RACIOCÍNIO PSICOSSOMÁTICO
NA CLÍNICA GINECOLOGICA:
ESTUDO DE UM CASO ILUSTRATIVO
José Carlos Riechelmann, MD, ObGyn, MBA, MSc *
Médico. Ginecologista-Obstetra e Sexologista. Terapeuta Sexual.
Mestre em Ciências (FSP-USP). MBA em Gestão de Serviços de Saúde (FGV)
Professor de Habilidades Médicas (Medicina UAM)
Presidente, Comitê Científico de Sexualidade Humana (APM)
Fellow, International College of Psychosomatic Medicine (ICPM)
Ex-Diretor Geral, Hospital Municipal Maternidade-Escola de Vila Nova
Cachoeirinha “Dr. Mário de Moraes Altenfelder Silva” (SMS-SP)
Ex-Presidente, Associação Brasileira de Medicina Psicossomática (ABMP)
Ex-Membro da Comissão Nacional de Tocoginecologia Psicossomática, e Ex-
Consultor Científico da Comissão Nacional de Sexologia (FEBRASGO)
Introdução
No exercício da tocoginecologia é muitíssimo freqüente
a paciente que vai associando sintomas orgânicos com
eventos emocionais durante o relato de sua “doença”.
Raramente a paciente percebe e valoriza estas
associações.
Tal percepção geralmente ocorre a um parente mais
próximo ou então ao médico.
A partir do relato de um caso, vamos enfocar e discutir
a importância de valorizar tais associações na prática
clínica.
Identificação
Coloco em questão o caso de M.C.P., mulher, branca, 25 anos,
casada, natural e residente em São Paulo - Capital, que trabalha
como auxiliar de escritório.
A paciente chegou ao consultório dez minutos antes do horário
agendado. Aguardava na sala de espera sentada sem usar o
encosto da poltrona, a bolsa sobre as coxas, tendo a alça segura
firmemente por ambas as mãos. Postura tensa e imóvel.
Entrando na sala de anamnese, respondeu ao meu cumprimento
com um esboço de sorriso e permaneceu sentada na mesma
postura anterior.
Questionei o motivo da procura. Respondeu-me que é amiga de
A.S.C.B., cliente que está sob meus cuidados realizando o pré-
natal. Resolveu agendar esta consulta depois de conversar com a
amiga.
Queixa e Duração:
Perguntei em que poderia ajudar
obtive a seguinte história:
A queixa era “intestino preso e
barriga inchada há 1 mês”.
Negou quando questionei se
havia outra queixas.
História Pregressa da Moléstia Atual:
Relatou que, há aproximadamente 1 mês,
desde de 2 dias antes da última
menstruação, percebeu que “a barriga
inchou de repente, estufou e ficou dura”.
O “inchaço” permaneceu dia e noite
durante o mês, sem regredir até o dia da
consulta.
Acompanhava-se de dores discretas em
cólicas, sem ritmo ou periodicidade, que
iniciavam na fossa ilíaca direita e
irradiavam para o hipocôndrio direito.
História Pregressa da Moléstia Atual:
Tais cólicas incidiam quase diariamente, duravam
poucos minutos e terminavam quando eliminava gases,
o que ocorria com maior freqüência que a habitual.
Desde o dia em que “a barriga inchou” o ritmo
intestinal diminuiu de duas para uma evacuação diária,
tendo as fezes permanecidas com todas as
características normais. Negava eliminação de
elementos anormais junto com as fezes.
Ainda no mesmo período da queixa, referiu sono e
sensação de peso no epigastro após as refeições
maiores. Negou outros sintomas digestivos, inclusive
dados epidemiológicos relativos a parasitose intestinal
ou ainda qualquer mudança na dieta.
Interrogatório Sobre os Diversos
Aparelhos:
Sobre os diversos aparelhos, a única
alteração apontadas foi cefaléia fraca,
noturna, contínua, fronto-temporal,
que incidia aproximadamente um dia
na semana, durante poucas horas.
Negou quaisquer outros sintomas,
inclusive os ginecológicos.
Antecedentes Mórbidos Familiares:
Questionando antecedentes, soube que
a mãe apresentava Diabetes Mellitus
há poucos anos.
Antecedentes Mórbidos Pessoais:
A paciente desenvolveu tuberculose pulmonar
no primeiro ano de vida, tendo sido tratado e
recebido alta. Há 4 e 1 anos atrás,
respectivamente, apresentara 2 episódios de
infecção urinária.
Há 3 anos vinha apresentado episódios
eventuais de piodermite em coxas e púbis, o
último há 11 meses. Nunca se submetera a
cirurgias e era fumante de 20 cigarros ao dia.
Primeiras (e Imprecisas) Impressões Diagnósticas ao
final da Anamnese Convencional:
Tendo aqui finalizado a anamnese a partir da
queixa, causo-me estranheza o fato da paciente
haver me procurado para uma consulta que
configurava-se eminentemente
gastroenterológica, apesar de conhecer minha
condições de tocoginecologista.
