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Unilever - Um Estudo de Caso Na Política Global

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A Unilever e a Sustentabilidade como Ferramenta de Soft Power:

Um Estudo de Caso na Política Global

Hémilly dos Santos Batista​


Pós-graduação em Ciência Política – IPB (Instituto Pedagógico Brasileiro)

RESUMO

Este estudo analisa como a Unilever utiliza a sustentabilidade como ferramenta estratégica
de soft power no contexto corporativo global, explorando suas iniciativas ambientais e
sociais e seus impactos políticos e econômicos. Estruturado em cinco partes, o trabalho
aborda o conceito de soft power corporativo, enfatizando sua aplicação pela Unilever por
meio de programas como o Unilever Sustainable Living Plan (USLP). O estudo avalia o
impacto prático dessas iniciativas em diferentes mercados, destacando avanços e
desafios, incluindo acusações de greenwashing e limitações estruturais. Conclui-se que,
ao integrar valores de sustentabilidade às suas práticas e narrativas, a Unilever reforça
sua posição como líder global, embora precise lidar continuamente com a necessidade de
maior transparência e impacto ético.

Palavras-chave: Unilever, sustentabilidade, soft power, responsabilidade social corporativa,


influência global.

INTRODUÇÃO

No mundo globalizado, empresas transnacionais têm assumido papéis que transcendem a


economia, influenciando políticas públicas, normas culturais e comportamentos de
consumo. Nesse contexto, destaca-se o conceito de soft power, introduzido por Joseph Nye
(1990; 2004), que descreve a capacidade de influenciar por meio da atração e persuasão,
sem coerção. Trata-se de um poder baseado em recursos intangíveis, como cultura, valores
políticos e políticas públicas legitimadas moralmente.

A partir da ampliação do conceito de Nye (2004), observa-se que não apenas Estados, mas
também atores não estatais — como organizações internacionais, ONGs e corporações —
podem exercer soft power no cenário global. Empresas transnacionais passaram a
incorporar valores universais em suas estratégias de branding e responsabilidade social
corporativa, utilizando a sustentabilidade como ferramenta de construção de legitimidade e
influência (ANHOLT, 2007; KOTLER, 2005).
Neste trabalho, analisa-se como a Unilever, uma das maiores multinacionais de bens de
consumo, utiliza a sustentabilidade como um mecanismo estratégico de soft power,
moldando percepções e impactando agendas globais. A análise centra-se no Unilever
Sustainable Living Plan (USLP), que integra iniciativas ambientais, sociais e econômicas em
busca de crescimento sustentável e legitimidade política.

A pesquisa é estruturada em cinco partes: a apresentação do conceito de soft power; a


transposição desse conceito para o âmbito corporativo; a análise da Unilever como estudo
de caso; a avaliação crítica dos impactos e limitações de sua estratégia de soft power; e,
finalmente, considerações sobre os desafios à sustentabilidade corporativa no contexto
contemporâneo. Dessa forma, busca-se contribuir para a compreensão do papel das
corporações na governança global e na promoção de transformações sociais e ambientais

DESENVOLVIMENTO

O conceito de soft power foi introduzido pelo cientista político norte-americano Joseph
Nye, com o objetivo de ampliar a compreensão sobre as formas de poder nas relações
internacionais, especialmente em um contexto onde o uso exclusivo da força ou coerção
apresenta limitações. Inicialmente apresentado em sua obra Bound to Lead: The Changing
Nature of American Power (1990) e aprofundado em Soft Power: The Means to Success in
World Politics (2004), Nye define soft power como a capacidade de um ator influenciar as
ações, preferências ou comportamentos de outros por meio de atração e persuasão, sem
recorrer à coerção ou ao pagamento. Esse tipo de poder, segundo o autor, baseia-se em
recursos intangíveis, tais como a cultura, os valores políticos e as políticas públicas
percebidas como legítimas ou moralmente corretas (NYE, 2004).

O conceito de soft power foi desenvolvido por Joseph Nye (1990) como uma alternativa
teórica ao enfoque tradicional centrado na coerção e no uso da força — o chamado hard
power. Nye (2004) define soft power como a capacidade de um ator influenciar as ações,
preferências ou comportamentos de outros por meio da atração e persuasão, utilizando
recursos intangíveis como cultura, valores políticos e políticas legitimadas moralmente. A
força dessa forma de poder reside justamente em sua sutileza e eficácia simbólica.

O contraste entre soft e hard power é essencial para compreender a importância estratégica
desse conceito nas relações internacionais contemporâneas. Enquanto o hard power opera
através da imposição e do controle — como sanções, pressões diplomáticas ou uso militar
—, o soft power atua por meio da coesão simbólica, da empatia cultural e da sedução de
valores. Em um mundo interconectado, o apelo ao soft power ganha relevância justamente
pela crescente rejeição a soluções coercitivas e pela valorização de práticas colaborativas
(NYE, 2004).

Inicialmente pensado para a atuação dos Estados, o conceito foi posteriormente expandido
pelo próprio Nye e por outros autores, sendo hoje aplicado a uma gama diversa de atores
internacionais, inclusive empresas transnacionais. Esses agentes exercem influência ao
promover estilos de vida, valores e práticas que, quando percebidos como legítimos,
ampliam seu prestígio e poder simbólico no cenário global (SLAUGHTER, 2004).

No entanto, o conceito de soft power não é isento de críticas. A subjetividade do que é


considerado “atraente” ou “legítimo” varia conforme os contextos culturais e históricos, o
que dificulta a universalização e a mensuração de seu impacto. Além disso, críticos
argumentam que o soft power frequentemente funciona de maneira complementar ao hard
power, ao invés de substituí-lo completamente. Apesar dessas limitações, o conceito de Nye
se consolidou como uma das principais lentes analíticas para compreender as dinâmicas
contemporâneas de poder, especialmente em um contexto marcado pela crescente
importância da diplomacia cultural, da narrativa ética e da interdependência global.

