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By CL Leis Da Tentação (Saints of Denver Livro 2) - Autor Jay Crownover

O documento é uma introdução ao livro 'Leis da Tentação', que explora a vida de Avett, uma jovem que enfrenta as consequências de suas péssimas escolhas. A autora, Jay Crownover, reflete sobre suas próprias experiências e como elas se conectam à história da protagonista, enfatizando a importância de aprender com os erros. O texto também destaca a complexidade das personagens e a busca por compreensão e redenção.

Enviado por

Kairen Lisliely
Direitos autorais
© © All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
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O documento é uma introdução ao livro 'Leis da Tentação', que explora a vida de Avett, uma jovem que enfrenta as consequências de suas péssimas escolhas. A autora, Jay Crownover, reflete sobre suas próprias experiências e como elas se conectam à história da protagonista, enfatizando a importância de aprender com os erros. O texto também destaca a complexidade das personagens e a busca por compreensão e redenção.

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Table of Contents

1. Leis da tentação

2. Folha de rosto

3. Créditos

4. Dedicatória

5. Introdução

6. Citação I

7. CAPÍTULO 1

8. Citação II

9. CAPÍTULO 2

10. CAPÍTULO 3

11. CAPÍTULO 4

12. CAPÍTULO 5

13. CAPÍTULO 6

14. CAPÍTULO 7

15. CAPÍTULO 8

16. CAPÍTULO 9

17. CAPÍTULO 10

18. CAPÍTULO 11

19. CAPÍTULO 12
20. CAPÍTULO 13

21. CAPÍTULO 14

22. CAPÍTULO 15

23. CAPÍTULO 16

24. CAPÍTULO 17

25. CAPÍTULO 17.5

26. CAPÍTULO 18

27. CAPÍTULO 19

28. EPÍLOGO

29. NOTA DA AUTORA

30. PLAYLIST

31. AGRADECIMENTOS

32. Sua opinião é muito importante

Landmarks

1. Cover
TÍTULO ORIGINAL Charged: A Saints of Denver Novella

© 2016 by Jennifer M. Voorhees

© 2017 Vergara & Riba Editoras S.A.

EDIÇÃO Paolla Oliver

EDITORA-ASSISTENTE Sandra Rosa Tenório

PREPARAÇÃO Luciana Soares da Silva

REVISÃO Juliana Bormio de Sousa

DIREÇÃO DE ARTE Ana Solt

CAPA, PROJETO GRÁFICO E EPUB Pamella Destefi

IMAGEM DE CAPA CURAphotography / shutterstock.com

Dados Inte rnacionais de Catalogação na Publicação (CIP)

(Câmara Brasile ira do Livro, SP, Brasil)

Crownover, Jay

Leis da tentação [livro eletrônico] / Jay Crownover; tradução Cassandra


Gutiérrez. ‒ São Paulo: Vergara

& Riba Editoras, 2018. ‒ (Série saints of Denver)

1,3 Mb; ePUB

Título original: Charged: a saints of Denver novella

ISBN 978-85-507-0182-0

1. Ficção erótica 2. Ficção norte-americana I. Título. II. Série.


18-12428 CDD-813

Índice s para catálogo siste mático:

1. Ficção: Literatura norte-americana 813

Todos os direitos desta edição reservados à

VERGARA & RIBA EDITORAS S.A.

Rua Cel. Lisboa, 989 | Vila Mariana

CEP 04020-041 | São Paulo | SP

Tel.| Fax: (+55 11) 4612-2866

vreditoras.com.br | [email protected]

Dedicado à única pessoa que segurou minha mão em todas as minhas piores

decisões e me incentivou em todas as minhas decisões incríveis... este livro e

esta história sobre escolhas ruins que resultam nas melhores coisas da vida

é para você, mãe.

Você é a melhor mãe do mundo e, em todos os erros que cometi, em todas as

decisões ruins que tomei cegamente, você estava ao meu lado para juntar

meus cacos.

Por sorte, tenho mesmo algumas histórias muito incríveis para contar,

agora que tudo acabou e todas as tempestades passaram. Mas nada me

deixa mais feliz do que saber que nenhum desses contos de alegria e

sofrimento teria um final feliz se eu não pudesse compartilhá-los com você.


INTRODUÇÃO

ELA É IMATURA.

Ela é mimada.

Ela é irritante, nem um pouco legal.

Por que ela ganhou a própria história?

Sempre que surge uma personagem que parece não merecer uma história

própria ou alguma espécie de felicidade, é quando mais quero virar sua trama

de cabeça para baixo. Quero saber sua história mais do que tudo e me

aprofundar no que pode haver nela além do que enxergamos à primeira vista.

Aconteceu com Asa e com Avett no mesmo instante em que ela apareceu na

página. Sempre quis que a filha de Brite tivesse uma história só dela, mas não

fazia ideia de quanto essa história seria multifacetada, complexa e difícil.

Tudo bem, a menina é um furacão, e ficar assistindo a tempestade quebrar na

praia rendeu algumas das páginas preferidas que escrevi até hoje. Nunca

começo uma personagem determinada a fazer o leitor gostar dela. Mas espero

que, no fim da jornada, o leitor a entenda e, talvez, até simpatize um pouco

com ela… E, ei, se você acabar gostando da personagem da qual tinha tanta

certeza de que odiava… ponto pra mim <3 (estou olhando para você, Melissa

Shank!).

Acho que Avett é a personagem que mais reflete a pessoa que eu era em
certo ponto de minha vida. Enquanto escrevia, não parava de me encolher
toda

e pensar “é… já passei por isso”. E agora, definitivamente, tenho uma


história

para contar sobre essas escolhas e suas consequências. Às vezes, a história é a

melhor parte de fazer merda. Sério, não importa quem somos ou o que

passamos na vida. Todos temos uma história para contar. Sinto isso por todas

as minhas personagens. Mas, por algum motivo, senti mais ainda por Avett e

por Quaid.

Quando eu tinha 22 anos, tomei um monte de decisões questionáveis: a

respeito de homens, dinheiro, estudo e do meu futuro em geral. Precisei ser

resgatada (pela família, não por um cara bonito, o que foi uma total pena para

mim!), e todos poderiam pensar que eu havia aprendido a lição, porque eu

tinha certeza de que aquele era o ponto mais baixo da minha vida. Flash

forward para quando eu tinha 30 e poucos anos, quando tudo desmoronou de

novo por causa de minhas péssimas escolhas e de minha cabeça-dura imbecil.

Lá estava eu, pela segunda vez na vida, precisando ser salva, com mais

histórias para contar, e tendo aprendido duras lições (essa história envolve Na

sua pele – Rule ser publicado, mudando toda a minha vida. Então, apesar de

ter começado com um coração partido, acabou com um sonho virando

realidade).
Por isso, ponham a cara ao sol e façam merda. Tenham experiências e

histórias para contar e façam isso sem arrependimentos.

Lembranças e erros são belos e importantes do seu próprio modo.

Com amor e tattoos,

Jay

Tudo o que é realmente perverso começa na inocência.

— Ernest Hewingway

CAPÍTULO 1

Avett

“NÃO SE PREOCUPE, FADINHA, PÉSSIMAS ESCOLHAS SEMPRE


RENDEM ÓTIMAS

histórias…”

Eu podia ouvir a voz rouca e bem-humorada de meu pai falando no meu

ouvido. Enquanto eu crescia, ele sempre me dizia essas palavras ao me pegar

fazendo algo que não devia. Naquela época, eu sempre estava fazendo algo

que não devia e ouvia muito isso dele. Infelizmente, depois de adulta, minhas

péssimas escolhas resultaram em consequências bem piores do que um joelho

ralado ou um pulso quebrado por ter caído da árvore do quintal, aquela que

meu pai tinha avisado várias vezes que não era forte o suficiente para eu
subir.

É triste, mas ter meu pai me tranquilizando do seu jeito firme e carinhoso, me
chamando de “fadinha” enquanto beijava meus dodóis, não ia me ajudar em

nada na situação em que eu me encontrava.

Era um dodói bem grande.

Era um dodói daqueles que mudam a vida da gente.

Era um dodói que estava bem longe de ser uma ótima história para contar.

Era um dodói que podia muito bem acabar comigo, acabar com a paciência

dos meus pais, que estava por um fio há anos, e podia muito bem acabar com

qualquer esperança de futuro que eu pudesse vir a ter. Um futuro que eu


estava

prestes a arruinar graças a uma vida inteira de péssimas escolhas e decisões

ainda piores. Eu tinha acabado de fazer 22 anos, mas as péssimas escolhas já

eram uma espécie de marca registrada, que eu conhecia tão bem quanto meu

próprio rosto. Àquela altura, já havia virado quase uma lenda, por confiar

plenamente no pior tipo de pessoa que existe. Se houvesse um caminho


errado

a seguir, eu o seguiria dando pulinhos de alegria, sem olhar para trás, até me

encontrar exatamente no tipo de situação em que me encontrava naquele

momento. Não podia nem dizer que aquele era um novo beco sem saída:

tratava-se do mesmo no qual esbarrei tantas e tantas vezes. Por mais que

tentasse, não conseguia sair do lugar. E, quanto mais andava em círculos

naquele beco sem saída, mais sombrio e perverso ele se tornava.


Eu já sabia disso, sabia mesmo, apesar de haver uma montanha de

evidências contradizendo esse fato.

Eu não era burra, ingênua, imatura nem insensata. Podia até parecer assim

para quem me visse de fora, mas tinha meus motivos para ser um fiasco

consumado, para ter uma vida inteira só de fracassos. Todos esses motivos
não

tinham nada a ver com o fato de eu não saber das coisas e tudo a ver com eu

saber exatamente o que merecia.

Havia muito tempo que eu vinha perdendo o controle, rodopiando, caindo

cada vez mais fundo em um poço de atitudes realmente terríveis e suas

consequências, uma pior e mais dolorosa do que a outra. E eu também não

fazia o menor esforço para sair do olho do furacão. Sabia que o único lugar

onde ia parar seria exatamente ali, bem no fundo do poço mais fundo. Nunca

imaginei que a aterrissagem seria tão retumbante.

Fazia muito tempo que eu precisava de alguém para me salvar. E, naquele

momento, precisava mesmo, porque estava correndo um risco muito real de ir

para a cadeia, na frente de um advogado muito real vestido em um terno

impecável, enquanto estava sentada, tremendo, algemada, engasgando no


meu

próprio medo. Nunca, nem em um milhão de anos, poderia imaginar que a

minha salvação viria na forma de um homem como aquele que estava sentado
na minha frente. Que tinha cara de tentação e perdição, não de salvação e

redenção.

Eu não era culpada do que diziam que eu tinha feito, mas também não era

exatamente inocente. Infelizmente, essa é a história da minha vida. Sempre


fui

a garota que não era muito boa, a que era má a ponto de ser um problema, e o

homem sentado na minha frente não parecia ter a tolerância nem a paciência

necessárias para lidar com o caos em que eu sempre me afogava.

Entrelacei meus dedos tensos e me esforcei para não me encolher toda – ou

pior: cair no choro – quando as algemas em volta dos meus pulso bateram,

fazendo um barulho alto, na mesa de metal que me separava do homem que

devia estar ali para salvar o dia… para me salvar. Ele me disse seu nome, mas

não conseguia me lembrar. Havia me transformado em uma pilha de nervos e

confusão, e o cara não estava me ajudando a controlar a ansiedade. Eu


também

estava sem dormir e apavorada com o que me esperava depois que aquela

reunião acabasse. Meu futuro sempre foi incerto. Tinha fundações instáveis,
na

melhor das hipóteses. Mas, naquele momento, ansiava por uma fundação

trêmula e morria de medo de que minhas péssimas escolhas mais recentes

tivessem, por fim, me levado a uma situação da qual eu não poderia me livrar
mentindo, trapaceando, roubando ou manipulando.

O advogado estoico e absolutamente lindo sentado na minha frente não se

parecia com nenhum cavaleiro que eu já tivesse visto. Era esperto demais
para

isso, muito calculista em seu jeito de me olhar, me julgando em silêncio. Não,

aquele homem não era o bonzinho da história que chegaria em seu cavalo
para

salvar a donzela e provar ser um herói; era o cara para quem vilões pagavam

uma fortuna para livrá-los da cadeia. Apesar de tudo o que fiz, nunca me

considerei uma vilã. Sabia que era da turma dos malvados, mas não uma

criminosa devassa e imoral que quisesse fazer mal a qualquer pessoa que não

fosse eu mesma. Mesmo assim, sob o escrutínio do incomum olhar azul

metálico daquele homem, que não tinha uma gota sequer de carinho ou de

consolo, eu estava começando a repensar esse conceito. Diante dele eu me

sentia indo de encontro à devassidão e à desgraça e ainda não havia

pronunciado uma palavra sequer. Eu jamais tinha feito algo tão ruim ou tão

imbecil a ponto de precisar de um profissional para defender minhas atitudes,

e era difícil acreditar que aquele cara dava a mínima para o fato de eu ser ou

não inocente.

Eu só queria fugir dele e fingir que estava em qualquer outro lugar do

mundo que não fosse aquela salinha, com a mesa de metal parafusada no
chão

nos separando. Mexi as mãos de novo e não consegui deixar de me encolher e

tremer quando o metal das algemas raspou no metal da mesa. O fundo do


poço

ia me deixar com mais do que apenas machucados se eu conseguisse sair dele

e sacudir a poeira. Ia deixar uma cicatriz feia e profunda, e eu odiava merecer

cada uma dessas marcas dolorosas.

– Não quero ouvir sua história – suas palavras foram curtas e grossas.

Pisquei surpresa ao ouvir o som de sua voz rouca ecoar naquela salinha

inóspita.

– Não me interessa se você sabia ou não o que seu namorado estava

fazendo. Não ligo. Só quero saber se você entende do que está sendo acusada

e a gravidade dessas acusações. Se a resposta for “sim”, preciso saber se

você está disposta a fazer tudo o que eu mandar para seguir adiante.

Será que eu entendia quão graves eram as acusações?

Será que esse cara estava brincando comigo, porra?

Eu estava algemada, usando um macacão alaranjado e sapatos de borracha

que guinchavam quando eu andava. Eu não dormia há dois dias, porque,

depois de tudo o que aconteceu na noite em que fui presa e fichada, me

trancaram em uma cela com uma mulher tão louca que não parava de ver

Gremlins saindo do chão e, como resultado, não parava de pular nos beliches
presos na parede de concreto da cela e quase me pisoteou. A outra mulher na

cela estava ali porque havia tentado atropelar o marido traidor com a van da

família, após pegá-lo na cama com a vizinha de porta. Naquele momento, ele

estava na sala de jantar da casa, então a mulher não só berrou, louca de raiva,

mas também delirou até o Sol raiar, falando sem parar que era melhor seu

marido infiel ter falado com a companhia de seguros para consertar os danos

que ela havia causado. A mulher era louca de pedra e, quanto mais eu tentava

ignorá-la, mais determinada ela ficava a me contar toda a história de sua vida.

É, Águia da Lei, eu tinha muita noção de quão graves eram as acusações e

estava me cagando de medo do que poderia acontecer se fosse condenada por

elas.

Levantei as mãos algemadas e as soltei em cima da mesa para deixar bem

claro, de forma bem ruidosa, minha posição. O homem sequer bateu um


único

dos seus cílios ridiculamente longos, mas sua boca se apertou de leve. Era

uma boca bonita. Ele todo era bonito, de um jeito ou de outro, e fiquei

imaginando se, quando saía daquela salinha industrial, se sacudia como um

cachorro molhado para se livrar da sensação e do miasma de crime, sordidez

e péssimas escolhas. O cara parecia ser do tipo que nunca, jamais, dava um

passo em falso. Exalava segurança, autoconfiança e arrogância, como um

perfume caro criado e embalado especialmente para ele. Isso deveria me


tranquilizar, me fazer acreditar que aquele advogado ia cuidar de tudo, que eu

estaria em casa, em segurança, na minha própria cama, logo, logo. Mas, em

vez disso, me deixava frágil, ainda pior do que já estava. Eu era um desastre,

isso já era bem ruim… Mas ter uma testemunha desse desastre, uma

testemunha tão controlada e imperturbável quanto aquele homem… Bem,


isso

tornava as consequências da minha última escolha errada cem vezes piores.

Aquele cara não era do tipo que corre atrás de uma péssima escolha depois

da outra. Na verdade, ganha a vida nos salvando. Nós, os reles mortais que

fazem isso. E devia ser uma vida muito boa, se é que o Rolex em seu pulso e
a

caneta Mont Blanc que ele batia sem parar na pasta à sua frente queriam dizer

alguma coisa.

– Entendo que a situação é bem séria – falei baixinho, com a voz fraca,

naquela sala vazia. Inclinei a cabeça para o lado, e continuamos nos medindo.

– Foi meu pai que contratou você?

Eu tinha vontade de segurar a respiração enquanto ele respondia, mas não

consegui fazer meus pulmões funcionarem como eu queria. Não conseguia

fazer nada funcionar como eu queria.

Eu era uma bosta. Um fiasco, um desastre. Uma desgraçada, uma

manipuladora. Era uma encrenca terrível em cima da outra, e, apesar de tudo


isso, meus pais, na maioria das vezes meu pai, sempre se dispuseram a catar

meus caquinhos. Ele me perdoou. Me desculpou. Me limpou e me ofereceu a

mão tantas e tantas vezes. Ele me amou quando eu não queria ser amada. Ele

estava sempre a meu lado. Mas não desta vez.

“Péssimas escolhas sempre rendem ótimas histórias, fadinha.”

As palavras do meu pai brigavam umas com as outras, girando

freneticamente em minha cabeça, enquanto eu me sentia escorregar um pouco

mais, cair um pouco mais, e me dava conta de que este … este era meu

verdadeiro fundo do poço. Aquele homem que alegava ser meu advogado de

defesa sacudiu sua cabeça morena.

– Não. Na verdade, foi um antigo cliente que entrou em contato e me pediu

para ser seu advogado. Ele pagou meus serviços à vista e disse que qualquer

outro valor que surja enquanto estiver cuidando do seu caso deve ser cobrado

dele. Fui contratado antes de a polícia fichar e prender você.

Meu pai não estava ali para beijar meu dodói daquela vez. Não estava

esperando na lateral do campo para sacudir minha poeira e falar que tudo ia

dar certo. Não daquela vez. Eu tinha ido longe demais. E ter que passar uma

noite miserável e incômoda com uma drogada esquisita e uma mãe suburbana
e

psicopata não tinha nada a ver com o medo gelado que subia por minha

espinha, vértebra por vértebra, só de pensar que eu finalmente tinha feito algo
que Brite Walker não ia perdoar. Sabia que isso aconteceria um dia. Sabia
que

até meu pai, o ex-fuzileiro, motoqueiro grande e durão que andava de Harley

Davidson, tinha seus limites. Eu abusara sem parar, tentando ultrapassar esses

limites a vida inteira. Sempre pensei que, quando esse rompimento ocorresse,

faria um grande bum. Esperava uma explosão capaz de arrasar a cidade de

Denver. O fato de mal ser um gemido, um sussurro indicando que um homem

bom estava de coração partido, me fazia sentir ainda pior do que eu já estava.

Não tinha ideia de como isso era possível, mas afundei ainda além do que o

fundo do poço. Aquilo era uma enchente de sofrimento e desespero, e eu

estava submersa até o pescoço nela.

Pisquei para segurar as lágrimas e levantei o queixo para o advogado.

– Quem está pagando você?

A minha mãe me ama. Tem um coração enorme feito de marshmellow, mas

chegou a seu limite comigo muito antes do meu pai. Eles se separaram
quando

eu estava no Ensino Médio, logo antes de um dos momentos mais decisivos


da

minha juventude. Meu pai veio correndo como sempre e tentou fazer a

separação me afetar o menos possível. Minha mãe, de distante e confusa,

começou de fato a evitar contato comigo. Nunca soube direito se ela se


forçou
a se afastar de mim porque as coisas eram muito fáceis entre mim e meu pai
ou

porque eram muito difíceis entre mim e ela. De qualquer modo, a tensão no

nosso relacionamento não ajudou em nada a queda rápida que começou a me

engolir quando me dei conta do tipo de pessoa que eu era.

Uma pessoa má.

Uma pessoa culpada.

Uma pessoa egoísta.

Poderia até ser considerada uma pessoa perigosa, se perguntassem para as

pessoas certas, que não estariam de todo erradas. É impressionante como não

fazer nada pode ser arriscado. Já tive resultados até mais desastrosos do que

quando fiz algo errado… Pelo menos, até agora.

A voz culta e suave do advogado me tirou de meus pensamentos sombrios.

– Asa Cross. Ele, uma das vítimas da tentativa de assalto à mão armada do

seu namorado. A outra foi uma policial de folga. Então, não é de surpreender

que eles tenham fichado e prendido você quase imediatamente. Além disso, a

polícia de Denver protege seus integrantes, então ninguém está disposto a


fazer

nenhum favor para você e seu namorado.

Me encolhi toda quando ele falou em Jared.

Jared, o cara que escondeu de mim não apenas o fato de ele ser seriamente
viciado, mas também bastante envolvido no tráfico de drogas da cidade até eu

estar tão presa, pensando que o amava, que não conseguia sair daquela

situação.

Jared era o castigo perfeito para uma garota que não conseguia tomar jeito e

não merecia nada além desse tipo de cara.

Jared também era o cara que havia fugido com o estoque de drogas e o

dinheiro do seu traficante, me deixando para trás para pagar o preço por sua

desonestidade e transmitir a mensagem de que seus contatos não estavam


nem

um pouco felizes com ele. Também era o cara que havia conseguido me

convencer de que a única maneira de ajudá-lo, de nos ajudar, era roubar do

único lugar onde sempre me senti em casa, acontecesse o que fosse. Ele me

convenceu de que roubar uns trocados não fazia a menor diferença, de que
era

um dinheiro que meu pai me devia, uma vez que tinha entregado seu bar, seu

meio de subsistência, sem pensar no que isso significava para mim. Jared era

bom com as palavras quando não estava chapado, e, como sempre, me joguei

de cabeça na opção errada. Só que os punhados de dinheiro tirados da caixa

registradora não chegaram nem perto do valor que ele estava devendo.

Como eu disse, não sou burra nem ingênua, então deveria ter adivinhado,

quando o cara me disse que precisava passar no antigo bar do meu pai, onde
eu costumava trabalhar, que ele estava aprontando alguma. Jared sempre

estava aprontando alguma e, cada vez mais, isso deixava marcas nos meus

braços, na minha pele e nas minhas pernas. Ele percebeu rapidinho que,
apesar

de eu estar sempre decepcionando as pessoas que me amam, elas ainda se

importavam comigo, sempre se importavam comigo e não gostavam nem um

pouco de me ver por aí de olho roxo e bochecha inchada. Então não voltou a

bater na minha cara depois que Church, o novo segurança do bar, nos seguiu

até o carro uma noite e fez algumas sugestões bem claras do que aconteceria

com ele se eu aparecesse com jeito de quem havia levado outra surra.

Viciados são imprevisíveis, mas sabem esconder o que fazem de errado, o


que

não querem que os outros saibam. Então Jared ainda fazia suas maldades

comigo, mas havia ficado mais habilidoso em esconder as evidências, e eu


me

afastava ainda mais das pessoas que se importavam comigo para não precisar

dar mais desculpas. Eu não tinha como explicar por que continuava com ele
ou

por que achava um cara como Jared o tipo de pessoa com quem eu deveria

estar. Eu sabia o porquê, mas isso não significava que iam entender meus

motivos, afinal apesar de tudo, eles se preocupavam comigo, mesmo eu

sabendo que não merecia. O advogado não queria saber da minha história…
O

que era bom, pois eu tinha a sensação de que ia me despedaçar toda vez que

era obrigada a contá-la.

– Por que Asa o contrataria para me defender? O sujeito me odeia.

E com toda razão. Dei ao conquistador sulista maravilhoso e lindo mil

razões muito boas para me odiar no curto período em que convivemos. Não

consigo imaginar por que ele se daria ao trabalho de me ajudar. Ele não faz o

tipo carinhoso e efusivo, nem quando está de bom humor.

O advogado levantou uma das sobrancelhas douradas e se encostou na

cadeira. Soltou a caneta cara em cima da pasta à sua frente e ficou me

observando de olhos espremidos. Esse sujeito tinha transformado a indagação

silenciosa e a intimidação em uma forma de arte. Parecia saber bem o que me

provocava e exatamente por que eu havia feito o que fiz só de me olhar. Não

estava acostumada a ninguém ter esse tipo de percepção a meu respeito,


muito

menos um homem que, obviamente, vinha de um mundo diferente do meu.

– Considerando sua situação atual, você não deveria simplesmente ficar

agradecida por ele ter feito isso?

Me assustei um pouco com seu tom de censura.

– Só estou um pouco confusa.

– Que bom. É isso que quero que você diga a todo mundo que perguntar o
que aconteceu naquela noite. Você estava confusa. Você não entendeu o que

estava acontecendo. Seu namorado a coagiu e mentiu para você. Você não
fazia

ideia dos planos dele para aquela noite.

Eu me remexi naquela cadeira dura como pedra, e todas as correntes que

me prendiam fizeram barulho de novo.

– Tudo isso é verdade. Eu não sabia o que ele tinha planejado fazer naquela

noite. Jamais teria entrado no carro com Jared se ele tivesse me contado que
ia

assaltar o bar.

Mas tive certeza, assim que reconheci o caminho que estávamos tomando,

de que alguma coisa ruim ia acontecer e não fiz nada para impedir… de novo.

Eu poderia ter pulado para o banco do motorista e ido embora. Teria sido

muito fácil. Poderia ter posto o carro na primeira marcha e dirigido sem parar

até a gasolina acabar e eu chegar a algum lugar bem longe do pesadelo em


que

estou presa. Poderia ter saído do carro, entrado no bar e implorado para Jared

parar. E poderia ter pego meu celular, ligado para a polícia e dito que meu

namorado drogado estava chapado, devia um monte de dinheiro a uma gente

perigosa e estava tentando roubar o bar que salvou a vida do meu pai e
sempre

foi um porto seguro para mim.


Tantas opções boas, tantas escolhas certas que eu poderia ter feito e, mesmo

assim, só fiquei sentada no carro esperando. Sabia que a casa ia cair. Sabia

que alguém ia se machucar e não fiz nada. O nada era a pior das opções,
então

é claro que isso me abraçou como um cobertor de chumbo. Eu estava


sufocada

por tudo que poderia e deveria ter feito, mas foi o nada que ganhou. É o nada

que me define. É o nada que me domina, que me rege. É o nada que me

assombra, que me persegue. O nada me fez passar a vida inteira tentando me

arrepender e superar, mas o nada sempre vence.

Alguns instantes depois, enquanto ainda lutava contra o nada do passado e o

nada paralisante daquele momento presente, fiquei com a cara grudada no

asfalto do estacionamento, na frente do legado do meu pai, sendo presa como

cúmplice de assalto à mão armada e, de acordo com o policial muito bravo

que me enfiou no banco de trás da viatura, encarando uma pena de três a


cinco

anos de prisão, se fosse condenada.

– Já disse que não estou interessado na sua história. Seu namorado está no

hospital, baleado, mas já está fazendo uma ladainha que aponta você como

mandante do assalto. Ele está pintando você como uma filha vingativa, com

raiva porque o negócio da família foi passado a outra pessoa. Alega que você
usou o relacionamento de vocês para manipulá-lo e convencê-lo a assaltar o

lugar, para dar uma lição em seu pai. Considerando que a ficha criminal do

rapaz tem uns oito metros de comprimento, com um histórico de acusações


por

drogas, ele não é muito confiável. Mas, até aí, você também não.

O advogado bateu o dedo indicador na pasta, e eu só pude suspirar. Aquela

pasta continha uma vida inteira de péssimas escolhas. Estava tudo ali, preto
no

branco, cada falha, cada terror, cada erro… bem na frente daquele homem

lindo com seu olhar frio e imperturbável.

Acho que nunca me senti tão exposta, tão desprotegida e indefesa na frente

de alguém. Não era uma sensação boa, e precisei de cada gota de


autocontrole

para não me retorcer de culpa ali, naquela cadeira.

– Tive uns probleminhas aqui e ali, mas nunca havia sido presa.

Minha afirmação soou defensiva e infantil. Não entendi por que o cara não

se levantou e saiu daquela sala sem olhar para trás. Acho que é isso que eu

faria se estivesse no seu lugar… Não que algum dia eu tivesse tido

competência para estar no lugar dele. Aquele homem era o extremo oposto de

tudo o que eu conhecia. Acho que meu pai nunca teve um terno, e as únicas

vezes que o vejo de gravata, com um sapato que não é bota, é quando alguém
se casa ou é enterrado.

Aquelas sobrancelhas douradas se levantaram de novo, e o canto da sua

boca se abaixou em algo que poderia ser uma careta, se seu rosto não fosse
tão

extraordinário. Nele, parecia mais uma expressão de incômodo bem ensaiada.

Minha vontade era dar um chute na minha própria bunda por notar outras

coisas nele que não sua competência, dadas as circunstâncias. Ele era bonito,

isso me distraía, o que era irritante, porque eu precisava me concentrar no


meu

destino terrível, não em seus dentes perfeitos, nem em seus olhos azuis e

aguçados que me desarmavam.

– Inúmeras multas por beber ainda menor de idade, por embriaguez em

público, por dirigir embriagada recentemente, uma penalidade por roubo,

outra por invasão de propriedade, diversas acusações de agressão… Devo

continuar?

Sacudi de leve a cabeça e respondi:

– Não. Entendo que minha palavra não vai valer nada contra a de Jared,

porque nós dois somos igualmente pouco confiáveis. Nem eu nem ele
andamos

por aí com asas de anjo nas costas.

Quando eu disse isso, sua atitude gélida derreteu a ponto de os cantos da


sua boca subirem. Fiquei sem ar, de olhos arregalados, ao perceber quanto

aquela pequena mudança na sua expressão fazia ele passar de ridiculamente

bonito para uma coisa de outro mundo de tão atraente, tanto que meu cérebro

de reles mortal não conseguia absorver. Fiquei imaginando se ele ganhava

todas as suas causas porque as mulheres do júri ficavam tão cegas de desejo

que não ouviam nenhuma das evidências que o advogado apresentava. Como

isso poderia contar a meu favor, fiquei torcendo para que fizesse parte da sua

estratégia para me livrar da cadeia.

– Não é preciso asas de anjo nem auréola para convencer um júri ou um

juiz de que alguém é inocente. Você precisa me ouvir e ser mais crível do que

ele. Acho que fica bem óbvio que o sujeito está tentando puxar seu tapete. Vi

as imagens da câmera de segurança que os policiais pegaram no bar, e fica

claro que não estamos lidando com um indivíduo respeitável.

Se o advogado viu as imagens, então viu Jared segurar minha cabeça e

bater meu rosto contra o painel do carro quando eu disse que não ia participar

do que ele estava planejando fazer no bar. Sem perceber, levantei minhas
mãos

algemadas e esfreguei o galo entre meus olhos, que ainda estava alto. Eu não

tinha espelho para ver, mas os paramédicos da cena do crime declararam que

se tratava de um ferimento pequeno, apesar de a dor de cabeça ser bem

grande.
– Não, ele não é nem um pouco respeitável. É um viciado.

– Isso é algo horrível de dizer, mas conta, sim, a nosso favor.

O advogado pegou a caneta cara de novo e fechou a pasta. Se levantou com

um movimento ágil, e me encolhi toda na cadeira outra vez, tentando ficar o

menor possível. Quando os policiais me levaram para a salinha, ele já estava

sentado, e eu não esperava que ele fosse tão alto nem tão grande.

– A sua audiência de fiança é amanhã de manhã. O que, infelizmente,

significa que você vai ter que passar mais uma noite na cadeia. Contudo,
estou

confiante de que consigo soltar você, mas não vai sair barato. E também

preciso provar para o juiz que você tem para onde ir caso eles realmente lhe

concedam a fiança.

Ele me olhou com expectativa e só consegui encolher os ombros. Meu pai

não estava ali, e isso falava mais alto do que qualquer palavra que ele pudesse

me dizer.

– Eu estava ficando na casa de Jared. Mas é óbvio que não posso voltar

para lá. Quanto à fiança… – voltei a encolher os ombros – …não tenho

dinheiro e duvido que meus pais estejam dispostos a pagar a conta. Não sei se

estou preparada para pedir esse tipo de favor a eles.

Quaid espremeu os olhos sutilmente, pegou a papelada de cima da mesa e

enfiou em uma pasta de couro. Até sua pasta parecia cara e chique.
– Se o juiz determinar o valor da fiança e esse valor não for pago, você

ficará na cadeia até a audiência preliminar. Que pode levar semanas, meses

até.

Soltei um suspiro e senti que o fundo do poço em que eu tinha desabado

veio ao meu encontro, me apertando ainda mais.

– A situação é a seguinte: decepcionei muito meu pai e minha mãe ao longo

dos últimos anos, mas ser pega com um sujeito que roubaria o bar, um

indivíduo capaz de ameaçar os amigos do meu pai… – sacudi a cabeça e

completei: – Mereço apodrecer aqui.

Estava sendo dramática, mas era assim que me sentia. Eu merecia ficar

trancada na cadeia e coisas muito piores do que isso. Autopiedade era uma

boa companhia naquele lugar, no fundo do poço, e eu ainda não estava

preparada para abrir mão do conforto que ela me trazia.

O advogado me lançou um olhar que não consegui interpretar e foi até a

porta.

– Vou ligar para seus pais e ver se podemos arranjar alguma coisa ainda

hoje. O seu caso seria muito mais fácil, para nós dois, se você não estivesse

presa. Não se esqueça, você precisa me ouvir, srta. Walker. É a primeira regra

de toda essa situação.

Uma onda de pânico me atropelou, como se fosse um caminhão. E se o


advogado ligasse para meu pai, e ele dissesse que já estava cansado da filha

problemática e de suas bobagens intermináveis? E se meu pai não


conseguisse

mais me amar? Conseguiria sobreviver à cadeia; mas perder meu pai para

sempre, bom, seria meu fim.

Sem pensar, levantei de sopetão. As algemas nas minhas mãos e nos meus

pés fizeram um barulho alto, e dois guardas uniformizados entraram correndo

na sala. Eu estava prestes a tomar a pior decisão até então, mas não consegui

impedir que as palavras saíssem da minha boca.

– Não liga para meu pai!

– Perigo, seu nome é Avett Walker.

O advogado se virou e me olhou com espanto, como se eu tivesse duas

cabeças. Não disse nada, enquanto os policiais se posicionavam ao meu lado


e

diziam para eu me acalmar.

– Você não pode ligar para meu pai.

As palavras transmitiam todo o pânico e o desespero que eu sentia.

Ele levantou os ombros largos e os encolheu como se não ligasse a mínima

para o fato de estar prestes a foder com minha vida… O que queria dizer
muita

coisa, dado o local onde eu estava.


– Tenho que ligar – falou, parecendo entediado e sem paciência com meu

ataque.

Espremi os olhos, e aquele redemoinho de coisas horríveis, que sempre me

cercava, começou a girar cada vez mais rápido à minha volta.

– Então você está demitido – respondi.

Vi os guardas se entreolharem, e minhas palavras impensadas fizeram o

homem loiro se virar para mim.

– Não preciso da sua ajuda. Não quero nada vindo de você.

Finalmente pude detectar algo além de indiferença em seu olhar. Surpresa,

talvez uma ponta de admiração, misturada com uma boa dose de graça,

naquelas profundezas azuis.

– Desculpe, srta. Walker, mas não foi você que me contratou, ou seja, não

tem o direito de me demitir.

Aquele sorrisinho, que deveria entrar para a lista das armas letais, se

esboçou de novo, enquanto ele me olhava. E aí o advogado foi embora.

Olhei para o guarda que estava mais perto de mim e franzi a testa.

– Não é assim que as coisas funcionam, é? Se eu quiser outro advogado,

tenho direito a um, certo? O Estado vai designar outro profissional, não vai?

balbuciei, descontrolada.

O guarda não deu a menor importância:


– Não estamos aqui para dar conselhos legais, dona. Mas, de jeito nenhum,

se eu estivesse no seu lugar, despacharia o tal Quaid Jackson. Dizem que ele
é

capaz de livrar a morte de uma acusação de assassinato, se for necessário.

Quaid Jackson.

Fiquei bestificada com ele e com a situação. Não tinha como negar: sua

aparência e sua atitude tinham me deixado meio admirada. Seu nome, como o

homem que ele representava, era incomum, sofisticado e impossível de

esquecer. Ficou girando na minha cabeça, com um milhão de outras coisas

erradas que fiz para acabar naquela situação.

Depois que Quaid foi embora, os guardas tiraram as algemas dos meus

tornozelos, e me levaram até a cela. Soltei um palavrão baixinho, entredentes,

ao perceber que a menina dos Gremlins tinha ido embora, mas que a esposa

psicopata continuava lá. Estava sentada em um dos beliches, toda encolhida,

soluçando descontrolada. Parecia um animal sofrendo, e tive certeza de que


ia levar alguns minutos para minha cabeça começar a latejar por causa dos

barulhos que ela estava fazendo. Eu ia passar outra noite em claro, e não ia
ser

por pensar sem parar no que meu pai ia dizer quando o tal Quaid ligasse para

ele.
Lancei um olhar para o guarda à minha direita, que abriu a porta da cela.

Ele sacudiu a cabeça e murmurou, só para eu ouvir:

– O marido entrou com pedido de divórcio e mandou a conta do estrago do

carro e da casa. A noite aí na cela vai ser longa.

O que era um eufemismo.

Enquanto a porta gradeada corria atrás de mim, pus as mãos na abertura

para tirarem minhas algemas. Era uma coisa bem Orange Is the New Black,

mas bem menos divertido. Rezei mentalmente para não ter que ficar muito

mais tempo ali e traçar mais paralelos como esse.

Fui até o outro lado da cela minúscula e pressionei o ombro contra a parede

de cimento duro. Tirei um pouco do meu cabelo rosa desbotado do rosto e me

encolhi toda quando meus dedos roçaram o galo no meio dos meus olhos.

Suspirei de dor e cruzei o olhar com o da mulher à minha frente. Ela tinha os

olhos lacrimejantes e injetados.

Encostei a cabeça na parede e olhei o teto industrial, hipnotizada pela luz

fluorescente que zumbia acima de mim.

– Quando eu era pequena, meu pai costumava dizer que péssimas escolhas

rendem ótimas histórias. Ele me disse isso quando eu estava no hospital,

chorando, enquanto colocavam uma placa de metal em meu braço, depois de

cair de uma árvore na qual ele havia dito para eu não subir. Meu pai me falou
isso de novo quando destruí meu primeiro carro, após ele me avisar que eu

não estava preparada para dirigir no inverno. E voltou a falar isso quando me

pegou fumando meu primeiro cigarro, que me deixou mais enjoada do que
uma

grávida – inclinei a cabeça na direção da mulher, que ainda estava chorando,

só que em silêncio, enquanto me olhava atentamente, e completei:

– Ele tinha razão. Todas essas coisas imbecis que fiz, apesar de ele me

dizer para não fazer, renderam umas histórias bem boas ao longo dos anos, e

eu sempre gostei das cicatrizes, que não me deixam esquecer que papai

realmente sabe das coisas.

A mulher fungou alto e passou a mão no rosto molhado.

– Por que você está me contando isso? Não acho que eu ter entrado de

carro na minha própria casa irá um dia render uma boa história. Tenho
certeza

de que meus filhos não vão gostar de as minhas péssimas escolhas, muito

provavelmente, resultarem na mãe deles indo para a cadeia, e por um bom

tempo.

Virei a cabeça para o teto e me concentrei bastante até conseguir ouvir a

voz grave e rouca de Brite Walker sussurrando para mim: “pésimas escolhas

rendem ótimas histórias, Fadinha”.

Eu não estava contando aquilo para ela… Estava contando para mim
mesma, porque precisava ouvir… Naquele momento, mais do que nunca.

“Quem pode julgar os amantes?

O amor é uma lei para si mesmo.”

Boécio

#GênioDosLivros

Boa leitura!

Com os cumprimentos de Gênio Blomkvist.

CAPÍTULO 2

Quaid

TIREI A GRAVATA, QUE EU JÁ HAVIA AFROUXADO, DO PESCOÇO


E FECHEI A PORTA DO

meu loft com um chute. Atirei a pasta de couro aberta no sofá, que

ocupava quase toda a sala de estar, e soltei um palavrão ao ver que a pasta foi

direto para o chão. Não acertei por um milímetro. Meu laptop fez barulho
saindo pela aba e levando consigo a pasta do meu último caso do dia. Levei
as

mãos à cabeça, irritado, e soltei um suspiro de frustração.

Cheguei em casa horas antes do que planejara e estava sozinho, mais uma

coisa que eu não tinha previsto, porque ia a um encontro. A rejeição e o

subsequente pé na bunda de uma mulher que não era apenas bonita, mas tão

inteligente e bem-sucedida quanto eu, me deixou inquieto e à flor da pele.

Também estava mal-humorado e irritado por causa da frustração sexual e da

sensação desconhecida de me negarem algo que eu queria.

O que eu queria, naquele momento, era uma oportunidade de levar Sayer

Cole para a cama.

Eu era casado quando me apresentaram a deslumbrante advogada de

família, mas meu casamento estava prestes a desmoronar. Não estou mais

casado e, até onde sei, Sayer é a mulher perfeita para comemorar minha

solteirice recém-conquistada. Ela é maravilhosa e não precisa de mim para

nada. Ganha tanto quanto eu. Como já é sócia do escritório onde trabalha,
não

precisa do meu nome nem da minha reputação para avançar no campo do

Direito. E, como não se relacionou com ninguém desde que veio morar em

Denver, não preciso me preocupar com a possibilidade de ela acabar

grudando em mim, não parece ser seu estilo. Sayer não parece ser do tipo que
está à caça de um marido, o que é perfeito, porque não quero ser a presa de

ninguém. Me sinto muito mais à vontade no papel de caçador do que no de

presa, e nada me atrai mais do que uma mulher que não tem nenhum motivo

para arrancar tudo o que tenho. Sei que, apesar de ela parecer fria e reservada,

posso esquentá-la se conseguir tirar sua roupa e deixá-la embaixo de mim.

Eu deveria ter entendido a indireta na segunda vez em que Sayer desmarcou

comigo. As mulheres nunca me dão o fora. Na verdade, na maioria das vezes

elas ficam correndo atrás de mim, e sou eu que preciso dar o fora nelas,

porque estou ocupado ou entediado. Depois que meu divórcio saiu, transei

compulsivamente. Fiquei magoado e destruído por causa da traição da minha

ex, então óbvio que tentei empatar o placar e acalmar meu ego ferido com
uma

série interminável de parceiras de cama. Tentei trepar para compensar os anos

desperdiçados, o dinheiro perdido e meu coração partido. Logo de início,

ficou claro que mesmo as trepadinhas casuais queriam mais do que eu estava

disposto a oferecer.

Uma delas não quis ir embora na manhã seguinte, até eu ameaçar chamar a

polícia. Outra agiu como se esperasse ganhar um anel de noivado após passar

uma única noite comigo. Outra sumiu com meu relógio Tag Heuer preferido.

Outra apareceu no Tribunal depois de um dia intenso de julgamento querendo

saber quando íamos sair de novo. E teve uma que ligou para o principal sócio
do meu escritório, o sujeito que tem o nome na placa, e pediu uma entrevista

de emprego, alegando que eu a tinha indicado. Essa me obrigou a dar uma

explicação vergonhosa e manchou minha reputação quase ilibada no trabalho.

Queria meu nome naquela placa, como sócio, em um futuro próximo, e não ia

permitir que meu pau vingativo ou a raiva que sinto da minha ex atrapalhasse

essa possibilidade.

Parei de comer todo mundo, foquei em Sayer e fiquei esperando ela

concordar com meu plano. Só que a mulher não está interessada e me


mandou

andar. Fiquei frustrado e sem saber o que fazer. Não tenho um plano B,
porque

é muito raro eu precisar de um.

Fui até o sofá e atirei para trás a gravata de seda que segurava e, dessa vez,

acertei o alvo. Abaixei para pegar o computador e fiz careta ao perceber que

ele estava amassado no canto. Eu teria que comprar um laptop novo mesmo

que aquele ainda funcionasse. Não dá para eu andar por aí com um Mac

amassado. Não dá para eu ter nada amassado, mesmo que isso signifique
jogar

um bom dinheiro fora.

Recolhi os papéis espalhados da pasta de Avett Walker e me atirei no sofá.

Olhei para o relógio caro que tinha no pulso, mais um objeto que não era
nada
além de um desperdício de dinheiro, já que tenho um celular no qual posso
ver

as horas, e olhei de novo para a pasta. Ainda era cedo, e eu podia ligar para o

pai da menina, avisar que, se ninguém pagasse a fiança nem fornecesse um

endereço permanente para ela, a garota ia precisar encarar um belo tempo

atrás das grades, até marcarem a data da audiência preliminar. O sistema não

pega leve com quem ameaça um dos seus, e, como o assalto envolveu uma

policial à paisana, eu não ficaria surpreso se perdessem ou errassem a

papelada de propósito para impedir que ficássemos logo diante do juiz.

Bati com o dedão na foto preto e branco que tiraram ao ficharem a menina e

não consegui conter o sorriso.

Ela tentou me demitir.

Ela tem menos de um metro e meio, é uma vida mais nova que eu, com um

cabelo multicolorido que já teve dias melhores, olhos revoltos que não

conseguem decidir se querem ser verdes, dourados ou castanhos, usava

macacão laranja de presidiária, estava obviamente morrendo de medo e,

mesmo assim, tentou me demitir. Se fosse qualquer um dos meus outros

clientes – o policial acusado de agressão sexual, o universitário suspeito de

homicídio culposo por causa de uma aposta em um jogo de futebol americano

que deu errado, a professora do Ensino Fundamental acusada de pedofilia e


de
ter relacionamentos inapropriados com diversos dos seus alunos ou o jogador

profissional de futebol americano acusado de violência doméstica –, eu teria

tirado meu chapéu invisível, desejado boa sorte, me conformado com o

prejuízo e ido embora sem olhar para trás. As pessoas estão sempre

cometendo crimes. As pessoas estão sempre precisando de um bom


advogado,

cliente é que não me falta, mas aquela menina tinha algo especial. Algo no

modo desafiador com que levantava o queixo e no tom de puro desespero da

sua voz ao me implorar para não ligar para o seu pai.

“Não quero sua ajuda. Não preciso de nada vindo de você.” Parecia falar

sério, mas achei que ou era nova demais ou estava assustada demais para ter

certeza do que queria ou precisava. Mesmo assim, ouvir isso foi revigorante.

Todo mundo sempre quer tirar alguma coisa de mim, e a minha ajuda

normalmente é o último item da lista.

Bati outra vez na foto, me perguntando por que achei tão fácil acreditar que

a menina não fazia parte do plano do namorado para assaltar o bar. Ela não
era

nenhuma cidadã-modelo, e sua ficha corrida era prova disso. Era muito nova

e, francamente, muito adorável para ter uma ficha daquele tamanho. Pelo que

pude observar, também tinha pais sempre à disposição para salvá-la quando
se
metia em encrenca. Parecia uma fadinha colorida da floresta, saída de um

filme da Disney, com aquele cabelo esquisito e traços delicados. Nada disso

se encaixava, mas a sinceridade no seu tom de voz ao dizer que jamais teria

ido ao bar com o namorado se soubesse dos planos dele e o medo em seus

olhos quando citei seu pai me pareceram genuínos.

Faz tempo que aprendi a tratar todo mundo que me paga para ser defendido

como culpado da acusação. Não quero saber da verdade. Não quero saber

quais são as circunstâncias. Quero que meus clientes me ouçam e me deixem

fazer meu trabalho, que é tentar convencer o resto do mundo de que eles são

inocentes, mesmo que não sejam. Mas aquela garota, com cabelo rosa

desbotado e olhos turbulentos, exalava inocência pelas rachaduras de sua

máscara de culpada.

Como eu estava intrigado e acreditava mesmo que a garota podia ser

inocente, não ia permitir que ela me despedisse. Ia ligar para seu pai e torcer

para que ele a ajudasse a sair da cadeia, enquanto eu pensava em como fazer

para aliviarem as acusações ou retirarem todas. Como havia uma policial

envolvida e como seu namorado, viciado ou não, estava dando uma


explicação

bem plausível para o envolvimento de Avett no crime, não ia ser “mamão


com

mel ” – ainda. Eu ia ajudar aquela menina, ela querendo ou não.


Encontrei o contato de seu pai na pasta e tirei o celular do bolso. Se ele não

estivesse disposto a ajudá-la, ia ligar para Asa e ver que atitude meu antigo

cliente achava que eu deveria tomar. Não costumo aceitar casos baseado

apenas em indicações, mas gosto mesmo de Asa Cross, mais um dos clientes

que acreditei serem verdadeiramente inocentes, quando fui contratado para

defendê-lo. Se ele estava disposto a pagar meu preço que, admito, é bem alto,

para ajudar essa jovem, tenho certeza de que vai querer saber se ela for ficar

atrás das grades porque o paizinho querido não quis pagar a fiança.

Digitei um número na tela e continuei a olhar a foto granulada, me

perguntando por que não pedi para minha assistente ou um dos estagiários do

escritório ligar.

Uma voz grave resmungou um “alô” curto e grosso. Encostei a cabeça no

sofá, para olhar os canos expostos que cruzam o teto do loft, e perguntei:

– É Brighton Walker que está falando?

Ouvi um grunhido e, em seguida:

– Quem quer saber?

Quase dei risada. Aquela reação era tão distante do que estou acostumado a

ver nas pessoas que lidam comigo no dia a dia que foi uma bela surpresa.

– Meu nome é Quaid Jackson, estou ligando porque fui contratado para

defender sua filha.


Houve um instante de silêncio, seguido por um suspiro profundo que só

poderia ter vindo de um pai frustrado.

– Um dos meus rapazes te contratou.

Não foi uma pergunta, mas uma afirmação.

– Não sei se Asa Cross é um dos seus rapazes ou não, mas estamos

trabalhando juntos em uma situação que envolve o mesmo estabelecimento.

Ele me ligou assim que a polícia leu os direitos de sua filha e disse que, se eu

aceitasse o caso, dinheiro não seria um problema.

Um palavrão baixinho ecoou em meus ouvidos, seguido por mais um

suspiro profundo.

– Estava esperando Avett me ligar. Ela sempre liga primeiro para mim

quando se mete em encrenca. Minha filha foi acusada de alguma coisa?

Eu me remexi no sofá e apoiei o celular na bochecha.

– Foi, sim. Cúmplice de assalto à mão armada por ajudar em um crime

envolvendo arma de fogo e pela cumplicidade depois do fato consumado.

Algumas das acusações são aleatórias, só porque a polícia queria que ela

fosse logo fichada e presa. O fato de ter uma policial à paisana envolvida

complica as coisas.

– Royal – ele pronunciou baixinho o nome da jovem policial. – Fico feliz

que a única pessoa ferida tenha sido aquele vagabundo que minha filha
arranjou.

Apertei a ponta do nariz e respondi:

– Se a policial não estivesse lá naquela noite, não teria sido assim. O

namorado entrou armado e apontou para o sr. Cross. Essa situação poderia ter

resultado em algo muito pior.

O homem do outro lado da linha ficou em silêncio outra vez e então

murmurou:

– Tenho plena consciência do que poderia ter acontecido, sr. Jackson.

Me senti uma criança que leva um puxão de orelha por ter falado sem

permissão da professora. O que foi uma proeza impressionante. Raramente


me

sinto posto no meu lugar, e aquele homem conseguiu fazer isso só com seu
tom

de voz e umas poucas palavras muito bem escolhidas. Mais um vez, fiquei

imaginando como sua filha tinha saído tanto da linha apesar de ter tanto
apoio.

– Não posso lhe contar o motivo pelo qual Avett não ligou para o senhor, sr.

Walker, mas posso lhe dizer que a garota está muito encrencada. A audiência

da fiança é amanhã. E, apesar de eu ter certeza de que consigo soltá-la sob

fiança, não vai sair barato. O juiz não vai liberá-la se sua filha não fornecer

um endereço permanente, estável e seguro para onde possa voltar. Ele pode
até determinar prisão domiciliar, considerando a peculiar habilidade que ela

tem de se meter em encrenca. Nesse caso, Avett precisará dar um endereço

para registrar o monitor de calcanhar – fiz uma pausa para o sujeito absorver

todas as informações. – Ela disse que estava morando com o namorado.E é

bem compreensível que essa opção esteja fora de questão.

Ouvi um farfalhar do outro lado da linha, parecia que alguém estava

coçando o cabelo, só que com mais força.

– Então o senhor está me pedindo para pagar a fiança da minha filha e

trazê-la para casa, apesar de ela estar envolvida em um assalto à mão armada

que poderia ter ferido pessoas das quais eu gosto muito… ou coisa pior?

Depois de ouvir a questão posta dessa maneira, me pareceu um pedido

insano. Foi minha vez de suspirar.

– Se faz alguma diferença, Avett não queria que eu ligasse para o senhor.

Me pareceu que, se houvesse outra opção para impedir que ela fique atrás das

grades enquanto espera pela audiência preliminar, eu deveria tentar. Por sua

reação, presumo que sua filha não ligou porque sabia que seria uma perda de

tempo.

Não conhecia aquele cara, mal conhecia a garota, mas fiquei estranhamente

decepcionado com aquela reação. Mais uma coisa nesse caso, nessa situação,

que não fazia o menor sentido. Minhas reações eram totalmente fora do
normal. Mas, em vez de me preocupar com isso, meio que gostei da emoção.

Ficar anestesiado é chato.

Fiquei em silêncio e já ia agradecer ao homem pela atenção quando ouvi

uma risada que parecia um trovão atravessando as montanhas.

– Ela não me ligou porque está com medo e vergonha. Essa menina…

Mesmo sem poder vê-lo, tive certeza de que o homem estava sacudindo a

cabeça, pesaroso.

– Sempre deu problema e sempre teve o talento de encontrar o mais fundo

dos poços para se jogar. Às vezes penso que ela está me testando, eu e a
pobre

mãe, só para ver quanto a gente aguenta. Avett não se dá conta de que,
quando

a gente é pai, não existem limites para o amor que sentimos pelo filho. Eu

aceito tudo o que ela apronta e ainda quero mais. A mãe tem plena convicção

de que Avett deve sofrer as consequências das suas tolices sozinha, acha que

só assim a menina vai aprender, mas eu sou mais do tipo que põe a mão no

fogo. Quem está na chuva é para se molhar. É só dizer que horas será a

audiência que estarei lá, com o dinheiro da fiança ou um daqueles agiotas

especializados nisso e qualquer prova que você precise de que minha filha
tem

um endereço permanente em minha casa. Sempre fui seu porto seguro e não
importa o que Avett tenha feito, isso não vai mudar.

Tive vontade de soltar um suspiro de alívio. Tive vontade de socar o ar,

celebrando a vitória, apesar de a batalha nem sequer ter começado. Talvez

meu trabalho e o recente colapso do meu casamento tenham me deixado

pessimista demais. Estou tão acostumado a ver o pior nas pessoas, tão

acostumado a acreditar no pior, que precisava ver o amor incondicional desse

homem pela filha para manter viva uma espécie de fé na humanidade.

Informei o que ele precisava levar para a audiência de fiança, caso o juiz

precisasse de provas, e alertei que sua filha ia estar um pouco abatida, vestida

de presidiária. Pode ser devastador ver alguém que você ama assim, mas o

homem garantiu que não teria problema e que estaria lá para cuidar de sua

filhinha.

Agradeci a atenção e estava prestes a desligar quando ele fez uma pergunta

em voz baixa:

– Posso perguntar por que você se deu ao trabalho, depois do que presumo

tenha sido um longo dia, de me ligar, sr. Jackson? Não me entenda mal,

agradeço seu envolvimento pessoal e sua óbvia dedicação ao bem-estar de

minha filha. Não posso dizer que tenho muita experiência com advogados,
mas

algo me diz que esse não é o procedimento-padrão.

Não é, mas aquela garota tem algo especial, por isso contei a verdade para
seu pai, porque suspeitei que aquele homem era capaz de sentir o cheiro de

mentira ou de golpe a quilômetros de distância.

– Não é, e normalmente não sou do tipo que traz trabalho para casa. Tento

deixar o Direito limitado ao escritório e ao Tribunal, mas sua filha tem algo
de

especial – fiquei em silêncio por alguns instantes e foi minha vez de sacudir a

cabeça. – Ela não é exatamente inocente, mas não merece ser jogada na
prisão

com os criminosos violentos com que costumo lidar no dia a dia. Sua filha

ainda é jovem, merece ter a chance de uma vida melhor. Quero ajudá-la.

– Avett sempre foi especial e talvez um pouco perdida. Eu e a mãe tentamos

mostrar o certo, mas a menina é teimosa e está determinada a encontrar o

caminho na vida do seu próprio jeito. Essa situação é mais uma lombada,

apesar de bem grande, da qual ela precisa desviar. Agradeço sua ajuda, filho.

Vou ligar para Asa assim que terminar de falar com você. O rapaz tem boas

intenções, mas esse é um assunto de família, e sou eu que vou cuidar do seu

pagamento daqui para a frente.

Passei a mão no rosto e me endireitei no sofá.

– Vou deixar o senhor brigar com ele por isso. Desde que alguém me pague,

não ligo quem será.

Mais um risada grave e rouca.


– Você esteve no Exército, filho?

Pisquei, surpreso com a pergunta fora de contexto, e olhei para meu sapato

Burberry vinho e para a calça do meu terno Canali azul-marinho, feito sob

medida. Estava a quilômetros de distância do garoto de 18 anos, rebelde e

inexperiente, que havia se alistado, ao que me parecia, séculos atrás.


Ninguém

me pergunta sobre aqueles quatro anos que definiram minha vida. Perguntam

sobre eu ter me formado em tempo recorde, falam sobre a faculdade de

Direito, sobre a prova da Ordem, sobre eu ter defendido um serial killer

famoso, sobre ter inocentado um congressista que atopelou uma pessoa da

acusação de homicídio culposo. Na maior parte do tempo, esqueço do garoto

que foi enviado para o deserto para lutar com insurgentes hostis sobre

intermináveis quilômetros de areia suja de sangue. Eu estava ocupado demais

sendo o homem de terno com corte de cabelo elegante e acessórios


escolhidos

a dedo para mostrar quanto sou bem-sucedido, quanto sou bom no que faço.

– Por que o senhor está me perguntando isso?

Eu é que não ia confirmar suas suspeitas, porque fazia muito tempo que eu

não era soldado nem o garoto de olhos arregalados e não queria que opai de

Avett tivesse a impressão errada de quem sou ou do tipo de pessoa com quem

ele teria de lidar.


O pai de Avett fez um barulho de quem achou graça e falou:

– Eu sempre adivinho. Algo no jeito que um cara fala, no modo como se

apresenta, mesmo pelo telefone, para um completo desconhecido. Os

semelhantes se reconhecem. Mal posso esperar para conhecê-lo pessoalmente

amanhã, sr. Jackson.

Ele desligou, e eu fiquei sacudindo a cabeça, perplexo. É bem difícil de me

surpreender, uma vez que conheço intimamente todas as coisas terríveis que
os

seres humanos são capazes de fazer, mas tanto o pai quanto a filha

conseguiram me abalar naquele dia.

Entrei no Google e digitei o nome Brighton Walker, só por curiosidade.

“Os semelhantes se reconhecem.”

Isso até pode ser verdade, mas não sei se nós dois somos muito

semelhantes. Havia muita informação no Google sobre Brite Walker,


incluindo

detalhes de sua carreira militar honrada com os fuzileiros navais, uma carreira

de décadas, não apenas os quatro anos obrigatórios que eu servi. Havia

matérias sobre seu trabalho com o Departamento de Veteranos de Guerra,


com

veteranos deficientes por todo o país, reportagens que iam de boas a péssimas

sobre o bar que não era mais dele e vários artigos que o ligavam ao maior e
mais notório clube de motociclistas das Montanhas Rochosas. Aquele homem

era tanto herói quanto fora da lei. Era uma lenda local e o tipo de homem

sobre o qual os outros contam casos. Ele me impressionou apenas com essa

pesquisa no Google, eu não podia nem imaginar como ele deveria ser

dinâmico e cativante pessoalmente. Algo me dizia que Brite Walker nunca

tinha visto um Rolex na vida e que as coisas que impressionam as pessoas


que

fazem parte do meu dia a dia não teriam nenhum efeito sobre ele. Por algum

motivo, me senti completamente inadequado e comecei a me arrepender por

não ter deixado a esquentadinha de cabelo rosa me demitir.

Normalmente, sou acostumado a ficar no topo. Sou acostumado a ter o que

quero, não importa qual seja o obstáculo. Sou acostumado a vencer… Mas
não

nos últimos tempos. Nos últimos tempos, sou o sujeito que foi traído,
rejeitado

e exaurido emocional e financeiramente. Tudo o que aconteceu com Lottie,

minha ex, faz eu me sentir um imbecil, um fracasso, um idiota.

Nós nos conhecíamos desde o Ensino Médio, crescemos na mesma

cidadezinha nas montanhas, a duas horas de Denver. Lottie era de família


rica,

eu não. Ela cresceu em uma mansão nas montanhas que parecia um resort de

esqui; eu cresci em uma cabana minúscula que só tinha água encanada e


eletricidade de vez em quando. Os pais dela trabalhavam na indústria de

entretenimento e passavam as férias de verão nas Ilhas Virgens. Meus pais

viviam basicamente da agricultura, se recusavam a ter patrão, e tudo o que

tínhamos era conseguido na base do escambo.

Fiquei com ela, no começo, só para provar que podia. As mulheres sempre

gostaram de mim, mesmo eu não tendo nada e tratando-as como lixo. Assim

que a conquistei, percebi que ela era carinhosa, divertida e imensamente

gentil, considerando a família influente da qual vinha. O sexo foi um afago


no

meu ego imaturo, que logo se transformou em algo mais. Implorei para que
ela

me esperasse, porque eu não tinha escolha a não ser entrar para o Exército e

tentar descobrir o que fazer da vida. Me alistar era o único modo de eu poder

pagar a faculdade, e eu estava determinado a ser alguém, mesmo que isso

significasse deixar minha namorada e minha família, que muito me reprovou,

para trás.

Lottie prometeu me esperar e, enquanto eu estava fora do país, entrou no

Vassar College e começou a cursar Ciências Políticas. Minha ex queria ser

advogada muito antes do que eu, mas só um de nós tinha a dedicação e a

ambição necessárias para realmente se formar e passar no exame da Ordem.

Enquanto eu estava longe, lutando na guerra e me tornando um homem, ela


largou a faculdade e se ocupou pulando de galho em galho, com um cara

depois do outro, enquanto me mandava cartas e mensagens dizendo que me

amava e sentia a minha falta. Nem percebi, achei que ela ainda era a menina

carinhosa e inocente pela qual tinha me apaixonado séculos antes. Quando

voltei para o país, a pedi em casamento e a fiz se mudar para Boulder, para

que eu pudesse cursar a Universidade do Colorado, e gastava cada centavo

que tinha tentando manter o padrão de vida com o qual ela estava acostumada

e pagando a faculdade.

Não foi suficiente. Eu não fui suficiente.

Os ternos caros, os carros esportivos, a conta bancária bem recheada…

Nada disso foi suficiente para fazer Lottie feliz ou fiel. No começo, eu estava

fora por causa do Exército, depois eu estava na faculdade, depois me


matando

de estudar para passar no exame da Ordem e trabalhando em período integral.

E daí fui contratado pelo escritório e comecei a trabalhar de oitenta a noventa

horas por semana para fazer meu nome. Ela me disse que eu nunca estava em

casa. Disse que eu nunca estava presente. Disse que nunca me amou, que só

ficava comigo pela segurança, pelo que eu representava para sua estabilidade

financeira futura.

Ela me disse isso quando estava grávida de cinco meses de um filho que

não era meu. De um bebê que eu tinha certeza de que não podia ser meu,
porque Lottie não me deixava tocá-la há oito meses. O casamento tinha ido

pelo ralo, e foi só quando sua barriga começou a aparecer que entendi o

porquê. Mesmo com as evidências muito claras, aquela mulher ainda tentava

pôr a culpa da separação e de suas atitudes escandalosas em mim. Se eu fosse

um cara melhor, se eu tivesse lhe dado mais, ela teria esperado, teria ficado,

teria sido fiel e me amado como eu a amava.

Lottie nunca foi fiel, desde o Ensino Médio, mas eu estava tão cego por ela

que não me dei conta. Fui treinado para observar, aperfeiçoei minhas

habilidades naturais de interpretar as pessoas e diferenciar a verdade da

ficção. Sou capaz de contar a história de vida inteira de uma pessoa pelo jeito

com que ela se move, pela expressão em seu rosto, mas minha própria
mulher,

a pessoa com quem eu mais tinha intimidade, me enganou. Ou eu me enganei

porque não conseguia acreditar que ela faria isso comigo, com o nosso

relacionamento. Agora que tudo passou, podia me engasgar na minha própria

arrogância e no meu próprio orgulho. Nunca me ocorreu que Lottie poderia

procurar em outro lugar o que eu, obviamente, não oferecia.

Pensei que havia lhe dado tudo o que eu tinha, mas isso não foi suficiente, e

ela quis mais. Quis a casa. Quis meu dinheiro. Quis meu carro. Quis minhas

economias. Caramba, aquela vadia gananciosa até tentou fazer eu me

responsabilizar pelos gastos futuros com a educação daquele filho que não
era

meu.

Ficamos juntos por tanto tempo que cheguei a pensar que teria de lhe

entregar tudo. Mas, por sorte, o Colorado tem leis de divórcio bem objetivas,

já que a incidência de casamentos com militares no Estado é alta, o que

impediu Lottie de me deixar sem nada. Também contratei o melhor advogado

de família que pude encontrar e deixei bem claro que ia brigar por tudo com

unhas e dentes. Cresci sem nada e não ia abrir mão do que tinha sem lutar.

Havia me esforçado demais para ter o que tenho e não ia abrir mão de todo o

trabalho e todos os sacrifícios assim, tão facilmente.

Deixei Lottie ficar com a casa em Boulder, porque não conseguia

passar pela porta sem imaginar quem havia passado pela minha cama
enquanto

eu trabalhava para manter aquele teto tão extraordinariamente caro sobre

nossas cabeças e pôr o caralho da comida gourmet na mesa. Também deixei

ela ficar com o carro. Mesmo que combinasse muito bem com o homem que

sou agora, nunca fez meu estilo. Eu preferia meu 4x4 preto gigante, com seus

pneus monstruosos para todos os terrenos e suspensão off road. Claro que não

combina com os meus ternos Ferragamo e Armani, mas não ligo. Se quiser

andar em algo veloz e esportivo, tenho minha Ducati Panigale no depósito. A

moto italiana até pode combinar mais com meu guarda-roupa, mas Lottie não
a

aprovava. Nunca sentou na garupa daquele foguete, e nem consigo imaginá-


la

fazendo isso.

No fim das contas, concordei em pagar um valor considerável de pensão

por cinco anos ou até ela se casar de novo, e, sendo a vadia sem coração que

ela era, a mulher ainda não havia aceitado o pedido de casamento que o pai
do

seu filho fizera. Me convenci de que Lottie tinha me traído com caras mais

pobres e não mais ricos, porque o pai da criança era um artista desconhecido

que não nadava em dinheiro e oportunidades. Não tinha dúvidas de que


minha

ex daria um gelo no cara e no anel de noivado por cinco anos ou até aparecer

alguém com uma carteira mais recheada.

Foi uma difícil lição de humildade. Que ainda dói e me faz me encolher

todo quando penso nisso.

“Não quero nada vindo de você…”

Essas palavras giravam na minha cabeça, com a imagem daquela jovem de

macacão alaranjado de presidiária.

Ainda bem que ela achava isso, porque eu tinha quase certeza de que,

depois de Lottie e da série desastrosa de mulheres que vieram depois dela,


não tenho mais nada além do meu conhecimento da lei e da minha habilidade

de lidar com o sistema legal para oferecer.

CAPÍTULO 3

Avett

PASSEI A NOITE EM CLARO NA CADEIA, E NÃO FOI SÓ POR


CAUSA DA MINHA

companheira de cela desprezada, que, na verdade, se aquietou depois de

eu lhe contar as palavras sábias do meu pai. Ela ficou, sim, várias horas

resmungando consigo mesma, questionando o que havia feito e o que seus

filhos iriam fazer sem ela, mas acabou pegando no sono. Então fiquei
sozinha,

naquela cela não muito silenciosa, com medo do que meu pai diria quando

Quaid, o sujeito lindo demais e também meu bom advogado, ligasse para ele.

Repassei na cabeça todos as possíveis hipóteses que pude imaginar, e

nenhuma combinava com a presença de Brite Walker no Tribunal quando eu

ficasse diante do juiz.

Meu pai ia ficar tão decepcionado... Ia ficar tão magoado... Ia ficar tão

enojado e de saco cheio por eu, mais uma vez, não ter lhe dado ouvidos, não

ter dado ouvidos ao bom senso nem prestado atenção a nenhum dos sinais de

alerta que estavam bem diante do meu nariz quando resolvi me envolver com

Jared... Eu não tinha mais 2 anos, e não era mais uma coisa bonitinha quando
resolvia bater o pé e nadar contra a maré. Não, aquela situação não era nem

um pouco bonitinha e, de jeito nenhum, meu pai – que sempre me apoiou,

sempre foi leal e compreensivo – ia concordar com meu comportamento,


ainda

mais em algo que acabou ferindo outras pessoas de quem ele gosta. Se algo
de

ruim tivesse acontecido com Asa ou a policial, que por acaso era a

deslumbrante namorada do barman sulista, eu não conseguiria viver com a

minha consciência. De fato, nas atuais circunstâncias, me sentia culpada por

ter participado de algo que os colocou em perigo, e essa culpa era um peso

que foi me esmagando a cada passo que eu dava quando me levaram até o

Tribunal. Se nem eu me aguentava por causa do que tinha feito, como é que

meu pai poderia estar lá para me oferecer seu ombro amigo?

A audiência foi bem diferente de todas as minhas outras experiências de

conflito com a lei. Fui levada até lá em uma van com policiais armados na

frente e atrás. Fui transportada com outras mulheres e logo me dei conta de
que

as cores dos macacões representavam os diferentes níveis de crime pelos

quais estávamos esperando ser julgadas. Era muito mais intenso e sério do
que

qualquer maratona que The good wife poderia sugerir. Fui forçada a me
sentar
em um banco de madeira dura ao lado de uma mulher que me contou estar

sendo processada por homicídio culposo. Ela jurou ser inocente, mas isso não

me fez sentir melhor em estar praticamente sentada em seu colo. Também

fomos colocadas atrás de uma tela de acrílico, o que presumi ser uma espécie

de proteção. Só não consegui descobrir se era para nos proteger ou proteger


as

pessoas que lotavam o Tribunal.

Tinha tanta gente, fileiras e mais fileiras de rostos curiosos, todos com os

olhos fixos nas mulheres que estavam do lado errado da barreira de proteção.

Havia gente chorando, pessoas furiosas, olhando feio para nós, enquanto

esperávamos para saber qual seria nosso destino. Tentei procurar, no meio da

multidão, o cabelo castanho claro e impecavelmente penteado do meu

indesejado, mas muito necessário, representante legal, mas não consegui vê-
lo.

Meu coração batia forte no peito, minhas mãos algemadas começaram a suar,
e

apertei os dedos contra as palmas das mãos. Estava tão fora de mim que o

pânico e o terror começavam a me invadir, porque me dei conta de que

poderia muito bem ficar presa naquela confusão, esmagada no fundo do poço

mais fundo, completamente sozinha.

Fui imbecil a ponto de demiti-lo, de dizer que não precisava de sua ajuda,
porque não queria que ele ligasse para o meu pai. Fiz o que sempre faço e
fodi

com tudo. Meu Deus, quando vou aprender a controlar minhas reações tolas e

impulsivas? Por que sempre tenho que ser meu pior inimigo? Nunca fiz nada

de bom para mim mesma, e parecia que tinha dado um tiro no meu próprio
pé,

só porque não queria decepcionar meu pai de novo. Quando eu menos

esperava, o orgulho e o remorso surgiram para me lembrar de que não sou tão

terrível quanto pareço. Ainda tenho coração, ainda tenho alma, mesmo que os

dois estejam despedaçados.

Respirei fundo e me segurei para não chorar, coisa que eu queria muito.

Queria soluçar, tremer e me despedaçar em um milhão de pedacinhos

minúsculos de arrependimento e vergonha. Só que eu não ia fazer isso. Posso

até ser teimosa e tola, mas não sou frágil. Fiz merda, como sempre, e vou

encarar todas as consequências dessa merda em silêncio, de um jeito estoico.

Vou ter culhões, enfrentar todas as porradas que vierem e, quem sabe, pôr a

cabeça no lugar e começar a tomar decisões melhores. O único jeito que

restou para provar a meu pai que não sou uma causa perdida. Ainda posso me

reerguer se ele não desistir de mim.

Não tinha me dado conta de que havia apertado os olhos para segurar as

lágrimas. Quando os abri, após controlar minhas emoções, não apenas vi


aquela cabeça loira e elegante passando pelas grandes portas de madeira,

como também fiquei sem ar ao me dar conta de que essa cabeça estava

inclinada na direção de outra, bem mais grisalha, que o acompanhava até a

frente do Tribunal. Olhos cinzentos, da cor do carvão, se cruzaram com os

meus, brilhando de tanto amor que não consegui impedir uma lágrima
rebelde

de escorrer por meu rosto. Meu coração se expandiu e começou a bater em


um

ritmo conhecido, cheio de esperança e carinho, quando meu pai inclinou o

queixo barbudo na minha direção e se sentou ao lado do advogado. Essa

inclinadinha de queixo era o sinal de Brite Walker para indicar que tudo

ficaria bem. E, com ele ali, com ele ali me olhando do mesmo jeito de
sempre,

pela primeira vez desde que eu havia sido presa, tive uma minúscula chama
de

fé de que tudo daria certo para mim. Eu até podia estar no fundo do poço,
mas

meu pai estava lá para me dar uma forcinha e, desta vez, estava determinada a

não cair mais assim que conseguisse me levantar.

Meu corpo inteiro tremeu, e demorei para perceber que não apenas meu

gigante e impossível de passar despercebido pai estava ali, mas também


minha

pequena e delicada mãe. Estava de mãos dadas com meu pai e, enquanto eu
me

esforçava para controlar as lágrimas, ela chorava sem parar. Tenho certeza de

que os dois me adoram, mas a Darcy tem um limite mais firme, o qual

ultrapassei diversas vezes. Fiquei surpresa ao vê-la e me perguntei se ela

estaria ali para me apoiar ou para apoiar meu pai. Apesar de os dois estarem

separados e brigarem como cão e gato com frequência, ainda havia algo entre

eles que nenhuma discórdia ou tensão, nem mesmo relacionamentos com


outras

pessoas, poderia matar.

Seja lá qual for o motivo para minha mãe estar ali, fiquei feliz de ver os

dois, e foi impossível não perceber o olhar triunfante de Quaid quando olhei

para ele. E ele fez um sinal com aquele queixo tão bem barbeado e cinzelado,

bem parecido com o que meu pai havia feito. Com os dois ali, para me

assegurar em silêncio que tudo daria certo, ou pelo menos tão certo quanto

possível naquele momento, comecei a respirar com facilidade e finalmente

abri os dedos. Não era exatamente alívio o que me inundava, mas algo muito

próximo disso.

Como meu sobrenome é Walker, o “W” sempre fica por último em qualquer

situação de ordem alfabética. Não me chamaram diante do juiz até bem


depois

da possível assassina, a quem negaram fiança, e da traficante, que também


não

poderia sair sob fiança. Quanto mais eu tinha que esperar, mais ansiosa
ficava.

Não sabia todos os detalhes da situação das outras mulheres, mas era astuta o

suficiente para entender que todo mundo que ficava diante do juiz e tinha um

extenso histórico criminal era despachado sem piedade para o banco atrás do

painel e teria de encarar mais tempo de cadeia. Fiquei abismada com a

rapidez dos acontecimentos. Cada audiência durou menos de cinco minutos,


o

que me pareceu pouco tempo para decidir se alguém merecia ir para casa ou

ficar preso por tempo indeterminado. Nada disso me caiu bem quando
chegou

minha vez. Mas, sempre que eu cruzava os olhos com os de um advogado de

cabelos dourados através da proteção de acrílico, ele jamais demonstrava

preocupação ou derrota. A expressão em seus olhos azuis claros não indicava

nada além de uma firme convicção e de uma fria confiança.

Meu pai, por outro lado, estava ficando tão inquieto e agitado quanto eu, à

medida que o tempo se arrastava e o juiz negava fiança a mais acusadas. Brite

Walker é um ser humano enorme. Ocupa todo o espaço à sua volta e mais.

Quando ele fica incomodado, todo mundo à sua volta se incomoda também.
Vi

o juiz lançar alguns olhares feios para meu pai ao longo das outras audiências
e fiquei observando todas as pessoas sentadas na mesma fileira que ele irem

embora enquanto ele ficava mais agitado. Fiquei esperando Quaid pedir para

ele se acalmar, para dar um tempo em seus instintos protetores de pai, mas o

advogado não fez isso. Na verdade, sempre que o juiz olhava na direção dos

dois ou mais uma pessoa se levantava da fileira diante da que eles estavam,

um sorrisinho se esboçava na boca perfeita daquele homem, e seus olhos

brilhavam, bem-humorados. Meu pai costuma deixar uma impressão


duradoura

em todo mundo que cruza seu caminho; pelo jeito, Quaid Jackson não era

imune ao seu carisma lendário e à sua presença marcante.

Por fim, o oficial de justiça chamou o número do meu processo e disse:

– A Corte agora irá ouvir o caso do Estado contra Avett Walker.

E foi minha vez de subir no pódio e pedir minha liberdade temporária.

Bom, foi minha vez de deixar Quaid fazer isso. Levei um tempo para
conseguir

me desviar das acusadas que ainda faltavam e quase caí, já que não podia
usar

as mãos para me equilibrar. O guarda me lançou um olhar irritado, e as outras

acusadas debocharam da minha falta de jeito, me chamando de amadora

entredentes. Quase derreti de tanta gratidão quando finalmente consegui ficar

de pé ao lado de Quaid.
O juiz me olhou e, para minha surpresa, olhou para um ponto mais longe,

para o que só pude concluir que era meu pai. Então voltou sua atenção para o

homem de terno que estava à nossa esquerda.

– Vamos abrir mão da leitura formal do processo, doutor? O sr. Townsend

tem um longo dia pela frente, e tenho certeza de que gostaria de ir direto à

decisão.

Quaid deu uma risadinha seca e balançou a cabeça de leve.

– Tudo bem, todos os dias são difíceis para os promotores, Excelência.

O juiz grunhiu e abriu uma pasta. Tive vontade de correr até lá e arrancá-la

de suas mãos. Cada erro que cometi na vida estava ali, incentivando o juiz a

negar minha chance de liberdade.

– Qual é a opinião da Promotoria a respeito da fiança neste caso, sr.

Townsend?

Do outro lado de onde eu estava, usando todas as minhas forças para não

cair em cima de Quaid, uma vez que meus joelhos pareciam feitos de geleia,
o

promotor folheava outra pasta recheada com meus pecados e fazia careta para

mim.

– As acusações são sérias. A ré é uma infratora notória. E havia uma

policial à paisana durante o cometimento do crime do qual a srta. Walker é

acusada de cumplicidade. A Promotoria não encontrou endereço, histórico


profissional ou qualquer tipo de laço sólido com a comunidade no que tange à

ré. A Promotoria acredita que ela pode fugir e estamos pedindo para que a

fiança não seja menor do que 500 mil dólares.

Meus joelhos quase bambearam, e não consegui controlar um leve gemido

que escapou de minha boca. Meio milhão de dólares? Meu pai até que ganha

bem e tem uma poupança razoável, mas não é nenhum milionário, nem em

sonho. E, mesmo que pagasse minha fiança, essa ainda era uma quantia muito

alta para ele abrir mão sem problemas. Isso sem falar que eu nunca, jamais,

conseguiria pagá-lo. Ia voltar para a cadeia e, mesmo sabendo que merecia,

ainda doía.

Me virei para Quaid, prestes a implorar que ele fizesse algo, qualquer

coisa, para consertar aquela situação, mas ele olhava para o promotor,

espremendo os olhos e franzindo a testa. Em seguida, seu cotovelo roçou no

meu. Pensei que tivesse sido um acidente, mas aí ele voltou os olhos para

mim, e a irritação foi substituída por uma segurança tranquila.

– Sr. Jackson, tenho certeza de que o senhor tem muito a dizer a respeito da

recomendação da Promotoria para sua cliente. Vamos ouvir.

– Acho que o sr. Townsend se esqueceu de que minha cliente só está aqui

como suspeita de ser cúmplice do crime. O verdadeiro criminoso está preso,

aguardando sua vez de ficar diante do juiz com a verdadeira acusação, não
uma mera suposição de cumplicidade, Excelência. Sim, a srta. Walker fez

algumas péssimas escolhas no passado, no que tange à lei, mas nenhumas

dessas acusações são crimes e nenhuma resultou em prisão. Porém, porque


sou

realista e sei que a Corte não pode ignorar essas infrações anteriores, não vou

abusar da sorte, não vou pedir para que minha cliente seja libertada apenas

com base em sua palavra. Quanto ao risco de fuga… – um sorrisinho se

esboçou em seu rosto e, mais uma vez, me perguntei se ele usava aquilo
como

arma, porque era matador –, o sr. Townsend fez a gentileza de apontar que a

srta. Walker não está trabalhando nem tem um histórico de emprego de longa

data. Logo, não sei como a Promotoria presume que ela tenha recursos

financeiros para fugir da lei.

Ouvi uma risadinha grave atrás de mim e tive vontade de me virar e abraçar

meu pai. O juiz grunhiu e fez um gesto com a mão, como quem diz “ande
logo”.

– Em relação ao endereço permanente, a srta. Walker ainda tem um quarto

na casa de seu pai, o sr. Brite Walker, aqui em Denver. Assim que chegarmos
a

uma quantia razoável para a fiança – Quaid lançou um olhar duro para o

promotor, e o homem fez careta –, o sr. Walker irá pagá-la e levar a filha para

casa. Ele também garante e dá a sua palavra de que ela estará presente,
disposta a colaborar em seu próprio processo, assim como no processo que o

Estado está montando contra Jared Dalton. A srta. Walker pode até não ter

muitos laços com a comunidade, mas seu pai tem, e acredito quando ele diz

que vai garantir a presença e a colaboração de Avett durante o desenrolar

desse processo.

