Orientações Sobre Orçamento e Fundos
Orientações Sobre Orçamento e Fundos
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Brasília - DF
Outubro de 2020
©2020, Conselho Nacional do Ministério Público
Permitida a reprodução mediante citação da fonte
Este material foi elaborado pelo Grupo de Trabalho, instituído pela PORTARIA CNMP-PRESI nº 94, de 14
de junho de 2019, no âmbito da Comissão da Infância, Juventude e Educação, com o objetivo de empre-
ender estudos e produzir material de apoio aos órgãos de execução no tocante ao Orçamento da Criança
e do Adolescente, Fundos da Infância e Adolescência e temas correlatos, visando ao aprimoramento de
políticas públicas.
SECRETARIA-GERAL DO CNMP
Jaime de Cassio Miranda (Secretário-Geral)
Daniel Azevedo Lôbo (Secretário-Geral Adjunto)
Conselheiros Membros
Sebastião Vieira Caixeta
Luciano Nunes Maia Freire
Luiz Fernando Bandeira de Mello
Membros Auxiliares
Andrea Teixeira de Souza – Promotora de Justiça (MPES)
Felipe Teixeira Neto – Promotor de Justiça (MPRS)
Membros Colaboradores
Márcio Costa de Almeida – Promotor de Justiça (MPDFT)
Rosana Viegas e Carvalho – Promotora de Justiça (MPDFT)
Karel Ozon Monfort Couri Raad – Promotor de Justiça (MPDFT)
Membros do Grupo de Trabalho instituído pela Portaria CNMP PRESI nº 94, de 14 de julho de 2019
Sidney Fiori Júnior – MPTO – Coordenador
Luciana Caiado Ferreira – MPRJ
Manoel Onofre de Sousa Neto – MPRN
Danielle Cristine Cavali Tuoto – MPPR
Fernanda Maria Moreira de Almeida Lobo – MPAL
Valéria Barros Duarte de Morais – MPES
Karel Ozon Monfort Couri Raad – MPDFT
Carlos Henrique Harper Cox – MPRN
Servidores
Arnaldo Correia de Araújo Filho
Carolina Soares Noleto
Nelson Silva de Assis
Patrícia Poli dos Santos
Tiago de Carvalho Pereira
ISBN 978-65-990635-4-1
CDD – 341.413
PARTE 1 – ORÇAMENTO . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 9
3. DO CICLO ORÇAMENTÁRIO . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 15
3.1 DAS LEIS ORÇAMENTÁRIAS . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 15
3.2.1 Receita . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 18
3.2.2 Despesas . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 21
3.3 CRÉDITOS ADICIONAIS . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 36
3.4 ETAPAS DO CICLO ORÇAMENTÁRIO . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 41
3.5 FASES DA RECEITA PÚBLICA . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 50
3.6 FASES DA DESPESA . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 51
REFERÊNCIAS (Parte 1) . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 64
1. INTRODUÇÃO . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 67
REFERÊNCIAS (Parte 2) . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 89
1. CONCEITO . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 92
5. EXECUÇÃO . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 112
5.1 ATOS DE GESTÃO . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 112
5.2 POLÍTICAS PÚBLICAS FINANCIÁVEIS COM RECEITAS DO FUNDO . . . . . . . . . . 116
5.3 EXECUÇÃO DIRETA OU POR MEIO DE ORGANIZAÇÕES DA
SOCIEDADE CIVIL . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 123
6. TRANSPARÊNCIA . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 128
7. DESAFIO . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 130
CONCLUSÃO . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 139
ORIENTAÇÕES SOBRE ORÇAMENTO E FUNDOS DOS DIREITOS DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE
APRESENTAÇÃO
A célebre frase de Konrad Hesse, “Not kennt kein Gebot”, “a necessidade não conhece
imperativo”, tem sido muito utilizada em tempos de pandemia para lembrar a dificuldade de
o Direito oferecer respostas para crises extremas. A luta entre os fatos e as normas tem sido
objeto de muitas tentativas infelizes de simplificação de um problema em cujo núcleo está
uma pergunta das mais complexas: há alternativa ao Direito?
A Comissão da Infância e Juventude, uma das mais antigas e importantes do CNMP, teve
incorporada às suas atribuições a matéria educação e passou a ser denominada CIJE a
partir de julho de 2020. Ao longo de sua existência, a Comissão contou com o apoio irrestrito
da Presidência do Conselho Nacional, atualmente ocupada pelo Dr. Augusto Brandão de
Aras, e por todos os membros do Ministério Público nacional. A crise gerada pela pandemia
tornou ainda mais relevante os ofícios da CIJE, dado o caráter de notória vulnerabilidade
das pessoas alcançadas pelas competências dessa Comissão.
O trabalho ora oferecido ao público é uma amostra do que a CIJE tem desenvolvido em
prol da causa da infância e da juventude no país. É, além disso, uma prova de que, se a
necessidade não conhece imperativos, dá-se igualmente que o Direito sobrevive, em meio
às tragédias humanas, como um facho de esperança nos dias de trevas.
Brasília, 2020.
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ORIENTAÇÕES SOBRE ORÇAMENTO E FUNDOS DOS DIREITOS DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE
PARTE 1
ORÇAMENTO
1. DO SISTEMA ORÇAMENTÁRIO –
DOS INSTRUMENTOS BÁSICOS DE
PLANEJAMENTO
Analisar o financiamento das políticas públicas da infância e juventude no Brasil é função
complexa, notadamente pela transversalidade das ações e pela corresponsabilidade dos
entes federados.
A satisfação dessas atividades implica a realização de dispêndios públicos, que devem ser
meticulosamente programados e geridos por meio de um sistema orçamentário complexo.
Embora a matéria seja toda de fonte constitucional e exija lei complementar, a que temos
é de 1964 e permite que seus anexos sejam alterados por atos administrativos normativos.
Com isso, nessa área mais do que em nenhuma outra, decretos, portarias e instruções
normativas, elaborados por profissionais estranhos ao direito, ganham especial relevância.
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ORIENTAÇÕES SOBRE ORÇAMENTO E FUNDOS DOS DIREITOS DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE
Daí a relevância da atuação do Promotor de Justiça, com vistas a extrair do orçamento toda
a força a ele atribuída pela Constituição, como instrumento de planejamento financeiro das
Políticas Públicas.
Nesse contexto, o art. 165 da Constituição Federal prevê três peças orçamentárias, cada
uma com sua função, as quais devem se relacionar entre si: o Plano Plurianual (PPA), a Lei
de Diretrizes Orçamentárias (LDO) e a Lei Orçamentária Anual (LOA), que serão abordadas
a seguir.
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ORIENTAÇÕES SOBRE ORÇAMENTO E FUNDOS DOS DIREITOS DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE
Pelo princípio da EXCLUSIVIDADE, a LOA não pode conter matéria estranha à despesa/
receita, evitando-se as caudas orçamentárias, ou seja, a inserção de outros temas alheios
à questão orçamentária, nos termos do § 8º do art. 165 da Carta Magna.
Como exceção, a própria Carta Magna possibilita que a LOA contenha autorização para
abertura de crédito suplementar (reforço nas dotações orçamentárias) e contratação de
operação de crédito (empréstimo).
Segundo o princípio da UNIDADE, deve existir apenas um orçamento para cada ente da
federação, subdividido em fiscal, seguridade e investimentos, facilitando, assim, a identifi-
cação das receitas e despesas afetas a cada um deles.
Todas as receitas devem fazer parte do orçamento, sem exclusão. Essa diretriz traduz o
princípio da UNIVERSALIDADE, consignado no art. 3º da Lei nº 4.320/64.
Deve-se observar também o princípio da NÃO AFETAÇÃO (não vinculação) das receitas de
impostos que vem disciplinado no art. 167 da Carta Magna que dispõe:
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ORIENTAÇÕES SOBRE ORÇAMENTO E FUNDOS DOS DIREITOS DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE
[...]
(Grifo nosso)
• as TAXAS podem ter suas receitas destinadas para a finalidade ligada ao serviço
específico ou à fiscalização a ser exercida, a depender da previsão da lei que a criou;
• os IMPOSTOS são tributos que devem ser livres para aplicação no programa de
governo, não sendo admitida, quando de sua criação, a definição do destino dos valores
arrecadados.
Garantia, contrapartida à União e pagamento de débitos para com esta (art. 167, § 4º, CF).
Vinculação de até 0,5% da Receita Tributária Líquida dos Estados e do DF para Programas
de Apoio à inclusão e promoção social (art. 204, parágrafo único, CF).
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ORIENTAÇÕES SOBRE ORÇAMENTO E FUNDOS DOS DIREITOS DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE
No orçamento, cada grupo de despesa deve estar identificado com sua finalidade e seu
respectivo montante, de forma a facilitar a compreensão e fiscalização. É o que preveem o
art. 5º da Lei nº 4.320/64 e o § 4º, do art. 5º, da LRF.
[...]
(Grifo nosso)
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ORIENTAÇÕES SOBRE ORÇAMENTO E FUNDOS DOS DIREITOS DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE
Entretanto, cabe aqui também ressaltar, como se verá em capítulo específico deste manual,
que, de acordo com o art. 50, I e III, da LRF, todo fundo especial, tal como o Fundo dos
Direitos da Criança e do Adolescente, deve ter as demonstrações contábeis e a identificação
dos recursos individualizadas, inclusive com disponibilidade de caixa em registro próprio.
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ORIENTAÇÕES SOBRE ORÇAMENTO E FUNDOS DOS DIREITOS DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE
3. DO CICLO ORÇAMENTÁRIO
Mencionados os princípios que regem o sistema orçamentário brasileiro, é de extrema
importância o conhecimento do ciclo orçamentário e das regras aplicáveis à gestão
dos recursos públicos.
Muito embora este estudo contenha conceitos de direito financeiro, afigura-se imprescin-
dível para a atuação do membro do Ministério Público com atuação em defesa da Infância e
Juventude, visando à correta fiscalização dos recursos em geral e dos Fundos Municipais,
Estaduais e Distrital, em especial, com sua utilização de acordo com as prioridades estabe-
lecidas pelos Conselhos de Direitos da Criança e do Adolescente e demais Conselhos de
Políticas Públicas.
Não há como executar despesa de ação deliberada pelos Conselhos de Direitos se essa
não tiver correspondência na Lei Orçamentária Anual.
Antes de adentrar em cada uma das etapas que compõem o ciclo orçamentário, impende
destacarmos as leis que disciplinam o sistema orçamentário brasileiro.
Como se trata de um plano estratégico, tem vigência de 04 anos, não coincidente com o
mandato do Executivo, de forma a assegurar a continuidade da Administração Pública.
Assim prescreve a Constituição Federal:
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ORIENTAÇÕES SOBRE ORÇAMENTO E FUNDOS DOS DIREITOS DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE
A LDO define as prioridades das metas presentes no PPA (quais as mais importantes,
quais têm precedência) e os critérios para eleição das ações que serão detalhadas na LOA.
Estabelece a Constituição Federal que
[...]
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ORIENTAÇÕES SOBRE ORÇAMENTO E FUNDOS DOS DIREITOS DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE
A LOA é a lei que autoriza os gastos que o governo pode realizar durante um exer-
cício, discriminando detalhadamente as obrigações que deva concretizar (DESPESAS),
com a previsão concomitante dos ingressos necessários para cobri-las (RECEITAS).
Segundo o art. 5º da LRF, primando pelo planejamento das ações de governo, o projeto
de lei orçamentária anual deve ser elaborado de forma compatível com o PPA e a LDO,
guardando com eles simetria.
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ORIENTAÇÕES SOBRE ORÇAMENTO E FUNDOS DOS DIREITOS DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE
Nesse sentido, precedendo a abordagem do ciclo orçamentário, segue uma síntese dos
institutos que compõem a LOA, quais sejam, as receitas e despesas públicas, bem com os
créditos adicionais ao orçamento.
3.2.1 Receita
Receita é o ingresso de numerário aos cofres públicos, que servirá como fonte
para fazer face às despesas públicas. Geralmente, esses recursos são provenientes de
tributos.
Em sentido amplo, receitas públicas são ingressos de recursos financeiros nos cofres do
Estado, que se desdobram em receitas orçamentárias, quando representam disponibi-
lidades de recursos financeiros para o erário, e ingressos extraorçamentários, quando
representam apenas entradas compensatórias.2
1 BRASIL. Ministério do Planejamento, Desenvolvimento e Gestão. Secretaria de Orçamento Federal. Manual Técnico de
Orçamento – MTO. Brasília, 2017. Disponível em: http://www.orcamentofederal.gov.br/informacoes-orcamentarias/manual-
-tecnico/mto_2017-1a-edicao-versao-de-06-07-16.pdf. Acesso em: 19 jul. 2020.
2 BRASIL. Ministério do Planejamento, Desenvolvimento e Gestão. Secretaria de Orçamento Federal. Manual Técnico de
Orçamento – MTO. Brasília, 2017. Disponível em: http://www.orcamentofederal.gov.br/informacoes-orcamentarias/manual-
-tecnico/mto_2017-1a-edicao-versao-de-06-07-16.pdf . Acesso em: 19 jul. 2020.
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ORIENTAÇÕES SOBRE ORÇAMENTO E FUNDOS DOS DIREITOS DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE
Entre as diversas classificações das receitas, cabe destacarmos, para o fim almejado neste
Manual, a classificação por categoria econômica (Quadro 1), prevista no art. 11 da Lei nº
4.320/64, que as divide em Receitas Correntes e Receitas de Capital, e tenciona identificar
a procedência das receitas no momento em que ingressam nos cofres públicos.
DEFINIÇÃO TIPOS
a) Tributárias;
b) contribuições;
c) patrimonial;
RECEITAS CORRENTES
d) agropecuária;
São aquelas que aumentam a disponibilidade
financeira do ente público e, convertidas em
e) industrial;
bens e serviços, mantêm a máquina pública.
(art. 11, § 1º, Lei nº 4.320/64).
f) serviços;
g) transferências correntes; e
3 A codificação constante dos anexos da Portaria SOF/STN nº 163/01 alterou a codificação dos Anexos III, IV e V da Lei nº
4.320/64.
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ORIENTAÇÕES SOBRE ORÇAMENTO E FUNDOS DOS DIREITOS DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE
Quando o imposto é recolhido, aloca-se à receita pública do nível mais específico (sub-ru-
brica) para o mais geral (categoria econômica). No caso de receita do IPTU, é classificado
na receita código “1.1.1.2.02.00”, segundo o esquema a seguir:
NOMENCLATURA
CÓDIGO NOMENCLATURA USUAL
ORÇAMENTÁRIA
Primando pelo equilíbrio das contas públicas, a LRF trouxe a definição de Receita Corrente
Líquida (RCL), que serve como parâmetro para diversos limites de gastos a serem obser-
vados pelos gestores públicos (inciso IV, art. 2º), a exemplo de:
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3.2.2 Despesas
4 ANDRADE, Nilton de Aquino Andrade. Contabilidade pública na gestão municipal. São Paulo: Atlas. p. 120.
5 São autorizações abertas que designam o montante de recursos disponíveis numa dotação, consignada na própria lei do
orçamento (ANDRADE, Nilton de Aquino. Contabilidade pública na gestão municipal. São Paulo: Atlas, 2002.)
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ORIENTAÇÕES SOBRE ORÇAMENTO E FUNDOS DOS DIREITOS DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE
CLASSIFICAÇÃO
INSTITUCIONAL DEFINIÇÃO
(Quem faz a despesa)
6 Toda e qualquer verba prevista como despesa em orçamentos públicos e destinada a fins específicos. Disponível em: https://
www12.senado.leg.br/. Acesso em: 19 jul. 2020.
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ORIENTAÇÕES SOBRE ORÇAMENTO E FUNDOS DOS DIREITOS DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE
dentro do qual existem duas Unidades Orçamentárias, com os códigos 001 - Gabinete do
Secretário e 002 - Fundo Municipal da Infância e Juventude, nas quais foram alocados os
créditos orçamentários.
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ORIENTAÇÕES SOBRE ORÇAMENTO E FUNDOS DOS DIREITOS DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE
CLASSIFICAÇÃO FUNCIONAL
(Em que área de ação governamental a despesa será realizada)
Tomando como base o Anexo 6 da Lei Orçamentária Anual do Município de São Carlos
(Figura 4), que discrimina o Programa de Trabalho, no orçamento da unidade orçamentária
Gabinete do Secretário – SMEIJ, o número 08 representa a função Assistência Social e o
número 243 representa a subfunção Assistência à Criança e ao Adolescente.
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FUNÇÃO SUBFUNÇÃO
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ORIENTAÇÕES SOBRE ORÇAMENTO E FUNDOS DOS DIREITOS DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE
Nesse sentido, o orçamento é a expressão das políticas públicas setoriais (como saúde,
educação, segurança pública),7 que se encontram estruturadas no PPA.
O modelo encontra-se baseado na utilização dos programas como módulo integrador entre
o planejamento e o orçamento. Assim, cada programa deverá apontar a solução a um
problema ou atender a uma demanda da sociedade, mediante um conjunto articulado de
projetos, atividades e de outras ações que assegurem a consecução de seus objetivos.
Configura-se uma intervenção em uma realidade social que se deseja alterar, tendo um
objetivo definido, pelo menos um indicador, metas quadrienais para o indicador e um
conjunto de ações governamentais que deverão ser executadas para concretização de seu
objetivo.
7 ENAP – Escola Nacional de Administração Pública. Orçamento público: conceitos básicos – Módulo 2. Enfoques do
orçamento. Brasília: Enap, 2014. Disponível em: https://repositorio.enap.gov.br/bitstream/1/2287/1/Or%C3%A7amento%20
P%C3%BAblico%20Conceitos%20B%C3%A1sicos%20-%20M%C3%B3dulo%20%20%282%29.pdf Acesso em: 19 jul.
