ISSN 1676-3742
DOI:10.17771/PUCRio.ATeo.50707
A contribuição kantiana à
fundamentação da bioética
The kantian contribution to the rationale of bioethcs
Elismar Alves dos Santos
Rogério Gomes
10.17771/PUCRio.ATeo.61615
Resumo
O artigo aborda a importância de se pensar sobre os fundamentos
antropológicos aplicados à bioética. Fundamento é a base e o princípio
que sustenta algo. Fundamentação indica o ato ou efeito de fundamentar-
se, apoiar-se. Fundamentação da bioética implica buscar as definições
categoriais que podem ser aplicadas à bioética. Os fundamentos enfatizam
os pressupostos, preocupam-se com a conduta da reflexão moral. A bioética
lida a todo instante com questões morais, especialmente, da ordem da decisão,
conduta e normas morais. As ciências que trabalham diretamente com a
vida e a saúde, jamais podem esquecer das exigências da ética, sobretudo,
em um contexto interdisciplinar. Como articular uma reflexão filosófica e
teológica para a fundamentação da bioética? É nessa perspectiva que o artigo
coloca em discussão a relevância da fundamentação antropológica à bioética,
em particular, a bioética compreendida desde o horizonte da concepção da
dignidade, à luz da argumentação do filósofo alemão Immanuel Kant.
Palavras-chave: Bioética cristã. Fundamentação.Teologia moral. Pessoa.
Abstract
The article addresses the importance of thinking about the anthropological
ground applied to bioethics. Ground is the basis and principle that supports
something. Grounding indicates the act or effect of grounding, supporting.
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Grounding of bioethics implies seeking categorical definitions that can
be applied to bioethics. The grounding emphasizes the assumptions and
are concerned about the conduct of moral reflection. Bioethics deals at all
times with moral issues, especially those related to decision, conduct and
moral norms. The sciences that work directly with life and health can never
forget the demands of ethics, especially in an interdisciplinary context. How
to articulate a philosophical and theological reflection for the grounding of
bioethics? It is from this perspective that the article discusses the relevance of
the anthropological grounding for bioethics, in particular, bioethics understood
from the horizon of the conception of dignity, under the light of the arguments
of the philosopher german Immanuel Kant.
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Keywords: Christian bioethics. Grounding. Moral theology. People.
Introdução
O teólogo José Roque Junges1 reflete sobre a necessidade de se construir
um novo paradigma ético que tenha por base a categoria do cuidado. Para
isso, faz um resgate do sentido da palavra cuidado ao longo da história.
Consideramos que no estudo da bioética2 é preciso apresentar os seus
fundamentos antropológicos e, ao mesmo tempo, faz-se necessário recordar
a contribuição da filosofia e o papel da bioética, como uma área do saber que
cuida da dignidade do ser humano. “A bioética é filosofia, é ética filosófica
intimamente ligada a uma tradição milenar, o que significa que não é possível
ser competente em bioética sem conhecer com certa profundidade aquela
tradição”.3
O que entendemos por fundamentos da bioética,
Significa procurar as predefinições categoriais, as condições constitutivas,
a preocupação não apenas com a validade do discurso bioético, mas
também com o significado e a existência de problemas bioéticos. Os
1
JUNGES, J. R., Bioética hermenêutica e casuística, p. 75-76.
2
PESSINI, L.; BERCHIFONTAINE, CH. P, Problemas atuais de bioética. Como definição,
bioética é “o estudo sistemático das dimensões morais – incluindo visão, decisão, conduta e
normas morais – das ciências da vida e da saúde, utilizando uma variedade de metodologias
éticas num contexto interdisciplinar”. (p. 40).
3
PEGORARAO, O. A., Ética e bioética, p. 15.
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fundamentos expressam os pressupostos, a conduta constante de todo o
discurso moral.4
A bioética se preocupa com a evolução e o progresso das ciências
biológicas5 e com os problemas éticos. As ciências biomédicas, cada vez
mais, têm demonstrado avanços surpreendentes. Acreditamos que a bioética
precisa, por meio de seus fundamentos, se posicionar, com o propósito de
oferecer à comunidade uma reflexão que seja capaz de dialogar e de mostrar
os benefícios e os riscos que acompanham a evolução da ciência. A bioética é
uma ética da vida ou uma nova ciência?6
Para discutir a importância da fundamentação à bioética, priorizamos os
argumentos do filósofo Immanuel Kant (1724-1804).
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Este artigo está sistematizado em quatro partes. A primeira, o dever e a
boa vontade na ética. Para Kant, nem sempre o ser humano pode pautar suas
ações pelos sentimentos inclinantes. O dever moral exige da vontade atitude
ética. Deve-se agir em nome do dever e não em conformidade ao dever.
