" (1996), onde ele identifica uma
tentativa de agenciamento do instincto sexual masculino, pela medicina, durante a luta contra
as doenças venéreas no Brasil e questiona sua relação com a formação da república, meu foco
será o período de formação da república (1880-1920). Este período é especialmente rico,
abrangendo a abolição da escravidão, a luta contra as doenças venéreas, o higienismo médico,
o racismo científico e os debates acerca dos critérios de cidadania.
Após uma revisão das obras de Moutinho (2004), Correa (2013), Schwarcz (1993),
Carrara (1996; 1999), Machado et al (1978), Costa (1989) e Rohden (2001), constatei uma
lacuna de informações em áreas específicas que desejo explorar: como as masculinidades
modernas aparecem em discursos produtores de certas subjetividades no brasil, se há função
premente do discurso médico nesse processo e se existem peculiaridades relacionadas à cidade
de Salvador.

Objetivos
O principal objetivo da presente pesquisa será a identificação dos enunciados médicos
voltados a produção de uma certa masculinidade considerada interessante para a composição
do Brasil enquanto novo Estado-Nação independente. Isto será realizado através do
levantamento, leitura e análise dos discursos médicos sobre homens no período entre 1880 e
1920 na cidade de Salvador junto a aferição dos impactos sociais destes discursos.

194
Doutorando pelo Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva do Instituto de Medicina Social da
Universidade do Estado do Rio de Janeiro; [email protected]
195
Doutor e professor do Instituto de Medicina Social da Universidade do Estado do Rio de Janeiro;
orientador da presente pesquisa; [email protected]
Metodologia
Minha pesquisa está no cruzamento de três eixos específicos em um determinado
momento da história brasileira e em uma localização geográfica específica. Primeiro, utilizo as
teorias de Suely Carneiro (2005) sobre o dispositivo da racialidade como central para a
contextualização desse momento histórico. Também utilizarei a ideia do “tornar-se negro”
como um processo psicológico individual em um contexto coletivo (Souza, 1983).
Em um segundo eixo, busco examinar as masculinidades no contexto histórico como
construções que produzem e são produzidas por tecnologias específicas de gênero (Lauretis,
1987), que se articulam em caminhos privilegiados de subjetivização (Zanello, 2018). Isso será
contextualizado em um sistema de sexo-gênero específico de uma localidade e período histórico
(Rubin, 1975). Bem como a ideia da posição de médico na sociedade brasileira da primeira
república como uma "casa dos homens" (Welzer-Lang, 2001).
O terceiro eixo da minha pesquisa envolve a aplicação da abordagem arqueológica de
Foucault (1969), adaptada ao contexto colonial, como proposta por Anne Laura Stoler (1995).
Isso incluirá uma análise das estratégias de resistência e da “história de baixo para cima”,
seguindo os estudos de Thompson (1963; 1977), Reddiker (2007), Reeddiker e Linebaugh
(2000), e Ranajit Guha com os estudos subalternos (1982; 1983).
Meu arquivo será composto por teses de doutorado da Faculdade de Medicina Histórica
de Salvador, artigos médicos da Gazeta Médica da Bahia e artigos dos principais jornais de
Salvador que mencionem os temas identificados nas teses e artigos relacionados às
masculinidades e ao masculino.

Resultados e Discussão
A literatura que versa sobre os esforços médicos higiênicos durante a primeira república
costuma centrar sua atenção sobre os eventos ocorridos no Rio de Janeiro, porém, a formação
étnica e histórica única de Salvador leva essa cidade a se comportar de maneira diferente de
outras capitais brasileiras como observado durante a greve dos Ganhadores em 1836 (Reis,
2019).
De acordo com Schwarcz (1993) e Correa (2013), a relação entre doenças venéreas e
raça foi mais proeminente no discurso médico na Bahia se comparado com o Rio de Janeiro da
mesma época. Tal fenômeno levanta a importância de uma análise pormenorizada desse período
na Bahia e pode ser lido através do conceito de arquivo como um reflexo do colonizador
(Mbembe, 2017), e a subjetividade negra transpassada pela experiência colonial (Fanon, 1952).
Os eventos e discursos analisados na literatura até o presente momento têm sido lidos
dentro da chave interpretativa de um Dispositivo Heroico que pode ser identificado tanto nos
discursos médicos quanto em poesias, romances e mesmo registros de debates políticos da
época.