2020.
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ORIENTAÇÕES SOBRE ORÇAMENTO E FUNDOS DOS DIREITOS DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE
CLASSIFICAÇÃO PROGRAMÁTICA
(Em que área de ação governamental a despesa será realizada)
a) PROGRAMA
b) AÇÕES
No Anexo 6 da LOA do Município de São Carlos, tomando como base a Unidade Orçamen-
tária Gabinete do Secretário – SMEIJ (código 06), o código 2058 representa o PROGRAMA
(Gestão Operacional e Administrativa da SMEIJ).
8 LEITE, Harisson. Manual de Direito Financeiro. 7. ed. São Paulo. JusPodvim. 381.
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ORIENTAÇÕES SOBRE ORÇAMENTO E FUNDOS DOS DIREITOS DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE
1,3,5 ou 7 PROJETO
2, 4, 6 ou 8 ATIVIDADE
0 OPERAÇÃO ESPECIAL
No caso concreto, a ação governamental assume a forma de ATIVIDADE (1º dígito 2).
9 BRASIL. Ministério do Planejamento, Desenvolvimento e Gestão. Secretaria de Orçamento Federal. Manual Técnico de
Orçamento – MTO. Brasília, 2017. Disponível em: http://www.orcamentofederal.gov.br/informacoes-orcamentarias/manual-
-tecnico/mto_2017-1a-edicao-versao-de-06-07-16.pdf . Acesso em: 19 jul. 2020.
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ORIENTAÇÕES SOBRE ORÇAMENTO E FUNDOS DOS DIREITOS DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE
I - categoria econômica;
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ORIENTAÇÕES SOBRE ORÇAMENTO E FUNDOS DOS DIREITOS DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE
3 Despesas Correntes
4 Despesas de Capital
DE CAPITAL
Investimento (§ 4º art. 12 Lei 4320/64);
Despesas eventuais
marcadas por uma Inversões financeiras (§ 5º art. 12 Lei 4320/64);
aplicação financeira relativa
à aquisição patrimonial ou à Transferências de capital (§6º art. 12 Lei 4.320/64.
redução da dívida pública.
Na LOA, os Anexos I e II discriminam a despesa por categoria econômica, bem como suas
subdivisões, as quais são especificadas por códigos, que seguem a padronização estabe-
lecida no Anexo II da Portaria nº 163/01, nos mesmos moldes da receita pública.
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ORIENTAÇÕES SOBRE ORÇAMENTO E FUNDOS DOS DIREITOS DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE
30 – Transferência a Estados e DF
40 – Transferências a Municípios
71- Consórcios
90 – Aplicações diretas
10 BRASIL. Ministério do Planejamento, Desenvolvimento e Gestão. Secretaria de Orçamento Federal. Manual Técnico de
Orçamento – MTO. Brasília, 2017. Disponível em: http://www.orcamentofederal.gov.br/informacoes-orcamentarias/manual-
-tecnico/mto_2017-1a-edicao-versao-de-06-07-16.pdf . Acesso em: 19 jul. 2020.
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ORIENTAÇÕES SOBRE ORÇAMENTO E FUNDOS DOS DIREITOS DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE
Obedecendo a tal preceito, por esta classificação foram criadas novas espécies classifica-
tórias e rearranjadas as contas em grupos, de forma a destacar os agregados de despesa
que são expressivos no âmbito da Administração Pública e merecem acompanhamento
gerencial, tendo em vista o planejamento definido na Portaria Interministerial STN/SOF nº
163/01, art. 3º:
Art. 3º [...]
[...]
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ORIENTAÇÕES SOBRE ORÇAMENTO E FUNDOS DOS DIREITOS DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE
01 – Aposentadorias e Reformas
30 – Material de consumo
43 – Subvenções sociais
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ORIENTAÇÕES SOBRE ORÇAMENTO E FUNDOS DOS DIREITOS DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE
(Grifo nosso)
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ORIENTAÇÕES SOBRE ORÇAMENTO E FUNDOS DOS DIREITOS DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE
Para fins de implementação da ação, foram elencados os objetos dos gastos nas rubricas:
material de consumo, material, bem ou serviço para distribuição gratuita, passagens e
despesa com locomoção, outros serviços de terceiros – pessoa física, outros serviços de
terceiros – pessoa jurídica e equipamentos e material permanente.
02.083.08.243.0020.2072.3.3.90.39
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ORIENTAÇÕES SOBRE ORÇAMENTO E FUNDOS DOS DIREITOS DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE
FUNÇÃO 08 Assistência
GRUPO DE NATUREZA
3. Outras despesas correntes
DESPESA
MODALIDADE DE
90 Aplicações diretas (recursos próprios)
APLICAÇÃO
Esses ajustes são empregados para corrigir ou acertar distorções, quando em determinados
níveis programáticos há insuficiência de recursos, enquanto outros apresentam excessos
de disponibilidades; ou quando não existem especificações que definem uma ação (projeto
ou atividade). Essas alterações podem ser qualitativas ou quantitativas.
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ORIENTAÇÕES SOBRE ORÇAMENTO E FUNDOS DOS DIREITOS DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE
A abertura dos créditos adicionais segue o mesmo rito da Lei Orçamentária Anual, quanto
a sua apreciação e votação, até porque, por força da simetria, cabe ao Poder Legislativo
aprovar a proposta orçamentária, a ele também cabe aprovar as retificações posteriormente
solicitadas (art. 166, da CF).
Os créditos ESPECIAIS são destinados a amparar novos programas e despesas que não
foram originariamente previstas na Lei Orçamentária Anual, ou seja, que não possuam
dotações orçamentárias específicas.
[...]
(Grifo nosso)
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ORIENTAÇÕES SOBRE ORÇAMENTO E FUNDOS DOS DIREITOS DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE
CF/88
[...]
(Grifo nosso)
Lei nº 4.320/64
(Grifo nosso)
Ocorre que, em muitas Lei Orçamentárias, a previsão desse percentual apresenta-se muitas
vezes além da razoabilidade, o que se configura em espécie de “cheque em branco” ao
Poder Executivo, com a transmudação da peça orçamentária em verdadeiro decreto, razão
pela qual as Promotorias de Patrimônio Público vem atuando de forma a limitar percentual
que ultrapasse a margem de 10% do orçamento.
Como a abertura dos créditos adicionais configuram uma espécie de flexibilização em face
das necessidades surgidas durante a execução orçamentária, só poderão ser abertos
se houver recursos disponíveis para ocorrer a despesa, que deve ser precedida de
exposição justificada (art. 43, Lei nº 4.320/64).
Os recursos para abertura desses créditos podem surgir de financeiro (diferença + ativo
financeiro e passivo – art. 43, § 2º, Lei 4.320/64) ou de excesso de arrecadação (art. 43,
§ 3º, Lei 4.320/64) e nesses casos não há qualquer preocupação, pois se trata de uma
agregação financeira ao orçamento.
O texto constitucional (art. 166, § 8º, CF) também prevê como fonte para abertura dos
créditos suplementares e especial os recursos sem despesas correspondentes decorrentes
de veto, emenda ou rejeição do projeto de Lei Orçamentária Anual.
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ORIENTAÇÕES SOBRE ORÇAMENTO E FUNDOS DOS DIREITOS DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE
Como se trata de uma situação excepcional, são abertos por Decreto do Executivo e estão
excetuados da exigência legal acerca da existência de recursos disponíveis, como se
observa dos artigos 43 e 44 da Lei nº 4.320/64:
Destinados a despesas
para as quais não haja
ESPECIAIS Autorizados por lei que não a LOA.
dotação orçamentária
específica (qualitativa).
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ORIENTAÇÕES SOBRE ORÇAMENTO E FUNDOS DOS DIREITOS DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE
[...]
Aqui, como exemplo, uma questão extraída de um Decreto de Crédito Adicional Suplementar,
no qual foram anuladas dotações orçamentárias do orçamento da Secretaria Municipal de
Assistência Social e suplementadas no orçamento do Gabinete do Prefeito (Quadro 13).
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ORIENTAÇÕES SOBRE ORÇAMENTO E FUNDOS DOS DIREITOS DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE
NATUREZA/
FUNÇÃO
ESPECIFICAÇÃO FONTE DO SUPLEMENTAÇÃO
PROGRAMÁTICA
RECURSOS
02 Gabinete do Prefeito
NATUREZA/
FUNÇÃO
ESPECIFICAÇÃO FONTE DO ANULAÇÃO
PROGRAMÁTICA
RECURSOS
Semas
14
Fundo Municipal de
14.02 Assistência Social 3.3.90.39 250.000,00
A análise do decreto evidencia que na prática não houve reforço de dotação, mas sim o
remanejamento de recursos de um órgão para outro, vedado pelo inciso IV do artigo 167
da Constituição Federal, uma vez que se tratava de repriorização de ações e demandava lei
específica, com a apreciação do Poder Legislativo acerca da justificativa.
Ciclo orçamentário é a sequência de fases ou etapas que devem ser cumpridas como parte
do processo orçamentário.
Consiste numa série de fatos que se sucedem, iniciando-se com a verificação da neces-
sidade de captação do recurso para satisfação das demandas sociais, traduzidas em uma
proposta orçamentária (planejamento), segue-se com a avaliação do Projeto de Lei que
sintetiza essa proposta (discussão, votação e aprovação) e, após, com a aplicação dos
recursos (execução) e posterior fiscalização (controle). Tem-se, então, que quatro são as
etapas do Ciclo Orçamentário: Planejamento, Aprovação, Execução e Fiscalização.
39
ORIENTAÇÕES SOBRE ORÇAMENTO E FUNDOS DOS DIREITOS DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE
Avaliação Elaboração
Execução Aprovação
Discurssão, votação e
Execução aprovação dessas das
Orçamentária leis (PPA, LDO e LOA)
DISCUSSÃO,
PLANEJAMENTO VOTAÇÃO E EXECUÇÃO CONTROLE
APROVAÇÃO
40
ORIENTAÇÕES SOBRE ORÇAMENTO E FUNDOS DOS DIREITOS DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE
PLANEJAMENTO
Por um lado, cada órgão público integrante do ente público delimita sua demanda, de
conformidade com os planos de ação e atuação, corroboradas por tabelas explicativas da
despesa e justificação de cada dotação solicitada, com a indicação dos atos de aprovação
de projetos e orçamentos de obras públicas, para cujo início ou prosseguimento ela se
destina, conforme diretriz consignada no art. 28 da Lei nº 4.320/64.
Por sua vez, o art. 29 da Lei nº 4.320/64 preceitua que cabe aos órgãos de contabilidade
ou de arrecadação, organizar demonstrações mensais da receita arrecadada, segundo as
rubricas, para servirem de base a estimativa da receita, na proposta orçamentária.
Diante das inúmeras demandas e da limitação dos recursos, o planejamento deve refletir o
equilíbrio entre receita e despesa, com a eleição das prioridades e o atendimento do mínimo
existencial, em especial o asseguramento do princípio da dignidade da pessoa humana.
INICIATIVA
41
ORIENTAÇÕES SOBRE ORÇAMENTO E FUNDOS DOS DIREITOS DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE
Calendário Orçamentário
Nos Estados e Municípios, o prazo para envio das Leis Orçamentárias pelo Poder
Executivo, para apreciação e votação pelo Poder Legislativo, deve ser observado nas
Constituições Estaduais e Leis Orgânicas
42
ORIENTAÇÕES SOBRE ORÇAMENTO E FUNDOS DOS DIREITOS DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE
(Grifo nosso)
Pela análise do dispositivo acima transcrito, vê-se que a despesa é fixada, pois conhecida
e baseada no plano de atuação de cada órgão e no que se pretende aprimorar ou redimen-
sionar para o exercício seguinte.
A receita, por sua vez, é apenas estimada, haja vista a impossibilidade de previsão absoluta
da arrecadação. No entanto, não pode ser aleatória, ou apenas refletir a estimativa da LOA
do exercício anterior, acrescida da correção inflacionária, como se observa comumente,
mas antes pressupõe a observância dos parâmetros definidos nas alíneas “a” a “c” do
inciso III do art. 22 da Lei nº 4.320/64, acima transcrito, aliada à demonstração da evolução
da receita, e sua demonstração, bem como à metodologia descrita no art. 12 da Lei de
Responsabilidade Fiscal.
Assim, o Poder Executivo elabora a proposta orçamentária, com base nas propostas
parciais de cada órgão, estimando receitas e fixando as despesas, mediante detalhamento
previsto no artigo 22 e anexos da Lei nº 4.320/64, a qual será posteriormente analisada
pelos legisladores, consoante prescreve o art. 84, XXIII, da Constituição Federal.
[...]
43
ORIENTAÇÕES SOBRE ORÇAMENTO E FUNDOS DOS DIREITOS DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE
Encaminhada a proposta consolidada pelo Poder Executivo, esta será apreciada pelo Poder
Legislativo.
Como a execução da Lei Orçamentária perpassa pela vontade do Poder Executivo, o legis-
lador preocupou-se em tornar IMPOSITIVA uma parcela de suas emendas, conforme o §
9º, art. 166, CF/88.
Art. 166
[...]
As Emendas Parlamentares:
são de execução obrigatória, exceto impedimento de ordem técnica que não permita o empenho
da despesa;
têm valores computados no montante anual de gastos com a saúde nos termos da vinculação
constitucional.
44
ORIENTAÇÕES SOBRE ORÇAMENTO E FUNDOS DOS DIREITOS DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE
O novo § 10 do art. 165 da Carta Magna impõe à Administração, sem fazer referência às
emendas parlamentares, o dever de executar as programações orçamentárias, adotando
os meios e as medidas necessários com o propósito de garantir a efetiva entrega de
bens e serviços à sociedade e, em sequência, o § 11 do mesmo dispositivo constitucional
estabelece as exceções ao orçamento impositivo, a fim de assegurar o equilíbrio fiscal.
45
ORIENTAÇÕES SOBRE ORÇAMENTO E FUNDOS DOS DIREITOS DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE
EXECUÇÃO
Após a sanção do orçamento pelo chefe do Poder Executivo, inicia-se a execução da Lei
Orçamentária Anual (LOA), que, como vimos, passou por etapas de elaboração, aprovação
e sanção/veto.
Como já visto, na LOA estão dispostos os créditos orçamentários e neles estão consig-
nadas as dotações orçamentárias ou recursos alocados para atender aos programas de
governo ali estabelecidos.
Fonte: Portal da transparência do município de Curitiba, que aprova o QDD para 2020.
13 A título de exemplo, vide o Decreto nº 1720/20, do Município de Curitiba, que aprova o QDD para o exercício de 2020.
46
ORIENTAÇÕES SOBRE ORÇAMENTO E FUNDOS DOS DIREITOS DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE
Cabe ressaltar que a realização das despesas depende da efetiva arrecadação e as receitas
e despesas não ocorrem todas de uma só vez e numa mesma data e demandam uma série
de etapas ou fases para sua concretização.
Esses limites são as COTAS, que definirão, mediante estudo, qual é o montante ideal para
ser liberado efetivamente, em determinado período de tempo, conforme estabelece a Lei
nº 4.320/64:
O quadro de cotas14 deve ser publicado no Diário Oficial e seu objetivo é delimitado no
artigo 48 da Lei nº 4.320/64:
Art. 48. A fixação das cotas a que se refere o artigo anterior atenderá
aos seguintes objetivos:
Com o objetivo de planejar o fluxo de caixa do ente público, ou seja, definir a distribuição da
despesa dentro do exercício, de forma a não acarretar deficits financeiros, a Lei de Respon-
sabilidade Fiscal previu a publicação da PROGRAMAÇÃO FINANCEIRA e CRONOGRAMA
DE EXECUÇÃO MENSAL DE DESEMBOLSO:
Art. 8º Até trinta dias após a publicação dos orçamentos, nos termos
em que dispuser a lei de diretrizes orçamentárias e observado o disposto
na alínea c do inciso I do art. 4º, o Poder Executivo estabelecerá a
14 A título de exemplo, vide Decreto do Município de São Paulo nº 59.171, de 10/01/20, que fixa as normas referentes à
execução orçamentária e financeira para o exercício de 2020.
47
ORIENTAÇÕES SOBRE ORÇAMENTO E FUNDOS DOS DIREITOS DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE
[...]
Art. 13. No prazo previsto no art. 8º, as receitas previstas serão desdo-
bradas, pelo Poder Executivo, em metas bimestrais de arrecadação,
com a especificação, em separado, quando cabível, das medidas de
combate à evasão e à sonegação, da quantidade e valores de ações
ajuizadas para cobrança da dívida ativa, bem como da evolução do
montante dos créditos tributários passíveis de cobrança administrativa.
(Grifo nosso)
48
ORIENTAÇÕES SOBRE ORÇAMENTO E FUNDOS DOS DIREITOS DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE
Uma vez autorizada na Lei Orçamentária ou nos créditos adicionais, a despesa será
realizada de acordo com a programação, que compatibiliza as prioridades das aplicações
com as disponibilidades financeiras.
Após essa etapa acima detalhada, inicia-se a fase administrativa da despesa, com a obser-
vância dos procedimentos previstos em lei para a contratação e ultimação das etapas ou
estágios da despesa: Empenho, Liquidação e Pagamento.
a) Empenho
15 ANDRADE, Nilton de Aquino. Contabilidade pública na gestão municipal. São Paulo: Atlas, 2002.
49
ORIENTAÇÕES SOBRE ORÇAMENTO E FUNDOS DOS DIREITOS DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE
O empenho não pode exceder ao limite de créditos concedidos na LOA, de acordo com a
Lei nº 4.320/64:
Considerando os vários tipos de despesa, existem três tipos de empenho, ordinário, por
estimativa e global, conforme demonstrado No Quadro 16:
Atende a despesa conhecida em seu montante, mas que deve ser paga
parceladamente, como estabelece o art. 60, § 3º, da Lei nº 4.320/64:
Art. 60 [...]
