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Teorias Na Geografia 2

O livro 'Teorias na Geografia II: Manifestações da Natureza' explora teorias significativas na Geografia Física brasileira, abordando a relação entre natureza e conhecimento geográfico ao longo dos séculos. Organizado por Eliseu Savério Sposito e Guilherme dos Santos Claudino, o volume reúne reflexões de diversos autores sobre temas como a Teoria da Evolução, a Teoria do Ciclo de Erosão e a climatologia, destacando a importância da teoria na compreensão do mundo natural. A obra busca promover um diálogo entre diferentes subáreas da Geografia, enfatizando a complexidade das interações entre sociedade e natureza.
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O livro 'Teorias na Geografia II: Manifestações da Natureza' explora teorias significativas na Geografia Física brasileira, abordando a relação entre natureza e conhecimento geográfico ao longo dos séculos. Organizado por Eliseu Savério Sposito e Guilherme dos Santos Claudino, o volume reúne reflexões de diversos autores sobre temas como a Teoria da Evolução, a Teoria do Ciclo de Erosão e a climatologia, destacando a importância da teoria na compreensão do mundo natural. A obra busca promover um diálogo entre diferentes subáreas da Geografia, enfatizando a complexidade das interações entre sociedade e natureza.
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Teorias na Geografia II

Manifestações da Natureza
ELISEU SAVÉRIO SPOSITO
GUILHERME DOS SANTOS CLAUDINO
(ORGANIZADORES)

Teorias na Geografia II
Manifestações da Natureza

CONSEQUÊNCIA
© 2022, dos autores

Direitos desta edição reservados à


Consequência Editora
Rua Alcântara Machado, nº 40, sala 202
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Rio de Janeiro - RJ - Brasil
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Martina Neuburger
Ruy Moreira
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Coordenação editorial e projeto gráfico: Consequência Editora


Revisão: Cristiane Fogaça
Diagramação: Oliveira e Filho
Capa: Letra e Imagem
Imagem de capa: Primordial Chaos - No 16 (1906-07), de Hilma af Klint.

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) de acordo com ISBD

T314 Teorias na geografia II: manifestação da natureza / organizado por Eliseu


Savério Sposito, Guilherme dos Santos Claudino. - Rio de Janeiro :
Consequência Editora, 2022.
476 p. : il. ; 15,5 x 23cm.
Inclui bibliografia, índice e anexo.
ISBN: 978-65-87145-49-5
1. Geografia. 2. Teoria. 3. Natureza. I. Sposito, Eliseu Savério. II. Claudino, Guilher-
me dos Santos. III. Título.
2022-1491 CDD 910
CDU 91

Elaborado por Vagner Rodolfo da Silva - CRB-8/9410


AGRADECIMENTOS

Este livro foi publicado com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento


de Pessoal de Nível Superior – Brasil (CAPES) – Código de Financia-
mento 001. Agradecemos, também, ao Programa de Pós-Graduação em
Geografia da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Esta-
dual Paulista (UNESP), Campus de Presidente Prudente (PPGG), pelo
apoio logístico e incentivo à publicação.
Se à primeira vista uma teoria não for absurda, então não há espe-
rança para ela.
Albert Einstein

Sem teoria revolucionária, não pode haver movimento revolucionário.


Vladimir Lenin

As teorias são redes tecidas para conseguirmos apreender aquilo a que


chamamos “o mundo”: para racionalizá-lo, explica-lo e dominá-lo. E
nos esmeramos para tornar a trama cada vez mais refinada.
Karl Popper

Nenhuma teoria está em concordância com todos os fatos do seu do-


mínio.
Paul Feyerabend

A teoria é tão necessária quanto inevitável. Sem ela seria impossível


aprender ou agir de modo consistente; sem generalizações e abstrações
o mundo existiria para nós apenas enquanto bricolagem de experiên-
cias discretas e desconexas e de impressões sensórias.
Hans Joas & Wolfgang Knöbl

A complicação que existe para a vida científica no final do século XX e


no começo do século XXI está no fato de que algumas de nossas ideias
teóricas ultrapassaram a capacidade de testar ou observar.
A teoria de cordas foi, por algum tempo, o símbolo maior dessa situação.
Brian Greene
SUMÁRIO

APRESENTAÇÃO.............................................................................................. 11
Guilherme dos Santos Claudino

PREFÁCIO.......................................................................................................... 17
Margarete Cristiane de Costa Trindade Amorim

CAPÍTULO 1. As Manifestações da Natureza e as Teorias na Geografia


Física Brasileira.................................................................................................. 21
Guilherme dos Santos Claudino, Eliseu Savério Sposito

CAPÍTULO 2. Teorias e Modelos na Geografia Contemporânea.............. 93


Dante Flávio da Costa Reis Júnior

CAPÍTULO 3. O Tempo que Escoa e o Tempo que Faz: a natureza da


natureza, o território da natureza e a natureza do território..................... 133
Dirce Maria Antunes Suertegaray

CAPÍTULO 4. Immanuel Kant e sua Physische Geographie (1802).......... 153


Alexandre Domingues Ribas

CAPÍTULO 5. Teoria da Complexidade e a Geografia Física................... 189


Carlos Eduardo das Neves, Maiara Tavares Sodré

CAPÍTULO 6. Teoria da Evolução e a Geografia........................................ 227


Carlos Francisco Gerencsez Geraldino

CAPÍTULO 7. Das Teorias Clássicas à Teoria Biogeográfica


Antropocênica: a construção sociocultural do nicho................................. 251
Adriano Severo Figueiró

CAPÍTULO 8. A Teoria dos Refúgios Quaternários.................................. 297


Messias Modesto dos Passos
CAPÍTULO 9. A Teoria do Ciclo de Erosão de Davis: A procura de uma
descrição explicativa e geográfica para o relevo terrestre.......................... 321
William Zanete Bertolini

CAPÍTULO 10. Teoria do Equilíbrio Dinâmico em Geomorfologia....... 339


Marisa de Souto Matos Fierz

CAPÍTULO 11. Teoria e Clima Urbano: antecedentes metodológicos, a


construção do paradigma e seus desdobramentos...................................... 375
João Lima Sant’Anna Neto, Natacha Cintia Regina Aleixo

CAPÍTULO 12. Teoria das Variações Climáticas e o Estudo


Geográfico do Clima....................................................................................... 403
Lindberg Nascimento Junior

CAPÍTULO 13. Contribuições da Geografia à Teoria do Aquecimento


Global ............................................................................................................... 437
Paulo César Zangalli Júnior

SOBRE AS AUTORAS E AUTORES.............................................................. 467


APRESENTAÇÃO

Abstrair-se do mundo, generalizar a abundância do real e sobrevoar o


empírico são atitudes inextricáveis à existência humana. Suspendemos
a realidade para saber nela agir. O ato de teorizar, então, cumpre uma
função inequívoca à atividade científica que é, antes de qualquer coi-
sa, essencialmente humana. Teorizamos para criar conceitos, buscando
acessar a realidade e representá-la cientificamente. As teorias informam
o acabamento da escalada do pensamento científico. Elas são o aconte-
cimento da atividade intelectual materializada em palavras. As teorias
conformam as propostas para se ler e interpretar a realidade, da qual faz
parte o ser pensante, que pode ser entendida, também, como o mundo
e a vida sendo traduzidos. São representações dos instantes em que a
natureza se revela e o espírito encontra um caminho para decifrá-la.
É esse ir e vir do pensar em direção aos objetos, entidades e fenôme-
nos, inclusive a si mesmo, num ato de suspeita do seu próprio funcio-
namento, afirmando-se como a atividade mais genuína para o avançar
do conhecimento. O surgimento do saber depende dessa relação infinita
entre nós - criaturas humanas - e o mundo em sua inefabilidade on-
tológica. Se hoje denominamos essa atividade como teoria, é possível
mapeá-la historicamente em todo percurso da caminhada milenar da
humanidade.
Nosso propósito com esse segundo volume do projeto Teorias na
Geografia, contudo, é mais modesto. Gravitamos sobre algumas teorias
que nos últimos séculos marcaram a produção do conhecimento geo-
gráfico, e delas retiramos as reflexões que seguem no corpo desta obra.
Com a parceria de Eliseu Savério Sposito, coorganizador deste livro,
foi possível mapear e convidar importantes intérpretes do pensamento
geográfico brasileiro para elaboração das respectivas reflexões. São as
contribuições desses geógrafos de diferentes lugares do Brasil que detêm
profunda experiência com a Geografia Física que esse livro se ergueu.

11
12 TEORIAS NA GEOGRAFIA II

A Geografia Física é um campo que vem se especializando em di-


ferentes subáreas, demonstrando uma certa fragmentação técnica no
exercício do geógrafo. Essa Geografia vem sendo realizada em diferen-
tes instituições, dos cursos superiores de licenciatura e bacharelado à
pós-graduação é possível identificá-la. Hoje assiste-se a eventos cientí-
ficos específicos, bem como associações científicas exclusivas para cada
subárea. O que aqui se propõe, todavia, é o diálogo e a efetivação de
conexões, pois as teorias migram entre essas áreas, e não poderia ser de
outra forma uma vez que a Natureza subjaz à Geografia Física.
O título deste volume - Manifestações da Natureza – não foi es-
colhido ao acaso. O fio que conecta todos os capítulos é a busca pela
compreensão dessa instância do real que se manifesta no conhecimen-
to geográfico desde os tempos imemoriais das sociedades autóctones.
No Teorias I, a natureza aparece em dois capítulos1, reclamando uma
atenção mais abrangente, que compreenda os diferentes horizontes das
teorias na Geografia Física brasileira nos dois últimos séculos. Ainda
que não chegue à totalidade das teorias, este livro pretende preencher
partes dessa ausência.
Totalizando treze reflexões teóricas, é possível dividi-lo em quatro
blocos. No primeiro, que compreende os cinco capítulos iniciais, é rea-
lizada uma discussão mais geral sobre as perspectivas teóricas e me-
todológicas da presença da natureza no discurso geográfico e como a
Geografia Física tem lidado com ela. Já no primeiro capítulo, é realizado
um resgate panorâmico das discussões teóricas no corpo da Geografia
brasileira, mirando a formação de mestres e doutores a partir do geó-
grafo Aziz Ab’Sáber. O segundo capítulo analisa as teorias e os modelos
através da filosofia da ciência (escrito por Dante Flávio da Costa Reis
Júnior), que convida o leitor a voltar sua atenção para o terceiro, sobre
o papel do tempo nos estudos da natureza, do território da natureza e
da questão ambiental (escrito por Dirce Maria Antunes Suertegaray).
Na sequência, Alexandre Domingues Ribas evoca Emmanuel Kant por

1 No capítulo 6, escrito Fabrício Pedroso-Bauab, são analisadas as teorias da natureza


em Humboldt e suas expressões no idealismo alemão pós-kantiano e no romantismo.
No capítulo 16, escrito por Carlos Eduardo das Neves, a natureza se manifesta por meio
da teoria geossistêmica, em que é verificada sua presença na produção geográfica bra-
sileira.
Apresentação 13

meio de uma análise da sua Physische Geographie (1802) e revela-nos a


ideia de natureza contida nas formulações filosóficas deste importan-
te personagem que deteve um papel indelével na formação das bases
da Geografia Moderna. Fechando o bloco, Carlos Eduardo das Neves e
Maiara Tavares Sodré analisam o papel da Teoria da Complexidade na
Geografia Física, notadamente a propositura do sistema Geossistema-
-Território-Paisagem (GTP) e suas repercussões na produção bibliográ-
fica brasileira.
No que pode ser visto como um segundo bloco, a biogeografia ga-
nha destaque. E para abrir essa discussão é necessário tocar naquela que
talvez seja uma das teorias mais polêmicas e instigantes dos últimos
séculos: a Teoria da Evolução. Carlos Francisco Gerencsez Geraldino,
um dos primeiros geógrafos brasileiros a mergulhar em águas fundas
na Teoria da Evolução, promove uma reflexão convidativa ao debate.
Logo em seguida, Adriano Severo Figueiró realiza um resgate das teo-
rias clássicas da biogeografia, enfatizando a construção de uma teoria
biogeográfica antropocênica que revele os liames da construção social
do nicho. Nesse fluxo de teorias dos últimos dois séculos, uma ganha
destaque especial no corpo da Geografia produzia no Brasil quando o
assunto é a complexidade da biodiversidade tributária do quaternário:
a Teoria dos Refúgios. Coube a Messias Modesto dos Passos recuperar
os fundamentos históricos dessa teoria que teve com Aziz Ab’Sáber (que
vai chamar de Teoria dos Redutos) um importante papel no emblemáti-
co debate com biólogos e zoólogos nos anos de 1960/1970, e demonstrar
sua força explicativa através de seus estudos empíricos de campo.
A natureza tem sua maneira curiosa de se apresentar ao mundo, por
isso é necessário que compreendamos as forças que desenham sua apa-
rência no espaço, isto é, a forma com a qual a matéria se inscreve em
cada canto da estrutura terrestre. E para tratar deste assunto, duas teo-
rias da geomorfologia também são evocadas. A primeira é a Teoria do
Ciclo de Erosão de William Morris Davis. Esta teoria, que se configura
como uma das mais famosas entre os geógrafos, foi analisada por Wil-
liam Zanete Bertolini, que, num exercício de recuperação de referências
clássicas e contemporâneas (do Brasil e de outros países), atualiza o de-
bate demostrando as possibilidades e limites desta formulação teórica.
A segunda é tributária de todo conhecimento acumulado pelas teorias
14 TEORIAS NA GEOGRAFIA II

anteriormente mencionadas e ficou conhecida como Teoria do Equi-


líbrio Dinâmico. Marisa de Souto Matos Fierz realiza uma exploração
histórica das origens desta teoria e também demonstra sua aplicação
nos estudos geomorfológicos.
Os segredos da natureza não se expressam apenas pela biodiversida-
de dos organismos vivos ou pelas configurações do solo e da forma da
superfície terrestre. Há mais um ingrediente que dá o tom à primavera
da vida: o clima. E para tratar deste assunto há três capítulos se ocupam
de sua análise e encerram o percurso deste livro. Escrito por João Lima
Sant’anna Neto e Natasha Cintia Regina Aleixo, o primeiro se volta para
uma das poucas formulações teóricas elaboradas por geógrafos brasilei-
ros, trata-se da proposição teórico-metodológica de Carlos Augusto de
Figueiredo Monteiro, conhecida como Sistema Clima Urbano (SCU).
Com a publicação da sua Tese de Livre Docência “Teoria e Clima Ur-
bano”, em 1975, desenhou-se um dos programas de pesquisa que mais
influenciou gerações posteriores (inclusive os autores do respectivo ca-
pítulo) na climatologia brasileira. Monteiro, que foi um dos primeiros
orientandos de Ab’Sáber, eleva o reconhecimento da Geografia Física
produzida no Brasil, pois, além de dar vida à climatologia criando uma
verdadeira escola de discípulos, desenvolveu ideias originais, criando
teorias.
A fertilidade da climatologia também é destacada na reflexão derra-
deira efetuada por Lindberg Nascimento Junior sobre a teoria das va-
riações climáticas. Partindo da epistemologia, o autor busca verificar
os critérios gnosiológicos e conceituais das variações e finaliza com a
ontologia, esmiuçando as raízes da natureza dessas variações sob o viés
geográfico. As variações do clima é um dos assuntos mais instigantes
no corpo dos estudos atmosféricos da atualidade e, com ele, surge outro
igualmente potente, tratando-se do aquecimento global. Mirando neste
tema, Paulo César Zangalli Júnior retoma o debate sobre a relação socie-
dade ↔ natureza e revela o papel metabólico que o capitalismo exerce
nesta relação, destacando como a Geografia tem participado deste de-
bate, pois uma teoria mundialmente aceita do aquecimento global está
em plena disputa.
Para finalizar essa apresentação, é preciso dizer que o livro não con-
templa todas as teorias presentes na Geografia Física, tampouco aquelas
Apresentação 15

direcionadas à presença da natureza que outros tantos campos do co-


nhecimento têm produzido. O esforço empreendido foi o de captar as
mais evidentes no discurso geográfico brasileiro dentro das condições
técnicas de que dispúnhamos. O projeto Teorias na Geografia não se
finaliza em si, mas abre a tarefa a outras tentativas, conforme a natureza
do conhecimento exige.

Guilherme dos Santos Claudino


CAPÍTULO 1

As Manifestações da Natureza e as
Teorias na Geografia Física Brasileira
Guilherme dos Santos Claudino
Eliseu Savério Sposito

Introdução

A geografia brasileira tem desenvolvido reflexões sistematizadas sobre


a natureza de modo contínuo nas últimas décadas. Linhas de pesquisa
se multiplicaram, grupos de pesquisa de toda sorte são quase uma regra
nos departamentos universitários, associações científicas foram surgin-
do e se relacionando em rede através das universidades, eventos científi-
cos ocorrendo periodicamente ano a ano, revistas científicas igualmente
avolumaram-se, a geografia produzida no Brasil, assim, revela-nos uma
vitalidade candente. Nesse estado de coisas, analisamos, no presente es-
tudo, a marcha de algumas teorias que ainda hoje são a razão de ininter-
ruptos debates, desdobrando-se em verdadeiras batalhas de ideias entre
os geógrafos.
O caminho seguido no decorrer deste texto principia em Aziz Na-
cib Ab’Sáber, notadamente na cadeia de geógrafos que foram se for-
mando, mestres e doutores, através do processo de orientação com o
qual Ab’Sáber teve indelével participação. Nesse particular, buscou-se
demostrar como algumas teorias, isto é, maneiras de compreender as
coisas do mundo, por vezes o próprio mundo que se confunde com a
vida, vem sendo reflexionado por meio da busca da compreensão das
leis da natureza. Destaque-se que o exercício em questão procurou no
plano das influências mapear a concatenação genealógica da formação
de geógrafos que tiveram a natureza como seu tema de investigação. Te-
ses de diferentes ordens há mais de oitenta anos vêm sendo produzidas

21
22 TEORIAS NA GEOGRAFIA II

por nossa geografia e muitas delas continuam soterradas nos túmulos


do esquecimento dos acervos universitários.
Assim, a rigor, nosso objetivo é revelar alguns veios pouco explora-
dos e, consequentemente, escassamente conhecidos pelos mais jovens.
Isso posto, nossa reflexão divide-se em dois momentos: i) inicialmen-
te demostramos uma síntese do fluxo de orientações de Ab’Sáber e a
inevitável correlação com o contexto do mundo, isto é, dos aconteci-
mentos e instituições que tiveram precisa influência na construção e
desenvolvimento das reflexões geográficas no Brasil. Além dessas duas
forças destacamos as principais teorias científicas das ciências naturais
que vêm cumprindo papel flagrante no pensamento científico preocu-
pado com a natureza; ii) mergulhamos em duas dimensões da geografia
física, a geomorfologia e a climatologia, e destacamos as correlações e
tensões dos estudos das formas e dos céus através da dialética orientador
↔ orientado. Com efeito, recomendamos que o leitor não busque um
juízo acabado neste texto, pois nenhuma narrativa merece a condição de
controlar e ser a única portadora do acontecer histórico das ideias e das
coisas. É necessário, isso sim, que sobrevoe a marcha de um demonstrar
e avalie criticamente o conteúdo suspenso.

Abundância de teorias nos fluxos do infinito

As teorias não surgem do nada. Elas contêm tempo, acúmulo de anos ou


séculos, de ideias, pensamentos, de perdas e ganhos1. As teorias também
não são feitas por indivíduos isolados, elas fluem e dependem do fluxo
cultural de cada época; portanto, são produzidas por muitas pessoas,
homens e mulheres, que vão colocando, somando e ampliando pedaços
da totalidade que, então, salta como teoria, uma nova adição à com-
preensão das leis fundamentais da natureza. Toda teoria científica é de
algum modo uma teoria social pois seu propósito primeiro é entender o
funcionamento da vida e de explicar os segredos recônditos do mundo
(MOLEDO e MAGNANI, 2014; JOAS e KNOBL, 2017).

1 Ver: BURKE, Peter. Perdas e Ganhos: exilados e expatriados na história do conheci-


mento na Europa e nas Américas, 1500-2000. São Paulo: Editora Unesp, 2017.
As Manifestações da Natureza e as Teorias na Geografia Física Brasileira 23

Essa busca incessante de entender o desenvolvimento da vida e ex-


plicá-la em um sistema cognoscível chama-se teoria. Seu significado
vem sofrendo diferentes modificações ao longo da história do conhe-
cimento humano. No pensamento clássico greco-romano, por exem-
plo, a teoria era sinônimo de contemplação com conexão estreita com
o ato da beatitude intelectual, isto é, da abstração, e isso fez com que a
teoria se separasse da prática, como se fossem exercícios diferentes e
contrários. Mesmo na era moderna a teoria ainda permaneceu presa
a uma concepção redutora, uma vez que ela estava associada à experi-
mentação. Por isso, “até meados do século XIX, os cientistas de modo
geral admitiam que as teorias só explicavam os fatos, mas ainda era
uma apreensão da própria natureza”; assim, a partir do século XIX,
“quando a visão metafísica da natureza se torna definitivamente re-
chaçada pela Ciência Moderna numa atitude nitidamente materialista,
mecanicista e depois positivista, os cientistas restringem a compreen-
são de teoria ao âmbito da experimentação” (PEREIRA, 1990, p. 53).
Essa concepção esteve conectada às ciências empírico-formais e, desse
modo, havia uma procura intensa pelo conhecimento das leis da na-
tureza acarretando, consequentemente, na formulação de doutrinas,
conceitos e sistemas que explicassem um saber científico universal-
mente válido.
De qualquer forma e em qualquer tempo, o princípio que ainda
permanece no núcleo do conceito de teoria é a tentativa de explicar o
mundo e o funcionamento da vida, dotando-os de sentido. Foi baseado
nessa compreensão (ainda que sobre as bases das ciências naturais) que
construímos a Figura 1 enquanto representação das teorias de geógrafos
(brasileiros a partir de Aziz Ab’Sáber) e o contexto (instituições, mar-
cos históricos e temas ligados à questão ambiental) ao longo do tempo.
Mas se, por um lado, esse recorte ajudou no mapeamento das principais
teorias empírico-formais, por outro trouxe uma tensão, uma constata-
ção há muito debatida pelo pensamento feminista que, ainda, muitos
insistem em negar. Trata-se da ausência das mulheres na história das
teorias. Essa ausência é detectável no curso da ciência de modo geral,
mas também, e especialmente alarmante, na geografia. Associa-se a essa
questão a também ausência de intelectuais de outras partes do mundo,
que não da Europa e dos Estados Unidos da América. Praticamente to-
24 TEORIAS NA GEOGRAFIA II

das as teorias que conhecemos são oriundas desses dois lugares. Isso
permite adiantar que falar de teorias, de Nicolau Copérnico com sua
teoria heliocêntrica, passando por Newton, Darwin, Einstein (para ci-
tarmos alguns mais conhecidos) até a Teoria do Todo, massivamente
falaremos de homens brancos, europeus e norte-americanos2. Assim,
para se falar de Ciência Moderna e das teorias consequentes será sempre
necessário lembrar:

[...] que entre os grandes filósofos e pensadores, na história da huma-


nidade, as mulheres estiveram ausentes das discursividades filosóficas,
históricas, científicas e culturais. Foram poucas as que conseguiram.
Nos séculos XVII e XVIII podem ser citadas: Madame d´Epinay; Ma-
dame du Châtelet; a veneziana Elena Cornaro Piscopia (1678), primeira
mulher a ter uma cadeira na universidade; a física Laura Bassi (1723),
segunda mulher na Europa a receber um grau universitário; e Marie
Curie, que, em 1903, dividiu o prêmio Nobel com o seu marido. Todas
foram parcamente reconhecidas como sendo o outro sujeito produtor
do conhecimento. São muitos os relatos históricos a indicar que a ciên-
cia moderna foi construída como um empreendimento especificamente
masculino (BANDEIRA, 2008, p. 212).