Dessa forma, o soft power configura-se como uma ferramenta indispensável para a análise
das relações internacionais no século XXI. Sua aplicabilidade transcende os limites estatais,
permitindo que empresas transnacionais como a Unilever desempenhem papéis
significativos na formulação e disseminação de narrativas globais. A sustentabilidade,
enquanto recurso estratégico, emerge como um elemento central na construção de um
poder de atração que consolida a influência dessas corporações, ampliando seu alcance e
relevância no cenário político e econômico global. Essa discussão fundamenta-se, portanto,
na análise da Unilever como um caso paradigmático de como o soft power pode ser
mobilizado em práticas empresariais com impacto na política global.

Transposição do Conceito para o Âmbito Empresarial: Como Empresas


Podem Exercer Influência Global por Meio de Valores, Práticas e
Narrativas

No cenário contemporâneo, as empresas transcenderam a mera produção de bens e


serviços, ocupando um espaço relevante como atores influentes no sistema global. Esse
fenômeno está alinhado com a ideia de "soft power", um conceito originalmente
desenvolvido por Joseph Nye, que denota a capacidade de influenciar sem coerção, por
meio de valores, cultura e ideologia. Quando transferido para o contexto corporativo, o soft
power assume formas particulares, sendo articulado principalmente através de branding,
práticas empresariais sustentáveis e narrativas que dialogam com públicos diversos. Simon
Anholt e Philip Kotler fornecem bases teóricas significativas para compreender como o
branding pode se tornar uma ferramenta estratégica de influência global.

Soft Power Corporativo: Conceito e Dimensão

Simon Anholt, em seus estudos sobre diplomacia de marcas (ou "nation branding"),
argumenta que a construção de uma marca transcende o marketing convencional,
englobando elementos de percepção cultural, reputação e legitimidade. Empresas, como
nações, podem se posicionar estrategicamente ao criar uma identidade corporativa que
ressoe com valores globais como sustentabilidade, inclusão e inovação. A aplicação do
conceito ao âmbito corporativo demonstra que marcas bem-sucedidas não apenas atraem
consumidores, mas também moldam tendências sociais e culturais, desempenhando um
papel ativo na formação de normas globais.

Philip Kotler, por sua vez, reforça essa perspectiva ao destacar que o branding estratégico
conecta as empresas aos seus stakeholders de forma emocional e simbólica. Para ele, uma
marca não é apenas um conjunto de atributos ou promessas de qualidade, mas um veículo
de valores que comunica uma visão de mundo. Empresas como Apple, Patagonia e
Unilever ilustram como o soft power corporativo é instrumentalizado por meio de
mensagens consistentes, práticas éticas e narrativas que transcendem os produtos,
conquistando a confiança de consumidores e influenciando outras organizações e governos.

Ao transferir o conceito de soft power para o ambiente empresarial, observa-se sua


manifestação em campanhas como a 'Real Beauty', da Dove, uma marca da Unilever. Essa
campanha não apenas promoveu os produtos da marca, mas também influenciou um
debate cultural mais amplo sobre diversidade e autoestima. A eficácia dessa abordagem é
evidenciada por pesquisas que indicam um aumento de 13% na confiança das
consumidoras em relação aos padrões de beleza. Assim, a teoria de Nye se concretiza no
ambiente corporativo por meio de práticas que moldam valores sociais e culturais
(HARVARD BUSINESS REVIEW, 2021).

Valores Corporativos: A Base do Soft Power

O soft power corporativo é, em grande medida, alicerçado nos valores promovidos pelas
empresas. Esses valores são articulados em práticas internas e externas que refletem
responsabilidade social, ambiental e ética. A Unilever, por exemplo, alinha seus produtos e
processos à sustentabilidade ambiental, promovendo iniciativas como o programa "Unilever
Sustainable Living Plan". Essa abordagem vai além do lucro imediato, estabelecendo uma
narrativa de comprometimento com o futuro do planeta, que é amplamente reconhecida e
valorizada por consumidores e investidores.

Da mesma forma, o compromisso com a inclusão e a diversidade têm permitido a empresas


como Microsoft e Salesforce exercerem influência global. Essas empresas não apenas
internalizam tais valores em suas políticas de gestão de pessoas, mas também utilizam
suas plataformas para promover diálogos mais amplos sobre equidade e justiça social. Essa
prática reforça o papel da empresa como um agente cultural, engajado em promover
mudanças positivas.

Práticas Empresariais: Legitimidade e Consistência

A capacidade de exercer soft power está diretamente ligada à consistência entre os valores
declarados pela empresa e suas práticas efetivas. Philip Kotler enfatiza que a autenticidade
é um fator essencial para que o branding corporativo alcance seu potencial de influência.
Empresas que não sustentam suas narrativas com ações concretas correm o risco de
serem vistas como oportunistas, o que pode resultar em perda de legitimidade e de capital
reputacional.

Por outro lado, empresas que alinham práticas a valores conseguem estabelecer confiança
e lealdade duradoura. Um exemplo é a Tesla, que promove a transição para uma economia
de baixo carbono por meio de inovação tecnológica em mobilidade elétrica. Essa coerência
entre discurso e ação permite à Tesla não apenas liderar o mercado de veículos elétricos,
mas também influenciar políticas públicas e inspirar outras indústrias a adotarem práticas
sustentáveis.

Narrativas Corporativas: Conquistando o Imaginário Global

As narrativas corporativas constituem a terceira dimensão do soft power, permitindo às


empresas conectarem-se emocionalmente com seus públicos. Simon Anholt argumenta que
histórias autênticas, centradas em valores universais, têm o poder de transcender barreiras
culturais e geográficas. No caso das empresas, essas narrativas reforçam a identidade da
marca e posicionam a organização como uma liderança global.