Primeiras (e Imprecisas) Impressões Diagnósticas ao
final da Anamnese Convencional:
Durante toda a conversa a paciente foi tácita,
limitando-se apenas a responder às minhas
perguntas. A postura tensa e imóvel
permanência.
Pareceu-me que havia algo importante que trazia
aquela paciente à consulta ginecológica e que
não havia ficado claro na anamnese a partir da
queixa. Decidi investigar com mais detalhes o
hitórico genital da cliente, área onde a mesma já
se declarara assintomática.
Aprofundamento da Anamnese: Exploração da
Hipótese de Demanda Associada à Esfera
Genital/Sexual:
A menarca ocorrera aos 12 anos, era esperada e
foi recebida com tranqüilidade. Apresentara
dismenorréia até 17 anos, com remissão
expontânea.
O ritmo menstrual sempre fora de 30-35 dias/5-
8 dias/ quantidade normal sem coágulos, referia
última menstruação no mês anterior (estava no
25º dia do ciclo na data da consulta).
Era nuligesta.
Aprofundamento da Anamnese: Exploração da
Hipótese de Demanda Associada à Esfera
Genital/Sexual:
Iniciara a atividade sexual aos 19 anos, interrompida aos
20 por ruptura do vínculo afetivo.
Reiniciou atividades sexuais com novo companheiro
(atual marido) aos 22 anos. Estava casada há 2 anos.
Negava queixas sexuais. Freqüência coital de 2 a 4
vezes por semana. Referia apetite sexual e excitação
normais, com orgasmos freqüentes e satisfação sexual.
A partir do inicio deste segundo vínculo sexual, passara
a usar corretamente anticoncepcional oral de baixa
dosagem. Não queixava efeitos colaterais. Fazia
interrupções eventuais de 1 a 2 meses de uso da pílula
“para descansar”. Na data da consulta já completara
seis meses de interrupção no uso da pílula.
Exame Físico Geral e Especial:
Realizei então o exame físico, observando bom estado geral,
altura de 159 cm e peso de 54.500g.
Todos os parâmetros dos exames físicos geral e especial,
inclusive os do exames ginecológicos, apresentavam-se
completamente normais.
Destaco apenas o exame físico do abdome, que encontra-se
plano, flácido, discretamente doloroso à palpação profunda do
epigastro e do cólon ascendente, fígado no rebordo costal
direito, baço não percutível, e não palpável, nenhuma massa
abdominal palpável ou percutível e ruídos hidroaéreos normais.
O timpanismo estava pouco aumentado, mas normalmente
distribuídos.
Ansiedade e tensão corporal estiveram presentes durante todo
exame.
Hipóteses Diagnósticas (Baseadas na
Observação Clínica Convencional):
Tendo finalizado a observação clínica a partir da
queixa, formulei o diagnóstico provável de
Síndrome Hipostênica Primária Funcional,
expressão da alternação motora primitiva e
funcional do tubo digestivo, chamada de
Hipocinesia Global por Ramos Jr, que justificava
as queixas somáticas da paciente.
Conduta (Baseada na Observação
Clínica Convencional):
A abordagem exclusivamente somática do caso
permitiria encerrar aqui o atendimento. Seria
adequada uma conduta dirigida à disfunção
digestiva, e/ou encaminhar a paciente a um
gastroenteologista. Após a paciente retirar-se do
consultório, poderíamos até achar cômica a
forma com que ela ter-se-ia enganado ao
escolher um médico da especialidade “errada”
perante a queixa inicial.
Abordagem Psicossomática:
Ruptura Epistemológica e Salto de Qualidade
no Racicínio Clínico
A abordagem psicossomática leva-nos a considerar outros
dados, tais como o evidente componente emocional que
obriga a paciente manter durante toda a consulta um
postura tensa, com ansiedade progressivamente mais
visível, facies expectante, pouco comunicativa.
Grace, Wolf e Wolff (21,22), estudando as relações entre as
funções digestivas e os estados emocionais, descreveram
um estados fisiopatológico do tubo digestivo (o qual
denominaram hipodinâmico) onde há hipomotilidade,
relaxamento de vísceras, hipossecreção e diminuição da
microcirculação da mucosa (palidez). Tal manifestação
somática corresponde ao componente orgânico do estado
emocional de medo.
Abordagem Psicossomática:
Ruptura Epistemológica e Salto de Qualidade
no Racicínio Clínico
Portanto, pareceu-me que poderia haver um estado não
manifesto de medo, que há 1 mês se associava com uma
disfunção digestiva, e que ficava mais intenso no momento da
consulta. Segundo Pontes (23), ... ( durante a consulta)... “o
medo de descobrir coisas novas em si mesmo acarreta, em
algumas circunstância, a sensação de catástrofe, diante do
imponderável, diante da revelação do “mal” que possui,
imaginando-o como incurável”.