O próprio Francis Bacon e os “demais fundadores da Royal So-


ciety impediram a presença das mulheres nas universidades admitin-
do somente a presença de filósofos, pensadores e cientistas homens”
(BANDEIRA, 2008, p. 212). Por esse conjunto de razões as mulheres
foram omitidas durante séculos dos espaços universitários e científi-
cos, mesmo durante a Revolução Científica dos séculos XVII e XVIII.
Foram excluídas tanto da condição de produtoras do conhecimen-
to científico quanto da história da ciência. As instituições científi-
cas (academias, universidades, sociedades, associações, etc.) foram
projetadas com o arquétipo de que caberia aos homens liderá-las,
e às mulheres cuidar deles, das casas e dos filhos (KERR e FAULK-
NER, 2003; BANDEIRA, 2008). Naturalizou-se a ideia de que falar
de teorias e pensá-las em diferentes contextos é algo transcendente,

2 Notadamente no século XX.


As Manifestações da Natureza e as Teorias na Geografia Física Brasileira 25

aplicável a qualquer tempo-espaço, excluindo-se suas marcas origi-


nárias. Essa ponderação e lembrança é necessária pois as estruturas
que sedimentaram a ciência contemporaneamente são heranças que
precisamos continuamente revisar e analisar criticamente, conforme
é destacado na Figura 1.
O organograma (figura 1) compreende três linhas temporais. A
primeira refere-se às instituições que tiveram um papel significativo
à construção da geografia produzida no Brasil, bem como os princi-
pais marcos associados à questão ambiental e, como não poderia ser
diferente, destaca alguns episódios históricos que sacudiram o século
XX. A temporalidade desta linha inicia-se em 1883 com a Sociedade
Brasileira de Geografia e finaliza em 2000, com o Sistema Nacional de
Unidade de Conservação da Natureza – SINUC. A razão desse pri-
meiro fluxo temporal é contextualizar3 os fatos que caminharam em
conjunto com o processo de formação da geografia no Brasil no século
passado.
A segunda linha (verde), que entendemos como uma das princi-
pais raízes da geografia produzida no Brasil, expõe o fluxo de orien-
tações do geógrafo Aziz Nacib Ab’Sáber. Nela, evidenciamos o caudal
de orientações (mestres e doutores) através de sucessivas gerações.
Essa linha, que também poderia ser compreendida como uma árvo-
re genealógica, guarda um conjunto de geógrafos que amplificaram o
alcance do conhecimento sobre a natureza. Como a formação de mes-
tres e doutores vem se ampliando nas últimas décadas, a quantidade
de informações e o consequente tamanho do exercício seria inviável
ao presente estudo em sua totalidade4. Por conta disso, estabelecemos
dois critérios: i) ir até a “terceira” geração, ou seja, os “netos” de Ab’Sá-
ber e ii) seguir até 20155 com os estudos “teóricos e históricos”6 do
pensamento geográfico associados à geografia física7. Do primeiro cri-

3 Ver BERDOULAY, Vincent. A escola francesa de Geografia: uma abordagem contex-


tual. Trad. Oswaldo Bueno Amorim Filho. 1. Ed. São Paulo: Perspectiva, 2017.
4 Desde 2015, a pós-graduação em geografia no Brasil forma, aproximadamente, 300
doutores e 700 mestres a cada ano em seus (hoje) 77 programas (CLAUDINO, 2019).
5 Este recorte se deve ao estudo feito anteriormente por Claudino (2019).
6 Estudos de epistemologia, ontologia e de história da geografia, notadamente.
7 Por conta desse critério tivemos que ir até a 6° geração em alguns casos.
26 TEORIAS NA GEOGRAFIA II

tério foi possível detectar importantes figuras de nossa geografia, bem


como a ampliação da formação de geógrafos em diferentes direções e
instituições. Do segundo, identificamos uma preocupação permanen-
te com os movimentos teóricos, metodológicos e políticos dos estudos
da natureza na geografia brasileira. Esse caminho metodológico não
pretende reduzir, excluir ou mesmo canonizar geógrafos. Pretende-
-se, unicamente, refletir sobre a formação de geógrafos através de um
caminho que julgamos fundamental à construção do saber geográfico
que tem sido produzido no Brasil. Objetivamos, assim, contribuir jun-
to às outras reflexões e abordagens que têm o conhecimento geográfi-
co como objeto de reflexão.
Na terceira linha representamos o fluxo de teorias. Como as teorias
são muitas, optamos em destacar aquelas ligadas às ciências naturais
(ou empíricas formais) e, consequentemente, da geografia física, dado
que um dos objetivos do presente capítulo é compreender algumas das
manifestações da natureza no discurso geográfico. Iniciamos, então,
com a Teoria Heliocêntrica de 1543 e finalizamos com a polêmica e
ainda não finalizada Teoria do Todo, também conhecida como a Teoria
da Grande Unificação – TDU. Neste corte histórico demostramos 43
teorias que tiveram um papel indelével à ciência e à sociedade8. Des-
se quadrante de teorias, pelo menos duas se destacam na produção
geográfica brasileira em relação à geografia física. Uma é a Teoria dos
Refúgios/Redutos e a outra é o Sistema Clima Urbano - SCU. Na pri-
meira, o geógrafo Aziz Ab’Sáber teve ímpar participação e, na segun-
da, Carlos Augusto de Figueiredo Monteiro. Esses dois personagens
serão fundamentais para a edificação dos estudos geomorfológicos e
climáticos (portanto da natureza) no âmbito dos estudos geográficos
no Brasil como demostraremos mais adiante. Como as teorias são fei-
tas por muitas pessoas, optamos em destacar apenas os nomes que,
inicialmente, foram associados a elas. Esse procedimento foi realizado
para que pudéssemos nomear a “origem” de cada teoria.

8 Ver: PARSONS, Paul. 50 Teorías Científicas Revolucionárias e Imaginativas. Barcelona:


Editora Blume, 2010.
MOLEDO, Leonardo; MAGNANI, Esteban. Dez teorias que comoveram o mundo. Cam-
pinas: Editora da Unicamp, 2009.
G_AZ_Final.pdf 1 12/11/2021 19:49:27

Assassinato de Chico Mendes


Publicação do Relatório Brundtland 1988
Publicação do Relatório "Os Limites do
(Nosso Futuro Comum)
Questão Ambiental Crescimento" pelo Clube de Roma 1987
1970 1972 Constituição Federal de 1988
Segunda Guerra Mundial
Simpósio de Geografia Física Aplicada 1988 COP 3 -Acordo Internacional sobre Mudanças
1939-1945 Conferência das Nações Unidas sobre 1984 Criação do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e Climáticas (Protocolo de Quioto)
1883 Instituições e marcos históricos Instituto Brasileiro de Geografia e Estatistica o Meio Ambiente em Estocolmo 1º Encontro Nacional dos Recursos Naturais Renováveis IBAMA
1997 Lei de Crimes Ambientais ou
1 914-1918 IBGE Lei da Natureza (Lei no 9.605/98)
1938 Revista Brasileira de Geografia - RBG Ditadura Militar 1972 1989
1929 de Geógrafos Criação da Comissão Mundial sobre o Política Nacional de Recursos Hídricos (PNRH)
1934 1939 1964-1985 1972 1998
1937 Criação do Programa das Nações Meio Ambiente eo Desenvolvimento – CMMDA 1997
1938 Conselho Brasileiro de Geografia - CBG Criação do Fundo Nacional do Meio Ambiente (FNMA) Política Nacional de Educação
Unidas para o Meio Ambiente – PNUMA 1983
1939-1945 Sociedade Brasileira de Geografia Projeto RADAM Criada a Secretaria Nacional 1989 Criação da Associação Nacional de Ambiental - PNEA (Lei no 9.795/1999)
1937 Primeira tese na USP (Geo Humana) 1972
1939 Publicação do livro ‘’Primavera Silenciosa’’ 1970 do Meio Ambiente Pós-Graduação e Pesquisa em Geografia (ANPEGE) 1999
1944 1883 Santos e a Geografia Humana do Litoral Paulista Wanda Paschoal 1973 Política Nacional do Meio Ambiente (PNMA)
Maria da Conceição Vicente de Carvalho 1962 (SEMA) Conferência das Nações Unidas sobre 1993
1946 1982 - M - USP 1981
1947 Associação dos Geógrafos Brasileiros 1944 Antonio Heliodoro Lima Sampaio o Meio Ambiente (RIO 92) Instituição do Sistema Nacional de
Primeira Guerra Mundial 1981 - M - USP 1992 Josevan Dutra dos Santos
1952 AGB Benedita Catharina Fonzar Programa Internacional de Rodrigo Livizotto 2012 - M - UNICAMP Unidade de Conservação da Natureza (SNUC)
1953 1914-1918 1934 Maria da Graça Barros Sartori 1982 - M - USP Educação Ambiental (PIEA) III Encontro Nacional de Geógrafos (ENG)
Primeira tese na USP (Geo Física) Superintendência do Desenvolvimento 2012 - D - USP 2000
1954 do Nordeste (SUDENE) 1979 - M - USP Laura Regina Mendes Bernardes 1975 1978 Fortaleza Vonci Ricardo Cene
1959 Estudo Geográfico dos contrafortes ocidentais Projeto RADAMBRASIL Ricardo Devides Oliveira 2014 - M - UNICAMP
da Mantiqueira 1959 Maria Gravina Ogata 1982 - M - USP Roberison Wittgenstein Dias de Silveira
1962 1971 Antonio Carlos Vitte 2008 - M -2012 - D - UNICAMP 2012 - M - UNICAMP
1964-1985 João Dias da Silveira 1978 - M - USP Maria Ângela Fagin Pereira Leite Lei das Atividades Nucleares 1998 - D - USP Adriana Persiani
1946 Dirce Suertegaray
1970 Marilene dos Santos Auoad 1983 - M - USP 2012 - M - USP Denecir de Almeidaa Dutra
Código de Águas (Decreto no 24.643/1934) (lei n. 6.453/77) 1988 - D - USP Rodrigo Dutra Gomes Alexandre Domingues Ribas Yuri Tavares Rocha
1970-1985 1978 - M - USP Maria José Pompilio
1977 Valter Casseti Iandara Alves Mendes 2011 - D - UNICAMP 2004 - D - USP 2011 - D - UFPR
1971 1934 1º Congresso Brasileiro de Geógrafos Dilermando Cttaneo 1993 - D - USP 2010 - D - UNICAMP
Guerra Fria Nely Severino Camara 1990 - D - USP 1983 - D - USP 2004 - M - UFRGS Kalina Salaib Springer
1972 1954 Sueli Ângelo Furlan Wendel Henrique Baumgartner Shanti Nitya Marengo Francisco de Assis Mendonça 2008 - M - UFPR
1947 1977 - M - USP
1973 Faculdade de Filosofia, 2004 - D - USP Fernando Frederico Bernardes 2009 - M - UNESP-RC 2010 - M - UFBA 1990 - M - 1995 - D - USP
1975 Ciências e Letras (USP) Geografia Big Smoke (O Grande Nevoeiro) Antonio Giacomini Ribeiro Antonio Carlos Colângelo 2010 - M - UFRGS Larissa Warnavin
Crise de 1929 Eliana Marta Barbosa Morais
1977 Associação de Geografia Teorética 1975 - M - USP 1995 - D - USP 2000 - M - UFG
Ângela Massumi Katuta 2010 - M - UFPR
1929 1934 1952 Ministério da Educação e Cultura- MEC 1971 Luiz Gustavo Meira Barros Job Carvalho Bezerra Carlos Magni Evelin Cunha Biondo 2005 - D - USP
1978 2014 - M - USP 2009 - M - USP 1982 - M - USP Renata Huber Maria Silvia França Padilha
Antonio Carlos Tavares Regina Araújo de Almeida 2012 - M - UFRGS Cleder Fontana
1981 1953 2010 - M - UFSM 2003 - M - USP Amélia Regina Batista Nogueira Rosenberg Lopes Ferracini
1983
Nascimento do Código Florestal Brasileiro 1975 - M - USP 1988 - M - USP Nair Aparecida Ribeiro de Castro Marcos Barros de Souza 2014 - D - UFRGS 2001 - D - USP 2012 - D - USP
Alcino Neckelpic
1984 (Decreto 23.793/1934) Evandro Biassi Barbieri 2006 - D - USP 2006 - M - USP Jurandyr Luciano Sanches Ross Bernardo Sayão Penna e Souza 2014 - D - UFRGS
Emanuel Fernando Reis de Jesus
1934 João Afonso Zavattini 1982 - M -1987 - D - USP 1983 - D - USP 1995 - D - USP Salete Kozel Teixeira Wagner da Silva Dias
1987 1975 - M - 1980 - USP 2009 - M - USP
1983-1990- M/D/LD - USP 2001 - D - USP
1988 Isorlanda Fernando Reis de Jesus
Augusto Humberto Vairo Titarelli Marcos Antonio Campos Couto
1989 1995 - D - USP Rosely Sampaio Archela
1973 - D - USP Tarik Rezende de Azevedo Romeu Antônio de Araújo 2005 - D - USP
1992 2000 - D - USP
Regina Araujo de Almeida 2001 - D - USP 2005 - M - USP Nestor André Kaercher
1993 Lucy Pinto Gallego Maria Helena Ramos Simelli Sonia Maria Vanzella Castellar Cleyber Nascimento de Medeiros
1997 Marcos Barros de Souza Tulio Barbosa 1993 - D - USP Ilton Jardim de Carvalho Junior 1987 - D - USP 2005 - D - USP 2014 - D - UECE
1973 - D - USP 2006 - M - USP 1996 - D - USP
1998 2011 - D - UNESP - PP Nair Aparecida Ribeiro de Castro 2011 - D - USP
1999 Job Carvalho Bezerra 2006 - D - USP Rodrigo Paiva de Lucena Karinne Wendy Santos de Menezes
Adilson Avansi de Abreu Adriana Olivia Sposito Alves Oliveira Henrique Lobo Pradella Magda Helena de Araújo Maia 2014 - M - UECE
2000 1973 - D - USP 2008 - M - USP 2010 - D - UNESP - PP 2014 - M - USP 2009 - M - UECE 2015 - M - UECE
Letícia Carolina Teixeira de Pádua Luciene Vieira de Arruda Samuel Antonio Miranda de Sousa
2013 - D - USP Maria Lúcia Brito da Cruz Joselito Teles Gonçalves
1999 - M - UECE 2008 - M - UECE Patrícia Andrade de Araújo
Instituições e Aziz Nacib Ab'Saber José Bueno Conti João Osvaldo Rodrigues Nunes
2002 - D - UNESP - PP Sônia Barreto Perdigão
1998 - M - UECE
Paulo Roberto Lopes Thiers
Claudia Maria Magalhaes Grangeiro
Lyvia Oliveira Silva
Maria Daniely Freire Guerra
2009 - M - UECE
2012 - M - UECE
2015 - M - 2021- D - UECE
1973 - D - USP João Lima Santa’Anna Neto 2004 - M - UECE Andrea Bezerra Crispim
Marcos Históricos (1924 -2012) Carlos Augusto de Figueiredo Monteiro Sueli Ângelo Furlan 1998 - M - UECE 2000 - M - UECE 2008 - M - UECE Maria Taylana Marinho Moura
1996 - D - USP Lutiane Queiroz de Almeida Sérgio de Carvalho Oliveira 2011 - M - UECE

A Geografia Brasileira
1967 - D - USP 1992 - M - USP Deise Fabiana Ely Gleuba Maria Borges de Souza Carvalho Adryane Gorayeb Nogueira Marcos Vinícios Chagas da Silva 2018 - M - UECE
José Roberto Tarifa Ana Lebre Soares 2004 - M - UECE 2009 - M - UECE
Maria Eugênia Moreira Costa Ferreira 2006 - D - UNESP - PP 2004 - M - UECE Ícaro de Paiva Oliveira
1956 - D - USP 1972 - M - 1975 - D - USP 1998 - M - UECE 2000 - M - UECE 2007 - M - UECE
Guilherme Marques e Souza
Magda Adelaide Lombardo 1996 - D - USP Emanuel Lindemberg Silva Albuquerque 2010 - M - UECE
Fluxo de orientações 1984 - D - USP Eulaia Maria Aparecida de Moraes
Tereza Falcão de Oliveira Neri Roberto Carneiro Leitão Mário Sérgio Carvalho de Freitas Manuel Rodrigues de Freitas Filho Luciana Martins Freire 2010 - M - UECE 2020 - D - UECE
2001 - M - UEM 2003 - M - UECE 2004 - M - UECE 2007 - M - UECE Samuel Antonio Miranda de Souza
Yara Regina Martins Vieira 1993 - M - UECE 2001 - M - UECE
C e a busca pela compreensão das leis da natureza Aziz Ab’Sáber Antonio Christofoletti
1968 - USP 1970 - M - USP Arnaldo Guido de Souza Coelho Victor Bezerra Quaresma Mônica Holanda Freitas Juliana Wayss Sugahara Clarice Silvestre Domingos
Iaponan Cardins de Souza Almeida
2010 - M - UECE
2010 - M - UECE
M 1971 - M - 1981 - D - USP Marcos José Nogueira de Souza 2001 - M- UECE 2003 - M - UECE 2005 - M - UECE 2007 - M - UECE Sérgio de Carvalho Oliveira
Organizadores: Guilherme dos Santos Claudino e Eliseu Savério Sposito 1973 - M - 1981 - D - USP Auricélia Ferreira Lopes 2010 - M - UECE Sheila Aparecida Correia Furquim
Criação e conceito artístico: Maria Aparecida Frizarin Cipriano Eleneide Martins Siriano Ércio Flávio Viana Pesso Christina Bianchi Jader de Oliveira Santos 2002 - M - USP
Fluxo de Teorias
Y
Chisato Oka Fiori Olga Cruz 2010 - M - UECE
2021 2002 - M - UECE 2003 - M - UECE 2005 - M - UECE 2006 - M - UECE
CM
1980 - M - UNESP-RC 1972 - D - USP Luiz Augusto Mota dos Reis
(Ciência naturais e matemática) Dante Flávio da Costa Gil Sodero de Toledo Eder Mileno de Paula Fabiano Antonio de Oliveira 2002 - M - USP
Eunária Cleonice Holanda Malveira
MY
José Carlos Godoy Camargo 2003 - M - USP Lylian Zulma Doris Coltrinari
1a - Geração 4a - Geração 1981 - M/LD - UNESP-RC Gilvan Charles Cerqueira de Araújo 1973 - D - USP 2003 - M - UECE 2006 - M - UECE 2001 - M - USP
CY

Angelica Mara de Lima Dias 1974 - D - USP Samuel Fernando Adami


2013 - M - UNB
Salete Kozel Teixeira Walter Mareschi Bissa 2005 - M - USP
5 - Geração
a 2013 - M - UFPB
CMY