Campanhas como "Real Beauty", da Dove, exemplificam como as empresas podem usar
narrativas para desafiar estereótipos e promover valores positivos. A campanha, ao abordar
questões de autoestima e diversidade, criou um movimento global que vai além da
publicidade, solidificando a reputação da marca como promotora de mudança social.

O Potencial Transformador do Soft Power Corporativo


O soft power corporativo emerge como uma força transformadora no cenário global,
permitindo que empresas exerçam influência significativa ao integrar valores, práticas e
narrativas. A aplicação dos conceitos de Simon Anholt e Philip Kotler demonstra que o
branding, quando fundamentado em autenticidade e consistência, pode transcender a lógica
de mercado e tornar-se um agente de transformação cultural e social. Para que essa
influência seja duradoura, contudo, é imperativo que as empresas mantenham o
alinhamento entre discurso e ação, garantindo legitimidade e confiança no longo prazo.
Assim, as organizações que compreendem e aplicam o soft power tornam-se protagonistas
na construção de um futuro mais ético, sustentável e conectado.

Empresas Líderes no Uso de Soft Power: O Caso da Unilever no


Contexto Global

O soft power, como forma de influência que se baseia em valores, práticas e narrativas
consistentes, tem sido amplamente adotado por empresas líderes globais para moldar suas
identidades e gerar impacto além do consumo de produtos. A Unilever destaca-se como
uma referência nesse contexto, ao lado de outras empresas, como Apple, Tesla, Microsoft,
e Patagonia, que também exemplificam estratégias bem-sucedidas de soft power.

1. Unilever: Soft Power Baseado em Sustentabilidade e Impacto Social

A Unilever é amplamente reconhecida como uma das pioneiras no uso do soft power
corporativo para influenciar o comportamento de consumidores, parceiros e até governos.
Com iniciativas como o Unilever Sustainable Living Plan, a empresa estabelece um
compromisso concreto com a sustentabilidade ambiental e social, conectando sua marca a
valores globais que ressoam com questões contemporâneas, como mudanças climáticas,
saúde pública e inclusão.

Estratégias-Chave da Unilever:

●​ Sustentabilidade como Narrativa Central: A Unilever introduziu mudanças


estruturais em suas cadeias de suprimento e práticas de produção para reduzir
emissões de carbono, consumo de água e desperdício, estabelecendo-se como líder
em responsabilidade ambiental.
●​ Produtos com Propósito: Marcas da Unilever, como Dove e Lifebuoy, são
projetadas para promover valores sociais, como autoestima e higiene global,
respectivamente. A campanha "Real Beauty" da Dove, por exemplo, é um exemplo
emblemático de como uma narrativa pode transcender o mercado, tornando-se um
movimento social.
●​ Influência em Políticas Públicas: A empresa frequentemente colabora com
governos e organizações internacionais para estabelecer padrões de
sustentabilidade, como metas de neutralidade de carbono e eliminação de plásticos
descartáveis.

Essa abordagem não só fortalece a marca, mas também posiciona a Unilever como uma
força transformadora global.

2. Apple: Narrativas de Inovação e Desejo Cultural

A Apple é outro exemplo icônico de uso do soft power corporativo, destacando-se por criar
uma conexão emocional profunda com seus consumidores por meio de design inovador,
narrativa aspiracional e exclusividade.

Estratégias-Chave da Apple:

●​ Inovação e Qualidade Percebida: A Apple reforça constantemente sua posição


como líder em inovação tecnológica com produtos que definem tendências, como o
iPhone e o MacBook.
●​ Cultura de Exclusividade: A marca utiliza campanhas que criam um senso de
pertencimento ao "ecossistema Apple", posicionando-a como símbolo de status e
criatividade.
●​ Responsabilidade Ambiental: Recentemente, a Apple tem enfatizado práticas
sustentáveis, como a neutralidade de carbono e o uso de materiais reciclados em
seus produtos, reforçando sua influência como defensora de um futuro sustentável.

Essas práticas tornam a Apple uma líder global em soft power, promovendo não apenas
produtos, mas uma visão de vida e tecnologia.

3. Tesla: Liderança em Sustentabilidade e Inovação Disruptiva

A Tesla é exemplar em seu uso do soft power ao redefinir a mobilidade elétrica como
símbolo de sustentabilidade e inovação. Liderada por Elon Musk, a empresa conecta seu
branding diretamente a valores como inovação, redução de carbono e progresso
tecnológico.

Estratégias-Chave da Tesla:
●​ Narrativa de Impacto Global: A Tesla vai além de vender carros elétricos,
promovendo sua missão de "acelerar a transição do mundo para a energia
sustentável".
●​ Inspiração em Inovação: Produtos como o Tesla Model S e o Cybertruck
simbolizam uma ruptura com padrões tradicionais de design e funcionalidade.
●​ Práticas Alinhadas aos Valores: Desde a produção de baterias sustentáveis até a
expansão da energia solar, a Tesla promove ações concretas que reforçam sua
narrativa.

Essa abordagem torna a Tesla uma referência em branding corporativo com propósito
global.

4. Patagonia: Ética e Sustentabilidade no Centro da Marca

A Patagonia demonstra como empresas podem exercer soft power ao se posicionar como
líderes éticos e ambientalmente responsáveis.

Estratégias-Chave da Patagonia:

●​ Compromisso Ambiental Radical: A empresa doa parte de seus lucros a causas


ambientais e implementa práticas de produção altamente sustentáveis.
●​ Narrativas Autênticas: Suas campanhas frequentemente desafiam o consumismo,
como na famosa campanha “Don’t Buy This Jacket”, que incentivava os
consumidores a reconsiderar compras desnecessárias.
●​ Mobilização de Comunidades: A Patagonia usa sua plataforma para engajar
consumidores em movimentos de preservação ambiental, consolidando sua imagem
como ativista.