Segurei a respiração. Pareceu uma eternidade entre o juiz voltar a olhar a

pasta à sua frente, levantar os olhos e fixá-los em um ponto acima de minha

cabeça.

Ao me olhar de novo, endireitei a coluna e tentei fazer minha melhor

expressão de inocente. O que foi um desafio, porque eu não me sentia nem


um

pouco inocente, caramba. Quaid roçou o cotovelo no meu outra vez, e me dei

conta de que antes não havia sido um engano. Ele tentava me dizer que eu
não

estava sozinha, que meu destino não dependia só de mim. Foi um leve toque,

mal encostou, mas aquela pressão tão sutil, aquele leve roçar, me atingiu com

mais força e profundidade do que qualquer abraço que alguém já me deu.

– Srta. Walker...

Levei um susto quando o juiz falou diretamente comigo. Fiquei piscando

para ele como uma imbecil e engoli em seco para minha voz não sair parecida

com o coaxar de um sapo.


– Sim, Excelência?

– O seu advogado está tentando fazer as suas acusações parecerem leves,

mas preciso que você entenda que são sérias e que o Estado está decidido a

dar prosseguimento no processo.

Balancei a cabeça e, quando Quaid me cutucou, limpei a garganta de novo e

falei:

– Eu entendo.

– A senhorita me parece ser uma jovem que tem o péssimo hábito de

ignorar a lei. O Tribunal não gosta dessa atitude, mas também reconhece que
a

senhorita é jovem o bastante para aprender com esse rosário de erros.

Concordo com seu advogado que o valor da fiança recomendado pelo

promotor não é razoável, considerando as circunstâncias e seu histórico – ele

voltou a olhar acima da minha cabeça e pude sentir o ar se mexer com meu

pai, que se moveu no banco atrás de mim. – Mocinha, também espero que
você

entenda quão fundamental foi o fato de sabermos que você tem quem lhe
apoie

e evite que você tome mais decisões tolas enquanto espera a audiência

preliminar. A Corte decide liberar a ré sob uma fiança de 150 mil dólares. A

ré será liberada sob a condição de continuar morando na casa de Brite Walker


até os procedimentos legais serem concluídos.

Eu murchei. Não consegui me conter. Dobrei os joelhos, e o alívio me

atingiu com tanta força que não consegui nem levantar. Quaid passou seu
braço

forte na minha cintura antes de eu cair em cima dele e apertou de leve meu

quadril antes de me pôr de pé de novo.

– Srta. Walker.

Respirei fundo e levantei o queixo para o juiz, quando ele falou meu nome

outra vez.

– Sim, Excelência? – minha voz tremia, mas não me dei o trabalho de tentar

esconder.

– Meu conselho é que a senhorita crie juízo. Fique longe de todas as

pessoas envolvidas na situação que lhe trouxe até aqui e comece a usar a

cabeça.

Era um bom conselho. As pessoas sempre me dão bons conselhos, eu é que

não os sigo.

Desta vez, eu estava determinada a não decepcionar meu pai. Balancei a

cabeça e disse:

– Obrigada, Excelência.

Quaid segurou meu braço e me virou de frente para ele.

– Seu pai vai pagar a fiança e pegar você na cadeia. Vai levar o resto da
tarde para concluir esse procedimento. Vou lhe dar dois dias para se
acomodar

na casa de seu pai e pôr a cabeça no lugar. Depois precisamos ter uma
reunião

estratégica. O Estado deve me mandar uma proposta de acordo ainda nesta

semana, e preciso saber o que vamos fazer com tudo isso.

Fiz careta e sacudi o braço para me livrar da sua mão.

– Não vou aceitar o acordo, doutor. Não sou culpada.

Ele soltou um suspiro e me deu uma olhada, querendo dizer que eu estava

sendo ridícula. Antes que pudesse dizer qualquer coisa, um homem, grande a

ponto de bloquear minha visão do resto do recinto, ficou entre nós. Fui
puxada

até um peito largo, e meu rosto ficou enterrado em uma barba que era tão

lendária em Denver quanto seu dono.

Nunca quis tanto um abraço do meu pai na vida. Assim que seus braços, que

mais pareciam troncos de árvore, se fecharam em mim, não consegui mais me

segurar. As lágrimas começaram a escorrer por meus olhos fechados, e meus

cílios não tinham forças para contê-las. Meus ombros tremiam, e minhas
mãos

algemadas seguravam desesperadamente sua camiseta desbotada da Harley

Davidson.

– Sinto muito, muito mesmo, pai.


Não sei como as palavras conseguiram passar pelo caroço que eu tinha na

garganta, enquanto uma de suas mãos enormes seguravam meu pescoço e me

puxavam mais para perto.

– Eu sei, Fadinha, mas precisamos chegar a um ponto em que você não

precise mais sentir tanto assim.

– Eu sei.

Murmurei essas palavras, me afastei e ouvi alguém limpar a garganta. Meu

pai pôs a mão em meu ombro, e o guarda inclinou a cabeça na direção das

portas que levavam à área dos prisioneiros.

– O senhor logo a terá de volta. Mas agora ela precisa vir comigo.

Meu pai praticamente rosnou para o homem, que deu um passo para trás.

Brite me soltou depois de apertar meu ombro e beijar minha cabeça. Deixei o

guarda segurar meu braço e olhei para trás do corpanzil de meu pai para

conseguir ver minha mãe. Ela cruzou os olhos com os meus só por um
instante,

e pude ver a mágoa e a decepção refletidas em sua expressão.

– Obrigada por ter vindo, mãe. Sinto muito por tudo isso.

O guarda começou a me arrastar para longe, enquanto Quaid levava meu pai

para a parte do Tribunal reservada à família e ao público.

– Dizer que você sente e sentir de verdade são duas coisas muito diferentes,

Avett.
Ela se levantou, e meu pai segurou sua mão, com um olhar duro. Minha mãe

sacudiu a cabeça para mim, e mesmo eu mal tendo conseguido ouvi-la,


porque

quando ela falou chamaram o caso seguinte ao meu, suas palavras atingiram
o

objetivo.

“Sinto muito” saía da minha boca com tanta frequência e facilidade que

essas palavras não significavam mais nada. Desta vez, eu realmente precisava

sentir muito pelo que tinha feito, mesmo que não tivesse feito nada. Tinha

muito a provar, muito a compensar, e meu histórico de atitudes corretas era

uma merda. Não queria que minha mãe mal conseguisse me olhar. Não
queria

que meu pai tirasse dinheiro de seu fundo de aposentadoria para me tirar da

cadeia. Falar “sinto muito” não era suficiente; desta vez, eu ia precisar
mesmo

mudar.

Voltei para o que o guarda chamou de “chiqueirinho” e me sentei no meu

lugar, entre a assassina e a traficante. As duas se viraram para mim com um

olhar de inveja e irritação. Eu voltaria para casa no fim do dia, elas voltariam

para trás das grades.

A traficante levantou as sobrancelhas na minha direção e me mostrou a

língua, lambendo os lábios ressecados. Eu me encolhi toda, sem querer, o que


a fez me dar um sorriso torto que mostrou todos os seus dentes amarelos e

lascados.

– Esse cara que está te defendendo é gato. Quanto ele cobra por hora? Você

está dando pra ele? Eu daria pra ele. Aposto que o sujeito é caro e bom de

cama. Aquele juiz durão negou fiança a todas nós, menos para você.

Arregalei os olhos e olhei para a mulher que estava do meu outro lado. Ela

parecia tão interessada em minhas respostas quanto a traficante.

Limpei a garganta e me remexi, incomodada, no banco duro de madeira.

– Não fui eu que paguei, então não sei quanto ele cobra. E não, não estou

dormindo com ele. Conheci o sujeito ontem.

O que não explicava por que eu me derretia toda por dentro quando ele

dava aquele sorriso. Ou por que eu me senti melhor quando seu cotovelo

encostou no meu por um segundo. Era uma reação totalmente inapropriada,

uma vez que o homem era dez anos mais velho do que eu, visivelmente de
uma

classe social diferente, com uma criação diferente, e só me viu usando aquele

macacão laranja de presidiária enquanto tentava me livrar da cadeia. Meus

hormônios não devem ter recebido o comunicado de que o resto de minha

pessoa estava atolado na merda, e Quaid Jackson era o homem que tinha a pá

para me tirar dela.

– Eu daria pra ele.


Quem disse isso foi a assassina que estava do meu outro lado. Fiquei me

perguntando se Quaid sabia que toda a população carcerária feminina de

Denver o considerava desejável.

Fiquei batendo as algemas do meu pulso uma na outra para me distrair e

murmurei:

– Acho que a gente não faz o tipo dele.

Eu imaginava que homens como Quaid preferiam mulheres que não sabiam

como eram algemas de verdade, usadas para seus verdadeiros propósitos, e

não conseguia imaginá-lo ficar todo excitado com uma garota de cabelo cor-

de-rosa, mesmo que o meu estivesse desbotando rapidamente, ficando menos

rosa, com meu castanho natural tomando conta das raízes.

– Gata, faço o tipo de qualquer um que pague meu preço.

A traficante lambeu os lábios outra vez, e tive vontade de me encolher e

ficar o menor possível para fugir daquelas duas e do jeito que falavam do
meu

advogado. Não gostei nem um pouco. Além disso, não gostei de eu não ter

gostado.

Por sorte, só faltavam mais dois casos, e logo todas nós seríamos levadas

para a van e voltaríamos para a cadeia. Eu estava com medo de ter que ficar

atrás das grades de novo. Mas em vez de me levarem de volta para a cela com

a esposa desprezada, fui parar em uma sala parecida com aquela na qual
conversei com Quaid no dia seguinte à minha prisão. Eles trouxeram as
roupas

que eu estava usando na noite do assalto e me mandaram me vestir e esperar.

Fui logo tirando o macacão, toda feliz, e pondo minhas próprias roupas.

Nunca pensei que uma calça jeans desfiada, uma camiseta toda larga e um

tênis Vans detonado poderiam parecer o mais caro dos vestidos com sapatos

de salto de grife. Não era nenhuma alta-costura, mas pareceu algo luxuoso

comparado com aquele macacão áspero de presidiária. Como tinha até um

elástico no bolso, prendi meu cabelo grosso e colorido em um coque alto e fiz

o que me mandaram fazer: fiquei esperando.

Foram só algumas horas, mas pareceram dias. Contei os azulejos do chão,

decorei o padrão com que a luz fluorescente acima da minha cabeça piscava e

tive muito tempo para repassar cada uma das cagadas que fiz até chegar ali. A

opção certa sempre estava lá, na minha frente, gritando “Me escolhe! Me

escolhe!”, e eu sempre fui a imbecil rebelde que ignorava essa opção e corria

atrás da minha própria queda. Agora que havia oficialmente conseguido,


podia

dizer com toda a confiança que não era nada parecido com o que deveria ser.

Cair significava ter de aterrisar uma hora ou outra. A queda era assustadora,

interminável, mas a aterrissagem… Era aí que as coisas ficavam realmente

difíceis. Era daí que vinham as cicatrizes.


Eu deveria ter adivinhado, no segundo em que conheci Jared, que ele não

prestava. Não tinha nenhum motivo para ele me conquistar. Eu havia acabado

de largar a faculdade, não tinha casa própria, não tinha emprego; Netflix

demais e muito fast food tornaram meu corpo miúdo bem mais redondo do
que

a maioria das garotas que atraem os caras de 20 anos. Precisei que meu pai

viesse me salvar quando meu último namorado me deu um pé na bunda e


tinha

certeza de que nada em mim resplandecia “ela é um bom partido”. Mesmo


com

todos esses pontos negativos no quesito namorada, Jared correu atrás de mim

incessantemente.

No começo, ele era carinhoso e sedutor. Aquele seu jeito tranquilo,

chapado, me pegou, assim como o fato de ninguém gostar dele. Quanto mais

meu pai olhava feio e reclamava de Jared, mas atraída por ele eu ficava. Meu

pai era meu herói, meu ídolo, meu melhor amigo, mas quanto mais reprovava

os homens de minha vida, mais eu ficava determinada a continuar com eles.

Me doía fazer isso, mas era justamente dor que eu queria. Uma hora, eu e

Jared começamos a dormir juntos, e comecei a passar cada vez mais tempo na

casa dele, por mais que tenha ficado claro que o sujeito não curtia só fumar

maconha de vez em quando. Me convenci de que Jared usava drogas de


maneira recreacional, que ele gostava de curtir, mas era uma mentira, uma

mentira em que nem eu mesma conseguia acreditar à medida que o tempo ia

passando.

Implorei para meu pai me dar emprego no bar porque precisava me

distanciar das drogas e das agressões. Naquele momento, deveria ter sido

esperta e saído de perto daquele homem e daquela situação, mas não consegui

e não quis. Jared adorava que eu trabalhasse no bar. Significava comida e

bebida de graça. E, sempre que ele estava sem grana para pagar o traficante,

pensava ser aquele um lugar para arranjar um troco fácil. Eu odiava roubar.

Isso fazia eu me sentir suja e feia, mas odiava ter que explicar o olho roxo e o

lábio inchado de novo. Não tinha palavras para tentar justificar o porquê eu

continuava com ele. E, caramba, com certeza não tinha palavras para

descrever por que congelei e não fiz nada na noite do assalto.

Uma hora, depois do que me pareceram séculos e mais séculos passados

sozinha com meus próprios pensamentos amargos, um policial uniformizado

apareceu e me disse para ir atrás dele. Parei em uma mesa, onde me


mandaram

preencher um monte de formulários. Assinei tudo sem ler e peguei o saco de

plástico lacrado que me empurraram: ele continha meus pertences da noite de

minha prisão. Meu celular e minha bolsa estavam no saco. Tirei os dois e, ao

me virar, vi meu pai, que estava sentado em uma pequena cadeira de plástico,
se levantar.

Sem dizer uma palavra, me atirei nele e o abracei pela cintura. Brite me

apertou e senti que encostou seu queixo barbudo em minha cabeça,


amassando

meu coque. Inalei seu cheiro característico de pai, que sempre me lembrou de

sua moto e de seu bar, e deixei sua familiaridade e sua força levantarem todo

aquele peso que esmagava meus ombros.

– Preparada pra ir para casa, Fadinha?

Eu o abracei com todas as minhas forçase prometi a mim mesma,

mentalmente, que jamais o colocaria de novo em uma situação que o


obrigasse

a me salvar de mim mesma.

– Sim, pai. Estou superpreparada pra voltar para casa.

Aquele era, no fim das contas, meu lar, onde meu coração, por mais partido

e machucado que estivesse, sempre esteve.

CAPÍTULO 4

Quaid

VOLTEI ATRASADO PARA O ESCRITÓRIO APÓS A AUDIÊNCIA,


PORQUE TIVE UMA

reunião demorada com a Promotoria. Isso acontece o tempo todo, mas

naquele dia fiquei irritado de um jeito irracional com o atropelo em minha


programação e seriamente ressentido com os trinta minutos que Avett teve de

passar sentada do lado de fora do meu escritório, enquanto minha assistente a

olhava de canto de olho por trás do computador. Fazia três dias desde nosso

último encontro no Tribunal. E, por mais que eu não quisesse admitir em voz

alta, a garota havia tomado conta de meus pensamentos. Ela – não seu

processo. Isso, somado ao fato de eu ter notado na mesma hora que o

alaranjado presidiária não lhe caía bem e que ela era ainda mais bonita, ainda

mais inocente e jovem usando suas roupas normais, me fez abordá-la de um

jeito mais abrupto, até mais severo do que eu costumava fazer com meus

clientes.

Inclinei a cabeça na direção da minha sala sem dar “oi” e não olhei para

ver se ela vinha atrás de mim quando perguntei:

– Cadê seu pai? Achei que ele ia ficar do seu lado para lhe apoiar em toda

essa situação.

Falei como um cuzão. Estava agindo como um cuzão. Pude perceber, ao ir

para trás da mesa e finalmente me virar para olhar Avett, que ela tinha plena

consciência de que eu estava de mau humor.

Avett cruzou os braços sobre o peito, peito que era grande, arredondado e

muito mais farto do que eu poderia imaginar, dada sua baixa estatura. E,

mesmo não devendo, imaginei muitas coisas a respeito dela nos últimos dias.
Aquelas curvas e aqueles vales que ela tem são sedutores e atraentes demais.

Fiquei irritado por ter notado e por ter dificuldade de fixar o olhar em outra

parte de seu corpo que eu não apreciasse de uma maneira muito pouco

profissional. A garota não era fácil em muitos sentidos, e alguns deles faziam

meu pau latejar de forma inapropriada. O macacão da prisão a tinha engolido

e escondido seu corpinho cheio de curvas, que irradiava tanta energia

reprimida quanto as minhas atitudes descaradas.

Eu não devia estar prestando atenção em suas curvas nem no jeito como

suas sobrancelhas castanhas faziam um “V”selvagem em cima de seu nariz.


Ela

era apenas uma criança no grande esquema da vida. Porém, mais do que isso,

era minha cliente. Era minha obrigação ajudá-la e tirá-la da cadeia, não ficar

encantado por sua boca, que fazia um biquinho irritado, nem hipnotizado pelo

modo como ela ficava corada, no mesmo tom de rosa de seu cabelo, ao

visivelmente se esforçar para reagir de modo correto ao meu cumprimento de

merda e à minha atitude de cuzão. Eu não devia ter gostado do jeito como

Avett ficou toda ouriçada, mas gostei.

– Meu pai queria vir comigo, mas estou tentando provar que sou capaz de

fazer alguma coisa direito nesta vida. Ele seguraria minha mão para sempre,
se

eu deixasse. E, sinceramente, não quero que ele se envolva nessa confusão


ainda mais do que já se envolveu – ela se recostou na cadeira e continuou a

fazer careta para mim.

– Você vai conseguir alguma espécie de acordo que possa parecer razoável

e fazer sentido, para resolver toda essa situação. Meu pai vai me incentivar a

ouvir seus conselhos. Vai me dizer que estamos te pagando para cuidar de

meus interesses – Avett sacudiu a cabeça e apertou os braços, como se

quisesse dar um abraço em si mesma.

– E ele até pode ter razão, mas eu não ajudei Jared a roubar aquele bar.

Não fui cúmplice dele. Não facilitei nada para ele, por isso não vou aceitar

acordo. O fato de eu não aceitar, provavelmente, vai deixar meu pai

preocupado com o que possa acontecer comigo. Já o fiz passar por muita
coisa

– então a garota finalmente parou de me olhar nos olhos e se concentrou no

luxuoso tapete berbere debaixo de seus tênis. – Pode até não ser a atitude
mais

correta a tomar, mas estou acostumada a isso.

Senti certo alívio na tensão que se acumulava dentro de mim, enquanto eu a

escutava. A maioria de meus clientes têm seus próprios interesses em mente

quando tomam decisões sobre o que vão fazer ao enfrentar acusações, mas
não

aquela jovem. Era surpreendente, estimulante até, receber alguém na minha


sala genuinamente preocupado com as consequências de suas ações para as

outras pessoas, para quem ama. Mesmo que tenha chegado um pouco
atrasada

ao jogo, fiquei feliz de ver que Avett estava disposta a jogar.

– A Promotoria mandou a proposta de acordo hoje de manhã. Eles estão

dispostos a retirar todas as acusações, menos a de cumplicidade, se você

concordar com uma pena de noventa dias de prisão com dois anos de

condicional. Também querem que você testemunhe contra Jared Dalton.

Entrelacei os dedos e fiquei observando Avett, que passou a respirar mais

rapidamente. A borda dourada de seus olhos parecia pegar fogo, a parte

castanha do meio ficou completamente preta. Parecia que eu estava vendo um

caleidoscópio se movimentar e mudar de forma e de cor.

– Não quero ver Jared.

Sua voz tremeu, e os nós de seus dedos ficaram brancos de tanto apertar

seus braços.

– Você não tem escolha. Terá que testemunhar, com ou sem acordo. Você é

uma testemunha, e a Promotoria ou o advogado de Jared vão acabar


intimando

você a depor. Jared está tentando usá-la para estabelecer uma dúvida

razoável, com a história de que você estava puta porque seu pai vendeu o bar.

Você fará parte desse julgamento independentemente do que aconteça no seu.


Ela fez biquinho.

Pisquei de surpresa, porque isso devia ter parecido arrogante e petulante.

Devia ter feito Avett parecer mimada, emburrada. Mas não fez. A fez parecer

adorável e decidida. Não era o tipo de biquinho que Lottie fazia para mim

quando queria gastar uma quantia indecente em um sofá novo ou em alguma

bolsa que só usaria uma vez. Não, aquele era o biquinho de uma mulher que,

com razão, não queria fazer algo e estava contrariada. Era charmoso de um

modo completamente inocente e, mais um vez, me amaldiçoei mentalmente


por

ter notado esse gesto tão ínfimo.

– É um bom acordo, Avett. Um acordo muito bom mesmo. A pena mínima se

você for condenada por cumplicidade é de três anos – levantei a sobrancelha

para ela e completei:

– Três anos no mínimo, ou seja, se acabarmos indo a julgamento e o júri te

considerar culpada, o juiz pode estabelecer uma pena de três a cinco anos. O

que é muito tempo para ficar atrás das grades, caso você decida arriscar a

sorte e perca a aposta.

Ela soltou os braços e foi mais para frente na cadeira. Inclinou o corpo e

ficou me olhando com atenção. Seus olhos eram hipnotizantes, fiquei


distraído

pelas diferentes cores que havia neles. Precisei pedir para Avett repetir
quando me dei conta de que ela havia dito algo e estava me esperando

responder. Eu precisava pôr a cabeça no lugar em relação àquela garota…

aquela garota… E era disso que eu estava sempre me esquecendo.

– O que foi que você disse?

Minha voz saiu mais grave do que o normal, e me remexi na cadeira,

porque outras partes de meu corpo também começaram a perceber todas as

coisas interessantes e atraentes que havia em Avett Walker.

– Eu disse que dei um Google no seu nome.

Ela pôs algumas mechas caídas do cabelo para trás, e eu literalmente tive

que me obrigar a manter os olhos fixos em seu rosto, porque o movimento fez

seu peito subir e deixou a camiseta preta que ela usava ainda mais justa.

– Ah é? E o que você achou?

Eu já sabia o que ela iria encontrar: o registro do meu tempo no Exército, o

anúncio de meu casamento, meu histórico de trabalho no escritório,

informações variadas sobre meus casos mais notórios e diversas reportagens

sobre meu divórcio. A maioria dos divórcios não são dignos de estampar

páginas de jornal, mas quando uma das pessoas envolvidas é de família rica,
e

a outra é conhecida como eu sou, serve para encher linguiça em um dia de

poucas notícias. Fiquei curioso para ver como seria a interpretação de Avett

daquele retrato de minha vida que estava na internet.


Ela levantou e começou a andar para lá e pra cá, na frente de minha mesa,

enquanto falava:

– Legal, acho. Vi que você serviu o Exército quando era mais novo, o que

explica por que meu pai gostou de você logo de cara – ela me olhou e
esboçou

um leve sorriso.

– Ele não costuma gostar de ninguém logo de imediato. Leva um tempo para

esquentar.

Fiquei ouvindo, sem prestar muita atenção, e observando seu cabelo

colorido balançar em seus ombros. Avett não parecia ser do tipo menininha,

feminina demais, e fiquei me perguntando por que tinha escolhido um tom


tão

delicado e bonito de rosa para tingir o cabelo.

– Descobri que você nasceu no Colorado, que cresceu nas montanhas e que

faz aniversário perto do Natal, o que significa que tem quase 32 anos, ou seja,

conquistou muita coisa em pouco tempo de carreira. Também descobri que

você tem muitos ternos.

Soltei uma risada, surpreso, ao ouvir a última frase. Avett parou de andar

para lá e para cá, chegou mais perto da minha mesa e apoiou as mãos nela,

inclinando o corpo para a frente. Essa nova posição fez sua camiseta ficar

caída no ombro e, por mais que eu tenha me recusado a olhar para baixo,
pude

ver um pedaço do seu sutiã de oncinha. Esse vislumbre de algo proibido me

deixou com a boca seca e a pulsação acelerada. Era uma reação poderosa a

uma provocação tão pequena, e me obriguei a ignorá-la.

– Em todas as fotos em que você aparece, depois de sair do Exército, está

de terno. Terno azul, preto, cinza, de listras. É muito terno.

Soltei um grunhido e respondi:

– Passo muito tempo em audiência. Ternos são necessários – e também me

diferenciam daquele moleque que corria pela floresta com uma única calça

jeans nova e um único par de botas que não era esburacado. – E conquistei

muita coisa porque trabalho muito e sou bom no que faço.

Trabalho muito desde que nasci e nunca tive oportunidade de parar. Quando

estava no Ensino Médio, estudei bastante para poder participar de todas as

disciplinas avançadas que meu colégio oferecia. Sabia que não teria como

pagar a faculdade sem o Exército, ou seja, eu teria que dar quatro anos da

minha vida para o meu país e perderia esse tempo de carreira. Por sorte,

quando me formei no Ensino Médio, tinha tantos créditos avançados que

praticamente poderia ter diploma de assistente jurídico. Não demorei muito

para me formar, mas me matei de estudar quando era mais novo para que isso

fosse possível.
– E entendi que você é meio workaholic por causa de todas as matérias

sobre o seu divórcio.

O tom seco de sua voz me deixou todo tenso. Baixei as mãos e fiquei

tamborilando os dedos no joelho, em uma demonstração clara de irritação.

– Não discuto minha vida pessoal com meus clientes, Avett.

Ela esboçou um sorriso que fez suas sobrancelhas castanhas se levantarem.

– Por que não? Seus clientes são, provavelmente, as únicas pessoas em uma

situação pior do que a sua. Somos os últimos a poder julgar o que acontece

entre as quatro paredes de qualquer um. Estou aqui para tentar provar que não

ajudei meu ex-namorado a roubar um bar. O que é uma pequena infidelidade

comparada a isso?

Levantei de súbito antes de conseguir controlar minhas reações e levei as

mãos à cabeça.

– Ela é que foi infiel, não eu. Não que isso tenha alguma importância ou que

esse assunto esteja aberto à discussão.

Essa era uma ferida que não parava de sangrar, por mais que eu a apertasse

para estancá-la.

Avett se endireitou e pôs as mãos nos quadris. Me olhou por um segundo e

baixou o queixo de leve.

– Mesmo quando alguém não está interessado em sua história, ainda temos
vontade de contá-la.

Eu havia dito essas palavras para Avett na sala de interrogatório da cadeia

e agora elas me acertavam em cheio, porque usadas contra mim.

Avett começou a andar para lá e pra cá outra vez. Ela falou em voz baixa,

para a sala, porque não estava mais me olhando:

– Também descobri que você é muito bom no que faz. Ganha mais do que

perde. Libertou algumas pessoas bem culpadas assim como evitou que outras

bem inocentes passassem a vida atrás das grades. Se vou fazer uma aposta

com meu futuro, não poderia pedir ninguém melhor para dar as cartas.
Resolvi

acreditar que, pela primeira vez, o baralho está disposto a meu favor – ela

parou quando ficou bem na minha frente de novo e ficamos nos encarando. –

Obrigada por não ter me deixado demiti-lo, sr. Jackson.

Suas palavras, ditas de modo tão suave, me incitaram a falar algo que nunca

disse para um cliente desde que comecei minha carreira no Direito.

– Pode me chamar de Quaid.

Seus olhos espetaculares se arregalaram sutilmente, e ela mordeu o lábio.

– Tudo bem, Quaid. Não vou aceitar o acordo, e essa minha resposta é

definitiva.

Nós dois nos sentamos, com minha mesa enorme entre nós. Havia algo no

ar, uma vibração que eu não conseguia nomear, mas que parecia elétrica e
mais viva do que tudo que cruzou meu caminho nas últimas décadas. Na

verdade, a última vez em que tive a mesma descarga de adrenalina, a mesma

emoção correndo por meu sangue, fazendo meu coração bater


descompassado,

foi quando andei de avião pela primeira vez, indo para o treinamento do

Exército, para longe, bem longe de uma existência que era uma luta
constante,

cheia de dificuldades. Eu estava recomeçando, tendo uma segunda chance de

algo que valia a pena. Entendi isso, naquela época… Fiquei abismado com o

fato de essa emoção se sobrepor ao meu bom senso atualmente.

– A audiência preliminar será marcada para daqui a algumas semanas. O

Estado vai usar esse tempo para desenterrar qualquer coisinha que possa usar

contra você, a fim de provar que tem evidências suficientes para sustentar a

acusação, se formos a julgamento. Vou lembrá-los de que as acusações contra

você dependem de um viciado notório e não são nada além de boatos.


Também

temos o vídeo do estacionamento que mostra seu namorado praticamente te

carregando. Nossas evidências e testemunhas que apontam para Jared como

único culpado são muito mais convincentes do que qualquer coisa que a

Promotoria possa tirar do chapéu – dei um sorrisinho e acho que a ouvi

suspirar. – Sinceramente, se eu estivesse no seu lugar, acho que também


mandaria a Promotoria enfiar o acordo no rabo.

Avett deu uma risada, surpresa, que me deu um aperto nas entranhas.

– Estamos juntos nessa, Avett. Vamos apostar juntos, ou seja, perderemos

ou ganharemos juntos.

Ela deu uma risadinha debochada e falou:

– Só que eu sou a única que vai para a cadeia se perdermos.

– Verdade. Mas já ganhei casos bem mais complexos, com muito mais

evidências contra meus clientes. Se eu perder esse caso, vai parecer que

cometi um engano. E eu nunca me engano.

– Pude perceber, pelo jeito como sua secretária me olhava feio, que não sou

uma de suas clientes típicas.

– Bom, se você chamou a Pam de secretária na frente dela, pode ser por

isso. A moça prefere ser chamada de “assistente” – olhei bem para Avett e
me

assegurei de que ela percebesse quanto estava sendo sincero, pelo meu tom
de

voz. – E meu cliente típico é qualquer um que possa pagar. Não ligo se você

tem cabelo rosa ou se é um jogador famoso do Denver Broncos. Se me

contratar, vai receber a melhor defesa que tenho a oferecer, e vou encarar seu

caso como prioridade.

Ela deu um grande suspiro de alívio.


– Então preciso agradecer a Asa por ter te contratado.

Resolvi não contar que seu pai estava pagando a conta agora e acabei

dizendo, sem perceber:

– Aliás, gosto do seu cabelo rosa.

Avett piscou bem rápido e levantou as mãos, tocando as pontas rosadas de

seu cabelo.

– Gosta mesmo? – perguntou, incrédula.

Balancei a cabeça e respondi:

– Gosto, mas talvez você deva pensar em mudar a cor para a audiência.

Nunca é demais parecer o mais respeitável e cumpridora da lei possível – ela

fez careta, e levantei as mãos, como se quisesse me proteger de sua ira.

– Esse é o tipo de conselho que o seu pai diria para dar ouvidos se

estivesse aqui. Já te falei, passo muito tempo em audiências. E, por mais que

seu cabelo pareça insignificante para você, pode ter um grande impacto na

impressão que passará para o juiz e o júri. Se chegarmos a esse ponto.

Apesar de que eu iria ficar inexplicavelmente triste de ver seu cabelo rosa

desaparecer. Combina com ela, e eu gostava do modo como aquele cabelo e

aquela garota animavam minha sala tão sombria.

Ela segurou um punhado de mechas cor-de-rosa e fechou os olhos por uma

fração de segundo. Quando os abriu, eles brilhavam de resignação. Mais um


vez a garota fez beicinho, e tive não só vontade de mordê-lo, mas minha calça

sob medida ficou mais justa.

– Ok. Além do meu cabelo, o que mais preciso fazer antes da audiência

preliminar? Como posso me tornar respeitável e cumpridora da lei?

Ela parecia tão incomodada com isso que precisei segurar o riso.

– Mude o cabelo e se vista de forma apropriada para a audiência. Algo

conservador, mas não muito empetecado. Você é jovem e parece ser bem

inocente. Tem a vida inteira pela frente. Queremos explorar isso. E faça o que

o juiz da fiança falou: fique longe do namorado e tente não se meter em

confusão.

Avett ficou tensa e sussurrou:

– Ex-namorado. E eu já te disse que não quero vê-lo nunca mais.

– E eu já te disse que você não tem escolha – olhei para o relógio de pulso

e fiquei chocado ao perceber que havia conversado com ela por muito mais

tempo do que tinha agendado. Parecia que haviam se passado apenas alguns

minutos.

– Entendo o seu lado. Eu também não ia querer ver a pessoa que me meteu

em uma confusão dessas, mas foi você que entrou aqui dizendo que queria

fazer algo direito. Que não precisa de ninguém para segurar sua mão. Cabe a

você colocar o sujeito que te machucou, o monstro que ameaçou aquelas


pessoas com uma arma e tentou roubar um lugar que significa tanto para a
sua

família, na cadeia por um bom tempo. E esse é um passo enorme na direção

certa, Avett – me levantei, e ela fez a mesma coisa.

– Tenho outro cliente me esperando, precisamos acabar a reunião. Eu entro

em contato. Tenho certeza de que a Promotoria vai querer falar com você

sobre o caso do seu namorado. Devo ter a data da próxima audiência logo,

logo.

Estiquei o braço para apertar sua mão e quase precisei encolhê-lo quando

nossa pele se encostou. Um choque subiu por meu braço. Tive que usar cada

gota do meu autocontrole para não esfregá-lo, como se eu tivesse encostado

em um fio desencapado.

Ela se afastou e cerrou os punhos, como se tivesse tentando segurar a

eletricidade vibrante criada por nosso contato. Quando nos tocamos, parecia

que meu sangue estava carregado, estimulado de uma maneira que nunca

esteve antes.

– Aguardo ansiosamente por notícias suas – Avett limpou a garganta com

delicadeza, indo até a porta de minha sala. Ao chegar lá, ficou parada, com a

mão sobre a maçaneta, e se virou para mim. – Quaid?

Levantei os olhos da pasta que estava examinando e fiz cara de

interrogação.
– Que foi?

– Não sou tão nova nem tão inocente quanto você quer acreditar. Se você

quer convencer o juiz e o júri disso, porque acha que vai me ajudar a me
livrar

da prisão, posso fingir que sou, mas você precisa admitir que não é verdade.

Então saiu pela porta antes de eu conseguir formular uma resposta.

Liguei para Pam e avisei que precisava de alguns minutos para me preparar

antes de receber o próximo cliente. Fiquei balançando na cadeira, tentando


me

recuperar do furacão Avett. Aquela garota era um redemoinho de destruição,


e

eu não conseguia acompanhar as várias direções para as quais ela soprava

minhas emoções. Nunca conheci ninguém igual a ela. Não conseguia nem me

lembrar de ter lidado com alguém tão real, tão aberta em relação às suas

falhas e aos seus fracassos, quanto Avett. Nunca conheci ninguém tão

descuidado com seu próprio destino quanto ela. Aquela menina tinha algo de

fato intrigante. Assim como o desafio que lançou quando saiu.

Óbvio, ela era tecnicamente nova, muito mais nova do que eu, pelo menos.

Quando eu tinha 22 anos, já havia voltado do deserto e estava começando a

faculdade. Não era tão inexperiente como muitos homens de 20 anos, mas
isso

tinha mais a ver com o modo como fui obrigado a crescer do que com ter
lutado por meu país. Mesmo assim, a diferença entre o que eu sabia naquela

época e o que sei hoje é enorme. Então, sim, Avett Walker é jovem, apesar de

afirmar não ser.

Quanto a ser inocente… Estou com a ficha criminal dela bem na minha

frente, sei que a garota não é nenhum anjo. Contudo, algo naqueles seus
olhos

rebeldes parece tão gentil e suave... Quanto Avett é ou deixa de ser inocente

ainda está aberto à discussão.

Eu já ia ligar para Pam e lhe pedir para trazer meu próximo cliente quando

o telefone de minha mesa tocou, no mesmo instante em que eu ia pegá-lo.

Sabia, pelo identificador de chamadas, que o homem do outro lado da linha

era Orsen McNair, o sujeito que me contratou, o McNair da placa

McNair&Duvall, os sócios-fundadores do escritório. Gosto de Orsen,

agradeço por ele ter me dado uma chance assim que saí da faculdade de

Direito e por ele ter ficado a meu lado durante o divórcio, apesar de Lottie ter

feito de tudo para arrastar não só meu nome, mas o do escritório também,
para

a lama. Devo muito a ele, dado que não tenho o pedigree da maioria dos

advogados que são contratados logo depois de se formar. Também reconheço

que cheguei a esse ponto da minha carreira baseado na minha própria ética de

trabalho e nas minhas próprias habilidades de interpretar e de convencer um


júri. Quero que meu nome esteja na placa, ao lado do de Orsen, e nunca
deixei

de falar isso abertamente para ele.

– Fala, meu velho.

Ouvi uma risadinha rouca do outro lado da linha, e a cadeira de Orsen fez

barulho, por causa de seu peso.

– Ouvi dizer que agora defendemos punks.

Franzi a testa, mesmo sabendo que Orsen não estava me vendo, e olhei feio

para a porta fechada na direção de Pam.

– Onde foi que você ouviu isso?

– Fala sério, Quaid. Você sabe que as moças desse escritório fofocam como

se pagas para isso. Pam não se segurou e contou para a Martha da garota de

cabelo rosa, falou que a menina ficou trancada em sua sala por mais de uma

hora. E ainda disse que ela parecia corada e agitada quando finalmente saiu

daí. Você tem alguma coisa para me contar, moleque?

Fechei os olhos e massageei as têmporas com movimentos circulares e

fortes.

– Não tem nada para contar, Orsen. A menina é uma cliente nova. Veio por

indicação de outro cliente. O cabelo cor-de-rosa é uma questão menos

relevante, mas já avisei que ela precisa mudar de cor antes da audiência. Se a

garota parecia chateada ou agitada quando saiu de minha sala, foi porque eu
disse que ela vai ser a principal testemunha da Promotoria no caso contra seu

namorado.

A menina não ficou nem um pouco feliz. E Pam é muito bocuda.

– Pam tem medo de que outra interesseira enfie as garras em você.

A lembrança de tudo o que passei, de tudo o que fiz o escritório passar, me

acertou em cheio.

– Ela não precisa se preocupar, porque isso nunca mais vai acontecer. Já te

falei centenas de vezes que aprendi a lição.

Mais um risada rouca do outro lado da linha.

– Você precisa de uma mulher disposta, que saiba dar ao homem o que ele

precisa e que seja bonita. Na verdade, você precisa encontrar uma mulher e

trazê-la na festa de Natal do escritório que vai acontecer logo mais.

Soltei um grunhido e me obriguei a tirar da cabeça minha própria imagem

entrando na opulenta mansão de Orsen, no influente subúrbio de Belcaro, de

braço dado com o furacão de cabelo cor-de-rosa. Os sócios ficariam loucos, e

não só porque ela é nossa cliente. McNair e Duvall têm uma imagem a zelar,

uma reputação a preservar, ou seja, todo mundo que os representa deve agir e

parecer de um certo modo. Por fora, Lottie era a perfeita esposa de advogado,

mesmo sendo depravada e o pior tipo de esposa por dentro. Tive que me

encolher todo e fiquei arrepiado só de comparar as duas mulheres. Elas não


eram farinhas do mesmo saco. Na verdade, eu tinha quase certeza de que
Avett

vinha de um saco especial, feito só para criá-la.

– Vou ver o que consigo fazer. Minha cota de processos é um pesadelo neste

momento, não sobra muito tempo para mais nada.

– Sempre sobra tempo para a mulher certa, moleque, principalmente depois

de você ter perdido tanto tempo com a mulher errada. Agende um almoço

comigo no começo da semana que vem. Você pode me atualizar dos seus

processos, incluindo o da punk.

Orsen deu “tchau” e desligou antes que eu pudesse dizer que cabelo cor-de-

rosa não significa automaticamente que a pessoa é punk. Orsen é das antigas,

não muda por nada. Jamais reconheceria que o cabelo é mais uma faceta da

personalidade espirituosa e rebelde de Avett. Não menti quando disse à


garota

que gosto de seu cabelo. É diferente e combina com ela, mas também sou

prático e sei que a cor precisa mudar, apesar de não gostar dessa ideia quase

tanto quanto ela.

Os pensamentos muito pouco profissionais que eu vinha tendo em relação a

Avett também precisavam sumir. Se é que existe uma mulher certa para o que

eu preciso neste momento, com certeza não é uma quase criminosa e que

parece se sentir mil vezes melhor na própria pele do que eu me sinto na


minha.

Preciso de uma mulher que eu possa comer e esquecer, não uma que não saia

da minha cabeça e cause rachaduras, mesmo sem querer, na minha fachada de

ferro, atrás da qual passei tantos anos me escondendo.

CAPÍTULO 5

Avett

–VOCÊ ESTÁ BONITA, AVETT.

A voz rouca de meu pai me assustou, enquanto eu ainda estava

tentando prender mechas do meu cabelo rosa em um coque bem lambido na

nuca.

Eu deveria ter pintado o cabelo. Tive quase três semanas para comprar a

tinta, tirar o cor-de-rosa, mas não consegui fazer isso. Toda vez que pensava

em pintá-lo, toda vez que contemplava a possibilidade de ir para a prisão por

um bom tempo, pensava em ir presa de um jeito que não era o meu, pensava

em encarar o juiz e todos os que foram selecionados como jurados para me

julgar como uma imitação de mim mesma, e minha pele ficava toda
arrepiada.

Além disso, sempre que tenho reunião com Quaid em sua sala abafada, com o

tapete caro e a mobília tediosa, a primeira coisa que ele faz é olhar para o
meu

cabelo, e depois para mim, com um misto de reprovação e admiração. Gosto


das duas reações. Gosto de qualquer reação que ele tenha. Fazer Quaid reagir

a mim acabou se transformando em um desafio pessoal, e tenho plena

consciência de que estou cutucando uma onça enorme com vara curta. O

homem é um predador, uma fera civilizada de terno de grife. O belo


advogado

esconde muito mais do que se pode perceber à primeira vista. Estou

perigosamente intrigada pelo tipo de segredos que seu sorriso matador e seus

olhos azuis de aço escondem.

Como ele nunca mais sugeriu que eu mudasse a cor do cabelo, em segredo

fiquei torcendo para ele se dar conta de que a cor faz parte do pacote… Mais

uma escolha minha que podia se voltar contra mim. Mas, como todas as

minhas escolhas, eu encararia as consequências de minhas ações. Eu me

responsabilizaria por ser o tipo de pessoa com defeitos incuráveis, que

sempre fode com tudo. Não escondia nada disso, ou seja, o cabelo rosa ia

continuar rosa, mas dei tudo de mim para que ficasse o mais sutil possível e

dei ouvidos a uma parte do conselho de Quaid, quando, para o grande dia,

resolvi não me vestir como uma menina que largou a faculdade. Era por isso

que meu pai estava apoiado no batente da porta do banheiro, me olhando


como

se nunca tivesse me visto toda arrumada.

Provavelmente, porque nunca viu mesmo. Minha família é informal até o


último fio de cabelo. Tenho uma única saia, dos tempos do colégio. Precisei
ir

às compras, com meu pai, porque não tenho carro nem dinheiro para comprar

nada que pareça adequado a convencer um juiz que eu jamais participaria de

um assalto à mão armada.

Me apoiei na pia, olhando para os olhos cinza escuros do meu pai pelo

espelho. Não tem sido nada fácil desde que voltei para casa. Há uma tensão
no

ar, uma nuvem persistente que paira sobre nós, e não sei o que posso fazer

para consertar essa situação com a pessoa mais importante do mundo para

mim. Sei que grande parte desse incômodo é devido ao fato de minha mãe

ainda não estar nem um pouco feliz comigo. E, se ela não está feliz, Brite

também não está. Também não sei o que fazer para melhorar a situação com

ela, ou seja, não estou fazendo nada. Não fazer nada sempre é a atitude que

mais machuca e, apesar de eu saber disso, continuo não fazendo nada sem

parar.

– Obrigada, pai. Que tal meu cabelo?

Levei mais tempo fazendo o coque do que já gastei com meu cabelo nos

meus 22 anos. Normalmente, deixo o cabelo solto, com suas ondas naturais.

Sempre fui desencanada.

– Bonito. Está tudo bonito. De frente, nem dá para ver o rosa.


Brite tentava me tranquilizar, mas dava para perceber que ele estava

nervoso pelos seus ombros tensos e pela expressão de sua boca, escondida no

meio da floresta de sua barba.

– Que bom. Não posso esquecer de não virar a cabeça na frente do juiz.

Obrigada por ter comprado essa roupa chique para mim.

Arrumei a frente do vestido de renda, cor creme, com manga três quartos e

na altura do joelho, que meu pai escolheu. Era bonitinho e ficava totalmente

conservador quando combinado com meias-calças pretas e ankle boots. Não

era uma roupa que me fazia parecer mãe ou uma mina de uma classe da qual
eu

nunca, jamais, serei. Era uma roupa que me fazia parecer uma mulher de 22

anos que devia, teoricamente, ter a cabeça no lugar. Então, era isso que eu

estava determinada a ser, mesmo sentindo que minha cabeça não poderia
estar

mais fora do lugar.

– Fico feliz de poder ajudar, Fadinha. Sempre fiquei – ele franziu mais a

testa, e suas sobrancelhas grisalhas afundaram sobre seus olhos. – A sua mãe

também.

E lá estava ele. O elefante no meio da sala, tamanho Darcy, que pairava

entre nós desde que meu pai havia me tirado da cadeia… Ou até antes. As

coisas nunca foram muito fáceis entre mim e minha mãe. Soltei um suspiro e
me virei de frente para ele. Apoiei as costas na pia e olhei em seus olhos

solenes.

– Não sei o que dizer para ela, pai. A Darcy não é você. Não perdoa como

você perdoa.

Quando comecei minha descida ao fundo do poço, quando deixei de ser

uma simples menina festeira, ainda que desafiadora, para me transformar na

menina determinada a estragar tudo de bom que tinha na vida, minha mãe
não

entendeu, ficou observando minha queda sem demonstrar muita empatia ou

compaixão. Tudo bem, ela não sabia de todos os detalhes, mas eu queria que

ela me amasse a ponto de me perdoar e relevar minhas atitudes mesmo assim.

Em vez disso, ela se distanciou tanto de mim que a culpa e a vergonha que

comecei a nutrir na noite em que descobri quanto pode ser trágico não fazer

nada acabou florescendo e ficando enorme.

– Você é tão parecida com sua mãe, Fadinha. Acho que vocês duas são

muito teimosas e muito cabeças-duras para perceber. Ela te ama. Sempre vai

te amar e te apoiar do mesmo jeito que eu. A sua mãe teve que aprender com

os próprios erros assim como você, filha. A Darcy quer que a sua filhinha

tenha uma vida melhor. Não quero ver você perdendo tempo com um imbecil

atrás do outro como ela fez e não quero ver você atrelada a um bar sem nome.

Você sabe tão bem quanto eu que tem muito mais a oferecer. E não há mal
nenhum em desejar essas coisas para a sua filha.

Soltei um suspiro e endireitei as costas.

– Vou convencer a mãe de que sou inocente e aprendi a lição depois que eu

convencer o juiz. Combinado? – meu pai ficou me olhando com firmeza até
eu

me virar.

– Pai, prometo que vou dar um jeito de resolver a situação com a mamãe.

Deixei as coisas irem longe demais, e isso não me trouxe nada de bom.

Finalmente, depois de um instante, ele esboçou um sorriso que transformou

o motociclista durão, mal-humorado e ríspido em um sujeito carinhoso, gentil

e parecido com o Papai Noel.

– Sei que vai, Fadinha. Levo fé em você… sempre. Você pode ter se

esquecido, mas somos seus pais. Estamos segurando firme desde o começo.

Eu me afastei da pia e puxei a bainha do vestido, nervosa.

– Valeu, pai. Vamos nessa.

Quaid tinha tanta certeza de que iam retirar as acusações, mas nunca me

deixava esquecer de que podíamos aceitar o acordo, de que noventa dias de

prisão eram uma opção muito melhor do que três anos. Eu estava nervosa,
mas

Quaid Jackson tinha algo de especial, algo em sua postura, algo em sua
postura
comigo, que me dava uma confiança inabalável de que a situação se
resolveria

do modo que ele tinha encaminhado. Eu acreditava mesmo que aquele


homem

conseguiria fazer que retirassem as acusações. E, se não conseguisse, eu tinha

plena confiança de que ele soltaria aquele sorriso perigoso e seu charme cruel

em cima do júri e faria todos comerem em sua mão.

Meu pai saiu da frente do banheiro e foi atrás de mim pelo corredor, até a

frente de casa. Peguei minha bolsa e já estava abrindo a porta quando sua
mão

pesada pousou em meu ombro. Virei para ele, com cara de interrogação, e

fiquei aliviada ao ver que ele ainda estava sorrindo.

– Avett, você precisa entender como cheguei ao ponto em que aprendi a

perdoar. O principal motivo para eu conseguir ficar do lado de alguém que

está perdido até essa pessoa se encontrar é eu ter sido um homem, há não

muito tempo, que precisava desse tipo de perdão e precisava de alguém para

me guiar. Todas as escolhas que fiz, excelentes e péssimas, me ensinaram


algo.

Acho que está na hora de você parar de ignorar essas lições, Fadinha.

Eu não estou ignorando as lições. Elas estão me acertando em cheio no

coração, no fundo da minha alma, e mereço cada uma delas. Essas lições me

fazem lembrar, todos os dias, do tipo de pessoa que sou; reforçam o fato de
que, quando você é uma pessoa ruim, coisas ruins acontecem, e sei que
mereço

todas elas. Cada lição que aprendo, seguro com as duas mãos, para os

espinhos me machucarem sem parar.

Meu pai fechou a porta e descemos os degraus da bela casa de tijolos, de

dois andares, estilo neoclássico, toda restaurada, onde ele mora desde que se

separou da minha mãe. É meu lar, assim como o bar, e eu adoro, como
também

adoro o bairro Curtis Park, onde ela fica. Enquanto andávamos em direção à

sua picape vermelha, Brite parou e acenou para alguém do outro lado da rua.

Espremi os olhos, me protegendo do sol, a fim de ver para quem ele estava

acenando. Mas só consegui enxergar um cabelo cor de ferrugem, em um


braço

cheio de tatuagens coloridas, que desapareceu no banco do motorista de um

belo Cadillac antigo. O sujeito foi rápido, e seu carro roncou alto e invocado.

Aquele não era um Cadillac de exposição; era um Cadillac com culhões. Em

excelente estado de manutenção.

– Quem é esse?

Meu pai abriu a porta do carro para mim, porque mesmo o mais durão dos

durões trata a filha como uma dama e não aceitaria nada menos do que isso

vindo de qualquer homem que fizesse parte de sua vida.


Ele se sentou atrás do volante e colocou seus óculos de sol espelhados.

Acho que Quaid deveria ter dado para o velho uma lista de certo e errado em

relação às roupas de audiência, e não para mim. Pelo menos meu pai deixou a

camiseta da Harley Davidson em casa e optou por uma camiseta preta lisa.

Aquele era total o jeito de Brite Walker se vestir para arrasar. Soltei uma

risadinha quando me dei conta disso, enquanto ele manobrava o carro.

– Vizinho novo. Os rapazes o chamam de Machina. É dono de uma oficina

no bairro dos armazéns. O garoto tem talento quando o assunto é motor. Vivo

dizendo para ele que, se encontrar uma Harley Pan-Head 1959, vou comprar

sem nem perguntar o preço para ele restaurar. É um bom garoto, e os rapazes

gostam dele.

Levantei a sobrancelha e perguntei:

– E foi só uma coincidência ele vir morar na casa da frente?

Meu pai riu e se virou para mim, mas só consegui ver minha própria

expressão, pálida e enrugada, refletida em seus óculos. Definitivamente, não

sou uma garota que tenha a cabeça no lugar. Eu não ia enganar ninguém.

– Os rapazes podem ter dito que ele estava procurando lugar para morar, e

eu posso ter comentado que havia uma placa de “vende-se” na vizinhança. O

moleque arrumou uma namorada e ficou noivo recentemente. Está tentando


se

acertar na vida. E você sabe o que eu penso de um homem bom estar


tentando

se acertar – ele ficou em silêncio e murmurou tão baixinho que quase não
ouvi:

– Mesmo que o cara esteja tentando se acertar com a mulher errada.

– Você não gosta da namorada dele?

Meu pai encolheu os ombros e se virou para a rua. Na língua de Brite

Walker, isso significa que ele não gosta nem um pouco da garota.

– O moleque trabalha duro, tem um talento nato para o que faz. A dona

parece que se contenta em ficar sentada e se aproveitar dele. Faz tempo que
os

dois estão juntos, e acho que o menino não conhece coisa melhor. Ela me

lembra da minha primeira mulher, do meu primeiro casamento, e você sabe


tão

bem quanto eu como é que acabou.

Acabou mal… muito mal. Meu pai traiu essa mulher com a minha mãe, que

engravidou de mim, e largou a primeira esposa sem olhar para trás, apesar de

os dois estarem juntos desde o Ensino Médio e a dona ter esperado meu pai

por anos enquanto ele estava no exterior, com os fuzileiros navais. Brite
disse,

muitas e muitas vezes, que se arrepende do jeito como as coisas terminaram

com a primeira mulher, que ela merecia ter sido mais bem tratada. Mas que
eu
acabei nascendo. Essa era sua ótima história que havia resultado de uma

péssima escolha, e tenho certeza de que meu pai não me trocaria por nada

neste mundo.

Ri outra vez e fiquei olhando pelo vidro, enquanto nos aproximávamos cada

vez mais do centro, onde fica o Tribunal.

– Não é sua obrigação salvar todas as pessoas confusas de vinte e poucos

anos que existem em Denver, pai.

Ele também riu e entrou em um estacionamento pago, porque não ia arrumar

vaga para aquela geringonça gigante nas ruas movimentadas do centro de


jeito

nenhum. Até os durões odeiam estacionar nas ruas lotadas da cidade.

– Estou aposentado, Avett. O que mais posso fazer com meu tempo?

Acho que é um bom argumento. Ele veio abrir a porta para mim. Dei o

braço para meu pai e respirei fundo. Meus nervos estavam à flor da pele, e

comecei a sentir um embrulho no estômago.

– Espero que essas pessoas reconheçam o que você faz por elas.

Brite deu uma batidinha em minha mão suada, que estava em seu braço

tatuado, e falou:

– Isso não interessa. Eu reconheço o que elas fazem por mim.

E é isso: meu pai é gigante, não leva desaforo para casa, é barbudo e

assustador, mas não há no mundo um coração maior do que aquele que bate
firme e forte dentro de Brite Walker. Ele é um sujeito incrível de verdade. Sei

que nunca fiz nada em minha curta vida para merecê-lo, mas sou egoísta e

gananciosa a ponto de saber que nunca, jamais, vou largá-lo. Mesmo tendo

certeza de que nunca vou me sentir completamente merecedora de sua


lealdade

e sua devoção.

Sua voz ecoou em minha cabeça e me distraiu dos meus pensamentos

sombrios.

– Preparada, Fadinha?

Respirei fundo, ele abriu a porta do Tribunal e foi comigo até a linha de

segurança.

– Tão preparada quanto possível, acho.

Não falamos mais nada ao passar pelo esquema de segurança. Os guardas

olharam desconfiados para meu pai e, como era de esperar, o puxaram para o

lado e passaram o detector de metais nele antes de nos deixarem entrar.

Encontramos a salinha que Quaid havia indicado, para que a gente pudesse se

encontrar do lado de fora da sala de audiência. Entramos, e ele já estava no

celular, com uma aparência mais elegante e composta do que nunca.

O terno do dia era preto, e a camisa, cinza-chumbo. A gravata de seda em

volta de seu pescoço moreno era de um belo tom de azul-royal. O conjunto o

deixava lindo de dar vontade de comer. Aquele homem ficava bem de terno,
mas eu tinha curiosidade de saber como ele ficava sem terno. O Google

generosamente compartilhou comigo uma foto de Quaid com a roupa

camuflada do Exército, mas ele era tão novinho… Um garoto, na verdade,


não

aquele homem alto e imponente que estava na minha frente. Fiquei me

perguntando se ele relaxava, se tirava o terno ao chegar em casa e colocava

uma calça de moletom surrada e uma camiseta manchada. Duvido muito, mas

apostaria um bom dinheiro que ele fica tão bem de roupa casual quanto com

aqueles ternos de mil dólares.

Ele me olhou de cima a baixo e me cumprimentou balançando a cabeça,

antes de apertar a mão de meu pai.

– Vejo que seguiu meu conselho à risca, srta. Walker. Ficou bom, muito bom

mesmo.

Revirei os olhos quando ele me chamou de “srta. Walker”. Já fazia semanas

que me chamava de “Avett” quando estávamos sozinhos em sua sala, e eu o

chamava de “Quaid”. A formalidade serviu para me lembrar de que estava na

hora do show, e era melhor eu estar com minhas falas bem decoradas para

dizê-las na frente das autoridades.

– Obrigada. Foi meu pai que escolheu, e passei um tempão tentando

esconder meu cabelo rosa. Foi o melhor que pude fazer.

Virei a cabeça para o lado, de leve, para ele poder ver o coque. Se eu não
estivesse bem à sua frente, não teria percebido o suspiro sutil, parecendo de

alívio, que ele soltou.

– O trabalho valeu a pena.

Balançei a cabeça de leve e lhe lancei um olhar tão frio quanto o dele para

mim.

– Aconteça o que acontecer comigo, vou dançar conforme a música, admitir

que fiz merda e escolhi a pessoa errada. De novo. E vou fazer isso sendo eu

mesma. Eu, que tenho cabelo cor-de-rosa e não usaria um terninho nem
morta

– percorri com os olhos seu corpo alto e elegante, vestido em um tecido que

vale mais do que a parcela mensal da hipoteca do meu pai. – Sem querer

ofender.

Até parece que ele se ofende com alguma coisa. Nenhum homem da face da

Terra fica tão bem de terno quanto aquele. Tipo, tenho quase certeza de que

isso é um fato real.

Quaid levantou levemente as sobrancelhas, e os cantos de sua boca se

abaixaram, porque ele não ia se permitir sorrir para mim.

– Não me ofendeu. E você não precisa de nenhum terninho. O que está

usando está ótimo, e é mais importante você se sentir confortável. Isso passa

uma impressão honesta e sincera. Não tem necessidade de usar nada que a

deixe inquieta e pouco à vontade. Esse comportamento dá a impressão de que


está nervosa e é culpada.

O advogado se afastou de mim e foi até a mesa onde estavam seu

computador e uma pilha de papéis.

– Lembrando que a Promotoria tem o direito de falar primeiro. Irão

levantar cada mínima infração de seu histórico. Irão falar que você largou a

faculdade. Irão martelar no fato de você ter trabalhado no bar, de ter sido

demitida e estar chateada com seu pai por tê-lo vendido.

Meu pai ficou todo tenso atrás de mim, mas eu não me virei. Balancei a

cabeça para Quaid e falei:

– Estou preparada para isso.

– Eles vão tentar convencer o juiz de que você estava lá para ajudar Jared,

que você é uma verdadeira ameaça à sociedade e é melhor ficar atrás das

grades. Depois irão tentar enrolar o juiz fingindo generosidade, lhe


oferecendo

o acordo – disse, me lançando um olhar sugestivo.

– E eu não vou poder fazer meu papel até tudo isso acabar. Então você vai

ter que se sentar lá e se segurar enquanto eles arrastam seu nome para a lama.

Vocês dois vão ter que se segurar. Fui claro?

Olhei para trás e vi que meu pai estava fazendo careta outra vez e que

parecia quase tão nervoso quanto eu.

– Estou te ouvindo, filho – a voz de meu pai ecoou, grave e séria, pela sala
minúscula.

Quaid balançou a cabeça e continuou:

– Que bom. Estou aqui por um motivo, por um único motivo, que é vencer

esse julgamento para você. A Promotoria até reuniu uma argumentação

decente, mas a mediocridade não basta quando o adversário sou eu. Estamos

nessa juntos, entenderam?

O sujeito me falava aquilo há semanas, dizendo que aquela luta era dele

tanto quanto minha. Mas, já que eu era a única que tinha algo a perder, a
saber,

minha liberdade, não era fácil acreditar nele. Ali, naquela salinha, com meu

pai praticamente tremendo de tanta tensão atrás de mim e Quaid exalando

confiança e talento na minha frente, eu realmente comecei a acreditar.

– Ok. Estamos nessa juntos.

Seus olhos gelados derreteram muito sutilmente, e riscos ardentes de

estanho arderam em suas profundezas. Aquele olhar fez meu coração bater

mais rápido, e um pouco da ansiedade que tomava conta de mim se

transformou em algo inebriante e lânguido. Mesmo sendo a coisa mais

improvável do mundo, me dei conta de que daria para o meu advogado,

totalmente. Como aquelas mulheres que ficaram falando na audiência de

fiança. Ele era gato de um jeito muito diferente do que eu já considerei sexy,

bonito até, mas era a sua firmeza, a sua atitude indômita que me atraía.
Quaid não é impetuoso nem precipitado. É um homem que tem um plano e a

fibra necessária para pôr esse plano em prática e levá-lo até o fim.

Definitivamente, tem a cabeça no lugar. Isso nunca me atraiu. Mas, de


repente,

se tornou o traço mais desejável que já vi em um homem. Ele é impecável,

sem defeitos. E, para alguém com defeitos tão incuráveis e trágicos quanto os

meus, é impossível não ficar fascinada por essa perfeição.

Inspirei e segurei o ar enquanto saí da sala, atrás dele, e entrei no Tribunal.

Como aquela era uma audiência preliminar, as únicas pessoas ali dentro eram

o escrivão, o promotor, seu assistente e o nosso grupinho. Deveria ser menos

desesperador ter todos os erros que já cometi na vida revelados na frente de

um público menor. Mas, como esse público era o mais importante, e meu pai

fazia parte dele, meu estômago se revirou e começou a arder quando


sentamos

do nosso lado do recinto.

O promotor era o mesmo da audiência de fiança. Chegou perto de nós e

apertou a mão de Quaid antes de se sentar e medir a roupa elegante de meu

advogado.

– Belo terno, Jackson.

Quaid sorriu para o homem, mas não foi um sorriso simpático. Foi um

sorriso que mostrou demais os dentes e não me deixou toda derretida como
eu

costumava ficar quando ele sorria.

– Obrigado, Townsend. Eu me arrumei todo só para você.

O outro sujeito soltou um grunhido e me olhou. Tive vontade de me

encolher toda na cadeira, mas repeti sem parar que ia fingir ter cabeça no

lugar naquele dia e precisava ficar quieta.

– Você tem certeza de que a sua cliente não quer aceitar o acordo? Achei

que a chefia foi muito generosa quando a papelada apareceu em minha mesa.

Abri a boca para dizer que eu não tinha feito nada, mas fechei logo em

seguida. Quaid estava ganhando uma pequena fortuna para me defender, e eu

sabia que seria um desastre se eu tentasse me defender eu mesma. Então


fiquei

quieta e me obriguei a não esboçar nenhuma reação para o promotor.

– Seria mesmo um bom acordo… se ela fosse culpada do crime. Ter mau

gosto para homem e ser pega com um viciado imbecil não é uma infração

passível de punição.

O tom de voz de Quaid era gélido, e não tinha como não perceber que ele

não estava a fim de ficar de provocação com o outro sujeito.

– Quando o viciado imbecil rouba um bar com uma arma não registrada e

ameaça a vida de uma policial, é, sim, uma infração passível de punição. Ela

não chamou a polícia, Jackson, ela não fez nada.


Eu me encolhi toda e parei de olhar para aquele enfrentamento tão intenso.

“Ela não fez nada… .” Nunca fiz nada, e isso me assombra até hoje. Paira em

cima de mim como uma nuvem negra. O nada é tão ruim quanto ter
participado

do crime. Pelo menos, é isso que eu acho. O nada pode ficar no ar, como algo

espesso e pesado, até eu não conseguir mais respirar. E faz muito tempo que

estou sem ar.

– E eu repito, Townsend, não fazer nada não é crime.

Pode até não ser crime, mas a pena por não fazer nada pode ser bem pior

do que a pena por ter cometido um crime de verdade.

– É, bem, vamos ver se o juiz concorda com você.

O promotor se esgueirou até o outro lado do recinto. Logo depois dessa

conversa, o escrivão mandou todos se levantarem e um homem mais velho,


de

toga drapeada, entrou e se sentou no seu devido lugar. O escrivão leu o

número do meu caso e as acusações que eu estava enfrentando, então todos

tivemos que dizer nosso nome em alto e bom som para registro.

O juiz disse um “olá” curto e grosso para Quaid e o promotor e, sem

nenhum preâmbulo, o cara começou a falar por que o Estado achava que eu

deveria ficar atrás das grades. Exatamente como Quaid havia alertado,
tiraram
toda a minha roupa suja e deixaram ali, para todo mundo ver. A acusação de

dirigir embriagada, da qual consegui me livrar na conversa. A briga de bar


que

resultou em uma ida à delegacia, porque eu estava bêbada e achei que a


garota

estava dando em cima de Jared. A acusação de invasão de domicílio na vez

em que pulei a cerca de um resort para nadar pelada com um rapaz de uma

banda que eu havia conhecido em um bar. Tudo em sua mais gloriosa


sordidez.

Todas as minhas péssimas escolhas e todos os erros que já cometi foram

expostos, para serem julgados. Todas as vezes em que aproveitei a

oportunidade de fazer algo errado porque não merecia fazer o certo. Foi

difícil, mas fiquei sentada, em silêncio, sem esboçar reação, e me recusei a

tirar os olhos do juiz, que não tirou os olhos de mim.

– Também temos uma testemunha disposta a declarar que a srta. Walker foi

demitida, do mesmo bar que está sendo acusada de ajudar a assaltar, por

roubo. A mesma testemunha pode declarar que a srta. Walker estava com
raiva

de seu pai por ele ter vendido o bar. Bar que, de acordo com ela, lhe pertencia

e devia permanecer em família. Por isso ela traçou o plano do assalto, por

vingança.

Quaid levantou e apoiou as mãos na mesa à sua frente.


– Você está falando sério, Townsend? Você também vai revelar para Corte

que a sua testemunha é um notório usuário de drogas? Você planeja dizer à

Corte que está prestes a acusar a tal testemunha por assalto à mão armada e

por colocar em risco a vida de uma policial? Que tipo de acordo você

ofereceu a essa testemunha em troca de seu depoimento contra minha cliente,

sr. promotor?

Finalmente tirei os olhos daquele juiz, cuja expressão era impossível de

decifrar, e olhei para meu advogado. Seus braços e suas costas formavam
uma

linha dura de tensão. Ele estava bravo por mim. A quedinha que eu tinha por

ele se transformou em uma verdadeira paixão avassaladora. Meu pai era o

único homem que já havia brigado por mim até então. Ver aquele homem, tão

educado, que parecia tão perfeito, me defender, apesar de estar fazendo isso

por dinheiro, aqueceu até os dedos dos meus pés.

– Sr. Jackson, o senhor terá sua oportunidade de argumentar contra a

Promotoria em breve. Por favor, controle esse tipo de ataque enquanto estiver

na minha Corte. O senhor sabe muito bem que não pode fazer isso.

Envergonhado e claramente irritado, Quaid se sentou de novo ao meu lado e

me lançou um olhar que foi de puro calor e revolta. Foi a minha vez de

inclinar a cabeça para tranquilizá-lo. E, ainda que eu saiba que, na cabeça

dele, não foi de propósito, rocei meu cotovelo no dele, como Quaid fez em
mim na audiência da fiança. Estávamos juntos naquela, afinal de contas.

Depois que o promotor terminou de falar, o juiz examinou a papelada à sua

frente, com toda a calma, e então se dirigiu ao meu advogado.

– Suponho que haja uma proposta de acordo, uma vez que assisti às

imagens do estacionamento, as quais deixam muito claro que a srta. Walker

não estava no local por vontade própria.

O promotor ficou visivelmente tenso, limpou a garganta e respondeu:

– A Promotoria propôs, sim, um acordo, Excelência. A srta. Walker o

recusou. Em nossa opinião, temos evidências sólidas para levar esse caso a

julgamento.

O juiz não falou nada. Olhou para Quaid, se levantou e disse:

– A sua cliente tem consciência do que irá acontecer se ela recusar o

acordo e se arriscar a ficar diante do júri, sr. Jackson?

– Tem, sim, Excelência. A questão é que ela não sabia que Jared Dalton

tinha planos de assaltar o bar naquela noite. Não sabia que ele estava armado

e, quando o sr. Dalton lhe contou o plano, minha cliente tentou sair do carro,
e

todos sabemos o que aconteceu – Quaid me olhou e continuou.

– A srta. Walker estava no lugar errado, na hora errada, e está pagando um

preço admiravelmente alto por ter se envolvido com o sujeito errado. Se eu

for colocado diante do júri com ela, o senhor sabe tão bem quanto eu que os
jurados verão uma jovem bonita que cometeu alguns erros, mas nenhum tão

grave quanto ter permanecido em um relacionamento abusivo com um


viciado.

Esse vídeo é uma evidência esmagadora, assim como a testemunha que eu

pretendo apresentar, a qual pode atestar que minha cliente apareceu para

trabalhar com os olhos roxos e também atestar que todo mundo que via os
dois

juntos sabia que o tal Jared era encrenca na certa. Isso sem mencionar que a

testemunha da Promotoria está sendo investigada por tráfico de drogas, além

da acusação de assalto à mão armada, quando ele foi baleado, durante o

cometimento do crime. Pelo jeito ele ficou bem tagarela enquanto esteve no

hospital, se recuperando. Ofereceu aos policiais muita informação em troca


de

um acordo. Avett Walker é uma vítima, não uma criminosa.

Eu não era uma vítima. Era uma pessoa ávida por punição e tinha meus

motivos para ser assim. Mas o juiz não sabia disso. Ele me olhou e engoliu
em

seco.

– Srta. Walker...

Tentei me levantar, trêmula, e Quaid segurou meu braço e me puxou para

cima.

– Sim, Excelência.
– O que foi que aconteceu, exatamente, naquela noite?

Senti minhas pernas bambearem e meu coração bater forte em meus

ouvidos.

– Eu… – comecei a gaguejar e precisei limpar a garganta. Cerrei os punhos

e me obriguei a ser sincera. Todos os meus erros já estavam expostos mesmo,

não tinha como melhorar nem piorar a situação falando a verdade. – Jared

havia passado um tempo fora. Devia muito dinheiro para um traficante, por

isso eu estava roubando do bar. Fui imbecil. Foi uma medida desesperada,

mas fiz isso porque pensei que estava ajudando alguém que gostava de mim.

Minha voz falhou e me dei conta de que Quaid não havia soltado meu

braço, porque ele o apertou de leve.

– Enquanto Jared esteve fora, uns caras apareceram, procurando por ele.

Eles, hãn… – minha voz falhou de novo, e tive que fechar os olhos e me

segurar para conseguir contar o resto.

– Eles arrombaram a porta do lugar onde a gente morava e bateram em mim

– poderia ter sido muito pior. Mas, graças a Deus, a senhoria de Jared era
uma

velha intrometida que ouviu o barulho e apareceu bem na hora.

– Quando Jared voltou e me viu toda machucada, falou que ia dar um jeito

naquela situação, que tinha um lugar seguro onde poderíamos ficar. Ele me
fez
entrar no carro, falou que tinha que parar rápido em um lugar antes e, quando

percebi, estávamos no bar – senti uma pressão aguda no peito e levantei a


mão

para apertar o ponto onde meu coração batia dentro de mim como um tambor.

– Eu deveria ter adivinhado. Ele estava chapado, estava sempre chapado,

estava bravo – tirei os dedos do peito e apertei o ponto da minha testa em que

havia um galo há semanas.

– Falei para Jared parar. Falei que ia ligar para a polícia. Foi aí que ele me

segurou pela nuca e bateu minha cabeça no painel do carro. Eu já estava

machucada por causa da surra dos capangas que procuravam por ele, e Jared

me acertou bem no meio dos olhos. Acho que apaguei por alguns instantes.

Engoli em seco e continuei:

– Eu queria ligar para a polícia – dei uma risada triste. – Queria muito ter

ligado para meu pai – olhei para trás, para o homem que era meu porto
seguro,

e tive vontade de me encolher para não ver aquela expressão dura em seu

rosto. Eu estava partindo seu coração mais uma vez.

– Só que não fiz nada. Fiquei ali sentada, com os ouvidos zunindo, me

perguntando que diabos tinha feito para me encontrar em uma situação tão

terrível. Eu não sabia que Jared estava armado. Nunca vi a arma e só fiquei

sabendo dos seus planos quando chegamos ao bar. Eu devia ter feito alguma
coisa, qualquer coisa, mas não fiz, assim como não o ajudei a planejar o

assalto.

Houve um silêncio constrangedor depois que eu terminei de falar. O único

som que eu conseguia ouvir era o da respiração ritmada de Quaid. Ele não
deu

nenhuma indicação de que eu tinha sido convincente ou não. Torci para que

sim, uma vez que aquela era a verdade nua e crua, que revelava exatamente

quanto eu era problemática e imperfeita.

O juiz soltou um suspiro, bem audível, e o som ecoou no recinto quase

vazio.

– Acho que o senhor, sr. Townsend, sabe tão bem quanto eu que, se a defesa

levar a srta. Walker diante do júri depois de ela testemunhar contra um

viciado, que é um usuário de drogas comprovado, com evidência de agressão

física, o seu caso vai pelo ralo.

– Excelência… – o promotor bufou, tentando fazer uma objeção, irritado,

mas o juiz levantou a mão.

– Pode parar, sr. promotor. Não tenho o hábito de fazer a Corte perder

tempo e não tenho o hábito de levar casos incipientes a julgamento. Concordo

com o sr. Jackson de que a evidência em vídeo é esmagadora, assim como o

histórico criminal de sua principal testemunha. A srta. Walker tem um


histórico
de infrações, mas nenhuma delas é prova de que ela é uma ameaça à

sociedade, apenas de que se trata de uma mocinha que precisa crescer e tomar

decisões melhores – ele me fulminou com o olhar e completou:

– A senhorita se considera uma pessoa de sorte, mocinha?

Pisquei rapidamente e sacudi a cabeça.

– Não, Excelência, não sempre.

– Bem, mude de atitude e encare isso como uma oportunidade de abrir os

olhos. A senhorita tem muita sorte de o sr. Dalton não ter machucado
ninguém,

incluindo você mesma. E, se ele lhe arrastou para suas atividades com drogas,

o que me parece ter acontecido, a senhorita tem muita sorte de estar aqui
neste

recinto – eu balancei a cabeça, toda sem jeito.

– Estou retirando a queixa contra a senhorita, mas faço isso com uma

condição. Espero que fique à disposição tanto da polícia quanto da

promotoria, no caso contra o sr. Dalton. Se eu tiver qualquer indício de que

você não está cooperando, ficarei mais do que feliz de lhe condenar por

obstrução da justiça. Fui claro?

Balancei a cabeça de novo e respondi:

– Sim, Excelência.

– Se eu fosse a senhorita, refletiria muito sobre as escolhas que lhe levaram


a entrar naquele carro com o sr. Dalton e uma arma carregada naquela noite,

srta. Walker. Da próxima vez, a senhorita pode não ter tanta sorte.

Suspirei fundo e me segurei para não desmaiar.

– As acusações contra Avett Walker foram retiradas. A corte está em

recesso.

O juiz bateu o martelo, e todos ficamos de pé, enquanto ele ia embora,

arrastando as pregas da toga.

“Retiradas.” Sussurrei essa palavra como se fossem uma oração e me

entreguei ao abraço que tomou conta do meu corpo. Meu rosto não encontrou

um algodão macio e um peito largo como da última vez que venci uma
batalha

legal. Não, desta vez minha bochecha bateu em uma gravata de seda e um
peito

duro como uma pedra, que parecia esculpido em mármore. Por instinto,
passei

o braço na cintura magra de Quaid e respirei seu perfume marcante e caro. Eu

jamais poderia dizer isso a meu pai, mas aquele foi o melhor abraço da minha

vida, principalmente porque me deixou toda formigando. Me fez sentir a


salvo,

protegida, de um modo completamente diferente, um modo denso e


inebriante,

que inflamou meus sentidos já aguçados.


– É assim que se faz.

Quaid murmurou essas palavras, encostado na minha cabeça, e me soltou

como se eu estivesse pegando fogo. O que eu estava, por dentro.

Meu pai limpou a garganta e fui abraçá-lo também. Seu abraço era

conhecido, carinhoso, e eu abriria mão dele em um piscar de olhos para ir de

encontro àquele formigamento que senti quando Quaid me abraçou. Pelo


jeito,

não ia me curar tão cedo do meu vício de correr atrás da minha própria ruína.

CAPÍTULO 6

Quaid

QUASE A BEIJEI. ELA FICOU BEM PERTO, QUANDO ENCOSTOU O


ROSTO NO MEU PEITO

e me abraçou. Tive vontade de beijar Avett, mas me controlei, o que não

foi fácil. Em vez disso, lhe dei um abraço.

Nunca abraço meus clientes depois de uma vitória. Normalmente, dou só

um aperto de mão muito profissional, seguido de uma piada sobre enviar o

boleto com as custas processuais pelo correio. Mas não com aquela cliente.

Aquela cliente eu queria abraçar e falar para ela começar a tomar decisões

melhores, para nunca mais se encontrar em situação parecida. Eu tinha


vontade

de encostar minha boca na sua e descobrir se seu gosto era tão louco e
rebelde
quanto ela. Queria encontrar a inocência que, tinha certeza, estava escondida

dentro daquela garota, debaixo de todos aqueles escombros que ela

acumulava. Tinha certeza de que seria tão doce e suave quanto eu imaginava.

E, como eu queria tudo isso, me afastei de Avett Walker como se sua pele

estivesse cheia de espinhos e enfrentei o olhar sugestivo de seu pai com

cautela.

Brite percebeu tudo. Não sei se o alívio estampado em seus olhos escuros

era porque o juiz havia retirado as acusações ou por eu ter tirado

imediatamente minhas mãos de sua filha. Para ser sincero, não sei dizer qual

dos dois seria um motivo maior de alívio.

Apertei a mão daquele cara enorme e apenas balancei a cabeça quando ele

me disse, com sua voz rouca:

– Obrigado.

– Só fiz o que fui pago para fazer.

Fiz questão de que meu tom de voz fosse neutro e sem emoção. Quem sabe

se eu ficar repetindo que foi só um trabalho e que Avett é igual a qualquer

outro cliente acabo acreditando. Preciso acreditar nisso, se não vou me meter

em confusão.

Vi que Avett arregalou os olhos e fez aquele biquinho que eu conheço tão

bem e tenho vontade de morder. Segurei o gemido e inclinei a cabeça para o


outro lado do recinto, onde Townsend estava.

– Preciso falar com o promotor antes de ir embora. Se precisarem de

qualquer coisa, entrem em contato com o escritório – não conseguia parar de

olhar para aqueles olhos coloridos e agitados, que me lançavam um olhar


feio.

– Boa sorte com o resto do processo.

Avett abriu a boca e a fechou em seguida, sacudindo a cabeça. Espremeu

bem os olhos e praticamente grunhiu:

– Valeu.

Brite deu o braço a ela, resmungou algo que não consegui ouvir e foi saindo

do recinto. Tive vontade de dar um suspiro de alívio por aquela minúscula

força da natureza não ser mais problema meu, não ser mais uma tentação que

eu não queria nem entendia, mas me senti vazio por dentro, e minha cabeça

começou a latejar, como se eu tivesse bebido demais.

Townsend se aproximou de mim e colocou sua pasta gasta na mesa, ao lado

da minha, que é muito superior. Levantou a sobrancelha e perguntou, com um

tom debochado:

– Então você acha que, se eu gastar uns dois mil em um terno, Willis irá

decidir a meu favor com mais frequência?

Normalmente eu daria um sorrisinho malicioso e faria algum comentário

irônico, do tipo “o hábito faz o monge”, mas meu senso de humor e meu
costumeiro orgulho ao ganhar um processo haviam me abandonado. Revirei
os

olhos e não me dei o trabalho de disfarçar a irritação com a alfinetada

mesquinha do homem.

– Seu caso era uma bosta, e Willis se deu conta disso. Mesmo que ele não

tivesse percebido, você não ia conseguir condená-la com aquela evidência em

vídeo e o histórico criminal de sua única testemunha. Nem Tom Ford nem
Ralph Lauren iam conseguir livrar sua argumentação da merda. Não seja tão

cuzão, Townsend.

Eu nunca tinha falado de modo tão direto nem permitido que meus

verdadeiros sentimentos a respeito de um processo ou de um promotor

transparecessem dessa maneira. Conviver com Avett, com sua total falta de

artifícios ou pretensão, não era nada bom para os negócios. Eu deveria ser

inatingível, não me emocionar com nada que acontece no Tribunal. É assim

que defendo os monstros e criminosos que formam minha pasta de clientes.

Não preciso que o promotor veja algum sinal de rachadura em minha


armadura

impecável.

Townsend pegou sua pasta e me lançou um sorrisinho malicioso.

– Aquele abraço após a sentença foi um belo toque, Jackson. Você também

oferece isso a todos os assassinos e estupradores que defende?

Esse foi um tiro de misericórdia. Qualquer advogado sabe como dar um, o

que me deixou ainda mais feliz por esse processo ter acabado com vitória.

Não preciso mais passar por outra audiência preliminar, por mais uma

audiência e, provavelmente, por semanas de julgamento ignorando minha

reação inesperada e inapropriada a Avett. Ela não está em meus planos e não
é

alguém para quem eu possa fingir. Ela enxergaria através de toda essa cortina
de fumaça o que é a minha vida e, se o truque for descoberto, se tirarem o
véu,

não sei o que ou quem estará por trás dele. Tenho medo de descobrir.

Peguei minha pasta e saí do prédio. Estava checando minha agenda no

celular quando percebi que Orsen havia me mandado outra mensagem sobre a

festa de Natal do escritório. Soltei um gemido. Ainda faltava meses para esse

negócio, e ele não saía do meu pé. Quanto mais ele me enchia, menos eu
tinha

vontade de ir e não havia me esforçado nem um pouco para encontrar uma

bonitinha descartável para ir comigo. Estava distraído com o trabalho,

particularmente com o trabalho relacionado a uma encrenqueira baixinha de

cabelo rosa que eu não conseguia tirar da cabeça. A mesma encrenqueira

baixinha de cabelo rosa que estava encostada na mureta de cimento da


entrada

do Tribunal, com os braços cruzados e os olhos fixos na porta, obviamente


me

esperando. Ela inclusive batia a ponta fina da bota na calçada, em um ritmo

agitado.