GLOBAL
§ 3º É permitido o empenho global de despesas contratuais e outras, sujeitas
a parcelamento.
Fonte: elaborado pelos autores deste Manual, a partir da Lei nº 4.320/64 e do Decreto nº 93.872/86.
50
ORIENTAÇÕES SOBRE ORÇAMENTO E FUNDOS DOS DIREITOS DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE
da despesa. O contingenciamento, que autoriza tais decretos, será melhor explicado logo
a seguir.
ATENÇÃO
Seja porque foi emitido incorretamente ou porque o objeto do contrato não foi cumprido, o empenho
pode ser CANCELADO.
O empenho deve ser ANULADO quando não forem observados os requisitos legais (§ 4º, art.
59, Lei nº 4.320/64) e os créditos devolvidos ao orçamento.
Se o empenho for insuficiente para atender o compromisso firmado, poderá ser REFORÇADO.
b) Liquidação
É a fase de verificação do direito adquirido do credor, com base nos títulos e documentos
comprobatórios do respectivo crédito, visando apurar, nos termos do artigo 63 da Lei nº
4.320/64:
É nessa etapa em que ocorre a comprovação da realização de uma obra, na forma especi-
ficada em contrato, em que se verifica se as faturas correspondem às medições, se o
controle de ponto dos funcionários já foi informado no cálculo da folha de pagamento, entre
outros.
c) Pagamento
É o ato pelo qual a Administração, percebendo que o credor faz jus ao recebimento do
numerário, entrega-o, recebendo a devida quitação, de acordo com as diretrizes da Lei nº
4.320/64:
[...]
51
ORIENTAÇÕES SOBRE ORÇAMENTO E FUNDOS DOS DIREITOS DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE
Sempre tendo em vista a higidez nas contas públicas, a Lei de Responsabilidade Fiscal
trouxe uma regra rígida de contingenciamento de despesas em seu art. 9º, em caso de
ocorrência de frustração da arrecadação, que venha a comprometer a programação de
gastos discriminada na lei orçamentária.16
Trata-se de um esforço para restabelecer o equilíbrio nas contas públicas e medida cabível
é a limitação de empenho, que se materializa nos decretos de contingenciamento.
Art. 9º [...]
[...]
(Grifo nosso)
Essa questão tem pertinência com as hipóteses de calamidade pública, quando em nossa
atuação funcional iremos nos deparar com decretos de contingenciamento, abertura de
52
ORIENTAÇÕES SOBRE ORÇAMENTO E FUNDOS DOS DIREITOS DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE
17 PINTO, Elida Graziane. Um microssistema de tutela do custeio dos direitos sociais nos protege. Contas à vista. Revista
Consultor Jurídico. Disponível em: www.conjur.com.br.
53
ORIENTAÇÕES SOBRE ORÇAMENTO E FUNDOS DOS DIREITOS DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE
4. TRANSPARÊNCIA, FISCALIZAÇÃO E
CONTROLE
A realização do gasto público impõe um seguro acompanhamento, visando certificar-se de
que a aplicação dos recursos se deu conforme previsto nas leis orçamentárias.
08.243.0024.0001.4001.0029
Proteção Social
ELEMENTO
VALOR
DE ANULAÇÃO EMPENHADO LIQUIDADO PAGO DISPONÍVEL
ORÇADO
DESPESA
Por este exemplo, a previsão de gastos com material de consumo para manutenção da
Ação (Serviço de Acolhimento Institucional Masculino para criança e adolescente), durante
um exercício (2020), constou da LOA no montante de R$ 120.000.00.
Até o fim do mês de maio do exercício, após procedimento licitatório, tinha sido empenhado,
liquidado e pago o montante de R$ 42.000,00. Ocorre que a dotação orçamentária foi
anulada no montante de R$ 69.000,00, sobrando, por conseguinte, para o restante do
exercício, tão somente R$ 8.000,00 para ser gasto.
54
ORIENTAÇÕES SOBRE ORÇAMENTO E FUNDOS DOS DIREITOS DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE
(Grifo nosso)
55
ORIENTAÇÕES SOBRE ORÇAMENTO E FUNDOS DOS DIREITOS DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE
Ainda no intuito de aliar o planejamento com o equilíbrio das contas públicas, a Lei de
Responsabilidade Fiscal disciplinou a elaboração, ao final de cada quadrimestre, de um
relatório consolidado denominado RELATÓRIO DE GESTÃO FISCAL - RGF, o qual deve
ser publicado até 30 dias após o final do período:
Art. 54. Ao final de cada quadrimestre será emitido pelos titulares dos
Poderes e órgãos referidos no art. 20 Relatório de Gestão Fiscal
(Grifo nosso)
Os Relatórios Fiscais acima elencados devem ser publicados no Diário Oficial. A seguir a
consolidação desses instrumentos.
Nessa programação, estipula, mês a mês, quanto cada secretaria ou órgão receberá, para que
possa planejar seus gastos.
56
ORIENTAÇÕES SOBRE ORÇAMENTO E FUNDOS DOS DIREITOS DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE
57
ORIENTAÇÕES SOBRE ORÇAMENTO E FUNDOS DOS DIREITOS DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE
• Áreas de controle
A fiscalização exercida pelo Poder Legislativo, mediante controle externo, com o auxílio dos
Tribunais de Contas e pelo sistema de controle interno de cada Poder, consoante ditames
do art. 70 da Constituição Federal, abrange as áreas destacadas no Quadro 17.
(Grifo nosso)
58
ORIENTAÇÕES SOBRE ORÇAMENTO E FUNDOS DOS DIREITOS DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE
• Objeto de controle
• Espécies de controle
O controle do orçamento público pode ser observado em face do momento em que ocorre
(Quadro 18) e ainda em face do órgão ou agente que o realiza (Quadro 19).
59
ORIENTAÇÕES SOBRE ORÇAMENTO E FUNDOS DOS DIREITOS DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE
ÓRGÃO OU AGENTE
Contas do Executivo
EXTERNO
a) de governo, referem-se à gestão política do chefe do Executivo
(contas globais), sendo julgadas pelo Legislativo, com auxílio do TC
Exercido pelo Poder
que emite parecer prévio;
Legislativo com
auxílio TC (art. 49, IX
b) de gestão, referem-se às contas dos demais administradores de
CF).
recursos públicos que resultam num julgamento técnico pelo TC em
caráter definitivo.
60
ORIENTAÇÕES SOBRE ORÇAMENTO E FUNDOS DOS DIREITOS DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE
18 “A decisão política na atividade financeira do Estado afirma-se como manifestação de poder financeiro, mas sob uma
mudança de paradigma que não se pode olvidar: agora não é o Poder Financeiro do Estado que legitima a atividade finan-
ceira como ato de autoridade, mas a democracia que o autoriza, mediante escolhas políticas de governo ou do legislativo (lei)
que não podemcontrastar com a Constituição.” (TORRES, Heleno Taveira. Direito Constitucional Financeiro. São Paulo:
Revista dos Tribunais, 2014, p. 127.)
61
ORIENTAÇÕES SOBRE ORÇAMENTO E FUNDOS DOS DIREITOS DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE
REFERÊNCIAS (Parte 1)
BRASIL. Lei nº 4.320, de 17 de março de 1964. Estatui Normas Gerais de Direito Finan-
ceiro para elaboração e controle dos orçamentos e balanços da União, dos Estados, dos
Municípios e do Distrito Federal. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/
l4320.htm . Acesso em: 21 fev. 2020.
62
ORIENTAÇÕES SOBRE ORÇAMENTO E FUNDOS DOS DIREITOS DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE
CASTRO, Robison Gonçalves de Castro. Contabilidade pública. 2. ed. São Paulo: Atlas,
2003.
DI PIETRO, Maria Sylvia Zanella. Direito Administrativo. São Paulo: Atlas, 2015.
HARADA, Kiyoshi. Direito Financeiro e Tributário. 15. ed. São Paulo: Atlas, 2006.
MACHADO JR, J. Teixeira; REIS, Heraldo da Costa. A Lei 4.320 comentada. Rio de
Janeiro: Ibam, 2000/2001.
OLIVEIRA, Regis Fernandes. Curso de Direito Financeiro. São Paulo: Revista dos
Tribunais, 2015.
63
ORIENTAÇÕES SOBRE ORÇAMENTO E FUNDOS DOS DIREITOS DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE
TORRES, Heleno Taveira. Direito Constitucional Financeiro. São Paulo: RT, 2014.
64
ORIENTAÇÕES SOBRE ORÇAMENTO E FUNDOS DOS DIREITOS DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE
PARTE 2
METODOLOGIA ORÇAMENTO
CRIANÇA E ADOLESCENTE
1. INTRODUÇÃO
Quando se trata do tema financiamento de políticas públicas da Infância e Juventude,
não se pode perder de vista, afora todas as normas já mencionadas neste manual, que a
Convenção sobre os Direitos da Criança e do Adolescente, adotada pela Organização das
Nações Unida em 1989 e ratificada pelo Brasil já no ano seguinte, através do Decreto nº
99.710/90, prevê em seu artigo 4.º que os Estados Partes signatários da Convenção devem
destinar “o máximo de recursos disponíveis” para implementar os direitos das crianças e
adolescentes..
Além disto, já em 2016, buscando especificar ainda mais a obrigação de tratar crianças
e adolescentes com absoluta prioridade quando da destinação de recursos públicos, o
Comitê dos Direitos da Criança – órgão das Nações Unidas responsável por supervisionar
o cumprimento da Convenção – emitiu o Comentário Geral nº 19.19
65
ORIENTAÇÕES SOBRE ORÇAMENTO E FUNDOS DOS DIREITOS DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE
de Direitos Humanos,20 que trata da busca por melhores investimentos nos direitos da
criança e o Relatório do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos
que precede a Resolução, intitulado “Towards better investment in the rights of the child”
(Avanços para um melhor investimento nos direitos da criança) (A/HRC/28/33).21
Ainda, quando a Convenção dos Direitos das Crianças diz em seu art. 4º que “os Estados
Partes devem adotar tais medidas utilizando ao máximo os recursos disponíveis”, está a
prever que devem os Estados Partes demonstrar que fizeram todo o esforço possível para
mobilizar, alocar e gastar os recursos orçamentários para atender os direitos econômicos,
sociais e culturais de todas as crianças em sua integralidade com efetividade, de maneira
eficiente e transparente.
Além disto, para que se cumpram estas diretrizes a ONU prevê importantíssimos princípios
de Orçamento Público, estes indispensáveis para promover os direitos das crianças e
adolescentes, são eles: Eficácia; Eficiência; Equidade; Sustentabilidade e Transparência.
Por Eficácia entenda-se que os Estados devem planejar, aprovar, executar e acompanhar o
orçamento de modo a promover os direitos das crianças produzindo os melhores resultados
possíveis e para o maior número de crianças.
Por Eficiência entenda-se que os recursos públicos para a infância devem ser geridos de
forma a garantir sua otimização. As despesas aprovadas devem ser executadas de acordo
com a legislação orçamentária aprovada e os bens e serviços devem ser adquiridos e
entregues de forma transparente e em tempo viável e com a qualidade adequada, cabendo
a cada Estado Parte implementar todos os esforços suficientes para superar as barreiras
institucionais que impedem o gasto eficiente dos recursos públicos.
20 https://undocs.org/es/A/HRC/RES/28/19
21 https://ap.ohchr.org/documents/S/HRC/d_res_dec/A_HRC_28_L28.pdf
22 https://undocs.org/pdf?symbol=es/A/RES/67/18
66
ORIENTAÇÕES SOBRE ORÇAMENTO E FUNDOS DOS DIREITOS DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE
Por sua vez, falar em Transparência é prever que os Estados Partes criem e mantenham
sistemas de transparência, possibilitando a todos a efetiva participação no processo
orçamentário com dados livremente disponíveis e fornecidos em tempo hábil. Este princípio
é dos mais importantes quando se fala na Metodologia Orçamento Criança e Adolescente.
Transparente é o Orçamento que possibilita acesso minucioso à informação sobre previsão
e gastos públicos com crianças, pois só assim se poderá promover a real colaboração da
sociedade civil e das próprias crianças e adolescentes.
Uma das formas de garantir transparência, eficiência e permitir o controle social dos
orçamentos públicos assim como garantir o adequado monitoramento da execução de
recursos para as políticas públicas destinadas à população infantojuvenil é a implementação
da Metodologia Criança e Adolescente, estabelecendo o Orçamento Criança e Adolescente.
67
ORIENTAÇÕES SOBRE ORÇAMENTO E FUNDOS DOS DIREITOS DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE
2. ORÇAMENTO CRIANÇA E
ADOLESCENTE (OCA)
Para dar cumprimento à Convenção dos Direitos da Criança da Organização das Nações
Unidas (ONU) e efetivar as previsões da Constituição Federal e do Estatuto da Criança
e do Adolescente (ECA), no que se refere à privilegiada destinação de recursos para a
infância e juventude, faz-se necessário identificar o montante de recursos públicos desti-
nados à criança e ao adolescente em cada uma das peças orçamentárias já abordadas
neste manual. Porém, esta identificação não é tarefa fácil, não só pela complexidade dos
conceitos técnico-legais que envolvem o orçamento público como também pela superficia-
lidade das informações nos canais de acesso público.
Para facilitar essa análise e só assim garantir transparência, surge, então, o denominado
Orçamento Criança e Adolescente (OCA) e a Metodologia OCA, destinada a criar
critérios para selecionar e apurar os dados orçamentários, possibilitando sua compreensão,
sua fiscalização, seu monitoramento.
68
ORIENTAÇÕES SOBRE ORÇAMENTO E FUNDOS DOS DIREITOS DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE
Além disso, como os planos têm longa duração, podem orientar mais de um gestor, mais de
um plano plurianual, mais de uma lei de diretrizes orçamentárias, mais de uma lei orçamen-
tária.
As metas, que são ações quantificadas por produto, previstas nos planos decenais devem
constar no Plano Plurianual não apenas do Fundo Estadual, Distrital ou Municipal da
Infância, mas também em cada uma das secretarias e órgãos responsáveis pelas políticas
públicas da infância e juventude. A política da infância é transversal, envolve ações em
diversas secretarias e órgãos, envolve corresponsabilidades.
O mesmo deve ocorrer com a Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO), já que ela estabelece
o elo entre o Planejamento – PPA – e o Operacional – LOA, trazendo parâmetros para as
leis orçamentárias anuais.
Uma vez previstas as metas e ações estabelecidas nos planos decenais no PPA e realizada
a indicação das ações governamentais voltadas para as crianças e adolescentes que serão
executadas prioritariamente na LDO, cabe à LOA materializar, com dotação orçamentária
específica, os recursos que serão alocados em cada ação.
Ainda, com a ativa participação do Ministério Público e dos Conselhos de Direito será
fomentado o adequado controle social do orçamento público, inclusive com a efetiva parti-
cipação popular nas audiências públicas, conforme previsão do art. 48, § 1º, I da Lei de
Responsabilidade Fiscal, fomentando o conhecimento das peças orçamentárias.
Não se pode esquecer que segundo previsão expressa da Convenção sobre os Direitos da
Criança e do Adolescente da ONU, ratificada pelo Brasil, devem ser alocados o máximo de
recursos possíveis para a implementação dos direitos desta parcela da população.
69
ORIENTAÇÕES SOBRE ORÇAMENTO E FUNDOS DOS DIREITOS DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE
Para que seja possível estabelecer efetivamente o Orçamento Criança, necessária se faz
a aplicação da Metodologia Orçamento Criança e Adolescente, que nada mais é que uma
ferramenta que possibilita identificar, analisar e monitorar, a partir do orçamento público, o
montante de recursos previstos e as ações governamentais que serão executadas para a
proteção de crianças e adolescentes. De fato, para a construção desse orçamento temático
importante a definição de uma metodologia de análise do orçamento para se definir efeti-
vamente quais os recursos públicos destinados à infância e adolescência, criando critérios
para seleção, apuração e monitoramento dos dados orçamentários.
A metodologia proposta pela Fundação Abrinq destina-se à análise apenas dos Orçamentos
Municipais, definindo as ações que compõem o OCA, tendo como referência o documento
“Um Mundo para as Crianças”24 e “Pacto pela Paz”, documento com estratégias de ação
definidas pelo Conanda. Nesse método, as ações e despesas que compõem o OCA foram
agrupadas em três eixos estratégicos, conforme demonstra o Quadro 20.
ASSISTÊNCIA SOCIAL E
SAÚDE EDUCAÇÃO
DIREITOS DA CIDADANIA
Promoção da saúde,
Promoção da educação, Promoção de direitos,
saneamento, habitação e
cultura, lazer e esporte. proteção e assistência social.
meio ambiente.
23 https://www.unicef.org/brazil/pt/de_olho_orcamento_crianca.pdf
https://www.unicef.org/brazil/sites/unicef.org.brazil/files/2019-09/um_mundo_para_as_criancas.pdf
24 UNICEF, 2002.
70
ORIENTAÇÕES SOBRE ORÇAMENTO E FUNDOS DOS DIREITOS DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE
EIXO FUNÇÕES
10 – SAÚDE;
SAÚDE 16 – HABITAÇÃO;
17 – SANEAMENTO.
12 – EDUCAÇÃO;
EDUCAÇÃO 13 – CULTURA;
27 – DESPORTO E LAZER.
08 – ASSISTÊNCIA SOCIAL;
ASSISTÊNCIA SOCIAL
14 – DIREITOS DA CIDADANIA.
A metodologia proposta pela Fundação Abrinq também diferencia a natureza das ações que
compõe o orçamento, dividindo-as em:
71
ORIENTAÇÕES SOBRE ORÇAMENTO E FUNDOS DOS DIREITOS DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE
Então, segundo a Fundação Abrinq, teremos ao final desse passo as ações e despesas
selecionadas, conforme vemos descritas no Quadro 22.