Por hipótese, a ansiedade e a tensão da paciente poderiam advir
do medo que eu confirmasse “algo” que ela temia.
Dois dados me chamaram a atenção: a associação que a cliente
fez entre o início da queixa e o período pré-menstrual, bem
como o abandono da anticoncepção.
Anamnese Biográfica e a Percepção
do CONFLITO:
Perguntei o motivo que a levou a abandonar a pílula. Ela
respondeu:
“Nós estamos querendo um filho”.
“Eu parei com a pílula e nós estamos tendo relações mais vezes
que antes. No mês passado eu achei que estava grávida e fiquei
muito alegre, mas a alegria acabou quando senti que ia
menstruar”.
“Daí a menstruação veio normal. Eu acho que não consigo
engravidar! Meu marido já teve uma filha com outra mulher.
Acho que o problema é comigo. O senhor acha que é grave?”
Perante estas colocações, pareceu-me estabelecer-se uma relação
lógica entre alguém com “intestinos presos” e uma consulta
ginecológica.
Anamnese Biográfica e a Percepção
do CONFLITO:
A demanda (necessidade, procura, exigência) é o
conjunto de forças ou motivos que mobilizam a
paciente, levando-a a mover-se em direção a quem julga
poder satisfazê-la. No caso em questão, seria um
ginecologista credenciado pela indicação de sua amiga
gestante.
A queixa pode ser entendida como uma porta que a
paciente oferece ao profissional para entrar num
labirinto do qual ambos esperam encontrar uma saída.
E os labirintos às vezes apresentam portas que levam a
lugar nenhum , bem como saídas que desafiam o
raciocínio lógico-formal da abordagem clinica somática.
Anamnese Biográfica e a Percepção
do CONFLITO:
Acostumado a raciocinar quase “matematicamente” em
busca de uma relação objetiva de causa-efeito perante
“a doença” (e, infelizmente, muitas vezes sem tempo
disponível até para raciocinar) o médico passa a esperar
da cliente que esta lhe forneça informes exatos, precisos
e objetivos que lhe facilitem o raciocínio.
Mera pretensão!
A cliente é uma unidade sociopsicossomática que fala
várias linguagens concomitantes e articuladas. Se o
médico deseja raciocinar sobre dados reais, não é
possível escapar da tarefa de decodificar as mensagens
que recebe da paciente.
Anamnese Biográfica e a Percepção
do CONFLITO:
Com a linguagem verbal, M.C.P. deixava explícito que se sentia com
dificuldade de evacuar, mas deixava implícito que vivia um conflito em
relação à maternidade. Longas e várias observações levaram Freud (24), em
1917, a escrever “As Transformações do Instinto Exemplificadas no
Erotismo Anal”, onde ele aponta que o conceito de FEZES e o conceito de
FETO mal se distinguem entre si e são facilmente permutáveis nos produtos
do inconsciente tais como fantasias ou sintomas.
Como o corpo, M.C.P. “fala” através das alterações da motilidade intestinal,
que coloca no plano somático a tendência de uma pessoa que retém dentro de
si (desejo/medo da gestação?) algo que deve sair mas não se permite que saia
(medo/desejo da esterilidade?). “Fala”, ainda, pela tensão generalizada da
musculatura esquelética, a respeito do medo da esterilidade, emoção que
acompanha a disfunção digestiva.
Groddeck (25), coloca que o medo é apenas uma face da moeda cuja outra é
o desejo. De fato, parece que M.C.P. nos traz a questão de alguém que tem
desejo/medo de ser estéril, ou seja um conflito referente à questão de
maternidade, que resultou na procura do atendimento ginecológico. Isto pôde
ficar claro no espaço e no contexto de uma consulta clínica, e não no
contexto de uma psicoterapia.
Conclusão:
A partir deste momento pude tomar uma conduta adequada à
questão reprodutiva, que era a demanda ginecológica oculta e
adjacente à queixa gastroenterológica inicial.
A paciente foi submetida a adequada propedêutica laboratorial e
imagenológica, resultando no Diagnóstico Definitivo de
Anovulação Crônica (SOP). Ao longo do tratamento
desenvolveu Tu Cistico de Ovário E >6 cm, removido
cirurgicamente. No segundo mês pós-operatório a paciente
retornou grávida ao consultório.
A abordagem sociopsicossomática na pratica clínica permite ao
clínico maior segurança e eficácia na escolha da conduta, seja ela
no sentido de intervir ou de encaminhar o caso.
A Psicossomática não vem substituir ou ser uma alternativa à
abordagem clínica clássica. Pelo contrário, trata-se de somar
conhecimentos que ampliem as possibilidades de investigação e a
probabilidade de sucesso da intervenção profissional médica.
José Carlos Riechelmann, MD, ObGyn, MBA, MSc
Psicossomática em Saúde da Mulher
Ginecologia. Obstetrícia. Sexologia Médica.
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