Bati na tela para desligar o celular, enfiei o aparelho no bolso, e ela se

afastou da mureta enquanto eu me aproximava. Seus olhos multicoloridos

estavam caóticos de tanta emoção, e os saltos de suas botas faziam barulho ao

bater na calçada, enquanto Avett continuava a caminhar, até que as pontas de


nossos sapatos se encostaram. Apertei a alça de minha pasta com tanta força

que doeu, e ela levantou a cabeça para me olhar de frente. A garota mal

chegava em meus ombros, mas parecia muito maior, muito mais poderosa do

que seu corpo miúdo indicava. A força de sua personalidade e sua raiva

aparente pulsavam à nossa volta. Ficamos frente a frente, presos em uma

batalha silenciosa que me pareceu mais intensa e até mais importante do que
a

que havíamos acabado de travar no Tribunal.

– Você estava esperando por mim por algum motivo específico, srta.

Walker?

Os pontos dourados em seus olhos castanhos pegaram fogo quando me

dirigi a ela de maneira formal. Eu precisava manter essa distância mental,

porque não conseguia fazer meu corpo se mexer para estabelecer uma

distância espacial entre nós. Na verdade, eu queria chegar mais perto.

Ela descruzou os braços e pôs as mãos nos quadris. Realmente tentei ao

máximo ignorar o modo como a nova pose apertava seus seios fartos contra o

tecido rendado do vestido. E fracassei completamente.

– É isso? – ela perguntou, com um tom sarcástico e afiado.

Espremi os olhos, fiquei pulando de um pé para o outro, porque sua

proximidade e a descarga de sua provocação e da minha defesa faziam meu

sangue ferver – e meu pau também. Sou advogado por um motivo. Nunca me
deparei com uma discussão de que não gostasse ou a qual não me sentisse

compelido a ganhar. O modo como Avett sempre parecia me desafiar era


ainda

mais excitante do que seu corpinho cheio de curvas.

– Cadê seu pai?

Desviei de seu olhar penetrante e procurei o motociclista grandão. Não

precisava ter que explicar o olho roxo ou um braço quebrado para Orsen,
além

de precisar contar os motivos pelos quais eu, de repente, não tinha nenhum

interesse em procurar um belo rabo de saia para passar o tempo.

– Está esperando no carro. Falei que tinha de fazer algumas perguntas sobre

o que vai acontecer daqui para a frente.

– E tem?

– Tenho o quê?

Avett estava ficando cada vez mais irritada, e me deu vontade de gemer,

porque isso a deixava corada e com a respiração ofegante. Aposto que ela fica

igualzinha quando está prestes a gozar.

Que merda. Não era essa a direção que meus pensamentos deviam tomar,

mas agora que estavam ali, eu não tinha a menor chance de fazê-los voltar
para

uma zona mais segura.


– Você tem perguntas a respeito do que vai acontecer daqui para a frente?

Minha voz não parecia minha e, com certeza, não tive como disfarçar a

direção safada que meus pensamentos tomaram, o que se estampou em meus

olhos enquanto eu a observava com atenção.

Devagar, Avett sacudiu a cabeça e soltou o coque preso na nuca. Mechas de

cabelo cor-de-rosa flutuaram em volta de seu rosto, caíram em seus ombros, e

meus dedos coçaram de vontade de tirá-los dali.

– Sei o que vai acontecer daqui para a frente, Quaid… E você?

Ela falou mais baixo, com um sussurro rouco que me acertou direto no pau.

Meu corpo inteiro ficou tenso, e eu quase, quase mesmo, me abaixei para

encontrá-la, porque Avett havia ficado na ponta dos pés. Tinha vontade de

beijá-la. Tinha vontade de que ela me beijasse. Mas, atrás dela, vindo na

minha direção, se aproximando de mim, vislumbrei um rosto conhecido.

Aquela pequena bolha inebriante de sedução e de perigo entorpecente que

Avett criou a minha volta estourou, me fazendo cair com força na realidade.

Virei a cabeça quando seus lábios roçaram em meu rosto. E, por mais que

tenha sido o mais inocente dos beijos, a sensação foi erótica, de algo proibido

e mais ilícito do que todas as relações sexuais que já tive. Esse engano de

mulher poderia me demolir, me acabar, me aniquilar. E, se eu permitir que


ela

faça isso, tenho certeza de que será a melhor sensação que tive em muito
tempo.

– Sei que você pensa saber o que vai acontecer daqui para a frente, Avett,

mas você não sabe. O que acontece daqui para a frente é você parar de perder

tempo com homens que não lhe fazem bem, homens que não têm nada para te

oferecer e que vão acabar te machucando. Você precisa começar a tomar

decisões mais inteligentes e a fazer jus ao seu potencial.

Ela abaixou os pés, se afastando como se eu tivesse lhe dado um tapa na

cara. Seu belo tom corado se transformou em um vermelho furioso, e ela

finalmente deu um passo para trás, mas apenas para se inclinar para a frente e

enfiar o dedo no meio da minha gravata. Aquele rosto conhecido estava

chegando cada vez mais perto. Sabia que tudo o que falássemos a partir

daquele momento seria ouvido, então precisava me controlar e vestir minha

armadura de novo, peça por peça. Nem tinha percebido que Avett conseguira

arrancá-la de mim. Era por isso que nada aconteceria daqui para a frente. Eu

iria me afastar daquela mulher antes de ficar ainda mais exposto e

desmascarado sob seu olhar tão perceptivo.

– Você é um cuzão, Quaid, e sabe muito bem disso. Um verdadeiro bosta e

um grande de um pau no cu – seus olhos brilhavam, e sua voz foi ficando


mais

alta.

– Eu estou fazendo uma escolha mais inteligente, pelo menos achei que
estivesse, mas não sabia que você era covarde.

Sacudi a cabeça. Se tinha uma coisa que eu era, era covarde, mas não

queria que ela descobrisse isso.

– Pode parar, Avett. Isso é desnecessário e inapropriado.

Ela riu, mas não foi uma risada feliz.

– Não, Quaid, você é desnecessário e inapropriado.

Suspirei irritado. Tinha muita gente olhando, por causa daquela cena. Não

precisava chamar esse tipo de atenção. Não precisava que detalhes desse

pequeno interlúdio chegassem aos ouvidos do escritório. Soltei os braços,

exasperado, ao lado do corpo.

– Não sei o que você achou que estava acontecendo, mas foi só um

trabalho. Você é minha cliente, como qualquer outro cliente que defendo,

Avett. Nada mais, nada menos.

Avett riu outra vez e começou a se afastar de mim, como se eu tivesse algo

contagioso e ela corresse o risco de pegar.

– Acho que, quando alguém é pago para mentir, quando ganha a vida

enganando juízes e jurados, acaba ficando muito bom em acreditar nas

próprias mentiras. Obrigada pela sua dedicação, doutor. Vou pensar em você

sempre que estiver fazendo jus ao meu potencial.

Ela estava falando de fazer sexo com outra pessoa. Ela estava falando de
gozar com outro sujeito, que não fosse eu. Ela estava falando de outra pessoa

tomar conta de toda aquela loucura e doçura e se perder dentro dela. O jeito

como ela falou foi sujo e cruel. Foi como deveria ser, o que não significa que

não doeu quando ela girou nos calcanhares e foi embora, bem na hora em que

Sayer Cole e um homem que dá de dez a zero em Brite no quesito tamanho se

aproximaram, e eu fiquei grudado no chão.

Quando os dois pararam ao meu lado, me virei e percebi que o braço

daquele homem grandão e barbado estava em volta da cinturinha de Sayer.

Não era um toque informal, nem de longe, o que me deixou surpreso. Sayer é

tão certinha, tão formal e tímida quando está comigo. Tive certeza de que o

fato de aquele homem estar com a mão nela significava algo sério, algo mais

do que um toque educado entre advogada e cliente.

Sorri para ela, e o homem me olhou feio, como se quisesse arrancar minha

cabeça. Achei engraçado, e precisava desanuviar a tensão que meu confronto

com Avett havia causado.

Sayer fez uma piada gentil sobre minhas habilidades com as mulheres não

funcionarem com Avett, e falei, com toda a honestidade:

– É, essa moça representa um grande desafio como cliente, sem dúvida.

Precisa aprender a me dar ouvidos ou vai acabar na cadeia – passei os olhos

pelo homem e tentei entender como um sujeito que parecia ter acabado de
fugir
da natureza selvagem do Alasca podia ter conquistado Sayer, derrubado todas

as suas reservas, quando eu sequer consegui chegar perto. Queria sentir


inveja,

mas ainda estava tão dividido entre ter uma atitude correta e o que eu

realmente queria fazer com Avett que disparei:

– Ela é um pé no saco, uma pirralha mimada, mas não acho que mereça

ficar muito tempo na prisão. Me esforcei muito para que retirassem as

acusações contra ela.

O lenhador fez careta e rosnou em um tom que, aposto, faz outros homens

saírem correndo:

– Avett é uma boa menina. Só se meteu com uma turma de merda. Com

certeza não merece acabar na cadeia por causa do que aconteceu no bar. Ela

tem uma boa família, que vai cuidar dela. O que é óbvio, uma vez que estão

pagando seu preço.

Fui para trás, surpreso por ele conhecer Avett e dar essa explicação.

Também fiquei surpreso ao descobrir que ele conhecia Brite, assim como
Asa.

Apesar de ser uma metrópole, às vezes Denver parece mesmo uma

cidadezinha do interior, onde todo mundo conhece todo mundo.

Sayer limpou a garganta e me apresentou a seu cliente, que estendeu a mão,

e não fiquei nada surpreso quando ele apertou a minha de um jeito firme, sem
rodeios. Ele queria me machucar, queria mostrar que era dono daquela loira

deslumbrante que estava entre nós, e tudo isso transpareceu em seu aperto de

mão.

Fiz um comentário completamente desnecessário sobre ele andar com gente

que tinha tendência a precisar de conselhos legais. Tanto ele quanto Sayer me

cortaram, com razão. Não sabia por que eu estava sendo tão antipático, talvez

para me distrair do fora que eu havia levado daquela garota que não saía da

minha cabeça. Talvez estivesse procurando briga, procurando alguma coisa

para tirar da cabeça aquela pontada de arrependimento e decepção que me

comia por dentro enquanto observava Avett ir embora.

Mesmo sabendo que ela ia dizer “não”, mesmo sabendo que ia deixar

aquele monstro gigante e barbudo puto, o qual havia deixado muito claro que

Sayer era dele, ainda assim soltei:

– Tenho um jantar com os sócios daqui a alguns meses. Ia te ligar para ver

se você quer ir comigo. Mas, já que nós dois estamos aqui, acho que não há

mal nenhum em fazer o convite pessoalmente. Adoraria que você fosse


minha

acompanhante, Sayer.

O que era mentira. Jamais ligaria para ela, mesmo sendo a mulher ideal

para levar ao jantar. Sayer é bonita, mas é muito mais do que isso. Orsen ia

parar de pegar no meu pé, ia parar de insistir para eu arrumar uma foda amiga
se eu levasse uma mulher que desse a impressão de preencher a cratera que

Lottie havia deixado em minha vida e em minha autoconfiança. Meu chefe

queria o velho Quaid de volta. O problema é que o velho Quaid era de faz de

conta, e o novo Quaid estava com dificuldade de manter os cacos daquele

homem de mentira no seu devido lugar.

O barbudo soltou um grunhido e, imediatamente, me senti mal por ter

colocado Sayer naquela situação. Eu estava sendo cuzão, e aquilo não tinha

nada a ver com ela. Não pude condenar o tom gelado da advogada ao recusar

meu convite e me pôr no meu devido lugar sem a menor cerimônia.

– Não. Obrigada pelo convite, mas já te disse que não estou interessada em

ter esse tipo de relacionamento com você. Desculpe, Quaid.

Tentei fazer uma expressão simpática e consertar as coisas. Vivo

encontrando Sayer, dentro e fora do Tribunal, e não quero destruir nossa

amizade porque não consigo controlar as palavras que saem de minha boca.

Avett rachou a armadura que eu usava, e agora a proteção que eu estava

acostumado a ter havia se enfraquecido. Mais uma razão para eu ficar bem

longe dessa garota.

– Sou advogado. Meu trabalho consiste em persuadir as pessoas a verem as

coisas do meu modo. A gente se vê por aí. Boa sorte.

Ela resmungou alguma coisa e foi embora correndo, com o lenhador logo
atrás. Não pude deixar de perceber o olhar mortífero que ele me lançou antes

de as portas do Tribunal se fecharem.

E, como se eu não tivesse sido cuzão o suficiente ao constranger uma

mulher decente, que eu considerava minha amiga, e puxado uma briga inútil

com um sujeito que parecia ser capaz de amassar minha picape com a mão
nas

costas, decidi me jogar de cabeça na temeridade e remexi no celular até

encontrar o e-mail com as informações pessoais de Avett.

Enquanto voltava para meu carro, digitei uma mensagem rápida e tentei me

convencer de que faria a mesma coisa por qualquer cliente. O que era
mentira.

Eu nunca mandava mensagens para os clientes, e era muito raro eu deixar

passar o número do meu celular pessoal. Avett tem toda razão. Sou muito
bom

mesmo em acreditar nas minhas próprias mentiras. Tenho feito isso desde
que

deixei as montanhas para trás, e aquele moleque que vinha do nada, não tinha

nada, não era nada. Só que acreditar nisso me parece impossível agora que

essa garota surgiu em minha vida com uma fogueira de péssimas escolhas, de

acusações de infração pendentes. Ela não se deixa enganar por nenhuma das

falsidades com as quais montei minha vida, pedacinho por pedacinho. Sua

honestidade e sua responsabilidade são contagiosas, e me sinto contaminado.


Avett, se você precisar de mim ao receber a intimação para testemunhar
contra

seu ex, é só chamar. Estou aqui para ajudar e sei que você fica nervosa por

precisar encará-lo. Ofereço isso como amigo, não como advogado.

Nada.

Não recebi nenhuma resposta e tive vontade de atirar o telefone pela janela

enquanto saía do centro e ia até o escritório. Quis ligar para Avett e dizer para

ela deixar de ser cabeça-dura, para aceitar a ajuda oferecida, para ignorar o

fato de eu ter me afastado e lhe dado o fora. Tive vontade de exigir que ela

tentasse me beijar de novo. Eu deixaria. Eu também a beijaria, e não sei se

pararia por aí. Tive vontade de tocar sua loucura, de me perder nela. Tive

vontade de provar sua doçura, de saboreá-la.

Estava passando pelas portas do prédio, me preparando mentalmente para a

próxima reunião, quando meu celular enfim apitou, com uma mensagem.

Literalmente segurei a respiração enquanto virava o aparelho para ler a

resposta. Não fiquei nem um pouco surpreso.

Já te disse: não quero sua ajuda.

Soltei um suspiro e revidei:

Bom, estou disposto a ajudar, mesmo assim.

Fui de ter a absoluta certeza de que não tinha nada a oferecer pra ninguém a

sentir uma necessidade imperiosa de dar tudo o que tenho para essa garota
que

me confunde.

Não quero nada de você, Águia da Lei. Você já fez seu trabalho, e não sou
mais

sua cliente. E, definitivamente, não somos amigos.

Esbocei um sorriso ao ver o apelido bobo pelo qual ela me chamou.

Minha assistente falou alguma coisa que ignorei por completo e fui direto

para a minha sala. Joguei a pasta em cima da mesa e xinguei o laptop, que
caiu

da bolsa outra vez, batendo forte na mesa. Só se eu tiver muita sorte, essa

porcaria ainda vai ligar, uma vez que não comprei outro depois de ele cair

pela primeira vez.

A certa altura, entre encontrar Avett Walker e aceitar que estou desesperado

para beijá-la e que preciso participar de sua tempestade, a necessidade de

perfeição e a vontade de manter as aparências se transformaram em um

pensamento secundário, tornando-se nada além de uma coceira irritante.

Tenho plena consciência de que você não é mais minha cliente, Avett. É por

isso que você tem o número do meu celular pessoal. Não o passo a meus

clientes. Pode ligar se precisar.

Ela não respondeu, mas nem esperava que respondesse.

Não quero ser seu amigo nem seu advogado… quero ser outra coisa,
completamente diferente. Também quero ser outra pessoa, bem diferente, e

isso me assusta mais do que eu ter vontade de tirar a roupa de Avett e querer,

com todas as minhas forças, que aquela mulher fique embaixo de mim.

CAPÍTULO 7

Avett

ABRI AS CORTINAS DA JANELA DO MEU QUARTO E OLHEI PARA


A ESCURIDÃO NA

frente da casa do meu pai. Um único carro preto estava estacionado do

outro lado da rua, o que normalmente não me incomodaria. Mas aquele carro

só havia parado ali depois de meu pai sair, falando que ia buscar minha mãe

no bar e levá-la para casa. Isso significava que passaria a noite com ela, algo

que fazia quase todas as noites em que Darcy fazia o último turno no bar que

costumava ser de nossa família.

Fiquei sozinha naquela casa grande e não teria sequer notado o carro preto

se o vizinho tatuado e a pilantra da sua namorada não tivessem começado a

gritar, em uma discussão mais alta do que qualquer coisa que eu poderia

assistir na TV. Para ser justa, era a namorada pernuda e bocuda dele que

estava gritando, falando que o casamento seria dali a alguns meses e que ele

não a estava ajudando a decidir quem sentava com quem. Aquilo me pareceu

uma conversa que deveria ser calma e particular, dentro daquela casa lindinha

do outro lado da rua. Mas, pelo jeito, a namorada queria plateia. Aquele
rapaz, que era maravilhoso, de cabelo avermelhado, balançava muito a

cabeça, pedia muitas desculpas e tentava acalmá-la o tempo todo. Mas tudo

isso deixava a mulher ainda mais louca e barulhenta. Fiquei assistindo à

tragédia por uma fresta na porta, e só notei o carro, com dois homens
sentados

dentro, depois que a namorada gritalhona saiu, bufando e cantando pneu. Não

acreditei que o garoto de cabelo ruivo deu as chaves do Cadillac para ela

após ouvir tanta merda, mas deu, sacudiu a cabeça ruiva e voltou de fininho

para dentro de casa. Tive vontade de ir lá e dizer para ele sair correndo. Ele

era muito bonitinho, e nenhuma xoxota vale a dor de cabeça que aquela mina

seria a longo prazo. Mas me distraí com os homens, que estavam claramente

olhando para a minha casa.

Bati a porta, passei a tranca e coloquei a correntinha de segurança no lugar.

Tentei me convencer de que estava sendo paranoica, de que talvez eles

estivessem esperando algum outro vizinho chegar em casa ou algo assim.


Mas

já passava das dez da noite, e todos os motivos que consegui inventar para

aqueles dois sujeitos estarem sentados ali, na frente da minha casa, no escuro,

pareciam sem fundamento. Corri por todos os cômodos acendendo as luzes,

até a casa ficar quase brilhando. Deixei a luz do meu quarto apagada e fui, na

ponta dos pés, até a janela. Espremi os olhos, tentando enxergar no escuro o
rosto de quem estava no carro. Mas só consegui ver a ponta vermelha e

brilhante de um cigarro aceso, o qual brilhava na escuridão do interior do

veículo.

Tirei o celular do carregador, do lado da minha cama, e selecionei o

número do meu pai. Estava pronta para apertar o botão de ligar quando me
dei

conta de que ele viria correndo, mesmo que houvesse alguma explicação

bastante razoável para o carro estar ali. Eu estragaria sua noite com minha

mãe, que ainda não havia me perdoado pelo meu rosário de péssimas

escolhas, e os dois ficariam decepcionados por eu ter interrompido o pouco

tempo que eles têm para ficar juntos. Minha mãe teria mais um motivo para

sacudir a cabeça e me dar aquele olhar de julgamento silencioso e

recriminação que, na minha cabeça, ela está sempre me dando. Preciso

consertar as coisas com a mulher que me criou e preciso deixar meu pai
passar

o tempo que quiser com ela. Essa era a coisa certa a fazer. Eu daria um jeito

de lidar com a situação sozinha.

Mordi o lábio e fiquei batendo o celular na perna. Parecia que horas

haviam se passado, mas foram só alguns minutos. E o carro e os homens


dentro

dele ainda não tinham saído do lugar. Pensei em ligar para Asa. Que também
viria correndo quando eu dissesse que estava morreno de medo. O

conquistador loiro sulista tem a estranha capacidade de aparecer nas piores

situações e, apesar de ele não ser muito fã da minha pessoa, parece

determinado a me tirar do sufoco, já que tenho essa tendência a entrar nele.

Acho que o faço se lembrar de algumas de suas próprias péssimas escolhas,

de quando ele era mais novo. Ele pôs na cabeça que pode me ajudar a ser
uma

pessoa melhor se eu aprender com seus erros. O único problema é que, se eu

ligar para Asa, ele vai ligar para meu pai. Assim que eu desligar o telefone,

ele vai ligar para Brite, e aí os dois apareceriam aqui por causa de algo que

pode não ser nada, e eu me sentiria uma imbecil por fazer todo mundo perder

tempo.

Normalmente, nesse tipo de situação, eu não faria nada. Mas nada é o que

sempre acaba sendo a pior das opções. Então cheguei a pensar em ir lá fora e

bater na janela do carro ou bancar a esperta e ligar para a polícia. Acabei

decidindo pelo meio-termo, pelo que estava entre ser completamente

impulsivae ridiculamente lógica, e apertei o botão de ligar que apareceu na

tela ao lado do nome de Quaid.

Continuei com os olhos grudados no carro e segurei a respiração enquanto

chamava e chamava. Tinha sérias dúvidas sobre se ele atenderia,

considerando o modo como nos despedimos e a hora. Mas ele disse que
queria

ser, tipo, meu amigo e eu realmente estava precisando de um. Além disso, ele

havia se provado incrível e confiável ao oferecer ajuda. Mesmo quanddo eu

estava convencida de que não queria.

Eu já estava prestes a desligar e a tomar a atitude mais besta, de ir lá fora e

investigar a situação eu mesma, quando ouvi sua voz rouca e sonolenta do

outro lado da linha.

– Avett? O que está acontecendo? Você se meteu em confusão?

Ouvi o farfalhar dos lençóis e o barulho de algo sendo derrubado. Esses

ruídos fizeram brotar imagens dele encolhido na cama, imagens que deixaram

minha boca seca e minhas mãos molhadas, mas suas palavras me fizeram

endireitar as costas e espremer os olhos.

– Sempre estou metida em alguma confusão.

E, considerando que estava imaginando o sujeito pelado, o que dava certo

trabalho, já que eu não fazia ideia de como ele era por baixo daquele terno,

nunca uma encrenca me pareceu tão atraente.

– Em que tipo de confusão você se meteu?

Ele estava se movimentando, e parecia estar se vestindo. Será que ele

dormia pelado e estava colocando um de seus ternos extremamente bem

passados?
– Ãhn… Não sei direito. Estou sozinha em casa, e tem um carro parado do

outro lado da rua, com dois homens. Eles não saíram do lugar na última meia

hora. Devo estar sendo paranoica, mas isso está me assustando. Não sei

direito o que fazer.

– Cadê seu pai?

Ele praticamente rosnou, e pude jurar que ouvi um barulho de chaves.

– Está com minha mãe. Só passa a noite com ela algumas vezes por semana.

Não quis interrompê-los, porque pode não ser nada. Estou tentando ser

responsável. Você acha que eu devia chamar a polícia?

Dei uma nova espiada pela cortina e fiquei sem ar ao ver o brilho da luz da

frente de casa refletida em algo de vidro. Alguém dentro do carro estava

observando a casa de binóculo. Não tinha como negar que estavam ali para

observar a casa e a mim.

– Me dá vinte minutos. Vou ligar para a polícia quando chegar aí, se for

necessário. Eles atenderão meu chamado mais rápido do que o seu. Fique

dentro de casa. Fique longe das janelas e das portas. Te mando uma
mensagem

quando chegar.

Ouvi uma porta batendo e o som do sujeito se mexendo, mas meu cérebro

ficou parado no “me dá vinte minutos”. Quaid estava vindo. Ele não me

achava paranoica, com uma reação irracional. E, ainda que fosse, viria
mesmo

assim e não me fez me sentir imbecil por ter ligado. Aquele homem era o

melhor quase amigo que eu tinha, há muito tempo.

– Ãhn, ok… Mas pode não ser nada mesmo.

Nada, a não ser por dois homens estranhos de binóculo estacionados na

frente da minha casa, me observando.

– Avett… – ele disse meu nome de um jeito que me fez tremer. – Você é a

principal testemunha de um processo importante relacionado ao tráfico de

drogas. É muito pouco provável que dois homens parados na frente da sua

casa, no meio da noite, não seja nada. Não faça nenhuma loucura. Espere eu

chegar aí.

– Aposentei toda a minha loucura, Quaid. Uma estadia na cadeia faz isso

com a gente. “Razoável” e “sensível” são meus novos apelidos.

Eu tentava tornar a situação mais leve, mas estava toda arrepiada, de tão

incomodada.

Não havia pensado que os homens dentro do carro poderiam estar ligados a

Jared e a coisas ilegais em que ele estava metido. Da última vez em que

encontrei seus sócios, apanhei e quase fui estuprada. Sei o que os homens
com

quem ele fazia negócios eram capazes de fazer. Não me importo nem um
pouco
se passar o resto da vida sem me expor às suas habilidades. De uma hora para

outra, minha primeira ideia, de sair de casa e confrontar aqueles homens

sozinha, me pareceu muito mais do que apenas tola e precipitada. Me pareceu

perigosa e mortal. Era um milagre do caramba o fato de eu, com minha

necessidade nata de fazer merda e sempre optar pelo pior, ter conseguido
abrir

mão dessa opção e entrar de cabeça naquela que envolvia o advogado gato vir

me salvar… de novo.

Quaid grunhiu para mim outra vez. Ouvi um som de motor, que ronronou,

poderoso, e roncou de um sujeito sensual no meu ouvido.

– Só continue sendo razoável e sensível até eu chegar aí. A loucura não

precisa de aposentadoria permanente. Precisa, contudo, aprender a hora e o

lugar certos para aparecer. Já chego aí.

Perguntei se ele precisava do meu endereço, e ele respondeu que já tinha,

por causa da papelada.

Então desligou, sem dizer “tchau”, e enfiei o celular no bolso da frente do

macacão largo que estava usando. Voltei a espiar pela cortina. Dessa vez, tive

certeza de que o binóculo estava apontado bem para a janela de onde eu


estava

olhando. Soltei o tecido pesado e pus a mão no meu coração acelerado. Tive

um péssimo pressentimento a respeito daquilo tudo.


Eu deveria ligar para meu pai e contar o que estava acontecendo. Deveria

contar que estava com medo e dizer que queria tomar decisões melhores

agora, para que ele não precisasse mais me salvar de mim mesma. Queria ser

minha própria heroína pela primeira vez na vida. Não queria ser a garota que

tem certeza de que merece o pior e por isso nunca tenta mostrar para o mundo

ou para as pessoas que ama o que tem de melhor.

Acho que segurei a respiração por vinte minutos, enquanto andava para lá e

pra cá na frente da cama. Não soltei o ar até ouvir aquele mesmo ronronar

sensual do meu telefonema com Quaid do lado de fora de minha janela. Me

esgueirei pela parede e puxei a cortina com cuidado, bem de leve, para ver o

que estava acontecendo. Estava ignorando solenemente a ordem que Quaid

havia me dado, mas já tinha sido inteligente o bastante por um dia e esgotado

minhas reservas.

Uma moto vermelha, supercara, que era o extremo oposto da Harley

gigante, preta e cromada de meu pai, parou na frente de casa. Fiquei

observando, em estado de choque, o homem sentado naquele minifoguete

passar a perna por cima da máquina invocada e sensual e olhar direto para o

ponto em que eu estava parada. Vi a cabeça de capacete sacudir. Então o

protetor preto e vermelho foi retirado, e o cabelo loiro e bagunçado de Quaid

Jackson foi revelado, brilhando à luz da Lua.


Ele pôs o capacete debaixo do braço e começou a atravessar a rua, na

direção do carro preto, que ainda estava estacionado. Fiquei hipnotizada por

seu jeito de andar, confiante, com um objetivo claro. Também fiquei

enfeitiçada por ele estar usando uma calça jeans escura, o que fazia

maravilhas por sua bunda. E sua jaqueta de couro também lhe caía bem e

parecia tão cara e de grife quanto os ternos chiques que ele usava no
Tribunal.

Aquele homem já parecia um deus de terno. De calça jeans e jaqueta de


couro

preta e vermelha combinando com a moto, parecia muito mais acessível,


muito

mais alcançável… para alguém como eu. Ainda era muita areia para o meu

caminhãozinho, mas parecia bem menos rígido e formal naquela roupa.

A moto também combinava total com ele. Não era nada parecida com as

máquinas norte-americanas bestiais e invocadas com as quais cresci. A moto

italiana foi feita para ser veloz e continuar bonita enquanto passa voando
pelas

esquinas e queimando o asfalto. Era elegante e distinta. Ronronava, não

urrava, e fiquei imaginando se o sujeito que dirigia fazia a mesma coisa.

Nunca pensei que Quaid fosse do tipo que anda de moto. Ele me parece
muito

travado e sério para curtir o vento batendo no cabelo e a emoção da liberdade.


A maioria das pessoas considera as motos comuns cem vezes mais perigosas

do que as grandes motos que meu pai e seus amigos têm, feitas para andar na

estrada. Quaid Jackson não me parece do tipo que gosta de se arriscar. Pelo

menos, não até aparecer na minha casa, no meio da noite, montado naquele

monstro glorioso.

Ele já estava no meio da rua, com os olhos fixos no carro, quando o

motorista deu a partida e foi embora. Quaid precisou pular para trás para não

ser atropelado e ficou observando até o veículo sumir da rua, sem ligar o

faróis. Ficou olhando para a escuridão por um bom tempo, depois virou sua

cabeça na minha direção. Acenei de leve, e ele fez careta. Parecia um pássaro

predador furioso atrás de sua próxima refeição. O que fez meu corpo todo

pulsar e meu coração bater descompassado.

Quaid girou nos calcanhares e foi até a frente da casa. Soltei as cortinas e

desci as escadas correndo. Abri a porta bem na hora que suas botas pesadas

encostaram no último degrau.

Eu estava nervosa e afobada e não me dei o trabalho de esconder a reação

que ele causou em mim. Quaid me olhou de cima a baixo, e, por um segundo,

me arrependi de estar com o cabelo preso em um coque bagunçado e com um

macacão que não só era dois tamanhos maiores do que eu como também era
do

tempo do colégio. Era uma roupa confortável e fofa, mas já teve dias
melhores. Mesmo Quaid estando de jeans e camiseta preta justa, ainda me

senti mal vestida e sem classe.

– Obrigada por ter vindo. Não sabia mesmo o que fazer nem se devia dar

atenção a isso.

Fui para o lado, para ele poder entrar, e fiquei observando ele medir o

interior aconchegante da casa. Quaid foi até o sofá velho e jogou nele o

capacete brilhante, que ainda estava debaixo do seu braço.

– Levando em consideração que os caras fugiram e quase me atropelaram

assim que me aproximei o bastante para ver o rosto deles e ler a placa do

carro, diria que você deveria prestar muita atenção a isso.

Então ficou de frente para mim, e perdi a habilidade de respirar ao ver seu

olhar de predador. Ele não parecia uma águia da lei. Parecia uma águia

normal, pronta para atacar e devorar. Ele era uma coisa dourada e gloriosa,

sua raiva e sua preocupação, visíveis, o tornavam mil vezes mais gato do que

já era. E o fato de a raiva ser por minha causa e de ele estar preocupado com
o

meu bem-estar me fez formigar em pontos do meu corpo que eu nem sabia
que

formigavam. Sério, os caras pelos quais eu me atraía antes de Quaid Jackson

não eram do tipo que dão formigamento. Mas tudo em Quaid me fazia sentir

coisas que nunca havia sentido. Era alarmante e excitante, tudo ao mesmo
tempo.

Sua voz grave me distraiu da reação calorosa do meu corpo à sua

proximidade.

– Eu teria anotado a placa, mas o carro estava sem. O que significa que,

seja lá quem for, não quer ser localizado. Duvido que seja mera coincidência.

Vou ligar para o investigador encarregado do caso do seu namorado e ver se

ele consegue arrumar uma viatura que passe por aqui periodicamente.

Balancei a cabeça, sem perceber, e entrelacei as mãos na frente do corpo,

nervosa.

– Ex-namorado – disparei, de forma automática, e vi que ele espremeu a

boca.

– Conte para seu pai o que está acontecendo, Avett. Não gosto nem um

pouco disso. Tem alguma coisa errada. Ainda mais que você está envolvida
no

processo… – Quaid sacudiu a cabeça, e algumas mechas de seu cabelo loiro

caíram em seus olhos. Tive tanta vontade de esticar a mão e tirá-las de sua

testa que meus dedos coçaram.

– Muita coisa pode dar errado para você.

Balancei a cabeça outra vez e pus as mãos nos bolsos de trás para não

encostar naquela mecha rebelde e passar vergonha.

– Vou contar. A situação dele com a minha mãe… – dei de ombros e


completei:

– É complicada, e não gosto de interferir quando os dois estão juntos.

Quaid fez uma careta, e percebi que seus olhos claros estavam fixos nos

meus peitos, que haviam ficado empinados por causa da minha posição. Por

baixo do macacão, só estava usando uma regatinha cortada que batia bem no

meu umbigo. Na verdade, se eu virasse de lado, daria para ver muito bem a

calcinha pink que pus após tomar banho, ainda de manhã. Era uma roupa

incrível para ficar vendo Netflix e comendo pizza sozinha em casa, mas nem

tanto para tentar conversar como adulta com um homem que tanto me
excitava

quanto me irritava.

– Eles são seus pais. Tenho certeza de que sua mãe entende que seu pai

precisa estar aqui se estiver acontecendo algo suspeito.

Ah, ela vai entender, por certo. Ela vai entender que meu pai a abandonou

para me salvar, mais uma vez, porque eu nunca consigo fazer isso sozinha, o

que nos distanciaria ainda mais.

Limpei a garganta, nervosa, e respondi:

– Ela entenderia, mas eu e minha mãe não temos a melhor das relações, já

faz tempo. Não preciso lhe dar mais motivos para me odiar.

Quaid piscou para mim e levantou as mãos para colocar aquela mecha

rebelde – que me deixou obcecada – de volta no lugar. Ao levantar o braço,


sua camiseta também se levantou, e me deliciei com a imagem de seu
abdômen

musculoso e do “V” profundo entre seus quadris. Ele malha, e imaginá-lo


sem

aqueles ternos chiques, enrolado em nada além do que seus lençóis, ficou

muito mais fácil. Ele é alto e magro, tem ombros largos que contrastam com a

cintura fina. E, agora que sei que é todo musculoso por baixo daquela fachada

distante, só quero é chegar bem perto.

– Sua mãe não te odeia. Sentei do lado dela durante a audiência de fiança e

fiquei ouvindo ela chorar por você – Quaid levantou a sobrancelha e cruzou
os

braços. Senti que meus olhos se arregalaram e se fixaram no modo como seus

músculos dos braços ficaram salientes com aquela posição.

– Falei para meus pais que ia entrar no Exército e que não os veria por,

pelo menos, quatro anos. Nenhum dos dois derrubou uma lágrima sequer.

Então tenho certeza de que, apesar do que você pensa, o que sua mãe sente
não

é ódio.

O tom de sua voz era sério, e essa informação surpreendentemente pessoal

caiu como se fosse uma bomba, bem no meu pé.

– Seus pais não ficaram preocupados com o que poderia acontecer com

você? Não ficaram tristes por você ir embora, sem saber quando te veriam de
novo?

Isso me parecia impossível. Não é raro minha mãe agir como se estivesse

de saco cheio, e ela nunca teve dificuldade para demonstrar sua frustração,

mas sempre esteve presente; sempre se preocupou com meu bem-estar.


Tenho

certeza de que ela quer o melhor para mim e não consegui entender como os

pais de Quaid podem não ter um orgulho louco por tudo o que ele conquistou,

nem pelo homem que ele se tornou desde que entrou para o Exército.

– Eles ficaram putos por eu ir embora. Quando me alistei, viram isso como

uma decepção, uma traição a tudo que me ensinaram e em que acreditavam.

Sei como é quando os pais viram as costas para o filho, Avett, e não é isso
que

sua mãe está fazendo.

Segurei a respiração e fiquei sem ar com sua sinceridade pura e simples e

me convenci de que seria completamente inapropriado me atirar para cima

dele. Ele não era a árvore do meu quintal que eu sabia muito bem que não

podia subir, mas algo me dizia que, se eu caísse por causa dele, sofreria danos

bem maiores do que um mero braço quebrado.

– Nunca mandei muito bem quando o assunto era ter a atitude correta,

Quaid. Meu pai precisou me reerguer, precisou me salvar por anos e anos… –

sacudi a cabeça e dei um sorriso cheio de remorso.


– Isso cobrou um preço de minha mãe, não só porque eu estava sempre me

metendo em algo que não devia, mas também porque meu pai nunca pensou

duas vezes antes de me ajudar. Sabia que estava prejudicando a relação dos

dois, sabia que a situação era tensa e que ela estava infeliz, mas nunca isso

nunca me impediu de fazer merda. O que faz de mim uma pessoa bem
horrível,

não importa de que ângulo você olhe, doutor. As evidências são


esmagadoras.

Ele continuou a me observar e aí começou a andar na minha direção. Eu fui

indo para trás à medida que ele avançava. Conti-

nuamos indo para trás até que minhas costas ficaram esmagadas contra a

madeira dura da porta, e não consegui ver nada além dele diante de mim.

Quaid pôs o braço em cima da minha cabeça e precisei jogá-la para trás para

continuar olhando ele nos olhos. Faltavam poucos centímetros para ele me

esmagar, mas cada parte do meu corpo ansiava para acabar com aquela

distância. Meus mamilos se endureceram e apontaram diretamente para ele.

Cada centímetro da minha pele se arrepiou e praticamente vibrou quando

Quaid se levantou, ficando fora do meu alcance.

– As evidências são circunstanciais e corrompidas. Você diz que nunca

toma a atitude correta, que não consegue se controlar mesmo sabendo que
suas
ações magoam as pessoas à sua volta, e a você mesma, repetidas vezes.
Então,

minha pergunta para a ré é… por quê? Por que você continua escolhendo o

pior e continua machucando a si mesma e aos outros? Qual é o motivo?

O ar que saía de sua boca roçou em meus lábios. Suspirei surpresa com

esse contato. Suas palavras me beijavam, e seus olhos me devoravam. Apesar

de nenhuma parte do nosso corpo estar se encostando, eu conseguia sentir

aquele homem por todo o meu corpo, incluindo as minhas profundezas, onde

todo tipo de sensação estava começando a ferver e a pegar fogo. Não


consegui

mais segurar a vontade de tocá-lo, levantei minhas mãos trêmulas e as

espalmei no meio do seu peito. Seus músculos duros como uma rocha
ficaram

tensos com esse toque sutil; minhas pernas cambalearam ao sentir o contraste

de texturas entre sua camiseta de algodão macia e o frio rígido de sua jaqueta

de couro. Quaid segurou meu pulso com a mão que não estava apoiada na

porta e, por um segundo, pensei que ele ia tirar minha mão de cima dele. Em

vez disso, seu dedão encontrou o ponto sensível em que minha pulsação batia

acelerada e começou a acariciá-lo.

– Não quero saber da sua história. Lembra?

As palavras saíram como um gemido, e ele baixou bem de leve a cabeça.


Seus olhos azuis estavam revoltos como uma tempestade de inverno,
enquanto

ficamos nos encarando sem piscar.

Era uma história que eu nunca contava para ninguém, não por completo.

Minha história era o oposto de um conto de fadas, e eu tinha certeza de que

não havia nenhum final feliz me esperando depois do beco sem saída que

sempre me acompanhava. Fiquei chocada por ter vontade de contar para

Quaid, por ter vontade de explicar para ele por que eu fazia o que fazia.

Queria que ele entendesse.

Quaid abaixou o queixo e, de repente, a distância entre nós sumiu. As

pontas das suas botas estavam encostadas nos meus pés descalços. Ele largou

meu pulso para que sua mão entrasse no grande espaço lateral do meu

macacão e a colocou no meu quadril. Sua mão pousou em uma bela


quantidade

de pele nua, e pude ver que ele percebeu isso por seu olhar. Considerando

minha baixa estatura e o tamanho de sua mão, se ele abrisse os dedos,


ficariam

tanto embaixo da minha blusa quanto em cima da minha calcinha, tudo ao

mesmo tempo. Senhor, como eu queria que ele passasse as mãos por todo o

meu corpo.

– Ando querendo muitas coisas que não devo no que se refere a você, Avett
– então baixou a cabeça até que seus lábios quase tocaram os meus.

– Como o beijo que você tentou me dar naquele dia. Eu queria tanto, e foi

por isso que não consegui aceitar. Não tenho nada para oferecer em troca se

aceitar o que você está me oferecendo. Mas não consigo parar de pensar em

como seria e no seu gosto – ele soltou o ar, meus lábios se entreabriram e

minha língua pulou para tentar capturar seu gosto e sua essência. Eu queria

descobrir que gosto Quaid tem tanto quanto ele queria descobrir o meu. Sua

voz ficou ainda mais baixa, ao roçar em espinhos guardados na suas

profundezas.

– Quero a história e o beijo, Avett – seus lábios tocaram os meus, em uma

carícia leve como uma pluma, que fez o tempo parar. Me fez pensar que eu

tinha nascido só para beijar aquele homem. – Você pode escolher a ordem.

Havia um tom divertido e malicioso em sua voz. Mas, antes que ele

acabasse com aquele último milímetro de espaço entre nós, empurrei seu

peito.

– Essa é uma péssima ideia.

Tinha certeza, conseguia sentir em meus próprios ossos. A tentação de me

jogar, de fazer o que sempre faço e cair de cabeça no desastre, estava me

chamando com força. Mas era para eu tentar mudar. Era para eu sentir muito

de verdade. Não apenas falar que sentia, me virar e abraçar a próxima


catástrofe. Eu tinha certeza de que beijar Quaid Jackson levaria a todo tipo de

sofrimento e arrependimento. Sabia disso assim como sabia que não ligava

nadinha e queria beijá-lo e correr atrás daquela péssima ideia até acontecer

uma tragédia, como sempre.

– Você teve muitas ideias péssimas nos últimos tempos. Que diferença faz

mais uma?

Ele tinha razão. Que diferença fazia mais uma? Principalmente sendo uma

péssima ideia com aquela aparência, com cheiro de sono e perfume caro, com

aquele corpo quente e duro me esmagando. Que diferença fazia mais uma

péssima escolha quando vinha acompanhada de lábios firmes e ardentes que

encostaram nos meus? Que diferença fazia mais um desastre prestes a

acontecer, se estava ligado a mãos ásperas que acariciavam minhas costelas à

mostra e pararam nos meus peitos doloridos de tão inchados? Que diferença

fazia mais uma decisão terrível somada a todas as outras que levaram a essa

decisão terrível em especial, do tamanho de um mamute, até a porta da minha

casa?

Eu teria muito tempo, no dia seguinte, para tomar a decisão correta. Mas,

naquele momento, ia aproveitar muito aquela decisão errada que esfregava a

boca com mais insistência na minha, tirando minha capacidade de escolher o

que vinha primeiro: o beijo ou a história. Talvez por isso eu me sentisse tão
atraída por ele, tão enfeitiçada por tudo a seu respeito. Ele não me dava

chance de fazer qualquer escolha, péssima ou boa. Ele decidiu, e eu fui atrás,

em direção à vitória ou ao fracasso… E aquele beijo parecia ter ambas as

coisas misturadas.

Foi a primeira vez na vida que uma péssima ideia me pareceu a melhor

ideia que eu já tive.

CAPÍTULO 8

Quaid

EU NÃO DEVERIA TER ENCOSTADO MINHA BOCA NELA.

Eu não deveria ter passado a mão nela.

Meu pau, definitivamente, não deveria estar duro, apertando dolorosamente

meu zíper, enquanto ela gemia em minha boca, enrolando a língua na minha.

Nada disso deveria acontecer, mas nem meu cérebro nem minha libido

estavam dispostos a parar. À medida que minha mão subia pela lateral do seu

corpo, por baixo da sua blusinha minúscula, e encontrava aquela pele macia e

o volume pesado de um seio intumescido, eu não podia ficar mais feliz por

meu bom senso ter resolvido passar a noite fora. Aquela mulher parece um

sonho. Um sonho safado e sensual que me fez acordar no meio da noite, de


pau

duro e doendo. Ela parece um sonho que me fazia suar e tremer enquanto

procurava algo que não conseguia descrever e que com certeza nunca havia
sentido. Ela parecia o sonho no qual me perdi, sofrendo, logo antes de ela me

ligar e me acordar.

Toda lógica e todo pensamento racional se evaporaram no instante em que

vi seu número brilhar em meu celular e não tinham a menor chance de voltar

após eu ouvir sua voz nervosa e trêmula, quando Avett me disse acreditar
estar

sendo observada. Eu deveria ter dito para ela chamar a polícia, deixado as

autoridades lidarem com a nova confusão em que, inevitavelmente, Avett


devia

ter se metido. Mas tudo o que deveria fazer, quando o assunto era essa garota,

ficava enterrado debaixo da necessidade ardente de fazer tudo o que eu não

deveria com ela. Incluindo sair correndo no meio da noite para me certificar

de que a menina estava fora de perigo. Por algum motivo, precisava me

certificar de que ela estava bem com meus próprios olhos e precisava

participar de seu bem-estar.

Eu estava sonhando com ela – com seu corpo e seu gosto – quando Avett me

ligou, com aquela mistura complexa de emoções, de pânico e paixão, que não

conseguia distinguir nem desenroscar. Eu tinha certeza de que, de jeito

nenhum, ia voltar para o meu loft estilo industrial e frio, com sua enorme
cama

vazia, sem descobrir, sem provar aquela mulher que me deixava imprudente e
ávido. Ela me fazia querer coisas que eu sabia que jamais poderia retribuir. E,

com tudo isso fervendo em meu sangue, me convenci de que precisava saber

se a realidade era melhor do que o sonho.

E era.

A realidade era muito, muito melhor. Avett é doce. Avett é macia. E é muito

sensível, e tive vontade de devorá-la com uma única mordida, em vez de

saboreá-la como a iguaria que é. A garota estava vestida como se fosse

trabalhar no jardim ou, quem sabe, consertar o motor de um carro. Sua roupa,

seu cabelo bagunçado e seu rosto sem maquiagem serviram para me lembrar

de que ela é jovem, de que somos muito diferentes, mas só consegui enxergar

que a garota estava sem sutiã por baixo daquele macacão largo e aquele

pedaço de renda cor-de-rosa em seu quadril. Tudo isso fazia meu sangue

ferver e me deixava com água na boca. A menina é uma tentação, e quis


cobrar

todas as coisas que eu nem sabia se ela estava oferecendo.

Eu a apertei ainda mais contra a porta, com cuidado para não pisar em seus

pés descalços nem esmagar seu corpo miúdo. Sou muito mais alto que Avett,

mas essa mulher me faz ficar… sem ar, fraco e carente… Não fui bobo de

pensar que tinha vantagem naquela situação. Ela estava prensada contra a

porta e teve que ficar na ponta dos pés para conseguir passar os braços por

meu pescoço. Precisei me abaixar um pouco para nossas bocas se


encaixarem.

Mas até isso fazia do modo como a menina arqueava o corpo para me
alcançar

uma carícia sedutora. Avett se espichou bem na minha frente, e cada curva,

cada reentrância de seu corpinho exuberante ficou exposta, para eu explorar e

memorizar. Gostei de ela ter curvas tentadoras para eu segurar, onde quer que

eu pusesse as mãos.

Eu estava tão acostumados a mulheres duras. Corpos duros, cabeças duras.

Corações duros e almas inflexíveis. Que batiam na minha armadura sempre

presente e se esquivavam, sem se afetar nem se interessar pelo homem por

baixo dela. Nada nessas mulheres cedia, nunca.

Mas, segurando aquela menina, com as mãos cheias de pele macia e curvas

generosas, percebi que cada centímetro de Avett Walker cedia. Gostei de ela

ser macia e maleável por meus dedos ousados. Gostei do jeito como ela

gemeu na minha boca e chegou mais perto. Gostei do jeito que ela puxou o

cabelo curto da minha nuca, me informando que eu não era o único a estar

ávido e curioso. E gostei muito de ela estar sem sutiã. Quando pus a mão por

baixo de sua blusa, minha mão foi preenchida imediatamente por sua carne

quente e desejosa. Gostei tanto que parei com a pretensão de que aquilo era

um simples beijo que logo ia acabar e apertei aquele volume intumescido até

que o biquinho de seu seio ficou pinicando a palma da minha mão.


Eu queria vê-la. Queria descobrir se seu ponto aveludado era bonito e

rosado como seu cabelo. Queria senti-lo na minha boca. Queria aquele

grelinho enroscado na minha língua enquanto Avett gritava meu nome.


Queria

pôr as mãos dentro daquela calcinha pink que ela estava usando e sentir que a

garota estava tão excitada quanto eu. Não tinha como disfarçar o modo como

meu corpo reagia a ela. Nem me dei ao trabalho de tentar. Quando a beijei

com mais intensidade, me aninhei em Avett para que todos os centímetros de

seu corpo ficassem em contato com o meu, e meu pau pulsante encontrou um

lugar perfeito para descansar em sua barriga. Queria tirar aquele jeans áspero

que nos separava, para que a minha carne já túrgida e ardente pudesse se

esfregar em sua pele flexível.

Nunca me considerei rapidinho na cama. Mas ter sua boca na minha,

segurar seu peito, com o mamilo roçando na palma da minha mão, o jeito
como

Avett fazia de tudo para ficar mais perto de mim… Eu sabia que, se meu pau

excitado encostasse em qualquer parte do corpo dela, as chances de eu gozar

eram grandes. Eu não ficava tão excitado ou sensível a uma mulher desde que

comecei a transar, na época do colégio. O jeito como Avett ofegava de leve

com os lábios encostados nos meus, o jeito como me puxava para perto, para

poder me beijar... Tudo isso era infinitamente mais poderoso do que qualquer
uma das trepadas com as quais andei desperdiçando meu tempo ultimamente.

Soltei um grunhido quando ela mordeu meu lábio inferior. Um segundo

depois, sua língua estava aliviando essa dor. Era louco e doce. Os dois lados

dela que eu estava morrendo de vontade de experimentar, os dois lados que


eu

queria capturar e mergulhar. Mudei a posição de minha mão para o biquinho

duro do seu peito ficar preso entre meus dedos. Dei um puxão naquela

pontinha sensível retribuindo a mordida, e Avett deu uns gritinhos de dor e

prazer que fizeram meu pau doer e minha boca se tornar ainda mais ávida.

Queria devorá-la. Queria que seu lado louco me consumisse, me queimasse e

purgasse tudo o que, há tanto tempo, havia se transformado em amargura

dentro de mim. Ansiava que sua doçura me acariciasse depois que

vasculhássemos um ao outro e ficássemos acabados, cobertos de cinzas e

satisfação. Nunca fui tão afetado nem tão pouco racional nos meu
sentimentos

por outra pessoa. Aquela mulher me fazia esquecer quem eu deveria ser agora

e me fazia esquecer do homem que eu passei a vida inteira tentando enterrar.

Com ela, eu era outra pessoa, alguém que não era falso nem foi esquecido.

Com as mãos em seu corpo e minha boca deslizando por seu pescoço para

conseguir lamber sua veia pulsante, finalmente me senti um homem de

verdade, um homem que existia além do que possuía e do que podia fazer
pelos outros.

Passei o dedo de novo em seu mamilo e tirei a mão de baixo de sua blusa.

Passei os nós dos dedos por suas costelas e tirei a mão da abertura do seu

macacão para poder abrir o botão que eu segurava com o dedo indicador.

Meus lábios estavam logo abaixo de sua orelha delicada, e nosso peito subia
e

descia rapidamente, no mesmo ritmo.

– Que nível de péssima ideia você quer que isso seja, Avett?

Eu achava que já tínhamos chegado a um ponto sem volta, que não tínhamos

como evitar aquilo, agora que sabia como seu gosto era bom e como era

viciante ser atingido pelo furacão Avett. A sua avidez, a urgência que fervia

em meu sangue, para pegar tudo o que fosse possível antes que aquele

momento acabasse... Eu queria trepar com ela, queria meter naquele corpinho

mais do que qualquer coisa que desejo há um bom tempo, mas minha

costumeira inteligência ainda funcionava a ponto de reconhecer que não era

hora nem lugar. Eu não ia transar com Avett encostada na porta da casa de
seu

pai, mas ia transar com ela. Depois daquela noite, tive certeza de que isso era

um fato, que não tinha como não transar com aquela garota.

Avett piscou, surpresa, e os tons diferentes dos seus olhos castanhos

entraram em guerra, enquanto ela tentava entender qual seria a resposta


correta

para aquela pergunta tão complicada. Era uma decisão difícil, porque a

resposta correta significava que ela deveria aceitar tomar mais uma decisão

errada. A decisão errada que, por acaso, me parecia mais certa do que tudo na

vida.

Ela tirou as mãos do meu pescoço até meus ombros. O dourado dos seus

olhos brilhava, e o castanho havia ficado preto, engolindo o verde.

– Normalmente, vou até o fim quando faço uma péssima escolha. É por isso

que sou um completo fracasso na vida, sem parar.

Sua voz estava rouca e falhou um pouco quando abri o botão de seu

macacão e deixei um dos lados cair.

Soltei uma interjeição grosseira e rouca quando o tecido caiu, revelando

mais do seu busto e da curva suave de sua barriga. Aquela garota tinha o
corpo

que os homens inteligentes desejavam. Era simplesmente perfeita, mesmo


toda

esmagada contra a porta. Era lasciva, e tive muita vontade de arrancar a renda

pink que cobria o resto de seu corpo para descobrir todos os diferentes tipos

de prazer que ela tinha a oferecer, todos os tipos de prazer que eu certamente

podia proporcionar.

Dei um beijo logo abaixo de sua orelha e fiquei passando os dedos bem
devagar pela pele trêmula de sua barriga.

– Isso não me parece um fracasso na vida.

Parecia uma vitória. Parecia um prêmio que eu sequer sabia que precisava

ganhar, o que era estranho, porque minha vida inteira não fora mais do que a

busca por uma recompensa atrás da outra, um prêmio atrás do outro. Persigo
a

aprovação dos outros desde que me dei conta de que meus colegas e

professores sabiam que eu vinha do nada e tinha ainda menos do que isso.

Minha vida até então se resumiu a provar que o ponto de partida não importa,

mas o destino sim. Eu não poderia estar mais feliz do que estava naquele

instante, mesmo a quilômetros de distância de onde deveria estar.

Prendi o dedo na parte de cima de sua calcinha e acariciei com o nó do

dedo o espaço entre seus ossos do quadril, bem devagar. A carícia fez Avett

corcovear e aproximar sua pelve da minha. Gemi, porque meu pau duro ficou

ainda mais apertado contra sua barriga. Ela apertou meus ombros e virou a

cabeça, encostando a boca na linha extensa de meu maxilar.

– Achei que era uma questão de você receber o que eu tinha a oferecer e

não dar nada em troca. Então, tecnicamente, é um fracasso, sim.

Avett soltou um gritinho muito espontâneo e sincero quando desci meus

dedos e não encontrei nada além de sua pele nua e sedosa. Uma pele quente

que se derretia em profundezas líquidas e brilhantes. Não havia nada mais


sexy do que a visão daquela renda pink esticada ao redor da minha mão

inquisidora. O tecido tinha stretch, mas não a ponto de me dar muita


liberdade

de movimentos. Meus dedos ficaram presos nos pontos mais sensíveis dela, e

a palma da minha mão a segurava como se tivéssemos nascido para nos

encaixar. Era um bela armadilha cor-de-rosa, e eu tinha zero desejo de fugir

dali.

Abaixei mais a cabeça para conseguir capturar sua boca com a minha e

deixei meus dedos se perderem dentro de suas dobrinhas úmidas e


aveludadas.

– Vou pegar sua loucura e sua doçura, Avett. Vou descobrir a sensação de

ambas em meu corpo. Vou me lembrar do seu gosto e dos seus movimentos

para, quando estiver lá dentro, não ficar abismado com tudo isso.

Eu podia me perder na tempestade de sensações e emoções que aquela

mulher era capaz de criar e não queria perder a cabeça mais do que já havia

perdido. Uma hora ou outra, precisaria encontrar o caminho de volta à

realidade, à vida que passei tanto tempo construindo.

Com o joelho e o apoio em seu corpo, a fiz abrir mais as pernas, para

conseguir chegar a todos os lugares secretos e escondidos que me tentavam.

Ela obedeceu, com um leve suspiro, e arqueou o corpo ao meu toque. Avett

continuava me dando tudo o que eu queria sem fazer perguntas, sem pedir
nada

em troca, e esse tipo de abertura e generosidade atiçaram minha cabeça e meu

pau mais rapidamente do que qualquer sedução ensaiada já conseguiu atiçar.

Avett estava quente e molhadinha. Sedosa e escorregadia, enquanto meus

dedos se mexiam por cima e por dentro dela. A menina soltava gritinhos cada

vez que meus dedos roçavam em seu clitóris excitado e gemia, ofegante, cada

vez que eles entravam e saíam de seu canal encharcado. Ela fechou os olhos e

se agarrou em mim, ficando na ponta dos pés para chegar mais perto. Avett

estava mergulhando nas sensações que eu despertava, e era algo bonito de


ver.

Então ela afastou a boca da minha, que a invadia sem parar, e jogou a

cabeça para trás com tanta força que bateu na porta. Fui para a frente,

apoiando a testa em meu braço, que ainda estava sobre sua cabeça, e tentei
me

convencer de que era capaz de fazer aquilo. De que era capaz de me perder,
de

me enroscar em sua loucura e voltar para a minha simulação tão

cuidadosamente construída de vida, com tudo do melhor, incluindo

pouquíssima emoção.

O que era mentira.

Avett é que era vida, pelo modo como ela se remexia com meus dedos,
como suas mãos me puxavam, como seu corpo pingava de prazer e jorrava

satisfação, desinibido e desavergonhado.

Avett era real.

Avett era genuína.

Avett era verdade.

Avett era tudo o que eu não era há muito tempo, e eu queria mais e mais.

Queria espremer tudo do seu corpo, que aprisionei com o meu. Ela disse meu

nome em um suspiro abafado, e pressionei seu clitóris com o dedão. A

pequena saliência pulsava ao meu toque, e seu corpo inteiro parecia que ia

levitar.

Suas pálpebras piscavam, e ela abriu os olhos e lambeu o lábio inferior,

inchado de tanto beijar. A loucura estava refletida em seus olhos, que me

desafiavam a continuar, a levá-la ao clímax. A doçura estava lá, no modo

como ela se movimentava para a frente, pressionando os lábios na veia de


meu

pescoço, que não parava de pulsar.

Ela estava quase lá. Eu podia sentir seu corpo se soltando, relaxando em

volta dos meus dedos. Fiz movimentos circulares e fortes em volta de seu

clitóris e me afastei da porta para conseguir colocar a outra mão em seu rosto,

segurando-a enquanto a beijava e devorava cada pedacinho de seu gozo.

Aquela foi a coisa mais deliciosa e lasciva que já passou pela minha língua.
Avett tinha o gosto das suas emoções, excitada e prestes a explodir.

Depois de ela gozar e tremer, com delicados espasmos em torno da minha

mão, ficamos ofegando juntos, e ela baixou os pés. Me olhou com um milhão

de perguntas para as quais eu não tinha resposta brilhando em seus olhos e

baixou as mãos dos meus ombros até a minha cintura.

Seu corpo ficou todo tenso quando seus dedos encostaram no duro metal da

arma que eu havia esquecido ter pego quando saí correndo do loft. Passei os

dedos molhados pela curva de sua barriga e os fechei em volta de suas

costelas. O revólver só trouxe mais perguntas a seu olhar surpreso e


abismado.

– Você tem uma arma.

Como minha jaqueta de couro cobria o revólver, sua surpresa ao descobrir

aquele objeto letal foi mais do que justificada.

Me afastei dela e peguei a aba de seu macacão, que havia soltado há

poucos minutos. Acariciei suas bochechas coradas e mudei de posição, para

suas mãos ficarem longe da arma e de mim.

– Tenho algumas. Fiquei acostumado a ter sempre uma à mão quando estava

no Exército. Seu amigo Google te contou tudo, lembra?

Avett bufou e cruzou os braços. Ainda continuava encostada na porta, e

senti um enorme prazer ao pensar que aquela mulher precisava da


estabilidade
que a porta lhe dava porque eu havia mandado muito bem no quesito deixá-la

com as pernas bambas.

– O Google me contou que você serviu no Exército, não que ia aparecer na

minha casa, no meio da noite, armado e de moto. Pelo jeito, o Google não
sabe

nada de bom. O senhor é cheio de surpresas, não é, doutor?

Soltei um grunhido e levantei as mãos para arrumar o cabelo, que estava

completamente bagunçado, todo torto por ter dormido, ter ficado enfiado no

capacete e ter sido alvo das mãos ávidas de Avett.

– Aprendi a carregar e disparar uma espingarda antes de aprender a ler.

Aprendi a caçar uns dois minutos depois de dar meus primeiros passos.

Quando você disse que poderia estar em perigo, meu instinto foi o de pegar

uma arma ao sair do loft. Minha moto passa a maior parte do ano em um

depósito. Mas, ultimamente, tem me tentado – levantei as sobrancelhas e

completei:

– Algo teima em me lembrar da sensação de relaxar e ser pouco civilizado

de vez em quando.

Avett deu risada e finalmente se afastou da porta. Meu ego praticamente

uivou de satisfação quando percebi que ela estava mesmo de pernas bambas.

– Aquele foguete é tão civilizado quanto qualquer máquina. E você é tão

civilizado quanto qualquer homem. Então, imaginar você engatinhando, de


fralda, com uma espingarda na mão é bem difícil – ela tocou a própria boca e

espalmou a mão no próprio peito. – Quem é você, de verdade, Quaid


Jackson?

Dei risada e respondi:

– Ninguém, não sou ninguém – e esse era o problema com o qual lutei a

vida inteira. Era por isso que estava tão decidido a ser alguém. Era por isso

que havia deixado tudo o que conhecia para trás e criado algo que parecia tão

perfeito, tão desejável, visto de fora. Nunca mais queria ser ninguém, mas
com

ela eu também não queria ser o advogado frio e calculista, o sujeito que sabia

que cada passo que eu desse com Avett não levaria a lugar nenhum. Então me

obriguei a dar um sorriso e perguntei:

– Quem é você, de verdade, Avett Walker?

Ela riu e soltou as mãos ao lado do corpo.

– Sou exatamente quem você pensa que eu sou: a filhinha do papai, que

largou a faculdade, dura e desempregada, mentirosa e criminosa pé de


chinelo.

Sou a garota que não consegue fazer nada direito, mesmo que essa seja a
única

opção, e sou a garota que sempre se apaixona pelo sujeito errado. Não há

nenhuma surpresa em quem eu sou, Quaid, então nem tente inventar uma
bela
história sobre a mulher que você acabou de apalpar. Sou apenas eu. Não há

nenhum coração de ouro, nenhuma alma admirável escondida aqui. Sou

exatamente o que você está vendo e, quando estiver preparado para ouvir

minha história, vai se dar conta de que sou alguém que merece cada confusão

que consegui arranjar na vida.

Era por isso que não conseguia ficar longe daquela mulher nem tirá-la da

cabeça. Sua autenticidade era viciante e muito revigorante, depois de eu ter

passado décadas não só vivendo a mentira que é minha vida atual, mas

também a mentira que era minha vida anterior e a grande enganação que foi

meu casamento.

Dei um sorrisinho malicioso e levei a mão à boca – a mão com a qual

brinquei com ela, toquei, acariciei, a mão que a levou a um orgasmo

arrebatador e pungente. Lambi o dedão e fiquei observando Avett arregalar os

olhos ao ver meu gesto.

– Gosto do que vejo em você, Avett. Também gosto do que recebo e do que

você me dá – ela fez um ruído abafado e levantou a mão para segurar a

garganta, como se pudesse evitar que aquele ruído escapasse.

– E quero, sim, saber da sua história, se você quiser me contar. Fale por

que você vive correndo atrás das opções erradas, sem parar, quando as
opções

certas morreriam para ter uma chance de provar toda essa loucura e essa
doçura que existem dentro de você.

E, com “opções”, quis dizer “homens”, mas ela era esperta o suficiente

para chegar a essa conclusão sozinha.

Avett se afastou de mim e pôs a mão na boca. Desviou os olhos dos meus e

demorou para começar a falar. Quando as palavras saíram, não tinham seu

costumeiro tom ardente e provocativo. Pare-

ciam tensas e forçadas, enquanto ela pulava de um pé para o outro.

– Sempre fui meio cabeça-dura e maluca. Quanto mais me diziam para não

fazer alguma coisa, mais eu queria fazer – ela começou a andar para lá e para

cá, na minha frente, à medida que as palavras saíam de sua boca com

dificuldade.

– Quando eu era pequena, meus pais me chamavam de “difícil”, e os outros

adultos me chamavam de “pirralha mimada”. Quando cheguei à adolescência,

a criança difícil se transformou em uma péssima influência, uma


encrenqueira.

Não tinha muitas amigas por conta da reputação de maluca, o que eu


realmente

merecia. Então, muitas meninas da minha idade não gostavam de mim, e


muitos

pais não queriam que eu levasse suas filhas para o mau caminho. Eu era

festeira, uma garota que estava sempre pronta para se divertir, sem pensar no
que isso poderia significar, e nunca me importei com o que os outros

pensavam a meu respeito, porque era sempre divertido… até que não foi
mais.

Ela me lançou um olhar. Mas, já que eu não a interrompi nem fiz nenhum

comentário, Avett continuou a falar.

– Eu tinha uma amiga, uma menina muito fofa chamada Autumn, que era do

Kansas e se mudou para cá no primeiro ano do Ensino Médio. Calada, meio

tímida, teve dificuldade para se adaptar. Denver era uma metrópole para ela

que, no fundo, era uma menina do interior. Não lembro como fizemos
amizade.

Mas, desde o começo, nos demos superbem e nos tornamos inseparáveis

durante a maior parte do Ensino Médio.

Tudo isso me pareceu bem típico. Quer dizer, minha infância foi mais do

que básica, completamente normal, então não sou nenhum especialista, de

modo algum. Mas o que Avett estava me contando parecia muito com os

desafios e as desventuras que qualquer garota adolescente encara ao crescer,

ao se tornar mulher. Como não queria que o fluxo de palavras parasse, fiquei

de boca fechada enquanto Avett continuou a me contar sua história.

– Eu gostava de balada e gostava de meninos. Gostava de agir como se

fosse mais velha e não tinha nenhum problema em correr os riscos que isso

implicava. Como Autumn era uma boa amiga, e eu era sua única amiga, ela
frequentemente acabava em situações, cercada por pessoas, nas quais não se

sentia bem. Ela não queria me falar, porque tinha medo de eu largá-la se ela

não participasse. Acho que a menina tinha medo que eu encontrasse uma
nova

melhor amiga se não estivesse sempre ao meu lado. Eu era egoísta. Eu era

insensível. Nunca lhe perguntei se concordava com o que acontecia quando a

gente ia para a balada. Presumi que, já que ela aparecia, entendia as regras

implícitas, como eu.

Inclinei a cabeça e fiquei olhando para Avett, pensativo, por um bom tempo.

– E hoje você entende as regras, Avett?

Me pareceu uma pergunta pertinente, considerando a situação na qual nos

conhecemos.

Ela fez um ruído que bem podia ser uma risada, porém mais parecia que

estava se engasgando. Ela sacudiu a cabeça e pôs as mãos nas bochechas

pálidas.

– Ah, entendo, sim. Mas nunca entendi que desrespeitar as regras poderia

afetar outra pessoa, mesmo que eu saísse ilesa – Avett cerrou o punho e bateu

no peito.

– Eu deveria ser a única pessoa que se dá mal quando resolvo fazer algo

arriscado e errado. Mas nunca funciona assim. Nunca.

Pus as mãos em seus ombros para que ela parasse com aqueles movimentos
frenéticos e a olhei bem nos olhos.

– Então sua amiga se deu mal porque foi atrás de você na cova dos leões,

desprotegida, despreparada, e algo ruim aconteceu com ela? – fiz uma cara

sugestiva e completei:

– E você se sente culpada pelo que aconteceu e, por isso, tem se punido,

fazendo merda desde então?

Avett engoliu em seco e enroscou os dedos em meus pulsos. Estava

imaginando se ela teria conseguido perceber que minha pulsação ficou

acelarada, quando ela me disse, baixinho:

– Ela não se deu mal. Não foi só algo ruim. Foi a pior coisa que poderia

acontecer com alguém. Ela morreu. Eu matei Autumn.

Já ouvi muitas confissões e muitas negações na minha carreira, mas

nenhuma me deu um aperto no coração e um soco no estômago como aquela.

– Do que você está falando, Avett?

Minhas palavras saíram mais duras do que precisavam, mas eu não estava

preparado para ouvir aquele tipo de confissão dela.

Avett fechou os olhos, e percebi que seu lábio inferior começou a tremer,

tornando suas palavras difíceis de compreender, mas eu estava acostumado a

ouvir admissões de culpa acompanhadas de lágrimas e não tive nenhum

problema para acompanhar.


– A gente foi a uma festa, uma festa em uma parte da cidade que não

devíamos ir. Fui porque um universitário me convidou e porque minha mãe

tinha me deixado de castigo no fim de semana, por ter ido mal em uma prova.

Toquei um foda-se. Na minha cabeça, era só mais uma rebeldia adolescente

normal. Não era nada de diferente dos programas que eu sempre fazia no fim

de semana, mas logo se transformou em outra coisa. Aquela noite se

transformou na história da minha vida, uma história que mal consigo contar,

porque deveria ser a história da vida da Autumn. Me sinto muito culpada por

estar aqui para contá-la, porque ela não está.

Avett abriu os olhos, e pude ver todo o horror e a tragédia do que aconteceu

naquela noite com clareza, refletidos na película líquida que cobria seus olhos

turbulentos. Era uma tempestade diferente que se formava dentro dela, e essa

tempestade era destrutiva e dolorosa.

– Falei para ela não beber do copo de ninguém. Falei para ela não ficar

sozinha com ninguém, que precisávamos ficar juntas. Falei que aqueles caras

eram mais velhos, que ela precisava tomar cuidado e ficar esperta, porque

ninguém sabia onde estávamos. Achei que isso era suficiente. Achei que

estava cuidando da minha amiga. Não foi suficiente. Longe disso.

Ela deu uma risada fria e deixou a cabeça cair para a frente, como se fosse

um fantoche com os fios arrebentados. Não consegui resistir à tentação e a


puxei para perto do meu peito, pedindo de modo silencioso que ela pusesse

para fora o resto da história, que deixasse aquela tempestade sair, trovejando

com força até passar.

– Autumn começou a fumar maconha assim que passamos pela porta. Estava

chapada, tinha bebido demais e, quando percebi, ela havia sumido com dois

sujeitos da festa. Puseram alguma coisa em sua bebida e, quando finalmente a

encontrei, ela estava sem roupa, desmaiada, e não havia dúvidas de que havia

sido estuprada. Eu queria chamar a polícia e uma ambulância. Precisava de

ajuda, mas o cara que me convidou para a festa pegou meu celular e falou
que

não ia deixar eu dedurar os amigos dele, de jeito nenhum. Fiquei tão puta e

apavorada, por causa da Autumn... Ela estava inconsciente, mas tinha certeza

de que, quando acordasse, estaria mal. Minha amiga não era festeira, não era

igual a mim – Avett abafou um soluço, e senti seus punhos cerrados do lado
da

minha camiseta. Ela começou a tremer.

– Dei um soco no cara, sem pensar que ele podia revidar. Ele me socou.

Lembro de ficar passada de dor e ainda consigo sentir o gosto do meu próprio

sangue enchendo minha boca. Nunca havia apanhado e, por mais que
gostasse

de me arriscar, nunca tinha me sentido em perigo até aquele momento. Eu


não
tinha como proteger minha amiga e não tinha como me proteger.

Eu a abracei mais forte, imaginando que tipo de animal poderia bater nela,

uma menina tão pequena e vulnerável. Fiquei me sentindo um macho alfa que

precisa atacar e defender seu território.

– O sujeito me mandou calar a boca, se não eu ia acabar como a Autumn, e

me bateu de novo. A certa altura, minha amiga recobrou os sentidos e


vomitou

por todo o quarto. Ela estava desorientada, amedrontada, e vomitava sem

parar. Achei que ia morrer bem ali, diante dos meus olhos.

Avett respirou fundo, trêmula, e levou a cabeça para trás para conseguir me

olhar.

– Autumn me implorou para eu tirá-la dali, para levá-la para casa. Tentei

dizer que precisávamos falar com a polícia, que ela precisava ser examinada

por um médico, mas a menina não parava de chorar e de falar que, depois de

tudo o que tinha feito por mim, eu tinha que fazer isso por ela. Autumn queria

ir para casa. Então, contrariando o bom senso, eu a ajudei a se levantar, a sair

da festa, e a levei para casa. O rapaz que pegou meu celular só nos deixou ir

embora porque ela estava obviamente apavorada. Sabia que Autumn não ia

falar nada e que eu tinha uma péssima reputação. Então, se eu tentasse


arranjar

confusão, ia ser fácil me desmentir.


Suas próximas palavras foram tão sentidas e cheias de recriminação e

autodesprezo que não foi difícil entender por que aquela jovem acreditava

merecer o pior que o mundo tinha a oferecer.

– Eu não fiz nada. Minha melhor amiga, minha única amiga de verdade, foi

drogada, estuprada e agredida em uma festa à qual eu a obriguei a ir, e eu não

fiz nada para remediar isso.

Avett se afastou de mim e começou a andar para lá e para cá outra vez.

– Por alguns dias, enchi o saco dela para prestar queixa, mas Autumn só me

mandava calar a boca. Falei que ela precisava conversar com alguém, contar

para os pais o que havia acontecido, pelo menos. Minha amiga fingia me
ouvir,

fingia que estava tudo bem, mas começou a se afastar. Não atendia quando eu

ligava. Não olhava pra mim no corredor do colégio. Não sentava do meu lado

durante as aulas. Começou a agir como se eu não existisse e, o que era mais

assustador: começou a agir como se ela não existisse. Ficou tão isolada e

distante que parecia não estar presente. Sabia que nós não devíamos ter ido

àquela festa e que eu não devia tê-la deixado sozinha lá. Sabia que aquele não

era o seu ambiente. O que aconteceu com Autumn foi culpa minha, porque
ela

jamais teria ido à festa se não fosse por minha causa, se eu não fosse tão

obcecada por fazer qualquer porra que me desse na telha. Então, pensei que o
melhor que eu tinha a fazer era deixar Autumn me odiar. O que foi muito
fácil,

já que eu estava bem ocupada, me odiando. Eu estava arrasada e achei que ela

devia estar se sentindo mil vezes pior, porque, depois de algumas semanas,

ouvi um boato de que Autumn estava grávida.

Avett levou a mão ao peito e dobrou o corpo, como se tivesse dificuldade

de respirar. Apoiou as mãos nos joelhos e ficou olhando para o chão.

– Eu a confrontei, perguntei do bebê e, quando Autumn admitiu que estava

grávida de dois meses, falei que ela precisava contar para os pais o que havia

acontecido. Sabia que minha amiga não podia enfrentar uma gravidez
sozinha,

que ela tinha se afastado completamente de mim. Autumn me disse que não
ia

ter o bebê, que ninguém ia ficar sabendo de tudo o que ela havia passado.

Nunca me disse que era tudo culpa minha, mas eu sabia. Sabia, bem lá no

fundo, que aquilo deveria ter acontecido comigo. Eu deveria estar passando

pelo que minha amiga estava passando. Eu é que era festeira. Eu é que
gostava

de caras que não prestavam. Eu é que deveria estar sofrendo e não ter futuro,

não ela.

Então, Avett respirou fundo e se endireitou. Pude ver que ela acreditava que

a punição que ela mesma havia se dado por um crime que não havia cometido
era justificável, que acreditava mesmo que a história de sua vida começava e

terminava com o ocorrido com a amiga, com a sua inabilidade de fazer algo a

respeito daquela noite e da tragédia que veio depois. Aquela era uma cruz

muito pesada para qualquer alma suportar e, definitivamente, era peso demais

para uma alma jovem e rebelde carregar.

– Naquele fim de semana, a mãe de Autumn ligou para a minha casa e

contou à minha mãe que havia encontrado a filha pendurada no varão do

closet. Autumn havia se suicidado. Como não deixou bilhete, eu era a única

pessoa que sabia o porquê. Fui ao enterro, vi seus pais chorarem quando

baixaram o caixão e só conseguia pensar que, mais uma vez, eu não tinha
feito

nada. Eu não contei para ninguém. Quem sabe, se eu tivesse contado,


Autumn

ainda estaria aqui para contar sua própria história. Por um instante, até pensei

que eu é que deveria estar naquele caixão, mas sabia que jamais conseguiria

fazer isso com meus pais. Eu já os fazia sofrer o bastante, porque passava

cada hora do dia tentando morrer – Avett encolheu os ombros, quase

desesperada, e completou:

– Acho que eu estava tentando empatar o placar. A menina que gostava de

balada e de se divertir se transformou em uma menina à beira da destruição.

Eu ia atrás de homens que não prestavam de propósito, em vez de passar


direto por eles, como fazia antes. Comecei a beber muito mais, a usar drogas

de vez em quando, mas logo descobri que não gostava muito disso. Eu queria

sofrer, sentir a dor que eu sabia que Autumn havia sentido, e as drogas me

deixavam anestesiada, me faziam esquecer. Parei de fingir que estudava e

parei de tentar me dar bem com minha mãe. Se antes daquela noite eu era

rebelde, depois saí do controle. Queria sofrer de todos os modos possíveis,

mas nunca era o suficiente. Jamais poderia compensar o que aconteceu com

Autumn, o que ela perdeu. Uma hora, fui visitar seus pais e contei o que
havia

acontecido. Contei da festa e do estupro. E contei da gravidez.

Ela levantou a mão e pressionou as têmporas com força.

– Achei que isso ia ajudá-los a superar, que encontrariam consolo ao

entenderem que Autumn havia se sentido encurralada – uma lágrima


escorreu,

finalmente conseguiu escapar ao campo de força invisível que Avett tinha

criado para segurá-las enquanto falava. A lágrima ficou presa por alguns

instantes em seus cílios negros e então caiu, escorrendo em silêncio até

desaparecer debaixo da curva do seu queixo.

– Os pais de Autumn me falaram tudo o que eu já sabia desde aquela noite.

Sua mãe me disse que era tudo culpa minha, que eu é que deveria ter
morrido.
Que sua filha era uma boa menina, uma filha amorosa, até começar a sair

comigo. Que eu havia estragado Autumn e depois a matado. Eles me


disseram

que eu é que deveria ter morrido, não a filha deles. Que eu merecia cada gota

de sofrimento por ter colocado Autumn naquela situação. Eu não tive


coragem

de contar para meus pais o que realmente aconteceu. Eles sabiam que
Autumn

tinha morrido, sabiam que eu me sentia culpada, mas já estavam bastante

decepcionados com as decisões que eu estava tomando, decisões que eram

ainda piores do que as que eu costumava tomar. Não conseguiria nem pensar

em vê-los me olhando como os pais de Autumn me olharam. Se eles também

me culpassem, como é que eu poderia viver com minha própria consciência?

Estava acostumada com a decepção deles, mas não sabia se conseguiria

sobreviver ao desprezo deles.

Avett secou a trilha úmida que a lágrima havia deixado em seu rosto e

voltou seu olhar torturado para mim.

– Então não fiz nada e matei minha melhor amiga. É essa a minha história e

a história dela, em toda sua horrenda verdade, doutor – ela soltou um suspiro

trêmulo e seus olhos lacrimejantes se fixaram nos meus.

– Você ainda gosta do que vê e do que recebe de mim, Quaid?


O desprezo que ela sentia por si mesma era evidente, assim como a culpa e

a responsabilidade por aquele evento trágico, que pesava em seu pescoço

como uma âncora de chumbo.

Andei até fazê-la se encostar na porta de novo. Pus as mãos em seu rosto e

levei sua cabeça para trás, para que ela ficasse me olhando, de olhos

arregalados e queixo caído.

– Já faz alguns anos que sou criminalista. E, se tem alguma coisa que todos

os meus clientes, inocentes ou culpados, têm em comum, é a culpa. É sempre

culpa de outra pessoa, é sempre por causa de outra pessoa que se encontram

na situação em questão. Ninguém quer se responsabilizar pelas decisões que

levaram a pessoa a precisar de um advogado. Todos os meus clientes são

assim, menos você, Avett. Você se responsabiliza por suas escolhas e não

inventa desculpas para o seu comportamento. O que aconteceu com a sua

amiga foi horrendo, e nenhuma jovem deveria passar por isso, muito menos

sozinha, mas foi ela quem decidiu ir com você. Foi ela que decidiu beber. Foi

ela que decidiu não dizer nada para as pessoas que poderiam ajudá-la. Por

acaso você a forçou a ir com você àquela festa? – Avett sacudiu a cabeça

devagar entre as minhas mãos.

– Você disse que a amizade terminaria se Autumn não fosse com você? – de

novo, uma negativa. – Você fez alguma coisa diferente naquela noite do que
fazia em todas as outras noites em que vocês duas iam a algum lugar que não

deveriam ir?

Dessa vez, ela falou um “não” bem baixinho.

– Então você precisa se dar conta de que o que aconteceu não foi culpa sua.

Foi horrível e podia ser evitado? Sim. Mas os únicos culpados são os homens

que agrediram a sua amiga. Não me importa se vocês duas entraram naquela

casa peladas, prontas para arrasar. É preciso dar consentimento, e aqueles

rapazes não deram a Autumn a chance de dizer “sim” ou “não”. É culpa


deles.