A segunda parte, a razão como guia da vontade. Na ótica kantiana, não
há somente razão teórica, mas também razão prática, capaz de determinar a
vontade movedora da ação moral. A razão tem como fim legislar para guiar
a vontade em vista de fazer o bem ao outro. A terceira parte, imperativo
categórico e hipotético. O imperativo categórico exorta-nos a pautar as
atitudes tendo em conta o cumprimento do dever, por isso ele é universal.
Já o imperativo hipotético se volta ao interesse pessoal do indivíduo que age
não movido pelo dever, mas pelos sentimentos inclinantes. Finalmente, na
quarta parte, fundamentação à bioética a partir da argumentação kantiana,
no qual discutiremos alguns argumentos defendidos pela Bioética Secular e
contraporemos esses argumentos à defesa kantiana em relação ao respeito a
dignidade da pessoa.
1. O dever e a boa vontade na ética
Kant, verdadeiramente, promoveu uma revolução na dimensão científica
e filosófica. E de forma mais específica, ainda, no universo da ética. Sobre a
importância de Kant para a filosofia encontramos o seguinte comentário: “por
4
BELLINO, F., I fontamenti della bioetica, p. 11.
5
HÄRING, B., Medicina e manipulação, p.17.
6
KOWALSKI, E., La bioetica como “etica della vita” o “nuova scienza”? p. 197-222.
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um lado, representa o ponto de chegada de um movimento que remonta ao
fim da Idade Média, segundo o qual a ética consiste num equilíbrio entre lei e
liberdade. Por outro lado, é o lugar de referência da reflexão ética posterior”.7
Em Fundamentação da Metafísica dos Costumes (1785), Kant sistemati-
zou alguns pressupostos que definiram a sua compreensão de moral filosófica.
Podemos chamar estes pressupostos de elementos antropológicos. Como, por
exemplo, a vontade, o imperativo categórico, a autonomia, a razão prática e
o dever. Porém, é preciso fazer um alerta acerca da relação destes elementos
antropológicos com a religião.
Os conceitos de vontade, imperativo, lei moral, liberdade e autonomia
estendem o significado para o que concerne a religião. É com esse objetivo
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que as questões da moralidade comparecem aqui: pois, estão na base da
ação do agente moral-religioso e determinam as condições da religião da
boa conduta de vida.8
Em A Religião nos Limites da Simples Razão (1794),9 como em Leccio-
nes Sobre la Filosofia de la Religíon (1783),10 Kant defende a relação entre
religião e moral.11 Mostra que o ser humano é alguém que leva consigo o ethos
religioso. É por isso que a religião é um tema importante em Kant para melhor
compreender o homem como ser criado à imagem e semelhança de Deus. Por
essa razão, a justificativa da preservação da dignidade da pessoa.
Voltando aos elementos antropológicos presentes na obra indicada de
Kant, vejamos o conceito de dever. O agente moral precisa cumprir o que
determina o dever para consigo mesmo e para com o outro. O exemplo que o
filósofo oferece é sobre o sentido de conservar a vida.
Conservar cada qual a sua vida é um dever, e, além disso, uma coisa para
que toda a gente tem inclinação imediata. Os homens conservam a sua vida,
conforme ao dever, sem dúvida, mas não por dever. Em contraposição,
quando as contrariedades e o desgosto sem esperança roubam totalmente
o gosto de viver; quando o infeliz, com fortaleza de alma, mais enfadado
do que desalentado ou abatido, deseja a morte, e conserva a vida a amar,
7
PEGORARO, O. A., Ética é justiça, p. 54.
8
KRASSUSKI, J. A., Crítica da religião e sistema em Kant, p. 104.
9
KANT, I., A religião nos limites da simples razão, p. 73.
10
KANT, I., Lecciones sobre la filosofia de la religíon, p. 53.
11
SANTOS, E. A., Religião, moral e teologia, p. 44-52.
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não por inclinação ou medo, mas por dever, então a sua máxima tem um
conteúdo moral.12
O dever nas palavras de Kant possui relação com o imperativo categórico.
O filósofo considera, mediante a citação, que uma vontade pura, que seja boa
em si mesma, somente tem sentido moral se alcançar o bem por causa do
dever. A vontade é considerada moral se procura alcançar o sumo bem. A
vontade, aqui, iluminada pelo dever, visa exclusivamente a busca do bem.
Aliás, o Catecismo da Igreja Católica assim explica o que estamos discutindo:
“a vontade reta ordena para o bem e para as bem-aventuranças os movimentos
sensíveis que ela assume; a vontade má sucumbe às paixões desordenadas e
as exacerba”.13
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Para Kant, a vontade precisa se submeter ao que o dever exige e impõe.