A marca se destaca como exemplo de alinhamento completo entre propósito e práticas.

5. Microsoft: Inclusão e Impacto Global

Sob a liderança de Satya Nadella, a Microsoft integrou valores de inclusão, acessibilidade e


sustentabilidade em sua estratégia de soft power.

Estratégias-Chave da Microsoft:

●​ Inclusão e Diversidade: Políticas voltadas à diversidade de gênero e raça, bem


como iniciativas que promovem acessibilidade digital, tornaram a empresa um
modelo global.
●​ Sustentabilidade: A Microsoft comprometeu-se a se tornar carbono-negativa até
2030, sinalizando seu compromisso com a sustentabilidade.
●​ Iniciativas Sociais: A empresa apoia projetos de educação e inclusão digital em
comunidades menos favorecidas, reforçando sua imagem como agente de
transformação social.

Conclusão: A Unilever no Contexto das Empresas Líderes

A Unilever, ao lado de empresas como Apple, Tesla, Patagonia e Microsoft, exemplifica


como o soft power pode ser usado estrategicamente para criar impacto global. Ao conectar
suas operações a valores como sustentabilidade, inclusão e inovação, essas empresas
transcendem o mercado, assumindo papéis de liderança na definição de normas sociais e
culturais. No caso específico da Unilever, sua capacidade de alinhar práticas concretas a
narrativas autênticas a posiciona como uma das principais influenciadoras globais,
moldando tendências e promovendo mudanças positivas em escala global.

Sustentabilidade como Pilar Estratégico da Unilever

A Unilever, fundada em 1929 a partir da fusão entre a Margarine Unie, dos Países Baixos, e
a Lever Brothers, do Reino Unido, estabeleceu-se como uma das maiores multinacionais de
bens de consumo do mundo. Desde sua origem, a empresa desempenhou um papel central
no fornecimento de produtos essenciais, como alimentos, cuidados pessoais e itens de
higiene, alcançando mercados globais com uma extensa gama de marcas. Contudo, nas
últimas décadas, a Unilever tem passado por uma transformação estratégica que a
posiciona não apenas como uma líder de mercado, mas também como um ator
comprometido com a sustentabilidade e o impacto social positivo.

Essa transição reflete tanto mudanças nas demandas dos consumidores quanto nas
expectativas da sociedade em relação às responsabilidades das corporações globais. A
pressão por práticas éticas, transparentes e sustentáveis tornou-se um imperativo
estratégico para empresas de grande porte, particularmente em setores com alta
visibilidade, como o de bens de consumo. Nesse contexto, a Unilever começou a integrar a
sustentabilidade em suas operações e estratégias, identificando-a como um pilar central
para alcançar não apenas viabilidade econômica de longo prazo, mas também relevância
cultural e legitimidade política no cenário global.
Um marco crucial dessa transformação foi o lançamento, em 2010, do Unilever Sustainable
Living Plan (USLP), uma das iniciativas mais ambiciosas e abrangentes no setor
empresarial. O plano foi concebido como uma estratégia de sustentabilidade que visa
integrar práticas responsáveis em toda a cadeia de valor da empresa, abrangendo desde a
produção até o consumo. A premissa central do USLP é que crescimento econômico e
sustentabilidade ambiental não são objetivos mutuamente exclusivos, mas sim
interdependentes, sendo possível alinhar o sucesso financeiro à criação de valor social e
ambiental.

O USLP estabeleceu metas ousadas que abrangem três áreas prioritárias: (1) melhorar a
saúde e o bem-estar de mais de um bilhão de pessoas, (2) reduzir pela metade a pegada
ambiental dos produtos da Unilever e (3) melhorar as condições de vida e trabalho ao longo
de sua cadeia de valor. Essas metas foram operacionalizadas por meio de iniciativas
específicas, como a redução de emissões de carbono, o consumo responsável de água e a
promoção de práticas agrícolas sustentáveis, além de programas que visam empoderar
comunidades locais.

Uma das áreas mais notáveis do plano é o compromisso da Unilever com a redução de
emissões de carbono. A empresa estabeleceu metas ambiciosas para tornar suas
operações neutras em carbono até 2039 e para que 100% da energia utilizada provenha de
fontes renováveis. Além disso, tem incentivado práticas de economia circular, promovendo o
uso de embalagens recicláveis e compostáveis em suas marcas líderes, como Dove e
Knorr. Essas iniciativas não apenas demonstram um compromisso tangível com a mitigação
das mudanças climáticas, mas também posicionam a Unilever como uma referência no
setor em relação a práticas sustentáveis.

No que diz respeito ao consumo de água, o USLP busca reduzir o uso desse recurso em
toda a cadeia de produção, além de promover mudanças no comportamento dos
consumidores para utilizar água de forma mais eficiente. Essa meta é particularmente
relevante em mercados vulneráveis a crises hídricas, onde a gestão sustentável dos
recursos naturais é crucial para garantir a resiliência de comunidades e negócios.

Outro aspecto central do plano é o impacto positivo nas comunidades. A Unilever


implementou programas que promovem práticas agrícolas sustentáveis entre seus
fornecedores, beneficiando pequenos agricultores em diversas partes do mundo. Além
disso, a empresa tem investido em programas de inclusão social e econômica, com foco em
empoderar mulheres e melhorar as condições de vida em comunidades onde suas marcas
estão presentes. Essas iniciativas não apenas fortalecem as cadeias de suprimentos da
Unilever, mas também criam um impacto sistêmico que ressoa com os Objetivos de
Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU.