Não sua. E, certamente, não dela – espremi os olhos ao pensar quanto a

conversa com os pais da menina deve ter sido devastadora para Avett.

– Os pais de sua amiga estavam procurando alguém para pôr a culpa,

porque estavam sofrendo e queriam um alvo para descontar a dor. Nenhum


pai

e nenhuma mãe gosta de pensar que falhou com o filho, que pode ter deixado

passar batido os sinais de que a filha estava sofrendo, com problemas, e que

poderiam ter feito algo para ajudar. Isso os faz se sentir inadequados e de

coração partido. Vejo essa situação todos os dias no Tribunal, pais que não

conseguem acreditar que seu filhinho é capaz de fazer mal a alguém ou a eles
e

procuram qualquer outra explicação plausível para as coisas terem dado tão
errado. Só pode ser culpa de outra pessoa. Você pintou um grande alvo em si

mesma, e eles atiraram o quanto quiseram.

Abaixei a cabeça e lhe dei um beijinho de leve, para confortá-la. Rocei

meus lábios nos seus, que ainda estavam inchados, e passei a língua na

curvinha graciosa de seu lábio superior. Avett precisava de alguém que

cuidasse dela. E, apesar de eu não saber se ainda podia oferecer cuidado a

alguém, nós dois ficamos surpresos por eu ter manifestado isso como se eu

tivesse um estoque interminável de cuidados.

– Sua história não muda o modo como te vejo, Avett, mas vai mudar meu

nível de tolerância com as suas escolhas erradas. Porque, infelizmente, a sua

história é a mesma de muitas jovens. Algumas até têm o mesmo fim trágico
que

sua amiga teve. A sua história e a história de Autumn não são as únicas, e me

mata ter que te dizer que vejo histórias parecidas, com resultados parecidos,

entrando e saindo do Tribunal o tempo todo. Todas essas histórias têm uma

coisa em comum: a culpa, que com frequência é atribuída à pessoa errada.

Você não precisa buscar algum tipo de punição cósmica. Você não fez nada

errado.

Pelo menos, não naquela noite. Não fazer nada não era a opção certa para

nenhuma das duas. Mas, infelizmente, é a opção que muitas jovens agredidas

escolhem quando se encontram nessa situação. A responsabilidade, tantas


vezes, recai sobre a vítima, em vez de ser atribuída ao agressor, e essa culpa

tem consequências horríveis, como fazer a amiga dela acreditar que não tinha

saída para o sofrimento a não ser tirar a própria vida. E era óbvio que levou

Avett a acreditar que ela era responsável pelas ações daqueles meninos

depravados e perturbados.

Como Avett não disse nada, voltei a me afastar da porta e resolvi que

estava na hora de ir embora. Não tinha mais conselhos sábios para lhe

oferecer naquela noite. Além disso, precisava ficar um tempo sozinho para

compreender quanto eram complicadas e profundas as águas que corriam

dentro daquela jovem tão complexa. Avett me fascinava e prendia a minha

atenção de uma maneira alarmante. Eu estava tão concentrado no trabalho e


em

superar meu casamento desastroso que ter tudo isso ao mesmo tempo e de

repente, além de uma tentação intrigante de cabelo cor-de-rosa, era

praticamente levar uma chicotada.

– Vou ver se consigo que uma viatura passe por aqui, mas você precisa

ligar para o seu pai, para não passar o resto da noite sozinha.

Ela ficou tensa na mesma hora e deu um passo na minha direção.

– Eu já te falei que não quero tirá-lo de perto da minha mãe.

Eu já sabia que a garota ia responder isso. Sacudi a cabeça antes de ela

pronunciar todas as palavras.


– Liga para ele, porque eu vou ligar para o seu pai vinte minutos depois de

ligar para a polícia de Denver e pedir uma viatura. Se ele for acordado e

tirado da cama quente, da companhia de uma bela mulher, por mim, não vai

encarar tão na boa quanto se for por você – não era sim que eu costumava
falar

com os outros, muito menos com uma mulher de quem eu queria

desesperadamente tirar a roupa, com quem queria fazer safadezas, mas todas

as minhas normas e os meus comportamentos típicos pareciam ter secado e

sido substituídos por essa minha nova encarnação, que era uma mistura

improvisada do que fui e do que sou. Soltei Avett e abri a porta.

– Desta vez, fique mesmo longe das janelas, caramba. Quem estava

dirigindo aquele carro quase me atropelou. Então não temos como saber o
que

essa pessoa faria com você se tivesse a oportunidade.

Avett tremeu de leve e segurou a porta enquanto eu passava por ela.

– Sim, senhor Capitão.

O sarcasmo ficou bem claro em seu tom de voz e seu gesto, de bater os

dedos na testa, como uma saudação militar.

– É sério, Avett. Você me disse que nunca faz nada direito mesmo que seja a

sua única opção. Então estou te dizendo que essa é a sua única opção. Liga

para o seu pai e fica quieta até descobrirmos que diabo está acontecendo.
Ela fez careta por causa do meu tom ríspido, mas se conformou e balançou

de leve a cabeça.

– Tudo bem. Vou ligar para ele e ficar longe das janelas e das portas – a

timidez em sua voz me fez parar quando cheguei ao último degrau. –


Quaid…

– me virei e quase subi correndo os degraus ao ver como Avett estava

encantadora, toda amassada, ali parada, na porta. Que se danem o respeito e a

lógica.

– Sim?

– Obrigada por ter me passado o seu celular. Obrigada por ter atendido

minha ligação. Obrigada por ter aparecido para ver se eu estava bem – ela

parou um instante para recuperar o fôlego, porque as palavras foram saindo

rapidamente, uma depois da outra.

– Obrigada por estar aqui e por ter ficado mesmo depois de eu ter te

contado minha história. Agora você sabe exatamente quem eu sou. E, para

mim, você é muito mais do que ninguém, Quaid.

Abri a boca e fechei em seguida. Levantei o capacete e o coloquei por cima

do meu cabelo bagunçado. Antes de baixá-lo totalmente e cobrir meu rosto

com ele, falei, sem rodeios:

– Eu não teria feito nada disso se você fosse outra pessoa, Avett. A sua

história não muda quem você é nem o que sinto por você. Agora entra e liga
para o seu pai.

Ela balançou a cabeça de leve e sumiu para dentro da casa. Fui até onde

minha moto estava e esperei por alguns minutos, a fim de me certificar de


que

as cortinas e persianas não se mexiam. Queria ter certeza de que Avett estava

fazendo o que falei. Quando me convenci de que ela havia concordado e

ligaria mesmo para Brite, passei a perna por cima da moto e dei partida.

Resolvi ir até a delegacia mais próxima e pedir que fizessem uma patrulha

pelo bairro.

É muito mais difícil me dizer “não” quando argumento pessoalmente.

CAPÍTULO 9

Avett

–NÃO PRECISO DE BABÁ. JÁ FAZ QUASE UMA SEMANA QUE OS


CARAS ESTRANHOS

do carro preto não aparecem. Estou começando a pensar que estavam

ali para levar a vaca da minha vizinha, que não larga do pé do pobre do

namorado. Se eu fosse ele, não pensaria duas vezes e contrataria alguém para

dar um tiro naquela bocuda. Me parece bem menos doloroso do que casar
com

alguém assim.

Olhei para o homem alto e loiro ao meu lado e ganhei um leve repuxar de
seus lábios. Ele me olhou com aqueles olhos dourados brilhando, um

sorrisinho malicioso que arrasava corações e os consertava em poucos

segundos. Eu já havia sido testemunha disso.

– Tenho certeza de que você tem coisa melhor para fazer do que ficar

bancando meu chofer enquanto procuro emprego.

Estava de saco cheio de ficar em casa e, para ser sincera, estava de saco

cheio da minha própria companhia. Resolvi que estava na hora de fazer

alguma coisa, de fazer qualquer coisa, de dar um jeito na minha vida, ou seja,

eu precisava arranjar um emprego. Não fazer nada não funcionava mais para

mim. E, depois de ter purgado todos os meus segredos e medos mais

profundos e sombrios, revelando-os a Quaid, eu me sentia mil vezes mais

leve, sem o peso do passado em minhas costas. Aquela nuvem de


recriminação

e acusação em que vivia não me deixou por completo, mas eu estava

conseguindo enxergar através de sua densidade com mais clareza do que

nunca.

Fazer alguma coisa significava procurar emprego, coisa que eu tinha

certeza que seria quase impossível na garupa de um motoqueiro grandalhão e

barbado. Depois de passar uma hora explicando quanto era importante para

mim sair de casa e ser produtiva, meu pai cedeu e me deixou ir à caça, mas só

se eu levasse comigo um de seus rapazes para ficar de olho, caso algo


acontecesse. No desespero, atendi a seu pedido e, como resultado, fui

agraciada com a presença de Asa no papel de meu guardião e segurador do

meu currículo durante toda a manhã e toda a tarde.

Aquele sorrisinho malicioso em seu rosto ridiculamente bonito se

transformou em um verdadeiro sorriso, e ouvi a mulher para quem eu havia

acabado de entregar um formulário, para trabalhar em uma pequena cafeteria

perto da casa de meu pai, suspirar. Fiquei surpresa por ela não ter usado a

pilha de papéis para se abanar. Asa Cross é gato a ponto de despertar esse

tipo de reação. E, como a mulher não parecia interessada em usar o


formulário

e o currículo que lhe entreguei para me dar emprego, ela bem que podia

utilizá-lo de outra maneira.

– Pode acreditar. Ficar vendo você tentar ser simpática e educada com

pessoas que você obviamente quer esganar é muito mais divertido do que

qualquer compromisso que possa existir em minha agenda. Além disso, seu
pai

me pediu para não desgrudar de você.

Revirei os olhos e abri a porta de vidro que dava na calçada.

– E quando Brite pede alguma coisa para seus rapazes…

Asa deu risada e completou:

– A gente aparece e faz.


Resmunguei entredentes e olhei em volta para ver se havia mais algum café

ou bar em que eu pudesse parar e pedir trabalho. Mas, infelizmente, eu já

havia passado por todas as oportunidades daquele bairro pequeno, pelo jeito.

Havia deixado meu currículo e preenchido aqueles formulários repetitivos em

todos os lugares com um cartaz de “estamos contratando” ou que serviam

algum tipo de comida, sem ter muita sorte nem muito interesse. Estava
ficando

frustrada, irritada, e a graça que Asa achava da situação me deu vontade de


lhe

dar um chute na canela. Não contei que o motivo de eu estar tão desesperada

para arrumar um emprego, possivelmente dois, era poder começar a pagar

para meu pai o dinheiro da fiança. E também pagar Asa por ele ter contratado

Quaid para me defender.

– Fiquei surpresa por meu pai ter pedido isso para o sedutor e não o

soldado. Você vem armado com um sorriso, e Rome vem armado, ponto-
final.

Puxei a ponta de minha trança e olhei para minha calça jeans skinny escura

enfiada nos coturnos gastos e a camisa de flanela de manga comprida que

estava usando, com uma regatinha de renda aparecendo por baixo da gola

aberta. Era um modelito meio hipster chic, bem comum no outono do

Colorado, mas fiquei me perguntando se não deveria ter me arrumado mais.


Eu
tinha vontade de urrar. Mando muito mal em causar boa impressão.

– Rome tinha uma reunião de negócios e uma consulta com Cora, por causa

do bebê. Ela está prestes a dar à luz. Além disso, por mais que Rome admire
e

respeite seu pai, ainda está tentando se recuperar do roubo… dos dois roubos.

Me encolhi toda sem perceber e suspirei.

– Não posso condená-lo por isso – desconfiada, estendi o braço e toquei as

costas de sua mão, que segurava um café para viagem. – Então, por que você

está aqui, Asa? E por que você ligou para Quaid na noite em que fui presa?

Você tem tantos, se não mais, motivos para me odiar quanto Rome Archer.

Jared podia ter te matado, e a Royal também, naquela noite.

Minha voz meio que falhou e mordi a bochecha para evitar que mais

palavras sem sentido e desculpas inúteis saíssem por minha boca. Eu não
tinha

nem como começar a expressar quanto ficaria arrasada se algo tivesse

acontecido com ele e com sua linda namorada policial. Asa pegou no meu pé

desde a primeira vez que nos encontramos no bar. Eu fingia que o odiava,
que

me ressentia por ele ser o chefe do bar que sempre foi da minha família,

debochava de seu passado turbulento e de seu jeito altruísta. Mas a verdade é

que o admiro. Gosto de ele nunca me julgar, nunca me desprezar por eu me


meter em uma encrenca depois da outra. Nunca tive irmãos. Mas, se tivesse,

queria que meu irmão mais velho fosse igualzinho a Asa Cross, com todos os

seus defeitos.

Ele levantou os olhos cor de âmbar da minha mão e cruzou com os meus, e

vi uma vida inteira de verdades e consequências brilhando para mim.

– Por acaso você já ouviu seu pai falar para alguém que acabou de

conhecer que “os semelhantes se reconhecem”?

Balancei a cabeça, sem pensar. Esse é um dos ditados preferidos de Brite.

Meu pai diz muito isso quando conhece alguém e consegue reconhecer na

mesma hora que a pessoa serviu em qualquer ramo das Forças Armadas. E

também consegue adivinhar quem é seu irmão motociclista. Até pode

acontecer de alguns não terem ido para a guerra, mas homens em busca de

algo, homens que buscam algum tipo de fraternidade, se atraem.

– Já ouvi ele dizer isso, sim.

Asa balançou a cabeça e segurou em meu braço para me levar até o outro

lado da rua, até um pequeno shopping a céu aberto, onde havia vários food

trucks estacionados. Na frente de cada um, havia uma longa fila, e o aroma de

comida me deixou com água na boca na mesma hora.

Asa parou antes de a gente se misturar completamente à multidão, me virou

de frente para ele e pôs a mão pesada em meu ombro. Era impossível desviar
daqueles seus olhos dourados e, apesar de suas palavras serem duras, seu

sotaque arrastado e lírico as deixava leves como plumas.

– Somos semelhantes, Avett, eu e você. As merdas que você faz, como você

se sente uma merda, depois... – ele sacudiu a cabeça, e seu cabelo loiro meio

comprido caiu em seu rosto. Era fácil ver por que ele tinha um efeito tão

poderoso sobre nós, mulheres, e por que a confusão sempre o seguia. Asa é
do

tipo de homem que faz de ser malvado uma ciência. – Já passei por isso. Na

verdade, antes de Royal, antes de morar em Denver, eu tinha cadeira cativa


no

fundo do poço e planejava passar o resto da vida lá. Sabia que estava fazendo

merda, me fodendo, fazendo umas merdas que iam me assombrar para


sempre

e me prejudicar, mas não conseguia parar. Achava que precisava ser um cara

mau, porque era um sujeito que havia feito muita maldade.

Tive vontade de tirar sua mão de cima de mim e falar que ele não sabia

nada a meu respeito. Mas era mentira. Ele sabia, sim, e, apesar de saber,
ainda

estava ali, ainda estava tentando me fazer ver que a vida era mais do que a

próxima péssima escolha e mais do que me sentir mal porque era isso que eu

tinha certeza que merecia.

– O negócio é que o fundo do poço fica lotado, porque sempre tem alguém
que faz uma merda maior do que a sua. A gente não consegue ver, porque a

cabeça fica tão cheia com as próprias merdas que nem vemos as dos outros.

Todo mundo faz merda, e juro que, seja lá o que você acha que fez para

merecer essas merdas burras que anda fazendo, não é tão ruim quanto
algumas

das coisas que acontecem nesse mundo cão. Não importa quanto tempo você

está lá, no fundo do poço, segurando na beirada, achando que não tem como

descer mais, sempre tem alguém que vai cair lá dentro e acabar com o seu

conceito de ponto mais baixo da vida. Essa gente vai passar caindo por você

e, de repente, você vai se dar conta que, das duas uma: ou cai para sempre,

porque a vida não é fácil e é cheia de altos e baixos, um buraco sem fundo;
ou

pode mexer a bunda e começar a escalar em direção à beira do poço, porque

tem uma vida melhor à sua espera lá em cima.

Limpei a garganta e perguntei:

– Quando você começou a escalar, chegou a sair do poço, Asa?

Porque aquilo me parecia muito trabalho, ainda mais se a gente tem poucas

chances de sair da lama.

Asa soltou meu ombro e me deu aquele sorriso que resplandecia à diversão

e encrenca, porque ele manda bem nos dois.

– Não cheguei, nem de longe. Às vezes até solto a mão e vou para baixo de
novo, mas Royal, e a vida que levo com ela, está sempre à minha espera, lá
em

cima. Por isso é que nunca paro de escalar, não importa quantas vezes eu
caia.

A cada dia, sinto que estou cada vez mais perto de chegar lá em cima, e seja

qual for o poço em que estiver desperdiçando a minha vida, não passa de uma

lembrança – ele levantou uma de suas sobrancelhas loiras e encostou o

indicador em meu queixo.

– Comece a escalar, Avett. É cansativo, seu corpo e sua alma ardem de

tanto esforço, mas não existe nada mais recompensador.

Dei um passo para trás e limpei a garganta, para conseguir falar apesar da

emoção que estava praticamente me sufocando.

– Você sempre mandou bem nas palavras, Caipira. Mas palavras não são

capazes de consertar todas as merdas que fiz ultimamente. É tipo passar silver

tape nas rachaduras do Titanic.

Asa suspirou, irritado, inclinou a cabeça na direção dos food trucks.

– Acho que você ficaria abismada com quanto as palavras são capazes de

consertar. Vamos comer. Estou morrendo de fome.

Concordei balançando a cabeça, dando graças a Deus por ele pôr um fim

naquela conversinha de coração aberto. Vale a pena levar suas palavras em


consideração, porque, só de pensar em um outro loiro, mais refinado e

arrumado, me olhando lá de cima, fiquei toda arrepiada.

Meu pai voltou para casa e ficou no meu pé desde a noite em que liguei

para ele, na casa da minha mãe. Não sai do meu lado nem me deixa sair sem

ele. E, por mais que sua preocupação seja fofa e bem-vinda, nós dois

precisamos continuar levando a vida. Isso inclui eu encontrar um emprego

para me tornar uma integrante produtiva da sociedade. Brite chegou a falar


que

perguntaria a Rome se ele me contrataria para trabalhar no bar de novo, mas

vetei essa ideia na hora. Ainda não estou preparada para encarar o soldado

gandalhão e tatuado e tenho certeza de que de jeito nenhum eu e minha mãe

vamos conseguir ficar na mesma cozinha sem matar uma à outra.

A vigilância constante também significa que não vejo Quaid desde a noite

em que ele apareceu lá em casa, como se fosse uma versão alternativa de si

mesmo, que anda de moto, usa roupa de couro, tem várias armas e leva

mulheres ao orgasmo.

Ah, mas aquele orgasmo…

Se eu fechar os olhos e me concentrar, ainda posso sentir tudo que ele

causou, a reação de todas as células do meu corpo. Foi muito mais do que

gozar e sair andando. Foi algo que está se prolongando, que continua comigo,

que me cegou em um momento em que eu não estava preparada para lembrar


do prazer carnal de tudo aquilo. Já fiz muito sexo durante minha vida.
Algumas

vezes foram melhores do que outras. Mas, depois daquele encontro com

Quaid, grudada na porta de casa, estou começando a perceber que sexo é bem

parecido com qualquer outra coisa que uma pessoa faz muito bem. Quanto

mais você pratica, melhor fica. Considerando que todos os meus outros

parceiros tinham mais ou menos a minha idade, deixavam a desejar no


quesito

experiência, por mais que tivessem transado com outras mulheres. Não
preciso

nem dizer que tenho quase certeza de que Quaid é tão profissional na cama

quanto no Tribunal. E, depois de ter esse homem passando as mãos em mim,

não quero mais brincar com amadores ou estagiários.

Quaid me tocou do jeito que faz tudo na vida: com confiança, iniciativa,

decisão, sem me perguntar se eu ia gostar, porque sabia que eu gostaria…

Caramba, ele sabia que eu ia adorar e enlouquecer. Se não tivesse parado

naquele momento, eu teria arrancado meu macacão, ficado de joelhos bem no

meio da sala de estar da casa do meu pai e mandado ver, para lhe dar tanto

prazer quanto ele me deu. Posso até ser impulsiva, mas tem certos limites que

não ultrapasso. E transar com um sujeito sob o teto do meu pai sempre foi um

deles. Até esse advogado sexy aparecer, todo durão, todo “deixa comigo”, de
um jeito totalmente diferente do seu normal.

Quaid me mandou algumas mensagens, dizendo que a polícia não tinha

nenhuma pista e que o processo contra Jared estava transcorrendo

normalmente. Disse para eu entrar em contato se precisasse de alguma coisa,

mas nada além disso. Imaginei que não ia funcionar mandar uma mensagem

para ele dizendo que eu precisava de seu pau na minha mão e na minha boca,

por mais que eu quisesse. Estou aprendendo, devagar e sempre, a fazer

escolhas inteligentes e apropriadas.

Depois de discutir sobre em qual food truck comer, deixei Asa me

convencer de ir a um que parecia bem promissor, que fazia uma versão

moderna da comida sulista. Foi uma grata surpresa, quando nosso pedido
saiu,

a comida ter uma cara e um gosto tão bons. Amo comida e amo comer. A

cozinha, mesmo quando tudo me parecia terrível e sem solução, sempre foi

meu refúgio. Sou capaz de misturar um punhado de ingredientes e sempre me

surpreender com o resultado. Quando meu pai e minha mãe se separaram, eu

passava muito tempo sozinha, porque Brite estava no bar, e Darcy não tinha

disposição para sentar e comer comigo na época. Eu fazia o jantar quase


todas

as noites, em um esforço para me sentir melhor comigo mesma, para não me

sentir tão sozinha com a minha tragédia e a minha culpa. Era uma sensação
de

liberdade e de tranquilidade criar comidas que sempre acalmavam as partes

da minha pessoa que estavam mais à flor da pele.

Fomos até uma mureta de cimento e sentamos, um ao lado do outro,

enquanto saboreávamos nosso almoço tão cheiroso.

– Então, a mina do Machina é uma bosta?

Asa fez essa pergunta com a boca cheia de canjica, e eu fiz careta.

– É. Está sempre surtando e gritando com ele. Faz isso no gramado da casa

e fica de tocaia quando o coitado volta do trabalho – contei, debochando.

– E também tem um Honda vermelho que aparece na frente da casa quando

ele sai para trabalhar. Fica ali a maior parte do dia, até dar quase a hora de o

seu amigo voltar. Nunca vi o motorista, mas… – dei de ombros e completei:

– A mina é terrível, e ele parece ser um rapaz legal. Talvez um dos amigos

devesse comentar sobre o tal Honda.

Lancei um olhar sugestivo. Asa grunhiu e limpou o rosto com um

guardanapo.

– Ele é super legal, é amigo de Nash e Zeb há muito tempo. Trabalha duro,

mas não fala muito e não se envolve em nenhum dos dramas que aparecem.

Nunca levou a mina para o trabalho, mas ouvi os caras falarem que não
sentem

muita saudade de quando ela aparecia por lá. Fomos todos convidados para o
casamento, que vai ser em janeiro.

Os rapazes de meu pai estão por todos os lados. Formam um círculo íntimo

que está sempre crescendo, graças ao amor e a todas as recompensas que isso

traz.

Terminei meu pão de milho e limpei as mãos engorduradas na calça jeans.

– Vai ver, é a maldição pré-casamento ou algo do tipo.

Asa levantou as duas sobrancelhas, pegou minha caixinha de isopor e foi

andando em direção a uma lixeira.

– Pode até ser, mas isso não explicaria o tal Honda, não é?

– Não explicaria, não. Já que, pelo jeito, sou completamente

desempregável, vou ficar de olho e te aviso se conseguir descobrir alguma

coisa mais concreta, para você contar ao seu amigo mecânico.

Ele deu uma risadinha e passou as mãos no cabelo. Ouvi um suspiro e,

quando me virei, vi um grupinho de universitárias assistindo aos movimentos

de Asa como se ele fosse um filme de matinê. Segurei o riso. Ele me disse
que

ficaria muito grato e estendeu a mão para me ajudar a levantar.

– Você não é desempregável, mas entra nesses lugares praticamente

gritando que é muito qualificada para ficar fazendo sanduíches e pedaços de

pizza. As pessoas que poderiam te contratar se dão conta de que você só vai

ficar no emprego até encontrar coisa melhor. Então não querem investir
tempo

e dinheiro para te treinar.

Pisquei de tanta surpresa, e Asa se virou e apontou para os lados da casa

do meu pai.

– Muito qualificada? Você bebeu? Eu larguei a faculdade, mal me formei no

Ensino Médio e fui demitida do meu último emprego por roubo. Acho que

fazer sanduíches e pizza é exatamente do que eu preciso… se alguém me der

uma chance.

Asa sacudiu a cabeça e sorriu para mim.

– Essa merda que você está dizendo pode até funcionar com alguém que

nunca experimentou a sua comida nem viu você comandar uma cozinha
sozinha

durante a correria do almoço. Você sabe cozinhar, Avett. Entende de comida


e

do que fica gostoso. E também sabe administrar uma linha de produção, coisa

que nenhum diploma universitário pode ensinar. Você daria de dez a zero nos

moleques que trabalham nesses lugares pequenos, e eles sabem disso. Você

tem é que fazer jus ao seu potencial, não se contentar com pouco.

Asa foi meu chefe durante o curto período em que trabalhei no bar, então

não foi tão fácil assim ignorar seus elogios e sua afirmação de que eu tinha

mais a oferecer do que duas mãos dispostas a trabalhar. Ele já tinha me visto
trabalhar e experimentado a minha comida. Eu sou boa de cozinha,

provavelmente boa demais para ficar cozinhando pratos rápidos ou montando

sanduíches. Mas preciso fazer alguma coisa e não tenho medo de começar
com

algo pequeno, fácil de administrar e de manter.

Em algum lugar, não muito longe dali, uma sirene ecoou pelos ares. Virei a

cabeça para tentar localizar de onde vinha o barulho e fiz careta para Asa.

– Foi isso que Quaid me disse depois que retiraram as acusações contra

mim. Que eu deveria fazer jus ao meu potencial.

Usei essa afirmação contra ele e dei a entender que o meu potencial era

algo sexual, porque não sabia direito qual era meu potencial, além de arrumar

todo tipo de encrenca.

– Quaid é um sujeito muito esperto.

E também tem o melhor beijo que minha língua já encontrou. E mãos

mágicas. Mas duvido que Asa estivesse interessado em saber disso.

– E também é um advogado muito caro, e é por isso que preciso arranjar um

emprego, qualquer emprego, para poder pagar o que você gastou com ele –

puxei a ponta da minha trança, e o som das sirenes ficou mais alto, parecendo

mais próximo. – É o mínimo que posso fazer depois de tudo isso.

Asa parou de repente e pôs a mão na minha frente, me obrigando a parar

também.
– Avett... – seu sotaque estava ainda mais carregado ao falar meu nome

baixinho. – Eu não paguei nada para Quaid. Ele me ligou logo depois de

encontrar com vocês, antes da audiência de fiança, e me falou que seu pai ia
se

responsabilizar pela conta. Falei para Brite que eu pagaria, que tinha recebido

o dinheiro da venda da fazenda, mas você sabe como é discutir com seu pai –

ele sacudiu a cabeça e completou:

– Você não me deve nada, boneca.

Senti como se uma tonelada de tijolos tivesse caído em cima de mim. Eu

sabia que meu pai tinha tirado dinheiro do seu fundo de aposentadoria para

pagar a minha fiança. Mas se ele também havia pago as custas de Quaid,
devia

ter rapado a conta toda. Brite não tinha mais nada guardado para se sustentar;

ia ficar completamente duro, e era tudo culpa minha. Pus a mão em cima do

peito quando me caiu a ficha de que, apesar de eu estar em uma missão há


anos

para destruir minha própria vida, a única pessoa que levava as bordoadas e

continuava sendo prejudicada era meu pai.

Eu devo ter saído do ar, de tão perdida na minha própria culpa, engolida

por meu próprio redemoinho de recriminação, como sempre. Porque, quando

me dei conta, Asa estava segurando a minha mão trêmula e me tirando do


meu
torpor para sair correndo. Ele tem pernas compridas, eu não, então fiquei
meio

que tropeçando enquanto tentava descobrir que bicho tinha mordido aquela
sua

linda bundinha sulista.

– Ô, Caipira… que porra é essa? – gritei e acelerei ainda mais quando

chegamos à quadra da casa de meu pai.

– Você não está sentindo o cheiro de fumaça? Está tão perto.

Ele parecia preocupado de verdade e, quando dobramos a esquina, um

cheiro de queimado, acre e pungente, me acertou em cheio. Eu estava tão

preocupada com o papel que estava desempenhando na vida de meu pai que

não percebi que as sirenes estavam praticamente em cima de nós, nem que

havia uma espessa nuvem de fumaça preta em cima de nossas cabeças.

Sou baixinha, mas consegui acertar o passo com Asa, mesmo com o pânico

esmagando minhas entranhas como um bloco de chumbo. Ficou bem claro, à

medida que chegávamos mais perto, que tinha um pequeno exército de

policiais e carros de bombeiro na frente da casa do meu pai. Também ficou

bem claro que a nuvem de fumaça vinha da bela construção de tijolos, que

estava sendo completamente engolida por chamas que pareciam chegar até o

céu.

O calor era intenso e me deixou sem ar. Assim como a multidão de vizinhos
e curiosos que se juntaram para observar tudo o que eu tinha, tudo, tudo o que

meu pai conseguiu reunir ao longo da vida, se transformar em cinzas e meras

lembranças. Eu estava tremendo tanto que minhas pernas não conseguiram


me

segurar e caí de joelhos na calçada, com as mãos no peito. Não conseguia ver

nada além da nuvem de lágrimas, e parecia que o fogo era tão quente que
ardia

até aquele ponto onde eu caí. Eu ia derreter bem ali, me transformar em nada

além de uma poça de culpa e remorso em ebulição. Um policial chegou perto


e

pediu para a gente se afastar, que ali não era seguro. E, quando Asa falou que

eu morava naquela casa, vi sua expressão de pena e remorso.

Ele ajudou Asa a me levantar e nos levou até o ponto em que os carros de

bombeiro estavam estacionados, na frente de casa. Cascatas de água saíam

daquelas mangueiras poderosas, enquanto homens vestidos para lutar contra


as

chamas corriam para lá e para cá. Um homem de calça azul-marinho e camisa

abotoada impecável, com um distintivo que parecia muito um distintivo de

policial, me puxou e começou a me encher de perguntas, as quais tentei

responder.

Tinha alguém em casa?

Não. Meu pai estava no bar desde que Asa veio me buscar, e Rome passou
o dia inteiro fora.

Eu lembrava de ter deixado alguma coisa ligada ou velas acesas quando

saí?

Não. Meu pai é um sujeito durão de verdade… A gente nem tem velas em

casa.

Havia alguma coisa estranha quando eu saí?

Não.

É possível que eu tenha deixado alguma coisa tipo um babyliss ligado?

Não. Eu sempre checo tudo antes de sair e depois checo de novo.

A gente tem forno a gás ou elétrico?

A gás e não, não senti cheiro de propano nem de nada que pudesse indicar

um vazamento.

A parte elétrica da casa estava em dia?

Sim. Meu pai contratou Zeb para refazer toda a parte elétrica há alguns

anos, depois de levar um choque da torradeira que o fez cair de bunda no

chão.

Minha cabeça girava, e achei que eu ia vomitar em cima do homem umas

duas vezes. Porque, por mais que jogassem água na casa, as chamas ficavam

cada vez mais altas. A casa estava sendo devorada por aquelas faixas furiosas

alaranjadas e vermelhas, e me dei conta de que Asa tinha razão. Achei que ser
presa e ficar na cadeia seria o ponto mais baixo de minha vida, mas após

observar tudo o que eu tinha e tudo o que tinha importância para meu pai se

desintegrar diante dos meus olhos... Tive a certeza de que a cadeia foi um

fundo falso, que eu ainda estava caindo… cada vez mais fundo. Não
conseguia

nem mais enxergar lá em cima.

O cara continuou me interrogando, fazendo mais perguntas para as quais eu

não tinha resposta. Uma hora Asa apareceu, me abraçou e me puxou para seu

peito amplo.

– Liguei para o seu velho. Ele e Darcy estão a caminho.

Ele encostou o rosto no alto da minha cabeça, e eu o apertei com todas as

minhas forças.

– Como ele está?

Arrasado? Bravo? Apavorado? Era assim que eu estava quando perguntei.

Asa murmurou alguma coisa e me soltou. Se afastou de mim, mas continuou

com as duas mãos em meus ombros e me deu um sacudão que fez minha
cabeça

ir para trás e meus dentes baterem.

– Ele estava morrendo de medo de que sua filha pudesse estar ferida. Está

muito puto por não estar aqui para te consolar enquanto você vê tudo o que
tem
se desfazer bem diante de seus olhos. Está preocupado, como qualquer bom

pai ficaria, que isso esteja diretamente ligado àqueles caras esquisitos que

estavam observando a casa – ele me deu mais um sacudão e falou:

– Como você acha que ele ia estar, Avett?

Me afastei de Asa e enterrei as mãos no rosto.

– Puto. Achei que ia estar puto. Se isso tiver alguma coisa a ver com

aqueles caras que estavam de olho na casa e em mim, é culpa minha. É


sempre

culpa minha.

O barman gritou alguns palavrões, cruzou os braços e ficou me olhando

feio.

– Por acaso foi você que causou o incêndio, Avett?

Seu sotaque normalmente tão suave e sexy naquele momento estava mais

para irritado e grosso.

– É claro que não. Passei a tarde inteira com você e tenho certeza de que

não deixei nada ligado. Eu sempre me certifico disso antes de sair.

– Exatamente.

A palavra saiu de sua boca e me atingiu como uma chicotada. Foi tão

certeira que joguei a cabeça para trás, como se Asa tivesse me acertado um

tapa na cara.

– E, mesmo que você tivesse deixado alguma coisa ligada, seria um


acidente, mesmo assim não seria culpa sua. Se você acha que não sei

reconhecer quando alguém está querendo ser punido, querendo uma


penitência

que acredita ter de pagar, está redondamente enganada. Já vi isso em mim

mesmo e posso ver isso em você. Caralho, Avett. Posso te dizer, por

experiência própria, que, seja lá o que você estiver tentando curar, não

importa quantas merdas você faz para se sentir mal e também nãointeressa se

essas merdas afetam outras pessoas. Na verdade, nada disso te ajuda, porque

isso ainda irá continuar lá, no seu encalço, e nada de ruim que você possa

fazer contra si mesma irá mudar o ocorrido. O que você fizer agora, seja bom

ou ruim, não irá mudar o que fez no passado, e você precisa aprender a

conviver com essa realidade – os olhos de Asa ficaram mais escuros, e seu

brilho dourado diminuiu. – É por isso que continuo escalando e talvez nunca

chegue lá em cima. Tenho um peso bem pesado para carregar.

Tive vontade de mandar Asa para bem longe de mim. Não queria que sua

aprovação e suas palavras de conforto diminuíssem a crueza e a fúria dos

meus sentimentos. Não queria que ele enxergasse através de mim, como se eu

fosse feita de vidro. Não queria ouvir nada de alguém que sabia exatamente

que o que eu estava fazendo não daria certo. Havia me convencido, ao longo

dos anos, de que, se sofresse o bastante, desapontasse o bastante, perdesse o

bastante, uma hora terminaria de pagar minha penitência e poderia voltar à


vida que tinha, quando não achava que merecia tudo de ruim que surge em
meu

caminho.

Já ia falar que aquele sermão era desnecessário, que ele não fazia ideia do

que havia acontecido na noite em que tudo mudou para mim. Asa não estava

por perto quando me dei conta de que era uma pessoa nefasta. Aquela noite

não era só o ponto em que minha história começava, mas era também o ponto

em que ela terminava.

Nunca tive oportunidade de dizer nada para Asa Cross. Na mesma hora, a

picape gigante de meu pai e outra, bem parecida, pararam bem atrás das

barricadas que as equipes de emergência tinham montado. Achei que Rome

Archer ia sair da outra picape e não consegui conter um suspiro de surpresa

quando, em vez do soldado cheio de cicatrizes, apareceu um sujeito loiro e

lindo, de terno sob medida. Quaid tirou o paletó e bateu a porta da picape

antes de vir em nossa direção com seus sapatos muito brilhantes e muito

advocatícios. Preferia ele de calça jeans e bota naquela situação em especial,

já que o lugar estava cheio de fumaça e fuligem. Mas, para ser sincera, aceito

esse homem de todas as maneiras que ele vier.

Minha mãe e meu pai chegaram primeiro ao meu lado. Ganhei um abraço de

urso e quase comecei a chorar de novo quando minha mãe também me


abraçou
e sussurrou:

– Estou tão feliz por você não estar em casa. Você nos matou de susto.

Eu a apertei e dei um passo para trás quando Quaid chegou.

– Está todo mundo bem? O bombeiro passou alguma informação? Já

sabemos se foi um acidente ou um incêndio criminoso? – Ele não disparava


as

perguntas para ninguém em especial, e ficamos olhando para aquele homem


de

queixo caído. Quaid deve ter percebido que ainda estávamos em estado de

choque, só de pensar que tínhamos perdido tudo, porque suavizou seu tom de

voz e passou o dedo em meu rosto.

– Desculpa. Eu estava no Tribunal e não tive tempo de desligar o modo

advogado quando recebi o telefonema. Ainda estou ligado na função

interrogatório. Você está bem?

Soltei um suspiro e segurei minha vontade de afundar o rosto na palma da

sua mão.

– Estou, exceto por ter perdido tudo que tenho, o que não era muito.

Minha mãe limpou a garganta e se aproximou de meu pai, que nem

percebeu, porque estava bastante ocupado lançando olhares mortíferos para o

ponto do meu rosto em que os dedos de Quaid estavam.

– Falei para o seu pai, quando estávamos a caminho, que vocês vão ficar na
minha casa – minha mãe falou. – Sou mais alta do que você, mas tenho

bastante roupa no meu armário que você pode usar até a gente poder comprar

suas coisas.

Que merda. Eu nem tinha pensado nisso. Aonde é que eu poderia ir, já que o

único lugar que eu via como lar havia acabado de ser destruído?

Asa deve ter percebido minha expressão de pânico, porque sugeriu:

– Vocês podem ficar na casa nova, comigo e Royal. E minha garota não é só

deslumbrante, também tem porte de arma. Pode ser legal ter uma policial por

perto, se essa história tiver alguma coisa a ver com o fato de você
testemunhar

contra o tal viciado.

Meu pai abriu a boca para recusar ao mesmo tempo em que eu abri a minha

para aceitar. Não sei o que a bela namorada do Asa vai achar de eu ficar sob o

mesmo teto que ela, mas prefiro mil vezes ser o pomo da discórdia entre a

ruiva e o conquistador sulista do que motivo de tensão e incômodo na casa da

minha mãe.

E não é que a zebra, no caso a zebra loira de terno caro, também queria

participar da corrida? Quaid encostou no meu cotovelo, como havia feito no

Tribunal, e aquele minúsculo gesto acalmou parte do pânico e da ansiedade

que estavam me comendo por dentro.

– Você pode ficar na minha casa. Se alguém estiver te observando, nunca


irá pensar em te procurar no meu apartamento. E, se isso tiver relação com o

processo contra seu namorado, posso ajudá-la a navegar as águas jurídicas


em

que você terá de nadar – ele apontou para a casa e completou:

– Se foi um incêndio criminoso, então é uma ameaça clara, o que configura

obstrução de justiça e uma tentativa óbvia de intimidar uma testemunha. A

polícia precisa ser informada do que está acontecendo, que isso pode estar

relacionado a algo muito maior. Eu posso ajudar. Eu quero ajudar.

Ele estava me ajudando desde sempre. Então, sem nenhuma surpresa, é

claro que fiz a única escolha que fazia sentido… a pior de todas.

Balancei a cabeça para ele. Vi meu pai fazer careta e Asa me lançar um

olhar inquisidor.

– Vou ficar na casa de Quaid.

E, quem sabe, quando eu parar de me apaixonar por ele, o que

inevitavelmente resultará em ele partir meu coração, eu terei, enfim,

ultrapassado os limites de sofrimento que tanto queria para me punir. Porque

tenho quase certeza de que, quando Quaid Jackson acabar comigo, nada na

face da Terra irá me fazer mal nem causar tanta dor quanto isso.

CAPÍTULO 10

Quaid

OS POLICIAIS INTERROGARAM AVETT POR HORAS E HORAS.


FIZERAM UMA CENTENA

de perguntas sobre seu relacionamento com o tal Jared, sobre os caras de

quem ele roubou dinheiro e drogas, sobre o assalto e sobre os sujeitos que

ficaram parados de carro na frente da casa dela. Fiquei feliz de ver que

estavam levando a situação a sério, mas fiquei terrivelmente frustrado ao

descobrir que a polícia não podia fazer mais nada com as poucas informações

que Avett lhe passou. Tudo o que ela pôde contar foi a aparência do carro que

havia ficado parado na frente de sua casa e uma descrição vaga dos homens

que entraram no apartamento de Jared e bateram nela. Ouvi-la falar, repassar

aquela noite com todos os detalhes que podia lembrar, me deu vontade de

socar a parede mais próxima. Aquela menina era uma guerreira, um tornado,

cheia de vida e de energia. E, quando esses ventos pararam de soprar, no

momento em que explicou o medo que sentiu, que contou para o investigador

que esteve muito perto de ser estuprada e traumatizada para sempre, o eco do

vazio e do medo em sua voz me atingiu em cheio e acendeu meus instintos

possessivos e protetores que, pelo jeito, eu só tinha em relação àquele furacão

de cabelo cor-de-rosa.

O investigador disse que ia falar com Jared, que ainda estava atrás das

grades porque não lhe concederam o direito à fiança, e informou que logo

entraria em contato, assim que tivesse notícias dos bombeiros, que estavam
investigando se o incêndio havia sido acidental ou proposital. Eu não tinha

dúvidas de que o incêndio era uma mensagem, que tinha sido proposital para

intimidar e assustar Avett, mas não conseguia entender com o que queriam
que

ela ficasse assustada, o que estavam tentando comunicar. No meu ramo, sei

que sempre existe um motivo por trás das ações. E, assim que
descobríssemos

o motivo, eu me sentiria muito melhor sobre a segurança de Avett. É

impossível vencer uma luta quando a gente não sabe exatamente o que o

oponente tem a perder.

Tirei Avett, que estava bem quieta e para baixo, da delegacia e me ofereci

para passar em um shopping ou hipermercado para ela comprar algumas

coisas mais básicas. Mas a menina apenas sacudiu a cabeça e disse que só

queria tomar banho e dormir. Sua pele, normalmente clara e rosada, estava

com uma palidez de morte, e sua boca linda que fazia beicinho estava

apertada, enquanto ela mordia, ansiosa, a parte de dentro da bochecha. Seus

olhos de vários tons estavam escuros e com finas linhas vermelhas, enquanto

piscavam rapidamente para segurar as lágrimas que eu podia ver. O caráter

definitivo do incêndio, a absoluta destruição de tudo de tangível que ela

gostava, a tinham atingindo em cheio. Avett estava tentando controlar as

emoções causadas por aquela perda enorme, mas a dor que sentia e o
sofrimento que a cercava como se fosse um ser vivo não podiam ser

ignorados. Tive vontade de segurar sua mão, de lhe oferecer algum tipo de

consolo, mas ela estava tão à flor da pele que achei melhor esperar até

chegarmos à minha casa. Avett poderia se acabar assim que chegássemos lá.

Na verdade, o lugar era tão estéril, tão intocado por qualquer sinal de vida

real, que só tinha como melhorar com a bagunça que aquela garota difícil, de

cabelo cor-de-rosa, poderia fazer. A destruição que ela causava podia ser

bela, se a pessoa certa estivesse por perto para limpar os escombros e pôr os

pedaços certos de volta no lugar.

Parei o carro na garagem do prédio e segurei em seu cotovelo para poder

levá-la até o elevador, que nos levaria até meu loft, na cobertura. Avett não

disse uma palavra até chegarmos lá em cima. E, quando abri a porta e a fiz

entrar, estava esperando que ela ficasse impressionada com o pé-direito alto,

os canos aparentes e os tijolos à vista na parede dos fundos da cozinha.


Estava

esperando que Avett soltasse um suspiro, abismada com a vista de 360 graus

que mostrava tanto o perfil urbano de Denver quanto as altas montanhas, lá

longe. Era literalmente uma vista de um milhão de dólares e, com frequência,

seduzia mais as mulheres que entravam na minha casa do que qualquer coisa

que eu poderia dizer ou fazer.

Eu deveria ter adivinhado que Avett não se impressionaria com nada do que
eu estava acostumado. Ela nem prestou atenção no meu sofá caro de couro. O

centro de entretenimento, comparável a qualquer tela de IMAX, nem a


abalou.

O chão de mármore importado debaixo de seus coturnos foi ignorado, assim

como a enorme cama king size encostada em uma parede repleta de obras de

arte escolhidas a dedo que, provavelmente, custavam mais do que a anuidade

da sua faculdade. No geral, ela parecia cem por cento desinteressada pela

minha casa tão meticulosamente decorada. Mas, quando seus olhos pararam
na

cozinha, com os eletrodomésticos gourmet de aço inox reluzente, que jamais

haviam sido usados, as chamas voltaram sutilmente a seus olhos.

Ela foi até o único pedaço da minha casa no qual eu nunca fico e acariciou

o fogão de seis bocas como se fosse um amante. Olhou para trás e deu um

sorriso fraco.

– Esta cozinha é linda. Eu poderia passar um tempão aqui.

Fiquei com uma pergunta na ponta da língua, querendo saber o que ela tinha

achado do resto do apartamento. Mas, considerando que a garota havia

perdido tudo e não possuía mais nada, querer aprovação por causa de um
lugar

cheio de quinquilharias inúteis que ela sequer havia notado me pareceu

indelicado e imaturo. Nem sei por que eu queria tanto a aprovação daquela
menina, aliás. Eu é que tinha que morar ali, que precisava ter uma embalagem

que combinassem com o produto que eu estava tentando vender para os


outros.

– O banheiro é naquela porta, do outro lado da cama. Vou pegar uma

camiseta e uma calça de moletom para você usar enquanto sua roupa estiver

lavando.

Avett balançou a cabeça, distraída, e deu a volta no balcão de granito que

separava a cozinha da sala de estar. Enrugou nariz e tentou sorrir, mas acabou

fazendo uma careta que me deu um aperto no coração.

– Estou fedendo a fumaça, não estou?

Ela pegou a ponta da trança e tirou o elástico que segurava suas mechas

cor-de-rosa enegrecidas pela fumaça.

Eu me segurei para não gemer e me aproximei dela, que parecia perdida e

deslocada naquele loft tão luxuoso. Aquela mulher era de tirar o fôlego, mais

do que qualquer coisa que podia ser vista por aqueles janelões caros, e era

muito mais interessante e colorida do que qualquer obra de arte inútil

pendurada na parede. Tirei suas mãos da cabeça e enfiei os dedos nas mechas

coloridas para terminar de desmanchar a trança para ela. Avett me olhou com

um ciclone de emoções refletido em seus olhos, e percebi que ela só

conseguiria pensar no que estava sentindo e deixar a tempestade passar. Por

ela, eu queria ser impermeável, à prova de água.


– Eram só coisas. Você sabe disso, não sabe?

Minha voz saiu rouca e, quando terminei de soltar seu cabelo, que caiu ao

redor do seu rosto como uma onda cor-de-rosa e cacheada, dei um passo para

trás e olhei nos seus olhos perturbados.

Avett encolheu os ombros e falou:

– Só coisas, mas coisas que significavam muito. Tudo o que meu pai

guardava dos seus tempos na Marinha e as lembranças do bar que acumulou

durante anos. Nada disso pode ser substituído, o que é uma merda, não
importa

como a gente encare.

Soltei um grunhido e fui até o closet, debaixo da escadaria que leva ao

andar de cima, onde ficam meu escritório e minha biblioteca jurídica.

– Você também significa muito, Avett. Tenho certeza de que seu pai estaria

disposto a sacrificar tudo o que tem para você continuar sã e salva. Vocês
dois

têm muita sorte.

Ela fez um ruído abafado e começou a se dirigir ao banheiro. Fiquei

imaginando se o box de vidro com piso de ardósia e múltiplos chuveiros a

impressionaria tanto quanto a cozinha. Duvidei, mas sabia que seria muito

mais fácil para Avett se soltar, se acabar de chorar, debaixo do chuveiro do

que em cima de um forno gourmet.


Ela parou na porta, virou para trás e me olhou. Na mesma hora, tive a

certeza de que as lágrimas que ela estava segurando cairiam a qualquer

instante.

– Não estou me achando muito sortuda neste exato momento.

Não fiquei surpreso com sua resposta, mas a garota tem sorte, sim. Tem

sorte de ter escapado da cadeia e, por mais que tente esconder, sua inocência
é

visível. Tem sorte de ninguém ter se ferido e de o incêndio ter sido contido

antes de se espalhar para as casas vizinhas. Tem sorte de ter um pai e uma
mãe

que a amam e a apoiam em qualquer situação em que ela se meta. Ninguém a

culpou por aquele incêndio, ninguém a não ser ela mesma. Tem sorte de
ainda

ser jovem o suficiente para que nenhuma de suas péssimas escolhas defina
sua

vida e de ainda ter tempo para decidir o que fazer com ela. Tem sorte de ter

tantas pessoas que querem protegê-la e ficar ao seu lado quando ela puser um

fim naquilo que começou na noite do assalto. Tem sorte por não precisar

enfrentar nada do que está acontecendo ou ainda pode acontecer sozinha.

E eu sou um puta sortudo por ela estar na minha casa.

Avett não estava ali por causa da vista de um milhão de dólares. Não estava

ali por causa dos dígitos da minha conta bancária. Não dava a mínima para o
fato de eu estar prestes a me tornar sócio do escritório, nem estava ali pelo

que eu tinha a oferecer. Na verdade, quando a merda aconteceu, eu precisei

obrigá-la a aceitar minha ajuda.

Quando Asa me ligou, contando que a casa de Brite estava pegando fogo e

que Avett estava arrasada, tive que me segurar para não sair correndo do

Tribunal no meio de um interrogatório. Precisei pedir um breve recesso e

instruir meu substituto para que ele pudesse terminar de interrogar a

testemunha e eu pudesse ir embora. Nunca havia saído do Tribunal no meio


de

uma sessão. Nunca havia delegado um interrogatório para ninguém, porque

sempre tive certeza de que ninguém era capaz de fazer isso tão bem quanto
eu.

Mas, naquele dia, nem liguei. Eu só queria chegar até a cena do crime para
me

certificar de que Avett estava bem. Assim que cheguei, tive certeza de que

queria levá-la para a minha casa. Eu estava bastante convencido de que Lottie

havia matado toda a compaixão e a preocupação que eu poderia sentir por

outras pessoas. Mas, quando vi Avett mal conseguindo parar em pé, fui

inundado por empatia. Queria tanto consolá-la que podia sentir isso na ponta

da minha língua.

E a mulher me escolheu. Estava ali comigo, e não com os pais, com quem
poderia compartilhar a dor daquela perda. Ela confiava em mim para consolá-

la e acreditava que eu tinha algo a oferecer que ninguém mais tinha. Então,
por

mais convencido que eu estivesse de que estou emocionalmente esgotado e


de

que meu coração e minha alma são desprovidos de qualquer coisa que valha a

pena oferecer, vou raspar o fundo do meu pote emocional e oferecer para
Avett

Walker todos os restinhos e ajudá-la a superar essa situação.

Tive muito tempo para me tornar o filho da puta ressentido, amargo, corno e

materialista desde meu divórcio. Com ela, e por ela, posso simplesmente…

existir. Não preciso me forçar a nada, e a vida pode ser simplesmente real.

Nem sei se ainda faço ideia decomo é a vida real. Mas, quanto mais convivo

com Avett, menos enevoada fica a minha visão do que deve ou não ter

importância.

Encontrei uma camiseta velha escrito “EXÉRCITO” em letras desbotadas.

O troço me servia quando eu tinha dez quilos a menos e era bem menos
cínico.

Eu sabia que todas as minhas calças de moletom iam ficar gigantes no corpo

miúdo de Avett. Então, revirei o closet até encontrar uma cueca samba-
canção

de flanela que Lottie havia me dado de Natal e ainda estava dentro da caixa.
Eu deveria ter percebido, naquele instante, que se a mulher com quem estava

casado, que dormia comigo todas as noites, sequer tinha notado que eu usava

outro tipo de cueca, aquele casamento estava condenado ao fracasso. Sua


falta

de interesse em mim e nas minhas roupas íntimas devem ter sido o começo
do

fim.

Bati na porta para que Avett pudesse me ouvir mesmo com o chuveiro

ligado. Ela tinha deixado a porta entreaberta, e suas roupas cheirando a

fumaça, dobradas de qualquer jeito, estavam ao lado da pia. Ao vê-las, dei


um

leve sorriso, porque, mesmo quando a garota tentava ser organizada, ainda
era

bagunceira.

– Avett, vou te deixar essas roupas e jogar…

Eu ia dizer que ia colocar suas roupas na máquina de lavar, mas as palavras

morreram na ponta da minha língua quando seu choro de soluçar me deu um

soco no coração.

Eu sabia que ela ia precisar de um tempo, que toda as suas forças haviam se

esvaído e a deixado exaurida e exausta, mas não esperava vê-la arrasada,

deitada no chão do meu box de luxo como um furacão que perdeu toda a
força
dos seus ventos.

Avett estava deitada de lado, nua e tremendo, enquanto a água caía sobre

ela. Seus olhos estavam fechados, mas, mesmo através do vapor e da água
que

caía em seu rosto, dava para ver as lágrimas saindo entre seus cílios

apertados. Aquele era um retrato da mais completa devastação. Era o rastro


de

destruição deixado pela tempestade. Ela deixou escapar mais um choramingo,

que pareceu o gemido de um animal ferido, e não tive como não ir até ela. Já

ouvi homens contarem que haviam matado seu primeiro inimigo e visto seus

amigos, irmãos de armas, morrerem bem na sua frente, e isso foi menos
trágico

e doloroso do que ver Avett naquele momento.

Atirei as roupas, que estavam totalmente amassadas nos meus punhos

cerrados, na pia. E, sem pensar duas vezes no que a água poderia fazer com

meus mocassins Bruno Magli ou com minha gravata de seda preferida, entrei

no box e me abaixei para que a água batesse em mim e não nela. Levantei o

braço para fechar a torneira e peguei seu corpo trêmulo no colo. Avett estava

ao mesmo tempo quente e gelada. Passou o braço em volta do meu pescoço e

continuou a soluçar e a chorar com o rosto encostado na minha camisa

ensopada. Ela estava tremendo tanto que era difícil segurar sua pele nua, não
que meu pau estivesse preocupado com seu frágil estado emocional. O
negócio

só reconheceu que a mulher estava molhada, completamente sem roupa e

agarrada em mim como se eu fosse tudo o que lhe restasse no mundo. Tudo

isso fez o filho da puta insensível ficar muito feliz e muito ansioso para
chegar

mais perto dela.

Tirei meu cabelo empapado dos olhos e tentei me equilibrar, enquanto a

segurava e tentava tirar meus sapatos encharcados e, definitivamente,

arruinados. Sentei na beirada da cama com seu corpo leve no colo e levantei

uma das mãos, para tirar o cabelo embaraçado e pingando água do seu rosto.

Tanto eu quanto ela estávamos molhando o edredom pintado à mão, mas eu


mal

notei, porque Avett abriu os olhos lacrimejantes e olhou fixo nos meus.

– Sou um desastre – disse, com a voz falhando, e pude ver, pelos seus

olhos, que a voz refletia a dor do seu coração. Quando eu era mais novo, não

tinha nada, sequer me passou pela cabeça como seria perder alguma coisa. Já

adulto, tenho tudo e me convenci de que sou capaz de fazer qualquer coisa

para não perder nada. Mas, ao ver aquela mulher vibrante e cheia de vida

destruída e acabada por causa de coisas que pegaram fogo, objetos perdidos

que era um só bens materiais, comecei a me perguntar se os meus esforços


para adquirir objetos de valor e prestígio não foram desperdiçados,

concentrados nas prioridades erradas.

– Sei disso, é uma das coisas que mais gosto em você.

Avett apertou o braço em volta do meu pescoço e seus dedos gelados

encontraram os cabelos da minha nuca.

– Cala a boca – falou, sem raiva. E, apesar de seu olhar sofrido, um sorriso

amarelo se esboçou em seu rosto.

Puxei algumas mechas do seu cabelo escorregadio e fiquei olhando elas se

enrolarem em meus dedos.

– É verdade. Acho o caos que te cerca fascinante e intrigante. Pelo jeito,

isso faz parte de você, assim como este cabelo cor-de-rosa. Você nunca é

tediosa ou previsível.

Ela franziu a testa de leve e mudou de posição no meu colo. Em vez de ficar

sentada nas minhas pernas, sentou-se de frente para mim, com os dois braços

em volta do meu pescoço e seu centro de prazer completamente nu pairando

bem em cima do pano molhado que cobria meu pau. Então pressionou os
seios

contra o meu peito, e segurei um gemido quando ela pegou o nó da minha

gravata. Não para soltá-lo, mas para me puxar para perto.

– Não quero ser esse caos. Quero ser algo e alguém que não destrói tudo o

que é importante sem precisar fazer esforço.


Avett me puxou até nossos lábios se encontrarem e, quando passei a ponta

da língua em seu lábio inferior, senti o gosto salgado das suas lágrimas e o

amargo dos seus anseios.

– Tem gente que nasce para ser a tempestade e tem gente que nasce para

correr atrás dela, acho eu.

Sussurrei essas palavras encostado nela, que rebolou e se acomodou bem

em cima do meu pau ereto. Não tinha como não perceber que o troço pulsava

entre nós dois nem que a única coisa que me separava de sua entrada era o

zíper, que me mantinha engaiolado. Eu ia ficar com uma marca permanente


do

fecho na parte de baixo do meu pau se aquela mulher não parasse de se

remexer. Afundei os dedos na curva do seu quadril e pus uma das mãos ao

lado do seu rosto.

Ela piscou e foi para a frente até sua testa encostar na minha.

– E o que é que acontece quando a pessoa que nasceu para correr atrás da

tempestade finalmente a alcança?

Dei uma risadinha e rolei para o lado, para ela ficar presa entre mim e o

colchão.

– Ela enfrenta. É a única coisa que dá para fazer quando a gente está

debaixo de um aguaceiro.

Lentamente, a tristeza refletida em seus olhos começou a diminuir, e um


sorriso suave, cheio de toda aquela sua doçura, começou a pairar sobre sua

boca. Isso vale mais do que qualquer objeto escolhido a dedo para decorar

aquele loft.

Avett aproveitou que estava segurando minha gravata, me puxou e me deu

um beijo muito mais suave e doce do que aquele que havia me dado
encostada

na porta da sua casa. Também começou a desfazer o nó, que teimava em não
se

soltar, porque estava molhado. Enquanto brigava com aquela corda em meu

pescoço, comecei a tirar minha camisa ensopada, ao mesmo tempo em que

devorava sua boca. Não queria deixar nenhuma parte de seu corpo intocada,

sem provar. Queria tirar dela aquela ardência do fogo e da perda e substituir

por uma paixão incandescente e pela chama do desejo. Queria que Avett

esquecesse que estava de luto, só por um tempinho, para que pudéssemos

aproveitar aquilo que tínhamos. Porque, seja lá o que for que temos quando

estamos juntos, é algo que merece ser bastante comemorado.

Quando consegui tirar a camisa e passar aquela gravata imbecil pela

cabeça, uma vez que o nó não se desfazia, fiquei em cima dela com uma das

mãos acima de sua cabeça e a outra segurando um de seus peitos. Sua pele

estava começando a esquentar. A pontinha delicada e rosada não perdeu


tempo
e foi logo pressionando a palma da minha mão, enquanto eu a acariciava de

leve. Beijei seus lábios e o canto de cada um dos seus olhos, que ainda

estavam vermelhos e um pouco inchados. Beijei suas bochechas coradas e a

ponta do seu narizinho enrugado, já que Avett estava fazendo careta. Beijei

atrás da sua orelha e fui beijando seu maxilar, enquanto descia a mão por seu

tronco.

Sua pele foi ficando arrepiada à medida que eu passava a ponta do dedo

por suas costelas, sua barriga e seu umbigo delicado. Avett mexia as pernas,

que estavam ao lado dos meus quadris, sem parar, e sua mão passou por
minha

carne ardente, em uma carícia constante.

Ela virou a cabeça, ofegante e meio surpresa, e murmurou em meu ouvido:

– Não acredito que você tem uma tatuagem grandona assim.

Eu estava mordiscando a veia que pulsava na lateral do seu pescoço com

tanta força que deixaria marcas. Aquele não era meu estilo na cama, gosto
das

coisas certinhas e discretas. Só que, com ela, queria ser lembrado. Queria que

Avett olhasse no espelho e visse o que fiz. Queria que ela me sentisse quando

se movesse e queria que se lembrasse da minha voz em seu ouvido quando a

fizesse gozar. Queria que fosse tão consumida pela fúria dessa coisa louca e

desvairada que rola entre nós quanto eu. Então chupei aquela mordida e
levantei a cabeça, enquanto minha mão chegou ao vértice de suas coxas.

Sua barriga ficou arrepiada quando ela se deu conta de onde minha mão

estava indo, mas seu olhar estava fixo na águia gigante que tenho tatuada no

meio do peito. Em uma das garras, o enorme pássaro predador tem uma

espingarda; na outra, a balança da Justiça. Fiz por impulso assim que passei
no

exame da Ordem. O troço levou um tempão para ficar pronto, de tão grande,
e

depois de cada sessão Lottie me xingava por ter estragado meu corpo para

sempre. Ela odiava a tatuagem, e não era raro me pedir para ficar de camiseta

quando estávamos na cama.

Pelo olhar de Avett, dava para ver que ela não odiava nem um pouco a obra

de arte ousada que enfeitava meu corpo. E também não odiou quando deslizei

os dedos por suas dobrinhas escorregadias e encontrei a entrada quente e

acolhedora de seu corpo. Ela levantou os quadris na minha direção e soltou as

mãos em cima dos músculos tensos dos meus ombros.

Beijei cada um dos seus mamilos entumescidos e murmurei, com os lábios

encostados em sua pele macia:

– Sou cheio de surpresas.

Avett deu uma risadinha, que se transformou em um gemido baixo quando

capturei o biquinho de um dos seus seios com o calor da minha boca. Eles
são

bastante firmes e fartos. Bastante belos e orgulhosos, empinados no alto do


seu

peito. Me deu vontade de passar meu pau no meio deles. Me deu vontade de

deslizar no vale suave que formariam, enquanto ela abrisse a boca carnuda

para me chupar pelo outro lado. Tive vontade de deixar marcas, em cada
parte

do seu corpo. Circulei o mamilo durinho e eriçado com a ponta da língua,

enquanto meus dedos atravessavam sua umidade e roçavam em seu clitóris

desesperado.

Avett tirou as mãos das minhas costas, as levou para a frente do meu corpo

e começou a abrir a fivela do meu cinto. Estava ofegando muito e se

remexendo em baixo de mim de um jeito que deixou meu corpo inteiro


rígido.

Meu pau estava exigindo participar da ação, mas aquela não era uma situação

para combustão. Estava mais para um fogo baixo que a aqueceria e


continuaria

com ela depois.

Parei de torturar seu mamilo e levei a boca à sua orelha. Passei a ponta da

língua em sua orelha delicada e disse:

– Espera só um pouquinho.

Com as pernas, ela tentou procurar meus dedos inquisidores que estavam
entrando e saindo do seu canal guloso, mas meus quadris atrapalharam.

– Quero ver quais são suas outras surpresas, Quaid.

Seu tom de súplica me deu vontade de rir. Já tive muita mulher ansiosa para

chegar no material, mas, em geral, por achar que o material poderia render

alguma outra coisa. Não me lembro de estar na cama com uma mulher
fazendo

biquinho porque eu não havia tirado o pau logo para satisfazê-la. Nunca
estive

com ninguém tão ávida para simplesmente estar comigo porque sou quem
sou.

Aquela garota é tão cheia de surpresas quanto eu.

Lambi sua clavícula, segurei seu ponto de excitação entre os dedos, apertei

de leve, depois soltei aquele pedacinho de carne secreto e pulsante. Esse

movimento fez Avett se contorcer na cama, o que me favoreceu, porque me

levantei no meio de suas pernas e olhei para ela.

– O que você está fazendo?

Ela parecia desnorteada, e gostei de, pela primeira vez, ser eu a estar

causando caos e confusão.

Dei um sorriso, que ficou ainda maior quando Avett suspirou e colocou a

mão no peito, onde, com certeza, seu coração batia acelerado.

– Surpreendendo você.
Avett falou meu nome, ofegante, com um grito surpreso, quando fiquei de

joelhos na beirada da cama, com o rosto bem de frente para o seu ponto mais

profundo. Tentou fechar as pernas, mas meus ombros a atrapalharam. Aí


tentou

ir para trás, porém fui mais rápido e segurei seus quadris para conseguir

colocar minha boca ávida nela. Adoro ter o que segurar quando ponho as
mãos

ou a boca em seu corpo. Avett Walker podia ser tão imprevisível e indomável

quanto o clima do Colorado, mas tudo o que minhas mãos tocam em seu
corpo

é real e cheio de substância.

Beijei o interior de sua coxa e percorri a curva de sua perna com a língua

que, em seguida, enfiei no seu ponto de prazer brilhante e excitado. Gosto

muito do tom de rosa do seu cabelo, mas preciso dizer que aquele tom de rosa

lascivo e lúbrico que estava implorando para ser lambido e chupado no meio

das suas pernas é, de longe, meu preferido, e falei isso a ela.

Avett protestou, sem muita convicção, quando a levantei de leve,

obrigando-a a apoiar as pernas em meus ombros para se equilibrar, enquanto

eu me dedicava a consumir todas as partes do seu corpo.

Saboreei aquele suco que minha boca estava criando. Inalei a umidade em

que meus dedos incansáveis escorregavam. Me deliciei com cada tremor,


cada
arrepio, cada vibração de suas paredes internas, enquanto eu a fodia com os

meus dedos e a minha língua. Mordisquei aquele conjunto de nervos como se

fosse a sobremesa mais sofisticada que já comi. E, quando suas mãos de

repente se enroscaram no meu cabelo e me puxaram mais para perto, e


quando

ela passou a murmurar meu nome sem parar, parei por alguns segundos.

Eu a devorei, chupei, lambi de cima a baixo, até que Avett começou a se

sacudir, com movimentos confusos e incoerentes. E, quando ela gozou na

minha língua e sua descarga de prazer inundou a minha boca, aquela garota
fez

isso como faz tudo na vida: de modo louco e doce. O seu caos tomou conta
de

mim, e tive absoluta certeza de que não conseguiria me libertar dele.

Levantei, no meio das suas pernas, que estavam quase inertes, e pus a mão

na fivela do meu cinto. Avett estava deitada ali, parada e em silêncio, como

nunca tinha ficado na minha presença. Seus olhos estavam arregalados e

desfocados, mas havia um leve esboçar de um sorriso nos cantos de sua boca.

A mulher me pareceu destruída. Só que, dessa vez, de um jeito lindo e sexy.

Tive vontade de bater no meu peito, em um gesto de vitória bem cuzão, por
ter

sido eu a deixá-la com aquele olhar.

Minha calça caiu no chão, fazendo um barulho de coisa molhada, e Avett


não tirou os olhos de mim enquanto eu removia minha cueca preta. Meu pau

excitado balançou ao ser finalmente libertado e não teve nenhuma dificuldade

para apontar direto para a parte mais profunda de seu corpo. Meu membro era

como uma espécie de míssil teleguiado do sexo que sabia exatamente onde

ficava o mais doce dos alvos.

Avett arregalou de leve os olhos e se sentou, fazendo meu pau ficar

alinhado com aqueles peitos gloriosos que têm povoado minhas fantasias

pornográficas, que eu estava louco para comer. Com o dedo indicador,

espalhou bem devagar o líquido que se formou na ponta da minha ereção

dolorosa. Segurei seu pulso e lhe lancei um olhar sofrido.

– Preciso pôr uma camisinha e meter em você. Se você ficar passando a

mão em mim, não vou me segurar nem conseguir fazer nenhuma dessas duas

coisas.

Avett arregalou um pouco mais os olhos e soltou a mão. Mordeu o lábio

inferior, e eu urrei. Não consegui me controlar e precisei chegar mais para

frente e enfiar os dentes em seus lábios, onde os dela tinham acabado de


estar.

Quando levantei a cabeça, ela parecia meio zonza e muito excitada. Dei mais

um beijo nela e falei que já voltava.

A caminho do banheiro, fiquei me xingando por não ter um criado-mudo

para guardar minhas camisinhas. Ter a proteção à mão, de repente, me


pareceu

muito mais importante do que ter uma bela vista. Soltei palavrões entredentes

e em voz alta, desesperado, durante todo o trajeto de ida e de volta.

Enquanto fui até o banheiro, Avett foi mais para cima na cama e colocou a

cabeça no devido lugar: em cima dos travesseiros. Ela estava deitada com as

pernas abertas, com uma mãozinha mandando ver entre suas coxas e a outra

segurando um dos seus peitos fartos. Seus olhos ficaram fixos nos meus

enquanto eu me aproximava. Não havia nenhuma gota de constrangimento ou

vergonha neles. Então ela deu um sorrisinho malicioso e lambeu os lábios,

como se estivesse morrendo de fome e eu fosse a única coisa capaz de saciá-

la.

– Você levou a diversão embora, então tive que me ocupar de alguma

maneira.

A loucura é divertida. A doçura é viciante, e fiquei me perguntando se não

podia viver para sempre no caos, se era assim que o caos ia ser.

Minha ereção não ia me permitir tempo para brincadeira. Meu pau estava

exigindo ser satisfeito, e minhas bolas estavam tão esticadas que pareciam

prestes a explodir quando encostavam na minha carne ávida.

Subi em cima de Avett e fiquei maravilhado ao ver quanta coisa cabia

naquele corpo tão pequeno. Fiquei apoiado em um braço e pus a outra mão
em
cima da dela, que estava se divertindo, se remexendo na umidade que restou

do seu orgasmo anterior. Fiquei com os olhos fixos nos dela e fui entrando

devagar em seu corpo. Cada centímetro que cedia, cada milímetro que me

aceitava e me apertava, parecia a maior conquista da minha vida.

Avett estava maleável, por ter recebido minha atenção e pela manipulação

dupla dos nossos dedos, mas ainda assim é pequena, coisa que eu não sou.

Precisei ter mais paciência e força de vontade do que nunca para conseguir

meter minha ereção furiosa até o fundo. Assim que consegui e senti que seu

corpo começava a se soltar e a se liquefazer à minha volta, comecei a me

mexer.

Eu tinha a intenção de ir com calma, de saborear o acúmulo de sensações e

o fogo lento que eu ainda estava tentando instigar. Essa intenção foi para o

espaço no mesmo instante em que Avett passou a perna por meu quadril e

enfiou o calcanhar com força na minha bunda. Ela jogou a cabeça para trás e

começou a puxar e a retorcer um mamilo entre os dedos, com mais força do

que eu teria usado naquele biquinho aveludado. Em seguida, abandonou


nossa

estimulação conjunta de seu clitóris, enfiou as unhas em minhas costelas e

disse:

– Mais, quero mais.

E eu queria lhe dar tudo o que ela havia pedido e muito mais.
Nunca fui de negar qualquer coisa que uma mulher me pedisse na cama e,

de jeito nenhum, ia começar a fazer isso com aquela mulher.

Então enfrentamos a tempestade. Juntos.

Eu me enterrei nela. Esmaguei Avett contra o colchão e meti com força e

por muito tempo. Eu a beijei até nós dois ficarmos sem ar. Meti como se

estivesse usando meu pau para tatuar meu nome dentro dela. Seu corpo

vibrava em volta de mim e me puxava com as pernas, para eu ir cada vez


mais

fundo. Não nos encaixávamos perfeitamente, mas era algo real, nu e cru.

Tínhamos que trabalhar juntos para encontrar o prazer. Precisávamos dar e

receber, ter certeza de que nos movíamos um contra o outro e um sobre o

outro, para que os dois conseguíssemos receber o que precisávamos. Era o

tipo de sexo que dava certo trabalho para ser incrível, ou seja, era o tipo de

sexo inesquecível e completamente gratificante, como nenhum outro.

Nós dois nos contorcemos juntos. Puxamos e empurramos um ao outro.

Deixamos marcas. Roubamos o ar um do outro e urramos os nomes um do

outro. Suamos um em cima do outro e queimamos tudo o que tocamos. Nos

acabamos e nos consertamos. Parecia o começo e o fim de tudo o que eu

conhecia.

Parei de segurar seu botãozinho escorregadio, mas tudo bem, porque os

dedinhos espertos de Avett voltaram para o lugar. E, toda vez que ela roçava
aquele ponto trêmulo entre suas pernas, a parte de trás de seus dedos também

roçava meu pau túrgido. Foi a melhor carícia da minha vida e ficou ainda

melhor quando Avett começou a, de propósito, aplicar o máximo de fricção


na

base do meu pau enquanto eu metia nela sem parar.

Minhas bolas ficaram ainda mais esticadas contra meu corpo, e uma

pontada aguda de prazer causou uma tensão repentina, bem na base de minha

espinha. Eu não ia conseguir me segurar por muito tempo e, pelo modo como

Avett estava com o rosto vermelho e se movimentando embaixo de mim,


achei

que ela também não. Queria que aquela mulher gozasse com meu membro

dentro dela, comigo metendo fundo e com força, mais do que eu queria

qualquer uma daquelas merdas inúteis que me consumiam todos os dias.

Queria ter aquele prazer sem reservas e sem filtros tomando conta de mim,

depois queria que ela me fizesse sentir isso muitas e muitas vezes.

– Avett...

Pronunciei seu nome porque, naquele momento, nenhuma palavra era tão

importante. Senti meu pau se repuxar e meu coração começar a bater com

força.

Com os olhos fixos nos meus, ela pôs a outra perna em volta da minha

cintura e tirou o braço do meio de nós, se enroscando completamente em


meus

ombros, se enroscando completamente em mim.

– Quaid...

Meu nome saiu de seus lábios quando ela gozou debaixo de mim, no mesmo

instante em que um incêndio de prazer ardeu em minhas entranhas. Meu gozo

foi uma descarga que veio logo depois da sua. Meu gozo foi uma fogueira
que

queimou todas as lembranças de todas as mulheres que existiram antes dela.

Entrei em erupção, com um uma enxurrada de satisfação e completude que


me

deixou vazio e exausto, e caí em cima de Avett.

Aquilo não foi um orgasmo. Foi um acerto de contas.

Senti o roçar sutil de seus lábios na lateral do meu rosto e Avett sussurrar

em meu ouvido:

– Acho que, no fim das contas, é melhor não ter nada com a pessoa certa do

que ter tudo com a pessoa errada, não é?

Aquela mulher tinha toda a razão.

CAPÍTULO 11

Avett

–AINDA NÃO ACREDITO QUE VOCÊ TEM UMA TATUAGEM TÃO


GIGANTE.
Uma tatuagem que aparecia dos dois lados de seu peito musculoso,

por sua camisa desabotoada. Quaid começou a vestir uma calça cinza clara e

me deu vontade de suspirar de decepção quando a peça cobriu aquela bunda

de nível internacional. Ele fica fenomenal de terno e gostei muito de como

ficou mais durão de jeans e jaqueta de couro. Mas fica muito melhor sem

roupa nenhuma.

Sem nada para escondê-lo nem defini-lo, o verdadeiro Quaid Jackson não

tinha como se esconder. A tatuagem que cobre quase seu tronco inteiro se

destaca, ousada e provocativa, em sua pele levemente morena. Cresci no


meio

de homens tatuados e sempre admirei um trabalho bem feito. A sua era muito

especial, talvez por ser tão inesperada. Acho que gostei de ele ter algo tão

inegavelmente tradicional desenhado em seu corpo. Me dava a sensação de

que, talvez, ele ainda tivesse esperança, de que não ia se afundar ainda mais

naquelas grifes e bugigangas reluzentes que consumiam sua vida e seu


espaço.

Também gostei de ele ter uma cicatriz bem feia acima do quadril e outra

vertical, descendo por suas costelas. A grandona, na lateral do seu corpo,


tinha

cerca de trinta centímetros, era saliente e fazia seu corpo perfeito parecer
mais

normal. Ele tem uma falha, o que me fez gostar ainda mais do sujeito.
Perguntei se aquela cicatriz era de algum machucado dos tempos do Exército,

e ele só grunhiu e resmungou:

– Tenho desde criança.

Com aquela cicatriz e aquela tatuagem enorme, Quaid poderia passar

facilmente por um daqueles homens do Instagram que têm um milhão de

seguidores e um zilhão de curtidas em cada foto que posta. Como esse grau
de

perfeição é intimidador, fiquei feliz que, quando ele fica pelado, tudo o que o

torna bonito e imperfeito fica à mostra. E aquela barriga tanquinho e aquela

bunda também não caem nada mal.

Naquele momento, odiei ele estar cobrindo tudo aquilo. Eu só podia

observar, impotente, o que eu estava começando a chamar de sua fantasia de

advogado, enquanto ficava sentada na beira da cama usando nada além de sua

camiseta, na qual se lia “EXÉRCITO”, e um cabelo para lá de bagunçado, por

causa do sexo. Depois da minha alfinetada, Quaid olhou para o peito

descoberto, para mim de novo, encolheu os ombros e falou:

– Quando eu estava na faculdade de Direito, fiz um estágio na Promotoria

do Estado. Conheci um sujeito chamado Alexander Karsten, que tinha várias

tatuagens muito impressionantes. Quando passei no exame da Ordem, resolvi

que precisava comemorar com uma tattoo o fato de a minha vida finalmente

estar no caminho que eu sempre quis.


Levantei as sobrancelhas e perguntei:

– Então a tatuagem foi seu grande ato de rebeldia antes de resolver virar

adulto?

Quaid sacudiu a cabeça, e aquela mecha rebelde de cabelo loiro, que

sempre se recusa a ficar no lugar, caiu em seus olhos azuis claros.

– Não, meu grande ato de rebeldia foi entrar para o Exército. Era a última

coisa que meus pais esperavam que eu fizesse – cheguei a abrir a boca para

perguntar o que havia acontecido com a sua família, porque era a segunda
vez

que ele comentava que os pais haviam ficado decepcionados quando ele

resolveu se alistar, mas Quaid continuou falando, porque, pelo jeito, não

queria tocar no assunto de sua ruptura amarga com o passado. – Marquei uma

hora com o tatuador do Alex, um moleque de moicano roxo e piercing no


lábio

chamado Rule Archer. Disse que eu queria uma tattoo que representasse o
que

eu fui e o que eu seria. Como ele mandou muito bem no desenho, nem me

importei por ser tão grande. Quase ninguém vê.

Dei uma risadinha e o puxei para perto pela fivela do cinto que ele havia

acabado de pôr. Comecei a fechar os botões da sua camisa, mas posso ter

passado mais tempo acariciando a sua barriga tanquinho do que o ajudando a


se vestir.

– Por acaso, conheço Rule muito bem. Foi para o irmão mais velho dele,

Rome, que meu pai vendeu o bar. E foi Rome que precisou me demitir por ter

roubado dinheiro do caixa – fiz careta ao chegar na metade dos botões.

– É ele que ainda está muito puto comigo e com quem preciso me desculpar.

Se houver alguma maneira de compensá-lo, preciso dar um jeito de fazer


isso.

Rome é o filho que meu pai nunca teve. Não posso permitir que ele me odeie

para sempre.

Soltei um sorriso e fiquei de pé para conseguir terminar de abotoar a

camisa de Quaid. Quando cheguei aos botões da gola, fiquei na ponta dos pés

e beijei as veias fortes de seu pescoço antes de terminar o serviço. Gosto

mesmo do terno. Mas, definitivamente, gosto mais quando aquele homem


está

sem ele.

Levantei o rosto, e Quaid o segurou entre suas mãos e fez carinho nas

minhas bochechas. Tínhamos enfrentado a tempestade emocional que nos


havia

torturado no dia anterior, e a calmaria que se seguiu era algo completamente

novo para mim. Eu tinha vontade de desfrutá-la, de absorvê-la, de deixar um

pouco daquela tranquilidade que havia tomado conta do meu corpo acalmar o
caos que sempre rodopiava dentro de mim.

– Duvido que ele te odeie. Você precisa dar chance para as pessoas te

perdoarem, Avett. Você faz merda. Mas, quanto levanta um muro de defesa,

chafurda na culpa tão fundo que sequer dá oportunidade de os outros te

falarem que sim, você cometeu um erro, mas isso não é o fim do mundo –

Quaid começou a fazer carinho em meu maxilar, e tive vontade de ficar

passando meu rosto em sua mão quente e macia, como fazem os gatos. –
Você

aceita as consequências das suas ações muito bem. Agora precisa aprender a

aceitar o perdão também.

Quaid fica muito sexy quando fala juridiquês comigo.

Nunca pensei que merecia ser perdoada. Por isso, nunca me ocorreu que

mais alguém além de meu pai, a única pessoa que sempre me amou

incondicionalmente, estaria me esperando com perdão e de coração aberto

depois de todo o dano que sou capaz de causar. Limpei a garganta e me

obriguei a dar um sorriso amarelo.

– O que eu preciso é deixar você terminar de se arrumar para o trabalho.

Tem certeza de que dá tempo de me deixar na casa de minha mãe a caminho


do

Tribunal?

Quaid sugeriu que eu ficasse na casa dele, porque o prédio era seguro, tinha
porteiro e equipe de segurança. Mas, de jeito nenhum, eu ia correr o risco de

quebrar ou estragar alguma coisa naquele apartamento fodástico. Eu tinha

medo de tocar em tudo, por mais que ele tenha dito, pelo menos umas dez

vezes, para eu relaxar e ficar à vontade. Então, já que eu não estava nem um

pouco à vontade e jamais ia conseguir relaxar, resolvi ir para a casa da minha

mãe, remexer em seu armário e, se tiver sorte, acabar com nosso

desentendimento enquanto Quaid trabalhava. Ele não ficou muito feliz com a

minha decisão. Parece que ele queria mesmo que eu gostasse da sua casa. E

gosto, desde que Quaid esteja dentro. Sem ele naquele loft elegante e cheio de
coisas bacanas, me sinto uma intrusa. Como se o acabamento de alto padrão e

o chão importado soubessem que não tenho direito de usufrui-los. O que pode

ser completamente irracional, mas eu não estava com a menor vontade de

passar o dia enfiada ali, porque tinha medo de que os eletrodomésticos se

revoltassem contra mim e me expulsassem do apartamento aos gritos.