Porém, não podemos deixar de lembrar que: “é necessário recordar que mesmo
o ‘dever’ do cristão, expresso em experiências do ethos bíblico, sempre traz
em seu bojo a convicção de que o dever é precedido pelo ‘bem viver’”.14 Não
seria, então, incorreto afirmar que o “dever” visto como uma motivação que
visa o “bem viver” justifica, até certo, ponto o aspecto formal da ética de Kant,
uma vez que sobressai, no contexto desta discussão, o sentido do ethos cristão,
“a passagem da ‘estima de si’ para o ‘respeito a si’; da ‘estima do outro’
para o ‘respeito ao outro’, e do ‘viver juntos’ para a ‘igualdade de todos’”.15
Entretanto, para a vontade atingir esse objetivo e alcançar a finalidade moral,
Kant articula um corretivo para a vontade. Elege a razão como responsável
por guiar a vontade humana.
Como pensar na contribuição filosófica do dever e da vontade subjacente
às considerações de Kant em favor da fundamentação da bioética? É preciso
compreender que o dever procura sempre fazer o bem. Logicamente, o dever
kantiano age como um Tu Deves! No vasto campo de atuação da bioética,
o agente moral, dirá Kant, não pode colocar em prática somente o que a
sua vontade determina. Uma vontade, pura e boa, diante das observações
kantianas, precisa se submeter ao dever. Ao eticista que deseja seguir as
orientações de Kant, cabe não perder de vista que, em suas considerações
éticas, é preciso praticar o que determina o dever e não se esquecer que a
12
KANT, I., Fundamentação da metafísica dos costumes, p. 27-28.
13
CEC 1769.
14
RIBEIRO, N. J., O caráter narrativo da normatividade em teologia moral, p. 29.
15
RIBEIRO, N. J., O caráter narrativo da normatividade em teologia moral, p. 29.
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vontade pessoal requer estar em consonância com o que pede o dever. Um
eticista que assimilou os argumentos sobre o papel ético do dever e da vontade
jamais se colocará a favor da prática do aborto ou da eutanásia.
2. A razão como guia da vontade
Para Kant, o ser humano é fim em si mesmo. Esse postulado é importante
para a fundamentação da bioética. Como ser racional a pessoa não pode ser
tratada como meio, mas como dito, a razão assegura o seu lugar como fim
em si mesma. Nas palavras de Kant: “o homem, e, duma maneira geral, todo
o ser racional, existe como fim em si mesmo, não só como meio para o uso
arbitrário dessa ou daquela vontade”.16 É interessante notar que a pessoa na
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condição de “fim” em si mesma, e jamais tratada como “meio”, faz parte dos
ensinamentos da Encíclica Centesimus annus, do papa João Paulo II.
A exigência moral originária de amar e respeitar a pessoa como fim
e nunca como um simples meio, implica também, intrinsecamente, o
respeito de alguns bens fundamentais, sem os quais cai-se no relativismo
e no arbitrário.17
Na concepção kantiana, a pessoa como ser racional recebe esta distinção,
o que atesta a sua condição como fim em si mesma. Alegar que a pessoa é fim
em si mesma implica afirmar que ela jamais poderá ser compreendida como
meio em detrimento de algum tipo de comportamento. A pessoa, na condição
de agente moral, carrega consigo a faculdade de separar o verdadeiro do falso.
É o que Kant atribui como razão prática. Para ele, somente o ser humano pos-
sui esta capacidade. Por causa disso, o motivo de considerá-lo como fim em
si mesmo. Na obra já indicada, Fundamentação da Metafísica dos Costumes,
Kant apresenta a sua defesa que fundamenta o comportamento moral. Trata-se
da compreensão sobre o papel da razão. É a razão, em sua concepção, que dá
vida ao agir moral das pessoas. A razão, no contexto desta reflexão, não pode
se submeter às influências das inclinações18 que, geralmente, são capazes de
16
KANT, I., Fundamentação da metafísica dos costumes, p. 68.
17
CA 48.
18
PEGORARO, O. A., Ética é justiça. “O famoso mal radical kantiano consiste no conflito entre
a lei do dever moral e a lei do prazer e da satisfação sensível. O ser humano (ou vontade livre),
pelo exercício da liberdade, inclina-se ora para um lado, ora para outro; é oscilante entre dois
apelos: moral e sensitivo, transcendente e natural”. p. 57.
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conduzir negativamente o comportamento humano. João Paulo II, na Encícli-
ca Veritatis Splendor, afirma:
O ensinamento do Concílio sublinha, por um lado, a atividade da razão
humana na descoberta e na aplicação da lei moral: a vida moral exige a
criatividade e o engenho próprios da pessoa, fonte e causa dos seus atos
deliberados. Por outro lado, a razão obtém a sua verdade e autoridade da
lei eterna, que não é senão a própria sabedoria divina.19
Retomando o que Kant compreende por razão, é perceptível que essa,
por sua vez, tem como finalidade conduzir o comportamento humano com
o objetivo de alcançar o bem. Por isso, a razão para o filósofo não pode ser
compreendida apenas como “razão teórica”, isto é, que leva ao conhecimento,
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mas não se pode esquecer que também é “razão prática”, capaz de conduzir
a vontade mediante o comportamento moral. A razão para Kant conduz o ser
humano em direção ao bem moral.