72
ORIENTAÇÕES SOBRE ORÇAMENTO E FUNDOS DOS DIREITOS DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE
73
ORIENTAÇÕES SOBRE ORÇAMENTO E FUNDOS DOS DIREITOS DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE
74
ORIENTAÇÕES SOBRE ORÇAMENTO E FUNDOS DOS DIREITOS DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE
Os passos acima mencionados são sugeridos pela Fundação Abrinq. Entretanto, outros
critérios podem ser utilizados de acordo com a Metodologia estabelecida em cada Estado
ou Município. Por exemplo, em Municípios pequenos, ou mesmo no Estado, pode ser
possível analisar o dado real de quantidade de crianças e adolescentes atendidos naquela
ação, programa ou atividade utilizando este número como percentual para ações não exclu-
sivas.
No passo 02, sugere-se que o chefe do Executivo seja provocado a constituir grupo de
trabalho ou comissão, preferencialmente criados por portaria ou decreto, com técnicos da
área orçamentária, gestores da política pública, conselheiros de direitos e com o próprio
membro do Ministério Público com atribuições na área, para realizar o levantamento dos
dados. Como, em regra, o gestor da política pública não trabalha diretamente com a elabo-
ração do orçamento público e como os técnicos que elaboram os orçamentos normalmente
não conhecem integralmente as políticas públicas, necessária se faz a ação integrada de
todos, sob pena de inviabilizar toda apuração de dados. Um levantamento de dados bem
organizado, técnico, de fonte segura é um dos principais passos na implementação do
orçamento temático.
No passo 3, após a identificação das ações que compõem cada eixo (por função), é preciso
identificar a subfunção de cada ação e se o público-alvo é exclusivo ou não exclusivo para
população OCA.
Esclarece-se que a apuração do OCA poderá ser feita a partir da base orçamento anual,
quando é necessário ter em mãos a LOA, publicada antes do início do exercício, e nele
analisar os anexos onde constam discriminadamente as despesas de cada órgão da
administração com as respectivas ações (projetos, atividades) e a previsão de gastos por
grupo de despesa, cuja ação está acompanhada de sua classificação funcional-progra-
mática. É a interpretação dessa codificação que permitirá selecionar as ações e despesas
que constarão do Orçamento Criança e Adolescente.
Mas também pode-se apurar o OCA a partir dos dados da execução orçamentária, quando
necessário dispor do Quadro Demonstrativo de Despesas (QDD) que traga a discriminação
de projetos/atividades com a classificação funcional-programática, como também dados
referentes às despesas já liquidadas no período que se deseja analisar.
75
ORIENTAÇÕES SOBRE ORÇAMENTO E FUNDOS DOS DIREITOS DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE
Nessa perspectiva, como função deve-se entender o maior nível de agregação das diversas
áreas que competem o setor público e subfunção uma partição da função do setor público.
Observe-se que as subfunções podem ser combinadas com funções diferentes daquelas
a que estejam vinculadas. Assim, pode-se, por exemplo, agregar a subfunção 243 – Assis-
tência à Criança e ao Adolescente – à função Assistência Social (08), à função Saúde (10),
à função Direitos da Cidadania (14), dentre outras, conforme exemplificado no Quadro 23.
333 – Empregabilidade
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ORIENTAÇÕES SOBRE ORÇAMENTO E FUNDOS DOS DIREITOS DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE
Como já visto anteriormente, a Portaria nº 42/99, art. 2º, define programa, projeto e atividade.
É importante considerar que, para apurar com maior detalhamento o valor orçamentariamente
destinado à infância e adolescência em determinado Município ou Estado, será necessário
ampliar a leitura a partir das subfunções, seguindo a ordem projeto-atividade, cujos conceitos
já foram abordados anteriormente. Não basta a seleção funcional das ações e despesas,
sendo importante realizar também a seleção direta, ou seja, de cada ação e despesa, corre-
lacionando-as com as áreas de promoção e desenvolvimento da infância e adolescência.
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ORIENTAÇÕES SOBRE ORÇAMENTO E FUNDOS DOS DIREITOS DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE
Quando se está diante de valor exclusivo para a área da infância, a verificação dos valores
é muito clara.
Entretanto, quando se tratar de valores de aplicação não exclusiva na área, devem ser
estabelecidos na metodologia critérios claros que definam percentuais a considerar, tais
como o número estimado de crianças ou adolescentes que utilizam aquele serviço (por
exemplo, o número de vacinas de determinada modalidade comprada pelo Município e que
só é aplicada para crianças, ou o número de matrículas de adolescentes na Educação de
Jovens e Adultos) ou o número estimado de crianças e adolescentes que vivem naquele
Município.
Uma vez realizada a seleção das ações e despesas que comporão o Orçamento Criança
e Adolescente, como um passo 4, deve-se encaminhar os dados compilados para análise
do Conselho de Direitos, vez que ele como deliberador da política pública deve conhecer o
Orçamento Criança e Adolescente para monitorá-lo.
Como já afirmado, além da metodologia sugerida pela Fundação Abrinq, outras Metodo-
logias podem ser desenvolvidas. Ainda, a Metodologia indicada pela Fundação Abrinq
destina-se à análise do Orçamento Criança e Adolescente nos Municípios, mas possível é a
aplicação de metodologia semelhante nos Estados, buscando verificar o esforço orçamen-
tário de cada um dos Estados Membros na garantia dos direitos infantojuvenis.
Ainda, nesta metodologia aplicou-se como percentual quando das verbas não exclusivas
não o índice de proporção de crianças e adolescentes residentes no Município sugerido pela
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ORIENTAÇÕES SOBRE ORÇAMENTO E FUNDOS DOS DIREITOS DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE
Fundação Abrinq, mas, sempre que possível, o número representativo da real quantidade
de crianças e adolescentes usuárias daquele serviço ou beneficiados por aquela ação.
Fonte: elaborado por Ministério Público do Paraná e Centro Marista de Defesa da Infância
No Estado do Paraná, também, fora criado, por decreto governamental, grupo de trabalho
composto pela Secretaria da Justiça, Família e Trabalho, Secretaria de Planejamento,
Secretaria da Fazenda, Conselho Estadual dos Direitos da Criança e do Adolescente e
Ministério Público para a criação da metodologia OCA no Orçamento do Estado, com a
criação de plataforma Microsoft Power BI para monitoramento de todos os projetos atividade
destinados a crianças e adolescentes, como adiante se verá.
A divisão entre eixos saúde e educação e assistência também pode ser diferente depen-
dendo da metodologia aplicada, podendo, por exemplo, separar-se os eixos da Cultura, do
Esporte, entre outros.
A título de exemplo, vejamos o seguinte Anexo da Lei Orçamentária Anual 2020 de Curiti-
ba-Pr (Figura 15).
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ORIENTAÇÕES SOBRE ORÇAMENTO E FUNDOS DOS DIREITOS DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE
Importante também verificar que não basta analisar separadamente as ações e despesas
em exclusivas e não exclusivas, sendo imprescindível analisá-las agrupadas por matérias.
Assim, pode-se dividir as ações e despesas OCA em áreas de proteção e desenvolvimento:
Educação, Saúde, Assistência Social, Trabalho, entre outros grandes ramos.
Verificando o Quadro 24, tem-se um exemplo para a melhor compreensão do que ora foi
abordado.
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ORIENTAÇÕES SOBRE ORÇAMENTO E FUNDOS DOS DIREITOS DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE
ÁREAS E SUBÁREAS
FUNÇÃO SUBFUNÇÕES OBSERVAÇÃO
DE ATUAÇÃO
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ORIENTAÇÕES SOBRE ORÇAMENTO E FUNDOS DOS DIREITOS DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE
3. MONITORAMENTO E AVALIAÇÃO
Uma vez implementado o Orçamento Criança e Adolescente, faz-se necessário monitorar,
avaliar e divulgar os resultados obtidos, possibilitando o controle social.
Uma das possíveis formas de avaliar o OCA é comparar o valor previsto na lei orçamen-
tária com o valor executado. Para tanto, é necessário analisar os Relatórios de Execução
Orçamentária do Estado ou do Município que se está a avaliar. Outra forma é analisar
quanto do orçamento geral daquele Estado ou Município é Orçamento Criança e Adoles-
cente, verificando se está sendo ou não respeitada a garantia constitucional da prioridade
absoluta.
Além disto, em função do alto grau de complexidade, tanto em função da enorme quantidade
de informações, como para melhor interpretar todos os valores resultantes dos inúmeros
cruzamentos possíveis das variáveis econômico-financeiras e contábeis, a criação de
sistemas que facilitem a exposição e a leitura dos dados contribui expressivamente para a
homogeneização do entendimento do Orçamento Criança e Adolescente.
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ORIENTAÇÕES SOBRE ORÇAMENTO E FUNDOS DOS DIREITOS DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE
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ORIENTAÇÕES SOBRE ORÇAMENTO E FUNDOS DOS DIREITOS DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE
Fonte: elaborado pelo Grupo de Trabalho Orçamento Criança e Adolescente. Decreto estadual n.º 371/2020.
Na tela do Power BI (Figura 15) verificamos que no Estado temos 341 Projetos Atividade,
com 76 Elementos de Despesa e 511 Subelementos de despesa. Há também informações
sobre os órgãos, unidades orçamentárias, Função, Subfunção, Espécie, Modalidade,
Natureza e Fonte, podendo-se também verificar o valor OCA. Todos os campos são filtráveis
e é possível analisar o valor empenhado, o liquidado e o pago.
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ORIENTAÇÕES SOBRE ORÇAMENTO E FUNDOS DOS DIREITOS DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE
Fonte: elaborado pelo Grupo de Trabalho Orçamento Criança e Adolescente. Decreto estadual n.º 371/2020.
Referida Instrução prevê que os Municípios deverão indicar, de forma clara e objetiva, em
suas leis orçamentárias os recursos que serão utilizados na execução de políticas públicas
para o atendimento do princípio da absoluta prioridade garantido a crianças e adolescentes
e que estas políticas deverão ser demonstradas em Relatórios de Gestão, na periodicidade
da agenda adotada pelo Município para divulgação do Anexo de Metas Fiscais executado,
constando de avaliação quantitativa e qualitativa da execução orçamentária.
Além disto, prevê a Instrução Normativa que o Relatório de Gestão dos Direitos da Criança
e da Adolescência deverá evidenciar os resultados alcançados à luz do planejamento
estabelecido pelo Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente e que o
referido relatório poderá ser incorporado ao Relatório Resumido da Execução Orçamen-
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ORIENTAÇÕES SOBRE ORÇAMENTO E FUNDOS DOS DIREITOS DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE
tária (RREO), determinado pelo art. 165, § 3º, da Constituição Federal, que, na forma do
art. 52 da Lei Complementar nº 101/00, é divulgado até 30 dias após o encerramento de
cada bimestre civil.
Por fim, cabe ressaltar o importante papel desempenhado pelo agente do Ministério Público
na fiscalização ativa do Conselho de Direitos da Criança e do Adolescente, fomentando sua
participação nas discussões do PPA, da LDO, da LOA, buscando que cada meta do plano
decenal aprovado pelo Conselho de Direitos, que é o espaço deliberativo das políticas
públicas infanto-juvenis, transforme-se em diretrizes, objetivos e metas previstas no
orçamento de cada secretaria estadual ou municipal, recebendo o necessário e suficiente
aporte de recursos públicos.
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ORIENTAÇÕES SOBRE ORÇAMENTO E FUNDOS DOS DIREITOS DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE
REFERÊNCIAS (Parte 2)
BERCLAZ, Márcio Soares; MOURA, Millen Castro Medeiros de. O FIA e as so(m)bras
do orçamento público. Da (des)consideração absoluta à otimização de recursos para o
Orçamento Criança e Adolescente (OCA). Revista Jus Navigandi, Teresina, ano 13, n.
1773, 9 maio 2008. ISSN 1518-4862. Disponível em: https://jus.com.br/artigos/11241.
Acesso em: 19 jul. 2020.
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ceiro para elaboração e contrôle dos orçamentos e balanços da União, dos Estados, dos
Municípios e do Distrito Federal. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/
l4320.htm Acesso em: 19 jul. 2020.
CONTI, José Maurício. Orçamento não pode mais ser uma peça de ficção. Revista
Consultor Jurídico, 2 de jun. de 2015. Disponivel em: https://www.conjur.com.
br/2015-jun-02/contas-vista-orcamento-nao-peca-ficcao.
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ORIENTAÇÕES SOBRE ORÇAMENTO E FUNDOS DOS DIREITOS DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE
CONTI, José Maurício. Levando o Direito Financeiro a sério: a luta continua. [S.l: s.n.],
2018. Disponível em: https://bdpi.usp.br/item/002891317. Acesso em: 19 jul. 2020.
FERNANDES, Ana T.; CASTRO, Camila; MARON, Juliana. Desafios para imple-
mentação de políticas públicas: intersetorialidade e regionalização. 2013. Trabalho
apresentado no VI Congresso CONSAD de Gestão Pública, Brasília, 2013. Disponível em:
http://repositorio.fjp.mg.gov.br/consad/handle/123456789/919. Acesso em: 19 jul. 2020.
HARADA, Kiyoshi. Direito Financeiro e Tributário. 15. ed. São Paulo: Atlas, 2006.
LEPORE, Paulo Eduardo [et al]. Estatuto da criança e do adolescente: Lei n. 8.069/90
– comentado artigo por artigo. 10. ed. São Paulo: Saraiva Educação, 2018.
MACIEL, Kátia Regina Ferreira Lobo Andrade (coord.). Curso de Direito da Criança e do
Adolescente: aspectos teóricos e práticos. São Paulo: Saraiva, 2017.
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ORIENTAÇÕES SOBRE ORÇAMENTO E FUNDOS DOS DIREITOS DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE
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1996. Brasília: UNICEF, 1996.
TORRES, Heleno Taveira. Direito Constitucional Financeiro. São Paulo: Revista dos
Tribunais, 2014.
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ORIENTAÇÕES SOBRE ORÇAMENTO E FUNDOS DOS DIREITOS DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE
PARTE 3
FUNDOS DOS DIREITOS DA
CRIANÇA E DO ADOLESCENTE
1. CONCEITO
Os fundos especiais constituem-se de uma parcela de receitas especificadas por lei que
são destacadas para a consecução de objetivos determinados (art. 71 da Lei nº 4.320,
de 17 de março de 1964). Representam uma forma de tornar certa a destinação desses
recursos para áreas entendidas de especial relevância, como é o caso da promoção dos
direitos de crianças e adolescentes.
De acordo com o art. 50, I e III, da Lei de Responsabilidade Fiscal – LFR, todo fundo
especial deve ter as demonstrações contábeis e a identificação dos recursos individuali-
zadas, inclusive, com disponibilidade de caixa em registro próprio.
O fundo especial é, portanto, exceção à regra, segundo a qual todas as receitas devem
ingressar nos cofres públicos por uma única via, em observância ao princípio da unidade
de tesouraria (art. 56 da Lei nº 4.320/64). É uma forma de vincular receitas para priorizar
determinado tipo de despesa, de especial relevância, com destaque no orçamento. Pode-se
afirmar que é um instrumento de realização das despesas públicas, conforme vinculação
legal, limitando a discricionariedade dos governantes, além de um facilitador para captação
extra de recursos financeiros.
Por força do disposto no art. 167, IX, da CF/88, os fundos especiais devem ser criados por
lei, sendo inconstitucional, portanto, a criação por meio de decretos ou outros instrumentos
normativos.
Os fundos especiais são regidos, basicamente, pelos arts. 165 a 169 da CF/88, no capítulo
dos “orçamentos”; pela Lei nº 4.320/64, especialmente arts. 2º, § 2º; e 71 a 74, pela Lei de
Responsabilidade Fiscal, conforme art. 1º, § 2º, “b”; além de decretos e instruções norma-
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ORIENTAÇÕES SOBRE ORÇAMENTO E FUNDOS DOS DIREITOS DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE
tivas da Receita Federal pertinentes. A eles aplicam-se ainda a Lei nº 8.666, de 21 de junho
de 1993 (art. 1º, parágrafo único); e a Lei nº 13.019, de 31 de julho de 2014 (art. 27, § 1º e
art. 59, § 2º).
Por fim, quanto ao Fundo Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente aplica-se a
Lei nº 8.242/91, que o instituiu, seus decretos regulamentadores nº 9.579/18 e 10.003/19 e
as Resoluções 137/2010 e 194/2017, do Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do
Adolescente (Conanda), criado pela mesma Lei.
25 Embora a Lei nº 8.069/90 refira-se sempre a Fundo dos Direitos da Criança e do Adolescente, é comum a utilização da
denominação Fundo da Infância e Adolescência – FIA para o mesmo fundo especial.
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ORIENTAÇÕES SOBRE ORÇAMENTO E FUNDOS DOS DIREITOS DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE
Como é cediço, por força do art. 204 da CF/88 e art. 88, II e IV, do Estatuto, os Fundos dos
Direitos da Criança e do Adolescente devem ser vinculados aos Conselhos dos Direitos
da Criança e do Adolescente do respectivo ente federado, órgãos formuladores, delibera-
tivos e controladores das ações de implementação da política dos direitos da criança e do
adolescente, responsáveis por gerir os fundos e fixar critérios de utilização, conforme plano
de aplicação de seus recursos, de acordo com o disposto no § 2º, do art. 260, da Lei nº
8.069/90.
Os Conselhos, por sua vez, embora muitas vezes ainda vinculados às Secretarias de
Assistência Social, melhor se localizariam na estrutura da administração, junto a um órgão
central de Governo, como a secretaria de planejamento, a casa civil ou o próprio gabinete
do chefe do executivo (como fez a Lei nº 8.242/91), uma vez que têm como função precípua
exercer a insetorialidade. A proteção integral demanda múltiplas dimensões prestacionais,
que não mais se limitam exclusivamente à assistência social.
