Episódio do Jantar no Hotel Central
Caracterização das personagens
Através das atitudes e posições tomadas pelas diversas personagens intervenientes neste jantar - Carlos,
Ega, Alencar, Jacob Cohen, Dâmaso e Craft - é possível identificar uma dissimilaridade nas perspetivas
pessoais de cada um, reflexo da transição entre o romantismo para o realismo/naturalismo patente na
época.
Carlos da Maia apresenta-se, pela primeira vez, à sociedade elitista, no entanto, distancia-se da conversa,
apenas comentando alguns aspetos. Afirma-se também como defensor das ideias românticas, criticando
que “o mais intolerável no realismo eram os seus grandes ares científicos”, e talvez, também um pouco
patriota quando defende que “ninguém há-de fugir, e há-de-se morrer bem”.
Tomás de Alencar, um “indivíduo muito alto, todo abotoado numa sobrecasaca preta, com uma face
escaveirada, olhos encovados, nariz curvado, bigodes compridos, calvo na frente, dentes estragados e
testa lívida”. “Camarada”, “inseparável” e “íntimo” de Pedro da Maia, apresentado no jantar do Hotel
Central a Carlos da Maia, o poeta possuía um ar “antiquado”, “artificial” e “lúgubre”. Considerado um
“gentleman”, “generoso” e um “patriota à antiga”. Alencar tivera antes de seguir o caminho da literatura
uma vida “de adultérios, lubricidades e orgias”. Personagem que representa o típico poeta português,
autor de “Vozes de Aurora”, “Elvira”, “Segredo do Comendador” e outros. Símbolo do ultrarromantismo,
contudo vê-se confrontado com os princípios Naturalistas/Realistas defendidos por Ega.
João da Ega é a personagem que mais intervém no episódio do Hotel Central, acérrimo defensor das
ideias Naturalistas/Realistas, provocava o seu opositor, Alencar. Exagerado nos argumentos que
fundamentam as suas opiniões e na defesa das suas ideias revolucionárias. Advoga que “à bancarrota
seguia-se uma revolução” e que desta forma, Portugal seria um grande beneficiário. As posições tomadas
por Ega, face aos temas discutidos, espelham e assimilam-se à Geração Revolucionária de Coimbra, pois
tais atitudes, próprias desta geração, traduzem uma vontade insaciável de modificar Portugal e torná-lo
num país melhor.
Jacob Cohen, representante das Finanças, “respeitado diretor do Banco Nacional, marido da divina
Raquel”, homem de estatura baixa, “apurado, de olhos bonitos, suíças tão pretas e luzidias” e com
“bonitos dentes”. Neste jantar conheceu Carlos e destacou a posição superior que toma perante a
sociedade.
Dâmaso Salcede é o interveniente que representa os defeitos da sociedade. “Um rapaz baixote, gordo,
frisado como um noivo da província, de camélia ao peito e gravata azul-celeste”. Procura aparentar um
“ar de bom senso e de finura”, é considerado provinciano, tacanho e apenas com uma preocupação: que
seja “chique a valer”. Dá asas à sua vaidade e futilidade falando dos pormenores das suas viagens e
exibindo uma predileção pelo estrangeiro, “... é direitinho para Paris! Aquilo é que é terra! Isto aqui é um
chiqueiro...”. Acompanha todos os movimentos de Carlos dando-lhe grande importância, de modo que o
possa imitar e assim assumir perante a sociedade um estatuto social digno e respeitável.
Eça identifica Craft como o “homem ideal”. Neste episódio pouco se sabe sobre ele, apenas que é inglês
e, como tal, pressupõe-se que recebera uma educação britânica. Não tem muita importância na ação,
quase não participa nas conversas e reage de forma “impassível”, contudo é a favor da resistência aos
espanhóis, quando concorda em organizar uma guerrilha com Ega.
Assuntos tratados/criticados
Um dos assuntos que este episódio visa criticar são as escolas literárias do naturalismo e do realismo.
Tomás de Alencar fora o principal e mais contínuo crítico deste tema. Vejamos algumas dessas críticas:
Designa o realismo/naturalismo por: “literatura «latrinária»”; “excremento”; “pústula, pus”;
Culpabiliza o naturalismo de publicar “rudes análises” que se apoderam “da igreja, da burocracia, da
finança, de todas as coisas santas dissecando-as brutalmente e mostrando-lhes a lesão”, e, deste
modo, destrói a velhice de românticos com ele;
Acusa o naturalismo de ser uma ameaça ao pudor social;
Critica os versos de Craveiro e acusa-o de plágio, pois “numa simples estrofe dois erros de
gramática, um verso errado, e uma imagem roubada de Baudelaire!”.