2a - Geração Dirce Suertegaray Patrícia Laundy Mollo Vieira 1993 - M - USP Altair Gomes Brito
1992 Jorge Soares Marques Nelson Pedroso Garcia 1998 - M - USP
K
1981 - M - USP Dilermando Cattaneo 2014 - D - UNB Naldy Emerson Canali 2008 - M - UFPR Kátia Canil
1981 1755 1990 - D - UNESP-RC Joana Jakeline de Alcantara 1986 - M - USP
Teoria do Céu 3 - Geração
a
6 - Geração
a Maria do Socorro Costa Martim 2004 - M - UFRGS 1991 - D - UNESP-RC Maria Adailza Martins de Albuquerque Lucineide Fabia Rodrigues Lopes 2012 - M - UFPB Ione Mendes Malta 2007 - D - USP
1976 Antonio Cordeiro Feitosa
Teoria Geral da Atmosfera (Clássica) FILOSOFIA Alemanha
1983 - M - 1994 - D - UNESP-RC
Fernando Frederico Bernardes Suise Monteiro Leon Bordest
Myriam da Silveira Reis Nakashima 1998 - M - USP 2009 - M - UFPB Joel Simões Coimbra 1996 - M - USP
1975 Teoria do Equilíbrio Dinâmico 1990 - M - 1997 - D - UNESP-RC 1978 - M - USP Esmeralda Buzzaro
Cleder Fontana Leila Barbosa Costa 1990 - M - 1997 - D - USP
1972 METEOROLOGIA Allgemeine Naturgeschichte und Theorie des Himmels GEOLOGIA
M - Mestrado D - Doutorado Antonio Feltran Filho 2010 - M - UFRGS
2014 - D - UFRGS
1992 - D - UNESP-RC Aldo Gonçalves de Oliveira
2010 - M - UFPB Mariana Santos Vargas 2012 - D - USP
1970 1735 Inglaterra Immanuel Kant (1724-1804) 1877 1983 - M - UNESP-RC Gilberto de Miranda Rocha 2010 - M - UFPB 1995 - M - USP
EUA Evelin Cunha Biondo Rosa Elena Noal Vera Beatriz Kohler Batres Doralice Barros Pere ira Cleide Rodrigues Benjamin Capellari
1969 Philosophical Transactions of the Royal Society Report on the Geology of the Alcino Neckelpic 1987 - M - UNESP-RC 1978 - M - USP 1992 - M - UFMG
2012 - M - UFRGS 1995 - M - UNESP-RC 1990 - M - 1997 - D -USP 2011 - D - USP
1967 George Hadley (1685 -1768) Valter Guimarães 2014 - D - UFRGS Mauro Sergio Fernandes Argento Altair Duarte Heloisa Ferreira Filizola
Henry Mountains (1877) 1986 - M - 1998 - D - UNESP-RC Archimedes Perez Filho Naiemer Ribeiro de Carvalho
1962 1987 - D - UNESP-RC Maria Hilde de Barros Goes Pilar Martin Lopez 2001 - M - USP Marta Felícia Marujo 1993 - D - USP
Teoria da Terra Grove Karl Gilbert (1843-1918) 1994 - D - UNESP-RC 1978 - M - USP 2012 - M - UFMG
1960 Antonio Carlos Tavares 1997 - M - USP 1995 - M - USP
Teoria da Nebulosa Solar GEOLOGIA Archimedes Perez Filho João Evangelista de Souza Lima Neto
1957 1785 Reino Unido Teoria da Panspermia Cósmica 1986 - D - UNESP-RC
1987 - D - USP Lucy Marion Calderini Philadelpho Machado Matusalém de Brito Duarte
2001 - M - USP Elsinoe Elisa Ract de Almeida May Christine Modenesi
1953 FILOSOFIA Inglaterra Adalto Gonçalves de Lima 2006 - M - UFMG Helena Copeti Callai
1734 Theory of the Earth QUÍMICA/ 1980 - M - USP 1996 - D - USP 1984 - D - USP
1951 Principia FÍSICA Alemanha, 1998 - M - UNESP-RC 1975 - D - USP
James Hutton (1726 -1797) Luiz Gustavo Meira Barros Genylton Odilon Rego da Rocha Jaques Gallo
1948 Emmnauel Swedenborg (1688 -1772) 1879 Reino Unido e Suécia Aracy Losano Fontes Francisco Assis Neto
Cláudio Antonio di Mauro 2014 - M - USP 2001 - D - USP Sílvio Takashi Hiruma
1944 Antonio Carlos Pinheiro 1998 - D - UNESP-RC Ellen Fortlage Luedemann
1937
Hermann von Helmholtz, Teoria das Cordas Teoria Quântica de Campos 1981 - M - 1990 - D USP 1996 - M - USP 1975 - M - USP 2007 - D - USP
William Thomson e Svante Arrhenius MATEMÁTICA 2003 - D - UNICAMP Antonio Carlos Colângelo Rosângela Pacini Modesto
1931
MATEMÁTICA Marisa Teresinha Mamede 1978 - M - USP
Teoria da Gravitação Universal 1919 Alemanha Antonio Pianaro 1990 - M - USP 1999 - M - USP
1926- 1928 Teoría Ondulatória 1926- 1928 Reino Unido Danilo Piccoli Neto Patrícia Laundy Mollo Vieira
1982 - M - USP 1995 - M - USP
FÍSICA A Teoria das Cordas é uma tentativa de ser a "teoria do Paul Dirac 2003 - D - UNESP-RC 2014 - M - UNB Cássia de Castro Martins Ferreira
1919 1687 Inglaterra FÍSICA Maria Eduarda Garcia Cardoso 2002 - D - USP
1801 Inglaterra todo". Ela começou a ser desenvolvida em 1919, porém Marlene Miranda Mundim Sonia Maria Furian
1915
Philosophiae Naturalis Principia Mathematica sua maior consistencia iniciou-se na década de 1960. 1982 - M - USP 1988 - M - USP Luzia Luciana Salvi Sakamoto 1999 - M - USP Claudio Ochsenius Parga
1913 Thomas Young (1773-1829) Dante Flávio da Costa Reis Júnior Gilvan Charles Cerqueira de Araújo 1995 - M - USP Isabel Barbosa dos Anjos
Isaac Newton (1642-1727) Teoria do Aquecimento Global Theodor Kaluza (1885-1954) Teoria do Big Bang 2007 - D - UNICAMP 2013 - M - UNB Nelcides Marcondes de Souza 2011 - D - USP 1979 - D - USP
1905 Claudete Aparecida Dallavedove Baccaro Adriana Aparecida Furlan
1900 FÍSICA Bélgica Carmena Ferreira de França 1996 - M - USP 2002 - M - USP
Teoria Atómica 1896 QUÍMICA 1931 1983 - M - 1990 - D -USP
1899 Teoria Corpuscular da luz Suécia Teoria da Relatividade Geral 1995 - M - USP Andréa Lourdes Scabello
1672 QUÍMICA L'Hypothèse de l'atome primitif (1931) Claudinei Lourenzo 2004 - D - USP
1896 METEOROLOGIA Reino Unido Svante August Arrhenius (1859-1927) Elvira Neves Domingues Eduardo Shiavone Cardoso
1808 FÍSICA Georges Lemaître (1894-1966) Maria Madalena Ferreira 1996 - M - USP
1879 Inglaterra New System of Chemical Philosophy Teoria da Evolução 1915 Alemanha 1983 - M - USP 1996 - M - USP 2001 - D - USP
Fernanda Padovesi Fonseca
1877 Isaac Newton (1642-1727) John Dalton (1766-1844) 1859
BIOLOGIA Albert Einstein (1879-1955) Maria Gelza Rocha Fernandes de Carvalho Sidnei Raimundo 2004 - D - USP
1859 Reino Unido Teoria Geral dos Sistemas 1984 - M - USP 2001 - M - USP Nuria Hanglei Cacete
1846 BIOLOGIA Teoria da Tectônica de Placas
On the Origins of Species by means 1937 Áustria 2003 - D - USP
1839 Teoria do Flogisto Teoria do Catastrofismo GEOLOGIA
1812 1659 ou QUÍMICA of Natural Selection Teoria do Ciclo de Erosão Teoria da Deriva Continental Teoria geral dos sistemas: fundamentos, EUA Teoria Probabilística da Evolução do Modelado
PALEONTOLOGIA Charles Darwin (1809-1882) desenvolvimento e aplicações 1962
1808 60-1734 Alemanha
1812 França QUÍMICA GEOLOGIA History of Ocean Basins (1962)
EUA 1913 Alemanha Ludwig von Bertalanffy (1901- 1972) GEOMORFOLOGIA Teoria do Gene Egoísta Teoria do Todo
1801 Principia de revolitionibus orbium coelestium 1962 EUA
Discours sur les révolutions de la surface du Globe (1825) 1899 Harry Hess (1906 - 1969) BIOLOGIA (ou Teoria da Grande Unificação TGU)
1785 Georges Cuvier (1769-1832) The geographical cycle (1899) Die Entstehung der Kontinente Inglaterra
Georg Ernst Stahl (1659-1734) und Ozeane (1912) The Concept of Entropy in Landscape Evolution (1962) 1976
1755 William Morris Davis (1850 - 1934) Teoria dos Jogos
1735 Alfred Wegener (1880 -1930) Teoria do Caos Luna Bergere Leopold (1915 -2006) The Selfish Gene Existe uma longa história sobre diferentes tentativas de
Teoria Celular MATEMÁTICA Hungria Walter Langbein (1907 - 1982)
1734 1944 MATEMÁTICA Teoria e Clima Urbano Richard Dawkins proposição de uma Teoria do Todo. A física se destaca
1687 BIOLOGIA Alemanha 1960 EUA nesta procura, buscando unificar todas as leis e
Teoria Heliocêntrica 1839 Teoria da Relatividade Especial The Theory of Games and Economic Behavior (1944) 1975 GEOGRAFIA
1672
ASTRONOMIA Mikroskopische Untersuchungen über die John von Neumann (1903-1957) Previsibilidade: A Batida das Asas de uma Teoria da Biogeografia de Ilhas Brasil Teoria da Inflação Cósmica interações da natureza. A conclusão, todavia, ainda não
1659 ou 60-1734
1543 1905 FÍSICA Borboleta no Brasil provoca um BIOLOGIA Teoria e Clima Urbano (1976) FÍSICA foi alcançada, mas o ideal deste intento continua
1543 Prússia Real Uebereinstimmung in der Struktur und dem Alemanha 1967 EUA 1981 EUA
De revolitionibus orbium coelestium Teoria da Informação Tornado no Texas? (1972) Carlos Augusto de Figueiredo Monteiro (1927) movimentando os cientistas em todo mundo.
Wachsthum der Thiere und Pflanzen (1839) Albert Einstein (1879-1955) Edward Lorenz (1917-2008) The Inflationary Universe.
Nicolau Copérnico (1473-1543) MATEMÁTICA The Theory of Island Biogeography (1967)
Matthias Schleiden (1804-1881) 1948 EUA The Quest for a New Theory of Cosmic Origins (1997)
Teoria Quântica Robert MacArthur (1930-1972)
Theodor Schwann (1810-1882) FÍSICA A Mathematical Theory of Communication (1948); Edward Wilson (1929) Teoria Gaia Alan Harvey Guth (1947)
1900 Alemanha Teoria da Etchplanação
The Mathematical Theory of Communication (1978) 1972 QUÍMICA Inglaterra
Teoria dos Refúgios Sobre a Teoria da Lei de Distribuição de Energia do Espectro Normal. Claude Elwood Shannon (1916-2001) GEOMORFOLOGIA Teoria das Metapopulações Teoria Terra Bola de Neve
1957 Alemanha Gaia: A New Look at Life on Earth (1979)
HISTÓRIA NATURAL Max Planck (1858 - 1947)
1969 ECOLOGIA EUA (Snowball Earth)
Doppelten Einebnungsflachen”in den Fenchten Tropen (1957); James Lovelock 1992 GEOLOGIA
Alemanha Teoria da Bio-Resistasia EUA
1846 Edward Forbes Klima Genetische Geomorphologie (1963) Some demographic and genetic consequences
Fluxo de Teorias 1951 GEOGRAFIA França Julius Büdel (1903 - 1983) ofenvironmental heterogeneity Late Proterozoic low-latitude global
Teoria da Complexidade glaciation: the Snowball Earth
(Ciências naturais e matemática) La genèse des sols en tant que phénomène géologique. for biological control (1969)
1970 FILOSOFIA Joseph Kirschvink
Richard Levins (1930-2016) França
Esquisse d’une théorie géologique et géochimique. Biostasie et rhéxistasie. (1951) Teoria Pediplanação e Pedimentação
Henri Erhart (1898-1982) La Méthode (1977)
1953 GEOMORFOLOGIA Reino Unido Edgar Morin (1921)
Canons of Landscape Evolution (1953)
Lester Charles King (1907 - 1989)
28 TEORIAS NA GEOGRAFIA II

Em síntese essas três linhas pretendem resumir didaticamente um


espaço de coisas, acontecimentos, pessoas e ideias interessante à refle-
xão história e epistemológica da geografia. A linha que parte de Ab’Sá-
ber orientou nosso caminho histórico em relação às demais. O texto ora
apresentado não dá conta de todo conteúdo do respectivo organogra-
ma, uma vez que cada teoria demandaria um estudo específico, porém
abre a compreensão do universo rico, diverso e histórico das teorias e
seu consequente papel às diferentes ciências, especialmente à geografia.
Em outros termos, pretende-se criar um horizonte de expectativa, con-
forme assinala Reinhart Koselleck (2006 [1979]). No presente caso, esse
horizonte abarca uma pequena fração do saber geográfico brasileiro. É
o que discutiremos a seguir.

Aziz Ab’Sáber e a busca das leis da natureza em seu fluxo de


orientações

Seguiremos um fio de acontecimentos a partir do geógrafo Aziz Na-


cib Ab’Sáber (1924-2012)9, o qual consideramos ser uma das princi-
pais raízes10 na formação do pensamento geográfico brasileiro, no-
tadamente no universo dos estudos da geografia física. Poderíamos
ter elegido o geógrafo Aroldo de Azevedo (1910-1974), orientador de
Ab’Sáber, como uma raiz de natureza originária; ou mais, Pierre Mon-
beig (1908-1987) e Pierre Gourou (1900-1999) seguindo, infinitamen-
te, no tempo. Ab’Sáber, como aqui entendemos, é um meio antecedi-
do, evidentemente, por outros geógrafos e sucedido, inevitavelmente,
pela lei do tempo que rege o presente contínuo. Na condição de meio,
Ab’Sáber cumpriu o papel de uma ponte que ainda resiste na travessia
do saber geográfico brasileiro, exercendo o papel de orientador e de
produtor de saber, no qual formou, na academia brasileira, um con-
junto de mestres e doutores em geografia, passando o saber adiante,
avançando-o.

9 Conforme representado na Figura 1.


10 As raízes representam os elementos pretéritos – o tempo – personificados em geó-
grafos e seus temas investigados. Utilizaremos essa significação no decorrer de toda
reflexão.
As Manifestações da Natureza e as Teorias na Geografia Física Brasileira 29

Essas características não deixam de existir em seus antecessores,


pois todos, direta ou indiretamente, sacudiram a estabilidade do saber.
Ab’Sáber, no entanto, formou um conjunto expressivo de pesquisado-
res que edificaram pilares em determinados seguimentos da geografia
brasileira. Entre esses pilares, encontram-se as pesquisas históricas e
teórico-conceituais-propositivas do saber geográfico. Nesse quadro, o ân-
gulo que tem preponderância é a quantidade de orientados, não sendo
necessariamente o seguimento da ideia. A continuação de um pensa-
mento não é o critério que julgamos singular, mas o potencial íntegro da
relação de orientação, suportando, assim, o confronto com aquele que
supostamente o gerou.
Ab’Sáber, assim, cumpre dois elementos que julgamos fundantes
nesse ínterim. O primeiro consiste em seus descendentes (orientados)
que, de diversas formas, conduziram os estudos no âmbito da geografia
física em diversas instituições no Brasil, como Carlos Augusto de Fi-
gueiredo Monteiro, que atuou tanto na USP quanto na UFSC, e mesmo
Antonio Christofoletti, na UNESP de Rio Claro, para lembrarmos dois
deles. O segundo princípio consiste em suas proposições metodológi-
cas. Ab’Sáber, enquanto geógrafo, foi a “mente e a propulsão”, a “ânco-
ra e o motor” da geomorfologia brasileira, para utilizar os termos de
Abreu (2010, 2012) ou, ainda, de acordo com Vitte (2011), o construtor
de um paradigma da geomorfologia brasileira e, mesmo em Moreira
(2010), como uma matriz em busca de uma teoria geral. Evidentemente,
Ab’Sáber sozinho não edificou os estudos em geomorfologia no Brasil.
Quando olhamos para as décadas de 1950 e 1960, por exemplo, nomes
como João José Bigarella, Fernando Marques de Almeida e Maria Regi-
na Mousinho podem provar isso. Ab’Sáber, no entanto, reuniu em uma
só melodia o canto da interpretação do relevo brasileiro.
De forma ainda que sumária, destacamos quatro edificações que re-
presentam a importância de Aziz Ab’Sáber aos estudos geográficos no
Brasil: a) trinômio de análise geomorfológica; b) os estudos do Quater-
nário; c) a chamada Teoria dos Refúgios, ou dos Redutos; d) os Domí-
nios da Natureza e/ou Morfoclimáticos. Cada um desses edifícios não
reduz a contribuição de Ab’Sáber, mas apenas representa uma pequena
parcela de suas produções que julgamos interessante destacar. A dimen-
são empírica dos estudos de Ab’Sáber, por exemplo, pode ser conside-
30 TEORIAS NA GEOGRAFIA II

rada uma das maiores elaboradas por um geógrafo brasileiro – os in-


findáveis trabalhos de campo realizados por este geógrafo no território
brasileiro respondem tal dúvida. O tom do clima e dos sistemas que
foram utilizados em suas pesquisas também não deixam dúvidas sobre
seu pensamento elétrico e dinâmico – aquele da busca da renovação –
no universo das ciências da natureza e, sobretudo, da geografia.
O primeiro edifício que destacamos é o trinômio de análise geo-
morfológica, que faz parte do segundo – o estudo do Quaternário. As
raízes dessas proposições remontam à sua tese de doutorado, de 1957,
denominada Geomorfologia do Sítio Urbano de São Paulo e, também, à
sua Livre-Docência, de 1965, Da participação das depressões periféricas
e superfícies aplainadas na compartimentação do Planalto Brasileiro. A
consolidação propriamente dita, todavia, se dará em sua Tese de Cáte-
dra, de 1968, então intitulada Bases geomorfológicas para o estudo do
Quaternário no estado de São Paulo.
Foi em sua Tese de Cátedra que Ab’Sáber consolidou uma das maio-
res contribuições à metodologia dos estudos em geomorfologia no Bra-
sil. De acordo com Abreu (2012), parte da tese foi publicada na série
Geomorfologia do Instituto de Geografia da USP, Número 18. Ab’Sáber
denomina o referido texto de Um conceito de Geomorfologia a serviço
das pesquisas sobre o Quaternário, publicando-o em 1969. O objetivo
de Ab’Sáber com esse texto foi “estabelecer bases geomorfológicas para
servirem de diretrizes para o estudo do Quaternário do território inter-
tropical brasileiro” (AB’SÁBER, 1969, p. 1).
Para realizar o estudo do Quaternário, do ponto de vista da geomor-
fologia, seria necessário percorrer três níveis de tratamento ou um tripé
de análise geomorfológica. O primeiro nível consistiria na comparti-
mentação da topografia regional, objetivando caracterizar e descrever as
formas de relevo. O segundo nível teria como foco obter conhecimen-
to sobre a estrutura superficial da paisagem, considerando sua forma e
compartimentação. O terceiro e último nível centrar-se-ia nos condicio-
namentos de natureza morfoclimática e pedogênica. Esses três níveis de
tratamento formam o trinômio de análise geomorfológica proposto por
Ab’Sáber, marcando uma metodologia altamente interdisciplinar na lei-
tura de Modenesi Gautttieri (2010) apontando, inclusive, o carácter es-
sencialmente geográfico da proposição quando considera o seguimento:
As Manifestações da Natureza e as Teorias na Geografia Física Brasileira 31

1. Forma e Compartimentação, 2. Estrutura, e 3. Fisiologia da paisagem.


O estudo do Quaternário, para Ab’Sáber, teria a função de analisar
a dimensão superficial da paisagem detectando, concomitantemente,
a evolução das formas, cujo resultado seria a compreensão das feições
geomorfológicas que edificam a respectiva paisagem. É importante des-
tacar que Ab’Sáber acaba aproximando-se da abordagem germânica
quando, então, e sobre as respectivas bases, constrói a referida propo-
sição metodológica, distanciando-se, inclusive, das proposições de Jean
Tricart com sua taxonomia do relevo (ABREU, 1982; VITTE, 2011) pre-
sentes, notadamente, na sua importante obra Principes et Methodes de
la Géomorphologie, de 1965. Para Vitte (2011), essa proposição ainda
exerce forte influência nos estudos geomorfológicos no Brasil. Essa in-
fluência, de acordo com esse autor, tornou-se um problema, uma vez
que, posteriormente a ela, não houve um avanço substancial de natureza
metodológica que a superasse.
O terceiro edifício é a então conhecida Teoria dos Refúgios11. Um tan-
to quanto polêmica, essa teoria surge como uma nervura12 entre as ciên-
cias da natureza e Ab’Sáber protagonizou, como geógrafo, um lado des-
sa intensa e ainda não resolvida polêmica. Um primeiro elemento que
inaugura essa tensão gira em torno de sua origem. Para alguns pesqui-
sadores, como Eduardo Geraque (2012) e Warren Dean (2004 [1996]),
essa teoria foi elaborada pelo geólogo Jürgen Haffer e, posteriormente,
pelo zoólogo Paulo Vanzolini nos finais dos anos de 1960; para outros,
como o geógrafo Viadana (2002), essa teoria pode remontar a outros
três estudiosos, como Moureau (1933)13, Reinig (1935)14 e Gentilli
(1949)15, e até mesmo a Darwin, em sua Origem das Espécies16. Viadana

11 Messias Modesto dos Passos realiza uma revisão desta teoria no capítulo 8.
12 Como nervos que latejam e percorrem as partes do corpo, as nervuras sustentam
uma determinada totalidade. Compreendemos as nervuras enquanto a pulsão, tensão,
ou seja, os conflitos e disputas das ideias entre os geógrafos que vão sendo herdadas
geração a geração.
13 MOUREAU, R. E. Pleistocene climatic changes and their distribution of life in East
Africa. Journal Ecologic, Londres, n. 21, 1933.
14 REINIG, W. F. Uber die Bedeutung der individuallen variabilitat fur die Entstehung
Geographischer Rasse. S. B. Naturfrennd, Berlim, 1935.
15 GENTILLI, J. Foundations of Australian Bird Geography. M.E.U., N. 49, 1949.
16 Notadamente em seu capítulo XI.
32 TEORIAS NA GEOGRAFIA II

(2002), todavia, explica que Ab’Sáber, em sua Tese de Livre-Docência


e na Tese de Cátedra, antecipava a Teoria dos Refúgios Florestais que
costumeiramente se vincula a Haffer e Vanzolini. Ab’Sáber, contudo,
tem um posicionamento muito claro quanto a essa suposta polêmica:
“ele sempre insistiu em dizer que a Teoria dos Redutos é dele e a Teoria
dos Refúgios é de Vanzolini. Acredita que se no futuro for reconhecido
como geógrafo, será pelo seu trabalho com as linhas de pedra e os redu-
tos” (MODENESI-GAUTTIERI. BARTORELLI; MANTESSO-NETO;
CARNEIRO, 2010, p. 19). Nas palavras do próprio Ab’Sáber, em entre-
vista realizada em 1992:

Lancei essa ideia numa conferência, durante a reunião da Associação dos


Geógrafos em Alagoas, e depois em duas teses, uma de 1965 e outra de
1968. Mas, antes que eu publicasse minhas hipóteses, muita gente as co-
piou. Cheguei a tirar satisfação com uma pessoa e obtive a seguinte res-
posta: “Mas não está escrito!” Mas essa pessoa estava nas reuniões em que
expus minhas ideias... Minha desforra é que copiaram a tipologia mas não
souberam o que fazer com ela. O cientista não é um ser totalmente desti-
tuído de vaidades; ele as tem sobretudo quando é roubado. Os biólogos,
em particular, foram receptivos a essas ideias. Para eles era fundamental
conhecer a história da vegetação brasileira e eu, em parte, lhes contava
essa história17.

É nos Domínios da Natureza ou Morfoclimáticos que Ab’Sáber opera-


cionalizou sua Teoria dos Redutos baseada, então, no período Quaternário.
Por domínio, Ab’Sáber entende “um conjunto espacial de certa ordem de
grandeza territorial – de centenas de milhares a milhões de quilômetros
quadrados de área – onde haja um coerente de feições de relevo, tipos de
solos, formas de vegetação e condições climático-hidrologicas” (AB’SÁ-
BER, 2003, p. 11-12). O termo domínio não é utilizado ao acaso. Ab’Sáber
tinha consigo que era necessário um rigor conceitual diante da análise
geográfica, uma vez que o conceito de região poderia ser inadequado,
dado que o homem deveria estar presente (MONTEIRO, 2010).

17 Entrevista concedida a Carmen Weinglill e Vera Rita Costa, publicada originalmente


na Revista Ciência Hoje, vol. 14, n9 82 de ju1ho de 1992 (SBPC).
As Manifestações da Natureza e as Teorias na Geografia Física Brasileira 33

Há, no Brasil, de acordo com Ab’Sáber (2003), seis domínios: qua-


tro são intertropicais e os outros dois subtropicais, contando, ainda,
com as áreas de transição que correspondem, aproximadamente, a um
milhão de quilômetros quadrados. Os domínios podem ser divididos
do seguinte modo: a) as terras baixas florestadas da Amazônia; b) os
chapadões centrais recobertos por cerrados, cerradões e campestres; c)
as depressões interplanálticas semiáridas do Nordeste; d) os “mares de
morros” florestados; e) os planaltos de araucárias; e f) o domínio das
pradarias.
Esses quatro elementos que apontamos, de modo resumido, repre-
sentaram um avanço nos estudos da geografia física brasileira alcan-
çando, notadamente, repercussões em todo o mundo. Tudo isso nos
autoriza chamá-lo de raiz. Além da contribuição seminal de Ab’Sáber
que apontamos, a sua posição de raiz em nosso estudo se dá (e soma-se)
pela iniciação ao processo de orientação de mestres e doutores no Brasil.
O avanço científico dado à geografia, coordenado por Ab’Sáber, não
escapou às críticas, pois seus domínios e classificações foram contestados
em diversas ordens, ora por cientistas de outras ciências, ora por geógra-
fos que foram seus orientados e outros descendentes destes. A revisão do
conhecimento estabelecido é um movimento próprio da ciência. O papel
de Ab’Sáber é inegável; contudo, a geografia brasileira não se explica so-
mente pelas raízes, mas também e, sobretudo, pelas novas configurações
de outras raízes que vão nascendo e florindo em diversos espaços.