Kant defende dois importantes argumentos que podem ser utilizados em
beneficio da fundamentação da bioética: o homem precisa ser concebido como
“fim” em si mesmo e não como “meio” e a razão como guia da vontade. No
primeiro argumento, é nítido que ninguém tem o direito de instrumentalizar o
outro, isto é, de fazer do outro um meio para alcançar os próprios interesses. Já
no segundo argumento, a razão dá sentido ao comportamento do agente mo-
ral. Implica, assim, primeiramente, que cabe aos profissionais da saúde e aos
eticistas estarem atentos para não instrumentalizar o outro a ponto de tratá-lo
como “meio” e não como “fim”. Em segundo, não permitir que suas decisões
éticas e morais sejam conduzidas de acordo com os sentimentos pessoais de-
vido a ausência da razão.
3. Imperativo categórico e hipotético
Qual é a diferença entre o imperativo categórico e o imperativo hipoté-
tico? O imperativo hipotético apresenta regras que precisam ser observadas
para alcançar um determinado objetivo. Já o imperativo categórico, por seu
turno, está fundamentado na exigência da obrigação. Essa obrigação en-
contra-se ancorada na perspectiva universal, ou seja, deve ser seguida por
todos. A formulação mais conhecida do imperativo categórico, segundo a
19
VS 40.
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interpretação de Kant, é assim descrita: “age como se a máxima da tua ação
se devesse tornar pela tua vontade em lei Universal da natureza”.20 A finali-
dade última da vontade não é outra senão alcançar todos os seres humanos
que gozam dos benefícios da razão. Uma segunda máxima que Kant formu-
lou e que faz parte de sua defesa moral está escrita por meio das seguintes
palavras: “age de tal maneira que uses a humanidade, tanto na tua pessoa
como na de qualquer outro, sempre e simultaneamente como fim e nunca
simplesmente como meio”.21
No tópico anterior já explicamos o significado de não tratar o outro
como meio, mas sempre como fim. Porém, aqui, nos deparamos diretamente
com a fórmula do imperativo kantiano que mostra explicitamente o cuidado
com o outro na relação social. Como sublinhado anteriormente, pensar em
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uma bioética de acordo com os postulados da filosofia moral de Kant implica
considerar que este imperativo zela pela dignidade do ser humano. O impe-
rativo deixa claro que a pessoa é sempre fim em si mesma. O que ressalta,
em nossa avaliação, uma importante defesa da dignidade da pessoa. Há tan-
tas realidades, atualmente, que expõem a exploração do ser humano, que o
concebe como meio e não como fim. Basta observar, por exemplo, esta reali-
dade mediante as novas técnicas de reprodução humana. Ou ainda, no vasto
campo da exploração da sexualidade. São realidades que, indiscutivelmente,
comprometem a dignidade do ser humano. Por isso, o imperativo categórico
kantiano se coloca contra toda ação que ameaça ferir a dignidade do outro.
Esse imperativo kantiano não se relaciona com os sentimentos inclinantes.
Faz o que ordena o dever.
Diferentemente, age o imperativo hipotético. Nas palavras de Kant, este
imperativo é formulado desta maneira: “os imperativos hipotéticos represen-
tam a necessidade prática de uma ação possível como meio de alcançar qual-
quer outra coisa que se quer ou que é possível que se queira”.22 O imperativo
hipotético não tem outro objetivo a não ser cuidar dos interesses particulares
de quem o defende. Não é movido pelo dever, mas pelos benefícios indivi-
duais e egoístas. Na área da saúde, especialmente da medicina, certamente,
há realidades que demonstram o desejo de obter vantagens lucrativas. Quan-
do, por exemplo, um profissional das ciências médicas coloca seus saberes a
serviço exclusivamente do interesse financeiro e se submete à realização de
20
KANT, I., Fundamentação da metafísica dos costumes, p. 59.
21
KANT, I., Fundamentação da metafísica dos costumes, p. 69.
22
KANT, I., Fundamentação da metafísica dos costumes, p. 50.
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procedimentos que ignoram a ética médica, mostra que está se comportando
de acordo com o imperativo hipotético.