Carlos da Maia considera que “o mais intolerável no realismo era os seus grandes ares científicos” e Ega,
apesar de defender o realismo, concordava com esta crítica. Craft desaprova o realismo, pelo facto de
estatelar a realidade feia das coisas num livro. Um outro aspeto criticado são as finanças e a situação
económica do país na altura. Este assunto espelha a crise financeira que o país passava nesta época (séc.
XIX). Eça descreve-o de forma irónica através de Cohen, o representante das Finanças, ao afirmar que “os
empréstimos em Portugal constituíam uma das fontes de receita, tão regular, tão indispensável, tão
sabida como o imposto”, aliás era «cobrar o imposto» e «fazer o empréstimo» a única ocupação dos
ministérios. Desta forma, concordavam que assim o país iria “alegremente e lindamente para a
bancarrota”. No entanto, Ega não aceitara baixar os braços e logo dera a solução revolucionária para o
problema de finanças que o país atravessava – a invasão espanhola!
Por último, este episódio critica também a história política portuguesa. Dada a sugestão perfeita para a
bancarrota, Ega delira com a ideia e pretende “varrer a monarquia” e o “crasso pessoal do
constitucionalismo”. A invasão espanhola leva Ega a criticar a raça portuguesa, afirma que esta é a mais
cobarde e miserável da Europa, “Lisboa é Portugal! Fora de Lisboa não há nada.” Todos iriam fugir
quando se encontrassem perante um soldado espanhol. A sociedade tinha receio de perder a
independência, mas só “uma sociedade tão estúpida como a do Primeiro de Dezembro” pensaria que a
invasão traria esta consequência. Ega é a principal personagem que satiriza a história política, e isso pode
ser confirmado ao longo das conversas em que Ega discute este tema.
Episódio da corrida de cavalos
Críticas à sociedade
Os objetivos deste episódio são: o contacto de Carlos com a alta sociedade lisboeta; uma visão
panorâmica desta sociedade sobre o olhar crítico de Carlos; tentativa frustrada de igualar Lisboa às
demais capitais europeias; denunciar o cosmopolitismo postiço da sociedade. A visão caricatural é dada
pelo espaço do Hipódromo: parecendo um circo; as pessoas não sabiam ocupar os seus lugares e as
senhoras traziam vestidos de missa. O bufete tinha um aspeto nojento. As corridas terminaram
grotescamente e a primeira corrida terminou mesmo numa cena de pancadaria.
Mentalidade provinciana
As corridas apesar das críticas e a pouca dimensão comparativamente ao estrangeiro, continuavam a
existir. O que permitia uma visão panorâmica sobre a alta sociedade lisboeta, e onde encontramos
Carlos e Craft em convívio direto com esse ambiente. Um cenário que deveria ostentar a exuberância e o
colorido de um acontecimento mundano como as corridas de cavalos, demonstra, uma imagem
provinciana indesmentível. Isto torna-se mais significativo se pensarmos que no clima humano do
Hipódromo predominava uma carência de motivação e vitalidade.
Caricatura da sociedade feminina
As mulheres estavam todas na tribuna, todas elas, a maioria de vestidos de missa, sérios, algumas delas
com chapéus emplumados que se começavam a usar. O comportamento da assistência feminina “que
nada fazia de útil” e a sua vida são no seu todo caricaturados. O traje escolhido não era o mais correto
face à ocasião, daí até alguns dos homens se sentirem embaraçados no seu chique. As senhoras de
“vestidos sérios de missa”, acompanhando “...chapéus emplumados” da última moda, que não se
adequavam ao evento, muito menos à restante toilette. Assim, o ambiente que devia ser requintado,
mas, ao mesmo tempo, ligeiro como compete a um evento desportivo, era desfigurado, pela falta de
gosto e pelo ridículo da situação que se queria requintada sem o ser.
Desejo de imitar o estrangeiro
A sociedade da época pensava que o que era “chique” tinha de vir de fora e tentava, assim, imitar o
estrangeiro. Carlos durante o episódio comenta que o regular em Portugal são as touradas e não as
corridas inglesas de cavalos. Mas, esta imitação é sintomaticamente reprovada por Afonso da Maia para
quem “o verdadeiro patriotismo, talvez (...) seria, e, lugar de corridas, fazer uma boa tourada.”
Personagens
• Carlos da Maia: Caracterizado como sendo culto, bem-educado, cosmopolitista, sensual e diletantista.
No que toca à sua aparência física é alto, com pele pálida e olhos negros.Neste capítulo, assiste às
corridas com o único objetivo de rever Maria Eduarda.