***

Vamos, agora, adentrar no universo de seus descendentes, rastrean-


do gerações que redesenharam e avançaram os estudos geográficos,
conforme é representado na Figura 1. Para tanto, selecionamos duas
nervuras principais: a primeira é a geomorfologia a qual denominamos
apenas Forma; a segunda compreende a climatologia, a qual chamamos
de Clima. Nesse sentido, os estudos da Forma e do Clima como um fe-
nômeno geográfico constituem os elementos principais que escolhemos
para analisar a constelação18 compreendida pela raiz Aziz Ab’Sáber. Es-

18 A árvore genealógica do Ab’Sáber (fluxo de orientações) representada na Figura 1,


chamamos de constelação, isto é, um agrupamento de sujeitos em uma imagem aberta.
34 TEORIAS NA GEOGRAFIA II

sas duas nervuras não representam a totalidade dos elementos cons-


tituintes desta constelação mas, repetimos, é apenas uma maneira de
lê-la, que também pode ser entendida como um recorte analítico. Há,
todavia, que se fazer justiça aos estudos da biogeografia, que poderiam
figurar como uma terceira nervura – biota; porém, a quantidade de es-
tudos é pequena, contando apenas com os estudos de Camargo (1998) e
Galina (2006) e, mais recentemente, o estudo de Geraldino (2016), com
o pensamento de Darwin. A biogeografia na história do pensamento
humano é recheada de nervuras, basta mergulharmos nos diferentes
modos em que as teorias criacionistas e tradicionalistas se embatem.
Forma e Clima são termos de raiz grega que representam dimensões
da enigmática physis, uma vez que tal termo compreenderia até mesmo
o extranatural. Bornheim (2001, p. 14), por exemplo, referindo-se aos
filósofos pré-socráticos, compreende que pertence à physis “o céu e a
terra, a pedra, a planta, o animal e o homem, o acontecer humano como
obra do homem e dos deuses e, sobretudo, pertencem à physis os pró-
prios deuses”. Em termos da Ciência Moderna a expressão que ganha
espaço, notadamente, é o de natureza que representará, de um modo
geral, “a totalidade de tudo que existe” (MUTSCHLER, 2008).
A natureza representará, nos estudos geográficos, um objeto e uma
questão à geografia física19. E é justamente a geografia física, enquan-
to campo de investigação, que corresponderá ao perfil desta constela-
ção20. Nesse particular, é essencial apontarmos que o termo “geografia
física” pode remontar, pelo menos, ao tempo de Bernhardus Varenius,
cuja materialização propriamente dita tenha se dado com Emmanuel
Kant, com seus cursos de geografia física e com Alexander von Hum-
boldt, em seu esforço de desvendar a “física do globo” (ou da Terra) e,
posteriormente, a “física do mundo”. Richard Hartshorne (1978 [1959],
p. 73), num exercício de rastreamento do desenvolvimento do termo
“geografia física”, observou que, “no transcurso das décadas [refere-se
ao período posterior a Humboldt], os livros intitulados ‘geografia física’

19 E, também, à geografia humana.


20 Entendemos, nesse sentido, a árvore genealógica dos geógrafos brasileiros através do
conceito de constelação. Para tanto, conectamos cada alma através do vínculo inevitável
de orientação. Raízes, nervuras e constelações formam nosso modo de pensar.
As Manifestações da Natureza e as Teorias na Geografia Física Brasileira 35

geralmente seguiam Humboldt”; já nas primeiras décadas do século XX,


“pode-se observar mais uma restrição, a saber, a limitação do ‘físico’ ao
mundo orgânico, e o reconhecimento de uma biogeografia, a geografia
dos seres vivos”.
Algumas leituras mais recentes compreendem a geografia física
como um campo de investigação nos alicerces concebidos por Pierre
Bourdieu. Como um campo temático, a geografia física teria como fun-
ção a problematização das relações entre a sociedade e a natureza, cujo
tom se daria, efetivamente, pela leitura geográfica. A consolidação desse
campo teria como origem e fundamento a metafísica da natureza dos
séculos XVII e XVIII, efetivando-se, então, com a figura de Emmanuel
Kant apoiada na sua obra Crítica da Faculdade de Juízo. A geografia e a
geografia física, em específico, teriam como início, no conjunto do mun-
do moderno, a conformação de uma teologia da natureza e da estética,
consolidada pelas proposições kantianas. Para Kant, então, a geografia
física era concebida como um sistema empírico, interessada em cons-
truir uma ordem hierárquica do mundo natural (VITTE, 2007; 2008a).
Na ordem dos acontecimentos, outros geógrafos tentaram elaborar
sínteses da geografia física, como Emmanuel de Martonne, em seu Trai-
té de Géographie Physique, de 1909. Em termos de estudos históricos
do desenvolvimento da geografia física, ou mesmo da relação natureza-
-sociedade, cabe citar uma grande obra – se não a maior – de história
do pensamento geográfico que se dedicou a essa temática, elaborada
pelo geógrafo americano Clarence James Glacken: Traces on the Rho-
dian Shore: Nature and Culture in Western Thought from Ancient Times
to the End of the Eighteenth Century, publicada em 1967 que, inclusive,
já ganhou traduções para o espanhol e o francês, porém, ainda não em
língua portuguesa.
A geografia física, portanto, é um produto do choque de influências
de outras ciências, como a biologia, geologia, meteorologia etc., tam-
bém da geografia humana que, direta e indiretamente, vai conduzindo
os caminhos seguidos por esse campo de investigação, como bem detec-
tou Gregory (1992) em sua singular análise. Buscando contribuir com
esse debate, iremos tocar em duas dimensões da geografia física feita
no Brasil através do fluxo de orientações do geógrafo Aziz Ab’Sáber: a
geomorfologia e a climatologia, conforme seguem adiante.
36 TEORIAS NA GEOGRAFIA II

Γηος – geos – μορφή –morfé – λόγος – logos

Forma

Matéria e forma fazem parte de um emblemático debate no universo fi-


losófico. Possivelmente, essas duas palavras são responsáveis por grande
parte da discussão que inaugura a geografia física enquanto campo de
investigação. A morfologia, contudo, agrega ambas num só ritmo, pro-
curando identificar a “forma da matéria”, seja de um ser vivo ou mesmo
a constituição das palavras. No universo da geografia física, todavia, é a
geomorfologia que se destaca nos estudos das formas atendo-se, pois, às
formas da superfície terrestre.
A morfologia e a geomorfologia nascem de um tronco muito pró-
ximo – são advindas da naturphilosophie, cristalizaram-se através das
elaborações de Humboldt e da figura de Johann von Goethe nas con-
fluências do pensamento kantiano. Goethe desenvolverá a ciência da
morfologia incumbida de compreender a composição do cosmos e é
nessa mesma esteira que surgirá a geomorfologia geográfica (ABREU,
2003; VITTE, 2008b; 2009). O planeta terra seria, para Goethe, uma
arte viva e em devir, cabendo aos artistas e cientistas representarem-na,
entre outros instrumentos, da pintura. A paisagem, assim, salta como
um objeto a ser representado e desvendado pelos dos sentidos (notada-
mente do olhar) firmando-se, então, através da estética e da metafísica.
A forma, portanto, tornar-se-á uma questão à geografia, e a geomor-
fologia como uma subdisciplina da geografia física será aquela que terá
a função de investigá-la. Integra-se, nesse mesmo movimento, uma fric-
ção que se tornará uma das maiores nervuras no âmbito dos estudos
das formas da terra: o tempo. A questão temporal irradia nas ciências
naturais de forma muito intensa, especialmente a ideia de tempo pro-
fundo, ou deep time, consolidada conceitualmente por James Hutton no
âmbito da geologia. Além do tempo profundo, duas metáforas apresen-
tam-se como teorias explicativas à compreensão da terra. Uma delas é a
seta do tempo, conformando-se como uma das principais explicações da
Bíblia. A outra é o tempo cíclico, remontando aos povos da Antiguidade
(GOULD, 1991). No primeiro caso, o tempo é irreversível e irrepetível,
As Manifestações da Natureza e as Teorias na Geografia Física Brasileira 37

indo sempre e inexoraelmente adiante. No segundo caso, as coisas po-


dem se repetir por meio de um movimento circular que lembra muito
os primórdios da teoria dos sistemas.
Essas duas metáforas conduziram, ainda que de formas distintas, as
interpretações no interior da história do pensamento geológico referen-
tes às leis, ao surgimento e aos fins da terra. Ambas as metáforas, toda-
via, “são apenas categorias de nossa invenção, idealizadas para facilitar a
nossa percepção. Não se misturam, mas permanecem juntas em tensão
e fecunda interação” (GOULD, 1991, p. 200, grifo nosso). Podem ser
entendidas, portanto, como uma das primeiras nervuras que inauguram
a interpretação do mundo físico através da geologia, migrando inevita-
velmente à geomorfologia.
Em termos de geomorfologia, tal nervura colide com outras, trava-
das no decorrer do século XX. A interpretação das formas do relevo e da
paisagem tornar-se-ão o palco de diferentes concepções interpretativas,
herdando influências do catastrofismo, do uniformitarismo e, sobretudo,
do evolucionismo, além das teorias que procuraram identificar a origem
da crosta terrestre, a saber: Teoria da Isostasia, da Deriva Continental,
das Correntes de Convecção, da Expansão da Terra, da Expansão do As-
soalho Oceânico e a mais recente, conhecida como Tectônica de Placas
(OLIVEIRA, 2010).
No decorrer do século XX, duas linhagens se afirmam, de acordo com
Abreu (1982) e Casseti (2005), inaugurando as bases de uma geomorfo-
logia essencialmente acadêmica. A primeira é a norte-americana, repre-
sentada pela figura de Willian Morris Davis com seu Geographical Cycle,
na qual a estrutura geológica definia a morfologia. A segunda tem, com
Ferdinand von Richthofen e Albrecht Penck, na Alemanha, o referencial
para a interpretação do relevo – esses autores partiam de concepções
que remontavam a Goethe e Humboldt, através de uma perspectiva em-
pírico-naturalista. A linhagem alemã, ainda, ganhará com Walter Penck
e Siegfried Passarge forte revigoramento em contraposição às formula-
ções de Davis. Esses embates traduzem-se como nervuras no desenvol-
ver da geomorfologia como bem detectou Vitor Leuzinger em seu livro
Controvérsias Geomorfológicas de 1948.
Essa nervura, inaugurada através dessas duas linhagens, desenhará
um conjunto de outros embates e proposições. Da primeira linhagem,
38 TEORIAS NA GEOGRAFIA II

surgirá Lester Charles King, com a Teoria da Pediplanação, e também


Arthur Newell Strahler, com sua análise morfométrica. Na linhagem
alemã, Carl Troll aparecerá com a geoecologia e Julius Büdel com a cli-
matogenética, apenas para citarmos algumas reminiscências das linha-
gens precursoras. Esses movimentos chegarão ao Brasil e a figura que se
destacará é o já comentado Aziz Ab’Sáber, demonstrando maior vincu-
lação com a linhagem germânica.
Com esse quadro, é preciso que entendamos não a raiz da geomorfo-
logia, mas sim raízes, num efeito plural e rizomático. Desde Kant, Goe-
the e Humboldt, para citarmos alguns, a história da geografia física, e da
geomorfologia em específico, demonstrou-se filha de diversos sujeitos e
de diferentes lugares. Alemanha, Estados Unidos e mesmo a França se-
rão os países que exportarão majoritariamente as formulações de inter-
pretação do relevo. As figuras de Aziz Ab’Sáber e João José Bigarella, por
exemplo, não serão de meros intelectuais, mas cérebros com potencial
criador e altruísta, que se revelará, então, em seus orientandos e outros
geógrafos que simpatizaram com as proposições de ambos.
Foquemos, pois, nas descendências de Ab’Sáber. Entre seus orienta-
dos, cuja ligação está presente em nossa constelação21, dois se destacam
em termos de geomorfologia: Antonio Christofoletti e Olga Cruz. No
caso de Christofoletti, a orientação se deu através de uma especialização
realizada entre 1963 e 1966, em geografia física, na Universidade de São
Paulo. Essa especialização de Christofoletti pode ser vista como uma es-
pécie de mestrado. Sua tese de doutorado, defendida em 1968, teve, com
o geógrafo João Dias da Silveira, a orientação (REIS JÚNIOR, 2007). Já
Vitte (2011), todavia, aponta que a tese foi realizada sob orientação de
Ab’Sáber. Em contato com a tese do autor, Christofoletti, identificamos
que este dedica a tese a Ab’Sáber, contudo menciona que João Dias da
Silveira foi o orientador.
Christofoletti, em sua tese, dedicou-se à compreensão do fenômeno
morfogenético no então município de Campinas, utilizando-se das pro-

21 É importante lembrar que a constelação elaborada foi construída visando a recons-


tituição da história das orientações a partir das pesquisas referentes ao saber geográfico
como objeto. Não por isso nos limitaremos às fronteiras da constelação, quando julga-
mos necessário evocar outras dissertações e teses que fossem do interesse da discussão.
As Manifestações da Natureza e as Teorias na Geografia Física Brasileira 39

posições de Ab’Sáber referentes aos estudos do Quaternário (VITTE,


2011). Já Olga Cruz pode ser considerada a primeira mulher orientanda
de Ab’Sáber a defender uma tese, onde buscou entender a geomorfologia
da Serra do Mar. Nesse estudo, Cruz aplicou o modelo (tripé) de Ab’Sá-
ber, assim como (o que a torna paradigmática) o geossistema de Geor-
ges Bertrand, compreendendo escorregamentos de escarpa tropical. Es-
sas articulações possibilitaram, a ela, criar um programa de pesquisa no
interior da geomorfologia brasileira, agregando uma análise processual
à erosão dos solos (CRUZ, 1972; VITTE, 2011; CONTI, 2014). Cruz,
nesse sentido, ainda que partindo das formulações de Ab’Sáber, adicio-
na novos elementos à investigação em geomorfologia. Dos orientandos
de Olga Cruz, destacamos Antônio Carlos Colângelo – geógrafo que,
desde o mestrado até a Tese de Livre-Docência, dedicou-se à geomor-
fologia das vertentes e dos movimentos de massa (COLÂNGELO, 1990,
1995, 2007). A despeito de sua trajetória, destacamos o papel de ponte
que o mesmo cumpre ao orientar o geógrafo Luiz Gustavo Meira Bar-
ros, em 2014. Barros (2014) investigou as transformações da geomorfo-
logia fluvial nas primeiras décadas do século XX, realizando um resgate
histórico desse campo de estudos.
Quanto a Christofoletti, todavia, é preciso que nos pautemos no es-
tudo que, de forma mais intensa, investigou suas obras e proposições.
Referimo-nos à tese de doutorado de Dante Flávio da Costa Reis Júnior,
defendida em maio de 2007. Reis Júnior, todavia, não é um ponto solto
no universo dos geógrafos. Seus dois orientadores, José Carlos Godoy
Camargo, no mestrado, e Archimedes Perez Filho, no doutorado, foram
orientandos de Christofoletti, sendo ainda Perez Filho orientando de
Olga Cruz, no mestrado – todos presentes na constelação com raiz em
Ab’Sáber. Não vem ao caso afirmar se há alguma vinculação entre essas
relações no trabalho de Reis Júnior, mas nem por isso deixa de ser inte-
ressante pontuar.
Para Reis Júnior (2007, p. 234), “qualquer descuidada hipótese de
que ele [Christofoletti] tenha privilegiado uma dada classe de assuntos
está destinada a tombar”. Christofoletti caminha através de um conjunto
de temas e assuntos, concentrando-os numa inumerabilidade de arti-
gos e livros publicados, configurando-se como uma produção um tanto
quanto heterogênea. Reis Júnior (2003), ainda durante sua dissertação
40 TEORIAS NA GEOGRAFIA II

de mestrado, estudou o (neo)positivismo em Speridião Faissol, conti-


nuando com esse tema em Christofoletti, adicionando ainda a discus-
são referente aos sistemas e geossistemas. O positivismo e o geossistema
são temas em pulsão nas reflexões de Reis Júnior22, particularmente nos
trabalhos acima citados. Tanto Faissol quanto Christofoletti serão, entre
outros geógrafos, aqueles que representarão com maior intensidade o
debate em torno do positivismo na geografia brasileira.
Reis Junior (2007) evoca um conjunto de passagens dos textos de
Christofoletti que parecem respostas aos ataques direcionados aos es-
tudos efetuados por este autor, sob a insígnia de positivista. Nessas pas-
sagens, é possível detectar nervuras com pelo menos quatro geógrafos:
Carlos W. P. Gonçalves, Horiestes Gomes, Lenyra Rique da Silva e Ma-
nuel Correia de Andrade. Vejamos cada uma delas.

Há ausência [na obra de Carlos W. P. Gonçalves, Os (des)caminhos do


meio ambiente, 1989] de focalização a respeito das concepções holísticas
que perpassam pelas visões de mundo desenvolvidas com base no co-
nhecimento da Física. A própria análise de sistemas ficou algo prejudi-
cada [...] e ao analisar a função da Geografia deixa de considerar a visão
relacionada com os geossistemas e sistemas sócio-econômicos, ambos
integradores da organização espacial numa hierarquia mais complexa
(CHRISTOFOLETTI, 1990, p. 152, apud REIS JÚNIOR, 2007, p. 241).

Para Lenira Alves e Horieste Gomes:

As três obras [A produção do espaço geográfico no capitalismo, 1990, Re-


flexões sobre teoria e crítica em geografia, 1991, ambos de Horieste Go-
mes, e A natureza contraditória do espaço geográfico, 1991, de Lenyra R.
da Silva] pouco contribuem para esclarecer as características e o campo
de ação da Geografia. Não absorvem o conhecimento geográfico exis-
tente [...] Utilizam de literatura ligada com a linhagem marxista, mas
não visam salientar como essa abordagem contribui para a melhoria
conceitual, analítica e interpretativa da Geografia, em comparação com

22 No capítulo 2, ele nos brinda com uma profunda reflexão sobre a presença dos mo-
delos e teorias na geografia.
As Manifestações da Natureza e as Teorias na Geografia Física Brasileira 41

outras abordagens. [...] A preocupação é construir uma imagem da


Geografia que se ajuste aos propósitos e finalidades políticas e de ação,
procurando distinguir e especificar os “inimigos” [...] (CHRISTOFO-
LETTI, 1993c, p. 159 apud REIS JÚNIOR, 2007, p. 246).

Quanto a Manuel Correia de Andrade:

Deve-se [...] considerar com reservas vários de seus julgamentos [de


Manuel C. de Andrade, em Geografia, ciência da sociedade: uma intro-
dução à análise do pensamento geográfico, 1987] sobre as proposições
positivistas e quantificação e modelização em Geografia. Nem confun-
dir os enunciados e temáticas envolvidas no âmbito da Geografia Hu-
mana como sendo, por si mesmas, representativas da Geografia. (CH-
RISTOFOLETTI, 1989b, p. 157 apud REIS JÚNIOR, 2007, p. 247).

Embora essas nervuras apontadas aparentemente fujam um pouco


do debate sobre a forma e a geomorfologia, elas, na verdade, são res-
postas às diversas críticas efetuadas aos estudos que compreendiam a
geografia física, os geossistemas, as técnicas e metodologias classificadas
como positivistas, logo, da própria geomorfologia, que foi um dos cam-
pos aos quais Christofoletti mais se dedicou. Outros fronts também são
detectados por Reis Júnior, referentes ao materialismo histórico e aos
geógrafos marxistas. Nesse âmbito, segundo Christofoletti, “os geógra-
fos radicais têm-se esforçado em fazer uma crítica profunda e intensa
sobre as perspectivas positivistas e funcionalistas imperantes na geo-
grafia. Mas não se usa a mesma preocupação e critérios para analisar a
perspectiva marxista” (CHRISTOFOLETTI, 1982, p. 28 apud REIS JÚ-
NIOR, 2007, p. 314-315).
Além desses elementos tensionais, Christofoletti também se destaca
em relação à sua tentativa de rompimento com as proposições de Ab’Sá-
ber e Bigarella quanto à compreensão da evolução do relevo. Outras ten-
tativas foram anteriormente efetuadas por geólogos, como José Pereira
de Queiroz Neto, em sua tese de doutorado de 196923 e, também, Fer-

23 QUEIROZ NETO, J. P. Interpretação dos solos da Serra de Santana para fins de clas-
sificação. USP, Tese, 1969.
42 TEORIAS NA GEOGRAFIA II

nando Flávio Marques de Almeida, no âmbito do Instituto de Geociên-


cias – USP. Almeida, todavia, rompeu “epistemológica, metodológica e
politicamente” com Ab’Sáber (VITTE, 2011). Chistofoletti será o geó-
grafo que proporá uma outra forma de análise do relevo, notadamente
através de sua Tese de Livre-Docência, de 197324, onde relaciona a quan-
tificação e a análise sistêmica. Para Vitte (2011, p. 104), essa tentativa de
rompimento fracassou, uma vez que não conseguiu explicar a gênese
do relevo, “ficando restritas a uma análise morfográfica e morfométrica
do relevo por meio de fórmulas mirabolantes e gráficos pouco eluci-
dativos”. Vemos, assim, que as relações entre orientando e orientador
podem tomar caminhos bem distintos no decorrer do tempo.
Christofoletti orientou a geógrafa Dirce Maria Antunes Suertegaray
durante o mestrado, na década de 1980. Suertegaray (1981) estudou a
atividade humana como processo geomorfológico, tendo como recorte
o Rio Toropi, no Rio Grande do Sul. Esse estudo já demonstrava os ca-
minhos teórico-conceituais que a geógrafa trilharia, onde a valorização
do humano como agente modificador da natureza seria seu ponto-cha-
ve. Em seu trabalho, as determinações sociais são valorizadas ampla-
mente para a compreensão da bacia do Rio Toropi – RS. Essa geógrafa
já apresentava, então, uma não concordância com os pressupostos de
Christofoletti na análise geomorfológica, dado que será intensificado
em sua tese de doutorado, defendida em 1987, sob orientação do geó-
grafo Adilson Avansi de Abreu. O distanciamento de Suertegaray com
Christofoletti se dará com os pressupostos sistêmicos que, neste último,
tinha grande valorização. Suertegaray será uma das geógrafas brasileiras
que mais apontará as limitações da teoria dos sistemas, materializando
nervuras no universo da geografia física.
Suertegaray conclui a tese intitulada A trajetória da natureza: um estu-
do geomorfológico dos areais de Guaraí/RS em 1987 e “pela primeira vez
uma geógrafa-geomorfóloga questionará sobre o seu objeto” (VITTE,
2011, p.106). Nesse trabalho, Suertegaray rebate a ideia de desertificação
em Quarataí – RS indicando que, na verdade, é um processo de areniza-
ção, contestando a ideia de que a “desertificação” é de origem antrópica.