Voltemos ao imperativo categórico. Uma terceira consideração acerca da
acepção deste imperativo para o que estamos discutindo aqui pode ser consta-
tado através do enunciado: “o imperativo categórico seria aquele que nos repre-
sentasse uma ação como objetivamente necessária por si mesma. Sem relação
com qualquer outra finalidade”.23 O imperativo categórico não mantem relação
com a materialidade da ação. Estabelece vínculo somente com a fórmula do
dever que o rege. O imperativo categórico funciona na prática como se fosse
um mandamento. Por isso, encontramos justamente nesse ponto, alguns em-
pencilhos na aceitação da moral de Kant. “É esta universalidade que Kant quer
assegurar com sua insistência sobre o dever como motivo”.24 A que se deve a
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frieza da proposta ética de Kant? “O singularmente frio e rigorista da ética de
Kant parece consistir no fato de Kant rejeitar não só as afeições parciais, no que
tem toda razão, mas a afetividade em geral”.25 Como fazer para não concordar
com Kant no que se refere a sua proposta de moral? “A única possibilidade de
divergir de Kant é, portanto, não colocar o afeto no lugar do dever, como Sho-
penhauer então fará, mas entender o próprio agir por dever, como um afetivo”.26
Refletindo sobre a fundamentação da bioética como sugere o imperati-
vo categórico kantiano e não o imperativo hipotético, podemos concluir que
o imperativo categórico encontra-se fundamentado nas exigências da obri-
gação ética. Por exemplo, é obrigação do médico, universalmente, colocar
seus conhecimentos em favor da vida e não contra a vida. É obrigação do
eticista movido pela ética kantiana defender, universalmente, a dignidade do
ser humano. O médico e o eticista, jamais podem colocar o saber a serviço do
imperativo hipotético, uma vez que este é guidado somente pelas vantagens
pessoais do agente moral.
4. Fundamentação à bioética a partir da argumentação kantiana
A ética kantiana está centrada na concepção da ideia de singularidade
que tem como objetivo alcançar a coletividade.27 Vejamos, por exemplo, como
23
KANT, I., Fundamentação da metafísica dos costumes, p. 50.
24
TUGENDHAT, E., Lições sobre ética, p. 123.
25
TUGENDHAT, E., Lições sobre ética, p. 123.
26
TUGENDHAT, E., Lições sobre ética, p. 124.
27
SANTOS, E. A., Ética e bioética, p. 32.
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escreve Kant: “age apenas segundo uma máxima tal que possas ao mesmo
tempo querer que ela se torne lei Universal”.28 O conceito de singularidade
lembra que o comportamento moral de um indivíduo precisa se tornar lei uni-
versal válido para todos. A atitude moral parte da individualidade (singulari-
dade) de alguém que é único e atinge a coletividade social, pois a “individua-
lidade humana leva em si à ideia da singularidade, no sentido da unicidade.
É a realização de uma essência numa existência de acordo com um exemplar
impermutável e insubstituível.”29
Todo indivíduo é um pensamento singular e próprio de Deus. Sobretudo,
Ele ama a todo o ser que criou com um amor único e insubstituível. Cada
ser individual deve afigurar-se como um raio deste amor criador, em
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especial toda pessoa humana individual.30
A percepção kantiana sobre a pessoa lembra sua realidade social, psíqui-
ca e espiritual, como dimensões que não podem ser compreendidas separada-
mente. A singularidade da pessoa recorda a sua unidade de corpo e alma.
A compreensão de autonomia (consentimento) e beneficência são usadas
por Engelhardt, idealizador e defensor da Bioética Secular, com a intenção de
justificar decisões pessoais e do corpo clínico, perante questões complexas na
área da moral. A Bioética Secular lida com situações relacionadas a bioética,
porém, sem levar em consideração os referenciais canônicos e religiosos. Se-
gundo Engelhardt, a Bioética Secular “procura abranger as sociedades plura-
listas seculares”31. Engelhardt, faz uso do conceito de “autonomia” kantiana,
porém, substitui esse conceito pelo princípio do “consentimento”.32
Engelhardt fundamenta sua reflexão em dois conceitos considerados
centrais: autonomia e beneficência. Vejamos em que consiste, primeiramen-
te, o princípio da autonomia. O princípio da autonomia, segundo Engelhardt,
28
KANT, I., Fundamentação da metafísica dos costumes, p. 58.
29
HÄRING, B., A lei de Cristo, p. 110.
30
HÄRING, B., A lei de Cristo, p. 111.
31
ENGELHARDT, H. T. J., Fundamentos da bioética, p. 133.
32
SANTOS, E. A., Religião, moral e teologia na obra de Immanuel Kant, p. 60-64. Engelhardt
explica que o princípio do “consentimento” serve de base para a moralidade do respeito mútuo,
no sentido de que exige que os outros sejam “usados” apenas quando dão o seu consentimento.
Diante dessa afirmação, para haver consentimento, é preciso somente respeitar o outro através
da sua decisão pessoal. Porém, surgem duas perguntas: como fazer para tomar alguma decisão
quando, por exemplo, a pessoa envolvida não consegue se posicionar frente à própria situação
em que se encontra? A família, ou o Estado tem o direito de decidir por esssa pessoa?
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corresponde ao de Kant. A Bioética Secular coloca o agente moral no centro
de suas discussões éticas. Engelhardt chama esse princípio de permissão, isto
é, a pessoa, na condição de agente moral, desfruta da supremacia individual ao
que condiz às decisões pessoais, sobretudo, em um contexto de enfermidade.
O referido teórico lembra que ninguém tem o direito de fazer nenhum tipo de
intervenção sem o consentimento do paciente. Nem o médico e, muito menos
ainda, o corpo clínico podem agir sem a permissão do paciente. O segundo
princípio chamado por Engelhardt de beneficência visa, no entanto, fazer o
bem aos outros. Ele faz várias reflexões para explicar o significado do bem.