– Já te falei que tenho tempo para te deixar lá antes do trabalho e para fazer

compras depois, se você quiser – respondeu, levantando aquela sobrancelha

loira para mim.

Eu já tinha dito que não. Que não queria que ele me comprasse nada.

Considerando o que minha família já lhe devia, eu ficava toda tensa, com o

estômago revirado, só de pensar nele gastando dinheiro comigo. Eu já ia


levar

o resto da vida para pagá-lo, porque não ia deixar meu pai acabar com seu

fundo de aposentadoria, além de perder a casa e todos os seus pertences. De

jeito nenhum. Ia ter que dar um jeito de pagar Quaid e não estava nem um

pouco a fim de aumentar essa conta.

– Já te disse... – falei, passando a mão na parte da frente de suas calças.

Ouvi ele soltar um suspiro de surpresa quando pus a mão naquele seu
material

impressionante e dei uma apertadinha, só para garantir. – Quero esse negócio

que está dentro da sua calça, não o que está na sua carteira, Quaid.
Dei um sorrisinho malicioso, porque aquele pedaço de carne que eu

segurava começou a inchar e a crescer em minha mão. Era uma sensação

loucamente poderosa, saber que eu era capaz de fazer um homem que parecia

tão reservado e controlado reagir instantaneamente, com um simples toque.

Gostava de ver sua compostura desaparecer quando eu passava a mão nele.

Gostava de Quaid não pensar, simplesmente reagir a mim e às sensações que

eu lhe provocava.

Seus dedos grossos seguraram meu pulso, e achei que ele ia tirar minha

mão de cima, mas não foi isso o que ele fez. Apertou-a ainda mais contra seu

pau, que estava completamente ereto por baixo do tecido da calça, e começou

a esfregá-la para lá e para cá.

– Estou te oferecendo as duas coisas.

Ele quase urrou essas palavras e, quando levantei o rosto, seus olhos

estavam quase prateados de tanto brilharem com o desejo que ardia naquelas

profundezas. Ele estava me oferecendo as duas coisas, mas não sabia por que,

e eu também não.

Ficamos nos encarando de modo intenso. Não havia mais um véu entre nós,

não havia mais como qualquer um dos dois se esconder. Quaid sabia que eu

era um desastre e que eu sabia que ele era muito mais do que pensava ser. Eu

nunca tinha mentido para ele e não ia começar naquele momento.


Pus a outra mão em seu cinto e falei a verdade:

– Eu só quero você.

E, caso minhas palavras não fossem suficientes para provar, eu não teria

problema nenhum em demonstrar.

Ainda com os olhos fixos nos dele, eu o empurrei para trás para conseguir

me ajoelhar na sua frente. Fiquei esperando Quaid me pedir para parar –


afinal

de contas, ele tinha compromisso no Tribunal, e nós dois tínhamos um

cronograma a cumprir. Mas ele não soltou nem um pio enquanto eu abria seu

cinto de couro e não falou nada quando abri o botão de sua calça nem quando

abri o zíper. Também não protestou quando passei o rosto em seu membro

ardente, coberto pelo algodão de suas cuecas pretas, que comecei a tirar. Mas

passou os dedos por meu cabelo colorido e soltou um suspiro que pareceu

conter todo seu autocontrole. Pedi para ele tirar a camisa meticulosamente

passada da minha frente quando pus os olhos naquele volume intimidante.

Beijei os dois lados de seu quadril e fiz cócegas naquele “V” que apontava

para o pau que eu estava revelando lentamente. A ponta do meu nariz roçou

nos pelos grossos e loiros que apontavam direto para a sua carne pulsante, e

seus dedos rasparam com impaciência e força meu couro cabeludo. Ele estava

impaciente, e seu pau também. O membro longo e rígido pulsava como se

tivesse vida própria e caiu nas minhas mãos quando terminei de revelá-lo.
O pau de Quaid é bem parecido com ele: gracioso tanto no comprimento

quanto na largura. Se existe um membro bem feito, é esse. Robusto, ficou

balançando feliz, se afastou de sua barriga tanquinho e veio parar na minha

mão, confiante, pelo modo que pulsou e ficou úmido de tesão quando passei a

língua em sua cabeça sensível pela primeira vez.

Enrosquei a língua e girei sem parar, sentindo seu gosto e descobrindo sua

anatomia. Fechei a mão em volta da base de sua ereção e apertei até Quaid

levar o quadril para a frente e se enfiar na minha boca ávida. Eu teria dado

risada de sua impaciência. Mas, como nunca tive um pau executivo na boca,

quis garantir que teria tempo para saborear a experiência.

Chupei Quaid, explorei cada curva e cada detalhe com a língua. Banhei seu

membro firme na minha umidade e usei a mão para adicionar mais um

elemento de prazer. Ele espalmou a mão na parte de trás da minha cabeça e

começou a movimentá-la no ritmo que desejava. Essa é a diferença entre o

executivo e o estagiário. O executivo mostra o que fazer; orienta o modo

melhor e mais eficiente de realizar a tarefa. O estagiário aparece fazendo

muitas perguntas e sem as devidas habilidades.

Nunca ninguém havia me comido na cara antes, mas era exatamente o que

Quaid estava fazendo, e essa era uma das coisas mais excitantes que já
haviam

me acontecido na cama. Dava um tesão inacreditável fazer ele assumir o


papel

de louco e doce.

Ele me pediu para abrir mais a boca. Ele me pediu para chupar com mais

força. Ele me pediu para enfiar mais e apertar ainda mais. Mas também falou

que eu era incrível. Falou que minha boca parece um sonho. Falou que ficar

com as mãos enroscadas em meu cabelo cor-de-rosa ia fazê-lo gozar. Falou

que fazia semanas que me imaginava de joelhos, na frente dele, e que a

realidade era muito melhor. Sua loucura dava muito tesão, mas sua doçura
me

deixou molhadinha e fervendo no meio das pernas. Se eu não estivesse tão

concentrada nele e tão determinada a lhe dar a melhor chupada possível, eu

teria posto minha mão livre por baixo da camiseta e batido uma siririca

enquanto engolia o máximo do seu pau possível.

Para continuar firme na minha tarefa e não me distrair com minha repentina

e aguda excitação, passei a mão livre por sua bunda durinha e acariciei a
parte

interna de suas pernas. Quaid soltou um palavrão bem alto quando rocei os
nós

dos dedos em seu saco esticado e, como sua voz falhou e suas mãos
seguravam

minha cabeça cada vez com mais força, dava para ver que ele estava quase lá.

Chupei até minhas bochechas ficarem ocas e usei a língua para sorver o
líquido salgado que saía pela ponta de seu membro. Até o gosto dele parecia

mais refinado e mais palatável do que o de qualquer homem que eu já tinha

provado.

Ele rosnou meu nome e perdeu o controle dos seus movimentos ritmados.

Começou a praticamente se esfregar na minha boca. Segurei as esferas

sensíveis e pesadas no meio da suas pernas fortes e passei a mão nelas de

leve. Foi o que bastou para fazê-lo chegar ao clímax.

Quaid não me avisou. Não me deixou escolher se ficava ou saía. Não fez

nada além de me puxar mais para perto e me segurar com um movimento


quase

desesperado, enquanto metia na minha boca. Falou meu nome em um longo

suspiro. Pus as mãos nas laterais do seu quadril e aceitei o que ele estava me

oferecendo.

Quando ele parou de se mexer e eu me afastei com um sorrisinho

convencido, achei que ele fosse me falar que havia sido muito divertido, mas

que precisava sair correndo. Não esperava que Quaid me fizesse levantar nem

que me atirasse na cama. Seus olhos ardiam com aquele fogo de tons

invernais, e fiquei sem ar quando ele arrancou a camiseta que tinha me

emprestado e se instalou no meio das minhas pernas.

Eu já estava molhadinha, mas o primeiro beijo que ele deu nas minhas

dobrinhas sensíveis causou uma chuva torrencial. Dar prazer a Quaid e saber
que eu era a pessoa que o fazia perder o controle já me fazia quase gozar. Ele

não ia precisar fazer muito para eu chegar lá. Gemi para o teto e não tive a

menor vergonha de me esfregar em sua boca para aliviar a tensão que tomava

conta do meu corpo. Chupar um homem nunca me deu tanto tesão. Foi minha

vez de enroscar os dedos em seu cabelo loiro e grosso e puxá-lo mais para

perto, aproveitando sua boca como se fosse um daqueles brinquedos de


parque

de diversão. Quando Quaid resolveu meter os dedos e o nariz no meu clitóris

já inchado, explodi em uma onda de prazer que parecia não ter fim.

Quando nossos peitos ofegantes e nossos corações acelerados começaram a

se acalmar, eu me apoiei nos cotovelos e olhei para ele, que se levantou no

meio de minhas pernas abertas e começou a enfiar a camisa para dentro da

calça e a fechar de novo o cinto. Ele parecia meio amassado, do tipo de

amassado de quem acabou de trepar. Mas, na minha opinião, isso o tornava

ainda mais sexy de terno. Então se inclinou sobre mim e se apoiou nas mãos,

quase encostando no meu nariz.

– Tudo na minha vida sempre tem a ver com o que tenho ou com quem está

tentando arrancar o que de quem. Todo dia é sempre quem fez isso, quem fez

aquilo, e isso cansa bastante, Avett. Não quero que um monte de cheques e

extratos bancários nos atrapalhem.

Engoli em seco e pus a mão em seu queixo tão bem barbeado.


– Você sabe que isso é impossível, não sabe? A gente vem de mundos

diferentes.

Quaid espremeu os olhos, e eu tremi com seu olhar frio.

– Pode até ser, mas quando estamos na cama, com certeza somos do mesmo

mundo. Não é o que você tem que importa, nem o que eu tenho. Só importa o

que nós dois temos juntos. Onde você esteve e o que fez não existe aqui, e o

isso também vale para mim. A única coisa que conta aqui é o que fazemos

neste momento.

Fiquei passando o dedão em seu lábio inferior. Que ainda estava úmido e

brilhante por causa das carícias meticulosas que ele tinha acabado de me

proporcionar. Aquilo, provavelmente, era a coisa mais legal que alguém já

havia me dito. Mas sei a verdade, e a verdade é que tudo o que fizemos antes

importa, sim, e nós dois jamais estaríamos em pé de igualdade, nem mesmo


na

cama. Ele é executivo e, apesar de eu não ser exatamente uma estagiária, com

certeza poderia ter uma posição mais alta na escala social. Sempre que estou

com Quaid, parece que aprendo algo novo: sobre ele, sobre mim mesma e,

definitivamente, sobre sexo e intimidade, sobre como não usar essas duas

coisas para sofrer.

– Você precisa ir trabalhar, e já te atrasei.

Não era isso que ele queria. Dava para ver pelos seus olhos, que ficaram
mais cinzentos, enquanto ele saía de cima de mim. Não tenho muito a
oferecer

para um homem como Quaid Jackson. A verdade terá que bastar, mesmo que

isso o faça me olhar com cara de arrependimento, por não ter deixado eu

demiti-lo, lá atrás.

– E ESSE ADVOGADO? O QUE ESTÁ ROLANDO?

O tom de voz de minha mãe era de curiosidade, mas também de cautela.

Pude perceber que ela estava torcendo para que eu respondesse que
finalmente

havia encontrado um homem que ia me manter longe das encrencas. Porém,

quanto mais eu convivia com Quaid, na cama e fora dela, mais me dava conta

de que ele era a melhor e maior encrenca em que já me meti. A queda,


quando

as coisas com ele implodirem, pode até ser meu fim.

Mal consegui ouvir de tão abismada e maravilhada. Fiquei sem palavras e

grudada no chão ao ver o monte de coisas que cobriam a pequena cama de

solteiro que era minha quando ficava na minha mãe, quando era mais nova.
Eu

não entrava naquele quarto desde a adolescência e, velo coberto do chão ao

teto de roupas e itens de higiene pessoal me deixou abismada de tanta


emoção.

Tive que pôr a mão na garganta e segurar as lágrimas quando me virei para
ela.

“Não acredito que os dois fizeram isso. Não acredito que os dois gostam de

mim a ponto de fazer algo tão legal, sendo que eu sempre fui terrível com

eles.”

Eu não ia precisar assaltar o armário da minha mãe, porque todas as

namoradas dos rapazes do meu pai vieram com força total e doaram tudo o
que

preciso para sobreviver à perda do que tinha. Havia mais roupas ali do que eu

possuía antes do incêndio, algumas até estavam com etiqueta, e outras, já

usadas e confortáveis. Havia sapatos e meias. Lingeries que iam das básicas

às mais safadas. Havia coisas que me pareciam macias, perfeitas para dormir.

Tinha maquiagem e produtos de cabelo. Tinha uma escova e um secador.


Tinha

uma escova de dentes. Eu nem tinha lembrado de que precisaria de uma, até

aquela manhã, quando precisei escovar os dentes com o dedo, na casa de

Quaid.

As meninas haviam se desdobrado para garantir que eu tivesse um pouco de

tudo o que havia perdido. E fiquei tão tocada, tão emocionada, que meu

cérebro parou de funcionar. Minha mãe pôs a mão em meu braço e, quando a

olhei, ela estava sorrindo.

– Seu pai tem talento para achar gente boa, e essas meninas… – ela estava
falando das mulheres maravilhosas que haviam feito aquilo por mim, e vi
uma

expressão que nunca tinha visto quando ela falava sobre mim ou comigo:

orgulho.

– Elas têm um coração tão grande, como eu nunca tinha visto. Só podem ter,

se aguentam aqueles homens maravilhosos e cabeças-duras que escolheram

para amar.

Limpei a garganta, toda sem jeito, e falei:

– Nem sei se um dia vou conseguir agradecer tudo isso. Me parece demais.

Não mereço esse tipo de gentileza, de nenhuma delas.

Minha mãe apertou meu braço e me virou de frente para ela. Seus olhos,

verdes e dourados como os meus, se fixaram em meu rosto.

– As meninas não fizeram isso porque queriam a sua gratidão nem chegaram

a pensar se você merecia ou não um gesto de compaixão e carinho. Fizeram

isso porque, na opinião delas, era o que deveriam fazer. Seu pai já ajudou

tanto o namorado de cada uma quando os rapazes precisaram de conselhos.

Para essas meninas, isso era simplesmente o que deveria ser feito – falou,

então sorriu de novo.

– Para ser franca, acho que provavelmente fariam isso por qualquer pessoa

em uma situação de necessidade. Mas o fato de você ser filha de Brite com

certeza contribuiu – suas sobrancelhas castanhas se levantaram, e sua


expressão suave se transformou em curiosidade. – E o advogado?

Minha mãe mudou de assunto, mas eu ainda estava perplexa com o fato de

ter tudo aquilo, de não precisar ficar sem nem de precisar rebolar para repor

as coisas básicas. Tudo porque um grupo de mulheres que eu mal conhecia,

que não me devia nada, achava que era a coisa certa a fazer. Fiquei

imaginando como seria a sensação disso, fiquei imaginando se saber o que a

gente deve fazer dá uma sensação de calor e alegria como receber aquele tipo

de gesto tão positivo. Eu me senti aquecida, da cabeça aos pés, e meu coração

parecia tão cheio de amor que foi um milagre não explodir. Aquela era a

primeira vez, em muito tempo, que eu queria ser merecedora de algo tão bom.

Queria ser o tipo de pessoa que não apenas sabe o que deve fazer sem
precisar

pensar, mas que também era capaz de fazer isso, de fazer outra pessoa se
sentir

tão valorizada e querida quanto eu me sentia.

– O advogado tem tudo para ser mais um item da minha longa lista de erros.

Mas, até esse lance implodir, ele me faz sentir segura e me faz pensar. Não

costumo fazer muito isso, e, considerando as circunstâncias, acho que pensar

faz bem – dei uma batidinha na mão de minha mãe, que ainda segurava meu

braço, e completei:

– Ele também sabe como sou zoada e o tanto de confusão que posso
arranjar, então não fico achando que preciso alertá-lo ou protegê-lo do

desastre inevitável. Ele não vai me deixar estragar a sua vida boa.

E talvez seja por isso que gosto tanto dele. Sei, bem lá no fundo, que esse

lance que rola com Quaid, uma hora ou outra, vai levar à minha destruição.

Mas, quando tudo acabar, ele ainda vai continuar forte, indestrutível e

intocado pelo dano que costumo causar. Para mim, esse homem me parece à

prova de tempestade, ou seja, irá sobreviver ao tufão de tragédia que,

inevitavelmente, irá se abater sobre nós.

Minha mãe suspirou e soltou meu braço. Em seguida, fez um carinho em

meu rosto.

– Ah, Avett... Você não faz ideia de como eu era parecida com você quando

tinha a sua idade.

Não consegui controlar a gargalhada ao ouvir essas palavras. Eu estava ali

para fazer as pazes com ela, para acabar com a distância que o rio de

péssimas escolhas feitas por mim havia aberto entre nós ao longo dos anos,

mas suas palavras me doeram. Se éramos tão parecidas, como poderia ser tão

fácil para ela me abandonar, quando eu precisava tanto que me abraçasse e

não me soltasse mais?

– É mesmo? Você também empurrava para bem longe todo mundo que

amava? Você também decepcionava a sua mãe com frequência a ponto de ela
mal conseguir ficar no mesmo recinto que você? Você fez merda sem parar,

fodeu com tudo tantas vezes que parece que nunca vai deixar de ser a pior

escolha que alguém pode fazer?

Dei um passo para trás e fui me afastando, para que não precisássemos

continuar aquela conversa. Mas eu deveria ter adivinhado que não poderia

jogar a bomba e sair andando.

Darcy também se movimentou e, apesar de eu ter herdado minha estatura

baixa dela, a mulher ainda é mais alta do que eu, e ficou óbvio, por sua cara,

que ela não ia me deixar ir a lugar nenhum. Fiquei tentada a chamar meu pai,

que estava no telefone, falando com a companhia de seguros, no escritório


que

fica na parte da frente da casa, para ele vir apartar aquele confronto que
estava

para acontecer há muito tempo. Mas havia chegado a hora de eu assumir


todos

os meus pecados. Principalmente os que haviam causado os maiores danos às

pessoas de quem eu mais gostava. Eu queria acertar os ponteiros com minha

mãe. Queria que ela soubesse que eu sentia muito por tudo, mas sentia mais

ainda pelos danos que causei ao seu relacionamento com meu pai. Eu amo os

dois e, mesmo assim, fiz da vida deles um inferno com a minha busca pela

autorrecriminação.
– Avett… – ela disse, soltando um suspiro. Pude, literalmente, sentir o peso

desse suspiro e da culpa nas paredes à nossa volta. – Sempre quis que você

ficasse aqui, mas você quis morar com seu pai. E, considerando o modo
como

as coisas acabaram, bem, eu e ele achávamos que seu pai merecia ficar com

você, muito mais do que eu. Houve tensão entre nós dois por causa do jeito

como você começou a aprontar de repente? Sim, mas poderíamos ter dado
um

jeito nisso se eu não tivesse feito merda, se eu tivesse sido uma mulher mais

forte e uma esposa melhor. Porque, sim, eu decepcionei meus pais, não só

minha mãe, e, sim, muitas vezes fiquei imaginando se não era a pior escolha

que seu pai poderia ter feito.

Pisquei, surpresa, como se nunca tivesse visto aquela pessoa na minha

frente, e franzi a testa com tanta força que chegou a doer.

– Do que você está falando, mãe? Estava tudo bem, tudo ótimo, na verdade.

Éramos uma família feliz, perfeita, até que tudo acabou.

E tudo deu errado exatamente na mesma época em que percebi como não

fazer nada pode ser perigoso e mudar toda a sua vida. Comecei a fazer

besteiras de um outro nível e fui atrás de algum tipo de penitência celestial

para compensar o que aconteceu com Autumn.

– Nós nos esforçamos muito para fazer você acreditar que estava tudo bem,
querida. É isso que os pais fazem quando amam seus filhos, mesmo que

estejam sofrendo. Foi ficando cada vez mais difícil esconder nossos

problemas à medida que você crescia. Nunca concordamos sobre a maneira


de

lidar com você, e vocês dois eram tão próximos… – ela fez um barulho

engasgado e sacudiu a cabeça.

– Seu pai já era casado quando nos conhecemos. Nem liguei, mas meus

pais, com certeza, ligaram. Ele era bem mais velho do que eu e ainda não
tinha

superado todas as coisas que havia passado quando era da Marinha. Gostava

demais de beber, e a turma com a qual andava não eram exatamente do tipo

que os pais costumam aprovar. Nada disso tinha importância para mim,
porque

me apaixonei por seu pai à primeira vista. Eu o adorava, estava obcecada por

ele. Me convenci de que não importavam os obstáculos que estivessem em

nosso caminho. Éramos feitos um para o outro. Não respeitei a vida que seu

pai já tinha nem a mulher que já o amava. Eu o conheci, resolvi que queria

ficar com ele e estava determinada a conseguir o que queria, apesar de todo

mundo que gostava de mim ter me alertado, ter me falado de que era cedo

demais para ir tão longe.

Nada disso era segredo, mas o modo como minha mãe falou, seu tom de
arrependimento, era novidade para mim. Era o mesmo tom que usava quando

alguma das minhas péssimas escolhas vinha me dar um tapa na cara.

– Engravidei antes de o divórcio oficial do seu pai sair. E, por mais que eu

não tenha dúvidas de que seu pai me ama e ama você desmedidamente, nunca

consegui superar o fato de eu ter feito ele largar a sua primeira mulher com

tanta facilidade, principalmente porque todo mundo não parava de falar que

ele não tinha escolha, já que eu havia engravidado. Passava todos os dias me

perguntando se alguém ia aparecer e levá-lo embora, exatamente como eu


tinha

feito. Ficava imaginando se seu pai havia largado a mulher por obrigação. Eu

era desconfiada, era possessiva. E, para um homem como o seu pai, um

homem honrado e íntegro até o último fio de cabelo, isso acaba cansando. Ele

me amava. Mas, depois de um tempo, a minha insegurança, somada aos seus

próprios demônios, se tornaram coisa demais para ele suportar. Seu pai

começou a ficar cada vez mais tempo no bar e, é claro, eu me convenci de


que

estava com outras mulheres. Ele já tinha traído antes de me conhecer, depois

traiu para ficar comigo, por que não iria me trair? Naquela época, eu não

entendia que o amor que seu pai tinha por mim era diferente do amor que
havia

sentido pelas mulheres anteriores. Não entendia o que era uma família e
alguém que ele amava mais do que a própria vida tinha feito do seu pai um

outro homem.

Franzi ainda mais a testa porque não lembrava de nenhum atrito ou tensão

entre os dois. Não conseguia me lembrar de nenhuma briga ou discussão. Só

lembrava do clima de felicidade e de romance. Era tudo lindo, até eu fazer 16

anos, e aí tudo mudou. Mas eu estava tão entretida com as mudanças de


minha

vida que sequer pensei no porque e no como as coisas também haviam


mudado

para meus pais. Brite foi embora, e eu fui com ele, convencida de que minha

mãe estava de saco cheio do meu comportamento destrutivo e de saco cheio


de

mim.

Ela levantou a mão quando abri a boca para interrompê-la, e pude ver que

seus olhos refletiam uma tristeza e uma dor de partir o coração.

– Eu me convenci de que seu pai estava saindo com alguém, de que ele

estava fazendo aquilo de que eu lhe acusava. Nunca lhe dei ouvidos. Nunca

sequer parei para pensar que podia estar enganada. Deixei que meus próprios

medos e o veneno das outras pessoas me contaminassem. Fiz o que havia


feito

durante toda a minha vida: agi sem pensar. E resolvi que, se ele ia partir meu

coração ficando com outra pessoa, eu ia fazer a mesma coisa com ele.
Suspirei surpresa e cambaleei para trás, de tão chocada.

– Mãe... você não fez isso.

As palavras saíram como se tivesse uma lixa na minha garganta.

Ela foi balançando a cabeça devagar, e o desprezo que sentia por si mesma

estava estampado em seu rosto.

– Fiz, sim. E me senti enojada e envergonhada assim que me dei conta do

estrago que havia causado em meu casamento e minha família. Eu tinha um

marido maravilhoso, uma filha independente e cheia de vida. E, porque nossa

família não era tradicional, nunca senti que a merecia. Nunca achei que o que

eu tinha era bom para os padrões das outras pessoas. Nunca quis que você

soubesse, Avett. Queria que você tivesse orgulho de mim, que quisesse ser

como eu... Aí fui lá e fiz a única coisa que eu tinha certeza que você e seu pai

jamais seriam capazes de perdoar. Nunca quis que você pensasse que eu

estava disposta a arriscar perder você e seu pai. Eu estava com tanta repulsa

daquilo em que havia me transformado, que comecei a me afastar quando


você

mais precisava de mim. Sabia que alguma coisa estava acontecendo com
você,

por causa de sua mudança repentina, por você estar sempre se metendo em

confusão. Sabia, bem lá no fundo, que era porque não dava mais para conter e

esconder o estresse entre mim e seu pai. Contei a ele imediatamente e, no


começo, ele concordou que a gente podia tentar esquecer aquela traição,

resolver as coisas. Mas todos os medos que eu tinha ficaram dez vezes piores.

Porque eu havia dado a seu pai uma razão legítima para procurar outra
pessoa.

A certa altura, ele não conseguiu aguentar a pressão de viver à sombra da

minha desconfiança, e eu não tinha como culpá-lo. Também não pude aceitar

seu perdão, porque achava que não merecia ser perdoada. Nós dois estávamos

infelizes, isso estava afetando você visivelmente. Larguei vocês dois porque

foram as minhas atitudes e as minhas escolhas erradas que os afastaram de

mim. Achei que merecia ficar sozinha.

– Jesus, mãe...

Nós duas éramos muito mais parecidas do que eu imaginava.

Minha mãe enrolou os braços em torno de si mesma, como se estivesse

precisando muito de um abraço, e tirou os olhos dos meus.

– Eu e seu pai percorremos um caminho longo, cheio de obstáculos, para

chegar a um ponto em que confiar um no outro deixou de ser um problema,


em

que poderíamos nos amar sem ter nada atrapalhando. Em parte, porque ele

casou de novo e amou outra pessoa. E em parte porque seu pai é leal a você e

sempre te apoiou de maneira incondicional. Ele nunca vacilou, Avett. Nem

uma única vez. Houve momentos em que discordamos sobre o tipo de apoio
que deveríamos te dar, mas foi porque eu via que você era tão imprudente e

negligente consigo mesma e com o seu amor quanto eu. Queria que as coisas

fossem mais fáceis para você.

Deixei escapar uma risada abafada e falei:

– Não foram.

Porque, mesmo distante da minha mãe, ver meu pai se casar de novo e se

divorciar antes de eu completar 18 anos não foi fácil nem divertido. Darcy

sempre foi minha mãe e sempre foi a mulher com quem eu queria que meu
pai

ficasse, porque era com ela que Brite se sentia mais feliz.

Quaid tinha me dito na noite anterior que tem gente que nasce para ser

tempestade. Pelo jeito, minha mãe também é uma dessas pessoas. O caos de

minha vida é natural. Minha ruína, ao que parece, faz parte do meu código

genético. Literalmente, nasci para ser rebelde, como na música do

Steppenwolf, e também estava tão envolvida em minha própria confusão e


em

meu próprio rastro de destruição, há tanto tempo, que sequer notei que havia

uma tempestade que não tinha nada a ver comigo se armando debaixo do

mesmo teto.

– Sei que não, e me culpo por não ter conseguido fazer você aprender com

meus erros… Pode acreditar, foram muitos.


Fui indo para trás, até encostar na parede, passei as mãos em meu rosto e

disse:

– Estou aprendendo que a culpa é uma coisa venenosa. Talvez você pudesse

ter se esforçado mais, e eu, definitivamente, poderia ter prestado mais


atenção.

Mas não adianta chorar o leite derramado, e só podemos tentar melhorar


daqui

para a frente. A culpa roubou muito tempo e muita energia de mim. Estou

começando a odiá-la. Mesmo.

Lancei um olhar curioso para a minha mãe e perguntei:

– Como foi que o papai te perdoou?

Meu pai é um homem bom, mas também é durão, e a maioria dos durões não

pega leve quando ao receber um chifre de uma mulher que não acredita em
sua

palavra.

A resposta veio com a voz grave e rouca do meu pai:

– Eu perdoei a sua mãe porque a amava, sempre amei, mesmo quando ela

errava. Perdoei porque ela não foi a única que fez merda. Eu poderia ter

esperado até me separar da mulher com quem era casado antes de me


envolver

com sua mãe, mas eu era impaciente e não pensava em como as nossas ações

podem afetar nosso relacionamento a longo prazo. Perdoei porque ela é mãe
da minha filha e porque nós dois precisávamos de perdão para curar as
feridas

e seguir adiante, mesmo que não fôssemos continuar juntos. O perdão é a


única

maneira de se libertar. Perdoei porque, depois de passar muito tempo e muita

coisa juntos, sua mãe finalmente se perdoou. Nossa história ainda está sendo

escrita, Fadinha. Não chegamos ao fim e ainda vamos precisar de muitos

cortes e revisões.

Fiquei imaginando se meu pai havia conversado com Asa e se essa era sua

indireta sutil para me dizer que, se eu conseguisse aprender a me perdoar,

talvez um pouco daquele peso morto de culpa e responsabilidade que me

mantinha engaiolada no fundo do poço saísse de minhas costas. E eu poderia

começar uma longa e árdua caminhada em direção a algo melhor.

Passei a mão em meus cabelos revoltos e suspirei. Ao exalar, senti anos de

culpa saírem de minha consciência pesada.

– Estou tão feliz por vocês dois terem encontrado uma maneira de continuar

juntos.

Meu pai riu, daquele seu jeito forte, passou o braço pelos ombros de minha

mãe e a puxou para perto.

– Também estamos, porque essa história já devia ter sido contada há anos.

Queríamos esperar até você estar em condição de ouvir, com a cabeça e o


coração. A gente sabia que, se te contasse a verdade no momento errado, era

capaz de você ficar ainda mais descontrolada. Você é sensível, Fadinha, e,

apesar de ser uma emoção sincera, nem sempre é a reação mais saudável.

Agora que tiramos toda a sujeira de baixo do tapete, acho que está na hora de

esta família viver sobre o mesmo teto. A minha casa deu perda total. Só os

tijolos de fora ainda estão de pé, mas tudo que havia lá dentro se foi. Custaria

uma fortuna reconstruí-la, e acho que o dinheiro do seguro pode ter um


destino

melhor.

Deixei minha cabeça cair para trás, e ela bateu contra a parede. Olhei para

o teto e falei:

– É. Pegue esse dinheiro e ponha de volta no seu fundo de aposentadoria,

para repor o dinheiro usado para pagar minha fiança e o que pretende gastar

pagando Quaid. Não vou permitir que você perca sua casa e o dinheirinho da

sua aposentadoria, pai. Vou dar um jeito de pagar a conta que vier do Águia
da

Lei.

Ele e minha mãe riram do apelido bobo que eu havia dado para Quaid, e

não pude deixar de sorrir ao perceber como era perfeito, agora que eu sabia

que ele tinha uma águia tatuada no peito maravilhosamente esculpido.

Os dois começaram a discutir sobre o dinheiro e a me perguntar como eu ia


arranjar a quantia necessária, mas foi minha vez de levantar a mão e

interrompê-los.

– Considerem esse o primeiro passo na direção correta. Nunca fiz muita

coisa certa na vida, mas isso… – apontei para nós e completei: – ... isso me

parece certo. Assumir a total responsabilidade, incluindo a parte financeira,

pela confusão que causei é algo que preciso fazer. Se não, jamais vou chegar

ao ponto de me perdoar por certas coisas que fiz – respirei fundo e olhei para

os dois:

– E por falar em coisas que fiz e em não permitir que a culpa controle mais

a minha vida, preciso contar a minha história para vocês uma hora dessas.

Preciso que saibam que o motivo para eu não parar de fazer merda, não parar

de me prejudicar, não tem nada a ver com vocês dois. Preciso contar tudo e

saber que continuarão aqui, continuarão me amando depois.

Talvez, então, eu conseguisse aceitar parte do perdão que todo mundo vivia

me oferecendo.

Saber o que eu devia fazer era, sim, uma sensação boa. E também uma

sensação efervescente e excitante que borbulhava em meu sangue, mesmo


que

meus pais tivessem dito sem parar que estavam ali para me ajudar. Parecia

algo espesso, como xarope, que corria por minhas veias, expulsando toda a

recriminação e a reprovação que haviam se alojado ali.


Saber o que eu devia fazer era uma sensação incrível. Agora, eu precisava

abandonar todos os meus velhos hábitos e fazer de verdade o que devia ser

feito, em vez de me perder pelo caminho e cair de cabeça nas coisas erradas.

Dessa vez, eu não queria ir para o fundo do poço. Queria voar bem alto.

CAPÍTULO 12

Quaid

SAÍ DO TRIBUNAL COM MAIS UM VEREDITO DE INOCENTE


GARANTIDO E MAIS UM

cliente bastante satisfeito. Esse sujeito teve sorte de o júri acreditar na sua

encenação confusa de inocência, porque aposto tudo que tenho como ele é

mesmo culpado de atrair a prostituta, que o estava processando, até a sua casa

e mantê-la ali contra a sua vontade por vários dias. A opinião pública tem

muito peso para o cidadão comum, e o júri precisou de exatas três horas de

deliberação para resolver que a jovem merecia os horrores sofridos só porque

ganha a vida vendendo o próprio corpo e se arriscou a anunciar seus serviços

no site de classificados Craigslist. Não teve a menor importância meu cliente

ter um olhar de louco, um histórico de violência contra mulheres e não ter

demonstrado nenhum remorso ao ser interrogado. Ele tem cara de pai de

família e tem uma minivan. Trabalha na empresa local de TV a cabo e tem

plano de previdência privada. Então, a percepção geral foi de que ele era o

mais decente e crível dos dois. Cumpri minha tarefa. Mandei bem nas leis, fiz
a pobre mulher chafurdar ainda mais na lama. Normalmente, comemoro um

trabalho bem feito com um uísque caro e uma mulher mais cara ainda. Mas,

naquele dia, queria enfrentar a loucura de um furacão baixinho de cabelo rosa

e tirar aquela camada de desgosto que cobriu meu corpo tomando banho por

horas e horas.

Estava mandando uma mensagem para Avett, dizendo que estava passando

para buscá-la na casa dos seus pais, quando percebi que o investigador

responsável pelo caso do ex dela me esperava perto do elevador. Guardei o

celular no bolso sem esperar pela resposta de Avett e cumprimentei o policial

levantando o queixo.

– Que foi? E aí? Alguma novidade sobre o incêndio?

O investigador balançou a cabeça e soltou um suspiro profundo. Levantou

uma das mãos e coçou o queixo.

– O especialista declarou que foi um incêndio criminoso. Um líquido

inflamável foi espalhado pela casa toda, e os canos do gás ligados ao fogão

foram cortados. A casa pegou fogo de propósito.

Não fiquei surpreso, mas furioso. Odiava que Avett e Brite tivessem que

passar por isso. Odiava o fato de alguém ser capaz de fazer algo tão terrível

com outro ser humano.

– Isso a gente já imaginava. O tal namorado deu alguma pista do porquê


alguém estaria interessado em pôr fogo na residência da família Walker?

O policial suspirou outra vez.

– A gente interrogou o sujeito. O moleque é um vagabundo. É uma pessoa

baixa, completamente disposta a entregar qualquer um para livrar a própria

bunda. A gente acha que ele pode ter mandado um dos seus amiguinhos do

crack ir atrás da menina para impedi-la de testemunhar, mas ele não teve

nenhum contato com o mundo exterior desde que foi preso.

Soltei um palavrão e passei a mão no cabelo, que ficou todo alto e

bagunçado.

– Então, como ficamos?

O policial franziu a testa e respondeu:

– Bom, o tal crackeiro não tem contato com o mundo exterior, mas o

advogado dele tem. Você já ouviu falar de Larsen Tyrell?

Soltei um grunhido e respondi:

– Já.

Larsen é o cara que pega os casos que os outros advogados têm nojo de

pegar. É o sujeito que representa os chefões do tráfico e as pessoas


envolvidas

em tráfico humano. É quem livra pedófilos da cadeia e ama a atenção que

recebe da mídia quando defende, sem a menor vergonha, assassinos de

policiais e estupradores em série.


– Larsen está defendendo esse viciado. E Aitor Acosta também. Quando o

moleque foi preso, na noite do assalto, ficou resmungando que precisava

roubar o bar porque devia uma grana do caralho para o tal Acosta. Era para o

moleque ter guardado uma remessa que foi buscar lá na fronteira, mas a gente

sabe o que acontece quando deixam um viciado cuidando de vários quilos de

pó.

Soltei mais um palavrão e puxei ainda mais o meu cabelo, descontrolado.

– Ele cheirou a remessa inteira sozinho e ficou sem drogas e sem dinheiro

para dar ao traficante.

#GênioDosLivros

Boa leitura!

Com os cumprimentos de Gênio Blomkvist.

– Isso aí. Mesmo. Aí o Acosta mandou os capangas procurarem a


mercadoria. Deram um sacode na namorada, que foi o suficiente para assustar

Dalton, a ponto de ele roubar o bar para conseguir fugir. Acosta tem ligação

com as principais gangues mexicanas que operam atrás das grades. A gente

acha que o moleque falou para Larsen que a namorada está com o pó, e que

Larsen passou informação a seu outro cliente. Dalton está tentando livrar a

própria bunda, como sempre. Passou a batata quente para a menina, assim

como fez com o assalto.

– Filho da puta – apertei com força a alça de minha pasta e precisei

respirar fundo, bem devagar, para não dar um soco na parede mais próxima. –

Esse sujeito vai acabar causando a morte dela.

O policial balançou a cabeça, concordando, e foi um pouco para trás.

– O advogado não nos contou nada, o que é compreensível. Mas o fato de

Dalton ter fechado o bico, sendo que estava prestes a nos contar tudo o que

sabia sobre Acosta e suas transações, fala mais alto. A Promotoria ia oferecer

um belo acordo, levando em consideração que ele é acusado de diversos

crimes. Mas, assim que Larsen se envolveu no caso, revelar todas essas

informações ficou fora de questão. Temos quase certeza de que estão

oferecendo proteção para o moleque dentro da cadeia até terminar o

julgamento e até encontrarem as drogas… as quais nós sabemos que jamais

serão encontradas – o policial me lançou um olhar sugestivo e completou: –



que nada disso é oficial, e tudo não passa de especulação, com um advogado

safado, com ética zero para completar, a polícia de Denver não pode fazer

muito pela menina. Ela acabou se metendo em uma grande e perigosa

confusão.

Apertei os cantos internos dos meus olhos, porque senti uma dor de cabeça

começando a latejar.

– Ela está à vontade demais com tudo isso. Vou passar essa informação

para a menina e os pais dela, para todo mundo ficar em estado de alerta.

Obrigado por ter me contado.

O policial bufou de novo e entramos no elevador.

– Imagina. Normalmente, você, para mim, é um dos caras que joga no time

adversário, mas aquela menina…

Ele não completou a frase, e só pude concordar, em silêncio, com ele.

Aquela menina… simplesmente tem algo de especial. Avett faz você ter

vontade de ajudá-la, de curá-la, de protegê-la, mesmo que ela corra atrás,

cegamente, de tudo o que pode lhe fazer mal, de tudo o que pode deixar

cicatrizes em sua mente, em seu corpo e em sua alma.

Quando cheguei à minha picape, já havia tirado a gravata e o paletó. Avett

tinha respondido minha mensagem, disse que estava fazendo jantar para todo

mundo, para eu me preparar, que ia comer quando chegasse na casa da mãe


dela. Depois da reação que ela teve ao ver a cozinha do meu loft, imaginei
que

ela gostava de cozinhar. Mas, levando em consideração a sua idade, achei que

teria que encarar algo simples, tipo espaguete com almôndegas. Quando tinha

22 anos, vivia à base de pizza e de comida chinesa. Lottie não sabia cozinhar

e, enquanto eu estava na faculdade e trabalhando para pagar meus estudos,


não

tinha tempo para afazeres domésticos. Então, por mais que ela me servisse

alguma coisa em lata ou tirada de uma caixa, jurei que ia fingir ser alta

gastronomia. Porque, de jeito nenhum, queria que Avett ficasse magoada e

correr o risco de ela resolver ficar na casa dos pais em vez de ir para o meu

apartamento.

Nos vinte minutos que levei para atravessar a cidade e chegar até o bairro

de Baker, onde a mãe de Avett mora, resolvi que, com o perigo que a rondava

e a balança do nosso relacionamento pendendo para algo muito mais sério do

que eu planejava, precisávamos passar alguns dias fora. Avett precisava dar

um tempo de tudo que tinha caído em sua cabeça desde a noite em que havia

sido presa, e eu precisava de uns dias para ter um pouco de paz de espírito,

em um lugar no qual eu tivesse a certeza de que a garota não corria nenhum

perigo. A gente tinha que ir para algum canto em que ninguém imaginasse
nos
procurar. Eu queria um lugar que fosse quase impossível de chegar. Um lugar

escondido e remoto. Quero que ela veja a região de onde vim e quero mostrar

o homem que um dia fui, para que Avett entenda que, bem lá no fundo, não

somos tão diferentes quanto ela acredita. Quero mostrar o lugar que já chamei

de lar e para onde jurei que nunca mais voltaria. Essa mulher me levou de

volta às origens desde o primeiro instante. Levá-la para as minhas montanhas

significa deixar que ela veja uma parte de mim que passei a maior parte da

minha vida adulta tentando esconder. Levá-la comigo de volta ao passado

significa que não vou poder mais me esconder por trás do verniz e do brilho

de todas as coisas que uso para me camuflar na vida. Também significa que

vou que ser tão verdadeiro com ela quanto ela tem sido comigo, desde o

início. E, só de pensar nisso, morro de medo. A última vez que fui sincero a

respeito de quem sou, de onde vim, estava fazendo as malas para ir ao

treinamento do Exército, há um milhão de anos ou mais. Será difícil penetrar

esse tanto de realidade de uma só vez, mas a ideia de despir minha fachada,
de

atravessar a cortina de fumaça e sair do outro lado como um homem de

substância, um homem de valor e mérito real, em vez de um que não era nada

além de um disfarce, era extremamente perturbador.

Quando cheguei na casa de sua mãe, Avett escancarou a porta antes mesmo

de eu levantar a mão para tocar a campainha. Fui para o degrau de trás,


porque

ela se atirou em cima de mim, e a segurei nos meus braços, fazendo um unf

baixinho quando seu corpinho me atingiu com toda a força. Avett enroscou
os

braços em volta do meu pescoço e as pernas na minha cintura, e coloquei a

mão debaixo de sua bunda para segurá-la. Sua boca se inclinou, habilidosa,

em cima dos meus lábios entreabertos. Passei o outro braço em suas costas e
a

puxei para perto de mim, me deliciando com o sabor meio cítrico e ácido de

sua língua e o jeito como ela gemeu quando a beijei com mais intensidade e

mordisquei seu lábio inferior. Mais do que tudo isso, me perdi de tão boa que

era a sensação de vê-la toda animada por minha causa, a emoção de ter
alguém

que realmente se importava com o fato de eu ter passado o dia inteiro fora.

Não lembro de Lottie ter me dado algo além de um sorrisinho amarelo


quando

eu voltava para casa depois de um dia difícil no Tribunal.

Avett parou de me beijar e pôs a mão em meu rosto, enquanto deslizava

pelo meu corpo. Seus olhos brilharam, safados, quando seus quadris roçaram

na ereção visível que levantou a parte da frente da minha calça.

– Como foram as coisas no Tribunal?

Passei o dedão em seu lábio inferior, inchado e úmido, e olhei para dentro
da casa, para garantir que não teria que me esquivar de um soco de Brite por

apalpar sua filha em plena luz do dia.

– Como sempre. E como foi seu dia com seus pais?

Ela encolheu os ombros e se afastou de mim, olhando de soslaio para o

volume na minha calça, de um jeito sensual.

– Tudo bem. Conversei com minha mãe e resolvi alguns assuntos, isso foi

bom. Ela me lembrou que todo mundo tem história para contar… não só eu –

Avett olhou para o chão e depois para mim outra vez, com um brilho que,
tive

quase certeza, era de orgulho em seus olhos coloridos.

– Contei para eles tudo o que aconteceu com Autumn e tudo o que aconteceu

depois. Meu pai não ficou nem um pouco surpreso, e minha mãe chorou. Foi

uma boa conversa – ela tirou os olhos dos meus e os aterrisou na minha calça.

– Você precisa esperar uns minutinhos antes de entrar?– ela estava rindo de

mim. Normalmente, eu ficaria furioso, acharia uma afronta. Mas, vindo dela,

só tinha vontade de sorrir e deixá-la achar graça.

– Preciso de uns minutinhos, sim, mas não para isso. Quero te falar uma

coisa – Avett arregalou os olhos e enrugou a testa de um jeito adorável. Alisei

as rugas com o dedo e completei: – A polícia concluiu que a sua casa foi

incendiada de propósito, Avett.

Ela soltou um suspiro de surpresa e levantou a mão para cobrir a boca.


– Sério?

Balancei a cabeça e passei o dedão em sua sobrancelha enrugada.

– É. E acham que os caras que vieram te procurar quando Jared fugiu com

aquele monte de drogas estão por trás disso. Esses traficantes estão atrás das

drogas e, se não conseguirem pôr as mãos na mercadoria, virão atrás de você.

Avett fez careta e cruzou os braços, de um jeito desafiador.

– Nunca vi essas drogas. Sabia que ele estava usando, mas não sabia

quanto. Jamais teria concordado em participar de um troço desses.

– Sei disso, mas os sujeitos que perderam seu produto não sabem. Jared só

está preocupado consigo mesmo, então há uma grande possibilidade de ele

estar falando para os chefões que você pegou a mercadoria e escondeu em

algum lugar. Seu ex está tentando ganhar tempo enquanto está na cadeia e

continua dizendo que foi você que planejou o assalto. O cara te pôs bem na

linha de fogo.

Ela movimentou a boca, mas não emitiu nenhum som, e seus olhos tinham

uma expressão de puro medo.

– E se eles vierem atrás dos meus pais? E se eles forem atrás de você?

Ela falou tão baixo que não resisti e a puxei para perto de mim. Encostei o

rosto no seu cabelo e falei:

– Eles querem o pó e vão usar os meios mais eficientes para consegui-lo.


Vou contar para o seu pai o que está acontecendo, para ele ficar esperto, mas

acho que é você que precisa de proteção. Mais ninguém. A gente devia passar

o fim de semana fora. Posso tirar uns dias de folga, para você não precisar se

preocupar com o que vai acontecer. O que vai acontecer pode esperar até a

gente voltar e, com sorte, até lá, a polícia terá feito alguma coisa. Vamos
fazer

uma viagem de moto. Prometo te levar para um lugar seguro.

Ela parecia um pouco perplexa, mas balançou a cabeça e mordeu o lábio.

– E o que vai acontecer depois do fim de semana, Quaid? Essa ameaça não

vai simplesmente desaparecer e afeta as pessoas mais importantes para mim.

– Vamos esperar o fim de semana e o julgamento passar, depois pensamos

no que fazer. Assim que Jared se der conta de que pode passar um bom
tempo

atrás das grades e de que o advogado dele tem coisas mais importantes para

fazer do que defendê-lo, o moleque pode mudar sua versão dos fatos e

podemos usar isso para pegar o traficante – essa era a melhor resposta que eu

podia dar, e eu não ia conseguir tranquilizá-la com meras palavras, porque

queria que Avett ficasse em estado de alerta. A ameaça à sua segurança era

muito real, e me deu vontade de embrulhá-la em plástico bolha e colocá-la na

mais alta das prateleiras, para que ninguém conseguisse alcançá-la.

Ela ficou balançando a cabeça embaixo do meu queixo, passou os braços na


minha cintura e me apertou.

– Parece que, de repente, o senhor está trabalhando para a Promotoria,

doutor. Que, por acaso, é o time adversário.

Eu a soltei e a empurrei para longe até conseguir me abaixar e roçar meus

lábios nos seus.

– Neste momento, jogo no time de Avett. Esse é o único time que me

interessa ver ganhar esse jogo. E, agora, porque não entramos, antes que seu

pai venha nos procurar?

Ela soltou uma gargalhada e entrou comigo na casa.

– Meu pai vai ficar mais puto com a sua moto importada do que com o fato

de você estar passando a mão em mim, Quaid. Ele me conhece muito bem,
mas

não comprar uma moto feita nos Estados Unidos… bom, esse é um pecado

imperdoável para um sujeito que é fã de Harley.

Eu já tinha ouvido isso de vários entusiastas das motos, mas não gostei de

pensar que o pai de Avett, um homem por quem eu só tenho respeito e

admiração, tem motivo para ver defeito em mim. Por mais superficial que
seja.

– Gosto de velocidade.

E gosto do jeito como a moto italiana se comporta. Também gosto do fato

de, quando ando nela, precisar me concentrar, prestar atenção no asfalto e nas
curvas. Quando ando de moto, não há espaço para nada além da direção. É o

que, na minha vida, mais se assemelha à loucura e à liberdade. Pelo menos

era, até eu ser atingido pelo furacão Avett.

E, por falar na minha tempestade, ela virou para trás e me olhou com um

sorrisinho que tive vontade de arrancar da sua cara, aos beijos.

– Sei muito bem disso.

Fomos entrando na casa estilo rancho, confortável e acolhedora, e meus

sentidos se reacenderam ao ver quanto era normal e aconchegante. Brite, que

estava sentado no sofá, levantou e estendeu a mão para mim. E Darcy me deu

um sorriso sem a tensão e o sofrimento que estavam estampados em seu rosto

na última vez em que a vi. Avett deu um tapinha em meu braço, falou que ia

terminar de fazer o jantar, que ficaria pronto em dez minutos. Quando ela
falou

em comida, me dei conta de que a casa inteira cheirava a algo muito

perfumado e delicioso. Daquela cozinha, não ia sair nenhum molho enlatado

nem hambúrguer de caixinha.

– Que cheiro bom – falei. Sentei na poltrona reclinável gasta e olhei para

os pais de Avett. Estava esperando ser posto contra a parede ou um

interrogatório. Só ganhei balançadas de cabeça e sorrisos sinceros.

– Essa menina tem um talento natural para cozinha. Dá de dez a zero em

mim com as panelas, e olha que já passei anos no comando de cozinhas


profissionais e nem tão profissionais assim.

O orgulho na voz de Darcy era evidente.

Passei a mão no cabelo e também dei um sorrisinho, envergonhado.

– Eu estava esperando molho enlatado e, quem sabe, um pãozinho de alho

congelado.

Brite deu uma gargalhada profunda e um tapa no próprio joelho.

– Não. Quando Avett põe na cabeça que vai fazer uma refeição, faz tudo do

zero, e o resultado faz você achar que deveria estar pagando pela honra de

provar a sua comida. Quando ela morava comigo, eu não passava muito
tempo

em casa, por causa do bar. A menina ficava solta na cozinha. As sobras que
ela

guardava para mim eram mais gostosas do que qualquer prato que a gente

come naqueles restaurantes cinco estrelas do Ba-Tro. Essa menina nasceu


com

talento para a comida, e acho que esse é o jeito dela de cuidar de quem gosta:

alimentar as pessoas. Hoje, ela fez frango al limone e macarrão caseiro.

Ninguém pode acusar Brite de não ser observador. Eu já tinha me

perguntado de onde vinha o encantamento de Avett pela minha cozinha, e


essa

revelação sobre a sua filha complicada fazia muito sentido. A garota sabe

cozinhar e bem. Ela sabe que não vai fazer merda, então esse é seu jeito de
cuidar daqueles que ama. Esse é seu dom, que ela que compartilhar com os

outros. Fiquei com água na boca, e meu coração se alegrou. Não consegui

segurar um “caramba” baixinho.

Ignorei minha fome aguda e contei para Brite e Darcy o que o detetive havia

me dito há algumas horas. Brite ficou furioso quando terminei de falar, e


Darcy

ficou enroscando as mãos, nervosa. Contei dos meus planos de levar a filha

deles para passar o fim de semana fora da cidade e fiquei perplexo por não

discutirem. O motoqueiro concordou que era uma boa ideia Avett chamar o

mínimo de atenção possível até o julgamento e me prometeu que, quando

voltássemos, ia reunir suas tropas para garantir que Avett nunca ficasse

sozinha. Darcy ficou me observando, curiosa, só balançou a cabeça e

murmurou:

– Vocês dois vão ter que tomar muito cuidado.

Eu não sabia se ela estava falando do perigo que eu corria por causa da

situação da filha ou da explosão de sofrimento que eu e Avett causaríamos

quando estivéssemos completamente apaixonados.

Avett gritou, avisando que a comida estava pronta, e todos fomos para a

sala de jantar. A menina não é só boa cozinheira, é mágica. Aquela comida

estava mais gostosa do que qualquer coisa que já pus na boca, e eu não

conseguia parar de falar como tinha ficado impressionado. Ela corou de um


jeito bonito, e a conversa fluiu naturalmente pela mesa. Quando a levei para

meu loft, algumas horas depois, agradeci pelo jantar e pela companhia da sua

família devidamente, debaixo do chuveiro, várias vezes. A primeira vez,

agradeci de joelhos, com sua perna apoiada no meu ombro e minha boca

enterrada em seu ponto mais fundo, enquanto ela puxava meu cabelo e exigia

mais. Na segunda vez em que agradeci, Avett ficou com o corpo dobrado na

minha frente, com as mãos apoiadas nas placas de ardósia que eu nem

conseguia enxergar, porque estava concentrado no jeito como a água caía


pela

curva sensual de suas costas, deixando seu cabelo cor de algodão doce

grudado em sua pele, enquanto eu metia por trás.

Me perder naquele seu corpinho doce várias vezes limpou mais as teias de

aranha penduradas em meu corpo por causa de minha vitória suja no Tribunal

naquele dia do que qualquer água quente e sabão. Aquela mulher me faz
sentir

renovado. Me faz sentir melhor. Ela me faz sentir que ouvi-la gozar com um

longo suspiro, e o meu nome dançando em seus lábios, é a única vitória que

tem importância em minha vida.

Depois que arrumamos o banheiro e pusemos as coisas que íamos precisar

para passar o fim de semana nas montanhas em duas mochilas, eu a levei para

a cama e disse que ia protegê-la. Disse que ela tem um verdadeiro talento na
cozinha e que havia gostado muito de seus pais. Disse que havia gostado do

jeito como ela tinha me cumprimentado e que gosto muito de ir para cama
com

ela. Avett me deixou lhe dizer tudo isso, me deixou abraçá-la e não perguntou

mais nada.

Ela não perguntou sobre o Tribunal. Não perguntou sobre as montanhas.

Não exigiu atenção nem aprovação. Aceitou o que eu tinha a oferecer e se

aninhou ao meu lado, acariciando as asas tatuadas em meu peito, sonolenta.

Avett se contenta apenas com estar ali comigo, e o que tenho a oferecer
parece

ser suficiente para ela. Gosto de muitas coisas nessa jovem, mas o fato de ela

não me pedir mais do que eu tenho para dar está no topo da lista. Sua
natureza

descompromissada, que não exige nada, me faz ter vontade de tirar água de
um

poço que eu tinha certeza que havia secado, para poder dar mais do que os

restos mortais de emoção que me sobraram. Quero ter o que oferecer a Avett,

tanto quanto quero tirar dela.

Peguei no sono com a cabeça de Avett apoiada em meu ombro e sua mão

pousada sobre meu coração. Acordei com o sol batendo na minha cara e com
a

boquinha safada de Avett no meu pau, enquanto sua mãozinha brincava com
minhas bolas. Foi o despertador mais delicioso que já tive na vida, o qual me

fez sorrir a manhã inteira. Fiz o melhor que pude para deixar um sorriso

parecido em seu rosto, e, quando terminamos de nos acabar e de acabar com


a

minha cama, já tinha passado da hora de ir para a estrada. Minha moto é


veloz,

mas o caminho até as montanhas tem uns pedaços traiçoeiros, e o tempo no


fim

do outono é sempre imprevisível. Queria que a moça ficasse longe do perigo,

não mais perto dele.

Eu tinha uma jaqueta de couro e um capacete que comprei para Lottie e

nunca haviam sido usados. Avett fez careta quando contei porque tinha
aquilo,

mas mesmo assim vestiu e subiu na garupa da moto, sem reclamar. Minha
moto

não é nem um pouco parecida com uma Harley, mas o básico de ir na garupa

era igual, ou seja, ela tinha que se agarrar em mim, eu precisava ficar com as

suas mãos apertando a metade do meu corpo, com suas pernas me apertando,

enquanto a gente se movimentava juntos nas curvas fechadas que levavam até

as montanhas. Avett se movia como se tivesse nascido na garupa de uma


moto,

o que acho que é mais ou menos verdade. Mas também se movimentava em

tanta sintonia comigo, que eu só tinha vontade de arrumar um lugar para


parar,

fazer ela se apoiar e me enterrar dentro dela, tão fundo e com tanta força que

ela não ia conseguir nem lembrar de como era quando não estava com meu
pau

dentro de si.

Levamos horas passando por uma cidadezinha montanhosa depois da outra,

cada uma mais exclusiva e elitizada do que a outra. Os turistas tinham vindo

com tudo, ido para as montanhas observar as folhas mudarem de cor e

passarem o último fim de semana antes de a neve chegar. Andamos rápido e

sempre, costurando o trânsito e correndo atrás do vento, subindo cada vez

mais, com as folhas mudando de verde para um amarelo vivo e vermelho à

medida que nos afastávamos da cidade. Fazia anos que eu não ia para lá, e

havia passado tanto tempo bloqueando essas lembranças que quase passei

direto pelo afloramento de rochas que dava no desvio estreito, com uma

pequena área plana, no qual eu sabia que podia parar a moto.

Saí da estrada e parei atrás das rochas. Esperei até Avett descer e saí de

cima da moto. Tiramos o capacete ao mesmo tempo, e adorei o jeito como


seu

cabelo de algodão doce caía em volta de seu rosto e de seus ombros. Ela

olhou para a densa floresta à sua volta com um ar sobressaltado, de

admiração. A gente tinha passado pelo glamour e pelo burburinho do último


resort de esqui há muitos quilômetros.

– Que lugar é esse?

Passei a mão pelo cabelo e guardei as chaves da moto no bolso.

– Estamos atrás da reserva nacional da floresta de White River.

Avett deu uma risadinha e colocou o capacete em cima da moto, ao lado do

meu.

– Ok. É muito bonito mesmo, e é óbvio que os caras malvados e armados

não vão seguir a gente até aqui. Mas não trouxemos nenhum material de

acampamento nessas mochilas. Estou oficialmente confusa a respeito de onde

vamos e do que vamos fazer.

Segurei sua mão e comecei a andar na direção das árvores. Costumava

haver uma trilha no meio do mato, uma trilha que abri ao caminhar quase
dois

quilômetros duas vezes por dia atravessando aquela mesma floresta, para

chegar no ponto de ônibus, seja qual fosse o clima. A trilha já havia sido

coberta pela vegetação há muito tempo, mas as memórias reprimidas e meu

antigo instinto guiavam meus passos, à medida que eu levava Avett cada vez

mais para dentro daquela vegetação espessa.

– Eu te falei que ia te levar para um lugar seguro, um lugar onde você pode

relaxar e não se preocupar com nada por alguns dias. É exatamente isso que

estou fazendo. Ninguém sabe que esse lugar existe.


Ela estava meio ofegante enquanto caminhava com dificuldade atrás de

mim, se esforçando para acompanhar meu passo e pisar com cuidado nos

troncos caídos e nas pedras escondidas.

– Se ninguém sabe que esse lugar existe, como é que você sabe?

Era uma pergunta pertinente e, depois de passar 45 minutos nos arrastando

por aquele terreno íngreme impiedoso, chegamos à clareira onde todo o meu

passado e a minha infância estavam guardados.

Olhei para Avett, que parou de supetão ao meu lado. Ela arregalou seus

belos olhos, que tomaram conta da metade de seu rosto, e se virou para mim

com uma cara de interrogação.

– Quaid?

Apontei para a cabana, encolhi os ombros e falei:

– Foi aqui que cresci.

Ela deu uma risadinha, como se não estivesse acreditando.

– Você só pode estar de brincadeira.

Resmunguei e dei alguns passos desconfiados na direção da construção,

enquanto era assaltado pelas mais diversas lembranças, que atrapalharam meu

equilíbrio.

– Não estou, não. Meu pai comprou esse terreno e mais alguns hectares em

volta quando tinha mais ou menos a sua idade. Ele e minha mãe tinham o
sonho
de ser colonos dos tempos modernos, de viver da terra e do próprio trabalho.

Mas, mesmo quando você vive só do produto da terra, tem que pagar por esse

privilégio para o governo. Meus pais deviam milhares de dólares em

impostos. Quando saí do Exército, descobri que haviam empacotado tudo e se

mudado com meu irmão para uma região do Alasca esquecida por Deus, que

haviam ido morar dentro de um lago, em uma casa-barco improvisada. Parece

coisa inventada, mas é cem por cento verdade. Não tem como ser mais
isolado

do que eles, em um lugar no qual é preciso usar trenós puxados por cachorros

e veículos de neve para se deslocar. Faz anos que não falo com meus pais
nem

com meu irmão mais novo. Acho que eles nem sabem que eu me divorciei.

Avett ficou piscando para mim enquanto tentava processar todas aquelas

informações.

– Eles são tipo aquelas pessoas daquele programa Sobreviventes do gelo?

Soltei uma gargalhada, surpreso, por ela ter alguma ideia do que eu estava

falando.

– É, tipo isso.

– Você tem razão, isso não parece verdade, mas também é meio… triste?

Você não sente saudade deles? Como é que eles podem não ter saudade de

você? – ela me pareceu preocupada, peguei sua mão e a puxei na direção


daquela construção de madeira rústica. – E, se eles estão no Alasca, a gente

não está cometendo uma invasão de propriedade? Eu não posso ser presa de

novo, agora que finalmente estou conseguindo fazer as coisas direito de vez

em quando.

– Não estamos invadindo a propriedade de ninguém. Depois que comecei a

trabalhar no escritório, entrei em contato com o homem que comprou o


terreno

em um leilão. Ele usava a cabana quando vinha caçar. Fiz uma oferta que ele

não pôde recusar e lhe disse que podia continuar usando o imóvel durante a

temporada de caça, então ele me vendeu de volta – olhei enviesado para


Avett

e completei:

– Acho que pensei que meus pais voltariam para cá se soubessem que

poderiam ter sua terra de volta, livre de impostos, mas eles nunca voltaram.

Gostam demais da vida que levam para voltar, e acho que me riscaram do

caderninho no mesmo instante em que contei que havia me alistado no

Exército. Eles nunca entenderam por que eu queria ir embora, por que eu

queria mais do que essa terra podia me dar. Não venho aqui desde o dia em

que fui para o treinamento.

Avett assoviou baixinho e apertou minha mão.

– Isso deve doer.


Abri a porta e fiquei congelado ao ver as paredes vazias e o chão de

madeira empoeirado. O lugar estava igualzinho ao tempo em que morei ali.

Quatro paredes com janelas quebradas, uma cozinha minúscula, uma área
com

um colchão fino e outro em um catre, no canto. Tinha um sofá esfarrapado na

frente de um fogão a lenha velho e uma mesa feita com um dos pinheiros que

cresciam em volta da cabana. Não tinha sequer um banheiro. O que


significava

que, todas as noites, eu atravessava a floresta correndo até a casinha

improvisada, que não passava de umas tábuas de compensado e um buraco no

chão, fazendo as necessidades e imaginando se não ia dar de cara com um


urso

ou um leão da montanha.

– Doeu, sim. Ainda dói, quando me permito pensar nisso. A primeira vez

em que fui para o exterior e não fazia ideia do que esperar, não fazia ideia de

onde ia parar nem se o risco de me alistar ia valer a pena ou acabar me

matando, foi uma merda não poder contar com o apoio e o incentivo deles.

Minha namorada na época, que agora é minha ex-mulher, parecia mesmo ser
a

única pessoa que eu tinha no mundo. Acho que foi por isso que nem notei

quando nosso casamento começou a desmoronar. Ela era meu único elo com

essa vida e foi a única pessoa que não me abandonou no meu momento de
maior incerteza. Era tudo fingimento, mas foi um fingimento que me segurou

quando eu era um garoto apavorado e solitário indo para a guerra.

A cabana era vazia, simples e bucólica. Era isso que as pessoas queriam

dizer quando falavam de ter só o necessário para a sobrevivência, tudo tão

diferente de como vivo agora que nem sei como esses dois homens podem

conviver no mesmo corpo.

Olhei para a menina que tinha me levado de volta para lá, a menina que

tornou impossível eu continuar fingindo. Queria que ela visse que não éramos

tão diferentes assim, que não tínhamos a mesma origem, mas isso porque a

minha origem era aquela existência vazia e humilde. Eu vinha do nada, e ela,

não.

– É por isso… – fiz um gesto com a mão para deixar claro que estava

falando daquele triste espaço à nossa volta – …que tenho lençóis de dois mil

dólares e obras de arte feias, mas caras, nas paredes. Quando você passa a

infância inteira sem ter nada, quando você só tem o que comer se matar o

próprio jantar e quando não pode ficar aquecido a menos que tenha cortado

uma pilha de lenha do seu tamanho, você começa a querer coisas. A querer

conforto e facilidades. A querer luxo e extravagâncias. Você quer ser o

moleque de quem as pessoas não tiram sarro por ser tão pobre. Você quer ser

o sujeito que conquista a garota que você jamais poderia conquistar. Você
quer
ser a criança que pode ir ao hospital quando decepa o dedo cortando lenha,

não a que tem o dedo costurado na mesa da cozinha e ouve que precisa ser

mais corajoso porque chorou a cada vez que a agulha afundou em sua pele.

Você quer muitas coisas quando a sua vida é assim. Você quer tudo, e isso
não

é o bastante, porque sempre tem mais. Então você se mata de trabalhar para
ter

essas coisas. E, mesmo que se dê conta de que isso jamais será suficiente,

você continua trabalhando e continua consumindo. Toda a minha vida adulta

foi ocupada tentando adquirir coisas para esconder tudo isso e provar para

meus pais que fiz a escolha certa ao ir embora, mesmo que eles jamais
tenham

visto ou jamais admirem qualquer aspecto do homem que sou hoje.

Avett soltou minha mão e achei que ela ia fazer algum comentário sarcástico

sobre a casinha ou sobre o fato de eu praticamente ter crescido no estilo dos

pioneiros. Mas ela só me abraçou por trás e apertou bem forte o corpo contra

o meu. Senti seu rosto entre os meus ombros, e sua voz, apesar de ela ter

falado baixinho, ecoou bem alto naquele lugar desolado.

– É tão mais fácil ver você aqui do que quando você está cercado por todas

aquelas coisas, Quaid.

Suspirei e pus minhas mãos sobre as dela.


– É porque aqui não tenho onde me esconder.

Cansei de me esconder, daquela mulher e do resto do mundo.

CAPÍTULO 13

Avett

ENQUANTO EU BUFAVA PARA ACOMPANHAR AS PERNADAS DE


QUAID PELA FLORESTA,

em volta da cabana, estava ficando tão óbvio, que chegava a ser

revoltante, que procurar um lugar remoto e correr atrás do homem errado não

era um exercício adequado. Pelo jeito, nem o sexo interminável e acrobático,

que me deixou ofegante, com o homem certo foi suficiente no quesito cardio,

porque parecia que eu ia morrer e só fazia pouco mais de uma hora que

estávamos andando pela floresta. Quaid queria me mostrar uma coisa. Um

lugar que, insistiu, valia a pena ficar com as coxas ardendo e os pulmões

entrando em colapso, o que, com certeza, ia acontecer quando a gente


chegasse

lá. Não tinha como negar o brilho melancólico que iluminava seus olhos

claros, ainda mais quando ele me contou que passava horas com o irmão mais

novo escalando as rochas e pulando do pico no pequeno lago entre as

montanhas. Ele me jurou que o som da cachoeira que alimentava aquela

piscina de água gelada era relaxante e, apesar de eu não ser muito fã de

natureza, eu é que não ia negar, de jeito nenhum, aquela viagenzinha


nostálgica

que o rapaz precisava fazer.

Resmunguei ao tropeçar em uma raiz que não vi e ir de encontro às suas

costas largas. O ruído se transformou em um leve suspiro, porque ele esticou


o

braço para não me deixar cair. Ele estava sempre fazendo isso… não me

deixando cair. Isso faz meu coração dar pulinhos de alegria, e aquele lado
bem

lá no fundo, que está sempre doendo, sempre pulsando de arrependimento e


de

dor, parece menos vasto e infinito.

– Tudo bem aí atrás?

Sua voz grave tinha um tom bem humorado, e ele se virou para trás,

sorrindo.

Franzi o nariz e respondi:

– Vou conseguir, mas você talvez tenha que me carregar de volta para a

cabana.

Quaid riu e levantou uma de suas sobrancelhas douradas.

– Ainda faltam muitos e muitos anos até você precisar que alguém te

carregue, Avett.

Cutuquei seu ombro e me desviei de algo que parecia um monte de cocô de


algum animal selvagem. Ainda não consegui acreditar que aquela floresta era

o quintal de sua casa e que ele sabia se movimentar naquele terreno

acidentado como se tivesse sido ontem a última vez que ele havia corrido

entre aquelas árvores. Aquilo não combinava com seus ternos impecáveis e

com o loft meticulosamente decorado. Tem muita coisa escondida por baixo

daquelas gravatas de seda que ele gosta de usar.

– Trinta e poucos não são três mil, e acho que está bem óbvio qual de nós

dois precisa passar mais tempo na academia. Atenção, spoiler: não é o sujeito

da bundinha perfeita que sequer suou.

Quaid deu mais uma risadinha e me olhou do meu coque cor-de-rosa

bagunçado até os bicos empoeirados de meus coturnos.

– Gosto de você exatamente do jeito que é.

Foram palavras simples, mas que tinham muito significado. A única pessoa

além dele na minha vida que gosta de mim do jeito que sou, por acaso, é meu

pai. Nem eu me gosto do jeito que sou boa parte do tempo.

– Obrigada.

Ele inclinou a cabeça para o lado de leve e ficamos nos encarando por um

bom tempo até que ele balançou a cabeça e murmurou:

– De nada.

Caminhamos por mais alguns minutos em silêncio até que as árvores foram
ficando mais esparsas e, de repente, estávamos em uma clareira no alto de
uma

espécie de represa natural. Havia rochas empilhadas, e água corria por aquela

escultura natural. Era lindo, majestoso e tão estonteante que soltei o pouco de

ar que restava em meus pulmões com um suspiro de admiração.

O som da água caindo e batendo naquela piscina, lá embaixo, era tão alto

que mal ouvi quando Quaid disse:

– Chegamos. Esse era meu lugar preferido quando pequeno. Ao ser

convocado e começar a passar os dias vendo nada além de areia e deserto,

sonhava com esse lugar à noite.

Ele pegou minha mão e me puxou para a beira das rochas salientes que

atravessavam a água cristalina da montanha. Devia ser uma queda de 12 a 15

metros, e a água era tão clara que dava para ver o fundo do lago.

– Que lugar lindo. Dá para entender por que você guardou as lembranças

daqui mesmo tentando esquecer o resto de sua vida.

Quando Quaid se virou para mim, estava com a testa franzida e o maxilar

tenso. Tive vontade de acariciar sua barba loira por fazer, mas ele virou o

rosto outra vez para aquela vista impressionante e murmurou:

– Eu tinha me esquecido. Passei tanto tempo fingindo que essa vida nunca

existiu e negando que algum dia fui aquele garoto que saiu daqui que esqueci

que este lugar tinha coisas tão boas.


Fui até seu lado e inspirei tão profundamente que tive a sensação de não ter

mais lugar dentro de mim para a culpa e a vergonha que eu estava sempre

respirando, porque o ar puro das montanhas invadiu cada pedacinho de meu

corpo. Foi uma experiência de limpeza, que abriu meus olhos de um modo

surpreendente.

Fui até a beirada das rochas e olhei para baixo.

– Você já pulou daqui? Parece uma queda muito grande.

Uma ideia começou a sussurrar em minha cabeça, e a faísca de um desafio

começou a percorrer minha pele, fazendo o sangue correr mais rápido por

minhas veias.

Quaid pôs a mão em minha cintura e me puxou para trás, para eu ficar

encostada em seu peito e não quase pendurada na beira daquele precipício.

– Sim. Eu e Harrison, meu irmão, ficávamos nos desafiando a pular. Na

maior parte do tempo, não tem problema, se você cair direito na água. Mas,

quando o clima muda, a superfície fica gelada rápido, e a água acumulada da

chuva é sempre muito fria. Harrison pulou sem olhar quando a gente era

adolescente e acabou quebrando o braço – senti Quaid ficar todo tenso atrás

de mim, e seu braço apertou minha barriga com força. – Meus pais se

recusaram a levá-lo ao hospital. Meu pai tentou consertar a fratura sozinho, e

minha mãe fez uma tipoia usando galhos de choupo e um lençol rasgado.
Nunca sarou direito, e Harisson nunca mais conseguiu recuperar todos os

movimentos da mão.

Pus minha mão sobre a dele e acariciei os dedos tensos que beliscavam a

lateral do meu corpo.

– Harrison e Quaid. Vocês acabaram ganhando uns nomes bem esnobes para

moleques que viviam da terra, no meio do nada.

Eu estava tentando tornar aquela situação mais leve, aliviar um pouco a

rigidez que tomava conta daquele corpo grande que estava atrás de mim, mas

Quaid ficou ainda mais tenso e deu uma risada que não tinha uma gota de

graça. Na verdade, o som que escapou dele quase parecia um grito de dor

vindo do fundo da alma.

– Quaid não é meu nome de verdade. Minha mãe era louca por filmes dos

anos 1980, e seus atores preferidos eram Harrison Ford e Dennis Quaid – sua

voz grave ficou um pouco mais baixa, e ele completou: – Como nunca me

achei com cara de Dennis, sempre fui Quaid.

Dava para ver que ele estava lutando com o passado, do modo como isso se

sobrepunha ao presente, mas não consegui controlar o riso quando ele me

contou de onde vinha seu nome incomum.

– Dennis? Você não tem mesmo cara de Dennis, mas posso ser persuadida a

experimentar da próxima vez que estivermos na cama.


Quaid me olhou feio e não respondeu à minha provocação.

– Não sei como é ter cara de Dennis, mas sei que Quaid é muito mais difícil

de esquecer. Isso sempre teve a ver com eu tentar ser mais do que era, mesmo

que só no nome.

Me encostei nele de novo e rocei o traseiro na frente da sua calça jeans.

– Bom, sendo você Dennis ou Quaid, também gosto de você como você é.

Senti ele suspirar profundamente atrás de mim e, por fim, afrouxar as mãos

em volta do meu corpo. Assim que consegui me soltar, voltei para a beirada,

olhei para trás e para Quaid de modo sugestivo.

– Acho que a gente deveria pular.

A ideia ficou flutuando com toda a clareza e a leveza que o ar puro trazia.

Comecei a tirar aquela jaqueta de couro emprestada e fiquei olhando para

Quaid com expectativa.

Seus olhos claros se arregalaram, e ele abriu a boca, sacudindo a cabeça

com veemência.

– De jeito nenhum. Faz muito tempo que não faço isso. Vai saber se a água

tem profundidade suficiente? Se alguma coisa der errado, estamos no meio


do

nada e não temos ninguém para pedir ajuda. É muito arriscado, e eu te trouxe

aqui para te proteger.

Larguei a jaqueta no chão, perto dos meus pés, e dobrei o corpo para
desamarrar o cadarço dos meus coturnos.

– Eu quero pular. Você quis voltar para cá por um motivo, para lembrar das

coisas boas e das ruins, e quero te proporcionar isso.

Queria proporcionar isso para nós dois, porque em algum lugar, bem lá no

fundo, sabia que era igualzinha àquele lugar e às lembranças que Quaid tinha

dele. Comigo, também tem muita coisa boa, em algum lugar, debaixo de

montes e mais montes de coisas ruins. Se eu conseguisse devolver essa coisa

boa a Quaid, talvez ele se lembre do que há de bom em mim quando essa

tempestade que existe entre nós dois passar.

Fiquei pulando em um pé só enquanto tirava uma bota e começava a

desamarrar a outra. Ele ficou me observando, com aquela cara linda, não

acreditando no que via.

– Posso ter essas lembranças sem pôr em risco meu pescoço. Pare de tirar a

roupa, Avett. Isso é ridículo – eu já tinha aberto o botão da calça e estava me

sacudindo para tirá-la quando ele pôs as mãos pesadas em meus ombros. –

Você precisa parar. Está sendo boba e inacreditavelmente imprudente. Não


sou

mais aquele moleque.

Desabotoei a blusa e deixei ela se abrir, para meu corpo ficar exposto tanto

ao olhar inquisidor dele quanto à natureza selvagem que nos cercava.

– Não, não é. Porém, por mais que você tente negar a existência dele, esse
moleque está aí dentro, lá no fundo, e quer pular comigo – levantei a

sobrancelha e falei, sem rodeios:

– Você também não é o sujeito que precisa de todas aquelas coisas no seu

devido lugar para provar seu valor. Você é uma pessoa espetacular, com ou

sem as coisas, Quaid.

Ele franziu a testa e, antes que pudesse discutir mais, tirei a blusa e fiquei

só de lingerie e com muita coragem. Os olhos de Quaid baixaram para o meu

peito praticamente nu e baixaram mais ainda. Vi seu pomo de adão subir e

descer, e seus punhos ficarem cerrados ao lado de seu corpo.

– E você é alguém que vale mais do que essas suas atitudes imprudentes.

Será? Será que eu tinha finalmente crescido e não era mais a menina que

estava sempre tentando se punir? Será que aquela menina, que pensava

precisar sofrer para sempre por causa de suas péssimas escolhas, havia

chegado a um ponto em que o perdão era algo possível e atingível? Será que

eu tinha finalmente, depois de cometer um erro após o outro, aprendido que é

possível se redimir se a gente permitir que os outros nos perdoem? Será que

eu havia chegado a um ponto da vida em que, em vez de não fazer nada ou

fazer tudo errado, eu conseguia fazer tudo certo sem precisar pensar? Porque,

por mais que Quaid estivesse com jeito de quem queria me estrangular, eu

tinha certeza de que aquele salto era a opção certa. Eu não estava dando um
salto no escuro, estava dando um salto na vida. Eu estava tirando a minha
vida

das mãos da culpa e do remorso, dando um passo por vez. Só que aquele

passo, por acaso, ia me fazer cair do precipício onde o jovem Quaid viveu, de

um modo selvagem e rústico.

Tirei os olhos dos seus, azuis e ardentes, e me virei para aquele azul sereno

que havia lá embaixo. Respirei fundo e olhei de novo para aquele homem que

me encarava como se eu tivesse perdido completamente a cabeça. Sorri com

cada gota de lucidez e clareza que vivia dentro de mim. Parecia que eu tinha

acordado de um sono profundo e, pela primeira vez em muito tempo, estava

vendo as coisas como realmente são, sem que todos os meus defeitos e

fracassos as manchassem.

– Esses riscos renderam as piores e as melhores histórias, Quaid. E, neste

exato momento, estou meio que apaixonada pelo fato de estar aqui para
contá-

las, porque são minhas e vivi cada uma delas.

Abanei de leve para ele, virei e me atirei da rocha. Meu nome saiu de sua

boca, rasgando seus pulmões, ecoando por aqueles montes, e bateu no meu

próprio grito, quando o vento me atingiu e me deixou sem ar, enquanto eu


caía

em direção à àgua. Tudo ao meu redor girava, em um borrão verde e azul, à


medida que eu ia descendo cada vez mais rápido pelo ar. Foi uma emoção
sem

igual. A leveza, a liberdade, o farfalhar da água em meus ouvidos, o vento


que

castigava minha pele nua... Era algo arrebatador, que só podia ser comparado

ao melhor sexo da minha vida. Que, por acaso, era o sexo que eu fazia com o

homem que estava parado na beira do precipício, me observando cair. Dava

para ouvir ele me xingando e as batidas do meu coração à medida que eu

chegava cada vez mais perto da água. Mal tive tempo de encher os pulmões
de

ar e tapar o nariz com a mão antes de cair no lago.

Fiquei anestesiada no mesmo segundo em que minha pele entrou em contato

com a superfície vítrea da água. Que estava tão fria que meus músculos

travaram e o sangue congelou em minhas veias. O impacto foi assustador,

suficiente para deslocar cada um dos meus ossos. Por um segundo, fiquei em

pânico e, como estava tão frio, não sabia se ia conseguir fazer meus braços e

pernas paralisados funcionarem e conseguir voltar à superfície. Fiquei me

sacudindo loucamente até me dar conta de que, apesar de estar congelante e

meu corpo ter ficado puto com isso, eu ainda conseguia controlar meus
braços

e minhas pernas. Me acalmei e empurrei com força o líquido glacial que me

cercava. Só precisei de uns dois empurrões para voltar à superfície e, assim


que consegui, fui logo enchendo os pulmões de ar.

– Você é louca de pedra, sabia?

A voz grave de Quaid ecoava pela ravina. Precisei levar o pescoço para

trás para conseguir enxergar onde ele estava, descendo devagar do ponto de

onde eu havia pulado para uma rocha mais embaixo, até onde eu teria que

nadar para conseguir sair da água.

Passei as mãos trêmulas em meu cabelo molhado, para tirá-lo dos meus

olhos, e comecei a nadar na direção dele, com aquela água gelada cobrindo

minha pele e impedindo meu progresso.

– Não foi você que me disse que a loucura tem sua hora e seu lugar para

aparecer?

Eu estava tremendo tanto que precisei me concentrar muito no que estava

fazendo, para que a água e sua pegada ártica não me puxassem lá para baixo

de novo.

– Não acho que um lugar a quilômetros da civilização, a horas de distância

de qualquer recurso médico, seja o local apropriado para tirar a loucura da

aposentadoria.