Aprendizados e Análise Crítica


A literatura mobilizada tem apontado possibilidades para a chave interpretativa de um
Dispositivo Heroico como mecanismo impulsionador da produção de certas masculinidades e
marginalização de outras e Salvador como um possível foco de resistência ao avanço da higiene
no Brasil.
Referências Bibliográficas
CARNEIRO, S. A Construção do Outro como Não-Ser como fundamento do Ser. 2005.
Tese (Doutorado em Educação - Filosofia da Educação) – Faculdade de Educação,
Universidade de São Paulo, São Paulo, 2005.

CARRARA, S. Tributo a Vênus: a luta contra a sífilis no Brasil, da passagem do século


aos anos 40. Rio de Janeiro: Fiocruz, 1996.

CARRARA, S. Crime e loucura: o aparecimento do manicômio judiciário na passagem do


século. 4. ed. Rio de Janeiro: EdUSP, 1999.

CARVALHO, J. M. de. A formação das almas: o imaginário da República no Brasil. 2. ed.


São Paulo: Companhia das Letras, 1995.

CORRÊA, M. As ilusões da liberdade: a escola Nina Rodrigues e a antropologia no Brasil.


Rio de Janeiro: Fiocruz, 2013.

COSTA, J. F. Ordem médica e norma familiar. Rio de Janeiro: Graal, 1989.

FANON, F. Pele negra, máscaras brancas. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 1952.

FOUCAULT, M. A arqueologia do saber. 4. ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1995.

GUHA, R. Elementary aspects of peasant insurgency in colonial India. Durham: Duke


University Press, 1982.

GUHA, R. (Ed.). Subaltern Studies VI: Writings on South Asian History. Oxford: Oxford
University Press, 1983. v. 6.

LAURETIS, T. de. A tecnologia do gênero. In: HOLLANDA, H. B. de (Ed.). Tendências e


impasses: o feminismo como crítica da cultura. Rio de Janeiro: Rocco, 1994.

LINEBAUGH, P.; REDIKER, M. The many-headed hydra. Boston: Beacon, 2000.

MACHADO, R. Danação da norma: a medicina social e constituição da psiquiatria no


Brasil. São Paulo: Graal, 1978.

MBEMBE, A. Políticas da inimizade. São Paulo: n-1, 2017.

MOUTINHO, L. Razão, “cor” e desejo: uma análise comparativa sobre relacionamentos


afetivo-sexuais inter-raciais no Brasil e na África do Sul. São Paulo: Unesp, 2004.

REDIKER, M. The slave ship: a human history. New York: Penguin, 2007.
SOUZA, N. S. Tornar-se negro: ou as vicissitudes da identidade do negro brasileiro em
ascensão social. São Paulo: Schwarcz-Companhia das Letras, 1983.

SCHWARCZ, L. M. O espetáculo das raças. 6. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 1993.

THOMPSON, E. P. A formação da classe operária inglesa. v. 1. Rio de Janeiro: Paz e Terra,


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THOMPSON, E. P. Senhores e caçadores. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1977.

ROHDEN, F. Uma ciência da diferença: sexo e gênero na medicina da mulher. Rio de


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RUBIN, G. O tráfico de mulheres: notas sobre a “economia política” do sexo. In: Revista
Crítica Marxista, 1975.

SAID, E. W. Orientalismo: o Oriente como invenção do Ocidente. São Paulo: Companhia


das Letras, 2003.

STOLER, A. L. Race and the education of desire: Foucault's history of sexuality and the
colonial order of things. Durham: Duke University Press, 1995.

WELZER-LANG, D. A construção do masculino: dominação das mulheres e homofobia.


Revista Estudos Feministas, v. 9, n. 2, p. 460-482, 2001. DOI: 10.1590/S0104-
026X2001000200008.

ZANELLO, Valeska. Saúde mental, gênero e dispositivos: cultura e processos de


subjetivação. Editora Appris, 2020.
Relato de Pesquisa

Tecnodiversidade e saúde: Como se dá o reflexo da masculinidade na concepção


da gagueira no Instagram

Maria Clara Conrado de Niemeyer Soares Carneiro Chaves 196

Palavras-chave: tecnodiversidade; gagueira; masculinidade; autodeterminação; saúde


coletiva.