24 CHRISTOFOLETTI, A. A estruturação hortoniana das bacias de drenagem no pla-


nalto de Poços de Caldas. Tese de Livre-Docência, Rio Claro, 1973.
As Manifestações da Natureza e as Teorias na Geografia Física Brasileira 43

O processo de arenização teria como gênese os processos naturais,


e o antrópico (sobretudo a monocultura da soja) seria apenas mais um
fator que intensifica esse fenômeno. Além de criar o conceito de areni-
zação, Suertegaray (1987) busca em Marx e Engels seu método, com-
preendendo a dialética, o processo histórico e a contradição à sua análi-
se. Assim, afirma: “distanciei-me também, embora tenha lido inúmeras
vezes Bertrand (1972), de seu conceito de paisagem. Não conseguia
aceitar como caminho metodológico a unidade da paisagem interme-
diária – o Geossistema”; neste sentido, “o método utilizado implicou
em uma negação do sistema e suas formulações sobre Geossistema, em
especial a perspectiva mais difundida no ambiente acadêmico à época
– o Geossistema de Bertrand” (SUERTEGARAY, 2012, p. 28). Sua tese
também contempla o trinômio de análise proposto por Ab’Sáber (1969).
Nesta parte da constelação, as nervuras ganham um tom curioso com os
pensamentos de Suertegaray nas confluências das elaborações de Chris-
tofoletti e da raiz Ab’Sáber.
Tal como Olga Cruz, Suertergaray será a criadora de um programa
de pesquisa sobre arenização/desertificação no âmbito da UFRGS. Mas
não somente nesse âmbito sua contribuição é ímpar. Tal como Christo-
foletti, Suertergaray se debruçará à pesquisa de ordem epistemológica
e histórica do saber geográfico brasileiro. No universo de suas orienta-
ções, que se dedicaram aos estudos históricos e teórico-conceituais-pro-
positivos do saber geográfico, todas se centraram na questão ambiental.
Uns, como Dilermando Cattaneo (2004), relacionaram a identidade ter-
ritorial com uma análise epistêmica da questão ambiental; outros, como
Alcindo Neckel (2014), investigaram o conceito de ambiente nos cursos
de graduação em geografia no Brasil, numa articulação com a história
do pensamento geográfico; ademais, Cleder Fontana (2014) debulhou
as relações entre a fome e o ambiente através da obra de Josué de Castro.
Esses caminhos fogem, em certo sentido, do carácter deste capítulo, que
tem a geomorfologia como tom.
Ainda que Suertegaray demonstre romper (em termos de método)
com Christofoletti, as relações e influências são inevitáveis. Mas, além
de Christofoletti, o papel de seu orientador no doutorado é incontestá-
vel e, neste aspecto, é preciso que comentemos um pouco a respeito des-
se personagem. Referimo-nos a Adilson Avansi de Abreu. Esse geógrafo
44 TEORIAS NA GEOGRAFIA II

é um ponto estratégico na história das orientações em geografia física


no Brasil. Além de Suertegaray, passaram por sua orientação Jurandyr
Luciano Sanches Ross, Valter Casseti, Iandara Alves Mendes, Antônio
Carlos Vitte, Carlos Magni e Rodrigo Luvizotto. Tais geógrafos fazem
parte da constelação com raiz em Ab’Sáber, os quais tiveram, por meio
de seus trabalhos (dissertação ou tese) ou através de seus orientandos,
contato com pesquisas históricas e epistemológicas.
Abreu (1970), durante o mestrado, esteve ligado à dimensão da geo-
grafia humana, estudando a colonização agrícola holandesa no estado
de São Paulo, sendo orientado por Renato Silveira Mendes e coorienta-
do por Pasquale Petrone. Já no doutorado, voltou-se à geografia física,
dedicando-se à análise da paisagem e sua estruturação, sob orientação
de Carlos Augusto de Figueiredo Monteiro, em 1973. Sua razão de ser
nesta constelação, além do conjunto de seus orientandos, se explica pela
sua Tese de Livre-Docência, de 1982, na qual analisa a história da geo-
morfologia em nível de mundo e de Brasil. Esse estudo é um marco
e, possivelmente, uma das primeiras investigações sobre a história da
geomorfologia em termos de tese, ainda que se divida entre a análise das
formas de relevo do Planalto de Diamantina.
Anteriormente a Suertergaray, Abreu orientará o geógrafo Jurandyr
Ross, tanto no mestrado quanto no doutorado, durante os anos de 1982-
1987. A dissertação desse geógrafo esteve ligada à questão da água na
cidade de São Paulo; o seu doutorado, por outro lado, investigou a geo-
morfologia de Serrana – MT. Sua tese será uma nervura diante das pro-
posições de Ab’Sáber, pois colocará em questão o mapa geomorfológico
do Brasil de Ab’Sáber. Ross tinha uma base empírica muito sofisticada
devido à sua participação no projeto RADAMBRASIL aliando, ainda, o
lastro teórico advindo da tese de Abreu (1982), concatenando, inclusive,
as reflexões dos alemães Demek, Mescerjakov e, também, Gregoriev. Essa
tese efetua duas reviravoltas na análise do revelo brasileiro: a primeira é
uma inovadora maneira de compreender as origens do relevo brasileiro e
a segunda é uma nova proposição de classificação geomorfológica do Bra-
sil (ROSS, 1987, 1992; VITTE, 2011). Percebemos assim, que, passadas
duas gerações, surgiu outra nervura no interior desta constelação.
Assim como Suertegaray, no período recente, Ross irá se destacar
por estudos do ambiente, contribuindo com o desenvolvimento do con-
As Manifestações da Natureza e as Teorias na Geografia Física Brasileira 45

ceito de fragilidade ambiental. Através desse conceito, Ross se agrupa


com Olga Cruz e Suertegaray na criação de programas de pesquisa, em
seu caso, voltado ao planejamento territorial. Outro destaque da figura
Ross é sua Tese de Livre-Docência, defendida no ano de 2001. Com a
noção de ecogeografia, que remonta pelo menos a Tricart, coloca em
questão, novamente, a classificação morfoclimática de Ab’Sáber (ROSS,
2001, 2007; VITTE, 2011). A classificação do relevo brasileiro talvez seja
uma das nervuras mais antigas e nunca finalizada, remontando a Ma-
nuel Aires de Casal e Orville Derby no século XIX, chegando, no XX,
à figura de Delgado de Carvalho, entre outros autores, sendo retomada
com intensidade por Aroldo de Azevedo, na década de 1940, com seus
planaltos e planícies e, nas décadas de 1960 e 1970, Ab’Sáber, com seus
seis domínios morfoclimáticos, depois reconfigurados por Ross (1990)
através das macro compartimentações e suas 28 macro unidades geo-
morfológicas ou morfoesculturas.
Outro ponto no universo desta constelação é representado por Valter
Casseti, também orientando de Adilson Abreu durante o doutorado em
1983. Casseti (1983) investigou a dinâmica pluvioerosiva do planalto de
Goiânia – GO. Sua tese já demonstrava o interesse desse geógrafo com
as questões ambientais e com a própria natureza. Casseti (1995, 1999),
tal como Suertegaray (1987, 2012), caminhará em direção às reflexões
advindas de Friedrich Engels, em especial as elaborações que dizem
respeito à natureza dialética e à dialética da natureza. Através desses
conceitos, Casseti (1999, 2002) realiza críticas à noção de natureza ex-
ternalizada, que remonta pelo menos a Descartes, potencializando-se
com a era do capitalismo e sua então reprodução ampliada, bem como
a respectiva apropriação privada dos meios de produção (nesse caso, a
apropriação da natureza).
Valter Casseti pode ser considerado um dos geógrafos que mais se
aprofundou nas análises da geomorfologia em uma perspectiva marxis-
ta; embora apareça em suas reflexões um conjunto diversificado de au-
tores, a dialética é o tom caracterizador de seus pensamentos no âmbito
compreendido pela geografia física. Nesses termos, é possível afirmar
que o caminho trilhado por Casseti soma-se ao conjunto das outras ner-
vuras apontadas no plano desta constelação, isto é, caminhos outros e
diversos da raiz. Pode-se incluir, também, a recém Tese de Livre-Docên-
46 TEORIAS NA GEOGRAFIA II

cia de João Oswaldo Rodrigues Nunes – Práxis Geográfica e suas Con-


junções, de 2014. Esse estudo articula o materialismo dialético, a práxis
e o pensamento complexo de Edgar Morin à leitura geomorfológica. As
proposições de Nunes (2014) se aproximam mais do pensamento de
Suertegaray do que de Casseti, certamente pela influência de formação
que essa geógrafa exerceu em sua trajetória como orientadora.
Ainda no tear de Adilson Abreu, encontra-se o geógrafo Antonio
Carlos Vitte, peça paradigmática no curso dos intérpretes da história
da geografia brasileira. Vitte (1998) defende seu doutorado nos anos fi-
nais da década de 1990, tendo a área de Juquiá – SP como seu recorte
de análise. Através desse recorte, realiza uma aplicação das concepções
de Etchplanação Dinâmica e também dos Sistemas de Transformações,
mirando o entendimento das formas e a estrutura do solo e do rele-
vo. A etchplanação pode ser entendida como uma teoria que tenta ar-
ticular a geoquímica e a pedogênese como princípios do aplainamento
da morfologia do relevo. No plano desta constelação, Vitte representa
o ponto que mais publicou textos sobre a epistemologia e história da
geografia física, com especial atenção à geomorfologia, confirmando-se
uma tradição que remonta pelo menos a Ab’Sáber (1958a, 1958b), com
um conjunto de textos históricos sobre o desenvolvimento das geociên-
cias e também da geomorfologia (1977, 2005), continuando, posterior-
mente com Abreu (1978, 1982, 1986, 2003, 2010, 2012) e chegando até
Vitte (2007, 2008a, 2008b, 2009, 2011), que também já vem “passan-
do o bastão” adiante num conjunto de orientandos (SILVEIRA, 2008,
2012; GOMES, 2010; RIBAS, 2011; OLIVEIRA, 2012; SANTOS, 2012;
SPRINGER, 2013; FERRAZ, 2014; CENE, 2014). Ainda que nesse per-
curso tenhamos as contribuições de Monteiro (1980, 2000), estas serão
tratadas mais adiante.
O conjunto de orientandos de Vitte se distribui em temas que pro-
blematizam desde as origens da geografia moderna (Kant, Humboldt,
Romantismo etc) até estudos do conhecimento geográfico do presente
(complexidade, concepções de natureza etc.). Além de Vitte ser o sexto
geógrafo brasileiro que mais orientou em estudos históricos e epistemo-
lógicos do saber geográfico brasileiro (até o final de 2015), percebemos
que Kant é o filósofo mais presente em suas publicações e também nas
orientações. Vitte, nesse sentido, materializa um programa de pesquisa
As Manifestações da Natureza e as Teorias na Geografia Física Brasileira 47

na geografia brasileira, revisando e revisitando as estruturas que reco-


brem a geografia física, ou seja, criando nervuras em um tema relativa-
mente adormecido. Ainda que Vitte seja herdeiro de uma tradição que o
antecede, já vem apresentando uma singularidade e, também, distinções
com seus antecessores.
Em termos de forma, portanto, esta constelação tem com esses per-
sonagens seus intérpretes. De longe, não são os únicos. A ideia de cons-
telação não pretende homogeneizar e cristalizar os pensamentos, mas,
apenas, apresentar uma possibilidade de leitura de um pequeno pedaço
do universo. A geomorfologia brasileira não se resume a esses poucos
nomes por nós citados, embora tenhamos que considerar que esses su-
jeitos deixaram marcas indeléveis – nervuras – no correr do saber. Mui-
tos, ainda vivos, continuam incansavelmente revirando e redesenhando
as bases, projetando futuros e constituindo o presente. A beleza da can-
ção consiste justamente na diversidade dos caminhos seguidos por cada
um desses geógrafos que os diferencia e ao mesmo tempo os liga através
das tensionalidades e fervuras rumo à compreensão da constituição da
imagem que a paisagem enquanto forma os incita. Aziz Ab’Sáber, Olga
Cruz, Antonio Christofoletti, Adilson Abreu, Jurandyr Ross, Valter Cas-
seti, Dirce Suertegaray, Antonio Carlos Vitte, bem como a imensidão
dos seus orientandos e, também, aqueles que não mencionamos, dão
o cântico da interpretação da forma no âmbito da geografia brasileira.
Esses geógrafos não só tiveram o relevo como objeto, mas, acima de
tudo, colocaram a própria maneira de interpretá-lo em questão (como
objeto), produzindo epistemologia e história do saber geográfico.
Assim, embora tenhamos associado esses geógrafos à dimensão da
“geografia física” e da própria “geomorfologia” enquanto identidade in-
telectual, sabemos que a interdisciplinaridade é latente em todos, pro-
duzindo, todos eles, geografia. Cabe, por fim, pontuar que as nervu-
ras da interpretação da forma no âmbito da geografia não se esgotam
nos breves elementos que pontuamos. Questões como a morfogênese
e a morfodinâmica não foram citadas, bem como uma certa diferença
na forma e na metodologia de interpretar a história da geomorfologia.
Mesmo que Vitte, por exemplo, parta de muitas reflexões advindas de
Abreu para interpretar a história da geomorfologia no Brasil, apresenta
diferenças quanto a este último no que concerne à utilização de outras
48 TEORIAS NA GEOGRAFIA II

ferramentas (os obstáculos epistemológicos de Bachelard, por exemplo),


para citarmos alguns elementos.
A raiz constelatória Aziz Ab Sáber, todavia, não se resume apenas aos
estudos da forma. Outros caminhos, que não o da geomorfologia, foram
trilhados e, entre esses, o do clima como um fenômeno geográfico. A cli-
matologia se constituirá como uma fração representativa nesta constela-
ção. Cabe, portanto, entendermos como o clima foi compreendido e que
nervuras saltam aos olhos daqueles que procuram investigá-lo.

Κλιμα- klima –κλιματος –klimatos- λογία – estudo

Clima

Os céus e os ares representam dados emblemáticos na história do co-


nhecimento humano, ora condutores da curiosidade e da imaginação,
ora princípios para justificação dos mitos e, ainda, como objetos alcan-
çados pelo devir cristão – o céu, assim, cumprindo o papel de espaço de
destino pós-morte. Os céus e os ares fizeram parte, também, das ciên-
cias e da filosofia, como objetos sujeitos às mensurações e observações.
Esses conceitos, portanto, representarão um certo objeto no plano cien-
tífico que se cristalizará, majoritariamente, no âmbito da astronomia
e da cosmografia. Mediante a observação dos céus e dos ares, muitas
ciências personificaram o seu sentido de ser e, nessa esteira, o tempo e o
clima serão conceitos geradores de reflexões e da própria interpretação
do funcionamento do que conhecemos como atmosfera.
A dinâmica da atmosfera será investigada por dois campos perten-
centes ao universo das ciências atmosféricas. O primeiro, e com uma
história mais consolidada, será a meteorologia, em que a figura de Aris-
tóteles se destacará pela elaboração do tratado Metereológica, no qual
analisará não apenas os fenômenos atmosféricos, mas também a água
e a terra numa perspectiva da física. Além desse tratado, destaca-se o
De Caelo (Sobre o céu), texto que compõe o conjunto de seus tratados;
neste, todavia, o cosmos ganha maior atenção. Ainda no mundo grego,
o filósofo Teofrasto elaborará o Livro dos Sinais, no qual demonstra oito
formas de compreender a lógica do tempo, assim como sua respectiva
previsão. Esse filósofo partia tanto das concepções do tratado de Aristó-
As Manifestações da Natureza e as Teorias na Geografia Física Brasileira 49

teles quanto dos conhecimentos dos babilônicos.


O período que vai de 400 a.C., remontando à climatologia médica de
Hipócrates com seu tratado Dos Ares, Águas e Lugares até, aproximada-
mente, Arato di Soli em 270 a.C com seus “prognósticos meteorológicos”
presentes na obra Fenómenos, representam os primeiros indícios de in-
terpretações sobre o clima. Evidentemente, a observação do tempo e do
clima pelo ser humano é muito mais remota do que o nascer do pensa-
mento grego, podendo remontar aos primeiros hominídeos. Ainda que
as origens sejam incertas e relativamente sistematizadas, consolidou-se
na literatura científica o papel dos gregos, como aponta Jesus (1995) em
um estudo sobre o espaço e o tempo em climatologia. As interpretações
do mundo grego podem ser caracterizas como metafísicas e, em muitos
casos, místicas. A herança de informações que os gregos deixaram aliou-
-se, posteriormente, aos fundamentos religiosos, perpassando da Idade
Média até os primórdios da Renascença a ideia de Klima; todavia, não
detinha, necessariamente, o mesmo conceito que hoje concebemos – para
os gregos, significava a inclinação e os movimentos da Terra em relação
aos polos (JESUS, 1995; BURROUGHS, 1998; SANT’ANNA NETO,
2001; ELY, 2006). Assim, vieram somando-se, por exemplo, a criação do
catavento mecânico por Leonardo da Vinci (1500), o termoscópico indi-
cador de temperatura por Galileu (1597), o barômetro de mercúrio por
Torricelli (1643), para mencionarmos alguns nomes e criações. Ainda que
o papel desses sujeitos fosse ímpar, as concepções permaneciam no plano
do metafísico e do místico em termos de análise atmosférica.
Na metade do século XVII, especificamente entre 1646-48, as figu-
ras de Descartes, Pascal e Périer ampliarão a concepção de variação da
pressão em detrimento da altitude, bem como as observações em Puy
de Dôme, na França. Com esses sujeitos, inicia-se um tratamento mais
analítico da atmosfera, dando-se maior cientificidade às abordagens
metafísicas e místicas que então vigoravam. Posteriormente, com Dam-
pier (1687) e as observações dos furacões, Farenheit (1714), com as es-
calas da temperatura, bem como Celsius (1742) e Wottman (1790), com
o anemômetro, tal qual a criação da Società Meteorológica Palatina, os
dados de análise do tempo e seus fenômenos passam a ser armazenados.
Enfim, do século XVII em diante, as análises e cartografias do tem-
po vão pipocando em diversos segmentos das ciências, inclusive com
50 TEORIAS NA GEOGRAFIA II

Humboldt na geografia, realizando a primeira cartografia climatológica


(isoterma) nos Andes, em meados de 1817. Todo um movimento – ro-
mântico, criticismo kantiano e positivista – vai se consolidando no sé-
culo XIX. As experimentações e construções de teorias vão ganhando
destaque através dos pressupostos da termodinâmica. Será nesse século,
também, que Köppen e Hann propiciarão novas proposições à meteo-
rologia e à climatologia. Köppen com Van Bebber tornarão público, em
1878, o primeiro trabalho sobre a trajetória das tempestades. Já Hann,
quatro anos depois, irá introduzir o primeiro conceito de clima, em
1882, publicando em 1883 o Handbuck der Klimatologie, uma espécie
de manual de climatologia, embora já tivesse publicado o livro Die Erde
als Ganzes. Ihre Atmosphäre und Hydrosphäre (A terra como um todo.
Sua atmosfera e hidrosfera), em 1872.25
O segundo campo é a climatologia. Seu desenvolvimento se confun-
de com a própria meteorologia – as histórias e, portanto, as origens se
superpõem e se intercruzam. Embora as narrativas históricas se confun-
dam, os objetivos e propósitos desses dois campos são distintos. A cli-
matologia, de um modo geral, perscrutará uma “cartografia do tempo”,
isto é, dos eventos, episódios e fenômenos da atmosfera. Em síntese, a
climatologia busca compreender o tempo e suas sucessões em escalas
mais longas, o que se chamará, portanto, de clima. Detendo-se à ca-
mada mais baixa da atmosfera – a troposfera – a investigação de perfil
geográfico procura relacionar os elementos da litosfera (notadamente,
os superiores), da hidrosfera, os fatores biogeográficos e, notadamente,
o fator antrópico (ou antroposfera). Já a meteorologia se voltará à mo-
mentaneidade do tempo atmosférico. Evidentemente, essa distinção já
apresenta desgastes conceituais nos dias recentes, uma vez que os estu-
dos tanto do tempo quanto do clima não pertencem, necessariamente,

25 Estamos citando apenas alguns nomes, sem a pretensão de fazer um panorama com-
pleto, o que seria, inclusive, inviável a este trabalho. O conjunto de pensadores é enorme
neste período e as contribuições são diversas. Como medida de exemplo, poderíamos
citar Carnot (1826) e os estudos sobre a radiação, Leverier (1854) e a introdução das car-
tas sinóticas, Ferrel (1856) e a Teoria da Circulação Geral, Hertz (1884) e as publicações
sobre a termodinâmica da atmosfera, Helmotz (1888) e a circulação da atmosfera etc.
Estudos mais específicos, como Jesus (1995), Burroughs (1998), Sant’Anna Neto (2001)
e Ely (2006) exploram esses elementos com maior profundidade e podem ser consulta-
dos para um maior aprofundamento do leitor.
As Manifestações da Natureza e as Teorias na Geografia Física Brasileira 51

apenas a esses dois campos, sendo de interesse de outras ciências. Sen-


do assim, entretanto, o importante é assinalar que a distinção desses
campos representará, talvez, uma das primeiras nervuras em termos
de ciência. Meteorologistas e climatólogos vêm travando ao longo dos
anos diversos embates, sejam eles conceituais, políticos, e mesmo exis-
tenciais, de suas ciências, conformando uma verdadeira batalha diante
da produção do conhecimento científico. Mais adiante, mencionaremos
alguns exemplos dessa nervura.
O clima, então, será o objeto que constituirá o fator existencial da
climatologia como um campo no interior da geografia física. Diferente-
mente da geomorfologia, que deteve uma consolidação com mais adep-
tos, a climatologia seguirá, até o século XIX, ainda muito próxima da
meteorologia e pouco expressiva na então efetivação (institucional) da
geografia.
Em termos de Brasil, a situação é bem curiosa para ainda continuar-
mos nesse plano das “origens” e, em vista disso, é importante relatarmos
o que Fernandes (1989) e Sant’Anna Neto (2001), em suas respectivas
narrativas, anunciam. Ambos chamam atenção justamente para os indí-
genas que existiam no Brasil antes da materialização, propriamente dita,
dos centros científicos. Os indígenas congregavam um conjunto de co-
nhecimentos e práticas, “em termos do tempo e do clima, este conjunto
de saberes, que pode ser denominado de weather lore, era suficiente para
que pudessem estabelecer uma visão do tempo (cronológico e atmos-
férico)” (SANT’ANNA NETO, 2001, p. 14). Esses saberes “eram muito
extensos, indo da especificação de fenômenos meteorológicos, e de vá-
rios espécimes animais e vegetais e sua utilização até as tentativas de do-
mínio mágico da natureza” (FERNANDES, 1989, p. 78). As observações
e as regularidades dos povos indígenas diante dos fatores atmosféricos
podem ser caracterizadas como as primeiras informações sobre o clima
no território brasileiro, ainda que, por outro lado, sua contribuição seja
menor às elaborações dos africanos e portugueses.
Essas raízes, por si sós, não explicam o surgimento da climatologia
no Brasil em parâmetros científicos. As ciências naturais, juntamente
com as elaborações de Humboldt, darão a tônica da efetivação desse
campo de conhecimento, cuja identificação pode ser consultada, con-
forme assinala Sant’Anna Neto (2001), em Johann Baptist von Spix, Carl
52 TEORIAS NA GEOGRAFIA II