O USLP também reforça o papel da Unilever como líder em sustentabilidade ao incentivar


uma abordagem colaborativa. A empresa tem se engajado em parcerias com organizações
internacionais, governos e ONGs para alcançar metas compartilhadas, como a promoção
de cadeias de suprimento éticas e a redução da pobreza. Essa abordagem reflete o
reconhecimento de que a sustentabilidade requer esforços coletivos que transcendem as
capacidades individuais das corporações.

A transição da Unilever para práticas de sustentabilidade representa uma mudança


significativa em seu modelo de negócios e em sua identidade corporativa. Ao adotar o
USLP como uma estratégia central, a empresa não apenas respondeu às demandas do
mercado, mas também moldou uma nova narrativa global sobre o papel das corporações na
promoção de um futuro sustentável. Essa transformação posiciona a Unilever como um
exemplo emblemático de como empresas podem utilizar a sustentabilidade como uma
ferramenta estratégica, não apenas para alcançar metas comerciais, mas também para
exercer influência política e social no cenário global.

Impactos do Soft Power da Unilever no Cenário Internacional

A capacidade de a Unilever exercer soft power no cenário internacional está diretamente


ligada à forma como suas estratégias de sustentabilidade têm influenciado governos,
consumidores e outras corporações. Por meio de parcerias estratégicas, campanhas de
conscientização e redes de colaboração, a empresa não apenas promove suas metas
internas, mas também molda agendas globais de políticas ambientais e sociais. Essa
atuação consolidou a Unilever como um ator global influente, cuja liderança transcende o
setor privado e se estende à esfera pública e ao comportamento coletivo.

Influência em Governos

Uma das principais formas de manifestação do soft power da Unilever é sua capacidade de
influenciar políticas públicas por meio de parcerias com governos e organizações não
governamentais (ONGs). A empresa tem desempenhado um papel proativo na promoção
de políticas ambientais e sociais que estão alinhadas com os Objetivos de Desenvolvimento
Sustentável (ODS) das Nações Unidas.

Por exemplo, a Unilever colabora com governos em mercados emergentes para


implementar práticas agrícolas sustentáveis, muitas vezes atuando como intermediária
entre pequenos agricultores e autoridades locais. Esses esforços incluem o fornecimento de
treinamento em técnicas agrícolas modernas e sustentáveis, bem como a facilitação de
acesso a mercados para esses agricultores, promovendo o desenvolvimento econômico
local. Além disso, a empresa se engaja em fóruns internacionais, como a Conferência das
Partes sobre Mudanças Climáticas (COP), onde utiliza sua posição de liderança para
defender políticas que incentivem a redução de emissões de carbono e a transição para
economias verdes.

Essas parcerias são particularmente eficazes porque permitem que a Unilever opere como
um modelo de implementação de políticas sustentáveis em larga escala. Governos
frequentemente utilizam as práticas da empresa como referência para desenvolver
regulamentos ou incentivos fiscais voltados para a sustentabilidade. Assim, a influência da
Unilever vai além do setor privado, impactando diretamente o desenho e a execução de
políticas públicas globais.

Mudança de Comportamento do Consumidor

Outra dimensão significativa do soft power da Unilever é sua capacidade de moldar


comportamentos de consumo por meio de campanhas de conscientização. A empresa
utiliza seu extenso portfólio de marcas para disseminar mensagens que incentivam práticas
de consumo mais sustentáveis e socialmente responsáveis.

Um exemplo marcante é a campanha Real Beauty da marca Dove, que não apenas desafia
padrões tradicionais de beleza, mas também promove valores de aceitação e diversidade.
Essa campanha gerou discussões globais sobre questões culturais e sociais, demonstrando
como marcas podem influenciar não apenas a percepção de produtos, mas também normas
culturais mais amplas.

No âmbito ambiental, a Unilever promoveu campanhas como a de conscientização sobre o


uso responsável de água e energia por meio de marcas como Knorr e OMO. Nessas
campanhas, a empresa não apenas comunica a importância da sustentabilidade, mas
também fornece instruções práticas para consumidores sobre como reduzir sua pegada
ambiental no dia a dia. Ao incentivar mudanças em práticas individuais de consumo, a
Unilever desempenha um papel ativo na construção de uma cultura global mais alinhada
aos princípios de sustentabilidade.

Essas iniciativas demonstram como o soft power corporativo é eficaz na transformação de


comportamentos em larga escala, utilizando a força de marcas globalmente reconhecidas
para disseminar valores que ressoam com diferentes públicos culturais e econômicos.
Redes de Colaboração

A influência da Unilever no cenário internacional também se manifesta por meio de sua


atuação em redes de colaboração com outras empresas e instituições. Ao liderar iniciativas
globais de sustentabilidade, a Unilever inspira outras corporações a adotarem práticas
semelhantes, promovendo um efeito cascata em diversos setores.

Por exemplo, a Unilever é um dos membros fundadores do Consumer Goods Forum, uma
coalizão de empresas de bens de consumo que busca implementar práticas responsáveis
em toda a cadeia de valor. A empresa também é ativa na We Mean Business Coalition, que
reúne líderes empresariais comprometidos com a mitigação das mudanças climáticas.
Essas redes permitem que a Unilever compartilhe boas práticas e amplie o impacto de suas
iniciativas, ao mesmo tempo que eleva os padrões de sustentabilidade para todo o setor
corporativo.

Além disso, a Unilever utiliza sua posição de destaque para pressionar outros atores
corporativos a adotarem compromissos ambiciosos em relação à sustentabilidade. Um
exemplo disso é o incentivo à adesão de outras empresas ao uso de energia renovável e à
redução de emissões de carbono, muitas vezes estabelecendo metas que desafiam o setor
a ir além do mínimo regulatório.