Quaid colocou uma coisa enrolada em cima da rocha que, imaginei, eram as

roupas que eu havia tirado. Fiquei observando ele se abaixar e estender um

dos braços para eu segurar, para conseguir me tirar da água.


Eu estava congelando. Foi o pior frio que senti na minha vida, e não sabia

se ia conseguir ter coordenação para segurar a mão que Quaid me estendeu

quando cheguei perto dele. Olhei para aquele seu rostinho bonito, com rugas

de preocupação e irritação, e foi aí que caiu a ficha do que Asa quis dizer ao

falar que sempre via Royal lá em cima, por isso que nunca parava de escalar

para tentar sair do fundo do poço.

Com Quaid me olhando, preocupado comigo depois de eu ter feito mais

uma escolha questionável, tive certeza de que não só queria continuar

nadando, por mais frio que eu sentisse e mais difícil que fosse, mas que

também queria alcançá-lo. Queria sair do fundo do poço e chegar lá em cima,

ou o mais perto possível, depois de tantos anos caindo sem parar e de

propósito.

Finalmente cheguei àquela rocha mais baixa. Só precisei tirar uma das

minhas mãos da água, e Quaid me segurou. Ele me puxou para fora do lago

como se eu não pesasse nada nem fosse um emaranhado trêmulo de pernas e

braços que não conseguiam nem queriam se mexer. Eu batia os dentes tão
alto

que nem tentei protestar quando Quaid tirou a própria jaqueta de couro e pôs

em meus ombros tiritantes. O couro estava quente, com o calor de seu corpo,
e

me encolhi dentro do casaco enquanto ele ficou passando a mão em meu


cabelo, que não parava de pingar, e passando a mão em mim para tirar o

excesso de água que ainda escorria por minha pele.

– Não acredito que você fazia isso para se divertir.

As palavras saíram atropeladas, porque Quaid abriu a jaqueta e começou a

esfregar os dois lados gelados do meu corpo. Eu estava toda arrepiada e tinha

quase certeza de que meus lábios estavam de um tom muito atraente de azul.

– Parei com a necessidade de me expor ao perigo só pela emoção. Agora

só corro atrás dele por um propósito, por um bem maior. A emoção perdeu

todo o seu encanto quando o braço de Harrison se partiu ao meio. Precisamos

voltar para a cabana, para você ficar na frente do fogão, antes que cristais de

gelo comecem a se formar em seus cílios.

Fiquei sacudindo a cabeça e me encostei nele.

– Frio demais para caminhar.

Quaid soltou um palavrão baixinho e me puxou mais para perto. Eu me

aninhei em seu corpo quente e soltei um suspiro de felicidade quando seu

calor começou a penetrar na minha pele congelada.

– Valeu a pena, Avett? Você está morrendo de frio e tem muita sorte de não

ter se machucado. Valeu a pena correr esse risco?

Como ele parecia puto, levei a cabeça para trás para olhar seus olhos

invernais. Cheguei ainda mais perto dele e suspirei surpresa quando ele
colocou uma de suas mãos grandes por baixo da renda do sutiã que eu ainda

estava usando e começou a acariciar meu peito. Minha pele naquela área

esquentou no mesmo instante, e meu mamilo, que já estava esticado, ficou

ainda mais, à medida que o prazer se sobrepunha ao frio.

– Me pergunta isso depois.

Quaid franziu a testa, e seus dedos começaram a brincar com o biquinho

aveludado que implorava por atenção.

– Depois do quê?

Levantei o braço para conseguir pôr a mão em sua nuca, e não consegui

segurar o sorriso quando meu toque gelado fez Quaid se encolher todo.

– Logo depois disso.

Então o puxei para poder encostar meus lábios nos seus. A sensação dos

meus lábios gelados derretendo em contato com o calor dos de Quaid me fez

tremer, mas não de frio. Ele enroscou a língua na minha, deliciosamente, e


seus

longos dedos prenderam o bico do meu peito. Ele ficou rolando aquele ponto

sensível para a frente e para trás, criando um calor e uma fricção que senti no

meio de minhas pernas. Sua outra mão foi descendo por minhas costas, que

ainda tremiam, e parou em baixo da curva da minha bunda, me puxando


ainda

mais para perto do seu corpo grande. Gemi, com a boca grudada na sua, ao
sentir seu pau duro e ereto pressionar minha barriga. Minha lingerie ainda

estava ensopada, mas a pele debaixo dela começava a formigar e a ferver, à

medida que Quaid enfiava a mão grande e áspera por baixo da renda delicada.

– Dizem que a maneira mais rápida de se esquentar é compartilhar calor

humano – aquele humor grosseiro em sua voz grave fez maravilhas para

esquentar meu sangue preguiçoso.

Pus a mão em sua cintura para conseguir puxar sua camiseta térmica cinza

escura por cima da calça.

– Bom, compartilhar é se importar. Vamos nessa.

Quaid me ajudou a tirar as duas camadas de camisa que ele estava usando,

por cima de sua cabeça, e quando sua pele morena e lisinha se arrepiou, ao

entrar em contato com o ar gelado, afastei minha boca da sua, que me


invadia,

e comecei a percorrer aqueles arrepios com a língua. Sua águia majestosa, ao

ficar à mostra, tinha tudo a ver com aquele lugar, como se fosse uma parte da

sua essência que havia esperado por anos e anos para voltar ao seu devido

lugar. Passei os dedos por aquele desenho impressionante e fiquei sem ar

quando a mão que estava nas minhas costas começou a se mexer.

Era um caminho bem curto até aqueles dedos curiosos encontrarem seu

destino, o ponto macio que aos poucos se derretia no meio das minhas pernas

e que, ultimamente, parecia ter sido criado só para ele. Mas fiquei surpresa e
dei um pulinho de leve quando um de seus dedos errantes desapareceu dentro

da cavidade na qual nunca deixei que ninguém se aventurasse. Foi um leve

roçar da ponta de um dedo, uma carícia mínima, mas seus olhos azuis

irradiavam paixão e curiosidade. Seu toque inesperado naquele lugar

escondido fez meu corpo se catapultar na ponta dos pés e o abraçar ainda
mais

forte. Aquele homem, pelo jeito, sempre encontra uma maneira nova de me

testar, de acender minha curiosidade a respeito de coisas sobre as quais nunca

pensei antes de ele entrar em minha vida, sejam relacionadas ao sexo ou mais

profundas e significativas, tipo se eu sou ou não a única culpada por tudo o

que aconteceu na noite em que minha vida mudou por completo. Eu nem
sabia

que tinha esses tipos de limite e fiquei maravilhada com o fato de Quaid estar

sempre me incentivando a ultrapassá-los e redefini-los.

Ele passou a boca por meu rosto e senti a ponta de sua língua caçar as

gotinhas de água que ainda estavam grudadas em minha pele. Aquela


sensação

de calor e de frio atiçou maravilhosamente meu sangue, que ainda estava

gelado e adormecido. Quaid roçou os lábios em meu ouvido, e fiquei de

pernas bambas quando seus dedos habilidosos encontraram a única parte do

meu corpo que, com certeza, não estava gelada. Na verdade, estava
escaldante, fervendo a ponto de formar uma poça líquida de desejo, só para

ele.

– Eu queria várias coisas da vida, Avett, e gastei muito mais tempo e

dinheiro do que gosto de pensar tentando consegui-las.

Murmurei um ruído indistinto com os lábios grudados na lateral do seu

pescoço, porque ele havia enfiado um dedo em mim e estava remexendo

naquele calor escaldante que ele mesmo havia gerado, em volta do ponto

enrijecido de meu clitóris. A umidade do meu próprio prazer contrastando


com

o tecido áspero, molhado e gelado de minha calcinha foi suficiente para meu

corpo inteiro receber uma descarga elétrica. Sussurrei seu nome e me segurei

em seus ombros largos, enquanto seus dedos se mexiam entre minhas pernas,

brincando e tomando posse do meu corpo cheio de tesão, e suas palavras

tentavam entrar na minha cabeça e no meu coração difícil.

– De todas as coisas que eu mais quis, nenhuma me fez sentir tão

possessivo nem tão desesperado quanto você. Quero ter você de todas as

maneiras possíveis e imagináveis e quero inventar mais algumas para você

não ter dúvidas de com quem deve estar. Quero que cada pedacinho seu tenha

algo de mim dentro dele, para que você não passe um segundo sequer sem

pensar em mim e em como quero você.

Fiquei me perguntando se isso incluía meu coração, porque mesmo que eu


soubesse que não era para ser assim, já tinha um pedação daquele homem

dentro dele, e eu não queria tirá-lo dali.

Enrosquei os dedos em seu cabelo, e ele voltou a me beijar. Me inclinei em

cima de Quaid, que segurou a parte de trás da minha coxa e encaixou uma de

minhas pernas em seu quadril, para ter mais acesso ao ponto doce que estava

todo animado, pulsando feliz, enquanto ele enfiava e tirava os dedos grossos

da abertura úmida. Ele me deixou tão molhadinha que essa umidade escorria,

quente, pela dobra da minha perna, à medida que ele me puxava mais para

cima, contra seu corpo musculoso, e me segurava forte. Então ele começou a

se ajoelhar na superfície irregular de pedra.

Soltei um grito de prazer, porque essa nova posição me fez ficar em cima

de suas coxas fortes e o metal dilatado do seu zíper me acertou bem nos meus

pontos mais sensíveis. O roçar do zíper na renda que ainda me cobria, o frio

do metal contra aquela enervação ardente, a mistura das sensações causadas

por seus dedos, que me invadiam, me levou ao clímax rapidinho. Ouvi um

pássaro piar, irritado, lá no céu, mas eu estava muito ocupada tentando


segurar

o cinto de Quaid com meus dedos trêmulos para me distrair com a natureza

selvagem que, logo mais, iria assistir a um espetáculo e tanto.

Remexi o tronco para a jaqueta de Quaid, que eu estava usando, abrir o

suficiente para eu poder apertar meus peitos contra o seu. Meus mamilos
pinicaram, felizes, a sua pele tatuada, e eu soltei um suspiro enquanto ele

ainda me beijava, roçando os biquinhos doloridos em sua pele, a qual estava

esfriando rapidamente. Ele urrou ao sentir o veludo e a renda que se

arrastavam por seus músculos, em uma das carícias mais intensas e eróticas

que já proporcionei a alguém. Assim que consegui abrir o botão de sua calça
e

baixar o zíper com todo o cuidado em volta daquele material sempre

impressionante que estava à minha espera, Quaid parou de fazer movimentos

de tesoura com os dedos dentro de mim e os colocou em meu centro de


prazer,

o qual estava completamente à mostra, praticamente implorando por sua

atenção. Meu clitóris conhecia o seu toque e se eriçou debaixo das pontas

ásperas daqueles dedos, tremendo tanto de prazer que tive quase certeza de

que ia morrer.

Soltei um gemido grave e alto e fiquei surpresa quando aquele som sensual

reverberou à nossa volta e a ravina onde estávamos ecoou nosso prazer e os

sons do nosso deleite, à medida que saqueávamos um ao outro. Ajudei Quaid


a

tirar a calça só até conseguir pôr a mão no material, mas não a ponto de ele

ficar com os joelhos esfolados por causa da superfície áspera em que estavam

apoiados. Ele passou a mão por baixo da jaqueta e agarrou, possessivo, um


dos meus peitos, balançando-o enquanto eu me esfregava em seus dedos
ágeis

naquele espinhaço duro que brincava com a minha abertura à vida. Quaid

sabia exatamente o que eu queria, enquanto me remexia em cima dele sem

pudor e sem vergonha, sem medo do frio ou do nada que cercava nossos

corpos ofegantes. Ele ficou mexendo em meu clitóris até eu virar uma poça

balbuciante e incoerente de tesão e desejo, e suas carícias foram ficando mais

fortes e firmes à medida que eu me sacudia com mais força.

Segurei seu pau pulsante, que estava logo acima do ponto em que eu mais o

queria, e o levantei só até conseguir esfregar sua ponta bulbosa, que vazava
de

prazer, por minhas dobrinhas encharcadas. Nós dois soltamos um gemido

abafado com essa sensação, e suas brincadeiras com meu clitóris se

intensificaram a ponto de eu achar que iria enlouquecer se não gozasse logo.


A

sensação de sua pele gelada por causa do ar deslizando pelo nosso calor

combinado fez Quaid soltar um palavrão e eu choramingar de desespero.

Enfiei os dedos da outra mão na lateral do seu pescoço e fiquei feliz ao

perceber que seus músculos estavam tensos e suas veias, saltadas enquanto eu

esfregava minha umidade nele e o provocava com minha abertura. A ponta de

seu pau estava mais do que molhada. Estava brilhante e coberta com o meu
prazer. Pessoalmente, acho que nunca vi um homem nem um pau tão bonito.

Quaid estava sexy pra caramba coberto do que havia feito comigo. Isso me
fez

gemer alto e expulsou o frio que ainda gelava meus ossos. Meu corpo estava

fazendo de tudo para puxá-lo para dentro de mim, minhas paredes internas

estremeciam e se apertavam como se estivessem esperando por seu pau, só

por seu pau, desde sempre, como se ficassem abandonadas e solitárias sem

seu membro poderoso para apertar. Me levantei só um pouquinho, para me

apoiar em seu peito, e deixei aquele membro brilhante e escorregadio roçar a

cavidade onde seus dedos curiosos haviam brincado anteriormente. Aquele

homem sabia me provocar com coisas novas e inesperadas, mas eu também

sabia.

Ele arregalou os olhos, que ficaram quase azul-marinho, enquanto eu

rebolava montada nele com uma parte diferente e intocada do meu corpo.
Nós

dois começamos a ofegar, e dava pra ver a curiosidade e a vontade refletidas

em seu olhar. Gostei do modo como ele se sentiu ali, gostei de como eu o
senti

ali atrás, então pensei que sexo executivo tem coisas bem interessantes a

oferecer, as quais eu realmente estava perdendo ao trepar com estagiários.

Cansado daquela manipulação ardente e sugestiva, Quaid beliscou o mamilo


com o qual estava brincando com tanta força que uma pontada de dor

percorreu minhas terminações nervosas. Parei de tentar devorar sua boca e fiz

careta. Seus olhos, de azul índigo ficaram de um tom de ardósia, e pude

perceber que ele estava tão cansado de brincadeira quanto eu. Seus dedos

ágeis abandonaram meu clitóris desesperado e foram para a lateral da minha

calcinha, que estava ensopada de novo, só que dessa vez de tesão e desejo,

não de água da montanha.

– Você precisa pegar uma das camisinhas que pus no bolso da jaqueta e pôr

em mim, agora.

Então ouvi um som de tecido se partir e o estalar de um elástico. Minha

calcinha rasgou com a força de suas mãos impacientes e o roçar de uma


lâmina

gelada em minha pele. Eu já havia lido um milhão de vezes sobre homens


que

rasgam a lingerie da mulher no calor do momento, mas nunca pensei que isso

aconteceria comigo nem que o homem a fazer isso seria alguém como Quaid.

Ele era um escoteiro, estava sempre preparado, mas duvido que arrancar a

roupa das mulheres no calor do momento seja um dos usos que os escoteiros

aprendem ao ganhar seu canivete suíço. Admirei sua engenhosidade e tremi


de pensar que eu é que estava fazendo aquele homem soltar seu lado pouco
civilizado, que eu é que o havia feito voltar a seu estado primitivo, e quase

gozei em cima daquela ereção bastante dura ainda estava presa no meio das

minhas pernas.

Meu coração estava batendo forte e rápido. Enfiei a mão no bolso da

jaqueta e perguntei:

– Você trouxe camisinha para a trilha?

Não pude evitar o riso que escapou quando fiz essa pergunta.

Quaid grunhiu e pôs a mão no meio das minhas costas, para eu conseguir

sair de cima dos restos rasgados de minha calcinha e conseguir segurar seu

pau latejante. Segurei aquela ereção para pôr a camisinha. Os cílios longos de

Quaid baixaram quando meus dedos desenrolaram a borracha por cima de sua

pele esticada e sedosa.

– Vim fazer trilha com você, então é claro que trouxe camisinha. Eu levaria

camisinha até se a gente fosse apenas até o mercado ou o correio. Levaria um

punhado se fosse com você para igreja. Já te falei… – fiquei boquiaberta, e

minha cabeça caiu para trás quando ele tirou minha mão e finalmente entrou
na

abertura do meu corpo, que estava implorando e chorando para ser


preenchida

por ele e ninguém mais. – ... que você me deixa desesperado e com tesão. A

hora e o lugar, pelo jeito, não têm importância. A única coisa que importa é
você me deixar entrar.

Eu estava sentada em seu colo, arreganhada para quem quisesse ver, e só

conseguia pensar que suas palavras eram doces e acariciavam minha pele
que,

naquela altura, estava toda rosada. Ele só falava a coisa certa enquanto seu

corpo me invadia e me comia com força e rapidez. Quaid dizia coisas doces

enquanto metia em mim loucamente, e não pude fazer nada para impedir que

ele fosse ainda mais fundo nos lugares dentro de mim que disse querer

preencher.

Fiquei empoleirada em cima de suas pernas, de um jeito que não deixava

meus joelhos rasparem naquele terreno áspero em que Quaid estava


ajoelhado.

Então, só podia segurar firme em seus ombros com uma mão quando ele

levantava e baixava meu corpo por seu pau. Fiquei olhando aquele membro

grosso, brilhante, que reluzia com nosso prazer combinado, martelar meu

corpo. Quanto mais fundo ele metia, mais escuros ficavam seus olhos azuis, e

eu, mais molhadinha. Aquilo era mais do que fazer sexo selvagem e

desinibido. Era uma junção, uma conexão entre nós dois que ia muito além de

abrir minha boquinha linda para ele. Quaid tirava quase tudo e aí me

empurrava para baixo de novo, era quase impossível dizer onde um


começava
e o outro terminava. Éramos um único ser, determinados a dar prazer um ao

outro. Éramos uma única essência, concentrada em receber o que a outra

pessoa oferecia e retribuir cem vezes mais. Estávamos determinados a nos

acabar de paixão e prazer, e parecia mesmo que poderíamos tapar os buracos

que cada um de nós tinha com os pedaços que o outro deixava para trás.

Quaid me segurou na metade das costas, entre a minha pele suada e a

jaqueta pesada, para eu conseguir ir para trás, encostando as pontas do meu

cabelo, ainda molhado, no chão. Ele gritou para eu tirar o casaco da frente

dele enquanto continuava me mexendo para cima e para baixo por seu pau

como se eu fosse um pistão. Me senti usada e manipulada da melhor maneira

possível. Ele estava tomando o seu prazer e me dando o meu, e eu só

precisava me soltar em suas mãos firmes. Assim que meus peitos cobertos de

renda apareceram, ele baixou sua cabeça loura e engoliu um dos mamilos

eriçados com o calor escaldante de sua boca. Raspou os dentes sem o menor

cuidado naquela pele macia e me deixou sem ar, com um misto de dor e
prazer.

Eu já ia levantar a mão para puxar seu cabelo quando ele ordenou, com a voz

rouca:

– Põe essas mãos em você.

Já que a boca de Quaid estava ocupada lambendo e chupando meu peito

arfante, imaginei que ele só poderia querer minhas mãos em um lugar. O


lugar

que estava completamente aberto em volta do seu pau, que pulsava e vibrava

com seus movimentos rápidos de entrada e saída do meu centro trêmulo.


Cada

vez que ele tirava só um pouquinho a pontinha de sua cabeça inchada, ela

encostava nas minhas dobrinhas, e o ar gelado da montanha batia naquele

líquido que se acumulava entre nós. Eu tinha dificuldade de respirar de tão

maravilhosa que era a sensação. Quando ele se enfiava de novo dentro de

mim, expulsando o frio interno com seu tesão liquefeito, a sensação daquela

mudança de temperatura em um tecido tão sensível me fazia gritar tão alto


que

fiquei surpresa de não assustar os pássaros que estavam nas árvores ali perto.

Quaid riu da minha reação e repetiu aquele movimento mais umas duas

vezes até eu conseguir fazer meus dedos descoordenados obedecerem sua

ordem de me tocar, a qual ele não parou de repetir. Soltei seu pescoço de

veias saltadas e acariciei o mamilo que ele não estava amando com a língua e

os dentes, depois fui descendo a mão por minha barriga até chegar ao ponto

em que estávamos conectados.

O ponto que era o melhor de tudo naquele momento. Eu e ele. Ele e eu.

Dureza e maciez, indo de encontro com o calor e o frio. Tremi, e minha


carícia
esbarrou nas evidências de como a gente entendia bem o corpo um do outro.

Quando meus dedos chegaram àquele pontinho de deleite, ele vibrou com o

primeiro leve roçar da ponta do meu dedo naquele feixe de nervos sensíveis.

Gemi e fechei os olhos quando o prazer, mais poderoso do que qualquer dor

que eu já tenha me infligido, tomou conta de mim.

Senti esse prazer percorrer meus braços e minhas pernas. Senti esse prazer

pulsar por baixo da mordida dos dentes de Quaid, que se afundaram na lateral

do meu pescoço. Senti esse prazer quando meus mamilos ficaram tão duros

que causaram dor física e senti esse prazer no modo como meu corpo

abocanhou o pau pulsante de Quaid, para que não saísse do lugar. Minhas

paredes internas tiraram leite dele, meu canal tinha espasmos à sua volta, e

cada gota de desejo e satisfação que eu tinha dentro de mim saiu e nos

consumiu. Eu queria aquele homem comigo, para sempre.

Fiquei ofegando durante o orgasmo que me rasgou por dentro. Eu tinha

quase certeza de que a intensidade daquele clímax havia virado meu coração

de cabeça para baixo, tirando todo aquele lixo que costumava ficar dentro

dele. Eu mal conseguia respirar, mal conseguia pensar em nada além do fato

de aquele homem fazer coisas comigo e para mim que eu não sabia se algum

dia mereceria. Mas aí Quaid sussurrou meu nome e me dei conta de que ele

ainda estava buscando sua satisfação. Aquele homem sempre me


proporcionava prazer antes de tomá-lo para si mesmo.

Mudei de posição em seu colo, fui um pouco para cima e para a frente, para

conseguir me apoiar no chão, e comecei a me esfregar nele – com força.

Enrosquei os dedos no cabelo macio de sua nuca, segurei seu rosto com a

outra mão, para ele não conseguir se mexer e comecei a devorar sua boca
com

beijos molhados e agressivos. Era a minha vez de falar coisas doces e comê-

lo loucamente.

Fiquei balançando o quadril para a frente e para trás e beijei seu rosto,

deixando os lábios próximos de sua orelha, lambendo-a e sussurrando

baixinho:

– Você pode fazer o que quiser comigo, Quaid. Te deixo entrar com o maior

prazer, desde que você saiba o que está à sua espera lá dentro.

Não sei se foram as palavras ou a imagem que elas evocaram... Apesar de

eu nunca ter deixado ninguém me tocar naqueles lugares que ele havia
roçado,

a ideia era intrigante e quase perigosa e fez minhas partes baixas exaustas e

satisfeitas se eriçarem quando Quaid levantou os quadris com força para ir de

encontro à minha última descida. Ele rugiu para a natureza como o homem

primitivo e animalesco que era quando estava ali, naquele lugar comigo, e

senti que todo o seu corpo grande se sacudiu quando o orgasmo tomou conta
dele. Senti seu pau se remexer e pular dentro de mim quando ele parou de

mexer o quadril, e as chamas dos seus olhos se apagaram.

Seu peito subia e descia, como se ele tivesse corrido um quilômetro e meio.

Sorri enquanto ele me abaixava até o chão, tomando cuidado para que o
tecido

pesado de sua jaqueta me protegesse e se acomodando no meio dos meus

quadris, onde ainda estávamos conectados um ao outro.

Quaid levantou a mão e tirou meu cabelo, que estava em uma bagunça sem

fim, do meu rosto. Acariciou minhas bochechas rosadas e murmurou:

– Minhas montanhas ainda estão de pé depois que meu furacão passou por

elas.

Tremi e senti um aperto no coração com seu tom possessivo. Levantei os

braços e o puxei para perto.

– Pelo menos, desta vez, a destruição não foi tão grande.

Ele sabia tão bem quanto eu que eu era capaz de muito mais.

Ao levantar a cabeça e me olhar, seus olhos tinham voltado ao tom azul

acinzentado de sempre e refletiam uma emoção que não consegui reconhecer.

– Não tenha tanta certeza disso, Avett.

Não gostei de sua cara séria depois de termos feito o sexo mais incrível do

mundo. Por isso, lhe dei um beijinho de leve e fiquei esfregando meu nariz
no
dele.

– Só para constar – levantei a sobrancelha e o apertei naquele ponto em que

ainda estávamos conectados por dentro –, sempre vou pular e achar que vale
a

pena correr o risco. Isso faz parte de mim.

Não consegui ver, por sua expressão, se ele concordava ou não comigo

sobre o risco. Mas, quando falei que tomava pílula e havia feito exames assim

que me dei conta da gravidade do vício de Jared, ele levantou a cabeça e me

pareceu bem mais interessado em correr riscos diferentes, que incluíam não

ter nenhum tipo de proteção entre nós.

CAPÍTULO 14

Quaid

FIQUEI SURPRESO COM A FACILIDADE COM QUE VOLTEI AO


PAPEL DO SUJEITO QUE SABE

viver sem nada e fazer o máximo com muito pouco. Os dois dias que

passamos naquela cabana minúscula, com nada além do fogo ardente e de

Avett para me entreter, foram alguns dos mais tranquilos, relaxantes e

estimulantes que eu tinha em… nem lembro há quanto tempo. Achei que era
ela

que precisava fugir da confusão de sua vida, mas acabou que fui eu quem

realmente se beneficiou do isolamento forçado. O silêncio antes me


assombrava e zombava de mim, com seu vazio e suas lembranças; agora tira

todo tipo de espinho que eu achava ter arrancado sem dó. Além disso, quando

Avett grita ou sussurra meu nome, o som fica muito melhor sem nada ao
redor

para se perder.

Tinha a sensação de que os dois lados da minha alma, que sempre foram

separados à força, estavam começando a se juntar, mas Avett, na selva de

pedra, não parecia nada diferente do que costuma ser. Foi pescar comigo sem

reclamar e não se abalou quando tivemos que limpar e cozinhar nossa própria

comida. Andou pela floresta comigo, e seu cabelo ficou cheio de agulhas de

pinheiro e cascas de árvore, porque a vegetação ficava roçando nela com a

mesma vontade que eu tinha de tocá-la. Eu a levei para um estande de tiro

improvisado que fez parte da minha juventude e fiquei chocado e, admito,

impressionado ao ver que ela maneja uma arma de fogo quase tão bem
quanto

eu. Avett deu risada e falou que, quando se é filha de um homem durão,
coisas

como acertar na mira e não ficar choramingando ao ver sangue vinham no

pacote. Ela só reclamava quando tinha que ir ao banheiro no meio da noite,

não por ter que usar a casinha caindo aos pedaços, mas pelo medo dos leões

da montanha e dos ursos. A gente só tinha o que coube nas duas mochilas que
minha moto Ducati nos obrigou a levar, e ela não sentiu falta de nada. Eu

estava feliz comigo e com a floresta e por eu ter feito algo fundamental em

relação a todas as verdades que passei tanto tempo excluindo de minha

realidade.

Queria que as posses fossem importantes porque tive muito pouco quando

era criança. Queria que as coisas me tornassem importante e preenchessem

todos os vazios de minha infância e os que o rompimento com a minha


família

e a farsa do meu casamento deixaram na minha vida. Queria ter muitas coisas
e

muitos objetos para que ninguém duvidasse do meu sucesso ou do meu valor,

porque vivia constantemente com medo de que alguém, tipo minha ex-
mulher,

achasse que eu não era bom o bastante. Sou inteligente a ponto de saber que

esse era um medo bastante enraizado, por ter crescido com pais que estavam

mais interessados em me ensinar a sobreviver do que a amar ou a ser um

homem bom. Como queria estudar, como queria sair dali, como queria mais
do

que eles achavam que eu precisava, meus pais sempre me consideraram o

integrante mais fraco da família. Eu não era forte o bastante. Eu não era

resiliente o bastante. Eu não era firme nem corajoso o suficiente para ser o

homem que eles queriam que eu fosse. Então fui atrás de uma garota que, tive
certeza, jamais se conformaria com o tipo de vida que eu levava. Me atirei de

cabeça em uma guerra por um governo que a minha família desprezava.

Escolhi uma carreira que tinha tudo a ver com leis e regras e escolhi o lado

que, com certeza, me faria ir parar nas páginas dos jornais e na linha tênue da

ética e da moralidade. E consegui todas as posses. Mergulhei a mim mesmo

nas coisas porque tinha algo a provar.

Só que agora nem sei direito para quem estou tentando provar essas coisas,

caramba!

A garota realmente havia desarmado cada pedacinho do meu ser e me

reduzido ao que há de mais básico em mim, meu ser mais puro que, pelo
jeito,

não dá a mínima importância para todas as coisas opulentas e reluzentes que

me cercam. Avett fica feliz comigo seja lá onde eu estiver, então não preciso

me matar para tentar mostrar a ela as coisas boas da vida.

Meus pais não se deram o trabalho de entrar em contato comigo desde que

contei que comprei a terra para eles. Só me avisaram que não iam voltar para

o continente. Eu e Harrison sempre fomos próximos, mas quando ele foi

embora para o Alasca, e meus pais foram atrás, passei a pensar que todos

eram farinha do mesmo saco. Nunca dei uma chance a meu irmão mais novo.

Ele não deve nem saber que meu casamento acabou, mas também não faço

ideia do que ele anda fazendo, de como anda sua vida. Eu achava que minha
família tinha me abandonado, mas nunca fiz nada para acabar com essa

distância ao ficar mais velho e, provavelmente, nada mais sábio.

Se Lottie tivesse ficado impressionada, talvez não teria me traído nem

reclamado tanto da vida que tínhamos juntos. Eu quis dar tudo para aquela

mulher, e tentei, mas ela sempre precisava de mais. Por isso eu sabia que, não

importava quanto eu trabalhasse ou gastasse, minha ex jamais me olharia e

acharia que eu fiz um bom trabalho. Para Lottie, eu sempre seria aquele

moleque que não tinha nada, que havia se esforçado ao máximo para ficar
com

a garota que era muita areia para o seu caminhãozinho.

E aí tinha Orsen e os caras do escritório. Eu me mato de trabalhar, pego os

casos que os outros advogados têm medo de pegar e ganho mais do que
perco.

Eu faço dinheiro para eles. Me encaixei no modelo que estava delimitado


para

mim quando fui contratado e fiz isso com toda a determinação, pensando em

um objetivo maior. Mas a verdade é que, por mais bacana que seja minha
casa

e mais caros que sejam meus ternos, eles ainda não me promoveram a sócio,
e

fiz mais do que precisava para merecer ter meu nome na placa. Não sei se é

porque não tenho um diploma de uma universidade de elite como os outros


sócios têm, porque meu divórcio escandaloso foi parar no jornal ou se eles

sabem simplesmente que, por baixo de todo o verniz, sou um sujeito que

apenas banca o civilizado e educado. Fico me perguntando se aqueles

espinhos que são tão visíveis aqui, no meio da natureza e com essa mulher,
são

tão óbvios para as pessoas que não nasceram com eles. Fico me perguntando

se a pessoa que nasci para ser estava me impedindo de ser o homem que eu

tinha tanta certeza de que queria ser.

Depois de acordar com o alvorecer na cara e um cabelo cor-de-rosa

enroscado em minhas mãos, acordei Avett com beijos, carícias e a

esquentando na frente do fogo. Odiava precisar levá-la de volta para um lugar

que não era seguro e odiava ainda mais precisar devolvê-la para outro homem

mantê-la longe da confusão que sempre a perseguia. Dava para ver que ela

estava nervosa quando paramos para almoçar, já tarde. Tentei tranquilizá-la

dizendo que, assim que seu ex fosse a julgamento e percebesse que o

advogado dele tinha interesses mais importantes, Jared faria qualquer coisa

para se garantir. Tinha um pressentimento de que a primeira noite que ele

passasse na cadeia sem a proteção de Acosta o faria contar uma nova versão

da história.

Avett balançou a cabeça, mas dava para ver que ela ainda estava

preocupada com o que poderia acontecer, e isso me deixou com um aperto no


coração, porque eu também estava preocupado. Normalmente, trabalho para

libertar pessoas como o tal Jared. Nunca queria saber da história e, quando a

história estava bem na minha cara, apavorada e tentando não demonstrar isso,

entendi por que mantenho tanta distância dos meus clientes. Ter vínculos

pessoais significa não conseguir fazer direito o trabalho para o qual me

contrataram. O motivo para eu ser tão fora do normal e volúvel com ela desde

o começo foi Avett ter conseguido me contar a sua história sem precisar de

palavras. Estava em seu olhar e no jeito como ela ficou sentada ali, presa,

arrasada e indefesa diante das circunstâncias, sabendo que ela mesma havia

orquestrado a própria queda. Avett nunca foi uma cliente. Nunca foi um

trabalho ou mais uma vitória para eu pôr debaixo do braço e mostrar a todo

mundo, tentando conseguir uma aprovação. Eu não deveria precisar nem

querer isso. Ela não enxergava apenas o homem por baixo da minha fachada;

ela havia conseguido enxergar além da minha máscara profissional.

Quando chegamos em Denver, quis levá-la para minha casa, mas Avett

insistiu que precisava ficar um tempo com os pais, já que estavam todos

morando sob o mesmo teto pela primeira vez depois de muitos anos. Como
eu

precisava trabalhar cedo e não fui para o escritório no sábado, sabia que a

minha mesa estaria lotada de papéis quando eu chegasse, então concordei,


com
relutância. Também não pude deixar de notar o olhar de recriminação que

Brite fez quando parei na frente da casa com Avett na garupa da moto. Para
ser

justo, não sei se o olhar foi porque eu estava com a filha dele enroscada em

mim ou porque a minha moto não foi feita nos Estados Unidos. De qualquer

modo, balancei a cabeça, reconhecendo que ele estava me olhando, e levantei

o visor fumê do capacete para poder olhar para Avett, aquele furacão
baixinho

que havia explodido todos os meus mecanismos de defesa e virado minha


vida

tão certinha e estruturada de cabeça para baixo, quando ela desceu da moto e

chegou do meu lado.

Avett ficou na ponta dos pés, me deu um beijo na ponta do nariz e falou que

depois me mandava mensagem.

Voltei para meu loft desolado e sem vida e tomei um banho escaldante, para

pôr a cabeça no lugar e conseguir trabalhar na manhã seguinte. Não


funcionou.

Só conseguia enxergar um par de olhos com todas as cores da floresta da qual

havíamos acabado de voltar. Só conseguia sentir uma pele macia e um cabelo

sedoso roçando em meu corpo. Havia escovado os dentes antes de entrar no

banho, mas só conseguia sentir um gosto de doçura misturado com loucura.

Todos os meus sentidos haviam sido contaminados por ela e, quando


desliguei

o chuveiro e deitei pelado, tive a certeza de que ia passar a noite em claro.

Estava de pau duro e com a cabeça bagunçada. O que era uma situação

incômoda e irritante.

Estava lendo emails do trabalho, com as luzes desligadas, quando apareceu

uma mensagem de Avett. Eu estava esperando um “boa noite” ou “a gente se


amanhã”. Mas recebi o seguinte:

Estou com saudade do seu pau. Tive vontade de mandar essa mensagem da

primeira vez que você me beijou, mas me segurei.

Pisquei para a tela acesa. Li e reli a mensagem para ter certeza de que

estava enxergando direito. Ninguém me mandava mensagens assim …

Ninguém a não ser a Avett Walker. Não tenho muita prática em fazer sexo
por

mensagem e, francamente, não sabia se era bom nisso, mas quis tentar.

Ele também está com saudade.

Está duro para mim?

Olhei para o lençol escuro levantado na minha frente e soltei uma risada,

feliz por não ter me livrado do incômodo que pensar em Avett causou durante

o banho.

Bastante.
Quero seu pau na minha boca ou nas minhas mãos. Não sou exigente. Onde

você quer, Quaid ?

Gemi naquele quarto escuro e olhei para as luzes acesas da cidade, que

ficaram me observando fechar a mão em torno do meu pau pulsante como

voyeurs curiosos. Senti o sangue bombear debaixo dos meus dedos e a tensão

se acumular na base da minha coluna.

Fico de boa nos dois lugares.

KKKK. Não… Onde você quer de verdade esse pau que está tão duro por

minha causa, Quaid?

Em tantos lugares… Queria no meio das pernas de Avett, onde ela sempre

estava molhadinha e pronta para me receber. Queria deixá-la de quatro e

possuí-la onde, tenho certeza, ninguém ainda a possuiu. Poderia morrer feliz

com aquela boquinha safada no meu pau, tão fundo lá dentro que ela não

poderia me atingir com suas palavras nem contar aquelas histórias da sua
vida

que acabam comigo. Eu poderia gozar com aquelas mãozinhas subindo e

descendo por meu membro. A palma macia de sua mão me acariciando e

segurando minhas bolas, com Avett sussurrando no meu ouvido todas as

maneiras em que quer ficar comigo... Mas, já que estava tudo escuro e eu

estava me masturbando enquanto fantasiava, falei a verdade. Falei o que eu

queria comer desde a primeira vez em que pus os olhos naqueles peitos
espetaculares.

Quero comer seus peitos. Quero beijá-los e chupá-los até você ficar toda

molhadinha…

Fiquei meio ofegante, porque revelar isso a Avett fez meu sangue ferver.

Chutei os lençóis de cima de mim e apertei a base do meu pau – com força –,

bem na hora em que o prazer começou a vazar pela pontinha. Digitar só com

uma mão ao mesmo tempo em que me masturbava exigia mais coordenação


do

que eu poderia imaginar.

Quero que você se deite de costas, esprema esses seus peitos fantásticos
contra

o meu pau e me deixe comê-los enquanto abre essa sua boquinha e chupa a

cabeça dele até eu gozar dentro da sua garganta.

Não recebi resposta por um tempo, mas o sinal de que ela estava digitando

ficou piscando na tela.

Nunca fiz isso. E, como fiquei molhadinha só de ouvir, acho que vou pôr na

lista das coisas que preciso experimentar.

Juro que meu pau pulou quando li essas palavras.

Posso te mostrar tudo o que eu sei, com o maior prazer, Avett.

Que sorte a minha. Você já está quase lá? Está me imaginando passar a mão
no
meu próprio corpo, pensando em você, imaginando você fazer várias delícias

com esse seu pau executivo?

Espremi os olhos ao ler aquela terminologia em referência a meu membro.

Precisava perguntar o que Avett queria dizer com aquilo, mas naquele

momento me distraí, porque minhas bolas começaram a doer, avisando que


eu

estava quase lá.

Gemendo, passei o dedão na tela até encontrar o número de Avett e apertei

o botão para ligar e poder fazer uma chamada em vídeo. Quando ela atendeu,

como estava escuro, só consegui ver seus olhinhos brilhando e aquele

sorrisinho safado.

– Demorou – a voz dela estava baixinha e ofegante, como sempre quando

ela estava prestes a gozar. – Quando te falei que você me deixou molhadinha,

tive certeza de que você ia ligar.

– Estou quase gozando e imaginei que você ia querer testemunhar os frutos

do seu trabalho.

Aquilo era uma coisa bem fora do meu normal, bem diferente do jeito como

eu costumava trepar, mas era gostoso. Dava uma sensação de certeza

libertadora.

Avett gemeu um pouquinho, e observei ela mudar de posição, se deitar e

segurar o celular na frente do rosto. Dava para ver seus ombros se mexerem
enquanto ela se masturbava do outro lado da linha.

– Estou quase lá, mas tentando não fazer barulho. Nada de orgasmos

espalhafatosos na casa da mamãe.

Dei uma risadinha, gemi e espalmei a mão em cima da cabeça molhada do

meu pau. O líquido se espalhou e, por melhor que fosse, não era nada

comparado com a boca de Avett ou com suas carícias suaves.

– Avett, levanta um pouco o telefone. Quero ver mais seu corpo.

Estava escuro, eu não ia conseguir ver muito daquela pele linda, mas ela

obedeceu minha ordem ríspida quase instantaneamente. Fiquei olhando seu

peito subir e descer com rapidez, seus mamilos se endurecerem de prazer e

seu corpo se mexer no ritmo do que a sua mão, que não aparecia na tela,

estava fazendo.

Suspirei seu nome e falei, curto e grosso:

– Juro que esses peitos vão acabar comigo.

Ela estava corada, e sua respiração começava ficar ofegante.

– Não sabia que você gostava tanto de peitos.

Avett lambeu o lábio inferior e sussurrou meu nome, jogando a cabeça para

trás, por cima dos travesseiros.

– Não gostava, até conhecer os seus.

– Que bom.
Ela fechou os olhos e o final de “bom” emendou com um longo “mmm”. A

mulher começou a ofegar de verdade, e gritei seu nome, para ela me olhar.

Ela balançou a cabeça e disse “sim”.

Meu quadril corcoveou ao ouvir isso, e comecei a subir e a descer a mão

com muito mais força do que costumo fazer nessa situação. O desejo latejava,

furioso, e o prazer gritava, em algum ponto profundo de mim, pedindo para


ser

libertado.

– Quero que você goze comigo, não pare de me olhar.

Avett balançou a cabeça. Eu sabia que podia pedir para ela baixar o

celular, para eu conseguir enxergar seus dedos se mexendo naquelas


dobrinhas

escorregadias, para conseguir vê-los brincar com aquele lindo pedacinho

rosado que ficava todo inchado para mim, mas era seu rosto que eu queria ver

enquanto ela chegava ao clímax. Queria saber que eu é que fazia isso com
ela,

mesmo que estivesse do outro lado da cidade. Queria que esse nosso lance

fosse tão poderoso e tão importante a ponto de nos arrebatar, não importa o

meio de comunicação.

– Quaid…

Ouvir Avett pronunciar meu nome como se fosse a coisa mais doce do
mundo me fez gozar.

Urrei seu nome e soltei um gemido satisfeito quando os fluidos fortes de

satisfação saíram pela ponta do meu pau indo parar em minha barriga.

Fiquei olhando Avett fechar os olhos, levantar o peito da cama e balançar a

cabeça. Ela mordeu o lábio inferior com tanta força que deixou marca, e seu

corpo inteiro ficou do mesmo tom de rosa de seu cabelo. Queria lamber
aquela

mulher como se ela fosse meu pirulito de cereja. Ela é espetacular, e o prazer

que encontrou pensando em mim, imaginando nós dois, foi o presente mais

valioso que alguém já me deu.

Esperei alguns segundos para ela voltar do torpor do sexo e, quando isso

aconteceu, ela deu uma risadinha sem a menor vergonha de ter gozado para

mim de um jeito tão espetacular.

Suspirei e me sentei na beirada da cama. Ia precisar tomar outro banho.

– Isso foi lindo, Avett, e você também é linda.

Ela piscou para mim e se ajeitou na cama.

– O senhor é que é lindo, doutor.

Soltei mais um suspiro profundo.

– Por mais divertido que isso tenha sido, não é nada comparado a ver você

gozar ao vivo e a cores. Nunca fui muito bom de ver sem usar as mãos. Eu

gosto de coisas, lembra?


Avett bocejou e me deu um sorriso sonolento.

– Deixo você pôr a mão em tudo que quiser quando dormirmos juntos de

novo. Deixo você fazer essas coisas safadas e sensuais que ninguém poderia

imaginar que um homem como você gosta. Vou dormir. Boa noite, Quaid.

Um homem como eu pensa nessas coisas. Mas eu nunca havia contado para

ninguém, até a pessoa certa aparecer. Um homem que nunca pensou que a

pessoa certa poderia ser um minidínamo de cabelo rosa com gosto pela

autodestruição e pela confusão.

– Boa noite, Avett. Vê se se cuida amanhã.

Ela balançou a cabeça, quase dormindo, e respondeu:

– Pode deixar.

Então me mandou um beijinho, e a tela ficou preta.

Me levantei e fui até o banheiro. Só quando já estava na metade do meu

segundo banho da noite que me lembrei que queria saber o que Avett quis
dizer

com “pau executivo”. Ri e limpei da minha barriga as evidências do efeito


que

aquela mulher tem sobre mim. Fiquei me perguntando se a pessoa que


cunhou a

expressão “quem planta vento colhe tempestade” conhecia Avett Walker.

NO DIA SEGUINTE, FIQUEI ATOLADO NO ESCRITÓRIO, COM UMA


REUNIÃO DEPOIS DA
outra. Alguns casos eu já havia aceitado, mas também havia uns clientes

novos. Clientes novos que analisei com muito mais cuidado do que
costumava

fazer. Fiz perguntas. Queria saber de detalhes que iam além do extrato

bancário e da capacidade de pagarem minhas custas. Dispensei um sujeito


que

havia saído da cadeia sob fiança, suspeito de ter cometido um incêndio

criminoso. O homem é amigo de Orsen e me falou que o sócio do escritório é

que havia me indicado para ele e que eu não poderia ter sido mais elogiado.

Agradeci os elogios. Mas, quanto mais conversava com ele, mais sua

autoconfiança insuflada e seu jeito de quem acha que tem direito a tudo

ficavam óbvios. E mais certeza eu tinha de que não podia nem queria aceitar
o

caso. O homem estava sendo acusado de tocar fogo na casa da namorada

depois de ela tê-lo trocado por outro. Era um crime brutal e desnecessário. E,

quando falou que a namorada, o namorado dela e o filho dos dois estavam em

casa quando o incêndio começou, precisei de todo o meu autocontrole para

não pular por cima da mesa e dar um tapa em sua cara. Aquele homem não

tinha o menor remorso, a menor decência de fingir que sentia pena pelo que

havia sido perdido. Considerando quanto Avett ficou arrasada depois do

incêndio que destruiu sua casa, eu não tinha estômago para ajudar aquele
sujeito.

Falei que não poderia pegar o caso, e ele teve a reação esperada.

Ficou puto. Me chamou de golpista. Disse que ia reclamar com meu chefe.

Falei que, se era tão amigo de Orsen, devia pedir para o sócio defendê-lo no

julgamento. Ele saiu bufando da minha sala, batendo a porta e deixando um

fedor de culpa e de erro.

Tive a certeza de que ter dispensado o caso e o cheque que viria com ele

fariam Orsen aparecer em minha sala. Então, quando a recepcionista falou


que

eu tinha visita, a última pessoa que eu esperava ver passando pela porta era

Avett.

Ela estava usando uma legging cheia de rosas coloridas que se ajustavam

às suas pernas cheias de curvas como uma segunda pele, com os coturnos de

sempre e uma blusa preta comprida e justa com decote redondo que se abria

no quadril como um tutu. Parecia uma bailarina hispster com aquele cabelo

tecnicolor no alto da cabeça, preso em um coque bagunçado, sorrindo com

aqueles lábios pintados de vermelho.

Antes que eu pudesse perguntar o que ela estava fazendo lá no centro, no

meu escritório, quando deveria estar trancada a sete chaves, ela enfiou uma

marmita de isopor em minha mão e se abaixou para me dar um beijo intenso


na
boca, que ficou mole de tanta surpresa.

– Asa é a minha babá de hoje, e tinha um imóvel aqui na esquina que ele

queria dar uma olhada. Está querendo abrir o próprio bar. Tipo um bar

clandestino da época da Proibição, só que chique. Perguntou se quero

comandar a cozinha para ele – Avett soltou uma gargalhada e disse: – Ele
está

maluco – seus olhos brilhavam, e ela apoiou o quadril no canto da minha

mesa. – Falei que teu escritório era logo ali, e ele me trouxe até a entrada.
Mas

aí eu vi um food truck de comida grega do outro lado da rua e imaginei que

você poderia não ter almoçado ainda. Então pensei em passar para dar um

“oi” e te alimentar – suas palavras saíram atropeladas. Avett sorriu para mim,

e tive a sensação de que esse sorriso preencheu boa parte do vazio que eu

tinha por dentro. – Estou apaixonada pelos food trucks. São muitos tipos de

comida. E, como andam pela cidade toda, a gente nunca fica no mesmo lugar.

Liberdade e comida, essas duas coisas falam fundo na minha alma –


finalmente

ela ficou sem fôlego. – Então, oi, aqui está o almoço.

Pus a mão em seu joelho e fiz sinal para ela se abaixar, para poder roçar

meus lábios nos seus.

– Oi.
Foi um beijo doce. Um beijo que era mais do que um simples roçar de

bocas. Tive quase certeza de que sentir aqueles lábios carnudos nos meus era

como se o seu coração batesse contra o meu.

Avett pôs a mão em meu rosto, ficou fazendo carinho e falou:

– Você está com cara de cansado.

Bufei e subi a mão por sua coxa até chegar na curva voluptuosa de seu

traseiro. Minha vontade era de arrancar aquela legging ridícula e pôr Avett
em

meu colo, bem em cima do meu pau.

– Por que será?

Ela deu uma risadinha maliciosa e encostou a testa na minha.

– Não faço a menor ideia.

Eu já ia beijá-la de novo, mas, quando estava me levantando para segurar

seu rosto e jogar sua cabeça para trás, a porta se escancarou e bateu na parede

com tanta força que meus diplomas e certificados saíram do lugar.

Eu sabia que Orsen ia ficar chateado por eu ter recusado o caso do amigo

dele, mas não esperava vê-lo com a cara vermelha, os olhos espremidos,

bufando e entrando daquele jeito em minha sala. Avett tirou as mãos de mim,

me afastei dela e cheguei mais perto de Orsen, que nos olhava com uma

expressão de fúria. Vi que ele mediu o cabelo diferente da garota e sua roupa

colorida e retorceu a boca, em uma expressão de desdém e raiva.


– Se você queria trabalhar com caridade e ser pago com chupada, deveria

ter ido para a promotoria, Jackson. Nosso escritório não trabalha pro bono,

nosso escritório tem clientes que pagam… com dinheiro. Não com qualquer

outra coisa que tenham a oferecer.

Ouvi Avett segurar a respiração e percebi, de canto de olho, que seu corpo

inteiro ficou tenso.

Pus a mão na cintura, olhei feio para Orsen e falei:

– Agora já chega. Faz anos que escolho meus casos, Orsen. Fiz por merecer

esse direito. O de hoje não foi diferente.

Seu olhar furioso se voltou para Avett e depois para mim, com uma

expressão de repreensão e ameaça que ficava óbvia a cada piscada que ele

dava.

– Não, mas o caso dela foi diferente. Você por acaso se deu o trabalho de

mandar a conta para essa menina ou resolveu que não tem problema nenhum

perder seu tempo e os recursos valiosos do escritório só porque queria ficar

de pau molhado?

Abri a boca para falar que Orsen precisava calar aquela boca, mas ele

levantou a mão antes de eu conseguir dizer qualquer coisa.

– Se você quer ter a mínima chance de ser sócio deste escritório, vai

aceitar aquele caso, já deveria ter aceitado. Vai dar “tchau” para o seu
brinquedinho, mandar a conta para ela e dar um jeito de encontrar... – a

expressão de desprezo em seu rosto era tão feia que, se eu não tivesse
passado

anos aperfeiçoando minha cara de paisagem para o júri, eu teria ficado com

uma expressão de pavor – ...uma companhia apropriada e conveniente para

levar na festa do escritório. Não sei onde você está com a cabeça, Quaid, mas

esse comportamento não combina com o jovem que contratei. Começo a me

perguntar se a sua ex não levou mais do que metade da sua conta bancária

quando te largou. Pelo jeito, seu bom senso também se foi.

Ele lançou mais um olhar depreciativo, girou nos calcanhares e saiu da

minha sala do mesmo jeito debochado como entrou.

Passei a mão no rosto e me virei para Avett, que olhava fixamente para o

ponto pelo qual Orsen havia acabado de sair, de olhos arregalados e com o

lábio inferior tremendo.

– Me desculpe por isso – esse pedido de desculpas me pareceu ínfimo em

comparação ao que meu chefe havia acabado de dizer a ela. – Orsen é meio

das antigas. Não é muito… progressista.

Ela limpou a garganta, e pude perceber como havia ficado abalada com

aquele encontro fortuito. Pus a mão em seu braço, porque ela se recusou a

olhar nos meus olhos.

– Asa me mandou uma mensagem dizendo que já viu o imóvel e está me


esperando lá embaixo.

Segurei o monte de palavrões que queria dizer e pus a mão em seu ombro.

– Avett, não deixa o Orsen te atingir. Você é diferente, e seu caso foi

diferente, mas não teve nada a ver com eu querer tirar a sua roupa.

Ela finalmente levantou os olhos, e pude ver claramente o desastre e a

destruição se debatendo com força e fúria naquelas profundezas coloridas.

Meu furacão havia chegado e estava prestes a encher de destroços aquela

coisa frágil que estava começando a criar raízes e tomar forma entre nós.

– Avett…

Só falei seu nome, mas era uma súplica, uma jura de que eu não concordava

com Orsen, uma súplica que dizia que eu jamais a desvalorizaria nem a

diminuiria como meu chefe havia feito.

Ela sacudiu a cabeça e deu um passo para o lado. Um sorriso amarelo

retorceu sua linda boca e me deu vontade de quebrar tudo o que havia dentro

daquela sala.

– Manda a conta, Quaid. Eu vou dar um jeito de pagar. Sei que você disse

que não queria que cheques e extratos nos atrapalhassem, mas sempre

atrapalham.

Urrei e dei um passo em sua direção, mas Avett levantou as mãos, como se

estivesse tentando se defender de mim.


– Não ligo para a porra da conta, Avett. Ligo para você, para a sua

segurança, para você parar de tentar destruir tudo de bom que existe na sua

vida, tentando compensar o fato de uma menina estar morta – com um gesto

apontei para nós dois, balançando o braço com fúria. – O que rola entre nós é

bom, mais do que bom, e você não aguenta. Está tentando transformar isso
em

algo ruim desde que começou.

Minhas palavras foram duras, em tom de acusação, e eu sabia muito bem

que não devia atacar alguém que estava se sentindo vulnerável daquele jeito.

Já tinha visto várias testemunhas se fecharem completamente depois de a

promotoria usar táticas similares.

– Talvez eu estivesse esperando que isso desse errado, porque, vamos ser

sinceros, Quaid, quantas coisas boas realmente saem das péssimas escolhas

que a gente faz? – ela piscou para mim e espremeu os olhos. – Nunca vou ser

uma companhia apropriada e conveniente. Nunca vou ser do tipo de mulher

que você pode levar para uma festa chique do seu escritório… Uma festa

sobre a qual você nunca comentou comigo.

Me encolhi todo, porque ela tinha razão. Nunca havia tocado nesse assunto,

porque ainda faltava um mês para o evento, e a sua situação atual, com a
perda

da casa e aqueles caras desconhecidos atrás dela, me parecia mais urgente do


que qualquer convescote esnobe ao qual eu nem queria ir.

Avett encolheu os ombros e foi até a porta, que ainda estava aberta.

– Eu cresci nos fundos de um bar. Meu pai é metade motoqueiro, metade

santo. A minha mãe é cozinheira de boteco e tem quase tantos problemas

quanto eu. Eu fico uma graça de cabelo rosa e não tenho planos de mudar
nem

o cabelo nem a minha personalidade tão cedo. Gosto das minhas origens e,

finalmente, estou começando a gostar da pessoa que estou me tornando – ela

limpou a garganta e, se eu não a estivesse observando com olhos de lince,


não

teria percebido o brilho das lágrimas que cobriam seu olhos. Ela nem se virou

para trás para falar: Não estou mais tentando compensar uma menina que

morreu, e é quase exclusivamente por sua causa. Mas ainda tem muita gente
na

minha vida a quem devo desculpas e demonstrações de arrependimento. Não

estou nem um pouco interessada em escrever o seu nome nessa lista, doutor.

Ela foi até a porta e a fechou com delicadeza. Voltei para trás da mesa,

peguei a comida que ela havia levado para mim e a joguei no lixo com mais

força do que o necessário. Chutei a mesa, o que só serviu para estragar meu

sapato e me deixar ainda mais de mau humor. Atirei meu corpo grande na

cadeira de couro e olhei feio para os certificados e diplomas tortos que


pareciam prestes a cair da parede. Dei muito duro para conquistar todos

aqueles pedaços de papel, na certeza de que iam garantir que eu tivesse a vida

que eu queria e tudo o que eu achava que me faria feliz...

Naquele momento, eu os vi exatamente como eram: pedaços de papel que

não significavam nada, a menos que o homem que os possuísse fizesse algo

que valesse a pena com seu tempo e seu talento.

Foi só depois de sair do escritório, de ignorar vários e-mails de Orsen

exigindo que eu pegasse o caso do amigo dele, que me ocorreu que Avett não

tinha ido embora porque estava magoada com o que Orsen havia lhe dito. Ela

estava magoada por causa do que ele disse para mim. Aquela menina é capaz

de aguentar bordoadas e mais bordoadas, porque é assim que ela funciona,

mas não suporta ver alguém de quem gosta, talvez até ame, na linha de fogo.

Ela não queria pôr meu emprego e uma possível promoção em risco por
causa

do nosso relacionamento. Nunca escondi quanto a minha carreira é


importante

para mim. Ela estava me protegendo do único jeito que sabia… destruindo as

coisas boas e abrindo mão da própria felicidade. Avett se sentiria culpada se

meu emprego no escritório fosse ameaçado porque estamos juntos e estava

cortando essa culpa pela raiz.

Me xinguei de todos os sinônimos de imbecil que consegue imaginar, por


não ter reconhecido antes qual era a sua motivação. Fiquei tão concentrado

formulando meu contra-argumento, o interrogatório que eu estava


determinado

a fazer com ela, que me esqueci que aquela menina por quem eu estava me

apaixonando era feita de partes iguais de redemoinho e de mártir.

CAPÍTULO 15

Avett

SÓ DEPOIS DE EU PASSAR ALGUNS DIAS CHORAMINGANDO PELA


CASA DA MINHA MÃE E

me recusando a atender quando Quaid telefonava que meu pai resolveu

perguntar o que havia acontecido com o advogado bonitão. Minha mãe não

perguntou nada, mas toda vez que nossos olhos se cruzavam, ela me lançava

um olhar de súplica, dando a entender que para ela eu deveria fazer de tudo

para consertar aquela situação. Tive vontade de dizer que, pela primeira vez,

eu havia terminado pelos motivos certos, e não para me sentir como se eu

tivesse arrancado meu coração do próprio peito e atirado aos pés de Quaid.

Eu havia me ferido, sim, mas fiz isso para que o homem por quem eu tinha

quase certeza de que estava apaixonada não precisasse sofrer. E, com certeza,

sofreria se continuasse indo por aquele caminho. Quaid merece mais do que

ficar andando em círculos em um beco sem saída e sem fim só porque quer

ficar comigo.
Não dava para confundir o desdém e o julgamento na expressão de seu

chefe ao ver o afeto que rolava naturalmente entre nós dois, e suas palavras

hostis foram tão verdadeiras quanto difíceis de ouvir. Não sou apropriada
nem

conveniente para o estilo de vida de Quaid e jamais vou combinar com o tipo

de pessoa com quem ele trabalha e quer tanto impressionar.

Finalmente senti aquele nível de dor e de agonia que estava buscando desde

a noite em que tudo deu errado. Parecia que meu coração nunca mais ia

funcionar direito. Tudo dentro de mim doía e latejava como se tivesse levado

a pior surra possível e imaginável. Nunca vou acreditar ter pago a dívida que

tenho com Autumn e sempre vou carregar a culpa pelo que aconteceu com
ela,

mas Quaid me ajudou a ver que todos somos responsáveis por nossas
próprias

ações e que só temos como controlar a nós mesmos e a pessoa que nos

tornamos por meio de nossas escolhas. Minhas frequentes péssimas escolhas

não me tornaram uma péssima pessoa. Mas o modo como encarei essas

escolhas e permiti que elas se tornassem algo ainda pior fizeram de mim uma

pessoa descontrolada, que precisava de ajuda.

Me afastar de Quaid e das coisas boas que ele tinha a oferecer não me

parecia a melhor opção, mas eu sabia que estava tomando essa decisão pelos
motivos certos, e isso é um grande passo em relação ao que eu era antes de

conhecê-lo. Finalmente, conheci o homem certo. Pena que sempre serei a

mulher errada para ele.

Meu pai foi mais direto que minha mãe. Sempre foi. Esperou até Darcy ir

para a cama uma noite e se sentou comigo no sofá, quando eu estava imersa
em

uma maratona da animação Archer, tentando ser tão durona quanto a Lana,

namorada do personagem principal. Era uma situação muito triste, uma

indicação bem clara de que meu coração estava partido o fato de aquele

superespião hilário não ter conseguido arrancar uma risada sequer de mim

durante as duas horas em que fiquei fora do ar na frente da TV. Não foi só
meu

coração que ficou partido com esse rompimento, eu fiquei toda despedaçada.

Brite passou o braço carnudo por meu ombros e me puxou para perto. Pus

minha cabeça em seu peito, soltei um suspiro trêmulo e fechei os olhos,


porque

as lágrimas, que estavam determinadas a cair desde que saí da sala de Quaid,

se acumularam de novo atrás das minhas pálpebras.

– Você quer contar o que foi que aconteceu? – sua voz grave foi um

consolo, e fiquei absorvendo seu cheiro tranquilizante de pai. – Apesar de o

sujeito ter péssimo gosto para moto, eu gostava dele. Gostava por sua causa,
e
você sabe tão bem quanto eu que isso nunca acontece.

Dei uma risadinha e funguei, para não soluçar.

– Sujeito certo, lugar e hora errados. Isso sem falar que eu acho que nunca

fui o tipo dele mesmo.

Brite limpou a garganta bem alto, e senti que meu cabelo se mexeu com

aquele som de reprovação.

– Ele te disse isso?

Como meu pai parecia ofendido por mim, levantei a cabeça e olhei nos seus

olhos para garantir que ele entendesse que eu é que havia terminado, não

Quaid.

– Não, pai, ele nunca disse nada disso, mas eu já sabia que tudo ia terminar

antes mesmo de começar. A gente não vive no mesmo mundo – dei uma
risada

amarga e baixei a cabeça de novo. – Um terno dele custa mais que todo o
meu

guarda-roupa.

Brite fez outro barulho e apertou meu ombro com os dedos.

– Você sabe muito bem que não pode julgar um homem pelo que ele usa

para cobrir as costas. O que importa é que as costas sejam fortes, que possam

carregar qualquer peso. Sei que não te ensinei a pensar assim.

– Não são as roupas, é tudo. Onde ele mora. Onde trabalha. O futuro que
imagina. A gente até tem coisas em comum, mas pelo jeito só quando está

pelado.

Seu corpo grandalhão ficou todo tenso.

– Não quero ouvir falar da minha filhinha pelada com ninguém, nunca.

Dei uma risadinha e disse:

– Desculpa, pai.

Era raro Brite ficar constrangido com alguma coisa, mas acho que pensar na

única filha tendo qualquer coisa relacionada a sexo ainda tinha o poder de

deixá-lo tenso.

– Avett, não sei muita coisa sobre o seu advogado, mas ele te ajudou várias

vezes e se recusou a deixá-la passar por aquele episódio de Lei e ordem

sozinha. Ele se ofereceu quando achou que você estava correndo perigo e

apareceu quando você precisava dele, quando a casa pegou fogo. Tudo isso

são evidências concretas de que esse é o homem certo na opinião do seu

velho. Esses são traços que um pai gosta de ver no homem em que a filhinha

está de olho.

Me aninhei mais perto dele e murmurei, baixinho:

– Não acredito que você está tentando me convencer a ficar com um

homem. Você nunca faz isso. Está sempre expulsando os meninos com quem
eu

fico e me falando que mereço coisa melhor.


Senti sua barba roçar na minha cabeça, e Brite suspirou.

– É porque Quaid não é um dos seus meninos, Avett. É um homem que tem

toda uma história que viveu antes de você aparecer. Me parece disposto a

compartilhar essas duas coisas com você e, em vez de aceitar, você fugiu.

Aqueles seus meninos eram descartáveis. Esse é um homem com quem você

deveria pensar seriamente em ficar, Fadinha. Não sei se existe um homem


bom

o suficiente para a minha filhinha, mas esse chega bem perto.

Fiz careta para a TV e me afastei do meu pai, para poder me sentar e cruzar

os braços.

– Eu não fugi. Fui embora porque um de nós dois, uma hora ou outra, teria

que ir.

Meu pai levantou aquelas sobrancelhas peludas, e vi seus dentes brilhando

no meio da floresta da sua barba.

– Por quê? Por que uma hora ou outra um de vocês dois teria que ir

embora?

Abri a boca para dizer que a gente não combinava, que a gente não dava

certo, e que Quaid precisava de uma mulher mais elegante e refinada do que

eu, que se encaixasse na sua vida de alto padrão impecável, que tudo que a

gente dava valor e gostava estava em mundos diferentes, em galáxias

diferentes, em universos diferentes. Não conseguia falar isso porque sabia


que

não era mesmo verdade. Eu fico o tempo todo fazendo de tudo para me sentir
o

pior possível, e Quaid fica tentando se sentir o melhor e mais bem-sucedido

possível. Nem eu nem ele conseguimos atingir o objetivo até nos


conhecermos.

Naquele momento, eu tinha certeza de que me sentia pior do que nunca.


Nunca

tinha me sentido tão mal, e vi, nos olhos de Quaid, quando fizemos amor na

sua montanha, que ele nunca se sentira tão bem e tão valorizado.

“Os semelhantes se reconhecem.”

Sozinhos, nós dois estávamos perdidos e empacados. Juntos, parecia que

estávamos exatamente onde deveríamos estar.

Soltei um suspiro de derrota e me encolhi de novo no sofá.

– Eu estava no escritório de Quaid, e o chefe dele apareceu e fez uns

comentários de merda a meu respeito. Acusou Quaid de só ter pegado meu

caso porque queria me comer e aí falou que ele precisava achar alguém mais

aceitável para levar em uma festa da empresa. Quaid ficou puto, mas eu só

conseguia enxergar ele tentando me levar para um troço desses e tudo dando

errado. Ele fez tanto por mim, em tão pouco tempo. Não quero que se

prejudique no trabalho nem fique de mal com o chefe. Ele quer virar sócio da
empresa, e duvido que, se continuarmos juntos, isso vá acontecer. Não quero

que Quaid sacrifique seus planos nem seus sonhos por minha causa.

Meu pai espremeu os olhos, e foi sua vez de cruzar os braços sobre aquele

peito largo. Ele me olhou feio, pensativo.

– Por que não? Ele é adulto e, se quer sacrificar qualquer coisa, incluindo a

carreira, pela mulher que ama, a escolha é dele. Você não tem o direito de

decidir por ele, Avett.

Apontei o dedo para o meu próprio peito e respondi:

– Não quero ser um erro que ele comete e depois sofre por causa disso. Ele

já perdeu muita coisa.

Não me senti à vontade para contar a história de Quaid para meu pai. Isso é

coisa dele. E, se ele quiser que meu pai saiba dos altos e baixos da sua

infância e do seu divórcio, pode contar todos os detalhes, não que eu ache
que

os dois vão levar um papo tão cedo.

Meu pai soltou um palavrão baixinho e ficou de pé. Depois se abaixou e me

deu um beijinho no alto da cabeça. Senti aquelas malditas lágrimas


ameaçando

cair de novo.

– Entendo os seus motivos, Fadinha, e entendo que suas intenções são boas,

que isso vem do seu coração enorme. Mas essa decisão não é sua. Se o rapaz
quer mudar de vida por sua causa, a escolha é dele, certa ou errada. Você não

tem o direito de impedir que o mercado faça escolhas arriscadas, Avett. Nada

nessa vida é garantido, principalmente o amor. Mas só quem é covarde não

joga os dados e se arrisca quando isso se apresenta bem à sua frente. Dar a

esse homem, que tem estado do seu lado e continua aparecendo, uma chance,
a

chance de ele saber o que quer, é uma atitude muito mais corajosa do que
ficar

se enrolando com esse bando de vagabundos que você se meteu esses anos

todos. Você estava destinada ao fracasso com eles. Então, quando tudo deu

errado, você sabia que era inevitável – ele levantou as sobrancelhas e deu um

sorrisinho sugestivo. – Olha só para mim e para a sua mãe, filha. Perdemos

muito antes de ganhar, mas não teríamos um ao outro se não tivéssemos


criado

coragem e apostado.

Soltei um gemido e falei:

– Obrigado por toda essa loucura triste e tão encorajadora, velhinho.

Mas as palavras do meu pai calaram fundo, com sua sabedoria. Eu já tinha

passado da fase de ignorar seus bons conselhos, porque sei que essa é a

escolha inteligente e não quero mais ser besta. Agora quero viver a melhor

vida possível e ser a melhor Avett possível, e isso significa não ignorar mais
os sábios conselhos do papai e sua experiência de vida.

Ele deu risada.

– Às ordens. Aliás, vou encontrar Zeb Fuller lá em casa amanhã. Ele quer

dar uma olhada para ver se as fundações e os tijolos do lado de fora foram

muito danificados. Olha, acho que, se ainda tiver condições, ele quer comprar

a casa e reformar o lugar.

Fiquei boquiaberta, em estado de choque. Aquela casa, da última vez que a

vi, parecia irrecuperável. Mas meu pai ainda não tinha terminado de falar.

– Se ele comprar mesmo, vou fazer ele dar metade do dinheiro para você,

já que a casa era metade sua.

Sacudi a cabeça, recusando automaticamente. Brite tentou fazer a mesma

coisa com o dinheiro do seguro, mas não deixei.

– Não, pai. Esse dinheiro é seu. Meu nome não estava na escritura, e quero

que você deposite tudo no seu fundo de aposentadoria. Ou, quem sabe, você

pode levar a mamãe para dar a volta ao mundo. Não fiz nada para merecer

tamanha generosidade.

Ele soltou mais um palavrão e espremeu os olhos de um jeito que eu sabia

que era o fim da conversa.

– Metade é seu, Avett, não porque você trabalhou ou merece, mas porque

você é minha filha, morou lá e perdeu tanto quanto eu. Vi você se


transformar
em uma mulher com o meu coração. A casa sempre foi tão sua quanto minha.
O

meu fundo de aposentadoria vai muito bem, obrigado, não se preocupe com

isso. Já paguei o empréstimo que fiz por causa da sua fiança e ainda não

recebi a conta do seu advogado. Então, talvez você possa usar o dinheiro e se

casar com ele quando chegar a hora… apesar de eu achar que essa hora nunca

vai chegar. Não me interessa o que você vai fazer com o dinheiro, mas se Zeb

comprar a casa, é isso que vai acontecer, e ponto-final.

Soltei mais um suspiro de derrota, mas não pude negar que a ideia de fazer

um cheque, não só para Quaid, mas também para Rome, na quantia exata da

minha dívida, era tentadora.

– Bom, a casa ficou destruída. Duvido que ele vá querer comprar. Boa

noite, pai.

Brite deu uma risadinha.

– Você não conhece esses rapazes como eu conheço, Fadinha. Eles

conseguem dar vida nova a tudo que precisa de uma segunda chance. Vem

encontrar Zeb comigo amanhã e veja com seus próprios olhos.

Já que não estava passando muito tempo sozinha, porque os malvados ainda

estavam à solta, eu precisaria ou passar o dia inteiro com meu pai ou no bar, e

ainda não tinha certeza de estar preparada para enfrentar Rome. Concordei
em
ir ver a casa com ele e passei mais uma hora na frente da TV, absorvendo
suas

palavras.

Ele e minha mãe têm o mesmo tanto de tragédia e triunfo em sua história. Os

dois fizeram escolhas bem péssimas, mas a melhor opção para ambos era

continuar juntos. Nem ele nem ela pareciam se arrepender de terem se

permitido amar, apesar de esse amor ter causado muito sofrimento. Gosto de

Quaid a ponto de abrir mão dele, a ponto de partir meu coração, que está com

dificuldades de bater de tanto sofrimento que eu lhe infligi.

Eu sou capaz de amar Quaid e sei que posso me perder facilmente nele e

nas coisas boas que ele tem a oferecer. Só não sei se tenho forças para

enfrentar a tempestade de erros que, com certeza, nós dois vamos cometer
para

tentar ficar juntos, e as consequências que vão se abater sobre nossas cabeças.

Eu ter sobrevivido aos meus próprios erros e passos em falso é uma espécie

de milagre. Não quero deixar o destino e a felicidade de Quaid à mercê dos

mesmos riscos. Fui eu que pulei; ele ficou seco e aquecido. Não quero que o

meu amor acabe com Quaid e tenho medo de que seja isso mesmo a
acontecer.

Meu pai acha que a resposta está bem na minha frente… Não sei se estamos

olhando para a mesma coisa.


NO DIA SEGUINTE, FIQUEI NA ENTRADA DA CASA ONDE
MORAVA, OLHANDO, APÁTICA,

aquele monte carbonizado de tijolos e de madeira. Não conseguia acreditar

que a linda casa antiga e restaurada não era mais do que uma sombra

chamuscada da sua antiga glória. Não conseguia acreditar que meu pai tinha

força emocional para vasculhar as cinzas com Zeb, enquanto o empreiteiro

alto e barbudo batia nas paredes e se arrastava pelos destroços. A totalidade

dos bens materiais do meu pai se resumia a cinzas que podiam ser varridas e

descartadas e, quando eu disse isso, ele me deu um abraço e falou que as

únicas coisas que tinham importância eram: eu, minha mãe, as suas
lembranças

e as suas experiências. Isso seria triste perder… Tudo o mais eram só coisas.

Cheguei a dar alguns passos para dentro, com a intenção de ir atrás dos

homens no meio daquelas profundezas enegrecidas e me despedir como


manda

o figurino. Mas, no momento em que vi a perda total naqueles destroços, me

virei e saí. Meu pai não queria que eu ficasse lá fora sozinha. Então, ao ver o

Cadillac chamativo parado do outro lado da rua, foi até lá e bateu na porta.

Alguns instantes depois, Hudson Machina apareceu, sonolento, esfregando os

olhos e abafando um bocejo.

De perto, era ainda mais atraente do que eu pensava. Gostei do seu cabelo
avermelhado e do jeito como espremeu os olhos azuis, com compaixão e

raiva, ao ver aquele pesadelo diante dos nossos olhos. Os olhos do Machina

são uns dois tons mais escuros do que os de Quaid e bem menos aguçados e

cansados, mas têm um tom bonito e límpido de azul, que fez meu coração
bater

acelerado quando ele se virou para mim. Estou acostumada a ver caras cheios

de tatuagens, mas aquele dava de dez a zero em todos que eu conheço no

quesito tattoo. Tinha desenhos sinuosos dos dois lados do pescoço e outros

bem impressionantes nas costas das duas mãos. Quando inclinou a cabeça
para

mim, com cara de interrogação, percebi que ele era tatuado até atrás das

orelhas. Era colorido, bonito e simpático. Seu jeito tranquilo não combinava

com o seu exterior de sujeito durão, e gostei dele ainda mais. Naquela mesma

hora, resolvi que odiava a vaca da namorada do Machina mais ainda, por

todas as vezes em que ela brigou com ele na frente de toda a vizinhança.

– Que droga. Odeio isso ter acontecido com vocês. Brite é o cara.

Balancei a cabeça, distraída. Olhei para trás e vi um sedã genérico parar na

frente da nossa antiga casa. A motorista estava sozinha. Lia alguma coisa no

celular. Como nada naquela mulher levantava suspeitas, voltei a olhar para o

meu companheiro atraente e tatuado.

– Como andam os preparativos do casamento? – perguntei. E, em segredo,


rezei para ele me responder que aquela monstra havia sido abduzida por

alienígenas, mas não tive essa sorte.

Machina encolheu os ombros e murmurou:

– Vão indo. Ninguém me contou que ia ser tão difícil. Acho que devia ter

um manual ou alguma coisa assim. A gente está junto desde sempre, e achei

que, pela lógica, esse era o próximo passo. Não sabia que isso estava mais

para pular do avião sem paraquedas.

Tossi para limpar a garganta e olhei para ele de canto de olho.

– Você já parou para pensar que, se só os preparativos do casamento já

estão sendo tão difíceis, o casamento pode ser ainda pior?

Ele ficou todo tenso, e vi que cerrou os punhos tatuados.

– A gente está junto desde o Ensino Médio. As coisas não eram assim, até

que a gente ficou noivo.

Machina me olhou quase como se quisesse verificar se eu achava suas

palavras convincentes. Não eram.

– Quase ninguém é igual ao que era no Ensino Médio. Caramba, não sou

igual nem ao que eu era dois meses atrás. As pessoas crescem e mudam.
Acho

que o segredo para ficar com alguém é crescer e mudar com essa pessoa.

Tipo o que eu e Quaid fizemos nos últimos dois meses. Ele,

definitivamente, abriu os meus olhos para algumas coisas que eu precisava


ver

de outra maneira, mas tenho certeza de que fiz a mesma coisa por ele. Tenho

certeza de que ele agora sabe que é completamente digno de amor e que tem

valor seja lá qual for o tamanho da sua TV e o tanto de dinheiro que tiver

investido. Ele é muito mais do que as suas posses, e torço para que, em vez
de

guardar ressentimento das suas origens, eu o tenha ajudado a se dar conta de

que isso faz parte dele e que o preparou para conquistar tudo o que tem. Sem

ele, ainda vou ficar à beira daquele precipício de culpa, me recusando a abrir

mão do sofrimento. Por causa dele, estou escalando o poço, com os olhos

firmes em qualquer lugar que não seja o fundo. Estou tentando chegar lá em

cima.

Machina não fez nenhum comentário, mas olhou para trás e voltou a me

olhar, levantando aquelas sobrancelhas cor de ferrugem.

– Kallie era a menina mais doce do mundo. Nunca fazia um comentário

maldoso e estava sempre feliz. Como a situação na minha casa era muito
ruim,

o seu otimismo e a sua atitude contagiante eram meu refúgio, isso sem falar

que os pais dela me deixaram morar lá mesmo sabendo o que eu fazia com a

filha deles quando a porta do quarto estava fechada. Eu precisava dela. Acho

que não teria sobrevivido ao Ensino Médio nem chegado aonde estou hoje
sem

ela. Kallie nunca reclamou de eu passar mais tempo com os carros do que
com

ela, sempre foi a pessoa que mais me apoiou. Fomos morar juntos, pus um
anel

no seu dedo, e parece que tudo mudou da noite para o dia. Vamos nos casar

daqui a alguns meses, e espero que a menina pela qual me apaixonei apareça

no altar.

Eu me encolhi toda, porque tinha quase certeza de que essa menina não

existia mais, e aquele menino muito legal ia cometer o pior erro da sua vida
se

casasse com aquela megera com quem ele estava dividindo a vida. Não era da

minha conta, e eu não sabia se tinha o direito de falar, mas não podia ficar
sem

fazer nada. Nunca mais vou ficar sem fazer nada: foi essa a lição que aprendi.

Então, pus a mão em seu braço e falei, com um tom solene:

– Sei que você não me conhece e que a minha reputação entre as pessoas

que nós dois conhecemos provavelmente não inspira confiança, mas preciso
te

contar que todos os dias, quando você sai para trabalhar, um Honda vermelho

para na frente da sua casa e fica até mais ou menos uma hora antes de você

voltar. Não sei se você tem empregada ou se a sua mulher fica o tempo todo
com uma amiga, mas, para mim, isso é bastante suspeito. E você me parece
ser

um rapaz muito legal. Então, mesmo que você não acredite em mim, estou te

falando que essa mina que mora na sua casa não é a garota que você está me

descrevendo.

Achei que ele ia se encolher todo ou dar risada da acusação. Mas, em vez

disso, seus ombros se afundaram, e sua cabeça caiu para frente como se, de

repente, pesasse mil quilos. Machina levantou a mão e esfregou a nuca,

olhando para o concreto debaixo dos seus tênis Vans xadrez detonados.

– Todos os dias?

Balancei a cabeça e, apesar de ele não estar me olhando, repeti:

– Todos os dias.

O garoto soltou um suspiro profundo, me olhou e falou:

– Eu já peguei Kallie no flagra uma vez. A gente terminou, e ela passou seis

meses jurando que nunca mais ia me trair e fez de tudo para me convencer
que

a menina que eu amava havia voltado. Assim que eu a pedi em casamento,


tudo

isso foi por água abaixo, e voltamos à situação em que estávamos quando a

gente terminou – ele soltou um palavrão e olhou para o céu. – Você acha que
é

muito difícil cancelar um casamento?


Depois dessa, fiquei tão surpresa que dei risada.

– Provavelmente deve ser mais fácil do que organizar um com aquele

pesadelo humano. Olha, eu não sei quem é o dono do carro nem o que anda

acontecendo debaixo do seu teto quando você não está. Mas já ouvi o jeito

como essa menina fala com você, como não te valoriza. Então, sendo ela
infiel

ou não, juro que você merece coisa melhor.

Ele suspirou e tive muita vontade de abraçá-lo. Ele tinha total aquele jeito

tristonho e carente que combinava muito, mas muito mesmo, com ele. Assim

que der o pé na bunda daquela monstra, vai ficar solteiro por exatos zero

segundos. As mulheres de Denver sabem reconhecer um bom partido, e é


claro

que eu e o meu péssimo gosto para homens não estamos incluídos nesse
grupo.

Mesmo que o meu corpo não tenha problema nenhum em reconhecer que
Quaid

é um homem para casar, minha cabeça e meu coração precisam se entender

com isso.

– E existe coisa melhor do que a menina que você ama desde que aprendeu

a amar?

Dei um tapinha em seu braço e balancei a cabeça.

– Existe coisa melhor do que a menina que não sabe cuidar desse amor.
Disso, eu tenho certeza.

Machina franziu a testa e retorceu a boca.

– Vendi um carro para uma menina ontem, ela veio por indicação de um

amigo meu e estava bastante triste, muito quieta e tímida. Ficou óbvio que
não

queria ser vista, mas eu vi. Tipo, vi de verdade e, enquanto olhava para ela,

fiquei tentando imaginar o que poderia ter acontecido em sua vida para uma

menina tão bonita ficar com tanto medo e tão perdida. Fiquei imaginando se

teria percebido isso se as coisas aqui em casa fossem como deveriam ser.

Nunca prestei atenção em outras mulheres antes de começar a ter problemas

com Kallie.

– Meu pai acha que a resposta para todas as perguntas desse tipo sempre

está bem na nossa frente.

Ele deu um sorriso triste, e quase morri ao perceber que ele tem covinhas,

uma reentrância mínima e adorável em cada uma das bochechas. Se as

tatuagens e aquela personalidade taciturna não fossem suficientes para ele

arranjar mulher a torto e a direito, aquelas malditas covinhas com certeza

dariam conta do recado.