Friedrich Philipp von Martius, Auguste de Saint-Hilaire e Georg Hein-


rich von Langsdorff nas viagens e expedições em diferentes lugares do
Brasil, existindo, assim, fatores imperiais, coloniais e científicos andan-
do lado a lado. A despeito da contribuição desses personagens com seus
estudos, as contribuições mais solidificadas serão, efetivamente, advin-
das de Henrique Morize, Frederico Draenert e Delgado de Carvalho.
Além do tom “pioneiro” das obras desses autores, todos realizam uma
panorâmica do clima no território brasileiro, cobrindo quase toda sua
extensão. É importante mencionar que esses autores, todos eles, utili-
zaram das proposições de Köppen e Hann, estes que, junto com Hum-
boldt, podem ser considerados o tripé das primeiras germinações siste-
matizadas da climatologia.
Morize, Draenert e Delgado de Carvalho darão o tino de uma ner-
vura inacabada. Sabemos que o clima é, entre os diversos objetos da
geografia física, o mais plástico e “instável”; além de “invisível”, sua com-
preensão exige um conjunto muito extenso de informações e de séries
históricas – sua “regularidade” e “previsão” são, assim, um objetivo que
percorre a história das observações dos céus. A singularidade desses três
personagens se justifica pela tentativa de classificar o clima do Brasil
estabelecendo, pois, cristalizações do que seria o perfil climático brasi-
leiro. Se a tentativa de classificar o clima brasileiro os liga, as diferenças
e divergências de suas propostas os separam.
Draenert (1896), por exemplo, trazia uma proposição genética e di-
nâmica através de duas zonas climáticas, a tórrida e temperada, predo-
minando três regiões climáticas: continental, litorânea e subtropical. Já
Morize (1922 [1889]) valorizava, entre outros aspectos, as relações entre
clima-homem; sua primeira classificação para o Brasil compreendia três
zonas: a tropical a subtropical e a temperada – essas três zonas davam
ensejo a três regiões climáticas: equatorial, tropical continental e tro-
pical litorâneo. Na sua segunda classificação (correções da primeira),
Morize (1992) define três zonas: a equatorial, tropical e a temperada26.
Delgado de Carvalho (1917), numa visão altamente geográfica, na qual

26 Que se desdobrarão em nove regiões climáticas: Super-úmido, Úmido continental,


Semi-árido, Marítimo semi-árido, Semi-úmido de altitude, Semi-úmido continental,
Super-úmido marítimo, Semi-úmido. Semi-úmido de altitude.
As Manifestações da Natureza e as Teorias na Geografia Física Brasileira 53

atmosfera, hidrosfera e litosfera se correlacionam na escultura do clima,


proporá três zonas: a equatorial e subtropical, a tropical e subtropical
e, por fim, a temperada, na sua primeira proposta27. Carvalho realiza
uma segunda proposta em 1926, muito próxima à de Morize (1922)
(SANT’ANNA NETO, 2001, 2003).
A despeito das aparentes similaridades dessas propostas, ambas
protagonizaram correções e inclusões em suas proposições, conside-
rando o que o outro realizava. A classificação de Delgado de Carva-
lho, por exemplo, “apesar da aparente similaridade com aquela pro-
posta de Morize, foi bastante conflitante, principalmente no que se
refere aos limites entre os climas tropicais, subtropicais e temperados”
(SANT’ANNA NETO, 2001, p. 88, grifo nosso). Ainda que esses três
sujeitos tenham participado de um canônico concurso, veio somar-
-se o médico Afrânio Peixoto, com importante contribuição à clima-
tologia médica. Peixoto (1938), contudo, propôs outra “classificação
climática para o Brasil, considerava três tipos climáticos, assim como
Morize e Delgado de Carvalho, porém, ao contrário dos outros dois,
enfatizava o carácter de tropicalidade de nosso território” (SANT’AN-
NA NETO, 2001, p. 94)28. Expusemos esses sujeitos apenas para apon-
tar, de forma muito breve, algumas nervuras que antecedem as raízes
da nossa investigação.
Com esta síntese que estamos tentando realizar, é importante apon-
tarmos, num curto resumo, outras nervuras que acompanham o desen-
volvimento da climatologia. Uma delas é representada justamente pelo
método. Dois grandes troncos metodológicos prevaleceram na estru-
tura teórico-conceitual da climatologia. Um desses troncos é represen-
tado pelo denominado método analítico/separativo/estático e o outro
é o método sintético/dinâmico (em alguns casos, com a incorporação
dos sistemas). O primeiro, essencialmente quantitativo, busca as médias
numa análise de perfil separativo das unidades que compõem a taxono-
mia do clima – esse método terá, com Julius Hann e Wladimir Köppen,

27 As regiões climáticas, por sua vez, seriam as seguintes: Super-úmido, Semi-árido,


Semi-úmido marítimo, Semi-úmido de altitude, Semi-úmido continental, Super-úmido
marítimo, Semi-úmido das lat.méd., Semi-úmido de altitude.
28 Além desses sujeitos, outros se destacam, como Belfort de Mattos e Sampaio Ferraz.
54 TEORIAS NA GEOGRAFIA II

mais uma vez, o título de precursores, sendo Hann o mais destacado


pela sua definição inicial do conceito de clima.
A descrição é um dos pilares desse método e, por esse mesmo mo-
tivo, virão as críticas, sendo o geógrafo Maximilien Sorre um dos que
as apontará. Além de Sorre, o também francês Pierre Pédelaborde e o
brasileiro Ary França e, posteriormente, Carlos Augusto de Figueire-
do Monteiro utilizaram as reflexões de Sorre, notadamente o conceito
de ritmo. Esses geógrafos, embora tenham empregado algumas formu-
lações de Sorre, percorreram caminhos distintos em função de suas
proposições metodológicas. O importante a ser assinalado é que eles, e
muitos outros, protagonizaram a efetivação do que se concebeu como
método dinâmico, apresentando as limitações do método separativo/
estático. Pédelaborde (1957, p. 340) dizia que o “método separativo é
impróprio particularmente para as regiões temperadas, visto que todos
os fenômenos nessas regiões são essencialmente variáveis e em outros
casos a média inclui o valor menos frequente de toda série”. Essa nervu-
ra pode ser detectada, de forma também enfática, em Monteiro (1962,
p. 30-31, grifos nossos), conforme destacado:

Se a finalidade precípua do método geográfico é a explicação do fenô-


meno climático, se essa compreensão só pode ser obtida pela circulação
atmosférica regional, regulada pelos centros de ação térmicos ou dinâ-
micos que, embora distribuídos, zonalmente, na superfície do globo,
são células cuja circulação e conflito, sob a ação dos fatores geográficos,
se definem na escala regional, esse objetivo só poderá ser alcançado pelo
método dinâmico. Como, então, partir da análise separada dos elemen-
tos de um clima local, compreender uma gênese e, sobretudo, proceder
a uma classificação? Esse problema, focalizado na orientação analítica
tradicional, baseada em índices numéricos, em dados médios que, mas-
carando os valores máximos e mínimos, e mesmo aqueles menos oca-
sionais, que apesar disso existem e se sucedem segundo uma pulsação e
um ritmo próprio, nos fornece, apenas, algo de descritivo.

Os elementos apontados por Monteiro são fundamentais para o


nosso raciocínio. Além da crítica propriamente dita ao que chamou
de “orientação analítica tradicional”, Monteiro eleva a compreensão da
As Manifestações da Natureza e as Teorias na Geografia Física Brasileira 55

dinâmica atmosférica a pulsões, conflitos e ritmos, o que, também, tra-


duz-se como uma nervura. Embora o método dinâmico tenha surgi-
do como uma proposta de superação de lacunas do método separativo,
inclusive apontando abertamente as limitações do mesmo, eles não se
excluem efetivamente. A característica altamente quantitativa do mé-
todo separativo não deixa de ser importante ao método dinâmico, que
valoriza mais o qualitativo. Geógrafos como Emanuel Jesus (1995), José
Bueno Conti (2001) e sobretudo José Afonso Zavattini (2004) detêm
uma ampla bibliografia sobre as similitudes, diferenças e coexistências
desses métodos.
As nervuras que fluem da climatologia não se esgotam, meramente,
no que dissemos. Assuntos como o do aquecimento global, por exem-
plo, inauguram um conjunto de divergências e disputas no âmbito das
ciências atmosféricas. Isto ocorre com os chamados “episódios extre-
mos”, nos quais tanto a mídia quanto o Estado se colocam como pro-
tagonistas interpretativos. Outro emblema, que na realidade envolve a
ciência em geral, é a escala. Na climatologia, todavia, ganha um espaço
interessante, uma vez que, ainda hoje, é difícil dimensionar com preci-
são a lógica do tempo e do clima, seja na macro, meso ou microescala,
o que configura os conceitos de clima zonal, regional, local, e mesmo o
topoclima. Compreender os padrões do tempo, tal qual a dinâmica da
atmosfera envolve, entre outros elementos, os fluxos do ar, a variabilida-
de dos fenômenos, a direção dos ventos etc. O alcance da interpretação
e compreensão do clima, por si só, é uma nervura.
Para além da compreensão do clima, há uma nervura ainda mais
complexa, isto é, de sua existência. Reproduzamos, pois, uma pergunta
clássica: seria o clima uma construção teórica ou teria uma existência
concreta na realidade? Essa nervura, de difícil resposta, se retroalimen-
ta com as anteriores mencionadas. Adiante, demonstraremos algumas
tentativas de respostas e outros caminhos trilhados, através de alguns
geógrafos brasileiros presentes na constelação que compreende a raiz
Ab’Sáber.

***

Podendo datar pelo menos a Leslie Curry (1963, p. 16), em um artigo


publicado sobre a variação climática em alguns lugares da Nova Zelân-
56 TEORIAS NA GEOGRAFIA II

dia, colocava-se em suspensão a existência do clima, argumentando que


o “clima não é um fato mas uma teoria, dela tirando proveito cada inves-
tigador para implementar uma dada experiência do tempo (meteoroló-
gico: weather) adequada a seus propósitos”. Esse pensamento de Curry
será recuperado pelo geógrafo Carlos Augusto de Figueiredo Monteiro,
orientando de Ab’Sáber, na sua obra Clima e Excepcionalismo de 1991.
A procura pela existência do clima em Monteiro remonta a seus primei-
ros trabalhos (1962; 1963). Contrariamente a Curry (1963), Monteiro
(1991, p. 26) acredita na existência per se do clima, ainda que tenha ape-
nas perseguido “a ‘existência’ desta simples manifestação oculta” até sua
saída do Laboratório de Climatologia do Instituto de Geografia da USP
em 1982, “jamais foi abandonada a esperança”.
A procura pela existência do clima, ou mesmo o “permanente da
atmosfera”, nas investigações de Monteiro, fará desse geógrafo um dos
mais representativos da geografia brasileira. É justamente por esse moti-
vo que optamos por iniciar com ele, até porque foi o primeiro orientan-
do de Ab’Sáber a realizar um estudo climático na pós-graduação da USP
em geografia física, em 1967. Além de Monteiro, destacaremos o papel
de Gil Sodero de Toledo, também orientando de Ab’Sáber, em 1973.
Tanto Monteiro quanto Toledo serão fundamentais para o prosse-
guimento de pesquisas no Brasil, justamente, também, no objeto so-
bre qual estamos buscando compreensão, ou seja, o saber geográfico
como objeto. Como estamos sujeitos a olhar apenas a constelação por
nós construída, tivemos que deixar alguns sujeitos de fora de nossa
análise, por exemplo, o geógrafo Ary França. Esse personagem, breve-
mente mencionando, elaborou uma das primeiras teses cujo conteúdo
tratava-se de clima, então realizada por um geógrafo. Com orientação
de Pierre Monbeig, em 1945, França conclui a tese intitulada Estudo
sobre o clima da Bacia de São Paulo. Um dado fundamental de sua
tese é a incorporação das concepções de Max Sorre (notadamente, a
“ambiência atmosférica” e a “sucessão habitual”). Além de tudo, Fran-
ça (1945), de forma muito energética, contestou as interpretações de
Sampaio Ferraz em seus estudos sobre o clima do Estado de São Paulo
(MONTEIRO, 1980; SANT’ANNA NETO, 2001). Todo um envoltório
antecede uma criação e não seria diferente nos estudos climáticos no
Brasil.
As Manifestações da Natureza e as Teorias na Geografia Física Brasileira 57

O geógrafo Carlos Augusto de Figueiredo Monteiro detém um papel


tão ímpar nos estudos da geografia brasileira que talvez seja possível
arriscar dizer que este tenha sido o único dos orientandos de Ab’Sáber a
igualar-se a ele em termos de contribuição teórico-metodológica, ainda
que não tenha seguido os estudos geomorfológicos. Tal importância é
refletida na literatura produzida por alguns geógrafos; mas um geógrafo
se destaca quando o assunto é a mente e a produção de Monteiro: refe-
rimo-nos a João Afonso Zavattini. Ainda que sua leitura da produção
monteriana beire, às vezes, à paixão29, a sistemática e quantidade de in-
vestigações realizadas sobre as proposições do Monteiro o coloca como
uma das melhores fontes.
O dinamismo e heterogeneidade da produção de Monteiro deman-
daria um outro trabalho, mas alguns elementos se destacam e é impor-
tante que falemos deles para podermos, assim, compreender outros
aconteceres no plano desta constelação. De acordo com Zavattini (2004,
p. 14-15), sete pontos se sobressaem:
1. a adoção do conceito sorreano de clima e o advento do novo para-
digma – o ritmo e, por consequência, suas derivações dinâmicas
(as cadeias rítmicas, as sequências rítmicas, os encadeamentos
rítmicos, a análise rítmica etc);
2. a mudança de enfoque – do método analítico-separativo, que en-
fatiza as “estatísticas” dos valores dos elementos do clima, ao mé-
todo sintético, que privilegia a dinâmica das massas de ar e dos
tipos de tempo;
3. o uso geográfico dos segmentos temporais – das normais climato-
lógicas aos anos-padrão (habituais ou excepcionais);
4. a necessidade de se analisar os fatos climáticos em suas diversas
escalas;
5. a importância da dinâmica atmosférica (os mecanismos dos fluxos
de energia) na definição, na diversificação e na diferenciação dos
espaços climáticos;

29 “O exagerado valor que ele atribui a minha obra deve explicar-se, pelo menos em
parte, pela estima que sempre tem demonstrado a minha pessoa. Às vezes, o coração
supera a razão”. (MONTEIRO, 2004, p. 6 in prefácio ZAVATTINI, 2004).
58 TEORIAS NA GEOGRAFIA II

6. a abordagem meteorológica versus a abordagem geográfica (previ-


são do tempo X integração com demais constituintes da ambience
sorreana);
7. o consagrado na Geografia (com base nas informações da “velha”
meteorologia de Adalberto Serra) e as “descobertas” da moderna
Meteorologia Brasileira (e de seu aparato tecnológico) sobre o fe-
nômeno El Niño; além de outros aspectos fundamentais, com os
quais passamos a nos reocupar.

Embora esses sete pontos estejam ligados à climatologia, Monteiro


também caminhou por outras temáticas, como a literatura e a filosofia.
O fato é que ele inicia a primavera da climatologia geográfica brasileira
com seus trabalhos. Sua tese de doutorado intitulada O ritmo hibernal
da frente polar e as chuvas da subtropical atlântica do Brasil (1967), por
exemplo, direcionou-se ao entendimento do clima do Brasil Meridio-
nal através da articulação genética, dinâmica e rítmica (SANT’ANNA
NETO, 2001; ZAVATTINI, 2004). Monteiro é um geógrafo que escreveu
muitos textos sobre si, e isso é um fator que facilita uma historiografia
de sua atividade como geógrafo, mas, ao mesmo tempo, coloca os his-
toriadores em uma situação delicada quanto aos riscos de uma inter-
pretação diversa daquela relatada. Monteiro não apenas deixou pistas
sobre a história de si. Suas contribuições sobre a história da geografia
brasileira revelam também um geógrafo importante entre os estudiosos
da história do pensamento geográfico, notadamente com a publicação
de A Geografia no Brasil (1934-1977): avaliação e tendências, em 1978.
Três fases traduzem a trajetória de Monteiro. A primeira, iniciada
em 1951, se dá com a publicação do seu primeiro artigo, que vai até
1968, quando passou a fazer parte da USP e a dirigir o Laboratório de
Climatologia, realizando estudos sobre o Sudeste e o Brasil Meridional.
A segunda fase compreende a orientação de alunos na pós-graduação
em geografia, tal qual a criação de um sofisticado programa de pesquisa
conhecido como Sistema Clima Urbano, então materializado em sua
Tese de Livre-Docência – Teoria e Clima Urbano; fase que irá até 1982,
quando deixa o Laboratório de Climatologia. A terceira que vai de 1982
até 1987 e encerra-se com sua aposentadoria, embora tenha continuado
com algumas orientações na pós-graduação (MONTEIRO, 1991). De-
As Manifestações da Natureza e as Teorias na Geografia Física Brasileira 59

pois dessa fase, o interesse pela cultura, literatura e filosofia se acentua,


ainda continuando com publicações referentes à climatologia.
Na dimensão do seu pensar, é possível identificar, num primeiro mo-
mento, a percepção das limitações das concepções de Hann, optando
pelas propostas de Sorre. Uma segunda chave do seu pensamento é a
adoção da Teoria Geral dos Sistemas com os pressupostos de Ludwig
von Bertalanffy, quando então elabora sua proposta para o clima urba-
no, aproximando-se dos fundamentos de Popper e do neopositivismo,
fatos declaradamente expostos em sua Tese de Livre-Docência. A tercei-
ra chave passa por Kuhn e pela adoção de seus paradigmas e modelos
de interpretação da história da ciência. A utilização de Kuhn fez parte
de seu estudo sobre a geografia do Brasil (1980 [1978]), posteriormente
optando pelo pluralismo metodológico de Paul Feyerabend. Sant’Anna
Neto (2001) destaca o papel de Hilgard Sternberg, Kant e também do
geógrafo Francis Ruellan como influências30.
Toda a produção e o desenvolvimento da obra de Monteiro revelam
uma ligação muito acentuada com a climatologia, embora caminhe por
outros temas. Se pudéssemos arriscar em um termo que expressasse sin-
teticamente o saber produzido por Monteiro, este seria análise rítmica.
Com os ritmos, Monteiro operacionalizou a análise climática como um
fenômeno geográfico, constituindo um paradigma, segundo o próprio
autor (MONTEIRO, 1999). Ainda que, na França, Pierre Pédélaborde
incorporasse as propostas de Sorre, tal qual Monteiro, no Brasil, as di-
ferenças entre ambos são latentes. A nervura entre ambos se expressa
por um motivo muito simples – Pédélaborde ocupou-se da análise da
totalidade dos tipos de tempo; Monteiro, contrariamente, enfatizava a
sucessão, as sequências e o ritmo (TARIFA, 1975; MONTEIRO, 1991;
SANT’ANNA NETO, 2001). Outro emblema protagonizado por Mon-
teiro diz respeito às relações com os meteorologistas. Um fato que se

30 “Na minha formação em Geografia e História na antiga Faculdade Nacional de Fi-


losofia da então Universidade do Brasil, tive um conjunto de professores, naturalmente
heterogêneo em qualidade e, sobretudo, em grau de influência. Mas deles fizeram parte
figuras proeminentes, como Josué de Castro (Geografia Humana), Arthur Ramos (An-
tropologia), Delgado de Carvalho (História Contemporânea). Mas a grande influência
foi recebida do mestre francês Francis Ruellan, responsável pela minha reviravolta da
História para a Geografia” (MONTEIRO, 1995, p. 142).
60 TEORIAS NA GEOGRAFIA II

destacava em sua trajetória era a hostilidade presente nos relatórios dos


pareceristas da FAPESP31 nas avaliações dos seus orientandos que plei-
teavam financiamento. Notava-se que “embora coberto pelo sigilo não
era difícil perceber (a terminologia da corporação acaba sempre train-
do) que os pareceres eram exagerados por meteorologistas” (MONTEI-
RO, 1991, p. 2).
No caso do geógrafo Gil Sodero de Toledo, percebemos uma pro-
dução menos expressiva do que a de Monteiro, tanto em quantidade
quanto na circulação de ideias que percorrem as dissertações e teses no
Brasil. Tal comparação não é justa, sabemos, até porque são trajetórias
distintas. Toledo graduou-se na USP, onde também realizou especializa-
ção e, posteriormente, concluiu o doutorado com Ab’Sáber. Sua tese de
doutorado, intitulada Tipos de Tempo e Categorias Climáticas na Bacia
do Alto Tietê – um ensaio metodológico, foi defendida em 1973. Nota-
mos, na bibliografia consultada sobre o desenvolvimento da climatolo-
gia, que a referida tese é pouco mencionada. De toda forma, ela tem um
lugar na ordem de nossa constelação, tanto por seu conteúdo tensional
quanto pelo papel de orientador que Toledo exercerá em alguns estudos
interessantes ao saber geográfico como objeto.
Mesmo assim, é importante que destaquemos alguns elementos pre-
sentes nessa tese que, à sua época, marcava-se por uma “ânsia muito
grande de contribuição, de renovação de conceitos e de aplicação de
técnicas pouco usuais”, conforme assinala Zavattini (2004, p. 64) sobre a
mesma. A busca por uma renovação no quadro dos estudos climatoló-
gicos efetuado por Toledo (1973) acabou por criar uma nervura entre o
mesmo e outros geógrafos, inclusive com próprio Monteiro. Vejamo-la:

As primeiras formulações para definição dos quadros climáticos do


globo surgiram segundo o critério fundamental da dinâmica atmosféri-
ca. Neste caso se encontram os trabalhos de ALISSOV (1936/54) e seu
continuador KHROMOV, de STRAHLER (1951), FEDOROV (1927),
MEYNIER (1956), PÉDÉLABORDE (1956), FIGUEIREDO MONTEI-
RO (1962), FLOHN (1968), CRITCHFIELD (1964) e BLUTEGENS
(1966).

31 Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo.


As Manifestações da Natureza e as Teorias na Geografia Física Brasileira 61

As tentativas de aplicá-las ao caso brasileiro se devem, sobretudo, a FI-


GUEIREDO MONTEIRO, OSÓRIO, NIMER, SANTOS e FRANÇA,
entre outros.
Entretanto, tais “classificações” mesmo a de FIGUEIREDO MONTEI-
RO, que tem procurado dimensioná-las a um nível escalar-regional, se
caracterizam por uma perspectiva muito genérica, ao nível dos siste-
mas de frequências, predominantes ou recessivas, das massas de ar e
frentes. Identificamo-las, pois, sob o título de Classificação Dinâmi-
ca Genéricas (TOLEDO, 1973, p. 8-9, grifo nosso).