O que é fazer o bem? Ou o que é o bem? Pegoraro,33 com a intenção de se
posicionar perante estas perguntas, ao se remeter à explicação da Bioética
Secular, diz que cabe a cada comunidade ética ou religiosa particular definir
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o que seja o bem. São os princípios éticos ou religiosos de cada comunidade
que delimitam e definem o bem concreto a ser praticado pelos seus adeptos.
Para Engelhardt, o que está em jogo não é tanto o sentido da autonomia,
mas o entendimento de “que a autonomia moral secular deriva do consen-
timento dos envolvidos em um empreendimento comum”.34 O pressuposto
basilar da Bioética Secular que, em nossa compreensão, a diferencia de outros
paradigmas da bioética, por exemplo, da Bioética Personalista,35 como acen-
tua Engelhardt, consiste em defender que o indivíduo ou o corpo clínico tem
autoridade moral para decidir o que fazer com os embriões congelados até
mesmo permitindo o aborto e a prática da eutanásia.
O próprio indivíduo e a comunidade médica não precisam levar em
consideração a reprovação moral da sociedade, pois “a moralidade secular
não conta com as sanções da lei ou da religião”.36 O conceito de consenti-
mento (autonomia) relacionado com a liberdade oferece segurança perante
as decisões. A Bioética Secular defende que a escolha moral não precisa estar
em consonância com o que a comunidade pensa ou defende como valor ético
e moral. Engelhardt acredita que é necessário mediante a liberdade “garantir
33
PEGORARO, O. A., Ética e bioética, p. 79.
34
ENGELHARDT, H. T. J., Fundamentos da bioética, p. 17.
35
MICHAELE, A., Manuale di bioetica per tutti, p. 43-55. A Bioética Personalista considera
os valores sobre a realidade metafísica da pessoa. Vê na pessoa uma unidade de corpo e alma,
dignidade e inteligência, consciência e liberdade. A pessoa é sujeito e não objeto. Defende que
os médicos só podem atuar no corpo humano com a finalidade de resguardar o bem total do
corpo.
36
ENGELHARDT, H. T. J., Fundamentos da bioética, p. 139.
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os melhores interesses das pessoas”.37 Paradoxalmente, vemos que “o princí-
pio do consentimento mostra que os pacientes não podem ser usados como
meios”.38 Segundo os pressupostos da Bioética Secular, “o aborto, a contra-
cepção e o suicídio não podem ser proibidos com autoridade moral”.39
Gostaríamos de voltar ao conceito de beneficência para melhor explicar
o seu entendimento para a Bioética Secular. A beneficência, segundo este pa-
radigma de bioética, leva em consideração o ato ou virtude para fazer o bem.
“O princípio da beneficência indica que os argumentos morais estão centrados
sobre questões do que é bom ou apropriado fazer”.40 É ético ou moral o con-
sentimento do suicídio assistido baseado simplesmente na decisão do corpo
clínico ou do paciente? Se a resposta for positiva, “seria o triunfo da razão que
dispensaria o auxílio da metafísica e da religião, que nos séculos anteriores
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fundamentavam a moralidade. Seria então, uma ética racional, universal e se-
cular, independente de tutelas religiosas e metafísicas”.41
Para Kant, o conceito de beneficência e consentimento, como a Bioética
Secular defende, não são aceitos. Kant, como visto, reprova qualquer modelo
de bioética pautado em interesses pessoais, ou que leve em consideração as
decisões pessoais do agente moral. Para buscar o fundamento da bioética de
acordo com a defesa kantiana, com o objetivo de contrapor os argumentos
da Bioética Secular, é preciso lembrar que para a moral kantiana, a pessoa
é inviolável. A moral de Kant, como já mostramos, preserva a dignidade do
ser humano. Para isso, defende que jamais a pessoa pode ser tratada como
“meio”, pois, a sua dignidade assegura incontestavelmente a sua condição de
“fim” em si mesma.
Temos consciência da diferença entre a ética do dever de Kant e a ética
das virtudes de Pellegrino e Thomasma. Para Kant, por causa do dever, o
agente moral precisa cumprir o que determina a lei moral. Já para Pellegrino
e Thomasma, a ética das virtudes espera que o agente moral tenha atitudes
voluntárias e convicções para praticar o bem em todos os contextos sociais.
Em comum ao filósofo alemão e aos eticistas americanos,42 encontra-se a re-
provação da Bioética Secular defendida por Engelhardt, sobretudo, diante dos
37
ENGELHARDT, H. T. J., Fundamentos da bioética, p. 132.
38
ENGELHARDT, H. T. J., Fundamentos da bioética, p. 140.
39
ENGELHARDT, H. T. J., Fundamentos da bioética, p. 40.
40
ENGELHARDT, H. T. J., Fundamentos da bioética, p. 140.