Por força do art. 260-G, I, do Estatuto, os Fundos deverão ter conta bancária específica e
exclusiva.
As receitas destinadas por lei aos Fundos dos Direitos da Criança e do Adolescente não
excluem a obrigação do Poder Público de contemplar no orçamento, especialmente da
saúde, da educação e da assistência social, recursos para a implementação de programas,
26 Durante o seminário “Financiamento de políticas públicas para garantia de direitos de crianças e adolescentes”, realizado nos
dias 07 e 08 de novembro de 2019, em Belo Horizonte, pelo Fórum Nacional dos Membros do Ministério Público da Infância
e Adolescência – PROINFÂNCIA, Karine Tomaz Veiga, Auditora do Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro, cedida
ao MPRJ, sustentou que a classificação dos fundos especiais como fonte de recursos, além de mais adequada à Lei nº
4.320/64 e às orientações técnicas, permite melhor auditoria da correta utilização dos recursos. No Estado do Rio de Janeiro,
por exemplo, o Conselho Estadual de Educação é unidade orçamentária e o FUNDEB é fonte de recursos. Recentemente a
Lei Estadual nº 8.845/20 alterou a classificação orçamentária de três fundos estaduais para fonte de recursos (FEHIS, FISED
e FECAM).
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ORIENTAÇÕES SOBRE ORÇAMENTO E FUNDOS DOS DIREITOS DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE
Assim, além do dever de zelar pela prioridade absoluta nos orçamentos dos entes da
federação, cabe a toda a rede de proteção assegurar a implantação e o pleno funcionamento
dos Fundos dos Direitos da Criança e do Adolescente em todos os estados e municípios
brasileiros.
Pesquisa de 2014 (Fundação Abrinq) detectou que 5.482 municípios tinham instalados os
Conselhos Municipais dos Direitos da Criança e do Adolescente (CMDCA), mas apenas
2.737 deles haviam criado os respectivos fundos. Portanto, menos da metade dos municípios
brasileiros haviam criado seus fundos municipais no período da pesquisa.
Importante consignar que a Lei Municipal deverá especificar as receitas que se vincularão
ao Fundo. Com efeito, conforme art. 72 da Lei 4.320/64, é necessário existir previsão
orçamentária de todas as receitas vinculadas aos fundos especiais, sob pena de, mesmo
havendo recursos financeiros na conta do Fundo, não existir autorização orçamentária para
execução de despesas.
Multas aplicadas pela autoridade judiciária – Conforme imposição legal (ECA, art. 214),
todos os valores das multas aplicadas em ações para proteção judicial de interesses indivi-
duais, difusos e coletivos reverterão ao fundo gerido pelo Conselho dos Direitos da Criança
e do Adolescente do respectivo município. Em outras palavras, a autoridade judiciária
está impedida, nos processos judiciais relativos aos casos da infância e juventude, de dar
qualquer outra destinação às multas arrecadadas, que não seja ao Fundo dos Direitos da
Criança e do Adolescente.
Nos casos em que o fundo ainda não estiver regulamentado, o dinheiro ficará depositado
em estabelecimento oficial de crédito, em conta com correção monetária.
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ORIENTAÇÕES SOBRE ORÇAMENTO E FUNDOS DOS DIREITOS DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE
Para que isso ocorra, faz-se importante o diálogo e o planejamento das ações por parte dos
conselheiros de direitos, no sentido da articulação com os outros entes da federação, bem
como a liderança do Conanda, transferindo os recursos do fundo nacional aos fundos de
estados e municípios, inclusive, como incentivo para regularização e efetivo funcionamento
dos fundos dos mais diversos entes.
Importante frisar que o termo mais adequado não é doação, uma vez que todo o recurso
depositado pelo contribuinte na conta do Fundo será devolvido e com correção
monetária, via restituição do IR. Portanto, considerando que o termo doação conduz ao
raciocínio de entrega sem a pretensão de qualquer retorno ou recompensa, este não se
mostra adequado.
Caso o contribuinte não use esse direito de destinar parte de seu IR para o Fundo, ele (seu
IR) será transferido na integralidade para o Tesouro Nacional, ou seja, o contribuinte não
perde nenhum valor. Em outras palavras, ao invés de o contribuinte pagar o valor total
do IR, um percentual desse imposto pode ser repassado para um ou mais Fundos de
sua livre escolha, sem qualquer ônus.
Destaque-se, por oportuno, que, sendo o Fundo dos Direitos da Criança e do Adolescente
um fundo público, as doações incentivadas (cujos valores são fruto de dedução fiscal)
adquirem de recurso público, tendo por consectário a aplicação das normas de gestão
relacionadas.
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ORIENTAÇÕES SOBRE ORÇAMENTO E FUNDOS DOS DIREITOS DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE
Além das três espécies de receita previstas no Estatuto, Estados, Distrito Federal e
Municípios podem vincular outras. A união, além das doações incentivadas do art. 260,
previu como receitas para o Fundo Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente, na
Lei 8.242/90, recursos consignados no orçamento da União; contribuições de governos e
organismos estrangeiros e internacionais e o resultado das respectivas aplicações, bem
como o resultado de aplicações no mercado financeiro, observada a legislação pertinente.
Algumas leis municipais definem uma porcentagem da Receita Corrente Líquida (RCL)
a ser direcionada para o Fundo dos Direitos da Criança e do Adolescente. Essa previsão
se revela inconstitucional (art. 167, IV, da CF/88). A vedação de vinculação de impostos,
contudo, não se estende aos demais tributos, sendo possível a vinculação de taxas ou
contribuições, bem como a vinculação de receitas patrimoniais (como aluguel de imóveis,
autorizações, concessões ou permissões onerosas; ocupação do espaço público, entre
outras).
Aos Estados e ao Distrito Federal é facultada a vinculação de até cinco décimos por cento
de sua receita tributária líquida a programa de apoio à inclusão e promoção social, de
acordo com a exceção à regra do art. 167, IV, da CF/88, prevista no art. 204.
Portanto, caso o Município (ou o Estado) ainda não esteja regularizado, deverá se adequar,
preferencialmente até 31 de outubro de cada ano, a fim de constar da lista enviada à Receita
Federal, pois apenas esses fundos estarão relacionados no Programa Gerador do Imposto
de Renda. Logo, caso o fundo não conste da lista da Receita Federal, o contribuinte não
conseguirá efetuar a doação incentivada no ato do preenchimento da declaração.
Uma forma bem simples de se detectar se algum Município está regularizado perante a
Receita Federal é baixar o programa gerador do imposto de renda e simular uma doação
incentivada, pois apenas os municípios regularizados aparecem na lista.
As dúvidas de como regularizar os cadastros e os itens que devem ser cumpridos para
que o fundo seja considerado apto para recebimento de recursos no próximo ano podem
ser elucidados através do da Receita Federal, bem como do Ministério da Mulher, Família
e Direitos Humanos.27 Erros comuns são: abertura de conta em bancos privados, nome
fantasia que não coincide com criança e adolescente entre outros.
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ORIENTAÇÕES SOBRE ORÇAMENTO E FUNDOS DOS DIREITOS DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE
Na atualidade, diante da crise financeira que atingiu o Brasil e, por consequência, os Estados
e Municípios, a palavra de ordem é reduzir gastos, otimizar custos.
Balanço divulgado pela União, sobre doações feitas aos Fundos dos Direitos da Criança e
do Adolescente na Declaração do Imposto de Renda, no ano de 2017, revelou que foram
repassados mais de 51 milhões de reais para 1.212 Fundos da Criança e do Adolescente.
De outro lado, em 2018, foram arrecadados cerca de R$ 67,88 milhões destinados aos
Fundos, a maior cifra desde 2013, quando as doações começaram a ser feitas via DIRPF. A
quantidade de doações também superou os anos anteriores, atingindo a marca de 62.688.
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ORIENTAÇÕES SOBRE ORÇAMENTO E FUNDOS DOS DIREITOS DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE
3. PLANEJAMENTO: PLANOS DE
POLÍTICAS PÚBLICAS, PLANOS DE
AÇÃO, PLANOS DE APLICAÇÃO E LEIS
ORÇAMENTÁRIAS
Passada a etapa de criação e regularização dos Fundos dos Direitos da Criança e do
Adolescentes chega o momento do planejamento.
O caminho escolhido pelo Direito Público para o planejamento financeiro foi o caminho
das Leis Orçamentárias. O planejamento da gestão pública para a utilização dos recursos
arrecadados na execução de políticas públicas dá-se por meio do plano plurianual (PPA),
da Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) e da Lei Orçamentária Anual (LOA).
Para elaboração do plano faz-se necessário avaliar o funcionamento das políticas públicas,
dos programas de atendimento, das ações e dos serviços que prestem atendimento ao
público infanto-juvenil, lembrando que, em tese, quanto mais se investe em proteção básica
(prevenção), menos será necessário dispender na proteção especial.
Vale lembrar que o Estatuto fez dos Conselhos Municipais de Direitos da Criança e do
Adolescente órgãos aptos a realização de diagnósticos, uma vez que são centralizadores de
informações para melhor exercício de sua função deliberativa e controladora das políticas
públicas.
28 Seguindo os pioneiros do estudo mais aprofundado dos Fundos dos Direitos da Criança e do Adolescente, Wilson Donizete
Liberati e Públio Caio Bessa Cyrino, a doutrina é quase uníssona ao afirmar que o plano de aplicação acompanha a LDO
(LIBERATI; CYRINO, 2003).
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ORIENTAÇÕES SOBRE ORÇAMENTO E FUNDOS DOS DIREITOS DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE
De tal forma que, com o simples exercício de suas funções previstas no Estatuto, com o
auxílio das inúmeras fontes de dados abertos disponíveis e o intercâmbio com os Conselhos
Setoriais afins, os Conselhos Municipais dos Direitos da Criança e do Adolescente ficam
aptos a realizar o mapeamento da política pública de atendimento aos direitos de crianças
e adolescentes do seu território, para melhor identificar os problemas, formular novas
políticas, fiscalizar as existentes e financiá-las com recursos dos fundos.
Vale registrar, ainda, que para a maior parte das políticas públicas setoriais há a previsão
legal ou constitucional de elaboração de planos decenais, ou de menor prazo, para materia-
lizar estratégias de implementação das políticas públicas. A título de exemplo, a Lei Orgânica
da Assistência Social – LOAS, a partir da alteração de 2011, que legislou sobre o SUAS,
exige a elaboração de planos de assistência social por todos os entes da federação, como
condição para o recebimento dos recursos nela previstos (art. 30, III). Do mesmo modo, na
saúde, a Lei do SUS dá grande relevância aos planos da saúde, vedando a transferência de
recursos para ações não previstas nos planos, conforme art. 15, VIII e art. 36. Já na área da
educação, é a própria CF/88 que prevê o plano decenal nacional de educação, que deverá
ser aprovado por lei (art. 214).
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ORIENTAÇÕES SOBRE ORÇAMENTO E FUNDOS DOS DIREITOS DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE
Portanto, o reconhecimento de que a estruturação das políticas públicas deve estar refletida
no ciclo orçamentário é primordial para a concretização dos direitos fundamentais que os
planos de políticas públicas pretendem assegurar.
Vale dizer, inclusive, que as deliberações dos conselhos intersetoriais deve respeitar os
planos de políticas públicas setoriais preexistentes, sob pena de desperdício de recursos
com políticas desarticuladas ou mesmo antagônicas.
Outrossim, observa-se que um dos pontos mais frágeis do ciclo das políticas públicas
consiste na transição do planejamento para a execução, o que só reforça a necessidade de
dar centralidade ao ciclo orçamentário, desde a elaboração do PPA, a cada quatro anos; da
LDO, no primeiro semestre de cada ano e da LOA, no segundo32.
Como já mencionado no primeiro capítulo deste trabalho, o PPA está previsto no art. 165, §
1º, da CF. Elaborado no primeiro ano de governo do chefe do Poder Executivo, deve refletir
o programa apresentado pelo então candidato durante a campanha. Nele, segundo a consti-
tuição, são traçadas, de forma regionalizada, diretrizes, objetivos e metas de médio prazo,
para os quatro anos seguintes, para despesas de capital e para as relativas aos programas
de duração continuada33. Consequentemente, nenhum investimento cuja execução ultra-
passe um exercício financeiro poderá ser iniciado sem prévia inclusão no PPA, sob pena
de crime de responsabilidade, conforme art. 167, § 1º, CF. Assim, tanto a construção de
uma unidade de internação de adolescentes em conflito com a lei, quanto à manutenção de
um serviço de acolhimento institucional, por exemplo, devem estar previstos no PPA, o que
demonstra a importância desse acompanhamento.
32 Em regra, até 15 de maio, é elaborada a LDO; e até 30 de setembro do primeiro ano de mandato, o PPA, mesmo prazo da
LOA (cerca de um mês depois dos prazos da União), podendo variar em cada Constituição Estadual ou Lei Orgânica do
Município, que muitas vezes estabelecem prazo de um mês após os prazos estaduais.
33 Segundo o art. 17 da LRF, considera-se obrigatória de caráter continuado a despesa corrente derivada de lei, medida
provisória ou ato administrativo normativo que fixem para o ente a obrigação legal de sua execução por um período superior
a dois exercícios.
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ORIENTAÇÕES SOBRE ORÇAMENTO E FUNDOS DOS DIREITOS DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE
Da mesma forma, é preciso participar da elaboração da LDO, que está conceituada no art.
165, § 2º, CF. Sua principal função era orientar a elaboração da LOA, mas a LRF trouxe
inúmeras outras matérias de fundamental importância que devem estar dispostas na LDO.
Conforme art. 4º da LRF, é a LDO que vai tratar de equilíbrio entre receitas e despesas;
critérios e formas de limitação de empenho; controle de custos e avaliação de resultados
dos programas financiados e condições e exigências para transferência de recursos para
entidades públicas e privadas. Além disso, conforme, § 2º, IV, “b” e V, seus anexos vão
conter avaliação da situação financeira (atual) e atuarial (futura) dos fundos públicos, bem
como estimativa da margem de expansão das despesas obrigatórias de caráter continuado.
Ademais, só podem ser incluídos novos projetos LOA após adequadamente atendidos os em
andamento e contempladas as despesas de conservação do patrimônio público, nos termos
do que dispuser a LDO (art. 45 da LRF). Também é a LDO que determina como será a
programação financeira e o cronograma de execução mensal de desembolso (art. 8º da LRF).
Assim, a LDO ganhou status de instrumento fundamental de planejamento. É ela que pode
estabelecer, por exemplo, que as políticas de atendimento a direitos de crianças e adoles-
centes não devem ser contingenciadas, ante o princípio da prioridade absoluta, restringindo
a limitação de empenho; ou, ainda, se há margem para a expansão do atendimento a
adolescentes em regime de semiliberdade. Da mesma forma, é a LDO que pode disci-
plinar as condições para as transferências de recursos para instituições de atendimento a
crianças e adolescentes por meio de subsídios ou auxílios, o que deixa clara sua relevância
na área da infância e juventude, a ponto de a doutrina recomendar a elaboração de um
plano de ação para seu acompanhamento.
A LOA, por fim, prevê a receita e fixa a despesa, conforme art. 165, § 8º, CF/88. É o
planejamento financeiro essencial de curto prazo, uma vez que, de acordo com o art. 167,
I, da CF/88, “são vedados o início de programas ou projetos não incluídos na lei
orçamentária anual”, sob pena de crime comum, de responsabilidade e improbidade
administrativa (art. 359 D, do Código Penal, arts. 1º, V, e 4º, VI, do Decreto-Lei nº
201/67 e art. 10, IX e XI, da Lei nº 8.429/92).
Os fundos são parte integrante da Lei Orçamentária Anual, conforme art. 165, § 5º, I e III,
da CF/88 e art. 2º e § 2º, I, da Lei nº 4.320/64, que faz menção expressa aos planos de
aplicação34 dos fundos especiais, assim como o art. 260, § 2º, do Estatuto.
34 Portaria SOF e SEPLAN nº 04 de 21/02/90 trata dos planos de aplicação para unidades orçamentárias, entidades e fundos
com dotações globais.
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ORIENTAÇÕES SOBRE ORÇAMENTO E FUNDOS DOS DIREITOS DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE
Para isso, devem ser obedecidos os prazos previstos nas constituições e nas leis orgânicas
municipais (em regra, 30 de setembro ou outubro) para o encaminhamento do projeto de lei
orçamentária ao legislativo, na forma do art. 22 da Lei nº 4.320/64. Para a União, os prazos
dos projetos de lei orçamentária encontram-se no art. 35, § 2º, do ADCT, combinado com
art. 57 da Constituição de 1988.
Os Conselho dos Direitos da Criança e do Adolescente devem ficar atentos, pois, caso não
consigam cumprir os prazos legais, terão que se adaptar a previsões elaboradas com base
nas leis orçamentárias de anos anteriores, dissociadas da realidade ou mesmo dos recursos
financeiros existentes na conta corrente do Fundo. Nesses casos, costuma constar da lei
orçamentária, como estimativa de receita, a repetição da estimativa do ano anterior e, como
fixação de despesa, uma classificação genérica de atendimento de crianças e adolescentes
(em que pese os arts. 5º e 15 da Lei nº 4.320/64).
Vale frisar que o orçamento do fundo é aquele que integra e, portanto, é aprovado com a
LOA. Qualquer documento produzido pelo Conselho com o nome de plano de aplicação,
após o prazo, muitas vezes já no curso do exercício financeiro, não tem nenhuma força
cogente ou relevância jurídica para fins de execução orçamentária.