Contextualização
Este relato de pesquisa é um recorte da pesquisa de doutorado em andamento, na qual
se estuda a questão da autodeterminação em saúde em relação às pessoas que gaguejam,
sobretudo as que se expressam pelo gênero masculino. Para tanto, será utilizado o método de
análise etnográfico virtual no Instagram, onde essas pessoas promovem interações
comunicacionais e produzem subjetividades dissidentes. Apresentamos a perspectiva da
gagueira e das pessoas que gaguejam como outsiders (BECKER, 2019), em termos sociais,
culturais e biomédicos. Analisamos como essas pessoas produzem outros ecos e outras maneiras
de elevar suas vozes, quando se inclinam a debater algumas questões de saúde e de gênero nos
espaços virtualizados, utilizando-se de tecnologias digitais de informação e comunicação.
Desse modo, avaliamos a possibilidade desses perfis digitais particularizados tornarem-se
“escrevivências digitais” (EVARISTO, 2020), uma vez que envolvem o processo de se
expressar através da vivência da escrita, quando a disfluência da fala é questionada. Assim
sendo, seremos capazes de averiguar se o ambiente digital das comunidades virtuais e dos perfis
avatares, presentes nas redes sociais, são um território capaz de desenvolver o conceito de
“tecnodiversidade” (YUK, 2020). Discutiremos até que ponto uma experiência local
tecnológica possibilita verificar as problemáticas quanto à “colonialidade digital”, bem como
eleger caminhos de “contracolonialidade cibernética”.

Objetivos
Nosso objetivo é investigar o papel das TICs e da tecnodiversidade, presentes no
Instagram, na promoção da autodeterminação em saúde de pessoas do gênero masculino com
gagueira e as performances sociais, analisando como essas tecnologias podem ser utilizadas
para fornecer informações, recursos e ferramentas que favoreçam o debate para a equidade de
gênero, a inclusão social, a participação em comunidades on-line de apoio, o desenvolvimento
de habilidades comunicativas e a redução do estigma social associado à gagueira.
Objetivamos examinar a aplicabilidade do conceito de tecnodiversidade do filósofo
chinês Yuk Hui (2020) conjugados às TICs. A “tecnodiversidade” compreende as
particularidades tecnológicas de cada contexto social. Os processos tecnológicos são universais,

196
Doutoranda pelo Programa de Pós-Graduação em Informação e Comunicação em Saúde da Fundação Oswaldo
Cruz; orientador André Pereira Neto; [email protected]
mas guardam suas singularidades. Eles não são os mesmos ao redor do mundo. Por conseguinte,
elementos como raça, gênero, sexualidade e afins precisam estar na equação de construção
tecnológica.

Metodologia
A metodologia centra-se na etnografia virtual de Christine Hine (2004, 2015a, 2015b).
A interação textual nas comunidades e perfis, em uma perspectiva etnográfica, é algo que
permite que o conteúdo, as narrativas e os discursos dos posts produzidos sejam amplamente
analisados. Para Hine (2004), no ambiente virtual é possível promover um deslocamento da
personalidade offline. Nele as pessoas tendem a se permitir explorar e a performar modos de
existir distintos, estruturando personalidades on-line. Ao focarmos nas comunidades virtuais,
seu núcleo basilar está na identificação que os membros criam com a temática desses espaços,
enquanto locais de possibilidades narrativas.

Resultados e Discussão
A tecnodiversidade e as TICs podem contribuir significativamente para a promoção da
autodeterminação em saúde de pessoas com gagueira, especialmente pessoas do gênero
masculino que são acometidos pela pressão social da performance da masculinidade
eurocentrada. Elas permitem que essas pessoas tenham acesso a informações precisas e
confiáveis sobre sua condição, opções de tratamento e cuidados de saúde. Elas também
proporcionam maior participação em comunidades on-line de apoio, autodeterminação e
interação social, e ferramentas de comunicação que auxiliam no desenvolvimento de
habilidades comunicativas e na redução do estigma associado à gagueira. Assim, nossa hipótese
resulta da discussão na qual consideramos que TICs dispostas no manejo da saúde coletiva,
associadas à tecnodiversidade e aos debates de gênero, podem oferecer novas formas de lidar
com a gagueira, proporcionando maior acesso a informações e recursos, além de permitir que
as pessoas do gênero masculino com gagueira se comuniquem e interajam em diferentes
plataformas digitais, autodeterminando-se em saúde. Essa prática pode favorecer a inclusão
social e a melhoria da qualidade de vida desses indivíduos. Não no sentido de lhe dar uma voz,
mas, sim, na compreensão de que as vozes dissidentes dessas pessoas reverberam.