Essa abordagem colaborativa reflete a visão de que os desafios globais, como as


mudanças climáticas e a desigualdade social, exigem esforços conjuntos de múltiplos
atores. Ao construir redes de influência e alavancar sua liderança, a Unilever não apenas
fortalece sua reputação, mas também exerce um impacto sistêmico que transcende suas
operações diretas.

Uma Convergência de Influências

Com essas estratégias, a Unilever demonstra como o soft power corporativo pode ser
utilizado de maneira estratégica para influenciar governos, consumidores e outros atores no
cenário internacional. Suas parcerias com órgãos governamentais e ONGs, campanhas de
conscientização de grande alcance e liderança em redes de colaboração refletem a
capacidade da empresa de moldar comportamentos, políticas e padrões globais. Ao alinhar
sua identidade corporativa aos princípios da sustentabilidade, a Unilever não apenas reforça
sua posição no mercado, mas também consolida sua relevância como um agente de
transformação global.

Limites e Críticas ao Modelo da Unilever


Apesar do reconhecimento global das iniciativas de sustentabilidade da Unilever e de seu
papel como um dos principais exemplos de soft power corporativo, seu modelo não está
isento de críticas e limitações. Questionamentos sobre a real eficácia e legitimidade de suas
práticas destacam os desafios inerentes ao uso da sustentabilidade como uma estratégia de
influência global. Entre os principais pontos críticos estão as acusações de greenwashing,
os impactos negativos em questões sociais e ambientais e as limitações do soft power
corporativo diante de problemas estruturais mais amplos.

Críticas ao “Greenwashing”

Uma das críticas mais recorrentes às práticas de sustentabilidade corporativa, e que


também se aplica à Unilever, é o risco de greenwashing. O termo refere-se à promoção de
iniciativas e campanhas de sustentabilidade que, na prática, não apresentam impacto
ambiental ou social significativo, sendo usadas mais como ferramentas de marketing do que
como compromissos reais com mudanças estruturais.

Embora a Unilever seja amplamente reconhecida por seus esforços em sustentabilidade,


algumas de suas práticas foram alvo de escrutínio por organizações não governamentais e
grupos de defesa ambiental. Críticos argumentam que, enquanto a empresa promove
campanhas sobre redução de emissões de carbono e reciclagem, algumas de suas cadeias
de produção ainda dependem de práticas ambientalmente prejudiciais. Por exemplo, o uso
de óleo de palma em seus produtos tem gerado controvérsia, já que esse ingrediente está
associado ao desmatamento, à perda de biodiversidade e a conflitos fundiários em regiões
como o Sudeste Asiático. Embora a Unilever tenha promovido sua meta de reduzir pela
metade o uso de plásticos virgens até 2025, dados do Ellen MacArthur Foundation indicam
que a empresa ainda utiliza cerca de 610 mil toneladas anuais de plástico. Esse número
representa um progresso de apenas 15% em relação à meta, demonstrando os desafios
estruturais de implementar uma economia circular em escala global.

Além disso, há críticas de que os relatórios de sustentabilidade da Unilever destacam


apenas aspectos positivos, enquanto questões como o impacto negativo de algumas
operações locais e a geração de resíduos em mercados emergentes são minimizadas. Esse
tipo de abordagem pode enfraquecer a legitimidade da estratégia de sustentabilidade da
empresa e reduzir sua eficácia como uma ferramenta de soft power.

Limitações do Soft Power Corporativo

Outro aspecto importante na análise do modelo da Unilever são as limitações intrínsecas do


soft power corporativo em lidar com questões de desigualdade social, exploração de
recursos naturais e pressão sobre fornecedores. Embora a Unilever tenha implementado
programas para melhorar as condições de trabalho em sua cadeia de suprimentos, há
evidências de que fornecedores em países em desenvolvimento enfrentam condições
difíceis, como baixos salários e jornadas de trabalho excessivas. Isso levanta
questionamentos sobre até que ponto a empresa pode efetivamente monitorar e garantir
padrões éticos em uma cadeia de valor tão extensa e complexa.

Além disso, a busca por eficiência econômica e competitividade global pode, em alguns
casos, entrar em conflito com os objetivos de sustentabilidade. A pressão sobre
fornecedores para reduzir custos pode levar a práticas ambientalmente insustentáveis ou
socialmente prejudiciais, como o uso intensivo de recursos naturais sem considerar os
impactos de longo prazo. Essa tensão expõe os limites do soft power corporativo, que
depende da cooperação de múltiplos atores em uma cadeia de valor global muitas vezes
fragmentada.

Desafios da Sustentabilidade como Estratégia Ética

A sustentabilidade, enquanto estratégia de negócios, enfrenta desafios que transcendem a


esfera corporativa, refletindo questões mais amplas relacionadas à legitimidade e à ética.
Embora a Unilever tenha feito avanços notáveis em áreas como energia renovável e
agricultura sustentável, críticas apontam que essas iniciativas, por si só, não abordam as
causas estruturais de problemas como desigualdade social e degradação ambiental.

Por exemplo, enquanto a empresa promove o consumo responsável por meio de


campanhas de conscientização, ela também incentiva o consumo em massa de seus
produtos, criando uma contradição entre os objetivos de sustentabilidade e as realidades de
um modelo econômico baseado no crescimento constante. Essa dualidade levanta
questões sobre até que ponto a sustentabilidade pode ser utilizada como uma ferramenta
legítima e ética para alinhar os interesses corporativos com os desafios globais.