Toledo (1973) estava insatisfeito com as noções de tipos de tempo


que vigoravam à época. Referindo-se ao que chamou de “classificações
dinâmicas genéricas”, mencionava:

[...] temos observado nas classificações dinâmicas genéricas razoável


dificuldade não só da correção dos modelos obtidos para definição dos
sistemas espaciais segundo o grau da participação das massas e frentes,
como ainda em sua efetiva integração em escala climatológica nos dife-
rentes “fáceis”, de escala local e mesmo regional, de tempo meteorológi-
co que aí se definam. Em outras palavras, ainda não foi obtida a integra-
ção entre os sistemas de circulação e os diferentes tipos de tempo que
se desenrolam junto à superfície da terra, muitas vezes em áreas sob os
mesmos sistemas de controle e muito próximos (TOLEDO, 1973, p. 9).

Como podemos observar, Toledo procura demonstrar as limitações


e necessidades de mudanças na climatologia. Monteiro não apenas es-
teve em suas reflexões, como também fez parte da banca examinadora
– certamente foi uma polêmica defesa de tese. As orientações de Toledo
que fazem parte de nossa análise seguiram outros caminhos, que, por
isso mesmo, é necessário demonstrá-las.32
Com todos esses meandros das trajetórias acadêmicas, é inelutável
não reconhecer que a Análise Rítmica e o Sistema Clima Urbano semea-
dos por Monteiro não tenham marcado as gerações posteriores. Por

32 Toledo, todavia, não se cristalizou na climatologia. Seus estudos também se diversi-


ficam entre o ensino de geografia, tal qual da geografia urbana.
62 TEORIAS NA GEOGRAFIA II

isso, é importante analisar como seus orientandos, e orientandos dos


orientandos, foram adotando e contestando suas propostas, integran-
do-se em uma constelação.

***

Apesar da singular contribuição dos textos de Serebrenick (1940) e


Ab’Sáber (1979)33 que tratam do desenvolvimento da climatologia, um
outro texto também será fundamental. Na tese de doutorado do geó-
grafo José Roberto Tarifa (1975), em um capítulo de revisão de literatu-
ra, é apresentada a linhagem que segue Max Sorre, Pierre Pédelaborde
e Monteiro, explicando a sucessão, o ritmo e a análise rítmica, assim
como as diferenças de cada um desses. Não só pela importância des-
sa revisão realizada, o referido geógrafo foi o primeiro orientando de
Monteiro, concluindo a dissertação de mestrado em 1972, intitulada Su-
cessão de tipos de tempo e variação do balanço hídrico no extremo oeste
paulista (ensaio metodológico aplicado ao ano agrícola de 1968/1969).
Tarifa segue os pressupostos de Monteiro nesse trabalho, notadamente a
concepção de ritmo e tipos de tempo (TARIFA, 1972; AB’SÁBER, 1979;
ZAVATTINI, 2004; CARACRISTI, 2007).
Tarifa será um dos geógrafos que mais se dedicará aos fluxos polares,
estudo que remonta pelo menos a Adalberto Serra. Tarifa (1975), em
sua tese de doutorado Os fluxos polares e as chuvas da primavera-verão
no Estado de São Paulo: uma análise quantitativa do processo genético,
teve como propósito melhorar a compreensão geográfica do clima atra-
vés de elementos quantitativos, bem como modelos matemáticos, que
se ajustassem às análises rítmicas (TARIFA, 1975; ZAVATTINI, 2004)34.
Esse geógrafo também viria a assumir o Laboratório de Climatologia,
quando então da aposentadoria de Monteiro, em 1982.

33 Nesta mesma obra, o geógrafo Antonio Christofoletti realiza um excelente quadro


histórico da geomorfologia.
34 “Um dos pontos mais altos da tese de TARIFA é aquele da elaboração de um modelo
quantitativo do mecanismo da circulação secundária de superfície segundo combinações
rítmicas produzidas pelo fluxo polar para a primavera-verão no estado de São Paulo. Pode
ele diagramar, para cada um dos quatro tipos de fluxo as cadeias de tipo de tempo a eles
associadas, podendo-se perceber o condicionamento temporal das chuvas em diferentes
graus de intensidade acima ou abaixo do habitual” (MONTEIRO, 1991, p. 50).
As Manifestações da Natureza e as Teorias na Geografia Física Brasileira 63

Embora a dissertação e a tese de Tarifa sejam fundamentais para a


compreensão de seu pensamento, julgamos mais interessante, a nossos
objetivos, sua Tese de Livre-Docência – Os climas nos maciços litorâneos
da Juréia-Itatins: um ensaio de ritmanálise, de 2002. Nessa tese, Tarifa
trouxe um elemento diferente aos métodos e metodologias que vigora-
vam na climatologia geográfica brasileira, isto é, a lógica dialética através
das proposituras de Henri Lefebvre, utilizando-se, ainda, da noção de
ritmo e, sobretudo, de ritmanálise, também presente nas obras de Lefe-
bvre. Tarifa não desconsidera as concepções de ritmo advindas de Sorre
e Monteiro, porém trilha um caminho diferente, não necessariamente
os excluindo. Enfatiza que a “ritmanálise, definida como método e teo-
ria, persegue este duro trabalho milenar de entender as polirritmias dos
corpos (respiração, circulação, desejo, sono, alimentação) e do espaço
(físico, biológico, humano e social) de modo sistemático e teórico” (TA-
RIFA, 2002, p. 99).35 Tarifa, como o primeiro orientando de Monteiro
em termos de pós-graduação, dá indícios de uma nervura entre o mes-
mo e seus antecessores quando o assunto é método.
Merece uma breve lembrança a tese de um de seus orientandos, a
qual tratou de um conceito chamado holorritmo. Esse conceito foi for-
mulado por Denise Maria Sette durante a elaboração da respectiva tese
intitulada O holorritmo e as interações trópico-extratrópico na gênese do
clima e as paisagens de Mato Grosso, em 2000. Tal qual Tarifa (2002), Set-
te (2000) partirá dos estudos Sorre (1951) e Monteiro (1969) e, também,
das reflexões de Fritjof Capra com a abordagem sistêmica. Sette (2000,
p. 6) menciona que “a ‘integração holística’ através da Teoria Geral dos
Sistemas deu origem ao holorritmo, que significa o ritmo global do pla-
neta, que interage na paisagem nas várias ordens de grandeza e clima
através do seu ritmo, integra-se o conjunto de relações”. O holorritmo
seria, portanto, o ritmo global do planeta, conforme destaca a autora.
Compreendemos que Sette realiza um movimento muito semelhante ao
que seu orientador realizaria dois anos depois com a ritmanálise, ou
seja, o da proposição de diferentes formas de pensar o clima em detri-

35 Segundo Tarifa (2002, p. 99), o “conceito de ritmanálise já havia sido introduzido


em 1931, por um médico homeopata (Lucio Alberto Pinheiro dos Santos), professor de
filosofia da Universidade do Porto, na obra La Rythmanalyse”.
64 TEORIAS NA GEOGRAFIA II

mento daquilo que vinha sendo feito. Mais recentemente, as propostas


de ambos vêm se inter-relacionando com publicações em conjunto (TA-
RIFA e SETTE, 2009, 2012).
A recepção dessas propostas, em específico o propugnado por Sette
(2000) com o holorritmo, recebeu ardentes considerações por parte de
João Afonso Zavattini (2004) em sua investigação sobre os estudos do
clima no Brasil. Para Zavattini (2004, p. 309),

[...] é um esforço muito grande, uma tentativa imensa de acrescen-


tar um termo teoricamente novo – o holorritimo – ao arcabouço da
Climatologia, especialmente da Climatologia Dinâmica. Porém, que
novidade ele traz? A nosso ver, baseados na modesta experiência que
acumulamos, poderíamos perfeitamente passar sem ele. Afinal, na no-
ção de ritmo já estão implícitos – desde os tempos de Sorre e em toda
produção de Monteiro – a escala global e os fenômenos que possuem
manifestação de larga escala. Em outras palavras, a própria definição
de clima nos moldes sorreanos e do Prof. Dr. Carlos Augusto de Fi-
gueiredo Monteiro já traz, em seu bojo, o ritmo global (holorritmo)
sugerido por Sette.

Zavattini, que faz parte desta constelação (o qual comentaremos


mais adiante), analisou uma centena de dissertações e teses sobre
a climatologia produzidas no Brasil. No conjunto desses trabalhos,
está a tese de Sette (2000). Não entraremos no mérito das críticas
emitidas; apenas destacamos a nervura que, para nós, resume as
relações entre esses pesquisadores, isto é, o ritmo. O ritmo, nesse
sentido, seria uma das nervuras que vêm continuamente movimen-
tando a climatologia, seja na contestação, na adoção ou mesmo nas
reformulações.
Na continuidade das orientações de Tarifa, que compreende esta
constelação, destacamos o papel de Magda Adelaide Lombardo. Essa
geógrafa, que no mestrado desenvolveu pesquisas em geografia agrária
com Liliana Lagana Fernandes, migrou para as ilhas de calor no douto-
rado, investigando sua incidência na metrópole paulista, marcando seu
papel na ordem da climatologia geográfica. Embora Lombardo (2001,
2005, 2006) tenha diversos textos sobre o saber geográfico de alguns
As Manifestações da Natureza e as Teorias na Geografia Física Brasileira 65

geógrafos36, seu papel nesta constelação se justifica por seus orientados,


notadamente o geógrafo João Lima Sant’Anna Neto.
Sant’Anna Neto37 tem uma trajetória curiosa, pois durante o mestrado
pesquisou o ritmo climático e a gênese das chuvas na zona costeira paulis-
ta, sob orientação de Renato Herz. Em sua dissertação, utilizou-se da aná-
lise rítmica de Monteiro, da dinâmica e genética de Sorre e, também, do
ritmo de sucessão dos tipos de tempo de Pédelaborde. Não deixando de
reconhecer o papel desses geógrafos, Sant’Anna Neto (1990) buscou novas
ferramentas de trabalho, como a cartografia sob as bases da informática,
que Monteiro, por exemplo, não pôde dispor em suas respectivas análi-
ses. Sant’Anna Neto, assim, procurou amplificar as clássicas metodologias
através dos recursos da informática. Evidentemente, a utilização de novos
recursos metodológicos (e tecnológicos) não era uma exclusividade da
pesquisa desse geógrafo, mas o exercício de reconhecer as clássicas e de-
las tentar se utilizar e aprimorar, declarando explicitamente no respectivo
trabalho - isto é algo importante a se ressaltar.
Durante o doutorado, direcionou suas investigações às chuvas no es-
tado de São Paulo, sob orientação de Lombardo, concluindo-a em 1995.
Para Sant’Anna Neto (1995), muitos geógrafos estavam realizando uma
interpretação equivocada da obra de Monteiro e Sorre, acreditando que
a estatística e a quantificação fossem insatisfatórias para a análise climá-
tica. Sant’Anna Neto, nesse sentido, valorizou tal técnica

[...] a ponto de torná-la uma obra totalmente vinculada à Climatologia


Estatística e sem nenhum compromisso com a Climatologia Dinâmica.
Sant’Anna Neto calculou, para as séries pluviométricas de inúmeras lo-
calidades paulistas, as médias aritmétricas, os desvios-padrão, a variân-
cia, a tendência (regressão linear), as médias moveis para períodos de 5,
10, 15, 20 e 30 anos etc (ZAVATTINI, 2004, p. 223).

Concordamos com Zavattini que a tese em questão pode até ser clas-
sificada como de climatologia estatística, mas pensá-la como uma inves-

36 Milton Santos, Manuel Correia de Andrade e Aziz Nacib Ab’Sáber, respectivamente.


37 No capítulo 11 do presente livro Sant’Anna Neto realiza uma avaliação da proposta
de Monteiro.
66 TEORIAS NA GEOGRAFIA II

tigação sem compromisso com a climatologia dinâmica talvez seja juízo


um pouco apressado, até porque os estudos da climatologia dinâmica po-
dem, através dos dados ali armazenados, ter utilidade. O papel científico
e mesmo político de qualquer saber produzido transgride a momentanei-
dade de seus objetivos iniciais. Certamente, e nesse sentido concordamos
com Zavattini (2004) que, em termos da proposta de Monteiro (1971),
essa tese talvez não se enquadre no aspecto acima mencionado.
Esse breve relato da trajetória de Sant’Anna Neto tem como objeti-
vo chegar no seu trabalho que julgamos mais importante, conforme os
objetivos da nossa investigação. Será de sua Tese de Livre-Docência in-
titulada Contribuição para uma releitura da História da Climatologia no
Brasil: Gênese, Paradigmas e a Construção de uma Geografia do Clima,
concluída em 2001, que surgirá uma verdadeira nervura.
O surgimento da climatologia geográfica, em contraposição a uma
climatologia ligada à meteorologia, foi uma das realizações de Montei-
ro no Brasil; desde então, tornou-se um dos paradigmas para a análise
climática no seio da geografia brasileira. Os ritmos, e a análise rítmica
em específico, deram à climatologia brasileira o seu carácter geográfico.
Para Sant’Anna Neto (2001), todavia, esse paradigma vem apresentan-
do desgastes, sobretudo com as novas reconfigurações do mundo e do
próprio conhecimento. Dentro de tal paradigma, o “homem” e o “an-
trópico” seriam destituídos dos fatores realmente sociais, ou seja, das
classes. Com essas características, a análise climática ainda valoriza o
natural em detrimento do social. A proposição desse geógrafo é que se
reconfigure tal relação, valorizando, também, as influências do modo de
produção vigente, o clima como um recurso, tal qual o seu valor de uso
em função das classes sociais.
Dentro do paradigma rítmico monteriano, “a análise geográfica do
clima na atualidade, a nosso ver, se refere à forma e ao trinômio carac-
terístico das abordagens que se tem praticado. Ou seja, estas análises
têm se sustentado a partir do tripé: ritmo climático – ação antrópica
– impacto ambiental” (SANT’ANNA NETO, 2001, p. 141- grifo nosso).
Através da crítica desse tripé, Sant’Anna Neto proporá uma análise que
compreenda a manifestação do clima em relação às diferentes realida-
des dos sujeitos na atual sociedade de classes, através do que denominou
de Geografia do Clima. Caso consideremos
As Manifestações da Natureza e as Teorias na Geografia Física Brasileira 67

[...] que a Geografia seja uma ciência humana, e que o clima é um fenô-
meno geográfico, teríamos que estabelecer um paradigma que dê conta
de ler este objeto, a partir de uma leitura social. Daí, a proposta de uma
Geografia do Clima. Que não pretende desabonar o paradigma rítmico
defendido por Monteiro e seguidores, ao contrário, avançar a partir da
fundamentação do ritmo (SANT’ANNA NETO, 2001, sem página).

Entendemos que o exercício realizado por esse geógrafo se caracteri-


za como uma nervura. O que é interessante nesse movimento realizado
é que o ritmo ainda permanece, buscando o adiante da análise climática
como um fenômeno geográfico, ou seja, descendo ao social. Essa tese
pode ser considerada como uma das melhores narrativas da história
da climatologia produzida no Brasil, somando-se ao trabalho de Jesus
(1995).
Passados cinco anos desse trabalho, Sant’Anna Neto orientará a geó-
grafa Deise Fabiana Ely, com a tese Teoria e Método da Climatologia
Geográfica Brasileira: uma abordagem sobre seus discursos e práticas.
Ely, durante o mestrado, estudou a compartimentação da paisagem em
Rondonópolis – MT, numa investigação de natureza geomorfológica,
contando com a orientação de Valter Casseti. Já com a tese, passou a
fazer parte do pequeno grupo de geógrafos que vêm ao longo dos anos
buscando entender o processo de formação da climatologia brasileira.
Diferentemente de Sant’Anna (2001) e Jesus (1995), Ely (2006) analisou
dissertações e teses entre os anos de 1943 e 2003 identificando, pelo me-
nos, cinco temas de estudos recorrentes: o clima urbano, a variabilidade
pluvial, o clima como componente analítico da paisagem e do ambien-
te, a relação entre estatística e climatologia e, por fim, as discussões de
teoria e método. Dessas temáticas, a prevalecente é a do clima urbano,
baseadas em grande parte nos pressupostos de Monteiro com seu Siste-
ma Clima Urbano – SCU.
O SCU, que tem interesse na cidade e suas diversas problemáticas,
considera basicamente três fatores: temperatura, umidade e pressão
atmosférica, conformando um sistema. Esse sistema se origina atra-
vés e em conjunto com outros três subsistemas: o termodinâmico, o
hidrometeórico e o físico-químico (MENDONÇA e MONTEIRO,
2011; MENDONÇA, 2015). Com o SCU, de acordo com Mendonça
68 TEORIAS NA GEOGRAFIA II

(2015), Monteiro criou uma escola brasileira de climatologia urbana.


Ely (2006), no referido estudo, identificou a manifestação dessa pro-
posta nas dissertações e teses. Assim, tal qual apontaram Jesus (1995),
Sant’Anna Neto (2001) e Zavattini (2004, 2013), Monteiro, sem ne-
nhuma dúvida, influenciou e vem influenciando os estudos climáticos
no Brasil.
Com Ely (2006), finalizamos uma “linhagem” (em termos de orien-
tação) que remonta a Ab’Sáber, Monteiro, Tarifa, Lombardo e Sant’Anna
Neto. Tanto Lombardo quanto Sant’Anna Neto tiveram outros orientan-
dos que pesquisaram outras temáticas, inclusive o próprio clima; po-
rém, são estudos que detêm uma natureza distinta daquela que busca-
mos com nossos objetivos. Lombardo, ainda, orientou Letícia Carolina
de Pádua, em 2013, num estudo sobre o pensamento de Yi-Fu Tuan que,
embora presente em nossa constelação, não trata da temática do clima.
E isto não é um problema, uma vez que é da natureza da constelação
agregar e considerar o diferente. Poderíamos comentar e analisar esse
trabalho sem nenhuma dificuldade, porém optamos por realizar recor-
tes temáticos no interior das constelações para que nossa investigação
estivesse no plano do possível.38
É necessário que sigamos com outros orientandos de Tarifa. Poste-
riormente, Lombardo orientará Sueli Ângelo Furlan, em 1992; Regina
Araújo de Almeida, em 1993; e Tárik Rezende de Azevedo, em 2001. No
caso de Furlan, percebe-se um destaque com um de seus orientandos:
o geógrafo Marcos Barros de Souza. Esse autor investigou a presença
da geografia física nos eventos científicos do Brasil. No interior desse
trabalho, Souza (2006) investiga o Simpósio Brasileiro de Climatologia
Geográfica desde sua primeira edição, em 1992, na cidade de Rio Claro
– SP, até sua sexta edição, em 2004, realizado em Aracaju – SE. Nesse
estudo, é possível consultar a distribuição das temáticas em gráficos e
tabelas.
Ademais, Regina Araújo de Almeida, que inclusive foi orientanda
de Augusto Titarelli, no mestrado em 1988, investigando o tratamento
gráfico do conforto térmico, orientará Nair Ribeiro de Castro em 2006,

38 O trabalho citado é A Geografia de Yi-Fu Tuan: Essências e Persistências, defendido


em 2013.
As Manifestações da Natureza e as Teorias na Geografia Física Brasileira 69

numa investigação sobre os pressupostos teóricos e conceituas da re-


lação entre a geografia e o turismo. Nesse sentido, embora presente na
constelação como orientadora, o estudo em questão caminhou para
uma outra temática.
Já Tárik Rezende de Azevedo é um caso de doutorado direto, quando
investigou a derivação antrópica do clima na Região Metropolitana de
São Paulo. Nesse trabalho, que data de 2001, é resgatado um importante
histórico da formação da climatologia, com especificidades no estado de
São Paulo. Azevedo (2001) identifica três linhas genealógicas nesse pro-
cesso de formação: uma remontando ao século XVI até o XIX com os
viajantes, outra na passagem do XIX para o XX, marcada pelas relações
com o sanitarismo e da própria geografia médica, e a terceira compreen-
dendo Sampaio Ferraz, no Rio de Janeiro, como diretor do Serviço Me-
teorológico Brasileiro. Nessa mesma linhagem, estão Adalberto Serra e
Leandro Ratisbonna, cuja efetivação propriamente dita será com Mon-
teiro. Reconhecendo o papel de Monteiro como formador de muitos
geógrafos ligados à climatologia, Azevedo (2001, p. 69) acredita que o
“personalismo exagerado e a mitificação de sua contribuição para a geo-
grafia precisam ser revistos urgentemente, sobretudo pelo fato de que se
insiste numa ‘cristalização’ e em considerações absurdas, que a própria
trajetória do autor basta para negar”. Embora Azevedo não indique os
sujeitos que realizaram esse processo de mitificação, a nervura lançada
será mais bem trabalhada com um de seus orientados, sobre o qual co-
mentaremos a seguir.
Será com o geógrafo Henrique Lobo Pradella, na dissertação intitu-
lada A construção do conceito de ‘tipos de tempo’ entre os séculos XVII e
XXI, no âmbito das ciências atmosféricas, defendida em 2014, que alguns
pensamentos presentes na tese de Azevedo (2001) serão trabalhados,
inclusive ampliando a outros aspectos daquilo que se convencionou
chamar de paradigma ritmo, propugnado por Monteiro e outros geó-
grafos. Em síntese, Pradella (2014) faz uma historiografia do conceito
de tipos de tempo numa correlação da história da climatologia e da me-
teorologia.
Duas são as críticas principais à ideia de paradigma ritmico ou para-
digma monteriano que Pradella (2014) destaca. A primeira refere-se à
noção de teoria científica, e menciona:
70 TEORIAS NA GEOGRAFIA II

A discussão conduzida até o momento tem como principal finalidade evi-


denciar as exigências e dificuldades inerentes à construção de uma teoria
científica. Esta abordagem se faz necessária porque se torna cada vez mais
recorrente para a Climatologia, desenvolvida no âmbito da Geografia,
sobretudo no Brasil, que muitas proposições ou hipóteses sejam aceitas,
divulgadas e trabalhadas como se fossem teorias, mesmo quando não cor-
respondem aos critérios sintáticos, semânticos, epistemológicos e meto-
dológicos que apresentamos. O caso mais emblemático, acreditamos,
refere-se ao que se convencionou denominar ‘paradigma rítmico’ ou
‘paradigma monteriano’, o qual foi construído ao longo dos trabalhos
de MONTEIRO (1962, 1969, 1971, 1973b e 1975).
A suposição de um ‘paradigma monteriano’ em climatologia mos-
tra-se duplamente equivocada, por um lado pelas lacunas na proposta
teórica de Thomas Kuhn (2007), e por outro por exprimir uma falsa se-
gurança teórico-metodológica que se torna sedutora à maioria dos cli-
matólogos, e tem levado a um padrão de estudos e pesquisas que, na
realidade, contribuem pouco ou nada, seja para o amadurecimento
da disciplina, seja para ampliar o quadro de fenômenos explicados
adequadamente pela climatologia. Esta postura nos parece possível
apenas em um ambiente no qual o conhecimento histórico a respeito da
construção de uma disciplina e seus conceitos seja, no mínimo escasso,
quando não ausente (PRADELLA, 2014 p. 32-33, grifo nosso).