Aprendizados e Análise Crítica


Temos o intuito de verificar se são possíveis novas categorias de análise quanto à
construção da masculinidade e seus atravessamentos em relação à gagueira, que é desenvolvida
por pessoas do gênero masculino, na medida em que a construção da subjetividade dessas
pessoas é perpassada por preconceitos em relação à disfluência da fala. Por exemplo, a
contestação social da sexualidade de indivíduos que produzem subjetividades contra-
hegemônicas por uma crença conservadora de que “homens devem ter boa oratórias ou dão
menos homens”.

Referências Bibliográficas
BECKER, H. S. Outsiders: estudos de sociologia do desvio. Tradução Maria Luiza X. de A.
Borges, revisão técnica Karin Kuschnir. 2ª ed. Rio de Janeiro: Zahar, 2019
BISPO DOS SANTOS, A. Colonização, Quilombos: modos e significados. Instituto.
Universidade de Brasília: Brasília, 2015.
EVARISTO, C. “A escrevivência serve também para as pessoas pensarem”. Entrevista
concedida a Tayrine Santana e a Alecsandra Zapparoli. Itaú Social. Notícias. 09 nov. 2020.
Disponível em: https://www.pucrs.br/revista/esse-lugar-tambem-e-
nosso/#:~:text=Como%20surgiu%20o%20termo%20escreviv%C3%AAncia,tarde%20comece
i%20a %20usar%20escreviv%C3%AAncia. Acesso em 05 jul. 2023.

HINE, C. Ethnography for the internet: embedded, embodied and everyday. Huntingdon,
GBR: Bloomsbury Publishing, 2015a.

HINE, C. Etnografía virtual. Barcelona: Editorial UOC, 2004.

HINE, C. Por uma etnografia para a internet: transformações e novos desafios. Entrevista
concedida a Bruno Campanella. MATRIZes, v.9 – n. 2, jul./dez. 2015b. São Paulo. pp. 167-
173.
YUK, H. Tecnodiversidade. Tradução Humberto do Amaral. São Paulo: Ubu Editora, 2020.
Relato de Experiência

(Trans)formação na Atenção Primária: um relato de experiência no Programa


Aquarela para adolescentes trans e não binários

Welison Matheus Fontes da Silva 197

Palavras-chave: adolescências; atenção primária; transexualidade; educação em saúde.

Contextualização
Este artigo apresenta o relato da experiência realizada junto aos adolescentes trans e não
binários e suas famílias, atendidos pelo Programa Aquarela, no Núcleo de Estudos da Saúde do
Adolescente da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (NESA/UERJ). Criado em 2019, o
programa visa prestar assistência multidisciplinar em atenção primária para essa parcela da
população. Diante disso, este artigo tem como objetivo apresentar uma das ações do Programa
Aquarela: os trabalhos com grupos. Salienta-se que atuar em uma perspectiva coletiva
possibilita melhorias nas condições de vida, fortalece os vínculos familiares e comunitários,
estimula a autonomia e o protagonismo social e, além disso, contribui com o exercício da
cidadania.

Descrição
Nessas atividades de grupos, objetiva-se fomentar uma rede de troca de experiências de
pessoas que passam por situações semelhantes e, a partir dessa troca, pensar meios de ajuda
mútua dentro do contexto de cada pessoa. Além disso, incentiva-se a participação juvenil como
forma de pensar as estratégias para combater as principais lacunas na assistência, no campo das
diversas políticas públicas, que adolescentes trans e não binários sofrem cotidianamente. Do
ponto de vista operacional, tem-se apostado na dinâmica de grupo em formato de “roda de
conversa”, com a presença da equipe, intervindo e tentando aprofundar as discussões que são
pré-definidas no momento do planejamento dos grupos. Esta estratégia grupal foi baseada na
perspectiva de trabalhos em grupos conhecida como “grupo focal” (MINAYO, 2000). É
possível dizer que essa modalidade escolhida se constitui como uma técnica privilegiada de
diálogo e intercâmbio de ideias e modos de vida, proporcionando comunicação e expressão dos
participantes do grupo. O grupo é coordenado pelo assistente social, autor deste trabalho, e,
parte dessa experiência profissional, foi objeto de reflexão em sua formação de pós-graduação
no nível de residência. Esses encontros tiveram início em dezembro de 2022 e conta atualmente
com 8 grupos realizados, em sua maioria, no auditório do Núcleo de Estudos da Saúde do
Adolescente (NESA/UERJ). Cada grupo conta com a participação média entre 15-20
participantes e uma duração de aproximadamente duas horas.