• Maria Eduarda: Caracterizada como sendo misteriosa, e nunca vítima de crítica. Era alta, loira, sensual
e intitulada de deusa ou perfeita, tinha olhos negros. Não interage no episódio.
• Dâmaso Salcede: Caracterizado como sendo resumido e um cobarde sem dignidade. Consoante o seu
físico, era baixo e gordo. Neste capitulo, destaca-se de uma forma negativa devido ao ridículo e excessos
das suas roupas, pois usa uma sobrecasaca branca e véu azul no chapéu.
• Condessa de Gouvarinho: Caracterizada por ser imoral, sem escrúpulos e fútil. No que toca à sua
aparência física, tem cabelos crespos e ruivos, uma pele clara, fina e doce, um nariz pertulante e olhos
negros e brilhantes. Neste capítulo, a sua atenção está apenas virada para Carlos; representa os
comportamentos desajustados das senhoras, que se vestem com "vestidos sérios de missa".
• Tomas Alencar: Caracterizado como sendo um poeta romântico, incoerente, um falso moralista e
alguém que se contradiz. No que toca à sua aparência física era alto e asceta. Neste capitulo, representa
alguma vaidade, vestindo um "fato novo de cheviote claro"; foi sempre cortês durante o evento.
• D.Maria da Cunha: Caracterizada como alguém que fazia parte da alta sociedade pois tinha um alto
nível de cultura e postura e gostava de estar presente em todos os eventos e acontecimentos sociais.
Possuía uma beleza encantadora. Neste capítulo, foi a única com atrevimento suficiente para se sentar
junto dos homens, e, uma das únicas mulheres a divertir-se; é casamenteira pois apresenta Alencar à sua
amiga Concha e, procura aproximar ainda mais Carlos da Condessa.
Jantar na casa dos Gouvarinho
Temas Abordados e Críticas Apresentadas
Temas
Dicotomia Porto / Lisboa;
Deslumbramento com o estrangeiro;
Colonialismo e escravatura;
Papel da mulher;
Literatura.
Críticas
Ignorância e incompetência dos políticos e da administração pública;
Tacanhez de espírito e superficialidade das elites;
Visão machista e retrógrada sobre o papel da mulher;
Atraso intelectual da sociedade portuguesa;
Tratamento da cultura como adorno social;
Hipocrisia e futilidade das classes altas.
6. Personagens Intervenientes
Carlos da Maia – Aristocrata culto, elegante e refinado, pouco interventivo neste jantar, pois
encontra-se distraído com questões pessoais.
João da Ega – Sarcástico, irónico, provocador e bem-educado; distingue-se dos demais pela sua
inteligência e postura crítica.
Condessa de Gouvarinho – Mulher exuberante, sedutora, provocadora, imoral e adúltera. Tem uma
relação extraconjugal com Carlos da Maia.
Conde de Gouvarinho – Político incompetente e retrógrado, símbolo da ineficácia política. Ministro
e par do reino.
Sr. Sousa Neto – Funcionário público incompetente e inculto, representante típico da burocracia
portuguesa.
Senhora de Escarlate – Esposa de Sousa Neto, mulher culta e educada. Gorda e trajada de forma
chamativa.
D. Maria da Cunha – Amiga e confidente, sabia do romance entre Carlos e a Condessa. Amável e
sociável.
Baronesa de Alvim – Mostra desagrado por Ega durante o jantar.
Charlie – Mencionado, mas com papel irrelevante no episódio.
8. Conclusão
O episódio do jantar em casa dos Gouvarinho é exemplar da crítica social de Eça de Queirós. Através da
ironia e do detalhe descritivo, o autor desmonta a aparência respeitável da elite portuguesa, revelando
os seus vícios, ignorância e falta de valores. Este capítulo constitui um retrato realista e mordaz de uma
sociedade em decadência, sendo essencial para compreender a crítica queirosiana aos costumes e
instituições do seu tempo.
O espaço social permite através das falas, observar a gradação dos valores sociais, o atraso intelectual do
país, a mediocridade mental de algumas figuras da alta burguesia e da aristocracia.
Desfilam perante Carlos as principais figuras e problemas da vida política, social e cultural da alta
sociedade lisboeta: a crítica literária, a literatura, a história de Portugal, as finanças nacionais, etc. Todos
estes problemas denunciam uma fragilidade moral dessa sociedade que pretendia apresentar-se como
civilizada.