Com a não observação dos prazos, o Conselho perde quase toda a vantagem da existência
do fundo. Com despesas fixadas apenas para uma ação genérica, o Conselho joga por
terra qualquer planejamento que eventualmente tenha feito para o ano, uma vez que deverá
enfrentar debate político a cada definição de despesa a ser executada.
Em caso de calamidade pública, guerra ou comoção, poderão ser abertos créditos extra-
ordinários, por decreto, apenas para despesas urgentes e imprevistas, para as demais,
permanece a necessidade de créditos suplementares ou especiais (art. 44 e 41, III, da Lei
nº 4.320/64).
Em qualquer caso, os créditos adicionais, como de resto toda a LOA, devem conter a classi-
ficação da despesa até onde for possível, para fins de controle do gasto público, conforme
art. 46. Afinal, são as diversas classificações orçamentárias que permitem a análise das
despesas por diversos ângulos, para melhor compreender, organizar, planejar e fiscalizar.
101
ORIENTAÇÕES SOBRE ORÇAMENTO E FUNDOS DOS DIREITOS DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE
“Soa repetitivo repisar, mas é preciso retomar que nada se faz, rigorosamente nenhuma ação
governamental é empreendida, tampouco qualquer planejamento público se materializa
sem que as despesas tenham sido legalmente autorizadas e sem que elas estejam respal-
dadas em receitas arrecadadas conforme estimativa da lei de orçamento.”35
35 CONTI, José Maurício; PINTO, Élida Graziane. Legado normativo. Lei dos orçamentos públicos completa 50 anos de
vigência. 2014. Disponível em: https://www.conjur.com.br/2014-mar-17/lei-orcamentos-publicos-completa-50-anos-vigencia.
Acesso em: 19 jul. 2020.
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ORIENTAÇÕES SOBRE ORÇAMENTO E FUNDOS DOS DIREITOS DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE
4. DOAÇÕES INCENTIVADAS
Muitos Conselhos ainda exercem a gestão do Fundo dos Direitos da Criança e do Adoles-
cente de uma forma reativa (e não proativa), aguardando o ingresso de recursos no
Fundo (via de regra, advindos do Imposto de Renda) para então decidir como repassar
esses recursos para organizações e projetos de atendimento de crianças e adolescentes.
Conselhos com postura reativa não se organizam para deliberar políticas públicas ou
elaborar Planos de Aplicação de recursos do fundo que estimem os valores necessários
para viabilizar a execução de ações prioritárias em seus municípios. Tornam-se meros
conselhos de avaliação de projetos e não Conselhos de formulação e controle de Políticas
Públicas, como determinou a Constituição da República (art. 204, II).
Para que o Conselho dos Direitos da Criança e do Adolescente possa maximizar e poten-
cializar seu papel constitucional e, consequentemente, a arrecadação de receitas para o
Fundo dos Direitos da Criança e do Adolescente, há necessidade de uma postura diferente.
É necessário que o Conselho assuma seu papel de gestor de um fundo público, com toda
a responsabilidade inerente à relevância da função.
Por meio do que foi aprovado no PPA, na LDO e na LOA o Conselho pode demonstrar seu
planejamento consistente e a relevância das ações deliberadas, já devidamente aprovadas
por lei para o ano seguinte, além daquelas já em execução no ano em curso.
Segundo o art. 260, II, do ECA, as doações de pessoas físicas aos Fundos podem ser
integralmente deduzidas do IR até o limite de 6% do valor do imposto devido.
Podem efetuar destinações incentivadas tanto as pessoas físicas que têm imposto a pagar
como aquelas que têm direito à restituição. A doação pode ser feita ao longo do ano fiscal.
Para que o contribuinte saiba o valor disponível para doação incentivada basta observar a
última declaração e checar o campo denominado “imposto devido”. Em havendo drásticas
alterações nas receitas X despesas de um ano para o outro, será necessário um cálculo
mais apurado (existem especializados e gratuitos).
Vamos a elas.
103
ORIENTAÇÕES SOBRE ORÇAMENTO E FUNDOS DOS DIREITOS DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE
Outra vantagem dessa forma de captar é que o CMDCA não precisa elaborar Declaração
de Benefícios Fiscais (DBF), planilha que reúne as informações com os nomes dos contri-
buintes, CPF e valores doados.
O lado negativo dessa captação via DIRPF é que o valor doado fica restrito a apenas 3%
do imposto devido e esse valor será depositado via pagamento da DARF (documento de
arrecadação da receita federal), sendgo certo que os valores são depositados nos Fundos
somente após o processamento das declarações (a partir de setembro).
36 Com base no art. 260-D do Estatuto, alguns municípios ainda divulgam os dados bancários do Fundo dos Direitos da
Criança e do Adolescente e aguardam os depósitos dos contribuintes. Após o deposito, cabe ao contribuinte remeter cópia do
comprovante ao CMDCA, acompanhado de seus dados pessoais e solicitar que o Conselho emita o recibo correspondente.
104
ORIENTAÇÕES SOBRE ORÇAMENTO E FUNDOS DOS DIREITOS DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE
O contribuinte precisa, ao preencher sua declaração nos meses de março e abril, informar
no camp.o “doações efetuadas”, que realizou a doação incentivada ao longo do ano fiscal
(6%), e deve apontar para qual Fundo dos Direitos da Criança e do Adolescente fez a
doação, indicando o valor total e o CNPJ. Ao proceder dessa forma, a Receita Federal fará
a restituição integral, dentro do limite de 1% (pessoa jurídica) e 6% (pessoa física).
Esses artigos foram alvo de Ação Civil Pública (ACP), ajuizada pelo Ministério Público
Federal, cujo pedido foi julgado parcialmente procedente, conforme trecho da sentença
destacado a seguir.
SENTENÇA (parte final): “Assim, está claro que o Administrador desbordou dos limites do poder
regulamentar, efetuando inovação no ordenamento jurídico pátrio por meio de simples resolução,
dando destinação duvidosa a recursos públicos. O princípio da legalidade estrita foi, portanto,
inegavelmente violado na espécie. Ante o exposto julgo PARCIALMENTE PROCEDENTE o
pedido para declarar a nulidade dos artigos 12 e 13 da Resolução CONANDA nº 1372010 e
determinar que o Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente se abstenha de
disciplinar a distribuição de recursos dos Fundos dos Direitos da Criança e do Adolescente por
meio de captação direta de recursos por particulares ou por meio de doações vinculadas até que
sobrevenha autorização veiculada em lei formal, mantendo, contudo, todos os atos praticados por
aquele Conselho que tenha por fundamento a mencionada Resolução até a presente data. Diante
desse desate e considerando a possibilidade de prejuízo aos cofres públicos e ao sistema de
proteção aos direitos da criança e do adolescente. REVOGO a decisão de fls 401403 e DEFIRO
EM PARTE o pedido de liminar para determinar a suspensão imediata da eficácia dos artigos 12
e 13 da Resolução CONANDA nº 1372010 ressalvados os projetos em andamento nos termos
desta sentença.”
Como se vê, foi determinada a suspensão da eficácia dos arts. 12 e 13, bem como que o
Conanda se abstivesse de regulamentar a distribuição de recursos dos Fundos por meio
de captação direta de recursos por particulares ou por meio de doações vinculadas até que
norma nesse sentido fosse aprovada por lei. A sentença manteve, no entanto, a validade
dos atos praticados com base nos artigos anulados.
105
ORIENTAÇÕES SOBRE ORÇAMENTO E FUNDOS DOS DIREITOS DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE
Logo, por força judicial, atualmente, a eficácia dos arts. 12 e 13 da Resolução do Conanda
está suspensa sob o fundamento de a doação casada é ilegal, embora ainda não tenha
havido o trânsito em julgado.
Com efeito, a tributação é a principal maneira de o Estado obter recursos, mas a tributação
pode ter objetivos que vão além da arrecadação. O Estado pode se utilizar dos tributos para
estimular ou coibir comportamentos, aumentando ou diminuindo suas alíquotas ou bases
de cálculo. É a chamada extrafiscalidade. Um incentivo fiscal recompensa a prática de uma
ação desejada pelo Estado.37
Embora o art. 260 do Estatuto seja expresso, ao prever dedução fiscal apenas para doações
feitas aos fundos (municipais, estaduais, distrital ou nacional), muitos contribuintes, em
especial, pessoas jurídicas, insistem em escolher uma instituição específica como destina-
tária dos valores, sob pena de não realizar doação alguma.
Contudo, nem o Conanda, muito menos os conselhos dos entes subnacionais; nem estados
e municípios, por meio de leis ordinárias ou resoluções, podem disciplinar a matéria. A um,
porque normas de gestão financeira, bem como condições para a instituição e funciona-
mento de fundos, são matéria de lei complementar, conforme texto expresso do art. 165,
§ 9º, II, da CF/88. A dois, porque qualquer tipo de renúncia de receita de imposto só pode
ser disciplinada por lei do ente a quem compete instituí-lo. No caso do Imposto de Renda, a
União, conforme arts. 150, § 6; 151, III; 153, III e 155, § 2º, XII, ‘g’, da Constituição Federal,
uma vez que são vedadas as isenções heterônomas.
Note-se que, em outras hipóteses, a Lei Federal autorizou o apoio direto com redução do
valor da base de cálculo do imposto de renda, como no caso dos esportes e da cultura.
Para ficar mais clara a diferença entre o depósito em um fundo público e o apoio direto,
37 BERTONCINI, Matheus e BERTONCINI, Marcelo Reviglio. Os 30 Anos do Estatuto da Criança e do Adolescente, extrafis-
calidade tributária e os fundos dos direitos da criança e do adolescente. In: MARANHÃO, Clayton. 30 anos do Estatuto da
Criança e do Adolescente. Belo Horizonte: : D’Plácido, 2020.
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ORIENTAÇÕES SOBRE ORÇAMENTO E FUNDOS DOS DIREITOS DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE
basta conferir a Lei de Incentivo à Cultura, que prevê as duas modalidades de renúncia de
receita: tanto o apoio direto, como nos esportes38; quanto contribuições ao Fundo Nacional
da Cultura39, como é o caso da infância e juventude.
De modo que, quando o legislador federal quis, fez previsão de dedução fiscal para o apoio
direto de forma expressa. Para a garantia de direitos de crianças e adolescentes, de forma
clara e consciente, decidiu permitir a dedução apenas no caso de doações aos fundos,
excluindo a prática secular de doações diretas a instituições, realizadas desde o tempo do
Império.
Para registro histórico, observe-se que até os anos 1980, regulamentava o imposto de renda
o Decreto nº 36.773/55, que autorizava abater da renda bruta as contribuições feitas a insti-
tuições filantrópicas, desde que comprovadas por documento fornecido pela própria insti-
tuição.40 O Decreto de regulamentação do Imposto de Renda nº 85.450/80 passou a exigir a
utilidade pública federal, para autorizar o abatimento de doações, o que foi confirmado pela
Lei nº 8.383, de 30 de dezembro de 1991, que já prevê expressamente, também, as doações
ao Fundo dos Direitos da Criança e do Adolescente. O título de utilidade pública, criado pela
Lei nº 91/35 só foi extinto expressamente com a Lei nº 13.204, de 14 de dezembro de 2015.
Vale ressaltar que, além dos arts. 70 e 165, § 6º, da CF/88, nosso sistema jurídico vem
trazendo regras cada vez mais rígidas para renúncia de receita. Afinal, em tempos de
recursos escassos, é necessário não perder de vista que para cada renúncia de receita
corresponde uma despesa que deixará de ser realizada.
Assim, a Emenda Constitucional nº 03/93 passou a exigir que qualquer novo incentivo fiscal
seja instituído por lei específica do ente federal que regula a matéria, não podendo ser
inserido no contexto de lei genérica acerca de outro tema (art. 150, § 6º). Mais tarde, com
a Lei Complementar 101, de 4 de maio de 2000, passaram a ser necessárias estimativa do
impacto orçamentário-financeiro e indicação de medidas de compensação.41
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ORIENTAÇÕES SOBRE ORÇAMENTO E FUNDOS DOS DIREITOS DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE
Outrossim, é importante registrar que ainda que o legislador federal viesse a editar lei
específica, com estimativa do impacto orçamentário-financeiro e indicação de medidas de
compensação, prevendo incentivo fiscal para a doação direta para entidades de atendi-
mento a direitos de crianças e adolescentes, sua constitucionalidade seria duvidosa.
Como já dito, o art. 204, II, da Constituição Federal exige a participação da população,
por meio de organizações representativas, na formulação das políticas e no controle das
ações de todos os níveis; e o art. 227, § 7º, estende essa determinação para os direitos de
crianças e adolescentes, o que não acontece com esportes e cultura.
Ora, tanto na assistência quanto na infância, essa participação se dá por meio dos conselhos
de direitos, órgão paritário, com representantes indicados pelo chefe do executivo, e repre-
sentantes da sociedade, com o objetivo de democratizar o processo decisório.
Qualquer lei que autoriza a doação direta, com incentivo fiscal, transfere exclusivamente
ao contribuinte a discricionariedade acerca dos rumos da política pública, uma vez que é o
contribuinte que vai escolher os projetos a serem financiados, ainda que dentre uma série
de projetos previamente autorizados, como é feito nos esportes e na cultura. Compatibilizar
essa escolha com o papel atribuído aos Conselhos de Direitos, de formulador e controlador
das políticas públicas, seria um desafio extra para o legislador federal.
Não se pode perder de vista que o objetivo do fundo é assegurar os direitos fundamentais de
crianças e adolescentes. Todas elas. A universalidade é característica inerente aos direitos
fundamentais. O apoio direto, por sua vez – a cultura e o esporte demonstram – viabilizam
grande movimentação de recursos, mas com inegável concentração.
O fato é que ainda parece difícil a quebra de paradigma de séculos de caridade e filantropia
para a era da garantia de direitos. Portanto, é dever do operador do Direito, e de toda a rede
de proteção, zelar para que o Conselho elabore políticas públicas planejadas, articuladas
e integradas, com vistas à universalização dos direitos fundamentais, e faça uma gestão
do fundo com transparência e controle, para que se possa, com respeito à ordem jurídica,
canalizar para os fundos, republicana e democraticamente, o enorme potencial solidário do
cidadão contribuinte.
Vale transcrever dois trechos da decisão do Ministro Luís Roberto Barroso, na ADPF 622
MC/DF, acerca da importância dos conselhos de direitos:
dois seguintes, atender ao disposto na lei de diretrizes orçamentárias e a pelo menos uma das seguintes condições:
I - demonstração pelo proponente de que a renúncia foi considerada na estimativa de receita da lei orçamentária, na forma
do art. 12, e de que não afetará as metas de resultados fiscais previstas no anexo próprio da lei de diretrizes orçamentárias;
II - estar acompanhada de medidas de compensação, no período mencionado no , por meio do aumento de receita, prove-
niente da elevação de alíquotas, ampliação da base de cálculo, majoração ou criação de tributo ou contribuição.
§ 1o A renúncia compreende anistia, remissão, subsídio, crédito presumido, concessão de isenção em caráter não geral,
alteração de alíquota ou modificação de base de cálculo que implique redução discriminada de tributos ou contribuições, e
outros benefícios que correspondam a tratamento diferenciado.
§ 2o Se o ato de concessão ou ampliação do incentivo ou benefício de que trata o deste artigo decorrer da condição contida
no inciso II, o benefício só entrará em vigor quando implementadas as medidas referidas no mencionado inciso.
108
ORIENTAÇÕES SOBRE ORÇAMENTO E FUNDOS DOS DIREITOS DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE
[...]
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ORIENTAÇÕES SOBRE ORÇAMENTO E FUNDOS DOS DIREITOS DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE
5. EXECUÇÃO
Por força dos arts. 88, IV, 214 e 260, todos da Lei nº 8.069/90, a gestão dos recursos do
Fundo dos Direitos da Criança e do Adolescente sempre será dos Conselhos dos Direitos
da Criança e do Adolescente, que têm a competência para traçar as diretrizes e formular a
política pública a ser financiada pelo Fundo.
Um destaque a ser feito é que as decisões tomadas pelos Conselhos dos Direitos da
Criança e do Adolescente são decisões da Administração Pública, afinal, os Conselhos de
Direitos, embora de composição paritária, são órgãos governamentais da administração
pública direta. Daí a importância de haver consensos entre os conselheiros representantes
do Poder Executivo e da população, por meio das organizações representativas.
42 DI PIETRO, Maria Sylvia Zanella. Direito Administrativo. São Paulo: Atlas, 2015.
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ORIENTAÇÕES SOBRE ORÇAMENTO E FUNDOS DOS DIREITOS DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE
Por outro lado, os limites das responsabilidades dos Conselhos de Direitos da Criança e
do Adolescente no exercício de sua função de órgão gestor de um fundo especial, merece
análise mais detida.
Na esfera federal, a lei de criação do Conanda não esmiuçou em que consistiriam os atos
administrativos de gestão. Em seu art. 1º, integrou o Conanda ao conjunto de atribuições
diretas da Presidência da República, permitindo a delegação de suporte técnico-administra-
tivo-financeiro a órgão executivo de sua escolha e no art. 2º, X, previu expressamente que
compete ao Conanda a gestão do fundo. Nada mais.
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ORIENTAÇÕES SOBRE ORÇAMENTO E FUNDOS DOS DIREITOS DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE
O Conanda, por sua vez, por meio da Resolução 137/10, dispôs que
[...]
[...]
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ORIENTAÇÕES SOBRE ORÇAMENTO E FUNDOS DOS DIREITOS DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE
Mais adiante, no art. 21, o Conanda se refere especificamente ao Gestor do fundo nomeado
na forma do art. 6º, conferindo-lhe uma série de atribuições. O art. 6º não trata da nomeação
de Gestor e, sim, o art. 8º, mas, de uma forma ou de outra, a nomeação de um Gestor vai
contra o que dispõe o Estatuto, a Lei de criação do próprio Conanda e seu decreto regula-
mentador, que são expressos ao definir o conselho como órgão responsável pela gestão do
fundo, poder-dever este irrenunciável por qualquer meio.