197
Assistente Social. Mestre em Saúde Coletiva (IMS/UERJ). Residente em Serviço Social no Núcleo de Estudos
da Saúde do Adolescente (NESA/UERJ); [email protected]
Período de realização
Os trabalhos com grupos têm sido realizados desde dezembro de 2022, mensalmente,
com exceção do mês de janeiro por conta das férias da equipe.

Resultados
É mediante as abordagens grupais que os encontros são desenvolvidos e possibilitam o
diálogo e reflexão crítica sobre determinada temática que se relaciona ao cotidiano dos
adolescentes atendidos no Programa Aquarela. Dentre as temáticas discutidas, podemos
mencionar: uso do nome social nas escolas, retificação de documentos, acolhimento no
ambiente familiar, uso de banheiro público, hormonioterapia, acesso aos serviços de saúde,
participação política e protagonismo juvenil, direito à cidade e construção de projetos de vida,
e, mais recentemente, políticas de cotas afirmativas para população transexual e travesti nas
universidades públicas. Por meio do grupo, a equipe busca contribuir para a fomentação da
construção de um espaço coletivo que visa ao amadurecimento de um olhar ampliado frente às
diferentes expressões da questão social que os adolescentes vivenciam em seu cotidiano, bem
como as possíveis estratégias para enfrentar a transfobia.

Aprendizados e Análise Crítica


Atuar com grupos na atenção primária consiste em uma das importantes estratégias de
integração entre a equipe e a parcela populacional que necessita de intervenções que
contemplem ações educativas, no geral, de aprendizagem de como conviver com a doença ou
situação atual e mudanças de hábitos. Essas atividades possuem uma característica muito
importante de troca de experiências, tornando-se um espaço onde as pessoas possam falar sobre
a vivência do adoecimento ou condição de vida e das maneiras que encontraram de agir no
cotidiano, criando formas de superação dos seus problemas (FURLAN; CAMPOS, 2010).
Quando conduzidos adequadamente, os grupos facilitam a construção coletiva de
conhecimento, a reflexão acerca da realidade vivenciada pelos membros do grupo, sendo
ferramenta potencializadora da promoção da saúde.
Sabemos que as necessidades de saúde se expressam de várias formas e de acordo com
cada pessoa e comunidade, e, por isso, o Programa Aquarela tem realizado o acompanhamento
multidisciplinar em saúde com adolescentes trans e não binários. Esse é o único serviço
habilitado do Rio de Janeiro para atender essa parcela da população. Atualmente, temos
aproximadamente 200 pacientes entre 10 e 24 anos. É possível verificar por meio das falas dos
adolescentes que o grupo possibilitou o sentimento de pertencimento, bem como potencializou
a autoestima, o fortalecimento de vínculos sociais e comunitários, o reconhecimento da
importância da participação neste espaço, além do aprendizado sobre direitos sociais e demais
conhecimentos de interesse social.

Referências Bibliográficas
MINAYO, M. C. S. O desafio do conhecimento: pesquisa qualitativa em saúde. 7. ed.
São Paulo: Hucitec, 2000.

FURLAN, P. G. CAMPOS, G. W. S. Os grupos na Atenção Básica à Saúde. In: BRASIL.


MINISTÉRIO DA SAÚDE. Cadernos HumanizaSUS. Brasília: Ministério da Saúde,
2010.
Relato de Experiência

Vivência Prática-Reflexiva

Mirian Teresa de Sá Leitão Martins 198

Palavras-chave: agir moral; estudantes; ética; medicina, violências.