– Seu pai ia ficar muito orgulhoso se soubesse que você anda espalhando os

conselhos dele por aí. Você precisa aperfeiçoar aquela olhada que ele dá, tipo

“presta atenção, se não…”.


Dei risada.

– Se você contar que eu ando citando Brite, eu nego. Ele já tem “eu te falei”

estocado pelo resto da vida.

Dei um pulo quando uma voz atrás de nós disse:

– Avett Walker?

Apesar de Machina não saber todos os detalhes do que andava acontecendo

na minha vida caótica, ele ficou na minha frente, fazendo questão de me tapar

completamente com seu corpo, enquanto a mulher que estava no carro do


outro

lado da rua se aproximava da gente lentamente.

– Você é Avett Walker? – seu tom de voz era sério, assim como seu olhar, e
ela ficou nos encarando sem sequer piscar.

– Quem é você?

Foi Machina que perguntou, gritando, e eu espiei por trás dele, daquela suas

costas musculosas. A mulher segurava um papel dobrado, e meu sangue


gelou.

– Trabalho no gabinete do delegado e tenho uma intimação para você.

Machina ficou todo tenso e, por mais que eu quisesse recusar aquele papel

com todas as minhas forças, sabia que precisava pegá-lo. Fui para o lado

daquela parede tatuada que estava na minha frente e arranquei o papel da mão

da mulher. Ela balançou a cabeça e falou:

– A senhora foi intimada. Boa sorte.

Segurei o papel perto do meu peito e não conseguia fazer meus dedos

pararem de tremer.

– O que foi isso?

Como a voz do Machina tinha um tom de curiosidade, mas não de um jeito

invasivo, suspirei e bati em minha própria testa com a intimação. Não queria

abrir o papel dobrado, porque sabia que, assim que abrisse, ia ter que ligar

para Quaid e pedir ajuda. E meu coração ainda não estava preparado para

voltar a lutar com ele nem por ele.

– Isso tem a ver com mais uma das minhas péssimas escolhas. Não consigo
me livrar delas, que continuam voltando para me assombrar. Meu pai insiste

que péssimas escolhass rendem ótimas histórias. Mas, até agora, essa aqui só

rendeu um coraçãozinho confuso e uma conta altíssima com o advogado.

Ouvi uma risadinha e, dessa vez, não me dei o trabalho de disfarçar o

suspiro que me escapou quando aquelas covinhas incríveis apareceram no

rosto do rapaz.

– Corações confusos e contas de advogado me parecem o começo de uma

ótima história.

Deviam ser, mas eu esperava que fosse uma história com final feliz, porém

não conseguia imaginar isso acontecendo naquele momento.

Vi meu pai e Zeb vindo na nossa direção, com uma expressão satisfeita nos

rostos barbudos. Os dois estavam com as roupas cobertas de sujeira e


fuligem,

com o cabelo todo bagunçado. Mas dava para ver, pelo jeito relaxado dos

ombros de ambos e por seus passos firmes, que haviam fechado negócio.

Eu devia saber que não era boa ideia apostar contra um dos rapazes do meu

pai. Mesmo que aquela casa fosse uma causa perdida, Zeb nunca iria jogar a

toalha. Porque aquela casa era importante para meu pai, e meu pai era

importante para Zeb.

Pelo jeito, pelo menos a parte dos gastos com o advogado da minha história

ia ter um final feliz. Cruzei os dedos, fechei os olhos e fiz um pedido, para
qualquer ser silencioso que estivesse me ouvindo lá em cima, que a parte do

meu coração desnorteado também se endireitasse.

CAPÍTULO 16

Quaid

OLHEI PARA O HOMEM SENTADO DO LADO OPOSTO DA MESA DE


VIDRO, ONDE EU

estava com Avett, e tentei não demonstrar a irritação que sentia. Ela

estava dura como uma tábua ao meu lado, e eu não sabia se a tensão que

exalava era porque estava confrontando o advogado de Jared durante o

depoimento ou se por estarmos tão próximos que quase nos encostamos. A

menina não me olhava, mas eu podia ver incômodo e ansiedade em cada


traço

delicado do seu rosto. Tecnicamente, Avett nem era mais minha cliente,
porque

as acusações contra ela haviam sido retiradas. Mas, quando ela me mandou

uma mensagem dizendo que havia sido intimada e perguntando o que queria

dizer “audiência prévia”, tive certeza de que não ia deixá-la entrar na cova

dos leões sozinha. Para o desprazer de Orsen, que não só ficou óbvio como

também verbalizado, deixei a manhã livre para poder sentar a seu lado

naquela sala de reuniões moderna do Tribunal, enquanto o advogado do seu

ex-namorado tentava desestabilizá-la e acabar com ela. Eu sabia que aquele


depoimento era um ensaio do que o sujeito havia planejado para Avett
quando

ela realmente se sentasse no banco das testemunhas e pude perceber as

intenções calculistas nessas atitudes do outro advogado assim que ele nos fez

entrar na sala.

LarsenTyrell estava mais bem vestido do que eu, seus sapatos eram mais

caros, e o relógio em seu pulso era tão ridículo quanto o meu, do mesmo
valor.

Antes de Avett aparecer na minha vida e virar tudo de cabeça para baixo,
tudo

isso teria me incomodado, me deixado automaticamente na defensiva. Eu


teria

adotado uma atitude hostil e agressiva, tentando deixar claro que estávamos
no

mesmo nível. Agora, só consigo pensar que defender traficantes e outros

clientes ligados aos cartéis paga visivelmente bem, mas fico imaginando
como

é que Larsen consegue aproveitar toda a sua riqueza sabendo ter sido

comprada com dinheiro manchado de sangue. O seu terno tinha um corte

perfeito e era obviamente importado, mas não pude deixar de me perguntar

quantas pessoas tiveram que morrer nas mãos dos seus clientes para ele poder

comprá-lo. Não senti uma gota de inveja nem de desejo de ter o que Larsen

tinha, e foi aí que eu tive a certeza de que a mulher sentada ao meu lado, dura
e

sem piscar, fez tanto para me salvar quanto eu fiz para salvá-la. Avett abriu

meus olhos, e eu precisava desesperadamente disso. Agora meus olhos

estavam bem abertos, e aquele homem que eu ansiava tanto ser, que tinha a

cabeça tão fechada, havia sumido. Em vez disso, no seu lugar, o homem que

me olhava no espelho não parecia falso nem forçado. E também não ia lutar

por coisas frívolas, mas ia lutar, sim, pelas coisas realmente importantes.

Naquele momento, nada era mais importante do que aquela jovem de cabelo

rosa ao seu lado. Aquela que, sem dúvida, ele amava de um jeito desmedido e

queria cuidar para sempre.

Eu me encostei na cadeira e mexi o cotovelo, até encostar no de Avett, que

segurava os braços da cadeira com força, como se ela fosse sair flutuando

caso a soltasse. Com aquele breve contato, ela finalmente soltou um longo

suspiro e se virou para mim, com os olhos arregalados e uma expressão

intimidada. Baixei o queixo para dizer que tudo ia dar certo, e a garota

retribuiu meu pequeno gesto e finalmente começou a relaxar.

– Finalmente a data do julgamento foi marcada, e o júri, selecionado. É

daqui a menos de duas semanas, e você é a primeira testemunha de acusação.

Fiquei surpreso que Townsend não quis participar desta audiência prévia.

Larsen deu um sorriso artificialmente educado e clareado e não deixei de


perceber a alfinetada por eu estar, ali e não alguém da promotoria.

– Sou o advogado de defesa da testemunha. Vou informar tudo o que achar

que Townsend precisa saber antes do julgamento.

Espremi os olhos, e o outro advogado aumentou ainda mais o sorriso de

tubarão.

– Então, é o interesse profissional pela participação da sua cliente nesse

julgamento que o trouxe aqui hoje?

Fiquei encarando o sujeito sem responder. Como não estou mais

defendendo Avett perante a lei, não há nenhum conflito de interesse no fato


de

nosso relacionamento profissional ter se tornado pessoal. Mas Tyrell não

escondia seus planos de distorcer esses fatos do modo que mais lhe

aprouvesse. Ele era tão malandro e desonesto quanto as pessoas que defendia.

– Estou interessado nos interesses da minha cliente, ponto-final. Anda logo,

Tyrell. Todo esse seu showzinho espalhafatoso pode até impressionar a

promotoria e o júri. Mas, francamente, estou morrendo de tédio, e tanto eu

quanto a srta. Walker temos coisa melhor para fazer.

O homem levantou as sobrancelhas, entrelaçou os dedos e deu um sorriso

que me deixou todo arrepiado.

– Aposto que sim. Também estou com a agenda cheia e ainda tenho um

compromisso no Tribunal, então vou direto ao ponto. Srta. Walker, você


ficou

chateada quando seu pai vendeu o bar para alguém que não era você, o bar
que

ele estava preparando a senhorita para assumir desde que você tinha idade

legal para trabalhar?

Senti que Avett ficou tensa e, por mais que eu quisesse consolá-la, sabia

que, se eu reagisse de qualquer maneira, Larsen usaria isso contra Avett

quando ela se sentasse no banco das testemunhas.

– Fiquei chateada, mas não com o meu pai. Fiquei chateada comigo, por ser

um desastre, por nunca ter lhe dado um bom motivo para guardar o bar para

mim. Ele nunca me disse que tinha planos de me passar o bar quando
chegasse

a hora certa. Acho que essa era uma conclusão que muita gente, incluindo eu

mesma, tirava de forma precipitada, quando fiquei mais velha.

Seu corpo estava tenso e rígido, mas sua voz era clara e tranquila. Avett não

estava se esquivando da verdade, e dava para ver que Larsen sabia, tão bem

quanto eu, que a honestidade e a sinceridade dela ficariam bem evidentes


para

qualquer júri que fosse selecionado.

Larsen fez algumas anotações e em seguida olhou para nós dois com aquele

sorriso perturbador, que me dava muita vontade de arrancar com um soco.


– Você ficou chateada quando o novo dono do bar, Rome Archer, a demitiu

por ter roubado dinheiro da caixa registradora?

Avett mudou de posição e, pelo canto do meu olho, vi que espremeu os

lábios.

– Repito, fiquei chateada, mas só comigo mesma. Eu sabia que o bar tinha

câmeras de segurança. Eu sabia que era errado, mas fiz mesmo assim, porque

Jared ficava insistindo que a gente precisava daquele dinheiro. Quando você

se convence de que está apaixonada, encontra justificativa para fazer muita

coisa precipitada.

Tive vontade de olhar para ela e ver se estava falando do incidente no bar

ou de alguma outra coisa que tivesse ver comigo, mas eu é que não ia dar

munição para aquele homem observador do outro lado da mesa.

– Então a senhorita está me dizendo que sabia que seria pega?

Avett balançou a cabeça, e nosso olhar se cruzou.

– Sabia.

O sujeito fez mais algumas anotações, e praticamente dava para ver seu

cérebro maquinando.

– A senhorita tem o costume de fazer coisas ilegais sabendo que vai ser

pega?

– Cometi alguns erros no passado. Com certeza, o senhor tem acesso à


maioria deles na pasta que está à sua frente. Tudo o que eu fiz é de

conhecimento público.

Ele estava tentando irritá-la, mas Avett não mordeu a isca, e não tinha como

eu ficar mais orgulhoso do seu comportamento.

Tyrell fez um ruído e veio para a frente.

– As câmeras de segurança do bar mostraram que o meu cliente agrediu a

senhorita fisicamente antes de entrar no estabelecimento. Isso foi um


incidente

isolado?

Avett levantou os dedos, encostou na pele lisinha debaixo do olho e sacudiu

a cabeça.

– Não. Jared já havia me batido algumas vezes. Normalmente, quando

estava passando o barato ou surtando porque não sabia o que fazer para

conseguir a próxima dose. Ele me bateu uma vez porque eu deveria ter
levado

cerveja para uma festa e não levei, e a minha mãe e alguns colegas de
trabalho

perceberam o meu olho roxo. Um dos caras que trabalha no bar falou para

Jared que, se eu aparecesse com qualquer coisa no rosto que não fosse um

sorriso, ele ia garantir que eu seria a última mulher para quem Jared
levantaria

a mão. E ele me deixou em paz depois disso.


– Então você sabia que o sr. Dalton tinha um problema de abuso de

substâncias e um histórico de violência e, mesmo assim, o acompanhou

naquela noite. Por quê?

Senti Avett empacar de leve e não consegui resistir à vontade de olhar para

ela, que estava com os olhos arregalados e muito pálida. Ficou óbvio que ela

tentava pensar em um jeito de responder àquela pergunta que explicasse seu

raciocínio confuso no momento do assalto sem revelar muito da sua história.

– Porque eu estava com medo, e ele me disse que ia me levar para um lugar

seguro. Fui com Jared porque ele era meu namorado e, como já disse, eu
tinha

certeza de que estava apaixonada por ele.

– E não tem mais tanta certeza desses sentimentos?

A pergunta capciosa me fez espremer os olhos de um jeito ameaçador, e o

homem do outro lado da mesa deu um sorrisinho sugestivo.

– Passar duas noites na cadeia faz a gente pensar com mais clareza. Eu

jamais poderia amar um homem que ameaçou uma pessoa de quem eu gosto

com uma arma de fogo. Jared estava desesperado e perigoso naquela noite.

– E isso se devia a que, srta. Walker?

Avett encolheu os ombros de leve e respondeu:

– Porque ele tinha roubado drogas e dinheiro de umas pessoas perigosas,

que estavam atrás dele.


– E como você sabe disso?

– Porque, antes de essas pessoas encontrarem Jared, elas me encontraram.

Seu tom de voz estava mordaz, incisivo, e ficou óbvio que Larsen estava

começando a atingi-la.

– É mesmo? Não foi registrado nenhum boletim de ocorrência com seu

nome ou o de ninguém indicando que a senhorita teve um encontro fortuito


com

essas supostas pessoas perigosas que estavam atrás do meu cliente.

– Eu não queria que Jared se encrencasse, por isso não chamei a polícia.

Mas o senhor pode entrar em contato com Asa Cross. Ele foi me visitar no
dia

seguinte e pode falar o estado em que eu estava. O senhor também pode

interrogar a senhoria do prédio onde Jared morava. Foi ela que expulsou os

caras que me atacaram.

Larsen se recostou na cadeira e ficou tamborilando os dedos na pasta à sua

frente.

– Bem, veja, srta. Walker, é aí que começamos a ter problemas com a sua

versão dos eventos que culminaram no assalto. A tal senhoria não lembra de

ninguém naquele apartamento além de você e do meu cliente. E o sr. Cross


tem

culpa no cartório, considerando que estava presente no bar na noite do


assalto.
Além disso, a mulher com a qual ele está envolvido, por acaso, é a policial

que atirou no meu cliente. Então, o interesse que ele tem de ver o meu cliente

atrás das grades torna seu testemunho tendencioso, de muitas maneiras. A

única pessoa que alega ter havido um ataque anterior ao assalto é a senhorita.

Então, não é muito mais provável que você estivesse brava com o fato de o

bar ter sido vendido bem debaixo do seu nariz e ter coagido o seu namorado

drogado a roubá-lo? Sabendo que ele não diria “não” a dinheiro para se

drogar nem para a mulher que ele amava?

Fiquei arrepiado com o que o sujeito falou da senhoria, porque eu tinha

certeza de que a perda de memória momentânea da mulher só aconteceu


depois

que punhados de dinheiro mudaram de mão. Aquele cara não tinha vergonha
de

subornar uma testemunha para que as coisas saíssem como ele queria e, com

isso, me avisava que aquela situação ia ficar feia, e o jogo ia ser tão sujo

quanto possível.

Avett soltou uma risada assustada. Virou a cabeça na minha direção e, em

seguida, voltou a olhar para Larsen.

– Você só pode estar de brincadeira. Mesmo que eu estivesse brava, o que

eu já disse que não estava, jamais colocaria a vida das pessoas que trabalham

lá em risco. Fui imbecil a ponto de continuar com Jared depois da primeira


vez em que ele me bateu, mas jamais obrigaria ninguém a aguentá-lo. Sei

quanto ele fica perigoso quando está chapado.

– É mesmo?

Ela soltou um suspiro profundo e sacudiu a cabeça.

– É, é mesmo. Eu arranjo confusão e me meto em situações perigosas, mas

faço de tudo para isso não ter consequências para as pessoas de quem eu

gosto.

– Então, o que foi que aconteceu com Autumn Thompson há alguns anos?

Tanto eu quanto ela ficamos rígidos quando Tyrell disse o nome da menina

que foi tão decisiva na escolha de Avett pelo caminho das feridas

autoinfligidas e da dor propositada. Ouvi ela soltar o ar com um som

torturado, que partiu meu coração ao meio.

– Autumn se suicidou, tenho certeza de que o senhor sabe muito bem disso.

Não consegui controlar o tom cortante, de repreensão, da minha voz.

Normalmente, consigo ficar brincando de gato e rato com os melhores

advogados. Mas, com Avett no meio e sua dignidade em jogo, eu mal estava

conseguindo segurar tudo o que eu sabia a respeito de brutalidade e violência.

– Os pais da srta. Thompson pensam bem diferente de você sobre esse

assunto. Os dois têm muito a dizer sobre a srta. Walker e a influência que ela

teve sobre sua filha. Pelo jeito, a sua cliente sabe muito bem meter os outros
em confusão e se esquivar quando alguém sofre consequências bem sinistras.

– Acho que a minha cliente tem um fraco por almas perdidas e tenta ajudá-

las à sua própria maneira. Você sabe tão bem quanto eu que, se colocar o
casal

Thompson no banco das testemunhas, Townsend vai acabar com eles. Por
que

você interrogaria os pais da menina e não os garotos que realmente agrediram

a filha deles? As únicas pessoas culpadas de qualquer tipo de crime naquela

noite foram os garotos que atacaram Autumn. Townsend vai perguntar para
os

pais por que eles deixavam a filha sair com Avett, se estavam tão
preocupados

com sua influência. Ele vai questionar a habilidade deles de criar a filha, e o

júri só vai enxergar você desenterrando uma menina morta para desencavar

lembranças desagradáveis. As pessoas não gostam de ser manipuladas,


Tyrell.

Isso não tem nada ver com a causa provável, e o juiz não vai deixar você

passar de uma pergunta. Seu único objetivo para tocar nessa parte do passado

da minha cliente é deixá-la abalada.

Ele levantou as sobrancelhas outra vez, e aquele seu sorriso malandro de

merda voltou a se estampar em seu rosto. Precisei usar cada gota do meu

autocontrole para não cerrar os punhos que estavam apoiados nos braços da
cadeira.

– O senhor faria a mesma coisa se estivesse no meu lugar, doutor. A lei me

obriga a dar ao meu cliente a melhor defesa possível.

Fiquei irritado porque ele tinha razão. Aquela era uma ferida enorme e

aberta em todos os aspectos da vida de Avett. Era o seu maior ponto fraco e,

qualquer advogado, não importa em que lado da lei estivesse, iria direto

naquele ponto quando precisasse lidar com ela no banco das testemunhas.

De repente, Avett se endireitou na cadeira e segurou meu antebraço. Virou a

cabeça na minha direção, e seus olhos multicoloridos se arregalaram tanto


que

pareciam tomar metade do seu rosto.

– Mas Asa não estava sozinho quando veio me visitar um dia depois do

ataque. A sua irmã, que estava passando uns dias aqui em Denver, veio junto.

– Meu cliente está sendo acusado de assaltar o irmão dela à mão armada. O

testemunho dessa moça será tão suspeito quanto o do sr. Cross.

O tom de voz de Larsen ficou ainda mais ríspido, e ele espremeu os olhos

na ponta da mesa. Foi a primeira vez, desde que entramos naquela sala, que

perdeu um pouco daquele ar de satisfação e convencimento.

Bufei e fui para a frente, colocando um braço sobre a mesa.

– Certo. O irmão, a irmã e a minha cliente estão conspirando para

incriminar o seu cliente e mandá-lo para a cadeia. Me parece que temos


testemunhas que corroboram a versão da minha cliente de que o seu cliente

roubou os traficantes e estava desesperado para arrumar dinheiro, o que

acabou resultando na minha cliente sendo agredida. É óbvio que a ideia do

assalto foi dele.

– A testemunha não consta dos autos e não foi submetida à analise.

Foi a minha vez de dar um sorriso presunçoso e mostrar os dentes.

– Isso não se chama “audiência prévia” por acaso, Tyrell. Garanto que vou

informar essa novidade para Townsend assim que sairmos daqui.

Ficamos nos encarando por vários minutos, furiosos, até que Tyrell foi para

a frente e fechou a pasta com mais força do que seria necessário.

– Acho que estou satisfeito por hoje, srta. Walker.

Avett soltou um ruído de alívio, mas pude ver, pelo olhar predador daquele

homem, que nem eu nem ela havíamos visto nada do que ele era capaz.

– Obrigado pela atenção. E gostaria de lembrar que, quando estiver no

banco das testemunhas, nada, nada mesmo, será um assunto proibido. Posso

fazer perguntas a respeito do seu passado, incluindo os homens que

participaram dele, e posso fazer perguntas sobre as suas atuais circunstâncias.

Tenho certeza de que McNair e Duvall vão ficar muito felizes em ter o nome

do seu escritório ligado a um caso de assalto quando a imprensa divulgar que

um dos seus principais advogados está dormindo com uma das testemunhas.
Posso acabar com a credibilidade de vocês dois, com o boato certo e as

palavras certas. Nós dois sabemos fazer isso, não é, Jackson? Você não vai
ter

a menor chance de virar sócio do escritório quando esse julgamento terminar.

Prometo.

O outro advogado saiu correndo da sala, e, antes que eu pudesse dizer a

Avett para não prestar atenção às suas ameaças vazias, ela já tinha se

levantado e saído da sala de reuniões. Eu a chamei, mas a menina nem olhou

para trás, enquanto seu corpinho desviava com habilidade das pessoas que

entravam e saíam no Tribunal lotado. Ela foi até as portas de vidro da entrada

sem diminuir o passo e só parou quando a alcancei, a poucos metros da

entrada. Pus a mão em seu cotovelo, a virei de frente pra mim e senti meu

coração se partir ao ver que ela estava chorando e que seu voluptuoso lábio

inferior tremia.

Nem pensei. Nem pesei os prós e os contras. Não racionalizei que ali não

era hora nem lugar. Só consegui reagir. Minha namorada estava sofrendo, e
eu

queria que aquilo parasse. Então a puxei para perto de mim, cobri seus lábios

com os meus e tentei fazer a dor passar com um beijo.

Em princípio, ela retribuiu, macia e doce, e seu beijo foi uma rendição

delicada. Infelizmente, isso logo se transformou de algo carinhoso e


reconfortante em uma coisa mais parecida com um combate. Ela tirou a
cabeça

de perto da minha e me deu um tapa no rosto com tanta força que minha
cabeça

foi para o lado. Avett suspirou surpresa na mesma hora em que gritei seu

nome. Levou os dedos trêmulos à boca e pôs os da outra mão em cima do


que,

tive certeza, era uma marca vermelha bem viva começando a inchar no meu

rosto. Pude sentir seu tremor e seu remorso por todo o meu corpo.

– Desculpa, Quaid. Ai, meu Deus, qual é o meu problema?

Ela deu um passo para trás, e novas lágrimas começaram a sair dos seus

olhos loucos e apavorados.

– Avett…

Disse seu nome com uma paciência que eu não tinha, principalmente porque

havia avistado uma loira bem conhecida observando a nossa interação com

uma curiosidade descarada, enquanto falava no celular.

– Não, Quaid, desculpa mesmo por ter batido em você. Estou abalada e de

coração partido, mas isso não é motivo. Nunca consigo fazer nada direito
nem

ter a reação certa, mesmo quando quero muito. Estou me sentindo péssima,

mas talvez seja melhor assim. A gente vai ter um rompimento épico, pelo
jeito,
e isso significa que seus chefes não vão mais pegar no seu pé e, quem sabe,

aquela víbora daquele advogado também te deixe em paz. Fica longe de mim,

Quaid. Fica longe de toda essa confusão antes que seja tarde demais e o seu

futuro seja completamente arruinado.

Tentei encostar nela de novo, mas Avett desviou e sacudiu a cabeça

violentamente.

– Estou falando sério. Eu sempre vou ser a menina que pula, Quaid. Vou

pular sem saber o que há lá embaixo. Vou pular mesmo sabendo que a água

está gelada e que é perigoso. Vou pular quando souber os riscos que estou

correndo e quando não souber também. Vou pular mesmo sabendo que vou
me

machucar quando chegar lá embaixo. Você mesmo disse que não é mais o

moleque que pulava, porque isso perdeu seu encanto. Você sabe o que é bom

pra você, talvez eu também saiba, mas mesmo assim vou pular, porque é
assim

que eu sou. O que eu sou vai acabar com você, Quaid. Não vou deixar isso

acontecer.

Ela parecia prestes a explodir depois de despejar todas essas revelações

em cima de mim. Pus as mãos nos bolsos e a observei, com atenção.

– Você já parou para pensar que eu estava acabado quando você me

encontrou e que você foi fundamental no meu processo de reconstrução? Eu


não estava vivendo antes do seu sopro de vida, Avett. Minha mulher me
largou

depois de ficar grávida de um outro homem, apesar de eu ter lhe dado tudo o

que eu era capaz de dar. Meus pais praticamente me deserdaram porque não

aprovavam o modo como eu queria viver a minha vida. Tenho um trabalho


que,

a cada dia que passa, tenho menos estômago para aturar, e tudo o que eu
tenho

para me exibir é um guarda-roupa legal e uma vista arrasadora. Tudo isso era

de mentira, não tinha uma única coisa que fosse de verdade até você aparecer.

Eu já te falei que o seu caos não me assusta.

Mas a loucura de Avett me apavora, porque sei que não tem como pôr

arreios no vento, e parecia que ela estava prestes sair da minha vida voando

pelos ares, com a mesma velocidade com que entrou.

Ela pôs a mão no peito e tirou os olhos lacrimejantes dos meus.

– Mas eu tenho medo. Tem poucas pessoas neste mundo que quero proteger

do tipo de desgraça que me acompanha, e você é uma delas. Eu te amo,


Quaid.

Não quero, mas amo, isso significa que preciso abrir mão de você.

Tive vontade de sacudi-la, de abraçá-la e nunca mais soltar. Tive vontade

de disparar todos os argumentos que eu pudesse imaginar em cima dela, para

impedi-la de cometer aquele erro. Queria desmantelar suas palavras e


organizá-las na ordem em que eu queria ouvir. Queria me concentrar no fato
de

Avett ter dito que me ama, não em ela estar me deixando, mas ela se virou e

começou a se afastar de mim, o que tornou tudo isso impossível.

– Avett… – ela parou de repente, se virou para trás e me lançou um olhar

sofrido e triste. – Essa é uma péssima escolha que você não precisa fazer.

Você não precisa me proteger de si mesma ou de nada que envolva ficar com

você. Sou bem crescidinho.

Ela soltou um suspiro, tremendo. E vi, estampado em seu rosto expressivo,

que sua decisão era definitiva.

– Aí é que está, doutor. Isso me parece ser uma escolha muito certa. E não

estou te protegendo de mim. Estou te protegendo de você mesmo e das coisas

que você vai perder se corresponder ao meu amor.

Suas palavras me acertaram em cheio, e todos os sentimentos e emoções

que ela fez renascerem dentro de mim ficaram tão intensos e descontrolados

que pareciam querer me engolir. Quero dar tanta coisa para aquela mulher,

tudo o que tenho, e nada disso vem com uma etiqueta de preço. Eu sabia que

poderia dizer isso a Avett, disparar palavras e mais palavras até ficar sem ar,

que eu poderia usar meu linguajar de advogado contra o seu argumento e o


seu

medo de me fazer mal só por estar comigo, mas me pareceu que as palavras
eram algo simples demais, que eu poderia ser facilmente mal interpretado. Eu

precisava provar que aquela garota valia mais do que qualquer coisa para

mim.

Eu me dediquei muito aos meus estudos, porque sabia que esse seria o meu

ingresso para outro tipo de vida. Eu dei muito duro para me distanciar da

minha infância e do fato de eu não ter nada porque sabia que queria mais da

vida do que só o básico. Eu trabalhei muito para me estabelecer na minha

carreira e ser considerado um grande adversário no Tribunal e na cama,

porque eu queria ser o melhor e queria que todo mundo soubesse disso. Lutei,

até que razoavelmente, para salvar meu casamento antes de me dar conta de

que era tudo uma farsa e batalhei no meu divórcio para conseguir ficar com

todas as coisas que eu achava importantes para mim.

Ao ver Avett se afastar de mim pelo meu próprio bem, me dei conta de que

preciso dar duro e lutar como nunca lutei, porque não estou disposto a abrir

mão dela. Essa é uma batalha que não vou perder, porque perdê-la significa

perder essa mulher. Ela é tudo o que quero e tudo o que eu nunca soube que

precisava. Posso concentrar todos os meus esforços nela, porque Avett é mais

valiosa do que tudo o que possuo e vale mais do que todas as vitórias no

Tribunal que fico exibindo por aí. Ela finalmente conseguiu me mostrar o que

realmente importa nesta vida e o que eu estava perdendo, desde o começo.


Preciso de alguém que me ame pelo que sou e não pelo que tenho ou deixo de

ter. Preciso de alguém que me apoie porque o que é importante para mim é

importante para essa pessoa, porque ela gosta de mim. Avett faz tudo isso
sem

hesitar, e tenho certeza, no fundo das fibras que fazem de mim o homem que

sou, de que ela é a única pessoa para quem sou capaz de entregar tudo,
porque

ela merece tudo o que eu tenho a oferecer… mesmo sem jamais ter pedido

nada.

Tenho certeza de que, se quiser ficar com ela, vou precisar provar que essa

mulher não é a minha ruína. Ela é a minha salvação.

Avett pulou, e eu teria que mostrar que estou disposto a ser o homem que

pula atrás dela.

CAPÍTULO 17

Avett

FIQUEI FELIZ POR NÃO TER DEIXADO NINGUÉM IR COMIGO AO


DEPOIMENTO, MESMO

que bater o pé tenha deixado meu pai super mal-humorado e minha mãe

hipernervosa. Eu sabia que ia ficar meio fora de mim depois de ser

interrogada pelo advogado de Jared e sabia que ia ficar um caco depois de

encontrar Quaid. Tive razão em relação às duas coisas e precisei de todas as


minhas forças para não virar uma bola inútil de coração partido, soltando rios

de lágrimas, na calçada em frente ao Tribunal. Cheguei na rua tentando


limpar,

sem conseguir, o rímel que, com certeza, estava escorrendo pela minha cara

como se fosse uma pintura de guerra triste e chamei um táxi.

Meu pai estava em casa, esperando eu dar notícias. E, para minha surpresa,

minha mãe resolveu tirar o dia de folga e ficar esperando com ele. Ela querer

ficar por lá para me dar apoio moral e um abraço depois do que, sem dúvida,

seria um péssimo dia, era prova de quanto nosso relacionamento havia

mudado e melhorado, depois que nós duas revelamos a nossa história. Nunca

vamos ter o típico relacionamento mãe e filha, e eu sempre vou ser a filhinha

do papai, mas é bom saber que eu e Darcy conseguimos dar um jeito de ter
um

relacionamento melhor, apesar dos obstáculos que nós duas colocamos no

caminho. Chegar a um ponto em que posso deixar minha mãe me amar e eu

posso retribuir seu amor foi fundamental no processo de eu conseguir me

perdoar e entender também nossas falhas do passado.

Me afastar de Quaid para sempre me fez sentir pior do que nunca. E, como

tinha certeza de que nada na face da Terra nem no universo ia conseguir me

deixar ainda pior naquele momento, resolvi que, finalmente, havia chegado a

hora de eu tentar fazer as pazes com a única pessoa que eu ainda não tinha
conseguido encarar quando dei início a todo esse desastre, meses atrás.
Estava

na hora de bancar a adulta e tentar me acertar com Rome Archer. Eu tinha

certeza de que ia me atrapalhar toda quando estivesse sob aquele seu olhar

imperturbável e azul, que catalogava e pesava cada movimento que eu fazia,

mas já estava na hora. Porque, mesmo que ele se recusasse a aceitar minhas

desculpas, mesmo que não quisesse ouvir a minha história ou o

arrependimento sincero que vinha com ela, eu sairia dali sabendo que tinha

feito o que precisava fazer, com uma âncora a menos pesando na minha alma.

Rome é um sujeito importante para o meu pai, o que, por consequência, o


torna

importante para mim, mas agora sei que, se aquele homem grandalhão cheio
de

cicatrizes não conseguir me perdoar, não posso ficar carregando esse peso

pelo resto da minha vida. Preciso estar com as mãos livres para pegar as

coisas boas que tenho a sorte de aparecerem no meu caminho, e isso significa

que não posso ficar com as mãos cheias do lixo e dos sentimentos negativos

nos quais, por tanto tempo, fiquei me agarrando como se fossem um salva-

vidas.

Pedi para o táxi me deixar no bar e demorei para perceber que o motorista

ficou olhando, bem preocupado, para a minha cara toda manchada de tanto
chorar pelo retrovisor durante toda a corrida. Respirei fundo e abri a porta

como se tivesse entrando completamente desarmada em um daqueles tiroteios

do Velho Oeste. Precisei piscar para meus olhos se ajustarem à luz mais fraca

que havia lá dentro e, enquanto eu me aclimatava de novo àquele lugar que

sempre correu no meu sangue, uma voz grave e rouca, com sotaque do sul,

disse meu nome e chamou a minha atenção.

Dash Churchill, ou Church, como era mais conhecido, foi contratado como

segurança mais ou menos na mesma época em que perdi meu emprego. Ele é

absurdamente atraente. E também foi quem enfrentou Jared por mim apesar
de

mal me conhecer – e do pouco que conhecia só depor contra mim. Tenho


uma

quedinha gigante pelo lindo ex-soldado, que tem muito pouco a ver com o
fato

de ele ter olhos castanhos com uma mistura maluca de azul, marrom e
amarelo,

que brilham como faróis no seu rosto de pele dourada. Como Church nunca

fala muito com ninguém, não sei de onde ele é, só que é do sul, mas não faço

ideia de quais são suas origens. Mas, seja lá qual for a etnia dos seus pais,

eles, com certeza, conseguiram fazer um filho muito lindo. Church é

inesquecível, o que quer dizer muita coisa, porque todos os rapazes do meu

pai são bem impressionantes, cada um do seu jeito.


– E aí, Church? Rome está lá no escritório? Quero falar com ele rapidinho.

– Quanto tempo, menina.

Eu poderia passar o dia inteiro ouvindo Church falar com aquele tom de

Johnny Cash e aquele sotaque arrastado que não muda por nada, mas
precisava

cumprir minha missão antes que fugisse de medo.

– Eu sei. Não sabia se eu ainda era bem-vinda e, bom… preciso que o

patrão saiba que sinto muito, por tudo. Ele até pode não querer ouvir, mas

preciso falar mesmo assim.

Por ser um homem grande, até que Church se mexe rápido e tem os pés

leves. Esse era um dos motivos para ele ser tão valioso para o bar: ele

consegue chegar no meio de uma briga ou uma discussão e acabar com a

confusão antes que os combatentes se deem conta do que aconteceu. Church

também é estoico, parece imune ao charme de todas as mulheres que o


pessoal

não para de empurrar para cima dele. Mas, em segredo, acho que isso tem

mais a ver com a adorável Dixie Carmichael do que com algum tipo de

desinteresse real pelas mulheres. Dixie trabalha no bar desde que eu me

conheço por gente. Faz parte do lugar, assim como meu pai fazia. E, desde
que

a conheço, ela nunca teve sorte no amor. A garçonete e o segurança ficam se


provocando, o que é divertido mas também frustrante de ver.

Dei um pulo quando seu braço pesado aterrissou nos meu ombros. Soltei

um suspiro de surpresa ao ser puxada em direção àquele peito que parecia

esculpido em pedra e ganhei um abraço de quebrar as costelas. Church não é


o

homem mais carinhoso que eu já conheci, então o abraço não só me pegou de

surpresa, mas também aqueceu o meu coraçãozinho, que estava todo partido
e

despedaçado por causa de Quaid.

– O patrão sabe que este lugar é tão seu quanto dele. Você sempre foi bem-

vinda e sempre fez falta. Ele vai ouvir o que você tem a dizer, e aí você vai

ouvir o que ele tem a dizer e pronto – o segurança inclinou a cabeça na

direção dos fundos do bar e levantou de leve os cantos da boca, o que era o

mais próximo de um sorriso que eu já tinha visto ele dar.

– Ele está lá vendo os boletos e as contas do mês, então acho que você será

uma distração bem-vinda.

Balancei a cabeça, dedicida, endireitei a coluna, me soltei do abraço e fui

andando pelo chão de tábuas detonado na direção do escritório de portas

fechadas. Bati, e pareceu que passou uma eternidade até alguém soltar um

“entra” curto e grosso. Abri a porta e fiquei esperando receber uma careta ou

um olhar de reprovação quando Rome levantasse o rosto daquela mesa


bagunçada para ver quem era responsável por aquela interrupção. O que eu

ganhei foi um sorriso que mostrou dentes brancos como pérolas e


transformou

aquele seu rosto rústico e bonito, com aquela cicatriz que cortava ao meio
uma

das suas sobrancelhas e a sua testa, em algo de tirar o folêgo, difícil de parar

de olhar.

– Avett… o que a traz aqui? Seu pai veio com você? – Rome ainda fala

como se estivesse no Exército. Não desperdiça palavras nem tempo, e aqueles

seus olhos azuis de laser me grudaram no chão sem que ele fizesse o menor

esforço. Ele inclinou a cabeça raspada para o lado e espremeu os olhos

quando eu não respondi imediatamente.

– Você estava chorando?

Dei uma risada nervosa e fui até uma das cadeiras velhas que havia na

frente da sua mesa. Me sentei naquele tecido gasto e olhei nos seus olhos

curiosos com sinceridade. Eu estava me sentindo à flor da pele, exposta,

reduzida aos meus elementos mais básicos, depois daquela terrível discussão

com Quaid na frente do Tribunal, e não tinha como segurar aquela inundação

de sinceridade e admissão de culpa que saía de mim.

– Vim aqui porque queria te pedir desculpas. Desculpa por ter sido uma

funcionária de merda. Desculpa por não ter te respeitado nem o que você fez
com este lugar. E me desculpa, desculpa mesmo, por não ter dito “não”
quando

Jared me pediu para tirar dinheiro do caixa. Odeio ter colocado você na

posição de ter que me demitir. Isso me deixa tão puta comigo mesma que fiz,

de propósito, coisas que tornariam impossível eu voltar aqui um dia. Você é

um homem bom, Rome. O meu pai não teria feito o que fez com o bar se não

fosse você. Perdi muito tempo estragando tudo o que havia de bom na minha

vida, por isso que sabotei todas as oportunidades que você me deu. Posso te

dar a explicação comprida do porquê eu acreditava merecer sofrer e por que

continuava inflingindo ferimentos em mim mesma, mas a moral da história é

que sei que me punir nunca me levou a lugar nenhum, e essas ações fizeram

muito mais mal a outras pessoas do que a mim – pisquei para ele, mordi o

lábio e completei: – Como você e Asa.

Rome atirou a caneta que estava segurando na mesa, veio para a frente,

apoiado nos cotovelos, e olhou intensamente nos meus olhos.

– Sabe, quando a gente volta para casa depois de ficar na zona de guerra e

tem que se ajustar a uma existência normal, do cotidiano, ninguém fala como
a

gente deve lidar com tudo aquilo que trouxe. Quando se está em uma situação

em que todas as suas decisões são uma questão de vida ou morte, a gente
toma
essas decisões sabendo que vão afetar outras pessoas além de você mesmo –

fiquei enfeitiçada por suas palavras e pela sinceridade e profundidade com

que ele falou comigo.

– Quando a gente volta para casa, está repleto de coisas como

arrependimento e dúvidas. Não consegue dormir algumas noites, porque fica

se perguntando o que poderia ter acontecido se tivesse feito algo diferente, e

parece que a culpa vai te enterrar vivo. Mas chega uma hora que a gente se dá

conta de que só pode ficar em paz com as decisões que tomou, sejam lá quais

fossem os motivos para tomá-las. Não dá para anular essas escolhas, mas dá

para aprender com elas e deixá-las fazerem de você uma pessoa melhor. Fico

quase com inveja por você ter oportunidade de pedir desculpas, Avett. Tem

dias em que eu acho que daria tudo o que tenho para poder pedir desculpa por

algumas coisas que posso ter feito errado. E não estou falando só do tempo
em

que fiquei no Exército.

Soltei o ar e senti que parte do pavor e da ansiedade que estavam rondando

aquele encontro desapareceu. Levantei as mãos e esfreguei meus olhos

borrados.

– Obrigada por entender. Também pretendo pagar cada centavo que roubei

de você.

– Eu entendi antes mesmo de você entrar aqui. Tenho um irmão mais novo
que por um tempo só queria saber de se autodestruir. Na verdade, você parou

com isso bem mais rápido do que ele.

Franzi o nariz, soltei um suspiro e falei:

– É porque as meninas amadurecem mais rápido do que os meninos.

Rome deu risada.

– É verdade. E, só para você saber, sempre vai ter um lugar para você aqui.

Aquela cozinha é da sua mãe, não minha. Então, se algum dia você quiser

voltar, é com ela que precisa se entender.

– A gente está se entendendo bem… bom, melhor do que antes. E, desde

que eu saí da cadeia, andam rolando muitos pedidos de desculpas, muitas

responsabilidades têm sido assumidas. Ter me dado conta de que estava


quase

tirando diploma de presidiária foi surpreendentemente esclarecedor.

– Você tem certeza de que todo esse esclarecimento não veio do homem que

te tirou da prisão? Depois que Brite parou de reclamar que o homem anda em

cima de um foguete de bunda, só o elogiou. Parecia que o seu pai estava

shippando você com o advogado bonitão.

Eu levantei as sobrancelhas e perguntei:

– Como assim, shippando?

Ele revirou os olhos e deu um sorriso quando percebi que ele ficou corado.

– A culpa é da Cora, que fica assistindo esses seriados de adolescente que


só falam “shippar isso, shippar aquilo”. Ela me contaminou.

Cora é a futura esposa baixinha e muito grávida do Rome. Os dois têm uma

filhinha encantadora, que está se revelando tão geniosa quanto a mãe. E

também é a única pessoa com coragem e teimosa o suficiente para aguentar o

ex-soldado mal-humorado um dia sim e outro também. De fora, os dois são


tão

diferentes quanto o dia e a noite, mas quando a gente vê eles juntos, fica
óbvio

que formam um casal perfeito e estão perdidamente apaixonados. Os dois são

minha meta total no quesito relacionamento.

Dei uma risada de verdade desta vez, que acabou em um suspiro.

– O advogado pode ter alguma coisa a ver com o esclarecimento e tem tudo

a ver com isso – apontei para o meu rosto, todo manchado borrado. – Tem

coisas que não são para ser mesmo.

– E tem coisas que são para ser mesmo quando parece que não são – ele

parecia o meu pai falando, o que era bem esquisito, e disse isso para ele.

Rome me deu aquele sorriso de acelerar as batidas do coração de novo e

respondeu, curto e grosso: – Que bom.

Me levantei e não pude deixar de ir para o outro lado da mesa, para lhe dar

um abraço rapidinho.

– Fico feliz que esse bar e o meu pai encontraram você, Rome. Fico
mesmo.

Ele me deu um tapinha no braço, todo sem jeito, e quando se levantou tive

que levar a cabeça para trás, para conseguir olhar nos seus olhos.

– Fico feliz por você finalmente ter se encontrado, Avett.

Engoli o bolo de emoção que se formou na minha garganta e ameaçava fazer

mais lágrimas rolarem. Nunca fui de chorar por qualquer coisa, mas aquele

contato todo com as minhas emoções estava detonando as minhas barreiras já

meio degastadas.

– Acho que o segredo é continuar encontrada. É fácil se perder quando a

sua vida está em um estado constante de desordem. O caminho certo a seguir

desaparece assim que você o encontra.

Ele pôs a mão em meu ombro e me falou, com um tom solene:

– É por isso que a gente precisa encontrar alguma coisa ou alguém que

possa nos servir de guia, alguém que não nos perca, e que a gente não tenha

medo de perder quando essa fatalidade acontecer.

Eu me encolhi toda, sem querer, porque havia me afastado do homem que,

com certeza, era meu norte magnético, o homem que não me deixava ficar
por

aí perdida desde o momento em que o conheci. Quaid não se perde na

tempestade: ele a enfrenta.

– Vou pensar nisso, grandalhão. Obrigada por ter tornado essa conversa tão
fácil. Você sabe tão bem quanto eu que não precisava ser assim.

Eu estava com a voz rouca e podia sentir as lágrimas prestes a cair de

novo, porque não conseguia tirar minha Águia da Lei da cabeça.

Rome não disse nada. Saiu do escritório comigo e foi até o salão quase

vazio do bar. Church estava apoiado no balcão comprido, conversando com

um dos fregueses fiéis e um barman que não reconheci.

– Cadê seu pai?

Levei um instante para me dar conta de que ele procurava quem estaria

bancando minha babá naquele dia.

– Tive uma reunião no Tribunal, por causa do julgamento de Jared. Fui

sozinha porque não sabia quanto tempo ia demorar. Ele está em casa, com a

minha mãe, esperando eu dar notícias. Preciso ligar para os dois e dizer onde

estou. Preciso chamar um táxi e ir para casa antes que eles fiquem

preocupados.

Rome grunhiu e cruzou os braços sobre o peito musculoso, que estava

coberto com uma camiseta da banda Eagles desbotada.

As coisas aqui estão bem devagar. Posso te levar, já que o Church está aqui

para ficar de olho no bar.

Eu já ia aceitar, quando meu celular se acendeu e vi o número do meu pai

na tela. Levantei o dedo, pedi para Rome esperar um instante e encostei o


aparelho no ouvido.

– Oi, pai. Desculpa não ter ligado antes. Aquele advogado que Jared

contratou é uma figura, um escroto completo. Preciso de um tempinho. Estou

no bar com Rome. Ele se ofereceu para me levar para casa.

– Diz para ele que já tem alguém te esperando do lado de fora – não era a

voz do meu pai. Era uma voz de alguém que eu não conhecia e, antes que eu

pudesse perguntar quem é que estava com o celular do meu pai, caramba, a

pessoa do outro lado da linha disparou:

– É melhor você convencer quem está do seu lado que está tudo bem, ou

seus pais vão saber como é perder tudo de verdade.

Rome estava me olhando, curioso, então dei um sorriso forçado e me

afastei um pouco dele. Pus a mão em cima do estômago, que estava

queimando, e sussurrei:

– Entendi.

Tive que travar os joelhos, de tão bambas que minhas pernas ficaram.

– Entendeu mesmo? Só para ficar claro o que vai acontecer: você vai sair e

entrar no Yukon preto que está parado aí na frente. Vai contar para os meus

funcionários onde escondeu as drogas que o seu namorado roubou do meu

patrão e vai levá-los até esse local. Se chamar a polícia, se contar para

alguém o que está acontecendo, essa casinha linda em que você está morando
vai arder em chamas como a outra. Só que, dessa vez, seus pais vão queimar

dentro dela.

Limpei a garganta, olhei para trás e vi que Church estava ao lado de Rome,

e os dois me observavam com toda a atenção. Tremi e tentei falar o mais


baixo

possível, para ninguém ouvir:

– Como é que eu sei que você ainda não machucou os meus pais?

Ouvi algo se movimentando, um som óbvio de luta, e aí a voz trêmula do

meu pai:

– Não vai a lugar nenhum com essa gente, Avett! Está me ouvindo? Liga

para a polícia e fica em segurança. Não se preocupa comigo…

Então ouvi o som ensurdecedor de algo se partindo e algo pesado caindo no

chão. Fiquei sem ar e pus a mão sobre a boca.

– Se eu fosse você, ignoraria o conselho do seu pai. Se a polícia aparecer,

esse lugar vai arder em chamas como uma pilha de lenha, e nós vamos atrás
do

advogado. Queremos a mercadoria. Assim que pusermos as mãos nela,


vamos

embora. A sua liberdade e a segurança dos seus pais em troca das nossas

drogas. Me parece uma escolha bem simples, se você quer saber.

Podia até ser, se as tais drogas existissem e se eu já não soubesse como


aqueles caras cuidavam dos negócios. Ainda tenho pesadelos com meu
último

encontro fortuito com eles e, pelo jeito, uma senhoria com taco de beisebol

não seria suficiente para me salvar desta vez.

– Nem tente ligar para o advogado e pedir ajuda. Tem gente vigiando ele,

caso você resolva bancar a difícil. Ele é o nosso plano B.

Quando ouvi que Quaid estava correndo o mesmo perigo que os meus pais,

de repente tive uma ideia. Não era o melhor plano do mundo, mas foi o
melhor

que eu consegui pensar, dadas as circunstâncias.

– Tudo bem. Estou indo para a SUV. Vou entregrar o que vocês querem.

– Viu como foi fácil ? E pensar que todo mundo me disse que você não era

nem um pouco esperta.

Fechei os olhos e apertei ainda mais o celular.

– Não, sou esperta o suficiente para deixar as pessoas que eu amo fora de

mais uma merda que fiz. Estou saindo.

Desliguei, virei para Rome e Church e disse:

– Preciso que vocês dois vão até a casa da minha mãe. Meu pai precisa

muito de ajuda com um negócio.

Quase engasguei de tanta culpa ao dizer aquelas palavras. Eu não podia

chamar a polícia, mas podia mandar dois ex-militares altamente treinados


para

salvar os meus pais. Precisava fazer isso sem contar o que estava realmente

acontecendo, porque eles não iam me deixar sair por aquela porta de jeito

nenhum se soubessem o que estava à minha espera do outro lado.

– Ele está com um problema e precisa de vocês dois lá em casa. Preciso

voltar para o Tribunal. Querem me fazer mais algumas perguntas. O


advogado

de Jared até mandou um carro vir me buscar. Preciso ir – corri até a porta, e

os dois ficaram me chamando e vieram atrás de mim. Olhei para trás e falei: –

Vocês precisam ir logo, não tentem ligar porque ele não vai poder atender.

– Que porra acabou de acontecer, Avett?

Rome tinha perdido oficialmente a paciência, e tive que desviar de seus

braços, que tentaram me segurar.

– Vão lá para casa… e vocês dois precisam tomar muito, muito cuidado. É

uma situação muito ruim, e só vocês podem ajudá-lo. Prometam que não vão

chamar a polícia. Se chamarem, a situação vai ficar ainda pior. Estão

entendendo o que eu estou tentando dizer? – Rome e Church me olharam


feio,

fazendo uma careta confusa e brava. – Quando chegarem lá, digam que eu
sinto

muito. Muito mesmo.


Abri a porta e corri para o estacionamento, com os dois atrás de mim. Vi a

SUV grande e preta parada na rua e corri em linha reta, com o coração saindo

pela boca. Pus a mão na maçaneta da porta de trás e olhei para Rome e

Church, que estavam com o celular na orelha, andando para lá e para cá no

asfalto, como dois predadores enjaulados. Eu deveria ter adivinhado que eles

não iriam acreditar em mim depois daquele surto repentino e só pude torcer

para que não chamassem a polícia antes de irem ver o que estava acontecendo

com o meu pai. Antes de entrar no carro, gritei “cuidado!” e me atirei no

banco de trás, rumo ao desconhecido. Jamais vou me perdoar se alguma coisa

acontecer com eles, mas precisava tomar alguma atitude.

Um cara que não podia ser muito mais velho do que eu estava no banco do

lado, e me segurei para não vomitar ao ver a arma invocada que ele tinha na

mão. O motorista se virou para trás e me olhou através dos óculos de sol

espelhados, e outro passageiro se virou para mim e me deu um sorriso

sugestivo. Eu o reconheci do ataque ao apartamento de Jared e fiquei com o

corpo todo anestesiado.

– Aonde vamos?

O motorista começou a dirigir aquele veículo enorme. Engoli em seco e

tentei fazer meu corpo inerte funcionar. Cerrei os punhos, trêmulos, em cima

do meu colo e não tirei os olhos da arma que estava apontada para baixo, bem
do meu lado.

– Você está com o tanque cheio?

Finalmente consegui soltar as palavras, e os dois homens do banco da

frente se viraram para mim.

– Por quê?

Soltei o ar e pude sentir um gosto de terror e pânico na minha língua.

– Porque vamos para as montanhas.

Não para qualquer montanha. Vamos para as montanhas de Quaid. Eu ia

levar aqueles bandidos para uma caçada inútil. Assim, com sorte, Rome e

Church ganhariam tempo para ajudar meus pais. As chances de eu não ver o

sol nascer de novo eram grandes e, se fosse o caso, eu queria passar meus

últimos instantes de vida no lugar onde me apaixonei e me senti mais amada

do que nunca.

Foi a decisão mais fácil que já tomei.

CAPÍTULO 17.5

Church

–ELA DISSE QUE NÃO ERA PARA CHAMAR A POLÍCIA.

Olhei feio para Rome, de canto de olho. Fazia muito tempo que o

grandalhão não era meu comandante, mas alguns hábitos são difíceis de
mudar.

E, desde que vim trabalhar para ele em Denver, vira e mexe espero que ele
me

dê instruções e conselhos. Aquele homem já salvou minha vida mais de uma

vez, e aquela era uma das raras ocasiões em que eu o questionava. Era por

isso que estava sentado ao lado dele, naquela sua picape enorme, enquanto

Rome atravessava a cidade correndo, para chegar na casa de Darcy, com base

apenas nas palavras em código de Avett e no seu comportamento esquisito.


Ele

achava que tinha alguma coisa errada. E eu, apesar de odiar isso, achava que

ele podia ter razão.

Rome atirou o celular no banco e também me olhou feio. Aquela cicatriz

que corta sua sobrancelha no meio e atravessa sua testa sempre o faz parecer

mais bravo e assustador do que ele realmente é. Meu chefe optou por se

encaixar na vida de civil desde que saiu do Exército. Ele tem uma garota do

tipo que é para ficar para sempre e uma família que não para de crescer, isso

sem falar que está pagando contas e cuidando da papelada como qualquer

sujeito normal, em vez de fazer as coisas que um homem treinado para matar

de diversas maneiras poderia estar fazendo. Talvez eu devesse sentir inveja. É

muito óbvio que Rome encontrou não só paz de espírito, mas também seu
lugar

no mundo, desde que saiu do Exército, mas nada disso é para mim.

Na verdade, correr em direção ao desconhecido, com armas escondidas,


enquanto tentávamos nos esquivar de várias situações perigosas que podiam

estar à nossa espera quando chegamos na casa, fez eu me sentir vivo,

revigorado, como há muito tempo não me sentia. Não sei que tipo de porra

doentia sou por causa disso, mas tenho saudade de me desviar de balas e do

som de bombas explodindo bem perto de mim enquanto tentava dormir. Não

sinto falta de ver meus amigos morrendo e lutando em uma guerra que
parecia

nunca ter fim. Se eu nunca mais tivesse que ligar para outra esposa ou família

de um soldado falecido em combate, seria um homem feliz. Um homem

entediado, um homem não realizado, mas feliz. Tenho quase certeza de que
não

escondo que a única parte que gosto no meu trabalho de segurança no bar é

bater nos imbecis que saem da linha e as conversas que tenho todos os dias

com Dixie.

O trabalho é bem simples – posso fazer até dormindo –, mas a Pequena

Miss Sunshine, com seus cachos cor de morango e seu jeito de “dias pésimos

não existem”, não é nem um pouco. Nunca conheci ninguém tão… feliz. A

mulher age como se o mundo não fosse uma merda e que aquele emprego de

entregar drinques e sorrir para os bêbados, que não vai lhe levar a lugar

nenhum, fosse a melhor coisa que já aconteceu em sua vida. E o que


realmente
me pega é o fato de ela querer ser minha amiga. Que porra é essa? Só tive

alguns amigos na vida, e com certeza nenhum era mulher. Não fico amigo de

quem quero comer e, por mais que ela não faça meu tipo, só o seu otimismo

basta para meu pau ficar duro quando não devia, quando a mulher me dirige

aqueles olhos lindos de Bambi. Aqueles olhos enormes e azuis que são tão

suaves que me fazem querer acreditar em coisas que sei que não são reais.

Deixei tudo o que fosse parecido com esperança e fé no deserto, quando meu

último pelotão foi atacado e tive que enterrar quase todos os homens ao lado

dos quais havia lutado por 18 meses. Isso não tem importância. Dixie espalha

raios de Sol à sua volta, tenta atravessar com esses raios a nuvem negra

perpétua que paira sobre mim, e eu quero ficar com ela. Quero mostrar para

essa mulher como o mundo pode ser feio e duro e como as pessoas que estão

nele realmente são. E, já que quero destruir tudo o que a faz ser quem é, fico

longe dela enquanto, por dentro, morro de vontade de ficar o mais perto

possível dessa garçonete ensolarada.

Meus dias de ficar de boa, matando tempo no bar, estão acabando, e não é

só porque ando me sentindo entediado e inquieto. Isso está chegando ao fim

porque está cada vez mais difícil ficar longe dessa menina, e me recuso a ser
a

razão pela qual a sua luz bela e contagiante se apagará.


– Eu não liguei para a polícia, liguei para uma policial. Royal disse que

vai me esperar ligar de novo, mas vai deixar o pessoal dela preparado para

agir assim que dermos o sinal.

Tamborilei os dedos em meu joelho, balancei a cabeça e perguntei:

– Você não sente mesmo falta disso?

Rome se virou para mim e fez uma careta.

– Não. Agora tenho pessoas de quem preciso cuidar e quero ver meus filhos

crescerem. Ser baleado e arriscar a vida são duas coisas que estão tão no fim

da minha lista de coisas para fazer com meu tempo que não têm nem
colocação

no ranking – ele levantou a sobrancelha cortada e perguntou:

– Você sente falta?

Encolhi o ombro e me virei para o vidro, na hora em que ele parou a picape

uma quadra antes da casa modesta de Darcy.

– Fiquei no Exército por muito tempo, mais tempo do que você. Às vezes,

acho que a luta e o medo mudaram meu sangue. Parece que ele não corre
mais

nas minhas veias como antes. Só consigo sentir quando tenho uma descarga
de

adrenalina.

Ele franziu a testa, apertou os lábios e falou:


– Isso não é jeito de viver a vida, Church. Você não devia precisar ir atrás

de coisas que podem te matar para se sentir vivo.

Não, não devia. Mas preciso, o que faz de mim um homem perigoso, muito

mais perigoso do que eu era quando trabalhava para o bom e velho Tio Sam.

Saímos do carro e fiz sinal com a cabeça para Rome quando fomos para

trás da casa.

– Você cobre a área e deixa que eu entro.

– Não sabemos com o quê estamos lidando. Nós dois deveríamos cobrir a

área e aí tentar um jeito de entrar juntos.

Sacudi a cabeça e falei:

– De jeito nenhum, meu irmão. O que pode acontecer de mais inesperado

está dentro da casa. Brite é um sujeito grande pra caralho, é preciso mais de

um para derrubá-lo. Você tem essa gente de que precisa cuidar, então não há
a

menor necessidade de correr mais risco do que já está correndo. Eu entro.

Você garante que não tem ninguém do lado de fora.

Ele fez uma careta e pude ver, em seus olhos, que ele iria argumentar,

mesmo antes de ele dizer qualquer coisa.

– Não gosto desse plano… nem um pouco.

Dei uma risadinha seca e apertei seu ombro musculoso.

– Bom, você não é mais meu comandante, e tenho mais experiência tática
do que você, então é isso que vai acontecer.

Rome soltou um suspiro de resignação.

– Vamos rezar para não precisar da sua experiência tática.

Se eu pudesse rezar por alguma coisa, com certeza não seria por isso.

– Vamos fazer o que sabemos fazer para depois podermos nos concentrar

em descobrir aonde Avett foi, porque você sabe tão bem quanto eu que
aquela

SUV em que ela entrou não era nenhum carro com motorista particular. Essa

situação é uma grande merda, e estamos enfiados nela até o pescoço.

Rome apenas grunhiu, e nos separamos, dando a volta na quadra em

direções opostas. Ele mudou muito desde que saiu do Exército, mas uma
coisa

que ficou enraizada nele, seja qual for a situação da sua vida, é a necessidade

de proteger quem precisa ser protegido. Brite não é só o mentor e o salvador

de Rome. É amigo dele, e o ex-soldado não mediria esforços para garantir a

segurança de seu amigo. E eu tomei para mim a responsabilidade de garantir

que ninguém importante, ninguém que tenha alguém a perder, se machucasse.

Eu ia invadir o local e tomar aquele pico de adrenalina, aquela descarga de

fogo e foco, que a primeira coisa emocionante que me acontecia em seis


meses

trazia.
Atravessei o quintal da casa que ficava nos fundos da casa de Darcy e fugi

de um pastor alemão que não parou de latir enquanto escalei a cerca que

separava os dois quintais. Por sorte, o quintal de Darcy tinha vários elmos

bem grandes espalhados, então podia me esconder atrás de um deles bem

rápido caso os bandidos que estavam mantendo Brite e Darcy como reféns

viessem ver o que tinha feito o cachorro enlouquecer.

Esperei um instante para ver se alguém ia sair da casa atirando. Mas, já que

nada aconteceu, cheguei mais perto, usando as árvores e depois o deque na

parte dos fundos como cobertura. Tomei o cuidado de ficar com a cabeça

abaixo das janelas, já que sou alto, e qualquer um que olhasse para fora

poderia me ver. Fui me esgueirando pelo lado da casa até chegar à porta dos

fundos. Não achei que teria sorte de encontrá-la destrancada. Mas, pelo jeito,

o destino queria manter Brite longe do perigo tanto quanto eu, porque
consegui

girar a maçaneta e abri-la com facilidade. Estava tudo escuro dentro da

garagem, e pude ver claramente a silhueta da Harley de Brite e o volume do

Chrysler 300 de Darcy parado ao lado da moto.

Meu coração batia forte, ecoando em meus ouvidos. Mas, por fora, cada

parte do meu corpo estava focada na possível ameaça à minha espera do


outro

lado daquela porta, que me separava do que estava acontecendo dentro da


casa. Não ouvi nenhum barulho vindo do lado de fora, mas Rome é bom a
esse

ponto. Se houvesse algum bandido protegendo o perímetro, ele iria derrubá-


lo

sem fazer barulho, mesmo que não usasse essas suas habilidades há anos.

Não tive tanta sorte com a outra porta, que estava trancada. Nesse momento,

todos os meus esforços para não ser percebido estavam prestes a explodir. Eu

não ia perder tempo tentando abrir a fechadura, se um pouco de força e meu

ombro poderiam abrir-la com mais facilidade. Tirei o revólver que estava

enfiado nas minhas costas e desarmei a trava. Respirei fundo e fui para trás,

para ter impulso suficiente e derrubar a porta, sabendo que só teria uma

chance de passar por ela e pegar quem estivesse do outro lado de surpresa.

Senti como se estivesse vivendo nos bons e velhos tempos e não pude negar

que o sangue que corria em minhas veias e a emoção me fizeram sentir vivo
de

um jeito do qual eu sentia muita falta, agora que a minha vida não se resumia

mais a guerra e carnificina.

A madeira frágil cedeu facilmente. O corpo que estava do outro lado é que

foi mais difícil de derrubar. Levei um cara pro chão assim que arrombei a

porta. Não perdi tempo e fui logo dando uma coronhada na lateral da sua

cabeça, que o nocauteou. Joguei a cabeça para trás, porque o sangue


esguichou
em mim e rolei para o lado, porque começaram a explodir tiros logo acima da

minha cabeça. Uma bala entrou no chão, bem ao lado de onde o meu rosto

estava, há apenas alguns instantes. Soltei um palavrão e mirei, ainda deitado.

Disparei um tiro que acertou o alvo na mosca, se é que os gritos que o


homem

que estava atirando deu queriam dizer alguma coisa.

Levantei com dificuldade, segurando a arma com as duas mãos, e olhei em

volta rapidamente. O cara que levou a coronhada havia caído duro, e o que

levou o tiro estava deitado no chão, segurando a perna, que jorrava sangue

sem parar pelo buraco de bala que eu havia feito. Fui até ele e chutei sua
arma

para longe. Inclinei a cabeça, olhei para o bandido e perguntei:

– Quantos mais? – ele me olhou com os olhos vidrados, pálido, ficando

cinza. Eu podia ter acertado sua artéria femoral, mas não tinha tempo a perder

me sentindo mal com aquilo. Cutuquei seu corpo com a ponta da minha bota
e

perguntei de novo: – Quantos mais estão dentro da casa?

Ele rolou a cabeça para o lado, fechou os olhos, e tive certeza de que não ia

me responder tão cedo. Soltei um palavrão baixinho e encostei as costas na

parede, para conseguir andar pelo corredor até a frente da casa, protegendo a

maior área do meu corpo possível. Não dava para acreditar que eu tinha
saudade daquilo… mas tinha. Estava funcionando guiado pelos instintos e

pelos meus anos de treinamento. Era bom fazer alguma coisa, qualquer coisa,

que parecia útil e tinha um propósito, de novo. Eu precisava daquela descarga

de adrenalina, precisava do perigo. E, como Rome bem disse, aquilo não era

jeito de viver a vida que eu tinha sorte de ainda ter. Eu poderia muito bem ter

sido um dos meus irmãos que faleceram no campo de batalha e não tiveram

oportunidade de fazer mais nada.

Quando cheguei ao final do corredor, vi um reflexo em um dos quadros que

Darcy tinha na parede. Brite estava deitado de lado no chão, com as mãos

amarradas atrás das costas. Não estava se mexendo, mas isso poderia ser

porque tinha um homem de terno escuro, que também estava refletido


naquela

imagem distorcida, apontando um revólver para Darcy, que estava sentada no

sofá, chorando.

– Caralho.

A situação tinha outro nível de seriedade quando não eram insurgentes

fazendo outras pessoas de refém, mas bandidos ameaçando uma família

inocente. Eu não sabia o que era pior, mas não podia ficar parado e deixar
que

aqueles caras machucassem ainda mais Darcy e Brite.

– Ouvi a confusão que rolou nos fundos da casa, e o cara que deixei de
guarda lá fora ainda não fez contato pelo rádio. Sei que você está aí. E, se não

quer que o cérebro dessa linda senhora se espalhe por todo o sofá, jogue a sua

arma onde eu possa ver, mexa essa bunda e venha até aqui.

Soltei um palavrão de novo, desta vez alto o suficiente para o cara me

ouvir. Nunca gostei de abrir mão da minha arma. Mas, naquele caso, eu não

tinha escolha. Atirei o revólver no chão e chutei, e ele foi deslizando até a

sala. Sacudi a cabeça, pensando que tudo tinha dado errado muito rápido,

levantei as mãos na minha frente, fazendo o gesto universal de rendição, e

entrei. Olhei para Brite e fiquei imediatamente aliviado de ver que o peito

gigante dele estava subindo e descendo, respirando normalmente. Estava com

os olhos abertos e furiosos, me olhando. O sangue escorria por seu rosto,

pingando de um talho feio, da largura da sua testa. Eu sabia que o


motociclista

durão não ia se render sem lutar.

O homem armado sacudiu a cabeça e me deu um sorriso que me deixou

arrepiado.

– Não acredito que você jogou mesmo a sua arma. Isso é coisa de amador, e

garanto que a menina vai pagar por não ter seguido as ordens.

Ouvir Brite urrar lá do chão e Darcy chorar ainda mais.

Abaixei as mãos e levantei a sobrancelha para aquele invasor pretensioso.

– Não, coisa de amador é trazer uma única arma em uma situação


desconhecida, sem saber o número de elementos hostis.

Antes que o sujeito pudesse disparar, o que eu tinha certeza de que ia fazer,

porque ele estava com o dedo no gatilho, tirei a outra arma que tinha

escondida atrás das costas e atirei. Acertei seu ombro, e o revólver que ele

estava segurando caiu no chão, fora de seu alcance. Atravessei a sala


correndo

e atirei o bandido no chão antes que ele conseguisse se recompor e pegar a

arma de novo. Dei um soco tão forte na sua cara que ouvi os ossos da minha

mão quebrarem. Ele gorgolejou, um fio de sangue saiu pela lateral da sua

boca, e ele soltou um gemido digno de dar pena. Fiquei satisfeito, sabendo
que

aquele bandido não ia se mexer tão cedo. Me levantei e perguntei para Darcy

onde eu podia encontrar corda para amarrar todos aqueles invasores.

A mulher só balbuciava e não conseguiu responder, mas Brite gritou que

tinha uma porção de lacres na garagem. Acabei rapidinho com o cara que

estava no fundo do corredor e me desviei do outro que, tinha quase certeza,

havia sangrado até morrer. Quando virei o braço do sujeito que eu havia

acertado à bala, ele gritou de dor e me xingou de uns nomes bem


interessantes.

Quando consegui prender todos eles, Rome atravessou a porta da frente

seguido por uma bela ruiva vestida com o uniforme azul da polícia.
Os dois ficaram parados, tentando absorver aquela situação sangrenta, mas

controlada. Rome teve que, literalmente, se sacudir para voltar à Terra, então

foi até Brite e começou a desamarrá-lo.

– Vou chamar reforços. Pergunte para o cara que ainda está consciente se

sabe aonde os homens que estão com Avett foram.

A policial ruiva saiu pela porta da frente, falando pelo rádio preso em seu

ombro.

Brite ficou de pé em um pulo e foi desamarrar sua mulher. Seus olhos

castanhos nos olhavam com uma intensidade que só uma pessoa que já viveu

uma guerra ou um pai cuja filha está em perigo poderia manifestar.

– Preciso ligar para Quaid. Ele pode saber aonde Avett levaria esses caras.

Preciso trazê-la de volta.

Rome pôs a mão no seu ombro e disse, com um ar solene :

– Vamos trazê-la. Essa é nossa única opção.

Brite balançou a cabeça e começou a mexer freneticamente no celular.

O soldado se virou para mim, com os olhos espremidos, e perguntou, tão

baixo, que só eu ouvi:

– Você sente mesmo falta disso, caralho?

Olhei para o sangue à minha volta e senti o cheiro acre de pólvora que

pairava no ar. Flexionei minhas mãos machucadas e mudei de posição.


– Sinto.

E é por isso que tenho que ir logo embora de Denver, antes que eu faça

alguma coisa imbecil, tipo me apaixonar por uma garota que não faz ideia de

quem eu sou de verdade.

CAPÍTULO 18

Quaid

ORSEN ESTAVA ME ENCARANDO, DO OUTRO LADO DA SUA


MESA, COM UMA

expressão que nunca havia dirigido a mim. Parecia frustrado e

decepcionado. Mas, mais do que tudo, resignado. Suas mãos estavam

pousadas na barriga saliente, e os lábios estavam tão apertados que parecia

que seu rosto estava esticado demais por cima dos ossos.

– O que você tem a dizer em sua defesa, Quaid?

Levantei a sobrancelha enquanto ele falava e me recostei na cadeira. Estava

me sentindo como criança que é mandada para a sala do diretor. Antes, eu

faria tudo que estivesse ao meu alcance para aplacar a ira de Orsen e

consertar aquela situação. Mas, agora que entendo melhor o que é realmente

importante para mim e pelo que de fato quero lutar, tive que me segurar para

não revirar os olhos por causa da sua braveza exagerada.

– Nada – eu me acomodei na cadeira e cruzei a perna. Queria que Orsen

soubesse que eu não estava intimidado por aquela reuniãozinha e que estava
cansado de ele me tratar como seu fosse seu cachorrinho.

– Não tenho nada para dizer em minha defesa, Orsen. Eu falei que não ia

defender seu amigo. Então, mesmo que eu estivesse na minha sala quando
você

o levou lá hoje a tarde, minha resposta seria a mesma.

As sobrancelhas peludas de Orsen se levantaram tanto que quase

desapareceram no meio do seu cabelo branco.

– Por acaso você se esqueceu de que trabalha para este escritório? Um

escritório do qual você tem feito de tudo para se tornar sócio, devo

acrescentar.

– Não esqueci, porque é esse escritório que fica abanando essa sociedade

na minha frente como se fosse uma cenourinha de ouro, há anos, enquanto eu

pulo sobre todos os obstáculos que você põe na minha frente. Me responda

com sinceriedade, Orsen, você e Duvall algum dia chegaram mesmo a

considerar a possibilidade de me promover a sócio?

Ele bufou, e observei suas bochechas inchadas ficarem vermelhas. Não era

de se surpreender que Orsen sempre me passava os julgamentos dos clientes

importantes. Ele não sabia fazer cara de paisagem e sua expressão era tão
fácil

de ler quanto um livro aberto.

– Você precisa provar seu valor para se tornar sócio, Quaid.


Seu tom de voz era firme, mas as mãos não paravam de se mexer, revelando

tudo o que eu precisava saber. Eles iam me fazer trabalhar que nem louco,
pôr

minha cara e meu talento a bater na frente de todo o universo do Direito, com
o

nome deles por trás, mas nunca iam me deixar fazer parte do time que tomava

as decisões. Nunca iam me considerar igual a eles.

– Eu já provei meu valor, Orsen. Na verdade, mais do que demonstrei

quanto sou valioso para este escritório e para a comunidade do Direito em

geral. Já conquistei o privilégio de escolher meus casos e as pessoas que

quero defender. E, se você não concorda com isso, acho que está na hora de

cada um ir para o seu lado.

Observei o velho se encolher, e um pouco da sua arrogância se esvaiu.

– Você não vai pedir demissão. Dedicou muito tempo e energia na sua

carreira aqui.

Ele parecia ter muita certeza, e quase tinha razão. Antes de Avett, jamais

teria passado pela minha cabeça pedir demissão. Mas, depois que a gente

sobrevive a um furacão, a nossa perspectiva do que realmente importa nessa

vida muda, e eu não preciso nem quero mais impressionar Orsen McNair. E

tenho quase certeza de que também não quero mais trabalhar para ele.

– Aí é que está, Orsen. Um tempo e uma energia que investi no lugar errado.
Se eu não estivesse tão focado em você finalmente reconhecer o meu valor,

talvez tivesse me dado conta antes de que o meu casamento estava

desmoronando. Se eu não estivesse tão convencido que virar seu sócio

finalmente me faria feliz, me faria achar que eu tenho um valor que eu não

tinha, talvez eu tivesse me dado conta de que as pessoas por quem eu estava

lutando, as pessoas para quem eu estava dando tudo o que eu tinha, eram do

tipo de pessoa que não merece nem um pouco o que eu tenho de melhor e

nunca, jamais, reconheceriam o que eu fiz. Tento ter uma vida boa desde que

me conheço por gente, Orsen. Essa merda, com certeza, não é.

Orsen levantou as mãos, e sua expressão mudou de acusadora para

adulação.

– Ora, ora, filho. Não tome nenhuma decisão precipitada. Onde mais você

acha que pode ter as oportunidades e ganhar o dinheiro que ganha aqui?
Temos

uma lista de espera de um quilômetro, cheia de jovens advogados que

acabaram sair da faculdade de Direito que morreriam para passar por essa

porta. Você tem sorte de termos lhe oferecido emprego, considerando que seu

currículo estava bem aquém do desejado. Eu escolhi você porque vi o fogo


em

seus olhos e a sua força de vontade, Quaid. Não se esqueça disso.

Eu só bufei e falei:
– Sou um bom advogado. Foda-se, sou ótimo advogado. Sou eu quem dá um

jeito em todos os casos enrolados, sujos, complicados e duvidosos que dão

dinheiro para esse escritório desde que fui contratado. Você acha mesmo que

alguém quer ser defendido por você ou por Duvall na frente do júri, já que

vocês não saem dessa porcaria de escritório há anos? Eu vou embora, e a

atenção da mídia e os casos importantes vão embora comigo. Então, pare de

fingir que não sei quem está fazendo favor para quem. Um dia sim, e outro

também, convenço as pessoas a agir contra o próprio bom senso. Ganho a


vida

mentindo, velhinho, então fique com essa pérola de sabedoria: você está fora

de forma quando o assunto é enganar o público. Então, não tente me passar a

perna, porque não vai funcionar.

Orsen parou de fingir que aquela era uma conversinha amigável, veio para

frente e apoiou as mãos na mesa. O tom de vermelho do seu rosto virou um

vinho furioso, e ele parecia cuspir cada palavra que me disse.

– Se você sair deste escritório, vou acabar com você, Jackson. Vou fazer

questão de garantir que nenhum outro escritório te contrate e que você nunca

mais tenha oportunidade de defender outro cliente.

Dessa vez, não me dei o trabalho de segurar minha vontade de revirar os

olhos. Também resolvi que Orsen e seu precioso escritório já tinham tomado

muito do meu tempo e da minha dedicação. Levantei e espalmei as mãos em


cima da mesa, com o corpo inclinado. Espremi os olhos para aquele homem

que, um dia, achei que me dava tudo que eu tinha e falei, sem rodeios:

– Não quero defender o tipo de gente que você acha que precisa de uma boa

defesa, Orsen. Não estou mais interessado em livrar da cadeia homens que

acham que podem pôr fogo em uma casa sabendo que seu filho está lá dentro.

Não quero que você me dê uma carta de recomendação nem me indique para

ninguém. Eu quero me afastar o quanto puder do homem que você contribuiu

para que eu me tornasse – vi um brilho de medo em seu olhar e senti uma

enorme satisfação ao ver que parte da minha velha grosseria e rudeza estavam

voltando a aparecer. – Vou esvaziar a minha sala até o final do dia.

Eu me afastei da mesa e já estava indo para a porta quando ele falou,

baixinho:

– Isso é tudo culpa daquela menina. Você estava indo rumo ao sucesso até

pegar o caso dela e deixar a garota te atingir.

Olhei para trás e fiz uma careta para ele bem na hora em que tirei o celular

do bolso, porque estava tocando, e vi o número de Brite na tela. Imaginei que

ele queria me xingar por fazer a sua filha chorar. Eu estava disposto a encarar

sua ira, só para poder dizer que estava tentando dar um jeito de provar para

Avett que ela é a coisa mais importante da minha vida. Um jeito que ele não

pudesse interpretar mal nem ignorar. Como Brite me parece ser o tipo de
homem que se expressa mais por atitudes do que com palavras, tive certeza
de

que poderia dar um jeito na situação usando as palavras certas.

Falei para Orsen, curto e grosso:

– Você tem toda razão. Ela fez eu me dar conta de que preciso mais na vida

do que o próximo caso importante, do que o próximo pagamento, mas você


se

engana quando diz que eu estava indo rumo ao sucesso, velhinho. Eu não

estava indo rumo a lugar nenhum, a não ser à pressão alta e a mais um monte

de merda inútil que aliás, nunca impressionou ninguém.

Apertei o botão, deslizei o dedo sobre a tela e fiquei esperando ouvir um

sermão a respeito de como a gente deve tratar uma mulher. O que ouvi foi a

voz ofegante de Brite, ainda mais rouca por causa do pânico.

– Quaid, Avett foi sequestrada.

Saí da sala de Orsen e aproximei o celular da orelha, apertando ainda mais

os dedos em volta do aparelho.

– Quê? Como assim, sequestrada?

Meus pés, por vontade própria, se afastaram da sala de Orsen e me levaram

pelo corredor até o elevador. Meu coração batia tão forte que mal conseguia

ouvir Brite falar, atropelando as palavras:

– Uns caras invadiram a nossa casa, fizeram eu e Darcy de reféns e ligaram


para Avett. Acham que ela sabe de alguma coisa sobre as drogas que aquele

vagabundo do ex-namorado roubou. Eu falei para Avett não ir a lugar


nenhum

com eles, mas você acha que a menina me ouviu? Ela entrou em uma SUV

preta, e sumiram com a minha filhinha.

– Você chamou a polícia?

Meu coração estava disparado, e minhas mãos estavam suando de medo.

– É claro que a gente chamou a polícia e passou a placa do Yukon, mas

esses caras têm armas e não estão para brincadeira. Precisamos descobrir

onde Avett os levou. Sei que ela ia querer levá-los o mais longe de Denver

possível. Você faz alguma ideia de para onde ela poderia ir?

– Espera aí, se vocês estavam sendo mantidos como reféns, como é que

você sabe tudo isso? Como é que você conseguiu me ligar?

Meu cérebro estava a mil por hora, mas a necessidade de reunir o máximo

de informações é uma coisa enraizada em mim, e eu não conseguia parar de

fazer perguntas enquanto praticamente corria até a minha picape.

– Pegaram Avett lá no bar. Antes de entrar no carro, ela disse para Rome e

Church que eu precisava que eles viessem aqui em casa. Bandidos armados

não são páreo para o ex-soldados do Batalhão de Operações Especiais.

Chamamos a polícia assim que a situação aqui em casa foi controlada, mas

isso já faz uma hora, os bandidos estão com uma puta vantagem.
Aonde Avett poderia ter levado aqueles caras? Aonde poderia ir para

conseguir ganhar tempo e garantir a segurança de todo mundo que ama?

Pus a mão na fechadura e soltei um monte de palavrões bem alto.

– Eu sei aonde ela está indo – para o mesmo lugar ao qual eu iria se não

quisesse que o resto do mundo me encontrasse. – Tenho uma cabana na

floresta, no meio do nada. Foi para lá que eu a levei quando passamos o fim

de semana fora. Vou ligar para a polícia rodoviária e falar para eles irem

correndo para lá, mas a floresta é densa, e não há muitos pontos de referência,

então é possível que eu encontre Avett antes deles.

– Esses caras são perigosos, Jackson. Estão armados. Estavam dispostos a

matar a Darcy e a mim e a tocar fogo na casa assim que tivessem notícia dos

bandidos que estão com Avett.

Meu corpo se enrijeceu quando ouvi um barulho atrás de mim. Refletido no

vidro do lado do motorista, vi um homem usando preto da cabeça aos pés

vindo na minha direção. Respirei fundo pelo nariz e falei para Brite:

– Tenho plena consciência de como esses homens são perigosos e de como

a situação é crítica, Brite. Mando uma mensagem com um endereço

aproximado assim que cair na estrada.

Eu me abaixei e saí da frente do homem, que tentou me segurar. Fui para o

lado e segurei o braço que ele havia levantado para segurar meu pulso e
aproveitei que ele foi pego de surpresa e eu estava com a vantagem. Torci seu

pulso atrás das suas costas, entre os seus ombros, com tanta força que ouvi o

som característico de ossos saindo do lugar. Bati o rosto dele contra o vidro

da lateral do carro e cheguei mais perto, para falar bem no ouvido do meu

agressor.