No jantar podemos apreciar duas concepções opostas sobre a educação das mulheres: salienta-se o
facto de ser conveniente que "uma senhora seja prendada, ainda que as suas capacidades não devam
permitir que ela saiba discutir, com um homem, assuntos de carácter intelectual" (Ega, provocador,
defende que "a mulher devia ter duas prendas: cozinhar bem e amar bem").
A falta de cultura dos indivíduos que são detentores de cargos que os inserem na esfera social do poder
– Sousa Neto (oficial superior de um cargo de uma grande repartição do Estado, da Instituição Pública),
desconhece Proudhon, começando por responder a Ega que, provocante, lhe pergunta a sua opinião
sobre o socialista, que não se recorda textualmente, depois "que Proudhon era um autor de muito
nomeada", e finalmente, perante a insistência de Ega, sintetiza a sua ignorância, afirmando que não sabia
que "esse filósofo tivesse escrito sobre assuntos escabrosos", como o amor, acrescentando que era seu
hábito aceitar "opiniões alheias, pelo que dispensava as discussões". Posteriormente, perguntará a
Carlos se existe literatura em Inglaterra.
O deslumbramento pelo estrangeiro – Sousa Neto manifesta a sua curiosidade em relação aos países
estrangeiros, interrogando Carlos, o que revela o aprisionamento cultural de Sousa Neto, confinado ás
terras portuguesas.
Os Jornais, “A Corneta do Diabo” e “A Tarde”
Critica-se, neste episódio, a decadência do jornalismo português, pois os jornalistas deixavam-se
corromper, motivados por interesse económicos (é o caso de Palma Cavalão, do Jornal A Corneta do
Diabo) ou evidenciam uma parcialidade comprometedora, originada por motivos políticos (é o caso de
Neves, director do Jornal A Tarde).
A Corneta do Diabo: Carlos dirige-se, com Ega, a este jornal, que publicara uma carta, escrita por Dâmaso
Salcede, insultando e expondo, em termos degradantes, a sua relação amorosa com Maria Eduarda.
Palma Cavalão revela o nome do autor da carta e mostra aos dois amigos o original, escrito pela letra de
Dâmaso Salcede, a troco de "cem mil réis"
A Tarde: Neves, o director do jornal, acede a publicar a carta em que Dâmaso Salcede se confessa
embriagado ao redigir a carta insultuosa, mencionando a relação de Carlos e de Maria Eduarda, por
concluir que, afinal, não se tratava do seu amigo político Dâmaso Guedes, o que o teria levado a rejeitar a
publicação.
Os episódios da "Corneta do Diabo" e do jornal "A tarde" criticam:
a decadência do jornalismo português que se deixam corromper, por interesses económicos ou
evidenciam uma parcialidade comprometedora de feições políticas;
o parcialismo, o clientelismo partidário, a venalidade e a incompetência dos jornalistas da época;
a superficialidade e a ignorância da classe dirigente.
Nestes episódios é evidente a crítica ao jornalismo sensacionalista, estes momentos expõem os vícios do
jornalismo, assim como a falta de ética e moralismo dos seus profissionais, a fraca qualidade dos textos
publicados e relações condenáveis entre esta atividade e a política.
Neste contexto também existe aqui uma crítica à intenção de vingança política, pois o diretor do jornal
nunca aceitaria difamar alguém do seu partido, revelando uma enorme falta de ética.
O sarau do Teatro da Trindade
Evidencia-se o gosto dos portugueses, dominados por valores caducos, enraizados num sentimentalismo
educacional e social ultrapassados. Total ausência de espírito crítico e analítico da alta burguesia e da
aristocracia nacionais e a sua falta de cultura.
Rufino, o orador “sublime”, que pregava a “caridade” e o “progresso”, representa a orientação mental
daqueles que o ouviam: a sua retórica vazia e impregnada de artificialismos barrocos e ultra-românticos
traduz a sensibilidade literária da época, o seu enaltecimento á nação e à família.
Cruges, que tocou Beethoven, representa aqueles que, em Portugal, se distinguiam pelo verdadeiro amor
à arte e que, tocando a Sonata patética, surgiu como alvo de risos mal disfarçados, depois de a marquesa
dizer que se tratava da Sonata Pateta, o que o tornaria o fiasco da noite.
Alencar declamou “A Democracia”, depois de “um maganão gordo” lamentar que nós Portugueses, não
aproveitássemos “herança dos nossos avós”, revelando um patriotismo convincente. O poeta aliava,
agora, poesia, e política, numa encenação exuberante, que traduzia a sua emoção pelo facto de ter
ouvido “uma voz saída do fundo dos séculos” e que o levava a querer a República, essa ”aurora” (e os
aplausos foram numerosos) que viria com Deus.