Contextualização
As discussões sobre a Ética, a moralidade e o agir moral devem estar presentes no
decorrer do curso medicina. Para além das implicações reflexivas do agir moral nas relações
puramente familiares e/ou de amizade, que poderiam ser compreendidas como uma dimensão
pessoal, se faz necessário trazer para o debate as implicações no âmbito público do
compromisso moral enquanto futuros e futuras médicos e médicas mediante a prática médica,
situações de violações, hierarquizações e normatividades no curso. Para tal reflexão é
fundamental entender o caráter processual do agir moral, e, portanto, um processo que se inicia
na formação médica e sua relação com as violências interpessoais. Nesse sentido, a formação
de futuros e futuras profissionais é um compromisso ético das instituições formadoras, como as
Escolas Médicas. Para Foucault (2004), a Ética como prática aparece na relação dos sujeitos
consigo mesmo e com os outros, portanto, uma questão moral e política. Ele assenta a Ética
como prática refletida da liberdade, ou seja, uma instancia filosófica de reflexão sobre a
liberdade, um campo de aplicação da liberdade- da " (...) liberdade como condição ontológica
da Ética" (2004, p172). Nesse sentido, o filósofo se aproxima da raiz etimológica originária -
ethos- como forma de vida, uma modalidade de ser e de conduzir, uma atividade de formação-
de autoprodução do sujeito. Ou seja, a Ética como uma estética da existência. Neste trabalho,
trago um relato de experiência realizado com um grupo de discentes de medicina, como uma
proposta de vivência prática-reflexiva.

Descrição, Período de Realização


Trata-se de um Relato de Experiência de uma roda de conversa realizada com 12
discentes do curso de medicina realizado no mês de maio de 2023. Utilizei a seguinte dinâmica
de grupo: com o grupo de discentes em roda foi realizada a apresentação inicial de todos os
componentes da roda de conversa e após essa breve apresentação foi proposto ao grupo circular
uma caixa. Na referida caixa havia no seu interior papéis com frases transcritas de situações
experenciadas por estudantes de uma determinada universidade. Essas frases fazem parte do
corpus do estudo de Chow et al (2022). Cada discente ao pegar um papel lia a frase para o
grupo e explicitava um comentário sobre o seu conteúdo. Outros estudantes e as outras
estudantes também puderem fazer comentários sobre cada frase lida, se assim desejassem. Ao

198
Doutoranda do Programa de Pós-graduação Bioética, Ética e Saúde Coletiva/ PPGBIOS-UERJ;
[email protected]
final dessa etapa, a autora introduziu as seguintes reflexões para o grupo: 1-Vocês identificam
as atitudes relatadas nas frases como boas ou ruins? 2- Já vivenciaram situações parecidas, se
sim, como reagiram? Após essa reflexão foi aberto o debate com todo o grupo de estudantes.

Objetivo
Desenvolver uma reflexão crítica com estudantes de medicina sobre situações que
podem fazer parte do dia a dia na experiência clínica e suscitar questionamentos sobre o agir
moral.

Resultados, Aprendizados e Análise Crítica


Os resultados mostram que ao propor uma atividade dialógica e interativa pode-se
promover a reflexão sobre o agir moral com discentes do curso de medicina a respeito das
violências nas relações interpessoais no Campo médico. Identifiquei através da fala de discentes
que as atitudes virtuosas, ou seja, as corretas, seriam: (1) respeito ao outro; (2) não causar dados;
(3) o cuidado para com outro sem opressões de raça, gênero, classe social e sexualidade (4) a
responsabilidade no exercício da profissão médica.
Além da vivência trazer uma reflexão sobre as relações de poder no contexto
educacional e refletir sobre a capacidade de agência em consonância com os valores de cada
estudante. Portanto, a vivência prática- reflexiva possibilitou o debate sobre a injustiça, o que
consideram ser um agir moral, a Ética como uma forma de conduta no mundo, formas de
violências e opressões de classe, de gênero, raça, entre outras. Assumir dialogar com Foucault
(2004, p.265) é entender a Ética como uma estética da própria existência, uma forma de se
conduzir que adota a liberdade, de autoprodução do próprio sujeito, do cuidado de si e do outro,
através do exercício reflexivo das escolhas, das práticas de liberdade e do compromisso por um
agir moral. Portanto, são necessárias no curso de medicina reflexões sobre o sentido da vida
humana, das violências e a importância da Ética para sua autoprodução e no cuidado com o
outro. Na experiência relatada foi possível realizar uma contraposição a premissa pautada
apenas na aquisição de competências para o julgamento moral.

Referências Bibliográficas
CHO, Cordelia et al. Exploring professionalism dilemma and moral distress through medical
students’ eyes: a mixed-method study. International Journal of Environmental Research
and Public Health, v. 19, n. 17, p. 10487, 2022.

FOUCAULT, Michel. Ética, sexualidade, política. Forense Universitária, 2004.

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