41
PEGORARO, O. A., Ética e bioética, p. 80.
42
PELLEGRINO, E. D.; THOMASMA, D. C., The virtues in medical practice, p. 98.
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conceitos, consentimento e beneficência, na área da saúde. Pellegrino e Tho-
masma elegeram oito virtudes consideradas essenciais nas circunstâncias dos
cuidados da saúde, especialmente, na relação entre médico e paciente. São
elas: fidelidade à promessa, a compaixão, a prudência, a justiça, a coragem, a
temperança, a integridade e o altruísmo.43 “A teoria ética das virtudes, por seu
lado, realça o papel do agente nas decisões éticas – como devo viver? ou que
tipo de pessoa devo ser?”.44 Para Pellegrino e Thomasma, as virtudes indicam
as características que determinam as condutas práticas.
Vejamos, brevemente, o que ensina cada uma das virtudes. Primeiramen-
te, a virtude da fidelidade à promessa.45 Essa virtude corresponde ao compro-
misso da fidelidade ao juramento feito pelo médico no dia da formatura, isto é,
fez a promessa de colocar o conhecimento a serviço da vida e ao cuidado dos
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seus pacientes. Para o bom êxito dessa virtude, requer-se a confiança entre
médico e paciente. “Buscar ajuda profissional é confiar que o médico possui a
capacidade de ajudar e curar”.46 O paciente, ao depositar confiança no médico,
demonstra que confia em sua capacidade profissional e humana. E o médico,
por sua vez, valoriza e leva em consideração a autonomia do paciente. Em se-
gundo, a compaixão.47 Essa virtude ensina que o médico necessita se esforçar
para se colocar no lugar do paciente para melhor compreender o seu sofrimen-
to. O paciente, de modo algum, trata-se de um objeto de pesquisa médica, mas
de um ser humano, portador de uma história de vida. A compaixão carrega
consigo a ética, no sentido de que o médico se comprometeu a colocar sua for-
mação intelectual inteiramente a serviço dos cuidados da saúde do paciente.
Em terceiro, a prudência.48 A palavra grega phronesis, retirada da filoso-
fia aristotélica, indica a necessidade do uso da sabedoria prática. Na área da
medicina, essa sabedoria evoca a importância da sensatez que ajuda na ela-
boração do diagnóstico médico para o tratamento mais adequado possível ao
paciente. A prudência recorda ao médico que ele lida com pessoas, na maioria
das vezes, fragilizadas por causa da enfermidade. O médico tem de levar
em consideração a autonomia do paciente. O paciente não pode se submeter
a nenhum tipo de procedimento sem antes ser devidamente esclarecido pelo
43
PELLEGRINO, E. D.; THOMASMA, D. C., The virtues in medical practice, p. 65-161.
44
CRUZ, J. S., Ética das virtudes, p. 592.
45
PELLEGRINO, E. D.; THOMASMA, D. C., The virtues in medical practice, p. 65-78.
46
PELLEGRINO, E. D.; THOMASMA, D. C., The virtues in medical practice, p. 68.
47
PELLEGRINO, E. D.; THOMASMA, D. C., The virtues in medical practice, p. 79-83.
48
PELLEGRINO, E. D.; THOMASMA, D. C., The virtues in medical practice, p. 84-91.
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médico. Em quarto, a justiça.49 A virtude da justiça no campo da saúde, pri-
meiramente, pontua que o médico deve ter consciência de que lida com seres
humanos. Em segundo, é aconselhável levar em conta quais as prioridades na
dimensão dos cuidados da saúde atotados para com cada paciente. Em tercei-
ro, a justiça aplicada na área da saúde cuida para que os recursos destinados ao
tratamento dos enfermos sejam aplicados de forma correta para o bem comum
dos pacientes.
Em quinto, a coragem.50 Refere-se a uma virtude moral demasia-
damente ignorada. Porém, o médico é chamado a exercer a sua profissão
em situações que requer, às vezes, o uso da coragem. Por exemplo, no
contexto da guerra e nas situações de proliferação de doenças contagiosas.
A virtude da coragem leva o médico a não ser conivente com atos de
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tortura que colocam em risco a integridade física e psíquica das pessoas.
A virtude da coragem impulsiona o médico a defender os mais pobres e
humildes e a denunciar as irregularidades nos serviços de saúde. Em sexto,
a temperança.51 Para o médico, é fundamental discernir frequentemente o
que fazer diante dos recursos tecnológicos existentes a seu dispor para me-
lhor prestar assistência médica aos pacientes. Aqui há uma questão muito
delicada. Primeiro, como já lembrado, o médico tem que fazer uso dos
recursos tecnológicos para cuidar do paciente. Em segundo, pode aconte-
cer de o médico não fazer uso de tais recursos tecnológicos. O que seria
inaceitável. A virtude da temperança conclama o médico a ser sensível
diante da fragilidade do paciente. Em razão da temperança, é inadmissível
que o médico abandone pacientes portadores de doenças incuráveis. Essa
virtude aconselha ao médico que é importante interagir com o paciente.