– É bom você rezar para os seus coleguinhas não terem tocado em um fio de

cabelo dela. Se vocês machucarem a menina de qualquer maneira, a cadeia


vai

parecer uma colônia de férias comparado ao que eu vou fazer com você e
seus

amigos.

O homem suspirou de dor porque apertei seu braço com mais força ainda.

– Quero pedir seu celular emprestado. Estou com o pneu furado e esqueci o

meu em casa.

Soltei um grunhido e me apoiei mais contra ele. Com a outra mão, revistei o

homem rapidamente e virei os bolsos do seu casaco. Não fiquei surpreso

quando um canivete caiu de um bolso e encontrei um revólver no outro.


Peguei

a arma de cano curto e enfiei na parte de trás da minha calça, por baixo do

meu paletó. Então empurrei o sujeito, que na mesma hora se virou, gemeu e
foi

para o lado quando soltei seu ombro machucado.


Ele piscou, fazendo careta, e chutei o canivete para baixo da picape.

– Achei que você fosse só um cara de terno. O pessoal falou que você é

advogado, não a porra do Rambo.

Tirei ele da minha frente e pus a mão na fechadura de novo.

– Nem sempre fui advogado. O cara que te paga deveria ter pesquisado

melhor – tive vontade de dizer para ele transmitir essa mensagem para os

colegas, mas não queria dar nenhuma pista aos homens que estavam com
Avett

de que eu estava indo atrás da minha namorada e faria tudo o que fosse

necessário para garantir a sua segurança e levá-la de volta para os pais sã e

salva.

O motor da picape roncou, e fiquei feliz quando soube que a polícia

rodoviária já tinha gente nas rodovias e nas interestaduais procurando pela

SUV. Passei as indicações para chegar no desvio e tentei explicar a melhor

maneira de chegar até a cabana, mas sabia que demoraria muito para

atravessarem a densa floresta em volta da casa. Eu era o único capaz de

chegar até Avett antes que algo impensável acontecesse.

Mandei uma mensagem rápida para Brite, passando o endereço aproximado

de onde, com certeza, Avett havia pedido para aqueles homens levá-la e nem

fiquei surpreso quando ele me disse que os caras que o haviam libertado já

tinham pegado a estrada. Ninguém ia deixar Avett enfrentar aquilo sozinha,


por

mais que ela estivesse determinada a fazer isso. Suas atitudes até podiam

parecer heroicas para algumas pessoas, mas eu a conhecia bem a ponto de

saber que aquela menina estava, mais uma vez, se rendendo quando não era

necessário. Avett não estava planejando sair viva daquelas montanhas, se isso

fosse garantir a segurança das pessoas que ama. Tive vontade de estrangulá-
la

por ser tão nobre e tão imbecil. Quando eu pusesse minhas mãos nela de
novo,

aquela garota nunca mais ia conseguir duvidar de que é a coisa mais

importante da minha vida e, se ela se sacrificar pelo bem maior, vou ficar sem

nada.

Um carro buzinou para mim quando mudei de pista, porque eu estava

prestando mais atenção no celular do que no trânsito. Guardei o aparelho e

acionei a suspensão da picape, fazendo-a pular e correr como aquele monstro

nunca correu na vida. A carroceria vibrava ao meu redor, e o motor roncava.

Fiquei com os olhos fixos na rua, desviando perigosamente do tráfego


urbano,

a caminho da interestadual que me levaria para fora da cidade. Torci pra que

ninguém chamasse a polícia por minha causa. E, se alguém chamasse, eu não

tinha a menor intenção de parar até chegar no desvio que levava à cabana. A
polícia teria que ir atrás de mim no meio das montanhas.

Normalmente, levava umas três horas para chegar lá. Cheguei em duas,

perplexo por não ter sido parado. A picape estava guinchando, e meus nervos,

à flor da pele, quando fiz a última curva, cantando pneu e espalhando

cascalho, mas vi a entrada da trilha e o Yukon preto. Também vi o sujeito


atrás

do volante se levantar e me olhar quando parei, derrapando em uma nuvem


de

poeira e exaustão, bem na sua frente.

Não foi uma chegada nem um pouco sutil. Mas, quando ele pegou o celular,

provavelmente para avisar que eu havia chegado, meu pé foi para cima do

acelerador. E, antes que eu pudesse pensar direito no que estava fazendo, a

picape começou a andar de novo e foi correndo em direção à dianteira do

Yukon.

Ouvi o guinchar do metal atingir outro objeto de metal, e o airbag foi

acionado e me deixou zonzo. Mas, quando consegui sacudir a cabeça e me

livrar da minha visão embaçada, me acostumar com o zunido nos meus

ouvidos e com o gosto forte de sangue na minha língua, percebi que toda a

parte da frente da SUV havia se encolhido como se fosse um acordeão, até o

parabrisa, e que o motorista estava atirado por cima do próprio airbag e do

volante, inerte. Seu rosto estava coberto de sangue, e ele não se mexia. Uma
nuvem de fumaça subia na parte da frente dos dois veículos, e era óbvio que

nenhum deles ia conseguir descer a montanha sem ajuda.

Quando saí do carro, estava com as pernas bambas. Toquei minha testa,

porque estava ardendo, e não me assustei ao ver meus dedos manchados de

vermelho. Eu havia batido a cabeça bem forte durante a colisão, mas não com

tanta força a ponto de entrar naquela floresta sem garantir que o motorista do

outro carro não conseguisse fugir, caso a polícia rodoviária parecesse.

Ao caminhar até o veículo destruído, pus a arma que roubei do bandido que

havia tentado me pegar de novo no cinto, porque não ia correr nenhum risco,

pois sabia que eu era a única esperança de Avett sair daquela floresta com

vida. Não foi muito fácil abrir a porta, uma vez que a frente do carro tinha
sido

esmagada para dentro. O motorista caiu para o lado, sem a porta para segurá-

lo. Ele, definitivamente, não ia a lugar nenhum tão cedo. Mas, mesmo assim,

tirei minha gravata e amarrei suas mãos no volante várias vezes. A seda ficou

bem apertada, e tive certeza de que seria impossível ele se soltar a menos que

arrancasse o volante. Considerando seu atual estado, isso me pareceu bastante

improvável.

Sacudi a cabeça – com força – para conseguir me concentrar de novo e me

encolhi todo, porque esse movimento fez o sangue jorrar por todos os lados.

Olhei para o meu sapato caro e jurei que vou vender tudo o que tenho e só
usar

jeans e botas de escalada. Se eu ainda precisava de algum sinal de que todas

aquelas coisas caras e luxuosas que me cercavam eram absolutamente inúteis

em situações importantes, foi esse. Naquele momento, eu precisava ser o

homem que me esforçava tanto para não ser, para conseguir ser alguém digno

da garota que eu estava tentando salvar.

Tirei a camisa de dentro da calça e o paletó. Eu ia ter que estraçalhar

aquele negócio para poder deixar uma trilha, sinalizando o caminho para

qualquer tipo de ajuda que chegasse. Eu estava recorrendo aos meus instintos

de sobrevivência e ao treinamento que recebi, tanto durante a minha vida na

natureza selvagem quanto das ferramentas que o Tio Sam me forneceu. Achei

que nunca mais ia usar isso de novo depois de passar no exame da Ordem.

Mas, naquele momento, não podia estar mais feliz por ter aquele tipo de

conhecimento à minha disposição.

Tirei os botões com os dentes. Fiz meus músculos funcionarem e arranquei

as duas mangas e comecei a rasgar o forro de seda. Quando consegui uma

pilha razoável de retalhos, entrei na floresta. Fiquei de olhos bem abertos,

procurando qualquer sinal de movimento, já que era evidente que haviam

deixado aquele sujeito no carro para impedir que alguém os seguisse. Fui em

direção à cabana e olhei para o céu. Como estávamos quase no fim do


outono,
anoitecia bem cedo, e logo a luz do dia acabaria. Isso poderia ser uma

vantagem, se os bandidos que estavam com Avett não soubessem que eu


estava

indo atrás deles. Mas, se soubessem que eu estava em sua cola, porque o meu

amigo do ombro deslocado ou o motorista tivessem conseguido avisá-los, eu

tinha certeza de que atirariam a esmo na escuridão, na esperança de me


atingir,

o que tornaria a situação ainda mais perigosa do que já era.

À medida que fui desviando das árvores e deslizando na vegetação que

estava úmida e escorregadia com aquela quase geada, resolvi que nunca mais

ia usar sapatos italianos sem solado antiderrapante. Tomei o cuidado de

espaçar os pedaços de tecido e de metal que arranquei do meu casaco de

modo que até um cego ou o mais despreparado dos urbanoides pudesse

encontrar o caminho até a cabana. Quando cheguei à clareira onde ficava a

construção precária, soltei um suspiro de alívio por não ter ninguém lá na

frente me esperando com um cano apontado na minha direção.

Andei em volta da casa e me abaixei para usar a pilha de lenha que eu

havia feito há poucos dias, como cobertura. Apertei minhas costas contra os

troncos ásperos da parte de fora da cabana. Fui me esgueirando pelo lado da

casa, tomando o cuidado de fazer o menor barulho possível, para que os

animais que com certeza estavam ali não alertassem ninguém da minha
presença.

Avançando tão devagar que eu quase nem estava me movendo, me levantei,

centímetro por centímetro, deixando apenas o alto da minha cabeça e os meus

olhos visíveis, e espiei pela janela imunda para dentro da cabana vazia. Parei

de segurar a respiração e fiquei completamente de pé, para conseguir ver

melhor lá dentro. A cabana estava vazia, completamente abandonada, e

parecia tão triste e desolada quanto no dia em que eu e Avett fomos embora.

Ela não estava lá dentro. Ela não esteve lá dentro, o que significava que o

único outro lugar para onde poderia ter levado aqueles homens era a cascata.

Minha namorada não é só destemida: também é muito inteligente. Os cara


que

estavam com ela não iam ficar sabendo da trilha nem da cabana. Avett
poderia

ficar andando com eles pela floresta por horas e horas, e talvez, se tivesse

sorte, poderia criar uma oportunidade de pegá-los de surpresa e pular.

Minha namorada sempre pula. E essa é uma das coisas que, me dei conta

naquele momento, mais amo nela.

Mudei de planos e de direção e comecei a ir até a cascata. Quando cheguei

à trilha precária, que mal era visível desde a nossa última visita, pude

perceber que haviam passado recentemente por ali. Havia vários pares de

pegadas na terra úmida, incluindo um que só podia ser de Avett, porque eram
pequenininhos e pareciam com as solas pesadas dos coturnos que ela sempre

usava. Havia plantas quebradas e tortas, resultado de corpos impacientes se

movimentando no meio delas, e um tufo de cabelo castanho preso na casca

espinhosa de um pinheiro, mais para o lado da trilha.

Arregacei as mangas, apesar de a temperatura estar caindo a cada minuto

que passava. Fiquei tão frustado porque os meus sapatos me atrasavam que os

tirei os dois, assim como minhas meias de padrão argyle. Eu não corria pela

floresta de pé descalço desde que era moleque, e algo na sensação de afundar

meus dedos na lama e no mato me levou de volta a uma época em que eu era

puramente primitivo, completamente primal. Eu não era apenas um homem

preocupado indo atrás da mulher que amava. Eu era parte daquela floresta,

daquelas montanhas, parte do lugar de onde eu vinha e que me fez ser quem

sou.

Até que fui bem rápido, considerando o frio e a escuridão iminente. Estava

acostumado com a altitude e com seus efeitos nos pulmões e no resto do meu

corpo, mas duvido que os homens que eu caçava estivessem. Avett também
não

teria levado os caras direto para a queda-d’água. Imaginei que faria de tudo

para cansar seus sequestradores, a fim de ganhar tempo, a fim de que seus
pais

tivessem chance de ser libertados.


Quando o rugido da cachoeira atingiu meus ouvidos, diminui o ritmo e saí

da trilha, para que os dois homens que estavam com Avett, bem na beira da

cascata, não me vissem chegar. Mesmo com aquela luz evanescente, dava
para

ver como seu rosto estava pálido e as linhas pretas que ainda borravam suas

bochechas. Ela estava tremendo e tinha apertado tanto os braços em volta do

próprio corpo que parecia ainda menor e mais nova do que o normal. Seu

terror e sua vulnerabilidade estavam completamente visíveis, apesar da

distância que nos separava.

Um dos homens estava de frente para Avett, que estava de

costas para a queda-d’água. O cara apontava a arma diretamente para o peito

dela e se encontrava tão perto que, se puxasse o gatilho, não teria como não

acertar algum órgão vital. O outro homem estava de guarda, de costas para os

dois, olhando para a floresta que escurecia rapidamente, vasculhando as

árvores com os olhos. Também estava armado, mas visivelmente nervoso,

porque não parava de trocar o revólver de mão e pular de um pé para o outro.

Toda vez que um pássaro piava ou os esquilos faziam as árvores farfalharem,

ele olhava para trás, para o companheiro, e mandava o sujeito andar logo.

– A gente ficou andando duas horas nessa porra de floresta para chegar até

aqui. É melhor ter uma caverna pirata secreta escondida atrás dessa
cachoeira,
vadia.

O homem que estava com a arma apontada para Avett deu um passo na

direção dela, que deu um passo para trás. Mais um passo, e a garota cairia. O

que, tive quase certeza, devia ser seu plano desde o início.

Devagar, ela sacudiu a cabeça de um lado para o outro.

– Eu já falei, não tem droga nenhuma. Falei isso na noite em que vocês

tentaram me estuprar e estou falando de novo. Não tive nada ver Jared ter

roubado o patrão de vocês.

Uma raiva, como eu nunca havia sentido, ferveu com fúria em meu sangue.

O homem que estava ameaçando Avett era o mesmo que tinha batido nela, e
eu

só queria arrancar seus pedaços e espalhá-los pela floresta.

– Você precisa andar logo, caralho, e esquecer o tesão que tem por essa

vadia burra. Acho que eu vi alguma coisa se mexendo ali.

O outro cara xingou o companheiro e balançou o revólver.

– Para de ser paranoico. Você precisa mexer essa sua bunda e sair mais da

cidade.

– Você que é imbecil, porra, e acreditou quando ela disse que as drogas

estavam escondidas na floresta. Que viciado esconderia drogas aqui? Seu

burro filho da puta. Não tem nem sinal de celular nesse fim de mundo, como
é
que você pode ter certeza de que os caras deram um jeito nos pais dela? Você

estragou tudo, e o Acosta vai acabar com nós dois.

Segurei a respiração, enquanto a discussão dos bandidos ficava mais

intensa. Fiquei esperando e observando, porque precisava que o sujeito que

apontava a arma para Avett se virasse. Não queria tomar nenhuma atitude até

ter certeza de que ela estava completamente fora da linha de tiro. Não podia

sequer pensar em Avett sendo atingida por acidente.

– Estou te falando que tem alguma coisa ali.

– Bom, vai lá olhar, então.

– Atira logo nela e aí vai você olhar que merda é essa. Eu não trabalho para

você, porra.

O outro homem se virou para trás enquanto cheguei ainda mais perto das

rochas salientes.

– Não vou atirar nela até terminar o que comecei, meses atrás. Odeio que

me dispensem depois de provar uma coisinha que, tenho certeza, só pode ser

doce.

– A gente não tem tempo para isso.

– Estamos ganhando tempo.

Apertei os dentes com tanta força que me surpreendi por eles não terem

rachado. Fiquei observando Avett soltar os braços e a expressão do seu rosto


mudar de amedrontada e abalada para serena e calma. Eu sabia o que ela ia

fazer antes mesmo de a menina começar a se movimentar. Mirei no cara que

estava de frente para a floresta e sabia que não podia mais esperar pelo

momento certo, porque o momento certo era já.

Avett deu um passo para trás, o chão desapareceu sob seus pés, e seu corpo

sumiu atrás das rochas. Gritei seu nome, porque não consegui me controlar.
O

som do tiro ecoou alto e furioso pelo desfiladeiro, e eu atirei na mesma hora

em que o sujeito que estava apontando para Avett disparou. O cheiro acre de

pólvora queimada ficou pairando no ar. O bandido que estava de vigia caiu
no

chão, e o outro se virou e ficou atirando sem parar na minha direção.

Atravessei correndo a clareira, atirando também, enquanto as balas passavam

por mim zunindo, mas não me acertavam. As minhas montanhas ecoaram

aqueles sons de guerra e de fúria, e eu corri cada vez mais rápido, até abalroar

o homem que estava atirando em mim, com toda a força. Peguei a mão dele

que segurava a arma, e ficamos lutando, enquanto eu o empurrava cada vez

mais para trás, na direção do precipício do qual ele havia forçado Avett a

pular.

Outro tiro foi disparado, ele me xingou e tentou me chutar, mas a raiva e o

amor estavam do meu lado, então o cara não foi páreo para mim. Foi preciso
só mais um puxão e acertar meu ombro no seu estômago, para nós dois
sairmos

voando pelos ares. Mesmo na escuridão que nos cercava, pude ver o bandido

soltar a arma enquanto descíamos em queda livre no ar rarefeito da


montanha.

Ele gritou tão alto que meus ouvidos doeram, e quase dei graças a Deus

quando a água gelada me engoliu.

O choque de temperatura foi suficiente para fazer meu corpo inteiro se

enrijecer, dolorosamente, e precisei de todas as minhas forças para convencer

meus braços letárgicos a cooperarem comigo e me levarem para a superfície.

Quando cheguei, enchi os pulmões de ar e procurei de maneira frenética,

naquela água turva, por qualquer sinal de Avett. Não sabia se o sujeito que eu

havia derrubado tinha conseguido acertar um tiro nela antes de minha

namorada pular e não consegui vê-la logo de cara.

– Avett! – gritei seu nome a plenos pulmões e comecei a me sacudir, porque

o frio ameaçava me levar de volta lá para baixo. – Avett!

Seu nome e meu medo batiam nas faces das rochas que me cercavam, mas

ela não respondia, e eu não conseguia ver aquele cabelo rosa inconfundível
em

lugar nenhum daquela escuridão.

– Não sei nadar. Você precisa me ajudar! Vou me afogar!


O atirador, de repente, ficou visível, a poucas centenas de metros de mim,

se debatendo contra a água como se estivesse lutando caratê com um inimigo

invisível.

– Avett! Caramba, não posso te perder agora que acabei de te encontrar.

Onde é que você está?

Uma coruja piou em algum lugar acima de mim, e virei a cabeça.

Ali, flutuando logo abaixo da superfície, tinha um monte de fios de cabelo

coloridos. Gritei seu nome de novo e atravessei a água mais rápido que

minhas pernas e meus braços anestesiados permitiam.

Avett estava flutuando, com o rosto virado para baixo, e tinha um talho bem

visível ao lado de sua cabeça, logo acima da orelha. Ela parecia uma boneca

sem vida nos meus braços, quando puxei seu corpo congelado para perto do

meu e murmurei seu nome sem parar, lutando para manter nossos dois corpos

flutuando.

O cara que estava dentro da água conosco estava fazendo tanto escândalo

que eu não conseguia ouvir se Avett estava respirando ou não, mas seus
lábios

estavam azulados, e ela não reagia ao meu toque.

E eu que achei que meu coração havia ficado partido quando me dei conta

de que meus pais jamais teriam orgulho de mim nem de tudo o que
conquistei.
E eu que achei que havia perdido tudo quando Lottie me largou, depois de me

contar que estava grávida. Eu tinha tanta certeza de que não me restava mais

nada para oferecer a ninguém, depois de tudo que eu pensava que era verdade

se provou ser mentira... Mas, com aquela mulher que era tudo para mim nos

meus braços, sem respirar, tive certeza de que eu não tinha a menor ideia de

como era ter o coração partido e de que o que eu tinha era mais do que

suficiente para lhe oferecer, se isso significasse que ela ainda estaria comigo.

Levei sua cabeça para trás, o máximo que consegui sem mergulhá-la de

novo na água gelada, e comecei a fazer respiração boca a boca. Soprei todo o

amor que eu sentia por ela. Eu lhe dei um beijo com o sabor da certeza que eu

sentia de que éramos feitos um para o outro, misturado com a certeza de que

aquela mulher fazia de mim um homem melhor. Expirei e enchi seus pulmões

com o futuro que eu queria ter com ela e com todas as lembranças que eu

queria criar com ela.

Demorou muito mais do que eu gostaria, mas depois de algumas

respirações e alguns beijos desesperados nos seus lábios congelados, Avett

finalmente começou a tossir e balbuciar nos meus braços. Aquele seus olhos

loucos começaram a se abrir devagar, e seus dentes começaram a bater,

enquanto ela olhava pra mim, sem foco e visivelmente confusa.

– Você me achou.
Suas palavras saíram roucas, quase inaudíveis por causa do barulho que o

atirador ainda estava fazendo, se debatendo na água atrás de nós. Ele até
podia

não saber nadar, mas estava mandando bem até agora, conseguindo ficar com
a

cabeça fora da água.

– Você me achou primeiro, Avett – Fechei os olhos e a abracei o mais

apertado que consegui. – Eu te amo.

Ela passou um dos braços bem devagar pelo meu pescoço e começou a

mexer as pernas, para nos ajudar a flutuar.

– Sei disso, Quaid.

– Eu sempre vou vir atrás de você. Você sabe disso, não sabe?

Ela balançou a cabeça e se encolheu, depois passou os dedos na ferida que

sangrava na lateral da sua cabeça.

– Você não só veio atrás de mim, você pulou.

Dei uma risada rouca e trêmula e rocei meu nariz gelado em seu rosto.

– É, pulei e sempre vou pular, quando for importante. Você é mais

importante do que qualquer coisa, Avett.

Ela abriu a boca para responder, mas, bem na hora, uma voz, que parecia

tão frenética quanto meus sentimentos, chamou seu nome, no meio da

escuridão. O pai dela tinha nos encontrado. Tinha ido atrás da filha, como
sempre. Avett arregalou os olhos, e gritei para Brite:

– Estamos aqui embaixo, na água! Vocês precisam descer para nos ajudar.

Avett está ferida.

Ela enrugou o nariz para mim, e comecei a nos levar para a saliência mais

baixa das rochas.

– Bati a cabeça quando pulei.

Soltei um suspiro de alívio, por ela não ter sido atingida por um tiro.

– Que bom que você é cabeça dura e filha de um cara durão.

Bufei de exaustão e achei que estava chegando ao ponto de hipotermia.

Estava com tanto frio que nem tremia mais, e tinha quase certeza de que
meus

lábios estavam tão azulados quanto os de Avett.

– Você salvou o seu pai e a sua mãe. Você salvou todo mundo, incluindo

você mesma. Isso faz de você a sua própria heroína, Avett.

Não consegui disfarçar o orgulho no meu tom de voz, mesmo sabendo que

eu ia desmaiar se alguém não nos tirasse logo da água.

Avett soltou uma risada trêmula e apertou mais o meu pescoço, bem na hora

em que o pai dela e dois homens que eu não conhecia apareceram nas rochas.

Brite gritou o nome de Avett mais uma vez, e o medo e o pânico que só um
pai

pode sentir ao saber que sua filha está em perigo reverberou de um lado a
outro da ravina.

Ela olhou para mim e para os nossos salvadores com um leve sorriso nos

lábios trêmulos.

– Eu posso até conseguir me salvar agora, mas é bom saber que as pessoas

que me amam vão aparecer se eu precisar delas.

Beijei sua boca com força e rapidez quando finalmente consegui chegar até

as rochas.

– Sempre.

Eu havia me convencido de que precisava provar a Avett que eu a amo.

E só precisei pular.

CAPÍTULO 19

Avett

3 semanas depois...

PEGUEI A CHAVE QUE QUAID HAVIA ME DADO HÁ UMAS DUAS


SEMANAS E ABRI A PORTA

de seu loft. Na mesma hora, enruguei o nariz e cobri as orelhas, para

entrar no que me parecia ser um massacre culinário.

Quando ele me mandou uma mensagem dizendo que se responsabilizaria

pelo jantar da noite, que queria cozinhar para mim, fiquei surpresa. A única

pessoa que usa aquela cozinha incrível sou eu, além do rapaz do delivery que

traz pacotes de comida pronta e coloca em cima do balcão. Quaid nunca se


sentiu muito à vontade no meio das panelas e frigideiras, mas seu gesto foi

carinhoso, e eu sabia que ele estava fazendo isso porque eu andava muito

ansiosa nos últimos dias para saber o que o futuro me reservava.

O julgamento de Jared havia sido adiado por causa de todas as novas

acusações e as evidências físicas contra Acosta e seus capangas. O advogado

dele entrou com um recurso de adiamento enquanto tentava descobrir como


ia

fazer para argumentar contra as novas acusações de sequestro, tentativa de

assassinato, tentativa de incêndio criminoso, obstrução da Justiça e coerção


de

testemunha que o seu cliente estava enfrentando. Quaid tinha certeza de que o

FBI ia entrar na jogada, agora que havia evidências suficientes para pôr

Acosta atrás das grades por um bom tempo. Mas, até agora, tudo ainda estava

rolando no nível estadual. Ao se dar conta de que estava no nível mais baixo

da cadeia alimentar, Jared foi para o outro lado da balança da Justiça, demitiu

Tyrell e ainda grita a plenos pulmões com a promotoria. Ele havia perdido a

chance de fazer um acordo. Mas, em troca do seu testemunho contra Acosta,


a

promotoria concordou em transferi-lo para uma prisão mais segura, onde o

pessoal do traficante não possa pôr as mãos nele. Quaid acha que meu ex tem

esperança de conseguir um acordo com o FBI e ir para o programa de


proteção à testemunha, mas me garantiu que isso não ia acontecer. Jared vai

para a prisão, e não me sinto nem um pouco mal por isso.

Eu ainda vou ter que testemunhar no julgamento de Jared, quando finalmente

acontecer, e agora talvez também seja chamada para comparecer no

julgamento de Acosta. Mas não tenho mais medo nem dúvidas com relação a

encarar o meu ex ou aqueles homens que me obrigaram a lutar pela minha

vida. Quero ver todos eles atrás das grades e quero que a justiça seja feita. Eu

já estava mais do que disposta a cooperar e sei que não vou ter que fazer isso

sozinha. Os meus pais e Quaid vão estar bem do meu lado quando eu contar a

minha história, e isso me dá toda a coragem de que eu preciso.

Fiquei observando, de olhos arregalados, Quaid falar um monte de

palavrões, enfiar uma frigideira com um troço preto e fumegante dentro na


pia,

abrir a torneira e falar palavrão feito um motociclista. Fechei a porta antes


que

a fumaça daquele negócio que ele havia carbonizado pudesse acionar o


alarme

de incêndio do prédio inteiro. Ele me lançou um olhar exasperado, subiu no

balcão de mármore com uma toalha na mão e começou a abanar o alarme

estridente.

– Oi.
– Oi.

A palavra saiu no meio de uma risada, que logo se transformou em um

suspiro de admiração quando sua camiseta subiu, porque ele tinha levantado

os braços e deixado os músculos da sua barriga tanquinho à mostra. Tenho

passado muito tempo à toa com Quaid, já que ele não está trabalhando no

momento, e estou me acostumando a vê-lo de jeans desbotado e camiseta. Sei

que isso não vai durar muito, porque ele já está recusando ofertas de emprego

a torto e a direito, de outros escritórios, mas pretendo absorver o máximo

desse Quaid mais tranquilo e gentil que eu conseguir. É muito mais fácil tirar

um jeans e uma camiseta do que um terno de três peças. E, desde que ele
pulou

atrás de mim e provou, sem sombra de dúvida, que me ama e ama o caos que

vem no pacote, não consigo tirar as mãos, a boca e o resto do meu corpo de

cima dele. Não estou só comemorando o fato de nós dois termos sobrevivido,

consolidando a vida que temos juntos. É o desespero de ter o máximo dele

possível, uma necessidade de criar o máximo de lembranças e um desejo de

ter o maior número de histórias com ele. Nada nessa vida é garantido, e quero

ter a certeza de que o tempo que eu passar com esse homem vai ser bom, e
boa

parte disso consiste em tirar sua roupa e ficar com ele dentro de mim o maior

número de vezes possível.


E, de quebra, o cara que pulou atrás de mim, por acaso, também é um puta

gato e um profissional muito qualificado na cama.

Quando o alarme finalmente se aquietou, abanei a mão na frente do rosto e

fui até o balcão. Quaid desceu, me puxou para perto e me deu um beijinho

rápido com algumas mordidas. Passou os dedos no pedaço do meu cabelo que

precisou ser raspado e estava com uma cicatriz saliente e rosada, na área em

que bati a cabeça nas rochas. O outro lado estava preso em uma trança

comprida e rosada, que ele puxou ao se afastar dos meus lábios gulosos.

Inicialmente, o hospital só tinha raspado uma parte pequena, mas era bem em

cima de minha orelha, impossível de esconder. Então, raspei todo esse lado
do

cabelo e agora estou com um corte superassimétrico e descolado. O rosa

voltou, bem forte e vivo, mas Quaid gosta do cabelo como um todo e nem

piscou quando viu essas mudanças drásticas.

– Como foram as coisas hoje?

Sua voz tinha um tom de curiosidade, mas também de incentivo. Eu sabia

que, se trouxesse más notícias, ele não só estaria lá para me ajudar a enfrentar

a situação, mas também me ajudaria a pensar em um plano B. Um dos


incríveis

benefícios de namorar um homem tão inteligente e esperto quanto Quaid é


que
ele nunca vê nada como um beco sem saída. Ele só enxerga um beco que está

interditado no momento, o que significa que é preciso encontrar uma rota

alternativa. Por causa dele, finalmente encontrei minha nova rota, e o beco
sem

saída onde eu estava presa não existe mais.

– Tudo certo. Minhas notas não são grande coisa, e não vou poder me

matricular neste semestre, porque já larguei o curso uma vez. Preciso voltar

para a faculdade, tirar as matérias básicas da frente, ter notas boas por um ano

e aí vão me aceitar no curso de culinária do Instituto de Artes. Consigo pagar

essas aulas, sem problemas, e se eu aceitar a oferta de trabalho no bar novo


do

Asa, consigo economizar o suficiente durante o ano que vem para pagar, pelo

menos, o primeiro semestre do curso de culinária quando me matricular.


Quero

fazer tudo certinho, e acho que estou no caminho certo.

Dá medo ter planos tão sérios e tão a longo prazo. Nunca fui muito boa

aluna, mas quero cozinhar e ser a melhor cozinheira possível. Não quero só

provar a mim mesma que posso me comprometer com algo importante para

mim, mas também quero provar a meus pais, e até para Quaid, que não vou

mais cair. Estou escalando, e eles não precisam ter medo de que eu caia de

novo, como caía antes. Ainda posso ver o fundo do poço quando olho para
baixo. Mas, depois de tudo o que passei nos últimos meses, sei que esse é um

lugar para onde nunca mais quero voltar. Não me sinto mais à vontade nem

acho necessário ficar no fundo do poço.

– Me parece um bom plano. Se precisar de alguma coisa, é só chamar que

estou aqui.

Ele pôs as mãos nos meus quadris e foi me levando para longe da cozinha

enfumaçada, na direção do enorme sofá de couro que ocupa todo o meio da

sala.

Segurei em seus ombros quando minha bunda bateu nas costas do sofá e

abri as pernas, para ele poder apertar o corpo contra aquel afenda que, juro,

foi feita para se encaixar nele e só nele.

– Você pode me ajudar a fazer o trabalho de matemática… pelado.

Quaid riu e abaixou a cabeça para conseguir roçar os lábios nos meus.

Aquela carícia suave me deixou sem ar, e isso logo se transformou em um

suspiro, quando ele me jogou ainda mais para trás, até meus pés saírem do

chão e eu ter que enroscar as pernas em volta da sua cintura para não cair.
Pus

as duas mãos nos músculos do seu braço e fiquei olhando, com olhos

entreabertos, ele desamarrar meus coturnos. Tirou um e atirou para trás, e a

bota caiu no chão fazendo barulho.

– Esse trabalho não vai ser feito se algum de nós estiver pelado. Não
consigo nem ferver uma água quando começo a pensar em você na minha

cama, debaixo de mim, dizendo meu nome. Quase pus fogo na porra do loft

tentando fazer uma torrada porque minha mente viajou e só conseguia


imaginar

você de joelhos na minha frente, com essa sua boquinha em volta do meu
pau.

Você é a melhor e a pior distração que existe, então a culpa é sua de o jantar

ter ido parar no lixo.

Soltei uma risada abafada, e ele pôs as mãos por baixo da cintura da minha

legging preta e branca. Estava por baixo do vestido xadrez que eu havia

colocado para a reunião com os coordenadores do Instituto de Arte. O tecido

elástico desceu pela minhas pernas e foi atirado para trás em uma questão de

segundos, e a fricção abrasiva da sua calça jeans na parte de dentro da minhas

coxas, enquanto ele pressionava meu centro de prazer, me fez gemer e roçar o

corpo contra aquele volume proeminente que estava marcando presença entre

nós.

Levantei as sobrancelhas. Quaid pôs uma mão na minha bunda e, com a

outra, começou a abrir, bem devagar, a parte de cima do meu vestido.

– Desculpe pelo jantar.

O humor cáustico do meu tom de voz fez ele dar um sorriso, e a leveza de

sua expressão, a felicidade pura e sem filtros que brilhava em seus olhos
regularmente, me fez amá-lo ainda mais do que eu já amava. Quaid ter

encontrado seu ponto de equilíbrio entre quem ele era e quem achava que

devia ser é uma coisa bonita de ver e me inspira a tentar ser melhor à medida

que a vida segue.

– Você pode se desculpar se oferecendo como sobremesa.

Ele finalmente havia conseguido abrir todos os botões e empurrar o tecido

para o lado, e fiquei sentada na sua frente só de calcinha vermelho-escura e

sutiã combinando.

Quaid enfiou o dedo por baixo da minha calcinha de renda e segurei um

suspiro quando ele roçou delicadamente minhas dobrinhas externas.

– Você está me chamando de sobremesa porque eu tenho cara de doce?

Minhas palavras saíram meio ríspidas, porque o dedo dele havia

encontrado aquela abertura úmida que nunca deixa de tremer e vibrar por ele.

– Você é uma sobremesa porque você é doce, Avett, muito doce... E vai

continuar sendo doce com ou sem cabelo cor de algodão doce.

Essa fez meu coração derreter, e meu corpo ficou todo relaxado em volta do

seu dedo inquisidor. Fui puxá-lo mais para perto, para enchê-lo de beijos por

ser tão doce. Mas, em vez disso, soltei um gritinho porque, de repente, Quaid

arrancou a minha calcinha, ficou de joelhos na minha frente, abriu minhas

pernas e as colocou em cima dos seus ombros largos. Precisei me segurar em


seu cabelo loiro e grosso para me equilibrar, porque ele abriu ainda mais as

minhas pernas e deu um beijo chupado na parte de dentro da minha coxa.

Minha pele se arrepiou de desejo. Quaid espremeu os olhos e abriu as narinas

ao ver que meu sexo começava a brilhar de tesão.

Ele estava com a barba por fazer, e o roçar daquela pele áspera contra as

minhas partes mais sensíveis me fez retorcer os dedos dos pés. Fiquei com

água na boca enquanto ele passava a ponta da língua na minha pele.

Involuntariamente, levei os quadris na direção do seu rosto e gritei, porque

quase caí para trás no sofá. Quaid grunhiu, porque puxei seu cabelo para não

cair, e me olhou com uma expressão divertida e cheia de desejo naqueles

olhos claros.

– Cuidado.

– Não posso me responsabilizar por minhas ações quando a sua boca fica

tão perto da minha vagina.

Me obriguei a soltar seu cabelo, mas meu corpo inteiro ficou tenso quando

o som de sua risadinha acertou os nervos à mostra e desejosos bem no


coração

do meu corpo.

Quaid segurou meu quadril com as duas mãos e me puxou mais para perto

da sua boca. Murmurei seu nome quando ele pôs a língua para fora e lambeu

minha fenda de cima a baixo, fazendo minha pele se arrepiar toda de desejo.
Sem perceber, abri ainda mais as pernas e arqueei o corpo na direção da

carícia furtiva da sua boca. Sua barba arranhava minha pele, e ele mandou
ver,

me devorando como se eu fosse mesmo a sobremesa mais doce que ele já

havia comido.

A ponta do seu nariz se arrastava por minhas dobrinhas e roçava em meu

clitóris. Isso me fez sacudir o corpo, e Quaid apertou ainda mais meus
quadris

para eu continuar de pé.

Ele deu risada de novo, e a vibração da sua boca me deu vontade de

sussurrar seu nome e fechar os olhos, porque o prazer se enroscou em cada

terminação nervosa e em cada célula do meu corpo. Ele enfiou a língua no


meu

vale sensível e depois brincou com meu clitóris, fazendo movimentos

circulares. Em seguida, seus dentes ásperos roçaram naquele botãozinho

sensível, e joguei a cabeça para trás, gemendo alto.

Ele gritou, pedindo para eu me segurar no sofá, para que pudesse soltar uma

das mãos. E, quando percebi, seus dedos estavam dentro de mim enquanto
sua

boca gulosa subia e descia por aquele feixe de nervos inchados que pulsavam

e latejavam a cada carícia. Dobrei e arqueei o corpo, e minhas pernas

começaram a se sacudir sem parar perto de seus ouvidos, enquanto o som


escorregadio de sexo e prazer tomava conta do ambiente. Ele não tinha
nenhum

problema em fazer meu corpo reagir das formas mais deliciosas e, óbvio, eu

nunca escondia como ficava excitada nem como queria que ele caísse de boca

em mim.

Minha coluna se enrijeceu, e meu corpo inteiro estremeceu de desejo.

Fiquei me mexendo contra seus dedos, que entravam e saíam de mim, e

roçando meu centro desesperado de prazer contra sua boca, que me mordia e

me chupava. Tirei a mão de seu cabelo sedoso e pus em seu rosto áspero.

Tremi ao sentir que suas bochechas ficaram ocas, porque ele estava chupando

meu clitóris ultrassensibilizado até prendê-lo com os dentes e dar uma

mordida habilidosa.

– Quaid…

Murmurei seu nome e levantei os quadris, porque ele havia enfiado mais um

dedo. Choraminguei quando senti minha própria umidade escorrer por minha

perna. Ele fingiu que não me ouviu ou, se ouviu, me ignorou. Então bati o
dedo

em seu rosto e falei, bem mais alto:

– Dennis, me dá um minutinho.

Ao ouvir seu nome de batismo, a cabeça de Quaid foi para trás, e tive

vontade de gemer ao ver aquele rostinho lindo corado, molhado e brilhoso


por

causa daquelas coisas incríveis que ele havia feito comigo. Ele franziu a testa,

e suas sobrancelhas formaram um “V” por cima de seus olhos azuis. Sai de

cima do sofá e fiquei de joelhos de frente para ele, que se levantou. Passei a

mão nos contornos delicados e firmes do seu abdômen. Subi até aquele seu

peito esculpido e aquela tatuagem maravilhosa ficarem à vista. Ele tirou a

camiseta e deu um passo na minha direção, e eu segurei a cintura da sua


calça,

abri o botão e passei o dedo na ponta de seu pau, que saía por cima da cueca

escura.

– Sobremesa é uma coisa que a gente divide. Você deu uma primeira

mordida, e agora eu quero dar a minha.

Eu estava salivando de vontade de cair de boca naquele homem desde que

ele havia me dito que por causa da minha imagem de joelhos diante dele o

jantar havia sido perdido. Receber o prazer que Quaid tem para dar é incrível,

mas dar quando ele precisa receber tem seu próprio poder inebriante, sua

própria emoção especial. Gosto de conseguir deixá-lo com as pernas bambas

e morrendo de tesão assim como ele sempre faz comigo.

Puxei a força a calça jeans para baixo, tirando a cueca junto, para ter livre

acesso a seu pau comprido e grosso, que pulou para mim, pronto para receber

qualquer coisa que passasse por minha cabeça. Sorri para Quaid e passei
minhas unhas curtas no tufo de pelos loiro mais escuro que formava uma
trilha

feliz até seu membro. Esse homem é todo tão dourado e glorioso que, com

certeza, nunca vou ficar sem maneiras novas de tocá-lo e me deliciar. Ficar

com ele sempre foi a melhor escolha que eu poderia ter feito, e o fato de isso

ter dado tão certo torna as coisas entre nós ainda melhores do que já estavam.

Abaixei a cabeça e passei a língua em seu membro rígido da base até a

ponta, fazendo uma pausa ao chegar na cabecinha molhada, me demorando

mais naquele ponto, para saborear seu gosto e seu desejo. Quaid grunhiu e
pôs

uma das mãos em cima da minha cabeça, enquanto eu subia e descia com a

boca e, com a mão, fazia movimentos circulares na base de seu pau. Ele

deslizou a outra mão por minha coluna e parou no meio das minhas costas.
Me

apoiei no sofá para conseguir engolir o máximo que consegui, por causa das

suas orientações insistentes.

Dava pra ouvir o ritmo de sua respiração mudando à medida que eu

apertava mais e chupava cada vez mais forte. Senti suas unhas arranhando a

minha pele, vi suas coxas musculosas se apertarem e gemi de admiração por

toda aquela glória viril, sem tirar a boca daquela carne rígida que percorria

minha língua como se fosse uma atração de parque de diversões. Fiquei com
dificuldade de respirar quando ele começou a se movimentar contra meu
rosto,

mas não reclamei. Gosto quando ele fica descontrolado, louco de tesão,

perdido no seu próprio prazer e tomando à força. Enquanto for eu que estiver

dando o que ele quer, aquele homem pode ser egoísta e guloso o quanto
quiser.

Mas aquele era Quaid. Aquele era o homem que me ama e assumiu a missão

de trazer as coisas boas de volta para minha vida. Então, bem na hora em que

eu tive certeza de que ele ia gozar na minha boca, tremendo e gritando, fiquei

chupando ar, porque ele tirou o pau molhado e brilhante da minha boca,

soltando um palavrão bem alto e desesperado.

Antes que eu pudesse perguntar o que Quaid estava fazendo, ele passou as

mãos por baixo dos meus braços e pôs em cima do sofá e me virou de costas

para ele. Então dobrou meu corpo e falou para eu me segurar no sofá. O
fecho

do meu sutiã se abriu, e meus peitos caíram em suas mãos, ele foi para trás de

mim, com o coração encostado na minha coluna. Com os pés, abriu mais as

minhas pernas, e senti o toque de aço da sua ereção deslizar por minhas

dobrinhas encharcadas, enquanto ele remexia os quadris atrás de mim.

Então ele encostou os lábios em minha nuca, e seus dedos habilidosos

puxavam e acariciavam meus mamilos ávidos.


– Que tal a gente ser a sobremesa um do outro?

Seu hálito quente fez os cabelinhos soltos da minha trança voarem e meu

corpo inteiro tremer.

Balancei a cabeça, sem forças, e pus a mão em cima da sua, que continuou

me apalpando de um modo ao mesmo tempo delicado e rústico.

– Me parece um bom plano.

Ele riu por eu ter repetido as suas palavras, mas nós dois não conseguimos

mais fazer nenhum som além de gemidos e suspiros quando a ponta do seu
pau

encostou na minha entrada que suplicava para ser invadida. Levantei os

quadris de leve para ajudá-la entrar, e, assim que acertamos a posição, ele

meteu fundo e senti o calor e a força do seu corpo dominando cada


centímetro

do meu.

Quaid se afastou e meteu com mais força, o que me fez bater os dentes na

boca e ficar na ponta dos pés, para que mais dele coubesse dentro de mim.

Meu canal vibrava em volta da sua ereção, e meu corpo o puxava, pedindo

mais, implorando para ele ir mais fundo, mais além. E, como ele é executivo,

sabe o que eu quero sem eu precisar pedir.

Quaid pôs as mãos em minhas costas e dobrou mais meu corpo. Minha

bunda ficou no ar, e minhas mãos, nas almofadas do sofá. Não era uma
posição

muito confortável, mas ele estava tão fundo, metendo com tanta força e

loucura, que se eu estivesse dobrada ao meio não teria me importado. E,

quando ele enroscou minha trança em sua mão e puxou minha cabeça,

ordenando que eu olhasse para ele enquanto me comia, tive certeza de que ia

explodir ali mesmo. O som dos nossos quadris se batendo, o ruído

escorregadio do seu corpo metendo e esfregando no meu, estava deixando o

ponto onde ele estava me empalando com seu pau incansável ardente e

pulsante. E, ao ver seu peito tatuado ofegando, brilhando de suor, enquanto


ele

levava nós dois a um nível de prazer incoerente, tão animalesco e sensual,

precisei fechar os olhos para não perder a cabeça só de ver o que ele estava

fazendo. Amo tudo o que há em Quaid e todos os homens diferentes que


moram

dentro daquele corpo maravilhoso, mas essa versão é, sem dúvida, a minha

preferida. Quando ele me come de um jeito primitivo, indomado, quando me

usa e toma posse de mim, as sensações que desperta … é aí que ele é mais

autêntico e sincero. Quaid sabe o que quer e sabe como conseguir. Também

sabe o que eu quero e sabe que é o único homem capaz de me proporcionar

isso, o que torna o sexo com ele uma experiência memorável e excitante,

sempre.
A mão que não estava enrolada na minha trança desceu por meu quadril,

deslizou pela curva da minha bunda, muito habilidosa, se afundou e brincou

com aquele vale escuro que eu ainda preciso permitir que ele explore. Quaid

gosta de brincar e gosta de explorar cada centímetro do meu corpo, mas ainda

não cheguei no mesmo nível, e ele nunca me obriga a fazer algo que não me

deixa à vontade. O que não significa que não me tente nem me provoque com

carícias eróticas e perigosas, que dão uma ideia do prazer e da surpresa que

estão me esperando quando eu ceder e me entregar às suas mãos muito

habilidosas. Ele escorregou a mão até a frente do meu corpo, no ponto em


que

eu estava encostada no sofá. Eu sabia quais eram as suas intenções. Segurei a

respiração e me soltei devagar ao primeiro toque dos seus dedos no meu

clitóris. Tudo girou e rodopiou em um vórtice de sexo e prazer, porque o meu

orgasmo chegou com a força de uma enxurrada, e não pude deixar de gritar.

Apertei as almofadas do sofá e deixei minha cabeça cair para a frente quando

ele finalmente soltou meu cabelo e pôs as mãos nos meus quadris, metendo
em

mim com força, de um jeito frenético, procurando seu próprio clímax.

Sua respiração estava ofegante e farfalhava pela névoa de satisfação que

tomou conta de mim. Ele murmurou meu nome, e foi o som mais doce que já

ouvi. Então me equilibrei e levantei um dos joelhos, para ele conseguir entrar
ainda mais fundo e chegar ainda mais perto do seu próprio clímax. Quaid

gritou algo sujo e sexy, porque a nova posição me abriu ainda mais para ele, e

não demorou muito para eu sentir seu corpo ficar rígido por cima do meu e

sentir o calor e a fluidez do seu orgasmo me preenchendo, seu pau vibrando,


e

seus movimentos chegarem ao fim.

Ficamos assim por um instante, enquanto ele recuperava o fôlego, e eu

flutuava dentro de uma bolha feliz, de satisfação e amor lânguido. Murmurei

um protesto baixinho, porque seus braços fortes de repente se enrolaram na

minha cintura e me puxaram para cima, me apertando contra seu corpo.


Aquela

tatuagem de águia ficou tão perto que, juro, dava para sentir cada pena

daquelas asas enormes. Quaid me abraçou forte, pôs os lábios em minha

cabeça e sussurrou:

– Agora você parece mesmo uma sobremesa, com esse cabelo rosa todo

bagunçado coberto de creme. Se alguém além de mim achar que pode provar,

vou ter que matar essa pessoa.

Ri de suas palavras grosseiras e levantei os braços, para poder segurar

aquelas mãos que me apertavam tanto.

– Você manda muito mal no jantar, mas dá conta da sobremesa, figurão.

Ele me deu mais um beijo no alto da cabeça com um suspiro, já que nós
dois estávamos cobertos da cabeça aos pés de amor e de sexo.

– Ô , Quaid …

Minha voz estava tão melosa quanto meu coração.

– Que foi?

– Você é a melhor escolha que eu já fiz e, de longe, a história que eu mais

gosto de contar.

Ele me soltou, saiu de dentro de mim e me virou de frente para ele. Segurou

meu rosto com as duas mãos e abaixou a cabeça até sua boca tocar a minha,

dando o beijo mais leve que ele poderia me dar sem deixar de ser um beijo.

– Você é a melhor escolha que eu já fiz e ponto, Avett. Nossa história está

apenas começando, então espero que você queira contá-la por muitos e
muitos

anos.

Dei risada e o puxei para dar um beijo de verdade e só conseguia pensar

que, claro, meu pai tinha razão a respeito de tudo.

Péssimas escolhas rendem, sim, ótimas histórias. No meu caso, uma grande

história de amor. Eu faria cada escolha de merda da minha vida e cometeria

cada erro bobo de novo se fosse para terminar exatamente onde estou. Cada

erro faz parte de mim, faz parte da minha história. Sem todos eles, eu não

estaria começando minha própria história com final feliz com esses olhos

perfeitos, de um azul acinzentado, cor de tempestade.


EPÍLOGO

Quaid

24 de dezembro...

AQUELA MULHER ERA TUDO O QUE EU QUERIA E MUITO MAIS.

Seus olhos multicoloridos brilhavam para mim, bem humorados e

sugestivos, enquanto eu apoiava uma das mãos na parede e, com a outra,

roçava o dedão no seu mamilo aveludado. Quando Avett me disse que tinha
um

presente de Natal para mim, achei que ia ser uma gravata nova, agora que

voltei a trabalhar, ou algum doce caseiro que ela faz, agora que tomou conta
da

minha cozinha assim como tomou posse do meu coração.

O que eu não esperava é que Avett me levasse até a nossa cama, fizesse um

strip tease e dissesse que queria me dar de presente de Natal minha maior

fantasia sexual. Minha namorada sempre foi aberta e generosa na cama, mas
eu

tinha consciência de que ainda não estava preparada para algumas coisas que

eu queria dela, queria fazer com ela. Então, quando deitou de costas, com

aqueles peitos espetaculares brilhando de óleo de massagem e esperando por

mim, tive quase certeza de que tinha morrido e ido para o paraíso do sexo.

Como nunca vou conseguir pegar sem primeiro dar para ela tudo o que
tenho, antes de me aproveitar do presente que ela estava me dando, beijei seu

corpo, fazendo questão de passar muito tempo saboreando seu ponto, que

estava molhadinho e excitado. Avett parece uma bala bonita, tão colorida, e

com uma casca tão dura porque precisa proteger seu interior macio, mas com

gosto de sonhos e de promessas. Não existe uma definição para seu gosto

quando ela se abre e fica molhadinha na minha língua. Mas, toda vez que faz

isso, juro que fica melhor do que a última vez que aprovei.

Passei a ponta da língua em seu umbigo delicado e, com os dedos, belisquei

e puxei seu clitóris, subindo por seu corpo delicioso bem devagar. Quando

cheguei ao vale entre seus peitos reluzentes, dei uma risadinha e sussurrei,

com os lábios encostados em sua pele escorregadia:

– Algodão doce.

– Seu doce preferido.

Sua voz estava rouca, falhando de tesão e desejo. Avett remexeu as pernas

embaixo de mim, e subia e descia os quadris a cada vez que eu metia e tirava

meus dedos dela.

Eu me abaixei para poder mordiscar seu mamilo com gosto de algodão

doce e falei:

– Você é minha preferida.

Avett murmurou, feliz, e enroscou os dedos em meu cabelo quando comecei


a movimentar meu dedão em círculos no seu clitóris. Meu pau nunca esteve
tão

duro, e não resisti à tentação de fechar a mão em volta dele, estimulando a ela

e a mim ao mesmo tempo, quase até chegar ao clímax. Avett pôs a língua
para

fora, passou no lábio inferior, e eu já era. Sabendo que não ia conseguir me

segurar por muito mais tempo, subi o que faltava e engoli uma enxurrada de

palavrões quando ela apertou seus peitos macios em volta do meu pau. Seus

seios fartos, com aquelas mamilos lascivos e duros envolvendo minha ereção,

de um jeito que eu conseguia vê-la e ver a cabeça do meu membro, era ainda

melhor do que a minha fantasia.

Naquela posição, Avett não conseguia pôr a boca em volta da cabeça, que

vazava de prazer, enquanto eu balançava os quadris com cuidado em seu


peito,

para não esmagar seu corpinho com o meu peso nem com minha reação

possessiva àquela sensação tão gostosa que ela estava despertando. Minhas

bolas se arrastaram por sua pele escorregadia, e meu pau pulsou, preso na

melhor armadilha de todos os tempos. Avett não conseguia pôr a cabeça na

boca, mas, cada vez que eu empurrava a pontinha na direção dela, conseguia

passar a língua. E, cada vez que limpava a evidência de como aquela


sensação

era boa, outra gotinha aparecia no lugar. Avett aprisionava meu prazer com
sua

língua úmida, e eu meti em seus peitos com um pau que parecia de pedra.

Nunca fiquei tão duro, a ponto de doer, mas é só deixar esse furacãozinho me

levar para algum lugar onde eu nunca estive que fico tão desorientado e tão

feliz que mal consigo aguentar.

Senti o desejo se acumular na base da minha coluna e senti minhas bolas

começarem a doer de um jeito que me avisou que eu não ia demorar muito

para aqueles peitos rosados e bem apalpados serem cobertos por algo mais do

que o óleo com gosto de algodão doce.

Na minha cabeça, marcar Avett e possui-la de todas as maneiras possíveis e

sensuais tem a ver com a necessidade que eu tenho de tê-la todinha para mim.

A realização daquela fantasia não era nada comparado a estar dentro dela, no

seu calor apertadinho. Em nenhum outro lugar me sinto tão perto do homem

que devo ser, o homem que merece essa mulher e toda a loucura e a doçura

que tem a oferecer quando estou metendo em Avett até o fundo. Quando meu

coração encosta no dela e quando ela me respira, quando eu solto o ar e o

amor que sinto por ela, é a coisa mais sensual que pode acontecer entre nós.

Então, apesar de eu estar a poucos segundos de gozar por cima de todo o

seu corpo, me afastei da parede e desci, dando um beijinho na sua boquinha

surpresa, fazendo uma flexão apoiado em um braço só e alinhando a minha


ereção furiosa com a sua abertura. Pude ver confusão refletida em seus olhos,

logo substituída por paixão, quando entrei nela com um suspiro de prazer.
Seu

corpo me recebeu vibrando os músculos e pulsando graciosamente.

– Nada é melhor do que você, Avett.

Minha namorada suspirou e entrelaçou os braços nos meus ombros, e me

abaixei para cobrir seu corpo completamente. Avett enroscou as pernas no


meu

quadril e cutucou minha bunda com o calcanhar, sussurrando em meu


ouvido:

– Você também.

Essa mulher não é só a melhor, é a mulher certa para mim. O jeito como ela

se mexe contra o meu corpo, o jeito como reage a mim, o jeito como dá e

recebe com a mesma paixão, o jeito como diz meu nome, o jeito como goza

para mim… com loucura e doçura… todas as vezes... Avett nunca se reprime

e, sempre que a levo para a cama, encontro algo novo para amar. Dessa vez,

foi o jeitinho como ela mudou de posição embaixo de mim e me pediu para

rolar na cama com ela, para podermos trocar de lugar, e ela me comer.

Obedeci, e na mesma hora pus as mãos em seus peitos. Aquela carne macia

ainda estava reluzente e escorregadia por causa do óleo, e Avett gemeu de

prazer porque seus mamilos escorregavam, entrando e saindo do meio dos


meus dedos enquanto eu tentava segurá-los, com ela subindo e descendo

vigorosamente o corpo por meu pau. Adoro ficar olhando Avett por cima de

mim. Não consigo tirar os olhos do ponto em que ficamos conectados, o jeito

como seu corpo me puxa, me agarra e me solta, e nós dois ficamos brilhando

de sexo e de paixão.

Quando Avett enfiou os dedos no meio das pernas e começou a estimular

seu clitóris e a balançar ainda mais rápido em cima de mim, eu sabia que

minha namorada estava quase lá. Soltei seus peitos e puxei sua cabeça para

beijar sua boca, e ela ficou imóvel e gemeu de prazer. Avett sempre goza de

um jeito bonito, mas quando está em cima de mim dá para ver todo o seu
corpo

ficar corado e rosado. Eu consigo ver seus olhos de cor inusitada girarem,

formarem um padrão tie-dye de prazer e satisfação. Isso faz meu próprio

orgasmo ser mais rápido, ver seu sexo tremer de um jeito tão bonito e
delicado

em volta do meu desejo, que é muito mais agressivo.

Mergulhei na sua entrada úmida, e ela plantou as duas mãos no meu peito e

enfrentou o resto da tempestade comigo. Só precisei de mais alguns

movimentos e Avett me dizer que me ama para chegar ao clímax. Quando

cheguei, ela caiu em cima de mim e ficou acariciando de leve uma das asas
da
minha águia. Juro que fico tão excitado com essa mulher que as penas se

mexem quando são tocadas por ela.

– O melhor presente que já ganhei.

Virei a cabeça para beijar sua bochecha, mas acabei beijando seu nariz,

porque ela levantou o rosto para me olhar, com olhos arregalados.

– Tenho mais uma coisinha. Quando eu recuperar os movimentos de tudo

que está abaixo da minha vagina, vou buscar.

Enrosquei sua trança comprida e colorida na minha mão e a puxei, para lhe

dar mais um beijo.

– Eu te falei que a gente não precisava se dar presentes. Você dorme na

minha cama todas as noites, e é só isso que eu quero. É só isso que eu vou

querer para sempre.

Convidei Avett para morar comigo há pouco mais de um mês, e ela não

quis. Recusou. Disse que ainda estava tentando acertar as coisas sem precisar

pensar e que queria melhorar o seu relacionamento com a mãe. Além disso,

Brite ainda não havia se recuperado totalmente por quase a ter perdido, ou

seja, o motoqueiro barbudo ainda não estava preparado para abrir mão de sua

filhinha. Eu lhe dei uma chave do meu apartamento e falei que ela sempre
seria

bem-vinda, e, por sorte, Avett passa mais noites comigo do que sem mim.
Mas,
pelo jeito, há uns dois dias, chegou em casa mais cedo, depois de uma
reunião

com a promotoria, e encontrou o pai e a mãe em uma situação bem

comprometedora, em cima da mesa da cozinha.

Avett deu risada e falou para os dois que ficava feliz porque eles não

conseguiam tirar a mão um do outro. Mas esse flagra finalmente a convenceu


a

vir morar comigo, ou seja, pude colocá-la em uma posição comprometedora

em cima da mesa da nossa cozinha… duas vezes.

Ela se soltou, e nós dois gememos quando nossos corpos se separaram.

Avett estava brilhando dos pés à cabeça, coberta por todo tipo de sexo e

coisas divertidas, e eu só queria abraçá-la e puxá-la de volta para a cama,

embaixo de mim.

A menina levantou as mãos e tentou, sem sucesso, desgrudar o cabelo do

peito cheio de óleo e fez careta quando lambi os lábios.

– Esses lofts não têm muitas opção de esconderijo. Ainda bem que você

não chegou nem perto da cozinha desde aquele jantar desastroso.

Avett foi até a geladeira e fiquei vendo ela rebolar e tremer, e a sua bunda

nua animou meu pau cansado. Então fez um ruidinho triunfante e voltou para
a

cama com uma coisa grande embrulhada em papel marrom, que quase a
tapava. Aí soltou o embrulho em cima do colchão e empurrou na minha

direção, com um sorrisinho malicioso.

– Feliz Natal, Quaid.

Segurei a ponta do embrulho gigante e comecei a tirar a fita adesiva com

cuidado. Avett ficou me observando de olhos arregalados e, quanto mais eu

demorava para desembrulhar o presente, mais impaciente ela ficava. Quando

terminei de tirar a fita de um lado, já estava de braços cruzados em cima dos

peitos nus e batendo o pé no chão. Aquela cara de brava não funcionava com

ela pelada, mas não falei nada. Em vez disso, segurei o lado que eu havia

soltado e rasguei o resto do papel com um movimento rápido.

Pisquei e não consegui mais respirar quando a imagem que me esperava

naquela tela enorme foi revelada. O colchão afundou de leve, porque Avett

sentou e veio para o meu lado outra vez. Então esticou a mão e tocou a águia

tatuada em meu peito, enquanto eu passava o dedo no contorno de uma


imagem

idêntica, pintada no quadro que eu segurava.

– Lembra que eu te falei que conheço o rapaz que fez sua tatuagem? Bom,

ele e o sócio expandiram os negócios e estão fazendo um monte de coisas.


Por

exemplo, obras de arte por encomenda. Achei que você podia pendurar na
sua
sala nova. Assim, o Quaid selvagem pode ficar por perto mesmo quando você

tiver que ser o Quaid civilizado.

Eu não conseguia tirar os olhos do quadro e não conseguia fazer meu

coração parar de bater no ritmo do nome dela. Nunca ninguém fez algo tão

atencioso nem tão pessoal para mim. Ninguém me entende como Avett, o que

só prova que ela é a mulher certa para mim.

Avett rasgou mais o papel, e eu sussurrei:

– São as minhas montanhas.

Ela balançou a cabeça e puxou as pontas do cabelo.

– Queria que você pudesse estar no seu lugar preferido mesmo quando tiver

um péssimo dia.

Soltei um longo suspiro e pus o quadro ao lado da cama, para poder puxar

Avett mais para perto de mim. Eu a coloquei no colo, de frente para mim, e

encostei a testa no meio do seu peito. Ela tinha um perfume doce e lascivo.

Tive vontade de cair de boca naquela mulher de novo, mas foi o bater regular

e confiante do seu coração que me fez dizer:

– Essas montanhas eram o meu lugar preferido. Agora meu lugar preferido é

qualquer um onde você esteja.

Avett soltou um gemido satisfeito e coçou as laterais da minha cabeça.

– Acho que você não vai ter muitos dias péssimos, agora que virou
autônomo.

Em vez de aceitar alguma das inúmeras ofertas que vieram voando na minha

direção quando saí do escritório, resolvi que já havia trabalhado muito para

os outros, pelos motivos errados e por tempo demais. A única pessoa que

quero impressionar, a quem quero provar meu valor, estava enroscada em

mim, e tenho certeza de que nada do que eu possa fazer pode diminuir o amor

que Avett sente por mim. Por isso, resolvi que estava na hora de pular de
novo

e ter meu próprio escritório. Já tenho mais clientes e mais pedidos de reunião

do que preciso, e olha que nem voltei oficialmente a trabalhar: só faço isso no

começo do ano. Pretendo ser mais seletivo e escolher melhor as pessoas a

quem dedico meu tempo e meus conhecimentos da lei. Ainda acredito que
todo

mundo merece ter a melhor defesa possível, mas agora quero fazer isso pelas

pessoas que realmente precisam. Não vou mais tirar gente ruim de trás das

grades só porque abanam um monte de dinheiro na minha cara e seus nomes

aparecem na imprensa.

Quero ter um tempo para me acostumar com essa vida sem a cortina de

fumaça e quero ter mais tempo para ficar com Avett antes de ela começar a

faculdade e ir trabalhar com Asa. Estou sendo egoísta com o meu tempo e o

meu talento. Mas, pelo menos, sei que estou fazendo isso por algo
importante,

alvo de valor incalculável.

– Eu também comprei um presentinho de Natal para você, mas era muito

grande para esconder aqui no apartamento.

Ela foi para trás e me olhou com as sobrancelhas levantadas e fazendo

aquele biquinho ao qual não consigo resistir.

– Falei que não era para você gastar dinheiro comigo, Quaid. Acho bom

você não ter comprado um carro ou alguma outra coisa que vá me obrigar a

brigar com você no primeiro Natal que passamos juntos.

Sacudi a cabeça contra a sua pele macia e dei uma risadinha. Meu furacão é

cheio de fúria e de independência, algo que ela nunca me deixa esquecer.

Posso amá-la e apoiá-la, mas Avett não me deixa sustentá-la nem comprar

coisas para ela. A menina insiste que isso faz parte dos termos e um

relacionamento saudável. Há vezes em que tenho vontade de mimá-la, só

porque ela não dá a menor importância para coisas materiais, mas aí Avett me

lembra deque eu lhe dei meu coração, o meu verdadeiro eu, e que isso vale

muito mais do que qualquer bugiganga que, com certeza, ela vai perder ou

quebrar.

– Não é um carro… não exatamente. Vamos tomar banho que eu te levo para

o bar, para você dar uma olhada, e depois vamos jantar na casa dos seus pais.
Avett ainda espremia os olhos para mim, mas não soltou nenhum pio quando

a peguei no colo e fui na direção do banheiro. Se íamos tomar banho juntos,

queria dizer que íamos nos sujar bastante antes de ficarmos limpinhos. Ainda

bem que os pais dela não iam se importar se atrasássemos um pouco.

Passar a noite de Natal na casa de Brite e Darcy era o tipo de festa que me

deixa animado. Estou ansioso para conviver com a família e o pequeno grupo

de amigos, que só queriam desfrutar da companhia um do outro, e não


disputar

quem tinha a companheira mais apropriada ou dava o melhor presente para o

chefe, para ganhar pontos e elogios. Ser acolhido e fazer parte do círculo

social de Brite Walker é uma experiência profunda e saber que aquele homem

robusto não só me aprova, mas aprova que eu fique com a sua filha, é o maior

elogio que eu poderia receber. Finalmente sinto que estou aproveitando todo
o

potencial que há tempos eu buscava. Isso não tem nada ver com coisas

materiais e tudo a ver com uma certa menina especial que entrou na minha
vida

como um ciclone.

Ficar com Avett e a família dela até me inspirou a tentar entrar em contato

com a minha própria família. Mandei um cartão de Natal a meus pais, com

uma foto das minhas montanhas, e falei que não ligo de ter que ir até o
Alasca
para vê-los. Nem sei se eles recebem correspondência lá naquele lago gelado

ou se estão interessados em me ver, depois de tanto tempo e tanta discórdia e

ressentimento, mas tentei e acho que isso vale alguma coisa.

Depois de um banho bem cheio de vapor, que não teve nada a ver com a

temperatura da água, e sim com minha tentativa de lamber todo aquele óleo

sabor algodão doce do corpo de Avett, a gente se arrumou, pegou os


presentes

que ela comprou para os pais – um conjunto de facas novo para Darcy e uma

foto dela sentada em cima de uma Harley, usando fralda, com Brite a

segurando em cima da moto gigante, com um sorriso mais brilhante do que o

Sol naquele rosto barbudo. A foto estava amarelada e meio queimada nos

cantos, mas mal dava para notar por que Avett colocou em um porta-retrato
de

prata parecendo ter sido feito de aros de moto. Avett chorou quando Zeb
ligou

e falou que havia encontrado uma caixa de fotos em um dos armários da casa

destruída. Como a caixa estava debaixo do que restou de uma jaqueta de

couro, os danos foram mínimos, mas o efeito de algo tão simples na minha

namorada foi profundo.

A gente se vestiu e se encapotou para se proteger do frio do inverno que

tornava o ar do mês de dezembro espesso. Na noite anterior, havia nevado,


deixando uma leve cobertura no chão, que fez barulho quando pisamos nela,
ao

sair da picape, depois de eu parar atrás do bar. Avett se aninhou ao meu lado
e

ficou esfregando as mãos, porque estava sem luvas, enquanto eu a levava até

um grande veículo de metal que ocupava boa parte dos fundos do

estacionamento.

– É um caminhão de sorvete? – perguntou, espantada. – Porque Rome parou

um caminhão de sorvete aqui no meio do inverno?

Eu apertei seu corpo e desenhei um coração com o dedo indicador no gelo

que havia se acumulado na lateral do enorme veículo.

– Não é um caminhão de sorvete, é um food truck, e é todo seu.

Virei de frente para Avett, e dei risada porque ela estava de olhos

arregalados e queixo caído.

– Feliz Natal, Avett.

Ela se virou para trás, olhou para o caminhão e depois para mim, e a

supresa e a perplexidade eram visíveis em cada contorno do seu corpo miúdo.

– O que foi que você fez, Quaid?

Avett estava quase sem voz, de tão abismada. Então se afastou de mim e foi

até o caminhão gigante. Desenhou um coração ao lado do que eu havia feito e

passou os dedos pelo gelo como se estivesse acariciando a lateral daquele


veículo monstruoso.

– Não fui só eu, na verdade. Não posso dizer que fui eu que tive a ideia.

Isso foi tudo coisa de Asa. Quando falei que queria te dar uma coisa que você

tivesse para sempre, não importa o que acontecer entre nós dois, não importa

as escolhas que você faça no futuro, foi ele quem deu a ideia de te dar um

espaço onde você pudesse cozinhar – passei a mão na nuca, envergonhado, e

olhei para aquele tapete branco imaculado debaixo dos meus pés. – Eu posso

ter sugerido comprar um restaurante, e logo me apontaram que isso seria

ridículo e muito pouco realista, sem falar que você ia ficar muito pouco à

vontade. Mas Asa falou do food truck, e seu pai e Rome resolveram
contribuir

na mesma hora. É um presente de todos nós, Avett. A gente quis te dar o


futuro

que você quer ter de Natal porque acredita em você e ama a mulher talentosa
e

apaixonada que você é.

Ela se virou e se atirou em cima de mim, e eu tropecei porque o chão estava

escorregadio. Foi difícil segurar nós dois em pé, porque Avett quase me

estrangulou com um abraço.

– Não acredito que vocês fizeram isso. Nem comecei a faculdade ainda.

Não sei nem o que dizer.


Eu lhe dei um beijo porque Avett estava feliz e porque ela não saiu falando

que não merecia uma coisa daquelas. Muita coisa aconteceu desde o dia em

que aquela menina se sentou na minha frente, vestida com um macacão

alaranjado de presidiária, com cara de que tudo o que acontecia de mal no

mundo era culpa dela, era uma cruz que ela tinha que carregar. Eu a beijei

porque ela é minha e porque isso me faz feliz.

– Aí é que está… o caminhão é seu, e você pode fazer o que quiser com

ele. Pode guardá-lo até terminar a faculdade, pode trabalhar nele no fim de

semana, quando resolver o que quer fazer, pode contratar alguém para

trabalhar para você ou pode até vender o troço e investir o dinheiro nos seus

estudos. As opções são incontáveis, e é você que vai escolher.

Ela enterrou o rosto na lateral do meu pescoço, e eu tremi, porque seu nariz

gelado ficou roçando atrás da minha orelha.

– Você acredita que vou fazer a escolha certa?

Havia riso misturado à sua voz, e um brilho encantador em seus olhos

quando ela se afastou e sorriu para mim.

Segurei seu rosto com as duas mãos e a beijei de novo.

– Certas ou erradas, pense só nas histórias que você terá para contar depois

de escolher.

Eu mal posso esperar para fazer parte de cada uma delas. Essa mulher é o
começo, o meio e o fim da melhor história de que eu já tive a sorte de

participar. Ela sempre rende tramas interessantes e viradas dramáticas. Seja

qual for a história que estivermos vivendo, nunca será chata nem previsível, e

não quero chegar ao clímax com mais ninguém. Esse trocadilho bobo fez
meus

lábios se retorcerem, quando ela roçou os dela de leve nos meus, sussurrando

um “obrigada”.

Desde que a minha história e a história dela terminem do mesmo jeito, no

mesmo lugar, com nós dois juntos, não me importo com as escolhas que

teremos de fazer no caminho, péssimas ou ótimas, porque tenho a certeza de

que faremos todas as escolhas importantes juntos.

NOTA DA AUTORA

ESTAVA LENDO A INTRODUÇÃO QUE JOANNA WYLDE COLOCA


ANTES DE TODOS OS

seus livros da série Reapers MC, depois de devorar o último deles (sou

obcecada pelas palavras dessa mulher, gente! Ela é muito, mas muito boa!).

Essa autora diz que nunca deixa a realidade atrapalhar a história, e meio que

amei ela ter dito isso sem meias palavras, porque é assim que penso.

Como Quaid é advogado, há muito do jargão legal, dos tribunais, espalhado

por este livro. Fiz questão de ser o mais exata possível, mas houve algumas

partes e passagens de tempo que manipulei para caberem nos limites desta
história. O sistema legal de verdade é muito mais lento, tem muito mais

instâncias... tenho consciência disso... mas o fundamental está representado.


E,

como eu já disse, às vezes a verdade rende uma ficção muito chata.

Então, para todas as águias da lei da realidade, peço desculpas pelas

liberdades tomadas em relação à sua profissão. Espero que vocês tenham

gostado do resultado!!!

PLAYLIST DE

Avett & Quaid

The Doors: “Riders on the storm”

Drive-by Truckers: “Tornados”

American Aquarium: “Hurricane”

Bill Withers: “Ain’t no sunshine”

SoundGarden: “Blackhole sun”

Creedence Clearwater Revival: “Have you ever seen the rain?”

Neil Young: “Like a hurricane”

Pearl Jam: “Lightning bolt”

Garbage: “Only happy when it rains”

The Scorpions: “Rock you like a hurricane”

Adele: “Set fire to the rain”

Madness: “The sun and the rain”


Mumford and Sons: “After the storm”

Muse: “Butterflies and Hurricanes”

Arctic Monkeys: “Crying lightning”

Kansas: “Dust in the wind”

Thirty Seconds to Mars: “Hurricane”

The Fratellis: “Look out sunshine”

The Rolling Stones: “She’s a rainbow”

Ryan Bingham: “Snow falls in june”

Blur: “This is a low”

Bruce Springsteen: “Thunder road”

AGRADECIMENTOS

NA VERDADE, ESTE LIVRO NÃO PODERIA TER SIDO ESCRITO E,


DEFINITIVAMENTE,

não seria tão divertido se não fosse por Kristen Proby, Jennifer

Armentrout, Jen McLaughlin, Karina Halle, Cora Carmack, Lindsay


Ehrhardt,

Heather Self, Ali Hymer, Debbie Besabella, Dennise Tung e Stacey Morgan.

Eu estava precisando dar um tempo. Estava precisando fugir um pouco.

Precisava relaxar e reclamar da vida, das palavras e de tudo o que estava

emaranhado, confundindo a minha cabeça, tornando-a um lugar bem

desagradável. A história não saía e, na minha área de trabalho, isso é algo


muito assustador. Seguindo os conselhos das amigas, tirei uns dias em nome
da

minha saúde mental e fugi da vida adulta e das responsabilidades por um

tempo, porque era óbvio que estavam me faltando forças para suportar tudo

isso. Eu precisava dessa distância, precisava desse tempo. Também precisava

ouvir que não estava sozinha no mundo e que tudo ia dar certo.

Todas essas damas me ajudaram a voltar a andar na linha. Chutaram minha

bunda quando precisei e me ajudaram a parar de pensar merda... coisa que eu

estava fazendo pra caramba, devo admitir. Tenho boas amigas, pessoas boas

que conseguem manter meus pés no chão (e os delas também) e me ajudam a

ser fiel a mim mesma, quando parece que esse ramo de negócio vai me
engolir

inteira – francamente, elas são as melhores amigas do mundo –, e é bom


saber

que não vão permitir que eu me afaste demais do caminho que escolhi trilhar

desde que comecei esta jornada, há três anos. Devo muito a elas e serei

eternamente grata pelo fato de os livros terem trazido essas mulheres para a

minha vida. Não as trocaria por nada neste mundo.

Este livro dá sorte (quer dizer, o livro está pronto, e acho que ficou

incrível, e isso, de acordo com os meus padrões, é sorte... rsrs)... é meu

número 13!
Nem consigo acreditar. Tantas palavras e tanto trabalho em tão pouco

tempo, e nunca me canso nem acho chato lançar minha magia e minha
loucura

especiais no universo dos livros. Muito obrigada por estar aqui... mesmo que

este seja o primeiro livro meu que você esteja lendo ou que esteja aqui
durante

todos os treze. Nem tenho palavras para agradecer a oportunidade de contar

minhas histórias e realizar meu maior sonho. Cada leitor, blogueiro, autor,

profissional do livro, amigo e integrante da família que tem estado ao meu

lado durante esta jornada me ajudou a transformar algo que parecia

inacreditável e irreal na minha realidade. Isso é tão especial e tão importante

que jamais vou encontrar todas as maneiras de expressar minha gratidão a

vocês.

Obrigada... um mihão de obrigadas... e mais um milhão...

Amanda (e Martha, lá do outro lado do mundo), Jessie, Caroline, Molly,

Elle, K. P., Stacey e Melissa... obrigada por jamais se abaterem, por

continuarem seguindo em frente, por continuarem navegando, por mais


bravias

e revoltas que fossem as ondas. Obrigada por terem fé e acreditarem em mim,

mesmo quando nem eu acreditava. Obrigada por me lembrarem que esse é


um

esporte de equipe, quando, tantas vezes, pensei estar jogando, ganhando e


perdendo sozinha.

Obrigada aos melhores companheiros que uma garota poderia ter... se você

os vir comigo em um evento, deem um abraço neles e digam que a Jay os


ama.

Também é bom pagar uma bebida para eles, porque viajar comigo e com o

meu azar não é brincadeira!

Ei, Mike, você arrasa, e eu não teria conseguido passar por este ano sem

você, sem brincadeira. Obrigada por ser sempre um porto seguro, por estar ao

meu lado e por ser o primeiro cara que eu procuro para resolveras coisas.

A todas as autoras que são tão terrivelmente talentosas e tão generosas com

seu tempo e seu talento, obrigada por me servirem de inspiração e por serem

minhas amigas. Vocês todas são brilhantes, e quem são como pessoa, bem

como narradoras, é algo sem precedentes. Este obrigada enorme e este abraço

virtual vão para: Jennifer Armentrout, Jenn Foor, Jenn Cooksey, Jen

McLaughlin, Tiffany King, Tina Gephart, Tillie Cole, Joanna Wylde, Kylie

Scott, Cora Carmack, Emma Hart, Renee Carlino, Penelope Douglas, Kristen

Proby, Amy Jackson, Nichole Chase, Tessa Bailey, J. Daniels, Rebecca Shea,

Kristy Bromberg, Adriene Leigh, Laurelin Page, E. K. Blair, S. C. Stephens,

Molly McAdams, Crystal Perkins, Tijan, Karina Halle, Christina Lauren,

Chelsea M. Cameron, Sophie Jordan, Daisy Prescott, Michelle Valentine,

Felicia Lynn, Harper Sloan, Monica Murphy, Erin McCarthy, Liliana Hart,
Laura Kaye, Heather Self e Kathleen Tucker. Sério, admiro cada uma das

autoras dessa lista e sua contribuição para o universo dos livros e para a

minha vida de escritora. Se você está procurando um bom livro para ler,

prometo que qualquer um escrito por elas não irá decepcionar.

Por último, mas não menos importante, obrigada à minha turma peluda, por

morar no meu coração. Au!

Se você quiser entrar em contato comigo, tem um zilhão de lugares onde

você pode fazer isso.

Dê uma olhada no meu site para ver notícias, datas de lançamento e todos

os meus eventos:

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1 edição, fev. 2018

Paixão e liberdade

Crownover, Jay

9788550701318

384 páginas

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A atração entre Sayer Cole, a advogada bem-sucedida, e Zebulon Fuller, um

verdadeiro bloco rústico de músculos, é imediata. Mas os segredos dele estão

ocultos sob sua exuberante força física, e se vierem à tona, podem


transformar

completamente sua vida. E ele não quer se arriscar por uma paixão, ainda
mais

quando precisa da ajuda profissional de Sayer para corrigir erros do passado.

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Mentiras inocentes e verdades escancaradas


Hopkins, Cathy

9788576835448

196 páginas

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Cat está apaixonada por outro e não sabe como contar ao namorado. Com

medo de machucar o garoto, acaba se envolvendo em uma rede de 'mentiras

inocentes'. Cat será capaz de se safar dessa? Pode a verdade ser tão dolorosa

a ponto de ser omitida?

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Mamãe é de morte

Buckley, Michael

9788576835820

250 páginas

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Os Nerds estão de volta! Nesta nova aventura eles vão enfrentar um antigo

membro da equipe. Um bando de esquilos, um fã de HQs e sua mãe


completam

a trupe de vilões. Nossos queridos nerds têm mais um desafio: travar essa

batalha de morte sem as suas atualizações. É isso aí, os superespiões vão ter

que botar a cuca para funcionar e lutar com os bandidos sem os seus poderes

secretos. Se você quer saber se nossos agentes vão sobreviver a essa missão,

prove que é valente! Consiga permissão para acessar as páginas desta


segunda

aventura da Tropa Nerds e, divirta-se.

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Diário de um Banana

Kinney, Jeff

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224 páginas

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Os Heffley estão dando o fora! Greg e sua família decidem fugir do frio e do

estresse das festas de fim de ano e embarcam no primeiro avião com destino
a

uma ilha tropical. Afinal, uns dias num resort paradisíaco é tudo o que eles

precisam. Mas e se o paraíso não for tudo isso? Dores de barriga, insolação e
criaturas venenosas podem fazer das tão sonhadas férias um pesadelo. Quanto

a isso, não se preocupem: em caso de trapalhadas, máscaras de gás hilariante

cairão automaticamente.

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O mundo genial de Hugo

Zett, Sabine

9788576835332

228 páginas

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O garoto mais descolado da escola, um super-herói, um superatleta, o

queridinho das garotas e o ás do amor... Yeah, este é o Hugo! Bem, pelo


menos

é assim que ele sonha ser. Hugo Kotsbusch, com o apoio de seu melhor
amigo,

Nico, vai cometer um monte de confusão para atingir seus objetivos: tentar

entrar no time de futebol, de handebol e até se matricular nas aulas de balé.

Será que ele vai se tornar o garoto mais popular da escola e de quebra

conquistar a doce e bela Violeta?

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Leis da tentação
Folha de rosto
Créditos
Dedicatória
Introdução
Citação I
CAPÍTULO 1
Citação II
CAPÍTULO 2
CAPÍTULO 3
CAPÍTULO 4
CAPÍTULO 5
CAPÍTULO 6
CAPÍTULO 7
CAPÍTULO 8
CAPÍTULO 9
CAPÍTULO 10
CAPÍTULO 11
CAPÍTULO 12
CAPÍTULO 13
CAPÍTULO 14
CAPÍTULO 15
CAPÍTULO 16
CAPÍTULO 17
CAPÍTULO 17.5
CAPÍTULO 18
CAPÍTULO 19
EPÍLOGO
NOTA DA AUTORA
PLAYLIST
AGRADECIMENTOS
Sua opinião é muito importante

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