Note-se que nenhum dos dois decretos, contudo, trouxe luz para a extensão e os limites
da função do Conanda como órgão gestor do fundo. O fato é que, em sede federal, a lei
deixou muita densidade normativa a cargo da instabilidade dos regulamentos, o que não é
compatível com a relevância das funções do órgão.
Naturalmente, essa dinâmica será bastante diferente nos mais diversos entes da federação,
mas jamais será recomendável que todos esses atos administrativos sejam concentrados
diretamente no Conselho e muito menos em algum servidor designado.
A doutrina especializada na área da Infância e Juventude, mais uma vez seguindo a trilha
dos pioneiros Donizeti e Públio Caio,45 costuma apontar a necessidade de indicação de
44 Encontram-se suspensos os arts. 79; 80, caput e § 3º, e 81 do Decreto nº 9.579/18, com a redação dada pelo Decreto nº
10.003/19.
45 LIBERATI, Wilson Donizeti; CYRINO, Públio Caio Bessa. Conselhos e Fundos no Estatuto da Criança e do Adolescente.
São Paulo: Malheiros Editores, 2003.
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ORIENTAÇÕES SOBRE ORÇAMENTO E FUNDOS DOS DIREITOS DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE
Mais que isso, cada lei de criação dos fundos, necessariamente de iniciativa do chefe do
Poder Executivo de cada ente da federação, deveria trazer ao menos enumeração exempli-
ficativa de atos administrativos de gestão do fundo exclusivos dos Conselhos, bem como
os atos que melhor seriam executados por órgãos especializados dentro da estrutura de
cada ente, auxiliando os Conselheiros no difícil caminho da compreensão dos meandros da
máquina pública, facilitando o controle social e tornando mais simples a responsabilização
pelos órgãos de controle em caso de desvio.
Não havendo como se inspirar no modelo da União, cada lei municipal ou estadual de
iniciativa do chefe do Poder Executivo deverá dispor sobre a organização e o funciona-
mento de seus conselhos como órgãos gestores do fundo. Dependendo do porte do ente da
federação, cada uma dessas etapas é realizada por um ou vários órgãos descentralizados,
sendo certo que a segregação de funções é técnica recomendada pelos órgãos de auditoria
como boa prática de controle interno.
Ressalte-se, por fim, que já há atribuições de gestão conferidas por lei federal ao Conselhos,
que, portanto, não poderão ser suprimidas: a elaboração do plano de aplicação com
estimativa de receita e fixação de despesas para o fundo, prevista no art. 260, § 2º, do
estatuto; e a constituição da comissão de seleção de Organizações da Sociedade Civil nos
Chamamentos Públicos, bem como monitoramento e avaliação das parcerias celebradas,
conforme arts. 27, § 1º, e 59, § 2º, da Lei nº 13.019/14, melhor apreciadas adiante.
Como já foi dito, cabe aos Conselhos de Direitos protagonizar o direcionamento dos
recursos vinculados ao Fundo dos Direitos da Criança e do Adolescente para o atendimento
das demandas mais complexas existentes no município, e não aguardar, passivamente, o
envio de projetos pelas entidades governamentais e não-governamentais.
A seleção das ações a serem contempladas com recursos do Fundo, por meio da inclusão
nas leis orçamentárias, deve ser criteriosa, transparente, lastreada em diagnóstico do
problema social a ser enfrentado e obediente ao princípio da especificação (art. 5º, § 4º, da
LFR).
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ORIENTAÇÕES SOBRE ORÇAMENTO E FUNDOS DOS DIREITOS DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE
Deve, primordialmente, fazer chegar os recursos àquelas políticas públicas prioritárias que
costumam ser preteridas, justificando, assim, a própria existência do fundo especial, como
exceção ao princípio da não afetação.
A parte geral do Estatuto trata dos direitos de crianças e adolescentes e a parte especial
trata da promoção desses direitos pela política de atendimento, sem qualquer limitação.
Afinal, não existe direito fundamental sem instrumental de promoção e garantia correspon-
dente.
Assim, com base no Estatuto, todas as linhas de ação previstas no art. 87, enumeradas
exemplificativamente, podem ser financiadas com recursos do Fundo dos Direitos da
Criança e do Adolescente. Vale transcrever o dispositivo:
Por outro lado, o Estatuto e a Lei do Sinase preveem três tipos de ações que devem, neces-
sariamente, constar dos orçamentos dos fundos:
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ORIENTAÇÕES SOBRE ORÇAMENTO E FUNDOS DOS DIREITOS DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE
Não há, portanto, no Estatuto nenhuma vedação legal. Não há nenhuma ação da política de
atendimento aos direitos de crianças e adolescentes que o Estatuto afaste da possibilidade
de execução com receitas dos fundos.
De modo que os Conselhos de cada ente federado deverão, a cada ciclo orçamentário,
decidir livremente em que políticas públicas de atendimento a direitos de crianças e adoles-
centes deverão ser aplicados os recursos dos fundos, por meio da criação de programas
e ações no PPA, seleção das ações a serem executadas na LDO e quantificação das
dotações na LOA.
Os Estados, por exemplo, não podem perder de vista que sua competência administrativa
em matéria de infância e juventude é suplementar à dos municípios. Seus fundos, como
aliás todo o seu orçamento, destinam-se: (1) ao cofinanciamento de ações municipais,
através da transferência de recursos fundo a fundo; (2) a ações regionais, ou outras especi-
ficamente previstas nas políticas setoriais e (3) a ações de execução de medidas socioedu-
cativas de semiliberdade e internação.
Se fosse necessário apontar uma única política pública apta a justificar a existência de
um fundo especial, com a necessária vinculação de recursos para a sua execução, seria
a política de atendimento socioeducativo. Em regra, a última na escala de prioridades dos
orçamentos e, portanto, de implementação pífia diante do que foi idealizado no Estatuto.
Já a União, e por via de consequência o Conanda, não pode executar as políticas públicas
que visem ao atendimento dos direitos de crianças e adolescentes, conforme art. 204, I, da
CF/88. Sua competência administrativa em matéria de direitos de crianças e adolescentes
é a coordenação, disponibilizando recursos técnicos e, especialmente, a transferência de
recursos financeiros, fundo a fundo, para Estados e municípios, responsáveis pela formu-
lação e execução das políticas públicas.
Ainda assim, é necessário registrar que, sempre pontuando a inexistência de vedação legal,
a doutrina especializada em Direito da Criança e do Adolescente tem recomendado algumas
restrições às políticas custeáveis com as receitas dos fundos, tais como a manutenção dos
Conselho Tutelares e dos próprios conselhos de direitos; as políticas básicas setoriais e a
manutenção das unidades das entidades de atendimento.
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ORIENTAÇÕES SOBRE ORÇAMENTO E FUNDOS DOS DIREITOS DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE
Com efeito, o art. 90, caput, do Estatuto estabelece que as entidades de atendimento são
responsáveis pela manutenção das próprias unidades. Seu § 2º, por sua vez, prevê que
os recursos destinados à implementação dos programas de atendimento serão previstos
nas dotações orçamentárias dos órgãos públicos encarregados das áreas de Educação,
Saúde e Assistência Social, dentre outros. Da mesma forma, o art. 134 diz que constará da
lei orçamentária municipal e da do Distrito Federal previsão dos recursos necessários ao
funcionamento do Conselho Tutelar.
Outrossim, a utilização das receitas vinculadas pelo Estatuto aos fundos da criança e do
adolescente não afasta nem substitui a aplicação por cada ente da federação dos percen-
tuais mínimos previstos no arts. 6º e 7º da Lei Complementar nº 141/12, para a saúde, e
art. 212 da CF/88, para a educação, pois são calculados com base na receita proveniente
de impostos.
46 O decreto 9.579/18 equivocadamente elenca prioridades para aplicação de recursos do Fundo, uma vez que tal matéria é
de competência exclusiva do conselho conforme disposto no Estatuto e na lei de criação. Em uma interpretação conforme a
Constituição, ele não traz maiores prejuízos, uma vez que o art. 92 assemelha-se ao art. 15 da Resolução137 do Conanda
e o art. 93 já excepciona as deliberações do Conanda dispuserem em sentido diverso. Contudo, caso permaneça algum
conflito em hipóteses concretas, deverão prevalecer, nessa matéria (de conteúdo das políticas públicas financiáveis com
recursos do fundo), as Resoluções do Conanda. Aqui não se trata da hierarquia dos atos regulamentares, dentre os quais o
decreto ocupa o ápice, mas de competência regulamentar concedida pela lei, e em última instância pela própria Constituição,
aos Conselhos de Direitos.
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ORIENTAÇÕES SOBRE ORÇAMENTO E FUNDOS DOS DIREITOS DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE
Conforme se extrai do art. 15, o fundo nacional deverá se destinar a desenvolver programas
e serviços inovadores; programas e projetos de pesquisa, elaboração de diagnóstico;
sistemas de monitoramento e avaliação das políticas públicas; capacitação e formação
profissional continuada; campanhas educativas, entre outros.
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Considerando que a União não pode executar políticas públicas de atenção à criança e ao
adolescente, sob pena de ferir o princípio constitucional da descentralização político-admi-
nistrativa e o princípio estatutário da municipalização,47 o Conanda desenhou o objeto do
fundo nacional de forma compatível com a função administrativa da União de coordenação
da política de atendimento.
Da mesma forma, fazendo uma leitura do art. 16, parágrafo único, conforme a constituição,
é possível afirmar que o Conanda seguiu em linhas gerais a orientação doutrinária e decidiu
estabelecer que deve ser vedada a utilização de recursos do fundo nacional para: (a)
manutenção do Conselho Tutelar e Conselhos de Direitos; e (b) financiamento de políticas
sociais setoriais básicas que disponham de fundo próprio. Para investimento e manutenção
de imóveis, o Conanda exige resolução própria dos conselhos dos entes destinatários dos
recursos, que estabeleçam formas e critérios de utilização.
O Conanda deixou de esclarecer critérios para a distribuição regional dos recursos entre
os entes federados, sendo certo que essa equalização regional é uma de suas funções
precípuas, inerentes à Coordenação da política pública.
Ainda assim, considerando que o Conanda é o órgão gestor do fundo nacional e que, ano a
ano, pode deliberar em que políticas públicas entende pertinente gastar suas receitas vincu-
ladas, parece bastante adequado ao ordenamento jurídico que delibere, por resolução, um
rol de políticas que não pretende incentivar com os recursos sob sua gestão, mesmo diante
da autorização ampla do Estatuto. A qualquer momento pode deliberar de forma diferente e
substituir a Resolução anterior.
É fundamental, contudo, que não se confunda Resolução do Conselho Nacional com Lei
Federal, por mais que se saiba da relevância dos regulamentos dentro do Direito Adminis-
trativo. Só lei federal pode prever restrições ou imposições relativas à vinculação das
receitas dos fundos, aplicáveis indistintamente a todos os entes da federação como, aliás,
fizeram a Lei da Primeira Infância e a Lei do Sinase, alterando o Estatuto. Deliberações,
materializadas em resoluções, são atos administrativos. Nascem da competência adminis-
trativa, devendo ser analisados como tais, quanto à sua extensão e aos seus limites (art.
18, CF/88).
É importante lembrar, portanto, que o Conanda é órgão do Poder Executivo, cuja compe-
tência normativa limita-se aos parâmetros gerais das políticas públicas, conforme art. 2º, I,
da sua lei de criação. A regulamentação do funcionamento de cada conselho e seus respec-
tivos fundos, explicitando o que não está claro na lei, para sua fiel execução; ou mesmo
buscando fundamento diretamente na Constituição, compete, naturalmente, a cada ente
federado. O próprio art. 1º da resolução nos lembra que, para os demais entes, o Conanda
apenas estabelece parâmetros e referenciais.
47 PONTES JR., Felício. Conselho de Direitos da Criança e do Adolescente. São Paulo: Malheiros Editores, 1993.
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Na mesma linha, a vedação apriorística de utilização das verbas do fundo para determinadas
políticas públicas poderia esvaziar, por completo, a razão de ser das multas aplicadas em
ações civis públicas junto às Varas da Infância e Juventude diante da omissão do Poder
Executivo, necessariamente revertidas aos fundos (art. 214 do Estatuto). Imagine-se, a
título de exemplo, ação civil pública para assegurar insumos básicos para o funcionamento
do Conselho Tutelar ou a adequação de uma instituição de acolhimento. Se um município
distraído copia a resolução do Conanda sem atentar para sua inadequação à esfera local,
as multas judicialmente aplicadas sequer poderiam ser utilizadas para a efetivação da tutela
específica ou obtenção de resultado prático equivalente ao objeto da ação.
Muito se fala, por fim, no caráter incerto das receitas não provenientes de impostos, como
óbice intransponível para que os recursos dos fundos sejam aplicados em serviços ou
atividades de caráter continuado. Na verdade, essa característica peculiar dos fundos dos
direitos da criança e do adolescente apenas enfatiza a importância do planejamento, mas
não impede compromissos de longo prazo. Para fazer uma comparação simplória, é como
se o profissional liberal, que tem rendimentos mensais incertos, não pudesse matricular os
filhos na escola.
O Conselho precisa fazer um bom planejamento financeiro para o fundo, com acurada
análise da expectativa de receita, atenção para o equilíbrio orçamentário dentro do fundo,
destinação preferencial de receitas correntes para despesas de custeio, avaliação mensal
do conjunto de receitas e despesas, compatibilização da execução do orçamento com o
fluxo de caixa; dentre outros instrumentos.
O fato é que a existência de recursos financeiros represados nos fundos especiais, diante
da imensidão de direitos fundamentais não assegurados é um problema grave, que vem
colocando em risco sua própria existência. As escolhas feitas pelo Conselho no sentido de
ampliar ou restringir o tipo de políticas que pretende ver executadas com as receitas do
fundo podem dar início a um ciclo vicioso ou virtuoso. Na medida da não importância das
ações escolhidas, ou da excelência da transformação social obtida, o Conselho tem o poder
de atrair ou afastar não só doadores incentivados, mas também o interesse da adminis-
tração pública e da sociedade em potencializar os fundos como instrumentos efetivos e
aptos a assegurar direitos fundamentais de crianças e adolescentes.
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ORIENTAÇÕES SOBRE ORÇAMENTO E FUNDOS DOS DIREITOS DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE
Conforme art. 227, § 7º e art. 204, I, da CF, a execução das Políticas Públicas de atendi-
mento aos direitos de crianças e adolescentes poderá ser feita diretamente por Estados e
Municípios, ou por meio de organizações da sociedade civil. Não cabe à União a execução
da política de atendimento, em nenhuma hipótese. Cabe a coordenação da política e a
transferência de recursos para estados e municípios com vistas ao equilíbrio regional.
No caso da EXECUÇÃO DIRETA das políticas públicas, o ente público deverá realizar
licitações, dispensas e inexigibilidades para aquisição de bens e contratação de serviços
necessários para concretização da ação, além de mobilizar os recursos humanos por meio
de concurso ou seleção temporária. Na execução direta, o ente adquire os bens e contrata
os serviços necessários para a execução da política pública por meio de servidores e estru-
turas públicas. Os marcos normativos de tais contratações são a Lei nº 8.666/93 e a Lei nº
10.520/00.
Já na EXECUÇÃO INDIRETA, o ente público aloca recursos para financiar ações a serem
desenvolvidas por organizações da sociedade civil (OSC).
Em 2014, foi promulgada a Lei nº 13.019, pretendendo ser um marco regulatório das relações
jurídicas entre as organizações da sociedade civil e a administração pública, denominan-
do-as de parcerias. A nova lei excluiu expressamente a aplicação da Lei de Licitações e
limitou a celebração de convênios a hipóteses restritas da área de saúde, bem como entre
entes diversos dentro da própria administração pública, em seu art. 84.
A Lei 13.019/14 entrou em vigor para os municípios apenas em 1º de janeiro de 2017 (art.
88, § 1º), após sofrer alterações significativas. Uma das principais alterações foi a exclusão
do novo regime jurídico, dentre outras, das Organizações Sociais (OS), das Organizações
da Sociedade Civil de Interesse Público (OSCIPs) e do Sistema S (art. 3º). Assim, a lei
deixou de unificar o regime jurídico, como pretendia, mas disciplinou e permanece plena-
mente aplicável às relações entre administração pública e as organizações da sociedade
civil residuais (entre elas a grande maioria das instituições de atendimento a crianças e
48 Na política pública da assistência: benefícios, serviços, programas e projetos. A divergência de definição semântica para
palavras iguais, como é o caso por exemplo de e ou e, costuma gerar inúmeras dificuldades. O que o Direito Financeiro
chama de projeto a LOA chama de programa. Já o que a LOA chama de serviço, para o Direito Financeiro seria atividade.
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Com efeito, a Lei nº 13.019/14 estabeleceu como fundamentos do novo regime jurídico
a gestão pública democrática, com participação social e transparência da aplicação dos
recursos (art. 5º) e como diretrizes, entre outras, a priorização do controle de resultados;
a ação integrada e complementar, evitando sobreposição de iniciativas e fragmentação de
recursos, e a adoção de práticas de gestão com vistas a coibir benefícios ou vantagens
indevidos (art. 6º). Nessa linha, essa lei incentiva que a administração pública promova
programas de capacitação (art. 7º e 8º, parágrafo único) para a melhor aplicação da lei
por todos os envolvidos e prevê uma série de documentos e informações que devem estar
disponíveis na internet, tanto na página oficial da Administração Pública, quanto nas páginas
das OSCs parceiras (arts. 10,11, 26, 27, § 4º, 32, § 1º, 50, 65, 69, § 6º e 81).