A existência do paradigma rítmico, ou mesmo monteriano, que, in-


clusive, já comentamos anteriormente nos estudos de Sant’Anna Neto
(2001) e do próprio Monteiro (1999, 2015), pode ser objeto de inúme-
ras leituras. A existência do paradigma, por exemplo, talvez seja algo
realmente questionável, até porque o próprio Kuhn realizou algumas
correções, optando, inclusive, pela ideia de matriz ou léxico. Em algu-
mas ocasiões, Monteiro (1991) reconheceu as limitações de Kuhn, op-
tando pelas fundamentações de Feyerabend – acontece que a noção de
paradigma é polissêmica e não necessariamente pertence a Kuhn. Na
filosofia, especificamente no mundo grego, o paradigma representava
o fluxo do pensamento. A ideia de “paradigma monteriano”, que alguns
geógrafos então se referem, exige uma outra investigação para detectar-
mos se, de fato, baseiam-se na proposta kuhniana.
As Manifestações da Natureza e as Teorias na Geografia Física Brasileira 71

Pradella (2014) caminha em direção contrária às interpretações de


Ely (2006) e Zavattini (2013) quando menciona que o referido paradig-
ma “tem levado a um padrão de estudos e pesquisas que, na realidade,
contribuem pouco ou nada”, revelando, assim, uma nervura quando o
assunto é a efetividade das proposições de Monteiro. Essa crítica de Pra-
della (2014, p. 39) em relação ao conceito de paradigma39 é “o primeiro
equívoco da climatologia brasileira em relação ao ‘paradigma monteria-
no’”, argumenta.
O segundo momento de sua crítica refere-se aos atributos genéticos
da análise rítmica. Na respectiva ordem de argumentos, Pradella (2014,
p. 41-42) retorna ao trabalho de Azevedo (2001), mencionando que a
“investigação genética deve indicar e explicar os motivos que condi-
cionam as variações intra-anuais pertinentes aos comportamentos dos
centros de ação e, consequentemente das massas de ar” o que no caso da
climatologia “ainda não foram plenamente satisfeitas”40. Na conclusão
de seus argumentos, reconhece o papel do que chama de “linhagem”,
conforme segue:

39 Em outra passagem, Pradella evoca outros elementos, conforme segue: “Se lem-
brarmos que a proposição de uma “classificação genética dos tipos de tempo”, surge em
1934, na obra de FERRAZ, junto à sua indicação de que esta seria a tarefa prioritária
para o climatologista brasileiro, ou seja, vinte e oito anos antes do artigo de 1962, no
qual Monteiro refaz esta proposta, a questão do ‘paradigma monteriano’ torna-se ainda
mais questionável. Pode-se argumentar também que a abordagem rítmica, voltada para
avaliação da “sucessão habitual dos tipos de tempo”, nos moldes estabelecidos por Mon-
teiro (1969; 1971), seria elemento suficientemente inovador para que se constituísse em
um ‘paradigma’, porém este autor sequer apresenta uma definição acerca do conceito
de tipos de tempo e a isto somamos o fato de que, segundo AZEVEDO (2001), o ritmo
associado aos eventos atmosféricos tem sido investigado há muito tempo, variando ape-
nas a escala e o fenômeno dos ritmos investigados por Monteiro na maior parte de suas
obras”. (PRADELLA, 2014, p. 39).
40 Para Azevedo (2001, p. 75) “Ao ‘classificar geneticamente’ os tipos de tempo e de-
marcar o ritmo, uma das variáveis usadas na caracterização, do que se convencionou
chamar de ‘frente fria’, é justamente a ocorrência e intensidade da chuva e nebulosidade.
Mais adiante, depois de somar a chuva por ‘tipo’ de tempo, concluir que a chuva está
relacionada à passagem frontal é, no mínimo, redundância. Queremos explicitar que
não saímos do nível descritivo ainda. Uma explicação genética dos tipos de tempo não é
simplesmente caracterizá-los a partir de movimentos atmosféricos de escalas planetária
e regional mas, sim, determinar a causa do ritmo estudado!”
72 TEORIAS NA GEOGRAFIA II

Com isso acreditamos ter esclarecido as razões pelas quais consideramos


inexistente tal ‘paradigma’ para a climatologia brasileira. Ressaltamos
aqui o inegável avanço qualitativo promovido por tal linhagem investiga-
tiva, sobretudo em relação à noção de ‘ritmo’. Evidentemente, ao refutar-
mos este ‘paradigma’, discordamos também quanto à existência de uma
“teoria da climatologia geográfica brasileira”, como sugerem ELY (2006) e
CARACRISTI (2007), entre outros (PRADELLA, 2014, p. 41-42).

Nessa última passagem, podemos perceber, mais uma vez, como a


constelação se comporta. No caso das duas geógrafas, de quem o au-
tor41 discorda, Deise Fabiana Ely (2006) e Isorlanda Caracristi (2007) – a
primeira orientanda de João Lima Sant’Anna Neto e a segunda de José
Bueno Conti (que adiante analisaremos) – fazem parte de uma certa
totalidade, todos “filhos e frutos” de Monteiro. O contraditório se revela
através de nervuras que os ligam no estudo do clima. Monteiro, nesse
sentido, torna-se um objeto tanto de contestação quanto de concordân-
cia, variando com as opções metodológicas e políticas de cada investi-
gador.
Além de Pradella (2014), Tárik Rezende de Azevedo também orien-
tou Romeu Antônio de Araújo (2005) e Ilton Jardim de Carvalho Ju-
nior (2011). No caso de Araújo (2005), foi realizado um levantamento e
compêndio dos trabalhos produzidos na Faculdade de Filosofia, Letras
e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, referentes à climato-
logia, bem como à formação do curso de geografia nessa universidade.
Já Jardim de Carvalho Jr (2004, 2011), que no mestrado estudou a inci-
dência da neve em Palmas – PR, sob orientação de Zavattini, investiga-
rá, no doutorado, os mitos do determinismo climático e ambiental na
história do saber geográfico. No conjunto das quase setecentas páginas
de sua tese, dois tópicos se destacam: um sobre os clássicos da climato-
logia, em que se realiza uma análise da obra do geógrafo americano Ells-
worth Hungtington Civilization and Climate, de 1939, demonstrando as

41 Pradella (2010) também desenvolve algumas reflexões em Notas sobre o Problema da


Classificação dos Tipos de Tempo (types of weather) na Geografia Brasileira, onde é pos-
sível detectar nervuras entre as proposições de Carlos Augusto de Figueiredo Monteiro
e Gil Sodero de Toledo.
As Manifestações da Natureza e as Teorias na Geografia Física Brasileira 73

inconsistências das leituras que o rotularam de “determinista”; o outro


ponto é referente à noção de determinismo climático no Brasil – nesse
momento, o autor passa por Gilberto Freyre, com a obra Casa Grande
e Senzala (1933), e também pelas análises presentes nas investigações
de Sant’Anna Neto (2001) e Ely (2006). Embora Jardim de Carvalho Jr
(2011) trate da climatologia em alguns tópicos, a tese se ramifica em di-
versas temáticas interessantes à geografia física, caracterizando-se como
uma investigação que extrapola o plano da discussão climática, ainda
que com ela relacionada, alcançando certamente um debate histórico e
epistemológico da ideia das influências ambientais.
Com esse primeiro quadro, finalizamos o braço que partiu de José
Roberto Tarifa. Partiremos agora para outro orientando de Monteiro: o
geógrafo José Bueno Conti. Conti (1973) foi o segundo orientando de
Monteiro na pós-graduação em geografia física da USP. Inicialmente,
foi orientando de Ab’Sáber, visto que Monteiro ainda não havia defen-
dido o doutorado. Com a finalização do doutorado de Monteiro, Conti
passou a ser oficialmente seu orientando, defendendo a tese intitulada
Circulação secundária e efeito orográfico na gênese das chuvas na região
lesnordeste paulista, em 1973. As metodologias elaboradas por Monteiro
estiveram presentes nessa tese (CONTI, 1973; ZAVATTINI, 2004).
Na década de 1990, Conti (1995) defenderá sua Tese de Livre-Do-
cência, direcionada aos processos de desertificação nos trópicos, cujas
especificidades serão no Nordeste brasileiro. Esse estudo apresenta uma
proposta metodológica de pesquisa para a referida região, assim como
uma extensa revisão bibliográfica sobre a respectiva temática. Esse geó-
grafo, ainda, protagonizará um importante papel no processo de refor-
ma estatutária da Associação dos Geógrafos Brasileiros (AGB), inicia-
do no Encontro Nacional de Geógrafos, de 1978, em Fortaleza, até a
Assembleia de 1979, em São Paulo. Como membro da diretoria, pediu
demissão e afastou-se da AGB, por alguns anos, por não concordância
com o processo de reforma (CONTI, 2002). A AGB, por si mesma, é
uma nervura na história da geografia brasileira. O ENG de 1978 e a
Assembleia de 1979 revelam isso de forma cristalina, evidenciando um
momento de reorganização da democracia brasileira pelo qual a geo-
grafia não pode se furtar, ainda que cicatrizes tenham sido deixadas no
caminho, como bem se revela no Boletim Paulista número 88, com os
74 TEORIAS NA GEOGRAFIA II

relatos de Ariovaldo Umbelino de Oliveira, Armen Mamigonian, Dou-


glas Santos e do próprio Conti.
Dos geógrafos que até aqui analisamos, Conti é o que detém o maior
número de orientações sobre o histórico e o epistemológico da clima-
tologia. Comentaremos esses trabalhos e depois outras orientações que,
de forma indireta, deram continuidade às investigações do saber geo-
gráfico. O primeiro para o qual gostaríamos de chamar atenção é o geó-
grafo Emanuel Fernando Reis de Jesus, com a tese sob o título Espaço,
tempo e escala em climatologia, de 1995. Essa obra pode ser considera-
da a primeira tese no Brasil a dedicar-se, por completo, a uma análise
histórica do desenvolvimento da climatologia. Nela, é possível consul-
tar uma inumerabilidade de definições do conceito de clima e também
um compêndio de autores catalogados e suas respectivas contribuições
à climatologia, datando do período grego. Muitas dissertações e teses
que posteriormente foram surgindo tiveram com esse trabalho de Jesus
(1995) seu pontapé inicial. Conti, com esse orientando, preencheu uma
lacuna de modo muito preciso. Nós, inclusive, nos valemos muito desse
trabalho, como pode ser consultado no decorrer da nossa exposição,
assim como o que Sant’Anna Neto (2001), no âmbito de sua Tese de
Livre-Docência, realizou.
No trabalho de Jesus, é possível detectar, em várias passagens, o ter-
mo paradigma, referindo-se a Sorre com o conceito de clima e ritmo. A
figura de Monteiro também é mencionada diversas vezes, destacando-a
como valiosa, notadamente pela “introdução do método na Análise Rít-
mica, que corresponde a uma tentativa de se identificar o ritmo habitual
sem extrair os desvios, os aspectos que levam a uma noção integrada de
todos os elementos do clima” (JESUS, 1995, p. 152).
Além de Jesus (1995), destaca-se também a dissertação de Maria
França Padilha – Análise comparativa e interpretativa de duas teses de
doutoramento sobre o clima da área urbana de São Paulo, defendida em
2003. Padilha (2003) realizou uma comparação entre a tese de Ary Fran-
ça (1945) e a de Edson Cabral (2002), que foi orientando de Conti. A
autora detectou intersecção entre ambas, contudo a análise de Cabral
(2002) foi mais ampla do que a de França (1945), até porque este úl-
timo investigou o clima que cobria a bacia hidrográfica do Alto Tie-
tê, enquanto o primeiro se ateve à Região Metropolitana de São Paulo
As Manifestações da Natureza e as Teorias na Geografia Física Brasileira 75

(RMSP). Independentemente das semelhanças e diferenças existentes,


são trabalhos que pertencem a tempos diferentes. Padilha (2003), to-
davia, conseguiu identificar, em partes, o processo de desenvolvimen-
to da climatologia urbana através desses dois trabalhos, notadamente
da realidade urbana paulista com suas temperaturas elevadas, as quais
França (1945) já detectara em seu trabalho, dado que culminará no que
chamamos hoje de “ilhas de calor”.
A terceira orientação de Conti contou com um estudo que nos ar-
riscamos a classificá-lo como de natureza existencial. O mesmo foi rea-
lizado por Isorlanda Caracristi, em 2007, denominando-se A natureza
complexa da poiésis climática: contribuições teóricas ao estudo geográfi-
co do clima. Nesse trabalho, Caracristi (2007) retoma o debate sobre a
existência do clima, recuperando Monteiro (1991) e o debate sistêmi-
co (Capra, Maturana, Morin), tecendo uma argumentação até chegar à
poésis climática, onde o clima é “um desdobramento das conexões es-
paciotemporais transcendendo o domínio atmosférico: é um padrão de
interconexões, um evento emergente. O clima contém e está contido na
paisagem como um todo” (CARACRISTI, 2007, p. 112). Outra lacuna
preenchida da qual Conti participou. Certamente, o debate existencial
do clima não se finalizou nesse trabalho, uma vez que Caracristi mais
abre possibilidades do que finaliza conclusões; de toda forma, esse estu-
do tem sua razão de ser nesta constelação.
Com Jesus (1995), Padilha (2003) e Caracristi (2007), finalizamos
os orientandos de Conti que diretamente investigaram o clima como
um objeto de ordem epistemológica e histórica. Outros orientandos de
Conti com o mesmo grau de importância também se destacam; porém
na condição de orientadores. Referimo-nos, especificadamente, a Ma-
ria Helena Ramos Simielli, Francisco de Assis Mendonça e Yuri Tavares
Rocha.
Simielli tem uma trajetória ligada à cartografia e ao ensino da geo-
grafia, que se expressará em suas orientações. Com Conti, investigou o
papel do mapa no ensino de geografia, em 1987. Apesar da importân-
cia da cartografia para a climatologia e mesmo para a história do saber
geográfico, incluí-la nesse momento demandaria a realização de um ou-
tro capítulo, fugindo de nossos objetivos. De toda forma, destacamos
os trabalhos de Archela (2000) numa investigação sobre a cartografia
76 TEORIAS NA GEOGRAFIA II

brasileira entre os anos de 1935 e 1997; Nogueira (2001), com os ma-


pas mentais dos comandantes das embarcações no Amazonas; e Katuta
(2004), direcionando-se à compreensão do estrangeiro na geografia. A
respeito do ensino da geografia, que também remonta às publicações de
Conti, haverá com Sonia Castellar42 uma continuidade de pesquisas de
natureza epistemológica. Esta, que foi uma das primeiras orientandas de
Simielli a elaborar uma tese, orientará diversos geógrafos nessa temática
que perpassa todos os campos da geografia.
Francisco de Assis Mendonça iniciará seu percurso na pós-gradua-
ção tentando identificar se em Paranavaí – PR ocorria o processo de
desertificação – tema muito presente entre os interesses de Conti. Nes-
sa dissertação, que data de 1990, não só o clima é discutido, mas todo
um quadro físico que cobria a região em questão. O autor se valeu,
ainda, do materialismo histórico para compreender a formação social
da área. No doutorado, a presença das proposições de Monteiro é mais
latente, sobretudo com o Sistema Clima Urbano, aplicado à cidade de
Londrina – PR. Em sua tese, Mendonça (1994, p. 207) afirma que os
“estudos relativos ao ambiente climático urbano têm sido desenvol-
vidos no Brasil, notadamente sob a influência de Carlos Augusto Fi-
gueiredo Monteiro”, que acabou “fundando” uma “escola brasileira de
climatologia urbana”. No plano de seus orientandos, três se destacam:
Kalina Springer (2008), detendo-se às concepções de natureza pre-
sentes na produção científica da UFPR no curso de geografia; Larissa
Warnavin (2010), numa análise do discurso ambiental na Revista Bra-
sileira de Geografia (1941-2005); e Denecir Dutra (2011), atendo-se à
epistemologia da geografia da saúde.
Quanto ao geógrafo Yuri Tavares Rocha, seu papel também será na
condição de orientador – no caso, com a dissertação de mestrado de
Adriana Persiani (2012), que historiou o pensamento de Albert Lofgren,
importante botânico sueco que, radicado no Brasil, pode ser conside-
rado um dos pioneiros da fitogeografia e da climatologia (PERSIANI,
2012). Assim, com essa última dissertação, concluímos algumas ramifi-
cações de José Bueno Conti.

42 Sonia Castellar antes de iniciar o doutorado já detinha experiências e investigações


em ensino de geografia.
As Manifestações da Natureza e as Teorias na Geografia Física Brasileira 77

Posteriormente, sobre as ramificações de Conti, é necessário tocar-


mos no último sujeito presente nessa parte da constelação. O geógrafo
Augusto Humberto Vairo Titarelli finaliza o quadro de orientandos de
Monteiro que estamos analisando. Titarelli (1973) será um orientando
de Monteiro, que realizará um estudo geomorfológico, tendo como re-
corte o Vale do Parateí. Dos seus orientandos presentes na constelação,
destacamos apenas um: o geógrafo João Afonso Zavattini. Esse que es-
tudou a variação do ritmo pluvial no Oeste de São Paulo e no Norte do
Parará, em 1983, durante o mestrado, dedicar-se-á à dinâmica atmos-
férica e às chuvas em Mato Grosso do Sul em 1990, no doutorado. No
âmbito de sua Tese de Livre-Docência – O Paradigma do Ritmo na Cli-
matologia Geográfica Brasileira, de 2002, é que Zavattini se aprofundará
na obra de Monteiro, a tal ponto, que afirma: “o conhecimento integral
e compreensão de minha obra, considero o Professor Zavattini um ‘dis-
cípulo’ indireto, posto que nunca foi meu aluno regular ou orientando,
mas pelo conhecimento e aplicação de minhas ideias em climatologia e
pelo fato de haver recebido orientação do meu colega e amigo Augusto
Titarelli” (MONTEIRO, 2004, p. 6 in prefácio ZAVATTINI, 2004).
No corpo de sua tese, que mais tarde será publicada em livro – Os es-
tudos do Clima no Brasil, em 2004, Zavattini realiza uma radiografia dos
estudos climáticos que adotaram (ou não) as proposituras de Monteiro,
permitindo-lhe afirmar, tal qual Mendonça (1994), que Monteiro criou
uma escola brasileira de climatologia (ZAVATTINI, 2013). Nesse sentido,
percebemos que, para o bem ou para o mal, o geógrafo Carlos Augusto
de Figueiredo Monteiro está presente em todas as análises do desenvolvi-
mento da climatologia brasileira, assim como nos estudos empíricos, seja
na contestação ou na adoção. Monteiro, assim, não só é uma raiz, mas
também uma nervura. De acordo com o próprio Monteiro:

De minha parte, angustia-me, passado algum tempo de minha atuação


universitária, perceber ex-alunos a repetir aquilo que fiz há um quarto
de século atrás. Com novos e mais eficientes instrumentos e técnicas de
análise, gostaria que, munidos destas facilidades, os meus possíveis dis-
cípulos “ultrapassassem” aquilo que pude realizar (MONTEIRO, 1995,
p. 141).
78 TEORIAS NA GEOGRAFIA II

Percebemos que Monteiro reconhece o movimento próprio da ati-


vidade científica, que é, justamente, a busca pelo adiante. Acontece que
essa “ultrapassagem” pode se dar de diferentes formas, de modo que
“alunos regulares e até mesmo orientandos após a titulação tornam-se
detratores – às vezes inimigos”, argumenta Monteiro (2013, p. 142 in
posfácio ZAVATTINI, 2013).
Um outro braço que parte de Ab’Sáber é o geógrafo Gil Sodero de
Toledo, sobre o qual já comentamos anteriormente. Seus orientandos,
presentes na constelação, se distribuem em temáticas outras, distintas
das do clima. Distribuindo-se em investigações do conceito de natu-
reza e paisagem (LOURENÇO, 1996; CARDOSO, 1999), dos livros di-
dáticos de Delgado de Carvalho (SCABELLO, 2004) à análise do dis-
curso cartográfico (FONSECA, 2004), todas voltam-se ao ensino da
geografia, ainda que ligadas à discussão histórica e conceitual do saber
geográfico. Sodero teve orientandos em climatologia (SAKAMOTO,
1995; FERREIRA, 2002), porém são estudos de carácter empírico.
Na climatologia produzida no Brasil, o papel do ritmo é inegável e a
figura de Monteiro como articulador da análise rítmica é incontestável.
Havia atividades em laboratório, publicações, diversos orientandos. Em
outras palavras, ocorreu uma sistematização e promoção de metodolo-
gias e de proposições teórico-metodológicas. Criou-se um programa de
pesquisa. Esses elementos não impediram que críticas e revisões fossem
realizadas, como constatamos em algumas dissertações e teses – e não
as abolimos, mas as articulamos em uma constelação.
Conceitos como o de ritmanálise, propugnado por Tarifa (2002)
através da obra lefebvreviana, tal qual Sette (2000) com o holorritmo,
permitem observar o desenho de outras propostas – como bem se revela
no programa, também em marcha, lançado por Sant’Anna Neto (2001)
através da Geografia do Clima, firmando um outro umbral para a in-
vestigação climática. Esses fatores colidem com o debate ontológico da
existência do clima, ainda não acabado.
As raízes dos estudos climáticos revelam uma condição rizomática,
surgindo em vários lugares e tempos. Assim como sociedades diversas,
a observação do tempo e do clima é próprio do humano. Reconhecer
as condições do possível é um processo de ampliação do nosso conhe-
cimento. Do mesmo modo, não se pode cair na armadilha de pensar a
As Manifestações da Natureza e as Teorias na Geografia Física Brasileira 79

ciência e a razão científica como meros ingredientes de um certo todo.


Rastrear as figuras representativas que edificaram os campos do saber é
um exercício ad infinitum, próprio do decorrer histórico. Sempre have-
rá mais um, descoberto na dinamicidade das contestações sobre outras
contestações.

Considerações finais

Como pudemos observar, os temas de pesquisa caminham em diferen-


tes direções, por diferentes pessoas e, mais do que isso, em diferentes
lugares. A raiz que tem na USP sua germinação não responde sozinha
a questão da geografia brasileira; novas universidades foram incorpo-
rando os geógrafos e formando outros coletivos de produção do saber
(Santa Cataria, Paraná, Interior Paulista, para mencionarmos algumas
localidades). O próprio mundo relaciona-se com as pesquisas. A circu-
lação das ideias e das teorias estão em uma fricção contínua. As raízes
também não se furtaram desses processos – elas, também, são produ-
tos do mundo; mas nem por isso podemos destituí-las na abundância
dos processos. O nosso fio condutor foi a relação de orientação entre
os geógrafos, caminho que escolhemos para percorrer o labirinto das
ideias referentes a forma e o clima, rastreando os embates teóricos e
ideias nucleares. Deixamos outros universos de fora de nossa análise,
optando apenas pela atividade de alguns poucos geógrafos que tiveram
no clima e a forma o sentido de suas trajetórias acadêmicas. Ainda que
alguns desviaram-se a outras dimensões, criando novas dinamicidades
em outras constelações, o vínculo de orientação jamais é rompido por
completo.43

43 Quando falamos em vínculo de orientação, não estamos pensando na mera aceitação


das ideias do orientador, mas também na relação de resistência e de negação. Orientação
de pesquisa não é sinónimo de adoção de ideias daquele que orienta sobre o orientado,
conforme argumenta Harold Bloom (1997, 2001).
80 TEORIAS NA GEOGRAFIA II

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