Além disso, os desafios enfrentados pela Unilever são amplificados pela crescente
demanda dos consumidores por transparência e autenticidade. Em um cenário em que o
público está cada vez mais informado e atento às práticas empresariais, as empresas são
constantemente pressionadas a demonstrar que suas iniciativas de sustentabilidade são
mais do que um simples exercício de relações públicas. Isso exige um compromisso
contínuo com a transparência, o que, por vezes, pode entrar em conflito com a necessidade
de proteger interesses estratégicos ou comerciais.

Reflexões sobre o Futuro do Modelo


As críticas e limitações do modelo de sustentabilidade da Unilever não devem ser vistas
apenas como falhas, mas também como oportunidades de aprendizado e melhoria. Para
que a empresa continue a exercer soft power de forma legítima e eficaz, será necessário
reforçar suas práticas de transparência, ampliar o monitoramento de sua cadeia de valor e
buscar parcerias mais robustas com governos e ONGs para abordar questões estruturais.
Além disso, a integração da sustentabilidade em todas as dimensões de suas operações
será crucial para garantir que suas iniciativas sejam percebidas como genuínas e
transformadoras.

A Unilever, como uma das principais protagonistas da sustentabilidade corporativa, enfrenta


o desafio de equilibrar seus objetivos comerciais com o impacto social e ambiental de suas
operações. Ao enfrentar essas críticas e limitações, a empresa pode não apenas fortalecer
sua posição como líder global, mas também contribuir para redefinir o papel das
corporações no enfrentamento dos desafios do século XXI.

Estudos de Caso Específicos

Para compreender de forma mais tangível como a Unilever utiliza a sustentabilidade como
ferramenta de soft power, é essencial analisar exemplos concretos de suas iniciativas
globais. Entre as mais notáveis estão os esforços para reduzir o uso de plásticos
descartáveis e promover a igualdade de gênero em suas operações. Essas iniciativas
exemplificam como a empresa busca alinhar objetivos de sustentabilidade com impactos
sociais e ambientais positivos em mercados desenvolvidos e em desenvolvimento,
consolidando sua influência global.

Redução de Plásticos Descartáveis

A Unilever tem sido pioneira no setor de bens de consumo ao abordar o problema do uso
excessivo de plásticos descartáveis. Em 2019, a empresa anunciou o compromisso de
reduzir pela metade o uso de plásticos virgens até 2025 e de garantir que todas as suas
embalagens plásticas sejam reutilizáveis, recicláveis ou compostáveis no mesmo período.
Além disso, a Unilever assumiu a responsabilidade de coletar e processar mais plástico do
que utiliza em suas operações. Essa abordagem busca combater um dos maiores desafios
ambientais da atualidade: a poluição por plásticos.

Um exemplo concreto desse esforço é o programa implementado nas Filipinas, um dos


países mais afetados pela poluição marinha. Em parceria com organizações locais e ONGs,
a Unilever criou centros de reciclagem comunitária que não apenas reduzem os resíduos
plásticos, mas também oferecem oportunidades econômicas para comunidades vulneráveis.
Esses centros incentivam os moradores a coletar resíduos plásticos em troca de
compensação financeira ou benefícios, criando um ciclo virtuoso que combina impacto
ambiental e social.

Nos mercados desenvolvidos, a empresa também tem investido em inovações tecnológicas


para substituir embalagens plásticas tradicionais por alternativas mais sustentáveis. Um
exemplo é o uso de refis reutilizáveis e de embalagens feitas a partir de plástico reciclado
em marcas populares, como Dove e Love Beauty and Planet. Essas iniciativas reforçam a
posição da Unilever como líder em sustentabilidade e demonstram seu compromisso com a
transição para um modelo de economia circular.

Apesar de avanços significativos, as iniciativas da Unilever em relação aos plásticos


descartáveis enfrentam desafios. Em mercados emergentes, por exemplo, a infraestrutura
limitada de coleta e reciclagem pode dificultar o alcance das metas estabelecidas. Ainda
assim, o impacto desses programas demonstra como a empresa utiliza seu soft power para
moldar comportamentos e práticas em diferentes contextos culturais e econômicos,
promovendo mudanças que vão além de sua esfera direta de operação.

Promoção da Igualdade de Gênero

Outra área central das iniciativas de sustentabilidade da Unilever é a promoção da


igualdade de gênero, tanto internamente quanto em suas cadeias de valor globais.
Reconhecendo que a desigualdade de gênero é um obstáculo ao desenvolvimento social e
econômico sustentável, a empresa implementou programas que buscam empoderar
mulheres em diversas partes do mundo.

Internamente, a Unilever alcançou a igualdade de gênero em cargos de liderança em 2020,


com 50% dos postos de alto nível ocupados por mulheres. Esse resultado reflete um
compromisso contínuo com a diversidade e a inclusão, que se estende a todos os níveis da
organização. Externamente, a empresa promove iniciativas que visam capacitar mulheres
em comunidades vulneráveis, especialmente em países em desenvolvimento.

Um exemplo concreto é o programa Shakti, implementado na Índia, onde a Unilever


capacita mulheres em áreas rurais para atuarem como microempreendedoras, distribuindo
produtos da empresa em suas comunidades. No interior da Índia, onde o acesso a
mercados formais é limitado, o programa Shakti capacitou mais de 100 mil mulheres em
áreas rurais como microempreendedoras. Essas mulheres distribuem produtos da Unilever
em comunidades locais, gerando renda própria e fortalecendo a presença da empresa. Em
um estudo comparativo, a abordagem foi replicada no Bangladesh com adaptações para
incluir treinamento digital, dobrando a renda média dos participantes em três anos. Essa
iniciativa não apenas promove a independência econômica dessas mulheres, mas também
amplia o alcance da Unilever em mercados remotos, criando um impacto econômico e
social positivo.