As parcerias deverão respeitar, ainda, as normas específicas das políticas públicas setoriais
relativas ao objeto da parceria e as respectivas instâncias de pactuação e deliberação (art.
2º-A), de modo que os CMDCAs devem acompanhar cada fase desse processo.
A Lei nº 13.019, de 31 de julho 2014, passou, também, a exigir de forma expressa proce-
dimentos claros, objetivos e simplificados que facilitem o acesso dos interessados aos
órgãos e às instâncias decisórias da administração pública, criando como regra o CHAMA-
MENTO PÚBLICO para selecionar as OSCs para a celebração de parcerias onerosas com
a Administração (arts. 23 e 24).
O edital de chamamento público, de acordo com o art. 24, § 1º, da Lei nº 13.019/2014
deverá conter, no mínimo:
1) a programação orçamentária;
2) o objeto;
5) o valor previsto, e
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Em caso de financiamento com recursos de fundos específicos, como o dos Fundos dos
Direitos da Criança e do Adolescente, as propostas serão julgadas por comissão de seleção
previamente designada ou constituída pelo conselho de direitos gestor (art. 27, § 1º, da Lei
13.019/2014).
Sem prejuízo, a lei deixa claro que a ausência de chamamento público não afasta a aplicação
de suas demais regras, como expressamente previsto no art. 32, § 4º, Lei nº 13.019/2014.
A lei cria, também, novo tipo de procedimento, que não dispensa o chamamento público.
É o PROCEDIMENTO DE MANIFESTAÇÃO DE INTERESSE SOCIAL, instrumento por
meio do qual organizações da sociedade civil, movimentos sociais e cidadãos poderão
apresentar propostas para a administração pública para que seja avaliada a possibilidade
de realização de chamamento público para executá-las (art. 18 da Lei nº 13.019/2014).
A lei citada prevê três tipos de parceria, em substituição às antigas denominações genéricas
– convênios, contratos, acordos ou ajustes – para materializar as relações jurídicas entre as
OSC e o poder público:
Sob o regime do art. 116 da Lei de Licitações, os planos de trabalho eram sempre apresen-
tados pela organização da sociedade civil. Já sob o regime da nova lei, nos TERMOS DE
COLABORAÇÃO quem apresenta o plano de trabalho é a administração pública, ou seja, a
iniciativa da proposição é feita pela gestão.
Esse novo instrumento criado pela Lei nº 13.019/14 adequa-se com perfeição às parcerias
de serviços tipificados, uma vez que as instituições têm o dever de observar as normas
expedidas pelos Conselhos de Políticas Públicas.
O novo mecanismo legal só traz vantagens para ambas as partes. Para as instituições,
porque todas têm muita dificuldade na elaboração desse documento com qualidade e já têm
o dever de elaborar os seus próprios projetos políticos pedagógicos; para a administração,
porque poderá elaborar plano de trabalho com indicadores que permitam a fiscalização e o
aprimoramento dos serviços e, assim, cumprir com seu dever legal de conduzir a política.
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Os termos de fomento, por sua vez, se adequam aos casos de políticas públicas ainda em
fase de elaboração, para que as organizações da sociedade civil possam apresentar seus
planos de trabalho e, neles, suas ideias para enfrentamento dos problemas49.
O conteúdo básico que deve constar de um plano de trabalho vem descrito no art. 22 da Lei
13.019/14 e seus quatro incisos, complementados pelo art. 59, § 1º, da mesma lei. Embora
os conceitos legais sejam abertos e às vezes difíceis de definir é essencial que
Quando da celebração de parcerias, deverá ser designado um gestor (art. 8º, III), que
equivale ao fiscal do contrato da Lei de Licitações.
Vale registrar também que a regra geral do art. 53 determina que toda movimentação finan-
ceira decorrente das parcerias seja realizada pela organização da sociedade civil através
de transferência eletrônicas. Eventual impossibilidade deve ser registrada no termo para
que se possam admitir pagamentos em espécie (arts. 51 e 53 e § 2º).
Outrossim, o art. 39, III, considera impedida de celebrar qualquer das modalidades de
parceria a organização da sociedade civil cujo dirigente seja também dirigente de órgão
ou entidade da administração pública da mesma esfera governamental ou membro de
Poder ou Ministério Público, estendendo-se a vedação a cônjuges, parentes em linha reta
e colateral até o segundo grau.
Depois de celebrada a parceria, a lei define (art. 2º, XI) e prevê (art. 35, V, “h”) a existência
de uma comissão de monitoramento e avaliação, destinada a monitorar e avaliar as
49 Com esse mesmo entendimento sobre o critério de diferenciação entre termos de fomento e colaboração, vale conferir o art.
2º, §§ 1º e 2º, do decreto nº 8.726/16, que regulamenta a Lei nº 13.019/14.
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ORIENTAÇÕES SOBRE ORÇAMENTO E FUNDOS DOS DIREITOS DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE
parcerias celebradas com a OSC. De acordo com o art. 59, § 2º, o monitoramento e a
avaliação das parcerias financiadas com recursos de fundos específicos serão realizados
pelos respectivos conselhos gestores, respeitadas as exigências da Lei nº 13.019/14. O
objetivo da comissão é evitar desvios de rota durante a execução e apreciar a eficiência,
eficácia e efetividade, ao final, com fins de renovação, expansão ou extinção da relação
jurídica firmada.
Por fim, as OSCs têm o dever de prestar contas, com forma, metodologia e prazos, previstos
como cláusula essencial dos instrumentos das parcerias, conforme art. 42, VII, repetidos no
art. 63.
A prestação de contas deve ser feita através de plataforma eletrônica que permita a visua-
lização por qualquer interessado (art. 65), podendo ser utilizado o sistema de gestão da
união – SICONV (art. 81). Até que seja possível a implementação da plataforma eletrônica,
o art. 81-A permite a utilização das rotinas previstas antes da entrada em vigor dessa lei.
Vale registrar, ainda, que há vários dispositivos relativos à Lei nº 13.019/14 introduzidos na
Lei de Improbidade Administrativa, tipificando condutas tanto dos administradores públicos
quanto dos dirigentes de organizações da sociedade civil, nos casos de inobservância das
regras da lei.
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ORIENTAÇÕES SOBRE ORÇAMENTO E FUNDOS DOS DIREITOS DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE
6. TRANSPARÊNCIA
O Estatuto impôs deveres específicos de divulgação ao Conselhos de Direitos nos três
níveis da federação:
Observe-se que hoje, com exceção da divulgação do calendário de reuniões, essencial para
a ampla participação e legitimidade das deliberações, todos as demais informações que
devem ser divulgadas em atenção ao art. 260 -I, estão previstos em documentos próprios.
O ideal é que os Conselhos de Direitos possuam uma página própria no portal do estado,
distrito federal ou município, que concentre todas essas informações, de forma simplificada,
para melhor compreensão de qualquer interessado, mas é essencial que sejam divulgadas
também por meio de seus documentos originais, com vistas a evitar divergências e garantir
a transparência.
Com efeito, as ações prioritárias devem estar previstas da LDO, conforme art. 165, § 2º, da
CF e inseridas na LOA; os requisitos para apresentação de projetos a serem beneficiados
com recursos do fundo devem estar previstos nos editais de chamamento público, assim
como o valor dos recursos, conforme arts. 24 e 26, da Lei nº 13.019/14; a relação dos
projetos aprovados deve ser divulgada com a homologação do resultado, conforme art. 27,
§ 4º; o total dos recursos recebidos por projeto deve ser publicado não só na página oficial
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ORIENTAÇÕES SOBRE ORÇAMENTO E FUNDOS DOS DIREITOS DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE
do ente da federação, como também nas páginas das organizações da sociedade civil
executoras, conforme arts. 10 e 11 da Lei nº 13.019/14.
Por fim, a avaliação dos resultados, está prevista nos arts. 58 a 60 da Lei nº 13.019/14, com
previsão expressa acerca do monitoramento e da avaliação pelos conselhos gestores, no
caso de parcerias financiadas com recursos dos fundos (art. 59, § 2º) e emissão de relatório
técnico de monitoramento e avaliação (art. 59, § 1º).
Além do art. 262-I do Estatuto, a Lei nº 13.019 trouxe uma série de regras de transparência,
ainda, nos arts. 32, § 1º, 50, 65, 69, § 6º e 81, que se somam aos instrumentos de trans-
parência da gestão fiscal disciplinados na LRF, bem como aos ditames da Lei de Acesso à
Informação, especialmente art. 7º, VII, ‘a’, tudo com vistas a facilitar o acompanhamento e
a fiscalização.
Afinal, a informação é o insumo básico do controle social e seu amplo acesso e sua ampla
divulgação têm sido foco do legislador para a boa administração da coisa pública, cabendo
aos Conselhos de Direitos, formuladores controladores da Política Pública zelar pela trans-
parência exaustivamente prevista na legislação.
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ORIENTAÇÕES SOBRE ORÇAMENTO E FUNDOS DOS DIREITOS DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE
7. DESAFIO
Vale registrar, por fim, que tendo sido criados na primeira metade do século passado e
multiplicados nos anos 1970, os fundos especiais há muito estão sob suspeita de serem
prejudiciais à administração financeira do Estado pela pulverização dos recursos à margem
do caixa único.
O art. 36 do ADCT da CF/88 pretendia extinguir todos os fundos que não fossem ratificados
pelo Congresso Nacional no prazo de dois anos. A Lei nº 8.173/91, contudo, prorrogou o
prazo até o ano subsequente ao da publicação da lei complementar prevista no art. 165, §
9º, II, da CF, que não foi promulgada até hoje.
Agora, a PEC 187/19 estabelece regra semelhante ao instituir reserva de lei complementar
para criar fundos públicos e extinguir aqueles que não forem ratificados até o final do
segundo exercício financeiro subsequente à promulgação da emenda.
Antes como agora, a legitimidade da permanência dos fundos depende da importância dos
objetivos específicos, como é o caso da garantia de direitos de crianças e adolescentes,
bem como da eficiência de sua gestão, realizando despesas relevantes para os fins a que
se destinam, com absoluta transparência.
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REFERÊNCIAS (Parte 3)
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ORIENTAÇÕES SOBRE ORÇAMENTO E FUNDOS DOS DIREITOS DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE
BRASIL. Lei nº 4.320, de 17 de março de 1964. Estatui Normas Gerais de Direito Finan-
ceiro para elaboração e controle dos orçamentos e balanços da União, dos Estados, dos
Municípios e do Distrito Federal. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/
l4320.htm Acesso em: 21 fev. 2020.
CONTI, José Maurício. Levando o Direito Financeiro a Sério. São Paulo: Blucher, 2016.
CONTI, José Maurício; PINTO, Élida Graziane. Legado normativo. Lei dos orçamentos
públicos completa 50 anos de vigência. 2014. Disponível em: https://www.conjur.com.
br/2014-mar-17/lei-orcamentos-publicos-completa-50-anos-vigencia. Acesso em: 19 jul.
2020.
COSTA, Antonio Carlos Gomes; AMARAL e SILVA, Antônio Fernando do; RIVERA,
Deodato; MORAES, Edson Sêda; CURY, Munir. Brasil criança urgente: a Lei 8.069/90.
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ORIENTAÇÕES SOBRE ORÇAMENTO E FUNDOS DOS DIREITOS DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE
O que é preciso saber sobre os novos direitos da criança e do adolescente. São Paulo:
Columbus Cultural, 1990.
COSTA, Leonardo da Silva Guimarães Martins da. Uma Visão Sistêmica dos Fundos
Federais. Brasília: TD nº 007 – Secretaria do Tesouro Nacional, 2012.
CURY, Munir; AMARAL e SILVA, Antônio Fernando do; MENDEZ, Emílio García (coords.).
Estatuto da Criança e do Adolescente comentado. São Paulo: Malheiros Editores,
1996.
DI PIETRO, Maria Sylvia Zanella. Direito Administrativo. São Paulo: Atlas, 2015.
MACIEL, Kátia Regina Ferreira Lobo Andrade (coord.). Curso de Direito da Criança e do
Adolescente. Rio de Janeiro: Saraiva, 2018.
MACHADO JR., J. Teixeira; REIS, Heraldo da Costa. A Lei 4.320 comentada. Rio de
Janeiro: IBAM, 2019.
OLIVEIRA, Regis Fernandes. Curso de Direito Financeiro. São Paulo: Revista dos
Tribunais, 2015.
131
ORIENTAÇÕES SOBRE ORÇAMENTO E FUNDOS DOS DIREITOS DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE
ROSSATO, Luciano Alves; LÉPORE, Paulo Eduardo; CUNHA, Rogério Sanches. Estatuto
da Criança e do Adolescente comentado. São Paulo. Revista dos Tribunais, 2014.
RIBAS JR., Fábio Barbosa; Fundo Municipal dos Direitos da Criança e do Adoles-
cente: guia para ação passo a passo. São Paulo. Fundação Abrinq, 2017.
TEIXEIRA, Ana Claudia C.; MAGALHÃES JR., José César. Fundos públicos e políticas
sociais. São Paulo: Instituto Polis, 2004.
132
ORIENTAÇÕES SOBRE ORÇAMENTO E FUNDOS DOS DIREITOS DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE
PARTE 4
MONITORAMENTO E AVALIAÇÃO
Como visto, a política pública é um ciclo: ela é planejada, depois é executada por um
órgão da Administração Pública (na execução direta) ou por uma organização da sociedade
civil (na execução indireta). Cabe ao Poder Executivo, além de planejar a política pública,
monitorar a execução e avaliar os resultados, como forma de garantir que a sociedade efeti-
vamente seja beneficiada pelos produtos da ação governamental. Nessa linha, a Consti-
tuição Federal, em seu art. 165, determina:
[...]
Esses atributos dos programas e das ações servirão para o monitoramento da execução
das respectivas políticas públicas.
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ORIENTAÇÕES SOBRE ORÇAMENTO E FUNDOS DOS DIREITOS DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE
Por exemplo, suponha-se que a LOA preveja a ação “1323 – Acompanhamento pedagógico
complementar a adolescente em cumprimento de medidas socioeducativas”, tendo como
meta física o atendimento de 50 (cinquenta) adolescentes e meta financeira de R$ 100.000,00
(cem mil reais), para o pagamento de profissionais que vão prover esse serviço. É necessário
que periodicamente seja realizado o monitoramento físico-financeiro dessa ação.
No caso do OCA, alguns Ministérios Públicos, como o do Paraná e do Rio Grande do Norte,
têm desenvolvidos sistemas de Tecnologia da Informação para facilitar o monitoramento da
execução orçamentária das ações, traduzindo essa execução em painéis de PowerBI mais
intuitivos e esclarecedores.
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ORIENTAÇÕES SOBRE ORÇAMENTO E FUNDOS DOS DIREITOS DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE
Encerrado o ciclo da política pública, o que ocorre anualmente, deve ser realizada uma
avaliação dos programas e das ações. Voltando à ação “1323 – Acompanhamento
pedagógico complementar a adolescente em cumprimento de medidas socioeducativas”,
deve-se avaliar os relatórios de monitoramento, analisar indicadores sociais eventualmente
existentes, e perguntar: qual o número de atendimentos realizados ao longo do ano? Essa
cobertura foi corretamente estimada, está subestimada, sobrestimada? O valor alocado foi
suficiente para financiar a política? O apoio pedagógico efetivamente trouxe melhoria no
rendimento escolar dos beneficiados pela ação? Essa ação deve ser mantida (priorizada)
no exercício seguinte? Precisará ser expandida?
O resultado da avaliação deve ser documentado em um relatório, que será um insumo para
retroalimentar o planejamento, como para atualizar o PPA (ações, atributos, metas físicas e
financeiras) e para avaliar a priorização das ações na próxima LDO.
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ORIENTAÇÕES SOBRE ORÇAMENTO E FUNDOS DOS DIREITOS DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE
REFERÊNCIAS (Parte 4)
BUCCI, Maria Paula Dallari. Fundamentos para uma teoria jurídica das políticas
públicas. São Paulo: Saraiva, 2013.
PINHEIRO, Luís Felipe Valetim. Políticas públicas nas leis orçamentárias. São Paulo:
Saraiva, 2015.
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ORIENTAÇÕES SOBRE ORÇAMENTO E FUNDOS DOS DIREITOS DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE
CONCLUSÃO
A Constituição de 1988 conferiu às crianças e aos adolescentes, no seu art. 227, a condição
de sujeitos de direitos, prevendo, com ABSOLUTA PRIORIDADE, a efetivação dos direitos
à saúde, educação, convivência familiar e comunitária, cultura, ao esporte, entre outros.
Não restam dúvidas, assim, de que, apesar de a Constituição Federal não haver fixado
um piso de financiamento, como o fez em relação à saúde e à educação, criou como regra
a destinação prioritária de recursos para as políticas públicas atinentes à criança e ao
adolescente.
Nesse passo, buscou o CNMP, com o presente Manual, municiar o membro do Ministério
Público com atuação em defesa da criança e do adolescente de elementos conceituais e
práticos necessários a essa incursão, seguramente, uma das mais destacadas com vistas
à efetivação dos direitos infanto-juvenis.
Era corrente até pouco tempo a máxima de que lugar de criança seria no orçamento. Hoje,
tal compreensão encontra-se alargada, de modo que lugar de criança e adolescente não é
apenas no orçamento público, mas, principalmente, nos pagamentos públicos e aferições
exitosas de políticas públicas implementadas com consequência e planejamento.
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ORIENTAÇÕES SOBRE ORÇAMENTO E FUNDOS DOS DIREITOS DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE
Este Manual vem como contribuição com vistas à otimização da atuação Ministerial na
temática orçamentária, com destaque à prática consequente e orientada, disponibilizan-
do-se diversos instrumentais e modelos de atuação em arquivos editáveis para subsidiar
o Promotor de Justiça nessa árdua tarefa em defesa da cidadania, ainda inconclusa, de
crianças e adolescentes.
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