A temperança impede qualquer tipo de excesso ao propor o caminho da
sobriedade à consciência médica.
Em sétimo, a integridade.52 Duas palavras são centrais para se compreen-
der a virtude da integridade: honestidade e imparcialidade. A honestidade e
a imparcialidade revelam que o médico age movido por valores e convicções
morais. A integridade ensina ao médico e ao paciente que ambos precisam
respeitar os valores morais que regem ora a profissão médica, ora a vida do
paciente. O médico deve tomar decisões de acordo com a sua consciência.
49
PELLEGRINO, E. D.; THOMASMA, D. C., The virtues in medical practice, p. 92-108.
50
PELLEGRINO, E. D.; THOMASMA, D. C., The virtues in medical practice, p. 109-116.
51
PELLEGRINO, E. D.; THOMASMA, D. C., The virtues in medical practice, p. 117-126.
52
PELLEGRINO, E. D.; THOMASMA, D. C., The virtues in medical practice, p. 127-143.
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Isso implica ao menos duas posturas éticas: não colocar seu saber a serviço da
corrupção na área da saúde e jamais indicar medicamentos comprovadamente
ineficazes ao combate das doenças. E, por último, o altruísmo.53 Essa virtude
recomenda ao médico que é necessário levar em conta mais o bem do paciente
do que esperar algum tipo de recompensa da parte dele. O altruísmo recorda
ao médico que é prejudicial colocar seus interesses pessoais acima do bem do
paciente. O altruísmo no cenário médico impede de fazer da saúde um objeto
simplesmente regido pelo critério econômico. O profissional da saúde que
pauta sua conduta pelo princípio do altruísmo realiza o que carece ser reali-
zado sem se preocupar em receber elogios, pois sua conduta é guiada pelos
valores éticos e morais.
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Conclusão
A reflexão que agora se conclui não teve como finalidade esgotar as dis-
cussões ao redor do tema proposto. Consideramos que ao se perguntar pelos
fundamentos da bioética, sobretudo, da bioética de inspiração kantiana, jun-
tamente com os ensinamentos de outros pensadores que recorremos, servem
para uma possível orientação ao que condiz à defesa da dignidade da pessoa
humana.
Kant, toma a pessoa como “fim” em si mesma, e não como “meio”. Para
isso justifica, racionalmente, o uso de alguns conceitos como dever, razão, im-
perativo categórico etc., responsáveis por guiar sempre à vontade. De modo
geral, essas três dimensões antropológicas conferem sentido aos atos huma-
nos. Os profissionais das diversas áreas da saúde, subjacente as considerações
de Kant, não podem instrumentalizar o outro. Não cabe ao agente moral subs-
tituir o dever, a razão e o imperativo categórico pelos seus interesses pessoais.
A defesa kantiana ensina que é preciso prevalecer sempre o respeito incondi-
cional pela pessoa humana. Por isso, cabe à bioética, como fundamento, não
se esquecer que a pessoa jamais poderá ser concebida como uma “coisa” entre
as demais “coisas”.
Kant é, ainda hoje, um pensador consistente na luta em favor do res-
peito a pessoa humana. Em decorrência do atual contexto social em que está
inserida a bioética, essa ciência, cada vez mais, precisa lidar com questões
complexas e de difícil discernimento ético. Basta observar o modo como a
53
PELLEGRINO, E. D.; THOMASMA, D. C., The virtues in medical practice, p. 144-161.
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Bioética Secular argumenta seus postulados, especialmente, diante da de-
fesa do consentimento e da beneficência. A defesa destas duas narrativas é
utilizada para justificar decisões pessoais e do corpo clínico perante temas
polêmicos na área da bioética como, por exemplo, aborto e eutanásia. A
ética do dever (Kant), concomitantemente com a teoria ética das virtudes
(Pellegrino e Thomasma), sugere que é preciso cautela ao se falar dos pro-
pósitos práticos da relação entre médico e paciente. Portanto, caberia aos
diversos profissionais das distintas áreas do saber, atualmente, não se es-
quecerem de que a reflexão no âmbito da bioética sempre exige uma sólida
fundamentação antropológica, pois
Para descrever a liberdade na moral consiste em ter presente que não se dá
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mais sobre o argumento uma reflexão que não seja já prejudicada por uma
experiência pessoal de liberdade; quando se fala de liberdade, em qualquer
caso, se fala sempre da minha liberdade e isto suscita, já de início, um
imediato envolvimento afetivo.54
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[email protected]10.17771/PUCRio.ATeo.61615
Rogério Gomes
Doutor em Teologia Moral pela Pontificia Università Lateranense
Docente na Accademia Alfonsiana
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E-mail: [email protected]
Recebido em: 02/05/2022
Aprovado em: 07/11/2022
714 ATeo, Rio de Janeiro, v. 26, n. 70, p. 697-714, jul./dez.2022