Além de Bangladesh, esse programa foi também replicado na Nigéria, demonstrando a


escalabilidade dessa abordagem. Na Nigéria, a Unilever implementou programas de
agricultura sustentável com pequenos produtores de óleo de palma, promovendo práticas
que aumentam a produtividade e reduzem o impacto ambiental. Essa abordagem
colaborativa resultou em um aumento de 25% na renda agrícola e na certificação de 40%
dos agricultores locais em práticas de sustentabilidade, conforme relatado pelo World
Resources Institute em 2022.

Em mercados desenvolvidos, a Unilever tem usado suas campanhas publicitárias para


desafiar estereótipos de gênero e promover mensagens de inclusão. A marca Dove, por
exemplo, tem sido reconhecida por campanhas como Real Beauty, que celebra a
diversidade de corpos e desafia padrões tradicionais de beleza. Essas campanhas não
apenas reforçam os valores da Unilever, mas também influenciam debates culturais mais
amplos, demonstrando a eficácia de seu soft power.

Impacto Prático nos Países em Desenvolvimento e Desenvolvidos

O impacto prático dessas iniciativas é evidente tanto em mercados em desenvolvimento


quanto em países desenvolvidos. Em nações emergentes, como a Índia e as Filipinas, os
programas da Unilever têm contribuído para melhorar as condições de vida de comunidades
vulneráveis, ao mesmo tempo em que abordam problemas ambientais urgentes. Esses
esforços reforçam a legitimidade da empresa como um parceiro confiável de governos e
organizações internacionais na promoção do desenvolvimento sustentável.

Nos mercados desenvolvidos, as iniciativas da Unilever têm influenciado padrões de


consumo e fomentado debates culturais sobre sustentabilidade e inclusão. Ao oferecer
soluções concretas para problemas ambientais, como a poluição plástica, e ao promover
mensagens progressistas em suas campanhas publicitárias, a empresa tem conseguido
construir uma reputação sólida como líder em sustentabilidade.

No entanto, essas iniciativas também enfrentam críticas e limitações, como destacado


anteriormente. Questões estruturais, como a dependência de sistemas de reciclagem
frágeis em mercados emergentes e a necessidade de equilibrar crescimento econômico
com sustentabilidade, continuam sendo desafios significativos. Ainda assim, os exemplos
concretos de programas como Shakti e os esforços de redução de plásticos demonstram o
potencial da Unilever para moldar práticas e comportamentos em escala global, utilizando a
sustentabilidade como uma ferramenta eficaz de influência e transformação.

CONCLUSÃO

A análise do caso da Unilever demonstra como a sustentabilidade pode ser utilizada como
uma ferramenta estratégica de soft power no contexto corporativo e global. Ao alinhar sua
identidade corporativa com princípios éticos, ambientais e sociais, a empresa não apenas
consolidou sua posição como líder de mercado, mas também emergiu como um ator
relevante na política internacional. Suas iniciativas, desde a redução do uso de plásticos
descartáveis até a promoção da igualdade de gênero, exemplificam como corporações
globais podem moldar comportamentos, influenciar políticas públicas e construir redes de
colaboração que promovam mudanças sistêmicas.

No entanto, esse modelo de soft power corporativo não está isento de desafios e limitações.
Acusações de greenwashing e dificuldades em abordar problemas estruturais, como
desigualdades sociais e exploração de recursos naturais, ressaltam a complexidade de
integrar plenamente a sustentabilidade em operações globais. A necessidade de equilibrar
crescimento econômico com práticas ambientalmente e socialmente responsáveis continua
sendo uma tensão central, evidenciando que a sustentabilidade, embora poderosa como
ferramenta estratégica, não é uma solução definitiva para as contradições do capitalismo
global.

Ainda assim, o impacto positivo das iniciativas da Unilever em mercados desenvolvidos e


em desenvolvimento reforça a importância de empresas como agentes de transformação. A
utilização do Unilever Sustainable Living Plan como uma estrutura abrangente demonstra
que compromissos claros e metas mensuráveis podem gerar resultados tangíveis, enquanto
parcerias estratégicas com governos e organizações internacionais ampliam o alcance e a
legitimidade das ações corporativas.

A Unilever também mostrou como campanhas de conscientização e ações culturais podem


reforçar seu impacto, ao abordar questões relevantes para consumidores globais e locais.
Essa combinação de práticas demonstra que o soft power corporativo, quando bem
implementado, pode transcender interesses comerciais e contribuir para o enfrentamento de
desafios globais, como mudanças climáticas e desigualdades sociais.

No entanto, para que a sustentabilidade seja uma estratégia legítima e ética, é necessário
um compromisso contínuo com a transparência, a equidade e a inovação. A Unilever, ao
abraçar esses desafios e adaptar suas práticas às críticas recebidas, pode não apenas
fortalecer seu modelo de negócio, mas também inspirar uma transformação mais ampla no
papel das empresas na governança global.

A partir do caso da Unilever, fica evidente que corporações globais podem exercer um papel
significativo na redefinição de padrões sociais e ambientais. No entanto, para que a
sustentabilidade corporativa seja legítima e transformadora, é essencial que empresas
alinhem suas operações com metas transparentes e mensuráveis. Essa abordagem não
apenas reforça a reputação da empresa, mas também inspira governos e outras
organizações a adotarem modelos colaborativos de desenvolvimento sustentável.

Portanto, o caso da Unilever reforça que o soft power corporativo pode ser uma força
transformadora, mas que seu impacto depende de uma execução genuína, inclusiva e
adaptável. À medida que a empresa continua a navegar nas complexidades da
sustentabilidade, ela oferece um modelo para outras corporações que buscam alinhar seus
interesses comerciais com as demandas urgentes de um mundo em transformação. A
capacidade de moldar agendas globais e criar valor compartilhado posiciona a Unilever
como uma protagonista no debate sobre o futuro da sustentabilidade no capitalismo
contemporâneo.

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